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AS MINHAS MEMÓRIAS DO 25 DE ABRIL

O 25 de Abril para mim é a mais bela revolução da História de Portugal e do Mundo e


quando o recordo a primeira imagem que me vem à cabeça é dos cravos vermelhos nas
pontas das espingardas.

Volvidos quase 37 anos ainda recordo esse dia com saudade. Confesso que no início
senti medo, na manhã desse dia dei uma volta maior para não passar por perto de um
quartel e ao ouvir uns helicópteros senti um friozinho na coluna. Mas depois essa
sensação passou e transformou-se em alegria e esperança de um Portugal melhor e mais
justo, onde reinasse a liberdade, a fraternidade e a igualdade.

Nos anos 70 Portugal encontrava-se debaixo de uma ditadura fascista, chamada Estado
Novo, a qual tinha sido implantada na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926.

Salazar já tinha morrido, mas o seu regime mantinha-se a ferro e fogo. O seu sucessor,
por ele escolhido, Marcelo Caetano, ainda piscou à esquerda na chamada “Primavera
Marcelista” mas voltou para a direita, mantendo contra tudo e contra todos uma guerra
colonial injusta, mandando o melhor da nossa juventude masculina para a guerra, a qual
na Guiné já estava militarmente perdida e só continuava por teimosia de um regime
autista. Até o Papa João XXIII defende o direito dos povos africanos à independência na
sua CARTA ENCÍCLICA “PACEM IN TERRIS” onde diz entre outros itens que “…As
pessoas de qualquer parte do mundo são hoje cidadãos de um Estado autónomo ou estão
para o ser. Hoje comunidade nenhuma de nenhuma raça quer estar sujeita ao domínio de
outrem. Porquanto, em nosso tempo, estão superadas seculares opiniões que admitiam
classes inferiores de homens e classes superiores, derivadas de situação económico-
social, sexo ou posição política…” e “… Acrescente-se que as relações mútuas entre as
comunidades políticas se devem reger pelo critério da liberdade. Isto quer dizer que
nenhuma nação tem o direito de exercer qualquer opressão injusta sobre outras, nem de
interferir indevidamente nos seus negócios. Todas, pelo contrário, devem contribuir para
desenvolver entre si o senso de responsabilidade, o espírito de iniciativa, e o empenho em
tornar-se protagonistas do próprio desenvolvimento em todos os campos…”

Para além da Guerra Colonial o povo português estava amordaçado, não havia liberdade
de expressão, não havia liberdade de imprensa, não havia liberdade de associação, eram
proibidos ajuntamentos de mais de uma pessoa, até as artes estavam submetidas a
censura, a PIDE de Salazar com Marcelo Caetano somente mudou de nome (DGS), quem
ousasse criticar o governo era preso e torturado… os partidos e os sindicatos foram
ilegalizados pelo regime de Salazar / Caetano, o povo era mantido na ignorância e na
fome e quem resistisse tinha que dar o salto para a clandestinidade ou se exilava para não
cair nas malhas da PIDE/DGS…

Do 25 de Abril de 1974 ainda recordo a imagem do temerário Capitão Salgueiro Maia,


que teve a firmeza e a lucidez de espírito de levar a revolução avante sem um banho de
sangue, do povo que enche o Largo do Carmo e do grito de vitória a uma só voz: “Vitória,
vitória”, “O Povo Unido jamais será vencido” e “o Povo está com o MFA”
Invoco também aquele longínquo dia 26 de Abril de 1974 onde vi as portas das prisões
políticas abertas de par em par, o abraço fraterno e terno com que as vítimas de Salazar e
Marcelo foram recebidas e novamente nas ruas se ouvia o grito de vitória.

Recordo ainda o regresso dos exilados políticos, nomeadamente da figura imponente de


Álvaro Cunhal e do Mário Soares.
E do 1.º de Maio de 1974, pela primeira vez festejado livremente após os negros anos da
ditadura, como me poderia esquecer? Ainda me recordo de Álvaro Cunhal abraçado, tal
como Lenine na Revolução de Outubro, a um soldado e a um marinheiro.

Para mim o mais importante foram as conquistas de Abril, entre outras a Liberdade,
Eleições livres, o fim da Ditadura e da Guerra Colonial, a legalização dos Sindicatos e dos
Partidos Políticos e os direitos dos trabalhadores, hoje, já bastante amputados.

Ainda me lembro do programa do MFA (Movimento das Força Armadas), que ficou
conhecido como programa dos três D: Democratizar, Descolonizar e Desenvolver,
Também recordo com nostalgia o PREC (Processo Revolucionário em Curso, que teve
lugar após a Revolução de 25 de Abril de 1974 e até ao 25 de Novembro de 1975, de
triste memória).

A segunda senha do MFA “Grândola Vila Morena” do sempre vivo Zeca Afonso é para
mim um segundo hino de Portugal e todos os anos na noite de 24 para 25 de Abril o canto
com familiares e amigos de pé, de punho erguido e um cravo vermelho na outra mão.
Estou eternamente agradecida a Salgueiro Maia e aos outros capitães de Abril pela
liberdade conquistada.
Fontes: imagens pesquisadas na Internet