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Racismo e produção da morte no

contexto do biopoder: um estudo


a partir de Michel Foucault

Pedro Fornaciari Grabois


Universidade do Estado do Rio de Janeiro

“Como exercer o poder da morte, como exercer a função da morte, num

sistema político centrado no biopoder?” (Michel Foucault)

Introdução

O pensamento de Michel Foucault traz uma importante contribui-


ção ao estudo do exercício do poder nas sociedades contemporâneas.
Caracterizado como um poder centrado na gestão e promoção da vida
de indivíduos e populações, o biopoder não se constitui apenas por dis-
positivos disciplinares e biopolíticos, mas é também atravessado por um
poder soberano de dar a morte ou de “deixar morrer”. Para Foucault, o
racismo é o elemento que explica a produção da morte em sociedades
que têm por função máxima a administração da vida. Por racismo en-
tende-se uma tecnologia de poder que estabelece um corte na população
entre “aqueles que devem viver” e “aqueles que devem morrer”.
Uma vez que o texto foucaultiano sustenta sua argumentação
acerca da relação entre biopoder e racismo em uma análise histórico-
-filosófica limitada a experiências europeias, como a do nazismo e a do
racismo soviético, perguntamos: é possível pensar com Foucault a espe-
cificidade do racismo anti-negro no Brasil? Com isso, pretendemos não
aplicar, mas fazer um uso crítico das ferramentas conceituais elaboradas
por Foucault. Para tanto, não nos detemos numa análise que procura

Carvalho, M.; Solis, D. E. N.; Carrasco, A. de O. R. Filosofia Francesa Contemporânea. Coleção


XVI Encontro ANPOF: ANPOF, p. 417-433, 2015.
Pedro Fornaciari Grabois

apontar o que se configuraria como um “eurocentrismo” de Foucault.


Procuramos antes explicitar até que ponto a reflexão em torno de biopo-
der e racismo, pensada originalmente a partir de contextos específicos
de saúde e segurança das populações das “metrópoles” e daquilo que se
convencionou chamar de “norte global”, pode também ser mobilizada
no contexto histórico das colônias e no atual cenário pós-colonial. É a
partir desta questão mais geral do biopoder e dos racismos no contexto
global não europeu – e mesmo na relação problemática entre sociedades
ocidentais e não ocidentais – que conduzimos nossa investigação mais
específica sobre o racismo anti-negro no Brasil.
Embora seja este o objetivo específico de nossa pesquisa atual,
neste texto não analisamos a questão do racismo no Brasil. Tampou-
co nos detemos nas formulações do próprio Foucault acerca da rela-
ção entre racismo e biopoder. Aqui apresentamos as contribuições de
Achille Mbembe para pensar o racismo contemporâneo no mundo em
seus efeitos de produção de morte. A fim de realizar um uso crítico das
ferramentas conceituais inventadas por Foucault, ponto de partida de
nossa pesquisa, escolhemos apresentar o pensamento de Mbembe em
torno do “necropoder” no presente estudo.

Biopoder e necropoder

Publicado pela primeira vez em 2003 em língua inglesa (“Necro-


politics”) e em 2006 em língua francesa (“Nécropolitique”), o ensaio
do filósofo camaronês Achille Mbembe parte de uma concepção ori-
ginal da ideia de soberania, desenvolvida primeiramente por Michel
Foucault no curso Em defesa da sociedade (1976) e depois por Giorgio
Agamben no livro Homo Sacer: O poder soberano e a vida nua (1995). Tal
concepção distancia-se das considerações tradicionais presentes na ci-
ência política e nas relações internacionais, que localizam a soberania
no interior das fronteiras do Estado-nação e nas instituições situadas
sob a autoridade do Estado, ou bem no quadro das redes e das institui-
ções supranacionais. Assim, Mbembe afirma:

a expressão última da soberania reside fundamentalmente no po-


der e na capacidade de dizer quem poderá viver e quem deve
morrer. Fazer morrer ou deixar viver constituem, portanto, os

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Racismo e produção da morte no contexto do biopoder:
um estudo a partir de Michel Foucault

limites da soberania, seus principais atributos. Ser soberano é


exercer seu controle sobre a mortalidade e definir a vida como a
extensão e a manifestação do poder (MBEMBE, 2006, p. 29, grifos
nossos, tradução nossa).

Após uma rápida definição da noção foucaultiana de biopoder


como o domínio da vida sobre o qual o poder estabeleceu seu controle,
Mbembe pergunta: em que condições concretas se exerce esse poder
de fazer morrer, de deixar viver e de expor à morte? Quem é o sujeito
desse direito?1 Que nos diz o funcionamento desse poder sobre a pes-
soa que é assim “marcada para morrer” e da relação de inimizade que
opõe essa pessoa a seu assassino? A noção de biopoder dá conta da
maneira pela qual a política faz hoje do assassínio de seu inimigo seu
objetivo primeiro e absoluto, sob o pretexto da guerra, da resistência
ou da luta contra o terror? Procurando definir a guerra tanto como
o meio de estabelecer sua soberania quanto uma maneira de exercer
seu direito de fazer morrer e considerando a política como uma forma
de guerra, Mbembe questiona: que lugares a vida, a morte e o corpo
humano, em particular quando este é ferido e massacrado, ocupam na
ordem do poder?
Seguindo sua argumentação, Mbembe liga a concepção de sobe-
rania como direito de matar2 e a noção foucaultiana de biopoder a dois

1
Para Roberto Esposito, o sujeito do direito de matar no caso de um genocídio é sempre o
Estado: “a partir do momento em que o sujeito do genocídio é sempre um Estado e que cada
Estado é o criador do seu próprio direito, dificilmente aquele que o ponha em execução for-
necerá uma definição jurídica dos crimes que ele próprio cometa” (ESPOSITO, 2010, p. 196).

2
Essa concepção de poder soberano estreitamente ligada ao direito de matar causa problemas
entre pensadores da biopolítica. Rabinow e Rose (2006, p. 35-36), por exemplo, salientam
que o uso do poder de matar na soberania “pré-moderna” era muito mais rarefeito do que
uma constante: “A interpretação da biopolítica contemporânea como a política de um Estado
modelado sobre a figura do Soberano, e de todas as formas de autoridade biopolítica como
agentes deste Soberano, é útil aos absolutismos do século XX, o nazismo e Stalin. Mas nós
precisamos de uma descrição mais sofisticada do poder e do poder soberano para analisar as
racionalidades contemporâneas e as tecnologias de biopolítica. O soberano incluía, decerto,
o direito de tomar a vida, mas a essência do poder soberano pré-moderno era sua natureza
descontínua e esporádica – que, inclusive, era a rationale para seus excessos. A totalização
do poder soberano como um modo de ordenamento da vida cotidiana em todos os tempos
e lugares ao longo de um território seria bastante oneroso; inclusive, conforme muitos his-
toriadores têm afirmado, a forma excessiva na qual este poder é exercido, por exemplo, em
execuções públicas espetaculares e em rituais elaborados da corte jurídica, busca compensar
sua natureza esporádica.”.

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outros conceitos: estado de exceção e estado de sítio, aqui aproprian-


do-se também de reflexões de Carl Schmitt (por exemplo em La notion
de politique: Théorie du partisan). Para Mbembe, o estado de exceção e a
relação de inimizade tornaram-se a base normativa do direito de ma-
tar. O poder de matar, que não é apenas o poder estatal, como bem fri-
sa Mbembe, faz não apenas continuamente referência a, mas também
opera na produção da exceção, da urgência e de um inimigo ficciona-
lizado. A visada analítica de Mbembe incide aqui sobre a relação entre
o político e a morte nos sistemas que não podem funcionar senão em
estado de urgência.
Sempre segundo Mbembe, o biopoder, da forma como aparece
em Foucault, funciona distinguindo as pessoas que devem morrer das
que devem viver, e, por operar sobre a base de uma divisão entre o vi-
vente e o morto, se define por sua ligação com o campo biológico. Tra-
ta-se de um controle que pressupõe a distribuição das espécies huma-
nas em diferentes grupos, a subdivisão da população em subgrupos, e
o estabelecimento de uma cesura biológica entre uns e outros. É aí que
intervém o que o próprio Foucault denomina de racismo. Mbembe co-
menta então que considera fácil compreender que a raça ou o racismo
ocupem um lugar tão importante na racionalidade própria ao biopo-
der, uma vez que a raça, mais do que o pensamento em termos de clas-
ses sociais, constituiu a sombra sempre presente sobre o pensamento
e a prática políticos ocidentais, sobretudo quando se trata de imaginar
a inumanidade dos povos estrangeiros e a dominação a ser exercida
sobre eles. Mbembe afirma acertadamente que, em Foucault, o racismo
é antes de tudo uma tecnologia que permite o exercício do biopoder
e que na economia do biopoder, a função do racismo é a de regular a
distribuição da morte e de tornar possíveis as funções assassinas do
Estado. Assim, Mbembe (2006, p. 31, tradução nossa) afirma: “Foucault
coloca claramente que o direito soberano de matar (direito de gládio) e
os mecanismos do biopoder estão inscritos na maneira pela qual todos
os Estados modernos funcionam”.
Entendendo que tanto o direito soberano de matar quanto os me-
canismos de biopoder sejam os elementos constitutivos do poder de
Estado na modernidade, aparece em Foucault a afirmação de que o
Estado nazista foi o exemplo mais acabado de um Estado no exercício

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do direito de matar, pois gerou, protegeu e cultivou a vida de maneira


coextensiva ao direito soberano de matar, e o fez através da extrapola-
ção biológica do tema do inimigo político, organizando a guerra contra
seus adversários e expondo seus próprios cidadãos à guerra, portanto,
à morte (FOUCAULT, 1999). A consolidação do direito de matar, que
culminou no projeto da “solução final”, fez do Estado nazista o arqué-
tipo de uma formação de poder que combina características do Estado
racista, do Estado assassino e do Estado suicida.

Necropoder, escravização e colonização

Mbembe propõe então uma interessante virada interpretativa, que


questiona o lugar ocupado pela experiência nazista e orienta nosso olhar
para as situações vividas no mundo colonial moderno e contemporâneo.
Cabe salientar que para Mbembe pouco importa decidir se as tec-
nologias que foram utilizadas no nazismo tiveram sua origem na plan-
tation e na colônia ou se tanto o nazismo quanto o stalinismo – segundo
a tese mais evidente em Foucault – tenham tão somente ampliado os
mecanismos já existentes nas formações sociais e políticas da Europa
ocidental, tais como a submissão do corpo, as regulamentações médi-
cas, o darwinismo social, o eugenismo, as teorias médico-legais sobre
a hereditariedade, a degenerescência e a raça3. Fica então explícita uma
diferenciação entre duas teses, uma que vê a matriz das tecnologias de
morte dos Estados totalitários no processo de colonização e outra que
vê tal matriz nos processos sociopolíticos internos à Europa. Embora
Mbembe afirme que essa diferenciação importa pouco, ele defende que
a colônia desempenhou papel fundamental tanto no pensamento filo-
sófico moderno quanto na prática e no imaginário político europeus:
ela representaria o lugar onde a soberania – correspondendo à tese de
Carl Schmitt segundo a qual a soberania é o poder de decidir sobre o
estado de exceção – consiste fundamentalmente no exercício de um


3
Tomando como exemplo a substituição do enforcamento pela guilhotina, Mbembe afirma
que as inovações nas tecnologias do assassínio não visaram somente a “civilizar” as manei-
ras de matar e não representaram apenas a democratização das técnicas contra os inimigos
do Estado, mas também tinham por objetivo identificar um grande número de vítimas num
lapso de tempo relativamente curto, fazendo surgir assim formas mais íntimas, horríveis e
lentas de crueldade.

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poder fora da lei e onde a paz tende a tomar a forma de uma “guerra
sem fim” (MBEMBE, 2006, p. 39).
Mbembe não pretende fechar a questão em torno do genocídio
promovido pelo nazismo, sua análise procura investigar o exercício do
poder nas colônias. Colocando-se o objetivo de avaliar a eficácia da colô-
nia como formação de terror, ele faz uma interessante afirmação acerca da
escravidão moderna viabilizada pelo tráfico atlântico:

Toda narrativa histórica da emergência do terror moderno deve


levar em conta a escravidão, que pode ser considerada como uma
das primeiras manifestações da experimentação biopolítica. [...] a
estrutura mesma do sistema da plantation e suas consequências
traduzem a figura emblemática e paradoxal do estado de exce-
ção (MBEMBE, 2006, p. 35-36, tradução e grifo nossos).

A escravidão enquanto experimentação biopolítica é paradoxal


por duas razões. Primeiro elemento paradoxal: a condição do escra-
vizado aparece como a sombra personificada, pois a vida do escravi-
zado é como uma “coisa”, possuída por outra pessoa. Isto resulta de
uma tripla perda: de seu lugar, dos direitos sobre seu próprio corpo
e de seu estatuto político. Isto equivale a uma dominação absoluta,
uma alienação de nascimento e uma morte social (uma expulsão para
fora da humanidade). Enquanto instrumento de trabalho, o escravo
tem um preço, enquanto propriedade, ele tem um valor. O escra-
vizado é mantido vivo, mas em um estado mutilado, em um mundo
fantasmagórico de horrores, de crueldade e de dessacralização in-
tensas. Traz-se à tona para a discussão o espetáculo dos sofrimentos
infligidos ao corpo do escravizado. A violência praticada contra o
escravizado, capricho ou ato destruidor, tem o objetivo de instigar
o terror. A vida do escravizado é uma forma de “morte-em-vida”
(“mort-dans-la-vie”). Há, portanto, uma desigualdade (“inégalité”) do
poder sobre a vida: a condição de escravizado produz uma contradi-
ção entre a liberdade de propriedade e a liberdade da pessoa; uma re-
lação desigual é estabelecida ao mesmo tempo em que se afirma uma
desigualdade do poder sobre a vida. Este toma a forma do comércio:
a humanidade é dissolvida a tal ponto que pode se dizer que a vida
do escravizado é possuída pelo mestre.

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Segundo elemento paradoxal do mundo da plantation como ma-


nifestação do estado de exceção: tratado como se não existisse senão
como simples utensílio e instrumento de produção, aquele que é es-
cravizado é, não obstante, capaz de fazer de um objeto, instrumento,
linguagem ou gesto quaisquer uma representação, ao lhes dar um es-
tilo. Portanto, diz Mbembe, a despeito do terror e do encarceramento
simbólico, o escravizado pode adotar pontos de vista diferentes sobre
o tempo, sobre o trabalho e sobre si mesmo. Mbembe propõe, então, o
seguinte raciocínio:

Se as relações entre a vida e a morte, a política da crueldade e os


símbolos do sacrilégio estão rascunhados no sistema da planta-
tion, é interessante constatar que é nas colônias sob o regime de
apartheid que um terror particular faz sua aparição. A caracterís-
tica mais original dessa formação de terror é a concatenação do
biopoder, do estado de exceção e do estado de sítio. A raça é, aí
novamente, determinante nesse encadeamento (MBEMBE, 2006,
p. 37-38, tradução e grifos nossos).

Em todo esse processo, a raça aparece como determinante, pois
foi no mundo colonial que pela primeira vez na história se testaram a
seleção das raças, a interdição dos casamentos mistos, a esterilização
forçada e mesmo a exterminação dos povos vencidos. Aqui, Mbembe
afirma em nota a possibilidade de o necropoder assumir tanto a forma
do terror da morte real quanto a que resulta em destruição da cultura
com vistas a salvar o povo colonizado de si mesmo.
Com efeito, interessa, em Mbembe, frisar que a conquista colo-
nial revelou um potencial de violência antes desconhecido e que a Se-
gunda Guerra Mundial representou a extensão aos povos “civilizados”
da Europa os métodos anteriormente reservados aos “selvagens”. Sua
intenção, como já afirmamos, é avaliar a eficácia da colônia como forma-
ção de terror. Para tanto, ele opera um desvio pelo imaginário europeu
quando este colocava a questão crucial da domesticação da guerra e da
criação de uma ordem jurídica europeia (Jus publicum Europaeum). Dois
princípios-chave aí fundam essa ordem. Primeiro, igualdade jurídica
de todos os Estados aplicada sobretudo ao direito de fazer a guerra,
isto é, direito de tomar a vida: a) matar ou assinar a paz é considerado
uma das funções primeiras do Estado; b) o Estado “civiliza” as manei-

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ras de matar e atribui objetivos racionais ao próprio ato de dar a mor-


te. Segundo, territorialização do Estado soberano, a determinação das
fronteiras no contexto de uma nova ordem global imposta. A ordem
jurídica (Jus publicum) toma aí a forma de uma distinção entre, de um
lado, as regiões do globo abertas à apropriação colonial e, de outro, a
Europa mesma. Distinção fundamental justamente para avaliar a eficá-
cia da colônia como formação de terror. Debaixo dessa ordem jurídica
europeia se compreende que legítima é a guerra conduzida entre dois
Estados “civilizados”; a racionalidade da guerra está aqui diretamente
ligada à figura de um Estado que é ele mesmo: modelo da unidade po-
lítica, princípio de organização racional, encarnação da ideia universal
e signo de moralidade.
Em contraposição a esta forma estatal, mas no mesmo contexto
de uma ordem jurídica europeia, estariam as colônias: semelhantes às
fronteiras; habitadas por selvagens; não geraram um mundo humano;
não mobilizam sujeitos soberanos, cidadãos; não fazem distinção en-
tre combatentes e não combatentes, entre “inimigo” e “criminoso”. É,
portanto, impossível assinar a paz com as colônias. Mbembe (2006, p.
40) afirma, então, que as colônias são o lugar por excelência em que os
controles e as garantias da ordem judiciária podem ser suspensas – em
que se supõe que a violência do estado de exceção é operada a serviço
da “civilização”. Esta ausência absoluta da lei no governo das colônias
só é possível a partir da negação racista de qualquer ponto em comum
entre o conquistador e o nativo4.
O que se passa é que o direito soberano de matar, que na Europa
é regido por uma série de princípios, nas colônias não está submetido
a nenhuma regra: o soberano pode matar a qualquer momento e de
todas as formas; a guerra colonial não se submete a regras legais e ins-
titucionais. O terror colonial não é uma atividade legalmente codifica-
da. O fim ou a consequência natural de uma guerra colonial não é ne-
cessariamente a paz; e a própria distinção entre guerra e paz aí não se
aplica. As guerras coloniais, no sentido que Mbembe lhes confere, são
concebidas como a expressão de uma hostilidade absoluta, que situa o

4
Mbembe cita Hannah Arendt, quando a autora afirma, na sua famosa obra As origens do tota-
litarismo, que os colonizadores europeus enxergavam os “selvagens” como seres “naturais” a
quem faltava a especificidade humana, a tal ponto que quando os massacravam não tinham
consciência de cometer um assassínio.

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um estudo a partir de Michel Foucault

conquistador frente a um inimigo absoluto. Neste contexto, Mbembe


escreve ainda que

todas as manifestações de guerra ou de hostilidade tornadas mar-


ginais para o imaginário legal europeu encontram nas colônias
um lugar para reemergir. Aqui, a ficção de uma distinção entre
“fins da guerra” e “meios da guerra” se esfacela bem como a ideia
segundo a qual a guerra funcionaria como um enfrentamento sub-
metido a regras, por oposição ao puro massacre sem [...] justifica-
ção instrumental (MBEMBE, 2006, p. 41, tradução nossa).

Necropoder e ocupação na modernidade tardia

Para Mbembe, a ocupação colonial era ela mesma uma questão


de usurpação, de delimitação e de tomada do controle físico e geográfi-
co, inscrevendo no território um novo conjunto de relações sociais e es-
paciais. Essa nova “territorialização” produz: linhas de demarcação de
hierarquias, zonas e enclaves; a colocação em questão da propriedade;
a classificação das pessoas em diferentes categorias; a extração dos re-
cursos; e um “amplo reservatório de imaginários culturais”. Esses ima-
ginários atribuíram significado à elaboração de direitos diferenciais
para diferentes categorias de pessoas, estabelecendo objetivos distin-
tos no interior de um mesmo espaço, isto é, atribuíram significado ao
exercício da soberania. “A soberania significa a ocupação e ocupação
quer dizer relegar os colonizados a uma terceira zona, entre o estatuto
do sujeito e o do objeto” (MBEMBE, 2006, p. 42, tradução nossa).
Como exemplo de sua argumentação histórico-filosófica, Mbem-
be cita o regime de apartheid sul-africano, com sua estrutura de to-
wnships e homelands, que suspendia uma série de direitos dos negros:
restrições severas sobre a produção dos negros para o mercado nas
zonas brancas; fim da propriedade da terra para os negros, com a ex-
ceção de áreas reservadas; interdição de toda residência negra nas fa-
zendas brancas (a não ser quando estivesse diretamente a serviço dos
brancos); controle do fluxo urbano; e finalmente negação da cidadania
dos africanos.
Mbembe evoca então Frantz Fanon em sua descrição “chocante”
da espacialização da ocupação colonial. Em Os condenados da terra (Les

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damnés de la terre, 1961), Fanon afirma que o mundo colonial é um mun-


do cortado em dois e que a linha de corte, a fronteira, é indicada pelas
casernas e postos de polícia. A espacialização da ocupação colonial é
regulada pela linguagem da força pura, pela presença imediata e pela
ação frequente e direta. Essa espacialização é a maneira mesma pela qual o
poder de morte opera5: a soberania é, então, a capacidade de definir quem
tem importância e quem não tem, quem tem seu valor negado e pode
ser facilmente substituído e quem não pode. Aqui, Mbembe cita um
belíssimo trecho de Fanon, que reproduzimos abaixo:

A vila do colonizado, ou ao menos a vila indígena, o vilarejo ne-


gro, a “medina”, a reserva é um lugar de má fama, povoado por
homens de má fama. Aí se nasce não importa onde, não importa
como. Aí se morre não importa onde, por qualquer motivo. É
um mundo sem intervalos, os homens aí ficam amontoados uns
sobre os outros. A vila do colonizado é uma vila faminta, famin-
ta de pão, de carne, de calçados, de carvão, de luz. A vila do
colonizado é uma vila agachada, uma vila de joelhos, uma vila
afundada (FANON apud MBEMBE, 2006, p. 43, tradução nossa).

Na análise de Mbembe, a ocupação colonial tardia difere em


uma série de aspectos da ocupação da era moderna, sobretudo ao
combinar disciplina, biopolítica e necropolítica. Para o pensador ca-
maronês, a forma mais acabada do necropoder é a ocupação colonial
da Palestina. A seguir retomamos sua descrição do funcionamento do
necropoder na Palestina.
Ele afirma que o Estado colonial tira sua pretensão fundamental
de soberania e de legitimidade da autoridade de sua própria narrativa
da história e da identidade. Neste caso específico, violência e soberania
reivindicam um fundamento divino no qual deidades míticas, identi-
dades nacionais forjadas contra o Outro e contra outras deidades: “vio-
lência colonial e ocupação se apoiam sobre o terror sagrado da verdade
e da exclusividade (expulsões em massa, instalação de pessoas ‘sem
Estado’ em campos de refugiados, estabelecimento de novas colônias”
(MBEMBE, 2006, p. 44). Seguindo a leitura espacial proposta por Fa-


5
Uma interessante análise dessa relação entre necropoder e espacialização é realizada no ar-
tigo de Jaime Amparo Alves acerca dos padrões mórbidos das relações raciais na cidade de
São Paulo, Cf. ALVES, 2011.

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Racismo e produção da morte no contexto do biopoder:
um estudo a partir de Michel Foucault

non, Mbembe afirma que a Faixa de Gaza apresenta três características


principais ligadas ao funcionamento da formação especifica de terror por
ele denominada “necropoder”.
Em primeiro lugar, uma ocupação fragmentada: uma dinâmica de
fragmentação territorial, que redefine a relação entre soberania e espa-
ço, ao tornar todo movimento impossível e realizar a separação segun-
do o modelo do Estado de apartheid. Divisão dos territórios ocupados
em complexa rede de fronteiras internas e células isoladas. Em se-
gundo, uma proliferação dos espaços de violência. Variações topográficas,
fortificações panópticas, soberania vertical: tanto a superfície do solo,
quanto o subsolo e o espaço aéreo são transformados em zonas de con-
flito ou campos de batalha. A ocupação do céu ganha uma importância
primordial, na medida em que a maior parte das ações de polícia se faz
a partir do céu. Matar torna-se um assunto de alta precisão (quando
afirma isso o autor joga com as palavras, referindo-se à reiteração da
simbólica do mais alto). Em terceiro lugar, uma guerra infraestrutural.
A sabotagem da rede de infraestrutura é feita de forma orquestrada e
sistemática com a intenção de colocar o inimigo fora de combate: de-
molir casas e vilas; metralhar cisternas; bombardear as comunicações
eletrônicas; esburacar estradas e pistas de aterrissagem; deixar fora de
funcionamento emissores de televisão e rádio; quebrar computadores;
sabotar os símbolos culturais e político-burocráticos do proto-Estado
palestino; pilhar o equipamento médico; dentre outras táticas. Con-
cluindo essa tripla caracterização da Faixa de Gaza, Mbembe chama a
atenção para a relação que existe entre os elementos disciplinar, biopo-
lítico e necropolítico:

A ocupação colonial da modernidade tardia é um encadeamento


de poderes múltiplos: disciplinar, “biopolítico” e “necropolíti-
co”. A combinação dos três dá ao poder colonial uma absoluta
dominação sobre os habitantes do território ocupado. O estado de
sítio é ele mesmo uma instituição militar. As modalidades de ma-
tar que ele implica não fazem distinção entre inimigo externo e
interno. Populações inteiras são alvo do soberano. Os vilarejos e
vilas sitiados são cercados e isolados do mundo. A vida cotidiana
é militarizada. Aos comandantes militares locais é dada liberda-
de de matar quando e quem lhes aprouver. Os movimentos entre
células territoriais necessitam permissões oficiais. A população

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sitiada é privada de suas fontes de renda. Matar de forma invisí-


vel se soma às execuções explícitas (MBEMBE, 2006, p. 47, grifo
do autor, tradução nossa).

À diferença das guerras da era moderna, as guerras da era da


globalização já não teriam mais entre seus objetivos a conquista e aqui-
sição dos territórios inimigos, mas antes procurariam agir segundo o
modelo da incursão-relâmpago. Mbembe denuncia o fosso entre meios
rudimentares de um lado e alta tecnologia de outro, cada vez mais evi-
dente desde a Guerra do Golfo e a campanha do Kosovo.
No contexto das guerras contemporâneas e da era da mobilidade
global, não caberia mais insistir em distinções entre campos políticos
“internos” e “externos” separados por linhas claramente demarca-
das. Neste novo contexto, o direito de matar não é mais monopólio
dos Estados, as forças armadas já não são o único meio de executar
esta função. Numerosos Estados africanos, afirma Mbembe a título de
exemplo, já não podem reivindicar um monopólio sobre a violência
e sobre os meios de coerção sobre o território, nem sobre os limites
territoriais, uma vez que a coerção mesma se tornou um produto no
mercado: milícias urbanas, exércitos privados, exércitos de senhores
locais, empresas de segurança e exércitos de Estado proclamam um
direito de exercer a violência e de matar.
Tomando de empréstimo o conceito de máquinas de guerra de De-
leuze e Guattari, Mbembe afirma que as máquinas de guerra surgiram
na África no último quartel do século XX numa relação direta com a
erosão da capacidade do Estado pós-colonial de construir os funda-
mentos econômicos da autoridade e da ordem política. Nos anos 1970,
uma linha que liga instabilidade monetária e fragmentação espacial
emerge de maneira bastante clara. O mecanismo da dívida, na concep-
ção defendida por Mbembe, sempre foi central para a manutenção da
dependência incidindo sobre a produção das pessoas e sobre o elo po-
lítico. É a partir daí que se determina o valor de alguém e que se mede
sua utilidade; se valor e utilidade não ficam provados, então, a pessoa
é relegada à fileira dos escravizados, peões ou clientes.
Atento às novas conexões entre guerra, máquinas de guerra e ex-
tração de recursos, Mbembe defende que assistimos hoje à emergência

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Racismo e produção da morte no contexto do biopoder:
um estudo a partir de Michel Foucault

de uma forma inédita de governamentalidade, que consiste na gestão


das multidões (gestion des multitudes):

A extração e a pilhagem dos recursos naturais pelas máquinas


de guerra vão de par com as tentativas brutais para imobilizar
e neutralizar espacialmente categorias inteiras de pessoas, ou,
paradoxalmente, de liberá-las, para forçá-las a se dispersarem
sobre largas zonas que ultrapassam os limites de um Estado ter-
ritorial. Na qualidade de categoria política, as populações são
em seguida, desagregadas, entre rebeldes, crianças-soldado, ví-
timas, civis mutilados ou massacrados com base no modelo dos
sacrifícios antigos, enquanto que os “sobreviventes”, depois do
horror do êxodo, são confinados em campos e zonas de exceção
(MBEMBE, 2006, p. 52, tradução nossa).

Essa nova governamentalidade se diferencia, portanto, do co-


mando (commandement) colonial por ser ainda mais trágica e extrema.
As novas tecnologias de destruição, que decidem entre a vida e a mor-
te: se tornam mais táteis, anatômicas e sensoriais; ao invés de se defini-
rem pela inscrição dos corpos no interior dos aparelhos disciplinares,
antes o fazem, no momento oportuno, na ordem da economia maximal
hoje representada pelo “massacre”. A “generalização da insegurança”
teria responsabilidade direta sobre a “lei” de repartição das armas, au-
mentando a distância entre os que portam e os que não portam armas.
Deste modo, as guerras contemporâneas já não seriam entre os exérci-
tos de dois Estados soberanos, mas entre, de um lado, grupos armados
que agem sob a máscara do Estado e, de outro, grupos armados sem
Estado, mas com controle territorial. O que ainda mais trágica tal situ-
ação é o fato de o alvo principal dos dois grupos ser a população civil,
não armada ou organizada em milícias.
Mbembe toma o caso do genocídio de Ruanda na década de 1990
como exemplo de massacre, para dizer que as formas de matar pouco
variam. Os corpos sem vida são rapidamente reduzidos ao estatuto
de simples esqueletos, sua morfologia se inscreve no registro de uma
generalidade indiferenciada: simples relíquias de um luto perpétuo,
corporalidades vazias, sem sentido, formas estranhas mergulhadas no
estupor. O grande número de esqueletos que ficou sem exumação num

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Pedro Fornaciari Grabois

estado visível denunciava a tensão entre, de um lado, a petrificação


dos ossos, sua estranha frieza, e, de outro, sua vontade obstinada de
fazer sentido, de querer dizer alguma coisa. Também no caso das am-
putações, é de ossos que se trata6.
Retomando o caso da Palestina, Mbembe afirma que aí duas ló-
gicas inconciliáveis estão em enfrentamento: a lógica do martírio e a
lógica da sobrevivência. Ao fazer esse recorte, Mbembe pretende anali-
sar dois problemas: o da morte e do terror; e o do terror e da liberdade.
Terror e morte estão no coração de cada uma dessas lógicas. Matar
constitui o primeiro grau da sobrevivência. O horror sentido em vista
da morte se transforma em satisfação pelo fato de isto ter ocorrido ao
outro. A morte do outro, sua presença como cadáver fazem com que o
sobrevivente se sinta único. Cada inimigo morto aumenta o sentimen-
to de segurança do sobrevivente (MBEMBE, 2006, p. 54).

6
Seria interessante traçar um paralelo dessa questão da exposição dos ossos no genocídio em
Ruanda com as ditaduras latino-americanas e a figura do desaparecido político. Ao falar do
saber próprio aos arquivos, Marlon Salomon (2011, p. 8-9) escreve: “Não obstante se trate
também de saber o que se passou, de identificar abusos e violações de direitos humanos
cometidos por agentes do Estado (e de, possivelmente, imputar-lhes as responsabilidades),
no Brasil, objetiva-se algo bastante preciso: abrir os arquivos que permitam saber do conjun-
to de circunstâncias que explicam a morte e o desaparecimento de presos políticos. [...] Os
arquivos portam os fragmentos e vestígios dos ausentes; os frágeis traços daqueles que não
estão mais aí, que passaram, mas cujo estatuto de mortos não está em questão. Trata-se de
indivíduos que existiram e que reconhecidamente existem como mortos (ausências existen-
tes). É justamente neste nó da história que os arquivos se tornam um problema no caso dos
desaparecidos políticos. Pois, para eles, o desaparecimento não é a transformação de uma
trajetória individual, da vida ou de uma existência em ausência; é a sua transformação em
ausência inexistente, porquanto é o próprio reconhecimento dos desaparecidos como mortos
o que está em questão. De um lado, os cidadãos lutam para que o Estado os reconheça como
mortos, como ausentes que existem de fato e de direito. Não apenas como ausentes que exis-
tiram, mas que existem como ausência (mortos). De outro, o Estado esquiva-se de reconhecê-
-los como mortos que desapareceram sob sua custódia e afirma que eles estão, no limite,
desaparecidos (quer dizer, sumidos, sem paradeiro certo); transforma-os em ausentes cujo
estatuto de existentes ele pode até reconhecer de fato (sumir não é necessariamente morrer),
mas se furta a reconhecê-lo de direito (evocando para isso a inexistência de um corpo ou de
vestígios arquivísticos que o comprovem). É portanto, o próprio estatuto ontológico desses
ausentes que se encontra aí em questão”. Também com relação a estes acontecimentos é pos-
sível traçar relações com os desaparecimentos que continuam a acontecer pela ação direta ou
não do Estado brasileiro, um exemplo que ficou famoso recentemente (julho de 2013) foi o do
pedreiro Amarildo, levado por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da favela
da Rocinha e até hoje desaparecido.

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Racismo e produção da morte no contexto do biopoder:
um estudo a partir de Michel Foucault

Morte e terror. A lógica do martírio impõe a seguinte questão:


qual a diferença intrínseca entre matar com helicóptero, míssil ou tan-
que e matar com o próprio corpo? A distinção entre as armas utiliza-
das para dar a morte impedem o estabelecimento de um sistema geral
entre a maneira de matar e a maneira de morrer? Mbembe chama a
atenção para o fato de que o “dar a morte” através do ato do “kamika-
ze” (“homem-bomba”) implica, ao mesmo tempo, homicídio e suicí-
dio, resistência e autodestruição, proximidade e dissimulação, implica,
portanto, na redução do outro e de si em pedaços de carne inertes e
dispersas. Trata-se aqui de uma guerra corpo a corpo. Na lógica do
mártir, a vontade de morrer se funda com a de levar o inimigo con-
sigo, isto é, de abandonar qualquer possibilidade de vida para todos.
Apenas aparentemente a lógica do mártir seria contrária à que consiste
em querer impor a morte aos outros, preservando a própria vida. O
corpo se transforma em arma, se torna uma peça de metal cuja função
é, através do sacrifício, trazer a vida eterna ao ser. O corpo do mártir se
duplica e, na morte, foge literal e metaforicamente do estado de sítio e
da ocupação.
Terror e liberdade. Num interessante parágrafo, Mbembe explora a
relação entre terror, liberdade e sacrifício a partir da ideia heideggeria-
na de ser para morte e da concepção de morte em Georges Bataille (He-
gel, la mort et le sacrifice). Segundo Mbembe, enquanto o ser para morte
do humano em Heidegger tem um sentido existencial e é a condição
de toda verdadeira liberdade humana – sou livre para viver minha
própria vida unicamente porque sou livre para morrer minha própria
morte –, em Bataille, a morte no sacrifício não revela nada e precisa ser
lida como uma comédia que mostra a face animal do sujeito humano
– o sujeito humano deve estar plenamente vivente no momento de sua
morte, a fim de estar totalmente consciente, de viver tendo o senti-
mento de estar morrendo. Em Bataille, a morte daquele que se “sacrifi-
ca” é uma “comédia” e o meio pelo qual o sujeito humano “se engana
voluntariamente”. No caso do kamikaze, o sacrifício de consiste num
espetacular dor à morte do si, no ato de tornar-se sua própria vítima
(sacrifício de si). O autossacrificado tem poder sobre sua própria morte
e seu sacrifício consiste numa dupla transgressão: a do suicídio (au-
toimolação) e a do assassínio. Trata-se de um sacrifício sem animal

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Pedro Fornaciari Grabois

substitutivo e sem dimensão expiatória propriamente dita: uma pessoa


morta não pode reconhecer seu assassino, que está igualmente morto.
Para Mbembe, tanto nos Estados escravagistas quanto nos regi-
mes coloniais contemporâneos, morte, liberdade e terror estão irrevo-
gavelmente ligados e é justamente a experiência da ausência de liber-
dade que está em jogo. Para ele, viver sob a ocupação contemporânea
é fazer a experiência permanente de “viver a dor”:

Estruturas fortificadas, postos militares, barragens incessantes;


construções ligadas a lembranças de humilhação, de interroga-
ções, duras, cessar-fogo que mantém prisioneiras centenas de
milhares de pessoas em alojamentos exíguos do crepúsculo ao
raiar do dia; soldados patrulhando ruas sombrias, assustados
por sua própria sombra; crianças cegas por balas de borracha;
pais humilhados e agredidos diante de suas famílias; soldados
urinando sobre barreiras, atirando em cisternas por diversão,
cantando jargões agressivos, martelando as frágeis portas de fer-
ro branco, para assustar as crianças, confiscando papéis, jogando
lixo no meio de uma residência vizinha; guardas que derrubam
barracas de legumes ou fecham fronteiras sem razão; ossos que-
brados; fuzilamentos, acidentes mortais... (MBEMBE, 2006, p. 58,
tradução nossa).

Considerações finais

Mbembe conclui seu ensaio reafirmando sua hipótese de que a


noção de biopoder é insuficiente para dar conta das formas contempo-
râneas de submissão da vida ao poder da morte. Para tanto, ele lembra
que é necessário trabalhar a partir das noções de política da morte e de
poder da morte. São elas que ajudam a pensar os diversos meios pelos
quais as armas são desenvolvidas em função de uma destruição máxi-
ma das pessoas e da criação de mundos de mortos, formas únicas e novas
de existência social nas quais numerosas populações são submetidas a
condições de existência que lhes conferem estatuto de mortos-vivos.
Mbembe lembra ainda da importância das topografias reprimidas da
crueldade (plantation e colônia em particular) e reafirma que o poder
da morte perturba as fronteiras entre resistência e suicídio, sacrifício e
redenção, martírio e liberdade.

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Racismo e produção da morte no contexto do biopoder:
um estudo a partir de Michel Foucault

A pesquisa aqui empreendida em torno da relação entre bio-


poder e racismo ainda não chega a conclusões definitivas sobre a per-
tinência da noção de necropoder para se analisar as relações de po-
der sociais e raciais no mundo contemporâneo. No entanto, pode-se
afirmar com segurança que aquilo que Achille Mbembe explora em
seu texto contribui em muito para se pensar os efeitos do racismo no
mundo contemporâneo não-europeu. A descrição que ele faz da ma-
quinaria de morte contemporânea, que nos dois casos específicos por
ele expostos vitimiza sobretudo africanos e palestinos, sinaliza uma
preocupação dentro do campo da filosofia política feita no Brasil, que é
a de utilizar-se de outros aparatos conceituais que não os legados ape-
nas por e a respeito dos europeus. Assim, Mbembe contribui – grande-
mente, mas não exaustivamente – para que se faça um uso crítico do
pensamento de Foucault, sobretudo quando a intenção última da pes-
quisa aqui desenvolvida é analisar o racismo no Brasil em seus efeitos
de gestão da vida e de produção da morte.

Referências

ALVES, J. A. Topografias da violência: necropoder e governamentalidade es-


pacial em São Paulo. Revista do Departamento de Geografia – USP, Vol. 22, p.
108-134, 2011.
ESPOSITO, Roberto. Bios: biopolítica e filosofia. Lisboa: Edições 70, 2010.
FANON, F. Les damnés de la terre. Paris: La Découverte, 2002.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976).
São Paulo: Martins Fontes, 1999.
MBEMBE, Achille. “Nécropolitique”. Raisons politiques, n. 21, p. 29-60, 2006/1.
RABINOW, P.; ROSE, N. O conceito de biopoder hoje. Política & Trabalho, n. 24, p.
27-57, abr/2006.
SALOMON, Marlon. Saber dos arquivos. In: SALOMON, Marlon (org.). Saber
dos arquivos. Goiânia: Edições Ricochette, 2011, p. 6-17.

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