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A máscara alegre: contribuições da


cena gay para o teatro brasileiro *

N ewton Moreno

N
ão raro o público de teatro refere-se às pe- homoerotismo, quantos foram e efetivamente
ças gays que entram em cartaz como mais o que propunham; o artista e o ativista pediam
uma peça gay que entra em cartaz. Peças o registro da crescente produção, um panorama
de homossexuais, para homossexuais, com histórico e uma análise crítica da importância
aquelas coisas que só homossexuais gos- para cena teatral destes espetáculos.
tam. Muitas são as argumentações em defesa de Indago-me se não seria mais prudente
uma ou outra encenação na tentativa de con- tentar entender a pesquisa de modo mais am-
vencer amigos a assisti-las. No entanto, para a plo: primeiramente, cobrindo as Artes Cênicas,
grande maioria, as peças que abordam o porque estudo a contribuição estética, o mapea-
homoerotismo não constituem bom teatro e mento histórico, enfim a percepção da área tea-
sim, manifestos de uma minoria em busca de tral para esta produção; mas, ao organizar este
uma conquista de espaço. São consideradas material e dar-lhe perspectiva histórica, não es-
como prolongamentos de manifestações políti- taremos sempre lidando com uma questão po-
cas, arena de lutas pelos direitos humanos, mas lítica de conquista de espaço para a causa gay?
raramente são entendidas como espaço de uma Dois livros inspiraram a formatação des-
criação teatral séria, de uma pesquisa de lingua- te trabalho: Not in Front of the Audience, de
gem cênica ou de uma renovação vital e lumi- Nicholas de Jongh (1992), e Devassos no paraíso
nosa para a cena teatral brasileira. Isto quando de João Silvério Trevisan (1986). O primeiro
não são diretamente associadas ao desfile de cor- captura a trajetória da figura gay nos teatros de
pos bem talhados em academias e ponto. Londres e Nova York, centrando a discussão na
Esta pesquisa surge de um inconfor- imagem inferiorizada e estereotipada que lhe era
mismo e de uma curiosidade; inconformismo imposta no palco. Seu estudo, entretanto, aca-
quanto à desvalorização dessa produção e curi- ba revelando uma vasta rede de textos produzi-
osidade de rastrear na história do palco brasilei- dos sobre a temática gay. De um obscuro texto
ro como foi organizada a discussão sobre o escrito pela famosa atriz americana Mae West,

Newton Moreno é dramaturgo e pesquisador.


* Este texto foi apresentado no III Congresso de Cultura e Homoerotismo, na Universidade Federal
Fluminense (UFF), em junho de 2001. Tem por objetivo resumir aspectos relevantes da pesquisa de
Mestrado A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro, que realizo no Departamen-
to de Arte Cênicas da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profa. Dra. Sílvia Fernandes Telesi.

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A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro

Drag, até uma peça polêmica, montada em vári- e vital a ser discutida. No livro, uma série de
as partes do mundo, sobre a consciência da Aids artigos reclamam uma outra construção do ima-
na comunidade gay, The Normal Heart, de Larry ginário gay através da criação artística. A explo-
Kramer. Parece óbvio o interesse despertado, ao são da arte homossexual é uma demanda dos
final da leitura desse livro, em repetir o mesmo gays que estão cansados de consumir arte que
ritual de investigação pelos palcos brasileiros. não os mostra como realmente são e que não
João Silvério construiu um livro que atra- debate suas verdadeiras questões. A arte gay
vessa a vivência homossexual neste país em múl- cresce por que o dinheiro gay cresce e quer o
tiplas áreas. Ensaio antropológico, sociológico, entretenimento que promova reconhecimento
artístico, nada escapa à arqueologia voraz do e reflexão.
autor. Um capítulo enfrenta a discussão dos pal- Como última fonte de referência para a
cos da nação brasileira, A cena travestida, levan- realização deste projeto está A coluna do meio,
tando uma série de restrições quanto ao enfoque do produtor cultural Celso Curi, no jornal Úl-
do gay em cena. Saltam aos olhos, contudo, suas tima Hora. Por se tratar da primeira coluna so-
observações sobre dois grupos teatrais, que pre- bre comportamento e cultura gay na América
tendemos analisar com maior apuro, o Dzi Cro- Latina, oferece os mais preciosos registros sobre
quetes e o Vivencial Diversiones. a vida cultural GLS em São Paulo.
No livro Gender in Performance, outra re- Surgem algumas pistas na produção teó-
ferência para montagem deste projeto, Laurence rica norte-americana para tentarmos um enten-
Senelick observa que “O Teatro tem sido um dimento do que seria uma gay play. Uma alter-
lugar seguro para o comportamento não-con- nativa estaria na bibliografia atual sobre a Queer
vencional” e abre espaço para uma série de arti- Theory como um braço dos Gay and Lesbian
gos que exploram antropologicamente a defini- Studies. Mas será que a produção gay veste bem
ção de papéis em cima do palco em diversas a definição ainda em processo e não menos vo-
culturas. Em um dos artigos, Marjorie Garber látil de queer? Como bem observa Judith Butler:
explora a interseção entre o travestimento e as “normalizar o queer seria, no final das contas, o
origens da arte teatral. Para que ocorresse o fe- seu triste fim”.
nômeno teatral fez-se necessário o travestimen- Alguns teóricos e artistas mais ortodoxos
to, causando dupla confusão subversiva entre a chegam mesmo a entender que a gay play deve
definição de papéis masculino/feminino e da ser endereçada a um público gay, apresentan-
realidade dentro e fora do palco. do-se em locais/guetos deste público gay, por
No livro Presence and Desire, Jill Dolan artistas assumidamente homossexuais, etc. Esta
(1993) discute, entre outros assuntos, a defesa conceituação pode ser entendida porque a rea-
por uma arte homossexual criadora de referên- lidade ativista norte-americana está consolida-
cias que promovam a identificação da comuni- da. O teatro foi desde cedo campo de batalha
dade gay, acuada por modelos heterossexuais. O para a luta pelos direitos da comunidade ho-
imaginário gay carece de fontes e referências e o mossexual norte-americana. Há um histórico
homossexual só se vê retratado em peças através forte de grande produção de espetáculos gays
do ponto de vista do artista heterossexual. É este nos Estados Unidos no formato da stand-up
quem dá essa visibilidade ao homossexual à sua comedy ou de caráter performático; e muitas
maneira, é este quem ‘dirige’ o olhar. Em um apresentadas para grupos específicos: Lésbicas
dos artigos do livro, A culture that isn’t just sex, chicanas, comunidade afro-gay-norte-america-
John Clum afirma, oportunamente, que parte na, etc. (Obviamente, há um bom tempo algu-
desta visão do homo dentro da ótica heterosse- mas produções já alcançaram a Broadway e off-
xual se dá sempre pela discussão da prática se- Broadway, sendo alçadas ao reconhecimento do
xual. Como se fosse esta a única questão latente grande público).

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Mas nossa prática ativista está dissociada textos inovadores sobre a temática, mas onde
deste compromisso com o teatro. Com poucas encontrá-los?
exceções, a partir da década de 1990 (em torno Torna-se importante também desenvolver
disto), os chamados Gay Nineties, uma produ- um interesse arqueológico, visto que inúmeros
ção mais constante vem se firmando nos palcos textos encontram-se guardados, esperando que
paulistas especificamente (de textos de autores os façamos ‘sair da gaveta’. Tem-se a sensação
nacionais e de estrangeiros). Esta produção da que a dramaturgia gay nunca rareou, apenas não
década de 1990 constitui nosso objeto específi- tinha espaço para ser produzida e, frente ao re-
co de análise. ceio do fracasso ou a falta de produtores, mui-
Há uma constante dificuldade em aceitar tos escritores enterraram seus textos. Isto sem
esta delimitação de objeto de estudo. Porque mencionar o temor de alguns artistas de se ve-
peças sobre homossexuais, se não existem peças rem vinculados ao universo gay. Hoje em dia, o
sobre heterossexuais? Não seria reducionista? ou jogo parece se inverter: interpretar um papel gay
até mesmo preconceituoso, retornar à idéia de dá prestígio, passa uma imagem politicamente
gueto? De teatro de minorias? E se há a gay play, correta, mesmo que o contexto em que se inse-
qual a sua especificidade, quais os seus limites, re o homossexual não receba um tratamento tão
o que torna um texto apto a esta qualificação? interessante assim. Mas nem sempre foi assim.
Seria esta uma discussão que se esgota na No Brasil, Qorpo Santo em A Separação
temática ou que abraça aspectos formais, estéti- de dois esposos, e Coelho Neto em Os mistérios
cos, artísticos? E mais: não deveríamos talvez do sexo ou O patinho torto são exemplos da pri-
entender o nosso modo de produção e as raízes meira metade do século que retratam de modo
de nosso histórico cênico homoerótico, em vez irreverente personagens gays. Não se tratam de
de adotarmos conceitos produzidos por outra peças que discutam exatamente o homoero-
vivência estética? tismo. Em Qorpo Santo, encontramos dois per-
De qualquer modo, buscamos aqui um sonagens que aparecem na última parte da peça
corpo teórico que nos alicerce a seguir o seguin- e revelam, abertamente, através de uma briga
te propósito: vasculhar o universo gay presente conjugal, que constituem um casal gay. Na ver-
na História dos palcos brasileiros, mas sem pre- dade, a cena mostra o rompimento dos dois
tender apresentar nenhuma solução conceitual. porque um deles, Tamanduá, deseja fazer sexo
Neste primeiro momento, valemo-nos do cri- com seu parceiro, Tatu. Mas Tatu repudia seu
tério temático para realizar este panorama para pedido e terminam a peça separados:
talvez, futuramente, elaborar outros possíveis cri-
“Pois já que não se contenta com o nosso ca-
térios de entendimento do conceito de peça gay.
samento espiritual somente, sendo ambos
Ao mergulhar nas escavações destas peças,
homens! Já que quer o imundo e absurdo ca-
a maior dificuldade encontrada é de longe o
samento carnal, declaro-lhe que não sou mais
parco registro oficial de algumas produções, na
seu sócio. (Empurrando-o)”.
imprensa ou mesmo em Bibliotecas Públicas.
Artistas como Hilton Have, Fernando Neves, No texto de Coelho Neto, o costume de
Gustavo Mendes, famosos por suas produções criar meninos vestidos de mulher rende boas
underground – ou seria melhor dizer udi-grudi gargalhadas, mas o que poderia ser uma discus-
– na noite paulistana, são raramente menciona- são mais profunda sobre papéis sexuais e traves-
dos na mídia da época. Até hoje há que se ten- timento, esvai-se no desfecho menos arriscado
tar montar o quebra-cabeça ou o caminho das de uma comédia despretensiosamente bem
pedras que nos levará aos textos de Darcy Pen- construída. Roberto Gomes e João do Rio são
teado. A engrenagem do meio e Crescilda e os autores que devem ser citados por tangenciar
espartanos, de sua autoria, são tidos como dois em algumas de suas obras para o teatro alusões

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ao tema, mas nunca tratando diretamente do Greta Garbo quem diria acabou no Irajá,
assunto. Preferem sugerir e criar atmosferas na de Fernando Melo, foi um dos grandes sucessos
construção de seus personagens. João do Rio da década de 1970, tendo sido remontada di-
arrisca-se mais ao construir, por exemplo, sua versas vezes em várias cidades do país. Contava
personagem Eva, em peça de mesmo nome, a história de uma bicha velha que acolhe um
com ambígua sensualidade. Em uma das passa- rapaz recém-chegado do interior sem estofo
gens, Eva flerta com Adalgisa Prates, dirigindo- para entender a máquina de moer da cidade
lhe galanteios e elogios à aparência: “Sabes que grande, o Rio de Janeiro. Este homossexual
ficaste mais linda agora à noite?” apaixona-se pelo rapaz e sofre posteriormente
O mapeamento segue esbarrando em per- com o triângulo amoroso formado pelos dois e
sonagens gays presentes na obra de escritores uma prostituta. Muito se fala da construção
consagrados como Nelson Rodrigues (Toda caricatural da bicha nesta peça e mesmo das li-
Nudez Será Castigada, Álbum de Família), Plínio mitações formais de sua escritura, mas em Gre-
Marcos (Navalha na Carne), ou mesmo nas inú- ta Garbo tivemos um protagonista gay assumi-
meras Revistas de Ano. Mas as peças que en- do que foi sucesso de público em várias capitais
frentem as questões do homoerotismo só se fir- do país.
mam na segunda metade do século. Contudo, um grande desserviço a qual-
Antes de discorrermos sobre a produção quer idéia de construção de uma imagem posi-
dramatúrgica, ressaltamos, nos anos 1970, dois tiva do gay em cima dos palcos deste país pode
experimentos marcantes de transgressão: o Dzi ser encontrado nos espetáculos O entendido e O
Croquetes e o Vivencial Diversiones. Os Dzi Cro- unissex, que tinha o sugestivo subtítulo de Uma
quetes surgiram no começo da década de 1970 comédia para rir de costa, ambos protagonizados
no Rio de Janeiro, implodindo com os concei- por Costinha. Escreveu Macksen Luiz, no Jor-
tos de papéis sexuais. Apresentavam-se andro- nal do Brasil de 02/06/79, de forma conclusiva
ginamente no palco, vestidos com símbolos sobre o espetáculo: “na aparente crítica,
masculinos e femininos; barbas e batom, souti- Costinha reforça todos os preconceitos, revelan-
en e cueca. Os Dzi não se diziam engajados à do-se um moralista de atitudes e comportamen-
causa gay, ‘apenas’ defendiam a liberdade de ex- to medievais”.
pressão. Com uma força criativa contestatória, Na outra ponta do iceberg, segue-se uma
eles se apoiavam na tradição antropofágica e fase de tradução de grandes sucessos nos palcos
paródica da revista brasileira e, mesmo sem um mundiais, como Garotos da Banda (Boys in the
discurso organizado e um texto teatral linear, Band), de Mart Crowley, e Bent, de Martin
tornaram-se um marco para liberação gay que Sherman. E artistas como Carlos de Simoni,
se processou em seguida. Ronaldo Ciambroni, Hilton Have, Hugo de La
O Vivencial Diversiones, por outro lado, Santa, Zeno Wilde, Miguel Magno, Elias An-
é um grupo bem menos conhecido. Fundado dreato, Raul Cortez, Maurício Abud e Rubens
em Recife em 1979, seus componentes eram fa- Côrrea desenvolveram espetáculos que discuti-
velados, marginalizados, excluídos, intelectuais e am questões do universo gay e/ou se valiam da
travestis, que encenavam, num pequeno café de arte do travestimento em suas criações. Por
periferia, de gags picantes e números de dublagem exemplo: Terezinha de Jesus, Nossa Sra. das Flo-
a trechos de As criadas de Jean Genet. Tornou-se o res, Donana, Quem tem medo de Itália Fausta,
maior sucesso off-off-Broadway dos palcos nordes- Hello Boy, Giovanni, O beijo da mulher-aranha.
tinos, atraindo o público heterossexual em mas- Há de se mencionar Caio Fernando Abreu.
sa. Sua estética, ao contrário do Dzi, era trash, O homem e a mancha, texto escrito para o tea-
de poucos recursos, da reinvenção da pobreza e tro, dirigido por Luiz Arthur Nunes, e A dama
do lixo, ganhando uma poesia simples e cruel. da noite, adaptação de um conto, dirigido por

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Gilberto Gawronski e Hélio Dias, são exemplos uma herança afetiva entre viúva (ex-mulher) e
de montagens bem-sucedidas da considerável viúvo (ex-namorado) de um mesmo homem.
produção do escritor. Experimentos outros a Em meio a lembranças e comparações de recor-
partir da obra de Caio despontam no histórico dações da vida a dois, descobre-se que a grande
da dramaturgia paulista, como: Morangos mofa- herança deixada pelo morto à ex-mulher era o
dos, com direção de Paulo Yutaka em 1984, e À vírus da Aids, adquirido em suas escapadas
beira do mar aberto, dirigido por Gilberto Gaw- bissexuais durante o tempo em que foram casa-
ronski em 1985. Caio merece maior atenção dos, enquanto o namorado fora protegido e
por se mostrar um dos autores sobre o tema poupado do contágio pelo marido. A bissexua-
mais montados em palcos brasileiros e com vi- lidade e suas armadilhas, a Aids como trator que
sível aceitação de público e crítica. deixou cair o véu da bissexualidade dissimulada
O homem e a mancha trata de um tema e negociada em casamentos aparentemente só-
que vem detonar a dramaturgia gay, a Aids. Aids lidos. Vale lembrar que outro texto de Harvey
que surgiu como uma provação para a comunida- Fierstein, Safe Sex, ainda inédito no Brasil dis-
de gay, solicitando organização e posicionamento. cute as relações dentro da comunidade gay após
De uma hora para outra, os gays viraram mensa- o advento do sexo seguro, instituído pela co-
geiros da praga, arautos do apocalipse, dissemi- munidade gay para sobreviver.
nadores da morte. Muitas fissuras aconteceram Ironicamente, através da dramaturgia so-
internamente no mundo gay. Muitos tiveram bre a Aids cresce a visibilidade em torno do
que sair do armário, a afirmação que vinha cres- mundo gay e sua produção cultural é alavan-
cendo, solidificou-se. Para exigir um posiciona- cada. Os chamados Gay Nineties acolhem uma
mento, era vital esclarecer a população e se for- crescente oferta de títulos sobre o universo gay:
talecer para curar seus doentes. No teatro, Pobre Super-Homem, de Brad Fraser; Espelhos e
surgiram as primeiras Aids Drama, peças sobre sombras, de Avelino Alves; Sereias da Rive Gau-
homossexuais na era pós-Aids, como The Nor- che, de Vange Leonel; Esta noite ouvirei Chopin,
mal Heart, de Larry Kramer, mas o texto precur- de Sérgio Pires; Oscar Wilde, de Oscar Wilde
sor a tratar do tema no Brasil foi Por que eu?, (org. Elias Andreatto); Tango, bolero e chá-chá-
dirigido por Roberto Vignatti e estrelado por chá, de Eloy Araújo; Violeta Vita, de Luiz Ca-
Carlos Augusto Strazzer, ainda na década de 1980. bral; Nocaute, de Cláudia Schapira; Pólvora e
Sucessos nos Estados Unidos, foram en- poesia, de Alcides Nogueira; Vidas calientes, de
cenadas aqui Angels in America e Algo em comum Luque Daltrozo; Risco de vida, de Alberto Gu-
(On Tidy Endings). A primeira, com texto de zik; Deus sabia de tudo e não fez nada, de New-
Tony Kushner, tem como fio condutor da peça ton Moreno; Dilemma, de Kris Niklisson; Es-
um casal norte-americano gay, Louis e Prior, tranho Amor, de Olair Coan; entre outros.
que descobre a Aids. Prior confirma o diagnós- Paralelamente, outra produção, geral-
tico da doença e comunica a Louis, que não mente rechaçada pela inteligentsia gay engajada
consegue conviver com a idéia da perda do continua a demarcar seu terreno. Geralmente
companheiro e do contágio. Louis abandona-o encenada na região mais central da vida notur-
no momento em que Prior mais precisava e car- na paulistana, nos bairros da República, Cen-
rega a culpa por isto. Dentre outras questões, tro, Bela Vista, espetáculos como: Romeu e
como a política da era Reagan no combate a Romeu, Garoto de programa, Garotos da sauna e
Aids, Kushner retrata a crise pela qual passaram outro títulos sugestivos constituem uma oferta
vários casais gays, encurralados com a doença, a mais esteticamente empobrecida.
exposição que ela empunha e o abandono. Ao chegar na década de 1990, sublinha-
Algo em comum, de Harvey Fierstein, le- mos um evento de fundamental importância
vantava outras questões ao pôr em discussão para a explosão destas encenações: o Ciclo de

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A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro

Leituras Dramáticas OffMix 99, promovido É o caso da bem-sucedida versão para os


pelo espaço cultural N.Ex.T e organizado por palcos de Cinderela em Cinderela, uma estória
Celso Curi, em São Paulo. Braço cênico do Fes- que sua mãe não contou, da Trupe do Barulho.
tival de Vídeo e Filmes MixBrasil de Diversida- Montada em Recife no ano de 1991, a peça per-
de Sexual, o OffMix reuniu um série de textos maneceu em cartaz por 10 anos, cumprindo
teatrais inéditos que nos anos seguintes foram temporadas em vários estados nordestinos, Rio
montados, como as já citadas Pobre Super-Ho- de Janeiro e São Paulo. Tornou-se incontestável
mem (Prêmio APCA 2000 de Melhor Direção), sucesso de público, reunindo longas filas às sex-
Risco de vida, Deus sabia de tudo e não fez nada, tas e sábados, à meia-noite, no Teatro Valdemar
Pólvora e poesia (Prêmios Shell 2002 de Melhor de Oliveira (paradoxalmente, berço do mais tra-
Texto, Ator e Autor) e As sereias da Rive Gauche. dicional e antigo grupo teatral de cidade, o TAP,
A peça Vidas calientes, do curitibano Luque Dal- Teatro de Amadores de Pernambuco).
trozo, que esteve em cartaz em 2001, também Como o próprio grupo definia no pro-
foi anteriormente lida num embrião do Off- grama: “Cinderela é uma empregadinha que
Mix, no evento de 1998 do MixBrasil. sonha encontrar seu príncipe num show de du-
Vange Leonel, com As sereias da Rive blagens”.
Gauche, apareceu na mostra como única repre- Não há atrizes em cena. Cinderela, Ma-
sentante feminina. Tratava-se de uma peça com drasta, Irmãs, Fadas, todas as personagens femi-
forte pesquisa sobre sete mulheres lésbicas na ninas são defendidas por atores e até mesmo o
França dos anos 1920, e continha citações de príncipe nos é apresentado com longos cachos
textos de Radclyffe Hall, Djuna Barkes e Natalie dourados, frágil compleição e trejeitos bem
Barney. Mesmo em menor número, as meninas efeminados. Uma grande fantasia gay, onde a
estiveram representadas nos palcos paulistas em única intervenção mais máscula surge em off, na
belas montagens como: Violeta Vita, de Luiz voz do Rei, que exige que o príncipe escolha
Cabral, Um Porto para Elizabeth Bishop, de Mar- uma companheira.
ta Góes (indicado ao Prêmio Shell 2002 de O grupo define a peça como um dos clás-
Melhor Texto), e Sappho de Lesbos, de Ivan sicos do besteirol pernambucano. Sem avançar
Cabral e Patricia Aguille. em questões sobre os limites desta dramaturgia,
Em temporada relâmpago no Festival de ou de críticas à paródia, o que impressiona em
Curitiba de 2001e no SESC Ipiranga em São Cinderela é a construção das personagens, o po-
Paulo, assistimos a Dilemma, de Kris Niklison. der de comunicação e improviso de seus intér-
O espetáculo, construído com técnicas circen- pretes; e a incrível legião de fãs do espetáculo
ses de trapézio, representava um grande metá- que enfrenta filas, leva familiares, maridos, es-
fora do risco e delícia de se experimentar um posas, mães, sogras para assisti-lo. Um terreno
grande amor. Na peça, entre duas mulheres. em que a homossexualidade acontece livre de
Fora do eixo Rio-São Paulo, no Nordeste imprecações. A arte do travestimento parece
brasileiro proliferam criações cênicas calcadas na aqui redimir aqueles artistas de suas verdadeiras
arte do travestimento, geralmente formadas por opções sexuais. Essa platéia ávida pelo entrete-
cômicos ágeis, mestres na arte do improviso e nimento proposto por um grupo de homens
nos números de platéia. Algumas dessas mon- vestidos e caracterizados como mulher nos faz
tagens apresentam versões paródicas de ‘clássi- retornar à origem do teatro, onde papéis femi-
cos’ da dramaturgia e literatura mundiais. Gru- ninos eram interpretados por homens.
pos como A Trupe do Barulho, em Recife, a No próprio Carnaval de rua essa tradição
Companhia Baiana de Patifaria, em Salvador, e se mantém mais forte e presente. Inúmeros blo-
artistas como Ciro Santos e Antônio Fernandes, cos são compostos integralmente por homens
em Fortaleza, alimentam-se desta tradição. vestidos de mulher, geralmente satirizando

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acontecimentos marcantes. Como era feito nas drag-queens e transformistas agradam com seus
Revistas de Ano. Os mais famosos deles são As números de platéia e dublagens.
Virgens de Olinda, que tomam as rua da cida- Nanny People, drag-queen famosa no
de histórica para anunciar o início da festa mo- mundo gay paulista, pôde ser vista no espetácu-
mesca, e seu dissidente As Virgens de Verdade. lo Um homem é um homem, de Bertolt Brecht,
A Cia. Baiana de Patifaria representa um com direção de Marcelo Fonseca. Antes dela, os
outro parâmetro de análise. Fundada na década travestis Rogéria e Claúdia Wonder arrancaram
de 1980, tem o melhor histórico comercial, elogios por suas interpretações em, respectiva-
constituindo-se num verdadeiro sucesso de mente, Gay Fantasy e Nossa Senhora das Flores.
marketing para um grupo de artistas que se Rogéria recebeu inclusive uma indicação ao prê-
travestem em cena, assumindo papéis femini- mio Molière de Teatro como Melhor Atriz.
nos e masculinos. Seus textos não trazem ne- Nanny, Rogéria e Cláudia realizaram com sucesso
nhuma discussão objetiva sobre a homossexua- o trânsito entre o terreno alternativo para expe-
lidade, constróem o espetáculo na excelência da rimentos dentro de montagens profissionais de
arte do travestimento, na capacidade de impro- teatro, reconhecidas pela classe e pelos críticos.
viso de seus integrantes e na roupagem dinâmi- Assim como no caso da trajetória destas
ca para clássicos do besteirol. Marcam contem- artistas, é possível vislumbrar desdobramentos
poraneamente a mais rentável experiência do para todo este generoso universo da cena gay
travestimento cênico e a aceitação definitiva por no Brasil. Na pesquisa, arrisco-me a ser seduzi-
parte do grande público. Assim como uma sé- do pelo estudo mais acurado da arte do
rie de comediantes cearenses que lotam as casas travestimento dos primeiros atores dos palcos
de espetáculo da cidade com espetáculos como brasileiros. Quem foram ‘essas grandes atores’
Titia te ama, meu amor, de Ciro Santos, Três que atravessaram a época de Martins Pena, de
donzelas e uma comédia, de Paulo Diógenes, ou Miguel Magno e desembocaram nas divertidas
mesmo na versão irreverente de Dona Flor e seus encenações da Cia. Baiana de Patifaria? Sem
dois maridos, de Jorge Amado, tendo a persona- mencionar o travestimento como artifício dra-
gem Skolástica, criação do ator Antônio Fern- matúrgico, geralmente cômico, presente em As
andes, no papel consagrado por Sônia Braga. desgraças de uma criança, de Martins Pena, por
Em espaços não convencionais, o teatro exemplo.
gay teve duas montagens de pouca repercussão Não me furto também a desenvolver um
que não lograram êxito em suas bem-intencio- profundo interesse por uma outra construção
nadas tentativas de levar um texto teatral den- dramatúrgica presente na cena gay noturna: o
tro da boate So-Go, nos Jardins em São Paulo. performer da boate que cria o seu texto, os seus
Espelhos e sombras, com texto de Avelino Alves e lazzi, suas gags, dublagens, roteiros, piadas, nú-
dirigido por Alexandre Roit, contava a história mero de platéia, enfim toda uma rede de signi-
de um homem atormentado pelos fantasmas de ficados que se constrói neste universo, o qual
sua mal-resolvida sexualidade. O outro experi- denomino de ‘o texto da noite’. Evidencio ain-
mento foi a montagem brasileira de The Night da, num último parágrafo, a necessidade de se
Larry Kramer Kissed Me, de David Drake, aqui olhar para o fenômeno da ‘drag-queen’ como
intitulada Atitude, dirigida por Marco Antônio um estudo de máscaras contemporâneas.
Pâmio e estrelada por Roberto Rocha. Ambas E, por fim, rendo meu último capítulo a
sem grande retorno de público e crítica, não ti- uma aproximação possível do Vivencial Diversio-
veram longa vida, indício que o público que ali- nes, visto que trabalho com um grupo extinto e
menta a noite gay paulistana não se interessa por cujos últimos membros residem todos em Reci-
uma produção cultural mais reflexiva. Vale lem- fe, no Nordeste brasileiro. Esta experiência é da
brar que nestas mesmas boates, outros artistas, maior transgressão, da mais radical provocação

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A máscara alegre: contribuições da cena gay para o teatro brasileiro

ao juntar os excluídos para que eles respondam Almeida, que apresentou seu texto Ardor na
à sociedade, criando beleza. Mais: produzindo Mostra Fringe da última edição do Festival de
uma arte que não nega quem eles são, que não Curitiba de 2002. Cláudia Schapira, que volta
fantasia quem eles são. Um arte à margem que a despontar como a mais eminente dramaturga
se utiliza dos restos, do ‘pouco’, do lixo para criar. sobre o universo gay, escreveu, em 2002, Bruta
E que dá, por exemplo, ao travesti e ao tran- Flor, ainda inédito.
sexual a possibilidade de ser um artista. Não ape- Nesta lista, incluo Newton Moreno, que
nas manicure, cabeleireiro ou prostituto, oferece após seu primeiro texto Deus sabia de tudo e não
uma outra imagem possível para uma das mais fez nada, apresenta este ano os textos Dentro,
desgastadas figuras do universo gay, a traveca. na Mostra de Dramaturgia Contemporânea do
Temos que concluir sinalizando os novos SESI, e Agreste, ainda sem data de estréia.
autores teatrais que reafirmam seu interesse em Ao que parece, finalmente a dramaturgia
pesquisar esta inquieta dramaturgia gay. Sérgio gay ‘saiu da gaveta’ e veio para assumir seu lu-
Pires, formado pela Escola Livre de Santo gar, com um farto leque de abordagens. Mas
André, no ABC paulista, fortalece seu olhar para uma questão crucial é a compreensão de que a
o mundo gay em textos como Esta noite ouvirei construção da discutida ‘identidade gay’ pare-
Chopin. Antônio Rogério Toscano estréia este ce-me infrutífera. Deve-se falar em identidades,
ano Leo não pode mudar o mundo, de indisfar- sexualidades. Não se pode aprisionar a diversi-
çada inspiração na obra de Leonilson, para falar dade. Ainda mais nesse momento em que a co-
do amor gay entre adolescentes. De sua autoria munidade gay experimenta a visibilidade e se
ainda permanecem inéditas O leopardo e Vênus expõe em toda sua complexidade de relaciona-
em fúria. Luque Daltrozo promete ainda para mentos, práticas e famílias. E, ao se expor, a
2002 a montagem de O beijo do escorpião, lide- identidade gay se modifica. Sexualidade em
rando uma lista de outros autores curitibanos ebulição. Constrói-se e reconstrói-se. Dia a dia,
que escreveram sobre o tema, como César de público a público.

Referências bibliográficas

DOLAN, Jill. Presence and Desire: essays on gender, sexualty, performances. Michigan: University
of Michigan Press, 1993.
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