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COMO FAZER TEOLOGIA POLÍTICA

A JORNADA
COMO FAZER
EM BUSCA DE UMA
TEOLOGIA POLÍTICA
TEOLOGIA RELEVANTE

Aula
Aula 6
1
1822
dede
março de 2021
abril de 2021

YAGO MARTINS

Transcrição:
Transcrição: Júlia
Júlia Costa Costae adaptação:
| Revisão Revisão Alana
e adaptação: Késsia Vanessa
Lins | Diagramação: Loanny Costa
AULA 6 @institutoschaeffer
COMO FAZER TEOLOGIA POLÍTICA

Aula 6
Como Fazer Teologia Política: Do Instrumental Marxista ao
Realismo Hermenêutico

“Podemos ler de forma a evitar que vejamos a nós mesmos – isto é, aquelas imagens
que projetamos – no espelho do texto?”1 (Kevin Vanhoozer)

Estamos em um tempo muito difícil de discussão sobre as relações entre o cristão e a


sociedade. É um cenário politicamente intenso. Passamos muito tempo, como igreja evan-
gélica, discutindo o relacionamento entre religião e política, principalmente por duas vias.
A primeira via era a da oposição. Um tipo de anabatismo que nos tornava distantes dos
debates que envolviam religião e política. O estado é laico, a igreja está preocupada com
aquilo que é eterno, com aquilo que é espiritual. Crente não se mete em política. Eu ouvia
muito isso no começo da minha fé.

Com o tempo, começou uma mudança no cenário evangélico. Começou um processo


de trazer os cristãos para dentro do debate político. Isso se deu, principalmente, pelas vias
da redemocratização, pela busca de oposição ao regime militar no Brasil e a todos os pro-
cessos de pensamento político que vieram na esteira, principalmente, no crescimento da
teologia da libertação.

Se você pegar livros sobre teologia e política 80 e 90 no Brasil, verá muito material que
seguia uma via de reintrodução dos cristãos ao cenário político, sobre a importância de
cosmovisão e de engajamento social, por vias que eram particularmente de esquerda,
como oposição a regimes que eram ditatoriais e de direita no Brasil, que era o regime mili-
tar. Você encontrará muito material brasileiro falando de uma perspectiva mais de esquer-
da e tentando construir teologia daí e alguns materiais traduzidos do contexto da Guerra
Fria dos Estados Unidos que falavam contra o comunismo. No Brasil, você pode encontrar
algumas obras bem antigas contra o comunismo mundial. Nisso, tínhamos um cenário
que era tão efervescente assim, mas que era um cenário muito próprio daquilo que o Brasil
vivia.

Com o tempo, as coisas começaram a se aprofundar nesses debates, principalmente,


quando essas temáticas começaram a receber de todo o arcabouço das conversas sobre
cosmovisão cristã, que foram crescendo no Brasil. Cosmovisão é um termo muito conhe-
cido e um tema efervescente nas redes sociais sobre como o cristão enxerga e vive a vida
social. Se estamos preocupados com cosmovisão cristã, com a forma como o cristão vê a
vida e responde a sociedade, deveríamos pensar na economia e na política também a partir
do próprio cristianismo.

1
VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto?: Interpretação bíblica: os enfoques contemporâneos.
São Paulo: Editora Vida, 2015, p. 28.

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Nesse esforço, há uma miríade de posições e de posturas diante de um cenário político


que foram se popularizando no solo nacional. Nesse cenário, começou a efervescer no
Brasil, as mais variadas posições políticas, das mais variáveis justificativas teológicas. As
pessoas começaram a pensar teologia, pensar em economia, pensar cultura, a partir do
seu campo de fé, mas não conseguindo chegar em um ambiente comum.

Grandes nomes do Brasil começaram a publicar sobre economia política de uma pers-
pectiva que era menos comum anteriormente e de uma perspectiva mais liberal, conserva-
dora e da direita. Alguns desses autores foram Franklin Ferreira e Norma Braga, tidos como
bastiões da direita evangélica.

Norma Braga escreveu sobre cosmovisão cristã, Franklin Ferreira escreveu seu famo-
so livro Contra a Idolatria do Estado, um livro sobre os problemas do estatismo, um livro
então de uma teologia política de uma perspectiva de direita. No Brasil, começamos a ter
também novos nomes da esquerda como Ariovaldo Ramos, que de dentro da teologia da
missão integral, começou a se envolver muito com uma perspectiva, principalmente, do
Partido dos Trabalhadores. Temos a figura de Antônio Carlos Costa, que por mais que não
esteja envolvido com partidos políticos, tem textos que defendem mais a esquerda do as-
pecto político, como o livro Teologia da Trincheira: Reflexões e Provocações Sobre o Indiví-
duo, a Sociedade e o Cristianismo, assim como Convulsão Protestante:Quando a Teologia
Foge do Templo e Abraça a Rua, que são livros de teologia política.

Com o culminar da eleição do atual presidente, Jair Messias Bolsonaro, temos um cená-
rio de fragmentação muito profundo nas teologias políticas evangélicas. O governo atual,
gera um tipo de ruptura muito forte, porque por um lado, ele acaba recebendo um apoio
muito intenso em certas alas da igreja evangélica e, por outro lado, recebe críticas e opo-
sições também muito profundas por parte de grupos dentro e fora da igreja. Isso faz com
que nos sintamos muitas vezes como numa espécie de campo minado. Não sabemos bem
o que fazer, pensar e construir uma teologia sobre a política. Será que a nossa postura
como cristão é simplesmente a postura de escolher uma posição política e tentar batizá-
-la? Se alguém, por exemplo, se sente satisfeito em relação ao presidente atual, e tenta jus-
tificá-lo a partir da sua própria leitura de fé, ou se sou afeito a Moro ou a Lula, por exemplo,
e tenho uma afeição política aquela figura e tento validá-la a partir da minha própria leitura
da Palavra de Deus.

O mesmo pode acontecer com a ideologia, não só com as figuras. Se alguém se denomi-
na um liberal, um republicano, um social-democrata, por exemplo, essa será sua leitura da
sociedade, uma resposta para o tempo presente. Como então, posso validar essas minhas
crenças? Não apenas olhando para a realidade, para o mundo em volta achando que essa
é a melhor resposta, mas também posso fazer isso tentando encontrar na Palavra de Deus
coisas que deem suporte a essa minha visão ideológica específica.

Dentro da igreja, acabamos passando por muitos sofrimentos, pois a postura cristã hoje,
tem sido a de criar integração. Não nos sentimos satisfeitos em dizer que existe o reino
da fé, o reino da teologia bíblica e da política e esses reinos não se tocam. “Você pode ser
um cristão de esquerda e de direita se quiser, não meta sua fé nisso”, é uma postura muito
minoritária hoje em dia. A ideia de que posso ter uma visão política e não incluo minha fé

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nisso. Não aceitamos mais isso e tentamos integrar. É bom que tentemos integrar, o pro-
blema é que não sabemos como integrar. Com isso, acabamos passando por um processo
de mera justificação teológica das nossas preferências políticas. Invés de nos esforçarmos
para ler o mundo com as lentes do Evangelho, e então, ler a política a partir da Palavra de
Deus, acabamos muitas vezes sendo sujeitos ao espírito do tempo, ao zeitgeist, como di-
zem os filósofos, a forma de pensar do nosso tempo, sendo fruto do meio, acabando por
simplesmente assumindo certas posições e visões políticas e reproduzindo isso. Repro-
duzindo isso, bebemos e devolvemos ao mundo uma vivência política que é balizada pela
fé, mas que não é justificada teologicamente. Podemos balizar pela nossa fé, tentando
batizar a ideologia não convertida. Pegar o socialismo, o liberalismo, o conservadorismo,
ou o que quer que seja, simplesmente derrubando na água do batismo, sem uma conver-
são genuína. Isso é profanação da nossa fé. Profanamos a nossa fé quando simplesmente,
escolhemos visões políticas e tentamos dar a elas um carimbo de cristão, um cartão de
membresia sem uma conversão genuína dos nossos pensamentos, da nossa mente que
tenta pensar teologicamente.

Como fazemos teologia política? Como podemos pensar teologia? Você pode me per-
guntar como lidamos com a esquerda ou com a direita, mas esse não será o assunto da
aula de hoje. A ideia não é convencer você de uma perspectiva política específica, mas de
te preparar para que você saiba como pensar teologia política de forma bíblica, correta,
coerente e hermeneuticamente madura. Para a partir daí, começarmos a pensar teologica-
mente e chegar a conclusões de como devemos nos posicionar politicamente.

O material dessa aula é algo que estará em um livro meu, mas que ainda demorará al-
guns anos para que vocês tenham esse livro em papel. Ainda assim, me sinto à vontade
para compartilhar essas ideias e textos que já tenho escrito e que ainda vão demorar para
fazer parte de alguma obra. Essa aula, é o primeiro capítulo, o capítulo introdutório do meu
livro sobre economia e política segundo a Bíblia, que um dia será publicado, mas que vai
demorar um pouco.

Cada aula que você recebe, é facilmente um capítulo de um livro. Em cada aula, você está
lendo um capítulo de um livro com os professores/autores desses livros através da Escola
de Teologia, para que criemos uma comunidade de leitores, uma comunidade de alunos
interessados no aprendizado teológico, recebendo em primeira mão, pesquisas, leituras,
escritos e ideias que estão efervescendo em nossos corações como professores e como
teólogos.

Você deve ter ouvido falar de um homem chamado Adam Smith. Adam Smith é um nome
muito conhecido por ser o que chamam de criador da economia, quem inventou a eco-
nomia como ciência. Ele escreveu um livro chamado A Riqueza das Nações, e nele, Adam
Smith fala sobre os relacionamentos que se dão em uma ordem econômica e sobre a im-
portância desses relacionamentos para que as nações cresçam.

Sempre que uma nova ciência surge, ela surge dentro de uma outra ciência. Se Adam
Smith é o criador da economia, onde ele fundou essa economia? O que ele estava fazen-
do que virou economia? Adam Smith, antes de tudo, era um filósofo moral. O livro escrito
por Adam antes de A Riqueza das Nações foi um livro chamado Teoria dos Sentimentos

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Morais. Por mais que Adam Smith seja conhecido hoje como economista, antes de tudo,
era um filósofo moral. Suas preocupações não eram meramente econômicas, mas éticas
e morais. O que era certo e o errado. Valores e sentimentos de suas relações com a mora-
lidade.

Isso faz com que a economia nasça dentro de um esforço muito humano e filosófico
muito próximo da teologia. Adam Smith faz algo que nós também fazemos, pensar ética
e moralidade. A moral, o certo e o errado, estão muito próximos da religião. A economia
nasce dentro da filosofia moral, dentro do aspecto filosófico mais próximo da teologia que
a economia nasceu. Isso faz com que a economia tenha nascido dentro de um esforço
muito humano e filosófico próximo da teologia. Temos alguns livros como o de Alejandro
A. Chafuen que é ligado ao Acton Institute, o maior instituto de economia e cristianismo do
mundo. Ele tem um livro que se chama Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late
Scholastics, publicado em português como Fé e Liberdade: O Pensamento Econômico da
Escolástica Tardia. O argumento de Chafuen é que movimentos econômicos de livre mer-
cado foram criados dentro do cristianismo. Ele é católico e fala muito sobre escolas cató-
licas de Viena e Coimbra, escolas de Salamanca e da escolástica hispânica, por exemplo,
como ambientes que criaram e fomentaram escolas econômicas específicas.

Um famoso autor brasileiro de ascendência italiana chamado Ubiratan Jorge Iorio, es-
creveu Dos Protoaustríacos a Menger: Uma breve história das Origens da Escola Austríaca
de Economia, passando muito tempo discutindo teólogos.

Você tem autores construindo a ideia de que as modernas escolas de economia, princi-
palmente escolas liberais, possuem na sua gênese visões teológicas muito íntimas e muito
sérias. Quando Chafuen e Ubiratan escrevem, eles estão argumentando que há uma escola
de economia, no caso, a Escola Austríaca que existe porque a escolástica tardia, padres,
monges, professores ligados ao catolicismo da escolástica, especialmente a hispânica,
na escola de Coimbra, Portugal, Espanha, na Escola de Salamanca, por exemplo, há uma
estrutura de pensamento econômico que nasce de um esforço profundamente teológico.

Tomás de Mercado, Juan de Mariana, até mesmo Luís de Molina, no conceito de moli-
nismo, uma teoria acerca da soberania de Deus, um meio do caminho entre calvinistas e
arminianos. Luis de Molina escreveu muito sobre economia, sobre política, sobre preço
justo. Há escolas teológicas modernas que vem disso.

Se você tiver alguma intimidade com os debates sobre calvinismo e arminianismo, deve
ter ouvido falar de Luís de Molina e da posição chamada Molinismo, grupo de terceira via
calvinista e arminiana. Luis de Molina escreveu muito sobre economia dentro de uma pers-
pectiva teológica.

Hoje, temos a economia como algo que surge dentro da teologia moral. A economia não
é uma ciência neutra, historicamente falando, de questões teológicas desde sua formação.

Pensando em Carl Menger da Escola Austríaca de Economia, cita pelo menos dois teólo-
gos em seu principal livro sobre economia. Ele foi influenciado profundamente por nomes
como Jacques Turgot, Ferdinando Galiani, Étienne Bonnot, Jean Baptiste Say, Frédéric Bas-

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tiat, Gustave de Molinari, Wilhelm Roscher, homens que foram profundamente influencia-
dos pela escolástica espanhola. O esforço que nós vemos na história, que traz da teologia
e da filosofia moral, aquilo que nós chamamos de economia. Compra e venda, mercados,
preços, valor, como isso se relaciona com os seres humanos, veio de um esforço de mo-
ralidade e de teologia. É na escolástica, no período de padres e monges em Coimbra de
onde nasce muito do que se crê em economia hoje. Há muito debate sobre a ideia da mão
invisível de Adam Smith que surgiu pelo fato de ele ser um deísta. Acreditando em um deus
de mão invisível que organiza e coordena as coisas.

O que temos é um esforço histórico de relação muito íntima no modo como se pensa
economia e teologia, no modo como se pensa as relações de compra e de venda, merca-
dos, preço, valor e como se relacionam com a ciência econômica. Isso não é algo criado
por mim ou por outro pregador, elas realmente se relacionam intimamente. Como então a
economia virou uma outra coisa? Se a economia surgiu dentro da teologia moral, por que
encontramos algo diferente na televisão? Se vemos em uma entrevista um economista, ele
provavelmente não discutirá filosofia moral, não citará escolásticos ou lidará com o certo
e o errado, vai lidar apenas com números, modelos e ideias, o que desce ou sobe econo-
micamente. A economia virou uma mera matemática aplicada às relações de mercado.
Chamamos isso de matematização da economia, a economia se reduziu a matemática.

O autor William Stanley Jevons, economista famoso, escreveu: “Se a economia quiser
ser efetivamente uma ciência, ela deve tornar-se uma ciência matemática”.2 Ele escreveu
isso no começo do crescimento do pensamento econômico. Se a economia queria ser uma
ciência particular própria, deveria se tornar uma matemática para poder ser considerada
uma ciência, pois enquanto filosofia e teologia moral, estava dependente ainda da igreja. A
partir do momento em que os economistas queriam que a economia fosse uma ciência por
si só, houve esse processo de transformar a economia em uma matemática.

Existe um outro autor chamado John Kenneth Galbraith, de uma perspectiva mais ke-
ynesiana, e escreve o seguinte:

“As coisas podem distar do que é bom, do que é fair, do que é tolerável; este não é o
problema do economista enquanto economista. Em virtude do reclamo de que a econo-
mia deve ser considerada como ciência, ela deve separar-se da justiça ou injustiça, do
sofrimento e da opressão causados pelo sistema. A tarefa do economista é permanecer
distante, analisar, descrever e, se possível, expressar tudo em fórmulas matemáticas, mas
não passar jamais a juízos morais ou envolver-se de qualquer outro modo.”3

Para Galbraith, a tarefa do economista não é pensar no que é justo, no que é bom, no que
é certo ou no que é errado. A tarefa do economista é unicamente analisar matemática. Essa
é uma mudança muito grande dentro da ciência desde seu nascimento. Nascida de dentro
da filosofia moral e da teologia hispânica, a teologia passou a simplesmente se distanciar
do que é certo ou errado. Começamos a ter um tipo de controle matemático na economia.
Essa moral matemática trouxe um vício em controle. Agora, já que a economia matemática

2
JEVONS, William Stanley. The theory of political economy. Macmillan, 1879, p. 3.
3
GALBRAITH, J. K. Economics in Perspective. Boston: Houghton Mifflin Co., 1987, p. 124.

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é uma economia que nasceu da moral, as pessoas tentam criar uma moral matemática.

Se a economia nasceu dentro da filosofia moral, ela nasceu para discutir relações en-
tre indivíduos e como essas relações e essas trocas lidam com as questões da natureza
humana. Vem da própria escolástica discutindo a antropologia cristã e aplicando isso às
relações de troca e venda. Se essa ciência profundamente humana começa a se reduzir
a uma matemática, uma série de relação entre cálculos e modelos em R que você coloca
no computador, começamos a encontrar um tipo de controle matemático. Se antes discu-
tíamos moral e ética, se antes questionávamos o bem e o mal a partir de filosofia moral,
antropologia e teologia bíblica, agora temos números, cálculos, correlações entre aspectos
da realidade econômica, mas continuamos com esse esforço de pensar no que é certo
ou errado. Enquanto isso, para transformar a economia em uma ciência, os economistas
começaram a argumentar que a economia deveria se distanciar do que é certo ou errado
tornando-se apenas número, aconteceu que a economia virou número, mas sem conse-
guir se distanciar do que é certo ou errado. Continuando a preocupar-se com o que é justo,
com o que é bom ou mal, usando a economia como uma forma de tentar trazer um tipo de
controle. No entanto, não mais através de toda a base de filosofia moral de antropologia
bíblica, de teologia que deram base para a economia. Trocamos tudo isso por matemática.
Como em um Ótimo de Pareto, buscando o melhor preço, a melhor demanda, oferta, rela-
ção econômica, taxa de juros e a melhor taxa de imposto, usando tudo isso para controlar.
Para dizer quanto cada pessoa deve ter ou não de cada coisa, quanto as pessoas devem
fazer ou não em cada uma de suas escolhas como ser humano.

A moral matemática consiste em reduzir as relações humanas de compra e venda em


relações numéricas. Meras relações do que é mais lucrativo, do que melhora a socie-
dade de modo geral e de como controlar as relações econômicas a partir de algum ga-
binete central em Brasília, por exemplo. No Brasil, temos o Banco Central, o Ministério
da Economia e uma série de pessoas que estão tentando gerir relações de troca e ven-
da. Relações econômicas que muitas vezes são bem próximas da moralidade privada a
partir de mera matematização. Com isso, há o processo de secularização da economia.
O termo secularização fala diretamente sobre tudo aquilo que é religioso sendo apro-
veitado pela sociedade como um todo, excluindo dela suas características religiosas.

A Secularização da Economia: Das Teologias em Conflito

Vamos falar primeiro sobre a secularização da economia e sobre essas teologias em


conflitos. Houve um processo muito grande de secularização da economia e da política na
mente de muita gente.

Se “os economistas são também, à sua maneira, eminentes e perigosos teólogos”4, por
isso, há a necessidade de analisarmos de forma consciente que tipo de cosmovisão dá
base para as assertivas econômicas dos pensadores de vulto que rodeiam universidades,
encontros acadêmicos, entrevistas na mídia e formações políticas. Com isso, precisamos

4
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 10.

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ter a mente muito firme para entender essa secularização da economia. A sociedade for-
mada pelo cristianismo se torna secularizada quando abandona suas bases religiosas e
passa a viver de forma laica como se pudesse existir de alguma forma.

A economia se torna secularizada a partir do momento em que excluímos dela todas as


bases religiosas. Poucos param para pensar hoje em dia que existem aspectos teológicos
que permeiam o pensamento econômico, seja a esquerda ou a direita política. O ponto é
que existe uma teologia que dá base a todos os aspectos econômicos.

Uma teologia que fala a uma existência comum que descamba na vida normal das pes-
soas. A teologia não foi feita para o gabinete, mas para a existência de homens e mulheres
comuns dentro de suas vidas comuns e isso inclui suas questões de troca e de venda
desde um mundo pré-capitalista onde as relações de troca se davam de forma direta, onde
se plantava arroz e o trocava por um pouco de carne e havia esses ambientes de troca em
algum nível, desde ambientes sem estado como uma tribo indígena onde existia uma rela-
ção mais comunitária. Tudo era de todos, não existindo propriedade, visto que proprieda-
de existe basicamente dentro de um contexto de escassez. Tinha-se ambientes políticos
mais estatistas onde se tinha o ateísmo de estado no comunismo soviético, por exemplo,
onde todo o esforço de ter um estado que controla a economia vem de um tipo de teologia
específica.

Infelizmente, a fundamentação religiosa da vida foi perdida com a secularização e isso


inclui economia e política. A fundamentação religiosa das visões econômicas às vezes
não é explícita. Segundo John Gray, famoso filósofo, escreveu em seu livro Missa Negra o
“livre mercado só se tornou uma religião quando foram negadas suas bases religiosas”.5
Ou seja, quando paramos de fundamentar de modo explícito a religião por trás da política e
da economia, damos à percepção econômica e política a função de religião. Logo, apenas
percebendo a religião por trás da política pode nos tirar da escravidão das seitas civis, da
escravidão das religiões que se disfarçam de política.

Jacob Viner foi certeiro ao argumentar que os “professores de economia política e ética
atuam em disciplinas que foram secularizadas a tal ponto que os elementos e implicações
religiosos que antes eram parte integrante delas foram diligentemente eliminados”.6 O es-
forço de secularização das ciências econômicas e políticas foram conscientes, não um
mero acaso histórico. Assim, à primeira vista, ainda que pareça que “teologia e economia
são ciências completamente diferentes”, basta olhar mais de perto que “salta à vista um
parentesco inquietante”.7

Isso significa que a própria economia de livre mercado, ou mesmo uma economia mais
interventora, uma ideia de estado de bem-estar social ou um liberalismo mais profundo, se
tornam substituto de religião. Geralmente, quando algo que é fruto do pensamento religio-
so se torna secularizado, ele próprio se torna uma religião substituta nos nossos corações.

5
GRAY, John. Missa negra: Religião apocalíptica e o fim das utopias. Rio de Janeiro: Record, 2008, 134.
6
VINER, Jacob. The Role of Providence in the Social Order: An Essay in Intellectual History. Filadelfia: Ame-
rican Philosophical Society, 1972, p. 81.
7
VAN LEEUWEN, Arend Th. De Nacht van het Kapitaal. Nijmegen: SUN, 1984, p. 15.

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Por isso, é importantíssimo discutirmos essas coisas para podermos pensar como fazer
teologia política.

Não quero convencê-lo das minhas próprias visões econômicas e políticas, mas algo
que me deixou muito encantado com a Escola Austríaca de Economia e com os chica-
guistas, por exemplo, é o fato de que eles estão muito preocupados com lógica discursiva,
com entender o mundo, entender as coisas e as relações mais humanas. São escolas de
economia menos matemáticas e menos proféticas em termos numéricos, tentando sim-
plesmente explicar o mundo a partir de uma ética e de uma lógica matemática que muitas
vezes é inaplicável. Pense na ideia dos coeteris paribus, se você tiver intimidade com a
economia. “Se tudo mais estiver constante, então” o que é uma loucura, isso só existe para
poder brincar em laboratório, para brincar em programa de computador.

Quando eu estava no ensino médio, o professor de física dizia muito “desconsiderando


o atrito e a pressão do ar, você desconsidera dois fatores para fazer funcionar o cálculo
físico.” Na economia, às vezes, é necessário desconsiderar toda a realidade. “Se tudo mais
permanecer constante”, ou seja, ignorando toda a realidade, ignorando toda a existência,
ignorando todos os aspectos humanos, ignorando todo o mundo, então é isso.

Qual é a vantagem que temos então de termos certos cálculos de computador que ten-
tam analisar o mundo, simplesmente ignorando-o. Você pode entender mais ou menos
como se dá a relação entre esse e aquele fator de forma artificial, mas como eu posso
querer dar respostas para a realidade a partir de uma artificialidade tão intensa? A partir
de uma visão da existência social que simplesmente não se dá no mundo real, só se dá
através do computador, porque estou resumindo as pessoas a uma visão muito estreita de
quem elas são.

A ciência como nós conhecemos surgiu no Ocidente por causa do cristianismo. A ideia
de uma ordem do universo, de um mundo externo, de um mundo observável, de sentidos,
padrões e lei, tudo isso vem direto da compreensão de que Deus cuida do universo. Acon-
tece que a ciência progrediu, secularizou-se e então sua base religiosa foi ignorada. Não se
crê na ciência, porque se crê em Deus. Fala-se muito sobre essa idolatria da ciência, pen-
sando na ciência como a solução de todos os problemas do mundo. Com isso, o ambiente
se torna ateu. Não se crê mais no Deus vivo, mas somente na própria ciência. O mesmo
acontece dentro do ambiente econômico, você tinha visões acerca de relações de troca
e venda, de questões políticas do que o governo deve ou não fazer, e isso, como fruto de
teologia moral e de teologia pública. Quando eu ignoro a teologia pública e todas as bases
religiosas nisso, a própria economia se torna deus e se torna sacralizada e erigida.

Você não vai encontrar isso sendo discutido em nenhuma faculdade de economia. Na
faculdade de economia, como alguns alunos comentaram, ninguém discute as bases te-
ológicas que dão origem para aquele pensamento econômico. Da mesma forma, se você
vai em um curso científico, de biológicas, física ou nas engenharias, ninguém vai discutir
a partir de qual visão de fé, sociedade e leitura de mundo aquelas construções físicas,
matemáticas, de forma mais geral, estão se baseando. A nossa sociedade não se importa
mais com nada disso e podemos acabar idolatrando a própria economia, esse é o nome
de um livro de Hugo Assmann e Franz J. Hinkelammert, que se chama A Idolatria do Mer-

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cado: Ensaio Sobre Economia e Teologia, ambos são autores da teologia da libertação. Há
muita porcalhada nos que eles escreveram, no entanto, eles fizeram um monumental para
discutir sobre essas relações entre religião e economia de uma forma que é muito útil. En-
tão, agora o ambiente científico se torna ateu? Não. É um ambiente de muita fé na ciência.
Se dizem ateus, mas a ciência se torna deus. Vemos isso em diálogos sobre coronavírus,
por exemplo. Se por um lado temos um grupo de pessoas conhecidas por serem negacio-
nistas da ciência, por outro lado, há um grupo que trata a ciência como uma espécie de
divindade. Existem processos de negação da fé religiosa que fazem com que a ciência se
torne, por si só, fé religiosa. Isso acontece na economia. A economia é um movimento de
observação da realidade que existe por causa de suas bases religiosas, negar suas bases
religiosas fazendo com que a própria economia preencha aquele espaço que foi negado e
ela se torne uma religião. A secularização nem sempre é um processo de tirar aquilo que
é místico de coisas religiosas, pelo contrário, é de transformar o fruto da religião em uma
religião substituta, tirando o aspecto religioso, torna-se aquilo que é religião. Os modernos
professores de economia política e ética atuam em disciplinas que foram secularizadas a
tal ponto, que os elementos e implicações religiosos que antes eram parte integrante delas,
foram diligentemente eliminados e eles nem sabem disso.

Você vai a uma faculdade de economia e não estudará as raízes religiosas dos movi-
mentos políticos. Vai ler livros inteiros sobre Karl Marx, fará disciplinas de marxismo e não
passará uma única aula discutindo sobre como a religião afetou o pensamento marxista.
Nas aulas de história do pensamento econômico, estudará sobre as principais escolas de
economia, os principais autores e não será mencionado as relações religiosas. Os profes-
sores de economia muitas vezes nem sabem dessas informações, pois houve um proces-
so diligente de reduzir a economia à matemática. Isso é incômodo para uma sociedade que
quer ao máximo excluir Deus de suas relações científicas, econômicas e políticas. Saber
dessas coisas é fundamental para estudantes de economia cristãos que são perseguidos
por sua fé, para defender não apenas a sua fé, mas a razoabilidade do cristianismo. O cris-
tianismo deu à economia as trocas econômicas como estudo particularmente intrigante
e bem desenvolvido. Desde as escolas de teologia, padres e monges, professores e teólo-
gos, construíram uma ciência que vem do interesse de entender o mundo de Deus. Uma
defesa apologética da própria razoabilidade do cristianismo dentro de uma esfera pública.
Por isso, à primeira vista, a percepção de teologia e economia como ciências completa-
mente diferentes é falsa, vinda de um mundo secularizado. Olhando mais de perto salta à
vista esse parentesco inquietante entre economia e teologia, quando dominamos esses
assuntos com cuidado e inteligência em um mundo onde a obra missionária também se
aproveita de estarmos socialmente posicionados como pessoas públicas que falam sobre
assuntos do momento, lidando com questões importantes, sabendo dar respostas a de-
mandas sociais que surgem nos ambientes em que estamos. Eu nunca evangelizei tanto
do que quando comecei a estudar economia.

Existe uma função política e econômica da religião que tem sido excluída do debate pú-
blico, pois quando falamos sobre essa relação entre religião e política a imagem que vem a
sociedade é geralmente de algum tipo de pastor que utiliza voto de cabresto para ser eleito
ou algum tipo de posicionamento político específico a partir da esquerda ou direita. Existe
um cenário onde o que vemos é geralmente algo que nos desagrada muito, mas é inesca-

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pável o processo de interpretarmos e chegarmos a uma ciência econômica com a religião


servindo de base para ela.

A partir da minha visão de fé, posso rejeitar certas visões políticas e econômicas. Não
estou lendo o mundo de forma secularizada pretensamente neutra, mas lendo o mundo a
partir da revelação das Escrituras. A partir disso, como teólogos cristãos, tentamos ler o
mundo dessa forma.

Mesmo a religião não ocupando uma posição tão sólida como a que o catolicismo ro-
mano ocupou durante a idade média na Europa ou como o islã ocupou durante os quatro
primeiros califados. Mesmo que a natureza dessa conexão entre política e religião tenha
mudado ao longo do tempo, ainda hoje, a religião mantém um papel importante na política
e na economia em muitas partes do mundo contemporâneo. Apesar de muitos estudiosos
modernos argumentarem que a religião tem pouca ou nenhuma influência na política, um
conceito que foi muito forte no campo da sociologia da religião ateísta até a década de 90.
A sociologia da religião deu, de fato, muita atenção às funções da religião de forma geral.

Em A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia, Hugo Assmann e Franz J.


Hinkelammert organizam uma longa argumentação sobre o relacionamento entre religião
e economia. Oriundos da Teologia da Libertação, os autores argumentam que “a economia
trabalha muitas vezes com pressupostos teológicos”.8 E isso é muito ignorado constan-
temente dentro dos ambientes acadêmicos e universitários. Os autores definem os de-
bates políticos como “teologias em conflito”. Em outras palavras, “está em jogo uma luta
dos deuses”.9 A linguagem é forte, mas certeira. Quando discutimos economia e teologia,
estamos discutindo uma luta entre deuses. Uma luta entre visões distintas do mundo, da
existência, da sociedade, do propósito homem e do florescimento da humanidade.

“Há quase vinte anos, num encontro de teologia, [...] Havia entre os participantes um
economista que enriqueceu o debate da seguinte maneira: ‘Quando reflito sobre a econo-
mia política, surgem-me inevitavelmente suspeitas que só posso comprovar recorrendo à
teologia’”.10

Então, poucos teólogos estão prontos para assumir isso. Quando começam a discutir
economia, eu começo a encontrar questões que só podem ser respondidas na teologia.
Jevons estava errado ao dizer que a ciência tem que se distanciar do que é justo, porque
surge na economia várias questões que só podem ser respondidas pela teologia ideológi-
ca, uma teologia que tenta responder às questões de relações humanas que se particulari-
zaram na economia, mas que continuam debaixo do esforço teológico humano.

“O ensino da teologia nos educandários teológicos, incluídas aí muitas universidades de

8
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 9.
9
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 28.
10
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 18.

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renome, constituiu, e ainda constitui em larga escala, um fenômeno relativamente secun-


dário quando comparado ao ingente processo de gestação e incorporação de teologias
sub-reptícias nos modelos de pensamento e atuação dos homens (incluídos os cristãos),
no interior das instituições e dos movimentos sociais.”

Esse é um termo que você deve lembrar, teologia sub-reptícia, que é colocada de forma
réptil, que se esgueira pelo chão, uma teologia que vem escondida, que vem por fora, que
não é explícita. O economista na televisão, por exemplo, não vai dizer claramente que está
defendendo algo que está em completa oposição à fé cristã ou a antropologia bíblica. O
que acontece, é que nas discussões por si só, os educandários nas universidades no mun-
do, há no interior desses movimentos sociais, teologias que são transmitidas por trás das
afirmações econômicas, sociais e políticas de forma geral.

“Em outras palavras, os teólogos mal se deram conta de que as teologias mais impor-
tantes já não eram as de seus compêndios, mas as dos economistas e pensadores sociais
em geral.”11

Existem teologias importantíssimas que estão sendo transmitidas para os nossos jo-
vens, para nós, para nossos universitários, não de forma clara, mas de forma escondida.
Os homens aprendem teologia não principalmente na EBD, mas nos gurus de marketing
que eles seguem no Instagram. Eles não aprendem teologia fundamentalmente através
dos compêndios de teologia sistemática. Aprendemos teologia na entrevista na televisão,
no recorte do economista explicando algo no Twitter, nas falas no STF, que são enviadas
para o Supremo Tribunal Federal, no discurso do político. Aprendemos teologia através da
grande gama de afirmações teológicas escondidas por trás de todo discurso econômico
e político que está na sociedade. Se não nos preparamos para conseguir perceber quais
são as teologias escondidas, vamos começar a comprar heresias públicas. Falamos muito
de teologia pública e cosmovisão cristã. Se existe teologia pública, existe heresia pública.
Existem heresias escondidas por trás de muitas ações que parecem laicas. É impossível
algo ser discutido a partir de neutralidade teológica. Tudo é dito, ensinado e crido a partir de
uma visão teológica específica, por mais que pareça o mais laico possível, há teologia por
trás daquilo. Inclusive, nas nossas visões políticas, econômicas e sociais. Hugo Assmann
e Franz J. Hinkelammert continuam dizendo o seguinte: “A questão, portanto, se apresenta
como uma inevitável confrontação entre mundos de valores discrepantes ou francamente
antagônicos” – mundos que parecem não se relacionar. No entanto, é ao entender esses
mundos e o modo como em cada um deles se dão as suas operações teológicas que pode-
mos compreender suas rupturas”.12 Ou seja, temos que entender quais são esses mundos
distantes, quais são suas fundamentações

“Em outras palavras, capacitar-nos para a flexibilidade, evitar as supersimplificações,


precaver-nos para não estabelecer ligações que redundam em curtos-circuitos ou ofere-

11
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 21.
12
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 28.

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cem um flanco aberto para revides e objeções demasiado fáceis. Em síntese, o que pre-
tendemos insinuar é o seguinte conjunto de hipóteses: primeiro, qualquer abordagem do
binômio economia e teologia, seja qual for a posição ideológica assumida, tem de con-
frontar-se necessariamente com a teologia que já está imbricada ou que já é endógena na
economia, e vice-versa.”13

Essa visão ignora o fato de que teologia e economia são duas disciplinas absolutamen-
te próximas e que precisam voltar a conversar de forma explícita, não como missiólogos
ou teólogos tomando categorias teológicas para ler a Bíblia a partir das lentes da luta de
classes ou o que quer que seja, mas para podermos ler as agendas econômicas, sociais e
políticas a partir da Palavra de Deus.

“[...] segundo, é de supor que, só muito raramente, uma absorção recíproca entre os pon-
tos de vista da economia e os da teologia (ambos sujeitos a variados enfoques e interpre-
tações) se realize de modo completo, sem fissuras e franjas oscilantes”.14

É muito difícil acreditarmos que conseguiremos usar a economia para servir a teologia
e vice-versa, sem que haja rupturas, sejam elas baseadas em erros pessoais em falhas
interpretações ou seja no fato de que ao aprender da Escritura e levar isso para a esfera
econômica, talvez seja necessário abandonar preferências econômicas. Abandonar o que
se aprendeu ser melhor na política e na sociedade para que se possa pensar a partir da
Palavra de Deus.

“[...] terceiro, é, contudo, perfeitamente plausível que elementos-chaves de uma ou outra


sejam incorporados, reciprocamente ou unilateralmente, de maneira que aquilo que foi in-
corporado o tenha sido ao ponto de nem aparecer mais à primeira vista”.15

Ou seja, ter uma teologia acerca de como se dá as relações de mercado de compra e


venda. A partir do momento que a economia absorve essa teologia, ela vai compor o outro
tipo de pensamento econômico que não é mais teologia propriamente dita. Ou seja, posso
pensar sobre taxa de juros, debates desenvolvendo usura. Olho para o Antigo Testamento,
observo como havia as proibições sobre juros e onde haviam as permissões de emprestar
com juros. Vou ao Novo Testamento, olho para essas relações, interpreto e encontro o sig-
nificado disso. As pessoas modernas entregam essas informações da ciência econômica
e então, a ciência econômica vai usar essas informações para fazer suas relações e juízos,
apresentando suas matemáticas e como as coisas se dão numa esfera social. Quando a
economia começa a fazer economia a partir da teologia, deixa de ser propriamente teolo-
gia, nem parece mais com a teologia que lhe deu origem, mas que bebe das informações
que foram dadas anteriormente. Uma economia cristã não é teologia. Bebe da teologia,
recebe da teologia, mas não se reduz ao debate bíblico. Bebe do debate bíblico para cons-

13
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 218.
14
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 218.
15
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 218.

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truir acima do debate bíblico. Não estamos querendo dizer que a forma correta de pensar
economia e política é exclusivamente através de unicamente, fazer teologia bíblica. Depois
que os economistas bebem informação que provém da Palavra de Deus, principalmente os
economistas cristãos, tem um esforço de leitura da Escritura e de compreensão da Palavra
de Deus, mas a partir daí, começa o esforço de fazer a ciência propriamente dita. É o que
chamamos de momentos verticais de significado e movimentos horizontais de significado.
Quando fazemos economia, política ou qualquer teologia para a realidade, existe um mo-
mento em que discutimos as coisas verticalmente, olhando as coisas de cima para baixo,
o que Deus me instrui sobre isso. Com isso, estarei fazendo teologia bíblica, o que a Bíblia
diz sobre a função do estado, sobre criação do homem, sobre a origem do universo. Depois
disso, há um momento horizontal de significado, onde tenho as informações e as aplico.
Por exemplo, nas ciências naturais, a Bíblia diz que Deus criou o homem e isso é uma in-
formação vertical. Ao mesmo tempo, tenho o registro fóssil. O que a Bíblia me diz sobre
os fósseis dos animais? Nada. Eu tenho uma informação da realidade e eu tenho uma nova
informação da realidade e tenho que achar explicação para essa informação. Por outro
lado, eu tenho uma informação que provém verticalmente do próprio Deus, que me diz
coisas sobre a criação. Aquilo que Deus diz, vira um balizador para a minha interpretação
da realidade. Se sou um cristão, pensando sobre o “como” das coisas, sempre vou pensar
a partir daquilo que já me foi revelado. Temos que importar isso para nossa visão política
e econômica. Podemos discutir questões políticas, mas questionando isso dentro de um
arcabouço. O que a Palavra de Deus tem a me dizer sobre isso? Há coisas que a Palavra de
Deus diz sobre a vida social, mas não de forma profunda, total e absoluta. Há um momento
em que sou um teólogo e que como teólogo, estou pensando sociedade, mas há também
o momento em que eu vou beber da teologia para poder pensar sociedade a partir das in-
formações que foram me dadas na Palavra de Deus. É isso que nos ajuda a pensar esses
assuntos de uma forma um pouco mais cuidadosa. Precisamos olhar para as coisas com
esse molde, não nos espantarmos com os esforços e debates econômicos que vão surgir
para além da teologia, mas que precisamos continuar bebendo da teologia.

“[...] e quarto, é provável que nenhuma absorção recíproca entre economia e teologia seja
tão tranquila e completa que já não exista nenhuma possibilidade de revolver esta absor-
ção e desalojar o que foi absorvido, embora isso possa requerer um esforço árduo”.16

A partir do momento que se faz economia a partir de um pressuposto teológico, esse


beber da teologia pela economia nunca será tão absoluta que é impossível perceber a teo-
logia por trás. Podemos através de um esforço inteligente tentar compreender quais são as
teologias por trás daquele esforço econômico e político específico. O mesmo se dá quan-
do a teologia bebe da economia, quando começamos a ler teologia a partir da economia,
pensando teologicamente a partir de categorias econômicas essa absorção nunca será
completamente intensa a ponto de não perceber de onde veio aquele esforço teológico.

O problema nisso tudo é que temos feito economia política e cosmovisão no Brasil
usando instrumentais muito claramente problemáticos. Por um lado, temos o problema

16
ASSMANN, Hugo; HINKELAMMERT, Franz J. A Idolatria do Mercado: Ensaio sobre Economia e Teologia.
São Paulo: Vozes, 1989, p. 218.

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do instrumental marxista, por outro lado, temos o problema de um instrumental de direita.

Os Problemas do Instrumental Marxista e Sua Solução

Quando iniciamos qualquer fala sobre o relacionamento de pastores, teólogos ou evan-


gélicos em geral, com a esfera econômica e política, logo se imagina algo relacionado a
cargos eletivos na esfera pública, com referências raramente positivas à bancada evangé-
lica. Não quero discutir sobre sua filiação partidária, mas sobre sua leitura do Novo Testa-
mento. Para o público geral, religião institucional e política partidária promovem misturas
que tendem à combustão. Várias igrejas proíbem, estatutariamente, que pastores ou até
mesmo membros se candidatem a cargos públicos. Muitos temem a política. No entanto,
o relacionamento entre pastores e a política vai muito além das eleições, entra na esfera
da interpretação bíblica.

Minha história pessoal pode servir de ilustração. Passei em ciências contábeis na Uni-
versidade Federal do Ceará, onde comecei minha história na economia. Nesse mesmo
período, estava envolvido com a obra missionária na Missão GAP, que evangeliza secun-
daristas e universitários. Me desdobrava servindo nessa Missão indo em escolas para
evangelizar. Contudo, após um ano e meio no curso, percebi que não gostaria de me tornar
um contador, queria ser um pastor ou talvez um missionário. Não entendia bem onde iria
atuar, mas já estava envolvido na pregação itinerante, muito por causa do que já desenvol-
via na internet.

Quando ingressei no seminário teológico aos 19 anos, fui como a maioria dos jovens,
desejava ser um D.A Carson, tornar-me um grande erudito, entender a exegese bíblica,
grego, hebraico para poder escrever calhamaços de interpretação bíblica. No meio do se-
minário, alguma coisa mudou dentro de mim, meu foco que antes estava em estudar grego
e hebraico, porém, por causa do serviço missionário na Missão GAP todo meu foco de
aprendizado, de estudo e ênfase mudaram para missiologia. Eu realmente amava estudar
missões, contextualização, exegese sociocultural, cosmovisão, evangelismo e demais áre-
as da missiologia. Posteriormente, me tornei professor de missões no seminário.

Nesse processo de estudar missiologia junto a ênfase teológica que me foi dada ao en-
trar no seminário, comecei a me interessar pelos grandes desafios teológicos da missão.
Havia um interesse por missões em meu coração, queria pregar o Evangelho, mas queria
ser um teólogo. Como meu esforço missiológico era um esforço vindo de um coração te-
ológico, nas leituras de missiologia, comecei a me preocupar com as grandes demandas
teológicas da missiologia.

Foi quando me deparei com um movimento chamado de Teologia da Missão Integral,


que é um movimento teológico específico que vem do Pacto de Lausanne, mas que no
Brasil, estava muito intimamente relacionado com um ambiente político muito específico,
não que isso seja intrínseco ao que é a Teologia da Missão Integral no mundo. Comecei
a entender que o problema do debate que se dava na Teologia da Missão Integral não era
exegético, era hermenêutico. O problema da Teologia da Missão Integral é porque ela é
uma hermenêutica política. A TMI não era simplesmente um esforço de exegese que che-

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gava em conclusões à esquerda, o problema da TMI é que ela é um compromisso político


com visões econômicas e sociais específicas que era levado ao texto. Aquilo me deixou
preocupado, porque, claramente, eu via um instrumental profundamente político, marxista
e socialista, sendo usado para fazer exegese bíblica. O instrumental marxista se tornou
um dos grandes problemas no Brasil por muito tempo, no modo como se tentava construir
uma teologia política da nossa nação.

Esse não é o único instrumental que existe. A ideia de marxismo cultural que se tor-
nou muito famosa na igreja evangélica, não é um conceito que eu rejeite. Concordo com
o conceito, apesar de discordar de muitas das aplicações do conceito que existe hoje. É
um termo que surgiu fora da academia, e por ter sido divulgado dentro de contextos de
conspiracionismos particulares, acaba que a academia tem aversão ao termo “marxismo
cultural”, embora eu ache que seja muito injustificado.

O marxismo cultural se tornou uma forma de ler e de enxergar a forma de se perceber


a sociedade dentro do contexto de igreja. No entanto, houve um problema. A igreja se de-
fendeu das hermenêuticas políticas de esquerda com hermenêuticas políticas de direita.
Nisso, nós temos um problema, pois não deveríamos ter hermenêutica política nenhuma.
Ao invés de assumirmos uma hermenêutica política, deveríamos assumir uma hermenêu-
tica bíblica, ortodoxa e realista. Através de uma hermenêutica realista, podemos chegar a
conclusões políticas, não simplesmente vivendo sujeitos às nossas preferências políticas
e aplicá-la para que a Bíblia se torne o que quisermos, mas trazer nossa mente em sujeição
à Escritura. Ao assistir aos congressos, ler os livros e ouvir os grandes autores, via algo
muito específico, via uma tendência política e uma teologia política muito específica. Vindo
do curso de ciências contábeis e com a cabeça um tanto econômica para algumas coisas,
isso me chamava atenção. Não me parecia somente teologia, mas uma importação de al-
gumas outras categorias que não eram próprias da teologia.

Um dia em casa, ouvindo umas dessas palestras, minha esposa que é cientista social
me perguntou o motivo de estar ouvindo uma palestra sobre marxismo, onde frases de
uma suposta pregação eram citações de Marx. Daí em diante, comecei a entender um
pouco que em todo debate da teologia da missão integral não era puramente teológico,
mas um debate que envolvia o uso de certas categorias sociais e econômicas na teologia.

Entendendo isso, comecei a querer entender de uma forma um pouco mais aprofun-
dada. Quando terminei o seminário, ingressei na mesma semana na pós-graduação em
economia política. Conclui a pós-graduação, comecei a dar aula sobre o assunto e meu in-
teresse, acima de tudo, era pensar os debates teológicos através das categorias políticas,
econômicas e sociais que surgiam dentro desses debates.

Me encontrei num cenário em que eu falava sobre teologia para economistas. Fui ao
curso para falar de economia para teólogos e poder desvendar as categorias econômicas
ocultas que estavam nos discursos e nas pregações que ouvi e passei a ser um teólogo
para economistas. Comecei a fazer teologias de categorias econômicas, por exemplo. Pu-
bliquei papers acadêmicos sobre preços justos a partir da teologia do Novo Testamento,
trabalhos acadêmicos sobre análises religiosas dos movimentos revolucionários pós-ilu-
ministas, e isso, se tornou algo um tanto quanto rotineiro para mim. Hoje, não sou eco-

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nomista de atuação ou algo parecido com isso, mas sou um pastor de igreja local que dá
aulas em pós-graduação sobre as origens religiosas de escolas econômicas.

Não é por pouco que se debate vigorosamente sobre o papel dos pressupostos políti-
cos na construção teológica. Eneida Jacobsen em um artigo muito famoso sobre teologia
pública, argumenta que “cada teólogo é motivado por questões específicas dadas por seu
momento histórico”17. Desta forma, a teologia seria construída sempre a partir do lugar
onde o teológico se posiciona. Leonardo Boff, muito famoso na Teologia da Libertação,
expressou algo semelhante ao postular que toda “teologia se constrói a partir de dois lu-
gares: o lugar da fé e o lugar da realidade social dentro da qual se vive a fé”18. Nossas cons-
truções doutrinárias estariam política e economicamente condicionadas.

Existem duas maneiras como os pressupostos políticos podem influenciar a hermenêu-


tica teológica. Uma é metodológica, outra é acidental. Na influência metodológica, crê-se
que trazer os pressupostos políticos para o processo inicial de leitura bíblica é correto. Faz
parte da metodologia teológica importar categorias econômicas, políticas e sociológicas
alheias às Escrituras para a hermenêutica. Na influência acidental, essa importação política
acontece por descuido do intérprete cristão em seu processo e metodologia. Nesta influ-
ência acidental, os pressupostos políticos afetam o intérprete como erro humano. Existem
dois modelos teológicos que assumem os pressupostos políticos como metodologia para
construção intelectual cristã, a Teologia da Libertação e a Teologia da Missão Integral. Por
outro lado, existem outras formas acidentais de pensar política e hermeneuticamente, que
seria o método crítico e a falha humana de forma geral.

Hermenêutica Política em Nível Metodológico: Teologia da Libertação e Teologia da Mis-


são Integral

A Teologia da Libertação é formada em circunstâncias intelectuais cultivadas por um


aprofundamento e expansão de ideologias políticas de esquerda, que viam o subdesen-
volvimento de uns países como um “subproduto histórico do desenvolvimento de outros
países”19. Para os teólogos da libertação, a desigualdade entre os chamados primeiro e o
terceiro era radicalizada por relações de dependência, de forma que apenas uma “análise
de classes”, oriunda do marxismo, poderia entender corretamente como funciona o rela-
cionamento entre oprimidos e dominantes.

“A busca da libertação do subcontinente vai mais longe que a superação da dependência


econômica, social e política. Consiste, mais profundamente, em ver o devir da humanidade
como um processo de emancipação do homem ao longo da história, orientado para uma
sociedade qualitativamente diferente, na qual se sinta o homem livre de toda servidão, seja
o artífice de seu próprio destino”20.

17
JACOBSEN, Eneida. “Public and contextual? An introductory approach to the contextuality of Public The-
ologies”, In: BEDFORD-STROHM, Heinrich; HÖHNE, Florian; REITMEIER, Tobias (Eds.). Contextuality and in-
tercontextuality in Public Theology. Zürich/Berlin: Lit Verlag, 2013, p. 76.
18
BOFF, Leonardo. A fé na periferia do mundo. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 7.
19
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 76.
20
GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1975, p. 87.

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Desta forma, sendo encorajada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) em sua abertura a
práticas eclesiais tidas como inovadoras, mas politicamente posicionadas, a construção
teológica da Teologia da Libertação teve como nascedouro e campo de atuação prática
os crescentes movimentos sociais de inspiração socialista dos anos 60. Podemos citar
o trabalho de educação popular vinculado a Paulo Freire, as comunidades eclesiais de
base, o Movimento de Educação de Base e a Ação Católica especializada, principalmente
a Juventude Universitária Católica, a Juventude Estudantil Católica e a Juventude Operária
Católica21. Como Luiz Alberto Gómez de Souza nota muito bem, “foi no Brasil e, mais preci-
samente na JUC, no início dos anos 60 que, muitas das intuições do que constituiria mais
tarde a teologia da libertação latino-americana, começaram a concretizar-se, num lento
processo ligado a uma prática e, sobretudo, a uma prática política”22.

Jung Mo Sung é um teólogo católico coreano radicado no Brasil, autor de Teologia e eco-
nomia: Repensando a Teologia da Libertação e Utopias23. Falando sobre a TdL, concorda
que há uma busca pela “construção da sociedade socialista, via revolução”, e o estabele-
cimento da “necessidade de um cristianismo socialista”. Para ele, a Teologia da Liberta-
ção, na leitura que faz de Gustavo Gutiérrez, é a busca pela construção de uma sociedade
socialista. Assim, perante opções como capitalismo e socialismo, está em jogo “o próprio
reino escatológico”, e por isso, o trabalho teológico latino-americano se encaminha na di-
reção do socialismo24.

Clodovis Boff, em Teologia e Prática: Teologia do Político e suas Mediações, fala que o
“objeto dessa teologia” é “o ‘político’’’. Posteriormente ele vai dizer:

“Da parte do objeto – o “político” – é preciso dizer que é fornecido à Teologia do político
pelas ciências que se relacionam com ele, isto é, as ‘ciências sociais.’ Esta operação teóri-
ca de assunção dos resultados dessas disciplinas pela e na prática teológica traz o nome
de Mediação Sócio-Analítica (MSA). Ela será responsável pela constituição do objeto (teó-
rico) material da Teologia do Político, mesmo que formalmente esta etapa possa ser con-
siderada como sendo ainda pré-teológica. Em todos os casos, esse momento representa
certamente uma condição fundamental para a produção de uma Teologia do Político e, a
esse título, faz parte constitutiva do processo total de produção dessa mesma teologia”25.

Temos nisso, Clodovis Boff falando e desenvolvendo as bases epistemológicas da Te-


ologia da Libertação, que é uma teologia assumidamente socialista, e mais do que isso,
em sua principal obra de epistemologia teológica, se assume trazendo o aspecto político
como o primeiro passo do seu modo de fazer teologia política. Se a mediação sócio-a-
nalítica é a mediação primeva no processo de entender a realidade, eu não tenho uma

21
TEIXEIRA, Faustino. “Teologia da Libertação: eixos e desafios”, In: TORRES, Fernando (et al). Teologia da
libertação e educação popular. São Leopoldo: CEBI/CECA/CELADEC, 2006, p. 27-65.
22
GÓMEZ DE SOUZA, Luiz Alberto. A JUC: os estudantes católicos e a política. Petrópolis: Vozes, 1984, p. 9.
23
SUNG, Jung Mo. Teologia e economia: repensando a teologia da libertação e utopias. Petrópolis, RJ: Vo-
zes, 1994.
24
Ibidem, p. 76-77.
25
BOFF, Clodovis. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1978.

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teologia do político, mas um político guiando a teologia.26 Ele fala de três mediações que
construíam a metodologia teórica da TdL: ver (mediação sócio-analítica), julgar (mediação
hermenêutica) e agir (mediação prática). Essas mediações serviram para “situar as várias
instâncias que a teologia põe em ação para se produzir”27. É apenas no processo do julgar,
com a mediação hermenêutica, que a TdL faz uso da teologia de fato, sempre usando as
informações coletadas e firmadas pela mediação sócio-analítica. O primeiro passo na pro-
dução teórica da TdL, na verdade, está no ver, em olhar para a realidade.

Em resumo, Clodovis Boff argumenta que existem três mediações que usamos para po-
der interpretar o mundo e fazer teologia. A mediação sócio-analítica, que é o ver, a media-
ção hermenêutica, que é o julgar, e a mediação prática, que é o agir. No processo de tentar
interpretar a realidade e de dar uma resposta prática para o mundo, antes do agir, devo
julgar, antes de julgar, tenho que ver. Esse é o processo das três mediações. Para que eu dê
uma resposta para a sociedade, uma mediação prática, onde vou agir em direção ao mun-
do, faço isso depois de uma mediação hermenêutica. Onde leio a Escritura, julgo e analiso
a Escritura, e então, dando respostas para os problemas, para que eu possa agir.

O problema é que dentro da Teologia da Libertação, pelo que é dito no livro de Boff, antes
da mediação hermenêutica, antes do julgar teologicamente, eu tenho o ver. O ver diz res-
peito às ciências do social, que vai aparecer no livro como CdS, que são as ciências sociais.
As ciências sociais são instrumentos que uso para ler o mundo, olhar para a realidade, in-
terpretá-la e então, trazer essas informações da realidade para a mediação hermenêutica,
lendo a Escritura a partir de algo. Lendo os processos sociais, vendo o problema do subde-
senvolvimento, que era a grande questão que incomodava os grandes autores da teologia
da libertação, onde se crê que existem países ricos e pobres por conta da exploração, e que
por isso, precisamos de respostas de viés socialista, e assumindo isso, trazer isso a leitura
da Bíblia. Pegando todas as informações assumidas politicamente, e assumindo politica-
mente, torna-se uma lente de leitura da Escritura.

Nisso, o esforço de fazer uma teologia do político se torna um esforço de fazer a Escritu-
ra se submeter a minha agenda política. Simplesmente colocando nas águas do batismo
um não convertido, na esperança de que isso, de alguma forma, converta ele. Pegando a
ideologia do momento, escolhendo um paradigma político e usando ele como uma lente
para ler e interpretar a Escritura, para a partir daí, agir na realidade.

Será que estamos lendo e interpretando as Escrituras a partir da própria Palavra de Deus?
Estamos deixando a Escritura ser a fonte de conhecimento e de significado? A Teologia da
Libertação deveria ter nascido dentro do catolicismo. A Teologia da Libertação só faz sen-
tido dentro do catolicismo romano, por causa da hermenêutica comum do catolicismo.

No livro de Kevin Vanhoozer, Autoridade Bíblica Pós-Reforma: Resgatando os Solas Se-


gundo a Essência do Cristianismo Protestante Puro e Simples, ele argumenta que parte dos
problemas da hermenêutica católica na leitura que os católicos fazem da Escritura. Como

26
BOFF, Clodovis. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1978.
27
BOFF, Clodovis. “Como vejo a teologia latino-americana trinta anos depois”. In: SUSIN, Luiz Carlos (Org.).
O mar se abriu. Trinta anos de teologia na América Latina. São Paulo: Loyola/Soter, 2000, p. 84.

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o catolicismo desconfia do significado padrão do texto, e para se validar a força do magis-


tério como o único intérprete autorizado, precisa destruir o texto como fonte de significado.
Nisso, Tiago Cavaco vai ser muito preciso, ao dizer que os católicos dão uma piscadela
para os netos de Nietzsche, onde simplesmente o texto por si só, não tem significado, não
tem informações e o texto é interpretado ao bel prazer de quem lê. Uma hermenêutica bem
ruim, bem pós-moderna, onde os católicos fazem o texto parecer algo altamente fluido,
onde não se pode chegar ao significado do texto. A hermenêutica católica é profundamen-
te pós-moderna, se vendem como tradicionais, mas são profundamente pós-modernos
sobre a leitura da Escritura, para poder validar o magistério da igreja como único intérpre-
te autorizado. Então, desvalidando o texto, tem-se um cenário perfeito para poder propor
uma solução para isso. Lendo um texto sempre a partir de um viés, e esse viés responde
ao problema. Usando as percepções como paradigma das Escrituras, isso pode acontecer
em qualquer via. Leituras marxistas da Escritura, leituras freudianas da Escritura, leituras
darwinistas da Escritura, leituras liberais, conservadoras, anarquistas. Quando assumo a
política como base para minha leitura da Escritura, esse processo estará destruindo a lei-
tura da Escritura. Não lerei a Escritura, mas me lendo na Escritura, para que a Escritura me
diga aquilo que eu desejo que ela me diga.

Na teologia da libertação o processo consiste em primeiramente ver para depois julgar e


posteriormente agir. Para Jung Mo Sung, “todos os teólogos que assumem o paradigma da
teologia da libertação estão de acordo com a necessidade da mediação sócio-analítica”28.
O processo de ver é de interpretar o mundo a partir de categorias sociais, econômicas e
políticas específicas. Depois de julgar o mundo a partir dessas perspectivas você vai en-
tão, olhar para a Escritura e tentar entender o que a Bíblia diz sobre esses assuntos. Invés
de ler as realidades à luz da Palavra, se lê a Palavra com as lentes do que se julga realidade,
mas que na verdade, são lentes de uma economia, de uma sociologia e de uma política
específica, é um processo de deturpação do texto bíblico a partir de categorias científicas.

Como diz Juan Luis Segundo, a teologia não pode reivindicar uma interpretação do ser
humano e da sociedade logo num primeiro momento, uma vez que ela está ancorada na
tradição bíblica29. Ao invés de iniciar o processo teológico de análise social com categorias
teológicas, o teólogo da libertação faz uso da mediação socioanalítica, o uso das ciências
sociais como recurso para a interpretação do mundo. A TdL crê que as categorias teoló-
gicas não possuem a instrumentação necessária para a captação da realidade, de forma
que precisa ouvir as disciplinas que tratam disto. As ciências sociais entram como matéria
prima do processo teológico, a nível de seu objeto material30. Como disse Etienne Higuet,
são ciências sociais, não a teologia bíblica, que teriam uma explicação científica para a
compreensão dos mecanismos de exclusão da sociedade31.

28
SUNG, Jung Mo. Teologia e economia: repensando a teologia da libertação e utopias. Petrópolis, RJ:
Vozes, 1994, p. 103.
29
SEGUNDO, Juan Luis. Libertação da teologia. São Paulo: Loyola, 1978. p. 9. SEGUNDO, Juan Luis. Liberta-
ção da teologia. São Paulo: Loyola, 1978. p. 9.
30
TEIXEIRA, Faustino. “Teologia da Libertação: eixos e desafios”, In: TORRES, Fernando (et al). Teologia da
libertação e educação popular. São Leopoldo: CEBI/CECA/CELADEC, 2006, p. 27-65.
31
HIGUET, Etienne Alfred. “Medellín e o método da teologia da libertação”, Estudos da Religião, n. 6, p. 45-74,
1989. p. 47.

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Ou seja, as categorias da Bíblia não são suficientes para entender relações sociais e
por isso, precisaríamos de categorias diferentes. Existe alguma verdade nisso, uma das
verdades é que a Escritura não é suficiente para explicar realidades de forma exaustiva. A
Escritura é suficiente para a fé e para a piedade, como lemos na Escritura. A escritura não
fala especificamente como se dão as relações dentro de uma sociedade pós-capitalista.De
fato, precisamos entender em algum nível da ciência social e da economia para entender
essas relações. O erro da teologia da libertação está no local da ciência econômica e so-
cial no processo teológico, em colocar a ciência social antes do processo teológico, nisso
mora o absurdo. Colocar a ciência social antes do processo teológico, até como processo
pré-teológico, se destrói o processo de fazer teologia. Pois vão torcer o texto em nome de
uma visão específica. A Teologia da Libertação não tem um método de leitura bíblica e de
compreensão das coisas que realmente respeite uma boa metodologia hermenêutica.

Clodovis Boff diz que “o texto da leitura teológica a propósito do Político lhe é preparado
e oferecido pelas CdS [Ciências do Social]. A teologia o recebe delas e sobre ele pratica
uma leitura correspondente ao seu código próprio, de modo a tirar daí o sentido caracteri-
zadamente teológico”32. Desta forma, as ciências sociais se tornam uma mediação entre a
realidade e a teologia, fazendo uso exatamente nesta parte processual do marxismo como
auxílio da compreensão da sociedade33. É por isso que a Teologia da Libertação não é
unanimidade dentro do catolicismo romano. As críticas mais contundentes à reflexão te-
ológica latino-americana vêm da época em que Joseph Ratzinger atuou como prefeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, quando foi publicada a primeira instrução da Congre-
gação para a Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação, em 1984, condenando a TdL
pela utilização pouco crítica do instrumental de análise recolhido das diversas correntes
do pensamento marxista34.

Invés de complementar minha observação da realidade a partir de compreensões da


relação do mundo onde a Bíblia não fala a partir das próprias categorias da Bíblia onde o
texto bíblico, simplesmente trago essas leituras a realidade e importo ao texto bíblico.

É basilar para uma construção posterior da economia, sociologia e política, temos uma
essa importação das categorias políticas para que se tornam pressupostos para a leitura
bíblica. É que destroem toda a Teologia da Libertação como uma possibilidade viável. Esse
é um esforço de dar relevância para a teologia que simplesmente torce a teologia, tomando
de nós a teologia e a possibilidade de aprendermos com Deus. No fim das contas, quere-
mos ensinar Deus, tendo algo muito próximo da teologia liberal, das buscas pelo Jesus
histórico, das teologias científicas do modernismo do século XX. A Escritura se torna in-
suficiente e é necessário ler a Escritura com as lentes de outra coisa que não ela mesma.
Torcendo a Bíblia para que ela se torne o que deseja.

Nisso, há uma integração muito errada e preguiçosa de um tipo de hermenêutica política

32
BOFF, Clodovis. Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 84.
33
Ibidem, p. 119.
34
Congregazione per la Dottrina della fede. Istruzione sulla teologia della liberazione. Bologna: Dehoniane,
1984, p. 3-4; RATZINGER, Joseph. Rapporto sulla fede. Cinisello Balsamo: Paoline, 1984, p. 179-203.

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metodologicamente grosseira. Isso também foi adquirido pela Teologia da Missão Integral.
Por mais que Teologia da Missão Integral não seja a Teologia da Libertação, ela teve o tra-
balho de importar o mesmo erro metodológico da teologia da libertação, os mesmos erros
hermenêuticos do catolicismo romano. Os teólogos da Missão Integral não possuem uma
vasta teoria da mediação sócio-analítica como os teólogos da libertação, mas seguem os
mesmos princípios na construção teológica. Para o pastor evangélico Ariovaldo Ramos,
por exemplo, famoso por sua batalha em defesa do Partido dos Trabalhadores, categorias
políticas precisam fazer parte do pressuposto interpretativo da Escritura:

“Eu uso os óculos das ciências sociais [para interpretar as Escrituras]. [...] tem de usar a
categoria da luta de classes. [...] tem uma guerra no mundo, e é uma guerra entre classes,
há uma relação opressor-oprimido [...]. A posição de Deus é pela abolição das classes”35.

Ariovaldo Ramos defendendo que nós temos que ler a Escritura a partir de uma lente,
a lente das ciências sociais. Usando mediação sócio-analítica. A mesma metodologia da
Teologia da Libertação. Ariovaldo Ramos usa a mesma linguagem técnica do principal
texto da Teologia da Libertação, de Clodovis Boff. Nessa citação, Ariovaldo Ramos faz pa-
recer que ciências sociais é necessariamente marxismo. Quando na verdade, o marxismo
hoje é só mais uma posição nas ciências sociais. Em um bacharel em ciências sociais, por
exemplo, se encontra várias outras visões, não apenas a marxista, entanto, nesse trecho
de Ariovaldo Ramos, marxismo é ciência social, porque funcionava assim na Teologia da
Libertação, onde a ciência do social era, basicamente, perspectivas socialistas para res-
ponder ao problema do subdesenvolvimento. Ou seja, faz parte de sua metodologia usar
as ciências sociais como pressuposto hermenêutico (“óculos das ciências sociais”) na
interpretação bíblica. Semelhantemente, para Valdir Steuernagel, teólogo sênior da Visão
Mundial Internacional, coordenador da Aliança Cristã Evangélica Brasileira e um dos di-
retores da Aliança Evangélica Mundial e do Movimento de Lausanne, “muitos teólogos da
libertação fizeram uso do instrumental marxista, enquanto outros fizeram uso também da
proposta revolucionária articulada a partir do marxismo”. Segundo ele, então, essa reali-
dade sobre a TdL é importada para a Missão Integral: “se pode dizer que o instrumental
marxista de análise da realidade foi usado e importante para vários [teólogos da missão
integral]”36.

Para Carlos Queiroz, também nome de vulto na TMI brasileira, em um debate em For-
taleza, onde estavam também presentes além de mim, Pastor Henrique Macena e Thiago
Brazil, nesse debate, Carlos Queiroz disse “não dá pra você responder uma realidade sem
análise econômica, sem análise social”, de forma que “você não precisa de instrumento
bíblico para fazer análise da realidade”. Ele diz que para fazer uma “análise da realida-
de, você tem que ir para o instrumento científico, e todo instrumento científico é ateísta,
porque não pressupõe deus, nenhum instrumento científico pressupõe Deus37”. Nisso, ele

35
Ariovaldo Ramos e a Base Marxista da Teologia da Missão Integral: Disponível em: <https://youtu.be/
EC7onU_jSWA>. Acesso em: 8 jan. 2017.
36
STEUERNAGEL, Valdir. A “Missão Integral” nem é tão integral assim!. Disponível em: <http://www.ultima-
to.com.br/conteudo/a-missao-integral-nem-e-tao-integral-assim>. Acesso em: 06 jan. 2017.
37
TMI em Debate (Carlos Queiroz, Francisco Macena, Thiago Brazill e Yago Martins). Disponível em: < ht-
tps://youtu.be/k5sp8fJIsJQ>. Acesso em: 14 fev. 2017.

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afirma que para lermos e interpretarmos a realidade, em primeiro momento, não devemos
ir à Escritura, deixando que ela responda aos desafios do mundo presente. Ao invés disso,
usa-se a instrumental científica e ateísta, e a partir desse instrumental, é que se começa a
fazer teologia e a dar respostas para a realidade. A hermenêutica é subserviente à política.
A Bíblia sujeitando-se a escolhas políticas específicas. Da mesma forma, Ronilso Pacheco,
interlocutor social na Ong Viva Rio, membro do Coletivo Nuvem Negra de estudantes ne-
gros e negras da PUC-Rio, autor e agitador político, fala sobre teologia negra nas seguintes
palavras:

“[...] a omissão no limite à indiferença e às vezes a conivência dos cristãos brancos dos
Estados Unidos, da Igreja branca dos Estados Unidos, sobretudo do Norte, com relação a
todo o sofrimento do povo negro dentro do contexto da segregação racial. A leitura dessa
confluência faz com que teólogos e pastores negros lá nos Estados Unidos comecem a
repensar que eles não podem compactuar da mesma perspectiva hermenêutica dos teó-
logos e pastores brancos dos Estados Unidos por um motivo muito simples. Eles não têm
na sua história, não tem na história de seus descendentes a mesma história de sofrimento,
de escravidão, de perseguição, de segregação, de ser destituído de direitos como eles ti-
veram. Então, era necessário romper com essa perspectiva hermenêutica branca europeia
e construir uma hermenêutica a partir do sofrimento do povo negro e a partir de uma her-
menêutica de um Deus que olha para o sofrimento do povo negro. Isso faz com que eles
revejam a leitura de diversas passagens [bíblicas]”38.

Isso é política afetando a hermenêutica bíblica. Se Ronilso Pacheco está certo a respeito
do que os teólogos brancos faziam, todos os brancos possuíam uma teologia política erra-
da. Tinham assumido, basicamente, uma postura de segregação, e essa postura segrega-
cionista afetava suas leituras. Ou seja, os negros precisariam de uma outra hermenêutica.
No entanto, a resposta não passou a ser pela busca de uma hermenêutica bíblica e coeren-
te que responda os problemas de uma hermenêutica política segregacionista, a resposta
seria então, encontrar uma hermenêutica negra, uma hermenêutica do povo negro a partir
de situações de opressão. No entanto, o problema disso está em cair no mesmo problema.
Na mesma subserviência da teologia à política, não deixando a Palavra de Deus dizer o
que ela pretende dizer, que Deus seja ouvido, e sendo ouvido, encontrar Deus condenando
a segregação. Ao contrário disso, procura-se uma leitura a partir de um ponto político. O
texto bíblico nunca deve estar em subserviência a qualquer posição política ou qualquer
história política.

Num nível acidental, talvez não se consiga ler a Bíblia levando em consideração aquilo
que a Bíblia é. Talvez se leia a Bíblia de forma racista, por exemplo. Ao longo da história
do mundo, muitos fizeram isso. No entanto, o processo de aperfeiçoamento dentro da her-
menêutica não passa por assumirmos certas categorias políticas específicas para nos
livrarmos do preconceito. Pelo contrário, temos que analisar o movimento negro a partir
da Escritura. Analisar argumentações políticas a partir da Palavra de Deus, não mudando a
hermenêutica como se o problema de uma leitura errada da Escritura fosse um problema

38
PACHECO, Ronilso. Teologia negra. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8T81BVO4rBM>.
Acesso em: 14 fev. 2017.

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de ter uma hermenêutica que não é política o bastante. Ao contrário disso, nossos erros
provêm de termos uma leitura política mais do que o que é necessário. Obviamente, não
existe leitura neutra da Escritura, mas ela se torna ainda menos neutra quando a nossa
leitura é motivada por pensamentos políticos e ideológicos.

Podemos fugir da metodologia da Teologia da Libertação, fugir da metodologia que a


Missão Integral se apropriou da Teologia da Libertação, mas isso vai nos tirar comple-
tamente da hermenêutica política? Podemos ler a Bíblia de forma mais objetiva, e então,
resolveremos o problema? Quem dera fosse tão fácil assim. Quem dera fosse apenas não
nos submetermos a leitura política num nível metodológico. Nós ainda nos submetemos
em um nível acidental. Nós podemos propor neutralidade, e ainda assim, falhar nessa neu-
tralidade. Semelhante a teologia da libertação, a missão integral traz pressupostos polí-
ticos para o processo inicial do saber teológico. Isso não é uma hermenêutica saudável.
Retirar a mediação sócio-analítica do processo hermenêutico é urgente, para que possa-
mos pensar política de uma maneira que seja bíblica, e não meramente social, econômica
e política.

Hermenêutica Política em Nível Acidental: A Redefinição de Conceitos Bíblicos Mediante


Categorias Políticas

Infelizmente, retirar a mediação sócio-analítica do processo hermenêutico não vai nos


livrar do risco de levar pressupostos políticos para a leitura bíblica. Como falei anterior-
mente, existe uma hermenêutica política em nível acidental que se dá na redefinição de
conceitos bíblicos mediante categorias políticas. Mesmo quando nos propomos neutros
e objetivos em nossas interpretações da Bíblia, podemos ser servos de nossas próprias
ideologias. Um exemplo importante está no método histórico-crítico, também conhecido
como crítica histórico-literária, uma proposta de leitura acadêmica e neutra da Bíblia que
se propagava como uma leitura independente, onde a Escritura possuía precedência pe-
rante compromissos filosóficos. Como escreveu Julius Wellhausen, “a crítica bíblica não
se desenvolvia sob a influência de ideias filosóficas [...]. A filosofia não precede, mas suce-
de”39. No entanto, é sabido que método crítico não é resposta para o problema da politiza-
ção da Bíblia, uma vez que ele próprio é uma politização.

Politização da Bíblia: As Raízes do Método Histórico-crítico e a Secularização da Escri-


tura (1300-1700), de Scott Hahn e Benjamin Wiker, foi publicada originalmente em 2003
e argumenta longamente que o método histórico-crítico é “essencialmente definido por
objetivos políticos”40. Os autores definem politização como “a intencional reinterpretação
exegética das Escrituras de modo a fazê-las servir a um objetivo meramente político, mun-
dano (daí secular), [...] subordinar o método de interpretação das Escrituras a objetivos

39
Apud BARTHOLOMEW, Craig G.; GREENE, Colin JD; MÖLLER, Karl (Ed.). Renewing biblical interpretation.
Grand Rapids, MI: Zondervan, 2000, p. 17.
40
HAHN, Scott; WIKER, Benjamin. Politização da Bíblia: as raízes do método histórico-crítico e a seculariza-
ção da Escritura (1300-1700). São Paulo: Ecclesiae, 2018, p. 8, 14.
41
Ibidem, p. 17. Ênfase original.

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políticos seculares”41. Citando William Farmer, Hahn e Wiker consideram que a exegese da
alta crítica buscava um tipo de adequação política, satisfazendo as necessidades ideoló-
gicas de seu tempo42. O esforço racionalista de uma hermenêutica histórico-crítica que
se pretendia neutra, se tornou nada mais do que um esforço de submeter a Escritura à
política, às hermenêuticas ideológicas do seu tempo. Por ser um livro escrito por teólogos
católico-romanos, há alguns problemas de análise, como por exemplo, no modo como
ele interpreta John Wycliffe ou o próprio Martinho Lutero. Ainda assim, é um texto muito
importante para falar do problema da pretensa neutralidade hermenêutica no método his-
tórico-crítico.

Muitas vezes, nossos esforços de neutralidade ainda são esforços políticos que nem
percebemos, pois muitas vezes, a hermenêutica política se dá em um nível acidental, onde
importamos nossos pressupostos ao texto sem saber. Obviamente, não teremos uma lei-
tura neutra da Escritura, nunca vamos conseguir ler de uma forma onde nós não projeta-
mos nada na Escritura, mas não é porque não alcançamos a santidade que deixamos de
buscá-la. Paulo escreve “Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo
nenhum” (Romanos 6:1,2). Nós nunca vamos ser santos como Deus é Santo, mas devemos
continuar buscando santidade todos os dias. A ideia é que, nós nunca vamos conseguir
ler a Bíblia de forma neutra, objetiva, vendo as coisas como Deus vê, sem projetar nada
de si mesmo. No entanto, isso não significa que a resposta é abandonar essa busca. De-
vemos continuar buscando, tentando encontrar a objetividade do texto, falhando, mas ao
falharmos, temos toda uma comunidade de fé que diz “amém” ou “não amém” para aquilo
que afirmamos. Vários teólogos, várias luzes sendo apontadas para um mesmo texto, para
que estejamos confortáveis em nossos erros. Quando falhamos em nossa pretensa neu-
tralidade, há outros, lendo de uma perspectiva rebatendo o que achamos coerente. Não é
porque nós nunca vamos encontrar a santidade interpretativa última e perfeita, que nós
devemos deixar de nos arrepender de nossos pecados interpretativos e que deixemos de
procurar todos os dias mais santidade interpretativa. Essa é uma linguagem muito própria
de Vanhoozer, de que existem os pecados hermenêuticos e o pecado afetou nossa mente,
nos impedindo de ler a Bíblia de forma não política quando estamos muito engajados em
causas políticas. Devemos buscar e nos esforçar todos os dias para percebermos e ven-
cermos isso.

O desconhecimento dos próprios pressupostos políticos no uso acidental de pressu-


postos das ciências sociais na hermenêutica afeta até o processo de aplicação do texto,
o fim do processo teológico. Os pastores precisam conhecer seus pressupostos políticos
para não aplicar os sermões de forma errada. O pregador bíblico vive entre dois mundos:
o do texto e o dos ouvintes. Estamos o tempo inteiro trazendo os textos daquele tempo e
aplicando na vida das pessoas. Se não tivermos cuidado, vamos aplicar o texto bíblico de
forma errada. A missão de quem ensina as Escrituras, portanto, possui dois movimentos
principais. O primeiro é de ir ao texto bíblico no intuito de entendê-lo e interpretá-lo, sendo
o segundo movimento o de relacionar tal conteúdo textual com as vidas comuns dos ou-
vintes. Os pastores precisam entender de política, porque nestas duas atividades, os pres-
supostos políticos influenciam profundamente sua capacidade como mestre da Palavra.

42
Ibidem, p. 733.

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Todo ensino público das Escrituras precisa falar para as realidades vivenciais dos ou-
vintes. Nisso, acabamos tendo que assumir muitos pressupostos sobre o modo como as
pessoas vivem. Não fazemos meros discursos exegéticos diante de auditórios, mas fala-
mos às vidas de nossos ouvintes, ensinando-os a obedecer a tudo o que Cristo ordenou.
Lidamos com a vida prática da congregação, e isso cobra um conhecimento da realidade
onde estamos inseridos. Como a injustiça se manifesta nas relações trabalhistas? Como
se formam as relações salariais? O que devemos cobrar do governo civil? Sem saber des-
te tipo de coisa, conhecimentos eminentemente políticos, seremos inábeis em aplicar a
Escritura a certas vivências comuns ao mundo moderno. Quando o cristão é um feirante
que vende roupas manufaturadas no mercado informal da cidade, ele deve ser condenado
por vender sem nota? Devemos exortar por descumprir as leis de trânsito aquele senhor
que aperta quatro pessoas no banco de trás para que a irmãzinha que mora longe não vá
a pé para casa? Devemos criticar patrões que pagam salários baixos aos seus emprega-
dores, segundo a teoria do valor-trabalho, ou devemos considerar preço justo o preço de
mercado, como na teoria do valor-marginal? Quando nossos sermões tocam na realidade,
perpassam inevitavelmente pela nossa política.

O processo de aplicação do sermão nessa levada do texto bíblico para a realidade já é um


processo que precisa de conhecimento econômico e político para que não façamos isso
sem saber. Quanto melhor conhecer sua teologia política mais você se protegerá de falar
coisas que pareçam óbvias e na verdade dependem de uma visão política e econômica es-
pecífica. Quanto mais se entende de economia política, mais se consegue fazer aplicações
que respeitam como as coisas são de fato e que não são simplesmente ideológicas. Como
pregadores, devemos ser sábios e não fazermos aplicações que são muito dependentes
de escolas econômicas e de visões políticas muito específicas, pois estaremos pregando
a pessoas que são de várias correntes da economia e da política.

John Keynes, famoso teórico da economia, em seu clássico livro The General Theory of
Employment Interest and Money: Modern Macroeconomics and the Keynesian Revolution,
escreveu:

“As ideias dos economistas e filósofos políticos, tanto quando estão certas quanto quan-
do estão erradas, são mais poderosas do que se costuma entender. [...] Os homens práti-
cos, que se julgam isentos de qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de
algum economista morto”43.

Acabamos assumindo ideias econômicas e políticas específicas, jogando isso no texto


bíblico e nem percebendo. Por exemplo, todos concordamos que a Bíblia condena a opres-
são, mas o opressor é definido na Bíblia como o violento (Salmos 10:18), o roubador (Deu-
teronômio 28:29), o cruel (Salmos 74:20,21) e governo tirânico (II Reis 13:4). Para a Teologia
da Missão Integral, no entanto, a opressão está relacionada ao conceito marxista de luta
de classes e do fim social dos meios de produção, como disse Ariovaldo Ramos no Fórum
Jovem de Missão Integral, em junho de 2007. A partir daí, o assalariado se torna o oprimido,

43
KEYNES, John Maynard. The General Theory of Employment, Interest and Money. London: Macmillan,
1936, p. 383-384

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o patrão se torna o opressor; o negro é oprimido, o branco é opressor; a mulher é oprimida,


o homem opressor. Mas esse são conceitos de opressão alheios à Escritura.

Para o marxismo existe a necessidade de um ambiente estatal forte socialista até che-
gar no comunismo que seria uma sociedade sem estado. Quando a Escritura é lida com
tópicos políticos, precisamos deixar que a Escritura se defina e defina os seus termos e
não que levemos os nossos termos a ela. Se um jovem pobre rouba, embora haja todo um
contexto de pobreza, ele é o opressor, segundo as Escrituras. Devemos deixar que a Escri-
tura defina o que é justiça para que possamos definir o que é preço justo, deixar a Escritura
definir quais são as relações justas, dentro do contexto de estado.

O mesmo acontece no relacionamento da Bíblia com o pobre em si. Tanto membros da


missiologia latino-americana, quanto defensores da Missiologia Clássica concordam com
a importância do serviço ao pobre, ao doente, ao fraco, ao nu, ao triste, ao desvalido. Deus
dá atenção a quem o mundo rejeita. Mas para a missiologia latino-americana, isso signifi-
ca que o evangelho é para o pobre, e o rico que corra atrás, como disse Raphael Freston no
Facebook. Que ser rico na maioria das vezes já é pecado, como disse Antônio Carlos Costa
no Convulsão Protestante. De que sempre que o pobre e o rico entram em conflito, Deus
está do lado do pobre, como é comum dizer na TMI. Mas o que dizer da parábola da Vinha
(Mateus 20), onde Deus é associado ao patrão rico, e o pobre com os fariseus que rejeitam
a graça? E a parábola dos maus lavradores (Mateus 21) onde os trabalhadores braçais
entram em conflito com o dono dos meios de produção, e Deus condena o proletariado
ao invés de condenar a burguesia? A ênfase no pobre que encontramos na Escritura não
significa que o pobre será melhor tratado que o rico ou que o pobre está melhor diante de
Deus que o rico, mas que o pobre será tão bem tratado quanto o rico é bem tratado. Deus
trata o rico e o pobre de forma igual na Escritura, tanto no bem quanto no mal.

Sim, na parábola do filho pródigo, relatado nas Escrituras, Jesus diz que é impossível
que o rico entre no reino. Sim, na cultura judaica os ricos estavam mais próximos de Deus.
Então, um rico, que era “rico no Senhor” como diziam os textos do talmude, era alguém
abençoado. Quando um rico é tratado como alguém que não entra no reino, Pedro esboça
preocupação ao perceber que se um rico não entraria, imagina ele, que era pobre. Jesus
vai dizer que o que é impossível para o homem, é possível para Deus. A questão não é ser
rico ou pobre. O rico seria alguém que estaria mais próximo de Deus, mais abençoado e
querido pelo Deus vivo, no entanto, é impossível para o homem. É impossível para o rico e
para o pobre. Só é possível para Deus. A questão não era de serem pobres ou ricos, mas
que para o homem, é impossível. Se para aquele que dentro da cultura judaica seria consi-
derado mais próximo e mais aceito por Deus era impossível, assim também, é impossível
para todos nós.

O mesmo acontece no modo como as relações de trabalho são tratadas pela missiolo-
gia latino-americana. As relações trabalhistas são vistas sempre com lentes que abraçam
conceitos marxistas, ainda que não se abrace o marxismo de forma completa. Essa é uma
hermenêutica da semelhança. Se algo parece com o que minha ideologia política condena,
então, deve ser a mesma coisa. Não há um trabalho exegético sério.

Então, foi a partir destas percepções que eu finalmente entendi que para refutar a mis-

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siologia latino-americana, não era uma questão de discutir exegese e interpretação de


textos bíblicos. O motivo é porque não foi através de teologia bíblica que foi formada a
missiologia latino-americana o que as pessoas a têm abraçado. É, na verdade, por um
compromisso político ideológico anterior, que é aprendido antes ou durante a transmissão
teológica. Assim, lidar com a missiologia do Ariovaldo Ramos é lidar com o materialismo
histórico marxista. Lidar com a missiologia de Antônio Carlos Costa é lidar com a social-
-democracia europeia. Lidar com a missiologia latino-americana de forma geral é lidar
com a influência gramsciana nas universidades e meios de comunicação.

Os pastores precisam entender de política para não deturpar a leitura da Escritura de for-
ma acidental. Quando você olha para o texto bíblico, você está sujeito a fazer uma leitura
influenciada pelos seus pressupostos políticos. Quando você ler os versos sobre ricos e
pobres, sobre salários retidos com fraude, sobre a libertação dos oprimidos, sobre paga-
mento de impostos e sobre as funções do governo civil, estas passagens serão interpre-
tadas, muitas vezes, de forma a se adequar ao pressuposto que você já possui, mas nem
sabe disso. A maioria da literatura produzida por teólogos que demonstram desprezo pelo
conteúdo econômico e político deixam seus pressupostos políticos afetarem claramente a
leitura dos textos, tornando-se intérpretes ruins.

Teólogos de esquerda leem Deus condenando a opressão contra o pobre por várias ve-
zes no Antigo Testamento e usam suas lentes políticas para interpretar isso à luz da díade
opressor-oprimido desenvolvida por Karl Marx ao invés de procurar definir o que significa
opressão à luz dos escritos proféticos veterotestamentários. Anarquistas leem o texto de
Paulo aos romanos cobrando que continuem pagando seus impostos em sujeição aos
governos como sendo um mandamento restrito aos bons governos, desconsiderando que
Paulo estava falando sobre o pagão império romano. Os exemplos são diversos. Não co-
nhecer os próprios sentimentos políticos nos faz deturpar as Escrituras despercebidamen-
te.

Como podemos então, responder a esse problema? Respondemos a esse problema atra-
vés do uso metodológico da política na hermenêutica.

Realismo Hermenêutico como Resposta ao Uso Acidental e Metodológico da Política na


Hermenêutica

Em Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis escreveu:

“[...] fica posto em evidência o verdadeiro empecilho para a concepção de um projeto de


sociedade cristã [modo como se referiam a cosmovisão cristã nos tempos antigos]. Muitos
não examinam o cristianismo para descobrir como ele realmente é: sondam-no na espe-
rança de encontrar nele apoio para os pontos de vista de seu partido político. Buscamos
um aliado quando nos é oferecido um Mestre - ou um Juiz”44.

44
LEWIS, Clive Staples. Cristianismo Puro e Simples. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

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Vamos à Escritura procurando um amigo, algo que nos confirme aquilo que já imagina-
mos politicamente, quando na verdade, encontramos na Escritura muitas vezes um mestre
que nos ensina, ou um juiz que corrige e nos pune pelas compreensões que trazemos à
Escritura. Como dizia Jonathan Edwards, nós temos que ler as Escrituras contra nós mes-
mos. Esse é o verdadeiro empecilho para um projeto de sociedade cristã. Esse é o grande
empecilho para um esforço de teologia pública.

Martinho Lutero disse algo parecido: “Isso não é um ensinamento cristão, isto é, quan-
do levo uma opinião à Escritura e obrigado a Escritura a segui-la; antes, pelo contrário,
depois de compreender o que a Escritura ensina, obrigo minha opinião a estar de acordo
com ela.45” Não é bíblico, não é um ensinamento cristão ir às Escrituras para que ela siga
nossas opiniões, ao invés disso, precisamos torcer nossas mentes e colocar nossas men-
tes em sujeição a Escritura, para que aquilo que a Escritura diz, guie nossas mentes e o
nosso coração. Nós não devemos nos sujeitar aos pensamentos da época, ao espírito do
momento, ao zeitgeist, o espírito do nosso tempo que domina a nossa mente com suas
compreensões, não somos sujeitos a isso, não aceitamos ser fruto do tempo, não aceita-
mos seguir as influências do mundo, pois temos a mente de Cristo. Nós temos a verdadeira
sabedoria que é a obra perfeita de Jesus na cruz. Podemos ler o cenário político, mas lendo
a partir da Escritura.

Vivendo em um tempo em que se discute muito sobre o papel dos pressupostos na in-
terpretação, seria irresponsável não questionar a possibilidade de construirmos uma teo-
logia política neutra, onde as paixões partidárias não afetem a leitura do texto bíblico. Os
pressupostos políticos daquele que lê a Escritura não lhe levarão indubitavelmente a torcer
esta ou aquela passagem para satisfazer necessidades de confirmação ideológica? Creio
que nossa visão política precisa estar no fim do processo hermenêutico, não no início.
Para muitos, o diálogo entre teologia e sistemas sociais se dá através de ler a Bíblia com
lentes desta ou daquela ideologia, ao invés de ler as possibilidades políticas com a lente
da teologia cristã.

Ele apresenta um creio hermenêutico:

Creio no realismo hermenêutico,

creio na racionalidade hermenêutica,

creio na responsabilidade hermenêutica.

No mesmo livro, ele cita Agostinho que diz: “Quando você fala comigo, acredito que não
está emitindo um som meramente vazio, mas que em tudo o que sai de sua boca você está
me dando um sinal por meio do qual posso entender alguma coisa”. Ele vai concluir que “a
linguagem é uma espécie de sacramento semântico, um meio de comunicar o significado
por meio de signos verbais”. Vanhoozer vai promover uma ideia de realismo hermenêutico.
Esse é o caminho que quero apresentar a vocês.

45
Apud GREGORY, Brad. The unintended Reformation: how a religious revolution secularized society. Cam-
bridge: Belknap Press of Harvard University Press, 2012, p. 88.

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Vanhoozer diz que a Bíblia é o “depósito de fatos”46 do teólogo. Ele pergunta: “Como se
deve ler? Embora a leitura, assim como a observação nas ciências naturais, possa ser
teoricamente orientada, será que devemos concluir que a leitura é irremediavelmente sub-
jetiva (isto é, arbitrária)?”47 E mais: “[...] podemos vir a conhecer alguma coisa além de
nós mesmos quando olhamos para o espelho do texto?”48. Ele responde: “Os leitores que
tratam o texto como um espelho sobre o qual projetam suas próprias invenções e desejos
não conseguem fazer distinção entre autor e leitor e, assim, caem vítimas da idolatria inter-
pretativa”49. Desta forma, o “texto, pois, é um tesouro escondido de significado”50. Quando
Deus fala, eu escuto, e quando essa informação chega a mim, entendo e sou mudado por
aquilo. Se minha esposa me pede para virar a direita, eu tenho uma série de significados
linguísticos que me fazem compreender. Se tenho uma carta de amor, talvez, em uma frase
ou outra, posso ficar em dúvidas sobre o significado e intenção do remetente. Talvez não
haja compreensão de algo mais complexo, mas você pode entender de forma mais geral
o que está sendo dito. Ao pegar a bula de um remédio para dor de cabeça e um rótulo de
veneno para ratos, se você me diz que não há significado no texto e que é o autor que con-
cede significado ao texto, ou que todo texto é uma tentativa de impor controle de opressão,
você pode considerar tomar ambos.

O que está sendo lido, pode ser compreendido. Por que, então, não fazemos o mesmo
com a Escritura? Essa é uma doutrina reformada muito importante, a doutrina da perspi-
cuidade da Escritura. Em Deuteronômio, Deus fala que a Escritura deve estar próxima do
nosso coração, para ser lida, compreendida, aceita. Nós podemos ler a Escritura e enten-
dê-la. Obviamente, talvez haja um ponto ou outro que seja um pouco mais complexo, ainda
assim, mesmo nessa grande Babel de tantas denominações protestantes, os nossos pon-
tos de unidade são imensos e que podemos crer que há um ponto comum em que todos
leem e entendem a mesma coisa. Jesus é Salvador, Jesus é Deus, morreu na cruz pelos
nossos pecados e retornará, vivemos em sujeição a ele, Jesus é o único mediador entre
Deus e os homens. Aqueles que negam essas verdades, negam o que está escrito. O texto
tem sentido, o sentido está posto a nós e pode ser acessado. Podemos crer e compreen-
der. Existem passagens mais complexas, existem pontos de debate mais profundos, mas
que no fim das contas, são pouco diante do todo.

Brincamos no seminário teológico que passamos quatro anos no seminário para dis-
cutirmos 5% da Escritura. Discutindo pequenos pontos que são mais difíceis. Aquilo que
é fundamental para a nossa fé, aquilo que importa no fim das contas, está posto. Desen-
volvendo os conceitos de realismo hermenêutico, outridade e autotranscedência, e ética
e espiritualidade na interpretação, Vanhoozer diz que o texto deve modificar o leitor, não
o contrário, de forma que “os leitores não atingem apenas o conhecimento, mas também
o autoconhecimento, quando permitem que o texto se manifeste”51. Desta forma, a “boa

46
HODGE, Charles. Systematic Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1979, v. 1, p. 10.
47
VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto?: Interpretação bíblica: os enfoques contemporâneos.
48
São Paulo: Editora Vida, 2015, p. 36.
49
Ibid., p. 40. Ênfase do original.
50
Ibid., p. 41.
51
Ibidem.

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interpretação é um trabalho árduo, não tenho dúvida de que às vezes entrarei em conflito
com meus próprios preconceitos à medida que for apresentando e criticando posições al-
ternativas”52. Nosso intuito, na dissertação, será usar os conceitos de Vanhoozer em con-
traposição com a hermenêutica política da Teologia da Libertação e da Teologia da Missão
Integral.

Há um espaço para autocrítica dos movimentos de cosmovisão quando há um esforço


por desenvolver sistemas de pensamento que se pretendem cristãos, mas são fundamen-
talmente arrazoados históricos sobre grupos intelectuais específicos que um trabalho de
exegese do texto inspirado. O que a Bíblia tem a nos dizer? Como podemos interpretar a
exegese dos Antigo e Novo Testamentos?

Concluo dizendo que só faremos teologia política quando ao invés de levarmos nossos
pressupostos para o texto e usá-lo para validar as nossas vontades políticas, e ao invés
disso, usarmos o texto bíblico com um mestre e um juiz. Às vezes o texto será um aliado,
mas tema quando o texto parecer um aliado. Quando o processo de pensar economia e
as relações de mercado estiverem muito tranquilamente válidas pela Escritura, sempre
suspeite, pois essa suspeita vai nos dar cuidado para não importarmos ao texto bíblico
pressupostos e vontades de uma leitura sociológica específica, como acontece nas leitu-
ras da realidade a partir das teorias de Gramsci, no movimento chamado pelos críticos de
marxismo cultural.

Não devemos fazer uma teologia a partir de algo senão a própria Escritura, fazendo assim,
uma teologia limitada de uma visão política específica. Uma teologia limitada é também
uma teologia limitante em seu poder de alcançar a vida das pessoas. Assim, perderemos
por não pregar a Palavra de Deus com fidelidade, não ensinarmos aquilo que realmente o
Senhor deseja, por torcer a verdade de Deus, falando em nome de Deus coisas das quais
Deus nunca falou, por não conseguir ler a Bíblia sem os óculos ideológicos. Seja por uma
hermenêutica teologicamente orientada ou por falta de honestidade a si mesmo. Achando
ser neutro na leitura da Escritura, quando se precisa todos os dias, de um esforço de juízo
de si em tentar ler a Escritura de uma forma que não seja economicamente, politicamente,
socialmente e ideologicamente orientadas. Isso é fundamental para que haja uma herme-
nêutica realista. Uma hermenêutica não apenas buscando não ser idólatra, mas nos esfor-
çando para que o texto nos ensine, toque em nós e nos transforme em lugares onde Deus
deseja. onde o autor e o escritor não se confundem e você recebe o Texto para aprender
dele. Não na procura de um aliado, mas quando o texto o ensina e auxilia a chegar em lu-
gares onde Deus deseja.

É assim, que começamos a caminhar em direção a uma construção de uma teologia


política. Devemos aceitar a hermenêutica bíblica, a verdade da Palavra de Deus como ver-
dade da Palavra de Deus e não torcendo a Escritura para que ela nos diga o que preferimos.
Eu espero que eu nunca torça a palavra de Deus para a minha fé política, mas como eu,
estamos todos sujeitos a isso. Resolvemos isso discutindo o texto, a Bíblia, a exegese. Ao
discutirmos a Escritura, podemos chegar em conclusões para aplicação a sociedade ou de
uma teologia política.
52
Ibid., p. 32.

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