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WALTER

RISO
Apaixone-se
por si mesmo
O valor imprescindível da autoestima
Copyright © Walter Riso, 2011
Publicado de acordo com Pontas Literary & Film Agency, Espanha
Título original: Enamórate de ti

Todos os direitos desta edição reservados à


Editora Planeta do Brasil Ltda.
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Conversão para eBook: Freitas Bastos

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)


(CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

R479a
Riso, Walter, 1951-
Apaixone-se por si mesmo: o valor imprescindível da autoestima / Walter Riso ; tradução Sandra
Martha Dolinsky. - São Paulo : Planeta, 2012.
Tradução de: Enamórate de ti
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7665-954-9
1. Dependência (Psicologia). 2. Amor. 3. Relações humanas. I. Título.
12-2753 CDD: 158.2 CDU: 159.923
Para Fernando e Dora,
meus pais.
Em um polo de minha existência, formo uma só coisa com as pedras e as árvores. Ali tenho de
reconhecer o domínio da lei universal. É ali que nasce o alicerce de minha existência. Sua força está
no fato de que se encontra firmemente segura no abraço do mundo compreensivo e na plenitude da
comunhão com todas as coisas.
Mas, no outro polo de meu ser, estou separado de tudo. Ali sou absolutamente único, eu sou eu,
sou incomparável. Todo o peso do universo não pode esmagar essa minha individualidade. Eu a
mantenho, apesar da imensa gravidade das coisas. É pequena na aparência, mas grande na
realidade; mantém-se firme diante das forças que queiram roubar-lhe aquilo que a caracteriza e
fazê-la uma com o pó.

RABINDRANATH TAGORE
Introdução

O amor por si mesmo é um dique de contenção contra o sofrimento mental.


Amar a si mesmo não é apenas o ponto de referência para saber quanto se deve
amar os outros (“Ama teu próximo como a ti mesmo”); parece agir como um fator
de proteção contra as doenças psicológicas e como um elemento que gera bem-
estar e qualidade de vida.
Ativar toda a autoestima disponível ou amar o essencial de si mesmo é o
primeiro passo para qualquer tipo de crescimento psicológico e melhora pessoal. E
não me refiro ao lado obscuro da autoestima, ao narcisismo e à fascinação do ego,
ao fato de se sentir único, especial e superior aos outros; não falo de “paixão” cega
e desenfreada pelo “eu” (egolatria), mas da capacidade genuína de reconhecer, sem
medo nem vergonha, as forças e virtudes que possuímos, de integrá-las ao
desenvolvimento de nossa vida e usá-las com os outros de maneira efetiva e
compassiva. Amar a si mesmo desprezando ou ignorando os outros é pura
presunção; amar os outros desprezando a si mesmo é falta de amor-próprio.
“Apaixonar-se por si mesmo” significa “amar a si mesmo honestamente”.
Perseverar no ser (conatus), como dizia Spinoza, para defender a existência individual
e manifestar o melhor de cada um. Amar a si mesmo também é propiciar a
autoconservação sadia, como promoviam os estoicos, e buscar o maior e mais
saudável prazer possível, como defendia Epicuro. Amar a si mesmo é considerar-se
digno do melhor, fortalecer o respeito próprio e dar-se a oportunidade de ser feliz
pelo simples fato de estar vivo – e sem nenhuma outra razão.

O amor começa em casa. Seu primeiro amor é aquele em direção a si mesmo, e


nesse primeiro idílio você vai aprender a amar a vida ou a odiá-la. Como abrir as
portas para o amor daqueles que o cercam se você despreza ou não aceita seu ser,
ou se tem vergonha de existir? Um paciente vencido pela depressão me dizia: “Sinto
muito, mas... tenho vergonha de estar vivo”. Pode haver maior decadência do ser?
Da mesma forma como você não ataca nem ignora quem ama, deve fazer o mesmo
consigo. Ser amigo de si mesmo é o primeiro passo para uma boa autoestima. Amar
é buscar o bem do outro e usufruir disso; a dor dele nos dói e a alegria dele nos
alegra. Com o amor-próprio acontece algo parecido: se você não se perdoa, se acha
chato estar consigo mesmo, se não se suporta e se menospreza, você não se ama!
Às vezes, perguntam-me se é possível odiar a si mesmo, e minha resposta é
categórica: “Claro! E com muita intensidade!” Inclusive a ponto de querer
desaparecer da face da Terra e tomar algumas providências para isso.
Muitas vezes, nós nos deleitamos com a dor autoinfligida. Conta-se que uma
senhora viajava de trem e, às três da manhã, enquanto a maioria dos passageiros
dormia, ela começou a se queixar em voz alta: “Que sede, meu Deus!”, “Que sede,
meu Deus!”, sem parar. Sua insistência acordou vários passageiros, e o que estava a
seu lado foi buscar dois copos de água: “Tome, senhora, mate sua sede, e, assim,
todos poderemos dormir”. A mulher bebeu tudo rapidamente, e as pessoas se
acomodaram, tentando retomar o sono. Tudo parecia ter voltado ao normal, até
que, após poucos minutos, ouviu-se novamente a mulher dizer: “Que sede eu tinha,
meu Deus!”, “Que sede eu tinha, meu Deus!”. Incorporamos o castigo psicológico a
nossa vida desde pequenos, sem perceber, e, como se fosse uma faceta normal e até
desejável, nós nos unimos a ele. Nós nos deleitamos com o sofrimento. Às vezes,
comportamo-nos como se a autopunição fosse uma virtude, porque “tempera a
alma”, e, embora seja importante o esforço para atingir as metas pessoais, uma coisa
é a autocrítica construtiva, outra é a autocrítica cruel que nos golpeia com
contundência e não nos permite erguer a cabeça. Uma coisa é aceitar o sofrimento
útil e necessário; outra muito diferente é nos habituarmos à dor que, de maneira
masoquista, infligimos a nós mesmos para “expiar culpas” ou “tentar ser dignos”
para que alguém nos ame.
Os trabalhos realizados no campo da psicologia cognitiva nos últimos vinte anos
mostram claramente que a visão negativa que se tem de si mesmo é um fator
determinante para o surgimento de transtornos psicológicos como fobias,
depressão, estresse, ansiedade, insegurança interpessoal, alterações psicossomáticas,
problemas de relacionamento, baixo rendimento acadêmico e profissional, abuso de
substâncias nocivas, problemas de imagem corporal, incapacidade para regular as
emoções e muitos outros. A conclusão dos especialistas é clara: quando a
autoestima não tem força suficiente, vivemos mal, somos infelizes e sofremos de
ansiedade.
Este livro se dirige às pessoas que não se amam o suficiente, que vivem
encapsuladas, amarradas a normas irracionais e não têm consideração por si
mesmas. Também se dirige àqueles que sabiam amar a si mesmos em alguma época
e se esqueceram por conta dos rigores da vida ou da corrida desenfreada pela
sobrevivência, quando a pessoa se põe em segundo plano, como se fosse material
descartável. A proposta deste livro é simples e complexa ao mesmo tempo: aprenda
a amar a si mesmo; seja valente; inicie um romance consigo mesmo em um “eu
sustenido” que o faça cada dia mais feliz e mais resistente aos embates da vida
cotidiana.
Apaixone-se por si mesmo

Amar a si mesmo é, talvez, o fato mais importante para garantir nossa


sobrevivência em um mundo complexo e cada vez mais difícil de enfrentar. Mesmo
assim, e curiosamente, grande parte da aprendizagem social se orienta a sancionar
ou subestimar o valor do amor-próprio, talvez para evitar que se caia nas garras da
arrogância. Se você decidir dar um beijo em si mesmo, é provável que as pessoas a
seu redor (inclusive o psicólogo de plantão) avaliem sua conduta como ridícula,
narcisista ou pedante. É mal visto que nos parabenizemos ou que fiquemos muito
alegres por ser como somos (uma pessoa muito feliz consigo mesma e com o
mundo pode facilmente ser diagnosticada como hipomaníaca por algumas
classificações psiquiátricas reconhecidas). Quando damos muita atenção a nós
mesmos durante muito tempo, quando nos mimamos ou nos elogiamos, chegam as
advertências: “Cuidado com o excesso de autoestima!” ou “Cuidado com o
orgulho!”. E, em parte, é compreensível, vendo os estragos que um ego inflado e
superdimensionado pode causar. Porém, uma coisa é ser ególatra (aquele que
endeusa a si mesmo), egoísta (avarento e incapaz de amar ao próximo) ou
egocêntrico (incapaz de reconhecer pontos de vista diferentes); outra muito
diferente é ser capaz de aceitar a si mesmo de maneira honesta e genuína sem fazer
alarde ou campanha publicitária. A humildade é ter consciência da própria
insuficiência, mas de jeito nenhum implica ignorar o valor pessoal.

O lema “Ame-se, mas não em excesso”, ou seja, de maneira desproporcional ou


irracional (para não ser subjugado e capturado pela própria imagem), é um bom
conselho, visto que nos alerta sobre o lado obscuro da autoestima. Porém, é melhor
não exagerar e lembrar que, em determinadas situações, quando nosso amor-
próprio é censurado ou atacado, amar a nós mesmos sem tanto recato nem medos
irracionais pode nos salvar e nos possibilitar andar com a cabeça erguida.
A política de esconder e/ou minimizar o autorreconhecimento e de disfarçar a
força que possuímos causa mais danos que benefícios. A sugestão de não amar a si
mesmo “mais que o necessário” pode se transformar em um amor-próprio doentio
e fraco. É verdade que não é preciso gritar a plenos pulmões como somos
maravilhosos nem publicar isso na primeira página dos jornais, mas reprimir, negar
ou contradizer tal fato acaba nos prejudicando emocionalmente. Ao tentar deixar de
fora o egoísmo selvagem, às vezes não permitimos que o amor-próprio entre; para
evitar o pedantismo insuportável do sabichão, alguns caem na vergonha de ser o
que são; para não desperdiçar, somos mesquinhos. Quando me sinto mal por
exercer meus direitos pessoais, ou quando simplesmente os ignoro ou penso que
não os mereço, talvez me falte respeito próprio.
À medida que vamos crescendo, uma curiosa forma de insensibilidade em relação
a nós mesmos vai adquirindo forma e deixa para trás aquela gloriosa época da
infância, quando o mundo parecia girar à nossa volta e pulávamos felizes de
brincadeira em brincadeira. Naqueles momentos, tudo era satisfatório e fantasioso.
O eu parecia se bastar, gratificando a si mesmo e construindo universos infinitos
sob medida para ele (está claro que a tendência natural de uma criança não é a
autopunição, e sim divertir-se o máximo que puder e, de quebra, sobreviver). Mas
as coisas boas não duram para sempre, e ao crescer deixamos de lado esse delicioso
mundo “egoico” (visto que nenhuma sociedade sobreviveria com tanto
egocentrismo) e nos voltamos mais para fora que para dentro, “descentramo-nos”,
por assim dizer, e aceitamos na marra que amar o próximo é mais importante,
valioso e louvável que amar a si mesmo.
As conclusões psicológicas atuais sobre o tema da autoestima são um alerta que
vale a pena considerar: não educamos nossos filhos para que amem a si mesmos,
pelo menos não de maneira sistemática e organizada como em outras
aprendizagens. Desde pequenos, ensinam-nos condutas de cuidado pessoal em
relação a nosso corpo: escovar os dentes, tomar banho, manter as unhas limpas,
comer, controlar os esfíncteres, nos vestir e coisas desse tipo. Mas e o autocuidado
psicológico e a higiene mental? Prestamos atenção suficiente a isso? Colocamos isso em
prática? Ressaltamos a importância do amor-próprio?
OS QUATRO PILARES DA AUTOESTIMA
A imagem que você tem de si mesmo não é herdada ou geneticamente
determinada, é aprendida. O cérebro humano conta com um sistema de
processamento de informação que permite armazenar um número praticamente
infinito de dados. Essa informação, que recolhemos da experiência social ao longo
da vida, é guardada na memória de longo prazo em forma de crenças e teorias.
Assim, temos modelos internos de objetos, significados de palavras, situações, tipos
de pessoas, atividades sociais e muito mais. Esse conhecimento do mundo,
equivocado ou não, nos permite prever, antecipar e nos preparar para enfrentar o
que venha a acontecer. O futuro está no passado armazenado.
A principal fonte para criar a visão do mundo que você assume e pela qual se
guia surge do contato com pessoas (amigos, pais, professores) de seu universo
material e social imediato. E as relações que estabelece com o mundo circundante
desenvolvem em você uma ideia de como acredita ser. Os fracassos e sucessos, os
medos e inseguranças, as sensações físicas, os prazeres e desgostos, a maneira de
enfrentar os problemas, o que lhe dizem e o que não lhe dizem, os castigos e os
prêmios, o amor e a rejeição percebidos, tudo conflui e se organiza em uma imagem
interna sobre sua própria pessoa: seu eu ou seu autoesquema. Você pode pensar que é
lindo, eficiente, interessante, inteligente e bom, ou o contrário (feio, ineficiente,
chato, tolo e mau). Cada um desses qualificativos é o resultado de uma história
prévia, na qual você foi gestando uma “teoria” sobre si mesmo que, no futuro,
dirigirá seu comportamento. Se você acredita que é um perdedor, não vai tentar
ganhar. Vai dizer a si mesmo: “Para que tentar? Eu não consigo ganhar” ou “Isso
não é para mim” ou “Não valho nada”.
Nós, humanos, temos uma tendência conservadora de confirmar, mais que negar,
as crenças que mantemos armazenadas em nosso cérebro durante anos. Somos
resistentes à mudança por natureza, e essa economia do pensamento nos torna
obstinados e pouco permeáveis aos estímulos novos. Uma vez estabelecidas as
crenças, é difícil mudá-las, mas não impossível. Desse modo, quando você
configura um autoesquema negativo sobre si mesmo, ele o acompanhará durante o
resto de sua vida se não se esforçar para modificá-lo. Além disso, de maneira não
consciente, você fará muitas coisas para testar esse esquema, mesmo que seja
prejudicial para você (os humanos são absurdos mesmo). Por exemplo, se você se
deixar levar pelo autoesquema “Sou um inútil”, sem perceber, o medo de errar o
fará cometer uma infinidade de erros, e você confirmará a previsão mental
subjacente. A crença de que você é feio, ou feia, o levará a pôr o pé no freio e evitar
relações interpessoais, e a conquista afetiva/sexual se transformará em algo
inatingível (ninguém vai reparar em você se não se arriscar). Um autoesquema de
fracasso o fará não se atrever a enfrentar desafios e testar sua capacidade e, por isso,
acabará acreditando que o sucesso o evita. Não existe nenhum segredo misterioso
nem quântico nisso: em psicologia cognitiva, isso é conhecido como profecia
autorrealizável, e, em psicologia social, como efeito Pigmaleão. Existe uma coerência
negativa: mesmo sabendo que aquilo não é bom, você tentará agir de maneira
compatível com as crenças que tem de si mesmo. A mudança ocorrerá quando a
realidade se impuser sobre suas crenças e você não mais puder distorcer a
informação e enganar a si mesmo.
Uma boa autoestima (amar a si mesmo com contundência) tem inúmeras
vantagens. Só para citar algumas, ela lhe permitirá:

• Aumentar as emoções positivas. Você se afastará da ansiedade, da tristeza e da


depressão e se aproximará da alegria e da vontade de viver bem e melhor.
• Atingir níveis de maior eficiência nas tarefas que empreende. Você não se dará por
vencido com facilidade, vai perseverar nas metas e se sentir competente e capaz.
• Relacionar-se melhor com as pessoas. Tirará de suas costas o desagradável medo do
ridículo e a necessidade de aprovação, porque você será o principal juiz de sua
conduta. Não que os outros não interessem, mas você não dependerá dos
aplausos e dos reforços externos e lidará com as críticas de maneira mais
objetiva.
• Amar seu parceiro e gostar de seus amigos mais tranquilamente. Você dependerá menos
deles e estabelecerá um vínculo mais equilibrado e inteligente, sem o terrível
medo de perder os outros.
• Ser uma pessoa mais independente e autônoma. Você se sentirá mais livre e seguro
para tomar decisões e dirigir sua vida.

A seguir, aponto os quatro pilares que, a meu ver, são os mais importantes para
configurar a autoestima geral. Embora na prática eles estejam mesclados, tentarei
separá-los conceitualmente apenas por fins didáticos, para poder analisá-los melhor:

• autoconceito (o que você pensa de si mesmo);


• autoimagem (que opinião tem de sua aparência);
• autorreforço (em que medida você se premia e se gratifica);
• autoeficácia (quanta confiança você tem em si mesmo).

Se estiverem bem estruturados, serão os quatro suportes de um ego sólido e


saudável; se funcionarem mal, serão como os quatro cavaleiros do Apocalipse. Se
falhar em algum deles, isso será suficiente para que sua autoestima se mostre manca
e instável. E se um único cavaleiro desembestar, os três restantes o seguirão como
uma pequena manada fora de controle.
Um amor-próprio saudável e bem constituído partirá de um princípio
fundamental: “Eu mereço tudo aquilo que me faça crescer como pessoa e ser feliz”.
M-e-r-e-ç-o: assim, saboreado letra a letra. Não importa o que pense: você não
merece sofrer, de modo que, enquanto puder evitar o sofrimento inútil e
desnecessário, estará respeitando a si mesmo. Não existe felicidade completa sem
respeito próprio, sem se manter fiel a seu próprio ser e ao potencial que tem dentro
de si.
Nos capítulos seguintes, veremos em detalhes cada um dos quatro componentes
da autoestima e como melhorá-los ou mantê-los fortalecidos.
Rumo a um bom autoconceito

Tenha coragem de errar.


Hegel

A maioria de nós anda com um garrote invisível e especialmente doloroso com o


qual nos flagelamos cada vez que erramos o rumo ou não atingimos as metas
pessoais que nos propomos. Aqueles que não amam a si mesmos aprenderam a se
culpar por quase tudo o que fazem de errado e a duvidar do próprio esforço
quando fazem as coisas direito, como se tivessem os fios trocados. Quando
fracassam, dizem: “Dependia de mim” e, quando obtêm sucesso em alguma
questão, afirmam: “Foi pura sorte”. Existe uma subcultura da autossabotagem que
exerce suas influências negativas e nos leva a nos responsabilizar mais pelo ruim
que pelo bom. Não se deve ser tão duro consigo mesmo.
O autoconceito se refere ao que você pensa de si, ao conceito que tem de sua pessoa,
assim como poderia ter de alguém mais, e, como é lógico, essa concepção se
refletirá na maneira como trata a si mesmo: o que fala consigo, o que exige de si e
como. Você pode se estimular e se mimar, ou se insultar e não ver nada de bom em
seu comportamento; ou também pode estabelecer metas inalcançáveis e se frustrar
depois por não as alcançar, como muita gente faz, embora pareça a coisa mais
irracional do mundo. Somos vítimas de nossas próprias decisões: cada um escolhe
amar-se ou não, mas nem sempre temos consciência do dano que nos causamos.
Além de sobreviver ao meio e à luta diária, também é preciso aprender a sobreviver
a si mesmo: o inimigo nem sempre está do lado de fora.
A AUTOCRÍTICA RUIM
A autocrítica é conveniente e produtiva quando feita com cuidado e com o
objetivo de aprender e crescer. Em curto prazo, pode servir para gerar novas
condutas e corrigir os erros, mas, se utilizada indiscriminada e cruelmente, gera
estresse e afeta de maneira negativa o autoconceito. Se a usar de maneira
inadequada, você acabará pensando mal de si mesmo, independentemente do que
fizer. Conheci gente que “não vai com a própria cara”, não se aceita e se rejeita de
maneira visceral (“gostaria de ser mais alto, mais bonito, mais inteligente, mais
sensual, mais eficiente...”. A lista pode ser interminável). Essas pessoas se
comparam permanentemente com aqueles que são melhores ou que as superam em
algum sentido. Você as ouvirá dizer com frequência: “Não me aguento!” ou “Sou
um desastre!”. A expressão: “Antes só do que mal acompanhado” é substituída por:
“Antes mal acompanhado do que só”. Quando sugeri a uma garota que observasse
a si mesma para se conhecer melhor, ela teve um ataque de pânico: “Sozinha
comigo mesma? Mas eu não me aguento nem um minuto! Sou a pessoa mais chata
e desinteressante do planeta!”. A sugestão de se aproximar da solidão lhe causava
verdadeiro terror porque não queria saber de ficar cara a cara com seu próprio ser.
O mau hábito de ficar fazendo constantes análises internas, duras e inflexíveis,
aumenta a insatisfação consigo e as sensações de insegurança. Ninguém aprende
com métodos baseados no castigo. Lembro que, quando era criança, eu frequentava
um colégio cujo sistema pedagógico se baseava em métodos de ensino
extremamente punitivos. Tratavam-nos como malfeitores em potencial que tinham
de ser encaminhados e “educados a qualquer preço”. Quando um aluno não sabia a
matéria ou não havia feito o dever, era colocado em um canto da sala olhando para
a parede com um chapéu com orelhas de burro na cabeça (não estou exagerando).
A crueldade era exponencial: não só o aluno era exibido diante de seus colegas
como o maior dos incapazes, como também era literalmente exilado do resto.
Lembro que, em mais de uma ocasião, passei horas olhando para a parede contando
formigas. Se alguém falava na aula ou fazia alguma coisa fora do regulamento, a
“pedagogia corretiva” do professor era aplicar reguadas na palma das mãos (insisto:
tudo era feito na frente dos demais alunos, como uma forma de punição pública).
Os golpes eram dolorosos e, embora não se tratasse de chicotadas, eram bem
parecidos. Desnecessário dizer que esses procedimentos humilhantes eram
permitidos pelos respectivos diretores dos colégios e pelo Ministério da Educação
daquela época.
Lembro-me de um paciente que se castigava o tempo todo. Insultava-se umas
cinquenta vezes por dia em voz baixa, proibia-se a maioria dos prazeres, como se
fosse um faquir, e se impunha tantas regras e requisitos para viver que lhe era
impossível se sentir bem. Estava tão limitado e confuso que já não sabia quem era
realmente. Dizia que se sentia como uma cópia de si mesmo. E não é um exagero:
muitas pessoas, quando se perdem nos “deveria” e nas obrigações autoimpostas,
não se lembram mais de como eram na realidade. As máscaras psicológicas não
somente nos esgotam, também nos despersonalizam. O homem, que tinha apenas
35 anos, era incapaz de tomar decisões por conta própria e pedia licença até para
respirar. Meu paciente havia crescido com a ideia de que, se não seguisse
estritamente as pautas com que o haviam educado, deixaria de ser uma boa pessoa.
Era muito peso para qualquer um, e, por isso, cabe fazermos a pergunta: o que ele
fez para sobreviver a tamanha asfixia normativa? Para sobreviver à repressão
autoimposta, desenvolveu três métodos: autocontrole excessivo, auto-observação
obsessiva e autocrítica implacável. Três armas mortais. Castigar-se o fazia sentir-se
bom, correto e “salvo”.
Quando pediu ajuda profissional e fez sua própria revolução
“psicológica/moral”, chegou à saudável conclusão de que não merecia se maltratar.
Começou a se permitir alguns deslizes “menores”, como tomar um sorvete triplo
com chocolate e chantili sem pensar na gula, vestir-se bem sem se sentir vaidoso ou
culpado, ou olhar uma garota na rua sem se sentir um libertino.
O castigo sistemático, em qualquer forma, só o ensinará a fugir dos predadores e
opressores de plantão; fugir e nada mais. Você não resolverá o problema mais
profundo, não o enfrentará. Mas, quando falamos de autopunição, o problema está
no fato de o carrasco ser você mesmo, e então o carregará nas costas como um
infortúnio: defender-se será como fugir de sua própria sombra. Um grande número
de pessoas possui um sistema de autoavaliação que as faz sofrer dia e noite,
momento a momento, e, inexplicavelmente, sentem-se orgulhosas do martírio que
propiciam a si mesmas.
A AUTORROTULAÇÃO: “SOU” OU “COMPORTEI-ME COMO”?
Uma variação da autocrítica prejudicial é a autorrotulação negativa. Colocar em si
mesmo rótulos que não falam bem de você ou deixar (e aceitar) que os outros o
façam para se encaixar em alguma categoria prejudicial para você. As classificações
sociais (estereótipos) tendem a se referir aos outros em termos globais e não
específicos, sem considerar as exceções ou os atenuantes. O mesmo acontece
quando você se rotula negativamente: confunde a parte com o todo. Em vez de
dizer: “Eu me comportei como um imbecil”, dirá: “Sou um imbecil”. Dirá “Sou um
inútil”, em vez de dizer: “Eu me enganei nisso ou naquilo”. Não é a mesma coisa
afirmar “Não estou comendo corretamente” e “Sou um porco”. O ataque sem
contemplações e categórico ao próprio “eu”, ao que você é, cria desajustes e
alterações de todo tipo. Ao contrário, a autocrítica construtiva é pontual e nunca toca o
fundo do ser como totalidade. Se você dissesse à pessoa que ama: “Você errou, é
um idiota!”, como acredita que ela se sentiria? Como ela reagiria? Você lhe faria
mal, não é? Pois, da mesma forma, atacar sua avaliação pessoal, agredir seu valor o
afeta psicologicamente muito mais do que você pensa.
A AUTOEXIGÊNCIA SEM PIEDADE
Outras pessoas revelam a tendência a utilizar padrões internos inalcançáveis para
avaliar a si mesmas. Ou seja, metas e critérios desproporcionais sobre para onde
deve se dirigir o comportamento. Quando a autoexigência é racional e bem
calculada, ajuda a progredir psicologicamente, mas, quando não está bem calibrada,
pode afetar seriamente a saúde mental. Os dois extremos são ruins. Ninguém nega
que, às vezes, precisamos de uma autoexigência moderada ou elevada para sermos
competentes em nossa profissão (o responsável por manipular material radioativo
em uma usina nuclear só pode atuar sob uma alta exigência de responsabilidade,
assim como um cirurgião na hora de operar um paciente); porém, o desajuste
ocorre quando esses níveis de exigência se tornam impossíveis de atingir.
A ideia de que devo me destacar em quase tudo o que faço, que devo ser o melhor a
todo custo e que não devo errar reúne imperativos que se transformam em um
verdadeiro martírio. Se você situar a felicidade ou a autorrealização exclusivamente
na obtenção de resultados, vai logo descobrir o paradoxo de que para se “sentir
bem” deverá se “sentir mal”. O bem-estar dependerá de tantas coisas alheias à sua
pessoa que lhe será impossível cuidar de suas conquistas pessoais. O poeta Runbeck
disse certa vez: “A felicidade não é uma estação aonde chegamos, e sim uma
maneira de viajar”. Esta é a saúde mental: viajar bem. Aqueles que ficam obcecados
com o sucesso e o transformam em um valor, e ainda utilizam esquemas rígidos de
execução, viajam mal, embora queiram aparentar o contrário. Talvez a felicidade
não consista em ser o melhor vendedor, a melhor mãe, o melhor filho ou se
destacar em qualquer coisa e, sim, simplesmente, em tentar fazer isso de maneira
honesta e tranquila, tendo prazer no processo. Desfrutar da paisagem enquanto
você vai aonde quer ir. Você nunca fez uma viagem com alguém que pergunta
constantemente quanto falta para chegar, enquanto ignora as coisas que passam por
ele?
A concentração no processo é determinante para obter um bom resultado. Essa
aparente contradição (de não se preocupar com o resultado para alcançá-lo) fica
bem exemplificada no ensinamento zen sobre o arco e a flecha. Se o arqueiro se
concentrar em seus movimentos, na respiração, no equilíbrio, sem se preocupar em
acertar, acertará o alvo simplesmente mirando. Mas se a ideia de acertar o alvo e
obter a máxima pontuação se transformar em uma questão determinante
(obsessiva), a ansiedade bloqueará a fluidez de suas ações, e ele fracassará. Se você
tiver critérios rígidos para se avaliar, sempre terá a sensação de insuficiência, de não
acertar o alvo. Seu organismo começará a liberar mais adrenalina que o normal, e a
tensão mental e física interferirá no bom rendimento para atingir as metas
propostas: você entrará no círculo vicioso dos que aspiram cada dia a mais e têm
cada dia menos.
Essa sequência autodestrutiva pode ser mais bem visualizada no esquema abaixo:

Por causa das metas impossíveis, sua conduta nunca chegará ao nível desejado
apesar de seus esforços e, ao se sentir incapaz, sua autoavaliação será cada vez mais
negativa e alimentará o estresse, o que o afastará cada vez mais de seus objetivos.
Pode haver maior desatino que esse?
As pessoas que ficam presas nessa armadilha se deprimem, perdem o controle
sobre a própria conduta e, inevitavelmente, erram. Justamente o que queriam evitar!
A premissa é a seguinte: quanto mais fizer do ato de “ganhar” um valor, de maneira
paradoxal estará mais destinado a perder.
TUDO OU NADA
Os indivíduos muito exigentes consigo mesmos utilizam um estilo dicotômico na
maneira de processar a informação. Para eles, a vida é em preto e branco, sem
considerar os matizes: “Tenho sucesso ou sou um fracassado”, “Sou capaz ou
incapaz”, “Sou inteligente ou tolo”. Essa maneira de pensar é errada, porque não
existe nada absoluto nem rigorosamente extremo. Se olharmos o mundo dessa
forma, deixaremos de perceber os tons de cinza e os pontos médios. Quando você
aplica esse estilo binário à vida, seu vocabulário se reduz a palavras como: nunca,
sempre, tudo e nada. Você vai se chocar com uma realidade muito diferente da que
imagina.
A incapacidade de considerar caminhos intermediários e o medo de perder ou de
não atingir seus objetivos o fará ignorar as aproximações às metas pessoais. Para as
pessoas que se movem pelo “tudo ou nada”, as aproximações não são vistas nem
sentidas, ou simplesmente passam despercebidas. “Estou ou não estou na meta”,
dirão. Verão a árvore, mas não o bosque.
MUDAR E REVER
Mudar não é uma tarefa fácil. Não só porque implica esforço pessoal, mas pelos
custos sociais. Quando alguém, corajosamente, toma a difícil decisão de “viajar
bem” e sair dos padrões preestabelecidos, a pressão social é inexorável, sobretudo
quando as metas do indivíduo não coincidem com os valores do grupo de
referência. Por exemplo, em determinadas subculturas, os objetivos vocacionais que
se distanciam da produção econômica são vistos como sinônimos de
vagabundagem ou idealismo ingênuo. Uma mulher me dizia em uma consulta:
“Quero que avalie meu filho. Há alguma coisa errada com ele, pois quer estudar
música em vez de engenharia!”.
Quando trocamos a rota convencional por uma mais atrevida e tentamos
caminhos novos, as pessoas rígidas e apegadas às normas nos taxam de imaturos ou
“instáveis”, como se “não mudar de rumo” fosse sinônimo de inteligência. Uma
rápida olhada nas pessoas que tiveram um papel importante na história da
humanidade mostra que a existência de certa “instabilidade” e insatisfação com o
entorno são condições imprescindíveis para viver intensamente. Tanto a
conformidade radical quanto o aprumo absoluto são baluartes que não movem o
mundo. Não tema rever, trocar ou modificar suas metas se forem fonte de
sofrimento. De que outro modo você poderia se aproximar da felicidade?
O importante, então, não é somente ter níveis adequados de autoexigência (não
daninhos), mas também ser capaz de rever e modificar os critérios que o asfixiam e
o impedem de ser como gostaria de ser. Para isso, você não pode ser muito
“estável” ou muito “estruturado”, precisa de uma pitada de “insensatez” ou de
“loucura motivacional”, no bom sentido, é claro. As pessoas muito autocríticas e
rígidas consigo mesmas sofrem muito porque o mundo não se adapta às suas
expectativas. Impõem tantas condições e requisitos para transitar pela vida que a
cada passo batem nas paredes de uma normatização irracional e nos “deveria”.
Outros, porém, percorrem uma verdadeira estrada confortável e tranquila: ser flexível
e rever a si mesmo é, sem sombra de dúvidas, uma virtude dos indivíduos emocional e
racionalmente inteligentes.
Aqueles que não se aceitam mostram uma curiosa inversão nas regras que
determinam a sobrevivência emocional: são muito “duros” consigo mesmos na
hora de criticar seu rendimento e muito “moles” quando avaliam os demais. Ao
contrário, segundo os dados disponíveis, os sujeitos que mostram uma boa
autoestima procuram manter um equilíbrio justo na hora da autoavaliação: não se
destroem nem destroem os outros. De jeito nenhum estou defendendo o
autoengano, simplesmente penso que, às vezes, é muito útil para a saúde mental
“fazer vista grossa” diante de erros ou defeitos pessoais pequenos e insignificantes.
O eu tem de ser mimado. O contrassenso é evidente: as pessoas muito rígidas
consigo mesmas vestem uma camisa de força para não perder a cabeça, e o
resultado costuma ser o desajuste psicológico.
SALVANDO O AUTOCONCEITO
A seguir, apresentamos um guia que pode servir para proteger seu autoconceito
da autopunição, da autocrítica e da autoexigência indiscriminada:

1. Procure ser mais flexível consigo mesmo e com os outros


Tente não utilizar um critério dicotômico extremista para avaliar a realidade ou a
si mesmo. Não pense em termos absolutos, porque não existe nada totalmente bom
ou totalmente ruim. É melhor tolerar que as coisas saiam às vezes dos trilhos e não
enlouquecer por isso. Pode doer, mas o mundo não gira a seu redor, nem todos os
seus desejos são ordens para o universo (o cosmo não é tão submisso). Aprenda a
suportar as diferenças e a entender sua rigidez como um defeito, não como uma
virtude: ter a última palavra ou impor seu ponto de vista não deixa de ser uma
bravata. As coisas rígidas são menos maleáveis, não suportam com facilidade a
variabilidade do mundo que as contém e se quebram. Se você for normativo,
perfeccionista e intolerante, não saberá o que fazer com a vida, porque ela não é
assim. O resultado será que a maioria dos acontecimentos cotidianos lhe causará
estresse, visto que não são como você gostaria que fossem. Esse tipo de estresse
tem um nome: “Baixa tolerância à frustração”.
Faça um esforço e concentre-se durante uma ou duas semanas nos matizes. Não
se apresse em categorizar de maneira definitiva. Dê um tempo e pense se realmente
o que você diz é verdade. Reveja sua maneira de apontar para si e para os outros;
não seja drástico. Procure a seu redor pessoas que você já catalogou e questione o
rótulo que pôs nelas; procure evidências contra, descubra os pontos médios e,
quando avaliar, evite utilizar as palavras “sempre”, “nunca”, “tudo” ou “nada”.
Como dizia um reconhecido psicólogo, não é a mesma coisa dizer “Uma vez
roubou” e “É um ladrão”. As pessoas não apenas “são”, também “se comportam
como”. Já é hora de acabar com sua rigidez, porque a intransigência gera ódio e
mal-estar.
Estes indicadores podem servir de resumo:
a) Procure não ser perfeccionista. Desorganize um pouco seus horários, seus ritos, seus
trajetos, seu jeito de arrumar as coisas, como uma brincadeira, para ver o que
acontece. Conviva com a desordem por uma semana e perca o medo dela.
Você vai descobrir que tudo continua mais ou menos igual e que todo aquele
ímpeto controlador era uma perda de tempo.
b) Não rotule a si nem aos outros. Tente ser benevolente, sobretudo consigo mesmo.
Fale só em termos de condutas quando se referir a alguém ou a seu eu.
c) Concentre-se nos matizes. Pense mais nas alternativas e nas exceções à regra. A
vida é composta de mais tonalidades além do preto e do branco.
d) Ouça as pessoas que pensam diferente de você. Isso não implica que deva
necessariamente mudar de opinião; apenas ouça. Deixe a informação entrar e
então decida.

Lembre-se: se for inflexível e rígido com o mundo e com as pessoas, acabará


sendo consigo mesmo. Não perdoará nenhum erro que cometer. Será seu próprio
carrasco.

2. Reveja suas metas e as possibilidades reais de atingi-las


Por favor, não imponha metas inatingíveis a si mesmo! Exija de si conforme com
suas possibilidades e capacidades reais. Se perceber que está tentando subir um
monte Everest e se angustiando, haverá duas opções racionais: mudar de montanha
ou aproveitar o passeio. Quando definir alguma meta, também deverá definir os
degraus, ou submetas. Tente aproveitar, saborear cada degrau, como se cada um
fosse um grande objetivo em si mesmo, independentemente da meta final. Não
espere chegar ao fim para descansar e usufruir do caminho ou da luta. Encontre
estações intermediárias e perca-se nelas um pouco; nos meandros e caminhos que
não levam a Roma. Anote suas metas, reveja-as, questione-as e descarte aquelas que
não forem vitais nem saiam de dentro de você. A vida é muito curta para ser
desperdiçada em um devir incerto ou marcado por ideais que não nascem da alma
ou que são impostos de fora e alheios a seu ser.
Lembre-se: se suas metas forem inatingíveis, você viverá frustrado e amargurado.
Ninguém o suportará, nem você mesmo.
3. Não veja em você só o ruim
Se você só se concentrar em seus erros, será incapaz de ver suas conquistas. Se só
vir o que lhe falta, não aproveitará o momento, o aqui e agora.
Tagore dizia: “Se à noite chorar pelo sol, não verá as estrelas”. Às vezes, o
coração sabe mais ou capta mais informação que nossa sisuda razão. Não preste
tanta atenção a suas falhas, tente também dirigir sua atenção a suas condutas
adequadas, as que são produtivas, mesmo que não sejam perfeitas. O método que
proponho é redirigir sua atenção de uma maneira mais benevolente e equilibrada:
quando se encontrar focando de modo negativo e exagerado suas “más condutas ou
pensamentos”, pare! Dê um tempo e procure inclinar a balança para o outro lado.
Não se deleite no sofrimento.

4. Não pense mal de si mesmo


Seja mais benevolente com suas ações. Felizmente, você não é perfeito nem é tão
horrível, mesmo que se empenhe em ser. Não se insulte nem perca o respeito por si
próprio. Anote suas autoavaliações negativas, detecte quais são justas, moderadas,
objetivas e quais não são. Se descobrir que o vocabulário que empregou para si
mesmo é ofensivo, mude-o e procure qualificativos mais construtivos e respeitosos
sobre si.
Reduza suas autoverbalizações (pensamentos sobre você) àquelas que realmente
valham a pena e exerça o direito de cometer erros. Nós, seres humanos, assim
como os animais, aprendemos por tentativa e erro, embora algumas pessoas
acreditem que a aprendizagem humana deva ser por tentativa e sucesso (isso é
equivocado e possivelmente fruto de uma mente narcisista). O custo de crescer
como ser humano é errar e “pisar na bola”: lei universal e inevitável. É impossível
não errar de vez em quando, e, por isso, você não tem escolha além de aceitar isso
humildemente e sem espernear. O que precisa entender é que os erros não o
tornam melhor nem pior, simplesmente o calejam, mostram-lhe novas opções e o
aproximam de uma verdade que nem sempre é agradável: só o fazem lembrar que
você é humano. Quando falarmos da autoeficácia, tornaremos a abordar o medo de
errar. Por enquanto, você só deve assimilar um princípio básico da saúde mental: se
errar, não se castigue.

5. Ame-se a durante o maior tempo possível


Seria o ideal. Um amor-próprio estável é preferível a um oscilante e que dependa
de fatores externos (autoestima estável e regulada por si mesmo). A premissa “Se
não dá certo, eu me odeio, e se dá certo, me amo” é injusta. Você faria o mesmo
com um filho ou uma filha? Não faria, não é? Você os amaria apesar e acima de
tudo. Você os educaria, claro, mas o afeto por eles não mudaria em função de seus
resultados, não se modificaria um pingo. Se o amor que sente por si mesmo varia
muito ou depende de suas façanhas e grandes conquistas, talvez você não se ame
tanto. Vale a pena esclarecer que, embora uma autoestima bem constituída se
mantenha no tempo e tenda a ser constante, não significa que às vezes você não vá
sentir uma escalada de “miniódios” passageiros por si mesmo, pelo que fez ou
deixou de fazer, e pode até chegar a não se suportar durante algum tempo.
Vai resmungar, brigar e discutir de si para si, mas seu valor pessoal, se realmente
amar a si mesmo (seu amor-próprio), nunca será posto em questão. Você se
perdoará, e o romance ressurgirá com ares renovados. Porém, quando as oscilações
entre o amor por si mesmo e o ódio pessoal são reiteradas, é preciso pedir ajuda
profissional.

6. Procure aproximar seu “eu ideal” de seu “eu real”


As metas impossíveis, extremamente rígidas, aumentam a distância entre seu eu
ideal (o que gostaria de fazer ou ser) e seu eu real (o que realmente faz ou é). Quanto
maior for a distância entre ambos, menor será a probabilidade de atingir seu
objetivo; sentirá mais frustração e mais sensação de insegurança. Não vai gostar de
si mesmo, não aceitará quem é na verdade; aceitará o outro eu, o imaginário, um
que não existe. Se tiver idealizado muito o que gostaria de ser, o que você é lhe
causará irritação, e, de acordo com minha experiência como terapeuta, o único
material de trabalho útil com o que você conta para sua melhora é assumir quem
você é, sem anestesia nem autoenganos. Talvez não goste de muitas coisas em si
mesmo, mas o que interessa é sua matéria-prima, a qual muitas vezes escapa, e você
não consegue ver por estar olhando para o eu sonhado nas nuvens.

7. Aprenda a perder
A autoexigência exagerada é medida em função das possibilidades de cada um; é
simples assim. Se não tiver as habilidades ou os recursos necessários para atingir
seus fins, a aspiração mais simples se transformará em uma tortura. Nesses casos, a
reavaliação objetiva e franca de suas aspirações em relação a suas capacidades é a
solução: é preciso aprender a perder. Existe uma resignação saudável quando os fatos
investem contra você e consegue vê-los objetivamente: persistir de maneira
obstinada em uma meta costuma se tornar um problema. Às vezes, é preciso
despertar dos sonhos, porque não se tornarão realidade, e isso não o torna melhor
nem pior, só mais realista. Depor as armas e entender que a batalha já não é sua o
deixará mais livre e feliz; um combatente da vida mais eficaz.

Vamos recapitular e esclarecer: a autocrítica moderada, a auto-observação


objetiva, a autoavaliação construtiva e as metas racionais e razoáveis ajudam no
desenvolvimento do potencial humano. Não estou censurando a autocrítica e a
autoexigência em si e em todas as circunstâncias. O que defendo é que, para fugir
de um extremo psicologicamente pernicioso (a pobreza de espírito, a preguiça, o
fracasso, o sentir-se “inferior” e não ter expectativas de crescimento), às vezes
levamos o pêndulo para outro extremo, igualmente daninho e nocivo. Você é uma
máquina especial dentro do universo conhecido; não se maltrate nem se insulte.
Para ter sucesso, não precisa de autopunição.
Rumo a uma boa autoimagem

Um dos truques da vida consiste,


mais que em ter boas cartas,
em jogar bem com as que se tem.
Josh Billings

Em quase todas as épocas e culturas, a beleza física foi admirada como um dom
especial, e a feiura, vista como uma maldição da natureza ou dos deuses. Devemos
reconhecer que muita gente é especialmente cruel com aquelas pessoas que fogem
dos padrões tradicionais do que é considerado belo, ao ponto extremo de rejeitá-las.
Basta observar a maneira como algumas crianças debocham dos colegas que têm
sobrepeso ou são extremamente magros, dos que são baixinhos ou muito altos, e
dos que possuem algum traço desproporcional. Até as pessoas que, infelizmente,
sofrem malformações ou deformidades físicas costumam ser vítimas desse deboche
ou ataque à aparência. Seja como for, o aspecto adotado pela estrutura molecular de
nosso corpo é fonte de atração ou repulsa (as convenções sociais não perdoam). A
premissa é claramente excludente: “Estes são os parâmetros estabelecidos e, quem
não os cumprir, ficará de fora do clube dos afortunados”.
A questão que deve nos preocupar é que o juízo estético que a cultura outorga à
aparência física tem enormes consequências para nosso futuro. Como sustenta um
número considerável de pesquisas, o sucesso em diversas áreas de desempenho é
afetado por nosso grau de atração física. Embora seja injusto, as estatísticas
mostram que as pessoas bonitas são avaliadas com mais benevolência. Mesmo
assim, não existe um critério universal de beleza. O padrão ideal daquilo que é
bonito se aprende por meio das experiências pessoais e sociais no entorno imediato
e pelas ideias que nos inculcam as convenções sociais e os meios de comunicação.
O PESO DA COMPARAÇÃO
Como já disse antes, o grupo de referência mais próximo e as relações que
estabelecemos com as pessoas são determinantes para criar a ideia que temos sobre
nosso corpo e as avaliações que fazemos dele (autoimagem). A história do patinho
feio não é ficção. Conheci uma infinidade de famílias que consideram a beleza física
um valor, e, se alguma das crianças que fazem parte de seu grupo não reúne as
características do que se considera “belo”, simplesmente as famílias não conseguem
se vincular afetivamente a ela. Não podem mandá-la embora (sangue é sangue), mas
não é integrada com a mesma intensidade ao núcleo emocional/familiar como as
mais bonitas. Esse “afastamento estético” é sutil e está cheio de consolações
compensatórias, como dizer, por exemplo, “Ela não é tão bonita, mas tem outras
coisas boas”.
Enquanto isso, as crianças observam, processam e absorvem as diferenças no
tratamento e os sinais de admiração implícitos que surgem das comparações mal
dissimuladas. Como se não bastasse, as famílias “pró-beleza” não só criam na
criança a necessidade de ser linda, como também põem a imagem corporal em lugares
preponderantes. Em minha experiência profissional, vi pessoas que não aceitavam a
si mesmas por se considerarem feias ou desagradáveis sem o serem de fato, visto
que não atingiam o ideal estético esperado por seu grupo de referência (pais, amigos
ou grupo social).
Uma de minhas pacientes mantinha a firme convicção de que não era atraente,
quando, na realidade, era uma mulher bonita, além de interessante. Apesar das
tentativas de persuasão do grupo de terapia, sua convicção era inquebrantável:
“Doutor”, dizia ela, “eu agradeço sinceramente seus esforços e entendo que jamais
me diria que sou feia porque me deprimiria mais...” Para que ela pudesse colocar à
prova sua crença irracional e a consequente distorção sobre sua aparência física, foi
traçado um experimento típico de medição de atitudes. A paciente se sentou na
lanchonete de uma movimentada universidade perto de duas mulheres atraentes
escolhidas por ela que serviam de fatores de comparação. Pediu-se a um grupo de
cem estudantes, homens e mulheres, que avaliassem, em uma escala de um a dez, o
grau de beleza e sensualidade tanto da paciente quanto das outras duas mulheres
que ela havia selecionado. Uma vez processados os dados, constatou-se que cerca
de 90% dos observadores haviam opinado que minha paciente era uma pessoa
bonita, sensual, atraente e desejável.
Ao saber dos resultados, a paciente se mostrou surpresa. Pensou um pouco e
disse: “É incrível... Não sei o que dizer... Jamais pensei que as pessoas tivessem
tanto mau gosto!”. A convicção de sua imperfeição a absorvia a ponto de ignorar e
distorcer qualquer informação que lhe mostrasse que estava enganada.
A LUPA PESSOAL
Por alguma estranha razão, os apelidos sempre acertam onde mais dói. Os
defeitos físicos parecem ter a propriedade de ser detectados imediatamente pelos
outros, mesmo que sejam minúsculos. E ainda que ocorra uma metamorfose
positiva ao longo dos anos, ou seja, que o suposto “defeito” desapareça ou seja
resolvido pela medicina, o deboche deixa suas marcas e funciona como um critério
de avaliação que depois aplicamos a nós mesmos. À medida que crescemos e
aprendemos o que é “bonito” e o que é “feio”, já não precisamos que ninguém nos
diga nada, basta que olhemos no espelho. Damos início, sobretudo na pré-
adolescência e na adolescência, a uma revisão detalhada e quase compulsiva de
nossa aparência física; ponto por ponto, poro por poro, área por área e de uma
maneira rigorosa. O resultado é que poucas coisas se salvam e quase sempre nos
falta ou nos sobra alguma coisa. Não gostamos de nossa cor de pele, do cabelo, dos
dentes, dos olhos, das pernas, dos dedos ou de qualquer outra coisa que não passe
pelo filtro, até mesmo do que não fica exposto ao público! Tive um paciente que se
negava a ir à praia porque os dedos de seus pés eram muito grandes e tortos. Um
dia, tirou os sapatos e os mostrou a mim. Eu esperava encontrar algo parecido às
garras do lobisomem, mas, para ser franco, se ele não tivesse me explicado antes
com toda a riqueza de detalhes a suposta “imperfeição”, eu jamais teria percebido.
Seu medo era de não agradar as garotas devido àquela “anomalia”. Minha resposta
foi simples: disse que se alguma mulher o rejeitasse porque seu quarto dedo tinha
dois ou três milímetros a mais que o dedão, que procurasse outra.
É incrível a habilidade de algumas pessoas para detectar falhas em si mesmas e
exagerá-las (nos casos extremos, como o de meu paciente, esse tipo de apreensão é
conhecido como transtorno dismórfico corporal, e é preciso recorrer a um
profissional competente).
ESPELHO, ESPELHO MEU...
Não estou criticando o cuidado pessoal, visto que é natural querer ter boa
aparência, sentir-se bem e ser atraente, mas sim a preocupação obsessiva com a
ideia de ser “bonito” o tempo todo e de acordo com os ditames dos especialistas da
vez. Se a autoafirmação, ou seja, o que valho como ser humano, depende de minha
beleza física, isso indica uma inversão alarmante de valores essenciais. O mesmo
acontece com as pessoas que mostram a necessidade imperiosa de conservar a
juventude e a beleza acima de tudo e não compreendem que cada idade tem seu
encanto. Se o que vemos no espelho não é compatível ao ideal estético que
aprendemos (aquilo que gostaríamos de ver), nunca nos sentiremos bem com nosso
corpo. Outro paciente, um ator que fazia papéis de galã, comentava comigo: “O
melhor seria viver sem relógios e sem espelhos: não nos preocuparmos com o
tempo que passa, sem passado a lamentar (a juventude que se foi, levando a carne
fresca) e sem futuro a temer (as rugas inevitáveis e a velhice)”. Eu respondi que, de
qualquer jeito, os outros perceberiam, e cedo ou tarde ficariam evidentes os novos
cabelos brancos e os quilos a mais acumulados. É preciso envelhecer, não há saída.
Não há necessidade de ser budista para entender e aceitar isso; a questão é fazer
isso com elegância e dignidade.
INVENTAR A BELEZA
Qualquer pessoa relativamente instruída aceitará o fato de que não existe um
critério universal e absoluto do que “deve” ser bonito. Lembro que minha avó
sempre falava de sua mãe como a mulher mais bonita e atraente do mundo,
seguindo padrões que teriam assustado mais de um médico esteticista: “Que beleza
de mulher era minha mãe!”, dizia. “Gordinha, branca como o leite, com umas
grandes bochechas rosadas e uns lábios vermelhos como morangos.” Quando ela
comentava isso, nós, os netos, morríamos de rir, e os mais velhos faziam caretas de
incredulidade. Hoje em dia, essas belezas “antigas” não cabem em nossas estruturas
mentais. Não é tão fácil para a pós-modernidade “processar” os atrativos das divas
do cinema mudo, das misses Universo de cinquenta anos atrás ou os corpos
“esculturais” dos anos 1960. O relativismo nessa questão também fica evidente em
outros aspectos. Só para dar um exemplo: os índios lesú, da Guatemala, gostam de
mulheres grandes e fortes, porque elas podem carregar lenha e fazer tarefas pesadas:
aí está o sex-appeal delas. A premissa é clara: a beleza é inerente à época e ao lugar, embora
existam certas variáveis biológicas em jogo. Inculcam em nós o que deve ser
considerado belo ou horroroso, mas isso não é uma verdade absoluta, de jeito
nenhum. Nos tempos de minha bisavó, os sinais de uma boa alimentação é que
eram o critério de beleza; hoje em dia, são os sinais de desnutrição que desfilam
pelas passarelas que geram admiração e inveja.
O mais saudável é decidir seu próprio conceito de beleza. Não é fácil, mas vale a
pena tentar. Da mesma forma que para se vestir bem você não deve seguir
docilmente a moda e se uniformizar, para gostar de si mesmo não tem de utilizar
conceitos externos. Não precisa se parecer com ninguém em especial, nem há
razões teóricas e científicas que justifiquem a superioridade de uma forma de beleza
mais que de outra.
Os requisitos para suas preferências estéticas são basicamente uma mistura
complexa entre variáveis cognitivas e afetivas, talvez as últimas em maior
proporção, e, por isso, às vezes, quando conhecemos uma pessoa de quem
gostamos, somos movidos pela química e não sabemos explicar exatamente o que
nos atrai nela. Conheci gente racista apaixonada por alguém de pele escura,
comunistas apaixonados por burgueses, anarquistas, por policiais e maquiadores,
por mulheres com uma pele que é um desastre. A contradição estética/atração fica
nas mãos de algum mecanismo da natureza ainda desconhecido, que nos empurra
para alguém que não combina com nossas exigências acerca do belo, mas que nos
atrai, apesar de tudo. Se a convenção social tivesse sido mais benevolente em suas
normas estéticas, não existiriam concursos de beleza, assim como todas as empresas
que giram ao redor do culto ao corpo não teriam razão de ser.
O importante, então, não é ser bonito, e sim gostar de si mesmo. Para isso, não é
conveniente utilizar pautas já estabelecidas, e sim inventá-las. A beleza é uma atitude.
Se você se sente bonito, é bonito, e transmitirá isso aos outros; mas, se aceitar passivamente o
modelo de beleza que lhe impõem de fora, acabará pensando que você é horrível. Você já deve
ter vivido a sensação nada prazerosa de se sentir como uma foca depois de ver uma
propaganda com modelos que operaram até as costelas. O que fazer? O saudável é
destacar as coisas de que você realmente gosta em si mesmo, ainda que não coincidam com
a opinião geral. Uma de minhas pacientes transformava o suposto prazer de
comprar roupa em um verdadeiro suplício. “Doutor”, dizia, “fico angustiada
porque não sei o que devo comprar.” Eu respondia: “Aquilo que lhe agradar”. E ela
retrucava: “E como sei que meu gosto é o certo?”. Foi muito difícil fazê-la entender
que, em questão de gosto, não há certo ou errado.
Insisto: seu corpo e o modo como o enfeita devem agradar primeiro a você.
Vista-se de acordo com sua opinião, ou seja, como lhe der na telha. Senão, seu
poder de decisão ficará a mercê do que as pessoas vestem ou não. Sentir-se bem
vestido é agradável (às vezes penso que a maior felicidade dos convidados em um
casamento, familiares inclusive, não é a alegria de quem se casa, e sim o fato de se
sentirem elegantes), mas ficar preocupado de maneira obsessiva com “como está
minha aparência” pode ser uma tarefa extenuante.
MELHORANDO A AUTOIMAGEM
Para proteger sua autoimagem, ou resgatá-la, se for o caso, você deve considerar
os seguintes aspectos:

1. Procure definir seus próprios critérios sobre o que é belo


ou estético
Não se deixe levar pelos “especialistas”: nesse assunto, ninguém sabe de nada.
Nem permita que aqueles que criticam suas preferências o afetem: trata-se de uma
escolha que só você pode fazer. Confie em seu instinto e arrisque-se a ensaiar sua
própria moda. À pergunta estúpida: “Está na moda?”, simplesmente responda:
“Não faço a menor ideia”. Rapidamente você descobrirá que as pessoas começarão
a considerá-lo como um modelo a seguir. Arrume-se para você, e não para os
outros.

2. Descarte a perfeição física e os critérios rígidos


Não caia na rede dos ideais inalcançáveis. Não existe uma verdade absoluta sobre
a beleza, e é por isso que você encontrará pessoas que acham lindo alguém que
você particularmente acha feio.
Não perca tempo pensando no que lhe falta para ser uma Afrodite ou um
Adônis; o melhor é aproveitar o que você tem, jogar bem suas cartas e não exigir de
si o impossível. A ideia da perfeição física só o levará a focar a atenção em seus
defeitos e a esquecer seus encantos. Você não é um ser esteticamente perfeito?
Bem-vindo ao mundo dos normais! Conheci mulheres e homens cujo ego não cabe
no corpo, que passam horas na academia e se sentem especiais e fisicamente
encantadores; não andam, desfilam. Há pouco, li um grafite em algum lugar de
Barcelona: “A beleza está na cabeça”. Eu diria em duas cabeças: na daquele que
olha e avalia e na do que se expõe e exibe. Desça das nuvens. O importante não é
sua constituição anatômica, mas sim como ela é usada.
3. Descubra e destaque as coisas de que mais gosta em você
Às vezes, quando detectamos algum aspecto desagradável em nosso corpo,
ocorre um efeito de cegueira e generalização, como se esse único aspecto nos
atarantasse e não fôssemos capazes de ver mais nada. Uma pinta imprudente, uma
mancha inesperada, uma orelha mais caída, uma cor de cabelo apagada; enfim, a
lista é interminável. O importante é distribuir a atenção para incluir também aquilo
de que gosta em você e tirar o brilho insuportável do que não gosta e o impede de
usufruir o lado prazeroso. Não importa quantos sejam seus atributos físicos
positivos, alegre-se por tê-los e aproveite-os. Você tem a sorte de tê-los! São seus!
Nunca pense que já “esgotou” seus encantos: explore e se surpreenderá com as
coisas interessantes, sedutoras e sensuais que pode encontrar em você que nada têm
a ver com as proporções. Uma jovem mulher comentava com preocupação: “Não
sei por que ele reparou em mim se havia outras mulheres muito mais bonitas”. Na
verdade, ela tinha razão: sempre haverá alguém mais bonito, mas isso não é tudo!
Minha paciente tinha um sorriso contagiante, uma expressão travessa no olhar e
uma personalidade avassaladora. Além disso, era imensamente inteligente e sabia
ostentar seu corpo com garbo e desenvoltura. A gente não se apaixona por umas
panturrilhas, uma fíbula ou uma tíbia, e sim por quem os porta!

4. Sua autoimagem é transmitida aos outros


Se você se sentir uma pessoa pouco interessante e atraente, dará essa imagem aos
outros, e eles o tratarão de acordo com ela, reafirmando sua crença. Poderiam até
discriminá-lo, e você afundaria cada vez mais em uma visão escura e triste de si
mesmo. Como já disse, de certa maneira a beleza é uma atitude: se você tiver pena
de si, os outros terão pena também; se sentir dó de si, os outros sentirão também;
se você se vir como alguém desagradável, será rejeitado. Você cria o contexto
interpessoal: seu espaço de crescimento ou seu nicho. A melhor maneira de quebrar
o círculo negativo é se amar e acabar com esse esquema de imperfeição/vergonha
que se arrasta há anos, mesmo que seja leve. Experimente fazer o papel de alguém
que está satisfeito com seu corpo para ver como se sente. Treine essa conduta por
um tempo, sinta-se irresistível e tente se comportar como tal, sem se transformar,
claro, em alguém chato: “Aqui estou, isto é o que sou e, se não gostar, sinto muito”.
O círculo começará a se quebrar. Não falo de vaidade, e sim da sobrevivência
emocional que nasce de ser um pouco mais complacente com a própria aparência
física. Olhe em volta e me diga quanta gente vê casada com top models. A maioria se
mantém na média ou tende a ser feia, e essa é a vantagem: somos a maioria, e,
portanto, haverá maior probabilidade de encontrar alguém parecido — ou seja,
imperfeito.

5. A aparência física é apenas um dos componentes de sua


autoimagem
Reafirmando o ponto anterior: ter boa aparência é só um fator daquilo que você
é como pessoa. Sua essência vai muito além. A aparência física nem sequer é o mais
importante da atração interpessoal passadas uma ou duas horas. As pessoas, além
de bonitas ou feias, também podem ser agradáveis, gentis, inteligentes, doces,
sedutoras, sensuais, interessantes, educadas, alegres, afetuosas, engraçadas, estúpidas
e mil coisas mais. Algumas pessoas têm “magia”, e esse tempero é determinante
para estabelecer relações interpessoais. Em outras palavras: você tem muitas opções
para se amar e parar de insultar o espelho cada vez que se olha.
Insisto: não estou dizendo para deixar de cuidar de seu corpo ou de sua
aparência, mas dê a ela o lugar que lhe cabe. Pergunte-se que mais você tem além de
ossos e pele. E, se não encontrar nada, peça ajuda profissional.

6. Não aumente o que não gosta em você


Eu me refiro à lupa invisível que às vezes nos acompanha e faz que um pequeno
grãozinho seja visto como uma montanha ou que uma pequena imperfeição pareça
uma anomalia quase monstruosa. A lupa que aumenta o desagradável até que, como
uma avalanche, sepulta o agradável, e tudo se contamina. Focar a atenção no que
menos nos agrada e exagerá-lo nos leva a crer que não temos salvação possível e
que deveríamos nos afastar do resto do mundo. Um paciente me dizia: “Estou aqui
porque tenho medo de ficar careca”. Pensei que fosse uma brincadeira ao
contemplar a cabeleira daquele homem. Ele tinha um cabelo comprido, preto e
brilhante, realmente invejável. Quando lhe perguntei em que baseava sua angústia,
levantou algumas mechas e me mostrou um círculo de uns três milímetros de
diâmetro acima das têmporas onde a densidade capilar era menor que no resto da
cabeça. Depois, explicou-me que o dermatologista lhe havia dito que não precisava
se preocupar e nem sequer indicou um tratamento. Porém, ele continuava com a
ideia de que tinha um princípio grave de calvície e, por isso, puxava o tempo todo o
cabelo para a frente para disfarçar a “falha” que só ele via. Foi difícil fazê-lo parar
de usar a lupa que havia inventado e aprender a pôr seus atributos positivos em
outro lugar – por exemplo, dentro da cabeça, e não sobre ela.

7. Sempre haverá alguém disposto a amar você


Se realmente gostar de si mesmo e se aceitar, sempre encontrará alguém que
goste de você e seja capaz de amá-lo. O desagrado consigo mesmo bloqueia a
capacidade de se relacionar, porque as pessoas que não estão satisfeitas com seu
corpo antecipam a rejeição e evitam os outros. Mostram medo da avaliação
negativa, e seus níveis de ansiedade social aumentam exageradamente. O flerte e a
sedução não lhes passam pela cabeça, porque se consideram ridículas agindo desse
modo. Nunca dão o primeiro passo e, quando alguém se aproxima, espantam-no
com suas inseguranças e precauções. Gostar de si mesmo é abrir os horizontes
afetivos: como amar quem não se ama? Se você não se amar, nunca poderá
processar e aceitar o afeto que lhe entregam com naturalidade e alegria.

8. Comparação injusta
Não seja cruel consigo mesmo. Não se compare como se fosse um artigo de
compra e venda. Comparar-se é horrível, e se tomar como referência os homens ou
as mulheres top em qualquer área será duplamente injusto. Aqueles que se
comparam com os melhores, os mais bem-sucedidos, os mais famosos, vivem
amargurados pelo que “não são” ou pelo que “lhes falta”.
Uma senhora me dizia: “Quando ando pela rua, fico olhando as mulheres jovens
e lindas, e então me sinto velha e feia”. Óbvio! Ela também comprava roupa em
lojas de moda juvenil, onde não havia peças de seu tamanho, e vivia nas mãos de
um profissional da cirurgia estética para tirar de seu corpo todos os anos possíveis.
Sua mente se desgastava pensando em como voltar no tempo. Uma atitude
masoquista patrocinada por um conjunto de antivalores dos quais não tinha
consciência (a obsessão tira a lucidez).
Então, o único remédio é admitir: há gente mais jovem, mais inteligente, mais
rica, mais famosa e mais bonita que você. Cada um tem seu encanto, e você tem o
seu. Outras pessoas se consolam olhando para os que estão embaixo nas estatísticas
do estético e chegam à conclusão de que não são “tão horríveis”. Essa tática de
consolação, embora às vezes mantenha a autoestima acima da linha de flutuação,
não é boa para seu crescimento pessoal porque você não enfrenta o que é. É
preferível não se comparar em absoluto e se aceitar incondicionalmente, amar-se,
gostar de si, enfeitar-se; sem pecar por falta nem por excesso, sem pontos de
referência para cima ou para baixo (se é que existe em cima e embaixo). Para que
sua autoestima funcione bem, deve haver uma aprovação essencial, uma admissão
do básico, uma conformidade do próprio eu consigo mesmo, corpo incluso.
Quando você se apaixona, não é pela metade ou só um pouco: ou ama ou não ama.
Assim acontece quando o afeto se dirige a você mesmo. Você se ama ou não se
ama, aceita-se ou não.
Rumo a um bom autorreforço

Talvez aconteça que, uma vez a cada século,


o elogio ponha a perder um homem ou o torne insuportável,
mas é certo que, uma vez a cada minuto, algo digno e
generoso morre por falta de elogio.
John Masefield

Se alguém afirmasse: “Meu namorado me elogia poucas vezes, não costuma me


agradar, não se preocupa com minha saúde, dedica pouco tempo a mim e quase
nunca expressa seu afeto”, estaríamos de acordo em duvidar que realmente exista
um sentimento de amor. Da mesma forma, se você nunca se reforçar nem premiar
a si mesmo, se não dedicar tempo para si próprio, se não expressar afeto, sua
autoestima será nula ou insuficiente. O amor-próprio, em princípio, não deveria ser
muito diferente de amar os outros, pelo menos em seu modus operandi básico.
Quando somos responsáveis e ajuizados, planejamos com uma exatidão rigorosa
os compromissos assumidos, os horários de trabalho, o orçamento e coisas do tipo.
Por que não fazemos o mesmo para gerir nossos autorreforços? Por exemplo, por
que o tempo livre parece ser um efeito residual, algo que “sobra” depois das
obrigações, e muitas vezes não sabemos nem o que fazer com ele? Andamos a cem
quilômetros por hora e paramos para descansar e usufruir do lazer apenas de vez
em quando. Onde ficaram aqueles anos de infância e juventude, quando
deixávamos passar o tempo sem medos nem culpas? Não há lugar disponível na
agenda! Para quem vive para trabalhar, o descanso se reduziu a uma função passiva
de recuperação de forças. Chegada a noite, os viciados em trabalho não dormem,
desmaiam!
Dispomos de tempo para os filhos, o companheiro, os pais, os sogros, os
vizinhos, os amigos, mas não pensamos em usar um tempo livre em benefício
próprio, e a sós! Não nos interessa tanto gerar saúde mental quanto dinheiro.
Muitos pacientes meus sentem-se culpados quando consigo convencê-los a se
sentar embaixo de uma árvore sem fazer nada especificamente além de admirar a
natureza e se deitar na relva. Ideias irracionais, como “Estou perdendo tempo”, não
tardam a aparecer. A conclusão é a seguinte: “Se o tempo é ouro, estou perdendo
dinheiro”. O medo de cair no ócio e na preguiça desenvolveu um padrão de
conduta hiperativo tão absurdo que não podemos evitar ser dinâmicos e laboriosos
a todo momento. Condutas como pensar, sonhar, fantasiar, dormir, meditar ou
olhar por olhar são consideradas uma forma de desperdiçar a vida ou simples
vagabundagem. Aqueles que pensam desse modo terão sérias dificuldades para se
amar sem interferências, visto que seu pensamento se centrará no que poderiam
estar fazendo de “mais produtivo” que relaxar.
É absurdo que o próprio eu ocupe o último lugar no afeto que somos capazes de
dar. Vivemos postergando as gratificações que merecemos e dizemos a nós
mesmos: “Um dia eu faço”, mas esse dia não costuma chegar. “Amanhã começo” +
“Amanhã começo” + “Amanhã começo” = Procrastinação. Um paciente que
adorava música me dizia que havia comprado um saxofone para quando se
aposentasse: “Vou ter tempo livre”, dizia, “para tocar o que quiser”. Realmente me
preocupei com o adiamento e respondi que, quando ele fosse velho e estivesse
aposentado, provavelmente não teria pulmão suficiente para soprar.
Desde crianças, inculcam em nossa mente que o autocontrole e a postergação do
prazeroso é uma das características que nos diferenciam dos animais menos
desenvolvidos. Mas isso não deve ser tomado como uma premissa de vida ou
morte: adiar os reforços pode ser uma estratégia importante em uma dieta, para
parar de fumar ou para tentar não ser agressivo, mas, se fizermos da postergação do
prazer saudável uma maneira de viver, estaremos fazendo o jogo da depressão, e
nossa vida perderá lentamente seu lado positivo: o custo será a insensibilidade e a perda
da capacidade de se surpreender. Andar com o freio de mão puxado 24 horas por dia
procurando ser prudente, comedido, conveniente e sensato levará você à letargia
afetiva e à apatia absoluta pelas coisas que poderiam levá-lo a uma vida mais plena.
Você perderá a capacidade de vibrar e de se emocionar, criará uma couraça e se
acostumará ao rotineiro: a diversão e a felicidade lhe parecerão desagradáveis.
Muitas pessoas se sentem irresponsáveis quando se excedem ou caem em certas
tentações ingênuas, como dar-se uma maior gratificação. Simplesmente
desenvolveram a crença irracional e restritiva de que recompensar a si mesmo é um
“vício” ególatra altamente perigoso, mesmo que se mantenha dentro de limites
inofensivos e saudáveis.
FILOSOFIA HEDONISTA
Hedonismo significa prazer, satisfação, regozijo, gozo e bem-estar. Uma filosofia
hedonista implica um estilo de vida voltado para a busca do prazer e do proveito
das coisas que nos cercam, obviamente sem ser escravo delas e sem ser vítima do
vício. Uma premissa pela qual você poderia se guiar é a seguinte: “Se não é
prejudicial para você nem para os outros, pode fazer o que quiser”. Gozar e
desfrutar a vida não significa, como acreditam alguns, cair em uma bacanal de
conduta descontrolada e sem a menor sombra de organização mental. A pessoa
hedonista não é um corrupto superficial que só busca os prazeres mundanos de
comer e beber (basta ler Epicuro para compreender). A pessoa que assume uma
filosofia hedonista responsável não evita a luta cotidiana e os problemas, apenas
reconhece de maneira honesta o que a faz feliz e trabalha duro para conseguir isso e
aproveitar tudo intensamente. Entre o extremo do autocontrole excessivo do asceta
e a busca desenfreada pelo prazer imediato há um ponto intermediário no qual é
possível o deleite equilibrado: os prazeres que não nos fazem mal. A filosofia anedônica
(o contrário de hedonista) é o culto à paralisia emocional e à rejeição do prazer,
como se ele fosse contraproducente per se.
Se você vive bitolado em uma forma de vida mesquinha consigo mesmo, perderá
a possibilidade de viver com paixão; é impossível aprender a se amar quando não
aceita viver intensamente. Algumas pessoas confundem o “não se sentir mal” com
o “sentir-se bem”: deixar de se castigar e de sofrer não é suficiente, é preciso dar
mais um passo, premiar-se sem pretextos.
Por que não somos hedonistas? Por que nos resignamos a um estilo de vida
rotineiro e pouco prazeroso? Certamente porque, ao querer ser muito humanos,
perdemos algumas capacidades fundamentais que herdamos de nossos antecessores
animais. O desenvolvimento do córtex cerebral e da linguagem, embora nos tenha
permitido evoluir em muitos aspectos, afastou-nos do legado “primitivo/instintivo”
de nosso passado evolucionista, pelo menos em dois fatores principais: a conduta
de exploração e a capacidade de sentir. Vejamos cada uma delas detalhadamente.
A conduta de exploração
A exploração é um dos comportamentos que mais garante o desenvolvimento
inteligente e emocional de nossa espécie. No reino animal, a busca e a indagação do
meio circundante facilitam a descoberta de fontes de alimentação, guaridas e
parceiros sexuais. Esse impulso de investigar que move os indivíduos ajuda a
enriquecer o sistema comportamental herdado e a aumentar o repertório de
recursos para enfrentar perigos e prevê-los. É uma forma de autoestimulação que
desenvolve mais substância branca no cérebro (mielinização) para que possamos
aprender mais e melhor. Explorar é ser curioso, e a curiosidade é um dos fatores
que permitiram a evolução e a manutenção da vida no planeta.
Xeretar, examinar e investigar levam a uma das maiores satisfações: a descoberta
e a surpresa. Explorar, ir ao encontro da vida e se deixar absorver por ela abre
portas que estavam fechadas aos sentidos e ao conhecimento e permite que nos
surpreendamos com uma realidade desconhecida.
A felicidade não bate na porta, é preciso ir buscá-la e lutar por ela. Há quanto
tempo você não sai vagando sem rumo fixo, ou não improvisa? Quando induzo
meus pacientes a incrementar seu ambiente motivacional, muitos me dizem: “E o
que faço?”. Eu respondo: “Busque, vá atrás”.
Ir atrás de quê? Não faço ideia! Busque por buscar! Abra a mente, sem defesas,
deixando que a experiência e a informação cheguem e nos inundem. Não existe
uma lista estabelecida sobre o que fazer de bom com a própria vida; é preciso criá-
la, investigando e explorando o meio que nos cerca: de cada dez portas que abrir,
possivelmente uma lhe mostrará algo interessante e maravilhoso que justifique o
esforço. Quando o cotidiano se torna muito comum e você pode prever seu futuro imediato nos
mínimos detalhes, alguma coisa está errada. Preocupe-se, porque a obsessão anda rondando.
Em outras palavras, quando o comum se torna ritual, é hora de explorar, e,
quanto mais previsível for sua vida, maior será o tédio. Você precisa se
desacostumar ao que o cerca e construir sua própria ecologia, um ambiente
motivacional que o seduza para transformá-lo em um investigador de sua própria
vida. Se perdeu a capacidade de exploração, precisa recuperá-la, senão jamais
poderá se aproximar de uma filosofia hedonista, e o amor-próprio será um fardo
para você.

A capacidade de sentir: “Sinto, logo existo”


O segundo fator que interfere em um estilo de vida prazeroso são os bloqueios
na capacidade de sentir. Algumas pessoas só percebem o evidente. Por exemplo,
quando estão nas cataratas do Niágara, só veem muita água, e diante de um belo
vitral da Idade Média não veem mais que um vidro pintado; o anoitecer os fará
lembrar que chegou a hora de dormir, uma manhã de sol os fará prever um dia
quente, e a chuva só os impulsionará a buscar abrigo para não se molhar.
Os sentidos primários sofreram, sem sombra de dúvidas, um adormecimento. O
olfato e o tato foram perdendo importância adaptativa para nossa espécie, mas são
fontes de prazer se reativados (existe algo mais impactante que saborear a pessoa
amada?).
A parte do cérebro responsável por processar os sons especializou-se em
decodificar a linguagem falada e perdeu um pouco a capacidade de detectar e
discriminar outros “ruídos” da natureza. O sistema humano de processamento da
informação tem duas formas de operar: uma é voluntária ou controlada, e a outra,
automática ou não consciente. A primeira depende dos estratos mais desenvolvidos
do sistema nervoso central (hemisfério esquerdo do córtex cerebral) e processa
informação lógica. A segunda se estrutura com base em sistemas fisiológicos mais
antigos (sistema límbico, hemisfério direito, sistema nervoso autônomo) e processa
informação emocional-afetiva. O sentimento, diferentemente dos processos de
pensamento, tem algumas características que lhe são próprias: costuma ser mais
automático, requer menos esforço mental, é inevitável, irrevogável, total, difícil de
verbalizar, complicado de explicar e, muitas vezes, de entender. Cabe apontar que,
embora ambos os tipos de processamento apresentem características bem
diferentes, eles interagem e se mesclam permanentemente, e, dependendo do caso,
haverá predomínio de um ou outro sistema. É muito difícil que exista no ser
humano uma emoção pura ou uma lógica totalmente livre de afeto.
Isso nos leva a uma interessante conclusão: embora os sentimentos possam ter um canal
próprio de reconhecimento e tradução, podem ser facilitados ou complicados pela influência de nossos
pensamentos. Por exemplo, uma crença típica que impede de viver a emoção com
comodidade é a seguinte: “Expressar emoções livremente é fazer papel ridículo”.
Esse critério, muito arraigado em certas culturas e grupos sociais, considera que
reprimir a expressão das emoções é um ato de adequação social e sobriedade. O
problema é que não chorar, não gritar, não surpreender-se, não pular de alegria ou
não gargalhar de vez em quando, sem recato nem compostura, é estar meio morto.
A norma que prega que jamais devemos sair do ponto adequado faz da repressão
afetiva uma virtude.
Tive de dar a um de meus pacientes – um executivo de sucesso muito tradicional
em sua maneira de pensar – a má noticia de que sua mulher, a quem adorava, já não
o amava, ia se separar dele e tinha um amante havia cinco anos. Quando recebeu o
golpe, ele se limitou a franzir o cenho, assentir com um movimento leve de cabeça,
suspirar e dizer em um tom que não revelava a menor emoção: “Devo reconhecer
que me sinto um tanto incomodado”, e afrouxou a gravata. Não se alterou, nem
sequer fez expressão de desespero, não soltou nem uma lágrima ou expressou
indignação. Ele só se controlou e esboçou uma espécie de assentimento enquanto
seu olhar e a transpiração em sua testa diziam outra coisa. Paradoxalmente, uma das
causas de seu fracasso conjugal foi a dificuldade de expressar seus sentimentos de
maneira descontraída e aberta. A ideia de inibir as emoções a todo custo, seja por
medo de sentir ou por medo do que as pessoas vão dizer, torna-se um costume que,
com o tempo, leva à “dislexia emocional”, um analfabetismo afetivo pelo qual não
só deixamos de expressar nossas emoções, como também de lê-las e compreendê-
las.
Não estou promulgando a impulsividade cega e totalmente descontrolada de falar
sem nenhum tipo de contemplação, chorar toda hora e rir por nada. Só não
compartilho a ideia absurda de que a expressão franca e honesta dos sentimentos é
primitiva, pouco civilizada, imprópria e inconveniente. Imprópria para quem?
Inconveniente para quem? A capacidade de sentir a vida, no mais amplo sentido da
palavra, não é uma doença contra a qual é preciso criar imunidade: é saúde física e
mental. Você pode se deixar levar sem limites quando faz amor (gritar, se tiver
vontade), empolgar-se ao som de sua música preferida até as cinco da manhã (sem
incomodar o vizinho), chorar diante da Pietà de Michelângelo, gritar em um filme de
terror, dar um pontapé no carro que o deixou na mão pela quinta vez, abraçar
efusivamente um amigo, dizer quinhentas vezes “eu te amo” à pessoa amada,
aplaudir seu show preferido ou sentir saudade vendo a foto de um parente que se
foi para sempre. Você pode sentir o que quiser se não violar os direitos das outras
pessoas, se não se fizer mal e se isso o fizer feliz, mesmo que alguns constipados
emocionais não gostem e o censurem por isso.
É verdade que algumas emoções são desagradáveis e nefastas – nós, psicólogos,
sabemos bem disso –, mas, mesmo nos casos em que é preciso modificar um
sentimento negativo patológico, o primeiro passo é aceitar e reconhecer a existência
dele. Se realmente é fonte de sofrimento e mal-estar, é preciso deixar a emoção sair
para então tentar eliminá-la ou reestruturá-la. “Sentir” não é a atitude masoquista de
se resignar a aceitar as emoções que o prejudicam. “Sentir”, como defendo aqui, é
uma maneira de investigar e explorar o que gosta ou não; é a condição sine qua non
para descobrir novas maneiras de amar a si mesmo.

Resumindo: aceitar viver em um contexto de vida hedonista é gerar um estilo pessoal de


liberdade emocional. Um espírito desinibido e sem restrições irracionais favorecerá o
desenvolvimento de uma sensibilidade aguda e perceptiva, que, por sua vez, melhorará a
comunicação afetiva e a compreensão dos estados internos. Um estilo hedonista gera maior
sensibilização aos estímulos naturais que chegam ao organismo e amplia o leque de situações
potencialmente prazerosas.
O poeta francês Jacques Prévert mostra em um de seus poemas um exemplo de
liberdade emocional que, embora sancionado pelos “bons costumes”, nos faz
recordar aquele frescor e alegria de nossa infância. O título é “O mau aluno”:

Ele diz não com a cabeça


Mas diz sim com o coração
Diz sim ao que gosta
Diz não ao professor
Está de pé
É questionado
Todos os problemas são apresentados
De repente, é tomado por um ataque de riso
E apaga tudo
Os números e as palavras
As datas e os nomes
As frases e as armadilhas
E apesar das ameaças do mestre
Sob a zombaria das crianças prodígio
Com giz de todas as cores
No quadro negro da infelicidade
Desenha o rosto da felicidade.

Um caso de restrição emocional da alegria


Muitas pessoas estão tão preocupadas com os excessos que nem sequer são
capazes de desfrutar o mínimo. Conheci gente que impõe condições a tudo,
inclusive ao alvoroço e à hilaridade, porque muita alegria assusta (se estiver muito
feliz, logo terá de ir a um psiquiatra com uma placa dizendo que você é
hipomaníaco ou maníaco). O medo de perder o controle as transforma em
desmancha-prazeres. Há alguns anos, fui a uma festa de aniversário de um menino
de cinco anos; foi em uma linda casa de campo em um bosque, longe do barulho da
cidade. Tudo levava a crer que seria uma tarde magnífica, não fosse pelas ladainhas
“apaziguadoras” da mãe do aniversariante: uma mãe antialvoroço e controladora.
Quando as crianças passavam de certos decibéis e certa velocidade, ela levantava os
dois braços, parava em frente à turba infantil e, como um maestro, tentava induzir
um novo ritmo, obviamente mais lento e moderado. Suas palavras tinham muito de
sugestão hipnótica: “Ha, ha, ha... Calma... Calma...”. Isso exercia nas crianças um
efeito apaziguador durante o tempo em que paravam para olhar para a mulher, mas,
depois de dois ou três segundos de estupor, o turbilhão infantil retomava seu
impulso natural. Ao fim de algumas horas observando esse cabo de guerra, decidi
perguntar à mãe, muito educada e gentilmente, por que não deixava que as crianças
brincassem em liberdade. “Afinal de contas”, disse eu, “estamos no campo, e eles
não estão incomodando ninguém. Além do mais, é aniversário dele...”. Com uma
risadinha, ela respondeu: “Há um limite para tudo”. Eu repliquei: “Concordo, mas
o difícil é impor limites sem passar dos limites”. Ela repetiu com um tom
desagradável: “Todos os extremos são ruins”, o que causou manifestações de
aprovação entre alguns convidados. Eu lamentei profundamente que as crianças
não pudessem se divertir à vontade e desisti de tentar convencê-la. Mas certas
causas se defendem sozinhas, e foi isso que aconteceu. Mais tarde, quando pela
enésima vez ela interveio para reprimir a diversão, uma das crianças convidadas
olhou para ela com raiva e gritou: “Que idiotice! Se você não deixa a gente brincar,
por que então nos convidou?”. O silêncio foi total. A mulher esboçou um sorriso
constrangido e tentou diluir a franqueza do “pequeno Espártaco” perguntando
quem queria mais carne. Não voltou a interromper as crianças no resto da tarde.
Embora tenha tentado, não pude deixar de sentir aquela profunda satisfação servida
em bandeja de prata.
Muitos pacientes meus, vítimas de uma educação “antialegria”, adquirem o vício
de não desfrutar muito. Quando se sentem muito bem, um impedimento
psicológico evita o clímax e os incrusta na monotonia: “Vai que eu acabo
gostando...”. Temem a alegria porque a veem como perigosa e mundana. Como no
romance de Umberto Eco, O nome da rosa, no qual o padre cego impedia a leitura de
textos apócrifos sobre o humor religioso porque acreditava que, perdendo o medo
de Deus, acabava-se a fé. De qualquer maneira, felizmente, apesar dos esforços
dogmáticos, restritivos e fiscalizadores dos amigos da seriedade e da austeridade, o
júbilo continua irremediavelmente fazendo das suas, como naquela tarde de
aniversário.
AUTOELOGIO
O que dizemos a nós mesmos determina, em grande parte, nossa maneira de
sentir e agir. Constantemente mantemos diálogos internos e ruminamos sobre isso
ou aquilo de modo consciente ou inconsciente, pela simples razão de que a mente é
uma tagarela compulsiva. Essas conversas que o eu mantém consigo mesmo
começam na tenra idade e vão configurando, ao longo dos anos, uma linguagem
interna, que pode ser benéfica ou prejudicial para nossa vida, dependendo de seu
conteúdo. É impossível ficar em um silêncio interno prolongado, a não ser que
sejamos meditadores avançados com anos de prática. Você sempre terá algo a dizer,
bom ou ruim, construtivo ou destrutivo, enriquecedor ou deprimente.
Quando falamos de autoelogio referimo-nos a uma maneira positiva e/ou
construtiva de falar a si mesmo e se parabenizar quando acreditar ter feito as coisas
direito. Não é necessário fazer isso em voz alta e em público (pois seria malvisto e
duramente criticado), mas pode fazê-lo em voz baixa (ninguém vai saber e será um
idílio oculto consigo mesmo). Os autoelogios (“Parabéns, foi genial!”; “Gosto do
meu jeito de ser!”) costumam ser tão ou mais importantes para nossa autoestima
quanto os reforços externos. A vantagem, aqui, é que não são necessários
intermediários: você será seu próprio Cyrano de Bergerac e poderá adoçar seus
próprios ouvidos.

Três crenças irracionais que nos impedem de nos


parabenizarmos
Embora as causas possam ser muitas, há três fatores principais a considerar na
hora de explicar por que nosso diálogo interno não é autorreforçador:

a) Não mereço ou Não foi grande coisa. Típico das pessoas que veem na modéstia,
mesmo que falsa, e na subestimação das conquistas pessoais um ato de
virtuosismo. Na realidade, é um ato de hipocrisia na maioria dos casos, porque,
quando agimos corretamente, sabemos que o fizemos benfeito, sabemos que
foi resultado de um esforço, de uma habilidade, ou de nossa competência. O
sábio não nega a virtude que possui, o que faz é não buscar aprovação e
aplausos, mas não se engana. Se você é bom em alguma coisa, o que fazer?
Aceite, simplesmente! Se a comunidade lhe dá reconhecimento ou
congratulações honestas e francas, não os despreze nem dê a entender que
estão enganados. Não diga que não merece, agradeça e se cale! Outra
explicação se refere a pessoas cujas metas são tão inalcançáveis que o elogio e a
felicitação nunca se cristalizam. Sua crença irracional é: “Não é para tanto”. Se
esse for seu estilo, procure relaxar; você não tem de ganhar um prêmio Nobel
nem fazer façanhas quixotescas para se reforçar positivamente. Você sempre é
merecedor de seus próprios parabéns, se forem autênticos e estiverem a serviço
de fins nobres. Você não é um herói, apenas um sobrevivente, uma pessoa que
vive ou tenta viver bem. Isso não deveria lhe bastar para estar satisfeito consigo
mesmo?
b) Era meu dever ou Era minha obrigação. Essa atitude não é positiva para sua
autoestima. Fez bem seu dever? Alegre-se! Dê-se um “muito bem”! Seu primeiro
dever é para consigo mesmo. Dê-se um abraço! Até no mais vertical e autoritário dos
sistemas as pessoas são premiadas e elogiadas. Se seu diálogo interno for o da
obrigação absoluta, você não se sentirá no direito de se elogiar. Sentirá que é
um ato de covardia e deixará de lado o prazer de se dar uma ou outra medalha
simbólica.
c) Elogiar-se é de mau gosto. Como já disse, fazendo-o para si mesmo, ninguém vai
saber. Elogiar-se é uma necessidade que anda junto com a autoconservação:
sua mente fica mais segura e poderosa quando é mimada. É de mau gosto ter
gases, urinar, roncar, bocejar? Em público, muito possivelmente, mas a sós é
permitido fazer isso e qualquer outra coisa. O autoelogio, por definição, é um
ato feito de maneira encoberta, sem espectadores de nenhuma espécie; é só
para você. Cultivar o amor-próprio de maneira saudável (autocuidado) nunca é
de mau gosto. O castigo, ao contrário, é, porque atenta contra a dignidade
humana e o respeito próprio. Alimentar o ego? Isso depende de como fizer.
Por exemplo, você pode fazer exercícios físicos para melhorar sua saúde ou
para fazer parte do clube dos corpos “sarados”. Pode estudar muito para saber
ou para superar seus colegas de classe. Pode se elogiar para cuidar de sua mente
e fortalecer seu eu ou para cultivar seu narcisismo. Você escolhe.

Elogios externos que podem se transformar em autoelogios


Os mesmos elogios que costumamos dirigir aos outros podemos aplicar a nós
mesmos. Uma categorização que pode ajudá-lo a compreender melhor como
funcionam os elogios pode ser a seguinte:

a) Elogios impessoais. Amplamente fomentados pela cultura dos bons modos e da


etiqueta, são considerados sinais de boa educação e diplomacia. O que se
admira, nesses casos, são coisas materiais que o indivíduo possui, sem fazer
menção a nenhum atributo pessoal e sem se envolver: “Sua camisa é muito
bonita”, “Você tem uma casa linda” ou “Seu perfume é uma delícia”. Quem o
recebe, em geral, aceita o elogio ao objeto material que lhe pertence com um
“obrigado”. Isso não pode ser considerado uma expressão de sentimentos ou
afeto, é mais um ato de cortesia, sentido ou não. De qualquer maneira, não faz
mal algum tentar ser gentil consigo mesmo, elogiando as coisas materiais que
realmente lhe agradam... Parabenize-se por tê-las!
b) Elogios pessoais nos quais se envolve parcialmente a pessoa a quem se dirige o
elogio. Algumas pessoas se aventuram a dar um passo a mais na expressão do
que sentem e, além de se referir ao objeto, tangencialmente fazem referência à
pessoa: “Essa camisa fica muito bem em você”, “Esse penteado é ideal para
você” ou “Sua casa é uma demonstração de seu bom gosto”. Esse tipo de
elogio representa um pouco mais de exigência, mas o compromisso do emissor
da mensagem continua sendo pouco. Assim, pois, você pode se envolver em
seus próprios autoelogios: “Esta camisa fica bem em mim”, “Definitivamente,
minha casa demonstra que tenho bom gosto”, “Este biquíni fica ótimo em
mim”, “Hoje estou muito bem vestido”, “Sei escolher muito bem minhas
amizades”.
c) Elogios dirigidos a certas características da pessoa. Aqui, o compromisso de quem
elogia é muito maior. “Você é muito inteligente”, “Você tem um corpo lindo”,
“Sua voz é espetacular”, “Você é uma grande pessoa” ou “Você é um ótimo
amigo”. Como se pode ver, o elogio se dirige a traços, valores, características
físicas ou habilidades de outras pessoas. Veja de que coisas gosta em si mesmo,
elogie-se e, de quebra, agradeça-se, como faria qualquer pessoa que recebesse o
elogio.
d) Elogios dirigidos a características da pessoa com o envolvimento daquele que elogia. Poucas
pessoas são capazes de fazer esse tipo de elogio sem se sentir ridículas,
nervosas ou inseguras, a não ser que se trate de pessoas muito próximas com
quem se tenha uma relação de confiança. Aqui, quem elogia diz as sensações
que a pessoa lhe causa. Expressa um sentimento associado ao elogio. “Admiro
sua inteligência”, “Adoro seu corpo”, “Adoro seu sorriso” ou “Invejo sua
alegria”. A expressão de afeto dirigida a outras pessoas tem tantas condições e
requisitos em nossa cultura que se torna cada vez mais difícil dizer “eu te amo”
a alguém sem que se suspeite de uma segunda intenção. A expressão livre e
franca de sentimentos positivos para as pessoas que nos cercam não é fácil
quando a cultura é pouco expressiva. Porém, esses problemas de
constrangimento social não existem na hora de elogiar suas próprias
características. Dizer: “Gosto dos meus olhos”, “Adoro ser inteligente”,
“Minhas pernas me fascinam” ou “Sou uma boa pessoa” não gera riscos nem
rejeição ou mal-entendidos, visto que isso depende só de você.

A conclusão é evidente: A autoexpressão de sentimentos positivos nos faz sentir bem,


simplesmente porque tratar bem a si mesmo é uma sensação agradável.

O que fazer para elogiar a si mesmo?


O passo mais importante é conectar-se a um processamento controlado, ou seja,
ter consciência de seu diálogo interno e do que diz a si mesmo. Você pode
descobrir que não se diz nada (o sucesso passou despercebido) ou que se castiga (o
sucesso foi insuficiente para suas aspirações): “Devia ter feito melhor”.
Lembro que, aos vinte anos, meu nível de autoexigência em questões acadêmicas
chegava a limites absurdos. Nessa época, eu fazia engenharia eletrônica, uma
carreira que abandonei quando decidi ser sincero comigo. A questão é que, apesar
da pouca vocação para cabos e chips, eu me deprimia profundamente quando
minhas notas ficavam abaixo de nove ou dez. Enquanto meus colegas festejavam
um sete em álgebra, eu me castigava (verbalmente) por um oito. A insatisfação com
meu próprio rendimento não dava espaço para o autoelogio, porque, sob meu
ponto de vista rígido, era absurdo que um seis ou um sete merecessem tanta
comemoração. Hoje, aprendi o indiscutível: posso me parabenizar pelo que quiser, visto
que cada um determina seus padrões. Minha autoexigência excessiva era prejudicial para
minha saúde mental: não só me gerava estresse, como também insatisfação e
tristeza.
O método seguinte o ajudará a adquirir o saudável costume de se elogiar:

a) Como já disse antes, o primeiro passo é ter consciência de como trata a si


mesmo e do que se diz. Isso se consegue mantendo um registro detalhado
durante uma ou duas semanas, anotando o comportamento passível de
autoelogio e aquilo que você se diz depois de realizá-lo.
b) O segundo passo é prestar atenção, já sem anotar nada, e ver se você se elogia
ou não quando faz alguma coisa boa. Nas etapas iniciais, o autoelogio deve ser
em voz alta (a sós) para que você possa se ouvir: “Isso foi ótimo!”, “Genial!”
etc.
c) O terceiro passo consiste em administrar o autoelogio em voz baixa, até que se
transforme em pensamento ou em linguagem interna: fale consigo em silêncio,
pense bem de si, expresse, sussurre a si mesmo.
d) O quarto passo é treinar bastante para que, por meio da prática, o ato se torne
automático, como fazemos quando aprendemos a dirigir ou a digitar.

Vou insistir em um ponto: o autoelogio, como qualquer reforçador, deve ser


utilizado de maneira discriminada; ou seja, deve ser seletivo para que não se
desgaste e perca seu poder. Você escolhe que conduta vai autoelogiar, mas, se
quiser manter sua capacidade motivadora, não faça isso compulsiva e cegamente.
Não desperdice. Elogie-se quando achar que vale a pena, como um presente
especial. Não é uma dádiva que você deve se dar sem motivo, e sim um presente
que você acha que merece.

Um breve resumo sobre o autoelogio


Você tem a capacidade inata de falar a si mesmo e de se compreender. Esse
diálogo encoberto, ao qual só você tem acesso, tem uma enorme influência sobre
sua maneira de agir e de sentir.

• Essas autoverbalizações têm o poder de fazê-lo se sentir bem (por meio do


elogio, do trato respeitoso) ou mal (castigo, deboche, menosprezo e falta de
respeito). Quando diz a si mesmo: “Sou capaz e, portanto, devo confiar em
mim”, está se elogiando. Se você diz: “Sou a pessoa mais ridícula do mundo”,
está faltando ao respeito consigo e se tratando mal.
• Se o autoelogio se segue a um comportamento positivo, este se fortalecerá e
terá maior probabilidade de se repetir no futuro. Aplique-o a todas as condutas
que achar que valem a pena e que o façam crescer como ser humano.
• Não se elogie pelo que for ruim ou por comportamentos ignóbeis; dessa
maneira, só alimentará o esquema negativo de fundo. Elogiar-se por ferir uma
pessoa, tirar uma nota ruim ou trair um amigo não o faz melhor, e sim pior.
• Por fim, o autoelogio tem vantagens que lhe são próprias: é rápido, econômico,
pode ser aplicado quando e onde a pessoa quiser, não pode ser visto (mas é
sentido), não é criticável pelos estranhos, é de uso exclusivo pessoal e, utilizado
com cautela, não se desgasta.
CONCEDER-SE UM PRAZER E PREMIAR-SE
É outra maneira de expressar afeto em relação a si mesmo. A autorrecompensa é
o processo pelo qual administramos a nós mesmos estímulos positivos (coisas ou
atividades) que nos agradam e nos fazem sentir melhor. Embora pareça estranho,
algo tão óbvio, intrínseco ao ser humano, torna-se confuso e complicado para
muitas pessoas.
Um paciente meu, um senhor de idade avançada que sofria uma depressão
moderada, odiava ficar em casa e não sabia por quê. Sua queixa era reiterada:
“Entro em casa e fico deprimido, irritado, de mau humor!” Por fim, decidi ir
pessoalmente conhecer o lugar onde o homem morava, a fim de encontrar algum
motivo para explicar seu mal-estar. Ao explorar a casa, descobri varias razões,
algumas aparentemente sem importância, mas que de fato não favoreciam o bem-
estar do idoso.
Muitas delas, inexplicavelmente, estavam ali havia anos e conviviam com ele
como se fossem desígnios negativos inexoráveis, impossíveis de eliminar. Por
exemplo: na sala de jantar, ao lado da mesa, havia na parede principal um enorme
quadro que representava quatro cavalos aterrorizados, empinados diante de uma
grande tempestade que recordava o Apocalipse. A gaveta do criado-mudo (onde
guardava seus óculos, remédios etc.) estava mal ajustada e, quando queria abri-la, ela
quase sempre acabava no chão. A cor das paredes do dormitório era um mostarda
intenso (cor que ele dizia não suportar). A maioria das toalhas que utilizavam na
casa estava velha e dura (“Preciso comprar toalhas”, prometia-se sempre); as
mantas eram curtas, e seus pés gelavam à noite; odiava nata no leite, mas os
coadores deixavam que passasse; a cortina da biblioteca não era suficientemente
transparente e dificultava sua leitura; um pequeno rádio, que o conectava ao
mundo, estava com os alto-falantes quebrados; e a lista continuava. O
surpreendente era que o homem tinha dinheiro e meios para mudar essas coisas,
mas não o fazia. Havia se acostumado a sofrer com os pequenos e insuportáveis
desconfortos de seu entorno ou, em outras palavras: havia perdido a capacidade de
autorreforço. Todos temos algo do meu paciente idoso, e às vezes afundamos tanto
no sofrimento que chegamos a considerar que esse é nosso estado natural. E não
me refiro a dores terríveis e impossíveis de controlar, e sim a questões simples e
cotidianas que poderiam ser modificadas em um piscar de olhos.
Alguns aceitam conviver com coisas que não querem ou que lhes desagradam
simplesmente porque se sentem culpados ao abandoná-las. Tenho certeza de que
em seu armário há muita roupa de que você não gosta e que não usa, mas que
continua ali: sapatos fora de moda, blazers de quando usava dois números a menos,
camisas puídas e coisas do gênero. Todos sofremos um pouco daquilo que se
conhece como síndrome de Diógenes e guardamos coisas inúteis ou absurdas
(talvez, esperando a terceira guerra mundial, ou sabe-se lá o quê). Uma amiga que
tem esse costume ainda guarda cuidadosamente umas toalhas de mesa amareladas e
uma travessa horrível que ganhou no dia de seu casamento e que nunca usou nem
usará. Sua cama range tanto que acorda cada vez que se mexe. A razão que dá para
não jogar a cama o mais longe possível é a seguinte: “Não é tão terrível, posso
suportar”. A pessoa não deveria viver o “menos terrível”, e sim o melhor possível!
Não é uma questão de ênfase no quão horripilante ou suportável é a coisa, e sim de
filosofia de vida. E isso nos leva ao ponto seguinte.

A cultura do avarento, ou quando economizar se torna um


problema
Muito perto da síndrome de Diógenes encontra-se o culto à economia. Esse
amor desenfreado e obsessivo por economizar a qualquer preço nos faz acumular
uma infinidade de bobagens. Há um ditado que diz: “Guardar muito nos faz viver
como pobres e ter um enterro de ricos”. Não estou defendendo o desperdício e a
irresponsabilidade no manejo dos bens pessoais; a ideia não é viver alguns anos na
opulência e os outros na miséria mais absoluta.
O espírito da economia é bom quando ela é feita com prudência e moderação, e
sem transformá-la em um fim em si mesmo; trata-se de uma atitude previdente. Ter
por ter coloca você do lado dos avaros; e gastar por gastar, do lado dos
esbanjadores. Conheço pessoas tão econômicas que colecionam dinheiro como se
fossem selos postais.
Em muitas ocasiões, tendo o recurso e a disponibilidade, hesitamos em nos
conceder um prazer. Uma de minhas pacientes gostava muito de morango com
creme de leite, mas, cada vez que comia uma porção, ainda ficava com vontade.
Inexplicavelmente, nunca havia comprado duas porções nem três nem quatro.
Quando sugeri que se desse esse prazer, sentiu-se libertada. Lembro que me disse:
“Posso realmente fazer isso?” A razão? O medo de se exceder. Outro paciente, com
problemas de autoestima muito acentuados, costumava comentar que havia trazido
da Itália umas azeitonas muito especiais e que gostaria de comê-las. Cada vez que
abria a despensa, via os potes grandes cheios de azeitonas pretas e se continha. O
problema era que cada vez que insinuava a sua mulher que poderiam comê-las, ela
olhava para ele com espanto porque não achava que fosse uma “ocasião especial”
que justificasse prová-las, visto que eram caras e de uma classe muito seleta. Em
uma consulta, vendo sua preocupação, eu sugeri que quebrasse seus esquemas (e os
de sua mulher), pegasse um dos potes e comesse as azeitonas, pondo nisso todo o
prazer possível; que degustasse uma a uma, sem culpa nem arrependimento, como
uma criança levada quebrando alguma norma. Lembro que o homem me olhou
com grande felicidade, como se eu houvesse lhe dado permissão, e acrescentou:
“Obrigado, obrigado!”. Quando sua mulher brigou com ele por ter comido dois
potes inteiros sozinho, o homem respondeu: “Foi sugestão do médico”. A reflexão
é a seguinte: se você preferir entregar seu dinheiro às farmácias, aos psicólogos e
aos médicos, não se dê prazeres; reprima-se.
A filosofia avarenta de quem se apega muito ao dinheiro e às coisas não permite
o autorreforço. O avaro sempre verá a recompensa como desnecessária, visto que
ela não produzirá nada tangível. “Não é necessário, nem vital, nem de vida ou
morte, será seu argumento.” Mas qual é o benefício? Prazer, puro prazer.

Você não é exceção: precisa se recompensar


Você precisa se recompensar com coisas e atividades. Assim como o autoelogio,
a recompensa fortalece sua autoestima e não permite que a autopunição e a
insatisfação prosperem em sua vida. É inútil tentar uma posição de dureza e
insensibilidade, como se fosse um estoico antiquado. A falta de autorreforço não o
deixará psicologicamente mais forte, o deixará infeliz. Quando fizer algo que tenha
valido a pena, ou simplesmente quando tiver vontade, gratifique-se. Tenha, de vez
em quando, uma atitude de agradecimento e amor para com você mesmo.
Pense por um momento em caprichos que já teve. Analise com cuidado quantos
deles não pôde realizar, simplesmente porque decidiu que não. Na realidade, não é
que não tenha podido, e sim que não tenha decidido se permitir. Não teve coragem
de se soltar e abandonar momentaneamente a impassível atitude econômica e
contemplativa daquele que deixa para amanhã o que deveria fazer hoje. Os
autorreforços materiais, como comida, roupa ou joias, não são os únicos. Gratificar-
se implica a autoadministração de qualquer coisa que o faça se sentir bem, e que,
obviamente, não seja nociva para sua saúde, para os outros ou para o mundo que
habita. Fazer atividades de que gosta, ou deixar de fazer algo desagradável, é outra
forma de se premiar. Faça a si mesmo estas três perguntas, de maneira sincera: Com
que frequência você se premia e se gratifica? Quanto tempo por semana dedica a
sua pessoa? Construiu um espaço motivacional agradável a seu redor?
Quem sabe se amar deixa sua marca em todas as coisas. Seu território é traçado
por ele e para ele. Comece pelo básico: avalie alguns aspectos de seu ambiente e
tente remodelar o que lhe desagrada. Pense, por exemplo, em sua casa, em sua vida
social e em seus momentos de lazer. Sua casa está ajustada a suas necessidades?
Quantas coisas o incomodam e, apesar disso, ainda permanecem com você? O que
gostaria de mudar em seu quarto? Quantos “amigos” não são amigos de fato, mas
continuam ali, interpretando um papel? A quantos lugares você vai sem querer ir?
Quantas coisas come que não lhe apetecem, podendo comer diferente? Você
planeja sua diversão? Quanto tempo faz que não vai a lugares de que gosta
simplesmente porque “não tem tempo” ou “não é o momento”? Enfim, pergunte a
si mesmo se o que construiu a seu redor contribui para sua felicidade ou para seu
enterro em vida. Muitos dirão que não é fácil, que o século xxi nos leva muito
rápido, com estresse, consumismo e crises de todo tipo. Com mais razão, então,
devemos nos “refugiar” em um estilo de vida no qual compensemos a adrenalina e
geremos imunidade com prazer, mesmo que simples. Não é preciso ser milionário
para isso! A autorrecompensa ajuda nisso e está em suas mãos. Aplique-a.
Não aos cultos repressivos
Como vimos até aqui, a autoestima pode ser fortalecida por meio de diversos
recursos. Porém, por influência da aprendizagem social, foram sendo criados
obstáculos a esses caminhos de crescimento devido a certas crenças irracionais.
Criamos uma espécie de veneração por um conjunto de atributos que consideramos
indispensáveis para nos sentirmos “boas pessoas”. Achamos que essas
características tipicamente humanas nos dignificam e enaltecem; colocam-nos acima
de outras espécies vivas e nos permitem andar pela vida de maneira mais digna.
Porém, apesar da boa intenção de nossos antepassados, e sem duvidar de que
essas virtudes existem, algumas dessas ideias foram levadas a extremos prejudiciais
para nossa própria autoestima e sensibilidade. Essas ideias ritualistas são: o culto ao
hábito, o culto à racionalização, o culto ao autocontrole e o culto à modéstia. Todas elas
podem se transformar em inimigas da autoestima. A exaltação desproporcional
dessas quatro crenças nos leva, cedo ou tarde, ao menosprezo e à subestimação
pessoal.
Se seguir essas crenças ao pé da letra, você será uma pessoa estável e “adaptada
ao meio” e às expectativas que a sociedade e os bons costumes esperam de você.
Mas uma coisa estável também pode ser imóvel, invariável, inabalável, inalterável,
definitiva e constante. Algo como uma árvore ou um monumento de granito. Seu
uso indiscriminado só o levará à “incultura” do sentimento e à incapacidade de
expressar o que pensa e sente.

• O culto ao hábito o impedirá de inovar e descobrir outros mundos. Não lhe


possibilitará mudança em nenhum sentido, e irremediavelmente você ficará para
trás. O universo se reduzirá a um pacote de condutas, todas previsíveis e
estabelecidas de antemão. Habituar-se é se acostumar; insensibilizar-se é
endurecer. Ser duro é útil, às vezes; por exemplo, no combate, quando é preciso
ter espírito de luta e ser valente ou se adaptar a situações complexas; mas fazer
disso um estilo de vida é se anular como pessoa. Você confundirá o novo com
o velho, irá para o Norte quando, na realidade, quer ir para o Sul. Como pode
recompensar a si mesmo se perdeu o dom da sensibilidade e da surpresa?
• O culto à racionalização o transformará em uma espécie de computador
ambulante. Você filtrará absolutamente todo sentimento para avaliá-lo e saber
se é conveniente, adequado ou justificado. O procedimento servirá para evitar
as emoções ruins e mantê-las à distância, mas, se exagerar e quiser explicar a si o
que não deve ou não pode explicar, vai distorcer as emoções prazerosas.
Algumas vezes, os porquês sobram. Por que gosta de sorvete de baunilha ou de
chocolate? Provavelmente você não tem ideia, e o mais inteligente seria não se
aprofundar nisso, a não ser que queira transformar a experiência de degustar um
delicioso sorvete em um problema existencial. O sentimento amoroso será uma
partida de xadrez ou um problema que se deve resolver; o ato sexual, a
justaposição de dois órgãos reprodutores; um belo amanhecer ou entardecer
será visto como a rotação da Terra em relação ao Sol etc. Nem tudo precisa de
uma explicação racional, assim como nem tudo deve ser tomado com
sentimentalismo de novela de TV. Amo minhas filhas porque as amo, não
porque são boas, bonitas ou inteligentes. Amo e ponto: o que menos me
interessa nesse amor são os porquês. Os questionamentos mal situados
impedem uma percepção completa e estruturada. Certas coisas não são feitas
para que se reflita sobre elas, e sim para que se vibre com elas (insisto: se não
for prejudicial para você nem para ninguém). Como poderá recompensar a si
mesmo se tudo tiver de passar pela dúvida metódica e pela falta de
espontaneidade?
• O culto ao autocontrole será um dique de contenção de todas as suas emoções e
sentimentos. Você vai ter tanto medo de se exceder que vai se esquecer de
sentir e de ter prazer; pouco a pouco, vai se transformar em um constipado
emocional. Como já disse antes, um autocontrole moderado e bem
discriminado é imprescindível para resistir a mais de uma tentação destrutiva.
Porém, o segredo para não nos afastarmos da felicidade é evitar a contenção
absoluta que alguns defendem. Você nunca chora? Então, precisa de ajuda.
Nunca perde o controle? Então você é um Dalai Lama iluminado ou um
reprimido à beira de um ataque de nervos. Não deixa a ternura aflorar? Então,
você precisa procurar um terapeuta. Como seu parceiro sabe que você o ama?
Ele deduz, ou você demonstra? Ri a plenos pulmões ou, na melhor das
hipóteses, apenas sorri? Precisa de ajuda. A vida é uma tensão interna entre os
“quero” e os “devo” e “não devo”, e a sabedoria está em manter o equilíbrio
necessário para discernir quando soltar o freio de mão e quando não; quando
ceder e quando ficar firme em seus princípios. Quero insistir que não acredito
que um autocontrole zero seja a melhor saída, mas me preocupa na mesma
medida que se tente obter 100% de autocontrole o tempo todo e toda hora,
coisa típica dos perfeccionistas e das mentes rígidas. A indolência e o laissez-faire
generalizado tornam você vulnerável a qualquer vício; o culto ao autocontrole
não o deixa respirar, rouba vida. Como recompensar a si mesmo se estiver
encapsulado e vir o sofrimento como algo que se deve aguentar (ou algo até
digno de orgulho), e não eliminar?
• O culto à modéstia o levará a não valorizar suas vitórias e esforços. Não falo de
alardear suas conquistas e jogá-las na cara dos outros e se gabar delas; refiro-me
ao reconhecimento do próprio potencial, sem pretextos nem desculpas. Se
esconder seus pontos fortes buscando a aprovação, será duplamente irracional:
negará a si mesmo seu lado bom e precisará da anuência dos outros para
funcionar. Você tem vergonha de seus pontos fortes e virtudes? A humildade
nada tem a ver com sentimentos de desprezo ou baixa autoestima: o humilde
estima a si mesmo em sua justa medida. Em “sua justa medida”, o que significa nem
de maneira desmedida nem desconhecendo seus próprios pontos fortes. A
virtude não é ignorância de si mesmo. Se a modéstia extrema for interiorizada e
se incrustar na mente como um suposto valor, teremos dificuldade para deixar
que nossas capacidades avancem de maneira positiva. Alguns até se sentem
culpados ou constrangidos por ser muito bons em alguma atividade e
desenvolvem o que se conhece como “falsa modéstia”, que é pior, porque
implica mentir sobre si mesmo. Sem vaidade nem egolatria, deixe que suas
virtudes sigam seu curso: não as disfarce, desfrute-as, aplique-as com paixão,
mesmo que se notem. Como recompensar a si mesmo se você esconder seus
valores?

Que seu tradicionalismo permita algumas mudanças, que sua modéstia deixe
escapar um ou outro autorreconhecimento, que sua razão, de vez em quando, dê
lugar às emoções, que seu autocontrole lhe permita um deslize ou que seu
orçamento estoure de vez em quando. Dê-se liberdade e um espaço para se mover.
Dê a si mesmo licença para agir.
Dizer “não” aos cultos impostos significa reconhecer que, se determinados
valores forem levados muito longe, afetarão sua autoestima e o deixarão mais
aberto a uma infinidade de transtornos. Significa que não é conveniente levar muito
a sério as crenças acima mencionadas e transformá-las em dogmas de fé; você se
sentirá um pecador cada vez que não as cumprir ao pé da letra. Vai se sentir
culpado por amar a si mesmo ou por ser feliz.
MELHORANDO O AUTORREFORÇO
O seguinte guia pode ser útil para aproximá-lo de um estilo de vida que lhe
permita se reforçar ou se premiar com determinação e alegria:

1. Tire tempo para aproveitar


A vida não foi feita só para trabalhar. Trabalha-se para viver, não o contrário.
Seus momentos de descanso, de lazer e de férias não são um desperdício de tempo,
e sim um investimento em sua saúde mental. Não postergue tanto a satisfação
esperando “o dia adequado”: não existe um tempo para o amor, como não existe
um tempo para amar; você define isso de acordo com suas necessidades. Não faça
da responsabilidade uma obrigação extenuante e dogmática, não afunde nela
irracionalmente: há momentos para a obrigação sisuda e inadiável, e há outros em
que sobram os “deveria”, as regras e as exigências sem sentido. Não tenha medo de
aproveitar: sua alegria é a alegria do universo, dizem os místicos. Deus está feliz
quando você está feliz.

2. Decida viver de maneira hedonista


Aceite que a busca do prazer é uma condição do ser humano. Ser hedonista não
é promulgar a vagabundagem, a irresponsabilidade ou os vícios que atentem contra
sua saúde; é viver intensamente e exercer o direito de se sentir bem e espremer cada
momento agradável ao máximo. Seria desumano consigo mesmo negar-se essa
possibilidade. Dê um tempo e pense no que o motiva de verdade, do que gosta ou
não, e se durante esse andar monótono e plano não se esqueceu de se conectar com
suas emoções positivas. Recorde quantas vezes, desnecessária e irracionalmente,
evitou buscar o prazer por acreditar que não era certo ou por medo de se exceder.
Ou pior: quantos momentos de felicidade perdeu por acreditar que não os merecia?
Busque dentro de si a paixão esquecida, aquela que não se extingue e que dá um
jeito para que seu ser faça das suas. Se potencializar suas experiências prazerosas,
novos horizontes se abrirão, e você ficará imune à pior das doenças: o tédio.
3. Não racionalize tanto as emoções agradáveis
A ideia não é negar a importância do pensamento; de fato, sua maneira de pensar
tem influência direta sobre seus sentimentos. O problema é que, se você tenta
“explicar” e compreender os sentimentos o tempo todo, você os obstrui
irremediavelmente. Atrapalha sua fluidez, inibe-os, distorce-os e impede seu
desenvolvimento normal.
Saia um dia para caminhar com a simples ideia de ouvir os sons que o lugar onde
você habita oferece. Você ouvirá de tudo: rangidos, vozes distantes, o ruído de um
galho movido pelo vento, um carro se aproximando, alguns pássaros, a brisa. Um
idioma inteligível, mas inadvertido por uma mente especializada na linguagem
falada. Nos trajetos diários, observe os detalhes das coisas que convivem com você:
uma placa, uma porta, o tom desbotado das calçadas, um arbusto, o rosto das
pessoas, a agitação natural do mundo ao qual pertence. Você está nele! Quando
olhar, não avalie de maneira inquisitiva; apenas olhe e se deixe levar.
Quando se sentar para comer, aproveite sua comida como se você fosse um
gourmet especialista sem título que o avalize: só o sabor, somente o sabor.
Entretenha-se um pouco mais na degustação dos alimentos; saboreie-os e deixe-os
na boca até que suas papilas os assimilem. Comer não é mastigar e engolir! Não
coma só para não morrer de fome; saboreie e estimule a sensação do paladar,
mergulhe nele, sinta-o de dentro. Não precisa fazer um banquete: qualquer
alimento, por mais simples que seja, pode se transformar em um manjar.
Da mesma forma, baixe os limiares de resistência e recupere seu olfato. Cheirar
não é falta de educação; e não me refiro só a sentir o aroma de um bom vinho ou
de um perfume de marca, e sim a tudo aquilo que valha a pena; por exemplo, a
comida (embora digam que não é correto), as flores, o cabelo, a brisa, os cavalos, o
amanhecer, a fumaça, o novo, o plástico, o limpo, o sujo. O olfato é um dos
principais recursos das pessoas sensuais e sibaritas. O universo inteiro é sensual,
tudo entra por seus sentidos, tudo explode diante de você para que se aproprie
disso pelo canal que for.
Por fim, seu corpo inteiro possui a faculdade de sentir por meio do tato. Sua pele
é o maior dos sensores. Infelizmente, devido a sua relação com a atividade sexual
humana e à atitude assumida por muitas religiões, foi historicamente o sentido mais
castigado e censurado. Não tema sua pele, ela o colocará em relação com um
mundo adormecido por conta do uso da roupa, da vergonha e dos tabus. Ela lhe
permitirá estabelecer um contato mais direto e às vezes mais impactante do que
aquele produzido pela visão ou pela audição, visto que sua estrutura é mais
primitiva e intensa (ninguém abraça à distância, por mais que a Internet insista). O
sentido do tato não só lhe possibilita tocar uma pessoa, uma superfície lisa ou
áspera, algo frio ou quente, como também ser tocado por outro ser humano ou por
qualquer objeto. A pele não tem um “significado ofensivo e vulgar” como querem
mostrar os puritanos (eles também gostam de tocar e de ser tocados, embora em
público batam no peito com orgulho). Quando acariciar alguém, concentre-se no
que sente, no toque, no contato direto; deixe-se levar pela química, por cada
membrana e cada poro que se abre e responde maravilhosamente ao estímulo que
os provoca. Brinque com seus dedos devagar, deslize-os, apoie-os, retire-os; é
fisiologicamente delicioso. Caminhe descalço, role na grama, abrace uma árvore
solitária, e depois, quando tomar banho, não se seque de imediato, fique
observando a água evaporar de sua pele, sinta-a correr lentamente. Saia um dia para
caminhar na chuva, sem guarda-chuva e sem rumo fixo; procure algo que jamais
tenha tocado e toque. O contato físico é a melhor maneira de comunicar afeto: não
precisa falar nem justificar nem elaborar nem explicar nada. Tudo o que você tem a
dizer fica dito quando toca genuinamente.

4. Ative o autoelogio e ponha-o para funcionar


Você tem medo de se parabenizar? Acha arrogante ou pueril? Ou, talvez, acha
que não merece? Pois, se não o fizer, estará se descuidando psicologicamente.
Autocuidado não é apenas ir ao médico e fazer um checkup anual. Todos somos
merecedores do reforço, não importa de onde venha; recompensar-se renova o
espírito, e o organismo se anima a seguir em frente vivendo melhor. Quando
conseguir algo que para você era difícil, ou quando se atrever a vencer um medo
que o incapacitava, ou quando tiver enfrentado uma situação na qual se sentia
inseguro, não aja como se nada houvesse acontecido! Abrace a si mesmo, dê-se um
beijo e reconheça-se como o protagonista! Sussurre algo gratificante em seu ouvido:
“Muito bem! Você conseguiu!” ou “Fui corajoso!”, ou ainda “Fui demais!”. Não
tenha medo, elogiar-se de maneira justa e merecida não o transformará em um
narcisista insuportável; simplesmente fará de você uma pessoa mais forte e mais
segura: contribuirá para que você funcione melhor consigo mesmo. Se não se parabenizar
quando fizer algo que valha a pena ou quando atingir um objetivo importante, seu
eu se sentirá relegado. Parece estranho? Pois não é. Acontece todos os dias: existem
pessoas que se odeiam, que não se suportam, que se sabotam, que vivem em
discórdia com o que são, que não têm confiança em si mesmas, assim como poderia
acontecer em qualquer relação interpessoal. Elogiar a si mesmo é estabelecer uma
boa relação intrapessoal. Você deve escolher: seu próprio ser contra si mesmo (guerra
interna) ou seu próprio ser sendo amigo de si mesmo (paz interior). Então, não
hesite: parabenize-se até esgotar todos os seus recursos! Reconcilie-se consigo
mesmo!

5. Seja modesto, mas não exagere


Não esconda seus atributos nem os renegue (“Desculpe, sou inteligente”; “Não
quis ofendê-lo com minhas conquistas”). Não é culpa sua se você tem alguma
virtude ou ponto forte que o faz vencer em algum aspecto da vida (não pense em
medalhas ou grandes glórias, e sim naquelas pequenas vitórias do dia a dia que dão
sentido à vida e passam despercebidas). Além do mais, que outra saída você tem?
Perder de propósito? Esconder-se atrás da falsa modéstia? Negar a si mesmo?
Lembre que a modéstia e a humildade não consistem em negar seus dons ou
menosprezá-los, e sim em senti-los seus, sem se apegar a eles e sem esperar
aplausos. Desfrute de si mesmo e use esse talento natural que o define, qualquer
que seja. Faça uma lista de tudo, psicológico e físico, de que gosta em você e
coloque-a em sua casa, no carro, no escritório. Não se esqueça de quem você é:
você não pode se esconder de si mesmo. Heráclito e muitos outros sábios através
dos tempos afirmaram que era necessário permanecer o mais anônimo possível,
mas, com isso, não quiseram dizer que devíamos ser ignorantes de nossas próprias
qualidades. Anônimos para o espetáculo, para a aprovação social. Anônimos para
que os cantos de sereia não adocem seus ouvidos e inflem seu ego. Mas, quando
estiver cara a cara com sua essência, você não tem nada a esconder.

6. Agrade a si mesmo
Conheço pessoas que, quando se dão um presente, sentem-se tão culpadas que
depois sofrem um tempo para compensar e pagar o “pecado” do autorreforço.
Entram em crise por se sentir bem! Não falo de ser viciado em prazer e de gastar o
dinheiro que não se tem ou fazer o que não se deve fazer, falo de nos cercarmos de
coisas de que gostamos. Pessoas mesquinhas consigo mesmas costumam ser
também com os outros e por isso vivem amarguradas. Dê-se um presente sempre
que puder (como puder). Não espere o Natal para dar um presente a si mesmo ou
às pessoas que ama. Você passa por uma quitanda e vê umas maçãs lindas e
atraentes e sabe que seu companheiro adora: por que esperar o dia em que for ao
mercado? Presenteie-se presenteando a quem ama. Leve uma lembrancinha: o
sorriso do outro o contagiará. Assim como devemos ser atenciosos com as pessoas,
devemos ser conosco de vez em quando.
Dê presentes que não sejam necessariamente coisas físicas. Por exemplo: “Hoje
vou me dar de presente uma caminhada de meia hora pelo parque”, “Amanhã, vou
visitar um amigo” ou “Vou ficar o dia inteiro de pijama, sozinho”. Agradar-se é ser
emocionalmente inteligente. Conheço uma pessoa que, quando está bem, sente-se
estranha, como se não fosse ela. Está tão acostumada a sofrer que se sentir bem a
despersonaliza e angustia, como se seu estado natural fosse o sofrimento. Agradar-
se é a conduta de autocuidado mais elementar e necessária.

7. Lute contra a repressão psicológica e afetiva


Grave isto em sua cabeça: não existe felicidade quando a repressão se instala em
sua mente. A contenção generalizada deixará sua vida pequena, roubará de você a
possibilidade de descobrir e de se descobrir. Solte-se! Deixe que sua criatividade
flua, seu coração, sua mente! Se as pessoas não gostam de vê-lo emocionalmente
livre, problema delas. Quanto tempo faz que você não é espontâneo e
verdadeiramente expressivo? Ser reprimido, hipercontrolado, autocrítico,
perfeccionista, solene, grave, severo, racional ou intelectual até a medula é uma
síndrome, não um valor. Tenha paixão por viver, faça amor com a vida. Um de
meus pacientes faz sexo com sua mulher nos mesmos dias do mês, na mesma
posição e no mesmo lugar. Muitos “mesmos”. Obviamente, seus orgasmos e os de
sua mulher são sempre iguais: repetitivos, previstos e sem-graça. Até o maior dos
prazeres pode perder força se nos habituarmos a ele e formos rotineiros. “Repetir a
repetição” até se fartar e se resignar a ela: esse é o segredo da infelicidade. Um
pouco de loucura, uma viagem sem programar, um amor inesperado, o poema que
escrevemos sem ser poetas, a caradura de espirrar forte em uma biblioteca porque o
impulso pode mais que a norma; enfim, transgredir de maneira inofensiva. Sei o que
está pensando: “Adultos não brincam”. Mentira! Fazemos isso mentalmente o
tempo todo: fantasiamos, sublimamos e morremos de vontade de voltar a correr
sem rumo por qualquer lugar, de ter amigos imaginários, de rir até fazer xixi.
Invejamos as crianças, sua naturalidade, sua incrível franqueza; essa é a verdade. A
boa notícia é que sua essência não morre; dorme, mas não desaparece. Você só
precisa acordá-la, mexer o corpo e a alma para que ela aflore e torne a fazer das
suas.
Rumo a uma boa autoeficácia

Ninguém pode fazê-lo se sentir inferior


sem seu consentimento.
Eleanor Roosevelt

Como vimos na primeira parte, o autoconceito pode ser maltratado devido à


armadilha de estabelecer metas irracionalmente altas e com uma ambição
desmedida. Ou seja, funcionar em um estilo muito competitivo, autocrítico e rígido
em relação ao próprio rendimento levará ao fracasso adaptativo: o resultado será
um autoconceito apagado e frágil.
Porém, não exigir nada de si mesmo é tão ruim quanto exigir-se demais. O
extremo oposto de quem busca o sucesso a todo custo para se sentir realizado são
aquelas pessoas cujas metas são pobres, hesitantes e inseguras, que desfalecem
diante do primeiro obstáculo e se mostram indecisas perante os problemas. Assim
como a autoexigência desmedida destrói e castiga a autoestima, a falta de ambição
impede o crescimento psicológico: é tão ruim ser obsessivo quanto jogar a toalha
antes do tempo. Os desafios são o principal alimento do qual o autoconceito se
nutre e dão sentido à vida. Se você não tiver metas, se elas forem muito pequenas
ou se não enfrentar os problemas, seu eu não poderá se desenvolver de maneira
adequada: forçar o motor é tão ruim quanto mantê-lo desligado. Um dos principais
inimigos para criar um bom autoconceito é a falta de confiança em si mesmo, a
mania de criar expectativas de fracasso ou pensar que não se é capaz. Se não confiar
em si mesmo, não poderá se amar.
Dá-se o nome de autoeficácia à confiança e convicção de que é possível atingir os
resultados esperados. Uma baixa autoeficácia o levará a pensar que você não é
capaz, e uma alta autoeficácia o fará se sentir seguro para atingir seus objetivos ou,
pelo menos, lutar por eles. Se você não acreditar em si mesmo, entrará em um
círculo vicioso de mau prognóstico: seus desafios pessoais serão pobres, evitará enfrentar os
problemas e desistirá diante do primeiro obstáculo que aparecer, o que, por sua vez, reforçará sua
baixa autoeficácia (“não sou capaz”) e você perderá autoexigência. É uma espiral descendente
que pode continuar retroalimentando-o negativamente durante anos. Ao contrário,
uma alta autoeficácia fará que suas metas sejam sólidas, permitirá a você persistir
perante os imponderáveis e enfrentar os problemas de modo adequado; você lutará
pelo que acredita de maneira segura e persistente, independentemente do que
ganhar com isso.
A autoeficácia é basicamente uma opinião afetiva de si mesmo. Muitas pessoas
podem pensar que possuem as competências e capacidades necessárias para obter
determinados resultados, e ainda assim não ter certeza que irão atingir com sucesso
as metas propostas. Vamos imaginar um atleta prestes a realizar um salto com vara
pela medalha de ouro. Suponhamos que ele tenha certeza de possuir as condições
necessárias para fazer um bom salto: um bom treinamento, uma excelente condição
física e o público a favor. Consideremos, ainda, que nos treinamentos anteriores já
houvesse superado a mesma marca. Tudo está a seu favor. Porém, de repente, de
maneira inexplicável, ele hesita. Pergunta a si mesmo o que jamais deveria se
perguntar: “Será que sou capaz?” ou “E se errar o salto?”. Se a dúvida crescer e se
mantiver, vai gerar ansiedade e tensão, seus músculos não responderão, e o salto
não será bom. E aí começará sua via crucis: possivelmente, na competição seguinte,
antecipará o fracasso devido a pensamentos similares de falta de confiança em si
mesmo. O que havia sido uma pergunta se transformará em afirmação: “Não sou
capaz”, mesmo que tudo esteja a seu favor.
A expectativa de ter sucesso não implica apenas – como aparentemente se
poderia pensar – uma análise racional e fria das possibilidades objetivas de sucesso
(expectativas de resultados), mas também a avaliação subjetiva da capacidade que
sente o sujeito (expectativa de eficácia). Como qualquer crença, essa última
avaliação também é questão de fé e de confiança.
Fica claro que a falta de confiança no próprio eu acaba com as capacidades e/ou
habilidades de qualquer um. Em meu consultório vejo diariamente pessoas que,
embora possuam todos os recursos necessários, fracassam porque sua autoeficácia é
fraca. Mais ainda, um número considerável delas nem sequer tenta lutar por suas
metas; o argumento da maioria é: “Não vou conseguir, para que tentar?”. Quando
as faço ver as altas probabilidades de sucesso mostrando-lhes que os prós são
maiores que os contras e que possuem as competências e a inteligência necessárias,
costumam responder: “Tem razão... Tenho tudo a meu favor, mas não tenho
confiança em mim mesmo”. E quando apresento a alternativa de tentar de qualquer
maneira e arriscar para ver o que acontece, insistem em seu obscuro vaticínio: “Para
quê? Eu sei que não vou conseguir”.
Como os seres humanos podem duvidar de si mesmos e se conformar diante do
sofrimento e da adversidade sem tentar provocar mudanças quando existe a
possibilidade de conseguir? Como se organiza um autoesquema de “perdedor”? Por
que as pessoas fazem antecipações negativas do próprio rendimento em situações
fáceis e potencialmente bem-sucedidas? Por que algumas pessoas ficam paralisadas
diante da possibilidade de superar as dificuldades se podem conseguir? Embora as
respostas sejam variadas e múltiplas, as pesquisas em psicologia cognitiva indicam
que pelo menos três fatores parecem estar associados à pouca confiança em si
mesmo: a percepção de que mais nada pode ser feito, o ponto de controle interno e os estilos de
atribuição. Vejamos cada um separadamente.
A PERCEPÇÃO DE QUE NADA MAIS PODE SER FEITO
A impossibilidade de modificar um acontecimento doloroso ou estressante gera
depressão e falta de confiança em si mesmo. Quando alguém está em uma situação
prejudicial e pensa que nada do que fizer poderá mudá-la, esse simples pensamento
mina suas forças e o leva à desesperança. Por exemplo: uma história de fracassos
contínuos pode produzir uma percepção de incapacidade, e você pode começar a
considerar o sucesso como algo muito pouco provável. A experiência de não ter o
controle nas mãos (“não posso fazer nada”) tem um efeito demolidor sobre a
conduta de luta nas pessoas, e mais ainda se forem pouco resistentes ou resilientes.
Vejamos um experimento clássico da psicologia experimental realizado há alguns
anos com animais. Em uma caixa sem possibilidade de fuga e cujo fundo era
formado por uma grade conectada a uma fonte de eletricidade, foram colocados
vários cachorrinhos. O experimento consistia em administrar descargas elétricas
inevitáveis e imprevisíveis aos animais e observar sua reação. No início, os cães
tentavam fugir: pulavam, latiam, corriam pela caixa etc. Porém, depois de um tempo
começavam a apresentar uma conduta passiva: ficavam imóveis e isolados, tristes, e
paravam de comer, pareciam “resignados” à sua sorte. O experimentador decidiu,
então, levá-los para uma nova caixa que tinha uma porta para que pudessem fugir
ao receber a descarga elétrica. Era de esperar que, diante da nova possibilidade de
fugir, os cães aprendessem a evitar as descargas elétricas e saíssem pela porta. Mas
não foi o que aconteceu; para surpresa de todos, os animais continuavam
suportando o castigo e, apesar de repetir os ensaios várias vezes, os cães não
tentavam fugir das descargas. Ignoravam a nova alternativa de fuga e evitavam sair
do lugar. O único jeito para que aprendessem a evitar as descargas elétricas foi levá-
los à força, uma infinidade de vezes, para fora da caixa; só assim “compreenderam”
que a porta aberta era de fato uma alternativa. A única terapia para os cães foi
mostrar-lhes insistentemente que estavam enganados. Os pesquisadores concluíram que
esse fenômeno, que chamaram de desesperança aprendida, era causado pela percepção
de que “nada pode ser feito” por parte dos cães, visto que as descargas eram
incontroláveis para eles. Ou seja, os animais agiram como se tivessem “percebido”
que todos os seus esforços eram inúteis e ineficazes para conseguir controlar o
castigo e simplesmente se resignaram à dor; pensaram que, independentemente do
que fizessem, nada podia salvá-los: viam a porta, mas não o alívio que ela poderia
proporcionar.
Outros experimentos realizados em humanos em situações nas quais os
implicados percebem que não têm controle algum sobre a situação negativa
apresentaram resultados similares: a percepção de não ter controle sobre eventos adversos
produz uma queda na autoeficácia ou na confiança em si mesmo. Uma maré de azar costuma
ser suficiente para gerar sensação de insegurança. Da mesma forma, quando o
fracasso é visto como inevitável, sobrevêm sensações de ineficácia que poderão ser
generalizadas a novas situações. O sujeito vai se considerar inepto para encontrar
praticamente qualquer solução, e, embora ela lhe seja apresentada como alternativa
viável e colocada às vezes debaixo do próprio nariz, ele a descartará por se
considerar incompetente.
Felizmente, como veremos adiante, esse panorama desalentador poderá se
modificar se você decidir se atrever a enfrentar os problemas e a correr riscos. O
que você jamais deve perder é sua capacidade de lutar. Como dizia Hermann Hesse:
“Para que possa surgir o possível, é preciso tentar sempre o impossível”. Enquanto
estiver na briga, sempre haverá uma esperança à qual poderá se agarrar; e, se perder
ou não conseguir o que esperava, pelo menos terá tentado. Não se sentirá um
covarde nem sentirá culpa ou começará a sofrer da síndrome do desertor.
O PONTO DE CONTROLE INTERNO
Estar submetido a situações incontroláveis e catastróficas, como um terremoto,
uma inundação ou uma guerra, não são a única causa de baixa autoeficácia. Às
vezes, o fato de não tentar modificar os eventos nocivos e desagradáveis se deve a
crenças culturalmente aprendidas.
Dependendo de onde situem a possibilidade de gerir sua própria conduta, as
pessoas podem ser consideradas “com orientação interna” ou “com orientação
externa”.

• Os indivíduos que se movem por uma orientação interna colocam o controle


dentro de si mesmos; dirão que são eles quem guiam sua conduta e que são os
principais responsáveis pelo que acontecer com eles. Assumem o destino não
como algo dado de fora, mas como algo que devem construir por seu próprio
esforço e constância. Portanto, não costumam pôr nos outros a culpa do que
lhes acontece na vida. Desse ponto de vista, são realistas, perseverantes e não
tendem a se dar facilmente por vencidos.
• Por sua vez, as pessoas com orientação externa acreditam que opera sobre sua
conduta uma quantidade de eventos e causas que fogem a seu controle e frente
aos quais não pode fazer nada. Por exemplo: a sorte, os astros, os óvnis, o
destino etc. Costumam ser pessoas fatalistas e resignadas diante da adversidade.
Seu pensamento é imobilizador: “Nada dá certo; assim quer o destino” ou “Para
que tentar?”. Se essa crença for generalizada, verão as tentativas de modificar o
ambiente negativo como infrutíferas ou como uma perda de tempo inútil que
não levará a nada. Na maioria das vezes, agir com um ponto de controle externo
desemboca em uma baixa autoeficácia.

A posição que cada um assume diante daquilo que depende ou não de si mesmo
é determinada, em grande parte, pela aprendizagem social, pelos modelos e pelo
sistema de valores dos grupos familiares e culturais. Poderíamos perguntar pela fé
ou esperança, e a resposta que a psicologia oferece é: se elas agirem de maneira
realista ou a serviço do crescimento pessoal, ou seja, sem negar o verdadeiro ser,
são poderosas fontes de motivação. O ditado “Deus se manifesta pelas nossas
mãos” é um bom exemplo do que quero dizer. Sentar-se e esperar que as coisas
caiam do universo não é uma boa atitude. É melhor saber discernir quando agir de
acordo com um ponto de controle interno e quando se deixar levar pelo externo;
nessa questão, o ponto médio é, sem dúvida, o mais saudável. A sabedoria antiga se
aproxima bastante dessa premissa.
É você quem escreve seu destino. Deus, o Universo ou a Vida lhe deram a tinta e
o papel para isso, mas você escreve. Você tem o poder do pensamento e o dom da
inteligência, não para ser vítima, e sim vencedor. Se você tem a tendência de se
deixar levar por um ponto de controle externo, avalie a crença, torne-a mais flexível
e racional; se acredita em Deus, pense nele como um assessor ou como um pai que
respeita a liberdade de seus filhos; se acredita nos astros, pense que eles se enganam
frequentemente; se seu horóscopo estiver “ruim”, desafie-o. As coisas dependem de
você mais do que acredita, embora às vezes isso pareça uma carga. E se tem fé em
algo ou em alguém, que seja um motor e uma fonte de convicção de que você é
capaz de caminhar pelo mundo sem tantas muletas; que essa “fé” não seja o
encosto dos acomodados.
OS ESTILOS DE ATRIBUIÇÃO
Quando estamos diante de situações de sucesso ou de fracasso, nós, seres
humanos, fazemos interpretações sobre as causas do fato em questão. Tentamos
entender o ocorrido buscando explicações causais: como, onde, quando e por que
as coisas acontecem. Pois bem, essa capacidade de explicar os fatos pode se
transformar em uma faca de dois gumes, que, se mal utilizada, afetará
negativamente nossa autoeficácia.
Vejamos um exemplo de como uma situação de sucesso em uma prova pode ser
interpretada de maneira diferente por dois adolescentes que utilizam estilos de
atribuição opostos:

• O adolescente 1 diz: “Realmente, eu havia estudado muito. Se estudar assim


sempre, irei bem nas outras provas e também na faculdade”.
• O adolescente 2 diz: “A prova estava muito fácil; não acho que as outras provas
vão ser assim. Sempre serão mais difíceis”.

O adolescente 1 atribuiu o sucesso a si mesmo, a seu esforço e perseverança no


estudo, e interpretou que o sucesso se refletirá em outras matérias e será duradouro.
Conclusão: o sucesso dependeu dele. O adolescente 2 atribuiu seu sucesso a fatores
externos (a facilidade da prova) e decidiu que, no futuro, as provas não serão tão
fáceis, ou ele não terá tanta sorte. Conclusão: o sucesso não dependeu dele, e sim da pouca
dificuldade da prova. O primeiro adolescente se motivou a seguir adiante e a confiar
em si mesmo, enquanto o segundo não confiou em suas capacidades. O primeiro
reforçou sua autoeficácia. O segundo aplicou um duro golpe em sua autoestima.
Em situações de fracasso, pode ocorrer algo similar. Se você disser: “O fracasso
dependeu de mim, e será igual sempre em qualquer situação”, vai se sentir incapaz de
enfrentar a vida. Fará de seu futuro uma obscura profecia. Mas, por outro lado, se
disser: “O fracasso dependeu de mim só em parte, não precisa ser sempre assim”, vai se
sentir capaz de tentar de novo. Você fará de seu futuro uma profecia de esperança.
Amar a si mesmo é reconhecer seus sucessos e não se castigar ou se desprezar por
seus fracassos, e sim tomá-los como lição, para tentar não repeti-los e aprender.
Vamos recapitular: as pessoas que utilizam um estilo de atribuição pessimista e
negativo sentem-se responsáveis pelos fracassos, mas não pelos sucessos. Por sua vez, pessoas
que fazem uso de atribuições racionais, otimistas e positivas tendem a avaliar a
situação de maneira objetiva e se responsabilizam pelos fracassos ou sucessos de
maneira construtiva. A ideia não é atribuir a si o que não lhe corresponda e ser
irracionalmente otimista ou distorcer a realidade a seu favor. Não se trata de se
apropriar dos sucessos alheios e pôr a culpa do próprio fracasso nos outros. Se esse
for o caso, sua autoeficácia não crescerá de maneira adequada; ela se inflará como
um balão até explodir. Salvar a autoeficácia e o autoconceito à custa dos outros ou
negando a verdade não é uma saída saudável para sua integridade psicológica.
Amar-se de maneira saudável é fazê-lo de maneira honesta.
O PROBLEMA DA EVITAÇÃO
Em certa ocasião, quando eu tinha dez anos, saí para andar pelo bairro com uma
vizinha, que eu considerava minha “namorada” – e suponho que ela também me
considerasse seu “namorado”. Ao chegar a uma esquina onde uns adolescentes
costumavam se reunir, um deles levantou a saia de minha amiga e pôs a mão em
suas nádegas. Ao ver o tamanho de meu oponente e a satisfação de seus
acompanhantes por conta da façanha, optei por abaixar a cabeça e seguir andando
com ela como se nada tivesse acontecido. O trajeto de volta foi interminável. Ao
chegar em casa, meu pai me viu claramente preocupado e me perguntou o que
havia acontecido. Quando lhe expliquei o acontecido entre lamentos e
autocensuras, ele olhou fixamente em meus olhos e disse: “Veja, filho, o que acaba
de lhe acontecer é extremamente desagradável. Comigo também aconteceu algo
parecido algumas vezes. Se deixar que o medo o vença, ele levará vantagem”.
Depois de refletir por alguns segundos, agradeci o conselho e fui ver televisão. Mas
eu não havia entendido direito o comentário de meu pai. Ele me pegou pelo braço e
explicou com voz firme: “Você não entendeu. Você tem duas opções: ou sai e
enfrenta esses idiotas ou vai se haver comigo”. Realmente, não hesitei muito sobre a
escolha. Meu pai era um imigrante napolitano vindo da Segunda Guerra Mundial
que, quando se exaltava, era de assustar. Optei, então, pela saída mais digna, embora
obrigado, de salvar a honra maculada. Assim fiz; voltei e os enfrentei.
Desnecessário dizer que os olhos roxos e inchados duraram vários dias. Porém,
também devo reconhecer que valeu a pena. Minha amiga descobriu em mim um
verdadeiro príncipe encantado, meu prestígio aumentou diante de meus amigos, e
outras meninas começaram a se mostrar interessadas por essa mistura de amante
latino e aprendiz de pequeno carateca. Mas o mais importante foi o ensinamento
deixado pela experiência no aspecto psicológico. Depois da briga, meu pai estava
me esperando com gelo, aspirinas e certo ar de orgulho mal dissimulado. “Muito
bem”, disse, “é preferível ter um olho inchado que a dignidade maltratada.” Aquela
noite, dormi como nunca antes.
Maquiavel diz: “Os fantasmas assustam mais de longe que de perto”. Isso é
verdade. A única maneira de vencer o medo é enfrentá-lo. Da mesma forma, não há
outro jeito de resolver um problema a não ser enfrentá-lo abertamente e com a
menor quantidade possível de subterfúgios. Porém, apesar das vantagens
comprovadas dos métodos da exposição ao que tememos, evitamos pagar o custo
dessa superação porque é desagradável. Optamos pelo caminho mais fácil: o alívio
causado pela evitação e a postergação. A evitação impede que o organismo fique
exposto o tempo suficiente para vencer o medo, rebater crenças irracionais que nos
levam a agir inadequadamente ou a resolver o problema que for. Enfrentar coisas
desagradáveis é ruim e pode ser doloroso, mas é o preço que se paga para modificá-
las e vencê-las. O que você pensaria de alguém que preferisse não tratar sua
amidalite, conhecendo as graves consequências de uma febre reumática, apenas por
não suportar a picada de uma injeção?
Nos transtornos graves de pânico, está comprovado que a melhor estratégia
terapêutica é a exposição à fonte fóbica. Nesses casos, quando o sujeito se submete
ao medo, a adrenalina dispara e causa determinadas reações fisiológicas, como
taquicardia, transpiração, mudanças de temperatura, náuseas, tontura etc. Essas
sensações são desagradáveis, mas depois, quando se consegue manter a exposição
por tempo suficiente, diminuem, esgotam-se, e o organismo se habitua ao objeto
temido. Isso é chamado extinção do medo. Infelizmente, não suportamos o tempo
necessário para nos acostumar e fugimos antes que a extinção aconteça.
Se quiser superar suas inseguranças, terá de se testar e se expor. Precisa se
arriscar e contrastar as ideias infundadas ou erradas que tem de si mesmo. Se fizer
da evitação um costume, nunca saberá se valorizar.
A baixa autoeficácia produz efeitos como os acima mencionados. A sensação de
insegurança que passa a ideia de incapacidade impede que se persista o tempo
necessário para superar os inconvenientes, pois qualquer obstáculo será visto como
um abismo intransponível do qual é preciso se afastar rapidamente. Com esse modo
de agir, as antecipações catastróficas de fracasso absoluto nunca poderão ser
rebatidas e contrastadas na prática.

O perigo é real?
A evitação nem sempre é inadequada. É inquestionável que a fuga e a evitação
são as melhores opções quando o perigo, físico ou psicológico, é objetiva e realmente
prejudicial. Suponhamos que alguém lhe diga que no quarto ao lado há um leão
faminto prestes a derrubar a porta, e imediatamente você ouve um terrível e
estrondoso rugido. O leão, objetivamente, pode lhe fazer mal. Se o virem correr à
frente do animal enfurecido, a opinião geral será: “Vejam que habilidoso!”. Mas se
lhe disserem que há um gatinho branco atrás da porta e, depois de sufocar um grito
e ficar pálido, você sair aterrorizado, as pessoas que o virem correr à frente do
inofensivo bichinho dirão: “O cara está maluco!” O gatinho, objetivamente, não pode
lhe fazer mal, mesmo que você o perceba como o mais feroz dos predadores. Os
psicólogos chamam esse medo de fobia, um medo irracional, ao passo que o terror —
e a posterior fuga perante o leão — é considerado adaptativo porque ajuda na
sobrevivência pessoal e da espécie. Os condicionamentos e as aprendizagens
responsáveis pela evitação foram muito importantes para a espécie humana. Muitos
de nossos medos foram herdados, porque eram úteis a nosso antecessor pré-
histórico. A evitação era (e é) uma maneira de defesa antecipada contra os
predadores em potencial. Porém, algumas pessoas possuem uma “calculadora” de
perigos muito sensível e, em consequência, veem o mundo como algo
extremamente ameaçador.
Quando estiver diante de uma situação difícil, porém importante ou vital,
pergunte-se o seguinte: “Se eu enfrentar a situação, as consequências que temo
serão reais? Objetivamente pode acontecer algo grave e irremediável? Minha
calculadora de riscos não está exagerando as consequências? O que está em jogo
justifica o risco? A meta proposta é alcançável ou inatingível? Há probabilidades de
obter o que busco?”. Se objetivamente não pode lhe acontecer nada, não hesite:
arrisque-se! Se a probabilidade de sofrer consequências negativas for muito alta, e
não houver nada vital em jogo, pense bem.
Se acredita que não é capaz e tem dó de si mesmo, conceda-se a oportunidade de
demonstrar a si mesmo o que pode fazer. A tentativa será desagradável no início;
você sentirá medo, dor e mal-estar, mas haverá em jogo algo muito mais importante
que seu estado fisiológico: sua autoestima, sua autoeficácia, o que você pensa e
sente a respeito de si mesmo. O respeito próprio e a dignidade associados merecem
o “sacrifício” do sofrimento inicial. Enfrente o que teme aceitando que precisa
pagar o custo de passar um pequeno mau bocado; só um pequeno. A evitação
oferece alívio imediato, mas, a longo prazo, acaba reforçando seus esquemas de
insegurança e depreciação própria. Não há dúvida: é melhor um olho roxo.
VENCENDO A BAIXA AUTOEFICÁCIA
Resumindo o que foi dito até aqui: a autoeficácia é a “opinião cognitivo/afetiva”
que se tem sobre a possibilidade de atingir determinados resultados, ou seja, a
confiança de que é possível atingir seus objetivos com sucesso. Como vimos, as
causas mais comuns que contribuem para a diminuição da autoeficácia são: ver as
coisas como incontroláveis, acreditar que a própria conduta está regulada mais por
fatores externos que por si mesmo e atribuir-se injustamente a responsabilidade por quão
maus ou bons somos e pelas conquistas pessoais.
Qualquer um desses três fatores gera um esquema de falta de confiança e
insegurança em relação a si mesmo, o que leva a evitar as situações de desafio, de
problemas ou qualquer evento que implique a intervenção pessoal para a solução. A
pessoa fará da evitação uma forma de vida.
As estratégias seguintes lhe permitirão enfrentar a baixa autoeficácia ou mantê-la
em um nível adequado:

1. Elimine o “não sou capaz”


Quando você se menospreza, seu diálogo interno age como um freio. Elimine de
seu repertório o “não sou capaz”, porque, cada vez que você repete isso, confirma e
reforça sua sensação de insegurança; essa qualificação negativa o imobilizará
automaticamente. Se o treinador do atleta mencionado anteriormente dissesse no
ouvido dele, bem na hora de saltar: “Você não vai conseguir”, acha que o resultado
dele seria bom? Muitas pessoas já viveram na própria carne os efeitos da falta de
confiança da família: “O menino não é capaz, é melhor você fazer”.
Como você se sentiria se, no trabalho, seu chefe decidisse dar uma tarefa especial
a um colega seu com o argumento: “Dei o trabalho a Fulano porque acho que você
não é capaz”? Embora não tenha consciência disso, as consequências psicológicas
de dizer a si mesmo “não sou capaz” são tão contraproducentes como quando
outras pessoas o dizem. Se você diz: “Sou um inútil”, “Sou um fracassado”, “Sou
um idiota”, acabará sendo.
Cada vez que se encontrar ruminando o nefasto “não sou capaz”, afaste-o e
expulse-o de sua mente. Detenha o pensamento dizendo: “Chega!”, “Acabou!”.
Mude de atividade, fale ao telefone, ouça música, cante em voz alta ou oriente seu
diálogo positivamente, mas não deixe que um pensamento negativo arraste outro e
que sua mente se transforme em uma cadeia de pensamentos autodestrutivos. Por
exemplo, você pode dizer: “Esse jeito de falar não é saudável para minha saúde
mental. Ninguém é totalmente capaz ou incapaz. Além do mais, preciso me dar
outra oportunidade. Esse jeito de me tratar me inibe, deixa-me inseguro e hesitante.
Já é hora de começar a me respeitar e me tratar bem: se eu quiser, serei capaz”.

2. Não seja pessimista


As pessoas com baixa autoeficácia antecipam o futuro negativamente e, quando
se trata do próprio rendimento, suas expectativas são de fracasso e incapacidade.
Sempre se veem como as piores atrizes – ou atores – do filme. Veem o fracasso
chegar em cada uma de suas atuações e nem mesmo isso as incitará a tentar
remediar a situação.
As profecias negativas costumam se transformar em realidade, porque nós
mesmos nos encarregamos de que se cumpram. Por exemplo, se você disser “Não
vai dar certo”, a motivação, a tenacidade e a perseverança necessárias para atingir a
meta fraquejarão, você não terá energia suficiente e sua previsão se cumprirá, mas
por culpa sua!
Quando vir que está fazendo muitos prognósticos ruins sobre seu futuro,
pergunte-se se está sendo realista ou não. E, depois de fazer suas previsões, sejam
boas ou ruins, acostume-se a verificar sua validade; contraste-as com a realidade e
verifique se tinha razão.
O método de comparar as hipóteses com os dados objetivos o fará descobrir que
suas previsões não costumam ser tão exatas e que seus dotes de oráculo deixam
muito a desejar. O costume de comparar as previsões com a realidade lhe permitirá
polir e aperfeiçoar os processos de dedução do futuro.
Faça um registro detalhado dos acertos e falhas em suas conjecturas. Se
determinada previsão não se cumprir duas, três ou quatro vezes, descarte-a e não a
utilize mais. Se você diz, por exemplo: “Não sei conversar direito, e as garotas (ou
garotos) se aborrecem comigo”, submeta essa previsão a um exame. Defina
exatamente o que espera que aconteça: “Vão debochar de mim” (vão rir, fazer
gestos e caretas), “vão se aborrecer” (vão bocejar, querer ir embora rápido, não
falarão), “não vão sair mais comigo” e coisas do tipo. Utilize categorias definidas e
claras que você possa realmente corroborar ou refutar. Depois de sair várias vezes
com pessoas diferentes, poderá comparar o que esperava que acontecesse com o
que realmente aconteceu. Se não debocharam, não pareceram se aborrecer com você
e tornaram a aceitar seu convite para sair, suas previsões catastróficas não se
cumpriram. E então você tem um problema a resolver, com ou sem ajuda
profissional. Isso não é o fim do mundo, pode ser consertado.
Submeta suas previsões a verificação, sem trapaça. Lembre que muitas vezes, de
maneira inconsciente, fazemos o possível para nos sabotar e para que nossas
profecias se cumpram. A premissa central é: tente desenvolver em você o saudável costume
de avaliar sua capacidade de fazer maus prognósticos. Você vai ficar agradavelmente
surpreso ao saber quantas vezes se engana e que vidente ruim você é.

3. Não seja fatalista


Você é o arquiteto de seu futuro, mesmo que isso pareça batido e não lhe agrade
(afinal, é mais fácil confiar em que um anjo cuide disso). Pelo menos, há de
concordar que, em uma grande proporção, você constrói seu próprio destino.
Portanto, tem o poder de mudar muitas coisas. Não veja o mundo como imutável e
imóvel definitivamente, governado por leis que o impedem de mudar as situações
que o incomodam. Se você tem um ponto de controle externo para tudo, tenderá a
ser fatalista e verá os infortúnios como incontroláveis.
Afaste de seu repertório verbal a palavra “sempre”. O passado não o condena; de
fato, seu presente é o passado de amanhã, e, portanto, se mudar o aqui e agora,
estará contribuindo de maneira significativa com seu destino. É verdade que os
acontecimentos de sua infância e adolescência têm influência sobre você, seria
absurdo negar, mas essa influência é relativa e modificável (você não é um pequeno
animal de laboratório exposto aos caprichos do experimentador). Nós, humanos,
feliz ou infelizmente, temos a possibilidade de construir nossa história de modo
ativo e participativo e de reestruturar a própria maneira de processar a informação:
não estamos predestinados ao sofrimento.
Se insistir muito em sorte e azar, sua autoeficácia não poderá crescer, porque verá
obstáculos intransponíveis por todos os lados.
Quando fizer seu balanço custo-benefício, inclua a si mesmo como o principal
recurso de enfrentamento. O futuro não está sentado esperando que você chegue
até ele, mas aguardando que o fabrique.
Um dia qualquer, você toma a decisão de se programar positivamente. Pense que,
durante esse dia, você será dono de sua vida e o único juiz de sua própria conduta.
Poderá fazer e desfazer a seu gosto. Nesse dia, será o músico e o maestro e
conduzirá seus passos com a firme convicção de que você, e só você, é o artífice do
que quer. Sinta-se, mesmo que só por um dia, dono de si mesmo. Não haverá
horóscopos nem guias externos; você será radicalmente interno e desafiará os
prognósticos negativos, venham de onde vierem. Você fará sua própria cabala e
representará seu próprio papel, sentindo-se vencedor. Experimente um dia. Se
gostar, continue tentando, posto que não existe sensação melhor que se sentir o
principal motor da própria vida. Dono de si, apaixonado por você.

4. Procure ser realista


Três pontos para refletir:

a) Se vir tudo sob um ponto de vista “externo”, nada dependerá de você. O


sucesso não lhe trará satisfação, e você não fará nada diante do fracasso.
b) Se avaliar todos os sucessos como “externos” e todos os fracassos como
“internos”, vai acabar entrando em depressão.
c) Se atribuir todos os sucessos ao “interno” e os fracassos ao “externo”, vai
enganar a si mesmo. Não ficará deprimido, mas será desonesto. Esse não é um
otimismo saudável.

Procure funcionar privilegiando o ponto de controle interno, mas de maneira


realista. Seja objetivo com seus sucessos e com seus fracassos. Responsabilize-se
por aquilo com que realmente teve a ver, e não com o que gostaria que tivesse.
Os itens a e b representam o modo típico de pensar das pessoas com baixa
autoeficácia: muito pessimistas. O item c mostra a estrutura psicológica das pessoas
que aparentemente possuem uma alta autoeficácia, mas falsamente construída.
Aceite seus sucessos, visto que você será injusto consigo mesmo se ignorar suas
conquistas, mas também aceite sua cota de responsabilidade nos fracassos. Isso
permitirá que você desfrute as vitórias sem culpa nem remorso e supere a
adversidade evitando falsas expectativas. Pegue lápis e papel – a linguagem escrita
permite uma melhor análise – e escreva sua contribuição real para o bom e o ruim
que lhe acontece. Insisto: sua contribuição, sem a participação de mais nada nem
mais ninguém. Não se apresse em se culpar, pense bem e avalie os fatos: o que fez e
o que pensou. Parabenize-se por suas conquistas e avalie sua participação no
fracasso para tentar modificá-la, e não para se castigar. Lembre que as coisas nunca
são totalmente boas ou ruins (elimine as palavras “sempre”, “nunca”, “tudo” ou
“nada”). Se vir apenas o inadequado em si mesmo, o saldo será assustador, e sua
autoestima receberá um grande golpe. Se só vir o bom, será um mentiroso que vive
agarrado ao seu ego.

5. Não recorde apenas as coisas ruins


A visão negativa de si mesmo se alimenta principalmente das lembranças,
portanto, se o esquema que você tem de si for negativo, as lembranças que
chegarão a sua mente confirmarão esse esquema, e você recordará mais as coisas
ruins que as boas. Se sua autoeficácia for baixa, os fracassos terão mais relevância
em sua memória que os sucessos. Tome consciência disso e não entre no jogo das
evocações negativas.
Durante alguns minutos por dia, tente ativar sua memória positiva. Você vai
descobrir a existência de uma grande quantidade de informação boa acerca de si
mesmo que havia esquecido; coisas positivas que fez com sua vida e com os outros,
atos de valentia, de defesa de seus direitos, de amor, de alegrias.
Anote os sucessos do passado e procure mantê-los ativos e presentes, sem
subestimá-los, sem dizer: “Isso não foi nada”. Aprenda a saborear o passado e a
revivê-lo em seus aspectos agradáveis. Ninguém gosta de ver várias vezes um filme
ruim, então não fique voltando obsessivamente ao negativo. O passado o espera
para que o resgate e reivindique a si mesmo.

6. Reveja suas metas


Se sua autoeficácia for baixa, você vai pecar por falta, e não por excesso (como
vimos na parte de autoconceito, quando sua mente busca ansiosamente a ambição).
Você estará se subestimando e acomodando as metas à suposta incapacidade que
percebe em si mesmo. Os dois extremos são perniciosos: se acreditar que é
invencível, vai se arrebentar, e se você se sentir incapaz, seus objetivos serão tão
pobres que mal tentará dar um passo ou dois. Analise suas metas e verá que muito
provavelmente podem ser esticadas um pouco mais e ser mais exigentes e
compassadas em relação a seus verdadeiros pontos fortes. Isso não significa que
devam crescer imediatamente, visto que o processo de melhorar a autoeficácia leva
tempo. O que você precisa é de persistência.
Não deixe que o medo e a insegurança decidam por você: quando não há
desafios, a resignação dirige sua vida. Faça uma lista das coisas que deixa de fazer
por puro medo e pergunte-se quantos sonhos e aspirações seus refletem o que
realmente gostaria de fazer e quantos se adaptaram a seu menosprezo psicológico.
Questione quanta resignação há em você. Suas metas atuais mostram confiança ou
falta de confiança em si mesmo? Você tem direito a esperar mais de si e da vida.

7. Teste-se e arrisque-se
Os pontos anteriores são condições necessárias, mas não suficientes, para ser
uma pessoa com boa autoeficácia. É fundamental que você ouse dar o passo
decisivo: agir para atingir seus objetivos. E a única forma de confiar em si mesmo é
testando-se. Quando decidir enfrentar seus medos e suas inseguranças, os seis
passos anteriores o ajudarão a não distorcer a realidade a favor do automenosprezo.
Se tentar racionalmente (ou seja, sem se flagelar na tentativa), obterá dados sobre
suas capacidades reais e poderá descobrir se as previsões de fracasso que fazia eram
verdadeiras ou falsas. A filosofia do “mais vale um pássaro na mão que dois
voando” não o leva a lugar nenhum; é a passagem para o conformismo e o
estancamento. O que poderia acontecer tentando novos desafios? Fracassar uma
vez mais? Não esqueça o que foi dito antes: ninguém aprende por tentativa e
sucesso, e sim por tentativa e erro.
Eis um plano que você poderia se propor:

• Defina um objetivo que exija esforço. O objetivo deve ser racional ou com
probabilidades razoáveis de sucesso. Lembre que o “estilo super-herói” também
leva ao fracasso adaptativo no mundo real.
• Defina suas expectativas de maneira objetiva, clara e precisa, para depois
compará-las com os resultados obtidos. Ao explicitar essas previsões, seja o
mais sincero possível. Anote-as.
• Antes da execução do comportamento e durante, não utilize verbalizações
negativas ou inibitórias; não diga a si mesmo: “Não sou capaz”, “Nada pode ser
feito”, “Sempre serei um fracassado” etc.
• Use um ponto de controle interno. Retome aqueles momentos de sua vida em
que mostrou sua estirpe de lutador.
• Teste-se. Sem se tornar irresponsável nem ousando uma conduta perigosa para
você ou para alguém, tente fazer o que teme.
• Durante o enfrentamento, não evite e persista o maior tempo que puder diante
dos obstáculos. Suporte ao máximo a adrenalina; é verdade que incomoda, mas
é só química, que logo é absorvida pelo organismo. Lembre-se: as sensações
passam e não podem lhe fazer mal.
• Compare os resultados com as previsões que havia anotado antes. Analise as
discrepâncias entre elas e a realidade, ou seja, quais delas se cumpriram e quais
não. Tente descobrir se suas previsões foram guiadas pelo fatalismo e/ou pelo
pessimismo.
• Se assim for, tente de novo. Que seu próximo comportamento rumo à meta
não esteja impregnado de antecipações catastróficas. Simplesmente tente ser
mais realista em suas previsões.
• Quando se sentir confortável e seguro em suas tentativas, passe para uma meta
maior. À medida que subir nos níveis da autoexigência (sem se machucar nem
exigir demais), a autoeficácia e a confiança em si mesmo se fortalecerão. Você
poderá vencer o quarto cavaleiro.
Epílogo

Se você chegou a esta parte do texto, devo supor que leu com atenção todo o
restante. Possivelmente, você já tem algumas conclusões sobre o amor que dirige a
si mesmo e o que fazer com ele. Talvez tenha conseguido descobrir que não se
amava tanto, que não o fazia de um modo contundente, ou pode ter chegado à
convicção de que sempre se amou o suficiente e que estas páginas não acrescentam
nada ao que já sabia. Também pode ter lhe parecido um bom lembrete de coisas
que esqueceu por estar pensando mais nos outros que em si mesmo. De qualquer
maneira, os caminhos para chegar ao amor-próprio são incontáveis, e você decide,
finalmente, por qual deve transitar, qual lhe agrada e qual não.
O que você jamais deve perder é a capacidade de buscar e questionar. Muitas
vezes, tememos criar novas metas porque gerarão novos problemas e dúvidas.
Assim, preferimos reprimir uma infinidade de sentimentos que nos aproximariam
de novas perspectivas de vida, novas sensações e descobertas, só para ficarmos mais
confortáveis e permanecermos agarrados ao que já conhecemos, mesmo que essas
coisas amarguem nossa vida. Em certo sentido, fazemos como aqueles sacerdotes
teimosos que se negavam a olhar pelo telescópio de Galileu Galilei para não ver
minada sua crença de que a Terra era o centro do universo; foi mais fácil obrigar o
gênio que reavaliar suas crenças.
Se decidir tirar a cabeça do buraco, vai sentir desconfortos e dissabores. Haverá
confusão e dúvidas. Você descobrirá novas contradições que não haviam sido
calculadas pela educação tradicional que recebeu e deverá se tornar autodidata
(aprender por tentativa e erro), simplesmente porque carecemos de regras claras e
transparentes que nos ajudem a decifrar o mundo interior. Não existem verdades
absolutas, e sim propostas que devem ser testadas. O que é bom para um é ruim
para outro, e vice-versa. As palavras de Tagore no início deste livro situam
claramente o problema: nós nos debatemos entre a universalidade (o que
compartilhamos com todo o cosmo) e nossa pequena/grande individualidade, que
nos faz diferentes e únicos. Talvez, as impressionantes mudanças sociopolíticas
recentes no mundo não sejam mais que a tentativa de resgatar o polo esquecido do
individualismo saudável sem deixar de pertencer a nossas respectivas “tribos”.
Assumir-se é a maior das responsabilidades. É compreensível que tamanha tarefa
nos faça hesitar, não só pela importância que isso implica, mas porque, além de
tudo, não temos as ferramentas. Nenhuma agência de socialização considerou
seriamente a possibilidade de ensinar a amar a si mesmo como um dos principais
objetivos de formação pedagógica (possivelmente, porque não seríamos tão
manejáveis e fugiríamos da matrix em que estamos).
Ter plena consciência de que você existe, em uso de suas faculdades, de que é
importante e que tem direito de se amar coloca-o em um lugar privilegiado, mas, ao
mesmo tempo, causa novas angústias e uma grande responsabilidade. A lucidez tem
um preço: “Sei o que devo fazer, mas nem sempre sei como”.
Se a leitura deste livro lhe causou certa confusão, fico feliz. O espírito das
mudanças importantes está na dúvida e na contradição subjacente – uma dúvida
progressista e não retardatária, que é a que o leva a reavaliar suas concepções, seja
para reafirmá-las ou para modificá-las, e, enquanto você hesita e oscila, reafirma-se
sua condição de ser vivo.
Se você esperava encontrar verdades categóricas e definitivas que lhe dessem
alívio e tranquilidade, sinto tê-lo decepcionado. Amar a si mesmo, apaixonar-se por
seu próprio ser, é uma tarefa árdua. Implica navegar contra a corrente da
massificação e da intolerância sociocultural. Isso me faz lembrar de uns versos de
Georges Brassens que refletem o que quero expressar: “As pessoas se sentem mal
quando há um caminho pessoal”. Não existe a solução, só tendências.
Como um pêndulo que nunca para, podemos diminuir ou acelerar seu ritmo, mas
jamais seremos capazes de fazê-lo parar em um ponto exato. As orientações para
fortalecer o amor-próprio nem sempre são claras, definidas e fixas; porém, é
possível encontrar diretrizes, vetores para a ação. Ser avaro é nocivo para sua saúde
mental; em consequência, poupe menos.
Funcionar a maior parte do tempo com um ponto de controle externo não é
recomendável; então, incline-se mais para um ponto de controle interno. A modéstia
excessiva é prejudicial; então, seja menos modesto. Para amar a si mesmo você deve
inclinar a balança buscando um equilíbrio saudável. Basicamente, a proposta é:
desloque-se no sentido contrário ao que ditam muitas convenções sem cair no outro extremo. Esse
é o desafio: encontre sua dimensão pessoal e as distâncias adequadas para se amar
confortavelmente, sem sobressaltos nem culpas. A simples tentativa será saudável:
você terá criado a maravilhosa experiência de se amar.
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Walter Riso nasceu na Itália, em 1951. Sua família emigrou para a Argentina
quando ele era muito jovem. De lá, partiupara a Colômbia, onde se formou em
psicologia, especializando-se em terapia cognitiva e tornando-se mestre em bioética.
Trabalha há trinta anos como psicólogo clínico, prática que alterna com o exercício
da docência universitária e com artigos em publicações científicas e na imprensa.
Seus livros, grande sucesso de vendas, cumprem o propósito de criar uma vacina
contra o sofrimento humano, propondo estilos de vida saudáveis em vários âmbitos
da vida. Atualmente, ele mora em Barcelona.
Visite o site do autor: www.walter-riso.com