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Nota: A medicina é uma ciência em constante evolução.

À medida que novas pesquisas e a


experiência clínica ampliam o nosso conhecimento, são necessárias modificações no tratamen-
to e na farmacoterapia. Os editores desta obra consultaram as fontes consideradas confiáveis,
num esforço para oferecer informações completas e, geralmente, de acordo com os padrões
aceitos à época da publicação. Entretanto, tendo em vista a possibilidade de falha humana ou
de alterações nas ciências médicas, os leitores devem confirmar estas informações com outras
fontes. Por exemplo, e em particular, os leitores são aconselhados a conferir a bula de qualquer
medicamento que pretendam administrar, para se certificar de que a informação contida nes-
te livro está correta e de que não houve alteração na dose recomendada nem nas contraindica-
ções para o seu uso. Esta recomendação é particularmente importante em relação a medica-
mentos novos ou raramente usados.

P912 A prática farmacêutica na farmácia comunitária [recurso


eletrônico) / Organizadores, Cassyano J. Correr, Michel
F. Otuk.i. - Dados eletrônicos. - Porto Alegre : Artmed,
2013.

Editado também como livro impresso em 2013.


ISBN 978-85-65852-83-8

1. Farmacologia. 2. Prática farmacêutica. 3. Farmácia


comunitária. 1. Correr, Cassyano J. Il. Otuk.i, Michel F.

CDU615

Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus - CRB 10/2052


Cassyano J. Correr 1 Michel F. Otuki
organizadores

farmacêutica
na farmácia
• I •
comun1tar1a

Versão impressa
desta obra: 2013

2013
© Artmed Editora Ltda., 2013

Gerente editorial
Letícia Bispo de Lima
Colaboraram nesta edição:
Editora
Dieimi Deitas
Preparação do original
Paula Rodriguez Simões
Leitura final
Camila Heck
Ilustrador
Gilnei Cunha
Capa
Maurício Pamplona
Projeto gráfico e editoração
Armazém Digital®Editoração Eletrônica - Roberto Vieira

Reservados todos os direitos de publicação à


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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Autores

Cassyano J. Correr
Farn1acêutico clinico. Professor do Departamento de Farmácia da UFPR e do Ambulatório de Aten-
ção Farmacêutica do Hospital das Clínicas de Curitiba da UFPR. Mestre em Ciências Farn1acêuticas
e Doutor e1n Ciências da Saúde (Nledicina Interna) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Pós-doutor em Sócio-farmácia pela Universidade de Lisboa.

Michel F. Otuki
Farmacêutico. Professor adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Doutor em
Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-doutor em Farmacologia
pela UFPR.

Alyne Simon de Carvalho Ribeiro Gracce Maria Scott Bareta


Farmacêutica-bioquímica. Especialista en1 Aten- Farmacêutica. Professora assistente da disciplina
ção Farmacêutica pela UFPR. de Deontolgia Farmacêutica e Legislação Aplica-
da à Farmácia do Curso de Farmácia na UFPR.
Ana Carolina Melchiors Mestre em Sociologia pela UFPR.
Farn1acêutica. Professora assistente de Assistência
Farmacêutica e Farmácia Hospitalar da Universi- Inajara Rotta
dade Federal do Espírito San to (UFES). Mestre Farmacêutica. Mestre em Ciências Farmacêuti-
e1n Ciências Farmacêuticas pela Universidade Fe- cas pela UFPR. Doutoranda do Programa de Ci-
deral do Paraná (UFPR). Mestre em Atenção Far- ências Farmacêuticas da UFPR.
macêutica pela Universidad de Granada.
Mariana M. Garcia
Andréia Cristina Conegero Sanches Farmacêutica. Mestranda cm Ciências Farma-
Farmacêutica-bioquímica. Professora adjunta de cêuticas da UFPR.
Farmacologia da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná (UN IOES'íE). Especialista em Farma- Patrícia Rodrigues Gonçalves
cologia pela Unjversidade Estadual de N!aringá Far1nacêutica. Mestranda em Ciências Farmacêu-
(UEM). N!estre em Ciências Farmacêuticas pela ticas da UFPR.
Universidade Estadual Paulista (UNESP). Douto-
ra em Ciências Farmacêuticas pelo Instituto Fe-
deral do Paraná (IFPR).
Autores

Cassyano J. Correr
Farn1acêutico clinico. Professor do Departamento de Farmácia da UFPR e do Ambulatório de Aten-
ção Farmacêutica do Hospital das Clínicas de Curitiba da UFPR. Mestre em Ciências Farn1acêuticas
e Doutor e1n Ciências da Saúde (Nledicina Interna) pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Pós-doutor em Sócio-farmácia pela Universidade de Lisboa.

Michel F. Otuki
Farmacêutico. Professor adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Doutor em
Farmacologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-doutor em Farmacologia
pela UFPR.

Alyne Simon de Carvalho Ribeiro Gracce Maria Scott Bareta


Farmacêutica-bioquímica. Especialista en1 Aten- Farmacêutica. Professora assistente da disciplina
ção Farmacêutica pela UFPR. de Deontolgia Farmacêutica e Legislação Aplica-
da à Farmácia do Curso de Farmácia na UFPR.
Ana Carolina Melchiors Mestre em Sociologia pela UFPR.
Farn1acêutica. Professora assistente de Assistência
Farmacêutica e Farmácia Hospitalar da Universi- Inajara Rotta
dade Federal do Espírito San to (UFES). Mestre Farmacêutica. Mestre em Ciências Farmacêuti-
e1n Ciências Farmacêuticas pela Universidade Fe- cas pela UFPR. Doutoranda do Programa de Ci-
deral do Paraná (UFPR). Mestre em Atenção Far- ências Farmacêuticas da UFPR.
macêutica pela Universidad de Granada.
Mariana M. Garcia
Andréia Cristina Conegero Sanches Farmacêutica. Mestranda cm Ciências Farma-
Farmacêutica-bioquímica. Professora adjunta de cêuticas da UFPR.
Farmacologia da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná (UN IOES'íE). Especialista em Farma- Patrícia Rodrigues Gonçalves
cologia pela Unjversidade Estadual de N!aringá Far1nacêutica. Mestranda em Ciências Farmacêu-
(UEM). N!estre em Ciências Farmacêuticas pela ticas da UFPR.
Universidade Estadual Paulista (UNESP). Douto-
ra em Ciências Farmacêuticas pelo Instituto Fe-
deral do Paraná (IFPR).

VI Autores

Paula Rossignoli Roberto Pontarolo


Farmacêutica. Professora de Atenção Farmacêu- Farmacêutico. Professor associado do Curso de
tica da Universidade Positivo - Curitiba/Paraná. Farmácia da UFPR. Professor orientador do Pro-
Membro do Grupo de Pesquisa em Qualidade em grama de Pós-graduação em Ciências Farmacêu-
Produtos e Serviços Farmacêuticos da UFPR. Es- ticas da UFPR. Doutor em Ciências Bioquímicas.
pecialista em Atenção Farmacêutica pela UFPR.
Mestre em Ciências Farmacêuticas pela UFPR. Thaís Teles de Souza
Farmacêutica. Mestranda em Ciências Farmacêu-
Rangel Ray Godoy ticas da UFPR.
Farmacêutico. Mestrando em Ciências Farma-
cêuticas da UFPR.
•••
Vlll Apresentação

sões durante esse desempenho e modificar efeitos dessas substâncias no paciente e na


o procedimento aprendido, caso julgue ne- população. Mais uma vez, essa área da prá-
cessário. tica possui fundamentos teóricos que de-
Em alguns países, notou-se, há anos, vem ser conhecidos.
que o ensino da farmácia prática passou a Vários são os locais onde a farmácia
ser tão importante quanto o das ciências prática se desenvolve. Não é adequado que
básicas. É possível observar que, em certos pensemos em um modelo hierárquico de
países, esse ensino tornou-se, inclusive, importância entre tais locais. É o paciente e
mais importante. É notável como alguns seu estado clínico que marcam o local onde
conteúdos programáticos das universidades receberá os serviços do profissional far-
dos Estados Unidos, sobretudo após a con- macêutico. É apenas por questões de acesso,
versão para o modelo de PharmD, focaram proximidade ou frequência de utilização
as disciplinas práticas e clínicas, que che- que a prática da farmácia comunitária
gam hoje a constituir a maior parte da car- possui especial importância para os pa-
ga horária de ensino do curso de farmácia. cientes.
Também é possível aprender com o exem- Diversos países criam diferentes legis-
plo do Reino Unido e da Austrália, onde os lações para o exercício dessa prática, mas
departamentos de farmácia prática e sócio- suas legislações nunca deveriam ser restriti-
-farmácia chegam a ser os maiores de mui- vas quanto ao dever ético de cuidar dos pa-
tas faculdades. Esses países provavelmente cientes. Ainda, quando pensamos na farmá-
perceberam que a contribuição diferencial cia comunitária, por vezes lembramos ape-
que pode dar o ensino universitário ao nas dos estabelecimentos privados que
mundo farmacêutico não está nas ciências existem na maioria dos países, e isso é um
básicas, que com frequência são comuns a erro. A farmácia comunitária consiste no
outros cursos, como química e biologia. O estabelecimento público ou privado que
verdadeiro elemento diferencial da educa- fornece medicamentos e serviços farmacêu-
ção superior farmacêutica deve ser o ensino ticos à população. Ademais, de modo seme-
da prática farmacêutica, como já acontece lhante à medicina de família e comunidade,
nas faculdades de medicina com o ensino deve-se considerar como farmacêutico co-
da prática médica. munitário todo aquele que atua ao nível da
Definir com clareza o conceito de far- atenção primária à saúde.
mácia prática como área de conhecimento O livro A prática farmacêutica na far-
não é tarefa fácil. Muitas pessoas ainda as- mácia comunitária percorre os assuntos da
sociam esse termo exclusivamente com a farmácia prática no âmbito comunitário,
prática da manipulação ou dispensação de analisando os aspectos que um estudante de
medicamentos. Essa é uma visão muito li- farmácia deve conhecer para poder tomar
mitante e relacionada com o papel mais dis- decisões fundamentadas no seu futuro de-
tribuidor/preparador do farmacêutico, pró- sempenho profissional. Da mesma forma, é
prio de meio século atrás. Na área da práti- recomendável aos farmacêuticos já forma-
ca farmacêutica, deve-se incluir também o dos que se aproximem do conteúdo desse
papel clínico do farmacêutico, que nasce na manual, no qual poderão revisar conceitos e
década de 1960 e ganha força nos anos reforçar a fundamentação em que baseiam
1990. O farmacêutico não é apenas um pre- sua prática.
parador/distribuidor de medicamentos; ele Os autores desta obra são uma mostra
assume o papel clínico de responsável pelos claramente representativa de um grupo de

Apresentação lX

profissionais/docentes/pesquisadores com nam-me suspeito de elogios exagerados,


ampla experiência na área da farmácia co- mas devo dizer que essa amizade surgiu do
munitária e com muito a dizer e ensinar. O trabalho conjunto em diversos projetos de
relacionamento profissional e a amizade pesquisa e formação pré e pós-graduada,
que preservo há anos com vários deles tor- dos quais me sinto muito orgulhoso.
Fernando Femández-Llimós,
PhD, PharmD, MBA
Professor auxiliar
Departamento de Sócio-Farmácia
Faculdade de Farmácia
Universidade de Lisboa, Portugal
Prefácio

A prática farmacêutica comunitária repre- Na farmácia comunitária brasileira, a


senta, hoje, a principal área de trabalho do atividade farmacêutica tem base em três pi-
farmacêutico no Brasil. Os postos de traba- lares: as atividades clínicas e assistenciais, as
lho de todas as outras áreas de atuação pro- atividades gerenciais e admjnistrativas e a
fissional, ainda que somados, são a menor manipulação magistral. Considerando o
parte en1 relação aos postos ocupados por contexto social exposto, enfocamos, nesta
farmacêuticos no campo das farmácias obra, o primeiro desses pilares, e aborda-
comunitárias. Além disso, ao contrário de rnos as ações clínicas dirigidas ao paciente,
áreas tradicionais, como as análises clinicas à família e à comunidade.
A o

- em que a concorrenc1a com outras pro- Este livro encontra-se organizado em


fissões e o crescimento da automatização três partes e 18 capítulos. A Parte 1, com
vem reduzindo o espaço profissional -, a nove capítulos, é dedicada ao modelo tradi-
atenção primária à saúde e os cuidados cional da prática farmacêutica comunitária,
an1bLtlatoriais deverão exigir, nos próxjmos centrado na dispensação de medicamentos,
anos, cada vez mais e melhores profissio- no cenário da atual farmácia con1unitária
.
na1s. brasileira. Descreve as habilidades clínicas
Esse cenário exige um olhar atento pa- necessárias para avaliação da prescrição
ra o modelo da prática em todo este setor e medicamentosa, orientação ao paciente so-
para o direcionamento da formação univer- bre medicamentos, suporte à automedica-
sitária. É preciso formar melhor os farma- ção e adn1inistração de medicamentos na
cêuticos para os serviços de atenção à saú- farmácia . Essas habilidades são considera-
de. Documentos e declarações de entidades das obrigatórias a qualquer farmacêutico
governamentais, científicas e profissionais que se julgue apto a assumir a responsabili -
no Brasil e em todo o mundo enfatizam tal dade técn ica por uma farmácia cornunitária
necessidade há pelo menos duas décadas. A ou que esteja interessado em atuar 110 cam-
missão contemporânea da prática farma- po da atenção farmacêutica.
cêutica, definida pela Federação Internacio- A Parte 2, co1n seis capítulos, é dedica -
11al Farmacêutica (FIP), consiste em "con- da ao novo modelo de prática, chamado de
tribuir para a melhoria da saúde e ajudar os atenção farmacêutica. Nessa seção, é descri-
pacientes cotn problen1as de saúde a faze- ta u111a abordagen1 an1pliada dos cuidados
rem o melhor uso de seus medicamentos''. farmacêuticos, centrada no inétodo clí11ico,
••
XII Prefóclo

na consulta farmacêutico-paciente e na uma descrição crítica dos medicamentos


prestação de serviços clínicos. Uma abor- contraindicados na gravidez ou lactação. Es-
dagem não centrada em serviços técnicos ses conhecimentos são úteis ao farmacêutico
de caráter eventual, e sim na provisão de no desempenho da entrevista clínica e do
cuidados conforme as necessidades de ca- aconselhamento do paciente, bem como na
da usuário de medicamentos. Além disso, seleção e dispensação de medicamentos.
avançamos para a compreensão de um mo- Gostaríamos de agradecer profunda-
delo integrado de assistência farmacêutica menteaos nossos colegas autores colaborado-
para o Brasil e para os cuidados que envol- res, cujos conhecimentos e talento nos per-
vem a gestão clínica dos medicamentos. Es- mitiram dar à obra a qualidade que não
ta parte do livro engloba, portanto, a dis- conseguiríamos alcançar sozinhos. Dedica-
cussão sobre os aspectos conceituais da mos este livro a todos os educadores e estu-
atenção farmacêutica e da operacionaliza- dantes de farmácia do Brasil e desejamos
ção do farmacêutico para a prática clínica que ele seja útil na formação das competên-
no âmbito da farmácia comunitária. cias dos novos profissionais, contribuindo,
A Parte 3, com três capítulos, apresenta portanto, para que as escolas façam - agora
conteúdos complementares transversais que mais do que nunca - a necessária travessia
dão suporte às atividades detalhadas nas pri- da "química para a clínicà' e do "produto
meiras seções do livro: os princípios da co- farmacêutico para a farmacoterapia". O sis-
municação interpessoal farmacêutico-pa- tema de saúde e toda a população brasileira,
ciente e farmacêutico-médico, as técnicas de corno principais beneficiados, certamente
avaliação de sinais vitais e glicemia capilar e agradecerão.
Cassyano J. Correr
Michel F. Otuki
Organizadores
Sumário

Parte 1
O MODELO TRADICIONAL DE PRÁTICA:
DISPENSAÇÃO DE MEDICAMENTOS

' . no Brasil .................................................................................. .3


' 1. a comun1·1'ar1a
1 A iarmac·
Ca.ssyano f. Correr, Roberto Pontarolo, Alyne Sin1on de Carvalho Ribeiro

2 Princípios da dispensação de medicamentos na farmácia comunitária ...................... 27


Cassyano f. Correr

3 Aspectos legais sobre o ato de dispe11sar inedicamentos .............................................. 47


Gracce Maria Scott Bareta

4 Interpretação e avaliação da prescrição medica1nentosa: aspectos legais .................... 77


Cassyano f. Correr, Ana Carolina Melchiors

5 Interpretação e avaliação da prescrição medica111entosa: aspectos clínicos ................ 97


Ca.ssyano f. Correr, Ana Carolina Melchiors, Michel F. Otuki

6 Dispensação de medicamentos p rescritos ................................................................... 128


Cassyano f. Correr, Roberto Pontarolo

7 Dispensação de medica1nentos isentos de prescrição ................................................ 150


Cassyano f. Correr, lnajara Rotta, Michel F. Otuki

8 Dispensação de fitoterápicos e plantas medicinais ..................................................... 178


Michel F. Otuki

9 Administração de medicamentos na farmácia comunitária ...................................... 192


Ana Carolina Melchiors, Cassyano J. Correr

XlV Sumário

Parte2
ATENÇÃO FARMACÊUTICA E O NOVO MODELO DE PRÁTICA

1 O Atenção farmacêutica e a prestação de serviços farmacêuticos clínicos.................... 215


Cassyano f. Correr, Michel F. Otuki

11 O método clínico do cuidado farmacêutico .................. .............................................247


Cassyano f. Correr

12 Coleta e organização de dados do paciente.................................................................2 72


Cassyano f. Correr

13 Os processos da farmacoterapia .............................................. ......... ............ ...............295


Michel F. Otuki, Cassyano ]. Correr, Thais Teles de Souza

14 Avaliação global da farmacoterapia ............................................................................. 326


Cassyano f. Correr, Michel F. Otuki

15 Plano de cuidado e seguimento individual do paciente ............................................. 352


Cassyano J. Correr

Parte3
CONTEÚDOS COMPLEMENTARES

16 Princípios da comunicação interpessoal para a prática clínica.................................. 377


Paula Rossignol~ Rangel Ray Godoy, Cassyano J. Correr

17 . . v1'tais
S1na1s . c.apilar..................................................................................... .397
. e gl'1cem1a
Andréia Cristina Conegero Sanches, Cassyano f. Correr

18 Medicamentos de alto risco na gestação e lactação ....................................................421


Mariana M. Garcia. Patrícia Rodrigues Gonçalves, Cassyano ]. Correr
-
Indice .....................................................................................................................................435
Parte 1
O modelo tradicional de
prática: dispensaçã o
de medicamen tos
A farmácia comunitária no Brasil
CASSYANO J. CORRER
ROBERTO PONTAROLO
ALYNE SIMON DE CARVALHO RIBEIRO

mentos sob condições ótimas de conserva-


A farmácia é um estabeleci- ção e em acordo co1n a legislação vigente.
mento de prestação de serviços
farmacêuticos de interesse públi- Ainda que seja a principal, entretanto, for-
co e/ou privado, articulado ao Sistema Único necer medicamentos não constitui hoje a
de Saúde (SUS), destinado a prestar assistência única responsabilidade da farmácia. Há um
farmacêutica e orientação sanitária individual forte movimento no País buscando ampliar
ou coletiva, onde são processadas a manipula-
ção e a dispensação de produtos e correlatos a participação da farmácia comunitária no
com finalidade profllática, curativa, paliativa, sistema de saúde brasileiro. Além da dis-
estética ou para fins de diagnóstico.1 pensação de medicamentos e produtos para
a saúde, busca-se atualmente o desenvolvi-
mento de serviços farmacêuticos clú1icos,
O termo "farmácia comunitária" refe-
providos à população de forma har1nônica
re-se aos estabelecimentos farmacêuticos
e articulada ao sistema de saúde. A farmácia
11ão hospitalares e não ambulatoriais que
comunitária no Brasil caracteriza-se como
atendem à comunidade. As farmácias co-
estabelecin1ento que agrega dimensões co-
munitárias no Brasil são, em sua maioria, merciais, sanitárias, técnicas e sociais (Fig.
privadas, de propriedade particular, mas 1.1 ).
existem também farmácias públicas, sejam
elas vinculadas à rede nacional de farmác ias
populares ou às esferas públicas municipais 11 Fornecer medicamentos não constitui ho-
je a única responsabilidade da farmácia.
~
ou estaduais.2 Há, no Brasil, também, uma
Além da dispensação de medicamentos e
distinção legal entre far1nácia e drogaria,
produtos para a saúde, busca-se atualmente
sendo estas últimas proibidas de atua r na o desenvolvimento de serviços farmacêuti-
manipulação ou no fornecimento fraciona- cos clínicos, providos à população de forma
do de medicamentos. 3 O termo "farmácia harmônica e articulada ao sistema de saúde.
con1unitária" (ou siinplesmente "farmá-
cia") será utilizado em todo este livro em
seu sentido mais amplo, incluindo droga- A população apresenta necessidades
rias, farmácias de dispensação e n1anipula- ligadas ao uso de medicamentos que devem
ção, públicas ou privadas. ser atendidas pelo sistema de saúde como
A principal necessidade da sociedade um todo (Fig. 1.2). Para que o medicamen-
com relação às farn1ácias é obter 1nedica- to possa ser utilizado como recurso tera-
Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

Dimensão Dimensão
comercial técnica

Farmácia
comunitária

Dimensão Dimensão
sanitária social

FIGURA 1.1
Dimensões da farmácia comunitária no Brasil

Adequadamente
prescritos/
Medicamentos
indicados
acessíveis

Medicamentos
de qualidade Adequadamente
dispensados

Antes do uso
••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
Durante o uso

Informações
disponíveis para
Monitoração utilização
da segurança
Monitoração
da efetividade

FIGURA 1.2
Necessidades da população relacionadas aos medicamentos, no ambito individual e coletivo.
A prótica farmacêutica na farmóda comunltórla S

pêutico de forma segura e racional, várias farmácia, sendo uma das principais exigên-
ações ligadas à gestão do produto, do pro- cias a contratação de um farmacêutico res-
cesso de uso e dos resultados devem aconte- ponsável para atuar durante todo o período
cer no tempo certo e com a qualidade certa. de funcionamento. A presença e a atividade
A primeira e mais básica dessas necessida- dos farmacêuticos devem ser fiscalizadas
des consiste em produzir e disponibilizar pelos Conselhos Regionais de Farmácia. As
medicamentos que atendam a padrões de normas sanitárias e as boas práticas farma-
qualidade predefinidos. Isso vale tanto para cêuticas são fiscalizadas pela Vigilância Sa-
aqueles industrializados como para os me- nitária do Município. Não existem regras
dicamentos manipulados nas farmácias co- claras no Brasil com relação à avaliação da
munitárias. Esses produtos também devem localização, à densidade populacional ou ao
ser adequadamente prescritos ou indicados, número de estabelecimentos já existentes
para fins terapêuticos definidos, estar aces- para abertura de novas farmácias. 4
síveis à população (a preços justos ou aces- O número de farmácias cresce no Bra-
so gratuito) e devem ser adequadamente sil anualmente, porém, em ritmo mais lento
dispensados, respeitando-se as exigências nos últimos anos. De 2004 a 2009, o núme-
legais e as boas práticas de farmácia. ro de estabelecimentos passou de 62.454
A dispensação deve garantir o direito para 79.010, em um crescimento de quase
à informação sobre o medicamento. Essas 20o/o em cinco anos. Em todo o País, 25°!-0
informações devem estar disponíveis tam- das farmácias são de propriedade de farma-
bém na bula de cada medicamento, com cêuticos. Segundo dados de 2004, a Região
legibilidade, e por o utros meios, como ma- Sul apresenta a maior proporção de farma-
teriais educativos impressos ou mídias ele- cêuticos proprietários (34,7%), com o Esta-
trônicas. Por fim, a efetividade e a segurança do do Paraná em primeiro lugar no País
da farmacoterapia devem ser avaliadas du- (41,6%). Em contraste, a Região Norte apre-
rante o processo de uso, a fim de detectar senta a menor proporção regional (7,4%), e
desvios, falhas ou erros que possam ser so- o Estado do Piauí (Região Nordeste), apre-
lucionados, garantindo a obtenção de des- senta a menor do País (3,1%). O Conselho
fechos positivos. A farmácia comunitária Federal de Farmácia (CFF) diferencia os
encontra-se em uma posição estratégica e é estabelecimentos em farmácias e drogarias
capaz de atender a pra ticamente todas essas (79.010), centradas na dispensação de me-
necessidades. A manipulação de medica- dicamentos industrializados; farmácias de
mentos, a dispensação de medicamentos manipulação magistral (7.164); e farmácias
prescritos e isentos de prescrição, a infor- homeopáticas (1.082). 5 Considerando a po-
mação ao paciente e os serviços farmacêuti- pulação brasileira, há, no País, aproxima-
cos clínicos são ações próprias desses esta- damente, uma farmácia para cada 2.400
belecimentos que os tornam essen ciais para habitantes. Há mais do que o dobro de farmá-
o suprimento dessas necessidades.
As regras sobre propriedade, empresa
e serviços farmacêuticos das farmácias no O número de farmácias cresce no Brasil
País obedecem a regulamentações federais, anualmente, porém, em ritmo mais lento
enquanto fiscalização sanitária e regras de nos últimos anos. De 2004 a 2009, o nú-
tributação de produtos podem variar de mero de estabelecimentos passou de
62.454 para 79.010, em um crescimento
acordo com o Estado e o município. Qual- de quase 20% em cinco anos.
quer cidadão pode ser proprietário de uma
6 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

cias no País que o recomendado pela Or- construído áreas privadas ou semiprivadas
ganização Mundial da Saúde (OMS), com para atendimento de pacientes (Fig. 1.3)6.
maior concentração de estabelecimentos O número atual de farmacêuticos no
nas regiões mais desenvolvidas. Brasil é de aproximadamente 133 mil, o que
O tempo de funcionamento de uma representa um farmacêutico para cada 1.400
farmácia brasileira típica gira em tomo de 68 habitantes.5 Os três Estados com maior nú-
horas por semana. Nas capitais e grandes ci- mero de profissionais são São Paulo, Minas
dades, há farmácias com funcionamento 24 Gerais e Paraná. Nas Regiões Sul, Sudeste e
horas, enquanto em cidades do interior é co- em vários Estados do Nordeste, há número
mum as farmácias realizarem plantões alter- de profissionais suficiente para atender a
nados entre si, em feriados e finais de sema- todas as farmácias existentes. Em contraste,
na. Além da venda de medicamentos, os ser- alguns Estados do Centro-Oeste e do Norte
viços mais comuns prestados em farmácias do País sofrem falta de profissionais far-
são a aplicação de injetáveis e pequenos macêuticos, o que impede a assistência far-
curativos, a nebulização e a medida da pres- macêutica em todos os estabelecimentos.
são arterial. A planta baixa típica de uma far- Em dezembro de 2009, havia, no Brasil,
mácia inclui um balcão de atendimento, 17o/o de farmácias irregulares, sem a presen-
uma sala de injetáveis, armário ou sala de ça integral do farmacêutico. Os Estados
psicotrópicos, estoque de medicamentos, com maior ausência de farmacêuticos nas
área de perfumaria e autoatendimento, copa, farmácias são Piauí (50%), Maranhão
banheiros para clientes e escritório adminis- (36%), Ceará (31 %) e Pará (25,6%). No Es-
trativo. Mais recentemente, farmácias têm tado de São Paulo, que tem o maior núme-

1 1

~ \_ Banheiro
1
Área de recepção
de materiais
(.)
ll -
i '
Serv. farm.
injetáveis
Área de dispensação Área administrativa

-
Armazenamento 1
\
1
Copa

Contro- Materiais
lados _ Vestiário\_
de limpeza
\ li li

FIGURA 1.3
Planta baixa típica de uma farmácia comunitária (escala 1:50).
Fonte: Reproduzida de Santos e Dupin.6
A prótica farmacêutica na farmócla comunltórla 7

rode estabelecimentos do País, a irregulari- dem de 2 bilhões por ano, e todo o setor
dade chega a 1Oo/o. Os três Estados com emprega cerca de 40 mil pessoas.9 A Região
maior cobertura farmacêutica nas farmá- Sudeste é responsável pelo maior fatura-
cias são Paraná (1,6% de ausência), Minas mento das farmácias brasileiras, com desta-
Gerais (3,6º/o) e Rio Grande do Sul (3,7º/o). 7 que para o interior de São Paulo, que res-
Estudos desenvolvidos na Região Sul ponde por 19% de todo o comércio farma-
encontraram, em média, 1,4 farmacêutico e cêutico nacional. A margem de lucro bruta
3,5 auxiliares por farmácia. 8 Há relatos de de uma farmácia gira em tomo de 27%, en-
farmácias e drogarias em que essa propor- tretanto, políticas de descontos ao consu-
ção chega a 1:14. Com relação à equipe de midor e condições de compra junto a distri-
auxiliares, a profissão de técnico em farmá- buidoras e indústria farmacêutica fazem es-
cia não se encontra regulamentada no sa margem ser mui to variável. A distribuição
Brasil, e não existe legislação específica refe- desse faturamento em relação à população e
rente à necessidade de formação para atuar ao número de farmácias e de farmacêuticos
como atendente. Em geral, estes têm baixa encontra-se na Tabela 1.1.
escolaridade e pouco, ou nenhum, treina-
mento específico para a função.
O mercado farmacêutico no Brasil é QUALIDADE DOS SERVIÇOS
um dos cinco maiores do mundo. Segundo DA FARMÁCIA NO BRASIL: O
dados de 2007, as farmácias privadas movi- QUE AS PESQUISAS MOSTRAM?
mentam cerca de US$ 1O bilhões por ano.
Apenas 4,4% das farmácias pertencem a re- É pequeno o número de pesquisas no Brasil
des, mas estas respondem por 22% do fatu- sobre a prática farmacêutica em farmácias
ramento total do segmento. As vendas de comunitárias. Considerando-se a impor-
produtos não medicamentosos são da or- tância desse estabelecimento como recurso
utilizado pela população para cuidados
com a saúde, conhecer suas características,
11 O mercado farmacêutico no Brasil é um dos dificuldades e como a prática farmacêutica
cinco maiores do mundo. Segundo dados
~ de 2007, as farmácias privadas movimen-
tam cerca de US$ 1Obilhões por ano.
se desenvolve é necessário para seu aprimo-
ramento. A dispensação alcança seu objeti-
vo quando o medicamento correto e em

TABELA 1.1
Porcentagem da população, distribuição de farmácias
comunitárias e faturamento de acordo com a região brasileira

Região % População' % Farmácias % Farmacêuticos % Faturamento...

Norte 7,6 4,8 3,6 <,


Nordeste 28, 1 18,5 14,9 11
Sudeste 42,6 50,7 49,6 62
Sul 14,8 18,5 23,5 20
Centro-Oeste•• 6,8 7,5 8,3 7

"Correspondente à população do Brasil em 201O = 192.304.735 habitantes


'"Incluindo o Distrito Federal
'"Proporção aproximada do faturamento total do País
Fonte: De Castro, Correr.•
8 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

boas condições de conservação é entregue • venda de medicamentos controlados sem


ao paciente e este é adequadamente orien- receita médica, utilizando-se de "créditos"
tado sobre como utilizá-lo. Essa orientação de receitas especiais e notificações de re-
deve permitir que o paciente conheça os ceita atendidas parcialmente;
objetivos do tratamento, como realizá-lo e • oferta de produtos alheios como pães, lei-
os cuidados envolvendo o uso do medica- te, carvão, carne, brinquedos, livros, entre
mento. A falha desse serviço básico da far- muitos outros, descaracterizando a far-
mácia se reflete em pacientes pouco prepa- mácia como estabelecimento de saúde.
rados e mais expostos aos riscos dos medi-
camentos. A ausência de informações sobre o tra-
Nos últimos anos, houve expressivo tamento constitui uma das principais razões
avanço na qualidade dos serviços farma- pelas quais 30 a 50o/o d.os pacientes não usam
cêuticos prestados em farmácias e droga- seus medicamentos conforme a prescrição.
rias. Apesar disso, de modo geral, estes se Em pacientes ambulatoriais em Porto Alegre
encontram ainda abaixo da necessidade, e (RS), o nível de informação foi verificado, e
há graves problemas estruturais e de orga- as respostas foram comparadas com a receita
nização do mercado que contribuem para a médica e com o prontuário do paciente. Do
baixa qualidade dos serviços prestados. En- total de 264 pacientes entrevistados, apenas
tre as piores características desses estabele- 34% obtiveram bom nível de conhecimento.
cimentos no País destacam-se: Em 31 o/o dos casos, o nome do medicamento
foi declarado incorretamente, e, em 19o/o, a
• ausência ou incipiente presença do far- indicação de uso declarada pelo paciente dis-
macêutico em muitos estabelecimentos cordou da indicação médica. Houve também
em vários Estados; discordância da prescrição médica no que se
• dispensação feita por auxiliares sempre- refere à dose (19%) e à frequência de admi-
paro técnico; º
nistração (31 %).1 Em unidades de saúde de
• venda sem receita médica de medica- Brasília (DF), apenas 18,7% dos pacientes
mentos tarjados; compreendiam integralmente a prescrição,
• indicação de medicamentos tarjados a sendo que 56,3% conseguiam ler a receita.
pessoas que relatam sintomas no balcão; Dos medicamentos prescritos, 61,2% foram
• substituição de medicamentos prescri- efetivamente dispensados, sendo o tempo
tos por similares, sem anuência do pa- médio do atendimento de dispensação de
ciente e do prescritor, com base em cri- 53,2 segundos, e o da consulta médica, de 9,4
térios de lucratividade do produto; minutos. Do total de medicamentos prescri-
• desorientação dos usuários sobre medi- tos, 85,39-i> pertenciam à Relação nacional de
camentos genéricos, muitas vezes indu- medicamentos essenciais (Rename), e, da lis-
zindo a venda de similares como se fos- ta de 40 medicamentos-chave, 83,2o/o esta-
sem genéricos; vam disponíveis. 11
• aplicação de injetáveis sem receita médi- Mesmo o não cumprimento de aspec-
ca (inclusive de associações entre vários tos básicos, como armazenamento correto
medicamentos); de medicamentos, pode levar a perda da
• a chamada "empurroterapia': que con- qualidade e danos para o paciente. Medica-
siste em induzir o consumo de medica- mentos líquidos contendo dipirona comer-
mentos, principalmente polivitamíni- cializados no Brasil e armazenados em resi-
cos, xaropes e "fortificantes"; dências em Araraquara (SP) foram avalia-
Aprótlca farmacêutica na farmócla comunltória 9

medicação no Brasil são semelhantes aos


li Mesmo aspectos básicos, como armaze-
namento correto de medicamentos, po- observados em países desenvolvidos. Os au-

~ dem levar a perda da qualidade e danos


para o paciente.
tores concluem que a automedicação pode-
ria atuar como um complemento da aten-
ção formal à saúde. Há consenso entre vários
autores de que uma melhor regulamentação
dos no que se refere às análises quantitativa da venda de medicamentos tarjados e me-
e microbiológica. Somen te em 57% das 128 lhor provisão de informação aos usuários
amostras analisadas a quantidade de fárma- (p. ex., nas bulas dos medicamentos e nas
co estava de acordo com a quantidade de- farmácias) são necessárias para uma auto-
clarada pelo fabricante. Além disso, 26,2% medicação responsável no Brasil.
das 128 amostras analisadas apresentaram Não há pesquisas realizadas no Brasil
S. aureus, E. coli e Salmonella sp. 12 Esses re- que demonstrem que a orientação realizada
sultados demonstraram clara queda na durante a dispensação (ou a falta dela) pro-
qualidade dos medicamentos, assim como a duza efeitos positivos (ou negativos) sobre
presença de fungos e/ou bactérias em parte resultados de saúde dos pacientes; no en-
daqueles analisados, que ainda estavam tanto, estudos apontam para a existência de
dentro de seus prazos de validade. graves deficiências estruturais. Em Santa
O padrão da automedicação no Brasil Catarina, por exemplo, apenas 11,4% das
também apresenta particularidades. Come- farmácias dispõem de área de atendimento
çando pela qualidade dos medicamentos, privativa ou semiprivativa para atividades
estudo pioneiro realizado por Vilarino e co- ligadas ao aconselhamento de pacientes ou
laboradores 13 em 1998 mostrou que, na- atenção farmacêutica; menos de 20% dis-
quela época, 9lo/o dos medicamentos de põem de fontes terciárias de informação so-
venda livre apresentavam baixo valor in- bre medicamentos de boa qualidade; e 68%
trinseco terapêutico e 70% correspondiam dos farmacêuticos atuantes apresentam so-
a combinações em doses fixas. Somente 10 mente formação de graduação. 8 Segundo
especialidades (de 77 pesquisadas) perten- levantamento de Hennigen e colaborado-
ciam à Rename. Entre os medicamentos res, 14 em drogarias e farmácias no sul do
mais utilizados sem prescrição médica es- Brasil, o profissional tem, em média, 2,3 li-
tão os analgésicos, descongestionantes na- vros nas drogarias e 6,1 nas farmácias. A
sais, anti-inflamatórios e anti-infecciosos chance de se encontrar mais de cinco livros
de uso sistêmico. Entre aqueles utilizados em uma farmácia é 27 vezes maior do que
por automedicação, 44% requerem prescri- em uma drogaria. Os bulários são os livros
ção médica, e 40º/o das iniciativas de auto- mais frequentemente disponíveis. Há aces-
medicação basearam-se em prescrições mé- so à internet em 87,5% das farmácias e em
dicas anteriores. Todavia, estudos mais re- 59% das drogarias, sendo a chance de uma
centes de base populacional argumentam farmácia ter esse recu rso cinco vezes maior
que os números encontrados para a auto- do que uma drogaria. A página da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é
a mais acessada, e o Serviço de Atendimento
li Entre os medicamentos mais utilizados sem ao Consumidor das Indústrias Farmacêuti-

~
presaição médica estão os analgésicos, des-
congestionantes nasais, anti-inflamatórios cas, o serviço de informação mais consulta-
e anti-infecciosos de uso sistêmico. do. A falta de tempo é a principal limitação
da busca de informação, e o farmacêutico,
10 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

nos estabelecimentos pesquisados, é carente mácias escolhidas aleatoriamente em Curi-


de boas fontes de informação. tiba (PR), a maior parte dos farmacêuticos
Em estudo semelhante realizado em não se sentia apta a interpretar informações
Jundiai (SP), foram entrevistados 91 farma- sobre o uso de medicamentos em gestantes
cêuticos. A maioria era jovem (62,6o/o entre e não dispunha de fontes confiáveis de in-
20 e 29 anos), do sexo feminino (63,7%), formação a respeito. Ainda assim, a maioria
graduada em instituições privadas (90,1 % ) desses profissionais curitibanos relatou que
e não proprietária do estabelecimento farma- é comum a detecção de problemas em re-
cêutico em que trabalhava (87,9%). Quanto à ceitas médicas para gestantes e que a indica-
estrutura e aos recursos dos estabelecimen- ção de medicamentos para essa população
tos, apenas 15% das farmácias tinham um no balcão da farmácia faz parte da rotina. 17
local reservado para atendimento de usuá- Nos setores público e privado em For-
rios, e 61 % possuiam um computador para taleza (CE), segundo relato de pacientes, a
o farmacêutico utilizar em atividades não presença do farmacêutico no ato da dispen-
relacionadas ao gerenciamento. Em relação sação varia de 22,3 a 33º/o, sendo as demais
às fontes de informação sobre medicamen- realizadas por balconistas. Isso significa
tos existentes nas farmácias, as mais citadas que, de cada 10 pessoas que entram na far-
foram o Dicionário de Especialidades Far- mácia, apenas 2 ou 3 são atendidas por far-
macêuticas (DEF)(98,7º/o), revistas especia- macêuticos, sendo oferecido às demais ape-
lizadas (51,3%) e a internet 48,7%. Quanto nas o atendimento por vendedores sem ne-
à remuneração, 67,1 o/o recebiam entre 4,8 e nhuma formação técnica. Ainda na capital
6,3 salários minimos. O recebimento de co- cearense, a frequência de orientação dopa-
missões ou porcentagem de remuneração ciente é de 25,8% sobre como tomar os me-
sobre vendas foi referido por 33% dos far- dicamentos, 7,8% sobre reações adversas,
macêuticos, sendo que, destes, 25% rece- 16,5°/o sobre adesão ao tratamento e 13,7%
biam comissões apenas pela venda de medi- sobre cuidados no armazenamento. 18
camentos. As principais atividades dos far- No serviço público, as unidades básicas
macêuticos nessas farmácias eram dispen- de saúde constituem (ou devem constituir) a
sação de medicamentos, controle de esto- principal porta de entrada do sistema de
que e de receitas, aplicação de injetáveis e atenção à saúde. Ainda assim, o vinculo do
verificação da pressão arterial. A maioria serviço farmacêutico está relacionado com
deles não sabia o que era atenção farmacêu- o modelo curativo, centrado na consulta
tica e alegava falta de tempo, de interesse médica e pronto atendimento, com a far-
dos usuários e de remuneração como bar- mácia apenas atendendo a demanda por
reiras para o desenvolvimento de serviços medicamentos. A atividade de orientação
clínicos ao paciente. 15 aos usuários na farmácia das unidades tor-
Outros achados apontam que o co- na-se praticamente impossivel, e a grande
nhecimento dos farmacêuticos sobre aspec- maioria delas nem sequer dispõe de farma-
tos regulatórios do funcionamento das far- cêutico atendendo à população, sendo a
mácias, dispensação e medicamentos gené- dispensação transformada apenas na entre-
ricos é insatisfatório, indicando falhas na ga de medicamentos. 19
formação da graduação na área de atenção A abordagem inadequada das queixas
farmacêutica e medicamentos. 16 Com rela- de saúde dos pacientes e a venda de medica-
ção à dispensação de medicamentos a ges- mentos sem prescrição médica continuam
tantes, em um estudo realizado em 150 far- também sendo frequentes nas farmácias
A prótlco farmacêutica na formócia comunitória 11

brasileiras, tanto por farmacêuticos como apresentado, o que demonstrava falta de re-
por balconistas. A presença de tarja verme- lação entre o diagnóstico e a conduta reali-
lha nas embalagens secundárias dos medi- zada pelo atendente. 22
camentos com a inscrição "venda sob pres- Outros achados de igual significado
crição médica" costuma ser simplesmente têm sido encontrados por todo o País para
ignorada. Um estudo recente a esse respeito problemas de saúde como tosse, dor de den-
relata que pacientes simulando sintomas de te, infecções respiratórias e doenças sexual-
rinossinusite acompanhada ou não de febre mente transmissíveis. 23 -26 As falhas de co-
receberam indicação de antibiótico em 58o/o nhecimento e conduta dos auxiliares de far-
das farmácias, chegando esse índice a 780,fo mácia também são notórias, e experiências
quando o paciente insistia na compra do educativas sobre esses profissionais mostra-
medicamento. Em 65,4% das farmácias, o ram-se insuficientes.27 O aspecto essencial-
atendimento foi realizado por um farma- mente comercial das farmácias, incluindo o
cêutico, e, em 84,2% dos casos, este reco- pagamento de comissões por vendas, e o
mendou o uso de um antibiótico. 20 Em Tu- baixo poder de influência do farmacêutico
barão (SC), observou-se que 85% das far- sobre as condutas da equipe de auxiliares
mácias vendem antibióticos sem prescrição são apontados como causas dessas distor-
médica, principalmente para o tratamento -
çoes.
de problemas dos tratos respiratório (62,8%) Em resposta a essa realidade, diversas
e urinário (12%). 21 Essa é uma realidade que iniciativas governamentais e institucionais
tende a mudar a partir da obrigatoriedade de têm buscado ampliar a qualidade da cadeia
retenção das receitas dos antibióticos recen- do m edicamento no Brasil, entre elas os
temente implantada pela Anvisa. avanços no setor de bulas e propaganda de
medicamentos, a implantação de um siste-
ma nacional de farmacovigilância, o aumen-
A presença de tarja vermelha nas embala- to nas exigências de qualidade para medica-
gens secundárias dos medicamentos com a
inscrição "venda sob prescrição médica" mentos similares e as ações de fomento à
costuma ser simplesmente ignorada. Um pesquisa e à formação de profissionais mé-
estudo recente a esse respeito relata que dicos e farmacêuticos voltados ao uso ra-
pacientes simulando sintomas de rinossi- cional de medicamentos e medicina basea-
nusite acompanhada ou não de febre rece-
beram indicação de antibiótico em 58% da em evidências. Especificamente no que
das farmácias, chegando esse índice a 78% diz respeito à prática farmacêutica, as ini-
quando o paciente insistia na compra do ciativas têm-se concentrado em ampliar a
medicamento. competência do farmacêutico no cuidado
dos pacientes e manejo da farmacoterapia,
Em Porto Alegre (RS), nas 160 farmá- a partir de formação e pesquisa, a fim de in-
cias visitadas por atores simulando pacien- tegrá-lo de forma mais efetiva à equipe de
tes, diante do relato de dor de garganta, saúde.
63% das condutas foram consideradas in-
corretas. O número total de medicamentos
prescritos foi de 181, representados por 57 LEGISLAÇÃO E BOAS
, A

especialidades farmacêuticas. Concluiu-se PRATICAS FARMACEUTICAS


que há prescrição indevida de medicamen-
tos, independentemente do nível atingido As farmácias comunitárias, particularmen-
de informação diagnóstica e do quadro te farmácias e drogarias privadas, estão su-
12 Cassyano J. Correr & Mlch el F. Otukl

jeitas a um conjunto de normas estabeleci- mentos - nacionais ou importados - e ali-


das por leis, decretos, portarias e resoluções. mentos, além de ser responsável pela apro-
O principal órgão responsável pela regula- vação, para posterior comercialização da
mentação e fiscalização das farmácias, sob o produção no País, desses produtos. Além
ponto de vista sanitário, é a Anvisa. A Anvi- disso, em conjunto com o Ministério das
sa é uma agência reguladora criada em Relações Exteriores, controla os portos, ae-
1999, vinculada ao Ministério da Saúde do roportos e fronteiras nos assuntos relacio-
Brasil, responsável pelo controle sanitário nados à vigilância sanitária. A principal le-
de todos os produtos e serviços submetidos gislação a que as farmácias e drogarias estão
à vigilância sanitária, tais como medica- sujeitas está na Tabela 1.2.

TABELA 1.2
Principal legislação sanitária que dispõe sobre medicamentos e a farmácia comunitária no Brasil

Norma Ementa

Lei n2 5.991, de 17 de Dispõe sobre o controle sanitário do comércio de drogas, medicamentos,


dezembro de 1973 insumos farmacêuticos e correlatos, e dá outras providências.

Decreto n2 74.170, Regulamenta a Lei n2 5.991, de 17 de dezembro de 1973, que dispõe sobre con-
de 1Ode junho de 1974 trole sanitário do comérc.i o de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos
e correlatos.

Lei n2 6.360, de Dispõe sobre a vigilância sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos, as
23 de setembro de 1976 d rogas, os insumos farmacêuticos e correlatos, cosméticos, saneantes e outros
produtos, e dá outras providências.

Lei n12 6.368, de Dispõe sobre medidas de prevenção e repressão ao tráfico ilícito e uso inde-
21 de outubro de 1976 vido de substâncias entorpecentes ou que determinem dependência física ou
psíquica, e dá outras providências.

Lei nº 6.437, de 20 Configura infrações à legislação sanitária federal, estabelece as sanções res-
de agosto de 1977 pectivas, e dá outras providências.

Decreto nl2 79.094, de Regulamenta a Lei nll 6.390, de 23 de setembro de 1976, que submete ao sis-
5 de janeiro de 1997 tema de vigilância sanitária medicamentos, insumos farmacêuticos, drogas,
correlatos, cosméticos, produtos de higiene, saneantes e outros.

Decreto n2 83.239, Altera o Decreto n 2 79.094, de 5 de janeiro de 1997, que regulamenta a Lei n 2
de 6 de março de 1979 6.360, de 23 de setembro de 1976.

Lei nll 6.480, de Altera a Lei nl2 6.360, de 23 de setembro de 1976, que dispõe sobre a vigilância
1° de dezembro de 1977 sanitária a que ficam sujeitos os medicamentos, as drogas, os insumos farma-
cêuticos e correlatos, cosméticos, saneantes e outros produtos, e dá outra provi-
ciência.

Lei nl2 9.787, de 1O Altera a Lei nl2 6.360, de 23 de setembro de 1976, que dispõe sobre a vigi lância
de fevereiro de 1999 sanitária, estabelece o medicamento genérico, dispõe sobre a utilização de
nomes genéricos em produtos farmacêuticos e dá outras providências.

(continua)
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 13

TABELA 1.2 (continuação )


Principal legislação sanitária que dispõe sobre medicament os e a farmácia comunitária no Brasil

Norma Ementa

Decreto nº 3. 181, de Regulamenta a Lei nt1 9.787, de 1O de fevereiro de 1999, que dispõe sobre a
23 de setembro de 1999 vigilância sanitária, estabelece o medicamento genérico, dispõe sobre a utiliza-
ção de nomes genéricos em produtos farmacêuticos e dá outras providências.

Lei nt1 8.078 de Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências (código de
11 de setembro de 1990 defesa do consumidor).

Portaria Anvisa nt1 344, Aprova o Regulamento Técnico sobre Substâncias e Medicamentos Sujeitos a Con-
de 12 de maio de 1998 trole Especial

Portaria Anvisa n° 6, Aprova a Instituiçã o Normativa da Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de


de 29 de janeiro de 1999 1998, que institui o Regulamento Técnico sobre Substâncias e Medicamentos
Sujeitos a Cont role Especial.

Portaria Anvisa nt1 802, Institui o Sistema de Controle e Fiscalização em toda a cadela dos produtos
de 8 de outubro de 1998 farmacêuticos.

RDC nll 138, de 29 Dispõe sobre o enquadramento na categoria de venda de medicamentos


de maio de 2003 (medicamentos isentos de prescrição).

Resolução Anvisa n° 306, Dispõe sobre o Regulamento Técnico para o Gerenciamento de Resíduos de
de 7 de dezembro de 2004 Serviços de Saúde.

RDC Anvisa nt1 354, de Permite a manipulação de produtos farmacêuticos, em todas as formas farma-
18 de dezembro de 2003 cêuticas de uso interno, que contenham substâncias de baixo índice terapêu-
tico, aos estabelecimentos farmacêuticos que cumprirem as condições espe-
cificadas.

RDC Anvisa ng 67, Dispõe sobre Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magist rais e Ofici-
de 8 de outubro de 2007 nals para Uso Humano em farmácias (revoga a RDC ng 33/ 2.000) e já foi alte-
rada por outra mais recente:

• RDC n1:1 33, de 19 de abril de 2000 (revogada) .


• RDC n° 214, de 12 de dezembro de 2006 (revogada).
• RDC nt1 67, de 8 de outubro de 2007 (em vigor).
• RDC nº 87, de 21 de novembro de 2008 (altera a RDC n° 67, de 8 de
outubro de 2007) (em vigor).

RDC nll 27, de 30 Dispõe sobre o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados
de março de 2007 - SNGPC, estabelece a implantação do módulo para drogarias e farmácias e dá
outras providências.

RDC n11 44, Dispõe sobre Boas Práticas Farmacêuticas para o controle sanitário do fundo-
de 17 de agosto de 2009 namento, da dispensação e da comercialização de produtos e da prestação de
serviços farmacêuticos em fa rmácias e drogarias e dá outras providências.
Revoga a RDC nº 328, de 22 de julho de 1999, a RDC n° 149, de 11 de junho de
2003, a RDC nll 159, de 20 de junho de 2003, a RDC nt1 173, de 8 de julho de
2003 e a RDC nt1 123, de 12 de maio de 2005.

Dispõe sobre o controle de medicamentos à base de substâncias classificadas


RDC n° 20, como antimicrobianos, de uso sob prescrição, isoladas ou em associação.
de 5 de maio de 2011 Revoga a RDC nº 44 de 17 de agosto de 201 O.
14 Cassyano J. Correr & Mlcbel F. Otuld

Além das normas sanitárias a que estão


11 Os métodos de avaliação da qualidade em
sujeitos os estabelecimentos farmacêuticos, há saúde poderiam ser divididos em três eixos
normas profissionais que estabelecem como
deve ser a prática do profissional farmacêuti- ~ construídos com base na teoria de siste-
mas: estrutura, processos e resultados.
co. Essas normas são normalmente elabora-
das por instituições profissionais ou suprana-
cionais, como a OMS, a Federação Internacio- ser divididos em três eixos construídos com
nal Farmacêutica (FIP) e, no Brasil, pelo base na teoria de sistemas: estrutura, pro-
Conselho Federal de Farmácia (CFF). cessos e resultados. O eixo estrutura envol-
ve as características estáveis dos serviços de
saúde, como instalações, equipamentos, re-
11 Além das normas sanitárias a que estão su-
jeitos os estabelecimentos farmacêuticos, cursos humanos, materiais e financeiros. O
~ há normas profissionais que estabelecem
como deve ser a prática do profissionalfar-
eixo processos diz respeito às interações e
aos procedimentos envolvendo profissio-
macêutico. Essas normas são normalmen- nais de saúde e pacientes, e o eixo resulta-
te elaboradas por instituições profissio-
nais ou supranacionais, como a OMS, a Fe- dos engloba a realização do objetivo de
deração Internacional Farmacêutica (FIP) curar, conter a progressão, restaurar a capa-
e, no Brasil, pelo Conselho Federal de Far- cidade funcional, aliviar a dor, entre outros.
mácia (CFF).
Os resultados receberam, ainda, de Kozma e
colaboradores 29 uma classificação conheci-
As normas d e qualidade dos serviços da, em inglês, como ECHO Mode/, subdivi-
farmacê uticos são importantes como parâ- dindo-os em resultados econômicos, clíni-
metros de medida da qualidade. Para que se cos e humanísticos (ver Cap. 13).
possa afirmar o que é bom ou ruim, o que Em 1993, a FIP declarou a importân-
está ou não correto, o que vale ou não a pe- cia do desenvolvimen to e da utilização de
na, o que é mais custo-efetivo, o que mais padrões de qualidade para os serviços far-
satisfaz profissionais, consumidores e fi- macêuticos.30 Nas palavras expressas no do-
nanciadores, é necessário que critérios se- cumento: "O estabelecimen to de padrões é
jam estabelecidos pelos interessados e que o um componente importante na medição da
processo de avaliação se dê com base nesses qualidade dos serviços para o consumidor".
critérios. Além dos consumidores, há, tam- A FIP, ao adotar referências internacionais
bém, outros interessados nos serviços de de boas práticas em farmácia, acredita que
saúde, para quem existem outros critérios padrões baseados n essas referências devem
de avaliação: familiares, profissionais da ser utilizados pelas agremiações nacionais
saúde, administradore s, flllanciadores e ór- de farmacêuticos, governos e outras organi-
gãos de fiscalização. Nesse cenário, o desafio zações internacionais de farmacêuticos pa-
da avaliação da qualidade em saúde está em ra a adaptação de seus próprios padrões de
compreender o complexo e conflituoso jo- referência de boas práticas em farmácia. As
go de interesses e construir critérios que referências de boas práticas de farmácia ba-
atendam diferentes expectativas. seiam-se na atenção farmacêutica desenvol-
Na compreensão desse universo de in- vida pelos p rofissionais farmacêuticos. Elas
teresses, um dos modelos de qualidade em recomendam que os padrões nacionais se-
saúde mais discutido é o proposto por Do- jam orientados para a promoção da saúde,
nabedian.28 Segundo ele, os métodos de o suprimento de medicamentos e de equi-
avaliação da qualidade em saúde poderiam pamentos médicos, o autocuidado em saú-
A prótlca farmacl!utlca na farmócla comunltórla lS

de e a melhoria da prescrição e do uso de apropriadas sobre medicamentos e so-


medicamentos por meio de atividades de- bre a prática farmacêutica para garantir
sempenhadas pelos farmacêuticos. Esta po- atenção segura e efetiva ao paciente.
de ser identificada como a primeira decla- • Padrão 4: Respeitando o direito do pa-
ração internacional que fala em estabelecer ciente à confidencialidade, o farmacêu-
padrões para medir a qualidade dos servi- tico comunica-se e educa para propor-
ços farmacêuticos. cionar adequada atenção ao paciente e
promover a saúde.
• Padrão 5: O farmacêutico gerencia adis-
li As referências de boas práticas de farmá-
cia baseiam-se na atenção farmacêutica tribuição de medicamentos por meio da
~ desenvolvida pelos profissionais farma-
cêuticos. Elas recomendam que os pa-
realização, supervisão e revisão das fun-
ções de seleção, preparo, distribuição e
drões nacionais sejam orientados para a
estoque de medicamentos a fim de asse-
promoção da saúde, o suprimento de me-
dicamentos e de equipamentos médicos, gurar a segurança, a precisão e qualida-
o autocuidado em saúde e a melhoria da de dos produtos.
prescrição e do uso de medicamentos por • Padrão 6: O farmacêutico utiliza conhe-
meio de atividades desempenhadas pelos
cimentos, princípios e habilidades da
farmacêuticos.
prática farmacêutica com o objetivo de
otimizar a atenção ao paciente e as rela-
Em 1998, a National Association of ções interprofissionais.
Pharmacy Regulatory Authorities (NAPRA
- Associação Nacional de Autoridades Far- A Pharmaceutical Society of Australia
macêuticas Regulatórias do Canadá) publi- (PSA - Sociedade Farmacêutica da Austrá-
cou um conjunto de padrões orientadores lia elaborou, em 1999, um conjunto de qua-
para a prática profissional no país.31 O con- tro padrões para garantir a provisão da as-
junto de seis padrões representou um passo sistência farmacêutica em farmácias comu-
importante na construção de um sistema nitárias:32
farmacêutico de qualidade para o Canadá:
• Padrão 1: A farmácia precisa adequar os
• Padrão 1: O farmacêutico, utilizando co- recursos humanos, físicos e financeiros
nhecimentos e habilidades únicas para para promover a qualidade do uso de
identificar as necessidades farmacotera- medicamentos sem prescrição como par-
pêuticas dos pacientes, pratica uma aten- te do serviço de atenção primária à saúde.
ção voltada ao paciente em parceria com • Padrão 2: A farmácia deve promover
o próprio paciente e outros profissionais aconselhamento e atenção ao cliente, di-
da saúde, a fim de alcançar resultados po- reta e indiretamente, e organizar um sis-
sitivos e/ou manter ou melhorar a quali- tema de documentação da prática pro-
dade de vida do paciente. fissional.
• Padrão 2: O farmacêutico atua dentro de • Padrão 3: A farmácia deve conter ambien-
limites legais e de princípios éticos, de- tes de acesso restrito aos medicamentos e
monstra integridade profissional e age de atendimento personalizado ao cliente.
para preservar os padrões da prática pro- • Padrão 4: Todos os funcionários da far-
fissional. mácia devem respeitar as necessidades e
• Padrão 3: O farmacêutico identifica, iso- os direitos dos clientes, conforme os
la, avalia, interpreta e provê informações princípios legais e éticos.
16 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

O documento elaborado pela PSA foi Ainda segundo os autores, a promo-


formatado de modo que os profissionais far- ção da saúde pode ser feita por meio de três
macêuticos pudessem realizar uma autoava- domínios que dão suporte aos serviços ofe-
liação dos serviços oferecidos pela farmácia. recidos à população:
Conta, ainda, com protocolos-pad rão de
atendimento farmacêutico a fim de assegu- 1. disposição de serviços de prevenção cli-
.
rar o uso racional dos medicamentos. nica
Também em 1999, um documento pu- 2. vigilância e publicações em saúde pública
blicado pela American Society of Health- 3. promoção do uso racional de medica-
-System Pharmacists (ASHP - Associação mentos pela sociedade
Americana de Farmacêuticos do Sistema de
Saúde, denominado "Padrões minimos para A abordagem de Rovers e colaborado-
os serviços farmacêuticos ambulatoriais': res está alinhada aos tópicos relacionados
apresentava quatro categorias de ações a se- pela OMS em relação a medidas que podem
rem desenvolvidas pelos farmacêuticos: 33 ser adotadas para a promoção da saúde.
Transpondo para a nossa realidade as estra-
1. Liderança e gerenciamento do serviço, tégias defendidas mundialmente , é possível
envolvendo o preparo do farmacêutico, dizer que o farmacêutico pode trabalhar
os critérios para a utilização de medica- sob três pontos básicos: reorientando os
mentos, o desempenho em indicadores serviços de farmácia dos medicamentos pa-
de reações adversas e erros de medica- ra os pacientes, desenvolvendo habilidades
ção, a distribuição dos serviços entre os da comunidade e incentivando os indivíduos
membros da equipe e as questões finan- à ação comunitária.
ceiras da organização.
2. Farmacoterapi a e atenção farmacêutica,
envolvendo os planos de atenção farma- 11 ~ possível dizer que o farmacêutico pode
trabalhar sob três pontos básicos: reorien-
cêutica, a relação com os pacientes e as
ações de educação em saúde. ~ tando os serviços de farmácia dos medica-
mentos para os pacientes, desenvolvendo
3. Controle e distribuição de medicamentos, habilidades da comunidade e incentivan-
envolvendo a aquisição, o armazenamen- do os indivíduos à ação comunitária.
to e a dispensação dos medicamentos.
4. Instalações, equipamentos e outros recur- No cenário brasileiro, as ações gerado-
sos, envolvendo as áreas e equipamentos ras de padrões de referência ou normas que
para as operações técnicas e administra- trataram dos serviços farmacêuticos, in-
tivas. cluindo sua qualidade, estiveram exclusiva-
mente no âmbito da vigilância sanitária até
Rovers e colaboradores}4 identificaram
1997. A partir daquele ano, algumas resolu-
quatro categorias de iniciativas que podem
ções do CFF passaram a tratar do assunto
ser implantadas pelos farmacêuticos para a
de maneira um pouco mais ampla.
melhoria do estado de saúde da comunidade:
Até 1997, a legislação sanitária era o
1. acompanhame nto e educação do paciente único elemento que tratava das condições
2. avaliação dos seus fatores de risco de funcionamento dos estabeleciment os
3. prevenção da saúde farmacêuticos e que podia ser utilizado pa-
4. promoção da saúde e vigilância das doen- ra fins de avaliação de qualidade. Contudo,
ças nem as condições de funcionamento dos
A prótlco farmacêutico no formócio comunitório 17

estabelecimentos têm sido fiscalizadas de trutura e processos anteriormente aceitos


maneira satisfatória. As leis federais nª em outras áreas da saúde.
5.991, de 17 de dezembro de 1973 e 6.360, Por outro lado, a Resolução nº 328/99
de 16 de abril de 1976 e seus Decretos-lei veta a utilização de aparelhos de uso médi-
correspondentes, 74.170, de 10 de junho de co ambulatorial e não incorpora a demanda
1974 e 79.094, de 5 de janeiro de 1977, os por esse tipo de procedimento - sobretudo
mais importantes na regulação do setor, a medida da pressão arterial - nos estabele-
contribuíram para que a prática farmacêu- cimentos farmacêuticos. Também não trata
tica se configurasse como a prática do co- da avaliação de resultados terapêuticos, cuja
mércio de drogas, descaracterizando o pa- ausência contribui para que farmácias e
pel de unidade sanitária que a farmácia po- drogarias se mantenham à margem de um
deria ocupar no Brasil. sistema de saúde que, além de estrutura e
A Resolução do CFF nº 308, de 2 de processos, precisa ser avaliado por seus re-
maio de 1997 estabeleceu o primeiro mar- sultados.
co sobre a assistência farmacêutica, reco- Em 2001, o CFF publicou a Resolução
nhecendo um novo papel para as farmá- nº 357, de 20 de abril de 2001, aprovando
cias e as drogarias no Brasil, e inaugurou um regulamento técnico de boas práticas
um debate em torno de novas práticas far- em farmácia diferente do instrumento nor-
macêuticas que têm ganhado força desde mativo publicado pela Anvisa dois anos an-
então. Entre essas passagens está o reco- tes. Nesse regulamento, estão os maiores
nhecimento da farmácia como unidade de avanços no que diz respeito à redefinição da
saúde pública, o reconhecimento de que farmácia e da atividade farmacêutica como
deve haver espaços reservados para o diálo- ações de saúde. A Resolução, que pioneira-
go com os pacientes (consulta farmacêuti- mente dispõe sobre a redefinição da prática
ca), que é preciso criar e manter fichas far- profissional, apresenta alguns elementos
macoterapêuticas de pacientes e, sobretudo, que são fundamentais para a compreensão
que é preciso "elaborar manuais de procedi- da reorganização desses serviços.
mentos, buscando normalizar e operacio- Essa Resolução dispõe também sobre
nalizar o funcionamento do estabelecimen- os critérios para a avaliação da qualidade
to, criando padrões técnicos e sanitários de das prescrições, veta a dispensação de medi-
acordo com a legislação". camentos em sistemas de autoatendimento,
Dois anos depois dessa publicação, a autoriza a orientação farmacêutica e a dis-
então recém-criada Anvisa publicou a Reso- pensação de medicamentos isentos de pres-
lução nº 328, 22 de julho de 1997, estabele- crição, a aplicação de injetáveis, a realização
cendo, no âmbito do Aparelho de Estado, o de pequenos curativos, a realização de ne-
primeiro instrumento nacional que trata de bulização, a verificação de temperatura e
boas práticas em farmácia. Por um lado, o re- pressão arterial e a determinação de parâ-
gulamento foi o primeiro a explicitar de for- metros bioquímicos e fisiológicos.
ma objetiva a necessidade de que as farmá- Além das tentativas de redefinição de
cias e drogarias mantenham "infraestrutura atribuições e de reorganização da atividade
física, equipamentos, recursos humanos e profissional expressas por essas Resoluções,
procedimentos que atendam às boas práti- alguns outros elementos caracterizaram o
cas em farmácia", conceito importante para movimento pela qualidade no setor farma-
que a avaliação da qualidade desses estabe- cêutico nos últimos anos. Nas farmácias de
lecimentos fosse orientada pelos eixos de es- manipulação, nas farmácias hospitalares e
18 Cas.s yano J. Correr & M1chel F. Oruld

nos laboratórios d e análises clinicas, cam- • Art. 61. Além da dispensação, poderá ser
pos de atuação dos profissionais farmacêu- permitida às farmácias e drogarias a
ticos, alguns importantes avanços também prestação de serviços farmacêuticos
podem ser identificados. conforme requisitos e condições estabe-
As publicações mais recentes envol- lecidos nesta Resolução.
vendo serviços farmacêuticos e boas práti- • §1° São considerados serviços farma-
cas de farmácia são as resoluções do CFF nº cêuticos passíveis de serem prestados em
499, de 17 de dezembro de 2008, n° SOS, de farmácias ou drogarias a atenção fa rma-
23 de junho de 2009, e nº 44, de 17 de agos- cêutica e a perfuração de lóbulo auricu-
to de 2009. O CFF elenca na Resolução nº lar para colocação de brincos.
499, de 17 de dezembro de 2008, uma série • §2° A prestação de serviço de atenção
de atividades, entre elas: farmacêutica compreende a atenção far-
macêutica domiciliar, a aferição de pa-
1. Elaboração do perfil farmacoterapê uti- râmetros fisiológicos e bioquímico e a
co, avaliação e acompanhame nto da te- administração de medicamentos .
rapêutica farmacológica de usuários de • §3° Somente serão considerados regula-
medicamentos . res os serviços farmacêuticos devida-
2. Determinação quantitativa do teor san- mente indicados no licenciamento de
guíneo de glicose, colesterol total e trigli- cada estabeleciment o, sendo vedado uti-
cerídeos, mediante coleta de amostras de lizar qualquer dependência da farmácia
sangue por punção capilar, utilizando-se ou drogaria como consultório ou outro
de medidor portátil. fim diverso do licenciamento, nos ter-
3. Verificação de pressão arterial. mos da lei.
4. Verificação de temperatura corporal. • §4° A prestação de serviços farmacêuti-
S. Aplicação de medicamentos injetáveis. cos em farmácias e drogarias deve ser
6. Execução de procedimentos de inalação permitida por autoridade sanitária me-
e nebulização. diante prévia inspeção para verificação
7. Realização de curativos de pequeno porte. do atendimento aos requisitos mínimos
8. Colocação de brincos. dispostos nesta Resolução, sem p rejuízo
9. Participação em campanhas de saúde. das disposições contidas em normas sa-
10. Prestação de assistência farmacêutica do- nitárias complementar es estaduais e
miciliar. .. .
mun1c1pa1s.
• §S 0 É vedado à farmácia e à drogaria
Em junho de 2009, o CFF publicou a prestar serviços não abrangidos por esta
Resolução nº SOS, de 23 de junho de 2009, Resolução.
alterando parcialmente a Resolução nº 499, • Art. 62. O estabelecimento deve manter
de 17 de dezembro de 2008, retirando a de- disponível, para informar ao usuário, lis-
terminação d e colesterol total e trigliceríde- ta atualizada com a identificação dos es-
os da lista de serviços farmacêuticos autori- tabelecimentos públicos de saúde mais
zados. Coincidenteme nte, a Anvisa publi- próximos, contendo a indicação de ende-
cou, em agosto de 2009, a RDC nº 44, de 17 reço e telefone.
de agosto de 2009, regulamentand o a pres-
tação de serviços farmacêuticos em farmá- Na Seção 1 desse capítulo, a Anvisa de-
cias e drogarias em seu Capítulo VI: talha sua interpretação sobre como deve es-
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 19

tar estruturado o serviço de atenção farma- • Parágrafo único. Procedimento Opera-


cêutica: cional Padrão deverá dispor sobre a me-
todologia de avaliação dos resultados.
• Art. 63. A atenção farmacêutica deve • Art. 66. O farmacêutico deve orientar o
ter como objetivos a prevenção, detec- usuário a buscar assistência de outros
ção e resolução de problemas relacio- profissionais de saúde, quando julgar
nados a medicamentos, promover o necessário, considerando as informa-
uso racional dos medicamentos, a fim ções ou resultados decorrentes das ações
de melhorar a saúde e qualidade de vi- de atenção farmacêutica.
da dos usuários. • Art. 67. O farmacêutico deve contribuir
• §1° Para subsidiar informações quanto para a farmacovigilância, notificando a
ao estado de saúde do usuário e situa- ocorrência ou suspeita de evento adver-
ções de risco, assim como permitir o so ou queixa técnica às autoridades sa-
acompanhamento ou a avaliação da efi- nitárias.
cácia do tratamento prescrito por pro-
fissional habilitado, fica permitida a afe- As Resoluções da Anvisa e do CFF re-
rição de determinados parâmetros fisio- presentam um importante avanço na regu-
lógicos e bioquímico do usuário, nos lamentação dos serviços farmacêuticos na
termos e condições desta Resolução. farmácia comunitária, na definição de cri-
• §2° Também fica permitida a adminis- térios de qualidade e na identificação da
tração de medicamentos, nos termos e farmácia como estabelecimento de saúde.
condições desta Resolução. Atividades como a elaboração do perfil far-
• Art. 64. Devem ser elaborados protoco- macoterapêutico, avaliação e acompanha-
los para as atividades relacionadas à mento farmacoterapêutico ou, nas palavras
atenção farmacêutica, incluídas referên- da Anvisa, o próprio serviço de atenção far-
cias bibliográficas e indicadores para macêutica estiveram ausentes das boas prá-
avaliação dos resultados. ticas de farmácia brasileiras durante muitos
• § 1° As atividades devem ser documen- anos.
tadas de forma sistemática e contínua,
com o consentimento expresso do
, . 11 As Resoluções da Anvisa e do CFF repre·
usuar10. sentam um importante avanço na regula-
• §2° Os registros devem conter, no míni-
mo, informações referentes ao usuário
~ mentação dos serviços farmacêuticos na
farmácia comunitária, na definição de cri·
(nome, endereço e telefone), às orienta- térios de qualidade e na identificação da
farmácia como estabelecimento de saúde.
ções e intervenções farmacêuticas reali-
zadas e aos resultados delas decorrentes,
bem como informações do profissional No entanto, o enfoque demasiado na
responsável pela execução do serviço realização de serviços técnicos, como medi-
(nome e número de inscrição no Conse- da da pressão arterial, temperatura corpo-
lho Regional de Farmácia). ral, glicemia, pequenos curativos e adminis-
• Art. 65. As ações relacionadas à atenção tração de medicamentos (injetáveis, nebuli-
farmacêutica devem ser registradas de zação, etc.) ou a colocação de brincos, limita
modo a permitir a avaliação de seus re- a percepção do serviço farmacêutico como
sultados. um serviço clínico, cognitivo, centrado no
20 Cassyano J. Correr & Mlchel F. OtuJd

paciente e na melhoria do processo de uso INTEGRAÇÃO DA


de medicamentos e dos resultados da far- , ,
FARMACIA COMUNITARIA
macoterapia. De fato, técnicos bem treina- ,
dos não teriam dificuldade em realiz.ar AO SISTEMA DE SAUDE
qualquer um dos serviços listados na reso-
Os serviços prestados pelo farmacêutico à
lução, porém não poderiam interpretar re-
população nas farmácias comunitárias, pú-
sultados, obter informações clínicas do pa-
blicas ou privadas, devem estar articulados
ciente e transformar as informações avalia-
à rede de atenção à saúde. Segundo Men-
das em condutas clínicas voltadas à proteção
des,35 os serviços de saúde devem constituir
ou à recuperação da saúde. As atividades
uma rede integrada que permita prestar
técnicas, portanto, devem representar um
uma assistência contínua a determinada
meio, e não o fun. Os verdadeiros serviços
população - no tempo certo, no lugar certo,
farmacê uticos devem ser clínicos, tendo co-
com o custo certo e com a qualidade certa -
mo conjunto de procedimentos a maioria
e que se responsabiliza pelos resultados sa-
das atividades descritas nas Resoluções da
nitários e econômicos relativos a essa popu-
Anvisa (estabelecimentos farmacêuticos) e
lação.JS O processo de construção desse
do CFF (profissão farmacêutica).
modelo inclui a concepção de múltiplos
Muitas experiências nacionais e inter-
pontos de atenção à saúde, co~o hospi~ai~,
nacionais apontam para a relevância do de-
unidades de saúde, ambulatórios especiali-
senvolvimento de padrões de qualidade na
zados, atenção domiciliar, hospitais-dia, en-
melhoria da atenção aos pacientes. Assim
tre outros. Estes devem estar integrados
como resultados têm sido alcançados pelos
verticalmente, tendo a unidade básica de
sistemas de acreditação e pelas várias outras
saúde, responsável pela atenção primária à
abordagens de garantia de qualidade, a
saúde, como ponto central da rede. A far-
acreditação de farmácias e drogarias pode
mácia comunitária d eve firmar-se como es-
vir a ser uma alternativa para apoiar a me-
tabelecimento de saúde a fim de fazer parte
lhoria de qualidade dos serviços farmacêu-
dessa rede (Fig. 1.4).36
ticos no Brasil. O desenvolvimento de uma
experiência de autorregulação no setor de
serviços farmacêuticos, não apenas com ba- A farmácia comunitária, pública ou priva-
da, tem a responsabilidade e a oportuni-
se na lógica do mercado, mas, sobretudo, dade de transformar-se em um ponto de
com base na política de defesa da vida, pode atenção à saúde, indo além de seu papel
significar o surgimento de um novo esp aço tradicional de distribuição de medica-
de construção da saúde. mentos.

A farmácia comunitária, pública ou


privada, tem a responsabilidade e a oportu-
O desenvolvimento de uma experiência de nidade de transformar-se em um ponto de
autorregulação no setor de serviços farma- atenção à saúde, indo além de seu papel tra-
cêuticos, não apenas com base na lógica do dicional de distribuição de medicamentos.
mercado, mas. sobretudo, com base na polí- Como estabelecimento de saúde, pode pres-
tica de defesa da vida, pode significar o sur-
gimento de um novo espaço de construção tar serviços farmacêuticos ao paciente de
da saúde. forma articulada à rede, tendo como refe-
rência a unidade de atenção primária e co-
A prótlca farmacêutica na farmócia comunltória 21

Hospital

Hospital-dia

I , Farmácia
comunitária

Unicade ,. ,.
, ... ---...... ... •
básica de I
I ' '\
~:'
\
saúde \

1
1
'
1

'' \ I
1

\
\

' ' ... ,. ,. I


Ambulatório ' ... _-- ... ,.
especializado

Atendimento
domiciliar

FIGURA 1.4
Modelo esquemótico da rede de atenção à saúde, organizada por diversos pontos, coordenados pela
atenção primária à saúde. A farmácia comunitária só poderá integrar essa rede quando convertida
em estabelecimento de saúde.

municando-se também com outros pontos fissionais da saúde, a atenção farmacêutica é


de atenção à saúde como hospitais, serviços capaz de melhorar a qualidade de vida dos
domiciliares, consultórios particulares, etc. usuários e su a satisfação com os serviços da
Os estabelecimentos privados, ainda que farmácia. Os custos desse trabalho são reco-
não responsáveis pelo atendimento "gratui- nhecidamente baixos em comparação com
to" à população, deveriam estar cientes de diversas iniciativas do sistema de saúde, co-
seu papel no SUS e articular-se à rede de mo campanhas de vacinação, educação em
serviços de saúde. saúde e rastreamento de doenças crônicas.
Há vários estudos no Brasil demons- Ainda assim, esse serviço é incipiente na
trando que a implantação de serviços de maioria dos estados brasileiros. Há consen-
atenção farmacêutica em farmácias comu- so entre vários autores, que esse atraso no
nitárias tem a capacidade de produzir bene- avanço da atenção farmacêutica deve-se,
fícios para os pacientes e o sistema de saúde principalmente, à formação inadequada dos
(para uma discussão mais aprofundada, ver farmacêuticos para atividades clínicas e à
o Cap. 1Odeste livro) . Além de melhorar re- ausência de um sistema de remuneração ba-
sultados clínicos da farmacoterapia e criar seado em serviços, e não apenas na venda
canais de comunicação inéditos entre pro- ou na logística de medicamentos.
22 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

As atividades do farmacêutico na far- ria da qualidade de vida. O conceito de


mácia comunitária podem estar voltadas atenção farmacêutica ganhou força nos úl-
ao medicamento ou ao paciente. As ativi- timos 20 anos, entendida no Brasil como
dades não clínicas ou voltadas ao medica- uma filosofia de prática centrada no pa-
mento incluem a gestão logística (progra- ciente que se operacionaliza pela implanta-
mação, aquisição, armazenamento), a ma- ção de serviços farmacêuticos clínicos (ver
nipulação magistral, o controle de qualidade Cap. 10).
dos produtos manipulados e a gestão fi- Roberts e colaboradores38 definem os
nanceira ou de pessoas. No contexto do serviços farmacêuticos cognitivos como
SUS, Gomes e colaboradores37 defendem, "serviços oferecidos pelos farmacêuticos
sob a mesma lógica, que a assistência far- nos quais utilizam seu conhecimento e pe-
macêutica na atenção primária à saúde de- rícia a fim de melhorar a farmacoterapia e a
ve se estruturar em dois eixos principais: gestão da patologia, mediante a interação
com o paciente ou com outro profissional
1. ações técnico-assistenciais e da saúde, quando necessário': Outra defini-
2. ações técnico-gerenciais. ção é dada por Gastelurrutia e colaborado-
res, 39 afirmando que os serviços cognitivos
do farmacêutico "são serviços orientados ao
As atividades do farmacêutico na farmácia paciente e realizados por farmacêuticos
comunitária podem estar voltadas ao me- que, exigindo conhecimentos específicos,
dicamento ou ao paciente. As atividades
têm por objetivo melhorar o processo de
não clínicas ou voltadas ao medicamento
incluem a gestão logística (programação, uso dos medicamentos e/ou os resultados
aquisição, armazenamento), a manipula- da farmacoterapia".
ção magistral, o controle de qualidade dos No Brasil, não há uma definição ofi-
produtos manipulados e a gestão financei-
cial de serviços clínicos ou serviços cogniti-
ra ou de pessoas.
vos prestados pelos farmacêuticos. O termo
"serviços farmacêuticos" é utilizado com
Os serviços farmacêuticos voltados ao frequência em documentos tanto da Anvisa
paciente, também chamados de serviços como do CFF sendo definido como "servi-
clínicos ou serviços cognitivos, são aqueles ços de atenção à saúde prestados pelo far-
em que há interação direta do farmacêutico macêutico':
com o paciente, visando a melhoria do Tendo em conta todo esse contexto
processo de uso de medicamentos ou a dos serviços farmacêuticos e das normas de
obtenção de resultados terapêuticos defi- boas práticas de farmácia, é possível organi-
nidos, voltados à manutenção ou à melho- zá-los em uma lógica voltada para o cuida-
do dos pacientes, separadamente das ativi-
dades orientadas à logística do medicamen-
Os serviços farmacêuticos voltados ao pa- to ou à gestão do "negócio farmácia': Os
ciente, também chamados de serviços serviços farmacêuticos voltados ao paciente
clínicos ou serviços cognitivos, são aque-
devem apresentar caráter clínico, de aten-
les em que há interação direta do farma-
cêutico com o paciente, visando a melho- ção à saúde, e organizam-se co1n base nas
ria do processo de uso de medicamentos necessidades dos usuários relacionadas à
ou a obtenção de resultados terapêuticos saúde e aos medicamentos, considerando,
definidos, voltados à manutenção ou à
melhoria da qualidade de vida.
por exemplo, o ciclo de vida e/ou a presen-
ça de fatores de risco. Da mesma forma, é
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 23

preciso separar aqueles serviços prestados 2008) trata-se a atenção farmacêutica como
pela farmácia à população (serviços da far- uma nova prática farmacêutica, com pro-
mácia) daqueles diretamente ligados ao far- cesso de trabalho bem definido, que se ope-
macêutico (serviços farmacêuticos clíni- racionaliza pela prestação de um ou mais
cos). serviços farmacêuticos clínicos, centrados
A organização de serviços de atenção no paciente, cujo objetivo é promover o uso
farmacêutica na farmácia comunitária vem racional dos medicamentos e resultados te-
sendo discutida há anos no Brasil. Há inú- rapêuticos positivos, na perspectiva de redu-
meras experiências da implementação de zir a morbimortalidade relacionada aos me-
áreas privadas de atendimento, onde se rea- dicamentos e melhorar a qualidade de vida
lizam atendimento e acompanhamento de dos pacientes.
pacientes. De modo geral, há consenso de
que esses serviços ocorrem de forma inde-
pendente da dispensação e sob outra lógica CONSIDERAÇÕES FINAIS
de organização. Trata-se de gerenciar um
serviço, e não a venda de produtos. Há gru- As farmácias comunitárias no Brasil são,
pos no País trabalhando estritamente segun- atualmente, pontos comerciais que vendem
do os preceitos da escola americana, de Ci- medicamentos e produtos alheios, regidos
polle e colaboradores,40 enquanto outros por regras de mercado e regulamentações
têm seguido o Método Dáder para realização sanitárias. Há consenso de que esses estabe-
de acompanhamento farmacoterapêutico. 41 lecimentos apresentam alto potencial de in-
Há, ainda, uma compreensão crescente de tegração ao sistema de saúde, prestação de
que um modelo de prática clínica farmacêu- serviços de alta relevância social e que a
tica no Brasil deverá desenvolver-se de forma qualidade dos serviços hoje é inadequada.
integrada com o desenvolvimento do SUS e O trabalho profissional do farmacêu-
da assistência farmacêutica. tico, atualmente, é centrado na logística de
distribuição, dispensação de medicamentos
e na prestação de alguns serviços técnicos.
A organização de serviços de atenção far-
macêutica na farmácia comunitária vem
Sua prática, entretanto, vem sendo modifi-
sendo discutida há anos no Brasil. Há Inú- cada radicalmente nas últimas décadas, di-
meras experiências da implementação de recionando-se cada vez mais à clínica e ao
áreas privadas de atendimento, onde se paciente.
realizam atendimento e acompanhamen-
to de pacientes. A inserção do farmacêutico na equipe
de saúde e a provisão de serviços clínicos à
comunidade podem agregar um novo valor
Neste livro, é apresentada uma abor- ao uso de medicamentos e contribuir efeti-
dagem que não segue uma escola ou mode- vamente para seu uso racional no Brasil. A
lo determinado de atenção farmacêutica. melhoria no processo de uso de medica-
São detalhadas recomendações de prática mentos pela população e pelos serviços de
voltadas à dispensação de medicamentos e à saúde é essencial para que toda assistência
prestação de serviços farmacêuticos clínicos farmacêutica no País possa avançar e sus-
na farmácia. Conforme propõe a regula- tentar-se a longo prazo. A transformação
mentação nacional dos serviços farmacêu- das farmácias comunitárias em estabeleci-
ticos (RDC nº 44, de 17 de agosto de 2009, e mentos de saúde requer obrigatoriamente
Resolução nº 499, de 17 de dezembro de um profundo processo de reengenharia e
24 Ca ssyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

reprofissionalização, que se tem mostrado 8. França Filho JB, Correr CJ, Rossignoli P,
apenas em seu início no Brasil. Melchiors AC, Fernández-Llimós F, Ponta-
rolo R. Perfil dos farmacêuticos e farmácias
em Santa Catarina: indicadores de estrutu-
Atransformação das farmácias comunitá- ra e processo. RBCF Rev Bras Ciênc Farm.
11 rias em estabelecimentos de saúde requer 2008;44(1):105-13.

~ obrigatoriamente um profundo processo


de reengenharia e reprofissionalização,
9. A sedução das farmácias. Isto é Dinheiro [In-
ternet]. São Paulo: Três.; 2010 [capturado em
que se tem mostrado apenas em seu início 15 de maio 2012] ;626. Disponível em: http://
no Brasil. www.istoed inheiro.eom.br/noticias/720_
A+SEDUCAO+DAS+FARMACIAS.
10. Silva T, Schenkel EP, Mengue SS. Informa-
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latory patients in a university hospital. Cad
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Princípios da dispensação
de medicamentos
na farmácia comunitária
CASSYANO J. CORRER

Um homem de 60 anos vai à 11 O modelo tradicional de prática farma-

~
farmácia portando uma receita cêutica comunitária nos últimos setenta
de enalapril e atenolol para trata- anos esteve centrado no fornecimento de
mento de hipertensão. Uma mulher leva seu medicamentos industrializados, associa-
filho de 5 anos à farmácia com uma receita de do à informação do paciente sobre sua
amoxicilina por sete dias. Uma jovem de 25 utilização. Esse modelo tem na dispensa-
anos procura o farmacêutico solicitando con- ção sua atividade primordial e é predomi-
traceptivo de emergência e informações sobre nante no Brasil até os dias de hoje.
como deve tomá-lo. Um homem de 35 anos
procura pelo farmacêutico pedindo uma indi-
cação para sua dor de garganta que surgiu há 2
Dentro do processo geral de uso de
dias. O que todas essas pessoas têm em co-
mum? Todas elas utilizam ou utilizarão medica- medicamentos, a dispensação consiste no
mentos por um tempo determinado para alí- último contato possível do paciente com
vio, controle ou cura dos seus sinais e sintomas um profissional da saúde antes da utilização
e deverão seguir algumas regras para que o tra-
do medican1ento. Assim, a dispensação per
tamento tenha sucesso. Todas elas precisam de
algumas informações sobre como utilizar esses se foca-se na interpretação, avaliação, iden-
produtos. Todas elas utilizarão o serviço de dis- tificação e resolução de possíveis problemas
pensação de uma farmácia comunitária. ou incompletudes do receituário e na orien-
tação do paciente sobre a n1elhor forma de
usar o medicamento, visando maximizar as
O modelo tradicional de prática far- chances de sucesso terapêutico. Para muitos
macêutica comunitária nos últimos setenta pacientes, ainda, a dispensação pode ser a
anos esteve centrado no fornecimento de única oportunidade de atendimento por
medicamentos industrializados, associado à um profissional da saúde, particularmente
informação do paciente sobre sua utiliza- na automedicação com 1nedicamentos isen-
ção. Esse modelo tem na dispensação sua tos de prescrição. Nesses casos, o far111acêu-
atividade primordial e é predominante no tico pode participar diretamente da seleção
Brasil até os dias de hoje. do medicamento, do manejo do transtorno
28 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

apresentado ou do encaminhamento dopa- formação ao paciente sobre os medica-


ciente a outro serviço de saúde. mentos.
O processo normal de uso de medica- Em todo o mundo, a dispensação de
mentos inicia-se com a consulta médica e medicamentos e produtos para a saúde re-
prescrição de um ou mais medicamentos, presenta a principal atividade farmacêutica
seguido por sua dispensação na farmácia e entre as várias desenvolvidas tanto no meio
posterior utilização pelo paciente. 1 hospitalar como ambulatorial e a principal
O ato da dispensação no Brasil carac- demanda dos consumidores. Na farmácia
teriza-se por ser realizado geralmente em comunitária, estudos americanos mostram
um balcão de atendimento e por não haver que, em geral, 56% do tempo do farmacêu-
registro de informações sobre o paciente ou tico é dedicado à dispensação. Outros l 9o/o
sobre as intervenções farmacêuticas realiza- são voltados às consultas de aconselhamen-
das, sendo o registro limitado às informa- to ao paciente, 16% às atividades adminis-
ções sobre a venda do produto. A postura trativas e 9% às responsabilidades de gestão
do farmacêutico costuma ser também pou- clínica de medicamentos para o paciente,
co ativa com relação à orientação do pa- como no seguimento farmacoterapêutico. 3
ciente, isto é, as informações são transmiti- Nos Estados Unidos, surge também o dese-
das apenas quando o paciente as solicita. jo desses farmacêuticos de reduzir sua carga
Além disso, no Brasil, predomina a presen- horária na dispensação para se concentra-
ça dos "balconistas': atendentes sem forma- rem mais em atividades de aconselhamento
ção profissional ou técnica que, via de regra, e gestão da farmacoterapia.4
agem de forma contrária às boas práticas de No Brasil, estudos em farmácias do Pa-
farmácia e apresentam condutas duvidosas raná, 5 de Santa Catarina6 e do Pará7 mostra-
do ponto de vista técnico, dos direitos do ram que praticamente 100% dos farmacêu-
consumidor e da ética em saúde. ticos desempenham atividades de dispen-
sação nesses estabelecimentos (Tab. 2.1),
assumindo ta.m bém responsabilidades so-
No Brasil, predomina a presença dos ªbal- bre ações administrativas, treinamento de
11
conistas': atendentes sem formação pro- auxiliares, registro de medicamentos con-
~ fissional ou técnica que, via de regra,
agem de forma contrária às boas práticas
trolados e outros serviços farmacêuticos
(aplicação de injetáveis, verificação de pres-
de farmácia e apresentam condutas duvi-
dosas do ponto de vista técnico, dos direi- são arterial, etc.).
tos do consumidor e da ética em saúde. No setor público, a grande maioria das
unidades básicas de saúde que desempe-
nham ações de dispensação de medicamen-
Pode-se dizer que a dispensação foca tos à população não conta com farmacêuti-
sua atenção para o processo de uso dos me- cos presentes. Nessas unidades, a entrega de
dicamentos, particularmente os aspectos medicamentos fica sob responsabilidade da
referentes à prescrição, ao conhecimento do equipe de enfermagem (auxiliares) ou de
paciente sobre o tratamento e à adesão ao funcionários de menor capacitação.
tratamento, estando pouco envolvida, en- As precárias condições de estrutura e
quanto prática, com os desfechos de saúde recursos humanos nesses estabelecimentos
obtidos pelo uso dos medicamentos. 2 públicos têm-se refletido em serviços de
A dispensação per se foca-se na inter- baixa qualidade, como demonstra o estudo
pretação e avaliação do receituário e na in- feito por Naves e Silver em Brasília.8 Nas
A prótica farmacêutica na farmócla comunltórla 29

TABELA 2.1
Atividades desenvolvidas pelos farmacêuticos em farmácias comunitárias do Brasil

Estado de Santa Curitiba, Belém,


Atividade Catarina (%) Paraná (%) Pará (%)

Dispensação 98,2 100 100


Verificação de pressão arterial 88,2 84 43,8
Teste de glicemia 9,2 48 2,6
Teste de colesterol/triglicerídeos 1,8 NA 1,7
Nebulização/inalação de medicamentos 7,5 8 NA
Aplicação de medicamentos injetáveis 85,1 88 19,3
Manipulação magistral 8,8 16 NA
n =258 n = 35 n = 114

NA= Não a11alíado. Dados referentes a estudos feitos no perfodo entre 2002 e 200S.

unidades por eles estudadas, o tempo mé- também é dispensa. Em português, são váli-
dio de duração da dispensação foi de 53,9 das as duas palavras, dispensação e dispensa,
segundos (40-96s), e apenas 18,7º/o (6,7- sendo que esta última provém do verbo
30o/o) dos usuários, após a retirada do me- "dispensar': e não diretamente da palavra
dicamento, tinham conhecimento adequa- latina que deu origem à palavra "dispensa-
do sobre como deveriam utilizá-los. ção".
Em um país de contrastes como o Bra- Há vários conceitos de dispensação
sil, também a dispensação de medicamentos disponíveis na literatura nacional e interna-
pode ocorrer em alguns lugares sob altos ní- cional. O Quadro 2.1 traz as principais defi-
veis de qualidade, enquanto em outros, nem nições utilizadas no Brasil. O que todos es-
mesmo a presença física do farmacêutico ses conceitos trazem em comum é o fato de
pode ser garantida. a dispensação não ser considerada somente
a entrega do medicamento. Há consenso de
que a dispensação deve incorporar o aspec-
11 Em um país de contrastes como o Brasil, to cognitivo de interpretação de informa-

~
também a dispensação de medicamentos ções referentes ao receituário, ao medica-
pode ocorrer em alguns lugares sob altos
mento e ao paciente e convertê-las em orien-
níveis de qualidade, enquanto em outros,
nem mesmo a presença física do farma- tação personalizada ao paciente de modo a
cêutico pode ser garantida. promover o uso adequado do medicamento
e, assim, aumentar as chances de êxito tera-
pêutico. Pretende, também, detectar erros
CONCEITO DE DISPENSAÇÃO

Segundo revisão realizada por Iglésias-Fer- 11 Há consenso de que a dispensação deve

~
incorporar o aspecto cognitivo de inter-
reira e Santos,9 a palavra em latim dispensa- pretação de informações referentes ao re-
tione originou as palavras dispensation, em ceituário, ao medicamento e ao paciente e
francês, dispensación, em espanhol (castelha- convertê-las em orientação personalizada
no), dispensa, em italiano, e a palavra dis- ao paciente de modo a promover o uso
adequado do medicamento e, assim, au-
pensação, em português, utilizada no Brasil. mentar as chances de êxito terapêutico.
Em Portugal, o termo geralmente utilizado
30 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 2.1 Conceitos e definições de d ispensação

Conselho Federal de Farmácia: 11


"Ato do farmacêutico de orientação e fornecimento ao usuário de medicamentos, insumos farma-
cêuticos e correlatos, a título remunerado ou não."
Ministério da Saúde - Política Nacional de Medicamentos:12
"O ato profissional farmacêutico de proporcionar um ou mais medicamentos a um paciente, geralmente
como resposta à apresentação de uma receita elaborada por um profissional autorizado. Nesse ato, o
farmacêutico informa e orienta o paciente sobre o uso adequado do medicamento. São elementos impor-
tantes da orientação, entre outros, a ênfase no cumprimento da dosagem, a influência dos alimentos, a
interação com out ros medicamentos, o reconhecimento de reações adversas potenciais e as condições de
conservação dos produtos."
Consenso Espanhol sobre Atenção Farmacêutica:1l
"Situação em que uma pessoa procura a farmácia e solicita um medicamento concreto, geralmente,
mediante uma prescrição médica ou sem ela caso pretenda se automedicar (de forma adequada ou
não). A atuação profissional do farmacêutico vai além da simples entrega do produto, devendo ser
voltada à detecção de problemas potenciais relacionados à utilização do medicamento e à orienta-
ção sobre a adequada utilização do medicamento."
Gastelurrutia e Fernández-Uimós:1
"Atuação profissional de um farmacêutico por meio da qual se proporciona a um paciente, ou a seus
cuidadores, os serviços clínicos que acompanham a entrega de medicamentos ou produtos para
saúde, com objetivo de melhorar seu processo de uso."
Dáder e colaboradores:14
"Ato profissional no qual o farmacêutico, diante da solicitação de um medicamento e após verificar
de maneira sistemática que o paciente ou cuidador possui informação suficiente sobre o objetivo do
tratamento e forma adequada de utilização, realiza a entrega do medicamento em acordo com a
legislação vigente, avaliando, com a informação disponível no momento, se ele é adequado para
esse paciente."

de prescrição, erros de administração do paciente representa a complementação da


medicamento ou resultados terapêuticos consulta com o prescritor. Esta inclui aspec-
negativos e corrigi-los por meio de inter- tos posológicos (dose, frequência), duração,
venções. Não resta dúvida, entretanto, de cuidados na administração (horário, uso
que o principal objetivo da dispensação, com alimentos, bebidas alcoólicas ou ou-
considerando a demanda da população, é tros medicamentos, preparo e administra-
fornecer medicamentos em ótimas condi- ção) e armazenamento. 10
ções de conservação e em acordo com a le- A dispensação compõe, em conjunto
gislação. com os outros serviços citados, o fluxo geral
O receituário médico ou odontológi- de serviços de uma farmácia comunitária,
co constitui o documento de comunicação cujo objetivo central é atender às necessida-
entre esses profissionais e o farmacêutico. O des da população referentes aos medicamen-
farmacêutico deve estar apto a interpretá- tos e aos cuidados farmacêuticos. Conside-
-lo, a identificar possíveis necessidades de rando a existência de medicamentos isentos
complementação das informações ali pre- de prescrição, a dispensação pode, ainda, ser
sentes e a corrigir eventuais erros cometi- resultado da indicação de medicamentos pe-
dos pelo prescritor. A orientação feita ao lo farmacêutico. Esta deve ocorrer após a re-
A prótlca farmacêutica na farmácia comunitária 31

alização de um atendimento clínico, no qual zado, o paciente ou o cuidador sobre o pro-


o farmacêutico utiliza-se de técnicas semio- cesso de uso dos medicamentos, quer estes
lógicas a fim de avaliar as queixas trazidas sejam industrializados ou manipulados.9
pelo paciente à farmácia. Nesse cenário, a
dispensação passa a ser consequência da ava- Define-se dispensação clínica de medica-
liação dos sintomas apresentados pelo pa- 11
~
mentos como o serviço clínico em que o
ciente. Nesses casos, o farmacêutico decide farmacêutico avalia o processo de uso da
entre: tratar ou encaminhar? farmacoterapia, disponibiliza a medica-
ção e informa, de modo personalizado, o
No Brasil, a proposta elaborada no paciente ou o cuidador sobre o processo
Consenso Brasileiro de Atenção Farmacêu- de uso dos medicamentos, quer estes se-
tica não traz uma defin ição de dispensação, jam industrializados ou manipulados.
mas a coloca como um dos macrocompo-
nentes da atenção farmacêutica em conjun-
to com a educação em saúde, orientação Neste livro, são abordados as bases que
farmacêutica, atendimento farmacêutico e permitem ao farmacêutico realizar a dis-
seguimento farmacoterapêutico.15 A dis- pensação clínica (método clínico, revisão da
pensação consiste, também, em uma das farmacoterapia, entrevista clínica e semiolo-
etapas do ciclo da Assistência Farmacêutica, gia farmacêutica) sem explicitar os métodos
que inclui ainda a seleção, programação, disponíveis para essa atividade. Para mais
aquisição, distribuição, utilização e avalia- detalhes, recomenda-se, aos interessados, a
ção dos efeitos. 16 O Consenso Brasileiro ex- leitura do Manual de dispensação clínica de
plicita a diferença de entendimento entre os medicamentos, publicado pelo Grupo de In-
conceitos de atenção farmacêutica e assis- vestigação em Cuidados Farmacêuticos da
tência farmacêutica, sendo esta última o Universidade Lusófona, em Portugal.9
conjunto de ações multiprofissionais cen-
tradas no medicamento, desde sua produ-
ção até a avaliação de seus efeitos no pa- CENÁRIOS DE DISPENSAÇÃO
ciente. A atenção farmacêutica consiste na
interação direta entre farmacêutico e pa- Há, pelo menos, duas situações distintas de
ciente com objetivo de promover o uso ra- atendimento que podem ocorrer na dispen-
cional do medicamento e garantir a obten- sação de medicamentos, contendo cada urna
ção de resultados terapêuticos definidos e delas necessidades diferentes em termos de
mensuráveis, voltados para a melhoria ou procedimentos e habilidades do farmacêu-
manutenção da qualidade de vida dos pa- tico:
cientes.
Recentemente, o termo "dispensação 1. A partir da apresentação de um receituá-
clínica" de medicamentos tem sido utilizado rio, distinguindo-se aqueles pacientes que
como sinônimo de transformação da dis- apresentam o receituário pela primeira vez
pensação em uma atividade clínica do far- ou estão em continuação do tratamento.
macêutico, dentro de um contexto de cuida- 2. A partir de uma solicitação por autorne-
do farmacêutico. Defme-se dispensação clí- dicação, distinguindo-se aqueles pacien-
nica de medicamentos como o serviço tes que solicitam um medicamento deter-
clínico em que o farmacêutico avalia o pro- minado daqueles que solicitam ao farma-
cesso de uso da farmacoterapia, disponibiliza cêutico a indicação de um medicamento
a medicação e informa, de modo personali- a partir de uma queixa principal.
32 Cassyano J. Correr &: Michel F. Otukl

Segundo a Federação Internacional dicamento ou problema de saúde, buscan-


Farmacêutica (FIP), ainda, os principais do esclarecer dúvidas com o farmacêutico.
elementos que o farmacêutico deve enfocar, Nesse caso, há uma demanda por informa-
a fim de garantir uma boa prática de farmá- ção, e não por um produto, e o que se pro-
cia, são: 1·7 cessa é um serviço de orientação ao pacien-
te. É possível, também, que o paciente soli-
l . atividades associadas à promoção da saú- cite outros serviços ligados à saúde que
de, à prevenção de doenças e ao alcance podem não estar necessariamente ligados
dos objetivos de saúde; ao uso de medicamentos. Como exemplos,
2. atividades relacionadas ao fornecimento têm-se a demanda pela verificação de parâ-
e à utilização de medicamentos e meios metros fisiológicos ou bioquímicos, a ad-
para sua administração ou relacionados ministração de medicamentos injetáveis ou
ao tratamento; por neb ulização, pequenos curativos, entre
3. atividades relacionadas com o autocuida- outros. Esses cenários simples ajudam a
do, incluindo o assessoramento e o forne- compreender a organização de serviços de
cimento de medicamentos ou outro trata- uma farmácia, conforme pode ser observa-
mento para os transtornos menores; e do na Figura 2.1.
4. atividades voltadas a influenciar as pres-
crições e o uso de medicamentos, incluin-
do a difusão de informações sobre medi- RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS
camentos e a comunicação com médicos COM A PRESCRIÇÃO
e pacientes.
A prescrição medicamentosa é uma ordem
Assim, um usuário que procura pela escrita dirigida ao farmacêutico, definindo
farmácia pode fazê-lo também a fim de so- como o fármaco deve ser fornecido ao pa-
licitar uma informação referente a um me- ciente, e a este, determinando as condições

Usuário

f
Medicamentos
f
Informação •
Outros serviços

Com receita Sem receita Tratar sintoma

Verificação de
parâmetros,
Dispensação de Dispensação de Orientação administração de
medicamentos medicamentos medicamentos, etc.
farmacêutica
prescritos isentos de prescrição

FIGURA2.1
Cenários de atendimento em uma farmácia comunitária a partir da demand.a do usuário.
A prótica farmacl!utlca na farmócla comunitórla 33

em que o fármaco deve ser utiliUldo. Do blemas identificados. Para os casos de não
ponto de vista legal, a prescrição é um docu- confirmação do prescritor do receituário
mento pelo qual se responsabiliU!ro quero expedido, o farmacêutico não poderá dis-
prescreve (médico, odontólogo ou veteriná- pensar os medicamentos solicitados, po-
rio), quem dispensa o medicamento (far- dendo transcrever no verso da receita seus
macêutico) e quem o administra (enfermei- motivos. 11
ro). Para que os resultados da prescrição se- Problemas relacionados à prescrição
jam efetivos, é preciso haver cooperação incluem erros de medicação, como, por
mútua entre os profissionais, assim como exemplo, nome d o medicamento, dose, via
entre o paciente e seus familiares ou cuida- de administração ou duração do tratamen-
dores.10,1s to; problemas de ordem legal, como preen-
chimento incorreto da receita ou notifica-
ção para medicamentos controlados; ou
11 Do ponto de vista legal, a prescrição é um
problemas terapêuticos, como contraindi-
~
documento pelo qual se responsabilizam
quem prescreve (médico, odontólogo ou cações absolutas, interações medicamento-
veterinário), quem dispensa o medica- sas de alto significado clínico ou superdosa-
mento (farmacêutico) e quem o adminis-
tra (enfermeiro).
gem. Nos Estados Unidos, os erros de pres-
crição são a segunda causa mais comum de
queixas contra os médicos. 21 A ocorrência
A Lei n° 5.99 l, de 17 de dezembro de de erros nesse país foi estimada em 3,4 erros
1973, que regulamenta o comércio de me- para cada mil prescrições medicamentosas.
dicamentos no País, determina que uma re- As causas mais comuns são p resença de dis-
ceita médica ou odontológica, para ser dis- função renal ou hepática que requerem
p ensada, deve estar escrita a tinta, por ex- ajuste de dose (13,9%), história de alergia
tenso e de modo legível. 19 Deve conter o do paciente (12,1%), uso de nome, forma
nome do paciente, seu endereço, nome do de dosagem ou abreviação incorretos
medicamento, forma farmacêutica, posolo- (11,1 o/o), e frequência de dosagem crítica ou
gia, apresentação, modo de administração e atípica ( 10,8%).22
duração do tratamento, além de data, iden- A prevalência geral de problemas rela-
tificação e assinatura do profissional pres- cionados à prescrição detectados por far-
critor.11 ·19 Para medicamentos sujeitos a macêuticos foi de 1,9% do total de receitas
controle especial, como psicotrópicos e en- dispensadas, sendo aproximadamente 50º/o
torpecentes, devem ser seguidas regras es- destes de ordem administrativa. Um comitê
pecíficas, detalhadas na Portaria nQ 344, de de especialistas avaliou, ainda, que 28,3°/o
12 de maio de 1998, e normas relacionadas, dos problemas poderiam causar dano ao
publicadas pela Agência Nacional de Vigi- paciente.23 Um estudo realizado no Estado
lância Sanitária (Anvisa).2º de Washington encontrou que, do total de
Na interpretação do receituário, o far- intervenções realizadas pelos farmacêuticos
macêutico deve fazê-lo com base nos aspec- durante a dispensação ( 1,6 para cada 100
tos terapêuticos, farmacêuticos e farmaco- prescrições), 17,6o/o estiveram relacionadas
lógicos, adequação ao indivíduo, contrain- a problemas com a prescrição.24 Em um es-
dicações e interações, aspectos legais, sociais tudo feito na Espanha, a ausência de infor-
e econômicos. Em caso de necessidade, o mações nas receitas chegou a 72,8% para
farmacêutico deve entrar em contato com o posologia e 81,5% para duração do trata-
prescritor a fim de esclarecer eventuais pro- mento.25
34 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

No Brasil, estudos avaliando indicado- drug information também é utilizado, entre-


res de qualidade de prescrições em unidades tanto, diz respeito mais comumente ao tra-
de saúde e farmácias comunitárias encontra- balho desempenhado por Centros de Infor-
ram problemas principalmente quanto à au- mação sobre Medicamentos (CIM).
sência de informações, que poderia compro- Na literatura farmacêutica internacio-
meter o uso adequado dos medicamentos, nal, o termo patient counseling agrupa um
em particular a posologia (40,lo/o) e a dura- grande número de atividades farmacêuticas
ção do tratamento (40,4 a 55,5%).26·27 Para relacionadas, com multiplicidade de inter-
medicamentos controlados, 7,2°Ai das notifi- pretações, o que gera dificuldades na execu-
cações de receita azuis e receitas especiais, em ção de pesquisas sobre o assunto e compa-
média, apresentaram algum problema dele- ração de resultados. Não há uma definição
gibilidade, e 96,5 a 99,6% cumprem com a internacionalmente aceita para essa ativida-
legislação no que diz respeito ao preenchi- de. A Farmacopeia Americana (USP) e a
mento das receitas. 2ª FIP definem medication counseling como
Uma prescrição de qualidade é aquela uma abordagem focada no aumento da ca-
que consegue o máximo de efetividade, mi- pacidade do paciente em resolver proble-
nimiza os riscos e os custos e respeita a con- mas com propósito de melhorar ou manter
veniência e a escolha dos pacientes. Detectar sua saúde e qualidade de vida. Esse proces-
e resolver problemas relacionados às pres- so enfatiza a comunicação em duas vias (di-
crições pode favorecer o sucesso terapêuti- álogo, conversação) e o papel do paciente
co e beneficiar paciente e comunidade. Ca- como especialista em sua própria medica-
be frisar, entretanto, a importância de se- ção. Devem ser respeitadas as perspectivas
rem avaliados, também, os resultados obti- físicas, psicológicas, socioculturais, emocio-
dos nos pacientes, a fim de que a abordagem nais e intelectuais do paciente, assim como
não fique centrada apenas no processo de suas expectativas e valores relacionados à
uso dos medicamentos, mas também nos saúde. Faz parte da responsabilidade do
desfechos gerados por esse processo.29 profissional da saúde dar suporte ao pa-
ciente no desenvolvimento de suas habili-
dades no manejo da medicação com empa-
Uma prescrição de qualidade é aquela tia, sinceridade e paciência.3°
que consegue o máximo de efetividade,
minimiza os riscos e os custos e respeita a
Dada a diversidade na utilização dos ter-
conveniência e a escolha dos pacientes. mos "aconselhainento" ou "orientação': entre-
Detectar e resolver problemas relaciona- tanto, é comum seu entendimento por parte
dos às prescrições pode favorecer o suces- dos farmacêuticos como a transmissão de in-
so terapêutico e beneficiar paciente e co-
munidade formações ao paciente, como avisos ou expli-
cações sobre medicamentos, como parte de
um processo predominantemente unidirecio-
ORIENTAÇÃO AO PACIENTE nal "do farmacêutico para o paciente'~ Isso
frequentemente leva alguns minutos e pode
A segunda área-chave da dispensação de incluir reforçar a informação já contida na
medicamentos consiste na orientação do bula ou prescrição médica. Geralmente o pa-
paciente sobre medicamentos e seu uso, em ciente só tem a chance de perguntar algo ao fi-
um processo frequentemente referido em nal da explanação. Nesse processo centrado
inglês como patient counseling, medication no farmacêutico, este deseja que o paciente
counseling ou medidne counseling. O termo entenda, aprenda algo ou execute alguma
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 35

ação específica relacionada ao tratamento. 31 cessário que ele saiba. O aconselhamento,


Isso é o que mais costuma acontecer no balcão assim como uma sessão de treinamento,
das farmácias do Brasil (Fig. 2.2). ajuda o paciente a ajudar a si mesmo. O fo-
No Brasil, o termo patient counseling é co, em geral, está em solucionar uma situa-
comumente traduzido como "aconselha- ção que o paciente pode considerar um
mento de pacientes", e há trabalhos que uti- problema. A função do aconselhamento é
lizam também "orientação farmacêutica'~ O oferecer uma perspectiva diferente a partir
tema do aconselhamento de pacientes no da qual o paciente possa experimentar no-
Brasil tem sido tratado principalmente no vas ideias. O paciente deve apreender a so-
que diz respeito a HIV/aids e doenças sexu- lução por si mesmo e exercitar a própria
almente transmissíveis,32, 33 aconselhamen- responsabilidade.
to genético,34•35 alcoolismo 36 e tabagismo, 37
sendo definido como:
11 O aconselhamento ao paciente é, portan-
to, uma parte fundamental da prática far-
~
um processo de escuta ativa, indivi-
dualizado e centrado no cliente. macêutica. Vários aspectos sobre o trata-
mento com medicamentos podem ser dia-
Pressupõe a capacidade de estabele-
logados com o paciente. Aquantidade e a
cer uma relação de confiança entre qualidade das informações dependerão
os interlocutores, visando o resgate de quanto o paciente já sabe e de quanto
dos recursos internos da pessoa aten- é necessário que ele saiba.
dida para que ela mesma tenha pos-
sibilidade de reconhecer-se como su-
jeito de sua própria saúde e transfor- Buscando reduzir as diferenças con-
mação.32 ceituais sobre o tema, Raynor31 propôs uma
divisão por três níveis diferentes de orienta-
O aconselhamento ao paciente é, por-
ção farmacêutica ao paciente, utilizando
tanto, uma parte fundamental da prática
comunicação verbal:
farmacêutica. Vários aspectos sobre o trata-
mento com medicamentos podem ser dia- Nível 1. Provisão de informação verbal breve
logados com o paciente. A quantidade e a centrada nas instruções posológicas. Este ní-
qualidade das infor1nações dependerão de vel se relaciona a uma prescrição específica e
quanto o paciente já sabe e de quanto é ne- tem lugar no balcão da farmácia, onde os

IN FORMAÇÃO
1 Farmacêutico 1 • 1 Paciente 1

ACONSELHAMENTO
1 Farmacêutico 1 .. • 1 Paciente 1

FIGURA 2.2
A comunicação na informação ao paciente caracteriza-se por ser unilateral. O aconselhamento, dife-
rentemente, caracteriza-se pelo diálogo e pela participação ativa do paciente.
36 Cassyano J. Correr&: Michel F. Otukl

medicamentos são retirados. Consiste em re- nação "consulta sobre medicamentos': Esse
forçar informações sobre o nome e o propó- nível de interação dificilmente ocorre na
sito do medicamento, instruções sobre poso- dispensação de medicamentos, mas é nor-
logia (dose, frequência, duração) e cuidados mal na prática da atenção farmacêutica (ver
na administração (uso com alimentos, horá- Cap. 10).
rio, técnica de administração). Dura, em ge- Considerando o trabalho de Raynor, a
ral, de 1 a 2 minutos, e é uma oportunidade º·
USP e a FIP,3 31 é possível estabelecer está-
para o paciente fazer perguntas. gios de orientação farmacêutica desde a
transferência de informação sobre a medi-
Nível 2. Explicação e conselhos sobre os
cação até o aconselhamento sobre esta e re-
pontos principais da farmacoterapia do pa-
lacioná-los aos serviços farmacêuticos tra-
ciente.Relaciona-se também a uma prescri-
dicionais e clínicos. Esses estágios estão de-
ção específica do paciente, ainda que em
talhados no Quadro 2.2.
muitos casos leve em consideração a medica-
ção total do paciente. Envolve explanação e
aconselhamento, além da simples provisão 11 ~ possível estabelecer estágios de orienta-
ção farmacêutica desde a transferência de
~
de informação. Inclui informações sobre o
informação sobre a medicação até o aconse-
medicamento, dose, propósito e benefícios,
lhamento sobre esta e relacioná-los aos ser-
como tomar, precauções especiais e efeitos viços farmacêuticos tradicionais e clínicos.
adversos. Um paralelo a esse n.ível de orienta-
ção seria a interação normal ocorrida entre
No Brasil, o termo "aconselhamento':
um médico ou enfermeiro e um paciente.
ainda que comumente utilizado, não apare-
Essa categoria atende aos critérios de orien-
ce nas normas de Boas Práticas de Farmácia
tação durante a dispensação recomendados
ou no Consenso Brasileiro de Atenção Far-
pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) na
macêutica. Ambos os documentos utilizam
Resolução nº 357, de 20 de abril de 2001. 11
o termo "orientação farmacêutica': ainda
Esse tipo de interação pode durar até 10 mi-
que não definam exatamente seu significa-
nutos, pode ser realizada no balcão da far-
do. As normas de Boas Práticas de Farmá-
mácia ou em uma área privada e pode reque-
cia 11 tratam da orientação tanto no que diz
rer uma breve avaliação dos conhecimentos
respeito à dispensação de medicamentos
do paciente sobre a medicação. Nesse nível, o
quanto à indicação de medicamentos isen-
farmacêutico também deve avaliar se as in-
tos de prescrição. O documento, em seu Ar-
formações foram entendidas, solicitando ao
tigo 31, estabelece: 11
paciente que as repita.
Nível 3. Exploração completa envolvendo o
Na dispensação, o farmacêutico deve
uso de medicamentos pelo paciente. Termo explicar clara e detalhadamente ao
correspondente ao conceito ideal de medi- paciente o beneficio do tratamento,
cation counseling. Nessa situação, paciente e conferindo-se a sua perfeita compre-
farmacêutico analisam de modo completo ensão, adotando os seguintes proce-
aspectos do uso de medicamentos, inclu.i n- dimentos:
do atitudes, expectativas e experiências do I - O farmacêutico deve fornecer to-
paciente. Isso normalmente tem lugar em da a informação necessária para o
uma área privada da farmácia, própria para uso correto, seguro e eficaz dos me-
esse tipo de atendimento, e ocorre com ho- dicamentos de acordo co1n as neces-
ra marcada. Esse nível atenderia a denomi- sidades individuais do usuário.
A prótlca farmacêutica na farmácia comunitária 37

II - Além da informação oral, as III - As contraindicações, interações e


orientações prestadas pelo farmacêu- possíveis efeitos secundários do me-
tico podem ser reforçadas por escrito dicamento devem ser explicados no
ou com material de apoio adequado. momento da dispensação.

QUADRO 2.2 Níveis de orientação fa rmacêutica

Nível1 Nível 2 Nfvel 3 Nível 4

Descrição Transferência Troca de Educação Aconselhamento


de informações informações sobre os sobre os
sobre os sobre os medicamentos medicamentos
medicamentos medicamentos
Nível da Básico, Detalhado, Abrangente, em Discussão
informação breve, não individualizado grupo ou detalhada e
individualizado individualizado direcionamento
Local Balcão Balcão ou Sala ou Clínica ou sala
área privada área privada privada
Quando No momento No momento Consulta/aula Consulta
é realizada da dispensação da dispensação pré-agendada pré-agendada

Duração 1-2min Até lOmin 10-30min (ou Até30min ou


mais de grupo) mais
Objetivo Fornecer Responder Prover Promover
informação e fazer experiência de direcionamento
essencial perguntas aprendizado focado nas
relacionada à sobre a colaborativo necessidades
tomada do medicação relacionado à integrais de
medicamento prescrita medicação manejo da
prescrito (diálogo) prescrita doença e
(monólogo) (conversação) medicação
(discussão)
Conteúdo Reforço das Elaboração Aprimora- Exploração
informações da de perguntas mentodo de todos os
bula/prescrição e solicitação conhecimento aspectos do
e propósito do de explicações ligado ao uso uso de medica-
tratamento; sobre o seguro a mentos pelo
segurança e medicamento. apropriado do paciente.
uso apropriado Adaptação das medicamento, Elevação da
informações ao geralmente para a capacidade de
indivíduo. uma condição resolução de
Aprimoramento especifica problemas e
do conheci- auxílio no
mento ligado manejo da
ao uso seguro doença e uso
e apropriado efetivo da
da medicação medicação

(continua)
38 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 2.2 Níveis de orientação farmacêutica (continuação)

Nfvel 1 Nfvel 2 Nível 3 Nfvel4

Informações Nome do Além das Além das Níveis 1, li e Ili.


contidas na medicamento, informações informações Inclui ainda
orientação indicação, dose, contidas no contidas discussão de
frequência, Nível I, há nos Níveis 1e li, exames e
horários de uso, espaço para aprofunda-se o efetividade do
duração do falar sobre uso dos tratamento.
tratamento, uso reações medicamentos, Considera a
com alimentos, adversas, permitindo totalidade de
cuidados no interações demonstrações, medicamentos
preparo e medicamen- é oferecido em uso pelo
armazenamento tosas e metas material paciente,
terapêuticas escrito e incluindo
avaliam-se aqueles não
custos do prescritos,
tratamento. alternativos
e plantas
medicinais.

Chance para o Limitada Substancial Substancial Abrangente


paciente falar
Quem realiza Farmacêutico ou Farmacêutico Farmacêutico Farmacêutico
auxiliar sob
supervisão

Serviço Dispensação Dispensação Revisão da Revisão da


envolvido tradicional feita especializada; farmacoterapia farmacoterapia
por auxiliar manejo de (adesão ao (clínica e
ou farmacêutico transtornos tratamento, abrangente);
menores conciliação de acompanha-
(automedicação medicamentos); mento farma-
orientada) educação para coterapêutico
grupos de (gestão de
pacientes patologia ou
gestão de casos)

Fonte: Adaptado de Wuliji e Airaksinen. 30

IV - O farmacêutico deve procurar os efetivamente recebe orientação nas farmá-


meios adequados para ficar ciente de cias comunitárias são tema de pesquisa em
que o paciente não tem dúvidas sobre todo o mundo. Puspitasari e colaborado-
o modo de ação dos medicamentos, a res38 publicaram, em 2009, uma revisão sis-
forma de usar (como, quando e quan-
temática que reuniu os resultados de estu -
to), a duração do tratamento, possí-
dos conduzidos nos Estados Unidos, na Eu-
veis efeitos adversos e precauções es-
.. ropa, na Austrália e no Canadá. Os resultados
pec1ais.
são muito h eterogêneos, e a proporção d e
A incorporação do aconselhamento à usuários que recebe orientação verbal nas
prática da dispensação com receita e a por- farmácias desses países pode variar de 8 a
centagem de pacientes ou receituários que 80o/o, dependendo do método de pesquisa
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 39

empregado. Quando a pesquisa é feita por profissionais não reconhecem essas ativida-
meio de entrevista aos farmacêuticos ou des d e orientação farmacêutica como con-
por observação (o pesquisador fica na far- sultas. Médicos e enfermeiros, quando con-
mácia vendo a dispensação ser realizada), as versam rotineiramente com pacientes sobre
taxas de aconselhamento encontradas são sua doença e tratamento, não descrevem is-
maiores. Quando os pacientes são questio- so como aconselhamento. Entendem o
nados ou quando se utilizam pacientes si- aconselhamento em um contexto mais am-
mulados (atores fingindo serem pacientes plo, que parte de necessidades apresentadas
portando uma prescrição), as taxas são me- pelo paciente, e não somente de sua percep-
nores. Além disso, foi observado que os far- ção (dos profissionais) dessas necessidades.
macêuticos orientam com mais frequência Reconhecem que aconselhar diz mais res-
pacientes com receitas novas (início de tra- peito a ouvir do que propriamente a forne-
tamento) do que usuários que buscam rea- cer informações. Essa percepção inclui o fato
bastecimento (refill). Com relação ao tipo de que muitos médicos, assim como farma-
de informação fornecida, as orientações li- cêuticos e outros profissionais da saúde, não
gadas ao nome do medicamento, à dose e às têm treinamento adequado em relaciona-
indicações são mais frequentes do que as re- mento interpessoal, necessário para que se
lacionadas a efeitos colaterais, precauções, alcancem os objetivos do aconselhamento. 31
interações, contraindicações e armazena- Essa observação leva a um ponto críti-
mento.38 co da prática farmacêutica na farmácia co-
Essa publicação mostra claramente munitária. O contato dos pacientes com o
que a ausência de orientação durante a dis- farmacêutico precisa deixar de ser percebi-
pensação não se trata de um problema ex- do por este apenas como a venda e entrega
clusivamente dos países em desenvolvimen- dos produtos e precisa ser convertido em
to. A questão parece ser mais profunda e li- atendimento clínico profissional. O modelo
gada ao próprio modelo de prática e de tradicional de dispensar medicamentos di-
negócio do qual a dispensação faz parte. Em ficilmente alcança este status, visto estar
tempo, cabe frisar que o desrespeito às nor- centrado demasiadamente no produto, na
mas legais, como venda de produtos sem re- distribuição, e por ser realizado principal-
ceita, condutas desonestas ou ausência do mente por auxiliares e pouco diretamente
farmacêutico, comumente vistos no Brasil, pelos farmacêuticos. O fluxo de atendimen-
não encontra paralelo nesses países. to de uma farmácia, em geral, não permite
que cada dispensação se converta em uma
consulta farmacêutica, e, tradicionalmente,
li Aausência de orientação durante a dispen-
sação não se trata de um problema exclusi- não tem sido esse o papel da farmácia. Esse
~ vamente dos palses em desenvolvimento. A
questão parece ser mais profunda e ligada
é um dos motivos pelos quais modelos de
remuneração de serviços farmacêuticos ba-
ao próprio modelo de prática e de negócio seados na dispensação de medicamentos te-
do qual a dispensação faz parte.

A visão do farmacêutico sobre os ter- Ocontato dos paáentes com o fannacêutico


li
mos "aconselhamento" ou "orientação de precisa deixar de ser percebido por este ape-
pacientes" pode contrastar com a de outros
profissionais da saúde como médicos, en-
~ nas como a venda e entrega dos produtos e
precisa ser convertido em atendimento clí-
nico profissional.
fermeiros ou psicólogos. Em geral, esses
40 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

nham tido pouco ou nenhum sucesso em


11 Diariamente, muitas pessoas procuram a
todo o mundo. farmácia e questionam os farmacêuticos so-
Como forma de profissionalizar e dife-
renciar a dispensação de medicamentos rea- ~ bre seus sintomas, e este deve estar apto a
auxiliar o paciente durante a dispensação
lizada pelo farmacêutico, vários autores têm desses medicamentos de modo a garantir
sua segurança e otimizar os resultados tera-
procurado desenvolver processos clínicos de pêuticos.
dispensação ou voltados a situações e pa-
cientes espeáficos. Os termos surgidos na li-
teratura nos últimos anos incluem a já citada mentos mais recentes corroboram esse pa-
dispensação clinica de medicamentos, dispen- pel do farmacêutico.41 •42
sação ativa e, no âmbito do Sistema Único de Considera-se problema de saúde qual-
Saúde (SUS), a dispensação especializada. !3,39 quer queixa, observação ou fato que o pa-
Ainda que limitada enquanto ativida- ciente e/ou profissional da saúde perceba co-
de clínica, a dispensação tradicional de me- mo um desvio da normalidade que tenha
dicamentos continua sendo de extrema im- afetado, possa afetar ou afete a capacidade
portância e deve ser realizada dentro de al- funcional do paciente.43 Sintomas menores
tos padrões de qualidade, a serem seguidos são problemas de saúde banais, autolirnita-
por auxiliares, técnicos em farmácia e pelo dos e de cura espontânea, normalmente com
próprio farmacêutico. A orientação feita ao menos de sete dias de evolução, que não te-
paciente deve estar adequada ao tempo dis- nham relação com as manifestações clínicas
ponível e focada nos pontos essenciais da de outros problemas de saúde do paciente,
terapêutica. A dispensação "deve ser para nem com os efeitos, desejados ou não, dos
todos" e deve permitir aos pacientes a opor- medicamentos que utiliza. 44 Esse conceito,
tunidade de serem, no mínimo, informados entretanto, não pode ser considerado defini-
(Nível 1) sobre suas prescrições de forma tivo, pois exclui transtornos considerados
correta e ética. menores de evolução maior que sete dias, co-
mo a acne de menor gravidade e a caspa, por
exemplo. Sintomas considerados menores
DISPENSAÇÃO DE MEDICAMENTOS podem estar presentes também em enfermi-
-
ISENTOS DE PRESCRIÇAO dades graves, o que faz necessário que, em al-
guns casos, um médico avalie o quadro do
A Organização Mundial da Saúde, em seu paciente, de modo a diagnosticar o problema
documento sobre o papel do farmacêutico e definir a terapêutica apropriada.
no sistema de atenção à saúde,40 preconiza Em geral, para os problemas menores
como uma das atribuições do farmacêutico não são necessários tratamentos etiológi-
o aconselhamento de pacientes no trata- cos, mas apenas paliativos ou sintomáticos.
mento de problemas de saúde menores que O objetivo desse tipo de terapêutica é aliviar
não requeiram consulta médica ou medica- os sintomas do paciente durante o período
mentos de prescrição. Diariamente, muitas de evolução natural dos sintomas, de modo
pessoas procuram a farmácia e questionam que este não tenha suas atividades diárias
os farmacêuticos sobre seus sintomas, e este ou qualidade de vida reduzidas. Os medica-
deve estar apto a auxiliar o paciente duran- mentos disponíveis para esse fim podem ser
te a dispensação desses medicamentos de adquiridos sem receituário médico (não
modo a garantir sua segurança e otimizar apresentam tarja vermelha ou preta) e são
os resultados terapêuticos. Outros doeu- denominados isentos de prescrição (MIPs),
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitórla 41

ou medicamentos OTC (do inglês, over the alizada de forma responsável e consciente a
counter). fim de não mascarar problemas graves ou
A Anvisa, em 2003, publicou a RDC n° gerar outros problemas de saúde não espera-
138, de 29 de maio de 2003, que introduz a dos.48 A automedicação é um procedimento
lista de Grupos e Indicações Terapêuticas Es- aceito pelos governos, na medida em que es-
pecificadas ( GITE) para medicamentos sem tes permitem a existência de uma extensa lis-
prescrição médica. 45 A regulamentação de ta de medicamentos isentos de prescrição.
medicamentos isentos de prescrição pode Assumir uma postura unilateral contrária à
variar entre os países. Nos Estados Unidos, automedicação, portanto, não ajuda na difu-
por exemplo, muitos OTC estão disponíveis são da informação para uma automedicação
em supermercados e farmácias, e os medica- responsável que traga mais benefícios do que
mentos de prescrição exclusivamente em far- prejuízos aos sistemas de saúde.
mácias. Na Austrália, há classes de medica-
mentos de prescrição médica, classes de pres- O Quadro 2.3 apresenta o que dita o
crição farmacêutica (Pharmacist Only Conselho Federal de Farmácia em relação à
Medicines) e outros disponíveis em farmá- automedicação responsável e aos deveres
cias para compra direta (Pharmacy Medici- do farmacêutico nesse aspecto.
nes) e normas para sua correta dispensa-
ção.46,47 Aautomedicação é um procedimento aceito
11
A Anvisa estabelece que todos os me- pelos governos, na medida em que estes
dicamentos da lista GITE, respeitadas as
restrições textuais e de outras normas legais
~ permitem a existência de uma extensa lista
de medicamentos isentos de prescrição. As-
sumir uma postura unilateral contrária à au-
e regulamentares pertinentes, são de venda tomedicação, portanto, não ajuda na difu-
sem prescrição médica, à exceção daqueles são da informação para uma automedica-
administrados por via parenteral que são de ção responsável que traga mais benefícios
do que prejuízos aos sistemas de saúde.
venda sob prescrição médica. As associa-
ções medicamentosas, ou duas ou mais
apresentações em uma mesma embalagem O farmacêutico é um profissional da
para uso concomitante ou sequencial, cujo saúde estratégico no aconselhamento sobre
grupo terapêutico e indicação terapêutica automedicação responsável, assim como na
de pelo menos um de seus princípios ativos indicação de medicamentos para alívio de
não se encontrar especificado no GITE, são sintomas menores. 11•42 Estudos mostram
de venda sob prescrição médica. Todos os que farmacêuticos e médicos tendem a ter
medicamentos novos são de venda sob condutas equivalentes no manejo de proble-
prescrição médica, sujeitos a reavaliação do mas menores, sendo que os médicos apre-
enquadramento na categoria de venda no sentam maior tendência a recomendar uso
momento de sua renovação, de acordo com de medicamentos. Esses dois profissionais
dados de farmacovigilância. 45 podem colaborar entre si consensuando pro-
Qu.a ndo um paciente, por iniciativa tocolos de encaminhamento entre a farmá-
própria, resolve utilizar um ou mais medi- cia e os serviços médicos próximos. 49 O
camentos para tratamento de um sintoma engajamento efetivo do farmacêutico no
ou doença autoidentificada, diz-se estar fa- atendimento de transtornos menores e auto-
zendo uma automedicação. A automedica- medicação responsável poderia ajudar a re-
ção é um direito do indivíduo dentro do de- duzir a demanda dos serviços públicos de
nominado autocuidado, porém, deve serre- atenção primária à saúde, reservando mais
42 Cassyano J. Correr & Michel F. Otuki

QUADRO 2.3 Automedicação responsável e deveres do farmacêutico


Tratando da automedicação responsável e dos deveres do farmacêutico nesse aspecto, o Conselho
Federal de Farmácia descreve:11

Artigo 55 - A automedicação responsável é responsabilidade do farmacêutico relativamente a cada


patologia que possa ser objeto de sua intervenção no processo saúde-doença.
1- O farmacêutico deve promover ações de informação e educação sanitária dirigidas ao consu-
midor ou doente de modo que relativamente aos medicamentos se possa fazer uma opção, e
não um abuso.
li - O fa rmacêutico deverá desenvolver ações na seleção e dispensação de medicamentos não
prescritos.
Artigo 56 - A avaliação das necessidades na automedicação responsável pelo usuário deve ser
efetuada com base no interesse dos que são beneficiários dos serviços prestados pelo farmacêutico.

1- O farmacêutico deve avaliar as necessidades do usuário por meio da análise dos sintomas e
das características individuais para decidir corretamente sobre o problema específico de cada
paciente.
li - O farmacêutico deve avaliar se os sintomas podem ou não estar associados a uma patologia
grave e, em sua ocorrência, recomendar a assistência médica.
Ili - No caso de patologias menores, deverão ser dados conselhos adequados ao usuário, só
devendo ser-lhe dispensados os medicamentos em caso de absoluta necessidade.

Artigo 57 - A seleção para a dispensação de medicamentos não sujeitos a prescrição deve ser reali-
zada em função do perfil farmacológico.

a) O farmacêutico, na dispensação de medicamentos não sujeitos a prescrição, deve ter em conta a


sua qualidade, eficácia e segurança, bem como as vantagens e desvantagens de certas formula-
ções específicas na seleção de medicamentos.
b) Na dispensação de um medicamento não sujeito a prescrição, o farmacêutico deve estar ciente de
que o usuário não apresenta dúvidas a respeito dos seguintes aspectos:

1- O modo de ação do medicamento;


li - A forma como deve ser tomado (como, quando, quanto);
Ili - A duração do tratamento;
IV - Possíveis reações adversas, contraindicações e interações.

Artigo 58 - A seleção para a dispensação de medicamentos não sujeitos a prescrição deve ser reali-
zada em função do perfil do usuário, atendidos os seguintes requisitos:

a) O farmacêutico deve avaliar a eficácia do produto em estreita colaboração com o usuário;


b) A orientação farmacêutica deve levar em consideração situações especiais relativas ao perfil do
doente: g ravidez, aleitamento materno, pediatria e doentes idosos, alertando para eventuais ris-
cos decorrentes do estado fisiológico ou patológico de cada usuário;
c) O farmacêutico deve orientar o usuário a recorrer a uma consulta médica se os sintomas persisti-
rem além de um período determinado.

tempo para o atendimento médico de condi- sem prescrição pode ocorrer em um con-
ções clínicas mais complexas e de pior prog- texto de serviço clínico e não apenas com fo-
nóstico. co nos produtos. Quando há demanda do
Assim como no aconselhamento ao paciente para automedicação, trazendo quei-
paciente, a dispensação de medicamentos xas de saúde à farmácia, o farmacêutico po-
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 43

O engajamento efetivo do farmacêutico no CONSIDERAÇÕES FINAIS


11
~
atendimento de transtornos menores e au-
tomedicação responsável poderia ajudar a A dispensação de medicamentos é uma ati-
reduzir a demanda dos serviços públicos de vidade tradicional farmacêutica focada na
atenção primária à saúde, reservando mais
tempo para o atendimento médico de con-
entrega de produtos, na resolução de pro-
dições dínicas mais complexas e de pior blemas com a prescrição e na informação
prognóstico. ao paciente.~ desejável que a prática do far-
macêutico se destaque das atividades co-
merciais simples da farmácia e que níveis
de atendê-lo em um modelo clínico, em um superiores de serviço clínico sejam provi-
contexto mais de consulta do que de dis- dos em conjunto com a dispensação. Além
pensação. Argumentos de que os pacientes da dispensação, o farmacêutico pode dis-
não têm tempo ou não estão interessados ponibilizar serviços farmacêuticos clínicos
são meias verdades. Pacientes não tê1n tem- na farmácia, incluindo a própria consulta
po e não estão interessados em conversar sobre medicamentos ou aconselhamen to ao
com vendedores, pois não confiam em suas paciente, sob o contexto de um serviço de
sugestões e, de modo geral, são cientes dos revisão dos medicamentos. Esta deve ser
enormes conflitos de interesse presentes. feita em área reservada, privada ou semipri-
Entretanto, pacientes buscam e precisam vada, e deve ser destinada apenas àqueles
conversar com profissionais da saúde so- pacientes com maior necessidade ou sob
bre seus problemas, pois confiam no emba- demanda espontânea. Para pacientes em
samento técnico e científico de seus conse- transferência de nível assistencial, a revisão
lhos e necessitam de seus serviços. Em ou- da utilização de medicamentos permite que
tras palavras, se o farmacêutico apresenta se faça a chamada conciliação de medica-
postura de vendedor e trabalha no comér- mentos. Outros serviços já citados incluem o
cio, as expectativas dos usuários sobre esse manejo de transtornos menores, campa-
profissional serão baixas. Contudo, o far- nhas de saúde, rastreamento de doenças e
macêutico clínico que atua na comunidade seguimento farmacoterapê utico (Parte 2
e que disponibiliza ambientes clínicos de do livro). A incorporação desses serviços
atendimento faz surgir a demanda que se clínicos cria o ambiente favorável para a
construirá com base na competência de- transformação da farmácia comunitária em
monstrada pelo profissional. estabeleci1nento de saúde.

"
REFERENCIAS
11 Pacientes não têm tempo e não estão interes-
sados em conversar a>m vendedores, pois não
~ confiam em suas sugestões e., de modo geral,
são cientes dos enormes conflitos de interesse
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Aspectos legais sobre o ato âe
dispensar medicamen tos
GRACCE MARIA SCOTT BARETA

~··
população aos n1edicamentos e a omissão
O princípio da legalidade, pre-
sente no inciso li do artigo 5° do
da legislação ordinária brasileira no que se
texto constitucional que trata dos refere à Responsabilidade Técnica em Dis-
direitos e deveres individuais e coletivos -·nin- pensários de Medicamentos na atualidade.
guém será obrigado a fazer ou deixar de fazer al-
guma coisa senão em virtude de lei"'-, reflete-
-se nas práticas profissionais do farmacêutico,
na medida em que este tem a obrigação de cum- Definição dos limites profissionais
prir e fazer cumprir as leis vigentes em seu ãm-
bito profissional. Ao longo da história, a ampliação do conhe-
cin1ento técnico-científico levou à divisão do
Com esse respaldo da Constituição, o trabalho, con1 a consequente proliferação
artigo 10 do Código de ttica da Profissão das profissões, incluindo as de saúde.3 Desse
Farmacêutica estabelece co1no princípio que fato, decorre o surgimento de uma área dinâ-
"o farmacêutico deve cumprir as disposições mica de conhecimento comum entre essas
legais que disciplinam as práticas profissio- profissões, na medida em que os novos co-
nais no País [... ]''. 2 Nesse contexto, o objetivo nhecimentos se incorporam às práticas e
deste capítulo é discutir um arcabouço teóri- modificam-se as necessidades coletivas e in-
co que contribua com o farmacêutico no ato dividuais no suprimento de serviços de saú-
de dispensar medican1entos, considerando de, gerando novas percepções sobre o âmbi-
alguns aspectos legais e funda1nentais para o to profissional, e crescenten1ente interdepen-
exercício da profissão nessa área de atuação. dente. Essa interface entre as profissões de
saúde acaba dificultando o estabelecimento
dos limites do que seja atribuição privativa a
DISPENSAÇÃO DE MEDICAMENTOS
- FARMACEUTICOS
POR NAO "

11 A interface entre as profissões de saúde

~
É possível discutir e argumentar essa ques- acaba dificultando o estabelecimento dos
limites do que seja atribuição privativa a
tão abordando três aspectos a partir do que cada uma delas, gerando alguns dos con-
está disposto na legislação brasileira: a defi- flitos interprofissionais.
nição dos limites profissionais, o acesso da
48 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

cada uma delas, gerando alguns dos conflitos ticas individuais, no intuito de decidir cor-
interprofissionais. retamente sobre o problema específico do
Assim, surge uma primeira questão le- paciente e a avaliação dos sintomas, anali-
gal sobre o ato de dispensar medicamentos, sando se estes podem ou não estar associa-
a qual constitui a dificuldade do legislador dos a uma patologia grave, recomendando,
em dispor esse ato como privativo do far- nesse caso, a assistência médica.8
, . na mesma proporçao
maceut1co, - em que se É importante ressaltar que a Instrução
torna difícil limitar a prescrição de medica- Normativa nº 10, de 17 de agosto de 2009,
mentos como privativa de médicos e cirur- aprovou a relação dos MIPs que poderão
giões-dentistas. permanecer ao alcance dos usuários para
Nesse contexto, Guzmán,4 ao abordar obtenção por meio de autosserviço em far-
a interface entre médicos e farmacêuticos, mácias e drogarias. São eles: medicamentos
restringe a dispensação de medicamentos fitoterápicos e medicamentos administra-
pelo médico às amostras grátis, assim como dos por via tópica, de acordo com o especi-
restringe a prescrição de medicamentos pe- ficado no ato do registro junto à Agência
lo farmacêutico àqueles cuja dispensação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e
seja independente da apresentação de pres- medicamentos sujeitos a notificação sim-
crição médica (medicamentos isentos de plificada, de acordo com a Resolução RDC
prescrição - MIPs). n° 199, de 26 de outubro de 2006.9, 10
A reunião da Organização Mundial da
Saúde (OMS)5 reconheceu a iniciativa do
farmacêutico para indicar tratamentos com AInstrução Normativa nº 1O, de 17 de agos-
MIPs, o que está respaldado na legislação to de 2009, aprovou a relação dos MIPs que
sanitária federal brasileira, infraordinária, poderão permanecer ao alcance dos usuá-
rios para obtenção por meio de autosservi-
ainda que indiretamente, por meio da RDC ço em farmácias e drogarias. São eles: me-
n° 138, de 29 de maio de 2003, que estabele- dicamentos fitoterápicos e medicamentos
ce a possibilidade de MIPs como categoria administrados por via tópica, de acordo
com o especificado no ato do registro junto
de venda,6 e da RDC n° 44, de 17 de agosto
à Agência Nacional de Vigilância Sanitária
de 2003, artigo 20, que reconhece as atribui- (Anvisa), e medicamentos sujeitos a notifi-
ções do farmacêutico, em farmácias e dro- cação simplificada.
garias, estabelecidas pelos Conselhos Fede-
ral e Regionais de Farmácia, desde que ob-
servada a legislação sanitária.7 Em relação à legalidade da distribui-
Nesse contexto, emana do Conselho ção de amostras grátis de medicamentos
Federal de Farmácia (CFF) a Resolução n° pelos médicos e cirurgiões-dentistas, esta
357, de 20 de abril de 2001, que, em seu ar- decorre do artigo 170 do Decreto nº 79.094,
tigo 56, sobre as atribuições do farmacêuti- de 5 de janeiro de 1977, com exceção da-
co na automedicação responsável, dispõe queles que contenham substâncias entorpe-
que este, no caso de patologias menores, de- centes ou que produzam dependência física
verá dar conselhos adequados ao usuário, ou psíquica. 11 Ainda ficam proibidas as
só devendo dispensar os medicamentos em amostras grátis de produtos biológicos e as
casos de absoluta necessidade, fundamenta- preparações magistrais de medicamentos,
dos na avaliação das necessidades do usuá- segundo parágrafos § 1° e § 2° do artigo 3°
rio, por meio dos sintomas e das caracterís- da RDC nº 60, de 26 de novembro de 2009.7
A prótica farmacêutica na farmócla comunltória 49

Contudo, independentemente de à omissão da Lei Ordinária Federal, que rege


quem esteja dispensando o medicamento e, a dispensação de medicamentos no Brasil.
ao mesmo tempo, lembrando que a quali-
dade na dispensação constitui um dos fun-
damentos do sucesso terapêutico, uma se-
Omissão da Lei Ordinária Federal
gunda questão relacionada ao ato de dis- em relação à responsabilidade
pensar diz respeito à necessidade do acesso técnica em dispensários de
aos medicamentos pela população, a qual medicamentos
será abordada a seguir.
Para entender o impacto da lei na dispensa-
ção de medicamentos, convém entender a
Acesso aos medicamentos estrutura hierárquica das leis no Brasil.
A Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de
Parece lógico que, nas comunidades cujo aces- 1973, 13 que rege a dispensação de medica-
so necessário a medicamentos esteja pre- mentos, faz parte de um elenco de leis que,
judicado pela inexistência de profissionais em seu sentido formal, emanam do Poder
farmacêuticos que assumam ou estejam Legislativo e que, em seu sentido amplo,
dispostos a assumir a responsabilidade pela emanam do Poder Executivo e de outras au-
sua dispensação, se siga a recomendação da toridades competentes. Em nosso caso, con-
Organização Mundial da Saúde (0MS) 12 vém ressaltar estas outras principais autori-
para que esta deva ser atribuída a outros dades competentes: a Anvisa, o Conselho Fe-
profissionais da saúde ou a leigos disponí- deral de Farmácia, o Conselho Nacional de
veis, os quais demonstrem algum preparo Saúde (CNS), com suas Resoluções, e o Mi-
para atuar na dispensação de medicamen- nistério da Saúde, com suas Portarias. 13•15•16
tos. Nesse sentido, a Lei n° 5.991, de 17 de
dezembro de 1973, artigos 29 e 30, e seu De-
11 A Lei n° 5.991, de 17 de dezembro de
creto n° 74.170, de 10 de junho de 1974, ar- 1973, que rege a dispensação de medica-
tigos 17 e 18, preveem a venda de medica-
mentos industrializados em postos de me-
~ mentos, faz parte de um elenco de leis
que, em seu sentido formal, emanam do
Poder Legislativo e que, em seu sentido
dicamentos ou em unidades volantes,
amplo, emanam do Poder Executivo e de
autorizados pela Vigilância Sanitária em lo- outras autoridades competentes.
cais destituídos de farmacêuticos dispostos
a aceitar a assunção de responsabilidade
técnica. 13•14 A Lei n° 5.991, de 17 de dezem- Na estrutura hierárquica da lei, apre-
bro de 1973, 13 por força do artigo 6°, pará- sentada no Quadro 3.1, estão dispostas es-
grafo único, também permite aos hotéis e pécies de leis, organizadas a partir de sua
similares, sem a responsabilidade técnica de posição hierárquica, a qual define a relação
farmacêutico, a manutenção de medica- de poder entre elas, influenciando, em todo
mentos que denomina de anódu1os, de ven- ou em parte, a validade jurídica do que dis-
da livre, para suprir as necessidades de seus põem e, portanto, as decisões judiciais. 15•17
hóspedes. A terceira questão implica a omissão
Uma última e fundamental questão, da Lei nº 5.991, de 17 de dezembro de 1973,
que leva à dispensação de medicamentos por quanto à responsabilidade técnica nos dis-
profissionais não farmacêuticos, diz respeito pensários de medicamentos, a qual ocupa
A prático farmacêutica na farmácla comun.itárla Sl

seu uso racional, tanto a Política Nacional direito à informação e orientação quanto ao
de Assistência Farmacêutica 19 como a Polí- uso de medicamentos", sendo considerados
tica Nacional de Medicamentos ,20 ao abor- "elementos importantes da orientação, en-
darem a questão da assistência farmacêuti- tre outros, a ênfase no cumprimento da po-
ca, englobam, entre outras atividades, a dis- sologia, a influência dos alimentos, a intera-
pensação de medicamentos , sendo que, na ção com outros medicamentos , o reconhe-
Política Nacional de Medicamentos , a defi- cimento de reações adversas potenciais [... ] "
nição de dispensação consta como ato far- que passam pela avaliação da receita, para
• •
maceutico. os medicamentos que dependam de pres-
crição médica, sendo atribuição do farma-
cêutico, segundo o artigo 44 e o parágrafo §
11 Tanto a Política Nacional de Assistência 1° do artigo 52 da mesma resolução. 22
Farmacêutica como a Política Nacional de
~
Dessa questão, emergem duas consi-
Medicamentos, ao abordarem a questão
da assistência farmacêutica, englobam, derações importantes:
entre outras atividades, a dispensação de
medicamentos, sendo que, na Política Na- • Avaliando o contexto em que o ato de
cional de Medicamentos, a definição de dispensar não é exclusivo do farmacêu-
dispensação consta como ato farmacêu-
tico, cabe o artigo 22 da RDC nº 44, de
tico.
17 de agosto de 2009, que permite a de-
legação do ato de dispensar, pelo farma-
Atos farmacêuticos, segundo o artigo cêutico responsável técnico, ao auxiliar
6° do anexo 1 da Resolução/CFF n° 357, de técnico sob sua supervisão, em farmá -
20 de abril de 2001, constituem "atos privati- cias e drogarias.
vos do farmacêutico por seus conhecimentos • Avaliando a necessidade de farmacêuti -
adquiridos durante sua formação acadêmica co para informação e orientação profis-
como perito do medicamento':8 que, na in- sionais adequadas, cabe a limitação do
terpretação do que consta no Código de Éti- artigo 15 da Lei n° 5.991, de 17 de de-
ca da Profissão Farmacêutica, artigo 13, inci- zembro de 1973, que exige responsável
so XVIII, são atos exclusivos e, portanto, in- técnico em farmácias e drogarias, sem,
delegáveis. 2 no entanto, determinar, a exemplo da
Os atos privativos do farmacêutico es- Lei n° 6.360, de 23 de setembro de 1976,
tão regulamentado s no Decreto n° 85.878, a qual rege, entre outras, as práticas na
de 7 de abril de 1981, que estabelece seu área de produção industrial de medica-
âmbito profissional. 21 Entretanto, interpre- mentos, que o número de farmacêuticos
tando seu artigo 1°, inciso I, a dispensação seja qualitativa e quantitativame nte su-
de medicamentos , enquanto função priva- ficiente para o desenvolvimen to da ati-
tiva do farmacêutico, não aparece extensiva vidade de dispensar medicamentos, em
aos medicamentos industrializados, fican- detrimento da RDC nº 44, de 17 de
do restrita aos medicamentos manipulados. agosto de 2009, artigo 23, que determi-
As boas práticas de dispensação estabe- na, como atribuição do responsável le-
lecidas pela RDC nº 44, de 17 de agosto de gal pelo estabeleciment o, o provimento
2009,22 no caput do artigo 42 e no seu pará- de recursos humanos e de condições ne-
grafo§ 2°, determinam que "o estabelecimen- cessárias ao cumprimento da referida
to farmacêutico deve assegurar ao usuário o Resolução.13,22,23
S2 Cassyano J. Correr & Mlcbel F. Otuld

O resultado é que esses estabeleci- 2009,22 que avança no papel do farmacêuti -


. . ,., , .
mentos, em sua ma1or1a, mantem um un1co co em relação à farmacoterapia, esta posição
farmacêutico por período, e, nesse contexto, carece de respaldo da legislação ordinária.
a avaliação que se pode fazer é que, entre a
responsabilidade de supervisionar e as atri-
buições peculiares à dispensação, além do O CONCEITO DE DISPENSAÇÃO
elenco de outras atribuições, existe uma in- DE MEDICAMENTOS NA
coerência com o ideal, do ponto de vistasa- LEGISLAÇÃO ORDINÁRIA
nitário e profissional, para dispensação de
medicamentos, na medida em que supervi- Uma vez que as políticas em si têm como
sar significa "dirigir ou orientar inspecio- objetivo estabelecer cliretrizes, na questão
nando [... ] de um nível superior",24 e que, específica da dispensação de medicamen-
ao contrário, a clispensação, enquanto ato tos, estas se limitam a sinalizar o futuro al-
farmacêutico, pressupõe a interação direta mejado que será possível concretizar-se, na
entre farmacêutico e paciente, o que justifi- medida em que o conceito de dispensação
ca o ato como privativo e indelegável. O ato de medicamentos que permeia a Política
de clispensar exige troca de informações, Nacional de Meclicamentos20 seja incorpo-
análise imecliata da situação, orientações e, rado à Lei n° 5.991, de 17 de dezembro de
portanto, proximidade entre farmacêutico e 1973, 13 ou àquela que venha substituí-la,
paciente, ideia que se suprime com o uso do uma vez que, na hierarquia das leis, esta dá
termo "supervisão'~ quando se trata de um respaldo legal à legislação infraordinária.
único farmacêutico com uma amplitude de Assim, o princípio da obrigatoriedade,
atribuições para a demanda de usuários nos em relação ao cumprimento da lei, está asso-
estabelecimentos e a complexidade do ato ciado ao poder hierárquico que as Leis Ordi-
de dispensar. nárias Federais possuem e que as sobrepõe
aos atos administrativos supracitados: De-
cretos do Executivo, Resoluções emanadas
do CFF e da Anvisa, bem como Portarias
11 Oato de dispensar exige troca de informa- emanadas da extinta Secretaria de Vigilância
ções, análise imediata da situação, orien-
~
Sanitária/Ministério da Saúde e do Ministro
tações e, portanto, proximidade entre far-
macêutico e paciente, Ideia que se supri-
da Saúde. A legislação, nesse âmbito, emana-
me com o uso do termo "supervisão'~ da das esferas estaduais e municipais, sub-
quando se trata de um único farmacêutico mete-se à legislação federal. l 7
com uma amplitude de atribuições para a Conceitualmen te., a dispensação de
demanda de usuários nos estabelecimen-
tos e a complexidade do ato de dispensar. medicamentos está na Lei n° 5.991, de 17 de
dezembro de 1973, artigo 4°, inciso XV, co-
mo um mero "ato de fornecimento ao con-
sumidor de drogas, meclicamentos, insu-
Todavia, embora o Conselho Federal mos farmacêuticos e correlatos, a titulo re-
de Farmácia considere a dispensação de munerado ou não': 13 clissociada da atuação
medicamentos como ato farmacêutico,8 à do farmacêutico. No estudo de Arrais e co-
semelhança do que está posto na definição laboradores, 25 há mostras das consequên-
adotada pela Política Nacional de Meclica- cias desse conceito, com apenas 23,6o/o da
mentos e a RDC n° 44, de 17 de agosto de dispensação, no setor privado, realizada por
A prótlca farmacêutica na farmócla camunltórla S3

farmacêutico. O restante, 57,1 e 19,2%, res- ção no Brasil, o qual já não serve, ante os
pectivamente, é realizada por balconistas e avanços na farmacoterapia, ao modelo de
outros funcionários. saúde e às consequentes perspectivas para a
Essa brecha conceitual na lei constitui atuação do farmacêutico.
um dos pontos importantes que, aliada aos
conflitos de interesse, dá margem às más
práticas relacionadas à dispensação de me- 11 Otratamento legal dado pela Lei nº 5.991 ,
de 17 de dezembro de 1973,13 aos esta-
~
dicamentos no Brasil: a venda indiscrimi-
belecimentos que dispensam medica-
nada e desnecessária de medicamentos por mentos, considerando-os comércio, carac-
leigos; a ilegalidade na venda de medica- teriza o modelo de dispensação no Brasil,
mentos pelas farmácias e drogarias, caracte- o qual já não serve, ante os avanços na far-
macoterapia, ao modelo de saúde e às
rizada pela não exigência da apresentação
consequentes perspectivas para a atua-
da receita médica ou odontológica, quando ção do farmacêutico.
obrigatória; a substituição indevida de me-
dicamentos prescritos; a precariedade de
orientação sobre o uso de medicamentos; a
questão econômica, preponderante sobre a
RESPONSABILIDADE PELA
técnica, a ciência e as humanidades, sinali- DISPENSAÇÃO DE MEDICAMENTOS
zada pelas comissões oferecidas e aceitas so-
As más práticas no ato de dispensar interfe-
bre a venda de medicamentos, todas contri-
rem no processo saúde/doença, aumentan-
buindo para o seu uso irracional. 25• 3 1
do a possibilidade concreta de ocorrência
A ementa da Lei n° 5.991, de 17 de de-
de danos ou risco de danos aos usuários de
zembro de 1973, quando remete à dispensa-
medicamentos, sendo passiveis de respon-
ção de medicamentos como ato de comér-
sabilização.
cio, dispondo "sobre o controle sanitário do
Se, por um lado, a legislação referente
comércio de [ ... ] medicamentos [... ]': con-
ao ato de dispensar precisa avançar, por ou-
flita com a ideia de que o medicamento não
tro, contém determinações com o objetivo
deva ser tratado como uma mercadoria,
de salvaguardar a saúde individual e coletiva
mas como um insumo intermediário nos
e, portanto, a responsabilidade legal pela dis-
serviços de saúde, 13•32 sendo necessária a
pensação de medicamentos, ante a prática de
avaliação sobre a necessidade ou não de seu
atos ilícitos, o que acarreta a possibilidade de
uso no tratamento e cuja dispensação não
instauração de processos e aplicação de san-
deve se limitar a um ato comercial, com a
ções, sendo que a responsabilidade do far-
mera entrega do medicamento para consu-
macêutico é permeada por suas característi-
mo, mas a um procedimento profissional,
cas, enquanto profissional liberal.
voltado ao uso racional do medicamento.
O tratamento legal dado pela Lei nº
5.991, de 17 de deze1nbro de 1973, 13 aos es- ATOS ILÍCITOS
tabelecimentos que dispensam medica-
mentos, considerando-os comércio, man- Por atos ilícitos, entendem-se aqueles "con-
tendo um conceito obsoleto de dispensação cretizados em um procedimento em desa-
de medicamentos que exclui o farmacêuti- cordo com a ordem legal",33 fruto da con-
co, priorizando a manipulação de medica- duta humana que, nesse caso, é contrária à
mentos, caracteriza o modelo de dispensa- ordem jurídica. Nesse contexto, persistem,
S4 Cassyano J. Correr & Michel F. Otu.ki

no Direito, as noções de dolo e culpa, em re- Mirabete34 ainda estabelece a diferença


lação ao comportamento do agente que co- entre imperícia e erro profissional. No erro, o
mete o ato ilícito: dano ou o perigo deriva da conclusão equi-
vocada do profissional, a partir do emprego
• Dolo: caracterizado pela infração cons- correto e oportuno dos conhecimentos e das
ciente do dever preexistente ou pela infra- regras inerentes ao procedimento, descarac-
ção da norma com consciência do resulta- terizando a imperícia.
do, aliada à vontade de realizar o fato.
• Culpa: caracterizada pela infração in-
consciente do dever, quando o agente
11 No erro, o dano ou o perigo deriva da con-
não prevê resultado que é previsível, ou

~
clusão equivocada do profissional, a partir
quando o agente não tem conhecimento do emprego correto e oportuno dos conhe-
efetivo do p erigo que sua conduta pro- cimentos e das regras inerentes ao procedi-
voca. mento, descaracterizando a imperícia.

A culpa também pode ser caracteriza-


da pela infração consciente do dever, quan- "
O FARMACEUTICO COMO
do o agente prevê o resultado, mas acredita PROFISSIONAL LIBERAL
que conseguirá evitá-lo por sua habilidade.
Apesar da semelhança entre o dolo e a cul- O fato d e o exercício da profissão farma-
pa consciente, a diferença consiste no fato cêutica estar atrelado a um diploma cientí-
de que, na culpa consciente, o agente não fico, concedido por faculdades ou univer-
aceita o resultado previsto como possível e, sidades oficialmente reconhecidas por au-
no dolo, o agente, emb ora o preveja, não se toridade competente, indica que seu
importa que ele venha a se concretizar.33•34 desempenho exige conhecimentos científi-
A culpa apresenta-se em três modalidades, cos, tratando-se de urna profissão de cunho
de acordo com o Quadro 3.2. intelectual, pois as impressões recebidas

QUADRO 3.2 Modalidades de culpa

Modalidade de culpa Conceito

Negligência Caracteriza-se pela indiferença do agente que, podendo tomar


as cautelas exigíveis, não o faz por displicência ou preguiça
mental.
Imprudência Quando o agente atua com precipitação, inconsideração,
afoitamento, sem cautela.
Imperícia Caracteriza-se pela falta de conhecimentos teóricos ou
práticos no exercício de arte ou profissão, não levando o agente
em consideração o que sabe ou deve saber.

Fonte: Mirabete.34
A prótlca farmacêutica na farrnócla comunltória SS

pelos sentidos do farmacêutico, no exercí- sua parcela de responsabilidade sobre o ato


cio da profissão, tornam-se inteligíveis a delegado.
ele pela sua capacidade intelectual de dar
significado a elas, utilizando-se do conhe-
cimento técnico-científico. 35- 37 Essas con- NATUREZA DA
dições básicas caracterizam uma profissão RESPONSABILIZAÇÃO
liberal e, portanto, caracterizam a profis-
são farmacêutica como uma profissão li- A responsabilização pelos atos praticados
beral. na dispensação de medicamentos pode ser
Embora, no Brasil, o farmacêutico que de natureza administrativa, civil e penal.
atue na dispensação de medicamentos esteja,
na maioria das vezes, exercendo a profissão
com vínculo empregatício, isso não altera RESPONSABILIDADE
sua condição de profissional liberal, com au- ADMINISTRATIVA
tonomia técnica e intelectual para decidir ou
agir, isto é, livre de qualquer subordinação a As sanções administrativas, de cunho ético-
um patrão ou chefe e com responsabilidade -disciplinar e sanitário, permeiam a dispen-
pelos seus atos, que é pessoal.3s.3s sação de medicamentos e, respectivamente,
recaem sobre o profissional farmacêutico,
pela autoridade dos Conselhos Regionais de
11 Embora, no Brasil, o farmacêutico que atue Farmácia, e sobre os estabelecimentos que
na dispensação de medicamentos esteja,
~
os dispensam, bem como sobre os medica-
na maioria das vezes, exercendo a profis-
mentos em posse desses estabelecimentos,
são com vínculo empregatício, isso não al-
tera sua condição de profissional liberal, pela autoridade das Vigilâncias Sanitárias.
com autonomia técnica e intelectual para Ambos possuem Poder de Polícia para fis-
decidir ou agir, isto é, livre de qualquer su- calizar e punir, no âmbito de suas atribui-
bordinação a um patrão ou chefe e com
responsabilidade pelos seus atos, que é
ções, pois fazem parte da Administração
pessoal. Pública, satisfazendo:39

[ ... ] à triplice objetivo, quaJ seja, o de


Diante de sua autonomia técnica e in- assegurar a tranquilidade, a seguran-
telectual, o farmacêutico, no exercício da ça e a salubridade públicas, caracteri-
za-se pela competência para impor
profissão, responde legalmente pelos atos
medidas que visem a taJ desideratum,
praticados ou que autorizou a praticar, co- podendo ser entendido como a fa-
mo determina o Código de Ética da Profis- culdade discricionária· da Adminis-
são Farmacêutica, artigo 4°,2 independente- tração de limitar, dentro da lei, as li-
mente de estar na condição de responsável berdades individuais em prol do in-
técnico ou de estar exercendo função espe- teresse coletivo.
cializada, mesmo que sob a direção de ou-
tro profissional farmacêutico ou, ainda,
submetido a um contrato de trabalho. Em
• Discricionário: "Assim se diz de todo poder que não
relação aos atos delegados pelo farmacêuti-
está limitado que se dirige pela própria vontade do
co, compete a ele intervir sempre que julgar agente, sem qualquer limitação exterior, segundo sua
procedente, na medida em que ele mantém própria discrição ou entendimento". 35
S6 Cassyano J. Correr&: Mlchel F. Otuld

RESPONSABI.LIDADE cessidade de se estabelecer, entre outras me-


, didas, um controle sanitário sobre a abertura
ETICO-DISCIPLINAR
de farmácias e drogarias com o objetivo de
O profissional farmacêutico fica sujeito a conseguir uma distribuição geográfica equi-
sanções de cunho ético-disciplinar, previs- tativa para garantir aos pacientes um acesso
tas no artigo 30 da Lei n° 3.820, de 11 de no- seguro aos medicamentos, evitando o mer-
vembro de 1960, ao descumprir dispositi- cantilismo e garantindo a sobrevivência des-
vos estabelecidos pelo Código de Ética da ses estabelecimentos como estabelecimentos
Profissão Farmacêutica. São elas: advertên- de saúde, na medida em que, diminuindo a
cia, multa, suspensão temporária da ativi- concorrência para níveis aceitáveis e aten-
dade profissional e eliminação do quadro dendo às necessidades relacionadas à saúde
de farmacêuticos dos Conselhos Regionais da população, não se estimule sua caracteri-
de Farmácia.2·36 zação como comércio.12,40
É determinante para o cumprimento
do Código de Ética da Profissão Farmacêu- Aquestão mercantilista que envolve a dis-
tica, p rimordialmente, a consciência profis- pensação de medicamentos impõe a ne-
sional do farmacêutico, que inclui sua cons- cessidade de se estabelecer, entre outras
ciên cia moral, agindo de forma a compati- medidas, um controle sanitário sobre a
abertura de fannácias e drogarias com o
bilizar as bases técnico-científica, legal, objetivo de conseguir uma distribuição
institucional, cultural e econômica que per- geográfica equitativa para garantir aos pa-
meiam o sistema nos estabelecimentos que cientes um acesso seguro aos medicamen-
dispensam medicamentos. 4 41 º· tos, evitando o mercantilismo e garantin-
do a sobrevivência desses estabelecimen-
Em relação ao que dispõe o Código de tos como estabelecimentos de saúde.
Ética da Profissão Farmacêutica, as seguin-
tes áreas temáticas são norteadores na dis-
pensação de medicamentos: a relação, no As decisões da Justiça Brasileira têm si-
exercício profissional, com a questão co- do, na medida das possibilidades legais, no
mercial, com o cumprimento da lei, com o sentido de coibir o comércio em farmácias e
fato de a p rofissão farmacêutica ser urna drogarias, conforme a decisão do Superior
profissão liberal, com outros profissionais Tribunal de Justiça, transcrita a seguir:42
de saúde e usuários e com a bioética. Cada
uma dessas áreas será abordada a seguir. ADMINISTRATIVO. PODER DE
POLlClA. FAllMACJA. DROGARIA.
COMERCIALIZAÇÃO DE MEDI-
Comércio CAMENTOS E CORRELATOS. NA-
TUREZA VINCULADA. VENDA DE
O Código de Ética da Profissão Farmacêuti- PRODUTOS DIVERSOS. IMPOSSI-
ca estabelece, no artigo 8°, como um dos BILIDADE.
princípios fundamentais para o exercício 1. As razões do recorrente consubs-
profissional, que "a profissão farmacêutica, tanciam-se na impossibilidade de
em qualquer circunstância ou de qualquer comercialização de produtos diver-
forma, não pode ser exercida exclusivamen- sos de medicamentos e seus correla-
te com objetivo comercial '~2 tos em drogarias e farmácias.
A questão mercantilista que envolve a 2. Esta assertiva coaduna-se com a
dispensação de medicamentos impõe a ne- jurisprudência desta Corte, que já es-
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltórla S7

tabeleceu que a licença para funcio- mento da lei, nas práticas farmacêu-
namento de farmácia ou drogaria ticas, também é abordado pelo Códi-
constitui ato de natureza vinculada, go de Ética da Profissão Farmacêutica,
sendo vedada a utilização das depen- no inciso XV do artigo 13, quando se
dências desses estabelecimentos para proíbe ao farmacêutico" [ ... ] dispen-
fim diverso do previsto no licencia- sar ou permitir que seja dispensado
mento (Lei nº 5.991, arts. 21 e 55). medicamento em contrariedade à le-
Portanto, não há plausibilidade jurí- gislação vigente", ou, no inciso XIX
dica da utilização desses estabeleci- do mesmo artigo, quando o proíbe
mentos para vender alimentos ou de "omitir-se e/ou acumpliar-se com
utilitários domésticos. os que exercem ilegalmente a Farmá-
cia, ou com profissionais ou institui-
ções farmacêuticas que pratiquem
Contudo, as iniciativas tomadas no
atos ilícitos''. 2
sentido de minimizar a caracterização des-
ses estabelecimentos como comércio e ma-
Dessa forma, ao descumprir a lei, in-
ximizá-los como estabelecimentos de saúde
cluindo a legislação sanitária, o farmacêuti-
também acabam esbarrando nas decisões
co também caracteriza a prática de um ato
judiciais, como tem acontecido a exemplo
ilícito de caráter ético-disciplinar, sujeito a
da ação de inconstitucionalidade sobre a
responder ao Conselho Regional de Farmá-
Lei nº 10.307, de 6 de maio de 1999, do Es-
cia de sua jurisdição.
tado de São Paulo, que pretendeu determi-
nar o zoneamento das farmácias e drogarias
naquele Estado, fixando distância mínima
para a instalação desses estabelecimentos, a
Profissão liberal
qual foi julgada, pelo Supremo Tribunal Fe-
deral, como procedente, por julgar incons- O sistema que permeia os estabelecimentos
titucional o zoneamento proposto: de dispensação tem conflitado com as de-
terminações do Código de Ética da Profis-
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITU- são Farmacêutica, na medida em que as
CIONALIDADE [... ) 3 [... ] FIXA- práticas, como já visto, têm estado atreladas
ÇÃO DE DISTÂNCIA MÍNIMA PA- mais aos interesses comerciais do estabele-
RA A INSTALAÇÃO DE NOVAS cimento do que aos interesses da saúde.
FARMÁCIAS E DROGARIAS. 4. IN- O perfil do farmacêutico como profis-
CONSTITUCIONALIDADE FOR- sional liberal que possui, na sua base, o di-
MAL. NORMA DE INTERESSE
ploma científico e a autonomia intelectual
LOCAL EDITADA PELO ESTA-
não justifica a conformação do farmacêuti -
DO-MEMBRO. 5. INCONSTITU-
CIONALIDADE MATERIAL. DES- co ao sistema. Pelo contrário, o Código de-
CUMPRIMENTO DO PRINCfPIO termina, no artigo 7°, que o farmacêutico
CONSTITUCIONAL DA LIVRE mantenha "atualizados os seus conheci-
CONCORR.BNCIA. AÇÃO DIRETA mentos técnicos e científicos" e que assuma
PROCEDENTE.43 uma conduta autônoma diante das decisões
Cumprimento da lei:
e ações profissionais, conduta prevista no
Como o objetivo da lei é harmonizar Código, no artigo 13, inciso XVII, quando
as relações, mantendo a ordem e a proíbe ao farmacêutico "aceitar a interfe-
disciplina, indispensáveis à vida nor- rência de leigos em seus trabalhos e em suas
mal de uma coletividade, o cumpri- decisões de natureza profissional".2
S8 Cassyano J. Correr&: Mlchel F. Otukl

Profissionais da saúde e usuários primento do referido Código, que orienta a


conduta do farmacêutico em relação aos
A dispensação de medicamentos pressupõe princípios bioéticos, descritos em Connor e
a relação do farmacêutico com o prescritor Fuezalida-Puelma.44 São eles:
e com o usuário do medicamento, e, nesse
sentido, o Código de Ética da Profissão Far- • O princípio da beneficência, presente no
macêutica, artigo 17, inciso V, determina artigo 3° do Código de Ética da Profis-
que o farmacêutico deve estar comprometi- são Farmacêutica: "a dimensão ética da
profissão farmacêutica é determinada,
do em "manter a confiança dos membros da
em todos os seus atos, pelo benefício ao
equipe de trabalho e do público em geral': 2
ser humano [... ]': 2
• O princípio da não 1naleficência, presen-
te no artigo 11, inciso VII, do Código de
A dispensação de medicamentos pres-
supõe a relação do farmacêutico com o Ética da Profissão Farmacêutica: é dever
prescritor e com o usuário do medica- do farmacêutico "respeitar a vida huma-
mento. na, jamais cooperando com atos que in-
tencionalmente atentem contra ela ou
que coloquem em risco sua integridade
Considerando que a confiança, na re- física ou psíquica': e no artigo 13, inciso
lação, é uma conquista, ela depende, funda- IV: "é proibido ao farmacêutico praticar
mentalmente, da conduta científica e moral ato profissional que cause dano físico,
do farmacêutico e de suas consequências.40 moral ou psicológico ao usuário do ser-
Quando, nos estabelecimentos farmacêuti- viço, que possa ser caracterizado como
cos, contrariando o que diz o Código de imperícia, negligência ou imprudência':2
Ética da Profissão Farmacêutica, em seu ar- • O princípio do respeito à pessoa, que se
tigo 17, inciso VI, o farmacêutico não se li- configura, primordialmente, como o
mita às suas atribuições, dispensando ou respeito à autonomia do usuário, basea-
permitindo que se dispensem medicamen- da no consentimento livre e esclarecido,
tos que dependem da apresentação da pres- presente no artigo 11, inciso IV, do Có-
crição médica sem a apresentação desta ou digo de Ética da Profissão Farmacêutica:
substituindo, de forma ilegal, o medica- o farmacêutico deve "respeitar o direito
mento prescrito, ou, contrariando o artigo de decisão do usuário sobre sua própria
11, inciso Ili, não fornece informações ade- saúde e bem-estar [... ]':e no artigo 15,
quadas ao paciente, ou, ainda, contrariando inciso VI, "é vedado ao farmacêutico
o artigo 11, inciso VI, o profissional não promover pesquisa na comunidade, sem
guarda sigilo, criam-se condições favoráveis o seu consentimento livre e esclarecido,
à ocorrência de danos, capazes de minar a e sem que o objetivo seja a proteção ou a
relação de confiança e trazer a desarmonia promoção da saúde". 2 Considerando
para essas relações. 2 que a autonomia nunca é absoluta, se,
por um lado, o farmacêutico deve res-
peitar o paciente em sua integralidade,
Princípios da bicética considerando-o em seus aspectos bioló-
gico, psicológico, social e cultural, por
A dispensação de medicamentos, praticada outro, ao paciente, não cabe exigir que o
como ato comercial e sem orientação profis- farmacêutico aja em desacordo com os
sional adequada, contribui para o descuro- preceitos profissionais para satisfazê-lo.
A prótica farmacêutica na farmócla comunitória S9

• O princípio da justiça, a partir do qual o • sobre o estabelecimento: a advertência, a


paciente deve receber um tratamento multa, a interdição parcial ou total, o
justo e merecido e, segundo o artigo 3° cancelamento de autorização para fun-
do Código de Ética da Profissão Farma- cionamento, o cancelamento do alvará
cêutica, "sem qualquer discriminação'~ 2 de licenciamento e a intervenção no es-
tabelecimento que receba recursos pú-
blicos de qualquer esfera;
RESPONSABILIDADE SANITÁRIA • sobre o produto: a apreensão, a inutiliza-
ção, a interdição, a suspensão de vendas e
O descumprimento da legislação sanitária a imposição de mensagem retificadora;
nos estabelecimentos farmacêuticos resulta • sobre a publicidade e a propaganda: a
na caracterização de infração, com sanções proibição de propaganda e a suspensão de
decorrentes previstas na Lei nº 6.437, de 20 propaganda e publicidade.
de agosto de 1977, sobre os estabelecimen-
tos, bem como sobre os medicamentos em Pontualmente relacionada ao ato de
posse desses estabelecimentos.45 dispensar medicamentos, a Lei n° 6.437, de
20 de agosto de 1977, em seu artigo 10, inci-
so Xll, estabelece como infração sanitária:
11 O descumprimento da legislação sanitária
nos estabelecimentos farmacêuticos re-
~
[ ... ] fornecer, vender ou praticar atos
sulta na caracterização de infração, com de comércio em relação a medica-
sanções decorrentes previstas na Lei n° mentos, drogas e correlatos cuja ven-
6.437, de 20 de agosto de 1977, sobre os
estabelecimentos, bem como sobre os da e uso dependam de prescrição
medicamentos em posse desses estabele- médica, sem observância dessa exi-
cimentos. gência e contrariando as normas le-
gais e regulamentares [... ].45

Além das determinações legais e sani- As autoridades sanitárias, em resposta


tárias sobre o ato de dispensação em si, são à prática ilícita e sistemática dos estabeleci-
igualmente importantes aquelas que dão mentos que dispensam medicamentos que
suporte a esse ato, como as condições sani- dependem de prescrição sem a apresenta-
tárias estruturais, funcionais e organizacio- ção desta, minimizam sua ocorrência sub-
nais dos estabelecimentos que dispensam metendo a controle especial, além dos psi-
medicamentos, como a obtenção da Autori- cotrópicos e entorpecentes, contidos nas
zação de Funcionamento e da Licença Sani- listas A e B anexas à Portaria n° 344, de 12
tária, as Boas Práticas, bem como os pa- de maio de 1998, substâncias e medicamen-
drões de qualidade dos medicamentos a se- tos que, embora não classificados como psi-
rem dispensados, dispostos nas leis cotrópicos e entorpecentes, são considera-
ordinárias pertinentes, nos decretos que as dos mais suscetíveis à causação de danos
regulamentam e na legislação hierarquica- aos usuários. Esses medicamentos se en-
mente inferior.11,13,14,18,22,23,46 contram relacionados na lista c, cuja movi-
De maneira geral, as sanções passíveis mentação do estoque está sob controle mais
de serem aplicadas pela Vigilância Sanitária, rígido, pela retenção da 1ª via da Receita de
decorrentes de infrações relacionadas às Controle Especial ou da Notificação de Re-
práticas de dispensação, de forma alternati- ceita, com subsequente escrituração e ba-
va ou cumulativa, podem ser: 45 lanço, entre outras medidas. 47
60 Cassyana J. Correr & Mlchel F. Otukl

A tendência a aumentar os medica- A União, os Estados, o Distrito Fede-


mentos sujeitos a controle especial fica evi- ral e os Municípios fiscalizarão e
dente com a entrada recente dos antibióti- controlarão a produção, industriali-
cos, hoje regulados pela RDC n° 20, de 5 de zação, distribuição, a publicidade de
produtos e serviços e o mercado de
maio de 2011, indício de que a dispensação
consumo, no interesse da preserva-
de medicamentos segue precária no Brasil. 48
ção da vida, da saúde, da segurança,
da informação e do bem-estar do
consumidor, baixando as normas
11 Atendência a aumentar os medicamentos que se fizerem necessárias. 50
sujeitos a controle especial fica evidente
~ com a entrada recente dos antibióticos,
hoje regulados pela RDC n° 20, de S de Em seu artigo 56, estão estabelecidas sanções
maio de 2011, indicio de que a dispensa- administrativas, à semelhança da Lei n°
ção de medicamentos segue precária no 6.437, de 20 de agosto de 1977, as quais serão
Brasil. "aplicadas pela autoridade administrativa,
no âmbito de sua atribuição".5º No contexto
A Vigilância Sanitária, diante de uma sanitário, as autoridades administrativas
infração (ainda que não esteja pontualmen- são as Vigilâncias Sanitárias, dentro de suas
te determinada na Lei n° 6.437, de 20 de competências nas esferas de Governo.
agosto de 1977) pode aplicar sanções ao in- Além disso, decorrente da dispensa-
frator decorrentes do seu artigo 10, inciso ção de medicamentos, os estabelecimentos
XXIX, o qual genericamente dispõe como e os profissionais, farmacêuticos e não far-
infração sanitária "tra nsgredir outras nor- macêuticos, ficam sujeitos à responsabiliza-
mas legais e regulamentares destinadas à ção civil e penal.
proteção da saúde". 45

RESPONSABILIDADE RESPONSABI.LIDADE CML


ADMINISTRATIVA NO CÓDIGO A responsabilização civil, pelo ato de dispen-
DE PROTEÇÃO E DEFESA sar, pode concretizar-se a partir da prática de
DO CONSUMIDOR atos ilícitos previstos no Código Civil e no
Código de Proteção e Defesa do Consumi-
O Código de Proteção e Defesa do Consumi- dor, caracterizados pela ocorrência de dano
dor (CDC), além da responsabilização civil e cuja reparação é de obrigação do autor do
penal que será abordada posteriormente, es- ato por meio de indenização, sanção de cará-
tabelece sanções de caráter administrativo, ter patrimonial, que deve cobrir todo o dano
comprometend o a atuação do Estado com a experimentado pela vítima.S0-53
atividade de proteção e defesa do consumi-
dor, por meio dos órgãos da Administração
Pública, incluindo as Vigilâncias Sanitárias, A natureza do dano
nas três esferas de Governo. 49 Essa relação
entre a proteção e a defesa do consumidor e O Código Civil, em seu artigo 186, e o Código
a atuação das Vigilâncias Sanitárias está no de Proteção e Defesa do Consumidor, em seu
referido Código, em seu artigo 55, parágra- artigo 6°, inciso VI, estabelecem que o dano
fo§ 1°, quando determina que pode ser de natureza material e/ou moral.
A prática farmacêutJca na farmácia comunitária 61

O ato resulta em dano material sempre O ato ilícito no Código de


que a vítima tem prejuízo patrimonial e, em
Proteção e Defesa do Consumidor
dano moraJ, quando o prejuízo é a mágoa, a
tristeza, a vergonha, a humilhação e a dor in-
Os atos ilícitos civis indenizáveis, conside-
tensas indevidamente impostas, cujo caráter
rados no Código de Proteção e Defesa do
não tem repercussão patrimonial. A indeni-
Consumidor, têm duas origens, apresenta-
zação, no primeiro caso, objetiva restituir o
das a seguir.
patrimônio que a vítima perdeu ou deixou
de ganhar, e, no segundo caso, objetiva mini-
mizar, em parte, sua dor moraJ. 52. 53 Vício do produto ou do serviço

O ato ilícito pode advir do vício de quanti-


Oato ilícito no Código Civil dade do produto ou do vício de qualidade
do produto ou do serviço, cuja responsabi-
Considerando o Código Civil, ainda em seu lidade, nesse caso, intrínseca ao objeto da
artigo 186, o dano decorrente do ato de dis- relação de consumo, é regida pelos artigos
pensar advém da violação de direito do pa- presentes no Capítulo N , Seção Ili, particu-
ciente, por ação ou omissão voluntária, ne- larmente a partir dos artigos 18, para pro-
gligência o u imprudência. Também come- dutos, e 20, para serviços.
tem ato ilícito civil, considerando o artigo Como exemplo de vício de quantidade
187, o farmacêutico e o comerciante que, do medicamento como produto, há a falta de
como titulares do direito de, respectiva- um comprimido no blíster ou a quantidade
mente, exercer a profissão de farmacêutico diminuída do fármaco; como vício de quali-
e comercializar medicamentos , excedem, dade, o medicamento fora do prazo de vali-
manifestadame nte, os limites que lhes são dade ou a presença de produto de degrada-
impostos pelo seu fim, econômico ou so- ção, por condição inadequada de acondicio-
cial, pela boa-fé ou pelos bons costumes.51 namento ou armazenament o ou mesmo
pela expiração do prazo de validade.
Como exemplo de vício de qualidade
Também cometem ato ilícito civil, consi-
derando o artigo 187, o farmacêutico e o do ato de dispensar medicamentos entendi-
comerciante que, como titulares do direi- do como serviço, pode-se citar a ausência
to de, respectivamente, exercer a profis- ou a inadequação da orientação profissio-
são de farmacêutico e comercializar medi-
nal farmacêutica e a dispensação em desa-
camentos, excedem, manlfestadamente,
os limites que lhes são Impostos pelo seu cordo com a prescrição médica.
fim, econômico ou social, pela boa-fé ou Quando se trata de produto, a indeni-
pelos bons costumes. zação consiste na substituição por outro, na
restituição imediata da quantia paga ou no
Assim, em termos gerais, o paciente tem abatimento proporcional do preço, quando
direito a usufruir da qualidade e da segurança cabível. Quando se trata de serviço, a inde-
em relação ao medicamento e ao ato de dis- nização consiste na reexecução do serviço,
pensar, enquanto, no estabelecimento, farma- sem custo adicional e quando cabível, na
cêuticos, balconistas e comerciantes devem restituição imediata da quantia paga pelo
. atos restritos
praticar . as' ""
suas competenc1as,. serviço ou no abatimento proporcional do
aceitos do ponto de vista legal e social. preço, quando cabível. 5 54 º·
62 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

Fato do produto ou serviço De forma geral, a Lei Consumerista


estabelece, em seu artigo 8°, que:
Os atos ilícitos civis indenizáveis também
os produtos e serviços colocados no
podem advir dos danos causados ao con-
mercado de consumo não acarretarão
sumidor pelo defeito decorrente do pro-
riscos à saúde ou à segurança dos con-
duto ou do serviço que pressupõe o vício e sumidores, exceto os considerados
cuja responsabilidade é caracterizada pelo normais e previsrveis em decorrência
fato do produto ou do serviço, sendo ex- de sua natureza e fruição, obrigando-
trínseca ao objeto da relação de consumo, -se os fornecedores, em qualquer hi-
na medida em q ue não é o vício em si o ge- pótese, a dar as informações necessá-
rador da indenização, mas o dano que o ví- rias e adequadas a seu respeito. 50
cio causa. A responsabilidade pelo fato do
produto ou do serviço é regida pelos arti- Essa disposição legal, no contexto do
gos presentes no Capítulo IV, Seção Il, do ato de dispensar, leva a se pensar o medica-
referido Código, particularmente pelos ar- mento como produto intermediário, como
tigos 12, 13 e 14.so já foi discutido, pois a dispensação de medi-
Podem-se considerar exemplos de fa- camentos não se restringe a uma venda.
to do produto ou do serviço, no caso, res- Quando destituído da qualidade, da segu-
pectivamente, do medicamento e do ato de rança e da eficácia necessárias, seu uso im-
dispensar: a ausência do efeito terapêutico põe riscos extras àqueles que lhes são ine-
desejado, o agravamento de uma patolo- rentes pelas reações adversas que podem
gia, uma hospitalização, o abalo da digni- desencadear. Assim, a qualidade e a segu-
dade, da honra, da boa-fé, com a perda da rança relativas ao ato de dispensar n ão estão
confiança da pessoa no produto ou no ser- restritas à oferta de um produto de qualida-

YlÇO. de ao consumidor, mas também estão atre-
Essas duas origens dos atos ilícitos, na ladas ao fornecimento de informações e
prática, significam que o fornecedor de orientações suficientes e adequadas, contri-
produto ou serviço, além de reparar o vício buindo na prevenção, quando possível, das
do produto ou do serviço que os tornaram reações adversas ou na sua identificação a
impróprios para uso e consumo ou que lhes tempo para minimizar seus efeitos danosos,
diminuíram o valor, poderá, ainda, respon- na prevenção da má conservação doméstica
der pelo dano material ou moral decorren- dos medicamentos e na prevenção de seu
te de seu uso ou seu consumo. uso inadequado, a fun de auxiliar no suces-
so do tratamento.
A seguir, é apresentado um exemplo de
O fornecedor de produto ou serviço, além decisão judicial indenizatória que, embora
de reparar o vicio do produto ou do servi- imputada à indústria farmacêutica produto-
ço que os tornaram impróprios para uso e ra, afeta a dispensação do medicamento,
consumo ou que lhes diminuíram o valor,
uma vez que o farmacêutico tem o dever
poderá, ainda, responder pelo dano mate-
rial ou moral decorrente de seu uso ou seu profissional de estar atualizado técnico-cien-
consumo. tificamente sobre os medicamentos que dis-
pensa, indo além das informações que estão
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltória 63

contidas na bula, bem como utilizar-se des- RESPONSABILIDADE


sas informações em benefício do paciente:42
SUBJETIVA E OBJETIVA
Direito do consumidor. consumo de
survector, medicamento inicialmente Quando a questão é a responsabilidade civil
vendido de forma livre em farmácias. do farmacêutico, existem divergências quan-
posterior alteração de sua prescrição e to à caracterização dessa responsabilidade,
imposição de restrição à comerciali- em função das posições na relação jurídica
zação. risco do produto avaliado pos- que o farmacêutico pode ocupar. 49,53,55
teriormente, culminando com a sua
proibição em diversos países. recor-
rente que iniciou o consumo do me- Responsabilidade subjetiva
dicamento à época em que sua venda
era livre. dependência contraída,
Uma primeira posição a ser considerada es-
com diversas restrições experimenta-
tá relacionada à hipótese de decisão judicial
das pelo paciente. dano moral reco-
nhecido.
em que a responsabilidade seja imputada ao
É dever do fornecedor a ampla farmacêutico como profissional liberal, o
publicidade ao mercado de consumo que acarretará e1n responsabilidade subjeti-
a respeito dos riscos inerentes a seus va, entendida como aquela que supõe uma
produtos e serviços. atuação ilícita, caracterizada pela culpa do
A comercialização livre do medi- agente e cuja apuração é necessária.52,55-57
camento survector, com indicação Analisando a obrigação do farmacêu-
na bula de mero ativador de memó- tico no ato de dispensar, há de se considerar
ria, sem efeitos colaterais, por oca- que o farmacêutico não pode garantir um
sião de sua disponibilização ao mer-
resultado determinado ao paciente, na me-
cado, gerou o risco de dependência
dida em que este dependerá de circunstân-
para usuários [ ... ]
cias alheias a sua vontade. Nesse caso, a
A circunstância de o paciente ter
consumido o produto sem prescri- obrigação do farmacêutico consiste em
ção médica não retira do fornecedor uma obrigação de meio, cuja atuação se di-
a obrigação de indenizar. Pelo siste- reciona a ser prudente e diligente, em bene-
ma do CDC, o fornecedor somente fício do paciente sem, contudo, vincular-se
se desobriga nas hipóteses de culpa a obter um resultado certo e determinado
exclusiva do consumidor (art. 12, § em relação ao tratamento desse paciente, o
3°, do CDC), o que não ocorre na hi- que torna importante a aferição da culpa
pótese, já que a própria bula do me- nos processos civis.53
dicamento não indicava os riscos as-
Nesse sentido, o Código de Proteção e
sociados à sua administração, carac-
Defesa do Consumidor, artigo 14, parágrafo
terizando culpa concorrente do
laboratório [ ... ]
§ 4°, determina que "A responsabilidade
Deve ser mantida a indenização pessoal dos profissionais liberais será apu-
fixada, a título de dano moral, para o rada mediante a verificação de culpa".5º
paciente que adquiriu dependência No Código Civil, a responsabilidade
da droga. Recurso especial conheci- subjetiva encontra-se no artigo 186, com a
do e provido. figura da negligência e da imprudência, e
64 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

no artigo 951, quando estabelece que cabe, que se enquadram na categoria de presta-
ainda, indenização" [... ] por aquele que, no dores de serviços.
exercício de atividade profissional, por ne- No que tange à responsabilidade pelo
gligência, imprudência ou imperícia, causar fato do produto, os fabricantes, os produto-
a morte do paciente, agravar-lhe o mal, cau- res, os importadores e os comerciantes de
sar-lhe lesão, ou inabilitá-lo para o traba- medicamentos respondem pela reparação
lho'~51 dos danos causados aos consumidores, inde-
pendentemente de culpa, a não ser que pro-
vem não ter colocado o produto no mercado,
Responsabilidade objetiva ou que, embora tenham colocado, o defeito
inexista ou a culpa não seja sua, mas exclusi-
A segunda posição a ser considerada, sendo va do consumidor ou de terceiro.so
a que prevalece, está relacionada à hipótese
de decisão judicial em que a responsabilida-
de seja imputada ao fornecedor de produ-
tos ou serviço, o que caracteriza a responsa- No que tange à responsabilidade pelo fa.
bilidade objetiva que dispensa a culpa, con- to do produto, os fabricantes, os produto-
res, os importadores e os comerciantes de
siderando que quem lucra com a situação medicamentos respondem pela reparação
responde pelo risco ou pelas desvantagens dos danos causados aos consumidores.
decorrentes dela, ainda que isento de cul-
pa.53-57
Assim, na responsabilização objetiva, Na dispensação de medicamentos in-
há a substituição do elemento culpa pela dustrializados, se considerado comércio
teoria do risco, na medida em que o risco de praticado particularmente em farmácias e
dano é criado quando alguém põe em fun - drogarias, a responsabilidade pela repara-
cionamento uma atividade - produzindo, ção do dano recai sobre o comerciante so-
fabricando, importando ou comercializan- mente quando o produtor, o fabricante ou o
do medicamentos ou prestando serviços a importador do medicamento não puderem
eles relacionados - e deve responder pelos ser identificados, quando a identificação não
eventos danosos que gera, independente- for clara ou, ainda, quando o comerciante
mente da culpa.52•54 não conservou os medicamentos de forma
A objetividade da responsabilidade ci- adequada. Entretanto, tendo o comerciante
vil está presente no Código de Proteção e que reparar o dano, ele tem o direito de re-
Defesa do Consumidor, artigos 12, 13 e 14, gresso contra os demais responsáveis, se-
e no Código Civil, artigos 927 e 931, quan- gundo sua participação na causação do
do estabelecem a obrigação de reparar o da- efeito danoso. 50
no independentemente de culpa.so,si Os dispensários de medicamentos in-
Diante da responsabilidade objetiva, seridos em unidades de saúde e as farmácias
presente no Código de Proteção e Defesa do hospitalares, se entendidos como prestado-
Consumidor, estão os fornecedores de pro- res de serviço, só não serão responsabilizados
dutos: o fabricante, o produtor, o importa- quando provarem que, tendo prestado o ser-
dor e o comerciante. Quanto aos fornece- viço, o defeito inexista, ou quando a culpa é
dores de serviços, são os estabelecimentos exclusiva do consumidor ou de terceiros. 50
66 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

ponsabilidade civil e a jurisprudência anali- uma vez que se tenha a visão da responsabi-
sada em Nunes,52 Rodrigues, 53 e Marques e lidade subjetiva do farmacêutico.
colaboradores, 49 é possível entender que o
farmacêutico, quando atua com vínculo
empregatício, pode ser considerado prepos- RESPONSABILIDADE PENAL
to do empregador, sendo que sua responsa-
bilidade pela reparação do dano vai impli- A responsabilização penal na dispensação
car a do seu empregador. de medicamentos resulta da conduta dos
No entanto, o fato de o farmacêutico agentes, prevista como crime, de modo ge-
manter um vínculo empregatício nem sem- ral, presente no Código Penal, ou como cri-
pre prescinde de prova de culpa do farma- me contra as relações de consumo, no Có-
cêutico para caracterizar o ato ilícito, isso digo de Proteção e Defesa do Consumidor.
porque há casos em que é necessária a ca- Havendo duas ou mais pessoas envolvidas
racterização da culpa do empregado, no ca- no ato criminoso, todas respondem, na me-
so do farmacêutico, para responsabilizá-los. dida de sua participação.35,50,58
A decisão por aplicar a responsabili- O crime pode configurar-se não ape-
dade civil objetiva ou subjetiva, nos proces- nas pela caracterização do dano, como no
sos civis em que estejam envolvidos profis- caso de homiddio ou lesão corporal, mas
sionais liberais, incluindo o farmacêutico, também pelo perigo que determinada con-
fica a critério do juiz, dentro das possibili- duta impõe, isto é, pelo risco de dano que
dades legais e da necessidade específica de proporciona, como nos casos da falsificação
se apurar a culpa em cada caso particular. de medicamentos e do exercício ilegal da
Farmácia ou da Medicina.
A pena, sanção pessoal imposta pelo
A decisão por aplicar a responsabilidade Estado, tem a finalidade de retribuir ao de-
11
civil objetiva ou subjetiva, nos processos lito e de prevenir novos crimes. Ela existe
~ civis em que estejam envolvidos profissio-
nais liberais, incluindo o farmacêutico, fica
em três espécies, segundo o Dicionário Jurí-
dico:59
a critério do juiz. dentro das possibilidades
legais e da necessidade específica de se
apurar a culpa em cada caso particular. Pena privativa de liberdade - reclu-
são, detenção e prisão simples.
Pena restritiva de direito - prestação
Nesse contexto, vale observar que a de serviços à comunidade, interdição
temporária de direito, limitação de
maneira como são considerados a farmácia,
fim de semana, prestação pecuniária
a drogaria e o dispensário de medicamen-
e perda de bens e valores.
tos, ou como fornecedores de medicamen- Pena pecuniária - multa.
to, ou como fornecedores de serviço em
saúde, reflete no entendimento sobre a en-
trega do medicamento ao consumo, ou co-
Crimes no Código Penal de
mo ato meramente comercial, ou como
prestação de serviço, já discutidos anterior- interesse no ato de dispensar
mente. Esse entendimento pode influenciar
significativamente a visão do juiz sobre a Entre os crimes previstos na parte especial
participação do farmacêutico na causação do Código Penal que podem se configurar
do dano relacionado ao ato de dispensar, como consequências do ato de dispensares-
A prótlca farmacêutica na farmácia comunitária 67

QUADRO 3.3 Crimes contra a pessoa no Código Penal de interesse para o ato de dispensar

Capítulos Artigos Observações

Capítulo 1 Artigo 121 Caracterizado quando, da


Dos crimes contra a vida "Homicídio[...]. dispensação de medicamento,
Matar alguém: [...] resultar morte por dolo ou
§ 1° Se o agente comete o culpa.
crime impelido por motivo Pode-se configurar a
de relevante valor social eutanásia, quando se aplica o
ou moral [...]" parágrafo§ 1°.

Artigo 122 Quando, no ato de dispensar,


"Induzir ou instigar alguém dolosamente, presta-se
a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para o suicídio.
auxílio para que o faça [ ...]# Pode-se configurar a
eutanásia.

Artigos 125, 126 Quando dolosamente


"Aborto provocado por provocado por terceiros, no
terceiro [...J Provocar aborto, caso, pelos agentes que
sem o consentimento da dispensam medicamentos,
gestante [ ...] [...] com o sem ou com o consentimento
consentimento da gestante." da gestante.

Capítulo li Artigo 1 29, caput e Quando as práticas na


Das lesões corporais parágrafo§ 6° dispensação ofendem a
"Lesão corporal integridade corporal ou a
[...] Ofender a integridade saúde do paciente, é
corporal ou a saúde de caracterizada lesão corporal.
outrem [...]"58 Nesse caso, os agentes
também ficam sujeitos à
responsabilização penal, por
dolo ou culpa.

Artigo 129, parágrafo§ 2°, Quando terceiros, no caso, os


inciso V agentes que dispensam
"aborto [...)" medicamentos culposamente
dão causa ao aborto,
respondem por lesão corporal
culposa.

Capítulo Ili Artigo 135 Caracteriza-se sempre que,


Da periclitação da vida "Omissão de socorro [...] pela vontade consciente e
e da saúde [...) Deixar de prestar livre, deixa-se de socorrer a
assistência, quando possível pessoa que se sabe em grave e
fazê-lo sem risco pessoal [...) iminente risco ou, no caso de
à pessoa [...) em grave e não possuir um treinamento
iminente perigo; ou não específico ou não se sentir
pedir, nesses casos, o socorro confiante em atuar, deixa-se
da autoridade pública [...)" de pedir socorro especializado,
crime configurado pela
modalidade dolosa.

Fonte: Brasi1 58 e Costa Jr.60


68 Cossyano J. Correr & Michel F. Otukl

tão, no Título 1, os crimes contra a pessoa, Medicamento com substância não


sintetizados no Quadro 3.3.
permitida e/ou invólucro ou
Contudo, entre os crimes que mais se
aproximam da prática de dispensação de
recipiente com falsa indicação
medicamentos, estão aqueles contra a saúde
pública que fazem parte do Título VIII, dos Considerando os artigos 274, 275 e 276, fi-
Crimes Contra a Incolumidade Pública cam também caracterizadas como crime a
Capítulo Ili, da parte especial do mesmo
' venda, a exposição à venda, a manutenção
Código. em depósito para a venda ou, de qualquer
Os crimes contra a saúde pública que forma, a entrega para consumo de medica-
mais d iretamente estão relacionados com a mentos que contenham revestimento, ga-
dispensação de medicamentos são descritos seificação artificial, matéria corante, subs-

a seguir. tância aromática, conservadora ou qual-
quer outra não expressamente permitida
pela legislação sanitária e/ou cujo invólucro
FALSIFICAÇÃO, CORRUPÇÃO, ou recipiente indique a existência de subs-
ADULTERAÇÃO OU ALTERAÇÃO DE tância que não se encontra em seu conteú-
PRODUTO DESTINADO A FINS do ou que nele exista em quantidade menor
do que a mencionada.61
TERAPÊUTICOS OU MEDICINAIS Para que seja instituída a conduta do-
losa, necessária para a caracterização d o cri-
Considerando o artigo 273, parágrafos § 1o,
me, no caso da venda e da manutenção em
§ 1°-A e § l 0 -B, ficam caracterizadas como
depósito para a venda, é indispensável que o
crime as ações de vender, expor à venda, ter
agente tenha ciência da condição do medi-
em depósito para a venda ou, de qualquer
camento.34
forma, entregar para consumo medicamen-
tos:
Fornecer substância medicinal
• falsificados, corrompidos, adulterados,
em desacordo com receita médica
alterados ou que não tenham registro,
quando exigível, no órgão de Vigilância
O artigo 280 configura como crime o forne-
Sanitária (Anvisa);
cimento de medicamento em desacordo
• em desacordo com a fórmula constante
com a receita médica, nas modalidades do-
no referido registro;
losa e culposa. Segundo Mirabete, 34 não só
• que não possuam as características de
o farmacêutico, mas também o prático e o
identidade e qualidade admitidas para
balconista, podem responder pelo crime,
sua comercialização;
sendo irrelevante que a substância forneci-
• que tenham seu valor terapêutico ou sua
da seja de qualidade igual ou superior àque-
atividade reduzidos;
la receitada. A decisão judicial no Estado de
• que sejam de procedência ignorada;
• que tenham sido adquiridos de estabele-
cimento sem licença da autoridade sani-
tária competente. O artigo 280 configura como crime o for-
necimento de medicamento em desacor-
do com a receita médica, nas modalidades
Para tais crimes, admitem-se as mo- dolosa e culposa.
dalidades dolosa e culposa.6t
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 69

São Paulo citada por Mirabete34 demonstra Tráfico ilícito de medicamentos


qual pode ser o entendimento dos juízes so-
entorpecentes ou que determinem
bre a questão:
dependência física ou psíquica
[... ] A receita médica não pode ser al-
terada, ainda que o remédio forneci- O crime configurado pelo comércio clan-
do pelo acusado seja igual ou melhor destillo ou pela facilitação de uso de entor-
que o outro. Se o que se tem em vista pecentes ou substâncias que determinem
é a tutela da saúde pública, mediante dependência física ou psíquica, no que se
a exigência de que a medicação seja refere às práticas na dispensação de medica-
receitada por quem tenha a forma- mentos, antes estabelecido pelo artigo 281
ção técnica requerida pela lei e co- do Código Penal, hoje se configura pela re-
nheça pessoalmente o doente e suas dação do caput do artigo 33 e do parágrafo
peculiaridades, resta claro que o que
§ 2° da Lei nº 11.343, de 23 de agosto de
a norma penal proíbe é a arbitrarie-
2006:63
dade do fornecimento de substância
medicinal pelo farmacêutico ou pelo Importar [... ] adquirir, vender, expor
prático em Farmácia. à venda, oferecer, ter em depósito,
transportar [... ] guardar, prescrever,
O crime pode configurar-se, no ato de ministrar, entregar a consu1no ou
dispensar, com a troca entre medicamentos fornecer drogas, ainda que gratuita-
com substâncias e efeitos farmacológicos mente, sem autorização ou em desa-
diferentes ou com a troca entre medica- cordo com determinação legal ou re-
mentos com efeitos farmacológicos seme- gulamentar [...]
lhantes. Entretanto, no contexto em que a
lei, respaldada técnico-cientificamente, não Os medicamentos que determinam
admite a u1tercambialidade dos medica- dependência, passíveis de configuração de
mentos de referência e genéricos com os si- crime na dispensação, estão previstos em
milares, 62 a dispensação de medicamentos convenções internacionais e em suas atuali-
que contrarie esse critério de intercambiali- zações, cujo Brasil é signatário, e encon-
dade pode ser configurada, em um processo tram-se dispostos nas Listas A e B e em suas
crimmal, como em desacordo com a pres- atualizações, anexas à Portaria n° 344, de 12
crição médica, uma vez que não se tem de maio de 1998, a qual determina, em es-
comprovada a equivalência terapêutica en- pecial, a necessidade da retenção das notifi-
tre eles, representando risco para o paciente cações de receita A e B para a dispensação,
que necessita da farmacoterapia. salvo exceções em adendo, bem como a es-
crituração, o balanço e demais controles
previstos. 47•64•65

li No contexto em que a lei, respaldada técni- Exercício ilegal da Medicina, da


co-cientificamente, não admite a intercam-
~ bialidade dos medicamentos de referência
e genéricos com os similares,62 a dispensa-
Arte Dentária ou Farmacêutica
ção de medicamentos que contrarie esse O artigo 282 estabelece como crime o exer-
critério de intercambialidade pode ser con- cício ilegal da Medicma, da Arte Dentária
figurada, em um processo criminal, como
em desacordo com a prescrição médica. ou Farmacêutica, configurado na modali-
dade dolosa. 34•58
70 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

Considerando esse artigo, as práticas penal o atendimento reiterado a um pa-


criminosas nos estabelecimentos que dis- ciente realizando diagnóstico que deveria
pensam medicamentos podem estar rela- ser médico, o qual, geralmente, resulta na
cionadas à falta de autorização legal para o dispensação de medicamentos que exijam
exercício da profissão farmacêutica, bem receita médica, sem a devida apresentação.
como à execução de práticas que excedam Mirabete34 analisa que, nos casos em que se
os limites da competência do profissional reconhece o estado de necessidade, desde
farmacêutico, ainda que se caracterize a que não se configure a habitualidade, pode
gratuidade do atendimento.58 ser considerada a exclusão da ilicitude, uma
vez que, nos locais onde sejam praticados,
As práticas criminosas nos estabelecimen- não existam médicos legalmente habilita-
11 dos para a prática, caso previsto na legisla-
tos que dispensam medicamentos podem
~ estar relacionadas à falta de autorização
legal para o exercício da profissão farma-
ção sanitária, como já disposto.
cêutica, bem como à execução de práticas
que excedam os limites da competência
do profissional farmacêutico, ainda que se CRIMES NO CÓDIGO DE
caracterize a gratuidade do atendimento.
PROTEÇÃO E DEFESA DO
CONSUMIDOR DE INTERESSE
O ilícito penal pela ausência da auto-
rização legal configura-se pela falta do di-
NO ATO DE DISPENSAR
ploma cientifico. Mirabete34 interpreta que
o fato de o profissional farmacêutico não O Código de Proteção e Defesa do Consu-
estar inscrito no Conselho Regional de Far- midor prevê as condutas tipificadas como
mácia configura apenas delito de caráter crimes contra as relações de consumo, entre
administrativo, não implicando ilícito pe- os quais alguns podem configurar-se na
nal. Fundamenta esse entendimento a par- dispensação de medicamentos.
tir de decisões judiciais já configuradas, ar- Como circunstância agravante para
gumentando que: esses crimes, quando ocorridos na dispen-
sação, encontram-se, no artigo 76, inciso II,
A profissão farmacêutica diz respeito o fato de ocasionar "grave dano individual
ao exercício da farmácia, que é a arte ou coletivo" e, no inciso V, o fato de "serem
de preparar medicamentos, não in- praticados em operações que envolvam [... ]
cluindo, evidentemente, o simples medicamentos [... ] ou serviços essenciais':
exercício do comércio de medica- como são os serviços de saúde, cuja dispen-
mentos já preparados sem a prática sação de medicamentos está inserida.50
de ato específico da referida profis- Configuram crimes, na relação de
são. A ausência de farmacêutico res-
consumo, aqueles que envolvem a prática
ponsável pelo estabelecimento co-
mercial constitui apenas infração ad-
de dispensar medicamentos, conforme
ministrativa, e não ilícito penal. apresentado a seguir.

Considerando o mesmo artigo, o far-


macêutico, no ato de dispensar medica- Informações ao consumidor
mentos, comete atos ilícitos quando exce-
der os limites de sua competência prefixa- Segundo o artigo 66, constitui crime "Fazer
dos na lei. Pode configurar-se ato ilícito afirmação falsa ou enganosa, ou omitir in-
A prótico fonnocêutlco na fonnóclo comunltórlo 71

formação relevante sobre a natureza, carac- Outros crimes


terística, qualidade, [ ... ] segurança, desem-
p enho, [ ... ] preço ou garantia de produtos Finalizando a abordagem sobre a responsa-
ou serviços': 50 bilização penal pelo Código de Proteção e
Defesa do Consumidor, o artigo 75 configu-
ra crime do" [... ] diretor, [... ] administrador
Publicidade ou gerente da pessoa jurídica que promo-
ver, permitir ou por quaJquer modo apro-
Os artigos 67, 68 e 69 tratam de crimes rela-
var o fornecimento, oferta, exposição à ven-
cionados à publicidade, com oferta de me-
da ou manutenção em depósito de produ-
dicamentos e serviços respectivamente con-
tos ou a oferta e prestação de serviços nas
figurados pela "publicidade enganosa ou
condições por ele proibidas".50
abusiva", pela "capacidade de induzir o con-
Nesse sentido, o Código proíbe, em
sumidor a se comportar de forma prejudi- seu artigo 18, parágrafo§ 6°, considerando-
cial ou perigosa a sua saúde ou segurança" e -os impróprios para consumo, os produtos
pela faJta de "organização dos dados fáticos, cujos prazos de validade estejam vencidos,
técnicos e científicos que dão base à publici- os produtos deteriorados, alterados, adulte-
dade': 50
rados, avariados, falsificados, corrompidos,
fraudados, nocivos à vida o u à saúde, peri-
Acesso a informações gosos e, ainda, aqueles em desacordo com
as normas regulamentares de fabricação,
Considerando os artigos 72 e 73 do Código distribuição ou apresentação ou produtos
que, por qualquer motivo, se revelem ina-
de Proteção e Defesa do Consumidor, os es-
dequados ao fim a que se destinarn. 50
tabelecimentos que dispensam medicamen-
tos cometem ato criminoso sempre que im-
pedem ou dificultam o acesso do consumi- Crimes contra a relação
dor às informações que sobre ele constem
de consumo, de interesse
em cadastros, banco de dados, fichas e regis-
tros mantidos pelo estabelecimento, bem co- no ato de dispensar, presentes
mo quando deixam de corrigi-las imediata- na Lei n° 8.137, de 27 de
mente.50 O primeiro garante o direito do dezembro de 1990
consumidor de saber e analisar o que está es-
crito sobre ele, e o segundo previne possíveis O artigo 7° da Lei n° 8.137, de 27 de dezem-
consequências que a falta de correção de bro de 1990, estabelece como crime contra
uma informação pode acarretar. as relações de consumo:66

[... ) vender ou expor à venda merca-


doria cuja embalagem, tipo, especifi-
Os estabelecimentos que dispensam me- cação, peso ou composição esteja em
dicamentos cometem ato criminoso sem- desacordo com as prescrições legais,
pre que impedem ou dificultam o acesso ou que não corresponda à respectiva
do consumidor às informações que sobre classificação oficial;
ele constem em cadastros, banco de da- [... ) induzir o consumidor ou usuá-
dos, fichas e registros mantidos pelo esta-
belecimento, bem como quando deixam
rio a erro, por via de indicação ou
de corrigi-las Imediatamente. afirmação falsa ou enganosa sobre a
natureza, qualidade do bem ou servi-
72 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

ço, utilizando-se de qualquer meio, leva os usuários de medicamentos a reivin-


inclusive a veiculação ou divulgação dicar seus direitos e, por outro, auxilia nas
publicitária; decisões e ações dos Poderes Públicos na
[... ] vender, ter em depósito para elaboração das leis e em sua aplicação.
vender ou expor à venda ou, de qual-
Embora a contribuição do farmacêu-
quer forma, entregar matéria-prima
tico no controle sobre a utilização de medi-
ou mercadoria, em condições im-
próprias ao consumo.
camentos não se limite à dispensação - nes-
se sentido, no meio profissional farmacêuti-
co, tem prosperado o conceito de atenção
CONSIDERAÇÕES FINAIS farmacêutica -, sua intervenção eficaz na
farmacoterapia, mesmo durante a dispen-
Ainda que o Conselho Federal de Farmácia, sação, pode minimizar o surgimento de
o Conselho Nacional de Saúde, o Ministério muitos dos problemas relacionados a medi-
da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância camentos, o que justifica que a dispensação
Sanitária tenham avançado em suas Resolu- de medicamentos seja legalmente reconhe-
ções e Portarias no que tange à utilização de cida como ato farmacêutico.
medicamentos, particularmente sobre sua Considerando as barreiras interpostas
dispensação, fato que denota sensibilização para a evolução da dispensação de medica-
e disposição para mudar a prática de dis- mentos, o império da lei constitui fator fun-
pensação de medicamentos, muitos dos damental para o avanço de seu entendi-
dispositivos nelas contidos carecem de sus- mento e sua implantação no Brasil, não só
tentação jurídica, na medida em que a legis- pela obrigatoriedade em cumpri-la, mas
lação hierarquicamente superior não os res- pela reflexão que, forçosamente, a imposi-
palda. ção origina.
Ao ampliar a abordagem legal sobre a
dispensação de medicamentos para os as-
pectos civis e penais, percebe-se a existência REFERÊNCIAS
de um arcabouço que permite a responsabi-
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Interpretação
e avaliação da prescrição
medicamentosa: aspectos legais
CASSYANO J. CORRER
ANA CAROLINA MELCHIORS

dispensadores e paciente é essencial para o


Uma prescrição é uma instru-
ção do profissional que redige e
sucesso do processo de cuidado.3
assina a receita para o profissio- No caso do médico, o ato de prescre-
nal que irá dispensá-la. 1•2 Esse documento ver um medica1nento ocorre necessaria-
contém não apenas o fármaco que deverá ser mente como passo subsequente ao diagnós-
fornecido ao paciente, mas também as condi-
ções em que ele deverá ser utilizado. A prescri-
tico e prognóstico do problema do paciente.
ção representa um documento legal pelo qual O diagnóstico, ou diagnose, pode ser enten-
se responsabilizam quem prescreve (médico, dido como a qualificação dada por um mé-
médico-veterinário ou odontólogo), quem dis- dico a uma enfermidade ou estado fisioló-
pensa o medicamento (farmacêutico) e quem
o administra (enfermeiro, particularmente no
gico, com base nos sinais e sintomas que
meio hospitalar), estando todos os envolvidos observa, e o prognóstico consiste no parecer
sujeitos às normas profissionais, sanitárias e li- do médico acerca do seguimento e desfecho
gadas ao comércio de produtos e serviços. As- esperado de uma doença. 4
sim, toda prescrição apresenta por definição
um caráter multlprofissional ligado ao cuidado
do paciente. 1
11 O diagnóstico, ou diagnose, pode ser en-

~
tendido como a qualíficação dada por um
médico a uma enfermidade ou estado fi-
A boa relação entre os profissionais da siológico, com base nos sinais e sintomas
saúde e destes co1n o paciente pode contri- que observa, e o prognóstico consiste no
buir para a otirnização da prescrição dos me- parecer do médico acerca do seguimento
e desfecho esperado de uma doença.
dicamentos, maximizando as chances de su-
cesso terapêutico, assim como a falta dela po-
de negligenciar aspectos relativos a orientação A receita per se repre enta a síntese das
do paciente, detecção e correção de erros de informações sobre o tratamento eleito pelo
medicação ou prevenção de riscos, que redu- prescritor a partir dessas avaliações e, por is-
zem as chances de efetividade e segurança do so, não permite um entendimento profundo
tratamento. A interação entre prescritores, do processo diagnóstico e prognóstico, mui-
78 Cassyano J. Correr & M!chel F. Otuld

to menos uma avaliação desse processo. Para No Brasil, algumas normas legais esta-
isso, faz-se necessário acessar a totalidade de belecem critérios que devem ser respeitados
informações sobre o paciente e sua condição, na elaboração de uma receita medicamen-
além da formação própria que capacita à in- tosa. As principais são a Lei n° 5.991, de 17
terpretação dessas informações. de dezembro de 1973, que dispõe sobre o
Para que se compreenda o que há por controle sanitário do comércio de d rogas,
detrás da escolha de um medicamento, é medicamentos, insumos farmacêuticos e
preciso compreender o próprio processo correlatos; 8 a Lei n° 9.787, de 10 de feverei-
de tomada de decisão de quem diagnostica ro de 1999, que estabelece o medicamento
e como se dá seu raciocínio clin ico. As genérico, dispõe sobre a utilização de no-
quatro fases d a ação médica, Segundo We- mes genéricos em produtos farmacêuticos; 9
ed, 5·7 são: coleta de dados, identificação de e a Resolução n° 357, de 20 de abril de 2001,
problemas, planejamento terapêutico e se- do Conselho Federal de Farmácia ( CFF),
guimento (para detalhes, ver Cap. 11 ). É que estabelece normas de Boas Práticas de
importante, para todo farmacêutico, reco- Farmácia. 10 Segundo o CFF, o farmacêutico
nhecer que a receita médica representa é responsável pela avaliação farmacêutica
uma parte do registro da consulta médica da receita, e somente será aviada/dispensa-
e está ligada especificamente à fase do pla- da a receita que:
no terapêutico. Uma prescrição medica-
mentosa pode conter esquemas de trata- 1 - estiver escrita a tinta, em portu-
mento para uma ou mais condições clíni- guês, em letra de forma, clara e legí-
vel, observada a nomenclatura oficial
cas do paciente, simultaneamente, ou
dos medicamentos e o sistema de pe-
podem ser elaboradas várias receitas, uma
sos e medidas oficiais do Brasil. A da-
para cada problema identificado durante o tilografia ou impressão p or compu-
atendimento médico. A própria dispensa- tador é aceitável;
ção pode ser entendida como uma ativida-
II - contiver o nome e o endereço re-
de complementar à implementação do sidencial do paciente;
plano terapêutico, cuja responsabilidade
III - contiver a forma farmacêutica,
central é fornecer o medicamento correto
posologia, apresentação, método de
e certificar-se de que o paciente compreen-
administração e duração do trata-
de o tratamento e está disposto a segui-lo. mento;
Para tanto, é essencial que o farmacêutico
IV - Contiver a data e a assinatura do
conheça em profundidade a prescrição
profissional, endereço do consultó-
medicamentosa e seja capaz de compre- rio e o número de inscrição no res-
endê-la e interpretá-la. pectivo Conselho Profissional. A
prescrição deve ser assinada clara-
mente e acompanhada do carimbo,
permitindo identificar o profissional
em caso de necessidade;
Aprópria dispensação pode ser entendida
como uma atividade complementar à im- V - A prescrição não deve conter ra-
plementação do plano terapêutico, cuja suras e emendas.
responsabilidade central é fornecer o me-
dicamento correto e certificar-se de que o Parágrafo único - Deve-se observar o
paciente compreende o tratamento e está receituário específico e a notificação de
disposto a segui-lo. receita para a dispensação de medica-
mentos sujeitos a controle especial.
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 79

-
PARTES DE UMA PRESCRIÇAO tica e sua concentração. A subinscrição de-
signa a quantidade total a ser fornecida,
Uma prescrição medicamentosa compõe-se sendo que para medicamentos de uso con-
de várias partes, organizadas em uma or- trolado, esta deve ser expressa em algaris-
dem definida: o cabeçalho, a superinscri- mos arábicos, escrita por extenso, entre pa-
ção, a inscrição, a subinscrição, a adscrição, rênteses. A adscrição compõe-se das orien-
a data e a assinatura. O cabeçalho, normal- tações do profissional para o paciente sobre
mente impresso, inclui o nome e endereço o modo de utilização do medicamento. 1 A
do profissional ou da instituição onde tra- Figura 4.1 traz um exemplo de uma prescri-
balha (clinica, hospital, serviço municipal ção medicamentosa e suas partes.
de saúde), registro profissional, número de Quanto mais completa for a informa-
cadastro de pessoa física ou jurídica e pode ção contida na receita sobre o paciente, sua
conter, ainda, a especialidade do prescritor. patologia e sua medicação, mais favorecida
A superinscrição é constituída pelo nome e estará sua interpretação pela equipe de saú-
endereço do paciente, idade, quando perti- de e pelo paciente. Receitas incompletas po-
nente, e pelo símbolo Rx, que significa "re- dem ser causa de erros de dispensação ou
ceba"; por vezes, este último é omitido e em administração, que podem comprometer o
seu lugar escreve-se "uso interno" ou "uso resultado esperado do tratamento ou gerar
externo", dependendo da via de administra- reações adversas ou toxicidade.
ção do medicamento. A inscrição inclui o Considerando as partes da receita
nome do medicamento, a forma farmacêu- identificadas, é possível obter várias infor-

Cabeçalho ---- -- ---!----. Rua Nossa Senhora


Clínica Santa Clara
da Luz, 550 Curitiba - PR
Tel. (41) 3360-0000
CNPJ 02.536.536/0000-00

Superinscrição ------J-. . Sr. José da Silva


- Rua Arthur Bernardes, 130
Curitiba - PR
Inscrição
Uso Interno

-
~~~~~~~-:.:D~ic~lo~fu~n~a~co~po~t~ás~s~ic~o~50~m~g~:.-=-=-==
--=·===:t;
_ 1cx
Subinscrição

- Tomar 1 comprimido a cada 8 horas por 5 dias

Adscrição
- Curitiba, 20 de julho de 2008.

Assinatura
Data e assinatura - Dr. Maurício Rocha
CRMOOOOO

FIGURA4.1
Partes de uma prescrição medicamentosa.
80 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

constitui, portanto, um parâmetro de quali-


Receitas incompletas podem ser causa de
erros de dispensação ou administração,
dade da prescrição, e é avaliada pelo farma-
que podem comprometer o resultado es- cêutico ou auxiliar de farmácia a cada nova
perado do tratamento ou gerar reações dispensação com receita. O Quadro 4.1 traz
adversas ou toxicidade. um modelo de checklist que pode ajudar na
sistematização da avaliação da completude
de uma prescrição médica. 11 A lista inclui
também aspectos de avaliação de receitas de
mações sobre a terapêutica, entre elas a produtos controlados, os quais serão discu-
identificação do paciente, o nome comer- tidos adiante neste capítulo.
cial e/ou genérico do medicamento, a forma Internacionalmente, há um conjunto
farmacê utica, a concentração de fármaco de abreviaturas que são utilizadas para
contida por unidade posológica na forma orientação quanto à posologia do medica-
farmacêutica (p. ex., 500 mg/mL), a via de mento.12 Essas abreviaturas são originárias
administração, a dose (quantidade de fár- do latim e são pouco utilizadas no Brasil,
maco administrada a cada vez), a frequên- com exceção das utilizadas para as vias in-
cia (intervalo de tempo entre urna dose e tramuscular, intravenosa e subcutânea, que
outra) e a duração do tratamento (geral- são típicas. Ainda assim, é possível que um
mente em dias, meses ou uso contínuo). farmacêutico, em algum momento, se depa-
A completude de urna receita é enten- re com esse sistema de códigos em alguma
dida como a presença de todas as infor- prescrição médica. O Quadro 4.2 traz urna
mações necessárias a sua interpretação pe- lista dessas abreviaturas e seu significado
lo farmacêutico e paciente. A completude em português.

QUADRO 4.1 Lista de checagem para avaliação da completude da receita

Item Consta?

Nome do prescritor e assinatura Sim/Não

Nome do paciente Sim/Não

Nome do medicamento Sim/Não

Nome genérico (DCB) Sim/Não

Concentração/dosagem Sim/Não

Quantidade a ser d ispensada Sim/Não

Forma farmacêutica Sim/Não


Posologia (dose e frequência) Sim/Não

Duração do tratamento Sim/Não

A receita é válida no Estado? Sim/Não

Está dentro do prazo de validade? Sim/Não

A quantidade prescrita pode ser dispensada? Sim/Não


A prótlco farmacêutico no forrnóclo comunltórlo 81

QUADRO 4.2 Abreviaturas comumente utilizadas na prescrição

Abreviatura Significado em latim Traduçlo em portugufs

b.d. ou b.i.d. bis indie 2 vezes ao dia


gutt guttae gotas
i.m. intramuscular
i.v. intravenoso
o.d. omnídie 1 vez ao dia
o.m. •
omn1mane • 1 vez pela manhã
o.n. •
omn1nocte • 1 vez à noite
p.o. per os por via oral
p.r.n. prorenata sempre que houver necessidade
PR perrectum por via retal
PV per vaginam por via vaginal
q.d.s. quater dia sumendum- 4 vezes ao dia
Rx recipere Receba, símbolo de p rescrição médica
s.c. subcutânea
stat. statim imediatamente
t.d.s ter die sumendum" 3 vezes ao dia

·Algumas vezes escrito simplesmente na forma de mane ou nocte.


-Algumas vezes são utilizadas as abreviaturas ti.d. ou q.i.d. (ter in díe ou quorter in d/e).

Curiosidade: Osímbolo R.x


•• O"R" cortado (Rx) é um símbolo usado tradicionalmente no início da prescrição.
• •
t pouco utilizado no Brasil, mas internacionalmente é reconhecido como o sím-
bolo da prescrição médica ou dos medicamentos vendidos sob prescrição.
Trata-se de um símbolo que não existe em nosso alfabeto, pois é, na verdade, um "R" itálíco, com uma
perna maior, com a linha do X cortando-a, formando um·x~
Existem várias teorias sobre sua origem. Uma delas é a de que o símbolo deriva do "Olho de
Hórus~ ou "Olho Sagrado'; um símbolo mitológico do Egito Antigo, que significa proteção, restabele-
cimento da saúde, intuição e visão. Os egípcios usavam o símbolo para afastar o perigo, a doença e a
má sorte. O símbolo originou-se da lenda do deus egípcio Hórus (ou Harpócrates), deus do Céu, filho
de Osíris (deus do Sol) e lsis (deusa da Natureza), o qual lutou contra seu tio, o deus Seth (deus do
Caos), assassino de seu pai, pelo trono do Egito. Em uma das disputas, Seth arrancou o olho esquerdo
de Hórus (a Lua), mas ele foi curado e sua visão restaurada, quando Thoth (deus da Sabedoria e da
Mágica) uniu as partes e derramou leite de gazela. Finalmente, após 80 anos, Hórus, com sua visão
restaurada, derrotou Seth e tomou o trono do Egito, reunindo novamente o país. O símbolo une um
olho humano com as marcas de um falcão, ou cicatrizes da restauração, pois Hórus tinha a cabeça de
falcão. Tem sido usado por séculos, representando saúde e proteção.
Outra possibilidade é a de que o símbolo derive do latim recipere, significando "recuperação" ou
take, thus e preceda a prescrição de alguns médicos, dos tempos em que estes precisavam prescrever
a fórmula do medicamento, misturando e compondo seus ingredientes. A abreviatura "Rx" era com-
pletada por uma afirmação como fiar mistura, que significa •que a mistura seja feita~
Uma terceira teoria é a de que "Rx" seja uma invocação ao Deus Romano, ou ao planeta da sorte,
Júpiter; uma prece a ele para que o tratamento seja efetivo, tanto que, em manuscritos médicos
antigos, todos os Rs eram cruzados.

Fonte: Olho de Hórus.15


82 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

TIPOS DE PRESCRIÇÃO 1998, trazem em sua tarja vermelha a ins-


crição: "VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉ-
Os medicamentos não enquadrados como DICA'~ A dispensação desses medicamentos
isentos de prescrição pela Resolução n° 138, exige apenas apresentação de uma receita
de 29 de maio de 2003, da Agência Nacional branca comum, em uma via, que será de-
de Vigilância Sanitária (Anvisa) exigem, pa- volvida ao paciente com o medicamento.
ra sua disp ensação, a apresentação da res- A padronização da prescrição e dispen-
pectiva receita ou notificação d e receita. 13 sação dos medicamentos controlados tem
Tais medicamentos apresentam tarja ver- por objetivo prevenir e reprimir o uso inde-
melha ou preta na embalagem com dizeres vido de substân cias entorpecentes, que de-
de acordo com seu enquadramento ou não terminem dependência fisica ou psíquica ou
na Portaria nº 344, de 12 de maio de 1998, que apresentem riscos potenciais importan-
da en tão Secretaria de Vigilância Sanitária tes para a saúde de seus usuários. A referida
do Ministério da Saúde. 14 A Portaria nº 344, Portaria defin e que receitas contendo fárma-
de 12 de maio de 1998, define as substâncias cos ou medicamentos controlados só pode-
sujeitas a controle especial sobre a prescri- rão ser dispensadas quando prescritas por
ção e dispensação. médico, cirurgião-dentista ou médicos-vete-
Medicamentos que requerem receita rinários, devidamente habilitados e prescre-
para serem dispensados e que não se enqua- vendo dentro de seus âmbitos profissio-
dram na Portaria n° 344, de 12 de maio de nais.1•14 A base do controle sobre a circulação

NOTIACAÇÃO OE RECETIA IDEN11~ DO EMITENTE ••1i:11111••~01o1~


UF -NUMERO-
Nome do mecfocamento ou
-
1
' DADOS IMPRESSOS PELA GRAFICA su bstAncla conforme OCB
uF/ESTAOO Al
Impressão pela or•fic•
0.001.08
1
B Nome do Profissiona~ CRJAl e endereço;
O,,.,\dldltforwf~
Ex.: 01.,,.pan

Numeraç!o concedlda Nome da Instituição ou SMS, CNPJ e ende~


Quantidade e f0<ma
pelaOMSA fa rmadutica.
_ de
........_ 0o.. ""' Unldldt l'ote169<>
Ex.: 03 (três) ex/comprimidos
de Pad"""':
Assinatura do prescritor.
ecarimbo quando não
constar eRJAlno
campo"ldentificação ~o:
"'
' l'olc>lo9i•
Dose p/unld~de
Ex.: comp IOmg

do emitente" / Dose diária


Assinatura do Emitente Ex: lcp 12/12h
IDENllflCAÇÃO DO COMPRADOR CARIMBO DO FORNECEDOR
Dados do comprador Nome:
Preenchlda na PREENCHIMENTO
farmk!Vdrogaria Endereço: FARMACIAIOROGARlA

T~:

ldenddade No. órgão EmisSO<:


Dados daGrãl\ca: nome - endereço completo - CGC
Nome do Vendedor ''
O.Q
OJJOl.118 • Q.l00.08
N\mmçioclosu impmiio: do

PREENCHIMENTO PRESCRITOR N<.meraçjo ~. sio <orndida OMSA


Nome e tndt<eço complelos do paciente

FIGURA 4.2
Modelo explicativo para preenchimento da Notificação de Receita.
Fonte: Conselho Federal de Medicina.17
A prótica farmacêudca na farmócia comunJtória 83

• A NR deverá estar preenchida de forma


receitas contendo fármacos ou medica-
mentos controlados só poderão ser dis- legível, sendo a quantidade em algaris-
pensadas quando prescritas por médico, mos arábicos e por extenso, sem emenda
cirurgião-dentista ou médicos-veteriná- ou rasura.
rios, devidamente habilitados e prescre- • A farmácia ou drogaria somente poderá
vendo dentro de seus ãmbitos profissio-
nais.1,14 aviar ou dispensar quando todos os
itens da receita e da respectiva NR esti-
verem devidamente preenchidos.
• A NR será retida pela farmácia ou dro-
garia, e a receita devolvida ao paciente
desses medicamentos consiste em registrar e devidamente carimbada, como compro-
monitorar a emissão de receitas contendo vante do aviamento ou da dispensação.
produtos controlados e exigir da farmácia • A NR é personalizada e intransferível, de-
que dispense relatório periódico de todos os vendo conter somente uma substância das
produtos controlados adquiridos no ataca- listas AI e A2 (entorpecentes) e A3, 81 e
do, acompanhados de nota fiscal, e de todos 82 (psicotrópicos), C2 (retinoides de uso
os produtos dispensados acompanhados das sistêrnico) ou C3 (imunossupressores)
respectivas receitas. Esse relatório é conheci- deste Regulamento Técnico e de suas atu-
do como Balanço de Substâncias Psicoativas aliz.ações ou um medicamento que as con-
e de outras Substâncias Sujeitas a Controle tenha.
Especial (BSP0). 14• 16 • Em caso de emergência, poderá ser avia-
Para dispensação de medicamentos da a receita de medicamentos sujeitos a
controlados devem-se conhecer dois tipos NR à base de substâncias constantes das
principais de prescrição: a Notificação de listas da Portaria nº 344, de 12 de maio
Receita (NR) (Fig. 4.2) e a Receita de de 1998, e de suas atualizações, em papel
Controle Especial (RCE) (Fig. 4.3). Os não oficial, devendo conter obrigatoria-
medicamentos controlados são organiza- mente: o diagnóstico ou Classificação
dos em três grandes listas: Internacional de Doenças (CID), a justi-
ficativa do caráter emergencial do atendi-
l. A - subdividida em Al, A2 e A3; mento, data, inscrição no Conselho Re-
2. B - subdividida em 8 l e 82; e gional e assinatura devidamente identi-
3. C-subdividida em Cl, C2, C3, C4 e CS). fi cada. O estabelecimento que dispensar
a referida receita deverá anotar a identi-
A NR é o documento que, acompa- ficação do comprador e apresentá-la à
nhado da receita, autoriza a dispensação de Autoridade Sanitária local dentro de 72
medicamentos das listas A 1, A2, A3, 81, 82, (setenta e duas) horas, para "visto".
C2 e C3. A NR pode ser azul (para substân- • As prescrições por cirurgiões-dentistas e
cias da lista B), amarela (para substâncias médicos-veterinários só poderão ser fei-
da lista A), e ainda existem NRs especiais tas quando para uso odontológico e ve-
para retinoides de uso sistêrnico (lista C2; p. terinário, respectivamente.
ex., isotretinoína) e para irnunossupresso-
res (lista C3; p. ex., talidomida). A NR deverá conter de forma devida-
A seguir, é apresentada a lista de exigên- mente impressa os três primeiros itens a se-
. . , .
cias a serem cumpridas na emissão e dispen- gwr e apresentar as segwntes caracter1st1-
sação de notificações de receita: 14 cas:
84 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

a) Sigla da Unidade da Federação. de talonários emitida pela Vigilância Sa-


b) Identificação do emitente: nome do pro- nitária local.
fissional com sua inscrição no Conselho k) Identificação do registro: anotação da
Regional com a sigla da respectiva Uni- quantidade aviada, no verso, e, quando
dade da Federação ou nome da institui- se tratar de formulações magistrais, o
ção, endereço completo e telefone. número de registro da receita no livro de
c) Identificação do usuário: nome e endere- receituário.
ço completo do paciente e, no caso de uso
veterinário, nome e endereço completo do
proprietário e identificação do animal. RECEITA DE CONTROLE ESPECIAL
d) Nome do medicamento ou da substân-
cia: prescritos sob a forma de Denomi- A RCE é válida em todo o território nacional
nação Comum Brasileira (DCB), dosa- e deve ser preenchida em duas vias, apresen-
gem ou concentração, forma farmacêu- tando em destaque em cada uma das vias os
tica, quantidade (em algarismos arábicos dizeres: "lª via - Retenção da Farmácia ou
e por extenso) e posologia. Drogaria" e "2ª via - Orientação ao Paciente".
e) Símbolo indicativo: no caso da prescri- A RCE autoriza a dispensação de substâncias
ção de retinoides, deverá conter um sím- constantes nas listas Cl e CS. A Receita deve-
bolo de uma mulher grávida, cortada ao rá ser preenchida em 2 (duas) vias, manus-
meio, com a seguinte advertência: "Risco crita, datilografada ou informatizada, e de-
de graves defeitos na face, nas orelhas, no verá estar escrita de forma legível, com a
coração e no sistema nervoso do feto". quantidade em algarismos arábicos e por ex-
f) Data da emissão. tenso, sem emenda ou rasura, tendo validade
g) Assinatura do prescritor: quando os da- de 30 (trinta) dias contados a partir da data
dos do profissional estiverem devida- de sua emissão. 14• 16
mente impressos no campo do emitente, As farmácias ou drogarias ficarão
este poderá apenas assinar a NR. No ca- obrigadas a apresentar, dentro do prazo de
so de o profissional pertencer a uma ins- 72 (setenta e duas) horas, à Autoridade Sa-
tituição ou estabelecimento hospitalar, nitária local, as RCEs procedentes de outras
deverá identificar a assinatura com ca- Unidades Federativas para averiguação e
rimbo, constando a inscrição no Conse- visto. 14 Somente será permitida a aplicação
lho Regional, ou manualmente, de for- do fator de equivalência entre as substân-
ma legível. cias e seus respectivos derivados (base/sal)
h) Identificação do comprador: nome com- em prescrições contendo formulações ma-
pleto, número do documento de identifi- gistrais, sendo necessário que as quantida-
cação, endereço completo e telefone. des correspondentes estejam devidamente
i) Identificação do fornecedor: nome e en- identificadas nos rótulos da embalagem
dereço completo, nome do responsável primária do medicamento. 14
pela dispensação e data do atendimento. A prescrição de medicamentos à base
j) Identificação da gráfica: nome, endereço de substâncias antirretrovirais (lista C4) só
e CNPJ impressos no rodapé de cada fo- poderá ser feita por médico, e será aviada
lha do talonário. Deverão constar, tam- ou dispensada nas farmácias do Sistema
bém, a numeração inicial e final, conce- Único de Saúde (SUS), em formulário pró-
didas ao profissional ou à instituição, e o prio, estabelecido pelo programa de DST/
número da autorização para confecção aids, ficando a receita retida no estabeleci-
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltór la 85

RECEITUÃRIO CONTROLEESPECIAL

IDENTIFICAÇÃO DO EMITENTE la. \/IA FARMÁCIA


NomeCompl!lo: _ _ _ _ __ _ 2a. \/IA PAaNTE
CRM _ _ _ _ UF _ _ No. _ _

End«tQ> Completo eTelefone _ _ __

Od<>de: _ __ _ _ _ UF: _ _

Paciente:
--------------------~
Ende<eço: _ __ _ _ __ _ _ _ _ _ __ _ __ _ _ __

Prescrição: _ __ _ _ _ __ _ _ _ _ _ __ __ _ _ __

IDENTIFICAÇÃO DO COMPRADOR IDENTIFICAÇÃO DO FORNECEDOR

Nome:

ldent.: Ôrgão Emissor:


End"
Od<>de UF:
Telefone
I I
ASS4NATUAA DO FARMACEUTICO DATA

FIGURA't.3
Modelo padrão de Receita de Controle Especial
Fonte: Conselho Federal de Med!clna.17

mento. Ao paciente deverá ser entregue um obrigatoriamente: o diagnóstico ou CID, a


receituário médico com informações sobre justificativa do caráter emergencial do aten-
seu tratamento. É vedada a prescrição de dimento, data, inscrição no Conselho Re-
medicamentos à base de substâncias cons- gional e assinatura devidamente identifi-
tantes da lista C4 (antirretrovirais), da Por- cada. O estabelecimento que aviar ou dis-
taria nº 344, de 12 de maio de 1998, e de su- pensar a referida receita deverá anotar a
as atualizações, por médico-veterinário ou identificação do comprador e apresentá-la à
cirurgiões-dentistas. 14 Autoridade Sanitária do Estado, Município
Em caso de emergência, poderá ser ou Distrito Federal, dentro de 72 (setenta e
aviada ou dispensada a receita de medica- duas) horas, para visto. 14
mento à base de substâncias constantes das A prescrição poderá conter, em cada
listas Cl (outras substâncias sujeitas a con- receita, no máximo 3 (três) substâncias da
trole especial) em papel não privativo do lista Cl (outras substâncias sujeitas a con-
profissional ou da instituição, contendo trole especial) da Portaria n° 344, de 12 de
86 Cassyano J. Correr & Mie hei F. Otukl

diagnóstico e posologia, datando e assinan-


A prescrição de antirretrovirais poderá
conter, em cada receita, no máximo S (cin-
do as duas vias. 14
co) substâncias constantes da lista C4 (an-
tírretrovirais) ou medicamentos que as
contenham.14 NOTIFICAÇÃO DE
RECEITA AMARELA

maio de 1998, e de suas atualizações ou me- A Notificação de Receita A (Fig. 4.4) é de


dicamentos que as contenham. A prescrição cor amarela e é válida por 30 (trinta) dias, a
de antirretrovirais poderá conter, em cada contar da data de sua emissão, em todo o
receita, no máximo 5 (cinco) substâncias território nacional, sendo necessário que
constantes da lista C4 (antirretrovirais) ou esteja acompanhada da receita médica com
medicamentos que as contenham. 14 justificativa do uso quando para aquisição
A quantidade prescrita de cada subs- em outra Unidade Federativa. As farmácias
tância das listas Cl e CS limita-se a 5 (cin- ou drogarias são obrigadas a apresentar
co) ampolas e, para as demais formas far- dentro do prazo de 72 (setenta e duas) ho-
macêuticas, a quantidade para o tratamento ras, à Autoridade Sanitária local, as Notifi-
correspondente a, no máximo, 60 (sessenta) cações de Receita A procedentes de outras
dias. No caso de prescrição d.e substâncias Unidades Federativas, para averiguação e
ou medicamentos antiparkinsonianos e an- visto. 14
ticonvulsivantes, a quantidade ficará limita- As Notificações de Receitas A que con-
da a até 6 (seis) meses de tratamento. Acima tiverem medicamentos à base das substân-
das quantidades previstas, o prescritor de- cias constantes das listas AI e A2 (entorpe-
verá apresentar justificativa com o CID ou centes) e A3 (psicotrópicos) deverão serre-

NOTIFICAÇÃO DE RECEITA IDENTIFICAÇÃO DO EMITENTE ' /


IDENTIFICAÇÃO DO EMITENTE '
Nome:
NúMOO)
(UF 1
A Qualidade e Apresenta~
' ,/

Data de de
Paciente: Forma Fam. Concent. Unld. Posologia

Assinatura do Emitente
Ende<eço:
' ,/

/
IDENTIFICAÇÃO DO COMPRADOR ' /
IDENTIFICAÇÃO DO FORNECEDOR'
Paciente
Endereço Nome
I I
~dentldade ôrgão Emissor Telefooe
,/ Data
Dados da Gráfica: Nome - Endereço - CGC
'
FIGURA4.4
Modelo de Notificação de Receita A (receita a marela).
Fonte: Conselho Federal de Medicina.17
A prótlca farmacêutica na farmácia comunitária 87

metidas até o dia 15 (quinze) do mês de formulações magistrais, as formas far-


subsequente às Autoridades Sanitárias Esta- macêuticas deverão conter, no máximo, as
dual ou Municipal e do Distrito Federal, concentrações que constam das literaturas
por meio de relação em duplicata, que será nacional e internacional oficialmente reco-
recebida pela Autoridade Sanitária compe- nhecidas. 14•16
tente mediante recibo, sendo devolvidas no Quando, por qualquer motivo, for in-
prazo de 30 (trinta) dias. 14 •16 terrompido o tratamento com medicamen-
A Notificação de Receita A poderá con- tos à base de substâncias constantes das lis-
ter, no máximo, 5 (cinco) ampolas e, para as tas da Portaria n° 344, de 12 de maio de
demais formas farmacêuticas de apresenta- 1998, e de suas atualizações, a Autoridade
ção, poderá conter a quantidade correspon- Sanitária local deverá orientar o paciente
dente, no máximo, a 30 (trinta) dias de trata- ou seu responsável sobre a destinação do
mento. Acima das quantidades previstas na medicamento remanescente. 14
Portaria n ° 344, de 12 de maio de 1998, o
prescritor deve preencher uma justificativa
contendo o CID ou diagnóstico e posologia, NOTIFICAÇÃO DE RECEITA AZUL
datar e assinar, entregando-a junto com a
Notificação de Receita A ao paciente para ad- A Notificação de Receita B (Fig. 4.5), de cor
quirir o medicamento em farmácia ou dro- azul, terá validade por um período de 30
garia. 14,16 (trinta) dias contados a partir de sua emis-
No momento do envio da Relação são e somente dentro da Unidad e Federati-
Mensal de Notificações de Receita A (RMN- va que concedeu a numeração. 14• 16
RA) à Autoridade Sanitária Estadual, Muni- A Notificação de Receita B poderá con-
cipal ou do Distrito Federal, o estabeleci- ter, no máximo, 5 (cinco) ampolas e, para as
mento deverá enviar a Notificação de Recei- demais formas farmacê uticas, a quantidade
ta A acompanhada da justificativa. No caso para o tratamento correspondente, no má-

[ UF I
NOTIFICAÇÃO OE RECEITA

NOMffiO

B
IDENTIFICACÃO DO EMITENTE Medicaimnt0 ou Su'bstancl•

OuantidlCft t For'nla fa~


1

1
Do>t por Ullid>d< Posol6giea
de de Paciente:

1
Endereço: Posologlo

Assinatura do Emitente
1
IDENTIFICA< AO DO COMPRADOR CARIMBO DO FORNECEDOR
Nome:
Endereço:
Telefooe: I I
Identidade No. ÔrQào Emissor. Nome do Vendedor Data
Dados da Gráfica: nome - endereço completo-CGC Numeração de-SUi impressão: de até

FIGURA4.5
Modelo de Notificação de Receita B (receita azul).
Fonte: Conselho Federal de Medicina.17
88 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

ximo, a 60 (sessenta) dias. Acima das quan- da Portaria n° 344/98 e de suas atualizações
tidades previstas na Portaria n° 344, de 12 associadas a substâncias simpatolíticas ou
de maio de 1998, o prescritor deve preen- parassimpatolíticas.14
cher uma justificativa contendo o CID ou Para a prescrição de medicamentos
diagnóstico e posologia, datar e assinar, en- contendo fármacos anorexígenos (p. ex.,
tregando-a juntamente com a Notificação derivados anfetamínicos), é utilizada a No-
de Receita B ao paciente para adquirir o tificação de Receita B2 (Fig. 4.6). Esta tem
medicamento em farmácia ou drogaria. 14·16 validade somente no Estado de origem, pe-
No caso de formulações magistrais, as lo prazo de 30 dias, e o médico pode pres-
formas farmacêuticas deverão conter, no crever a quantidade suficiente para um mês
máximo, as concentrações que constam das de tratamento por notificação.
literaturas nacionais e internacionais ofi-
cialmente reconhecidas. Ficam proibidos a
prescrição e o aviamento de fórmulas con- NOTIFICAÇÕES DE RECEITA PARA
tendo associação medicamentosa das subs- IMUNOSSUPRESSORES
tâncias anorexígenas constantes das listas
da Portaria n° 344, de 12 de maio de 1998, e A Notificação de Receita para a prescrição
de suas atualizações quando associadas en- de medicamento à base de substâncias da
tre si ou com ansiolíticos, diuréticos, hor- lista C3 (imunossupressores), de cor bran-
mônios ou estratos hormonais e laxantes, ca, está sob responsabilidade dos serviços
bem como com quaisquer outras substân- públicos de saúde devidamente cadastrados
cias com ação medicamentosa. Ficam proi- junto ao órgão de Vigilância Sanitária Esta-
bidos a prescrição e o aviamento de fórmu- dual. 14
las contendo associação medicamentosa de A quantidade de talidomida por prescri-
substâncias ansiolíticas constantes das listas ção, em cada Notificação de Receita, não pode-

[ UF I
NOTIFICAÇÃO DE RECEITA

NOMEOO

IB2
IOENTIFICACAO 00 EMITENTE M.edicamen."O ou Subsdncia

Quantidade e í-om11 farrNdudca

de de Paciente 0ost PO< Unôdadt Po!ol6gio

Endereço: ..._
Assinatura do Emitente
IDENTIFICAÇÃO 00 COMPRADOR CARIMBO 00 FORNECEDOR
Nome:
Endereço:
Telefone: I I
Identidade No. ôrnao Emisso<: Nome do Vendedor Data
Dados da GrMica: nome- endereço completo - CGC Numtraç.&o de$tJ irnpress&o: dt •té

FIGURA4.6
Modelo de Notificação de Receita B2 para substdncias anorexígenas.
Fonte: Conselho Federal de Medicina.17
A prótica farmacêutica na farmócla comunltória 89

rá ser superior à necessária para o tratamento A Notificação de Receita Especial de


de 30 (trinta) dias. A Notificação de Receita Es- Retinoides, para preparações farmacêuticas
pecial da Talidomida terá validade de 15 (quin- de uso sistêmico, poderá conter, no máxi-
ze.) dias, contados a partir de sua emissão, e so- mo, 5 (cinco) ampolas e, para as demais
mente dentro da Unidade Federativa que con- formas farmacêuticas, a quantidade para o
cedeu a numeração (Fig. 4.7).1 4 ,16 tratamento correspondente, no máximo, a
30 (trinta) dias, contados a partir de sua
emissão, e somente dentro da Unidade Fe-
NOTIFICAÇÕES DE RECEITA PARA derativa que concedeu a numeração. 14• 16
RETINOIDES DE USO SISTÊMICO A Notificação de Receita Especial para
dispensação de medicamentos de uso sistê-
A Notificação de Receita Especial, de cor mico que contenham substâncias constan-
branca, para a prescrição de medicamentos tes da lista C2 (retinoides) deverá estar
à base de substâncias constantes da lista C2 acompanhada de "Termo de Consentimen-
(retinoides de uso sistêmico) será impressa to Pós-Informação", fornecido pelos profis-
p elo médico prescritor ou pela instituição a sionais aos pacientes alertando-os que o
qual esteja filiado, terá validade por um pe- medicamento é pessoal e intransferível e
ríodo de 30 (trinta) dias con tados a partir das suas reações e restrições de uso. Existem
de sua emissão e som ente dentro da Unida- modelos de termos de consentimento suge-
de Federativa que concedeu a numeração ridos pelo fab ricante dos produtos e pelo
(Fig. 4.8). 14 próprio Ministério da Saúde. O termo deve

NOTIFICA~ÃO DE RECEITA '\


'
/ IOENTIFICACÃO 00 M~DICO /
TAL DOMIDA IDENTIFICAÇÃO DO MEDICAMENTO
Nome:
NOMERO) Endereço: TAU DOM IDA (1OOmg)
(UF
Especialidade: CRM:
1
CPF:
'
Data_de de Quantidade (em algarismos arabicos e
por extenso) em comprimido~
Assinatura do Emitente/Carimbo dose diária mg
/
' ' ,)

'
/ IDENTIF1CAÇÃO DO PAOENTE
Nome: /
DAOOS SOBRE A DISPENSAl"ÃO '
CID Idade: Sexo: fone: ( ) Quantidade (Comp.)
Endereço: Nome do Dispensador:
/
' Doe. ldentlficaçAo: lipo: ôrg. Emissor. _ Assinatura/Carimbo do Responsável Técnico
/ '\ \,, /
IDENTIFICAÇÃO DA I I
UNIDADE DE SAÚDE /
IDENTIFICACÃO DO RESPONSÁVEL (SE FOR OCASO) ' ' Data da Disoensar>o ,
No. da Unidade: Nome:

No. da lnsc. Prog; Endereço:


Fone: { ) carimbo Padronizado da Unidade de Saúde
Data de lnscriç&>:
Doe. ldentificaçAo: lipo: Ôlg. Emissor._
, ,
'

FIGURA4.7
Modelo de Notificação de Receita para Talidomida.
Fonte: Conselho Federal de Medicina.17
90 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

ser entregue junto da receita para dispensa- 1. monitorar a dispensação de medicamen-


ção do medicamento, e uma cópia do termo tos e substâncias entorpecentes e psico-
deve ficar arquivada na farmácia. A Figura trópicas e seus precursores;
4.9 traz um exemplo que pode ser utilizado 2. aperfeiçoar o processo de escrituração
pelo farmacêutico. tornando-o totalmente informatizado e
O Quadro 4.3 apresenta um resumo abandonando definitivamente os livros
das informações sobre receituário, prescri- manuais de escrituração;
ção e escrituração de medicamentos sujei- 3. permitir o monitoramento de hábitos
tos a controle especial. de prescrição e consumo de substâncias
controladas em determinada região pa-
ra propor políticas de controle;
SISTEMA NACIONAL DE 4. captar dados que permitam a geração de
GE.RENCIAMENTO DE informação atualizada e fidedigna para o
PRODUTOS CONTROLADOS Sistema Nacional de Vigilância Sanitária
(SNVS) para a tomada de decisão; e
O Sistema Nacional de Gerenciamento de 5. dinamizar as ações da Vigilância Sanitária.17
Produtos Controlados (SNGPC) é um ins-
A base do processo consiste na farmá-
trumento informatizado para captura e tra-
cia dispor de um programa de computador
tamento de dados sobre produção, comér- (não fornecido pela Anvisa) que seja capaz
cio e uso de substâncias ou medicamentos
de registrar todas as informações pertinentes
sujeitos a controle especial. Segundo a An-
da dispensação de produtos controlados e de
visa, o SNGPC tem por objetivos: emitir relatórios (que substituem os balance-

NOTIFICAÇÃO DE RECEITA ESPECIAL


RETINOIDES SISTEMICOS IDENTIFICAÇÃO DO EMITENTE ESPECIALIDADE/
(Verificar Termo de Conhecimento) SUBSTÃNOA
CUFT NUMEROJ SubstAncla
O lsotretinoína

O Tretinoina GRAVIDEZ PROIBIDA!


Oata _ _ de _ _ _ de _ Risco de graves defeitos
na face nas orelhas, no
O Acltretina coiaç.!o e no sistema
Paciente _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
nervoso do feto
ldade _ _ _ _ _ Sexo _ _ _ _ __
Posologia
Prescrição Inicial O Subsequente O
- -Assinatura
--- - - - - Endereço _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __
do Emitente

IDENTIFICAÇÃO DO COMPRADOR IDENTIFICAÇÃO DO FORNECEDOR


Nome _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Endereço - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - Assinatura
ldentidadeNo. _ _ _ _ _ OrgãoEmissor _ _ _Telefone - - - - -
I I
- - Data - -
Dados da Gráfica: Nome - Endereço Completo- CGC Nu.,,...çãodtst> lmptes•ãcxdt - - - 1 141- - -

FIGURA4.8
Modelo de Notificação Especial de Receita para Retinoides.
Fonte: Conselho Federal de Medlcina.17
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitórla 91

TERMO DE CONSENTIMENTO INFORMADO

Eu, (nome do(a) paciente), abaixo identificado(a) e firmado(a), declaro ter sido informado (a) clara-
mente sobre todas as indicações, benefícios, cuidados e riscos relacionados ao uso do medicamento
ISOTRETlNOÍNA, produzido pelo Laboratório sob o nome para o
tratamento de acne. Estou ciente, principalmente, do risco de defeitos graves sobre o bebê em caso
de gravidez durante ou até um mês após o tratamento.
Os termos médicos foram explicados e todas as minhas dúvidas foram resolvidas pelo médico
(nome do médico que prescreve). Expresso também minha concordância e espontânea vontade em
submeter-me ao referido tratamento, assumindo a responsabilidade e os riscos pelos eventuais efei-
tos indesejáveis decorrentes. Declaro estar ciente de que o uso deste remédio está indicado somente
nos casos mais graves de acne (nodulocística ou conglobata) e acnes que não melhoraram com
outros tratamentos, inclusive com antibióticos por via oral.
Estou ciente dos seguintes benefícios esperados com este tratamento:
1. Redução no tamanho, gravidade e número das lesões, podendo ocorrer desaparecimento des-
tas (em 80 a 90% dos casos).
2. Possibilidade (cerca de 60%) de as lesões não mais retornarem após o término do tratamento.
Para mulheres em idade fértil:
Ao assinar o termo, a paciente se compromete definitivamente a adotar todas as medidas descritas
no documento, incluindo cuidados a serem tomados antes, durante e após o término do tratamento.
Um novo termo de consentimento deve ser preenchido e assinado apenas se a paciente iniciar um
novo ciclo de tratamento ou passar a fazer uso de outra substância retinoide sistêmica.
1. Fui informada de que esta medicação tem altíssimo risco de causar defeitos congênitos graves
no corpo do bebê se for utilizada por mim durante a gravidez. Já nasceram mais de 250 bebês
com graves deformações na face, nas orelhas, no coração ou no sistema nervoso devido ao uso
dessas substâncias. Esse risco persiste por até um mês após ter parado de usá-la.
2. Realizei um teste de gravidez de alta sensibilidade (que detecta a gravidez desde o primeiro dia
de atraso menstrual). Data do teste: I I Resultado: (ane-
xar cópia do exame).
3. Fui orientada a aguardar o início da próxima menstruação para começar o tratamento no
segundo ou terceiro dia do ciclo menstrual.
4. Fui orientada a utilizar método anticoncepcional altamente eficaz. Método em uso: _ _ __
Data de início: I / ____
5. Fui orientada a comunicar ao médico a ocorrência de qualquer reação adversa, problema ou
dúvida quanto ao método anticoncepcional.
6. Caso venha a engravidar no período descrito no item 1, comprometo-me a parar imediatamente
o tratamento e comunicar ao médico.
Declaro ter sido orientado(a) sobre os possíveis efeitos colaterais:
1. Congênitos: altíssimo risco de defeitos congênitos graves sobre o bebê em caso de gravidez
enquanto estiver usando o remédio e até um mês após seu uso.
2. Neurológicos: fadiga, cefaleia, hipertensão intracraniana, neurite óptica, alterações visuais e
depressão.
3. Dermatológicos: ressecamento de pele e mucosas e fotossensibilidade.
4. Hepáticos: hepatite medicamentosa.
5. Gastrintestinais: náuseas, vômitos e dor abdominal, doença inflamatória intestinal.
6. Renais: proteinúria e hematúria.

(continua)

FIGURA 4.9
Termo de Consentimento Informado para uso de retinoides sistêmicos.
92 Cassyano J. Correr&: Michel F. Otukl

7. Musculoesqueléticos: artralgia, dor muscular e hiperostose.


8. Oculares: conj untivite, opacidade corneana, fotofobia, intolerância a lentes de contato e dimi-
nuiçâo da visão noturna.
9. Hematológicos: anemia, leucopenia, trombocitopenia e trombocitose.
1O. Endocrinológicos: hipertrigliceridemia, diminuição do colesterol HDL e hiperglicemia.
Declaro ter sido orientado(a) a:
1. Comparecer às consultas periódicas conforme agendadas e a realizar os exames e as avaliações
solicitados pelo médico.
2. Não usar outros remédios sem orientação médica, principalmente: vitamina A, carbamazepina,
tetraciclina e minociclina.
3. Não doar sangue durante e até um mês após o término do tratamento.
Fui informado{a) de que este produto somente pode ser utilizado por mim e não pode ser passado
para nenhuma outra pessoa.
Estou ciente de que posso suspender este tratamento a qualquer momento, sem que esse fato
implique qualquer forma de constrangimento entre mim e meu médico, que se dispõe a continuar
me tratando em quaisquer circunstâncias.
Assim o faço por livre e espontânea vontade e por decisão conjunta entre mim e meu médico.
Local: Data: I / _ __

Identificação do Paciente:
Nome_ · - - - - - - - - - - - - - - - Sexo: ( ) M { ) F Estado civil: - - - - -
Identidade_·_ _ _ Data de nascimento: ___ / ___ / ___ Profissão: _ _ _ _ __
Endereço:._ _ _ _ _ _ n Bairro: _ _ __
Cidade: Telefone: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Responsável legal (quando for o caso, por exemplo, sempre que o paciente ou a paciente for menor
de 18 anos):
Nome_·_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Sexo: ( ) M ( ) F Estado civil: _ _ _ __
Identidade· Data de nascimento: I I Profissão: - - - - - -
Endereço:._ _ _ _ _ _ n Bairro: _ _ __
Cidade: Telefone: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ __

Identificação do Médico:
Nome_ · _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ sexo:{ )M( )F
Cidade: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _Telefone: _ _ _ _ _ _ _ _ __

Assinatura/Carimbo do médico Assinatura do paciente ou de seu responsável legal


Obs.:
1. O preenchimento completo deste Termo de Consentimento é imprescindível para o forneci-
mento da medicação.
2. Este Termo de Consentimento deve ficar arquivado na farmácia responsável pela dispensação
dos medicamentos.

FIGURA 4 .9 (Continuação)
Termo de Con sentimento Informado para uso de r etinoides sistêmicos.
QUADRO 4.3 Normas sobre receituário, prescrição e escrituração de medicamentos controlados

NR, Quantidade Balanços


receita Limite por por receita
Lista Substãncias eãmbito prescrição e validade Substância Medicamento

Al Entorpecentes NR A. amarela, necessá- 5 ampolas ou quantidade para 1 substância BA BSPO 3 vias BA


rio justificativa para 30 dias de tratamento para as 30 dias trimestral e BMPO
A2 Entorpecentes outro Estado outras formas farmacêuticas anual 2 vias trimestral e
(concentrações RMN-RA anual
especiais) 2 vias, mensal
A3 Psicotrópicos
-BA
Bl Psicotrópicos NR B, azul, Estadual 5 ampolas ou quantidade para
60 dias de tratamento para as BSPO RMN-RA
B2 Psicotrópicos outras formas farmacêuticas 3 vias 2 vias, mensal
,
anorex1genos trimestral e MCPM >
Cl Outras substâncias de Branca, dupla, Nacional 2 substâncias anual 't:I
....
p.
controle especial 30 dias o.
n
p

C2 Retinoides Especial, Estadual 5 ampolas ou quantidade para 1 substância 13'


30 dias de tratamento para as
outras formas farmacêuticas
30 dias
ª-
p
n
""~
(3 1mu nossupressores Especial, Estadual Quantidade para 30 dias de 1 substância n
p
tratamento 15 dias ::s
p

(4 Antirretrovirais Branca, dupla, Estadual 5 ampolas ou quantidade para 5 substâncias ij'


60 dias de tratamento para as 9p.
30 dias
cs Anabolizantes Branca, dupla, Nacional
outras formas farmacêuticas
a.
p
3 substâncias on
30 dias 9e:

Legenda: NR, notificação de receita; BA, balanço de aquisições; BSPO, balanço de substâncias psicoativas e de outras sujeitas a controle especial; RMN-RA, relação mensal de -...
::s
p.

Receita A; BMPO, balanço de medicamentos psicoativos e de outros sujeitos a controle especial; MCPM, mapa do consolidado das prescrições de medicamentos. -
....
p

IO
UJ
94 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

tes) em formato XML (Extended Markup


Com a informatização dos registros sobre a
Language). O SNGPC para farmácias e dro- venda de medicamentos controlados,
garias particulares é a primeira etapa de um criou-se uma tendência de ampliação das
projeto maior, integrante da Política da listas de medicamentos da Portaria nº 344,
Agência Nacional de Vigilância Sanitária, de 12 de maio de 1998, com a inclusão de
novas classes terapêuticas, como, por
que deverá, futuramente, englobar toda a ca- exemplo, os antibióticos.
deia de produção (farmácias hospitalares e
públicas, indústrias e distribuidoras). 18
A escrituração do estoque e a movi- criou-se uma tendência de ampliação das lis-
mentação de substâncias e medicamentos tas de medicamentos da Portaria nº 344, de
sujeitos a controle especial por meio do SN- 12 de maio de 1998, com a inclusão de novas
GPC substituirá a escrituração manual em classes terapêuticas, como, por exemplo, os
livros específicos, porém os estabelecimen- antibióticos. Isso se consolidou com a publi-
tos continuarão a apresentar e encaminhar cação da RDC nº 20, de 25 de janeiro de
aos órgãos competentes de Vigilância Sani- 2011, pela Anvisa, que, revogando a RDC nº
tária os seguirltes documentos: 1) Balanços 44, de 17 de agosto de 2010, anterior, estabe-
Trimestrais e Anuais (BSPO, BMPO); 2) lece a inclusão dos antimicrobianos no SN-
Relação Mensal das Notificações de Receitas GPC e a obrigatoriedade de retenção da re-
A- RMNRA; 3) Relação Mensal das Notifi- ceita e escrituração, tanto para farmácias pú-
cações de Receitas B2 - RMNRB2. 18 blicas como privadas. Essa tendência vem de
encontro à necessidade de moraliur a venda
de medicamentos tarjados sem apresentação
A venda de medicamentos controlados da respectiva receita médica e de dificultar o
em quantidade menor do que a que foi
prescrita e a geração de #crédito" para o
acesso por automedicação a esses medica-
paciente vir buscar mais medicamentos mentos.
em outra data é ilegal. Considerando a implementação rela-
tivamente recente do SNGPC e a velocida-
de com que novas informações e normati-
A venda de medicamentos controla- vas surgem a respeito, é importante que os
dos em quantidade menor do que a que foi farmacêuticos interessados mantenham-se
prescrita e a geração de "crédito" para o pa- atuali74dos para além das informações con-
ciente vir buscar mais medicamentos em tidas neste capítulo. Para tanto, recomenda-
outra data é ilegal. Caso o cliente deseje -se consultar o site da Anvisa.
comprar menos do que foi prescrito, é seu
direito, mas ele deve ser informado de que
não poderá retirar as outras unidades futu- CONSIDERAÇÕES FINAIS
ramente (mesmo dentro do prazo de vali-
dade da receita). O farmacêutico deve, nes- A avaliação de uma prescrição medicamen-
ses casos, utilizar o chamado "carimbo re- tosa tem por objetivo preservar a segurança
dutor"batido no verso da receita. Registra-se do paciente e prevenir erros de dispensação
no carimbo e lança-se no programa a quan- e utilização. Estes podem advir de falhas na
tidade realmente dispensada do medica- transmissão da informação contida na re-
mento (Fig. 4.10). 18 ceita sobre o tratamento. Os aspectos legais
Com a informatização dos registros so- são parâmetros objetivos que devem ser
bre a venda de medicamentos controlados, avaliados a cada dispensação de medica-
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 9S

Declaro que levei sorTBnte ..................... do


nie c:I eaf'1'le rt o ... .... ... .............. ... ....... ... .... ... ..
prescrito na notificação de receita ............ .
nº ........ ... ... .. Data I I __

Pacierie/Consumídor ................................. .
ldertidade: .............................. Org.Exp ... ... .

Ass I carirri>o Farmacêutico

FIGURA4.10
Modelo de carimbo redutor utilizado para registrar a quantidade efetivamente dispensada de medica-
mentos controlados (formato 5 x 7 cm).

mentos prescritos. Estes incluem principal- ra Melhoramentos; 2008 [capturado em 15


mente a completude do receituário, a ade- maio 2012]. Disponível em: http://michae-
quação do tipo de receita ao medicamento lis.uol.eom.br/.
5. Weed LJ. The problem oriented record as
prescrito e o preenchimento dos itens obri-
a basic tool in medical education, patient
gatórios de cada receita. Além desses aspec- care and clinical research. Ann Clin Res.
tos, a interpretação e a avaliação dos aspec- 1971;3(3):131-4.
tos clínicos intrínsecos à seleção da terapêu- 6. Weed LL. Medical records that guide and te-
tica devem ser realizadas, e o paciente deve ach. N Eng! J Med. 1968;278(11):593-600.
ser informado sobre como cumprir o trata- 7. Weed LL. Medical records, patient ca-
mento adequadamente. re, and medical education. Ir J Med Sei.
1964;17:271 -82.
8. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional
de Vigilância Sanitária. Lei n° 5.991, de 17 de
REFERÊNCIAS dezembro de 1973. Dispõe sobre o controle
sanitário do comércio de drogas, medicamen-
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dicamentosa. ln: Fuchs FD, Wannmacher L, outras providências [Internet]. Brasília: MS;
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nica fundamentos da prescrição racional. vel em: http://www.anvisa.gov.br/legis/conso-
3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; lidada/lei_5991_73.htrn.
2004. p. 86-95. 9. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Na-
2. Organização Mundial de Saúde. Guia para cional de Vigilância Sanitária. Lei n° 9.787,
a boa prescrição médica. Porto Alegre: Art- de 10 de fevereiro de 1999. Altera a Lei nº
med, 1998. 6.360, de 23 de setembro de 1976, que dis-
3. Pepe VLE, de Castro CGSO. A interação en- põe sobre a vigilância sanitária, estabelece o
tre prescritores, dispensadores e pacientes: medicamento genérico, dispõe sobre a util.i-
informação compartilhada como possível zação de nomes genéricos em produtos far-
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mento técnico sobre substâncias e medica- ria, estabelece o medicamento genérico, dispõe
mentos sujeitos a controle especial [Inter- sobre a utilização de nomes genéricos em produ-
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de Vigilância Sanitária. Portaria n° 344, de 12 de
de maio 2012). Disponível em: http://
maio de 1998. Aprova o regulamento técnico so-
pt.wikipedia.org/\vi.ki/Olho_de_Horus.
bre substâncias e medicamentos sujeitos a con-
16. Centro de Informação de Medicamentos
trole especial [Internet]. Brasília: MS; 1998 [cap-
do Conselho Regional de Farmácia do Es-
turado em 15 maio 2012]. Disponível em: http://
tado do Paraná (CIM-CRF-PR). Manual de
www.anvisa.gov.br/legis/portarias/344_98.htm.
orientação para o comércio e dispensação de
substância e medicamentos sujeitos a con- Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de
trole especial. CIMformando. 2006;4(2):1-8. Vigilância Sanitária. Resolução RDC n° 138, de
17. Conselho Federal de Medicina. Conselho 29 de maio de 2003. Dispõe sobre o enquadra-
Regional de Medicina da Paraíba. Manual mento na categoria de venda de medicamentos.
de orientações básicas para prescrição mé- Brasília: MS; 2003.
dica. João Pessoa: Ideia; 2009. Conselho Federal de Farmácia. Resolução CFF oº
18. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacio- 357, de 20 de abril de 2001 . Aprova o regulamen-
nal de Vigilância Sanitária. Sistema Nacio- to técnico das Boas Práticas de Farmácia. Brasí-
nal de Gerenciamento de Produtos Con- lia: CFF; 2001.
Interpretação e avalia ção
da prescrição medicamentosa:
aspect os clínicos
CASSYANO J . CORRER
ANA CAROLINA MELCHIORS
MICHEL F. OTUKI

Quando surgem dúvidas a respeito da


A interpretação da receita mé-
dica ou odontológica pelo farma- prescrição ou quando a ausência de in for-
cêutico tem como objetivo central mações não pern1ite uma dispensação segu-
compreender o tratamento do paciente a flm ra, o prescritor deve ser contatado pelo far-
de poder orientá-lo de modo adequado e ser ca-
macêutico para esclarecimento. Isso pode
paz de responder suas dúvidas. Para tanto, o far-
macêutico deve levar em consideração aspectos ser feito por via escrita, em infor1ne redigi-
terapêuticos do medicamento prescrito (biofar- do no próprio verso da prescrição ou em
macêuticos e farmacológicos), adequação ao in- papel timbrado da farmácia, para as situa-
divíduo, interações medicamentosas relevantes,
ções que não requerem resolução imediata
contraindicações e aspectos legais, sociais e eco-
nômicos da receita. 1 ou na impossibilidade de falar diretamente
com o prescritor. Nas situações urgentes ou
que impedem a realização da dispensação,
Depois de avaliados os aspectos legais deve-se utilizar o contato telefônico, procu -
da prescrição (Cap. 4), o farmacêutico deve rando manter um diálogo de alto nível, cen -
compreender os principais aspectos tera- trado no problema do paciente.
pêuticos que irão interferir diretamente na
adesão do paciente ao tratamento. Estes in-
cluem os objetivos do tratamento, a com- OBJETIVOS DO TRATAMENTO
plexidade do regime terapêutico e como
simplificá-lo, as interações medicamentosas A partir das informações da prescrição, é
e as eventuais contraindicações, como tera- possível ao farmacêutico reconhecer os obje-
togenicidade ou hipersensibilidade, que po- tivos terapêuticos da 1naioria das condições
dem restringir a dispensação do 1ned ica- clinicas dos pacientes. Em algumas situações,
mento. Os principais aspectos da prescrição entreta11to, a fim de se ter clareza sobre as
a sere1n avaliados, no contexto do processo metas a serem alcançadas, será necessário
de atenção ao paciente, estão listados na Fi- obter informações do paciente sobre o diag-
gura 5.1. nóstico, o quadro clinico e que orientações
98 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

foram dadas pelo prescritor. Isso ocorre, por Tendo como exemplo a pneumonia
exemplo, no caso de medicamentos que têm pneurnocócica, a causa consiste em infecção
múltiplas indicações, em que se torna im- pelo pneumococo (Streptococcus pneumo-
possível deduzir o objetivo do tratamento niae), e os fatores contribuintes podem in-
sem conhecer a história clínica do paciente. cluir comprometimento do mecanismo de
Toda doença apresenta uma ou várias defesa do hospedeiro. A patologia primária
causas, que, somadas a fatores contribuin- corresponde à resposta inflamatória, que re-
tes, resultam na patologia primária. Por sua sulta em alteração pneumônica. Isso, por sua
vez, uma patologia primária pode levar a vez, resulta em anormalidades da função pul-
patologia secundária e complicações. Os si- monar, com consequente patologia secundá-
nais e sintomas podem estar relacionados ria, incluindo hipoxia. Entre as complicações
tanto à patologia primária, à secundária ou desse processo podem surgir pleurite, derra-
às complicações.2 Assim, é essencial para o me pleural ou infecção metastática. Cada
farmacêutico compreender a fisiopatologia uma delas (a patologia primária, a secundária
da doença, a fim de reconhecer claramente e as complicações) produz seus próprios si-
o objetivo terapêutico proposto e poder nais e sintomas (p. ex., dispneia, febre, dor to-
orientar o paciente com exatidão. rácica e tosse). Esse raciocínio pode ser apli-
cado a qualquer doença e permite analisar os
processos que se deseja modificar com a far-
~ essencial para o farmacêutico compre- macoterapia, bem como definir as metas de
ender a fisiopatologia da doença, a fim de formas individuais de tratamento e seu im-
reconhecer claramente o objetivo tera- pacto global sobre o estado do paciente.2
pêutico proposto e poder orientar o pa-
ciente com exatidão. Entre os objetivos mais gerais de um
tratamento farmacológico estão:3•4

Paciente
(Estado de saúde
inicial)

i Diagnóstico
Aspectos legais
1
_ Completude
Prescrição
Processo Objetivos do tratamento
deatençio 1 Regime terapêutico
à saúde Dispensação Complexidade do regime
Contraindicações
1 Custos
Administração

Desfecho (Mudança
no estado de saúde)

FIGURAS.1
Processo de atenção ao paciente, atividades profissionais relacion adas e principais aspectos da pres-
crição avaliados dur ante a dispensação.
A prótica farmacêutica na farmócla comunltória 99

1. a cura de uma doença nais da saúde, pois consiste normalmente


2. o controle de uma doença na remissão dos sintomas (p. ex., febre e
3. o alívio de sintomas dispneia na pneumonia pneumocócica) e/
4. a prevenção de doenças ou ou no desaparecimento de algum sinal cli-
5. a normalização de exames laboratoriais nico ou laboratorial (p. ex., exame de fezes
(Quadro 5.1) negativo para presença de parasitas).
Existem condições clinicas que se ma-
Para o paciente, reconhecer o objetivo nifestam de forma diferente, e isso tem im-
terapêutico é importante, pois isso pode au- pacto sobre os objetivos do tratamento. As
mentar a concordância e a adesão ao trata- condições crônicas caracterizam-se pelo
mento, ao elevar o nível de conhecimento início de manifestação geralmente gradual,
do paciente sobre sua condição. Além disso, pela duração longa ou indefinida da doença
reconhecendo os objetivos e as metas do ou da condição, pelas causas múltiplas eva-
uso de medicamentos, será possível avaliar riáveis ao longo do tempo, pelo diagnóstico
a evolução clínica e os resultados terapêuti- e pelo prognóstico normalmente incertos,
cos, em busca de sinais e sintomas que indi- pelas intervenções em geral, não decisivas e,
quem efetividade do tratamento ou surgi- muitas vezes, com efeitos adversos, e pelo
mento de reações adversas. resultado que não é a cura, mas o cuidado
Entre os tratamentos mais comuns continuado. Nessas condições, as incertezas
que visam a cura de uma doença estão as te- são muito presentes, e o conhecimento deve
rapêuticas anti-infecciosas e antiparasitá- ser compartilhado por profissionais e pa-
rias. Doenças que recebem esse tipo de tra- cientes de forma complementar.
tamento geralmente são aquelas cuja etiolo-
gia é bem conhecida e para a qual se
dispõem de fármacos eficazes e protocolos
de tratamento bem-estabelecidos. Essas do- li As condições crõnicas caracterizam-se pe-
lo início de manifestação geralmente gra·
~
enças são, em geral condições agudas, que
dual, pela duração longa ou indefinida da
se caracterizam por duração limitada, ma- doença ou da condição, pelas causas múl-
nifestação rápida, causa normalmente sim- tiplas e variáveis ao longo do tempo, pelo
ples, diagnóstico e prognóstico precisos e diagnóstico e pelo prognóstico normal·
cujo resultado das intervenções leva, nor- mente incertos, pelas intervenções em
geral, não decisivas e, muitas vezes, com
malmente, à cura. 5 Reconhecer o alcance efeitos adversos, e pelo resultado que não
desse objetivo terapêutico costuma ser mais é a cura, mas o cuidado continuado.
simples para o paciente e para os profissio-

QUADRO 5.1 Objetivos terapêuticos possíveis de uma prescrição medicamentosa

Cura de uma doença


Controle de uma doença
Alívio de sintomas
Prevenção de doença(s)
Normalização de um exame laboratorial
Fonte: Cipolle e colaboradores. 4
100 Cossyono J. Correr & Mlchel F. Oruki

As condições crônicas não devem ser


11 O objetivo central do tratamento de uma
confundidas com doenças crônicas, ainda doença crônica degenerativa é o controle
que haja relação entre elas, porque o que
define uma condição crônica é, fundamen-
~ ou retardo de sua evolução clínica.

talmente, seu ciclo de vida, que deve ser su-


perior a três semanas. Sob esse raciocínio, a seu início e manifestação em pessoas mais
gestação é considerada uma condição crô- jovens.6•7
nica, que requer cuidados especiais durante O objetivo central do tratamento de
um período de tempo relativamente longo. uma doença crônica degenerativa é o con-
Muitas doenças infecciosas, como a tuber- trole ou retardo de sua evolução clínica.
culose e a hanseníase, também devem ser Considerando a impossibilidade de cura
consideradas condições crônicas em razão pelo tratamento medicamentos o em curto
de seu tempo de duração, ainda q ue o obje- prazo, o que se pretende é modificar a his-
tivo do trata.m ento seja a cura.5 O mesmo tória natural da doença, mantendo contro-
pode ocorrer com doenças crônicas do gru- lados indicadores clínicos e laboratoriais da
po das neoplasias malignas, que podem ter doença e prevenindo o surgimento de com-
sua história natural modificada por inter- plicações crô nicas ou a morte precoce.
venções médicas, em geral cirúrgicas, po- Entre as condições crônicas mais co-
dendo resultar também em curso clínico muns estão as doenças com repercussões
para cura. 6 cardiovasculares, como a hipertensão arte-
A doença crônica é uma condição in- rial, o diabetes melito e a hipercolesterole-
capacitante que requer longo tempo de cui- mia, entre o utras. Para que sejam compre-
dado, além de contínua e concomitante endidos os objetivos desses tratamentos, é
ação de prevenção primária, secundária e, preciso entender o conceito de desfecho clí-
muitas vezes, serviços de reabilitação. O nico. Por desfecho clínico (clinicai outcome)
processo de cura é muito lento ou inexis- entende-se a mudança no estado de saúde
tente com a idade, gerando incapacidade do paciente atribuída à intervenção em saú-
residual e, algumas vezes, frequente recor- de ou à própria evolução da doença. 8 No
rência da doença. curso de uma doença crônica, são observa-
As características essenciais de uma dos os desfechos intermediários , constittú-
doença crônica degenerativa (ou não trans- dos geralmente por dados laboratoriais o u
missível) são: a história natural prolongada, sinais físicos, e os desfechos finais, represen-
a multiplicidade de fatores de risco comple- tados comumen te pelo surgimento de com-
xos, as interações de fatores etiológicos co- plicações crônicas, mortalidade ou qualida-
nhecidos e desconhecidos, o longo período de de vida. 9
de latência, o longo curso assintomático, o Tendo como exemplo a hipertensão
curso clínico em geral lento, prolongado e arterial sistêmica essencial, o objetivo cen-
permanente, a ocorrência de períodos de tral do tratamento anti-hipertensivo é man-
remissão sintomática e exacerbações, e a ter controlados os níveis de pressão arterial,
evolução para graus variados de incapaci- abaixo de um determinado valor (p. ex.,
dade ou para a mo rte. Em nossa sociedade, 140/90 mmHg), com a menor variabilidade
é comum relacionar a doença crônica à ter- diária possível, visando prevenir, em longo
ceira idade e à realidade do envelheciment o, p razo, o surgimento de complicações em
ainda que várias doenças crônicas tenham órgãos-alvo, como insuficiência cardíaca
A prótlco farmacêutico no formócio com uni tório 101

congestiva, insuficiência renal crônica, aci- toriamente em um diagnóstico bem defini-


dente vascular cerebral e infarto agudo do do.Tratam-se os sinais ou os sintomas com
miocárdio, os quais podem levar a mortali- medicamentos cuja base farmacológica ge-
dade precoce. 10 ralmente não modifica a história natural da
Para o paciente, é importante conhe- doença de base ou seu processo patológico
cer as complicações da doença e a impor- intrínseco. Esse tipo de tratamento guarda
tância do tratamento medicamentoso e relação intima com a automedicação res-
aprender sobre os parâmetros de controle, ponsável, e o farmacêutico deve ter em
metas terapêuticas, valores de referência mente esses objetivos quando indica a utili-
buscados e o tempo de uso do medicamen- zação de MIPs a partir de uma consulta na
to necessário para observar essas mudanças farmácia.
no controle da doença. Considerando que Existe também wna área da medicina
nos tratamentos medicamentosos contí- dedicada aos cuidados sintomáticos, conhe-
nuos a adesão terapêutica torna-se ainda cida como "medicina paliativa". O cresci-
mais importante para o sucesso de todo o mento da prevalência das doenças crônicas,
processo, investir tempo e atenção a esses ligado ao envelhecimento populacional,
aspectos da receita médica pode ser deter- muitas vezes provoca frustração na equipe
minante. de saúde diante da incapacidade em lidar
com a finitude da vida e, muitas vezes, com
a condição de morbidade. Isso se torna par-
Considerando que nos tratamentos medi- ticularmente aparente no tratamento dos
camentosos contínuos a adesão terapêu-
tica torna-se ainda mais importante para
pacientes terminais por câncer e faz o alívio
o sucesso de todo o processo, Investir do sofrimento ser a meta principal do pro-
tempo e atenção a esses aspectos da re- cesso de cuidado.
ceita médica pode ser determinante. A finitude digna pode ser defmida co-
mo aquela sem dor e com sofrimento mini-
mizado mediante os cuidados paliativos
Tanto nas doenças crônicas como nas adequados. Nessa habilidade pressuposta
agudas, muitas vezes, o objetivo central do da medicina estão inclusos os cuidados pa-
tratamento não é a cura ou o controle da liativos prestados ao paciente e à sua famí-
patologia, mas o alivio dos sintomas do pa- lia, que se iniciam quando a terapêutica es-
ciente. Isso é evidente, por exemplo, quan- pecífica curativa deixa de ser o objetivo.
do se utilizam medicamentos isentos de A terapêutica paliativa é voltada ao
prescrição (MIPs) para tratar os mais diver- controle sintomático e à preservação da
sos sintomas relacionados a alguns trans- qualidade de vida para o paciente, sem fun-
tornos menores, como congestão nasal, tos- ção curativa, de prolongamento ou de abre-
se, cefaleia, febre, dispepsia e vários outros. viação da sobrevida. A empatia, o bom hu-
Nesses casos, a remissão ou melhora dos
sintomas constitui o principal indicador de
efetividade do tratamento, e esses resulta- A terap~utica paliativa é voltada ao con-
trole sintomático e à preservação da qua-
dos podem ser observados normalmente
lidade de vida para o paciente, sem fun-
em horas ou dias. ção curativa, de prolongamento ou de
Outra característica do tratamento abreviação da sobrevida.
sintomático é que ele não se baseia obriga-
102 Cassyano J. Correr & Mlch el F. Otukl

mor e a compreensão são integrantes fun- queluche. Outros exemplos comuns de me-
damentais da terapêutica, em conjunto com dicação profilática são o uso do ácido acetil-
uma abordagem multidisciplinar. Para me- salicílico em baixas doses para prevenção de
dir os resultados desse tipo de tratamento eventos trombóticos ou o uso do mononi-
são utilizadas escalas de capacidade funcio- trato de isossorbida para prevenção d e sin-
nal conhecidas como Performance Status. O tomas anginosos, advindos de isquemia co-
Ministério da Saúde, em parceria com o ronariana. O farmacêutico deve estar atento
Instituto Nacional do Câncer (INCA), pu- ainda ao fato de que vários tratamentos que
blicou um manual de cuidados paliativos visam controlar a doença têm por objetivo
que pode ser consultado gratuitamente na de longo prazo prevenir a ocorrência de
internet. 11 complicações que, por sua vez, manifestam-
Por fim, cada vez mais medicamentos -se como "novas" doenças. Tem-se, por
têm sido utilizados em pessoas que ainda exemplo, o tratamento antidiabético com
não manifestam nenhuma doença, com ob- glibenclamida e metformin a em pacientes
jetivo de prevenir seu surgimento, agindo so- com diabetes tipo 2, cujo objetivo terapêu-
bre o período pré-patogênico da história na- tico primário é manter o controle glicêmico
tural da doença. No período pré-patogênico, o mais próximo possível do normal, a fim
o indivíduo interage com fatores ambientais de prevenir a ocorrência de doenças micro-
e de estilo de vida que constituem fatores de vasculares, como nefropatia, retinopatia e
risco para o desenvolvimento de uma enfer- neuropatia diabética. 12
midade. Considerando a interação complexa
entre exposição, capacidade de resistência do
organismo e suas pré-disposições genéticas REGI.ME TERAPÊUTICO
intrínsecas, alterações celulares irreversíveis
podem ocorrer, dando início ao período da O regime terapêutico consiste nas instru-
patogênese, seguido das manifestações clíni- ções totais que devem ser seguidas pelo pa-
cas da doença.6 ciente a fim de que o tratamento produza os
efeitos e resultados esperados. Inclui a dose
prescrita, a frequência e os horários de ad-
11 No perfodo pré-patogênico, o indivíduo
ministração e a duração total do tratamen-
~
interage com fatores ambientais e de esti-
lo de vida que constituem fatores de risco to, além das instruções adicionais, como o
para o desenvolvimento de uma enfermi- uso com alimentos, preparo do med ica-
dade.
mento, partição do comprimido, entre ou-
tras. Todo regime terapêutico exige do pa-
ciente aprendizagem, disciplina e cumpri-
A profilaxia trata das medidas preven- mento de uma rotina, que determinarão
tivas contra as enfermidades e tem seus ali- certo grau de complexidade. Na avaliação
cerces nas modificações dos fatores de risco de uma prescrição medicamentosa, três fa-
para as doenças e no uso de medicamentos. tores p rincipais são importantes no que
Entre os medicamentos modernos mais uti- tange ao regime terapêutico (Fig. 5.2):
lizados em prevenção primária estão as va-
cinas, capazes de produzir imunização con- 1. a adequação da dose diária ao paciente;
tra uma série de patologias infecciosas e 2. a disposição e capacidade do paciente em
transmissíveis, como, por exemplo, a rubé- cumprir o regime prescrito; e
ola, a poliomielite, a difteria, o tétano e a co- 3. a complexidade do regime terapêutico
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitária 103

A dose consiste na quantidade de me- tempo. Assim, para fármacos de meia-vida


dicamento que, quando administrada no longa ou em sistemas de liberação retarda-
organismo, é capaz de produzir o efeito far- da, é possível atingir concentrações plasmá-
macológico. Consiste, portanto, na quanti- ticas mais constantes com apenas uma dose
dade de fármaco administrada no paciente diária (ou menos), enquanto para aqueles
a cada vez. O termo "dosagem" consiste no de meia-vida curta e sistemas de liberação
ato de dosar e, ainda que muito utilizado, é imediata, talvez seja necessário dividir a do-
tecnicamente incorreto quando se refere à se total diária em duas, três ou mais doses, a
quantidade de fármaco utilizada a cada vez. fim de manter uma concentração plasmáti-
Deve-se distinguir, ainda, "dose" de "dose ca relativamente constante ao longo das 24
diária'~ sendo esta última a quantidade total horas. Em outros casos, a farmacodinâmica
de fármaco administrada em 24 horas. (duração do efeito) do medicamento pode
Durante o processo de seleção e pres- ser o fator mais importante na definição do
crição do medicamento, n a definição do re- regime terapêutico.
gime terapêutico, busca-se a dose adequada Um conceito básico para a avaliação
ao paciente, isto é, aquela capaz de produzir do regime terapêutico é o de janela tera-
resultados positivos, conforme o objetivo pêu tica, que significa a faixa entre a dose
terapêutico e a meta, estabelecidos previa- mínima eficaz (DME) e a dose máxima se-
mente. Esta é definida com base em crité- gura (DMS). A DME é aquela que se mos-
rios como peso, idade ou área de superfície trou capaz de produzir os efeitos deseja-
corporal. A dose diária é responsável pela dos, em termos médios, nos pacientes par-
intensidade total do efeito produzido, en- ticipantes de ensaios clínicos controlados
quanto a frequência de administração per- pré-comercialização. A DMS, entretanto,
mite controlar essa intensidade ao longo do corresponde ao limite de dose diária acima
da qual a maioria dos pacientes manifesta-
rá sinais de toxicidade ou reações adversas
11 Durante o processo de seleção e prescri-
ção do medicamento, na definição do re-
relevantes. Quanto maior a "distância" en-

~ gime terapêutico, busca-se a dose ade-


quada ao paciente, isto é, aquela capaz de
tre as doses mínima e máxima, maior é o
índice terapêutico (DMS/DME) e mais se-
produzir resultados positivos, conforme o guro é o uso d o medicamento (Fig. 5.3).
objetivo terapêutico e a meta, estabeleci-
dos previamente. Outro conceito importante é o de do-
se normal, que representa a dose diária in-

Avaliação do regime
terapêutico

Disposição e
Adequação da dose Complexidade do
capacidade do paciente
diária ao paciente regime terapêutico
em cumprir o regime

FIGURA5.2
Fatores do regime terapêutico a serem considerados na dispensação de medicamentos prescritos.
104 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Oru.k i

Concentração
pi asmática fndlce teraplutlco = OMS
DME

Dose máxima
------------- segura (OMS)

Janela
terapiutlca

Dosemlnlma
------------- eficaz (DMEJ

Tempo

FIGURAS.3
A janela terapêutica representa o intervalo entre a dose diária mínima eficaz e móxima segura, en-
quanto a razão entre essas duas doses fornece o índice terapêutico.

Em geral, os cálculos de dose em pediatria


Quanto maior a"distância" ent re as doses
mínima e máxima, maior é o índice tera-
utilizam peso, área de superfície corporal e
pêutico (DMS/DME) e mais seguro é o uso idade, embora em muitas bulas de medica-
do medicamento mentos os fabricantes indiquem doses de
acordo com faixas de peso ou idade. Geral-
mente, indica-se a dose em mglkgldia ou
termediária capaz de produzir um efeito mg/m 2/dia. Quanto menor o peso da
satisfatório na maioria dos pacientes, sen- criança, maior deve ser o cuidado, até o li-
do segura para a maior parte dos indivídu- mite de peso de 30 kg. Além desse peso, a
os mais sensíveis e eficaz para a maior par- dose adulta preconizada pode ser utiliza-
te dos indivíduos mais resistentes ao da.14
fármaco. Todos esses conceitos são impor- Existem fórmulas para cálculo apro-
tantes no campo teórico e referenciais para ximado da dose pediátrica, a serem utiliza-
a determinação da melhor dose para opa- das apenas na ausência de informações
ciente. Na prática clínica, o regime tera- oficiais (p. ex., contidas na bula do medi-
pêutico deve estar de acordo com o inter- camento) (Fig. 5.4). 15 Diante de uma dose
valo de doses da literatura e deve ser indi- diária não normal, o farmacêutico deve ter
vidualizado com base na resposta clínica. o cuidado de confirmar a dose prescrita na
Sabe-se que "medicamentos não têm do- bula do medicamento ou, na ausência
ses; pessoas têm doses". 13 desta, na informação técnica contida em
A questão da dose diária é especial- outras fontes de informação terciária (li-
mente delicada em pediatria. Há ausência vros) de boa qualidade. Não se recomenda
de estudos e informações científicas para o uso do Dicionário de Especialidades
muitos medicamentos, o que limita a pos- Farmacêuticas (DEF) como fonte d e con-
sibilidade de definições confiáveis de dose. sulta, em razão de sua incompletude e de
A prótlca farmacêutica na fannócla comunltórla 105

Regra de Clark, para peso corporal < 30 kg:


Dose adulta mínima x Peso da criança (kg)
Dose pediátrica = kg
70

Regra de Law, para crianças < de 1 ano de Idade:


Idade da criança (meses) x Dose adulta mínima
Dose pediátrica =
150

Fórmula de Young, para crianças de 1 a 12 anos de idade:


Idade da criança (anos) x Dose adulta mínima
Dose pediátrica =
(Idade da criança [anos) + 12)

FIGURAS.4
Fórmulas para cálculo de dose pediótrica com base no peso do paciente.

sua baixa confiabilidade de informações tomar 12 ou mais doses de medicamentos


sobre posologia e interações medicamen- por dia consiste no ponto principal da
tosas. complexidade, enquanto para pacientes
HIV positivos, as restrições alimentares as-
sociadas à medicação podem consistir no
COMPL.EXIDADE DO ponto principal. Para outros pacientes,
REGIME TERAPÊUTICO medicamentos que necessitam de técnica
especial de administração (p. ex., disposi-
A complexidade de um tratamento medi- tivos inalatórios em pacientes asmáticos)
camentoso é composta pelo número de também aumentam a dificuldade de cum-
medicamentos prescritos, pelas formas primento da receita.
farmacêuticas, pela frequência de adminis- Estudos mostram que existe uma rela-
tração ao longo do dia e pelas recomenda- ção inversa entre o número de doses diárias
ções adicionais que devem ser seguidas pe- de medicamentos e a adesão ao tratamento.
lo paciente no cumprimento da receita Em uma revisão sistemática, foram avalia-
(Fig. 5.5) .16A justificativa mais importante dos 76 estudos publicados entre 1986 e
de se observar a complexidade dos trata- 2000 que mediam a adesão utilizando mo-
mentos está na relação entre esta e a ade- nitoramento eletrônico acoplado ao frasco
são ao trata.m enta. Dependendo do tipo de de comprimidos (electronic monitoring
enfermidade a ser avaliada, diferentes pon- [EM]) . 17 Os resultados mostram que a ade-
tos podem ser críticos no regime terapêu- são terapêutica dos pacientes foi significati-
tico. Nos pacientes idosos, por exemplo, vamente maior no regime "uma vez ao dia"
em relação ao "três vezes ao dia" (p = 0,008)
ou "quatro vezes ao dia" (p < 0,001). Simi-
Ajustificativa mais importante de se ob- larmente, a adesão para o regime de "duas
servar a complexidade dos tratamentos
está na relação entre esta e a adesão ao vezes ao dia" foi significativamente maior
tratamento. Dependendo do tipo de en- do que em "quatro vezes ao dia" (p = 0,001 ).
fermidade a ser avaliada, diferentes pon- Entretanto, não foi encontrada diferença
tos podem ser críticos no regime tera- significativa entre a adesão ao tratamento
pêutico.
de "uma vez ao dia" e o de "duas vezes ao
106 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

Número de medicamentos

Formas de Número de
administração doses por dia

1nstruções adicionais

FIGURAS.5
A complexidade de um tratamento medicamentoso é influenciada pelo número de medicamentos pres-
critos, pela forma farmacêutica e de administração, pela frequência de tomadas ao longo do dia e pelas
recomendações adicionais que devem ser seguidas pelo paciente no cumprimento da receita.

dia': Também não foi significativa a diferen- da Farmacoterapia (ICFT). 16·21 Ainda que a
ça entre a adesão de "duas vezes ao dia" e aplicabilidade desse instrumento na prática
"três vezes ao dia" (Fig. 5.6). 17 da dispensação não esteja bem esclarecida,
Há consenso entre autores de que conhecer os elementos que aumentam a
simplificar os regimes de tratamento cola- complexidade de um tratamento pode aju-
bora com a melhoria da adesão terapêuti- dar o farmacêutico a simplificar ao máximo
ca.18·20 Embora seja reconhecido que fato - possível o regime terapêutico do paciente,
res como as propriedades farmacológicas agrupando medicamentos que possam ser
do medicamento e os fato res pessoais e clí-
nicos dos pacientes influenciam a adesão, a
habilidade para medir a complexidade da Conhecer os elementos que aumentam a
complexidade de um tratamento pode
farmacoterapia pode ser útil na predição da
ajudar o farmacêutico a simplificar ao má-
adesão ao tratamento. 21 ximo possível o regime terapêutico dopa-
Alguns instrumentos para medir a ciente, agrupando medicamentos que
complexidade da farmacoterapia são encon- possam ser utilizados conjuntamente, or-
ganizando horários e instruindo clara-
trados na literatura, entre eles o Medication
mente sobre as instruções adicionais a se-
Regimen Complexity Index, traduzido para rem seguidas.
o português como lndice de Complexidade
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 107

100
...eo 90
QJ 80
E 70
..."'
-
."'o.. 60
50
"'o 40
'"'
VI
QJ 30
"O
<( 20
# 10
o
1 2 3 4
Número de tomadas ao dia

FIGURA5.6
Adesão ao tratamento de acordo com o número de doses diárias. As linhas verticais representam um
desvio-padrão em cada lado da taxa média de adesão (barra horizontal).
Fonte. Claxton e colaborador es.17

utilizados conjuntamente, organizando ho- a administração do medicamento, ou seja,


rários e instruindo claramente sobre as ins- qual a forma farmacêutica a ser utilizada, a
truções adicionais a serem seguidas. Cabe frequência e ou tras informações adicionais
frisar que, para uma abordagem global da que devem ser levadas em consideração pe-
complexidade da farmacoterapia, o farma- lo paciente para a correta administração do
cêutico deve conhecer todos os medica- medicamento.
mentos em uso pelo paciente, os quais nor- Com relação às formas farmacêuticas,
malmente são em maior quantidade do que deve-se ter em mente que, quanto maior a
aqueles constantes em apenas uma receita. dificuldade no preparo ou administração
Ainda assim, os princípios de simplificação do medicamento, mais complexo será o tra-
do regime terapêutico podem ser aplicados tamento. As especialidades farmacêuticas
também a cada receita individualmente. complexas são aquelas que agregam alguma
O ICFT é um instrumento dividido dificuldade em seu manejo ou administra-
em três partes: A, B e C (Anexo deste capí- ção, requerendo, para sua utilização, o trei-
tulo). A parte A corresponde às informa- namento do paciente quanto à sua manipu-
ções sobre formas de dosagens; a parte B, às lação prévia ao uso ou na técnica de admi-
informações sobre frequências de doses; e a nistração. Esse grupo é bastante variado,
parte c corresponde às informações adicio- incluindo dispositivos para autoinjeção, co-
nais, como horários específicos, uso com lírios, pomadas ou géis oftálmicos, nebulí-
alimentos, etc. Cada parte é pontuada a metros e dispositivos inalatórios, gotas e
partir da análise da farmacoterapia do pa- sprays nasais, anéis vaginais, adesivos trans-
ciente, e o índice de complexidade é obtido dérmicos, supositórios, suspensões que de-
somando-se os pontos (escores) das 3 se- vem ser preparadas pelo paciente, entre ou-
ções. Quanto maior a pontuação final, tras.22 No Capítulo 9, encontram-se instru-
maior a complexidade. O ICFT mede a ções de administração para as principais
complexidade da farmacoterapia indepen- especialidades farmacêuticas complexas co-
dentemente de variáveis socioeconômicas, mercializadas no Brasil.
farmacológicas ou clínicas. O instrumento A frequência de administração dos
baseia-se apenas nas ações necessárias para medicamentos também tem repercussões
108 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

A parte C do ICFT trata das instruções


11 O farmacêutico deve pactuar com o pa-
ciente os melhores horários de utilização
adicionais relevantes na administração de

~ de cada medicamento (complementando


ou reforçando a informação transcrita na
um medicamento que podem ser observa-
das em literatura específica, rótulo, bula ou
receita), sobre a possibilidade (ou proibi- receita médica. Essas instruções no ICFT
ção) do uso concomitante destes e sobre a
necessidade ou não de se seguirem horá- não consideram alertas relativos às reações
rios rlgidos separando uma dose e outra. adversas (p. ex., sonolência - cuidado ao di-
rigir ou operar máquinas) ou interações
medicamentosas específicas, como restri-
diretas na complexidade e na facilidade de ções ao uso com leite ou bebidas alcoólicas.
adesão ao tratamento. O farmacêutico deve Durante a dispen sação, o farmacêutico deve
pactuar com o paciente os melhores horá- ficar atento a essas instruções e, sabendo
rios de utilização de cada medicamento que elas aumentam a dificuldade em se ade-
(complementando ou reforçando a infor- rir ao tratamento, reforçar sua orientação
mação transcrita na receita), sobre a possi- nesses pontos. Entre essas instruções estão
bilidade (ou proibição) do uso concomi- partir ou triturar o medicamento, tomar
tante destes e sobre a necessidade ou não de em horários específicos, tomar nas refeições
se seguirem horários rígidos separando ou uso de doses, entre outras.
uma dose e outra. Para o paciente, muitas O ICFT foi desenvolvido para fins
vezes, não existe diferença entre usar um científicos, e sua importância está princi-
medicamento a cada 8 horas ou usá-lo 3 ve- palmente na investigação da relação que
zes por dia, em intervalos de tempo mais pode existir entre complexidade e baixa
flexíveis. adesão terapêutica. Com o avanço dos estu-
De fato, para alguns tratamentos, co- dos envolvendo a complexidade da farma-
mo, por exemplo, com anti-inflamatórios coterapia será possível identificar pontos de
ou analgésicos, respeitando-se intervalos corte no escore do ICFT, por exemplo, com
mínimos entre um comprimido e outro a bom poder preditivo para ocorrência de
fim de evitar superdosagens, não há neces- baixa adesão e falha no tratamento. O ICFT
sidade de se seguirem posologias rígidas, não constitui um instrumento rápido e prá-
que incluam horários específicos, ou a ne- tico o suficiente para uso no dia a dia, entre-
cessidade de interrupção do sono para ad- tanto, compreender seu conteúdo ajuda o
ministrar o medicamento. Em outros casos, farmacêutico na orientação ao paciente,
como tratamentos com antibióticos, os ho- com fim de reduzir a complexidade.
rários devem ser mais rígidos, a fim de
manter a concentração plasmática inibitó-
ria mínima do fármaco e, com isso, seus INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS
efeitos terapêuticos. Isso é particularmente
verdadeiro para antibióticos de meia-vida Interações medicamentosas são eventos clí-
plasmática curta, como a amoxicilina (t 1n = nicos nos quais os efeitos de um medica-
lh). f: preciso deixar claro ao paciente, tam- mento em uma pessoa ocorrem de forma
bém, por exemplo, a diferença entre utilizar diferente do esperado, devido a alterações
um medicamento de 8/8 horas com dura- causadas por outros medicamentos, ali-
ção de tratamento de 5 dias e utilizar um mentos, bebidas ou devido a condições fi-
medicamento de 8/8 horas apenas quando siopatológicas do próprio paciente.23 Essas
necessário. interações podem se manifestar clinica-
A prótlca farmacêutica no farmócio comunitória 109

11 Interações medicamentosas são eventos 11 Diversos mecanismos de interações entre


cllnicos nos quais os efeitos de um medi- medicamentos podem afetar aspectos
~ camento em uma pessoa ocorrem de for-
ma diferente do esperado, devido a alte- ~ biofarmacêuticos, farmacocinéticos ou
farmacodinâmicos, alterando o resultado
rações causadas por outros medicamen- da farmacoterapia.25
tos, alimentos, bebidas ou devido a
condições fisiopatológlcas do próprio pa-
ciente. 23 cêuticos, farmacocinéticos ou farmacodinâ-
micos, alterando o resultado da farmacote-
rapia (Fig. 5.8).25
mente pela exacerbação dos efeitos do me-
O tema das interações medicamento-
dicamento, por efeitos adversos, pela exa-
-medicamento é controverso, pois muitas
cerbação de doenças preexistentes ou pela
redução dos efeitos esperados do tratamen- interações descritas na literatura são teóri-
cas e carecem de evidência clinica, enquan-
to (não efetividade). Podem ser distingui-
das três formas de interações medicamen- to outras podem produzir risco de vida
tosas: i) interações medicamento-medica- para o paciente. Há, ainda, interações medi-
mento, ii) medicamento-nutriente e iii) camentosas desejáveis, particularmente quan-
medicamento-doença (Fig. 5.7). 24 do se procura sinergia de efeitos terapêuticos
entre medicamentos de classes farmacoló -
gicas diferentes utilizadas para a mesma in-
Interações dicação clinica. Essas associações medica-
mentosas são muito comuns no tratamento
medicamento-medicamento
de doenças como hipertensão, diabetes e
dislipidemias, entre outras.
Quando dois medicamentos são adminis-
A avaliação de uma interação medica-
trados concomitantemente a um paciente,
mento-medicamento deve levar em consi-
eles podem produzir resultados de forma
deração, no mínimo, os seguintes fatores:
independente ou interagir entre si, com au-
mento ou diminuição do efeito terapêutico
• Relevância clinica e gravidade. Intera-
ou tóxico de um ou de outro. 23 Diversos
ções de alta reievância podem produzir
mecanismos de interações entre medica-
reações adversas ou agravo do quadro
mentos podem afetar aspectos biofarma-
clínico do paciente e gerar dano impor-

Medicamento- Medicamento- Medicamento-


- medicamento -nutriente -doença

Os efeitos de um ou mais
Exacerbações de doenças,
Os efeitos de um ou mais medicamentos alterados
condições ou síndromes
medicamentos alterados pelo uso simultâneo com
preexistentes causadas
pelo uso simultâneo de alimentos ou por
pelo uso de
outro(s) medicamento(s) condições nutricionais do
medicamentos específicos
paciente

FIGURA5.7
Tipos de interações medicamentosas.
110 Cassyano J. Correr & Michel F. Otuki

Fora do
_._- organismo ~
Na excreção - - 1.. Transporte
Misturas de
ativo
medicamentos
No local de
absorção Durante o
metabolismo Difusão
Durante a Nos
distribuição passiva
receptores
\ - reabsorção

Indução
enzimática
Motilidade Inibição
Ligação a Ação nos
intestinal enzimática
proteínas receptores

Alterações da Ação em
flora intestinal ' -
orgaos e
Ligação a sistemas
tecidos

FIGURAS.8
Tipos de interação medicamento-medicamento.

tante, hospitalização ou morte. Nesse da com base em princípios de farmaco-


quesito, as interações geralmente são di- logia clínica bem-estabelecidos.
vididas em de menor gravidade (mi- • Documentação. As evidências científicas
nor), gravidade moderada (com reco- da ocorrência da interação também são
mendação de monitoramento) e gravi- importantes na avaliação de sua relevân-
dade alta (na qual se enquadram algumas cia clínica. A existência de estudos clíni-
contraindicações absolutas). cos com bom grau de evidência (ensaios
• Tempo para início da manifestação. Há clínicos randomizados ou estudos obser-
interações que podem se manifestar ra- vacionais bem delineados) é fundamen-
pidamente, com horas ou dias de trata- tal para o conhecimento da prevalência
mento, enquanto outras podem ser de da interação entre os pacientes. Entretan-
início lento, levando semanas e meses to, para interações de baixa incidência, é
para se manifestar. Essa velocidade tam- provável que sejam encontrados apenas
bém deve ser considerada na avaliação relatos de caso ou série de casos.
da gravidade clínica e no agendamento
de reavaliações ou exames laboratoriais Na dispensação, a avaliação da pres-
de monitoramento. crição medicamentosa do ponto de vista
• Mecanismo e manejo. O mecanismo pe- das interações medicamento-medicamento
lo qual a interação ocorre, quando co- encontra vários obstáculos. O primeiro de-
nhecido, é fundamental para compreen- les: A relevância clínica deve ser estritamen-
são da forma pela qual o paciente irá te observada, e apenas aqueles casos consi-
manifestar sinais e sintomas resultantes derados de alta relevância, com risco sério
da interação. Além disso, conhecendo-se para o paciente e que representam con-
esse mecanismo, a definição da melhor traindicação de uso, devem levar a condutas
conduta a ser tomada poderá ser realiza- como a não dispensação ou discussão de al-
A prática farmacêutica na farmácia comun1tárla 111

A relevância dínica deve ser estritamente ~ recomendável que o farmacêutico dis-


11 11
observada, e apenas aqueles casos consi- ponha de fontes de informação confiáveis
~ derados de alta relevância, com risco sério
para o paciente e que representam con- ~ e aprenda a reconhecer aquelas intera-
ções medicamentosas de alta relevância,
traindicação de uso, devem levar a condu- que representem altíssimo risco e con-
tas como a não dispensação ou discussão traindicação de uso.
de alternativas com o médico prescritor.

mação confiáveis e aprenda a reconhecer


temativas com o médico prescritor. Isso é aquelas interações medicamentos as de alta
particularmen te fundamental para aqueles relevância, que representem altíssimo risco
pacientes que ainda não iniciaram o uso e contraindicaçã o de uso. A dispensação,
dos medicamentos e que se encontram em entretanto, não constitui a melhor prática
uma primeira dispensação. Para pacientes para detecção, prevenção ou resolução de
em tratamento, com exceção das interações problemas clínicos oriundos de interações
graves, a conduta deve ser de monitora- medicamentosas. Para tal, a atenção do far-
mento e informação ao prescritor sobre as macêutico e do paciente deve estar voltada
possíveis manifestações clínicas da intera- para os serviços farmacêuticos clínicos
ção. Outro obstáculo será obter a informa- (Cap. 10).
ção sobre todos os medicamentos em uso
durante a dispensação, pois nem sempre
uma única prescrição representa toda a far- Interações
macoterapia do paciente. medicamento-nutriente
Existem ferramentas informatizadas
que, quando incorporadas ao sistema de Nutrientes incluem alimentos, bebidas (in-
dispensação da farmácia comunitária (do cluindo álcool) e suplementos dietéticos. O
hospital ou do médico prescritor), geram consumo dessas substâncias concomitante-
alertas quando da inclusão de dois ou mais mente ao uso de medicamentos (não neces-
medicamentos com interações potenciais sariamente no m esmo momento) pode al-
entre si. Há anos esses softwares são utiliza- terar os efeitos terapêuticos. 24 Medicamen-
dos como exemplos de ferramentas que po- tos e nutrientes podem interagir por
dem elevar a qualidade da dispensação e mecanismos complexos, que vão além das
prevenir a ocorrência de eventos adversos. interferências na absorção com a adminis-
Há dezenas de programas co.mercializados e tração de alguns medicamentos nas refei-
estudos publicados avaliando a confiabili- ções. Os nutrientes podem influenciar os
dade e aplicabilidade desses re.cursos, e os processos de biotransforma ção e excreção, e
resultados são geralmente desapontadore s. o próprio estado nutricional do paciente
As bases de dados dos programas mostram- pode alterar aspectos farmacocinéticos e
-se, muitas vezes, incompletas, os alertas farmacodinâmicos conhecidos dos fárma-
não fornecem informações clinicas úteis cos. As interações medicamento- nutriente
para tomada de decisão, e, muitas vezes, os podem ocorrer das seguintes formas: 29
profissionais, médicos ou farmacêuticos, fa-
lham na interpretação da informação du- • Nutrientes podem influenciar a absor-
rante a tomada de decisão. 26- 28 ção de medicamentos por modificações
Por tudo isso, é recomendável que o no pH do conteúdo gastrintestinal, na
farmacêutico disponha de fontes de infor- velocidade do esvaziamento gástrico,
112 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

pelo aumento da atividade peristáltica gãos importantes, entre outras, produzem


do intestino, pela competição com sítios mudanças no padrão do metabolismo e da
de absorção, alteração do fluxo sanguí- farmacodinâmica dos medicamentos.
neo esplâncnico ou pela ligação direta Na dispensação, as interações com nu-
dos fármacos com componentes dos ali- triente que interferem na absorção do me-
mentos (complexação). dicamento são especialmente importantes.
• Podem alterar o processo de biotrans- Estas têm repercussão direta na organiza-
formação de algumas substâncias. ção do regime terapêutico e dos horários de
• Podem produzir alterações na excreção administração, na complexidade do regime
renal de fármacos, principalmente por e na adesão ao tratamento. Deve-se atentar
modificações no pH urinário. Dietas ri- para aquelas interações que alteram o pro-
cas em vegetais, leite e derivados elevam cesso de absorção com consequência con-
o pH urinário, acarretando um aumen- creta sobre a biodisponibilidade. Interações
to na reabsorção de fármacos básicos, que retardam a absorção sem mudanças na
como as anfetaminas, e um aumento da extensão da concentração plasmática rara-
excreção de fármacos ácidos, como os mente têm relevância clínica, a não ser pelo
barbitúricos. Entretanto, ovos, carnes e aumento na latência do efeito terapêutico.
pães acidificam a urina, tendo como O Quadro 5.2 traz alguns exemplos de me-
consequência o aumento da excreção re- dicamentos de uso corrente que sofrem al-
nal de anfetaminas e outros fármacos terações significativas quando utilizados
básicos. com alimentos.

Alguns medicamentos podem alterar o


estado nutricional do paciente, interferindo, Interações
por exemplo, na absorção de nutrientes. Isso medicamento-doença
pode ocorrer com antiácidos, laxantes, anti-
bióticos e colestiramina. Grandes doses de Interações medicamento-doença podem
óleo mineral podem reduzir, ainda, a absor- ser definidas como exacerbações de doen-
ção de vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). ças, condições ou síndromes preexistentes
O estado nutricional pode interferir causadas pelo uso de medicamentos especí-
no metabolismo de certos medicamentos, ficos. Essas interações são mais comuns na
particularmente em pacientes com deficiên- população idosa, devido às alterações fisio-
cias nutricionais importantes e em pacien- lógicas do envelhecimento e ao uso de múl-
tes idosos. Mudanças na composição cor- tiplos medicamentos, 1nas podem ocorrer
poral, nas atividades enzimáticas, na função em qualquer faixa etária. 30 Tais interações
gastrintestinal, no fluxo sanguíneo de ór- levam à definição de contraindicações, in-
formações estas constantes nas bulas ou
monografias dos medicamentos.
Na dispensação, as interações com nutrien-
te que interferem na absorção do medica-
mento são especialmente importantes. Es- li Entende-se como contraindicação qual-
quer condição de saúde, relativa a uma
~
tas têm repercussão direta na organização
do regime terapêutico e dos horários de doença ou ao paciente, que leva a uma li-
administração, na complexidade do regi- mitação do uso de um medicamento ou
me e na adesão ao tratamento. sua proibição.
A prótica farmacêutica na farmócla comunltória 113

QUADRO 5.2 Exemplos de interações medicamento-alimento e recomendações

Exemplo de
Medicamento nome comercial• Justificativa

Tomar com estômago vazio (1 hora antes ou 2 horas depois da refeição)

Azitromicina
em cápsulas Zitromax Os alimentos reduzem a absorção
Buspirona Ansitec Os alimentos reduzem a absorção
Captopril Capoten Os alimentos reduzem a absorção em até 50%
Ciprofloxacina Cipro Os alimentos reduzem a absorção
Eritromicina llosone Os alimentos reduzem a absorção
Levotiroxina Euthyrox Os alimentos reduzem a absorção
Lincomicina Frademicina Os alimentos reduzem a absorção em até 60%
Norfloxacina Floxacin Os alimentos reduzem a absorção
Oxitetraciclina Terramicina Os alimentos reduzem a absorção em até 55%
Tetraciclina Tetrex Os alimentos e laticínios reduzem a absorção

Tomar durante ou após a refeição

Carbamazepina Tegretol Os alimentos melhoram a absorção


Cetoconazol Nizoral Os alimentos melhoram a absorção
Clorpropamida Diabinese Prevenir hipoglicemia que pode surgir
,
apos o uso
Deflazacort Calcort Melhorar a tolerância gastrintestinal
Dexametasona Decadron Melhorar a tolerância gastrintestinal
Dexclorfeniramina Polaramine Melhorar a tolerância gastrintestinal
Fluconazol Fluconal Melhorar a tolerância gastrintestinal
Furosemida Lasix Melhorar a tolerância gastrintestinal
Glibenclamida Daonil Prevenir hipoglicemia que pode surgir
após o uso
Gliclazida Diamicron Prevenir hipoglicemia que pode surgir
,
apos o uso
Glimepirida Amaryl Prevenir hipoglicemia que pode surgir
após o uso
Glipizida Minidiab Prevenir hipoglicemia que pode surgir
após o uso
ltraconazol Sporanox Os alimentos melhoram a absorção
Lovastatina Mevacor Os alimentos melhoram a absorção
Metformina Glucoformin Melhorar a tolerância gastrintestinal
Nateglinida Starlix Prevenir hipoglicemia que pode surgir
após o uso
Prednisolona Prelone Melhorar a tolerância gastrintestinal
Prednisona Meticorten Melhorar a tolerância gastrintestinal
Repaglinida Prandin Prevenir hipoglicemia que pode surgir
após o uso
Secnidazol Secnidal Melhorar a tolerância gastrintestinal
Sinvastatina Zocor Melhorar a tolerância gastrintestinal

Tomar em jejum com um copo cheio de água e não deitar até 1 hora após o uso

Alendronato Fosamax Alimentos reduzem a absorção;


pode causar esofagite
114 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

Entende-se como contraindicação gurança do tratamento para o feto. Como


qualquer condição de saúde, relativa a uma regra para esses casos, a monitoração dos
doença ou ao paciente, que leva a urna limi- resultad os do tratamento torna-se obriga-
tação do uso de um medicamento ou sua tória, atentando-se para o surgimento de
proibição. Essa condição é capaz de acarre- qualquer evidência clínica que sugira dano
tar graves efeitos nocivos à saúde do usuário ao paciente e exija reavaliação ou mesmo
do medicamento quando não observada. As suspensão da farmacoterapia.
contraindicações podem ser divididas em Durante a dispensação, não é pruden-
relativas e absolutas. 3 1 te para o farmacêutico intervir sobre pres-
Uma contraindicação relativa é uma crições contendo medicamentos com con-
condição na qual um tratamento ou proce- traindicação relativa apenas baseando-se
dimento é pouco recomendável, mas não nas informações da receita e no relato do
totalmente descartado. O uso de anti-infla- paciente. Mesmo dispondo de todas as in-
matórios não esteroidais (AINEs) em pa- formações clínicas sobre o diagnóstico, o
cientes com hipertensão, por exemplo, pode prognóstico e a gravidade do quad ro dopa-
provocar exacerbação da doença. Entretan- ciente, é preciso que o farmacêutico com-
to, como o aumento da pressão arterial ten- preenda as consequências da não dispensa-
de a ocorrer lentamente nesses casos, com ção do medicamento, que privam o pacien-
semanas de tratamento, o uso de AINEs por te do benefício, tanto quanto as consequên-
períodos restritos de tempo acarreta baixo cias da dispensação, que expõe o paciente
risco. Assim, o uso de AINEs em hiperten- ao risco. Do ponto de vista ético, trata-se de
sos não caracteriza uma contraindicação um dilema envolvendo a busca da benefi-
absoluta. Devem-se considerar a necessida- cência e da não maleficência da ação de saú-
de do uso do AINE, o benefício potencial a de. Para a maioria dos casos, seguir a evolu-
ser alcançado e a monitoração dos riscos ção do paciente ao longo do tratamento, em
descritos. parceria com o médico prescritor, monito-
A decisão de utilizar um medicamen- rando os parâmetros de risco envolvidos
to que apresente urna contraindicação rela- torna-se a melhor medida a ser tomada.
tada em literatura cabe ao prescritor, a par-
tir do diagnóstico e da análise da gravidade
11 Mesmo dispondo de todas as informações
do quadro clínico, pesando os prós e os clínicas sobre o diagnóstico, o prognósti-
contras do tratamento e avaliando o risco
envolvido no uso do medicamento e os be- ~ co e a gravidade do quadro do paciente, é
preciso que o farmacêutico compreenda
nefícios para o paciente. Muitas vezes, dian- as consequências da não dispensação do
medicamento, que privam o paciente do
te da não existência de alternativas terapêu- benefício, tanto quanto as consequências
ticas mais seguras ou das consequências do da dispensação, que expõe o paciente ao
não tratamento da doença, o médico vê-se risco.
obrigado a decidir, idealmente em conjunto
com o paciente e a família, pela utilização
de medicamentos em condições desaconse- Para pacientes idosos, existem crité-
lháveis. É o que acontece, por exemplo, em rios de risco estabelecidos para interações
casos de infecções bacterianas em gestantes, medicamento-doença que podem auxiliar
quando o clínico opta pela utilização de an- na avaliação da gravidade e relevância clíni-
tibioticoterapia sistêmica, mesmo na au- ca de cada caso. O critério mais utilizado foi
sência de informações confiáveis sobre a se- proposto por Beers e colaboradores,32 em
Aprótlca farmacêutica na farmócla comunltórla 11S

1991, com base em um estudo com idosos ternativas terapêuticas mais seguras. Assim,
institucionalizados nos Estados Unidos. 33 A recusar a dispensação do medicamento,
primeira lista desenvolvida por Beers era orientar o paciente a respeito e contatar o
composta de 19 medicamentos inadequa- prescritor para discutir alternativas tor-
dos e 11 medicamentos cuja dose, frequên- nam-se as melhores condutas a serem reali-
cia de uso e duração do tratamento eram zadas na farmácia comunitária.
inadequados para pessoas com 65 anos ou Entre as condições ligadas a contrain-
.
mats. dicações absolutas mais importantes e que
A lista atualizada em 1997 constava de devem ser investigadas sistematicamente
28 medicamentos a serem evitados devido a pelo farmacêutico durante a dispensação
sua inadequação e 35 medicamentos inade- estão:
quados para 15 condições patológicas espe-
cíficas.34A mais recente lista, atualizada em l. a história de h ipersensibilidade do pa-
2002, selecionou os medicamentos a serem ciente ao fármaco prescrito e
incluídos por meio de uma revisão sistemá- 2. a classificação de risco do uso do medi-
tica para depois enviar aos especialistas e camento em gestantes.
obter um consenso. Ela consta de 48 medi-
camentos que devem ser evitados em pes- A história de utilização prévia do me-
soas idosas por serem inadequados e medi- dicamento e a ocorrência pregressa de rea-
camentos não adequados para 20 condições ções alérgicas devem ser investigadas pelo
patológicas específicas.33·34 O Quadro 5.3 farmacêutico a cada dispensação, particu-
traz uma parte da lista de Beers, específica larmente em crianças e pacientes em uso do
para as interações medicamento-doença medicamento pela primeira vez. Especial
consideradas relevantes em geriatria. atenção deve ser dada a antibióticos, anal-
O farmacêutico também deve estar gésicos e AINEs pela frequência de casos de
atento à existência de contraindicação ab- hipersensibilidade. O risco de teratogenici-
soluta do tratamento para o paciente du- dade e dano ao feto requerem que o farma-
rante a dispensação. Uma contraindicação cêutico saiba interpretar informações sobre
absoluta é uma situação que torna um tra- o risco do uso de certos medicamentos nes-
tamento em particular ou um procedimen- ses períodos. A classificação mais conhecida
to totalmente desaconselhável. Em um pa- de risco na gestação foi desenvolvida pela
ciente com história de alergia a penicilinas, Food and Drug Administration (FDA), e
por exemplo, o uso de amoxicilina (Amo- subdivide os medicamentos em A, B, C, D e
xil®) por via oral torna-se absolutamente X (Quadro 5.4).35•36 Medicamentos de ca-
contraindicado, assim como seria a admi- tegoria X representam contraindicação ab-
nistração de isotretinoína (Roacutan®) por soluta e jamais devem ser usados por ges-
via oral a gestantes. Nesses casos, as conse- tantes.
quências do uso superam sob qualquer hi-
pótese os benefícios esperados, e existem al-
QUALIDADE DA PRESCRIÇÃO
MEDICAMENTOSA NO BRASIL
Uma contraindicação absoluta é uma si-
tuação que toma um tratamento em par-
ticular ou um procedimento totalmente A qualidade da prescrição medicamentosa
desaconselhável. pode ser determinante para os desfechos de
saúde de um paciente. Adicionalmente, a
........
QUADRO 5.3 Interações medicamento-doença relevantes - critério de Beers para medicamentos potencialmente inadequados em idosos,
considerando diagnóstico ou condição clínica
°'
n

Doença ou condição Medicamento Preocupação Relevância


~
a:
clínica
g
o
~
(gravidade)
Q
:::i
Insuficiência cardíaca Disopiramida e medicamentos contendo Efeito inotrópico negativo; podem promover Alta Cl
elevado conteúdo de sódio (sódio e retenção de líquidos e exacerbação da R>
sais de sódio [bicarbonato alginato, insuficiência cardíaca ~
n
bifosfato, citrato, fosfato, salicilato e sulfato)) ;;
Hipertensão Cloridrato de fenilpropanolamina (retirado Podem produzir elevação da pressão Alta
-
:TI

do mercado em 2001), pseudoefedrina;


comprimidos para emagrecer e anfetaminas
sanguínea secundária à atividade
simpatomimética
~
Úlcera duodenal Aspirina e AINEs (> 325 mg) Podem exacerbar úlceras existentes Alta
ou gástrica (coxibes excluídos) ou produzir novas ulcerações
Convulsão ou epilepsia Clozapina, clorpromazina, tioridazina e tiotixeno Podem diminuir o limiar para convulsões Alta
Problemas na coagulação Aspirina, AINEs, dipiridamol, ticlopidina Podem p rolongar o tempo de coagulação e Alta
sanguínea ou uso de e clopidog rei elevar os valores de relação de
terapia anticoagulante normatização internacional (RNI) ou inibir a
agregação plaquetária, resultando em
aumento do risco de hemorragia
Obstrução do Anticolinérgicos e anti-histamínicos, Podem diminuir o fluxo urinário, Alta
fluxo urinário antiespasmódicos gastrintestinais, relaxantes conduzindo a retenção u rinária
musculares, oxibutinina, flavoxato, antidepressivos,
descongestionantes e tolterodina
Incontinência urinária Alfabloqueadores (doxazosina, prazosina e Podem p roduzir poliúria e agravamento da Alta
terazosina), anticolinérgicos e antidepressivos incontinência
tricíclicos (cloridrato de imipramina, cloridrato
de doxapamina e cloridrato de amitriptilina)
e benzodiazepínicos de ação longa

(continua)
QUADRO 5.3 Interações medicamento-doença relevantes - critério de Beers para medicamentos potencialmente inadequados em idosos,
considerando diagnóst ico ou condição clínica (cont.)

Doença ou condição Medicamento Preocupação Relevância


clínica
(gravidade)

Arritmias Antidepressivos tricíclicos: cloridrato Preocupação devida a efeitos Alta


de imipramina, cloridrato de doxapamina e pró-arrítmicos e capacidade de produzir
cloridrato de amitriptilina mudanças no intervalo QT
Insônia Descongestionantes, teofilina, metilfenidato, Preocupação devida aos efeitos Alta
inibidores da monoaminoxidase e anfetaminas estimulantes do SNC
Doença de Parkinson Metoclopramida, antipsicóticos clássicos Preocupação devida aos seus efeitos Alta
e tacrina colinérgicos e antidopaminérgicos
Deficiência cognitiva Barbitúricos, anticolinérgicos, antiespasmódicos Preocupação devida aos efeitos de Alta 1 1 )>
'O
e relaxantes musculares. Estimulantes do sistema alteração no SNC '1
p.
nervoso central (SNC): dextroanfetamina, t:1
n
p
metilfenidato, metanfetamina, pemolina
S'
Depressão Uso prolongado de benzodiazepínicos; uso de Podem induzir ou exacerbar a depressão Alta 1 19
Q
agentes simpatolíticos: metildopa, reserpina n

e guanitidina ""
e
t:1
n
Anorexia e má nutrição Estimulantes do SNC: dextroanfet amina, Preocupação devida aos efeitos de Alta 1 I ~p
metilfenidato, metanfetamina, pemolina supressão do apetite ij'
e fluoxetina 9
p.
Síncope ou quedas Benzodiazepínicos de ação curta ou Podem p roduzir ataxia, prejuízo na função Alta 1 1g.
intermediária e antidepressivos tricíclicos psicomotora, síncope e quedas adicionais on
(cloridrato de imipramina, cloridrato de 9e
doxapamina e cloridrato de amitriptilina) ...i::J

p.

(contínua) -
'1
p

''"""'"'
'1
........
00

n
~
a:
g
QUADRO 5.3 Interações medicamento-doença relevantes - critério de Beers para medicamentos o
~
potencialmente inadequados em idosos, considerando diagnóstico ou condição clínica (cont.) Q
:::i
Doença ou condição Medicamento Preocupação Relevãncia Cl
R>
clínica
(gravidade) ~
;;
Síndrome da secreção Inibidores da recaptação de serotonina: Podem exacerbar ou causar secreção Baixa
-
~

inadequada de hormônio
antidiurético/
fluoxetina, citalopram, fluvoxamina,
paroxetina e sertralina
inadequada de hormônio antidiurético
~
hiponatremia (SSIHA)
Doenças convulsivas Bupropiona Pode diminuir o limiar de convulsão Alta
Obesidade Olanzapina Pode estimular o apetite e aumentar o Baixa
ganho de peso
Doença pulmonar Benzodiazepfnicos de ação longa: Efeitos adversos no SNC; podem induzir Alta
obstrutiva crônica (DPOC) clordiazepóxido, clordiazepóxido-amitriptilina, depressão respiratória e exacerbar ou
clidínio-clordiazepóxido, diazepam, quazepam, causar depressão respiratória
halazepam e clorazepato. Betabloqueadores:
propranolol
Constipação crônica Bloqueador de canal de cálcio, anticolinérgicos Podem exacerbar a constipação Baixa
e antidepressivos tricíclicos (cloridrato de
imipramina, cloridrato de doxapamina e
cloridrato de amitriptilina)

Fonte: Fick e colaboradores.33


A prót!ca farmacêutica na farmócla comunltórla 119

QUADRO 5.4 Categorias de risco do uso de medicamentos na gestação, segundo a Food and
Drug Administration (FDA)

Categoria A: medicamentos para os quais não foram constatados riscos para o feto em ensaios
clínicos cientificamente desenhados e controlados.
Categoria B: medicamentos para os quais os estudos com animais de laboratório não demonstra-
ram risco fetal (mas não existem estudos adequados em humanos) e medicamentos cujos estudos
com animais indicaram algum risco, mas que não foram comprovados em humanos em estudos
devidamente controlados.
Categoria C: medicamentos para os quais os estudos em animais de laboratório revelaram efeitos
adversos ao feto (mas não existem estudos adequados em humanos) e medicamentos para os
quais não existem estudos disponíveis.
Categoria D: medicamentos para os quais a experiência de uso durante a gestação mostrou
associação com o aparecimento de malformações, mas cuja relação risco-benefício pode ser
avaliada.
Categoria X: medicamentos associados com anormalidades fetais em estudos com animais e em
humanos e/ou cuja relação risco-benefício contraindica seu uso na gestação.
Fonte: Briggs e colaboradores35 e Meadows.36

prescrição tem o poder de influenciar, ou e compartilhando apenas parcialmente es-


mesmo direcionar, o consumo de medica- sas responsabilidades com outros profissio-
mentos. Esse consumo está inserido em um nais da saúde. Todas essas características os
mercado que movimenta bilhões de dólares fazem ter de lidar com diversos interesses:
anualmente e é composto por indústrias dos pacientes, da indústria, de outros pro-
farmacêuticas cujo faturamento supera o fissionais, dos gestores, além de seus pró-
produto interno bruto de muitos países. A prios. Tais interesses são, por vezes, confli-
autorização legal para prescrever encontra- tantes e, muitas vezes, inconciliáveis.
-se, nos dias de hoje, nas mãos de médicos e Diversos trabalhos têm sido publica-
odontólogos, sendo estes últimos responsá- dos sobre a qualidade da prescrição médica
veis pela menor parte das prescrições emiti- e sobre os fatores capazes de influenciar a
das no Brasil. escolha terapêutica. No Brasil, estudos mais
Tradicionalmente, os médicos têm recentes envolvendo receitas de antimicro-
exercido o papel de prescritores de forma bianos encontram percentual superior a
centralizada, sendo os principais responsá- 25o/o de inadequação entre hipótese diag-
veis pelo processo de cuidado dos pacientes nóstica registrada e antimicrobiano prescri-
to. Observou-se, também, variabilidade nos
Tradicionalmente, os médicos têm exerci- tempos de tratamento instituídos, e, em
do o papel de prescritores de forma centra- cerca de 10% das prescrições, o dado estava
lizada, sendo os principais responsáveis ausente. 37 Em prescrições avaliadas para
pelo processo de cuidado dos pacientes e mulheres idosas, cerca de 70% dos medica-
compartilhando apenas parcialmente es-
sas responsabilidades com outros profis- mentos não são concordantes com as reco-
sionais da saúde. mendações da Organização Mundial da
Saúde, e 80°/o com as da Relação Nacional
120 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

de Medicamentos Essenciais. Aproximada-


Os anúncios veiculados em revistas médi-
mente 17% dos medicamentos prescritos, cas são incompletos e tendenciosos, aten-
ainda, são inadequados para o uso em ido- dendo a propósitos mercadológicos, não
sos. 38 sendo um meio que subsidie a prescrição
Diversos outros estudos publicados na e a utilização correta e segura dos produ-
tos anunciados.46
última década vêm apontando o não cum-
primento por parte dos prescritores das
normas legais de elaboração das receitas. De de informações. 45 Os anúncios veiculados
modo geral, os principais problemas en- em revistas médicas são incompletos e ten-
contrados são ausência de informações po- denciosos, atendendo a propósitos merca-
sológicas, duração do tratamento, legibili- dológicos, não sendo um meio que subsidie
dade e falta de observância das normas pa- a prescrição e a utilização correta e segura
ra produtos controlados. Há consenso geral dos produtos anunciados. 46 Nos ambientes
entre autores de que há necessidade de me- de ensino, é comum o assédio de propagan-
lhoria da formação dos prescritores. 39-42 distas aos acadêmicos de medicina desde os
Outra discussão premente consiste na primeiros anos, exercendo influência e mol-
forte influência da indústria farmacêutica dando hábitos de prescrição dos médicos
sobre os hábitos de prescrição. O Conselho recém-formados e mesmo de seus profes-
Federal de Medicina busca disciplinar a sores.
questão, proibindo diversas práticas, defi- Ainda que muitos médicos acreditem
nindo critérios para a propaganda de equi- que sua integridade profissional esteja imu-
pamentos e produtos farmacêuticos junto à ne às ações propagandísticas e que a ação
categoria médica, além de salientar a im- dos representantes farmacêuticos, os brin-
portância de que possíveis conflitos de inte- des, os patrocínios ou os financiamentos da
resse no relacionamento entre os médicos e indústria não influenciem sua prática ou,
a indústria farmacêutica sejam explicitados, pelo menos, a qualidade dessa prática, há
sempre que necessário. 43 Segundo Rego, 44 pelo menos 30 anos essa discussão vigora
as relações entre indústrias farmacêuticas e no Brasil, e existem evidências suficientes
médicos são potencialmente perigosas e do contrário. 47•48 Exemplos recentes dessa
causam dano tanto para o exercício profis- discussão podem ser encontrados nos estu-
sional quanto para os consumidores de ser- dos sobre a falta de aceitabilidade dos medi-
viços de saúde. camentos genéricos pelos médicos e em re-
visão sobre as demandas judiciais de medi-
camentos no Sistema Único de Saúde
Segundo Rego,44 as relações entre indús- (SUS), muitas vezes feitas por uso off label,
trias farmacêuticas e médicos são poten-
cialmente perigosas e causam dano tanto
sem embasamento em protocolos clínicos e
para o exercício profissional quanto para diretrizes terapêuticas ou para medicamen-
os consumidores de serviços de saúde. tos desprovidos de registro no País. 49•5º

A informação veiculada aos médicos CONSIDERAÇÕES FINAIS


em fontes terciárias pela indústria no Brasil
é substancialmente diferente daquela veicu- A interpretação e a avaliação da prescrição
lada nos países desenvolvidos, sendo que no medicamentosa do ponto de vista clínico
Brasil há claro direcionamento e ausência devem considerar principalmente os objeti-
A prótlca farmacêutica na farmócJa comunJtórla 121

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124 Cassyano J. Cor rer & Mlchel F. Otukl

ANEXO - ÍNDICE DE COMPLEXIDADE DA FARMACOTERAPIA (ICFT)*

Paciente:._ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Data: _ __, _ __, _ _


Número total de medicamentos: _ _ _ _ __
(incluindo medicamentos de uso contínuo ou esporádico, usados se necessário)

Instruções: 5. Em alguns casos, a frequência de dose


1. O ICFT aplica-se aos medicamentos pres- precisa ser calculada (p. ex., Ranitidina 1
critos, indicados pelo farmacêutico ou manhã e 1 noite, é igual a 2 x dia).
utilizados por automedicação. Tod.os os 6. Em determinadas instruções, como "usar
medicamentos avaliados devem ter suas conforme indicado", o regime não rece-
avaliações baseadas exclusivamente em berá a pontuação sobre a frequência de
informações da bula/monografia (ofi- dose (p. ex., Prednisolona 5 mg uso con-
cial) ou da prescrição médica (no mo- forme indicado).
mento da dispensação ou alta hospita- 7. Caso exista mais de uma instrução de fre-
lar). Nenhuma suposição deve ser feita quência de dose para o mesmo medica-
baseada no julgamento clínico de quem mento, ele deverá ser pontuado para todas
esta preenchendo. as instruções de frequência de dose (p. ex.,
2. Existem três seções neste índice (A, B e Aerolin spray-bombinha 2 jatos 2 x ao dia,
C). Complete cada seção antes de pros- e, quando necessário, deverá ser pontua-
seguir para a próxima. No final, some os do para "inaladores de dose medida [bom-
pontos obtidos nas três seções para ob- binha]", "2 x dià: "S/N" e também como
ter o ICFT. "múltiplas unidades ao mesmo tempo").
3. Q u ando a mesma medicação (mesmo 8. Situações em que duas ou mais medica-
princípio ativo e forma de dosagem) es- ções são mutuamente exclusivas, elas pre-
tiver presente na farmacoterapia mais que cisam ser pontuadas duas ou mais vezes
uma vez em diferentes concentrações (p. com a frequência de dose recomendada e
ex., Marevan 5 mg, 3 mg e 1 mg), deverá como "S/N" (p. ex.,Aerolin spray-bombi-
ser considerada ainda como uma só me- nha ou Aerolin solução para nebulização
dicação. duas vezes ao dia obterá pontuação das
4. Nos casos em que a dosagem é opcional, formas de dosagem para os dois, "inala-
escolha as instruções com a menor do- dores de dose medida" e "nebulizador': e
se/frequência (p. ex., Aerolin spray-bom- necessita ser pontuada duas vezes para "2
binha 1-2 jatos, 2-3 vezes por dia terá x dia S/N").
pontos para "inaladores de dose medi- 9. Casos em que não exista uma opção ade-
da [bombinha]': "2 x dia" e "dose variá- quada, escolha a opção mais aproximada
vel': mas não para "múltiplas unidades da realidade do paciente (p. ex., seis vezes
ao mesmo tempo"). ao dia pode ser considerado como "4/4 h").

Obs.: S/N = Se necessário

' Reproduzido, com permissão dos autores, de Melchiors AC, Correr JC, Fernández-Llimos F. Tradução e validação
para o português do Medication Complexity Index. Arq Bras Cardiol. 2007;89(4):210-8.
A prótlca farmacêutica na farmóda comunltória 12S

a) Circule o peso correspondente para cada forma de dosagem presente na farmacoterapia


(SOMENTE UMA VEZ):

Formas de dosagem Peso

ORAL Cápsulas/comprimidos 1
Gargarejos/colutórios 2
Gomas/pastilhas 2
Líquidos 2
Pós/grânulos 2
Spray/comprimidos sublinguais 2
TÓPICO Cremes/géis/pomadas 2
Emplastros 3
Tinturas/soluções de uso tópico 2
Pastas 3
Adesivos transdérmicos/patches 2
Spray de uso tópico 1
OUVIDO, Gotas/cremes/pomadas para o ouvido 3
OLHOS Colírios/gotas para os olhos 3
E NARIZ Géis/pomadas para os olhos 3
Gotas/cremes/pomadas nasais 3
Spray nasal 2
INALAÇÃO Accuhalers (pó seco para inalação/diskus) 3
Aerolizers (cápsulas para inalação) 3
Inaladores de dose medida (bombinha) 4
Nebulizador (ar comprimido/ultrassónico) 5
Oxigênio/concentrador 3
Turbuhalers (pó seco para inalação) 3
Outros inaladores de pó seco 3
OUTROS Fluido para diálise 5
Enemas 2
Injeções: Pré-carregadas 3
Ampolas/frascos-ampolas 4
Supositórios/óvulos vaginais 3
Ana lgesia Controlada pelo Paciente 2
Supositório 2
Cremes vaginais 2
Total seç.ão A
126 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

b) Para cada medicação da farmacoterapia marque [X] no quadro correspondente com sua
frequência de dose. Então, some o número de [X] em cada categoria (frequência de do-
se) e multiplique pelo peso determinado para essa categoria. Nos casos em que não exis-
ta uma opção exata, escolher a melhor opção.

Frequência Total
de dose Medicações Total Peso X Peso

1 X dia 1

1 x dia S/N 0,5

2 X dia 2

2 x dia S/N 1

3 X d ia 3

3 x dia S/N 1,5

4 X dia 4

4 x dia S/N 2

12/12h 2,5

12/12h S/N 1,5

8/8h 3,5

8/8h S/N 2

6/6h 4,5

6/6h S/N 2,5

4/4h 6,5

4/4h S/N 3,5

2/2h 12,S

2/2h S/N 6,5

S/N 0,5

Dias alternados
ou menor
frequência 2

Oxigênio S/N 1

Oxigênio< 15h 2
Oxigênio> 15h 3
Total seção B
A prática farmacêutica na fa.rmócla comunltórla 127

c) Marque [X] no quadro que corresponde às instruções adicionais, caso presente na me-
dicação. Então, some o número de [X] em cada categoria (instruções adicionais) e mul-
tiplique pelo peso correspondente da categoria.

Instruções Pesox
adicionais Medicações Total Peso Nº de
medicações

Partir ou t riturar 1
o comprimido

Dissolver o 1
comprimido/pó

Múltiplas unidades ao 1
mesmo tempo (p. ex.,
2 comprimidos, 2 jatos)

Dose variável {p. ex., 1


1-2 cápsulas, 2-3 jatos)

Tomar/usar em 1
horário específico (p.
ex., manhã, noite, 20h)

Relação com alimento 1


{p. ex., com alimento,
antes das refeições,
depois das refeições)

Tomar com 1
líquido específico

Tomar/usar 2
conforme indicado

Reduzir ou aumentar a 2
dose progressivamente

Doses alternadas (p. 2


ex., 1 manhã e 2 noite,
1/2 em d ias alternados)

Total seção C

Total da complexidade da farmacoterapia {A+ B+C) = - - - - -


Dispensação de
medicamentos prescritos
CASSYANO J. CORRER
ROBERTO PONTAROLO

O processo de dispensação represen -


Os medicamentos, manipula-
ta um subprocesso no processo de uso dos
dos ou industrializados, não são
produtos isentos de risco e não de- medican1entos, que, por sua vez, faz parte
vem ser considerados completamente acaba- do processo de atenção à saúde que um de-
dos no momento em que saem dos laboratórios terminado paciente recebe (Fig. 6.1 ).4 Em
farmacêuticos ou de manipulação. A natureza uma situação normal, um paciente sofren-
do medicamento como produto potencial-
mente perigoso faz necessária uma constante do um p roblema de saúde procura atenção
avaliação de seu risco/benefício, seja durante médjca recebendo um determinado diag-
os processos de prescrição, dispensação, utili- nóstico, prognóstico e plano terapêutico.
zação ou avaliação de seus efeitos no paciente.
Esse plano pode co nstar de um tratamento
farmacológico (emissão de um receituá-
rio) ou, ainda, de outras estratégias tera-
O risco inerente aos medicamentos pêuticas (cirúrgica, psicoterápica, nutri-
não se deriva somente de sua natureza quí- cional, fi sioterápica, etc.). A partir da exe-
mica, sua dosagem, seus efeitos adversos ou cução desse plano, avaliam-se desfechos
seu modo de administração, mas também intermed iários do paciente, relacionados
dos aspectos psicossociais de seus usuários.' ao seu estado clínico ou a resultados tera-
Além disso, não há dúvida de que a infor-
pêuticos, como dor, pressão arterial ou ní-
mação é parte inerente de todo produto far- veis de gl icemia, o u desfechos finais, co1no
macêutico, a ponto de se considerar que um
a cura.
medicamento não é só a substância que o o ato de ruspensar medicamentos é
compõe, mas tambem , a m1ormaçao.
· e - 23
' um procedimento que pode ser considera-
do u1na validação, em que o fa rmacêutico,
ante uma prescrição ou solicitação do pa-
11 O risco inerente aos medicamentos não se
deriva somente de sua natureza química, ciente, assume a corresponsabi lidade pelo
~ sua dosagem, seus efeitos adversos ou
seu modo de administração, mas também
processo, verificando se está livre de erros
legais e se respeita parâmetros básicos de
dos aspectos psicossociais de seus usuá- indicação, posologia e contraindicações.5
rios. 1
Além disso, certifica-se de que o paciente
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltórla 12 9

conhece como seguir o tratamento e está visão pessoal e direta. Tanto farmacêuti-
disposto a fazê-lo. Um processo adequado cos como técnicos/auxiliares devem es-
de dispensação na farmácia comunitária tar adequadamente identificados.
deve cumprir três requisitos básicos: 2. A dispensação deve ser realizada com a
agilidade suficiente, entretanto, isso não
1. Todo consumidor que procura uma far- pode comprometer a qualidade do pro-
mácia a fim de adquirir um medicamen- cesso. Faz-se necessário transmitir ao
to deve ter a oportunidade de ser orienta- usuário que a dispensação é para seu pró-
do, independentemente de ser um clien- prio bem.
te habitual ou esporádico. 3. O farmacêutico, durante a dispensação,
2. A dispensação deve atender às expectati- verificará de forma sistemática se o pa-
vas dos pacientes de agilidade e eficiência. ciente conhece o objetivo do tratamen-
3. A dispensação deve estar integrada à ro- to, a forma de administração do medi-
tina diária do farmacêutico. 6 camento e se o medicamento não é ina-
dequado para aquele paciente, consi-
ELEMENTOS PARA derando as informações disponíveis no
momento. As informações devem ser
UMA BOA DISPENSAÇÃO complementadas por informes escritos,
Considerando o contexto e os objetivos da quando necessário.
prática farmacêutica, a organização de um 4. Caso haja problemas com a prescrição, o
serviço de dispensação deve reunir os se- farmacêutico deverá resolvê-los contan-
guintes elementos:4 do com as informações do paciente e do
prescritor, se necessário. Caso haja algum
1. A dispensação deve ser realizada sempre problema que impeça a dispensação do
por um farmacêutico ou sob sua super- medicamento, o paciente deverá ser en-

Desfecho
Processo de atenção ao paciente

Diagnóstico
\
Seleção e prescrição
\
Dispensação
\
Administração Avaliação de
do medicamento resultados de

[
!
Anamnese
i
saúde do
paciente

Avaliação do uso
Exames de medicamentos e
de resultados
terapêuticos

FIGURA 6.1
Processo de atenção ao paciente e de uso de medicamentos.
Fonte: Modificada de Gastelurrutia e Fernóndez·Llim6s.4
130 Cossyono J. Correr & Michel F. Otukl

caminhado ao médico, portando prefe- uma avaliação prévia do paciente por outro
rencialmente uma orientação por escri- profissional da saúde. Isso reforça o caráter
to do farmacêutico. de validação do processo de disp ensação,
5. Na medida do possível, o farmacêutico deve que deverá ter como foco a interpretação
conhecer os serviços de saúde de sua região das informações disponíveis sobre a pres-
e as possibilidades de atendimento médico crição, o medicamento e o paciente, a fim
ou de outros profissionais, podendo esta- de complementar as informações forneci-
belecer acordos com essas situações de en- das na consulta médica/odontológica ocor-
caminhamento. rida e aumentar as chances de êxito tera-
6. Durante a dispensação, o farmacêutico pêutico. A dispensação de medicamentos
avaliará a possibilidade ou n ecessidade prescritos é a atividade profissional que se
de oferecer outros serviços farmacêuti- realiza entre os processos de seleção e admi-
cos disponíveis ao paciente. nistração da farmacoterapia.
7. A farmácia deve dispor de procedimen- O processo inclui duas etapas críticas:
tos operacionais padrão (POP) para dis-
pensação. Esses procedimentos devem 1. a interpretação e a avaliação do receituá-
.
descrever como se dá o atendimento na rio e
dispensação com receita médica, na dis- 2. a orientação do paciente ou de seu cui-
pensação de medicamentos isentos de dador.
prescrição, na dispensação ao próprio pa-
ciente ou a terceiros, na dispensação p or O primeiro passo de qualquer dispen -
entrega domiciliar e na substituição por sação é saber quem está adquirindo o medi-
genéricos ou similares. camento, o paciente, seu cuidador ou um
8. A farmácia e o farmacêutico devem ga- terceiro. Para isso, faz-se a p ergunta: Este
rantir a formação continuada da equipe medicamento é para o(a) senhor(a)?. No
de atendentes. Essa formaç.ã o deve forta- caso de uma terceira pessoa (não cuidador),
lecer o trabalho em equipe e a distinção a etapa de orientação fica comprometida e,
de tarefas e responsabilidades. por isso, é suprimida. O farmacêutico, nes-
9. As intervenções em saúde realizadas du- ses casos, deve oferecer um meio de comu-
rante o processo de dispensação devem nicação (p. ex., cartão de visita, número de
ser registradas da forma mais eficien- telefone) para ser entregue ao paciente para
te possível. Essas intervenções incluem eventuais esclarecimentos. Caso haja algu-
principalmente aquelas que levaram a al- ma orientação essencial que deva ser feita, o
terações na prescrição m édica (mudança farmacêutico pode também contatar opa-
de dose, troca por genéricos) ou realiza- ciente por telefone.
das a partir de queixas dos pacientes re-
lacionadas a inefetividade da terapia ou
s urgimento de reações adversas. 11 O primeiro passo de qualquer dispensa-

~
ção é saber quem está adquirindo o medi-
camento, o paciente, seu cuidador ou um
- ,
DISPENSAÇAO COM RECEITUARIO
terceiro. Para Isso, faz-se a pergunta: Este
medicamento é para o(a) senhor(a)?.

Na dispensação de medicamentos a partir


da apresentação de um receituário médico Durante a interpretação e a avaliação
ou odontológico, subentende-se que houve do receituário poderão ser encontradas fa-
A prótica farmacêutica na farmócla comunltória 131

lhas do ponto de vista legal ou clínico que A orientação do paciente deverá


podem limitar a dispensação e requerer in- considerar se ele está em início ou conti-
tervenções do farmacêutico (ver Cap. 4 e 5). nuação de tratamento. Fazem-se pergun-
Pode haver, ainda, deficiências de informa- tas do tipo: É a primeira vez que o (a)
ção que comprometam o entendimento so- senhor(a) vai utilizar este m edicamento?
bre que medicamento, dose ou forma far- O(a) senhor (a) está iniciando o trata-
macêutica foi prescrita ou a frequência e mento agora?. Sabendo se o paciente está
duração do tratamento, aumentando o ris- em início ou continuação de tratamento, o
co de erros de dispensação. Do ponto de farmacêutico irá direcionar sua orientação
vista clínico, podem ser identificados con- ao processo de uso ou aos resultados tera-
traindicações, medicamentos inadequados, pêuticos, respectivamente. As técnicas de
problemas na posologia, interações medi- comunicação e o cuidado com o padrão de
camentosas de alta relevância ou dificulda- linguagem são fundamentais nessa etapa
des do paciente. (ver Cap. 16). O farmacêutico deve ter em
No caso de problemas com a receita, mente que seu objetivo é emitir uma men-
o farmacêutico deve utilizar como fontes sagem e certificar-se de que ela está sendo
de informação o paciente, a literatura ou, compreendida pelo paciente. O fluxo geral
havendo lacunas nesses meios, o próprio de dispensação a partir de um receituário
prescritor. Quando não se conseguir resol- encontra-se na Figura 6.2.
ver o problema encontrado, deverá ser
considerada a não dispensação do medica-
mento. Caso contrário, a próxima etapa DISPENSAÇÃO NO INÍCIO DO
consistirá na separação e na conferência TRATAMENTO
do produto.
A separação e a conferência do pro- Um paciente em início de tratamento apre-
duto podem ser feitas pelo próprio farma- senta, normalmente, uma maior necessida-
cêutico ou pelo auxiliar de farmácia. Du- de de informações a respeito de seu trata-
rante essa etapa, os pontos mais importan- mento. Ainda não há resultado terapêutico,
tes são verificar aspectos macroscópicos da pois o paciente não iniciou o uso do medi-
qualidade do medicamento (prazo de vali- camento. Em geral, esses pacientes acaba-
dade, vazamentos, odor não característico, ram de receber um diagnóstico médico e
presença de resíduos em soluções, compri- podem estar vivenciando fases iniciais do
midos danificados, etc.) e certificar-se de processo de adaptação à doença, passando
que o medicamento transcrito na receita es- pela negação, raiva, negociação, depressão e
tá sendo separado. Essa precaução reduz o aceitação. Nesse período, o acolhimento do
risco de erros e busca validar as condições paciente é ainda mais importante e pode fa-
de conservação também no último mo- cilitar o processo de orientação farmacêuti -
mento antes de o produto chegar ao pacien- ca. É preferível que esses atendimentos se-
te. É nessa etapa que pode ocorrer, também, jam feitos pelo farmacêutico, pois o diálogo
o fracionamento do medicamento, a fim de pode tomar um caráter mais clínico, neces-
que a quantidade dispensada seja exata e sitando da visão de um especialista.4
suficiente para o cumprimento de todo o A primeira etapa na abordagem do
período de tratamento. No Brasil, o fracio- paciente, nesses casos, é verificar se ele co-
namento é regulado pela RDC nº 135, de 18 nhece o objetivo do tratamento e o modo
de maio de 2005.7 de utilização do medicamento. 4,8•9 Isso po-
132 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

Entrega do
receltu6rlo
.. 1nterpretação e
avaliação do
receituário

+ Consultar:
Separação e
conferência
do produto
Não Receita com
problemas?
Sim
.. 1. Paciente
2. literatura
3. Prescritor

!
Orientação do Sim
paciente e entrega Resolvido?
do medicamento

t_Não

Considerar não
.. --------- ~ dispensação

FIGURA6.2
Fluxo geral de dispensação a partir de um receituário.

de ser alcançado com perguntas do tipo: corretamente o medicamento e, com isso,


O (a) senhor(a) sabe para que o m édico lhe alcance os objetivos terapêuticos propostos.
passou o medicamento? Para que o(a) Entretanto, a fim de que se possa proteger
senhor(a) vai tomar este medicamento? esse paciente do surgimento de outros pro-
Como o médico lhedisse queo(a) senhor(a) blemas relacionados com os demais medi-
deveria tomar este medicamento? Quantas camentos que ele possa estar tomando, ou-
vezes ao dia? Por quanto tempo deverá to- tras informações seriam necessárias para a
mar? O que o médico lhe disse para fazer avaliação de possíveis contraindicações, ris-
no caso de esquecer uma dose?. cos de reações adversas ou interações medi-
No caso de formas farmacêuticas camentosas de significância clínica.4 O far-
complexas, como suspensões extemporâ- macêutico pode dispor também dessa abor-
neas, dispositivos inalatórios, entre outras, dagem nos casos em que julgar necessário.
o farmacêutico deverá, ainda, certificar-se Isso poderia ser alcançado com perguntas
de que o paciente domina a habilidade ne- como: O(a) senhor(a) toma outros medi-
cessária para manusear o medicamento: camentos além deste? Tem tido algum pro-
O(a) senhor(a) pode me mostrar como se blema com algum deles, como alergias, di-
utiliza? Gostaria que preparássemos o me- ficuldades no uso? Tem alguma dúvida so-
dicamento agora mesmo? O(a) senhor(a) bre este ou outro medicamento que usa?
sabe como prepará-lo? Este medicamento Ao fmal do atendimento, o farmacêu-
tem um modo especial de uso, o(a) tico poderá oferecer ao paciente serviços
senhor(a) me permite mostrar-lhe como farmacêuticos clínicos disponíveis na far-
se prepara/utiliza este medicamento?. mácia que julgar necessários, como, por
Confirmadas essas informações com o exemplo, revisão domiciliar de medicamen-
paciente, é possível esperar que ele utilize tos ou seguimento farmacoterapêutico. De
A prótlca farmacêutica na fannócla comunltória 13 3

ção, pode-se detectar a ocorrência de pro-


11 Ao final do atendimento, o farmacêutico
blemas de efetividade (alcance das metas

~
poderá oferecer ao paciente serviços far-
macêuticos clínicos disponíveis na farmá- terapêuticas) ou segurança (ocorrência de
cia que julgar necessários, como, por exem- efeitos indesejados) da terapêutica (Fig.
plo, revisão domiciliar de medicamentos 6.3). Assim, a orientação ao paciente reali-
ou seguimento farmacoterapêutico.
zada direciona-se primariamente aos resul-
tados, e não necessariamente ao processo de
acordo com o tratamento, esse paciente po- uso do medicamento. Faz-se a ressalva de
de ainda beneficiar-se de serviços como ve- que o que se procura avaliar, aqui, é a per-
rificação de pressão arterial, teste de glice- cepção do paciente a respeito dos efeitos de
mia ou colesterol, medida de Peak Flow, seu medicamento, e que uma análise mais
aconselhamento sobre redução do risco profunda pode ser feita por meio de outros
cardiovascular, entre outros. Poderá, ainda, serviços farmacêuticos clínicos.4
ser entregue material impresso contendo
informações pertinentes ao caso, junto com
o número de telefone da farmácia, caso o 11 A orientação ao paciente realizada dire-

~
paciente necessite contatar o farmacêutico ciona-se primariamente aos resultados, e
não necessariamente ao processo de uso
após o início do uso do medicamento. Na do medicamento.
caixa do medicamento, etiquetas recorda ti-
vas contendo instruções de uso podem ser
fixadas.
A primeira etapa da abordagem con-
siste em avaliar se os medicamentos têm ti-
DISPENSAÇÃO DURANTE A do bons resultados d e acordo com a percep-
CONTINUAÇÃO DO TRATAMENTO ção do paciente.4•8 Fazem-se perguntas do
tipo: Para que o(a) senhor(a) vem usando
Durante a continuação d.o tratamento, a este medicamento? Como está o tratamen-
dispensação deve ter um direcionamento to? Sente~se melhor? A pressão arterial (a
distinto do início do tratamento. Isso por- glicemia, o colesterol, a dor...) está contro-
que esses pacientes já podem apresentar re- lada? O médico fez alguma alteração de
sultados da farmacoterapia, e, na dispensa- dose recentemente? O(a) senhor(a) tem

Novas prescrições Continuação do tratamento

Informação verbal Informação por escrito Verificação de


Verificação da uso correto e

m~dicamento Modo ""'\ efetividade do adesão ao


r:Nomedo
de usar \ medicamento tratamento

Mín. -+-1~11--...l-+-I-----+1-...1---1-1_,.
.. Máx.

Posologia Efeitos adversos Verificação de


potenciais efeitos adversos

FIGURA6.3
Informação ao paciente na dispensação de medicamentos prescritos. A abordagem deve ser diferente
para pacientes com novas prescrições e para aqueles em continuação do tratamento.
134 Cassyano J. Correr & Mlcbel F. Otuki

tolerado bem a medicação? Sentiu algum prestação de serviços farmacêuticos clínicos


efeito indesejável? Adaptou-se bem à me- que vão além da dispensação (ver Cap. 10).
dicação? Sente alguma dificuldade na uti- O fluxo detalhado da dispensação com recei-
- ?..
lizaçao tuário está na Figura 6.4.
No caso de a resposta ser negativa, do
tipo: "Minha pressão está sempre alta, mes-
mo com o remédio': "Minha dor não pas- SUBSTITUIÇÃO POR
sou quase nada': "Melhorou um pouco, mas MEDICAMENTOS GENÉRICOS
ainda me sinto cansado mesmo com o re-
médio~ o farmacêutico pode estar diante de Os medicamentos genéricos foram instituí-
uma inefetividade terapêutica. Devem ser dos no Brasil pela Lei nº 9.787, de 10 de feve-
considerados, nessa avaliação, o tempo de reiro de 1999. 10 Os genéricos são reprodu-
uso do medicamento e os objetivos propos- ções, cópias dos medicamentos de referência,
tos. Outros tipos de resposta do paciente cujos padrões de equivalência farmacêutica e
podem ser: "Esse medicamento tem me da- bioequivalência permitem a intercambiali-
do náuseas': "A pressão melhorou, mas às dade, isto é, a substituição segura do medica-
vezes eu sinto muita tontura", ''Apareceram mento de referência pelo genérico.
umas manchas na minha pele que coçam'~
Esses relatos podem ser problemas de segu-
rança da terapia, manifestadas como rea- Os genéricos são reproduções, cópias dos
ções adversas ao medicamento. medicamentos de referência, cujos pa-
drões de equivalência farmacêutica e bloe-
Nos casos de negativa d o paciente, o quivalência permitem a intercambialidade,
farmacê utico deve investigar o processo de isto é, a substituição segura do medica-
uso do medicamento, isto é, se o problema mento de referancia pelo genérico.
relatado está ligado ao modo como o pa-
ciente está fazendo uso da medicação. Para
tentar elucidar a questão, o farmacêutico O medicamento de referência é o
deve considerar o tratamento que está sen- produto inovador registrado na Agência
do feito e explorar aspectos como: O (a) Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e
senhor(a) tem tomado a medicação todos comercializado no País. A inclusão de um
os dias? A que horas tem tomado? Conte- produto farmacêutico na lista de medica-
-me como o(a) senhor(a) está tomando mentos de referência qualifica-o como pa-
exatamente os seus medicamento s... râmetro d e eficácia, segurança e qualidade
Há casos em que o problema está na para os registros de medicamentos genéri-
baixa adesão ou no modo de uso do medica- cos e similares no Brasil, mediante a utiliza-
mento pelo paciente estar incorreto. Nessas ção desse p roduto como comparador nos
situações, o farmacêutico deverá orientar o testes de equivalência farmacêutica e/ou
paciente sobre como proceder para corrigir bioequivalência. 11
o problema e tentar melhorar a efetividade Há equivalência farmacêutica entre
ou a segurança do tratamento. Quando a dois medicamentos quando ambos compro-
causa aparente da não efetividade ou da inse- vadamente contêm o mesmo fármaco (mes-
gurança não está no modo de uso do medi- ma base, sal ou éster da mesma molécula te-
camento pelo paciente, será necessário inves- rapeuticamente ativa) na mesma dosagem e
tigar de modo mais abrangente a farmacote- forma farmacêutica, o que pode ser avaliado
rapia. Isso pode ser realizado por meio da por meio de testes de qualidade in vitro. A
Aprótica farmacêutica na farmócla comunltórla 135

equivalência farmacêutica, entretanto, não


11 Há equivalência farmacêutica entre dois
garante a bioequivalência e, consequente-

~
medicamentos quando ambos comprova-
damente contêm o mesmo fármaco (mes- mente, a intercambialidade. Aceita-se que o
ma base, sal ou éster da mesma molécula medicamento genérico apresente uma for-
terapeuticamente ativa) na mesma dosa-
mulação (composição de excipientes) e um
gem e forma farmacêutica, o que pode ser
avaliado por meio de testes de qualidade
processo de fabricação diferentes do medica-
in vitro. mento de referência, devido aos distintos
equipamentos e fornecedores de matérias-

Entregado
receituário
. t para
você?
..
Sim
Inicio de
uso?
Não

Não
Sim J
+
1n feio do tratamento Continuação do tratamento

• Para que você vem


• Para que o médico lhe
utilizando o medicamento?
passou este medicamento?
• Sente-se melhor? Como
• Como você vai utilizar este
medicamento? ·----- .. ------ está o resultado?
• Sentiu algum efeito
• Por quanto tempo?
colateral?
• Tem alguma dúvida sobre o
• Alguma dificuldade para
tratamento?
utilizá-lo?

• Toma outros medicamen- • Conte-me como você está


tos? tomando exatamente seus
• História de alergia? medicamentos

Não Sim
Algum problema? Algum problema?

________t.·----·
1
______ ,
I
, ' \
Orientação do paciente
1 1
1
Considerar 1 Encaminhar para
1
\
'
,
não dispensação
______________ _ I1
,
!
Entrega do medicamento
outros serviços
farmacêuticos

FIGURA 6.4
Fluxo detalhado da dispensação com r eceituário.
13 6 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

-primas empregados pelos diferentes fabri- cluindo o nome do fabricante e número de


cantes. Essas disparidades podem gerar alte- lote, apor seu carimbo e assinar. Essa regra
rações na qualidade da liberação do fármaco, vale para qualquer medicamento prescrito,
o que exige, portanto, que sejam realizados seja ele controlado ou não. Uma dúvida que
testes que comprovem que ambos os medi- permanece consiste na legalidade e viabili-
camentos (genérico e referência) apresentam dade técnica da substituição de medica-
a mesma biodisponibilidade. 12 mentos similares prescritos pelos corres-
A biodisponibilidade representa a ex- pondentes genéricos.
tensão da absorção de um fármaco, sua che- O m edicamento similar, pela defini-
gada à corrente sanguínea e local de ação. É ção legal, é aquele que contém o mesmo ou
. , . .
analisada por meio de parâmetros farmaco- os mesmos pr1nc1p1os ativos, apresenta
cinéticos (Cmáx> Tmáx> t 1, 2, área sob a curva mesma concentração, forma farmacêutica,
[ASC]) calculados a partir da curva de con- via de administração, posologia e indicação
centração pelo tempo, obtida da administra- terapêutica, e que é equivalente ao medica-
ção do medicamento em dose única.13 mento registrado na Anvisa, podendo dife-
Nem todos os medicamentos candi- rir somente em características relativas ao
datos a genéricos precisam comprovar bioe- tamanho e à forma do produto, ao prazo de
quivalência para obter o registro corres- validade, à embalagem, à rotulagem, aos ex-
pondente. As formas farmacêuticas sólidas cipientes e ao veículo, devendo sempre ser
de uso oral, de liberação imediata ou modi- identificado por nome comercial ou marca.
ficada, são aquelas que, potencialmente, po- Desde 2003, com a publicação da RDC n2
dem apresentar problemas em relação à 134, de 29 de maio de 2003 15 e da RDC nº
biodisponibilidade e à bioequivalência, isso 133, de 29 de maio de 2003, 16 os medica-
devido ao perfil de dissolução poder ser afe- mentos similares devem apresentar os testes
tado significativamente pelas características de biodisponibilidade relativa e equivalên-
do fármaco empregado (matéria-prima), cia farmacêutica para obtenção do registro
bem como pela presença de excipientes que para comprovar que o medicamento simi-
favorecem ou dificultam a dissolução, além lar apresenta o mesmo comportamento no
das técnicas de fabricação empregadas. 12•14 organismo (in vivo), bem como as mesmas
O Quadro 6.1 traz formas farmacêuticas ou características de qualidade ( in vitro ) do
condições que isentam os candidatos a ge- medicamento de referência. Espera-se que
néricos de apresentar testes de bioequiva- até 2014 todos os medicamentos similares
lência. Nesses casos, basta a comprovação já tenham a comprovação da biodisponibi-
da equivalência farmacêutica e das boas lidade relativa. Do ponto de vista técnico,
práticas de fabricação e controle de quali- isso trará a possibilidade de intercambiali-
dade. dade plena entre medicamentos de referên-
Durante a dispensação, os medica- cia, similares e genéricos correspondentes. 11
mentos genéricos podem substituir o medi-
camento referência prescrito, a não ser que
o prescritor escreva de próprio punho a não li O medicamento similar, pela definição
legal, é aquele que contém o mesmo ou os
~
autorização da troca na própria receita. Se-
mesmos princípios ativos, apresenta mes-
gundo a legislação pertinente, apenas o far- ma concentração, forma farmacêutica, via
macêutico pode se responsabilizar por essa de administração, posologia e indicação
substituição, devendo registrar na receita o terapêutica.
medicamento genérico dispensado, in-
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltória 137

QUADRO 6.1 Medicamentos isentos dos testes de bioequivalência para obtenção de registro
de genérico

• Medicamentos cujos fármacos apresentem alta solubilidade e permeabilidade


• Biodisponibilidade absoluta (F) superior a 90%, e dissolução, a partir da forma farmacêutica,
maior que 85% em até 1Smin
• Formulações parenterais (IV, IM, SC, IT) sob forma de soluções aquosas
• Solução de uso oral (sem excipientes que afetem a motilidade ou a absorção)
• Pós para reconstituição
• Soluções aquosas oftálmicas, produtos tópicos e otológicos
• Medicamentos para uso tópico não sistêmico
• Produtos para inalação e sprays nasais
• Medicamentos de uso oral com fármacos não absorvíveis
• Produtos biológicos ou oriundos de biotecnologia

Apesar dessa nova realidade, não exis- mentas genéricos e similares favorece o
te autorização legal para que qualquer me- acesso a produtos de mais baixo custo e a
dicamento similar seja substituído pelo segurança da utilização de medicamentos
correspondente genérico, independente- com altos padrões de qualidade. Nos próxi-
mente da existência ou não de testes de mos anos, é esperada a definição de regras
bioequivalência. No Brasil, raramente se por parte da Anvisa sobre a substituição de
encontram farmacêuticos e farmácias co- medicamentos similares por genéricos. De
munitárias privadas que cumpram esses as- qualquer forma, a recomendação é de que
pectos da legislação. São dispensados medi- os pacientes recebam a informação técnica
camentos genéricos em substituição a todo e clínica corretas durante a dispensação e de
tipo de medicamento prescrito (referência que as substituições realizadas sejam feitas
ou similares); as substituições são feitas por com anuência do paciente e registradas pe-
qualquer atendente de farmácia; não são re- lo farmacêutico na receita.
alizados registros nas receitas; e os farma-
cêuticos raramente autorizam ou sequer to-
mam conhecimento das trocas realizadas. ERROS DE DISPENSAÇÃO
Há relatos informais, ainda, de ausência de
fiscalização, afrouxamento da norma e de- Os erros de dispensação são um tipo de er-
sinformação entre as Vigilâncias Sanitárias ro de medicação frequente e subnotificado,
municipais, inclusive para medicamentos principalmente pelas farmácias comunitá-
controlados. rias. Falhas no processo de dispensação po-
Do ponto de vista do paciente, a nor- dem produzir dano ao paciente e geram
ma cada vez mais rígida sobre os medica- constrangimento e sentimento de culpa no
farmacêutico e na equipe da farmácia. Além

Não existe autorização legal para que


qualquer medicamento similar seja subs- Falhas no processo de dispensação po-
tituído pelo correspondente genérico, in- dem produzir dano ao paciente e geram
dependentemente da existência ou não constrangimento e sentimento de culpa
de testes de bioequivalência. no farmacêutico e na equipe da farmácia.
13 8 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

disso, do ponto de vista legal, a ocorrência sadas em um hospital pediátrico identificou


de erro consiste na causa mais importante e 300 erros ( 11,4%), o que representa uma ta-
passível de processos judiciais contra o far- xa muito alta para padrões internacionais. 19
macêutico e a farmácia. As causas encontradas para a ocorrência de
Existem várias definições de erros de erros durante a dispensação são muitas; in-
dispensação na literatura, e todas elas tra- cluem o volume de trabalho, nomes comer-
zem relação com as etapas que ocorrem du- ciais parecidos, embalagens secundárias de
rante a dispensação. Assim, os erros podem medicamentos parecidas, nível de preparo
diferir em uma farmácia hospitalar, com dos auxiliares, grafia ilegível das receitas, in-
manipulação ou dispensação de produtos terrupções/distrações durante o trabalho,
industrializados. De modo geral, erros de organização do estoque, falta de padroniza-
dispensação ocorrem quando, de forma não ção de procedimentos, falha na checagem
intencional, um paciente recebe um medi- antes da entrega do produto, insatisfação no
camento para uso de uma forma diferente trabalho, falhas de comunicação, problemas
daquela idealizada pelo prescritor. O Qua- com software, entre outras. 17 Com base nes-
dro 6.2 traz uma categorização de erros de sas informações, algumas medidas preventi-
dispensação extraída de trabalhos publica- vas podem ser tomadas na farmácia comuni-
dos em vários países. 17 tária (Quadro 6.3).
A prevalência de erros de dispensação
em nações como Reino Unido, Estados Uni-
dos, Austrália e Espanha fica abaixo de 2o/o. 18 AVALIAÇÃO DA ADESÃO
No Brasil, não há estudos de grande porte re- TERAPÊUTICA NA DISPENSAÇÃO
alizados em farmácias comunitárias. Em far-
mácias hospitalares, um estudo feito no Es- Entende-se por adesão ou aderência tera-
pírito Santo analisando 2.620 doses dispen- pêutica o grau de concordância entre o com-

QUADRO 6.2 Classificação de tipos de erros de dispensação que podem ocorrer na farmácia
comunitária

Fá rmaco ou conteúdo Foi dispensado o fármaco errado


Foi dispensada a dosagem errada
Foi dispensada a forma farmacêutica errada
Foi dispensada a quantidade errada
Foi dispensado medicamento deteriorado ou vencido
Houve omissão na dispensação de um ou mais dos
medicamentos prescritos
Rotulagem Nome do medicamento errado no rótulo
Dosagem errada no rótulo
Forma farmacêutica errada no rótulo
Orientações ou cuidados errados impressos no rótulo
Nome do paciente errado impresso no rótulo
Quantidade errada do medicamento impressa no rótulo
Rótulo completamente errado (trocado) foi colado no frasco
Entrega Medicamento entregue ao paciente errado
Medicamento acondicionado de forma errada

Fonte: Adaptado de James e colaboradores. 17


A prática farmacêutica na farmácia comunitária 139

QUADRO 6 .3 Medidas para prevenção de erros de dispensação na farmácia comunitária

• Construção de procedimentos padronizados que disciplinem as etapas do processo de


dispensação na farmácia.
• Treinamento de auxiliares para cumprimento dos procedimentos e para operação adequada de
recursos informáticos ligados à dispensação.
• Informatização do processo de emissão de pedido de manipulação e impressão do rótulo.
• Estocagem organizada dos medicamentos, procurando separar nomes de marca semelhantes e
dosagens. Não empilhar juntos medicamentos de diferentes dosagens.
• A cada dispensação, verificação das informações do medicamento em comparação à receita
pelo menos duas vezes (na separação e no momento da entrega ou digitação no software).
• Dupla checagem do produto que está sendo entregue no momento anterior à entrega (pela
pessoa que atende e por uma segunda pessoa).

portamento do paciente na utilização de me-


11 Deve haver negociação e acordo entre am-
dicamentos e no seguimento de medidas não bos na definição de um plano terapêutico
farmacológicas e as recomendações feitas pe-
lo profissional da saúde.20.2 1 Há três termos ~ que indua os desejos, as crenças e as prefe-
rências do paciente. Para haver adesão ao
que surgiram cronologicamente na literatu- tratamento, é preciso haver concordância.
ra internacional: complíance, adherence e
concordance. O termo clássico, compliance,
gadas da adesão terapêutica que formam o
pode ser traduzido como observância e traz
comportamento do paciente:25
embutido o conceito de submissão ou obe-
diência do paciente às instruções do médico.
Esse termo foi paulatinamente substituído 1. Fatores ligados ao sistema de saúde: rela-
por adherence (adesão, aderência), que carre- cionamento profissional-paciente, habi-
ga um sentido de um paciente menos passi- lidades de comunicação do profissional,
vo e obediente, mas que assume o tratamen- falta de acesso, mau atendimento, falta de
to como agente proativo e adere ao plano te- continuidade do cuidado, entre outros.
rapêutico de forma mais participativa. Mais 2. Fatores sociais e econômicos: baixo letra-
recentemente, o termo concordance (concor- mento em saúde, falta de suporte fami-
dância, acordo) encerra o modelo 1noderno liar e social, custo do tratamento, cren-
de relação sujeito-sujeito entre paciente e ças culturais, falta de acesso aos serviços
profissional; isto é, o paciente deve ser ouvi- de saúde, entre outros.
do e deve participar da tomada de decisão. 3. Fatores ligados ao tratamento: complexi-
Deve haver negociação e acordo entre ambos dade da farmacoterapia, mudanças muito
na definição de um plano terapêutico que in- frequentes no tratamento, medicamentos
clua os desejos, as crenças e as preferências com forte estigma social, reações adver-
do paciente. Para haver adesão ao tratamen- sas, ausência de beneficio terapêutico, en-
to, é preciso haver concordância. tre outros.
Diversos estudos buscam compreen- 4. Fatores ligados ao paciente: limitações
der os fatores relacionados com a não ade- cognitivas e funcionais, dificuldades fí-
são.22-24 A Organização Mundial da Saúde sicas e motoras, expectativas, motivação,
(OMS) identifica cinco dimensões interli- medos, entre outros.
140 Cassyano J. Correr & MJchel F. Otuld

5. Fatores ligados à condição de saúde: con- adesão e a contagem de comprimidos (p.


dições crônicas, condições assintomá- ex., contagem do número de comprimidos
ticas, depressão, doenças psicóticas, de- que restam na caixa de medicamentos do
mências, entre outros. paciente). Este último é muito interessante
para visitas domiciliares d evido a sua sim-
Há muitas fontes na literatura que tra- plicidade, porém, está sujeito a problemas,
zem métodos para diagnosticar a baixa ade- como a mudança de medicamentos entre as
são aos tratamentos e diversas estratégias a caixas e a possibilidade de o paciente des-
fim de aumentar a adesão e a proximidade cartar comprimidos ou cápsulas antes da
entre as recomendaçõe s profissionais e o visita para parecer que segue o tratamento.
que o paciente realmente faz. Não se dispõe Por essas razões, a contagem de pílulas, iso-
de um método padrão-ouro que permita ladamente, não deve ser assumida como
avaliar todos os aspectos relacionados à um bom método para a mensuração da
adesão. Os m étodos de avaliação da adesão adesão. 21
são divididos em diretos (dosagem do fár- A utilização de questionários ou entre-
maco ou metabólitos no plasma, n a saliva vistas estruturadas é criticada devido à possi-
ou na urina) e indiretos (contagem de com- bilidade de gerar constrangimen tos aos pa-
primidos, avaliação de resultados terapêuti- cientes, ao levar à obrigação de respostas cor-
cos, opinião do profissional e questioná- retas. Todavia, é um dos métodos mais
rios). Todos os métodos apresentam falhas utilizados, em razão da simplicidade, da ra-
e avaliam a adesão de forma limitada. Ainda pidez e do baixo custo.27 Entre os instrumen -
assim, para efeito de pesquisa clínica, dosa- tos utilizados para a avaliação da adesão ao
gem laboratorial, contagem de comprimi- tratamento estão os testes indiretos de Mo-
dos e dispositivos eletrônicos que registram risky-Green-Levine e de Haynes-Sackett.
abertura do frasco são considerados méto-
dos-padrão. 26 Na prática clínica, é mais fac-
tível o questionamen to direto do paciente, A utilização de questionários ou entrevis-
11
durante a entrevista clínica. tas estruturadas é criticada devido à pos-
Os métodos indiretos utilizam estra-
tégias como perguntas sobre quão fácil é
~ sibilidade de gerar constrangimentos aos
pacientes, ao levar à obrigação de respos-
tas corretas. Todavia, é um dos métodos
para o paciente tomar a medicação prescri- mais utilizados, em razão da simplicidade,
ta, contagem de comprimidos, averiguação da rapidez e do baixo custo.27
da taxa de dispensação da prescrição na far-
mácia, questionários aplicados ao paciente,
uso de monitorament o eletrônico da medi- O teste de Morisky-Green-Levine é
cação, como por meio do Medication Event composto por quatro perguntas básicas so-
Management Systems (MEMS), medida de bre horário, esquecimento, percepção de
parâmetros fisiológicos e realização de um efeitos colaterais e ausência d e sintomas,
diário da medicação pelo paciente. Esses avaliando as atitudes do paciente em rela-
métodos são, em geral, simples e podem ser ção ao tratamento, classificando como ade-
utilizados durante a dispensação de medi- rentes os pacientes que respondem correta-
camentos, ainda que tendam a superesti- mente às quatro perguntas que compõem o
mar a adesão do paciente ao tratamento. 21 instrumento, com uma tendência de super-
Entre os métodos indiretos mais usa- valorizar a não adesão. 28 As perguntas que
dos estão os q uestionários para medir a compõem o teste são:
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 141

• "Você, às vezes, esquece de tomar seus adesão ao tratamento pode ser feito com
remédios?" base em uma fórmula simples, que conside-
• "Você é descuidado com a hora de to- ra a retirada ideal e a retirada real de medi-
mar seus remédios?" camentos:
• "Quando você se sente bem, você às ve-
zes para de tomar os seus remédios?" Quantidade de comp.
• "Às vezes, se você se sente mal quando Taxade retirados no período
adesão ao X 100
toma o remédio, você para de tomar?" tratamento (%) Quantidade de comp.
que deveriam ser
Sackett e colaboradores,29 desenvolve- retirados
ram outro teste, em que o paciente comuni-
ca a autoadesão ao tratamento por meio de Esse percentual é referido na literatura
uma pergunta amigável na qual é citada a também como Taxa de Cobertura - TC
dificuldade encontrada por outros pacien- (medication possession rate, o u proportion of
tes em aderir ao tratamento e na qual se pe- days covered). A TC expressa o percentual
de para estimar, referente ao último mês, de dias nos quais o paciente te1n acesso aos
qual a taxa de adesão do paciente ao seu tra- medicamentos, sendo calculado com base
tamento (expresso em ºAi de comprimidos na história de retirada (ou aquisição) de
tomados), procurando impor o menor ní- medicamentos em relação à quantidade ne-
vel de pressão possível sobre o paciente en- cessária para cumprimento total d o trata-
trevistado. O teste é composto por duas mento. A TC não guarda relação direta ine-
perguntas: quívoca com a quantidade de comprimidos
administrados, porém, representa a dispo-
• "A maioria dos pacientes tem dificulda- sição do paciente em cumprir o tratamento,
des para lembrar de tomar todos os seus e vários estudos revelaram forte relação en-
comprimidos. Você tem dificuldade pa- tre a TC e o alcance de resultados terapêuti-
ra lembrar de tomar todos os seus?" cos. Assim, a TC é um dos métodos reco-
• "Neste último mês, quantas vezes você mendados para avaliação da taxa de adesão
se esqueceu de tomar o seu remédio?" e da persistência no tratamento, particular-
mente quando essa determinação é feita no
Por meio dessas perguntas, o paciente nível gerencial dos serviços de saúde.26,30-32
comunica a autoadesão, e pode-se estimar a
porcentagem de adesão referente ao último
11 ATC é um dos métodos recomendados pa-
mês de tratamento. Pacientes não aderentes

~
ra avaliação da taxa de adesão e da persis-
são considerados aqueles com adesão me- tência no tratamento, particularmente
nor que 80% ou maior que 110%.29 quando essa determinação é feita no nlvel
Caso esteja disponível um sistema in- gerencial dos serviços de saúde. 26.30-32
formatizado de controle da dispensação, é
possível realizar análises da taxa de adesão
do paciente com base na frequência de reti- A persistência consiste no tempo
rada de medicamentos na farmácia. Esse (dias, meses) durante o qual o paciente per-
procedimento é particularmente válido no manece utilizando o medicamento sem a
setor público, em que os pacientes devem ocorrência de interrupção por certo perío-
retirar seus medicamentos sempre na mes- do de tempo. 33 A persistência não diz res-
ma unidade de saúde. O cálculo da taxa de peito ao percentual de comprimidos toma-
142 CassyanoJ. Correr & Mlchel F. Otukl

dos, mas ao tempo de exposição ao trata- útil para doenças infecciosas como HIV ou
mento antes do abandono. Pacientes que tuberculose, em que a taxa de adesão deve
abandonam o tratamento podem ser detec- ser por volta de 95%. No entanto, há evi-
tados utilizando-se critérios como a ausên- dências de que os resultados terapêuticos
cia de retirada dos medicamentos no prazo apresentam correlação linear com a taxa de
de 30, 60 ou 90 dias após a última dispensa- adesão, o que cria uma estratificação da
ção. O critério pode ser definido no serviço aderência com diferentes graus de risco de
e serve para a geração de alertas quanto aos falhas no tratamento conforme taxa de ade-
pacientes que necessitam de intervenções são ao tratamento. Como exemplos, há es-
educativas, visita domiciliar, consulta com tudos com hipertensão que estratificam os
o farmacêutico ou seguimento mais fre- pacientes nas faixas de < 40%, 40-60%, 60-
quente. Uma pesquisa realizada nos Estados 80% e > 80% 36 e com HIV+ nas faixas de <
Unidos com mais de 150 mil pacientes en- 50%, 50-64%, 65-79%, 80-94º/o e> 95º/o.37
controu taxas de persistência após 6 meses Essa estratificação pode ser utilizada pelo
de tratamento de 56o/o para estatinas, 56°/o farmacêutico a fim de triar pacientes com
para bifosfonatos, 66º/o para antidiabéticos nível superior de prioridade com relação a
orais e 63% para antagonistas da angioten- intervenções para melhorar a adesão tera-
sina ll. Esses resultados consideram como • •
peutJca.
desistentes pacientes com mais de 60 dias
sem retirada dos medicamentos.34
A adesão terapêutica pode ser calcula- RECURSOS PARA AUXÍLIO
da a partir da TC como uma variável contí- NA ADESÃO DO PACIENTE
nua, expressa em uma faixa de O a 100%, À TERAPÊUTICA
considerando determinado período de
tempo. 33 As taxas de adesão para tratamen- Organizadores de medicamentos
tos crônicos variam substancialmente entre
doenças e perfis de pacientes. Citando o Pacientes polimedicados utilizam vários
mesmo estudo do parágrafo anterior, a taxa medicamentos prescritos simultaneamente
de adesão em 1 ano de tratamento foi de 61 e muitas doses diárias. Isso transforma a or-
± 33% para estatinas, 60 + 34% para bifos- ganização dos medicamentos em um possí-
fonatos, 72 ± 32% para antidiabéticos orais vel problema concreto que vem a compro-
e de 66 ± 32º/o para antagonistas da angio- meter a adesão ao tratamento e os resuJta-
tensina II. 31 Vários autores utilizam o pon- dos terapêuticos. Um serviço agregado à
to de corte de 80º/o como referência abaixo dispensação de medicamentos prescritos (e
da qual os pacientes são considerados não não prescritos) que p ode ajudar a equacio-
aderentes. 35 Esse critério é válido para do- nar essas dificuldades consiste no forneci-
enças cardiovasculares como hipertensão, mento de dispositivos de organização de
doença coronariana, dislipidemias e diabe-
tes melito, mas não se mostra clinicamente
Organizadores de medicamentos (porta-
-comprimidos, pi// boxes, pi// cases, pi// or-
ganizers) são caixas com um ou vários
As taxas de adesão para tratamentos crôni- compartimentos que têm a função de ar-
cos variam substanáalmente entre doen- mazenar doses fracionadas de um trata-
ças e perfis de pacientes. mento medicamentoso.
A pnítlco farmacêutico no farmácia comunitário 143

comprimidos. Organizadores de medica-


Ainiciativa simples de criar embalagens se-
mentos (porta-compri midos, pill boxes, pill cundárias com caixas de papelão ou sacos
cases, pill organizers) são caixas com um ou plásticos para cada horário do dia e para ca·
vários compartiment os que têm a função da dia da semana, com cores diferentes ou
de armazenar doses fracionadas de um tra- identificação escrita, pode realmente aju-
dar alguns pacientes a cumprirem o trata-
tamento medicamentos o. Os comprimidos mento.
podem ser organizados em quantidades
diárias, semanais ou mesmo mensais.
Os organizadores são uma forma de É possível, também, organizar os medi-
evitar ou reduzir os erros de medicação camentos do paciente sem necessidade de
por parte do paciente, diminuir a comple- adquirir esses produtos. A iniciativa simples
xidade da farmacoterapi a e aumentar a de criar embalagens secundárias com caixas
adesão efetiva ao tratamento (maior nú- de papelão ou sacos plásticos para cada horá-
mero de comprimidos tomados em rela- rio do dia e para cada dia da semana, com co-
ção ao número de comprimidos prescri- res diferentes ou identificação escrita, pode
tos). Além disso, ajudam especialmente realmente ajudar alguns pacientes a cumpri-
aqueles pacientes que com frequência se rem o tratamento. Ainda que exista urna es-
esquecem de tomar os comprimidos ou cassez de publicações nacionais de estudos
que ficam em dúvida se os tomaram. A or- controlados que comprovem aumento na
ganização fracionada, em compartiment os adesão ao tratamento, várias experiências no
separados, permite a confirmação das do- setor público e privado mostram bons resul-
ses tomadas ou não. Nos Estados Unidos, tados, inclusive quanto à satisfação dos pa-
existem farmácias que prestam como ser- cientes com os serviços da farmácia. A Tabe-
viço mensal a organização e o envio de to- la 6.1 traz alguns modelos nacionais e impor-
das as doses em embalagens fracionadas tados disponíveis no mercado. A partir do
(semelhante, por exemplo, ao sistema de nome de marca, é possível encontrá-los com
dose fracionada hospitalar), contendo no- facilidade por meio de sites de busca na inter-
mes dos medicamentos ali armazenados, net. No site e-pill,38 é possível encontrar vá-
horário e modo de usar. Trata-se também, rios modelos importados.
obviamente, de uma forma eficaz de man-
ter a fidelidade do paciente à farmácia co-
munitária prestadora do serviço. Calendários
No Brasil, existem organizadores diá-
rios e semanais, mas não existem modelos Calendários são recursos simples, nos quais
mensais. Existem, ainda, porta-comprim i- são listados os medicamentos prescritos (e
dos simples, que permitem ao paciente ape- não prescritos) e os horários de tomada,
nas transportar o medicamento fracionado marcados em uma tabela. Geralmente, são
para o dia. Alguns modelos nacionais dis- utilizados pictogramas, como desenhos de
põem de sistemas de alarme embutidos, sol, refeições e lua para representar os mo-
com possibilidade de programação de ho- mentos do dia, com a intenção de facilitar
rários. Em outros países, há vários modelos sua interpretação por paciente analfabetos,
com capacidade para os medicamentos de incluindo aqueles funcionais. Esses papéis
todo o mês e diversos sistemas de alarme, são fornecidos ao paciente durante a dis-
programação e dispensação automática dos pensação ou mesmo ao fim de outros servi-
comprimidos. ços farmacêuticos clínicos. São recursos
14 4 Cassyano J. Correr & Mie hei F. Otukl

TABELA6.1
Modelos nacionais e importados de organizadores de medicamentos

Marca Origem Tipo

Pill Box G-Life" Nacional Diário


Medtime XL• Importado Diário
MedGlide,.. Importado Diário
Times Medication• Importado Diário
CompuMed• Importado Mensal
Medcenter System• Importado Mensal
Accupax• Importado Mensal
Porta-Comprimidos Hora Certa• Nacional Semanal
Porta Med Supe,.. Nacional Semanal
Pill Box Pb 2000" Nacional Semanal
Medication Manager• Importado Semanal
7 Days & Reminder" Importado Semanal
Weekly PillBox• Importado Semanal
CADEX• Importado Semanal

úteis para alguns pacientes, embora não pa- macêutico é organizar os horários de me-
ra todos, e por isso é necessário avaliar sua dicação de modo que todas as doses sejam
aplicabilidade ao paciente e confirmar sua administradas em, no máximo, dois ou
compreensão sobre o que significam as in- três momentos do dia. Se não houver evi-
formações contidas no calendário. dência explícita de interação físico-quími-
Existem dezenas de modelos produzi- ca (biofarmacêutica) entre medicamentos
dos nas mais diversas situações e organiza- ou de algum medicamento com alimentos
ções, como farmácias, lares de longa perma- (o que exige administração de 30 a 60 mi-
nência, hospitais e unidades de saúde. O nutos antes ou 2 horas após uma refeição),
modelo apresentado na Figura 6.5 foi con- os comprimidos referentes aos vários me-
cebido para utilização em serviços farma- dicamentos devem ser tomados juntos e
cêuticos clínicos e pode ser utilizado como nas refeições. Há uma preocupação desne-
referência para que o leitor construa seu cessária por parte de muitos farmacêuticos
próprio modelo. em espaçar os horários de tomada dos
Os calendários são úteis para organi- comprimidos a fim de evitar supostas "in-
zação dos horários de medicação e para re- terações". Na maioria das vezes, entretanto,
dução da complexidade da farmacoterapia. essa preocupação não se justifica e não en-
Trabalhar a complexidade do regime tera- contra suporte na literatura, o que leva a
pêutico na p rática da dispensação significa um aumento desnecessário da complexi-
tentar reduzir ao máximo o número de to- dade. Na Figura 6.6, são apresentados dois
madas diárias (agrupando comprimidos) exemplos hipotéticos de regime terapêuti-
e simplificar ao máximo as instruções adi- co que mostram uma situação de alta e
cionais a serem seguidas. Na Figura 6.5, baixa complexidade para tratamentos com
considerando os horários das alimenta- os mesmos medicamentos, prescritos na
ções e o antes e depois, existem nove mo- mesma posologia.
mentos no dia em que os medicamentos Os exemplos partem do pressuposto
podem ser inseridos. Uma meta para o far- de que nenhum dos medicamentos apre-
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 14S

PLANO PERSONALIZADO DE TRATAMENTO


Aconselhamento ao Paciente
Nomr, _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Cota: _ / _ / _

- .. '
ALMOÇO
.
-
INlfM HOAA DE
MEDICAMENTO DORMIR OAIEHTAÇÓES

lRt' doc:urntrto i prrscndtldo ~o seu tnttrnt:nto.. Hlo ft:mmtndt HVJ meckiwntntos pt11 outras pesoest' No w MttomtdQut sem an..s KOmdf\lt"··Srt com o
mêcko ou o f1tmR'uoe». OJ objclVO!i do HU l.m .Tlcnto podctn VINr canformt rt<Omt~ rnicta. Conwne CDm Sl:U mêdKo sobre üJtS at111·avos.

FIGURA 6.5
Modelo de diário para organização do regime terapêutico. Pode ser utilizado como recurso para orien-
tação na dispensação de medicamentos prescritos ou em atendimentos clínicos.

senta interações alimentares ou biofarma- nas farmácias comunitárias, e essa relação é


cêuticas. Outras combinações de horários ainda maior em estabelecimentos de grande
são tamb ém possíveis, e recomenda-se ao porte.
leitor que explore essas possibilidades, ob- O papel do técnico ou do auxiliar de
servando seu efeito na complexidade da te- farmácia é atender o receituário e avaliá-lo
rapia. Devem-se considerar, também, as do ponto de vista legal e da completude.
preferências do paciente. Quando há mais Além disso, é seu papel separar e conferir o
de uma alternativa de regime possível, reco- medicamento e orientar o usuário sobre os
menda-se que a escolha seja deixada para o aspectos básicos do tratamento: dose a ser
paciente. tomada, horários e duração do tratamento.
Cumprindo esse papel básico, a equipe da

DISPENSAÇÃO POR
- A
NAO FARMACEUTICOS li Não é aceitável que auxiliares ou técnicos
de farmácia identifiquem-se como farma-
Técnicos e auxiliares de farmácia apresen- ~ cêuticos, emitam julgamento sobre a
prescrição médica, indiquem medicamen-
tam um importante papel na dispensação tos ao cliente e sugiram substituição do
de medicamentos. Há, geralmente, um far- medicamento prescrito por similares.
macêutico para cada dois ou três atendentes
14 6 Ca ssyano J. Correr & Mie hei F. Otukl

EXEMPLO 1:

7h30 12h00 16h30 20h00 23h Como está na


Medicamento I dose Café Almoço Lanche Jantar h .d . S/N prescrição
A D A D A D A D -
Medicamento A 1 Tomar 1comp
pela manhã
Medicamento B 1 1 Tomar1 comp
duas vezes ao dia
Medicamento C 1 1 Tomar 1comp
de 12/72h
Medicamento D Y2 Tomar 1/2comp
ao dia
Medicamento E 1 Tomar 1comp
à noite
Número de tomadas diárias = 5
EXEMPL02:

7h30 12h00 16h30 20h00 23h Como está na


Medicamento I dose Café Almoço Lanche Jantar h.d. S/N prescrição
A D A D A D A D -
Medicamento A 1 Tomar 1comp duas
vezes pela manhã
Medicamento B 1 1 Tomar 7 comp duas
vezes ao dia
Medicamento C 1 1 Tomar 1comp de
12/12h
Medicamento D 'h Tomar 1/2compaodia
Medicamento E 1 Tomar 1comp à noite
Número de tomadas diárias = 2

FIGURA6.6
Exemplos de organiza ção do regime terapêutico para a mesma prescr ição hipotética contendo cinco
medicamentos de uso contínuo.
A = antes da refeição (30-60min ); D = durante ou logo depois da r efeição; S/N = u so se n ecessór io.

farmácia estará garantindo a todos os seus drão do estabelecimento), e deve-se atentar


clientes o mínimo em relação à dispensa- para a não autorização do prescritor aposta
ção. Não é aceitável que auxiliares ou técni- na receita. Deve ser registrada na receita a
cos de farmácia identifiquem-se como far- sub stituição pelo genérico, e o farmacêutico
macêuticos, emitam julgamento sobre a deve apor seu carimbo e assinar.
prescrição médica, indiquem medicamen- O técnico ou auxiliar deve solicitar a
tos ao cliente e sugiram substituição do me- presença do farmacêutico sempre que hou -
dicamento p rescrito por similares. A substi- ver problemas com o receituário que não
tuição por genéricos deve obter consenti- possam ser resolvidos com o paciente,
mento do farmacêutico resp on sável e do qu ando há dúvidas a respeito do regim e te-
paciente (devem ser criadas condutas-pa- rapêutico (dose, freq uência ou duração do
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitária 147

tratamento) ou quando o paciente solicita cos em farmácia). Estes devem formar um


indicação de algum medicamento adicional time, e deve ser clara a divisão de atribui-
ou informações sobre o tratamento que ul- ções. Os farmacêuticos respondem pela dis-
trapassem a competência do atendente. Os pensação, pelo serviço de atenção farma-
atendentes ainda devem encaminhar opa- cêutica e pelo cumprimento de todas as
ciente ao farmacêutico nos casos em que normas legais e profissionais d.o estabeleci-
outros serviços clínicos farmacêuticos fo- mento. Os atendentes devem dar suporte à
rem necessários. dispensação e auxiliar nos cuidados de ar-
As profissões de auxiliar e técnico de mazenamento de medicamentos, sob su-
farmácia, no Brasil, não se encontram regu- pervisão do farmacêutico, atendendo os ca-
lamentadas, e não há obrigação de formação sos de menor complexidade, com claros li-
mínima para atuação em farmácia. Isso faz mites de atuação, condizentes com sua
de muitos estabelecimentos verdadeiros formação e descrição de cargo.
"palcos de horrores'~ onde a população é en-
ganada ou orientada por leigos em decisões
importantes de saúde. Isso ocorre quase CONSIDERAÇÕES FINAIS
sempre à revelia do farmacêutico e constitui
o principal problema quando se trata de A dispensação de medicamentos prescritos
cumprimento das Boas Práticas de Farmácia é um ato subsequente ao diagnóstico e à de-
no Pais. Até o momento, não há sinalização finição do tratamento medicamentoso (fár-
das entidades profissionais farmacêuticas no maco, forma farmacêutica, regime terapêu-
sentido de registrar esses trabalhadores, a tico). A dispensação, nesses casos, pode
exemplo do que fez a enfermagem. aprimorar o processo de prescrição, corri-
gindo erros, incompletudes ou realizando
análises de risco, e aumentar as chances de
As profissões de auxiliar e técnico de far-
mácia, no Brasil, não se encontram regula-
sucesso terapêutico, por meio da informa-
mentadas, e não há obrigação de formação ção ao paciente e promoção da adesão tera-
mínima para atuação em farmácia. Isso faz pêutica.
de muitos estabelecimentos verdadeiros A dispensação de medicamentos pres-
#palcos de horrores~ onde a população é
enganada ou orientada por leigos em deci-
critos deve atingir determinados padrões de
sões importantes de saúde. qualidade para todos os usuários de uma far-
mácia, e o farmacêutico é o responsável pelo
atendimento direto de pacientes e pela su-
Seria desejável, no Brasil, o desenvolvi- pervisão do cumprimento dessas normas
mento de um modelo de formação e capaci- junto à equipe de auxiliares. As normas de
tação para auxiliares de farmácia. Seria dese- dispensação existem para garantir a seguran-
jáveJ, também, o reconhecimento da função ça do paciente, e são elas que justificam apre-
desse grupo de trabalhadores como uma sença de um farmacêutico responsável du-
profissão, sujeita a códigos éticos e profissio- rante todo o período de funcionamento da
nais, fiscalização do exercício profissional e farmácia comunitária. A dispensação conver-
obrigatoriedade de educação continuada. tida em entrega simples ou venda comum faz
Deve-se ter em mente que a equipe da dispensável a presença de um profissional da
farmácia pode ser composta do farmacêuti- saúde, desrespeita os direitos do paciente e
co diretor técnico, farmacêutico assistente, do consumidor e desqualifica a farmácia co-
farmacêutico substituto e auxiliares (técni- munitária como estabelecimento de saúde.
148 Cassyano J. Correr & Micbel F. Oruld

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Dispensação de medicamen tos
isentos de prescrição
CASSYANO J. CORRER
INAJARA ROTIA
MICHEL F. OTUKI

mo com medicamentos de prescrição. Inclui


A automedicação é uma prát i-
ca comum, vivenciada por civili-
medicamentos que, porventura, sobraram
zações de todos os tempos, com de tratamentos prévios e medica1nentos de
características peculiares a cada época e re- outras pessoas, corno familiares ou mem-
gião, sendo atualmente bastante difundida bros do circulo social. Também estão inclu-
não apenas no Brasil, mas também em outros
países. Em alguns deles, com sistemas de saú- ídos na prática da autorncdicação os deno-
de pouco desenvolvidos, a ida à farmácia re- minados remédios caseiros, como plantas
presenta a primeira opção procurada para re- medicinais e infusões.3,4
solver um problema de saúde, e a maior parte A automedicação é feita em função da
dos medicamentos consumidos pela popula-
ção é vendida sem receita médica. 1•2 gravidade da doença. Estudos conduzidos
em países desenvolvidos e em desenvolvi-
mento demonstrara1n que o hábito da au-
Tradicionalinente, o conceito de auto- tomedicação tem direta correlação com a
1nedicação restringe-se à situação em que presença de sintomatologia aguda, conside-
os pacientes conseguen1 e utilizam os medi- rada autolimitada, sendo utilizados medi-
camentos sem que haja nenhu 1na forma de camentos prescritos nos casos de doenças
intervenção 111éd ica, seja no diagnóstico da o u condições mais graves. Com relação ao
doença, na prescrição do medicamento ou sexo, alguns autores apontam a maior pre-
no acompanhamento do tratamento, sendo valência de automedicação no sexo fen1in i-
a decisão de consumir a substância unica- no, sendo esta parcialinente atribuída ao
mente do paciente. A automedicação é, tradicional papel social de provedora da
portanto, um procedimento caracterizado saúde da familia desempenhado pela mu-
fundamentalmente pela iniciativa de ttrn lher, e ta1nbém em virtude da mais frequen-
doente, ou de seu responsável, em obter ou te utilização de serviços de saúde por estas.
produzir e utilizar um produto que acredita Também relatam a existência de diferenças
que lhe trará benefícios no tratan1ento de entre os sexos com relação aos problemas
doenças ou alívio de sintomas. 1 de saúde automedicados, assim como dife-
~ importante ressaltar que a autome- renças entre as faixas etárias. 1 ·~
dicação pode ser efetuada com o uso de 1ne- A automedicação foi, por 111uito tem-
dicamentos isentos de prescrição, assim co- po, considerada uma forma de não adesão às
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitária 1 51

orientações médicas e de saúde, sendo uma paciente acreditar que há um fármaco para
maneira de se usar irracionalmente os medi- cada enfermidade. Com o emprego dos me-
camentos.2 Constitui-se, ainda, em uma te- dicamentos isentos de prescrição, as opor-
rapêutica não controlada, que não permite o tunidades de monitoração do progresso do
seguimento dos pacientes, podendo aca.r re- tratamento do paciente também ficam
tar numerosos riscos e inconvenientes: comprometidas. 1•5·7
Aspectos positivos também têm sido
1. informação errônea, insuficiente ou não atribuídos à automedicação, sendo esta
compreensível dos medicamentos e suas considerada parte integrante dos autocui-
características por parte dos pacientes; dados sanitários, urna forma de responsabi-
2. eleição incorreta dos medicamentos, por lidade individual sobre a própria saúde, em
meio de autodiagnóstico equivocado; que o paciente elege livremente um trata-
3. uso ou administração incorretos, com re- mento a partir de seus próprios conheci-
lação a dose, via de administração, con- mentos. Essa ação independente dos pa-
servação; cientes é complementar à ação profissional
4. risco de abuso ou dependência; apareci- dos médicos, e não oposta, assim como tem
mento de reações adversas ou interações; um papel complementar aos sistemas de
5. utilização de associações inadequadas, saúde, contribuindo para uma menor de-
que podem ser especialmente perigosas manda de assistência sanitária para trans-
em idosos, crianças, gestantes e certos tornos menores que não a requerem. 1•2•8 Is-
grupos de risco; e so pode evitar uma supersaturação dos ser-
6. atraso na assistência médica apropriada, viços médicos e reduzir o tempo das visitas
nos casos em que esta seja realmente ne- médicas e os custos do sistema sanitário, o
cessária.3 que é de grande importância quando os re-
cursos são limitados. Dessa forma, o benefí-
A automedicação inadequada pode
cio torna-se global, valorizando os recursos
acarretar efeitos indesejáveis, como enfer-
sanitários, incluindo os profissionais e os
midades iatrogênicas e retardamento ou
econômicos. Também apresenta como van-
mascaramento do diagnóstico na fase ini-
tagens a rapidez, a fácil disponibilidade e o
cial da doença severa, permitindo sua evo-
acesso ao tratamento medicamentoso, po-
lução.5 O uso de medicamentos sem indica-
dendo reduzir os custos com as substâncias
ção m édica também pode aumentar o risco
prescritas associados com propagandas rea-
de interações medicamentosas e de reações
lizadas por programas de saúde.5•8
adversas, podendo ser prejudicial quando a
A automedicação vem sendo defendi-
consulta médica se faz necessária. Há tam-
da como a vontade e a capacidade dos pa-
bém que se considerar o potencial risco de
cientes de participarem de maneira inteli-
abuso desses medicamentos e que o aumen-
gente e autônoma nas decisões e na gestão
to da disponibilidade destes pode fazer o

li A automedicação inadequada pode acar- li A automedicação vem sendo defendida


retar efeitos indesejáveis, como enfermi- como a vontade e a capacidade dos pa-
~ dades iatrogênicas e retardamento ou
mascaramento do diagnóstico na fase ini- ~ cientes de participarem de maneira inteli-
gente e autônoma nas decisões e na ges-
cial da doença severa, permitindo sua tão de atividades preventivas, diagnósti-
evolução.5 cas e terapêuticas que lhes caibam.8
1S2 Cassyano J . Cor rer & Mlchel F. Otuk1

de atividades preventivas, diagnósticas e te- • aumento do número de medicamentos


rapêuticas que lhes caibam.8 A Declaração disponíveis sem prescrição;
de Alma-Ata, da Conferência Internacional • aumento da disponibilidade desses pro-
de Cuidad os Primários com a Saúde, datada dutos em estabelecimentos não farma-
de 1978, corrobora as principais ideias de ceut1cos;
A •

autocuidado e automedicação. Consideran- • propagandas feitas pela indústria far-


do que os indivíduos devem fazer escolhas macêutica, em contraste com as poucas
para tomar conta de si próprios, fabricantes e não tão expressivas campanhas que
devem proporcionar a eles opções para isso, tentam esclarecer os perigos da autome-
e governos devem garantir medicamentos dicação;
seguros, eficazes e de qualidade, além de re- • crença excessiva no poder de cura dos
conhecer o interesse do consumidor em ter medicamentos;
papel ativo em sua própria saúde.9 Em su- • falta de compreensão de que os medica-
ma, a Declaração considera que o povo tem mentos não são isentos de riscos, deven -
direito e obrigação de participar individual do ser utilizados após orientação de um
e coletivamente no planejamento e imple- profissional capacitado;
mentação de seus cuidados de saúde. Pelo • dificuldade e custo de se conseguir uma
exposto, considera-se que o emprego de um consulta médica;
medicamento isento de prescrição, somado • limitação do poder prescritivo, ainda
a uma informação adequada, pode produ- restrito a poucos profissionais da saúde;
zir uma automedicação racional, segura e • presença em alguns países, como no
eficaz, e que, dessa forma, isso poderia ser Reino Unido, de taxas a serem pagas por
útil para os sistemas de saúde.3•1ºA Associa- prescrição, o que não ocorre com os me-
ção Brasileira da Indústria de Medicamen- dicamentos de venda livre;
tos Isentos de Prescrição (ABIMIP) defende • falta de regulamentação e fiscalização
que a automedicação responsável deve as- sobre os estabelecimentos que vendem
sentar-se sobre "4 regras de ouro" (Quadro medicamentos sem prescrição médica;
7.1) .11 • confiança e sensação de autoafirmação
A prática da automedicação tem au- no autocuidado em saúde;
mentado consideravelmente nas últimas • medo de conhecer a própria doença e
décadas em todo o mundo, favorecida prin- tendência a evitar a relação com o mé-
cipalmente por fatores como: dico;

QUADRO 7.1 As "4 regras


de ouro" para uso responsável de
medicamentos isentos de prescrição
1. Cuidar sozinho apenas de pequenos males ou sintomas menores, já diagnosticados ou
conhecidos.
2. Escolher somente medicamentos isentos de prescrição médica, devidamente registrados na
Anvisa, de preferência com a ajuda de um farmacêutico.
3. Ler sempre as informações da embalagem do produto antes de tomá-lo.
4. Parar de tomar o medicamento se os sintomas persistirem. Nesse caso, o médico deverá ser
consultado.

Fonte: Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição.11


A prótica farmac~udca na farmócla comunltórla 1S3

• descrença na eficácia e no atendimento CLASSIFICAÇÃO DOS


do sistema de saúde.
MEDICAMENTOS NO
BRASIL E A EXIGÊNCIA
- ,
DE PRESCRIÇAO MEDICA
11 Em países desenvolvidos, a educação sani-
~ria dos pacientes com relação aos medi-

~ camentos é geralmente melhor, havendo


facilidade de acesso da população à infor-
No que diz respeito à prescrição, h á basica-
mente dois tipos de medicamentos no Bra-
mação, fomentada pelo desenvolvimento
sil: aqueles cuja venda exige apresentação
de novas tecnologias e sistemas de infor-
mação. de prescrição médica e aqueles isentos de
prescrição. Entre os primeiros, distinguem-
-se aqueles cuja venda é controlada pela
Portaria nº 344, de 12 de maio de 1998, da
Em países desenvolvidos, a educação Agência Nacional de Vigilância Sanitária
sanitária dos pacientes com relação aos me- (Anvisa), exigindo, além da apresentação da
dicamentos é geralmente melhor, havendo receita, sua retenção pela farmácia e a emis-
facilidade de acesso da população à informa- são de balanços periódicos detalhados à Vi-
ção, fomentada pelo desenvolvimento de no- gilância Sanitária sobre aquisições, prescri-
vas tecnologias e sistemas de informação, ções, dispensações, pacientes e comprado-
com vistas a reduzir os custos sanitários, res (ver Cap. 4). Os medicamentos cuja
considerando-se desnecessária a assistência venda exige receita médica no Brasil apre-
médica para o tratamento de transtornos sentam uma tarja vermelha ou preta com
menores. Nesses países, ainda há rígidos con- dizeres relativos a essa exigência e podem
troles estabelecidos pelas agências regulado- ser dispensados com a apresentação de re-
ras e um crescente envolvimento dos farma- ceita emitida por médico ou odontólogo.
cêuticos com a orientação dos usuários de Medicamentos isentos de prescrição
medicamentos, tornando menos problemá- (MlPs) não apresentam tarja vermelha ou
tica a prática da automedicação. No Brasil, a preta e não requerem apresentação de pres-
má qualidade da oferta de medicamentos, o crição para serem dispensados. De acordo
não cumprimento da obrigatoriedade da com o Conselho Federal de Farmácia (CFF),
apresentação da receita médica para medica- MIP é aquele cuja dispensação está destina-
mentos tarjados e a carência de informação e da a condições que não necessitam de um
instrução na população em geral justificam a diagnóstico preciso, também chamadas de
preocupação com a qualidade da automedi- transtornos menores. Esses produtos tam-
cação praticada no País. 1•2 bém são conhecidos como medicamentos
de venda livre ou por sua sigla em inglês:
OTC (over the counter).

11 No Brasil, a má qualidade da oferta de me-


dicamentos, o não cumprimento da obri-
~ gatoriedade da apresentação da receita
médica para medicamentos tarjados e a ca- 11 De acordo com o Conselho Federal de Far-
rência de Informação e instrução na popu- mácia (CFF), MIP é aquele cuja dispensação
lação em geral justificam a preocupação
com a qualidade da automedicação prati- ~ está destinada a condições que não neces-
sitam de um diagnóstico preciso, também
cada no Pals.1.2 chamadas de transtornos menores.
154 Cossyono J. Correr & Mlchel F. Otukl

Os MIPs apresentam características de


Todos os medicamentos novos são de
menor risco, as quais foram definidas em venda sob prescrição médica, sujeitos a
1986 pela Oficina Regional Europeia da Or- reavaliação do enquadramento na cate-
ganização Mundial da Saúde (OMS). Para goria de venda no momento de sua reno-
que um medicamento seja enquadrado nes- vação, de acordo com dados de farmaco-
vigilãnda.12
sa categoria, deve ser eficaz para os sinto-
mas que motivaram seu emprego, os quais,
em geral, d evem ser de natureza autolimita-
da; não havendo evolução agravante, d eve encontrar especificados no GITE, são de
ser de qualidade confiável, fornecendo uma venda sob prescrição médica. Todos os me-
resposta consistente e suficientemente rápi- dicamentos novos são de venda sob prescri-
da, e seguro, uma vez que é empregado em ção médica, sujeitos a reavaliação do en-
situações de bom p rognóstico. Além disso, quadramento na categoria de venda no mo-
esses medicamentos devem ser de emprego mento de sua renovação, d e acordo com
fácil e cômodo, facilitando a boa conduta dados de farmacovigilância. 12
pelo usuário, e devem ter uma ampla mar- O processo de reclassifi cação dos me-
gem terapêutica, para que possíveis erros de dicamentos fo i historicamente estimulado
dose não acarretem maiores problemas.8 em grande parte pela indústria farmacêuti-
No Brasil, essa classe de medicamen- ca, pela profissão farmacêutica e pelo go-
tos é regulamentada pela RDC nº 138, de verno, o qual é responsável pelo desenvolvi-
29 de maio de 2003, 12 que dispõe sobre a mento das políticas de saúde, e é sustentado
categoria de venda de medicamentos. Ne- pela ideia de que os pacientes podem de-
la, são citados preparações farmacêuticas sempenhar um papel mais ativo nas esco-
tradicionais e medicamentos que tiveram lhas de seus tratamentos, responsabilizan-
seu status substituído: de venda condicio- do-se pela sua própria saúde.5 É importan-
nada a apresentação de prescrição para te destacar que o fato de esses fármacos
m edicamentos de venda livre, transição terem sido reclassificados não implica des-
que vem ocorrendo de maneira intensa nas cumprimento das questões sanitárias legais
últimas décadas. 7 Segundo a Anvisa, po- pertinentes, bem como não seguimento das
dem ser registrados como M!Ps aqueles boas práticas de fabricação. Os regulamen-
que se enquadrem nas condições da lista tos para fabricação dos medicamentos isen-
de Grupos e Indicações Terapêuticas Espe- tos de prescrição e daqueles sujeitos a pres-
cificad as (GITE) (Quadro 7.2). A Resolu- crição perman ecem idênticos.7
ção estabelece q ue todos os medicamentos Os primeiros passos dados na Europa
da lista GITE, respeitadas as restrições tex- para ampliação do acesso aos medicamen-
tuais e de o utras no rmas legais e regula- tos de venda livre foram dados em 1992 a
mentares pertinentes, são de venda sem partir de uma resolução, posteriormente re-
prescrição médica, com exceção daqueles visada em 2001, da Comunidade Europeia
administrados por via parenteral, vendi- sobre a classificação de medicamentos, que
dos sob prescrição médica. As associações declara que todos os medicamentos devem
medicamentosas, ou duas ou mais apresen- ser classificados como MIPs, exceto se se-
tações em uma mesma emb alagem para uso guirem um dos seguintes critérios:
concomitante ou sequencial, cujo grupo te-
rapêutico e indicação terapêutica de pelo 1. fármacos que apresentam perigo à saúde
menos um de seus princípios ativos não se se usados sem supervisão médica;
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 15 S

QUADRO 7.2 Lista de Grupos e Indicações Terapêuticas Especificadas {GITE) para medicamen-
tos isentos de prescrição médica

Grupos terapêuticos Indicações terapêuticas Observações

Antiacneicos tópicos Acne, acne vulgar, rosácea Restrições: retinoides

Antiácidos, antieméticos, Acidez estomacal, azia, desconforto Restrições:


eupépticos, enzimas estomacal, dor de estõmago, metoclopramida,
digestivas dispepsia, enjoo, náusea, vómito, bromoprida, mebevirina,
epigastralgia, má digestão, inibidor de bomba de
queimação prótons

Antibacterianos tópicos Infecções bacterianas da pele Permitidos: bacitracina e


neomicina

Antidiarreicos Diarreia, disenteria Restrições: loperamida


infantil, opiáceos

Antiespasmódicos Cólica, cólica menstrual, Restrições: mebevirina


dismenorreia, desconforto
pré-menstrual, cólica biliar,
renal e intestinal

Anti-histamínicos Alergia, coceira/prurido, coriza, Restrições: adrenérgicos,


rinite alérgica, urticária, picada de corticoides que não
inseto, ardência, ardor a hidrocortisona de uso
tópico

Antisseborreicos Caspa

Antissépticos orais Afta, dor de garganta, profilaxia


de cáries

Antissépticos oculares Restrições: adrenérgicos


(exceto nafazolina com
concentração < O, 1%),
corticoides

Antissépticos de Assaduras, dermatite de fraldas


pele e mucosas
Antissépticos urinários Disúria, dor, ardor e desconforto
para urinar
Antissépticos Higiene íntima, desodorizante
vaginais tópicos
Aminoácidos, Suplementos vitamínicos e/ou
vitaminas e minerais minerais em pós-cirúrgico/
cicatrizante, anemias carenciais,
dietas restritivas e inadequadas,
doenças crónicas/convalescença,
idosos, período de crescimento
acelerado, gestação e aleitamento,
recém-nascidos, lactentes e
crianças em fase de crescimento,
prevenção do raquitismo,

(continua)
1S 6 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 7.2 Lista de Grupos e Indicações Terapêuticas Especificadas (GITE) para medicamen-
t os isentos de prescrição médica (continuação)

Grupos terapêuticos Indicações terapêuticas Observações

prevenção/tratamento da
desmineralização óssea pré e
pós-menopausa!, prevenção de
cegueira noturna/xeroftalmia e
como antioxidantes e auxiliares
do sistema imunológico

Anti-inflamatórios Lombalgia, mialgia, torcicolo, dor Permitidos: naproxeno,


articular, artralgia, inflamação da ibuprofeno, cetoprofeno.
garganta, dor muscular, dor na Tópicos esteroidais
perna, dor varicosa, contusão
Antiflebites Dor nas pernas, dor varicosa,
sintomas de varizes
Antifiséticos, Eructação, flatulência,
antiflatulentos, empachamento, estufamento
carminativos

Antifúngicos, Micoses de pele, frieira, micoses de Permitidos: tópicos que


antimicóticos unha, pano branco não contenham
princípios ativos de uso
sistêmico

Anti-hemorroidários Sintomas de hemorroidas Permitidos: tópicos

Antiparasitários orais Verminoses Permitidos: mebendazol,


levamizol
Antiparasitários tópicos Piolhos, sarna, escabiose,
carrapatos, pediculose, lêndeas

Antitabágicos Alívio dos sintomas decorrentes Restrições: bupropiona


do abandono do hábito de fumar

Analgésicos, Dor, dor de dente, dor abdominal Permitidos: analgésicos


antitérmicos e pélvica, enxaqueca, sintomas de não narcóticos
gripe, sintomas de resfriados, febre,
cefaleia

Ceratolíticos Descamação, esfoliação da pele,


calos, verrugas

Cicatrizantes Feridas, escaras, fissuras de pele


e mucosas, rachaduras

Colagogos, coleréticos Distúrbios digestivos,


distúrbios hepáticos
Descongestionantes Congestão nasal, obstrução nasal Restrições:
nasais tópicos vasoconstritores

Descongestionantes Congestão nasal, obstrução nasal Permitido: fenilefrina


nasais sistêmicos

(continua)
A prótica farmacêutica na farmócia comunitórla 157

QUADRO 7.2 Lista de Grupos e Indicações Terapêuticas Especificadas {GITE) para medicamen-
tos isentos de prescrição médica (continuação)

Grupos terapêuticos Indicações terapêuticas Observações

Emolientes cutâneos Hidratante


Emolientes oculares Secura nos olhos, falta de
lacrimejamento
Expectorantes, Tosse, tosse seca, tosse produtiva
sedativos da tosse
Laxantes, catárticos Prisão de ventre, obstipação/
constipação intestinal, intestino preso
Reidratantes orais Hidratação oral
Relaxantes musculares Torcicolo, contratura muscular,
dor muscular
Ru befacientes Vermelhidão/rubor
Tônicos orais Estimulante do apetite, astenia

Obs.: Esta lista é um anexo da Resoluçào RDC nº 138, de 29 de maio de 2003, que pode ser a qualquer momento
alterada. Sugerem-se consultas periódicas de suas atualizações no site da Anvisa: http://www.anvisa.gov.br.
Fonte: Brasil. 12

2. se podem ser facilmente utilizados de veis apenas em farmácias devidamente li-


maneira incorreta, levando a riscos para cenciadas. Na Austrália, no Canadá e na In-
a saúde; glaterra, por exemplo, farmacêuticos são re-
3. se representam uma especialidade quí- queridos a cada dispensação desses medica-
mica nova, necessitando de investigações mentos a fim de prestar a atenção farma-
adicionais; ou cêutica adequada. Nesses países, há ainda
4. se a via de administração da substâ.ncia é medicamentos que não requerem prescri-
a parenteral.6•13 ção médica, mas que podem ser adquiridos
apenas consultando-se o farmacêutico. Es-
A política de venda dos medicamen- ses medicamentos são chamados pharma-
tos isentos de prescrição varia ao redor do cist-only, pharmacy-only ou, ainda, behind-
mundo. Em muitos países, assim como no -the-counter. Nos Estados Unidos, até o mo-
Brasil, esses medicamentos estão disponí- mento, todos os MIPs podem ser adquiri-
dos em estabelecimentos não farmacêuti-
cos, como supermercados, mas encontra-se
11 A política de venda dos medicamentos em discussão a adoção de regras nesse tema

~
isentos de prescrição varia ao redor do mais parecidas com as do mercado cana-
mundo. Em muitos países, assim como no
dense. 7·14
Brasil, esses medicamentos estão disponí-
veis apenas em farmácias devidamente li- Na Inglaterra e na Irlanda, os medica-
cenciadas. mentos são classificados em três categorias:
POM (de prescrição), P (de venda em far-
1S 8 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

mácias sem a necessidade de prescrição, po- cidade aos consumidores, com preço regu-
rém sob a supervisão de um farmacêutico) lado, sendo alguns financiados pelo Sistema
e GSL (pertencentes a listas de vendas ge- Nacional de Saúde, desde que não estejam
rais, podendo ser vendidos em estabeleci- inclusos nas chamadas "listas negativas': Ao
mentos não farmacêuticos, como supermer- consultar-se com um médico, o paciente
cados).6·7 Para os medicamentos classifica- tem acesso a esses medicamentos não pu-
dos na categoria P, o novo termo behind- blicitários, de forma que, nesse país, a pres-
-the-counter vem sendo empregado. Nessa crição médica é um instrumento por meio
categoria, estão inclusos medicamentos do qual o cidadão adquire o medicamento
cuja dispensação não requer prescrição mé- de graça, no caso dos idosos, ou com 40o/o
dica, mas que pode ser efetuada somente de desconto, no caso dos trabalhadores, o
após a realização de uma consulta farma- que acarreta uma saturação de consultas
cêutica. A vantagem da disponibilidade médicas com problemas autolirnitados. 16
desses medicamentos é uma melhora ao seu
• .... A A •
acesso por pacientes que nao tem conven10
médico ou adequada cobertura dos medi- DISPENSAÇÃO DE
camentos de prescrição médica. Para al- MEDICAMENTOS ISENTOS
guns, a necessidade de uma consulta com o -
DE PRESCRIÇAO
médico para a obtenção de uma prescrição
representa uma barreira financeira para a Para que se compreenda melhor esse ato
definição do diagnóstico e para o bom ma- profissional, pode-se imaginar uma situa-
nejo de suas condições clinicas. Sendo as- ção concreta em que um paciente se vê
sim, essa nova classe de medicamentos sur- diante de um quadro respiratório agudo.
ge com o intuito de oferecer maior provisão Esse quadro pode estar relacionado à evolu-
de assistência ao paciente, sendo prevenidos ção de uma gripe ou de um resfriado co-
e solucionados problemas relacionados ao mum ou, ainda, a uma enfermidade respi-
uso de medicamentos a fim de se otimiza- ratória mais grave, como pneumonia, amig-
rem os resultados terapêuticos obtidos. 14•15 dalite bacteriana ou sinusite. De qualquer
modo, esse paciente, ao resolver procurar
ajuda, pode optar por uma farmácia ou pe-
Para alguns, a necessidade de uma con- lo médico, seja por meio de um consultório
sulta com o médico para a obtenção de
uma prescrição representa uma barreira particular, uma unidade de saúde ou um
financeira para a definição do diagnóstico pronto atendimento hospitalar. A decisão,
e para o bom manejo de suas condições nesse momento, cabe ao paciente e depen-
clínicas. derá, em última instância, de sua análise so-
bre a gravidade do problema.
Caso decida procurar uma farmácia,
Por fim, na Espanha, os medicamen- esse paciente poderá optar por se autome-
tos isentos de prescrição são vendidos ape- dicar sem auxilio do farmacêutico ou po-
nas em farmácias e classificados em publici- derá solicitar ao profissional conselho so-
tários, os quais são passíveis de serem sub- bre como p roceder com seu problema de
metidos a propagandas pela mídia, não saúde. Nesse último caso, caberá ao farma-
sendo financiados pelo Sistema Nacional de cêutico analisar a situação a fim de tomar
Saúde e tendo preço livre; e não publicitá- uma decisão: tratar o paciente ou encami-
rios, sobre os quais não se pode fazer publi- nhá-lo a outro serviço de saúde? Indicar um
A prótica farmacêutica na farmócla comunltórla lS9

medicamento ou encaminhá-lo ao médico? objetivos também podem ser relevantes, co-


Esse procedimento constitui um processo mo estado de saúde aparente: o paciente
clínico lógico, cujo tempo de duração de- aparenta boa nutrição? Boa higiene pesso-
penderá do perfil do paciente e da gravida- al? Articula-se com facilidade ou apresenta
de da situação, mas raramente ultrapassa dificuldade ao andar ou falar?
10 ou 15 minutos de consulta paciente-
Natureza dos sinais e sintomas: O farma -
-farmacêutico.
cêutico pode coletar uma breve descrição
Vários autores publicaram aborda-
do problema-chave que trouxe o paciente à
gens para a dispensação de MIPs e para a
farm ácia. Este geralmente é composto de
indicação de medicamentos pelo farma-
um ou dois sintomas primários, descritos
cêutico.1 As três etapas fundamentais in-
pelo paciente em suas próprias palavras. Há
cluem
sete fatores que compõem a história da do-
1. análise da situação, ença atual do paciente: localização, caracte-
2. tomada de decisão e rização, gravidade, tempo, ambiente, fa-
3. definição do tatamento (Fig. 7.1) . tores que modificam e sintomas asso-
ciados.17·18 O farmacêutico deve buscar
conhecer a locali.zação precisa dos sinto-
Análise da situação mas, sua descrição específica, sua severida-
de (leve, moderada ou grave), em que mo-
Inicialmente, o farmacêutico deverá ouvir o mento do dia ou em que circunstâncias os
paciente com muita atenção e coletar dados sintomas surgem ou desaparecem, fatores
sobre ele. Ao final dessa anamnese, o farma- que geram alívio ou agravo e outros sinto-
cêutico deverá dispor de informação sufi- mas que possam ter surgido associados aos
ciente para tomar uma decisão sobre o caso. sintomas principais. Essas informações per-
Os aspectos semiológicos que devem ser le- mitem ao farmacêutico avaliar a gravidade
vados em conta pelo farmacêutico na cons- real do problema e eventual necessidade de
trução da história clínica e na avaliação da exploração diagnóstica e atendimento mé-
queixa principal do paciente são discutidos dico.
em detalhes no Capítulo 12. Considerando
o limite de tempo e as condições de atendi-
mento normais do balcão de uma farmácia li Há sete fatores que compõem a história
da doença atual do paciente: localização,
~
comunitária, é aceitável um formato de en-
trevista clínica breve semiestruturada focada caracterização, gravidade, tempo, am-
biente, fatores que modificam e sintomas
apenas na avaliação do transtorno menor. associados.17•18
As iniciais da palavra "INDICO" podem
ajudar na memorização dos componentes
dessa entrevista (Quadro 7.3) .
Desde quando os sintomas tiveram início:
Identificação do paciente: O farmacêutico A duração dos sintomas também faz parte
deve identificar aspectos básicos referentes da história da doença atual do paciente e
ao paciente que está sofrendo o transtorno apresenta especial importância no aconse-
(que nem sempre é a mesma pessoa que lhamento para uso de medicamentos isen-
procura pelo medicamento). É homem ou tos de prescrição. A duração do problema
m ulher? Qual a idade? Trata-se de criança, de saúde representa um dos mais importan-
jovem, adulto ou idoso? Aspectos menos tes critérios quanto à avaliação da necessi-
16 0 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

Paciente solicita um
medicamento para um
sintoma

Análíse da situação

Necessário Encaminhamento
atendimento ao médico
médico?

Seleção do tratamento

Dispensação e orientação Acompanhamento do


para o autocuidado tratamento: resultados

FIGURA 7.1
Processo de dispensação de medicamentos isentos de prescrição.

dade de atendimento médico. Diferentes determinado, entretanto, pode não ser ade-
transtornos podem ter diferentes períodos quado para alguns problemas de saúde. As-
de evolução, desde horas (p. ex., cefaleia), sim, o farmacêutico deve procurar conhecer
dias ou semanas (p. ex., constipação, diar- as características clínicas específicas dos
reia) ou mesmo vários meses ou anos (p. principais transtornos menores passíveis de
ex., acne, caspa) . Há autores que recomen- tratamento na farmácia, a fim de avaliar a
dam o encaminhamento médico sempre necessidade ou não de encaminhamento
que o transtorno apresentar evolução supe- médico ou seleção de medicamento isento
rior a 7 dias. 19 Esse período de tempo pre- de prescrição. 20

QUADRO 7.3 Acrónimo "INDICO" para avaliação do paciente na


dispensação de medicamentos isentos de p rescrição

1 Identificação do paciente
N Natureza dos sinais e sintomas
D Desde quando os sintomas tiveram início
1 Iniciou algum tratamento? Houve melhora?
e Comorbidades e medicamentos em uso
O Outras situações especiais
A prótica farmací!utica na farmóda comunltórla 161

também deve ser investigado, pois podem


O fa rmacêutico deve procurar conhecer as
características clínicas específicas dos tanto representar contraindicações ao uso
principais transtornos menores passíveis de certos medicamentos (p. ex., anti-infla-
de tratamento na farmácia, a fim de ava- matórios não esteroides em pacientes sob
liar a necessidade ou não de encaminha- uso de anticoagulantes) como podem ser a
mento médico ou seleção de medicamen-
to isento de prescrição.20 própria causa da sintomatologia relatada.
Muito frequentemente, pacientes sofrendo
reações adversas medicamentosas interpre-
Início de algum tratamento: Em muitos tam seus sintomas como novos problemas
casos, os pacientes procuram a farmácia de saúde, de causa menor, buscando trata-
após já terem tentado algum tipo de trata- mento sintomático na farmácia (p. ex., tos-
.m ento (farmacológico ou não), sem suces- se causada por inibidores da enzima con-
so. O farmacêutico deve explorar o uso an- versora da angiotensina). Casos como esses
terior de medicamentos para o transtorno indicam necessidade de encaminhamento
atual, pois isso pode ajudá-lo a estimar a ao médico, preferencialmente acompanha-
gravidade do problema e a selecionar o tra- do de informe escrito emitido pelo farma-
tamento apropriado. Geralmente, transtor- cêutico, pois exigirão reavaliação da pres-
nos cujo tratamento anterior tenha falhado .-
cr1çao.
indicam maior gravidade. Casos em que
um medicamento aparentemente adequado
já tenha sido utilizado, sem evolução positi- Muito frequentemente, pacientes sofren-
va dos sintomas, indicam necessidade de do reações adversas medicamentosas in-
encaminhamento ao médico. Contudo, o terpretam seus sintomas como novos pro-
blemas de saúde, de causa menor, buscan-
farmacêutico deve observar se o paciente uti- do tratamento sintomático na farmácia.
lizou o medicamento adequado ao caso e de
que forma (regime terapêutico). Em muitas
situações, falhas no tratamento dos sintomas
Outras situações especiais: Existem situa-
devem-se à utilização incorreta da medica-
ções especiais que podem orientar o farma-
ção, mesmo em transtornos menores.
cêutico em sua tomada de decisão. Gestação
Comorbidades e m edicamentos em uso: e lactação, em particuJar, representam con-
Muitos pacientes apresentam doenças crô- dições importantes que podem limitar sig-
nicas ou outras condições clinicas conco- nificativamente as opções de tratamento na
mitantes que podem indicar maior gravida- farmácia, ao mesmo tempo em que precipi-
de dos sintomas apresentados (p. ex., sinto- tam o surgimento de vários tipos de trans-
mas respiratórios que podem representar tornos considerados menores (p. ex., fra-
agravamento em pacientes com insuficiên- queza, náuseas e constipação). Além disso,
cia cardíaca congestiva), assim como limi- o risco de teratogenicidade, ou a passagem
tar o espectro de medicamentos isentos de do medicamento para o leite materno, re-
prescrição (p. ex., uso de simpatomiméticos querem que o farmacêutico saiba interpre-
sistêmicos em pacientes com hipertensão tar informações sobre o risco do uso de cer-
arterial). Assim, conhecer essas condições é tos medicamentos nesses periodos. A classi-
de extrema importância na triagem do pa- ficação de risco na gestação mais conhecida
ciente e na seleção da melhor opção tera- foi desenvolvida pela Food and DrugAdmi-
p êutica. O uso de medicamentos contínuos nistration (FDA) e subdivide os medica-
162 Cossyono J. Correr & Mlcbel F. Otukl

mentos em A, B, C, D e X (ver Cap. 18). Ex- vezes, ainda, a necessidade de encaminha-


periências anteriores de reações alérgicas a mento não exclui o t ratamento com MIP.
medicamentos também devem ser investi- Tratar os sintomas por período definido e
gadas antes da seleção de medicamentos encaminhar consiste no melhor desfecho pa-
isentos de prescrição. Trata-se de uma pe- ra várias situações de transtornos menores.
quena precaução que pode fazer grande di- O farmacêutico deve desenvolver o
ferença. História de hipersensibilidade e hábito de preencher informes escritos de
contraindicação na gestação constituem encaminhamento do paciente ao médico.
duas condições de contraindicação absoluta Esse tipo de registro pode ser muito útil ao
que podem representar a diferença entre o médico, na medida em que fornece infor-
sucesso e o desastre terapêutico. Por fim, as- mações já reunidas por um profissional da
pectos referentes às condições socioeconô- saúde, assim como ajuda o paciente duran-
micas do paciente, assim como acesso a ser- te a consulta. Além disso, o atendimento ga-
viços de saúde, devem ser levados em consi- nha em seriedade e pode transmitir uma
deração, pois podem influenciar direta- imagem positiva de profissionalismo ao pa-
mente o tipo de tratamento a ser recomen- ciente e ao prescritor sobre a farmácia e o
dado pelo farmacêutico, assim como as farmacêutico. É extremamente comum a
instruções referentes ao encaminhamento comunicação escrita entre diferentes profis-
para outros serviços de saúde. sionais da saúde ou especialistas quando há
o encaminhamento de pacientes, com exce-
ção dos farmacêuticos, que raramente emi-
História de hipersensibilidade e contrain-
dicação na gestação constituem duas con- tem qualquer parecer por escrito.
dições de contraindicação absoluta que
podem representar a diferença entre o su-
cesso e o desastre terapêutico.
~ extremamente comum a comunicação
escrita entre diferentes profissionais da
saúde ou especialistas quando há o enca-
minhamento de pacientes, com exceção
Tomada de decisão dos farmacêuticos, que raramente emi-
tem qualquer parecer por escrito.
Caso o farmacêutico decida encaminhar o
paciente ao médico, deverá fazê-lo de forma
orientada, de modo que o usuário A Declaração de Serviços Farmacêuti-
compreenda seu estado e siga as orienta- cos (DSF) pode ser utilizada, conforme re-
ções. O Quadro 7.4 traz situações específi- comendação da Anvisa na RDC n° 44, de 17
cas relacionadas a vários transtornos meno- de agosto de 2009, para emitir informações
res que sempre requerem encaininhamento ao paciente e ao prescritor sobre o motivo
ao médico, por sua gravidade e por terem a do encaminhamento e os MIPs recomenda-
chance de ser manifestações de doenças dos. A Figura 7.2 traz alguns exemplos de
graves. DSF preenchidos em casos de atendimento
Quando se decide pelo encaminha- de queixas na farmácia. Para mais detalhes
mento, o farmacêutico deve diferenciar cla- sobre como elaborar planos de cuidado
ramente casos de maior gravidade, que re- nesses documentos, recomenda-se a leitura
querem atendimento imediato, daqueles de do Capítulo 15.
gravidade leve ou moderada, que não exi- Quando decidem encaminhar, os far-
gem encaminhamento de urgência. Muitas macêuticos podem se deparar com pacien-
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 163

QUADRO 7.4 Cenários clínicos relacionados a vários transtornos menores que exigem
encaminhamento ao médico

Condições respiratórias

Gripe e resfriado Tosse


Dor no ouvido não respondente a analgésicos Tosse com duração de duas semanas ou mais
Dor facial/cefaleia frontal sem melhora
Crianças < 2 anos Escarro (amarelo, verde, desbotado ou com
Idosos > 80 anos manchas de sangue)
Em pacientes com doenças crônicas, cardíacas Dor no peito
ou pulmonares Falta de ar
Com febre persistente e tosse produtiva Sibilância
Com quadro de delírio Tosse convulsa (coqueluche) ou difteria
Com dor torácica pleurftica Tosse noturna recorrente
Asma concomitante Suspeita de reação adversa a medicamento
Falha na medicação antitussígena

Dor de garganta Rinite alérgica


Dor de garganta com duração de uma semana Chiado no peito e falta de ar
ou mais Sensação de aperto no peito
Episódios recorrentes de infecção Dor de ouvido
Rouquidão de duração superior a três semanas Dor na face (seios nasais)
Dificuldade em engolir (disfagia) Conjuntivite purulenta
Falha na medicação já utilizada Falha na medicação já utilizada

Condições gastrlntestlnals

Olceras na boca Pirose


Duração de mais de três semanas Ausência de resposta a antiácidos
Perda de peso associada Dor que irradia para os braços
Envolvimento de outras mucosas Dificuldade em engolir
Erupção cutânea associada Regurgitação
Suspeita de reação adversa ao medicamento Pirose de longa duração
Diarreia Sintomas tornando-se mais graves
Crianças

Indigestão Constipação
Sintomas pela primeira vez com idade acima Mudança no hábito intestinal com duas
de45 anos semanas ou mais de duração
Sintomas persistentes (mais de 5 dias) ou recor- Presença de dor abdominal, vômitos, flatulência
rentes Sangue nas fezes
Dor intensa Medicação prescrita suspeita de causar os
Presença de sangue em vômito ou fezes sintomas
Dor piora ao se realizar esforço Falha no tratamento com MIP
Vômitos persistentes
1nsucesso no tratamento já realizado
Suspeita de reação adversa a medicamento
Perda de peso associada
Crianças

(continua)
164 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 7.4 Cenários clínicos relacionados a vários transtornos menores que exigem
encaminhamento ao médico (continuação)

Condições gastrintestinais

Diarreia Síndrome do intestino irrit~vel (Sll)


Duração superior a um dia em crianças Crianças
menores de 1 ano; dois dias em crianças Idoso sem história prévia de Sll
menores de 3 anos e idosos; três dias em Mulheres gestantes
crianças maiores e adultos Sangue nas fezes
Associada a vômitos e febre Perda de peso inexplicada
Viagem recente para lugar distante Precaução em doentes com idade superior a 45
Suspeita de reação adversa a medicamento anos com alteração no hábito intestinal
usado sob prescrição Sinais de obstrução intestinal (dor e distensão
História de mudança repentina no hábito abdominal, vômito)
intestinal Não resposta ao tratamento adequado
Presença de sangue ou muco nas fezes

Hemorroida
Duração de mais de três semanas
Presença de sangue nas fezes
Mudança de hábito intestinal (alteração
persistente do hábito intestinal normal)
Suspeita de constipação induzida por
medicamentos
Associada a dor abdominal e vômitos

Condições dermatológicas

Eczema/dermatite Acne
Evidência de infecção (choro, encrostamento, Acne severa
espalhando-se) Falha na medicação já utilizada
Condição grave: muito fissuradas/rachaduras Acne induzida por medicamentos
da pele, sangramento
Falha na medicação já utilizada
Nenhuma causa identificável (a menos que
previamente diagnosticada como eczema)
Duração de mais de duas semanas

Pé de atleta (micoses entre os dedos) Herpes labial


Graves, que afetam outras partes do pé Bebês e crianças pequenas
Sinais de infecção bacteriana Falha no tratamento de herpes já estabelecida
Não responsiva ao tratamento adequado Grave ou com ferimentos agravando-se
Pacientes diabéticos História de episódios de herpes frequentes
Envolvimento das unhas (onicomicose) Herpes com duração de mais de duas semanas
Herpes livre de dor
Pacientes com eczema atópico
Olho também afetado
Diagnóstico incerto
Pacientes imunocomprometidos

(continua)
A prótica farmacêutica na fannócla comunltórla 165

QUADRO 7.4 Cenários clínicos relacionados a vários transtornos menores que exigem
encaminhamento ao médico (continuação)

Condições dermatológicas

Verrugas Sarna
Lesões com modificação na aparência: Bebês e crianças
tamanho, cor Pele infectada
Sangramento Insucesso no tratamento já realizado
Prurido intenso Diagnóstico incerto
Verrugas genitais
Verrugas faciais
Pacientes imunocomprometidos

Caspa Perda de cabelo


Suspeita de psoríase Alopecia areata (queda repentina de cabelo em
Sinais de infecção áreas circulares)
Não responsiva ao tratamento adequado Suspeita de perda de cabelo induzida por
medicamentos
Suspeita de hipotireoidismo
Distúrbios menstruais
Suspeita de anemia

Condições dolorosas

Dor de cabeça Dores osteomusculares


Cefaleia associada a lesão/trauma Suspeita de fratura
Cefaleia intensa de mais de 4 horas de duração Possíveis reações adversas a medicamentos:
Suspeita de reação adversa a medicamento quedas, contusões
Dor de cabeça em crianças com menos de 12 Lesão na cabeça
anos Falha na medicação já utilizada
Cefaleia occipital (em toda a parte de trás da Artrite
cabeça) Dor lombar severa
Dor de cabeça que é pior de manhã, melho- Dor nas costas (com alfinetadas, agulhadas,
rando mais tarde dormência) que irradia para as pernas
Associada a sonolência, instabilidade, Dor na região média ou superior das costas
distúrbios vi sua is ou vômitos (especialmente no idoso)
Rigidez do pescoço
Enxaquecas frequentes que requerem
tratamento profilático
Dores de cabeça frequentes e persistentes

Condições genlturlnárlas

Cistite (ardência urinária) Oismenorreia


Em homens, em crianças Presença de corrimento vaginal anormal
Febre, náuseas/vômitos Sangramento anormal
Dor na região dos rins, dor sensível ao toque Sintomas sugerem dismenorreia secundária
Hematúria Dor severa intermenstrual (mitte/schmerz) e
Corrimento vaginal sangramento

(continua)
166 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

QUADRO 7.4 Cenários clínicos relacionados a vários transtornos menores que exigem
encaminhamento ao médico (continuação)

Condlç6es genlturln~rlas

Duração de mais de dois dias Falha nos medicamentos já utilizados


Gestação Dor associada a atraso na menstruação
Cistite recorrente (possibilidade de uma gestação ectópica)
Falha na medicação já utilizada Presença de febre

Candldfas• vaginal Contracepção hormonal d• •m•rg•ncla


Primeira ocorrência de sintomas (CHE)
Hipersensibilidade conhecida a imidazó licos Idade inferior a 18 anos
ou outros produtos vaginais antifúngicos Mais de 72 horas depois do sexo desprotegido
Gestação ou suspeita de gestação Tomar um medicamento que interage com
Mais de dois episódios nos últimos seis meses CHE
História prévia de doença sexualmente Compra de medicamento para uso futuro
transmissível (DST)
Exposição a parceiro com DST
Paciente com menos de 18 anos ou mais de 60
Sangramento vaginal irregular ou anormal
Qualquer sangue manchando o corrimento
vaginal
Úlceras, feridas ou vesículas na vagina ou vulva
Associada a dor na região inferior do abdome
Efeitos adversos (irritação, vermelhidão ou
inchaço) associados com o tratamento
Sem melhora no prazo de sete dias de
tratamento

Condlç6es pedliitricas

Erupções cutlnus comuns da lnfincla Dermatite de fraldas


Suspeita de meningite Pele fissurada, erupção cutânea grave
Sintomas de gripe associados Sinais de infecção
Vômitos Outras áreas do corpo afetadas
Dor de cabeça
Rigidez do pescoço
Erupção cutânea
Pequenas equimoses generalizadas que não
empalidecem quando pressionadas
Erupções cutâneas que não empalidecem
quando pressionadas

Oxlúros em crianças Sapinhos em crianças


Outras infecções além da suspeita de oxiúros Infecção recorrente
História de viagem recente Falha na medicação já utilizada
Falha na medicação já utilizada

(conrlnua)
A prótlca farmacêutica na farmóda comunitórla 167

QUADRO 7.4 Cenários clínicos relacionados a vários transtornos menores que exigem
encaminhamento ao médico (con tinuação)

Outras condlç6es

lnsltnia
Suspeita de depressão
Problema crônico (mais de três semanas de
duração)
Crianças e adolescentes menores de 16 anos

Fonte: Síntese de critérios produzida a partir de Blekinsopp e Paxton. 21

tes dificeis. 20 Muitos aceitam o conselho de Caso decida tratar o paciente, o far-
ir ao médico sem questionar, enquanto ou- macêutico deverá escolher a melhor tera-
• •
tros podem se mostrar bastante resistentes. peut1ca para o caso.
O profissional deve sempre enfatizar suas
orientações com bom-senso, entretanto,
deve também respeitar o paciente, enten- Definição do tratamento
dendo que estes são livres para tomar suas
próprias decisões. Em casos d e pacientes re- O tratamento indicado poderá tanto ser
lutantes, alguns comentários podem amci- farmacológico como não farmacológico.
liar o farmacêutico a portar-se elegante- Caso se decida pelo uso d e medicamentos,
mente: deverão ser consideradas opções isentas de
prescrição disponiveis e as características
• "Você pode usar o produto que quiser, do paciente. O processo de tratamento ra-
mas eu o aconselharia a visitar um mé- cional, segundo a OMS, deve conter uma
dico primeiro." definição clara do problema do paciente, a
• "Se fosse meu filho, eu levaria ao médi- especificação de um objetivo terapêutico, a
co:' verificação da aplicabilidade dos medica-
• "Se você vai levar o produto de qualquer mentos disponiveis, o fornecimento de in-
forma, por favor, assegure-se de explicar formações e instruções ao paciente e o mo-
ao paciente sobre os problemas dos nitoramento dos resultados. 22 A seleção de
quais falamos." um medicamento deve ser o resultado de
• "Eu sinceramente não acredito que o um processo de decisão baseado em evi-
produto irá resolver seu problema, mas, dências contendo as seguintes etapas (Fig.
se você quer usar de qualquer forma, se- 7.3):
ja cuidadoso."
• "Você se importa se eu telefonar mais • Definição da indicação clínica: sinais
tarde para verificar se o seu problema ou sintomas que fazem necessário o tra-
está melhorando ou piorando?" tamento farmacológico.
168 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

r• \'fopoclentt- 1• vio form6cto J• via podtnre- 1".-10 fatm6c;Jo

Serviço de Atenção Serviço de Atenção


(Identificação do estabelecimento) !Identificação do estabelecimento)
Farmacêutica Fannacêutica
Declaração de Serviço Declaração de Serviço
Farmacêutico Farmacêutico
Nome !Data: Nome 1Data:

1. FENAZOPIRIDINA 1001ng LORIITADINA SOLUÇÃO ORAL

To111ar 2 comprimidos a cada 8 horas por 2 dias. To1nar 1O mL I vez ao dia à noite.
Tomar com estômago cheio.
Usar por no máximo 5 dias.
Se não houver melhora, procurar o médico. Caso não melhore, procurar o médico.
Obs.: Produz cor alaranjada na urina.

Parãmetro o.ta Hora Bra('o Resultado Relerf<>cla Parãmetro o... H0<• Bt o Rewlrado Reíe<êncla

Este~ronõoremfinalidodede lldentifiaição do Farmacêutico Em proadimemonóo ""'mali<!odede (Jd<núli"'lão do Fannocêutico


dlo9nóSlic.oe ndo substitui a consulto médico carimbo e A$$1natura] diOfJ"dstlco e nOo subs.ritula cornulto m~ico carimbo e Assinatura)
oua m7Jizaçáo de exames laboratoriais ou o reolimção de exames lobomroriois

r• YiOPodtnrt- 2' llio' form6do J0 vlo padtnrt - 1" vlo form6do

Serviço de Atenção Serviço de Atenção


[Identificação do estabelecimento) [Identificação do estabelecimento)
Farmacêutica Fannacêutlca
Declaração de Serviço Declaração de Serviço
Farmac~uti co Farmacêutico
Nome !Data: Nome 1Data:

1. SORO DE RETDRATAÇÃO ORAL AO PRESCRITOR:


Dar para tomar em pequenas quantidades de 1 em 1 hora.
Dar todo o frasco em 24 horas.
Encaminl10 a Sr.• Maria da Silva para consulta mé-
2. REPOSITOR DE FWRA ENVEWPE dica.
Misturar o conteúdo em meio copo d'dgua e dar de manhã e à Esta se dirigiu à farmácia com queixa de dor de ou-
noite. vido e febre alta com 3 dias de duração.
Se não melhorar em 2 dias ou surgir febre, levar ao médico.
Foi administrado Paracetamol 750 mg na fannácia.
AO PRESCRITOR:
Temperatura 12.05.11 21 h30: temperahtra axilar 36,5" C
Temperatura no mo1nento do atendimento: 39" C
12.05.1018h30
ParãmE:"tto O.ta Hora Braco Resultado Referencia Parâmetro Data H0<a Bt~o Resultado Referencia

Esteproadknenro nõorem finalidodede llôenti6c:ação do F~ ITNCêutico fsfeprocedimentonão rem líno&Jodede (ld<núli"'lão do Fannacêutico
diagnóstico enc!o subslftul a ronsuka midko Carimbo e Asslnarura] dlogndstia> t nc!o subsdrulo coosulro midlca cartnbo e Assinatura!
au o ""11iloçdo de....,., loborororiols ova1'0lâoçãode""°'""'/oborororiois

FIGURA 7.2
Exemplos de Declaração de Serviços Farmacêuticos emitidos a partir do atendimento de queixas na
farmácia comunitária e da dispensação de medicamentos isentos de prescrição.
A prótlca farmacêutica na fannócla comunltórla 169

Fatores que geram a indicação clínica


(situação clínica, gravidade, etiologia, patogenia)

Objetivo terapêutico
Meta terapêutica

Classes farmacológicas Classe farmacológica


Resposta esperada
disponíveis escolhida

Via de administração
Fatores do paciente

Cinética e dinâmica Fármaco selecionado

Medicamento (marca?)
e regime terapêutico

FIGURA 7.3
Processo de seleção racional de MIPs e alguns fatores determinantes.

• Definição do objetivo terapêutico: o • Escolha do m edicamento: incluindo


que se pretende atingir com o uso do fár maco, forma farmacêutica, dosagem,
medicamento: cura, alívio do sintoma, apresentação e custo.
prevenção de uma doença, etc. Deve-se • D efinição do regime ter ap êutico: in -
atentar para definição clara de objetivos, clui dose, frequência, horários de uso,
incluindo indicadores de alcance e pra- duração do tratamento e instruções
zo (metas). adicionais.
• Escolha de classe farmacológica mais
adequada: conforme mecanismo de ação Por frm, tão importante quanto ava-
e efeitos farmacológicos pretendidos. liar e orientar o paciente na escolha do me-
• Escolha de via de administração: con- dicamento é educá-lo para o autocuidado
forme velocidade de ação necessária ou daquele momento em diante. O paciente
formas farmacêuticas disponíveis como deve ser orientado sobre o que fazer caso
MIP. os sintomas não melhorem com as medi-
170 Cassyano J . Correr & Michel F. Otuki

das adotadas e deve saber claramente em um balcão de entrega de medicamentos.


quanto tempo esperar até os efeitos surgi- No entanto, conforme apresentado neste
rem. O seguimento do paciente para ava- capítulo, a abordagem clínica realizada du-
liação dos resultados da indicação também rante o atendimento de um transtorno me-
pode ser muito útil na identificação preco- nor costuma ultrapassar a barreira daquilo
ce de problemas nos resultados terapêuti- que tradicionalmente se entende como a
cos (p. ex., falta de efetividade ou surgi- dispensação de um medicamento, a partir
mento de reações adversas). Para tanto, o de uma prescrição médica ou odontológica.
farmacêutico deve manter um registro do O termo "indicação farmacêutica" é
atendimento realizado e incluir uma for- uma tradução literal do correspondente em
ma de contato com o paciente. Se não for espanhol (indicación farmacéutica), defini-
possível contatar posteriormente todos os do pelo Ministério da Saúde no Consenso
pacientes atendidos, deve-se b uscar pelo Espanhol de Atenção Farmacêutica como
menos avaliar os resultados terapêuticos
daqueles considerados mais graves ou de Es el acto profesional por el que el far-
. . macêutico se responsabiliza de la se-
maior risco.
lección de un medicamento que no ne-
cessita receta médica, con el objetivo
Dispensação de medicamentos de aliviar o resolver un problema de
salud a instancias del paciente, o su
isentos de prescrição, indicação ou derivación ai médico cuando dicho
prescrição farmacêutica? problema necesite de su actuación. 19.23

A terminologia adequada no que diz respei- O Consenso Brasileiro de Atenção Far-


to à seleção e à dispensação de medicamen- macêutica não traz uma definição para o te-
tos pelo farmacêutico, sem a existência de ma, tampouco aborda a questão do suporte à
prescrição médica, é frequentemente moti- automedicação de forma direta. O termo
vo de debate no interior da profissão farma- que mais se aproxima dessa temática é o de
cêutica, na própria sociedade e em vários "atendimento farmacêutico': demasiada-
países além do Brasil. Em geral, a recomen- mente genérico para trazer luz à questão.24
dação de MIPs pelos farmacêuticos nas far- A "prescrição farmacêutica': ademais,
mácias comunitárias não é vista pela socie- compõe o assunto mais amplo "dispensação
dade como prescrição, mas como conselho por não médicos" (non-medical prescri-
profissional em um contexto genuíno de bing). A questão-chave nesse campo consis-
automedicação. Essa percepção tem a ver te na extensão do direito de prescrever vá-
com o modelo de atendimento, pois se es- rios medicamentos, não apenas MIPs, a
pera que a prescrição de um medicamento profissionais como farmacêuticos e enfer-
seja o ato subsequente a uma avaliação clí- meiros. O assunto transcende a questão da
nica, em um ambiente de consultório, e não dispensação de MIPs e da autom edicação,
sendo discussão central na área de atenção
A abordagem clínica realizada durante o primária à saúde, farmácia clínica e atenção
atendimento de um transtorno menor cos- farmacêutica. A relevância do tema exige o
tuma ultrapassar a barreira daquilo que aprofundamento de algumas questões con-
tradicionalmente se entende como a dis- ceituais e das experiências de outros países.
pensação de um medicamento, a partir de
uma prescrição médica ou odontológica. O processo de prescrição pode ocorrer
sob duas abordagens diferentes, conhecidas
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 171

nua do que propriamente como uma variá-


Oprocesso de prescrição pode ocorrer sob
vel categórica sim/não. Considerando a uti-
duas abordagens diferentes, conhecidas
como prescrição independente e depen- lização de formulários restritos ou abertos e
dente. a prescrição independente e dependente, é
possível enquadrar os diversos tipos de
prescrição a um modelo quadrangular (Fig.
como prescrição independente e dependen- 7.4).
te. A prescrição independente faz parte do Em muitos países, o farmacêutico po-
plano terapêutico definido por um único de atuar como prescritor independente ou
profissional sanitário com capacidade legal dependente, sendo a concessão de tal direi-
de prescrever de forma independente dos to discutida na literatura farmacêutica des-
outros profissionais, devendo ter altos ní- de a década de 1960, sendo concretizada,
veis de conhecimento e habilidades para porém, apenas nos últimos 5 a 10 anos. 28 A
avaliar o paciente, diagnosticá-lo correta- Inglaterra é um dos países mais avançados
mente e indicar a melhor terapia. Nessa si- no tema. A seção 63 do British Health and
tuação, o prescritor é o único responsável Social Care Act, publicada em 2001, permi-
pelos desfechos alcançados com o trata- tiu a introdução da atividade de prescritor
mento proposto.25·26 complementar aos farmacêuticos britâni-
Em contrapartida, a prescrição de- cos, situação em que estes garantem a con-
pendente é resultado de ação multiprofis- tinuidade do cuidado após a definição pré-
sional, sugerindo o acompanhame nto do via do diagnóstico por urn prescritor inde-
paciente por mais de um profissional. O pendente, desenvolvendo em conjunto com
diagnóstico inicial é realizado por um pres- este um plano terapêutico singular para o
critor independente, e os demais prescrito- paciente. Nesse caso, médico e farmacêutico
res dependentes dão continuidade ao cui- compartilham riscos e responsabilida des
dado, propondo, se necessário, mudanças pelos resultados alcançados. 29
na terapia eleita. Dentro dos modelos de Os farmacêuticos na Grã-Bretanha
prescrição dependente, destacam-se a pres- que tenham no mínimo dois anos de expe-
crição de repetição, em que o profissional riência contados a partir de seu registro
pode modificar ou interromper a farmaco- podem tornar-se prescritores suplementa-
terapia em curso se julgar necessário, e a res após treinamento em instituição de en-
prescrição segundo protocolos clínicos pre- sino superior e término de um período de
determinados. Esse tipo de prescrição tem aprendizado realizando atividades estabe-
lugar geralmente como parte de programas lecidas pela Royal Pharmaceutica l Society
de gestão da patologia, gestão de caso ou em of Great Britain. O programa de treina-
atendimento institucional, como em hospi- mento envolve no mínimo 25 dias ou 200
tais e lares de longa permanência.25.26A horas de estudo teórico e um período de
prescrição, ainda, pode estar restrita a for- 12 dias de atividades práticas, devendo en-
mulários fechados, contendo uma lista dos globar os seguintes temas: processo de to-
medicamentos que podem ser prescritos, mada de decisão, psicologia da prescrição,
ou a formulários abertos, em que o prescri- p rescrição em um contexto muJtiprofis-
tor pode escolher qualquer medicamento, sional e no âmbito de saúde públi ca, atua-
sem restrições impostas por formulários te- lização dos conhecimento s de farmacote -
rapêuticos.27 Assim, o direito à prescrição rapia, princípios e métodos de monitora-
apresenta-se mais como uma linha contí- ção e aspectos éticos, legais, políticos e
172 Cassyano J. Correr& Mlchel F. Otuki

Prescrição independente

r---------------•
Prescrição indepen-
r--------------• dente não restrita a
Prescrição indepen- nenhuma relação
dente restrita a uma fechada de medica-
relação fechada de mentos
medicamentos ou a ·---------------·
r---------------•
protocolos clínicos :Prescrição colaborativa:
pré-elaborados : entre profissionais :
Formulário
restrito
·---------------· Formulário
aberto

r---------------•
1 1
'Prescrição suplementar'
ou de repetição,
limitada a ajustar o
tratamento prescrito
por um prescritor
independente

Prescrição dependente

FIGURA 7.4
Modelos de prescrição com base no grau de independ~ncia do prescritor e na abrang~ncia do formuló-
rio de medicamentos utilizado.
Fonte: Adaptada de Australlan Health Ministers' Adv!sory Coundl.27

profissionais da prescrição. Durante todo les modelos de prescrição dependente com


o processo, o farmacêutico é acompanha- base em protocolos fechados incluem pres-
do e avaliado por um médico, o qual lhe crição de repetição e o Patient Group Direc-
outorgará o direito de prescrever de forma tions (PGD).25
dependente, em caso de sucesso.29,30 O modelo de prescrição dependente
Em outros países, são encontrados seguindo um protocolo clínico definido é o
modelos de prescrição dependente passíveis mais comum, sendo delegado ao farmacêu-
de serem realizados pelo farmacêutico cate- tico tal direito por um profissional prescri-
gorizados de acordo com o nível de inde- tor independente, em geral méd ico, após
pendência adquirido. Estes podem ser avaliação de sua competência. O protocolo
baseados ou não em protocolos terapêuti- representa um documento detalhado que
cos, os quais podem ser de espectro restrito
ou amplo. Aqueles baseados em protocolos
amplos são em número de três: prescrição
11 O modelo de prescrição dependente se-

~
guindo um protocolo dínico definido é o
suplementar, prescrição segundo um proto- mais comum, sendo delegado ao farma-
colo e prescrição colaborativa com médicos cêutico tal direito por um profissional
prescritor independente, em geral médi-
ou outros profissionais com autoridade le- co, após avaliação de sua competência.
gal para prescrever medicamentos. Já aque-
174 Cassyano J. Correr & Michel F. Otukl

MIPs, em especial os behind-the-counter,


11 A consulta paciente-farmacêutico que le-
tem aumentado a responsabilidade do far- va à seleção de medicamentos para trans-
macêutico na prescrição desses medica-
mentos, principalment e por sua acessibili- ~ tornos menores pode ser chamada de
prescrição farmacêutica.
dade e pela gratuidade desse serviço.34 A
Organização Mundial da Saúde manifesta-
-se a esse respeito, reforçando a importân- partilhando as responsabilidades pelo se-
cia desse papel do farmacêutico para os sis- guimento dos pacientes crônicos. Assim, a
temas de saúde. 35 consulta paciente-farmacêutico que leva à
Na Austrália, o farmacêutico é capaci- seleção de medicamentos para transtornos
tado a prescrever medicamentos listados menores pode ser chamada de prescrição
como MIP, incluindo os pharmacist-only, os farmacêutica. No entanto, como descrito,
quais se encontram disponíveis ao público em outros países, a prescrição farmacêutica
nas farmácias comunitárias. Também po- vai além dos MIPs. Ademais, o uso do ter-
dem receitar medicamentos de prescrição, mo "indicação farmacêutica" tem muito
com base em um sistema que os permite mais a ver com o tabu em torno da utiliza-
realizar tal ação em situações de urgência, ção do termo "prescrição" e com a ausência
como no caso dos contraceptivos de emer- de norma legal do que propriamente com
gência.36 diferenças conceituais ou práticas. A indica-
No Reino Unido, em uma iniciativa ção de medicamentos pelo farmacêutico
chamada "Programa de Transtornos Meno- sempre existiu, informalmente , e é provável
res", usuários podem receber vouchers di- que seja referida como prescrição farma-
retamente dos centros de saúde para que cêutica gradativament e em todos os países
possam se consultar com farmacêuticos co- que utilizam o termo, na medida de sua le-
munitários e obter medicamentos para tra- galização e do avanço da atenção farmacêu-
tamento de transtornos menores de forma tica.
gratuita e subsidiada pelo governo.37 Esse
modelo de prescrição independente visa re-
duzir a demanda sobre os médicos da aten- 11 O uso do termo "indicação farmacêutica"
tem muito mais a ver com o tabu em torno
~
ção primária devido a transtornos menores,
da utilização do termo "prescrição" e com
que podem ser tratados adequadament e pe- a ausência de norma legal do que propria-
lo farmacêutico e, assim, otimizar a aloca- mente com diferenças conceituais ou prá·
ção dos recursos em saúde e melhorar o ticas.
acesso dos pacientes.38 Há projetos seme-
lhantes em andamento também na Aus-
trália. 39 No Brasil, não há legislação que regu-
Essas experiências apontam para uma lamente a prescrição farmacêutica. Perma-
tendência de direcionament o da responsa- nece em discussão no interior da profissão a
bilidade médica principalmente para o criação de normas a esse respeito. Assim,
diagnóstico e a prescrição de medicamentos "dispensação de medicamentos isentos de
aos pacientes mais complexos, delegando a prescrição" continua sendo a forma mais
outros profissionais da saúde o cuidado adequada de referir-se a essa prática farma-
com problemas de menor gravidade e com- cêutica comunitária.
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitária 17S

CONSIDERAÇÕES FINAIS nografia]. Curitiba: Universidade Federal


do Paraná; 2011.
4. Loyola Filho AI, Uchoa E, Guerra HL, Fir-
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mente realizada, requer do profissional tors associated with self-medication: the
competências e habilidades na realização da Bambui health survey. Rev Saúde Pública.
anamnese e na tomada de decisão sobre 2002;36( 1):55-62.
quando tratar o paciente ou encaminhá-lo 5. Wazaify M, Shields E, Hughes CM, McEJ-
ao médico. Do ponto de vista sanitário, esse nay JC. Societal perspectives on over-the-
-counter (OTC) medicines. Fam Pract.
tipo de serviço adquire grande importân-
2005;22(2): 170-6.
cia, pois a farmácia, nesses casos, funciona 6. Bradley CP, Bond C. Increasing the num-
como porta de entrada do sistema de saúde, ber of drugs available over the counter: ar-
e o farmacêutico passa a ser o único profis- guments for and against. Br J Gen Pract.
sional em contato com o usuário antes da l 995;45(399):553-6.
utilização de medicamentos. O atendimen- 7. Kennedy JG. Over the counter drugs: chan-
to farmacêutico de sintomas menores deve ging the roles of doctors and pharmacists.
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ser realizado em um local da farmácia que
8. Baos Vicente V. Estrategias para reducir los
disponha de um mínimo de privacidade. riesgos de la automedicación. Inf Ter Sist
Nem sempre o balcão consiste no local mais Nac Salud. 2000;24(6):147-52.
adequado para esse procedimento. O far- 9. Naves JOS, Castro LLC, Carvalho CMS,
macêutico deve ter em mente que, a fim de Merchán-Hamann E. Automedicação: uma
obter uma atmosfera de confidencialidade, abordagem qualitativa de suas motivações.
é preciso dispor de um espaço onde outros Ciênc Saúde Coletiva. 2010;15 Supl 1:1751 -
62.
clientes não possam ouvir o conteúdo da
10.Heineck l, Schenkel EP, Vidal X. Medica.m en-
consulta paciente-farmacêutico. Caso con- tos de vanta libre en el Brasil. Rev Panam
trário, a farmácia estará realizando o proce- Salud Publica. 1998;3(6):385-91.
dimento sem o devido profissionalismo 11. Associação Brasileira da Indústria de Me-
exigido, e, para o paciente, a consulta seria dicamentos Isentos de Prescrição. As 4 re-
transformada de um serviço farmacêutico gras de ouro para o uso responsável de Me-
em uma orientação de venda de um produ- dicamentos Isentos de Prescrição (MIP)
[Internet] . São Paulo: ABIMIP; 2012 [cap-
to. Trata-se de um pequeno gesto que faz
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Dispensação de fitoterápico s
e plantas medicinais
MICHEL F. OTUKI

ram observados e incorporados nas diversas


Uma grande parcela da popu-
lação utiliza plantas medicinais
culturas do planeta. De fato, o uso de plantas
e fitoterápicos como forma de te- e de outros produtos naturais dominou a te-
rapia, e, na farmácia comunitária, é possível rapêutica até o avanço das áreas relacionadas
encontrar a procura desses produtos por auto- com a identificação, a síntese e a avaliação de
medicação ou via receituário. Dessa forma, de-
ve-se seguir o mesmo princípio de dispensa- fármacos, no fim do século XV. Embora o
ção dos demais produtos farmacêuticos, ou se- uso de plantas não tenha sido abolido, a ci-
ja, a dispensação de plantas medicinais e ência voltou seus esforços para o desenvolvi-
fitoterápicos pode ser uma dispensação com
mento de fármacos sintéticos até as últimas
prescrição ou isenta de prescrição. Atualmen-
te, diversas plantas medicinais e medicamen- décadas do século XX. Foi então que a popu-
tos fitoterápicos apresentam eficácia similar a lação e a medicina moderna, motivadas por
muitos fármacos, mas também são passíveis diversos fatores como falta de eficácia, custo
de diversos efeitos não desejáveis durante o
e efeitos adversos, iniciaram uma conexão
tratamento, como os efeitos adversos e as inte-
rações medicamentosas. Cada dia é mais evi- entre uso tradicional e científico das plantas
dente a necessidade de competências vincula- medicinais.
das ao tema plantas medicinais para o sucesso Na realidade, as plantas nunca deixa-
das atividades do farmacêutico comunitário.
ram de beneficiar o arsenal terapêutico da
humanidade; basta lembrar que a origem
O homem tem utilizado as plantas co- de muitos medican1entos foi, de maneira
mo parte de seu arsenal terapêutico desde os direta ou indireta, influenciada pelas plan-
tempos pré-históricos. Existem relatos do tas medicinais. A importância histórica das
uso de plantas corn finalidades terapêuticas substâncias ativas obtidas de plantas como
por volta de 3000 a.e., em uma obra de Shen protótipo para o desenvolvimento de fár-
Nung. Em 78 d.e., o botânico grego Peda- macos é incontestável. A descoberta da ati-
nius Dioscórides relatou em sua obra De ma- vidade biológica dessas substâncias não re-
teria rnedica libri cinque aproximadamente presentou apenas o surgimento de grupos
600 plantas com propiedades terapêuticas. A novos de medicamentos, mas possibilitou a
partir da obra de Dioscórides, os efeitos be- identificação de novas intervenções tera-
néficos e tóxicos das plantas medicinais fo- pêuticas. Não se conheciam analgésicos
A prótico farmacêutico no formóclo comunltórlo 179

assim como todos os medicamentos, devem


11 A importância histórica das substâncias
oferecer garantia de qualidade, ter efeitos
ativas obtidas de plantas como protótipo
~ para o desenvolvimento de fármacos é in-
contestável. A descoberta da atividade
terapêuticos comprovados, composição pa-
dronizada e segurança de uso para a popu-
biológica dessas substâncias não repre- lação. Alguns conceitos importantes para o
sentou apenas o surgimento de grupos
novos de medicamentos, mas possibilitou entendimento do ato de dispensação e regu-
a identificação de novas intervenções te- lamentação de plantas medicinais e fitote-
rapêuticas. rápicos são apresentados no Quadro 8.1.7-9
Em linhas gerais, a partir de urna plan-
ta medicinal, pode-se originar uma droga
opioides, anti-inflamató rios não esteroides,
vegetal que, por sua vez, pode dar origem a
anticolinérgicos, entre outras categorias te-
um chá (pode ser considerado um alimen-
rapêuticas, antes do isolamento e estu.do da
to), ou essa planta pode passar por diversas
atividade da cocaína, do ácido salicílico e da
operações, como a maceração (Quadro
atropina, respectivamen te, das plantas Pa-
4.4), originando um extrato vegetal que po-
paver somniferum, Salix alba e Atropa bella- de ser matéria-prima para a produção de
donna. 1•6 um medicamento fitoterápico ou até mes-
Atualmente, existem diversos tipos de
mo um cosmético (preparações de uso ex-
abordagens terapêuticas que apresentam terno nas diversas partes do corpo humano,
como origem as plantas medicinais. Pode- com o objetivo exclusivo ou principal de
-se, por exemplo, utilizar uma planta reti- limpa-los, p erfuma-los, alterar sua aparên-
rada de uma horta caseira para reduzir cia e/ou corrigir odores corporais e/ou pro-
sintomas de baixa intensidade ou utilizar
tegê-los ou mantê-los em b om estado).
medicamentos fitoterápicos originados de
Quando um composto ativo é isolado
extratos vegetais com teor de compostos
de urna planta medicinal e a partir dele se
ativos altamente padronizados. Dessa for- desenvolve um medicamento, pode-se cha-
ma, hoje, deve-se diferenciar o uso de plan-
mar este de fitomedicamen to, como todos
tas ou produtos elaborados a partir de plan-
os outros medicamentos que integram o ar-
tas medicinais do uso de compostos isola-
senal terapêutico atual, e não deve ser con-
dos de plantas. Segundo a Agência Nacional
fundido com um produto fitoterápico. Ou-
de Vigilância Sanitária (Anvisa), planta m e-
tra opção de utilização terapêutica de uma
dicinal é uma espécie vegetal, cultivada ou
planta medicinal seria seu uso in natura,
não, utilizada com propósitos terapêuticos,
que, em razão de sua maneira direta de con-
e fitoterápicos são medicamentos obtidos a
sumo, pode ser considerada um remédio
partir de plantas medicinais. Estes são con- (produto ou procedimento que reduz ou
seguidos empregando-s e exclusivamente
derivados de droga vegetal (extrato, tintu-
ras, óleos, entre outros). Os fitoterápicos,
11 Quando um composto ativo é isolado de
uma planta medicinal e a partir dele se

11 Planta medicinal é uma espécie vegetal, ~ desenvolve um medicamento, pode-se


chamar este de fitomedicamento, como
cultivada ou não, utilizada com propósitos
~
todos os outros medicamentos que inte·
terapêuticos, e fitoteráplcos são medica- gram o arsenal terapêutico atual, e não
mentos obtidos a partir de plantas medi- deve ser confundido com um produto fi-
cinais. toterápico.
180 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 8.1 Conceitos importantes para o entendimento do ato de dispensação e regula-


mentação de plantas medicinais e fitoterápicos

Planta medicinal Espécie vegetal, cultivada ou não, utilizada com propósitos terapêuticos.
Fitoterápicos Medicamentos obtidos a partir de plantas medicinais. São conseguidos
empregando-se exclusivamente derivados de droga vegetal (extrato,
tinturas, óleos, entre outros).

Droga vegetal Planta medicinal, ou suas partes, que contenha as substãncias, ou classes
de substâncias, responsáveis pela ação terapêutica, após processos de
coleta, estabilização, quando aplicável, e secagem, podendo estar na
forma íntegra, rasurada, triturada ou pulverizada.

Marcador Composto ou classe de compostos químicos (p. ex., alcaloides, flavonoides,


ácidos graxos, etc.) presentes na matéria-prima vegetal, preferencialmente
tendo correlação com o efeito terapêutico, que é utilizado como referência
no controle da qualidade da matéria-prima vegetal e do medicamento
fitoterápico.

Derivado vegetal Produto da extração da planta medicinal in natura ou da droga vegetal,


podendo ocorrer na forma de extrato, tintura, alcoolatura, óleo fixo e
voláti 1, cera, exsudato e outros.

Extratos Preparações de consistências líquida, sólida ou intermediária, obtidas a


partir do material vegetal. Os extratos são preparados por percolação,
maceração ou outro método adequado e validado, utilizando como
solvente etanol, água ou outro solvente adequado.

Chás Produto constituído de uma ou mais partes de espécie(s) vegetal(is)


inteira(s), fragmentada(s) ou moída(s), com ou sem fermentação, tostada(s)
ou não, constantes de Regulamento Técnico de Espécies Vegetais para o
Preparo de Chás. O produto pode ser adicionado de aroma e/ou especiaria
para conferir aroma e/ou sabor.

Tinturas Preparações alcoólicas ou hidroalcoólicas resultantes da extração de


drogas vegetais, ou da diluição dos respectivos extratos, segundo padrões
farmacopeicos oficiais - exceto quando prescritas diferentemente; 10 ml
de tintura simples correspondem a 1 g da droga seca.

Obs: Este quadro é baseado em conceitos descritos em Resoluções da Anvisa. Sugere-se consultas periódicas de
suas atualizações no site da Anvisa (http://www.anvisa.gov.br).
Fonte: Brasil.7•9

dissemina sinais e sintomas de uma doença metem a humanidade, segundo a Organiza-


ou situação de desconforto; no estudo das ção Mundial da Saúde (OMS), 80o/o da po-
plantas medicinais, normalmente relacio- pulação mundial ainda usa recursos da
nado ao uso tradicional das populações) medicina tradicional para suprir necessida-
(Fig. 8.1). des de assistência médica, e, dessa popula-
Embora a medicina moderna tenha ção, 85% utiliza plantas ou preparações de-
alcançado avanços consideráveis no trata- rivadas de plantas. Da mesma maneira, o
mento dos principais distúrbios que aco- mercado nacional demonstra uma venda de
A prática farmacêudca na far mácia comunitária 181

Droga vegetal -----+ Chás

Medicamento
fitaterdpico

~----~ Cosmético
Extrato

Composto
Planta medicinal
isolado -----1.- Medicamento

Pia nta in natura Remédio

FIGURA 8.1
Exemplos de produtos originados a partir de uma planta medicinal. Hoje, existem diversas rotas possí-
veis para se obter um mesmo produto, assim como uma grande variação de derivados vegetais.

mais de 400 milhões de dólares em fitoterá- exemplo. Ao chegar à farmácia, após avalia-
picos, deixando evidente a importância do ção do paciente (detalhes sobre esse proces-
tema para o sistema de saúde e, claro, para a so de decisão encontram-se no Capítulo 7,
prática farmacêutica. 1º o farmacêutico chega à conclusão de que a
A dispensação de plantas m edicinais e pirose pode ser tratada como um transtor-
fitoterápicos deve seguir o mesmo princípio no menor ou uma doença de baixa gravida-
de dispensação dos demais produtos far- de (doença autolimitante, de evolução be-
macêuticos, ou seja, poderá ser uma dis- nigna, que pode ser tratada sem acompa-
pensação com p rescrição ou isenta de pres- nhamento médico), como define a RDC n 12
crição (Fig. 8.2). Para tanto, o farmacêutico 10, de 9 de março de 2010. 11 Após a defini-
deverá seguir uma importante tomada de ção do caso como um transtorno menor, o
decisão, conforme descrito no Capítulo 7 farmacêutico pode efetuar auxílio na auto-
desta obra. medicação do paciente, o que pode-se nesse
caso ser encarado, como um processo de in-
dicação farmacêutica. Nesse processo de to-
li A dispensação de plantas medicinais e fi- mada de decisão, o farmacêutico, após ava-
toterápicos deve seguir o mesmo princí-
~ pio de dispensação dos demais produtos
farmacêuticos, ou seja, poderá ser uma
liar fatores como comorbidades, uso de me-
dicamentos, gravidade do sintoma e outras
dispensação com prescrição ou isenta de situações especiais, como gestação e lacta-
prescrição. ção, pode decidir pela utilização de um tra-
tamento farmacológico. Obviamente, por
se tratar de uma indicação farmacêutica de
Para melhor compreensão desse pro- um transtorno menor, o tratamento farma-
cesso, pode-se imaginar um paciente com cológico deverá ser realizado por escolha de
um problema de saúde vinculado ao siste- um medicamento isento de prescrição
ma digestório com sintoma de pirose, por (M IP). Essa escolha deverá passar por di-
182 Cossyono J. Correr & Mlchel F. Otuld

Paciente
sem
Paciente prescrição
com
prescrição

Paciente com
problemas de Paciente com
Dispensaçllo saúde não transtorno
com receituário enquadrado como menor
transtorno menor

Seguir o fluxo
detalhado da
dispensação com Planta medicinal ou
receituário Encaminhamento Medicamento medicamento fitoterápico
para outro isento de prescrição isentos de prescrição
serviço de saúde

FIGURA8.2
Processo de dispensação inserindo como possibilidade terapêutica o uso de plantas medicinais e fito-
terápicos.

versas etapas, como a definição da indica- poderia indicar uma planta medicinal ou um
ção clínica, do objetivo terapêutico, da clas- medicamento fitoterápico, desde que estes te-
se farmacológica, da via de administração e nham indicação terapêutica condizente com
do regime terapêutico (para mais detalhes, o sintoma do paciente, que não exista restri-
verificar Fig. 7.3 do Cap. 7). Como escolhas, ção de uso ao paciente escolhido e que a plan-
pode-se verificar, na Lista de Grupos e Indi- ta ou o fitoterápico possa ser indicado pelo
cações Terapêuticas Especificadas (GITE) profissional farmacêutico. Nesse momento,
(lista completa no Cap. 7), que o farmacêu- devem ser feitas duas perguntas:
tico poderia eleger um 1nedicamento da
classe dos antiácidos minerais contendo a 1. Existem medicamentos fitoterápicos
mistura de hidróxido de magnésio e hidró- que exigem prescrição?
xido de alumínio, por exemplo, caso não
exista alguma contraindicação, evidente- Sim. No Brasil, existe uma série de
mente. medicamentos fitoterápicos que exige pres-
A escolha descrita está em conformida- crição médica; ou seja, nesse caso, não po-
de com o uso racional de medicamentos, mas deriam ser escolha da indicação farmacêu-
e se o paciente ou o farmacêutico optarem pe- tica O Quadro 8.2, a seguir, lista algumas
lo uso de uma planta medicinal ou um medi- plantas que exigem prescrição conforme re-
camento fitoterápico? Sim, o farmacêutico gulamentação.12
A prótlca farmacêutica na fannócla comunitória 183

2. Existe alguma regulamentação especí- coleta, estabilização e secagem, íntegras, ra-


fica para o uso e a indicação de plantas suradas, trituradas o u pulverizadas. Por
medicinais? meio dessa Resolução, a Anvisa determina
quais drogas vegetais são produtos de venda
Sim. Por meio da Resolução RDC n 2 isenta de prescrição. Segundo o órgão, a
1O, de 9 de março de 201O, 11 fica instituída presença das plantas no Anexo dessa Reso-
a notificação de drogas vegetais no âmbito lução tem como amparo de efetividade o
da Anvisa, assim consideradas as plantas uso tradicional e a revisão de dados dispo-
medicinais ou suas partes após processo de níveis em literatura relacionada ao tema. O

QUADRO 8.2 Plantas medicinais que necessitam de prescrição

Nome científico da planta Nome popular Principais indicações

Ardostaphylos uva-ursi Uva-ursi Infecção do trato urinário

Centel/a asiatica Centela Insuficiência venosa dos


membros inferiores

Cimicffuga racemosa Cimicffuga Sintomas do climatério

Echinacea purpurea Equinácea Preventiva e coadjuvante


na terapia de resfriados
e infecções do trato
respiratório

Ginkgo biloba Ginkgo Vertigens e zumbidos


resultantes de distúrbios
circulatórios; distúrbios
circulatórios periféricos e
insuficiência vascular
cerebral

Hypericum perforatum Hipérico Estados depressivos leves e


moderados

Piper methysticum Kava-kava Ansiedade, insônia, tensão


nervosa e agitação

Serenoa repens Saw palmetto Hiperplasia benigna de


próstata

Tanacetum parthenium Tanaceto Profilaxia de enxaqueca

Valeriana officinalis Valeria na Insônia, sedação e


ansiedade

Hamamelis virginiana Hamamelis Hemorroidas e equimoses

Obs: Algumas dessas plantas podem ser utilizadas sem prescrição médica quando não estiverem na forma de um
medicamento fitoterápico, e sim como uma planta medicinal ou derivada, desde que presentes na lista do Anexo
1 da Resolução RDC n2 1O, de 9 de março de 201 O. Este quadro tem como base conceitos descritos em
Resoluções da Anvisa. Sugerem-se consultas periódicas de suas atualizações no site: http://www.anvisa.gov.br.
Fonte: Brasil.12
18 4 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

Quadro 8.3 apresenta a lista das plantas assim como normatiza informações técnicas
presentes na Resolução e que podem ser de grande importância para a dispensação
consideradas isentas de prescrição e com de plantas medicinais, como sua forma de
respaldo legal para as indicações previstas preparo. Primeiramente, é de suma impor-
pela Anvisa. tância lembrar a padronização adotada para
Os produtos de que trata essa Resolu- medidas de referência no preparo e na admi-
ção destinam-se ao uso episódico, oral ou tó- nistração de plantas medicinais:
pico, para o alívio sintomático das indica-
ções terapêuticas presentes na legislação, de- 1. colher de sopa: 15 mL/3 g
vendo ser disponibili:zados exclusivamente 2. colher de sobremesa: 10 mL/2 g
na forma de droga vegetal para o preparo de 3. colher de chá: 5 mL/1 g
infusões, decocções e macerações. Além de 4. colher de café: 2 mL/0,5 g
definir as plantas que podem ser utilizadas 5. xícara de chá ou copo: 150 mL
sem prescrição, a legislação brasileira deter- 6. xícara de café: 50 mL
mina a maneira de utilização dessas plantas, 7. cálice: 30 mL

QUADRO 8.3 Plantas medicinais na forma de d roga vegetal isentas de p rescrição

1. Achi//ea millefolium 23. Eucalyptus globu/us 45. Phyllanthus niruri


2. Achyrocline satureioides 24. Eugenia uniflora 46. Pimpinella major
3. Aescu/us hippocastanum 25. Glycyrrhiza glabra 47. Plectranthus barbatus
4. Ageratum conyzoides 26. Hammamefis virginiana 48. Polyga/a senega
5. Al/ium sativum 27. Harpagophytum 49. Polygonum pundatum
6. Anacardium occidenta/e procumbens 50. Psidium guajava
7. Arctium lappa 28. 11/icium verum 51. Punica granatum
8. Arnica Montano 29. Justicia pectoralis 52. Rhammus purshiana
9. Baccharis trimera 30. Lippiaa/ba 53. Rosmarinus officinalis
1o. Bidens piloso 31. Lippia sidoides 54. Salixalba
11. Calendula officinalis 32. Malva sylvestris 55. Solvia officinalis
12. Caesalpinia ferrea 33. Matricaria recutita 56. Sambucus nigra
13. Casearia sylvestris 34. Maytenus ificifofia 57. Schinus terebinthifolia
14. Cinnamomum verum 35. Melissa officinafis 58. Senna alexandrina
15. Citrus aurantium 36. Mentha piperita 59. Solanum paniculatum
16. Cordia verbenacea 37. Mentha pu/egium 60. Stryphnodendron
17. Curcuma longa 38. Mikania glomerata adstrigens
18. Cymbopogon citratus 39. Momordica charantia 61. Taraxacum officinale
19. Cynara scolymus 40. Passiflora a/ata 62. Uncaria tomentosa
20. Echinodorus macro- 41. Passiflora edulis 63. Vernonia condensa ta
phy/fus 42. Passiflora incarnara 64. Vernonia polyanthes
21. Equisetum arvense 43. Pau/Jinia cupana 65. Zingiber officinale
22. Erythrina verna 44. Peumus boldus

Obs: Este quadro é baseado em conceitos descritos em Resoluções da Anvisa. Sugerem-se consultas periódicas
de suas atualizações no site: http://www.anvisa.gov.br.
Nesse quadro consideram-se droga vegetal as plantas medicinais nas formas íntegras, rasuradas, trituradas ou
pulverizadas. Não podem ser consideradas drogas vegetais em qualquer outra forma (cápsula, tintura,
comprimido, extrato, xarope, entre outras).
Fonte: Baseado em Brasil. 11
A prática farmacêutica na farmácia comunitária 185

A forma correta de preparo das plan- sa indicação, devem ser administradas de


tas medicinais é essencial para assegurar sua maneira tópica, em forma de compressa ou
eficácia. A utilização de um método de pre- na forma de infuso por via oral quando uti-
paro que utiliza calor em excesso pode re- lizadas para o tratamento de afecções respi-
duzir ou eximir o efeito terapêutico de urna ratórias. O Quadro 8.5 descreve as princi-
planta devido à degradação de compostos pais formas de administração das plantas
sensíveis a temperaturas altas, como pode medicinais.
ocorrer caso as partes de drogas vegetais de Após essas informações, pode-se vol-
consistência menos rígida, tais como folhas tar ao exemplo do paciente que procura
e flores, sejam submetidas a excesso de ca- urna farmácia com sintoma de pirose cujo
lor. Da mesma maneira, a utilização de mé- caso é enquadrado como de transtorno me-
todos menos agressivos pode não ser sufi- nor pelo farmacêutico. Como dito anterior-
cientemente eficaz em extrair os compostos mente, salvo contraindicações, esse pacien-
necessários para obtenção da atividade bio- te poderia receber como tratamento um
lógica esperada da planta, caso as partes da MIP, como um antiácido mineral, mas tam-
droga vegetal apresentem consistência rígi- bém poderia utilizar uma planta medicinal
da, como cascas e raízes. Podem-se conside- ou um medicamento fitoterápico. O farma-
rar os principais métodos de extração de cêutico, ao selecionar as possíveis formas de
compostos ativos para o preparo de plantas tratamento, poderia incluir uma p lanta me-
medicinais a maceração, a infusão e a de- dicinal que seja indicada para problemas
cocção. O Quadro 8.4, a seguir, define esses gástricos, como a pirose (azia). Uma planta
três modos de preparo de drogas vegetais. conhecida, de uso popular para o tratamen-
Após o preparo, cada planta medicinal to de distúrbios vinculados ao sistema di-
ou a indicação terapêutica define a forma gestório, é a espinheira santa (Maytenus ili-
de utilização do produto. Plantas como a cifolia). Nesse momento, o farmacêutico
Malva sylvestris podem ser utilizadas para o precisa avaliar informações como a regula-
tratamento de disfunções na pele e, para es- mentação dessa planta para essa indicação

QUADRO 8.4 Métodos de preparo d e drogas vegetais

Decocção Preparação que consiste na ebulição da droga vegetal em água


potável por tempo determinado. Método indicado para partes de
drogas vegetais com consistência rígida, tais como cascas, raízes,
rizomas, caules, sementes e folhas coriáceas.
Infusão Preparação que consiste em verter água fervente sobre a droga
vegetal e, em seguida, tampar ou abafar o recipiente por um período
de tempo determinado. Método indicado para partes de drogas
vegetais de consistência menos rígida, tais como folhas, flores,
inflorescências e frutos, ou com substâncias ativas voláteis.
Maceração (com água) Preparação que consiste no contato da droga vegetal com água,
em temperatura ambiente, por tempo determinado para cada
droga vegetal.

Fonte: Brasi 1.11


186 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 8.5 Principais formas de administração de drogas vegetais

Banho de assento Imersão em água morna, na posição sentada, cobrindo apenas as


nádegas e o quadril, geralmente em bacia ou em louça sanitária
apropriada.

Compressa Forma de tratamento que consiste em colocar, sobre o lugar


lesionado, um pano ou gase limpa e umedecido(a) com um infuso
ou decocto, frio ou aquecido, dependendo da indicação de uso.

Gargarejo Agitação de infuso, decocto ou maceração na garganta pelo ar que se


expele da laringe, não devendo ser engolido o líquido ao final.

Inalação Administração de produto pela inspiração (nasal ou oral) de vapores


pelo trato respiratório.

Fonte: Brasil.,,

terapêutica, bem como sua presença na lista essencial a comunicação da forma correta
das isentas de prescrição. Ao consultar a Re- de preparo e administração do produto, no
solução RDC n2 10, de 9 de março de caso, uma infusão de folhas da referida
201O, 11 são encontradas as informações planta. O Quadro 8.7 relata a maneira cor-
descritas no Quadro 8.6, a seguir. reta de preparo das plantas medicinais con-
Dessa forma, o farmacêutico poderia forme o método proposto pela legislação
indicar a utilização das folhas da planta pertinente.
Maytenus ilicifolia preparadas na forma de Embora a indicação farmacêutica de
infusão na posologia de uma xícara de chá plantas medicinais e fitoterápicos isentos de
de 3 a 4 vezes ao dia, salvo as contraindica- prescrição já constituísse um direito do far-
ções presentes no quadro, como gestação. A macêutico, o Conselho Federal de Farmácia
legislação define o tempo de duração de (CFF), por meio da Resolução nº 546, de 21
tratamento com plantas medicinais como de julho de 2011, 13 reforça tal atribuição. A
períodos curtos. Assim, é possível definir as Resolução deixa clara a necessidade de do-
mesmas regras de utilização dos medica- cumentação da ação realizada na forma de
mentos isentos de prescrição, que, em geral, um registro desse serviço farmacêutico. A
são utilizados por até 7 dias. Caso a primei- Figura 8.3 ilustra uma declaração desse ser-
ra escolha de tratamento com plantas medi- viço relacionada com o caso descrito ante-
cinais não obtenha sucesso, o paciente não riormente, na escolha da planta Maytenus
deve mais ser enquadrado em um transtor- ilicifolia para o tratamento de urna queixa
no menor, devendo ser encaminhado a ou- de azia vinculada a um transtorno menor.
tro serviço de saúde. A mesma conduta de- Além da dispensação de plantas medi-
ve ser realizada nos casos de aparecimento cinais e fitoterápicos vinculados a indicação
de reações indesejadas. É importante ressal- farmacêutica e ao uso desses produtos sem
tar que a parte da planta utilizada deve ser a receituário, muitas vezes, o profissional far-
presente na legislação; nesse caso, o farma- macêutico irá dispensar esse produto via
cêutico poderia indicar somente as folhas prescrição de um profissional da saúde ha-
de Maytenus ilicifolia. Vale lembrar que é bilitado para tal função. Caso a prescrição
QUADRO 8.6 Informações sobre o uso de Maytenus i/icifolia como uma planta isenta de prescrição

Nomenclatura Nomendatura Parte Forma de Posologia e Contra- Efeitos


botãnica popular utilizada utilização modo de usar Via Uso Alegações Indicações adversos

Maytenus Espinheira Folhas Infusão: 1-2 g Utilizar 1 Oral Adulto Dispepsia Não deve ser Ouso pode
ilicifolia santa (1 -2 colheres xícara de chá (distúrbios da ut ilizada por provocar
de chá) em de 3 a 4 vezes digestão), azia crianças secura e gosto
150ml ao dia e gastrite. menores de6 estranho na
(xícara de Coadjuvante anos. Não boca e
chá) no tratament o ut ilizar em •
nauseas >
'O
episódico de gestantes até ó.
a.
prevenção de o terceiro mês n
p
úlcera em uso
de anti-infla-
de gestação e
em lactantes, [
p
matórios nao pois promove ~
esteroides. a redução do ãn
leite p
::s
p
Obs: Este quadro é baseado em conceitos descritos em Resoluções da Anvlsa. Sugerem•se consultas periódicas de suas atualízações no site: http://www.anvlsa.gov.br. 8'
Fonte: Brasil.11 9
o.
o.
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18 8 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 8.7 Descrição da forma de p reparo de drogas vegetais

Método de preparo Forma de preparo

Infusão colocar (o número de) ml ou (o número de) medida de água fervente


sobre (o número de) g ou (o número de) medida do produto em um
recipiente apropriado. Abafar por cerca de 15 minutos, coar, se
necessário, e utilizar.

Decocção colocar (o número de) g ou (o número de) medida do produto em


(o número de) q uantidade de água fria e ferver por cerca de 3 a 5
minutos, deixar em contato por aproximadamente 15 minutos, coar,
se necessário, e utilizar.

Maceração cobrir (o número de) g ou (o número de) medida do produto com


(o número de) mL ou (o número de) medida de água e deixar em
temperatura ambiente por (o número de) horas; agitar
ocasionalmente, coar, se necessário, e utilizar.

Fonte: Brasil.11

esteja relacionada com o uso de plantas me- senciais a sua vida, como carboidratos, pro-
dicinais, devem ser seguidas as mesmas teínas e lipídeos. Essas substâncias são
orientações descritas anteriormente, como divididas em grupos de acordo com suas es-
modo de preparo e forma de administração truturas e/ou origem biológica. O nómero
correta desses produtos. Ao se deparar com atualmente conhecido dessas substâncias é
um receituário de um medicamento fitote- de aproximadamente 140 mil, divididas em
, . .
rap1co, as mesmas etapas e os mesmos cui- grupos nomeados terpenos, flavonoides, ta-
dados descritos no Capítulo 6 devem ser se- ninos, cumarinas, lignanas, alcaloides, este-
guidos. Vale lembrar que a utilização por roides, entre outros. Assim como os demais
séculos de produtos à base de plantas pela fármacos presentes na terapêutica atual, os
população criou a sensação de produtos metabólitos das plantas apresentam efeitos
providos de excelente eficácia e segurança. biológicos em virtude da interação com di-
De fato, é possível dispor de diversos fitote- versos alvos moleculares presentes no orga-
rápicos seguros e com efetividade para o nismo dos seres humanos, como enzimas,
tratamento de diferentes problemas de saó- canais iônicos, moléculas transportadoras e
de, mas não se deve esquecer da origem dos receptores, o que torna a terapia com o uso
efeitos biológicos das plantas medicinais. de plantas medicinais ou medicamentos fi-
Embora o estudo científico da ação toterápicos com eficácia similar a muitos
farmacológica das plantas tenha sido negli- fármacos utilizados atualmente e passível
genciado, hoje se sabe que os metabólitos de diversos efeitos não desejáveis durante o
primários e principalmente secundários, tratamento dos pacientes, como os efeitos
antes considerados produtos de excreção do adversos e as interações medicamentosas.
vegetal, são responsáveis pelos múltiplos Olhando de forma global para os re-
efeitos biológicos dessas plantas. Metabóli- sultados de uma farmacoterapia, é possível
tos secundários são os compostos produzi- descrever diversas etapas nas quais a utiliza-
dos pelas plantas a partir de moléculas es- ção de um medicamento fitoterápico pode-
A prática farmad!utlca na farmácia comunitária 189

J'1 via paciente - 2IJ via farmácia

Serviço de Atenção
Farmacêutica [identificação do estabelecimento
Declaração de Serviço
Farmacêutico

Nome: Data:
1. Infusão de folhas de Maytenus ilicifolia

Tomar 1xícara de chá a cada 8 horas por 5 dias.


Modo de preparo: colocar 1xícara de chá de água fervente sobre 2
colheres de chá de folhas de Maytenus ilicifolia em um recipiente
apropriado. Abafar por cerca de 15 minutos, coar, se necessário, e
utilizar.

Usar por no máximo 5 dias.

Parâmetro Data Hora Braço Resultado Referência

•Este procedimento não tem finalidade


de diagnóstico e não substitui a [identificação do Farmacêutico -
consulta m~dica ou a realização de Carimbo e Assinatura)
exames laboratoriais•

FIGURA8.3
Exemplo de Declaração de Serviços Farmacêuticos emitida a partir do atendimento de queixas na far-
mácia comunitária e dispensação de plantas medicinais.

Assim como os demais fármacos presen- ria interferir no sucesso de um tratamento


tes na terapêutica atual, os metabólitos medicamentoso de um paciente. A utiliza-
das plantas apresentam efeitos biológicos ção de um fitoterápico contendo Ginkgo bi-
em virtude da interação com diversos al-
loba, por exemplo, pode exacerbar a inibi-
vos moleculares presentes no organismo
dos seres humanos, como enzimas, canais ção da agregação plaquetária causada por
iônicos, moléculas transportadoras e re- um anti-inflamatório não esteroide, como a
ceptores, o que torna a terapia com o uso aspirina, em virtude de uma interação far-
de plantas medicinais ou medicamentos
fitoterápicos com eficácia similar a muitos macodinâmica. Da mesma forma, a utiliza-
fármacos utilizados atualmente e passível ção de um fitoterápico contendo Hyperi-
de diversos efeitos não desejáveis duran- cum perforatum pode reduzir a eficácia de
te o tratamento dos pacientes, como os
contraceptivos orais em razão de uma inte-
efeitos adversos e as interações medica-
mentosas. ração do tipo farmacocinética (Quadro
8.8 ). 14,15
190 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

QUADRO 8.8 Exemplos de interações entre plantas medicinais e medicament os

Interação Resultado Possível mecanismo


da Interação

Hypericum perforatum + Redução ou perda do efeito Interação farmacocinética


contraceptivos orais terapêutico do contraceptivo oral devido à capacidade do
Hypericum perforatum de
aumentar a expressão
de enzimas do sistema
citocromo P4SO, como
a CYP3A4

Ginkgo biloba +aspirina Atividade antiagregante Interação farmacodinãmica


plaquetária aumentada, devido à adição de efeito
podendo gerar risco antiagregante plaquetário
de sangramento do Ginkgo biloba e da
aspirina

Assim, torna-se vital a observação do caso de transtorno menor ou de maior gra-


farmacêutico sobre a utilização de uma vidade, fazendo seu encaminhamento para
planta medicinal ou um fitoterápico. A ado- o serviço de saúde mais adequado, bem
ção desse tipo de terapia pode ser responsá- como realizar os cuidados farmacêuticos
vel pela ineficácia de um tratamento ou até necessários na dispensação de p lantas me-
mesmo pelo aparecimento de reações ad- dicinais e fitoterápicos para pacientes que
versas. Durante a comunicação realizada são encaminhados ao serviço farmacêutico
com o paciente, o farmacêutico precisa ser com uma prescrição.
sensível para detectar o uso de plantas me- Atual.m ente, esse tipo de terapia vem
dicinais por automedicação. Para muitos ganhando espaço nas diversas esferas do
pacientes, a utilização desses produtos não é sistema de saúde, como é o caso da inclusão
relevante, e mesmo se questionados a res- de plantas medicinais no Sistema Único de
peito do uso de alguma terapia podem não Saúde, tornando a capacidade do profissio-
relacionar a utilização de wna planta medi- nal de lidar com esse tema essencial para
cinal como tal. uma prática farmacêutica racional. Vale
lembrar que a atualização constante do
ponto de vista técnico e legal deve ser prio-
CONSIDERAÇÕES FINAIS ridade nessa área de estudo, que apresenta
uma característica muito dinâmica. A utili-
A dispensação de plantas medicinais e fito - zação de plantas medicinais continua auxi-
terápicos deve seguir os mesmos cuidados liando a humanidade, e, com a percepção
realizados com a dispensação de MIPs e de do farmacêutico de que essas terapias po-
medicamentos que exigem prescrição. Ou dem causar tantos benefícios quanto riscos
seja, devem-se seguir os processos decisó- aos pacientes, é possível realizar a cada dia
rios que enquadrem o paciente como um um serviço melhor ao sistema de saúde.
A prático farmacêutico no farmácia comunitário 191

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Aâministração de medicamentos
na farmá cia comunitária
ANA CAROLINA MELCHIORS
CASSYANOJ.CO RRER

nual "Vocabulário Controlado de Formas


A administração de medica- Farmacêuticas, Vias de Administração e
mentos é uma das atividades es-
Embalagens de Medicamentos''. 2 O traba-
senciais da farmacoterapia, sub-
sequente à seleção do medicamento e por lho foi desenvolvido com o objetivo de criar
meio da qual o fármaco torna-se disponível pa- uma padronização de termos, conceitos e
ra entrar no organismo e/ou chegar ao seu lo- abreviações para serem utilizados como re-
cal de ação. A administração de medicamentos
fe rência prin1ária, principalmente no regis-
em ambientes hospitalares ou ambulatoriais é
responsabilidade da equipe de enfermagem. tro e pós-registro de medicamentos, en1 su-
Na farmácia comunitária, o farmacêutico é res- as bulas e rótulos, nos sisten1as de informa-
ponsável pela administração de medicamen- ções e em outras atividades que necessitam
tos injetáveis e pela orientação do paciente du-
de informações padronizadas sobre emba-
rante a dispensação do medicamento para que
este assuma a administração pelas vias de me- lagens, vias de administração e formas far-
nor complexidade. 1nacêuticas de nledicamentos. O Quadro
9. l l ra z as vias de administração padroniza-
das pela Anvisa.
A discussão sobre todas as vias e téc-
As várias vias de administração de nicas de adn1inistração de medicamentos
medicamentos influenciam os perfis de ve- foge ao escopo deste capítulo. A fim de
locidade de absorção, biodisponibilidade e subsid iar o profissional na orientação ao
efeitos farmacológicos. A escolha da via é paciente durante a dispensação e na pres-
feita en1 função do paciente (idade, estado tação de serviços farmacêuticos básicos,
de consciência, situação patológica), da ne- serão abordadas a técnica de aplicação de
cessidade de um início de ação mais rápido injetáveis por via intramuscular ou subcu-
ou mais lento e das características físico- tânea (as mais utilizadas), a aplicação de
-quíinicas do fármaco. Depende, ainda, do formas dermatológicas utilizando unidade
tipo de ação que se pretende obter: local ou digital (ponta de dedo) para padronização
sistê1nica. 1 da quantidade administrada e as técnicas
A Agência Nacional de Vigilâ11cia Sa- para administração de especialidades far-
nitária (Anvisa) publicou, em 2011, o 1na- macêuticas complexas.
A prótlca farmacêutica na farmócla comunitária 193

MEDICAMENTOS INJETÁVEIS ria deve atentar para as normas de estrutu-


ra física e materiais do ambiente onde serão
Os meclicamentos injetáveis só devem ser realizados os serviços farmacêuticos, in-
administrados mediante prescrição de pro- cluindo a aplicação de injetáveis. Esse am-
fissional habilitado. A farmácia comunitá- biente deve ser diverso daquele destinado a

QUADRO 9.1 Vias de administração de med icamentos

Via de administração Conceito

Bucal Destinada à administração na cavidade bucal ou em uma parte


específica da cavidade bucal, como a gengiva, o palato, a
língua e os dentes
Capilar Destinada à aplicação no couro cabeludo
Dermatológica Destinada à aplicação na superfície da pele e dos anexos
cutâneos
Epidural Destinada à administração no espaço epidural, situado entre
a dura-máter e o periósteo do canal vertebral
lnalatória Destinada à administração pelo sistema respiratório
nasal e oral simultaneamente para efeito local ou sistêmico
lnalatória por via nasal Destinada à administração pelo sistema respiratório,
exclusivamente por via nasal, para efeito local ou sistêmico
lnalatória por via oral Destinada à administração pelo sistema respiratório,
exclusivamente por via oral, para efeito local ou sistêmico
Intra-arterial Destinada à administração dentro de uma artéria
Intra-articular Destinada à administração dentro de uma articulação
lntradérmica Destinada à administração dentro da derme
Intra muscular Destinada à administração dentro de um músculo
lntratecal Destinada à administração no liquido cerebrospinal ou em
qualquer ponto do eixo cerebrospinal, incluindo a injeção
nos ventrículos cerebra is
Intrauterina Destinada à administração dentro do útero
Intravenosa Destinada à administração dentro de uma veia
lntravítrea Destinada à aplicação dentro do corpo vítreo do olho
Irrigação Destinada à lavagem e à limpeza de feridas abertas ou
cavidades do corpo
Nasal Destinada à administração na cavidade nasal para obter um
efeito local ou sistêmico
Ofttilmica Destinada à aplicação no globo ocular ou na conjuntiva
Oral Destinada à administração pela boca
Otológica Destinada à aplicação no canal auditivo, sem exercer pressão
prejudicial no tímpano
Retal Destinada à aplicação no reto
Subcutinea Destinada à administração sob a pele (hipodérmica,
subdérmica)
Sublingual Destinada à colocação debaixo da língua, onde o princípio
ativo é absorvido diretamente pela mucosa oral
Transdérmlca Destinada à administração por difusão pela camada dérmica
da pele para a circulação sistêmica
Uretral Destinada à aplicação na uretra
Vaginal Destinada à aplicação na vagina
194 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

dispensação e circulação de pessoas em ge- guarda de uma via da DSF na farmácia


ral, deve garantir a privacidade e o conforto comprova o atendimento e deve substituir
dos usuários, deve ser provido de lavatório o livro de registro de aplicação de injetáveis,
contendo água corrente e deve dispor desa- exigido pela Vigilância Sanitária (VISA) há
bonete líquido, gel bactericida, toalha de alguns anos. Recomenda-se que o farma-
uso individual e descartável e lixeira com cêutico consulte a VISA local a esse respeito.
pedal e tampa. O farmacêutico deve atentar Para cada aplicação, a DSF deve conter as
também para o procedimento de antissep- seguintes informações:
sia das mãos, antes de cada procedimento, e
para as normas de limpeza do ambiente. 3 1. Nome comercial, exceto para genéricos
A aplicação de injetáveis é considera- 2. Denominação comum brasileira
da um serviço farmacêutico pela Anvisa. O 3. Concentração e forma farmacêutica
procedimento deve ser registrado, sendo 4. Via de administração
uma via da Declaração de Serviço Farma- 5. Número do lote
cêutico (DSF) entregue ao paciente.3 A 6. Número de registro na Anvisa

Via subcutânea

Conceito Consiste na introdução de, no máximo, 1,5 ml de medicamento no tecido


conjuntivo frouxo sob a derme.
Usos Vacinas, insulina, hormônios, anticoagulantes.
Agulha Agulhas utilizadas: Normalmente são as de calibre 25 x 6 (0,60 x 25) e 13 x 4,5 (45
utilizada x 13). No caso da agulha 25 x 6, o ângulo de aplicação deverá ser de 45º. Com a
agulha de 13 x 4,5 (seringas de insulina), o ângulo deve ser de 90º.
Locais de Face externa do braço, região periumbilical, face externa da coxa, região escapular,
aplicação região glútea e flancos direito e esquerdo.
Procedimento lnsulinas:
técnico 1. Rolar suavemente o frasco entre as mãos para misturar bem a insulina do tipo
leitosa (procedimento dispensável para soluções)
2. Desinfetar a tampa de borracha
3. Aspirar cuidadosamente a dose desejada
4. Aplicar conforme as orientações abaixo
Demais medicamentos:
1. Fazer a antissepsia da pele.
2. Fazer uma prega na pele levemente, com os dedos indicador e polegar.
3. Introduzir a agulha profunda e rapidamente para que absorção se faça de
forma eficaz através dos capilares existentes na camada profunda do tecido.
4. Tracionar o êmbolo, certificando-se de que o medicamento não será aplicado
em um vaso.
5. Injetar o medicamento lentamente.
6. Retirar a agulha fazendo uma leve compressão no local, sem friccionar (não
massagear o local).
7. Colocar um pedaço de esparadrapo sobre o local da injeção.
8. Desprezar a agulha e a seringa no descarte.
Observação: Se as aplicações forem seguidas, ou diárias, é importante alternar os locais de injeção. O uso
repetido do mesmo local pode causar necrose do tecido e lesões que comprometem a absorção do
medicamento. Em pessoas magras, fazer aplicação com a seringa inclinada em ângulo de 45° para evitar a
aplicação no músculo e proceder conforme as orientações anteriores.
A prótlca farmacêutica na fannócla comunltórla 19S

Via intramuscular

Definição Consiste na introdução de medicamentos diretamente nas camadas


musculares. A quantidade máxima de líquido que pode ser injetada depende
do músculo escolhido para a aplicação.

Usos Medicamentos isotônicos em geral, aquosos ou oleosos, em estado solúvel ou


suspensão cristalina e coloidal. As soluções irritantes devem ser aplicadas em
músculo profundo.

Agulha Normalmente são usadas as de calibre 25 x 7 (0,70 x 25), 30 x 7 (0,70 x 30) ou 30 x


utilizada 8 (0,80 x 30). A aplicação deve ser feita em um ângulo de 90º ou
perpendicularmente à pele. O bisei deve ser posicionado no sentido das fibras
musculares.

Locais de Via intramuscular- Região do deltoide e face anterolateral da coxa: O volume a


aplicação ser administrado não deve ultrapassar 3 ml.
Agulha utilizada: De calibre 25 x 7 ou 25 x 8 no caso de medicamentos oleosos
(como hormônios).
Via intramuscular-deltoide: A aplicação no local correto é importante para evitar
lesão do nervo radial e ulnar ou da artéria braquial. Local de aplicação 3 a 4
dedos abaixo do ombro na face externa do braço.
Via intramuscular - Músculo vasto lateral da coxa: O local correto para a aplicação é o
terço médio externo da coxa.
Posição: Deitado ou sentado com toda a coxa apoiada no assento, mantendo a
perna bem relaxada (entreaberta). Fazer aplicação inclinada (em ângulo de 45 a
600, com a agulha calibre 25 x 7 voltada para joelho ou pé [crianças]). Em crianças,
fazer a introdução da agulha na região intermediária da coxa (meio), usando a
mesma técnica usada para um adulto.
Via intramuscular- Dorsoglúteo e ventroglúteo:
O volume administrado não deve ser maior que 5 ml.
Agulha utilizada: A agulha adequada é a de calibre 30 x 7 ou 30 x 8, dependendo da
viscosidade do líquido.
Via intramuscular - Região dorsoglútea: Músculo glúteo médio. A administração é
feita no quadrante superior externo. Dividindo-se a nádega em quatro partes,
toma-se uma linha que vai da crista ilíaca posterior à borda inferior da nádega e
outra que vai das últimas vértebras sacra is à parte superior da articulação
coxofemoral. A aplicação no local correto é importante para evitar lesão do
nervo isquiático, do trocanter maior e dos grandes vasos sanguíneos.
Via intramuscular - Região Ventroglútea: Coloca-se a palma da mão sobre o
trocanter maior do quadril do paciente. O polegar deve ficar apontado na direção
da virilha do paciente, e os outros dedos na direção de sua cabeça.
Coloca-se o dedo indicador sobre a espinha ilíaca anterossuperior e estende-se o
dedo médio para trás ao longo da crista ilíaca, na direção das nádegas. O dedo
indicador, o dedo médio e a crista ilíaca formam um triângulo em forma de •v•: e
o local para injeção é o centro do triângulo. Pode ser utilizado para aplicação em
adultos, idosos e crianças, sendo uma aplicação segura e quase indolor. Volume
máximo: 5 ml.

Procedimento 1. Fazer a antissepsia do local com álcool 7Q<>GL.


técnico 2. Introduzir a agulha com um único impulso.
3. Tracionar o êmbolo, certificando-se de que o medicamento não será aplicado
em um vaso.
4. Injetar o medicamento lentamente.
5. Retirar a agulha em um só impulso.
6. Comprimir o local.
7. Colocar um esparadrapo sobre o local da injeção.
8. Desprezar a agulha e a seringa no descarte.
19 6 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuld

Via intramuscular - técnica em Z MEDICAMENTOS


DERMATOLÓGICOS: UNIDADE
O método em Z destina-se à aplicação de
substâncias irritantes à pele e aos tecidos PONTA DE DEDO (UPD)
subcutâneos. Esse método veda com mais
A Unidade Digital, ou Unidade Ponta de De-
eficácia o medicamento dentro dos tecidos
do (UPD) (em inglês: Fingertip Unit- FTU),
musculares. Para a aplicação dessa técnica,
consiste em uma quantidade padronizada de
o farmacêutico deve escolher músculos
um produto dermatológico que se aplica so-
grandes e profundos, como os da região
bre a porção palmar do dedo indicador, des-
dorsal e ventroglútea. Se houver necessida-
de o sulco distal até a ponta do dedo (Fig.
de, a técnica pode ser realizada por duas
9.1). Essa quantidade é obtida de um tubo de
pessoas. Enquan to a primeira estica a pele
forma farmacêutica semissólida com uma
do local da aplicação, a outra aplica a inje-
abertura de 5 mm de diâmetro, correspon de
ção. Com a prática, o farmacêutico aprende
a aproximadamente 500 mg, e é suficiente
a segurar a seringa e a aspirar com a mesma
para cobrir cerca de lo/o da área da superfície
mão.
corporal (ASC) de um adulto médio. A UPD
foi proposta como parâmetro padronizado
Procedimento para aplicação de produtos dermatológicos
em 1991 e, desde então, vem sendo difundi-
1. Fazer a antissepsia do local com álcool da entre os dermatologistas. 4 O Consenso
70o/o (p/p). Americano de Psoríase publicado em 2010
2. Puxar a pele e os tecidos subcutâneos recomenda o uso da UPD como referência
cerca de 2,5 a 3,5 cm lateralmente ou pa- para a administração de medicamentos aos
ra baixo com a parte lateral da mão es- pacientes. 5 Outro campo importante de uso
querda.
3. Segurando a pele esticada com a mão, in-
troduzir a agulha com um único impulso,
sempre man tendo a pele puxada, e segu-
rar a seringa com o polegar e o dedo in-
dicador da mão esquerda.
4. Tracio nar o êmbolo, certificando-se de
que o medicamento não será aplicado
em um vaso.
5. Injetar o medicamento lentamente.
6. Aguardar 10 segundos com a agulha ain-
da introduzida para que o medicamen-
to se distribua uniformemente e soltar a
pele.
7. Retirar a agulha em um só impulso.
FIGURA 9.1
8. Comprimir o local. Unidade Ponta de Dedo (UPD). Quantidade pa-
9. Colocar um pedaço de esparadrapo so- dronizada de um produto dermatológico corres-
bre o local da injeção. pondente a aproximadamente 500 mg, suficiente
para cobrir cerca de 1% da área de superfície co~
1O. Desprezar a agulha e a seringa no des- poral de um adulto, dividindo-se em duas aplica -
carte. ções diárias (1/ 2 UPD por aplicação).
A prático farmacêutico no formódo comunitário 197

da UPD está no tratamento das dermatomi-


coses com antifúngicos tópicos, em que a
quantidade aplicada (normalmente duas ve-
zes ao dia) deve ser suficiente para cobrir to-
da a área da lesão e adjacências.
A quantidade de medicamento der-
matológico prescrita para ser administrad a
a cada vez costuma ser imprecisa ou noto-
riamente inexistente. Na dispensação, mui-
tas vezes o farmacêutico se depara com a
necessidade de estimar a quantidade da for-
ma semissólida (cremes ou pomadas, por FIGURA9.2
Palma da mão, que representa aproximadamen te
exemplo) necessária para a realização de to- 1% da órea da superfície corporal do paciente.
do o tratamento. A aplicação insuficiente
ou excessiva de um medicamento pode
conduzir tanto à perda da eficácia quanto à
aparição de efeitos adversos. Especial aten- dente de medicamento necessária. Por
ção é dada, por exemplo, à administração exemplo, se 1 UPD = 0,5 g, então seria ne-
de medicamentos contendo corticosteroi- cessário 50 g de um produto dermatológico
des, particularmen te em crianças. O excesso para cobrir toda a superfície corporal em
de medicamento aplicado pode produzir urna aplicação. Existem tabelas diferentes
mais absorção transcutânea, com repercus- para adultos e crianças com essas propor-
sões sistêmicas indesejáveis importantes ções aproximadas. A Tabela 9.1 traz a quan-
para o paciente.6 tidade de medicamento dermatológico ne-
O método para se deter1ninar a por- cessária para cobrir diferentes partes do
centagem da ASC deve ser também padroni- corpo de um adulto de tamanho médio.
zado, a fim de evitar discrepâncias entre um Para aplicação de produtos dermato-
profissional e outro. O cálculo da ASC total lógicos em crianças ( um adulto aplicando
de uma pessoa pode ser feito por meio de em uma criança), as UPDs correspondent es
fórmula padronizada (ver Cap. 12), mas é para as várias partes do corpo são diferen-
preciso avaliar a extensão de lesões dermato- tes. Uma UPD de um adulto é usada para
lógicas e estimar a proporção de ASC atingi- tratar uma área da pele de uma criança cor-
da pela doença. Há consenso de que a área de respondente a duas vezes a área de uma pal-
uma palma de mão inteira de um paciente, ma da mão de um adulto, com os dedos
incluindo dedos e polegar, corresponde a unidos. 7 A Tabela 9.2 traz as UPDs necessá-
aproxúnadame nte 1o/o da ASC desse pacien- rias para várias partes do corpo em crianças
te (Fig. 9.2). É importante reconhecer que a de 3 meses a 1Oanos de idade.
área da palma da mão do profissional não
corresponde necessariamente à palma de
mão do paciente.6 ESPECIALID
,..
ADES
Tomando a UPD e a superfície corpo- FARMACEUTICAS COMPLEXAS
ral, é possível estimar o número de UPDs
.necessárias para o tratamento de diferentes Medicamentos ou especialidades farmacêu-
partes do corpo e a quantidade correspon- ticas complexas (EFCs) são aqueles cuja
19 8 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

TABELA 9.1
Quantidade de medicamento dermatológico necessária para cobrir diferentes partes do corpo.

Quantidade de
medicamento
UPD por Por dia Por semana
Parte do corpo %ASC aplicação (p/ 2x dia) (p/ 2x dia)

Couro cabeludo 6 3 3g 21 g
Rosto e pescoço 5 2,5 2,5 g 17,5 g
Uma mão (frente e verso), incluindo os dedos 2 1 1g 7g
Um braço inteiro, incluindo mão inteira 8 4 4g 28g
Cotovelos (placa grande) 2 1 1g 7g
Ambas as solas dos pés 3 1,5 1,5 g 10,5 g
Um pé (dorso e sola), incluindo dedos 3 1,5 1,5 g 10,5 g
Uma perna inteira, incluindo pé inteiro 16 8 Sg 56g
Nádegas 8 4 4g 28g
Joelhos (placa grande) 2 1 1g 7g
Tronco (anterior) 16 8 Sg 56g
Tronco (posterior) 16 8 Bg 56g
órgãos genitais 1 0,5 0,5 g 3,5 g

ASC, Área da Superfície Corporal; UPD, Unidade Ponta de Dedo. Cálculos baseados em 500 mg (1 UPD)
para cada 1ºAi ASC.
Fonte: Zeichner e colaboradoress e Menter e colaboradores. 6

utilização exige o aprendizado de uma téc- farmacêutico, assim como o técnico ou o


nica ou um processo ligado ao preparo pré- auxiliar de farmácia, deve ter como objetivo
vio da forma farmacêutica ou à administra- prover essas informações e aprendizado aos
ção do medicamento. As EFCs fazem o tra- pacientes, com especial atenção às EFCs.
tamento ser mais difícil de cu1nprir, o que V árias vias de administração podem
pode reduzir a adesão terapêutica. É duran- estar relacionadas ao uso de uma EFC. Nor-
te a dispensação que o paciente tem a opor- malmente, presume-se que as formas farma-
tunidade de adquirir conhecimentos e ha- cêuticas tradicionais sólidas (comprimidos,
bilidades necessários à utilização do medi- drágeas, cápsulas), semissólidas (cremes, po-
camento, antes do início do tratamento.8 O madas, géis) e líquidas (soluções, suspensões,

TABELA 9.2
Número de Unidades Ponta de Dedo de um indivíduo adulto suficiente para cobrir diferentes partes
do corpo de bebês e crianças a cada aplicação

Número de UPD
Rosto e Braço Perna Tronco Tronco (posterior
Idade pescoço e mão epé (anterior) incluindo nádegas)

3-6 meses 1 1 1 Y2 1 1 Vi
1-2 anos 1 Vi 1 Y2 2 2 3
3-5 anos 1 Vi 2 3 3 3 Vi
6-1 Oanos 2 2 Y2 4 Y2 3 Vi 5
A prótlca farmacêutica no farmócio comunitória 199

xaropes), utilizadas por via oral ou tópica, 4. Remover secreções do olho do paciente
são as mais simples de serem utilizadas pelo com água boricada.
paciente e, por isso, têm menor risco de er- 5. Puxar a pálpebra inferior do paciente pa-
ros. A complexidade da utilização pode ter ra baixo, formando uma "bolsa".
mais a ver com a forma farmacêutica, seu 6. Aproximar o conta-gotas o mais próximo
preparo ou sua técnica de uso do que pro- possível da "bolsa': sem encostar no olho.
priamente com a via de administração. 7. Aplicar a quantidade de gotas necessárias.
As EFCs tratadas neste capítulo estão 8. Instruir o paciente a fechar o olho por
definidas na Tabela 9.3.8 - 14 Recomenda-se dois minutos, sem forçá-lo.
ao leitor que utilize as ilustrações contidas 9. Se o paciente for utilizar algum outro ti-
neste capítulo, mais efetivas à orientação ao po de colírio, esperar cinco minutos pa-
paciente, durante a dispensação, a fim de ra aplicá-lo.
reforçar a informação verbal. Também po- 10. Alguns colírios podem causar a sensação
dem ser feitas cópias de cada instrução para de ardência; se essa sensação persistir por
serem fornecidas como material comple- mais de alguns minutos, procurar o mé-
mentar ao paciente. dico ou o farmacêutico.
11. O período de validade de um colírio após
aberto é de cerca de 30 dias.
Colírios (Fig. 9.3)
Colírios em crianças
l. Lavar bem as mãos.
2. Procurar não encostar na abertura do 1. Deitar a criança de barriga para cima,
conta-gotas. com a cabeça reta para cima.
3. Instruir o paciente a olhar para cima. 2. Solicitar que a criança feche os olhos.

TABELA 9.3
Especialidades farmacêuticas complexas e vias de administração

Via de administração Especialidade farmac~utica complexa

Oftálmica Colírio
Pomada oftálmica
Otológica Gotas otológicas
Suspensão otológica
Nasal Gotas nasais
Spray nasal
lnalatória Aerossol dosimetrado
Inalador de pó seco
Retal Enema
Supositório
Vaginal Anel vaginal
Creme, pomada, gel vaginal
Comprimido vaginal
óvulo
Dermatológica Adesivo transdérmico
Esmalte
Emplastro
Oral Suspensão extemporânea
200 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

3. Pingar a quantidade necessária de gotas "'


no canto do olho.
4. Manter a cabeça da criança reta para cima.
5. Remover o excesso de líquido.

FIGURA9.4
Administração de pomada oftólmica.

Gotas otológicas
1. Aquecer o frasco, segurando-o entre as
mãos ou debaixo do braço (não usar água
quente da torneira, pois impossibilita o
controle da temperatura).
2. Instruir o paciente a virar a cabeça de la-
FIGURA9.3
Administração de colírio. do ou deitar-se com o ouvido para cima.
3. Puxar um pouco o lóbulo da orelha do
paciente para expor o canal auditivo.
Pomada oftálmica {Fig. 9.4) 4. Aplicar a quantidade de gotas necessária.
5. Instruir o paciente a aguardar por cinco
1. Lavar as mãos. minutos para virar a cabeça. Aplicar as
2. Instruir o paciente a lavar os olhos. gotas no outro ouvido.
3. Tomar cuidado para não encostar na tam- 6. Caso seja recomendado pelo fabricante,
pa do tubo. colocar algodão após a aplicação.
4. Instruir o paciente a inclinar a cabeça pa- 7. Algumas gotas otológicas podem causar
ra trás. ardência, que n ão deve perdurar por mais
5. Puxar a pálpebra inferior do paciente pa- de alguns minutos.
ra baixo, formando uma "bolsa':
6. Colocar a ponta do tubo o mais perto
possível da "bolsa': Suspensão otológica
7. Aplicar a quantidade necessária.
8. Instruir o paciente a fechar os olhos por 1. Aquecer o frasco, segurando-o entre as
dois minutos após aplicar. mãos ou debaixo do braço (não usar água
9. Remover o excesso de pomada com um quente da torneira, pois impossibilita o
lenço de papel. controle da temperatura).
10. Limpar cuidadosamente a ponta do tu- 2. Agitar vigorosamente.
bo com outro lenço de papel. 3. Instruir o paciente a virar a cabeça de la-
11. As pomadas são de uso individual. do ou deitar-se com o ouvido para cima.
A prática farmaci!utlca na farmácia comunitária 201

4. Puxar um pouco o lóbulo da orelha do Spray nasal


paciente para expor o canal auditivo.
5. Aplicar a quantidade de gotas necessária. 1. Instruir o paciente a limpar o nariz, as-
6. Instruir o paciente a aguardar por cinco soando-o.
minutos para virar a cabeça. Aplicar as 2. Instruir o paciente a sentar-se com a ca-
gotas no outro ouvido. beça levemente inclinada para a frente.
7. Caso seja recomendado pelo fabricante, 3. Agitar o spray.
colocar algodão após a aplicação. 4. Colocar a ponta do tubo em uma narina
8. Algumas suspensões otológicas podem do paciente.
causar ardência, que não deve perdurar 5. Instruir o paciente a fechar a outra nari-
por mais de alguns minutos. na e a boca.
6. Apertar o tubo e instruir o paciente a ins-
Gotas nasais (com conta-gotas) pirar devagar.
(Fig. 9.5) 7. Retirar o tubo da narina e instruir o pa-
ciente a inclinar-se para a frente com for-
1. Instruir o paciente a limpar o nariz, as- ça, entre os joelhos.
soando-o. 8. Instruir o paciente a sentar-se por alguns
2. Instruir o paciente a sentar-se com a cabe- segundos.
ça inclinada para trás ou a deitar-se com 9. Instruir o paciente a respirar pela boca.
um travesseiro embaixo dos ombros. 10. Repetir o procedimento na outra narina.
3. Colocar o conta-gotas 1 cm para dentro 11. Lavar a ponta do tubo com água fervida.
da narina do paciente, evitando encostar
na face externa ou interna do nariz.
4. Aplicar a quantidade de gotas necessária. Aerossol dosimetrado
5. Instruir o paciente a, imediatamente após (spray ou bombinha) (Fig. 9.6)
a aplicação, inclinar a cabeça para frente
com força, entre os joelhos. l. Instruir o paciente a expectorar o máxi-
6. Instruir o paciente a sentar-se por alguns mo de catarro possível.
segundos. 2. Retirar a tampa do aerossol.
7. Repetir o procedimento na outra narina. 3. Agitar o tubo vigorosamente antes de
8. Lavar o conta-gotas com água fervida. usá-lo.

" l '') . .,
FIGURA 9.5
Posições corr etas do corpo recomendadas na administração de spray ou gotas nasais.
202 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otuki

4. Segurar o tubo como indicado nas ins- 1. Remover o protetor do bocal, apertando,
truções do fabricante, formando um "L''. delicadamente, suas laterais.
5. Instruir o paciente a inclinar levemente 2. Agitar bem o inalador e liberar um jato
a cabeça para trás. de ar, para certificar-se de que funciona.
6. Antes de apertar o inalador, instruir opa- 3. Para verificar a carga do cartucho de alu-
ciente a expirar normalmente, colocan- minio, retirá-lo e mergulhá-lo em um co-
do o máximo de ar para fora e manten- po cheio de água. Conforme a quantida-
do a boca aberta. de de medicamento restante, o cartucho
7. Colocar o inalador a uma distância de irá flutuar (vazio) ou afundar (cheio).
cerca de 5 cm da boca do paciente (4 de-
dos de um adulto). Aerossol com espaçador
8. Instruir o paciente a iniciar uma inspira- (Aerocâmera•)
ção lenta e profunda e pressionar o ina-
lador com o dedo indicador na parte de 1. Instruir o paciente a expectorar o máxi-

ctma. mo de catarro possível.
9. Instruir o paciente a prender a respiração 2. Retirar a tampa.
por 10 segundos com a boca fechada. 3. Encaixar a aerocâmera.
1O. Instruir o paciente a respirar normalmen- 4. Agitar o tubo vigorosamente antes de usar.
te. 5. Segurar o tubo, formando um "L': como
11. Se necessário mais de um jato, repetir o indicado nas instruções do fabricante.
procedimento. 6. Instruir o paciente a inclinar levemente
12. Recolocar a tampa. a cabeça para trás.
13. Instruir o paciente a escovar os dentes ou 7. Colocar a aerocâmera na boca do paciente.
enxaguar a boca e gargarejar com água 8. Instruir o paciente a iniciar uma inspiração
para retirar o medicamento que ficou lenta e profunda e pressionar o inalador com
depositado na cavidade oral. Instruí-lo a o dedo indicador na parte de cima.
não engolir a água do gargarejo. 9. Instruir o paciente a prender a respiração
por 10 segundos com a boca fechada.
Caso seja a primeira vez de uso, ou 10. Instruir o paciente a respirar normalmente.
após muito tempo sem utilização, testar o 11. Se necessário mais um jato, repetir o pro-
inalador: cedimento.
12. Retirar a aerocâmera e recolocar a tampa.
13. Lavar a aerocâmera apenas com água
morna e deixar secar.
14. Instruir o paciente a escovar os dentes ou
enxaguar a boca e gargarejar com água
para retirar o medicamento que ficou
depositado na cavidade oral. Instruí-lo a
não engolir a água do gargarejo.

Aerossol com espaçador (bocal)


(Fig. 9.7)
FIGURA 9.6 1. Retirar a tampa do aerossol.
Exemplo de aerossol dosimetrado. 2. Agitar vigorosamente antes do uso.
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltórla 203

3. Acoplar o aerossol ao espaçador, forman- Aerossol com espaçador (máscara)


d0 Uffi "L
' ,,.
(Fig. 9.8)
4. Instruir o paciente a ficar de pé ou com
o tronco reto. Indicado para crianças menores de 6 anos,
5. Instruir o paciente a expirar normalmen- idosos ou pessoas em situação de crise.
te o máximo de ar. l . Proceder como no espaçador com bocal
6. Colocar o bocal do espaçador na boca do até o Passo 5.
paciente, instruindo-o a fechar os lábios 2. Colocar a máscara sobre o nariz e a bo-
ao seu redor. ca do paciente.
7. Pressionar o inalador e instruir o pacien- 3. Pressionar o inalador.
te a iniciar uma inspiração lenta e pro- 4. Com a máscara b em aderida ao rosto, ins-
funda pela boca. truir o paciente a respirar normalmente
8. Retirar o espaçador da boca. por 20 a 30 segundos.
9. Instr uir o paciente a p render a respira- 5. Repetir o procedimento, caso prescrito
ção por 1Osegundos. mais de um jato.
10. Instruir o paciente a respirar normalmen- 6. Retirar a máscara do rosto e limpar a fa-
te. ce do paciente.
11. Repetir o procedimento, caso seja pres- 7. Instruir o paciente a escovar os dentes ou
crito mais de um jato. enxaguar a boca e gargarejar com água
12. lnstruir o paciente a escovar os dentes ou para retirar o medicamento que ficou
enxaguar a boca e gargarejar com água depositado na cavidade oral. Instruí-lo a
para retirar o medicamento que ficou não engolir a água do gargarejo.
depositado na cavidade oral. Instruí-lo a 8. Desacoplar o espaçador do inalador.
não engolir a água do gargarejo. 9. Recolocar a tampa no aerossol.
13. Desacoplar o espaçador do inalador.
14. Recolocar a tampa no aerossol.
Inaladores de pó seco
Turbuhaler• (Fig. 9.9}

1. Preparar o inalador:
2. Girar a ta1npa protetora e removê-la.
3. Manter o inalador na posição vertical,
com a base giratória para baixo.
4. Girar a base em sentido anti-horário até
onde for possível e, em seguida, voltar a
base à posição inicial até ouvir um clique
(inalador carregado).
5. Instruir o paciente a ficar de pé ou com
o tronco reto.
6. Instruir o paciente a expirar normalmen-
te o máximo de ar possível e a prender a
respiração.
7. Colocar a parte superior do inalador en-
FIGURA 9.7 tre os dentes do paciente e instruí-lo a fe-
Aerossol acoplado a espaçador com bocal. char os lábios ao redor.
204 Cassyano J. Correr & Mlchel F. Otukl

FIGURA 9.8
Aerossol dosimetrado acoplado a espaçador com máscara.

8. Instruir o paciente a inclinar levemente 3. Aberto o inalador, segurá-lo com o bocal


a cabeça para trás. (orifício) voltado para o seu lado.
9. Instruir o paciente a inspirar pela boca o 4. Empurrar a alavanca até ouvir um segun-
mais rápido e profundo possível. do clique, quando o orifício se abrirá e o
10. Retirar o inalador da boca. inalador estará pronto para uso.
11. Instruir o paciente a prender a respira- 5. Instruir o paciente a ficar de pé ou com
ção por 1Osegundos. o tronco reto.
12. Instruir o paciente a respirar normal-
mente.
13. Após o procedimento, instruir o pacien-
te a escovar os dentes ou enxaguar a bo-
ca e gargarejar com água. Instruí-lo a não
engolir a água do gargarejo.
14. Recolocar a tampa protetora.

Obs.: Na primeira administração, exe-


cutar o Passo 4 três vezes seguidas (reco-
mendação do fabricante).
Esse equipamento contém um conta-
dor de dose, que indica quando o medica-
mento acabou (janela totalmente vermelha).

Accuhaler., (diskus) (Fig. 9.10}

1. Preparar o inalador:
2. Abrir o inalador, segurando a tampa com
a mão esquerda, e colocar o polegar da
mão direita na depressão do inalador, gi-
rando a porção que contém o polegar pa- FIGURA9.9
ra a direita até ouvir um clique. Exemplo de inalador de pó seco Turbuhaler•.
A prótlca farmacêutica na farmócla comunltória 205

6. Instruir o paciente a expirar normalmen- 2. Retirar a tampa do inalador, puxando-a


te o máximo de ar possível e prender a para fora.
respiração. 3. Abrir o inalador, segurando a base e gi-
7. Colocar o bocal firmemente entre os lá- rando o bocal (sentido anti-horário).
bios do paciente. 4. Retirar uma cápsula do blíster e colocar
8. Instruir o paciente a inclinar levemente no compartimento central na base do
a cabeça para trás. inalador.
9. Instruir o paciente a inspirar pela boca o 5. Voltar o bocal para a posição fechada.
mais rápido e profundo possível. 6. Com o inalador na vertical, pressionar os
10. Retirar o inalador da boca. botões laterais completamente uma úni-
11. Instruir o paciente a prender a respira- ca vez (perfuração da cápsula).
ção por 1Osegundos. 7. Posicionar o dispositivo no meio dos de-
12. Instruir o paciente a respirar normal- dos.
mente. 8. Instruir o paciente a ficar de pé ou com
13. Para guardar o inalador, sem tocar na ala- o tronco reto.
vanca, colocar o dedo indicador na de- 9. Instruir o paciente a expirar normalmen-
pressão do dispositivo e girar para a es- te o máximo de ar possível.
querda até ouvir um clique. 10. Colocar a parte superior do inalador (bo-
14. Após o procedimento, instruir o pacien- cal) firmemente entre os lábios do pa-
te a escovar os dentes ou enxaguar a b o- ciente.
ca e gargarejar com água. Instruí-lo a não 11. Instruir o paciente a inclinar levemente
engolir a água do gargarejo. a cabeça para trás.
12. Instruir o paciente a inspirar pela boca o
Obs.: Esse dispositivo de inalação pos- mais rápido e profundo possível.
sui marcador de dose. 13. Retirar o inalador da boca.
14. Instruir o paciente a prender a respira-
Aerolizer®(para cápsula) ção por 10 segundos.
15. Instruir o paciente a respirar normalmen-
1. Preparar o inalador: te.
16. Abrir o inalador e verificar se a cápsu-
la está vazia (caso esteja vazia, desprezar
a cápsula; caso não esteja vazia, repetir a
técnica a partir do Passo 5).
17. Após o procedimento, instruir o pacien-
te a escovar os dentes ou enxaguar a bo-
ca e gargarejar com água. Instruí-lo a não
engolir a água do gargarejo.
18. Recolocar a tampa protetora.

Vida útil do dispositivo: média de 90


dias (recomendação do fabricante), devido ao
desgaste do material cortante das cápsulas.
Limpeza do inalador: após o uso, lim-
FIGURA 9.10 par o bocal e o compartimento da cápsula
Exemplo de inalador de pó seco Accuhaler•. com um pano SECO. Caso contenha frag-
2 06 Cassyano J. Correr & Miehei F. Otuld

mentos da cápsula, pode ser usado um pin- ca e gargarejar com água. Instruí-lo a não
cel macio. Não usar álcool. engolir a água do gargarejo.
Informações importantes: a gelatina 15. Recolocar a tampa protetora.
da cápsula é comestível, portanto, não é
prejudicial. As cápsulas não devem ser ma- Informações importantes: o medica-
nipuladas com as mãos úmidas ou molha- mento não possui indicação de doses, mas é
das, por serem gelatinosas. Em tratamentos possível visualizar o pó no aparelho. Quan-
com broncodilatadores e corticoides, utili- do começar a surgir o fundo vermelho na
zar a técnica primeiramente para o bronco- câ.m ara em que está o pó, a medicação esta-
dilatador e, após, repetir para o corticoide. rá no fim.

Pulvinal• Novolizer•

1. Preparar o dispositivo: 1. Preparar o dispositivo:


2. Girar a tampa protetora e removê-la. 2. Retirar a tampa do bocal.
3. Posicionar o inalador na vertical e bater 3. Manter o inalador na posição horizontal
levemente em uma superfície rígida, ni- e apertar o botão vermelho na parte pos-
velando o pó da câmara. terior do aparelho.
4. Com o inalador na vertical, apertar o bo- 4. Após o clique, a janela de controle mu-
tão presente no bocal (porção superior) e, dará de vermelho para verde, indicando
com a outra mão, girar o corpo do inala- que o dispositivo está pronto para uso
dor em sentido anti-horário, até aparecer (essa janela se encontra na frente do dis-
uma marca vermelha (dose carregada). positivo, acima do bocal).
5. Soltar o botão presente no bocal e girar o 5. Instruir o paciente a ficar de pé ou com
corpo do inalador em sentido horário até o tronco reto.
ouvir um clique. Uma marca verde apa- 6. Instruir o paciente a expirar normalmen-
recerá (administração de dose). te o máximo de ar que conseguir e pren-
6. Instruir o paciente a ficar de pé ou com der a respiração.
o tronco reto. 7. Colocar o bocal firmemente entre os lá-
7. Instruir o paciente a expirar o máximo bios do paciente.
de ar possível e prender a respiração. 8. Instruir o paciente a inclinar a cabeça le-
8. Colocar o bocal firmemente entre os lá- vemente para trás.
bios do paciente. 9. Instruir o paciente a inspirar pela boca o
9. Instruir o paciente a inclinar a cabeça le- mais rápido e profundo possível.
vemente para trás. 10. Após ouvir um clique, retirar o inalador
1O. Instruir o paciente a inspirar pela boca o da boca.
mais rápido e profundo possível. 11. Instruir o paciente a prender a respira-
11. Retirar o inalador da boca. ção por 10 segundos.
12. Instruir o paciente a prender a respira- 12. Instruir o paciente a respirar normalmente.
ção por 1O segundos. 13. Após o procedimento, é recomendável
13. Instruir o paciente a respirar normalmente. que o paciente escove os dentes ou en-
14.Após o procedimento, instruir o pacien- xágue a boca e gargareje com água. Ins-
te a escovar os dentes ou enxaguar a bo- truí-lo a não engolir a água do gargarejo.
A pró tieo farmacêutico no formódo comunitórlo 2 07

14. Recolocar a tampa no bocal. Handihaler•


Informações para o primeiro uso: 1. Preparar o inalador:
Colocar o refil que contém o fármaco 2. Abrir a tampa protetora, puxando-a pa-
no compartimento apropriado da seguinte •
ra cima.
for1na: 3. Abrir o bocal, puxando-o para cima.
4. Retirar uma cápsula do blíster e colocar
1. Retirar a folha de alumínio de proteção no compartimento central.
da caixa do cartucho e extrair o cartucho 5. Fechar o bocal até ouvir um