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Ser mãe não é apenas colocar no mundo ou criar

como se fosse seu, ser mãe é ter o sentimento de uma e não


fazer com o filho de outra o que não desejaria que fizesse
com os seus.
SINOPSE
CAPÍTULO 01
CAPÍTULO 02
CAPÍTULO 03
CAPÍTULO 04
CAPÍTULO 05
CAPÍTULO 06
CAPÍTULO 07
CAPÍTULO 08
CAPÍTULO 09
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
CAPÍTULO 20
CAPÍTULO 21
CAPÍTULO 22
CAPÍTULO 23
CAPÍTULO 24
CAPÍTULO 25
CAPÍTULO 26
CAPÍTULO 27
CAPÍTULO 28
CAPÍTULO 29
EPÍLOGO
Copyright © 2019 de Anne Presmanes

Capa: Aline Ramos.


Diagramação digital: Anne Presmanes.
Revisão: Anne Presmanes.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e


acontecimentos descritos é de imaginação do(a) autor(a). Quaisquer
semelhanças com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
É totalmente proibido o armazenamento ou reprodução total, ou
parcial desta obra sem o consentimento escrito do(a) autor(a) ou da editora.
Todos os direitos reservados. Criado no Brasil.
Há anos, Sandra Fuentes sonha com a chegada de um filho, no
entanto, o seu corpo parece não atender a sua tão desejada expectativa. Após
enfrentar o sexto aborto, o marido termina a abandonando por sua
incapacidade, e ela cai em total frustração.

Meio a sua crise emocional e a obsessão pela maternidade, está


Montserrat Villavicêncio, sua melhor amiga, que parece ter a vida que ela
tanto há sonhado. Montserrat tem o casamento perfeito ao lado do homem
perfeito, que é capaz de fazer de tudo para vê-la bem. Ela também é mãe de
Nicolas e em poucos meses dará à luz a uma menina. Mesmo demonstrando
todo o apoio necessário a amiga, isso não parece ser o bastante para Sandra
que transformou o seu desejo numa enferma obsessão e, não conseguindo
lidar com a felicidade diária da amiga, ela constrói um terrível plano contra
Montserrat e sua família.
Os raios solares invadiram o quarto de Sandra a despertando
lentamente.
O esposo, Ricardo Ugarte, praticava sua corrida matinal na rua.
Sandra moveu-se sobre a cama e pôs a mão sobre os olhos que doíam
com a entrada inconveniente do sol. Olhou para a mesa de cabeceira e quase
chorou por já ser a hora de ir ao trabalho. Até quando a custaria tanto acordar
cedo?
Sonolenta, espreguiçou-se erguendo os braços e esticando o tronco.
Tomou impulso e sentou quando uma abrupta e intensa dor a atingiu o
abdômen. Sandra soltou um agoniado gemido e pôs a mão sobre a barriga.
Retirou a coberta que estava sobre si e viu a mancha vermelha que se
espalhou sobre o lençol branco.
— Não! Não pode ser! Ricardo, me ajuda! Ricardo, meu amor! Estou
perdendo o nosso filho! — Sua voz não soou tão alta quanto planejara. Outra
vez sentiu uma fisgada na barriga que a fez curvar-se. — Ricardo! —
chamou, chorando.
Ricardo chegou na casa e foi direto para a cozinha preparar um shake
de proteína. Em seus ouvidos, o rock estava absurdamente alto, abafando
qualquer som que pudesse interromper a sua dança e cantoria.
Com dificuldades, Sandra logrou a deixar a cama e sair do quarto.
Caminhou pelo corredor deixando um rastro de sangue enquanto chamava
pelo nome do marido.
Ricardo ligou o liquidificador aniquilando qualquer chance de ter a
atenção desperta.
— Ricardo!
Sandra chegou no alto da escada e ouviu quando o marido desligou o
eletrodoméstico. O chamou novamente na expectativa de ser escutada, mas
nada.
— Ricard…

Sandra calou-se quando novamente sentiu uma forte dor, mas essa a
fez perder os sentidos e cair desmaiada no chão.
Ricardo deixou a cozinha tomando a bebida. A música ainda soava
alto em seus ouvidos. Sentou-se na poltrona da sala principal da casa e pegou
o jornal que estava sobre a mesa. Abriu o periódico e o ergueu na frente do
rosto, mas algo o fez mirar para o alto da escada e ver a esposa desacordada.
— Sandra!
Ricardo deixou tudo de lado e correu até a mulher. Agachou-se diante
dela e não foi necessário pensar para saber o que havia sucedido. Sandra
tivera um novo aborto.

Enquanto Sandra quase dava a sua vida por um filho, sua melhor
amiga, Montserrat Villavicêncio, aguardava com o marido a chegada de mais
um filho. Eles eram casados há dez anos, já tinham o pequeno Nicolas de sete
anos, que como os pais, ansiava pela chegada da irmãzinha.
— E iremos poder brincar muito?

— Claro, meu amor — Ela sorriu enquanto servia o desjejum para o


garoto. — Eu estou segura de que você irá ser um herói para a sua irmãzinha.
— E quando ela irá chegar?
— Logo. Já falta pouco — Pousou a mão sobre a barriga de sete
meses.
— Bom dia, meu amor!
Aaron adentrou a cozinha e cumprimentou a esposa com um selinho.
— Bom dia, minha vida! Já preparo o seu café.
— Não, não necessita. Tomo na empresa. — Deu um beijo na cabeça
de Nicolas, que comia o mingau.
— Como toma na empresa, meu amor? Hoje coincidimos em
acompanhar Nicolas a escola, ou você se esqueceu que hoje é o seu primeiro
dia de aula.
Ele pôs a mão na testa, evidenciando a sua falha de memória.
— Me olvidei completamente, mas não passou nada aqui. Iremos,
sim, filho? — disse ao menino, que assentiu com a cabeça.
— Senta. Vou te preparar o café. — Ela riu.
— Não, nada disso. Senta! — A segurou no braço e a pôs sentada.
— Mas…? O que te passa?
— Está grávida, meu amor. Não pode ficar todo o tempo de pé.
Aaron afastou-se, e Montserrat riu.
— Por Deus! Eu somente estou grávida, não enferma. Sigo fazendo
minhas coisas normalmente, incluindo o laboral, sabe como sou. Na gestação
de Nicolas trabalhei até o último mês e com Estrella não será distinto, afinal
de contas, tenho uma campanha em andamento e não posso parar agora —
falou, entre as colheradas de iogurte.
— Tenha calma, meu amor. Tudo no seu tempo.
— Tenho calma. O que passa é que às vezes me sinto muito
pressionada por ser a sua esposa.
Ela não era somente a esposa, também era a proprietária da agência de
publicidade que ajudou o marido a construir desde que deixara a
universidade, mas, algumas vezes, terminava acreditando que os demais
integrantes da companhia a viam com inferioridade por ser mulher.
— Por favor, Mon. Já disse para não se importar com essas coisas.

— Como eu não vou me importar? Eu não sou somente a loira guapa


que dorme com o dono, sou mais que isso e você sabe.
— Perfeito! — Acercou-se a ela. — Então faça uma reunião com
todos e deixe em evidência o que tanto te molesta, o que te parece?
— Não me parece nada. Isso não se trata de uma postura inadequada
de um funcionário ou cliente, ninguém nunca me desrespeitou e tampouco
deixou de cumprir uma ordem minha, o que digo se trata de um preconceito
da sociedade, nada mais.
Ele respirou fundo.
— E o que você quer que eu faça?
— Nada, somente me escute como já está fazendo.
— Boníssimo. Boníssimo. — Voltou a afastar-se.
— Ande mais depressa, meu amor, que já está um pouquinho tarde.
— Montserrat advertiu o filho.

O telefone da casa tocou.


— Eu contesto.
Mon deixou a mesa e atendeu a chamada.
— Alô. Ricardo? Passou algo? — Ficou apreensiva ao escutar o tom
desesperado do rapaz.
Aaron escutou o nome do amigo e se aproximou da esposa tão,
apreensivo quanto ela.
— Ok. Ok, Ricardo. Eu já estou indo para aí, mas tranquilo, sim?
— O que passou? — questionou, assim que ela encerrou a chamada.

— Parece que Sandra sofreu outro aborto e está no hospital. Tenho


que ir por minha amiga — contestou, nervosa.
— Claro. Vou contigo.
— Não, você tem que acompanhar Nicolas na escola. Eu te juro que
dou notícias.
Montserrat pediu perdão ao filho por não poder o acompanhar e foi
embora.
Aaron negou com a cabeça e lamentou pelo casal.
Montserrat chegou no hospital e deu um forte abraço em Ricardo, que
acabara de receber a notícia da morte do filho.

Desafortunadamente aquela situação era rotineira na vida do casal,


mas ela ainda não sabia o que dizer quando aquilo sucedia. Seguramente não
havia nada que pudesse dizer quando todos os métodos usados por eles eram
falhos, e Sandra não aceitava que gerar um filho era um sonho impossível.
— Até quando, Montserrat? Há anos estamos nessa maldita tentativa
e nada. Nada, caralho!
Ricardo deu as costas e chorou. Como a esposa, há anos sonhava com
a chegada de um filho, mas por Sandra possuir o útero infantil, aquele era um
sonho guajiro.
O útero infantil sucede devido às alterações na produção dos
hormônios responsáveis pelo desenvolvimento dos órgãos sexuais femininos,
que faz com que o útero e, às vezes até os ovários, permaneça do mesmo
tamanho que durante a infância, apesar de existirem tratamentos para o tal
problema, com Sandra nada parecia resultar.
Montserrat respirou fundo e afagou as costas do amigo. Aquele gesto
era o único que conseguia tomar quando as palavras não existiam.
Compreendia o sofrimento de Ricardo, mas nada se comparava ao de
Sandra, que além de desejar a maternidade, se sentia pressionada pelo
marido.
Mon pressentia que se não fosse pela insistência de Ricardo,
seguramente Sandra já teria se dado por vencida e deixado de expor tanto o
seu bem-estar físico e psicológico, mas o amor que sentia por ele não a
deixava enxergar o mal que estava fazendo a si mesma.
— Será que posso vê-la?
— Sim, mas eu ainda não quis fazer! — Limpou as lágrimas.
Atitude como aquela era o que sempre faria Montserrat desejar estar
apartada da relação daquele casal. Sandra nunca a falou com todas as letras,
mas pressentia que Ricardo culpava a esposa por seu problema.
Mon abriu a porta do quarto e viu Sandra acostada na cama.
— Amiga. — Cerrou a porta detrás de si e acercou-se a ela.
Sandra virou o rosto e, inevitavelmente, o primeiro que viu foi a
barriga de Montserrat. Estar naquela luta com a realidade sempre era difícil.
Odiava estar na rua e ver uma mulher grávida ou um casal feliz com os
filhos. Se sentia diminuída, pouco mulher, mas os pensamentos depreciativos
eram mil vezes piores quando era a sua amiga de infância a mostrar a trágica
realidade.
— Como soube?
— Ricardo. Ricardo me ligou como sempre e vim correndo.
Sandra quis controlar as lágrimas, mas não pôde.
— Eu já estou cansada de tentar. Estou cansada, Montserrat.

— Amiga…
— Sim, eu já sei o que irá dizer. Irá dizer que sente muito, que se
pudesse cambiar essa situação você cambiaria, mas já! Essas suas palavras
bregas e decoradas não irão deter o que estou sentido, Montserrat. — Ela foi
agressiva e rude.
Mon respirou fundo.
— Eu sei, Sandra, mas é o único que posso fazer. De verdade, me
parece terrível que você tenha que passar por essas coisas, que não possa
cumprir o seu sonho. — Caminhou até o pé da cama. — Acredite, Sandra,
sofro tanto quanto tu. Me dói, porque é minha melhor amiga e eu seria capaz
de fazer até o impossível com o tal de te ver bem, feliz, mas não posso.
— Claro que pode! — disse, séria.
Montserrat não compreendeu.
— Me dá a sua filha!
Mon pensou não haver escutado bem.

— Perdão? Você quer que eu…?


— Sim. Quando nasça a sua filha, eu a quero para mim. Não é capaz
de tudo com tal de me ver bem, então me prove! Me prove que é capaz de
tudo para me ver feliz!
Montserrat quis acreditar que o pedido absurdo que ouvira de Sandra
fosse uma brincadeira de muito mal gosto ou que ela estivesse tão abalada
com a perda do filho que não tinha consciência da loucura que estava
dizendo.

— Sandra, eu…
— Você já tem um filho, Montserrat, eu não tenho nenhum e,
aparentemente nunca terei. Você pode ser a única pessoa a realizar esse
sonho.
— Mira, Sandra, vou considerar que você esteja muito mal e não
tenha ideia do que está dizendo, sim? Porque sei que em juízo saudável você
jamais me pediria algo do tipo.
Sandra ficou em silêncio.
— Bom, vou indo. Ainda tenho muito que resolver na empresa, você
sabe.

Montserrat se aproximou da amiga e se despediu com um beijo na


testa.
— Fique bem!
Mon deixou o quarto e caminhou até a sala de espera.
— Como ela está? — Ricardo levantou-se.

— Como imaginas. Eu te sugiro que entre e a faça companhia, ela


necessita. Se não for pedir muito, seja compreensivo, sim? Ela não necessita
de ninguém a julgando ou dizendo que a culpa é dela. Sandra necessita de
apoio.
— Foi isso que ela te disse?
— Não, é isso que estou dizendo. Sei o quanto deseja ser pai e isso
faz com que Sandra perca as estribeiras quando pensa em maternidade. Ela
tem um acompanhamento médico, já fez tratamento, mesmo assim, nada
resulta. De verdade, é necessário que ela arrisque mais a sua saúde nessa
tentativa inútil?
— Mon…
— Eu já sei que isso não é da minha conta, mas se trata da minha
amiga e vê-la toda vez em um leito hospitalar por uma gravidez que não pôde
ser, de verdade, é muito para mim; também deveria ser muito para vocês. Ela
não pode ter filhos, aceite isso!
Montserrat sabia que o mais indicado era não se envolver em assuntos
de casal, mas o pedido de Sandra a deixou alarmada e disparar verdades na
cara de Ricardo terminou sendo inevitável.
Quando Montserrat deixou o hospital, Ricardo tomou um café e todo
o fôlego que necessitava para visitar a Sandra. Admitia que a amiga tinha sua
razão, Sandra não era culpada por não poder o regalar os filhos que tanto o
apetecia, porém, por mais que tentasse, não conseguia a ver de uma maneira
distinta e, quando as chances se tornavam cada vez mais difíceis, ele a
desamava.
— Ricardo, que bom que está aqui, meu amor. Pensei que já havia ido
e me deixado.
A possibilidade mencionada por ela era genuína. Nos últimos cinco
abortos que sofreu, somente no primeiro Ricardo se fez presente e, se daquela
vez estava ali, era pelo pedido de Montserrat.
— Vim te ver. — Cerrou a porta e acercou-se a ela. — Quero saber
como está.
Os olhos dela marejaram.
— Muito mal. Eu somente queria cumprir o nosso sonho, meu amor,
mas outra vez não pude e sinto que te defraudo a cada dia, porque sei o
quanto coloca expectativa a cada gravidez, mas…
— Sandra, não chora, sim? Não deu. Temos que aceitar. — Para ser
sincero, há muito ele já não colocava expectativas quando sabia que a
gestação não iria durar mais que quatro meses.
— Mas, meu amor, nós…
— Sandra, já! — Ele foi rude.
Ela chorou em silêncio.
— Vou buscar o doutor e perguntar quando você pode ir para a casa.
Ele saiu do quarto, e ela rompeu em lágrimas. Além de ter que aceitar
a fatídica ideia de não poder ser mãe, também tinha que aceitar que o seu
matrimônio estava por um fio.

**
— Meu amor, por que você não foi para a agência? Passei todo o dia
te esperando.
Quando Aaron chegou em casa no fim do dia, ele correu até a esposa,
preocupado com o seu estado. Encontrar a Montserrat acostada na cama às
seis da tarde era algo bastante incomum.
— Sente algo? — Sentou-se perto dela.
— Não, tranquilo, meu amor. Estou bem. Somente estou cansada e
muito triste com o que sucedeu aos nossos amigos. Eles não merecem isso, de
verdade.
— Eu sei, meu amor, mas o que podemos fazer, verdade? Há coisas
que simplesmente não se pode fazer nada.
Aquela era uma infeliz verdade que Montserrat lamentava por existir.
Nada que fizesse poderia mudar a triste realidade que a amiga vivia, e muito
menos dar um basta em seu sofrimento, mas ao menos decidiu tentar
amenizá-lo.
— Sabe, Aaron, eu estive pensando.
— O quê?
— Creio que devemos cancelar o chá de bebê que iremos fazer.
Sandra está muito abalada e não sei se a fará bem-estar em um lugar onde o
tema seja precisamente a razão da sua tristeza.
— A ver, Montserrat, irá deixar de organizar algo a nossa filha por
causa da sua amiga? — Esteve claro o quanto ele achou a ideia um absurdo.
— Meu amor, é o mínimo que posso fazer por ela. Sabe perfeitamente
que essas coisas são sempre organizadas por ela e que ela também será
madrinha de Estrella.
— Sei e entendo sua boa intenção, Montserrat, o que não aceito é
deixemos de viver a nossa vida por um problema alheio.
Mon cerrou os olhos com impaciência.
— Não se trata de um problema alheio, se trata da minha melhor
amiga que sempre há dado muitíssimo de si quando se refere a nossa família,
ou minto, senhor Aaron?
— Não, não mente, mas ainda estou em desacordo que nossos filhos
sofram por algo que eles não têm nada a ver. Hoje é um chá de bebê, amanhã
é o que? A festa de aniversário de Nicolas?
— Claro que não. Eu somente não quero fazer algo do tipo amanhã
quando hoje Sandra perdeu o seu filho. Eu somente a quero poupar. Irei falar
com minhas amigas e fazemos algo mais sutil e pequeno sem a presença de
Sandra. O que me diz?
— Eu ainda não estou de acordo. Sim, estimo muito a Ricardo e
Sandra, mas não creio que para isso temos que sacrificar certas coisas em
nossa vida.
Mon ficou em silêncio.
— Mas irei te apoiar. Se quer fazer assim, tudo bem, mas não deixe a
nossa família de um lado, sim?
— Claro que não, meu amor. Jamais. Nossa família sempre virá em
primeiro, mas Sandra é como minha irmã e não consigo estar bem quando ela
está mal — asseverou.
— Você está certa. Eles estão passando por um momento de
dificuldade e temos que ajudá-los de alguma maneira.

— Sim, mas como?


Ele deu de ombros.
— Não sei. Há que ter uma maneira — asseverou.
Montserrat respirou fundo ponderando as palavras do marido.
Desafortunadamente não tinha as chaves para cerrar de uma vez o sofrimento
dos amigos, mas talvez ainda pudesse fazer algo. Pensando nisso, ela agarrou
o celular e enviou uma mensagem para Ricardo. Queria vê-lo o mais breve
possível.
— Obrigada por disponibilizar um segundo do seu tempo, imagino
que esteja se encarregando de Sandra. — O que dissera não se tratava de uma
certeza, e sim de uma dúvida.
Ricardo acendeu o cigarro enquanto mirava as pessoas que
circulavam no parque.
— Sim, ela sai hoje do hospital.
— Que bom! Ir para casa irá a fazer bem.

— Talvez. — Tragou o cigarro e soltou a fumaça.


— Bom, oxalá que faça. A razão de eu haver te solicitado aqui é
precisamente sobre o bem-estar de Sandra, eu estava pensando que todas
essas tentativas de gravidez devem ser muito prejudiciais à saúde dela.
— O que quer que eu faça, Montserrat? É o nosso sonho e não
queremos desistir dele. — Ele falou com indiferença.
— Eu sei. Não estou sugerindo que vocês desistam de ter filhos, mas
creio que seja hora de buscar outros métodos, como a adoção.
Ricardo riu.
— Está falando sério?
— Sim, esse é um gesto muito bonito, ademais, há tantas crianças
desafortunadas no mundo que necessitam de uma família, de amor, proteção,
carinho.
— Claro que não, Montserrat, o processo de adoção é muito
complicado, ademais, eu não irei meter na minha família gente que não nunca
vi antes!
Desafortunadamente Ricardo era um homem bastante inflexível e
egoísta.
Mon indignou-se.
— Por favor, Ricardo, não seja frívolo! — Deixou de caminhar e
parou diante do rapaz, que revirou os olhos e cruzou os braços. — Esse é o
gesto mais lindo que existe no mundo.
— Ah, é? E por que você não fez? Claro. Você pode ter filhos e esse
gesto não te incumbe, verdade?

— Cla...
— Mas vou te dizer algo, Montserrat, enquanto você tem filhos
próprios, essas crianças que menciona seguem sem um lar. Se você realmente
achasse esse gesto tão belo, você teria ido ao primeiro orfanato e adotado
uma criança, mas, pessoas como você, acreditam que aquelas crianças só
devem ser adotadas por pessoas tão infelizes quanto elas. — Alterou-se.
— Claro que não! O que te passa? — Irritou-se.
— É a verdade!
— Não, não é a verdade. Não adotei porque não tive o desejo, mas
poderia ter feito caso tivesse vontade, Ricardo. Como isso não se equivoque.
— Ok, mas isso não significa que Sandra e eu tenhamos que adotar,
porque também não é o nosso desejo. — Ele quis utilizar a mesma
justificativa dela para demonstrar que entre eles não haviam diferenças.
Montserrat balançou a cabeça negativamente e deu-se por vencida.
— Tudo bem, Ricardo, eu já não irei insistir nesse assunto. Sei que
não tenho direito de me envolver na vida de vocês, mas sinceramente quis
ajudar.
— Aprecio a sua ajuda, Montserrat, mas se adoção fosse uma opção,
já teria recorrido a ela.
— Sim, tem toda a razão. Perdão.
Não era válido seguir insistindo naquele tema quando Ricardo tinha a
sua opinião muito bem construída e, infelizmente, Sandra deveria compartir
do mesmo pensar.
**

Ricardo abriu a porta para a entrada da esposa, que adentrou a


residência de cabeça baixa. Se mirasse atentamente para cada canto daquela
morada, se recordaria desde os momentos felizes com o marido até os seis
abortos que havia protagonizado. Aquela casa um dia foi o ambiente de um
casal completamente enamorado e feliz. Se lembrava das noites de puro amor
e candência, das manhãs de risadas e alegrias e também dos muitos sonhos
que tinham por cumprir, mas nos últimos anos os planos que tinham na
maleta pareceu ser perder e os momentos felizes eram apenas uma
recordação.
— Vou para o quarto. Estou cansada! — disse Sandra, com um nó na
garganta. Há muito estava repreendendo as lágrimas que teimavam em sair.
Odiava chorar na frente do esposo.
Ricardo assentiu com a cabeça e pôs as maletas no canto da parede.
— Quer que eu te leve algo?
— Não, não é necessário. Vou ficar bem.

Sandra subiu as escadas lentamente e caminhou pelo corredor com a


intenção de adentrar o seu quarto e quitar as lágrimas que inundavam o seu
peito. Depois disso se sentiria exausta e cairia em um profundo sono, onde
além de descansar, esqueceria por um momento de sua triste realidade. No
entanto, algo a motivou dar um passo atrás e ir visitar o espaço que jamais
seria o cenário do seu grande sonho.
Sandra abriu a porta do quarto e os seus olhos puderam ver com
perfeição o ambiente que, como ela, há muito aguardava pela chegada de um
bebê. Viu as paredes brancas e o berço da mesma cor. Viu os móveis, os
brinquedos, as roupas e até os regalos embalados que Montserrat havia
enviado. Era aquilo. Aquele era o seu mundo tão desejado. O seu sonho sem
cumprir. O templo do seu pranto. Era ali que chorava cada vez que era
abatida pela melancolia e se sentia demasiado sozinha. Era ali que rogava aos
céus por piedade e suplicava por um filho. Era ali que poderia morrer se não
fosse mãe.
Em lágrimas, Sandra contemplou cada canto daquela habitação e o
seu pranto somente se fez mais intenso. Parada no centro do quarto, ela
agarrou um urso de pelúcia e chorou copiosamente.
No final da noite, Sandra estava recostada na cama quando Ricardo
adentrou com uma bandeja nas mãos.

— Te preparei uma sopa.


— Não era necessário. Eu não estou com fome. — Pôs o livro sobre a
mesinha ao lado.
— Tem que comer, meu amor. — Caminhou até a ela e pôs a bandeja
no colo da esposa. — Tem que ficar forte para seguirmos na tentativa.
— Sei, mas às vezes, creio que…

— Depois conversamos, sim? Agora tenho que ver a partida de


futebol! — A beijou no topo da cabeça e afastou-se.
— Espera!
Ele parou a centímetros da porta.
— Está enojado, verdade? Está enojado pelo que sucedeu novamente,
por minha falha como mulher. — A voz de Sandra falhou ao engolir o pranto.
— Estou enojado com a situação.
Ricardo colocou a mão na maçaneta da porta e mencionou em sair.
— E comigo?

Ele suspirou impaciente.


— Você não tem a culpa de ter um problema.
As lágrimas invadiram o rosto de Sandra.
— Vou assistir à partida!
Ricardo saiu do quarto e bateu a porta.
Sandra caiu em prantos e derrubou a bandeja no chão. A boca do
marido alegava algo, mas as suas atitudes eram completamente distintas
quando o afastamento estava cada dia mais vivo entre os dois.

Apesar dos maus momentos, os dias foram ágeis em sua transição.


Oito dias se passaram, e Sandra já ansiava pela liberação médica para voltar a
tentativa pela maternidade.
Montserrat, apesar de não coincidir com a amiga, elegeu não voltar a
se involucrar naquele tema, o melhor que poderia fazer era pedir a Deus que
nada de ruim sucedesse aquela mulher e evitar o máximo exibir os seus
festejos para a amiga.
Para isso, reuniu um pequeno grupo amistoso em sua casa para o chá
de sua filha. A sala de estar estava decorada, as guloseimas sobre a mesa e as
mulheres reproduziam jogos típicos daquela ocasião. Era certo que Sandra
iria fazer falta, afinal, ninguém se doava tanto naqueles momentos quanto ela,
mas Montserrat estava segura de que a manter distante era a melhor opção.
— E Sandra por que não veio? — questionou uma amiga.
— Bom, acreditei ser melhor não a invitar!
— Por quê?
— Por seu problema, vocês já sabem! — lamentou.
— Ah, imagino. Deve ser terrível ser casada com um tipo tão guapo
quanto Ricardo e não poder cumprir o seu sonho de ser pai, ou seja, é uma
surpresa que ele ainda siga com ela.
Mon não teve forças para repreender aquele comentário quando
pressentia que, cedo ou tarde, Ricardo iria se desfazer daquela relação.
— Por favor, meninas, peço muita discrição com essas fotografias
porquê…
Ela calou-se quando viu Sandra adentrar a casa e a encarar com
indignação.

— Por quê, Montserrat? Para que a sua amiga infértil não te inveje?
Sandra em nenhum momento acreditou nas palavras de Montserrat
quando ela alegara que passaria a toda a tarde de sábado trabalhando. Foi
notório o quanto ela ficou nervosa e evitou a mirar nos olhos quando saiu
com aquela conversa. Há anos eram amigas, cresceram como irmãs e não
havia nada que não conheciam uma da outra, e o que Sandra mais conhecia
era que Montserrat não sabia mentir.
— Não, claro que não, Sandra! — Ela caminhou com rapidez até ela.
— Eu apenas quis te privar disso, acaba de perder o seu filho e…
— Ai, por favor, Montserrat, não seja hipócrita. É óbvio que você se
reuniu a essas mulheres porque todas elas são mães, eu não! — Alterou-se.
— Como? — Juntou sobrancelhas, confusa. Onde a amiga havia
quitado aquela possibilidade? — Sandra…
— Não! Eu não quero te ouvir! Apenas vim aqui para comprovar que
não estava enganada, que você se diverte me maldizendo quando não estou,
que se diverte falando com suas amiguinhas que sou defeituosa, que Ricardo
irá me deixar porque eu não posso dar o filho que ele tanto quer, mas sabe de
algo, Montserrat? Isso foi bom, isso foi bom para saber que você não é minha
amiga, que você é uma falsa, que faz menos de mim porque eu não sou como
tu! — gritou, furiosa.
Mon assustou-se com o descontrole emocional de Sandra. Era certo
que todos os abortos anteriores também haviam a deixado débil, mas aquele
último pareceu a desestabilizar completamente.
— Sandra, o que está dizendo? Eu jamais falaria ou riria de ti, você é
minha melhor amiga, minha irmã.
— Ah, é? Então por que enche a sua casa de amiguinhas e a mim
deixa de fora? Diz!
— Porque eu queria te proteger. Sei como está e como te faz dano
estar em ambientes como esses. Jamais faria pelo seu mal, Sandra. Eu te juro!
— Eu não acredito! — A mirou nos olhos. — Você poderia
perfeitamente haver cancelado isso ou simplesmente haver me contado a
verdade, mas você decidiu fazer tudo às escondidas porque sou demasiado
enferma para compreender.
— Claro que não Sandra. De verdade, me ofende pensando dessa
forma porque...
— Claro. Agora se faz a coitada! Esse é o seu melhor papel, verdade?
Fazer-se a coitada se algo não sai como você quer.
— Eu não sei o que está dizendo, de verdade. Está muito mal e eu não
vou discutir, mas se quer participar do chá, aqui estamos todas, senta
conosco.

Sandra encarou os olhos de Montserrat e saiu da casa.


Mon sabia o quanto havia se equivocado ao mentir para amiga, mas
naquele momento o único que conseguiu sentir foi preocupação pelo estado
psicológico de Sandra.
— Sandra, por favor, não vá assim!
Montserrat perseguiu os passos da amiga e somente a alcançou
quando ela já descia as escadas da frente da casa. A agarrou pelo braço e
tentou dar um basta naquele pleito desnecessário.
— Sandra, por favor, não há razões para isso. Por Deus!
— Ah, agora eu também sou louca, não? — Quitou o braço da mão da
amiga.
Mon suspirou pesadamente.
— Claro que não. Sandra, tudo o que faço é pelo seu bem-estar, para
te proteger, você é minha melhor amiga e me dói que esteja passando por
isso.

— Ah, é? E como pretende me proteger? Me humilhando? Me


excluindo? Falando mal de mim para essas suas amiguinhas? É assim que me
protege?
— Aqui ninguém estava te maldizendo.
— Eu ouvi aquela estúpida falando de mim, não seja hipócrita,
Montserrat, e você nem sequer se preocupou em me defender! — gritou,
irritada. — Claro. É certo que concorda com tudo o que ela disse, verdade?
Mon tentou evitar a verdade, mas não podia seguir mentindo.
— Sim, concordo. — Cruzou os braços. — Penso o mesmo que ela.
Acredito que, cedo ou tarde, Ricardo irá te deixar…

— Por que sou uma enferma? — questionou com os olhos marejados.


— Não, e sim porque ele não te ama o suficiente para enfrentar isso
junto contigo, Sandra. É por isso. Me perdoa se eu não te disse antes, se eu te
faltei com a verdade, mas só queria diminuir a sua dor.
Sandra chorou em silêncio. Era uma tortura saber que todos estavam
inteirados que, por culpa da sua incapacidade, Ricardo estava prestes a ir de
sua vida.
— Amiga. — Montserrat tentou acercar-se a ela, mas foi rechaçada.
— Já, Montserrat! — Secou as lágrimas rapidamente. — Não
necessito que ninguém sinta lástima de mim.
Sandra deu as costas e foi embora.
Mon pôs as mãos sobre a barriga e lamentou.
— A ajude, meu Deus. A ajude, porque Sandra não está bem!
A raiva de Sandra somente teve uma pausa quando se tornou
impossível não se entregar às lágrimas. Reconhecia que talvez havia
exagerado com Montserrat, afinal, não acreditava que as atitudes dela
carregasse más intenções, por mais que não tivessem sido executadas da
maneira mais adequada. No entanto, no ápice do seu desespero emocional
não havia nada que fosse pequeno e de pouca importância, tudo era muito
grande e intensamente forte quando até Deus parecia estar em seu contra.
Não era fácil fazer parte de um grupo de amigas onde todas eram
mães e mulheres muito felizes com suas famílias. Não era fácil estar junto a
elas quando o único tema discutido era sobre filhos, família, maternidade. O
que havia de mal? O que havia de mal que todas ao seu redor podia ter suas
famílias muito belas e ela não? Até quando seria mencionada como aquela
que ainda não sabia o que sente uma mãe, a que desconhece o amor
incondicional? Até quando se sentiria menos mulher por ser incapaz de dar a
vida?
A cada questão reproduzida na mente, ela chorava mais. Tentava
livrar-se daquele pensar e dizer para si mesma que na próxima gravidez
chegaria até o último mês e que por fim seria mãe, mas há muito sabia que
aquilo era um mero engano, uma ilusão para secar suas lágrimas
temporariamente e abrir um dissimulado sorriso, pois estava ciente que aos
trinta cinco anos, outras cargas colocavam a maternidade em risco.
Sandra caminhou até o parque e sentou-se em um dos bancos de
tintura esverdeada. Mirou ao redor e viu o que era mais comum de se
encontrar nos fins de semana naquele lugar. Crianças, mulheres grávidas,
casais enamorados e felizes e ela desejando viver o mesmo.
Repentinamente uma bola de futebol atravessou o caminho de Sandra,
que se curvou para pegá-la.
Uma dócil menina de seis anos acercou-se correndo.

— Tia, é minha!
Sandra ergueu o rosto e admirou a pequena, dando um sincero sorriso.
Lembrou-se de como Ricardo era distinto dos demais homens ao preferir uma
menina que a um menino. Já ela jamais teve preferências, o único que
desejava era ser mãe e poder dar todo o amor que há muito ansiava depositar
em um ser que amaria até o último segundo de sua vida.
— Tia, a pelota é minha.
Sandra sorriu entre lágrimas.
— Sim, meu amor. — A entregou nas mãos. — É muito linda, sabia?
— Obrigada. Você também. Que lindos olhos tem! — A menina
encantou-se com os olhos de cores distintas de Sandra. — Minha amiga tem
um gato que também tem um olho de cada cor.
Sandra riu.
— De verdade?
— Sim? Mas o dele um é verde e o outro é azul.

— Pois, o meu o direito é cinza café e o esquerdo é somente cinza. —


Apontou para ambos os olhos. — Você gosta?
— Sim, por que nem todos tem os olhos assim?
— Porque não é normal, é uma anomalia. O meu olho claro é
defeituoso, pois, não tem cor, por isso eu não vejo muito bem longe.
— Rebeca! — A mãe da menina acercou-se rapidamente e a puxou
pelo braço. — Já te disse que não te quero cerca de estranhos.
— Mas, mamãe…
— Tranquila, senhora. — Intercedeu Sandra, levantando-se. — Eu
somente estava conversando com a sua filha, nada mais.
— Sim, mãe. Ela me entregou a pelota.
Cecília olhou para Sandra e controlou o nervosismo.
— Perdão, senhora, mas nesse mundo tão cruel e violento há que ter
cuidado com os nossos filhos, verdade?
Sandra somente assentiu com a cabeça.
— Quem é o seu filho? Ele está brincando com minha menina?
Sandra ponderou em cima de cada palavra e contestou.
— Sim, ele está aqui, quer dizer… — Arrumou o cabelo, nervosa. —
Estava aqui, mas o pai acaba de lavá-lo, sabe essa programação, pai e filho,
não? — disse, entre risos.
— Ah, claro. — A mulher sorriu encantada. — O meu marido
também é assim, super carinhoso com os filhos. Nossa, o fim de semana na
casa é terrível. Estão todo tempo colocando tudo fora de ordem. — Riu.

— Imagino! — Forçou uma risada meio ao choro que tinha preso na


garganta.
— Só tem um filho?
— Não, tenho mais três, e estão com o pai. Se não deixo que Ricardo
os levem, ele pode me matar! — respondeu, rindo.
— Pois, o meu marido é igual! — Riu. — Bom, oxalá que nos
vejamos mais vezes aqui no parque com os nossos filhos e talvez até com os
nossos esposos. Acabo de chegar na cidade e imagine que não conheço a
ninguém.
— Claro, será um gosto!
Cecília sorriu, e Sandra dissimulou. Aceitando ou não, ela se
constrangia por sua verdadeira vida.
Sandra chegou em casa e jogou a bolsa sobre a bancada da cozinha.
Tomou um copo com água fresca e lembrou-se do longo tempo que levou
conversando com Cecília. Mais uma que se empenhou em contar com
detalhes sua vida de mãe e esposa e, diferente de outras vezes, Sandra teve
que criar diversas histórias para sustentar a farsa que criou sobre sua vida.
Estava se sentindo uma criança que não tem um brinquedo da moda e termina
mentindo para os amigos unicamente para não sofrer com os deboches. Essa
era a definição dela ultimamente. Sabia que, o que estava fazendo não era
certo e tampouco saudável, mas foi a única luz que encontrou meio a sua
maldita obscuridade.
— Senhora.
O segurança da casa, Ademar Zamora, adentrou a cozinha quitando a
distração da patroa.

— Olá, Ademar. O que quer? — Colocou o copo sobre a pia.


— Está tudo bem?
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim, por quê?
— O senhor ordenou que eu fizesse cargo de você! Disse que a
senhora não se sente muito bem, emocionalmente.
Sandra riu.
— Estou bem. Tranquilo.
Ademar poderia facilmente dissimular que havia acreditado e dar as
costas, regressando ao trabalho. Entretanto, há anos trabalhava naquela casa e
já não conseguia fingir que tudo estava bem.
— Senhora, sei que sou somente o empregado e que você não tem a
obrigação de me dizer nada, caso não queira, mas estou aqui para te ouvir e
ajudar no que seja, de verdade — disse, mirando-a nos olhos.
Ela balançou a cabeça positivamente.
— Obrigada, Ademar, mas estou bem.
O segurança deu um leve sorriso.
— Então posso regressar ao meu trabalho?
Eles riram.
— Quando quiser.
— Então com licença!
— Próprio.
Ademar a mirou por última vez e deixou a cozinha.
Sandra cerrou os olhos e chorou em silêncio. Daria o que fosse para
não ter vergonha e desabafar com alguém.
**
Aaron estranhou quando chegou em casa e encontrou a sala de estar
vazia e a esposa na cozinha cuidando da louça.
— Meu amor. — Ele a beijou carinhosamente na bochecha.
— Olá!
Ela foi árida. Afastou-se dele e pôs o prato de porcelana sobre a pia.
— Passou algo? — Juntou as sobrancelhas, confuso. — Fiz algo?
— Não, meu amor, me perdoe. — Suspirou estressada. — O
problema não é contigo, e sim com Sandra. — Pegou o pano de prato e
enxugou a mão.
— O que passou dessa vez?
— Sandra veio aqui e terminou vendo a organização com as chicas,
ficou enojada e se foi pelejada comigo. Isso foi o que aconteceu — contou,
farta.
— E você explicou a ela qual foi a sua intenção com isso?
— Sim, meu amor, mas ela não acreditou. Pensou que eu havia me
reunido com as outras chicas por elas serem mães. Por favor, donde Sandra
quitou isso? Sempre fomos amigas e não é um fato estúpido deste que irá se
interpor entre nossa amizade! — contou, estressada.
— Calma, meu amor. Calma.
Aaron acercou-se a amada e a beijou na cabeça.
Montserrat apoiou as mãos sobre a bancada de mármore e respirou
fundo.
— Estou muito preocupada com minha amiga, Aaron. Ela não está
nada bem.
Aaron beijou a mão da esposa e guardou silêncio.
**
Sandra jantava na cozinha, quando Ricardo chegou e abriu a geladeira
por uma lata de cerveja. A mulher sentada à mesa, ergueu a mirada e respirou
fundo. Jamais quis ser a esposa que todo instante está cobrando o marido e
que enxerga tudo como ação de infidelidade, porém, desejava entender
porque Ricardo estava a evitando nos últimos dias.
— Onde estava?
— Com uns amigos! — Abriu a lata de cerveja.
— Com Aaron?
— Também.
Sandra ficou em silêncio e deu uma garfada na comida.
— Te incomoda?
— Não. — Limpou a boca com o guardanapo. — Só queria entender
porque cada dia passa menos tempo comigo, Ricardo. Quê? Já não me amas?
É isso? Minhas amigas estão certas, você irá me abandonar por minha
incapacidade? — Aquela era uma possibilidade que diariamente pedia para
não ser realidade.
Ricardo suspirou pesadamente e ficou em silêncio.
— Ricardo, me diga! É isso?
— Sim, Sandra! Quero o divórcio!
Ela largou o talher e os seus olhos se inundaram com as lágrimas.
Sandra pediu centenas de vezes para que estivesse dormindo e que o
pedido do marido fosse um terrível pesadelo.
— Ricardo, por favor! — Ela levantou-se, chorando. — Meu amor,
você não pode me deixar. Ainda temos chances de construir a nossa família,
nem tudo está perdido.
— Chances? Sandra, há anos estamos nessa maldita tentativa e nada.
Nada sucede. Realmente acredita que ainda temos alguma oportunidade?
Sem se dar conta, Ricardo estava agindo como a pessoa mais egoísta
do universo. Ali, aparentemente, o único que realmente importava era o seu
desejo pela paternidade, a gana por construir uma família. Para ele, não era
válido que Sandra estivesse sofrendo e que diversas vezes houvesse colocado
em risco a sua saúde em busca daquele sonho.
— Ricardo, podemos recorrer a outros meios. Por Deus! Podemos
tentar a adoção, por exemplo.

— Claro que não! Sabe perfeitamente que jamais traria uma criança
que desconheço a origem para a minha família! — repudiou. — É isso,
Sandra, não há maneira para nós. Temos que aceitar!
— Não! — Alterou-se. — Eu também posso buscar o meu doutor e
perguntar se não há outra maneira de engravidar, um tratamento. Não sei,
mas estou segura de que há algo, minha vida. Por favor, não desista de mim,
não desista de nós, da nossa família!
Em lágrimas, ela se aproximou do esposo e o segurou delicadamente
no rosto.
— Por favor, Ricardo, eu te necessito, meu amor. Não me deixe! Me
perdoe por minha falha. Por favor, me perdoe! — rogou, caindo em prantos.
Sandra não conseguia enxergar aquele abandono como atitude de uma
pessoa que não a amava o bastante para seguir adiante, e sim como a
despedida de alguém que ela mesma havia o expulsando de sua vida por sua
incapacidade de se tornar mãe.
Ricardo a mirou com os olhos umedecidos e quitou as mãos dela do
seu rosto.
— Não, Sandra. Eu não posso! É demasiado para mim. Quero ter
filhos, quero ter uma família, a mesma que meus pais tiveram, a mesma que
os meus irmãos têm, e eu não vou conseguir isso estando contigo. Você não
pode me dar filhos! — Alterou-se.
— Sim, eu posso! Eu somente necessito de mais uma oportunidade
para comprovar. Eu estou segura de que dessa vez irá suceder, meu amor.
Estou sentindo aqui. — Apontou para o peito e sorriu entre lágrimas.
Ele negou com a cabeça. Não era a primeira vez que escutava algo
como aquilo.

— Quero ser pai e tenho direito de buscar a mulher que me cumpra


esse sonho!
— Não! Por favor, não faça isso! Você não pode me deixar por outra
mulher! Sei que ainda me amas e que a razão de estar assim é porque está
frustrado com todas as nossas tentativas, mas sei que quando o nosso filho
nasça isso irá mudar e você irá perceber que sou a mulher da sua vida, meu
amor!
Impaciente, Ricardo a agarrou pelos pulsos e a mirou nos olhos.
— Nosso filho nunca irá nascer porque você é mais estéril que uma
pedra, Sandra! — A soltou com agressividade.
Sandra pareceu petrificar mediante as palavras agressivas do marido.
Ricardo passou a mão no cabelo e caminhou de um lado a outro, antes
de voltar a olhar para a esposa, que chorava copiosamente. Os olhos dele se
encheram de lágrimas e por um momento ele quis abraçá-la e pedir perdão
por suas impulsivas e infelizes palavras, entretanto, não podia a acalmar e
depois ir como se nada estivesse sucedendo.
— Vou empacar as minhas coisas!
Ricardo respirou fundo e saiu da cozinha.
Sandra sentou à mesa e rompeu em prantos.
**
Montserrat não pôde ficar em paz desde que Sandra deixou a sua casa
emocionalmente abalada. Já passava das uma da manhã quando Aaron sentiu
ausência da esposa na cama e a encontrou na sacada. Antes de adentrar, a
observou pelas costas. Ela mirava para o infinito enquanto estalava uma e
outra vez a junta dos dedos das mãos. Ela estava estressada, preocupada,
apreensiva, e Aaron temia pela saúde da amada e filha.
— Por que não está dormindo, hein, meu amor? — Aaron a beijou o
topo da cabeça e sentou-se frente a amada.
— Ah! — Ela teve um sobressalto ao ser quitada repentinamente dos
seus pensamentos. — Pensei que estava dormindo profundamente. De
verdade, não queria que despertasse. — Ela lamentou. Não queria que ele
presenciasse a sua inquietude.
— Meu amor, está muito alterada. Não é bom para ti, não é bom para
a menina.
— Eu sei! Eu sei! — Passou as mãos sobre o rosto duas vezes
seguidas. O fato de estar estressada a deixava estressada. — Eu não queria
estar assim, meu amor. Estou fazendo o possível para não estar assim, mas
Sandra me preocupa. Me preocupa muitíssimo! A liguei milhares de vezes e
ela não me contesta. Tenho medo que cometa uma estupidez.
— Meu amor, já é tarde, sim? Seguro está com Ricardo ou
simplesmente…
— Está mentindo, verdade?
— Como? — Juntou as sobrancelhas.
— Não se faça. Sei quando me menti ou oculta algo, pois nunca me
mira nos olhos. Sabe algo de Sandra, não?
Aaron olhou para o teto e passou a mão sobre o rosto. Liberou um
suspiro apreensivo e confessou a esposa que Ricardo pretendia deixar a
Sandra naquela noite.
Montserrat deu um salto da cadeira enquanto lançava vários reproches
contra o marido. Como ele fora capaz de a ocultar um assunto tão grave
enquanto estava sendo uma testemunha viva dos seus nervos à flor da pele?
— Exatamente por isso, Montserrat, eu sabia como você iria se ficar.
— Ah, sim! E me deixar sem nenhuma informação sobre a minha
melhor amiga iria me tranquilizar muitíssimo, verdade? — Cruzou os braços,
alterada.

— Eu só queria te proteger!
— Sim, me proteger, mas não me protege me deixando assim como
estou! — Irritou-se.
— Montserrat, se acalme, sim? Vamos ligar mais uma vez para
Sandra e ver o que passa, e se ninguém contestar, iremos até lá, ok? — Pegou
o telefone de sobre a mesa.
— Sim — concordou, apreensiva.
**
O telefone já havia tocado quatro vezes na casa quando Ademar o
contestou. Do outro lado da linha, Aaron fez todas as perguntas que tinha em
mente e mais as que a esposa pediu que fizesse. O segurança foi totalmente
sincero ao dizer como as coisas realmente haviam sucedido e que Sandra
naquele preciso momento estava no quarto, mas que ele estava a fazendo
cargo.
As informações passadas por Ademar não foram o suficiente para
deixar Montserrat tranquila. Lamentou milhares de vezes por aquele
rompimento matrimonial e pelo sofrimento da amiga, mas por um lado
acreditou que aquilo fora o melhor. Talvez Ricardo fosse um perigoso veneno
que estava matando aos poucos e Sandra necessitava se salvar.
Mesmo com a garantia de Ademar, Mon desejou naquele mesmo
momento ir até à amiga e a consolar, mas depois das insistências de Aaron,
ela terminou reconsiderando e aceitando que o melhor era aguardar até a
manhã seguinte.
Quando o sol raiou, as luzes do quarto de Sandra nem sequer haviam
se apagado. Naquela noite as lágrimas haviam substituído a sua habitual
sonolência e o peito doía de tanto lamuriar.
Ademar, que havia trabalhado dois turnos para socorrer a patroa em
qualquer urgência, pôs uma bandeja com desjejum sobre a cama.
— Come, senhora, necessita se alimentar.
— Eu não quero nada. Me deixa em paz, por favor! — pediu,
afundando o rosto no colchão.
— Não, eu não penso em ir. Sei perfeitamente que esse não é o meu
trabalho, mas eu me nego a ver uma mulher sofrendo, ainda mais por um tipo
que não vale a pena.
Ademar sabia que estava indo além do permitido, mas o grande
carinho que sentia por Sandra não o colocava travas.
Ela apenas cerrou os olhos e chorou. O que dizia Ademar era
completamente substituído pelas palavras agressivas que Ricardo a dissera na
noite anterior.
— Por isso, eu te exijo que saia dessa cama e que olvide esse imbecil
porque ele não te merece.
Ela seguiu sem escutar o que ele dizia.
— No mundo há muitíssimos tipos boa onda que podem te amar, te
respeitar, aceitar as suas condições e te fazer muito feliz.

Sandra cerrou os olhos e chorou mais quando a entonação de Ricardo


se elevou em sua mente.
— Sei que minhas palavras parecem não valer, mas elas são
totalmente verdadeiras, senhora, me faça caso.
— Cala-se! Já não quero te seguir escutando! Sai daqui! Sai! —
berrou, colocando as mãos sobre os ouvidos.
Ademar arregalou os olhos, e Montserrat adentrou correndo.
— Sandra. Amiga. Que foi esses gritos?
Mon sentou-se na cama e deu um forte abraço em Sandra, que a
correspondeu com todas as forças que tinha no corpo. Apoiou a cabeça sobre
o ombro da amiga e derramou suas copiosas lágrimas.
Montserrat olhou para Ademar, que com um aceno com a cabeça
pediu licença e deixou a habitação.
Quando Sandra pareceu um pouco mais tranquila, Mon desfez o
amplexo e assustou-se com o estado deplorável da amiga. A viu despenteada,
com olheiras, com olhos e rosto inchados, mas que importava a sua aparência
quando o emocional estava vinte vezes pior?
— Sandra, lamento muitíssimo o que sucedeu, de verdade!
— Foi tudo por minha culpa! Eu o mandei ir com minha maldita
esterilidade! — A voz dela estava rouca. Sua garganta doía e foi difícil
pronunciar cada letra.
— Não, Sandra, não pense assim! Você não tem a culpa! Te disse
perfeitamente que, caso Ricardo te deixasse, era porque ele não te amava o
bastante para seguir nessa contigo. Você não tem a culpa de nada, você é uma
mulher estupenda, deu a alma nesse matrimônio enquanto Ricardo somente te
cobrava coisas. Por favor, não se menospreza ou se culpe quando ele foi o
único culpado.
Mon proferiu cada frase a mirando profundamente nos olhos. Queria
que ela se convencesse e enxergasse que estava sendo sincera.
— Eu poderia haver feito mais, Montserrat.
— Não, você fez até onde era permitido — Acariciou os cabelos da
amiga com as duas mãos e as congelou nas laterais do rosto, mantendo firme
o contato visual. —, até onde era necessário, assim tem que ser. Tudo tem um
limite e, quando começamos a ser os maiores prejudicados, é porque o limite
se excedeu há muito e é necessário parar!
— Mas quero ser mãe, quero a minha família, Montserrat! — Chorou.
— Já aparecerá! Já aparecerá o tipo que irá te valorizar, que irá te
respeitar, te amar e tudo irá sair bem, você irá ver. Agora se tranquilize,
Sandra. Você não pode ficar assim, amiga. Tem que ter força, ânimo, por
favor.
Sandra apenas chorou, e Mon se compadeceu.

— Tudo isso irá passar, amiga. Eu te prometo.


Montserrat acariciou os cabelos dela e voltou abraçá-la.
Os dias que se passaram pareceram ser inibidores da tristeza e da
apreensão. Montserrat se sentiu um tanto mais tranquila quando viu Sandra
enxugar as lágrimas e aos poucos livrar-se daquele terrível mau momento que
vivia.
Era certo que a amiga ainda não havia superado totalmente aquele
desgosto. Uma vez ou outra a surpreendia chorando, ou melancólica,
principalmente quando cruzava com Ricardo no local trabalho e ele a tratava
como se nunca tivessem sido casados. Aquela atitude não lastimava somente
a Sandra, como também a Mon. Aquele homem enxergou a sua esposa como
uma máquina de ter filhos e, quando viu que ela não podia cumprir as suas
expectativas, ele a deixou como se deixa um objeto velho que já não é útil.
Mon era muito profissional, por essa razão coincidia com
permanência de Ricardo na agência, mas a sua relação pessoal com aquele
homem já não existia. Perguntava a Sandra se ela estava bem naquela
situação, porque por ela não pensaria duas vezes em demiti-lo, mas ela
alegou que tudo estava bem e que não iria permitir que nada voltasse a
derrubar.
— Meu amor, estou morrendo de fome. Vamos almoçar, sim? —
disse Montserrat, terminando de organizar a sua mesa laboral.
— Claro, só estou te esperando — contestou Aaron, adentrando a
sala.
— Que bom! Essa última junta quase me matou. Acredita que um
cliente disse que queria um desconto unicamente porque a campanha
publicitária seria feita por uma mulher?

— Está falando sério? Eu pensei que essa reunião era simples.


— De verdade, está a cada dia mais difícil suportar certos machismos.
— Pegou a bolsa e deu a volta na mesa. — Mas vamos, sim?
— E Sandra? Não vem almoçar conosco?
— Ela iria, mas ainda tem uma junta.
— Tudo bem, então vamos.
Mon deu um sorriso e saiu da sala abraçada com o marido.
Aaron estacionou o carro frente ao restaurante e deixou o veículo
acompanhado de Montserrat. O casal deu as mãos e caminhou em direção a
entrada quando repentinamente foram surpreendidos por um homem que
trazia a cara coberta e a arma em punho.
— Me dá a bolsa, madame!
Montserrat gritou assustada e ergueu as mãos.
— Senhor, por favor, não me faça nada! Estou grávida!
— Dá a bolsa de uma vez! — A puxou agressivamente do antebraço
de Mon. — E você também! Passa tudo o que tem! — gritou, apontando a
arma para Aaron.
— Tranquilo, amigo. Aqui não é necessário que ninguém saia
lastimado!
Nervoso, ele tirou a carteira do bolso e entregou para o assaltante, que
exigiu as chaves do carro. Aaron rapidamente as entregou para o delinquente
e ergueu as mãos, demonstrando que não iria reagir a sua atitude criminal,
mas tudo pareceu ser a debalde quando antes de escapar o criminoso disparou
duas vezes em uma das vítimas.

Montserrat soltou um grito de desespero e caiu de joelhos diante do


marido que fora baleado no peito e no braço esquerdo. Desesperada, agarrou-
se ao esposo desacordado e em lágrimas rogou por ajuda.
Sandra correu para abraçar a Montserrat quando chegou ao hospital.
Ainda em estado de choque, Montserrat não logrou a reagir, apenas chorou
copiosamente sobre ombro da amiga, que de todas as maneiras, tentou a
consolar.

— Amiga, me perdoe vir somente agora, mas acabo de me inteirar —


disse Sandra, assim que desfez o amplexo.
— Sandra, o meu marido. Meu Aaron pode morrer! — Em lágrimas,
voltou a abraçar.
Desafortunadamente as informações que recebeu do doutor não eram
nada boas. Aaron estava gravemente ferido e corria risco de morte.
— Como está Aaron? Há alguma notícia?
— Nada bem. Estão o intervindo e… Já leva horas no centro cirúrgico
e… — contou, nervosa. — Tenho medo. Tenho muito medo que não se salve.
— Chorou mais.

Sandra negou com a cabeça e a mirou nos olhos.


— Não, Montserrat, não diga isso. Aaron é um homem muito valente,
forte, ele irá superar essa. Estou segura.
— E se não? E se não se salva? — questionou, em lágrimas.
— Não vamos pensar nessa possibilidade, Montserrat. Temos que
sermos positivas, sim? Temos que confiar em Deus e na Virgem que tudo irá
terminar bem. Confiar em mim!
Montserrat cerrou os olhos e pôs os punhos sobre eles. Tentava
confiar nas palavras da amiga. Buscava acreditar que aquele era apenas um
mau momento e que tudo terminaria bem, mas algo dentro de si, doía
demasiado e advertia que o pior estava prestes a passar.
As amigas volveram a se abraçar e permaneceram daquela maneira
até que um investigador da polícia se acercou a elas.
— Boa tarde!
As mulheres desfizeram o abraço.

— Quem é você? — perguntou Sandra.


— Sou o agente Guzmán — apresentou-se, mostrando o distintivo
que trazia pendurado no pescoço. — Vim a pedido do hospital, parece que
o…
— Sim, o meu marido foi baleado em um assalto e… — Deixou de
falar ao ser dominada pelas lágrimas.
— A senhora poderia me descrever o rosto do delinquente? —
Retirou o bloco de notas e uma caneta do bolso da jaqueta.
— Não, ele trazia a cara coberta, mas o fato é que não havia razões
para ele disparar, senhor agente. O meu marido e eu não reagimos, não
apresentamos nenhuma resistência. Ele não tinha porque disparar —
indignou-se.
— Eu não duvido. Desafortunadamente em um país como o nosso o
latrocínio vem aumentando a cada dia.

— Bom e que? Você irá fazer algo ou isso irá ficar por isso mesmo?
— questionou Sandra, em tom de indignação.
— Iremos fazer o possível, senhora, mas saibam que quando não
temos nenhuma descrição do indivíduo, tudo é muito mais difícil.
— Ou seja, isso irá ficar pela mesma, verdade? Claro, como tudo no
nosso México lindo e querido, não? — Montserrat indignou-se.
— Eu não disse isso, senhora!
— Mas não é necessário que diga, senhor policial! Mas deixe que eu
te diga algo — Acercou-se a autoridade e o mirou nos olhos. —, por culpa
desse infeliz, o pai dos meus filhos, está morrendo e eu já deixo muito claro
que não irei desistir facilmente. Esse homem irá pagar! — asseverou, com o
dedo em riste.
— Senhora Villavicêncio.
O médico adentrou a sala ainda trajando a vestimenta da cirurgia.
Montserrat rapidamente virou-se para o homem de barba e olhos claros, e
nervosa questionou:
— E o meu marido?
O médico tardou para contestar:
— Logramos a quitar as duas balas que ele tinha alojada. Uma estava
quase que abaixo da axila e a outra a seis centímetros do coração.

Montserrat suspirou aflita e voltou a chorar.


— A cirurgia foi bastante complicada, ele sofreu uma parada
cardiorrespiratória e uma hemorragia que logramos a controlar, sem
embargo…
— Sem embargo o que, doutor? O que mais passou? O meu marido
ainda não está bem, é isso? — perguntou, nervosa.
Mais uma torturante pausa dada por parte do profissional da saúde.
— Fala, doutor! — ordenou, começando a chorar.
— Eu sinto, mas o seu marido acaba de entrar em estado de coma.
Montserrat pôs as mãos sobre a boca e as lágrimas pareceram
congelar por um minuto em seu rosto. O que sucedia não podia ser real.
— Não, doutor, me diga que é mentira, por favor! Por favor, diga que
é mentira!
Desesperada, ela mencionou em agarrar o médico pelo jaleco e exigir
que ele dissesse que o amado estava bem, no entanto, repentinamente perdeu
o ar, o equilíbrio e as forças. Seu corpo desfaleceu e foi amparado pelos
demais.
Minutos mais tarde, Sandra adentrou o estacionamento do hospital
para um encontro com o seu segurança de confiança, Ademar Zamora.
— Como está Montserrat?
— Bem, só sofreu uma queda de pressão e agora está observação por
causa do seu estado, obviamente. Ela está grávida e todo o cuidado é pouco.
— E ele? E Aaron?
Sandra deu de ombros e encostou-se no automóvel ficando lado a lado
a Ademar.
— Acaba de entrar em estado de coma. Bom, não está morto, mas ao
menos não poderá interferir nos meus planos.
Ao contrário do que Montserrat pensou, Sandra não estava tão bem
quanto aparentava. Nos últimos dias, o abandono e o rechaço de Ricardo
resultou ser um sério agravante para uma mente que há muito não estava tão
bem. Sandra ainda desejava ser mãe, ainda ansiava recuperar a Ricardo e por
fim ter a família que tanto desejava e, para isso, ela não se importou em agir
contra a sua própria melhor amiga.
— Você não acredita que isso possa nos trazer problemas, verdade? O
tipo que contratou é de confiança? — Sandra o mirou um tanto apreensiva.
— Claro que sim, senhora. O tipo é dos melhores. Agora ele só espera
as seguintes instruções.
Sandra sorriu.
— Gosto dos eficientes!
Ademar sorriu orgulhoso.
— As instruções vêm agora quando temos que ir por Nicolas no
colégio e o levar para o lugar coincidido.
Eles riram.
No momento mais débil de sua vida, o último que Mon pensou era
que a pessoa que tanto queria, fosse precisamente a responsável por seus
dramas. Por confiar na amiga, Montserrat pediu a Sandra que buscasse a
Nicolas na escola e que o levasse para a sua casa enquanto ela não recebia a
liberação médica para ir, mas o seu pedido acabou se tornando a chave de
ouro que abria a porta do seu pior pesadelo.

— Madrinha! — Nicolas cruzou o portão da escola correndo e


abraçou a Sandra, que abraçada a ele o deu vários beijos na bochecha.
— Mira, que lindo está, hein?
— Obrigado, madrinha. — Ele sorriu. — Mas o que faz aqui? Cadê a
minha mãe?
— Como? — Ela mostrou-se indignada. — Não está feliz que eu
tenha vindo te visitar?
— Sim, mas pouquíssimas vezes fez.
— Bom, isso porque tenho muitíssimo trabalho, mas não significa que
eu não possa te fazer uma surpresa uma vez ou outra.
— Sim.
— E você gostou?
— Sim, muitíssimo!
Animado, ele a abraçou novamente. Sandra esticou o pescoço e viu
Ademar a observando através do retrovisor do veículo.
Ela desfez o abraço e o mirou o garoto nos olhos.
— Agora iremos adentrar o carro e irmos para minha casa, sim? —
disse, enquanto se levantava.
— Sim, que padre! — comemorou.
Sandra deu um leve sorriso enquanto observava a animação do
afilhado. Pôs o garoto no carro e secretamente passou as últimas informações
para Ademar, que assentiu sabendo uma a uma.
Nicolas estranhou a confidência entre a madrinha e o homem de
expressão solene.

— Madrinha, você não irá ficar comigo?


Sandra juntou as sobrancelhas como se não compreendesse.
— Claro que sim, meu amor. Apenas acaba de surgir um problema de
última hora e eu não irei poder ir contigo nesse preciso momento, mas não se
preocupe que eu já arreglo e te alcanço, ok? — Sorriu.
O garoto assentiu com cabeça.
Sandra olhou para Ademar e disse:
— Te encargo muito, sim?
— Não se preocupe, senhora!
Ademar colocou os óculos escuros e deu partida com o veículo.
No hospital, a enfermeira terminava de verificar a pressão arterial de
Montserrat quando Ricardo apareceu na porta do quarto.
— Sua pressão já voltou a normalidade, senhora! — informou,
quitando o aparelho do braço da paciente.

Ao menos aquela informação a deixou um pouco tranquila. Apesar do


estado de Aaron a deixar em pânico, ela sabia que era necessário se controlar
pelo bem-estar do seu bebê.
— Eu já posso ir para a casa, enfermeira?
— Sim, senhora, mas fique em repouso até amanhã. Compreenda que
eu seu estado não é bom alterar-se, muito menos nesse final de gestação.
— Sim, obrigada.
A enfermeira pediu permissão e deixou a habitação.
Ricardo cruzou os braços e adentrou a passos lentos. Não sabia como
se reportar a esposa do amigo quando há dias eles tratavam apenas de
assuntos laborais.
— Como se informou?
— Pelas notícias. Não se fala outra coisa.
Mon ergueu uma das sobrancelhas, com um tanto de indignação.
Gostaria que toda aquela repercussão servisse para ajudar na captura do
infeliz que quase mata o seu marido.
— É verdade que está em coma?
Ela assentiu com a cabeça e seus olhos voltaram a marejar.
— Está em coma e talvez nunca desperte — contestou, com a voz
embargada. — Ricardo, morro se algo passa a Aaron… Eu nem quero
imaginar sua morte, meu Deus! — Voltou a chorar.
— Mon, não vamos pensar assim, sim? Aaron é um tipo muito
saudável, forte, eu estou seguro de que irá sair dessa.
— O que mais me revolta, o que mais me indigna é que não havia
necessidade. Não havia necessidade desse tipo disparar, em nenhum
momento Aaron mencionou reagir. Ele não iria fazer.
— Eu imagino. Aaron jamais foi de reagir às situações como essas,
muito menos iria colocar a sua vida em risco, mas desafortunadamente esse é
o nosso país, Montserrat. Aqui se não tem dinheiro para dar aos delinquentes
em uma ação como essa, esses tipos podem te cortar a mão, e você sabe
perfeitamente que não falo isso figurativamente, as coisas são como são.
Aquela era uma verdade que Mon não podia negar para si mesma.
Bastava abrir os periódicos cada manhã para deparar-se com a tamanha
criminalidade do seu país. Quando não era a guerra dos cartéis, era um caso
de violência gratuita, um latrocínio, um feminicídio e o pior de tudo era que
poucos tinham a resolução merecida. No entanto, ela prometera que a
criminalidade que cometeram contra o esposo não iria ficar pela mesma.
— Se você necessitar de mim para algo, sabia que…
— Não, obrigada. Sandra já está me dando todo o apoio necessário.
Não se preocupe. — A sua situação não era das melhores, mas ela ainda se
recordava das atitudes de Ricardo contra sua melhor amiga.
Ricardo percebeu que o seu auxílio não era bem-vindo.
— Tudo bem, mas caso me necessite, eu…
Sandra chegou e surpreendeu-se com a presença do ex-marido.
— Ricardo?
Ele virou para ela que se acercou a ele.
— Que faz aqui?
— Aaron é meu amigo, me preocupa o seu estado.
— Sim, mas não sabia que já estava inteirado. — Colocou a bolsa
sobre a poltrona e pôs as mãos na cintura.
— Bom, não se fala outra coisa nos noticiários, não?
— Sim, verdade — concordou. — Montserrat, como está, amiga? —
Acercou-se rapidamente a ela.
— Bem. — Ajeitou-se na cama. — Minha pressão já está estabelecida
e posso ir para a casa. E meu filho? Ele achou algo raro?
— Bom, sim. Ele estranhou a minha presença, mas logo tratei de
inventar uma escusa e pedi a Ademar que o levasse a minha casa.
— Como a sua casa? — Juntou as sobrancelhas, confusa. — Eu pedi
que o levasse para minha casa, Sandra.

— Sim, mas como tive que criar todo um conto para que ele não
desconfiasse, achei preferível o levar para minha casa, pelo menos lá ele não
tem chance de inteirar-se de algo sem a sua presença.
Mon ponderou e concordou.
— Sim, tem razão. O melhor é que eu vá logo até o meu filho e conte
essa maldita verdade — disse, aflita.
Sandra acariciou o cabelo da amiga e a beijou na cabeça. Naquele
momento já conseguia imaginar a real situação do garoto.
**
Nicolas protestou quando saiu do carro e se viu em um lugar de
muitas árvores e mato. Já era fim de tarde, e a brisa fria o fez encolher os
braços e esconder as mãos no interior do casaco.
— Essa não é a casa da minha madrinha! Por que me trouxe aqui?
Ademar, que já estava saturado pelos diversos questionamentos do
menino no decorrer do caminho, bateu a porta do veículo com força e
acercou-se a passos firmes.
— Estamos aqui porque sua madrinha me ordenou. Agora vamos.
Ele puxou a Nicolas pelo braço, mas o garoto apresentou resistência.
— Me solta! Isso é uma grande mentira! Minha madrinha jamais me
mandaria a esse lugar!
Nicolas tentou escapar, mas Ademar foi agressivo ao agarrá-lo pelo
braço.
— Escuta, menino estúpido! — Elevou a voz e travou os dentes. —
Aqui quem dá as ordens, sou eu, e é bom que você fique bem obediente.
Estamos? — falou, sisudo.
Temeroso e com lágrima na mirada, o garoto assentiu com a cabeça.
— Muito bem! — Ele sorriu. — Gosto dos meninos obedientes. —
Molhou os dedos com saliva e arrumou o cabelo loiro e cacheado do garoto,
que começou a chorar. — Agora vamos que já nos esperam.

Ademar caminhou até a cabana e abriu a porta.


Otávio, que fazia um lanche sentado à mesa de madeira, deu um salto
da cadeira quando viu um dos chefes adentrar.
Nicolas soltou-se do cúmplice de Sandra e correu para a cama.
— Você irá fazer cargo do menino. Se ele ficar difícil, tem todo o
direito de fazer o que quiser para o controlar, menos o matar. Estamos claros?
— Sim, senhor.
Ademar colocou a mão no bolso da calça e puxou a carteira.
— Aqui tem uma quantia para que você compre o que necessitar,
comida, material de higiene, mas tudo isso com a atenção em cima do garoto,
não o deixe escapar. Entendidos?
— Claro, chefe.
Otávio pegou o dinheiro, e Ademar colocou a carteira novamente no
bolso.
— Agora tenho que ir. Cerre bem a porta para que não escape o
garoto — avisou, sisudo.
— Sim, senhor.
Ademar foi embora.
Otávio trancou a porta como o chefe havia ordenado. Encarou o
garoto e se aproximou, rindo.
Assustado, Nicolas correu para detrás da cama e escondeu-se.
— De nada serve se esconder, hein? Se não se comporta, eu te coloco
no saco — ameaçou.
Otávio deu uma risada maquiavélica e voltou a sentar-se à mesa.

Nicolas cerrou os olhos e chorou em silêncio enquanto rogava para


que os pais viessem o salvar.
**
Como a maioria das mães, Montserrat poderia ter pressentido que
algo não ia bem com o filho, se dentro de si não estivesse ocorrendo mil
sentimentos simultaneamente.
Adentrou a casa de Sandra e sentou-se no sofá da sala de estar
enquanto a amiga havia ido por um copo de água.
Aflita, ela enfiou os dedos na raiz do cabelo e soltou um lento suspiro
enquanto as lágrimas voltaram a fazer parte do seu rosto. O estado do marido
era extremamente preocupante e ela ainda nem sabia quais palavras utilizar
para contar ao filho, mas Mon nem sequer imaginava que o seu terror apenas
começava.
— Sua água, Montserrat!
Sandra acercou-se com um copo com água e entregou para a amiga,
que agradeceu e bebericou o líquido.
— Onde está o meu filho, Sandra? Está em um dos quartos? Necessito
falar com ele de uma vez e quitar ao menos um encargo da minha lista.
Sandra ficou em silêncio.
— Sandra? Me escuta?
A mulher a sua frente seguiu igual.
Montserrat juntou as sobrancelhas quando achou raro o silêncio da
amiga.

— Sandra, por que não contesta? — Levantou-se, apreensiva. —


Onde está o meu filho? — Alterou-se.
Se Montserrat tivesse chegado àquela casa em um momento menos
perturbador, teria se dado conta que logo assim que adentrou, Sandra trancou
a porta e que ao seu redor todas as janelas possuíam cadeados.
Assustada, Mon levou os olhos a cada canto do ambiente e devolveu a
mirada a mulher de braços cruzados e expressão apática.
— Sandra, por que há trancas? O que passa aqui? Onde está o meu
filho? — Apesar dos nervos à flor da pele, ela logrou a fazer aquela
indagação sem se alterar.

Sandra sorriu levemente.


— Bem-vinda a sua nova casa, Montserrat!
Mon franziu o rosto.
— Aqui irá passar até que nasça a sua bebê e você me entregue como
qualquer boa amiga faria.
Montserrat necessitou pausar a sua mente e organizar os seus
pensamentos antes de tomar qualquer reação. A sua frente estava a sua
melhor amiga proferindo disparates ao dizer que a partir daquele momento
ela era a sua prisioneira e que o seu único desejo era ficar com sua filha. Mon
não queria acreditar naquilo. Não queria acreditar que aquilo era real e que
sua vida quanto a do seu filho estava vulneravelmente nas mãos de quem um
dia ela confiou de olhos cerrados.
Por outro lado, se podia enxergar satisfação nos olhos de Sandra.
Havia passado os últimos dias arquitetando o plano perfeito para que nunca
caísse em evidência e, ao que parecia, havia logrado.
— Sandra, isso é uma broma de mau gosto, verdade? Não está
falando isso sério. — Riu sem rir.
— Você acredita que estamos em condições de brincar? Não,
Montserrat. Necessito ter um filho, necessito que Ricardo volte para a casa, e
você é a única pessoa que pode me dar isso. Você é a única pessoa que pode
dar o filho que tanto desejo e fazer com que Ricardo volte a me amar, pois
um filho vindo de ti, ele jamais rejeitaria. Como vê, eu não peço nada de
absurdo, apenas peço que me dê o filho que não posso conceber.
Ela não estava sendo irônica e tampouco se burlando. O seu
argumento tinha a sua total sinceridade e verdadeiro desejo.
— Está louca! Como pode? Como pode me fazer dano? Sou sua
melhor, amiga, Sandra. Sua irmã, caralho! — disse, chorando.
— Ah! E somente tenho que ver assim, ou seja, você não é minha
irmã para me dar o filho que não posso ter?
— Que loucura está dizendo?
— É uma egoísta, Montserrat. As coisas sempre têm que ser à sua
maneira, da forma que você gosta, mas eu também tenho os meus problemas,
minhas debilidades e não penso em abrir mão do que desejo. Necessito de um
filho e vou tê-lo! — asseverou.
— Ah, é? — Cruzou os braços, interessada. — E o que pretende fazer
comigo depois disso? Me matar? É isso que pretende fazer?
Sandra ficou em silêncio.
— Sabe de uma coisa, Sandra? Não é assim que se logra as coisas,
não é passando por cima das pessoas e tampouco se acreditando mais
importante do que realmente é.
— Eu não estou acreditando que sou mais importante, apenas desejo
um filho, sim? O que há de ruim nisso? O que há de ruim que eu faça tudo
por um sonho?
Mon deu as costas e passou as mãos no cabelo. Tomou aquele gesto
unicamente para observar minuciosamente cada canto e buscar alguma
brecha para escapar, mas nada. Tudo estava muito bem projetado e, além das
trancas, pôde ver câmeras no alto da parede e os telefones com os fios
cortados. Poderia parecer um pesadelo, mas ela era uma prisioneira da sua
melhor amiga.
— É louca, Sandra. — Voltou a virar-se. — Está completamente
enferma. Necessita de tratamento!
— O único que necessito é de um filho, nada mais!
Mon olhou para o teto e cruzou os braços, controlando as lágrimas e a
fúria que insistiam em domá-la.
— Eu não vou te fazer dano. É minha melhor amiga e jamais te
lastimaria, de verdade.
— Onde está meu filho? O que você fez com o meu filho, Sandra? —
Irritou-se.
Sandra ergueu as mãos com um sorriso contido.
— Nada… ainda, porque se você não se comporta, serei obrigada…
Montserrat não mediu os seus atos ao ir para cima de Sandra e quase a
enforcar com suas próprias mãos.
— Com o meu filho você não se meta ouviu bem, maldita? Fica longe
do meu filho! — gritou.
Sem alento, Sandra tentou quitar as mãos da mulher raivosa que
apertava o seu pescoço. Deu um passo atrás na intenção de alcançar algum
objeto para defender-se, mas terminou tropeçando no tapete e caindo sobre o
sofá.
Montserrat não a soltou.
— Fica longe do meu filho ou eu te juro que te mato, desgraçada! Te
juro!
Ademar, que adentrou pela porta da cozinha, correu até a mulher
enfurecida e a quitou de cima da patroa.
Sandra pôs a mão sobre o pescoço e tossiu fartamente.
— Me solta, imbecil! — Relutou contra os braços fortes que a
prendiam.
— Calma. Tranquila. Aqui ninguém é amigo da violência!
Sandra deixou de tossir e pediu a Ademar que soltasse a Montserrat.
— Vocês estão juntos nisso, verdade? Claro. Você jamais lograria a
fazer isso sozinha, Sandra, não tem os tamanhos. Porém, algo eu te digo, não
irá demorar muito para que toda essa sujeira seja descoberta e, aí você irá
para a cadeia.
Sandra levantou-se e a mirou com ironia.
— Verdade? E por quem? Pelo mesmo policial que valeu madres a
ação criminal contra ti?
Mon ficou suspicaz.
— A ver… — Ela não quis acreditar que, até então a sua melhor
amiga, havia criado toda uma ação criminal para que atualmente todos
estivessem com estavam. — Você também tem algo a ver com o assalto?
Também tem algo a ver com o disparo que deram no meu marido?
Ela balançou a cabeça positivamente e cruzou os braços.
— Que bom que apesar de loira não é néscia, Montserrat. Eu tinha
que te colocar nas minhas mãos em silente e não me ocorreu ideia melhor.

Mon negou com a cabeça e seus olhos marejaram. Desconhecia a


mulher que tinha em frente.
— Está completamente enferma, Sandra! De verdade, eu não te
conheço. Não é minha amiga! — chorou.
Sandra não apresentou comoção.
— Ademar, por favor, leve a minha convidada para conhecer a sua
habitação e dê a ela tudo que necessite, sim?
— Sim, senhora!
Ademar acercou a Mon, que deu um passo atrás.
— Não! Quero saber do meu filho. Quero saber de Nicolas nesse
mesmo instante! — exigiu aos gritos.
— O seu filho sempre estará muito bem desde que sua mamãe se
comporte, caso contrário, eu não me responsabilizo por nada.
Aquilo fora o pior que Montserrat pôde escutar. Para proteger um
filho, era necessário olvidar complementarmente do que estava a caminho.
Ademar a agarrou pelo braço e a levou para o quarto, ao contrário do
que pensara, Mon não apresentou relutância. Ela preferiu assim. Tinha que
proteger os filhos e pensar em uma excelente maneira de escapar daquele
cativeiro.
Quando Ademar desceu as escadas, Sandra o ofereceu um uísque e
sentou-se na poltrona da sala de estar.
— E ela?
— Está muito tranquila, até mais do que imaginava.
Ademar sentou-se e bebericou a bebida.
— Seguramente compreendeu que falo sério ou simplesmente decidiu
dissimular para pensar em uma maneira de escapar daqui.
— Fico com a segunda opção.
— Eu também. Conheço a Montserrat e sei que ela não é de se dar por
vencida tão facilmente.
Foi inevitável não se lembrar dos momentos de irmandade que vivera
ao lado da amiga. Os olhos dela chegaram a se umedeceram, mas logrou a se
controlar.
— Está segura de que quer seguir com isso, senhora? — Era inegável
que ele havia a ajudado em cada passo daquele maquiavélico plano, mas
estava disposto a deter aquela ação quando a chefe desejasse.
— Sim, Ademar! Necessito ter um filho, e se Montserrat é a única a
poder me conceder, eu não posso me mensurar, tenho que pensar um pouco
em mim — contestou, mirando-o nos olhos.
**
Montserrat cansou de caminhar descalça no chão frio do quarto.
Sentou-se na beira da cama e não conseguiu fazer nada além de romper em
prantos. Para todos os cantos que mirasse, se via presa, cerrada, em um
verdadeiro cativeiro que teria que lutar diariamente por sua vida.
Por sua vida? Ela de imediato se questionou.
Obviamente não. Pela vida dos seus filhos. Eles eram a prioridade.
Eram eles que a faria lutar cada segundo e escapar daquela situação, mesmo
que ainda não tivesse a remota ideia de como fazer, mas algo tinha que
surgir!
Para isso, engoliu o choro e secou as lágrimas, mas não suportou por
muito. Se lembrou do marido, dos filhos, do que estava vivendo e da
causadora daquele pesadelo e não teve outra opção além de chorar
novamente.
O que estava vivendo não era uma traição, não se tratava de uma
história onde uma mulher flagra sua amiga com o noivo, aquilo se tratava de
um ato criminal, de uma obsessão, de uma história onde a pessoa que mais
tinha confiança fora capaz de destroçar a sua vida para lograr o seu desejo.
Aquilo fora o cume do egoísmo, da inveja, da gana de alcançar algo que não
era para si, mas não significava que nunca poderia lograr.
Sandra sabia que havia outros meios para tentar engravidar, sabia que
havia outras formas de cumprir o seu sonho, e Mon já havia começado a
pensar na possibilidade.
Alguns dias antes, Montserrat conversou com o marido sobre a ideia
que tivera de emprestar o seu ventre para Sandra conceber o filho. Nunca
imaginou que ficaria tão feliz quando escutasse uma resposta positiva da boca
de Aaron, mas assim reagiu. Ficou eufórica e quase morre de felicidade, pois,
por fim poderia ajudar a sua melhor amiga cumprir o seu sonho e, junto a
isso, sacaria toda a frustração que aquela mulher levava dentro de si, porém,
tudo pareceu muito tarde quando Sandra decidiu a cravar uma faca nas
costas.
Ainda em lágrimas, Montserrat pegou a fotografia que estava sobre a
mesa de cabeceira e se viu abraçada a Sandra.
Se volvesse a sua memória, se lembraria perfeitamente daquele
momento registrado, afinal, do que não se recordava quando se falava dos
momentos que vivera com a amiga? Ironicamente tudo sempre era muito
nítido e o que estava vivendo atualmente também ficaria para sempre na
memória.
Na manhã seguinte, Mon despertou pelo ruído da porta. Abriu os
olhos lentamente e viu Sandra adentrar com uma bandeja de desjejum nas
mãos.
— Bom dia! Como amanheceu? Dormiu bem à noite?
Sandra acercou-se a Mon, que revirou os olhos. Ainda não entendia se
aquela mulher era muito hipócrita ou completamente enferma.
— Eu dormi como há muito não dormia, como um anjo — falou
Sandra.
Ela sentou na beira da cama e pôs a bandeja sobre o colo de
Montserrat.
— Come!
Mon a encarou sisuda.
— Quando isso irá acabar, Sandra? Quando irá deixar de agir como
delinquente e me quitar de tudo isto?
— Eu não sei que fala. Eu não sou nenhuma delinquente, eu não te
coloquei em um cativeiro ou em uma masmorra, nada disso. Está em minha
casa. Você pode deixar o quarto, descer, ir à varanda, ao quintal. Não é minha
prisioneira, confio em você, sei que jamais faria nada para colocar a vida de
Nicolas em risco.
— Onde está o meu filho? O quero ver, quero saber dele! — Alterou-
se.
— O seu filho está bem! — Elevou a entonação. — Não se preocupe.
Agora come. Tem que está muito bem alimentada para que a minha filha
nasça saudável.
Sem mover os olhos, Mon pegou o copo com o suco de laranja e
jogou no rosto de Sandra.

— Vai para o diabo! — disse com ódio.


A mulher passou a mão sobre o rosto molhado e a ameaçou:
— Ao seu filho isso pode sair muito caro!
Sandra a mirou nos olhos e deixou o quarto.

Enfurecida, Montserrat jogou a bandeja no chão e chorou por ter


agido sem pensar em Nicolas.
— Perdão, meu amor. Perdoe a sua mãe.
**
No cativeiro, Nicolas estava dormindo sobre uma cama
desconfortável quando foi desperto abruptamente por Otávio, que arremessou
o saco de pão sobre ele.
— O seu desjejum.
Amedrontado, o garoto aguardou que o seu vigia se afastasse para
sentar-se e comer o alimento.

Otávio ligou o rádio e sentou-se à mesa.


— Você gosta de café?
Nicolas assentiu com a cabeça.
Ele pôs o líquido negro no copo e o colocou no centro da mesa.
— Vem aqui pegar!
Temeroso, o menino não se moveu.
— Vem aqui pegar! — ordenou novamente.
O garoto não teve coragem de mover-se.
Otávio riu.
— Nunca vi um menino tão covarde como tu. Está parecendo uma
mulher.
Nicolas o ignorou e deu uma mordida no pão.
A música que tocava no rádio deu voz ao locutor que iniciou os
principais informes da manhã.

— Aaron Villavicêncio ainda segue em estado grave no hospital do


Sul após ser baleado em um assalto que sofreu ontem na Cidade do México.
O publicitário segue em coma e respirando com ajuda de aparelhos.
Nicolas petrificou ao escutar a trágica notícia que estava involucrado
o nome do pai. Deixou de comer o alimento e as lágrimas invadiram o seu
rosto. Ainda não entendia o que acontecia. Não sabia porque estava naquele
lugar, porque aquelas pessoas eram tão ruins e, porque os seus pais haviam
desaparecido, mas o informe que escutara começou a esclarecer as coisas de
uma maneira bem dolorosa.
Otávio assistiu ao pranto do garoto e riu dele.
— Por que chora, hein? Assim nem parece homem!
Nicolas cerrou os olhos e chorou mais.
— Isso chora. Chore porque o seu pai já está morto. Nunca mais irá
voltar a vê-lo.
**
Ademar caminhou até o quarto de Sandra e encontrou a porta
entreaberta.
— Senhora?
Mediante ao silêncio da habitação, ele mencionou em bater antes de
adentrar, entretanto, cancelou a sua ação quando viu Sandra sair do closet
apenas de peças íntimas.
Ademar engoliu em seco e abaixou a mirada por um momento, no
entanto, terminou se rendendo e contemplou o corpo da mulher desejada.
Quando Sandra desceu as escadas, tempo depois, Ademar teve que
olvidar que havia a visto semidespida e que por ela sentia reações
inconfessáveis.
— Ademar!
— Sim, senhora. — Deixou o jornal sobre a mesa e levantou-se.
— Tenho que ir à empresa. Seguro irei passar todo o dia fora, então te
encargo muito a Montserrat, sim?
— Tranquila, senhora. Não se preocupe.
— E como está Nicolas?
— Bom, acabo de falar com Otávio, ele disse que, inevitavelmente, o
menino escutou no rádio que o pai está em coma e…
— O que há com esse imbecil? Eu disse para não deixar que o menino
se inteirasse. — Alterou-se.
— Sei, mas o que podemos fazer, não?
Sandra revirou os olhos e suspirou estressada.
**
Montserrat saiu do banheiro depois de haver tomado um banho.
Pensou que aquilo a ajudaria relaxar e, que um pouco mais tranquila,
conseguiria pensar em uma maneira de escapar daquela situação, mas nada
resultou. Tudo que veio à mente foi interrompido pelo seguinte pensamento:
E o meu filho?
Sandra estava completamente enganada. Não era aquela casa, as
paredes ou as trancas das janelas e portas que eram o seu empecilho, e sim
Nicolas. Ele era a sua maior cadeia. Era por ele que ela tinha que pensar uma
e outra vez antes de tomar qualquer decisão, pois tinha a obrigação de
protegê-lo, mas protegê-lo terminou se tornando sinônimo de vulnerabilidade
a pequena esperava.
Mon colocou as mãos sobre o ventre e conteve as lágrimas. Jurou para
si mesma que não iria se desesperar. Tinha que se manter forte e rezar para
que um milagre sucedesse.
Ela virou-se para a janela e teve a visão da casa ao lado. No quintal,
viu uma mulher que regava as plantas do jardim enquanto dois meninos
brincavam na grama. Montserrat não a conhecia, nunca havia visto em sua
vida, mas esse detalhe não a impediu de gritar e pedir ajuda.
Montserrat sabia que estava colocando a segurança do filho em risco
ao tomar aquela atitude, mas ela acreditou que se conseguisse despertar a
atenção dos vizinhos as suspeitas deles pudessem comprar sua liberdade, sem
embargo, todas as suas expectativas foram rompidas quando Ademar abriu a
porta e adentrou no quarto.
— O que está fazendo?
Ela virou-se e arregalou os olhos.
— Eu…
— Te fiz uma pergunta. Está chamando a vizinha?
Ela ficou em silêncio.
Ademar riu.
— Não, ela não irá te escutar. A casa tem revestimento acústico, então
pode gritar, espernear, que ninguém nunca irá te ouvir — contou, satisfeito.

Mon voltou a olhar pela janela e viu que a vizinha seguia da mesma
maneira. Como não pensara naquela possibilidade? Sandra havia preparado a
residência para a converter em seu cativeiro. Isso a deu certeza que aquela
mulher havia preparado tudo com premeditação e aleivosia, que enquanto ela
estava se rompendo de preocupação pela amiga, Sandra planejava destroçar
sua vida.
— Mira, para uma mãe você se preocupa muito com a própria
segurança, não? Digo, gritar pela janela não foi uma boa ideia quando o seu
filho está em perigo — disse Ademar, enquanto caminhava no quarto.
— Mira, por que está fazendo isso, hein? Sandra está te pagando
muito bem ou você é apenas um enamorado que ainda não teve sua
oportunidade com a patroa?
Ele riu.
— Nenhuma das duas. Faço isso porque é meu trabalho.
— Ah! É seu trabalho agir como criminal? Isso eu não sabia, que
eficiente é! — ironizou, cruzando os braços.
— É o meu trabalho atender a senhora em tudo que ela necessitar,
incluindo os seus caprichos. Aqui ninguém irá te fazer mal, estamos seguros
de que você irá se comportar perfeitamente bem, ademais, o seu filho está em
nossas mãos.
Mon suspirou raivosa. Aquela era a tortura psicológica daqueles dois,
a lembrar a diário que se ela não fazia as coisas como queriam, o seu filho
sofreria as consequências.
— Você é um criminal, e Sandra é uma louca. De verdade, eu me
pergunto como pude haver me enganado tanto com ela, porque eu jamais
imaginei que a pessoa que eu considerava ser minha melhor amiga pudesse
me fazer essa crueldade. Por quê? Ela me culpa, é isso? Ela me culpa por sua
infelicidade, por eu poder ser mãe, ela não, por Ricardo haver a deixado? É
isso? Agora sou culpada de todos os males que passam a ela?
Ademar deu de ombros.
— Não sei. Isso você deveria perguntar a senhora, e quem sabe
arreglar suas diferenças, quiçá esse seja o problema.
— Aqui não há diferenças, senhor! Aqui jamais houve um problema,
mas Sandra tratou de criá-lo porque me inveja de uma maneira enferma. Esse
é a raiz do problema!
Ademar a ignorou completamente.
— Bom, apenas venho dizer que se quiser descer e ir ao jardim tomar
um pouco de ar, você pode ir. Para que veja que aqui ninguém é prisioneiro
de ninguém.
Ele sorriu e deixou o quarto.

Montserrat bufou raivosa e virou-se para a janela, vendo a vizinha que


seguia com os seus afazeres no quintal.
**
Na agência de publicidade, algumas horas antes, Sandra reunira a
todos os funcionários e clientes para informar o distanciamento por tempo
indeterminado de Montserrat e Aaron. Todos estavam muito bem inteirados
do estado de saúde do proprietário, então era totalmente aceitável que sua
esposa grávida desejasse estar longe do laboral naquele momento débil de sua
vida.
Com isso, Sandra esteve segura de que não poderia haver agido de
melhor maneira. Estava tudo saindo melhor que o planejado e, ao fim, estava
segura de que em breve estaria com uma bela menina que a chamaria de
mamãe.
Ricardo saiu do elevador e foi ao encontro da mulher que vinha no
corredor.

— Sandra!
Ela deteve o caminhar e aguardou que ele se acercasse.
— O que quer?
— Onde está Montserrat? Ela não está aqui e também não está no
hospital com Aaron. — Tirou o cigarro do bolso e o acendeu.
Sandra forçou um sorriso.
— Se você estivesse aqui no momento da junta, saberia que passei o
comunicado que Montserrat está muito débil e que por isso estará
descansando por alguns dias.

Ela puxou o cigarro da mão dele, o alentando que era proibido fumar
no interior da agência.
— E quando ela regressa?
— Não ainda. Entenda que, na condição dela, ela necessita de
repouso, ainda mais depois de tudo que passou.
— Sim, tem razão, mas temos muitas campanhas que já estão em
cima, e sem ela e Aaron aqui eu não sei se iremos dar conta sozinhos.
— Claro que iremos. O que acabo de dizer na junta é exatamente a
nossa tabela de como iremos seguir daqui por diante. Tranquilo, tenho tudo
sob controle.

Sandra não era uma mulher ambiciosa no quesito financeiro, então


roubar a Montserrat ou fazer algo que prejudicasse o seu negócio era o que
menos a importava.
— Que bom! — Ele forçou um sorriso. Saber que teria que estar
tratando com Sandra diariamente não foi nada que o agradou, muito menos
para quem planejava olvidar uma relação que não pôde ser. — E como será
daqui em diante?
Ela sorriu, tragou o cigarro e o devolveu, antes de soltar a fumaça.
— Venha a minha sala que te explico, meu amor.
Sandra deu um leve sorriso e afastou-se.
Ricardo inclinou o pescoço e admirou o traseiro da ex-mulher. Apesar
do modo que romperam, ele ainda a pensava diário.
**
Montserrat decidiu aceitar o tão sugerido por seus sequestradores.
Saiu da casa e caminhou por uns minutos no jardim. Mirou ao redor e
terminou tendo a certeza de quão estava sendo vigiada. Além das câmeras
que não eram nada discretas, também havia mais dois escoltas que
circulavam por ali.
Um, parecia nem notar sua presença. Caminhava com seu traje negro
e com as mãos cruzadas nas costas. O outro estava parado do lado do portão
observando a movimentação da rua que, por certo, não existia. Será que eles
estavam inteirados que ela era uma prisioneira daquele lugar ou acreditavam
que ela era apenas uma mulher desesperada que estava passando os dias ruins
sendo consolada pela amiga?
Era certo que Sandra sempre teve sua casa cheia de seguranças desde
que sofrera uma tentativa assalto, anos antes, e depois disso ficou tão
traumatizada que perdera totalmente o limite quando se tratava de vigilantes,
mas Mon sabia que não podia confiar em ninguém, porque se Ademar que
sempre pareceu um homem tão reto terminou se involucrando naquela ação
criminal, os demais eram apenas detalhes.
Aflita, Montserrat sentou-se em um banco de madeira e respirou
fundo, colocando as mãos frente ao rosto.
Ademar, que saiu da casa, passou algumas ordens para o jardineiro e
sentou-se em uma das mesas com o periódico do dia nas mãos. Ele não
parecia um funcionário comum, agia com muita intimidade para ser, apesar
de sempre tratar com muita formalidade e respeito à senhora da casa. Porém,
quando ele e Sandra ficaram tão íntimos ao ponto de estarem juntos em uma
ação criminal? O que poderia motivar ele aquilo? Uma boa quantia em
dinheiro? Sim, parecia ser um grande incentivo, mas também havia a
possibilidade daquele homem carregar algo a mais por Sandra, e por essa
razão estava se corrompendo sem pensar nas consequências.
Por um instante, Mon rogou aos céus que não se tratasse disso, pois,
com dinheiro se pode conquistar tudo, e ela poderia tentar o manipular para
que ele agisse a seu favor, mas quando se trata de um possível amor, não há
nada que possa competir.
Ademar virou a página do jornal e olhou para Montserrat, que não
rompeu a mirada. Ela viu que na primeira página do periódico noticiava o
assalto que sofrera e entendeu que Ademar somente queria a recordar que
tudo podia se tornar muito pior caso tentasse qualquer método de escape.
**
— Aqui estão as novas listas das campanhas que faltam ser entregue.
— Sandra entregou a pasta para Ricardo, que deu uma rápida olhada. —
Você fará as campanhas que já tinha pendente mais a de Aaron.
Ricardo riu.
— Está louca, verdade?
Ela não compreendeu.

— Eu não vou conseguir fazer tudo isso, muito menos em um mês.


— Perdão, meu amor, mas Mon e Aaron estão fora da empresa, por
isso temos mais trabalho. Eu não posso fazer nada. Eu também tenho muito
que cumprir com o afastamento de Montserrat.
Poderia parecer uma atitude sem precedentes, mas Sandra sabia
perfeitamente que o ex-marido jamais daria conta de tudo aquilo sozinho e,
com isso, lograria a tê-lo mais cerca.
— Impossível! Isso é impossível! Eu não vou conseguir! — Irritou-se.
— Bom, se não pensa que é capaz, posso te ajudar. Podemos trabalhar
juntos.
— Não, melhor não. — Ele logo descartou a ideia. Ainda estava no
processo de olvidar a ex e uma proximidade tão grande quanto aquela não era
uma boa ideia.
— Por quê? Estou segura de que faríamos uma excelente dupla. A
melhor do mercado publicitário. — Sorriu. — A não ser que você tenha medo
de estar cerca de mim e terminar se sucumbindo a certas coisas. — Se
aproximou de Ricardo e deslizou o dedo indicador no rosto dele, seguido de
um delicado beijo no maxilar.
Ricardo cerrou os olhos e suspirou com o delicado toque dela.
Aspirou o seu perfume e sentiu sua pele reagir com um agressivo arrepio.

— Diga, diga que não me resiste, meu amor. Diga que ainda me quer
e que não consegue viver sem mim — sussurrou ao pé do ouvido dele.
Ele deu um passo atrás.
— Não, Sandra!
Ela juntou as sobrancelhas.

— O melhor é estarmos longe, sim? Para o nosso próprio bem.


— Ah, sim, claro! — Ergueu as mãos, enojada. — Agora você
decidiu pensar no meu bem.
Ele a ignorou.
— Bom, vou indo. Tenho muito serviço.
— Adeus! — contestou, árida.
Ricardo abriu a porta e deixou a sala.
Sandra virou-se e apoiou as mãos espalmadas sobre a mesa.

— Você irá voltar para mim, Ricardo. Eu estou segura de que quando
nasça a nossa filha, você regressará correndo para os meus braços. Te
asseguro!
Assim que Ricardo saiu da sala, o primeiro que fez foi discar para
Montserrat. Não que ela o preocupasse, no entanto, necessitava protestar
sobre a quantidade de trabalho que levava sozinho nas espaldas, mas ao fim
de cada toque, achou raro o fato da chamada, haver sido encaminhada para a
caixa de mensagens. Montserrat nunca deixava o celular desligado, muito
menos estando o marido enfermo no hospital.
**
Com o passar das horas, Montserrat regressou para o quarto, contendo
as lágrimas de desespero que inundavam o seu peito. Era aterrorizante o que
estava vivendo. Era aterrador saber que em seis semanas daria à luz e que sua
filha estaria vulnerável a uma psicopata. Ela necessitava de ajuda.
Necessitava escapar dali antes que o pior sucedesse, mas como? Como fazer
quando Nicolas estava em perigo e não havia para quem pedir ajuda? Mas
será que ninguém iria achar raro o seu desaparecimento?
Um raio de esperança surgiu ao questionar-se, mas logo foi aniquilado
quando se lembrou que Sandra era sua melhor amiga e que seguramente já
havia enredado a todos com suas mentiras. De nada servia pensar, de nada
servia arquitetar planos quando evidentemente sua situação não havia arreglo.
Ela quis chorar ao concluir aquele pensamento. Era fácil ter
esperanças e desejar ser a supermãe que protegeria suas crias de todos os
males, mas a realidade era muito cruel e dizia que os sonhos jamais
superariam o pesadelo.
Mon escutou um ruído na porta e rapidamente secou as lágrimas,
sentando-se na cama.

Ademar adentrou com uma bandeja e a pôs ao lado dela.


— Aí está a sua comida.
Ela reagiu com falta de apreço.
— Eu não quero.
— Como não quer? Tem que comer, está grávida.
— Sim, mas se essa menina não irá ficar comigo, eu não tenho que
me preocupar com ela, verdade?
Ele riu.
— Mira, deixa de cena e come a comida! — ordenou.
— Eu já disse que não irei comer porcaria alguma! — Raivosa,
derrubou a bandeja no chão.
Ademar assustou-se.
— Come você, se quiser. Deve estar acostumado, já que leva anos
sendo o poodle de mochila da Sandra — arremeteu.

Ademar lançou uma mirada furiosa para Mon e acercou-se a ela, a


puxando agressivamente pelos braços.
— É bom que controle suas palavras, caso contrário eu não respondo
por mim! — Travou os dentes, enojado.
Ele a jogou sobre a cama.
Com ódio, ela praguejou:
— Apodreça!
Ademar contestou com uma bofetada.
Montserrat caiu sobre o colchão e pôs a mão sobre o rosto.

— É a última vez que me falta com respeito, ou na próxima o imbecil


do seu filho terá muitas razões para clamar pela mamãe! — advertiu, com o
dedo em riste.
Ademar a mirou por última vez e saiu do quarto.
Mon, que tanto lutara contra o pranto, não fez nada mais que chorar.
Sandra não pôde ficar mais satisfeita que quando foi ao hospital e
inteirou-se que o quadro de Aaron não havia apresentado melhora e nem
piora. Ele seguia ali. Inconsciente. Imóvel. Sendo um ser totalmente inútil
que não podia intervir nos seus planos, e aquele fato a alegrava, afinal, por
essa razão ela decidira simular um assalto.

Com Aaron em seu caminho tudo seria complicado, não saberia como
o manter a distância e tampouco como um prisioneiro. Por isso, elegeu a
arquitetada situação. Ninguém desconfiaria que se tratava de um homicídio
quando na cidade que vivia era comum os latrocínios, mas o principal
objetivo sempre foi tornar suas ações fácies, e até o momento estava
comprovando o quão certo havia saído.
Já riscava os dias do calendário para a chegada da pequena bebê que a
traria muitíssima felicidade e seguramente iria ter o poder selar a
reconciliação com Ricardo, mas por enquanto ainda havia muito que
enfrentar.

— Ricardo? O que faz aqui?


Sandra não conseguiu ocultar a surpresa e a insatisfação quando
chegou em casa e viu o ex-marido sentado no sofá.
— Quero falar com Montserrat, mas esse seu segurança não deixa —
contestou, raivoso. Ele e Ademar jamais tiveram uma boa relação.
Sandra olhou para Ademar e engoliu em seco.
— Eu apenas disse que a senhora Montserrat não está nada bem e não
quer ver a ninguém, mas esse senhor não acreditou, patroa. — Encarou a
Ricardo e pôs as mãos nos bolsos.
— A ver… — Sandra ergueu as mãos, confusa. — Ricardo, nós não
já havíamos conversado na empresa? Já não está tudo esclarecido?
— Sim, mas tenho dúvidas que somente ela pode me quitar. Quero a
ver!
Sandra contrafez a repugnância.

— Por favor, Ricardo, nãos seja egoísta. Montserrat está passando por
um péssimo momento, e você pensa em falar de trabalho?
— Mas…
— Já disse que os assuntos da empresa iremos tratar nós dois, não há
porque estar aqui e incomodar a Montserrat que está passando por um terrível
momento em sua vida. Não seja egoísta, por Deus!
— Está segura de que sou o egoísta? Aaron está no hospital e
Montserrat nem sequer vai visitá-lo. — indignou-se.
— Montserrat não está bem. Você mesmo viu que ontem ela ficou
mal por um problema de pressão. Ela tem que ficar em repouso.

Ricardo refletiu por uns segundos e o que dizia Sandra fazia todo o
sentido. Mon amava o marido e só o deixaria sozinho em caso de extrema
necessidade.
— Está certa. Exagerei as coisas.
Ela cruzou os braços e forçou um sorriso.
— Depois eu que sou a histérica, não?
Depois que Ricardo foi embora, Sandra e Ademar puderam ficar um
tanto mais calmos. A presença inesperada daquele homem foi um excelente
teste de como eles deveriam agir a visita surpresa de qualquer um.
— De verdade, eu não esperava a presença dele. Pensei que havia o
convencido — disse Sandra, colocando a bolsa sobre a mesa.
— Viu que não, mas se ainda existia alguma dúvida, creio que já
acabou.
— Oxalá! Ricardo me odiaria se soubesse o que estou fazendo e
pretendo fazer, mas tudo que estou fazendo é porque sonho em ser mãe,
porque quero, porque não quero viver minha vida inteira sem um filho —
argumentou, com os olhos marejados.
Ademar pôs as mãos sobre os ombros dela e a mirou nos olhos.
— Eu sei, senhora, e jamais te julgaria por isso.
Ela sorriu.
— Obrigada. Você tem me saído um excelente companheiro.
Ele sorriu leve.
— Não por isso. É o meu trabalho.
Eles sorriram.
— Agora, vou ver a Montserrat e saber como anda minha filha.
— Espera, antes tenho que te contar algo.
**
— O seu cachorro de segurança já contou que me deu uma bofetada?
Sandra cerrou a porta do quarto e observou a louça e comida
espalhadas no chão.
— Sim, e agora vejo o porquê. — Cruzou os braços. — Sabe,
Montserrat, você não parece amar tanto o seu filho assim.
— O que você quer Sandra? Estou aqui, não estou? Agora me deixe
no mínimo em paz, porque não vou agir como vocês querem! — Levantou-
se, alterada.
Sandra sorriu.
— Eu não sei o que de fato planeja e tampouco até onde quer chegar
com tudo isso, mas te digo que as pessoas irão desconfiar, sim? Você
realmente pensa que não darão falta de mim no hospital, na agência, de
Nicolas na escola? Claro que sim, e, aí será o seu fim.
As palavras de Mon pareceram que ela queria alertar a sua
sequestradora dos riscos que corria, porém, a sua intenção era fazer com que
ela acreditasse que a deixar sair era a melhor opção.
Sandra não tinha nenhuma razão para considerar quando estava nítido
que o que ela dizia era para a manipular, mas a visita de Ricardo a deixou sob
alerta.
— Tudo bem. Creio que tem razão.
— Mira, que bom que os meus conselhos de uma boa amiga seguem
funcionando — Ironizou. — E quê? Irá me deixar sair ou isso só é um
truque? — Se aproximou de Sandra.
— Não, não sou mulher de truques, e isso você deveria saber.
Mon ergueu as sobrancelhas.
— Sim, irei deixar você sair. Irei permitir que você visite a Aaron,
claro que tudo isso baixo a minha vigilância, obviamente. Você sabe
perfeitamente o que sucede caso você queira bancar a esperta, porque eu não
estou brincando, Montserrat.
— Em nenhum momento, pensei que estava brincando. Isso já não me
restam dúvidas — contestou, séria.
— Perfeito! — Sorriu leve. — Amanhã iremos visitar a Aaron, e
quem sabe também te marco uma consulta médica, quero saber como anda a
saúde da minha filha.
Montserrat riu.
— Tua filha? Realmente acredita que essa menina que carrego é sua
filha?
Sandra ficou em silêncio.
— Não, Sandra, por mais que você roube a minha filha, essa menina
jamais será tua, você jamais será mãe, e sabe por quê? Porque você não sabe
o que é ter o gosto de ter algo crescendo dentro de ti, algo que você fez, algo
que a cada dia você só irá amá-lo mais e será capaz de dar sua vida para vê-lo
bem. Você nunca irá saber o que se sente ao dar à luz, ao dar a vida. Não,
Sandra, isso você jamais irá experimentar. Você pode roubar minha filha,
dizer a ela e ao mundo que é sua mãe, mas você sempre saberá que isso é
uma vil mentira e, quando te perguntarem o que sentiu quando soube que
estava grávida, você nunca irá saber contestar, pois a única que poderá
contestar será eu, sua verdadeira mãe, porque você é incapaz de dar a vida,
porque você é mais seca que o deserto!
Sandra contestou com uma forte bofetada.
— Cale-se, maldita vagabunda! Cale-se porque senão… — gritou,
com os olhos marejados.
— Se não o que? — A enfrentou. — Irá fazer algo contra Nicolas por
eu te dizer a verdade?
Sandra ficou em silêncio e controlou o choro.
— Não, Sandrinha, não deveria se enojar. É isso que fazem as
melhores amigas — disse, com um sorriso sarcástico.
**
No cativeiro, Nicolas observava minuciosamente a Otávio que caíra
em sono profundo sobre o sofá. Há horas o garoto ponderava em escapar,
mas além de não saber o que fazer, tinha medo que o seu vigia despertasse e
terminasse o fazendo dano, mas, ao mesmo tempo, sabia que era necessário
fazer algo, tentar ao menos.
Poderia não ser o mais valente, mas tinha que ser a pessoa a ter mais
amor a sua vida. Isso era o que sempre escutava os pais dizerem e, de alguma
maneira, ficaria para sempre em sua mente.
Saiu cuidadosamente de sobre a cama e caminhou a passos lentos até
o homem que roncava sem parar. Sabia que as chaves de saída daquele lugar
se encontravam precisamente no bolso da calça jeans dele. Sim, exatamente
ali onde seria dificílimo sacar sem ser notado, entretanto, decidiu acreditar
que Otávio dormia profundamente e que suas mãos jamais seriam sentidas
por ele.
Temeroso, Nicolas engoliu em seco e controlou as lágrimas que
molhavam o seu rosto. Levou sua extremidade trêmula em direção ao
delinquente e vagarosamente a colocou no interior do bolso do rapaz, que se
moveu.
Assustado, o garoto deitou no chão.
Otávio não despertou.
Um tanto aliviado, o menino ergueu o tronco e arriscou-se a pegar as
chaves novamente. Com as pontas dos dedos, sentiu o pingente do chaveiro e
destemidamente o puxou. O molho de chaves fez um ruído, mas não foi tão
ruidoso para despertar o sequestrador.
Com a atenção presa em Otávio, o garoto levantou-se vagarosamente
e caminhou até a porta. Pôs a primeira chave na fechadura e,
desafortunadamente, não era a correta. O mesmo aconteceu com a segunda. A
terceira. A quarta. E também a quinta.
A cada equivocação, Nicolas chorava mais e olhava com mais
frequência para o homem que parecia que iria despertar a qualquer momento.
As mãos do garoto estavam mais trêmulas. O nervosismo já o fazia se perder
nas chaves e as testar repetidamente na fechadura, mas quando já estava
prestes a desistir, a porta abriu-se.
Nicolas olhou por última vez para Otávio e correu da cabana, mas
todo o seu sacrifício foi perdido quando Ademar saiu do carro e o deteve com
uma só mirada.
— Você é um imbecil!
Otávio sentiu a fúria de um dos chefes quando um punho se cerrou e
foi contra o seu rosto. Ele caiu sobre o sofá, e Ademar arremeteu aos gritos.

— Você sabe o que poderia suceder se esse menino escapasse? —


Apontou para Nicolas que, agora, teria que lidar com as cordas que prendiam
os seus pulsos e tornozelos. — É um irresponsável!
— Perdão, patrão, mas tinha sono. — Se justificou, enquanto Ademar
caminhava furioso de um canto a outro.

— Não te pago para dormir, e sim para o vigiar, e é bom que faça,
caso contrário, está demitido!
— Perdão, patrão, isso não voltará a suceder, eu te juro! — Levantou-
se, demovido.
— É bom, hein? Porquê da próxima não poderás contar, espero que
me entenda — ameaçou, mirando-o nos olhos.
Otávio assentiu com a cabeça e engoliu em seco.
Ademar virou-se para o menino e o viu chorar. Quitou o celular do
bolso e sacou uma fotografia.
No dia seguinte, Montserrat arrumou-se e vestiu a roupa mais
adequada para estrelar a maior farsa de sua vida, dissimular que tudo estava
bem quando em realidade vivia um inferno inimaginável.
Passou toda a noite desperta pensando nos filhos e em mil formas de
escapar sem os causar danos, mas tudo sempre parecia muito arriscado e
quase impossível de executar. Entretanto, estava prestes a sair para visitar o
marido no hospital. Ainda não sabia como Sandra iria agir em público, já que
ninguém poderia desconfiar do que realmente sucedia, mas de qualquer
maneira aquela era a oportunidade perfeita para pedir auxílio.
Desceu as escadas, e Sandra foi ao seu encontro com um sorriso
pérfido no rosto. Era certo que, depois do que dissera para aquela mulher, já
não a trataria como antes. A inimizade estava oficialmente austera e ela já
não a teria qualquer tipo de compaixão, não que anteriormente Mon
acreditasse na existência de um sentimento de piedade, mas a partir daquele
momento, Sandra já não sentiria culpa por a fazer dano.
— Que bom que chega, já estamos em cima da hora, Montserrat! —
Sandra verificou o relógio de pulso e pegou a bolsa.
Mon riu.
— Mira você! Agindo assim nem parece que estamos vivendo em
uma guerra e que podemos nos matar a qualquer instante. Sim, isso é muito
interessante. Jamais pensei viver uma farsa assim, mas aqui estamos, não?
Sandra não compreendeu qual era o destino das palavras daquela
mulher.
— Mira, eu não sei onde quer chegar, mas te digo que não logrará a
me manipular e tampouco me estressar. Espero minha filha e, como qualquer
mulher, não posso estar me enojando. Sabe que os bebês sentem o mesmo
que a mãe? Sim, cada vez que fico mal por algo, é quando ela mais se move e
chuta minha pança. — Colocou a mão sobre a barriga. — Como agora, não
quer sentir?
Ela pegou na mão de Mon, que rapidamente tratou de afastar-se. Não
conseguiu decifrar se o que dizia se tratava de um sarcasmo ou de um
desvairamento.
— Está louca, Sandra. Necessita de tratamento o mais depressa
possível — disse, amedrontada.
— Perdão, Montserrat. Sei que cuidar de um filho é demasiado
custoso, mas irei dar conta sozinha, ademais, eu estou segura de que assim
que nasça a nossa filha, Ricardo regressa a casa. Ele é louco para ser pai.

— Mira, Sandra, porque você não…


Ademar adentrou a sala com um semblante bastante apreensivo.
— Senhora.
— Sim? O que passa?

— A polícia deseja falar com Montserrat!


Sandra endureceu o semblante e olhou para Mon, que dissimulou a
satisfação que sentiu ao escutar aquilo.
Pela primeira vez, Montserrat se sentiu segura para fazer algo contra
os seus sequestradores. Com a polícia na casa, ela estava segura de que nada
ocorreria a Nicolas e podia delatar a Sandra e Ademar, fazendo com que eles
fossem presos naquele mesmo instante, mas tudo se destruiu quando Sandra a
mostrou a fotografia que Ademar havia sacado do garoto.

Vê-lo de tal maneira a fez chorar de imediato, pois além de ver as


cordas que seguramente o lastimava, também viu as lágrimas do filho, o
semblante de medo e pavor, e os olhos tão entristecidos como nunca havia
visto.
Sandra logo tratou de a ameaçar dizendo que se caso ela viesse a dizer
qualquer coisa que interpretasse como um pedido de ajuda, Nicolas sofreria
as consequências, pois havia alguém autorizado a matá-lo caso ela fosse
detida.
Mon outra vez se viu entre a espada e parede. A esperança que tinha
de escapar daquele inferno desapareceu e novamente estava a mercê dos
delinquentes.
Com o semblante ainda choroso, Mon recebeu o agente Guzmán.
— Bom dia, senhora.
Ela ficou em silêncio.
— O que faz aqui na minha casa? — questionou Sandra. — Quer
dizer, como descobriu que Montserrat estava aqui? Não sabia que isso
também estava nos periódicos.
— Não, senhora. — Ele riu. — Isso eu descobri quando fui buscar a
senhora Villavicêncio em sua casa e uma vizinha me disse que ela poderia
estar aqui.
Sandra camuflou o enojo. Malditos vizinhos intriguistas.
— Sim. Montserrat está muito débil e está passando uns dias comigo.
— Passou o braço sobre os ombros da amiga.
Montserrat afastou-se dela e deu um passo à frente.

— Tem alguma novidade no meu inquérito? — questionou, séria.


— Sim, o carro do seu marido foi encontrado em Cuernavaca. Ainda
não temos pistas do delinquente, mas seguimos com a investigação.
— Só isso? Somente isso que vem me dizer?
— Sim.
Mon ficou insurreta.
— Inacreditável! Inacreditável como nada parece funcionar neste
país. O meu marido está na cama de um hospital entre a vida e a morte,
senhor, e o único que vem me informar é sobre o meu carro?
A impunidade de sua pátria sempre a molestou, mas com tudo que
vivia, aquele fato tornou-se repudiável.
— Pensei que o carro também era importante!
— Isso não me importa, senhor. Aqui o único que importa é minha
segurança e da minha família e que também se faça justiça — Irritou-se.
Sandra percebeu a indignação de Mon e se interpôs.

— Montserrat, tranquila, amiga. — Parou frente a ela. — Sei que está


muito enojada com essa situação, mas tem que pensar em sua gravidez, na
filha que espera. Por favor, tranquila.
Mon necessitou cerrar os olhos e os punhos para controlar sua ira.
Além de estar vivendo um inferno criado pela amiga, ainda tinha que lidar
com seus sarcasmos e pulos de domínio.
— Quero que a pessoa que deixou o meu marido no leito de um
hospital pague pelo que fez, agente. Eu não irei suportar que tudo isso siga
igual. Não mesmo. — Apesar de a sua mirada firme, haver estado todo o
tempo no policial, cada letra que proferiu foi direcionada a Sandra.
— Não se preocupe, senhora. Estamos fazendo de tudo para deslindar
esse criminal.
Mon queria acreditar naquilo, mas não conseguia enxergar brechas
que tornassem aquela possibilidade real.
Guzmán foi embora garantindo que tudo seria esclarecido e que se
caso ela necessitasse de algo, a polícia mexicana estava ao seu dispor. Aquela
fora a chiste mais sem humor que ela escutou em toda sua vida, obviamente
necessitava de algo, e o criminal que ele buscava era o mesmo que a
mantinha de refém naquela casa.

— É assim que se diverte? Maltratando a um pobre menino? — Mon


não conseguiu controlar o seu impulso materno. A fotografia que viu do filho
a causou tristeza, medo, mas também muita raiva e indignação.
Sandra ergueu as mãos em uma autodefesa.
— Perdão, mas eu não tenho nada com isso, hein?
— Como não tem? Não seja hipócrita! Tudo isso está sucedendo por
tua culpa, Sandra!
— Tudo isso está sucedendo porque o seu filho é um menino muito
malcriado e rebelde! — Elevou o tom de voz. — O que por certo não irá
suceder com minha filha porque irei saber a criar, irei a educar e fazer dela
toda uma senhorita porque você jamais foi uma boa mãe.
— Pelo menos sou mãe, muito diferente de ti, não? Porque se você
está fazendo tudo isso é porque algo dentro de ti não funciona bem —
retrucou.
Sandra deu uma risada.
— Isso já não me atinge, Montserrat. Agora o único que me importa é
minha filha e será somente nela que irei pensar. Pode me dizer o que quiser,
já não me importa. Sei que o que tem de mim, é inveja!
Mon deu uma risada.
— Por favor, inveja de ti?
— Sim.
— Não, Sandra. O único que tenho de ti, é lástima, nada mais —
contestou, mirando-a nos olhos. — Quero falar com o meu filho.
— Como? — perguntou, rindo.
— Quero falar com o meu filho. Quero estar segura de que ele está
bem, Sandra. O Ligue que quero falar com ele — ordenou.
Sandra a encarou.
— Aqui quem dá as ordens, sou eu. É bom que se lembre, amiga.
Montserrat suspirou raivosa.

— Agora vamos que já estamos atrasadas. Ah, se tenta algo, já sabe


— advertiu, antes de afastar-se.
Mon olhou para cima e respirou fundo. A cada dia que passava estava
mais segura que era necessário tomar uma atitude o mais depressa possível.
Quando Montserrat chegou ao hospital, logo teve a liberação do
médico para visitar o marido. Sandra, como sempre, não deixou de
acompanhar.
Convenceu ao doutor que a amiga estava sofrendo com constantes
mal-estares e que não era indicado a deixar sozinha. Convencido pelas
palavras persuasivas e pelo doce rosto da moça, ele não se interpôs, permitiu
que as mulheres fossem, sem imaginar que ali ocorria uma estranha situação.

Naqueles momentos era que Montserrat percebia quão estava mal


parada. Sandra estava sendo um mestre em suas atitudes, pois em nenhum
momento a pusera em um cativeiro em péssimas condições, muito pelo
contrário, Mon estava em sua casa e aparentemente sendo muito bem cuidada
por uma amiga preocupada, no entanto, somente ela sabia a tortura
psicológica que vivia a diário.
Montserrat parou frente ao vidro e viu a Aaron conectado a vários
aparelhos que o ajudava a se manter firme naquele frágil fio da vida. Ela
tentou resistir. Conteve as lágrimas o máximo que pôde e as que se atreviam
a descer rapidamente eram eliminadas do seu rosto.

Não queria chorar na frente de Sandra, não queria dar a ela o gosto de
a ver derrubada porque era exatamente aquilo que ela desejava. Queria a ver
mal, débil, sem forças para lutar contra ela ou contra aquela situação. Iria
resistir. Tinha que resistir, não somente pelos filhos, mas também por ela
mesma.
— Vou permitir que você fique a sós com ele para que vocês
conversem — disse Sandra.
Mon cerrou os olhos, raivosa. Odiava a entonação indiferente de
Sandra. Odiava a maneira que ela parecia festejar cada vez que a via chorar
ou cada vez que contava os danos que causara a ela. Montserrat sabia que
Sandra estava muito mal psicologicamente, que possivelmente jamais
cometeria aquela barbaridade se estivesse em seu juízo saudável, porém, não
podia deixar de perguntar-se: por que me odeia tanto?
— Quer dizer, que você fale, porque eu não o vejo em muitas
condições para que te conteste algo, mas quem sabe sucede um milagre, não?
Sandra riu e ficou aguardando a sua prisioneira do lado externo.
Mon, que por muito havia controlado suas lágrimas, entregou-se a
elas sem vergonha. Encostou a testa no vidro e chorou fartamente.
— Por favor, meu amor, me ajuda. Me ajuda a sair disso, me ajuda a
recuperar o nosso filho e… e salvar a Estrella. — Colocou a mão sobre o
ventre, chorando. — Também tenha força para sair dessa, meu amor. Se
recupere. Seja forte. Te necessito. Te necessito como nunca havia
necessitado, minha vida. Não me deixe, meu amor. Eu te suplico!
Mon cerrou os olhos e rompeu em lágrimas. Assistir o homem que
amava entre a vida e a morte era uma das piores coisas que poderia vivenciar.

Desafortunadamente, os anos de amizade foram os grandes cúmplices


de Sandra, pois, por conhecê-la da forma que conhecia, ela sabia como a
atacar. Por isso, Mon tinha que se conhecer ainda mais, tinha que desvendar
os seus segredos e sacar todas suas forças e usá-las no momento propício,
nem que para isso tivesse que regressar ao passado.
— Aaron, o que está fazendo? Eu não vejo nada, minha vida.

Com os olhos vendados, Montserrat era guiada pelo noivo, que desde
que saíra da casa dos pais dizia incansavelmente que tinha uma maravilhosa
surpresa. Ela, por mais que ponderasse, não conseguia nem sequer imaginar
a que aquele homem se referia. Era certo que, naqueles anos de namoro,
Aaron sempre fora um rei quando se falava de surpresas românticas, mas
tanto mistério aguçou a sua curiosidade.
— Tranquila, já estamos adentrando.
Aaron empurrou a porta de uma espaçosa casa de três andares e
guiou a noiva até a sala de estar. Ela estava cada vez mais curiosa.
Perguntava uma e outra vez sobre o que tratava, e ele apenas a contestava
com risadas e corteses pedidos de calmaria, mas ao desvendá-la, a
ansiedade seria substituída por uma linda alegria.
— Uau! Que casa linda, meu amor. — Admirou ao olhar ao redor. —
É aqui que pretende viver quando termine de montar a agência?
Aaron sorriu e a mirou nos olhos.
— Não, aqui é onde iremos viver caso me conteste sim.
Ela acreditou haver escutado mal.
— Como?
Aaron quitou do bolso da calça uma caixinha de uma joalheria e
ajoelhou-se diante da amada.

Mona arregalou os olhos e pôs as mãos sobre a boca.


— Aaron, minha vida…
— Meu amor, sei que talvez possa estar sendo muito precipitado ao
estar planejando tanto sem perguntar se aceita os compartir comigo, mas eu
não tenho dúvidas do que sinto, não me restam dúvidas que te amo e que é ao
seu lado que quero estar até nos últimos segundos da minha vida, por isso te
pergunto…
Ele abriu a caixinha e exibiu um belo anel de noivado.
Ela sorriu emocionada.
— Aceita me suportar até o último segundo de sua vida?
Mon riu.
— Claro, meu amor. Eu tampouco tenho dúvidas do que sinto. Você é
o amor da minha vida e quero passar toda minha vida ao seu lado, Aaron. Te
amo. — contestou, sorrindo.

Ela caminhou até ele e o deu um enamorado beijo. Naquele dia não
puderam estrear a casa de maneira melhor, trocaram belas declarações,
construíram milhares de planos e fizeram amor com dois insanos
enamorados.
— Senhora.
Montserrat foi brutalmente arrancada dos bons pensamentos quando a
enfermeira se aproximou com um recado.
— Eu não quero te interromper, mas tem que ir. Se lembre que não é
hora de visitas.
— Sim, mas me permita só mais um instante, por favor — pediu,
entre lágrimas.
A enfermeira compadeceu-se.
— Ok, só mais cinco minutos.
— Obrigada.

A mulher mencionou em afastar-se, mas Mon a puxou repentinamente


pelo braço.
— Espera, não vá ainda. Necessito de sua ajuda — disse, um tanto
nervosa.
A enfermeira assustou-se.
— Passa algo?
— Sim, estou…
Sandra abriu a porta e a encarou.
— Já podemos ir, Montserrat, ou tem algo que tratar com a
enfermeira?

**
— O que você acha, que sou uma estúpida, é isso?
Montserrat não podia com os reproches de Sandra. Caminhava a
passos largos no corredor enquanto rebatia os seus arremetes. Desejava que
alguém terminasse escutando as exaltações dela e a encurralasse em um
questionamento, mas nada parecia jogar a seu favor.
Furiosa, Sandra apressurou os passos e puxou a Mon pelo braço.
— Não se faça a surda, Montserrat! Estou falando!
— Eu não estou me fazendo de surda, apenas não quero escutar. Já
estou farta de ti, farta das suas ameaças. Farta de tudo! — Irritou-se.
— Ah, é? E o que pretende fazer? Diga, o que minha grande amiga
pretende fazer! — Ironizou.
Mon a encarou com sanha.
— É uma víbora! Te odeio, Sandra. Não sabe o que sinto por ti! —
Travou os dentes.
— Nada! — Riu. — Sei que apesar de tudo não chega a me odiar e, se
me odiasse, isso não me quitaria o sono, porque tenho algo muito mais
importante que me preocupar — Acercou-se mais a Mon, que se enervou
com a proximidade. — E o nome dela é Estrella — murmurou enquanto
acariciava o ventre dela.
— Está louca, Sandra. É uma enferma!
Sandra deu um sorrisinho e acariciou o cabelo de Mon.
— É bom que pense muito bem antes de volver a pedir ajuda a
alguém, porque eu não quero te recordar a cada segundo o que pode suceder
com o seu filho caso siga tentando.
— Vai para o diabo, maldita! — A empurrou com agressividade.
— Sandra? Montserrat?
Ricardo acercou-se e as mirou com estranheza.
— Passa algo entre vocês?
Elas se entreolharam e devolveram a mirada ao homem que
aguardava uma resposta.
Sandra deu uma risada para dissimular.
— Não, claro que não. O que poderia estar passando entre nós?
— Não sei, tive a impressão que estavam brigando.
— Quê? — Elevou a entonação evidenciando que a possibilidade
levantada era um absurdo. — Claro que não, meu amor. Montserrat e eu
somos super amigas e jamais tivemos razões para pelejar. O que passa é que
ela está muito estressada com o que está vivendo e eu estava dizendo a ela
que é necessário ter paciência e fé que tudo irá terminar bem.
Ricardo guardou silêncio. Levou a sua mirada a Mon, que mexeu no
cabelo e deu um triste sorriso. Era notório quão abalada estava e que algo
muito grave sucedia e, mesmo tendo a impressão que as amigas estavam
alteradas, ele não podia afirmar que se tratava exatamente de uma peleja.
— Como está, Montserrat?
— Bem… — Arrumou delicadamente o cabelo. — Quer dizer,
superando.
— Sim. De qualquer forma é bom te ver aqui. Sandra me disse que
estava com alguns problemas de saúde.
— Sim, mas isso já foi arreglado. Agora estou bem e tenho que seguir
adiante.
— Então regressa a agência?
— Não! — Sandra foi rápida ao contestar. — O doutor disse que não
é bom que ela esteja sucumbida ao estresse, muito menos ao laboral. Sabe
que daqui a algumas semanas ela dará à luz. — Sorriu e acariciou o ventre de
Mon, que apesar da sanha, conseguiu dissimular e manter-se no mesmo lugar.
— Diga, Ricardo, não te encantaria que a filha de Montserrat pertencesse a
nós dois?

Ricardo juntou as sobrancelhas e olhou para Montserrat, que


internamente se questionou se ele poderia se tornar a ajuda que tanto
almejava.
— Que disse, Sandra?
— A filha de Montserrat poderia ser nossa, não? — Se aproximou
dele, sorrindo. — Digo, sempre te encantou uma menina e…
— Sandra, contigo já não me encanta mais nada. Nossa relação
acabou. Quando irá entender isso? — Ele foi rude nas palavras e ao afastar-se
dela.
— Mas, meu amor…
— Adeus, Montserrat.
Ricardo ignorou os chamados da ex-mulher e foi embora.
Sandra controlou as lágrimas e olhou para Mon, que a mirava com
curiosidade.
— Quê? Por que me miras com essa cara de estúpida? — Irritou-se.
— É por esse homem que deseja a todo custo ter um filho?
Sandra ergueu a mirada e ficou em silêncio. Aquela era uma excelente
pergunta.
A tarde apenas começava quando Sandra decidiu deixar as tensões
laborais e pessoais para ir ao centro comercial. Diferente do que muitos
poderiam pensar, era muito pouco consumista. Quando saia de compras com
as amigas, ela era a pessoa que somente dava opiniões sobre vestuários e, se
fosse para terminar com algumas sacolas, no interior só iria haver roupas
infantis. E, daquela vez, o ritual não seria muito diferente, muito menos
quando a "filha" estava prestes a chegar.
— Sim, esse vestido branco me encantou, mas o rosa também é
divino, não?
Sandra ergueu a peça frente ao rosto e sorriu.
— Bom, se quiser, reservo essa peça por uns dias até que decida —
disse a simpática vendedora.
— Não, não é necessário que reserve. Vou levar as duas.
A vendedora alegrou-se.
— Milha filha irá nascer daqui a semanas e eu não tenho tempo a
perder.
A funcionária da loja observou a falta barriga da cliente e forçou um
sorriso.
— Sim, claro. Já regresso! — disse, antes de afastar-se.

A cliente seguiu admirando as peças de roupas que pretendia levar,


até que uma mulher se aproximou.
— Sandra? Que bom te ver! — disse, sorridente.
Sandra olhou para a mulher de cabelos longos e forçou um sorriso. Há
anos conhecia a Rosana e por muito foram amigas, mas nada disso parecia
válido quando ela ainda se recordava com clareza dos comentários que fizera
no chá de bebê que organizara Montserrat. — Olá. Quanto tempo —
cumprimentou, com um falso sorriso.
Elas se saudaram com um beijo no rosto e sorriram.

— Nem tanto tempo assim. Eu te vi no chá de bebê de Montserrat,


mas você estava tão enojada que… Bom, não vale a pena lembrar disso,
verdade? Mas o que faz aqui? Comprando um regalo para Mon?
Sandra irritou-se, mas conseguiu manter a calmaria. Aquele tipo de
conversa sempre iria a quitar o piso, ainda mais quando se tratava de alguém
que conhecia sua incapacidade e via com impossibilidade uma gravidez.
— Quer dizer, eu soube o que passou com Aaron e Montserrat. Levo
dias a telefonando, mas ela não contesta minhas chamadas. Ela está bem?
— Está superando. Montserrat não quer contato com o mundo
externo, ainda está muito débil e não quer falar sobre o que sucedeu.

— Claro, entendo perfeitamente. Deve estar sendo terrível para ela,


ainda mais grávida, não?
Sandra assentiu com a cabeça.
— Então, o que compra é para Montserrat?
— Não, isso não é para Mon, é para mim.

— De verdade? — Arregalou os olhos. — Está grávida novamente?


Sandra apenas deu um leve sorriso.
— Ai, amiga, não faça tantas expectativas, sim? Você sabe que não
consegue passar do quarto mês.
— Sim, mas dessa vez será distinto! — Asseverou.
Não havia necessidade de mencionar aquele fato, mas Rosana não
conseguia cuidar das palavras.
— Oxalá! De qualquer maneira, estou muito feliz, porque se tudo sai
bem, podemos organizar juntas um chá de bebê — contestou, animada.

— Como? — Juntou as sobrancelhas.


— Sim, hoje pela manhã eu descobri que espero o meu segundo filho.
Ai, você não sabe o quanto meu marido e eu estamos felizes — contou,
venturosa.
Os comentários de Rosana sempre molestavam a Sandra, mas nada se
comparava aquela notícia.
— Está grávida? — Conteve as lágrimas.
— Sim. — Sorriu. — E que bom que também está porque iremos
poder fazer muitas coisas juntas, amiga. — Animou-se.

Apesar de molesta com a notícia da gravidez de mais uma amiga,


Sandra teve a prova que estar grávida, mesmo que fosse falsamente, parecia a
encher de "luxos" e a fazer mais mulher ante as demais.
Viu Rosana fazer milhares de planos e a incluir em todos, prometeu a
apresentar algumas amigas e cuidar pessoalmente do chá de bebê. Sandra
conhecia perfeitamente aquela mulher e, apesar de levarem uma relação
amistosa, jamais foi tratada com tanto louvor por ela. Rosana sempre tratou
de a excluir de certas ocasiões unicamente por ela não ser mãe.
Dizia que se a convidasse ela se sentiria deslocada e não saberia nem
sequer iniciar uma conversa com mulheres que não eram como ela.
Montserrat sempre pareceu a reprovar por tal atitude, pensava que a deixar de
lado não amenizaria sua dor, sem embargo, uma vez terminou fazendo o
mesmo sem perceber, e Sandra jamais logrou a perdoar.
— Ainda tenho muito que comprar, mas vou deixar para amanhã.
Estou exausta, hein?
Rosana fechou o porta-malas e olhou para Sandra, sorrindo.
— Podemos nos ver amanhã, o que te parece? Posso te levar a casa
dessa amiga que faz enxovais lindíssimos.
— Sim, mas obrigada.
Rosana não compreendeu.
— Como? O que quer dizer com isso, Sandra?
— Quero dizer que não desejo e não vou contigo a nenhuma parte,
Rosana. Durante todo o nosso tempo de amizade você tratou de me excluir e
de me menosprezar por minha incapacidade. Por quê? Para não passar
vergonha ante a todas as suas amigas mães e esposas felizes, verdade? —
Alterou-se.

— Claro que não, Sandra. O único que queria era que você não
sofresse ou que se sentisse mal ante essas mulheres que estão falando todo o
tempo de maternidade, somente isso. Eu jamais iria te excluir por uma
tonteria dessa, por Deus!
— Ah, então sou louca? Ou seja, estou alucinando e o seu rechaço por
mim todos esses anos, nunca foi real, é isso que quer dizer?
— Pois sim.... Eu não estou dizendo que esteja louca, mas eu jamais
te menosprezei ou exclui de algo. Sempre se convidei a todas as organizações
e as festas de aniversários do meu filho, mas você nunca compareceu.
— Não seja mentirosa! Jamais me convidou! — arremeteu, enervada.
— Eu não estou mentindo, Sandra. Creio que, durante todo esse
processo de engravidar, você terminou criando ideias que não são reais, de se
acreditar menos mulher por não poder engravidar ou por não ter a vida como
as demais, mas eu jamais fiz menos de ti, de verdade! — contestou, mirando-
a nos olhos.
— Eu não acredito em nada. É uma mentirosa! E sabe de uma coisa?
Vai para o diabo você e seu maldito filho! Oxalá! Oxalá que o perca para
sentir o mesmo que eu, maldita vadia! — praguejou aos gritos.
Sandra deu as costas e caminhou em direção ao seu carro, deixando
Rosana confusa.
— E agora o que passa com essa?
**
Montserrat se sentiu uma completa inútil quando regressou ao seu
cativeiro e lembrou-se que não a ocorreu nenhuma boa estratégia que a
quitasse daquele lugar.

Tudo se tornava mais complicado quando o seu filho estava em perigo


e ela tinha que ser totalmente obediente para que nada o sucedesse, como se o
ser que levava dentro não tivesse valor, como se fosse completamente fácil
entregar sua filha a uma insana e seguir como se nada.
Seguir?

Ela quis rir daquela palavra. Jamais conseguiria seguir se algo


sucedesse a um dos seus filhos, e muito menos se via em algum lugar depois
daquele sequestro.
Sandra certamente pretendia a matar depois do nascimento de
Estrella, e Nicolas possivelmente a acompanharia naquela viagem. O tempo
urgia. Era necessário agir com presteza e salvar a sua vida e a vida daqueles
que amava.
— Come!
Ademar quitou a Mon do transe quando pôs o prato de comida sobre a
mesa e a mirou por cima dos ombros. Ela olhou a comida e depois a ele.

— Por que está metido nisso, Ademar? É a pergunta que me faço


todas às vezes que te vejo sendo cúmplice dessa mulher enferma.
— Coma e não faça perguntas.
Ele mencionou em deixar a cozinha, mas ela foi ágil ao levantar-se.
— Espera, Ademar.
O segurança deu um passo atrás e a mirou firme.
— O que quer que faça? O que é necessário que eu faça para que você
me ajude a sair dessa situação? O que quer? Dinheiro? Tenho muito e te
posso dar a quantia que quiser, apenas me quite daqui e entregue o meu filho,
somente isso — pediu.
Ela não sabia quanto valia aquele homem. Não sabia o que o movia e
se ele tinha um preço que pudesse pagar. Ademar parecia transmitir esfinge
em cada poro do seu corpo. Nada do que dizia parecia o balançar ou o deixar
em linha de pensamento. Ele estava muito certo das suas atitudes e muito
centrado em suas ações onde ninguém e nada toava mudar.
— Come a sua comida!
Ele mencionou em ir mais uma vez.
— Espera!
Ademar voltou a olhá-la.
— Não se faça o difícil, sim? Todos têm um preço. Todos nós, sem
exceção. Você também tem o seu, por isso me diga, é dinheiro, é Sandra…?
Você gosta dela? A deseja? Está enamorado por ela, por isso está cumprindo
essa loucura? É isso?
Ele seguiu a encarando com seriedade.
— Por favor, me dê um sinal. Somente um, Ademar — implorou.
Sem apresentar nenhuma reação, ele a mirou por última vez e saiu da
cozinha.
Montserrat enojou-se e suspirou frustrada, mas também viu no alto da
parede uma câmera que os vigiava todo o tempo. Ademar também poderia ser
um refém de Sandra?
**
As portas do elevador se abriram dando uma visão nada agradável à
Sandra, que acabara de chegar na agência. O seu ex-marido em uma conversa
muito íntima com a secretária. Naquele momento, ela desejou ser a
desvairada que tantos a taxavam e estar alucinando uma situação, no entanto,
todos os sorrisos e intimidade que ocorria ali era muito real.
— Claro que não, Ricardo. Ele é um grande músico, mas ainda deixa
a desejar em muitas coisas.
— Como em quê?
Sandra semicerrou os olhos e tentou controlar a raiva que sentiu ao
ouvir a risada em uníssono que eles soltaram. Por muito tempo trabalhava
naquela agência e jamais viu a Ricardo com tanta proximidade com algum
funcionário, mas estranhamente isso tinha que suceder com a nova secretária.
Ela tentou ser a mais sensata possível e não protagonizar nenhuma
cena de ciúmes, afinal, estavam em processo de divórcio e um não tinha
porque dar justificativas ao outro e, mesmo não aceitando o fim daquele
matrimônio, qualquer nova ameaça ao seu território o melhor era manter-se à
margem.
Com muita dificuldade, Sandra logrou a cumprimentar os dois com
simpatia.
A secretaria, que atendia pelo nome de Analía Romero, não conseguiu
disfarçar o desconforto que sentiu ao ver Sandra, que quase a matou com a
mirada. Ela já havia escutado relatos nada agradáveis relacionados às atitudes
daquela mulher quando ela sentia sua terra invadida e, sinceramente, não
desejava viver um mau momento.
— Ricardo, pode vir a minha sala? Eu gostaria de falar sobre a
campanha.
— Só um minuto, Sandra. Me deixa terminar de falar algo importante
com Analía.

Ricardo deu as costas e seguiu a tão empolgante conversa. Sandra


suspirou raivosa e encarou a Analía, que forçou um sorriso e abaixou a
mirada.
**
— Pode me dizer quanto assunto levava com aquela loira falsificada?
Sandra nem aguardou que Ricardo cerrasse a porta para arremeter
contra ele.
— Foi para isso que me chamou? Então eu já vou! — Mencionou em
sair.
— Não se atreva, Ricardo! — gritou.
Ele virou-se.
— Não se atreva a me deixar falando sozinha! — concluiu, com a
entonação mais leve.
— Sandra, não temos mais nada, sim? Não tenho porque te dar
satisfação de nada que faça ou que deixo de fazer. É minha vida.
— Sim, é sua vida, meu amor, mas ainda seguimos casados e exijo
respeito.
— Respeito? — Riu. — E por casualidade você me respeita?
— Claro que sim. De onde sacou essa tonteria?
— Não sei, para quem vive muito íntima do seu segurança, tenho que
desconfiar, não?
— Ademar é a minha escolta de confiança. Entre nós, nunca passou
nada e tampouco irá passar. Agora você com essa maldita secretária quase
faltava a devorar com os olhos e quero te dizer que não te permito, Ricardo.
Enquanto esteja casado comigo, eu te proíbo que se involucre com qualquer
vadia que veja em frente. Fui clara?
— Boníssimo! — Ergueu as mãos. — Então vou me encarregar que
esse divórcio corra o mais depressa possível, Sandra, porque eu não quero
nada que ligue nós dois, porque o único que poderia nos ligar para sempre
você foi incapaz de me dar!
Ricardo deixou a sala e bateu a porta com força.
Sandra respirou fundo e controlou as lágrimas.
— Você não vai ficar com o meu marido, maldita. Não mesmo!
Já era início de noite quando Sandra chegou em casa e sentou-se
exausta no sofá.
— Ai, estou morta. Me dói a cabeça. Tive um terrível dia. — Cerrou
os olhos e pôs a mão sobre a testa.
— Se quiser, eu te preparo um chá, senhora.
— Não, não necessita. Não quero te causar essa moléstia. — Curvou-
se e tirou os sapatos dos pés.
— Não será nenhuma moléstia, senhora. Preparo em um instante.
Ela sorriu leve e levantou-se.
— Sabe que Ricardo tem ciúmes de nós dois?
— De verdade? — Cruzou as mãos frente ao corpo. — E por quê?
Ela deu de ombros.
— Não sei. Possivelmente ele faz parte do grupo de pessoas que não
acreditam que possa existir uma amizade sincera entre um homem e uma
mulher.

Ademar deu uma risada.


— E não existe, senhora. Nossa relação é laboral.
— Quando os segredos pessoais começam a existir já não se trata de
uma relação exclusivamente laboral, sem embargo, queria te pedir algo como
amiga.
— O que quiser, senhora. Estou a sua disposição.
— Você gostaria de me ajudar a causar ciúmes em Ricardo para que
ele veja o quanto valho e regresse para mim o mais depressa possível?
Sandra estava cada dia mais, demovida mentalmente e iria usar todas
as armas para obter os seus objetivos.
— Senhora, eu…
— Auxílio, me ajudem!
Montserrat surgiu quase sem forças no alto da escada.
— Por favor, me ajudem! Me dói muito a pança! — Colocou a mão
sobre a barriga, chorando de dor.
Sandra e Ademar se entreolharam e correram para a socorrer.
Quando Montserrat chegou ao hospital, logo foi amparada pela equipe
médica que a levou para a emergência. Sandra, que não saiu do seu lado por
nenhum momento, foi impedida de adentrar pelos enfermeiros que alegaram
que logo regressariam com notícias, mas as promessas daqueles profissionais
não eram o suficiente para acalmar uma mulher que temia pela morte de “sua
filha!”.
— Senhora, se acalme, por favor. Assim vai terminar tendo um troço
— pediu Ademar, assistindo-a caminhar de um lado a outro.
— Como vou ficar calma, Ademar? Diga. Minha filha pode estar
morrendo neste preciso instante e eu não posso fazer nada para impedir. Sou
uma inútil mesmo. Claro. Sou incapaz de ser mãe, isso não é para mim, não
importa em qual ventre o meu filho seja concebido — disse, chorando.
Ademar observou ao redor e levou Sandra para um lugar menos
movimentado.

— Senhora, se tranquilize, sim? Montserrat está a semanas de dar à


luz, o parto pode haver se adiantado, somente isso.
— Não, Ademar, eu não consigo acreditar nisso. Você também a
ouviu dizer que não sentia menina, que ela havia deixado de se mover. Eu
estou segura de que ela a perdeu. Estou segura — contestou, em lágrimas.

— Senhora. Senhora. — A segurou pelos ombros. — Se acalme. Se


fica dessa maneira, as pessoas irão desconfiar. Se tranquilize, sim? Tudo irá
terminar bem.
Ela respirou fundo e secou as lágrimas.
— Sim, tem razão. Não posso permitir que essa gente desconfie do
que está passando. Vou buscar um doutor e tentar saber notícias de
Montserrat. Estou muito nervosa.
— Senho…
Sandra afastou-se rapidamente, e Ademar bufou.
**

Montserrat passava pelo ultrassom sem olvidar das tensões que era
submetida à diário. Em seu interior rogava milhares de vezes perdão à filha
por haver dissimulado sua quase morte, mas foi o único que a ocorreu depois
de haver passado todo o dia arquitetando mil estratégias para escapar daquele
pesadelo e, apesar da insegurança de Nicolas, Mon decidiu arriscar e apostar
que aquele plano devolveria sua liberdade e trairia o seu filho de regresso.
— Não há nada com a menina, ela está muito bem. Sua frequência
cardíaca está… — disse a médica.
— Sim, doutora, sei. Sei que minha filha está bem. Eu jamais me senti
mal, eu fingi para que me trouxesse ao hospital — contou, nervosa.

— Perdão? — Ela ficou confusa.


— Doutora, eu sei que o que fiz foi muito grave, mas se trata de um
tema de vida ou morte. Estou sem saída, encurralada. Minha melhor amiga,
ou a pessoa que…
— Como eu não posso passar? Quero saber como está minha filha!
Os gritos protestantes de Sandra poderiam ser escutados facilmente
em todo o hospital.
Montserrat arregalou os olhos e tentou agarrar no braço da médica,
que caminhou rapidamente até a porta para entender o que sucedia.
— Posso saber o que passa?
Sandra soltou-se dos enfermeiros que a seguravam e acercou-se
velozmente a médica.
— Doutora, sou Sandra Fuentes, sou a melhor amiga da mulher que
está atendendo, por favor me diga como está a menina. Me diga se está bem
ou… — questionou, nervosa.

Mon revirou os olhos e suspirou profundamente. Somente a


entonação de Sandra já demonstrava quão estava enferma mentalmente.
— Senhora, aqui há regras, sim? Assim que termine de analisar sua
amiga eu te dou notícias — Ela foi firme.
— Mas, doutora…
— Por favor, senhora, aguarde na sala de espera!
— Mas, doutora, somente me diga se a menina está bem, por favor.
Eu não posso com essa falta de informação. — Juntou as mãos e chorou.

A doutora negou com a cabeça e olhou para os enfermeiros.


— Por favor, a tirem daqui ou chamem a segurança.
Os enfermeiros atenderam ao pedido da médica e levou a Sandra, que
arremeteu grosserias contra eles.
A mulher de branco negou com a cabeça enquanto observava os
escândalos desnecessários da mulher.

— Eu já volto, Montserrat.
— Não, doutora, espera! — Calou-se ao assistir a porta fechar.
Mon golpeou o colchão e arremeteu contra Deus. O que planejava já
começava a sair de rota, no entanto, não iria dar-se por vencida tão
facilmente.
**
— Me solta! Já disse para me soltar! — gritou Sandra, tentando
golpear os homens que a segurava com solidez.
A doutora adentrou a sala de espera.

— Escuta, senhora, aqui é um hospital e não será tolerado nenhuma


falta de cordura. Caso não se acalme, serei obrigada a pedir que te saque a
força.
— Ah, claro! — Ela soltou-se dos homens. — É um hospital com
muita ética, verdade? Mas não se importam em lastimar uma pessoa que
estava unicamente preocupada com sua melhor amiga. Isso é um delito e irei
denunciá-los! — gritou, furiosa.
— Senhora… — Suspirou impaciente.
— Sabe de uma coisa? Vou demandar você e a esse hospital porque é
cúmulo a maneira que vocês tratam as pessoas! — ameaçou aos gritos.

— Tudo bem, faça, mas irá perder, aviso! — disse, antes de afastar-
se.
— Maldita vadia! — xingou, furiosa.
A doutora desculpou-se com os presentes e voltou para o consultório
para seguir a consulta de Montserrat, mas ao abrir a porta, encontrou a cama
vazia.
**
Montserrat saiu correndo pela saída de emergência e deteve um táxi
que parou diante de si. Adentrou o veículo e aos gritos pediu ao motorista que
ele fosse ágil ao tirá-la dali.
Ademar, que fumava um cigarro encostado no automóvel, xingou um
palavrão e rapidamente adentrou o carro, dando partida em alta velocidade.
**
— Por favor, senhor, me leva a delegacia mais próxima. Necessito
fazer uma denúncia — falou, tropeçando nas palavras.

— Está tudo bem, senhora?


— Não, não está nada bem. Me urge escapar. Por favor, seja rápido!
— Irritou-se.
O motorista atendeu ao pedido da passageira enquanto pelo retrovisor
a assistia mirar atrás uma e outra vez.
— Não, não pode ser! — Montserrat irritou-se quando viu Ademar,
que manejava um veículo negro, a poucos quilômetros de si. — Por favor,
senhor, acelera mais. Acelera ou ele irá nos alcançar! — pediu, chorosa.
Ele não tinha ideia onde estava se metendo, mas não pôde fazer outra
coisa além de atender o pedido da passageira.
**
Ademar fez o mesmo que o taxista quando percebeu que o veículo
perseguido escapava do seu alcance. A atitude do motorista apenas o deu
garantia que Montserrat percebera que ele já estava em sua cola e, que de
uma maneira ou outra, iria a alcançar.
O celular de Ademar tocou no bolso interno do seu paletó. Ele, por
um momento, pensou em não contestar aquela ligação, mas por saber que se
tratava de Sandra, decidiu tomar a melhor decisão.
— Alô.
— Onde diabo se meteu, Ademar? Estou te buscando há horas aqui
no hospital e você não está em nenhuma parte!
Ele cerrou os olhos e suspirou profundamente enquanto Sandra não
dava pausa em seus gritos.
— O que você acha, hein? Que sou sua palhaça ou quê? Trabalha
para mim e só pode deixar um lugar quando eu te permito! Ouviu bem?
— Senhora…
— Claro. Não se pode dar um pouquinho de intimidade a um
funcionário que ele acredita ser o patrão.
— Senhora! — gritou, impaciente.
Ela calou-se.
— Montserrat escapou do hospital!
— Como? — gritou, estupefata.
— Sim, eu estava fumando um cigarro do lado externo do hospital
quando a vi sair pela saída de emergência. É óbvio que ela jamais se sentiu
mal, apenas fez toda essa cena para escapar.
— Maldita seja! Como essa estúpida se atreveu? E agora onde ela
está?
— Tranquila, senhora. Já a tenho! — contestou, com um leve sorriso.
O taxista teve que frear bruscamente quando um veículo atravessou o
seu caminho.
Montserrat entrou em desesperou e tentou deixar o automóvel, mas
Ademar saiu do carro com uma arma em punho.
— Sai do carro, Montserrat. É uma ordem!
Mon balançou a cabeça negativamente e as lágrimas invadiram o seu
rosto. Quando seria o fim daquele pesadelo?
Sem saída, Mon abriu a porta do veículo e saiu com as mãos
levantadas. O taxista a mirou pelo retrovisor e lamentou por não ser o
suficiente valente para enfrentar a Ademar e intervir naquela situação.

— Por favor, não me faça dano, Ademar, eu… — pediu ela temerosa.
— Queria me ver com a cara de estúpido, verdade? — Acercou-se
sisudo.
— Não…
— Escuta muito bem… — Ele a agarrou agressivamente pelo braço
pronto para a reprochar, mas a voz do taxista que soou desde o carro o
deteve.
— Polícia? Há um homem fazendo uma mulher grávida de refém!
Ademar ergueu a arma e disparou contra a cabeça do motorista, que
caiu morto sobre o volante.
O segurança voltou lentamente a sua mirada para Montserrat, que
pareceu ter suas lágrimas congeladas por tão atônita que estava.
— Isso pode passar ao seu filho! — advertiu, mirando-a nos olhos.
— Não, Ademar, eu…

— Cale-se! — Alterou-se, segurando o braço dela com mais força. —


Isso quem irá arreglar será a patroa.
Mon jamais se perdoaria se algo sucedesse aos seus filhos por sua
culpa. Durante o caminho de regresso ao cativeiro, o silêncio de Ademar
parecia assinar sua sentença de morte. Diversas vezes o viu verificar o celular
e as paradas no sinal eram usadas para contestar as mensagens. Seguramente
falava com Sandra e juntos tratavam de coincidir a melhor forma de fazer
algo contra Nicolas.
Naquele momento ela se repudiou. Ofendeu-se utilizando os piores
nomes e se considerou a pior mãe do mundo. Havia que ter pensado
primeiramente no filho. Tinha que ter estudado a possibilidade de algo sair
errado e de como faria para escapar das consequências, todavia tratou de agir
impulsivamente e acreditou que nada sairia mal.
Montserrat não teve tempo para defender-se. Quando voltou a casa,
Sandra a recebeu com uma forte bofetada. Ela pôs a mão no rosto e
mencionou em revidar, mas Ademar a segurou o braço.
— Me solta, imbecil! — gritou, soltando-se. — E você, Sandra, não
sabia que tinha tanto medo de mim ao ponto de necessitar que uma escolta te
defenda!
— Cale-se! — Irritou-se. — Não está no direito de falar nada quando
você me enganou para tentar escapar! Você pensa que estou brincando, é?
Não acredita que eu não possa fazer nada contra o pirralho do seu filho,
Montserrat? Pois, querida, tenho o valor de fazer e irei fazer para que você
veja que falo muito sério.
A mirada e as palavras de Sandra avisaram a Mon que ela não falava
por falar. Ali havia muita maldade, sanha e uma completa ausência de
compaixão.
— Sandra, por favor, não faça nada contra o meu filho. Eu te suplico
— implorou, começando a chorar.
— Ah! Agora me implora? Agora considera tudo o que eu te disse,
verdade?
— Sandra… — Chorou.
— Muito tarde, Montserrat! Eu te advertir que se não se comportasse
aquele pirralho iria sofrer com as consequências e irei cumprir minha
promessa!

Sandra tentou afastar-se, mas Mon a segurou pelo braço. Tentou


ajoelhar-se diante dela, mas foi impedida por sua pança de quase nove meses.
— Por favor, não faça nada contra o meu filho, eu te suplico. Faça
contra mim. Por favor, faço o que você quiser, mas não machuque o meu
filho, por favor! — rogou, em lágrimas.
Sandra deu um passo atrás e sorriu leve.
— Que bonita você fica quando implora, Montserrat!
Ela deu as costas e saiu da sala de estar. Mon tentou correr até ela e
seguir a implorando, mas Ademar a deteve.

— Não necessita implorar, Montserrat, o que tinha que ser feito ao


menino já sucedeu!
Ela assustou-se.
Ademar pegou o controle e ligou o televisor. A imagem de um local
completamente escuro surgiu na tela e o som era mussitado pelos gritos
incessantes de Nicolas que chamava pelos pais.
Mon desesperou-se.
— O que é isso? O que vocês fizeram com o meu filho? Contesta,
infeliz! — gritou, indo para cima de Ademar, que a segurou pelos punhos.
— Se tranquilize! — ordenou.
Ela soltou-se raivosa.
— Ao menino não irá passar mais nada se sua mamãe se comporta
bem.
— O que você fez com o meu filho? — questionou, furiosa. — Me
diga, infeliz! Diga!
Ademar riu e deu um passo atrás.
— O que você fez com o meu filho? Contesta-me! — gritou,
começando a chorar.
Ademar deu as costas e foi embora.
Desesperada, Montserrat chorou por Nicolas.
Os dias que passavam somente pesava e quitava as últimas esperanças
de Montserrat sair sem danos maiores daquele pesadelo. Por sua fuga, ela já
não podia circular livremente pela casa, agora vivia o tempo todo, cerrada a
chaves no quarto e a possibilidade de ir visitar a Aaron já não existia.

Sandra tratou de fazer por menos o desaparecimento da amiga, contou


a todos que pelas dores que Mon sentira nos últimos dias, o médico a
ordenara que ficasse em completo repouso até o nascimento da pequena. Ela
não perdeu a oportunidade de contar a sua prisioneira. Queria a lembrar quão
sua decisão de escape havia sido saído mal e que o único que lograra foi o
fim de sua “regalia” e a tortura que submeteu a Nicolas, e Mon não pôde
discordar. Por culpa da sua má decisão o filho vivenciou um terrível pesadelo
ao ficar trancafiado durante horas em um quarto escuro. Para a maioria das
crianças somente a possibilidade é uma verdadeira película de terror, mas
para o garoto foi mil vezes mais assustador quando ele tinha fobia a
obscuridade.

Sandra quis demonstrar que tinha o poder, que o que dizia estava
longe de ser um chiste e que não teria limites para alcançar o seu enfermo
desejo.
Da sacada, Montserrat e suas lágrimas assistiram mais um novo
amanhecer. Os dias eram distintos, mas o pesadelo seguia igual. A cada hora
se formava dentro de si uma expectativa que não lograria a sair daquele
inferno. Mirava todas as probabilidades e tudo era muito pequeno para uma
pessoa que tinha a grandiosidade da maldade sobre si. Era isso que a fazia
chorar diariamente, era isso que a fazia cerrar os olhos e questionar a Deus.
Assim estava resumida a sua vida ultimamente, noites em claro, medo,
pressão psicológica, horror, tristeza, lágrimas, desespero. Uma lista infinita
de sofrimento que jamais pensou que um dia seria causado por aquela que
uma vez considerou ser sua melhor amiga.
Talvez aquele era o preço por confiar demasiado em uma pessoa,
talvez aquele era o preço por não haver feito algo quando percebeu que
Sandra estava muito débil emocionalmente. Quiçá a culpa era sua, ou quiçá
Sandra jamais valorizou a sua amizade e o seu estado emocional foi apenas
um impulso para destroçar o que nunca existiu. Quem sabe a culpa era de
Ricardo, ou de Aaron…
Até quando seguiria buscando culpados para preencher a mente?
Ela se encantaria em saber a resposta.
**
— Ademar, eu já vou à agência, sim? — disse Sandra, descendo as
escadas. — Te encargo muito a minha cadelinha.
— Sim, senhora. — Aproximou-se dela. — Já falou com ela?
— Não, hoje estou sem tempo. Tenho muito que fazer na agência.
Ah! Talvez hoje eu não esteja aqui na hora do jantar. Tenho planos.
— Como quiser, senhora. — Cruzou as mãos frente ao corpo.
Ela ajeitou a bolsa sobre o ombro e respirou fundo. Há dias o sentia
longe pela proposta que o fizera.
— Está enojado comigo, verdade? — Cruzou os braços.

— Por que eu estaria?


— Ai, não se faça. Sei perfeitamente que está distinto comigo desde
que eu te propus que me ajudasse a provocar ciúmes em Ricardo, tudo bem,
se não quer basta dizer, não é necessário tanto sentimentalismo.
— Aqui não há sentimentalismo, senhora. Apenas não gostaria de ser
utilizado. — Ele pareceu convicto.
Sandra ergueu as mãos.
— Perdão, não sabia que era tão sensível. Me desculpe por me
equivocar tanto, Ademar, pensei que era um tipo que estava disposto a fazer
tudo por sua chefe.
Ele a mirou nos olhos.
— E estou. Somente não vou te ajudar a regressar com um tipo que
não te ama, que não te respeita e que o único que deseja de ti ou de qualquer
mulher é um filho. Sim, senhora, Ricardo não te quer, jamais te quis e seria
perfeitamente bem que você começasse não somente a reconhecer isso como
também aceitar.
Aquela era uma verdade que há muito ele trazia na garganta, mas
sempre tratou de a deixar a esquerda.
— Perdão? Como se atreve a dizer isso a mim, sua patroa? Está
desquiciado ou quê? — Alterou-se.
— É a verdade, senhora. — Elevou a entonação.
Ela foi sarcástica ao erguer as sobrancelhas.
— Se quer ter um filho a todo o custo, tudo bem, eu te ajudo no que
seja, mas não me peça que te ajude a regressar com esse imbecil porque eu
não irei fazer. Esse homem não te merece — asseverou.
— As coisas não são assim. Ricardo me ama e a única razão de ele
estar dessa maneira comigo, é porque eu o falhei como mulher, como esposa,
não o dei a filha que ele tanto queria, mas assim que nasça a minha filha as
coisas irão mudar, você irá ver.
Ademar podia seguir naquela guerra de argumentos, mas sabia que
não o levaria a nada.
**
Quando Ricardo chegou a agência, Analía rapidamente tratou de
levantar e seguir os passos dele.

— Ricardo, necessito falar com você.


Ele parou e a mirou.
— Já disse que é melhor não tratamos aqui na agência, ao menos
enquanto não sai o meu divórcio com a histérica de Sandra.
— Sei, Ricardo, e já te disse que compreendo os problemas que leva
com sua ex-esposa, mas o que te tenho a dizer é muito importante e não pode
esperar. — Ela pareceu nervosa.
Ricardo mirou ao redor e respirou fundo.
— Tudo bem. Te vejo a noite em sua casa.
— Sim, obrigada. — Deu um aflito sorriso.
Ricardo afastou-se, e Analía pôs a mão na testa, soltando um tenso
suspiro.
Marina, uma companheira de trabalho, acercou-se e a percebeu flébil.

— Amiga, está tudo bem? Te vejo como angustiada, tensa?


— E estou. Você não sabe o que acaba de me passar — contestou,
com os olhos umedecidos.
— O quê? — Preocupou-se.
— Estou grávida!
Analía fez aquela revelação em um murmuro, mas Sandra que
adentrava o corredor, a ouviu. Mesmo com lágrimas nos olhos e uma raiva
incontrolável a domando, Sandra foi astuta ao controlar-se e esconder-se
detrás da pilastra.
— Grávida? — Surpreendeu-se. — E esse bebê é de Ricardo?

— Sim, amiga, e eu sinceramente não sei como irei dizer a ele.


Ricardo me prometeu que iria deixar a esposa para ficar comigo, mas
enquanto não saísse o divórcio a nossa relação era para ser mantida em
segredo, mas o que passa é que todos irão saber que as coisas não são bem
assim quando se inteire que estou grávida de quase doze semanas.
Sandra cerrou os olhos e praguejou a Ricardo e sua amante. Logo
compreendeu que as saídas noturnas do marido tinham mais razões que os
amigos, também compreendeu o fato daquela mulher haver sido contratada
tão velozmente quando a antiga secretária mal havia sido dispensada. A
intuição de uma mulher jamais se equivoca, e com ela não foi distinto, mas a
maldita diferença era que Sandra não conseguia enxergar que a infidelidade
do marido não era sua culpa.
— Amiga, eu não vejo razões para tanta preocupação, de verdade.
Todos sabem que Ricardo é louco para ser pai e, por mais que ele fique
enojado de princípio por vocês não terem conseguido guardar sigilo, ao
menos ele terá o filho que a seca de Sandra não logrou o dar, ou seja, é quase
certo que ele se divorcie dessa mulher e se case com você — falou, animada.
Sandra secou as lágrimas rapidamente e ergueu a mirada.
— Antes morta, querida. Antes morta!
Sandra não pensou em fazer alarde com sua descoberta. O seu
orgulho ferido quase a ordenava que fosse até a Analía e a repudiasse por seu
atrevimento, sem embargo, pensou em uma maneira melhor de dar um basta
naquela situação.
— Me chamou, senhora? — perguntou Analía, adentrando a sala de
Sandra.
— Sim, cerra a porta, por favor — contestou, enquanto assinava
alguns documentos.
A secretária atendeu o pedido da chefe e acercou-se.
Sandra ergueu a cabeça e deu um leve sorriso.
— Senta. Necessitamos tratar de alguns assuntos…
Analía ficou temerosa. Desde que chegara a empresa, Sandra jamais
pediu uma apresentação. Que assuntos teria ela para tratar precisamente
naquele dia?
— Laborais — concluiu.
A secretaria riu, nervosa.
— Sim, claro.
Ela puxou a cadeira e sentou-se.
— O seu nome é Analía Romero, não?
— Sim, senhora. — Sorriu. — Irá me demitir?
Sandra dissimulou incompreensão.
— Por que eu faria isso? Digo, tenho alguma razão para fazer?
— Não, quer dizer, espero que não. — Riu. — Mas, não sei, talvez
você possa estar insatisfeita com o meu trabalho ou…
— Não, nada disso, Analía, muito pelo contrário, estou muito
satisfeita e essa é a razão de eu haver te solicitado em minha sala. Admito que
quando você chegou eu não levei tanta fé em sua eficiência, eu até comentei
isso com Montserrat. Sinceramente pensei que você iria desistir no primeiro
dia.
Analía sorriu orgulhosa.

— Bom, fico muito feliz que tenha rompido suas expectativas, que
tenha me saído melhor que acreditava.
— Sim. — Sorriu leve. — Mas é uma lástima que Montserrat esteja
passando por um mau momento e ela não possa te explicar como funciona a
agência e o que realmente esperamos do seu trabalho e onde nossa
companhia deseja te incluir…
— Sim, é uma lástima que isso esteja passando com a senhora
Montserrat. Eu a conheço pouco, mas logo se nota que ela é uma pessoa
muito boa e que não merece o que está a sucedendo.

— Sim, totalmente de acordo, mas o mau momento de Montserrat não


é sinônimo que você tenha que sair prejudicada, então hoje eu te convido a
minha casa para tratarmos de assuntos laborais.
Analía não soube reagir frente aquele inesperado convite, o
compromisso que tinha a noite era inadiável e ironicamente era com o esposo
da mulher que tinha em frente.

— Perdão, senhora, mas…


— Há algum inconveniente?
— Não, é que… — Coçou a cabeça. — É que hoje tenho
compromisso e não posso…
— Perdão, Analía, mas para fazer parte dessa empresa é necessário
que a tenha como prioridade.
Sandra sabia que Analía ainda era uma universitária que lutava por
seu sonho na publicidade e colocar em dúvida o seu profissionalismo e seu
possível futuro no ramo era uma chantagem infalível.
— Sim, senhora, eu a tenho como prioridade, mas…

— Perdão, mas não a tem. Acaba de dizer que não poderá aceitar o
meu convite porque tem outro compromisso, ou seja, sua carreira não é tão
importante quanto você quer aparentar.
— Não, senhora, não é nada disso. Isso aqui me vale muito, de
verdade. É o meu sonho! — A interrompeu nervosa.
Sandra ergueu as sobrancelhas.
— Então?
Analía respirou fundo e refletiu.
— Ok. Posso adiar o meu compromisso para outro momento. Fazer o
quê, não?
Sandra sorriu satisfeita.
— Essa é a atitude de uma verdadeira profissional.
Quando deixou a sala de Sandra, o primeiro que Analía fez foi buscar
a Ricardo. Necessitava dizer que o encontro marcado não iria suceder e
contar de uma santa vez o que sucedia, mas, para seu azar, foi informada que
ele havia ido se encontrar com alguns clientes e que não regressaria a agência
naquele dia.
Analía amaldiçoou a sua sorte e ligou para Ricardo. Sabia que um
assunto como aquele não deveria ser tratado por telefone, mas ao menos
poderia informar que não era para ele ir a sua casa naquela noite, mas, de
repente, tudo pareceu conspirar ao seu contra e a favor de Sandra.
— Droga! — Ela xingou quando sua chamada foi encaminhada a
caixa de mensagens. — Ricardo, é Analía. Surgiu um compromisso laboral
de último momento e não poderei estar contigo na hora marcada, então deixa
esse encontro para outro momento, sem embargo, o que tenho que te dizer
não deixa de ser importante, meu amor. Beijos. Te amo.
Analía encerrou a chamada e respirou fundo. Algo a advertia que se
involucrar com Ricardo não havia sido uma boa ideia.
**
Mais um dia passou arrastado para Montserrat. Presa naquele quarto,
ela sentia que poderia enlouquecer a qualquer instante. As paredes e sua
mente conturbada eram sua torturante companhia diária. Por vários
momentos, quis desligar-se por completo, não pensar em ninguém e nem
como seria o seu futuro. Fingir que nada sucedia e deixar que Deus elegesse o
melhor, sem embargo, não podia. Não conseguia.
A cada minuto estava pensando em sua situação, em seus filhos, no
marido, de como estaria depois do nascimento de Estrella, como Sandra iria a
matar, será que iria doer? Seria rápido? Lento? Maldita sua mente! Malditos
seus pensamentos! Queria poder os paralisar no tempo. Desejava olvidar de
sua maldita vida para preservar sua sanidade mental, porém, por mais que
tentasse, não conseguia. Estava presa naquela maldita tortura psicológica, e
sua única pergunta que reinava era: quando esse maldito inferno irá terminar?
Ela não nunca foi uma pessoa pessimista. Sempre buscava acreditar no
melhor e agarrar-se ao último fio de esperança, mas daquela vez nem os seus
maiores incentivos pareciam ter valor.
O ruído na fechadura da porta fez Mon secar as lágrimas rapidamente
e deitar-se na cama, dissimulando estar dormida.
— Anda, Montserrat, não se faça — disse Sandra, adentrando o
quarto. — Temos visita na casa e necessito que você esteja lá embaixo
comigo.
Mon juntou as sobrancelhas e sentou-se na cama.
— Visita?
— Sim. — Cruzou os braços.
— Ricardo?
— Não, Analía Romero. Esse nome te soa, não?
Montserrat forçou a mente.
— É a secretária da agência, não?
— Exato. Eu a chamei aqui para conversamos sobre o seu trabalho e o
futuro na empresa, por isso necessito que você jante conosco. E você já sabe,
não? Biquinho calado!
Mon respirou fundo e ponderou. O que poderia motivar a Sandra a
convidar uma funcionária a sua casa?
Montserrat podia dizer com toda a certeza que a curiosidade matou o
gato, porque por sua abelhudice ela decidiu não questionar a Sandra e atender
sem complicações o seu pedido.

Quando desceu as escadas, viu a Analía. Sandra tentava a convencer


que a acompanhasse em uma taça de vinho tinto. Aquilo soou mais
misterioso que poderia parecer. Conhecia a Sandra e sabia perfeitamente que
levar uma amistosa relação com qualquer funcionário não era algo que
particularmente a agradava. Algo obscuro existia por trás daquele convite e
por um momento Mon chegou a temer.
— Que bom que por fim desceu. A senhora a aguarda na sala de estar
— disse Ademar, acercando-se.
Mon o encarou.
— O que há por trás disso, hein? O que planeja Sandra com tudo isso?
Me testar, me colocar à prova? Ah, já sei! Ela convenceu essa mulher a ser
cúmplice de vocês.
Ele riu.
— Como toda essa criatividade, além de publicitária deveria ser
escritora.
— Ai, por favor, a mente enferma de vocês supera a imaginação de
qualquer escritor — retrucou. — Sei que estão tramando algo, então diga de
uma vez — ordenou, sisuda.
— Aqui ninguém irá fazer algo contra você. Hoje você é a plateia,
não o artista.
Mon lamentavelmente entendeu que Analía seria tão vítima quanto
ela.
— Não, Sandra, me perdoe, mas eu não costumo tomar, então irei
ficar com o suco de laranja. Obrigada — disse Analía, retirando a taça da
bandeja.
— Sem problemas. Se não é o seu costume, não iremos insistir,
verdade? — Sorriu, colocando a bandeja sobre a mesa.
— Sim. — Sorriu, tomando um gole do suco.
Mon adentrou a sala de estar.
— Boa noite!
— Montserrat, que bom que decidiu jantar conosco, amiga. Já estava
sentindo sua falta — falou Sandra, sorridente.
Ela apenas assentiu com a cabeça e cumprimentou a Analía com um
beijo no rosto. Somente por estar presente ela se sentia tão criminal quanto os
seus sequestradores.

— Como está, senhora? Sei que está passando por um delicado


momento e…
— Sim, mas estou superando.
— Que bom! É o melhor, ainda mais quando os médicos não têm
muita esperança que um dia o seu marido volte a despertar, fiquei sabendo de
sua piora. De verdade, lamento muitíssimo.
— Como?
Foi inevitável ocultar a alteração que Montserrat apresentou ao se
inteirar daquela notícia. Diariamente estava pensando no marido e o seu
estado de saúde era o que mais a castigava a mente.
Analía ficou constrangida.
— Como? Você não sabia? Perdão, eu…
— Não é isso, Analía. A Montserrat somente não agrada que mais
uma notícia como essa esteja nos periódicos, entende?

— Sim, e sinto, Montserrat.


— Não há problema.
Ela secou as lágrimas rapidamente e sentou na poltrona.
Constrangida, Analía tomou quase todo o suco em um gole, enquanto
Sandra a observava com satisfação na mirada. Já era a segunda taça de suco
que a via ingerir.
— Um suco, Montserrat? — Sandra acercou-se com a bandeja.
— Obrigada. Estou bem assim. — Arrumou o cabelo delicadamente.
— Por favor, Montserrat, nos acompanhe — insistiu.
— Não, Sandra. Estou bem assim! — falou, firme.
Analía percebeu a animosidade entre as amigas.
Sandra forçou um sorriso.
— Tudo bem. Tomo sozinha. — Pôs a bandeja sobre a mesa e tomou
a taça em mãos.

— Me diga, Analía, como está a empresa sem mim? — Aquela era


uma dúvida que há muito carregava consigo.
— Bem, quer dizer, obviamente a senhora e o seu esposo fazem falta,
mas Sandra está sabendo levar muito bem, e aí vamos.
— Sim.
— Afinal, essa é a razão da minha presença aqui, não? Para falarmos
de trabalho.
— Claro que sim. — Sandra sentou-se no sofá e cruzou as pernas. —
Há muitas coisas que necessitamos tratar.
— Como o quê, por exemplo? — questionou Montserrat. Foi uma
clara tentativa de mostrar a Analía que as coisas não estavam tão bem quanto
aparentava.
— Sobre o que conversamos, amiga. Esqueceu? Esqueceu das
condições que te falei? — A mirou nos olhos em um sutil aviso de: não se
esqueça do que posso fazer caso queira sair como a esperta.
— Claro. — Ela forçou uma risada. — Não há como esquecer.
— Perfeito, então vamos à mesa e depois do jantar, nós falamos de
trabalho. Estamos? — Levantou-se animada.
— Claro. — Analía sorriu e pôs a taça sobre a mesa. — Até porque
estou morrendo de fome.

Analía tomou impulso para levantar-se e foi atingida por uma intensa
dor no abdômen que a fez curvar-se.
— Analía, o que te passa? — Mon se levantou e correu para ampará-
la.
— Me doí muito a pança, por favor, me ajuda! — pediu, quase sem
voz.
Mon olhou para Sandra, que deu um leve sorriso.
— O que você fez com ela?
— Eu? — Apontou para si mesma.
— Claro que sim! Não há outra pessoa que possa…
O grito de indignação dela foi interrompido pelo de dor de Analía,
que sentiu um líquido quente descer entre suas pernas.
— Não! Meu filho. Estou perdendo o meu filho — desesperou-se.
Montserrat arregalou os olhos.

— Sandra, por que você fez isso? — gritou, assustada.


— Porque ela é uma maldita vadia que se diverte se metendo com
homens comprometidos. — Elevou a entonação. — Quê, Analía? — Encarou
a mulher que chorava de dor. — Pensou que eu jamais iria me inteirar que
você espera um filho do meu marido?
— Eu não sei que está falando! — disse, meio a um gemido de dor.
— E Ricardo já não é o seu marido. Vocês estão em processo de divórcio.
— Não se faça, maldita vadia! Ricardo segue sendo meu! Meu! Ouviu
bem? — Sandra avançou contra a secretária, mas foi impedida por
Montserrat.

— Sandra, se tranquilize, por Deus! — Irritou-se.


— Eu não vou me tranquilizar! Essa maldita se aproveitou da minha
incapacidade e da crise que Ricardo e eu atravessávamos para o enredar. É
uma vagabunda que merece o pior! — gritou, furiosa.
Analía desejou ter forças para rebater tudo o que era dito contra ela.
Quis falar que jamais buscou a Ricardo, que por ordem do destino eles se
conheceram na noite e que o sexo casual terminou se tornando algo a mais.
Também queria admitir que reconhecia sua falha ao se envolver com um
homem casado e que fora uma estúpida ao cair no tão típico conto: minha
esposa e eu já não nos amamos, iremos nos divorciar. Talvez Ricardo soube a
enredar tão bem que ela não se importou com os detalhes e mergulhou de
cabeça naquela relação, mas sua intenção jamais foi desafiar a esposa do
senhor.
— Por favor, Sandra, as coisas não são como pensa! — falou, entre
gemidos de dor.
— Ah, não? Então como foram as coisas? — Cruzou os braços,
sarcástica. — Ricardo te obrigou a estar com ele, a ir para a cama com ele?
Claro que não. Você foi porque é uma sem vergonha! — explodiu.
— Sandra, por Deus! — pediu Mon, aos gritos.
— Ela é uma desgraçada que merece o pior. Pensou que poderia ter o
meu marido o dando o golpe da barriga, mas não, querida. Eu jamais
permitiria!
Analía sempre teve um discurso de autodefesa pronto na cabeça, pois
sempre pressentiu que um dia, Sandra e ela terminariam se confrontando,
porém, quando o momento chegou ela não conseguia se defender. As dores
ficavam cada vez mais intensas e o sangue que parecia jorrar do seu interior a
deixava mais nervosa.
— Por favor, me levem ao hospital. Eu não suporto!
— Sandra, você tem que levar Analía a um hospital ou ela irá morrer
— falou Mon, nervosa.
— Essa é a intenção. Que morra, maldita seja! — Travou os dentes
com ódio.
Mon ficou estupefata com tamanha frieza e apatia da mulher. Sua
melhor amiga há muito deixara de existir.
— Sandra, por favor, raciocina. Essa mulher irá morrer aqui, mira o
problema que terás! — Ela não era tonta ao não reconhecer que a morte
daquela mulher poderia a livrar daquele pesadelo, caso a polícia se desse
conta que Sandra estava involucrada em sua morte, no entanto, seu coração
não era congelado para aproveitar-se de uma situação como aquela.
— Sandra, mira como ela está — implorou.
Analía sentiu outra forte dor e terminou perdendo os sentidos.
Mon conseguiu a segurar a tempo e desesperada pedia para que ela
reagisse, mas era certo que aquela pobre mulher tinha o seu destino traçado.
**
Montserrat assistiu Analía dessangrar até a morte. Aquela imagem
jamais sairia da sua cabeça. Também viu Ademar embalar o corpo sem vida
com um papel filme e o levar como se fosse um pedaço de carne para o
freezer vazio da cozinha. Ela não logrou a reagir. Parecia estar catatônica
enquanto Sandra usava todos os métodos para desaparecer com os vestígios
de sangue do seu piso. Logo ela pegaria aqueles tecidos e com o tapete o
atearia fogo no jardim. Sandra estava mais que obcecada, já poderia ser
considerada uma psicopata pelas barbaridades dos seus crimes e falta de
empatia.
Mon a mirava e não via medo, receio, arrependimento, apenas via
uma mulher muito satisfeita com suas ações e disposta a se superar a cada
passo. Sua presença ali não fora por nada. Sandra já tinha tudo muito bem
arquitetado e desejou que ela fosse a plateia do seu macabro delito.
— Maldito sangue que parece que nunca termina!
Ajoelhada no chão, Sandra quitava a sangria com a ajuda de um
tecido e o torcia no interior de um balde transparente. Olhou para Montserrat
e a viu petrificada sentada na poltrona.
— Me ajuda, Montserrat! — ordenou.
Mon negou com a cabeça e as lágrimas desceram lentamente em seu
rosto.
Ela revirou os olhos ao assistir o pranto dela.
— Por favor, Montserrat, não faça drama, sim? Ela tinha que morrer!
— Você é um monstro, Sandra! Como foi capaz? Era uma vida,
caralho! Uma pessoa! — falou, caindo em lágrimas.
— Uma vida que não valia muito porque ela se involucrou com o meu
marido aproveitando-se da minha incapacidade como mãe. De verdade,
acredita que uma pessoa como essa merece algum tipo de consideração?
— É uma enferma! — Travou os dentes, com ódio.
Montserrat levantou-se, e Sandra fez o mesmo. Tentou a agarrar pelo
braço, mas Mon foi mais ágil ao escapar de suas garras.
— Escuta, Montserrat…
Ademar adentrou a sala com um semblante nada agradável.
— Senhora?
— O que passou?
— Temos um problema na cozinha.
Sandra revirou os olhos e olhou para Mon, que subiu as escadas
chorando.
— Vamos? — questionou Ademar.
Sandra acompanhou a Ademar até a cozinha e viu o corpo de Analía
no chão e o freezer aberto.
— O que passa? Por que não a colocou no freezer como eu te
ordenei?
— Esse freezer é pequeno para a colocar, já tentei de todas as
maneiras.
Ela revirou os olhos e suspirou impaciente.
— Por favor, Ademar, não seja néscio, sim? A rompa as pernas ou a
corte no meio, não sei. Somente desapareça com o corpo dessa estúpida.
Ele assustou-se com a frieza dela.
— Mas, senhora…
— Quê? Não quer que eu faça, verdade?
— Não… — Ele titubeou. — Mas como irei fazer isso?
— Como uma serra, não é difícil, ao menos creio. Ricardo deixou
uma aqui na casa e será fácil. Leva o corpo dessa estúpida para garagem e lá
eu te ajudo com o serviço. Já regresso!
Sandra deixou a cozinha.
Ademar encarou o corpo morto de Analía e balançou a cabeça
negativamente.
No dia seguinte, Ricardo não podia com a falta de notícias de Analía.
Além de ela não haver aparecido para trabalhar, era muito raro que suas
ligações somente fossem encaminhadas para a caixa de voz e que suas
mensagens não fossem contestadas. Ele conhecia perfeitamente a ela e sabia
que estar fora das redes sociais não era o seu hábito, e há horas Analía não
aparecia em nenhuma. Aquilo era extremamente preocupante e razão para
acionar a polícia se fosse necessário, pois ninguém parecia conhecer o
paradeiro da jovem mulher.
— Preocupado, Ricardo?
Ele ergueu a mirada e viu a Sandra sentada do outro lado da mesa.
— Está calado e nem sequer contesta as perguntas laborais que estou
fazendo.
— Perdão, mas eu não estou com cabeça. — Jogou a caneta sobre a
mesa e passou a mão no rosto, soltando um pesado suspiro.
— Posso saber a razão? Quer dizer, caso queira desabafar.
— Não, vou ficar bem. — Levantou-se. — Vou por um café.
— Tudo bem. Eu também tenho uma junta agora, caso você queira
terminar o que estávamos fazendo em casa, pode fazer, eu também termino
minha parte e o que falta fazemos amanhã pela manhã. O que te parece?
— Maravilhoso. Nos vemos.
— Adeus!
Ricardo saiu da sala, e Sandra riu. Conhecia muito bem a razão da
angústia do ex-marido.
Ricardo foi para a sala do café e pegou um cappuccino. Tomou um
gole e lembrou-se nitidamente da mensagem deixada por Analía na caixa de
voz e algo o chamou a atenção.
— Compromisso laboral? — questionou-se.
— Boa tarde, senhor Ricardo.
Ele olhou para a amiga de Analía, que se acercou para pegar um café
preto.
— Alguma notícia de Analía?
Marina suspirou pesadamente e contestou:
— Não, não ainda. De verdade estou começando a me preocupar.
— Por casualidade sabe que tipo de compromisso laboral ela tinha
ontem?
— Sim, ela me disse que tinha um jantar laboral com sua ex-mulher,
mas não me disse para tratar exatamente o quê.
— Sandra? — Surpreendeu-se.
O que revelara a mulher estava muito raro, e Ricardo não quis esperar
muito para obter a resposta.
Sem se importa com a presença de clientes e funcionários, ele
adentrou a sala de reunião e em uma entonação acusadora questionou:
— O que você tem a ver com o desaparecimento de Analía, Sandra?
Sandra ficou tão assustada quanto os demais. A acusação de Ricardo
além de ser uma genuína surpresa, também era indignante quando ele parecia
mais preocupado que devia com a amante
— Contesta, Sandra! Onde está Analía? — Ele acercou-se, sisudo.
— Uou! — Ergueu as mãos, meio a uma risada descrente. — Perdão,
mas de que estou sendo acusada, ainda mais meio a uma importante reunião
de trabalho? Por favor, Ricardo, recomponha-se.
A calmaria dela o irritou mais.
— Não me importa essa junta! Quero a verdade!
— Qual verdade? Por Deus! De que estou sendo acusada? Por que
acredita que eu tenha algo a ver com o desaparecimento dessa mulher?
Ricardo mencionou em contestar, mas foi detido por uma cliente que
se levantou farta.

— Perdão, mas eu não tenho nada a ver com a discussão de casal de


vocês. Não foi para isso que vim, então quando vocês arreglarem os seus
problemas…
— Senhorita, aqui não passa nada, sim? O meu marido e eu já
colocamos um ponto final neste pleito, então, por favor, sente-se novamente
— pediu, gentilmente.
A cliente suspirou impaciente e sentou de novo.
Raivosa, Sandra encarou o marido.
— E você, Ricardo, é a última vez que faz algo do tipo, sim? Da
próxima, eu não respondo por mim! — ameaçou.
Ricardo passou a mão no cabelo e deixou a sala. Compreendia que
estava mais apreensivo que um dia pensou que estaria, porém, errou ao tomar
uma atitude impensada.
Sandra ainda não sabia o que havia motivado a Ricardo ter
desconfiado precisamente dela. Na reunião teve que dividir sua mente entre o
laboral e entre criar persuasivas escusas para cada possibilidade que ele
pudesse sair e, mesmo pensando em cada uma delas, não conseguia encontrar
razões para o ex-marido a enxergar como a causante do desaparecimento da
funcionária.
— Já podemos falar? — perguntou Ricardo, assim que a viu adentrar
a sala.
Sandra pôs os seus pertences sobre a mesa e cruzou os braços, séria.
— Onde está Analía?
— E eu que vou saber? — Deu de ombros. — Desde quando me
interessa a vida privada dos funcionários?

— Ontem você a convidou para um jantar “supostamente” laboral, e


agora resulta que ela não está em nenhuma parte. — Sinalizou aspas com as
mãos.
— Ok, isso é certo, mas não foi “supostamente” — Repetiu o sinal de
aspas usado por ele. — Eu a convidei para jantar e falar de trabalho, porque
Montserrat não está em condições de fazer o seu trabalho e eu estou a
substituindo, agora que eu tenha algo a ver com o seu desaparecimento é um
pouquinho demais, não?
— Para onde foram? — Ele seguiu suspicaz
Sandra revirou os olhos e respirou fundo.
— Para minha casa, conversamos, falamos sobre trabalho, jantamos e
já. Não sucedeu nada além do que estou te contando.
Sandra jamais o deu motivos para pensar que ela poderia haver
cometido qualquer tipo de atrocidade contra a Analía, mas ele reconhecia o
quão débil ela parecia estar ultimamente.

— Quê? Não acredita em mim? Pensa que estou mentindo? —


questionou, diante do silêncio dele. — Bom, se você não acredita, você pode
ir a minha casa e perguntar a Montserrat, ela poderá te confirmar.
Ele pensou na possibilidade, mas a entonação segura que Sandra
utilizou terminou aniquilando sua desconfiança. Ela poderia estar um pouco
fora de si e a cena de ciúmes que protagonizou poderia ser um grande motivo,
mas ele conhecia a amiga da ex-esposa e sabia que ela jamais compactuaria
com nenhum ato sujo, nem mesmo uma mentira.
— O que faço, ligo para Montserrat ou você irá até ela?
— Nem um, nem outro. .
— Então você acredita em mim?
— Sim.
— Bom, ao menos disso ainda sou digna, não? — ironizou.
— Por favor, Sandra! — pediu, impaciente.
Ricardo mencionou em afastar-se.
— Mas, de certa maneira, estou muito orgulhosa de ti. Jamais pensei
que uma simples funcionária poderia te deixar tão alarmado, Ricardo. Mira,
poderia ser indicado ao chefe de ano, porque ninguém te supera, meu amor.
Ele ignorou os sarcasmos dela e foi embora.
Sandra deu uma risada satisfeita.
— Busque a sua mortinha, querido!
Com o fim do horário laboral, Sandra foi até um centro comercial
depois de ir à escola de Nicolas e justificar a ausência do menino. Disse a
diretora que o menor estava muito débil desde o acidente com o pai e que por
isso estava tendo aulas particulares.
No shopping, passeou pelas lojas de roupas infantis e não deixou
nenhuma delas sem uma sacola nas mãos. Em questão de dias "sua filha"
chegaria ao mundo e ela queria estar coberta de regalos para a receber de
braços abertos.
Depois de duas horas, Sandra adentrou o estacionamento e pôs suas
compras no porta-malas. Verificou a hora do celular e fechou o
compartimento, antes de dar a volta e abrir a porta, mas o veículo que
adentrou e estacionou ao lado chamou devidamente a atenção.

Forçou a vista quando pressentiu que conhecia a mulher que


manejava o automóvel e, quando ela saiu, teve certeza. Era Cecília, a mulher
do parque que havia sido regada por uma narrativa totalmente falsa sobre a
vida de Sandra.
— Cecília?
A mulher de cabelos negros virou-se e sorriu.
— Olá, como está? — Acercou-se com um largo sorriso e
cumprimentou a Sandra com um beijo no rosto.
— Muito bem, e você? — Desfez o amplexo, sorrindo.
— Bem também! Marquei com uma amiga para umas compras, ela já
deve estar chegando, e você?
— Eu nada, quer dizer, vim aqui para comprar umas roupas para os
meus pequenos, pois é incrível o quão rápido deixa de os servir.
Elas riram.
— As crianças crescem rápido. Essa é a desvantagem dos filhos,
porque quando menos esperamos eles já foram de casa.
— Sim, mas filhos sempre serão filhos. A idade é apenas uma
consequência, algo inevitável. Eles têm o direito de fazerem suas vidas como
fizemos a nossa, não?
— Sim, mas não seria tão bom se eles fossem crianças para sempre?
— Riu.
— Bom, em todas as possibilidades há as vantagens e as
desvantagens, não? — falou, rindo.
— Sim, mas… Mira, minha amiga acaba de chegar.
Sandra girou o pescoço e admirou o carro negro que estacionava do
outro lado, no entanto, odiou saber quem era a proprietária.
Rosana saiu do veículo, e Sandra revirou os olhos em desagrado.
Cruzou os braços e aguardou que sua ex-amiga se aproximasse, ainda tinha
muito vivo o desentendimento que tiveram a última vez que se viram naquele
mesmo shopping.

— Sandra? — Surpreendeu-se.
— Mira, que desprazer voltar a te ver.
Cecília se aproximou um tanto confusa.
— Como? Vocês se conhecem?
— Claro. Sandra é tal que não pode ter filhos, por isso odeia a todas
as mulheres que podem ter.
Sandra cerrou o semblante e arremeteu mentalmente contra aquela
mulher. Ela além de não perder a oportunidade de ressalvar sua incapacidade,
também terminou deslindando sua mentira frente a Cecília.

— Como? Como ela não pode ter filhos? Ela me disse que tinha três.
— Deu uma risada, descrente.
Rosana encarou a Sandra e ergueu uma das sobrancelhas. Um
encontro desagradável havia se tornado algo muito interessante.
— Três filhos, Sandra? De quais dos seis abortos eles são
sobreviventes?
Sandra a mirou com ódio e tentou afastar-se, mas Rosana a segurou
pelo braço.
— Me solta, estúpida! — Irritou-se, quitando o braço de maneira
brusca das mãos de Rosana. — Em mim você não toca, ouviu?

— Quê? Cecília e eu queremos conhecer os seus três filhos. Cadê?


Onde estão? Onde estão essas três crianças que nunca conheci?
Sandra encarou as duas mulheres e ficou em silêncio. Podia ver a
satisfação no rosto delas ao destroçar sua narrativa fantasiada e trazer à tona
sua triste realidade.

Rosana riu.
— Eu já sabia. Não tem vergonha? Não tem vergonha de mentir tão
descaradamente? Aposto que o filho que disse que espera também não existe,
é outra mentira sua, verdade?
— Cale-se, maldita! — gritou, raivosa.
Sandra deu as costas e entrou no veículo. Do retrovisor, observou
Rosana e Cecília balançarem a cabeça negativamente e confidenciarem algo.
Na certa, zombaram da sua incapacidade.
Sandra chegou em casa ainda arremetendo contra Rosana. Aquela
mulher nunca perdia a oportunidade de a ver mal, e aquele último encontro
somente veio comprovar que sua maldita incapacidade a inferiorizava ante as
demais mulheres.
Sempre desejou ser mãe, esse era um desejo irrevogável que existia
dentro si. Podia facilmente cerrar os olhos e se ver bem menina brincando
com suas bonecas. Ela sempre teve muitas. Gostava de dissimular que todas
eram suas filhas, idealizando uma grande família.
Sem embargo, às vezes era obrigada a reconhecer que o seu desejo
tornou-se uma obsessão quando alcançou a idade adulta e viu suas amigas se
tornando mães e construindo suas famílias, e algumas delas sem razões
aparentes desfizeram o vínculo amistoso, algo que ela sempre quis
compreender e com um tempo entendeu, não era que a amizade havia
terminado, somente já não tinha nada em comum com aquelas mulheres e o
distanciamento foi inevitável.
Talvez essa era a causa da sua indignação, obsessão e recorrentes
lágrimas, não era o problema que a fazia dano, e sim sua figura manipulada
ante as demais.
Farta e melancólica, Sandra caminhou até a adega e preparou um
uísque. Bebericou a forte bebida e apoiou os antebraços sobre a bancada.
Ademar adentrou a casa e a viu cabisbaixa. Tinha que admitir que
Sandra era uma mulher de poucos sorrisos e alegrias, tristemente
pouquíssimas vezes a viu bem-disposta e, mesmo a melancolia parecendo
comum, ele não conseguia a ignorar fingindo que nada passava.
— Senhora. — Ele acercou-se a ela.
Sandra tomou todo o uísque de uma vez e pôs o copo sobre a bancada.
— Olá, Ademar.

— Está tudo bem? Te vejo um tanto melancólica. Sucedeu algo? Quer


desabafar?
Ela balançou a cabeça negativamente, mas as lágrimas trataram de
comprovar que estava mentindo.
— Senhora… — Ele pareceu preocupado.
— Tranquilo, estou bem. — Secou as lágrimas rapidamente. —
Somente tive um mau momento na rua, mas já passou.
Ademar pôs sua mão sobre a dela e a mirou nos olhos.
— Está segura?
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim. Algumas coisas podem me atingir, mas há algo que me saca
toda tristeza.
— Sua filha? — Deu um meio sorriso.
Ela sorriu.

— Sim. Quando nasça essa menina eu estou segura de que minha vida
irá se restabelecer, estou segura de que Ricardo irá regressar para mim e que
seremos uma linda família — planejou, animada.
Ademar sorriu leve e entrelaçou sua mão com a dela.
— Torço para a sua felicidade, senhora, e por mais que não me agrade
muito a ideia que seja Ricardo…
— O que tem contra, Ricardo? De verdade eu não consigo entender
porque ele te cai tão mal.
— Ele tem uma mulher maravilhosa ao lado dele e não valoriza, esse
é o meu problema com ele.
Ela deu uma risada.
— Tudo bem, mas Ricardo somente está agindo dessa maneira porque
eu o falhei como esposa, como mulher. Fomos casados mais de cinco anos e
eu não logrei a cumprir a promessa de o dar uma família. Foi eu que falhei
neste matrimônio, Ademar, não ele.
Obviamente ele não coincidia com aquele pensar da patroa. Ademar
via a Ricardo como ele exatamente era, um ser egoísta que não se importava
nem um pouco com o sofrimento da esposa, entretanto, a obsessão de Sandra
a converteu na pior cega.
— Senhora, eu não vejo dessa maneira, tenho minha opinião, mas não
sou ninguém para a expor. Sem embargo, peço que se cuide, que se ame em
primeiro lugar e que não permita que ninguém te faça dano.
Ela apreciou as palavras dele.
— Obrigada, Ademar. De verdade, eu te agradeço.
Ele sorriu.

— Não tem que agradecer, senhora. É uma bela mulher e merece estar
feliz e muito realizada consigo mesma.
Sandra se sentiu ditosa. Não sabia de onde aquele homem sacou as
belas palavras proferidas, mas daria a vida para ouvir uma e outra vez do
homem que amava.
— E o menino? Como está Nicolas? — Ela indagou pegando os
cubos de gelo com o pegador e os colocando no copo de uísque.
— Segue difícil, mas ao menos o tipo que está o vigiando está mais
atento e ele não voltou a tentar escapar, mas aí estamos. O melhor que eu
também posso fazer é ter minha atenção muito presa em cima dessa gente.

— E faz muito bem. — Terminou de colocar a bebida no copo e


entregou a Ademar. — O último que nos faltava era que esse menino
colocasse tudo a perder, isso não. O quero muito saudável e em perfeito
estado, porque ele é a garantia que Montserrat irá fazer tudo que queremos.
Ademar assentiu com a cabeça e bebericou a bebida.
— E Montserrat? Como se comportou o dia todo?
— Muito bem para o meu gosto. Creio que está tramando algo.
**
No quarto, Montserrat já não podia com as dores que sentia. Durante
todo o dia sofreu com as contrações que tratou de dissimular cada vez que
Ademar adentrou a habitação, mas com o passar das horas as contrações
surgiam em menores intervalos e suportá-las já não era possível.
Mon gemeu mais alto que imaginou quando foi atingida por uma nova
contração. Segurou na porta do banheiro e lentamente conseguiu deixar o
cômodo com as poucas forças que tinha nas pernas. Estava mais que claro
que Estrella chegaria ao mundo naquele dia e, desafortunadamente, não
levaria a vida que há muito sua mãe planejava.
Caminhou até a cama e novamente uma intensa dor a atingiu, mas
dessa vez a bolsa também rompeu.
— Não, não pode ser… Minha filha!
Mon escutou o ruído da fechadura da porta e estupidamente quis
ocultar o que sucedia, porém, seria impossível com as dores que pareciam
mortais.
Sandra pareceu assustar-se com o gemido de dor de Montserrat.
Adentrou rapidamente no quarto e acercou-se a ela.
— Montserrat, o que te passa? — Preocupou-se.
— A bolsa rompeu. Minha filha está nascendo, por favor me leva para
um hospital. Por favor — pediu, quase chorando de dor.
— Calma, Montserrat. Se recoste na cama, sim?
— Eu não necessito me recostar, necessito de um doutor! Me leva
para o hospital! — gritou, irritada.
— Não! Não vou te levar para o hospital. Não posso correr o risco
que você escape levando a menina! — alterou-se.

— Eu jamais deixaria a Nicolas, não seja estúpida! — gritou.


Mon curvou-se ao sentir uma nova contração.
Sandra arregalou os olhos.
— Está bem? — perguntou, nervosa.
— Claro que não estou bem. Me leva até um doutor, caramba. Anda!
— ordenou, aos gritos.
Ademar correu para o interior da casa quando Sandra o chamou aos
gritos.
— O que passou, senhora?
Ela desceu as escadas, correndo.
— A bolsa de Montserrat rompeu, Estrella irá nascer — contestou,
rapidamente.
— Como? Então vamos a levar para o hospital.
— Claro que não! Eu não posso correr o risco que essa estúpida tente
algo.
— Então? — Deu de ombros. — O que iremos fazer? Se a bolsa
rompeu, a criança já irá nascer.
— Eu sei, estúpido. Não me veja com a cara néscia. — Irritou-se. —
Por isso quero que ligue para aquela parteira que você disse que é sua vizinha
e ordene que ela venha fazer o parto de Montserrat!
— A dona Milagros?
— Se esse é o nome dela, sim. — Tirou o telefone do gancho e
colocou nas mãos de Ademar.
Ele suspirou pesadamente.
— Anda! Anda! — ordenou, impaciente.
Ademar respirou fundo e atendeu o pedido da patroa, mas para o azar
dela, a chamada foi encaminhada para a caixa de mensagens.
— Não contesta!
— Como não contesta? — Alterou-se.
— Seguramente não está em casa. Dona Milagros trabalha como
servente na residência de uma gente endinheirada.
— Então liga para essa casa e diga que eu a necessito aqui neste
preciso instante!
— Esse é o problema, senhora, eu não sei o número do telefone,
somente o endereço.
— Então vá até a essa casa e traga a essa mulher, por Deus!
— Mas, senhora, essa casa fica do outro lado da cidade!
— Não me importa! Vá até o quinto dos infernos, mas traga essa
mulher que minha filha está nascendo! — gritou, nervosa.
Ademar não teve outra opção além de atender o que Sandra o
ordenava. Desejava haver tido a oportunidade de dizer os riscos que existia
ao dar à luz aquele método clássico, porém, a patroa estava muito nervosa
para escutá-lo.

Sandra regressou ao quarto, e Montserrat parecia sentir mais dores


que antes. Estava recostada na cama massageando o ventre que sofria com
cada nova contração.
— Como está, Montserrat? — perguntou, enervada.
— Já não posso mais, Sandra, minha filha irá nascer. Posso sentir!
— Tranquila, Montserrat, Ademar já foi atrás de uma senhora que irá
te ajudar!
— Não, não há tempo! Já está nascendo, posso sen… — Calou-se ao
sentir uma nova contração.
Sandra ficou mais nervosa.
— Montserrat, respira, sim? Essa senhora já deve estar a caminho!
— Já não posso esperar! Está nascendo! Por favor, me ajuda!
Aquele pedido foi a maior ironia que Mon pôde pronunciar. Durante
semanas esteve pedido compaixão aquela mulher e agora pedia ajuda a quem
justamente estava a fazendo dano.
— Por favor, Sandra, me ajuda. Pelos nossos anos de amizade… Eu já
não posso com essa dor. Me ajuda, por Deus! — pediu, chorando.
Pela primeira vez, Sandra ficou catatônica mediante a uma situação.
Viu a Mon se contorcer de dor sobre a cama e os minutos que pareciam não
andar no relógio. Não podia se arriscar daquela maneira quando não sabia se
podia ser muito prejudicial à menina ficar mais tempo no ventre materno. Na
certa, Ademar iria tardar e quando chegasse com a parteira uma desgraça já
poderia haver sucedido. Pensando nisso, ela encheu o peito de coragem e
subiu na cama. Levantou o vestido de Montserrat e a ajudou quitar a peça
íntima.

— Sandra… — Ela temeu.


— Não tenha medo! Vou contar até três e você faça muita força, sim?
Mon assentiu com a cabeça e se segurou nas grades da cabeceira da
cama. Sandra contou até três e, como ela havia pedido, fez o máximo de força
que o corpo a forneceu. Sandra se alegrou e pediu que ela continuasse.
Estrella estava chegando.
Montserrat mais uma vez utilizou suas forças enquanto Sandra
amparava a bebê, que se apoiava na mãe para sair do útero.
— Mais um pouco, Montserrat! Mais um pouco que ela já está
chegando — falou, sorrindo.
Montserrat mais uma vez utilizou todas as forças necessárias. Travou
os dentes quando gritou pela intensa dor que sentiu e, com mais um pouco,
Estrella chorava nas mãos de Sandra, que se emocionou ao conhecer a
menina.
— Nasceu! Nasceu, Montserrat!
Mon tomou alento antes de pedir:
— Entrega a minha filha, Sandra.
Sandra observou a pequena e chorou.
— Dá a minha filha. Por favor, você não pode a quitar de mim. Ela é
minha filha! Pensa, Sandra, isso não te fará sentir melhor. Isso não te fará
sentir mãe como deseja. Ela não é sua filha!
Mon tentou argumentar de todas as formas. Acreditou que depois da
experiência que tiveram juntas ela poderia entrar em razão e perceber que o
que estava fazendo era um absurdo, mas tudo voltou a quebrar-se quando
Sandra afastou-se com a menina nos braços.
— Não! Sandra, por favor! Não faça isso! É minha filha, quero vê-la,
me deixa a pegar, por favor — pediu, chorando.
As lágrimas desceram agressivamente no rosto de Sandra.
— Perdão, Montserrat! — disse, antes de sair do quarto e cerrar a
porta.
— Não! Por favor, devolva a minha filha. Por favor! — berrou, em
lágrimas.
Desesperada, Mon afundou o rosto no travesseiro e rompeu em
pranto.
Quando Ademar chegou na casa, acompanhado da senhora Milagros,
encontrou a Sandra sentada na poltrona da sala de estar com Estrella nos
braços.
— Como? Já nasceu? — Surpreendeu-se.
Ela assentiu com cabeça.

— Montserrat não pôde esperar, tive que a ajudar com o parto.


— Mas que criaturinha linda. — Milagros se aproximou, sorridente.
— Por que ela não está com a mãe?
Sandra e Ademar se entreolharam. Eles tinham que ser rápidos para
criar uma escusa.
— A mãe não quer a ver. Está muito mal e não quer ter cerca —
contestou, levantando-se com a pequena adormecida.
— E por quê? — Assustou-se.
— Problemas psicológicos, você não entenderia. Uma hora ela diz
que quer a menina e na outra pode terminar a matando.
— Virgem Maria! — Juntou as mãos, horrorizada.
— Senhora Milagros, você pode fazer uma análise na Montserrat e na
menina? — perguntou Ademar.
— Claro que sim. — Animou-se. — Me dá essa coisa linda, sim?

Sandra entregou a Estrella para a senhora e ajeitou a manta que a


cobria. Acompanhou a parteira até o quarto da menina e saiu logo assim que
Milagros a permitiu.
— Está tudo bem, senhora? — perguntou Ademar, que a aguardava
na porta.
— Sim! Sim! — Suspirou pesadamente. — Somente estou muito
sensível com o parto e… Essas coisas, mas estou bem.
— Que bom, senhora, fico um pouco tranquilo. Felicidades, por fim é
mãe.

Ela deu um triste sorriso e afastou-se.


Ademar juntou as sobrancelhas, confuso. Esperava que ela estivesse
feliz com a chegada de Estrella, mas aparentemente ainda faltava algo para
Sandra, e não era Ricardo.
Depois que Milagros se certificou do bem-estado da pequena, havia
chegado a hora de ver a mãe, que supostamente não queria contato com a
filha. Era certo que ela era uma senhora muito experimentada e que durante
sua vida já havia visto de tudo de ponta a cabeça, porém, a custava trabalho
acreditar que Montserrat Villavicêncio estava rechaçando a recém-nascida.
Por um momento chegou a acreditar que o trauma de ter o marido baleado a
sua frente e que agora ele estivesse no leito de um hospital lutando pela vida
pudesse haver a feito dano de alguma maneira, ainda mais quando as
emoções de uma grávida não são iguais a de uma mulher comum, mas dentro
de si, havia algo que a advertia que nem tudo era como parecia. Seria
intuição? Talvez. Um pouco de “bruxa” toda mulher vivida tem um pouco.
Adentrou a habitação e viu Montserrat chorar agarrada aos
travesseiros.
Mon estranhou a presença daquela mulher desconhecida, ainda mais a
maneira que ela a mirava. Sua mirada não era obscura, carregada ou
ameaçadora, era terna, sensível e muito simples. Porém, ela já não conseguia
acreditar nas boas intenções de ninguém, muito menos quando sua filha
acabara de nascer.
— Não se acerque! — ordenou, usando a mão como obstáculos entre
elas. — Não se acerque ou eu te juro que não respondo por mim!
Milagros assustou-se com a reação defensiva da mulher. O que podia
a fazer pensar que ela estava ali para a provocar qualquer tipo de dano?
— Não, senhorita, eu…
— Sei que quer me fazer dano. Foi Sandra que te enviou, verdade?
Claro, agora que ela já tem o que tanto deseja irá arrumar uma forma de me
matar! — disparou, com ódio.
A parteira ficou confusa com as palavras que, para ela, soaram
desconexas e em sentido.
— Não, senhorita, muito pelo contrário, vim te fazer uma análise para
saber se não é necessário que vá a um hospital. Sabe, sou parteira. Ademar
foi por mim na casa dos me patrões, ele disse que a amiga de sua chefe estava
dando à luz, então eu pedi permissão e vim correndo.

— Parteira?
Ela teve uma feliz surpresa. Era a primeira vez que tinha contato com
uma pessoa, e Sandra e Ademar não estavam para a vigiar.
Certamente aquilo só podia ser uma obra divina, um jogo do destino a
seu favor e uma mostra que Deus não havia abandonado como pensara,
entretanto, todas as possibilidades de pedir auxílio aquela mulher foi rompida
quando ela ponderou e chegou à conclusão que se Milagros era tão íntima de
Ademar, seguramente deveriam ser iguais.
— Sim, sou parteira. — Sorriu. — Está tudo bem? — Estranhou a
repentina presença de desânimo da mulher.
Mon apenas assentiu com a cabeça.
Milagros deu um leve sorriso e sentou-se na beira da cama.
— Mira, por que não quer estar com sua filha, hein? Não sabe o que
está perdendo, Montserrat, ela é uma menina muito linda e tão saudável.
Sabe? Parece a ti. Você não sabe quão afortunada é, porque as meninas
sempre parecem mais com os pais que com as mães.
Os olhos de Montserrat rapidamente se encheram de lágrimas. Nada
era mais que triste que saber que nem sequer teve a oportunidade de conhecer
o rosto da filha.
Milagros preocupou-se com as lágrimas da mãe.
— Está tudo bem, filha? — Tentou acercar sua mão da perna de Mon,
que se encolheu para não ser tocada. — Quê? Que te passa?
— Me deixa, senhora! — disse, sisuda. — Faça suas coisas e vai
embora, por favor.
— Mas…
— Vai embora! — gritou, irritada.
A senhora assustou-se e se levantou rapidamente para cumprir o seu
trabalho. Sandra estava certa quando dizia que Montserrat padecia de
problemas psicológicos.
Enquanto Mon era analisada por Milagros e o leite das mamas
molhavam sua blusa, no quarto ao lado Sandra colocava a Estrella no berço
depois de haver a amamentado com mamadeira. Pegou na pequena mãozinha
da menina e ficou a admirando por longos minutos. Ela dormia tão
tranquilamente que parecia um anjo, e seguramente era. Ela seria a pessoa a
dar a felicidade e a realização que há muito buscava.
Por fim era mãe e iria cumprir todos os planos que tinha em mente e
meio a tanta fortuna ainda tinha o regresso de Ricardo a sua vida. Já
conseguia imaginar a cara de entusiasmo dele e de como ficaria feliz quando
se inteirasse que Estrella era a filha tão desejada.
Sandra sorriu. Por primeira vez teve gosto de fazer, pois seus sonhos
já não eram somente sonhos, eram realidade, e finalmente iria começar a
viver.
— Dorme, meu amor. Logo o seu pai estará conosco, sim? — Sorriu,
admirando a pequena dormir. — Por fim serei feliz, ao menos assim quero
acreditar.
Ademar adentrou o quarto.
— Senhora.
— Olá. — Ela ficou contente em vê-lo, afinal, sem a ajuda dele não
teria Estrella nos braços. — Não quer a ver?
— Não, senhora, eu não tenho o menor jeito com crianças, de
verdade.

Eles riram.
— Ai, não seja bobo. Ela está dormindo. Vem, se aproxime.
Ademar sorriu leve acercou-se ao berço.
— É linda, não?

— Sim, muito. É a cara de… — Calou-se repentinamente.


— Não é necessário que se cale. Sim, ela lembra muito a Montserrat,
admito.
— Até demais.
Aquele detalhe a incomodou. Não por Montserrat ou, porque a
odiava, e sim porque apesar de as suas ações para reter aquela bebê como
filha, haviam coisas que não se podiam comprar e nem tomar a força.
— Sim. — Ela suspirou pesadamente. — Há coisas que não se podem
mudar, verdade? — Deu as costas e cruzou os braços.
— Não, senhora, não fique assim. — Percebeu a melancolia dela. —
Não se importe com os detalhes. Pense que o seu grande sonho está realizado.
É mãe!
Ela apertou as vistas e chorou em silêncio.
Ademar pressentiu que ela chorava e acercou-se, parando frente a ela.
A mirou nos olhos, erguendo levemente o queixo dela com a ponta do dedo
indicador.
— Já não sofra, senhora. Tente sempre pensar no melhor. Se você se
arriscou dessa maneira é porque essa menina é muito importante para ti, por
isso a desfrute — aconselhou.

— E se não posso? — Temeu.


— Sim, você pode!
Sandra sorriu entre lágrimas e abraçou forte a Ademar. Ele suspirou
com o ato dela e a correspondeu com a mesma intensidade. Como ele mesmo
aconselhara: não se importe com os detalhes.
**

Na manhã seguinte, Ricardo despertou com o toque de chamada do


celular. Apesar da sonolência, ele não demorou muito para contestar, ainda
estava preocupadíssimo com o misterioso desaparecimento de Analía, e
ansiava por notícias.
Respondeu à chamada e do outro lado da linha era a amiga e
companheira de trabalho da mulher desaparecida. Marina perguntou se eles
podiam se ver em meia-hora em um conhecido café da cidade, de pronto ele
aceitou. Sabia que aquela mulher podia trazer alguma preciosa informação
sobre a amante, e não estava enganado.
Depois que o garçom serviu o café para os clientes e deu as costas,
Ricardo já não podia com a ansiedade.
— O que passou com Analía? Sabe onde ela está?
— Não, não ainda, mas creio que entendo o que passou — respondeu,
um tanto tensa.
— O quê?
— Fui à casa de Analía. Ela me deu uma cópia de suas chaves caso
algo sucedesse e pelo que eu vi naquela, ou melhor, pelo que não vi naquela
residência, eu não acredito que ela tenha ido por obra de alguém, e sim
porque quis.

— Como? — Juntou as sobrancelhas.


— Não há roupa ou qualquer pertence de Analía na casa. Não há
nada. Para mim, ela foi embora porque quis.
Ricardo não compreendeu.
— Por que ela faria isso?

A mulher respirou fundo e batucou os dedos na porcelana da xícara


que segurava com as duas mãos.
— Diga! — ordenou, ansioso.
— Ela está grávida do senhor.
— Como? — Arregalou os olhos, surpreendido.
— Sim, ela está grávida de você e estava com muito medo de você a
rechaçar por ela haver ficado grávida justamente no momento em que você
estava em processo de divórcio e poderia ser demandado por infidelidade.
Ricardo não conseguiu ter outra reação além da surpresa e total
petrificação. Lembrou-se da urgência que Analía tinha para falar com ele e de
quão parecia nervosa por algo, mas se ela queria tanto o informar, por que foi
embora?
— Por medo, certamente. Ela estava com muito medo do seu rechaço
e com mais medo de como seria sua vida caso Sandra descobrisse. Se notava
o quanto ela estava desesperada, eu via medo em seus olhos. Para mim, está
mais claro que água, Analía foi embora por medo a você e a sua esposa.
Ele esmurrou a mesa, raivoso. Era inaceitável que Analía tivesse ido
levando consigo o seu tão desejado filho.
— E você não sabe onde ela possa estar? Não sei, talvez na casa de
um parente ou…

— Não, Analía não tem parentes aqui no México. Os seus pais vivem
na Argentina, mas não creio que ela tenha ido para aí quando sempre disse
que a relação com eles nunca foi a das melhores. Penso, mas não consigo
chegar à conclusão de onde ela possa ter ido.
Ricardo baixou a cabeça e a balançou negativamente. O sonho de ser
pai finalmente iria suceder, mas onde estava Analía?
Montserrat despertou com o choro de Estrella. O ruído que vinha do
quarto ao lado a fez cerrar os olhos e chorar com a menina. Seguramente
aquelas horas da manhã a pequena sentia fome, e pôde ter certeza da sua
hipótese quando sua blusa voltou a sujar-se com o leite que escapou da sua
mama.
Levantou-se vagarosamente da cama e caminhou até a porta.
Encostou o ouvido na madeira e, além do choro da filha, ouviu a voz de
Sandra que certamente se comunicava com Ademar. Mon não sabia o que
aqueles dois esperavam para a dar um fim, afinal, já não tinha nenhuma
serventia e, o que poderia fornecer, já havia fornecido.
Com a garganta travada pelo pranto, ela arriscou-se a chamar por
Sandra. Pediu a ela que a deixasse ficar com Estrella, nem que fosse por um
momento, mas a queria ver, a queria conhecer, ver o seu rosto, mas os seus
chamados foram apenas chamados.

Os dias se passaram e os pedidos de Montserrat seguiam sendo


incapazes de causar qualquer comoção em Sandra. Cada vez que a via,
rogava pelo mesmo, pedia por sua filha, a queria ter cerca. A queria tão cerca
quanto a Nicolas. Seus filhos. Os amores de sua vida. Porém, nada era capaz
de sensibilizar aquela mulher.
Cansada de lutar e certa do seu destino, Montserrat se sentia como um
condenado no corredor da morte. Sabia que qualquer dia, Sandra ou Ademar
cruzaria a porta com a sua sentença nas mãos, e pelo que parecia isso não
tardou muito para suceder.
Em uma manhã comum, Sandra adentrou o quarto com Estrella nos
braços.
Mon deu um largo sorriso quando viu a filha. Seus olhos se
umedeceram de emoção e as lágrimas foram ágeis ao molhar o seu rosto. Por
fim iria conhecê-la.
— Filha. Filha, minha vida! — Deixou a cama e correu até Sandra.
Olhou para a bebê e encantou-se com o seu rosto e a maneira que a menina
reagiu com um sorriso quando a viu. — Meu amor, sou sua mãe, minha vida!
— Sorriu, emocionada.
Sandra afastou-se repentinamente. Não gostou daquela proximidade,
muito menos da maneira que Estrella havia reagido com Montserrat. Há dias
estava cuidando da pequena e em nenhum momento havia sido regalada com
um afeto.
— Sandra, me permita que a segure, por favor… Só um pouco… É
minha filha! É minha menina e sinto muito sua falta. Muito mesmo — pediu,
chorando.
Ela ergueu uma das sobrancelhas, achando interessante aquele pedido.
— Tudo bem. Permito que você segure a menina, mas antes se arrume
e desça. Tenho uma surpresa.
Mon estranhou. Vindo daquela mulher nada era positivo. Havia algo
por trás. Ela podia pressentir.
— Que tipo de surpresa? — Cruzou os braços, séria.

Ela forçou um sorriso.


— Se eu te digo, deixa de ser surpresa, meu amor. Te espero lá
embaixo.
Sandra saiu do quarto, e Mon revirou os olhos. Que tipo de armadilha
aquela mulher havia preparado para ela?
Quando desceu, minutos mais tarde, viu Sandra sentada no estofado
da sala de estar com Estrella nos braços. Certa que sua presença ali se tratava
de uma armadilha, ela acercou-se a rival disposta a confrontá-la.
— Que caramba está tramando, Sandra? Diga de uma vez!
A mulher, que acariciava o rosto da menina, ergueu a mirada e a
encarou com sarcasmo.
— Calma, Montserrat, está muito nervosa, hein?
Mon estava impaciente. Raivosa. Com o ódio aflorado na pele. Já não
suportava aquela mulher, já não suportava a vida que levava, muito menos ter
que aguentar tudo calada sem poder fazer nada para se defender. Ela sabia
que todo o esforço e sacrifício que estava fazendo era pelos seus filhos, mas
protegê-los era deixá-los nas mãos de uma insana?
— Sandra, se não há nada, deixe que eu segure a minha filha. Por
favor, você prometeu.

Sandra levantou-se.
— Tudo bem, mas antes você tem visita! — Sinalizou, lançando a
mirada para a porta de entrada.
Mon virou-se e desacreditou do que viu. Nicolas adentrava a casa e
correndo foi para os seus braços.
Emocionada, ela agachou-se para receber o filho. Ele a abraçou com
uma força considerada muito para sua idade, mas ela sabia muito bem o que
aquilo significava. Era a saudade. O medo. A felicidade de regressar aos
braços de quem sempre o protegeria sem questionar as razões, quem sempre
o amaria sem condições e, que por mais que passasse anos, estaria ali para
ele. Sua mãe.
Montserrat não conseguiu pensar naquele momento. Também abraçou
forte o garoto e chorou como uma menina em seu ombro. Finalmente se
reencontrava com a parte que havia sido arrancada de si sem a menor
piedade. Finalmente voltava a tê-lo e sentir-se viva novamente. Ele e Estrella
sempre seriam o seu motor. As peças principais de sua vida e o que a faria
dizer sem temor uma e outra vez: sim, por eles, faço o que seja.
Ela ainda não sabia o que Sandra planejava com aquilo. Talvez aquele
era o seu último momento com os filhos e depois jamais voltaria a vê-los,
mas se assim fosse, merecia viver aquela despedida.
— Meu amor, como você está? — Mon desfez o amplexo em
lágrimas.
Nicolas a mirou da mesma maneira.
— Tive muito medo, mamãe. Eu estava em um lugar muito feio.
Muito feio.

— Sim. Agora conta a sua mãe quem foi te resgatar, Nicolas —


Interferiu.
— Minha madrinha me salvou, mamãe. Me quitou daquele lugar
horrível e do homem que não me deixava sair.
Mon ficou mais confusa. Que planejava aquela mulher? Que queria
ela com toda aquela encenação?
— Eu estava com muito medo, mamãe. Queria estar contigo. Queria
estar com o papai — chorou.
— Coração, se tranquilize, sim? — Secou as lágrimas do filho. —
Sim, é certo que as coisas estão muito confusas e que nada parece bem, mas
tudo irá se arreglar, eu te juro. Te juro, minha vida! O seu papai está um
pouquinho enfermo, mas logo estará conosco, sim? — Beijou a testa do
menino, chorando.
— Me prometa que não vai me deixar sozinho de novo, por favor,
mamãe.

Ela apenas chorou. Não quis contestá-lo e nem jurar nada. Não podia
fazer quando o próximo segundo da sua vida era incerto.
— Mamãe… — Ele chorou mais mediante ao silêncio dela.
— Minha vida, vamos acreditar no melhor, sim? Vamos ter fé que
tudo vai estar bem.
Nicolas assentiu com a cabeça.
— Mira, sua irmãzinha já não vive dentro da minha pança. —
Apontou para a bebê que era segurada por Sandra e levantou-se. — Agora
você irá poder brincar com ela. Se lembra o quanto você queria isso?

O menino sorriu meio às lágrimas.


Mon deu um sorriso e estendeu os braços. Sandra a mirou com o
semblante cerrado e a entregou Estrella, sem qualquer resistência.
A mãe não pôde conter a emoção quando teve sua filha pela primeira
vez nos braços. De repente, pareceu que havia dado à luz novamente, pois a
felicidade que sentiu ao tê-la era única e não havia palavras que pudesse a
traduzir. Emocionada, Montserrat beijou a testa de Estrella e bem baixinho
sussurrou que a amava. Também disse que independentemente do que
acontecesse, ela sempre a amaria e a protegeria com unhas e dentes.
Passada a emoção, Mon se ajoelhou diante de Nicolas e juntos
observaram a pequena, que voltou a sorrir.
Sandra revirou os olhos em desagrado. Cruzou os braços e respirou
fundo. Odiou ser testemunha daquela felicidade intragável e importuna, mas
tinha que se controlar, afinal, tudo levava um bom e necessário motivo.
O agente Guzmán entrou a casa, acompanhado de mais dois policiais
da sua equipe.

Quando Montserrat o viu, tratou de levantar-se. Acreditou que sua


presença ali era para novamente trazer uma notícia inútil ou simplesmente
dizer que o inquérito não tivera nenhuma evolução, mas tudo ficou muito
confuso quando aquele homem abriu a boca para a acusar.
— Montserrat Villavicêncio, está detida por ser a autora intelectual da
tentativa de homicídio que sofreu o seu marido.
— Quê? — Assustou-se.
Sandra conteve o seu sorriso de satisfação e dissimulou uma falsa
defesa a amiga.

— Perdão, mas o que está dizendo? Montserrat seria incapaz de fazer


qualquer coisa contra uma pessoa, muito menos contra o seu próprio marido.
Mon a mirou com ódio. Obviamente que trazer os seus filhos, fazia
parte de um maquiavélico plano, mas não imaginou que tudo se tratava de um
belo cenário para cair perfeitamente a sua cena. Ali estava ela com o cabelo
penteado e boa roupa. Estava com os filhos e sua melhor amiga a atendendo
em todos os quesitos. Que boa era Sandra para dissimular!
— Assim é, senhora. O delinquente que supostamente a assaltou foi
detido por outros crimes e confessou sua participação no delito em troca de
uma redução de pena.
— E você acreditou? Por Deus! Isso é um plano. Um plano contra
mim, para me prejudicar, será que não percebem isso, senhores? — gritou,
indignada.
— Um plano? De quem?
— Sim, amiga, de quem? De quem fala? — Parou frente a ela e a
mirou nos olhos.

Mon calou-se. Seus filhos ainda corriam risco.


— Sou inocente. Somente isso posso dizer, sou inocente.
— Sinto, senhora, mas tem que me acompanhar a delegacia. —
Apontou para um dos companheiros, que se aproximou com as algemas nas
mãos.
— Quê? Eu já disse que sou inocente! Não tenho nada com isso —
Irritou-se.
Sandra retirou Estrella dos braços de Mon.
Nicolas agarrou-se a mãe e chorando rogou para que não a levassem,
mas os seus pedidos não foram escutados.

Viu a mãe ser algemada enquanto ela discutia com os homens da lei.
Guzmán disse que ela não tinha porque temer caso aquilo se tratasse de um
equívoco e que ela teria direito a um advogado.
Também viu Sandra tentar tranquilizar a amiga e dizer que buscaria o
melhor licenciado do país para a defender, mas por alguma razão a mãe não
parecia tão receptiva as palavras da mulher. A mirava com ódio e se
esquivava cada vez que ela mencionava em tocá-la.
Com lágrimas no rosto e com a pequena irmã nos braços, Nicolas
escutou o adeus da mãe e a viu ser levada pelos homens, que não estavam
preocupados em deter a pessoa certa.
Na delegacia, as perguntas que eram lançadas a Montserrat
carregavam o desejo de uma confissão. O homem que rodeava a mesa de
alumínio, evidentemente, não acreditava no que ela dizia.
A acusada havia relatado várias vezes como fora o assalto, como
aquele tipo disparou e fora com o dinheiro e o carro, no entanto, o atuante da
lei estava muito convencido para acreditar em qualquer versão que saísse da
sua boca, até mesmo a que podia mencionar a Sandra como a única criminal
da história.
— Já disse que não fiz nada contra o meu marido, não tinha razões
para fazer!
— Otávio Pérez alegou que a senhora e o seu esposo estavam tendo
frequentes discussões, que ele aparentemente tinha uma amante e que a razão
de vocês não terem se divorciado foi pelos negócios. Um divórcio sairia
muito caro para um casal que tinha muito que ganhar quando a imagem dos
dois era propagada para os negócios, por isso resolveram seguir fingindo uma
feliz família, mas a senhora não suportava a ideia de saber que ele havia se
involucrado sentimentalmente com uma funcionária da agência, chamada
Analía Romero. Esse nome te soa?
Mon ficou estupefata mediante aquele relato. Sandra havia
arquitetado maquiavelicamente toda uma história e agora até pelo assassinato
de Analía ela sairia culpada.
— Senhor, as coisas não são dessa maneira, eu não tenho nada a ver
com isso do meu marido, por Deus! Toda essa história é falsa! É uma
armadilha! Será que não vê? Aaron jamais se involucrou com essa mulher. —
Chorou.
— Se está tão segura que isso se trata de uma armadilha, então sabe
de algo? Sabe o nome desse seu suposto inimigo, verdade?
Ela baixou a cabeça e chorou mais.
— Diga, senhora, se tem alguém contra você, essa é a hora de delatar.
Te daremos toda a proteção necessária — asseverou.
Mon ergueu a cabeça repentinamente.

— E meus filhos? A eles vocês também irão proteger?


— Claro que sim. Se há alguém por trás de tudo isso como alegas,
iremos te dar toda a proteção a você e sua família, mas não podemos fazer
nada enquanto você não diga a verdade.
Ela não acreditava naquilo. Não acreditava que teria todo o aparato de
segurança quando a polícia jamais se dera conta que a mente que estava por
trás da tentativa de homicídio ao seu marido era precisamente Sandra. Aquela
era sua maldita realidade. Tudo voltava ser como antes, seguia sendo feita
refém, mas agora seria atrás das grades de uma cadeia.
Encurralada, Mon apenas olhou para o agente.
— Quero o meu advogado.
— A senhora Fuentes já se encarregou disso. Segundo ela, o
licenciado já está a caminho.
— Eu não quero um advogado indicado por Sandra, quero outro, um
de ofício, o que seja, mas não quero nada que venha dessa mulher! — Irritou-
se.
Guzmán arqueou as sobrancelhas.
— O que há de mal com o advogado indicado por sua melhor amiga?
— Me traga outro advogado! — ordenou, sisuda.
**
O agente Guzmán deixou a sala e caminhou até Sandra, que
caminhava de um lado a outro na recepção.
— Senhora…
— Agente? — Ela marchou até ele rapidamente. — E Montserrat? Já
ficou esclarecido que ela não tem nada com isso que a acusam? Ela já está
livre, verdade?
— Não, sua amiga ficará detida até o fim da investigação.
— Como? — Alterou-se. — Perdão, mas vocês estão investigando
muito mal isso porque minha amiga não é culpada de nada disso que estão a
acusando. Eu a conheço desde menina, crescemos como irmãs, isso é
impossível, ela seria incapaz de fazer mal a qualquer pessoa. Estou segura —
dissimulou indignação.
— Senhora, assim são as coisas. Se ela é inocente, as coisas irão se
esclarecer, e se há alguém por trás de tudo isso, se tudo é uma armadilha de
uma pessoa que quer a prejudicar, Montserrat tem que confiar na polícia e
falar, caso contrário, a esperam vários anos de cadeia.
Aquilo foi o melhor que Sandra pôde escutar.
Sandra estava confiante que finalmente tudo começava a caminhar a
seu favor. Enquanto dirigia para casa, se comunicou com Ademar que
garantiu que com o dinheiro que recompensou a Otávio ele levaria aquela
versão até o fim e que depois que Montserrat fosse condenada ele ganharia
uma viagem para onde os segredos não são contados.

Sandra ansiava por esse momento, não somente para estar segura de
que Mon estaria muito longe dos seus planos, como também para aniquilar de
uma vez com aquele cúmplice que se tornara testemunha.
Estava inequívoco que Otávio fora uma excelente ajuda em todo
aquele percurso e que se não fosse por ele nem Nicolas teria saído do seu
caminho, entretanto, a única maneira de um segredo não ser contado é que as
pessoas inteiradas estejam mortas.
Sandra chegou em casa e viu a Nicolas sentado no estofado com a
irmã em seus pequenos braços. Observou o garoto e as lágrimas ainda
escorriam no rosto dele. De modo óbvio, assistir a sua mãe ser presa e saber
que o pai estava entre a vida e a morte no hospital era um trauma para
qualquer criança, mas, a partir daquele dia, Sandra planejava à sua maneira
reconstruir a vida daquela criatura. Iria o convencer a olvidar por completo de
quem um dia foram os seus pais e que a partir dali ela e Ricardo seriam os
únicos dignos de serem nomeados daquela maneira.
Deixou a bolsa sobre a mesa e caminhou até Nicolas. Sentou-se ao
lado do garoto e o acariciou levemente sobre o cabelo.
— Não chore, meu amor. Tudo irá ficar bem. Estou aqui, o seu tio
Ricardo logo estará conosco também. Nem você e, nem sua irmã estão
sozinhos.
O menino seguiu com a mirada baixa e seu pranto continuava sem
pausa. Era judicioso que sempre teve um amor muito grande pela madrinha,
adorava estar com ela e jogar uma partida de futebol com Ricardo, porém,
nada no mundo iria substituir os seus pais.
— Nicolas…
— Quero minha mamãe e o meu papai. Quero a eles — interrompeu,
chorando.
— Sim, meu amor, mas isso não será possível neste momento. Sua
mãe cometeu algo muito feio contra o seu pai, agora ela tem que ser castigada
por isso.
— Minha mãe não quis matar o meu pai. Eu não acredito! — gritou,
em lágrimas.
Estrella assustou-se e chorou.
— Viu? Viu o que você fez com sua irmã, Nicolas? — repreendeu.
O garoto chorou mais.
Sandra quitou a Estrella dos braços dele e levantou-se, acalmando a
menina.
— Mira, é bom que você se acostume com a ideia de que sua mãe é
uma assassina e que talvez você jamais volte a vê-la.
— Não! Minha mãe não é uma assassina! Ela é inocente! — gritou,
irritado.
— Cale-se! — gritou, impaciente. — Está muito rebelde. Meu Deus!
Será que Montserrat não soube te educar?
— Senhora.
O que já era difícil de encarar, tornou-se pior quando Nicolas avistou
Ademar adentrar a sala de estar. Com medo, correu até Sandra e escondeu-se
atrás dela. Para ele, poderia estar muito claro que sua própria madrinha tinha
algo a ver com os dias de pesadelos que viveu, mas sua inocência e sua
emoção de haver sido retirado daquele lugar por ela não o deixaria ver.
— Tranquilo, Nicolas. Ademar não irá te fazer nenhum dano. Ele é
boa gente.
O garoto negou com a cabeça.
— Ele é mau! Foi ele que me levou para aquele lugar.
— Seguro está me confundido, menino.
Ele podia ser uma criança, mas não era estúpido.
— Ele é mau! Não quero estar com ele aqui! — gritou, colando o seu
corpo no de Sandra.
— Nicolas! — repreendeu, puxando a saia para cima. — Mira, uma
coisa… — O puxou pelo braço e o pôs diante de si. — Ademar é a minha
escolta de confiança, sim? Então, não há maneira de ele ir dessa casa,
entendeu?
— Mas…
— Olvida o que passou. Faz de conta que jamais sucedeu, escutou
bem? — Alterou-se.

Nicolas negou com a cabeça e subiu as escadas, correndo.


— Nicolas!
Ao ser ignorada pelo garoto, ela suspirou com impaciência.
— Terá problemas com esse menino, hein? — avisou.
— Nem me diga. Se eu tivesse o criado, jamais se comportaria dessa
maneira. Montserrat é uma péssima mãe.
— Está segura de que irá ficar com ele?
— Sim, isso é apenas rebeldia momentânea, logo irá passar. Ademais,
Ricardo adora a Nicolas e isso será mais um incentivo para que ele regresse a
casa e reconheça que, mesmo com minhas falhas, sou a mulher de sua vida.
Ela sorriu esperançosa, e Ademar não tinha a mesma expectativa que
a patroa.
**
Montserrat somente levava algumas horas, detida, sem embargo, já
parecia uma eternidade. Sentou-se sobre o colchão desconfortável e abraçou-
se com o próprio corpo. Chorou por alguns minutos em silêncio, se
questionando diversas vezes se havia forma de escapar daquela situação, se
conseguiria recuperar os seus filhos e se a vida feliz que tinha antes volveria
sem qualquer indício do pesadelo que agora vivia.

Às vezes perdia a esperança, a gana de lutar e nascia a vontade de


entregar tudo em uma bandeja de prata a Sandra. Sim, ela podia sentir isso,
antes de ser mãe era humana e qualquer um em algum momento cansa de
lutar em uma batalha perdida, mas o nascimento de Estrella pareceu devolver
a força que necessitava, pareceu sacar a gana, a fúria materna que estava
adormecida dentro de si. Ainda não sabia como faria para vencer as
adversidades e sair bem livrada daquilo. Tomaria muitos golpes e
seguramente seria declarada morta, diversas vezes, mas a Estrella que nasceu
não alumbrou somente sua noite obscura, como também a devolveu a
esperança.
Guzmán apareceu frente a cela. Mon não se importou em ir até ele.
Seguramente estava ali para dizer algo que ela já entrevia e, com o acontecido
de horas antes, não a restavam dúvidas que aquele homem tinha a obrigação
de investigar mais afundo aquele inquérito.
**
Montserrat estava sentada à mesa de alumínio quando um guarda
abriu a porta permitindo a entrada de Otávio Perez.
O agente Guzmán puxou a cadeira indicando onde o delinquente
deveria sentar-se.
Otávio sentou-se frente a Mon e pôs as mãos algemadas sobre a mesa.
Ela o encarou. O mirou o mais profundo que pôde nos olhos em um
claro pedido que ele falasse com a verdade. Aquele tipo além de haver aberto
a porta para o seu infernal pesadelo colocando o seu marido entre a vida e a
morte, ele também estava disposto a contribuir que ela terminasse os seus
dias na cadeia.
— Então me conhece? Fui a mulher que te contratou para simular um
assalto para matar o meu marido?
Otavio engoliu em seco.
— Está seguro disso?
Ele ficou calado. Já havia cometido muitas atrocidades em sua vida,
mas o que estava fazendo contra aquela mulher uma e outra vez não tinha
nome.
Guzmán se colocou entre os dois e indagou:
— Senhor Perez, você confirma tudo o que alegou em seu
depoimento?
Ele encarou os olhos furiosos de Montserrat e engoliu em seco
novamente.
— A sua resposta, senhor Perez. Estou esperando.
— Sim, senhor agente. Foi essa senhora que me contratou.
Mon balançou a cabeça negativamente. Se notava o quão
desconfortável ele estava por alegar aquilo. Se percebia que tudo se tratava de
um texto que tão repetido por outrem estava na ponta da sua língua para ser
reproduzido quando fosse necessário. Otávio não parecia ser um tipo que
alguma vez havia manipulado o seu caráter em troca de alguns dólares, mas o
que o dinheiro não compra, verdade?
— Está seguro de que se trata de Montserrat Villavicêncio?
Ele a mirou por alguns segundos.
— Sim, eu jamais esqueceria do seu rosto. Ela estava muito enojada
porque o seu esposo estava com outra mulher, com uma funcionária da
agência.

— E éramos amigos, Otávio? Digo havia algum laço de amizade entre


nós? — Ela quis o questionar, se ele tinha todo um texto decorado, queria
saber até onde se estendia.
Otávio ficou em silêncio novamente.
— Pode dizer, aqui estamos para falar a verdade, não? Então, diga,
éramos amigos, amantes, inimigos?
— Não, não éramos amigos, mas nos conhecíamos.
— De onde nos conhecíamos?
Ela estava o encurralando e ele não sabia para onde escapar.
— Contesta! — ordenou.
Otávio chegou a cogitar em alegar que eles tinham uma relação
extraconjugal, mas bastou mirar-se bem para saber que ninguém tragaria
aquele conto. A mulher que ela era jamais teria olhos para um homem tão
descuidado e carente de harmonia corporal quanto ele.

— Contesta! Porque se eu te contratei para matar o meu marido e te


dei tantos detalhes privados da minha vida é porque no mínimo temos
intimidade, não?
— Eu não irei dizer mais nada! — Levantou-se, nervoso.
— A senhora está te fazendo uma pergunta, o melhor é que a
conteste! — ordenou Guzmán.
— Ela está fazendo isso para escapar sem culpa, para que eu pague
sozinho por esse crime, mas isso não irá passar, senhora — Alterou-se.
— Isso não irá suceder, estamos no mesmo barco, coração. No
mesmo barco onde você me pôs por alguma razão. De verdade, eu não sei o
que pode haver sucedido para que você decidisse me delatar. O quê? Eu te
devo algo? Temos alguma dívida ou…?
— Eu já não irei falar mais nada. Quero a presença do meu advogado.
— Você não diz mais nada porque não tem o que dizer. Você não diz
mais nada porque os seus chefes não disseram o que tem que dizer, senhor,
mas te digo, cedo ou tarde a verdade sai a luz e, quando isso suceder, você irá
desejar jamais haver levantado um falso como esse contra mim. Sei quem são
os seus chefes, sei por qual razão estão agindo contra mim, mas juro que isso
não irá perdurar para sempre. Um dia irei sair do fundo do poço que me
jogaram, e todos irão pagar. Isso eu te juro! — Ameaçou, sisuda.
**
Mon levantou-se e caminhou até o agente Guzmán.
— O que vem me dizer, agente? Que logo estarei em um presídio?
Não necessita, eu já sei.
O policial respirou fundo. Com tanta inconstância apresentada por
Otávio, ele já não acreditava tão cegamente não culpabilidade da detida.
— Sim, desafortunadamente amanhã será translada ao presídio.
Ela não reagiu.
— Te asseguro que as investigações seguirão sucedendo e faremos de
tudo para nos deparar com a verdade. Seja ela qual for.
— Obrigada, mas já faz muito que deixei de acreditar em Santa Claus,
senhor policial — Riu sem querer rir. — Sei que aqui irá suceder uma
injustiça e estou preparada para o que seja. Não há mal que dure cem anos,
quando um cai, ele sempre se levanta.

— Senhora…
— Agente — interrompeu, séria — Siga com a investigação e vamos
ver o que sucede, apesar de não acreditar que suceda muita coisa.
Ela já havia perdido a expectativa na justiça do seu país, mas ainda
acreditava que tudo sempre cai por seu próprio peso.
**

Ricardo decidiu se isolar do mundo desde que se inteirou que Analía


supostamente havia ido levando consigo o filho. Ricardo passou todo o dia
trancafiado em seu apartamento. Não quis ligar a TV e tampouco acessar a
internet. Não tinha ânimos para tais atividades. Decidiu tomar sua cerveja e
fumar o seu cigarro, e assim acompanhar o passar das horas.
Ele ainda não compreendia qual era a razão de não lograr a construir a
sua própria família, ter seus filhos e não encher sua casa apenas de sobrinhos
ou filhos de amigos. Com Sandra, sempre idealizou demasiado aquele
matrimônio.
Acreditou que com o desejo que ela tinha por ser mãe seria muito
mais fácil cumprir aquele sonho, pois, os dois estariam no mesmo objetivo,
mas tudo desmoronou sobre sua cabeça quando ela sofreu o primeiro aborto e
foi advertida que possuía o útero infantil. A esperança é o último que morre,
mas ela não garante que algo irá suceder, e isso terminou sendo sua maior
frustração.
O sol já bocejava no horizonte quando a campainha tocou. Ricardo
respirou fundo e jogou o cigarro por cima do corrimão da varanda. Naquele
dia desejava estar sozinho e não ser perturbado por ninguém, no entanto,
depois do terceiro toque decidiu contestar, poderia ser a amiga de Analía
trazendo qualquer importante informação, mas ao abrir a porta comprovou o
quanto estava equivocado.

— Sandra?
Ricardo não ficaria tão surpreso e confuso com a visita da ex-mulher
se ela não tivesse com uma menina recém-nascida nos braços.
— Olá, meu amor. Vim te apresentar a nossa filha. — Sorriu.
Ricardo arregalou os olhos.

— Como? Como nossa filha? Que loucura está dizendo, Sandra? —


Alterou-se.
Ela deu um leve sorriso.
— Me deixa passar que eu te explico.
Ele sinceramente não queria contato com ninguém, mas o que estava
vendo merecia uma explicação.
Sandra adentrou o apartamento, e Ricardo cerrou a porta.
— O que significa isso? Me explica! De onde quitou essa criança?
Ela riu.

— De nenhuma parte, meu amor, que dizer, ela saiu do ventre de


Montserrat, mas por algumas situações do destino ela agora é nossa filha, e o
único que Estrella quer é que o seu papai regresse a casa — contestou,
sorrindo.
Ricardo ficou ainda mais confuso.
— Como assim nossa filha? Essa é a filha de Montserrat!
— A ver, meu amor… — Riu. — Logo se percebe que você não
acompanhou as notícias hoje. Montserrat está presa por haver sido a autora
intelectual na tentativa de homicídio que sofreu Aaron.

Ricardo não soube reagir. A cada tentativa de Sandra esclarecer o que


havia sucedido, ele terminava mais confuso e achando um absurdo aquela
situação.
— Sandra, o que está me contando é um absurdo. Montserrat seria
incapaz de fazer qualquer dano a Aaron, eles se amavam.
— Aí que se equivoca, meu amor. Montserrat e Aaron há muito
vinham passando por uma crise, e ela estava segura de que ele tinha outra
mulher.
— Isso é mentira! Aaron e eu éramos amigos, e ele jamais mencionou
uma crise em seu matrimônio.
— A vergonha não permitiu. Você sabe perfeitamente o quanto eles
eram admirados pelo matrimônio de longa data e de quanto a imagem dos
dois vendia. Eles eram os reis do mercado publicitário.
Ele não teve por onde discordar daquilo. Montserrat e Aaron eram a
dupla inspiradora para muitos, e uma separação poderia romper
definitivamente aquele negócio.

— Perdão, Sandra, mas eu não consigo acreditar nisso. Tudo bem que
eles poderiam estar passando por uma crise e pela jogada de marketing
decidiram seguir simulando uma relação de muito amor, mas Montserrat não
seria capaz de contratar alguém para o matar. Isso é impossível.
— Cara vemos, coração não sabemos. Uma mulher enganada pode
fazer muitas coisas. Porém, o importante aqui é dizer que com a prisão de
Montserrat e o estado de Aaron, irei fazer cargo das crianças que agora serão
como os meus filhos, e quando ela for condenada, irei batalhar legalmente
pela guarda de Nicolas e Estrella.
Ricardo repudiou.
— Está feliz com isso? Está feliz com a possibilidade da sua melhor
amiga passar toda a vida atrás das grades?
— E eu que posso fazer? — Deu de ombros. — Se ela fez o que a
acusam, ela tem que pagar, Ricardo. Eu não posso impedir isso.
Ele caminhou inquieto de um lado a outro.
— Mas isso é o que menos importa agora, Ricardo. Estou aqui para te
levar para casa, finalmente temos a nossa família! — Sorriu, feliz.
— Está louca? Não há família, Sandra. Nicolas e Estrella não são
nossos filhos, são filhos dos nossos amigos.
— Não importa! Eles não têm condições de cuidar das crianças, nós
temos, Ricardo. É isso que nos falta, uma família, filhos, é isso que te falta
para reconhecer que ainda me ama e que sem mim não consegue viver, por
isso, aqui estou com sua filha te pedindo que regresse a casa.
Ele ficou imóvel, e ela acercou-se.
— Por favor, Ricardo, ainda nos amamos, ainda nos queremos.
Regressa a casa, minha vida — pediu, com os olhos umedecidos.
Ricardo ainda tinha muito que entender em toda aquela situação. Não
conseguia acreditar que os amigos estavam vivendo a ponto de um divórcio,
muito menos que Montserrat fora capaz de tentar matar o homem que sempre
aparentou amar. Olhava para Sandra e não conseguia acreditar que ela seria
capaz de haver sido a criadora de um vil mentira como aquela e tampouco
que pudesse haver arquitetado algo contra os amigos, mas enquanto aquela
desvairada condição não tomava sentido, era de extrema importância
esclarecer algo.
— Sandra, você está louca?
— Como louca, meu amor? Você sempre quis ter uma filha, aqui está
a nossa filha! — apontou para Estrella, que dormia em seus braços.
— Essa menina não é nossa filha, e você sabe. Não é assim que quero
uma família, quero ter filhos meus, do meu próprio sangue, Sandra!

Ela riu sem querer rir.


— Meu amor, isso são somente detalhes. Pai é o que cuida, que cria,
que protege, ademais, você disse que não queria em sua família uma criança
que você desconhecesse a origem, esse não é o caso de Estrella, você conhece
perfeitamente a Montserrat, a Aaron. Não há razão para a rechaçar —
argumentou.

— Sandra, isso não muda em nada. Não é minha filha. Não é o que
quero!
— Mas, Ricardo…
— Quero ter a minha esposa grávida, acompanhar o crescimento de
sua pança, a acompanhar nas consultas, fazer loucuras para conseguir a
cumprir um desejo, ficar suportando o seu mau-humor… Entendeu? Tudo.
As coisas mais simples que sonho em fazer. Quero um filho meu, um pedaço
de mim, alguém do meu próprio sangue, que tenha traços da minha
personalidade, da minha aparência… É isso. É isso que sonho, Sandra. Não
isso. — Apontou para Estrella. — Isso não é algo meu.
Ele foi sincero. Reconhecia que suas palavras foram um tanto árduas
e que elas certamente iriam ferir a Sandra, mas antes uma amarga verdade
que uma doce mentira.
Sandra olhou para a menina e devolveu sua mirada para o ex. Quiçá
uma vez em sua vida desejou o mesmo que ele, mas a obsessão pela
maternidade só a fez querer uma criança para chamar de sua.
— Ricardo, você pode aprender amá-la, tudo é questão de tempo, meu
amor, de costume. Você já adora a Nicolas, estou segura de que com Estrella
não será distinto, ademais, podemos seguir tentando e…
— Já, Sandra! — Afastou-se, impaciente. — Não é isso que quero,
sim? Sei que você realmente deseja a maternidade e que para isso é capaz de
tudo, mas faça o que faça, faça por si mesma, não por mim… Não tem
porque seguir tentando salvar a nossa relação quando eu já não te amo —
disparou.
— Ricardo… — Controlou as lágrimas que teimavam em descer em
seu rosto. — É claro que você me ama.
Ele deu meia volta, passou a mão no rosto e suspirou impaciente.
— Você apenas ainda não consegue perdoar minha falha como
mulher, como esposa, mas tudo isso irá passar, você irá ver.
Ele odiava a maneira que ela implorava o seu amor.
— Sandra! — Virou-se raivoso.
— Ricardo… Ainda há solução para nós. Me deixe te comprovar! —
Chorou.
— Não, não há maneira, sim? — Reprimiu sua irritação. — Por favor,
vai embora!
— Mas, Ricardo!

— Vai embora! — gritou, irritado.


Sandra arregalou os olhos, assustada.
— É o melhor para nós dois — concluiu, desta vez utilizando uma
entonação suave, porém, firme.
Definitivamente as expectativas e os sonhos de Sandra se desfizeram
mais depressa que um gelo exposto a um sol ardente de verão. Farta de
utilizar suas melhores palavras para o convencer que o melhor lugar era o seu
lado, ela regressou para casa bastante desiludida.
Atendeu as necessidades de Estrella e a pôs adormecida no berço. Foi
ao quarto de Nicolas e o garoto já nem queria a ver depois que se inteirou que
teria que conviver com Ademar. Sandra tentava ser muito paciente mediante
as rebeldias do garoto, porém, calmaria jamais foi uma de suas virtudes.
Depois disso, tomou um banho e frente ao espelho encarou por longos
minutos o abdômen liso que tinha. Chorou quando as palavras ruins de
Ricardo volveram à tona e lembrou-se que, apesar de ter os filhos de
Montserrat como seus e não se arrepender do cometido, eles não quitavam o
vazio que levava dentro. Necessitava ser mãe a todo custo e, mesmo que de
uma maneira equivocada, lutou pelo que desejava, mas agora era necessário
aprender a estar sem o homem que queria.
No fim da noite, Sandra tomava a sós sua tequila quando Ademar
entrou na varanda e a cumprimentou.
— Boa noite!
Ela o mirou e tomou mais um shot da bebida.
— Só se for para ti! — Colocou o copo sobre a mesa. — Tive e estou
tendo uma péssima noite.
— Por quê? — Puxou a cadeira, mencionando em sentar-se. — Posso
sentar?
Sandra deu de ombros, e ele sentou-se.
— Ricardo já não me quer, não me perdoa por minha falha como
mulher. Fui até ele o apresentar a nossa filha, mas ele simplesmente nos
rechaçou e disse que não me ama, que não quer regressar comigo — contou,
chorosa.
Ademar balançou a cabeça positivamente.
— Lamento, senhora, mas já imaginava. Disse que esse tipo não vale
a pena. Não vale a pena nem que você ou mulher alguma sofra por ele.
Talvez a senhora agora não consiga ver o bem que te faz o ter longe da sua
vida, mas logo você verá. Estou seguro — disse, mirando-a nos olhos.
— Ademar, você não entende, não entende que tenho a culpa por ele
me deixar de amar, sou a única culpada por minha maldita incapacidade. —
Chorou.
— Você não tem culpa de nada. Você não tem culpa de ter esse
problema, senhora, as coisas sucederam da maneira que tinha que ser e já.
Agora se ele realmente te amasse, jamais havia te deixado por isso, juntos
vocês buscariam uma solução para o problema, simplesmente.
— Ademar… — Tentou argumentar.
— Senhora, deixe de criar escusas. Se ainda quer a Ricardo, tudo
bem, lute por ele, mas não esqueça de se amar primeiro. Creio que esse tem
sido o problema de sua vida — aconselhou.
Ele falou com sinceridade, mas ela se colocou na defensiva.

— Ademar, você não entende, sim? Ninguém irá entender o que sinto
— indignou-se.
— Claro que entendo. Você somente deseja cumprir os seus sonhos e
ser amada, mas desafortunadamente acredita que somente um homem possa
fazer isso.
Sandra o mirou de canto de olho e riu.
— O que quer dizer com isso? Quer dizer que você pode ser o homem
a me amar como mereço?
Ele ficou em silêncio, e ela voltou a rir.
— Por favor, Ademar, isso é impossível, sim? — Levantou-se, rindo.
— Mas é cada uma que me sucede.
Sandra deixou a varanda, depois de recolher a garrafa e o copo de
tequila.
Ademar respirou fundo e tentou ignorar o escárnio da mulher
desejada.
No quarto, Nicolas teve suas lágrimas e o sofrimento calados quando
decidiu ir ao dormitório em frente e trazer a irmã para perto de si. Pôs a
pequena sobre a cama e ficou brincando com suas frágeis mãozinhas que
pareciam todo o momento buscar a dele.
Era certo que talvez ele era muito pequeno para compreender o que
realmente sucedia, apenas sabia que o seu pai por alguma razão estava
enfermo no hospital e que sua mãe de uma maneira muito confusa foi
acusada por aquilo, também não entendia o porquê de Ademar estar na casa e
sua madrinha defendê-lo com tanto esmero. Ela não era daquela maneira.
Antes teria feito caso as suas palavras e expulsado aquele senhor da
residência, por isso o garoto temia. De repente tudo se converteu de ponta a
cabeça e não dava indícios que voltaria à normalidade.
Sonolento, Nicolas deitou ao lado de Estrella e ali dormiu.
Sandra adentrou ao quarto, minutos mais tarde e sorriu com aquela
imagem. Cerrou a porta e juntou-se a dupla. A sensação de dormir com os
filhos era algo que há muito sonhava em sentir.
Na manhã seguinte, Sandra despertou com a decisão de seguir sua
vida, mesmo que os fantasmas do passado ainda insistissem em molestá-la.
Atendeu as necessidades de Estrella e depois tomou um banho para ir ao
trabalho. Quando já saia pronta do quarto, viu a Nicolas que caminhava ao
seu encontro no corredor.

— Olá, minha vida. Bom dia. — Sorriu e agachou-se diante do


menino.
— Quero a minha mamãe — disse, choroso.
— Perdão, meu amor, mas isso não será possível.
— Por quê?

— Por quê? Bom, porque sua mãe é uma assassina, ela tentou matar o
seu pai e agora ela tem que pagar pelo que fez, é por isso, meu amor.
O garoto arregalou os olhos, estupefato.
Aquela era uma boa maneira de fazer a Nicolas nunca mais mencionar
o nome de Montserrat. Tinha que a acusar falsamente, criar uma dissimulada
imagem da mulher onde ela era uma perversa criatura disposta a cometer os
piores tipos de atrocidades. Queria a Nicolas e Estrella somente para si, que
eles nem escutassem falar de quem um dia foi sua mãe, somente assim
Sandra começaria a ter a satisfação de viver o que elegeu roubar.
— Isso é mentira! Minha mãe não é ruim! — gritou, chorando.

— Perdão, mas assim é, Nicolas, e é bom que você vá se


acostumando, porque eu já te digo que não irei suportar rebeldias! —
Alterou-se.
— Mentira! Você é uma mentirosa! Te odeio!
Chorando, o garoto voltou para o quarto e bateu a porta.
Sandra revirou os olhos e levantou-se. Teria de buscar sua mais
profunda paciência, pois o convívio com Nicolas avizinhava grandes
complicações.
Sandra desceu as escadas e viu Ademar acompanhado de uma jovem,
que trajava uma blusa com mangas e calça, ambas as peças da cor branca, que
coincidia perfeitamente com o tênis New Balance MKOZE, que usava.
— Senhora.
— Quem é essa muchacha? — Acercou-se aos dois.
— Sou Imperia Flores, senhora. Vim pelo anúncio que você pôs no
periódico, a de babá de criança — Sorriu.
Sandra a mediu com o olhar.
— E que experiência tem com criança? Digo, você parece muito
jovem, não?
— Nem tanto, já tenho quase vinte cinco. — Riu. — Mas eu já
trabalhei com crianças, ademais, ajudei a minha mãe a cuidar dos meus três
irmãos, ou seja, tenho muito experiência, mas você pode observar como
trabalho e no fim do dia me diz como saí.
— Não! Não! Trabalho, não tenho tempo para isso, mas Ademar irá
estar te vigiando e passando todas as instruções necessárias.

— Sim, senhora.
— Meu nome é Sandra Fuentes! — apresentou-se.
— Muito prazer. — A cumprimentou com um aperto de mão. —
Obrigada pela oportunidade, de verdade, estou necessitando muito desse
emprego.
— Se faz tudo correto, não tenho porque te demitir.
— Não, com isso não se preocupe, senhora. Sou muito responsável
com o meu trabalho e muito eficiente.

— Que bom. Melhor assim! — Forçou um sorriso. — Ademar, te


encargo muito, sim?
— Vai tranquila, senhora.
Sandra foi embora, e Ademar olhou para jovem.
— Vem, vou te levar as crianças.

Imperia sorriu e acompanhou o homem que subiu as escadas.


**
Montserrat não sabia o que pensar enquanto caminhava nos
corredores do presídio. A carcereira que a acompanhava ordenava o decoro as
demais reclusas que estavam enlevadas com a chegada de mais uma.
Mon somente viu cenas como aquelas em filmes ou telenovelas que
havia assistindo e nunca imaginou que alguma vez estaria em uma condição
semelhante. Nunca imaginou que um dia seria aplaudida por estar se juntando
aos criminais e, quem sabe, a muitos injustiçados do seu país, mas o
ressentimento e a obsessão de Sandra estava a fazendo visitar todos os
âmbitos do inferno.

A carcereira Célia abriu a cela, e Mon adentrou. Pôs os materiais de


higiene sobre a cama e respirou fundo. Aquele seria o seu novo lar, e ela não
tinha ideia de quanto tempo ficaria pagando por um crime que não cometeu.
— Mira, Maya, não ficou sozinha por muito tempo. Tem companhia
— disse Célia, trancando a cela.
Montserrat olhou para a mesma direção que a carcereira e viu uma
mulher de cabelo loiro escuro erguer o tronco e sentar-se na cama. Ela era
Maya Olea. Uma mulher de quarenta nove anos que havia sido condenada
por matar o homem que matou sua filha de apenas quinze anos.

Ela olhou para Montserrat, que não reagiu a sua presença. Caminhou
até a cama e deitou-se, colocando o braço direito sobre o rosto.
— Mira, provavelmente, iremos passar muito tempo juntas, então é
bom nos conhecemos, não? — Passou a mão sobre o seu cabelo liso.
Maya se aproximou da novata e estendeu a mão.
— Meu nome é Maya Olea, muito prazer.

Mon a mirou de canto de olho e a cumprimentou.


— Montserrat Villavicêncio.
— Espera… — Ela riu ao reconhecê-la. — Montserrat Villavicêncio,
a publicitária? — Surpreendeu-se.
— Assim é, mas eu não sou culpada como alegam, sou inocente.
A reclusa ergueu as mãos e riu.
— Isso é o que todos dizem quando chegam aqui, bonita, mas
ninguém acredita. A verdade é que todos terminam culpados em algum
momento — Sentou-se novamente na cama. —, mas vou te dar um conselho,
hein? Não diga isso todo tempo, senão as demais irão pensar que você quer
ser a superior e essas coisas.
— Não se trata de ser superior, sou inocente. — Ergueu o tronco,
apoiando o cotovelo sobre o colchão. — Eu não teria razões para querer ver o
meu marido morto.
— Ui, assim é tão grave a coisa? — Interessou-se.
Mon respirou fundo e analisou suas palavras. Não gostou de haver
deixado escapar tantos detalhes.
— Sim, assim é grave a coisa, mas sou inocente — asseverou.
— Bom, então quem foi?
— Perdão, mas eu não quero falar disso, sim? Por favor, me respeite
— pediu.
Maya ergueu as mãos, e Mon voltou a deitar-se. Querendo ou não,
teria muito tempo para conversar com aquela mulher.
**

Quando Sandra chegou à agência teve que conter o burburinho dos


funcionários, que não falavam de outra coisa a não ser sobre a prisão de
Montserrat.
— Ei! Ei! Posso saber o que passa aqui? — gritou, calando a todos.
A amiga de Analía, Marina Rivera, acercou-se a chefe.
— Perdão, senhora, mas estamos todos assustados com o tema da
nossa chefe, como assim ela mandou matar o marido? Não, isso é um
equívoco! — A jovem estava assustada com a absurda possibilidade.
— Não, isso não é um equívoco, Marina. Montserrat, sim, tentou
matar o esposo.
Todos se entreolharam, assustados.
Ricardo, que saiu do corredor, negou com a cabeça e cruzou os
braços. Ele ainda não conseguia acreditar na culpabilidade de Montserrat.
— Mas isso não significa que temos que estar falando disso todo o
tempo. O emprego de vocês segue seguro enquanto eu esteja no comando
dessa empresa.
— Então ela seguirá detida? — perguntou Marina.
— Claro, meu amor. Já basta de delinquentes livres no nosso país —
contestou, antes de afastar-se.

Todos ficaram ainda mais confusos. Jamais imaginaram que Sandra


reagiria com tanta frieza ante a prisão de sua melhor amiga.
Ricardo não ficou confuso, porém, indignou-se com a apatia de
Sandra. Perseguiu os passos dela e cerrou a porta da sala assim que ela
adentrou.

— É sério isso, Sandra? Até quando você seguirá desfrutando da


desgraça de Montserrat! — repreendeu.
— Perdão, meu amor, mas aqui não há desgraça. Ela buscou isso
quando decidiu mandar alguém matar a Aaron.
— Sabe perfeitamente que eu não acredito nisso.
Ela cruzou os braços, impaciente.
— Por favor, Sandra, você é sua melhor amiga, você a conhece mais
que ninguém. Como pode acreditar que ela é uma assassina?
— Eu também estava muito segura de sua inocência, mas o próprio
agente Guzmán me garantiu que ela é inculpada. O que quer que eu faça? —
Alterou-se.
— É sério que irá acreditar na investigação feita pela polícia desse
país? Se lembra do caso Elizalde, do caso Penãreal? — Indignou-se.
— Claro que sim, mas o que uma coisa tem a ver com a outra?
— A falta de justiça, é isso que tem a ver! — gritou, irritado.
Sandra revirou os olhos e respirou fundo.
— Mira, eu já fiz tudo o que posso por Montserrat, já contratei um
advogado e estou fazendo cargo dos filhos dela. O que quer mais eu faça?

— Dos filhos dela ou dos seus filhos?


— Que mais dá? — Deu de ombros. — Somos melhores amigas, e ela
sempre me disse que na ausência dela e de Aaron era para eu fazer cargo dos
filhos dela, e é isso que vou fazer, Ricardo. Irei cuidar daquelas crianças
como sua verdadeira mãe, e o único que quero, é que você esteja comigo. Por
favor, Ricardo, baixa o orgulho e vamos viver o nosso amor.

Ela acercou-se a ele e o beijou delicadamente o maxilar.


— Eu te amo, minha vida! Não posso viver sem ti, sem os seus beijos,
sem o seu perfume, sem o seu amor — sussurrou, dando-o vários beijos no
canto da boca.
Ricardo cerrou os olhos e respirou fundo. Aquela possibilidade
poderia ser extremamente válida se a notícia que a Analía carregava um filho
dele não existisse.
— Sandra. — Ele afastou-se, a segurou pelos braços e a mirou nos
olhos. — Não! Não há maneira de intentar.
Ele saiu da sala, e ela chorou de raiva.
Não havia nem três horas que Montserrat estava no presídio e ela já
morria por sair dali. Além de estar em um lugar que não deveria, ainda tinha
que suportar as voltas imparáveis que dava sua cabeça, isso sem contar as
importunas tentativas de Maya em dar início a uma conversa.

Era verdade que ela não conhecia aquela mulher e talvez estava sendo
muito grosseira ao cortar cada assunto que a companheira de cela iniciava, no
entanto, Mon não tinha ganas de se comunicar, todo tempo estava pensando
em seus filhos e em uma maneira de comprovar sua inocência. E, para ser
extremamente sincera, não existia vontade alguma de começar uma amizade
quando era pela traição de uma que ela estava naquela situação.
As horas se passaram e as carcereiras abriram as celas para a saída das
reclusas. Mon não sabia como era a dinâmica daquele lugar e pouco se
importava em saber, por isso seguiu sentada sobre a cama.

— Ei! — gritou a carcereira Célia.


Mon apenas a mirou.
— É hora de sair!
— Obrigada pelo convite, mas não quero.
— Não estamos aqui para cumprir suas vontades, e sim para te passar
as regras.
— Ok, regra passada, mas elas não me importam, portanto, sai, cerra
a cela e vai embora! — Alterou-se.
— Montserrat! — Maya a repreendeu. — Não a trate assim, ela é uma
boníssima gente, ademais, apenas está te dizendo como funcionam as coisas
aqui dentro. Aqui temos horário para tudo e é necessário cumpri-los.
Estressada, Mon cobriu o rosto com as mãos.
— Mira, sei que apenas chega e que dentro de si, deve haver um
tumulto de emoções, sem embargo, é necessário fazer isso menos
complicado, Montserrat, ou não irá sobreviver.
Ela conhecia muito bem o que estava falando, fora condenada a doze
anos de cadeia e já havia cumprido sete. Sabia o que era a indignação de estar
naquele lugar e ainda ser obrigada a circular entre as demais, mas por
experiência própria sabia que o isolamento não era a melhor opção.
— Tudo bem. — Mon deu-se por vencida. — Para aonde vamos?
— Seguramente cumprir alguns serviços, aqui aprendemos a costurar,
a bordar, a fazer bijuterias — contou, animada.
— Que interessante! — ironizou.
— Vem, você vai gostar. Tudo é questão de costume.
O último que Mon desejava era se acostumar com aquele lugar.
— Antes você tem visita, novata — avisou a carcereira.
— Visita? — Surpreendeu-se. — E quem é?
Mon já deveria imaginar que a única visita que receberia naquele
lugar era de quem a pôs ali sem pestanejar. Adentrou a sala de visitas e
caminhou até a mesa onde Sandra estava sentada.

— Para que veio, Sandra? Para rir de mim? Para se certificar se o seu
plano havia saído bem? Pois sim. É uma ótima arquiteta que chega até ter
minha admiração.
Sandra deu uma risada.
— Ai, Montserrat, já! — Levantou-se. — Sempre está reclamando de
algo. Quando estava no conforto da minha casa, estava reclamando, quando
eu te fiz prisioneira, também. Agora o que quer?
— Sandra, deixa de sarcasmos e me diga o que quer! — Alterou-se.
Ela dissimulou sobressalto.
— Tudo bem, amiga, não é necessário que fique dessa maneira.
Mon suspirou raivosa.
— Vim aqui para saber como está e também para te dizer que logo
estarei buscando um advogado para lutar legalmente pela guarda de Nicolas e
Estrella, e é bom que você não coloque empecilhos, caso contrário, já sabe.
Montserrat a encarou com descrença.
— Eu não creio nisso, Sandra! Eu não creio que essas suas malditas
chantagens não terminam, por Deus. Essas crianças não são suas, não são
seus filhos. Você jamais irá se sentir bem criando o filho de outra pessoa.
— Uou! — Ergueu as mãos, rindo. — Mas você não era a senhorita
adoção? O que passou? O que passou com a mulher que vivia me
aconselhando a adotar, que assim eu me sentiria bem comigo mesma, que
seria mãe?
— Às coisas são bem diferentes, Sandra. Essas crianças não têm
família, necessitam de amor, de carinho, compreensão, e você poderia
cumprir o seu sonho, terminando com o pesadelo de algumas delas. Agora o
que você faz comigo, é um crime. Um crime que comete unicamente para que
Ricardo volte para ti, mas agora te pergunto, Sandra, cadê a pessoa que era
contra que uma mulher ficasse se humilhando por um homem?
— Eu não estou me humilhando por ninguém, foi eu que o falhei
como mulher e estou apenas tentando reparar os meus erros para recuperar o
amor dele, somente isso. — Alterou-se.
— Somente isso? — Riu. — Esqueceu do que fez, Sandra? Por sua
culpa e por essa maldita obsessão, Analía está morta. A propósito —
lembrou-se. —, como Ricardo irá reagir quando descobrir que você matou o
filho dele?

**
Na agência de publicidade, Ricardo saiu de sua sala e caminhou em
direção ao corredor por um café, mas ao mirar para a mesa de Marina, algo o
chamou seriamente a atenção. Viu a funcionária um tanto nervosa por estar
frente ao agente Guzmán, que a enchia de perguntas.
Ele achou raro aquela abordagem da polícia. Era inequívoco que
Montserrat estava detida e que talvez os investigassem e se interessassem em
fazer algumas perguntas aos funcionários da agência, mas por que
precisamente a Marina Rivera?
Curioso, o rapaz caminhou até o homem da lei e o cumprimentou:
— Bom dia. Posso ajudar em algo?
— Sim, senhor Ricardo, esse homem está perguntando sobre Analía
— contestou a jovem, um tanto nervosa.
— Sobre Analía? — Franziu a testa e cruzou os braços.

— Sim, senhor. Estou buscando a moça para a fazer algumas


perguntas.
— Sim, e eu disse a ele que Analía já não está no país, ao menos é o
que pensamos.
— Bom, e que tipo de assunto ela tem com a polícia? Ela fez algo de
errado, digo, sou um dos proprietários da agência, por isso me importa saber.
— Sim, ao que parece a senhorita Analía era a terceira pessoa no
matrimônio de Montserrat Villavicêncio e Aaron…
— Como?
Ricardo arregalou os olhos, surpreendido. Aaron vivendo um
extraconjugal com uma funcionária da empresa? Aquilo era impraticável para
um homem demasiadamente reto como ele.
— Perdão, eu… — Ele riu, descrente.
— Senhor, eu já disse ao agente que essa possibilidade é absurda.
Analía e eu éramos melhores amigas e certamente ela me contaria se tivesse
vivendo esse romance com o senhor Aaron. Não, fora de cogitação.
— Sim, senhor agente, estou de total acordo com Marina, essa
possibilidade é impossível. Aaron e eu somos melhores amigos e não
coincide com a personalidade dele se involucrar com uma funcionária,
mesmo que ele estivesse vivendo uma farsa com Montserrat.

— Isso temos que ver. As investigações seguem, por mais que não
possamos nos comunicar com ela.
— Sim, acreditamos que ela voltou a viver com os pais na Argentina
— respondeu Marina.
— Vocês têm contato?
— Não, desafortunadamente. Ela foi sem avisar, totalmente de
surpresa. De verdade, nós não sabemos nada dela desde que ela foi.
— Ok. Mantemos contato.
Guzmán foi embora, e Marina olhou alarmada para Ricardo.
— E se não?
— E se não o quê?
— E se Analía não foi embora do país como pensamos, e se toda essa
história da senhora Montserrat realmente for verdade?
— Está dizendo…? — Ele não queria acreditar na possibilidade.

— Sim, e se Montserrat a fez algum tipo de dano? E se ela está morta


agora e estamos acreditando em uma hipótese? — questionou, chorosa.
— Não, Marina, eu…
— Pensa, senhor! Foi depois que ela foi jantar em sua casa que ela
desapareceu. Raro, não? Que raro que tenha sido no mesmo ambiente que
Montserrat esteve hospedada nos últimos dias. De verdade, talvez essa
história não seja tão absurda como acreditamos.
Ricardo quis fugir da concordância, mas ele não teve outro caminho.
Ponderou friamente nos recentes acontecimentos e a probabilidade de
Montserrat ser uma assassina já não era tão absurda.

Ela matou o meu filho, pensou.


**
—Você nem pense em dizer nada a Ricardo. — Sandra avançou
contra Mon e a segurou agressivamente pelos pulsos. — Caso contrário, irá te
sair muito caro, Montserrat, eu não estou brincando.
— Ah, não? Pois, parece que sim! — Soltou-se. — Você poderia
facilmente me matar, tinha todos os elementos para isso, mas decidiu me
colocar nesse maldito lugar para seguir com sua maldita chantagem, e sabe
por quê? Sei perfeitamente porque você preferiu recorrer a esse método que
me matar…
— Ah, sim? Por quê? — Cruzou os braços.
— Por medo! — A mirou nos olhos.
Sandra riu.
— Sim, não ria porque você sabe que é verdade. Não tem o valor,
Sandra, não tem o valor de matar a mulher que quase durante toda a sua vida
foi sua melhor amiga, sua irmã, por isso elegeu me meter na cadeia, porque
me manter presa é o único que consegue fazer.
Mon sentia que, apesar de toda a frieza que Sandra adotou nas últimas
semanas, ainda havia uma parte limpa, pura. Uma parte que a fazia poupar
sua vida e não extrapolar o limite que poderia chegar a sua obsessão, mas,
sendo assim ou não, ela jamais teria uma confissão de sua ex melhor amiga.
— Por favor, Montserrat, eu não sei o que te passa, sim? — disse,
rindo. — Mas o fato de ter elegido te deixar presa não significa que eu não
tenha coragem, e sim que gosto de ver sofrer, somente isso.

— De verdade? E por quê? — Riu. — Por que posso ter filhos e você
não? É por isso? Por favor, Sandra, até os seus argumentos cheiram a
covardia.
Sandra contestou com uma bofetada e tentou agarrar a Mon pelo
cabelo, mas a guarda foi ágil ao usar o apito e correr até elas para apartá-las.
As mulheres se encararam com ódio e engoliram as palavras
ofensivas que desejavam proferir contra a outra.
Naquele mesmo dia, Montserrat recebeu a visita do advogado de
ofício que a defenderia ante as falsas acusações que estava sofrendo. Decidiu
que o seu representante seria um profissional indicado pela justiça para não
correr nenhum risco que este pudesse haver comparecido a mando de Sandra.
Apesar de temer as constantes ameaças e chantagens, Mon planejava
abrir o jogo para o licenciado, pois alguém tinha que estar inteirado da sua
real situação, alguém tinha que ser o primeiro passo que a levaria a buscar
ajuda e por fim escapar daquele pesadelo sem fim, mesmo que a vida dos
filhos estivessem por um momento em perigo.
Viu o advogado David Trejo adentrar a sala e sentar-se diante de si.
Apresentou-se como um rapaz, que apesar da jovialidade, tinha muita
experiência no que fazia e que pouquíssimas vezes havia perdido um
processo.
Mon, por um momento, foi a pessoa preconceituosa que sempre
repudiava, pois desacreditou da capacidade do rapaz, mas ao abrir o jogo
sobre sua real situação terminou se surpreendendo com a tamanha idoneidade
do muchacho.
— Primeiro temos de utilizar essa história que a senhora Fuentes
criou para buscar as falhas. Toda narrativa tem suas armações, o elo que faz
que um acontecimento se ligue ao outro, mas quando essa narrativa é
manipulada, as perguntas revelam as armações e ligamentos.
— Como assim? O que precisamente quer dizer com isso?
— Bom, por exemplo, ao que parece esse sujeito te acusou para a
polícia quando ele foi detido por outros delitos, ou seja, houve uma denúncia,
mas quem foi a pessoa a fazer essa denúncia? Há nomes? Que tipo delito ele
cometeu, também foi um latrocínio?
— Espera, está dizendo que a polícia pode estar involucrada nisso?
— Desta vez eu não acredito nisso, mas eles podem haver sido
facilmente enganados com uma falsa denúncia, acredite, sucede muito, ainda
mais quando há dinheiro envolvido. Uma vez atendi um caso que era a
própria mãe que estava por trás da acusação que um homem estava
recebendo.
— Sim. E o que você pretende fazer?
— Primeiro, buscar a esse Otávio Perez, e depois tentar saber quem
foi a pessoa que supostamente o delatou.

— Sim, e os meus filhos? Sandra disse que irá pelejar pela guarda
deles, e isso não pode suceder, advogado. Meus filhos não podem ficar com
essa mulher. — Preocupou-se.
— Tranquila. — Ergueu as mãos espalmadas. — Sobre a peleja pela
guarda dos menores fica muito fácil de resolver caso você tenha algum
parente que esteja disposto e capacitado para ficar com os menores.
— Não! Aaron não tem família, o pai o abandonou, e minha sogra
morreu alguns anos antes, ele é filho único, então…
— E a senhora?
Mon engoliu em seco mediante aquela questão. Como o marido, ela
também não possuía pai e era unigênita. A única que restava era sua mãe,
Aurélia Brito, mas essa senhora era melhor nem mencionar.
— Bom… — Ela tentou engolir as palavras uma e outra vez. Não
queria trazer aquela mulher de regresso a sua vida, e nem era por orgulho, e
sim porque sabia que jamais poderia contar com a ajuda da pessoa que a
trouxe ao mundo.
— Tem alguém?
— Sim, tenho minha mãe, mas…
— Mas?
— Essa senhora não vale a pena, de verdade. Ela não é como a
maioria das pessoas, ela não tem sentimentos, não se importa com ninguém, a
não ser com ela mesma — contou, tensa.
— Está dizendo que sua mãe não te ajudaria nessa peleja legal?
— Sinceramente, não.

— Não quer tentar? Digo, neste momento todos os intentos são bem-
vindos, pois, ela sendo a avó, teria mais direitos que Sandra.
— Sim, sei, mas…
Ela calou-se mais uma vez e refletiu. O que dizia aquele jovem era
certo, talvez sua mãe pudesse estar fazendo uso dos medicamentos, e senão,
ela poderia a implorar ao máximo e a cobrir de elogios dizendo que ela era a
pessoa mais estupenda do mundo, poderia regalar sua vida, jurar fidelidade e
até se converter em sua escrava se necessário. Afinal, são de bajuladores que
os portadores de personalidade narcisista gostam de ter ao lado, e por seus
filhos Mon não nunca se colocava limites.
Com as informações que recebeu, David se locomoveu imediatamente
para Cancun. O território localizado no estado de Quintana Roo que é
banhado pelas águas do Caribe e possui uma beleza deslumbrantemente
natural que atrai turistas de todas as partes do mundo é considerado um dos
lugares mais bonitos do México, e aquele belo sítio também era um excelente
espaço para os dias de soberania de Aurélia Brito.
Quem via a senhora de cerca de setenta anos, que tinha suas rugas
ocultas baixo as contínuas e exageradas cirurgias plásticas, não imaginava
que sua obsessão estética não era nada mais que um traço do seu transtorno
de personalidade.
O transtorno de personalidade narcisista poderia ser coloquialmente
chamado de “a fama subiu à cabeça”, pois se trata precisamente de um
indivíduo que acredita estar acima de qualquer ser vivo, mas, diferentemente
do que se pode parecer, o transtorno não está ligado a posição sócio
econômica de alguém, e sim a percepção que ela tem sobre si mesma. Uma
pessoa que possui tal transtorno é altamente convencida que o mundo gira a
sua órbita, que ninguém é merecedor de uma regalia ou de uma atenção
“especial” a não ser ela. Elas também são invejosas e acreditam serem alvo
de inveja, também são arrogantes e algumas vezes podem ser maquiavélicos,
cruéis e vingativos.
Os indivíduos com tais características são conhecidos por serem
extremamente apáticos aos sentimentos de outrem, não demonstram laço
afetivo e tampouco sentem empatia por alguém, mesmo que esse seja um
membro de sua família ou até mesmo um filho, e isso Montserrat conheceu
perfeitamente desde a sua meninez. Ainda era uma menina quando tinha que
lidar com o total desprezo e indiferença da mãe. Seu pai sempre tratou de
explicar que a senhora sofria de uma enfermidade e que por essa razão ela
não podia ser como as mães das suas amigas. Mon sempre tentou
compreender, demonstrava o seu carinho a Aurélia mesmo quando não era
correspondida da maneira que esperava, sem embargo, um dia terminou se
fartando dos maus momentos que vivia ao lado daquela senhora e antes de
completar dezoito anos decidiu deixar a casa e viver sozinha.
Sua atitude não provocou nenhum tipo de reação em Aurélia, aquela
mulher jamais a visitou, a telefonou e perguntou como estava. Muitas vezes
Mon tentou não se magoar, afinal, compreendia que o que a mãe tinha era
uma enfermidade incurável e que nem os medicamentos a deixavam
totalmente saudável, no entanto, como lidar com o desprezo da mulher que a
deu a vida?
David adentrou a uma floricultura e viu uma senhora que organizava
alguns buquês de rosas-vermelhas.
Aurélia durante anos deu vida a uma agência de modelos qual era
proprietária, mas com o passar do tempo decidiu se dedicar a um negócio
pequeno e desfrutar dos bons abonos que sua carreira a ofertara.
O rapaz respirou fundo e se preparou para atrair a atenção de Aurélia
para si. Mon havia contado sobre a personalidade difícil da mãe, mas sobre a
enfermidade ela acreditou ser melhor evitar.
— Senhora.

Aurélia virou-se e encarou o jovem.


— Boa tarde. Deseja algo?
— Sim. — Ele riu. — Queria falar com você. Pode ser?
— Comigo? — Apontou para si mesma. — E o que eu teria a ver
contigo, ou melhor — Riu. —, o que eu teria a tratar com você? — Perdão,
mas não acredito que temos algo que tratar, muchacho.
Aurélia tentou afastar-se, mas o advogado a impediu tocando-a
sutilmente no antebraço. Ela recuou e o mirou por cima dos ombros.
— Não estou aqui para molestar, senhora, e sim para tratar de um
assunto muito importante.

— Quão importante é? — questionou, com indiferença.


— Quero falar sobre sua filha.
Ela riu e colocou as mãos nos bolsos da calça.
— O que tenho a ver com Montserrat?
— Ela é sua filha.
— Sim, e que? — Deu de ombros. — Eu a dei a vida e meu trabalho
acabou aí, não?
— Senhora, imagino que vocês tenham suas divergências, mas creio
que chega um momento que devemos deixar tudo ao lado e pensar um pouco
no outro, não crês?
Era uma lástima ele não estar inteirado do transtorno que ela sofria.
— Sua filha está detida por um crime que não cometeu…
— Sim, eu sei, não se fala de outra coisa nos periódicos. — falou,
com falta de apreço. — E eu te pergunto mais uma vez, o que tenho a ver
com isso? — Cruzou os braços.
David ficou atônito mediante a tanta indiferença e frieza da mulher.
Era certo que as famílias brigam e que cada um tem sua maneira de reagir,
mas ela não aparentava um sentimento por orgulho, e sim porque não havia
nada que demonstrar.
— Senhora, ela é sua filha, está detida injustamente e ainda corre o
perigo de perder a guarda dos filhos para quem a pôs aí. Sou o advogado de
Montserrat e posso dizer cada ponto que comprova que sua filha é inocente.
— Isso não me importa. Inocente, culpada, isso não me incumbe, de
verdade. Há anos Montserrat e eu vivemos assim, e dessa forma estamos
bem.
— Tudo bem, mas agora ela necessita de ajuda… Se trata dos seus
netos.
— E? Jamais tivemos contato antes e não temos porque ter agora que
tudo anda mal.
David pôs as mãos frente ao rosto e respirou fundo. Já não via por
onde argumentar.
— Senhora, apenas vá até à capital e fale com sua filha, sim? Por
favor. É muito importante.

**
Montserrat surpreendeu-se quando foi comunicada que tinha visita a
uma hora nada adequada da noite, mas nada foi mais surpreendente que
adentrar sala e ver Ricardo sentado à mesa com um semblante nada
receptível.
— Ricardo? Que faz aqui?
O dia passou demasiadamente lento para Ricardo. Depois da aparição
do agente Guzmán e das dúvidas que Marina plantou em sua cabeça, este não
soube pensar em nada mais além da possível culpabilidade de Montserrat.
Sabia que não conseguiria aguardar até um novo dia de visitas para
apresentar-se ante a detida e esclarecer suas tão atordoantes dúvidas, por isso
foi até o presídio e pediu para falar com a diretora do local. A mulher não
deixou de se sentir atraída pela beleza do rapaz e o que saiu de sua boca foi
apenas detalhe para conceder o seu pedido.
— Senta, Montserrat, temos muito que conversar.
Era válido que Ricardo não era o homem mais chistoso do mundo,
mas aquela seriedade também não era comum.
Mon puxou a cadeira e sentou-se frente a ele. Por mais que pensasse
não conseguia decifrar qual era a atual situação daquele homem com Sandra,
talvez estavam muito bem e ele seria apenas mais um para vê-la mal, ou
talvez ele poderia ser o princípio do fim do seu interminável pesadelo.
— Me surpreende sua visita, eu…
— Montserrat, é culpada ou inocente? — Ele foi direto.
— Ricardo…
— Não dê voltas no assunto. É inocente ou culpada? Ordenou que
matasse a Aaron? Também fez isso com Analía?

— Claro que não! — Ela reagiu mais rápido que pensou aquele
questionamento, provavelmente era porque já não suportava estar calada
mediante a tantas difamações. — Ricardo, as coisas não são como parecem,
eu… — falou, nervosa.
— É Sandra, verdade? — Ele não sabia o que ao certo havia passado,
mas pressentia que a ex estava involucrada.
Mon temeu em seguir aquele relato. Tinha que pensar em seus filhos e
no risco que eles corriam estando ao lado da obcecada mulher.
— Montserrat, que passa? Onde está Analía? Onde…
— Está morta!
Ricardo assustou-se. Por um minuto havia acreditado na chance de ela
haver regressado a Argentina, mas o pior estava por vir.
— Sandra a matou, Ricardo, e posso te comprovar tudo que estou te
falando. Por favor, Ricardo, você tem que me ajudar… Sandra está louca! —
Chorou.
Ela estava ciente dos riscos que corria, mas com a grande perda que
Ricardo sofreu, quis acreditar que ele atuaria a seu favor.
**
Sandra jantava sozinha a mesa quando Ademar se aproximou.
— E as crianças? — Ela perguntou, depois de tomar um gole do suco
de laranja.
— Imperia está fazendo cargo, e Nicolas?
— Está impossível — contestou, estressada. — De verdade, eu não
sei o que passa com esse garoto, a mãe dele é uma criminal e ele tem que
aceitar — Alterou-se.
— Senho…
— Minha mãe não é uma criminal! — gritou Nicolas, adentrando o
cômodo.
Sandra o mirou raivosa.
— Você é ruim, não ela!
— Cale-se, garoto estúpido! — ordenou, golpeando a mesa.
— Não, não me calo! — gritou.
— Cale-se! — esbravejou, levantando-se, furiosa. — Ouça muito
bem, Nicolas, a parti de hoje eu não quero escutar o nome de sua maldita mãe
dentro da minha casa, estamos?
Ele ficou em silêncio.
— Estamos ou não estamos? — gritou, novamente.
— Senhora… — Ademar tentou intervir.

Nicolas saiu correndo, e Sandra suspirou estressada. Nada do que


havia planejado estava funcionando, e aquilo estava a deixando mais
enferma.
— Senhora, tem que se acalmar. Não é assim que irá conseguir
conquistar o menino, muito menos pode agir dessa forma quando a babá
estiver na casa. O que quer? Um problema? — aconselhou.
— Eu sei. Eu sei. — Sentou-se novamente. — O que passa é que
estou muito estressada, nada saiu como eu realmente queria.
— Como não? Aí estão os seus filhos, Montserrat está fora do seu
caminho… Não há nada que te impeça de estar feliz, senhora.

Sandra suspirou pesadamente.


— Ah, claro… Ricardo, não? Como sempre esse tipo. — disse, com
desagrado.
— Sim, sim! Sempre esse tipo! — Levantou-se alterada. — É sua
vida? Não, então deixa de se preocupar com a minha, Ademar. Obrigada.
Ela foi embora, e Ademar respirou fundo.
Enquanto Sandra caminhou a passos largos no corredor e adentrou o
quarto batendo a porta com força, Imperia não compreendia a razão das
intensas lágrimas de Nicolas, já que a proteção especial do dormitório a
impedia de escutar sons externos.
— O que passa, meu amor? Por que chora?
Apreensiva, a jovem babá pôs Estrella no berço e correu até o garoto
que chorava sobre a cama.
— Nicolas, diga o que passa, minha vida. Já somos amigos, não? —
Acariciou o cabelo do menino.

Em lágrimas, ele ergueu o rosto e a mirou.


— Quero minha mãe!
Imperia compadeceu-se dele e o abraçou forte.
**
— Eu não quero ser intrometida nem nada disso, mas creio que a
senhora deveria estar sendo mais atenciosa com Nicolas que está muito mal
com o que está sucedendo em sua vida e se nota que ele não está sabendo
lidar com isso.

Após a crise emocional de Nicolas, Imperia acreditou que o melhor


era buscar a Sandra e contar a visão de uma pessoa que levava anos de
convívio com crianças, porém, o que dizia parecia não atingir o resultado
almejado.
— Ou seja, agora a culpa é minha que esse menino seja um rebelde?
Não, é inacreditável como as pessoas tendem buscar um culpado para tudo!
— Indignou-se.
— Não, senhora, apenas digo que esse é o motivo do seu mau
comportamento, ele não está sabendo como filtrar todos os últimos
acontecimentos… Diferente de nós que somos adultos, as crianças…
— Mira… — Interrompeu, impaciente. — Não me importa saber,
sim? Vou cuidar desse menino da minha maneira e você não tem nada que
meter o dedo. Isso não te incumbe.
— Senhora…
— Já! Sai do meu quarto e não me moleste mais, caso não queira que
eu não te demita! Anda! — gritou, irritada.

Imperia arregalou os olhos e rogou por perdão antes de sair correndo.


Sandra bateu a porta e caminhou de um canto a outro antes de sentar-
se no chão e romper em lágrimas.
Na manhã seguinte, ela quis olvidar da noite ruim que tivera para
começar um bom dia. Prometeu para si mesma que já não iria perder o
equilíbrio quando estava buscando a total estabilidade de sua vida e, mesmo
acreditando ser difícil quando Ricardo não estava nela, ainda existia a
presença de Nicolas e Estrella.
Sandra saiu do banheiro, enrolada em uma toalha quando escutou um
ruído vir do quarto. Chamou pelo nome de Ademar, pois havia deixado
Estrella sob os cuidados dele enquanto Imperia não chegava, mas ao adentrar
a habitação viu alguém que alumbrou o seu dia.
— Ricardo? — Surpreendeu-se. — O que faz aqui?
Ele poderia contestar aquele questionamento de muitas maneiras,
podia dizer que ela era uma assassina que merecia morrer na cadeia, também
podia a chamar de insana e dizer que necessitava urgentemente de tratamento
ou até mesmo contar toda a verdade e falar que a sua presença era devido ao
pacto que fizera com Montserrat, porém, ele decidiu ser astuto e olvidar as
emoções.
— Você tem razão! — Deu um passo à frente.
— Tenho razão? — Ela dessoube.
— Sim. — Acercou-se mais a ela. — É necessário que estejamos
juntos… Tenho que olvidar o meu orgulho e reconhecer que você é a mulher
da minha vida, que é a ti que amo.
— Ricardo… — Emocionou-se.

— Sandra, quero ter uma família contigo. — A segurou


delicadamente no rosto e a mirou nos olhos. — Não importa se veio de
Montserrat ou de qualquer outra pessoa, só me importa ter uma família
contigo, meu amor.
Ela chorou de emoção.
— Mas, meu amor, ontem você parecia tão decidido…
Ricardo a silenciou colocando o dedo indicador sobre os lábios dela e
depois a beijou ardentemente.
Sandra se entregou aos braços do amado, correspondendo aquele ato
tão queimante quanto ele. Deixou a toalha cair quando suas mãos decidiram
passear pelo corpo definido do desejado, deixando mais cálido o momento.
Ricardo foi ágil ao erguê-la em seus braços e a levar para cama, onde
protagonizariam um quente ato de luxúria.
Enquanto isso, através da brecha da porta, Ademar observava os dois.
Sandra ainda não acreditava que o que estava vivendo com Ricardo
era real. Apesar de parecer um pouco raro a repentina aparição dele onde
tratou de reconhecer que ela era a mulher de sua vida e que juntos mereciam
construir uma família, ela não pensou que aquela atitude levava outras
intenções, porém, essa era a realidade que corrompia sua fantasia.
Na cama, estavam há horas fazendo sexo e trocando milhares de juras
de amor, mas a mente de Ricardo também dava voltas no que prometera a
Montserrat.
— Ricardo, Sandra perdeu totalmente a razão. Ela está cometendo
barbaridades por essa maldita obsessão de ser mãe. A ele não importa mais
nada no mundo, a não ser cumprir esse sonho — contou, chorando.
Ricardo ainda não conseguia digerir facilmente a narrativa que
escutou da boca de Montserrat. Sempre soube que Sandra converteu a
maternidade em uma monomania e, que para cumprir esse desejo e
reconquistá-lo novamente, ela não parecia ter limites, sem embargo, desejou
jamais ter tomado conhecimento de suas terríveis atitudes.
— Montserrat, eu não sei o que dizer… De verdade, isso tudo me
parece um absurdo. — As palavras para interpretar o que sentia ainda
tardariam para sair.
— Se parece um absurdo para ti, imagine para mim que vivi um
pesadelo criado por minha melhor amiga e agora estou neste lugar por culpa
dela, Ricardo. Ela tentou matar a Aaron para que ele não estivesse no
caminho quando pusesse o seu plano para funcionar. Não vê? Essa mulher
não tem escrúpulos! — Indignou-se.
— Tranquila, Montserrat, eu… — Ele necessitava pensar.
Necessitava ponderar muitíssimo para sacar a melhor decisão onde Sandra
não saísse sem culpas.
— Ricardo, você tem que me ajudar. Tem que me ajudar a sair daqui,
a quitar os meus filhos das mãos dessa mulher. Ela está louca, perdeu
totalmente a compostura…

— Mon…
— Se ela matou a Analía, quem mais acredita que ela não possa
matar? Sandra não tem limites!
Ele ficou em silêncio.
— Com certeza ela irá matar qualquer pessoa que atravesse o seu
caminho. Sandra está muito mal, eu a mirei nos olhos e não a reconheci. —
Temeu.
Quando Mon decidiu colocar as cartas sobre a mesa, ela ainda não
sabia se podia contar com a ajuda de Ricardo, mas à medida que a conversa
foi fluindo não a restou dúvida que nem nos piores pesadelos dele, Sandra
cometia aquelas barbaridades.
— Eu ainda não sei o que pensar. Talvez a culpa seja minha, se eu
não tivesse a enchido mais a cabeça com esse negócio de ser mãe, talvez ela
não estaria assim hoje…Meu Deus! — Colocou as mãos na cabeça e bufou.
— Talvez. Temos que admitir que, apesar de Sandra sempre haver
desejado ser mãe, ela se tornou mais obcecada com isso depois que casou
contigo… Milhares de vezes ela me disse o quanto se sentia inútil como
mulher, que era incapaz de cumprir o desejo do homem que amava e que por
essa razão você estava a deixando de amar.
Ricardo ficou em silêncio novamente.
— Talvez isso tenha sua verdade, ou simplesmente o matrimônio de
vocês já estava por um fio e, com filhos ou não, iria romper-se de qualquer
maneira.
— Quiçá eu nunca a amei como ela acredita, talvez o que tive e tenho
por ela é apenas uma compatibilidade de desejos, ela quer ser mãe, e eu
pai… É perfeito.
Mon lamentou.
— Creio que tenho uma grande parcela de culpa nisso, Montserrat,
por isso não irei ajudar somente a ti, como também a Sandra. Ela está
enferma e necessita de uma mão.
Por primeira vez, Mon sentiu a Ricardo verdadeiramente abalando.
O viu chorar e até mesmo a pedir perdão pelo que havia provocado. Em sua
espalda não havia somente a responsabilidade pelas atitudes da ex, mas
também havia culpabilidade pela morte do seu filho e Analía.

— Está tudo bem, meu amor?


O questionamento de Sandra foi um ato agressivo que quitou a
Ricardo de suas lembranças.
— Sim! — A beijou no topo da cabeça.
— Está seguro? Está tão calado que…

— Somente estou pensativo — interrompeu.


— Hum... — Se cobriu com o lençol e o mirou curiosa. — E sobre o
quê? Posso saber? Por casualidade estou involucrada em alguns dos seus
pensamentos mais íntimos? — O fez cócegas no abdômen.
Ricardo deu uma risada e afastou-se para que ela não seguir com a
travessura.
— Sim.
— E posso saber o que é? — Ameaçou o fazer cócegas novamente.
— Não, não é nada! — Riu, escapando dela. — É apenas algo meu.
Segredos teus que tratei de contar a mim mesmo. — A acariciou
delicadamente no cabelo.
Ela o olhou de canto de olho e zombou.
— Nossa, mas que marido filósofo ganhei de repente. — O abraçou e
apoiou a cabeça sobre o peito dele. — Gostei. Isso me lembrou quão é
perfeito é o homem da minha vida. — Sorriu e o deu um selinho
Ele respirou fundo e afagou o braço dela. Sabia que era necessário
estar agindo daquela maneira por Montserrat, mas a lastimar mais uma vez
não seria nada bom para sua saúde mental.
Depois de protagonizarem mais um momento íntimo, Sandra se
preparou para ir à agência. Ricardo se fez o dormido para ser obrigado a
acompanhar, até porque tinha muito que fazer durante a ausência dela.
Ricardo descia as escadas quando Ademar adentrou novamente a
casa. Obviamente ele ainda se lembrava detalhadamente do que presenciou
entre a mulher desejada e aquele maldito senhor. Teve que ser forte quando
Sandra saiu de cabelo molhado e da maneira mais alegre e dócil se despediu
dele. Era óbvio que a presença de Ricardo não fora para somente umas horas
de sexo, ele estava ali porque decidiu reatar e reconheceu que ela tinha toda a
razão quando dizia que eles foram feitos um para o outro, mas Ademar
somente cairia naquele conto se fosse um menino de quatro anos.
— Olá, bom dia, Ademar — cumprimentou, descendo os últimos
degraus.
Ademar quitou os óculos escuros e o encarou.
— O que faz aqui?
Ricardo juntou as sobrancelhas e refletiu.
— Vivo aqui. — Riu.

— Não, não vive aqui! — Alterou-se. — Deixou de viver aqui


quando decidiu deixar a senhora por um capricho.
— Sim, mas Sandra me perdoou e iremos intentar mais uma vez.
Algum problema? — O encarou sisudo.
Aqueles dois jamais foram amigos. Sempre levaram uma relação
divergente e cheia de palavras cordiais que disfarçavam as ofensivas, mas
tudo só veio a piorar quando Ricardo teve a certeza que Ademar levava mais
que intenção laboral por sua esposa. Ele não comentou nada com Sandra,
muito menos se reportou ao segurança com agressividade, mas eles sabiam
perfeitamente a razão daquela rivalidade quase que oculta.

— Sim, há todo o problema do mundo quando você regressa para a


lastimar ainda mais. Sabe de algo, Ricardo? Deixa de egoísmo e permita que
Sandra seja feliz, porque você é incapaz de fazê-la.
— E com quem ela seria feliz? Contigo? — Cruzou os braços, rindo.
— Com que seja, ou até mesmo sozinha, mas a deixe ser feliz.
— Escuta uma coisa, Ademar… — Acercou-se mais a ele e o mirou
nos olhos. — Na vida dos patrões, a serventia não opina, sim?
— Sou a escolta da senhora e minha obrigação é a proteger de
delinquentes e de imbecis como você.
Ricardo riu.
— Tudo bem, então quando chegue Sandra iremos perguntar se ela
necessita de alguma proteção quando estou cerca, caso ela diga não, já não é
necessário que você siga trabalhando nesta casa. Que lástima, não?
Ricardo deu um sorriso vitorioso e saiu caminhando.

Ademar contorceu os dedos das mãos e suspirou com ódio. Maldito


rival que há muito desejava o ter fora do caminho.
**
Montserrat esfregava o piso do corredor, acompanhada de outras
reclusas, quando uma das guardas advertiu que ela tinha uma nova visita.
Logo as internas presentes trataram de protestar dizendo que a novata
tinha prioridades, que tinha regalias, pois a cada tempo alguém aparecia para
a visitar enquanto elas tinham somente um dia da semana para receber os
familiares e amigos. Mon não pensou duas vezes antes de deixar bem claro
que ela não tinha nenhum tratamento especial, ao menos não que tivesse
conhecimento, e que se aquilo estava as molestando, trataria de pedir para
que fosse tratada igualitariamente, pois aquilo era o justo.
Umas felicitaram sua atitude, e outras a viram como uma grande
hipócrita que queria estar bem ante todas. Montserrat não deixou de
concordar, seguramente o que dizia aquelas mulheres tinha sua verdade, ela
não desejava criar inimizades, não desejava ter mais alguém com quem se
preocupar quando sua vida afora estava feita um grande desastre.
Ela sabia que provocava as demais por estar economicamente acima
de muitas e ser conhecida por seus êxitos, no entanto, o fato de ser a loira
guapa que possuía uma conta bancária com muitos zeros nunca a fez acreditar
que estava acima de alguém.
Pensando em seu bem-estar, antes de ir à sala de visitas ela pediu a
guarda que a levasse a até a diretora. Adentrou a sala da senhora de olhos
azuis e a pediu que somente permitisse as visitações no dia em que todas
recebiam. A senhora não se colocou contra sua decisão e alegou que tudo
seria como ela desejasse. Mon sinceramente a agradeceu, sem embargo,
pressentiu que para ter o seu pedido realmente atendido era necessário dar
algo de valor em câmbio. Maldito dinheiro, sempre um mal necessário!
Montserrat adentrou a sala de visitas e surpreendeu-se com a rapidez
que aquela senhora se apresentou. Podia a mirar uma e outra vez tentando
buscar os verdadeiros traços do seu rosto, porém, as diversas cirurgias
plásticas e as aplicações de Botox deixavam sua mãe quase que
irreconhecível.
— Mamãe, não esperava que iria vir tão depressa, em realidade, nem
esperava que viesse. — Acercou-se a mesa e puxou a cadeira antes de sentar-
se.
— Em realidade, você me tira quase um fígado me quitando de
Cancun para vir a esse lugar horrendo, Montserrat. — Olhou ao redor com
asco. — Acredita que essa diretora não quis me colocar em uma salinha
melhor que essa? É um absurdo que uma mulher como eu tenha que estar em
um lugar onde milhares de desconhecidos estão a todo instante — reclamou.
Os narcisistas repudiam quem os tratam de forma igualitária. Eles
acreditam serem merecedores de um tratamento especial.
— Mamãe, me perdoe, mas…
Mon engoliu as demais palavras quando percebeu o que dissera.
Como sempre havia pedido perdão por causar algum tipo de “moléstia” a
mãe. O mesmo sucedia quando ainda era menina e necessitava da presença
dos pais no colégio, às vezes o pai não podia comparecer e ela tinha que
implorar a Aurélia e se desculpar milhares de vezes pelo incômodo que
estava a causando.
— Mamãe, necessito de sua ajuda, por isso pedi que viesse. —
Segurou nas mãos da senhora.
— O que fez, Montserrat? Hã? Decidiu se tornar uma criminosa, mas
para isso é necessário ser astuta, filhinha.
— Mamãe, eu não fiz nada. Eu não cometi o que me acusam, é
Sandra, ela fez tudo isso e agora está agindo outra vez contra mim para ficar
com os meus filhos.
— Sim, eu sei. O rapaz que foi me buscar tratou de me esclarecer
tudo, sem embargo, eu não posso te ajudar, Montserrat, tenho minha vida e…
— Mamãe, por favor… — Implorou, chorando. — Você é a única
pessoa que tenho, não há mais ninguém nesse mundo que possa me ajudar.
São os meus filhos, mamãe, seus netos.

Apesar de haver lidado anos com o transtorno da mãe, Mon ainda não
havia entendido que com um narcisista as apelações emocionais não
funcionam.
— Ah, por favor, Montserrat, eu jamais os vi e tampouco quero vê-
los. Vim aqui unicamente para te dizer que não irei te ajudar, que não irei
fazer cargo dos filhos de ninguém…
— Mamãe, por favor… — Chorou.
— Já! — Soltou sua mão e levantou-se. — Sabe perfeitamente como
sou e seguramente essas crianças ficarão melhor com essa moça.
— Como se atreve a dizer isso, mãe? — Levantou-se, indignada. —
Essa mulher destruiu minha vida. Será que mesmo com esse maldito
transtorno não existe um sentimento de mãe em ti? Sou sua filha, nasci de ti,
você me deu a vida.
— Sim, e aí terminou o meu trabalho. Eu não tenho que me sucumbir
a ninguém, muito menos a um filho. Se pensasse como eu, não estaria
sofrendo agora pelos seus.
Montserrat negou com a cabeça. Se deu conta que trazer a Aurélia de
regresso a sua vida havia sido um grande equívoco. Não sabia se ela estava
tomando os remédios ou se eles simplesmente já não davam o resultado
esperado, mas, fosse como fosse, ela seguia igual que antes.
— Quer saber de uma coisa, mãe? Vai embora! Eu não te necessitei
antes e não irei te necessitar agora e nem nunca. Posso dar conta de mim
sozinha, foi assim que me criou.
Aurélia riu.
— E uma vez se atreveu a dizer que sou uma má mãe!
Ela foi embora, e Mon cerrou os olhos liberando as lágrimas. Sua vida
era igual a de muitos filhos com um pai ou uma mãe narcisista, sabia que era
uma enfermidade, no entanto, sempre iria sofrer pelo desprezo.
**
Ricardo caminhou até a varanda e viu Imperia sentada no sofá com
Estrella nos braços, enquanto Nicolas brincava no chão.
— Olá.
A jovem ergueu a mirada e lentamente se deparou com a beleza de
Ricardo que foi impossível não a despertar atenção. Além da excelente forma
física que ele exibia, o seu rosto parecia ser iluminado por seu par de olhos
claros. Ela jamais foi uma menina de amores, desde cedo sempre teve muitas
obrigações e a busca por um amor sempre terminava em segundo plano, mas
por aquele homem valia a pena quebrar um pouco a rotina.
— Olá. — Levantou-se, sorrindo. — Deseja algo?
— Nada de importante, somente quero falar com o menino. —
Apontou para Nicolas.
— Ah!
— Quem é você? — Juntou as sobrancelhas.
— Sou Imperia Flores, a babá que a senhora Sandra contratou para
cuidar das crianças.
— Ah, sim.
— E o senhor?
— Sou Ricardo Ugarte, esposo de Sandra.
— Ah! — A decepção se pôde sentir em seu tom de voz. Como não
se lembrara dos porta-retratos? — Muito prazer.
— Digo o mesmo. Vou falar com o menino, sim?
— Sim, claro. Fique à vontade, com licença — disse, antes de sair da
varanda.
Ricardo respirou fundo e sentou frente a Nicolas, que brincava com os
carrinhos.
— E aí? — Sorriu, bagunçando o cabelo do garoto.
— Olá, tio Ricardo — contestou, melancólico.
— Ei, o que te passa? Por que está triste?
— Quero minha mamãe. — Chorou.
— Não fica assim, campeão. Sua mãe logo estará com você. Fui a ver
e ela disse para você se comportar bem, para não ser rebelde com Sandra.
— Eu não posso, ela está má comigo, disse que minha mãe quis matar
o meu pai, e isso não é verdade, tio Ricardo! — protestou.

— Eu sei. Sei que sua mãe não é uma assassina, ela apenas está
passando por um momento bastante difícil e temos que ajudá-la.
— Como?
— Bom, tenho minhas tarefas que irei cumpri-las, agora você tem que
se comportar, tem que ser doce com Sandra e não se importar com o que ela
diz. — Foi a única forma que conseguiu zelar pelo menino sem que Sandra
soubesse
— Mas…
— Sim, sei que é difícil, mas pense em algo, quanto melhor se
comporta, mais rápido volverá a ver sua mãe.

— De verdade? — Animou-se.
— Sim, mas para isso tem que se comportar bem e não dizer a
ninguém sobre a nossa conversa, é um segredo, sim?
O garoto assentiu com a cabeça.
— Muito bem! — Ricardo sorriu. — Agora não chore. — Secou as
lágrimas dele. — Vai tudo ficar bem.
— E se não?
— Vai ficar! — Asseverou.
Nicolas sorriu e o abraçou.
Ricardo respirou fundo sabendo que estava fazendo o correto, mas por
um segundo olvidou que ali habitava o seu rival.
Ademar saiu detrás da pilastra, depois de escutar claramente o tema
que fora discutido naquele colóquio.
Depois que conversou com Nicolas e o tranquilizou, Ricardo deixou a
varanda e caminhou até a cozinha como há muito planejava, porém, a
cobardia de confirmar o que Montserrat contara parecia o travar as pernas.
Trancou a porta e se acercou lentamente aos dois freezers que ali tinha. Um,
tinha o livre acesso a qualquer pessoa que desejasse o manusear, mas, o
outro, possuía os mesmos cadeados que viu na janela de um dos quartos da
casa.
Ricardo respirou fundo sabendo perfeitamente o que iria encontrar
caso o abrisse. A voz de Mon ainda soprava em seus ouvidos contando cada
detalhe da terrível morte de Analía. Por um segundo, quis que Montserrat
fosse uma grande e cruel mentirosa para que Sandra não fosse uma impiedosa
assassina, mas, fosse como fosse, ele necessitava sacar a dúvida.
Ricardo tirou do bolso um grampo e intentou por longos minutos abrir
cada cadeado e, quando finalmente logrou, necessitou utilizar um impulso de
coragem para erguer a tampa e encontrar o que era incontestável.

**
Montserrat foi para o seu banho de sol sem olvidar por um segundo da
desagradável visita de Aurélia. Era verdade que não deveria converter aquele
rechaço em uma má emoção quando desde menina estava acostumada com a
maneira da mãe e que as chances de ela a ajudar era quase que nulas, sem
embargo, foi mais que triste se dar conta de quão sozinha estava e, que se
Ricardo não fosse o auxílio que ela esperava, aquele pesadelo jamais teria
fim.
Caminhou meio as reclusas que conversavam, e outras jogavam
basquete. Sentou-se em um banco de concreto, pôs os joelhos na altura do
queixo e ir para o passado foi uma viagem inevitável.
Em mais um natal, Mon organizava a mesa com o auxílio de Aaron e
Sandra. Nicolas jogava videogame na sala com Ricardo. A empolgação dos
dois era tão intensa que se podia escutá-los em todo o bairro.
— Meu Deus! Como gritam esses dois! — comentou Mon, colocando
a garrafa de vinho sobre a mesa.
— Deixe-os. Nicolas está desfrutando de Ricardo porque sou um
fracasso no videogame — comentou Aaron.
— Sim, eu já te vi jogar e é péssimo! — afirmou a esposa, rindo.
— Obrigado, e eu que pensei que iria me apoiar — ironizou.
Sandra e Montserrat riram.
— Perdão, meu amor, mas a sinceridade em um matrimônio é
essencial! — Acercou-se a ele e o deu um selinho. — Mas isso não é um
problema, eu te amo da mesma maneira. — Sorriu.

— E eu te amo muito mais! — Deu um sorriso enquanto ajeitava o


gorro de papai Noel que a esposa tinha sobre a cabeça. — É a mamãe Noel
mais linda do mundo.
Mon sorriu agradecida.
— Obrigada. Agora vá buscar as taças para que todos possamos
estar ceando a meia-noite.
— O seu desejo é uma ordem! — A regalou um novo selinho e
abandonou o cômodo.
— Amiga, eu te tenho um regalo.
Mon juntou as sobrancelhas.
— Um regalo?
— Sim, bom, sei que neste ano coincidimos em fazer o amigo secreto,
mas encontrei algo muito belo e não pude deixar de trazer para você.
— O que é? Está me deixando curiosa! — animou-se.
Sandra abriu a bolsa e pegou uma caixinha negra quadrada e
entregou para a amiga.
— Feliz natal!
Montserrat abriu a caixinha e viu um cordão com o pingente da
Estrela Guia.
— Em uma noite como essa, três homens foram alumbrados por uma
estrela que os norteou até o menino Jesus. Uma estrela tão especial quanto a
essa que espera. Uma estrela também significa vida, e não há pessoa com
mais vida que uma mulher grávida!
Mon sorriu emocionada.
— Sandra, que belo. De verdade, é o regalo mais lindo que me
deram. Obrigada, amiga. Eu o vou colocar no meu pescoço e jamais irei
quitar.
Sandra sorriu.
— Não tem que agradecer, amiga. Sei o quanto está feliz e me dá
gosto te ver assim. Que essa menina te dê mais vida que tem!
Montserrat sorriu novamente.
— Sabe quê? Oxalá que logo esteja exibindo uma pança como essa.
— Apontou para o ventre avantajado pelo passar dos meses. — Merece ter
todos os seus sonhos realizados, Sandra, sem exceção.
Sandra deu um sorriso e abraçou a amiga.
Raivosa, Mon arrancou o cordão, que ainda trazia no pescoço, e o
arremessou para longe. Cerrou os punhos e não conteve as densas lágrimas
que batalhavam para escapar.
**

Quando Ricardo chegou à agência, logo foi abordado por Marina que
morria por saber alguma informação sobre a amiga. Obviamente ele não
podia revelar nada do que realmente estava sucedendo, e muito menos que o
corpo de Analía estava mutilado no interior do freezer da cozinha de sua casa,
entretanto, sabia que era necessário dizer qualquer coisa que acalmasse a
moça momentaneamente. Por essa razão, alegou que ainda estava
averiguando o que realmente sucedera e que Montserrat não aparentava ter
culpas.
Marina suspirou tranquila e pediu a Virgem de Guadalupe que a
amiga realmente estivesse bem em algum lugar do mundo e que aquele mau
pressentimento fosse apenas algo desconsiderado.

Ricardo foi até a sala de Sandra, que estava muito tensa frente ao
computador, e sua alteração não era exagero. Com a acusação de Montserrat,
muitos clientes decidiram cancelar o contrato que tinham, inclusive alguns
milionários que durante anos deram vida aquela agência.
— É um absurdo! É um absurdo que essa gente mescle o pessoal com
o profissional! A prisão de Montserrat é algo a parte, não tem nada a ver
como o nosso trabalho! — Sandra indignou-se.
— Como não, Sandra? Tem tudo a ver! Montserrat e Aaron são os
fundadores desta agência, durante anos têm sido a imagem do mercado, é
lógico que esse escândalo atingiria o negócio.
— Ok, e o que você quer que eu faça, Ricardo? Que dê minha vida
para que Montserrat sai inocentada de todo esse escândalo quando ela é
inculpada, quando ela é uma criminosa que tentou matar ao próprio esposo, é
isso que quer que faça? Quer que eu cerre os olhos para tudo por ela ser
minha melhor amiga? É isso que quer eu faça? — Alterou-se.
Ele respirou fundo antes de dizer:
— Sandra, eu não quero que faça nada, sim? Somente estou te
dizendo como são as coisas.
Em realidade não o importava a quantas caminhava aquele negócio
quando estava lidando com coisas mais sérias em sua vida pessoal, uma delas
era ter que conviver com o corpo morto da amante e saber que autora do
crime fora sua esposa.
— Tudo bem, mas temos que fazer algo. Não podemos entregar a
agência facilmente ao fracasso. Esse é o nosso trabalho, o nosso meio de
sobrevivência como o de muita gente. — Ela preocupou-se.

— Tudo bem, podemos tentar, mas não será fácil quando a nossa
imagem está denegrida e qualquer um que se vincule conosco, terminará da
mesma maneira.
Sandra caminhou de um lado a outro, apreensiva. Era uma ironia que
justamente uma agência publicidade estivesse com a imagem manchada.
Porém, não planejava desistir fácil, alguma ideia tinha que surgir, mesmo que
tudo indicasse que suas ações seriam a debalde.
Ricardo acercou-se a esposa e a abraçou.
— Não fica assim, meu amor. Juntos iremos arreglar todos os
problemas.
— Me promete, meu amor? — Abraçou a ele com mais força.
— Claro, meu amor. — Desfez o amplexo. — A partir de hoje estarei
contigo para o que seja, te juro.
Ela sorriu e declarou:
— Te amo.

— Eu mais a ti.
Eles se acercaram e deram um beijo.
**
Com o passar das horas, Montserrat recebeu mais uma visita, mas,
diferente de antes, a guarda tratou de deixar muito claro para as demais
reclusas que não se tratava de ninguém especial, e sim do advogado da
detenta.
Mon foi até sala de visitas e sentou-se diante do advogado, que não
trazia um semblante muito animador. Nas últimas horas, David passou indo
de lado a lado em busca de provas que comprovassem a inocência de sua
cliente e, apesar de alegar que ali ocorria uma grande injustiça, ainda não
havia contundência dos fatos. O advogado também pediu a Guzmán todos os
registros da polícia onde havia a suposta denúncia de uma senhora que alegou
haver sido assaltada.
Segundo o agente, um desenhista fez um retrato falado do delinquente
e a identidade revelada foi de Otávio Perez, um conhecido sujeito por
cometer os mais diversos assaltos nas redondezas.
O agente também disse que Otávio havia sido capturado em uma
barbearia, e em seu interrogatório decidira confessar todos os delitos em
câmbio de uma redução de pena, no entanto, por mais real que pudesse
parecer o conto, a suporta senhora que fizera a denúncia parecia jamais haver
existido.
— Eu também busquei o tal Otávio Perez, mas ele se negou a falar
comigo, disse que se tenho que tratar algo, que seja através do seu advogado.
Mon riu do óbvio.
— Claro. Ele não pode falar nada porque Sandra e Ademar não
disseram a ele o que tem de dizer. Malditos infelizes! — indignou-se.
— Calma, senhora, nem tudo está perdido. Ainda há meios para
explorar. A busca para comprovar sua inocência não termina aqui. Tranquila.
— Como vou me tranquilizar quando tudo conspira contra mim,
licenciado? Não há nada que comprove a minha inocência e os meus filhos
irão ficar nas mãos daquela louca, pois nem minha própria mãe quer me
ajudar e meu marido tem a chance de jamais despertar. De verdade, você
acredita que há maneira de ficar tranquila? — Alterou-se.
**
— Que está pensando em fazer?
A indignação de Ademar não pôde ser mais genuína quando ele
escutou que Otávio estava pensando seriamente em contar toda a verdade no
dia do julgamento.
O condenado já não podia com a culpa e o mal-estar que sentia cada
vez que se lembrava do que fizera contra Montserrat, e o medo de ficar para
sempre na cadeia estava se tornando um grande contribuinte para a verdade
sair a luz.
— Por favor, Ademar, chega, sim?
— As coisas somente terminam quando ordeno. — Irritou-se. — E é
bom que você não me deixe de fazer caso, senão, eu não gostaria de estar em
seus sapatos — ameaçou.
Otávio ficou em silêncio.
— O que te passa, hein? Se olvidou de quanto te pagamos? Se
olvidou de quanto iremos te pagar quando você saia desse lugar? Sua vida
estará feita para sempre, jamais irá necessitar voltar a trabalhar!
— Aí está! Eu não creio que vocês irão me quitar daqui.
— Como não? Não acredita em nossa palavra?
— Para falar a verdade, não. Eu estou seguro de que assim que vocês
consigam o que querem, você e aquela ricaça lá nem irão se lembrar de mim,
é isso que fazem todos, não?
Otávio não estava somente com a consciência pesada, mas a visita de
David Trejo e os conselhos do seu advogado de defesa começavam a ter um
valor significativo em suas atitudes. Acreditar que Sandra e Ademar se
importariam com ele era um verdadeiro espelhismo.

— Claro que não. Sandra e eu jamais te deixaríamos à deriva quando


você está inteirado de todos os nossos segredos e pode nos delatar a qualquer
momento, mas se você quer as coisas assim, tudo bem. — Ademar levantou-
se e o mirou nos olhos. — Faça o melhor que te pareça, mas te advirto, as
consequências doem!
Otávio poderia pensar em os delatar, mas antes Ademar iria mostrar
que a traição tem um preço.
**
Já era noite quando Sandra chegou em casa depois de estudar todos os
métodos que pudessem deter o caminho para o fracasso que a agência estava
seguindo. Ricardo já havia chegado alguns minutos antes e estava em um dos
quartos com Nicolas, o que deixou Ademar livre para tratar sobre qualquer
assunto com a patroa.
— Boa noite! — Ela o cumprimentou enquanto colocou a bolsa sobre
a mesa.
— Senhora. — Ademar acercou-se a ela.

— Onde está Ricardo?


— Está lá em cima como o menino, mas antes necessito te dizer algo
muito importante.
— O quê? Passou algo? — Cruzou os braços.
— Mais ou menos, Montserrat já tem um advogado de defesa.
Ela não se surpreendeu.
— Bom, isso era previsível e algo que não podemos impedir,
desafortunadamente — contestou, caminhando até a adega.
— Sim, mas esse sujeito esteve visitando a Otávio e parece que ele
logrou a colocá-lo medo.
— Como assim?
— Fui visitar a Otávio hoje e ele disse que pretende dizer toda a
verdade no dia do juízo.
— Como? O que passa com esse imbecil? — Irritou-se.

— Ele disse que está com a consciência pesada e que não acredita que
iremos nos importar com ele quando tudo esteja da maneira que desejamos.
Apesar da fúria, Sandra não deixou de congratular a Otávio por sua
perspicácia, obviamente o futuro daquele homem era o que menos a
importava.
— Ele está muito decidido, senhora, é possível que nos delate no
juízo de Montserrat.
Ela revirou os olhos e esmurrou a bancada. Repentinamente todas as
adversidades pareciam estar indo contra si.

Otavio seria uma peça muito importante no julgamento de Montserrat,


pois diante do juiz ele reafirmaria toda a história que a pôs na cadeia e, com
aquilo, ela esperava que as chances de Mon ser inocentada fossem nulas, sem
embargo, o planejado já começava a se perder no curso.
— O que iremos fazer, senhora? O que ordene, eu cumpro.
— O mate — ordenou, sem titubeios.
Ademar somente assentiu com a cabeça.
— Será o melhor para nós. Sei que a presença desse tipo no juízo de
Montserrat poderia nos ajudar muito, mas não podemos correr esse risco. Os
mortos são sempre fiéis aos segredos. — Saiu detrás da bancada e caminhou
até ele. — Estamos?
— Como ordene, senhora, apesar de acreditar que Otávio Perez não
seja tão riscoso quanto o homem que tratou de trazer de volta a essa casa.
Sandra franziu o rosto.
— Perdão, creio que não ouvi direito. Está questionando a minha
decisão de regressar com Ricardo?
Ele sabia que o melhor que poderia fazer era calar-se, afinal, uma
pessoa enamorada jamais enxerga os defeitos e o perigo que o seu par possa
representar, entretanto, Ademar acreditou que o melhor era despertar a
atenção de Sandra e dizer que a única intenção de Ricardo com aquele
regresso era a destruir.
— Só estou dizendo o que penso, senhora. Não acredito que esse tipo
tenha regressado porque a ama, e sim porque tem algo entre mãos.
— Você sabe de algo? Tem provas do que está dizendo? Algo te
garante que Ricardo está agindo contra mim?

Ademar respirou fundo.


— Não, não tenho provas, mas te asseguro que não irei tardar muito
para as conseguir.
Ela forçou um sorriso.
— Então quando tenha essas supostas provas você poderá me dizer
algo, porque por mais que não te agrade, Ricardo é o homem que amo e ele
seguirá nesta casa. Estamos? — O encarou nos olhos.
Ademar deu um passo atrás e respirou fundo.
— Como quiser, senhora.
Sandra deu um sorriso e afastou-se.
Ademar quitou os óculos escuros e conteve a raiva. Tudo parecia estar
a favor de Ricardo, sem embargo, sua sorte não iria perdurar por muito.
**
No quarto, Nicolas não pôde haver sacado a melhor maneira para
curar temporariamente a saudade que sentia da mãe.

— Mamãe, estou sentindo muito a sua falta!


Nicolas, como Montserrat, não pôde controlar a emoção que sentiu ao
viver aquela comunicação, mesmo que ela estivesse sucedendo por telefone.
— Meu amor, eu também sinto muito sua falta, coração. Você não
imagina o quanto, Nicolas — disse, chorando.
— Quando regressa, mamãe? Quero estar contigo!
— Eu sei, minha vida, mas as coisas estão um pouquinho difíceis
agora, por isso eu te peço que seja obediente ao seu tio Ricardo e que não
faça caso ao que te diz Sandra, sim? Tudo que ela diz de mim, é mentira, eu
não tentei matar o seu pai, Nicolas, sem embargo, você não deve a enfrentar.
Fique tranquilo. Fique tranquilo enquanto resolvo tudo.
— Sim, foi isso que o meu tio Ricardo disse.
Ricardo agachou-se diante do garoto e o bagunçou o cabelo.
— Então — Ela engoliu as lágrimas. —, o faça caso, meu amor, seja
muito gentil com Sandra, sim? Eu te prometo que logo estaremos juntos
novamente. Eu te juro! — Aquilo era o que ela desejava acreditar, mas muitas
vezes se pegava se questionando se algum dia iria ser possível.
— Sim, mamãe…
— Nicolas!
Ricardo e Nicolas assustaram-se quando escutaram a voz de Sandra e
viram a maçaneta girar.
— Nicolas, por que a porta está cerrada? — questionou Sandra,
forçando a maçaneta.
Ricardo arrancou o celular das mãos de Nicolas e pediu silêncio
enquanto encerrava a chamada.
— Nicolas!
Ricardo levantou-se rapidamente e destrancou a porta.
Sandra o mirou suspicaz.
— O que fazia vocês dois com a porta cerrada? Sabe perfeitamente
que eu não gosto que utilize as trancas.
— Perdão, meu amor. Nicolas e eu estávamos brincando. — Apontou
para a cama onde estava os brinquedos do garoto. — Seguramente tranquei a
porta e nem me dei conta, sabe como sou. — Deu uma risada.
— Sim, mas por favor não use a fechadura, sabe que eu não gosto.
Tenho medo que suceda algo e que por causa da fechadura vocês não possam
escapar.
— Tranquila, meu amor. — A deu um selinho.
Ela sorriu.
— Nicolas, como está, meu amor?

O garoto lembrou-se do pedido da mãe e dos conselhos de Ricardo.


— Bem. — Sorriu.
— Estou vendo, até deu um sorriso! — Alegrou-se. — Não sabe o
gosto que me dá te ver assim. Por fim, seremos uma família. — Sorriu feliz.
Ricardo forçou um sorriso e olhou para o garoto. Aquilo apenas
começava, e ele já temia as consequências.
**
A carcereira abriu a cela, e Montserrat agradeceu antes de adentrar.
Sentou-se na cama e pôs os joelhos na altura do queixo enquanto revivia a
comunicação que tivera com o filho. Para sempre seria grata a Ricardo por
ele estar a ajudando, no entanto, seria mais grata por ele haver promovido
aquela comunicação com Nicolas. Ouvir a voz do garoto terminou sendo o
impulso de vida que quase perdia cada vez que se recordava dos obstáculos
que tinha em frente e que superá-los não seria fácil, porém, falar com o
menino também a deixou melancólica e quase desvairada pela situação que
os filhos se encontravam.
Maya quitou o livro da frente do rosto e estranhou a quietude da
companheira.
— Tudo bem? Não conseguiu falar com o seu filho?
— Sim, eu consegui, mas… não sei. Estar longe dele é uma tortura,
sabe? — Secou as lágrimas. — São os meus filhos e estar longe deles já é
uma tortura, agora saber que eles não estão nas mãos de alguém de confiança,
é mil vezes pior.
— Sim. — Suspirou pesadamente e cerrou o livro. — Eu não tenho
filhos, mas tenho um sobrinho que o cuidei desde que minha irmã faleceu,
bom ele não é um menino como o seu, já tem vinte anos… Não sabe quanto
sinto a falta dele. Há muito que não o vejo… É terrível quando cerro os olhos
e quase já não me lembro do seu rosto, sabe? — contou, melancólica.
— Ele não vem te visitar?
Os olhos de Maya marejaram.
— Não, ele não me perdoa pelo que cometi. Ele acredita que poderia
haver arreglado as coisas de outra maneira para que agora não estivesse onde
estou, mas quando somos mães nada importa, agimos por instinto. O único
que queremos e que ninguém faça dano aos nossos filhos e, se alguém se
atreve a fazer, essa pessoa pode se considerar morta.
Mon coincidiu com cada palavra proferida por Maya. Quando se
tornou mãe muitas coisas mudaram de parecer e uma delas foi o incontrolável
e grandioso amor que nasceu em si, e esse amor foi a que deixou mais valente
e disposta a enfrentar o mundo para defender aquele pedaço dela.
Talvez era isso que faltava para Sandra compreender, ela podia
desejar e cometer barbaridades para alcançar a maternidade, mas se ela
conhecesse ao menos um pouco do que é ser mãe, saberia que no filho de
uma não se deve tocar.
Os dias passaram mais depressa que Mon pudera imaginar. Enquanto
Sandra vivia plenamente ao lado de sua tão desejada “família”, a sua espalda,
Ricardo tratava de explorar cada canto em busca de algo que comprovasse a
sua culpabilidade nos delitos que cometera, entretanto, a sorte parecia não
atuar ao lado dele. Comparecia uma e outra vez para visitar a Montserrat e
aproveitava para a tranquilizar sobre o estado dos seus filhos. Estrella estava
se convertendo em uma menina guapa e bastante saudável, e Nicolas estava
cumprindo de maneira correta as instruções que o deram e sua relação com
Sandra estava mais amistosa que nunca.

Ao menos as informações que ele trazia a tranquilizava um pouco. Os


filhos estavam com Sandra, mas Ricardo parecia estar sendo leal e cumprindo
sua promessa de zelar pelas crianças.
Mas enquanto por um lado as coisas estavam menos sufocantes, por
outra, mal se podia respirar, além de Aaron não apresentar nenhum sinal de
evolução, Mon ainda lutava para comprovar a sua inocência, e as recentes
apresentações do seu advogado de defesa não eram nada incentivadoras
quando o suposto “suicídio” de Otávio na cela de castigo pareceu levar com
ele qualquer fato que pudesse a inocentar ante o juiz.
Apesar de tudo, Mon tentava ser positiva. Intentava acreditar que o
advogado tinha uma carta na manga e que no dia do juízo ele sacaria algo
inesperado que devolveria sua liberdade momentaneamente, mas essa foi
apenas uma expectativa.
Montserrat teve que cerrar os olhos e baixar a cabeça quando o juiz
bateu o martelo ditando sua decisão final. Ela fora considerada culpada e
condenada a passar dez anos na cadeia por tentativa de homicídio qualificado.
David não aceitou sua derrota e, no mesmo instante, asseverou que
iria recorrer. Mon apenas chorava de raiva e indignação. Tinha ganas de
gritar e dizer que não era necessário que ele seguisse naquela batalha perdida,
mas ainda existiam muitos motivos que a faria lutar até o último segundo de
sua vida, e um deles estava bem a sua frente.

Sandra cruzou os braços e conteve a boa risada que quis soltar. Com a
condenação de Montserrat, naquele mesmo dia, ela daria início aos trâmites
pela guarda de Nicolas e Estrella.
Mon foi levada de regresso à sua cela, e Maya lamentou quando a viu
adentrar. A recebeu com um forte abraço e rogou para que ela não desistisse
tão facilmente.
Nas últimas semanas foi inevitável a proximidade entre as duas. Da
mesma maneira que Maya confidenciou a sua história contando que havia
matado o tipo com quem vivera durante anos quando descobriu que ele havia
abusado e matado sua filha, Montserrat também não deixou de lado sua
dramática narrativa. Obviamente não eram amigas e, com o tempo, cada uma
iria seguir o seu caminho, mas que bom era ter alguém com quem desabafar.
**
Quando Sandra chegou em casa, abusou da ausência do marido para
abrir uma garrafa de champanhe e brindar com Ademar o seu incontestável
êxito.
— Você tinha que ver a cara de estúpida que ela ficou quando
terminou de escutar a sentença do juiz. Estava mais que óbvio que até o
último momento ela acreditou que aquele aprendiz de advogado iria
conseguir algo.
Sandra tomou um gole da bebida, e Ademar riu.
— Esse êxito é seu, senhora.
— Não, esse êxito é nosso! — Se aproximou dele, sorridente. —
Tenho que admitir que sem ti eu não havia logrado a ir muito longe. Você é
espetacular, Ademar, por mais que suas divergências com Ricardo me quitem
do sério às vezes.
— Isso não voltará a passar, senhora.
Ele tomou um gole da bebida e refletiu. O que aguardava a Ricardo
não necessitava de avisos.
— Sandra.
Ela viu a Ricardo e rapidamente pôs a taça sobre a bancada.
— Olá, meu amor. — Acercou-se a ele, sorrindo, e mencionou em o
cumprimentar com um selinho, mas Ricardo a deteve segurando-a pelos
braços. — O que foi dessa vez, Ricardo? — perguntou, impaciente.
— O que estava fazendo? Comemorando a condenação de
Montserrat?
Ela juntou as sobrancelhas.
— Claro que não. Eu apenas estava tomando um champanhe. Qual é o
problema?

Ele olhou para Ademar, que ergueu a taça com um sorriso debochado
no rosto.
— Mira, Ricardo, sei perfeitamente que Montserrat foi condenada e
que isso é muito triste, mas eu não posso me afundar na tristeza por isso, a
vida anda, meu amor.
— E Nicolas?
— Bom, creio que a condenação de Montserrat não seja uma surpresa,
afinal, era o que tudo indicava, não? Creio que ele irá ficar bem.
Ricardo respirou fundo. A cada dia estava ficando mais difícil
dissimular a raiva que sentia quando Sandra negava descaradamente as suas
perversidades.
— Tudo bem. Vou subir.
— Vou contigo, tenho algo para te dizer — disse, um tanto
entusiasmada.
— Ok.
Ademar aguardou o casal subir as escadas para sacar o celular do
bolso e realizar uma misteriosa chamada.
**
Sandra e Ricardo adentraram o quarto de Nicolas, que coloria sobre a
cama.
— Nicolas — chamou Sandra, cerrando a porta detrás de si.
O garoto a mirou.
— Seu pai e eu temos algo que dizer.
Ricardo piscou um olho para Nicolas, como se quisesse dizer que ele
não deveria fazer caso em nada do que Sandra falasse.
— O quê? — O garoto sentou-se na cama.
— Temos que falar sobre Montserrat, essa é a última vez que iremos
falar dela, quero te deixar muito claro. — Sentou-se na ponta do colchão.
Ele assentiu com a cabeça.
— Foi comprovado que Montserrat intentou matar a Aaron, por essa
razão, ela terá que ficar presa por dez anos.
Nicolas agarrou-se ao urso de pelúcia e ficou em silêncio.
— Não irá dizer nada? — Estranhou.
— As últimas experiências que viveu seguramente o deixaram muito
sensível, ainda mais quando se trata da mãe. — Ricardo agachou-se diante da
esposa.
— Sim, seguramente — concordou. — Mas agora somos uma família.
— Sorrindo, segurou na mão de Ricardo e Nicolas. — E Ricardo e eu somos
os seus únicos pais, meu amor.

Ricardo forçou um sorriso e pensou em uma forma de quitar a culpa


que caia sobre Mon.
Os dias se passaram lentos para ele. Pensava uma e outra vez em uma
maneira de comprovar a inocência de Montserrat, mas nada parecia resultar.
Tentou ponderar e se livrar da ansiedade e da tensão de todas as maneiras,
fumou vários cigarros, tomou cerveja, tentou trabalhar e até mesmo ouvir o
seu tão amado rock no último volume enquanto praticava uma corrida na
esteira, mas ao fim estava cansado de nadar contra a corrente e terminou se
dando uma pausa.
Compreendia que seguir alterado não iria solucionar nada e ainda
podia levantar as suspeitas de Sandra. Certo disso, ele tentou relaxar
treinando por mais alguns minutos e, somente parou, quando algo o chamou
agressivamente a atenção.
Ricardo encarou a câmera da academia e baixo a cabeça, pensativo.
Aquela casa estava repleta de câmeras, mais que Sandra costumava manter
pelo medo que tinha de sofrer uma nova tentativa de violência. Era certo que
aqueles instrumentos foram testemunhas de todo o sofrimento que Mon viveu
nos últimos meses, incluindo a morte de Analía. As imagens vivas certamente
já haviam sido deletadas por causa do tempo, mas ainda existia o disco rígido
do DVR, e ele tinha que obtê-las a qualquer custo.

Sandra não achou raro quando Ricardo pediu que ela desse a noite
livre para Ademar. Interpretou que ele queria uma noitada em família ou até
mesmo romântica, afinal, há muito não ficavam sozinhos como casal. Ela de
imediato liberou o empregado de suas funções, que a contragosto cumpriu
suas ordens e foi embora. A casa era somente deles.
— Meu amor, eu não sabia que planejava algo tão romântico para nós
dois. — Sandra sentou-se diante de uma mesa de jantar à luzes de velas.
Ricardo acercou-se pela lateral e a serviu o vinho tinto.
— Creio que merecemos isso, não?
— Sim, mas agora com as crianças reconheço que isso será um
pouquinho mais difícil, sem embargo, nunca irá faltar tempo para te namorar,
meu amor. — Sorriu, pegando a taça de vinho.
Ricardo deu um leve sorriso e pôs a garrafa sobre a mesa.
Sandra estranhou.
— Como? Não irá me acompanhar? — Se referiu a bebida.

— Não, meu amor. Sabe que eu não gosto de vinho, mas eu te


acompanho com uma cerveja. — Deu a volta na mesa e sentou-se frente a ela.
— Não há nada de mal, verdade? — Pegou a lata de cerveja e a abriu.
— Claro que há, Ricardo, por favor. Estamos em uma ocasião
romântica, e você toma cerveja como se estivesse no bar da esquina?
— Sandra…
— Nada disso. — Pegou a garrafa de vinho e serviu o marido. — Se
não quer tomar, ao menos brinde comigo, sim?
Ele sorriu.
— Claro, meu amor.
Eles ergueram as taças e brindaram.
Ricardo observou a esposa, que tomou gradativamente a bebida. Em
poucos minutos, ela estaria profundamente adormecida.
Ricardo pôs a Sandra no quarto. Antes de sair, correu até o armário e
pegou sua mochila. Ali dentro havia um novo gravador que iria substituir
aquele que pretendia pegar e levar a um profissional da área que pudesse
sacar os dados mortos do disco rígido. Ele sabia o quanto podia sair mal de
tudo aquilo. Sandra estava totalmente desequilibrada e em um momento de
crise poderia até o fazer dano, mas já era hora que justos deixassem de pagar
por pecadores.
Na manhã seguinte, Ricardo já havia se comunicado uma e outra vez
com o senhor que confidenciara o equipamento que poderia devolver a
inocência de Mon. O profissional, apesar de ser uma pessoa muito tranquila e
paciente, disse que passara toda a madrugada trabalhando no que ele o pedira
e que o mais breve possível entregaria o serviço da maneira desejada.
Ricardo sabia que estava sendo inconveniente, mas tudo era apenas
obra da sua ansiedade e o desejo de ver tudo no seu devido lugar, por mais
que o futuro de Sandra não fosse tão agradável.
— Meu amor, o que passou ontem? Eu não me lembro de quase nada,
apenas me lembro que estávamos jantando e…?
Ele esperava por aquele questionamento na mesa do café da manhã,
por essa razão não ficou nervoso e nem temeroso por Ademar o encarar sem
discrição.
— Jantamos, e você terminou exagerando um pouco nas taças de
vinho.

Sandra arregalou os olhos.


— De verdade? Fiquei borracha?
— Não ficou borracha, mas estava muito cansada e terminou
dormindo. — Tomou um gole de café.
Ela ficou constrangida.

— Ai que vergonha! — Afundou o rosto nas mãos. — Você me


prepara um jantar romântico e eu te pago desta maneira. Não, Ricardo. Por
favor, me perdoe, meu amor. Eu te juro que não entendo o que passou.
Ademar podia dizer facilmente o que havia sucedido. Certamente
Ricardo havia a dopado com alguma intenção maquiavélica e, por mais que
houvesse buscado alguma brecha, ele não conseguiu encontrar.
No entanto, ainda existia algo que colocaria a perder qualquer plano
que o seu rival pudesse ter em mente.
**

Já era fim de tarde quando Montserrat recebeu a visita do seu


advogado. Muitas vezes tinha gana de dizer que já não era necessário
regressar, que estava farta de escutar o mesmo a cada visita e que suas
expectativas de sair dali eram quase que inexistentes, mas ainda tinha
esperança em Deus e na Virgem e, por acreditar neles, que sua fé não morrera
totalmente.
— O que faz aqui, advogado? Disse que não era necessário estar aqui
sempre, a não ser que tivesse alguma novidade.
— Então? — Sorriu leve.
Mon estranhou aquele sorriso.
— Perdão?
— Tenho uma novidade, ou melhor, uma notícia, uma notícia muito
boa. — Sorriu.
— Então diga, por Deus! — Animou-se.
— Ricardo conseguiu as imagens das câmeras de segurança da casa
de Sandra.

— Como? — Surpreendeu-se. Como ela pudera olvidar daquele


detalhe?
— Sim, Montserrat. Essas imagens já estão nas mãos do juiz, e acabo
de solicitar sua soltura imediata. Provavelmente amanhã mesmo estará livre
novamente.
Mon afundou o rosto nas mãos e chorou de emoção. Por fim estaria
livre e poderia recuperar os seus filhos.
No dia seguinte, Ricardo foi visitar a Mon, que o recebeu com um
forte abraço de agradecimento e incansavelmente disse o quanto era grata
pelo que ele fizera. Ricardo tratou de dizer que não era necessário qualquer
tipo de agradecimento, ele somente fizera o correto, o indicado, não poderia
jamais compactuar com um ato desumano daqueles, mesmo Sandra estando
tão mal da cabeça.
A partir daquele momento ele seguiria sua vida de uma maneira que
jamais imaginou que seria tão fácil lidar. Já não iria preocupar-se com os
filhos, que eles chegassem na hora permitida por Deus, enquanto isso iria
trabalhar e se divertir com quantas mulheres desejasse, afinal, logo seria um
homem oficialmente solteiro e o único compromisso que teria com Sandra
seria zelar por seu bem-estar, porque, querendo ou não, o futuro dela o
importava. Sem embargo, o mais cruel do plano é o próprio plano, e tudo
poderia estar a ponto de desfazer com um único mover do ponteiro do
relógio.

**
— Obrigada por me acompanhar até aqui na agência, Ademar, eu não
podia com todas essas caixas.
Sandra adentrou a sua sala laboral, e Ademar entrou logo atrás,
cerrando a porta.
— Por favor, pegue essas caixas e se livre delas. — Apontou para as
caixas de papelão que estavam próximo à mesa.
— O que são essas coisas? Digo, se te apetece me dizer, obviamente.
— Não é nada de extraordinário, se trata somente dos pertences de
Montserrat. Objetos que, por razões óbvias, ela já não irá necessitar, porque
até que ela saia da cadeia, muitas coisas terão cambiado e sua presença nesta
agência já não será necessária. — Puxou a cadeira e sentou-se.
Era inequívoco que a agência estava passando por um momento de
fragilidade econômica, mas ela planejava utilizar toda a sua influência de
empresária para não permitir a queda daquele negócio.
— Sim, senhora!
Ademar caminhou até as caixas e olhou para Sandra. A viu ligar o
computador e pegar alguns importantes papéis, que iniciaria a leitura em
questão de segundos. O que trazia na ponta da língua poderia ser uma corda a
ser utilizada no seu próprio suicídio, mas o que trazia no bolso do blazer
colocaria um grande rival na guilhotina.
Sandra percebeu a mirada do segurança sobre si.
— Quê? Por que me miras e não cumpre o que te ordenei?
— Porque tenho algo que te dizer, senhora. — Caminhou para frente
da mesa. — É muito importante.

Ela ficou apreensiva a seriedade dele.


— Importante? O quão importante? Passou algo?
— Em realidade, está passando algo. — Cruzou as mãos, frente o
corpo. — O seu marido não está sendo leal como pensa.
Sandra levantou-se em defesa do esposo. Que ele estivesse a
enganando era uma ideia impossível!
— Por favor, não comece você outra vez com o mesmo. Ricardo é…
— Ricardo é um traidor, senhora! — Alterou o tom de voz, e ela se
calou. — E dessa vez tenho as provas que a senhora me pediu.
Ademar quitou um envelope pardo do bolso interno do blazer e o
jogou sobre a mesa. Sandra levou a mirada lentamente para o envelope e logo
a devolveu para Ademar.
— Nas últimas semanas um detetive esteve na cola desse tipo e ele
registrou todos os movimentos de Ricardo, incluindo todas as visitas que fez
a Montserrat no presídio, todas os encontros que teve com o advogado dela e
todas às vezes que se encontrou com o agente Guzmán.
As lágrimas surgiram vagarosamente no rosto de Sandra.
— Ainda te restam dúvidas que esse tipo não te ama e está te
utilizando para te colocar na cadeia?
Ela poderia relutar contra as palavras, mas não contra as provas.
Depois que Ademar deixou sua sala, Sandra teve o valor necessário
para abrir o envelope e pegar as fotografias que mostravam a sua dolorosa
verdade. As rasgou e jogou os pedaços no chão quando cair em prantos foi
inevitável. Lembrou-se de cada momento a dois e um deles foi precisamente
quando ele a buscava desejando uma falsa reconciliação.
Que estúpida fora! Como pôde se deixar cair tão facilmente naquele
enredo? A resposta era muito óbvia. Estava completamente enamorada por
aquele senhor, e nada do que ele fizesse a soava suspeitoso ou de má
intenção. Tudo para ela era perfeito, imaculado, uma maldita obsessão
destinada a destruí-la vagarosamente, a mesma obsessão que tinha por ser
mãe.
Foi para casa quando não tinha ânimos e nem forças para o laboral.
Trancou-se no quarto e ali chorou quase que todo o dia. Chorou por Ricardo,
por sua incapacidade e por si mesma. Chorou por não se aceitar como era,
por ter dificuldade em lidar com os seus defeitos e por se odiar tanto ao ponto
de desejar ser outra, de possuir a vida de outra pessoa, porque a dela jamais
fora como desejava, jamais fora da maneira que idealizou e que daria gosto
despertar toda a manhã com gosto de vivê-la.
Talvez Sandra nunca se visitou tão intimamente quanto naquele dia.
Mirou para o seu interior e não encontrou o que queria ver, não viu a luz que
acreditou que existia, o único que viu foi uma guerra que ela pedia todo o
momento para si mesma.
Já era noite quando Ricardo chegou em casa e estranhou o silente da
residência. Na empresa, achou raro a ausência de Sandra e a maneira que ela
ignorou suas chamadas durante todo o dia, sinceramente, aquilo não incidia
nada com uma mulher que sempre estava atenta aos seus telefonemas e
mensagens.
Apreensivo, mirou em volta buscando algum empregado. Naquela
ocasião aceitava até a nefasta presença de Ademar, que era impossível não
saber nada sobre a patroa, mas nem a tão fiel escolta apareceu para o dar uma
miséria informação.

Subiu as escadas e caminhou até quarto de Nicolas, viu o menino na


companhia da irmã e de Imperia, que alimentava a Estrella com o auxílio da
mamadeira.
Ricardo mirou o relógio e marchou até a sua habitação. Girou a
maçaneta lentamente e adentrou o quarto, chamando pelo nome da esposa.
Assustou-se quando Sandra saiu detrás da porta trajando uma provocante
lingerie de renda vermelha e segurando uma taça de champanhe.
Ela deu um sedutor sorriso e ele a devorou com a mirada.
— Sandra…
Ele estava sem palavras mediante a tanta sensualidade. Podia a pegar
abruptamente em seus braços e a fazer a amor até que o seu corpo estivesse
sem forças para prosseguir. Era certo que ela sempre fora uma mulher muito
sensual e demasiadamente atrevida quando o assunto era comprazer o homem
que amava, mas, daquela vez, havia algo distinto. Algo estava altamente
excitante e tão enlouquecedor que ele seria capaz de olvidar as barbaridades
que a esposa havia cometido unicamente para ter o gosto de a fazer amor.
Sandra cerrou a porta e acercou-se a ele com um leve sorriso. O
entregou a taça e o beijou delicadamente nos lábios.
— Quero te recompensar pela minha falta de ontem… Minha vida —
sussurrou, mirando-o nos olhos.
Ricardo ficou petrificado. Aquele sussurro foi capaz de ouriçar todos
os pelos do corpo e colocar cada parte de si em completa e perdida chamas.
Ela sorriu. Sentiu que tinha o marido completamente hipnotizado e
disposto a fazer tudo o que a viesse em gana.
— O quê? Não gostou da surpresa? — Deu uma voltinha e sorriu
novamente. — Hoje sou toda sua, Ricardo. Completamente sua e de mais
ninguém — sussurrou, o mirando sensualmente.
O corpo dele ferveu. De repente pareceu haver sido transportado para
um verão de quarenta graus e nem a água fria seria capaz de quebrar a
temperatura.

— Sandra, eu…
— Tranquilo, minha vida… — Acercou-se a ele e desabotoou
lentamente os botões de sua camisa. — Hoje serei sua gata no cio.
Ricardo não a resistiu. A puxou para um ousado e ardente beijo, que o
moveu ainda mais as estruturas. Colocou a taça de champanhe sobre a mesa e
suas mãos começaram a passear atrevidamente sobre o corpo dela, que
suspirava a cada toque ousado do amado.
Sandra o guiou para a cama e o empurrou sobre o colchão. Ricardo
sorriu com malícia e a puxou para cima de si. Sandra colou o seu corpo no
dele, dando seguimento ao candente momento. Ele a apalpou com pressa,
com desejo, com luxúria. Beijava cada canto da pele da esposa enquanto
intentava arrancar a pouca roupa que ela vestia. A queria a ter desnuda junto
a si. Desejava que seus corpos cálidos se cruzassem em uma combustão de
prazer e cobiça. Queria a comandar, a deixar submissa aos seus mandos e
fazê-la soltar diversos ruídos de prazer que o levaria a loucura e o faria a
amar com mais esmero.
Sandra poderia sentir o mesmo e desejar igual que ele, afinal, nada a
fazia mais bem que se entregar sem medo ao seu homem, mas apesar daquele
ato transparecer muito fogo, havia uma mulher muito fria com os mais
obscuros desejos.
Sandra deslizou a mão vagarosamente sobre a cama até que a pôs
debaixo da almofada e com as pontas dos dedos pegou uma tesoura de
costura forjada.
— Ricardo… — sussurrou.
— O quê? — sussurrou, enquanto a beijava no pescoço.
— Te amo! — disse, erguendo o tronco e cravando a lâmina
pontiaguda no peito do marido.
Ricardo arregalou os olhos e abriu a boca sem alento.
— Sandra… — disse, com dificuldades.
Ela o mirou nos olhos e chorou no mesmo momento. Jamais quis
matá-lo, mas sua traição era imperdoável.
— Sandra… — Ele tentou dizer mais uma vez.
— Vai para o diabo, infeliz!
Sandra retirou a tesoura e o golpeou mais de dez vezes.
**

Nicolas despertou com o choro de Estrella. A pequena fora deixada


no quarto ao lado por Imperia, que havia ido, há alguns minutos.
Apreensivo e temeroso que o pranto da irmã fosse escutado por
Sandra ou Ademar, Nicolas deixou sua cama e correu até o dormitório da
pequena. A pegou em seus braços e sentou-se sobre o sofá enquanto buscava
a acalmar.
Nicolas deu um sorriso e beijou a testa da menina quando ela se
tranquilizou com as cantigas de ninar que Montserrat sempre o cantava.
Saber que ela se acalmara em seus braços o dava certeza que a irmã
sabia que ele sempre faria de tudo para protegê-la. Havia prometido a si
mesmo que não iria permitir que Estrella se desse conta da ausência da mãe,
iria estar para a irmã e a proteger do que fosse necessário, mesmo que para
isso tivesse que sair lastimado.
— Eu te quero, sim, irmãzinha? — Sorriu, acariciando o rosto da
pequena, que o mirava. — Posso te contar um segredo? — sussurrou. — O
tio Ricardo disse que hoje mesmo a mamãe virá por nós… — Ele contou
alegre. — Sim, hoje a mamãe irá nos sacar daqui e minha madrinha vai para a
cadeia por ser ruim.
Ademar, que adentrava no quarto, ouviu claramente o que disse o
menino. Refletiu por um momento e viu que não podia desconsiderar o que
Nicolas dissera quando Ricardo seguramente havia atuado contra Sandra nos
últimos dias, mas que provas tão fortes ele pôde haver conseguido ao ponto
de devolver a liberdade a Montserrat?
Olhou para a câmera no alto da parede e negou com a cabeça,
descrente. Rapidamente saiu dali e foi até a sala de monitoramento. Verificou
o gravador e as imagens que eram transmitidas ao vivo naquele momento.
Aparentemente não havia nada de equivocado, mas quando pegou o controle
e tentou acessar as gravações de quinze dias antes, terminou descobrindo a
razão de Ricardo haver dopado a Sandra.
— Maldito infeliz!
Ademar saiu da sala e subiu as escadas velozmente. Bateu na porta do
quarto da patroa e adentrou, assustando-se com a cena que viu. Sandra estava
abraçada com o corpo morto de Ricardo.
— Senhora? — Arregalou os olhos. — O que você fez?
Daquela vez ele estava totalmente fora dos planos de Sandra. Era
certo que havia a visto muito raivosa e melancólica com o que a contara e,
que por essa mesma razão, ela passara todo o dia, trancada no quarto, porém,
não esperava que fosse capaz de o matar com suas próprias mãos.
— Eu não queria o matar… — contestou, chorando. — Mas eu não
pude, não pude com a raiva, com ódio. Eu o amava. Te juro que o amava! —
Chorou copiosamente.
— Senhora. Senhora. — Acercou-se a ela rapidamente e a quitou de
cima do morto. — Não há tempo para isso, sim? — A segurou pelos ombros
e a mirou nos olhos. — Esse tipo não te queria, não te amava, tanto que ele
pegou as imagens da câmera da casa e entregou para a justiça.
— Como? — Não compreendeu.
— Sim, senhora, acabo de ouvir o garoto dizer a irmã que Montserrat
sai da cadeia ainda hoje.
Ela riu.
— Não, claro que não. Esse menino está apenas fantasiando. Ricardo
não poderia ter acesso a essas imagens sem que nós não nos déssemos conta.
Esse menino está louco!
— Não, senhora, ele mudou o aparelho de gravação, e posso te dizer
qual foi o momento em que ele cometeu esse câmbio.
No mesmo instante, ela lembrou-se da ocasião romântica que o
marido promoveu.
— Ademar, não diga que… — Temeu.
— Sim, senhora, esse desgraçado pôs algo em sua bebida para ter-te
totalmente inconsciente enquanto fazia o câmbio.
Ela negou com a cabeça e os seus olhos marejaram novamente. Olhou
para o corpo morto de Ricardo e suspirou raivosa.

— Maldito!
Sandra foi para cima do marido e começou a golpeá-lo enquanto o
ofendia de todas as formas. Ademar teve que ser ágil ao retirá-la de cima do
morto e a cobrar lucidez.
— Senhora, se tranquilize! — A segurou pelos braços e a deu um
sacolejo. — Não há tempo para isso, temos que escapar o mais depressa
possível!
— Como? — Alterou-se. — Como vou fazer isso quando não tenho
para aonde ir e tenho a Ricardo morto sobre minha cama? Contesta! —
Irritou-se.
— Tranquila! — ordenou, segurando-a no rosto e a mirando nos
olhos. — A morte desse tipo será detalhe mediante a tantos crimes que temos
nas costas. Se você quiser, podemos escapar daqui agora mesmo e irmos a
um lugar onde ninguém nunca irá nos encontrar. O que me diz, confia em
mim ou não?
**
Montserrat agradeceu aos céus quando se viu livre novamente.
Cruzou o portão do presídio e beijou e medalha da Virgem de Guadalupe,
que Maya a regalara. Era certo que, de alguma maneira, iria sentir falta da
mulher que fora o seu ouvido nas últimas semanas, ela tinha uma história de
vida incrível e uma razão muito plausível para haver cometido o crime que a
deixara naquele lugar, mas agora era momento de olvidar o vivido e
recuperar sua vida.
— A polícia já está a caminho? — questionou, assim que adentrou o
carro do advogado e cerrou a porta. — Não sei porque tardaram tanto para
me quitar deste lugar e dar a ordem de apreensão a Sandra.

— Desafortunadamente a justiça é lenta, Montserrat. Tive que apelar


muito para que o juiz te concedesse aval de soltura para hoje, mas já temos
duas viaturas à frente. Chegou o momento de Sandra e seu cúmplice
ajustarem contas com a justiça, e você recuperar sua vida.
Mon assentiu com a cabeça e respirou fundo. Queria acreditar
naquilo, mas havia algo que a advertia que nem tudo estava tão bem quanto
desejava aparentar.
Quando a casa foi invadida pelos policiais, Montserrat não conseguiu
cumprir as ordens de ficar afora. Adentrou com os homens armados
chamando pelos filhos e percorrendo cada cômodo da residência.
Subiu as escadas ignorando os reproches dos guardas e o chamado do
jovem advogado que vinha logo atrás de si. Abriu a porta de cada habitação e
uma delas a deu uma falsa ilusão.
— Ricardo!
Mon sentiu seu corpo autobloquear-se quando se deu conta que
Ricardo estava morto sobre a cama. Pôs a mão sobre a boca e as lágrimas
desceram vagarosamente em seu rosto.
— Mon… — David adentrou o quarto, vendo o mesmo que ela.
— Está morto, licenciado!
— Seguramente o mataram antes de escaparem.
— Quê? — Arregalou os olhos. — Meus filhos!
Montserrat saiu do quarto, desesperada. Abriu a porta de cada
dormitório até que adentrou a um e viu os brinquedos de Nicolas sobre a
cama. Chamou pelo menino enquanto correu até os armários e os abriu,
vendo-os vazio.

— Não, não pode ser!


Em lágrimas, correu dali e foi até o quarto de Estrella.
David surgiu na porta e disse as piores palavras que ela poderia
escutar.
— Montserrat, não há ninguém na casa, Sandra escapou com os seus
filhos.
Mon rompeu em lágrimas e arremeteu contra Deus. Quando acreditou
estar vivendo o fim de um pesadelo, ele apenas estava começando.
Montserrat abriu o armário do banheiro, pegou o tubo de creme dental
e a escova de dente. Espremeu o creme sobre as cerdas e ergueu a mirada,
deparando-se com o seu reflexo no espelho. O cabelo desgrenhado, as fortes
olheiras avermelhadas e os olhos inchados não descreviam uma pessoa que
tivera uma noite mal dormida, e sim a cento e oitenta noites que quase não
pregava os olhos.
Seis meses se passaram desde a fuga de Sandra, e Montserrat já não
sabia que meios percorrer para estar novamente com os filhos. Já havia
espalhado fotos dos desaparecidos nas redes sociais, nos postes, nos jornais,
na televisão, em todos os meios que tivesse espaço estava ela com lágrimas
no rosto oferecendo uma recompensa milionária para quem fosse capaz de
trazer os seus pequenos de volta para casa, mas nada parecia funcionar.
A polícia já estava se dando por vencida, queria deter as buscas desde
o terceiro mês alegando que os delinquentes já deveriam estar fora do país e
que eles, já não tinham muito que fazer. Mon arremeteu contra aqueles
senhores, como eles podiam se dar por vencidos tão facilmente? Como eles
poderiam se sentar tranquilos quando duas crianças estavam sob o poder de
dois enfermos mentais que eram capazes das piores coisas? Seguramente não
eram pais, certamente não sabiam o sentimento que um traz quando suas crias
estão em perigo. É viver em desespero, em angústia e desejar a morte, pois
nada mata mais que não ter a segurança se algum dia voltará a ver quem tanto
amas.
Mon se questionava de onde quitava tantas forças para seguir. Já não
tinha interesse pelas atividades mais básicas do cotidiano, não se importava
em arrumar-se, praticar atividades físicas ou ir ao trabalho, quando não estava
buscando canais de comunicação para divulgar o sequestro dos filhos, ela
estava trancada em casa e ali passava sem se importar se afora era dia ou
noite, se havia comido ou tomado água, o único que fazia era chorar como
uma menina e rogar aos céus o regresso dos seus amores.
Mas enquanto Mon sofria, Sandra parecia estar vivendo os melhores
meses de sua vida. Naquela noite de fuga, Ademar sugeriu que eles fossem
do país e que juntos construíssem uma nova vida olvidando completamente o
passado criminoso que trataram de construir. No entanto, ela terminou
desconsiderando a ideia quando se inteirou que a polícia já os buscava e que
enfrentar o aeroporto poderia ser muito riscoso e fatal para o futuro tranquilo
que planejavam viver.
Por isso elegeu ir para Valle De Bravo, um município que fica
localizado no Estado do México a quase duas horas e meia da capital. O lugar
que conta com uma linda natureza e as água do lago Avandaro, é um
belíssimo lugar para quem deseja passar uma temporada de férias ou até
mesmo viver com a família, e foi isso que Sandra elegeu para si. Estava
vivendo com os "filhos" e Ademar em uma luxuosa cabana cerca de uma
montanha de verde vivo e admirável. A propriedade espaçosa que contava
com lareira, terraço privativo e um lindo jardim, também tinha o luxo de estar
localizada a poucos passos da cachoeira El Molino e, além desse regalo
natural, ainda tinha um imenso lago que quase a beijava cada vez que abria a
porta.
Ela podia dizer que pela primeira vez estava vivendo o que sempre
sonhou, estava cerca da natureza, ao lado dos filhos e o seu passado já não
era algo que a preocupava, mesmo que uma vez ou outra os fantasmas
viessem amedrontá-la.
Sandra levitou bruscamente da cama quando despertou após um
pesadelo.
Ademar, que dormia ao lado, acordou assustado.
— Está tudo bem? — Preocupou-se.
— Sim. — Passou a mão sobre o rosto e colocou a mecha do cabelo
atrás da orelha. — Somente esses pesadelos que não me deixam em paz.
Deve ser porque não há um dia que eu não veja Montserrat em algum lugar,
se não é na televisão, é na internet, ou nos periódicos. — Alterou-se.
— Sandra, tranquila. — A segurou delicadamente no rosto. —
Ninguém irá nos encontrar.
— E se sim?
Ademar negou com a cabaça e a abraçou forte. Sandra apoiou a
cabeça sobre o ombro dele e se sentiu tranquila, ele sempre lograva a mantê-
la daquela forma.
Eles não viviam nada formal. Não falavam de amor e tampouco de
quando seria a próxima vez, Ademar a queria e desejava estar com ela a
qualquer custo, já Sandra apenas o queria para intentar engravidar
novamente.
— Vou me banhar, sim? Se você puder ir adiantando o desjejum, eu
te agradeço — disse ela, desfazendo o amplexo.
Ademar a tocou sutilmente no braço e a puxou para um beijo. Sandra
o correspondeu da mesma maneira, também foi ardente e receptível a cada
toque ousado que ele tratava de mergulhar em seu corpo. Ademar a ajudou
quitar a camisola e em um ato a puxou para o seu colo, dando início a um
cálido momento de luxúria.
Na hora do desjejum, Sandra terminava de servir a mesa. Nicolas, que
comia o seu cereal, viu quando Ademar adentrou a cozinha e se serviu com
um café preto.
— Não vai desjejuar?
— Não, senhora, pretendo ir buscar lenha. A previsão dessa noite diz
que irá fazer muito frio e o melhor e ter mais lenha que essas que estão aí.
— Sim, mas se puder regressar logo, te agradeceria muitíssimo, sabe
que eu não gosto de ficar sozinha.
— Tranquila. Te juro que não tardo.
— Obrigada.
Ademar terminou de tomar o café e foi embora, depois de se despedir
de Sandra e Nicolas.
O garoto, que apesar de parecer cômodo em toda aquela situação,
todos os dias planejava escapar levando consigo a irmã, entretanto, os
conselhos da mãe e Ricardo seguiam imóveis em sua cabeça.

— Filho, trate de organizar o seu quarto, pois não irei seguir


recolhendo os seus brinquedos, sim?
O menino assentiu com a cabeça.
Sandra sentou-se à cabeceira da mesa e olhou para o televisor, que
transmitia um programa matinal.
Uma das apresentadoras do programa adotou um semblante solene e
começou a falar de um tema muito peculiar.
— Senhoras e senhores, sei que o intuito de estarmos aqui todas as
manhãs, é levar diversão para as famílias mexicanas, você que desperta cedo
todos os dias para trabalhar ou ir para a universidade, ou até mesmo a
senhora dona de casa que nos acompanha, que cumpre os seus afazeres
domésticos sem desligar a tele por um segundo, nós, meus companheiros e eu
agradecemos pela audiência e pela companhia, sem embargo, nem só de
sorrisos é feita a vida e eu não poderia passar um programa sem mencionar
o triste momento que vem vivendo a publicitária Montserrat Villavicêncio,
que teve os seus filhos levados por uma senhora enferma, e há quase sete
meses as autoridades mexicanas não têm uma notícia sequer do paradeiro
deles.
Sandra não reagiu às palavras da apresentadora.
— Senhores, atuantes da lei deste país, não iremos permitir que mais
um crime seja olvidado, não vamos permitir que essa senhora que está com
os filhos de outra pessoa saia com a sua enquanto uma mãe de verdade sofre
e dá tudo de si para reencontrá-los. Por favor, não, basta de injustiça e que
os delinquentes seja os que dão a última gargalhada. Agora, eu também falo
para essa senhora que tem sequestrado os filhos de sua melhor amiga, o que
está fazendo não tem nome, não tem perdão nem do diabo. Entendo que você
deseja ser mãe e essas coisas, não somos ninguém para julgar, por mais suja
e indignante que seja sua atitude, mas eu te pergunto, você consegue dormir
à noite?
Sandra baixou a mirada e respirou fundo. Há muito tentava ignorar o
passado, mas o que aquela mulher dizia tinha sua coerência.
— Você consegue mirar essas crianças e realmente ter a fé que são
seus filhos, sabendo que a mãe deles sofre, chora e está quase depressiva por
não ter os filhos? Senhora, você quer ser mãe, mas ainda te falta muito para
ser, não tem nem ideia do que é ser mãe, não sabe o que senti uma mãe de
verdade. Ser mãe não é apenas colocar no mundo ou criar como se fosse seu,
ser mãe é ter o sentimento de uma e não fazer com o filho de outra o que não
desejaria que fizesse com os seus. Isso é ser mãe e ter respeito pela vida, por
isso eu te peço, se apresente à justiça com essas crianças, os devolva para
sua mãe, pode parecer demasiado tarde, mas nunca é tarde para fazer o
correto. Sandra Fuentes, se me assiste, eu te digo que o que acaba de escutar
é o apelo de uma mãe, porque quando uma chora, todas sentem sua dor e se
você não está sentindo é porque não é mãe.

Sandra pegou o controle e desligou a tv.


Nicolas a mirou um tanto temeroso.
— Não faça caso ao que acaba de ouvir, sim? Montserrat
Villavicêncio está morta. Sou sua mãe, sua única mãe, ouviu bem? —
Alterou-se.
Nicolas assentiu com a cabeça e seguiu o seu desjejum.
**
Na capital, Montserrat mais uma vez entrava em contato com outras
redes de comunicação que pudesse a ajudar em sua busca, mas até os
comunicadores que antes a ajudava por humanidade, agora começavam a
apresentar resistência.
— Sim, senhor, sei que já estive aí essa semana, mas é de extrema
importância que siga divulgando o sequestro dos meus filhos.
Mon apoiou o telefone no ombro e virou a página da agenda. Ali
havia diversos contatos que podiam a ajudar, mas alguns programas de
televisão e rádio já estavam fartos da sua presença.
— Sim, senhor, sei que fica cansativo que eu esteja quase toda a
semana no seu programa, mas eu não peço essa ajuda de gratuitamente, sim?
Eu pago quanto for aos produtores, aos diretores, o único que quero, é esse
espaço na programação.
— Senhora, nenhum dinheiro do mundo irá cobrir minha audiência,
sim? O melhor é que você busque outras redes, outros programas e depois
tratamos.
— Mas, senhor…
Mon intentou iniciar um argumento, mas era inútil quando todos
pareciam estar fartos de si e do seu "drama barato". Encerrou aquela
chamada sabendo que a maioria dos números que ainda faltava por telefonar
iriam a dizer o mesmo e, no fim de tudo, estaria cada vez mais longe dos seus
filhos.
Ponderou buscando outros meios de seguir a procura por seus filhos,
poderia contratar um detetive ou até mesmo viajar o mundo os buscando, mas
ela sabia que nada seria tão eficaz e fácil na prática. Algo tinha que a ocorrer,
pois nunca se daria por vencida.
Naquele mesmo dia Mon saiu para visitar a Aaron. Tinha que admitir
que poucas vezes fazia aquilo quando sua cabeça estava completamente
ocupada por um assunto ligeiramente mais grave, mas a saúde do homem que
amava não era menos importante, apenas estava exausta. Estava exausta de
adentrar todas às vezes aquele quarto hospitalar e ver o marido da mesma
maneira. Imóvel. Ligado a aparelhos e lutando pelo pouco de vida que ainda
o restava. Também estava farta de se comunicar com os doutores e os ouvir
dizer o mesmo: “O seu marido não tem chance de despertar e, se desperta,
terminará com alguma sequela.”

Ela não queria acreditar naquela possibilidade. Não queria acreditar


que mais uma vez Sandra sairia ganhando e até a Aaron ela iria a arrebatar.
Não, aquilo não era justo e ela não aceitava aquele fim. Tinha fé que ele seria
muito valente e enfrentaria a morte cada vez que ela ousasse em se acercar,
possuía esperança que Aaron sairia daquela completamente saudável e sem
nenhuma sequela para o contar o pesadelo vivido. Talvez estava sendo muito
positiva quando todas as adversidades pareciam estar vindo contra si, porém,
era das que acreditava que não há mal que dure cem anos e que depois de
cada tormenta chega a calma.
Deu um fraco sorriso quando sonhou desperta e se viu com os filhos
levando o esposo para a casa. Eles voltariam a ser uma bela e feliz família
como se a interferência de Sandra jamais tivesse existido. Aquele era o seu
sonho. Era aquilo que pedia todas as noites, pois não acreditava que era
merecedora de estar vivendo aquela situação e, se fosse, que Deus tivesse
piedade daqueles que amava.
Montserrat pegou na mão do esposo e entrelaçou os seus dedos com
os dele. Chorou bem baixinho e disse milhares de vezes que o amava.
**
No banheiro, Sandra outra vez realizava um teste de gravidez. Com os
olhos cerrados e com os dedos cruzados, rogava aos céus que o resultado
saísse positivo, mas igualmente voltou a se decepcionar.

Jogou o teste no interior da privada e xingou um palavrão que foi


motivado por sua fúria e frustração. Era verdade que tinha dificuldades para
manter a gravidez, no entanto, jamais teve dificuldades para engravidar, e
aquilo a fazia acreditar que estava sofrendo de outro tipo de infertilidade.
Golpeou a pia e terminou chorando de raiva e tristeza. Sabia que tinha
a Estrella e Nicolas e que para sempre seriam os seus filhos, porém, ainda
sentia falta de algo, ainda havia um vazio que nada preenchia e estava ciente
que se tratava da chegada de mais filhos.
Sandra secou as lágrimas quando escutou Ademar a chamar. Não
queria que ele soubesse de suas lágrimas e tampouco que estava intentando
engravidar, aquele seria um segredo que somente seria revelado quando já
tivesse sucedido e a ele jamais cobraria paternidade.
— Senhora — disse, quando a viu sair do banheiro.
— Que bom que está aqui, Ademar. Acabou o leite de Estrella,
necessito que você compre.
— Sabe que não é bom que estejamos andando pela rua, alguém pode
nos reconhecer.
— Sim, sei, por isso estou te dizendo que veja uma solução para que
não fiquemos tão em evidência. O meu dinheiro não irá durar para sempre,
necessito trabalhar, mas como irei fazer quando Montserrat não deixa de
acudir os meios de comunicação, maldita seja? — Irritou-se.
— Tranquila, senhora, não creio que isso irá perdurar por muito, logo
esses programas estarão cansados dela, e iremos bolar uma estratégia para
irmos do país sem levantar nenhuma suspeita.
— Mas como iremos fazer isso com duas crianças que sempre irão
chamar a atenção?

— Não sei, isso vamos ver, mas agora o mais importante é o leite da
menina, não?
— Sim. — Colocou as mãos na cintura e respirou fundo.
— Bom, vou à farmácia mais próxima. Vou aproveitar o horário para
comprar isso e o que falta.
— Sim, obrigada.
Ademar deu um leve sorriso e deixou o quarto.
Sandra correu até o notebook e acessou um site de bruxaria. Não
importava quais métodos iria utilizar para ter mais filhos, mas algo tinha que
funcionar.
No interior da cabana, Nicolas brincava com a irmã, sentado sobre o
tapete do quarto, enquanto no dormitório ao lado algumas divergências
começavam a surgir.
— O que está fazendo? — perguntou Ademar, adentrando o quarto.
— Eu vi em um site que se colocarmos uma colher de madeira
debaixo da cama do casal e uma fita rosa sobre o travesseiro, a gravidez
sucede. — Levantou-se do chão e pôs uma fita cor de rosa sobre o
travesseiro.
— Está intentando engravidar? — Franziu a testa.
Sandra não gostou de haver falado em demasia.
— Bom, sim, mas isso não significa que queira que você assume o
meu filho como pai, já disse que o nosso é somente sexo.
Ademar riu sem querer rir.
— Sandra, isso jamais irá passar, sou estéril — revelou.
Ela ficou surpresa.
— Como? Você é estéril?
— Sim.
— Por que não me disse? — Enojou-se.
— Porque eu não sabia que você queria ter filhos meus.
— Como não? Se estou toda a noite fazendo sexo contigo para que
você acreditou que seria, por sua bonita cara? Claro que não! — Irritou-se.
— Mas, Sandra, isso não é problema…
— Como não é problema? Você é estéril. Es-té-ril, Ademar, e quero
ter filhos. Como acredita que não há problema? — Cruzou os braços, sisuda.
Ele foi inocente ao fazer aquela confissão. Por um momento acreditou
que Sandra estava sentindo algum sentimento por ele ou que até mesmo
estava desfrutando de um bom sexo, no entanto, a única razão de ela ser
mulher dele todas as noites era porque desejava engravidar.

— Não, acredito! Não acredito que não tem nem uma gota de
sentimento por mim! — Magoou-se.
Ela revirou os olhos.
— Por favor, você é um estéril! Não me tem serventia alguma!
— Como você também é uma estéril! — Irritou-se. — Mas isso não
me importou, e sabe por quê? Porque te amo, porque há anos te amo em
silêncio, Sandra, porque há anos cumpro todas as barbaridades que me ordena
unicamente para estar cerca de ti, porque durante todos esses anos, amo mais
a ti que a mim mesmo e, quando descobri que você era estéril, eu segui te
amando, isso não me importou um pepino, senhora. — Alterou-se.

— Mas eu nunca te amei! — gritou.


Ademar ficou em silêncio.
— Sim, é certo que quando estamos juntos você me faz bem… Gosto
de estar contigo, mas eu não te amo, apesar de tudo sigo querendo a Ricardo
e… — falou, chorosa.
Ele deu as costas, furioso. Até depois de morto Ricardo seguia sendo
um empecilho entre eles.
— É terrível saber que segue amando a esse imbecil quando sou o
único que te amou e te ama de verdade. Não vê? Somos idênticos. Temos os
mesmos desejos e as mesmas dificuldades, sem embargo, para nós, não há
impossível, é isso que tem que ver, Sandra. Deseja uma pessoa que te ame,
mas neste mundo somente há um que faria isso sem se importar com os seus
defeitos, eu! — A mirou profundamente nos olhos.
Ademar saiu do cômodo, e Sandra secou as lágrimas.
— Tenho que ter outro filho! Não sei o que irei fazer, mas necessito
ter outro filho.
Sandra estava a cada dia, mais obcecada pela maternidade e suas
atitudes para alcançar os seus enfermos objetivos só iriam piorar.
**
Montserrat já havia perdido as contas de quantos cigarros havia
tragado naquele dia. Durante toda sua vida sempre foi contra os vícios.
Quando se casou com Aaron praticamente o obrigou a deixar o cigarro, pois
não iria tolerar vê-lo destroçando a própria saúde, sem embargo, com o
sequestro dos filhos o tabaco e bebida se converteram em fiéis companheiros.

Escutou alguém bater na porta quando se servia com um copo de


aguardente. Deixou a bebida de lado e caminhou até a entrada puxando o
trago do cigarro que trazia entre os dedos.
— Agente Guzmán? Sucedeu algo? Há alguma notícia dos meus
filhos? — questionou, nervosa.
O agente foi indiscreto ao observar o quão deplorável estava o estado
físico daquela mulher.
— Posso passar?
— Claro!
Ela permitiu a entrada dele com muita expectativa, afinal, sempre as
criava quando o policial se comunicava.
— Então, há alguma notícia sobre Sandra ou…? — Cerrou a porta.
— Não, senhora.
Mon arqueou as sobrancelhas, decepcionada.
— Então? — A voz dela soou embargada.

— A razão da minha visita é para informar que desafortunadamente


teremos que deter as buscas.
— Como? Por quê? — Indignou-se.
— Senhora, foi como eu já te disse, não há possibilidade que Sandra
Fuentes esteja no país e, mesmo se assim for, a polícia não pode trabalhar
unicamente para você.
— Por favor, policial, esse país é muito grande. Sandra pode estar
metida em qualquer parte. Não é justo! Não é justo que vocês deixem de
buscar a alguém que não apareceu. Sei que não sou a única pessoa com
problemas neste país, há muitíssimas, mas o meu caso não é menos
importante, se trata dos meus filhos! — gritou, começando a chorar.
— Sei, mas assim é a lei.
— Assim é a lei? Para quem a lei funciona, senhor? Para os
delinquentes? Sim, porque os únicos que desfrutam dela são eles.
— Senhora…
— Eu não aceito que detenham as buscas, senhor. Não aceito! —
advertiu, com o dedo em riste.
Eram seus filhos e ela iria fazer de tudo para encontrá-los.
**
O passar das horas foram apenas um impulso para Sandra ponderar
em várias maneiras de intentar ter outro filho. Ficou trancada no quarto e
jurou que não sairia dali enquanto não arrumasse uma maneira de engravidar,
nem que para isso fosse necessário…
Não! Ela negou de imediato a possibilidade de sair na noite e se
acostar com qualquer um, não era mulher para aquele tipo de coisas, todavia,
ainda existia formas de engravidar sem a necessidade de se acostar com
alguém.
Ademar lia o periódico sentado na varanda, quando viu Sandra sair.
Ela trajava um vestido negro com mangas longas, um tanto justo no corpo,
também usava um sapato scarpin de salto fino e para completar o look uma
peruca chanel de cabelo negro com franja.
Ele juntou as sobrancelhas e dobrou o periódico lentamente.
Levantou-se e a encarou, confuso.
— Posso saber o que significa isso?
Ela sorriu leve.
— Vou sair! — Tirou os óculos escuros, exibindo as lentes de
coloração azul que ocultavam sua íris de duas cores. — Por favor, cuide dos
meus filhos enquanto estou fora, sim? Prometo não tardar.
Sandra mencionou em se afastar, mas Ademar a impediu.
— Espera, para onde você acredita que vai? Estamos escapando da
polícia, como crê que pode sair por aí?
— Eu sei, por isso estou vestida assim. Ademar, não se preocupe,
sim? Eu já tenho tudo bem-planejado e nada irá sair mal.
— Mas para onde você vai? — Alterou-se.
— Não te importa. Não te devo satisfações da minha vida! — Irritou-
se.
Sandra foi embora, e Ademar controlou sua raiva, a xingando
mentalmente.
**
Montserrat estava deitada no sofá, agarrada ao porta-retratos da
família quando escutou alguém bater na porta. O ruído a fez cerrar os olhos e
dar continuidade às lágrimas. Não queria ver a ninguém, falar com ninguém.
O único que desejava era que alguém se reportasse a informando o paradeiro
dos filhos, mas essa pessoa parecia não existir.
— Montserrat!
A voz de Rosana a fez refletir um pouco melhor. Nos últimos seis
meses a amiga havia comparecido diversas vezes em sua residência, mas ela
não teve gana de a contestar.
— Montserrat. Amiga. Estou aqui para saber como está, para te
apoiar, por favor, não me deixe aqui como nas outras vezes.
Mon respirou fundo e levantou-se do estofado. Caminhou até a porta
sem se importar em calçar os chinelos.
Rosana já imaginava que a aparência da amiga não deveria ser uma
das melhores, mas o reflexo da alma daquela mulher era de causar espanto e
compaixão.
— Amiga, como está?
— Como acha? Assim! — Abriu os braços, chorosa. — Assim como
vê!
— Mon, você não sabe como sinto. Quando encontrava a Sandra eu a
via muito rara, sabia que não estava bem, mas…
— Mas nunca imaginou que ela pudesse estar me causando todos os
danos possíveis, verdade?
Montserrat caminhou até sala, e Rosana seguiu os seus passos.

— Claro que não. Vocês eram melhores amigas.


— Para você ver o quanto estivemos equivocadas. — Colocou o
cigarro na boca e o acendeu.
Rosana se assustou com a quantidade de cigarros e garrafas de bebida
que havia sobre a mesa de centro.
— Amiga, não é bom que utilize essas coisas, sim? — Sentou-se
diante dela. — Tem que estar saudável para recuperar os seus filhos.
— E se não, e se jamais os recupero?
— Não pensa assim.
— Como não vou pensar? Há seis meses não tenho os meus filhos,
Rosana! Há seis meses não tenho uma notícia sequer, o que quer que eu
pense? — Alterou-se, caindo em lágrimas.
Rosana baixou a mirada sem ter palavras para a consolar. Há alguns
meses havia perdido o filho que esperava e, apesar do seu bebê estar morto,
ela sabia que sua dor poderia parecer muito pequena ante a de Mon.

— Amiga, eu… Estou aqui para te ajudar no que seja, de verdade. Eu


já estive aqui milhares de vezes, tentei te visitar na cadeia, mas aquela
diretora não me permitiu e…
Mon assentiu com a cabeça.
— Te agradeço, Rosana. — Chorou.
Rosana se compadeceu da amiga e a abraçou forte. Desejava ter
milhares de palavras de apoio e consolo, mas naquele momento elas
sobravam.
**
Em um bar noturno do Valle de Bravo, as canções de Lupita
D’Alessio, que eram interpretadas por uma jovem cantora, alumbrava as
noites dos mais solitários.
Um homem guapo, maduro e bastante atraente, que desfrutava de um
uísque sentado próximo ao balcão, acabara de sofrer uma desilusão amorosa
depois de cinco anos de relacionamento sólido com sua noiva.
Sandra adentrou o estabelecimento e de imediato atraiu atenção dos
presentes, incluído as mulheres. O que despertou a curiosidade daquelas
pessoas não foi somente sua beleza, mas também sua veste nada adequada
para um bar que sempre recebia os trabalhadores no fim do dia. O
estabelecimento não estava restrito unicamente para aquele tipo de gente, no
entanto, uma mulher bela e sozinha sempre irá despertar interesse e
curiosidade.
Ela caminhou até o balcão, e o barman rapidamente se disponibilizou
para atendê-la. Pediu um suco de laranja e sentou-se ao lado do tal rapaz
solitário que, querendo ou não, levava tempo admirando-a.
Sandra se acomodou na banqueta e o cumprimentou com um sorriso.
— Olá.
— Olá. — Ele a cumprimentou erguendo a taça de uísque.
— Sozinho?
Ele deu de ombros.
— Pois sim!
— Que lástima. É tão guapo.
O homem solitário deu uma risada e tomou um gole da sua bebida.
— Mas isso não impediu minha noiva de me colocar os cornos com o
meu próprio chefe.
— Uau! — Riu sem querer rir. — Perdão, mas como você não se deu
conta, digo o quão próximo eles eram?
— Aparentemente nem se conheciam, mas por trás de mim, levavam
anos de uma relação extraconjugal, para que veja, não?
— Que lástima, de verdade. Sou das que acreditam que um homem
bonito jamais deve ser traído — contestou. — Obrigada — agradeceu o
barman, que a serviu a bebida.
— E você?
— Eu?
— Sim, está sozinha? Também foi enganada?
— Sim, mas por mim mesma.
— Como? — Riu.
Sandra gostou do sorriso espontâneo que ele exibiu. Aquilo indicava
que, por mais dolorosa que fosse o engano de sua noiva, sua presença era
capaz de fazê-lo a olvidar, nem que fosse por um instante.
— Bom, acreditei que uma mulher como eu jamais ficaria sozinha,
mas o que acredita?
— O quê?
— Estou há mais de três anos sem saber o que é um momento a dois,
creio que me entenda, não?
— Não. Não acredito. — Desconfiou.
— Por quê?
— Uma mulher guapa como tu? Impossível. — Riu.

— Um homem guapo como você foi enganado, não?


Ele ergueu uma das sobrancelhas em uma diminuta concordância.
— Então?
— Creio que nós dois estamos muito mal no amor.
Sandra sorriu leve, depois de tomar um gole do suco.
— Sim, talvez sejamos irmãos separados na maternidade — disse ela.
Eles riram.
— Se bem que seria uma lástima que fôssemos irmãos.
— Por quê? — Ele não compreendeu.
— Sou contra a prática de incesto, ou seja…
O rapaz riu. A achou demasiadamente irrefletida e uma excelente
opção para o quitar do mar de tristeza que vivia ultimamente.
— Qual é o seu nome?

— Selene Tinoco. Muito prazer.


— Lindo nome. — Sorriu.
— E o seu?
— Santiago Colina, mas pode me chamar unicamente de Santis.
— É um gosto te conhecer… Santis.
Eles sorriram, sabendo que naquela noite viveriam algo muito mais
intenso.
Depois de tomarem uns drinques e se conhecerem um pouquinho
melhor — ao menos o que se pode conhecer de uma pessoa com apenas
algumas horas de conversa em um bar — Santis foi extremamente cavalheiro
ao questionar a bela dama se ele poderia a acompanhar em casa, ela soube ser
discreta e com um belo sorriso questionar: “Te molestaria que eu fosse quem
te acompanhasse em sua casa?”
Santiago deu um sorriso e não negou o convite da moça. Necessitava
olvidar a má experiência que tivera e nada mais incentivador que uma
atraente e guapa mulher.
O casal adentrou a puros beijos no quarto. Santis já não controlava a
gana que tinha de protagonizar um ato de luxúria com a desconhecida. A
beijava ardentemente enquanto suas mãos eram destemidas ao visitar cada
parte do corpo dela, incluindo as mais sensíveis, que a arrancava indiscretos
sussurros de prazer.
Sandra arquitetou todo aquele plano com a intenção de usar um
método um tanto excêntrico para lograr o que desejava, sem embargo, não
contava que encontraria um tipo tão guapo que estava disposto a levar ao
paraíso.
Santis empurrou a Sandra na cama e deitou o seu corpo sobre dela,
seguindo o beijo cadente que davam. Ela já nem cogitava na possibilidade de
interromper aquele momento, além de estar passando muito bem, as mãos
confiadas daquele homem a recordava as de Ricardo, e vivê-lo novamente era
um sonho que há muito deixara de existir.
No entanto, nem tudo poderia sair como ela queria.
— Vou buscar o preservativo! — disse, saindo de sobre ela.
— Não! — Ergueu o tronco de imediato.
Santiago ficou suspicaz.
— Como?
— Digo, não é necessário. Tomo pílulas. — Riu.
— Sim, mas sempre é bom se cuidar, ainda mais com as doenças
sexualmente transmissíveis.
Ela o mirou, descrente.
— A ver… Está me chamando de enferma, é isso? — Ofendeu-se.
— De nenhuma maneira, mas apenas nos conhecemos, e eu…
— Ok. Ok. Olvide, sim? — Por mais ultrajada que estivesse, não
poderia esquecer das verdadeiras razões de estar ali. — Necessito usar o seu
banheiro. — Levantou-se.

— Tudo bem. Eu te espero.


Sandra deu um leve sorriso e pegou sua bolsa.
Minutos mais tarde quando ela saiu do banheiro, Santiago agarrou-a
pela cintura, seguindo o ato do ponto onde haviam parado.
Sandra, que segurava uma seringa na mão que tinha colocada na parte
detrás do corpo, foi ágil ao cravá-la no pescoço dele.
Santis arregalou os olhos e se apoiou em Sandra quando sentiu as
pernas enfraquecerem e tudo girar à sua frente. Ela o pediu tranquilidade e o
ajudou a sentar-se na cama, mas em pouco tempo, Santiago estava
completamente adormecido.
Sandra deu um sorriso e o admirou. Tudo fora mais fácil que havia
pensado.
— Agora sei perfeitamente o que sentia Danna Pabuena.
Quando Sandra voltou para a cabana, as horas do relógio já enchiam a
Ademar de raiva e preocupação. Tinha raiva, por ela o tratar com tanta
indiferença quando ele era capaz de dar sua vida para vê-la bem, e sua
preocupação era por temer que por um descuido sua amada tivesse sido
capturada pela polícia ou que até mesmo algo ruim tivesse a sucedido.
Porém, quando a viu cruzar a porta de entrada, um sentimento dele deixou de
existir e o outro estava difícil de controlar.
— Boa noite! — cumprimentou, adentrando a cozinha.
— Boa noite! — Ela pôs as chaves sobre a mesa e caminhou até o
refrigerador. — E as crianças?
— Já estão dormindo.
— Que bom! — Pegou a garrafa com a água e a pôs sobre a pia.
— Para você ver o quanto é tarde — resmungou.
— Ademar, até quando você seguirá me controlando, hein? — Irritou-
se.
— Não estou te controlando porque quero, e sim porque estamos
juntos nessa e me importa saber tudo o que faz. — Alterou-se.

— Ok, você quer saber? — Cruzou os braços, sisuda. — Eu estava


com um tipo que passou quase toda a noite me fazendo amor. É isso que quer
saber? Pois, já sabe!
Ademar cerrou o semblante, agastado.
Ademar sabia que não tinha direito de cobrar nada, tampouco a
reprovar por sua atitude, mas o que sentia o fazia olvidar da razão e arremeter
de ciúmes.
— Como se atreveu?
— Perdão?
— Como se atreveu? — Alterou-se.
Ademar foi para cima dela e agarrou-a pelos ombros.
— Como se atreveu a se acostar com outro tipo? — gritou.
— O que te passa? — Ela o empurrou, assustada — O que faço da
minha vida não te diz respeito, Ademar. Ademais, eu sempre tratei de deixar
as coisas muito claras entre nós dois e agora que sei que você é incapaz de
me engravidar, você e eu já não temos nada a ver! — gritou.
— Sim, claro, porque o que sinto por ti te não te importa, verdade? —
gritou, enfurecido.
Sandra revirou os olhos e respirou fundo.
— Eu jamais prometi te corresponder, Ademar, se você criou falsas
expectativas, a culpa não é minha. Sim, o que temos no quarto é muito
bonito, é maravilhoso, mas eu não te quero.
Ele assentiu com os olhos umedecidos.
— E não há chance que eu te faça se apaixonar por mim? — Acercou-
se a ela e a encurralou contra a pia.
Ela o mirou nos olhos e deu de ombros.
— Eu não sei, eu não posso assegurar o que irá suceder amanhã, mas
hoje sei o que sinto, e nem chega a ser a sombra de um amor. Me perdoa.
Ademar balançou a cabeça positivamente e a acariciou docemente o
rosto. Agradeceu pela sinceridade de Sandra e a maneira que ela pareceu
lamentar por o fazer dano, mesmo que algumas vezes suas palavras e atitudes
o ferissem demasiado.

Eles mantiveram o contato fixo por alguns segundos até que Sandra
afagou os braços dele com as duas mãos e as levou ao rosto.
— Te quero na minha cama esta noite!
— Mas…
Ela o silenciou, colocando o dedo sobre os lábios dele.
— Olvida o que eu disse, apenas me faça amor — pediu em um
sussurro.
Ademar foi ágil ao erguê-la em seus braços e a comer a beijos. Sandra
passou as pernas em volta da cintura dele e ele a pôs sobre a pia. Juntos
arrancaram a roupa um do outro, dando início a um intenso e prazeroso ato de
luxúria.
Os dias voltaram a passar, e Sandra novamente se sentiu afortunada
quando fez um teste de gravidez e descobriu que estava grávida. Daquela vez
elegeu guardar novidade por um momento somente para si, não por medo a
reação que Ademar poderia ter quando se inteirasse que era verdade que ela
"supostamente'' havia tido relações com um desconhecido, mas sim pelos
conselhos que recebera em um site de bruxaria que dizia que a mulher jamais
deve anunciar a gravidez antes do terceiro mês.
Sandra criou ilusões e hipóteses sobre aquilo, acreditou que a
responsável por todos os seus abortos anteriores havia sido sua ansiedade que
a fazia contar ao mundo que esperava um filho. Na certa já não tinha um
problema, e agora finalmente teria o seu tão sonhado filho.
Sem embargo, os sonhos voltaram a se romper quando em uma
manhã Sandra tivera um novo aborto e, dessa vez, com apenas quatro
semanas de gestação.
Ademar adentrou o banheiro e assustou-se quando viu Sandra chorar
sentada frente a privada.
— O que passou?
— Acabo de perder o meu filho! — contou, chorando.
— Quê? — Surpreendeu-se. — Estava grávida?
Ela assentiu com a cabeça enquanto chorava.
— Ou seja, então você realmente se acostou um…?
— Eu não me acostei com ninguém, Ademar. Não necessitei fazer
isso para engravidar, mas agora isso é o que menos importa porque eu já não
estou grávida para sua felicidade. Para sua felicidade, sigo sendo uma mulher
inútil incapaz de dar a vida! — Alterou-se, em lágrimas.
— Claro que não! Eu jamais me alegraria com sua tristeza, senhora!
Ela revirou os olhos, sem acreditar em uma só palavra. Às vezes
sentia que todos se alegravam por sua maldita incapacidade.

— Sem embargo, penso que você deveria deixar de tentar.


Sandra cerrou o semblante. Escutar aquilo de quem sempre esteve
para ela e que entendia suas frustrações foi um vultoso desengano.
— É o melhor, essas tentativas podem prejudicar sua saúde, o seu
bem-estar, você…
— Escuta muito bem uma coisa, Ademar, eu nunca vou deixar de
intentar! Jamais! Nem que eu morra, mas vou ter um filho, isso eu te juro!
Vou ser mãe, vou dar a vida, nem que tenha que vender minha alma para o
demônio para lograr, mas vou ter filho! — asseverou.
Ele apenas negou com a cabeça e lamentou por não saber quais
métodos utilizar para a convencer que aquelas tentativas poderiam ser um
suicídio.
Minutos mais tarde, Nicolas assistia o desenho animado acompanhado
da irmã quando uma propaganda sobre a campanha contra os maus-tratos
infantil o chamou atenção. Na propaganda, um menino era golpeado por um
sujeito que deveria protegê-lo e cuidá-lo. Aquele não era o caso dele, porque,
querendo ou não, já não havia divergências com Sandra e Ademar raramente
o mirava, mas não deixou de se recordar das diversas vezes que Montserrat o
dissera que, se algum dia estivesse em uma má situação, deveria acionar a
polícia.

Nicolas mirou ao redor e viu que não havia ninguém cerca a sala de
estar. Pegou o lápis de cor e anotou os três números que apareceram na tela.
Ademar surgiu repentinamente na porta.
— Nicolas — chamou, acercando-se a ele.
O garoto rapidamente virou a página e sorriu.

— Onde está sua mãe?


— Saiu.
— Saiu? — Juntou as sobrancelhas. — Aonde? Ela disse para onde
iria?
Nicolas negou com a cabeça.
— Mas disse que não iria tardar.
Ademar passou a mão no cabelo e respirou fundo. Sandra estava
muito melancólica com a perda do filho e aquela saída repentina não
avizinhava boas coisas.
Na praça de Valle de Bravo, Sandra caminhava outra vez disfarçada.
Decidiu deixar a cabana e ir até ao centro da cidade, pois necessitava de um
ar e estar sozinha. Mais uma vez suas expectativas foram rompidas, mais uma
vez esteve comprovado que ela era um lixo de mulher e o que o mais belo do
universo ela simplesmente era incapaz de exercer, dar a vida. Qual era o
problema com ela? Por que não podia ser como a maioria das mulheres e ter
o prazer de ter o seu filho crescendo pouco a pouco dentro de si na mesma
medida que cresce o seu amor por aquele ser que ainda não conhece? Por que
para ela tinha que ser impossível cumprir um sonho tão belo quanto aquele?
A falta de respostas para essas perguntas era o que a tornava mais débil e
mais obcecada por seu desejo, pois, simplesmente não aceitava a sua
incapacidade e acreditava que o seu sonho tinha que se cumprir a qualquer
custo.
Sandra secou mais uma vez as lágrimas e respirou fundo. Prometeu
para si mesma que já não iria chorar. Tinha que estar bem para as crianças
que a aguardavam em casa e para seguir intentando, por mais que naquele
momento sua alma fosse destroçada pela dor.
Observou as pessoas que andavam por ali e as crianças que se
divertiam com os brinquedos, soltando altas risadas. Daria tudo para ser mãe
de uma delas e estar sorrindo enquanto assistia os seus filhos se divertirem.
Esse sempre foi o seu maior sonho, mas jamais imaginou que ele a arrancaria
tantas lágrimas. Ajeitou os óculos escuros quando viu um casal que se sentou
em um dos bancos com a filha de cinco meses. Sandra encantou-se com a
menina, estava uma completa princesa com sua roupinha rosa e touca da
mesma cor.
Viu a jovem mãe colocar a filha no carrinho ao lado e dar atenção a
um jovem garoto, que segundos mais tarde levantou-se exasperado por não
suportar as cobranças financeiras da mãe da sua filha. Os dois seguiram
discutindo por mais alguns minutos até que o rapaz decidiu dar as costas e ir
dali. Exaltada, a mãe deu a espalda um minuto para a pequena quando
arremeteu contra o ex-companheiro e foi nessa fração de tempo que Sandra
pegou a menina e escapou com ela.
Quando a garota se deu conta do desaparecimento da filha, entrou em
desespero. Começou a chorar e a gritar por sua unigênita e, por mais que a
buscasse, a sequestradora já estava longe.
**
Nicolas aproveitou a distração de Ademar para adentrar o quarto em
busca do seu celular. Cerrou a porta a passo e caminhou velozmente até a
mesa de cabeceira. Abriu a gaveta e a encontrou vazia. Olhou para o pedaço
de papel que trazia em mãos e leu mais uma vez o número que havia anotado.
Sabia que o que planejava fazer era se arriscar demasiado, se fosse pego
seguramente seria castigado ou até mesmo seria golpeado como o menino da
propaganda, no entanto, há muito queria sair dali levando consigo a irmã e já
era hora de fazer algo para que aquilo sucedesse.

O garoto olhou para a poltrona e viu a jaqueta de Ademar sobre ela.


No mesmo momento teve um flash das vezes que o viu colocar o celular no
interior do bolso da peça. Imediatamente correu até ela e começou a
vasculhar os bolsos até que encontrou o que tanto buscava.
Olhou para o pedaço de papel e rapidamente digitou o número, sendo
contestado por uma simpática senhorita.
— Qual é a sua denúncia?
— Quero minha mãe!
Nicolas se assustou quando o aparelho foi arrancado abruptamente de
suas mãos. Ergueu a mirada e viu o semblante sisudo de Ademar, que
encerrou a chamada e o encarou.
— O que pensa que está fazendo?
Os olhos do menino se encheram de lágrimas.
— Te fiz uma pergunta, menino! — gritou, o segurando
agressivamente pelos braços.
Nicolas chorou de medo e dor.
— Não chore, sim? Te dissemos milhares de vezes que não deveria
ser desobediente, Nicolas, mas mira o que faz, não? Na primeira
oportunidade quer nos delatar, por quê? Aqui está bem, não te falta nada.

— Quero minha mãe.


— Sua mãe é Sandra Fuentes, é bom que tenha isso bem gravado.
— Não, ela não é minha mãe! — gritou, lagrimando.
— Claro que é! — gritou, acirrado.

Nicolas chorou.
— Escuta uma coisa, menino, se você se comporta mal, irei te mandar
para um lugar muito pior que esse. É isso que quer? Você escolhe! — O
afrontou, sisudo.
O garoto soltou-se de Ademar e saiu correndo, deixando o papel com
o número que anotara cair.
Ademar o pegou e deu uma risada.
— Menino estúpido!
**
Sandra chegou a cabana se comunicando muito feliz com a menina,
que chorava em seus braços.
— Tranquila, meu amor. Seguramente está com fome, mas tudo bem
que a mamãe já irá te preparar algo de comer. Não se preocupe. — Cerrou a
porta e jogou as chaves sobre a mesa.
— Senhora, onde…
Ademar ficou estático quando a viu com um bebê que não era
Estrella.
— Sandra… — Acercou-se um tanto assustado. — O que é isso?
— Ah, é linda minha filha, não? — Sorriu e acariciou o cabelo da
menina, que começava a se acalmar.

Ele ficou mais confuso.


— Como?
— Sim.
— Tua filha?

— Sim — contestou, impaciente. — Mira, Ademar, fui até a praça dar


uma volta e por casualidade do destino terminei conhecendo essa menina
linda que tinha uns pais terríveis, diga-se de passagem.
— Senhora…
— Eram dois moleques que não queriam nada da vida e o único que
sabiam fazer era pelear por dinheiro, por favor, essa criaturinha merece um
lar tranquilo, estável, e posso a dar. — Beijou a cabeça da menina, que
começou a adormecer em seu colo.
— Sandra, está dizendo que roubou essa menina? O que te passa? A
polícia pode nos alcançar. — Alterou-se.

— Não, não vai nos alcançar. Ninguém percebeu a minha presença,


eu te garanto, ademais, da maneira que aquela menina era uma estúpida,
seguramente até agora não deu falta da filha. Há tantos maus pais do mundo e
eu aqui disposta a cuidar de todas as crianças que me coloquem em frente.
Ademar semicerrou os olhos e respirou fundo. Como fazer Sandra
compreender que a cada dia suas atitudes se tornavam mais desatinas?
**
Na capital, Montserrat já não sabia quantas voltas havia dado na
cidade distribuindo panfletos com as fotografias dos filhos e dos
sequestradores. Já havia o colado nos postes, nos muros, os entregues em
lojas, lanchonetes, restaurantes, todos os lugares possíveis, desde os mais aos
menos frequentados, todos eram indispensáveis.
Mesmo assim, era inegável que às vezes se sentia fraca e pouca
expectativa que algum dia seria recompensada por seus esforços.
— Olá, senhor Francisco, vim te trazer mais panfletos.

Mon os colocou sobre o balcão.


O senhor já de idade que era proprietário de um bar que ficava a
poucos passos da residência de Montserrat, ergueu a mão exibindo os
panfletos que ela havia deixado horas antes.
— Já passou aqui hoje, filha.
— Ai, perdão, senhor Francisco. Eu não sei onde tenho a cabeça, quer
dizer, sei onde a tenho e…
— Não se preocupe. Os cartazes de busca dos seus filhos e desses
delinquentes jamais serão demais, sabe que tem o meu apoio.
— Obrigada, senhor Francisco, eu não sei como agradecer, se não
fosse por ti que também me ajuda a distribuir isso, eu…
— Filha, hoje eu por ti, amanhã tu por mim, não se preocupe. Não
tem que agradecer nada.
Ela assentiu com a cabeça.
— Como está?
— Como vê, a cada dia pior… Tenho medo, tenho muito medo de
nunca mais voltar a ver os meus filhos, tenho muito medo que eles possam
estar mortos, não sei… Estou desesperada e sinto que se não os encontrar
logo vou enlouquecer, de verdade! — Chorou.

Ela levava muito tempo sendo forte e agora estava a ponto de desabar.
— Tem que ter fé, filha. Confie em Deus e na Virgem.
— Para quê? Para que vou confiar em quem permitiu que os meus
filhos fossem levados por essa louca? — Indignou-se.
Francisco negou com a cabeça.

— Todos temos a nossa história, as nossas provas, e se Deus te elegeu


para passar por isso é porque ele sabe que sua filha é demasiado forte e irá
superar facilmente esse mau momento.
— Eu não sei qual é a intenção de Deus com tudo isso, senhor, mas se
ele arrebata os meus filhos, jamais irei o perdoar.
Mon era uma combustão de sentimentos. Quando não estava cheia de
esperança, estava repleta de lágrimas e rodeada de pensamentos negativos e,
naquele momento, o que reinava em si era a raiva e a indignação.
Ao passo que Francisco saiu para atender um freguês, Mon sentou-se
e fumou um cigarro enquanto organizava na mente as próximas ruas que iria
percorrer.
Um funcionário ligou o televisor, e o que era noticiado não roubou a
atenção somente de Montserrat, como também de todos os presentes.
— Uma criança de cinco meses foi sequestrada há poucos minutos
em uma praça no Valle de Bravo. A mãe da menor alegou as autoridades
locais, haver se distraído um segundo enquanto conversava com o ex-
companheiro e foi aí que a filha desapareceu. Ainda não temos informações
se há alguma testemunha que possa haver visto quem levou a menina ou se
há algum suspeito. A única informação que temos é que a menina se chama
Barbara Andrade Cristo, ela trajava um conjunto cor de rosa e…

Mon desviou a mirada do televisor e ponderou:


— Por que pressinto que Sandra tem algo com isso?
Montserrat não sabia se o que sentira tinha a ver com a intuição de
mãe ou estava se tornando paranoica por causa do sequestro dos seus filhos,
porém, não conseguiu quitar da cabeça por um só momento que Sandra
poderia estar involucrada no desaparecimento da bebê do Valle de Bravo.

Era inequívoco que a ex-amiga havia a elegido para ser a vítima da


sua obsessão, e não por odiá-la, e sim porque roubar a filha da melhor amiga
poderia parecer muito mais fácil quando a conhecia perfeitamente e assim
poderia a manipular à sua maneira. Porém, esse fato não quitava que Sandra
tinha um sério problema psicológico e, que se não fosse Mon a escolhida,
havia sido qualquer outra mãe, pois, como um vício, Sandra necessitava
suprir o seu desejo cada vez que estivesse em abstinência e estava claro que
jamais iria se contentar unicamente com os seus filhos.
Certa disso, Montserrat deixou o bar do senhor Francisco, alegando
que regressaria assim que pudesse. Adentrou o primeiro táxi que surgiu em
frente e pediu ao motorista que tocasse para a delegacia. Era necessário saber
detalhe sobre aquele novo e estranho desaparecimento.
— Agente, necessito falar contigo. É urgente! — Guzmán apenas
havia saído da sala quando foi abordado pela pessoa que ele mais tinha
contato ultimamente, Montserrat.
— Senhora, ainda não temos novidades sobre o seu caso, assim que
tivermos, entramos em contato. — Tentou se afastar, mas ela o impediu.
— Ah, isso também não é nenhuma novidade, senhor agente! —
ironizou. — Sabe, às vezes eu me pergunto se realmente faz o seu trabalho ou
somente está acalentando um lugar para não perder o salário?
— Claro que faço o meu trabalho, senhora! — Ofendeu-se.
— Pois, não parece! — Elevou a entonação. — O senhor sabia que
uma criança de cinco meses acaba de ser sequestrada em uma praça no Valle
de Bravo?
— Não.
— Ah, isso também não é uma novidade, verdade? — ironizou.
O agente suspirou impaciente.
— O que quer que eu faça, hein? Esse inquérito não tem nada a ver
com o meu departamento, ou a senhora não sabe como funciona a polícia?
Guzmán afastou-se, e Mon seguiu os passos dele.
— Sei perfeitamente como funciona, senhor agente, mas estou
seguríssima de que Sandra tem algo a ver com o desaparecimento dessa
menina.
O policial virou-se, achando infactível a possibilidade.
— Por favor, não pode culpar a Sandra Fuentes por tudo. Sabe
quantas crianças desaparecem todos os dias? Muitíssimas, e algumas são
levadas até mesmo por seus familiares. Ou seja, o fato de uma criança, haver
desaparecido no Valle de Bravo não significa que Sandra Fuentes tenha se
convertido em uma sequestradora em série.
— Por favor, senhor, quem comete um delito uma vez, comete duas,
comete três, e Sandra Fuentes não é uma exceção. Por isso, eu te exijo que
entre em contato com o departamento da polícia de Valle de Bravo e faça
uma investigação mais afunda disso.
— Senhora...
— Por favor, isso não é difícil. Hoje em dia todos os departamentos
têm contato um com os outros, não será impossível conseguir uma mísera
informação. Por favor, são os meus filhos!
Guzmán encarou os olhos umedecidos de Mon e outorgou o seu
pedido.
**

Em Valle de Bravo, Ademar ainda não sabia como reagir mediante a


mais nova moradora de sua casa. Ligou a TV e nos principais noticiários do
país já se falavam do sequestro de Bárbara. Viu a mãe da menina chorar em
uma entrevista e não teve paciência para assistir até o fim. Da sala de estar
dava para se escutar quão feliz estava Sandra com a presença daquela menina
em sua vida. Já havia a banhado, a dado de comer e apresentado a Nicolas e
Estrella como sua irmã.
Ademar estava ciente que o absurdo que ela cometera ao sequestrar
aquela menina era devido à frustração que teve ao lidar com um novo aborto.
Ela outra vez criou milhares de expectativas com aquela gestação e
novamente terminou desiludida e, para não romper em dor, necessitou de
algo que fosse sua injeção de alegria passageira.
— Olá, meu amor, sou sua mãe! — disse Sandra, acariciando o rosto
da menina, que a mirava entretida com os seus gestos e afagos.
Ademar respirou fundo e adentrou o quarto. O fazia bem ver a mulher
que amava sorrir e, aparentemente, estar bem consigo mesma, no entanto,
ainda existia temas muito sérios que discutir.
— Senhora!
— Olá, Ademar! Que bom que está aqui, necessito que você me ajude
a escolher um novo nome para essa princesa.
— Reina. — Deu de ombros.
— Reina? — Ela gostou da sugestão.
— Sim, toda a princesa se converte em rainha, não?
— Sim, gostei. — Sorriu e voltou a olhar para a menina. — Minha
filha será uma reina como sua mãe.

Ademar suspirou pesado e caminhou até o outro lado da cama.


— Senhora, eu não quero ser estraga prazeres, mas não creio que seja
uma boa ideia que essa menina fique conosco.
— Não, você não está sendo estraga prazeres, mas como não posso
ficar com Reina? É minha filha! — Pegou a Reina no colo e a abraçou.
— Não… — Ele engoliu as palavras que desmentiam a afirmação. —
Sandra, pretendemos escapar, com essa menina será muito mais difícil, ainda
temos a Nicolas e Estrella. As crianças necessitam de passaporte.
— Não é necessário escaparmos. — Levantou-se com a menina no
colo.

— Como? — Franziu o rosto.


— Sim, podemos seguir muito bem aqui em Valle de Bravo. Já temos
os documentos falsos, podemos fazer um câmbio no visual e já, ninguém irá
nos encontrar. Podemos até mesmo construir o próprio negócio para termos
um emprego, mas não vou me livrar dos meus filhos, Ademar, eu não posso.
Uma mãe jamais deixa os seus filhos!
Ele negou para si mesmo aquele novo parecer de Sandra. Antes,
estava desesperada para escapar com medo que alguém os deslindassem, mas
agora, tudo havia cambiado de maneira inesperada e o risco que corria já não
a quitava o sono, era certo que a obsessão daquela mulher seria o que levaria
tudo a perder.
— Sandra, isso não me parece uma boa ideia, de verdade. Só estamos
há duas horas e meia da capital, não é tão difícil nos encontrar.
— Tudo bem, então podemos buscar uma forma de irmos a outro
lugar, mas não vou a nenhuma parte onde os meus filhos não possam vir
comigo, me perdoe!
Ademar respirou fundo e decidiu não intervir nas decisões de Sandra.
Ela tinha suas convicções, e lutar contra elas seria dificílimo.
O tempo voltou a passar rapidamente. Dias se converteram em
semanas, e semanas se converteram em mais torturáveis meses para
Montserrat, que há um ano não tinha uma sequer informação sobre os filhos.
Naquelas alturas, já não sabia para onde correr, para qual meio acudir
e para quem pedir ajuda. A polícia havia detido as buscas no oitavo mês,
disseram que já não havia nada que pudessem fazer, mas sempre estariam
disponíveis quando ela necessitasse de ajuda.

Aquela foi a maior hipocrisia que ela pôde escutar, eles falaram como
se Nicolas e Estrella tivessem regressado a casa ou como se a ela já não
importasse o sequestro dos filhos, mas não era assim, a cada dia Mon se
convertia em uma completa insana em busca de informação, e a falta delas
estava prestes a enfermar.
Viajou ao Valle de Bravo com a intenção de saber mais sobre o caso
da menina desaparecida, mas nem ali pôde se inteirar de algo e tampouco
logrou a ser útil na vida daquela jovem mãe que, como ela, também chorava e
sofria pela ausência da filha.
Naquele momento Nicolas já tinha os seus nove anos, aos poucos se
convertia em um rapazinho lindo e esperto como sempre fora, e Estrella
seguramente já era uma menina muito aventada que, já pronunciava algumas
palavras e dava os seus primeiros passinhos. Passinhos que, por desgraça do
destino foi impedida de acompanhar, e palavras que não eram direcionadas a
ela.
— Mamãe!
Sandra deu um largo sorriso quando escutou Estrella a nomear de tal
maneira.
— O que disse, meu amor?
Estrella riu.
— Mamãe! — repetiu, jogando o brinquedo sobre o sofá.
Ademar adentrou a sala de estar com Reina nos braços.
— Sandra, eu…
— Papai.
Ele não era um homem muito emotivo, mas ficou feliz em ser
chamado daquela maneira.

Sandra levantou-se e acercou-se a ele com um doce sorriso.


— Oxalá que esteja feliz.
Ademar sorriu.
— Nem imagina o quanto, meu amor. Finalmente começamos
entender o que é a felicidade.

Eles sorriram e deram um beijo. Com o passar do tempo, Sandra


verdadeiramente começou a querê-lo. Permitiu que ele acercasse mais e
mostrasse todas suas qualidades e defeitos que pudessem genuinamente a
enamorar.
Nada começou da noite para manhã, Ademar teve que lidar com
muitas rejeições e dúvidas por parte dela, teve que suportar às vezes que eles
faziam amor e ela sem desejar terminava mencionando a Ricardo, teve que
lidar com suas alegrias e tristezas, com seus dias e noites de tormenta, com
sua gana de viver e com o seu profundo desejo de nunca mais despertar, mas
ao fim podia dizer que valeu a pena e que depois de tanto lutar estava ao lado
da mulher que sempre amou.
— O que passa com essa princesinha? — Sandra quitou a Reina dos
braços de Ademar e a deu um beijo.
— Já está na hora de ela comer, vou preparar algo muito rápido.
— Sim, meu amor, tranquilo. Ah, depois me diga que ideia tem para
os negócios que iremos montar, digo a ideia de uma loja de antiguidade seria
boníssima para um lugar como Valle de Bravo, mas creio que lidar com gente
diariamente não seja adequado para nós. Sei que por fim nossas caras já não
estão na tele, mas ainda creio ser muito cedo para sermos tão confiados.
— Eu também penso o mesmo, por isso tenho uma ideia e o único que
falta é saber se você coincide.
— Como contratar a alguém que fique responsável pela loja, não nós?
— Sim, ou também compramos imóveis para venda e aluguel, seria
uma renda garantida, não?
— Sim, muito. — Ponderou. — Bom, depois conversamos sobre isso.

— Claro.
Ademar a deu um selinho e foi para a cozinha.
Sandra sentou-se no sofá e ficou se divertindo com as meninas.
Nicolas se aproximou.
— Olá, meu amor. Se está com fome, o papai já está preparando a
comida.
— Ele não é o meu pai! — Sentou-se na poltrona, enojado.
Sandra semicerrou os olhos e respirou fundo.

— Nicolas, nós já conversamos sobre isso, meu amor. Sou sua mãe, e
Ademar é o seu pai.
— Ele não é o meu pai, e você tampouco é minha mãe. Minha mãe é
Montserrat! Montserrat! — gritou, antes de sair correndo.
O garoto há muito estava intentando dissimular que aquela situação
não o afetava. Ainda se lembrava dos conselhos de Montserrat e Ricardo e
queria segui-los para que tudo terminasse da melhor maneira, mas aceitar
Ademar como pai era algo que não conseguia digerir.
Ademar se aproximou depois de escutar o arremete de Nicolas.
Sandra levantou-se apreensiva.
— Meu amor, não faça caso ao que disse Nicolas, sim? Ele é um
menino muito rebelde que poucas vezes está em seus dias.
A relação abusiva que teve com Ricardo ainda era uma ferida muito
fresca e, com isso, tinha medo de perder o amor de Ademar por sua
incapacidade ou pela rebeldia de alguns dos "filhos".
— Não se preocupe, meu amor. Eu sempre quis ter um filho varão,
logo irei saber como conquistar o carinho de Nicolas.
Sandra apenas assentiu com a cabeça e forçou um sorriso. O que ele
dissera foi para a tranquilizar, mas terminou a alarmando.
**
Na capital, Montserrat estava novamente frente ao leito do marido. O
segurava a mão enquanto incansavelmente o dialogava com as ocasiões
vividas, planos que ainda tinham por cumprir e o quanto a daria gosto o ver
saudável outra vez. Era difícil manter o sorriso no rosto e não chorar a cada
tempo enquanto dissimulava que tudo estava bem.
Os médicos disseram que Aaron estava em coma profundo e que seus
reflexos eram quase inexistentes, no entanto, a aconselharam a estar ali todos
os dias, a conversar com ele e, quem sabe, podia ser escutada. Era por isso
que ela pedia, era por isso que ela rezava, queria acreditar que ele a escutava
e que não era com um cadáver morto que conversava todos os dias. A vida já
havia a arrebatado os seus filhos, tinha que também levar o seu marido?
Minutos mais tarde, Mon já saia do hospital quando encontrou com
Rosana.
— Mon, que bom que está aqui. — A cumprimentou com um abraço.
— Rosana, que faz aqui? — Estranhou.
— Eu estive em sua casa, como não te encontrei, interpretei que
estava aqui. — Desfez o amplexo.
— Sim, vim ver a Aaron como todos os dias.
— E como ele está?
— Na mesma. Os médicos não têm esperança. — Chorou.

— Creio que nem tudo está perdido. Cedo ou tarde Aaron irá
despertar, estou segura!
— Oxalá. — Secou as lágrimas.
— Mon, eu estava te buscando para te fazer um convite.
— Um convite? — Estranhou.
— Sim, esse fim de semana vou a Valle de Bravo com algumas
companheiras de trabalho, e quero saber se quer vir comigo. Obviamente não
é uma ocasião para diversão, mas quero que você relaxe e que dê espaço à
sua mente para novas coisas.
— Perdão, Rosana, mas não estou para festas.

— Não, não é para festa, e sim para que você relaxe.


— Dá no mesmo. Obrigada pelo convite, mas enquanto não tenha a
minha família de volta, nada mais me importa nesse mundo. Nada!
Mon reconheceu as boas intenções de Rosana, porém, não as
necessitava naquele momento.
Na manhã seguinte, Montserrat não logrou a ficar por muito tempo na
cama. Daquela vez nem as medicinas que ingeriu para ajudá-la a dormir
haviam funcionado. A madrugada fora a base de cochilos e entre um deles as
crises de ansiedade voltaram a atacar para destruir de vez o seu estado físico e
psicológico.

Depois que tomou um banho, adentrou o quarto, enrolada com a


toalha. Ligou o rádio e no preciso momento a música que tocava foi
interrompida por um dos locutores, que falou bastante animado:
— Muito bom dia, México lindo e querido! Hoje, 12 de dezembro, dia
da nossa padroeira, Virgem de Guadalupe. Oxalá que nos alague de muita
benção e…
Mon olhou para o calendário que estava sobre a mesa de cabeceira e
refletiu.
**
Montserrat decidiu fazer as pazes com Deus e a Virgem e foi até uma
igreja. Ajoelhou-se diante da imagem da Virgem de Guadalupe e rogou por
um milagre.
— Por favor, Virgenzinha, traga de volta os meus filhos, por favor…
Devolva a minha família. Eu já não suporto mais. Já não suporto essa tortura
de estar longe deles. Essa tortura de buscá-los e não os encontrar. Estou fraca,
Virgem, já não seguirei suportando por muito, então, por favor, me ajude.
Traga a minha família de volta. Eu te suplico! Te juro, Virgem, que se
devolve a minha família, batizo a minha filha caçula com o seu nome. Em seu
dia, eu te prometo!
**
Sandra saiu da cama muito antes do companheiro e das crianças
despertarem. Tomou um banho rápido e vestiu sua calça jeans e um casaco
negro, colocando o capuz sobre cabeça. Daquela vez não tinha calma para se
disfarçar, algo urgia por atenção.
Minutos mais tarde, Sandra estava novamente na praça onde
sequestrou a Reina. Caminhava com calmaria e tranquilidade, como se o
único que desejasse naquele recinto fosse tomar um pouco de sol com a
maioria das pessoas que circulavam por ali, mas sua mente levava
maquiavélicas intenções. Avistou uma senhora de idade que estava sentada
em um dos bancos de ferro com a neta de cerca de seis anos, ao lado a
senhora também tinha o neto de apenas dois meses de nascido que dormia no
interior do berço portátil.

Sandra viu a oportunidade perfeita e caminhou até a ela. Sentou-se ao


lado da idosa, que não deixava de escutar os reclamos da menina, que já
estava farta de estar ali esperando por sua mãe. A avó tentou tranquilizá-la
alegando que a filha não tardaria muito chegar, mas a pequena seguiu com os
seus reclamos.
— Estou com fome, avó.
— Espera, meu amor, sua mãe já está chegando.
— Mas estou com fome! Não posso comprar nada para comer?
— Meu amor, a loja de comida está um pouquinho longe, e eu não
quero ter que levar outra vez o seu irmão, sabe que acabo de me recuperar de
uma fratura no braço.
— Então me dá o dinheiro que vou sozinha.
— Não, claro que não!
Enojada, a garota revirou os olhos e sentou-se.
— Você não me deixa fazer nada!
— Deixa-a ir, senhora. Aqui é um lugar muito tranquilo — disse
Sandra.
— Não, filha, prefiro não arriscar, hein? Há seis meses uma criança
foi sequestrada nesta praça e até hoje não apareceu, isso sem mencionar os
filhos daquela publicitária que teve os filhos sequestrados pela melhor amiga,
definitivamente já não se pode confiar em ninguém.
— Definitivamente o mundo está perdido — disse, ajeitando os
óculos escuros.
— Não é o mundo, e sim as pessoas.

— Avó, estou com fome!


— Tudo bem! Senhorita, você pode dar uma olhada no meu neto
enquanto vou ali na frente rapidinho com a menina?
— Claro, vai tranquila. — Sorriu.
Aquele fora o pior equívoco que aquela senhora pôde cometer em sua
vida, enquanto ela se afastava com a menina, Sandra levava o seu neto.
Rosana, que saia do táxi com algumas amigas, viu a Sandra passar
velozmente diante de si.
— Essa…? — Retirou os óculos escuros. — Essa mulher é Sandra!

**
Montserrat rogou com fé a mãe de todas as mães e, quando saia da
igreja, o toque do celular foi um sinal que o seu pedido fora contestado.
— Alô.
— Montserrat, sou eu, Rosana. — Ela tartamudeou por nervosa que
estava.
— Passou algo? — Preocupou-se por senti-la alterada.
— Acabo de descobrir onde está Sandra e seus filhos.
Mon cerrou os olhos e chorou de emoção.
Montserrat dirigiu por duas horas e meia até parar a poucos passos da
cabana descrita por Rosana. Graças a amiga que seguiu a Sandra, ela estava a
ponto de enfrentar os seus inimigos e recuperar definitivamente os filhos,
mas ainda existia o perigo de haver elegido estar ali sem a companhia da
polícia.

— Esse problema é meu e de Sandra, e vou arreglar sozinha!


Mon encarou a pistola que trazia nas mãos e a pôs na cintura.
**
No interior da cabana, Ademar despertou com os delicados beijos que
Sandra distribuía em sua boca. Abriu os olhos lentamente e sorriu ao deparar-
se com o sorriso da companheira.
— Bom dia, meu amor! — Ela o cumprimentou, acariciando o cabelo
dele.

— Meu dia já começou bom unicamente por você me despertar dessa


maneira, meu amor.
Ela riu.
— De verdade?
— Sim, é linda. A mulher da minha vida, a mulher dos meus sonhos,
não sabe o quanto eu te amo — disse, mirando-a nos olhos.

— Sei o quanto me amas e, quando descobri, tratei que já não fosse


da minha vida. Sei que não te valorizei por muito tempo, mas nunca é tarde,
verdade? — O deu um selinho.
Ele sorriu.
— Nunca é tarde!
— Te tenho uma surpresa.
— Uma surpresa? — Arqueou as sobrancelhas.
— Sim. — Sorriu. — O seu filho varão acaba de chegar, minha vida.
Sandra levantou-se, e Ademar acreditou haver escutado mal. Ergueu o
tronco velozmente e viu um berço portátil no pé da cama.
— Sandra, o que significa isso? — Reprovou.
— Como o que significa, meu amor? Ontem você disse que o seu
maior sonho era ter um filho varão, então, aqui está.
Ademar semicerrou os olhos e negou com a cabeça. Tinha que
aprender a filtrar as suas palavras e jamais proferir as que poderiam ser mal
interpretadas pela amada.
— Sandra, não é isso que coincidimos, sim? — Levantou-se e
caminhou até ela. — Você me prometeu que já não se arriscaria dessa
maneira e que tampouco teríamos mais filhos por enquanto.

— Eu sei, meu amor, mas queria cumprir o seu sonho. Não quero que
você deixe de cumprir os seus desejos por minha culpa — argumentou.
— Sandra, você acredita que sou o idiota de Ricardo? Acredita que
vou te deixar de amar por não poder cumprir um sonho meu?
Ela ficou em silêncio. Desafortunadamente era aquilo que acreditava.
Acreditava que, como Ricardo, mais cedo ou mais tarde, Ademar se fartaria
dela.
— Sandra…
— Eu não quero que me deixe de amar por minha incapacidade ou…
— Jamais faria algo do tipo. Eu te amo de verdade, e estou
completamente ciente do que posso e não posso ter contigo, Sandra. Para
mim, não necessita se arriscar, colocar o seu bem-estar em risco ou acreditar
que a culpa sempre será sua se algo passa entre nós. Não. O que vivia com
esse tipo era uma relação abusiva cheia de egoísmo, onde o único que o
importava era ele mesmo e seus desejos, mas não sou assim, Sandra, e já está
na hora que acredite em mim. — Ele não estava enojado, mas queria a
lembrar que sempre esteve ao seu lado, mesmo quando ela não queria.
— Ademar, eu… — Chorou.
Ele acercou-se a ela e secou suas lágrimas.
— Não chore, meu amor.
— Não quero que me deixe de querer como Ricardo. Sei que não sou
a mulher ideal para nenhum homem, sei que tenho problemas irreparáveis e
que jamais seria uma boa esposa, mas eu te amo e não quero que outra pessoa
saia da minha vida por minha culpa.

— Eu já disse que isso não irá passar. Confia em mim, sim?


Sandra assentiu com a cabeça e o abraçou forte.
— Agora vou levar essa criança daqui e buscar um lugar onde sua
família possa ser comunicada.
— Como?

— Sandra, já conversamos sobre isso.


Ela assentiu com a cabeça.
— Tudo bem, mas depois do desjejum, sim?
Ademar respirou fundo.
— Tudo bem.
Sandra sorriu e o abraçou novamente.
**
Quando terminou o café, Sandra foi para a sacada ler um livro.
Nicolas brincava com a irmã no quarto ao lado, enquanto as demais crianças
dormiam em outro dormitório.
Ademar decidiu fumar um cigarro antes de sair e levar aquele menino
da casa. Obviamente compreendeu a razão de Sandra haver cometido aquele
novo sequestro, no entanto, não podia se colocar em acordo mais uma vez.
Enquanto fumava, caminhando no jardim, Montserrat foi ágil ao
surgir por trás e o golpear na cabeça com a coronha da pistola.
Ele caiu inconsciente, e Mon o mirou com ódio.
— Só não te mato porque adentro há coisa mais importante que
arreglar, maldito, senão esse seria o seu último suspiro.
Da sacada, Sandra a viu e arregalou os olhos.
— Montserrat? — Surpreendeu-se.
Elas se encaram por alguns minutos e correram para o interior da
cabana.
Mon empurrou a porta de entrada com violência e subiu as escadas,
chamando pelo nome do filho.

Sandra saiu do quarto com a arma em punho e adentrou o dormitório


de Nicolas, o pegando como refém.
— Se você se acerca, eu te juro que disparo na cabeça desse pirralho.
Eu não estou brincando, Montserrat!
Mon congelou ao ver uma pistola contra a cabeça do seu filho, que
chorava de medo. Também viu a Estrella, que com sua inocência seguia
brincando no tapete, podendo ser vítima a qualquer instante de uma ferida.
— Sandra, não faça nada que você possa se arrepender, por favor,
vamos conversar.

— Não, aqui não há nada que conversar. Solta a pistola! — ordenou.


— Sandra…
— Solta a pistola, eu te digo! — gritou, furiosa.
Assustada, Estrella começou a chorar.
— Anda, Montserrat, eu não estou brincando! Solta a pistola ou
Nicolas morre!
— Mamãe! — O garoto chorou.
Mon olhou para o filho e resolveu atender a ordem. Tudo era possível
quando se tratava daquela mulher.

— Sandra, eu já soltei a pistola! — Ergueu as mãos depois de pôr a


arma sobre a cômoda. — Agora solte a Nicolas porque ele não tem culpa de
nada, por favor, não o faça dano — pediu.
— Eu o fazendo dano? Não, amiguinha, você está o fazendo dano ao
se meter onde não deve. Claro, tinha que ser você! Tinha que ser a egoísta
que quer tudo para si e nada para os demais, nada para a sua melhor amiga,
Montserrat!
Mon franziu a testa sem compreender.
— Não era assim que me considerava, sua melhor amiga?
— Sim, mas aqui quem não valorizou a nossa amizade foi você! Você
que arruinou a nossa amizade com sua loucura, com sua obsessão.
— Sim, claro. Eu, não? Eu sempre sou a culpada de tudo. Eu a sou
histérica, a enferma, mas se você tivesse sido um pouquinho menos egoísta e
mais fiel a nossa amizade, nada disso teria passado, mas não, sempre disse
que era capaz de fazer tudo para me ver feliz, mas quando pedi sua filha você
foi incapaz de dar-me.

Montserrat conseguiu enxergar muito mais além de uma mulher


obsessiva e frustrada por sua incapacidade, também enxergou uma amiga
genuinamente enojada por uma promessa que ela supostamente deixara de
cumprir.
— Sandra, eu iria arreglar as coisas de outra maneira. Eu já havia
conversado com Aaron, ele e eu coincidimos que depois do nascimento de
Estrella, iria te emprestar o meu ventre para que você pudesse conceber o seu
filho, sem embargo, você elegeu fazer as coisas da sua maneira, não?
— Ah, claro! Agora é uma santa que sempre se preocupou com sua
melhor amiga, e sou uma bruxa, verdade? Não seja hipócrita, Montserrat, eu
jamais te importei, você ria de mim com suas amigas, porque todas elas são
férteis, e eu não!
— Sandra, por favor, as coisas não são como pensa. Eu jamais iria me
burlar do seu problema. Jamais! Você era minha amiga! — argumentou.
— Cale-se que eu não acredito em nada, maldita vagabunda. —
gritou. — Se você não desaparece agora da minha vida, juro que mato a
Nicolas. — Destravou a arma.
Mon olhou para o filho, que foi corajoso o bastante para pisar do pé
de Sandra e escapar de suas mãos.
Enquanto ele correu para pegar a irmã, a mãe tentava desarmar a
mulher obsessiva.
Mon agarrou no braço direito de Sandra, mas ela segurava com
firmeza a arma de fogo, que terminou disparando no vidro da porta da sacada.
Assustado, Nicolas se agachou e protegeu a Estrella.
Montserrat o rogou aos gritos que ele saísse dali, fosse para a rua e
aguardasse a chegada da polícia. Ele apresentou resistência de primeiro
momento, não queria de qualquer maneira deixá-la sozinha, porém, mediante
a tantas súplicas da mãe, ele terminou cumprindo o pedido.
Elas seguiram naquela peleja pela pistola até que Mon golpeou a rival
com um soco e a desarmou, mas a arma escorregou de suas mãos e caiu no
chão.
Sandra perdeu o equilíbrio com a pancada, mas não deixou de revidar
a adversária com o mesmo golpe.
Mon caiu sobre a parede, e Sandra se acercou para agredi-la
novamente, mas a rival foi ágil ao bloqueá-la com o antebraço e acertá-la
com um soco de esquerda. A agredida perdeu o equilíbrio mais uma vez, mas
diferentemente de antes, não logrou a revidar no ato e foi arremessada contra
a mesa de madeira. O corpo dela se chocou com o chão e ela tossiu pela dor
intensa que sentiu no estômago, porém, o agressivo golpe não marcava um
final.
Mon se pôs contra ela e a golpeou inúmeras vezes com o punho
cerrado. A agredida tentava colocar as mãos, frente o rosto para se proteger,
mas o seu intento era inútil mediante a fúria de uma mulher que viveu o pior
pesadelo de sua vida por sua culpa.
Meios os golpes, Sandra conseguiu agarrar o pescoço da agressora e a
quitar as forças. Arremessou o corpo dela para a lateral e tentou levantar-se.
Mon a agarrou pelo pé e ela respondeu acertando-a com um chute no rosto e
correu para a sacada.
Montserrat ficou tonta, mas não perdeu a inimiga de vista, viu para
onde ela correu, por isso tratou de olvidar suas limitações e ir atrás dela. Mon
adentrou a sacada e puxou a êmula pelos cabelos. Elas novamente
começaram a trocar golpes, mas desta vez terminaram perdendo o equilíbrio e
caindo sacada abaixo. Rolaram no telhado colonial e caíram meio as plantas
do jardim.
Sandra caiu sobre Montserrat, que fraturou o tornozelo e cortou o
antebraço com a ponta afiada de um ferro enferrujado.
Ademar correu apreensivo pela amada.
— Sandra, está bem?
Ela assentiu com a cabeça e olhou para a inimiga, que sofria com as
dores.
— Sim, me ajuda, por favor — pediu, sentindo o corpo doer.
Ademar a segurou pela mão, a ajudou a levantar-se e disse que era
necessário que eles fossem dali.
Meio a visão turva, a mulher caída no jardim viu o casal se afastar,
também escutou o grito de Nicolas, que fora obrigado a ir com o casal.
Sandra subiu na lancha com as crianças, enquanto Ademar terminava
de soltar as amarras do transporte.
Nicolas chorava copiosamente enquanto a madrinha o ordenava calar-
se, ao mesmo tempo, que gritava para Ademar ser ágil.
Com o pouco de forças que tinha, Mon correu na direção deles.
Ademar desprendeu a lancha e se lançou dentro dela, correndo para o
passadiço. Ao ver que não conseguiria detê-los, Montserrat mergulhou no
interior do transporte em movimento.
Sandra arremeteu com raiva, e ela exigiu:
— Me dá a minha filha, Sandra! — ordenou aos gritos.

A rival tomou a menina dos braços do garoto, que ficou em


desesperação.
— Não, eu não vou te dar, é minha filha, Montserrat! Somente minha!
— gritou.
Estrella começou a chorar novamente.
A lancha ia a toda velocidade no enorme lago. Os que estavam a
bordo necessitavam se segurar com força para não serem lançados para fora.
— Está vendo, Montserrat? A menina começou a chorar por sua
culpa!

— Sandra, entrega a minha filha, por Deus! Eu te juro que permito


que você escape, te dou todo o dinheiro que necessitar, até mesmo te perdoo,
mas, por favor, devolve a minha filha! — pediu, chorando.
— Não! Estrella é minha filha! Ninguém irá quitá-la de mim!
Ninguém! — esbravejou.
Duas lanchas, que pertenciam a polícia, cruzaram o lago.
Sandra assustou-se ao se ver encurralada.
— Não vê, Sandra? Está encurralada, não há saída para ti.
Ela olhou para o cúmplice, que reduziu a velocidade para não se
chocar com a lancha que vinha em frente.
Mon avançou contra ela e tentou arrancar Estrella dos seus braços,
mas Sandra deu um passo atrás e a deteve.
— Entrega a minha filha, caralho! — Enfureceu-se.
— Vocês estão cercados, é melhor se entregarem! — disse um
policial, usando o megafone.
Sandra olhou ao redor e encarou a rival.
— Você quer sua filha, Montserrat? Então a busque! — disse,
lançando a menina na água.
Mon não teve tempo para espanto, sua ação foi rápida ao mergulhar
no lago para salvar a filha.
Enquanto Sandra gritava para Ademar conseguir uma maneira de
escapar dali, Nicolas estava em desespero pela mãe e irmã que tinham
desaparecido na água, por isso terminou mergulhando para salvá-las, mas ele
não sabia nadar.

Debaixo d'água, Montserrat nadava incansavelmente pela filha que


desaparecera de sua vista. Ela não tinha muito tempo, a água doce é bem mais
parecida com a composição do sangue. Quando os pulmões a inala, ela passa
para a corrente sanguínea velozmente e termina por diluir o sangue, o que
leva à insuficiência do órgão. Montserrat não tinha mais que três minutos.
Porém, foi obrigada a emergir quando a faltou alento para continuar. Olhou
ao redor em busca de Estrella, mas apenas viu alguns policiais que haviam
pulado na água para o resgate. Um deles a gritou que Nicolas também estava
no lago.
Montserrat desesperou-se ainda mais, tinha que salvar os filhos, mas o
tempo era o seu maior inimigo.
O ruído das celas, que foram abertas pelas carcereiras, puseram a
todas as reclusas em fila, antes de seguirem para o refeitório do presídio.
Sandra estava entre elas.
De cabeça baixa, evitava mirar as companheiras nos olhos ou fazer
qualquer alarde a sua presença naquele lugar. A maioria daquelas mulheres
eram mães, tinham filhos e eram capazes de dar a vida por eles, e uma
sequestradora de crianças jamais seria bem-vinda por elas.
Sandra buscou com os olhos a mesa menos movimentada e encontrou
uma vazia no fundo do refeitório. Caminhou discretamente até ela e sentou-se
para comer sua comida, mas, como sempre, havia alguém para a molestar.
— Mira só! Por que tão sozinha, guapa? Aqui tem suas amigas!
Sandra ergueu a mirada e viu a Roberta e suas companheiras. Aquela
mulher não era nenhuma adolescente que se diverte tirando sarro do seu
colega de escola, ela já era uma mulher madura, tinha aparência de ser avó,
sem embargo, a ela a encantava quitar a paz inexistente.
— Por que não contesta? O gato comeu sua língua? — Riu,
mencionando em pegar no rosto de Sandra, que se afastou a mirando séria. —
Ui, que medo dessa mirada, hein? — debochou.
Roberta sentou-se e convidou as amigas. Algumas passaram por
Sandra e puxaram o seu cabelo. Aquela era um pesadelo que vivia há quatro
anos.
Como sempre tentando ignorar a presença daquelas mulheres, Sandra
baixou a cabeça e pegou o talher, mas novamente foi interrompida por sua
eterna rival.
— Espera! — Segurou na mão da companheira e deu uma risada.
Ela ergueu a mirada e a encarou.
— Me dá sua comida! — ordenou.
Sandra reagiu com uma risada discreta.
— Estou falando sério, me dá a sua comida!

— Eu não vou te dar nada, coma a sua e me deixe em paz! — Travou


os dentes e quitou o seu braço da mão da companheira.
— E por quê? Não é por tomar algo que não era teu que foi
condenada a pena máxima? Não é por isso? Não é por ser uma estéril que
você se converteu em uma sequestradora de crianças? Ah, filhinha, aqui
todos conhecemos sua história, e que história, não?
Todas riram.
— Cale-se! — ordenou, séria.
Roberta riu.
— A verdade é a única que ofende, não? — Se vangloriou.
Sandra ficou em silêncio.
— Estéril!
— Cale-se!
— Estéril!
— Cale-se! — Alterou-se.
— Estéril!
— Já disse para se calar, velha estúpida! — gritou, jogando o prato de
comida no rosto da companheira, que se levantou de imediato para a agredir,
mas as guardas se aproximaram e terminaram a impedindo.
— O que passa aqui?
— Eu estava muito tranquila quando essa estúpida veio me molestar!
— gritou Sandra, acirrada.

— Eu? Claro que não. Todos sabem que é essa ruivinha aí que sempre
me molesta — mentiu.
— Não seja mentirosa! Está sempre me incomodando desde o dia que
cheguei aqui, mas hoje foi a última vez. Eu não irei seguir te suportando,
Roberta! — gritou, irritada.
Roberta e suas companheiras riram, achando a possibilidade
infactível. Sandra pouquíssimas vezes contra-atacou os seus insultos,
portanto, dizer que a partir daquele momento as coisas seriam distintas, mais
parecia um chiste.
— Chega vocês duas! Almocem e regressem às suas celas! —
ordenou a guarda.

— Mas, senhora… — Sandra tentou argumentar.


— Fuentes, tenho que repetir?
Sandra a mirou raivosa e sentou-se novamente.
No fim do almoço, ela ignorou totalmente as ordens que recebera.
Caminhou até o pátio e sentou-se em um dos bancos de concreto. Lembrou-se
de como estava sendo complicada sua vida naquele lugar e que com o passar
dos anos tudo somente indicava piorar. Também se recordou de que não foi
tão doloroso perder o que nunca teve. Era certo que sua condena iria a manter
para sempre longe de Ademar, que nem o melhor advogado do país poderia a
conceder a liberdade para que algum dia pudesse estar junto a única pessoa
que amou sem se importar com os seus defeitos e sua alma despedaçada.
Ele sempre compreendeu que ela assim era e, que apesar de tudo, não
tinha a culpa, fora vítima. Vítima de uma sociedade, vítima de uma relação
abusiva onde o homem que amava, mesmo sabendo de sua dificuldade em
manter uma gestação, não deixava de insistir em algo impossível e, mesmo
sem desejar, terminava a jogando a culpa a cada novo aborto, e foi da culpa
que nasceu o ódio por si mesma e com o ódio surgiu a monomania.
Sandra não se arrependera do que cometera, afinal, ainda não havia se
dado conta de quão podia ser venenosa a doce palavra amor, porém, sempre
pensava se havia forma de as coisas haverem sido distintas, mas naquele
momento tudo estava perdido. O seu ventre seguia vazio, o homem que a
amava já não podia a fazer companhia e as crianças que “adotara” com suas
jamais fizeram parte realmente de sua vida.
As reclusas, que estavam no pátio, ficaram assustadas quando viram a
Sandra no alto do edifício.
Lá em cima o vento soprava forte e as lágrimas dela eram
rapidamente secas pela brisa fria que varria o seu rosto. Olhou para baixo e os
semblantes de terror eram de alegria. Os gritos apreensivos eram todos os
maus comentários que alguma vez escutou por sua incapacidade. E o som do
apito das guardas eram aplausos de felicitações.
Viu o pátio encher e algumas guardas se locomoverem rapidamente
para impedir sua atitude, mas há muito havia elegido o seu final.
— Olá, sou Sandra Fuentes, no momento não posso te contestar, por
favor deixe o seu recado que retorno assim que possa. Beijos!
Dois anos havia passado desde o suicídio de Sandra, e Ademar ainda
a ligava todos os dias unicamente para escutar sua voz gravada na caixa de
mensagens.
— Como sinto sua falta… senhora.
Ademar colocou o telefone do gancho e se afastou para que outro
detento pudesse usá-lo. Apoiou a mão na parede e tentou se conter, mas como
sempre terminou chorando pela amada.

**
Durante seis anos, Montserrat adentrou aquele hospital com o mesmo
objetivo e, finalmente, era a última que iria sair sozinha.
— Bom dia! — cumprimentou, sorrindo.
Aaron retribuiu o sorriso da esposa, que se acercou e o deu um
selinho.
— Como está? — perguntou, limpando a marca de batom que havia
manchado os lábios do amado.
— Muito bem, feliz. Porém, um pouco confuso, passei seis anos em
coma e não tenho ideia de como está minha vida.

— Tranquilo, eu e eles arreglamos tudo. — Sorriu.


Estrella Guadalupe e Nicolas adentraram o quarto e correram até o
pai, que os recebeu com um forte abraço. Aaron ainda tinha muito tempo que
recuperar. A filha, que nem sequer viu nascer, atualmente tinha setes anos e o
filho já era um jovem de dezesseis que até, já possuía uma namorada.

Aaron nunca se imaginou em uma situação parecida. Jamais pensou


que um dia dormiria e quando despertasse o mundo havia evoluído, menos
ele. Era uma experiência terrível e demasiado desonesta, algo que o causava
estranheza cada vez que lembrava, sem embargo, com o apoio da sua família
não havia impossíveis, nem mesmo quando se falava da paralisia muscular de
suas pernas.
Montserrat ajudou a Aaron a sentar-se na cadeira de rodas.
— Está confortável, meu amor? — questionou ela, tomando fôlego.
— Sim, estou bem. — Sorriu.
Ela também sorriu. Admirava a maneira que o marido estava sendo
positivo e, mesmo diante das adversidades, agradecia incansavelmente a vida.
— Logo estarei fora dessa coisa para volta a ser como antes. Para
jogar futebol com o meu filho, para brincar com minha filha e namorar a
mulher da minha vida.
Todos sorriram.
— Sim, papai, mas, enquanto isso, iremos te cuidar muito, sim? —
disse Estrella, dando um beijo na bochecha de Aaron.
— Verdade. Enquanto isso você pode me dizer como faço para
entender as mulheres — falou Nicolas.

Todos riram.
— Você nunca irá às entender, filho.
— Isso é verdade. As mulheres nunca serão entendidas com tantas
hormonas e complexidade que possuímos. — Riu.
— Em falar em mulher complexa, onde está Sandra, Ricardo? Que
maus amigos eles se tornaram que nem vieram me visitar!

Mon respirou fundo sem saber o que dizer naquele momento.


Obviamente contaria ao esposo todo o pesadelo que viveu anos antes, mas
acreditava que o mais importante era a total recuperação do homem que
amava.
— Há muitas coisas que tenho que dizer, Aaron, mas tudo no seu
tempo.
— Eu não gosto quando você fica tão misteriosa, meu amor. Como
essa cicatriz que traz no antebraço, eu não lembro que a tinha.
Montserrat mirou a cicatriz e se lembrou que foi na luta, corpo a
corpo que tivera com Sandra que a adquiriu. Também se lembrou dos
minutos de pesadelo que viveu naquele lago e somente o milagre da Virgem
salvou os seus filhos da morte.
— Meu amor…? — Ele estranhou o silêncio dela.
Mon deu um sorriso e saiu empurrando a cadeira do marido, enquanto
os filhos caminhavam à frente.
— Terá muito tempo para saber, meu amor. Muito tempo!
— Mas, Mon…
— Já! Está mais curioso que antes, por Deus!
Eles riram e seguiram o caminho. Por fim estariam juntos e felizes
novamente.

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