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1ª PARTE

Paschoal Lemme
(Rio de Janeiro-RJ, 1904 – Rio de Janeiro-RJ, 1997)

O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova


e suas repercussões na realidade educacional
brasileira*

Introdução

N
ão é problema fácil estabelecer-se marcos significativos para delimitar os vários
períodos em que se pretende dividir a história da humanidade. Todas as
divisões adotadas têm provocado controvérsias.
Geralmente, utiliza-se a própria sucessão dos séculos, tendo como ponto de partida o
nascimento de Cristo, considerado o acontecimento mais importante, ao menos para
o chamado mundo ocidental e cristão. Numeram-se, então, os séculos, antes e depois
desse evento.
A história da humanidade é, porém, um processo contínuo e, nem sempre, o início
dos séculos caracteriza-se por acontecimentos decisivos.
Assim, por exemplo, muitos historiadores têm colocado o princípio do século 20 no
* Publicado originalmente na ano de 1904, no qual verificou-se um fato da maior importância que deveria influir
RBEP v. 65, n. 150, p. 255-272,
maio/ago. 1984.
profundamente no curso posterior do processo histórico.

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Nesse ano, a França e a Inglaterra, as da escravidão negra (1888) e, por fim, com a
duas nações mais desenvolvidas da época queda do Império e o advento da República
e tradicionais inimigas, numa reviravolta (1889).
histórica, firmaram um pacto – a Entente A gradativa influência das Forças
cordiale – com o qual, em aliança com o Armadas na vida política do País, as trans-
Império Russo, prepararam-se para enfren- formações econômicas e sociais verificadas
tar a Alemanha de Bismarck, aliada ao no campo e nas cidades, o crescimento da
Império Austro-Húngaro. população, a intensificação do processo de
O mundo vivia então na terceira etapa urbanização e industrialização foram as
do regime capitalista – a fase denominada modificações mais importantes ocorridas
imperialista –, e tratava-se de realizar uma nesse período histórico. E todas essas trans-
nova partilha do mundo conhecido da formações aceleram-se profundamente com
época, em busca de matérias-primas para a ocorrência da Primeira Grande Guerra
alimentar e desenvolver os parques indus- Mundial.
triais daqueles dois países, em grande ex- O Brasil, formalmente independente
pansão, e de mercados para a venda dos desde 1822, era contudo dependente eco-
respectivos produtos, ameaçados pela nomicamente, principalmente da Inglaterra,
concorrência da Alemanha em ascensão. já desde a “abertura dos portos às nações
Como se sabe, o choque produziu-se amigas”, em 1808, na qual esse país rece-
violento entre esses dois blocos, resultan- beu o privilégio de tarifas preferenciais para
do na Primeira Guerra Mundial (1914- nos vender seus produtos. A Inglaterra era,
1918). Ao término desse primeiro grande a esse tempo, o país mais desenvolvido in-
conflito mundial, um novo mapa tinha sido dustrialmente e dele recebíamos quase tudo
traçado para o mundo e o chamado Ancien em troca de nossa produção agrícola, prin-
Régime e a Belle Époque, definitivamente cipalmente do café, de que chegamos a ser o
sepultados. E mais do que isso, a Revolu- maior produtor mundial. (Entre 1900 e 1914
ção Russa de 1917 vinha acenar com no- o Brasil produziu quase 76% de toda a
vos caminhos para a humanidade, com o produção mundial de café.)
surgimento de um novo regime econômi- Conforme diz Peter Evans em seu livro
co, político e social – o chamado socialismo A tríplice aliança – as multinacionais, as
– que se deveria opor ao até então estabele- estatais e o capital nacional – no desenvol-
cido regime capitalista. vimento dependente brasileiro (Rio de
Pela importância desses acontecimen- Janeiro, Zahar, 1982):
tos históricos e por suas conseqüências é
que há historiadores que consideram tam- Em fins do século 19, o Brasil começava a
bém como marcos iniciais do século 20 o fazer sua própria farinha de trigo ou seu
fim da guerra de 1914-1918 ou ainda a toucinho; tudo o que era manufatura vi-
nha, provavelmente, das fábricas da Grã-
vitória da Revolução Russa, em 1917.
Bretanha, e era paga com os rendimentos
da agricultura. Não há melhor maneira de
compreender a estrutura da dependência
Panorama do Brasil nesse clássica do que examinando as relações
período entre o Brasil e a Grã-Bretanha antes da
Primeira Guerra Mundial (p. 59).
No último terço do século 19, o Brasil
passou por significativas transformações Nossa agricultura, fonte de quase todos
econômicas, políticas e sociais, resultantes, os nossos recursos era, porém, atrasada, e
principalmente, do impacto produzido pela nossa indústria mal ensaiava os primeiros
Guerra do Paraguai (1865-1870), da abolição passos. A abolição da escravidão negra e a
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substituição gradativa do trabalho escravo por causa do desemprego e da desorganiza-
pela mão-de-obra do imigrante estrangeiro, ção da economia européia. Nessas novas
provindo especialmente do sul da Europa, correntes imigratórias vinham operários de
intensificou nossa produção agrária. Mas a nível profissional e cultural mais elevado,
crise econômica mundial, ocorrida no úl- inclusive partidários de idéias sociais avan-
timo terço do século 19, atingiu-a duramen- çadas, especialmente anarquistas italianos,
te, ocasionando o abandono dos campos que muito influenciaram a formação ideoló-
pelas cidades, ampliando-as e estimulando gica de nossa até então incipiente classe
o processo de industrialização pela transfe- operária.
rência de capitais acumulados na agricul- Segundo dados colhidos no estudo ci-
tura, pela penetração do capital estrangeiro tado por Herci Maria Rebelo Pessamílio (p.
e pelo conseqüente crescimento e melhoria 14), dos anos de 1891 a 1900 entraram no
da rede de transportes, notadamente Brasil 1.129.315 imigrantes; de 1901 a 1910,
ferroviário. 631.000; e de 1911 a 1920, 707.704. E, se-
Conforme escreve Herci Maria Rebelo gundo Edgard Carone (in: A República
Pessamílio, no estudo intitulado “A dinâ- Velha; I. Instituições e classes sociais, p. 13),
mica social do café”, incluído na publica- citado por Herci Maria Rebelo Pessamílio em
ção O café no Brasil (Ministério da Indús- nota de pé de página (p. 14):
tria e do Comércio. Rio de Janeiro: Instituto
Brasileiro do Café, 1978): Os imigrantes são preferencialmente ita-
lianos, portugueses, espanhóis, alemães,
Além do café, foi a indústria a nova voz russos, sírios. A predominância dos italia-
que se ergueu pedindo mão-de-obra mais nos na mão-de-obra agrícola (também no
qualificada, impossível de recrutar entre setor industrial) é total. Calcula-se, em
os escravos de baixo nível cultural que 1908, que 7/10 dos trabalhadores do café
viviam nas lavouras. Os de mais elevado são italianos; o resto distribui-se entre
nível cultural tiveram sua entrada portugueses e espanhóis.
barrada por ocasião da proibição do tráfi-
co nas zonas situadas ao norte do Equa-
dor, pelo acordo entre Portugal e a Ingla- A educação, o ensino
terra, em 1815. Portanto era preciso, com
e a cultura nesse período
urgência, conseguir trabalhadores assa-
lariados, que ofereciam menor risco de
perda que o capital investido no escravo. O Brasil era então um país de analfa-
Para a expansão do processo de industria- betos. Para não repetir estatísticas secas, que
lização, urgia acelerar a libertação dos es- estão à disposição, em publicações oficiais,
cravos e facilitar assim a vinda de imi- para quem as queira utilizar, alinharemos
grantes. Vemos assim um dos pontos em
apenas uma citação colhida no belo trabalho
comum entre o grupo cafeicultor, que ne-
de Nicolau Sevcenko, intitulado: Literatura
cessitava de braços, e o grupo de industri-
ais, que necessitava dinamizar um mer- como missão – tensões sociais e criação
cado interno (p. 15). cultural na Primeira República (São Paulo,
Brasiliense, 1983):
Com a eclosão da guerra de 1914-1918,
todo esse processo acelerou-se ainda mais, Em artigo publicado em 1900, José
pois o País, impedido de receber os produ- Veríssimo exporia abertamente a chaga da
cultura erudita brasileira, respaldando-a
tos estrangeiros manufaturados, foi obriga-
num panorama bem mais amplo e con-
do a expandir e diversificar sua indústria
creto. À parte os problemas políticos, seus
e, portanto, a urbanização. óbices fundamentais repousavam sobre a
Terminada a guerra, passou o Brasil a própria estrutura social da Nação, reper-
receber novos contingentes de imigrantes, cutindo na área da cultura.

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[...] aprimorada, elementar, profissional, e mes-
O número de analfabetos no Brasil, em mo de nível secundário, passou a pressio-
1890, segundo a estatística oficial, era,
nar nossa precária estrutura de ensino, no
em uma população de 14.333.915 habi-
tantes, de 12.213.356, isto é, sabiam ler
sentido de sua melhoria. De outro lado, as
apenas 16 ou 17 em 100 brasileiros ou relações sociais propiciadas pela intensifi-
habitantes do Brasil. Difícil será, entre os cação da urbanização e a criação de novas
países presumidos de civilizados, encon- categorias de empregados, no comércio, de
trar tão alta proporção de iletrados. As- escritório e de funcionários públicos, agi-
sentado esse fato, verifica-se logo que à
ram no mesmo sentido da exigência de um
literatura aqui falta a condição da cultu-
ra geral, ainda rudimentar e, igualmente,
ensino mais eficiente, não somente em rela-
o leitor e consumidor dos seus produtos ção ao 1º grau, mas também no tocante ao 2º
(p. 88). grau, de caráter geral e profissional.

As poucas escolas públicas existentes O movimento de


nas cidades eram freqüentadas pelos filhos modernização da educação
das famílias de classe média. Os ricos con- e do ensino
tratavam preceptores, geralmente estrangei-
ros, que ministravam aos filhos o ensino Essas transformações econômicas, po-
em casa, ou os mandavam a alguns poucos líticas e sociais que vinham em gestação,
colégios particulares, leigos ou religiosos, desde os fins do século 19 e, mais precisa-
funcionando nas principais capitais, em re- mente, com o advento da República, come-
gime de internato ou semi-internato. Mui- çaram a se manifestar com maior intensida-
tos desses colégios adquiriram grande de a partir dos anos 20.
notoriedade. Em 1922, a mocidade militar, especial-
Em todo o vasto interior do País havia mente do Exército, o setor mais numeroso e
algumas precárias escolinhas rurais, em atuante das forças armadas, rebela-se contra
cuja maioria trabalhavam professores sem o predomínio das oligarquias agrárias que
qualquer formação profissional, que aten- dominavam a política do País, com o cha-
diam às populações dispersas em imensas mado “coronelismo”, o “capanguismo”, o
áreas: eram as substitutas das antigas aulas, “voto de cabresto”, as eleições “a bico-de-
instituídas pelas reformas pombalinas, após pena”, as atas falsas, o manipulado “reco-
a expulsão dos jesuítas, em 1763. nhecimento de poderes”, uma justiça tarda
As classes intelectuais viviam fascina- e tendenciosa, e outras muitas manifestações
das pela cultura francesa e, na literatura, de atraso em que vivia o País.
continuávamos submetidos aos modelos O levante militar de 5 de julho de 1922,
portugueses. no Rio de Janeiro, e que resultou na chama-
Ao terminar a Primeira Grande Guerra da “Epopéia dos 18 do Forte”, foi a primei-
Mundial toda essa nossa precária estrutura ra manifestação dramática desse protesto.
de educação, ensino e cultura entrou num Em 1924, o segundo “5 de Julho”, em
processo de transformação acelerado. São Paulo, dá prosseguimento a esse
O desenvolvimento e a diversificação inconformismo de nossa mocidade militar,
da indústria traziam como conseqüência que teve seqüência na chamada “Coluna
natural a necessidade de uma melhor pre- Prestes”, que percorreu 24 mil quilômetros
paração de mão-de-obra, com reflexos na do território nacional, sempre perseguida por
quantidade de escolas e na qualidade do forças governamentais superiores. Esse mo-
ensino. A chegada de grandes contingen- vimento somente veio a cessar, em 1927, com
tes de imigrantes estrangeiros, como vimos, a internação dos remanescentes da Coluna
portadores de uma educação mais na Bolívia, já depois da posse do novo
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presidente da República, Washington Luís, “organização” escolar e aos nossos atrasa-
em novembro de 1926. Essa reação da mo- dos métodos e processos de ensino. E como
cidade, especialmente militar, passou à resultado dessas preocupações, abriu-se o
história com a denominação geral de ciclo das reformas de educação e ensino.
“tenentismo” e foi fator importante para o As idéias e diretrizes que procuravam
desencadeamento da Revolução de 1930. concretizar-se nas realizações dessas reformas,
Por essa mesma época, os meios cultu- evidentemente, não surgiram por geração es-
rais brasileiros eram também abalados por pontânea na cabeça dos educadores. Elas eram
acontecimentos muito importantes e que se impulsionadas, de um lado, pelas condições
concretizaram especialmente no Rio de Ja- objetivas caracterizadas pelas transformações
neiro e São Paulo com a chamada “Semana econômicas, políticas e sociais que delinea-
de Arte Moderna”. Influenciada a princípio mos anteriormente. De outro lado, começa-
pelas novas correntes que se formaram na ram a chegar até nós, da Europa do pós-
Europa do após-guerra, nos campos das guerra, um conjunto de idéias que pregavam
artes plásticas, na literatura e na música, a renovação de métodos e processos de ensi-
conhecidas como o surrealismo, o futuris- no, ainda dominados pelo regime de coerção
mo, o dadaísmo, etc., adquiriu entre nós da velha pedagogia jesuítica. Esse movimen-
um poderoso caráter nacionalista que pre- to de renovação escolar, que passou a ser
gava nosso rompimento com os modelos eu- conhecido como o da “Escola Nova” ou
ropeus que então dominavam nossas ma- “Escola Ativa”, baseava-se nos progressos
nifestações artísticas. Impelia-nos, além dis- mais recentes da psicologia infantil, que rei-
so, a nos voltar para as coisas de nosso País, vindicava uma maior liberdade para a criança,
para as características de nossa terra e de o respeito às características da personalidade
nossa gente, nossos costumes e realidades, de cada uma, nas várias fases de seu desen-
que até então desprezávamos e desconhecía- volvimento, colocando o “interesse” como o
mos completamente. O precursor dessa principal motor de aprendizagem. Era o que
tomada de posição por nossas classes John Dewey, considerado o maior filósofo e
intelectuais é, com toda a justiça, conside- educador norte-americano, pregava como uma
rado Euclides da Cunha, com o aparecimen- verdadeira revolução – “a revolução
to do seu monumental Os sertões, em 1902. copernicana” – em que o centro da educação
Euclides da Cunha e também Lima e da atividade escolar passava a ser a crian-
Barreto, diz Nicolau Sevcenko (op. cit., p. ça, com suas características próprias e seus
122-123), revelaram em suas obras: interesses e não mais a vontade imposta do
educador. Havia, além disso, após a catástrofe
O mesmo empenho em forçar as elites a de 1914-1918, uma aspiração generalizada de
executar um meio giro sobre seus própri- que, através dessa educação assim renovada,
os pés e voltar o seu olhar do Atlântico
pudesse se conseguir a formação de um
para o interior da Nação, quer seja para o
sertão, para o subúrbio ou para o seu se-
homem novo, que passaria a encarar a con-
melhante nativo, mas de qualquer forma vivência entre os povos, em termos de
para o Brasil e não para a Europa. entendimento fraternal, que conduziria a
humanidade a uma era de paz duradoura,
Essa ânsia de transformações que agi- em que os conflitos sangrentos fossem defi-
tava o País, não podia deixar de repercutir nitivamente banidos e substituídos pelos de-
intensamente nos setores de educação e do bates e resoluções de assembléias em que
ensino, ou seja, da transmissão da cultura. estivessem representados todos os povos.
Os educadores brasileiros, por seus elemen- E se essas aspirações não se concretiza-
tos mais progressistas, em breve, estavam ram, não se deve debitar aos educadores o
também engajados na crítica à nossa precária fracasso...
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O ciclo de reformas de Psicologia e da educação de crianças excep-
educação e ensino cionais e deixando entre nós grande núme-
ro de discípulos.
Já em 1909, Antônio Carneiro Leão, um Mas a mais importante e profunda
intelectual pernambucano, que pode ser dessas reformas foi, sem dúvida, a reali-
considerado como um pioneiro, publicava zada no antigo Distrito Federal, então Ca-
um livrinho – Educação, em que pregava pital da República, durante os anos de
essas idéias de renovação escolar; de 1912 1927-1930, liderada por Fernando de
a 1919 percorreu o País, de norte a sul, fa- Azevedo. Dela resultou a elaboração de um
zendo conferências de propaganda da edu- verdadeiro código moderno de educação,
cação popular; em 1917, publica O Brasil e o que se verificava pela primeira vez no
a educação e Pela educação profissional; em Brasil. Essa legislação foi aprovada pelo
1919, Pela educação; e, por fim, em 1923, Decreto nº 3.281, de 23 de janeiro de 1928,
Os deveres das novas gerações brasileiras. e complementada por um regulamento que
Em 1920, Sampaio Dória realiza, no constava de 764 artigos, baixada pelo De-
Estado de São Paulo, o que pode ser consi- creto nº 2.940, de 22 de novembro de 1928.
derada como a primeira dessas reformas re- Essas datas incorporaram-se definitiva-
gionais de ensino. Nos anos de 1922-1923, mente à história da educação, como mar-
Lourenço Filho, educador de São Paulo, é cos notáveis do movimento de moderni-
chamado pelo Estado do Ceará, para reali- zação da educação e do ensino no Brasil.
zar a segunda dessas reformas. Na Bahia, E, com toda a justiça, essa realização pas-
em 1924, é a vez de Anísio Teixeira, depois sou a ser conhecida como “Reforma
de fazer, nos Estados Unidos da América Fernando de Azevedo”. Sobre ela, entre
do Norte, cursos de educação, na Univer- outros, escreveu o eminente pensador
sidade de Colúmbia, onde foi aluno de John uruguaio, doutor Manuel Bernardes:
Dewey. José Augusto Bezerra de Menezes,
no Estado do Rio Grande do Norte, nos Parecia impossível. Mas era assim. O Rio
anos de 1925-1928, dá continuidade a esse de Janeiro realizava, num arranco formi-
dável, mas não por surpresa e às cegas,
movimento. Antônio Carneiro Leão, em
senão num arranco refletido, medido, de-
1922-1926, no antigo Distrito Federal e, pos- liberado, metódico, integral, o que nenhu-
teriormente, em 1928, no Estado de ma capital do mundo pôde ainda realizar,
Pernambuco dá prosseguimento a esse es- nem mesmo Bruxelas, onde quase todos
forço de modernização do ensino público. os professores e mestre-escolas estão con-
A vez do Estado do Paraná chega, nos anos vencidos de que a “escola ativa”, a nova
forma científica e humana de ministrar a
de 1927-1928, com Lisímaco Costa. E nes-
instrução se impõe a todos os espíritos
ses mesmos anos, Francisco Campos em- cultos, mas onde a escola congregacionista,
preende, em Minas Gerais, a renovação do que açambarca mais da metade da infân-
ensino público, criando em Belo Horizonte, cia escolar, opõe uma barreira espessa ao
a Escola de Aperfeiçoamento para pro- avanço do ideal contemporâneo. O Rio de
fessores diplomados pelas escolas normais Janeiro, que há trinta anos fez quase uma
revolução e queimou bondes nas ruas para
comuns. Para a organização desse estabele-
se opor à vacina obrigatória, acaba de se
cimento, fez vir da Europa uma missão de situar, nesta matéria transcendental da
notáveis educadores, chefiada por Edouard instrução pública, à frente de todas as
Claparède, o grande psicólogo suíço. Entre capitais do mundo civilizado.
os membros dessa missão contava-se Hele-
na Antipoff, assistente de Claparède, e que, E Adolphe Ferrière, considerado um
posteriormente, radicou-se no Brasil, reali- dos pioneiros europeus dessa “escola nova”,
zando importante trabalho no setor de escrevia na revista Pour l’Ère Nouvelle, órgão
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oficial da Liga Internacional para a Educação Os nomes das mais eminentes figuras
Nova (n. 67, abr. 1931, ano 10): de educadores que lideravam esse movi-
mento da chamada Escola Nova, em vários
Quelle surprise de rencontrer au Brésil países do mundo, e que inspiravam os edu-
une des formes les plus complètes de cadores brasileiros, passaram a se tornar fa-
I’éducation nouvelle. Hier encore, c’était miliares entre nós, por suas obras, que aqui
au point de vue pédagogique um des pays
chegavam e eram ou não traduzidas, ou tam-
les plus arrierés du monde. Aujourd’hui
bém em revistas especializadas tais como:
– précision: depuis la loi scolaire du
District Fédéral de Rio de Janeiro de 1928
Claparède, Binet, Simon, Decroly, Ferrière,
– il rivalise avec le Chili et le Méxique, Montessori, Durkheim, Kerschenstein,
en Amérique, avec Vienne, en Europe, Dewey, Kilpatrick, Wallon, Piéron,
avec Turquie, en Asie. Thorndike, e até mesmo, Lunatshartky, o
primeiro ministro da Instrução Pública da
A Reforma Fernando de Azevedo in- União Soviética, após a Revolução de 1917.
centivou também o aparecimento de toda A Associação Brasileira de Educação
uma literatura especializada, antes escassa (ABE), onde se congregaram os educadores
ou mesmo inexistente, de autores brasilei- brasileiros mais eminentes e atuantes, des-
ros ou estrangeiros, dos mais conceituados. de sua fundação, em 1924, assumiu a lide-
Assim, o próprio Fernando de Azevedo reu- rança de todos esses movimentos de reno-
nia em volume os trabalhos que publicou vação da educação e do ensino no País, apoi-
durante a elaboração da Reforma, dando- ando-os e promovendo a realização de pa-
lhe o título sugestivo de Novos caminhos e lestras, debates, cursos e conferências, con-
novos fins e o subtítulo esclarecedor de “A vocando para isso autoridades e especialis-
nova política da educação no Brasil”. De tas, nacionais e estrangeiros. E, a partir de
Jônatas Serrano tivemos A Escola Nova, em 1927, iniciou a série de conferências nacio-
que, de acordo com sua filosofia católica de nais, em várias das capitais dos estados bra-
vida, expõe os princípios dessa nova cor- sileiros, onde eram debatidos os mais im-
rente da pedagogia. Um pouco mais tarde, portantes problemas referentes à educação,
entre muitos outros trabalhos de valor, apa- ao ensino e à cultura do País. As atividades
receram: Técnica de pedagogia moderna, de promovidas pela ABE foram de tal impor-
Everardo Backheuser; A educação e seu tância que se pode afirmar, sem exagero, que
aparelhamento moderno, de Francisco ninguém conseguirá escrever a história da
Venâncio Filho; e ainda Introdução ao educação do Brasil sem compulsar, pelo me-
estudo da Escola Nova, de Lourenço Filho, nos, as atas dessa agremiação e os anais
obra considerada como um verdadeiro das referidas conferências nacionais de
marco na divulgação de todas as correntes educação.
renovadoras da educação que nos chegavam Conforme se verifica pelo que expuse-
da Europa e dos Estados Unidos e também mos até aqui, essas reformas de educação e
sobre as realizações brasileiras na matéria. ensino restringiram-se às áreas dos vários
Muitas revistas especializadas começa- estados da federação. O governo federal qua-
ram também a ser publicadas com os mes- se nada realizava, a não ser algumas refor-
mos objetivos. A própria Diretoria Geral de mas no âmbito dos ensinos superior e se-
Instrução Pública do Distrito Federal lan- cundário, preso que estava à letra do artigo
çou o Boletim da Instrução Pública, reper- 35 da Constituição de 1891, que limitava a
tório e registro de todas as iniciativas da ação do Poder Central apenas a esses dois
Reforma que se realizava na Capital e em graus do ensino. Todas as outras modalida-
outras regiões do País e também no des (pré-primário, primário, normal, profis-
estrangeiro. sional, etc.) estavam entregues às Unidades
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Federadas. Essa situação só veio a se modi- cinqüenta, indica a criação de novas mo-
ficar após a Revolução de 1930, quando se dalidades de consciência nacional. Nesse
quadro é que se inserem os golpes, as re-
deu uma maior concentração de poderes no
voluções e os movimentos que assinalam
governo federal, pela diminuição da influ- os fluxos e os refluxos na vida política na-
ência das oligarquias locais, que antes co- cional. Mas, esses acontecimentos não são
mandavam todos os aspectos da política apenas políticos, nem estritamente inter-
nacional. nos. Eles são, em geral, manifestações de
relações, tensões e conflitos, que os seto-
res novos ou nascentes no País estabele-
cem com a sociedade brasileira tradicio-
A Revolução de 1930 nal e com as nações mais poderosas com
e a educação as quais o Brasil está em intercâmbio. Por
essas razões, devemos tomar sempre em
Evidentemente, não cabem aqui refe- consideração que os golpes armados ocor-
rências pormenorizadas às causas gerais e ridos no Brasil, desde a Primeira Guerra
Mundial, devem ser encarados como ma-
particulares e às variadas conseqüências do
nifestações de rompimentos político-eco-
complexo e importante evento, de caráter nômicos, ao mesmo tempo interno e ex-
econômico, político e social que passou a ternos. Às vezes, essas relações não são
figurar na história brasileira com a denomi- imediatamente visíveis, isto é, não podem
nação de “Revolução de 1930”. Nosso ob- ser comprovadas empiricamente, de modo
jetivo é muito mais restrito e assim somen- direto. Mas, geralmente, elas guardam
vinculações estruturais verificáveis no
te abordaremos os aspectos que dizem res-
plano histórico. Em última instância, es-
peito ao presente estudo, ou seja, os que se ses rompimentos são manifestações de
referem aos problemas de educação e ruturas político-econômicas que marcam
ensino. o ingresso do Brasil na era da civilização
Entretanto, como ponto de partida para urbano-industrial (p. 13-4).
as considerações que faremos em seguida,
julgamos útil transcrever aqui, como uma Vitoriosa a Revolução de 1930, em 24
espécie de definição das características ge- de outubro desse ano, com o fato inédito da
rais desse importante acontecimento histó- deposição do presidente da República, en-
rico, o seguinte trecho que encontramos no cerrava-se o ciclo da Primeira República ou
trabalho do sociólogo Octávio Ianni, República “Velha” e a vigência da 1ª Cons-
intitulado O colapso do populismo no Brasil tituição Republicana, de 24 de fevereiro de
(2. ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1891. Com a posse a 3 de novembro, ainda
1971): de 1930, de Getúlio Vargas, como chefe de
um Governo Revolucionário Provisório, ini-
É no século 20 que o povo brasileiro apa- ciava-se a Segunda República ou República
rece como categoria política fundamen- “Nova”.
tal. Em particular é depois da Primeira Cedendo às influências de todo aquele
Guerra Mundial – e em escala crescente,
movimento de renovação da educação e do
a seguir – que os setores médios e prole-
tários, urbanos e rurais, começam a con-
ensino, que, como vimos, desde a década
tar mais abertamente como categoria de 20, levara várias das Unidades Federadas
política. Por isso, pode verificar-se que a a empreender reformas nesse setor, o Go-
revolução brasileira, em curso neste sé- verno Revolucionário, pelo Decreto nº
culo, é um processo que compreende a 19.402 de 14 de novembro de 1930, cria o
luta por uma participação cada vez mai-
Ministério da Educação e Saúde, antiga rei-
or da população nacional no debate e
nas decisões políticas e econômicas.
vindicação dos educadores brasileiros. Para
O florescimento da cultura nacional, ocor- ministro foi nomeado Francisco Campos, ele-
rido em especial nas décadas de vinte e mento ligado às idéias e às realizações do
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movimento de modernização do ensino, popular. O chefe do Governo Revolucioná-
conforme assinalamos anteriormente. No rio Provisório – Getúlio Vargas – , especial-
ano seguinte, 1931, o novo ministro prepa- mente convidado, instalou os trabalhos da
ra e submete ao chefe do governo três im- conferência e, em memorável discurso, dis-
portantes decretos, que são sancionados na se aos educadores presentes que os consi-
mesma data de 11 de abril: o de nº 19.850, derava convocados para encontrarem uma
criando o Conselho Nacional de Educação, “fórmula feliz” com a qual fosse definido o
como “órgão consultivo do Ministro da Edu- que ele denominou de “o sentido pedagógi-
cação e Saúde nos assuntos relativos ao en- co” da Revolução de 1930, que o Governo
sino”; o de nº 19.851, “que instituía o Esta- se comprometia a adotar na obra em que
tuto das Universidades Brasileiras”; e o de estava empenhado de reconstrução do País.
nº 19.852, que dispunha sobre a organiza- Dessa conferência e dessas afirmações
ção da Universidade do Rio de Janeiro. Em do chefe do governo resultaram duas inicia-
18 de abril de 1931, pelo Decreto nº 19.890, tivas muito importantes: uma, direta e ime-
é totalmente reorganizado o ensino secun- diata, que consistiu na assinatura de um
dário, em moldes modernos, terminando Convênio Estatístico entre o governo fede-
assim o antigo regime dos “exames parcela- ral e os estados para adotar normas de
dos” ou dos “preparatórios”. Era essa tam- padronização e aperfeiçoamento, das esta-
bém uma das reivindicações mais insisten- tísticas de ensino, em todo o País, até então
tes dos reformadores do ensino brasileiro. reconhecidamente muito precárias, o que
Por fim, pelo decreto de 30 de junho, ainda dificultava a elaboração de estudos e pes-
de 1931, é alterado o plano do ensino co- quisas mais sérios e profundos sobre a
mercial e criado o curso superior de situação da educação e do ensino no País.
administração e finanças. A outra iniciativa da Conferência seria a
Mas, essas providências do Governo elaboração de um documento em que os mais
Revolucionário, apesar de muito importan- representativos educadores brasileiros, aten-
tes, podiam ser consideradas como fragmen- dendo à solicitação do chefe do Governo
tárias e mantinham o mesmo critério ante- Revolucionário, procurariam traçar as dire-
rior do governo federal continuar alheio aos trizes de uma verdadeira política nacional de
problemas do ensino popular, de 1º e 2º educação e ensino, abrangendo todos os seus
graus, tal como acontecia na vigência da aspectos, modalidades e níveis. Houve en-
Constituição de 1891. tão sérias divergências entre os participantes
Em face dessa situação, os educadores da Conferência, o que redundou até na reti-
mais atuantes, congregados na Associação rada do grupo dos educadores católicos, que
Brasileira de Educação, resolveram convo- discordaram das primeiras redações do
car uma de suas conferências nacionais, documento, em aspectos fundamentais, tais
para, de certa forma, pressionar o governo como prioridade outorgada ao Estado para a
federal, e levá-lo a adotar uma posição mais manutenção do ensino, ensino leigo, escola
afirmativa e abrangente em relação aos pro- única, coeducação dos sexos, etc. Afinal, o
blemas globais de educação e ensino, defi- documento foi concluído e aprovado pelo
nindo uma verdadeira política nacional para plenário da Conferência e divulgado pela
esse setor, como já vinha fazendo em alguns imprensa não especializada, em março de
outros. 1932. Trazia como título principal o de
Essa conferência nacional foi a quarta, Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova,
convocada pela Associação Brasileira de era dirigido “Ao Povo e ao Governo” e onde
Educação, e realizou-se no Rio de Janeiro, se propunha “A reconstrução educacional no
em dezembro de 1931, tendo como tema Brasil”. Seu redator principal foi Fernando
geral: As grandes diretrizes da educação de Azevedo.
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O Manifesto dos Pioneiros o homem é um ser social e tem por
da Educação Nova isso deveres para com a sociedade:
de trabalho, de cooperação e de soli-
O Manifesto dos Pioneiros tornou-se, dariedade. Seria, assim, uma educa-
indiscutivelmente, um documento histórico, ção acima das classes, que não se des-
não somente pelo seu caráter abrangente, tinaria a servir a nenhum grupo par-
como dissemos, na definição de uma política ticular, mas aos interesses do indiví-
nacional de educação e ensino, mas também duo e da sociedade em geral, que não
porque foi único no gênero em toda a história devem ser conflitantes.
da educação no Brasil. 2. A educação deve ser um direito de
O documento dos educadores brasilei- todos, de acordo com suas necessi-
ros estava perfeitamente dentro do contex- dades, aptidões e aspirações, den-
to daquelas aspirações que, desde a década tro do princípio democrático da
de 20, como vimos, procuravam imprimir igualdade de oportunidades para
aos problemas da educação e ensino uma todos.
orientação mais de acordo com as corren- 3. Por isso mesmo, deve caber ao Esta-
tes renovadoras nessa matéria e as necessi- do, como representante de todos os
dades do País, que se ia transformando. cidadãos, assegurar esse direito, tor-
Basta atentar para o fato de que o redator nando-se assim a educação uma
do documento, como dissemos, foi função essencialmente pública.
Fernando de Azevedo, líder da mais pro- 4. Para assegurar esse direito democrá-
funda das reformas que se realizaram, nes- tico a escola deve ser única, obriga-
se setor, no País; e entre os vinte e cinco tória, pelo menos até um certo nível
signatários restantes figuram os nomes de e limite de idade, gratuita, leiga, e
outros tantos educadores, cientistas e inte- funcionar em regime de igualdade
lectuais, diretamente ligados ao movimen- para os dois sexos.
to de modernização da educação, do ensi- 5. O Estado adotará uma política glo-
no e da cultura no Brasil. São eles: Anísio bal e nacional, abrangendo todos os
Teixeira, Lourenço Filho, Afrânio Peixoto, níveis e modalidades de educação e
Roquete-Pinto, Sampaio Dória, Almeida ensino.
Júnior, Mario Casassanta, Atílio Vivaqua, 6. Entretanto, na organização dos ser-
Francisco Venâncio Filho, Edgar Süssekind viços e dos sistemas de educação e
de Mendonça, Armanda Alvaro Alberto, ensino será adotado o princípio da
Cecília Meireles, entre outros. descentralização administrativa.
Mas, sua elaboração e lançamento só 7. Os métodos e processos de ensino
se tornou possível em vista do ambiente e obedecerão às mais modernas con-
das expectativas que a Revolução de 1930 quistas das Ciências Sociais, da Psi-
criou para o Brasil e para o povo brasileiro. cologia e das técnicas pedagógicas.
Numa análise mesmo superficial do Os mesmos critérios serão adotados
documento, é possível, desde logo, desta- para a medida da aprendizagem e a
car, em sua orientação e finalidades, algu- apuração do rendimento dos siste-
mas características fundamentais: mas escolares.
8. A educação e o ensino devem obe-
1. O documento é permeado por uma decer a planos definidos, constitu-
concepção de educação natural e indo sistemas em que os educandos
integral do indivíduo, com o respeito possam ascender, através de uma
à personalidade de cada um, mas, escada educacional contínua, das
ao mesmo tempo, sem esquecer que escolas pré-primárias, às primárias,
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secundárias e ao ensino superior, agravando-se na medida que recuam no
de acordo com sua capacidade, tempo; o dever mais alto, mais penoso e
mais grave é, de certo, o da educação que,
aptidões e aspirações, e nunca
dando ao povo a consciência de si mesmo
por suas diferenças em poder
e de seus destinos e a força para afirmar-
econômico. se e realizá-los, entretém, cultiva e perpe-
9. Os professores, de todos os graus e tua a identidade da consciência nacional,
modalidades de ensino, devem ser na sua comunhão íntima com consciência
formados dentro de um espírito de humana.
unidade, constituindo-se num
corpo profissional consciente de O Manifesto, conforme dissemos, apa-
suas responsabilidades perante a receu na imprensa diária, não especializada,
Nação, os educandos e o povo em em março de 1932. Posteriormente, em ju-
geral; para isso, devem receber re- nho desse mesmo ano, foi publicado um
muneração condigna, para que pos- volume pela Companhia Editora Nacional,
sam manter a necessária eficiência de São Paulo, precedido de uma introdução
no trabalho, a dignidade e o prestí- redigida por Fernando de Azevedo e segui-
gio indispensáveis ao desempenho da por algumas apreciações críticas de vários
de sua missão. comentaristas e por um Esboço de um Pro-
10.E como definição final do espírito e grama Educacional Extraído do Manifesto,
do caráter do Manifesto, devemos em dez itens. Mesmo com o risco de alon-
citar as palavras com que se inicia e gar demasiadamente o presente estudo, creio
as que aparecem no fecho do que é conveniente reproduzir aqui, como
documento. São as seguintes as documentação e mais completa compreen-
primeiras afirmações do texto: são do verdadeiro caráter do documento,
esse anexo, redigido por solicitação de gran-
Na hierarquia dos problemas nacionais, de número de interessados. Além disso,
nenhum sobreleva em importância e gra- constituindo, atualmente, o referido volu-
vidade ao da educação. Nem mesmo o de me obra rara, parece-me que será útil a
caráter econômico lhe podem disputar a
inclusão aqui, na íntegra, desse Esboço.
primazia nos planos de reconstrução na-
Ei-lo:
cional. Pois, se a evolução orgânica do sis-
tema cultural de um País depende de suas
condições econômicas, é impossível de- A Nova Política Educacional
senvolver as forças econômicas ou de pro- Esboço de um Programa Extraído
dução, sem o preparo intensivo das forças do Manifesto
culturais e o desenvolvimento das apti-
dões à invenção e à iniciativa, que, são os 1. Estabelecimento de um sistema com-
fatores fundamentais do acréscimo de pleto de educação, com uma estrutura
riquezas de uma sociedade. orgânica, conforme as necessidades bra-
sileiras, as novas diretrizes econômicas e
sociais da civilização atual e os seguintes
E são estas as palavras finais do
princípios gerais:
Manifesto:
a) a educação é considerada, em todos os
Mas, de todos os deveres que incumbem seus graus, como uma função social e
ao Estado, o que exige maior capacidade um serviço essencialmente público que
de dedicação e justifica maior soma de o Estado é chamado a realizar com a
sacrifícios; aquele com que não é possí- cooperação de todas as instituições
vel transigir sem a perda irreparável de sociais;
algumas gerações; aquele em cujo cum- b) cabe aos Estados federados organizar,
primento os erros praticados se projetam custear e ministrar o ensino em todos
mais longe nas suas conseqüências, os graus, de acordo com os princípios e

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as normas gerais estabelecidos na é essencial, de elaborar e criar a ciência,
Constituição e, em leis ordinárias pela transmiti-la e vulgarizá-la, e sirvam, por-
União, a que competem a educação na tanto, na variedade de seus institutos:
capital do País, uma ação supletiva
onde quer que haja deficiência de a) à pesquisa científica e à cultura livre e
meios e a ação fiscalizadora, coorde- desinteressada;
nada e estimulada pelo Ministério da b) à formação do professorado para as es-
Educação; colas primárias, secundárias, profissi-
c) o sistema escolar deve ser estabelecido onais e superiores (unidade na prepa-
nas bases de uma educação integral; em ração do pessoal do ensino);
comum para os alunos de um e outro c) à formação de profissionais em todas
sexo e de acordo com suas aptidões na- as profissões de base científica;
turais; única para todos e leiga, sendo a d) à vulgarização ou popularização cientí-
educação primária gratuita e obrigató- fica, literária e artística, por todos os
ria; o ensino deve tender gradativamente meios de extensão universitária.
à obrigatoriedade até 18 anos e à
gratuidade em todos os graus. 6. Criação de fundos escolares ou especiais
(autonomia econômica) destinados à ma-
2. Organização da escola secundária (de nutenção e desenvolvimento da educação,
6 anos) em tipo flexível, de nítida finali- em todos os graus, e constituídos, além de
dade social, como escola para o povo, não outras rendas e recursos especiais, de uma
proposta a preservar e a transmitir as cul- porcentagem das rendas arrecadadas pela
turas clássicas, mas destinada, pela sua União, pelos Estados e pelos Municípios.
estrutura democrática, a ser acessível e
proporcionar as mesmas oportunidades 7. Fiscalização de todas as instituições
para todos, tendo, sobre a base de uma particulares de ensino, que cooperarão
cultura geral comum, as seções de com o Estado na obra de educação e cultu-
especialização para as atividades de ra, já como função supletiva, em qualquer
preferência intelectual (humanidades e dos graus de ensino, de acordo com as nor-
ciências), ou de preponderância manual mas básicas estabelecidas em leis ordiná-
e mecânica (cursos de caráter técnico). rias, já como campos de ensaios e experi-
mentação pedagógica.
3. Desenvolvimento da educação técnico-
profissional de nível secundário e superi- 8. Desenvolvimento das instituições de
or, como base da economia nacional, com educação e de assistência física e psíqui-
a necessária variedade de tipos de escolas: ca à criança na idade pré-escolar (creches,
escolas maternais e jardins de infância) e
a) de agricultura, de minas e de pesca de todas as instituições complementares
(extração de matérias-primas); pré-escolares e pós-escolares:
b) industriais e profissionais (elabo-
radores de matérias-primas); a) para a defesa da saúde dos escolares,
c) de transportes e comércio (distribui- como serviços médico e dentário esco-
ção de produtos elaborados); e segun- lares (com função preventiva, educativa
do métodos e diretrizes que possam ou formadora de hábitos sanitários e
formar técnicos e operários capazes em clínica, pelas clínicas escolares, colô-
todos os graus da hierarquia industrial. nias de férias e escolas para crianças
débeis) e para a prática de educação
4. Organização de medidas e instituições física (praças de jogos para crianças,
de psicotécnica e orientação profissional praças de esporte, piscinas e estádios);
para o estudo prático do problema da ori- b) para a criação de um meio escolar na-
entação e seleção profissional e adaptação tural e social e o desenvolvimento do
científica do trabalho às aptidões naturais. espírito de solidariedade e cooperação
social (como as caixas escolares,
5. Criação de universidades de tal ma- cooperativas escolares, etc.);
neira organizadas e aparelhadas que c) para articulação da escola com o meio
possam exercer a tríplice função que lhes social (círculos de pais e professores,
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conselhos escolares) e intercâmbio in- educacional brasileiro, até hoje, não
terestadual e internacional de alunos puderam ser levados à prática.
e professores;
Mas, não somente os preceitos inscri-
d) para a intensificação e extensão da obra
de educação e cultura (bibliotecas es-
tos nele, como também todas as outras me-
colares, fixas ou circulantes, museus didas de caráter democrático que têm sido
escolares, rádio e cinema educativo). propostas até hoje.
Assim aconteceu com as disposições do
9. Reorganização da administração esco- capítulo sobre educação e cultura adotadas
lar e dos serviços técnicos de ensino, em
pela Constituição de 16 de julho de 1934,
todos os departamentos, de tal maneira
que todos esses serviços possam ser:
que foi derrogado com a implantação de
nossa primeira experiência declarada de
a) executados com rapidez e eficiência, governo autoritário, o chamado “Estado
tendo em vista o máximo de resultado Novo”, de 10 de novembro de 1937.
com o mínimo de despesa; Também as memoráveis realizações de
b) estudados, analisados e medidos cien-
Anísio Teixeira, em sua administração no
tificamente, e, portanto, rigorosamen-
te controlados nos seus resultados;
antigo Distrito Federal (1931-1935), na qual
c) constantemente estimulados e revistos, o grande educador procurou levar à prática
renovados e aperfeiçoados por um cor- os princípios inscritos no Manifesto e que
po técnico de analistas e investigado- deve ser considerado como o ponto mais
res pedagógicos e sociais, por meio de alto a que atingiu, no Brasil, a procura de
pesquisas, inquéritos, estatísticas e
soluções para o nosso problema educacional.
experiências.
Como se sabe, a tentativa do nosso “esta-
10. Reconstrução do sistema educacional dista da educação” sossobrou golpeada pela
em bases que possam contribuir para a reação que se desencadeou no País, após os
interpretação das classes sociais e a for- levantes armados, dirigidos pela insensatez
mação de uma sociedade humana mais de alguns jovens militares, naqueles trági-
justa e que tenha por objeto a organização
cos dias de novembro de 1935. Desse
da escola unificada, desde o jardim de in-
fância à universidade, “em vista da sele-
episódio dramático restou, para a história
ção dos melhores”, e, portanto, o máximo da educação brasileira, a carta, edificante e
desenvolvimento dos normais (escola co- corajosa, com que Anísio Teixeira demitiu-
mum), como o tratamento especial de se do cargo de Secretário de Educação e
anormais, subnormais e supernormais Cultura do antigo Distrito Federal.
(classes diferenciais e escolas especiais).
O “Estado Novo” (1937-1945) talvez
tenha adotado uma orientação mais “realista”
em matéria de educação, pois considerou o
Conclusões ensino profissional, para formação de mão-
de-obra, como o dever básico do Estado; e,
Do que ficou exposto, conclui-se facil- mais tarde, reformou o ensino de 2º grau,
mente que o Manifesto dos Pioneiros da dividindo-o em compartimentos estangues,
Educação Nova pressupunha a existência de cada um para atender, separadamente,
uma sociedade homogênea e democrática, às necessidades de formação de nossa
regida pelo princípio fundamental da juventude, de acordo com a divisão em
igualdade de oportunidade para todos. classes realmente existente na sociedade
Entretanto, esta não é, infelizmente, a brasileira (ensino secundário, normal,
realidade no tocante à sociedade brasileira, industrial, comercial e agrícola).
desde seus primórdios até os dias atuais. Depois, veio a hecatombe da Segunda
Por isso mesmo é que as indicações con- Guerra Mundial e com a vitória das chama-
tidas no Manifesto, para resolver o problema das “potências democráticas”, em coalizão
R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 86, n. 212, p. 163-178, jan./abr. 2005. 175
com a União Soviética, sobre o nazi-facismo, brasileiras – a maioria delas não tem futu-
tivemos aqui, como repercussão, a recons- ro algum. De acordo com o exaustivo qua-
dro sobre a educação no País, traçado pelo
titucionalização do País, e a promulgação
PNAD-82, conclui-se que, em cada grupo
da Constituição de 18 de setembro de 1946. de 100 brasileiros, apenas 74 terão algum
Nela, reapareceriam, com algumas amplia- contato com a escola – 26 já devem ser
ções, os dispositivos sobre educação e en- descartados liminarmente e permanece-
sino constantes da Constituição de 1934, rão analfabetos a vida inteira. Dos 74, um
e, além disso, dispunha, como novidade grosso contigente de 62 pessoas terá aces-
so somente ao 1º grau do ensino, onde se
maior a elaboração de uma Lei de Diretri-
dá a formação básica, e ficarão por aí. So-
zes e Bases da Educação Nacional. Essa lei brarão não mais de 12, a quem se oferece-
complementar somente 15 anos mais tarde rá o privilégio de cursar o 2º grau. E des-
foi promulgada (Lei nº 4.024, de 20 de de- ses 12 apenas 4, solitários vencedores su-
zembro de 1961). Porém, passados 10 anos, premos no pelotão inicial de 100, terão
já no segundo regime autoritário de gover- acesso à Universidade.
no, instalado a 19 de abril de 1964, foi mo-
dificada, na parte relativa aos ensinos de E adiante:
1º e 2º graus, pela Lei nº 5.692, de 11 de
Há no País, segundo o levantamento, 26
agosto de 1971. O ensino superior, univer-
milhões de pessoas acima dos 7 anos que
sitário ou de 3º grau já tinha sido reformado, não sabem ler nem escrever – um número
mediante a Lei nº 5.540 de 1968. equivalente à soma das populações de Mi-
Mas, apesar de todas essas reformas, a nas Gerais e do Rio de Janeiro e que, pro-
insatisfação e as críticas veementes continua- porcionalmente, ao todo, representa 26%
ram a ser dirigidas contra toda a nossa orga- da população, coloca o Brasil, em termos
internacionais, numa taxa de analfabetis-
nização de educação e ensino, em todos os
mo idêntica à do Paraguai.
seus aspectos. E a expressão que mais se ouve,
em todos os setores de nossa sociedade, é
E em seguida:
que a educação e o ensino estão mergulha-
dos numa crise profunda e não se vislumbra Pior ainda, no entanto, é que, ao contrá-
meios nem modos de tirá-la dessa situação. rio do que transparecia em levantamen-
As pessoas interessadas nessas questões, tos anteriores, o número de analfabetos
e que são muitas, pois que se trata de proble- vem crescendo. Se de 1970 a 1976 o País
mas que dizem respeito, praticamente, a todo registrou um progresso significativo ao
fazer cair a taxa de analfabetismo de 34%
o povo brasileiro, perguntam-se perplexas:
para 25%, de 1976 a 1982 a taxa voltou
por que têm fracassado todas essas medidas a subir, situando-se nos atuais 26% (Re-
democráticas ou democratizantes que têm vista Veja, n. 763, de 16/11/1983, p. 86-
sido propostas, ao longo de todos esses anos, 87).
para tentar resolver as deficiências desse setor
básico da vida nacional? Assim, passados exatamente 50 anos do
Por que chegamos ao ano de 1982 com lançamento do Manifesto dos Pioneiros da
a revelação dessas cifras estarrecedoras, apu- Educação Nova (1932-1982), a situação em
radas pela Pesquisa Nacional de Amostras relação aos problemas básicos da educação
de Domicílios, realizada pelo Instituto Bra- e do ensino agravaram-se, chegando-se a
sileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esses deploráveis aspectos, revelados pela
referentes à educação e ao ensino? referida pesquisa oficial.
Eis algumas dessas cifras: E, volta-se a perguntar: por que isso
aconteceu, apesar dos inegáveis esforços de
Como uma cruel cartomante, o sistema muitas autoridades e de grande número de
de ensino já traçou o futuro das crianças educadores honestos, e ainda o indiscutível
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e extraordinário desenvolvimento material Segundo Jessé Montelo, presidente do
do País nesse meio século? IBGE, em 1982, a população economica-
mente ativa com 15 anos ou mais era de
É que essa situação decorre, fundamen-
46 milhões 928 mil e 800 pessoas.
talmente, do fato da estrutura da sociedade
brasileira continuar a ser profundamente – Somos um País pobre. A população é
antidemocrática. E isto é facilmente pobre mesmo – conceituou o presidente
comprovável em face dos dados oficiais so- do IBGE, após apresentar os dados relati-
bre a concentração da renda no País, espe- vos à evolução dos rendimentos das dife-
rentes faixas de renda entre 1970 e 1982.
cialmente nos últimos anos, pelos quais se
verifica que uma minoria de brasileiros vem
E, para completar esse quadro sombrio,
se tornando cada vez mais rica, enquanto a
acrescente-se as seguintes informações
maioria do povo empobreceu grada-
colhidas ainda na mesma fonte:
tivamente. E comprova-se ainda mais pelos
resultados da mesma pesquisa realizada pelo
O Brasil chegou ao fim de 1983 com uma
IBGE, e que são os seguintes: dívida externa de 100 bilhões de dólares,
com uma inflação de 212% e uma queda
O número de brasileiros com rendimen- de produção, comandada pelo setor indus-
tos mensais de até dois salários mínimos trial, estimada em 5%, em relação a 1982.
subiu de 28 milhões 36 mil para 32 mi- Números iguais a esses não foram vistos
lhões 62 mil, apresentando um cresci- nem na famosa crise de 1929 que marcou
mento de 24, entre 1980 a 1982. A pes- o fim da República Velha (Jornal do Bra-
quisa, baseada em levantamentos feitos sil, Retrospectiva 83, sábado, 31 de de-
entre outubro e dezembro de 1982, reve- zembro de 1983, p. 1).
la também que 10 milhões 86 mil e 492
brasileiros recebem mensalmente até
E ainda mais:
meio salário mínimo. Outros 11 milhões
776 mil e 83 recebem entre meio e um
salário mínimo, o que significa que um O Brasil terminou 1983 com mais de 10
total de 21 milhões 625 mil 575 brasilei- milhões de desocupados, o que significa
22% de desempregados e subocupados na
ros vivem com até um salário mínimo.
população economicamente ativa de 45
Na faixa compreendida entre um e dois
milhões de pessoas. Um estudo do Institu-
salários mínimos estão 12 milhões 884
to de Planejamento da Seplan garante que,
mil 388 pessoas.
se o Governo não criar programas
emergenciais, o Brasil chegará a 1986 com,
A Pesquisa Nacional por Amostra de Do-
aproximadamente, 14,5 milhões de deso-
micílio (PNAD) –1982 mostra também
cupados, sem contar com os chamados de-
que 4 milhões 945 mil 20 pessoas não
salentados, aqueles que se acomodaram e
apresentavam remuneração, embora tra-
nem procuram mais trabalho [...].
balhassem períodos de 39 a 49 horas ou
mais mensalmente. A maior parte dos não
remunerados se encontram vinculados às E adiante:
atividades agrícolas, representando um
total de 4 milhões 340 mil 825 pessoas. Não devemos esquecer que o estilo, a con-
dução e os objetivos da política econômi-
A população residente no País está esti- ca no contexto atual têm provocado efei-
mada em 122.507.125 e a população eco- tos exatamente diversos daqueles que
nomicamente ativa em 49 milhões 884 nos parecem socialmente mais justos, re-
mil 736 (pessoas ocupadas mais as de- clamam os técnicos, e alertam para os
sempregadas, ou seja, aquelas com 15 drásticos efeitos que o aumento do de-
anos ou mais que continuam procurando semprego, conseqüência imediata dessa
emprego). A PNAD trabalha com o con- política, já está causando à população. Em
ceito de pessoas economicamente ativas, primeiro lugar, a queda da qualidade de
abrangendo as com 10 anos ou mais. vida, sobretudo no setor de baixa renda.

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Em segundo, o aumento excessivo da inteiramente distorcido que temos tido, des-
mortalidade infantil e das doenças de a nossa constituição como Nação. Politi-
transmissíveis, as quais o Governo terá
camente independentes, desde 1822 conti-
que remediar com recursos tão elevados
nuamos, entretanto, a ser extremamente de-
quanto os que utilizaria numa política de
empregos. (Jornal do Brasil, domingo, 8/ pendentes dos recursos estrangeiros, em
1/84, 1º cad., p. 15). capitais e tecnologia, para a exploração de
nossas riquezas, e, portanto, completamen-
Daí, a grave crise social em que mergu- te vulneráveis à pressão dos interesses das
lhamos, com essas taxas inéditas de desem- nações do chamado mundo desenvolvido.
prego; aumento da pobreza, em geral; aumen- E, além disso, o próprio desenvolvimento
to da criminalidade juvenil e até infantil; au- material que alcançamos vem beneficiando
mento das taxas de mortalidade infantil, etc. apenas uma minoria do povo brasileiro, com
Toda essa terrível situação teria, evi- a exclusão da maioria dos benefícios desse
dentemente, de levar às drásticas repercus- inegável progresso material que conse-
sões, apontadas anteriormente, sobre o setor guimos. Logramos assim um falso desenvol-
de educação e ensino. vimento ao mesmo tempo dependente e
E nesse ponto das considerações que excludente da maioria dos brasileiros. E essa
venho alinhando, mais uma vez acode-me circunstância só poderia gerar a situação
à memória aquela dramática advertência de dramática em que nos encontramos nos dias
Benito Juarez, a grande figura da revolução de hoje.
mexicana, que certo dia encontrei, por mero Daí decorrem forçosamente as frustra-
acaso, mas sintomaticamente, no n. 89, de ções e as desilusões dos educadores que,
maio/jun. de 1948, à página 28, da Revista em sua boa-fé, insistem em imaginar que a
do Clube Militar do Rio de Janeiro, e que educação e o ensino escolares são os fatores
dizia o seguinte: fundamentais para modificar essa situação...
Ao contrário, porém, somente quando
Ainda que se multipliquem as escolas e alcançarmos um regime verdadeiramente
os professores sejam bem pagos, sempre democrático é que se criarão as condições
haverá escassez de alunos enquanto exis- para que possa florescer uma educação de-
tir a causa que impede a assistência à mocrática, na qual prevaleça o preceito fun-
escola... Essa causa... e a miséria geral... damental da democracia que é a igualdade
O homem que não pode dar alimento à
de oportunidades para todos.
família, vê a educação dos filhos como
obstáculo à luta diária pela subsistência.
Assim, o problema fundamental do Bra-
Elimine-se a pobreza... e a educação sil é a democratização de sua sociedade para
seguirá em forma natural... que possa haver a participação eqüitativa do
povo brasileiro nos resultados do trabalho
Tudo isso que vem acontecendo em de todos. E somente assim será possível
nosso País, apesar de suas potencialidades realizar os ideais dos educadores que, certo
em riquezas naturais e das qualidades ex- dia, lançaram Ao Povo e ao Governo o Mani-
cepcionais de seu povo é, sem dúvida, festo dos Pioneiros da Educação Nova, para
o resultado do desenvolvimento econômico a Reconstrução Educacional no Brasil.

178 R. bras. Est. pedag., Brasília, v. 86, n. 212, p. 163-178, jan./abr. 2005.