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Algumas reflexões sobre o 8º Estágio Interdisciplinar de Vivência em

Áreas de Reforma Agrária e Atingidos/as por Barragens de Minas Gerais


8º EIV-MG

Apresentamos abaixo a síntese de nossas discussões de avaliação do


8º Estágio Interdisciplinar de Vivência em Áreas de Reforma Agrária e
Atingidos/as por Barragens de Minas Gerais (8º EIV-MG) após a avaliação
estadual do Estágio, em que nada foi respondido. Resolvemos por bem
esmiuçar alguns pontos, detalhando-os como forma de ajudar na avaliação de
alguns processos sobre outras perspectivas. Apesar do texto estar um pouco
extenso, entendemos que ele é necessário para nosso amadurecimento e
fortalecimento das lutas políticas.

A ENEV, O ESPAÇO SAÚDE E O DAICB são entidades que se


constroem em proximidade no contexto do movimento estudantil (ME).
Entendemos que a construção do Estágio de Vivência deva se dar
coletivamente, ou seja, é um processo que ultrapassa pensamentos e
necessidades somente fixas de um determinado grupo de expandir sua base
ou recriar seus militantes. Fazemos uma reflexão de que a mobilização e o
fortalecimento do ME em outros coletivos também são importantes. Enquanto
entidades que se organizam também pelo contexto da área da saúde,
refutamos a idéia de que somente seremos protagonistas ou estaremos
realmente no EIV quando tivermos estagiários dos diversos cursos que
organizamos, os cursos da área da saúde. Vemos sim que, se as áreas das
agrárias ou das humanas se fortalecem, todo o ME sai fortalecido, inclusive
nossas entidades. Não descaracterizamos o quão importante é formar
militantes da saúde, mas esse não é nosso único objetivo com o EIV. Estamos
na construção porque acreditamos nessa ferramenta para a formação de novos
homens e mulheres que serão nossos companheiros nas trincheiras da luta.

Entendemos que o EIV não é instrumento único, porém parte de um


processo de disputa e formação de consciência junto aos estudantes. A
organização de um Estágio de tal porte pede de nós muita energia, que por
vezes já é gasta em outras atividades da militância. Militamos em nossas
entidades, fazemos nosso trabalho de base, procuramos a inserção no ME
geral. Foi um tanto prejudicial a organização deste 8º Estágio em tão pouco
tempo. A pressa na organização e execução das tarefas acabou por prejudicar
as discussões políticas e inclusive rediscutir as concepções do Estágio que,
embora às vezes pareçam óbvias, nem sempre são consensuais. Nesse ponto
não negamos nossas dificuldades. Se houve erro nesse sentido, foi um erro
coletivo.

Destacamos nossa posição desde o começo da construção, colocando


nossas limitações e dificuldades, sobretudo por morarmos/estudarmos na
cidade-sede escolhida para o Estágio, Belo Horizonte. Várias foram as falas de
que “não estaríamos sozinhos”, de que a “companheirada de fora ajudaria”.
Entendemos as dificuldades de deslocamento, de comunicação e de
organização. Mas se houveram dificuldades no processo estrutural, que
assumamos isso enquanto erro coletivo. As “fofocas” e conversas de corredor
que infelizmente vimos durante o Estágio, nos culpando sobre as falhas
estruturais, parte da imaturidade da avaliação de todo o coletivo, sem exceção,
nos primeiros momentos de construção do Estágio. Idealizamos uma estrutura
muito grande e que traria dificuldades. Mas os que não previam as dificuldades
logo começaram a querer achar culpados individualmente. Ressaltamos: é
preciso ter mais maturidade e assumir não só os acertos, mas também os erros
coletivamente.

Quanto aos momentos do Estágio em si, faltou muita maturidade para


tratarmos as organizações políticas com as quais nos relacionamos. Ampliar o
leque de articulações é importante e achamos que estas devem nascer para
nutrir a organização de processos ainda mais coletivos, porém isso nos faltou
muito. É muito importante para as entidades que aqui neste texto falam
destacar o quão destrutiva foi nossa relação e diálogo com a organização
Brigadas Populares (BP’s). Destacamos primeiramente a falta de acúmulo em
lidar com as questões que tal organização nos apresentou sobre como poderia
compor o ato público do Estágio na fase de retomada e isso com certeza não
soubemos manejar. E, mesmo a organização saindo da construção e
mobilização para o ato público, ainda recebemos todo apoio estrutural
(dinheiro, pneus) que nos fora comprometido. Dado o fato de que a
organização BP’s nos apresentou sua análise e ocorreram discordâncias,
achamos de extrema imaturidade de nossa parte nem sequer considerá-la para
debater dentro de nosso coletivo. Teríamos é que estar abertos ao novo e não
foi isso o observado pela comissão político-pedagógica (CPP) do Estágio de
Vivência ainda assim tendo certeza de que a organização supracitada tinha
acúmulo suficiente sobre o assunto que debatemos em praça pública.

Num segundo plano cometemos o grave erro de chamar um dos


militantes dessa organização, o camarada Pedro Otoni, para nos ajudar no
debate de “Socialismo e Instrumentos de Luta” e tudo foi feito para que ele não
estivesse, visto que traria considerações e opiniões divergentes da organização
que se encontra em maioria no estágio de vivência, a Consulta Popular (CP).
Nunca achamos que a hegemonia e maioria nos espaços fosse problema, mas
a forma como isso foi tratado é que nos tocou muito e fez necessidade destas
considerações. Lembremos nossos encaminhamentos: havia uma lista de
nomes de facilitadores para cada espaço que foi tirada em uma reunião de
organização. O primeiro nome da lista para o espaço supracitado era o do
Ricardo Gebrim (CP), o segundo nome era o do Pedro Otoni e o terceiro e
último nome da lista era do Chacal (CP). Após a não confirmação do Ricardo
Gebrim para a facilitação do espaço alguns quiseram colocar o nome do Aton
Fon Filho que nem tinha sido incluso nessa lista. A nosso ver isso só aconteceu
porque o segundo nome era de um militante das BP’s. Após discussões na lista
de email da Comissão Organizadora (CO) do 8º EIV-MG, ficou decidido que
manteríamos o nome do Pedro Otoni. Porém isso aconteceu só na aparência,
pois a direção da CP continuou articulando por fora outro encaminhamento e o
mais grave viria ocorrer com o Estágio já em andamento. Durante a fase de
vivência dos estagiários, ocorreu mais um Seminário da CPP e nesse espaço
surgiu que o dirigente da CP, Ademar Bogo, poderia fazer a fala de “Socialismo
e Instrumentos de Luta”. Após várias horas de discussões de conteúdo vazio
no coletivo da CPP, não houve consenso. Sendo assim, ficou decidido que
cada cidade se reuniria e depois levaria o debate feito para uma reunião da
Secretaria do EIV e lá seria decidido quem faria a fala. Analisamos isso como
uma forma de camuflar a decisão, pois é mais fácil convencer sem argumentos
e fazer passar uma coisa absurda em um coletivo menor de pessoas. Enfim, o
que aconteceu na reunião da Secretaria foi que Belo Horizonte, Uberlândia,
Diamantina e São João Del Rei se posicionaram para manter a decisão que
fora tirada no coletivo, ou seja, manter o nome do Pedro Otoni. Enquanto isso,
Lavras, Viçosa, Teófilo Otoni e Juiz de Fora optaram pelo nome do Ademar
Bogo. O empate foi perfeito para que a dirigente da CP, Ana Penido, usasse de
toda a sua experiência e “convencesse” todos que ali estavam que Ademar
Bogo é que teria que fazer a fala, isso sem nenhum argumento concreto. Isso
sim foi a destacável traição dessa organização para com todos os outros
coletivos que constroem o EIV, uma profunda falta de respeito. E, utilizando um
pouco de nossa memória, lembramos que essa dirigente inicialmente colocou
para o Núcleo BH durante reunião do mesmo que não estava construindo o 8º
EIV-MG, que só iria ajudar no estrutural. Não foi o que de fato aconteceu.
Analisamos é que a direção da CP observou que precisaria de um militante dos
seus no espaço de “Socialismo e Instrumentos de Luta” e fizeram o que
puderam para colocar tal pessoa no espaço. Até mesmo utilizando na
discussão de formas equivocadas e inférteis de comparação, como os
“currículos” de cada um desses militantes, quem seria “o maior”, forma mais
grotesca de comparação. Consideramos que qualquer debate que venha a ser
feito em torno de posições divergentes, este deve se dar através de defesa
política, e não por discursos vazios como aconteceu tanto no coletivo da CPP
quanto na reunião da Secretaria.

Além de tudo isso, soubemos de mais um grave acontecido. Outro


dirigente da CP, Frederico Santana, chegou a fazer uma ligação para o Pedro
Otoni, no mesmo dia em que seu nome foi vetado, só que um pouco mais
cedo, pedindo que o mesmo comunicasse para os “manobrados” por ele no
EIV (as entidades que aqui vos falam seriam esses “manobrados”) para que
desistissem de seu nome e aceitassem a decisão de trazer o Ademar Bogo.
Mas não parou por ai. Para a direção da CP tudo é permitido e por isso o
Ademar Bogo pode modificar e descumprir a metodologia que havíamos
pensado anteriormente no coletivo. A hora determinada pela metodologia nem
de perto foi cumprida, além do que o mesmo trabalhou de forma pouco
aprofundada determinados elementos que elencamos como importantes dentro
da construção do EIV. Vimos um desrespeito por parte deste palestrante com o
nome e a militância de alguns partidos da esquerda nacional que divergem da
política da CP, assim destacando que a forma de fazer política deles é a única
acertada e a que de certa forma hegemoniza o EIV. Sabemos que os militantes
desta organização são maioria no Estágio de Vivência e que este é um espaço
de trabalho de base desta organização, mas não sabemos e não achamos que
este Estágio é uma ferramenta exclusiva dela. Até porque se fosse, não
estaríamos construindo tal ferramenta. Não devemos esquecer que o EIV é
uma ferramenta do ME, que tem como princípio a independência política e que
isso tem que estar presente nas práticas e não somente nas falas.

Vimos também uma utilização errônea e talvez sem precedentes do


nome de vários Movimentos e destacamos o da organização Via Campesina
utilizado para justificar a vinda do Ademar Bogo e veto ao nome do Pedro
Otoni. Esse argumento de autoridade, polêmico e que tem grande significado
foi colocado pela direção da CP durante a discussão no coletivo e depois nada
mais foi respondido, ou seja, eles não souberam falar qual seria o motivo do
veto da Via Campesina ao nome de Pedro Otoni. Interpretamos isso, pelo
menos naquele momento, como informação obscura.

A presença do Jornal Brasil de Fato dentro da pasta de cada estagiário


também não foi discutida anteriormente. Em nenhum momento tivemos uma
discussão de que material conteria nas pastas além de cartilha e dados sobre o
Estágio de Vivência. Sabemos que o Jornal Brasil de Fato é um instrumento de
comunicação de alguns Movimentos, traz debates e acúmulos importantes para
a esquerda. Porém, o mesmo contém posições e debates que não são todos
dados como consenso dentro das entidades que constroem o EIV. Dessa
forma observamos a utilização do Jornal um tanto quanto indiscriminada, no
mínimo deveria ter sido discutida anteriormente.

Por fim, destacando os vários pontos acima temos que afirmar que não
fizemos nenhuma intervenção dentro do próprio Estágio para denunciar a
forma errônea como a direção da CP estava lidando com determinados
assuntos. Mesmo sabendo que não seria nada tão além da realidade, mas
achamos mais pedagógico até mesmo para os construtores o debate em
sentido avaliativo. Lembrando aqui que não foi a primeira vez que isso
aconteceu, a experiência de construção em outros EIV’s faz deixar isso ainda
mais claro. De qualquer forma podemos formalizar aqui neste texto que uma
intervenção concreta de denúncia caberia com total acerto dentro do Estágio,
mas poderia prejudicar e muito sua condução naquele momento. Vimos nossa
posição como muito madura diferente da postura da direção da CP que
trabalhou muito mal com sua maioria no Estágio de Vivência e se mostrou de
maneira a impor decisões por ser hegemonia, atravessando decisões
anteriores tomadas em coletivo.

Acreditamos que a construção coletiva é uma forma acertada para


organização de instrumentos tal como o EIV. Mas para isso é imprescindível
entender a diversidade que nos compõe e ter maturidade para ver além, no que
nos une, a possibilidade de transformação da sociedade que tanto sonhamos.
E lutamos.

Coletivo “Espaço Saúde”

Diretório Acadêmico do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG

Executiva Nacional dos Estudantes de Veterinária – Regional Sudeste