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Reencarnação

Reencarnação
A Controvérsia da Reencarnação
Por Satyaraja Dasa

Introdução
“Que podemos saber da morte, nós que não podemos entender a vida?” -
Portões da Prece
O que é a vida? Quando nasce uma criança, podemos ouvi-la e sentir seu
calor, sintomas da vida. Às vezes o recém-nascido está acordado; às vezes
não. A criança crescerá, depois morrerá. Para onde foi sua força vital? Que
significou sua curta permanência aqui? Todos os seres vivos nascem e
depois morrem. A maioria de nós não sabe mais do que isso. Porque muitas
respostas para as questões da vida estão envoltas em mistério religioso e
filosófico, poucas pessoas tomam tempo para considerá-las a fundo.
Nascemos em ignorância, criados por pais que, com raras exceções,
também estão confusos sobre a natureza da vida., e a maioria deixa esta
vida da mesma maneira: em ignorância. Existe alguma escolha? Através
dos séculos, um número surpreendente de pensadores inteligentes e não
fanáticos acreditaram que há.
“Tenho confiança”, disse Sócrates, “que realmente existe uma coisa como
viver de novo, que os vivos surgem dos mortos e que as almas dos mortos
estão em existência.” Ralph Waldo Emerson concordava: “A alma vem de
fora para o corpo humano, como para uma morada temporária e torna a sair
dela... passa para outras habitações, pois a alma é imortal.” Passando para o
início do século XX, o industrial Henry Ford disse: “Adotei a teoria da
reencarnação quando tinha vinte e seis anos”. Essa surpreendente
declaração, coloca-o num grupo seleto de americanos dos séculos XVIII, XIX
e XX — Thomas Edson, Benjamin Franklin, Tom Paine, Henry David
Thoreau e Walt Whitman entre outros — que acreditavam que a alma, a
energia que anima o corpo, passa para um novo corpo quando o atual morre.
A Lógica da Reencarnação
Aqueles que crêem na reencarnação têm em comum um sentido de direção,
justiça e lógica a respeito de voltar a viver. Sem ela, nosso universo seria
cruel, aleatório e ilógico, no qual uma criança nasce rica, outra pobre, uma
com saúde e a outra com uma doença terminal. Quer creiamos ou não em
Deus, a reencarnação permite que vejamos a condição humana a partir de
uma perspectiva mais ampla.
Em suas várias tradições históricas, a reencarnação sugere coerentemente
que esta vida é só um quadro num filme de vidas e o corpo que temos agora
não é o primeiro, apenas o mais recente. Os que propõem a reencarnação
dizem que “o tipo e modelo” de nosso veículo corporal são o resultado de
atividades que realizamos na estrada de nossas vidas anteriores e as
atividades executadas nesta vida contribuem para a espécie de veículo que
habitaremos em nosso próximo nascimento. O princípio de que a ação atual
influencia as vidas futuras chama-se karma, em sânscrito, e é esse princípio
que molda a lógica da reencarnação: para cada ação, reza a lei do karma, há
uma reação, muito semelhante à Terceira Lei do Movimento de Newton.
Pode-se ver a reencarnação como a colheita dos frutos da ação: agindo bem,
ganha-se um corpo bom; agindo mal, ganha-se um corpo ruim. A natureza
material, respondendo a nossos desejos e ações nesta vida, prepara nosso
próximo corpo. Se temos bom crédito, podemos passar para um modelo
melhor, com todas as características mais sofisticadas. Nosso veículo
corporal refletirá nosso saldo bancário kármico. O equivalente bíblico seria:
“Assim como semeardes, assim colhereis”. Em A República, Platão
parafraseou o mesmo princípio: “Deus não tem culpa: o homem escolheu o
próprio destino e fê-lo por suas ações”.
Numa primeira avaliação, há algo de frio e mecânico em tal lógica. Parece
muito impessoal, muito arranjada para ser uma explicação válida de como as
coisas funcionam. Contudo, estudos mais profundos sobre as várias tradições
religiosas do mundo revelam sua beleza e simetria. A reencarnação não
acontece como um evento isolado. Ela se liga de forma inseparável com
o karma e outras leis universais para formar uma visão tranquilizadora do
universo como uma universidade da vida que oferece ensino e formatura
final — muito diferente da visão popular, mas deprimente do universo como
um deserto caótico. Esta última visão nos deixa impotentes enquanto a
primeira nos possibilita arquitetar nosso futuro.
Por que uma alma está enjaulada no corpo de um animal, enquanto outra
goza as vantagens da vida humana? A lógica da reencarnação ordena que, se
nos comportarmos como animais nesta vida, poderemos ter um corpo de
animal da próxima vez. Alguém poderá dizer: “Quem há de querer ser um
animal?” Mas nossas atividades traem nossos verdadeiros desejos, e certas
atividades — apetites incontidos de várias espécies — podem ser satisfeitos
melhor nas espécies animais mais robustas. Cada corpo é equipado com um
determinado ponto forte sensorial. O corpo humano não é tão rápido como o
da gazela, não tem tanta capacidade reprodutora como o do coelho, nem
digere tão bem como o do tigre. A reencarnação sugere que obtemos o que
realmente desejamos, o que mostramos querer através de nossas ações. E às
vezes o corpo humano simplesmente não nos dará o conjunto de sentidos de
que precisamos para satisfazer nossos desejos.
Poderíamos duvidar se uma “alma humana” algum dia habitaria um corpo
animal. Será que os animais têm mesmo uma alma? Qualquer um que tenha
olhado nos olhos de um animal de estimação — um cachorro ou um gato —
tem a resposta a essa pergunta. Uma pessoa sensível poderá olhar dentro dos
olhos de qualquer criatura viva e perceber o vínculo genético que une tudo o
que vive. Seja o que for aquilo que anima o ser humano está claramente
presente nos corpos de todas as criaturas que respiram. Isto foi declarado
eloqüentemente pelo biólogo Edward Sykes: “Pode-se argumentar que os
animais não podem buscar a divindade, mas isso é muito diferente de dizer
que eles não têm alma... É por esta razão que a maioria das tradições
místicas aceitam a doutrina da transmigração, proclamando que a força vital
dos humanos pode um dia aparecer em espécies inferiores e vice-versa... (1)
Como veremos, as religiões do mundo abraçaram historicamente a
reencarnação, porque ela explica que um comportamento ético, moral leva
ao renascimento em forma humana. — a única espécie dotada de inteligência
para procurar Deus. Além disso, a reencarnação corresponde exatamente à
lógica da compaixão de Deus, já que ela fornece oportunidades repetidas
para que as almas condicionadas (corporificadas) se corrijam. As referências
das escrituras indicam uma visão partilhada pelos adeptos das grandes
religiões do mundo: Deus é visto como o Facilitador, um benigno e
beneficente Ser Supremo que envia sugestões úteis através de santos e de
escrituras. Com a ajuda delas, o que busca iluminação pode escapar
completamente do ciclo de renascimentos.
Definição
O que queremos exatamente dizer com reencarnação? Esta pergunta tem
duas partes: primeira, uma definição dos termos, porque as palavras
associadas com a reencarnação contam muito sobre o próprio fenômeno. A
segunda parte é mais fundamental: o que é que reencarna de um corpo para
outro? É a alma? A mente? A inteligência? Qual parte de nós é a mais
essencial, a parte que continuamos sendo mesmo depois da morte?
A palavra reencarnação compõe-se de cinco elementos latinos: re-= “de
novo”; en-= “para dentro”; carn-= “carne”; ação-= “causar ou tornar-se”.
Reencarnação então significa literalmente “o processo de voltar à carne”.(2)
Está implícita a idéia de que temos alguma coisa que é separada da carne, ou
corpo, que volta depois da morte.
A palavra transmigração, que muitas vezes é usada alternadamente com
reencarnação, também vem do latim: trans-= “através”; migr-= “ir ou
mudar-se”; e -ação= “processo de causar ou de tornar-se”. (3) Transmigração
é “o processo de se mudar de um para outro”. É usada com a mesma
freqüência de “reencarnação” para significar a passagem da alma de um
corpo para outro. Outras palavras usadas dessa maneira são renascimento e
até mesmo preexistência, que tem um sentido levemente diferente
(indicando nascimentos anteriores).
Não se deve confundir reencarnação com ressurreição, que tem definição
muito diferente. Enquanto reencarnação se refere à força vital (alma) que
passa para fora do corpo, ressurreição se refere à crença religiosa de que um
dia seremos transladados de novo no mesmo corpo, com a mesma identidade
e conexões familiares que tivemos durante nosso tempo na Terra. A maior
parte das religiões ocidentais incorpora algum tipo de ressurreição em suas
crenças. A reencarnação também faz parte da maioria das tradições
religiosas ocidentais, embora relegada em grande parte aos ramos místicos
ou esotéricos dessas tradições. No Oriente, tanto as religiões convencionais
como as seitas místicas aderem à doutrina da reencarnação, embora poucas
dêem crédito à idéia de ressurreição. A opinião predominante no Oriente é
que depois da morte o corpo material se decompõe, e seus elementos são
reabsorvidos pela terra. É a alma não material que continua.
O que é que reencarna?
A maioria das pessoas se identifica com seus corpos grosseiro e sutil — a
forma física e a mente/inteligência que a acompanha. Quando se pergunta a
alguém quem ele é, a resposta mais comum é um nome, uma profissão, uma
descrição de sua religião (isto é, de sua fé adquirida) ou de sua filiação
política. Às vezes, ele se identifica com as relações familiares, sua herança ou
suas “raízes”. Outros têm uma identificação mais psicológica e se consideram
sensíveis, racionais e honestos.
A maior parte dos leitores seria capaz de se identificar com os traços de
personalidade sugeridos acima ou com suas infinitas variações. E, à primeira
vista, parece apropriado a pessoa se definir com tais palavras e conceitos, ao
menos em sentido prático, cotidiano. Mas, deixamos de existir se mudamos
de nome? Ou se perdemos o emprego? Ou se nos convertemos a outra
religião? Se nosso sentido de moral e ética ficar comprometido? De fato, se
todos os traços acima desaparecerem, nós nos transformaremos numa não-
entidade? A pergunta continua: Quem somos além dessas mutáveis
designações materiais?
Platão descreveu a existência neste mundo como metasy, um “estado
intermediário”. Para ele, os seres vivos eram uma combinação de matéria e
espírito, uma centelha do eterno presa na teia da temporalidade, uma pitada
de conhecimento submersa num oceano de ignorância, uma entidade bem-
aventurada, capturada num mundo de dor e loucura. A maioria das formas
de pensamento oriental concorda com essa opinião. Segundo a antiga
literatura védica da Índia, por exemplo, os seres vivos são essencialmente
criaturas espirituais que nasceram no mundo da matéria devido a uma série
de desejos complexos, mas sutis. Tais almas encarnadas chamam-se em
sânscrito tatashta-shakti. A raiz tatha significa a linha hipotética que separa
a terra do mar. Algumas vezes a água cobre a terra, outras, ela se afasta. A
verdadeira natureza dos seres vivos neste mundo, às vezes, está encoberta
pelo esquecimento, outras, ela se revela.
Pode alguém provar que somos essencialmente espirituais, que somos uma
alma eterna que mora provisoriamente num corpo material? Algumas
pessoas acham que a resposta pode estar na maneira como os cientistas
lidam com as partículas subatômicas: sua existência é aceita devido aos
efeitos que produzem a seu redor. Em outras palavras, embora as partículas
subatômicas de fato não sejam vistas, sabe-se que elas existem devido ao
efeito que produzem. De igual maneira, pode-se conhecer a existência da
alma por uma análise detalhada dos elementos materiais. No Oriente, essa
análise se chama filosofia Sankhya, e é uma ciência antiga, mas muito
precisa. Outros acham que os métodos empíricos de percepção direta são
ferramentas insuficientes para observar fenômenos sutis e devem ser
suplementados por instrumentos mais intuitivos.
A prova por inferência não é exclusiva da ciência teológica; é uma ferramenta
básica das ciências físicas e faz parte de nossas próprias vidas diárias. Nunca
vimos o coração de nossos entes queridos, mas não duvidamos que eles
existam. Jamais vimos nossos antepassados, mas nossa existência é prova
suficiente de que eles também algum dia existiram. Talvez seja a importante
significação de haver uma alma invisível animando nosso próprio corpo que
torna sua existência tão mais difícil de aceitar do que a do próton. Que
descobrimento mais chocante poderíamos fazer do que descobrir nossa
própria imortalidade?
Em última análise, sejam quais forem nossas crenças, alguma coisa separa os
seres vivos da matéria inorgânica. Algo está presente na vida que está
ausente na morte. Os componentes físicos e químicos do corpo permanecem
no lugar quando ele morre: o coração, o cérebro, a estrutura do esqueleto e
cada elemento químico presente no corpo durante a vida; mas algo mais,
algo não-físico, ficou perdido. Como quer que se escolha chamá-lo, essa força
vital não-física distingue um corpo vivo de uma concha química inerte.
O que sabemos sobre esse elemento único que permeia o corpo? Sabemos
que a ciência clássica rejeitou-o junto com o dogma religioso — ao menos
enquanto se referiam a ele como “a alma” — e sabemos que ele foi aceito
pelos religiosos em toda a historia, com poucas exceções. Com o interesse de
encontrar um termo aceitável tanto pela ciência clássica como pela religião,
falaremos de “consciência”, porque a ciência estuda a consciência como pelo
menos uma força potencialmente não-material dentro do corpo, e as pessoas
religiosas, muitas vezes, aceitam a consciência como sinônimo ou, pelo
menos, como sintoma da alma.
O Sintoma da Alma
A consciência é a parte mais fundamental da experiência humana; nada é
mais íntimo nem mais imediato. Toda impressão sensorial — tal como ver as
palavras nesta página — significa alguma coisa para nós porque somos
conscientes. Uma cadeira não registra impressões sensoriais; ela não é
consciente; ela não tem alma. Mas eu sim, eu existo, tenho uma alma. Será
que tenho alma ou tenho corpo? Quem sou eu — a alma ou o corpo?
Os antigos textos das escrituras, especialmente aqueles da Índia, simplificam
questões ontológicas fundamentais. Por exemplo, em certas escolas clássicas
que remontam à tradição do Vedanta, existe um exercício elementar que é
mais ou menos assim: Posso ter consciência de meu corpo? Posso ter
consciência da mão? Das pernas? Do rosto? Do coração? Da mente? Sim,
posso estar consciente de qualquer parte de meu corpo, seus prazeres, suas
dores.
Agora, pode o corpo ter consciência de si mesmo? A resposta imediata é não.
Meu corpo não pode estar consciente de si mesmo; antes, eu tenho
consciência de meu corpo. Essa simples reflexão sobre a natureza da
consciência deixa claro que existe uma separação entre o corpo e o eu, o ser
vivo interior que tem consciência do corpo.
Para ampliar essa idéia, admitamos que não sabemos se o corpo é realmente
consciente de si mesmo. Não sabemos porque não somos o corpo. Em
verdade, não posso dizer se meu dedo, peito ou cérebro estão conscientes de
si mesmos. Nem eles me dizem algo de suas (prováveis) percepções porque
nenhum deles é um ser, uma personalidade. Eles são, ao menos
empiricamente, inconscientes. Portanto, concluem os textos do Vedanta,
consciência é personalidade e personalidade é consciência.
Os videntes védicos extraíram várias implicações dessas conclusões, e estas,
por sua vez, levam a outros exercícios simples de compreensão. Meu dedo
não é uma pessoa. Nem minha perna, nariz, orelha, cérebro, ou todo o meu
corpo. Esses acessórios do eu não me podem dizer quem sou eu ou quem são
eles, nem individual nem coletivamente, porque nenhum deles é um eu, uma
personalidade. Nenhum deles possui experiência de si. Sou eu que
experimento as coisas, através deles e neles. Conclui-se, portanto, que eles
são diferentes da pessoa no corpo que experimenta — porque esta sou eu, o
possuidor da consciência. Os mestres modernos do Vedanta, muitas vezes,
assinalam que a distinção entre o corpo e o eu está refletida em nossa
linguagem, pois o pronome possessivo sugere que eu sou diferente de meu
corpo. A diferença entre o corpo e o eu é percebida na vivência cotidiana.
Para onde vai a energia que existe dentro do corpo na hora da morte?
Segundo a concepção da Primeira Lei da Termodinâmica, ou a Lei da
Conservação da Energia, basicamente a energia não pode ser criada ou
destruída. Se ela existe, ela continua a existir. De igual forma, se a “alma”
existe mesmo, como vimos que existe, então ela deve continuar existindo.
Como disseram os sábios da Índia: “Para o existente não há cessação, e para
o não-existente — como um sonho ou uma ilusão — não há permanência”.
A natureza fornece muitas insinuações que sugerem uma resposta sensata.
Consideremos, por exemplo, as mudanças que sofremos em nosso corpo
durante esta vida, da infância, para a juventude, para a velhice — mudanças
que ocorrem enquanto a pessoa permanece num mesmo corpo.
Fisiologicamente, as células de nosso corpo deterioram-se constantemente e
morrem, de modo que, depois de cerca de sete anos, a estrutura celular do
corpo foi substituída por completo. Em O Cérebro Humano, o Professor
John Pfeiffer assinala que “seu corpo não contém nenhuma das moléculas
que continha há sete anos”. Ele compara o corpo vivo a um turbilhão. A
forma essencial parece ser a mesma, mas todos os ingredientes precipitam-se
num ritmo vertiginoso.
Numa vida de setenta anos, uma pessoa fisiologicamente “morre” e “renasce”
dez vezes, e, embora as “mortes” intermediárias não envolvam reencarnação
como tal, elas nos permitem a notável experiência de olhar para trás, nesta
vida, para vidas anteriores: como bebês, crianças, jovens, adultos. É obvio
que, estritamente falando, elas não são vidas passadas: os indícios existentes
sugerem que a reencarnação só raramente nos permite levar a lembrança de
nossa vida anterior para nossa nova vida. Elas estão, mesmo assim, além de
eus físicos que não existem mais. Corpos diferentes, a mesma pessoa — um
simples exercício de ver a diferença entre o eu físico e o eu espiritual, em ver
quem parecemos ser e quem realmente somos. (4)
E quanto à nossa perda de memória de uma vida para outra: um conjunto
crescente de evidências científicas sugere existir forte razão para esse
esquecimento. Parece que grandes quantidades de oxitocina, um dos
hormônios da glândula pituitária posterior (que aumenta as contrações do
útero durante o parto e impede hemorragia subseqüente), produz perda de
memória em animais de laboratório e faz que mesmo animais bem treinados
percam sua capacidade de realizar tarefas que, em outras circunstâncias, são
fáceis. Como a oxitocina da mãe banha o sistema da criança durante as
últimas fases da gravidez, não é absurdo supor que essa droga natural leve
embora as memórias das encarnações anteriores junto com a lembrança
consciente do nascimento. (5) Não que o apagamento do quadro da memória
não aconteça na vida fora do ventre. A incapacidade que adultos inteligentes
têm de lembrar seus primeiros anos e a freqüente perda de memória entre os
idosos é, talvez, a maneira como a natureza ensina a relativa insignificância
da memória consciente. Além disso, é sem dúvida um ato de misericórdia
infundir o esquecimento em uma alma que está nascendo de novo: imaginem
a dificuldade de tentar viver uma vida enquanto perturbado pelas
lembranças da vida anterior. A pessoa mal conseguiria desenvolver relações
com sua nova família e amigos e aprender as lições necessárias, se fosse
forçada a lembrar suas encarnações anteriores. Os amores e as perdas
anteriores poderiam fazer que as novas aventuras na vida parecessem fúteis.
A Reencarnação e a Cultura Ocidental
Embora as idéias sobre a reencarnação em geral estejam associadas a
grandes pensadores do Oriente, esse conceito tem também uma longa e
honrosa história na cultura ocidental.
As idéias reencarnacionistas no Ocidente podem ser encontradas no século
VI antes de Cristo, mais ou menos na época de Orfeu e, pouco mais tarde de
Pitágoras. Sócrates, que conhecemos através dos escritos de seu discípulo,
Platão, (século III A C.), explicou o sentido da palavra “alma” fazendo
referência aos poetas órficos, que viam o corpo como uma prisão para a alma
que cumpria sua pena presa no mundo da matéria. O Orfismo se
desenvolveu numa religião oculta e ficou bem conhecido por causa de sua
relação com o deus popular Dioniso, outro nome comumente associado ao
pensamento reencarnacionista.
Pitágoras também se liga intimamente à antiga doutrina da reencarnação.
As Metamorfoses de Ovídio contêm um discurso em que Pitágoras dá pleno
apoio à idéia da transmigração. Segundo Diógenes Laércio, do século I da era
cristã, um dos mais importantes biógrafos de Pitágoras, este foi o primeiro a
dizer que “a alma, presa ora nesta criatura, ora naquela, assim percorre uma
ronda ordenada pela necessidade”.
Uma das mais conhecidas referências à crença de Pitágoras na reencarnação,
encontra-se numa afirmação de Xenófanes: “E uma vez, dizem, passando
quando batiam num cachorrinho, teve piedade dele, e falou o seguinte: ‘Pare!
Pare de bater, porque ele é a alma de um homem que foi meu amigo. Eu
reconheci quando o ouvi chorar alto’”. (6)
Diógenes também registra que Pitágoras alegava ser capaz de lembrar suas
vidas passadas. Iâmblico, biógrafo do século IV da era cristã, acrescenta que
Pitágoras fazia grandes esforços para ajudar também outras pessoas a
descobrirem detalhes de suas vidas anteriores. (7)
Dois outros filósofos gregos antigos, embora não tão populares, também são
relacionados com a reencarnação: Píndaro e Empédocles. Píndaro é famoso
como um dos maiores poetas líricos gregos e, na primeira metade do século
V A C., seus poemas eram uma fonte popular de material sobre a
reencarnação. Gordon Kirkwood escreve que Píndaro foi o primeiro dos
poetas gregos a falar sobre recompensa depois da morte para a justiça e a
excelência moral. (8) Empédocles, que viveu mais ou menos na mesma
época, enfatizava outro aspecto da transmigração. Ele ensinava que as almas
deste mundo tinham sido originalmente deuses em um reino superior que
caíram no mundo corporificado devido à realização de alguma ação
inapropriada. Eles foram condenados, pensava o filósofo, a um ciclo de trinta
mil nascimentos, numa variedade de espécies, inclusive plantas e peixes. No
final, diz Empédocles, a pessoa é restaurada à sua condição natural no reino
espiritual superior, para não renascer mais. (9).
Quando passamos para época de Platão (um ou dois séculos mais tarde),
encontramos a culminação desses pensamentos sobre a reencarnação. O
preeminente filósofo grego e seu mestre, Sócrates, eram, pode-se afirmar, os
mais importantes defensores da doutrina da reencarnação. “O verdadeiro
peso e importância da metempsicose no Ocidente”, diz a Enciclopédia
Britânica (11a. Edição), “deve-se a ela ter sido adotada por Platão”. A
primeira referência clara à reencarnação nas obras de Platão está no Mênon,
em que Sócrates articula e aceita a idéia. Mais tarde, no Fédon, a idéia se
desenvolve mais completamente, e Sócrates se esforça muito para explicá-la,
dizendo que a alma é invisível, não composta, sempre a mesma e eterna; que
a alma é imortal e não deixa de existir após a morte. Sócrates diz que a
pessoa não aprende coisa nova de fato nesta vida, antes, recorda verdades de
vidas anteriores. (10)
O argumento mais famoso no Fédon é o argumento dos opostos, que era bem
conhecido na antiga cultura grega. Sócrates argumentava que os opostos
estão em toda a parte. Nós os vemos em todos os lugares — maior e menor,
melhor e pior, mais forte e mais fraco, justo e injusto e assim por diante. E os
opostos surgem um do outro: um homem se torna mais forte tornando-se
menos fraco, por exemplo. Esse princípio, argumenta Sócrates, deve aplicar-
se à vida e à morte: os mortos vêm dos vivos e os vivos vêm dos mortos. Essa
conclusão está conforme a observação cotidiana, ao menos em parte, pois
todos já observaram alguma forma de morte, que é o resultado natural da
vida. Sócrates conclui que, “tornar-se vivo” é de fato “tornar-se o oposto de
morto”. Portanto, a vida vem da morte. A doutrina da reencarnação, diz ele,
facilita mais o percurso lógico da alma.
Muitos dos argumentos lógicos a favor da reencarnação encontrados
no Fédon ecoam as palavras da antiga escritura indiana, o Bhagavad-gita.
De fato, as doutrinas estão tão intimamente relacionadas que é provável que
Platão tivesse conhecimento do texto indiano. Vê-se isso de forma ainda
mais clara na mais famosa obra de Platão, A República, quando ele conta a
história de Er, que foi morto em combate, mas que “retornou” enquanto seu
corpo estava deitado numa pira funerária. Er descreve a permanência da
alma com detalhes gráficos, deixando claro que Platão aceitava totalmente a
doutrina da reencarnação apresentada antes por seu célebre mestre. Essas
idéias têm desenvolvimento mais completo no Fedro e no Timeu, onde
Sócrates articula uma forte crença na transmigração.
O principal discípulo de Platão, Aristóteles, porém, não partilhava do
entusiasmo de seu mestre pela idéia da reencarnação. Nem as escolas
posteriores do estoicismo e do epicurismo, que diminuíram a importância
dessa doutrina. A era da ciência e do materialismo trouxe consigo uma
sensibilidade distintamente “deste mundo” que quase acabou com a antiga
idéia da reencarnação. Embora houvesse uma premissa espiritual subjacente
tanto ao estoicismo quanto ao epicurismo, e mesmo a muitas das idéias
promulgadas por Aristóteles, (cujas primeiras obras, tais como o Eudemo,
aceitavam a idéia de preexistência e reencarnação), essas ideologias
prepararam o campo para as filosofias mais empíricas que vieram a seguir. A
ciência e a tecnologia, com sua ênfase imediatista no aqui e agora, devem
muito ao caminho preparado por Aristóteles.
Seria necessário assinalar que Aristóteles, embora fosse um pensador
brilhante, tem sido severamente criticado por filósofos através dos séculos
por sua teoria da “separação de idéias”, ou “lógica das categorias”, que
propõe que tudo se encaixa em harmonia em seu compartimento: religião é
religião, ciência é ciência, história é história, etc. O problema, contudo, é que
a realidade não funciona dessa maneira. As categorias se sobrepõem. A
religião interage com a história, e a ciência com a religião, e assim por diante.
A perspectiva de Aristóteles, a esse respeito, foi a precursora da atual
desacreditada visão ocidental do mundo, no qual o funcionamento
harmônico de várias categorias de existência simplesmente não acontece.
Segundo Aristóteles, por exemplo, a ciência era capaz de se desenvolver sem
o contrapeso da religião, e a religião sem a ciência, tornando ambas as
categorias de existência menos eficientes e menos representativas da
realidade como ela existe de fato no mundo de verdade.
Ainda se deve mencionar que, junto com a introdução da ciência e do
pensamento aristotélico, veio uma tendência dos religiosos de comprometer
suas convicções mais esotéricas a fim de reter algum grau de poder num
mundo que se modificava com rapidez. O cristianismo como é praticado pela
maioria dos que vão à igreja hoje, por exemplo, não menciona a
reencarnação, embora, a noção de transmigração tenha desempenhado um
papel central na primitiva teologia cristã. As formas de cristianismo
amplamente aceitas hoje foram moldadas em grande parte por Tomás de
Aquino, que baseou toda a sua visão de mundo na lógica aristotélica e
rejeitou os aspectos mais místicos de sua própria tradição, inclusive a idéia
de reencarnação. Os cristãos que têm predileção por essa forma de sua
religião podem ter interesse em saber que a visão aristotélico-tomista é
contrabalançada pelas tradições platônico-franciscanas que são igualmente
cristãs, as mais simpáticas a uma filosofia que inclua a reencarnação. Ambos
os pontos de vista cresceram lado a lado, com defensores e opositores ao
longo de todo o caminho.
O Império Romano em seus primórdios, pouco depois da época de Jesus, viu
um ressurgimento do pensamento reencarnacionista. Plutarco (46-120 d.C.)
escreveu com autoridade sobre o conceito de transmigração, como o fez
Porfírio no século III. Porfírio citou muitas vezes os mitraístas como sua
fonte de informação a respeito da reencarnação e isso também levou os
eruditos a acreditar que a idéia era dominante entre as primitivas seitas
cristãs. A reencarnação tem um papel poderoso em cada uma das cinco
maiores tradições religiosas do mundo — hinduísmo, budismo, judaísmo,
cristianismo e islamismo.
Para finalizar, devemos examinar as evidências científicas e filosóficas
apresentadas aqui que indicam a possibilidade da reencarnação e tirar
conclusões baseadas nas implicações óbvias dessas evidências.
Notas

1 Edward Sykes, Studies in Biology: Humans and Animals (New York:


Edington Press, 1987),págs. 25-30.

2 John Algeo, Reincarnation Explored (Wheaton, Ill.:The Theosophical


Publishing House, 1987), págs. 133-4.

3 Ibid.

4 Há um argumento de que, neurologicamente, as células do cérebro de fato


não são substituídas, mas apenas sofrem ''mudança radical''. Vemos isso
como petição de princípio. Quantas mudanças constituem uma substituição?
Se uma célula passa por uma mudança -- mudando de célula x para célula n
-- a célula n não substitui realmente a célula x? A questão continua a mesma:
algo que ''não varia nem muda no meio de coisas que variam e mudam'',
como disse Platão, anima o corpo neurobiológico.
5 Para saber mais sobre este assunto, veja Joe Fisher, The Case for
Reincarnation (New York: Bantam Books, 1984), pág. 83.

6 Ver Platão, Crátilo 400c.

7 Ver Diogenes Laertius, Lives of Eminent Philosophers, trad., R.D.Hicks,


Loeb Classical Library, dois volumes (London: William Heinemann, 1925).
Ver 2:333; 8.14.

8 Diogenes Laertius, 8.36.

9 Ver Iamblichus, Life of Pythagoras, trad.Thomas Taylor (London: John M.


Watkins, 1818), págs. 30-1.

10 Gordon Kirkwood, ed., Selections from Pindar, American Philological


Association Textbook Series, no.7(Chico, California: Scholars Press, 1982),
pág. 71.

11 Empedocles, Purifications, 146-7. É também digno de nota que


Empédocles considerava matar animais, mesmo que com a importante
finalidade de servir de alimento, como um pecado que causava o
renascimento na espécie mais baixa.Esta idéia foi depois atribuída a
influências órficas e pitagóricas sobre Empédocles. Veja Purificações, 118-27.

12 Fédon, 69d-72a. Ver também 78b-80c e 105c-106e para argumentos


completos sobre a eternidade da alma e o renascimento.

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