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CAPÍTULO III – O DIREITO COMO SISTEMA DE

PARTE IV
A CIÊNCIA DO DIREITO NORMAS: A TEORIA DA NORMA JURÍDICA

No Capítulo [x], você viu que a expressão “sistema jurídico” é ambígua,


podendo fazer referência a sistemas jurídicos ideais e empíricos, os quais podem ser
teoréticos ou prescritivos. O que nos importa agora são os sistemas jurídico-
prescritivos, isto é, o ordenamento jurídico, ou sistema de direito positivo. Mais
precisamente, os elementos desse sistema: as normas jurídicas. Neste Capítulo você
entenderá o que é uma norma jurídica, qual é a sua estrutura e os tipos de normas
jurídicas.

1. O conceito de “norma jurídica”


Pelo que já expomos até agora, você já tem condições de chegar a uma definição
de “norma jurídica”. Você já sabe que o direito (positivo) é um sistema proposicional
empírico-prescritivo. Isso significa que a ordem jurídica tem, como elementos,
proposições prescritivas. Ora, você também já sabe que uma “proposição” é o
significado atribuído a uma sentença, a uma oração e, até mesmo, a uma ação
específica (como o braço levantado e um apito vindo de um guarda de trânsito, que
significa “pare”). Você viu ainda que uma proposição com função prescritiva é aquela
voltada a influenciar o comportamento de alguém.
Com base nisso, podemos dizer que uma norma é uma proposição prescritiva.
Isso vale para as normas morais, as normas de etiqueta e as normas de futebol. Todas
visam a influenciar a conduta. Kelsen enfatiza que uma norma é algo que deve ser ou
que deveria acontecer. A expressão “dever ser” é usada por Kelsen para expressar o
significado normativo de um ato dirigido à conduta dos outros. Neste ponto, Kelsen
diferencia a norma do ato de vontade. A norma é um dever ser; o ato de vontade, um ser.
A norma é o significado de um ato de vontade pelo qual um determinado
comportamento é comandado, permitido ou autorizado.1 Assim, uma norma é uma
proposição prescritiva. É uma proposição que tem o objetivo de influenciar o
comportamento dos outros.2 É um dever ser.
A pergunta agora é a seguinte: o que diferencia uma norma jurídica de outras
normas não-jurídicas?

1 KELSEN, Hans Teoria pura do direito, p. 5.


2 Em vista do conceito acima exposto, as chamadas “regras descritivas” – isto é, regras que
descrevem uma regularidade empírica, tal como uma lei da física ou da lógica (SCHAUER,
Frederick. Playing by the rules: a philosophical examination of rule-based decision-making in law and
in life, pp. 1-2) – não são normas no sentido aqui exposto. As regras descritivas não pertencem,
nos termos da classificação apresentada deste Capítulo, a um sistema de proposições
prescritivas, mas sim a um sistema de proposições descritivas.
1
1.1. Toda norma jurídica possui sanção?
A questão acima foi objeto de discussão pelos juristas ao longo da história. A
norma jurídica possui uma característica que a diferencie de outras normas? A
resposta mais conhecida a essa pergunta é a concepção segundo a qual toda norma
jurídica, para ser considerada como tal, deverá estar acompanhada de sanção. Como
já vimos (vide Capítulo [x]), a expressão “sanção” pode ser usada num sentido
positivo ou negativo. Aqui, estamos fazendo referência apenas à sanção em seu
sentido negativo, isto é, como uma consequência ao descumprimento de uma
obrigação.
John Austin, por exemplo, entendia que as regras jurídicas são comandos. Por
“comando”, Austin reputava ser a expressão de um desejo específico, qual seja, o de
impor um mal em caso de não cumprimento do desejo. Para Austin, dizer que alguém
está obrigado a cumprir o desejo expresso no comando é o mesmo que dizer que a
pessoa está sujeita a um dever. Quando esse dever é quebrado, o mal deverá ser
imposto. Esse mal é a sanção.3
Kelsen segue uma linha semelhante. Para ele, se o direito é uma ordem
coercitiva, então as normas gerais dessa ordem são normas que estipulam atos
coercitivos, isto é, as sanções. As normas que não prescrevam uma sanção são normas
jurídicas não-autônomas. As normas autônomas são as normas primárias, que
estabelecem sanções. As normas secundárias (não-autônomas) são as que permitem
positivamente uma conduta (como, por exemplo, a norma “é permitido fumar neste
local”), e as normas que estatuem competências; estas apenas delimitam o âmbito de
validade de uma norma sancionadora. A norma dependente, não-autônoma, apenas
prevê as condições em que uma sanção (prevista na norma autônoma) deve ser
aplicada. Por isso, diante da premissa de que o direito é uma ordem coercitiva, a
solução encontrada por Kelsen foi a de asseverar que toda norma jurídica contém
uma sanção. Normas sem sanção estão vinculadas às normas com sanção, ou seja, elas
são normas não-autônomas, dependentes.4
Essa resposta tem sido criticada. Alguns asseveram que é patente a existência
de normas jurídicas que não possuem qualquer sanção pelo seu descumprimento.
Um exemplo, para citar o caso brasileiro, é a proposição normativa que se obtém a
partir do art. 1º do Código Civil. Nos termos desse dispositivo, “[t]oda pessoa é capaz
de direitos e deveres na ordem civil”. Ou seja, dado o fato de “ser pessoa”, esta poderá
praticar quaisquer atos jurídicos.
De fato, quando se tem em vista que uma norma jurídica tem a estrutura
condicional “Se H, então deve ser C” (e nós vamos falar um pouco mais sobre estrutura
abaixo), realmente há normas jurídicas sem sanção em seu consequente (o trecho “...
então deve ser C”). Por exemplo, a Constituição brasileira prescreve o seguinte: “são
inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos” (art. 5º, LVI). Assim,
a norma jurídica obtida a partir da interpretação desse texto estatui que “num
processo (administrativo ou judicial), os agentes públicos estão proibidos de aceitar

3 AUSTIN, John. The province of jurisprudence determined, pp. 21-23.


4 KELSEN, Hans. Teoria pura do direito, pp. 60-65.
2
provas obtidas por meios ilícitos”. Se num determinado processo, um juiz de primeira
instância, por exemplo, considera uma prova obtida por meios ilícitos e sentencia com
Os sistemas de base nela, outra norma será aplicada, agora uma que prevê a sanção. Esta sanção será
direito positivo
a invalidade da sentença judicial exarada. No caso do direito brasileiro, esta norma
possuem normas
que possuem
será aplicada pelo Tribunal competente para julgar o recurso de apelação.
sanção e normas Portanto, nos sistemas jurídico-positivos, há normas com sanção e normas sem
sem sanção sanção. Todavia, a questão que surge agora é a seguinte: se a presença de uma sanção
não é o que faz com que uma norma seja “jurídica”, que critério seria esse?

1.2. A validade sistêmica


A solução apresentada por Norberto Bobbio para definir norma jurídica é útil:
a norma será “jurídica” quando pertencer ao sistema jurídico-positivo. Dessa forma, se uma
norma fizer parte desse conjunto de normas a que se chama “direito positivo”, então
a norma será jurídica.5 O critério de identificação de uma norma como “jurídica”,
portanto, é o do “pertencimento” da norma a um dado sistema jurídico-positivo
(brasileiro, espanhol, romeno, sul-africano etc.). Normalmente, a esse fenômeno (qual
seja, o de uma norma fazer parte de um sistema normativo), dá-se o nome de validade.6
É preciso ter cuidado com o termo “validade”, porque ele pode ser usado em dois
sentidos diferentes, ainda que relacionados.
O primeiro sentido procura descrever o fenômeno de uma norma pertencer a um
sistema jurídico. Trata-se, pois, de uma relação entre a norma e o sistema normativo. Uma
norma será válida (sistemicamente) em relação a determinado sistema jurídico, e não
em relação a outros. A norma que se extrai do art. 1º do Código Civil de 2002 é válida
em face do sistema jurídico brasileiro, mas é inválida em face de outros sistemas
jurídicos. Nós podemos chamar esse sentido de validade sistêmica, porque a
expressão se refere ao fato de uma norma pertencer a um sistema jurídico.

Universo
normativo
(Un)

Sistema
jurídico (Sj)

N2 N1

5 BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica, p. 167.


6 Sobre o tema, vide: NEVES. Teoria da inconstitucionalidade das leis, p. 42.
3
Então, quando uma dada norma N1 pertencer a um sistema jurídico (que é um
conjunto de normas, que representaremos por Sj), a norma N1 será jurídica (NJ). Em
termos formais, [(N1 ∈ Sj) → NJ]. Perceba, por sua vez, que N2, embora seja uma norma
(e, portanto, está dentro do conjunto de todas as normas, simbolizada por “Un”) não
é uma norma jurídica, pois ela não pertence ao sistema representado por Sj. Logo, [(N2
∉ Sj) → –NJ]. Enquanto N1 é válida (sistemicamente) em face do sistema jurídico Sj (e,
por isso, é uma norma jurídica de Sj), N2 é inválida (sistemicamente) em face de Sj,
não sendo uma norma jurídica (–NJ) desse sistema.
Porém, também se usa o vocábulo “validade” para representar outra relação,
qual seja, a relação entre norma superior e norma inferior. Quando a norma inferior é
produzida de acordo com a norma superior (pela perspectiva formal e material), diz-
se que a norma inferior é válida. No entanto, aqui, está em pauta uma relação norma-
norma, e não norma-sistema. Claro, há uma conexão. Afinal, uma norma produzida
de acordo com a norma superior pertence ao sistema. Entretanto, o fenômeno é
bastante diferente, pois se trata da relação norma-norma. Vamos chamar essa relação
de validade normativa para diferenciar da validade sistêmica.

Sistema
jurídico (Sj)

N1

N3

4
No exemplo acima, N3 é uma norma inferior em relação a N1. Mas como N3 foi
produzida em conformidade com N1 (representada pela seta na vertical, voltada para
baixo “↓”), N3 é válida (normativamente) em face de N1. Por ter
como fundamento de validade N1, a norma N3 é válida e, portanto,
Norma jurídica é toda pertence ao sistema jurídico Sj. Assim, o fato de a norma inferior ter
proposição prescritiva que sido produzida em conformidade com a norma superior faz dela
pertencer a um dado sistema uma norma jurídica, já que ela passou a pertencer ao sistema
jurídico-positivo. jurídico-positivo. A validade normativa leva à validade sistêmica.
Validade sistêmica é a relação Daí a sua relação.
de pertencimento de uma Em suma, quando uma norma é “jurídica”, costumamos
norma em face de determinado dizer que ela é válida (validade sistêmica). Isso significa que uma
sistema jurídico. norma jurídica não possui, isoladamente, características diferentes
Validade normativa é a de outras normas (sociais, morais etc.). A princípio, não importa
relação de conformidade da sequer o conteúdo dessa norma (se ela é “justa” ou “injusta”); o que
norma inferior em relação à importa é saber se ela pertence ou não a dado sistema. O que importa
norma jurídica superior,
é sua validade sistêmica. E uma norma terá validade sistêmica
ambas inseridas num dado
quando for válida normativamente, isto é, quando a norma for
sistema jurídico.
produzida em conformidade com a norma jurídica superior.
Antes de passarmos ao próximo tópico, é importante você
saber que as expressões “validade sistêmica” e “validade
normativa” não são usadas pelos juristas. Nós é que estipulamos este sentido aqui.
Para se referir ao fenômeno que chamamos de “validade sistêmica”, os juristas ora
falam em “existência”, ora em “validade”, sem qualquer qualificativo. O problema é
que eles também usam “validade” para se referir ao fenômeno que denominamos de
“validade normativa”. Então, é importante você ter isso em mente quando ler, em
algum livro, o termo “validade”. Será necessário você avaliar, em vista do contexto, a
qual fenômeno o jurista está se referindo.

2. A estrutura lógica da norma jurídica


Acima, falamos que as normas jurídicas possuem uma estrutura condicional:
“Se H, então deve ser C”. Vamos analisar essa estrutura e trazer alguns conceitos
correlatos, o que é fundamental para se entender como o direito funciona.

2.1. A hipótese de incidência. O fato jurídico


A primeira parte dessa proposição prescritiva (“Se H...”) é chamada de hipótese
de incidência, ou antecedente. A hipótese de incidência consiste na descrição de uma
situação objetiva possível, ou seja, há a descrição de um fato natural ou um fato da
conduta.
O fato natural é, como o próprio nome já indica, um evento da natureza, como
um furacão, ou uma enchente. O Código Civil estabelece que as ilhas que se formarem
em correntes comuns ou particulares pertencem aos proprietários ribeirinhos
fronteiros (art. 1249, caput). O mesmo diploma legal prevê que os acréscimos

5
formados por depósitos e aterros naturais ao longo das margens das correntes, ou
pelo desvio das águas, denominado “aluvião”, pertencem aos donos dos terrenos
marginais (art. 1250). Note que, a princípio, a formação de ilhas e a aluvião são
eventos da natureza. Caso eles ocorram, há um efeito jurídico específico: a aquisição
de sua propriedade pelos proprietários ribeirinhos, e pelos donos dos terrenos
marginais, respectivamente.
Mas a norma jurídica também pode prever, em seu antecedente, um fato da
conduta, isto é, comportamentos positivos ou negativos (isto é, ações ou omissões)
como fatos sujeitos à sua incidência. O art. 121 do Código Penal prevê que à ação
“matar alguém” será imputada a pena de reclusão de seis a vinte anos. O art. 11, V,
da Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/1992) prevê que, no caso de o
agente público “frustrar a licitude de concurso público”, deverão ser aplicadas as
sanções de improbidade administrativa (suspensão dos direitos políticos, multa,
dentre outras previstas no art. 12, III).
O que faz com que um fato da natureza ou um fato da
Hipótese de incidência (ou conduta se torne um antecedente de norma jurídica? É o ato de
antecedente) consiste na valoração do sujeito competente para produzir a norma. Nos
primeira parte da norma que exemplos citados, esse ato de valoração coube ao Congresso
descreve uma situação objetiva Nacional e ao Presidente da República (por meio da sanção às
possível, seja um fato natural referidas leis). De acordo com Lourival Vilanova, um fato torna-se
ou um fato da conduta. fato jurídico pela porta aberta da hipótese de incidência. A decisão
de quais propriedades são selecionadas pela norma jurídica decorre
Fato jurídico é o fato sobre o
de um ato de valoração que é prévio à criação do texto normativo.7
qual incide o antecedente da
norma jurídica e que, portanto, Assim, ao falarmos da hipótese de incidência, você acaba por
foi imputada ao menos uma aprender outro conceito fundamental do direito: o de fato jurídico.
consequência jurídica. Quando ocorrer concretamente um fato (os juristas também gostam
de chamar esse fato ainda não jurídico de “suporte fático”)
Consequente normativo é a
contemplado na hipótese de incidência de uma norma jurídica,
segunda parte da norma, a
dizemos que se trata de um fato jurídico. Isso significa que, a esse
qual obriga, veda ou permite
fato, foi imputada uma dada consequência jurídica.
determinado comportamento
dos sujeitos.
2.2. O consequente normativo e os modais deônticos
As consequências jurídicas estão previstas no consequente
normativo, a qual se encontra na segunda parte daquela estrutura condicional (“...,
então deve ser C”). O consequente disciplina o que deve acontecer quando o fato jurídico
se verificar na realidade. No consequente, a norma prescreve que uma determinada
conduta intersubjetiva será obrigatória, permitida ou proibida. Estes são os chamados
modais deônticos. Logo, uma vez verificada a ocorrência do evento descrito no
antecedente, deve ser a consequência. Alguém estará, em face de outro, obrigado a
fazer ou omitir determinada conduta; ou então, tal comportamento estará permitido
ou proibido pela norma. Nos exemplos, citados, ao proprietário da ilha e do aluvião
lhe é permitido, em face de todas as pessoas, usar, gozar, dispor e reaver o bem; ao

7 VILANOVA, Lourival. As estruturas lógicas e o sistema de direito positivo, p. 85).


6
autor do crime, o Estado deverá aplicar uma pena de reclusão; ao agente público que
frustrou a licitude do concurso público, o Estado deverá aplicar as sanções de
improbidade previstas no art. 12, III, da Lei 8.429/1992.
Em suma, a norma jurídica descreve as propriedades de fatos da natureza ou
de fatos da conduta e imputa três (e apenas três) possíveis consequências. A
consequência normativa obrigará (“O”), permitirá (“P”) ou vedará (“V”) determinada
conduta positiva (uma ação, “p”) ou negativa (uma omissão, “–p”). Portanto,
trabalhamos aqui com apenas três modais deônticos.
Você deve estar se perguntando sobre a “faculdade”. Afinal, eu posso, se assim
desejar, comprar ou não uma lata de refrigerante. Você pode ou não expressar seu
pensamento. No entanto, perceba que a faculdade significa que tanto a ação e sua
omissão são permitidos (“Pp” e “P–p”). A faculdade não é um quarto modal deôntico,
mas sim uma variação do modal “permissão”: é permitido fazer e não-fazer.
Outro ponto a ser mencionado quanto aos modais é que eles são interdefiníveis.
Por meio de um modal, é possível definir o outro. Dizer que um determinado
indivíduo (“X”) é obrigado a realizar o comportamento p perante outro (“Y”) é o
mesmo que dizer que a X não é permitida a omissão da conduta p em relação a Y. Ou
então, que a X está vedada (proibida) a omissão da conduta p em face de Y. A tabela
abaixo traduz essa interdefinibilidade em termos formais. 8

Pp ≡ –O–p ≡ –Vp

Interdefinibilidade dos –Pp ≡ O–p ≡ Vp


modais deônticos
P–p ≡ –Op ≡ –V–p

–P–p ≡ Op ≡ V–p

2.3. Consequente normativo e sanção


Nós já vimos que nem toda norma jurídica estabelece uma sanção. Mas
certamente existem normas sancionadoras.
Nós já indicamos acima que, por “sanção”, entendemos toda consequência ao
descumprimento de uma obrigação. A norma obriga alguém a realizar uma
determinada conduta e tal pessoa se conduz da maneira oposta. A norma exigia uma
ação e o agente se omite; ou a norma exigia uma omissão e o sujeito se conduz
positivamente. A Lei 8.666/1993 exige que a minuta do edital de licitação seja enviada
à assessoria jurídica para análise e parecer (art. 38, parágrafo único). Se a autoridade
competente não encaminha, ela descumpre um dever legal e está sujeita a uma sanção
disciplinar (no caso, prevista no respectivo Estatuto dos Servidores), além da

8Vide: ECHAVE, Delia Teresa; URQUIJO, María Eugenia; GUIBOURG, Ricardo A. Lógica,
proposición y norma, p. 123; VILANOVA. As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, p.
147.
7
possibilidade de invalidação do edital (art. 49 da Lei 8.666/1993). O art. 121 do Código
Penal veda o homicídio; se João mata José, João estará sujeito à sanção penal de
reclusão.
Embora seja verdadeiro afirmar que as sanções estão situadas sempre no
consequente normativo, nem todo consequente normativo estabelece uma sanção.
Convém apresentar um exemplo retirado do direito brasileiro.
O art. 5º, XXXIII, da Constituição de 1988 prescreve que “todos têm o direito a
receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse
coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do
Estado”. Da interpretação do dispositivo transcrito é possível chegar, dentre outras,
à seguinte norma:

Norma 1 Quando uma pessoa requerer uma informação detida pelo Poder Público
[H], então o agente público competente X estará obrigado a divulgar,
[H → C] dentro do prazo fixado em lei, tal informação ao requerente [C].

No exemplo, o dispositivo foi interpretado de forma a claramente indicar uma


hipótese “H” (“Quando uma pessoa...) e uma consequência “C” (“... o agente público
competente X estará obrigado a divulgar...), em que é estabelecida uma relação
jurídica abstrata entre o sujeito “agente público competente X” e o “requerente”. Esta
Norma 1 é uma norma jurídica pelo fato de estar inserida (por pertencer) ao sistema
jurídico brasileiro. Afinal, o dispositivo que lhe dá base se encontra numa das fontes
do direito reconhecidas internamente: a Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988.
Note-se que outras normas podem ser obtidas a partir da interpretação do
referido dispositivo constitucional. Neste momento, interessa formular apenas a
seguinte:

Se o agente público competente X não divulgar a informação pública ao


Norma 2 requerente no prazo estabelecido em lei [-C], então a autoridade
[-C → S] competente Y estará obrigada a aplicar sanção prevista em lei àquele
agente público competente X [S].

Nessa Norma 2, percebe-se claramente que a Constituição determina que, caso


seja praticada uma infração pelo agente público competente X (que foi designado por
“X” apenas para fins de clareza expositiva), outro agente (no caso, a “autoridade
pública Y”, assim denominada apenas para tornar mais claro o discurso) deverá
aplicar uma sanção, isto é, uma resposta do ordenamento para a prática do ato ilícito.
É evidente que o esquema acima é uma simplificação. Isso porque deverá ser

8
considerado ainda o dever do Poder Legislativo de editar uma lei estipulando o prazo
para a prestação da informação e a sanção correspondente. Entretanto, o exemplo já
ilustra o que se pretende aqui demonstrar: Norma 1 e Norma 2 são normas jurídicas,
porque ambas pertencem ao sistema jurídico-positivo brasileiro (foram obtidas a
partir da interpretação de uma fonte do direito brasileiro, a Constituição). No entanto,
apenas a Norma 2 possui sanção (isto é, uma sanção negativa, uma punição pelo
descumprimento de uma obrigação).

2.4. Consequente normativo e relação jurídica


Perceba que, no consequente normativo, há sempre a previsão de uma relação
entre, ao menos, dois sujeitos. Um sujeito (“X”) estará obrigado a realizar certa
conduta (ação ou omissão) em face de outro sujeito (“Y”), ou então sua conduta estará
vedada ou permitida.
A essa relação entre ao menos dois sujeitos estabelecida pelo consequente
normativo é chamada de “relação jurídica”. Na forma como descrevemos o
fenômeno, temos aqui de uma relação jurídica simples. O fato de um sujeito (“X”)
estar obrigado em face de outro (“Y”) significa que o primeiro (“X”) possui um dever
perante o segundo (“Y”). Por sua vez, o sujeito Y terá um direito à prática da conduta
por X prevista na norma.
O tema da relação jurídica será aprofundado no Capítulo [x], em que todos os
tipos de relações jurídicas (ex.: relação simples e complexa) e posições jurídicas
(direitos, deveres, poderes e sujeições) serão explicitados. Neste momento, o que se
pretende destacar é que essa relação é fruto da incidência de uma norma sobre um
fato, que se torna fato jurídico; dessa incidência, a norma imputa consequências, a qual
implica a instauração de uma relação jurídica.

2.5. As possibilidades lógicas entre hipótese e consequência


Em suma, é possível apresentar a estrutura lógica da norma jurídica nos
seguintes termos:

D [H → C]

“H” é uma descrição de um fato da natureza ou de um fato de conduta. Quando


um dado descrito pelo antecedente da norma tem lugar na realidade (e, quando isso
ocorrer, tal fato será um fato jurídico), então deve ser a consequência (“C”). “D” de
“deôntico” simboliza justamente essa relação de imputação, essa relação “dever ser”.
A consequência preverá uma relação jurídica entre, pelo menos, duas partes,9 em que

9As partes podem ser uma classe de pessoas ou pessoas determinadas. A relação entre ao
menos duas pessoas determinadas não costuma ser de explicação problemática. Já a relação
entre duas classes de pessoas é um pouco diferente. Por exemplo, é possível ter uma norma
geral com este formato: “No que diz respeito à propriedade privada no país X, não-
proprietários estão proibidos de entrar nesta propriedade sem a permissão do proprietário”.
Há aqui uma relação (abstrata) entre duas classes de pessoas: proprietários e não-
9
a conduta de um deles será, em face do outro, obrigatória, permitida ou vedada.
O modelo que apresentamos até agora é simples, justamente para facilitar a
compreensão do tema. Apresentamos a norma contendo uma hipótese e uma
consequência. Mas o direito usualmente é mais complexo. Explica-se.
Em primeiro lugar, a partir de um fato jurídico, diversas podem ser as consequências
imputadas pela ordem jurídica. Vale trazer outro exemplo, novamente extraído do
direito brasileiro: em caso da prática de ato de improbidade administrativa causador
de lesão ao erário (art. 9º da Lei Federal 8.429/1992), poderão ser imputadas as
seguintes consequências ao sujeito: (a) ressarcimento integral do dano; (b) perda da
função pública; (c) multa civil de até três vezes o valor do acréscimo patrimonial; (d)
proibição de contratar com o Poder Público; (e) proibição de recebimento de
benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios (art. 12, I, da Lei Federal 8.429/1992).
Mas também é possível que fatos jurídicos diferentes possam levar a uma só
consequência. O art. 12, § 4º, da Constituição prevê que a perda da nacionalidade
brasileira ocorrerá quando: (a) for cancelada, por sentença judicial, a naturalização do
indivíduo em razão de atividade nociva ao interesse nacional; e (b) se o indivíduo
adquirir outra nacionalidade (salvo em caso de nacionalidade originária reconhecida
pela lei estrangeira, e imposição a brasileiro de naturalização por norma estrangeira).
Assim, a dois fatos diferentes foi imputada a mesma consequência: a perda da
nacionalidade brasileira.
Assim, é possível encontrar as seguintes hipóteses:

C1 H1
Três possibilidades da
relação entre hipótese e H1 C1 H1 C2 H2 C1
consequência (...) (...)
Cn Hn

3. Texto, norma e interpretação


Você deve estar se perguntando como essa estrutura lógica se compatibiliza
com alguns dispositivos da Constituição como, por exemplo, o 5º, XXIII, segundo o
qual “a propriedade atenderá a sua função social”. Ou ainda o art. 13, caput, o qual
dispõe que “[a] língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do
Brasil”, e o § 1º do art. 18, que estatui: “Brasília é a Capital Federal”. Ora, esses textos
não estão em linguagem prescritiva e não possuem uma hipótese e uma
consequência. O art. 5º, XXIII, o art. 13, caput, e o art. 18, § 1º, da Constituição são
“normas”?
Para responder a essa pergunta, você deve, em primeiro lugar, recordar o
conceito de norma que foi apresentado. “Norma” é uma proposição prescritiva. E o

proprietários. Cfr. Cap. Erro! Fonte de referência não encontrada., item Erro! Fonte de
referência não encontrada..
10
que é uma “proposição”? É o significado que se obtém a partir de um texto ou de uma
conduta. Você já sabe que, quando falamos em proposição “prescritiva”,
pretendemos fazer referência à sua força ilocucionária, à sua função, que é de
influenciar o comportamento. Logo, quando se fala em norma, vem logo à mente a
ideia de um significado que visa a influenciar a conduta humana.
Note que, ao falarmos de “significado”, bem como da sua função, estamos
pressupondo que alguém chegou a essa conclusão. Ou seja, falar em “significado” de
algo pressupõe um ato de interpretação. A teoria da interpretação jurídica é um tema
complexo e será aprofundada no Capítulo 7 desta Parte IV. No entanto, não temos
como prosseguir nessa análise sem apresentar ao menos um conceito de
interpretação. Para fazer isso, convém descrever a lição do jurista italiano Riccardo
Guastini sobre o tema.
Guastini afirma que, na linguagem jurídica, “interpretação” é uma palavra
ambígua que possui quatro sentidos.10 Neste momento, convém indicar apenas um
deles. Segundo Guastini, “interpretação” pode ser abstrata ou concreta. Uma
interpretação é abstrata quando alguém afirma que um determinado texto jurídico
“T” significa “S”. Então, por uma interpretação abstrata, o sujeito indica uma norma
jurídica a partir de um determinado texto (ou textos), que é uma fonte de direito. Por
outro lado, uma interpretação concreta é a qualificação jurídica de um fato. Quando
se diz que algum fato tem as propriedades selecionadas pela hipótese de incidência
(isto é, quando se qualifica algum fato de “jurídico”), está-se diante de uma
interpretação concreta.11
Assim, a norma é, afinal, o resultado da interpretação de um texto ou de alguns textos
normativos. É por isso que Guastini sustenta que o discurso do intérprete é semelhante
ao do tradutor. O trabalho deste é o de reformular um texto numa língua diferente
daquela na qual este é formulado. No direito, o intérprete busca reformular os textos
normativos das fontes do direito.12
Aliás, não existe correspondência biunívoca entre textos normativos
(disposições) e normas. Conforme explica o mesmo jurista, de uma disposição é
possível obter mais de uma norma. É o caso do art. 1º da Constituição Brasileira de
1988. Da interpretação do seu texto, é possível chegar ao princípio do Estado
Democrático de Direito, ao princípio republicano, ao princípio federativo e às demais
normas que decorram do conteúdo desses princípios. De igual modo, também é
possível que apenas uma norma seja formada a partir de mais de uma disposição; não
raro, há disposições que preveem hipóteses e outras, as respectivas sanções. É o caso
do já citado ato de improbidade administrativa, cujas hipóteses estão previstas nos
arts. 9º, 10 e 11 da Lei 8.429/1992, enquanto as consequências estão previstas no art.
12. Portanto, o intérprete, ao reformular os textos contidos nas fontes do direito,
formulará enunciados normativos que observem a forma lógica acima citada.
Nós vamos voltar e aprofundar esse tema no Capítulo 7 da Parte IV. Por

10 GUASTINI, Riccardo. La sintassi de diritto, pp. 386-397.


11 GUASTINI, Riccardo. La sintassi del diritto, pp. 390-392.
12 GUASTINI, Riccardo. Das fontes às normas, pp. 26-27.

11
enquanto, o objetivo foi apenas destacar que a norma, enquanto significado, é o
resultado de um ato de interpretação. A norma jurídica, nesse sentido, é produzida
pelo intérprete.

4. As esferas de validade das normas jurídicas


Acima, nós já falamos sobre o conceito de “validade”. Já indicamos que a
validade pode ser sistêmica e normativa. Um aspecto ainda não destacado é que, ao
falarmos que uma norma é “válida”, isso também quer dizer que, por pertencer ao
sistema jurídico, essa norma vincula aos sujeitos a que faz referência.
Nesse ponto, convém citar as quatro esferas de validade de uma norma
expostas por Kelsen. Este autor escreve que “validade” é a existência específica de
uma norma. Isso significa que uma norma existe juridicamente quando ela pertence
a um dado sistema jurídico-positivo (validade sistêmica).
Ao pertencer a uma ordem jurídica, a norma passa a ter uma validade espaço-
temporal. Assim, a norma incide sobre determinado espaço (ex.: o Município de São
Paulo, o Estado do Rio de Janeiro, a República Federativa do Brasil etc.) e num
determinado tempo, passado ou futuro. De modo geral, as normas passam a irradiar
seus efeitos para alcançar fatos ainda a acontecer; no entanto, é logicamente possível
que uma norma jurídica seja um esquema de interpretação para eventos ocorridos no
passado, inclusive para imputar a tais fatos passados uma sanção.13 O que ocorre é
que, normalmente, os Estados nacionais preveem regras voltadas a evitar esse tipo de
situação. É o caso da Constituição Brasileira, que veda a retroatividade da lei penal,
salvo se para beneficiar o réu (art. 5º, XL). Portanto, toda norma jurídica possui um
domínio (esfera) de validade espacial e temporal.14
Além dos domínios espacial e temporal, existem as esferas pessoal e material de
validade das normas jurídicas. Kelsen observa que a conduta regulada pelas normas
é uma conduta humana. Logo, é possível distinguir em toda conduta humana um
elemento pessoal e um elemento material: o ser humano, que deverá se conduzir de
certo modo, e o modo ou forma pela qual ele deverá se comportar. Os domínios
pessoal e material estão ligados entre si inseparavelmente. Na esfera pessoal, é o
aspecto pessoal da conduta humana que é o foco, podendo ser limitado ou ilimitado.
Há limitação, por exemplo, em leis que disciplinam o estatuto dos servidores
públicos. Um exemplo de domínio pessoal ilimitado pode ser encontrado justamente
na Declaração Universal dos Direitos Humanos (que pertence ao sistema de direito
positivo internacional). Por sua vez, a conduta humana se refere sempre a uma região
material do mundo: a economia, a religião, a moral, o desporto etc. Quando se diz
que uma norma disciplina a conduta econômica dos indivíduos, trata-se de norma
reguladora da economia. E Kelsen é claro ao asseverar que o domínio material de uma
ordem jurídica é sempre ilimitado, já que um sistema jurídico-positivo pode regular
qualquer comportamento humano.15

13 KELSEN. Teoria geral do direito e do Estado, pp. 60-61.


14 KELSEN. Teoria pura do direito, pp. 13-15.
15 KELSEN. Teoria pura do direito, pp. 15-16.

12
Em suma, toda norma jurídica possui quatro esferas de validade: espacial,
temporal, pessoal e material. Você verificará que essa distinção é extremamente útil
quando da aplicação das normas jurídicas.

Norma jurídica
D(H → C)

Esfera Esfera Esfera Esfera


espacial de temporal de pessoal de material de
validade validade validade validade

5. Tipos de normas jurídicas


Evidentemente, é possível diferenciar as normas jurídicas a partir de critérios
distintos. Com base no critério da sanção, existem normas jurídicas sancionadoras ou
não-sancionadoras, conforme esteja ou não presente uma consequência para a prática
de um ato ilícito. Para você entender um pouco mais o discurso dos juristas, seguem
algumas classificações das normas jurídicas.

5.1. Normas primárias e normas secundárias


Nós já fizemos referência à posição de Kelsen, para quem as normas jurídicas
são aquelas que estabelecem os atos coercitivos, as sanções. As normas jurídicas que
não estabelecem sanções, em verdade, estão contidas na norma jurídica. Convém
exemplificar.
O art. 247 do Código Civil prevê que, na hipótese de o devedor (ex.: um cantor)
se recusar a realizar a prestação imposta somente a ele (ex.: fazer uma apresentação
em determinado dia e local), ele terá a obrigação de indenizar por perdas e danos. A
norma extraída do art. 247 estabelece uma sanção em caso de inadimplemento do
devedor (no nosso exemplo, o cantor). Para Kelsen, essa é a norma jurídica, pois
estabelece a sanção. No entanto, para que essa norma possa ser aplicada, é necessário
que exista a fixação da obrigação do cantor em fazer uma apresentação. Assim, por
meio de um contrato, o cantor e o contratante deste estabeleceram que aquele tinha a
obrigação de fazer uma apresentação em determinado dia e local.
A norma contratual – que estabeleceu a obrigação do cantor em face de seu
contratante – não é, para Kelsen, uma norma jurídica. Isso porque ela apenas indica
quando a norma derivada do art. 247 do Código Civil pode ser aplicada. Kelsen
explica que, a partir do momento em que se tem clareza quanto a esse dado (que, no
nosso exemplo, a norma contratual em questão apenas delimita as condições para a
aplicação da norma que estabelece o dever de indenizar do cantor), não há prejuízo

13
em identificar a proposição que fixa as condições como uma norma. No entanto, ela
será uma norma dependente (não-autônoma) da norma jurídica (que estabelece a
sanção). Kelsen afirma que a norma sancionadora pode ser chamada de “norma
jurídica primária”, enquanto a norma dependente, de “norma jurídica secundária”.16
No entanto, existem autores que usam as expressões “norma primária” e
“norma secundária” em sentidos diversos.
Um primeiro exemplo é o de Lourival Vilanova. Para esse jurista brasileiro, a
norma jurídica possui uma estrutura dual. Logo, a norma jurídica completa é
composta de duas proposições prescritivas, uma primária e a outra secundária. Na
norma primária, é fixada a situação (ou situações) que darão ensejo à relação de
direitos e deveres entre os sujeitos. Na norma secundária, haverá a previsão de sanção
pelo descumprimento de tal obrigação prevista na norma primária; ou seja, a norma
secundária é a norma sancionadora. Em linguagem formal, a norma jurídica
completa, para Lourival Vilanova, teria a seguinte estrutura: D[(H → C).(–C → S)]. A
primeira parte (H → C) é a norma jurídica primária, enquanto a segunda (–C → S), é
a norma secundária.17 Assim, dada a norma primária deve ser (o “D”) a norma
secundária.
Você perceberá que, entre os autores que adotam a teoria da estrutura dual da
norma jurídica (que rejeitamos no item 1.1 deste Capítulo), quando eles se referem às
expressões “norma primária” e “norma secundária”, eles usualmente estão se
referindo à primeira como sendo uma norma que estabelece obrigações, enquanto à
segunda, como a norma sancionadora.
Mas há ainda outro sentido de “norma primária” e “norma secundária”, muito
conhecida e usada, em especial por juristas do common law. Trata-se da já mencionada
distinção feita por Hart entre normas primárias de obrigação e normas secundárias
de reconhecimento, de modificação e de julgamento (ou adjudicação). Aqui, o foco
não reside tanto assim na estrutura da norma, mas basicamente nas funções que as
normas cumprem dentro de um sistema jurídico-positivo.
Dentro da concepção de Herbert L. A. Hart, as normas primárias são as que
estabelecem os deveres e as obrigações dos sujeitos. São regras que restringem o uso
da violência pelos indivíduos, proíbem o roubo e atribuem direitos às pessoas.
Portanto, são regras que visam a disciplinar a conduta dos sujeitos. Por sua vez, as
regras secundárias têm como objeto outras regras, sendo de três tipos: (a) regras de
reconhecimento; (b) regras de mudança; e (c) regras de adjudicação (ou julgamento).
As regras de reconhecimento estabelecem as condições que nos permitem reconhecer
uma regra como integrante do sistema jurídico. As regras de modificação são as que
conferem poderes aos sujeitos para introduzir, modificar ou excluir regras. Por fim,
as regras de adjudicação são as que atribuem a certos sujeitos o poder de decidir de
forma vinculativa sobre o descumprimento das regras primárias. Para Hart, o direito
é um sistema de regras primárias e secundárias.18

16 KELSEN, Hans. Teoria geral do direito e do Estado, pp. 86-87.


17 VILANOVA, Lourival. As estruturas lógicas e o sistema de direito positivo, p. 105 e ss.
18 HART, H.L.A. The concept of law, pp. 91-98.

14
Como você pode perceber, as expressões “normas primárias” e “normas
secundárias” podem ser usadas em sentidos diferentes. Ao ler um texto de teoria do
direito, é preciso que você fique alerta em qual contexto o autor está usando a
expressão.

5.2. Normas universais e singulares: gerais e individuais, abstratas e concretas


Usualmente, quando se fala em “direito”, ou em “normas jurídicas”, vem à
mente a regulação do comportamento humano de forma “geral” (seja quanto ao
sujeito, seja quanto à conduta), tal como na proposição ”todos são iguais perante a
lei”. Até mesmo por isso, é muito comum encontrar juristas que
sustentam que as normas jurídicas são apenas “gerais”.
Norma geral é aquela que faz
referência a uma classe de No entanto, as normas podem ser – em relação ao aspecto
sujeitos, isto é, que define esses subjetivo da conduta (o domínio pessoal de validade) – gerais ou
sujeitos conotativamente. individuais. Uma norma geral é que faz referência a uma classe de
sujeitos. O art. 5º, I, da Constituição prescreve que “homens e
mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta
Constituição”. Note que o dispositivo introduz uma norma aplicável tanto à classe
dos “homens” como à classe das “mulheres”. Por isso, ela é uma norma geral.
Normas individuais, por outro lado, muito encontradas em contratos e atos
administrativos, são aquelas que fazem referência a pessoas específicas. Ex.: “André
Luiz Freire deverá pagar ao Município de São Paulo, a título de imposto sobre serviços
de qualquer natureza, o valor de R$ 200,00”. Perceba que a norma é individual, pois
faz referência a duas pessoas específicas: a André Luiz Freire e à pessoa jurídica de
direito público Município de São Paulo. Por tal razão, trata-se de uma norma
individual.
Em outra perspectiva, quando se tem em vista a esfera material de validade
(isto é, a conduta regulada), as normas podem ser abstratas ou concretas. Norma
abstrata é que estabelece um tipo de conduta, a qual pode, no plano
concreto, ocorrer inúmeras vezes. Ex.: “matar alguém” (art. 121 do
Norma individual é aquela Código Penal). O fato de um sujeito X desferir tiros no sujeito Y,
que faz referência a sujeitos tirando a sua vida, faz com que a conduta de X se enquadre no
determinados, definidos conceito de “matar alguém” previsto no art. 121 do Código Penal.
denotativamente. Se o sujeito Z colocar veneno no suco do sujeito S, fazendo com que
Norma abstrata é que
este último deixe de viver, então a conduta do sujeito Z também se
estabelece uma conduta-tipo,
enquadrará no conceito do art. 121 do Código Penal. Por isso é que
“matar alguém” é um tipo de conduta; a sua aplicação aos diversos
isto é, que define a conduta
casos concretos não exaure os seus efeitos, podendo ser aplicada a
regulada conotativamente.
casos futuros. Por isso a norma veiculada pelo art. 121 do Código
Norma concreta é a que Penal é uma norma abstrata. A norma concreta, por sua vez, faz
estabelece uma conduta referência a uma conduta específica, em que a norma, uma vez
específica, isto é, que define a realizada a conduta, deixa de existir. É o caso da norma em que
conduta regulada André Luiz Freire “deverá pagar o valor de R$ 200,00 ao
denotativamente. Município”. Uma vez paga a quantia, a norma incidiu por
completo, exaurindo seus efeitos.
15
Na lição de Bobbio, essa classificação tem como base a distinção lógica entre
proposições universais e proposições singulares. De acordo com o jurista italiano,
universais são as proposições em que o sujeito representa uma classe composta por
vários membros, como, por exemplo, “os homens são mortais”. Já as proposições
singulares são as que o sujeito representa um sujeito singular, tal como: “Sócrates é
mortal”. Para Bobbio, essa distinção da lógica tem uma dupla aplicação em se
tratando das normas jurídicas, pois incide tanto sobre o destinatário da norma (o
sujeito) como sobre o objeto da prescrição, isto é, a ação prescrita.19
Ainda, é possível usar outra ferramenta para entender a distinção entre normas
gerais e individuais, por um lado, e abstratas e concretas, por outro. Trata-se do uso
dos conceitos de denotação (ou extensão) ou conotação (ou intensão), já aprendidos
por você no Capítulo 2, item 2.2.3. Nesse sentido, a norma pode fornecer,
conotativamente, características dos sujeitos que serão incluídos na sua esfera
subjetiva de validade. A norma irá estabelecer uma classe de pessoas. Nessa hipótese,
estar-se-á diante de uma norma geral. Normas introduzidas por uma Constituição ou
por uma lei são, normalmente, normas gerais. Estas são, segundo Bobbio, normas
universais em relação aos destinatários.20 Por outro lado, quando o domínio pessoal
de validade das normas faz referência, denotativamente, a indivíduos específicos,
esta norma será individual. Isso ocorre, em geral, nas normas introduzidas por
sentenças judiciais, bem como normas contratuais e sancionadoras (ex .: “André Luiz
Freire violou a regra de limite de velocidade; então, ele está obrigado a pagar uma
multa de R$ 150,00”).
O mesmo critério pode ser usado em relação ao domínio material de validade
das normas jurídicas. As normas podem estipular, conotativamente, as características
de um comportamento, isto é, elas podem determinar uma classe de comportamentos
(como exemplo, a já citada norma do art. 121 do Código Penal Brasileiro). Estas são
normas abstratas, que são – para Bobbio – as normas universais quanto à ação. Por
sua vez, quando as normas aludem a comportamentos específicos, em termos
denotativos, estas são normas concretas, ou seja, as normas singulares quanto à ação
(é o exemplo acima dado relativo ao dever de pagar a multa de R$ 150,00 por André Luiz
Freire).21
Essas quatro modalidades de normas jurídicas podem logicamente se
combinar. Assim, será possível encontrar no direito as seguintes normas: (a) normas
gerais e abstratas; (b) normas gerais e concretas; (c) normas individuais e abstratas; e
(d) normas individuais e concretas.

19 BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica, p. 178.


20 BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica, p. 180.
21 BOBBIO. Teoria da norma jurídica, p. 181.

16
As normas gerais e abstratas (é o caso da norma introduzida pelo art. 5º, I, da
Constituição e do art. 121 do Código Penal), para usar a terminologia de Bobbio, são
normas universais. Bobbio afirma, com razão, que a generalidade e a abstração têm
uma importante função no direito: a generalidade visa a garantir a igualdade; a
abstração, a segurança jurídica.22 Um alerta a ser feito é que, por vezes, os autores
aludem à expressão “norma geral” para fazer se referir ao que
definimos como “norma universal”, e não apenas à norma geral
Norma universal é a norma
quanto ao sujeito. Você deverá verificar, pelo contexto, em que
que é, ao mesmo tempo, geral
sentido o autor está usando a expressão “norma geral”.
e abstrata.
Normas gerais e concretas são as que fazem referência a uma
Norma singular é a norma que
categoria de pessoas e preveem uma conduta concreta. Pense numa
é, ao mesmo tempo, individual
norma que estabeleça o seguinte: “os servidores públicos
e concreta.
municipais que solicitarem sua exoneração até o dia 31 de
dezembro de 2018, receberão uma indenização de R$ 20.000,00”.
Perceba que a norma é geral, pois se refere a uma classe de pessoas (os servidores
públicos municipais). E ela é concreta, já que fixa uma conduta concreta por parte do
Município: o pagamento de R$ 20.000,00, o que ocorrerá apenas se os servidores se
desligarem até o dia 31 de dezembro de 2018.
As normas individuais e abstratas também são bastante comuns, em especial,
em contratos. Imagine a seguinte cláusula num contrato de longo prazo entre os
sujeitos A e B: “em caso de evento imprevisível, ou previsível mas de consequências
incalculáveis, a parte afetada poderá solicitar o reequilíbrio da equação econômico-
financeira”. A norma é individual, pois se aplica apenas aos sujeitos A e B; mas ela é
abstrata, pois, durante o prazo contratual, podem acontecer eventos imprevisíveis de
naturezas distintas, como um aumento de tributo, uma crise econômica que impacte
nos custos de uma das partes etc.
A quarta possibilidade são as normas individuais e concretas. O exemplo da
multa citada acima, aplicada a André Luiz Freire, é um caso de norma individual e
concreta. Essas são normas singulares.

Esfera subjetiva Esfera material

Gerais Abstratas Normas universais

Gerais Concretas
Normas
jurídicas
Individuais Abstratas

Individuais Concretas Normas singulares

Perceba que a distinção entre normas gerais e individuais e normas abstratas e


concretas é coerente com a premissa de que o direito é um sistema de normas. No

22 BOBBIO. Teoria da norma jurídica, pp. 182-183.


17
entanto, você encontrará autores que vem no direito um fenômeno de regulação geral
da conduta humana. Um exemplo é o de John Austin. Em sua teoria do comando, ele
define o direito como um comando que obriga uma ou mais pessoas. Embora
reconheça a existência de comandos particulares, Austin sustenta que o direito é
formado por comandos que obrigam de forma geral condutas de uma classe.23
Evidentemente, não é essa a perspectiva adotada aqui.

5.3. Normas de conduta e normas de estrutura (ou normas de competência)


Uma conhecida e importante classificação é realizada entre normas de conduta
(ou normas de comportamento) e normas de estrutura (ou normas institucionais, ou
normas de competência).24
Normas de conduta são aquelas que disciplinam uma conduta intersubjetiva,
atribuindo direitos e poderes, deveres e sujeições para as partes. A norma que cria a
obrigação para um cidadão de pagar um imposto é uma norma de conduta. Outro
exemplo: normas que estabelecem o limite de velocidade em determinadas estradas.
Por outro lado, existem normas que criam a própria possibilidade da conduta.
Elas definem e constituem, assim, atividades que sequer existiriam ante a ausência da
norma. Por tal razão, são normas de estrutura as que conferem poderes aos sujeitos
para realizar atos jurídicos (tais como leis, atos administrativos, decisões judiciais,
contratos, testamentos, dentre outros) e, com base nisso, introduzir novas normas no
sistema. Como se pode perceber, são as normas institucionais que estabelecem a
possibilidade de serem praticados atos jurídicos; são elas que disciplinam quando um
ato poderá introduzir novas normas no sistema jurídico. Também estão inseridas
nesta categoria as normas que criam órgãos e estabelecem procedimentos.
Por fim, apesar da denominação “normas de estrutura” (em oposição às
“normas de conduta”), é preciso destacar que aquelas também disciplinam a conduta
humana. As normas de competência prescrevem como os órgãos do sistema jurídico
(sejam esses órgãos públicos ou privados) têm que se comportar para que possam
produzir atos jurídicas válidos e, com isso, introduzir normas jurídicas (gerais ou
individuais, abstratas ou concretas). Assim, uma norma – obtida a partir da
interpretação do Código Civil – que prevê os requisitos para a celebração de um
contrato de compra e venda é uma norma de estrutura. Ela regula o comportamento
das pessoas para introduzir, de forma válida, normas contratuais no sistema jurídico.
O mesmo vale para as normas constitucionais que disciplinam o comportamento do
órgão legislativo na produção de leis ou outros atos normativos, bem como a Lei
Federal 9.784/1999, que trata do processo administrativo federal.

AUSTIN, John. The province of jurisprudence determined, p. 29.


23
24A título de exemplo, vide: ALEXY. Teoria dos direitos fundamentais, pp. 239-242; HART,
H.L.A. The concept of law, pp. 32-33; SCHAUER, Frederick. Playing by the rules, p. 6.
18
5.4. Princípios e regras
Os teóricos do direito têm diferenciado as normas jurídicas em dois tipos:
normas-princípio e normas-regra. Essa é uma distinção importante e de grande
utilidade prática. No entanto, a distinção não se dá no plano estrutural. Princípios e
regras têm a mesma estrutura lógica. Além disso, Humberto Ávila tem razão quando
diz que um mesmo dispositivo ora pode ser visto como “princípio”, ora como uma
“regra”. A diferença se dá, portanto, no plano argumentativo.25 Justamente por isso,
deixaremos para discutir esse tema apenas no Capítulo [x], depois de você ter
aprendido o que é argumentação.

25ÁVILA, Humberto. Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos princípios jurídicos, pp. 92-
94.
19

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