Você está na página 1de 45

UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL - USCS

DEISE GUELERE

A BUSCA DO AMOR IDEALIZADO NA VISÃO JUNGUIANA

Profa. Ma. Paluana Luquiari

São Paulo – SP
2018
UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL - USCS
PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA ANALÍTICA: ABORDAGEM
JUNGUIANA

DEISE GUELERE

A BUSCA DO AMOR IDEALIZADO NA VISÃO JUNGUIANA

Trabalho de Conclusão apresentado ao


curso de Pós-Graduação em Psicologia
Analítica: abordagem Junguiana,
oferecido pela Universidade Municipal
de São Caetano do Sul – USCS, como
requisito parcial para obtenção do grau
de especialista, sob a orientação da
Profa. Paluana Luquiari, Ma.

São Paulo – SP
2018
Termo de Aprovação

Aluna: Deise Guelere


Título: A busca do amor Idealizado na visão Junguiana

Monografia apresentada ao curso de


Pós-Graduação em Psicologia Analítica:
abordagem Junguiana, oferecido pela
Universidade Municipal de São Caetano
do Sul – USCS, como requisito parcial
para obtenção do grau de especialista,
sob a orientação da Profa. Paluana
Luquiari, Ma.

São Paulo, ______de ________________ de 2018.

Banca examinadora:

_________________________________________
Ma. Paluana Luquiari
Orientadora - USCS

_________________________________________
Prof.ª Eugenia Cordeiro Curvêlo
Coordenadora – Examinadora Interna - USCS
Dedico ao meu marido e companheiro, o
meu Eros, Valter Cesar de Farias que
sempre me apoia e incentiva aos meus
filhos Bruno e Luana pela compreensão e
torcida, e aos meus pais por todo o apoio
em mais uma jornada.
AGRADECIMENTOS

À minha querida amiga Carmen Silvia Amaral Ramos, por todo suporte e
contribuição, ouvindo sempre atentamente minhas ideias e por compartilhar comigo
cada fase desse trabalho. A minha amiga-irmã Luciane que sempre dividiu comigo as
alegrias e aflições nesta fase da minha vida. Sem vocês esta caminhada não teria a
menor graça. E a todos os meus mestres, em especial Professora Eugenia Curvêlo,
Professora e Orientadora Paluana Luquiari e colegas de formação que contribuíram
de forma direta nessa vitória. Muito obrigada a todos vocês.
Soneto da fidelidade

“De tudo, ao meu amor serei atento antes


E com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento


E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure


Quem sabe a morte, angústia de quem
vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):


Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”.

(Vinícius de Moraes-1946)
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 7
1.1 Problematização ................................................................................................. 8
1.2 Justificativa ......................................................................................................... 9
1.3 Objetivos ........................................................................................................... 10
1.4 Metodologia ...................................................................................................... 10

2 REVISÃO TEÓRICA......................................................................................... 12

3 TEMA................................................................................................................ 27

4 DISCUSSÃO..................................................................................................... 36

5 CONCLUSÃO ................................................................................................... 40

REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 41

ANEXO A – Carta analisada.................................................................................... 44


7

1 INTRODUÇÃO

No dia a dia de uma vivência clínica observa-se cada vez mais a angústia das
pessoas pelo encontro com o amor verdadeiro, romântico e idealizado. A expectativa
pelo encontro desse amor ocasiona, além da ansiedade, vivências de solidão e de
insatisfação constante.
Mas será que existe o amor verdadeiro, aquele que nos faz sonhar e acordar
todos os dias ao lado da pessoa amada? Será que amamos apenas uma vez na vida
e esse é o amor verdadeiro, romântico e idealizado? Difícil responder... mas, nessa
busca constante pelo amor que afaga, que sufoca, que nos faz rir e chorar ao mesmo
tempo, existe também a busca da felicidade, do “estar junto” e do “ficar junto”.
No entanto, a busca por esse amor que todos querem, nos leva a pensar o
quanto essa procura pelo outro e a projeção desse amor idealizado e romântico nos
distancia do encontro com o si mesmo e do nosso processo de individuação.
Será que existe o amor a exemplo dos mitos de “Romeu e Julieta” e de “Eros e
Psique”, embora diferentes, mas, um amor que ultrapassou as barreiras?
Se existe mesmo o amor verdadeiro, e devemos acreditar que sim, ao mesmo
tempo deixamos muitas vezes de ser quem somos, para nos dedicar àquele do qual
esperamos tudo, e passamos a nos dedicar somente a ele.
Para entender o que leva um ser humano a querer e buscar um amor igual ao
que se vê no cinema, nas peças de teatro, na televisão, é preciso ir muito mais além
do que simplesmente ler, estudar e entender os ensinamentos da psicologia analítica,
base deste trabalho.
É preciso viver ou ter vivido esse amor, a exemplo de Eros e Psiquê e Romeu
e Julieta, amor esse, que segundo a história representou, sem dúvida, o amor sem
fronteiras eterno e, porque não dizer, “o amor verdadeiro ou idealizado”?
Difícil dizer. No entanto, o resultado apontou para a responsabilidade de
descobrirmos e entendermos a essência masculina e feminina que há dentro de cada
um de nós para que, dessa forma, possamos nos estruturar enquanto um ser único e,
posteriormente partir em direção ao outro, sem esgotar obviamente a continuidade
dessas descobertas. É o que Carl Jung chama de individuação.
8

1.1 Problematização

Para Carl. G. Jung, idealizador da Psicologia Analítica, só podemos nos


desenvolver plenamente, quando integramos nossa individualidade e nossa
capacidade de nos relacionar. Esse processo é chamado de “Individuação” que
estimula o indivíduo a criar condições para que cada um desperte o melhor de si e do
outro, o tempo todo, fazendo-o sair do isolamento e empreender uma convivência
mais ampla e coletiva, por estar mais próximo, conscientemente da totalidade, mas
ainda mantendo sua individualidade. A individuação consiste em aproximar o mundo
do indivíduo e não excluí-lo do mesmo.

A individuação, em geral, é o processo de formação e particularização do ser


individual e, em especial, é o desenvolvimento do indivíduo psicológico como
ser distinto do conjunto, da psicologia coletiva. É, portanto, um processo de
diferenciação que objetiva o desenvolvimento da personalidade individual.
(…). Uma vez que o indivíduo não é um ser único, mas pressupõe também
um relacionamento coletivo para sua existência, também o processo de
individuação não leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais
intenso e mais abrangente. (JUNG, 2013, p. 468).

Inclui-se nesse processo o inconsciente pessoal, repositório de nossos


conteúdos reprimidos, os complexos, e o inconsciente coletivo, os arquétipos, nossa
herança universal, nos convidando ao autoconhecimento. Ao entrarmos em contato
com nossos conteúdos inconscientes obtemos uma compreensão maior de nossa
integridade e criamos um relacionamento saudável consigo, com o outro e com a
sociedade. Ainda sob essa ótica, o processo de individuação se refere a dois
aspectos: a característica bipolar do ser, cada homem traz dentro de si seu aspecto
feminino, assim como a mulher traz também em seu interior psicológico o seu aspecto
masculino e outro aspecto da individualidade quanto ao consciente e inconsciente.
Enquanto não conhecermos nossa estrutura inconsciente seremos seres divididos,
onde a potencialidade de nosso Eu Interior, continua latente sem que possamos
alcançá-la.
Nesse aspecto, os arquétipos anima e animus representam os conteúdos de
idealizações inconscientes, sendo modelos de perfeição considerados ideais para o
indivíduo em si que foram direcionados pelo histórico de desenvolvimento de cada
um. Então, é necessário que o ser humano tenha consciência de suas projeções e
alcançar a realidade presente na outra pessoa procurando reconhecer todas as suas
9

idealizações e também as idealizações do outro. Para Jung, é essencial que todas as


nossas expectativas em relação aos outros sejam apenas idealizações produzidas
pelo inconsciente para essa tomada de consciência.
No arquétipo do amor romântico, duas almas se unem, dois pares, um
masculino e outro feminino, para se completarem na magnitude do amor que de dois
se faz um só.
Frente à ansiedade na busca pelo encontro desse amor idealizado, as
expectativas com relação à complementação de nós pelo outro, muitas vezes tornam-
se algo intangível, afastando-nos da consciência da nossa real projeção interna, e,
consequentemente, nos distanciando do processo de individuação.
Então, o quanto essa busca por um amor idealizado, realmente nos afasta do
encontro com o si mesmo? Nesse sentido, vale lembrar as palavras de Fernando
Pessoa, no “Livro do Desassossego” (1982, p. 338) ao destacar: “Nunca amamos
ninguém. Amamos, tão somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito
nosso- em suma, é a nós mesmos que amamos!”.

1.2 Justificativa

No século 17, o francês La Rochefoucauld, escreveu: “Há pessoas que nunca


teriam amado se não tivessem ouvido falar de amor”. Em outras palavras, o amor é
uma só palavra que representará sempre o “verdadeiro” amor.
O amor e as várias formas de amar, ainda é um assunto atual e o “amor
romântico” está presente na busca pelo parceiro ideal nos relacionamentos pós-
modernos, influenciando no estado emocional, profissional e social do indivíduo. Na
cultura ocidental contemporânea, a expressão amor romântico refere-se à maioria das
formas de atração entre os gêneros, geralmente homens e mulheres.
O que motivou a realização deste trabalho foi a possibilidade de analisar o que
leva o ser humano a procurar incansavelmente pelo seu par perfeito, através de um
olhar romanceado gerando a expectativa de amar e ser amado incondicionalmente, a
exemplo do mito do amor romântico, baseado nas histórias de Romeu e Julieta e de
Eros e Psiquê.
Ao mesmo tempo em que o ser humano busca o amor verdadeiro e luta para
encontra-lo, deve estar preparado para perdê-lo, a exemplo de Romeu e Julieta e Eros
10

e Psiquê. O que fazer diante da perda? Esquecer o amor conquistado, esperado ou


simplesmente renunciar à vida?
Para Jung (2013, p. 406):

Justifica-se trazer para o centro das discussões o conceito de amor romântico


e o quanto a busca pelo par perfeito pode gerar frustações e distanciar o
indivíduo do encontro com o si mesmo. Além disso, pode vir a impactar
diretamente na maneira como as pessoas se relacionam e propiciar uma
reflexão a respeito da importância de se estabelecer com o outro ligações e
vínculos realmente significativos para o processo de síntese de personalidade
também nomeado por Jung de individuação, o “tornar-se único” ou
desenvolvimento da individualidade.

Considerando que a produção científica tem como objetivo apropriar-se da


realidade para melhor analisá-la e, posteriormente, produzir transformações, a
discussão sobre a busca do amor idealizado e o distanciamento ou não do encontro
com o si mesmo pode ser o início de um processo de transformação que começa na
academia e estende seus reflexos para a realidade social. Para os estudos da
Psicologia e a área de conhecimento que envolve a Psicologia Analítica, pesquisas e
trabalhos sobre o processo de individuação são cada vez mais necessários e
pertinentes.

1.3 Objetivos

O objetivo geral é refletir sobre a busca pelo amor ideal, procurando


compreender se ele nos aproxima ou nos distancia do encontro com o si mesmo.
Como objetivo específico, temos a análise de uma carta romanceada,
selecionada entre milhares que são endereçadas ao Club Di Giullieta. A carta, escrita
por uma jovem, procura o amor verdadeiro e, neste sentido, entende-se, sob a ótica
da Psicologia Junguiana, uma relação com o mito de Eros e Psiquê e Romeu e Julieta.

1.4 Metodologia

O modelo de pesquisa utilizado neste trabalho teórico foi o levantamento


bibliográfico, dentro da abordagem Junguiana, investigação de seus conceitos e
11

análise crítica de uma carta entre uma amostra de 50 das que são direcionadas ao
Club Di Giulietta que, segundo dados divulgados no site do Club, recebe 50.000 cartas
por ano de todas as partes do mundo. A escolha pela carta em questão, deve-se ao
fato de que, conceitos da teoria analisada se fazem presentes no conteúdo. Para
tanto, serão adotados estudos da Psicologia Analítica e seus conceitos, com base em
autores como o próprio Carl G. Jung, em Obras Completas, Memórias, Sonhos e
Reflexões e outros teóricos junguianos como, Nise da Silveira, Marie-Louise Von
Franz, John Sanford, e Murray Stein, entre outros.
12

2 REVISÃO TEÓRICA

A fundamentação teórica deste estudo tem como base a Psicologia Analítica,


desenvolvida por Carl Gustav Jung.
Carl Jung nasceu em 26 de julho de 1875, no vilarejo de Kesswil, Suíça. Filho
do pastor protestante Johann Paul Achiles Jung e de Emille Preiswerk, recebeu o
nome Karl Gustav II Jung, em homenagem ao seu ilustre avô paterno, um bem-
sucedido cirurgião-professor, Carl Gustav Jung (avô) por quem, em seu livro
“Memórias, Sonhos e Reflexões” (2006, p. 23), Jung deixa clara sua admiração. A
maneira de escrever o primeiro nome foi modernizada, uma vez que os pais haviam
observado o velho costume suíço de indicar que ele era o segundo a receber o nome
escrevendo o número romano antes do sobrenome da família. (BAIR, 2006, p. 7).
Jung tinha restrições ao pai, pastor protestante, a quem considerava com certa
tristeza, pois via nele um homem estagnado pelas crenças religiosas. Tinha pela mãe
muito mais apreço, porém, ainda menino, descobriu nela duas personalidades: uma
inofensiva e humana, e outra estranha e autoritária, embora se mostrasse boa e
extremamente simpática. Destaca-se também uma personalidade inconsciente de
aspecto sombrio.
Na infância, Jung foi uma criança tímida que vivenciou em suas experiências
multiplicidade de símbolos. Cresceu em uma casa com enorme biblioteca, onde leu
vários livros diferentes, tornando-se assim, um estudioso das mais diversas áreas,
como as religiões orientais, a alquimia, a parapsicologia e a mitologia, entre outras.
Dessa forma, sua análise sobre a natureza humana leva em consideração todos esses
assuntos e faz com que ele desperte interesse e seja estudado por várias áreas além
da psicologia.
No ano de 1900, aos 25 anos concluiu o curso de Medicina e ocupou um cargo
de segundo assistente no hospital de Zurique, que vivia na ocasião um período de
intensa atividade científica, sob a direção de um dos maiores psiquiatras, Dr. Eugen
Bleuler. Nesse mesmo ano, entrou em contato com a obra “A interpretação dos
sonhos”, de Freud. Em 1902, Jung passou a primeiro assistente e defendeu sua tese
de doutoramento; casou-se com Emma Rauschenbach em 1903, com quem teve
cinco filhos e em 1905 assumiu o posto imediatamente abaixo de Bleuler. (SILVEIRA,
1981, p. 13).
13

Em fevereiro de 1907, Freud e Jung se encontraram e conversaram durante


treze horas seguidas. Jung considerou este encontro essencial, e Freud, como o
primeiro homem de real importância em sua vida. Esse primeiro contato deu início às
sucessivas correspondências e a uma intensa colaboração científica e relação
pessoal, de 1907 a 1912.
Freud referia-se a Jung como seu sucessor, porém Jung, que já percebia
diferenças importantes entre o seu pensamento e as formulações de Freud, sobretudo
referentes a conceitos básicos, religião e interpretação dos sonhos, mas
principalmente em relação à teoria da libido, sentia-se desconfortável com tal
referência ao seu nome. Com o tempo, essas divergências se aprofundaram e
culminaram na ruptura desse relacionamento.
Em seu livro “Memórias, sonhos e reflexões”, Jung escreve sobre uma
lembrança de Freud lhe dizendo:

Meu caro Jung, prometa-me nunca abandonar a teoria sexual. É o que


importa, essencialmente! Olhe, devemos fazer dela um dogma, um baluarte
inabalável.” Ele me dizia isso cheio de ardor, como um pai que diz ao filho:
“Prometa-me uma coisa, meu caro filho: vá todos os domingos à Igreja!”. Um
tanto espantado, perguntei-lhe: “Um baluarte – contra o quê?” Ele respondeu-
me: “Contra a onda de lodo negro do... “Aqui ele hesitou um momento e então
acrescentou:” ... do ocultismo! O que me alarmou em primeiro lugar foi o
“baluarte” e o “dogma”; um dogma, isto é, uma profissão de fé indiscutível
surge apenas quando se pretende esmagar uma dúvida, de uma vez por
todas. Não se trata mais de julgamento científico, mas revela somente uma
vontade de poder pessoal. Esse choque feriu o cerne de nossa amizade. Eu
sabia que jamais poderia concordar com essa posição. (JUNG, 2013, p. 158).

Jung então renunciou à Associação Internacional de Psicanálise e se afastou


da Universidade de Zurique, onde ensinara por oito anos como livre docente. Depois
do texto de 1911, “Metamorfose e Símbolo da Libido,” ficou impossibilitado de ler
qualquer obra científica e escreveu relativamente pouco, somente alguns artigos em
inglês, até a publicação de “Tipos psicológicos”, em 1921. Esse período foi
extremamente difícil para Jung, que teve de reunir forças para seguir a sua jornada,
relembrando as imagens da infância e se dedicando ao seu passatempo: construir
maquetes em pedras, com a finalidade de reorganizar seu eu e reestruturar os seus
objetivos.
No período entre 1914 até a sua morte, em seis de junho de 1961, Jung
dedicou-se às suas teorias, principalmente à psicologia analítica, em que analisou
diversos povos e culturas. Em 1933, Jung retornou à atividade docente na Escola
14

Politécnica de Zurique. Mais tarde foi nomeado professor titular e em 1944 passou a
professor efetivo de medicina psicológica, criada em sua homenagem, porém, nesse
mesmo ano fraturou o pé e logo depois sofreu um enfarte. Devido à debilitação física,
aposentou-se em 1945.
Ao longo de sua vida, recebeu homenagens e títulos, como presidente da
Sociedade Médica Geral de Psicoterapia (1933) e doutor Honoris Causa da
Universidade de Genebra (1945). Além disso, fundou, em 1948, o Instituto Carl Gustav
Jung em Zurique. O desenvolvimento das pesquisas de Jung o fez estudar as
relações do homem com o seu meio exterior, nas relações com o outro, e as relações
consigo mesmo.
De seus estudos e experiências, Jung extraiu um mapa da alma humana, que
descreve a psique em todas as suas dimensões, e também procura explicar sua
dinâmica interna. Porém, Jung foi sempre cuidadoso e respeitoso do mistério supremo
da psique. Sua teoria pode ser lida como um mapa à alma, mas é o mapa de um
mistério que não pode, em última instância, ser captado em termos e categorias
racionais. É o mapa de uma coisa viva, palpitante, mercurial – a psique. (STEIN, 2006,
p. 15).
Jung desenvolve então a Psicologia Analítica, também conhecida como
Psicologia Junguiana que denomina como um todo a personalidade de psique. Seu
significado denota a personificação da “alma” ou “espírito” e abarca os pensamentos,
sentimentos e comportamentos tanto conscientes quanto inconscientes. “Funciona
como um guia que regula e adapta o indivíduo ao ambiente social e físico.” (HALL &
NORDBY, 2014, p. 25).
Segundo Jung, o conceito de psique sustenta a ideia primordial de que uma
pessoa é um todo unificado e não uma reunião de partes, rejeitando assim, uma
psique fragmentária. O ser humano não lutaria para se tornar uma totalidade, pois ele
já nasce como um todo e durante sua existência lhe cabe desenvolver esse todo
essencial até chegar ao mais alto grau possível de integração, diferenciação e
consonância.
Jung mergulhou na busca por desvendar a psique humana. A seguir, uma breve
descrição dos principais conceitos desenvolvidos por ele e que auxiliaram no
entendimento deste trabalho.

1. Psique
15

Segundo Jung, (apud Hall & Nordby, 2014, p. 25), a psique abrange
pensamentos, sentimentos, comportamentos conscientes e inconscientes. Funciona
como guia que regula e adapta o indivíduo ao ambiente social e físico. A pessoa é um
todo – não luta para ser, já é, nasce como um todo. Durante a existência, esse todo
deve ser desenvolvido, resultando em coerência, diferenciação e harmonia; e evitando
fracionamento em sistemas separados, autônomos e conflitantes.

Figura 1 – O modelo junguiano da psique

Fonte: FISICAPSICOLOGIA, 2018.

2. Individuação
O processo de individuação ocorre quando uma pessoa se torna ela mesma,
íntegra e diferente da coletividade, sem se isolar, e desenvolve a personalidade no
seu sentido único e singular.
16

Ao nos desenvolver naquilo que somos únicos, nos deparamos com a


totalidade, ou o Self, pois para o indivíduo ser íntegro é necessário abranger sua
totalidade do ser. “O processo que conduz a ela [a experiência do Self] foi por Jung
denominado ‘processo de individuação’”, (JUNG, C.G. 2016, p. 117), ou, em outras
palavras, o conceito de si-mesmo, que oferecia a melhor explicação possível para um
dos mistérios centrais da psique – sua criatividade aparentemente milagrosa, sua
dinâmica centralizadora e suas estruturas profundas de ordem e coesão. Jung, (apud
Stein, 2006, p. 152).
Para Jung (apud von-Franz, 1992, p. 112):

A semente de um pinheiro da montanha contém em si a futura árvore em


forma latente; mas cada semente cai a seu tempo num lugar próprio; sob o
efeito de fatores diversos, como a qualidade do solo ou as rochas, o grau de
declive e de exposição ao sol e ao vento. A totalidade latente do pinheiro na
semente reage a essas circunstâncias desviando-se das pedras e inclinando-
se para o sol, o que acaba moldando o crescimento da árvore. Assim um
pinheiro individual lentamente toma corpo, constituindo a realização da sua
totalidade, sua manifestação no mundo da realidade. Na falta da árvore viva,
a imagem do pinheiro é apenas uma possibilidade, uma ideia abstrata.... A
realização dessa singularidade no indivíduo é o objetivo do processo de
individuação.

Jung considera que a individuação consiste, objetivamente, integrar o


inconsciente na consciência. É um processo de diferenciação cujo objetivo é o
desenvolvimento da personalidade individual. Uma vez que o indivíduo não é um ser
único, mas pressupõe também relações coletivas, o processo de individuação não
leva ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso e mais
abrangente. (JUNG, 2013, p. 467-468). Sendo assim, o Self representa o ser em sua
totalidade e também o centro organizador, autorregulador e integrador.
No processo de desenvolvimento da consciência, que envolve a totalidade, o
ego reconhece que é o centro da consciência, mas não o centro da personalidade
como um todo. Muda-se o foco da consciência do ego para o Self. Quando isso [o
processo de individuação] ocorre positivamente, em vez de uma separação, produz
uma união com o inconsciente coletivo, e significa uma expansão da consciência,
juntamente com uma diminuição da intensidade do complexo do ego. Quando isso
acontece, o ego retira-se em favor do inconsciente coletivo. Atingir esse ponto em que
a realidade externa e a realidade interna (a terra e o céu) se tornam uma só é a meta
da individuação. (vON FRANZ, 1992, p. 153)
17

Assim, tornar-se único e integro é o próprio processo de amadurecimento que


envolve o fortalecimento do ego, o reconhecimento do Self e sua realização. “Talvez
a individuação seja, antes de qualquer coisa, assumir a sua própria condição humana
tal qual se apresenta, e vivê-la com todas as suas implicações e riquezas, sempre se
referindo ao Centro que é ao mesmo tempo o objetivo e a própria vida.”
(BONAVENTURE in von FRANZ, 1985, p. 15).

3. Inconsciente
Segundo Jung, o inconsciente é exclusivamente um conceito psicológico e não
filosófico, no sentido metafísico. É um conceito-limite psicológico que abrange todos
os conteúdos ou processos psíquicos que não são conscientes, isto é, que não estão
relacionados com o eu de modo perceptível. (JUNG, 2013, p. 465).

Tudo o que conhecemos a respeito do inconsciente foi-nos transmitido pelo


próprio consciente. A psique inconsciente, cuja natureza é completamente
desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes e em
termos de consciência, sendo esse o único elemento fornecedor de dados
para a nossa ação (JUNG, 1972, p. 22).

Os conteúdos do inconsciente podem ser originários do Inconsciente pessoal e


do Inconsciente Coletivo.

3.1. Inconsciente Pessoal


O inconsciente pessoal, para Jung (apud Silveira 1981, p. 72), refere-se às
camadas mais superficiais do inconsciente, cujas fronteiras com o consciente são
bastante imprecisas. Estão aí incluídas as percepções e impressões subliminares
dotadas de carga energética insuficiente para atingir o consciente.
Para Jung (2013, p. 466), o inconsciente pessoal engloba todas as aquisições
da existência pessoal: o esquecido, o reprimido, o subliminarmente percebido,
pensado e sentido. Esses diversos elementos, embora não estejam em conexão com
o ego, nem por isso deixam de ter atuação e de influenciar os processos conscientes,
podendo provocar distúrbios tanto de natureza psíquica quanto de natureza somática.

3.2. Inconsciente Coletivo


Para Jung (1972, p. 65), o inconsciente coletivo é a camada mais profunda que
conseguimos atingir na mente do inconsciente, é aquela em que o homem perde sua
18

individualidade particular, mas, sua mente é onde sua mente se alarga mergulhando
na mente da humanidade - não a consciência - mas o inconsciente, onde somos todos
iguais.
O inconsciente coletivo funciona, na interpretação psicológica, como o
denominador comum que reúne e explica numerosos fatos impossíveis de entender,
no momento atual da ciência, sem sua postulação.
Enquanto o inconsciente pessoal é composto de conteúdos cuja existência
decorre de experiências individuais, os conteúdos que constituem o inconsciente
coletivo são impessoais, comuns a todos os homens e transmitem-se por
hereditariedade. (SILVEIRA, 1981, p. 76).

4. Consciente ou Consciência
Segundo Jung (2013, p. 440), a consciência é função ou atividade que mantêm
a relação dos conteúdos psíquicos com o eu. A psique não é o mesmo que
consciência, pois, representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos.
Há grande carga de energia psíquica e conteúdos acessíveis ao ego e
geralmente se opõe ao que há no inconsciente. Jung considera que nossa consciência
não se cria a si mesma, mas emana de profundezas desconhecidas. Desperta
gradualmente na criança, e cada manhã, ao longo da existência, desperta das
profundezas do sono, saindo de um estado de inconsciência. Compara-se a uma
criança que nasce diariamente do inconsciente materno. Um estudo mais aprofundado
da consciência revela que ela não é somente influenciada pelo inconsciente, mas
deriva constantemente do abismo do inconsciente, sob a forma de várias ideias
espontâneas (JUNG, 2016, p. 400).

5. Ego ou Eu
Segundo Hall & Nordby (2014, p. 27), Ego é a denominação dada por Jung à
organização da mente consciente. O Ego é o sujeito da ação consciente, ele é o
primeiro complexo a se formar na consciência, sendo seu centro. Embora ocupe uma
pequena parte da psique total, o ego desempenha a função básica de vigia da
consciência.
O processo de desenvolvimento da personalidade, a individuação, consiste em
diferenciar o ego de suas estruturas arquetípicas auxiliares. O ego, o Self (centro
organizador da psique) e o ego onírico (o eu dos sonhos) são instâncias psíquicas
19

diferentes. O ego se baseia no arquétipo do si mesmo, sendo, de certa forma, seu


agente no mundo da consciência.
Como vigia da consciência, o Self é altamente seletivo: determina o que
chegará à consciência. Fornece identidade e continuidade: mantém qualidade
contínua de coerência na personalidade. Relação íntima e importante com a
individuação: sensação de sermos a mesma pessoa hoje e ontem. O ego atua
segundo critérios das quatro funções dominantes relacionados à angústia causada.
Quanto mais próximo da individuação, maior o número de experiências conscientes.

6. Arquétipos
Para Jung (apud Silveira 1981, p. 78) o arquétipo funciona como um nódulo de
concentração de energia psíquica. Quando essa energia, em estado potencial,
atualiza-se, toma forma, então teremos a imagem arquetípica. Não podemos
denominar essa imagem de arquétipo, pois, arquétipo é unicamente uma virtualidade.
Os arquétipos são o conteúdo do inconsciente coletivo e universais, ou seja, o
núcleo do complexo, onde todos herdam as mesmas imagens arquetípicas básicas e
quando essa soma tornar o complexo suficientemente forte, ele pode chegar à
consciência. Esse é o caminho para que o arquétipo se torne consciente e se
manifeste no comportamento. Jung (apud HALL & NORDBY, 2014, p. 34).

7. Persona
A persona é a personalidade externa, é a maneira por que se dá a comunicação
com o mundo. Cada estado ou cada profissão, por exemplo, possui sua persona
característica. É a face externa da psique máscara ou fachada ostentada
publicamente com a intenção de provocar intenção favorável a fim de ser aceito pela
sociedade. Confere a possibilidade de convivermos com as pessoas amistosamente,
base da vida social e comunitária. A recompensa por ela acarretada pode ser utilizada
para levar uma vida privada mais satisfatória e mais natural. Pode-se usar mais de
uma máscara – conformação de diferentes maneiras a situações diversas, de forma
positiva ou negativa. Quando há identificação excessiva do ego, os demais aspectos
da personalidade são negligenciados, e há tensão decorrente da persona
superdesenvolvida e das partes subdesenvolvidas. (JUNG, 2016, p. 37).
20

8. Anima e animus
Segundo Jung (2016, p. 400,401), anima e animus representam a
personificação da natureza feminina do inconsciente do homem e da natureza
masculina do inconsciente da mulher. Tal bissexualidade psíquica é o reflexo de um
fato biológico; o maior número de genes masculinos (ou femininos) determina os
sexos. Um número restrito de genes do sexo oposto parece produzir um caráter
correspondente ao sexo oposto, mas, devido à sua inferioridade, usualmente
permanece inconsciente.
Todas as manifestações arquetípicas, e, portanto, também o animus e a anima,
têm um aspecto negativo e um aspecto positivo. Um aspecto primitivo e um aspecto
diferenciado.
Para Jung (2016, p. 400,401), o animus, em sua primeira forma inconsciente, é
uma instância que engendra opiniões espontâneas, involuntárias, exercendo uma
influência dominante sobre a vida emocional da mulher; a anima é, por outro lado,
uma instância que engendra sentimentos espontâneos, os quais exercem uma
influência sobre o entendimento do homem, nele provocando distorções. O animus é
projetado particularmente em personalidades “espirituais” e toda espécie de “heróis”
(inclusive tenores, “artistas”, esportistas, etc.) A anima se apodera facilmente do
elemento que na mulher é inconscientemente, vazio, frígido, desamparado, incapaz
de relação, obscuro e equívoco... No decurso do processo de individuação, a alma se
associa à consciência do eu e possui, pois, um índice feminino no homem e masculino
na mulher. A anima do homem procura unir e juntar; o animus da mulher procura
diferenciar e reconhecer. São posições estritamente contrárias... No plano da
realidade consciente anima e animus constituem uma situação conflitual, mesmo
quando a relação consciente dos dois parceiros é harmoniosa.
Para Neuman (1999, p. 41):

A anima é o veículo por excelência do caráter de transformação. Ela é a


movimentadora e o impulso à transformação, cuja fascinação impele, seduz
e estimula o masculino a todo tipo de aventuras da alma e do espírito, da
ação e da criação no mundo interior ou exterior.

9. Sombra
A sombra está nos aspectos mais repugnantes de nosso ser, que por não
serem aceitos são relegados ao inconsciente. Quanto mais unilaterais formos em
21

olhar apenas paras as qualidades que julgamos ter, tanto mais autônomos ficam os
conteúdos sombrios que possuímos, surgindo do inconsciente de onde foram
relegados. Para Jung, sombra “é a parte negativa da personalidade, isto é, a soma
das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos
conteúdos do inconsciente pessoal” (2013, p. 58). É importante para a economia
psíquica considerar o par complementar da consciência, o inconsciente. E neste
processo, o primeiro passo é olhar para o inconsciente e ver a sombra que está
encoberta pela persona. Esta última, que criamos para nos proteger do mundo
externo, também é utilizada para escondermos de nós a própria sombra, e é a primeira
que enxergamos ao olhar no espelho. Diante deste ato de coragem, se formos mais
além poderemos ver por trás da persona os aspectos de nossa personalidade que
consideramos malignos, e que fomos incapazes de assumir. Lá estará nossa sombra.
A sombra nos fala do inconsciente pessoal, embora muitas vezes esteja
permeada de associações e projeções de elementos arquetípicos coletivos, o que
torna mais difícil o seu reconhecimento. Para Jung (2013, p. 31):

A sombra, porém, é uma parte viva da personalidade e por isso quer


comparecer de alguma forma. Não é possível anulá-la argumentando, ou
torná-la inofensiva através da racionalização. Este problema é extremamente
difícil, pois não desafia apenas o homem total, mas também o adverte acerca
do seu desamparo e impotência.

Neste sentido, assim como os conteúdos do inconsciente, a sombra faz parte


de nós mesmos, por mais que a neguemos. Para Jung, é caminho necessário para o
autoconhecimento a confrontação com este mal que existe em nós. O homem arcaico
se defendia da sombra projetando em personalidades e objetos coletivos, e quanto
mais imerso na coletividade estiver, menos terá que enfrentar seus aspectos
individuais sombrios. Entretanto, como vimos, o homem dos tempos modernos perdeu
muito em suas crenças místicas, sendo que esta solução não está mais servindo para
explicar o mal do mundo, e o mal em si mesmo na forma de sombra. Neste processo,
há ainda quem se utiliza dos meios arcaicos de projeção do mal nas pessoas externas,
e assim, cada vez mais o homem negligencia o poder do mal e o relega ao
inconsciente. Este conteúdo se potencializa e se torna autônomo, e por isso o homem
moderno é chamado a olhar para si mesmo, e consequentemente a confrontar-se com
sua sombra.
22

Desde que as estrelas caíram dos céus e nossos símbolos mais altos
empalideceram, uma vida secreta governa o inconsciente. É por isso que
temos hoje uma psicologia, e falamos do inconsciente. Tudo seria supérfluo,
e o é de fato, numa época e numa forma de cultura que possui símbolos.”
(JUNG, 2013, p. 33)

A sombra é aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e


carregada de culpabilidade, cujas ramificações extremas remontam ao reino de
nossos ancestrais animalescos, englobando também todo o aspecto histórico do
inconsciente... Se antes era admitido que a sombra humana representasse a fonte de
todo o mal, agora é possível, olhando mais acuradamente, descobrir que o homem
inconsciente, precisamente a sombra, não é composto apenas de tendências
moralmente repreensíveis, mas também de um certo número de boas qualidades,
instintos normais, reações apropriadas, percepções realistas, impulsos criadores, etc.
(JUNG, 2016, p. 411).

10. Complexos
Para Jung, (apud Silveira 1981, p. 35), os complexos são agrupamentos de
conteúdos psíquicos carregados de afetividade. Compõe-se primariamente de um
núcleo possuidor de intensa carga afetiva. Secundariamente estabelecem-se
associações com outros elementos afins, cuja coesão em torno do núcleo é mantida
pelo afeto comum a seus elementos. Formam-se assim verdadeiras unidades vivas,
capazes de existência autônoma. Segundo a força de sua carga energética, o
complexo torna-se um imã para todo fenômeno psíquico que ocorra ao alcance de
seu campo de atração, bem como faz parte do cotidiano das pessoas. No entanto,
este é um uso errôneo do significado psicológico desta expressão criada por Jung
uma vez que, a verdade é que não somos nós que temos o complexo, o complexo é
que nos tem.

11. Self ou si mesmo


De acordo com Jung (apud Hall & Nordby 2014, p. 43), o princípio organizador
da personalidade é um arquétipo ao qual, Jung denominou como Self, ou seja, é o
arquétipo da totalidade, o centro do aparelho psíquico, englobando o consciente e o
inconsciente. Atrai a si e harmoniza os demais arquétipos e suas atuações nos
complexos e na consciência, une a personalidade, conferindo-lhe um senso de
“unidade” e firmeza.
23

O si mesmo é o centro e também a circunferência completa que compreende


ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente: é o centro da totalidade,
como o eu é o centro da consciência. É também a meta da vida, pois é a
expressão mais completa dessas combinações do destino que se chama:
indivíduo. (JUNG, 2016, p. 409).

Silveira, (1981, p. 99), destaca que para Jung O Self (si mesmo) não se revela
apenas através de personificações humanas. Sendo uma grandeza que excede de
muito a esfera do consciente, sua escala de expressões estende-se de uma parte ao
infra-humano e de outra parte ao super-humano. Assim, seus símbolos podem
apresentar-se sob aspectos minerais, vegetais, animais; como super-homens e
deuses. Também sob formas abstratas. A denominação de Self não cabe unicamente
a esse centro profundo, mas também à totalidade da psique. O reconhecimento da
própria sombra, a dissolução de complexos, liquidação de projeções, assimilação de
aspectos parciais do psiquismo, a descida ao fundo dos abismos..., em suma, o
confronto entre consciente e inconsciente, produz um alargamento do mundo interior
do qual resulta que o centro da nova personalidade, construída durante todo esse
longo labor, não mais coincida com o ego.
O centro da personalidade estabelece-se agora no Self, e a força energética
que ele irradia englobará todo o sistema psíquico. A consequência será a totalização
do ser, sua esterificação (abrundung). O indivíduo não estar mais fragmentado
interiormente. Não se reduzir a um pequeno ego crispado dentro de estreitos limites.
Seu mundo agora abraça valores mais vastos, absorvidos do imenso patrimônio que
a espécie penosamente acumulou nas suas estruturas fundamentais. Prazeres e
sofrimentos serão vivenciados num nível mais alto de consciência. O homem torna-se
ele mesmo, um ser completo, composto de consciente e inconsciente incluindo
aspectos claros e escuros, masculinos e femininos, ordenados segundo o plano de
base que lhe for peculiar.
“O Self é o centro regulador e unificador da psique total, consciente e
inconsciente. Simbolicamente, ele é expresso em toda a história da humanidade como
divindade interior, ou a imagem de Deus”. JUNG (apud von-FRANZ, 1992, p. p. 117).
24

12. Símbolo
Silveira (1981, p. 80) destaca que para Jung, o símbolo é uma forma
extremamente complexa, onde nela se reúnem opostos numa síntese que vão além
das capacidades de compreensão disponíveis no presente e que ainda não podem
ser formuladas dentro de conceitos. Inconsciente e consciente aproximam-se. Assim,
o símbolo não é racional nem irracional, porém as duas coisas ao mesmo tempo. Se
for de uma parte acessível à razão, de outra parte lhe escapa para vir fazer vibrar
cordas ocultas no inconsciente.
Entende-se assim, que um símbolo não traz explicações; impulsiona para além
de si mesmo na direção de um sentido ainda distante, inapreensível, obscuramente
pressentido e que nenhuma palavra de língua falada poderia exprimir de maneira
satisfatória.

13. Sincronicidade
Termo criado por Jung (2013, p. 409), que exprime uma coincidência
significativa ou uma correspondência entre um acontecimento psíquico e um
acontecimento físico, não ligados por uma relação casual. Tais fenômenos de
sincronicidade aparecem, por exemplo, quando sonhos, visões, premonições
parecem ter uma correspondência na realidade exterior: a imagem interior ou a
premonição mostrou-se “verdadeira”; entre sonhos, ideias análogas ou idênticas que
ocorrem em lugares diferentes, sem que a causalidade possa explicar umas e outras
manifestações. Ambas parecem ter relação com processos arquétipos do
inconsciente.

14. Sonhos
O sonho é a principal ferramenta de análise da psicologia analítica, pois,
constitui as expressões da mente inconsciente. Jung (1972, p. 103) considera o sonho
uma auto representação espontânea, sob forma simbólica, da situação do
inconsciente, é aquilo que ele é, inteiramente e unicamente o que é, e não uma
fachada. Não é algo pré-arranjado, um disfarce qualquer, mas sim, uma construção
realizada, uma coisa viva e não alguma coisa morta que soe como papel seco
machucado. Em outras palavras, o sonho é uma situação existente... é como um
animal com antenas ou com vários cordões umbilicais.
25

[...] Os sonhos fornecem informações extremamente interessantes a quem se


empenhar em compreender o seu simbolismo. O resultado, é verdade, pouco
tem a ver com preocupações mundanas como comprar e vender. Mas o
sentido da vida não é explicado pelos negócios que se fez, assim como os
desejos profundos do coração não são satisfeitos por uma conta bancária.
(C.G. JUNG, apud von-Franz, 1992, p. 10).

Jung, no livro “O homem e seus símbolos” (1996)1, destaca:

Os cristãos costumam perguntar por que Deus não lhes fala, como se crê que
fazia no passado. ...Estamos tão emaranhados e cativados por nossa
consciência subjetiva que nos esquecemos do antiqüíssimo fato de que Deus
fala especialmente através de sonhos e visões. Os budistas descartam o
mundo de fantasias inconscientes, alegando que não passam de ilusões
inúteis; os cristãos colocam sua Igreja e sua Bíblia entre eles e o próprio
inconsciente; e os intelectuais racionais ainda não sabem que sua
consciência não é sua psique inteira.... Mas se um teólogo realmente crê em
Deus, com que autoridade pode afirmar que Deus é incapaz de falar através
dos sonhos?

15. Mito
Jung, (apud Silveira 1981, p. 128), ao interpretar os mitos, acrescenta aos
conceitos dos especialistas modernos dimensões mais profundas. Assim, para Jung:

Os mitos são principalmente fenômenos psíquicos que revelam a própria


natureza da psique. Resultam da tendência incoercível do inconsciente para
projetar as ocorrências internas, que se desdobram invisivelmente no seu
íntimo, sobre os fenômenos do mundo exterior, traduzindo-as em imagens.
Não basta ao primitivo ver o nascer e o pôr do sol; esta observação externa
será ao mesmo tempo um acontecimento psíquico: o sol no seu curso
representará o destino de um deus ou herói que, em última análise, habita na
alma do homem.

Os mitos condensam experiências vividas repetidamente durante milênios,


experiências típicas pelas quais passaram (e ainda passam) os humanos. Por isso,
temas idênticos são encontrados nos lugares mais distantes e mais diversos. A partir
desses materiais básicos é que sacerdotes e poetas elaboram os mitos, dando-lhes
roupagens diferentes, segundo as épocas e as culturas. (JUNG, apud SILVEIRA,
1972, p. 129).

1 Inspirado por um sonho do autor e concluído apenas dez dias antes de sua morte, representa uma
tentativa de expor os princípios fundamentais da análise junguiana sem qualquer obrigatoriedade de
conhecimento especializado de psicologia. No livro, Jung acentua que o homem só se realiza através
do conhecimento e aceitação do seu inconsciente - conhecimento que ele adquire por intermédio dos
sonhos e seus símbolos.
26

16. Tipos Psicológicos


Para Jung (2013, p. 494): “A função psicológica é entendida como uma certa
forma de atividade, que permanece idêntica sob condições diversas, ou seja, um
exemplo ou modelo que reproduz de forma característica o caráter de uma espécie
ou de uma generalidade”.
Silveira (1981, p. 51) destaca que os trabalhos de exploração do inconsciente
não fizeram Jung perder o interesse pelas relações do homem com o meio exterior. A
comunicação entre as pessoas sempre lhe pareceu problema da maior importância.
Na vida comum e na clínica via todos os dias que a presença do outro é um desafio
constante. O outro não é tão semelhante a nós conforme desejaríamos. Ao contrário,
ele nos é exasperantemente dessemelhante. Não é raro ouvir o marido irritado, dizer
que não entende a esposa e a mãe queixar-se de absolutamente desconhecer a filha.
Também nas relações de amizade e de trabalho surgem frequentes
desentendimentos, desencontros, que deixam cada personagem perplexo face às
reações do outro, sem que os separem sensíveis diferenças de idade, de educação
ou de situação social. Jung deteve-se no exame deste problema e apresentou sua
contribuição a fim de que nos oriente melhor dentro dos quadros de referência do
outro.
Segundo Hall & Nordby (2014, p. 84), o trabalho desenvolvido por Jung com
Tipos Psicológicos teve uma dupla importância: ele identificou e descreveu certo
número de processos psicológicos básicos e mostrou de que maneira se ligam em
várias combinações para determinar o caráter de um indivíduo. Ele se dispôs a
transformar uma psicologia geral de leis e processos universais numa psicologia
individual que descreva as características exclusivas e o comportamento de uma
pessoa específica. O resultado foi, como disse Jung, uma psicologia muito prática.
“Uma das mais importantes experiências de minha vida foi descobrir o quão
prodigiosamente diferentes são as psiques das pessoas” (JUNG, 2013, p. 148).
27

3 TEMA

A busca pelo verdadeiro amor ainda é vista pelo homem contemporâneo como
um grande tesouro para o encontro da felicidade. Para Carotenuto (1994, pg. 5), na
busca pelo sentido da vida e pela sua alma, o homem descobriu novos caminhos que
o levam para a sua interioridade, revelando que somente o amor é capaz de gerar
alma, mas também o amor necessita da alma, pois, a experiência amorosa está entre
as mais significativas e consideráveis da existência humana. Ainda, segundo o autor,
por sua natureza o amor pertence à esfera do indivisível. Como tudo o que se
relaciona à alma, com a dimensão mais profunda e secreta do ser, ele está próximo
do mistério e é acompanhado do silêncio.
Para o americano Morton Hunt 2 (1920-121016) “a história do amor é uma
história daquilo que se diz sobre o amor”. Sendo assim, foram os gregos que
inventaram o amor, pois embora as pessoas já se amassem muito antes, os gregos,
que tinham uma explicação para tudo, foram os primeiros a criar uma palavra para
isso.
Filósofos como Sócrates e Aristóteles discutiam poesia, ciência e política
durante os chamados simpósios, festas onde os participantes partilhavam uma grande
taça de vinho. Em uma dessas festas se desenvolveu O Banquete, célebre obra de
Platão, uma das mais reveladoras sobre o pensamento grego a respeito do amor. As
expressões “almas gêmeas” e “cara-metade” surgiram quando Aristófanes recorreu à
mitologia para falar sobre a origem do amor. Segundo ele:

...éramos seres andróginos de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços.


Temendo que o poder dessas estranhas criaturas ameaçasse os deuses,
Zeus dividiu-as em duas outras- e desde então carregamos a sensação de
estarmos sempre incompletos, em busca da metade afastada de nós.

Temos aí a criação dos sexos: Andros, Gynos e o Androgyno, Andros, eram


formados por duas cabeças masculinas, Gynos por duas cabeças femininas e o

2Psicólogo e escritor de ciência que escreveu notavelmente para The New Yorker, The New York Times
Magazine e Harper e autor de vários livros, incluindo: “A História da Psicologia”,“ A História Natural do
Amor”, entre outros. (Fonte : https://en.wikipedia.org/wiki/Morton_Hunt) acesso em 12.06.2018.
28

Androgyno por metade masculina e metade feminina. Esse mito, escrito por Platão,
deu origem à criação das almas gêmeas.
Mesmo sendo metade homem e metade mulher, Andrógino era um ser
completo a ponto de se tornar autossuficiente, feliz e parecido aos deuses do Olimpo,
despertando a ira e a inveja dos deuses e Zeus decidiu cortá-lo ao meio. A partir daí,
as metades sempre buscam uma a outra para que num abraço, sintam a plenitude
que conheciam. É o que Jung chamou de individuação, que ocorre quando cada ser
encontra sua contraparte interna, realizando o encontro dos opostos e produzindo
assim, a totalidade. Para Jung a contraparte do homem, sua mulher interna, é a
Anima, e a contraparte interna da mulher, é Ânimus.
Para Hall & Nordby (2014, p. 38):

Toda pessoa possui qualidades do sexo oposto, no sentido biológico e


psicológico das atitudes e sentimentos. O homem desenvolveu o seu
arquétipo anima e a mulher seu arquétipo animus, vivendo e interagindo um
com o outro durante gerações, adquirindo características do sexo oposto,
facilitando assim a compreensão mútua. De modo que, os arquétipos de
anima e animus, têm um valor muito grande para a sobrevivência. Para que
a personalidade seja bem ajustada e harmoniosamente equilibrada, o lado
feminino da personalidade do homem e o lado masculino da personalidade
da mulher devem poder expressar-se na consciência e no comportamento.

Segundo Jung (2013, p. 400), anima é o arquétipo que constitui o feminino da


psique masculina e animus é o arquétipo que compõe o lado masculino da psique
feminina. Para ele, a primeira projeção da anima sempre é feita na mãe e a primeira
projeção do animus é feita no pai e posteriormente com o amadurecimento, essas
projeções são transferidas para os relacionamentos amorosos. Portanto, devemos
tomar consciência de nossas projeções para perceber a realidade presente na outra
pessoa.
Jung aponta que a principal função desses arquétipos é a capacidade de
sintonizar a consciência do eu com o inconsciente, abrindo-se para o conhecimento
interno, o conhecimento do si mesmo. Anima e animus são os arquétipos que mediam
a relação do eu com as esferas coletivas do inconsciente. Em um primeiro momento
o eu precisa reconhecer essas figuras internas e perceber que elas possuem uma
forma autônoma de manifestação.
29

Sua autonomia e falta de desenvolvimento usurpam, ou melhor, retêm o pleno


desabrochar de uma personalidade, pois, na medida em que ambos
(anima/animus) forem inconscientes, sempre serão projetados, uma vez que
todo o inconsciente é projetado, de sorte que, conforme afirma, ninguém
compreenderá esses fatos, se não experimentá-los em si mesmo. (JUNG,
2013, p. 268).

Zeus, ao dividir o Andrógino em duas metades, colocou os órgãos sexuais para


frente despertando assim o desejo de se unirem novamente, mas não na forma de um
desejo puramente sexual e sim, o desejo de amar e ser amado por alguém que nos
complete. No entanto, antes de nos completar no outro, necessário se faz que cada
ser humano se sinta completo, visto que, se não há totalidade em nós mesmos,
sempre procuraremos no outro aquilo que nos falta. E isso, nos causará dor, pois não
sabemos até que ponto o outro irá nos completar. Sempre tentaremos agradar,
satisfazer o outro até que nos perdemos de nós mesmos.
O amor impulsiona a libido, além de todos os instintos, até mesmo aquele de
satisfazer a fome, como garantia de sobrevivência e completude do ser humano. A
alma humana é feita de pensamento e sentimento e é disso que somos feitos. Assim
sendo, conhecer a si mesmo, é ter consciência do amor que há dentro de nós
mesmos, e como pensamos sobre esse amor. Se para nós, o amor é algo atraente,
nossa libido irá nos impulsionar para esse sentido. Se o amor para nós é algo mais
profundo, ou resumidamente, seja alguém que me ame como eu amo a mim mesmo,
a tendência é nos direcionar para encontrar alguém nesse sentido.
Quando o ser humano está seguro de si, tem seu pensamento próprio, sem se
espelhar em pai, mãe ou em outro modelo qualquer, a libido impulsionará para um
movimento de encontro com alguém que o complete, alguém que o ame, e o complete
exatamente como é, sem que interfira em sua individualidade.
No entanto, antes de querermos achar a alma gêmea, é preciso primeiro saber
se somos completos em si mesmos; em primeiro lugar, precisamos nos bastar, nos
sentirmos seguros e independentes em si mesmos, bem como termos consciência do
amor que queremos, pois só assim conseguiremos enxergar no outro um
complemento e poderemos saber quem é nossa alma gêmea.
A individuação permite-nos um encontro com nosso Self, nossa totalidade em
si mesmo. Sendo assim, cada ser humano que quiser achar sua verdadeira alma
gêmea, deve primeiramente seguir na sua individuação.
30

Para Jung, a busca pelo caminho de individuação, de totalidade, exige a


aceitação dos opostos, inclusive a aceitação dos lados de nossa psique por nós
excluídos. Em outras palavras “Tu és escravo daquilo que precisas em tua alma. O
homem mais masculino precisa da mulher, por isso é seu escravo. Torna-te tu mesmo
mulher, e ficarás livre da escravização à mulher” (JUNG, 2014, p. 263).
Ao destacarmos a história do mito criado por Platão chegamos aos seres
humanos, homens e mulheres que estão sempre em busca de sua cara-metade, sua
alma gêmea. No entanto, mesmo supondo que exista uma alma gêmea, onde e como
encontra-la? “O amor é uma espécie de loucura, disse Platão, uma loucura divina!”.
“Quando arrebatado de amor, um ser humano olha a pessoa que ama, e é sua própria
imagem que ele vê nos olhos de seu amado (a).” Podemos transpor essa ideia na
teoria de espelhos, onde vemos no outro nossa própria alma e nos apaixonamos.
Para o filósofo brasileiro Konder (2007, p. 7) o termo amor possui uma
elasticidade espantosa, sendo considerado o sentimento mais forte da psique, já que
majoritariamente aparece atrelado a outros. Para o filósofo alemão Marx, apud Konder
(2007) “o amor é ‘uma maneira universal que o ser humano tem de se apropriar do
seu ser como ‘um homem total’, agindo e refletindo, sentido e pensando, descobrindo-
se, reconhecendo-se e inventando-se” (KONDER, 2007, p. 21).
Na mitologia, o amor está representado em várias narrativas. Uma delas é entre
um deus, Eros (o amor) filho da deusa do amor, Afrodite, e uma mortal, Psiquê (a
alma), mortal, uma das três filhas de um rei.
Psiquê, com sua beleza extraordinária, é notada por todos, não somente por
sua beleza, mas também pelo seu charme, personalidade, forma de agir e falar. Tais
características a fazem ser venerada, e apontada como “a nova Afrodite, uma nova
deusa”. Mesmo assim, Psiquê transforma-se em uma preocupação para os pais, visto
que suas irmãs se casam primeiro que ela. O rei decide consultar um oráculo, que
dominado por Afrodite, faz com que a resposta seja uma terrível profecia: Psiquê
deveria despojar uma criatura horrível e repulsiva.
E assim aconteceu: Psiquê foi levada em uma procissão para o casamento,
como se fosse um cortejo fúnebre; em seguida, acorrentada em uma pedra no alto de
uma montanha, deixada ali para ser entregue à terrível criatura, obedecendo à
profecia do oráculo, transformando as lágrimas do cerimonial e os adornos em razão
do casamento e do funeral.
31

Afrodite queria destruir Psiquê e para isso planejava que Eros (também
conhecido como Cupido) lançasse uma flecha em Psiquê para que ela se apaixonasse
pelo seu futuro marido. No entanto, Eros, ao vê-la, se distrai e acaba espetando seu
próprio dedo com uma das flechas, o que faz com que se apaixone por Psiquê e leve
sua amada para o Vale do Paraíso.
Ao acordar em seus aposentos, Psiquê percebeu que alguém a acompanhava.
Era o marido que lhe havia sido predestinado. No entanto, ele havia colocado uma
condição: ela não poderia vê-lo, pois se assim fizesse o perderia para sempre,
condição esta aceita por Psiquê. O próprio Eros, que tinha sido encarregado de
executar a vingança da mãe, se apaixonara por Psiquê, mantinha-se escondido para
evitar a fúria de Afrodite.
Psiquê se sentia extremamente feliz, pois tinha a seu lado o melhor dos
esposos e a fazia se sentir amada. Resolve então, pedir a ele que a deixasse visitar
seus pais. O reencontro gera a felicidade dos pais e a inveja das irmãs, que a enchem
de perguntas sobre o marido. À noite, ao contar para Eros seu encontro com as irmãs,
ele a adverte que isso era muito perigoso. Como estava grávida, Psiquê deveria
manter a obediência que prometera porque senão a criança que nasceria seria uma
mulher mortal e ele a abandonaria.
Mas, Psiquê, desobedecendo às ordens do marido, continua a ver suas irmãs,
que no terceiro encontro inventam que Eros era, na verdade uma repugnante serpente
e tinha como plano devorar a ela e seu filho, fato que ocorreria quando a criança
nascesse, mas que elas iriam ajudá-la. Para isso, Psiquê deveria colocar na cabeceira
de sua cama uma lâmpada em uma redoma e uma faca muito afiada embaixo de seu
travesseiro e quando Eros viesse visita-la à noite, ela esperaria ele dormir e então
cortaria sua cabeça.
Psiquê revela às irmãs que nunca havia visto o rosto de Eros, seu marido. Elas
acabam convencendo-a de vê-lo, e Psiquê ao retornar para casa, acende uma vela
fica totalmente extasiada e encantada pela beleza estonteante do marido. Nervosa,
deixa sua faca cair e desajeitada pelo nervosismo acaba por acidentalmente se
espetar numa das flechas de Eros e instantaneamente se apaixona por ele.
Psiquê ficou tão deslumbrada pela visão do esposo que não percebeu uma
gota da cera da vela que pingou no peito do amado e o acordou assustado. Ao
perceber o acontecido, Eros tenta voar para longe de Psiquê, porém ela o segura, e
agarrada a ele, sai do Paraíso, mas não aguenta se segurar por muito tempo e cai.
32

Eros diz a Psiquê que ela o desobedecera e quebrado sua promessa. A punição para
isso seria a ausência dele, além do fato de que o filho que ela esperava nasceria
mortal. Então, voou, deixando Psiquê sozinha, que ao vê-lo ir embora pensa em se
suicidar, jogando-se no rio, mas Pan, o deus dos pés fendidos e a ninfa Eco, que estão
à beira do rio convencem-na a desistir.
Sozinha e infeliz, Psiquê começou a vagar pelo mundo e reza para Eros. Mas,
ao invés de procurar diretamente por ele, busca ajuda em vários templos de deusas,
sem sucesso, pois elas temiam que Afrodite considerasse isso uma proteção à jovem
que feriu seu filho. Decide, então, procurar Afrodite que a recebe com duras palavras
além de humilhá-la dizendo que não serve para nada além de tarefas subalternas. E,
para livrar-se de tal desígnio, teria que cumprir quatro tarefas por ela indicadas:
Na primeira tarefa, Afrodite, Psiquê deveria separar uma montanha de
sementes por tipo, antes do anoitecer. Conseguiu cumprir a tarefa com a ajuda de
milhares de formigas.
Na segunda tarefa Psiquê deveria buscar o tosão de ouro-lã de ouro- dos
ferozes carneiros que pastam na margem oposta do rio. Dirige-se ao rio que a separa
dos carneiros, mas, no último instante uma voz sai dos juncos da margem do rio e
alerta que não deveria se aproximar dos animais durante o dia, pois a matariam. No
entanto, se procurasse um espinheiro na margem do rio no início da noite, poderia
recolher a lã que costumava ficar presa nos espinhos. E assim conseguiu completar
a segunda tarefa.
Na terceira tarefa, Afrodite pede que Psiquê encha e entregue a ela uma taça
de cristal com a água do rio Estige, que nasce no alto de uma montanha e em sua
descida, o rio desaparece sob a terra, além de ser guardado por terríveis monstros.
Com a ajuda da águia de Zeus, Psiquê conseguiu realizar a terceira tarefa.
Na quarta e última tarefa, Afrodite ordena que Psiquê desça até os infernos e
procure Perséfone, a esposa de Hades, o senhor do mundo inferior e dos mortos, e
consiga com ela um pequeno cofre em que guarda seu unguento de beleza. Desta
vez, Psiquê recebe ajuda não de um ser vivo, e sim da própria torre em que subira.
Psiquê deveria levar nas mãos dois pedaços de pão de cevada e na boca duas
moedas. No caminho deverá recusar ajuda a um homem coxo, e não salvar um
homem que estará se afogando. Também não deverá se intrometer com as três
tecelãs do destino e recusar qualquer coisa que lhe for dada para comer. Assim,
conforme instruções da torre, as moedas serão para pagar o barqueiro Caronte, que
33

faz a travessia do rio Estige em sua ida e volta e os pães serviriam para alimentar
Cérbero, o cão de três cabeças e guardião das portas do inferno. Conseguiu cumprir
a quarta tarefa.
Passando, assim, por vários desafios e sofrimentos impostos por Afrodite como
uma vingança por ela ter ferido o seu filho, a jovem luta tentando recuperar o seu
amor, mas acaba entregando-se à morte, caindo num sono profundo. Ao vê-la tão
triste e arrependida, Eros, que também sofria com a ausência da amada, implorou a
Zeus que tivesse misericórdia deles. Com a concessão de Zeus, Eros usou uma de
suas flechas, despertando a amada, transformando-a numa imortal, levando-a para o
Olimpo e a partir daí, nunca mais se separaram.
Em grego "Psiquê" significa tanto "borboleta" como "alma". Uma alegoria à
imortalidade da alma, simboliza também a alma humana provada por sofrimentos e
aprovada, recebendo como prêmio o verdadeiro amor que é eterno.
O termo Eros, foi utilizado por Jung para denotar o fundamento básico da
psicologia feminina:

A psicologia das mulheres é fundada principalmente em Eros, fortemente


ligado ao desprendimento, visto que nas épocas antigas o principal atributo
relacionado aos homens é Logos. O conceito do Eros podia ser expressado
nas épocas modernas como uma ligação psíquica, e o Logos com o interesse
objetivo. (JUNG, 2013, p. 255).

Na teoria Junguiana, o mito de Eros e Psiquê fala do desenvolvimento da alma


tanto do feminino, quanto do masculino.
Outro conto de amor considerado um dos mais famosos de todos os tempos, a
tragédia escrita por William Shakespeare em meados de 1.500, não cessa em inspirar
versões e releituras para o cinema, teatro, televisão e outras literaturas.
Romeu e Julieta, um clássico da literatura universal, há séculos seduz gerações
de leitores apaixonados, que encontram na obra de William Shakespeare, uma das
mais belas e trágicas histórias de amor de todos os tempos e transformou-se em um
arquétipo da psique humana.
Elaborada entre 1591 e 1595, a tragédia shakespereana não é significativa
apenas por focalizar o amor proibido entre dois jovens na Verona renascentista, mas
também pelo fato de denunciar a hipocrisia e as convenções sociais, os interesses
econômicos e a sede de poder que geram, inevitavelmente, a intolerância e condenam
o sentimento nobre existente entre Romeu e Julieta.
34

Na cidade italiana de Verona, aproximadamente nos anos de 1500, as famílias


tradicionais Montecchios e Capuletos cultivavam uma inimizade que durava há vários
anos. No entanto, independente desta rivalidade Romeu e Julieta, filhos únicos destes
poderosos clãs se apaixonaram perdidamente e resolvem lutar por este sentimento.
Apesar de lutarem contra a animosidade de suas famílias, o fim trágico e apaixonado
inspira (ou deprime) os amantes de todas as épocas.
Romeu e Julieta se conheceram em uma festa promovida pelo pai da jovem,
líder dos Capuletos. Romeu, mesmo sem ter sido convidado e acreditando estar
apaixonado por Rosaline, uma das moças presentes no evento, arruma um disfarce e
vai à celebração. No entanto, ao se deparar com Julieta, esquece de Rosaline e só
pensa na jovem desconhecida. Logo depois, descobre que pertencem às famílias que
se odeiam.
Escondido no jardim, logo depois da festa, Romeu ouve, sem querer o diálogo
de Julieta com as estrelas, quando ela confessa sua paixão. Ele então a procura e se
declara. Um dia depois, os jovens se casam em segredo, com o auxílio do Frei
Lawrence, amigo do jovem.
Mas a tragédia parece fazer parte da vida dos amantes. No mesmo dia em que
se casaram, Romeu, sem querer se envolve em uma briga com o primo de Julieta,
Tebaldo, que ao descobrir a presença do Montecchio na festa de seus tios, planeja
uma revanche contra ele. A princípio, o jovem não aceita provocações, mas seu amigo
Mercúcio enfrenta o adversário e é morto por ele. Romeu se revolta e mata Tebaldo
para se vingar.
A morte de Tebaldo aumenta ainda mais o ódio entre as famílias e o Príncipe
de Verona manda Romeu sair da cidade. Sem saber da união de Julieta com Romeu,
o velho Capuleto arranja o casamento da filha com Páris. O Frei a convence de aceitar
o matrimônio, mas arma um plano: pouco antes da cerimônia Julieta deverá ingerir
uma poção elaborada por ele e com este preparado, ela será considerada morta.
Porém, Romeu seria avisado e voltaria para tira-la do jazigo dos Capuleto assim
que ela despertasse. Mas, Romeu descobre o ocorrido antes de ser notificado pelo
Frei. Desesperado, ele adquire uma poção venenosa, e na sepultura onde se encontra
a amada ingere o conteúdo do frasco e morre junto a Julieta.
Situada ao norte da Itália, a cidade de Verona resolveu abraçar seu posto como
berço do amor de Romeu e Julieta. Depois que a peça de Shakespeare virou filme
pelas mãos de George Cukor, em 1936, o drama do amor impossível foi se tornando
35

cada vez mais popular e a cidade aproveitou a onda para mergulhar nessa história,
criando toda uma estrutura para dar vida a esse romance.
A chamada Casa Di Giulietta, virou atração turística, trazendo à tona uma
verdadeira lenda urbana. Ainda na cidade há o Club Di Giulietta, onde trabalham um
grupo de mulheres voluntárias que respondem a todas as cartas que chegam ou são
depositadas nas paredes de pedra ao arredor, de todos os lugares do mundo, com
declarações e pedidos de conselhos amorosos.
Os relatos dizem que a primeira carta chegou nos anos 1930 e que no
destinatário, constava apenas: “Julieta, Verona”, e foi entregue na suposta tumba da
personagem. Quando viu a carta, o coveiro, que era um veterano da Primeira Guerra
Mundial e sabia um pouco de inglês, escreveu uma resposta, assim como para as
novas correspondências que começaram a chegar. Com o passar do tempo, a tarefa
de responder as cartas foi passada a um poeta local, mas logo descobriram sua
identidade, e ele desistiu do cargo de secretário de Julieta. Foi só nos anos 1980, que
a prefeitura de Verona passou a tarefa ao Club Di Giulietta que promove atividades
culturais e eventos literários ligados ao mito de Romeo e Julieta.
36

4 DISCUSSÃO

O “Correio de Julieta” é um fenômeno mundial que supera a própria magia


da lenda shakespeariana: milhares de cartas que chegam de diversos lugares
do mundo, nas quais as pessoas contam para Julieta sobre suas histórias, seus
sonhos e seus desejos e, posteriormente, são respondidas por equipe de
“Secretárias de Julieta”, que oferecem amizade e conselho. O conteúdo dessas
cartas aponta para a busca pelo outro, no sentido de união de almas, de
complementariedade.
Na análise da carta anexa endereçada ao Club Di Giulietta, verifica-se a
confirmação da teoria Junguiana em vários aspectos, do inconsciente individual,
coletivo, aos arquétipos, mitos e à individuação. Projetada no amor do mito de
Romeu e Julieta de Shakespeare, a autora busca respostas para suas
inquietações internas e logo no inicio percebe-se que, os arquétipos Animus e
Anima são de importância central no conteúdo expresso, conforme sua
introdução: “Sua história me faz uma menina sonhadora, que sempre pensou
que todos tenham seu Romeu perdido em qualquer esquina.”. (Cf. ANEXO A).
A projeção do par ideal como a figura de Romeu demonstra um olhar
romântico. Romeu apresenta-se como uma figura de um jovem perdidamente
apaixonado, vindo a morrer por esse amor, ou seja, um homem que irá amar e
ser amado incondicionalmente.
Ao afirmar: “Hoje já sou uma mulher, mas igualmente sonhadora.” (Cf.
ANEXO A), novamente a autora da carta afirma sua busca por esse encontro
com o amor idealizado, romântico e verdadeiro, expresso no mito de Romeu e
Julieta, que é o símbolo do arquétipo do amor juvenil e romântico.
Jung considerava que um “amor verdadeiro” só era possível quando
estivéssemos dispostos a abrir mão de nossas fantasias sobre nós mesmos,
nossos (as) parceiros(as) e sobre o próprio amor. Para um “vínculo duradouro e
profundo”, é preciso ser realista sobre a questão do amor e suas limitações:

Todo amor profundo e verdadeiro é um sacrifício. A gente sacrifica


suas possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se
não houver necessidade desse sacrifício, nossas ilusões impediriam o
37

surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso,


ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o
verdadeiro amor (JUNG, 2013, p. 122).

Ainda sobre a ótica da mitologia, a busca pela alma gêmea, nutre no fundo
a fantasia de que em algum lugar (...perdido em qualquer esquina) alguém está
esperando, pensando e desejando o encontro da sua outra metade... a alma
gêmea. “Embora nos dias de hoje, seja difícil manter a fé na existência de almas
gêmeas...” (Cf. ANEXO A).
Jung, (apud Sanford 1987, p. 42), afirma que, quando estamos em busca
ou nos apaixonamos por alguém que não conhecemos como pessoa, mas por
quem somos atraídos através da imagem refletida do deus ou da deusa em
nossa própria alma, isso representa, num certo sentido, nos apaixonarmos por
nós mesmos.
No mito Eros e Psiquê, a Deusa do Amor Afrodite, impõe a Psiquê, várias
tarefas difíceis, dificultando o reencontro com o seu amado, demostrando em
termos psicológicos que devemos nos mostrar merecedores desse amor e estar
maduros para ele. Na carta a autora ao dizer: “Tenho medo de ter uma vida
enfadada na conformidade e em um casamento infeliz.” (Cf. ANEXO A), traz à
consciência o medo do não merecimento de uma relação de completude.
Para Jung, (apud Sanford, 1987, p. 42) para se entrar em contato com o
outro é necessário estar separado deste outro, porque somente seres separados
podem se relacionar. Se isso não acontece, um estado de identificação, no
sentido de fusão mútua, embota o desenvolvimento psicológico de ambos os
parceiros.
Do ponto de vista da psicologia analítica, esse distanciamento pressupõe
a existência da consciência em saber que o outro é diferente, não é igual a mim.
Onde não houver consciência, o relacionamento psíquico ficará reduzido, tanto
da pessoa em relação à sua autoconsciência, como em relação ao parceiro.
Afirma C. Jung (2013, p. 201) “Sempre que tratamos do relacionamento psíquico,
pressupomos a consciência. Não existe nenhum relacionamento psíquico entre
dois seres humanos, se ambos se encontrarem em estado inconsciente”. (Cf.
ANEXO A).
Assim sendo:
38

Desde o momento em que aparece a consciência coerente, existe a


possibilidade do relacionamento psíquico. Consciência, segundo
nossa concepção, é sempre consciência do ‘eu’. Para tornar-me
consciente de mim mesmo, devo poder distinguir-me dos outros.
Apenas onde existe essa distinção, pode aparecer um relacionamento.
Ainda que de modo geral se faça essa distinção, ela é normalmente
cheia de lacunas, podendo talvez permanecer inconscientes regiões
muito amplas da vida psíquica. Quanto aos conteúdos inconscientes
não é possível qualquer distinção; e, por isso, nesse campo não pode
ser estabelecido nenhum relacionamento; nessa região reina ainda o
estado inicial da identidade primitiva do ‘eu’ com os outros, e assim
ausência completa de relacionamento (JUNG, 2013, p. 202).

Jung (2013, p. 202) considera que quanto maior for a extensão da


inconsciência, igualmente menor se tratará de uma escolha livre no casamento;
e mesmo quando faltar o apaixonamento continuará a existir a coação. Os
motivos inconscientes são de natureza pessoal e geral. Em primeiro lugar, estão
os motivos provenientes da influência dos pais, sendo decisivo para o rapaz o
relacionamento com a mãe e para a moça o relacionamento com o pai. O grau
de ligação aos pais influencia, em primeiro lugar, favorecendo ou dificultando a
escolha do parceiro. Assim, o amor consciente para com o pai e a mãe favorece
a escolha de um parceiro semelhante ao pai ou a mãe; mas, ao contrário a
ligação inconsciente dificulta a escolha do parceiro e força modificações
curiosas.
É o próprio Jung que ilustra esta questão:

Em regra, a vida que os pais podiam ter vivido, mas foi impedido por
motivos artificiais, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isto
significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um
rumo na vida que compense o que os pais não realizaram na própria
vida (...) A inconsistência artificial dos pais tem as piores
consequências (...) A escolha do cônjuge poderá ficar livre de tais
influências, se os instintos não estiverem atrofiados, mas cedo ou tarde
se manifestarão certos obstáculos. A escolha feita apenas sob o
impulso do instinto poderia ser a melhor, do ponto de vista da
conservação da espécie; do ponto de vista psicológico, porém, nem
sempre é a acertada porque muitas vezes há de existir uma grande
distância entre a personalidade meramente instintiva e a personalidade
individualmente diferenciada. (JUNG, 2013, p. 203- 204).

Sendo assim, desde que o relacionamento não tenha sido arranjado pela
inteligência, pela astúcia, ou pelo tal amor providente dos pais, a escolha do
parceiro, normalmente, se realiza por motivos inconscientes e instintivos, se
supondo, igualmente, que não tenha havido deformação do instinto primitivo dos
filhos.
39

Ao apresentar alguns questionamentos na carta dirigida à Julieta, a autora


faz projeções de suas intenções no encontro com o outro: “Será que nos dias de
hoje, onde há pressa para tudo e tudo é tão efêmero, ainda podemos esperar
um companheiro para a vida toda? “Alguém que queira gastar uma vida com
você? Alguém que você não perde nunca?”. (Cf. ANEXO A)
Para Jung (2013, p. 216), projetar conteúdos inconscientes é um fato
natural e normal, um processo espontâneo em que os conteúdos do inconsciente
de alguém são percebidos como estando em outra(s) pessoa(s) ou (objeto)
externo(s).
A projeção é sempre um mecanismo inconsciente. Para Von Franz (1915,
p. 280,281), consiste em deslocar um conteúdo psíquico para um objeto externo
e considerar a qualidade ou atributo deslocado como inerente ao próprio objeto.
Tudo o que projetamos é conteúdo interno nosso e não do outro, criando assim
idealizações comuns dessas projeções.
As idealizações podem se tornar um problema nas relações interpessoais,
uma vez que criam uma imagem irreal do outro, seja essa imagem negativa ou
positiva. E então a forma como nos comportamos com o outro passa a ser
orientada de acordo com a nossa percepção dessa imagem que, tem a ver não
com o outro, mas com nós mesmos.
A autora da carta expressa seus desejos, anseios, medos e sentimentos,
trazendo à consciência conteúdos do seu inconsciente, integrando assim os
aspectos separados entre esses dois universos e consequentemente,
aproximando-se do si mesmo, o que para Jung é o objetivo da vida de todo ser
humano: aumentar o nível de consciência. E que cada indivíduo siga sua jornada
na busca pela individuação.
Quando compartilha com a figura de Julieta a busca pelo amor idealizado,
a autora expressa seu desejo.

Eu realmente espero que sim, somos duas otimistas, acredito. Julieta,


espero que eu encontre o meu Romeu um dia, e seja esperta o
suficiente para reconhecê-lo.” “Espero que tenhamos o amor que meus
avós tiveram – apesar de imperfeito – atemporal e infinito. (Cf. ANEXO
A).
40

5 CONCLUSÃO

O ponto central desse estudo foi refletir sobre se a busca pelo amor ideal
nos aproxima ou nos distancia do encontro com o si mesmo.
Os conceitos de psicologia analítica, aqui citados mostraram que o
processo de individuação, depende da busca que o indivíduo fará para conhecer
a si mesmo, seu eu interior e que somente conhecendo a si mesmo, será livre
para ir ao encontro do seu par ideal. Para tanto, necessita trabalhar para trazer
à consciência os conteúdos do seu inconsciente.
A exemplo da carta aqui anexada, a busca pelo amor idealizado,
verdadeiro, se faz presente nos dias de hoje de maneira constante, como uma
necessidade de tomar água para matar a sede, comer para matar a fome. O
amor, ah, o amor, uma delícia que transforma o ser humano, que transpõe
barreiras, e o faz amar...e ser amado, como num conto de fadas.
Entende-se, portanto, que a pretensão deste trabalho em enriquecer e
aprimorar conhecimentos com a finalidade de desenvolver maior conhecimento
sobre o tema foi atingido, além de proporcionar ao leitor maior compreensão
sobre o processo do encontro com o si mesmo. Porém, por se tratarem, o amor
e a individuação, temas relevantes sugere-se que novas pesquisas sejam
desenvolvidas com o objetivo de aprofundar o conhecimento neste campo.
41

REFERÊNCIAS

BAIR, Deirdre, Jung: Uma biografia. São Paulo: Editora Globo, 2006.

BELOTTI, A. Almas gêmeas e o Mito do Andrógino. Disponível em:


<https://www.somostodosum.com.br/artigos/espiritualidade/almas-gemeas-e-o-
mito-do-androgino-3970.html> Acesso em: 15 mar. 2018.

CAROTENUTO, Aldo. Eros e Pathos. São Paulo: Paulus, 1994.

DEIRDRE, B. Jung: uma biografia. Vol. I. São Paulo: Globo, 2006.

FISICAPSICOLOGIA. Matéria e Psique: estruturas e conexões. Disponível


em: <https://seletynof.wordpress.com/2007/04/05/estrutura-da-psique-ii/>.
Acesso em: 11 jun. 2018.

HALL, Calvin S. & NORDBY, Vernon J. Introdução à psicologia Junguiana. [1.


ed. 11. reimpressão] São Paulo: Cultrix, 2014.

JULIET CLUB. Disponível em: <www.julietclub.com/en/>. Acesso em: 10 abr.


2017.

JUNG, Carl. Fundamentos da Psicologia Analítica (As conferências de


Tavistock). Petrópolis: Vozes, 1972.

______. Sobre o Amor - Seleção e edição de Marianne Schiess. Aparecida-SP:


Editora Ideias & Letras, 2005.

______. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

______. A natureza da psique. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras


completas, v. 8/2).

______. A Prática da Psicoterapia. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras


completas, v. 16/1).
42

______. Arquétipos do Inconsciente Coletivo. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.


(Obras completas, v. 7/1).

_______. Civilização em Transição. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras


completas, v. 10/3).

_______. O desenvolvimento da personalidade. 6ª ed. Petrópolis: Vozes,


2013. (Obras completas, v. 12).

_______. Psicologia do Inconsciente. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras


completas, v. 7/1).

_______. Tipos Psicológicos. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras


completas, v. 7).

______. O Livro Vermelho. 2ª reimpressão. Petrópolis: Vozes, 2014.

______. Memórias, Sonhos, Reflexões. [30.ed.]. Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 2016.

KONDER, Leandro. Sobre o amor. São Paulo: Bontempo, 2007.

NEUMANN, Erich. A Grande Mãe. Trad. Fernando Pedroza de Mattos; Maria


Silvia Mourão Netto. São Paulo: Cultrix, 1999.

PLATÃO. Diálogos: O Banquete – Fédon – Sofista – Político (Coleção os


Pensadores). 5ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

SANFORD, J. Os Parceiros Invisíveis: o Masculino e o Feminino dentro de


Cada Um de Nós. (I. F. Leal Ferreira, trad.). São Paulo: Paulus, 1987.

SILVEIRA, N. da. Jung: vida e obra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

STEIN, Murray. Jung: O Mapa da Alma. São Paulo: Cultrix, 2006.

VON FRANZ, Marie-Louise. Psicoterapia: Paulus, 1915.


43

______. A Individuação nos Contos de Fada. São Paulo: Paulinas, 1985.

______. O Caminho dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 1992.


44

ANEXO A – Carta analisada

Você também pode gostar