Você está na página 1de 4

Propriedade territorial rural no Brasil – Instituto da Discriminação

A CF não prevê expressamente o instituto da discriminação de terras devolutas, embora


continue a referir-se a estas em diferentes passagens (como as constituições anteriores).

Art. 225,§ 5º, CF/88= “são indisponíveis as terras devolutas ou arrecadadas pelos
Estados por ações discriminatórias, necessárias à proteção dos ecossistemas naturais”.

O instituto continua existindo – a Lei 601/1850 NÃO FOI REVOGADA NESSA


PARTE.

O instituto das “terras devolutas” está consagrado na literatura agrária brasileira desde a
Lei das Terras ( Lei 601/1850).

“Devolutas são aquelas terras que não verteram para o domínio privado, deste excluído,
evidentemente, o que estiver aplicado a qualquer uso público”.

O art.3º da Lei nº 601/1850

Art.3º São terras devolutas:

§ 1º Terras que não se acharem aplicadas a algum uso público, nacional, provincial ou
municipal.
§ 2º As que não se acharem em domínio particular por qualquer título legítimo, nem
forem havidas por sesmarias e outras concessões do Governo ou Provincial, não
incursas em comisso por falta de cumprimento das condições de medição e cultura.
§ 3º As que não se acharem dadas por sesmarias ou outras concessões do Governo,
que, apesar de inscursas em comisso, forem reavaliadas por esta Lei.
§ 4º As que não se acharem ocupadas por posses, que apesar de não se fundarem em
título forem legitimadas por esta Lei.

O instituto da discriminação

Transferidas as terras devolutas aos Estados, persistiu um problema que já existia: o


desconhecimento no vasto território nacional do que eram as terras públicas e do que
eram as terras particulares.

Hoje a norma que trata da discriminação das terras é a Lei nº 6.383, de 7.12.1976,
mantendo os dois procedimentos discriminatórios: administrativo e judicial.

O art. 11 da Lei 4.504/64 – Estatuto da Terra - trata da possibilidade de discriminação de terras pela União, por procedimento
administrativo ( PREVISTO DE FORMA EXPRESSA).

Procedimento discriminatório administrativo

Arts. 2º a 17 – procedimento administrativo


Competência, jurisdição e poderes

Comissão especial – três membros – constituirão o processo

Bcharel em direito – presidente/ Agrônomo e Funcionário do órgão competente (


secretário)

Fases do procedimento:

Os autos do processo iniciam-se mediante autuação de um memorial descritivo da área


discriminada, do qual constam o perímetro com suas características e limites. Indicação
dos registros imobiliários das propriedades, obtidos na respectiva circunscrição
imobiliária levantada; rol das ocupações conhecidas; esboço circunstanciado da gleba a
ser discriminada ou seu levantamento aerofotogramétrico e demais informações que
possam interessar ao feito.

O Presidente da CE convocará os interessados para apresentarem no prazo de 60 dias os


seus títulos, documentos, informações e se for o caso, o rol de testemunhas ( em local
previamente indicado).

Apresentarão a cadeia dominial dos seus imóveis, comprovando que a origem dominial
é sadia.
Estimarão o valor das áreas possuídas, indicando as confrontações, as benfeitorias com
os respectivos valores, as atividades nela desenvolvidas, a existência de financiamentos
e de eventuais garantias reais incidentes; regularidade no pagamento de tributos.

Qual é o propósito?

Os interessados pretendem afastar o seu imóvel da discriminação projetada.

Convocação – publicação de editais – mín. 08 e Max. De 15 dias

Autua-se a documentação recebida e a CE promove vistoria nos imóveis. O Presidente


da comissão manifestar-se-á sobre os documentos por meio de termos, conferindo o
prazo não inferior a 8, sem superior a 30, para os interessados os assinarem.

Fase Demarcatória:
Designação de um agrimensor para em dia e hora avençados com os interessados.
Poderão indicar peritos.
O presidente da CE mandará lavrar o “termo de encerramento” da discriminação
administrativa, com os informes indicados no art. 12, da Lei nº 6.383/76, após o que
será promovido o registro pela União ( ou dos Estados, conforme o caso) das terras
devolutas.

Ação Discriminatória:

Arts. 18 a 23 da Lei 6383/76

O procedimento discriminatório judicial justifica-se na ocorrência de uma das seguintes


situações, a saber:
em caso de reconhecimento de dúvida sobre a legitimidade do título apresentado pelo
interessado particular (art. 8º da Lei 6383/76);
o não-atendimento ao edital de convocação no procedimento administrativo, por parte
dos interessados, que, nesse caso, importa na presunção de discordância ao
procedimento da discriminação (art.14);
quando o procedimento discriminatório administrativo for dispensado ou interrompido
por presumida ineficácia (art.19,I0;
finalmente, quando os notificados praticarem atentado, no curso do procedimento
administrativo, que consiste na alteração de divisas da área discriminada, na derrubada
de cobertura vegetal, na construção de cercas e transferências de benfeitorias a qualquer
título, sem assentimento do representante da União (arts.19, III, 24 e 25).

Inclui-se também a possibilidade de ensejar ação judicial o não atendimento à


convocação dos interessados para assinarem os termos.

Quem vai propor a ação? O órgão competente ganha poderes de representação da


União.
Competência:

Justiça Federal – art. 19, parágrafo único.


Art. 27 – aplica-se o mesmo procedimento às terras devolutas estaduais.

1 – os procedimentos administrativos serão promovidos por intermédio de órgão


específico que haja no Estado interessado, ou mediante convênio com o do Governo
Federal;
2 – para os procedimentos judiciais, a competência estabelecida pela Lei de
Organização Judiciária do respectivo Estado.

Rito = sumaríssimo – arts. 275 e seguintes do CPC ( agora, chama-se sumário – desde
1995).

Inicia-se com a petição inaugural sendo devidamente instruída com o memorial


descritivo da área discriminada, documentos esse que devem conter os mesmos dados
informativos já mencionados na abordagem do procedimento administrativo.
Segue-se a citação dos interessados, conhecidos e desconhecidos – por meio de edital –
publicado – intervalo mín.8 – máx. 15 dias, entre as publicações. Deverão constar
nominalmente todos os interessados, bem como a delimitação perimétrica da área a ser
discriminada com suas características.
Art. 4º - prazo de 60 dias para os interessados apresentarem seus títulos, documentos e
informações de seu interesse, e se for o caso, o rol de testemunhas.
Art. 281, CPC – sentença no ato ou até 10 dias depois da audiência de instrução e
julgamento.
Recurso de apelação – efeito meramente devolutivo.

Fase de demarcação – a sentença homologatória de demarcação – art. 966 do CPC,


aplicável ao caso por força do art. 22, parágrafo único da Lei 6383/76: servirá de título
de proprietário para o registro imobiliário competente.
O procedimento discriminatório judicial tem caráter preferencial e prejudicial em
relação às ações em andamento, que se refiram ao domínio ou à posse de imóveis
situados, no todo ou em parte, na área discriminada, hipótese que enseja o deslocamento
de competência, seja para a Justiça Federal, seja para outro juízo da justiça estadual (
art. 23 da Lei 6383/76.

A discriminação de terras devolutas tem por objetivo precípuo separar as terras do


Poder Público das que pertencem aos particulares, identificando-as, claramente, para
efeito de registro nos cartórios de Registro de Imóveis e, ao depois, aliená-las ou aplicá-
las nas finalidades previstas no Estatuto da Terra – art. 10 .
Ambos os procedimentos primam pela celeridade – o que sempre deve ser considerado
para a solução de questões agrárias