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ANTROPOLOGIA

E SOCIOLOGIA
JURÍDICA
Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI

Estudo Transversal

ANTROPOLOGIA E SOCIOLOGIA JURÍDICA


Autor: Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner

UNIASSELVI
Indaial - 2021
Estudos Transversais

Índice “A Sociedade evolui através de diálogo e de leis”.


Talcott Parsons
1 INTRODUÇÃO

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU


1 INTRODUÇÃO
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL O texto que segue é uma definição introdutória e ensaística sobre a impor-
tância da sociologia e da antropologia jurídicas. Deve interessar principalmente
3 CIÊNCIA JURÍDICA aos estudantes de Direito e de Ciências Sociais, pelo status curricular que essas
áreas do conhecimento têm na formação desses estudantes. A importância des-
sas disciplinas se concentra no seu principal objetivo metodológico e cognitivo,
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
qual seja: o de demonstrar as relações de causa e efeito, de origem e consequ-
ências entre a lei e a sociedade. Por ter origem e consequências na sociedade,
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO o Direito é, numa expressão, um fato social.

Para demonstrar essa assertiva, recorremos ao apoio conceitual de alguns


REFERÊNCIAS
autores da Filosofia e das Ciências Sociais, incluindo o Direito. Vão desde Mon-
tesquieu, Tocqueville, Durkheim e Weber, passando por Podgórecki e Gurvitch,
Miranda Rosa, Rawls, Deflem e Geertz, entre outros, até DaMatta e Faoro. É cla-
ro, o fizemos de maneira absolutamente sumária, nos limites desta abordagem

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Índice introdutória. Todos nos permitiram


demonstrar o mencionado objetivo
1 INTRODUÇÃO
metodológico e cognitivo da Socio-
logia e da Antropologia do Direito:
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU demonstrar o Direito como fato so-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL cial.

Para que esta afirmação não


3 CIÊNCIA JURÍDICA
pareça muito óbvia ou mesmo es-
tranha, promovemos a distinção
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA conceitual tripartite entre: 1) o Di-
reito doutrinário, formal e literal;
2) a Filosofia do Direito, de cunho
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
ético e valorativo; e 3) a Sociologia
do Direito, incluindo a Antropolo-
REFERÊNCIAS gia, essas duas últimas imbuídas da
presunção científica de mostrar o
que o Direito é de fato. Na perspec-
tiva de todos os autores que preco-

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Índice nizam a utilidade dessas disciplinas, sua função é detectar as fontes sociais de
toda a ordem na formulação das leis e as consequências que as leis, mutuamen-
1 INTRODUÇÃO te, acarretam e sofrem novamente.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Por sua vez, as distinções entre a Sociologia do direito e a Antropologia do
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
Direito não são evidentemente radicais, ao contrário, elas vêm da mesma raiz.
Seus objetos com frequência se confundem, assim como seus métodos teóricos
e a presunção científica de obter a melhor compreensão possível do fato. Nou-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
tras palavras, a presunção científica está em ver as coisas além da letra, da regra
formal. É questionar seus significados, tentando ver as leis como elas são, por
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA que são como são e não as aceitando dogmaticamente, nem presumindo como
deveriam ser, segundo critérios éticos e morais.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Nessa ótica, o estudo sociológico e antropológico do Direito pode apre-
sentar uma dupla vantagem. Primeiramente, o conhecimento resultante dessas
REFERÊNCIAS áreas do conhecimento leva a um entendimento mais amplo da norma jurídica,
permeada por cultura e interesses. Em segundo lugar, por causa dessa ampli-
ficação interpretativa, ajuda a disseminar a importante percepção de que os
problemas de uma sociedade estão, com frequência, nas leis e a solução desses

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Índice problemas também. Disseminado socialmente, esse entendimento tem a ver


com as aspirações civilizatórias de uma nação.
1 INTRODUÇÃO

É o que se pretende insinuar aqui.


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU SOCIOLOGIA


3 CIÊNCIA JURÍDICA
JURÍDICA): FATO SOCIAL
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA Para que tenhamos uma compreensão inicial do que significa uma Socio-
logia do Direito (ou Sociologia Jurídica), recorramos, inicialmente, ao mais im-
portante conceito do pensador francês Emilie Durkheim (1858-1917), um dos
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
fundadores da Sociologia e, também, inspirador do surgimento da Sociologia
do Direito. Trata-se do conceito de “fato social”, e o direito é um fato social na
REFERÊNCIAS melhor expressão de seu significado geral. Então precisamos, desde já, lembrar
o significado de fato social.

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Índice Na acepção clássica durkheimniana, fato social é o produto das relações


sociais. Exerce coerção sobre os comportamentos dos indivíduos, influenciando
1 INTRODUÇÃO
suas escolhas, seus juízos sobre as coisas e, evidentemente, orientando suas
ações. Em outras palavras, fato social é toda a instituição formal (leis e normas
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU prescritivas) ou informal (valores e costumes) que os seres humanos geram, ao
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL longo do tempo, que autorizam, incentivam, restringem ou coíbem as ações
humanas, determinando as regras de convívio social.

3 CIÊNCIA JURÍDICA
Os fatos sociais têm três características básicas, quais sejam: 1) são exte-
riores aos indivíduos, portanto, não nascem com os indivíduos; 2) são anterio-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA res aos indivíduos, isto é, já existiam antes de cada um de nós nascermos; e 3)
têm poder coercitivo sobre os indivíduos, influenciando-os. Então, fato social
é algo que existe sem que seja inerentemente criado por qualquer indivíduo
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
isolado, além de já estar definido antes de sua existência e que tem o poder de
direcionar suas escolhas e ações.
REFERÊNCIAS
Ora, o direito tem precisamente tais características, ou seja, é uma criação
coletiva, histórica e dialógica de longo tempo e exerce coerção sobre os indiví-
duos que tendem a ser recompensados ao seguirem as orientações das insti-

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Índice tuições pré-estabelecidas ou punidos ao se recusarem a fazê-lo. Assim como a


religião, a família, a educação, a política, a economia, entre outras instituições,
1 INTRODUÇÃO
também a justiça é, em cada sociedade, uma instituição social, configurando
um fato social. São os fatos sociais que constituem a consciência coletiva.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Nessa perspectiva, precisamos insistir: o fato social é algo que independe
das vontades individuais. Ao contrário, exerce coerção, isto é, coage os indivídu-
os a agirem de certos modos, seguindo determinados caminhos, fazendo esco-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
lhas, de acordo com a força do fato social. A força do fato social está na coesão
social, isto é, na necessidade que indivíduos em coletividade têm de estabele-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA cer e seguir regras como a condição essencial para que haja a mínima harmonia
necessária que, de modo geral, beneficia a todos.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Se admitimos que o direito é um fato social, anterior, exterior e coerciti-
vo, além de independente das vontades dos indivíduos, então aceitamos que
REFERÊNCIAS o Direito funciona como um condicionante dos comportamentos individuais.
Todavia, não podemos tratar os fatos sociais como algo vindo do nada ou sim-

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Índice plesmente de uma consciência divina. Não! O direito, como todo o fato social,
é uma construção humana em sociedade e existente em todas as sociedades
1 INTRODUÇÃO
humanas, pela necessidade básica de indivíduos viverem coletivamente.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU O que precisamos deixar claro é que as leis não se originam da inteligência
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL de um indivíduo isoladamente. São sempre uma construção coletiva, de longo
tempo, que atravessa gerações e muda conforme as necessidades e demandas
que surgem em sociedade. Nesse sentido, como sugere o jurista brasileiro Feli-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
pe Augusto de Miranda Rosa (2009), a norma jurídica é o “reflexo da realidade
social”. É assim que se entende contemporaneamente o Direito, isto é, como
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA um fato invariavelmente social.

Portanto, toda a lei expressa uma vontade coletiva, isto é, uma força co-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
ercitiva que induz os indivíduos a agirem de determinada maneira. As leis mais
universais são aquelas que, em geral, são as mais facilmente aceitas, por ex-
REFERÊNCIAS pressarem necessidades e desejos da vontade geral, isto é, da maioria. Isso não
exclui o fato de que muitas leis vigoram por força da imposição (autoritária) ou
da influência política (democrática) de determinados grupos sociais e expres-
sam, implicitamente, as vontades desses grupos.

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Índice Então, ainda que se admita que o direito é uma representação geral que
incorpora diferentes forças, com distintos pesos, ainda assim, é um instrumento
1 INTRODUÇÃO
existente em todas as sociedades, cuja função geral é o controle social. Desse
modo, a lei é uma expressão dessas forças sociais em disputa pelo poder, mas
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU também em acomodação do poder, refletindo os objetivos filtrados da socie-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL dade como um todo. Embora a distribuição do poder seja desigual, tende à
estabilidade mínima. Ainda que minimamente estável, o Direito moderno não é
estático, já que as sociedades são dinâmicas.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Essa configuração social, que a norma jurídica institucionaliza formalmen-


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA te, é o objeto de estudos da Sociologia Jurídica. Para ser mais exato, o objeto da
Sociologia do Direito é justamente toda a relação existente entre as demandas
da sociedade em disputa e acomodação e a norma jurídica. Então, o direito é
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
um fato social porque expressa a realidade social, regulando-a, transformando
em lei prescritiva o resultado de suas disputas e acomodações para o controle
REFERÊNCIAS e equilíbrio sociais.

Para o sociólogo polonês Adam Podgórecki (1925-1998) fundador do Cen-


tro de Pesquisas Jurídicas da Universidade de Varsóvia, a Sociologia Jurídica tem
a tarefa de:

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Índice Não apenas constatar, formular e verificar as inter-relações gerais do direito


com outros fatores sociais [...], mas também tentar e construir uma teoria ge-
ral para explicar os processos sociais em que o direito está envolvido e, dessa
1 INTRODUÇÃO maneira, ligar essa disciplina ao bojo do conhecimento sociológico (MIRANDA
NETO et al., 1986, p. 1160).

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU


SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO Por sua vez, para o filósofo do direito e sociólogo russo Georges. D. Gurvi-
SOCIAL tch (1894-1965), a Sociologia do Direito é:

A parte da sociologia do espírito humano que estuda a completa realidade so-


3 CIÊNCIA JURÍDICA cial do direito, começando por suas expressões tangíveis e externamente ob-
serváveis em comportamentos coletivos efetivos (organizações cristalizadas,
práticas costumeiras e tradições ou inovações de comportamento) e na base
material (a estrutura espacial e a densidade demográfica das instituições jurídi-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA cas) (MIRANDA NETO et al., 1986, p. 1161).

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Nessa perspectiva, é importante não perder um detalhe fundamental a defi-
nir a Sociologia Jurídica, coisa que esses autores não ignoram: é que o Direito é, ao
mesmo tempo e o tempo todo, uma expressão da realidade social e um indutor de
REFERÊNCIAS comportamentos sociais com fins de integração social (ANTONOV, 2014). Isso é, ao
mesmo tempo que a fonte da norma jurídica é a sociedade, a norma jurídica é fonte
comportamental da sociedade. Por um lado, como disse Montesquieu (1689-1755),
bons homens fazem boas leis e, na sequência, boas leis formam bons homens.

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Índice Naturalmente, devemos ad-


mitir que parte dos estudos do
1 INTRODUÇÃO
Direito não esteja diretamente
voltado às relações da lei com a
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU sociedade. É possível dizer que o
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL maior esforço cognitivo dos ope-
radores do direito esteja na com-
preensão objetiva e literal das leis,
3 CIÊNCIA JURÍDICA
o que é evidentemente necessá-
rio. Os efeitos práticos do direito
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA impelem a esse esforço, enten-
dendo o direito como um conjun-
to normativo com uma lógica de
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
consequências que precisam ser
compreendidas no próprio inte-
REFERÊNCIAS rior do sistema (a lei como ela é,
literalmente).

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Índice Essa necessidade de estudar a letra em si, de conhecer o que a lei for-
malmente diz que deve, pode e não pode ser feito, é o que autores, como o
1 INTRODUÇÃO sociólogo e jurista escandinavo Alf Ross, denominam de estudo doutrinário da
lei. É quando o investigador da norma jurídica (um advogado, um jurista ou um
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU estudante de direito) lê a lei de forma estritamente doutrinária, querendo en-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL tendê-la literalmente no seu sentido arbitrário, não se importando em estudar
seus fundamentos, nem a questionando moralmente (ROSA, 2009).

3 CIÊNCIA JURÍDICA

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
2.1 PARA ALÉM DO DOGMA

É assim que se procede do ponto de vista pragmático em relação às leis.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Admitindo seu poder coercitivo e punitivo, é natural que saibamos o que ela
quer dizer na prática, a fim de poupar incômodos. No entanto, Alf Ross afirma
que, do ponto de vista da “Ciência Jurídica”, “[...] o estudo doutrinário da lei ja-
REFERÊNCIAS
mais pode ser separado da Sociologia do Direito”, porque a doutrina jurídica – e
sua “ideologia” –, “é sempre uma abstração da realidade social” (ROSA, 2009,
p. 32).

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Índice Assim, é importante que, para uma formação jurídica sólida, o estudioso
do direito ambicione ter o conhecimento de um legislador e não apenas de um
1 INTRODUÇÃO
despachante. Nessa direção, o jurista brasileiro Felipe Augusto de Miranda Rosa
observa que Ross nos ajuda a entender que esse é um dos maiores desafios do
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Direito contemporâneo, qual seja, justamente, o de entender o Direito como
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL fato social que é, e “não apenas como um conjunto de normas que formam um
sistema lógico, disciplinador da vida em sociedade” (ROSA, 2009, p. 32).

3 CIÊNCIA JURÍDICA
Nessa direção, é necessário lembrar de uma distinção progressivamente
estabelecida durante o século XX no Direito. Tem a ver com a evolução do Direi-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA to e sua própria presunção científica, isto é, seu reconhecimento como Ciência
Jurídica. Trata-se da diferença entre a doutrina jurídica (ou o Direito Normativo
e dogmático) e a Filosofia do Direito e a Sociologia Jurídica. São três disciplinas
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
que têm o mesmo objeto, qual seja, o fenômeno jurídico. No entanto, essas
disciplinas estudam o fenômeno por ângulos diversos.
REFERÊNCIAS
O Direito Normativo estuda o fenômeno na perspectiva de suas normas es-
pecíficas, da letra em si, isto é, do que especificamente diz a lei. O objetivo é com-
preender as normas estritamente no interior do sistema jurídico, ou seja, dentro

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Índice da ordem jurídica. Trata-se de saber o que a lei quer dizer e não o porquê de sua
existência, qual sua origem, a quem interessa e outros significados subjacentes.
1 INTRODUÇÃO
A preocupação está em averiguar sua coerência lógica com o sistema e, por sua
natureza dogmática e normativa, em apreendê-la no seu aspecto doutrinário.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Por sua vez, o objetivo da Filosofia do Direito está no exame dos funda-
mentos ontológicos e da natureza filosófica do fenômeno. Busca compreender
e justificar a lei no sentido de afirmar a sua necessidade vital. Em outras pala-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
vras, a Filosofia do Direito está profundamente vinculada aos juízos de valor, à
ética e à moral. Nisso, busca os fundamentos do Direito em princípios essenciais
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA como o bem e o mal, o amor, o senso de justiça, a fraternidade, a igualdade etc.

É nessa perspectiva que, por exemplo, o referenciado filósofo do Direito


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
John Rawls (1921-2002) desenvolveu suas reflexões. Podemos lembrar de Ma-
chiavel, Hobbes, Rousseau, Kant e Hegel, entre outros, o que nos daria uma
REFERÊNCIAS indicação dos primeiros passos da Filosofia do Direito. Não obstante, frisamos
o nome de Rawls pela incidência de seu nome vinculado às teorias contempo-
râneas da justiça. É dele a concepção de que o Direito é “a estrutura básica” de
instituições que, por intermédio dos direitos e deveres assegura a base da coo-
peração social (SILVA, 1998).

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Índice O filósofo estadunidense John Rawls é um dos nomes mais lidos na Filoso-
fia do Direito contemporânea.
1 INTRODUÇÃO
FIGURA 1 – UMA TEEORIA DA JUSTIÇA

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU


SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL

3 CIÊNCIA JURÍDICA

FONTE: <https://binged.it/39GaQqg>. Acesso em: 3 dez. 2020.


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

Ontologia: estudo a compreensão da origem e constituição do ser, isto é,


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO do que os seres são na sua essência, para além das aparências e da própria
constituição social. É o estudo de caráter metafísico, anterior ao sociológico.

REFERÊNCIAS
Já, a Sociologia do Direito estuda a lei ou o caso jurídico como um fato da
vida social, de uma maneira pretensamente imparcial. Alegoricamente, pode-
-se dizer que o olhar sociológico sobre o Direito é, ou pretende ser, o olhar do
cientista diante do objeto, procurando decifrá-lo, estabelecendo causas e con-

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Índice sequências sociais. É seu objetivo, por exemplo, analisar as situações de crime
não de um ponto de vista individual, psicológico, moralista ou legal. O interesse
1 INTRODUÇÃO é, simplesmente, demonstrar as relações de causa e efeito do fenômeno com a
sociedade.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
Portanto, a Sociologia Jurídica é o olhar “de fora” sobre a ordem jurídica.
Isso não quer dizer que haja garantias de que o sociólogo (ou a Sociologia do
Direito) assegure completa imparcialidade (neutralidade) com relação ao ob-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
jeto que analisa. A pretendida objetividade científica nas Ciências Humanas e
Sociais é sempre questionável e, em se tratando do fenômeno jurídico, isso é
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA ainda mais necessário. Se há uma possibilidade de se obter um entendimento
científico e não meramente dogmático ou valorativo do fenômeno, é preciso
estudá-lo sociologicamente.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

Nessa perspectiva, o jurista belga Edmond Jorion (1917-2002) assevera


REFERÊNCIAS que Sociologia do Direito e Ciência do Direito são a mesma coisa (ROSA, 2009).
Isto é, não é possível falar em ciência das leis sem fazer a indispensável relação
de causa e efeito entre o Direito e a Sociedade, tratando o Direito como um fato
social. Assim, vale reconhecer a divisão anterior entre o que é o dogma, a filo-

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Índice sofia e a ciência. Não obstante, a afirmação de Jorion coincide com a aceitação
crescente da ideia de que não é possível estudar cientificamente o Direito sem
1 INTRODUÇÃO a Sociologia.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU O fato é que, do ponto de vista da constituição da Sociologia do Direito,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
a relação sinérgica entre o Direito e a Sociologia e o lugar da norma jurídica na
Sociedade tornou-se um campo das ciências desde os esforços notáveis de Max
Weber (1864-1920) e Émile Durkheim (1858-1917), os fundadores da “Ciência
3 CIÊNCIA JURÍDICA
da Sociedade”. Lembremos a importância de outro clássico fundador da Socio-
logia, o alemão Karl Marx (1818-1883), que também tratou o Direito como um
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA objeto exclusivamente relacionado às forças sociais e que refletia, segundo ele,
os interesses das classes dominantes na sociedade.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Embora possa parecer óbvia, essa relação de origem e consequência entre
o Direito e a sociedade não faz parte do senso comum. No entanto, essa relação
REFERÊNCIAS é tão profunda e esclarecedora quanto necessária à formação jurídica. Essa é
a função da Sociologia do Direito, ou seja, interpretar amplamente as leis e as
mais variadas situações do direito, promovendo a relação da lei com o fenôme-
no jurídico, invariavelmente originário das estruturas sociais e ao mesmo tem-
po interferente na Sociedade.

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Estudos Transversais

Índice
2.2 UMA RETROSPECTIVA HISTÓRICA: UMA
1 INTRODUÇÃO DEFINIÇÃO PARA ALÉM DO DOGMA

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Conquanto, os fundadores da Sociologia citados anteriormente, além dos
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO precursores como Montesquieu e outros tenham estudado as relações entre lei
SOCIAL
e sociedade, foi somente após a Segunda Guerra Mundial – principalmente nos
EUA –, que surgiu um movimento sociológico no Direito acadêmico. Esse movi-
3 CIÊNCIA JURÍDICA mento foi um esforço de pesquisadores do Direito, mais que da Sociologia, que
inauguraram uma tradição de jurisprudência sociológica a fim de demonstrar
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA tanto a influência da norma jurídica na Sociedade, quanto a interferência dos
fatos sociais no fenômeno jurídico (DEFLEM, 2008).

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Nesse sentido, estavam preocupados em ir além dos limites técnicos do
dogmatismo jurídico, aprofundando a investigação até os fundamentos teóricos
do Direito, através das Ciências Sociais. Nesse sentido, acabaram reascendendo o
REFERÊNCIAS
interesse de sociólogos, retomando o esforço dos clássicos de estudar o Direito.
A partir dos anos 1970, esse movimento dos sociólogos tornou-se mais intenso e,
com isso, a moderna Sociologia do Direito se afirmou como disciplina específica
interdisciplinar, ampliando o leque cognitivo da Sociologia e do Direito.

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Estudos Transversais

Índice Isso contribuiu para que outras ciências sociais desenvolvessem aborda-
gens para o estudo do Direito, trazendo várias e novas perspectivas das Ciên-
1 INTRODUÇÃO
cias Sociais e Humanas, permitindo um ambiente de interdisciplinaridade que
trouxe amplos benefícios à Sociologia como ao Direito. Este desenvolvimento
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU permitiu um movimento de absorção da Sociologia para dentro do Direito. Não
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL obstante, também trouxe o Direito para as Ciências Sociais, aprofundando o in-
teresse investigativo e de pesquisa empírica não apenas na Sociologia, mas na
Antropologia e na Ciência Política.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Na própria definição moderna sobre o Direito, sedimentada durante o sé-


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA culo XX, a concepção sociológica está inerente aos seus significados. Em seu
Dictionary of Sociology, Fairchild (1944) define o Direito como “aquilo que qual-
quer unidade social, indivíduo ou grupo, está autorizado a esperar de seu meio
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
social, de acordo com as normas da sociedade em causa”. Ou seja, é dizer, em
outras palavras, que o Direito emana da Sociedade, assim como os indivíduos
REFERÊNCIAS que constituem a sociedade tem o Direito como referência para suas ações.

A Sociologia Jurídica entende que o Direito é uma área do comportamento nor-


mativo. Nessa perspectiva sociológica, a norma é sempre uma norma moral e os atos

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


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Estudos Transversais

Índice jurídicos são atos morais (lembrando que moral significa literalmente o conjunto de
valores, costumes e hábitos de cada Sociedade). Nos dizeres de Durkheim (1966, p.
1 INTRODUÇÃO
8 apud MIRANDA NETO et al., 1986, p. 352), “os atos morais são normas de conduta
sancionadas. A sanção é a característica geral de todos os atos desse tipo”.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Nessa perspectiva, vale mencionar a definição do sociólogo e jurista esta-
dunidense William Graham Sumner (1840-1910), que apresenta o Direito como
tendo “raízes nos folkways. Não se encontra fora deles. Não é de origem in-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
dependente e não pode ser aplicada aos folkways para comprová-los. Neles
está sempre o direito” (MIRANDA NETO et al., 1986, p. 352). Lembrando que
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA folkways é termo empregado para se referir aos costumes, Sumner adverte que
os costumes precedem as leis.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Em oposição, franca à Filosofia do Direito e ao Direito doutrinário, o sociólogo
alemão René Konig (1906-1992) critica a percepção reducionista de que as normas es-
REFERÊNCIAS tariam estritamente vinculadas à esfera do direito e da educação formal. Para ele, as
normas estão inseridas em um contexto bem mais abrangente dos costumes e regras
sociais, em que a norma jurídica representa apenas um “capítulo importante, é verda-
de, mas um entre muitos” (KONIG, 1959 apud MIRANDA NETO et al., 1986, p. 352).

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Estudos Transversais

Índice Por fim e ao cabo dessas definições preliminares, vale usar a explicação
da importante Encyclopedya Britannica sobre o significado de law, segundo a
1 INTRODUÇÃO
qual, Sociologia da lei é “a disciplina e também a área profissional preocupada
com os costumes, práticas e regras de conduta de uma comunidade, que são
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU reconhecidas como vinculativas pela comunidade. A aplicação do conjunto de
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL regras ocorre por meio de uma autoridade de controle” (BRITANNICA, c2020a).
Nessa perspectiva, fica evidenciada a concepção contemporânea e eminente-
mente sociológica do Direito.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

FIGURA 2 – DANE HALL, A HARVARD LAW SCHOOL (1845)

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

FONTE: <https://bit.ly/2JHi9TN>. Acesso em: 3 dez. 2020.

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Estudos Transversais

Índice O retorno aos clássicos e à tradição de pensarem interdisciplinarmente foi


determinante para a formação da Sociologia Jurídica que, como vemos, deve
1 INTRODUÇÃO
muito à Émile Durkheim, mas também deve a Max Weber, que, em Economia
e Sociedade, dedicou um capítulo gigantesco à Sociologia do Direito. Estudou
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU o direito primitivo de vários países (Inglaterra, França, Alemanha e China, mas,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL sobretudo, o Direito Romano). Do mesmo modo que Durkheim, em Regras ele-
mentares da vida religiosa, Weber foi buscar nas “crenças mágicas” a primeira
fonte do direito (WEBER, 1999, p. 5).
3 CIÊNCIA JURÍDICA

O sociólogo alemão investigou a conformação das leis a partir dos cos-


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA tumes, procurando entendê-las na sua essência. De modo geral, ele demons-
trou categoricamente a diferença entre essa especialidade científica e o Direi-
to doutrinário. Sem qualquer distinção de ordem hierárquica, Weber indicou
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
a complementariedade entre essas disciplinas, para, em seguida, afirmar que
enquanto o Direito doutrinário é um sistema lógico e organizado, sua origem
REFERÊNCIAS está na sociedade, tanto quanto sua eficácia depende dela.

Especificamente, seguindo a tipologia baseada no trabalho epistemológi-


co de Weber, o Professor Anthony Kronman (1945-), da Universidade de Yale,

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23
Estudos Transversais

Índice lembra as três abordagens típicas para o estudo do direito. Primeiramente, na


perspectiva interna do direito, Max Weber destaca o Direito em seus termos
1 INTRODUÇÃO
doutrinários (ou dogmáticos). Como já vimos, nesse caso, estuda-se o Direito
em seus termos próprios, como parte do funcionamento da norma jurídica. É
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU a lei do ponto de vista técnico, compreendida no “pé da letra”, relacionada so-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL mente ao próprio código legal (KRONMAN, 1983, p. 8-14).

Transcendendo a mera letra da lei, temos a perspectiva filosófica e éti-


3 CIÊNCIA JURÍDICA
co-moral do Direito. Como explica Weber, aqui se pretende identificar a justi-
ficativa ética ou moral da lei e, por extensão, promover a crítica às condições
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA legais existentes em relação às demandas materiais e imateriais dos indivíduos.
A Filosofia do Direito nos ajuda a pensar o Direito em termos de questionar seu
sentido, na medida em que o objetivo ético da lei deveria ser sempre o de pro-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
mover a justiça e o bem-estar social.

REFERÊNCIAS Na terceira perspectiva weberiana, trata-se de investigar a lei a partir de


um olhar absolutamente externo a ela. Isso requer o estudo empírico do Direi-
to, isto é, de estudar a lei como objeto, comparando-a com outras leis e esta-
belecendo todo tipo de relação com a sociedade e seus múltiplos interesses e

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


24
Estudos Transversais

Índice disputas de poder. Aqui se estabelecem os vínculos históricos de toda ordem,


sejam econômicos, culturais, políticos, educacionais e ou psicossociais. Não
1 INTRODUÇÃO
obstante, trata-se não apenas de relacioná-las às causas originais, mas também
as suas consequências.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Nesse sentido, e sempre sob alguma orientação teórica, os estudos empí-
ricos examinam as características dos sistemas jurídicos existentes, incluindo o
Estado e o desenvolvimento das sociedades, as causas e efeitos, e as funções e
3 CIÊNCIA JURÍDICA
objetivos das instituições jurídicas. Assim, a Sociologia Jurídica se aproxima e,
por vezes, confunde-se com a Ciência Política e suas correntes teóricas. Elas não
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA são a mesma coisa, embora sejam disciplinas coirmãs. A diferença é que o prin-
cipal objeto da Sociologia do Direito são as leis, enquanto para a Ciência Política
as leis são um dos seus objetos.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

Então, é importante que essa distinção weberiana, lembrada por Kronman,


REFERÊNCIAS esteja suficientemente clara, a fim de que distinguamos bem o que é Sociologia
Jurídica. Portanto, lembremos que o estudo do Direito doutrinário (ou dogmáti-
co-normativo) está voltado para dentro do sistema jurídico, a fim de compreen-
der tecnicamente a lei na sua eficiência e eficácia. Nesse caso, a lei é estudada

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


25
Estudos Transversais

Índice como um preceito doutrinário, um dogma sobre o qual não cabe questiona-
mento, tão somente compreensão do seu funcionamento em si.
1 INTRODUÇÃO

Por sua vez, a perspectiva filosófica, que é moral e ética, está orientada
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU para a avalização sobre seus efeitos do ponto de vista dos valores e das finalida-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL des últimas, que resumimos na ideia da justiça social e do bem-estar dos indiví-
duos. Essa avaliação jurídico-filosófica tem, portanto, um sentido existencial e
de comprometimento com o caráter crítico da interpretação e do conhecimen-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
to da lei. É o Direito sempre questionado com relação aos fins a que se destina
e a quem efetivamente serve.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
Por sua vez, a perspectiva da Sociologia do Direito é externa, observando
o fenômeno jurídico “de fora” ou, se quisermos assim dizer, “para fora” do sis-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
tema legal. Por esse método de compreensão pretensamente objetiva do fato,
buscamos os vínculos causais e de consequência com a sociedade em suas vá-
REFERÊNCIAS rias esferas de relações. Procuramos compreender qual o significado profundo,
isto é, em que esfera de interesses, disputas e visão de mundo dos indivíduos
podemos encontrar suas origens e perceber consequências, inclusive de forma
mensurável.

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


26
Estudos Transversais

Índice As diferenças entre essas perspectivas não devem, porém, significar falta
de complementariedade para o estudioso do Direito. A Sociologia do Direito,
1 INTRODUÇÃO
por exemplo, gera informações que a Filosofia do Direito usa para sustentar suas
reflexões existenciais. Perspectivas internas da lei também podem ser úteis ao
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU prover dados técnicos que, com frequência, melhoram a análise e evitam erros
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL de julgamento. Posicionada exteriormente em relação ao fenômeno jurídico, a
Sociologia não deve perder a dimensão filosófica de vista e tampouco negligen-
ciar o caráter restritivamente técnico da lei.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Embora já tenhamos uma definição preliminar sobre qual o significado do


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA Direito nas Ciências Sociais, a recorrência a essa pergunta é normalmente útil.
Ainda que a definição de Lei e do Direito forneça uma base de debate entre as
várias tradições teóricas na Sociologia, sempre existem nuances, próprias das
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
humanidades. Assim, uma estratégia mínima pode ser seguida para, sociologi-
camente, conceber o Direito como uma categoria particular de regras e as prá-
REFERÊNCIAS ticas sociais a elas associadas.

As definições de Lei na Sociologia variam, alargando-se ou reduzindo-se


segundo a perspectiva teórica de quem a define, e isso também tem a ver com

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


27
Estudos Transversais

Índice as três perspectivas sobre as quais fa-


lamos. Não obstante, a atenção central
1 INTRODUÇÃO
às regras e práticas derivantes é uma
constante, seja no Direito doutriná-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU rio, na Filosofia ou na Sociologia. Seja
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL como for, na Sociologia vale o trata-
mento que, principalmente Max We-
ber e Émile Durkheim deram ao Direi-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
to, tratando-o como fenômeno social.

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA Em termos sociológicos, nossa


melhor definição geral continua a ser
a de Durkheim, qual seja, a do concei-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
to de fato social, envolvendo circuns-
tâncias tanto materiais (organizações)
REFERÊNCIAS quanto imateriais (valores e cultura).
O trabalho de Durkheim facilita o sta-
tus das regras e práticas de direito com
base em sua teoria da integração nor-

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28
Estudos Transversais

Índice mativa (Durkheim 1893a, 1893b apud DEFLEM, 2008). Na condição de regra, a
lei se refere a um complexo institucionalizado de normas destinadas a regular
1 INTRODUÇÃO as interações sociais e integrar a Sociedade. As práticas da lei referem-se a to-
das as funções, posições, interações e organizações envolvidas com as normas
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU (DEFLEM, 2008, p. 18).
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
Como nos ajuda a entender o sociólogo Mathieu Deflem, o caráter “ine-
rentemente normativo” do Direito não deve ser confundido com sua avaliação
3 CIÊNCIA JURÍDICA
moral ou ética (DEFLEM, 2008, p. 18). Na condição de prescrições sobre como
as interações sociais devem funcionar e como a sociedade dever ser organiza-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA da, as normas são, nas palavras de Weber (1999) “tipos ideais”. Na prática dos
indivíduos, sempre haverá variações mais ou menos próximas do estado ideal
sugerido pelas leis e regras. Nesse sentido, leis e regras dizem como as coisas
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
devem ser, não como elas de fato são ou acontecem.

REFERÊNCIAS Todavia, na condição de normas institucionalizadas, ou seja, de regras que


foram elaboradas, aprovadas e regulamentadas, elas assumem o status de fatos
sociais. E isso está além da condição meramente ideal, porque normas não são
apenas abstrações. Ao contrário, provêm de ideologias, de ações e relações,

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29
Estudos Transversais

Índice orientadas por valores, ideais e interesses, tanto quanto passam a influenciar
comportamentos de indivíduos cujas escolhas e ações terão origem nessas re-
1 INTRODUÇÃO
gras. E regras vão se consolidando historicamente como fatos sociais.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Paralelamente, observe-se que as práticas do Direito também são com-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL postas por valores, por moral e por concepções éticas do que é certo e erra-
do. Esse conteúdo normativo define o que é legítimo, gerando as justificativas
necessárias para a aplicação da lei, autorizando cumpridores das regras e pu-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
nindo violadores. Não obstante ao fato da universalidade de certas demandas
humanas, a forma de obtê-las, por sua vez, pode variar bastante. Assim, valores
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA e ideais são componentes culturais, estando vinculados aos costumes de cada
sociedade, embora muitos sejam intercontinentais ou universais.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
O fato é que, justamente por esse caráter variável de valores e ideais que
orienta a organização das leis em cada sociedade, as leis são um objeto muito
REFERÊNCIAS mais complexo do que muitos apreciadores do dogma do Direito doutrinário
gostariam. Mais que isso, por conta dessa complexidade, desde Weber, sabe-
mos que o Direito é essencialmente um objeto da Sociologia. Ou ainda, na me-

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30
Estudos Transversais

Índice lhor definição de Durkheim, o Direito é um fato social. Assim, nem tudo que é
sociológico está relacionado às leis, mas toda lei está relacionada ao contexto
1 INTRODUÇÃO
social.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Em obra intitulada Sociology of Law, que nos ajuda a conduzir esta abor-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL dagem, Mathiew Deflem (2008) traz uma bela passagem, explicando o caráter
eminentemente sociológico das leis. Para isso, menciona o estudioso jurídico
Richard Abel (1995, p. 1 apud DEFLEM, 2008, p. 19) que, certa vez, teria afirma-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
do jocosamente que seu trabalho de análise sobre o Direito cobria “Tudo sobre
a lei, exceto as regras.” Ele estava observando que a compreensão do Direito
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA passa por buscar o “espírito das leis”, ideia imortalizada por Montesquieu.

Em outras palavras, um estudioso das leis, no sentido mesmo da Ciência


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Jurídica, não se atém exclusivamente à letra da lei. É claro que a técnica da lei
é importante. A fim de compreender a lei, a fim de se tornar um estudioso do
REFERÊNCIAS Direito, quiçá um jurista, um doutor ou um mestre do Direito ou, ainda, um ad-
vogado ilustrado, é preciso descobrir as ramificações e consequências sociais da
norma legal. Leis são elaboradas com o propósito de regular o comportamento
e promover coesão social, mas essa “função primária” da norma no sentido de
integração social nem sempre surte o efeito desejado.

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31
Estudos Transversais

Índice Nessa perspectiva, leis devem ser estudadas para além de sua função so-
cial óbvia, declarada, de interesse pela justiça. Ter isso como objetivo de co-
1 INTRODUÇÃO nhecimento sempre tem sua importância, mas o conhecimento jurídico que se
restringe a isso, não é propriamente um conhecimento jurídico. A norma jurídi-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU ca deve ser compreendida com relação as suas origens de ordem moral, ética,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL cultural, incluindo as disputas de poder e interesses setoriais de toda ordem,
mais ou menos coincidentes com o interesse público.

3 CIÊNCIA JURÍDICA
Não obstante, além de buscar as ramificações de origem do Direito, tam-
bém é necessário observar as ramificações criadas a partir dele, isto é, suas
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA inúmeras consequências sociais, as esperadas e as inesperadas. Nesse sentido,
por exemplo, uma lei de proteção aos pobres ou de garantias às amplas liber-
dades políticas e econômicas sempre terá justificativas razoáveis, as melhores
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
intenções, além de resultados efetivos ao longo do tempo de aplicação. Alguns
desses resultados podem não ser os esperados, nem os desejados. Podem não
REFERÊNCIAS ter sido previstos ou sorrateiramente previstos.

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32
Estudos Transversais

Índice Assim, um conceito sociológico de Direito não omite o estudo das regras,
mas sim diferencia entre os objetivos proclamados das normas jurídicas, por um
1 INTRODUÇÃO lado, e os atuais funcionamento e consequências da lei, por outro. Nesse sen-
tido, a perspectiva sociológica do Direito, assim como a antropológica – como
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU veremos depois – rompe com a importante, porém restrita, compreensão inter-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL na, técnica e dogmática da norma jurídica. Assim o faz, permitindo a abertura
para análises sociológicas do Direito em seus múltiplos e relevantes aspectos e
dimensões (DEFLEM, 2008).
3 CIÊNCIA JURÍDICA

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
3 CIÊNCIA JURÍDICA
Isso é tratar o Direito como um fato social e, nos dizeres de Edmond Jorion,
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO é o que permite que o estudo do Direito possa ser chamado de Ciência Jurídica
(DEFLEM, 2008, p. 20). Assim, sociólogos jurídicos sempre tratarão a norma
jurídica no interior do contexto social, identificando ramificações de causa e
REFERÊNCIAS
efeito, de origem e consequências. Nessa direção, o jurista estadunidense Lon
Duvois Fuller (1971), afirma que seria mais conveniente falar do Direito como
uma questão social que implora por elucidação sociológica, assim como fazem
outras instituições sociais e práticas sociais (DEFLEM, 2008, p. 20).

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33
Estudos Transversais

Índice Desta feita, o Direito é produto gerado socialmente. É originário da so-


ciedade, a partir e através das instituições materiais e imateriais que servem
1 INTRODUÇÃO
de referência, constituem a norma jurídica e formulam as leis. Estas refletem
as demandas, aspirações e crenças dos indivíduos em coletividade ao longo da
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU história. Representam aquilo que, em cada cultura, dado momento, foi possí-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL vel institucionalizar em meio às disputas e conflitos, mas também consensos e
demandas em comum para o estabelecimento do equilíbrio mínimo. Isso tem a
ver com as ramificações de origem do fato social.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Assim, o Direito é um fato social constituído de outros fatos sociais aos


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA quais está ramificado pela origem. Não obstante, uma vez constituído, o Direito
cria ramificações a partir de si. Em outras palavras, serve de orientação às prá-
ticas jurídicas e todas as outras práticas dos indivíduos em sociedade. Segundo
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Weber, nossas ações sociais são orientadas por referências sociais. Durkheim
(1966) chama essas referências de fatos sociais e o Direito é um deles. Isso tem
REFERÊNCIAS a ver com o que denominamos aqui de ramificações de consequência dos fatos
sociais.

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34
Estudos Transversais

Índice Nesse processo de causa e efeito,


lembremos que o processo de cons-
1 INTRODUÇÃO
tituição e reconstituição é inerente à
norma jurídica, refletindo a própria di-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU nâmica social. Como adverte o profes-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL sor Miranda Rosa, “às modificações do
complexo cultural de uma sociedade
correspondem” (na sequência) “alte-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
rações na sua ordem jurídica” (ROSA,
2009, p. 45). Mais à frente, o autor
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA demonstra como a ordem jurídica in-
fluencia a sociedade, desempenhando
função, ao mesmo tempo, “educati-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
va, conservadora e transformadora”
(ROSA, 2009, p. 55). Ou seja, é o Direi-
REFERÊNCIAS to sendo constituído e reconstituindo
a sociedade.

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35
Estudos Transversais

Índice Do ponto de vista de sua utilidade na formação jurídica, portanto, a So-


ciologia do Direito deve demonstrar que o Direito só pode ser cientificamente
1 INTRODUÇÃO compreendido se for investigado como um fenômeno essencialmente social,
em relação às causas e às consequências. A definição que apresentamos aqui é
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU meramente sumária, mas é essencialmente o que a Sociologia do Direito signi-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL fica, isto é: uma ciência social cujo compromisso analítico é demonstrar objeti-
vamente a relação total do Direito com a Sociedade, seja a partir de sua origem,
seja através das consequências.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Por extensão, é importante lembrar também que esse objetivo está direta-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA mente comprometido em fazer com que estudantes, estudiosos e profissionais
do Direito sejam capazes de amplificar sua compreensão sobre as leis. A par-
tir do fenômeno jurídico, decisões são tomadas por governantes, legisladores,
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
juízes, trabalhadores, empresários e chefes de famílias. Nesse sentido, o valor
cognitivo e ético da Sociologia Jurídica está em demonstrar que o fenômeno
REFERÊNCIAS jurídico de toda ordem é melhor compreendido à luz das relações entre a lei e
o ambiente social. Numa expressão, o Direito é um fato social.

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36
Estudos Transversais

Índice Para um exemplo de como o Direito precisa ser compreendido como fato
social, apresentamos a crônica a seguir como uma demonstração corriqueira
1 INTRODUÇÃO
acerca disso. O objetivo geral não é apresentar uma análise rigorosamente cien-
tífica e imparcial como deve ser toda a análise sociológica. A intenção é apro-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU veitar uma crônica de jornal que mostra como essa relação entre o Direito e
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL a sociedade é bem mais comum do que se possa imaginar, sendo possível de
percebê-la antes mesmo de estabelecer essa relação através do método pro-
priamente científico.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

O texto a seguir é um artigo de jornal, portanto, um artigo opinativo. Nossa


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
intenção, aqui, não é a de formar opinião, apenas demonstrá-la a partir de
uma determinada ótica. Através deste artigo, com o qual bem se pode dis-
cordar, total ou parcialmente, o objetivo é demonstrar como uma questão
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO social pode ser compreendida sociologicamente, inclusive com nuances de
Filosofia. Assim é que um tema relacionado à lei, à segurança, à preserva-
ção da vida, à justiça e à dignidade pode ser analisado do ponto de vista so-
REFERÊNCIAS ciológico. Aqui, podemos identificar origens e consequências do fenômeno
jurídico, seja ele um conjunto de acontecimentos que gera uma lei, sejam
as consequências e reações a partir da lei. Trata-se, portanto, de um tema
de Sociologia Jurídica.

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37
Estudos Transversais

Índice
SOBRE A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL: EDUCAÇÃO, LEIS OU MU-
1 INTRODUÇÃO
DANÇA DE PROCEDIMENTOS?

Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Sociólogo
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL A redução da maioridade penal já estava na agenda dos grandes temas
políticos do País em 2015. Dos 27 deputados da comissão especial que
aprovou a proposta que foi à Câmara, 75% eram favoráveis à redução. Em
3 CIÊNCIA JURÍDICA São Paulo, segundo Carta Capital, de dezembro de 2013, o Vox Populi indi-
cava 89% da população a favor, enquanto uma pesquisa da Associação de
Magistrados do Brasil (AMB) revelava que 61% dos magistrados também o
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA eram. Educação, leis e sistema prisional não têm resolvido o problema da
criminalidade, que é complexo e ainda requer estudos estatísticos e com-
parativos. A enfrentá-lo, precisamos de liderança e inovação. Além disso,
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO não se trata só de reconhecer as causas sociais da violência, mas de garan-
tir segurança à população.

REFERÊNCIAS Do ponto de vista moral, é plenamente aceitável que uma pessoa de 16


anos seja punida com prisão por um crime hediondo e tem razão os que
afirmam que nessa idade há discernimento suficiente para decidir entre o
certo e o errado. Tentar relativizar isso tem sido um sinal de fraqueza civili-

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38
Estudos Transversais

Índice
zatória. Isso nos conduz a sugerir que o ECA, principal instituição em defesa
1 INTRODUÇÃO dos direitos dos jovens brasileiros, incluindo os delinquentes, precisa ser
revisto. É preciso reconhecer que a mesma lei que conscientiza os benefi-
ciados de seus direitos, os habilita a usá-la em favor da sua “vitimização” e
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU impunidade.
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Jovens e adultos infratores agem motivados por alguns fatores e suas ações,
bem ou mal, são calculadas. Estou sugerindo que os infratores pensem nas
consequências de suas ações, seja aos outros, seja a si mesmos. Com re-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
lação aos outros, em geral, pouco se importam. Com relação a si próprios,
tem noção sobre as consequências. Se a punição for menor que o risco ou
a recompensa (“inimputabilidade” legal, recompensa material ou moral),
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
a tendência de sua decisão será correspondente. Trocando em miúdos:
menor a punição, maior o estímulo à infração. Passando a régua: não há
civilização sem regras rígidas, baseadas na recompensa à obediência cons-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO ciente de leis em respeito ao próximo e na punição severa aos infratores.

Do ponto de vista operacional, tem razão os que acusam o sistema prisio-


REFERÊNCIAS nal de perverso. Está falido e não cumpre suas tarefas constitucionais. Se
na política importa o resultado, prender adolescentes no presídio é, a favor
ou contra suas vontades, dar-lhes uma bolsa na universidade do crime.
Muito pior se não forem assassinos ou estupradores, mas isso todo mundo

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39
Estudos Transversais

Índice
já sabe. Não devem restar dúvidas de que infratores de 16 a 21 anos, ain-
1 INTRODUÇÃO
da que criminosos, não podem conviver com adultos criminosos. Embora
tenham discernimento entre o certo e o errado aos 15, não teriam resis-
tência psicológica, nem moral, aliciados por criminosos de 30. Se o sistema
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU não funciona aos maiores, é lógico que não funcionará com os menores.
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO Trocando em miúdos: adolescente na cadeia não significa amadurecimen-
SOCIAL to moral e sim criminal. Passando a régua: só lhes faltaria a certificação
estatal de “criminoso graduado”.
3 CIÊNCIA JURÍDICA Por essa razão, a lei prevê e faz cumprir o sistema socioeducativo. E fun-
ciona? Segundo dados do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (CONANDA), é de 20% a reincidência nesse sistema, enquanto
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA no sistema prisional é de 60%. As informações são desencontradas, senão,
veja-se a discrepância: a Carta Capital informa, com dados do CNJ (quer
mais insuspeito?), que a reincidência entre os adolescentes é de 43%, mais
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO que o dobro informado pelo CONANDA, enquanto dos adultos é de 70%
(FONTE: DMF/CNJ). Afinal, quem fala sério? Seja qual for a resposta, as
discrepâncias revelam que os argumentos estão contaminados por parcia-
REFERÊNCIAS lidade, sentimentos e interesses inconfessados.

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Estudos Transversais

Índice
A solução, dizem os mais vagos, é pela educação (e pela melhoria de vida
1 INTRODUÇÃO
etc.). Ouve-se isso de intelectuais, políticos, delegados e juízes. Ninguém
parece se perguntar como que o aumento da escolaridade e a melhoria de
vida têm vindo acompanhados do aumento do crime. No Brasil, os índices
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU de violência aumentaram tanto quanto os índices de escolaridade e quali-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO dade de vida. Como entender esse fenômeno, que parece transformar em
SOCIAL mito os dogmas do bem-estar e a “sociologização” do crime? Coloquemo-
-nos no lugar do professor humilhado por um delinquente “inimputável”
que a resposta começa a surgir. Plausível seria que algum honesto parla-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
mentar sugerisse incluir qualquer ofensa à autoridade professoral como
crime hediondo.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA Contudo, considerando a educação um fato social universal e de primeira
grandeza, não se trata, essencialmente, da sua falência, nem das leis. O
modelo de educação em voga é que não responde aos sintomas de ano-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO mia social que vivemos com relação à violência. Nessa direção, é neces-
sário reconhecer que o atual sistema educacional desestimula o senso de
responsabilidade e a meritocracia em favor de um igualitarismo utópico.
REFERÊNCIAS É esse, de fundo, o panorama da desumanização dos indivíduos, quando
uma visão lúdica e boas intenções inibem o que temos de mais humano,
isto é, a responsabilização sobre nossos atos. E de boas intenções, dizem,
o inferno está cheio.

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41
Estudos Transversais

Índice
Por extensão, e por conta de leis irrealistas e desavisadamente antirrepu-
1 INTRODUÇÃO blicanas, escola e comunidade são destituídos de sua autoridade moral,
obrigadas a conviver com a indisciplina, o desrespeito à autoridade profes-
soral, a violência e a humilhação promovida por delinquentes que ao invés
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU da punição recebem a proteção jurídica, degenerando os pilares da civiliza-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO ção e edificando o império da mediocridade e da vergonha. Nessa direção,
SOCIAL
não há o que tergiversar: esse modelo educacional faliu e nós brasileiros
jogamos fora a chance de nos tornar a decantada potência econômica que
3 CIÊNCIA JURÍDICA
poderíamos ser. Esqueça-se. Resta, novamente, à classe média cuidar da
educação privada de seus filhos, pagando duas vezes a conta e ainda acu-
sada de alienada e egoísta.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
Quanto às leis, assim como o modelo educacional, disseminam as premis-
sas do Estado de direito e bem-estar, presas a uma concepção rousseuau-
niana de que o ser humano é bom por natureza e é a sociedade que o
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
corrompe. Que sociedade, afinal? Ah, permitam-me revelar esse velho se-
gredo: a sociedade capitalista, é claro. Fundada na propriedade privada,
é “origem de toda a desigualdade social”. Responsável pela privação dos
REFERÊNCIAS bens inalcançáveis, é o “sistema” que conduz ao crime. A concordar com
esse raciocínio infantil na cabeça de pródigos intelectuais e paladinos da
lei, resta agradecer ao divino que a maioria dos injustiçados seja tão imbe-
cil e covarde que não se rebele contra a sociedade. Na cultura jurídica do

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42
Estudos Transversais

Índice
Estado de bem-estar, a consequência é a mesma que na educação, a saber,
1 INTRODUÇÃO a desumanização do infrator. Tratando-o como vítima, culpa-se a socieda-
de, e retira-se dele a responsabilização pelos seus atos.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Se tivéssemos aqui o tempo do mundo, nos daríamos ao luxo de sugerir
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO que, no longo prazo, somente uma mudança conceitual na educação e nas
SOCIAL
leis nos tira dessa anomia social em que nos metemos. Para ser honesto,
estamos só no início dela, pela simples razão de que os agentes ideológicos
e políticos responsáveis pela manutenção desse estado de coisas ainda são
3 CIÊNCIA JURÍDICA
jovens e farão prevalecer por muito suas ideias e influências. Paradoxal-
mente, em nome da justiça e na defesa das “vítimas do sistema”, suas posi-
ções ainda serão a causa de muita brutalidade e pouca produtividade. Isso
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
não nos impede de insistir na necessidade de uma mudança conceitual na
educação e nas leis: a substituição de concepções filosóficas oriundas de
leituras anacrônicas de Rousseau, em favor da disseminação de valores li-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO berais e republicanos, na tradição de John Locke, a fim de concertar o curso
civilizatório. Isso é coisa para 20 anos de trabalho de uma elite emergente
ainda imberbe.
REFERÊNCIAS
Diante de um problema tão complexo, é evidente que as soluções não são
fáceis. Não obstante, com os recursos cognitivos e institucionais, seria uma
covardia nacional não construir novos procedimentos, em resposta, digo,

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43
Estudos Transversais

Índice
em respeito à vontade geral. Nessa direção, o método exige reconhecer os
1 INTRODUÇÃO objetivos, o estado das coisas e as alternativas. O projeto de redução da
maioridade penal será votado. Trata-se de aprová-lo ou não. A fim de que o
debate seja socialmente útil, precisamos lembrar que o objetivo geral deve
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU ser a diminuição da violência e a proteção dos honestos. Na sequência,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO os principais objetivos são a ressocialização dos adolescentes infratores, a
SOCIAL eficiência do gasto público e, em resposta ao clamor geral, a punição exem-
plar.
3 CIÊNCIA JURÍDICA
Com relação ao objetivo geral, parece fundamental que seja claramente
aceito e não sucumba às ideologias, ao corporativismo e às circunstâncias.
Posições sectárias ou idílicas, preconceituosas em relação aos pobres ou
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
à classe média são praticamente inúteis, ou na maioria das vezes prejudi-
ciais. Cidadãos honestos não têm a obrigação cívica de tolerar a delinqu-
ência, nem devemos vitimizar o delinquente às custas de quem cumpre a
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO lei. Somente depois de assumir essa posição concernente ao direito civil,
primeiro pilar do Estado de direito, é que deveríamos socializar as causas
da violência. Entre o buon savage de Rousseau e o hominis lúpus homini de
REFERÊNCIAS Hobbes, evoquemos o homem autônomo de Locke e Kant. É justo, nessa
perspectiva, que sugerimos a mudança conceitual na educação e nas leis,
mas explicá-lo é um capítulo à parte.

Estudo Transversal - Antropologia e Sociologia Jurídica


44
Estudos Transversais

Índice
Quanto às circunstâncias, naturalmente, é inevitável reconhecer que os
1 INTRODUÇÃO problemas do sistema prisional (más condições e superlotação) devem ser
considerados. Não podem, porém, ser a explicação ou justificativa a impe-
dir mudanças de procedimento, sob pena de ignorar a regra de número um
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU na política, qual seja, a de que os meios devem se submeter às finalidades,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO desde que, evidentemente, estas sejam republicanas.
SOCIAL
Por fim, é desejável avaliar alternativas e mudanças de procedimento, con-
siderando os principais objetivos subsequentes, que são a ressocialização
3 CIÊNCIA JURÍDICA
e a eficiência no gasto do recurso público, mas também a punição exem-
plar. A ressocialização tem o intuito humanitário e o interesse produtivo
que une gregos e troianos. Toda sociedade precisa da regeneração moral
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
e da força de trabalho de seus jovens. Se os outros dois objetivos não são
tão unânimes, qualquer pessoa de bom senso há de concordar com o uso
racional do dinheiro público. A mesma sensatez vale para admitir que a
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO punição exemplar diminui a reincidência e, fundamentalmente, atende ao
clamor da vontade geral, inconformada com a impunidade, que penaliza os
bons e incentiva os maus.
REFERÊNCIAS
Antes que alguém se sinta sem resposta, resumamos o que se pode admitir
como punição à delinquência juvenil: se o coitado furtou a própria mãe,
agrediu uma senhora, ameaçou alguém com arma ou desrespeitou uma
professora, vai varrer a calçada pública, tirar o mato dos canteiros, carpir

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45
Estudos Transversais

Índice
um lote (com protetor solar, é claro). Vai limpar a sala de aula, o banheiro
1 INTRODUÇÃO da escola, juntar o lixo das ruas. Uma educação sem noção de trabalho e
respeito à sociedade que trabalha duro, vale absolutamente nada além de
levar o País à rabeira do processo civilizatório. Um dos fatores que expli-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU cam os avanços do processo civilizatório é o reconhecimento das causas
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO de certos recuos. Erramos e pronto. Corrijamos, capazes de superar os cor-
SOCIAL
porativismos. São as elites, políticas e intelectuais que, cientes dos erros e
das correções necessárias, renovam e inovam, para que a vida siga o bom
curso. Não há, insista-se, não há desenvolvimento sem isso.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Nessa perspectiva, temos que nos debruçar sobre temas inovadores na


área da segurança pública. Já, em 2007, o Senado discutia uma proposta
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
de descentralização da legislação penal no País, mas que emperrava numa
concepção centralizadora da unidade federativa e não se falou mais nis-
so. Além disso, é urgente considerar as experiências de terceirização do
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO sistema prisional, estendendo a reflexão e os conhecimentos ao sistema
socioeducativo. Admitindo que as condições do sistema prisional são inós-
pitas, é honesto reconhecer a incapacidade estatal de operacionalizá-lo
REFERÊNCIAS eficientemente, sabendo que é aí que a porca torce o rabo. Preconceitos,
ideologias, interesses corporativos e ignorância somam-se na defesa do Es-
tado que, em substituição à condenação bicentenária sobre a propriedade
privada, deveria começar a ser encarado como a origem de muitos males
republicanos.

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46
Estudos Transversais

Índice
Já existem informações estatísticas que nos permitam estudos comparati-
1 INTRODUÇÃO vos sobre as experiências desse gênero. É preciso intensificar os estudos,
comparando-as entre si e com o funcionamento do serviço estatal. Nem
todas as conclusões sobre as experiências vão na mesma direção. Ainda as-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU sim, países como Inglaterra, França, EUA, Austrália, África do Sul, Canadá,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO Bélgica, Chile e, também, o Brasil já apresentam resultados que todos nós e
SOCIAL
nossos parlamentares precisamos conhecer. Embora sejam dados do siste-
ma prisional (de adultos), esses estudos permitem respostas às perguntas
e aos genuínos objetivos contidos na proposta de redução da maioridade
3 CIÊNCIA JURÍDICA
penal, seja relacionado à proteção dos cidadãos honestos, à ressocializa-
ção como aos gastos públicos.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
Se pudéssemos contar com um Congresso maduro, comandado por lide-
ranças de firmes convicções conceituais, inclusive sobre o papel do Estado,
ele poderia assumir a defesa de uma tal bandeira, contando com o apoio
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO da população, que espera que seus parlamentares a representem. É o que
espera a trabalhadora doméstica que, humilhada e desconsolada, vai a pé
do trabalho para casa, depois de entregar o dinheiro do ônibus a um de-
REFERÊNCIAS linquente imprestável que acabou de ameaçá-la com uma arma. É o que
também espera a família cuja filha, educada para ter um futuro brilhante,
foi assassinada na frente de casa por dois zumbis, do mesmo tipo que in-
cendeiam ônibus, comandados por bandidos de dentro de presídios, hu-

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47
Estudos Transversais

Índice
milhando os profissionais da segurança pública e degenerando a civilização
1 INTRODUÇÃO cristã ocidental.

Reconheçamos que o fato é ainda mais complexo do que ora exposto. Não
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU mencionamos aqui o importante problema das drogas, de mãos em mãos
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO entre delinquentes e criminosos. É outro capítulo à parte a ser incluído na
SOCIAL
interpretação do tema, mas não muda uma palavra do que se disse até
aqui. Não obstante, longe da presunção da verdade, do conhecimento am-
plo ou especializado, está o propósito livre e democrático da provocação
3 CIÊNCIA JURÍDICA
ao debate de interesse público. Não é fácil abrir mão de nossas convicções
ideológicas e passionais, suportar de forma empática a divergência opinati-
va e buscar acordos revisionistas. É necessário despertar a vontade política
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
e o compromisso republicano a fim de resolver algo inadiável, ao invés de
nos comportarmos como avestruzes diante do problema.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO FONTE: Adaptado de BIRKNER, W. M. K. Sobre a redução da maioridade penal: educa-
ção, leis ou mudança de procedimentos? Jornalismo digital, Canoinhas, região e mais,
Canoinhas, 4 ago. 2019. Disponível em: https://www.jmais.com.br/sobre-a-reducao-da-
-maioridade-penal-educacao-leis-ou-mudanca-de-procedimentos/. Acesso em: 9 dez.
REFERÊNCIAS 2020.

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48
Estudos Transversais

Índice Como observamos na introdução a esta crônica, o objetivo não é o de


formar opinião. Embora o leitor possa concordar ou discordar. O que interessa
1 INTRODUÇÃO
aqui é oferecer um exemplo de abordagem sobre um problema real que é ti-
picamente um objeto de Sociologia Jurídica. Analisado de maneira opinativa, o
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU fenômeno jurídico da menoridade penal é um fato social, assim como as causas
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL e as consequências nele ramificadas. O que a Sociologia do Direito faz é esta-
belecer essas relações, demonstrando que a norma jurídica é um fato social, de
suas origens até suas consequências.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Tendo realizado, até aqui, uma definição sumária de Sociologia do Direi-
to, façamos o mesmo com a disciplina coirmã: a Antropologia Jurídica. Nessa
empreitada, precisamos saber que a Antropologia constitui com a Sociologia e
REFERÊNCIAS
a Ciência Política, o chamado tripé das Ciências Sociais e dali derivam outras.
A diferença nem sempre é clara entre elas, porque os objetos de investigação,

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49
Estudos Transversais

Índice muitas vezes, coincidem, a exemplo do Direito. Não obstante, enquanto a So-
ciologia busca aspectos da estrutura social mais evidentes e atuais, a Antropo-
1 INTRODUÇÃO
logia busca explicações remotas na cultura.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Como acabamos de dizer, é com frequência que essas ciências sociais assim se
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL comportam contemporaneamente. Isso não quer dizer que a Sociologia não se preo-
cupe com questões históricas remotas, nem que a Antropologia não se preocupe com
as questões mais evidentes do cotidiano. Assim como a Sociologia e a Antropologia
3 CIÊNCIA JURÍDICA
tem ramificações no Direito, dentro do Direito é possível tratar de um mesmo tema
do ponto de vista sociológico e antropológico. Antes, vamos a uma definição de An-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA tropologia Jurídica e depois para um exemplo de como isso acontece.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
4.1 DEFINIÇÃO INTRODUTÓRIA
REFERÊNCIAS
Do ponto de vista das origens, o desenvolvimento da Antropologia Jurídica
tem ramificações na Filosofia Política desde Montesquieu, o autor do célebre
Do espírito das leis. De forma essencialmente a mesma, as origens metodoló-
gicas e intelectuais dessa área do conhecimento se localizam em outro clássico

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50
Estudos Transversais

Índice intitulado Democracia na América, de Alexis de Tocqueville (1805-1859). Assim


como influenciaram o surgimento da Sociologia, ajudaram na conformação da
1 INTRODUÇÃO
Antropologia, sobretudo na Antropologia Jurídica.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Ora, esses ilustres pensadores franceses perceberam a importância da cul-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL tura enraizada em cada Sociedade na constituição das leis, da governança e,
portanto, da política. É preciso dizer: quando falamos em política, inerentemen-
te falamos de regras e leis de organização das relações sociais. Um como o ou-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
tro, e tantos intelectuais depois deles demonstraram como as formas de pensar
e agir do povo determinaram as constituições. Numa já mencionada definição
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA de Sociologia Jurídica, as leis expressam as folkways, isto é, as formas de pensar,
a formação religiosa, o etos de um povo.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Na esteira desses pensadores, muitos antropólogos do século XX contribu-
íram para o Direito e para a Ciência Política (filha da Filosofia do Direito), estu-
REFERÊNCIAS dando os sistemas políticos de países. Como nos traz a Enciclopédia Britânica,
foram pesquisadores como Elizabeth Colson, com a publicação de African Poli-
tical Systems (1940), que introduziram a Antropologia Jurídica. Igualmente, Os
Sistemas Políticos de Highland Burma de Edmund R. Leach (1954) e O Governo

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51
Estudos Transversais

Índice de Zazzau de Michael Smith (1960) foram estudos fundadores da Antropologia


Política e Jurídica (BRITANNICA, c2020b).
1 INTRODUÇÃO

Também é indispensável mencionar o livro de Clifford Geertz, intitulado A


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU interpretação das culturas, originalmente de 1973. Ali, ao relatar observações
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL acerca dos costumes de inúmeras sociedades, Geertz recorre com frequência
às noções de direito e justiça. O objetivo é demonstrar como essas noções va-
riam seus efeitos de cultura para cultura entre os grupos sociais. A obra do
3 CIÊNCIA JURÍDICA
antropólogo estadunidense é frequentemente sugerida no Direito acadêmico,
por ajudar o pesquisador jurídico a não se restringir ao enfoque forense e for-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA malista do Direito doutrinário.

FIGURA 3 – CAPA DO LIVRO DO ANTROPÓLOGO ESTADUNIDENSE CLIFFORD GEERTZ


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

FONTE: <https://bit.ly/3mE7WGo>. Acesso em: 3 dez. 2020.

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52
Estudos Transversais

Índice Nesse sentido, estamos novamente no campo da terceira perspectiva we-


beriana, a da Sociologia do Direito e, é claro, a Antropologia Jurídica faz parte
1 INTRODUÇÃO
dela. As duas áreas estão empenhadas em demonstrar as ramificações sociais
da lei e, como já dissemos, seus temas são frequentemente comuns, mudando
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU apenas o enfoque interpretativo. Enquanto o enfoque sociológico pende para
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL as estruturas econômicas e políticas, o antropológico pende à etnografia, ao
estudo das culturas de minorias e pequenos agrupamentos sociais ou, ainda, a
características antropológicas encravadas na história das nações.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Assim, assuntos que vinculam as leis à violência, à criminalidade, às coisas


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA da política e da economia, entre tantos outros, são igualmente de interesse da
Sociologia Jurídica quanto da Antropologia Jurídica. De todo modo, o enfoque
da cultura parece mais caro a antropólogos que a sociólogos. Nessa direção,
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
perceberíamos a diferença se tomássemos como objeto o tema do sistema pre-
videnciário no Brasil. Tema tão relevante quanto polêmico, a previdência foi
REFERÊNCIAS objeto de recente reforma legal.

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53
Estudos Transversais

Índice O sistema previdenciário brasileiro foi reformado em 2019 com a justi-


ficativa governamental de ser deficitário e injusto. Por outro lado, os críticos
1 INTRODUÇÃO da reforma sempre objetaram, afirmando o contrário, ou seja, que a previdên-
cia não é deficitária e assegura direitos legítimos. Enquanto uns apelam para a
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU saúde financeira do Estado, outros defendem direitos adquiridos e denunciam
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL interesses “escusos”. Celeuma à parte, trata-se de um tema interdisciplinar que
permite interpretações de distintos ângulos.

3 CIÊNCIA JURÍDICA
Desse modo, sociologicamente, a tendência é demonstrar a relação entre
a lei da previdência e os interesses das diversas corporações, assim como ao
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA tema das finanças públicas, às concepções ideológicas, ao conflito de classes,
ao tema da justiça social e do desenvolvimento econômico etc. Já, do ponto
de vista antropológico, o tema pode ser vinculado a aspectos da formação so-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
cial brasileira. Vai desde o tema da desigualdade, igualmente caro à Sociologia,
passando pela instrução depauperada das elites até ao patrimonialismo, todos
REFERÊNCIAS enraizados na cultura política e reveladores do “espírito” das leis.

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54
Estudos Transversais

Índice 4.2 O ESPÍRITO DAS LEIS BRASILEIRAS


1 INTRODUÇÃO
Pensando nessa linha, o trabalho teórico do antropólogo brasileiro Rober-
to DaMatta (1936-), é um exemplo clássico a relacionar cultura, leis e política.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Dono de uma vasta obra sobre os costumes brasileiros encrustados nas leis,
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL Roberto DaMatta explorou como poucos essa relação. Sua demonstração de
como as patologias culturais do País se revelam nas instituições é de muita utili-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
dade para entender a norma jurídica nacional. Em certo sentido, é um trabalho
metodologicamente parecido com o que fizeram os pensadores franceses que
acabamos de mencionar.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

No seu clássico Carnavais, malandros e heróis, editado pela primeira vez


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO em 1979 pela Editora Rocco, o antropólogo demonstra muito bem como os as-
pectos de uma cultura patrimonialista estão presentes nas leis brasileiras. Nes-
sa perspectiva, a norma jurídica legaliza e assegura a desigualdade por meio de
REFERÊNCIAS privilégios. Exemplos são a prisão especial para graduados, ou para os militares,
cujas filhas, para receberem a pensão vitalícia do pai, permanecem oficialmen-
te solteiras. É o que chamamos de “jabuticabas jurídicas”: só existem no Brasil
e refletem o “espírito” das nossas leis.

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55
Estudos Transversais

Índice
Podemos encontrar um exemplo de análise crítica do sistema jurídico bra-
1 INTRODUÇÃO sileiro no artigo de Gustavo Silveira Siqueira, doutor em Direito pela UFMG
e professor da Universidade Estácio de Sá. Siqueira procura demonstrar
como o direito brasileiro beneficia determinadas classes sociais em detri-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU mento de outras. Por meio de pesquisa interdisciplinar, o autor procura
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO demonstrar o distanciamento entre o Direito oficial e certas demandas so-
SOCIAL
ciais, por conta da sobreposição de “uma classe privilegiada”, que usaria o
direito para tutelar os movimentos sociais ao invés de assegurar sua parti-
cipação da elaboração das leis.
3 CIÊNCIA JURÍDICA
FONTE: SIQUEIRA, S. G. Antropologia jurídica no Brasil: história do direito, movimentos
sociais e Direito. In: XIX ENCONTRO NACIONAL DO CONPEDI, 2010, Fortaleza. Anais [...].
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA Florianópolis: Fundação Boiteux, 2010. Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/
conpedi/manaus/arquivos/anais/fortaleza/3919.pdf. Acesso em: 2 dez. 2020.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Não obstante, a obra de DaMatta é também um convite à reflexão sobre
uma das melhores definições do evolucionismo, apresentada pelo sociólogo
REFERÊNCIAS estadunidense Talcott Parsons (1902-1979), autor de Sociedades: perspectivas
evolucionárias e comparativas (1966), entre muitas. Nessa obra, Parsons decre-
ta que o desenvolvimento das nações requer diálogo e leis, sendo que uma leva
a outra. Criticada pelos antievolucionistas, a ideia é um libelo do evolucionismo

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56
Estudos Transversais

Índice nas Ciências Sociais, ao expressar a crença liberal conservadora no diálogo e nas
reformas legais, no lugar do conflito e das revoluções políticas.
1 INTRODUÇÃO

Por sua vez, o antropólogo brasileiro mostra que a Sociedade brasileira


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU tem dificuldades, por razões antropológicas de sua formação, de entender exa-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL tamente isso (DAMATTA, 2007). Em outras palavras, a história política brasi-
leira mostraria, segundo DaMatta (2007), que a Sociedade brasileira tem uma
tradição cultural distinta do liberalismo conservador que afetou a colonização
3 CIÊNCIA JURÍDICA
estadunidense. Enquanto a tradição cultural dos EUA é marcada pela convicção
de que as mudanças devem ser graduais e contínuas, no Brasil, temos ímpetos
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA históricos de jogar tudo fora e começar do zero (DAMATTA, 2007).

Como uma coisa conduz à outra, essa propensão ao desprezo pela evolu-
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
ção lenta tem muitos reflexos na cultura governamental e nas leis. Por razões
antropológicas a serem investigadas, a cultura política brasileira demonstra cer-
REFERÊNCIAS ta aversão à evolução resiliente, construída por meio do diálogo, entre disputas,
recuos e pequenos avanços. Desde a proclamação da República, o Brasil já teve
seis constituições federais e a Constituição de 1988 já tem mais de 100 emen-
das revisionistas (BRASIL, 2020).

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57
Estudos Transversais

Índice Na esteira desse exemplo, as soluções de continuidade interrompem im-


portantes experiências políticas, entre um governo que sai e outro que entra.
1 INTRODUÇÃO Trata-se de outro exemplo de desapreço à resiliência histórica e da velha mania,
já mencionada, de “jogar tudo fora e começar do zero”. Não se duvide que de-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU senrolar esse fio antropológico leva a uma conexão de fatos sociais e aconteci-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL mentos que estão presentes no cotidiano do País. Suas origens encontram-se
na antropologia do povo brasileiro e as consequências terminam no fenômeno
jurídico, seja na lei ou no seu descumprimento.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

FIGURA 4 – O LIVRO MAIS FAMOSO DO ANTROPÓLOGO ROBERTO DAMATTA


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

FONTE: <https://bit.ly/37wBPC5>. Acesso em: 3 dez. 2020.

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58
Estudos Transversais

Índice
4.3 PATRIMONIALISMO
1 INTRODUÇÃO
Outro autor muito importante para uma análise sociológica e antropológi-
ca honesta da cultura política brasileira foi o jurista brasileiro Raymundo Faoro
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
(1925-2003). Em seu clássico, Os donos do poder: formação do patronato polí-
SOCIAL tico brasileiro, primeira edição de 1958, o autor gaúcho fez uma minuciosa aná-
lise da história do Brasil, demonstrando os efeitos da monarquia portuguesa no
3 CIÊNCIA JURÍDICA
País. Implantou-se, no Brasil, um modelo institucional que consolidou o Estado
grande e centralizado, a partir do qual se desenvolveu a economia e a cultura
patrimonialista que se reflete nas leis brasileiras até hoje.
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

O patrimonialismo é um conceito introduzido pelo sociólogo alemão Max


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Weber, para explicar as sociedades atrasadas. A evolução das nações desen-
volvidas dependeu da modernização-racionalização da administração pública.
Weber demonstrou como a clara separação entre o patrimônio particular dos
REFERÊNCIAS governantes e burocratas do patrimônio público foi o que permitiu sua moder-
nização (WEBER, 1999, p. 288-323). Característica fundamental da instauração
do Estado moderno, a impessoalidade do mando se traduziu desse modo nas
finanças públicas.

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59
Estudos Transversais

Índice
A fundação do Estado moderno, como o conhecemos, está baseada em al-
1 INTRODUÇÃO gumas características fundamentais, entre as quais: a impessoalidade das
decisões do governante, cujas ações de governo deixam de representar a
vontade pessoal do rei para estarem amparadas nas leis.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
A confusão entre o patrimônio pessoal do rei e tudo que o Estado arrecada
foi típica das monarquias medievais e pré-constitucionais. Max Weber chamou
3 CIÊNCIA JURÍDICA
isso de patrimonialismo e Raymundo Faoro utilizou o conceito para explicar o
“espírito das leis” no Brasil. Como demonstra o jurista, no caso da monarquia
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA portuguesa, não havia propriedade privada formal no reino português, portan-
to, tudo pertencia ao Rei e toda propriedade era uma concessão dele. Assim, a
nobreza portuguesa era dependente do rei e, portanto, o apoiava em troca de
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
privilégios.

REFERÊNCIAS Naturalmente, esse modelo foi transposto ao Brasil com a vinda da coroa
portuguesa, em 1808. Se todo patrimônio é do rei, o rei concede e tira. Isso fez
com que a oligarquia brasileira, tal qual a nobreza portuguesa, sempre depen-
desse dos favores reais. Sem poder para se contrapor ao monarca, tornavam-se

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60
Estudos Transversais

Índice seus funcionários, dependentes de


sua “generosidade”. Desse modo,
1 INTRODUÇÃO
constituiu-se uma sociedade fraca e
dependente dos favores do Estado
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU centralizador, com uma burocracia
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL arrecadatória composta de favore-
cidos por cargos e benesses em tro-
ca de submissão (FAORO, 2001).
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Numa definição sumária, pa-


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA trimonialismo é o fenômeno pelo
qual o agente público se apropria,
de diversas formas, do patrimônio
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
público, como extensão de seu pa-
trimônio privado. Faoro explicou
REFERÊNCIAS como isso aconteceu desde a che-
gada de Dom João VI, atravessando
os séculos, da monarquia à repú-
blica, de governos a constituições,

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61
Estudos Transversais

Índice sem alterações essenciais ao longo da história. Ou seja, o patrimonialismo é


uma herança institucional do Brasil colonial. Apesar de todas as mudanças, so-
1 INTRODUÇÃO
breviveu pela lei e pela fraude, naturalizado pelos que chegam ao poder e dele
se beneficiam sem culpa.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL O fenômeno acontece de muitas maneiras e está longe de se limitar à
ilegalidade, como é o caso da corrupção. Ao contrário, o patrimonialismo está,
como já dissemos, encrustado nas leis. Está na criação de cargos públicos, con-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
cursados ou indicados, tornando o Estado desproporcional, o que explica sua
sanha arrecadatória. Nessa direção, a principal função da carga tributária não é
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA simplesmente viabilizar os serviços estatais à sociedade por meio das políticas
públicas, mas garantir o autofinanciamento de uma volumosa e bem remune-
rada burocracia estatal nos três poderes e nas três esferas.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

Sofisticado ao longo do tempo, o patrimonialismo é um dos principais


REFERÊNCIAS objetos de estudo da Antropologia Política e, portanto, jurídica brasileira. Está
refletido numa gama de privilégios constitucionalmente autorizados a cente-
nas de corporações, tornando legítimas algumas críticas à Constituição Federal.
Mais do que uma carta de direitos cidadãos, ela é o resultado de uma infinida-

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62
Estudos Transversais

Índice de de demandas setorializadas, de pressões, negociações e concessões das – e


para as – elites dos três poderes, da esfera federal aos municípios. Migalhas a
1 INTRODUÇÃO
milhões de pobres e benefícios às corporações.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU A Constituição de 1988 fortaleceu o corpo político e burocrático, expandiu
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL a máquina administrativa, amparada na justificativa do Estado de bem-estar
social e de Direitos. É correto dizer que ampliou o atendimento aos mais ne-
cessitados, mas não fez isso sem confluir a expansão de direitos democráti-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
cos com a preservação e alargamento de direitos setoriais, da manutenção de
aposentadorias especiais, de privilégios, distinções e regras de duvidosa função
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA republicana, gerando uma economia judiciária às custas do aumento da carga
tributária, dificultando a economia produtiva. Tudo na lei.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
E o aprofundamento da investigação antropológica do Direito é também
uma “viagem interdisciplinar”. Ela começa nas normas jurídicas, segue o curso
REFERÊNCIAS da história, atravessa aspectos culturais e desemboca na realidade social, com
paradas obrigatórias na economia e na política. Para além das abordagens con-
vencionais, nos permite ver melhor os problemas da desigualdade social e do
subdesenvolvimento econômico. E aqui está a utilidade da Antropologia do Di-

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63
Estudos Transversais

Índice reito: a investigação antropológica das leis produz o conhecimento da origem,


das consequências e da correção de rumos, através da lei.
1 INTRODUÇÃO

Assim, com toda a modernização pela qual o País inegavelmente passou, a


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU sociedade brasileira não rompeu com aspectos essenciais de um modelo colo-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL nial extrativista. Dele fazem parte o patrimonialismo, o nepotismo, entre outros
fatores congêneres, tudo a requerer uma grande burocracia administrativa e
judiciária, cuja sobrevivência depende de um modelo de exteração de recursos
3 CIÊNCIA JURÍDICA
da Sociedade produtiva, devidamente amparado e justificado pela norma jurí-
dica. Nesse sentido, a Antropologia e a Sociologia jurídicas têm muito a revelar
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA e constituir uma tradição científica no Direito brasileiro.

Nessa perspectiva, segue mais uma crônica jornalística, com o intuito de


5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
demonstrar a importância de estudar as leis para além da letra da norma. Nova-
mente, devemos dizer que o objetivo não é, aqui, influenciar a opinião do leitor.
REFERÊNCIAS O interesse é demonstrar como as situações do cotidiano podem nos inspirar a
aprofundamentos antropológicos e sociológicos sobre os fenômenos jurídicos.
É a partir dos acontecimentos e das reações, como das constatações iniciais,
que podemos prosseguir, com o intuito científico de compreender o Direito.

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64
Estudos Transversais

Índice
O texto a seguir é um artigo de jornal, através do qual se manifesta uma
1 INTRODUÇÃO opinião que pode ser contestada. Não há presunção da verdade, tão so-
mente o espírito da provocação. Para os efeitos de nossa abordagem sobre
a importância da Sociologia e da Antropologia jurídicas, o seguinte texto
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU demonstra as possíveis ramificações entre a cultura e a lei, que podem in-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO teressar a estudantes e pesquisadores do Direito.
SOCIAL
UM CASO DE ANTROPOLOGIA JURÍDICA
3 CIÊNCIA JURÍDICA
Dr. Walter Marcos Knaesel Birkner
Sociólogo
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
A soltura de um traficante condenado, o dinheiro na cueca de um
político e o plágio de um juiz do STF têm muito em comum, fatos unidos
por um fio antropológico que explica por que não damos certo. Nos falta
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO a frugalidade, o senso de igualdade republicana e moderação conservado-
ra que devia estar no espírito das leis. Isso para não falar de uma leitura
adequada da Bíblia e uma rigorosa ética do trabalho, o que nos faria ter
REFERÊNCIAS vergonha na cara e punir toda essa patifaria. Quem disse que este País não
é sério sempre teve razão.

A decisão de um juiz do Superior Tribunal Federal (STF) de soltar um


traficante bilionário, acreditando na promessa de que aguardaria em casa

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Estudos Transversais

Índice
a decisão definitiva, tem respaldo na letra da lei e, como disse o juiz: “cum-
1 INTRODUÇÃO prir a lei não gera arrependimento”. E os outros dez do STF que suspende-
ram sua decisão, agiram ilegalmente? Então tá! A deputada Janaína Pas-
choal (PSL-SP) acha que a decisão deve ser investigada e me faz lembrar o
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU famoso livro de Truman Capote, A sangue frio, em que o autor se apaixona
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO pelo criminoso. Só pode ser isso.
SOCIAL
O senador Chico Rodrigues (DEM-RR) é flagrado com dinheiro na cue-
ca, numa operação da Polícia Federal. Dá uma explicação comovente, pede
3 CIÊNCIA JURÍDICA
licença de 121 dias para a assunção do suplente, ninguém menos que seu
próprio filho. Será julgado por seus pares, senadores, que o farão com o
mesmo interesse público com que sabatinaram o próximo juiz da suprema
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
corte. Ou seja: acabar com os excessos persecutórios do “lavajatismo” que
causaram tanta “injustiça” e constrangimento. E com o apoio presidencial,
Dr. Moro! Coisa linda!
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
Quanto à acusação de plágio do indicado ao STF, tem até uma boa
história para justificar a cola, inclusive a conivência do plagiado, coisa de
REFERÊNCIAS amigos. O fato? 17 páginas de “control C, control V”, sem aspas, nem men-
ção ao verdadeiro autor (segundo a Revista Crusoé, confirmado pelo siste-
ma Plagium do Estadão). É plágio e corrosão de caráter. De um criminoso?
Não, de um funcionário da Justiça que, como outros mencionados, se vale

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Estudos Transversais

Índice
da farsa em nome da fama e da fortuna e revela a utilidade das cadeiras de
1 INTRODUÇÃO Sociologia e Antropologia Jurídicas.

Em Do espírito das leis, o filósofo político francês Charles de Mon-


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU tesquieu (1659-1755) dizia que a saúde da República dependia de uma
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO boa dose de igualdade e frugalidade. Em Democracia na América, seu con-
SOCIAL terrâneo e igualmente filósofo político Alexis de Tocqueville (1805-1859)
constatou essas qualidades naquela que viria a ser, segundo seu próprio
prognóstico, a mais potente república do século XX, os EUA. Igualdade e
3 CIÊNCIA JURÍDICA
frugalidade são pais da moderação, principal recomendação do filósofo ir-
landês Edmund Burke (1729-1797).
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
Lendo a Bíblia, colonos americanos e catarinenses, entre outros, aprende-
ram tais qualidades, somadas à ética do trabalho. Sem isso, resta o apreço
piegas, antiliberal e patrimonialista pela desigualdade e pelo ganho fácil.
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO Refiro-me à antimoderna e extrema desigualdade entre governantes e go-
vernados que tece o fio das nações atrasadas. Constitui-se de privilégios,
pompa, falsas honrarias e títulos comprados, além do roubo ao patrimônio
REFERÊNCIAS público, que honram os frívolos tanto quanto enojam ao homem discreto
que se faz pelo trabalho honesto.

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Estudos Transversais

Índice
É esse fio antropológico que une os três atos: 1) a pavonice enerve de um
1 INTRODUÇÃO juiz ressentido e alheio ao enorme dano moral e financeiro causado por
sua excentricidade à 2) busca de fortuna ilícita de um político miserável
que envergonha o País, e 3) a condescendência geral com o roubo de ideias
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU em busca de fama, algo ilegal, por um representante da lei, como fosse
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO isso um mal menor. Pelo amor de Deus! Antes que desistamos de tudo,
SOCIAL
lembremo-nos de estudar o “espírito das leis”, cuja parte boa nos lembra:
fiscaliza teu senador.
3 CIÊNCIA JURÍDICA
Resguardadas as exceções, nossa elite é pouco ilustrada, nada burra, mas
lhe falta a grandeza da ambição de ser respeitada. Com todas as variações,
é a ambição de ser respeitado, o ensinamento das grandes nações. Por pa-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
radoxal que pareça, essa ambição está na cultura da igualdade e da fruga-
lidade, isto é, da vida sem excessos, da parcimônia e da labuta do homem
burguês. É isso e mais algumas coisas não dissonantes disso, que explica a
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO vergonha na cara e o desejo de ser reconhecido por feitos e exemplos, não
pela fortuna às custas do roubo ou do privilégio.

REFERÊNCIAS A frase, segundo a qual, “o Brasil não é um País sério”, foi inadvertidamen-
te atribuída ao então primeiro-ministro francês Charles de Gaule, em 1962,
num episódio tão hilário quanto verdadeiro: o conflito diplomático intitu-
lado Batalha das lagostas. É só procurar na internet. A solução apontada

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Estudos Transversais

Índice
pelo Brasil foi risível, para dizer o menos e mereceu o comentário anterior,
1 INTRODUÇÃO mas não de Gaule. Foi do próprio embaixador brasileiro, Alves de Souza,
consternado com a inapetência do Brasil a assumir a condição de uma na-
ção respeitável.
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO FONTE: Adaptado de BIRKNER, W. M. K. Um caso de antropologia jurídica. Jornalismo
SOCIAL digital, Canoinhas, região e mais, Canoinhas, 25 out. 2020. Disponível em: https://www.
jmais.com.br/um-caso-de-antropologia-juridica/. Acesso em: 9 dez. 2020.

3 CIÊNCIA JURÍDICA
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
Seguramente, a Antropologia e a Sociologia jurídicas vão muito além das
sugestões temáticas apresentada aqui. O esforço investigativo nessas áreas já
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO nos brindou com muitos temas, incluindo os mais hodiernos e frequentemen-
te abordados, no interior dos estudos identitários contemporâneos. Exemplo
disso, a quem interessar, é o livro Antropologia e direito: temas antropológicos
REFERÊNCIAS
para estudos jurídicos, que trata temas como minorias, gênero, família, identi-
dade, natureza, diversidade, religião, raça, indivíduo, aborto, violência conjugal
entre muitos outros (LIMA, 2012).

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69
Estudos Transversais

Índice Todavia, nossa abordagem sumária sobre a Sociologia e a Antropologia do


Direito tem o propósito de advertir ao fato de que a relação de causa e conse-
1 INTRODUÇÃO quência entre a lei e a sociedade é pouco difundida na sociedade brasileira. O
povo brasileiro tem baixa percepção sobre o “espírito” de suas leis, e isso não
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU se restringe às camadas menos instruídas. Tem a ver com o distanciamento crô-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
nico do Estado para com os cidadãos em geral. Não um distanciamento jurídico,
pois que, de um modo ou outro, a lei a todos alcança; mas uma distância repu-
blicana entre governantes e governados, que nos afeta.
3 CIÊNCIA JURÍDICA

Esse distanciamento tem profundas causas antropológicas e fica demons-


4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA trado na grande expectativa paternalista que a população projeta na figura de
um presidente da República. Em detrimento disso, as expectativas quanto às
responsabilidades dos legítimos legisladores são reduzidas a uma boa relação
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
fisiológica e paternalista com o eleitor, que ignora os trâmites da formulação
das leis e os interesses ali envolvidos. Não compreendemos a sofisticação legis-
REFERÊNCIAS lativa que encobre esses interesses.

Não cabe aqui uma análise pormenorizada sobre as saídas possíveis, mas
sabe-se que dependem do aprofundamento investigativo das leis e suas rami-

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70
Estudos Transversais

Índice ficações. A descentralização político-administrativa, a distritalização eleitoral,


a simplificação do sistema tributário e tudo o mais que podemos propor deve
1 INTRODUÇÃO
ser insistentemente refletido, estudado para que a discussão republicana des-
ses inúmeros temas seja amplamente difundida. O papel da Antropologia e da
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU Sociologia do Direito está minimamente compreendido e ultrapassa o dogma-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL tismo jurídico.

Desde já e sempre, marquemos certa distância do engajamento ético e


3 CIÊNCIA JURÍDICA
moral. Ainda que admitamos que a Antropologia e a Sociologia do Direito te-
nham importância inconteste à formação crítica do profissional do Direito, a
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA disposição ao aprofundamento reflexivo e crítico será sempre a decisão de cada
um. Isso não nos impede de concordar com todos os juristas e cientistas sociais
que criticam a formação universitária excessivamente “dogmática e formalista”
5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
no Brasil.

REFERÊNCIAS Adepto dessa crítica, o jurista Orlando Villas Boas Filho, professor de Direi-
to da Universidade de São Paulo (USP), afirma que tais ciências são fundamen-
tais à “compreensão da complexidade social na qual se inscreve a regulação
jurídica”, preparando “o futuro jurista para a complexidade que caracteriza a

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71
Estudos Transversais

Índice sociedade brasileira” e de distanciá-lo do que chama, criticamente, de “praxis-


mo forense” e “erudição ornamental” (VILLAS BOAS FILHO, 2017).
1 INTRODUÇÃO

Não obstante ao caráter formativo, intelectual e profissional, nos convém


2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU lembrar o aspecto educativo da Antropologia e da Sociologia jurídicas. Em ou-
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL tras palavras, como já afirmamos, a sociedade brasileira ainda precisa se dar
conta de que a sua atenção e educação cívica republicana é elementar e, com
ela, o despertar sobre a importância elementar do Direito. Não do conhecimen-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
to doutrinário, útil e pragmático, mas de pouco valor ao caráter civilizatório do
estudo das leis, qual seja, a percepção montesquiana de que boas leis produ-
4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA zem bons homens e mulheres, que produzem grandes nações.

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

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Estudos Transversais

Índice
REFERÊNCIAS
1 INTRODUÇÃO ANTONOV, M. Portraits of Legal Scholars. G.D. Gurvitch: A Project of Sociology
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Disponível em: https://law-journal.hse.ru/en/2014--4/141117076.html. Aces-
2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
so em: 9 dez. 2020.
SOCIAL
BIRKNER, W. M. K. Por que o Brasil cresce pouco? Uma pergunta de tirar o
sono. Revista Brasileira de Desenvolvimento Regional, v. 1, n. 5, 2017. Dispo-
3 CIÊNCIA JURÍDICA nível em: https://proxy.furb.br/ojs/index.php/rbdr/article/view/6562. Acesso
em: 9 dez. 2020.

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5 NA FORMA DE CONCLUSÃO
BRITANNICA. L. Law. In: Encyclopedia Britannica. c2020a. Disponível em: ht-
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REFERÊNCIAS
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Applied-anthropology. Acesso em 30 out. 2020.

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73
Estudos Transversais

Índice DAMATTA, R. Entrevista com Roberto DaMatta: uma nova interpretação do


Brasil. In: Agência Câmara Notícias da Câmara dos Deputados, Brasília, 2007.
1 INTRODUÇÃO Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/95115-roberto-da-matta-
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2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU DAMATTA, R. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO brasileiro. São Paulo, Rocco, 1997.
SOCIAL

DEFLEM, M. Sociology of Law: visions of a Scholarly Tradition. Cambridge:


Cambridge University Press, 2008. Disponível em: http://fis.unj.ac.id/labs/so-
3 CIÊNCIA JURÍDICA
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Estudos Transversais

Índice LIMA, A. C. de S. (Coord.). Antropologia e direito: temas antropológicos para


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2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU 2020.
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL
MIRANDA NETO, A. G. et al. Dicionário de ciências sociais. Rio de Janeiro: FGV,
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3 CIÊNCIA JURÍDICA
ROSA, F. A. de M. Sociologia do direito: o fenômeno jurídico como fato social.
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4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA
SILVA, A. C. de A. P. da. Encontros entre direito e antropologia tendo Geertz
por cicerone. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 12, n. 1431, jun. 2007. Dis-
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SILVA, C. M. R. M. da. Sociologia jurídica em Max Weber: noções preliminares.


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REFERÊNCIAS consulta/Artigos/39952/sociologia-juridica-em-max-weber-nocoes-prelimina-
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SILVA, R. P. M. da. Teoria da justiça de John Rawls. Revista de Informação Le-


gislativa, Brasília n. 138, abr./jun. 1998.

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Estudos Transversais

Índice VILLAS BOAS FILHO, O. Antropologia jurídica. In: Enciclopédia jurídica da USP.
Tomo Teoria Geral e Filosofia do Direito. 2017. Disponível em: https://enciclo-
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9 dez. 2020.

2 SOCIOLOGIA DO DIREITO (OU WEBER, M. Economia e sociedade. Volume 2. Brasília: UnB, 1999.
SOCIOLOGIA JURÍDICA): FATO
SOCIAL

3 CIÊNCIA JURÍDICA

4 ANTROPOLOGIA JURÍDICA

5 NA FORMA DE CONCLUSÃO

REFERÊNCIAS

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