Você está na página 1de 3

As estruturas lógicas da linguagem normativa e os padrões do discurso jurídico

Das várias faces que o Direito apresenta, uma delas é o Direito enquanto
linguagem.

Segundo Lourival Vilanova, o propósito jurídico-dogmático é verificar se a


norma existe. E existir a norma significa, se é válida, se tem vigência por ter sido posta
por processo previsto no ordenamento. Inclusive, possui uso constante do modo
indicativo e imperativo dos verbos. Reforça ainda a função do “dever-ser”, que é o
operador diferencial da linguagem das proposições normativas, um de cujos
subdomínios é o direito.

Segundo Allaôr Caffé Alves, as normas jurídicas não têm como objetivo dizer
como é a realidade do comportamento social do homem, mas expressar com o “deve
ser” esse comportamento, definindo-se em normas que o impõem, sem se preocupar
com a verdade. Possui como finalidade a busca da justiça, a conveniência, a segurança e
a prudência.
Validade e eficácia – Elementos da norma jurídica que ultrapassam a dimensão
meramente cognitiva.
Não se pode predicar verdade ou falsidade a uma norma jurídica, pois não
expressa a verdade do comportamento.
O cumprimento de uma norma jurídica é prova de sua eficácia. E seu
descumprimento não significa que seja falsa. Ela continua válida, significativa e possui
sentido em determinado contexto jurídico.
Entretanto, a questão que aflige a lógica da norma jurídica é o critério da
adequação ou inadequação desse proferimento normativo ao contexto situacional
jurídico, tendo em vista a possibilidade de cumprimento ou descumprimento da norma.

Tércio Sampaio Ferraz Júnior conceitua discursos como uma ação linguística
dirigida a outrem, donde o seu caráter de discussão, em que alguém fala, alguém ouve e
algo é dito. Entretanto, com a inclusão do elemento “exigibilidade”, ela amplia a
situação comunicativa social, colocando mais um comunicador (o árbitro, o juiz, o
legislador e mais genericamente, a norma, passíveis de ocuparem diversas posições
comunicativas) e tornando a ação, uma relação tripartite. Surge assim uma situação
comunicativa jurídica.
Ressalta o autor que tal situação, que é instável e insegura, abrange
comportamentos discursivos ativos e reativos, resultando na qualificação do objeto do
discurso. Observa-se no discurso jurídico a possibilidade de mais de um ponto de
partida da discussão. Por esse caráter conflitivo e decisório do discurso jurídico,
reforçado com o aumento de complexidade da estrutura, depreende-se o papel do
terceiro comunicador e sua diferenciação, garantidor da seriedade do conflito e do
discurso racional.
A norma soluciona o conflito ao lhe por fim.
O discurso jurídico, enquanto discussão-contra (aquela em que a função da
fundamentação é configurar o conflito, possibilitando a decisão, estabelece entre as
partes uma interdependência descontínua e dinâmica, que as força a cooperar, a ceder, a
exigir etc. Também é ambivalente, onde se combinam o fático e o contrafático, este no
sentido de uma eventual decepção, que é generalizada concomitantemente. O discurso
jurídico torna objetiva a dimensão comunicativa subjetiva em que os partícipes da
discussão se encontram
No discurso jurídico não só as normas estruturam as possibilidades alternadas,
mas as próprias normas, reflexivamente, são questionadas em função de outras normas.
Interessa ainda reforçar que a própria norma permanece sempre como o centro do
diálogo, explicitando o direito como ele próprio normativo, não se restringindo apenas a
um discurso sobre normas. Daí o caráter normativo de sua dialogicidade, no sentido de
que estamos, no plano jurídico, obrigados a dialogar.
As funções fazer e aplicar (as normas) refletem, no fundo, a estrutura dialógica
e, pois, reflexiva do discurso jurídico.

Sugestão de leitura
Tércio Sampaio – p. 57-71 (Ele separa ainda os aspectos do discurso jurídico em
discurso judicial, discurso da norma e discurso da Ciência do Direito – mas acho melhor
não aprofundar)
Alaôr Caffé Alves – p. 140/193/397
Lourival Vilanova - Capítulo II

Você também pode gostar