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Pneumatologia 1

Pneumatologia

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Pneumatologia 3

(Org.) Prof. Pr. VICENTE LEITE

Pneumatologia
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Pneumatologia 5

Declaração de fé
A expressão “credo” vem da palavra latina, que apresenta a mesma grafia e
cujo significado é “eu creio”, expressão inicial do credo apostólico -,
provavelmente, o mais conhecido de todos os credos: “Creio em Deus Pai
todo-poderoso...”. Esta expressão veio a significar uma referência à
declaração de fé, que sintetiza os principais pontos da fé cristã, os quais são
compartilhados por todos os cristãos. Por esse motivo, o termo “credo” jamais
é empregado em relação a declarações de fé que sejam associadas a
denominações específicas. Estas são geralmente chamadas de “confissões”
(como a Confissão Luterana de Augsburg ou a Confissão da Fé Reformada
de Westminster). A “confissão” pertence a uma denominação e inclui dogmas
e ênfases especificamente relacionados a ela; o “credo” pertence a toda a
igreja cristã e inclui nada mais, nada menos do que uma declaração de
crenças, as quais todo cristão deveria ser capaz de aceitar e observar. O
“credo” veio a ser considerado como uma declaração concisa, formal,
universalmente aceita e autorizada dos principais pontos da fé cristã.

O Credo tem como objetivo sintetizar as doutrinas essenciais do cristianismo


para facilitar as confissões públicas, conservar a doutrina contra as heresias
e manter a unidade doutrinária. Encontramos no Novo Testamento algumas
declarações rudimentares de confissões fé: A confissão de Natanael (Jo
1.50); a confissão de Pedro (Mt 16.16; Jo 6.68); a confissão de Tomé (Jo
20.28); a confissão do Eunuco (At 8.37); e artigos elementares de fé (Hb 6.1-
2).

A Faculdade Teológica IBETEL professa o seguinte Credo alicerçado


fundamentalmente no que se segue:

(a) Crê em um só Deus eternamente subsistente em três pessoas: o Pai,


o Filho e o Espírito Santo (Dt 6.4; Mt 28.19; Mc 12.29).

(b) Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé


normativa para a vida e o caráter cristão (2Tm 3.14-17).

(c) No nascimento virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória,


em sua ressurreição corporal dentre os mortos e sua ascensão
vitoriosa aos céus (Is 7.14; Rm 8.34; At 1.9).

(d) Na pecaminosidade do homem que o destituiu da glória de Deus, e


que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora
de Jesus Cristo é que o pode restaurar a Deus (Rm 3.23; At 3.19).
6

(e) Na necessidade absoluta no novo nascimento pela fé em Cristo e pelo


poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o
homem digno do reino dos céus (Jo 3.3-8).

(f) No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna


justificação da alma recebidos gratuitamente na fé no sacrifício
efetuado por Jesus Cristo em nosso favor (At 10.43; Rm 10.13; 3.24-
26; Hb 7.25; 5.9).

(g) No batismo bíblico efetuado por imersão do corpo inteiro uma só vez
em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme
determinou o Senhor Jesus Cristo (Mt 28.19; Rm 6.1-6; Cl 2.12).

(h) Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa


mediante a obra expiatória e redentora de Jesus no Calvário, através
do poder regenerador, inspirador e santificador do Espírito Santo, que
nos capacita a viver como fiéis testemunhas do poder de Jesus Cristo
(Hb 9.14; 1Pe 1.15).

(i) No batismo bíblico com o Espírito Santo que nos é dado por Deus
mediante a intercessão de Cristo, com a evidência inicial de falar em
outras línguas, conforme a sua vontade (At 1.5; 2.4; 10.44-46; 19.1-7).

(j) Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à


Igreja para sua edificação conforme a sua soberana vontade (1Co
12.1-12).

(k) Na segunda vinda premilenar de Cristo em duas fases distintas.


Primeira - invisível ao mundo, para arrebatar a sua Igreja fiel da terra,
antes da grande tribulação; Segunda - visível e corporal, com sua
Igreja glorificada, para reinar sobre o mundo durante mil anos (1Ts
4.16.17; 1Co 15.51-54; Ap 20.4; Zc 14.5; Jd 14).

(l) Que todos os cristãos comparecerão ante ao tribunal de Cristo para


receber a recompensa dos seus feitos em favor da causa de Cristo,
na terra (2Co 5.10).

(m) No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis,


(Ap 20.11-15).

(n) E na vida eterna de gozo e felicidade para os fiéis e de tristeza e


tormento eterno para os infiéis (Mt 25.46).
Pneumatologia 7

Sumário
Declaração de fé 5
Introdução 9

Capítulo 1
A Pessoa do Espírito Santo 11
1.1 A Visão Judaica do Espírito Santo 11
1.2 Etimologia da Palavra Espírito 13
1.3 A Personalidade do Espírito Santo 15

Capítulo 2
A Divindade do Espírito Santo 27
2.1 Atributos Divinos do Espírito Santo 28
2.2 O Espírito Santo é Deus 29

Capítulo 3
Nomes Atribuídos ao Espírito Santo 31
3.1 Espírito de Deus (1Co 3.16; 1Jo 4.2) 32
3.2 Espírito de Cristo (Rm 8.9) 32
3.3 Espírito do Senhor (2Co 3.17,18) 33
3.4 Espírito Santo (At 19.2; 1Pe 1.12) 34
3.5 Espírito da Graça (Tt 2.11) 34
3.6 Espírito de Adoção (Rm 8.15,16) 34
3.7 Espírito da Verdade (Jo 10 14.17; 15.26; 16.13; 1Jo 5.6) 35
3.8 Espírito de Glória (1Pe 4.14) 36
3.9 Espírito de Vida (Rm 8.2) 36

Capítulo 4
Títulos Atribuídos ao Espírito Santo 39
4.1 Como Consolador 40
4.2 Como Ensinador 42
4.3 Como Promessa 44

Capítulo 5
Símbolos do Espírito Santo 47
5.1 Água 47
5.2 Fogo 47
5.3 Óleo 48
5.4 Pomba 48
5.5 Vento 48
5.6 Selo 49
5.7 O Penhor (Ef 1.13,14) 49
8

Capítulo 6
A Obra do Espírito 51
6.1 Antes do Dia de Pentecostes 51
6.2 No Movimento Pentecostal 55
6.3 A Obra do Espírito Santo na Economia divina 56

Capítulo 7
O Batismo com o Espírito Santo 59
7.1 O Relacionamento com a Regeneração 59
7.2 O que Ensina a Palavra de Deus 61
7.3 Evidências do Batismo com o Espírito 62
7.4 Disponibilidade do Batismo com o Espírito Santo 65
7.5 O Propósito do Batismo com o Espírito Santo 67
7.6 O Recebimento do Batismo com o Espírito Santo 69

Capítulo 8
Os Dons do Espírito Santo 71
8.1 A Igreja Mediante a Expressão dos Dons 71
8.2 Natureza Encarnacional dos Dons 72
8.3 A Diversidade de Ministérios 73
8.4 Um só Corpo, Muitos Membros 82
8.5 Amor Sincero 84
8.6 O Juízo Final 84
8.7 As Funções dos Dons 86

Capítulo 9
O Fruto do Espírito Santo 91
9.1 O Relacionamento entre os Dons e o Fruto 91
9.2 As Qualidades do Fruto 91

Referências 97
Pneumatologia 9

Introdução
A tarefa dada à Igreja do século XX é pregar a totalidade do Evangelho. O
que necessitamos não é um evangelho diferente, mas a plenitude do
Evangelho conforme registrado no Novo Testamento. Destacamos este fato,
porque o Espírito Santo tem sido negligenciado no decurso dos séculos.
Temos a tarefa de entender de novo a Pessoa e a obra do Espírito Santo,
conforme reveladas na Bíblia e experimentadas na vida da Igreja hoje. A
mensagem do Evangelho pleno proclama a centralidade da obra do Espírito
Santo como o Agente ativo da Trindade na revelação que Deus fez de si
mesmo à sua criação. A mensagem do Evangelho diz que Deus hoje
continua a falar e a agir, como nos tempos do Antigo e do Novo Testamento.

A mensagem do Evangelho é mais que uma simples declaração de que o


falar em outras línguas e os demais dons alistados na Bíblia estão à
disposição do crente de hoje. No decurso da história da Igreja, tem havido
surtos de fenômenos pentecostais. Muitos destes iniciaram dentro da Igreja
como os movimentos de reforma e de santidade. Esses movimentos ficavam
de fora da vida eclesiástica, porque não tinham acesso às Escrituras. As
Bíblias custavam muito caro, e eram literalmente acorrentadas aos púlpitos
das igrejas. Imaginava-se que somente os clérigos tinham o preparo e o
acesso às verdades espirituais, que lhes capacitaria o estudo das Sagradas
Escrituras. Sem acesso às Escrituras, as pessoas não demoravam a fazer
confusão entre suas próprias emoções, e a operação do Espírito Santo
dentro delas. Sem a Bíblia para formar os muros ao longo do caminho único e
apertado que leva ao Céu, tais grupos não demoravam a se desviar do
caminho.

Uma das razões da longa duração e do sucesso do movimento pentecostal


do século XX é o livre acesso à Bíblia, nossa regra infalível de fé e conduta.
Reconhecemos que nossas interpretações da Bíblia são por demais e
freqüentemente falíveis, mesmo quando feitas com muito cuidado e oração.
No entanto, sem as Escrituras como nosso guia canônico quanto à natureza
e propósitos de Deus, facilmente perderíamos o caminho.

A tarefa de proclamar a mensagem do Evangelho não é fácil. Vivemos num


mundo em que secularistas e acadêmicos teologicamente liberais de algumas
das mais prestigiadas universidades têm proclamado que a crença bíblica
tradicional num Deus pessoal é uma ameaça à continuidade da espécie
humana. Argumentam que não existe nenhum Deus ativamente envolvido
com a redenção do mundo ou dos indivíduos. Os secularistas exigem a
abolição da totalidade da religião. Os teólogos liberais pedem que sejam
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desmontados os elementos tradicionais da fé judaico-cristã: a Bíblia, Deus e


Jesus Cristo. Pretendem substituí-los ou redefini-los à luz da sua crença,
segundo a qual ninguém poderá nos salvar de nós mesmos. Dizem que a
continuidade da espécie humana está exclusivamente nas mãos dos seres
humanos.

Um dos resultados dessa cosmovisão teológica aparece no texto de Gênesis


1.2. A The News English Bible traduz o versículo como "um vento poderoso
que varria a superfície das águas". A nota de rodapé diz que outros o
interpretam como "o Espírito de Deus". Os tradutores, tendo resolvido que o
Antigo Testamento não contém o mínimo vestígio do Espírito Santo como
agente na criação, conforme se acha no Novo Testamento, simplesmente
mudaram "espírito" para "vento", e "Deus" para "forte". Não encontro nenhum
texto paralelo às Escrituras canônicas que justifique semelhante tradução.

A tarefa tem-se complicado ainda mais pelos mal-entendidos a respeito da


obra e da Pessoa do Espírito Santo que têm circulado (consciente ou
inconscientemente) na Igreja em geral. Trata-se, entre outras coisas, de
conceitos errôneos do papel do Espírito Santo no Antigo Testamento, do
relacionamento dos crentes com Ele antes e depois da conversão e do
batismo no Espírito Santo. O discussão sobre a Trindade trata da questão do
posicionamento do Espírito Santo na Deidade. Muito mais do que isso não
pode ser dito. Deus se tem revelado como uma Trindade. Há um só Deus,
porém três Pessoas - um só Deus, e não três; nem um só Deus com
perturbações do tipo múltipla personalidade. Para compreendermos a
doutrina da Trindade, precisamos aceitar o fato de sermos forçados,
mediante a auto-revelação de Deus na Bíblia, a desconsiderar as leis comuns
da lógica. A doutrina da Trindade proclama que Deus é um só, porém três;
Ele é três, porém um só. Isso não significa que o Cristianismo tenha
abandonado a lógica e o raciocínio. Pelo contrário, aceitamos o fato de que a
doutrina da Trindade refere-se a um Ser infinito que está além da
compreensão de suas criaturas finitas.

E assim, voltamos à função do Espírito Santo como agente ativo da Deidade


na criação. Sem a atividade contínua de Deus, mediante o Espírito Santo,
seria impossível conhecermos a Deus. Embora muitos teólogos tenham
procurado descrever os atributos - ou propósitos - com base na teologia
natural ou teologia escolástica, não têm conseguido descrevê-los
corretamente. A única maneira de se conhecer uma pessoa, inclusive o
próprio Deus, é saber o que ela tem dito e feito. A Bíblia nos conta o que
Deus tem dito e feito. E a obra contínua do Espírito Santo nos revela o que
Ele continua a dizer e fazer hoje.
Pneumatologia 11

Capítulo 1

A Pessoa do Espírito Santo


A doutrina do Espírito Santo é chamada nos estudos teológicos de
"pneumagiologia"; procedente de três termos gregos: pneuma (espírito),
hagios (santo) e logia (estudo, ciência). Esta definição é mais precisa do que
"pneumatologia" (lit. estudo do espírito) que se refere ao estudo teológico de
fatos relacionados ao espírito de modo geral, sejam anjos, ou a parte
imaterial do homem.

Ao investigarmos a doutrina da deidade do Santo Espírito, devemos observar


que o Novo Testamento ensina a unicidade da divindade (1Co 8.4; Tg 2.19)
e, no entanto, revela a distinção de pessoas na divindade: o Pai é Deus (Mt
11.25; Jo 17.3; Rm 15.6; Ef 4.6); o Filho é Deus (Jo 1.1, 18; 20.28; Rm 9.5;
Hb 1.8; Cl 2.9; Fp 2.6; 2 Pe 2.11); o Espírito Santo é Deus (At 5.3,4; 1Co
2.10,11; Ef 2.22). O Pai, o Filho e o Espírito Santo são claramente
distinguidos um dos outros na Bíblia (Jo 15.26; 16.13-15; Mt 3.16,17; 1Co
13.13), de tal forma que as três pessoas não se confundem umas com as
outras. São três benditas e santíssimas pessoas que compõem apenas uma
divindade. Portanto, na unidade da divindade há uma trindade de pessoas, da
qual o Espírito Santo é o Revelador.

1.1 A Visão Judaica do Espírito Santo


A literatura midrash contém muitas afirmações acerca do Espírito Santo. É
escrito que o Espírito Santo, sendo de origem celeste, é composto, como
tudo aquilo que vem do céu, de luz e de fogo. Quando descansou sobre
Finéias, a sua face ardeu como um archote (Midrash Lev. Rabbah 21).
Quando o Templo foi destruído e o povo de Israel foi para o exílio, o Espírito
Santo regressou ao céu (Midrash Eccl. Rabbah 12.7).

De acordo com a tradição Judaica, o Espírito Santo se apresenta apenas a


uma geração digna, e a freqüência das suas manifestações é proporcional à
retidão. Não se registraram manifestações deste no tempo do Segundo
Templo (Talmude, Yoma 21b), embora se dessem muitas no tempo de Elias
(Tosefta ao Talmude Sotah, 12.5). O Espírito Santo repousa sobre os
Profetas em vários graus, alguns profetizando o conteúdo de apenas um livro,
outros preenchendo dois livros (Midrash Lev. Rabbah 15.2). Ainda assim não
repousava sobre eles continuamente, mas apenas por períodos de tempo.
12

Os estágios de desenvolvimento, dos quais o mais elevado é o Espírito


Santo, são os seguintes: zelo, integridade, pureza, santidade, humildade,
temor do pecado. O Espírito Santo conduziu Elias, o qual traz os mortos à
vida (Yer. Shab. 3c). O pacto sagrado através do Espírito Santo (Midrash
Tanhuma, Vayeki, 14); qualquer um que ensine a Torah em público partilha
do Espírito Santo (Midrash Canticles Rabbah 1.9, end; comp. Midrash Lev.
Rabbah 35.7). Quando Finéias pecou, o Espírito Santo apartou-se dele
(Midrash Lev. Rabbah 37.4).

A tradição Judaica divide os livros da Bíblia Hebraica em três categorias, de


acordo com o nível de profecia que os seus autores terão alcançado.

Os resultados visíveis da atividade do Espírito Santo, de acordo com a


concepção Judaica, são os livros da Bíblia, os quais terão sido, na sua
totalidade, compostos sob a sua inspiração. Todos os Profetas falaram "no
Espírito Santo"; e o sinal mais característico da presença do Espírito Santo é
o dom de profecia, no sentido em que a pessoa sobre a qual ele repousa vê o
passado e o futuro. De acordo com o Talmude, com a morte dos três últimos
profetas, Ageu, Zacarias, e Malaquias, o Espírito Santo cessou de se
manifestar em Israel; mas o Bat Kol (voz celestial) ainda estava disponível.

A Torah (cinco livros de Moisés) diz-se ter sido escrita por Moisés através de
uma revelação verbal direta de Deus.

Os Nevi'im (profetas) são livros escritos por pessoas que receberam um


elevado nível de profecia.

Os Ketuvim (escritos, agiógrafa) são escritos por pessoas que possuem um


menor nível de profecia conhecido como inspiração divina, Ruach HaKodesh.

De acordo com uma das perspectivas do Talmude, o Espírito Santo estava


entre as dez coisas que foram criadas por Deus no primeiro dia (Talmude
Bavli, Hag. 12a, b). Embora a natureza do Espírito Santo, na realidade, não
esteja descrita em lugar algum, o seu nome indicia que era concebido como
uma espécie de vento que se manifestava através de ruído e luz.

De especial interesse é a distinção feita pelas antigas autoridades Judaicas


entre o "Espírito do Senhor" (o qual é o termo mais comum para referir o
Espírito Santo no Tanakh) e a Shekinah, a presença de Deus. Esta distinção
é feita no Talmude, o qual nos dá uma lista das coisas que se encontravam
no primeiro Templo de Jerusalém, mas ausentes do segundo Templo. Esta
lista inclui o Espírito Santo e a Shekinah. A diferença não é facilmente
compreendida, mas parece que a glória da Shekinah era, de alguma forma,
mais tangível do que o Espírito. Isto poderia referir-se à presença literal de
Pneumatologia 13

Deus no Santo dos Santos, e à presença de Deus que dele emanava em


alguma forma especial, em oposição à presença do Espírito Santo, o qual
estaria em muitos locais mundo fora, e especialmente em indivíduos. No
Tanakh, entretanto, esta presença do Espírito é reservada para os reis,
profetas, sumo sacerdotes, etc. e não é concedida ao crente comum.

1.2 Etimologia da Palavra Espírito


A etimologia reconhece que as palavras nascem e evoluem. Assim, a palavra
átomo, na origem, significa "indivisível". Contudo o desenvolvimento das
Ciências Naturais reconheceu que o átomo se divide em prótons, neutrons,
mésons, elétrons, etc. Tornou-se necessário dar à palavra um significado
mais moderno. Reconheceu-se que "átomo" é a mínima porção de um
material que perde suas características individuais ao subdividir-se. Assim,
um átomo de cobre é a mínima porção de cobre que deixa de ser cobre, ao
se subdividir, para tornar-se outra coisa. Também com a palavra "onipotente"
ocorre coisa semelhante. Na origem, "omnipotente" significa "o que pode
tudo". Contudo somos forçados a reconhecer que o Deus "Onipotente" não
pode mentir, não pode pecar, não pode fazer coisas ilógicas, não pode dividir
por zero, não pode dar o valor de uma função matemática indefinida, não
pode ser e não ser, etc. Torna-se necessário dar à palavra uma definição
mais moderna que dê ao Onipotente a opção de não fazer aquilo que não lhe
faz sentido nem lhe interessa fazer.

Apesar de se nos dizer em Jo 4.24 que Deus é Espírito, o nome se aplica


mais particularmente à terceira pessoa da Trindade. O termo hebraico com o
qual Ele é designado é Ruach, e o grego, é pneuma, ambos os quais, como o
vocábulo latino spiritus, derivam de raízes que significam “soprar”, “respirar”.

O Velho Testamento geralmente emprega o termo “espírito” sem


qualificativos, ou fala do “Espírito de Deus” ou “Espírito do Senhor”, e utiliza a
expressão “Espírito Santo” somente em Sl 51.11; Is 63.10, 11, enquanto que
o Novo Testamento esta veio a ser uma designação da terceira pessoal da
Trindade. É um fato notável que, enquanto o Velho Testamento
repetidamente chama a Deus “o Santo de Israel”, Sl 71.22; 89.18; Is 10.20;
41.3; 48.17, o Novo Testamento raramente se aplica o adjetivo “santo” a
Deus em geral, mas utiliza freqüentemente para caracterizar o Espírito. Com
toda a probabilidade isto se deve ao fato de que foi especialmente no Espírito
e Sua obra santificadora que Deus se revelou como Santo. É o Espírito Santo
que faz Sua habitação nos corações dos crentes, que os separa para Deus, e
que os purifica do pecado.

A palavra hebraica para “espírito” é ruach, e aparece 376 vezes no Velho


Testamento. É traduzida 100 vezes como “Espírito de Deus”, “Espírito de
14

Javé”, “teu Espírito” e “Espírito Santo”. Nas demais vezes aparece como
“espírito do homem”, “vento”, “sopro” e “respiração”.

A versão grega dos Setenta traduziu ruach pela palavra grega pneuma de
mesmo significado, traduzindo 49 vezes essa palavra hebraica pelo vocábulo
grego anemos, que quer dizer “vento”. A palavra ruach não tem apenas um
significado, e disso grupos como a organização STV se aproveita para
traduzir veruach Elohim: “E o Espírito de Deus” (Gn 1.2) por “e a força ativa
de Deus”. Embora a palavra ruach tenha mais de um significado, isso não dá
a ninguém o direito de fazer uma tradução ímpia, perversa, arbitrária, como
está traduzido na TNM. Essa estratégia é uma camisa-de-força.

Os substantivos gregos apresentam três gêneros: masculino, feminino e


neutro. A palavra grega pneuma, usada amplamente no Novo Testamento
para “espírito”, é substantivo neutro. Assim, os adjetivos, demonstrativos etc.,
devem concordar com o substantivo em gênero, caso e número.

Em Jo 16.13 e 14, “aquele Espírito de verdade... Ele me glorificará”, vem


precedido do pronome demonstrativo “aquele” (masculino), e não neutro, que
concordaria com o substantivo, como determina a gramática grega. O texto
grego diz: ekeinos, to pneuma tes aletheias,... ekeinos eme doxasei. Veja que
o demonstrativo deveria ser, para concordar em gênero, ekeinon, neutro, e
não ekeinos.

Isso também acontece com o relativo “que”, em Jo 15.26, e com o relativo “o


qual” em Ef 1.14. É claro que aparecem no Novo Testamento casos em que o
demonstrativo e o relativo aparecem no neutro para modificar a palavra
“espírito”. Essa anomalia observada no uso do demonstrativo masculino em
lugar de neutro revela a personalidade do Espírito Santo. O Ruach de Deus
aparece na obra da criação (Gn 1.2); como o que orna os céus (Jó 26.13) e o
que renova a face da terra (Sl 104.30). Atua nos que foram separados para o
trabalho de Deus (Êx 31.3) e no que diz respeito à liderança (Jz 3.10). Ele
inspirou os profetas (2Pe 1.21), é o responsável pela regeneração do pecador
(Jo 3.5,6; Tt 3.5) e predisse a vinda do Messias (1Pe 1.10,11).

O Espírito Santo é Deus. Negar esta verdade é insultá-lo, é fazer agravo ao


Espírito da graça (Hb 10.29). Assim sendo, é essencial que os crentes
reconheçam a importância do Espírito Santo no plano divino da redenção.
Sem a presença do Espírito Santo neste mundo, não haveria a criação, o
universo, nem a raça humana (Gn 1.2; Jó 26.13; 33.4; Sl 104.30). Sem o
Espírito Santo, não teríamos a Bíblia (2Pe 1.21), nem mesmo o Novo
Testamento (Jo 14.26, 1Co 2.10) e nenhum poder para proclamar o
Evangelho (At 1.8). Sem o Espírito Santo, não haveria fé, nem novo
nascimento, nem santidade e nenhum cristão neste mundo.
Pneumatologia 15

1.3 A Personalidade do Espírito Santo


Apesar de tudo quanto podemos acolher com gratidão daquilo que o Antigo
Testamento nos ensina a respeito do Espírito Santo, a doutrina realmente
distintiva a respeito provém do Novo Testamento.

Em João 7.39, lemos que: “Até então o Espírito ainda não tinha sido dado,
pois Jesus ainda não fora glorificado”. O que fica claro é que o Espírito, até
então, nunca tinha sido outorgado no sentido mais pleno, e que não seria
derramado sobre toda carne até que Jesus fosse glorificado. Ou seja: o
Espírito Santo, conforme é definido no Novo Testamento, é outorgado às
pessoas como resultado da obra de Jesus Cristo. O Novo Testamento, a
partir de então, continua ressaltando a íntima conexão entre o Espírito e
Jesus.

As expressões “Espírito de Deus” e “Espírito Santo” não sugerem


personalidade com a clareza que o temo “Filho” sugere. Além disso, a pessoa
do Espírito Santo não apareceu de forma pessoal claramente discernível
entre os homens, como aconteceu com a pessoa do Filho de Deus. Como
resultado, a personalidade do Espírito Santo muitas vezes foi posta em
questão e, portanto, merece atenção especial.

A personalidade do Espírito foi negada na Igreja Primitiva pelos monarquistas


e pneumatomaquianos. Nesta negação eles foram seguidos pelos socianos
dos dias da Reforma. Mas recentemente, Schleiermacher, Ritschil, os
unitários, os modernistas dos dias atuais e todos os sabelianos modernos
rejeitam a personalidade do Espírito Santo. Muitas vezes se diz hoje em dia
que as passagens que parecem implicar a personalidade do Espírito Santo
simplesmente contêm personificações.

1.3.1 Atitudes e Ações do Espírito que Somente uma Pessoa Pode Ter

A crença na personalidade do Espírito Santo é uma das características da fé


cristã. Esta crença deriva do exame preciso e cuidadoso de passagens
bíblicas, e contrasta com a noção explicada por muitas seitas. Algumas seitas
apresentam o Espírito Santo como sendo uma influência impessoal, uma
força ou uma energia. Entretanto, a Palavra de Deus nos revela que o
Espírito Santo é uma pessoa, pois menciona atitudes e ações do Espírito que
somente uma pessoa pode ter. Ele possui uma mente, vontade e emoções,
que são características de uma pessoa e não de uma influência ou força.
Vejamos algumas provas bíblicas:
16

Entretanto, através da Bíblia, o Espírito Santo é revelado como Pessoa, com


sua própria individualidade (2Co 3.17,18; Hb 9.14; 1Pe 1.2). Ele é uma
Pessoa divina como o Pai e o Filho (At 5.3,4). O Espírito Santo não é mera
influência ou poder. Ele tem atributos pessoais, a saber: Ele pensa (Rm 8.27),
sente (Rm 15.30), determina (1Co 12.11) e tem a faculdade de amar e de
deleitar-se na comunhão. Foi enviado pelo Pai para levar os crentes à íntima
presença e comunhão com Jesus (Jo 14.16-18,26). À luz destas verdades,
devemos tratá-lo como pessoa, que é, e considerá-lo Deus vivo e infinito em
nosso coração, digno da nossa adoração, amor e dedicação.

1.3.1.1 O Espírito Santo se Entristece

"E não entristeçais o Espírito Santo de Deus, no qual fostes selados para o
dia da redenção" (Ef 4.30). Somos admoestados a não entristecer o Espírito
Santo, retratando, portanto, que Ele possui as emoções de uma pessoa. Ele
sofre quando pecamos e se entristece com as manifestações do nosso
pecado.

1.3.1.2 O Espírito Santo tem Ciúmes

"Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus?


Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, constitui-se inimigo de Deus.
Ou supondes que em vão afirma a Escritura: é com ciúme que por nós anseia
o Espírito, que Ele fez habitar em nós?" (Tg 4.4,5). Quando traímos a Deus
através dos nossos pecados, ambigüidades, contradições, negações da fé,
amasiamentos com o mundo, o Espírito de Deus sente ciúmes, como o
marido, quando a mulher adultera e vice-versa. Ele sente ciúmes do adultério
moral (impureza), espiritual (idolatria), econômico (amor ao dinheiro) e
político (paixão e esperanças políticas mais acentuadas em relação ao
programa humano que ao Reino de Deus). O Espírito Santo não é
simplesmente alguém que entra em nós e depois sai. Ele vem e fica. Além
disso, Ele não está presente para energizar-nos a vida. Não. Ele é uma
pessoa com a qual mantemos relações pessoais.

1.3.1.3 O Espírito Santo Pensa

“E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é


ele que segundo Deus intercede pelos santos” (Rm 8.27). Neste texto, as
Escrituras dizem que o Espírito Santo examina os corações, ou seja,
examinar é raciocinar, é calcular, é emitir juízos. Uma força jamais pode
calcular, jamais pode examinar, só uma pessoa pode fazê-lo. Noutro trecho,
diz que o Espírito Santo compara, ou seja, faz juízos, julgamentos, o que é
exclusivo de uma Pessoa (1Co 2.13): “As quais também falamos, não com
Pneumatologia 17

palavras de sabedoria humana, mas com as que o Espírito Santo ensina,


comparando as coisas espirituais com as espirituais”.

1.3.1.4 O Espírito Santo tem Sentimentos, Ama

"Rogo-vos irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito..."
(Rm 15.30). Neste texto, as Escrituras dizem que o Espírito Santo tem amor,
ou seja, ama, tem sentimentos. Uma força não pode amar, somente uma
pessoa. Mas, em outro trecho, a Bíblia recomenda que o Espírito pode se
entristecer (Is 63.10; Ef 4.30). Uma força, um "fluir" nunca pode ficar triste,
somente uma pessoa. Mas o Espírito Santo não só Se entristece, como a
Palavra os diz que Ele tem alegria, que Ele Se alegra, tanto que faz com que
as pessoas sintam a Sua alegria, a começar pelo próprio Senhor Jesus (Lc
10.21) e, depois, dos discípulos (1Ts 1.6). Mas as Escrituras também nos
revelam que o Espírito Santo tem ciúmes, ou seja, tem zelo pelos servos do
Senhor, outro sentimento impossível para uma mera força – “Ou cuidais vós
que em vão diz a Escritura: O Espírito que em nós habita tem ciúmes?” (Tg
4.5).

1.3.1.5 O Espírito Santo Determina

“Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo


particularmente a cada um como quer” (1Co 12.11). Neste texto, é dito que o
Espírito Santo reparte, como quer, os dons espirituais entre os crentes, ou
seja, tem vontade, tem autodeterminação, algo que jamais uma força pode
ter, mas tão somente uma pessoa. Em At 2.4, também é dito que os
discípulos falavam línguas estranhas conforme a concessão que lhes dava o
Espírito Santo, ou seja, quem determinava qual língua e quando deveria ser
ela falada era o Espírito, algo que uma força jamais poderia realizar. Diferente
não foi no chamado Concílio de Jerusalém, onde o Espírito Santo deu o Seu
parecer a respeito da discussão a respeito da observância da lei de Moisés
(At 15.28).

1.3.1.6 O Espírito Santo Convence

“E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo”


(Jo 16.8). Jesus disse que o Espírito convenceria o mundo do pecado, da
morte e do juízo. Uma força não pode convencer, quando muito pode deter
ou obrigar uma determinada atitude. Só uma pessoa pode convencer alguém,
pode argumentar e obter a anuência, a adesão da vontade de outrem. O
convencimento é fruto de uma argumentação, ou seja, de uma operação
intelectual, de uma série de raciocínios, de ponderações, de julgamentos.
Somente uma pessoa é capaz de fazê-lo e, quando Jesus nos indica que o
Espírito Santo o faz, está a dizer-nos que se trata de uma Pessoa.
18

1.3.1.7 O Espírito Santo Glorifica

“Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de


anunciar” (Jo 16.14). Jesus disse que o Espírito Santo O glorificaria. Ora,
uma força não pode dar glória a ninguém, porque glorificar, dar glória envolve
consciência, capacidade de perceber que alguém é divino e que, por isso,
merece honra e glória. Por isso, só os homens e anjos, seres dotados de
consciência, podem fazê-lo, nem mesmo os seres vivos irracionais. Deste
modo, não há como deixar de reconhecer que o Espírito Santo, tal como
Jesus no-Lo mostra, é uma Pessoa.

1.3.1.8 O Espírito Santo tem Consciência de Si e dos outros

“Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a
verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e
vos anunciará o que há de vir” (Jo 16.13). Jesus revelou que o Espírito Santo
não fala de Si mesmo. Ora, se o Espírito Santo não fala de Si mesmo, é
porque sabe discernir entre Si mesmo e os outros. Esta expressão bíblica é
muito importante, porque desmente todo e qualquer pensamento que busca
entender nas Pessoas divinas tão somente um “modo”, ou seja, tão somente
uma expressão de uma suposta única Pessoa (como fazem os chamados
“unicistas” ou “modalistas”, que, por exemplo, se revelam em movimentos
como o “Voz da Verdade”). Aqui Jesus é bem claro ao dizer que existe aquilo
que é do Espírito Santo e o que é do Filho (e, por extensão, também
podemos inferir daquilo que é do Pai). Se o Espírito glorifica ao Filho e não
fala do que é de Si mesmo, é porque existe aquilo que Lhe é próprio, assim
como o que é próprio de Cristo. Tem-se, portanto, que o Espírito Santo é uma
Pessoa.

1.3.1.9 O Espírito Santo Fala

"Então disse o Espírito a Filipe: aproxima-te desse carro e acompanha-o..."


(At 8.29). Aqui, percebemos que o Espírito Santo é um Ser que fala. Ora,
uma força não pode falar, mas uma Pessoa, sim. Tanto é certo que o Espírito
Santo fala que, em At 13.2, isto é explicitamente mencionado, como também
em 1Tm 4.1 e Hb 3.7, bem assim em todas as cartas que Jesus enviou às
igrejas da Ásia Menor (Ap 2.7,11,17,29; 3.6,13,22), como num instante em
que se fazia a revelação a João das coisas que brevemente hão de acontecer
(Ap 14.13).

1.3.1.10 O Espírito Santo Ouve

No mesmo texto já mencionado, a Bíblia diz que o Espírito Santo dirá aquilo
que tiver ouvido. Portanto, é um ser, é uma Pessoa, pois tem capacidade de
Pneumatologia 19

ouvir e não é um simples ouvir, mas um ouvir que retém e que discerne o que
se ouve para depois o anunciar (Ver Jo 16.13).

1.3.1.11 O Espírito Santo Ensina

“Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome,
esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos
tenho dito” (Jo 14.26). Só uma Pessoa pode nos ensinar, somente uma
Pessoa pode ser Mestre e o Espírito Santo tem como uma de suas principais
funções a de ensinar os discípulos do Senhor Jesus enquanto aqui estiverem
aguardando o seu Salvador.

Observe o final do versículo: “... e vos fará lembrar...” - Quando Jesus diz que
o Espírito Santo nos faria lembrar de tudo quanto o Senhor Jesus nos tem
dito, está a nos revelar uma face maravilhosa deste Professor e Mestre que é
o Espírito Santo. O Espírito Santo não só é um Mestre (algo que uma força
não pode ser, como o vimos), como também é um Mestre dedicado, um
Professor comprometido com os Seus alunos. Um bom professor é aquele
que está preocupado em verificar se os seus alunos aprenderam e, por isso,
sempre os faz lembrar daquilo que os ensinou. É exatamente este o papel do
Espírito Santo. Quando Ele nos faz lembrar, não é porque seja uma força
cega, um “remédio para a memória”, mas, bem ao contrário, é um Professor
dedicado, que mostra ser uma Pessoa não só porque ensina, mas também
porque ama e quer o melhor para os Seus alunos, quer que Seus alunos
efetivamente aprendam o que lhes foi ensinado. Tanto assim é que sua ação
não é meramente de lembrança, mas também de juízo de conveniência, pois
nos lembrar o que convém falar é algo que uma força jamais poderia fazer
(Lc 12.12). “Porque na mesma hora vos ensinará o Espírito Santo o que vos
convenha falar”.

1.3.1.12 O Espírito Santo Ora

“E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque


não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito
intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26); “E, porque sois
filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama:
Aba, Pai” (Gl 4.6). Ao dizer que o Espírito Santo ora, ajudando os crentes nas
suas fraquezas, o texto sagrado mostra-nos que o Espírito Santo é uma
Pessoa, pois só uma Pessoa pode orar.
20

1.3.1.12 O Espírito Santo é constantemente referido em igualdade de


tratamento com outras pessoas

Sabemos que o Pai e o Filho são pessoas, e em Mateus 28.19 Jesus ensina
aos discípulos que deveriam batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito
Santo. Isto indica que o Espírito Santo também é uma pessoa, como os
outros dois. Em Atos 15.28, Tiago fala do Espírito Santo como uma pessoa
capaz de pensamentos e idéias, tão pessoal quanto os apóstolos que deviam
seguir os Seus ensinamentos.

1.3.2 O Espírito Santo é uma Pessoa

A personalidade está envolvida na “mente” ou “intenção” do Espírito (Rm


8.27), que é considerado entidade pensante, assim como em 1Co 2.11 - “O
Espírito conhece”. Não se trata de um ser friamente intelectual, pois Paulo
fala do “amor do Espírito” (Rm 15.30) e da possibilidade de “entristecer” o
Espírito Santo (Ef 4.30). O amor e cuidado do Espírito pelas pessoas são
vistos na sua intercessão intensiva “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26), e
isso “de acordo com a vontade de Deus” (v. 27), o que enfatiza sua união
com o Pai. O Espírito Santo “clama” (Gl 4.6), habita nas pessoas (Rm 8.9), as
dirige (Rm 8.14) e as ensina (1Co 2.13). “O próprio Espírito testifica ao nosso
espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).

Paulo, repetidas vezes associa o Espírito com o Pai e o Filho, como, por
exemplo, quando diz:

(a) “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do


Espírito Santo seja com todos vocês” (2Co 13.13).

(b) “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há


diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há
diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em
todos. Mas a manifestação do Espírito Santo é dada a cada um para o
que for útil” (1Co 12.4-6).

(c) “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados


em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé,
um só batismo. Um só Deus e pai de todos, o qual é sobre todos e por
todos, e em todos” (Ef 4.4-6).

Não se pode imaginar que Paulo quisesse nos dizer que, apesar de o Pai e o
Filho serem Pessoas, o Espírito Santo não é Pessoa. Os três são invocados
em pé de igualdade.
Pneumatologia 21

1.3.3 O Espírito Distinto do Pai e do Filho

A maioria das referências ao Espírito Santo no Novo Testamento alude a Ele


em operação, mas sem referência ao Pai ou ao Filho. Exemplificando: “Pelo
Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria” (1Co 12.8). Aqui temos o
Espírito fazendo algo dentro do crente. Segundo a impressão dada pelo
referido texto e por inúmeros outros no Novo Testamento, Ele é classificado
como Entidade individual. No entanto, não podemos ficar somente com
alguma impressão. Existem várias passagens que falam de todas as três
Pessoas da Trindade. Temos a “graça”, em 2Co 13.13, as “unidades” (”um
só”), em Ef 4.4-6 e as “diversidades”, em 1Co 12.4-6.

Temos ainda a fórmula batismal registrada em Mateus 28.19: “Em nome do


Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Em Marcos 1.10-11, lemos que o Espírito
desceu em forma de pomba sobre Jesus e, ao mesmo tempo, a voz do Pai
veio dos Céus. Cada membro da Trindade tem seu respectivo papel
separado nesse episódio.

No mesmo sentido, vemos o Filho orando ao Pai para ele enviar o Espírito
(Jo 14.16). Tanto o Pai quanto o Filho estão envolvidos na missão do Espírito
(Jo 14.26; 15.26; 16.15). Às vezes, toda a Trindade é mencionada: “Por meio
dele [de Cristo] tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só
Espírito”, Ef 2.18 (RA). Uma dupla menção acha-se em Romanos 8.11: “E, se
o Espírito daquele [de Deus] que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos
habita em vocês, aquele [Deus] que ressuscitou a Cristo dentre os mortos
também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que
habita em vocês”. Veja também Romanos 15.16; 1Coríntios 6.11;
2Tessalonicenses 2.13; Tito 3.4-6; 1Pedro 1.2 e Judas 20-21. Essas são
passagens suficientes para vermos que o Novo Testamento ensina sobre as
três Pessoas em conjunto.

Há passagens que se referem aos dois membros da Trindade de modo que


não podem ser considerados idênticos. Jesus nos diz: “… é para o bem de
vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se
eu for, eu o enviarei” (Jo 16.7). Esse texto exclui a possibilidade de a
identidade entre Jesus e o Espírito ser confundida. Da mesma forma, vemos
o Espírito Santo fazendo intercessão por nós diante do Pai (Rm 8.26-27), o
que exclui a identidade do Espírito ser confundida com a do Pai. Por meio
desses textos, notamos claramente que é, então, mantida uma distinção
entre os membros da Trindade, e é excluída a idéia de o Espírito ser um
“aspecto” ou “força” do Pai e do Filho. Assim, o Espírito não é uma coisa, mas
uma Pessoa.
22

1.3.4 O Espírito em Associação com o Pai e o Filho

Já notamos que existem várias passagens no Novo Testamento onde o


Espírito é mencionado na mais íntima conexão com o Pai e o Filho. Nelas,
nada se diz a respeito do relacionamento entre os membros da Trindade. No
entanto, muita coisa está subentendida, conforme veremos. Na fórmula
batismal (“… batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”,
Mt 28.19), não há definição da natureza essencial dos membros da Trindade.
Quanto à deidade, nenhum ser no Céu ou na Terra poderia ser colocado na
mesma expressão, na mesma categoria. A palavra “nome” está no singular -
o que expressa a unidade das três Pessoas. A deidade consiste no Pai, no
Filho e no Espírito Santo.

O mesmo pode ser dito a respeito de todos os textos que vinculam entre si as
três Pessoas. O Espírito é um ser em igualdade de condições com o Pai e o
Filho. O Espírito participa da inauguração do ministério de Jesus, ao descer
sobre Ele no batismo (Mc 1.10-11). O Espírito também se destaca na
encarnação de Jesus.

Em Mateus 1.18, Maria se achou grávida pelo Espírito Santo (Lc 1.35),
vemos ainda o Espírito Santo levando as pessoas a Jesus, testemunhando
Dele e continuando a sua obra (Jo 14.26; 15.26; 16.13-15).

Paulo, em Romanos 15.16, fala dos gentios sendo “santificados pelo Espírito
Santo”. As Boas-Novas daquilo que Cristo fez em favor das pessoas incluem
um lugar para a operação do Espírito. A obra do Pai em dar vida às pessoas
é “pelo seu Espírito, que habita em vós” (Rm 8.11).

O conceito de Deus, por mais sublime e enaltecido que seja, vir a conviver
com o homem em amor e misericórdia é visto em muitas partes das
Escrituras: “Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo
nome é santo: Num alto e santo lugar habito, e também com o contrito e
humilde de espírito” (Is 57.15).

Às vezes, é deixado claro que é por meio do Espírito Santo que Deus convive
entre as pessoas e dentro delas. É assim que Paulo escreve aos coríntios:
“Não sabeis, vós que sois templos de Deus, e que o Espírito de Deus habita
em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o
templo de Deus que sois vós, é santo” (1Co 3.16-17).

O santuário é onde as pessoas buscam a presença de Deus, é onde Deus


habita de modo especial. E no santuário, aqui mencionado, é o “Espírito de
Deus” que habita. A inferência é clara: o Espírito Santo é Deus - Deus
habitando no homem (1Co 6.19).
Pneumatologia 23

De acordo com o registro de João, Jesus, na noite antes da crucificação,


disse aos apóstolos: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador,
para que fique convosco para sempre; o Espírito da verdade que o mundo
não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis,
porque habita convosco, e estará em vós” (Jo 14.16-17).

Não se trata de uma manifestação fugaz e secundária. A presença do


Espírito dentro das pessoas é “para sempre”, enquanto o crente nutri-la. Essa
presença santificadora e eterna, como num santuário, não pode ser menos
do que Deus.

1.3.5 As Coisas mais Profundas de Deus

Paulo, referindo-se à sabedoria que o Espírito nos revela (1Co 2.6-10a),


explica: “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais
profundas de Deus. Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não
ser o espírito do homem que nele está. Da mesma forma, ninguém conhece
os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus” (1Co 2.10-11).

O Espírito, tendo a própria natureza da deidade, tem nítido conhecimento das


coisas de Deus. As mensagens dos profetas, registradas no Antigo
Testamento, não tiveram sua origem na sagacidade, entendimento e
habilidade deles, mas “falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito
Santo” (2Pe 1.21). O Espírito Santo, de dentro da deidade, inspirou os
profetas nas coisas que nenhuma pessoa criada poderia saber por conta
própria.

1.3.6 Blasfêmia Contra o Espírito


Em todos os três Evangelhos Sinóticos, está registrada a declaração de
Jesus no sentido de a blasfêmia contra o Espírito Santo ser considerada o
mais hediondo de todos os pecados (Mt 12.31-32; Mc 3.28-29 e Lc 12.10).
Mateus e Lucas declaram especificamente que é pior do que a blasfêmia
contra o Filho do Homem, Jesus Cristo. Decerto, não se refere a algumas
meras palavras levianas ou caluniadoras. Seria mais uma atitude total à vida.
A ocasião foi a declaração dos oponentes de Jesus, no sentido de Ele
expulsar demônios por meio de “Belzebu, o príncipe dos demônios” (Mt
12.24). Atribuíram, deliberadamente, os atos de misericórdia de Jesus,
realizados no poder do Espírito Santo, aos poderes do Maligno. Classificaram
o bem como iniqüidade, e assim rejeitaram tudo quanto Cristo representava.
A consciência de tais pessoas normalmente está cauterizada, em contraste
com a consciência tenra, aflita com a possibilidade de ter falado algo assim,
sem querer.
24

Posto que o Espírito Santo caracteriza especificamente a vida nova que


Cristo veio trazer, pecar contra o Espírito Santo é repudiar semelhante vida. À
luz da revelação luminosa e clara do Evangelho, esse repúdio viola as
convicções do intelecto, a iluminação da consciência e os ditames do
coração. É atribuir a Satanás uma obra nitidamente da parte de Deus, é dizer
que o Espírito Santo é um espírito maligno, e que Cristo é o próprio Satanás.
No presente estudo, o assunto em pauta é a divindade do Espírito Santo, e
vemos que blasfemá-lo é pior do que a blasfêmia contra Jesus Cristo, cuja
divindade não está em dúvida entre os cristãos.

A confirmação dessa divindade é vista no começo do ministério Jesus,


quando “o Espírito o impeliu para o deserto” (Mc 1.12). Aqui, o Espírito Santo
não pode ser inferior a Jesus. Da mesma forma, na primeira pregação de
Jesus, Ele declarou ser o cumprimento da profecia de Isaías: “O Espírito do
Senhor está sobre mim” (Lc 4.18 e Is 1.1-2). Seu ministério foi realizado no
poder e na orientação do Espírito Santo, que, portanto, não pode ser menos
deidade do que Jesus Cristo.

São-lhe atribuídas características de pessoa, como inteligência (Jo 14.26;


15.26; Rm 8.16); vontade (At 16.7; 1Co 12.11); e sentimentos (Is 63.10; Ef
4.30). Ademais, Ele realiza atos próprios de personalidade. Sonda, fala,
testifica, ordena, revela, luta, cria, faz intercessão, vivifica os mortos, etc. (Gn
1.2; 6.3; Lc 12.12; Jo 14.26; 15.26; 16.8; At 8.29; 13.2; Rm 8.11; 1Co
2.10,11). O realizador destas coisas não pode ser um simples poder ou
influência, mas tem que ser uma pessoa divina.

O Espírito Santo é apresentado como mantendo tais relações com outras


pessoas, que implicam Sua própria personalidade. Ele é colocado na
justaposição com os apóstolos em At 15.28, com Cristo em Jo 16.14, e com o
Pai e o Filho em Mt 28.19; 2Co 13.13; 1Pe 1.1,2; Jd 20,21. Uma boa exegese
exige que nestas passagens o Espírito Santo seja considerado uma pessoa
divina.

Também há passagens em que se distingue entre o Espírito e o Seu Poder


(Lc 1.35; 4.14; At 10.38; Rm 15.13; 1Co 2.4). Tais passagens seriam
tautalógicas (dizer o mesmo repetidas vezes como se estivesse a apresentar
informação nova), sem sentido, e até absurdas, se fossem interpretadas com
base no princípio de que o Espírito é pura e simplesmente um poder
impessoal. Pode-se ver isto substituindo o nome “Espírito Santo” pela palavra
“poder” ou “influência”.
Pneumatologia 25

1.3.7 A Conclusão das Controvérsias Trinitárias

As primeiras controvérsias trinitárias levaram à conclusão de que o Espírito


Santo, como o Filho, é da mesma essência do pai e, portanto, é
consubstancial com Ele. E a longa discussão acerca da questão, se o Espírito
Santo procedeu somente do pai ou também do Filho, foi firmada finalmente
pelo Sínodo de Toledo em 589, pelo acréscimo da palavra “Filioque” (e do
Filho) à versão latina do Credo de Constantinopla: “Credimos in Spiritum
Sanctum qui a Patre Filioque procedidit” (“Cremos no Espírito Santo, que
procede do Pai e do Filho”). Esta processão do Espírito Santo,
resumidamente chamada espiração, é Sua propriedade pessoal. Muito do
que foi dito a respeito da geração do Filho também se aplica à espiração do
Espírito Santo, e não é necessário repetir. Notem-se, contudo, os seguintes
pontos de distinção entre ambas:

(a) A geração é obra exclusiva do Pai; a espiração é obra do pai e do


Filho.

(b) Pela geração o Filho é habilitado a tomar parte na obra de espiração,


mas o Espírito Santo não adquire esse poder.

(c) Segundo a ordem lógica, a geração precede à espiração. Devemos


lembrar, porém, que isso tudo não implica nenhuma subordinação
essencial do Espírito Santo ao Filho. Na espiração, como na geração,
há uma comunicação da substância total da essência divina, de modo
que o Espírito Santo está em igualdade com o Pai e o Filho. A
doutrina da processão do Espírito Santo do Pai e do Filho baseia-se
em Jo 14.26 e 15.26, e no fato de que o Espírito é chamado também
o Espírito de Cristo e do Filho, (Rm 8.9; Gl 4.6), e é enviado por Cristo
ao mundo.

Pode-se definir a espiração como o terno e necessário ato da primeira e da


segunda pessoa da Trindade pelo qual elas, dentro do Ser Divino, vêm a ser
a base da subsistência pessoal do Espírito Santo, e propiciam à terceira
pessoa a posse da substância total da essência divina, sem nenhuma
divisão, alienação ou mudança.

O Espírito Santo está na relação mais estreita possível com as outras


pessoas. Em virtude da Sua processão do Pai e do Filho, o Espírito é descrito
como estando na relação mais estreita possível com as outras duas pessoas.
De 1Co 2.10,11 podemos inferir, não que se deve identificar o Espírito com a
autoconsciência de Deus, mas, sim, que Ele é tão estreitamente relacionado
com Deus o pai como a alma humana o é com o homem. Em 2Co 3.17
lemos: “Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há
26

liberdade”. Aí o Senhor (Cristo) é identificado com o Espírito, não quanto à


personalidade, mas quanto à maneira de agir. Na mesma passagem o
Espírito é chamado “o Espírito do Senhor”. A obra para a qual o Espírito
Santo foi enviado à igreja no dia de Pentecostes estava baseada em Sua
unidade com o Pai e com o Filho. Ele veio como o Paráclito (Paracleto) para
tomar o lugar de Cristo e realizar a Sua obra na terra, isto é, para ensinar,
proclamar, testificar ou dar testemunho etc., como o Filho fizera. Pois bem, no
caso do Filho, esta obra de revelação estava firmada em Sua unidade com o
Pai. Justamente assim a obra do Espírito baseia-se em Sua unidade com o
Pai e com o Filho (Jo 16.14,15). Notem-se as palavras de Jesus nesta
passagem: “Ele me glorificará porque há de receber do que é meu, e vo-lo há
de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há
de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar”.
Pneumatologia 27

Capítulo 2

A Divindade do Espírito Santo


Com certa freqüência, os cristãos foram e, às vezes, ainda são acusados de
ser politeístas – adoradores de mais de um Deus. Essa é uma acusação
compreensível, mas falsa. Como cristãos, admitimos que existam três
Pessoas na Divindade: "são um em desígnio, mente, em caráter, mas não em
pessoa". A religião cristã não é uma crença em três Deuses separados; ao
contrário, é uma crença em um Deus que Se manifesta em três pessoas que
trabalham em perfeita harmonia uma com a outra.
Não é necessário ler muito na Bíblia para encontrar o Espírito Santo. Por
exemplo, Gênesis 1.2: "A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia
trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as
águas"; outro exemplo está no outro extremo da Bíblia, Apocalipse 22.17: "O
Espírito e a noiva dizem: Vem! Aquele que ouve, diga: Vem! Aquele que tem
sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida".
É evidente que entre esses dois textos, ao longo das páginas das Escrituras,
são revelados o a Divindade e a obra do Espírito Santo, especialmente no
Novo Testamento, onde nos são dadas muitas informações sobre a
realidade, o propósito e a função do Espírito Santo, particularmente com
respeito ao plano de salvação.
A maioria das pessoas não tem dificuldades com a idéia de o Pai ser Deus.
Afinal, Deus é Pai. Mesmo a idéia de Jesus como Deus, como um Ser
completamente divino manifesto em forma humana, embora um tanto difícil
de entender, é compreensível. Afinal, um Deus todo-poderoso deve ser capaz
de manifestar-Se em carne humana se decidir fazer isso, certo?
No entanto, para muitos, o conceito de o Espírito Santo ser Deus é muito
mais difícil. É bem mais fácil pensar no Espírito Santo, não como o próprio
Deus, mas como algum tipo de força impessoal, alguma energia ou poder
divino, como a gravidade, que vem de Deus e permeia o mundo. Mas a Bíblia
é clara em afirmar que o Espírito Santo é divino; isto é, o Espírito Santo,
assim como o Pai e o Filho, é um dos personagens da Divindade.
28

2.1 Atributos Divinos do Espírito Santo


Os atributos do Espírito Santo nas Sagradas Escrituras demonstram sua
verdadeira divindade.

2.1.1 Sua Onipresença


Em todas as partes do Novo Testamento, vê-se que o Espírito Santo tem
atributos divinos. Assim como Deus Pai é considerado onipresente, assim
também o Espírito Santo: “Pois em um só corpo todos nós fomos batizados
em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E
a todos nós foi dado beber de um único Espírito” (1Co 12.13). Forçosamente,
o Espírito precisa estar em todos os lugares para poder exercer semelhantes
funções. Semelhantemente, vemos isso na passagem sobre “as coisas
profundas de Deus” (1Co 2.10). Nada, nem sequer as coisas que pertencem
à própria natureza de Deus, está desconhecido ao Espírito.

2.1.2 Sua Onipotência


Quanto à onipotência, é possível que seja atribuída ao Espírito Santo em
passagens tais como Romanos 15.19: ”… pelo poder de sinais e maravilhas e
por meio do poder do Espírito de Deus…” ou 1Coríntios 12.11, que fala do
Espírito que distribui os seus dons “individualmente, a cada um, como quer”.
No mínimo, nada ou ninguém pode impedi-lo de fazer tais coisas. A
capacidade de salvar, que é atribuída ao Espírito Santo por todo o Novo
Testamento (Rm 8.2, 11 e Tt 3.5), também pode ser considerada atributo
divino - no Antigo Testamento, é prerrogativa de Deus dar a salvação ao seu
povo.

2.1.3 Autor das Sagradas Escrituras


Nessa categoria de atributos divinos, devemos classificar as passagens que
declaram que o Espírito Santo é Autor das Sagradas Escrituras, tais como
Atos 1.16: “… era necessário que se cumprisse a Escritura que Espírito Santo
predisse por boca de Davi…”; e mormente Hebreus 10.15: ”O Espírito Santo
também nos testifica…”. Ao examinarmos a passagem do Antigo Testamento
citado nesse texto, que é Jeremias 31.33, vemos que são palavras do Senhor
Deus. Em Hebreus 3.7-9, a expressão “Assim, como diz o Espírito Santo”
inclui “onde os seus antepassados me tentaram”. Em Êxodo 17.7, o texto
“puseram o Senhor à prova” refere-se a Deus. Fica claro que o Espírito Santo
é considerado Deus no sentido mais plenário. Ainda mais porque o Espírito
Santo, como Autor do Antigo Testamento, é Autor das palavras
reconhecidamente pronunciadas por Deus.
Pneumatologia 29

2.1.4 E ainda: (a) Sabedoria: “E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR,


o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de
fortaleza, o espírito de conhecimento e de temor do SENHOR” (Is
11.2); (b) Verdade: “… aquele Espírito de verdade” (Jo 15.16); (c)
Santidade: “Declarado Filho de Deus em poder, segundo o Espírito de
santificação” (Rm 1.4); (d) Bondade: “Guie-me o teu bom Espírito” (Sl
143.10); (e) Unidade: “Há um só Espírito” (Ef 4:4); (f) Eternidade:
“Quanto mais o sangue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu
a si mesmo imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das
obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” (Hb 9.14).

2.2 O Espírito Santo é Deus


A conclusão lógica é atingida numa declaração explícita de que o Espírito Santo
é Deus. Pedro, falando ao marido de Safira, diz: “Ananias, como você permitiu
que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo?
(…) Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus” (At 5.3-5).

Pode-se estabelecer a veracidade da divindade do Espírito Santo com base na


Escritura seguindo uma linha de comprovação muito semelhante à que é
empregada com relação ao Filho:

(a) São-lhe dados nomes divinos, Êx 17.7 (cf. Hb 3.7-9); At 5.3, 4; 1Co 3.16;
2Tm 3.16; 2 Pe 1.21.

(b) São-lhe atribuídas perfeições divinas, como onipresença (Sl 139.7-10),


onisciência (Is 40.13,14; cf. Rm 11.34; 1Co 2.10,11), onipotência (1Co
12.11; Rm 15.19), eternidade (Hb 9.14).

(c) Ele realiza obras divinas, como a criação (Gn 1.2; Jó 26.13; 33.4),
renovação providencial (Sl 104.30), regeneração (Jo 3.5,6; Tt 3.5), e a
ressurreição dos mortos (Rm 8.11).

(d) É-lhe prestada honra divina (Mt 28.19; Rm 9.1; 2Co 13.13).

Há, portanto, evidências abundantes da divindade do Espírito. Mas, a conclusão


não depende somente das passagens citadas. A divindade do Espírito Santo não
é questão de textos isolados, mas é confirmada pelo conceito global da obra
inteira Dele.

E isso é de importância tremenda. Quando tomarmos consciência de que o poder


que entra em nosso coração e vida ao nos tornarmos cristãos não é o poder de
nenhuma criatura, mas do próprio Deus, isso faz de fato a diferença. Para alguns,
ter íntima comunhão com um ser angelical poderia valer algo; ter experiência em
primeira mão com uma força cósmica, também; mas, conhecer o poder e
presença contínua do próprio Deus é algo muito acima de tudo isso.
30
Pneumatologia 31

Capítulo 3

Nomes Atribuídos ao Espírito


Santo
Romanos 8.9-17 – “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é
que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito
de Cristo, esse tal não é dele. E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade,
está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça. E,
se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós,
aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará o vosso corpo
mortal, pelo seu Espírito que em vós habita. De maneira que, irmãos, somos
devedores, não à carne para viver segundo a carne, porque, se viverdes
segundo a carne, morrereis; mas, se pelo espírito mortificardes as obras do
corpo, vivereis. Porque todos mos que são guiados pelo Espírito de Deus,
esses são filhos de Deus. Porque não recebestes o espírito de escravidão,
para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de
filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O mesmo Espírito testifica com o
nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos,
logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é
certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos
glorificados” (Grifo nosso).

O que significa “Um só Espírito”, cf. Ef 4.4? Deus é Espírito auto-existente


(1Co 12.11). Ele não se apresenta com um único nome, porque sua função é
revelar o amor do Pai, através de Jesus Cristo. Em toda a Bíblia,
encontramos pronomes pessoais e demonstrativos que o identificam. Em
João 16.8,13,14, encontramos “ekeinos”, em grego, que significa “aquele”.
Jesus referia-se ao Espírito que viria, depois que Ele completasse sua obra
redentora e voltasse para o seio do Pai celestial.

O que expressam os seus nomes? Seus nomes falam de sua ligação com o
Pai, tais como: “Espírito de Deus”; “Espírito do Senhor”; “Espírito do nosso
Deus”. Também encontramos os que provam sua vinculação com o Filho,
como: “Espírito de Cristo”; “Espírito de Jesus Cristo”; “Espírito de seu Filho”,
etc. Há nomes que expressam sua divindade (2Co 3.18; Hb 9.14).

O que significa o nome Espírito Santo? Espírito (pneuma) indica a sua


natureza, diz respeito ao que Ele é em si mesmo. Santo (aguion) refere-se a
32

sua qualidade. Fala do que Ele realiza: A santificação dos que desejam ser
santos (1Pe 1.2).

Qual o significado da frase os Sete Espíritos de Deus? Parece, à primeira


vista, que a frase “sete espíritos de Deus”, de Apocalipse 1.4; 4.5 e 5.6,
choca-se com a declaração da existência de um só Espírito. Porém, a
pluralidade do termo “espíritos” refere-se a sete manifestações do Espírito
Santo entre os homens. O número “sete” fala de plenitude, totalidade. São as
formas múltiplas e distintas do mesmo Espírito. Dentro do contexto
doutrinário, estes “sete espíritos de Deus” expressam e manifestam a
unidade do Espírito Santo. Percebemos que a expressão “sete espíritos”
significa o Espírito Santo em sua natureza essencial, da mesma forma que
as “sete igrejas”. Vemos o Espírito Santo em Apocalipse 1.4, não na
unicidade de sua pessoa, mas na diversidade e plenitude das suas
operações. Em Apocalipse 4.5, mais uma vez, a expressão “sete espíritos de
Deus” é citada com o sentido figurado, para ilustrar a diversidade das
operações do Espírito nos juízos de Deus. Jamais limitemos as operações do
Espírito a sete modalidades, porque elas são múltiplas. Os números na Bíblia
não devem ser estabelecidos como regra doutrinária. Eles são simbólicos e
representativos. Por isso, a expressão “sete espíritos de Deus” não fere a
unidade do Espírito, mas revela a sua diversidade nas operações.

3.1 Espírito de Deus (1Co 3.16; 1Jo 4.2)


Os dois nomes Espírito e Deus indicam quem é e o que faz o Espírito Santo.
O primeiro identifica a terceira pessoa da Trindade. O segundo revela sua
deidade (Gn 1.2; 1Co 2.11). O Espírito é chamado Deus, porque a divindade
pertence às três pessoas da Trindade. Intitula-se Espírito de Deus, porque é
enviado pelo Pai (Jo 15.26). Ele é a sua promessa (At 1.4). Em Atos
28.25,26, o apóstolo Paulo identifica a mensagem profética de Isaías 6.8,9,
como a voz do “Espírito de Deus”. Em 1 João 4.2, distinguimos as três
pessoas da Trindade: “Nisto conhecereis o Espírito de Deus; todo o espírito
que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus”. A importância
deste nome é a identificação e a declaração de que o Espírito é Deus, visto
que o Espírito procede do Pai (Jo 15.26).

3.2 Espírito de Cristo (Rm 8.9)


O Espírito Santo ocupa espaço considerável nos escritos do apóstolo Paulo.
Chega ao ponto de ele dizer: “Se alguém não têm o Espírito de Cristo, não
pertence a Cristo” (Rm 8.9), e pela proposição positiva: “…porque todos os
que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).
Pneumatologia 33

3.2.1 O Espírito de Jesus

Não se pode negar que o Novo Testamento é marcado por uma profusão da
atividade do Espírito, tanto assim que Atos dos Apóstolos poderia ser
chamado “Atos do Espírito Santo”. Os Evangelhos relatam o que Cristo fez e
disse, enquanto Atos relata o que o outro Consolador fez e disse.

(a) O Espírito Santo é “o Espírito de Jesus” (Atos 16.6,7).

(b) “O Espírito de Jesus Cristo” (Filipenses 1.19).

(c) “O Espírito de Cristo” (Romanos 8.9).

(d) “O Espírito do seu [de Deus] Filho” (Gl 4.6).

A obra de Jesus e a obra do Espírito estão profundamente entrelaçadas entre


si. O Espírito dá testemunho de Jesus (Jo 15.26), faz as pessoas lembrarem-
se daquilo que Jesus disse (Jo 14.26) e glorifica a Jesus (Jo 16.14). Tudo
isso é sempre considerado como uma das conseqüências da encarnação.
Não há referência no Novo Testamento a alguma obra do Espírito à parte de
Cristo - trata-se do “Espírito de Cristo”. Portanto, o Espírito Santo, ao nos
alcançar, transmite a nós os pensamentos de Cristo, suas emoções, sua
vontade, sua vitalidade.

Ter o Espírito de Cristo em nossa vida cristã significa possuir a presença e a


ação do Espírito em nossa experiência. A presença do Espírito de Cristo na
vida do homem é percebida pela sua conduta no dia-a-dia. Ninguém, que
pratica as obras da carne, pode afirmar que possui o Espírito de Cristo. Ele
atua na qualidade de emissário de Jesus. Ele infunde a vida do Salvador na
existência do pecador, através da regeneração (Rm 8.2; 2Co 5.17). O
apóstolo João compreendeu esta atuação do Espírito de Cristo, quando
escreveu: “Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho. Quem
tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo
5.11,12). Outra função do Espírito de Cristo é a de fazer o cristão produzir o
fruto do Espírito (Gl 5.22,23) e desenvolver em sua vida as características
pessoais de Cristo (Fp 1.11). Ele confere poder espiritual, a fim de que o
cristão viva vitoriosamente e realize a obra de Deus (Mt 28.18; Lc 24.49; Jo
14.12; At 1.8). O Espírito de Cristo é o que representa a Jesus na Terra.

3.3 Espírito do Senhor (2Co 3.17,18)


O Espírito Santo, quando se apresenta como o “Espírito do Senhor”, revela o
senhorio do Deus Todo-poderoso. A palavra “Senhor” (kirios) não se restringe
a uma pessoa, mas às três pessoas da Trindade. Em relação a Deus Pai, ela
34

diz respeito ao que lhe pertence, porque todas as coisas foram feitas por Ele.
A Igreja também é “propriedade exclusiva de Deus” (1Pe 2.9). Em relação a
Cristo, Paulo declarou aos coríntios: “Mas vós sois dele” (1Co 1.30). Quando
o Espírito do Senhor se manifesta na vida do cristão, ou, de modo geral, na
Igreja, significa que Ele quer exercitar seu senhorio (Cl 1.16-19).

3.4 Espírito Santo (At 19.2; 1Pe 1.12)


Este é o título mais conhecido e usado, principalmente pela Igreja, desde sua
fundação. A santidade é um estado eterno que pertence às três pessoas da
Trindade. O Espírito Santo é o agente da santificação. Por isso, é chamado
Santo. Esta palavra está implícita em sua natureza divina, e manifesta-se
como uma qualidade sobre os que são santificados (1Ts 4.7,8). O profeta
Isaías relata a visão do Trono de Deus e ouve os serafins pronunciarem três
vezes: “Santo, Santo, Santo” em alusão às três pessoas da Trindade (Is 6.3).
O apóstolo João, na Ilha de Patmos, ouviu quatro seres viventes recitarem:
“Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-poderoso, que era, e que é, e
que há de vir” (Ap 4.8). A missão do Espírito Santo não é só a de proclamar e
revelar a santidade de Deus, mas, sim, a de santificar e purificar, como o seu
próprio nome indica. Por isso, é chamado “Espírito de santificação” (Rm 1.4).
Uma de suas atribuições é a de limpar e purificar com o espírito de ardor e de
justiça (Is 4.4). O Espírito de santificação manifesta-se contra tudo o que é
pecado, sujo e abominável, e com o “espírito de ardor”, queima as escórias e
faz juízo. A santidade de Deus é eterna e imutável. O Espírito é Santo por si
mesmo e produz a santificação, uma necessidade contínua do homem
enquanto estiver sob o jugo do pecado. Por isso, o apóstolo Pedra registra:
“Sede santos, porque eu sou Santo” (1Pe 1.15).

3.5 Espírito da Graça (Tt 2.11)


Ele se manifesta como o executivo de Deus. Convence o mundo do pecado,
da justiça e do juízo (Jo 16.8-10), e manifesta a graça, o favor imerecido, ao
pecador. O Espírito da Graça opõe-se ao espírito do pecado, manifestação
virulenta que escraviza e desvia o homem de Deus. Os termos chattath, no
hebraico, e hamartia, no grego, têm o mesmo sentido. Significam a ação que
desvia o homem do alvo, retira-o do caminho reto. Resistir ao chamado do
Espírito da Graça significa insultar a Deus e desprezar a sua disposição de
libertar e salvar o pecador (Hb 10.29).

3.6 Espírito de Adoção (Rm 8.15,16)


Adoção “é a aceitação voluntária e legal de uma criança como filho”. Era
freqüente entre os antigos hebreus, gregos e romanos, o adotar uma criança,
Pneumatologia 35

que era entregue, voluntariamente, por uma família, e incorporada a outra.


Fazia-se também a adoção de escravos, os quais, depois de certo tempo,
eram aceitos com todos os direitos legais daquela família. No plano espiritual,
éramos escravos e estávamos sob o jugo do “espírito de servidão” (Rm 8.15),
mas quando aceitamos a Cristo, tomamo-nos filhos de Deus (Jo 1.12).

3.7 Espírito da Verdade (Jo 10 14.17; 15.26; 16.13; 1Jo 5.6)


Quando Ele se manifesta como Espírito da Verdade, revela-se como a
expressão exata do que o Evangelho apresenta. Cristo declarou: “Eu sou
o caminho, e a verdade e a vida” (Jo 14.6). Por isso, o Espírito Santo
testifica dele. Ele é o antídoto do “espírito do erro” e da mentira que está no
mundo (1Jo 4.6). A Igreja de Cristo é chamada coluna e firmeza da verdade
(1Tm 3.15), construída pelo Espírito Santo. O “espírito do erro” opera em toda
a parte (2Ts 2.11), o “Espírito da Verdade” o combate.

Somente o Espírito da verdade convencerá o mundo do pecado, da justiça e


do juízo (Jo 16.8). Sua obra principal no tocante ao testemunho e à
proclamação do evangelho, será a de “convencer” do pecado. Este termo
“convencer” (gr. elencho) significa “expor”, “reprovar”, “refutar” e “convencer”
(do pecado). A obra de convicção realizada pelo Espírito Santo opera em três
aspectos em relação ao pecador:

(a) O pecado. O Espírito Santo desmascara e reprova a incredulidade e o


pecado, a fim de despertar a consciência da culpa e da necessidade
de perdão. Isto, constantemente, leva o pecador ao arrependimento
genuíno e à conversão a Jesus como Salvador e Senhor (At 2.37,38).
A convicção não somente desmascara o pecado, como também torna
claro quais serão os resultados pavorosos se os culpados persistirem
na prática do mal. Uma vez convicto, necessário é que o pecador faça
sua escolha.

(b) A justiça. O Espírito Santo convence os homens de que Jesus é o


santo Filho de Deus que os torna conscientes do padrão divino da
justiça em Cristo. Esse padrão divino da justiça é confrontado contra o
pecado e a pessoa recebe poder para vencer o mundo (At 3.12-16;
7.51-60; 17.31; 1Pe 3.18).

(c) O juízo. Trata-se da obra do Espírito ao convencer os homens da


derrota de Satanás na cruz (Jo 12.31; 16.11), do juízo atual do mundo
por Deus (Rm 1.18-32), do juízo futuro de todos os homens (Mt 16.27;
At 17.31; 24.25; Rm 14.10; 6.2; 2Co 5.10; Jd 14).
36

A obra do Espírito Santo quanto a convencer do pecado não concerne


somente ao incrédulo, mas também ao crente e à igreja, ensinando,
corrigindo e guiando na verdade (Mt 18.15; 1Tm 5.20; Ap 3.19). O Espírito
Santo falará ao crente concernente ao pecado, a justiça de Cristo e ao
julgamento da maldade com vistas a conformar o crente a Cristo e aos seus
padrões de justiça (2Co 3.18); guiá-lo em toda verdade; glorificar a Cristo.
Deste modo, o Espírito Santo opera no crente para reproduzir no seu viver a
vida santa de Cristo.

Se o crente cheio do Espírito Santo rejeita a sua direção e sua operação de


convencer do pecado, e se o crente não mortifica as obras da carne mediante
o Espírito Santo, morrerá espiritualmente (Rm 8.13a). Somente os que
recebem a verdade e são “guiados pelo Espírito de Deus” são filhos de
Deus (Rm 8.14), e assim podem continuar na plenitude do Espírito Santo (Ef
5.18). O pecado arruína a vida espiritual e igualmente a plenitude do Espírito
Santo no crente (Rm 6.23; 8.13; Gl 5.17; cf. Ef 5.18; 1Ts 5.19).

3.8 Espírito de Glória (1Pe 4.14)


A palavra “glória” (dóxia), na linguagem bíblica, tem o sentido de caráter. Não
é simples resplendor, brilho, fama, celebridade, renome, reputação, típicos da
majestade humana. O Espírito de Glória não se manifesta para tornar alguém
famoso, brilhante ou célebre. Do ponto de vista divino, glória tem a ver com
o que revelamos em nosso caráter cristão. Em relação ao Espírito Santo, a
Bíblia o apresenta como o que não falaria de si mesmo (Jo 16.13), mas de
Cristo. Demonstraria a glória de Cristo, manifestada em bondade, perdão,
amor, santidade e justiça. Para o viver cristão, o caráter de Cristo é o modelo
ideal e é o Espírito de Glória quem revela tudo. É o Espírito Santo quem
produz no crente um caráter parecido com o de Jesus Cristo (2Co 3.18). Sua
glória é como o espelho que nos mostra o que somos.

3.9 Espírito de Vida (Rm 8.2)


A vida que Jesus prometeu aos seus servos vem através do Espírito Santo.
Por Ele, são destruídos os poderes do pecado e da morte.
Paulo, de um lado, demonstra em sua Epístola aos Romanos (Rm 8.1), que a
vida sem a graça de Cristo é derrota, miséria e escravidão do pecado. Por
outro lado, nos diz que a vida espiritual, a liberdade da condenação, a vitória
sobre o pecado e a comunhão com Deus nos vêm pela união com Cristo,
mediante o Espírito Santo que em nós habita. Ao recebermos o Espírito e
sermos por Ele dirigidos, somos libertos do poder do pecado e prosseguimos
adiante para a glorificação final em Cristo. Essa é a vida cristã normal,
segundo a plena provisão do evangelho.
Pneumatologia 37

No tocante a “lei do espírito de vida” (Rm 8.2) afirma que é o poder e a vida
do Espírito Santo, reguladores e ativadores operando na vida do crente. O
Espírito Santo entra no crente e o liberta do poder do pecado (cf. Rm 7.23). A
lei do Espírito entra em plena operação, à medida que os crentes se
comprometem a obedecer ao Espírito Santo (Rm 8.4,5,13,14). Descobrem
que um novo poder opera dentro deles; poder este que os capacita a vencer
o pecado. A “lei do pecado e da morte”, neste versículo, é o poder dominante
do pecado, que faz da pessoa uma escrava do pecado (Rm 7.14), reduzindo-
a à miséria (Rm 7.24).

Tudo isso ocorreu para que a justiça da lei se cumprisse em nós (Rm 8.4). O
Espírito Santo operando dentro do crente, capacita-o a viver uma vida de
retidão que é considerada o cumprimento da lei moral de Deus. Sendo assim,
a operação da graça e a guarda da lei moral de Deus não conflitam entre si
(cf. Rm 2.13; 3.31; 6.15; 7.12,14). Ambas revelam a presença da justiça e da
santidade divinas.

No mesmo texto, em seqüência, (Rm 8.5-14) o Apóstolo apresenta o


dualismo “segundo a carne... segundo o Espírito”. Assim, descreve duas
classes de pessoas: as que vivem segundo a carne e as que vivem segundo
o Espírito. Viver “segundo a carne” (“carne”, aqui, é o elemento pecaminoso
da natureza humana) é desejar e satisfazer os desejos corrompidos da
natureza humana pecaminosa; ter prazer e ocupar-se com eles. Trata-se não
somente da fornicação, do adultério, do ódio, da ambição egoísta, de crises
de raiva, etc. (Gl 5.19-21), mas também da obscenidade, de ser viciado em
pornografia e em drogas, do prazer mental e emocional em cenas de sexo,
em peças teatrais, livros, vídeo, cinema e assim por diante. Por outro lado,
viver “segundo o Espírito” é buscar a orientação e a capacitação do Espírito
Santo e submeter-nos a elas e concentrar nossa atenção nas coisas de
Deus. É estar sempre consciente de que estamos na presença de Deus, e
nEle confiarmos para que nos assista e nos conceda a graça de que
carecemos para que a sua vontade se realize em nós e através de nós. É
impossível obedecer à carne e ao Espírito ao mesmo tempo (Rm 8.7,8; Gl
5.17,18). Se alguém deixa de resistir, pelo poder do Espírito Santo, a seus
desejos pecaminosos e, pelo contrário, passa a viver segundo a carne, torna-
se inimigo de Deus (Rm 8.7; Tg 4.4), e a morte espiritual e eterna o aguarda.
Aqueles cujo amor e solicitude estão prioritariamente fixados nas coisas de
Deus podem esperar a vida eterna e a comunhão com Ele.
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Pneumatologia 39

Capítulo 4

Títulos Atribuídos ao Espírito


Santo
Para muitas pessoas de nossa sociedade, os nomes pessoais não têm a
mesma relevância que os da literatura bíblica. Os pais dão nomes às crianças
sem pensar no significado, simplesmente copiando dos parentes, amigos ou
personagens públicas. Um casal pode dar o nome de Miguel a um filho, sem
o mínimo conhecimento do significado original do nome ("Quem é como
Deus?"). Os pais que têm um tio muito querido, chamado Samuel ("Seu nome
é Deus"), talvez dêem o mesmo nome a um filho. Para um israelita, o nome
Samuel proclamava que o portador do nome era um adorador de Deus.

Os títulos do Espírito Santo nos revelam muita coisa a respeito de quem é


Deus o Espírito Santo. Embora o nome "Espírito Santo" não ocorra no Antigo
Testamento, vários títulos equivalentes são usados. O problema teológico da
personalidade do Espírito Santo gira em torno da revelação e compreensão
progressivas, bem como da maneira de o leitor abordar a natureza da Bíblia.
O Espírito Santo, como membro da Trindade, conforme revela o Novo
Testamento, não aparece na Bíblia hebraica. Mesmo assim, o fato de a
doutrina do Espírito Santo não estar plenamente revelada na Bíblia hebraica
não altera a realidade da existência e obra do Espírito Santo nos tempos do
Antigo Testamento. A Terra nunca foi o centro físico do Universo. Mas antes
de terem as observações da criação divina - feitas por Copérnico, Galileu e
outros - comprovado o contrário, tanto os teólogos quanto os cientistas dos
tempos passados acreditavam que a Terra era o centro do Universo.

Conforme já foi observado, ainda não houve uma revelação da parte de


Deus, quer na Bíblia, quer na criação, que abrangesse a totalidade de tudo
quanto Deus está dizendo ou fazendo. O modo de entender o Servo sofredor,
depois da ressurreição, conforme sintetiza a explicação que Filipe fez de
Isaías 53.7,8 ao eunuco etíope (At 8.26-40), não era uma revelação nova,
mas um modo mais exato de compreender uma revelação antiga,

O título mais freqüente no Antigo Testamento é "o Espírito de Yaweh" (heb.


ruach YHWH [Yahweh]), ou, conforme consta nas Bíblias em português, "o
Espírito do Senhor". Considerando o ataque que os críticos modernos fazem
à presença do Espírito Santo no Antigo Testamento, talvez devamos usar o
40

nome pessoal de Deus, "Yahweh", ao invés do título "Senhor" (que os judeus


dos tempos posteriores ao Antigo Testamento substituíram pelo nome). O
que nos interessa aqui é um dos significados de Yahweh: "aquele que cria, ou
faz existir". Cada emprego do nome Yahweh é uma declaração a respeito da
criação. O "Senhor dos Exércitos" é melhor traduzido como "aquele que cria
as hostes" - tanto as hostes celestiais (as estrelas e os anjos, de acordo com
o contexto) quanto as hostes do povo de Deus. O Espírito de Yahweh estava
ativo na criação, conforme revela Gênesis 1.2, com referência ao "Espírito de
Deus" (heb. ruach 'elohim).

Uma preciosa série de títulos do Espírito Santo encontra-se em João 14-16.


Em 14.16 Jesus promete enviar outro Consolador ("Ajudador" ou
"Conselheiro"). A obra do Espírito Santo como Conselheiro inclui o papel de
Espírito da Verdade, que habita dentro de nós (Jo 14.16; 15.26), como
Aquele que ensina todas as coisas, como Aquele que nos faz lembrar tudo
quanto Cristo tem dito (14.26), como Aquele que dará testemunho de Cristo
(15.26) e como Aquele que convencerá o mundo do pecado, da justiça e do
juízo (16.8).

Vários títulos do Espírito Santo podem se encontrados nas Epístolas: "o


Espírito de santificação" (Rm 1.4); "o Espírito de vida" (Rm 8.2); "o Espírito de
adoção de filhos" (Rm 8.15); o "Espírito Santo da promessa" (Ef 1.13); "o
Espírito eterno" (Hb 9.14); "o Espírito da graça" (Hb 10.29); e "o Espírito da
glória" (1 Pe 4.14).

4.1 Como Consolador


Os títulos do Espírito Santo nos oferecem chaves para entendermos a sua
pessoa e obra. A obra do Espírito Santo como Consolador inclui o seu papel
como Espírito da Verdade que habita em nós (Jo 14.16; 15.26). Não se pode
subestimar a importância dessa tarefa. O Espírito Santo, dentro em nós,
começa a esclarecer as crenças incompletas e errôneas sobre Deus e sua
obra, seus propósitos, sua Palavra, o mundo, crenças estas que trazemos
conosco ao iniciarmos nosso relacionamento com Deus. Conforme as
palavras de Paulo, é uma obra vitalícia, jamais completada neste lado da
eternidade (1Co 13.12). Claro está que a obra do Espírito Santo é mais que
nos consolar em nossas tristezas; Ele também nos leva à vitória sobre o
pecado e sobre a tristeza. O Espírito Santo habita em nós para completar a
transformação que iniciou no momento de nossa salvação. Jesus veio para
nos salvar dos nossos pecados, e não dentro deles. Ele veio não somente
para nos salvar do inferno no além. Veio também para nos salvar do inferno
nesta vida terrestre - o inferno que criamos com os nossos pecados. Jesus
trabalha para realizar essa obra por intermédio do Espírito Santo.
Pneumatologia 41

A palavra grega em pauta é parakletos (Consolador ou Conselheiro), que


literalmente significa alguém “chamado ao lado” de outra pessoa,
normalmente para ajudar. Pode ser para falar uma palavra favorável no
julgamento desta. Nesse sentido, consta em 1João 2.1: “Se, porém, alguém
pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”. Na versão
King James, coloca-se Advocate, “defensor” (que não devemos transliterar
como Advogado, pois a Bíblia tem juiz, réu e vítima, com suas respectivas
testemunhas, todavia não tem o “advogado” moderno).
As demais passagens onde ocorre parakletos são João 14.16, 26; 15.26;
16.7, com a tradução tradicional de Consolador. Na Nova Versão
Internacional, é Conselheiro. O essencial, aqui, é que a palavra teria sido
entendida pelos leitores originais de João como referente a uma pessoa -
seja Consolador, Conselheiro, Intercessor, Defensor, Ajudador (sendo todas
essas palavras tipicamente aplicadas a Deus no Antigo Testamento).
Por sua vez a palavra “espírito”, em grego, é uma palavra de gênero neutro, e
o respectivo pronome ou adjetivo está na forma neutra. O apóstolo João
obedece essa regra quando as duas palavras estão juntas. Todavia, fora
disso, usa o masculino “ele”. Para a gramática rigorosa, é incorreto, mas nos
leva a entender que João pensava habitualmente no Espírito em termos
pessoais. Veja o que João 16.13 diz: “… aquele [masculino] Espírito
[neutro]…” (ARC).
Continuando a análise em grego, precisamos definir “outro Consolador” (Jo
14.16). O termo “outro”, em Jo 14.16, tem seu correspondente em grego
“allon”, significando “outro da mesma espécie”, e não “héteros”, que significa
outro, mas de espécie diferente. Noutras palavras, o Espírito Santo dá
prosseguimento ao que Cristo fez quando na terra.
Na mesa, alguém nos oferece uma laranja e, depois, pedimos állos - mais
outra. Se pedirmos héteros, seria outra fruta - banana, maçã, pêra etc. Jesus
se refere a “állos Consolador” - alguém semelhante a Ele, Jesus.
Nos discursos de despedida de Jesus (João 14.15-17,25-26; 15.26-27; 16.5-
11,12-15), veremos que o Espírito é sempre referido como uma Pessoa.
(a) Ele fará as pessoas se lembrarem daquilo que Jesus falou e as
ensinará (Jo 14.26).
(b) Testemunhará a respeito de Jesus (Jo 15.26).
(c) Guiará as pessoas, ouve e fala (Jo 16.13).
(d) E glorificará a Jesus e declarará determinadas coisas (Jo 16.14).
42

O Espírito Santo faria pelos discípulos, tudo quanto Cristo tinha feito por eles,
enquanto estava com eles. O Espírito estaria ao lado deles para os ajudar (Mt
14.30,31), prover a direção certa para suas vidas, consolar nos momentos
difíceis, interceder por eles em oração (Rm 8.26,27; 8.34) e permanecer com
eles para sempre.

O Espírito Santo é nosso Ajudador e Intercessor, habitando em nós, aqui na


terra (Rm 8.9,26; 1Co 3.16; 6.19; 2Co 6.16; 2Tm 1.14). Cristo declara que o
Espírito Santo habitava agora com os discípulos, e lhes promete que
futuramente Ele estaria “em vós”. A promessa do Espírito Santo para habitar
nos fiéis cumpriu-se depois da ressurreição de Cristo, quando Ele assoprou
sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22). A seguir,
Cristo lhes ordenou a aguardarem uma outra experiência no Espírito Santo,
que lhes daria grande poder para testemunhar. “Mas vós sereis batizados
com o Espírito Santo, não muito depois destes dias... recebereis a virtude do
Espírito Santo, que há de vir sobre vós” (At 1.5,8; 2.4).

4.2 Como Ensinador


O Espírito Santo pode e irá ajudar todo crente a interpretar e compreender
corretamente a Palavra de Deus e a sua obra contínua neste mundo. Ele nos
levará a toda a verdade. Esta promessa, no entanto, exige também que
cooperemos com o nosso esforço. Devemos ler com cuidado e com oração.
Deus jamais teve a intenção de fazer da Bíblia um livro de difícil
compreensão para o seu povo. Porém, se não nos dispusermos a cooperar
com o Espírito Santo mediante o estudo e a aplicação de regras sadias de
interpretação, nosso modo de entender a Bíblia - nossa regra infalível da fé e
conduta - ficará carregado de erros. O Espírito Santo nos levará a toda a
verdade à medida que lermos e estudarmos cuidadosamente a Bíblia, sob
sua orientação.

Uma das verdades ensinadas pelo Espírito Santo é que não podemos recitar
uma fórmula mágica do tipo: "Amarro Satanás; amarro minha mente; amarro
minha carne. Agora, Espírito Santo, creio que os pensamentos e as palavras
que se seguem vêm todos de ti!" Não nos é lícito usar encantamentos para
submeter Deus à nossa vontade. João admoesta a Igreja: "Provai se os
espíritos são de Deus" (1Jo 4.1). Significa que devemos permitir ao Espírito
da Verdade orientar-nos na tarefa de interpretar a Palavra de Deus e a testar,
pelas Escrituras, os nossos pensamentos e os de outras pessoas. Há perigos
genuínos neste assunto. Certo autor reivindica, na capa do seu livro: "Este
livro foi escrito no Espírito". Outra reivindicação do seu livro: "Predições cem
por cento corretas das coisas do porvir". A tarefa do leitor, com a ajuda do
Espírito Santo, é seguir o exemplo dos bereanos, que o próprio Espírito
recomenda através das palavras de Lucas. Eles persistiam "examinando
Pneumatologia 43

cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim" (At 17.11). Cada crente
deve ler, testar e compreender a Palavra de Deus e os ensinos a respeito
dela. O crente pode fazer assim confiadamente, na certeza de que o Espírito
Santo, que habita em cada um de nós, irá levar-nos a toda a verdade.

Ainda há um outro aspecto da obra do Espírito Santo como Ensinador: a


preparação de Jesus, o Filho encarnado de Deus, para sua tarefa de Rei,
Sacerdote e Cordeiro sacrificial. O Espírito Santo veio sobre Maria e lançou a
sua sombra sobre ela, gerando nela Jesus, o Filho de Deus. O Espírito Santo
foi ensinando o Menino Jesus de tal maneira que, aos 12 anos de idade,
deixou atônitos os mestres no Templo. "E o menino crescia e se fortalecia em
espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele" (Lc 2.40).
Depois de seu batismo no Jordão, Jesus que, segundo a descrição, estava
cheio do Espírito Santo, lutou contra o adversário durante quarenta dias (Lc
4.1-13). Jesus continuou a andar cheio do Espírito Santo. Por isso, sempre
que o diabo buscou oportunidade para tentá-lo ainda mais, os resultados
foram os mesmos. Jesus "como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado"
(Hb 4.15; ver também 2.10-18). Se estivermos cheios do Espírito Santo na
luta contra nossa carne e contra o Adversário, também poderemos vencer
nossas tentações com a ajuda do Espírito. Cristo veio para nos salvar dos
nossos pecados, e não neles.

O Espírito Santo estava ativo no ministério de Jesus e no dos discípulos. O


Espírito Santo estava operante na pregação e nos milagres dos 12 discípulos
e depois com os 72 que Jesus enviou a pregar o Reino de Deus.

Outro aspecto dessa tarefa é a ajuda do Espírito para lembrar-nos de tudo


quanto Jesus tem dito. Podemos lembrar somente das coisas que já
sabemos e das quais nos esquecemos pela falta de prática. Essa ajuda da
parte do Espírito Santo exige que os crentes estudem e memorizem a
Palavra, com a certeza de que o Espírito lhes lembrará de tudo quanto Jesus
tem dito, quando precisarem. Os que se deleitam na Palavra de Deus e nela
meditam tornam-se como árvores plantadas à beira de um rio (SI 1.2,3). Em
Lucas 24.6-8, os discípulos são perguntados por que procuram os vivos entre
os mortos. Decerto as palavras dos mensageiros foram usadas pelo Espírito
para fazê-los lembrar das palavras de Jesus. Em João 2.19, Jesus disse:
"Derribai este templo, e em três dias o levantarei". Ninguém entendeu o que
Jesus quis dizer, porém, "quando, pois, ressuscitou dos mortos, os seus
discípulos lembraram-se de que lhes dissera isso; e creram na Escritura e na
palavra que Jesus tinha dito" (2.22). João 12.16 é um exemplo semelhante
dessa obra do Espírito Santo.

Além disso, o Espírito Santo também é o Ensinador do descrente. Nessa


tarefa, o Espírito (segundo as palavras de Jesus) convence o mundo “do
44

pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não crêem em mim; da


justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já
o príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16.8-11). Esse fato combina com a
obra do Espírito Santo de atrair a pessoa à salvação. Em João 14-6, Jesus
declara: "Ninguém vem ao Pai senão por mim”. Em João 6.44, afirma:
“Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer". E o
Espírito Santo quem atrai cada ser humano a Deus, embora muitos recusem
essa atração. Ele nunca deixa de clamar, sem cessar: “Mas por que
morrereis? Arrependei-vos e vivei!”

A atividade do Espírito Santo como Aquele que dá testemunho de Cristo


começa no Antigo Testamento e continua até hoje. O Espírito Santo inspirava
os profetas do Antigo Testamento à medida que escreviam as profecias
acerca do Messias vindouro. Isso não significa que o autor humano ou seu
auditório - imediato ou indireto - compreendessem sempre o impacto de tudo
quanto estava sendo escrito ou lido. Isaías 11.1,2 é um bom exemplo de uma
profecia messiânica facilmente reconhecível: Porque brotará um rebento do
tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. E repousará sobre
ele o Espírito do Senhor, e o Espírito de sabedoria e de inteligência, e o
Espírito de conselho e de fortaleza, e o Espírito de conhecimento e de temor
do Senhor.

4.3 Como Promessa


É difícil sugerir que um dos títulos ou propósitos do Espírito Santo seja mais
importante que outro. Tudo que o Espírito faz é vital para o Reino de Deus.
Há, no entanto, um propósito, uma função essencial do Espírito Santo, sem a
qual tudo quanto se tem dito a respeito dEle até agora não passa de palavras
vazias: o Espírito Santo é o penhor que garante nossa futura herança em
Cristo.

“Em quem [Cristo] também vós estais, depois que ouvistes a palavra da
verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes
selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o penhor da nossa
herança, para redenção da possessão de Deus, para louvor da sua glória” (Ef
1.13,14).

Qual a garantia oferecida pela operação do Espírito Santo em nossa vida e


na vida da Igreja?

“Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se


desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna,
nos céus. E, por isso, também gememos, desejando ser revestidos da nossa
habitação, que é do céu; se, todavia, estando vestidos, não formos achados
Pneumatologia 45

nus. Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos


carregados, não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o
mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem para isso mesmo nos preparou foi
Deus, o qual nos deu também o penhor do Espírito” 2Co 5.1-5); (ver também
2Co 1.22; Ef 4.30).

Mediante o Espírito Santo, podemos conhecer a Deus, mediante a


experiência, de conformidade com a palavra hebraica yada' ("conhecer por
experiência"). Nossa experiência com o Espírito Santo serve-nos de
comprovação da ressurreição de Cristo. Conforme declara Paulo em 1
Coríntios 15, 14-20.

O conhecimento intelectual da Bíblia não é o conhecer a Deus. Muitos


teólogos e comentaristas da Bíblia - os quais conheci pessoalmente ou
apenas através dos seus escritos - sabem mais a respeito de religião, história
da Igreja, conteúdo da Bíblia e teologia do que muitos que se definem como
cristãos. Mesmo assim, nunca reconheceram a reivindicação do Espírito
Santo nas suas vidas, nem se renderam a Ele. Não têm nenhuma experiência
de Deus em suas vidas. Acreditam que, se eles não tiveram nenhuma
experiência com Deus, não é possível que outra pessoa a tenham. Negam,
portanto, a existência de Deus e criticam os cristãos, dizendo que estes
interpretam suas experiências subjetivas como a atividade de Deus na sua
vida. Declaram que não há evidência da atividade divina no Universo. Tudo
isso, porém, baseia-se na sua exegese distorcida.

Agora, podemos começar a dar o devido valor à importância da obra do


Espírito Santo como sinal da inclusão do crente no corpo de Cristo e como
sinal diante da Igreja. O Espírito Santo confirma não somente a ressurreição,
mas também, por extensão, a veracidade das Escrituras. Sem o penhor
("primeira prestação") do Espírito Santo para nos ensinar, guiar na verdade e
dar testemunho de Cristo, não haveria hoje igreja nenhuma, porque não
haveria Evangelho a ser pregado.
46
Pneumatologia 47

Capítulo 5

Símbolos do Espírito Santo


Os símbolos oferecem quadros concretos de coisas abstratas, tais como a
terceira Pessoa da Trindade. Os símbolos do Espírito Santo também são
arquétipos. Em literatura, arquétipo é uma personagem, tema ou símbolo
comum a várias culturas e épocas. Em todos os lugares, o vento representa
forças poderosas, porém invisíveis; a água límpida que flui representa o
poder e refrigério sustentador da vida a todos que têm sede, física ou
espiritual; o fogo representa uma força purificadora (como na purificação de
minérios) ou destruidora (freqüentemente citada no juízo). Tais símbolos
representam realidades intangíveis, porém genuínas.

5.1 Água
A água, assim como o fôlego, é necessária ao sustento da vida. Jesus
prometeu rios de água viva, “e isso disse ele do Espírito” (Jo 7.39). O fôlego e
a água, tão vitais na hierarquia das necessidades físicas humanas, são
igualmente vitais no âmbito do Espírito. Sem o fôlego vivificante e as águas
vivas do Espírito Santo, nossa vida espiritual não demoraria a murchar e a
ficar sufocada. A pessoa que se deleita na Lei (heb. torah _ “instrução”) de
Yahweh e nela medita de dia e de noite é “como a árvore plantada junta a
ribeiros de águas... cujas folhas não caem” (Sl 1.3). O Espírito da Verdade flui
da Palavra como águas vivas, que sustentam e refrigeram o crente e
revestem de poder.

5.2 Fogo
O aspecto purificador do fogo é refletido claramente em Atos 2. Ao passo que
uma brasa tirada do altar purifica os lábios de Isaías (6.6, 7), no dia de
Pentecostes são “línguas de fogo” que marcam a vinda do Espírito (At 2.3).
Esse símbolo é empregado uma só vez para retratar o batismo no Espírito
Santo. O aspecto mais amplo do fogo como elemento purificador encontra-se
no pronunciamento — ou profecia — de João Batista: “Ele vos batizará com o
Espírito Santo e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e
recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se
apagará” (Mt 3.11, 12; ver também Lc 3.16, 17). As palavras de João Batista
aplicam-se mais diretamente à separação entre o povo de Deus e os que têm
rejeitado a Ele e ao Messias. Os o rejeitaram serão condenados ao fogo do
48

juízo. Por outro lado, o fogo ardente e purificador do Espírito da Santidade


também operam no crente (1Ts 5.19).

5.3 Óleo
Pedro, em seu sermão diante de Cornélio, declara: “Deus ungiu a Jesus de
Nazaré com o Espírito Santo e com virtude” (At 10.38). Citando Isaías 61.1, 2,
Jesus proclama: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para
evangelizar os pobres” (Lc 4.18). Desde os primórdios, o azeite é usado
primeiramente para ungir os sacerdotes de Yahewh, e depois, os reis e os
profetas. O azeite é o símbolo da consagração divina do crente para o serviço
no reino de Deus. Em 1 João, os crentes são advertidos a respeito dos
anticristos: “E vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo... E a unção que
vós recebestes dele fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém
vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é
verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele
permanecereis” (1Jo 2.20, 27). Receber a unção do Espírito da Verdade, que
faz brotar rios de águas vivas no mais íntimo do nosso ser reveste-nos de
poder para servir a Deus. Na simbologia do Espírito Santo, a água e o óleo
(azeite da unção) realmente se misturam!

5.4 Pomba
O Espírito Santo desceu sobre Jesus na forma de uma pomba, segundo o
relato dos quatro evangelhos. A pomba é arquétipo da mansidão e da paz. O
Espírito Santo habita em nós. Ele não toma posse de nós, mas nos liga a si
mesmo com amor, em contraste às correntes dos hábitos pecaminosos. Ele é
manso e, nas tempestades da vida, produz paz. Mesmo ao lidar com os
pecadores, Ele é suave, conforme se vê quando conclama a humanidade à
vida, no belo, porém tristonho apelo que se encontra em Ezequiel 18.30-32:
“Vinde e convertei-vos de todas as vossas transgressões com que
transgredistes e criai em vós um coração novo e um espírito novo; pois por
que razão morreríeis...? Porque não tomo prazer na morte do que morre, diz
o Senhor Jeová; convertei-vos, pois, e vivei”.

5.5 Vento
A palavra hebraica ruach tem amplo alcance semântico. Pode significar
"sopro", "espírito" ou "vento". É empregada em paralelo com nephesh. O
significado básico de nephesh é "ser vivente", ou seja, tudo que tem fôlego. A
partir daí, seu alcance semântico desenvolve-se ao ponto de referir-se a
quase todos os aspectos emocionais e espirituais do ser humano vivente.
Ruach adota parte do alcance semântico de nephesh. Por isso, em Ezequiel
Pneumatologia 49

37.5-10, achamos ruach traduzido como "espírito", ao passo que, em 37.14,


Yahweh explica que porá em Israel o seu Espírito.

A palavra grega pneuma tem um alcance semântico quase idêntico ao de


ruach. O vento, como símbolo, fala da natureza invisível do Espírito Santo,
conforme revela João 3.8. Podemos ver e sentir os efeitos do vento, mas ele
próprio não é visto. Atos 2.2 emprega poderosamente o vento como figura de
linguagem, para descrever a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecoste.

5.6 Selo
Este símbolo representa propriedade, autoridade, segurança. Como “selo”, o
Espírito Santo é dado ao crente como a marca ou evidência de propriedade
de Deus. Ao outorgar-nos o Espírito, Deus nos marca como seus (2Co 1.22).
Assim, temos a evidência de que somos filhos adotados por Deus, e que a
nossa redenção é real, pois o Espírito Santo está presente em nossa vida (Gl
4.6). Podemos saber que realmente pertencemos a Deus, pois o Espírito
Santo nos regenera e renova (Jo 1.12,13; 3.3-6), nos liberta do poder do
pecado (Rm 8.1-17; Gl 6.16-25), nos faz conscientes de que Deus é nosso
Pai (Rm 8.15; Gl 4.6) e nos enche de poder para testemunhar (At 1.8; 2.4).

5.7 O Penhor (Ef 1.13,14)


O Espírito Santo é o “penhor” ou sinal da nossa herança, isto é, uma primeira
prestação ou parcela inicial. Na presente era o Espírito Santo é concedido
aos crentes como parcela ou quinhão inicial, por conta do que vamos receber
no futuro. Sua presença e obra em nossas vidas são uma “entrada” por conta
da nossa herança (Rm 8.23; 2Co 1.22; 5.5).
50
Pneumatologia 51

Capítulo 6

A Obra do Espírito
Há vários conceitos errôneos a respeito da obra do Espírito Santo. Alguns
deles têm-se arraigado à religião popular e às doutrinas populares da Igreja
em geral. A religião popular é a maneira de vivermos a nossa vida diária em
Cristo. É uma mistura de elementos normativos e não-normativos. Os
elementos normativos são as doutrinas bíblicas corretas a respeito daquilo
que devemos crer e praticar. Os elementos não-normativos são modos
errôneos de entender doutrinas bíblicas, bem como os elementos não-
bíblicos que se vêm infiltrando na ambiente cultural onde vive o cristão.

Ninguém compreende plenamente o Deus infinito ou seu infinito Universo,


nem conhece ou entende com perfeição cada palavra da Bíblia. Continuamos
todos discípulos (literalmente: "aprendizes"). Como criaturas finitas, não
devemos ter dificuldades para reconhecer que é rematada loucura alegar que
compreendemos totalmente o Deus infinito. Deus ainda está trabalhando na
Igreja e em cada indivíduo, para nos transformar segundo a imagem de
Cristo. A doutrina da santificação progressiva trata diretamente dessa
questão. Os cristãos precisam evitar o desânimo e aceitar com alegria o
desafio de conhecer e experimentar a Deus mais plenamente todos os dias.

6.1 Antes do Dia de Pentecostes


"Tiremos totalmente de nossa mente a impressão de que o Espírito Santo
não entrou no mundo antes do dia de Pentecoste". Considere a profecia de
Joel em 2.28,29: E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobre
toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos
terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e
sobre as servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito”, e a sua citação
por Pedro, em Atos 2.17,18: E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do
meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas
filhas profetizarão, os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos
sonharão sonhos; e também do meu Espírito derramarei sobre os meus
servos e minhas servas, naqueles dias, e profetizarão”.

Note que a promessa não é de uma mudança de atividade do Espírito de


Deus, ou na qualidade desta. É profetizada a mudança na quantidade e no
escopo da atividade. A natureza radical da promessa é vista claramente na
52

inclusão de filhas e de escravos e escravas. Uma coisa é Yahweh derramar o


seu Espírito sobre os filhos, jovens e velhos, cidadãos livres de Israel. Mas é
coisa bem diferente se Ele o derrama sobre pessoas consideradas meros
bens de família. Em Joel, vemos uma das primeiras declarações diretas do
princípio que Paulo posteriormente expressou: "Nisto não há judeu nem
grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea" (Gl 3.28).

A fé antiga de Israel era inclusiva. Mas Êxodo 12.43-45 deixa claro que
nenhum estrangeiro deveria comer a Páscoa. O que deveria fazer o chefe de
um lar se seu escravo, estrangeiro da nascença, quisesse celebrar a
Páscoa? O escravo tinha de ser circuncidado. Os trabalhadores temporários
incircuncisos ou os estrangeiros residentes na casa não podiam participar da
celebração, a não ser que também se submetessem à circuncisão: "Porém,
se algum estrangeiro se hospedar contigo e quiser celebrar a Páscoa ao
Senhor, seja-lhe circuncidado todo macho, e, então, chegará a celebrá-la, e
será como o natural da terra; mas nenhum incircunciso comerá dela. Uma
mesma lei haja para o natural e para o estrangeiro que peregrinar entre vós"
(Êx 12.48,49).

Dois exemplos proeminentes são Urias, o heteu, e Doegue, o edomita (2 Sm


11.1-26; 21.7). Esses homens, com suas famílias, haviam-se tornado parte
da aliança e dos Filhos de Israel, embora esteja claramente registrada a sua
linhagem não-israelita. A circuncisão e a obediência à Lei eram sinais de que
aceitavam Yahweh como seu Deus e da aceitação deles por Yahweh. Mesmo
assim, Deus deixa claro que a circuncisão exterior deve ser acompanhada
pela circuncisão do coração (Dt 10.16; 30.6; cf. Jr 9.26). Deuteronômio 29.18-
22 adverte que, se alguém resolvesse abusar da aliança para mascarar sua
maldade, o indivíduo e a comunidade sofreriam como resultado do desacato
à aliança com Yahweh. A derrota diante de Ai e a destruição subseqüente de
Acã e sua família são um testemunho vivido desse fato (Js 7.1-26). Desde os
primeiros capítulos de Gênesis até ao fim do Novo Testamento, nota-se que
Deus deseja um relacionamento pessoal com cada indivíduo, e não apenas
com a comunidade da aliança. O encontro que Samuel teve com Deus em 1
Samuel 3.1-21 indica que as diferenças entre ser criado na igreja e ser
nascido de novo são tão nítidas no período do Antigo Testamento quanto nos
dias de hoje. Samuel "ministrava perante o Senhor", "crescia diante do
Senhor" [e] "fazia-se agradável, assim para com o Senhor como também para
com os homens". Mesmo assim, "Samuel ainda não conhecia o Senhor; e
ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor" (1Sm 2.18,21,26;
3.7).

A palavra hebraica que representa "saber" é yadda, e freqüentemente


significa conhecer pela experiência, por contraste com o saber fatos
históricos. Revelar Yahweh mediante a experiência pessoal era a obra do
Pneumatologia 53

Espírito Santo na vida dos santos do Antigo Testamento, bem como na vida
dos do Novo Testamento. Conforme Hebreus 11 deixa claro, todo aquele que
já foi salvo, foi salvo pela fé, quer olhando para promessas futuras, ainda não
vistas, quer olhando para trás, para a ressurreição de Jesus.

Nota-se uma distinção importante. No período do Novo Testamento, Deus


deixa claro que a circuncisão exterior já não era necessária como sinal de
inclusão na Igreja. O relato de Cornélio e Pedro, em Atos 10, ilustra o
cumprimento da profecia de Joel e a obra do Espírito Santo. A chegada dos
mensageiros da parte de Cornélio serviu de confirmação a Pedro, bem como
à sua visão. Para a igreja de Jerusalém, no entanto, a confirmação não era
adequada. A família de Cornélio era reconhecida como "piedosa e temente a
Deus" (At 10.2). Mesmo assim, Pedro se sente obrigado a dizer: "Vós bem
sabeis que não é lícito a um varão judeu ajuntar-se ou chegar-se a
estrangeiros" (At 10.28). Embora essa fosse uma interpretação errônea da
Lei, fazia parte da doutrina popular da Igreja, predominantemente judaica e
segundo a qual a visão de Pedro estava para ser examinada.

Deus agiu na história ao derramar o Espírito Santo sobre a família de


Cornélio. Antes de Pedro poder perguntar a Cornélio: "Você crê neste
evangelho?", o Espírito Santo respondeu a pergunta com um derramamento
dEle mesmo. Muitos membros da Igreja teriam recusado batizar aquela
família nas águas, antes de terem sido circuncidados Cornélio e todos os do
sexo masculino; mas o Espírito Santo agiu de modo diferente.

Os crentes circuncidados que foram com Pedro a fim de testar a visão,


ficaram atônitos ao ver o derramamento do Espírito Santo sobre uma família
gentia. Tiveram, no entanto, bom senso suficiente para aceitar a obra do
Espírito Santo como o único sinal apropriado à inclusão na Igreja. Esta obra
do Espírito Santo inclui a sua presença, habitando no crente a partir do
momento da salvação, e o subseqüente batismo no Espírito Santo.

A profecia de Joel ataca outro conceito que prevalecia no Israel antigo. O


comportamento dinâmico associado com os profetas genuínos de Yahweh
era um dos sinais do cargo profético. Esse comportamento às vezes é
chamado extático, embora totalmente diferente do êxtase dos profetas
pagãos, que produziam em si mesmos um frenesi que excluía a razão e o
autocontrole. Os profetas genuínos eram revestidos do poder do Espírito
Santo e subiam até os pináculos da alegria na presença de Deus, ou talvez
da profunda preocupação com os perdidos. Essas profundas experiências
emocionais levavam às vezes a risos, cânticos, choro, prostração ou dança
no Espírito.
54

No Antigo Testamento, esse comportamento dinâmico é visto como resultado


da presença do Espírito de Deus repousando sobre a pessoa (Nm 11.26) ou
vindo com poder sobre ela (1Sm 10.6,11; 19.23,24). Esse tipo de
comportamento, embora esperado da parte de um profeta, causava
preocupação quando exibido por alguém que não era profeta. Josué implorou
a Moisés para que este impedisse a Eldade e Medade de profetizar no
arraial. Moisés respondeu: "Tomara que todo o povo do Senhor fosse profeta,
que o Senhor lhes desse o seu Espírito!" (Nm 11.28,29).

Saul teve duas experiências extáticas. A primeira ocorreu em Gibeá, quando


encontrou-se com o grupo de profetas - o qual Samuel lhe avisara que ficaria
conhecendo - e começou a profetizar com eles. A experiência espiritual de
Saul foi acompanhada por uma mudança, e ele passou a ser uma pessoa
diferente. Os circunstantes, atônitos, perguntavam: "Está também Saul entre
os profetas?" (1Sm 10.6-12). Agora, Saul conhecia a Deus. Seu segundo
encontro, em Naiote, foi de tipo diferente. Resultou da sua resistência ao
Espírito Santo, de tal modo que tirou suas vestes reais e ficou deitado
durante um dia e uma noite inteiros diante de Samuel, o que reforçou o
ditado: "Está também Saul entre os profetas?" (19.23,24).

Esse comportamento dos profetas e dos seus grupos de seguidores não era
uma maratona de predição de eventos vindouros. Boa parte das profecias
dinâmicas, freqüentemente acompanhadas por música, parece ter consistido
em louvores a Yahweh.

Infelizmente, tal comportamento tinha o seu lado escuro. Os profetas da


cultura religiosa do Oriente Próximo antigo em derredor exibiam
comportamento extático. Chegavam ao ponto de praticar a automutilação,
nas tentativas frenéticas de produzir um êxtase religioso ou de atrair a
atenção dos seus deuses. Um exemplo desse comportamento, pelos profetas
de Baal, acha-se em 1 Reis 18.28,29. A mesma palavra hebraica, nava
("profetizar"), usada para indicar a atividade dos profetas de Baal (v. 29), é
empregada também para os profetas de Yahweh. Naturalmente, esse fato
deixava os israelitas confusos. Seria a automutilação um comportamento
apropriado aos profetas de Yahweh?

Se dois profetas de Yahweh tinham mensagens diferentes, em qual deles se


deveria acreditar? Sobre quem repousava o Espírito de Deus? Devemos
lembrar que os quatrocentos profetas que se opunham a Micaías diante de
Acabe alegavam ser profetas de Yahweh, e não de Baal! (1Rs 22). O
comportamento extático não era garantia de que o profeta estava com a
"palavra do Senhor". É possível que o profeta estivesse levando uma palavra
das suas próprias ilusões ou a que o auditório queria ouvir. Como resultado,
vemos, em Zacarias 13.2-6, o repúdio a esses falsos profetas e às suas
Pneumatologia 55

tentativas de se identificarem como profetas por meio de vestes distintivas e


de comportamento extático, inclusive a automutilação.

Na profecia de Joel, portanto, vemos uma expansão da atividade do Espírito


Santo, e não uma mudança de qualidade. Desde o Éden até hoje, Deus tem
desejado a comunhão com a humanidade. Não tem fundamento a idéia de
que o Espírito Santo era inativo entre os leigos do Antigo Testamento. A
atividade do Espírito Santo na vida deles forma um paralelo com o seu
envolvimento na vida dos que Ele tem trazido à salvação dentro da Igreja. O
Espírito transforma o coração das pessoas e também as torna diferentes.
Outro paralelo existe entre a vinda do Espírito sobre o indivíduo, revestindo-o
de poder para o seu cargo ou ministério, e a plenitude do Espírito Santo na
Igreja. A presença do Espírito Santo em nós, a partir do momento da
salvação, visa manter-nos em equilíbrio, dia após dia, momento após
momento, principalmente após a experiência da chegada do Espírito Santo
"com poder" sobre nós.

6.2 No Movimento Pentecostal


A continuidade da obra do Espírito Santo, no decurso da história do povo de
Deus, foi o enfoque da seção anterior. Embora a atividade tenha aumentado
em número, à medida em que a Igreja cresce, o mesmo Espírito Santo que
operava no mundo antes do dia de Pentecoste continua operando hoje.
Mesmo assim, em razão da revelação e da compreensão progressivas, nosso
modo de entender a obra do Espírito deve ser mais claro. Temos à
disposição o cânon inteiro da Bíblia e dois mil anos de história. Por esta
razão, a Igreja de hoje está em nítida vantagem, até mesmo sobre a Igreja do
Novo Testamento.

Durante os primeiros anos do Movimento Pentecostal, tornar-se pentecostal


geralmente significava ser forçado a abandonar a denominação original e
ingressar em alguma das comunidades pentecostais. Ainda hoje alguns
pentecostais expressam consternação quando uma pessoa, tendo sido
batizada no Espírito Santo ainda continua numa igreja tradicional. Embora a
sã doutrina seja indispensável ao processo da santificação, o Espírito Santo
parece estar mais interessado no que a pessoa tem no coração do que em
seu sistema teológico. Deus lida conosco do jeito que somos e nos salva e
habita em nós e nos batiza.

Paulo nos revela que, se confessarmos com a nossa boca que Jesus é
Senhor e realmente crermos que Deus o ressuscitou dentre os mortos,
seremos salvos. Porque, quando cremos no coração, somos justificados. E,
quando confessamos que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos, somos
salvos (Rm 10.9,10). Paulo nos garante que ninguém pode dizer: "Jesus é
56

Senhor", a não ser pelo Espírito Santo (1Co 12.3). Paulo não está afirmando
ser impossível aos hipócritas ou falsos mestres falarem, da boca para fora, as
palavras "Jesus é Senhor". Mas dizer que Jesus é verdadeiramente Senhor
(que envolve o compromisso de segui-lo e de cumprir sua vontade, ao invés
de nossos próprios planos e desejos), exige a presença do Espírito Santo
dentro de nós e o coração e espírito novos, conforme conclama Ezequiel
18.31. Nosso próprio ser confessa que Jesus é Senhor à medida que o
Espírito Santo começa a transformar-nos segundo a imagem de Deus. A
transformação interior é sinal para o indivíduo de que ele é membro do corpo
de Cristo. A manifestação exterior da transformação, embora varie de pessoa
para pessoa, é um sinal para a Igreja.

Um problema relacionado à atividade do Espírito Santo como sinal da


inclusão no corpo de Cristo tem crescido entre membros da terceira e quarta
gerações de jovens no Movimento Pentecostal tradicional. Nas igrejas
pentecostais, as posições de liderança estão reservadas àqueles que podem
testificar que foram batizados no Espírito Santo com a evidência física inicial
de falar em línguas. Este conceito é bíblico (At 6.3,5) e uma ênfase
importante do Movimento Pentecostal. Mesmo assim, provoca graves efeitos
colaterais para alguns que sabem que são salvos. Experimentam o contínuo
poder do Espírito Santo transformando sua vida, mas se sentem como
cidadãos de segunda classe. Para eles, o batismo no Espírito Santo torna-se
uma necessidade social, ao invés de desejo por um relacionamento espiritual
mais profundo, que é inaugurado com o batismo no Espírito Santo.

Daí a necessidade de se ressaltar que a atividade do Espírito Santo nos


crentes, quer no momento da salvação, quer na ocasião do batismo no
Espírito Santo, é muito mais um sinal para o indivíduo que para a
congregação. Muitas pessoas são salvas durante a oração individual, quando
estão a sós. Assim também aqueles batizados no Espírito num lugar
particular de oração. Mesmo se formos salvos e batizados no Espírito durante
uma reunião pública, quantos dos presentes irão lembrar do que nos
aconteceu depois de algumas semanas, meses ou anos? Se mudarmos para
um endereço onde ninguém nos conhece, os crentes ali não terão
testemunhado o que nos aconteceu. Estarão na dependência de nossas
palavras e do nosso bom testemunho cristão, para comprovar a atividade do
Espírito Santo em nossa vida.

6.3 A Obra do Espírito Santo na Economia divina


Certas obras são atribuídas mais particularmente ao Espírito Santo, não
somente na economia geral de Deus, mas também na economia especial da
redenção. Em geral se pode dizer que a tarefa especial do Espírito Santo
consiste em levar as coisas à completação agindo imediatamente sobre a
Pneumatologia 57

criatura e nela. Justamente como Ele é a pessoa que completa a Trindade,


assim a Sua obra é a completação do contato de Deus com as Suas criaturas
e a consumação da obra de Deus em todas as esferas. Ela se segue à obra
do Filho, como a obra do Filho segue-se à do Pai. É importante ter isto em
mente, pois, se a obra do Espírito Santo for divorciada do objetivo da obra do
Filho, um falso misticismo fatalmente surgirá como resultado. A obra do
Espírito inclui as seguintes ações na esfera natural:

(a) A geração da vida. Como o ser provém do Pai, e o pensamento vem


mediante o Filho, assim a vida é mediada pelo Espírito, Gn 1.3; Jó
26.13; Sl 33.6; Sl 104.30. Com relação a isso, Ele dá o toque final à
obra da criação.

(b) A inspiração geral e a qualificação dos homens. O Espírito Santo


inspira e qualifica os homens para as suas tarefas oficiais, para
trabalho na ciência e nas artes, etc., Êx 28.3; 31.2,3,6; 35.35: 1Sm
11.6; 16.13,14.

De maior importância ainda é a obra do Espírito Santo na esfera da


redenção. Aqui podem ser mencionados os seguintes pontos:

(a) O preparo e a qualificação de Cristo para a Sua obra mediadora. Ele


preparou para Cristo um corpo e, assim, capacitou-o a tornar-se um
sacrifício pelo pecado (Lc 1.35; Hb 10.5-7). Nas palavras “corpo me
formaste”, o escritor de Hebreus segue a Septuaginta. O sentido é:
Pela preparação de um corpo santo, me capacitaste a ser um
sacrifício pelo pecado.

(b) A inspiração da Escritura. O Espírito Santo inspirou a Escritura e


deste modo trouxe aos homens a revelação especial de Deus (1Co
2.13; 2Pe 1.21), o conhecimento da obra de redenção que há em
Cristo Jesus.

(c) A formação e o aumento da igreja. O Espírito Santo forma e dá


crescimento à igreja, o corpo místico de Jesus Cristo, pela
regeneração e pela santificação, e habita nela como o princípio da
nova vida (Ef 1.22, 23; 2.22; 1Co 3.16; 12.4).

(d) Ensino e direção da igreja. O Espírito Santo dá testemunho de Cristo


e guia a igreja em toda verdade. Em fazendo isto, Ele manifesta a
glória de Deus e de Cristo, aumenta o nosso conhecimento do
Salvador, livra de erro a igreja e a prepara para o seu destino eterno
(Jo 14.26; 15.26; 16.13, 14; At 5.32; Hb 10.15; 1Jo 2.27).
58
Pneumatologia 59

Capítulo 7

O Batismo com o Espírito Santo


“Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com
o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5).

A expressão "batismo com o Espírito Santo" não se acha na Bíblia. Nem por
isso deixa de ser bíblica, pois tem a sua origem na fraseologia semelhante
empregada pelos escritores bíblicos. Os três escritores dos evangelhos
sinóticos relatam a comparação que fez João Batista entre o seu trabalho de
batizar em água e a obra futura de Jesus (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16). A
respeito de Jesus, diz João: "Ele vos batizará com o Espírito Santo". Lucas
retoma a terminologia em At 1.5, ao descrever as palavras de Jesus aos seus
seguidores: "Vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois
destes dias". Lucas emprega a terminologia pela terceira vez em Atos 11.16
ao narrar como Pedro interpretou a experiência na casa de Cornélio.
Explicando aos crentes em Jerusalém como Cornélio recebeu o Espírito
Santo, Pedro lembra-lhes as palavras do Senhor: "Sereis batizados com o
Espírito Santo". Parece que esta terminologia encaixava-se no pensamento
de Pedro como perfeita para descrever a experiência de Cornélio ao falar em
línguas.

7.1 O Relacionamento com a Regeneração


Uma das principais diferenças entre os teólogos no tocante à experiência
chamada o batismo com o Espírito Santo está relacionada à regeneração.
Alguns teólogos sustentam que ela faz parte da experiência da conversão -
iniciação; outros, que é uma experiência diferente da regeneração.

Usualmente, tanto os que negam que o batismo com o Espírito Santo seja
separado da regeneração quanto os que o afirmam reconhecem a
importância da Escritura como derradeira autoridade. Por um lado Bruner,
que nega que as experiências sejam separáveis entre si, esforça-se para
considerar "o Testemunho do Novo Testamento" e fornecer "exegese das
origens documentárias bíblicas principais" correlacionadas ao assunto.

Por outro lado, os que defendem a experiência do batismo com o Espírito


Santo em separado têm um compromisso semelhante: demonstrar que sua
posição teológica é ensinada nas Escrituras. Howard M. Ervin é um exemplo
60

clássico deste pensamento. Observa que a experiência contemporânea serve


de ilustração à experiência pentecostal. Mesmo assim, para ele, "é tão-
somente o texto bíblico que serve como juiz das nossas conclusões". Basta
um outro exemplo: Stanley M. Horton, em seu livro O que a Bíblia Diz Sobre o
Espírito Santo, conclui que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência
subseqüente.

Os relatos considerados especialmente relevantes à questão da


separabilidade incluem o dia de Pentecostes, At 2.1-13; o reavivamento em
Samaria (At 8.4-19); a experiência de Paulo (At 9.1-19); Cornélio e outros
gentios (At 10.44-48 e 11.15-17); e os crentes de Éfeso (At 19.1-7). As
conclusões das exposições exegéticas desses trechos declaram-se a favor
da separabilidade.

Nesses casos os indivíduos já eram crentes, haviam experimentado a


regeneração antes - pelo menos momentaneamente - da sua experiência do
batismo com o Espírito Santo. Portanto, Lucas demonstra ser o batismo com
o Espírito Santo uma experiência distinta. Além disso, Lucas tem a intenção
deliberada de ensinar que a experiência do batismo com o Espírito Santo,
distinta e separável, é normativa para a experiência cristã em todo tempo.

E assim, formula-se a pergunta. Demonstram os textos em Atos que o


batismo com o Espírito Santo era uma experiência separável e distinta da sua
experiência da conversão ou regeneração? A resposta é sim.

Os 120, no dia de Pentecostes, eram crentes antes do derramamento do


Espírito naquele dia. Já se haviam arrependido e entrado em uma nova vida
em Cristo. Os samaritanos já se haviam convertido à fé em Jesus Cristo,
tendo sido batizados em água por Filipe antes que Pedro e João orassem
para que eles recebessem o dom especial do Espírito Santo.
Semelhantemente, o caso de Paulo era claramente subseqüente. Fora
convertido e tornara-se um novo homem em Cristo no episódio da visão na
estrada de Damasco. Três dias mais tarde, recebeu o Espírito de um modo
novo e especial, quando Ananias orou por ele. O caso de Cornélio, em Atos
10, é incomum - ele experimentou o batismo com o Espírito Santo na mesma
ocasião em que foi regenerado. Mesmo neste caso, deve ter havido também
alguma distinção entre a sua conversão e o dom do Espírito. É dos
"discípulos" em Éfeso o derradeiro exemplo (At 19). Eles haviam recebido a
salvação antes de seu encontro com Paulo ou pelo menos foram
regenerados antes de o Espírito Santo vir sobre eles. Paulo lhes deu
instrução e então os batizou em água. Em seguida, o Espírito Santo veio
sobre eles, quando o apóstolo, impondo-lhes as mãos, orou.
Pneumatologia 61

Por isso, em Atos, o batismo com o Espírito Santo é claramente subseqüente


em três casos (Pentecostes, Samaria e Paulo) e logicamente separável nos
outros dois casos (Cornélio e os efésios).

7.2 O que Ensina a Palavra de Deus


A grande pergunta que se formula quanto ao batismo com o Espírito Santo é,
a quem se destina o mesmo? A Bíblia deixa bem claro que o mesmo é para
todos que professam sua fé em Cristo; que nasceram de novo, e, assim,
receberam o Espírito Santo para neles habitar. Portanto, destina-se àqueles
cujos corações pertencem a Deus por terem abandonado seus maus
caminhos (At 2.38; 3.26), e é mantido mediante a mesma dedicação sincera a
Cristo. Assim, se o Espírito Santo realmente estiver operando em nós
plenamente, viveremos em maior conformidade com a santidade de Cristo. À
luz destas verdades bíblicas, portanto, quem for batizado com o Espírito
Santo, terá um desejo intenso de agradar a Cristo em tudo o que puder.
Aqueles que afirmam ter a plenitude do Espírito, mas vivem uma vida
contrária ao Espírito de santidade, estão enganados e mentindo. Aqueles que
manifestam dons espirituais, milagres, sinais espetaculares, ou oratória
inspiradora, mas não têm uma vida de verdadeira fé, amor e retidão, não
estão agindo segundo o Espírito Santo, mas segundo um espírito impuro que
não é de Deus (Mt 7.21-23; Mt 24.24; 2Co 11.13-15).

Um dos alvos principais de Cristo na sua missão terrena foi batizar seu povo
com o Espírito (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33). Ele ordenou aos discípulos
não começarem a testemunhar até que fossem batizados com o Espírito
Santo e revestidos do poder do alto (Lc 24.49; At 1. 4, 5, 8).

O batismo com o Espírito Santo é uma obra distinta e à parte da


regeneração, também por Ele efetuada. Assim como a obra santificadora do
Espírito é distinta e completiva em relação à obra regeneradora do mesmo
Espírito, assim também o batismo com o Espírito complementa a obra
regeneradora e santificadora do Espírito. (Lc 24.49; At 1.5,8). Portanto, este
batismo é uma experiência subseqüente à regeneração.

Ser batizado com o Espírito significa experimentar a plenitude do Espírito (At


1.5; 2.4). Este batismo teria lugar somente a partir do dia de Pentecostes.
Quanto aos que foram cheios do Espírito Santo antes do dia de Pentecostes
(Lc 1.15,67), Lucas não emprega a expressão “batizados com o Espírito
Santo”. Este evento só ocorreria depois da ascensão de Cristo (At 1.2-5; Lc
24.49-51, Jo 16.7-14).

O livro de Atos descreve o falar noutras línguas como o sinal inicial do


batismo com o Espírito Santo (At 2.4; 10.45,46; 19.6).
62

O batismo com o Espírito Santo outorgará ao crente ousadia e poder celestial


para este realizar grandes obras em nome de Cristo e ter eficácia no seu
testemunho e pregação (At 1.8; 2.14-41; 4.31; 6.8; Rm 15.18,19; 1Co 2.4).
Esse poder não se trata de uma força impessoal, mas de uma manifestação
do Espírito Santo, na qual a presença, a glória e a operação de Jesus estão
presentes com seu povo (Jo 14.16-18; 16.14; 1Co 12.7).

O propósito principal do batismo com o Espírito Santo é o recebimento de


poder divino para testemunhar de Cristo, para ganhar os perdidos para Ele, e
ensinar-lhes a observar tudo quanto Cristo ordenou. Sua finalidade é que
Cristo seja conhecido, amado, honrado, louvado e feito Senhor do povo de
Deus (Mt 28.18-20; Lc 24.49; Jo 5.23; 15.26,27).

O batismo com o Espírito Santo permanece na vida do crente mediante a


oração (At 4.31), o testemunho (At 4.31, 33), a adoração no Espírito (Ef
5.18,19) e uma vida santificada (Ef 5.18). Por mais poderosa que seja a
experiência inicial do batismo com o Espírito Santo sobre o crente, se ela não
for expressa numa vida de oração, de testemunho e de santidade, logo se
tornará numa glória desvanecente.

O batismo com o Espírito Santo ocorre uma só vez na vida do crente e move-
o à consagração à obra de Deus, para, assim, testemunhar com poder e
retidão. A Bíblia fala de renovações posteriores ao batismo inicial do Espírito
Santo (At 4.31; At 2.4; 4.8, 31; 13.9; Ef 5.18). O batismo com o Espírito,
portanto, conduz o crente a um relacionamento com o Espírito, que deve ser
renovado (At 4.31) e conservado (Ef 5.18).

O termo original para virtude é dunamis, que significa poder real; poder em
ação. Poder significa mais do que força ou capacidade.

O batismo com o Espírito Santo não somente outorga poder para pregar
Jesus como Senhor e Salvador, como também aumenta a eficácia desse
testemunho, fortalecido e aprofundado pelo nosso relacionamento com o Pai,
o Filho e o Espírito Santo por termos sido cheios do Espírito (Jo 14.26;
15.26,27).

7.3 Evidências do Batismo com o Espírito


Esta seção estuda a questão das línguas como evidência física [ou exterior]
inicial do batismo com o Espírito Santo.

No que diz respeito às línguas como evidência inicial do batismo com o


Espírito Santo, assim classificamos: o batismo com o Espírito Santo é sempre
acompanhado pela evidência inicial do falar em outras línguas.
Pneumatologia 63

As línguas como evidência do batismo com o Espírito Santo é a posição


teológica pentecostal tradicional. O falar em outras línguas é sempre a
evidência física inicial dessa experiência especial. Como observa J. R.
Williams: "Os pentecostais têm ressaltado especialmente o falar em línguas
como a 'evidência inicial' do batismo no Espírito". A Declaração das Verdades
Fundamentais das Assembléias de Deus afirma essa posição no tema
número: "O batismo dos crentes com o Espírito Santo é testemunhado pelo
sinal físico inicial de falar em línguas conforme o Espírito de Deus lhes
concede que falem (At 2.4)".

A evidência física inicial do batismo com o Espírito Santo baseia-se nas


Escrituras, especialmente em Atos dos Apóstolos. Nos três casos onde Lucas
registra pormenores de como os indivíduos receberam o batismo com o
Espírito Santo, o falar em outras línguas fica claramente em evidência. No dia
de Pentecostes, os 120 falaram em línguas - glossolalia - as quais não
dominavam em circunstâncias normais (At 2.4). Declara Ralph M. Riggs:
"Esse falar em outras línguas veio, então, a ser o sinal e evidência de que o
Espírito Santo descera sobre os cristãos neotestamentários". Caso nítido é o
incidente de Cornélio (At 10.44-46). Horton observa: “O Espírito ofereceu a
evidência, e foi de um só tipo: ‘Porque os ouviam falar em línguas e
magnificar a Deus’” (exatamente como em At 2.4,11). A terceira e última
ocorrência é o episódio que envolve os discípulos em Éfeso (At 19.1-6).
Howard Ervin comenta: "A natureza evidencial da glossolalia aqui é
fortemente ressaltada pelo comentário de que 'o falar em outras línguas com
profecia era prova indubitável externa de que o Espírito Santo viera sobre
esses 12 discípulos efésios desinformados'".

Exegetas competentes, inclusive a maioria dos estudiosos não-pentecostais,


reconhecem sem hesitação que Lucas fala da manifestação sobrenatural das
línguas nos três casos. Os estudiosos pentecostais sustentam, ainda, que
Lucas revela um padrão nos três casos - uma experiência distintiva no
Espírito, evidenciada pelo falar em línguas. Conforme declara J. R. Williams,
nos três casos, "falar em outras línguas era evidência nítida de que o Espírito
Santo havia sido outorgado".

As línguas, semelhantemente, manifestaram-se nas demais ocorrências de


batismo inicial, em Atos, apenas Lucas preferiu não repetir os detalhes. Por
exemplo, que os crentes samaritanos (At 8.4-24) falaram em línguas como os
120 no dia de Pentecostes, os da casa de Cornélio e os discípulos efésios.
Ervin formula a pergunta óbvia: "O que Simão viu, que o convenceu de terem
os discípulos samaritanos recebido o Espírito Santo mediante a imposição
das mãos de Pedro e de João?" Ervin cita vários estudiosos não-pentecostais
que confirmam a sua resposta. "O contexto justifica a conclusão de que esses
convertidos samaritanos receberam o batismo com o Espírito Santo depois
64

da sua conversão, com a evidência provável do falar em outras línguas". F. F.


Bruce parece concordar com isso, ao comentar a experiência dos
samaritanos: "O contexto não deixa dúvida alguma de que o recebimento do
Espírito foi acompanhado por manifestações externas, como as que haviam
marcado a sua descida aos primeiros discípulos, no Pentecostes". Entre os
estudiosos citados por Ervin está A. T. Robertson. Ele assevera que o texto,
nesse caso, "demonstra claramente que os que receberam o dom do Espírito
Santo falaram em línguas".

O falar em outras línguas era a experiência normal, esperada de todos os


crentes neotestamentários batizados com o Espírito Santo. Isto é, "a atividade
primária conseqüente ao recebimento do Espírito Santo foi a de falar em
línguas". Por causa disso, Lucas não via necessidade de ressaltar o falar em
outras línguas cada vez que narrava uma nova ocorrência. Os leitores de
Lucas deviam saber que os crentes falavam em outras línguas quando eram
batizados com o Espírito Santo. Por isso os pentecostais sustentam que não
somente os convertidos samaritanos, mas também Paulo e outros que Lucas
descreve, manifestaram a evidência inicial de falar em outras línguas. No
caso de Paulo, ressaltam sua declaração aos coríntios de que falava em
outras línguas (1Co 14.18). Baseado nisso, Ervin apresenta um sólido
argumento em favor de sua afirmação de que "Paulo também falava em
outras línguas quando recebeu o dom pentecostal do Espírito Santo".

Resumindo: Lucas descreve detalhadamente o batismo com o Espírito Santo


(os discípulos no dia de Pentecostes, Cornélio e os efésios). Em cada um
desses casos, o falar em outras línguas é a evidência clara dessa
experiência. Nos casos em que não menciona especificamente as línguas
(por exemplo: os samaritanos e Paulo), estas eram manifestas, porém não
havia necessidade de reiterar sempre os pormenores. O falar em línguas era
a evidência inicial em todos os casos; sustentam que Lucas revelou um
padrão consistente no período do Novo Testamento - uma experiência
distintiva do batismo com o Espírito Santo, separável da regeneração e
evidenciada inicialmente pelo falar em outras línguas.

Além disso, os relatos de Lucas não somente revelam esse padrão, mas
também ensinam que falar em outras línguas é normativo para a doutrina e
prática cristãs. Isso significa que, no decurso da história da Igreja, sempre se
esperou o falar em outras línguas como evidência inicial do batismo com o
Espírito Santo. Assim devem ser entendidas as narrativas em Atos porque,
afinal de contas, Lucas escrevia não somente como historiador, mas também
como teólogo. Descrevia a obra do Espírito Santo nos crentes e através dos
crentes da era da Igreja. Embora os incidentes tenham ocorrido em âmbito
histórico específico, nem por isso devemos negar o padrão como normativo à
totalidade da era da Igreja. Afinal de contas, a era da Igreja é o período em
Pneumatologia 65

que a presença do Espírito Santo precisa estar em evidência na vida dos


crentes. Sua presença é necessária para operar através dos crentes, a fim de
que possam levar a graça salvífica de Cristo àqueles que estão sem Deus.

Concluindo: (a) o batismo com o Espírito Santo é a vinda daquela presença e


poder especiais do Espírito e (b) a evidência inicial disso hoje, assim como
em Atos dos Apóstolos, é o falar em outras línguas.

7.4 Disponibilidade do Batismo com o Espírito Santo


Está o batismo com o Espírito Santo à disposição dos crentes hoje ou só
esteve disponível na era apostólica? "Hoje!" é a resposta da maioria dos
evangélicos - pentecostais e não-pentecostais igualmente. Quando os
estudiosos pentecostais dizem que o batismo com o Espírito Santo está à
disposição dos crentes hoje, estão insistindo na disponibilidade
contemporânea de uma experiência separável e distinta, evidenciada pelo
falar em outras línguas.

Um argumento baseado em 1 Coríntios 13.8-12 advoga a idéia de que a


experiência pentecostal cessou no fim do período em que o Novo Testamento
foi escrito. Alguns sustentam que, nesses versículos, Paulo ensina que a
profecia, as línguas e o dom do conhecimento cessariam quando fosse
completado o cânon do Novo Testamento. Paulo disse que os carismas
"cessarão" (v. 8) "quando vier o que é perfeito" (v. 10) - quando então
"veremos face a face" (v. 12). Tendo por base esse argumento, alguns
negam o batismo pentecostal com o Espírito Santo, com a evidência do falar
em outras línguas, esteja disponível hoje.

Os estudiosos pentecostais (e muitos não-pentecostais) refutam a idéia de


que Paulo aqui esteja dizendo algo nesse sentido. A idéia da "cessação
desses dons no fim do século I d.C.", diz Maré, "é totalmente estranha ao
contexto". Ervin reconhece: "Que esses três carismas chegarão ao fim, é
claramente afirmado pelo texto. Mas quando cessarão, somente o poderemos
deduzir do contexto". Ervin cita vários estudiosos que confirmam
exegeticamente sua conclusão de que Paulo está antevendo a parousia, ou
segunda vinda de Cristo, e não o encerramento do cânon. Além disso,
nesses versículos, Paulo sequer está escrevendo a respeito do batismo com
o Espírito Santo. Suas declarações realmente têm pouca coisa (ou talvez
nada) a ver com a questão da disponibilidade atual de uma experiência
distintiva desse batismo.

A posição teológica pentecostal no tocante à disponibilidade do batismo com


o Espírito Santo evidenciado pelas línguas começa no dia de Pentecostes.
Mais especificamente, com as palavras de Pedro: "Porque a promessa vos
66

diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos
quantos Deus, nosso Senhor, chamar" (At 2.39). Horton comenta a
explicação de Pedro à multidão que ouvira os 120 falar em línguas sobre a
profecia de Joel: "A maneira de Pedro considerar a profecia de Joel
demonstra que esperava um cumprimento contínuo da profecia até ao fim
dos 'últimos dias'". Horton demonstra que Pedro entendia que os últimos dias
incluíam a totalidade da era da Igreja, a partir da ascensão de Jesus. "Fica
claro, então, que o cumprimento da profecia de Joel não pode ser limitado ao
dia de Pentecostes ou a qualquer outra ocasião". P. C. Nelson diz,
simplesmente: "A todos os que estão longe' - isso inclui a nós".

A experiência de ser batizado no Espírito Santo é repetida distintivamente à


evidência do falar em outras línguas posteriormente ao dia de Pentecostes.
Em Atos dos Apóstolos indicam os outros quatro incidentes (convertidos
samaritanos, Paulo, Cornélio e os discípulos efésios) estudados supra,
especialmente estes últimos dois casos, em que as línguas estão claramente
em evidência. Além disso, tratando-se da disponibilidade da experiência para
hoje, os pentecostais lembram que, no século XX, a experiência distintiva, do
tipo registrado em Atos, inclusive o falar em outras línguas, tem-se repetido
na vida de milhões de pessoas por todo o mundo. Afinal de contas,
argumenta Menzies, "não devemos considerar impróprio incluir experiências
pessoais e relatos históricos à certa altura do processo de elaboração da
teologia". A verdade bíblica "deve ser demonstrável na vida". Por essa razão,
acrescenta Ervin, "é axiomático para os pentecostais que o batismo com o
Espírito Santo não seja limitado ao dia de Pentecostes ou ao fim da era
apostólica. Acreditam ser o direito de nascença de todo cristão, e sua
experiência confirma o fato".

O fato da experiência de um batismo distintivo com o Espírito Santo está à


disposição dos crentes hoje, não estão sugere que os cristãos que não falam
em línguas não têm o Espírito. O batismo com o Espírito Santo é apenas uma
das várias obras do Consolador. Convicção, justificação, regeneração,
santificação: todas estas são obras do mesmo Espírito Santo. Cada uma
dessas obras é distintiva, com uma única natureza e propósito. Se o indivíduo
corresponde de modo positivo à obra do Espírito na convicção, ocorrem
então a justificação e a regeneração. Naquele momento, o Espírito Santo
passa a habitar no crente, e dali em diante é correto dizer que essa pessoa
tem o Espírito. O batismo com o Espírito Santo com a evidência inicial de
falar em línguas pode ocorrer naquele mesmo momento ou em ocasião
posterior - de conformidade com o padrão revelado em Atos dos Apóstolos.
Em qualquer desses casos, a pessoa tem o Espírito habitando nela desde o
momento da regeneração.
Pneumatologia 67

A confusão a respeito de se ter ou não o Espírito Santo deve-se à falta de


compreensão de certos termos empregados por Lucas. Ao descrever e
examinar o batismo com o Espírito Santo, o autor sagrado emprega certas
terminologias: "ficar cheio do Espírito Santo", "receber o Espírito Santo", "o
Espírito Santo sendo derramado", "o Espírito Santo caindo sobre" e "o
Espírito Santo vindo sobre". Estes termos não são tanto de contraste quanto
simplesmente tentativas de descrever e enfatizar. Isto é, quando Lucas
emprega esses termos, não está contrastando o batismo com o Espírito
Santo com a regeneração, como se dissesse que, na regeneração, o Espírito
não vem, não é recebido ou não habita no crente. O Espírito realmente vem,
é recebido e habita no crente, já na regeneração (Rm 8.9). Porém, ao
empregar os termos, Lucas está simplesmente dizendo que o batismo é uma
experiência especial, onde o crente pode "ser cheio" do Espírito ou "recebê-
lo", ou pela qual o Espírito "cai" ou "vem sobre" as pessoas.

A terminologia de Lucas não confunde necessariamente a questão da


disponibilidade de uma experiência distintiva do batismo com o Espírito Santo
. Conforme declara Riggs, os pentecostais insistem que "todos os crentes têm
o Espírito, porém... todos os crentes, além de terem o Espírito, podem
receber a plenitude ou o batismo com o Espírito Santo". O batismo com o
Espírito Santo é uma experiência incomparável e está à disposição do cristão
convertido e regenerado, visando um propósito especial e específico.

7.5 O Propósito do Batismo com o Espírito Santo


A derradeira questão relacionada à idéia do batismo com o Espírito Santo é o
propósito da experiência. Qualquer consideração do assunto deve indicar a
razão dessa obra especial e a necessidade que visa cumprir.

Reconhecemos a posição teológica daqueles que negam o Batismo com o


Espírito Santo como uma obra à parte da regeneração. Entendemos que isso
ocorre como resultante de uma Igreja subdesenvolvida, na qual falta a
qualidade dinâmica, experimental e capacitadora da vida cristã. J. R. Williams
escreve: "Além de estar nascido no Espírito, que é o modo de começar a vida
nova, também há a necessidade de ser [o crente] batizado com o Espírito
Santo, visando o transbordar dessa vida no ministério ao próximo".

Fee, semelhantemente, considera que "a profunda insatisfação com a vida


em Cristo sem a vida no Espírito" é exatamente o pano de fundo histórico do
Movimento Pentecostal. Desde o início do século XX até ao presente, os
pentecostais têm acreditado que a plena dinâmica do revestimento de poder
pelo Espírito vem somente com a experiência especial e distintiva do batismo
com o Espírito Santo. Quando essa experiência deixa de ser normal na
68

Igreja, esta fica destituída da realidade da dimensão poderosa da vida no


Espírito.

Por isso os pentecostais acreditam que a experiência distintiva do batismo


com o Espírito Santo, tal como Lucas a descreve, é crucial para a Igreja
contemporânea. Stronstad diz que as implicações da teologia de Lucas são
claras: "Já que o dom do Espírito era carismático ou vocacional para Jesus e
a Igreja Primitiva, assim também deve ter uma dimensão vocacional na
experiência do povo de Deus hoje". Por quê? Porque a Igreja hoje, da mesma
forma que a Igreja em Atos dos Apóstolos, precisa do poder dinâmico do
Espírito para evangelizar o mundo de modo eficaz e edificar o corpo de
Cristo. O Espírito veio no dia de Pentecostes porque os seguidores de Jesus
"precisavam de um batismo com o Espírito que revestisse de poder o seu
testemunho, de tal maneira que outros pudessem também entrar na vida e na
salvação". E, por ter vindo no dia de Pentecostes, o Espírito volta repetidas
vezes, visando o mesmo propósito.

O propósito dessa experiência é o elemento final e mais importante, que


torna o batismo com o Espírito Santo separável e distinto da regeneração. J.
R. Williams comenta: "[Os pentecostais] insistem que além da salvação - e
visando uma razão inteiramente diferente - há outra ação do Espírito Santo
que equipa o crente para um serviço adicional". A convicção, a justificação, a
regeneração e a santificação são obras importantes do Espírito. Mas há
"outro modo de operação, sua obra energizadora", que é diferente, mas
igualmente importante. Myer Pearlman declara: "A característica principal
dessa promessa é o poder para o serviço, e não a regeneração para a vida
eterna". O batismo com o Espírito é "distinto da conversão", diz Robert
Menzies, porque "desencadeia uma nova dimensão do poder do Espírito: é
um revestimento de poder para o serviço".

Os pentecostais acreditam firmemente que o propósito primário do batismo


com o Espírito Santo é poder para o serviço. Leia Lucas 24-49 e Atos 1.8,
onde o escritor sagrado registra as últimas instruções de Jesus aos seus
seguidores: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre
vós; e ser-me-eis testemunhas" (At 1.8). Os pentecostais crêem que Ele se
referia ao dia de Pentecostes, que estava por vir, quando os 120 seriam
batizados com o Espírito Santo. P. O Nelson diz que os discípulos de Jesus
receberam o Espírito Santo "como revestimento de poder, para capacitá-los a
dar testemunho eficaz das grandes verdades salvíficas do Evangelho".
Horton salienta que, "desde o dia de Pentecostes, vemos o Espírito Santo
ativo na vida da Igreja... na obra de disseminar o Evangelho e estabelecer a
Igreja". Os pentecostais acreditam que esse mesmo batismo incomparável
está à disposição dos crentes hoje, visando o mesmo propósito: revesti-los de
poder para o serviço.
Pneumatologia 69

As pessoas batizadas com o Espírito e revestidas pelo seu poder afetam o


restante do corpo de crentes. Menzies afirma que "o batismo com o Espírito
Santo fica sendo a entrada para um modo de adoração que abençoa os
santos de Deus reunidos. Esse batismo é a entrada para os numerosos
ministérios no Espírito, chamados dons do Espírito, inclusive muitos
ministérios espirituais".

Concluindo, o propósito do batismo com o Espírito Santo - a dimensão


contínua da vida revestida pelo poder do Espírito - torna a experiência
suficientemente importante para ser conhecida, compreendida e
compartilhada. Não seja o falar em línguas o propósito ulterior ou a razão
pela qual a experiência deve ser desejada, mas sim a necessidade do poder
sobrenatural para testemunhar e servir. A necessidade ulterior é que cada
membro do corpo de Cristo receba esse revestimento de poder a fim de que
a Igreja possa operar na plena dimensão da vida no Espírito.

7.6 O Recebimento do Batismo com o Espírito Santo


Como recebemos essa experiência especial? Existem condições prévias para
recebermos o batismo com o Espírito Santo? Caso positivo, quais são? Além
disso, se tais condições são impostas após a regeneração, acabam sendo
exigências adicionais à fé?

São várias as opiniões sobre as condições prévias para o recebimento do


batismo com o Espírito Santo . Em linguagem simples, os pentecostais
sustentam que a única condição prévia para essa experiência é a conversão
e a única exigência é a fé. "O Espírito Santo vem àqueles que crêem em
Jesus Cristo", diz J. R. Williams. Horton declara que "a única condição prévia
para se receber a promessa do Pai é o arrependimento e a fé". Menzies
acrescenta: "A experiência é descrita como um dom (At 10.45) e, portanto,
não é de modo algum conseguida por merecimento. O dom é recebido pela fé
ativa e obediente".

Embora essas condições prévias para receber o batismo com o Espírito


Santo sejam necessárias após a regeneração, não são acréscimos às
condições para a salvação. Nesse contexto, repetimos a declaração de
Horton, já citada: "A única condição prévia para se receber a promessa do
Pai é o arrependimento e a fé", exatamente o exigido para alguém se tornar
cristão. "Idealmente, a pessoa deve receber o revestimento de poder
imediatamente após a conversão", escreve Pearlman. Significa que, no
momento da conversão, o crente cumpriu as condições para o batismo com o
Espírito Santo. J. R. Williams acrescenta: "As condições que acabamos de
mencionar são melhor entendidas, não como exigências adicionais além da
simples fé, mas como expressões dessa fé".
70

Não se tratam, portanto, de condições nem exigências acrescentadas


àquelas necessárias para a salvação. A fé, a oração, a obediência, a entrega
e a expectativa meramente produzem o contexto - ou atmosfera - em que o
batismo com o Espírito Santo é recebido. Assim, pode ocorrer na mesma
ocasião da regeneração, como no caso de Cornélio (At 10.44-48), ou num
momento, como no caso dos samaritanos (At 8.14-19).

Uma última explicação é necessária quanto ao batismo com o Espírito Santo.


Posto ser a única condição prévia a conversão e a única exigência a fé, é
importante enfatizar que cada verdadeiro crente em Cristo é candidato a essa
experiência. Cada crente deve receber esse revestimento de poder especial
para o serviço cristão. Por exemplo, a declaração doutrinária das
Assembléias de Deus a respeito do batismo com o Espírito Santo começa
assim: "Todos os crentes têm direito à promessa do Pai e devem aguardá-la
ardentemente e buscá-la com sinceridade... Juntamente com ela vem o
revestimento de poder para a vida e para o serviço". Não basta ler a respeito
da experiência em Atos dos Apóstolos. Nem é suficiente reconhecer como sã
essa doutrina e saber que a experiência é para os cristãos hoje. Se a Igreja
tiver operando dentro dela a dimensão dinâmica da vida no Espírito, os
crentes individuais deverão receber pessoalmente esse batismo no Espírito
Santo.
Pneumatologia 71

Capítulo 8

Os Dons do Espírito Santo


A unção do Espírito, no Antigo Testamento, abrangia todos os ministérios que
Deus quisesse suscitar: sacerdotes, artífices para o tabernáculo, líderes
militares, reis, profetas, músicos. O propósito da unção era equipar as
pessoas para o serviço. É nesse contexto que Lucas e Atos consideram a
unção do Espírito. Em Lucas 1 e 2, uma unção repousava sobre dois idosos
sacerdotes: Zacarias e Simeão. Duas mulheres, Isabel e Maria, foram
ungidas para, milagrosamente, ter filhos e criá-los. João Batista era cheio do
Espírito desde o ventre da mãe, não para ser sacerdote, como o pai, mas
profeta e precursor do Messias. Semelhantemente, em Atos, o enfoque recai
sobre a unção que revestiu de poder a Igreja e transformou o mundo.

Joel falou da vinda do Espírito sobre toda a carne para profetizar (Jl 2.28,29).
Jesus identificou seu próprio ministério como profético (Is 61.1-3; Lc 4.18,19).
Pedro equiparou a experiência no dia de Pentecostes ao cumprimento da
profecia de Joel (At 2.16-18). Paulo disse: "Porque todos podereis profetizar,
uns depois dos outros, para que todos aprendam e todos sejam consolados"
(1Co 14.31). Claramente a Igreja desempenha papel profético ao levar a
presença de Deus e a sua poderosa Palavra aos pecadores, às questões
éticas, às nações e aos indivíduos.

Paulo vai além do contexto de Lucas e Atos. Ele focaliza a ativação dos dons,
o aprimoramento do fruto, o andar no Espírito e a edificação dos crentes da
igreja local até a maturidade. Paulo considerava a Igreja um organismo
interdependente e interativo - tendo Cristo por cabeça - andando na retidão e
no poder, antecipando a alegria pela volta do Senhor. Para captarmos o
conceito paulino de Igreja, precisamos compreender os dons.

8.1 A Igreja Mediante a Expressão dos Dons


Os pensamentos mais profundos de Paulo estão registrados nas suas
epístolas às igrejas em Roma, Corinto e Éfeso. Estas igrejas eram
instrumentos da estratégia missionária de Paulo. Romanos 12, 1 Coríntios 12
e 13 e Efésios 4 foram escritos a partir do mesmo esboço básico. Embora
fossem igrejas diferentes, são enfatizados os mesmos princípios. Cada texto
serve para lançar luz sobre os demais. Paulo fala do nosso papel no exercício
dos dons, do exemplo da unidade e diversidade que a Trindade oferece, da
72

unidade e diversidade no corpo de Cristo, do relacionamento ético - tudo à luz


do último juízo de Cristo.

O contexto dessas passagens paralelas é a adoração. Depois de uma


exposição das grandes doutrinas da fé (Rm 1 - 11), Paulo ensina que o modo
apropriado de corresponder a elas é mediante uma vida de adoração (Rm 12
- 16). Os capítulos 11 a 14 de 1 Coríntios também se referem à adoração.

Os capítulos 1 a 3 de Efésios apresentam uma adoração em êxtase. Efésios


4 revela a Igreja como uma escola de adoração, onde aprendemos a refletir o
Mestre supremo. Paulo considera os seus convertidos apresentados em
adoração viva diante de Deus (Rm 12.1,2; 2Co 4.14; Ef 5.27; Cl 1.22,28).
Conhecer a doutrina ou corrigir as mentiras não basta. A totalidade da nossa
vida deve louvar a Deus. A adoração está no âmago do crescimento e
reavivamento da igreja.

8.2 Natureza Encarnacional dos Dons


Os crentes desempenham um papel vital no ministério dos dons. Romanos
12.1-3 nos diz para apresentarmos nosso corpo e mente como adoração
espiritual e que testemos e aprovemos o que for a boa, agradável e perfeita
vontade de Deus.

Semelhantemente, 1 Coríntios 12.1-3 nos adverte a não perdermos o controle


do corpo e a não sermos enganados pela falsa doutrina, mas deixar Jesus
ser Senhor. E Efésios 4.1-3 nos recomenda um viver digno da vocação
divina, tomar a atitude correta e manter a unidade do Espírito.

Nosso corpo é o templo do Espírito Santo e, portanto, deve estar envolvido


na adoração. Muitas religiões pagãs ensinam um dualismo entre o corpo e o
espírito. Para elas, o corpo é mau, uma prisão, ao passo que o espírito é bom
e precisa ser liberto.

Paulo conclama os coríntios a não se deixarem influenciar pelo passado


pagão. Antes, perdiam o controle; como conseqüência, podiam dizer qualquer
coisa e alegar que ela provinha do Espírito de Deus. O contexto bíblico dos
dons não indica nenhuma perda de controle. Pelo contrário, à medida que o
Espírito opera através de nós, temos mais controle do que nunca.
Entregamos nosso corpo e mente a Deus como instrumentos a seu serviço.
Oferecemos-lhe a mente transformada e a colocamos debaixo do senhorio de
Cristo, num espírito meigo e disciplinado, para deixar Deus operar através de
nós. Efésios 4.1-3 diz-nos que as atitudes certas levam ao ministério eficaz.
Por isso, o corpo, a mente e as atitudes ficam sendo instrumentos para a
glória de Deus.
Pneumatologia 73

Os dons são encarnacionais, Isto é, Deus opera através dos seres humanos.
Os crentes submetem a Deus sua mente, coração, alma e forças. Consciente
e deliberadamente, entregam tudo a Ele. O Espírito, então, os capacita de
modo sobrenatural a ministrar acima das suas capacidades humanas e, ao
mesmo tempo, a expressar cada dom através de sua experiência de vida,
caráter, personalidade e vocabulário. Os dons manifestos precisam ser
avaliados. Isto não diminui em nada a sua eficácia, pelo contrário, dá à
congregação a oportunidade de testar, pela Bíblia, sua veracidade e valor
para a edificação.

O princípio encarnacional é visto na revelação de Deus à raça humana. Jesus


é Emanuel, Deus conosco (plenamente Deus e plenamente humano). A
Bíblia é ao mesmo tempo um livro divino e um livro humano. É divina,
inspirada por Deus, autorizadora e inerrante. E humana, pois reflete os
antecedentes, situações vivenciais, personalidades e ministérios dos
escritores. A Igreja é uma instituição tanto divina quanto humana. Deus
estabeleceu a Igreja, pois de outra forma ela nem existiria. Apesar disso,
sabemos que a Igreja é bastante humana. Deus opera através de vasos de
barro (2Co 4.7). O mistério que permaneceu oculto através das gerações e
agora foi revelado aos gentios é "Cristo em vós, esperança da glória" (Cl
1.27).

8.3 A Diversidade de Ministérios


Existem muitos dons, e nenhuma das listas visa ser exaustiva. Vinte e um
deles são alistados no Novo Testamento. Todos são complementares entre
si: nenhum é completo em si mesmo. Por exemplo: todos os dons em
Romanos 12.6-8 podem ser proveitosamente aplicados a uma situação de
aconselhamento. Dons encontrados em determinada lista podem ser
facilmente relacionados a dons constantes em outras relações. O dom de
contribuir pode manifestar-se como misericórdia, socorros, exortação ou
mesmo o martírio. Alguns dons são facilmente identificados: as línguas e a
interpretação, as curas e as maravilhas. Outros dons, porém, como a palavra
da sabedoria, a palavra do conhecimento, o discernimento de espíritos e a
profecia, talvez exijam um exame cuidadoso antes de serem identificados.

O fato de nenhuma pessoa ser auto-suficiente leva à interdependência. Cada


crente é um membro do corpo de Cristo; e cada membro precisa dos demais.
Juntos, podem fazer o que um indivíduo sozinho jamais conseguiria. Mesmo
quando as pessoas manifestam os mesmos dons, fazem-no de modo
diferente e com resultados diferentes. Ninguém individualmente possui um
dom na sua manifestação total. É necessária a participação de todos.
74

Os dons devem ser exercidos com amor, por causa do perigo de serem
comunicados de modo errôneo, até mesmo por pessoas com as mais
sinceras intenções. E todo dom deve ser avaliado pela igreja.

Paulo é extremamente prático. Na questão dos dons do Espírito Santo, nada


indica seja mera teoria. A maioria dos estudiosos classifica os dons de 1
Coríntios 12.8-10 em três categorias: revelação, poder e expressão, com três
dons em cada categoria. Trata-se de uma divisão conveniente e lógica.

(a) Dons de Ensino: A palavra da sabedoria; A palavra do conhecimento.

(b) Dons do Ministério: Fé; Dons de curar; Operação de maravilhas;


Profecia Discernimento de espíritos.

(c) Dons de Adoração: Variedades de línguas; Interpretação de línguas.

Essa tríplice divisão pode ser confirmada dividindo-se 1 Coríntios 14 em


parágrafos. Note que Paulo acrescenta nova categoria em 1 Coríntios 14.20-
25: "um sinal... para os incrédulos" (v. 22).

Por outro lado existem outros teólogos que classificam os dons da seguinte
maneira:

(a) Dons de Elocução: Profecia; variedade de línguas; interpretação de


línguas.

(b) Dons de Locução: Palavra da sabedoria; palavra da ciência; discernir


espíritos.

(c) Dons de Poder: Fé; curar; operar maravilhas.

8.3.1 A palavra da sabedoria (1Co 12.8)

“A um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria” (1Co 12.8)

O ensino, a busca da orientação divina, o conselho e a luta com as


necessidades práticas do governo e administração da igreja podem oferecer
oportunidade para o dom de sabedoria. Mas este não deve ser limitado à
adoração na igreja ou às experiências na sala de aula. Ele ensina as pessoas
a crescer espiritualmente quando aplicam seus esforços ao estudo da
sabedoria e fazem escolhas que levam à maturidade. Por si só, no entanto, o
dom é uma mensagem, proclamação ou declaração de sabedoria, não
significa que os que ministram a mensagem sejam necessariamente mais
sábios que os outros.
Pneumatologia 75

Nossa fé não deve depender de sabedoria humana (1Co 2.5). Se nos faltar a
sabedoria, somos exortados a pedi-la a Deus (Tg 1.5). Jesus prometeu aos
seus discípulos "boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem
contradizer todos quantos se vos opuserem" (Lc 21.15). Esta promessa
refere-se a um dom sobrenatural, pois assim demonstra o seu mandamento:
"Proponde, pois, em vosso coração não premeditar como haveis de
responder" (Lc 21.14). Esse dom, portanto, vai além da sabedoria e preparo
humanos.

Este dom diz respeito mais especificamente a um fragmento da sabedoria de


Deus dada por meios sobrenaturais. Todos os servos de Deus necessitam da
“palavra da sabedoria”, especialmente os que têm a responsabilidade da
liderança da igreja de Jesus. O exercício deste dom é indispensável para o
êxito no governo da Igreja e na solução de problemas eclesiásticos (At
6.3,10; Lc 12.11,12).

8.3.2 A palavra de Conhecimento - Palavra da Ciência

“... e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência” (1Co 12.8). A


definição da “Palavra do conhecimento” ou “Palavra de ciência” envolve uma
implicação natural de fatos que, no momento, nenhum indivíduo poderia
compreender por meios naturais. É a revelação de uma série de ações que
se baseia e têm origem na Onisciência de Deus que no homem manifesta-se
apenas fragmentos.

Este dom está relacionado ao ensino das verdades da Palavra de Deus. Não
é o resultado do estudo por si só. Donald Gee descreve-o como "raios de
introspecção da verdade que penetram além da operação do intelecto
humano por si só". O conhecimento pode incluir os segredos de Deus, como
a revelação da vinda próxima das chuvas, dos planos dos inimigos ou dos
pecados secretos de reis e servos aos profetas do Antigo Testamento.
Podemos identificá-lo também no conhecimento que Pedro tinha da mentira
de Ananias e Safira e na proclamação da sentença de cegueira contra
Elimas, feita por Paulo.

8.3.3 Fé

Em certo sentido, toda fé é dom de Deus, mas há a fé sobrenatural. O dom


da fé habilita o crente a aceitar como realidade todas as promessas de Deus
e agir na certeza plena de que Deus vai cumprir a sua palavra. Desse tipo de
fé poderosa e dinâmica necessitamos tremendamente em nossos dias. A fé
que domina todo poder do inimigo e liberta a todos os prisioneiros do Diabo.
A fé que vence o poder das doenças e enfermidades. A fé que nos assegura
a triunfar contra todo poder do mal. A fé que nos dá a certeza de que Deus
76

tudo nos suprirá, na hora da necessidade. Que abre as portas das prisões,
que acalma o mar tempestuoso e dá ao cristão a certeza de uma vitória
contínua em toda a sua vida. Isto é o trabalho sobrenatural do Espírito.

Oração fervorosa, alegria extraordinária e coragem incomum acompanham o


dom da fé. Não se trata da fé salvífica, mas da fé milagrosa para uma
situação ou oportunidade especial, tal como o confronto entre Elias e os
profetas de Baal (1 Rs 18.33-35). Pode incluir a capacidade especial de
inspirar fé nos outros, como fez Paulo a bordo do navio em meio à
tempestade (At 27.25).

8.3.4 Dons de curar

Em Atos dos Apóstolos, muitos aceitaram o Evangelho e foram salvos depois


de milagrosamente curados. No texto grego, a expressão inteira aparece no
plural. Assim, parece que ninguém recebe o dom exclusivo da cura. Pelo
contrário, muitos dons de cura estão à disposição para satisfazer as
necessidades de casos específicos em ocasiões específicas.

Às vezes Deus cura soberanamente, e às vezes, de conformidade com a fé


do enfermo. O que ora pelo enfermo é mero agente; o enfermo (quer tenha
enfermidade física ou emocional) é quem precisa do dom e realmente o
recebe. Em todas essas ocasiões, a glória deve ser dada exclusivamente a
Deus. Podemos, no entanto, juntar a nossa fé com a do enfermo e, juntos,
estabelecer o ambiente de amor e aceitação no qual os dons da cura fluem
melhor. No corpo de Cristo há poder e força para a satisfação das
necessidades de um membro fraco. A cura possui aspecto encarnacional.

O poder de curar é muito desejado, em virtude de ser um sinal eloqüente e


ostensivo na confirmação da mensagem do evangelho, como também em
razão da verdadeira simpatia cristã para com sofredores e do desejo de
proporcionar-lhes alívio. Os dons de curar fazem parte de uma categoria
especial. Há curas que se realizam imediatamente, como no caso do cego de
Jericó, e há curas que se realizam gradualmente como o cego da passagem
de Mc. 8.24, que no primeiro momento via os homens como se fossem
árvores; ou como no caso dos leprosos: “... E aconteceu que indo eles,
ficaram limpos” (Lc 17.14).

8.3.5 Operação de maravilhas

A operação de maravilhas consiste em dois plurais: de dunamis (façanhas de


grande poder sobrenatural) e energêma (resultados eficazes). Esse dom
pode estar relacionado à proteção, provisão, expulsão de demônios,
alteração de circunstâncias ou juízo. Os evangelhos registram maravilhas no
Pneumatologia 77

contexto da manifestação do Reino (ou domínio) messiânico, da derrota de


Satanás, do poder de Deus e da presença e obra de Jesus. A palavra grega
para "milagre", em João, enfatiza o seu valor como sinal para encorajar as
pessoas a crer e a continuar crendo. Atos dos Apóstolos enfatiza a
continuação dessa obra na Igreja, demonstrando que Cristo é vencedor.

O dom de operação de maravilhas é tão estupendo que se torna inconcebível


à mente finita do homem. Entretanto, ele faz parte do ministério sobrenatural
do Espírito Santo. Mas, o que é maravilha? “Maravilha é um evento ou um
efeito no mundo físico distinto das leis da natureza ou que sobrepuja ao
nosso conhecimento dessas leis”. A Bíblia é o livro das maravilhas; de fato,
ela é talvez o maior milagre.

(a) Maravilhas no Antigo Testamento: Passagem do mar vermelho, a


paralisação do sol, o azeite da botija, o maná do deserto, a passagem
do Jordão, etc.

(b) Maravilhas no Novo Testamento: A multiplicação dos pães e dos


peixes, a ressurreição de Lázaro, da filha de Jairo, do filho da viúva de
Naim, o tremor de terra na prisão onde estava Paulo e Silas, etc.

A necessidade das Maravilhas na igreja: O aumento das atividades de


Satanás nestes dias requer da parte da igreja o crescimento da fé e mais
poder para que possa ser vitoriosa contra as forças do inferno. Permita Deus,
nunca tenhamos que confessar como seus servos no passado: “Já não
vemos nossos sinais” (Sl 74.9).

8.3.6 Profecia

Em 1 Coríntios 14, a profecia refere-se a várias mensagens espontâneas,


inspiradas pelo Espírito, numa língua conhecida a quem fala "para edificação
[especialmente na fé], exortação [especialmente para avançar na fidelidade e
no amor] e consolação [que anima e revivifica a esperança e a expectativa]"
(14.3). Com esse dom, o Espírito ilumina o progresso do Reino de Deus,
revela os segredos dos corações das pessoas e submete o pecado à
convicção (1Co 14.24,25). Um exemplo típico é Atos 15.32: "Judas e Silas,
que também eram profetas, exortaram e confirmaram os irmãos com muitas
palavras".

Aqueles regularmente usados com o dom da profecia eram chamados


profetas. Qualquer crente, no entanto, pode exercer esse dom. Mas deve ser
aquilatado cuidadosamente (e em público) pelos "outros", ou seja, pela
congregação (1Co 14-29). Essa avaliação deve ainda explicar qual o
78

propósito de Deus no assunto, a fim de que todos possam aprender e tirar


benefício.

Uma pregação inspirada pode ter um elemento profético, contudo a profecia é


inteiramente diferente da pregação ordinária. “Profecia é a voz através da
qual falam a sabedoria e a fé. É a voz do Espírito Santo”. O dom de profecia
não é infalível: Atente bem para este assunto, pois muitos não admitem
facilmente. O dom de profecia envolve uma fusão do humano e o divino, o
finito e o infinito, o imperfeito e o perfeito. Há, em algumas pessoas, uma
concepção falha de que, na manifestação do dom de Profecia, é somente
Deus quem fala. Em alguns casos isso pode ser verdade, mas cabe aqui uma
explicação: Se o dom de profecia é inteiramente uma operação de Deus,
sem participação alguma do homem, não seria necessária qualquer
instrução quanto ao exercício do mesmo, posto que Deus não necessita de
instrução.

A inspiração divina não exclui a participação do espírito humano. O Espírito


de Deus não amordaça o espírito do homem para usar o seu corpo. Isto é
próprio dos demônios. Quando o Espírito de Deus usa um vaso, o faz com
pleno consentimento deste, que fica livre para até mesmo impedir a Deus se
quiser. O Espírito de Deus é infalível, mas o do homem não é. Como prova
disto Paulo afirma: “e fale dois ou três profetas e os outros julguem” (1Co
14.29). Por causa da falibilidade do espírito humano, as profecias são
ministradas para confirmar a vontade de Deus, portanto Deus não usará o
homem para estabelecer doutrinas ou práticas de vidas que já não estejam
contempladas na Bíblia.

8.3.7 Discernir espíritos

A expressão inteira, no grego, apresenta-se no plural. Este fato indica uma


variedade de maneiras na manifestação desse dom. Por ser mencionado
imediatamente após a profecia, muitos estudiosos o entendem como um dom
paralelo responsável por "julgar" as profecias (1Co 14.29). Envolve uma
percepção capaz de distinguir espíritos, cuja preocupação é proteger-nos dos
ataques de Satanás e dos espíritos malignos (cf. 1Jo 4.1). O discernimento
nos permite empregar a Palavra de Deus e todos os demais dons para liberar
o campo à proclamação plena do Evangelho.

O dom de discernir espíritos é uma habilidade divina sobrenatural que


permite a identificação da natureza e do caráter dos espíritos. Assim como a
Sabedoria existem espírito humano, espírito demoníaco e Espírito de Deus.
Eles precisam ser discernidos. O dom de discernimento dos espíritos é
evidente nos seguintes casos:
Pneumatologia 79

(a) Na repreensão de Paulo ao espírito de adivinhação que atuava numa


jovem na cidade de Filipos (At 16.16-18).
(b) No desmascaramento de Ananias por intermédio de Pedro (At 5.1-5).
(c) Na repreensão de Pedro a Simão, o mágico (At 8.18-22).
Muitos falharam na concepção real de discernimento dos espíritos. Pensam
erradamente que este dom se relaciona com o julgamento das questões e
relações humanas. Para facilitar sua definição vamos dizer o que não é
discernimento de espíritos:
(a) Não é habilidade para descobrir as falhas e os pecados alheios.
(b) Não é a capacidade de ler os pensamentos das outras pessoas.
(c) Nada tem a ver com os fenômenos da mediunidade dos espíritas.
(d) Nada tem a ver com as prospecções e investigações da psicologia.
Ao contrário, deve ser acentuado que a operação deste dom, como de todos
os outros, está no domínio sobrenatural do Espírito Santo de Deus, uma vez
que é originária de sua onisciência, por isso mesmo cheio de justiça,
perfeição, e misericórdia. A igreja que é assediada pelo poder das trevas
necessita da manifestação deste dom para vencer as batalhas que sutilmente
Satanás empreende com seus ardis. É claro que em qualquer situação
somente um dos espíritos pode agir, o Espírito Santo, o espírito humano ou o
espírito de Satanás. O dom de discernimento de espíritos nos habilita a
conhecer o espírito que opera em cada ocasião. As Escrituras nos advertem
que antes do arrebatamento, muitos poderão ficar impressionados com
operações Satânicas sobrenaturais, que enganam se possível, até mesmo os
escolhidos.

8.3.8 Variedade e Interpretação de Línguas


Através do dom de línguas, o Espírito Santo toca em nosso espírito. Achamo-
nos livres para exaltar a bondade de Deus e edificamos a nós mesmos. A
medida que falamos, somos edificados espiritualmente.
A diferença básica entre o fenômeno das línguas em Atos e em 1 Coríntios
está no seu propósito. Em Atos, as línguas visam a edificação pessoal,
deixando evidente que os discípulos realmente haviam recebido o dom
prometido do Espírito Santo, para revesti-los "do poder do alto" (Lc 24.49; At
1.4,5,8; 2.4). Não precisavam ser interpretadas. Em 1 Coríntios, o propósito
era a bênção a outras pessoas na congregação, por isso era necessária a
comunicação.
80

O Espírito Santo distribui todos os dons segundo o seu poder criador e sua
soberania. O verbo "querer" (1Co 12.11, gr. bouletaí) está no tempo presente
e sugere nitidamente sua personalidade continuamente criativa. Notamos,
também, que a Bíblia não faz distinções herméticas entre os dons.
"Encorajar" faz parte do dom da profecia em 1 Coríntios 14.3, mas em
Romanos 12.8 é tratado como um dom distinto. As categorias de dons acima
citadas não se excluem mutuamente. Além disso, personalidades diferentes
talvez expressem os dons de modos diferentes em vários ministérios.
Em 1 Coríntios 14.1-5, o valor funcional das línguas e da interpretação pode
ser comparado ao da profecia no ensino (14.6-12), na adoração (14.13-19),
no evangelismo (14.20-25) e no ministério ao Corpo (14.26-33).
O ensino, o ministério do corpo de Cristo à Igreja e ao mundo e a adoração
são três chaves para uma assembléia local saudável. Se possuirmos apenas
duas dessas categorias estaremos em desequilíbrio, abrindo a porta a
dificuldades. Se, por exemplo, tivermos ensino e ministério, sem adoração
consistente, poderemos perder boa parte do impacto do reavivamento. Nosso
zelo para servir pode facilmente esgotar-se. Se tivermos ensino e adoração,
sem ministério prático, nossos membros ficarão preguiçosos, voltados
apenas para si mesmos, ineficazes, críticos e facciosos. Se tivermos o
ministério e a adoração, sem ensino sólido, correremos o risco de cair nos
extremos, no "fogo de palha" que danificará o reavivamento a curto e longo
prazo. Sem essas três chaves operando conjuntamente, a igreja não poderá
alcançar seu pleno potencial. É evidente o interesse de Paulo pelos
resultados práticos, que deixarão a igreja livre para o discipulado, o
evangelismo, a união e a vida semelhante à de Cristo.
Em 1 Coríntios 12.4-6, Paulo ensina que há dons (gr. charismatõn) diferentes,
ministérios (gr. diakoniõn) diferentes e resultados (gr. energêmatõn)
diferentes. Isto é, cada dom pode ser exercido através de ministérios
diferentes e produzir resultados diferentes, sendo que todos honrarão a Deus.
Paulo, usando a analogia dos diferentes membros do corpo, diz que Deus
distribui os membros no Corpo conforme Ele deseja, dando-nos ministérios
diferentes com resultados variados. O esboço em 1 Coríntios 14 trata da
função prática. Incrível diversidade, incrível praticabilidade!
Examinando os textos paralelos e acrescentando 1 Pedro 4.10,11, obtemos
as 13 diretrizes que se seguem:
(a) Devemos exercer o nosso ministério proporcionalmente à nossa fé.

(b) Devemos concentrar a nossa atenção nos ministérios que sabemos


possuir, e aprimorá-los.
Pneumatologia 81

(c) Devemos manter as atitudes certas: contribuir com generosidade,


orientar com diligência e ter alegria em demonstrar misericórdia.

(d) Todos têm funções diferentes no corpo de Cristo, e devemos


compreender o relacionamento com o corpo inteiro.

(e) Os dons devem edificar a todos, e não somente ao indivíduo.

(f) A ninguém cabe o senso de superioridade ou inferioridade, pois cada


membro é igualmente importante.

(g) Os dons são dados a nós, mas não os alcançamos por nossos
méritos. A vontade e a soberania de Deus determinam essa
distribuição. Sua ação específica de distribuir os dons na Igreja é
demonstrada pelos seguintes verbos: "dar" (Rm 12.6; Ef 4.11) e "por"
(1Co 12.28). Paulo afirma ainda, em 1 Coríntios 12.28-31, que
devemos concentrar nossos esforços nos ministérios que sabemos
que Deus nos tem dado.

(h) Ao mesmo tempo, são manifestações dadas por Deus, e não talentos
humanos. Deus continua outorgando dons conforme o seu querer.
Devemos acolher todos eles com receptividade. Se soubermos qual
parte do Corpo somos e quais os nossos ministérios, poderemos
canalizar com eficácia os dons.

(i) Embora exerçamos um dom até à sua máxima capacidade, tudo será
fútil sem o amor. Evidentemente, temos apenas o conhecimento
parcial, e é só o que conseguimos compartilhar. Os dons são dados
continuamente, segundo nossa medida de fé (e não uma vez por
todas). Os dons devem ser testados; devem estar sujeitos aos
mandamentos do Senhor. O enfoque é o amadurecimento da igreja, e
não a grandeza do dom. Estas verdades devem nos levar à
humildade, à estima por Deus e pelo próximo e à zelosa disposição
de obedecer a Ele.

(j) Ministérios de capacitação têm a função especial de deixar livres


outras pessoas para exercer seus ministérios e desenvolver a
maturidade. Apóstolos, profetas, evangelistas e pastores-mestres são
dons à Igreja. Aparecem na ordem histórica da fundação e
estabelecimento da igreja, e não segundo uma classificação qualquer
de autoridade (1Co 12.28).

(k) Devemos ministrar a graça de Deus nas suas várias formas. 1 Pedro
1.6 revela que os cristãos haviam passado por tristezas as mais
82

variadas. Deus tem uma graça especial para ministrar a cada tristeza.
O ministro fiel saberá ministrar a cada necessidade. Devemos
escolher com cuidado quando, onde e como melhor ministrar a graça
de Deus.

(l) Devemos ministrar com confiança, na força do Senhor, sem timidez e


sem tentar fazer tudo pelos próprios esforços. Conceito semelhante
encontramos em Romanos 12, onde o ministrar é proporcional à
nossa fé. Mas Pedro ordena falarmos como se fossem as próprias
palavras de Deus! (1Pe 4.11).

(m) Finalmente, Deus deve receber toda a glória. Todos os dons são
graças com que Deus tem abençoado a sua Igreja.

8.3.9 Outros Dons (Dons de servir)

Conforme a relação mencionada em Rm 12.7,8 e 1Co 12.28, temos os


seguintes dons: Governo está relacionado com os apóstolos, pastores ou
anciãos (presbíteros); exortação (Rm 12.8; 1Co 14.3); repartir (Rm 12.8),
refere-se a socorros e misericórdias (At 4.34); presidir, relacionado com o
trabalho dos ministros e cooperadores da obra de Deus; misericórdia, ajuda
material e espiritual (At 20.35; 1Co 13.13; Mt 9.13); socorro, de ordem
espiritual, moral e social.

8.4 Um só Corpo, Muitos Membros


A união no corpo de Cristo baseia-se na experiência da salvação que temos
em comum. Todos somos pecadores, salvos pela graça de Deus.

A analogia elaborada por Paulo, entre a Igreja e o corpo humano, talvez


tenha sido por demais terrena para os coríntios, que só queriam pensar em
coisas espirituais. Talvez considerassem o corpo humano pecaminoso. Mas o
próprio Deus o criou. Nenhuma analogia descreve melhor a interação e
interdependência da Igreja. Paulo, desde o momento da sua conversão, na
estrada de Damasco, notou que perseguir a Igreja era perseguir o próprio
Jesus Cristo (At 9.4). A Igreja é nada menos que o corpo de Cristo! Paulo
tinha em alto conceito a Igreja e o valor desta para Deus. Temos a sublime
vocação e obrigação de edificar uns aos outros, ajudar cada membro a achar
um ministério pessoal, manter abertas as comunicações entre os membros e
dedicar as nossas vidas uns aos outros.

O mundo derruba e desfaz tudo. Os cristãos edificam. Mas, para fazermos


assim, nós mesmos devemos ser edificados primeiro. Falar em línguas
Pneumatologia 83

edifica a nós pessoalmente (1Co 14-4,14,17,18). Se não formos edificados,


estaremos ministrando com vasos vazios. A vida devocional de muitos
cristãos modernos é lastimavelmente fraca. A oração e a adoração são
nossas fortalezas interiores. Mas, se buscarmos somente a nossa edificação
pessoal, ficaremos espiritualmente como esponjas que absorvem água sem
passá-la adiante. Precisamos esforçar-nos para edificar outras pessoas.

"Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para
promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem" (Ef 4.29). Um
corpo sadio edifica a si mesmo, tendo a capacidade de curar as próprias
feridas. A edificação deve ser o alvo supremo da Igreja, no uso dos dons. O
amor edifica. O propósito dos dons é edificar. O povo de Deus deve apoiar-se
mutuamente, perdoar e estender a mão uns aos outros. Quão bom exemplo
semelhante ato seria diante do mundo!

A verdadeira comunhão edifica-se na empatia. Devemos alegrar-nos com os


que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12.15). Devemos ter a
mesma solicitude uns para com os outros. Se uma parte sofre, as demais
partes sofrem com ela; se uma parte for honrada, cada parte se regozija com
ela (1Co 12.25,26). Este modo de pensar é contrário ao pensamento do
mundo, onde é mais fácil alegrar-se por causa dos que choram e chorar pelos
que se alegram; isto porque a natureza humana prefere julgar os outros. Os
crentes, porém, pertencem uns aos outros. A minha vitória é motivo para
você se alegrar, porque o Reino de Deus é promovido. Quando você alcança
uma vitória, também eu fico animado. Efésios 4.16 demonstra o ponto
culminante da empatia: o Corpo se edifica em amor, à medida que cada
ligamento de apoio recebe forças de Cristo e cumpre a sua tarefa.

O termo para "apoio" ("justa operação") é epichorêgias, usado na literatura


grega para descrever o líder de um coral tomando sobre si a
responsabilidade de suprir com abundância as necessidades do seu grupo,
ou um líder que supre amplamente de viveres e munições o seu exército, ou
um marido que em tudo cuida da sua esposa, oferecendo-lhe sustento
abundante. Se cada um cumprir a sua responsabilidade, o resultado será
vitalidade e saúde. Quão grande liberação de poder acontecerá numa
comunhão dessa qualidade! Maravilhas e curas podem facilmente surgir
nesse ambiente! Se soubermos apoiar uns aos outros com mútua
receptividade, deixaremos os cristãos em melhores condições para buscar
em Deus as respostas.
Todos temos personalidades, temperamentos e ministérios diferentes.
Devemos assumir o compromisso de entendermos uns aos outros e de nos
deixarmos mutuamente livres para ministrar. Isso leva tempo. A medida que
84

aprendermos a respeito dos outros, começaremos a dar valor a eles, a honrá-


los e a crescer na comunhão.

8.5 Amor Sincero


Após cada uma das exposições a respeito dos dons, Paulo elabora três belas
mensagens baseadas num único esboço sobre o amor (Rm 12.9-21; 1Co 13;
Ef 4.17-32). Cada uma dessas mensagens tem suas diferenças criativas, mas
os mesmos temas essenciais estão presentes. Anders Nygren assim
comenta Romanos 12: "Basta fazermos da palavra 'amor' o único sujeito da
passagem inteira de 12.9-21 para vermos quão perto o conteúdo dessa
seção fica de 1 Coríntios 13". Romanos 12 é uma unidade. Paulo não está
falando de dois assuntos distintos, os dons e a ética (o amor).

O contexto de Romanos 12 é a urgência da hora, como o bem forçosamente


triunfando sobre o mal e o viver à luz da segunda vinda de Cristo. O povo de
Deus precisa viver em relacionamentos corretos. Não se pode fazer uma
divisão entre os capítulos 12 e 13 de 1 Coríntios. O contexto para o exercício
dos dons é o amor. Efésios 4 enfatiza a diferença dramática entre a nossa
vida anterior, como pagãos, e a nossa nova vida em Cristo. É por isso que
devemos falar a verdade em amor. O amor é prático quando edificamos uns
aos outros. As três passagens bíblicas aqui estudadas desenvolvem temas
em separado. Mesmo assim, a vitória do bem sobre o mal, o amor no
exercício dos dons e a verdade no amor são todas expressões dinâmicas do
amor - o exército do Messias marcha numa progressão diferente! Nossa
maneira de viver é essencial para a utilização eficaz dos dons.

8.6 O Juízo Final


Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está
escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. Portanto, se o
teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber;
porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. Não te
deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem (Rm 12.19-21).

Mas, quando vier o que é perfeito, então, o que o é em parte será


aniquilado... Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então,
veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como
também sou conhecido (1Co 13.10,12).

Até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de


Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo... cresçamos
em tudo naquele que é a cabeça, Cristo... E não entristeçais o Espírito Santo
de Deus, no qual estais selados para o Dia da redenção (Ef 4.13,15,30).
Pneumatologia 85

O exame dos versículos acima demonstra que todas as menções ao amor


encontram-se no contexto da conduta cristã à luz da segunda vinda de Cristo.
Não temos alicerçada a nossa ética na filosofia, na cultura ou na
conveniência, mas na justiça de Deus, tendo em vista o derradeiro juízo. Os
teólogos chamam a isso conduta escatológica.

A citação em Romanos 12.20 provém da literatura sapiencial do Antigo


Testamento (Pv 25.21,22). Nas passagens a respeito do amor, Paulo cita
Jesus, a Lei, a literatura sapiencial, e revela solicitude profética pelos pobres
e necessitados. Essa é a sabedoria de Deus. "Amontoar brasas de fogo
sobre a cabeça" talvez retrate uma prática egípcia de a pessoa carregar na
cabeça uma panela de brasas vivas como penitência. Se for assim, Paulo
está dizendo que, mediante o amor, podemos levar a pessoa ao
arrependimento. Que o inimigo saiba que está lutando contra Deus, e não
contra nós. Não queremos derrotar nossos inimigos humanos; queremos
ganhá-los para o Senhor! Não devemos sucumbir às pressões de Satanás. A
guerra é entre o mal e o bem. Somente poderemos vencer o mal com o bem.

1 Coríntios prevê tempos de esclarecimento total, nos quais veremos face a


face e conheceremos plenamente assim como somos plenamente
conhecidos. É o dia da vinda do Senhor. É o Dia do Juízo! Todas as nossas
ações serão julgadas segundo os padrões divinos (Rm 2.6,16).

Em Efésios, há fartas referências às últimas coisas profetizadas. Paulo fala


do estágio futuro da maturidade plena e sobre o dia da redenção. Somos
selados pelo Espírito até aquele dia (Ef 4.13,15,30). Mas, até então, os dons
são o poder que Deus nos dá a fim de cumprirmos a tarefa de nos
edificarmos mutuamente e influenciar o mundo. O que Paulo ordena em
todas as partes da Epístola aos Efésios exige mudança radical, dramática e
urgente. Devemos aproveitar ao máximo todas as oportunidades (Ef 5.16).
Cristo deseja apresentar a si mesmo uma Igreja radiante (Ef 5.27). Escravos
e senhores têm um Senhor no Céu, diante de quem terão de prestar contas
(Ef 6.9). E, no fim, a expressão "finalmente", ou "no demais" (Ef 6.10), pode
ser uma referência aos derradeiros dias, quando chegar "o dia mau" (Ef
6.13). Os textos paralelos de Romanos 12, 1 Coríntios 12 e 13 e Efésios 4
focalizam o modo de viver do crente cheio do Espírito - procurando seu lugar
no corpo de Cristo, exercendo os dons com amor, testemunhando e servindo,
tudo como antegozo da vinda do Senhor. Este é o propósito e vocação da
Igreja. A Igreja é uma escola. Quando os crentes se reúnem, aprendem a
ministrar dons espirituais e a ser discípulos de Cristo. Saindo para ministrar
ao mundo, aplicam o poder de Deus às situações da vida. Devemos ser
receptivos à voz do Espírito, que pode falar através de nós a qualquer
momento.
86

8.7 As Funções dos Dons


Paulo faz um contraste entre o valor das línguas e o da profecia em quatro
funções diferentes, em 1 Coríntios 14: o ensino (vv. 6-12), a adoração (vv. 13-
19), os sinais para o descrente (vv. 19-25) e o ministério à igreja local (vv. 26-
33). Ele admoesta contra o abuso dos dons e oferece diretrizes positivas ao
seu exercício. Vejamos.

A comunicação é complexa. A comunicação nítida fortalece (14-3). É fácil


entender erroneamente intenções, atitudes e palavras. Somos imperfeitos. É
por isso que os dons precisam ser exercidos com amor. Os coríntios,
egoístas, fingiam-se ultra-espirituais e abusavam das línguas estranhas.
Surgiram muitos problemas. Paulo reenfatiza a necessidade da clareza na
orientação e instrução. Por isso, toma a profecia como exemplo para
representar todos os dons exercidos no idioma conhecido. As línguas
estranhas, quando interpretadas, incentivam a congregação a adorar (1Co
14.2,5,14,15) e se constituem num dom tão válido quanto a profecia. Não há
fundamento bíblico para classificar os dons como superiores ou inferiores.
Cada dom desempenha uma tarefa única e incomparável, se comunicado
corretamente. Paulo oferece a analogia da flauta, da citara e da trombeta
tocadas sem um som nítido: não há benefício para o ouvinte. Na assembléia
local, precisamos transmitir com nitidez a orientação divina, o que Deus está
dizendo a todos nós. Paulo tinha em alta estima o dom de línguas para a
adoração (1Co 14.2), a edificação do indivíduo (14-4), a oração (14.4), a ação
de graças (14.17) e como sinal para o incrédulo (14.22). Paulo orava em
línguas, cantava em línguas, louvava em línguas e falava em línguas (14.13-
16). Na realidade, falava em línguas ainda mais que os exuberantes coríntios.
Ele fala do valor de louvar e orar com o Espírito e também com o
entendimento.

Os coríntios haviam exagerado no uso do dom de línguas. Alguns talvez


acreditassem que falavam línguas angelicais (1Co 13.1). É possível que os
cultos tenham sido dominados pelas línguas (14.23), e parece que os que
falavam em línguas interrompiam uns aos outros para entregar suas
mensagens, sem interpretação (14.27,28).

Há uma pergunta fundamental a respeito dessa passagem. Estaria Paulo


encorajando ou desencorajando períodos de adoração em que todos na
assembléia falam em outras línguas? Duas opiniões são sustentadas a
respeito de 1 Coríntios 14.23,24. Uma delas é que Paulo estava reduzindo ao
mínimo o uso do dom das línguas e que nunca, por nenhum motivo, deveria
haver mais que duas pessoas (ou no máximo três) falando num culto. Assim
fica excluída a adoração pública em línguas. Segundo esta opinião, Paulo faz
uma concessão mínima àqueles em Corinto que falavam em línguas.
Pneumatologia 87

Uma segunda opinião considera que 1 Coríntios 14.23-24 consiste em duas


declarações paralelas: todos falam em línguas; todos profetizam. Se 14.23
significa que todos falam línguas estranhas ao mesmo tempo, obviamente
14.24 refere-se a todos profetizando ao mesmo tempo. Obviamente, 14-24
não pode significar isso. Todos profetizando ao mesmo tempo seria confusão
ou mesmo demência. Paulo certamente permite às pessoas profetizarem
"uns depois dos outros" no ministério à congregação (1Co 14.31). E, se a
profecia representa todos os dons no idioma conhecido, outros dons também
podem ser ministrados profeticamente.
A única limitação imposta às mensagens proféticas é que seja feito "tudo
decentemente e com ordem". Os coríntios não deveriam consumir a
totalidade do horário falando "uns depois dos outros" em línguas. Há um
limite de duas ou (no máximo) três expressões em línguas com
interpretações (14.27). O propósito básico das línguas estranhas com
interpretação é adorar a Deus e encorajar os outros a fazer o mesmo. Se
uma congregação está disposta a adorar, não serão necessárias mais que
duas ou três exortações para situá-la nesse propósito.

Em Atos 2.4; 10.44-46 e 19.6, vemos que todos falavam em línguas na


adoração coletiva. Nenhuma interpretação é mencionada. A interpretação
sem preconceitos de 1 Coríntios 14.2,22-25 não pode negar que todos
adoravam em línguas ao mesmo tempo. Paulo e Lucas não se contradizem
mutuamente.

Se o propósito primário das línguas é louvar a Deus, as línguas com


interpretação encorajarão as pessoas a adorar. Assim, recusar às pessoas a
oportunidade de adorar a Deus em línguas parece uma contradição. Nesse
caso, Paulo estaria dizendo: "Adorem com o entendimento na assembléia,
mas não no Espírito. Somente duas ou três pessoas têm licença para aquela
experiência". Que diremos das reuniões em que a oração é o tema principal
na agenda? Ou das reuniões que visam encorajar os outros a receber a
plenitude do Espírito? Ou dos momentos de pura celebração espiritual?
Quando Deus nos toca, no meio de qualquer assembléia pública, nós
correspondemos. Essa nossa resposta, no entanto, não deve atrair sobre nós
mesmos qualquer atenção indevida.

O reavivamento pentecostal no mundo inteiro jamais se desculpou pela


celebração espiritual genuína. Tem, sim, encorajado a adoração sincera. O
espírito do indivíduo não é abafado pelo coletivo. Pelo contrário, é
plenamente aproveitado no Corpo, com o devido controle. O dom de línguas
não está limitado aos devocionais particulares. Pelo contrário, aprendemos
no modelo da adoração pública a maneira de adorar em particular. Se todos
88

entendessem que há ocasiões diferentes para se louvar a Deus, não existiria


nenhuma confusão.

Todos os dons têm valor como sinal e valor no seu conteúdo. No dom de
línguas, destaca-se o aspecto de sinal: desperta a atenção. Na profecia, o
conteúdo, embora em certos casos tenha grande valor como sinal. Ela
confronta as pessoas com a Palavra de Deus e as convida ao
arrependimento.

As curas têm valor como sinal para os que observam, e valor de conteúdo
para os que são curados. As palavras de sabedoria e conhecimento
destacam muito mais o valor do conteúdo, embora às vezes tenham grande
valor como sinal. É uma questão pragmática - o que Deus está fazendo e o
que é necessário à situação.

Embora nada possa substituir a Palavra de Deus nem valer mais que ela,
Deus continua falando às igrejas e às necessidades individuais. Reunimo-nos
para ouvir a mensagem de Deus. Ele fala à nossa situação presente através
da sua Palavra e do corpo de Cristo. Se todos comparecermos com a
disposição de ministrar dons e surgir a oportunidade, o ministério poderá fluir
livremente. O ambiente ideal para esse ministério é o pequeno, tal como um
grupo familiar. Horários apertados, grandes multidões e membros acanhados
são obstáculos (14.26).

Paulo guiava a igreja em Corinto com mão firme. Muitos estavam unidos
contra ele. Alguns coríntios julgavam-se ultra-espirituais, pensando que o
Reino já havia chegado e que não haveria necessidade de ressurreição para
quem realmente tivesse fé. Somente eles tinham a manifestação mais plena
dos dons. Mas Paulo não reage fortemente contra eles. Oferece diretrizes
positivas. A primeira é que a profecia precisa ser comunicada com clareza, a
fim de fortalecer, encorajar e consolar (14.3).

A segunda diretriz a ser considerada consiste nas necessidades dos crentes,


dos incrédulos e dos interessados. Os crentes precisam ser instruídos e
edificados (14.1-12), render graças juntamente com os outros crentes (14.17),
tornar-se maduros no pensamento (14.20), ministrar vários dons (14-26-33),
avaliar os dons (14.29) e ser discipulados (14.31). Os incrédulos precisam
compreender o que está acontecendo num culto (14.16), tomar conhecimento
do fato de que Deus está falando (14.22) e ter os segredos do coração
desvendados diante de Deus (14.25), a fim de serem levados à fé. Os
interessados, que buscam a Deus, precisam compreender o que está
acontecendo no culto (14.16), sem ficar confusos (14.23), e saber que Deus
está verdadeiramente entre nós (14.25).
Pneumatologia 89

A terceira diretriz é a importância de não reagir. Paulo aconselha aos


coríntios: "Procurai com zelo os dons espirituais" (14.1), canalizando esse
zelo para a edificação da Igreja (14.12), e não proibindo o falar em outras
línguas (14-39). O medo de cair em extremos freqüentemente leva as igrejas
a recuar diante da aceitação de um ministério completo de dons. Nesse caso,
o nenê é jogado fora junto com a água suja do banho, o fogo é evitado por
causa da possibilidade de fogo-fátuo ou, conforme diz o provérbio chinês,
podamos os dedos dos pés a fim de fazer o sapato servir. Por outro lado,
seguir zelosamente uma posição teológica sem fundamento bíblico é
prejudicar o próprio reavivamento, que todos estamos buscando.

Às vezes condenamos sem misericórdia, de modo farisaico, os que cometem


enganos. E assim, desanimamos outras pessoas que querem ministrar com
os dons. O medo exagerado de erros pode nos deixar sem a bênção de
Deus. Precisamos de teologia sólida como base. Mas também devemos
ensinar com amor, testar as revelações à luz da consciência espiritual que
outros membros maduros do corpo de Cristo possuem e aprimorar (ao invés
de repudiar) os dons genuínos do Espírito (14.39,40).

A quarta diretriz é a prestação de contas. Na totalidade do capítulo, Paulo


revela que os modos de corrigir os exageros são: o exercício saudável dos
dons, a avaliação e a prestação de contas. Somos responsáveis uns diante
dos outros.

No culto de adoração, a prioridade suprema é edificar os outros. Nossa vida,


nossa metodologia e nossas expressões vocais devem ser levadas adiante,
no contexto do que Deus está fazendo na Igreja, e sujeitas espontaneamente
à avaliação do corpo dos fiéis. Exageros surgem quando as pessoas exercem
dons ou fazem declarações sem ter de prestar contas a ninguém.
90
Pneumatologia 91

Capítulo 9

O Fruto do Espírito Santo


“Mas o fruto do Espírito é: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade,
bondade, fé, mansidão, temperança, contra essas coisas não há lei” (Gl
5.22,23).

Não poderemos fazer um estudo apropriado acerca do Espírito Santo, sem


dar atenção especial ao Fruto do Espírito. No passado, antes do grande
avivamento pentecostal deste século, se dava muita ênfase ao Fruto do
Espírito, enquanto que os dons eram ignorados. Para combater esse
desequilíbrio, os pentecostais começaram a enfatizar os dons e quase ignorar
o Fruto Espírito. Este desequilíbrio estava também em desacordo com a
Escritura.

9.1 O Relacionamento entre os Dons e o Fruto


Qual o relacionamento entre os dons e o fruto do Espírito? O fruto tem a ver
com o crescimento e o caráter; o modo da vida é o teste fundamental da
autenticidade. O fruto, em Gálatas 5.22,23, consiste nas "nove graças que
perfazem o fruto do Espírito - o modo de vida dos que são revestidos pelo
poder do Espírito que neles habita". Jesus disse: "Por seus frutos os
conhecereis" (Mt 7.16-20; ver também Lc 6.43-45). Os aspectos do fruto
estão entrelaçados de modo delicado nas três passagens que falam dos
dons. Tanto em Gálatas quanto nos textos que definem os dons, as
qualidades do fruto fluem horizontalmente entre si no ministério (1Co 13; Rm
12.9,10; Ef 4-2). O tema principal de Gálatas não é a justificação pela fé,
embora pareça predominar. O fato é que o propósito da justificação pela fé é
o andar no Espírito.

9.2 As Qualidades do Fruto


Os dons do Espírito não poderão ser exercidos legitimamente através da vida
de um crente em quem não se manifesta o Fruto do Espírito evidenciando
através das virtudes, que são em número de nove, e que estabelecem três
tipos de relações básicas do cristão, reunindo as nove virtudes em três
grupos. Examinemos agora as qualidades do fruto citadas em Gálatas
5.22,23 e como estão entrelaçadas com o exercício dos dons, segundo
Paulo.
92

O ensino final de Paulo sobre o fruto do Espírito é que não há qualquer


restrição quanto ao modo de viver aqui indicado. O crente pode — e
realmente deve — praticar essas virtudes continuamente. Nunca haverá uma
lei que lhes impeça de viver segundo os princípios aqui
descritos.

9.2.1 Amor - Caridade (gr. ágape, Rm 5.5; 12.9-21; 1Co 13; Ef 4-25 -
5.2; Cl 3.14)

A palavra grega ágape é mais freqüentemente usada no tocante ao amor


("caridade") com grande lealdade, visto no seu grau mais elevado como uma
revelação da própria natureza de Deus. É o amor inabalável, concedido livre
e gratuitamente. O amor é o âmago em cada um desses textos bíblicos (Rm
5.5; 12.9-21; 1Co 13; Ef 4-25 -5.2; Cl 3.14). Realmente, o amor é o princípio
ético, a força motivadora e a metodologia correta para todos os ministérios.
Sem o amor, há pouco benefício ao próximo e nenhum para quem exerce o
dom. Os desentendimentos surgem, e a Igreja fica dividida; as pessoas saem
magoadas. O amor forma o alicerce para o ministério com os dons e o
contexto em que estes devem ser recebidos e entendidos.

9.2.2 Gozo (gr. chara, 2Co 6.10; 12.9; 1Pe 1.8; Fp 1.14)

A palavra grega chara, que traduzimos por "gozo" ou "alegria", inclui a idéia
de um deleite ativo. Paulo fala em regozijar-se na verdade (1Co 13.6). O
termo também está estreitamente ligado à esperança. Paulo fala em
regozijar-se na esperança (Rm 12.12). É a expectativa positiva de que Deus
está operando na vida dos nossos irmãos na fé, uma celebração da nossa
futura vitória total em Cristo. A alegria é o âmago da adoração. Os deveres
pesados são transformados em deleite, o ministério é elevado a um plano
mais alto e a operação dos dons torna-se cintilante com essa alegria.

9.2.3 Paz (gr. eirênê, Rm 15.33; Fp 4.7; 1Ts 5.23; Hb 13.20)

A palavra grega eirênê inclui a idéia de harmonia, saúde, integridade e bem-


estar. Em nossos relacionamentos, devemos viver em paz com todos (Rm
12.18); no exercício dos dons, Deus não é um Deus de desordem, mas de
paz (1Co 14.33); e, na assembléia, devemos esforçar-nos por manter a
unidade do Espírito no vínculo da paz (Ef 4.3). A paz é condição fundamental
para progredirmos na união, para acolhermos os ministérios de outras
pessoas e para aprendermos, ainda que através dos fracassos. O exercício
dos dons deve levar à maior união e paz. Reconhecemos a necessidade que
temos uns dos outros, sabemos que as bênçãos divinas fluem através das
outras pessoas, pois nenhum dom é exercido numa manifestação perfeita, e
Pneumatologia 93

todos cometemos enganos. Por isso, é fundamental aprendermos a tratar


com ternura uns aos outros e a buscar o sumo bem de todos.

9.2.4 Longanimidade (gr. makrothumia, Ef 4.2; 2Tm 3.10; Hb 12.1).

A palavra grega makrothumia refere-se à paciência que temos com nosso


próximo. Ser longânimo é tolerar a má conduta dos outros contra nós, sem
nunca buscar vingança. Dentro em breve, os cristãos em Roma passariam
por perseguições. Sob tensão e sofrimento, os cristãos podem vir a ter menos
paciência uns com os outros, de modo que Paulo conclama: "Sede pacientes
na tribulação" (Rm 12.12). Ao ensinar sobre os dons, Paulo inicia tratando da
paciência com as pessoas e termina com a paciência nas circunstâncias (1Co
13.4, 7). Para nós, que formamos a Igreja, leva tempo amadurecermos
através de todas as diferenças que provêm das nossas culturas, níveis
educacionais e personalidades. Por isso, Paulo nos conclama a ser
completamente humildes e mansos, "com longanimidade" (Ef 4.2).

Para um ministério pleno no Espírito, precisamos aprender juntos e


juntamente cometer enganos, crescer, perdoar e confrontar-nos com amor,
sem qualquer atitude de crítica. Tudo isso, só com paciência! Sempre que o
poder de Deus é manifesto é importante olharmos para Ele, e não para
nossas próprias insuficiências. Assim, não agiremos precipitadamente nem
iremos a extremos prejudiciais à Igreja.

9.2.5 Benignidade (gr. chrêstotês, Ef 4.32; Cl 3.12; 1Pe 2.3)

A palavra grega chrêstotês nos faz lembrar Cristo, o exemplo supremo da


benignidade. Paciência e benignidade estão juntas na primeira linha da
descrição do amor de Deus (1Co 13.4). Paulo nos conclama a seguir o
exemplo de Cristo, a sermos benignos e compassivos, perdoando uns aos
outros (Ef 4.32). A severidade não é o modo de agir do corpo de Cristo. A
mútua estima e respeito, sim. A benignidade é o bálsamo que nos une, à
medida que aprendemos a dar valor uns aos outros. Até mesmo os dons são
resultado da benignidade de Deus para conosco. Não merecemos os dons
nem fazemos por merecer a benignidade dos outros. Recebemos ambos com
o coração agradecido, e passamos então a compartilhar ambos
incondicionalmente.

9.2.6 Bondade (gr. agathõsunê, Lc 7.37-50; Mt 21.12,13).

O significado essencial de agathõsunê, traduzido por "bondade", é a


generosidade que flui de uma santa retidão dada por Deus. Paulo
recomenda: "Comunicai [reparti] com os santos nas suas necessidades, segui
94

a hospitalidade" (Rm 12.13), para "repartir com o que tiver necessidade" (Ef
4.28).

A razão básica dos dons é ser uma bênção ao próximo. A bondade, ou


generosidade, nos leva à preocupação com as pessoas de modo prático e
dinâmico, onde quer que estas se encontrem. A Igreja Primitiva sabia praticar
a mútua generosidade, sem medo de exagerar nos cuidados. Embora a
generosidade descuidada não seja mordomia eficiente, nosso motivo é
sermos sempre generosos. O único perigo é demonstrarmos generosidade
com o fim de nos gabarmos. Em tudo que fizermos ao próximo, devemos ter
amor; de outra forma, não haverá benefícios (1Co 13.3).

9.2.7 Fé (gr. pistis, Mt 23.23; Rm 3.3; 1Tm 6.12; 2Tm 2.2; 4.7; Tt 2.10)

A palavra grega pistis freqüentemente significa a confiança expressa numa


vida de fé. Nesse contexto, significa "fidelidade".

A fidelidade reflete a natureza do nosso Pai celeste. Ele é fidedigno. Sua


paciência para conosco nunca se esgota, por mais vezes que o tenhamos
decepcionado. Ele tem um compromisso conosco, à altura do seu grande
plano de redenção! Devemos refletir diante dos outros as características
divinas. E ser fidedignos. Se tivermos fiel compromisso uns com os outros,
Deus poderá derramar toda a abundância das bênçãos do Espírito. A fé, a
esperança e o amor (1Co 13.13) são qualidades que usamos para edificar
relacionamentos. Mediante a unidade da fé, podemos alcançar a medida total
da plenitude de Cristo (Ef 4.13). À medida que esse fruto amadurece em nós,
nossa confiança em Deus é fortalecida. Pode ser um degrau para alcançar o
dom da fé.

O dom da fé é o primeiro na categoria dos cinco dons de poder, em 1


Coríntios 12.8-10, relacionados ao mútuo ministério entre os membros do
corpo de Cristo.

9.2.8 Mansidão (gr. prautês, 2Tm 2.25; 1Pe 3.15; Mt 11.29 com 23; Mc
3.5; 2Co 10.1; Gl 1.9).

A palavra grega prautês transmite o conceito de ternura humilde que tem


mais solicitude pelo próximo que consigo mesmo. Jesus disse: "Bem-
aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra" (Mt 5.5). A palavra
cognata praus significa "meigo", "humilde", "manso", "suave". Aristóteles a
descreve como o meio-termo entre a disposição excessiva à ira e a
incapacidade de irar-se. A pessoa meiga tem o espírito disciplinado.
Potencialmente, todas as bênçãos espirituais estão à disposição de tal
Pneumatologia 95

pessoa. Esse espírito meigo, apesar de a própria palavra "mansidão" não ser
empregada em Romanos, é descrita em 12.12-14 - a capacidade de
perseverar na aflição e na perseguição, servindo fielmente na oração e nos
cuidados práticos com o próximo. A mansidão sabe que Deus está cuidando
de tudo, e por isso não toma a vingança nas próprias mãos (Rm 12.17-21; Ef
4.26). Ao invés de sermos grosseiros, egoístas e facilmente provocados à ira,
demonstremos mansidão, protejamos o próximo e perseveremos (1Co
13.5,7). Nossa atitude uns para com os outros deve ser completamente
humilde, suave, sem arrogância (2Co 10.1; Ef 4.2).

Com demasiada freqüência, as manifestações espirituais têm sido expressas


de modo rigoroso e absolutista, com a manipulação das pessoas. Esse
método, ao invés de encorajar o próximo no ministério dos dons, chega
mesmo a sufocá-lo, mormente o ministério que provém do Corpo inteiro.
Quão importante é aprendermos a resguardar a dignidade e os brios morais
uns dos outros! Seja meigo!

9.2.9 Temperança (gr. egkrateia, 1Co 7.9; Tt 1.8; 2.5)

A palavra grega egkrateia significa "temperança" ou "domínio próprio" até


sobre as paixões sensuais. Inclui, portanto, a castidade. Essa ênfase não
aparece nos textos de Romanos 12 e 1 Coríntios 12-14. Por outro lado, o
contexto anterior oferece um tratamento completo do assunto. Em Efésios
4.17-22, a vida nova é contrastada nitidamente com a antiga. A imoralidade
não tem lugar na vida de uma pessoa que procura ser vaso de bênçãos nas
mãos de Deus. Se o viver santo não acompanhar os dons, o nome de Cristo
é envergonhado. O ministério verdadeiramente eficaz perde seu impacto. As
maravilhas talvez continuem durante algum tempo, mas Deus não recebe
nenhuma glória. As maravilhas não garantem a santidade, porém a santidade
é vital para o verdadeiro ministério espiritual.

Os dons e os frutos estão cuidadosamente intercalados entre si. Quando os


dons são enfatizados ao custo do abandono do fruto, a perda é grande
demais! O caráter cristão, o viver santo e os relacionamentos com os irmãos
na fé são deixados de lado com a fraca desculpa de que Deus nos abençoa
com poder. Assim, dilui-se a obra do Espírito Santo. Não devemos nos
desvencilhar do poder da santidade. Deus nos purifica para nos transformar
em vasos de bênçãos. Os cristãos cuja vida é consistente e livre dos grilhões
da carnalidade ficarão livres da condenação. Terão uma boa reputação.
Serão poderosos.

Embora nem a idade nem a experiência sirvam de garantia de maturidade


espiritual, o fruto do Espírito a produz. A maturidade espiritual envolve melhor
entendimento do Espírito de Deus e das necessidades das pessoas. Nessas
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condições, poderemos melhor exercer os dons. A maturidade aumenta nossa


sensibilidade diante do Espírito Santo, a fim de compreendermos como
operam os dons e quando são necessários. Perceberemos o equilíbrio, sem
irmos a extremos. Procuraremos resultados a longo prazo, e não apenas
bênçãos para o momento. Buscaremos um reavivamento que perdurará até à
vinda de Jesus.

A maturidade espiritual ajuda-nos a ter bons relacionamentos com as


pessoas. Passamos a compreendê-las melhor e a reconhecer a melhor
maneira de ministrar a elas. Devemos esforçar-nos para alcançar a união. As
pessoas, ao observarem o nosso caráter e conduta, passarão a ter confiança
em nós. A Igreja Primitiva escolheu seus sete primeiros diáconos com base
na sua "boa reputação" (At 6.3). Uma boa reputação confirmada pelo próximo
é crucial à plena liberação do Espírito no ministério aos outros e ao
crescimento da Igreja.

O fruto é a maneira de se exercer os dons. Cada fruto vem acondicionado no


amor, e qualquer dom, mesmo na sua mais plena manifestação, nada é sem
o amor. "Por outro lado, a plenitude genuína do Espírito Santo forçosamente
produzirá também frutos, por causa da vida renovada e enriquecida da
comunhão com Cristo". Conhecer o amor, poder e graça de Deus,
inspiradores de reverente temor, deve fazer de nós vasos de bênçãos cheios
de ternura. Não merecemos os dons. Nem por isso Deus se nega a nos
revestir de poder. E passamos a ser obreiros do Reino, prontos para trazer a
colheita. Subimos a um novo domínio.
Pneumatologia 97

Referências
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Bíblia Estudo Pentecostal. Flórida – EUA: CPAD, 1995.

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Vida Nova, 1978.

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1993.

DOUGLAS, J. D. O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1995.

DAGG, John L. Manual de Teologia. São Paulo: Fiel da Missão Evangélica


Literária, 1989.

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Trimestre de 1988.

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1977.

THIESSEN, Henry Clarence. Palestras em Teologia Sistemática. São Paulo:


Imprensa Batista Regular, 1989.
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Pneumatologia 99

AVALIAÇÃO DE PNEUMATOLOGIA

Nome: ___________________________________________________
Professor:__________________ Unidade:_______________
Data: ___/___/____Nota:_____ Entregar até:___/___/____

Questionário

1) O que é expresso na Doutrina da Trindade?

2) Comente a Doutrina da Trindade no Antigo Testamento.

3) Quais as verdades essenciais existentes na afirmação “O Espírito


Santo é Deus”?

4) Comente o tema: “O Espírito Santo é o autor da vida”.

5) Quais as provas de que o Espírito Santo é uma pessoa?

6) Comente o tema: “O Espírito de Cristo na vida do crente”.

7) Comente o tema: “O Penhor do Espírito Santo”.

8) A quem se destina o batismo com o Espírito Santo?

9) Quais os propósitos do batismo com o Espírito Santo?

10) Disserte acerca dos 03 grupos de Dons Espirituais.


(Detalhadamente)

• Obs.: Responder este questionário à tinta azul ou preta em folha à


parte.

Boa Prova!

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