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Publicadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Preparação dos originais: Daniele Pereira


Revisão: Miquéias Nascimento
Capa: Wagner de Almeida
Projeto gráfico e editoração: Anderson Lopes
Conversão para ebook: Cumbuca Studio

CDD: 220 - Bíblia


e-ISBN: 978-65-5968-008-5

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida,


edição de 2009, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

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Casa Publicadora das Assembleias de Deus


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CEP 21.852-002

1ª edição: 2021
SUMÁRIO
Capa

Folha de Rosto

Créditos

Sumário

1. Profetas Menores:
Grandes Mensagens em Pequenos Textos

2. Oseias:
O Casamento como um Reflexo da
Comunhão com Deus

3. Joel:
O Poder do Espírito Santo nos Últimos Dias
4. Amós:
Adoração com Justiça

5. Obadias:
O Cuidado para com a Retribuição Divina

6. Jonas:
Deus Ama quem Você Detesta

7. Miqueias:
Deus Quer Obediência de Coração

8. Naum:
Até onde Vai a Paciência de Deus?

9. Habacuque:
A Fé como Forma de Vida

10. Sofonias:
O Dia do Juízo Está Chegando

11. Ageu:
Atenção para com a Casa de Deus
12. Zacarias:
Falando do Messias

13. Malaquias:
A Família É Importante

Referências Bibliográficas
CAPÍTULO 1

Profetas Menores: Grandes


Mensagens em Pequenos Textos

Os profetas menores foram herdeiros de uma tradição profética em


Israel. Eles ensinaram de modo conciso verdades imprescindíveis
para a nossa edificação. Para conhecê-los melhor, é interessante
examinarmos a tradição profética na Bíblia no afã de identificar as
funções que eles exerceram na sociedade judaica
veterotestamentária. Diferente dos sacerdotes, que ensinavam por
meio do estudo da Lei, os profetas desenvolveram sua didática em
forma de profecia. Ao entregarem os oráculos divinos, os profetas
menores exortaram o povo, denunciaram os erros, anunciaram o
juízo, convidaram as pessoas para o arrependimento, assim como
previram dias de restauração. A ferramenta básica do ensino de um
profeta era a profecia.

A Profecia

A profecia é um assunto fascinante na Bíblia. Já no primeiro livro


da Bíblia, encontramos uma palavra profética dada pelo próprio
Deus ao homem (Gn 3.15). Esse versículo pode ser considerado o
primeiro texto profético da Bíblia, pois o relato histórico de Gênesis
vislumbrou um acontecimento futuro que veio a realizar-se apenas
no Novo Testamento. Esse é o primeiro texto bíblico em referência
direta à obra da redenção de Cristo. Na Bíblia, a profecia surgiu com
Deus, pois o Criador tudo sabe (Jó 42.2). Ao comunicar ao homem a
profecia da semente da mulher que pisaria na cabeça da serpente, o
Criador apresentou uma palavra de salvação que se tornou a base
embrionária do esquema divino da redenção humana (Rm 3.24,25).
A profecia é tão importante na Bíblia que contribuiu para delinear os
acontecimentos póstumos à Criação.
Podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que o sistema profético
da Bíblia tem sua origem em Deus e não se trata de uma ferramenta
puramente humana. Deus falou à humanidade por meio dos
profetas (Lc 1.70; Hb 1.1). Cristo afirmou que os profetas existiram
durante todo o desenrolar da história bíblica no Antigo Testamento
(Lc 11.50,51). Enoque foi um profeta (Jd 14). Noé atuou como
profeta na medida em que pregou a justiça e anunciou o juízo (Hb
11.7). Os patriarcas foram reconhecidos como profetas (Gn 20.7; Sl
105.9-15). No Pentateuco, encontramos uma passagem clara sobre
o derramamento do Espírito do Senhor na congregação de Israel
(Nm 11.24-26). Nessa ocasião, os homens foram presenteados com
a profecia. Esequias Soares esclarece:
O ministério dos profetas começou no deserto de Sinai quando Deus ordenou

a Moisés que constituísse uma congregação de 70 anciãos para que o

ajudasse na liderança do povo. Esses homens profetizaram quando

receberam o Espírito Santo e o grande legislador dos hebreus explicou que

qualquer pessoa poderia profetizar: “tomara que todo o povo do Senhor fosse

profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito!” (Nm 11.29). Moisés disse

que a manifestação divina depois dele seria diferente daquela vista no Sinai.1

No texto supracitado, algumas questões saltam aos nossos olhos:


a) os homens profetizaram quando receberam o Espírito do Senhor;
b) os profetas, nesse contexto, não eram os líderes principais, mas
surgiram como fonte de apoio. A congregação que recebeu o
Espírito Santo era composta de 70 anciãos separados para
auxiliarem a liderança mosaica. Aqui está a essência e o propósito
do ministério profético. Em seu âmago, o profeta no Antigo
Testamento era um homem cheio do Espírito levantado para auxiliar
a liderança principal. A entrega da profecia era o resultado de uma
ignição mística interior, fruto da ação do Espírito de Deus em sua
vida.
O propósito da profecia em sua causa originária foi suplementar ao
ensino da justiça e da verdade, sendo uma importante fonte de
apoio no exercício de uma liderança religiosa que deveria conduzir
as pessoas para uma espiritualidade centrada em Deus. No antigo
Israel, com o estabelecimento da monarquia, podemos dizer que
reis e sacerdotes exerceram uma liderança política e religiosa
institucional, respaldados por uma autoridade legal; no entanto, os
profetas não possuíam essas insígnias ou medalhas institucionais.
Eles eram homens de Deus que atuavam de modo paralelo às
lideranças legalizadas. Quando estas se mostravam mortiças
espiritualmente, surgiam os profetas como verdadeiros defensores
da justiça e da santidade.

A Identidade dos Profetas: Um Ministério Aberto para Todos

Moisés foi considerado um grande profeta de Israel (Dt 34.10).


Arão também foi chamado de profeta (Êx 7.1; Dt 18.18) e Miriã foi
identificada como uma profetisa (Êx 15.20). Enquanto os cargos de
reis e sacerdotes eram exclusivos dos homens, o gênero não
importava no ministério profético. Deus usava tanto homens quanto
mulheres. Embora seja possível perceber que há uma
predominância dos homens no ministério profético, as mulheres na
Bíblia não estavam excluídas desse ofício. Além de Miriã, Débora
também foi profetisa (Jz 4.4), assim como Hulda (2 Rs 22.14; 2 Cr
34.22). O profeta Isaías foi casado com uma profetisa (Is 8.3). O
Novo Testamento também faz menção da profetisa Ana, filha de
Fanuel, da tribo de Aser (Lc 2.36).
Os profetas foram pessoas levantadas por Deus com o propósito
de cumprir uma missão especial. Entregar a mensagem divina ao
povo era a grande responsabilidade que caracterizava a vida de um
profeta. Ao contrário dos sacerdotes e levitas que tinham seus
ministérios regulamentados pela lei visando a uma organização do
culto judaico, os profetas não atuavam respaldados em
regulamentos. Esse ministério de caráter urgente fazia parte da
atuação dinâmica de Deus entre o seu povo.
Os sacerdotes não estavam excluídos do ministério profético.
Ninguém estava. Há casos de profetas-sacerdotes na Bíblia, tais
como Samuel, Ezequiel, Zacarias e, possivelmente, Habacuque. Na
verdade, o ministério profético não possuía características
segregacionistas. Esse ministério estava aberto para todos.
Enquanto apenas alguns poderiam chegar à realeza e ao
sacerdócio, todos poderiam profetizar. Esse fora o desejo de Moisés
(Nm 11.29).
Homens e mulheres, reis e sacerdotes, padeiros, agricultores,
pastores, independentemente da profissão, do gênero, da idade,
todos poderiam profetizar. Enquanto era preciso atingir os 30 anos
de idade para iniciar oficialmente a função sacerdotal, uma criança
poderia ser profeta. O ministério sacerdotal exigia uma série de
requisitos, tais como hereditariedade (descendência de Arão),
gênero (masculino), formação (estudo da Lei), idade (30 anos) e
aparência (não ter defeito físico). Para ser profeta, bastava apenas
ser vocacionado por Deus.
Entre os profetas, temos representantes da nobreza e da pobreza,
homens e mulheres, adultos, jovens e crianças, pessoas das mais
variadas profissões, gente com estudo e sem estudo. Amós, por
exemplo, era um simples boieiro, Miqueias era um pequeno colono,
e Oseias provavelmente exerceu a função de agricultor ou padeiro.
Esses homens, guiados por Deus, deixaram por um tempo seus
afazeres e foram aos centros comerciais e às cidades do Sul, em
Judá, e do Norte, em Israel, no afã de entregarem os oráculos
divinos ao povo.
Havia uma escola de profetas, porém essa “especialização” não
era substituta da vocação. Aqueles que eram vocacionados
passavam por um processo de estudo no afã de aperfeiçoarem o
ministério recebido da parte de Deus. A escola de profetas não era
um item obrigatório para ser um profeta; apenas representava uma
alternativa para a capacitação. A fala de Amós foi emblemática
nesse ponto. Ele declarou que não era profeta, nem filho de profeta.
Com essas palavras, estava indicando que não havia estudado para
ser profeta e nem tinha em sua casa a tradição do profetismo;
porém, apesar disso, fora chamado por Deus (Am 7.14,15). Afinal
de contas, o chamado divino sempre foi a condição capital para ser
profeta, independentemente de possíveis pré-condições que a
sociedade tentasse estabelecer. Os profetas do Antigo Testamento
trazem-nos a lição de que nosso Deus jamais se prenderá às regras
humanas. Na história de Israel, Ele levantou profetas segundo suas
escolhas, e não conforme os critérios humanos, que, geralmente, se
mostravam superficiais e enganosos.
Entre os profetas, encontramos pessoas simples e também
indivíduos de famílias importantes. A posição social era importante
para os homens, mas não era um fator determinante para Deus, não
tinha peso de escolha, nem tampouco era causa de exclusão. O que
realmente importava era o chamado divino. Deus usava profetas
nobres e pobres segundo a sua soberania.

A Relação do Profeta com a Lei do Senhor

Moisés foi um profeta diferenciado, visto que atuou como líder


político e religioso de Israel. Ele acumulou em seu comando ambos
os poderes, pois viveu em um Israel teocrático que estava no
processo de constituição como uma nação. Com o estabelecimento
da monarquia em Israel, os poderes políticos (civis-militares) e
religiosos foram separados. A partir dessa separação de poderes, o
sacerdote passou a dedicar-se às questões religiosas, e os reis, às
questões políticas. Então, onde ficaram os profetas? Quem eles
eram e o que faziam?
Embora não fossem regulamentados pela Lei, isso não quer dizer
que os profetas fossem contrários a ela, o principal instrumento
judaico normatizador. Pelo contrário, é possível percebermos que a
mensagem deles possuía um alinhamento profundo com a Torá. Os
profetas atuavam para resgatar os princípios da aliança de Deus
com seu povo, mandamentos que estavam sendo esquecidos e
negligenciados no decurso da história. Seus posicionamentos não
contradiziam a Lei. Eles foram os intérpretes da religião judaica.
Desenvolveram ideias teológicas com maturidade crescente e
demonstraram percepções profundas pelo poder do Espírito de
Deus. No Novo Testamento, Cristo agiu assim. Enquanto os homens
prendiam-se às regras humanas, Cristo enxergou a essência dos
princípios divinos e eternos por trás das leis.
Direcionados pelo Espírito, os verdadeiros profetas conseguiam
discernir a essência do propósito de Deus para o seu povo. Eram
indivíduos diferenciados, com profunda visão espiritual e zelo
religioso. Possuíam uma posição independente, sem qualquer tipo
de relação com os poderes políticos e religiosos vigentes. Em
alguns momentos, os profetas entravam em rota de colisão com
esses poderes instituídos, denunciando a corrupção, a hipocrisia, a
injustiça e o descaso para com a Lei por parte dos reis e sacerdotes,
os homens que estavam empoleirados no poder institucional. Por
causa dessa independência pessoal, o profeta falava com liberdade
e autoridade, convicção e precisão.

A Piedade do Profeta
O profeta falava em nome de Deus por meio da célebre frase:
“Assim diz o Senhor”. Sua palavra tinha peso, porque era
corroborada pelo Senhor. Ele falava em nome de Deus movido pelo
Espírito. Em sua origem e essência, era uma pessoa comum,
alguém marcado pela piedade e dotado de um chamado espiritual;
por isso era considerado pelas pessoas como “o homem de Deus”
(Dt 33.1; 1 Rs 13; 2 Rs 4.9).
A piedade possibilitava ao profeta um relacionamento íntimo com
Deus, colocando-o na direção do Espírito, levando-o à dobradura de
sua vontade, e não apenas à curvatura dos seus joelhos. Essa
piedade individual atuava como um escudo contra o ritualismo ou
racionalismo, pois o homem que sente a presença de Deus no seu
íntimo não se satisfará com a pompa de um ritual religioso
superficial, nem com a vaidade de um discurso lógico bem
construído. O que um homem piedoso realmente deseja é a
presença de Deus. Não se trata de religiosidade, mas de
espiritualidade incandescente. Com a alma acesa pelo Espírito, o
profeta estava sensível para ouvir a voz de Deus e retransmiti-la ao
povo.
O profeta era comumente consultado para saber qual era a
vontade de Deus (1 Sm 9.9). As pessoas reconheciam que o
verdadeiro profeta detinha um conhecimento além do saber
humano, pois Deus revelava-lhe fatos que ainda estavam para
acontecer. Deus havia condenado práticas adivinhatórias cananitas
(Dt 18.9-14), mas permitiu que os profetas fossem consultados. Por
quê? Não se tratava de uma consulta meramente movida por
adivinhação futurística, mas de instrução prática para a vida. A
suposta previsão vinha acompanhada de um teor potente de
orientação, seguido por ações práticas em sincronia com os
princípios estabelecidos na Lei do Senhor. Ainda assim, nem
sempre as pessoas estavam dispostas a obedecer-lhe. Quando a
mensagem não era agradável ou palatável aos ouvidos, os profetas
sofriam com o desprezo das pessoas ou até mesmo com a
perseguição dos homens “poderosos” que ocupavam os cargos
autoritativos da sociedade judaica.

O Significado do Vocábulo “Profeta”

No hebraico, a palavra mais frequentemente usada para “profeta”


no Antigo Testamento é nabi. Ela aparece mais de trezentas vezes
no Antigo Testamento.2 É bem provável que o significado do termo
tenha a ver com “proferir, anunciar uma mensagem”.3 A ideia do
vocábulo é extravasar palavras com uma mente fervorosa,
influenciada pelo Espírito Santo. A autoridade do profeta estava na
consciência de que ele falava em nome de Deus (Jr 15.19).
A versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, utilizou o
termo grego “profetes”. Esse termo passou a ser utilizado também
no Novo Testamento para referir-se ao profeta, aquele que fala em
nome do Senhor. De acordo com os vocábulos bíblicos utilizados, o
profeta era definido como um porta-voz, um representante da
mensagem divina. Era alguém que portava uma missiva divina.
Tratava-se de um homem santo, escolhido e separado para
comunicar conteúdos relevantes da parte de Deus para o povo.
O vocábulo grego traduzido pelo português passou a ter um
significado mais atrelado à ideia de predizer o futuro. Contudo,
quando olhamos o ministério dos profetas, veremos que essa
significação mostra-se insuficiente, pois o profeta tanto predizia o
futuro quanto advertia sobre o presente ou relembrava até mesmo o
passado. O conteúdo da palavra profética não estava circunscrito ao
futuro ou a uma respectiva época em especial, pois nitidamente
podemos perceber que os profetas caminharam entre as
recordações do passado, os desafios do presente e as promessas
do futuro. Eles transitavam entre realidades pretéritas, atuais e
porvindouras.
Tendo em vista essas considerações, convém destacarmos que o
melhor significado para a palavra profeta é “mensageiro de Deus”. O
profeta era um embaixador de Deus. Através do registro preservado
na Escritura, verdadeiramente vemos que a voz dos profetas era a
voz de Deus.4

O Profeta como Intérprete dos Fatos Passados e Presentes


O profeta precisava conhecer a realidade da vida nacional.
Samuel, por exemplo, reunia os jovens profetas em comunidades e
ministrava-lhes conhecimentos da história e da religião (1 Sm 10.10-
13; 19.18-20). O profeta era um homem com conteúdo. Precisava
estar familiarizado com o passado histórico da nação, assim como
precisava ter o discernimento para interpretar o presente,
valorizando os princípios espirituais elementares entregues por
Deus a Israel. O profeta só teria êxito em sua missão se estivesse
bem familiarizado com a história do seu povo; além do mais,
precisava ter uma leitura social aguçada. Por isso, os profetas
menores citam em suas profecias o passado histórico de Israel.
Oseias, por exemplo, ao denunciar a ingratidão daquele povo,
relembrou-os de tudo o que Deus havia feito por Israel, ao tirar-lhes
do Egito, ao transformar escravos em guerreiros, dando-lhes terra,
nome e nação entre os povos (Os 11.1-4). Amós fez o mesmo ao
relembrá-los das grandes obras que Deus havia feito pelo povo
desde o Egito (Am 2.10; 3.1). É possível percebermos que a
temática “Egito” é constantemente mencionada pelos profetas
menores (Os 12.9; Am 9.7; Mq 6.4; 7.15; Ag 2.5). Essa lembrança
histórica não poderia ser esquecida pelo povo de Deus.
O povo de Deus, ao longo do tempo, sofreu muitas
transformações. O profeta tinha a responsabilidade de acompanhar
e perceber essas mudanças trazendo para as demandas inéditas
uma palavra atual da parte de Deus a fim de orientar o povo. Com o
tempo, Israel deixou as raízes agrícolas de lado e tornou-se mais
urbano e comercial. Essa grande mudança pode ser percebida no
livro de Miqueias. Em sua época, por exemplo, houve um grande
êxodo rural em que diversos camponeses mudaram-se para as
principais cidades do Sul e do Norte em busca de riquezas. Naquele
tempo, os reinos do Norte e do Sul prosperavam.
Ao chegarem a essas cidades, os camponeses eram vítimas de
exploração e de injustiças, cometidas por uma classe de ricos
inescrupulosos que se mancomunaram com os sacerdotes, reis e
profetas. Miqueias detectou esses pecados e confrontou-os pelo
poder do Espírito de Deus (Mq 3.8). Portanto, como fruto das novas
relações comerciais, novos problemas foram surgindo, entre eles a
avareza, o apego excessivo às condições materiais e,
principalmente, o crescimento da injustiça. Os antigos valores de
ajuda mútua e senso de solidariedade foram substituídos pelo
egoísmo e indiferença diante dos necessitados. O homem de Deus
precisava detectar esses pontos falhos na sociedade para
posicionar-se entregando a mensagem divina.
O profeta, acima de tudo, era uma espécie de “intérprete” ou
“cientista social”, que estava munido de uma visão teológica sobre a
vida. Era alguém que lia os movimentos da sociedade. Diferente do
cientista social atual, que baseia toda a sua análise nos critérios
científicos de estudo, a interpretação profética do Antigo Testamento
fazia uso de uma ótica divina, sobrenaturalmente concedida por
Deus e fundamentalmente embasada na Lei do Senhor. O profeta
no Antigo Testamento observava os movimentos da sociedade,
decodificando as atitudes dos homens com as lentes do Espírito de
Deus. Para cada questão social, era preciso apontar uma direção
divina. Por isso, o profeta deveria estar sempre atualizado com as
demandas de sua época, direcionando o povo segundo os princípios
da aliança de Deus.

A Difícil Tarefa de Comunicar a Profecia

O profeta deveria entregar a mensagem divina no afã de ser


imediatamente considerada; caso contrário, seria ativado o
julgamento e a ira divina. Quando o povo arrependia-se, o
julgamento divino era suspenso. Entretanto, em alguns momentos o
coração das pessoas endurecia, e os pecados cometidos aliados à
indiferença precipitavam as pessoas à perdição. Assim, em volta do
profeta, às vezes existia um contexto de resistência, reprovação e
rejeição, de modo que o simples ato de entregar uma profecia
constituía uma demonstração de coragem e compromisso com
Deus. Sobre esse assunto, cabe-nos uma explicação histórica.
No início, os profetas atuavam como assessores religiosos das
autoridades, exercendo um papel de conselheiros reais, e por isso
eram amplamente respeitados e temidos. Samuel e Natã, os
primeiros profetas influentes pós-Moisés, agiram como orientadores
da realeza (2 Sm 12.1; 1 Rs 1.8,10,11). Na transição da teocracia
para a monarquia, os profetas de Israel gozavam de muito prestígio.
É possível encontrarmos o profeta Samuel reprovando a atitude do
rei Saul ou até mesmo o profeta Natã entregando uma penosa
mensagem ao rei Davi após o seu adultério (1 Sm 15.10-23; 2 Sm
12.1-13). Os reis tremiam diante da palavra profética.
No entanto, com a cisão do reino após a morte de Salomão, os
profetas nortistas foram os primeiros a enfrentar grandes
perseguições. Como o Norte foi governado ininterruptamente por
dez dinastias compostas em sua totalidade por reis ímpios, um
sistema apostático foi oficializado em Israel, principalmente nos
tempos do rei Acabe. Assim, em Israel iniciou-se uma nova
realidade para os profetas: o tempo da perseguição. Muitos profetas
foram mortos, e outros tiveram que se esconder (1 Rs 18.4). A
adoração a Baal foi normatizada provocando seu enfrentamento
pelo corajoso profeta Elias. Desde então, os profetas passaram a
ser caçados, pois a profecia bíblica colidia com os interesses da
nobreza, com a dissimulação dos sacerdotes e a manipulação dos
falsos profetas (Jr 1.18,19; 5.30,31; Is 58.1-12).
A perseguição aos profetas não ficou circunscrita aos nortistas,
mas também aconteceu com os sulistas. Um exemplo clássico foi o
profeta Isaías, perseguido no reinado de Manassés. Segundo a
tradição judaica, ele foi serrado ao meio depois de ser encontrado
escondido em um tronco de árvore oco. O profeta Sofonias, cujo
nome significa “o Senhor esconde”, nasceu nessa época e
provavelmente recebeu esse nome em referência ao fato de Deus
ter-lhe preservado da fúria de Manassés, escondendo-o do rei
ímpio.
As Escrituras apontam que alguns profetas sofriam internamente
antes de transmitir a mensagem. Em alguns casos, o próprio corpo
psicossomatizava as angústias. Em outros casos, o profeta sofria
uma verdadeira crise pessoal. Nem sempre o próprio profeta
entendia os caminhos de Deus expressos em sua profecia. Por
exemplo, profetizar uma derrota militar para sua própria nação não
era uma tarefa fácil. Essa era uma mensagem não palatável. Os
judeus não toleravam escutar profecias assim. A reação negativa
seria uma consequência quase que automática.
A função do profeta era ser um mensageiro de Deus,
assemelhando-se à função do “kérix”, ou arauto, que, naquela
época, era o responsável por entregar a mensagem de um rei. Nem
sempre a mensagem soava bem diante das pessoas. Apesar disso,
o profeta precisava ser fiel à mensagem, pois seu compromisso era
com Deus, e não com os homens. O profeta precisava zelar pela
integridade dos conteúdos de sua profecia.
É bem verdade que nem sempre o profeta entendia o porquê de
sua própria profecia. Apesar de esses homens serem visionários e
possuírem uma visão espiritual acima da média, sabemos que eles
também tinham suas próprias limitações. Suas percepções nem
sempre compreendiam os caminhos da onipotência. Conforme
vimos, a crise instalava-se quando o profeta sentia-se perdido em
relação ao agir de Deus. Ainda assim, era preciso andar pela fé e
entregar fielmente a visão/revelação. O profeta não podia “guardar”
ou “adulterar” a mensagem. Ele era a voz contemporânea de Deus
que exortava o povo no afã de formar uma sociedade moral e justa.
Não poderia ser omisso. Seu papel era fundamental demais diante
de Deus e dos homens.

O Profeta no Reforço do Ensino da Lei e da Justiça

Os sacerdotes e os levitas eram os responsáveis oficiais pela parte


do ensino (Lv 10.11; Dt 33.10; Ez 22.26); todavia, essa função era
constantemente ignorada pelos seus representantes legais, visto
que estavam demasiadamente ocupados com as tarefas recorrentes
e diárias das atividades litúrgicas e cultuais da religião judaica. Deus
levantou os profetas para “suplementar o ensino negligenciado pelo
sacerdócio”.5 Percebemos aqui que o profeta, enquanto recurso
emergencial da parte de Deus, também atuava no reforço de um
ensino que tinha sido relaxado pelos sacerdotes.
O ensino regular dos sacerdotes era tão importante quanto às
admoestações dos profetas. Ensino e admoestação devem
caminhar paralelamente. “O ensino nos edifica, mas as
admoestações nos protegem! Se formos ensinados, e as
admoestações forem negligenciadas, poderemos perder aquilo que
foi edificado por meio do ministério do ensino.”6 O contexto da
instrução profética geralmente destacava o juízo de Deus.7 Há quem
diga que o sacerdote era um professor habitual, enquanto o profeta
agia como um pregador do avivamento.8 Existia uma pedagogia
espiritual por trás de cada sentença profética.
Enquanto os sacerdotes e levitas facilmente cediam ao fascínio de
uma religiosidade teatral e automática, cumprindo ritos religiosos e
tradições sociais, os profetas mostravam-se profundos em suas
raízes espirituais. A teatralidade vazia não representava uma
tentação para eles. O profeta do Antigo Testamento considerava
importante o rito religioso e o culto judaico; todavia, tal prática
deveria ser observada de modo correto, levando em consideração
as exigências espirituais de cada ato. No interior do profeta, não
existia espaço para a encenação religiosa, pois seu coração estava
transbordando com a presença do Espírito Santo de Deus.
Embora existam casos de profetas mercenários e corrompidos que
profetizavam segundo os desejos das pessoas, os profetas menores
mostraram-se fiéis e verdadeiros ao Deus de Israel. Combateram a
hipocrisia, denunciaram a injustiça, não aceitaram o suborno e não
abandonaram a originalidade da mensagem entregue por Deus no
afã de emoldurá-la às pretensões de seus destinatários. Foram fiéis
a Deus, ao ministério profético e à mensagem divina. Apesar de
relutarem em alguns casos, foram fiéis no fim. Nesse quesito,
lembramos de Jonas. Diante de sua desobediência e fuga, Deus
deu a ele novas oportunidades para reaver seus erros. Jonas
renovou seu compromisso profético, cumpriu sua missão e
aprendeu uma grande lição sobre o amor de Deus, ensinamento
este que foi compartilhado com sua geração por meio de seu livro, o
registro escrito de sua experiência com Deus.

O Profeta e o Futuro

O profeta (em alguns momentos) conseguia penetrar no futuro e


revelá-lo. Por isso, a palavra profeta algumas vezes é representada
pela palavra hebraica “chozeh”, que significa vidente (1 Sm 9.9; 2
Sm 15.27; 2 Rs 17.3; 1 Cr 29.29; Is 30.10; Am 7.12).9 Essa
habilidade era uma credencial que autenticava o ministério profético
(Dt 18.22). Isso não acontecia mediante o emprego das técnicas de
adivinhação e ocultismo. A “visão” do profeta era resultado exclusivo
de um dom ministerial que lhe fora concedido pelo próprio Deus.
Não se tratava de mérito próprio, mas de dom divino. Por intermédio
dessa função especial, Deus chamou a atenção para o seu
propósito com Israel.
Os profetas menores colocavam o dedo na ferida dos pecados
nacionais e advertiam seus compatriotas sobre o futuro, que poderia
ser marcado pelas bênçãos de Deus ou por grandes juízos divinos.
Eles conseguiam enxergar realidades póstumas. Por meio dessa
capacidade de desvendar o futuro, Miqueias, por exemplo,
profetizou a cidade em que Cristo nasceria (Mq 5.2). Oseias e Amós
profetizaram o juízo que Deus derramaria sobre o Norte por meio da
Assíria. Joel e Habacuque profetizaram o juízo divino que seria
aplicado no Sul por meio da Babilônia. Naum profetizou o juízo
divino sobre a Assíria, e Obadias fez o mesmo em relação a Edom.
Zacarias profetizou sobre a traição ao Messias por trinta moedas e
antecipou sua entrada triunfal em Jerusalém, montado em um
jumentinho (Zc 9.9; 11.12). Veremos que cada profecia foi cumprida
em seus mínimos detalhes, pois Deus é fiel e cumpre suas
promessas (Nm 23.19; 2 Rs 7.16; Sl 89.34; 2 Tm 2.13).
Fundamentados na visão futurística, os profetas menores
anunciaram o juízo com perceptibilidade e segurança.

A Complexa Missão de Consolar o Homem diante do Plano de


Deus

Embora a mensagem dos profetas fosse carregada de juízo,


também possuía um viés de consolo divino. Talvez o maior desafio
profético estivesse em levar o povo a obedecer respaldado pelo
entendimento, e não pressionado pelas ameaças. O consolo era
parte integrante da profecia; afinal de contas, Deus é onipotente e
está sempre buscando o melhor para o seu povo. Ainda que a
realidade não se adequasse ao futuro de glória projetado por Deus,
o profeta deveria levar o povo a contemplar esse porvindouro e
encontrar paz na alma diante desse entendimento.
A voz dos profetas menores ecoava além da severidade, pois eles
também falavam do amor eterno de Deus por seu povo (Os 11.4; Sf
3.17) e reconheciam a realidade da misericórdia divina (Os 14.3; Am
1.11; Hc 3.2; Zc 1.16). O juízo causava despertamento instantâneo,
mas era a compreensão nítida do amor de Deus que garantia a
manutenção desse despertamento. O amor de Deus estava
expresso em um plano divino para o seu povo. Esse caminho às
vezes possuía lombadas de exortação e sinalizações de juízo;
entretanto, a promessa do consolo divino estava no arremate desse
percurso. Por isso, na parte final de cada livro dos profetas
menores, geralmente encontramos profecias de consolo e
esperança, apresentando o futuro de glória que Deus havia
preparado para seu povo, o “remanescente fiel”.

Grandes Mensagens em Pequenos Textos

Os textos dos profetas menores são mais concisos em relação aos


profetas maiores. Os oráculos são pequenos, porém a mensagem
contida neles é grande, surpreendente, profunda e edificante. Os
profetas menores ensinam-nos a lição de que o pecado contra o
próximo por meio da injustiça social também representa um pecado
contra Deus, e cabe à igreja atual o cuidado para não se fechar em
seu ambiente interno religioso, virando as costas para o “mundo
secular”. Esse “egoísmo” em nome de Deus não pode ser uma
proposta válida para nós.
Não existe a divisão entre “mundo religioso” e “mundo secular” no
espaço profético. O mesmo profeta que falava do culto e
endereçava sua mensagem ao sacerdote também emitia
pronunciamento sobre as tramitações políticas, destinando sua
mensagem ao rei, o principal governante da nação. O profetismo
cristão não deve ficar circunscrito apenas ao ambiente religioso.
Deus não nos escolheu para um “isolacionismo místico”. As
estruturas que perpetuam as injustiças sociais precisam ser
combatidas. Os menos favorecidos precisam ser alvos da reflexão
profética e da ação social da parte da igreja.
É interessante notar que os profetas frequentemente confrontavam
os sacerdotes, os representantes do poder religioso instituído. A
religiosidade dos homens pode acomodar-se vindo a cumprir ritos e
tradições de modo mecânico e desprovido da inteireza de coração.
Por esse motivo, Miqueias profetizou que Deus exige de nós a
obediência de coração. Os aparentes “atos religiosos” podem
camuflar pecados desprezíveis, colocando um verniz de piedade
sobre a imundície da injustiça e da exploração. Esse problema foi
recorrente em Israel. Os profetas menores denunciaram a
superficialidade religiosa. Por causa disso, entraram em choque
com os sacerdotes.
O profeta denunciava as irregularidades do culto e dos tribunais da
justiça. Amós exortou sua geração ao afirmar que a justiça é um
elemento insubstituível para a verdadeira adoração ao Senhor. Ageu
ensinou sobre a importância de termos mais cuidado com a Casa de
Deus. Malaquias profetizou sobre o valor da família. Oseias
denunciou a corrupção religiosa de seus dias. Ao apresentar a
imagem do casamento como reflexo da comunhão com Deus, ele
acusou os líderes religiosos e o próprio povo de traição e
infidelidade ao Senhor.

A Atualidade dos Profetas Menores

Os profetas menores abençoaram não apenas Israel ou Judá com


a palavra profética, mas o mundo de modo geral. Suas profecias
espalharam-se e alcançaram diversos povos e gerações, chegando
aos lugares mais remotos. A Igreja do Senhor Jesus, ao longo de
sua história, alimentou-se da palavra profética e ainda hoje tem
meditado sobre o conteúdo teológico desses livros. Podemos
afirmar, sem sombra de dúvidas, que os profetas menores têm muito
a ensinar-nos. Se Deus deixou-nos uma mensagem por escrito por
meio dos profetas menores, ela deve ser considerada e amada, pois
os ensinamentos dos profetas do Antigo Testamento possuem a
mesma essência dos ensinamentos transmitidos à Igreja do Novo
Testamento (At 15.15-17; 26.22,23).
Nosso atual contexto histórico pode ser diferente do tempo
vivenciado por Oseias, Joel, Jonas, Malaquias, entre outros, mas os
princípios espirituais apresentados nesses livros permanecem os
mesmos. Enfrentamos os mesmos desafios, pois ainda hoje Deus
exige santidade do seu povo; ainda hoje, a apostasia permanece
sendo um pecado grave, assim como a corrupção e a injustiça;
ainda hoje, Deus adverte a sua Igreja a viver uma adoração sincera
e consciente; ainda hoje, precisamos ser livres da tentação de
praticar uma religiosidade mecânica, teatralizada e superficial. Ainda
hoje, precisamos honrar os votos matrimoniais entendendo o
casamento como uma instituição sagrada. Ainda hoje, precisamos
estar conscientes de que o Deus do amor é também o Deus da ira,
o Deus do perdão e da longanimidade é também o Deus da justiça e
da retribuição. Ainda hoje, precisamos compreender que a Casa de
Deus deve ser amada e estimada pelo povo do Senhor. Ainda hoje,
precisamos demonstrar liberalidade com os nossos recursos
materiais, sendo fiéis a Deus nos dízimos e ofertas. Ainda hoje,
Deus continua falando com seu povo por meio dos profetas
menores.
Enfim, nesses livros proféticos do Antigo Testamento, aprendemos
preciosas lições compostas de grandes mensagens em pequenos
textos. Eles semearam a justiça e defenderam a verdade.
Consolaram e exortaram suas gerações. A igreja hodierna é
legatária dos profetas menores. Sobre nós, repousa uma grande
responsabilidade. O código divino deve ser nossa bússola tal como
foi para os profetas. A coragem moral para denunciar e lutar por um
mundo melhor deve caracterizar a Igreja. Precisamos ser operativos
na prática de nosso cristianismo, posicionando-nos abertamente em
prol da promoção do evangelho de Cristo. Deus conta conosco! O
Deus dos profetas menores é o nosso Deus!

1SOARES, Esequias. O ministério profético na Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD,


2010, p. 19.
2SOARES, Esequias. O ministério profético na Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD,
2010, p. 29.
3 BUCKLAND, A. R. Dicionário bíblico universal. São Paulo: Editora Vida, 1981,
p. 361.
4RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD,
2006, p. 405.
5 GIBBS, Carl Boyd. Profetas Maiores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p. 6.
6 BEVERE, John. Assim diz o Senhor? Como saber quando Deus está falando
através de outra pessoa. Rio de Janeiro: CPAD, 2014, p. 30.
7 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 210.
8 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 212.
9 BUCKLAND, A. R. Dicionário bíblico universal. São Paulo: Editora Vida, 1981,
p. 360.
CAPÍTULO 2

Oseias: O Casamento como um


Reflexo da Comunhão com Deus

O profeta Oseias inaugura a seção dos profetas menores na


organização ocidental dos livros do Antigo Testamento.1 Talvez
porque possui características um pouco comuns aos demais
profetas maiores como o volume relativamente extenso do livro (14
capítulos), a longevidade ministerial (profetizou durante muitas
décadas), seu grande patriotismo e também seu estilo profético
intenso semelhante a Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel.
À semelhança de Isaías, Oseias teve filhos que serviram como um
sinal para sua geração. À semelhança de Jeremias, “Oseias tem
sido chamado de o profeta com coração quebrantado”,2 ou o
“Jeremias de Israel”.3 Há quem diga que o que Jeremias foi para
Judá, Oseias foi para Israel, cerca de aproximadamente 140 anos
antes, pois ambos advertiram insistentemente para que suas
respectivas gerações arrependessem-se de seus pecados; ambos
expressaram a tristeza de Deus em executar o seu juízo utilizando a
linguagem metafórica do divórcio (Jr 3.8; Os 2.2-7).
À semelhança de Ezequiel, Oseias ilustrou sua mensagem com a
própria vida demonstrando uma obediência extraordinária ao
cumprir uma ordem de casar-se com uma mulher “adúltera”. Tanto
Ezequiel quanto Oseias sofreram a dor da perda; enquanto o
primeiro tornou-se viúvo, o segundo perdeu sua mulher para a
prostituição. Como Daniel, Oseias demonstra grande sabedoria,
embora não fosse um estadista; possuía convicções políticas e
opunha-se claramente às alianças estrangeiras da mesma forma
como defendia a importância de um governo público justo. Fica claro
durante o conteúdo do livro que Oseias dominava os assuntos
históricos e religiosos envolvendo a nação de Israel. Chegamos à
conclusão de que, assim como Daniel, Oseias era um homem
extremamente preparado para o ofício profético.

Informações Importantes sobre o Profeta

Oseias não é mencionado em nenhum outro livro da Bíblia;


portanto, tudo o que sabemos sobre ele está registrado no livro que
ostenta o seu nome.4 Não é uma regra, mas, geralmente, os livros
proféticos começam com uma introdução que nos permite situar
historicamente os personagens. O livro de Oseias segue essa
tendência. Sobre ele, sabemos que seu nome é Oseias, filho de
Beeri, e profetizou nos dias de Uzias, Jotão, Acaz, Ezequias, reis de
Judá, e nos dias de Jeroboão, rei de Israel (Os 1.1).
Ele foi contemporâneo de Amós, Isaías e Miqueias e viveu no
tempo áureo da profecia, tanto em Israel como em Judá.5 Casou-se
com Gomer, uma mulher que foi prostituta. Com ela teve três filhos:
Jezreel, Lo-Ruama e Lo-Ami. Os primeiros capítulos do seu livro
relatam sua experiência pessoal de um casamento fracassado que
foi restaurado pela força do perdão e serviu de modelo para retratar
a relação de Deus com o povo de Israel, comparada
metaforicamente a um casamento.

Seu Nome

Seu nome, Oseias, significa salvação. Jerônimo, pai da Igreja,


interpretava como “salvador”; outros, por sua vez, interpretaram
pensando no imperativo “salva”, como se fosse um clamor
direcionado a Deus.6 Verdadeiramente, Oseias foi um instrumento
que tentou propagar a salvação para o seu povo. É conhecido como
o primeiro profeta da graça ou o evangelista de Israel, por causa de
sua vocação no que diz respeito a convidar os israelitas ao
arrependimento ao mesmo tempo em que planta a semente da
esperança.
Seu nome vem da forma hebraica “Hoshea”;7 por conseguinte, no
original vem da mesma raiz que a palavra “Jesus” ou “Josué”. Três
homens do Antigo Testamento tiveram nomes semelhantes a Jesus:
Oseias, um profeta (Os 1.1); Zacarias, um sacerdote (Zc 3); e
Josué, um grande líder (Js 1.1).

Sua Filiação

Não conhecemos sua genealogia, apenas o nome do seu pai. Seu


sobrenome era Ben-Beeri, ou o filho de Beeri. Por suposição,
acreditamos que seu pai era um homem importante, pois era
comum, naquela época, fazer uso dessa distinção quando a
eminência dos pais gerava ao filho alguma honra.8 Os rabinos
acreditavam que seu pai fosse profeta, pois, segundo a tradição
judaica, quando um pai era mencionado na introdução de um livro
profético, isso supunha que também deveria ter sido profeta.9
Alguns chegam a acreditar que seu pai era um príncipe rubenita,
levado como preso por Tiglate Pileser, da Assíria, por conta da
proximidade do nome “Beera” com “Beeri” (1 Cr 5.7). Contudo, não
há base suficiente para afirmar tal suposição.

Sua Naturalidade

Informações antigas apontam que Oseias era natural de Bete-


Semes e pertencia à tribo de Issacar.10 Ele é o único profeta do
Norte que profetizou para o Norte, embora ocasionalmente faça
referência a Judá.11 Jonas também era do Norte, entretanto as suas
profecias foram direcionadas para os ninivitas, um povo estrangeiro.
Amós, embora profetizasse para o Norte, era originário do Sul. Em
Israel, existiram outros profetas, como Elias e Eliseu, entretanto
Oseias foi o único a registrar suas profecias, sendo não apenas um
profeta da palavra, mas também da escrita, enviado como um
missionário à sua própria terra.
Oseias provinha de Israel, e não de Judá, pois, ao referir-se ao rei
de Israel, utilizou o pronome da primeira pessoa do plural: “nosso
rei”, ou seja, o rei de Israel era também o líder político de Oseias
(Os 7.5). Além do mais, há diversas referências geográficas
envolvendo as cidades do norte: Efraim (Os 4.17; 5.3,5; 7.1,8,11;
8.9,11; 9.3), Mispa (Os 5.1), Tabor (Os 5.1), Gilgal (Os 4.15; 9.15;
12.11), Betel (Os 10.15; 12.4), Jezreel (Os 1.4,5), Gibeá (Os 5.8;
9.9; 10.9), Ramá (Os 5.8,10; 9.4; 11.10) e Gileade (Os 6.8; 12.11), o
que mostra seu amplo conhecimento como alguém natural daquela
área; por conseguinte, deduzimos que as referências geográficas
expostas no livro sugerem que ele era originário de Israel.12

Sua Ocupação

Além de profeta, é possível que Oseias tenha sido padeiro, pois o


profeta descreve com propriedade o ato de sovar a massa (Os 7.4).
Nessa referência, ele demonstra um conhecimento prático na área,
pois o ato de parar de abanar o fogo para despertar as chamas
enquanto se misturava a massa do pão, dava margem para que a
massa ficasse levedada. É pouco provável que tal conjectura viesse
de alguém que não fosse conhecedor do ramo, pois esse tipo de
conhecimento não era comum a algum aldeão.
“O livro é composto por quinze poemas proféticos que Oseias
entregou nos mercados de cidades próximas, para os quais viajou,
como Jezreel e Samaria.”13 Dentro dessa linha de raciocínio, pode-
se supor que Oseias talvez fosse agricultor, ou visitava os mercados
para vender o seu produto como padeiro. Como padeiro ou
agricultor, fica evidente que recebeu uma educação aprimorada.

A Época de Oseias

Oseias foi contemporâneo de Amós, que pregou ao Norte, e de


Miqueias e Isaías, que profetizaram para o Sul. Enquanto o “profeta
messiânico” atuava em Judá, Oseias exerceu o seu ministério nos
mercados comerciais do Reino do Norte. Foi chamado como profeta
no final do reinado de Jeroboão II, o último rei poderoso da nação
que usufruiu de um reinado de grande prosperidade. Seu ministério
provavelmente se desenvolveu no final do reinado de Jeroboão II no
Norte e de Uzias no Sul, terminando no reinado de Ezequias no Sul.
Tendo em vista que Ezequias começou a reinar no ano 715 a.C.,
fica evidente que Oseias viu o cumprimento de sua profecia quando,
no ano 722 a.C., o Reino do Norte foi destruído pela Assíria. Ele
“viveu para ver a queda de sua nação nas mãos dos assírios em
722 a.C.”.14
Para a nossa surpresa e espanto, os judeus calculavam que ele
tinha profetizado por aproximadamente noventa anos,15 tendo como
base o meado do reinado de Jeroboão II (793-753 a.C.) e Ezequias
(715-686 a.C.). Se esse for o caso, toda a sua vida foi devotada ao
ministério profético, dedicando-se desde a infância até os últimos
momentos de sua vida longeva à tarefa de entregar a mensagem de
Deus aos seus compatriotas. Essas análises não são conclusivas,
representam apenas deduções. A verdadeira extensão do ministério
de Oseias permanece em dúvida.

Prosperidade Financeira

O período em que Oseias começou o seu ministério foi marcado


pela prosperidade financeira em Israel. Nesse momento, Israel
ocupava uma posição liderante entre as nações próximas. Essa
prosperidade era tão grande que poderia ser comparada aos anos
de ouro do início da monarquia em Israel, haja vista que as
fronteiras do sul e leste de Israel cresceram consideravelmente,
chegando quase que as mesmas extensões dos reinados de Davi e
Salomão.16
A monarquia tinha sido dividida cerca de duzentos anos antes (931
a.C.), e ambos os reinos prosperavam. A dinastia de Jeú havia se
consolidado no poder do Reino do Norte há mais de cinquenta anos.
Israel recebera uma grande expansão de terra como uma dádiva do
Senhor (2 Rs 14.25-28). A Síria estava debilitada. As rotas das
caravanas que antes eram dominadas por Damasco agora estavam
sob o controle de Israel. O comércio no Norte intensificou-se com as
vitórias militares e com o aumento do território nortista. O luxo
tornou-se ordinário, e os cidadãos de Israel começaram a desfrutar
de grande riqueza e conforto. Materialmente, o Norte estava bem;
espiritualmente, a situação era bem diferente.

Líderes Religiosos Corruptos

Os sacerdotes perderam a paixão pela piedade. O profeta


denunciou que eles abandonaram seus postos sagrados e uniram-
se aos salteadores e assassinos nas estradas (Os 6.9). Os homens
que deveriam ser um exemplo espiritual valioso tornaram-se
espiritualmente decadentes e corruptos. A cegueira espiritual era tão
intensa que os sacerdotes chegaram ao cúmulo de sacrificar
crianças em rituais de adoração pagã. Também abandonaram a
pureza sexual e aderiram às práticas da prostituição cultual.
Tornaram-se permissivos ao pecado e comprazentes à prostituição.
Oseias chega a descrever que a vida espiritual da nação tinha
decaído de uma forma assustadora. A riqueza precipitou-os à
queda. Estavam mortos espiritualmente. O pior era que não
percebiam, assim como alguém que não percebe que seus cabelos
tornaram-se grisalhos (Os 7.9). O povo havia abandonado a Deus
prostituindo-se espiritualmente diante dos deuses pagãos e, na hora
da dificuldade, buscavam o socorro em amigos errados e alianças
pagãs.

Paganismo Fortalecido

A adoração idólatra dos cananeus espalhara-se por todas as terras


de Israel. Os cultos e os sacrifícios continuavam, mas não eram
oferecidos ao Senhor. Se havia uma colheita boa, os israelitas
chegavam ao cúmulo de atribuir essa dádiva a Baal (Os 2.8-13;
7.14-16).17 Os israelitas foram seduzidos pela idolatria. Vários
bezerros de ouro foram levantados, e cidades do Norte, como Dã e
Betel, tornaram-se grandes centros idólatras. Um falso sistema
religioso havia sido disseminado em Israel por Jeroboão. Um
sacerdócio não descendente de Arão foi implantado para
administrar o culto nortista. Também foi reorganizado um calendário
religioso para entreter o povo de Israel com uma adoração atraente
e festiva, porém vazia e infecunda espiritualmente.
O profeta Amós já havia sido levantado por Deus para repreender
a corrupção espiritual e moral desse povo, bem como seu
indiferentismo religioso. Enquanto o seu ministério foi curto e
explosivo, o de Oseias seria longo e paciente. Deus falou de todos
os modos possíveis para que o povo entendesse a mensagem e
arrependesse-se. A nação estava sendo infiel a um Deus que lhe
devotara tanto amor. Essa infidelidade era uma traição grave e
resultaria em um grande juízo para Israel. Enquanto Oseias focou
sua mensagem na infidelidade idólatra de Israel comparada ao
adultério, Amós concentrou-se na injustiça social. Ambos
anunciaram o juízo em tom ameaçador.

Governo Conturbado

O cenário do governo conturbado acontece na parte final da


atuação profética de Oseias, posteriormente ao reinado de Jeroboão
II. Tiglate-Pileser consolidou-se no trono assírio em 745 a.C. e
iniciou um agressivo ataque na direção do ocidente, assumindo o
controle de grande parte do Crescente Fértil. As nações que
estavam na mira da Assíria tinham inúmeros motivos para
preocupar-se.

De acordo com a nova política militar assíria, o nacionalismo era abafado

mediante a remoção das populações dominadas de suas terras de origem

para porções distantes do império. Por outro lado, eram trazidos estrangeiros

para que se estabelecessem nas terras ocupadas, ficando assim evitadas as

rebeliões subseqüentes. Uma vez conquistada pela Assíria, era deveras difícil

a uma nação libertar-se do jugo.18


Para reter os avanços dessa grande potência, alguns reis do Norte
tiveram que cobrar excessivos impostos do povo a fim de pagar alta
soma de tributo exigida pelo monarca assírio. Os abastados de
Israel revoltaram-se com essa política interna do Reino do Norte, e
um período de instabilidade política atingiu a nação. Diversos reis
israelitas foram assassinados em uma verdadeira guerra pelo trono
de Israel. “O filho de Jeroboão, Zacarias, foi assassinado por Salum,
e este, por sua vez, foi morto por Menaém. Quatro reis de Israel
foram mortos em quinze anos.”19 Essas disputas internas
enfraqueceram a nação e tornaram-na presa e vulnerável diante da
Assíria.

A Polêmica do Casamento do Profeta

Oseias foi um homem chamado por Deus não apenas para falar,
mas também para representar o amor de Deus.20 É nesse ponto
que repousa a maior polêmica do livro e um dos pontos de maior
dificuldade interpretativa no Antigo Testamento. Deus tinha dado
uma ordem ao profeta Oseias: “O princípio da palavra do SENHOR
por Oseias; disse, pois, o SENHOR a Oseias: Vai, toma uma mulher
de prostituições e filhos de prostituição; porque a terra se prostituiu,
desviando-se do SENHOR” (Os 1.2).
O fato é que Oseias casou-se com Gomer e, ao perceber suas
traições, separou-se dela. Ele amava a sua esposa e resgatou-a da
escravidão (mercado da prostituição) dando-lhe uma nova chance,
porém pediu que ela ficasse por algum tempo sem privilégios
conjugais. Tudo o que o profeta vivenciou representava a relação de
Deus com Israel, pois a nação também tinha traído um Deus que,
desde o início, sempre devotou grande amor para o seu povo. Esse
episódio da vida de Oseias, sem dúvida, é o mais polêmico do livro,
trazendo em torno de si diversos questionamentos. A pergunta
principal que surge é como um profeta poderia casar-se com uma
“prostituta” e continuar exercendo o seu ministério sem tornar-se
imoral com essa união. O cumprimento dessa ordem representa
aparentemente um problema moral de grande envergadura. Ao
refletirmos sobre essa questão, surgem algumas possíveis
interpretações. Vejamos:

Interpretação A: O texto é simbólico

Na opinião de alguns estudiosos, a história é uma parábola que


ilustra o imensurável amor de Deus pela nação “adúltera” de Israel.
Nessa concepção, o texto é interpretado como uma alegoria e não é
reconhecido em seu sentido literal. Portanto, segundo essa
interpretação, Oseias não contraiu casamento; apenas contou uma
parábola para ilustrar a infidelidade de Israel. Todavia, o estilo do
texto é narrativo assim como Isaías 7.3 e Jeremias 13.11. Esses
versículos apresentam ordens diretas dadas por Deus a outros
profetas.21 Não cremos que o texto seja fictício.

Interpretação B: Gomer era prostituta

A segunda opinião interpreta o texto no sentido literal, ou seja,


Oseias casou-se com uma prostituta cumprindo a ordem do Senhor.
Nessa linha de interpretação, o mérito da proposta está no fato de
ilustrar corretamente o amor de Deus pela nação pecaminosa de
Israel.22 Assim sendo, Oseias tomou Gomer, uma prostituta, como
sua legítima esposa. Os teólogos que defendem essa posição
argumentam que nossa aversão a esse casamento ilustra com
nitidez a misericórdia de Deus, que suportou diversos pecados de
Israel. Muitos estudiosos abordam essa narrativa partindo do ponto
de vista que Gomer já fosse uma mulher de moral questionável
quando se casou com Oseias.23
Essa interpretação defende que a expressão “mulher de
prostituições” sugere que ela já tinha cometido esse pecado
diversas vezes, ou seja, já tinha um comportamento imoral antes de
casar-se.24 A Lei de Moisés preceituava que uma prostituta deveria
ser apedrejada (Lv 20.10; Dt 22.21-24), porém os tempos eram
outros. Um comportamento que antes era visto como errado,
intolerável, estava sendo aceito pela lassidão moral que assolava
aquele tempo. Aquele período estava sendo marcado pela frouxidão
das normas e pelo descaso para com a Lei Mosaica.
Há também aqueles que discordam dessa posição alegando que
Deus jamais exigiria algo tão repugnante para um de seus profetas,
já que as próprias leis judaicas não permitiam tal união. Era como se
Deus entrasse em contradição, visto que estaria burlando um
princípio que Ele mesmo havia estabelecido (Lv 21.7,14; Pv 23.27;
Mt 19.9). O Senhor — Santo de Israel — teria ordenado que um
profeta santo e separado para o ministério fizesse algo que era
expressamente proibido para os sacerdotes fazerem, a fim de, em
um segundo momento, desaprovar toda a nação de Israel?25 Era
como se Deus levasse o profeta a fazer algo errado para mostrar o
erro de Israel. Isso estaria correto? Baseado nesse problema moral,
Agostinho preteriu a interpretação literal desse texto, afirmando que
a mesma se mostrava incongruente e moralmente imprópria.26
Todavia, veremos, de acordo com a próxima teoria, a existência de
uma interpretação literal que oferece uma resposta mais equilibrada
para o problema aparentemente moral da ordem dada por Deus a
Oseias.
Acreditamos que a verdade de Deus sempre concorda consigo
mesma. Em Deus não há incoerência. O Criador jamais entraria em
contradição com os mandamentos que Ele promulgou. Além do
mais, se Gomer era prostituta antes de casar-se, não constituía um
tipo adequado de Israel.27 Utilizando o princípio da lógica, Oseias
não sofreria tanto com um casamento arruinado pelo adultério, caso
sua mulher já tivesse tido um comportamento imoral em sua
condição de solteira. Seria algo possivelmente previsível. A dor de
Oseias deu-se principalmente porque aconteceu o inopinado. A
derrocada de Gomer para a prostituição apanhou negativamente o
profeta lançando-o em uma situação de grande frustração e intenso
desgosto. Somente desse modo, o profeta vivenciaria sentimentos
homeomorfos ao Criador em sua relação com Israel.

Interpretação C: Gomer não era, mas tornou-se prostituta

Essa interpretação sustenta que, quando Oseias conheceu Gomer,


acreditava que ela fosse pura, porém com o tempo tomou
conhecimento de sua infidelidade. Assim sendo, a expressão
“mulher de prostituições” (Os 1.2) foi usada por antecipação.28
Desse modo, em um tempo posterior à experiência dolorosa da
traição, Oseias relembrou a ordem divina, considerando que seu
casamento foi em conformidade com o plano de Deus, apesar de
sua mulher ter-se mostrado promíscua. Nessa interpretação, Gomer
era casta no princípio e posteriormente se revelou infiel.29 Dessa
forma, Oseias e sua esposa são tipos apropriados de Deus e da
nação de Israel.30
“Vai, toma uma mulher de prostituições” (Os 1.2,3). Estudiosos
debatem que Gomer talvez fosse uma prostituta de seitas pagãs
quando Oseias desposou-a. Isso parece improvável, principalmente
porque Deus tencionava que o seu casamento imitasse a própria
experiência do Senhor com Israel. Parece quase certo que Gomer
era casta quando eles casaram, como Israel foi, inicialmente, fiel ao
Senhor. Mas o tempo passou, e ela abandonou seu marido para
buscar outros amores.31
Dentro dessa linha, os estudiosos acreditam que o profeta Oseias,
no início do livro, está relembrando o começo do seu casamento e
do seu chamado profético, quando assegura que foi o próprio Deus
que lhe ordenou o casamento. Diante desse retrospecto, considerou
seu casamento providencial por Deus, tendo em vista que isso lhe
forneceu a analogia necessária para que ele se dirigisse a Israel.32
“Para demonstrar a Israel a dinâmica da sua rejeição ao Senhor,
Deus permitiu que o profeta Oseias desposasse uma mulher que foi
infiel.”33
Essa interpretação sugere que o profeta não conhecia as
inclinações imorais que mais tarde seriam despertadas em sua
esposa, mas Deus sabia desde o início, e, consequentemente, essa
experiência dolorosa contribuiu para endossar a mensagem
profética de Oseias ao servir de ilustração para a própria nação de
Israel. Com o tempo, o próprio profeta entendeu o propósito divino,
embora tenha sofrido diante de tal situação. Corroboramos com
essa linha de raciocínio, visto que ela minimiza o “problema
aparentemente moral” da ordem divina (Os 1.2) e oferece a Oseias
e Gomer um tipo adequado da relação de Deus com Israel.

Os Filhos de Oseias

Da relação de Oseias com Gomer surgiram três filhos: dois


meninos e uma menina. Não foi somente o matrimônio de Oseias
que ilustrou sua mensagem, mas também seus filhos, pois todos
receberam nomes que transmitiam alertas de Deus a Israel. A
intenção de Deus era revelar a condenação que a nação merecia
por causa de sua conduta má. A notícia vinda dos nomes era
trágica: Israel seria abandonado por Deus e entregue ao juízo.

Jezreel

Seu nome significa “Deus semeia ou espalha”. Tem o sentido de


que em breve Deus provocaria uma grande dispersão em Israel:
“porque, daqui a pouco visitarei o sangue de Jezreel sobre a casa
de Jeú e farei cessar o reino da casa de Israel. E será, naquele dia,
que quebrarei o arco de Israel no vale de Jezreel” (Os 1.4-5).
O primogênito recebeu o nome da região onde Jeú (rei de Israel)
assassinou e massacrou todos os familiares, amigos, líderes e
sacerdotes de Acabe (2 Rs 10.1-14). Jeú tinha sido um rei ungido
pelo profeta Elias e recebera a missão de destruir a dinastia de Onri
(a casa de Acabe), eliminando o baalismo em Israel. Cumpriu com
eficiência a missão e deu início a uma nova dinastia. Porém,
veremos que essa ação foi punida por Deus.
O nome do filho de Oseias fazia menção ao derramamento de
sangue em Jezreel e anunciava a vingança de Deus por causa do
pecado da idolatria praticado por Jeú (2 Rs 10.31). Deus disse que
quebraria o arco de Israel. Essa expressão denotava que Israel não
conseguiria esquivar-se ou se defender do julgamento divino. O vale
de Jezreel tem sido conhecido como um grande campo de batalha
do Oriente Próximo. Essa profecia foi cumprida quando o exército
assírio quebrou o poder de Israel no vale de Jezreel (Jr 44.17,18).

Lo-Ruama

Na segunda gravidez de Gomer, nasceu uma filha que recebeu o


nome de Lo-Ruama, cujo significado é “desfavorecida”, “não amada”
ou “não merecedora de compaixão”. A ordem de Deus foi: “Põe-lhe
o nome de Lo-Ruama; porque eu não me tornarei mais a
compadecer da casa de Israel, mas tudo lhe tirarei” (Os 1.6). O povo
havia abusado dos favores de Deus e agora a misericórdia do
Senhor sobre Israel seria confiscada. Esse texto comprova que a
escolha pelo pecado desvia a misericórdia de Deus sobre o
pecador.
Através desse nome, Deus estava avisando que deixaria de
compadecer-se do seu povo. Em outras palavras, perderia seus
privilégios e seria enviado ao cativeiro, enquanto Judá seria
poupada da Assíria. A piedade e a paciência de Deus tinham sido
exauridas por causa da corrupção moral e degenerescência
espiritual que se proliferavam em Israel de modo cíclico e
reincidente. Lo-Ruama apresenta uma dura verdade: Deus não
tolera para sempre um povo que odeia ser corrigido.

Lo-Ami

O nome da terceira criança significava “Não meu povo”. Deus


disse a Oseias: “Põe-lhe o nome de Lo-Ami, porque vós não sois
meu povo, nem eu serei vosso Deus” (Os 1.9). No Sinai, Israel tinha
feito uma aliança de constituir-se o povo do Senhor e Ele de ser o
seu Deus (Êx 19.1-7). Como Israel abandonara a Lei de Deus, a
relação da aliança estava rompida. No Antigo Testamento, o termo
“Israel” refere-se ao povo eleito por Deus, enquanto “Lo-Ami” faz
referência ao afastamento temporário de Deus sobre esse povo.
Os estudiosos acreditam que, quando Oseias disse que Deus não
teria compaixão deles através de “Lo-Ruama”, muitos israelitas
apoiaram-se na ideia de que, pelo fato de ser o povo de Deus, Ele
não poderia deixar de compadecer-se deles. No terceiro filho, Deus
corta qualquer tipo de vínculo com Israel. Em outras palavras, Deus
está dizendo: “Eu não tenho qualquer tipo de vínculo com vocês.”
Deus nunca deixa alguém que não o tenha deixado primeiro. Essa
rejeição não seria permanente, mas resultaria no exílio e na
destruição do Reino do Norte como entidade política.34 Entretanto,
esse período terminaria diante da conversão de Israel e de sua
reunião com Judá.35

O abandono, no Antigo Testamento, não é rejeição. É como um agricultor que

deixa seus campos abandonados por algum tempo, deixando que as ervas

dominem um campo que deveria florescer. Na maioria das passagens do

Antigo Testamento, a palavra que é traduzida como “abandono”, na verdade,

significa “retirada”. Se persistirmos no pecado, Deus pode retroceder e

permitir que sintamos as consequências naturais de nossas escolhas

erradas.36

Alguns acreditam que o terceiro filho não era de Oseias e


representava a quebra do relacionamento pactual entre os cônjuges,
pois o texto parece sugerir que Oseias questiona se o menino era,
de fato, seu filho.37 Outros defendem que todos os filhos foram
legítimos de Oseias,38 pois Lo-Ami recebe um nome em referência
ao momento de Israel, e não por causa das dúvidas que o profeta
tinha quanto ao seu nascimento.

Sua Mensagem

Enquanto os três primeiros capítulos de Oseias são construídos a


partir de sua história e drama pessoal, a partir do capítulo 4 o
profeta inicia uma acusação formal contra Israel. Suas profecias de
juízo estendem-se até o capítulo 13. No entanto, no último capítulo
do seu livro, profetiza a restauração para Israel (Os 14). O profeta já
tinha experimentado um drama real: um casamento que se
desmoronou. Nesse período, sofreu, magoou-se e, provavelmente,
chegou a não querer mais participar da parábola que ilustrava.
Todavia, o pior já tinha passado (Os 1–3); agora, já estava pronto
para continuar entregando a mensagem de Deus para o povo.
Depois dos três capítulos autobiográficos, ele começa a dar uma
amostra de sua pregação.

Acusação Formal contra Israel (Os 4)

A mensagem dura proclamada por Oseias apresentou o pecado


generalizado de Israel, “porque não há verdade, nem benignidade,
nem conhecimento de Deus na terra. Só prevalecem o perjurar, e o
mentir, e o matar, e o furtar, e o adulterar, e há homicídios sobre
homicídios” (Os 4.1,2). Os sacerdotes, que deveriam ser os líderes
espirituais da nação, tornaram-se coniventes a esses pecados,
porque obtinham vantagens pessoais. O texto revela que os
sacerdotes sobreviviam das ofertas pelo pecado, regularmente
oferecidas pelo povo (Os 4.8). Essa era a principal fonte do sustento
dos sacerdotes. Utilizando uma lógica capitalista, quanto mais
pecados fossem cometidos, maior e mais intenso seria o fluxo das
ofertas e as vantagens que eles teriam.
A imoralidade alastrou-se em Israel de modo que as jovens
prostituíam-se, e as mulheres casadas adulteravam. Os homens
não poderiam reivindicar juízo sobre elas porque também se
desviavam com as meretrizes (Os 4.13,14). Toda essa imoralidade
era sustentada pela prática da prostituição cultual. O culto ao
Senhor descaracterizara-se, de modo que os lugares que antes
eram conhecidos como centros de adoração tornaram-se locais
regados pela idolatria. “Betel”, que significa “casa de Deus” no
original, é ironicamente apelidada por Oseias de “Bete-Áven” (Os
4.15), que significa “casa dos ídolos”.39

A Apostasia entre os Líderes Religiosos (Os 5–7)

Oseias continuou repreendendo a nação de Israel. Entretanto,


naquele momento, sua profecia foi endereçada aos reis e
sacerdotes, ou seja, à liderança civil e religiosa. “Ouvi isto, ó
sacerdotes, e escutai, ó casa de Israel, e escutai, ó casa do rei,
porque a vós pertence este juízo, visto que fostes um laço para
Mispa e rede estendida sobre o Tabor” (Os 5.1). Tabor e Mispa eram
locais históricos de adoração a Deus que foram paganizados. Os
responsáveis por essa paganização dos centros de adoração foram
os líderes religiosos e civis. Estavam completamente atolados na
lama do pecado. O profeta denunciou que a prostituição estava
presente na vida dos reis e sacerdotes (Os 5.4). Eles mantinham um
comportamento soberbo (Os 5.5) e andavam vaidosamente (Os
5.11). O juízo sobre eles era algo certo (Os 5.9).
Deus disse por meio do profeta que estava cansado de sacrifícios
desprovidos de verdade. O Criador não estava interessado no
holocausto do povo, e sim em ser conhecido por eles (Os 6.6). Os
sacerdotes chegaram ao cúmulo de roubar e cometer assassinatos
(Os 6.9). Os crimes horrendos permeavam em todas as classes da
sociedade. Desse modo, reis e príncipes alegravam-se por saberem
que a sociedade era tão ruim quanto eles (Os 7.3). A nação, nas
palavras de Oseias, era semelhante ao bolo que não foi virado, isto
é, um bolo que fica queimado de um lado e cru do outro, tornando-
se impróprio para ser comido (Os 7.8).

A Iminência do Castigo (Os 8–10)

O castigo estava próximo! O profeta comparou o invasor assírio à


figura de uma águia que pairava sobre Israel e atacaria em breve
(Os 8.1). A nação virou as costas para Deus; como consequência,
seria perseguida pelos seus inimigos (Os 8.2). O povo nomeou reis
e príncipes sem o conselho divino. Além do mais, investiu suas
riquezas no fortalecimento da idolatria no país (Os 8.4). O profeta
anunciou: “semearam ventos e colherão tempestades” (Os 8.7,
NTLH). Israel achou que poderia livrar-se do juízo divino aliando-se
à Assíria, mas tudo isso seria em vão (Os 8.9). A nação foi
comparada ao jumento montês; esse animal é conhecido por
percorrer à toa o deserto e por ter um comportamento obstinado,
precipitado, impossível de amansar. A Lei de Deus era estranha
para o povo (Os 8.12), e o Criador tornou-se esquecido (Os 8.14).
A nação foi comparada à figura de uma meretriz (Os 9.1). Deus
disse ao povo que os ídolos adorados não lhes dariam as colheitas
fartas esperadas (Os 9.2). Por causa de seus pecados, o povo seria
rebaixado à condição de escravo (Os 9.3). O dia da retribuição havia
chegado, e Israel perceberia a proximidade do juízo (Os 9.7). O
profeta do Senhor que falava a verdade e não lisonjeava o povo era
visto como um inimigo dentro de sua própria casa (Os 9.9). Israel
perderia a sua glória (Os 9.11) e tornar-se-ia infrutífero (Os 9.16).
Eles eram culpados diante de Deus (Os 10.2); como consequência,
seriam envergonhados por causa do seu próprio conselho (Os 10.6).
O juízo de Deus seria iminente (Os 10.10,13-15).
Oseias viu o cumprimento de todas essas profecias. Em 722 a.C.,
a Assíria invadiu o Reino do Norte, liderados por Sargão II, sucessor
de Salmanasar. Depois da exigência de um pesado tributo, Oseias,
o último rei de Israel, não aguentando mais essa situação, pediu
ajuda ao Egito. Ao suspeitar dessa atitude, o monarca assírio lançou
o rei na prisão (2 Rs 17.4); logo após, o poderoso exército assírio
sitiou a capital (Samaria). Após três anos de cerco, a capital do
Reino do Norte foi, finalmente, invadida, muitos nortistas foram
mortos, e os habitantes de Israel sobreviventes foram deportados
em cativeiro para as terras assírias (2 Rs 17.5,6). Assim terminou,
de forma trágica, a história do reino das 10 tribos ao norte de Israel.
Os assírios eram extremamente cruéis. A história deles foi
pontilhada por inúmeros casos de mutilação. Muitos de seus
vencidos tiveram as mãos e os pés, o nariz e as orelhas cortados e,
também, os olhos arrancados. Houve muitos casos de pessoas que
foram queimadas vivas. Eles eram incompassivos diante dos povos
conquistados. Não destruíam uma nação apenas no sentido militar,
mas também no aspecto histórico e cultural. Removiam os
capturados de uma região para outra, misturando-os com diversas
raças, forçando-os a perder os bens, a origem, religião e as suas
mais nobres tradições. Com essa estratégia subjugadora, a Assíria
descaracterizava os povos conquistados, destruindo a identidade
cultural deles. A mistura das raças era uma forma cruel de
enfraquecer e dizimar a cultura dos exilados. Cumpriram-se as
palavras de Oseias: “todas as tuas fortalezas serão destruídas” (Os
10.14).

O Amor de Deus e a Ingratidão de Israel (Os 11–13)

Há poucas passagens nas Escrituras que se aproximam das


expressões emocionais do amor de Deus sobre seu povo, tal como
vemos em Oseias, a partir do capítulo 11.40 O amor de Deus sobre
Israel remonta a suas origens, quando o povo sofria no Egito (Os
11.1). O Senhor tentou atraí-los com “cordas de amor” (Os 11.4); de
um modo meigo e humano, tentou disciplinar e ensinar o caminho
da justiça para eles. Israel foi comparado a um menino (Os 11.1-7),
e, como um pai ensina o seu filho, Deus investiu nessa nação
educando-a com benevolência e paciência. Apesar da ira justificada,
Deus sentia compaixão pelo povo (Os 11.8-11).
O profeta destacou as alianças que Israel fizera com o Egito e a
Assíria (Os 12.1). Essa diplomacia mentirosa que assinava pactos
secretos com as duas principais potências daquela época, tentando
colocar uma nação contra a outra, a favor de Israel, certamente
levaria o povo à destruição. O profeta mostra que Israel adotou a
mentalidade de um mercador (Os 12.7); além de ter abraçado a
idolatria licenciosa dos países vizinhos, assumiu o comportamento
arrogante e orgulhoso típico dos comerciantes cananeus,
acreditando que suas riquezas eram-lhes suficientes a ponto de
cobrir os seus pecados (Os 12.8).
Mesmo Israel sendo alvo do amor divino, seus pecados
multiplicaram-se (Os 13.2). A nação foi ingrata, pois padecia no
deserto quando fez um pacto de servir ao Senhor de todo o coração.
Não tinha nada! Todavia, quando os israelitas receberam a terra e
ficaram fartos, enriquecidos, esqueceram-se de Deus (Os 13.5-9). O
povo sem gratidão que tinha usufruído do amor de Deus
experimentaria um trato diferente a partir daquele momento: “Serei,
pois, para eles como leão” (Os 13.7). A figura do pai que educa o
filho é trocada pelo animal que ataca a presa. Samaria ficaria
deserta por causa de sua ingratidão (Os 13.16).

A Promessa de Restauração (Os 14)

Oseias terminou o seu livro com um apelo final a Israel. Pela última
vez, esforçou-se para despertar seus compatriotas. A base para a
restauração da nação está no arrependimento (Os 14.2). O profeta
anuncia que o Senhor dos Exércitos livrará Israel de sua
perversidade e de modo voluntário amaria seu povo (Os 14.4). Deus
faria mais do que os perdoar; iria transformá-los, para que sua ira
fosse desviada deles para sempre. Depois do juízo, Israel ficaria
livre dos ídolos (Os 14.8).
Deus prometeu ser para o seu povo como orvalho; desse modo, a
nação floresceria novamente. Em outras palavras, como o orvalho
refrescante restaura a vida e remove a maldição do deserto, Deus
interromperia o calor da provação restaurando o seu povo. Uma vez
renovado, Israel desabrocharia como lírio nos vales bem regados
(Os 14.5). “Em forma poética primorosa, o Senhor usa o vocabulário
da natureza para prometer cura, amor, refrigério, atratividade,
reavivamento e crescimento.”41

O Casamento como Reflexo da Comunhão com Deus


Na profecia de Oseias, a relação do povo de Israel com Deus foi
metaforicamente comparada a um casamento, cujo principal
baluarte é o amor (Os 2.7,16). O casamento simboliza a mais nobre
expressão de afeto mútuo e a mais profunda comunhão humana,
por isso o próprio Deus utilizou-se do exemplo do casamento no afã
de expressar a incalculável profundidade do seu amor por nós (Is
54.5; Jr 3.14; Ez 16.8). O casamento é um pacto solene celebrado
de forma bilateral, composto também de promessas, nas quais
ambas as partes empenham-se ao cultivo do amor e da fidelidade
para o custeamento da aliança. Portanto, a metáfora do casamento
traduz com muita propriedade o vínculo espiritual entre Deus e
Israel. A metáfora do amor conjugal foi replicada no Novo
Testamento para expressar o relacionamento de Cristo com a Igreja,
comparando Cristo com o noivo e a Igreja com a noiva (Ef 5.24-32;
Ap 19.7-9).
Assim como Oseias resgatou Gomer do mercado da prostituição,
Deus resgataria seu povo do pecado e da ruína para restaurá-lo. Na
linguagem do amor conjugal, Deus prometeu desposar Israel (Os
2.16-20). O verbo desposar é utilizado três vezes para ressaltar a
amplitude do amor restaurador de Deus por Israel. “Naquele dia”,
Israel deixará a prostituição de lado para viver a plenitude do
casamento com o seu Deus, desfrutando de uma relação verdadeira
e fiel. Para vivermos a intimidade de um relacionamento verdadeiro
com Deus, precisamos renunciar ao pecado. Casamento implica
renúncia e fidelidade. O amor genuíno a Deus leva-nos ao
comprometimento total. Devemos amar ao Senhor com toda a força
do nosso coração (Dt 6.5; Mt 22.37; Lc 10.27).
A pregação de Oseias apresenta um Deus que ama de modo
incondicional e insistente o ser humano. Assim como Gomer não foi
recíproca com o amor que recebera de seu esposo, Israel não
correspondeu ao amor de Deus (Os 2.5,9-13). Tal constatação pode
ser vista e comprovada nos registros do Antigo Testamento que
apresentam a história de Israel. Eles foram ingratos. Esqueceram-se
dos milagres que Deus operou em favor deles. Facilmente
olvidavam da fé e da aliança com o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.
Trocaram-no por outros amores (ídolos). Traíram ao Senhor. Foram
infiéis. A aliança de Israel com Deus estava sendo constantemente
invalidada por causa da ingratidão e teimosia do povo (Os 10.11).
Enquanto Deus mostrava-se fiel, Israel — na linguagem do
casamento — traía ao Senhor com os ídolos (Os 4.17; 8.4; 13.2).
A maior prova do nosso amor a Deus é a obediência para com os
seus mandamentos (1 Jo 5.2-3; 2 Jo 1.6). Cristo ensinou-nos: “Se
me amardes, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). O amor
é a raiz, e a obediência é o fruto. Se o amamos, obedecemos a Ele.
É simples. O amor é o que nos impele à obediência e à fidelidade.
Enquanto a obediência é a evidência de um relacionamento com
Deus, a desobediência é a comprovação da inexistência desse
relacionamento. A relação com Deus não se sustenta com os pilares
do conhecimento intelectual ou do discurso religioso, mas com as
colunas da obediência e da fidelidade.

1 Na Bíblia Hebraica, os “Doze Profetas Menores” fazem parte de um único


volume.
2TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 291.
3TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 291.
4 SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo:
Vida Nova, 1995, p. 368.
5LOPES, Hernandes Dias. Oséias: o amor de Deus em ação. São Paulo:
Hagnos, 2010, p. 15.
6CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3439.
7 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 273.
8HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol. 4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 910.
9CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3439.
10HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol. 4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 909.
11MANUAL BÍBLICO SBB. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p.
483.
12RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 523.
13 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol.5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3439.
14ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD,
1997, p. 215.
15HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol. 4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 909.
16 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3440.
17BROWN, Raymond. Entendendo o Antigo Testamento. São Paulo: Shedd
Publicações, 2004, p. 150.
18 SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo:
Vida Nova, 1995, p. 369.
19 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3440.
20LOPES, Hernandes Dias. Oséias: o amor de Deus em ação. São Paulo:
Hagnos, 2010, p. 13.
21MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 741.
22MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 741.
23 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 16.
24 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 41.
25PULSEY, E. B. The minor prophets. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Book House,
1950, p. 465.
26 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 29.
27MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 741
28PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1127.
29HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 358.
30MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 741.
31RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 468.
32PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1129.
33RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 467.
34PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1130.
35 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 314.
36RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 469.
37MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 742.
38 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3448.
39 SANTOS, João Batista Ribeiro. Dicionário bíblico. São Paulo: Didática
Paulista, 2006, p. 66.
40RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 474.
41MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 747.
CAPÍTULO 3

Joel: O Poder do Espírito Santo


nos Últimos Dias

A vívida e enérgica mensagem de Joel teve como ponto de partida


uma terrível infestação de gafanhotos que devastou e destruiu as
plantações do sul (Judá). Foi uma época de pânico nacional sem
paralelo na história.1 Enquanto muitos sacerdotes, profetas e
homens comuns interpretaram a tragédia como um desastre natural,
uma “má sorte” ou “azar”, Joel — munido de uma visão espiritual
mais aguçada — percebeu que, por trás daquela calamidade, Deus
estava tentando atrair a atenção de Judá. O profeta não estava
espiritualizando eventos naturais, contudo percebeu que aquilo não
era unicamente um desastre, mas um juízo divino sobre seus
contemporâneos. O profeta foi mais além: apropriou-se do
simbolismo daquela tragédia para apregoar a mensagem futurística
sobre o “Dia do Senhor”.
Enquanto Oseias apropriou-se de uma tragédia pessoal para
compor a sua mensagem, Joel utilizou-se de uma calamidade
nacional para escrever as linhas do seu sermão profético. Oseias e
Joel ensinam-nos uma grande lição: nossas experiências têm muito
a ensinar-nos, sobretudo do ponto de vista espiritual. Essa lição é
valiosa, pois, se a aplicarmos na prática, nossas lágrimas e dores
encontrarão um propósito. Desse modo, entenderemos o que Paulo
disse quando afirmou que “todas as coisas contribuem juntamente
para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são
chamados por seu decreto” (Rm 8.28).
A pregação de Joel possui alguns propósitos principais. Em
primeiro lugar, condenou a indiferença do povo, que, apesar de ter
sido punido pelo Senhor, permanecia com o coração enrijecido e
apático. Em seguida, o profeta anunciou que um grande juízo divino
aproximava-se de Judá em razão do seu estado de insensibilidade
espiritual. Em vez de humilharem-se, as pessoas permaneceram
insensíveis e inertes espiritualmente. Esse novo juízo seria
incomparavelmente maior àquela experiência trágica da infestação
de insetos destruidores da colheita. O profeta apropriou-se do
símbolo recente da praga de gafanhotos para referir-se a uma
grande derrota militar que a nação sofreria. Provavelmente, estava
falando da derrota para a Babilônia. Naquele momento, o tom da
mensagem era catastrófico e visava despertar o povo.
Em terceiro lugar, Joel conclamou o arrependimento da nação por
meio de manifestações evidentes de penitência: jejum, lágrimas,
roupa de saco, cinzas, luto, choro e clamor. O povo em sua
obstinação havia ofendido sobremaneira a Deus, de modo que a
situação espiritual da nação requeria medidas extremas de
arrependimento. Somente assim obteriam misericórdia. Joel fez um
apelo aberto e direto aos seus compatriotas. Eles deveriam romper
com aquele estado passivo e inerte no fito de buscar ao Senhor de
todo o coração.
O último propósito do livro foi trazer consolo ao apresentar as
promessas do Senhor para o seu povo. Ao mesmo tempo em que
Joel anunciou todo o terror que envolverá o “Dia do Senhor”, o
profeta foi categórico ao afirmar que, antes desse tempo, haverá um
derramar do Espírito de Deus sobre a vida de muitas pessoas. Joel
fez questão de ensinar que, apesar do contexto desesperador de
Judá, Deus não se olvidara do concerto que fizera com seu povo,
mas restauraria os remanescentes fiéis por meio do derramar do
Espírito Santo. Entre os assuntos finais trabalhados pelo profeta
está o juízo de Deus sobre as nações inimigas e as bênçãos que
serão concedidas a Judá.

Informações sobre o Profeta: Seu Nome

O nome Joel, no hebraico “Yô´él”, significa “Yahweh é Deus” ou “O


Senhor é Deus”. Sabemos que, na cultura hebraica, o nome do
indivíduo tinha uma conexão muito forte com sua vida. Diferente de
nossa cultura ocidental, os pais não escolhiam o nome dos filhos
pela beleza, mas, sim, por causa do seu significado espiritual.2 Seu
pai chamava-se “Petuel” (Jl 1.1), cujo significado é “persuadido por
Deus”.3 A Bíblia não descreve mais nada sobre Petuel, todavia é
possível deduzirmos que seu pai era um homem temente a Deus,
sendo o nome “Joel” uma confissão de fé da parte de Petuel.4
Joel era um nome comum naquela época. O Antigo Testamento
chega a descrever treze homens que receberam esse nome.5 As
tentativas de determinar a identidade de Joel esbarram-se no fato
de esse nome ser bastante comum no Antigo Testamento (1 Sm 8.2;
1 Cr 4.35; 5.4,8,12; 6.33,36; 7.3; 11.38; 15.7,11,17; 23.8; 26.22;
27.20; 2 Cr 29.12; Ed 10.43; Ne 11.9).6
Podemos dizer que o profeta Joel em toda a Bíblia é citado apenas
em duas ocasiões: na apresentação do seu livro (Jl 1.1) e pelo
apóstolo Pedro em lembrança ao cumprimento de suas profecias (At
2.16).7 O livro de Joel não fornece nenhuma informação mais
detalhada quanto à sua vida pessoal;8 portanto, as informações
propostas são apenas especulações.

Sua Ocupação

As profecias de Joel são belas poesias literárias. Ao estudarmos o


seu livro, veremos a forma dramática e real como se posiciona o
profeta. Ele fala com autoridade e demonstra conhecimento de
causa sobre a voracidade e destrutibilidade do ataque dos
gafanhotos. Joel foi um grande estudioso que analisou de forma
pormenorizada os eventos naturais para fazer suas comparações
literárias extraindo dessas situações um fundo espiritual. Era um
homem instruído.
Devido à sua familiaridade com a cidade de Jerusalém, com o
Templo e com a adoração litúrgica daquele lugar (Jl 1.9,13-16; 2.14-
17,32; 3.1,6,16), alguns o identificam como um profeta do culto ou
do Templo, chegando a acreditar que, além de profeta, tenha sido
sacerdote. Se ele não era um profeta do Templo, pelo menos era um
profeta que valorizava e frequentava o Templo.9 O texto nada revela
sobre a vida pessoal de Joel. Chegamos a essas breves conclusões
por inferência.

Local de Atuação

O livro deixa claro que Joel desenvolveu o seu ministério em


Jerusalém.10 Morou e profetizou em Jerusalém. Ele tinha amplo
conhecimento dos acontecimentos em torno do Templo (Jl 1.13,14;
2.17). “O profeta menciona inúmeras locações no Sul,
demonstrando extrema familiaridade com sua terra e sua gente”.11
Uma tradição judaica diz que ele era natural de Betom, da tribo de
Rúben.12 Joel endereçou suas profecias aos “filhos de Sião” (Jl
2.1,15,23,32). Sião é o nome de uma das colinas de Jerusalém,
que, por extensão, se tornou sinônimo da cidade de Davi.

Quando o Livro Foi Escrito?


Esse é o ponto que mais atrai divergência e especulação ao livro.
A datação depende de algumas alusões internas do livro. Essas
conjecturas possuem múltiplas explicações e possibilidades. Muitos
teólogos chegaram a recomendar que o mais prudente seria deixar
a data de composição do livro sem definição, considerando que
essa não era uma questão essencial para a interpretação da
profecia de Joel. Essa é uma recomendação sábia. Os debates em
torno da cronologia da obra são intermináveis, e as propostas
apresentadas variam do século XIX a.C. ao século III a.C., com
teorias apresentando ainda as datas do pré e do pós-exílio.13
Lawrence Richards considera que o livro foi escrito um pouco
antes da destruição do Templo em 586 a.C.14 Roy B. Zuck acredita
que Joel, junto com Ageu, Zacarias e Malaquias, profetizou para a
comunidade pós-exílica.15 Os críticos modernos geralmente situam
o livro em uma data tardia pós-exílio, enquanto os estudiosos mais
conservadores acreditam que o livro talvez seja o mais antigo entre
os profetas menores,16 tendo sido escrito durante o reinado de
Joás.17 Existiram dois reis que se chamavam Joás: um de Israel, e
outro de Judá, e ambos reinaram em datas próximas.18 O Joás de
Judá reinou de 837 a 800 a.C. Tendo isso em vista, alguns
comentaristas chegam a propor que o livro de Joel tenha sido
escrito no início do reinado de Joás por volta do ano 830 a.C.19
Outra possibilidade é que o livro tenha sido escrito durante o reinado
de Uzias, próximo a 750 a.C.20
Essas especulações e deduções surgem porque não temos no
livro nenhuma referência específica sobre o tempo em que Joel
entregou sua mensagem. Juntamente com outros cinco profetas
menores — Obadias, Jonas, Naum, Habacuque e Malaquias —, o
profeta Joel não faz nenhuma referência a reis, nem alusão a datas.
Reiteramos que o texto de Joel não necessita do estabelecimento
de uma data precisa para ser interpretado da forma correta. Nas
palavras de Macarthur, a data do livro não pode ser estabelecida
com precisão; ainda assim, o impacto disso na leitura de Joel é
mínimo, porque sua mensagem é atemporal ao apresentar
princípios que podem ser aplicados e repetidos em qualquer era.21

A Praga dos Gafanhotos

Joel apresentou a devastação, a seca e a fome que atingiu a


nação de Judá ao ser atacada por uma praga de gafanhotos sem
precedentes históricos. “Junto com a praga de gafanhotos, há uma
terrível seca (Jl 1.19-20), e a combinação dos dois eventos trouxe
escassez absoluta para a terra”.22 O texto é narrativo (Jl 1.3). A
ideia originária do profeta era registrar para as gerações posteriores
o relato da catástrofe que atingiu a nação (Jl 1.3). A profecia do
capítulo 1 de Joel descreve um evento histórico flagelante que
atingiu a nação de Judá.
A devastação foi total. “O que ficou da lagarta, o comeu o
gafanhoto, e o que ficou do gafanhoto, o comeu a locusta, e o que
ficou da locusta, o comeu o pulgão” (Jl 1.4). “Essas palavras, no
original hebraico, não expressam insetos de diferentes espécies,
mas simplesmente o mesmo inseto, o gafanhoto, em quatro etapas
de seu desenvolvimento”.23 Portanto, a “lagarta” representa o
gafanhoto em seu estágio inicial, ao nascer, sem asas, quando
apenas consegue roer. O “gafanhoto” representa o seu primeiro
estágio de desenvolvimento, quando começa a procriar e multiplicar-
se de forma assustadora; no seu estágio de “locusta”, desenvolve
asas, mas ainda não voa, apenas salta e já começa a devorar. Por
último, ao tornar-se “pulgão”, já está plenamente desenvolvido, com
asas completas; desse modo, devora tudo o que estiver no seu
caminho.24
O texto parece indicar que os compatriotas de Joel agiram com
indiferença diante da tragédia. Acreditavam que essas situações
simplesmente “aconteciam”. Quando o profeta começa sua
mensagem com “ouvi isto” (Jl 1.2), na verdade está fazendo uma
invocação solene para chamar a atenção do seu povo. O seu
discurso envolve a todos, desde os anciãos (sábios) até todos os
moradores da terra (Jl 1.2). Os ébrios deveriam despertar-se (Jl
1.5); a virgem deveria lamentar (Jl 1.9); e os sacerdotes deveriam
gemer e clamar (Jl 1.13). Ébrios nesse contexto não são apenas
aqueles que consomem bebidas de forma imoderada, mas parece
indicar a classe rica que deveria chorar e gritar por causa da
destruição das vinhas que acabou com seus estoques.
A devastação foi tão grande que não havia material para oferecer
a oferta de manjar, que acompanhava o oferecimento diário que se
fazia com o incenso (Jl 1.9). O mesmo ocorria com as libações com
o vinho. A seca alastrou-se pela terra (Jl 1.12). A interrupção da
adoração ao Senhor deveria ser considerada uma grande
calamidade, sendo motivo de grande lamentação (Jl 1.13).
Os sacerdotes deveriam dar o exemplo e valerem-se daquela
calamidade para apregoarem um jejum coletivo. Deveriam trazer o
povo de volta para Deus (Jl 1.14). Os animais padeciam porque não
havia pasto (Jl 1.18). A praga dos gafanhotos foi comparada a um
fogo que consumiu os pastos, as árvores e secou os rios (Jl
1.19,20). Joel ficou incomodado com a apatia e o marasmo dos
seus compatriotas; sem hesitar, chamou a atenção deles dizendo
que mais calamidades estavam por vir. O profeta estava convicto de
que aquele era apenas um sinal que apontava para um juízo
porvindouro ainda maior. De acordo com Joel, eles deveriam
imediatamente se refugiar no Senhor, abandonar os erros e invocar
o perdão de Deus.

A Resposta de Deus para o Arrependimento


A boa notícia de Joel é que ninguém seria obrigado a passar por
um castigo compulsório. Se o povo se arrependesse, Deus mudaria
o destino de Judá. Se a nação se voltasse para Deus de todo o
coração, o Senhor responderia com graça, misericórdia, provisão e
bondade. Joel ensina-nos que o Deus do juízo é também o Deus da
misericórdia. O propósito de Deus não é castigar o seu povo para
destruí-lo, mas discipliná-lo para purificá-lo. O que o Senhor
realmente espera de nós é que sejamos sinceros e fiéis para com
Ele. Quando agimos com inteireza de coração, recebemos da parte
de Deus graça, bondade e misericórdia que são traduzidas
concretamente em bênçãos materiais e espirituais.
As bênçãos materiais não devem ser interpretadas como “uma
fortuna incomum”, mas como “um cuidado divino excepcional” que
se manifesta em provisão diária e realização pessoal com aquilo
que se tem. A prosperidade material não é determinada com “o
quanto se tem”, mas em “como somos realizados e felizes com
aquilo que temos”. Não se trata de índices de riquezas e bens
materiais aferidos em valores humanos, mas em bênçãos pessoais
e plenas, sentidas na alma e usufruídas diariamente em uma vida
marcada pela simplicidade de coração.

A Promessa de Fartura
Joel declarou que a resposta divina viria com a providência dos
mantimentos que antes estavam escassos: trigo, vinho e óleo (Jl
2.19). Deus satisfaria as necessidades básicas do seu povo. A
vergonha diante das outras nações cessaria. Deus se manifestaria
não apenas como o provedor de recursos, mas também como o
protetor do seu povo, pois os inimigos que antes os afligiam não os
incomodariam mais. O Senhor salvaria o povo dos seus inimigos (Jl
2.20,21).
Todos os que antes sofreram seriam recompensados, inclusive os
animais e a própria vegetação (Jl 2.22). A vida seria restaurada, e o
povo do Senhor voltaria a alegrar-se. As bênçãos seriam tantas que
haveria chuva temporã e serôdia. Os céus seriam abertos, e a seca
teria um fim. Deus prometeu as chuvas de setembro-outubro
(temporã) e março-abril (serôdia) para irrigar e fertilizar a terra. No
Oriente, a chuva temporã cai no tempo da semeadura. Ela é
necessária para que a semente possa germinar. A chuva serôdia já
cai perto do fim da estação e tem a finalidade de amadurecer o grão
e prepará-lo para a ceifa. Se a chuva temporã não fizesse o seu
trabalho, a serôdia não desenvolveria a semente até a perfeição. Se
Deus retivesse a chuva pouco antes da colheita, mesmo com a
planta já crescida, o fruto não apareceria e de nada teria adiantado
as primeiras chuvas que fizeram a planta crescer. Nessa metáfora
da chuva, Deus prometeu fartura ao povo.
O objetivo dessa palavra é mostrar a soberania de Deus sobre a
natureza como um testemunho tanto para Israel quanto para as
outras nações. Deus ordenaria aos recursos naturais, à chuva e ao
próprio desenvolvimento da colheita e do fruto que fossem
derramados na medida correta para trazerem prosperidade sobre
Israel. Devemos considerar que essa palavra foi direcionada a
Israel, e nenhuma aliança de “benefícios materiais” foi estabelecida
entre Deus e a Igreja.25 Portanto, utilizar textos assim para
fundamentarmos a “Teologia da Prosperidade” constitui-se um
grande equívoco. Todavia, acreditamos que o arrependimento e a
conversão sincera desencadeiam bênçãos incontáveis sobre o povo
de Deus.

A Promessa do Derramar do Espírito

O derramamento do Espírito Santo segundo o profeta Joel só


aconteceria depois que o povo se voltasse para Deus em atitude de
arrependimento e obediência. Sua profecia ensina-nos claramente
que não adianta esperarmos o derramar do Espírito Santo se
vivemos concentrados no pecado. Os grandes avivamentos na
história do povo de Deus começaram com santificação e
consagração. Deus anseia em encher-nos com o Espírito Santo,
mas, para isso, precisamos renunciar a iniquidade e voltarmo-nos
para o Senhor em uma busca constante, com uma fé envolvente,
firmada em um cristianismo comprometido. Se almejamos tanto o
avivamento a ponto de dispormo-nos a renunciar tudo aquilo que
nos impede de experimentarmos o agir de Deus em nós, devemos
estar convictos e confiantes de que o Senhor dos altos céus enviará
sobre nós o seu Espírito.
Se antes Joel profetizou uma bênção material, nesse momento do
seu oráculo pressagiou bênçãos espirituais (Jl 2.28,29). No início
desse oráculo, ele havia profetizado a restauração dos danos
sofridos pela calamidade que sobreviria sobre Judá, mas, nesse
texto, prognosticou uma nova era que seria inaugurada “depois”. É
perceptível pelo contexto da passagem que a palavra “depois”
considera um período pós-calamidade dos gafanhotos, pós-
arrependimento e restauração espiritual do povo de Deus. Nesse
texto, o profeta Joel desviou-se do físico e material para focar o
espiritual e o eterno.26 Pedro interpretou esse “depois” como sendo
os “últimos dias” (At 2.17). Acreditamos que “os últimos dias”
expressos por Pedro seja um período bem abrangente, que começa
com a primeira vinda de Cristo na terra e será encerrado na sua
segunda vinda.27 Portanto, estamos dentro da época profetizada por
Joel, visto que o “derramamento do Espírito assinalará os tempos do
fim”.28
Acreditamos que o derramar do Espírito Santo na profecia de Joel
marca o período da dispensação da Igreja. Vivemos o cumprimento
dessa promessa. O Espírito Santo não é uma força impessoal, é
uma pessoa; tem inteligência (Rm 8.27), emoções (Ef 4.30) e
vontade (At 16.6-11; 1 Co 12.11). É um ser divino (2 Sm 23.2,3; Mt
18.19) consubstancial a Deus (1 Co 2.10-11). Sua atuação em nós
tem a finalidade de potencializar o serviço cristão (Lc 24.46-49; At
1.8), preparando o mundo para o “Dia do Senhor” (Jo 16.7-11).
Acreditamos que, nesses últimos dias, a Igreja foi revestida de
poder por meio do batismo com o Espírito Santo e dos dons
espirituais empregados para a promoção do Reino de Deus.
O texto diz que o Espírito seria derramado sobre toda a carne (Jl
2.28). O termo “derramar” indica claramente que uma medida
abundante do Espírito Santo seria despejada sobre o povo de Deus
e envolveria toda a carne. No Antigo Testamento, somente
sacerdotes e profetas recebiam a unção, porém Joel anunciou que,
em um tempo porvindouro, todos a receberiam (Jl 2.28). Naquele
momento de sua profecia, Joel apresentou com ineditismo ousado a
configuração de uma nova relação no trato de Deus com seu povo.
O texto descreve que os efeitos dessa efusão do Espírito são as
profecias, sonhos e visões. O derramar de Deus sobre nós
manifesta-se concretamente na frutificação dos dons do Espírito.
De acordo com o profeta Joel, o derramar do Espírito Santo seria
uma bênção universal: não só para Israel, mas para todos os povos,
visto que não haveria distinção de sexo, pois os “filhos e as filhas
profetizarão”; do mesmo modo, não haveria barreiras de classe
etária, pois “velhos e jovens terão visões”, e também não haveria
preconceitos sociais ou distinção de pessoas, pois até sobre “as
servas e servos derramarei o meu Espírito naqueles dias” (Jl
2.28,29). Esse oráculo apontava para a realidade do batismo no
Espírito Santo, conforme registrado em Atos 2.
“Os últimos dias” começam com o derramar do Espírito que,
segundo Pedro, se cumpriu no dia de Pentecostes (At 2.17) e será
estendido até o “Dia do Senhor”. Entre esses dois eventos, o profeta
anunciou que haveria fenômenos extraordinários na terra e no céu
(Jl 2.30). “Terra, sangue e fogo e colunas de fumaça” indicam
derramamento de sangue, aumento da violência, proliferação das
guerras de modo que haveria diversas colunas de fumaças surgindo
das cidades em guerra. São os sinais que antecedem o “Dia do
Senhor”. Embora o texto de Joel 2.28-29 tenha-se cumprido
parcialmente no dia de Pentecostes, é de consenso geral que os
versículos subsequentes apontam para um período escatológico (Jl
2.30-32).
A profecia de Joel tem sido assustadoramente atual em nosso
tempo. O crescimento vertiginoso do pentecostalismo,
particularmente em dois terços do mundo, tem sido alvo da reflexão
e do reconhecimento inclusive daqueles cristãos que não acreditam
na atualidade dos dons espirituais.29 O Espírito Santo está sendo
derramado de modo tão evidente que fica difícil contestar tal ação.
O maior fruto disso tem sido a conversão de muitas pessoas. O
pentecostalismo foi reconhecido como “um movimento evangelístico
dinâmico que estabeleceu missões nos quatro cantos do globo”.30
Iniciamos o século XXI debaixo do movimento vivo e dinâmico do
Espírito Santo sobre a Igreja. Cremos que assim será até a volta de
nosso Senhor Jesus Cristo.

O Julgamento das Nações

“O capítulo 3 de Joel dedica-se a descrever a restauração final de


Israel e o Julgamento das Nações, dois eventos que se darão no
Final dos Tempos”.31 O texto destaca que Deus mudará a sorte de
Judá (Jl 3.1). Trata-se do capítulo da exaltação do povo de Deus
diante do temível “Dia do Senhor”. Na primeira parte do livro que
envolveu a descrição da praga dos gafanhotos, Joel fala; nessa
segunda parte, que vaticina a futura vitória do povo de Deus, é Deus
quem fala.32
Se nos capítulos 1 e 2 Deus tratou especificamente com o seu
povo aqui, chegou a hora de aplicar a vara do juízo às nações. A
mensagem de Joel no capítulo 3, de modo simples, pode ser
resumida na compreensão de que, em defesa do seu povo (Israel),
Deus entra em cena para julgar as nações, proporcionando um
desfecho triunfante na história da humanidade.
No texto de Joel, Deus está convocando de modo oficial todos
aqueles que se levantaram contra sua vontade para reunir-se no
vale, que é o local do combate. O clima é de guerra. Os valentes
são convocados (Jl 3.9). As espadas devem ser forjadas (Jl 3.10).
Quando todos estiverem assentados e reunidos no local
determinado por Deus, haverá o julgamento proferido pelo próprio
Senhor (Jl 3.12). A malícia dos homens multiplicou-se e, neste
momento profético, chegará a hora de lançar a foice e realizar a
colheita (Jl 3.13). A linguagem do texto refere-se à ceifa, um símbolo
bíblico escatológico (Mt 13.39; 24.31).
“Três coisas são essenciais a um bom juiz: autoridade e soberania;
decisões justas e imparciais; e a capacidade de perceber e
interpretar corretamente todas as evidências. Javé tem as três
qualidades. Ele é o soberano de toda a terra”.33 O profeta Joel fez
um contraste entre Judá e as outras nações: Judá será salva e
glorificada, enquanto as outras nações serão julgadas. A exaltação
de Judá dá-se mediante o retorno à sua terra e o desfrute da paz e
prosperidade, fruto da presença de Deus entre o seu povo. Judá e
Jerusalém experimentarão a bênção perpétua, mas para as outras
nações haverá guerra e julgamento.
É provável que os povos citados, Tiro e Sidom, representassem as
nações inimigas que agiram de maneira repugnante no trato para
com Israel (Jl 3.4). As nações citadas carregam um símbolo,
apontando para um significado maior. Joel não retrata uma batalha
entre Jerusalém com um determinado inimigo histórico, antes
apresenta uma batalha “cósmica decisiva, universal e escatológica
contra o mal no Dia do Senhor”.34 Existem muitos modos de
interpretar esse texto. Enquanto amilenistas acreditam que Joel
descreve o “Julgamento Final no Grande Trono Branco”, pré-
milenistas entendem que esse texto refere-se à batalha do
Armagedom que marca o fim da Grande Tribulação e o início do
Milênio.
A visão pré-milenista defende que Deus congregará todas as
nações no vale de Josafá (Jl 3.2), isto é, o próprio Deus permitirá
uma hostilidade natural da humanidade com relação a Jerusalém.
Os profetas consideravam que o cenário do juízo seria o vale do
Cedrom, localizado entre Jerusalém e o Monte das Oliveiras. Esse
local foi identificado pelo historiador Eusébio como o vale de Josafá
e passou a ser conhecido por esse nome desde então.35 Os
inimigos do passado — aliado com outras nações — retornarão com
ímpeto para destruir Jerusalém. Essa profecia não se trata de uma
descrição simbólica, mas de um lugar físico; a guerra também não é
figurada, mas acontecerá de fato. Segundo Wiersbe, “[...] todas as
nações se unirão para combater Jerusalém. Deus as reunirá no vale
de Josafá, isto é, a região do vale de Megido em que acontecerá a
batalha do Armagedom”.36 Deus permitirá que uma grande horda
venha contra os judeus, quando eles estiverem quase triunfando;
Deus entrará em cena e julgará as nações de todas as partes. Eles
serão castigados por tudo o que fizeram ao povo de Deus (Jl 3.2-8).
A condenação dos ímpios será abrangente (Jl 3.14); inescapável
(Jl 3.15); terrível (Jl 3.16a). Para representar a terribilidade do
evento, o profeta Joel faz uso da imagem de sinais nos astros, pois
“o sol e a lua se enegrecerão, e as estrelas retirarão o seu
resplendor” (Jl 3.15). Enquanto a aplicação do texto aos ímpios
evoca a ideia de juízo, trevas, abalos catastróficos, o povo do
Senhor estará protegido e refugiado em Deus (Jl 3.16). O Senhor
habitará no meio do seu povo (Jl 3.17) e haverá prosperidade e
tranquilidade para os justos (Jl 3.18). O “Dia do Senhor” será
apavorante para os ímpios, enquanto para os justos será dia de
alegria e justiça. Os acontecimentos narrados por Joel, segundo a
visão pré-milenista, acontecerão no período da Grande Tribulação.
Para o pré-milenismo, essa profecia de Joel refere-se aos juízos
de Deus durante a Grande Tribulação, culminando com a batalha
final na planície do Armagedom.37 Logo após, será implantado o
reino milenial de Cristo, onde Jerusalém tornar-se-á o grande centro
mundial desse governo. Judá será restabelecida (Jl 3.18), enquanto
as outras nações serão como um deserto de solidão. Judá será
povoada, e o Senhor purificará o sangue dos que Ele ainda não
tinha purificado (Jl 3.21). O povo de Israel, arrependido,
testemunhará o poder de Deus e, em atitude de humildade, se
submeterá a Ele. A terra desfrutará de paz no reino milenial,
expressa na imagem dos montes que destilarão mosto, dos outeiros
que manarão leite e dos rios que estarão cheios de água para regar
os vales (Jl 3.18), e o Senhor habitará para sempre em Jerusalém
(Jl 3.20,21).
Joel está descrevendo que, ao longo da história, a injustiça não
passará despercebida. Deus agirá com poder manifestando-se entre
os povos para fazer prevalecer a justiça. “O livro de Joel começa
falando de destruição e termina falando de restauração; inicia com
juízo e conclui com a bênção de Deus”.38 Eles não mais sofrerão
com as pragas dos gafanhotos e com as injustiças dos povos
ímpios. Calamidades e opressões não terão efeito sobre os justos,
pois estarão refugiados e amparados diante do seu Deus. A
conclusão do livro aponta para a presença de Deus entre o seu
povo. Este é o cerne da profecia de salvação de Joel: “Deus não
apenas restaura a prosperidade de seu povo, como também habita
com o seu povo”.39 A profecia de Joel promete segurança e
ininterrupção das bênçãos, pois o Senhor habitará em Sião para
sempre, de geração em geração.

1REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol. 5.


Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 24.
2LOPES, Hernandes Dias. Joel: o profeta do pentecostes. São Paulo: Hagnos,
2009, p. 12.
3HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p.
10.
4PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1151.
5CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3487.
6BUSENITZ, Irvin A. Comentário do Antigo Testamento: Joel e Obadias. São
Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 11.
7LOPES, Hernandes Dias. Joel: o profeta do pentecostes. São Paulo: Hagnos,
2009, p. 12.
8TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 299.
9LASSOR; William S, HUBBARD; David A, BUSH; Frederic W. Introdução ao
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 407.
10LOPES, Hernandes Dias. Joel: o profeta do pentecostes. São Paulo: Hagnos,
2009, p. 16.
11RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 531.
12TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 299.
13BUSENITZ, Irvin A. Comentário do Antigo Testamento: Joel e Obadias. São
Paulo: Cultura Cristã, 2018, pp. 13, 14.
14RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 531.
15 ZUCK, Roy B. A teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2009,
p. 452.
16 Há aqueles que defendem que Obadias é o livro mais antigo. Nesse caso,
enquanto Obadias foi escrito por volta de 845 a.C., Joel teria sido escrito por volta
de 835 a.C. Essa é a interpretação de Esequias Soares. SOARES, Esequias. O
ministério profético na Bíblia. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 111. Walter C.
Kaiser Jr. também corrobora com esse pensamento. Para ele, “Obadias e Joel
foram os primeiros profetas escritores”. KAISER, Walter C. Teologia do Antigo
Testamento. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 191.
17 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 317.
18LOSCH, Richard R. Todos os personagens da Bíblia de A a Z. São Paulo:
Didática Paulista, 2008, p. 263.
19 Entre os livros que trabalham próximo a essa data, estão: HOOVER, Richard
Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p. 10; PFEIFFER,
Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista Regular, 2010,
p. 1151; SOARES, Esequias. O ministério profético na Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2010, p. 111; IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p.
29.
20HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 318.
21MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: Uma meticulosa pesquisa da
Bíblia, livro a livro, elaborada por um dos maiores teólogos da atualidade. Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 322.
22WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico: Antigo Testamento. Santo André:
Geográfica Editora, 2008, p. 631.
23TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 301.
24 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 10.
25 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 283.
26PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1159.
27LOPES, Hernandes Dias. Joel: o profeta do pentecostes. São Paulo: Hagnos,
2009, p. 93.
28HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida,
2005, p. 454.
29MENZIES, Robert P. Pentecostes: essa história é a nossa história. Rio de
Janeiro: CPAD, 2016, p. 40.
30BURKETT, Bill. Pentecostais ou carismáticos? Um chamado ao verdadeiro
pentecostes. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 17
31 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 29.
32LASSOR; William S, HUBBARD; David A, BUSH; Frederic W. Introdução ao
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 408.
33SMITH, Ralph L. Teologia do Antigo Testamento: história, método e
mensagem. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 206.
34 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 356.
35 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 319.
36WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico: Antigo Testamento. Santo André:
Geográfica Editora, 2008, p. 633
37 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 17.
38 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 30.
39DEVER, Mark. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica
e homilética. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 724.
CAPÍTULO 4

Amós: Adoração com Justiça

Amós atuou como profeta nos dias de Uzias, rei de Judá, e nos
dias de Jeroboão, filho de Joás, rei de Israel (Am 1.1). Abrangendo
as corregências com seus respectivos pais, Jeroboão II reinou de
793-753 a.C. em Israel (40 anos), enquanto Uzias reinou de 792-
740 a.C. (aprox. 50 anos).1 Existe um consenso entre os estudiosos
para estabelecer que Amós tenha profetizado entre 765 a 750 a.C.
O texto bíblico situa-o dois anos antes do terremoto (Am 1.1). Os
terremotos apresentavam-se comumente na Palestina e não
serviam para assinalar datas, todavia o uso do singular “o terremoto”
sugere que aquela catástrofe, diferente das demais, foi em grandes
proporções. Acreditamos que essa tragédia foi lembrada por
Zacarias cerca de duzentos anos depois (Zc 14.5). Observamos que
a data mais comumente proposta pelos estudiosos para a profecia
de Amós é por volta de 765 a.C.2

Contemporâneos de Amós
Amós profetizou no século VIII a.C., um período de “intensa
atividade profética”.3 A rica atividade profética nesse período foi
divinamente inaugurada para advertir o Reino do Norte que estava
mergulhado em um sistema apostático e caminhava a passos largos
para sua destruição. É a partir desse século que a atuação dos
profetas em Israel e Judá intensifica-se. Com a destruição do Norte,
os profetas permanecem atuando no Sul, nos períodos de grande
crise: pré-exílio, exílio babilônico e pós-exílio.
Amós foi contemporâneo de Jonas (2 Rs 14.25) e Oseias (Os 1.1)
no Norte e de Isaías (Is 1.1) no Sul.4 Oseias era mais novo e,
provavelmente, continuou desenvolvendo o seu ministério após
Amós. Presumimos que Oseias estivesse em Betel quando Amós
profetizou. Desse modo, a mensagem de Amós possivelmente
influenciou o conteúdo da profecia de Oseias, conforme decorreu
nos anos posteriores a atuação de Amós no Norte. Amós entregou
sua profecia a Israel, principalmente em Betel, local que ficava a 19
quilômetros ao norte de Jerusalém. Ali funcionava o centro religioso
do norte (1 Rs 12.25-33; Am 7.13).

Informações sobre o Profeta: Seu Estilo Enérgico

Diferente de Joel, Amós foi específico e contundente ao relatar os


pecados de Israel e das nações gentílicas. Ele pintou com cores
vivas o desenho da realidade pecaminosa de Israel no século VIII
a.C. A base de sua profecia estava nos problemas concretos da
nação. Não titubeou em apontar ou especificar os erros de Israel.
“Seu estilo, audaz e enérgico, reflete a inabalável lealdade do
profeta a Deus e aos seus justos padrões para com o povo do
concerto”.5
Amós foi categórico em censurar o povo. Entre os pecados
listados, podemos citar: crueldade na guerra, escravidão, desprezo,
exploração dos fracos e pobres, empréstimos cobrados com juros
exorbitantes, altos impostos, riqueza e luxo excessivos, má
administração da justiça por aqueles que se encontravam no poder,
comércio doloso, etc. Nas palavras de Walter A. Elwell, “Os pobres
eram oprimidos, os fracos intimidados, a justiça ignorada. A religião
era uma farsa, e a corrupção, um estilo de vida”.6
Amós foi corajoso em denunciar tais erros. Ele expôs os dois
principais pecados de Israel: a ausência da verdadeira adoração e a
falta de justiça.7 O profeta não pensou duas vezes em tocar o dedo
na ferida de Israel e desafiá-los ao arrependimento. Caso contrário,
segundo o profeta, a nação receberia o juízo de Deus.

Seu Nome

O nome Amós significa “carregador de fardos”. Em alusão ao seu


nome, podemos dizer que sua fala era pesada, e a sua palavra, uma
carga do Senhor.8 Em sua profecia, ele apresentou apenas o seu
nome. Não há sobrenome. Não há menção do nome do seu pai. Por
causa de sua origem humilde, o profeta não apresentou o nome dos
seus antepassados. Em outras palavras, eles não eram
conhecidos.9 O fato de citá-los não lhe agregaria nenhum tipo de
honra. Eles provavelmente eram pessoas simples. Geralmente, os
profetas citavam os pais ou a descendência quando provinham de
famílias conhecidas (para o seu público destinatário), nobres ou de
ascendências sacerdotais.
A vida de Amós era difícil, composta de muita labuta e suor, na
tentativa de obter o seu ganha-pão. Podemos dizer que ele já
estava acostumado a “carregar fardos”. Era procedente de uma
classe humilde. Deus chamou um homem calejado para uma dura
tarefa: falar aos ricos sobre os pobres.10

Cidade de Origem

Ele era natural de Tecoa (Am 1.1). Essa cidade ficava a uns 20
quilômetros ao sul de Jerusalém, junto ao deserto da Judeia.11 Ele
não era de Israel, mas de Judá.12 Essa região ficava próxima à
estrada que ligava Jerusalém a Hebrom e Berseba. Foi nessa região
que João Batista levantou-se como profeta tempos depois de
Amós.13 Ele foi um profeta sulista que atuou como missionário no
Reino do Norte (Israel). Sua vida tranquila entre os pastores de
Tecoa foi perturbada por uma série de visões da parte do Senhor. As
palavras de Amós foram fundamentadas em visões: as palavras que
o profeta viu (Am 1.1). As palavras na profecia bíblica não são
unicamente ouvidas, mas podem também ser vistas. No caso de
Amós, foram-lhe reveladas em visões.

Sua Ocupação

Amós era pastor, boieiro e cultivador de sicômoros (Am 1.1; 7.14).


Era um leigo piedoso. Ocupava-se com a criação de gados e a
plantação de frutas. Quando Amazias — o sacerdote — disse que
ele deveria voltar para o sul, para sua cidade natal, Amós
respondeu-lhe: “Eu não era profeta, nem filho de profeta, mas
boieiro e cultivador de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou de após
o gado e o SENHOR me disse: Vai e profetiza ao meu povo Israel”
(Am 7.14-15). Nessa resposta, o profeta testificou sua origem
simples ao mesmo tempo em que expôs a certeza do chamado
divino. Ele não era um profeta profissional. Naquela época, muitos
se consideravam assim e atuavam naquelas redondezas.14 Ele era
apenas um homem fiel disposto a cumprir a missão que recebera de
Deus.
Ele não se envergonhou de sua origem. Fez questão de
apresentá-la. Omitiu o nome de seu pai no início de sua profecia,
porque essa informação não aditaria valor algum. Mas isso não
significa que tentou esconder sua estirpe humilde. Pelo contrário,
contestado pelo sacerdote Amazias, prontamente revelou sua
procedência delineada pelo trabalho, ao mesmo tempo em que
esboçou sua firmeza de caráter e disposição em cumprir aquela
missão, por mais contestado que fosse. Ele sabia que seu ministério
era ratificado não pela tradição por trás de um nome, mas pela
convicção do chamado divino.
Ao citar aparentemente dois ofícios, Amós estava indicando que
sua profissão de origem era cuidar do gado. Entretanto,
suplementava o seu trabalho cultivando sicômoros (figueiras
bravas).15 A profissão original de Amós era cuidar do gado, tal como
Davi. Porém, durante os meses de verão, os pastores mudavam o
rebanho para lugares mais baixos e pegavam serviços paralelos
como “boieiro” ou “cultivador de sicômoros” para terem o direito de
pastar com seus gados naquelas regiões.16
Não podemos afirmar se ele era rico ou pobre, mas sabemos que
era um homem que precisa trabalhar em múltiplos empregos para
conseguir o sustento de sua família. O pecado do orgulho combatido
por ele não fazia parte da sua vida. Sicômoros era a fruta
consumida pelos mais pobres. Para essa fruta amadurecer,
precisava ser apertada ou talhada por diversas vezes durante o seu
desenvolvimento.17 Esse apertar ou talhar estimulava a produção do
gás etileno, acelerando o amadurecimento da fruta. Sicômoros era a
fruta que fazia parte do cardápio das classes menos favorecidas.
Não era tão apreciada como o figo comum.
Como pastor, Amós passava muito tempo sozinho e, nesse
período, meditava observando a natureza. Era um observador nato.
As ilustrações utilizadas em suas profecias foram extraídas da vida
diária e mostram a originalidade dos seus pensamentos. Ele era
leigo no sentido que não tinha recebido formação em um
estabelecimento oficial como, por exemplo, “as escolas de profetas”,
tão comum em sua época. Portanto, leigo não pode ser interpretado
como sinônimo de ignorante ou incapaz, pois, embora não tivesse
passado por uma educação profética formal, demonstrava muito
conhecimento. Podemos perceber isso em suas profecias. Assim
como Moisés e Davi, o tempo com o gado proporcionou-lhe uma
cultura mental devido ao tempo destinado à reflexão.

Contexto Histórico

Amós desenvolveu o seu ministério no período do Reino dividido,


mais precisamente na época em que Jeroboão II reinava em Israel,
e Uzias, em Judá. Já havia quase duzentos anos que os reinos
tinham se separado.18 Aquele era um período de grande
prosperidade para ambos os reinos. Particularmente, o reinado de
Jeroboão II, do ponto de vista político, tinha sido marcado por um
amplo triunfo seguido por um crescimento expansivo das terras
nortistas (2 Rs 14.23-29). Todavia, a prosperidade de Israel serviu
apenas para afundá-los na lama do pecado.
Em um primeiro momento, Amós entregou oralmente sua profecia.
Para esse propósito, realizou uma jornada missionária percorrendo
as principais cidades nortistas. Depois de ter sido impedido de
pregar no Norte, sendo, inclusive, expulso de lá, porque sua
mensagem conspirava contra as decisões governamentais de
Jeroboão II, Amós retornou para Judá, de onde escreveu sua
mensagem pouco tempo depois. “Ele foi expulso do país, quando
afirmou que Deus não se impressionava com demonstrações
piedosas superficiais, despidas de conteúdo moral”.19
O propósito ao escrever o seu livro era entregar ao rei de Israel
(Jeroboão II) uma versão escrita de sua mensagem profética. Desse
modo, o monarca desobediente jamais poderia esquivar-se da sua
responsabilidade diante de Deus, alegando inocência ou
desconhecimento. Também podemos inferir que o profeta queria
fazer propagar sua mensagem de juízo sobre Israel e as nações
circunvizinhas. Possivelmente, a sua mensagem influenciou Oseias.
Ao examinarmos o seu livro, entenderemos melhor o contexto em
que Amós estava inserido quando entregou sua mensagem.

Período de Paz

Nesse período da história, a região do “Crescente Fértil” gozou de


um período relativo de paz. Os Reinos do Norte e Sul encontram-se
localizados nessa região. O Egito, talvez a grande potência antes da
Assíria, nesse período mostrou-se fraco no cenário internacional
não incomodando as demais nações. Israel e Judá já haviam
cessado a guerra entre eles que tinha acontecido havia quase trinta
anos.20 O clima do governo entre Jeroboão II e Uzias era amistoso.
Na época em que Amós profetizou, o cenário era de calmaria e
tranquilidade. A paz experimentada pelos israelitas trouxe a eles
uma sensação enganosa de segurança. Ufanavam-se do momento
sereno que estavam vivendo no cenário político internacional.
Cultivavam a ideia de que não havia motivos para acreditar na
mensagem de juízo pregada pelo profeta Amós.

Período de Prosperidade

A paz política e a expansão territorial conduziram Israel ao seu


apogeu no que diz respeito à prosperidade material. As nações
vizinhas eram tributárias de Israel. Essas condições permitiram que
os nortistas vivessem no luxo, desfrutando de uma vida material
excelente. Palácios de marfim eram construídos. Os novos ricos
perdiam a paciência com as restrições de trabalho impostas pela lei
do sábado. A vontade de acumular riquezas tornou-se maior do que
o anseio de obedecer aos princípios que Deus havia estabelecido.
As leis bíblicas foram ignoradas nessa busca pelo luxo e pela
riqueza.21
O problema de Israel naquela época não foi a riqueza em si, mas o
fato de essa prosperidade não ter sido distribuída justamente. A
luxúria dos ricos era conseguida à custa da opressão e exploração
dos pobres (Am 2.6-8; 3.15; 4.1; 5.7-12; 6.3-6; 8.4-6; Os 4.1,2,11-13;
6.8,9; 12.7,8). Eles controlavam tudo, inclusive o judiciário. As
decisões dos tribunais eram todas favoráveis aos ricos e
extremamente opressivas aos pobres. Vale lembrar que, conforme
acreditamos, Amós era um representante da classe mais baixa e
com muita propriedade demonstrou a aversão de Deus ao
contemplar esse capitalismo selvagem em Israel. A opulência e o
abuso da riqueza aliada ao poder em Samaria foram o foco de
concentração das denúncias de Amós.

Juízo sobre as Nações

O livro de Amós partiu do geral para o específico. Primeiro emitiu o


juízo que viria para oito nações: Damasco, Gaza, Tiro, Edom,
Amom, Moabe, Judá e Israel (Am 1-2). Esses povos cometeram
pecados contra Deus ao praticarem crimes contra a humanidade.
Essas nações não receberam a revelação especial de Deus como
Israel; no entanto, também estão sob julgamento. “Elas ficaram sem
revelação especial, mas não sem responsabilidade moral; elas
ficaram sem conhecimento direto de Deus, mas não sem
responsabilidade para com Deus; elas ficaram sem a Lei escrita em
tábuas de pedra, mas não sem a lei escrita na consciência.”22
Essa compreensão lança luz no texto paulino endereçado aos
romanos, em que o apóstolo descreve a “percepção natural” das
verdades morais que Deus infundiu sobre o ser humano na Criação
(Rm 2.14,15). Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Ele
presenteou-nos com atributos morais que nos vinculam à divindade.
Todos nós, de algum modo, somos responsáveis diante de Deus por
nossos atos! Portanto, Deus não está sendo injusto ao julgar essas
nações.
A sentença de juízo sobre essas nações começava sempre da
mesma forma: “por três transgressões [...] e por quatro”.
Inicialmente, interpretamos essas palavras no sentido aritmético
literal, ou seja, três pecados e mais o quarto. Todavia, o sentido
dessas palavras possui um viés metafórico. O uso dessa expressão
indica uma medida cheia, seguida de uma medida transbordante.23
Sugere a ideia de pecados repetitivos.24 Deus mostrou-se paciente,
mas a obstinação desses povos em permanecer na transgressão
provocou o juízo divino.
Em um segundo momento, Amós iniciou uma série de discursos
de julgamento contra Israel (Am 3–6). A ira de Deus estava sendo
dirigida não apenas para nações estrangeiras, mas também para
Israel e Judá. Os estudiosos acreditam que o profeta tenha
começado o juízo pelas nações estrangeiras de forma estratégica.
Assim, os israelitas dariam atenção às suas profecias até serem
surpreendidos com o juízo de Deus sobre Israel. Para fortalecer sua
intimação, apresentou uma série de símbolos do juízo vindouro (Am
7.1–9.10) e, por fim, terminou sua mensagem apresentando a
restauração futura de Israel (Am 9.11-15).
É interessante notarmos que, ao referir-se às nações estrangeiras,
Amós não recorreu tanto à questão da idolatria, mas condenou a
crueldade desses povos no trato para com os seres humanos.25 As
principais cidades desses países foram usadas como símbolos das
respectivas nações. Assim, Damasco refere-se à Síria; Gaza, à
Filístia; e Tiro, à Fenícia. Hernandes Dias Lopes lembra-nos de que
as “três primeiras nações sob julgamento eram completamente
pagãs e totalmente estranhas às alianças da promessa, mas as
outras três tinham certa ligação com Israel”.26 Edom provinha de
Esaú, irmão de Jacó. Moabe e Amom derivavam de Ló, sobrinho de
Abraão.

Julgamento contra Israel (Am 3-6)

Nessa parte da profecia de Amós, Deus estava tratando


especificamente com Israel. Essa mensagem precisa ser ouvida
(Am 3.1). Amós advertiu que o relacionamento com Deus trazia
responsabilidades, além de privilégios. O povo, salvo do Egito,
fracassou em seu concerto (aliança) com Deus; portanto, seria
julgado com severidade. Amós estava explicando que as causas
possuíam uma relação direta com o resultado (Am 3.3-6). O profeta
anunciou que Deus não fazia nada sem antes revelar os seus
segredos aos seus profetas (Am 3.7). Em outras palavras: o
cativeiro que viria já estava sendo anunciado pelos profetas. O juízo
seria total (Am 3.9-15). A seguir, o profeta especificou as atitudes
pecaminosas dos israelitas que suscitaram a ira divina.

O luxo sustentado pela injustiça social

Com sarcasmo, o profeta comparou as mulheres de Israel às


vacas de Basã, um gado tradicionalmente conhecido por ser bem
alimentado (Am 4.1). Essa região era símbolo de gordura e
fertilidade.27 Basã era um território que ficava a leste do Mar da
Galileia, famoso pela pastagem vistosa e pelos trigos em excelente
condição (Dt 32.14; Sl 22.12; Ez 39.18). Segundo Motyer, ali os
gados exibiam suas carnes e ossos em um verdadeiro concurso de
beleza; portanto, era um território centrado no corpo.28 O profeta
estaria então denunciando a veneração das aparências. “Nessa
região, as reses eram famosas pela sua beleza e carne. Ao chamar
as mulheres de Samaria de vacas de Basã, Amós diz que elas só se
preocupavam com o corpo, com a aparência, com a sensualidade e
com o prazer.”29 Aquelas mulheres mostraram-se hedonistas e
preocupadas apenas com a satisfação dos ditames do corpo. Elas
viviam para o luxo, enquanto ignoravam as demandas da alma.30
Ao viverem controladas pelos bens e pela aparência, aquelas
mulheres estavam dispostas a tudo para manter a ostentação em
suas vidas. Os desejos das esposas pelo luxo levavam os maridos a
oprimir os pobres no afã de satisfazerem seus gostos insaciáveis.
Deus não tolera a falta de retidão dos ricos que se manifesta na
opressão tirânica sobre os pobres. É interessante como o profeta
primeiro fala com as mulheres, e não com seus maridos. Dessa
forma, está destacando que quem lucra com a injustiça é tão
culpado como a pessoa que a comete.31 Ainda que não sejamos os
autores da injustiça, se nos beneficiamos com ela, também somos
culpados diante de Deus.

Uma religiosidade formal e ritualística

“Vinde a Betel e transgredi a Gilgal, e multiplicai as transgressões”


(Am 4.4). Amós continuou em tom irônico, dizendo que, embora os
ricos de Israel gostassem de frequentar os santuários e exibir os
seus sacrifícios, tudo isso era em vão. Na verdade, só pioravam a
situação sonegando a Deus a verdadeira adoração (Am 4.1-5). O
profeta usou jocosamente a expressão: “porque disso gostais” (Am
4.5). Eles faziam os sacrifícios e davam publicidade aos seus atos
religiosos. No fim, o culto não era para Deus, mas para eles. Amós
indicou que a religião deles era sincrética, superficial e ritualística.
Não tinha verdade, justiça e santidade. Era vazia. Estava
embelezada com os ritos, porém permanecia desprovida de
sinceridade.
O local do sacrifício era Jerusalém, não Betel ou Gilgal. Os
sacerdotes tomaram suas próprias decisões utilizando o nome de
Deus de forma errada pensando que não havia problemas, e, pior
do que isso, esses homens não percebiam que o vício do sacrifício
regado pela apostasia só trazia problemas para a nação. Apesar de
serem acometidos pela falta de pão (Am 4.6), pela seca (Am 4.7,8),
pela praga de gafanhotos (Am 4.9) e grandes catástrofes (Am
4.10,11), permaneciam resolutos no pecado. Israel encontraria com
Deus (Am 4.12). Esse texto não é um apelo à conversão, mas, sim,
a advertência de um grande juízo que desembocaria sobre a nação.

Converteram o juízo em veneno (Am 5.7)

O profeta declara que a justiça para ele tornou-se em alosna, uma


substância azeda. Alosna era uma erva daninha em um jardim, era
“uma conhecida planta das regiões do Mediterrâneo e do Oriente
Médio, notória por seu amargor (Pv 5.4), que só se compara ao
gosto de veneno (Am 6.12; Dt 29.18; Jr 23.15; Lm 3.19)”.32 Eles
faziam o errado com o pretexto de que estavam fazendo o certo.
Os israelitas perverteram o direito do próximo. Não aceitavam a
repreensão. “Aborreciam na porta” aqueles que os repreendiam (Am
5.10). Essa expressão faz referência ao juízo deturpado, visto que o
portão de qualquer cidade era o lugar onde a justiça era
administrada (Dt 22.15). Os pobres e necessitados eram rejeitados
nos tribunais de justiça (Am 5.12). Os pobres eram pisados,
extorquidos e explorados (Am 5.11). Os ricos, exploradores de
Israel, construíram castelos e vinhas à custa da injustiça, e, como
consequência, Amós declarou que eles não desfrutariam de nada
disso, pois o Senhor iria alcançá-los em grande ira.
O sistema religioso estava mancomunado a esses homens
corruptos. Se um profeta ou juiz os repreendesse, sofreria
represálias. Por uma questão de sobrevivência ou covardia pessoal,
muitos profetas silenciavam-se (Am 5.13). Se não demonstramos
solidariedade para com o próximo que sofre, não poderemos
demonstrar um amor genuíno a Deus, pois a forma como nos
relacionamos com quem está diante de nossos olhos indica o
verdadeiro valor que atribuímos aos mandamentos de Deus (Hb
10.28; 1 Pe 3.8; 1 Jo 3.11,18; 3.23). “A religião que permite que
seus seguidores tirem vantagem do pobre, oprimam o justo,
obstruam a justiça e ignorem as advertências de Deus é uma
religião falsa.”33

Vida fútil (Am 6.4-6)


A riqueza e a vida fácil isolaram os israelitas das questões
espirituais e humanitárias, causando neles um falso senso de
segurança. Tornaram-se autossuficientes por causa do
materialismo. O egoísmo empurrou de lado a moralidade. Amós
atacou o modo de vida dos ricos que era estribado em orgulho e
insensibilidade espiritual. Apesar de inúmeros pecados praticados,
os israelitas viviam tranquilamente em Sião (Am 6.1). Amós
denunciou que eles viviam em “preguiça extravagante”, “glutonaria
imprevidente” (Am 6.4), “frivolidade enganadora” (Am 6.5) e
“vaidade pessoal excessiva” (Am 6.6).34
Eles dormiam em “camas de marfim”, isto é, a estrutura dos seus
leitos era revestida e incrustada de marfim. Enquanto ficavam em
leitos caros e sofisticados para a época, eles comiam e bebiam
divertindo-se com a música e não “afligiam-se pela quebra de José”
(Am 4.6). O texto faz um paralelo com a história de um personagem
bíblico alvo de injustiças. À semelhança dos irmãos de José, eles
eram coniventes com o erro e não se importavam com o destino
desastroso que estavam traçando para as classes menos
favorecidas, porque o que realmente importava era a permanência
na vida excêntrica, luxuosa e divertida.
Diante de todas essas constatações, o juízo divino sobre Israel já
estava decretado.

Símbolos do juízo vindouro (Am 7–9.10)


Nesse instante de sua profecia, Amós apresentou predições
simbólicas sobre o castigo de Israel. Todos os prognósticos de juízo
esboçados por ele foram fundamentados em visões da parte de
Deus. Em razão disso, Amós chegou a relatar no início do seu livro
que suas palavras foram fundamentadas no que ele viu a respeito
de Israel (Am 1.1). Enquanto seus contemporâneos permaneciam
cegos, Amós não observava apenas o presente, mas antecipava o
juízo iminente que viria sobre Israel. Sua profecia apresenta cinco
visões:

A praga dos gafanhotos (Am 7.1-3)

Nessa visão, o profeta contemplou uma nuvem de gafanhotos na


época da colheita que surgia no horizonte para destruir tudo. A
imagem da nuvem de gafanhotos representava um símbolo claro de
grande juízo, visto que, quando uma plantação era atacada por essa
“praga”, tudo era completamente destruído. Eles já haviam
experimentado literalmente essa assolação (Am 4.9). A fonte de
renda deles seria cortada. Os elementos que financiavam o luxo e o
conforto dos ricos poderosos seriam exterminados. Essa visão
apontava para o fim do conforto à custa da injustiça. O profeta
intercedeu pelo povo, e Deus teve piedade.

O calor da seca (Am 7.4-6)


Deus estava em conflito com o seu povo. Planejava castigá-los
através do calor de uma grande seca. Esse calor seria tão intenso
que consumiria “o grande abismo” (Am 7.4), em outras palavras, as
fontes subterrâneas das nascentes e dos rios seriam consumidas.
Novamente, o profeta intercedeu, e Deus adiou o seu juízo.

O prumo (Am 7.7-9)

O profeta contemplou Deus medindo Israel com um prumo. O


prumo era composto de um barbante tendo um peso amarrado em
uma das pontas. Esse instrumento servia para medir a perfeição e
os defeitos de uma obra, assim como também descobria se uma
parede estava fora do esquadro. Esse instrumento simboliza a
retidão absoluta do juízo divino. A visão “descreve que o Senhor
exige que seu povo seja reto”.35 Israel achava-se fora do prumo por
causa dos pecados de idolatria e materialismo introduzidos pela
casa de Jeroboão. Aqui, Amós deu “nome aos bois”. Ele endereçou
sua mensagem de condenação ao palácio real (Am 7.9)
Essa profecia contra a casa real incomodou o sacerdote Amazias,
um corrupto oficial do santuário de Betel, que proibiu Amós de
continuar profetizando. Enquanto Amós pregava de modo geral,
Amazias tolerava-o, mas quando denunciou seu “patrão”, o falso
sacerdote, na tentativa de demonstrar lealdade ao monarca,
posicionou-se como seu defensor religioso, usando da prerrogativa
do sacerdotismo para tentar silenciar o profeta. Amós respondeu
que nada o faria retroceder ou impedir que entregasse sua
mensagem, porque tinha certeza do seu chamado (Am 7.14,15). Em
seguida, o profeta anunciou a terrível punição que cairia sobre a
casa de Amazias, o clérigo mercenário (Am 7.17).

O cesto de frutos maduros (Am 8.1-3)

O profeta contemplou um cesto de frutos de verão, sugerindo que


os frutos já estavam maduros. O estágio subsequente para os frutos
do cesto era a podridão. Israel já estava maduro; logo, o próximo
passo seria a destruição. O juízo aproximava-se a passos largos da
nação ingrata. Essa visão representava o fim de Israel como
entidade política.

Capitéis destruídos (Am 9.1-10)

A última visão do profeta foi marcante e distinguiu-se das demais.


Ele viu o Senhor. Não há mais uso de símbolos. O juiz estava
presente para julgar. Deus estava ao lado do altar, no santuário do
Norte. Aqui há uma provável referência ao falso altar em Betel. A
destruição começaria pelo centro da idolatria. O juízo começaria
pelo lugar onde supostamente se adorava a Deus. Os capitéis são a
extremidade superior de uma coluna. O juízo seria devastador. Não
haveria lugares para o povo esconder-se (Am 9.2-3). A sentença
fora decretada. O cativeiro aconteceria (Am 9.4). Não havia mais
saída.
O profeta anunciou que os olhos do Senhor Jeová estão contra o
reino pecador de Israel (Am 9.8). Que palavras duras! A nação
escolhida por Deus não teria mais privilégios nenhuns porque se
comportou, principalmente na esfera moral, igual às demais nações
pagãs. Lawrence Richards relembra-nos de que a opção de Deus
pela nação de Israel “não era uma base para se presumir que Ele
continuaria a abençoá-la independentemente daquilo que o povo
fizesse”,36 pois a eleição não pode ser vista como um alvará para o
pecado, mas como um chamado ao compromisso com Deus, que
implica uma vida santa e justa diante dos homens.

A Restauração Futura de Israel

A mensagem de Amós, embora esteja eivada de juízo, também


sinalizou o despontar da misericórdia divina. Sua mensagem não
terminou com o povo na sepultura ou destruído e disperso pelos
inimigos. Deus prometeu reparar a tenda de Davi e consertar as
suas brechas (Am 9.11). Amós previu um tempo de restauração em
que o povo do Senhor iria comportar-se como um instrumento de
Deus para abençoar as nações da terra.
Precisamos entender que o profeta não trouxe falsas esperanças
ao povo, uma vez que sabemos que o futuro próximo de Israel (após
Amós) reservou-lhes grandes juízos. Na verdade, o profeta testificou
a sua fé no poder restaurador de Deus. Amós não ignorou a
condição de juízo; pelo contrário, ele mesmo profetizou o castigo.
Todavia, em sua fala final, reconheceu o caráter fiel de Deus e seu
braço misericordioso agindo para que a sua vontade prevaleça
sobre a terra. Por trás de tudo, encontra-se o governo soberano de
Deus sobre a história.37 Uma coisa é certa: no fim, o Reino de Deus
será estabelecido entre o seu povo. A ideia desse reino está
presente em toda a Bíblia.
O profeta utilizou-se de uma lembrança reverenciada por todo
judeu: o período áureo do reinado de Davi (2 Sm 23.5; 1 Rs 11.36).
Assim como no reino de Davi Israel ocupou uma posição de
relevância, Deus prometeu resgatar o valor do seu povo no curso da
história. Seu reinado — em conformidade com o reinado de Davi —
será expansivo e marcado pela conquista (Am 9.12). A terra será
abençoada com fertilidade (Am 9.13).
O capítulo final de Amós certificou a presença maravilhosa de
Deus entre o seu povo. De igual modo, apresentou um tributo de
louvor ao poder restaurador de Deus, pois Ele levanta os caídos
(Am 9.11) e proporciona ao seu povo dias melhores (Am 9.13,14). O
profeta de Tecoa encerrou sua mensagem dizendo que o mesmo
Deus que despedaça o seu povo por causa da rebeldia e
desobediência restauraria a sorte dos justos, fundamentado no seu
amor e poder. Enquanto o juízo é temporário e serve para provar e
purificar o povo escolhido, a bênção de Deus dura de geração em
geração. O povo que foi exilado e desterrado, que enfrentou a
escravidão, será restaurado pelo poder de Deus. O sofrimento terá
um fim, e a justiça será permanente. É essa convicção que encerra
o livro de Amós.

Adoração com Justiça

A grande lição do livro de Amós está no ensinamento de que a


adoração a Deus envolve o compromisso com a justiça por meio de
um testemunho pessoal. Trata-se de uma piedade encarnada ao
cotidiano, manifestada dentro de um contexto social e não
externada apenas dentro do espaço religioso. Não adianta sermos
“devotos” na igreja se no mundo perpetuamos a injustiça,
sonegamos os impostos, obtemos vantagens ilícitas e somos
desumanos para com o próximo. De nada adianta sermos
“religiosos” se ignoramos o clamor do pobre. A verdadeira religião
manifesta-se na ajuda solidária e no coração empático,
principalmente para com os necessitados (Tg 1.27).
O louvor que agrada a Deus não é aquele feito com esmero
técnico para satisfazer o perfeccionismo de um culto-espetáculo,
mas aquele oferecido no altar de um coração leal, justo,
benevolente e humilde. A verdadeira adoração não se trata de uma
apresentação espetaculosa e teatralizada, mas de uma vida santa.
Adoração não é um item da liturgia cultual. É totalidade de vida. É
compromisso com Deus. É amor pelo próximo. É prática de justiça.
Nenhuma adoração é genuína se não estiver aliada à justiça e à
verdade. Os homens carnais contentam-se com o “ato da
adoração”, enquanto os homens espirituais buscam a comunhão
com Deus. Enquanto Deus convoca-nos à adoração por meio da
obediência, muitos tentam entretê-lo com a religiosidade. Foi assim
com a nação de Israel na época de Amós.
Os templos do Norte na época de Amós estavam lotados. A liturgia
mostrava-se impecável. O rito era seguido diariamente na
observância dos sacrifícios habituais. A música era excelente. Tudo
isso era regado com uma alta motivação, em razão da prosperidade
experimentada por Israel. Os nortistas desfrutavam de uma época
de paz e de riqueza. Em uma análise superficial, poderíamos
facilmente deduzir que o sistema religioso nortista era adequado e
que tudo transcorria da melhor forma possível. Mas não foi isso que
Amós relatou em sua profecia (Am 5.23).
A adoração era falsa. O culto oferecido aborrecia ao Senhor (Am
5.21). Adoração sem obediência é sacrilégio; em vez de agradar,
ofende a santidade de Deus (1 Sm 15.22; Pv 15.8; Jr 6.20; Os 8.13).
Amantes da iniquidade e da injustiça não podem permanecer em
seus pecados e ao mesmo tempo produzir uma adoração sincera a
Deus. Isso não é possível. Deus não tolera a injustiça, a exploração,
a mentira e o engano, e aqueles que praticam tais obras podem até
realizar o “ato da adoração”, mas esse culto será enganoso diante
do Senhor (Is 48.1-2; Ez 33.31). O nosso Deus procura verdadeiros
adoradores (Jo 4.23-24; Ef 5.19). Se Ele procura os verdadeiros
adoradores é porque existem os falsos (Is 59.3; Jr 3.10; 5.2). Falsos
adoradores produzem uma adoração vã (Is 29.13; Mc 7.7). Que tipo
de adoradores nós somos? Amós ensina-nos que a verdadeira
adoração a Deus vem sempre acompanhada com a prática da
justiça diante dos homens.

1 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 320.
2Gary Smith propõe 765 a.C. (SMITH, Gary V. Amós. São Paulo: Cultura Cristã,
2008, p. 17); há também quem defenda a data de 755 a.C. (REED, Oscar F; et al.
Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol. 5. Rio de Janeiro: CPAD,
2012, p. 95).
3KAISER, Walter C. Teologia do Antigo Testamento. 2.ed. São Paulo: Vida
Nova, 2007, p. 200.
4MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: Uma meticulosa pesquisa da
Bíblia, livro a livro, elaborada por um dos maiores teólogos da atualidade. Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 328.
5 IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 42.
6 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 218.
7MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: Uma meticulosa pesquisa da
Bíblia, livro a livro, elaborada por um dos maiores teólogos da atualidade. Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 329.
8HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol. 4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 1003.
9TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 303.
10RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 536.
11 MANUAL, Bíblico SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 490.
12DEVER, Mark. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica
e homilética. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 740.
13 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 289.
14DEVER, Mark. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica
e homilética. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 740.
15PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1164.
16 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, pp. 358, 359.
17TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 303.
18 A divisão do Reino aconteceu em 931 a.C.
19ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD,
1997, p. 218.
20 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 288.
21MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 753.
22 MOTYER, J. A. A mensagem de Amós. 2.ed. São Paulo: ABU Editora, 1991,
p. 23.
23MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 754.
24RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 483.
25DEVER, Mark. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica
e homilética. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 743.
26LOPES, Hernandes Dias. Amós: um clamor pela justiça social. São Paulo:
Hagnos, 2007, p. 36.
27 SMITH, Gary V. Amós. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 190.
28 MOTYER, J. A. A mensagem de Amós. 2.ed. São Paulo: ABU Editora, 1991,
p. 83.
29LOPES, Hernandes Dias. Amós: um clamor pela justiça social. São Paulo:
Hagnos, 2007, p. 91.
30LOPES, Hernandes Dias. Amós: um clamor pela justiça social. São Paulo:
Hagnos, 2007, p. 91.
31RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 486.
32 HUBBARD, David Allan. Joel e Amós: introdução e comentário. São Paulo:
Vida Nova, 1996, p. 190.
33DEVER, Mark. A mensagem do Antigo Testamento: uma exposição teológica
e homilética. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 750.
34 MOTYER, J. A. A mensagem de Amós. 2.ed. São Paulo: ABU Editora, 1991,
p. 135.
35 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 115.
36RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 536.
37 SMITH, Gary V. Amós. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 411.
CAPÍTULO 5

Obadias: O Cuidado para com a


Retribuição Divina

Obadias é o menor livro do Antigo Testamento. São apenas vinte e


um versículos dentro de um único capítulo. O livro não é citado no
Novo Testamento nem uma única vez.1 Diferente de Amós, que se
concentrou em Israel, Obadias destinou sua mensagem a uma
nação estrangeira: Edom. Vale lembrar que três dos profetas
menores focalizaram sua mensagem a uma nação estrangeira:
Obadias a Edom, Naum à Assíria, e Habacuque à Babilônia.2
Embora o livro de Obadias seja o menor do Antigo Testamento e
não seja citado pelos escritores do Novo Testamento, em hipótese
alguma se torna diminuto em relação aos demais, pois carrega em
seu conteúdo a autoridade imposta pelo “selo da inspiração”.3 Por
quatro vezes o profeta apresentou que a origem de suas palavras
dimanava de Deus (Ob 1,4,8,18). Obadias tem a marca de um livro
profético, visto que seu conteúdo condena o pecado e profetiza a
glória futura do povo de Deus.
O livro de Obadias pode ser dividido em duas partes: “A primeira é
particular e específica, composta de oráculos dirigidos contra Edom.
A segunda é mais geral, formada por oráculos relativos a Israel e às
nações”.4 Enquanto a primeira parte anunciou o juízo para aquele
que agiu com soberba, a segunda parte endereçou um oráculo de
restauração àquele que foi humilhado. Além do mais, o livro fornece-
nos uma rica fonte teológica sobre a doutrina da retribuição divina.

O Profeta

Obadias é um nome comum entre árabes e judeus, cujo


significado é “servo do Senhor”. O nome Obadias é um composto de
‘ôbed, “servo”, e ‘yâ’, uma forma abreviada do tetragrama ‘yhwh’
(Jeová).5 Irvin A. Busenitz destaca: “Embora as informações a
respeito do autor sejam escassas e incertas (até mesmo a
costumeira identificação de seu pai ou da cidade da qual ele proveio
estão ausentes), o nome em si dá indícios de sua fé e fidelidade”.6
Aproximadamente doze pessoas no Antigo Testamento receberam
esse nome e não há apoio lógico e bíblico para vincularmos o
profeta Obadias a esses outros personagens (1 Cr 3.21; 7.3; 8.38;
9.44; 12.9; 27.19; 2 Cr 17.7; 34.12; Ed 8.9; Ne 10.5; 12.25). Obadias
não é um pseudônimo, como alguns sugerem. Foi uma pessoa real:
testemunhou atrocidades que os judeus sofreram e demonstrou
exatidão profética em seus oráculos sobre o futuro de Edom e Judá.
A grande verdade é que as poucas indicações que temos sobre
Obadias “apontam para um homem piedoso, que seguia a ortodoxia
judaica e era impelido por fervoroso nacionalismo”.7
O livro não fornece informações pessoais sobre o autor, por isso
nada sabemos sobre sua família, cidade ou profissão. Tudo o que
sabemos, ou melhor, o pouco que sabemos sobre ele, é por
inferência. Acreditamos que seus pais eram piedosos; isso se deduz
pela escolha de seu nome. É provável que o profeta estivesse em
Jerusalém durante um período em que a cidade foi atacada.
Obadias narrou os acontecimentos no estilo de uma testemunha
ocular (Ob 11-14), pois “a linguagem de Obadias 10-11 descreve a
presença do profeta na cena do crime”.8 O texto denuncia a
crueldade dos edomitas na promoção da maldade. Além de terem
sido coniventes com aqueles que espalhavam a violência e a morte,
os edomitas também foram agentes da destruição, cooperando com
as tropas invasoras no fito de destruir os judeus. A motivação por
trás de tudo isso era sórdida: vingança, hostilidade, egoísmo e
ganância.

O Tema do Livro

O tema geral do livro é a retribuição divina. Em seu oráculo,


Obadias denunciou o antissemitismo,9 que pode ser definido como o
preconceito ou hostilidade contra os judeus. A mensagem do profeta
reporta-nos à promessa que Deus fez a Abraão: “[...] abençoarei os
que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem...” (Gn
12.3). O livro de Obadias é uma enciclopédia histórica sobre a
relação de Deus com seu povo. Deus não se esqueceu das alianças
do passado. Sua memória permanece perfeita. É o mesmo ontem,
hoje e eternamente (Hb 13.8). Deus zela pelo seu povo (Jl 2.18; Na
1.2; Zc 1.14; 8.2).
A profecia de Obadias tem um tom grave. Os edomitas eram
parentes dos judeus. A origem dessa história remete-nos ao ventre
de Rebeca. Edomitas e judaítas provinham da mesma madre, visto
que ambos eram descendentes de Abraão e Isaque. Enquanto os
edomitas descendiam de Esaú, os judeus descendiam de Jacó.
Esse conflito começou entre dois irmãos que disputavam a
primogenitura, e, com o tempo, entre seus descendentes, a questão
avolumou-se atingindo patamares drásticos e irrecuperáveis. Edom
era vizinho territorial de Judá e parente próximo; porém,
desprezando todos os vínculos e proximidades, foi dominado pelo
ódio. “O livro de Obadias é a saga da inimizade histórica entre
edomitas e israelitas”.10
Deus ordenou que os israelitas tratassem os edomitas como
irmãos (Dt 2.5-8; 23.7,8); todavia, os edomitas cultivavam um ódio
velado pelos israelitas e, em diversos momentos históricos,
deixaram esse sentimento sujo aflorar. É pura ilusão pensar que
podemos estocar o ódio em nosso coração sem prejudicar nossa
vida. O ódio é mais do que ira ou raiva. Ele é o que nos leva a
desejar o mal de alguém. Uma pessoa dominada pelo ódio reveste-
se interiormente de repugnância, antipatia e repulsão. Há quem diga
que o ódio é o antiamor, pois esse sentimento é o extremo daquilo
que há de bom na alma humana. Devemos lembrar que, na Bíblia, o
ódio é claramente apontado como uma obra da “carne” (Rm 8.7; Gl
5.19ss). Além de esse sentimento ser altamente corrosivo à fé
bíblica, constitui em si só um sintoma evidente de falta de
regeneração (1 Jo 3.15).

Data em que o Livro Foi Escrito

Se existe uma verdade sobre o livro de Obadias é que não


podemos afirmar quando ele foi escrito. O livro não apresenta datas
ou cita nomes de reis. O que temos são apenas hipóteses e teorias.
Há indícios de um momento histórico em que os edomitas
regozijaram-se com a invasão de Jerusalém, e até mesmo lucraram
com sua destruição tomando parte nos seus despojos (Ob 14,15).
Não fica claro a qual invasão o profeta refere-se. Tendo em vista
que os edomitas eram inimigos históricos de Israel, fica difícil
estabelecer uma data específica.

A Mensagem de Obadias
A mensagem do profeta Obadias pode ser detalhada em três
seções: o juízo divino sobre Edom (Ob 1-9); as razões para a
destruição de Edom (Ob 10-14); a restauração futura do povo de
Deus (Ob 17-21).

O juízo divino sobre Edom

O profeta começou sendo bem claro ao dizer que sua profecia era
a respeito de Edom (Ob 1.1). Ele é direto em comunicar sua
mensagem. Edom era a nação vizinha a sudeste de Israel, ao sul de
Moabe e do Mar Morto. “Havia conflitos frequentes nas fronteiras
entre os dois países, geralmente com a vitória de Judá”.11 Os
edomitas eram descendentes de Esaú; logo, eram parentes de
Israel. Embora fossem parentes, na verdade comportavam-se como
seus inimigos. Obadias declarou que um mensageiro foi enviado
para noticiar a destruição de Edom: “[...] levantemo-nos contra ela
para a guerra” (Ob 1.1).
Apesar de os edomitas serem pequenos em relação aos outros
povos (Ob 2), eram “poderosos” por causa da posição geográfica
em que estavam. Dessa forma, a soberba do coração levou-os a
considerar que eram invencíveis (Ob 3). O texto diz que eles
habitavam nas “fendas das rochas”. As cidades edomitas foram
construídas em uma região de cadeias montanhosas que protegiam
a nação. Os muros eram naturais. Os cavalos das tropas inimigas
jamais passariam pelas fendas das rochas. A altitude de 1.200 a
1.700 metros tornava a região de fácil defesa. Por isso
perguntavam: “Quem me derribará em terra?” (Ob 3). Sentiam-se
invencíveis! Sentiam-se tão protegidos à semelhança de uma águia
que sobe às alturas para guardar os seus filhotes em ninhos
seguros e inalcançáveis (Ob 4).
Os edomitas estavam acostumados a roubar outros povos em
momentos de tragédias nacionais. Agora experimentariam o mesmo
veneno, pois ladrões e roubadores viriam de noite para saquear
suas cidades (Ob 5). Até os vindimadores (colhedores de uva)
deixavam alguns cachos pelo caminho; todavia, não sobraria nada
em Edom. A linguagem do oráculo de Obadias é rica em seu
simbolismo. O profeta fez metáforas a respeito de cenas
relacionadas ao campo e à colheita para descrever a severidade do
juízo sobre Edom.
Todo o tesouro de Esaú seria encontrado e esquadrinhado (Ob 6).
Esaú foi o progenitor de Edom. Os judeus tinham o costume de
identificar as pessoas por seus antepassados. Assim, Esaú é um
nome para Edom, e Jacó é usado como um nome para Judá. Os
bens de Esaú referem-se às minas de ferro e cobre que pertenciam
ao território dos edomitas. Da mesma forma como Edom traiu Judá,
seus aliados iriam traí-lo (Ob 7). Vemos aqui a lei da semeadura
bíblica (Gl 6.7). A colheita de nossos atos jamais será diferente de
nosso plantio. Se plantarmos traição, colheremos traição. Se
semearmos o ódio, colheremos o ódio. O profeta declarou que a
destreza dos valentes de Edom não conseguiria livrar o destino
selado por Deus para esse povo (Ob 9).

Razões para a destruição de Edom (Ob 10-14)

A principal razão para a ira divina derramada sobre Edom estava


na violência praticada contra o “irmão Jacó” (Ob 10). Jacó é usado
como sinônimo para a nação de Israel. O termo “Israel” não se
referia especificamente ao Reino do Norte, mas fazia menção ao
uso genérico do nome aplicado aos descendentes de Abraão,
Isaque e Jacó. Israel na Bíblia é um termo amplo que contemplava
ao mesmo tempo o Norte e o Sul. É um dos termos mais antigos
aplicado aos israelitas.
O texto sugere que o juízo de Deus não estava sendo aplicado por
causa de um único ato, mas por causa de um acúmulo de
comportamentos hostis para com Israel. “Os atos de antagonismo
pelos quais Edom seria julgado remontavam à recusa em conceder
passagem para Israel viajar por suas fronteiras durante o êxodo do
Egito à Palestina (Nm 20.14-21).”12 Desde então, a hostilidade de
Edom para com o povo de Deus nunca cessou.
Vale lembrar que essa inimizade permaneceu mostrando-se feroz
inclusive no Novo Testamento. Segundo Hernandes Dias Lopes,
essa inimizade foi tão intensa que “se estendeu à última geração
dos edomitas (Mt 2.1-23)”.13 Herodes, o Grande, que era idumeu,
isto é, descendente dos edomitas, provocou um grande infanticídio
visando à manutenção do seu reinado quando se sentiu ameaçado
pelo nascimento do Messias prometido nas Escrituras. Essa
rivalidade só acabou quando os edomitas (idumeus) foram extintos
da história durante a invasão de Tito a Jerusalém e região por volta
do ano 70 a.C.
Segundo o profeta Obadias, a gota d’água foi a aliança de Edom
com os povos inimigos que assolaram Jerusalém. Obadias declara:
“tu mesmo eras um deles” (Ob 11). Em outras palavras, Edom aliou-
se ao exército invasor. Eles olharam com prazer para a destruição
de Jerusalém e alegraram-se na má sorte do “irmão” (Ob 12). Além
de recusarem o socorro, eles festejaram a derrota dos israelitas.
Deus não tolera a malignidade de atos humanos contra os próprios
seres humanos. Edom (Esaú) e Judá (Jacó) eram irmãos. Essa
“irmandade” existe entre todos os seres humanos, pois somos
criaturas de Deus e derivamos da mesma origem. A mensagem de
Obadias não nos deixa esquecer uma verdade: Deus fica irado com
os atos vis dos homens. A justiça divina não deixará que aquele que
comete a maldade contra o próximo fique impune.
Enquanto a nossa sinceridade cativa o coração de Deus, a
malignidade de nossos atos provoca a sua ira. Não nos
esqueçamos de que o Deus do amor também é o Deus da justiça,
assim como o Deus da misericórdia é também o Deus da vingança.
Não há incoerência entre o amor e a ira divina, pois ambos os
atributos servem aos mesmos propósitos. A ira de Deus é um dedo
na mão amorosa do Criador. Embora seja severa, quando aplicada,
realiza o trabalho da restauração.
Podemos dizer o mesmo em relação à misericórdia e à vingança
de Deus. Enquanto a misericórdia é a expressão mais perfeita da
benevolência do Senhor, a vingança é a manifestação exata de sua
justiça. Enquanto a misericórdia entra em cena para perdoar e
conceder novas oportunidades, a retribuição divina surge para
combater a iniquidade e aniquilar as práticas opressivas. O mesmo
Deus que recompensa a retidão também pune a maldade. O mal
jamais ficará impune diante dEle.
Na Bíblia, a vingança é uma atividade que pertence a Deus (Sl
94.1; Is 34.8; Jr 51.36). Não nos cabe revidar (Mt 5.39; Rm 12.19).
Mas devemos estar certos e convictos de que o Deus da Bíblia é
aquEle que peleja em favor do seu povo (Êx 14.14). A ira de Deus é
retributiva (Hb 10.30). Em outras palavras, os homens pagarão por
todo mal que tiverem praticado, como também pelo bem que tiverem
deixado de fazer. Tudo está sendo registrado por Deus e a Ele
prestaremos contas (Sl 96.13; Ec 12.14; Rm 2.16). O que
plantamos, colhemos (Os 10.13; Gl 6.7). Foi assim com Edom.
Os edomitas acharam-se confortáveis e seguros tripudiando sobre
a dor dos judaítas; todavia, Obadias profetizou que Deus entraria
em cena para mudar aquela situação. O povo de Deus seria
restaurado, e Edom seria arruinada. Obadias é, sobretudo, uma
mensagem de juízo para Edom e esperança para Judá. Quem
estava no topo ruiria ao chão; quem estava no chão subiria ao topo.
Judá caiu e seria restaurada. Edom cairia, mas não experimentaria
a restauração.
Obadias revelou que ninguém jamais ficará seguro ao zombar dos
princípios de Deus (Gl 6.7). As palavras de Obadias foram
cumpridas. No século VI a.C., os edomitas foram derrotados e
expulsos de suas terras de origem. Em decorrência disso, fixaram-
se próximo ao Mar Vermelho; todavia, em 312 a.C., foram
novamente destruídos pelos nabateus. Depois de espalhados,
sobreviveram através dos casamentos mistos com outros povos da
região. No Novo Testamento, os edomitas ficaram conhecidos como
idumeus. Porém, em 70 a.C., o general romano Tito destruiu
Jerusalém e combateu os israelitas e os idumeus. Enquanto os
israelitas dispersaram-se e depois de quase 2 mil anos reviveram
como uma nação, os idumeus (edomitas) desapareceram da história
para sempre. As palavras de Obadias foram cumpridas!

A restauração futura do povo de Deus (Ob 15-21)

O profeta anunciou que o Dia do Senhor virá sobre todas as


nações. Esse dia seria contrastante para Edom e Israel; enquanto
um seria humilhado e destruído, o outro seria restaurado e exaltado.
O “Dia do Senhor”, na profecia veterotestamentária, apontava para
um momento específico da história em que Deus iria levantar-se
para fazer valer a sua justiça e cumprir seus propósitos.
O juízo de Deus aplicaria em Edom o mesmo castigo imposto a
Israel (Ob 15). Esse é o princípio bíblico da retribuição divina. Os
edomitas “serão como se nunca tivessem sido” (Ob 16). Esse texto
mostra que o futuro deles seria tão amargo que apagaria o passado
histórico de Edom. O esquecimento seria o destino de Edom.
Conforme vimos, essa profecia foi literalmente cumprida. Edom foi
destruída e deixou de existir como nação.
Em situação diametralmente oposta, Obadias declarou que haveria
livramento em Sião. Enquanto Edom experimentaria a taça da ira
divina, Judá receberia livramento (Ob 17). Enquanto a casa de Esaú
seria como palha, a casa de Jacó seria como fogo (Ob 18). Esse
texto apontava que Judá consumiria a Edom. Obadias profetizou
que o território dos edomitas seria agregado a Israel quando as
fronteiras do sul fossem restauradas (Ob 19,20). O texto apresentou
a aplicação da justiça na inversão dos papéis injustos: os exaltados
serão humilhados, e os humilhados serão exaltados (Pv 29.23; Zc
9.16; Mt 23.12; 1 Pe 5.16) .
O profeta declarou que Deus retornaria ao seu povo a sua glória e
que o reino seria do Senhor (Ob 21). Essa mensagem trouxe
esperança para o coração dos judaítas em um momento de grande
perda e dor. Enquanto Edom seria apagado da história, Deus estava
reservando um futuro de glória para o seu povo.

1 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à


igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 11.
2 SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo:
Vida Nova, 1995, p. 385.
3TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 308.
4 BAKER, W. David; ALEXANDER, T. Desmond; STURZ, Richard J. Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. vol. 23. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 28.
5PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1177.
6BUSENITZ, Irvin A. Comentário do Antigo Testamento: Joel e Obadias. São
Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 209.
7CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3537.
8BUSENITZ, Irvin A. Comentário do Antigo Testamento: Joel e Obadias. São
Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 212.
9TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 309.
10 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 15.
11ELWELL, Walter A. Manual Bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD,
1997, p. 221.
12 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, pp. 115, 134.
13 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 19.
CAPÍTULO 6

Jonas: Deus Ama quem Você


Detesta

O livro de Jonas tem uma mensagem singular em relação aos


demais profetas. Enquanto Joel, Amós e Obadias apresentam
mensagens de juízo para as nações estrangeiras, esse livro
oferece-nos a lição de que o amor de Deus não está circunscrito
apenas em Israel. “Seu objetivo histórico e duradouro era declarar a
universalidade tanto do julgamento quanto da graça divina. Deus
julga a iniquidade em todas as esferas e, do mesmo modo, reage ao
arrependimento de todas as nações.”1
O livro de Jonas, como nenhum outro livro do Antigo Testamento,
expõe “a compaixão de Deus por todas as pessoas, até mesmo
pelos inimigos de Israel”.2 Esse ensinamento faz parte da essência
do livro. Deus está interessado pelo outro; de igual modo, seu povo
também tem a responsabilidade de interessar-se pelos outros,
demonstrando compaixão por eles, principalmente para aqueles que
estão perdidos e carecem do perdão de Deus. A compaixão é mais
serviço do que sentimento. Não adianta pronunciar que temos; é
preciso demonstrá-la em nossas ações.
O fato de Deus ter escolhido Israel não significava que tinha
desprezado ou rejeitado as demais nações. Em Jonas,
contemplamos o imensurável amor de Deus capaz de preocupar-se
com o povo mais cruel daquela época: os assírios. O objetivo de
Deus ao escolher Israel era transformá-los em uma nação santa e
um reino abençoador dos outros povos da terra. O problema é que o
espírito patriótico desse povo eliminou o amor pelo próximo. Israel
encastelou-se em seus dilemas e não procurou em momento algum
ser um canal abençoador para os outros povos. Esse foi o problema
de Jonas! Deixou que sua visão política fragmentasse sua visão
espiritual; deixou que sua preocupação por Israel anulasse seu
amor pelo próximo; deixou que sua cidadania e reputação ficassem
acima do seu compromisso profético.
Esse livro, ao contrário dos demais profetas, é mais um relato
histórico do que uma profecia. O livro não é uma fábula, mas um
testemunho verídico. A experiência de Jonas não pode ser
considerada uma “história de pescador”. Esse livro é singular, pois
focaliza mais a vida do profeta do que sua profecia.3 A narrativa da
experiência de Jonas é a base da mensagem que Deus oferece não
apenas à Assíria, mas a Israel.
No livro de Jonas, encontramos um Deus soberano, onipotente,
onipresente e onisciente. Tudo está sob seu controle: o mar, o
vento, a natureza, o grande peixe, o sol, até o pequeno verme e a
aboboreira. O homem é o único que reluta em obedecer-lhe. A
desobediência do homem fundamenta-se na falta de aceitação dos
propósitos divinos. O livro também aponta para a misericórdia divina
capaz de dar novas oportunidades tanto para Jonas quanto para os
assírios. Por conseguinte, também oferece uma exortação a Israel a
partir do momento em que noticia o grande arrependimento que
aconteceu em Nínive, pois, enquanto os ninivitas escutaram um
único profeta e, de imediato, arrependeram-se, Israel, a nação
escolhida, já ouvira diversas mensagens proféticas e, à semelhança
de Jonas, relutava em obedecer ao Senhor.

O Autor

Jonas é o único profeta cuja profecia não consiste no que disse,


mas no que viveu e testemunhou. Sua história é única e oferece-nos
grandes lições. Ele é o próprio autor do livro (Jn 1.1). Alguns
chegam a duvidar de sua autoria pelo fato de o livro ter sido escrito
na terceira pessoa, todavia sabemos que era comum para o escritor
hebraico relatar a sua própria história dessa forma.4
Jonas era filho de Amitai, de Gate-Hefer, da tribo de Zebulom (Jn
1.1; 2 Rs 14.25). Ele era um profeta galileu, visto que a vila de Gate-
Hefer ficava a sete quilômetros da cidade de Nazaré. Portanto, os
judeus na época de Jesus estavam enganados quando
questionaram que nenhum profeta tinha surgido de Nazaré (Jo
1.46). A citação bíblica fora do seu livro (2 Rs 14.25) é
esclarecedora, pois circunscreve o ministério de Jonas no século
VIII a.C., no período de 793-753 a.C., na época do rei Jeroboão II,
filho de Jeoás, rei de Israel. É possível que Jonas tenha conhecido o
profeta Eliseu.5 Segundo a passagem bíblica de 2 Reis 14.25, Jonas
profetizou a expansão geográfica e a prosperidade política de Israel.
Fica subentendido pelo texto que ele começara o seu ministério
profético antes de Jeroboão II ter conseguido os triunfos que
marcaram seu reinado, pois o profeta já havia predito tais
conquistas.6
Aquela foi uma profecia agradável de entregar. Jonas era
extremamente nacionalista (conforme seu livro mostra). Desse
modo, profetizar o sucesso de seu povo e sua pátria era algo que
ele deseja no seu íntimo. Até então, estava acostumado a entregar
mensagens populares. A promessa de dias prósperos era sempre
bem acolhida em Israel. O sucesso de sua profecia fomentou sua
popularidade em Israel.7 Não há qualquer indicação de que ele
tenha profetizado uma mensagem de juízo ou exortação para o seu
povo.
Jonas foi contemporâneo de Amós e Oseias. Enquanto estes dois
anunciaram o juízo de Deus sobre Israel, Jonas profetizou sua
prosperidade. Jonas foi o primeiro entre esses profetas e começou
seu ministério em um período que Israel ainda não se estabilizara
financeiramente. Ele previu um tempo de prosperidade. Sua
mensagem foi cumprida. O problema é que a prosperidade
anunciada por Jonas levou o povo a se distanciar de Deus. Nesse
contexto histórico, um pouco depois, surgiram os profetas Amós e
Oseias para conclamarem o povo de Israel ao arrependimento.

A Historicidade do Livro

Jonas é o livro profético do Antigo Testamento mais questionado


pelos teólogos liberais. Infelizmente, o debate em torno desse livro
tem obscurecido a sua beleza literária e significação teológica.
Segundo os teólogos liberais, a sua história tem sido considerada
como fictícia e parabólica.
O fato de Jonas ter ficado três dias na barriga do grande peixe tem
sido alvo de muito debate. Contudo, a dúvida sobre a historicidade
do livro não repousa em um único caso. Segundo os teólogos
liberais, o escrito não pretendia ser considerado como um relato
histórico, pois Jonas é o único personagem do livro designado por
nome próprio. O “rei de Nínive” não é nomeado, sendo seu título um
tanto controvertido, pois Nínive era uma cidade, e não um país. O
mais correto seria “rei da Assíria”. Além do mais, Nínive só se tornou
capital da Assíria nos dias de Sargão II (722-702 a.C.), um tempo
depois de Jonas. O contra-argumento é que Nínive sediava palácios
reais desde a antiguidade. Embora o Antigo Testamento refira-se ao
rei da Assíria, sabe-se que ele também reinava em Nínive.
Considerando que a pregação aconteceu no palco dessa cidade,
não há nada de estranho quanto a essa pequena variante.
Os teólogos liberais também afirmam que o livro utiliza muitos
recursos literários parecendo mais uma ficção. Há, inclusive,
“exageros fantásticos” como o arrependimento dos animais (Jn
3.7,8), o crescimento acelerado da aboboreira (Jn 4.6) e a descrição
do tamanho de Nínive (Jn 3.3-5).8 Talvez a questão da descrição do
tamanho da cidade seja mais polêmica ainda, porque Nínive era
uma cidade de mais de 120 mil homens (Jn 4.11). Contando as
mulheres e crianças, essa cidade chegaria a 600 mil habitantes.9
Desse modo, seria pouco provável que o profeta conseguisse
percorrer toda a sua extensão em apenas três dias.
Como todos poderiam converter-se se não foram todos que
ouviram a pregação? Alguns defendem a posição de que Jonas
estava descrevendo o distrito administrativo, e não a própria cidade.
Outros acreditam que, na jornada de três dias, Jonas pregou na
circunferência da cidade e que a mensagem propagada nos limites
da cidade chegou até o seu centro, chegando até ao rei de Nínive.
Desse modo, os três dias referem-se ao tempo utilizado por Jonas
para pregar em lugares estratégicos, e não ao tempo em que ele
atravessou e mediu a cidade percorrendo-a metro por metro.
A grande verdade é que os teólogos liberais são
antissobrenaturalistas em suas posições e, como não conseguem
aceitar o relato do grande peixe que engoliu o profeta, vasculham
todos os detalhes do livro no objetivo de suscitar problemas para
consubstanciar suas posições. Eles não acreditam em milagres. Vão
questionar o fato de como um judeu cheio de preconceito, que
pregou quase contra sua própria vontade, pudesse ter cem por
cento de resultados em sua pregação. Como a mensagem do
profeta teria sido suficiente para encurvar o orgulho dos ninivitas? A
questão é que o livro de Jonas não aponta para a eficiência do
pregador; pelo contrário, em todo instante, faz questão de mostrar
sua deficiência. A pregação é exaltada no livro, não o pregador. Não
podemos subestimar o poder da pregação da Palavra de Deus.
Não podemos duvidar da historicidade de Jonas. Seu livro foi
inspirado por Deus, e a história é verídica. Seu nome está vinculado
a passagens históricas (2 Rs 14.25). Jonas é tão real e histórico
quanto Jeroboão II.10 O próprio Cristo ratificou sua historicidade ao
citá-lo como um profeta (Mt 12.38-40). Se negarmos a historicidade
de Jonas, questionaremos a veracidade das palavras de Jesus. Se
Jonas foi uma lenda, Cristo faltou com a verdade ao relatar a
conversão dos ninivitas (Mt 12.41).
Jesus confirmou os grandes pilares históricos de Jonas: sua
estadia dentro do peixe e também a grande conversão dos ninivitas.
Assim como Jonas ficou três dias no ventre do grande peixe, o Filho
do homem ficaria o mesmo tempo no coração da terra. Existia uma
conexão real entre Jonas e Jesus, pois ambos serviram de sinal
para suas gerações (Lc 11.29,30). Jonas foi o único profeta indicado
por Jesus como antítipo de Cristo para representar a maior verdade
bíblica: sua própria ressurreição dos mortos.11
Sobre o fato de Jonas ter ficado três dias no ventre do grande
peixe, há relatos históricos de acontecimentos recentes bem
semelhantes. Há possibilidades científicas de isso acontecer? Os
registros oficiais do Almirante Britânico contam-nos a história de
James Bartley, um marinheiro britânico de um navio baleeiro que foi
engolido vivo por uma baleia e sobreviveu, em 1981. Depois de cair
ao mar e ser engolido pela baleia, foi dado como morto. No outro
dia, os marinheiros encontraram o corpo morto da baleia flutuando
na superfície. O mamífero foi preso e cortado em pedaços, quando
perceberam que surgia um movimento no interior do estômago da
baleia. Lá estava James Bartley, dobrado ao meio, inconsciente,
porém vivo. Depois de sua recuperação, contou sua experiência,
tendo sobrevivido dezoito anos após o incidente.12 Todavia, para
nós, cristãos, não é a história de James Bartley que nos leva a crer
que o relato de Jonas é verdadeiro; nossa segurança está na
inspiração divina e na inerrância das Escrituras. Ainda que a história
contada seja difícil de ser reeditada, continuaríamos crendo na
Palavra de Deus, pois o que é impossível para o homem é possível
para o Criador (Mt 19.26; Mc 10.27; Lc 1.37).

Conteúdo Narrativo do Livro: A Ordem Divina


O texto bíblico começa descrevendo a missão específica entregue
por Deus a Jonas. A palavra do Senhor veio ao profeta. A
mensagem era clara: “levanta-te e vai à grande cidade de Nínive”
(Jn 1.2). Não encontramos no livro um relato do chamado profético
de Jonas. Subentendemos que ele já era um profeta atuante em
Israel (2 Rs 14.25). Todavia, essa foi a sua mais dura missão, pois
ele deveria “pregar o arrependimento a um dos mais terríveis
inimigos de Israel, a Assíria, na sua capital, Nínive”.13
Jonas deveria postar-se como um canal de bênção para uma
nação estrangeira e cruel. Nínive não era apenas um dos principais
centros pagãos do mundo antigo, mas lá estava um povo que se
comportava como inimigo de Israel. A maldade (malícia) de Nínive
era grande (Jn 1.2). O livro destaca por diversas vezes a grandeza
de Nínive (Jn 1.2; 3.2; 4.11). Localizada na margem leste do rio
Tigre na Mesopotâmia, Nínive sempre teve grande destaque desde
a antiguidade.14 Chegou a dominar o antigo Oriente Médio cerca de
300 anos,15 de 900 a.C. até sua queda para a Babilônia. Logo após
a divisão do Reino no final do reinado de Salomão, a Assíria pouco
a pouco sediou campanhas contra Israel até chegar ao ponto de
destruir o Reino do Norte em 722 a.C. Na época do profeta, essa
nação sustentava uma relação amistosa com Israel; todavia, Jonas,
como os demais judeus, já previa que a Assíria poderia levantar-se
como um inimigo de Israel, e, além de poderoso, esse inimigo era
cruel.
A Assíria era uma espécie de Sodoma e Gomorra reerguida nos
dias dos profetas. Essa não era apenas a maior cidade do mundo,
mas também o maior covil de pecado da época. Essa cidade
representava o epicentro mundial da violência, tortura, feitiçaria,
idolatria, etc. O profeta Naum chama Nínive de “a cidade
sanguinária” (Na 3.1). A deusa Ishtar (da guerra e do sexo) era a
principal divindade adorada na Assíria. Violência e imoralidade eram
as marcas constitutivas daquele povo. Eles tinham o costume de
decepar as mãos, orelhas e narizes dos seus inimigos, vazarem os
seus olhos e esfolarem-nos vivos. Até crianças eram queimadas
vivas. Eles desconheciam a palavra misericórdia.16
Jonas, ao ser comissionado por Deus, tem a fuga como resposta
por prever a misericórdia divina sobre aquele povo. Ele não aceitava
o fato de pensar que Deus poderia amar um povo que ele detestava.

A Fuga

Ao mesmo tempo em que o livro apresenta a soberania de Deus,


também aponta para a liberdade humana. Jonas recebeu a ordem,
mas desobedeceu. Ele tinha a liberdade para escolher o que fazer,
mas deveria estar disposto a arcar com as consequências de suas
más escolhas.
O objetivo de Jonas era fugir da face do Senhor. No objetivo de
cumprir esse intento o mais rápido possível, ele foi para o porto mais
próximo da parte central de Israel situado em Jope e, em seguida,
pegou uma embarcação para Társis (Jn 1.3). Ele estava com
pressa. O destino escolhido não foi casual. Társis era uma colônia
fenícia de mineração no sudoeste da Espanha. Társis representava
o lugar mais longe possível de casa, ficava localizado a cerca de 4
mil quilômetros de Jope, basicamente no fim do mundo, de acordo
com a visão de sua época (Is 66.19a). Társis era o lugar mais
distante possível onde os navios fenícios poderiam levá-lo. Além do
mais, ficava em uma direção totalmente oposta à ordem divina;
enquanto Nínive ficava ao oriente de Israel, Társis estava no
ocidente.
Entre os motivos que levaram Jonas a escolher Társis, estava o
fato de que lá a Palavra de Deus não tinha sido anunciada (Is
66.19b); logo, ele pensava que seu intento de fugir do Senhor
lograria êxito ao ir para aquela região.17 Jonas iria aprender que
Deus não estava circunscrito apenas em Israel, preso e limitado por
regiões geográficas. A verdade é que estamos sob os olhos de
Deus de qualquer ponto da terra. O mundo é o seu quintal. Sua
soberania é sobre tudo e sobre todos. Társis era um grande centro
comercial do mundo antigo (Jr 10.19; Ez 27.12); é provável que
Jonas tivesse pensado que talvez pudesse viver tranquilo naquele
lugar próspero. Ele comprou a passagem e escondeu-se dentro do
navio.
A Tempestade

Deus estava assistindo à desventura de Jonas tentando fugir. O


Todo-Poderoso interveio enviando ao mar uma tempestade (Jn 1.4).
Os marinheiros apavoraram-se. Cada um clamava ao seu deus.
Começaram a lançar no mar as riquezas do navio (Jn 1.5). A
postura de desespero dos marinheiros contrastava com a apatia de
Jonas. Enquanto eles estavam apavorados, Jonas dormia no porão
do navio, provavelmente no compartimento de carga da
embarcação.
Seu sono não era apenas físico, mas também espiritual. Quando o
mestre do navio viu aquela cena, ficou assustado com o marasmo
de Jonas, que dormia enquanto todos lutavam contra a tempestade.
Espantado, ele perguntou: “Que tens, dormente?” (Jn 1.6). O mestre
do navio percebeu que existia algo estranho com aquele homem. “O
termo hebraico traduzido por dormente diz respeito a alguém em
sono profundo, um sono livre de preocupações (cf. Rm 11.8).”18
Aqueles homens eram experientes, estavam acostumados a
atravessar o Mar Mediterrâneo, entretanto estavam aterrorizados
porque nunca presenciaram uma tempestade tão violenta como
aquela. A viagem de Jope a Társis não era simples, e sim a mais
longínqua daquela época. Exigia destreza e preparo da parte do
capitão do navio. O mestre do navio sabia que somente um milagre
iria salvá-los. Por isso, exortou a Jonas dizendo que ele deveria
imediatamente invocar o seu Deus19 (Jn 1.6). Nesse texto, temos
um profeta do Senhor sendo repreendido por um marinheiro pagão.
Os marinheiros do navio imaginavam que existia uma causa
espiritual por trás do fenômeno natural da tempestade. Resolveram
lançar sortes para ver a origem do problema (Jn 1.7). Lançar sortes
era uma forma primitiva de adivinhação muito popular entre as
nações no passado, sendo utilizada diversas vezes na Bíblia. Após
a descida do Espírito Santo, esse método caiu em desuso pela
igreja, pois a orientação do Espírito Santo tornou-se suficiente para
direcionar o cristão.20
O texto bíblico revela que a sorte caiu em Jonas (Jn 1.7). Assim,
ele tornou-se o centro das atenções. A estratégia de ficar escondido
e passar despercebido na viagem foi frustrada. Imediatamente, ele
tornou-se alvo de diversos questionamentos. “Que ocupação é a
tua? E donde vens? Qual é a tua terra? E de que povo és tu?” (Jn
1.8). Quatro perguntas foram-lhe feitas. Jonas declarou ser um
hebreu, mas omitiu sua função como profeta. O termo “hebreu”
provém de um radical que significa aquele que passa. Jonas
identificou-se como alguém que estava fugindo; logo após, declarou
temer o Deus Criador (Jn 1.9).
Ao apresentar Deus como soberano sobre a terra e mar, deixou
claro que o seu Deus era o provocador daquela tempestade. Ele
identificou-se como o causador daquele grande problema. Jonas
pediu para ser lançado no mar (Jn 1.11). Em nenhum momento
clamou por misericórdia. Permanecia resoluto em sua
desobediência. Declarou temer a Deus, mas não buscou obedecer-
lhe. Que contradição! Jonas era um homem em conflito.
Aqueles homens demonstraram mais piedade que o próprio Jonas!
Naqueles pobres homens, houve um grau incomum de humanidade.
Esforçaram-se o máximo para não lançar o profeta nas águas (Jn
1.12-14). O profeta mostrou-se egoísta enquanto os marinheiros
pagãos demonstravam solidariedade e preocupação para com ele.
No entanto, todos os esforços dos marinheiros foram em vão. A
solução era acatar o pedido de Jonas que o lançassem no mar. Eles
clamaram a Deus pedindo para que não lançasse sobre eles o
sangue de um inocente. A verdade é que Jonas não era inocente.
Ao ser lançado no mar, a tempestade acalmou-se. Os marinheiros
deixaram de temer a tempestade para temer ao Senhor (Jn 1.16).
Aqueles marinheiros pagãos foram convencidos de que o Senhor de
Israel era o Deus verdadeiro. Ofereceram sacrifícios ao Senhor e
fizeram-lhe votos. “Ainda que afastado da comunhão com Deus,
Jonas exercera um impacto evangelístico sobre os homens do
mar”.21 Deus transformou aquela tragédia em algo positivo na vida
dos marinheiros.

O Grande Peixe
Ao ser lançado no mar, Deus enviou um grande peixe para engolir
Jonas (Jn 1.17). O peixe não foi um dispositivo punitivo da parte de
Deus, mas um instrumento do seu livramento. O grande peixe
engoliu Jonas não para devorá-lo, mas para protegê-lo. O peixe foi
enviado por Deus. Se a tempestade foi enviada para discipliná-lo, o
grande peixe foi o instrumento para preservá-lo visando à sua
restauração.
O milagre não estava em Jonas ter sido engolido pelo grande
peixe, mas em não ter sido digerido por ele. Através do grande
peixe, Deus preservou a vida do profeta que já estava entregue à
morte. Jonas tinha desistido de tudo, mas Deus não tinha desistido
dele. Apesar de sua rebeldia, a misericórdia divina insistia em
oferecer-lhe uma nova oportunidade. Deus não desiste de nós até
mesmo quando desistimos de nós mesmos. Que amor é esse? Que
compaixão é essa? Trata-se de um amor escandalosamente
incalculável e de uma compaixão incomparável! Cabe a nós
reconhecermos tão grande amor e submetermo-nos a Ele em total
rendição e devoção.
A palavra hebraica “dag” correspondente para grande peixe não
determina o tipo de animal que está envolvido. No grego, a palavra
“ketos” também não identifica esse animal. As versões bíblicas que
traduziram para baleia precipitaram-se na sua tradução (Mt 12.40).
O “descuido” é da tradução, não da inspiração. A Bíblia não
especificou qual era esse animal marinho; poderia ser qualquer um
entre os grandes animais existentes no mar. A tradução mais correta
é “grande peixe” ou “monstro marinho”. Há quem acredite que seja a
baleia por ter em sua estrutura orgânica uma garganta bem larga,22
enquanto alguns acreditam que o cachalote teria o equipamento
necessário para engolir um homem deixando ele vivo.23 Ainda
assim, mais uma vez, reiteramos nossa crença de que o grande
peixe não era uma lenda. Jesus confirmou esse evento histórico
com suas palavras (Mt 12.40).
O texto bíblico declarou que o profeta ficou três dias e três noites
nas entranhas do peixe (Jn 1.17). Isso não equivale a 72 horas
literais, já que, segundo a forma de o Antigo Testamento contar,
parte de um dia ou noite já são computados como um todo.
Estudiosos chegam a propor que um total de 49 horas seria
adequado para uma interpretação dessa expressão.24 Jesus aplicou
a experiência de Jonas à sua morte e ressurreição. Cristo foi
sepultado, segundo a tradição, antes do pôr do sol na sexta-feira e
ressuscitou antes do nascer do sol no domingo. Da mesma forma, o
texto bíblico menciona que Cristo ficou durante “três dias” na
sepultura.

A Oração de Jonas

No interior do peixe, o profeta orou ao Senhor. Pela primeira vez


no livro, Jonas recobrou a consciência e quebrantou-se diante de
Deus. A verdade é que ele esperava morrer envolto pelas águas do
mar, mas percebeu o milagre ao acordar vivo nas entranhas do
peixe. Depois de caminhar nas trilhas da rebeldia e sofrer a
disciplina, Jonas encontrou alívio no caminho do arrependimento e
consagração. “O mesmo sol que endurece o barro, amolece a cera.
Enquanto uns se revoltam contra Deus na angústia, outros se
voltam para Ele em oração.”25
A oração de Jonas consistia de duas partes: agradecimento pelo
livramento (Jn 2.2-6) e renovação do compromisso profético (Jn 2.7-
10). Sua oração estava recheada de citação dos Salmos. O profeta
era um grande conhecedor da Palavra. Sua rebeldia não se
fundamentava em ignorância. Na Bíblia, o conhecimento não traduz
o significado da verdadeira fé, mas a obediência sim. Fé é mais do
que decorar um dogma; é encarnar na vida aquilo que se crê! Jonas
aprendeu a lição que o seu compromisso com Deus não era medido
por aquilo que ele sabia, mas, sim, conforme ele vivia.
Como Jonas, em dados momentos de nossas vidas
desobedecemos ao Senhor mesmo conhecendo sua palavra. Nosso
problema não está no conhecimento, mas na aceitação e submissão
daquilo que foi ordenado pelo Senhor. Jovens cristãos, por exemplo,
sabem que o certo é resguarda-se da imoralidade; porém, acabam
se entregando à promiscuidade desfrutando de namoros
licenciosos. Precipitam-se ao pecado antes da aliança do
casamento diante de Deus. Esses jovens são iludidos com a ideia
de que sabem o que é o melhor para eles. Agem como Jonas. Que
pretensão enganadora! Entre nossa vontade e a orientação divina,
fiquemos com o que nos instruiu Deus, e não com aquilo que nós
imaginamos ser o melhor. Enquanto nosso coração é enganoso, os
planos de Deus são primorosos, e sua vontade é sempre boa,
agradável e perfeita.

Agradecimento pelo livramento

A gratidão de Jonas repousava no fato de saber que Deus estava


pronto para ouvi-lo até mesmo naquela situação (Jn 2.2). O profeta
estava dentro de um compartimento de carne, totalmente escuro e
com um cheiro estranho exalando, pois estava rodeado de algas e
outros tipos de peixes. Ainda assim, ele poderia ter acesso à
presença de Deus. O lugar, “além de incômodo e quente, era
fétido”.26 Por isso, ele comparou-o ao “inferno”, um local de grandes
tormentos (Jn 2.2). Esse texto ensina-nos que até os lugares mais
inusitados são apropriados para oração, pois não importa onde
estamos, mas, sim, com quem falamos.
De igual modo, aprendemos nessa passagem que também não
importa “como estamos”, mas, sim, com quem falamos. Jonas
estava sujo, envolto em podridão, sentindo-se miserável e pecador.
Apesar de tudo isso, Deus estava pronto para escutá-lo. Seus
pecados jamais serão uma barreira para você aproximar-se de
Deus, desde que você decida sinceramente em seu coração
aproximar-se do Senhor. A sinceridade é a chave que abre a porta
para acessarmos o coração de Deus. Um santo sincero e um
pecador sincero utilizam a mesma senha para aproximarem-se de
Deus: a sinceridade. O que nos garante o acesso não são nossas
“credenciais meritórias”, mas a honestidade de nossas intenções.
Jonas reconheceu o poder de Deus. Sabia que Deus era capaz de
ouvi-lo mesmo cercado pelas águas. Comparou aquele lugar ao
sheol, traduzido como sepultura e também como “ventre do inferno”.
O profeta declarou que o Senhor respondeu-lhe. A resposta de
Deus é a sua própria consciência e sobrevivência em meio àquela
situação. A lógica dele é que ele encontrava-se vivo quando, na
verdade, deveria estar morto. Tal constatação não poderia ser mais
desprezada, mas foi por ele interpretada como uma ação divina em
seu favor.
Jonas teve discernimento. Sabia que não estava ali por acaso.
Deus, na sua providência, tinha preparado aquela situação. O
profeta era inteligente. Conseguiu fazer a leitura apropriada daquela
situação. Seu problema não era entender, mas obedecer. Ele sabia
que tinha sido Deus quem enviara aquela tempestade (Jn 1.12) e
também sabia que tinha sido Deus quem o lançara ao mar (Jn 1.15;
3.2). Tudo o que ele queria era fugir dos olhos do Senhor e, agora
que “simbolicamente” tinha conseguido, lamentou com pesar sua
situação e desejou voltar ao Templo (Jn 2.4). Se, antes, o profeta
queria afastar-se, agora desejava retornar. O Templo de Jerusalém
era o local da habitação de Deus segundo os judeus. Jonas
desejava voltar ao Templo porque ansiava ter comunhão com Deus
novamente.
Ele descreveu a situação de pavor que estava experimentando,
mas também reconheceu o livramento de Deus (Jn 2.5-6). É
interessante notarmos que essa oração foi feita no interior do
grande peixe. Jonas ainda não havia sido arremessado de lá. Ainda
assim, agradeceu pelo livramento porque tinha certeza de que não
morreria daquela forma. O profeta era lúcido o suficiente para saber
que existia uma missão para ser cumprida. Ele descansou em Deus
em um período de aflição, porque sabia que o Deus que foi
poderoso para enviar um grande peixe para engoli-lo certamente
seria poderoso para fazer o grande peixe expeli-lo.

Renovação do compromisso profético

Quando sua vida estava quase desfalecendo, Jonas lembrou-se


do Senhor (Jn 2.7). Jonas percebeu que a separação e o
distanciamento físico jamais o livrariam da observação divina. O que
anulava a comunhão com Deus não eram as barreiras geográficas
ou circunstanciais, mas o pecado (Pv 15.29; Is 59.2; Mq 3.4). Temos
que fugir do pecado, não de Deus. Jonas aprendeu essa lição!
Jonas advertiu sobre o perigo das “vaidades vãs” ou “idolatrias
vãs” (Jn 2.8). Seu patriotismo exacerbado era uma vaidade vã.
Falou com propriedade sobre os ídolos porque sua reputação como
profeta e seu nacionalismo tornaram-se cultuados por ele. Isso era
tão importante que o levou a colocar a missão divina em segundo
plano, como algo que poderia ser indeferido. Ídolo é tudo o que
reverenciamos a ponto de colocarmos a vontade de Deus em
segundo plano. O hedonismo pode ser um ídolo, assim com o
materialismo. Ainda que não nos prostremos diante de uma imagem
de escultura, mas reverenciamos nossos “desejos carnais” ou “bens
materiais” acima de Deus, estamos praticando a idolatria. Isso é
algo inútil. A idolatria entorpece a nossa visão espiritual. A metáfora
com os ídolos foi-lhe muito propícia.
Nesta vida, somos assaltados por pensamentos distorcidos e nada
proveitosos, que, se forem cultivados em nosso coração, nos
privarão de experimentarmos o que Deus tem de melhor para nós: a
sua misericórdia. Os que como Jonas pensam que serão bem-
sucedidos abandonando o serviço de Deus e caminhando contra a
sua vontade ficarão frustrados ao perceber que tudo isso é inútil.
Não podemos substituir a presença de Deus por nada, nem pelos
ídolos, nem pelo nosso “eu”. Aos jovens, devemos lembrar que nada
nesta vida — nem as festas, banquetes, amigos ou prazeres —
preencherá o vazio do nosso coração que só pode ser ocupado com
a comunhão verdadeira com Deus.
Ao mesmo tempo em que o profeta percebeu a futilidade dessas
coisas, aquilatou a santidade e desejou ardentemente a presença
de Deus. O profeta fez um compromisso diante de Deus: ofereceria
sacrifícios ao Senhor e pagaria seus votos (Jn 2.9). Em contraste
com o pensamento pagão, o sacrifício ao Senhor é um ato de
adoração e gratidão, não um esforço humano no fito de aplacar a ira
de uma divindade. O relacionamento do homem com Deus não deve
ser cultivado pelo medo ou pela chantagem psicológica, mas pelo
deleite da comunhão e pelo amor a Deus.
Jonas declarou que manteria sua palavra como profeta e
executaria sua missão. Arrependido, o profeta consagrou-se ao
Senhor. Terminou sua oração com uma declaração de fé: “a
salvação vem do Senhor” (Jn 2.9). A salvação é um dom de Deus, e
não uma façanha humana. Após a oração, o peixe recebeu a ordem
para “vomitar” Jonas — afinal de contas, uma missão precisava ser
cumprida. Jonas entrou no “grande peixe” de um jeito e saiu
completamente diferente. A dor e o sofrimento ao lado da
compreensão do amor e do cuidado de Deus sobre sua vida foram-
lhe elementos fundamentais para sua transformação.

A Pregação de Jonas

O profeta pela segunda vez foi comissionado por Deus para pregar
em Nínive (Jn 1.1-2; 3.1-2). Deus tratou sua desobediência com
disciplina, não com rejeição. Tal argumento comprova-se pelo fato
de Deus ter-lhe dado uma segunda chance.27 O grande peixe
vomitou-o no litoral palestino, provavelmente próximo ao porto de
Jope. “Jonas fora perdoado por Deus, mas tinha de tomar a cruz de
onde a deixara.”28 Ele precisou dirigir-se a Nínive. Não era uma
viagem fácil rumo ao leste. Essa cidade não ficava em uma região
litorânea. A Assíria ficava aproximadamente mil e trezentos
quilômetros distante de Israel.29 Era uma longa viagem, e depois de
chegar ao seu destino, o profeta ainda tinha uma dura missão:
percorrer a grande cidade pregando o juízo. O grande complexo de
Nínive tinha uma circunferência de 96 a 122 quilômetros.30 Era uma
cidade cercada por muralhas tão largas que sobre elas podiam
passar várias carruagens lado a lado.31
A mensagem proclamada por ele era catastrófica. A princípio,
parecia incondicional. Jonas não apresentou a possibilidade de
salvação. Era uma mensagem de juízo e calamidade (Jn 2.4). Em
um espaço de quarenta dias, as suas palavras se tornariam
realidade. Porém, quando olhamos mais profundamente,
conseguimos enxergar a misericórdia de Deus, inclusive nas duras
palavras de Jonas, pois a primeira estrutura de seu curto sermão
declarava que Nínive recebia da parte de Deus um salvo-conduto
que consistia em “quarenta dias de graça”.32 A destruição não seria
imediata. Havia um tempo para sua consumação. Nessa “temporada
de graça”, muita coisa poderia acontecer.
A segunda parte do seu sermão anunciava a tragédia. O profeta
tinha fogo em suas palavras. A misericórdia pelos ninivitas não ardia
em seu coração. Ele foi alvo do perdão de Deus, mas não aceita
que esse perdão seja compartilhado com os ninivitas. Estava
programado apenas para ecoar a mensagem de condenação. Em
seu arcabouço profético, não cultivava a possibilidade de salvação
para aquele povo. Embora tenha sido alvo da misericórdia, naquele
momento comportava-se como um instrumento de juízo. O profeta
anunciou: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3.4). A
palavra “subvertida” no original é a mesma utilizada para retratar a
destruição de Sodoma e Gomorra.
Segundo Lawrence Richards, próximo a 742 a.C., “a Assíria fora
governada por dirigentes fracos e fora ameaçada por tribos
monteses do norte, que avançavam suas fronteiras adentro, a
160km da capital. Neste período, o perigo da destruição era
bastante real em Nínive”.33 A história também nos comprova que,
próximo a essa data, os ninivitas foram assombrados com grandes
sinais como o eclipse total de 763 a.C., ou as pragas de 765 a 759
a.C. Se Jeroboão II reinou de 793-753 a.C., a visita de Jonas a
Nínive provavelmente aconteceu no fim do seu reinado. É possível
que esses fatos tenham acontecido antes da pregação de Jonas e
serviram para preparar o coração dos ninivitas para a mensagem do
profeta.
Os ninivitas ficaram impactados com a mensagem. Alguns chegam
a supor que os ninivitas, adoradores do deus-peixe Dagom, ficaram
impressionados com o testemunho de Jonas. O livro não relata, mas
é provável que o testemunho de Jonas corroborasse sua
mensagem. Sobreviventes de situação semelhante apresentaram
manchas na pele, resultado do contato com o suco digestivo do
grande peixe.34 Assim sendo, é possível que a coloração da pele de
Jonas chamasse a atenção das pessoas que observavam a sua
mensagem com mais zelo.
Wiersbe menciona que é provável que a notícia de sua experiência
milagrosa de libertação da barriga do grande peixe tenha chegado à
Nínive.35 A desobediência de Jonas e sua experiência serviram para
fortalecer ainda mais sua mensagem e impressionar seu público-
alvo. Por meio da experiência de Jonas, percebemos que Deus
transforma as tragédias que criamos por causa da nossa indisciplina
e teimosia em caminhos para que a glória dEle venha ser
manifestada.
A resposta dos ouvintes foi imediata: proclamaram um jejum,
vestiram-se de panos de saco, de modo que até o homem mais
poderoso de Nínive humilhou-se (Jn 3.5-6). Eles deram sinais claros
e concretos de um verdadeiro quebrantamento. O jejum era um tipo
de abstinência relacionada às “obras de piedade” (Lv 16; 1 Rs
21.27-29). O pano de saco era normalmente uma veste feita de
pelos de cabra com abertura no pescoço e nos braços. Considerado
o tipo de vestimenta mais pobre daquela época, era usada em
momentos de luto, humilhação e tristeza (1 Rs 20.31-32; Jó 16.15;
Is 15.3; Jr 4.8; 6.26; Lm 2.10; Ez 7.18).36 Definitivamente, os
assírios sentiram profundo arrependimento.
Geralmente, os reis eram orgulhosos; entretanto, o rei de Nínive
percebeu a gravidade da situação e também participou do ritual de
humilhação. O movimento que começou de forma espontânea foi
oficializado. O rei proclamou um dia de lamentação nacional
generalizado. O próprio Deus percebeu que eles converteram-se
genuinamente, de modo que o juízo divino que estava prestes a ser
executado foi suspenso. Diante da pregação de Jonas, os ninivitas
viraram as costas para seus deuses nacionais e reconheceram a
soberania do Deus de Jonas sobre suas vidas.
A linguagem do texto para dimensionar a amplitude do
envolvimento das pessoas é hiperbólica, de modo que até “os
animais participaram” (Jn 3.7-8). O arrependimento foi unânime e
verdadeiro. Não foi uma atitude estratégica superficial desprovida de
arrependimento genuíno. Eles não justificaram seus erros, apenas
clamaram pelo perdão divino. Aos pregadores do evangelho, aqui
está uma grande lição, pois, nas palavras de Vieira: “Jonas em
quarenta dias pregou um só assunto, e nós queremos pregar
quarenta assuntos em uma hora? Por isso não pregamos
nenhum”.37 Precisamos aprender a pregar o que Deus nos mandou
pregar! Pregação é mais do que mera exibição de intelectualidade; é
obediência e compromisso para com o chamado e a missão divina.
Jonas é o único pregador da história que ministra intencionando o
fracasso de seu público e, contra a sua vontade, seu sermão tem
100% de eficácia.
O sucesso da pregação de Jonas não se dá por causa dele, o
portador da missiva, mas em razão do autor desta e de sua graça
incomparável. A conversão é resultado da ação de Deus, não sendo
uma obra puramente humana (Jo 16.8). Cristo confirmou o milagre
da conversão dos ninivitas (Mt 12.41). Nosso Deus é poderoso para
salvar! A salvação não é um produto com estoque limitado. A graça
de Deus é sem limites (2 Pe 3.9).

O Descontentamento do Profeta

O arrependimento generalizado e a suspensão do juízo divino não


agradaram a Jonas. O capítulo 4 é o mais triste de todo o livro.38 O
profeta ficou ressentido (Jn 4.1). No auge da angústia, revelou as
causas que o levaram a fugir de sua missão. O versículo 2 pode ser
interpretado como o coração do livro, pois representa a chave de
compreensão que nos leva a entender o porquê da atitude do
profeta. Ele não tinha medo da ira divina, mas temia pela
misericórdia do Senhor. Sabia que Deus, em sua piedade, poderia
sensibilizar-se com o arrependimento dos ninivitas e, desse modo,
remover o juízo (Jn 4.2).
Por cinco vezes, o livro utiliza o emprego do grau superlativo: a
grande recusa (Jn 1.3); o grande peixe (Jn 1.17); a grande cidade
(Jn 3.2); o grande desgosto (Jn 4.1); e o grande Deus (Jn 4.2b). De
todos os elementos qualificados como grande, nenhum se compara
a Deus. Jonas verdadeiramente conhecia o Senhor. Ele sabia que
Deus é tardio em irar-se. Conhecia a longanimidade de Deus! Ele
entendia que o desejo de Deus não era punir imediatamente o
pecador, por isso oferecia tempo para que o arrependimento
pudesse acontecer. A frustração de Jonas foi tão grande que ele
desejou morrer (Jn 4.3). Saiu da cidade e de longe ficou assistindo
desgostosamente o desfecho de Nínive, já prevendo a possibilidade
do livramento da parte de Deus (Jn 4.5).

A Lição da Aboboreira

O Todo-Poderoso entrou em cena mais uma vez para aplicar uma


linda lição. Deus fez nascer uma árvore — aboboreira — que
cresceu por cima da cabeça de Jonas produzindo-lhe sombra.
Aquele ato de cuidado da parte de Deus alegrou o seu coração (Jn
4.6). O profeta estava tão sensibilizado que maximizou aquela
demonstração de carinho. Apegou-se demasiadamente à sombra,
não porque amava a aboboreira, mas porque se encontrava frágil e
instável. Desse modo, qualquer situação agradável, por menor que
fosse, seria amplificada em seu julgamento valorativo.
Ele sofria tanto no seu íntimo que suas emoções oscilavam o
tempo todo. O grande desgosto no qual se encontrava foi trocado
por uma alegria extrema (Jn 4.6). Jonas demonstrava em seu
comportamento bipolaridade e depressão. Ele caminhava
rapidamente da euforia para a letargia, da alegria para a tristeza.
Suas emoções estavam oscilantes, porque, na verdade, ele
encontrava-se frustrado.
A fraqueza do profeta contrastava com a soberania de Deus. O
Deus revelado em Jonas tem amplo poder sobre todas as coisas.
Tudo está à disposição da sua ordem e à mercê da sua vontade. Foi
Deus quem mandou uma tempestade, acalmou os ventos e
providenciou o grande peixe para preservá-lo. Foi Deus quem fez o
peixe vomitá-lo. Foi Ele quem ordenou o crescimento vertiginoso da
planta e agora é Ele quem ordena que um verme destrua aquela
árvore. Do grande peixe ao pequeno verme, tudo neste mundo está
debaixo da autoridade de Deus (Jn 4.7). Quando o verme destruiu a
planta que fornecia sombra ao profeta, ele ficou fustigado pelo calor;
por conseguinte, desabou em uma tristeza profunda. “A grande
alegria de Jonas foi frustrada por um pequeno bicho.”39
Não conseguimos identificar qual era o tipo daquele verme.
Poderia ser uma larva, gorgulho, besouro, centopeia ou lagarta.
Nesse texto, o verme também pode ser compreendido
coletivamente, ou seja, como um conjunto de vermes (Is 14.11).
Deus fez aparecer o sol e um vento oriental quente para tirar Jonas
de sua zona de conforto produzindo-lhe incômodo. Isaltino G.
Coelho Filho declara que esse vento oriental é “o famoso siroco,
vento seco e quente que vem do deserto, elevando a temperatura
até 44 graus. É o vento que queima a vegetação e faz as flores
morrerem”.40 O profeta novamente desejou a morte (Jn 4.8). Jonas
estava tão vulnerável que um bicho pequeno quase o destruiu.
Hernandes Dias Lopes apresenta as incongruências de Jonas:

Jonas é um homem contraditório. É um ser em conflito. Enquanto estava

dentro do grande peixe, orou para ser liberto, mas depois pediu ao Senhor

que o matasse. Chamou a cidade ao arrependimento, mas ele próprio não se

arrependeu! Preocupou-se mais em ter conforto físico do que em ganhar os

perdidos para o Senhor. Os ninivitas, a planta, o verme e o vento obedeceram

a Deus, mas Jonas ainda recusava-se a obedecer. Jonas teve compaixão da

planta que morreu, mas não teve compaixão do povo que morreria e que

permaneceria eternamente separado de Deus.41

Os versículos finais apresentam os ensinamentos daquela


experiência. Deus utilizou-se da preocupação de Jonas com a
aboboreira para ensinar-lhe uma grande verdade. O experimento da
“aboboreira e do verme” tornou-se uma parábola no sermão
exortativo com o qual Deus confrontou-o. O profeta teve compaixão
de uma árvore que, de certa forma, o beneficiava, mas não fazia
força alguma para exercer a misericórdia sobre milhares de pessoas
pecadoras que não tinham discernimento suficiente para entender
os propósitos divinos (Jn 4.10-11).

Deus Ama quem Você Detesta

A teimosia de Jonas tem sido regularmente reprovada por nós.


Temos dificuldade em entender as atitudes do profeta. Em princípio,
isso pode parecer-nos escandaloso, difícil de ser aceito, mas, na
verdade, quando aplicamos o dilema de Jonas à nossa realidade,
veremos que possuímos dificuldades análogas. Na visão do profeta,
os assírios eram pessoas cruéis e “desumanas”. Eles mereciam
punição, e não misericórdia. Jonas “detestava” aquele povo e não
aceitava o fato de o Senhor demonstrar amor por eles (Jn 4.1-2).
Ele era um profeta que conhecia a Palavra de Deus, discernia
espiritualmente as situações, mas não queria testemunhar um
“suposto adversário” ser abençoado. Estava doutrinariamente certo,
mas seu coração não estava em harmonia com Deus. Ele sabia
teoricamente o que era certo, mas não queria aceitar e viver em
harmonia com suas convicções. Jonas conhecia o amor universal de
Deus, mas não tinha prazer em proclamá-lo aos assírios. Deus
mostrou para o profeta que havia uma inversão de valores no seu
coração: seus propósitos pessoais estavam acima dos propósitos
divinos. Por causa disso, o profeta amou mais a aboboreira do que
as pessoas perdidas em Nínive (Jn 4.10-11).
O livro de Jonas terminou apresentando o imensurável amor de
Deus pelas pessoas, independentemente da nacionalidade delas. O
amor de Deus é universal (Jo 3.16; Rm 5.15; 1 Jo 4.14). Nenhum
livro no Antigo Testamento ensina de maneira tão visível e
categórica a misericórdia divina às outras nações. Esse livro
representa o coração missionário do Antigo Testamento. Aqui temos
os pilares da doutrina da graça, amplamente pregada no Novo
Testamento. Por isso, os estudiosos afirmam que o que antes
estava velado (oculto) no Antigo Testamento foi revelado no Novo
Testamento. O livro de Jonas ensina-nos que Deus ama o mais
miserável pecador (Rm 5.6-10; 1 Tm 1.15). Deus ama até quem nós
detestamos.
Não estamos abrindo precedente para “odiarmos” ou
“detestarmos” alguém. O comportamento de Jonas não era um
modelo irrepreensível; pelo contrário, ele teve uma conduta
desabonada pelo próprio Deus. A Bíblia ensina-nos a seguir a paz
com todos (Rm 12.18; 1 Co 1.10; Fp 2.14; Hb 12.14). Cristo
declarou que devemos amar a todos, inclusive nossos “inimigos”,
isto é, aquelas pessoas que nos lesaram de alguma forma (Mt 5.44;
1 Co 4.12). Como Jonas, precisamos que Deus trabalhe em nossas
vidas ensinando-nos a sediar a realidade do amor divino em nosso
âmago (1 Co 13.13).
É o amor que deve preencher nosso coração, não a antipatia ou a
ojeriza (1 Co 14.1; 1 Pe 4.8). O amor é a espinha dorsal que
sustenta a Igreja, o Corpo de Cristo (1 Co 12.27; Ef 4.4,12,16). Mas,
apesar de sermos chamados para viver o amor, somos internamente
assaltados por sentimentos contraproducentes como ira, raiva,
rancor, amargura, ódio, inimizade, etc. Nossa visão às vezes fica
turva por causa dos nossos preconceitos. A missão de Jonas foi
encapsulada por suas ideologias. Às vezes, tornamo-nos ferrenhos
defensores de sistemas de ideias humanas e deixamos os princípios
divinos de lado. Nessas horas, Deus permite que “pequenas
tragédias” nos acometam no afã de arrancar de nós “a aboboreira”
que nos produzia sombra. Ele incide sobre nós o calor da provação,
assim como o sol e o vento oriental flagelaram Jonas. Deus arranca
de nós o conforto para que meditemos em sua vontade. Ele é quem
nos disciplina para ensinar-nos, porque nos ama como um pai ama
ao seu filho (Pv 23.13; Hb 12.6). Como Jonas, precisamos da
correção de Deus!
Existe uma pergunta sobre o livro de Jonas que não quer calar: O
profeta aprendeu a lição? Acreditamos que sim. O ato de ter
registrado a história apresentando suas grosserias pessoais
paralelamente à perfeição divina indicou o desejo de exortar seus
compatriotas para que não cometessem os mesmos erros
praticados por ele. Ao mesmo tempo, Jonas também procurou
desafiá-los ao exercício do amor para com os outros povos. Jonas
entendeu que o amor de Deus era para todos e não somente para
ele ou para seu povo.

1 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:


Editora Vida, 1991, p. 303.
2 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 223.
3MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 761.
4 IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 66.
5TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 309.
6ARCHER JR; Gleason L. Merece confiança o Antigo Testamento. São Paulo:
Edições Vida Nova, 1974, p. 346.
7 SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo:
Vida Nova, 1995, p. 363.
8 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 376.
9CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3548.
10LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 17.
11ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 307.
12 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, pp. 3549, 3550.
13ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD,
1997, p. 222.
14PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1185.
15HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 369.
16LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 49.
17LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 45.
18 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 147.
19 “A palavra hebraica usada para se referir a Deus é o nome genérico aplicado a
todos os seres divinos. É o mesmo termo encontrado no Antigo Testamento para
se referir a deidades imaginárias como ‘os deuses das nações’. Este uso mostra o
entendimento religioso dos marinheiros e não o conceito de Jonas sobre Deus”.
(REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol. 5.
Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 147)
20LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 63.
21RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 548.
22HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol.4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 1058.
23 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2ed. Vol.5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3557.
24PFEIFFER, Charles F. Comentário Bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1187.
25LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 75.
26 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 51.
27RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 498.
28 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 153.
29 SCHULTZ, Samuel J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo:
Vida Nova, 1995, p. 364.
30PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1189.
31 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 30.
32ALLEN, Leslie C. The Books of Joel: Obadiah, Jonah, and Micah. Grand
Rapids: William B. Ecrdmans Publishing Company, 1976, p. 222.
33RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 549.
34MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 763.
35WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico: Antigo Testamento. Santo André:
Geográfica Editora, 2008, p. 645.
36VAILATTI; Carlos Augusto. Jonas: introdução, tradução e comentário. São
Paulo: Editora Reflexão, 2018, p. 160.
37 VIEIRA, Antonio. Sermões. Tomo 1. São Paulo, Hedra, 2003, pp. 41-42.
38TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 315.
39VAILATTI; Carlos Augusto. Jonas: introdução, tradução e comentário. São
Paulo: Editora Reflexão, 2018, p. 178.
40 COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Jonas: nosso contemporâneo. Rio de
Janeiro: JUERP, 1992, p. 58.
41LOPES, Hernandes Dias. Jonas: um homem que preferiu morrer a obedecer a
Deus. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 119.
CAPÍTULO 7

Miqueias: Deus quer Obediência


de Coração

Esse livro é o quarto maior dentre os profetas menores, sendo


citado cinco vezes no Novo Testamento, inclusive pelo próprio Jesus
(Mq 7.6; Mt 10.35,36). Embora Miqueias fosse do sul, podemos
dizer que sua mensagem foi endereçada aos dois reinos: Israel
(Norte) e Judá (Sul). Enquanto Isaías, seu contemporâneo,
profetizou exclusivamente para o Sul, Miqueias possuiu uma maior
amplitude em seu arcabouço profético, por isso abarcou os dois
reinos em sua mensagem.
O nome “Miqueias” significa “Quem é semelhante a Jeová?” (Mq
7.18). A Bíblia chega a citar doze pessoas que receberam nomes
equivalentes a Miqueias. No hebraico é “Miqayah”, composto da
junção de três palavras: “Mi qah yah”, significando “Quem é como
Jeová?”. Yah tem sido entendido como uma abreviatura ou
contração de Yahweh.1 Seu nome era uma indagação exclamativa e
ao mesmo tempo uma confissão da soberania de Deus em um
período de apostasia, idolatria e múltiplas ameaças.
Seu livro é considerado o evangelho da justiça social. Miqueias foi
um homem corajoso que não teve receio de condenar o pecado.
Proveniente da zona rural, era oriundo de uma família camponesa e
humilde. Por causa desses antecedentes pessoais, conseguiu como
nenhum outro profeta exercer a empatia colocando-se no lugar dos
pobres. Sentiu como ninguém as desgraças do povo pobre do
interior que estava constantemente debaixo de ameaças. “Com
coragem invulgar denunciou os esquemas de corrupção no palácio,
no poder judiciário e nos corredores do templo.”2 Como um
verdadeiro arauto da verdade, expôs o erro e desafiou seus
compatriotas a arrependerem-se.

Quem Foi Miqueias?

A Bíblia define-o como “morastita”, em outras palavras, “nativo de


Moresete”, uma comunidade rural localizada no limite de Judá, bem
distante do centro urbano — Jerusalém — de onde se tomavam as
principais decisões políticas da nação (Mq 1.1). Essa cidade ficava
cerca de quarenta quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Estudiosos
afirmam que Moresete-Gate era uma cidade na fronteira de Judá
com uma “terra de ninguém”, cobiçada pelos filisteus, egípcios e
assírios.3 Outros acreditam que Moresete-Gate era um local
dependente de Gate, terra dos filisteus.
O fato é que esse lugarejo não tinha qualquer importância
econômica ou política para Judá. Miqueias não era parente de um
figurão empoleirado no poder econômico ou institucional. Era um
homem simples que representava os camponeses. Suas ilustrações
foram quase todas tiradas da vida agrícola (Mq 3.12; 6.15; 7.1).4 Por
trás de Miqueias, não estava um rico importante, nem uma família
influente, mas o Todo-Poderoso. Miqueias jamais titubeou em
cumprir sua missão, pois tinha total certeza do chamado divino. Por
isso, estava cheio de juízo e força para denunciar os pecados de
Israel (Mq 3.8). Era um homem alcatifado por uma impressionante
determinação.
A distante posição geográfica de Moresete e sua localização perto
da fronteira faziam da cidade um posto estratégico de observação. A
sua cidade natal estava situada na rota dos invasores; assim sendo,
os morastitas observavam quaisquer movimentos militares na
região. Miqueias não era um homem alienado. Percebia os
movimentos políticos internacionais. Ele chegou a prevê-los. Porém,
seu foco não era a política externa, nem as questões internacionais
que impunham grandes incertezas sobre aquele período. Segundo
Ewell, “ele viveu para assistir à chegada do exército assírio, a queda
de Damasco na Síria, a guerra entre Israel e Judá, a conquista da
Galileia, a destruição de Samaria e do Reino do Norte, a derrota do
Egito por Sargão. Foi um período de inquietação e turbulência”.5
Apesar de tantos alvoroços envolvendo as questões militares, o
profeta concentrou sua pregação nos pecados pessoais e sociais de
injustiça que cresciam vertiginosamente em Judá.
Podemos dizer que Miqueias foi uma mistura de Amós com Isaías,
pois ele herdou os antecedentes pessoais de Amós mesclado à
visão e sabedoria de Isaías. À semelhança de Amós, ele denunciou
a injustiça social; por outro lado, também demonstrou lampejos
messiânicos, tal como Isaías (Mq 4.10-8; 5.2-5). Miqueias era de
origem humilde semelhante a Amós. Longe do movimento das
grandes cidades, conseguiu ouvir o grito dos oprimidos e foi para
esse público especial que devotou a sua vida e palavra profética na
tentativa de defendê-los do sistema social exploratório que fincava
raízes em Judá.
A Bíblia não revela sua filiação. É provável que a ocultação de sua
linhagem fosse pelo motivo de que sua família não fosse importante
a ponto de ser destacada. Além do mais, o texto expôs sua humilde
residência em um lugarejo na fronteira de Judá. Estudiosos afirmam
que as muitas alusões contidas no livro sobre o trabalho pastoril
indicam que Miqueias fosse pastor de ovelhas quando recebeu o
chamado profético (Mq 2.2; 3.2,3; 4.6; 5.3; 7.14).6 Nesse caso,
Miqueias teria sido mais um pastor, assim como Moisés e Davi,
entre os escritores de livros canônicos.

Período em que Profetizou


O texto bíblico data sua profecia nos reinados de Jotão (742-735
a.C.), Acaz (735-715 a.C.) e Ezequias (715-687 a.C.), reis de Judá
(Mq 1.1). Embora fosse oriundo do sul, profetizou para os dois
reinos: Israel e Judá, sendo sua mensagem destinada
primariamente às respectivas capitais: Samaria e Jerusalém (Mq
1.1). Miqueias advertiu sobre o juízo iminente que Deus derramaria
sobre essas nações. Tendo em vista tais considerações, podemos
ressaltar que grande parte da sua profecia foi endereçada a Judá.
O texto de Jeremias 26.18 revela que algumas de suas profecias
foram entregues no tempo do rei Ezequias. Considerando que Jotão
e Ezequias foram reis bons e tementes a Deus, não é errado supor
que grande parte de sua mensagem tenha sido entregue no reinado
do ímpio Acaz, pois refletia apropriadamente a condição espiritual
de apostasia em Judá.7
A forte ênfase de Miqueias na justiça pessoal também se encaixa
nos dias de Ezequias, pois, de acordo com os estudiosos, as
reformas nesse período tiveram implicações apenas na parte
cerimonial e no culto; portanto, não trouxeram tanto impacto sobre a
vida pessoal dos habitantes de Judá.8 Sabemos que a profecia do
capítulo 1 sobre o cativeiro de Israel foi entregue um pouco antes de
722 a.C., pois sua mensagem tinha um tom de aviso antevendo uma
catástrofe e não se adequava ao estilo literário de um relato
histórico (Mq 1.6). De acordo com a história, Samaria foi destruída
pela Assíria em 722 a.C. Assim sendo, Miqueias profetizou um
pouco antes. Há quem chegue a supor que sua mensagem foi
escrita em 725 a.C.,9 cerca de três anos antes da tragédia do Norte.
Todavia, não podemos afirmar essa questão. A única verdade
concernente a Miqueias é que sua pregação começou um pouco
antes de 722 a.C.
O lamento de Miqueias (Mq 1.8-16) mencionou algumas cidades
do Reino do Sul, descrevendo com nitidez e lógica a provável rota
do exército de Senaqueribe quando ele chegou a Jerusalém em 701
a.C., no reinado de Ezequias.10

Profetas Contemporâneos

Miqueias viveu nos tempos áureos da profecia bíblica atuando na


última metade do século VIII a.C., sendo contemporâneo de Isaías,
Oseias e Amós.11 Enquanto o primeiro endereçou sua mensagem
para o sul, os dois últimos profetizaram para o norte. Miqueias atuou
juntamente com Isaías exercendo o ofício profético em Judá. Há
quem acredite que Miqueias e Isaías faziam parte dos “homens de
Ezequias”, responsáveis por compartilhar os provérbios de Salomão
dos capítulos 25 a 29 do livro de Provérbios (Pv 25.1). Essa
inferência sugere que, apesar de sua origem camponesa, Miqueias
alcançou o respeito diante da corte real na época de Ezequias, um
rei temente a Deus.
Enquanto Isaías profetizou durante os reinados de Uzias, Jotão,
Acaz, Ezequias e, provavelmente, Manassés, Miqueias profetizou
nos reinados de Jotão, Acaz e Ezequias. Em outras palavras,
quando começou, Isaías já era conhecido e possivelmente terminou
seu ministério profético antes dele. Acredita-se que ,enquanto Isaías
dirigiu sua mensagem às classes mais opulentas, como um profeta
“capelão da corte”, Miqueias desenvolveu o seu ministério entre as
classes mais humildes, como um profeta da periferia. Podemos
perceber uma grande semelhança nas profecias de Miqueias e
Isaías (Mq 4.1-3; Is 2.2-4).
Embora fossem contemporâneos, Miqueias nunca se referiu a
Isaías, e o contrário também não aconteceu. Seus ministérios foram
distintos, apesar de terem se desenvolvido no mesmo período e
apresentarem um repertório profético semelhante. Ambos
profetizaram sobre a invasão assíria e destruição do Reino do Norte;
o livramento divino do jugo assírio concedido a Judá; ambos
advertiram sobre a realidade posterior de um cativeiro babilônico;
ambos anunciaram o nascimento do Messias (Is 7.14; Mq 5.2) e
proclamaram eventos futuros relacionados ao livramento final que
Deus concederá a Israel.
Tanto Isaías como Miqueias denunciaram o perigo de uma
religiosidade superficial fundamentada apenas em rituais e
desprovida de significados espirituais e verdadeiros. Lendo os livros
de Isaías e Miqueias, facilmente detectaremos que eles viveram na
mesma época. Alguns estudiosos conferem a Miqueias o título de o
“Isaías entre os profetas menores”, dando destaque à sua sabedoria
aliada ao seu estilo poético e literário brilhantes.

O Juízo Divino sobre Israel e Judá

O livro começou apresentando uma dura mensagem: os pecados


de Israel e Judá fizeram Deus sair do seu lugar santíssimo para
instaurar o tribunal e trazer o juízo sobre a terra (Mq 1.3). A
mensagem foi direcionada para as capitais dos dois reinos:
Jerusalém e Samaria (Mq 1.1). A locomoção de Deus não era
motivada por um passeio comum; nesse texto, Ele está saindo de
sua augusta habitação para marchar em direção à guerra. A batalha
é contra os pecados em Jerusalém e Samaria.
Na Bíblia, a utilização das capitais muitas vezes representa as
nações. Desse modo, em muitas ocasiões, Damasco representa a
Síria, Nínive a Assíria, Samaria representa Israel, e Jerusalém
representa Judá. Há quem acredite que existam informações
implícitas nessas expressões, pois era nas capitais que as
residências reais ficavam situadas e nesses centros governamentais
é que se estabelecia a política e o tom moral que governavam as
nações. A moralidade dos reis, sacerdotes, profetas e aristocratas
da capital sempre traziam grande impacto sobre a nação.12
Jerusalém e Samaria representavam os dois “centros nevrálgicos da
rebelião contra Deus e da opressão contra o povo”.13
A expressão “ouvi” envolvia tanto a questão do “escutar com
atenção” quanto “a importância de obedecer ao que se estava
escutando” (Mq 1.2). Em três momentos de sua palavra profética,
Miqueias encabeçou seu sermão com essa introdução, convocando
as pessoas para ouvirem a sua mensagem (Mq 1.2; 3.1; 6.1). A
profecia não poderia ser desprezada. Eles deveriam escutar com
atenção em face da iminência do juízo que seria aplicado por Deus
em razão de sua ira contra os pecados do povo.
Vale considerarmos que, na maioria das vezes em que o texto
bíblico fazia uso da expressão “desde o templo da sua santidade”,
evocava a ideia de juízo divino (Mq 1.2). A santidade divina não
poderia ficar omissa diante da proliferação da injustiça. Os profetas
acreditavam que, quando Deus levantava-se do trono, era para
disciplinar o seu povo. Um Deus justo não poderia permanecer
imóvel diante da proliferação da injustiça. A alteração da posição
divina dava-se em razão de sua ira. Nas palavras de J. I. Packer, “a
ira de Deus é sua justiça reagindo contra a injustiça”.14
O profeta declarou que o Senhor andaria sobre os altos da terra
(Mq 1.3). Ele “desce” e “anda” (Mq 1.3). Os dois verbos
expressavam a ação repetida. O termo andar tinha o mesmo sentido
de pisar sobre as uvas para esmagá-las. Por isso, o profeta
declarou que saía fogo dos seus pés durante sua marcha (Mq 1.4).
Tudo o que parecia sólido seria derretido como cera diante do seu
poder. O juízo divino começaria sobre os altos da terra. Os “altos da
terra” pareciam indicar os lugares fortificados de onde os poderosos
governantes julgavam-se invulneráveis; igualmente, também
apontavam para os montes de onde se erguiam os altares de
idolatria. Através de uma linguagem poética e dramática, o profeta
Miqueias declarou que a presença do Senhor seria aterrorizante e
majestosa, sobretudo para os ricos imorais e para os religiosos
idólatras.
O juízo divino estava sendo acionado por causa dos pecados de
Israel e Judá (Mq 1.5). Samaria seria reduzida a um monte de
pedras, e os ídolos construídos seriam despedaçados (Mq 1.6,7). O
quadro apresentado pelo profeta é de completa destruição. A terra
de Samaria seria tão estéril que só serviria para o plantio de vinhas.
O profeta declara que a idolatria praticada em Samaria durante
muitos anos desencadeou a ira divina. O Deus revelado nas
Escrituras não é um deus deísta, que criou o mundo e abandonou-o.
Ele é um Deus pessoal, que se relaciona conosco e interfere em
nossos movimentos.
A situação religiosa do Reino do Norte desde a divisão do império
em 931 a.C foi marcada pela idolatria. O primeiro rei do Norte,
Jeroboão I, tratou de introduzir a idolatria em Israel colocando
bezerros de ouro nos templos de Betel e Dã, sofisticando a liturgia
dos cultos na tentativa de impedir que o povo fosse adorar a Deus
em Jerusalém (1 Rs 12.28). A motivação política por trás de seus
empreendimentos estratégicos era sórdida e tinha o propósito de
enfraquecer a influência religiosa que Jerusalém tinha sobre os
nortistas.
O sacerdócio levítico hereditário era ignorado. Os homens
tomavam decisões desconsiderando as prescrições divinas. Os
sacerdotes de outras linhagens — sem o respaldo da Lei Mosaica
— começaram a trabalhar nos templos idólatras do Norte. Daquele
tempo (931 a.C.,) até os dias de Miqueias, ou seja, nesses duzentos
anos aproximadamente, o povo atolara-se em um lamaçal de
idolatria, de modo que os reis que sucederam Jeroboão I
demonstraram nitidamente as inclinações idólatras de seus
corações. Nenhum rei do Norte foi temente a Deus. Todos agiram
com desobediência. A chaga intensificou-se a ponto de Miqueias
constatar que era incurável (Mq 1.9). Toda a impiedade do Norte
estava estendendo-se ao Sul.
Miqueias lamentou aquela situação. Apesar de ter palavras duras,
tinha um coração sensível. O profeta não demonstrou prazer em
perceber que o juízo anunciado estava prestes a ser cumprido.
Como o profeta Isaías, ele andou despojado e nu. Miqueias abriu
mão das vestes exteriores que o identificavam como um profeta e
caracterizou-se na condição de um deportado para que as pessoas
pudessem não apenas ouvi-lo, mas também observá-lo. Essa era
uma forma clarividente de anunciar que o juízo estava próximo de
ser derramado sobre o povo (Is 20.2,3). Sua nudez foi um ato
simbólico. Na Bíblia, o termo nu geralmente significava que a
pessoa estava vestida apenas com uma peça íntima.15
Miqueias demonstrou seu pesar chorando ruidosamente,
lamentando, uivando e gemendo (Mq 1.8). O profeta percebeu quão
perverso era o seu povo e também vislumbrou o cálice da ira do
Senhor que seria derramado, por isso exteriorizou sua tristeza
profunda. Ele declarou que lamentaria como um “dragão” ou um
“chacal” e prantearia como um avestruz. O grito do chacal é
aterrorizante, enquanto o do avestruz é um lamento tristonho.16 O
texto indicava que Miqueias lamentaria até que se acabassem as
suas forças, até que o grito aterrorizante de um chacal fosse
transformado no pinar de um avestruz.17 Sua lamentação é
fundamentada na constatação da gravidade do problema, pois a
ferida da nação era irreparável (Mq 1.9).

O Trocadilho em sua Profecia

Nos versículos 10-16 do capítulo 1, o profeta “brincou” com as


palavras apresentando uma mensagem profética repleta de
trocadilhos. Com maestria invulgar, ele descreveu a invasão da
Assíria nos contrafortes de Judá. Devemos lembrar que Miqueias
era natural de Moresete-Gate, uma região na fronteira; sendo assim,
conhecia muito bem as fortalezas judaítas daquela região. A Bíblia
chega a declarar que todas as cidades fortificadas de Judá
sucumbiram-se diante do exército assírio (2 Rs 18.13), pois o
objetivo de Senaqueribe era isolar Jerusalém cortando toda a ajuda
externa. Com essa estratégia militar, a conquista de Jerusalém seria
inevitável.
Os lugares citados em sua profecia foram: Gate, Bete-Leafra, Safir,
Zaanã, Bete-Ezel, Morete, Jerusalém, Laquis, Moresete-Gate (sua
cidade de origem), Aczibe, Maressa e Adulão. É provável que o
profeta Miqueias estivesse apresentando a rota da invasão Assíria.
Essa profecia foi cumprida no ano 701 a.C., quando 46 cidades
fortes de Judá foram tomadas pelas tropas de Senaqueribe, rei da
Assíria.18 Jerusalém foi poupada mediante o clamor e
arrependimento do rei Ezequias (2 Rs 19; Is 37).
A seguir, compreenderemos por meio de um estudo detalhado que
Miqueias utilizou o próprio significado dos nomes dos respectivos
lugares citados para apresentar seu oráculo de juízo. Em
decorrência dessa compreensão, dizemos que o profeta brincou
com as palavras utilizando-se de vários trocadilhos. Miqueias
advertiu seus contemporâneos mostrando-lhes por meio de uma
fraseologia inteligente que o juízo que viria sobre a nação estava
estampado nos próprios nomes desses lugares. Vamos entender o
jogo de palavras em sua profecia.
Gate: Era uma cidade filisteia que esteve sobre o domínio israelita
no final do século X a.C. (2 Cr 11.8) e no século VIII a.C. (2 Cr 26.6).
Essa cidade também já esteve sob o domínio sírio (2 Rs 12.17).19
Há uma dupla interpretação para o uso da palavra Gate. Em
primeiro lugar, há quem diga que o nome da cidade significa “lagar
de vinho” ou “prensa de lagar”. Em Gate, as uvas “choravam”
enquanto eram pisadas nos lagares. Popularmente, o local era
conhecido como a “Cidade das Lágrimas”.20 Parafraseando as
palavras de Miqueias, a notícia trágica da derrota de Judá não
deveria ser contada a Gate, pois a “Cidade das Lágrimas” não
deveria receber notícias sobre as lágrimas derramadas em Judá.
Talvez Gate pudesse inclusive ajudar o ataque assírio ao receber
tais informações,21 ou até mesmo zombar do povo de Deus vendo o
castigo a que estavam sendo submetidos. Em segundo lugar, há
quem acredite que Gate significa “anunciar”; nesse caso, fazendo
um trocadilho com a palavra, o profeta diz que a derrota não deve
ser anunciada em Gate, o lugar da anunciação.22
Bete-Leafra: Essa era uma região desconhecida, citada
exclusivamente em Miqueias 1.10. O profeta conhecia os lugares
mais remotos da região na fronteira de Judá. Os habitantes de Bete-
Leafra (termo que significa “cidade do pó” ou “casa da poeira”) se
revolveriam no pó lamentando intensamente a tragédia ocorrida.
Safir: Safir significa “bela”; todavia, diante da tragédia, seria
envergonhada ficando nua. Não temos informações sobre o lugar
preciso de Safir, pois várias vilas eram chamadas por esse nome
nos tempos bíblicos. Provavelmente, o profeta descrevia a cena de
vergonha a que os cativos seriam submetidos quando fossem
transportados nus.
Zaanã: O nome dessa cidade significa “sair para fora” no sentido
de agitar-se. Embora o “sair para fora” seja aparentemente um
pleonasmo, esse realmente seria o significado do termo. Ao
contemplarem a tristeza dos vizinhos, eles não ousariam “sair”.
Desse modo, negariam o socorro e iriam omitir-se naquela
conjuntura de juízo. Em outras palavras: Zaanã, a “Cidade da
Agitação”, não teria coragem para agitar-se,23 ficando aterrorizada
por causa do invasor.
Bete-Ezel: Bete-Ezel significa “Casa da Proximidade”; no entanto,
de acordo com o profeta, ninguém desejaria aproximar-se daquele
lugar quando estivesse sendo destruído pelos invasores assírios.24
As palavras de Miqueias eram duramente pesadas e impregnadas
de ironia. Isso não significa que ele fosse indiferente à situação. Ele
chorou profundamente por saber o que estava prestes a acontecer,
mas entendeu que era necessário ser intenso nas palavras no afã
de despertar aquela geração.
Moresete: Moresete ou Marote significa “amargor”.25 Seus
habitantes esperariam em vão por boas notícias e, no final,
terminariam amargurados ao saber o mal que estava próximo de
Jerusalém.
Jerusalém: É interessante notarmos como Miqueias não retratou
a destruição de Jerusalém, apenas apresentou que o exército
invasor chegaria às portas da cidade. “Essa invasão chegou até as
portas de Jerusalém, mas lá Senaqueribe não conseguiu entrar.
Deus não o permitiu. Como lemos em Isaías 37.33-35.”26 Nós
sabemos que os assírios marcharam furiosamente para destruir a
“Cidade Santa”, porém, naquele momento, segundo o relato bíblico,
o anjo do Senhor interveio matando 185 mil soldados assírios (2 Rs
19; Is 37) e, de um modo sobrenatural, livrou Jerusalém da derrota
pressagiada. Quando o reino mais poderoso da terra — a Assíria —
naquele momento da história bíblica estava prestes a tomar
Jerusalém, Deus livrou o seu povo por causa da oração do rei
Ezequias feita na casa do Senhor (2 Rs 19.1-19). Percebemos que
a profecia de Miqueias foi cumprida em seus mínimos detalhes.
Laquis: “Laquis era o acesso meridional para Judá e importante
fortaleza, sendo, por isso, fundamental para a defesa de Judá,
especialmente contra o Egito (cf. Js 10.31-37)”.27 O rei da Assíria
gloriou-se do sucesso de suas tropas quando dominou Laquis, a
segunda cidade mais importante de Judá, que guardava a estrada
principal que levava a Jerusalém. Em seu período de maior
importância, Laquis chegou a ser maior do que Jerusalém.28 Essa
cidade era conhecida como um centro de criação de ótimos cavalos.
É provável que Laquis signifique “cidade dos cavalos”. Miqueias de
forma sarcástica declarou: preparem os cavalos para a fuga. O
pecado de Israel (Reino do Norte) primeiro infectou Laquis e, dessa
cidade, estendeu-se para Jerusalém. Por isso, o juízo de Deus foi
severo sobre essa região. Foi em Laquis que Senaqueribe acampou
o seu exército para ameaçar Ezequias (2 Rs 18.14).
Moresete-Gate: Essa era a cidade de origem do profeta Miqueias,
cujo significado é “a noiva de Gate”. O profeta declarou: “Por isso,
darás presentes a Moresete-Gate [...]” (Mq 1.14). Os presentes que
serão dados a Moresete-Gate no hebraico remetem à ideia de
“presentes de casamento”. O profeta estava indicando que essa
cidade deixaria de pertencer a Judá para tornar-se a “noiva dos
invasores”.
Aczibe: Era uma cidade na Sefela de Judá, próxima a Queila e
Maressa (Js 15.44; Mq 1.14). O nome desse lugar significa “cidade
da decepção”. Tem sido interpretado também como “Fonte
Mentirosa ou Local de Engano”.29 Aczibe “é uma palavra usada
especialmente para os iuádis, pequenos riachos que dependiam das
chuvas para ter águas, e que, por isso, enganavam os sedentos
que, ao encontrá-los, não podiam saciar a sede”.30 O termo remete
à ideia de frustração. Os reis de Israel ficariam decepcionados com
a derrota na cidade da decepção.31 De igual modo, a cidade seria
enganada pelos seus muitos pecados e cairia pelas mãos do inimigo
assírio.
Maressa: Significa “cidade da conquista”. Logo, os conquistadores
seriam conquistados pelos seus inimigos. Com esse jogo de
palavras, Miqueias estava dizendo que o possuidor seria possuído.
Adulão: Adulão no hebraico significa “refúgio”. Foi em Adulão que
o rei Davi buscou abrigo ao fugir de Saul (1 Sm 22.1,2; 2 Sm 23.13).
Adulão, mais tarde, foi uma das aldeias fortificadas por Roboão (2
Cr 11.7). O texto diz que chegaria até Adulão a glória de Israel. Há
quem interprete esse texto como uma indicação que a nobreza
fugiria para esconder-se em Adulão;32 outros estudiosos entendem
que o texto faz menção à glória eliminada de Israel que chegaria
inclusive até o refúgio de Adulão. Em outras palavras, no lugar do
esconderijo não haveria refúgio.
Por fim, o profeta Miqueias descreveu a cena de cativeiro. O povo
derrotado rasparia suas cabeças ao contemplar os seus filhos
transportados como escravos (Mq 1.16). Raspar a cabeça entre os
povos orientais era sinal de grande humilhação e tristeza profunda.
O sofrimento seria tanto que ele não poderia ser contido, mas seria
exposto através de demonstrações visíveis de dor e sofrimento.

Os Pecados de Israel e Judá

Enquanto no capítulo 1 Miqueias tratou da relação do povo com


Deus, no capítulo 2 apresentou os pecados que foram cometidos
contra o próximo. A apostasia diante de Deus resulta no
estabelecimento da anarquia entre os homens. Os homens são
denunciados por planejarem o mal para o próximo (Mq 2.1),
cobiçando campos e praticando a violência (Mq 2.2). Na época de
Miqueias, a prosperidade recente de Israel e Judá trouxe um surto
de riqueza que envenenou o coração dos judaítas e israelitas com o
vírus da ambição, do luxo e do materialismo. O apego aos bens
materiais levou o povo da aliança a praticar o abandono dos valores
morais e espirituais.
Os ricos fascinados pela ganância privavam os pobres dos seus
direitos apossando-se das propriedades alheias. O profeta Isaías
chegou a combater essa situação na época de Miqueias (Is 5.8). A
riqueza das principais cidades sulistas e nortistas provocou um
êxodo rural em grande escala. As pessoas da zona rural mudavam
para essas cidades em busca de melhores condições de vida. Ao
chegarem, eram exploradas por uma nova classe de ricos
inescrupulosos. Com o tempo, perdiam tudo ficando mais pobres,
enquanto os ricos ficavam cada vez mais ricos. Quando não
sobrava mais nada, os pobres vendiam-se como escravos,
perdendo não apenas bens, mas também a própria liberdade.
Portanto, esse sistema era um rolo compressor demasiadamente
injusto e opressor, sobretudo para a classe baixa.
Existiam leis estabelecidas por Deus que protegiam os pobres. A
terra era do Senhor (Lv 25.2.23). Se um pobre precisasse vender
sua terra para saldar uma dívida, o acordo só era válido até o ano
do jubileu, quando então todas as terras eram devolvidas aos seus
donos originais (Lv 25.13-17). Pois, afinal de contas, ao fazer a
venda, vendia-se a possessão, não a terra, pois os judeus
acreditavam que a terra não poderia ser vendida (1 Rs 21). Essa lei
era um dispositivo divino para livrar os pobres do jugo da opressão.
Chamava-se ano do jubileu aquele que vinha depois de sete anos
sabáticos. No quinquagésimo ano, os pobres tinham o direito à
herdade restaurada.
Porém, essa lei estava sendo ignorada, e tudo era mancomunado
com os juízes, sacerdotes e profetas que se submetiam ao esquema
do suborno. O ensino dos sacerdotes era apenas de fachada. As
decisões do judiciário promoviam a injustiça, e os profetas não
denunciavam o esquema de corrupção porque estavam envolvidos.
Miqueias foi o recurso emergencial de Deus para aquela situação, a
voz do Altíssimo precisava estrondar no coração daqueles homens.
Segundo Hernandes Dias Lopes:

Miquéias não é um profeta da conveniência. Ele ergue a voz e denuncia a

arrogância dos poderosos, a truculência dos ricos e a deslavada injustiça dos

tribunais; também emboca sua trombeta para condenar a conveniência

vergonhosa dos profetas e sacerdotes que, por ganância, ajudam a sustentar

um sistema injusto e opressor.33

A classe dos exploradores sofreria o juízo divino. Em vez de andar


com a cabeça erguida, seriam levados para o cativeiro com o
pescoço amarrado. A mesma violência que praticaram iria voltar-se
contra eles (Mq 2.3). Perderiam tudo o que conquistaram
desonestamente (Mq 2.4) e não teriam mais terras para serem
medidas, não podendo mais lançar “o cordel pela sorte” (Mq 2.5).
Os profetas bajuladores tentavam impedir que Miqueias anunciasse
o juízo (Mq 2.6). Os exploradores julgavam-se acima do bem e do
mal por pertencerem à “casa de Jacó” (Mq 2.7). Aquele povo não
aceitava a repreensão. Aqueles homens pensavam que as palavras
de Miqueias jamais se cumpririam. Possuíam uma falsa religião,
bem como uma fé construída sobre a areia. Queriam ouvir palavras
bajuladoras.
Miqueias declara que eles restringiram o Espírito do Senhor
irritando-o. Se tivessem vivido corretamente, ouviriam palavras boas
(Mq 2.7). Aqueles homens corruptos comportaram-se como inimigos
do povo do Senhor em sua própria terra (Mq 2.8). Eles expulsavam
as viúvas e seus filhos burlando a lei (Mq 2.9). Eles deveriam
levantar e caminhar, pois a terra estava contaminada com a
corrupção. A terra natal do povo deixou de ser um lugar de
descanso (Mq 2.10). Isaías foi contemporâneo de Miqueias em
Jerusalém e denunciou as mesmas questões.
Enquanto os profetas Isaías e Miqueias combatiam essa corrupção
mortal em Judá, os “profetas da conveniência” creditados pelo povo
eram as principais fontes de onde se emanavam as grandes
mentiras, pois falavam falsamente (Mq 2.11). Miqueias foi levantado
por Deus e posicionou-se como uma voz divergente em sua época.
Os homens tentaram abafar suas denúncias. Porém, Miqueias
estava convicto de sua profecia e permanecia cheio de Deus em
seu âmago; seu coração estava transbordando, e sua alma estava
incendiada pelo juízo de Deus que precisava ser comunicado
àqueles homens (Mq 3.8).
Após a aplicação da disciplina, o Senhor reuniria o seu povo
remanescente, tanto de Israel quanto Judá, congregando-os como
ovelhas de Bozra (Mq 2.12). O significado de Bozra é “curral de
ovelhas” ou “aprisco das ovelhas”; portanto, era uma cidade pastoral
no sudeste do mar Morto, em Edom. O povo voltaria a ser
apascentado pelo Senhor, que se comportaria como o arroteador do
seu rebanho, ou seja, aquele que prepara a terra e abre os
caminhos para o seu povo (Mq 2.13). Deus se incumbiria de abrir
brechas na prisão permitindo que o seu povo rompesse com o
cativeiro. A nação novamente se congregaria no porvindouro para
desfrutar de um pastoreio divino.

Profecia contra os Líderes e os Falsos Profetas

Miqueias começou uma nova mensagem no capítulo 3.


Novamente chamou atenção da sua audiência com a palavra “ouvi”.
A mensagem tinha endereço. Foi direcionada aos líderes, isto é, aos
magistrados civis e príncipes, responsáveis pela prerrogativa de
manusearem o direito (Mq 3.1).
Os líderes de Judá encontravam prazer na exploração (Mq 3.2,3).
Miqueias retratou a nação como um povo que era tratado como um
animal abatido e preparado para ser devorado. Os líderes eram
como açougueiros que arrancavam a carne do povo. Ao cozer um
animal, tudo era aproveitado: a carne, a pele e os ossos. Esses
homens arrebatavam tudo o que podiam. “A imagem de arrancar as
carnes dos pobres comunica visualmente o objetivo da profecia: a
corrupção e os maus funcionários públicos utilizam a máquina
estatal em proveito próprio, e não a serviço da população.”34
Quando a vara do Senhor descesse sobre eles, clamariam ao
Senhor, mas não seriam ouvidos (Mq 3.4).
Miqueias declarou que os profetas comercializavam suas profecias
(Mq 3.5). Esses homens mentirosos jamais conheceram a vontade
de Deus, pois sobre eles havia trevas (Mq 3.6). “Em seu
egocentrismo, temiam pregar contra o pecado de seus clientes.”35
Eles ficariam envergonhados (Mq 3.7). Miqueias estava cheio de
força e consciência para anunciar o pecado de Jacó (Mq 3.8).
Aqueles homens experimentariam trevas em vez de luz, vergonha
em vez de honra, porque agiram como mercenários no
desenvolvimento dos seus ministérios.
A diferença de Miqueias para aqueles profetas estava
principalmente em sua luta contra a injustiça (pecado). Aqueles
homens omitiam-se. Faziam vistas grossas. Profetizavam palavras
abençoadoras, quando, na verdade, o povo necessitava ser
confrontado pelos seus pecados. Apesar de serem profetas, não
estavam dispostos a lutar pela verdade e a sofrer pelos seus
ministérios. Queriam facilidades. Aqueles profetas estavam tão
envolvidos com a política que, com o tempo, foram absorvidos pela
quadrilha do engano. Tornaram-se coniventes quando deveriam ser
combatentes. Aderiram ao esquema da injustiça, porque lucravam
com ele. Silenciaram suas vozes para encher os seus bolsos.
Ganharam bens financeiros, mas perderam as virtudes espirituais.
Por isso, estavam nas trevas da ignorância e da falta do
conhecimento de Deus.
Esses homens eram os maiorais. Tinham posições hierárquicas
reconhecidas, eram grandes diante dos homens, mas pigmeus
diante de Deus. Eles abominavam o juízo e distorciam o direito das
pessoas (Mq 3.9). A cidade de Jerusalém estava sendo edificada
por eles com os tijolos da violência e o cimento da injustiça (Mq
3.10). Os magistrados vendiam as sentenças por presentes, os
sacerdotes ensinavam por interesse, e os profetas apresentavam
mensagens com motivações escusas e mercadológicas (Mq 3.11).
Estava tudo errado! Miqueias denunciou essa quadrilha do mal que
agia utilizando os principais postos de Jerusalém, encargos que
deveriam ser ocupados em defesa da justiça e da verdade.
Miqueias declarou nitidamente que, por causa dos pecados dos
líderes e sacerdotes, a cidade seria destruída (Mq 3.12; Lm 4.13),
tal como a Samaria (Mq 1.6). O profeta previu a cidade arruinada
pela destruição. Deus apiedou-se de Judá por causa de Ezequias.
Mas veremos que o mesmo Deus que livrou Jerusalém dos assírios
em 701 a.C. foi o mesmo que entregou a cidade nas mãos dos
babilônios um tempo depois. Dessa forma, a profecia de Miqueias
foi cumprida não em sua época, mas cerca de um século após o seu
ministério.

Promessas e Exortações

Há uma mudança radical no tom das profecias de Miqueias no


capítulo 4. Se antes ele abordou a questão do pecado humano e do
juízo divino, neste ponto de seu oráculo apresentou o futuro de
glória preparado para o povo do Senhor. O profeta tirou os seus
olhos dos sórdidos abusos cometidos em seu tempo para
contemplar não mais o julgamento, mas a restauração dos justos.
Ele deixou por um momento o presente assinalado pelo julgamento
iminente para penetrar na visão gloriosa dos “últimos dias” (Mq 4.1).
Apesar de viver em uma época difícil, saturada de injustiça e
constantemente ameaçada pela guerra, Miqueias profetizou um
tempo de paz entre as nações. Isso aconteceu porque ele
“contemplou a vinda de Cristo para estabelecer seu reino terrestre
entre os homens”.36 Cristo é a chave hermenêutica para
entendermos a reviravolta no discurso do profeta. A presença de
Cristo transforma contextos sociais corrompidos e revigora as
expectativas humanas, trazendo-lhes novamente a esperança. Das
cinzas da destruição, resultado da injustiça social e pecado contra
Deus, surgiria em Jerusalém um grande centro de adoração. O texto
destaca que “muitas nações” serão alcançadas por essa adoração
que tem como epicentro a cidade de Jerusalém.
É oportuno considerarmos algumas questões fundamentais na
interpretação da profecia de Miqueias, visto que, quando entregou
sua mensagem, o momento era incerto nos dois reinos (Norte e
Sul). Além do mais, o contexto histórico do profeta estava carregado
de prognósticos pessimistas. Os reinos tinham se dividido e não
havia expectativa de reunificação. A Assíria estava prestes a invadir
o Norte. Jerusalém tinha perdido sua expressividade no cenário
internacional. Não gozava mais da mesma reputação como nos
tempos do reinado davídico-salomônico.
O profeta também previu um cativeiro para o Reino do Sul. No
entanto, Miqueias enxergou além e previu uma nação unida,
restaurada, livre de ameaças e influente no mundo. Essa mensagem
trazia esperança e revelava fé na fidelidade histórica do Deus de
Israel. Apesar do remanescente judaico ser pequeno e fraco,
encontrando-se disperso pela terra, o profeta anunciou que Deus
novamente os congregaria, fazendo deles um exército poderoso (Mq
4.6,7).
Miqueias profetizou que as nações serviriam ao Senhor em
Jerusalém (Mq 4.2). A expressão “filha de Sião” refere-se a
Jerusalém. O profeta declara que o período de guerra cessaria e o
povo desfrutaria de tranquilidade. Em suas previsões, mencionou
que haveria um desarmamento universal. Nesse novo tempo,
espadas fariam o papel de enxadas, e lanças seriam convertidas em
foices (Mq 4.3). Nesse período, os ídolos seriam abandonados, e
Israel serviria somente ao Senhor (Mq 4.5). Portanto, nessa época,
haveria um reparo na religiosidade de muitos. Miqueias previu um
avivamento espiritual sobre o povo do Senhor.
Aqueles que coxeavam seriam restaurados. A palavra coxear
indica aqueles que não andaram conforme a vontade do Senhor; em
outras palavras, os errantes seriam acolhidos (Mq 4.6). O povo que
tinha sido disperso tornar-se-ia uma nação poderosa. Miqueias
profetizou que o Deus do cativeiro é também o Deus da
restauração. Ele fez a ferida e curou (Mq 4.7). Porém, antes da
exaltação, Judá seria humilhada (Mq 4.9) e sofreria intensamente
com o cativeiro na Babilônia (Mq 4.10). Nesse versículo, a imagem
que o profeta traz é de uma mulher que sofre com as dores de
parto, mas, finda a aflição, saboreia as alegrias da maternidade (Mq
4.10).
O profeta declarou que, no presente, Jerusalém estava sendo
atacada pelas nações inimigas (Mq 4.11), mas, no futuro, o povo
que estava sendo alvo seria o instrumento executor do juízo divino
(Mq 4.12,13). A vara do juízo mudaria de mão. Não estaria mais nas
mãos dos inimigos, mas sob o controle de Jerusalém. De acordo
com Miqueias, “Sião” debulharia os povos inimigos como o grão que
é pisado pelos bois na eira. Depois de apresentar o futuro
esplêndido que os esperavam, Miqueias voltou para a sua realidade
cruel e advertiu o povo. Eles deveriam preparar-se para o cerco que
aconteceria (Mq 5.1). Miqueias apresenta a realidade da cidade
sitiada.

A Promessa do Messias

É nesse momento de seu oráculo que o profeta previu uma das


palavras mais significativas sobre Cristo no Antigo Testamento. Para
ele, após o perigo retratado pelo cerco, haveria redenção. Depois de
ter apresentado a ferida do juiz de Israel indicando as adversidades
do presente, apresentou que o Senhor de Israel surgiria no futuro. A
imagem da figura humana de um juiz contrasta com a imagem do
“Senhor de Israel”. “Senhor de Israel” é um termo comumente
empregado no Antigo Testamento para referir-se a Deus.
O profeta anunciou que esse “Deus” surgiria de uma cidade de
Judá. A cidade de Belém-Efrata, localizada cerca de 10 quilômetros
ao sul de Jerusalém, foi a escolhida por Deus para coroar o
nascimento do Messias (Mq 5.2). O profeta destacou a eternidade
de Cristo, pois suas origens são desde os tempos antigos. Essa
profecia indica o mistério da encarnação, pois só é desde a
eternidade.37
Cristo seria um líder bem diferente dos chefes e magistrados da
época de Miqueias (Mq 5.4). Nas palavras do profeta, Ele trará paz
e se imporá sobre os poderes mundiais, que foram representados
pelo inimigo mais próximo quando a sua profecia foi escrita: a
Assíria (Mq 5.5,6). Nesse período porvindouro, Israel estaria entre
os povos como orvalho, refrigerando a terra e trazendo vida (Mq
5.7). Miqueias prevê um tempo de restauração após o drama do
cativeiro. Sua profecia é endereçada “ao resto de Jacó”.
Esse remanescente fiel se tornaria uma forte potência (Mq 5.8,9).
A metáfora do leão entre os animais do bosque representa o poder
de liderança que Israel exerceria sobre as demais nações. Quando
esse Deus fosse exercer o seu domínio sobre seu povo, não haveria
necessidade dos instrumentos de guerra, pois a paz seria
totalmente estabelecida (Mq 5.10,11). De igual modo, todas as
práticas de feitiçaria, adivinhação (agoureiros) e idolatria seriam
removidas (Mq 5.12-14). Miqueias viu uma restauração sem
antecedentes históricos. Seria algo completamente novo. Todavia,
para aqueles que recusassem a mensagem, haveria ira e vingança
da parte do Senhor (Mq 5.15).

Israel sob Julgamento

O capítulo 6 começou com Israel no banco dos réus (Mq 6.1-2).


“Os montes são convocados como juízes enquanto o Senhor (o
promotor público) apresenta sua controvérsia contra Israel (o
réu)”.38 Deus fez uma pergunta retórica à nação. Nesse caso,
pretendia simplesmente levar o povo à reflexão. A pergunta “Em que
te enfadei?” pode ser parafraseada como “O que fiz para que vocês
se cansassem de me obedecer?”.39 Deus protegeu o seu povo,
libertou-o do Egito e impediu que Balaque e Balaão amaldiçoassem-
no (Mq 6.4,5). Exemplos históricos do amor e do cuidado de Deus
são citados pelo profeta, dando cores aos argumentos. O veredicto
nesse julgamento foi a favor de Deus.
Logo em seguida, o profeta introduziu novas perguntas retóricas:
“Com que me apresentarei ao SENHOR?” (Mq 6.6). O profeta mais
uma vez usou de ironia para apresentar o que o povo estava
disposto a fazer. Israel estava disposto apenas a oferecer
sacrifícios, seguir rituais e nada mais (Mq 6.6,7).
Miqueias relatou que sacrifícios ordinários (bezerros de um ano),
sacrifícios extraordinários (milhares de carneiros e dez mil ribeiros
de azeite) e até sacrifícios tão extraordinários a ponto de violar a lei
(primogênitos) não representam aquilo que Deus espera do seu
povo (Mq 6.6,7). Israel respondeu ao amor verdadeiro de Deus com
uma religiosidade superficial mesclada com uma falsa adoração,
pois até o sacrifício de primogênitos foi introduzido no meio do povo,
juntamente com outras práticas pagãs.40
O profeta apresentou o cerne de seu sermão: “Ele te declarou, ó
homem, o que é bom; e que o SENHOR pede de ti, senão que
pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente
com o teu Deus?” (Mq 6.8). O povo deveria ouvir essas palavras
(Mq 6.9). As pessoas que deveriam ser um canal de justiça,
misericórdia e humildade colecionaram tesouros de impiedade (Mq
6.10). Acreditamos que esse texto pode referir-se literalmente à
riqueza estocada na casa dos ímpios à custa da injustiça e
corrupção, ou que a expressão “tesouros da impiedade” seja uma
forma simbólica de apontar o acúmulo de pecados dos rebeldes.
Esses tesouros foram conquistados com balanças falsas (Mq 6.11),
violência e enganação (Mq 6.12).
A nação seria enfraquecida por causa dos seus pecados (Mq
6.13). Deus simplesmente estava entregando ao povo os resultados
do seu plantio. Os juízos divinos não são arbitrários, mas lógicos e
coerentes. Eles seriam punidos com a insatisfação e com a fome
(Mq 6.14). Eles trabalhariam muito, contudo obteriam pouco,
pisariam nas uvas e nas azeitonas, mas não usufruiriam do vinho e
do azeite (Mq 6.15). Esse texto parece refletir a condição de um
cativo. Eles receberiam essa punição porque seguiram o conselho
dos ímpios, nesse caso, os reis Onri e Acabe, que foram tão cruéis
que se tornaram símbolos da iniquidade (Mq 6.16).

O Lamento de Israel

Miqueias lamentou com pesar a situação dos seus


contemporâneos. O profeta sofreu ao ver a corrupção entrincheirada
nas camadas da sociedade. Apresentou um profundo gemido ao
constatar a condição espiritual do seu povo: “Ai de mim” (Mq 7.1).
Essas palavras representam o gemido de um servo devoto e fiel a
Deus vivendo em uma sociedade corrompida. O profeta diz que se
sentia carente tal como um pomar ficava após a colheita. Ele
desnudou a sua alma e abriu o seu coração ao Senhor.
A retidão nos seus dias estava em extinção (Mq 7.2). A corrupção
era generalizada e manuseada com acuidade. Tinha atingido o
príncipe, o juiz e o grande (Mq 7.3). “O melhor deles é como um
espinho” (Mq 7.4). Os líderes encontravam-se manchados pela
avareza, imoralidade e egoísmo. Os homens de seu tempo eram tão
voláteis e egocêntricos que as pessoas não podiam confiar em
ninguém, nem nos amigos, nem nos profetas e nem nos familiares
(Mq 7.5,6). A sociedade era traiçoeira. As coisas valiam mais do que
as pessoas. Os relacionamentos tornaram-se descartáveis e eram
vistos como um meio para chegar-se a um fim. O profeta procurou
pessoas devotas para estabelecer vínculos, mas não encontrou
ninguém. Sentia-se sozinho. Sua confiança estava alicerçada
unicamente em Deus, e não em homens (Mq 7.7).
Miqueias entregou uma palavra profética para a nação captora: a
Babilônia. Declarou que os algozes não deveriam alegrar-se com a
queda dos judeus, pois eles seriam levantados novamente. Apesar
de o povo ter que passar pelas trevas da provação, um dia seriam
surpreendidos pelo amanhecer da restauração (Mq 7.8). Sofreriam a
ira do Senhor de forma pedagógica no cativeiro babilônico (Mq 7.9).
Porém, o profeta advertiu que, quando os babilônios começassem a
vangloriar-se, seriam confundidos. Deus enviaria os medos e persas
para pisar na Babilônia como se pisa na lama da rua. Eles
perderiam o posto de elevação e seriam abatidos.
O profeta conseguia ver o período de reconstrução antes de a
destruição chegar. As muralhas de Jerusalém seriam reconstruídas,
e os seus limites seriam ampliados (Mq 7.11). Eles seriam exaltados
diante das grandes nações (Mq 7.12). Em um momento conturbado,
Deus apascentaria o seu povo (Mq 7.14), maravilhas seriam
manifestadas (Mq 7.15), as nações testemunhariam esse domínio e
ficariam envergonhadas (Mq 7.16). As nações amedrontadas se
submeteriam a Deus (Mq 7.17). Há um contraste nítido de
comportamento das nações inimigas de Israel: se antes se
vangloriavam em seu poder, agora “lamberão o pó como serpentes”,
ou seja, se arrastarão pelo chão (Mq 7.10,16,17). Deus abaterá os
soberbos e derramará sua graça sobre os humildes que confiaram
no Senhor.

Doxologia: O Triunfo da Graça

Miqueias finalizou seu oráculo com um jogo de palavras, um


trocadilho com o significado do seu próprio nome: “Quem, ó Deus, é
semelhante a ti [...]?” (Mq 7.18). A exibição futura do poder do
Senhor convencerá o mundo de sua soberania. Ninguém pode ser
comparado a Deus. Ele é único e soberano. Miqueias louvou ao
Senhor pelo seu caráter. A ira divina tem prazo de validade, pois o
Senhor está sempre pronto a perdoar o transgressor. O prazer de
Deus está na aplicação da benevolência (Mq 7.18). Os pecados do
povo seriam esquecidos (Mq 7.19). O perdão de Deus é para
sempre e livra o ofensor da culpa. É libertador. É pleno. É completo.
Suas promessas a Abraão e Jacó serão cumpridas (Mq 7.20).

Deus Quer Obediência de Coração

Podemos dizer que o cerne da mensagem do profeta Miqueias


está na compreensão de que o Senhor deseja uma obediência
sincera do seu povo. Não se trata de uma submissão ritualística,
nem tampouco de ações religiosas mecânicas e desprovidas de
boa-fé. A religiosidade, quando mal gerida, tem o poder de criar uma
enganosa sensação de paz; por isso, devemos submeter nossa
relação com Deus não àquilo que nos instruem as tradições
humanas, mas àquilo que nos preconiza a Palavra de Deus. A
verdadeira adoração é a resposta obediente à Palavra de Deus.
Miqueias 6.6,7 registra que eles ofereciam tudo, até o que Deus
proibia, isto é, sacrifícios humanos, só não eram capazes de
oferecer o que Deus pedia: o coração com amor e obediência.
Adoração a Deus envolve uma exigência insubstituível: nosso
coração por inteiro. Nada deste mundo, nem riquezas, nem ofertas,
nem rituais, terá o poder de ocupar o lugar do nosso coração no
culto que agrada a Deus.
Como podemos agradar a Deus? A pergunta de Miqueias continua
a ecoar em nossos pensamentos. O salmista fez a mesma pergunta
(Sl 116.12). O receituário escriturístico para uma comunhão real com
Deus é simples. Segundo o preceito de Cristo, envolve apenas dois
elementos. Nossa adoração precisa ser em espírito e em verdade
(Jo 4.23-34). “Em espírito” porque exige inteireza de coração. Em
outras palavras, acessamos a presença de Deus entregando-lhe o
âmago de nosso ser; “em verdade” porque o que fazemos devemos
fazer com honestidade de propósitos. Nossa aproximação a Deus
não pode ser interesseira, mercenária, exteriorizada ou superficial.
Devemos ficar mais próximos dEle porque o amamos com todo o
nosso ser. O amor a Deus deve envolver todas as nossas forças,
todo o nosso coração e todo o nosso entendimento; em suma,
abarca a nossa vida por completo (Dt 6.5; Mc 12.30; Lc 10.27).
Não podemos declarar “confessional” e “religiosamente” valores
que não empregamos cotidianamente nas nossas vidas. Isso quer
dizer que não adianta adorarmos o Deus da verdade se vivemos na
mentira. Não adianta adorarmos o Deus da justiça se cometemos
injustiças contra o próximo. Se amamos a Deus, devemos amar o
que Ele ama e reprovar o que Ele reprova. Miqueias está nos
ensinando que o culto tem mais a ver com a forma como vivemos do
que com os rituais que praticamos. Culto não é o que faço, é o que
sou. Não se trata de liturgia, mas de testemunho. Os rituais
religiosos podem ser praticados por um coração ímpio, mas a
adoração verdadeira só pode ser oferecida por um coração justo.
Miqueias apresentou os três pilares fundamentais que sustentam
nosso relacionamento com Deus: justiça, amor e humildade (Mq
6.8). Podemos dizer que a adoração a Deus só será “em verdade”
se estiver estruturada por esses três pilares. Deus espera de nós
um tratamento justo e equitativo para com o próximo e uma vida
diligente de fé, desfrutada em comunhão íntima com Deus. E
lembremo-nos de que precisamos “amar a beneficência”; isso é um
pleonasmo, precisamos “amar o amor”. Miqueias deu ênfase no
propósito de advertir-nos que tudo deve ser feito com amor. Tanto os
relacionamentos sociais quanto os atos religiosos devem ser
fundamentados no amor. Afinal de contas, sem o amor, “nada
seríamos” (1 Co 13.1-2).

1 COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Miquéias: nosso contemporâneo. Rio de


Janeiro: JUERP, 1995, p. 11.
2LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, p. 7.
3CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3569.
4TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 318.
5 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 226.
6 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 308.
7 IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 83.
8CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3569.
9HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p.
91.
10 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 381.
11LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, p. 14.
12RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 503.
13LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, p. 36.
14BLANCHARD, John. Pérolas para a vida. São Paulo: Sociedade Religiosa
Edições Vida Nova, 1993, p. 109.
15LOSCH, Richard R. Todos os personagens da Bíblia de A a Z. São Paulo:
Didática Paulista, 2008, p. 153.
16 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3574.
17PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1199.
18HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 373.
19 SANTOS, João Batista Ribeiro. Dicionário bíblico. São Paulo: Didática
Paulista, 2006, p. 184.
20MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 766.
21 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3574
22LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, p. 46.
23MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 766.
24 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3574.
25 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 7. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 4714.
26 COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Miquéias: nosso contemporâneo. Rio de
Janeiro: JUERP, 1995, p. 28.
27BAKER, W. David; ALEXANDER, T. Desmond; STURZ, Richard J. Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. vol. 23. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 201.
28 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 6. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 4622.
29BAKER, W. David; ALEXANDER, T. Desmond; STURZ, Richard J. Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. vol. 23. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 200.
30LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, p. 47.
31MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 766.
32PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1200.
33LOPES, Hernandes Dias. Miquéias: a justiça e a misericórdia de Deus. São
Paulo: Hagnos, 2009, pp. 11-12.
34RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 553.
35BAKER, W. David; ALEXANDER, T. Desmond; STURZ, Richard J. Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. vol. 23. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 219.
36 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 183.
37 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 186.
38MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 768.
39RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 508.
40MANUAL BÍBLICO SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010. p.
499.
CAPÍTULO 8

Naum: Até onde Vai a Paciência


de Deus?

Naum é um profeta de um único tema: o juízo divino contra a


Assíria. Ele prognosticou a derrocada do opressor assírio e a
resultante libertação do oprimido Judá. Assim como Jonas, Naum
endereçou sua mensagem aos assírios, mas enquanto Jonas
apresentou (contrariamente à sua vontade) a suspensão do juízo
para aquele povo, Naum previu a sua destruição. Stanley Ellisen
menciona que Jonas, sem dúvida alguma, gostaria de ter escrito o
livro de Naum, pois a mensagem entregue aos assírios foi de uma
destruição completa.1 O juízo sobre eles seria inevitável. Ele
anunciou a irredutibilidade da punição de Deus face à impiedade do
homem.
O tema do livro está exposto em seu intróito: “O SENHOR é um
Deus zeloso e que toma vingança; o SENHOR toma vingança e é
cheio de furor; o SENHOR toma vingança contra os seus
adversários e guarda a ira contra os seus inimigos” (Na 1.2).
Somente nesse versículo, o escritor inspirado repetiu três vezes a
palavra “vingança”. O profeta Naum recebeu a missão de anunciar o
castigo de Deus sobre a Assíria. Aquele povo seria punido pelos
pecados de orgulho, tirania, promiscuidade, idolatria e feitiçaria.
Sofonias foi contemporâneo de Naum e também fez coro à palavra
profética da destruição da Assíria. O profeta Isaías, que veio um
pouco depois de Jonas e um pouco antes de Naum, também
chegou a prever essa destruição (Is 10). Naum esteve na Assíria
para profetizar pessoalmente? “Embora sua mensagem fosse
dirigida a Nínive, não há evidência de que Naum tinha ido até lá
pessoalmente.”2 Podemos conjecturar que a cópia de seu oráculo
possivelmente tenha chegado aos assírios. Se não chegou, pelo
menos em Judá essa mensagem foi divulgada.
Podemos inferir que a mensagem, por relação, também foi dirigida
para “estimular Judá a crer que a tirania sob a qual vivia teria fim”.3
A profecia de Naum consolou o coração dos judaítas ao prever o fim
de seu grande inimigo no oriente (Na 1.15). O oráculo de Naum não
proferiu julgamentos para o povo de Deus, apenas transmitiu
consolação.4

A Crueldade da Assíria

O profeta Naum anunciou a soberania de Deus sobre todas as


nações e ensinou a Judá que a nação que os aterrorizava em breve
receberia o juízo divino por suas obras más e seus atos de
barbarismos entre os povos. Sua profecia não foi motivada pelo
nacionalismo exacerbado, mas pela defesa humanitária. As reais
intenções de Naum mostraram-se totalmente diferentes das de
Jonas. Naum posicionou-se contra a tirania e o militarismo da
Assíria que assombrou o mundo daquela época durante muitos
anos.
Segundo o profeta, aproximava-se o tempo da colheita. Aquela
pátria receberia de Deus os flagelos devidos, pois o Senhor
levantava-se do trono como o Vingador do seu povo para fazer
justiça. O livro de Naum ensina-nos que Deus, além de ser
amoroso, também é vingador. Sua graça não pode ser utilizada de
forma leviana. Apesar de ser misericordioso, Deus não poupa o
ímpio; antes, confere à injustiça o devido tratamento. A punição que
os assírios sofreriam não poderia ser interpretada, em hipótese
alguma, como um juízo arbitrário do Senhor. Na verdade, eles
estariam recebendo o devido tratamento legal, conforme a
providência moral estabelecida por Deus. Nesse livro canônico,
temos o braço da vingança judicial de Deus em favor do seu povo
sendo estendido sobre uma nação implacável e aterrorizante. As
ações vis e execráveis da Assíria não ficariam impunes diante da
justiça divina.

O Autor
Naum significa “consolador”. Esse personagem é mencionado na
Bíblia uma única vez, justamente na introdução de seu livro (Na
1.1).5 Macarthur relembra-nos de que o valor dos profetas não
estava na vida pessoal deles, mas na mensagem que
proclamavam.6 O importante para o profeta não era quem ele era,
mas quem ele representava e qual mensagem entregava. O profeta
concentrava-se em comunicar com exatidão a mensagem divina.
Falar de si mesmo era simplesmente irrelevante. Que lição!
Os profetas entendiam a posição pequena que possuíam perante
a grandeza dos propósitos eternos. A humildade era uma qualidade
peculiar deles. Quando procuramos informações pessoais em seus
livros, percebemos que estas são raras. No caso de Naum, o livro
não cita nenhum rei, assim como não informa dados de sua
ascendência familiar ou de sua vida pessoal; a única informação
que temos é que o profeta era de Elcós. A Bíblia descreve-o como
“elcosita”.
Acreditamos que o termo indica que ele era oriundo de Elcós. Isso
é tudo o que sabemos sobre ele. A localização desse lugar é
incerta. Jerônimo, pai da Igreja, afirmava que Elcós era uma
pequena vila da Galileia, chamada Elcesi, próximo a Cafarnaum, no
original “a vila de Naum”.7 Se isso for verdade, Naum seria mais um
profeta oriundo da Galileia.8 De qualquer forma, o Reino do Norte já
tinha sido dissolvido quando o livro foi escrito. Alguns chegam a
defender que Elcós era uma pequena cidade ao sudoeste de Judá.9
Outros buscam conciliar as informações, propondo que Naum
nasceu próximo a Cafarnaum e migrou para o sudoeste de Judá,
depois da queda do Norte, por isso conhecia muito bem a crueldade
da Assíria.
Se isso for verdade, podemos inferir que a família de Naum tenha
sofrido com o barbarismo imposto ao Reino do Norte pelas mãos
dos assírios. Nesse caso, o profeta teria escutado as histórias de
seus antepassados sobre a crueldade do invasor. O profeta deu a
entender que os relatos da maldade e da fúria dos assírios eram
noticiados pelo mundo (Na 3.19). Considerando que a sua profecia
foi entregue por volta de 650-630 a.C., temos uma distância de
quase um século para a destruição do Reino do Norte, que
aconteceu em 722 a.C. Assim, o profeta, ao denunciar o juízo divino
sobre eles, não estaria apresentando um conteúdo que lhe era
remoto, mas trovejava sobre uma realidade que lhe era peculiar.
Talvez isso justifique o fato de ele ter-se posicionado energicamente
contra os assírios demonstrando muita convicção na existência de
uma punição divina sobre eles.

Data do Livro

De um lado, compreendemos que o livro foi escrito antes da


destruição da cidade de Nínive em 612 a.C. Do outro lado da ponta,
sabemos que o profeta chegou a citar o cativeiro de Tebas (Nô-
Amom), a capital do Egito superior (Na 3.8). A cidade de Tebas foi
conquistada várias vezes ao longo da história, porém estudiosos
acreditam que Naum estivesse se referindo à tomada da cidade
pelos assírios em 663 a.C., comandados por Assurbanipal. Assim
sendo, temos duas grandes referências históricas que abalizam a
profecia de Naum. O livro poderia ter sido escrito de 663 a.C. a 612
a.C. em uma janela cronológica de aproximadamente meio século.
Esse período compreende os reinados de Manassés, Amom e
Josias. Essa posição é a mais coerente.
Na tentativa de diminuir essa janela de tempo, os estudiosos têm
apresentado algumas possibilidades. Ellisen menciona que os
estudiosos geralmente atribuem a data de 650 a.C. durante o
reinado de Manassés.10 William Macdonald também acredita que o
livro foi escrito dentro do longo período do reinado de Manassés em
Judá (696-642 a.C.).11 Halley propõe uma data anterior a 630 a.C.,
argumentando que o texto de Naum apresenta Nínive em seu
período de maior glória. Considerando que o Império Assírio
começou a ser fustigado com a invasão dos citas em 626 a.C., a
data anterior a 630 a.C. parece adequar-se à profecia de Naum. Há
quem acredite que a profecia foi escrita no limiar da grande derrota
de Nínive em 612 a.C., próximo a 616 e 613 a.C. Nesse caso, Naum
teria sido contemporâneo de Sofonias, Jeremias e, possivelmente,
de Habacuque.12 Reiteramos que nossa posição está em apresentar
a janela de 663 a 612 a.C. como uma data provável.
Há, ainda, aqueles que contestam as datas que colocam a
profecia de Naum no período do reinado de Manassés. O principal
argumento é que a mensagem de Naum parece não se ajustar
nesse período, pois o povo merecia ouvir o juízo e não a
consolação, considerando que a nação estava entregue ao pecado
da idolatria nessa época. Por conseguinte, a data de 710 a.C.,
segundo esse argumento, melhor se encaixaria no contexto de
Naum. Nessa data, Judá estava sob o reinado de Ezequias. Nesse
caso, o cativeiro de Tebas seria uma menção histórica da conquista
da Etiópia em 714 a.C. ou em 718 a.C. por Sargom, rei da Assíria.13
O argumento que sustenta a data do reinado de Manassés expõe
que a falta de citação dos pecados de Judá se deu porque o foco da
mensagem de Naum era a Assíria. Portanto, a ausência não pode
ser traduzida como “conivência”, mas como um tipo de delimitação
dos conteúdos proféticos. Foi uma questão de foco, não de
cumplicidade.

A Mensagem de Naum

A profecia de Naum é cheia de linguagem poética e metáforas


descritivas. Estudiosos afirmam que Naum escreveu alguns dos
trechos poéticos de maior qualidade literária em todo o Antigo
Testamento.14 Ele usou muito a paronomásia (assonância verbal,
recurso estilístico marcado pela sonoridade entre as palavras). A
beleza do livro contrasta com o peso de sua mensagem.15 As
imagens descritas por Naum são vívidas. Ele possui um estilo claro
e vigoroso em apresentar sua mensagem.
Os três capítulos do livro podem ser vistos como um único poema.
O primeiro reflete sobre a natureza de Deus, o segundo descreve a
queda de Nínive e, por último, o terceiro capítulo apresenta os
motivos que levaram Nínive à destruição. O tom do livro é severo. A
mensagem constitui um peso, ou seja, é uma sentença judicial
austera da parte de Deus (Na 1.2).

A Autoridade de suas Palavras

O livro começa apresentando que a origem de suas palavras


provinha de Deus (Na 1.1). Tratava-se de uma visão profética, não
do devaneio de um religioso extático. Ele não estava delirando
quando vaticinou a queda do maior império do mundo na época,
mas, direcionado por Deus, estava prevendo a aplicação do juízo
divino sobre um povo fundamentalmente cruel. Naum anunciou seu
oráculo com uma certeza incomum. Por causa disso, ironizou e
zombou dos assírios — afinal de contas, tinha confiança plena de
que Deus cumpriria tudo o que lhe havia revelado em visão.

O Caráter e a Majestade do Senhor em Relação ao seu Juízo


A teologia de Naum fundamenta-se na fé em um Deus zeloso que
toma vingança contra seus inimigos (Na 1.2). Sua ira não é
explosiva ou impulsiva, antes aguarda o momento correto de ser
derramada. Deus é tardio em irar-se, ou seja, é paciente (Na 1.3; Jl
2.13). O fato de ter destacado a paciência de Deus talvez tenha sido
utilizado por Naum como um lembrete da visita que Jonas fez a
Nínive alguns anos antes.16 De acordo com o profeta, a aplicação
da ira divina não é precipitada. Deus não comete injustiças. Sua ira
é derramada sobre o “culpado” e jamais penalizará o “inocente”. Os
assírios eram conhecedores da verdade e, mesmo assim, preferiram
viver no pecado. Eles não eram inocentes.
De modo totalmente antagônico ao homem, a ira de Deus não é
precipitada ou até mesmo mutante. Pelo contrário, a ira divina
possui a qualidade básica de ser constante e imutável. Está sempre
direcionada contra o pecado e jamais deixa de ser temperada pelo
senso da justiça divina. Portanto, a ira de Deus é altamente
confiável. Ela jamais representará uma ameaça para os justos, pois
essa “ira” é perfeita em sua aplicação, extraordinária em seu
direcionamento e precisa em seu alvo. Embora não seja uma
ameaça para o justo, isso não quer dizer que a ira de Deus não lhe
cause um saudável temor.
A ira de Deus é bíblica. Testemunhamos sua aplicação no relato
bíblico do Dilúvio (Gn 6.5-7) e no extermínio de Sodoma e Gomorra
(Gn 19). Paulo declarou que um dos traços da ira de Deus é o
abandono (Rm 1.18,21-32). O futuro escatológico aguarda grandes
demonstrações da ira de Deus, conforme o relato de Apocalipse (Ap
15-16). A nossa obstinação pelo pecado resulta no acúmulo da ira
divina sobre nós (Rm 2.5). Portanto, o ser humano em seu estado
não redimido é objeto da ira divina, por agir como um filho da
desobediência (Ef 2.2,3). Por isso, somos incentivados a exortar o
pecador convidando-o ao arrependimento que está disponível a
todos mediante a fé em Jesus Cristo como único Salvador (At 2.40;
16.30-31; Rm 15.16; 2 Co 5.20); somente assim escaparemos da ira
divina obtendo tão grande salvação.
Naum declarou que Deus é grande em força e possui o domínio da
natureza. Ele é soberano. As nuvens são o pó dos seus pés. Essa é
uma metáfora que aponta para a superioridade de Deus em relação
ao homem, visto que o Criador usa a nuvem como o homem usa o
pó da terra (Na 1,3). Relacionar a grandeza de Deus sobre o seu
poder em relação à natureza tinha um propósito claro.

O homem sempre teve muito medo das forças da Natureza. É natural

associar o poder da deidade com a manifestação da grandiosidade do poder

de Deus. Era de se esperar que a humanidade obscurecida pelo pecado

exaltasse a força da Natureza à estatura de deuses e fizesse cultos e

sacrifícios de conciliação. Esta passagem não afirma que Deus faz parte da

Natureza (no sentido de ser uma de suas deidades). O profeta mostra que o
Todo-poderoso é o dominador das forças e entidades da ordem natural. Ele é

o Senhor dos mares, dos rios, das montanhas e das pessoas.17

Segundo o profeta Naum, tudo está sob o controle de Deus: o mar,


os rios, Basã e Carmelo, inclusive a flor do Líbano (Na 1.4). O
profeta utilizou três símbolos de beleza e prosperidade: Basã era um
local conhecido por seus belos pastos, o Carmelo por suas vinhas e
o Líbano por sua flora, porém toda essa beleza, nas palavras do
profeta, era sustentada pela vontade de Deus.18 O mundo curvava-
se diante dEle (Na 1.5). Segundo a crença de Naum, ninguém podia
prevalecer diante da sua ira (Na 1.6).
O retrato pintado por Naum do temor que a natureza nutre de
Deus podia, a princípio, apresentar uma ideia errada sobre o
Criador. Por isso, o profeta tratou de atestar que “O Senhor é bom” e
não pode jamais ser associado ao atributo oposto (Na 1.7). A
bondade, nesse caso, não está apenas em contraste com o mal,
mas também contra o mal. A benevolência divina não deixa Deus
vulnerável ou fragilizado na hora de executar os seus juízos; pelo
contrário, quando necessário, Ele persegue os seus inimigos com
trevas (Na 1.8). O juízo sobre Nínive é comparado à metáfora da
inundação transbordante que a tudo destrói (Na 1.8). É provável que
o profeta esteja fazendo menção ao exército invasor que atacaria
Nínive, tal como um dilúvio inundante penetraria em todos os
espaços provocando destruição.
Até onde Vai a Misericórdia de Deus?

Por que Deus mudou o tratamento com os assírios? Cerca de


aproximadamente um século e meio antes de Naum, Jonas foi
enviado a Nínive para pregar o arrependimento, e Deus tratou
aquele povo com misericórdia. Porém, por meio de Naum, Deus
mostrou-se irredutível. Sua sentença sobre a destruição da Assíria
já havia sido decretada. Se antes Deus mostrou-se misericordioso
(Jn 4.2), por qual razão naquele momento mostrava-se pronto para
executar a vingança? Até onde vai a misericórdia de Deus? Muitos
imaginam (erroneamente) o amor de Deus como uma bondade
natural ilimitadamente permissiva, quando, na verdade, o amor de
Deus é rigidamente justiça, e por esse motivo Cristo morreu (Jo
3.16; 1 Jo 3.16).
Os assírios abandonaram o arrependimento e volveram-se para a
prática de uma vida pecaminosa. Eles pensavam que poderiam
afligir novamente o povo de Deus; todavia, o Senhor dos Exércitos
não permitiria que isso acontecesse de novo (Na 1.9). O destino da
Assíria já estava traçado. O profeta declarou que eles se
entrelaçariam como os espinhos e Deus iria tratá-los como os
lavradores tratam um espinheiro. Eles seriam exterminados como a
palha seca que fica irrecuperável quando consumida pelo fogo.19
Deus prometeu destruir a Assíria e consolar Judá (Na 1.12). O
povo de Deus não seria afligido novamente. O consolo de Judá não
se fundamentava no fato de testemunhar o derramamento de
sangue dos assírios, mas em perceber que Deus executa sua
justiça no mundo. Judá estava sempre debaixo de constantes
ameaças da parte dos assírios. Historicamente, tiveram a obrigação
de pagar altas somas de dinheiro. Viviam sob ameaça constante.
Todavia, essa opressão findaria, e o povo ficaria livre do jugo assírio
que seria quebrado por Deus (Na 1.13).
A dinastia assíria seria exterminada e não haveria posteridade
para levar o seu nome (Na 1.14). Essa profecia foi cumprida quando
Saracus, bisneto de Senaqueribe, cometeu suicídio nos últimos dias
do Império Assírio.20 Naum declarou que os ídolos assírios não os
livrariam da destruição; pelo contrário, seus templos certamente se
tornariam em sepulcros, e o império seria destruído juntamente com
seus ídolos (Na 1.14). O profeta terminou a mensagem ordenando
que Judá celebrasse suas festas, pois a Assíria, uma vez
exterminada, jamais voltaria a oprimi-los (Na 1.15). O que
representava vingança para uns simbolizava justiça para outros (2
Ts 1.6-9). O Senhor, o Justo Juiz de toda a terra, estava na cátedra
do julgamento (Gn 18.25; Rm 9.14). Com Jonas, Deus mostrou-se
misericordioso; com Naum, Deus mostrou-se vingador. Como
sabemos a hora em que a misericórdia será trocada pela ira divina
na aplicação da justiça? Não sabemos. Por isso, devemos sempre
andar em retidão.
O livro de Naum traz uma séria advertência para todos nós:
aproveitemos as oportunidades que nos são dadas por Deus (1 Tm
1.16; Hb 10.37; 1 Pe 3.9). A misericórdia divina deve gerar em nós
quebrantamento, contrição e piedade. Não devemos abusar da
paciência de Deus tentando testar o limite de sua longanimidade.
Brincar com a misericórdia é o mesmo que a rejeitar, optando pelo
pecado. No Juízo Final, todos aqueles que perseveraram na prática
do mal experimentarão a ira divina, tendo um destino semelhante à
Assíria, conforme profetizado por Naum.

A Destruição de Nínive

Os primeiros dez versículos falavam do cerco de Nínive pelo


exército da Babilônia. O profeta utilizou uma linguagem sarcástica
dando ordens em favor da defesa Assíria: “guarda tua fortaleza”,
“vigia o caminho”, “esforça os lombos”, “fortalece muito o teu poder”,
ou seja, conclamou-os a reunirem todas as suas forças (Na 2.1). Na
verdade, os maiores esforços lhes seriam em vão. Naum sabia
disso.
Muitos conteúdos da profecia de Naum referiam-se às
experiências anteriores que o povo de Deus tinha vivido com a
Assíria. Dito isso, é provável que em Naum 2.2 o profeta estivesse
se referindo à destruição que Senaqueribe causou em Judá, pois as
palavras “destruíram os teus sarmentos” retratava Israel como uma
vinha que tinha sido prejudicada pela Assíria. O profeta declarou
que a excelência de Israel seria restaurada! (Na 2.2).
A partir de então, o profeta começou a descrever o ataque da
Babilônia a Nínive. Os escudos dos valentes estariam vermelhos.
Documentos antigos comprovam que o exército babilônio gostava
de pintar os seus escudos com o vermelho para apavorar os
inimigos com a vivacidade da cor e, ao mesmo tempo, camuflar os
seus próprios ferimentos (Na 2.3). Azul era a cor do exército
Assírio.21 Os carros inimigos seriam como raios movendo-se
rapidamente pelas ruas de Nínive (Na 2.4). O exército assírio seria
convocado para proteger o muro; antigamente, em uma batalha, era
fundamental proteger o muro da cidade. Só que o exército estaria
tão desprevenido que tropeçaria em sua própria marcha (Na 2.5).
Relatos históricos comprovam que eles foram chamados para
proteger o muro e falharam.
O exército inimigo seria bem-sucedido (Na 2.6). Eles utilizariam as
águas represadas no canal do rio Tigre, que, depois de soltas,
atacariam os portões das cidades destruindo os palácios assírios.
Havia um decreto da parte de Deus que a Assíria seria levada cativa
(Na 2.7). “Huzabe” é um termo utilizado em algumas traduções que
pode significar “está decretado”. Nínive ficaria dispersa e seus
moradores espalhados como água (Na 2.8). O exército pediria para
as pessoas não fugirem; todavia, na hora do confronto, iriam esvair-
se sem olhar para trás. Segundo os historiadores, os babilônios
conseguiram invadir a cidade utilizando uma estratégia militar na
qual se aproveitaram do leito do rio. As águas represadas do rio
foram soltas e utilizadas contra os muros. O transbordar das águas
e a força da natureza romperam um ponto vulnerável do muro e foi
nessa abertura que os inimigos entraram. A profecia de Naum não
era apenas simbólica, mas estava descrevendo em seus detalhes a
derrota de Nínive.
O profeta mencionou que a riqueza deles seria saqueada (Na 2.9).
A riqueza daquele povo não tinha limites; sabemos que ali havia um
tesouro incalculável fruto das campanhas militares bem-sucedidas
dos exércitos assírios ao longo de muitos anos. A cidade ficará
vazia, e o povo, nas palavras do profeta, perderia a coragem para
lutar, pois o coração ficaria derretido, e os joelhos, trêmulos (Na
2.10). O exército mais temido do mundo naquela época terminaria
empalidecido, sem cor, sem brio e sem força para lutar, totalmente
entregue e prostrado diante dos seus inimigos.
O profeta com ironia perguntou onde ficaria naquele momento toda
a glória e a força da Assíria que era comparada pelas nações a um
covil de leões (Na 2.10). A figura do leão era utilizada nas esculturas
assírias, pois o leão atacava sem receios e amedrontava as suas
vítimas por onde passava. Todavia, o profeta declarou que o leão
que antes arrebatava, naquele momento do juízo divino, seria
arrebatado, o vencedor seria vencido (Na 2.11,12). Tal como um
leão que destrói a presa e espalha pavor para alimentar os seus
leõzinhos, a Assíria destruiu muitos povos para financiar sua
ganância e luxúria. O profeta perguntou: Onde está o leão feroz que
apavorava os outros? Está no covil? Definitivamente não! O leão
seria transformado em carcaça e nunca mais rugiria. A voz dos
líderes assírios que apavoravam os povos não seria mais ouvida
(Na 2.13).

Os Pecados de Nínive

Nínive era uma cidade sanguinária. Aquele povo massacrou


diversos povos, derramando sangue por causa de suas guerras
constantes (Na 3.1). Vale lembrar que, nesse caso, Nínive, a cidade,
foi usada como símbolo da Assíria, o país. Eles eram mestres do
terror. Essa reputação foi conquistada por todas as crueldades
cometidas ao longo dos anos: decepar as mãos, os pés, orelhas e
narizes, esfolar os cativos vivos, etc. Também era uma cidade cheia
de mentiras e roubos. Os acordos e tréguas com nações próximas
eram quebradas, e as suas palavras, descumpridas.
Naum voltou a descrever a invasão em Nínive apontando para o
estrépito (barulho) causado pelos carros do exército invasor (Na 3.2)
que atacaria a cidade armado com espadas flamejantes espalhando
a morte (Na 3.3). Inúmeros cadáveres ficariam espalhados, de modo
que não haveria tempo para os rituais de sepultamento e os corpos
ficariam expostos levando ao tropeço os que por lá passassem (Na
3.3).
Nínive foi comparada à figura de uma meretriz (Na 3.4). Eles
seriam condenados por causa do pecado de proselitismo da
feitiçaria (Na 3.4). Champlin destaca que os assírios entregavam-se
às práticas de feitiços, adivinhações e ritos mágicos22 (2 Rs 16.10;
Is 47.9,12; Ez 23.5,7,11). Por causa disso, seriam envergonhados
ficando desprovidos diante das nações, servindo de espetáculo
vexatório (Na 3.5,6). As pessoas fugiriam de Nínive deixando a
cidade sem consoladores, sem amigos durante os momentos
difíceis (Na 3.7). Além do pecado da feitiçaria, Naum já havia
denunciado os pecados da idolatria (Na 1.14) e arrogância (Na
1.11). Nesse momento de sua profecia, relatou ainda os pecados de
homicídio, mentiras, traições, superstições (feitiçarias) e pecados
sociais (Na 3.1-19).
Nínive teria o mesmo destino de Nô-Amom (Tebas). Tebas foi uma
cidade de grande influência no Egito, chegando a ser a capital do
Egito Superior. A história relata-nos que os gregos chamavam-na de
“Dióspolis”, a “Cidade de Deus”.23 Essa cidade ficava localizada
sobre as duas margens do Rio Nilo e era cercada pelas águas (Na
3.8). Porém, mesmo com tanto prestígio e glória, a cidade foi
tomada pelos assírios em 663 a.C., e muitas atrocidades foram
cometidas ali.
Tebas, ao contrário de Nínive, possuía alianças políticas com
vários povos e mesmo assim foi levada cativa (Na 3.9,10). O que
diríamos de Nínive, que se alienou e encastelou-se em seu próprio
orgulho? Naum apresentou um evento histórico que era de
conhecimento dos assírios para que eles pudessem pelo menos
imaginar o futuro desastroso que estava reservado para eles.
O profeta voltou a fazer referência à embriaguez de Nínive (Na
3.11). Essa profecia foi cumprida de forma literal, pois, quando o rei
e seus cortesãos estavam bêbados e envolvidos em orgias, foram
atacados pelo exército da Babilônia. As fortalezas de Nínive seriam
como figueiras (Na 3.12). O profeta fez uma metáfora, pois assim
como os figos maduros são colhidos com facilidade, Nínive seria
uma presa fácil diante do ataque inimigo. Na hora da invasão, os
guerreiros em pânico ficariam vulneráveis como “mulheres” (Na
3.13). Ficariam indefesos. O profeta novamente usou de ironia e
instruiu os ninivitas a prepararem um reservatório de água para
resistirem ao cerco (Na 3.14). “Entra no barro” é um conselho irônico
de Naum para que os homens trabalhassem fabricando tijolos para
tapar as brechas do muro diante do ataque inimigo.
O exército invasor provocaria tanta destruição tal como o exército
de gafanhotos (Na 3.15). Nínive era uma cidade rica, cheia de
tesouros “negociados”, todavia a “locusta”, ou seja, o inimigo,
devoraria toda a sua riqueza (Na 3.16). Os chefes militares ficariam
como gafanhotos com as asas endurecidas pelo frio e fugiriam da
cidade tal como os gafanhotos que voam ao alvorecer (Na 3.17). O
povo seria espalhado pelos montes. Os oficiais do rei ficariam como
dormentes e não poderiam livrar o rei da Assíria (Na 3.18).
Naum foi enfático ao terminar sua mensagem afirmando que não
havia cura para a ferida de Nínive, uma vez que não restava mais
solução para o seu problema (Na 3.19a). A sentença judicial divina
já tinha sido expedida por Deus. A mensagem seria cumprida. Ao
saber das notícias, os povos que sofreram pelas atrocidades da
Assíria bateriam palmas e se regozijariam com a sua queda (Na
3.19b). A história comprova o cumprimento das palavras de Naum.
Deus jamais tomará o culpado por inocente (Na 1.3). Segundo
Halley:

Tudo aconteceu exatamente como Naum descrevera; e a cidade vil e

sanguinária passou para o esquecimento. Sua destruição foi tão completa

que até a sua localização foi esquecida. Quando Xenofonte e seus 10.000

passaram por ali 200 anos mais tarde, supôs que os montões eram as ruínas

de alguma cidade de Partos. Quando Alexandre, o Grande, empreendeu a

famosa batalha de Arbela, 331 a.C., perto do local de Nínive, não sabia que

ali já tinha existido uma cidade.24


1 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 318.
2 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 228.
3 BAKER, W. David; ALEXANDER, T. Desmond; STURZ, Richard J. Obadias,
Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. vol. 23. São Paulo: Vida Nova, 2001, p. 298.
4 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 313.
5No Novo Testamento, há uma citação sobre um Naum, ancestral de José, porém
não se trata do profeta canônico Naum (Lc 3.25).
6MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: Uma meticulosa pesquisa da
Bíblia, livro a livro, elaborada por um dos maiores teólogos da atualidade. Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 351.
7PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1210.
8 Outro profeta menor galileu possivelmente tenha sido Jonas, natural de Gate-
Hefer, da tribo de Zebulom (Jn 1.1; 2 Rs 14.25). Gate-Hefer era uma vila que
ficava a sete quilômetros da cidade de Nazaré.
9LOSCH, Richard R. Todos os personagens da Bíblia de A a Z. São Paulo:
Didática Paulista, 2008, p. 370.
10 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 314
11MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 769.
12 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 205.
13 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 314.
14MANUAL BÍBLICO SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p.
500.
15 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 389.
16HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 377.
17 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 209.
18PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1212.
19HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Antigo Testamento, Isaías a Malaquias.
Vol. 4. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 1110.
20PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1213.
21MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 770.
22 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3605.
23PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1217.
24 HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico: um comentário abreviado da Bíblia.
4.ed. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 330.
CAPÍTULO 9

Habacuque: A Fé como Forma de


Vida

O livro de Habacuque é um ensaio teológico sobre a verdadeira fé.


O profeta viveu em uma época difícil para o seu povo, um tempo em
que Judá caminhava debaixo de grandes perigos externos advindos
de potências estrangeiras. Se não bastasse o caldeirão fervilhante
das ameaças internacionais, em Judá, internamente, a questão
beirava o colapso social. Tensões políticas e governamentais
deixavam a nação vulnerável e enfraquecida. O país encontrava-se
em decadência espiritual. A opressão econômica e a violação dos
direitos humanos cresciam em Jerusalém. Habacuque era uma
testemunha ocular dessa inundação de violência e declínio moral. O
povo da aliança tornara-se bárbaro, egoísta, sanguinolento, injusto e
apostático.
Judá tinha abandonado a verdadeira fé em Deus, e, por causa
disso, a corrupção era quase generalizada. A perversidade deixou o
país subdesenvolvido. Habacuque clamou ao Senhor pedindo
providência. Ele desejava o restabelecimento da justiça no lugar da
injustiça, da paz no lugar da violência. Ele sonhava em ver sua
pátria avivada por Deus abandonando a apostasia, deixando os
ídolos de lado para servir só ao Senhor de Israel. Habacuque
clamou a Deus pedindo solução. Ele diferenciou-se de todos os
outros profetas, visto que foi o único entre os profetas do Antigo
Testamento que, em vez de falar para o povo em nome de Deus,
clamou a Deus em favor do povo. Desse modo, o seu ministério
assemelhou-se ao de um sacerdote, cuja função principal consistia
em interceder a Deus pelos pecados do povo.
O livro de Habacuque é um diário pessoal das orações do profeta
em favor do povo. Logicamente, essas orações foram
acompanhadas de respostas divinas. Habacuque almejava a paz,
mas Deus avisou-lhe que enviaria a guerra para o povo. O profeta
sonhava em ver o fim da violência, mas Deus informou-lhe que uma
onda inimaginável de violência, sem precedentes históricos,
alcançaria Judá, por meio dos caldeus. Habacuque pediu
providências, e o Senhor apresentou-lhe a solução; porém, essa
não era a resposta que Habacuque esperava ouvir, e, por causa
disso, o profeta entrou em crise.
No livro de Habacuque, não é só o país que está em grande
tensão, mas também o profeta. Ele não sabia, mas Deus purificaria
o seu povo por meio do juízo. Por meio da guerra, Deus traria uma
paz porvindoura para Jerusalém. Por meio do cativeiro, os judeus
seriam libertos da idolatria. Além do mais, a nação precisava reaver
os seus pecados. Depois, Deus trataria com a Babilônia. Porém,
essas questões não foram percebidas pelo profeta; por isso,
Habacuque viu-se alcançado por uma grande crise.
Diante dele, havia apenas dois caminhos: o desespero ou a fé.
Habacuque agarrou a fé com todas as suas forças e ensinou-nos
como o justo deve caminhar neste mundo. Pressionado por suas
limitações e sabendo do destino trágico e iminente que alcançaria
Judá, o profeta ancorou-se em Deus e deixou-nos uma linda lição
sobre a verdadeira fé. Mesmo sem entender os caminhos da
Onipotência, Habacuque asseverou internamente em seu coração
que sua confiança estava em Deus e jamais abriria mão de suas
convicções.
Uma afirmação segura que jamais foi atacada pela dúvida é
apenas um sonho, não passa de fantasia, pois a verdadeira fé é
provada diante dos conflitos difíceis da vida. Devemos lembrar que
o caminho de Deus para Israel passou pelo mar, que, na Bíblia, é
símbolo de lugar instável e inseguro. O começo do êxodo israelita
foi pelo Mar Vermelho. Eles foram provados desde o início. Nesta
vida, enfrentaremos provações, derramaremos lágrimas, sofreremos
perdas, presenciaremos injustiças e, como Habacuque, nem sempre
compreenderemos os caminhos de Deus. Ainda assim, somos
instados pelo profeta a confiarmos em Deus. Declaremos como
Habacuque: ainda que a figueira não dê suas flores e as coisas
desta vida aconteçam ao contrário do que um dia sonhamos, nossa
confiança estará sempre no Deus de Israel, no Deus da nossa
salvação. Estamos preparados para viver essa verdade?

O Profeta Habacuque

Não temos muitas informações sobre a vida de Habacuque; tudo o


que sabemos sobre ele é por dedução, a partir do momento que
examinamos os conteúdos de seu oráculo. Seu nome aparece duas
vezes em toda a Bíblia, exclusivamente no seu livro, no início de sua
profecia e no salmo que ela contém (Hc 1.1; 3.1). Seu nome
significa abraço.1 Não temos informação sobre a cidade de origem
do profeta, sua profissão e sua filiação. Essas questões são um
grande mistério. Sua ocupação tem sido tema de grande debate.
Existem muitas informações fantasiosas e especulativas sobre
Habacuque, porém a que ocupa mais o campo das ponderações é
sobre sua ocupação. O texto de Habacuque 3.19 parece apresentar
o profeta como um levita oficial do Templo. O texto bíblico mostra
que ele era um talentoso compositor de música.2 O pós-escrito da
oração de Habacuque foi destinado ao “cantor-mor” (mestre de
música), e certamente o seu louvor seria aplicado ao coro dos
levitas (Hc 3.1), sendo também acompanhado dos instrumentos de
corda.
Desse modo, muitos interpretam que o profeta estivesse
oficialmente qualificado para participar do cântico litúrgico no Templo
de Jerusalém. Alguns chegam a questionar tal argumento, pois “esta
sugestão presume que somente levitas podiam compor poemas ou
fazer uso de instrumentos musicais”.3 Além do mais, acrescentam
dizendo que Davi escreveu muitos salmos litúrgicos, mas nunca foi
um levita no Templo.4 De qualquer forma, se Habacuque não foi um
levita oficial, tinha alma de adorador e era um frequentador do
Templo de Jerusalém.

Data do Livro

Não temos a data precisa da profecia de Habacuque. O profeta


não citou o nome do rei de Judá quando profetizou. Sem essa
referência histórica, fica um pouco complicado especificar uma data.
Todavia, ao ler o livro, encontramos algumas informações que nos
levam a propor por dedução uma provável data. O profeta pareceu
surpreso ao saber que Deus levantaria a Babilônia (os caldeus) para
subjugar Judá. Desse modo, fica subentendido que a Babilônia
estava em período de crescimento e ainda não se consolidara como
um império no cenário internacional.
Provavelmente, o livro foi escrito depois da queda de Nínive em
612 a.C., pois a ausência de qualquer referência a Nínive sugere um
período em que a nação da Assíria já havia sido destruída pela
Babilônia. A expressão “Pois eis que suscito os caldeus” (Hc 1.6)
transmite a impressão de que a Babilônia estava em período de
ascensão, e o profeta chegou a anunciar algumas das conquistas do
exército babilônio (Hc 2.5,8-10).
Acreditamos também que o livro foi escrito antes da primeira
invasão da Babilônia em Jerusalém no ano 605 a.C., pois o texto
referiu-se a esse evento como algo que seria feito pelo Senhor. A
melhor conclusão é que a profecia do livro foi escrita quase no fim
do reinado do rei Josias (640-609 a.C.) ou no início do reinado de
Jeoaquim. Alguns chegam a propor a data de 609 a.C a 606 a.C.
aproximadamente.5 O fato é que o cenário descrito pelo profeta
parece adequar-se perfeitamente ao reinado do iníquo Jeoaquim.
Desse modo, Habacuque seria contemporâneo de Jeremias,
Sofonias e Naum.

Características do Livro

Habacuque tem sido chamado de o “livre pensador”.6 Seu livro


parece um diário pessoal onde o profeta registrou seus dramas e
experiências com Deus. O profeta fez perguntas sinceras dirigidas a
Deus. Abriu o seu coração e apresentou suas dúvidas. Sentia-se
livre para demonstrar os seus pensamentos, inclusive chegou a
questionar o aparente “descaso” de Deus; depois de ouvir a
resposta do Criador, demonstrou uma fé inabalável. Portanto, o livro
de Habacuque tem uma característica peculiar; trata-se do registro
de um diálogo entre o profeta e Deus, não necessariamente se
constitui um resumo daquilo que o profeta pregou durante o seu
ministério.7 É mais uma oração do que uma profecia. Além disso,
contém diversos estilos.
Seu livro contém pelo menos três formas literárias diferentes:
“diálogo” (Hc 1.2–2.5); “ais proféticos” (Hc 2.6-20) e “louvor” (Hc 3).
Foi escrito no hebraico mais puro, e a sua mensagem está cheia de
metáforas inusitadas. Vale lembrar que Habacuque apresentou com
muita propriedade a importância de o justo viver pela fé (Hc 2.4). O
livro foi muito citado no Novo Testamento, sendo uma das fontes
teológicas que Paulo consultou para formar sua teologia.
Consequentemente, o texto de Habacuque influenciou de forma
considerável a base doutrinária da igreja cristã (Hc 1.5 e At
13.40,41; Hc 2.4 e Rm 1.17; Hc 3.17-19 e Fp 3.7-10). A declaração
de Habacuque de que o justo viverá pela fé tornou-se a pedra
fundamental da teologia da justificação defendida por Paulo. Na
Idade Média, nos dias de Lutero, a doutrina da justificação pela fé
tornou-se a expressão bíblica principal da Reforma Protestante.

A Maldade de Judá

O profeta estava vivendo em um contexto em que a maldade e o


pecado cresciam vertiginosamente em Judá. O que o deixava ainda
mais perdido era a “aparente” indiferença divina diante daquela
situação (Hc 1.2). O profeta demonstrou estar inconformado com a
maldade que multiplicava em seu mundo. Os atos de crueldade e
injustiça permeavam a vida pública e privada de Judá. Para os
homens ímpios, aquilo era visto como algo normal e rotineiro, pois
uma pessoa que cresce junto aos esgotos tende a acostumar-se
com o cheiro ruim; porém, para o profeta, aquela situação era
extremamente desconfortável. O problema é que Judá estava se
condicionando ao pecado.
Habacuque estava presenciando essa triste realidade. A
destruição e a violência estavam diante de seus olhos (Hc 1.3). Todo
aquele antro de perversidade aumentava as demandas das
contendas e litígios (pendências pertinentes a uma ação). Os
tribunais estavam cheios de problemas a serem resolvidos. Todavia,
a lei estava sendo manuseada de forma escusa, e o juízo estava
sendo pervertido (Hc 1.4). O sistema judiciário judaíta estava
corrompido. Os juízes aceitavam suborno, e as testemunhas locais
mentiam. O indefeso que aguardava a aplicação da justiça ficava
frustrado porque o mal era em maioria. O profeta questionou como
Deus podia tolerar tudo isso e não intervir.
Seria esse questionamento uma murmuração perversa? Cremos
que não! A murmuração em seu sentido maléfico tem o propósito de
deteriorar a imagem de Deus, colocando em dúvida seu caráter
perfeito. Habacuque fez o contrário, apelou para a justiça divina no
propósito de zelar pela imagem do Altíssimo. Ele podia não
entender o agir de Deus, conforme demonstrado em seus
questionamentos, mas posteriormente comprovou sua confiança
inabalável no desenrolar das ações divinas, por mais contraditórias
e paradoxais que pudessem parecer aos seus próprios olhos.
Portanto, seus questionamentos apenas revelaram suas limitações
face aos caminhos inescrutáveis de Deus.

Os Questionamentos do Profeta

O capítulo 1 relatou o “peso que viu o profeta” (Hc 1.1). A


revelação dada a Habacuque foi uma mensagem pesada, difícil de
suportar, até mesmo para o próprio profeta. Podemos dividir o
primeiro capítulo em três partes distintas: primeiro, o profeta
queixou-se sobre a iniquidade que reinava em Judá (Hc 1.1-4); logo
após, Deus respondeu-lhe dizendo que colocaria um fim nessa
maldade suscitando a Babilônia para castigar o seu povo (Hc 1.5-
11); e, por fim, Habacuque demonstrou não entender essa ação
divina, pois como Deus poderia usar uma “maldade maior”
(Babilônia) para punir uma “maldade menor” (Judá)?
Diante da resposta do Senhor, Habacuque pensou que o Deus de
Israel poderia ser acusado de tolerar a perfídia (Hc 1.13-17), o que
consequentemente traria sérios conflitos — na visão do profeta —
para o governo moral de Deus e a crença na existência divina. Por
meio desse primeiro capítulo, vemos o relacionamento pessoal entre
Deus e o profeta. Habacuque tinha liberdade para expor a Deus
seus conflitos internos. Na visão de Habacuque, o triunfo dos
perversos exaltaria a malignidade deles e o seu deus. Além do mais,
traria a impressão de que a humanidade não tinha um governo
moral supervisionando os relacionamentos humanos.8 Portanto, no
entendimento de Habacuque, a prosperidade do ímpio colocava a
justiça de Deus em xeque. Esse mesmo pensamento deixou muitos
grandes homens de Deus no passado em crise (Jó 21.7; Sl 37.7;
73.2-3; Pv 3.1; 24.1; Jr 12.1). Como justificar o sucesso dos ímpios?
O que Habacuque entendia como triunfo, Deus enxergava como um
“aparente sucesso”.
Ele fez duas grandes perguntas: “até quando?” e “por quê?”. A
segunda pergunta foi consequência da resposta divina em relação à
primeira. Habacuque revelou sua dificuldade em compreender os
propósitos divinos. É interessante como o texto bíblico faz questão
de mostrar as vulnerabilidades e incompreensões do emissário da
mensagem profética. Desse modo, denota que a origem da profecia
de Habacuque em relação ao futuro de Judá não provinha de sua
leitura social ou mentalidade perspicaz acentuada, mas derivava da
própria revelação de Deus.
Frequentemente, o agir de Deus é um grande mistério; por mais
que nos esforcemos para desvendar o quebra-cabeça, nem sempre
possuímos as condições intelectuais para encaixar as peças. Nesse
momento, a fé em um Deus justo e verdadeiro deve prevalecer
sobre a aproximação do desespero e o flerte da suspeita. Nossa
confiança não está na capacidade de entendermos os fatos, mas,
sim, na certeza de que existe um Deus controlando esses fatos,
valendo-se das situações mais inusitadas e paradoxais para cumprir
os seus desígnios transcendentais.

O Juízo sobre Judá

Enquanto o profeta pensava que Deus estava parado, uma grande


obra estava prestes a ser realizada (Hc 1.5). Na Bíblia, o silêncio
divino é sempre precedido por um grande feito. A solução divina
para aquela situação já estava sendo levantada: Deus estava
suscitando os caldeus para subjugar o povo de Deus (Hc 1.6).
Durante muito tempo, os erros de Judá ficaram sem castigo, porém
o juízo estava sendo instaurado (Hc 1.7).
Deus mostrou ao profeta que, apesar de todas as aparências, o
Senhor não estava inativo, mas estava agindo de um modo
surpreendente. Seu silêncio não poderia ser interpretado como
descaso ou descuido. Ele faria uma obra nova que eles não creriam
se lhes fosse contada (Hc 1.5). Segundo F. F. Bruce, “Deus não
estava afastado, como imaginava Habacuque, deixando que as
coisas acontecessem sem a sua supervisão. Ele já havia começado
a agir, mas de maneira que se mostraria inacreditável e
inaceitável”.9 A surpresa e descrédito de Judá poderia ser causada
por dois motivos: o primeiro tem a ver com a queda da Assíria e o
domínio da Babilônia; o segundo tem a ver com o fato de Deus
entregar seu povo escolhido para ser subjugado por uma nação
estrangeira, idólatra e pagã.10
Os babilônios eram famosos por sua cavalaria. O profeta declarou
que eles eram rápidos como o leopardo e estratégicos como os
lobos ao anoitecer (Hc 1.8). Nessa metáfora, Habacuque destacava
a agilidade e sagacidade dos babilônios. Seus cavalos eram os
melhores, de modo que pareciam correr mais rápido do que os
leopardos. O uso da figura do leopardo é apropriado, porque esse
felino é um animal de presa que ataca sem misericórdia suas
vítimas. Os lobos sempre invadiam um aprisco ao anoitecer para
não serem percebidos; desse modo, de repente provocavam um
estrago. Os babilônicos, assim como os lobos, tinham estratégias
definidas para destruir as nações que se encontravam em seu
caminho.
Nabucodonosor, filho de Nabopolassar, foi o responsável pelas
invasões em Judá. É conhecido na história como um líder militar de
grande energia e também como um brilhante estrategista, pois
aniquilou os fenícios, derrotou os egípcios e obteve a hegemonia no
Oriente Médio. O profeta declarou que o seu rosto buscaria o oriente
(Hc 1.9). O relato continua informando que, ao conquistar os povos,
os babilônicos zombariam de seus príncipes e debochariam de suas
fortalezas (Hc 1.10) e atribuiriam o sucesso de suas expedições
militares aos seus deuses.
Habacuque usou a metáfora do vento para mostrar que nada
conseguiria deter os exércitos caldeus (Hc 1.11). Eles conseguiriam
adentrar as fortalezas passando por brechas e frestas
imperceptíveis aos olhos humanos. Embora fossem usados como
um instrumento para castigar o povo do Senhor, eles se fariam
“culpados” diante de Deus. O sucesso das suas expedições
militares permitidas por Deus não os isentaria da culpa diante do
Senhor. O fato de Deus permitir certas ações do mal e da injustiça
não significa que não requererá de seus agentes a devida justiça.
Cada ser humano prestará conta de suas ações diante de Deus.
Ninguém ficará isento do juízo divino.

A Dificuldade de Habacuque em Entender os Desígnios de


Deus

O profeta ficou aterrorizado ao conhecer os planos de Deus e


questionou como Deus podia estar decidido a punir o seu povo por
intermédio de uma nação pior do que Judá. Habacuque pediu uma
resposta para o crescimento da maldade em Judá, Deus
compartilhou com ele sua resposta. O profeta entrou em crise ao
saber o que Deus estava preparando para a nação de Judá. Ele
ficou assustado com o juízo que viria. Se antes o profeta atuava
como um promotor de Jerusalém, agora se postou como um
advogado. A nação que era má, a partir de então não é tão má
assim, a ponto de ter um destino cruel como aquele revelado.
Uma questão atormentava o profeta: Deus, como a fonte da
pureza, consegue ver o mal? Percebemos que o sentido expresso
por Habacuque não é que Deus fosse incapaz de perceber o
pecado; o que realmente incomodava o profeta é o fato de que, ao
perceber o avanço da maldade, Deus tolerara o seu crescimento,
quando poderia prontamente interferir e acabar com o soerguimento
da maldade junto aos homens. O silêncio de Deus seria omissão?
Habacuque questionou: “[...] por que, pois, olhas para os que
procedem aleivosamente e te calas quando o ímpio devora aquele
que é mais justo do que ele?” (Hc 1.13). Para Habacuque, o povo de
Judá não era tão mal quanto a nação executora do juízo. Na
verdade, era mais justo do que os ímpios babilônios. Então, como
Deus poderia fazer vistas grossas aos pecados da Babilônia para
simplesmente castigar os pecados de Judá? O profeta entrou em
um ciclo de questionamentos por não conseguir entender o plano de
Deus.
Ao saber da guerra que viria, ele ficou apavorado. Ele conhecia a
destruição que uma guerra provocava em um país. O exército
inimigo sempre vinha para semear a morte e desconhecia a palavra
compaixão. Os derrotados eram torturados e humilhados, as
mulheres eram estupradas, e as crianças eram submetidas a
diversas ações de crueldade. Habacuque começou a listar os
pecados da Babilônia. A imagem que o profeta apresentou sobre os
babilônios é de um pescador que emprega todos os meios prováveis
para apanhar a maior quantidade de peixes possíveis (Hc 1.12-17).
Eles fazem dos homens um produto de conquista (Hc 1.14) e
alegravam-se com os resultados da “pesca” (Hc 1.15). Eles
adoravam a sua própria força, por isso sacrificavam à sua rede e
queimavam incenso à sua draga (barcos) (Hc 1.16). Eles adoravam
os meios de destruição que fortaleciam o luxo e a riqueza deles. O
profeta terminou seu questionamento com uma pergunta: será que a
Babilônia continuaria tendo sucesso em seus empreendimentos
militares apanhando os povos com a sua rede, ou Deus colocaria
um fim nessa situação? (Hc 1.17).

O Castigo Divino sobre a Babilônia

O capítulo 2 começa com Habacuque recolhendo-se à torre de


vigia para esperar a resposta divina. Os profetas no Antigo
Testamento constantemente recorriam à figura do atalaia na torre de
vigia, pois a prática de subir em uma torre garantia uma visão mais
apurada. Habacuque precisava estar sozinho tal como um soldado
na torre. Ele precisa buscar ao Senhor por meio de seu devocional.
Somente assim poderia compreender os desígnios divinos (Hc 2.1).
Ele foi aguardar a resposta, e ela chegou. Deus não frustrou as
expectativas do seu servo. Ele precisava de uma resposta, e ela
chegou.
A resposta veio e precisava ser escrita de forma legível para que
todos pudessem compreender; até mesmo aquele que caminhasse
apressadamente (Hc 2.2). A solução para o problema proposto pelo
profeta viria no tempo determinado por Deus (Hc 2.3). O profeta
deveria esperar independentemente do tempo, porque, no momento
certo, a visão seria cumprida, ou seja, no tempo proposto por Deus,
o juízo também viria sobre a Babilônia. A nação ímpia fracassaria
(Hc 2.4). Seu sucesso seria aparente, como um inchaço, uma
deformação. O justo, segundo a revelação de Deus a Habacuque,
não deveria guiar-se pelas causas aparentes deste mundo, mas
deveria viver pela fé, cultivando e fortalecendo suas convicções
interiores. Para o profeta, no fim, aquele que foi fiel sempre emergirá
vitorioso porque Deus é justo.
Os pecados dos babilônios foram listados pelo profeta:
embriagavam-se com o vinho, eram soberbos e possuíam uma sede
insaciável por conquistas (Hc 2.5). A prática de embriagar-se com o
vinho era muito comum em toda a Babilônia, tanto que a nação foi
conquistada pelos medos e persas enquanto Belsazar e seus
cortesãos embriagavam-se e deliciavam-se com um grande
banquete. Além da embriaguez, a soberba era uma característica
emblemática da Babilônia. Consideravam-se superiores às demais
nações. Movidos por esse complexo de superioridade, mostravam-
se insaciáveis em suas conquistas, dizimando a morte e a tragédia
por todos os lados.

A Canção de Escárnio do Profeta

Os versículos 6 a 19 do capítulo 2 de Habacuque apresentam uma


canção de escárnio contendo cinco ais contra a Babilônia. Quando a
Babilônia fosse destruída, protagonizaria provérbios em que as
nações zombariam dela em forma de cânticos. Deus estava
mostrando a todo instante ao profeta Habacuque que o mal jamais
ficaria impune, que Ele observa todas as coisas e que jamais
apoiará o erro. No momento certo, o seu juízo será derramado.
Vejamos os cinco ais contra a Babilônia:

• Primeiro ai (Hc 2.6): Eles roubaram os pobres de diversas nações ajuntando

riquezas através de meios ilegais. A agressividade da Babilônia era explicada

pelo desejo ardente de tornar-se um império. Aqueles que foram vitimados

pela Babilônia seriam levantados contra ela (Hc 2.7), e o seu fim seria trágico.

A nação soberba da Babilônia serviria de despojo para as outras nações,

protagonizando um fim melancólico (Hc 2.8).

• Segundo ai (Hc 2.9): O profeta apresentou a cobiça desenfreada e orgulho

desmedido de Nabucodonosor que o levou a ajuntar riquezas destruindo os

povos (Hc 2.10). A pedra e a madeira furtada, ou seja, os bens conquistados

indevidamente para financiar as grandes construções da Babilônia, clamariam

contra ela (Hc 2.11). Os materiais que serviam para engrandecê-los também
os abateriam. Toda a riqueza estocada na Babilônia colocou esse povo na

mira de exércitos inimigos.

• Terceiro ai (Hc 2.12): A ganância da Babilônia foi responsável pelo

derramamento de muito sangue. Desse modo, o império foi construído com o

alicerce da iniquidade. “As cidades da Babilônia, construídas com trabalho

escravo, acabariam servindo de combustível para um fogo insaciável, e a

terra reconheceria que Jeová é o verdadeiro Deus.”11 Tudo conquistado

ilicitamente seria inútil, e o povo reconheceria a glória de Deus através do

juízo aplicado à Babilônia (Hc 2.13,14).

• Quarto ai (Hc 2.15): O profeta apontou para o estilo de vida sexual

promíscuo dos babilônios que embriagavam uns aos outros com propósitos

libidinosos e libertinos. Eles receberiam vergonha, e não honra (Hc 2.16).

Violências foram cometidas, a madeira do Líbano foi cortada, e os animais

foram mortos. A fauna e a flora foram destruídas. Atrocidades foram

cometidas não só contra os seres humanos, mas também contra a natureza,

para financiar as construções e o luxo dos palácios babilônios. A base da

iniquidade da Babilônia estava na idolatria. Os ídolos construídos enganavam

as pessoas e fortaleciam suas crenças nas vaidades e superstições (Hc 2.18).

• Quinto ai (Hc 2.19): O profeta declarou que de nada adianta a riqueza da

Babilônia usada para fabricar os ídolos, pois, embora sejam de ouro e prata,

dentro deles não há espírito algum. “A tolice da idolatria é caricaturada em

linguagem comovente. O termo traduzido por ídolos (18) é uma palavra

desdenhosa que significa ‘não-existências’.”12 Enquanto os ídolos são mortos


e não podem falar, Deus permanece vivo no seu santo templo, e diante dEle,

toda a terra deve demonstrar reverência (Hc 2.20).

A Oração de Habacuque

A oração do profeta é um salmo para ser cantado com o


acompanhamento de instrumentos musicais (Hc 3.1). A palavra
“Selá” aparece três vezes ao longo do capítulo (Hc 3.3,9,13).
Acreditamos que essa enigmática palavra que acompanhava os
cânticos judaicos indicava as pausas de interlúdio musical ou as
mudanças de tempo. O mesmo Habacuque que orava de forma
desesperada, neste momento, exaltava ao Senhor de modo
confiante, celebrando a magnificente pessoa do Senhor e suas
grandes obras na história.13 Ele começou seu livro lamentando e
terminou cantando. “O profeta vai do desespero à esperança, do
temor à fé, da angústia avassaladora à exultação indizível e cheia
de glória.”14
No início do livro, ele extravasou toda a pressão internalizada por
não compreender os caminhos de Deus. Depois de ouvir a voz de
Deus, demonstrou alívio e adorou ao Senhor por saber que Ele está
no controle de todas as coisas. Antes, Habacuque estava em um
vale profundo de crise, pois não conseguia compreender o governo
de Deus. Quando ouviu a voz do Senhor, ele saiu do vale e subiu a
torre em busca de mais respostas. É a voz do Senhor e o
conhecimento de sua vontade que nos arranca dos abatimentos
desta vida. No final do livro, o profeta está saltando de alegria,
demonstrando sua confiança em Deus (Hb 3.19)
O profeta exaltou ao Senhor evidenciando sua gratidão pela
revelação dos planos de Deus para Judá e Babilônia. Demonstrou
temor e expectativa (Hc 3.2). Clamou com ímpeto pedindo que Deus
avive a sua obra. Avivar não é utilizado como sinônimo de
“reavivar”, ou que Deus faça o que já fez no passado. O sentido do
texto é para Deus “preservar a vida”, indicado como uma obra ativa
e intensiva de Deus ao longo do tempo. O profeta estava pedindo
para que Deus verdadeiramente fizesse ao longo do tempo o que
lhe havia revelado.
A oração está eivada de traços característicos de uma fé sólida e
um respeito profundo pela soberania de Deus. O destaque da
oração está em Deus. Se antes o profeta concentrava-se nos atos
humanos que perpetuavam a maldade e a violência no mundo,
nesse momento o foco do profeta são os atos divinos que
executavam a verdadeira justiça entre as nações. Ele vem de Temã
(Edom) e do monte Parã (Sinai) para derramar a sua ira. A figura
dos trovões e relâmpagos que envolvem a chegada de Deus aponta
para a sua face de juízo mexendo com diversos locais da terra (Hc
3.4-7). É provável que Temã, Parã, Cusã e Midiã representassem os
inimigos de Israel em locais geográficos diversos. Deus estava irado
e caminhava saindo do Sinai para executar seu julgamento. A
manifestação do poder de Deus abalava as fundações da terra (Hc
3.3-7).
Deus foi identificado marchando pela terra, entre as nações (Hc
3.12). Ao contrário do que Habacuque inicialmente pensava, Ele não
estava parado, assistindo passivamente às injustiças do mundo,
mas mobilizava-se para executar seus juízos. A palavra marchar é a
mesma utilizada pelos soldados quando caminhavam para a guerra.
Habacuque sabia que, embora o juízo fosse derramado sobre Judá,
o objetivo de Deus era “preservar”, “purificar”, “corrigir” e “livrar do
mal”. Salvação no conceito do Antigo Testamento estava ligada a
esse último sentido: livramento do mal. Tudo o que Deus faria tinha
o objetivo de salvar o seu povo (Hc 3.13).
O cativeiro seria pedagógico. A Babilônia seria o instrumento
usado para purificar o seu povo. Habacuque demonstrou sua fé
inabalável ao afirmar que, no dia da angústia, confiaria no Senhor,
pois em breve os babilônios também experimentariam o juízo divino
(Hc 3.16). Silas Daniel relembra-nos de que essa oração contribuiu
para consolar os judeus durante o cativeiro: “O povo deveria
lembrar-se dessa prece como um padrão a ser seguido. Os judeus
precisavam orar a Deus durante o período do cativeiro da mesma
forma que o profeta, isto é, com o mesmo propósito, sentimento e
fé”.15
Vale lembrarmos que a expressão “o justo viverá pela fé” indica a
salvação de Deus mediante a fidelidade do seu povo. Segundo
House, “o verbo ‘viverá’ se refere à preservação física durante a
iminente invasão (Hc 1.12; 3.17-19)”.16 O povo não seria destruído.
Essa confiança na promessa de Deus e no seu caráter trouxe paz
pessoal para o profeta e certamente confortaria a nação de Judá
quando esse juízo fosse executado.

A Fé como Forma de Vida

A lição do livro de Habacuque é o que o justo deve viver pela fé


(Hc 2.4). Habacuque sabia que, quando o juízo divino fosse aplicado
em Judá, as coisas mudariam. De imediato, seus contemporâneos
perderiam a liberdade, o conforto e a autonomia política. Apesar de
todas essas perdas, o profeta demonstrou que sua confiança em
Deus permaneceria inabalável. Ele professou com muita
determinação sua profunda fé em Deus a despeito de todo o
sofrimento que suportaria com a aplicação do juízo divino sobre
Judá. Devemos confiar no Senhor mesmo quando aparentemente
as peças parecem não se encaixar. Devemos reconhecer nossas
limitações em compreender plenamente os caminhos de Deus.
Para testemunhar sua fé, Habacuque fez um cântico de adoração
ao Senhor. A verdadeira fé gera frutos visíveis. Não se trata de um
conhecimento escondido e camuflado, mas de uma certeza tão forte
e evidente que transborda em nossas vidas e ações. Ele começou
seu livro com lamento e desespero, mas terminou com cântico e
paz. Essa mudança repentina foi fruto de sua convicção na
soberania de Deus na história. Ele creu, em seu íntimo, que Deus
estava no controle de tudo.
A fé é resultado do relacionamento com Deus. Habacuque não
permitiu que suas incompreensões afastassem-no de Deus, mas,
com humildade, as expôs para o Senhor, pedindo — com singeleza
de coração — respostas. Ele aproximou-se do Senhor. Não permita
que os problemas e as decepções da vida afastem-no de Deus, mas
busque ao Senhor de coração, porque somente mediante a
aproximação com o Senhor é que desenvolveremos a fé em nosso
coração.
Fé implica conhecimento e assentimento. Conhecimento exige
aproximação, não distância (Hb 11.6). A fé põe em movimento o
intelecto, e quando nossa mente agita-se, nossa vida movimenta-se.
As grandes transformações na vida de alguém primeiro começaram
como pequenos movimentos internos. O que a mente creu, a vida
vai testemunhar. A fé é a raiz, as ações são os frutos. O cântico de
Habacuque foi resultado de um movimento interno. Ele primeiro
conheceu. É bem verdade que inicialmente teve dificuldade para
crer, mas depois demonstrou sua confiança no agir de Deus.
Depois do conhecimento vem o assentimento. Não nos basta
apenas conhecer uma proposição; é preciso crer nela. Assentimento
é confiar naquilo que nos foi informado. Habacuque recebeu o
conhecimento nos capítulos 1 e 2, mas apenas no capítulo 3
demonstrou seu assentimento diante daquilo que lhe foi revelado.
Seu assentimento veio em forma de cântico. Suas últimas palavras
foram uma doxologia sobre o triunfo da fé. Habacuque expôs de
forma clara que confiaria com todas as suas forças no Senhor, ainda
que tudo aparentemente se mostrasse contrário. Andar por fé é
confiar mesmo quando não estamos vendo.
O uso da figueira, videira, oliveira, dos cereais e dos rebanhos
representa aquilo que era fundamental na sociedade, pois a nação
dependia desses produtos agrícolas para a sobrevivência. Diante de
um ataque, o exército invasor geralmente destruía não apenas as
construções, mas também a própria terra, queimando e destruindo
as árvores e colheitas. Quando uma nação era julgada pelos seus
pecados, ímpios e justos sofriam. Habacuque estava se preparando
para o pior. Apesar dos sombrios prognósticos futuros, o profeta
afirmou que descansaria em Deus. Ele entendeu que a fé do cristão
deve ser mais forte do que as circunstâncias (Hc 3.17-19).
Ao dizer que Deus faria os seus pés como os das cervas (corças),
o profeta estava destacando o livramento divino em meio à tragédia
anunciada. A cerva é um animal veloz que corre sem pisar em falso
na tentativa de escapar do perseguidor. Habacuque sabia que o
Deus que levantaria a Babilônia para subjugar o seu povo também
os protegeria no cativeiro fornecendo o escape. Habacuque creu
que um remanescente fiel seria preservado no cativeiro, por isso
exaltou a confiança daqueles que vivem pela fé. O segredo da
salvação dos judeus era a fé; de igual modo, somos salvos pela fé
(Rm 3.24; 4.5,16; Ef 2.8). Caminhemos pela fé, pois é isso que Deus
espera do seu povo.

1 Esse significado é questionado. Muitos dizem que o significado do seu nome é


incerto. LOPES, Hernandes Dias. Habacuque: como transformar o desespero em
cântico de vitória. São Paulo: Hagnos, 2007, p. 2.
2 MERRILL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. 3.ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 2002, p. 483.
3 ROBERTSON, Palmer. Naum, Habacuque e Sofonias. São Paulo: Cultura
Cristã, 2011, p. 175. Frase extraída da nota 2, no rodapé da obra, quando o autor
reflete sobre a questão da ocupação de Habacuque.
4 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 319.
5 Stanley A. Ellisen apresenta a data de 607 a.C.
6TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 328.
7BROWN, Raymond. Entendendo o Antigo Testamento. São Paulo: Shedd
Publicações, 2004, p. 177.
8RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 562.
9BRUCE, F. F. Comentário bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 2008, p. 1113.
10 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 231.
11MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 775.
12 REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol.
5. Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 241.
13MERRILL, Eugene H. História de Israel no Antigo Testamento. 3.ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 2002, p. 484.
14 LOPES, Hernandes Dias. Habacuque: como transformar o desespero em
cântico de vitória. São Paulo: Hagnos, 2007, p. 137.
15 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 78.
16HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida,
2005, p. 447.
CAPÍTULO 10

Sofonias: O Dia do Juízo Está


Chegando

O livro de Sofonias apresenta a mensagem de um juízo universal


que começaria a ser aplicado primeiro em Judá. Embora o livro
comece com uma mensagem exortativa, termina proclamando um
anúncio de esperança. Nas palavras de Sofonias, depois da
tempestade do juízo, nascerá o sol do conserto. O livro caminha
entre pólos, pois, da mesma forma como retrata o juízo divino
avassalador sobre a humanidade, aponta para uma restauração
sem precedentes. O Deus que disciplina revelando sua face de juízo
também é o mesmo que purifica e restaura o homem, demonstrando
seu amor e misericórdia. O juízo divino serve um desígnio que não é
a destruição, mas a reparação do mal e o restabelecimento da
justiça.
O pecado estava crescendo em Judá. O profeta apregoou à sua
geração que tais erros não ficariam impunes diante de Deus. Em
sua época, existiam práticas idólatras que ainda apresentavam seus
restolhos entre o povo (Sf 1.4). Paralelo a esse grande mal estava o
crescimento avassalador da injustiça e da corrupção, que operavam
sob a tutela e a aquiescência do Estado e da religião. Por causa
dessa degenerescência moral que marcava a sociedade judaica, as
pessoas estavam abrindo mão da verdadeira religião, entregando-se
a um estilo de vida que flertava com a idolatria (Sf 1.4), o
sincretismo (Sf 1.5) e a indiferença religiosa (Sf 1.6).
Diferente de Habacuque, Sofonias partiu da premissa de que o
Senhor de Israel não assistiria ao crescimento da maldade sem
nada fazer. Sua justiça depreca sua intervenção. Já existia um plano
traçado por Deus, e a espinha dorsal desse projeto ganhava
contornos assustadores na expressão profética “o Dia do Senhor”.
Esse “Dia” aproximava-se de Judá, assim como também se
justaporá a todos aqueles que optam pela perfídia. Para o profeta, o
“Dia do Senhor” seria um tempo único na história, em que Deus
julgaria Judá (Sf 1.1-2.3), o mundo (Sf 3.14-15) e Jerusalém (Sf 3.1-
8).

O Profeta Sofonias

Sofonias foi um autêntico profeta do Senhor que não se calou ao


ver o pecado sendo cimentado na cultura judaica. É o único dentre
os profetas menores que possui o sangue da realeza, sendo
tataraneto do rei Ezequias (Sf 1.1). Enquanto na maioria dos
profetas temos apenas a menção dos seus pais, a genealogia de
Sofonias retrocede quatro gerações para destacar a linhagem real
do profeta.
Por causa de sua descendência real, é provável que, assim como
Isaías, Sofonias também desfrutou de acesso ao palácio real
durante o reinado de Josias (640-609 a.C.).1 Ele era um primo
distante do rei Josias. Alguns estudiosos chegam a propor que a
reforma religiosa do rei Josias iniciou-se por influência dele. O que
Sofonias anunciou foi fruto da revelação divina que recebeu. Suas
palavras eram as palavras do Senhor (Sf 1.1). O que fundamentava
o seu ministério não era a sua linhagem real, mas seu caráter fiel e
chamado verdadeiro. Ele era um homem com uma mensagem
relevante para entregar. Era um profeta que falava sob inspiração de
Deus.
Sofonias significa “o Senhor esconde”. Nasceu durante o reinado
de Manassés e testemunhou o derramamento de muito sangue
inocente (2 Rs 21.16). É provável que o seu nome seja uma menção
à proteção que o Senhor deu a ele em um período conturbado da
história de Judá. Provavelmente, o Senhor “escondeu-o” para que
as maldades de Manassés não atingissem o profeta, pois Deus
tinha preparado uma mensagem para ser entregue a Judá através
de sua instrumentalidade. Enquanto Isaías morreu no reinado de
Manassés, Sofonias nasceu e começou a desenvolver o seu
ministério. Ele também foi contemporâneo de Jeremias. Segundo
Walter Ewell, “Isaías e Miquéias viram a queda de Samaria, a capital
do Reino do Norte, mas morreram antes da época de Sofonias.
Sofonias foi seguido pelos profetas Jeremias, Habacuque e
Ezequiel, todos com uma mensagem especial para Judá”.2 Desse
modo, podemos dizer que Sofonias foi o primeiro de uma série de
profetas levantados por Deus para entregar uma mensagem de
juízo para Judá.
No livro de Sofonias, não encontramos nenhuma conteúdo
teológico novo. Ele profetizou a mesma mensagem dos profetas que
o antecederam. Porém, adicionou um tom final à mensagem do
juízo sobre Judá. As oportunidades de Deus foram desperdiçadas
pelos judaítas, agora, estava se aproximando o “Dia do Senhor”.
O livro é uma advertência muito bem fundamentada a respeito da
abominação de Deus pelo pecado. De igual modo, também contém
a revelação mais completa do Antigo Testamento sobre o “Dia do
Senhor”. Aliás, é essa matéria que dá unidade estrutural e teológica
à profecia de Sofonias. Seu conceito sobre o “Dia do Senhor”
permeia o seu livro do início ao fim. Ele não foi o primeiro profeta a
falar sobre esse assunto; antes dele, os profetas Amós, Isaías e
Joel anunciaram o “Dia do Senhor” (Am 5.18-20; 8.9-14; Is 2; 13; 34;
Jl 2). Tampouco foi o último a tocar nesse tema, visto que, depois
dele, Jeremias e Ezequiel continuaram ecoando essa mesma
mensagem (Jr 46-51; Ez 7). Mas, de modo único, quando
comparado a todos esses profetas, Sofonias demonstrou uma
atração descomunal em relação a esse assunto. Sua compreensão
e fé no “Dia do Senhor” delineou todo o seu oráculo e contribuiu
para fundamentar a revelação escatológica do Novo Testamento
sobre o juízo divino.
O “Dia do Senhor” escatológico, tal como profetizado por Sofonias,
será um tempo em que a ira de Deus será derramada sobre os
ímpios e o livramento será concedido aos justos. Ao mesmo tempo
em que Sofonias anunciou o derramar do juízo divino sobre o povo,
também realçou que a porta da misericórdia estava aberta para
aqueles que reconhecessem os seus pecados e que se
arrependessem com atitude sincera. Portanto, a mensagem desse
profeta é extremamente atual. Anunciemos a Jesus enquanto a
porta da misericórdia está aberta, pois ainda há livramento e
salvação disponíveis a todo aquele que crê.

Data

Acreditamos que Sofonias profetizou no reinado de Josias (640-


609 a.C.). A data comumente proposta para sua mensagem é
próximo a 630 a.C. (Sf 1.1). A descrição dos pecados de Judá
parece refletir os momentos que a nação viveu antes do início da
reforma religiosa de Josias. Tendo em vista que foi apenas no
décimo segundo ano do reinado de Josias (aproximadamente 627
a.C.) que o rei empenhou-se para promover o banimento da idolatria
em Judá, purificando os locais sagrados e restabelecendo o
verdadeiro culto ao Senhor, acreditamos que Sofonias profetizou
antes desses acontecimentos.
Alguns chegam a propor que a mensagem de Sofonias serviu de
pontapé para a reforma, influenciando consideravelmente o jovem
rei Josias. Ele também profetizou sobre a destruição da famigerada
nação assíria; sendo assim, a sua mensagem foi entregue antes da
queda de Nínive em 612 a.C. O profeta não fez menção à Babilônia,
e isso nos leva a pensar que a Babilônia não se consolidara como
uma grande potência internacional. A data de 630 a.C. parece
ajustar-se a essas conjecturas.
Depois do reinado de Ezequias em Judá, o Reino do Sul tinha
sofrido durante cinco décadas com os reinados dos ímpios
Manassés e Amom. As condições espirituais e morais de vida em
Judá deterioraram-se após a morte de Ezequias. Foram cinquenta
anos de escuridão, pecado, idolatria, assassinatos de profetas,
corrupção religiosa e judiciária, paganismo e sincretismo religioso.
Nesse período, a apostasia cresceu assustadoramente em
Jerusalém. No reinado de Manassés, Judá foi subjugada por uma
vassalagem à Assíria, não apenas no campo político, mas também
na esfera religiosa. Os deuses assírios e suas tradições religiosas
ganharam espaço em Judá, e podemos perceber isso nas
denúncias de Sofonias em relação à prática da adoração aos corpos
celestes (2 Rs 21.5; Sf 1.5), adoração a Baal (2 Rs 21.3; Sf 1.4) e
adoração a Moloque (1 Rs 11.7; 2 Rs 23.10; Sf 1.5). A nação viveu
anos de escuridão, de modo que o pecado foi ficando arraigado na
cultura dos judaítas.
Em 640 a.C., Josias foi coroado rei. Doze anos após a sua
coroação, por volta de 627 a.C., ele iniciou uma grande reforma
religiosa tentando resgatar os princípios da verdadeira religião em
Judá. Quando Josias assumiu o poder, a nação de Judá estava
enfraquecida não apenas no ponto de vista espiritual, mas também
na esfera política. O país era tributário da Assíria. Ele percebeu que
só conseguiria mudar o destino de Judá se primeiro restaurasse a
verdadeira espiritualidade do povo, extirpando a idolatria do meio
deles. Apesar dos esforços de Josias, a reforma foi, na verdade,
superficial, porque o povo não aderiu com o coração a mensagem
propagada nesse movimento religioso de restauração.

O Dia do Juízo em Judá

Sofonias iniciou sua mensagem com severidade, destacando que


a ira do Senhor consumiria tudo sobre a face da terra (Sf 1.2,3). A
ira do Senhor seria derramada sobre Judá por causa do sincretismo
religioso e da idolatria praticada em Jerusalém (Sf 1.4,5). Naquela
época, os homens inclinavam-se diante de Baal, o deus da
fertilidade dos cananeus. Influenciados pela astrologia, os judeus
também adoravam o “exército do céu”, expressão que aponta para
os corpos celestiais. A Lei do Senhor proibia tal prática (Dt 4.19;
17.3). Ezequiel, pouco tempo depois, contemplou essa adoração
secreta no Templo de Jerusalém (Ez 8.15-18), confirmando, desse
modo, que tal conduta acabou sendo absorvida pelos sulistas. Não
vemos essas denúncias entre os profetas que endereçaram suas
profecias para o Reino do Norte; por isso, concluímos que essas
práticas restringiam-se a Judá, sendo resultado direto da influência
assíria.3 Os judeus desprezavam o verdadeiro culto ao Senhor. Eles
introduziam novas formas de adoração em Judá e tentavam misturar
o culto ao Senhor com práticas pagãs. Estava chegando a hora do
acerto de contas.
O “Dia do Senhor” foi representado como um grande sacrifício (Sf
1.7-13). O Senhor estava preparando o holocausto. Os babilônios
eram os convidados, e Judá o sacrifício (Sf 1.7). Diversos pecados
da nação foram apontados: idolatria (Sf 1.4-6); líderes corruptos (Sf
1.8); violência e fraude (Sf 1.9); e os que permaneciam indiferentes
e não se posicionavam (Sf 1.12). Naquele dia, os gritos da
destruição seriam ouvidos em toda a cidade de Jerusalém (Sf 1.10-
11). A cidade seria saqueada (Sf 1.13).
Sofonias apresenta um texto assustador, considerado um dos
trechos mais pavorosos dentre os doze profetas menores.4 Os
judeus iludiam-se com a ideia de que o Dia do Senhor seria um dia
de livramento e festa em que Deus destruiria para sempre os seus
inimigos. Jamais esperavam que também fossem julgados nesse
dia. Amós foi o primeiro profeta a desmistificar esse pensamento
(Am. 5.18-20). O juízo do “Dia do Senhor” viria não contra os
inimigos de Israel (Judá), mas contra os inimigos do Senhor. Nesse
contexto, Judá agia como um inimigo do Senhor. Israel já tinha sido
destruído em 722 a.C. e, naquele momento, estava aproximando-se
a hora de o juízo ser executado em Judá (Sf 1.14).
Sofonias descreve esse momento como “dia de indignação, dia de
angústia e de ânsia, dia de alvoroço e desolação, dia de trevas e de
escuridão, dia de nuvens e de densas trevas” (Sf 1.15). Nesse dia,
os homens ficariam angustiados por cauda dos seus pecados (Sf
1.16), e nem mesmo a riqueza de Judá iria livrá-los desse dia (Sf
1.17). Lawrence Richards argumenta que a profecia de Sofonias
aborda o Dia do Senhor sob três perspectivas: “1) sua causa, pois
Judá fora infiel ao Senhor (Sf 1.4-9); 2) sua universalidade, desde
que todas as classes sociais serão castigadas (Sf 1.10-13); 3) seu
terror, pois será marcado pelos horrores, por demais
impressionantes para serem compreendidos (Sf 1.14-18)”.5
Joel, Sofonias e Malaquias foram profetas menores que
profetizaram para o Sul e também fizeram uso da temática teológica
do Dia do Senhor.6 Esse termo foi usado pelos profetas para “indicar
acontecimentos associados ao envolvimento direto de Deus nos
assuntos humanos para levar a cabo alguma fase do seu plano para
a humanidade”.7 Esse “Dia” tinha como objetivo a instalação da
ordem divina no mundo; para esse fim, cumprir-se-ia o processo de
acabar com a iniquidade. Logo, antes do dia do Senhor
escatológico, existem diversos “dias do Senhor”.
Assim sendo, a queda de Nínive, da Babilônia e a própria
derrocada de Jerusalém são considerados como o “Dia do Senhor”.
Nesse caso, o julgamento divino não é final, embora tenha sido
severo. O Dia do Senhor é um momento em que a justiça é feita.
Não há mais prorrogação. O juízo é derramado pedagogicamente,
não destrutivamente. O propósito é possibilitar o surgimento de um
remanescente purificado. Logicamente, também existe na teologia
bíblica a compreensão de um “Dia do Senhor” escatológico e
principal, sendo marcado pelo juízo final. A profecia de Sofonias
lançou os pilares dessa compreensão teológica que se
desenvolverá de forma mais clara no Novo Testamento.
Sofonias convocou a “nação”, nesse caso o Israel apóstata, ao
arrependimento (Sf 2.1-3). O juízo já havia sido determinado,
todavia os verdadeiros justos, que se arrependessem, seriam
“escondidos” naquele dia. Sofonias apropriou-se do significado do
seu nome e de suas experiências pessoais para dizer que, embora
a maldade viesse sobre Judá, Deus poderia proteger os justos
escondendo-os da ira do Senhor (Sf 2.3). Podemos perceber que a
profecia de Sofonias, assim como a de Habacuque, refere-se a um
juízo divino aplicado por meio de uma potência estrangeira.
Acreditamos que ambas descrevem a mesma tragédia: uma derrota
militar diante da invasão babilônica em Judá.
O Dia do Juízo para as Nações Estrangeiras

Para os ímpios judeus, não adiantava tentar esconder-se do juízo


buscando abrigo em outras nações. A única atitude que
“esconderia” os judeus do Dia do Senhor era o arrependimento. Se
o povo se voltasse em atitude sincera para com Deus, o Senhor
seria para eles um refúgio na hora da tempestade. Sofonias parece
referir-se a um remanescente fiel que permanecia em Jerusalém.
Esse pequeno grupo fiel não seria destruído, mas preservado (Sf
2.3).
Assim como Judá, todas as outras nações ímpias provariam da ira
do Senhor. Sofonias apresenta um Deus ativo, que não apenas
observa, mas também faz a própria história acontecer. As cidades e
locais especificados na profecia de Sofonias no capítulo 2
apresentam todas as nações que cercavam territorialmente Israel:
Filístia (oeste); Moabe e Amom (leste), Etiópia (sul) e Assíria (norte).
Todos esses povos serão destruídos por causa das consequências
dos seus pecados. O Dia do Senhor abarcaria todos os povos
pagãos que foram hostis ao Senhor. Gaza, Asquelom, Asdode e
Ecrom são quatro “cidades-estado” dos filisteus.8 Os quereítas eram
imigrantes de Creta que ocuparam a costa sul da Filístia, contraindo
laços parentescos com os filisteus. Todos seriam destruídos (Sf
2.5).9 Os primeiros a receber o juízo são os filisteus, logo após vem
Moabe e Amom.
Os amonitas e moabitas eram povos vizinhos que surgiram do
pecado de incesto entre Ló e suas filhas. A soberba atingiu esses
povos de modo que eles revoltaram-se contra o povo de Deus.
Como consequência, seriam julgados tal como Sodoma e Gomorra.
Essas duas nações seriam reduzidas a campos de urtiga e poços de
sal (Sf 2.8-10). Todos esses povos seriam vítimas da matança da
Babilônia. Diante dessa tragédia, “os deuses da terra serão
aniquilados”; em outras palavras, o povo perceberia a fraqueza
desses deuses, de modo que o culto a Baal perderia o seu destaque
entre os judeus exilados na Babilônia (Sf 1.11).
Etíopes e assírios também seriam destruídos pela Babilônia (Sf
2.12-13). A Assíria seria transformada em pasto, ou seja, a cidade
seria completamente destruída. Essa profecia foi cumprida no seu
sentido literal. No local que era a antiga e gloriosa cidade de Nínive,
as ovelhas pastam hoje em dia. Naum chegou a profetizar com mais
detalhes a destruição dos assírios. “Nínive foi tão completamente
destruída que sua localização se perdeu na memória dos homens
até o seu redescobrimento pelos arqueólogos durante o século
dezenove.”10

A Sentença em Jerusalém

Os juízos expedidos na profecia de Sofonias não poupam a


Cidade Santa. Jerusalém é identificada como uma cidade opressora
(Sf 3.1). Essa era uma constatação triste; a cidade conhecida como
a “Cidade Santa” ou “Cidade de Deus” tornou-se uma cidade
corrompida pelo pecado e pela opressão. Entre os pecados listados,
encontramos: rebeldia, desobediência, resistência à correção,
corrupção, falta de temor e impiedade. Os habitantes de Jerusalém
não ouviam a voz do Senhor (Sf 3.2).
Os príncipes foram comparados a animais selvagens, e os juízes,
a lobos devoradores que destroem qualquer vestígio de justiça (Sf
3.3); em outras palavras, não existia nobreza nos homens que
assumiram as cadeiras do Estado e da religião. Os líderes civis e
religiosos foram infiéis ao encargo que receberam. Eles foram
egoístas e colaboraram com o sistema da opressão. Em vez de
servirem ao rebanho que lhes foi confiado, eles exploraram o
rebanho. Foram interesseiros e pensavam apenas no lucro pessoal.
Os profetas agiam com leviandade. Eram irresponsáveis. Operavam
sem refletir e não demonstravam seriedade, muito menos sensatez.
Os homens que deviam possuir visão espiritual estavam cegos. Os
sacerdotes profanaram o santuário de Jerusalém violentando as leis
estabelecidas (Sf 3.4).
Sendo Deus justo, não poderia deixar a iniquidade ficar impune (Sf
3.5); portanto, o juízo de Deus estava decretado sobre Jerusalém. A
cidade seria exterminada, as praças ficariam desertas (Sf 3.6).
Apesar de todas as investidas de Deus para que o povo se
arrependesse, eles permaneceram resolutos em seus pecados,
ignorando a correção do Senhor. Eles madrugavam com o desejo de
pecar. O pecado não era um acidente para os habitantes de
Jerusalém; antes, era um ato idealizado, maquinado e pintado com
cores atraentes (Sf 3.7). O Senhor congregaria os povos da terra,
nesse caso, o Império Babilônico, e toda a ira do Senhor seria
despejada sobre Jerusalém através desses povos (Sf 3.8).

Promessa de Bênçãos Futuras

Depois de apresentar o lado sombrio do “Dia do Senhor”, o profeta


encerrou sua mensagem, destacando o seu lado festivo. A
destruição, apesar de ser gigantesca, não será total. O “Dia do
Senhor” não destruirá o selo das promessas para Israel. Sofonias
destaca o livramento que Deus concederá aos remanescentes de
Israel em meio à destruição das nações. Os justos receberiam
“lábios puros” e abandonariam a blasfêmia, servindo a Deus em um
mesmo espírito (Sf 3.9).
O povo disperso viria de lugares longínquos para adorar ao
Senhor (Sf 3.10). A soberba seria extirpada do meio do povo (Sf
3.11). Sofonias é categórico em afirmar que haveria em Israel um
grupo restaurado identificado como “os remanescentes de Israel” (Sf
3.13). O profeta convida os remanescentes a alegrarem-se, pois, no
final, o Senhor afastou deles o juízo, exterminando seus inimigos (Sf
3.14,15). A presença de Deus será perceptível no meio do seu povo
(Sf 3.17). Sofonias declarou que haveria esperança para aqueles
que se arrependessem demonstrando tristeza (Sf 3.18). Eles serão
novamente reunidos em Jerusalém e exaltados diante dos outros
povos. O capítulo final que Deus preparou para Israel na visão de
Sofonias será marcado pela exaltação. A alegria dos remanescentes
chegará ao clímax quando Cristo estabelecer o seu reino na terra.

O Dia do Juízo Está Chegando

A mensagem que Sofonias pregou não deve cair no nosso


esquecimento; antes, deve ser anunciada pela Igreja. O Dia do
Senhor escatológico acontecerá, conforme anunciado nas Escrituras
e prometido pelo próprio Cristo (Mt 24.42; 25.13; 1 Ts 4.14-17; 1 Co
15.51-53). Ele virá para estabelecer o juízo e seu governo sobre a
terra. A ira do Senhor será derramada sobre este mundo (1 Ts 5.9).
Um juízo semelhante àquele previsto por Sofonias aproxima-se. É
somente pela justificação por meio do sangue de Cristo que
seremos salvos por Ele da sua ira (Rm 5.9).
Deus intervirá no decurso de nossa história para consumá-la
fazendo prevalecer sua justiça. O juízo está à porta (Tg 5.9). De
modo algum o Senhor será injusto ao derramar sobre os pecadores
a sua ira, fazendo prevalecer sua justiça perfeita sobre as injustiças
humanas que são essencialmente dolosas (Rm 3.5-6; 2 Ts 1.6-9).
Deus não age com injustiça (Rm 9.13-14). Tudo o que Ele faz é
perfeito. Sofonias previu um juízo universal em que todas as nações
prestariam conta de seus atos a Deus (Sf 2; Rm 2.16; Hb 4.13; 6.2;
Ap 20.12). Cremos que, nesse grande dia, os ímpios serão
condenados e os justos serão salvos. Em que momento esse dia
acontecerá ninguém sabe; ele permanece oculto para que
possamos continuar vigiando (Mc 12.32; 1 Ts 5.2). As pessoas estão
sendo avisadas sobre a volta de Cristo; portanto, quando o “Dia do
Senhor” chegar, as pessoas serão surpreendidas, mas não
enganadas. O evangelho está sendo pregado. Como Sofonias, a
Igreja tem exercido seu profetismo para advertir o mundo sobre a
calamidade que está por vir.
Nossa geração, como a de Sofonias, tem optado pelo pecado.
Vivemos dias difíceis. Paulo advertiu-nos de que, nos últimos dias,
muitos se apostatariam da fé (1 Tm 4.1-3). O pecado tem crescido
vertiginosamente em nosso tempo. A corrupção tem-se alastrado
em todos os setores da sociedade. O amor excessivo ao dinheiro
tem precipitado os homens ao egoísmo e materialismo. O Novo
Testamento informa-nos que, próximo ao fim, os homens seriam
cada vez mais presunçosos, avarentos, soberbos, blasfemos,
desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural,
irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para
com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos
deleites do que amigos de Deus, tendo a aparência de piedade,
porém negando a eficácia dela (2 Tm 3.1-5). Vivemos esse
momento. A Palavra de Deus está sendo cumprida.
Sofonias pregou o arrependimento à sua geração, avisando-lhes
que se buscassem a Deus com sinceridade, seriam preservados do
juízo que estava por vir (Sf 2.1-3). De igual modo, ainda hoje há
oportunidade de livramento e salvação mediante o arrependimento
sincero (2 Co 6.2; Hb 4.7). A porta da graça está aberta. Somente
em Cristo encontraremos refúgio quando a tempestade chegar.
Portanto, a mensagem de Sofonias é perturbadoramente atual e
precisa ser resgatada em nossos púlpitos. Todo aquele que crer em
Jesus será salvo (Mc 16.16; At 16.31; Rm 4.24; 10.9-14). Aqueles
que resistem a Cristo rejeitam a salvação oferecida (Fp 1.28), porém
aqueles que creem no Filho de Deus são presenteados por Deus
pela salvação, como um ato de graça do Deus Pai (Rm 10.17; Ef
2.8; 1 Jo 5.10-12).

1 IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 119.


2 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 232.
3REED, Oscar F; et al. Comentário bíblico Beacon: Oséias a Malaquias. Vol. 5.
Rio de Janeiro: CPAD, 2012, p. 257.
4HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p.
121.
5RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 567.
6 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 326.
7RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 521.
8 MANUAL BÍBLICO SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p.
504.
9PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1239.
10PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1240.
CAPÍTULO 11

Ageu: Atenção para com a Casa


de Deus

Neste pequeno livro do Antigo Testamento, encontramos uma séria


advertência de Deus para a igreja contemporânea. Que papel o
Senhor ocupa em nossas vidas? Está Ele em primeiro lugar (Mt
6.33)? A geração de Ageu contentava-se em realizar um sacrifício
improvisado seguindo uma observação “mediana” porque o povo
iludia-se com o falso pensamento de que era abençoado
simplesmente pelo fato de viver em Jerusalém e ter um tipo de
contato com o Templo. O valor que conferiam à Casa de Deus era
um indicativo do estado espiritual deles. O templo estava em ruínas,
mas eles não se incomodavam mais. Concentraram todos os seus
esforços e recursos em seus próprios negócios e deixaram os
interesses de Deus de lado. Ageu surgiu nesse cenário para
desafiar sua geração a colocar Deus em primeiro lugar.

O Profeta Ageu
Dos doze profetas menores, apenas três desenvolveram seus
ministérios após o cativeiro babilônico. São eles: Ageu, Zacarias e
Malaquias. Ageu foi o primeiro a profetizar após o cativeiro
babilônico, sendo contemporâneo de Zacarias. Ele começou seu
ministério dois meses antes de Zacarias (Ag 1.1; Zc 1.1). Não temos
informações bíblicas sobre seus antecedentes familiares. Ageu não
precisava identificar-se de forma minuciosa porque havia poucos
profetas na sua época, e ele era bem conhecido pela comunidade
judaica em Jerusalém.1 As poucas informações que temos sobre ele
são de fontes extrabíblicas. “A tradição judaica sustenta que ele
nasceu na Babilônia e estudou sob a orientação de Ezequiel e veio
para Jerusalém após o retorno do primeiro grupo de exilados, pois o
seu nome não consta da lista dos que retornaram (Ed 2.2).”2
Seu nome significa “festivo” ou “festividade”. Segundo os
estudiosos, é provável que seu nascimento coincidisse com um
feriado judaico. Isso justifica o significado do seu nome. Outros
acreditam que seu nome foi profético; desse modo, seus pais
piedosos atribuíram-lhe esse nome na expectativa da restauração
do povo judeu, anunciando através desse ato que haveria motivos
para festejar em breve.3 Neste caso, seu nome foi profético e
adequou-se perfeitamente ao propósito de sua profecia, pois a
restauração do Templo implicaria o reinício das festas religiosas em
Jerusalém.4 Há, ainda, aqueles que propõem que Ageu possa ser
um apelido.5
Data e Contexto

Sua profecia tem data específica. Profetizou no segundo ano do


rei Dario, por volta do ano 520 a.C. “Ageu profetizou apenas durante
quatro meses (Ag 1.1; 2.1; 2.10; 2.20).”6 O seu livro é composto de
quatro mensagens pregadas no mesmo ano (520 a.C.), intercaladas
por um espaço curto de tempo. Em sua primeira mensagem, o
profeta incentivou o reinício da reconstrução do Templo (Ag 1.1-11).
Essa profecia foi entregue no segundo ano de Dário, no sexto mês e
primeiro dia, isto é, 29 de agosto de 520 a.C.
As mensagens restantes visavam encorajar o povo na tarefa da
reconstrução. A segunda mensagem (Ag 1.12-15) foi entregue no
segundo ano de Dario, sexto mês, dia 24, o que equivale ao dia 21
de setembro de 520 a.C. Cerca de quase um mês depois, Ageu
pregou seu terceiro sermão (Ag 2.1-9), no dia 17 de outubro de 520
a.C. (segundo ano de Dario, sétimo mês, dia 21), e, por fim, no dia
18 de dezembro de 520 a.C., (segundo ano de Dario, nono mês, dia
24), o profeta trouxe seu quarto sermão subdividido em duas partes
com destinatários diferentes — enquanto a primeira parte foi
endereçada ao povo (Ag 2.10-19), a segunda foi uma mensagem
pessoal a Zorobabel, líder civil dos judeus (Ag 2.20-23).7
O ministério de Ageu desenvolveu-se junto ao primeiro grupo de
exilados que retornou do cativeiro babilônico liderados por
Zorobabel. Se Ageu voltou com esse grupo, não sabemos. Isso é
um grande mistério. Seu nome não aparece na lista registrada por
Esdras dos judeus que retornaram nesse primeiro grupo (Ed 2.2).8 É
possível que tenha retornado um tempo depois. Ageu foi citado duas
vezes por Esdras, confirmando que ele profetizou para esse
primeiro grupo que retornou a Jerusalém (Ed 5.1; 6.14).
A história diz que o decreto de Ciro em 538 a.C. admitiu que os
judeus cativos na Babilônia retornassem para sua cidade de origem
e reconstruíssem o Templo de Jerusalém (Ed 1.1-4).9 Acreditamos
que um grupo de aproximadamente 200 mil judeus, incluindo
mulheres e crianças, tenha retornado a Jerusalém por meio desse
decreto, liderados por Zorobabel. Nem todos os judeus retornaram
com esse primeiro grupo. O ministério de Ageu desenvolveu-se com
esse público já instalado em Jerusalém. “O remanescente que havia
retornado à Palestina com essa missão tinha abandonado as obras
fazia dezesseis anos; por esse motivo, Ageu recebeu ordens de
exortar os letárgicos judeus a retomar a construção”.10
Quando os judeus chegaram a Jerusalém, estavam animados com
o projeto da reconstrução do templo. Enquanto muitos judeus
preferiram ficar na Babilônia desfrutando da prosperidade e do
conforto daquela terra, esse primeiro grupo abriu mão de tudo isso
por causa do fervor religioso que possuía. Eles deixaram o luxo
conquistado em uma terra estrangeira para viver junto às ruínas de
Jerusalém, em uma cidade assolada pela destruição, resultado das
invasões babilônicas. Na espinha dorsal desse grupo de exilados
que retornou a Jerusalém, estavam os sacerdotes, os homens de fé,
que nutriam um carinho especial pela “cidade de Deus” e pelo seu
templo. Eles aspiravam pela formação de um estado sacerdotal em
Jerusalém.11 Do grupo que voltou, um em cada sete era sacerdote.
Porém, a vida não seria confortável durante esse regresso. Era
preciso muito trabalho e disposição para reconstruir uma cidade
cicatrizada pela guerra. Dois anos após a chegada desse grupo, os
edificadores lançaram os alicerces do templo provocando uma
grande comoção entre o povo (Ed 3.8-13). Propósitos religiosos
moviam essas pessoas em suas decisões e esforços. Todavia, as
perseguições dos samaritanos e as dificuldades enfrentadas com o
passar dos anos contribuíram para desanimá-los, atrasando a
execução e conclusão do projeto. A situação ficou mais complicada
ainda no ano de 529 a.C., quando o rei Cambises da Pérsia baixou
um decreto proibindo a continuidade da reconstrução do templo. A
obra acabou parando. O povo desanimou.
O interesse do povo voltou-se para as questões seculares. A
letargia espiritual levou o povo a reconstruir suas próprias casas,
desvalorizando o Templo do Senhor. Eles aculturaram-se na
Babilônia. Tornaram-se comerciantes. Passaram a dar uma atenção
especial aos bens materiais em detrimento da busca pelo espiritual.
Deus enviou seca e não prosperou a colheita dos repatriados em
Jerusalém. O propósito divino era adverti-los que a prioridade para
eles deveria ser a reconstrução do Templo. Quando Ageu começou
a profetizar, a reconstrução do Templo estava paralisada havia
quinze anos. Esse contexto histórico é relatado no livro de Esdras
(Ed 4.1-5). Os capítulos 1–6 de Esdras apresentam o pano de fundo
histórico por trás da profecia de Ageu.
O propósito de Ageu ao escrever o seu livro e entregar sua
mensagem profética era incentivar os líderes judeus para que se
despertassem no fito de envolverem-se na reconstrução do Templo.
Ageu declarou que o fracasso nos outros setores da vida era
consequência de uma vida espiritual relapsa. Ele advertiu e
incentivou seus compatriotas a livrar-se do marasmo no afã de
assumirem suas responsabilidades para com a Casa de Deus.
O profeta também destinou a sua mensagem para motivar o
governador Zorobabel e o sumo sacerdote Josué a mobilizarem o
povo para a reconstrução do Templo (Ag 1.1). Se os líderes se
envolvessem dando o devido exemplo, o povo seria contagiado.
Ageu profetizou em um período crítico. O povo estava confuso e
indiferente quanto às questões espirituais. Sua mensagem serviu de
combustível para mobilizar o povo. Ele começou a profetizar no ano
520 a.C.; durante dezesseis anos, a obra de reconstrução do
Templo não havia terminado (536-520 a.C.). Após a sua influência,
quatro anos depois, no dia 3 de março (Adar) de 516 a.C., a obra foi
finalizada.
Essa constatação aponta para a efetividade do ministério de Ageu
junto aos seus contemporâneos. De todos os profetas, ele está
entre aqueles que, em um curto espaço de tempo, colheu e usufruiu
os frutos positivos de seu profetismo profícuo. Nem todos os
profetas tiveram essa sorte! A mensagem de Ageu foi abraçada pelo
povo e causou uma revolução interior, uma verdadeira mudança de
mentalidade. A guinada de pensamento ao lado de uma
interiorização sincera da mensagem de Ageu levou o povo ao
esmero e à ação de obediência. Motivados e comprometidos,
energizados por sua palavra profética, o povo lançou-se na
reconstrução do Templo, dando vida e concretude a um sonho que
fora sonhado por muitos anos pelos judeus. O que era difícil tornou-
se possível. Podemos afirmar que Ageu foi uma peça-chave no
processo de reconstrução do Templo de Jerusalém.

O Livro de Ageu

O livro de Ageu é o segundo menor do Antigo Testamento, ficando


atrás apenas de Obadias nesse quesito. A expressão “diz o Senhor
dos Exércitos” aparece 26 vezes em 38 versículos. Em todo
instante, o profeta anuncia que suas palavras vêm de Deus e
possuem o selo da autoridade profética.
Seu livro é composto de quatro mensagens que foram entregues
ao povo. Na primeira mensagem, Ageu repreendeu o povo por
causa da inércia espiritual e da falta de envolvimento no projeto de
reconstrução do Templo (Ag 1.2-15); na segunda mensagem, após o
início das obras de reconstrução, a aparência do Templo era pouco
imponente — por causa disso, o povo desanimou, e nesse momento
Ageu motivou-os dizendo que a glória daquele Templo seria maior
do que o Templo de Salomão (Ag 2.1-9); na terceira mensagem,
Ageu declarou que o fato de alguém morar na terra santa não o
torna santo; sendo assim, o povo deveria viver a verdadeira
santidade para usufruir das bênçãos prometidas (Ag 2.10-19). Por
fim, na sua última mensagem, Ageu profetizou uma bênção especial
para a dinastia de Davi, representada pela linhagem de Zorobabel
(Ag 2.20-23).

Deus Repreende a Apatia do Povo (Ag 1)

Em agosto-setembro de 520 a.C., no segundo ano de Dario I,12


Ageu começou a entregar a sua profecia. O povo tinha abandonado
a obra por causa da oposição dos samaritanos e do decreto de
Cambises, o rei persa. Ageu destinou seu primeiro sermão ao povo
e aos seus líderes: Zorobabel, líder civil membro da família real de
Davi,13 e Josué, líder religioso (Ag 1.1). Enquanto Zorobabel era
uma espécie de governador judaico nomeado pelos persas, Josué
era o sumo sacerdote. Os líderes teriam um papel decisivo na
mobilização do povo. Percebemos claramente que Ageu objetiva
atingir tanto os líderes quanto o próprio povo em suas palavras (Ag
1.1,13).
Sua mensagem começou ressaltando o Deus de Israel como o
Senhor dos Exércitos (Ag 1.2), cujo poder é sobre todos os
exércitos. Sua autoridade é máxima e jamais será limitada pelos
poderes desta terra. Enquanto o povo estava parado por causa de
obstáculos efêmeros, o Senhor dos Exércitos ordenava que a
reconstrução do Templo fosse retomada. A paralisação não era
apenas resultado de pressões externas, mas também era fruto do
descaso interno para com a Casa de Deus. Nas palavras de Ageu,
Deus demonstrou sua tristeza por perceber que ficou em segundo
plano entre as prioridades do povo. Para Ageu, “a reconstrução do
templo não era um fim em si. O templo representava o lugar de
habitação de Deus, sua presença manifesta no meio de seu povo
escolhido”.14 Portanto, retornar a reconstrução do Templo
simbolizava o desejo do povo em ter de volta a presença de Deus
no seu meio.
Entretanto, o povo acomodara-se dizendo que ainda não era o
momento da reconstrução do Templo (Ag 1.2). Essa desculpa
apenas revelava a indiferença deles em relação à fé. Aquele antigo
fervor que os moveu a sair da Babilônia em direção a Jerusalém
esfriou-se com as dificuldades. O real problema daquele povo não
era a oposição de fora, mas a apatia de dentro. O mundo pode estar
de cabeça para baixo, mas, se seu coração estiver centrado em
Deus, você terá a estrutura para sair de qualquer situação, por mais
difícil que pareça aos seus próprios olhos. De igual modo, o mundo
pode estar perfeito, com todas as peças encaixadas no lugar, mas
se você não estiver bem com Deus, tudo se torna insignificante. O
povo precisava de uma mudança de mentalidade.
Percebemos que faz parte da natureza humana justificar suas
omissões, criando argumentos plausíveis para esconder seus
fracassos. Esse recurso mental atenua a frustração de não ter
conseguido o que se pretendeu um dia. Os homens da época de
Ageu valiam-se dessa retórica escapista. Buscavam frases e
pensamentos para justificar os seus erros (Ag 1.2). Preocupavam-se
com seus negócios e vidas pessoais, mas não davam ao Templo o
devido valor (Ag 1.4). Os projetos humanos tinham prioridade,
enquanto os interesses de Deus tornaram-se secundários.
Ageu procurou ensinar por meio de sua profecia que o abandono
da reconstrução do Templo provocou a seca e a escassez (Ag 1.6-
11). Eles semeavam muito, mas colhiam pouco (Ag 1.6); queriam
muito, mas conquistavam quase nada (Ag 1.9). A seca não era por
acaso. Eles estavam tão envolvidos com seus próprios interesses —
essencialmente materialistas — que colocaram Deus em segundo
plano. Por isso, a vida deles deixou de caminhar para a frente. Deus
reteve suas bênçãos. Assim, eles trabalhavam demasiadamente,
mas as coisas pelas quais trabalhavam escapavam de suas mãos
(Ag 1.6). Permaneciam decepcionados, apesar de tanto esforço.
Nenhum investimento humano estará seguro se Deus não estiver
presente ocupando o primeiro lugar. A detenção das bênçãos de
Deus tinha um propósito pedagógico e disciplinador. O Senhor
queria ensinar o seu povo que Ele deveria estar em primeiro lugar
(Ag 1.10-11).
Existem momentos em que a adversidade transforma-se em
prosperidade quando nos leva a aplicar o nosso coração nos
projetos de Deus (Ag 1.5). Se a luta nos aproxima de Deus e a
escassez nos leva a olhar para o céu, podemos afirmar que o
problema contribuiu para o nosso bem. Ageu inquiriu seus
compatriotas: O fato de vocês colocarem Deus de lado provocou
progresso ou regresso? A resposta era simples: “ao deixarem Deus
de lado, eles abandonaram o único elemento essencial para o
sucesso”.15 Não troque Deus por nada desta vida! Não deixe Deus
em segundo plano! Ageu declarou que a mudança de mentalidade
resultaria em transformações externas na economia, no bem-estar e
na própria realização das pessoas. A mensagem de Ageu era
simples: eles deveriam retomar a reconstrução do Templo (Ag 1.8).
Se cuidassem da Casa de Deus, o Senhor cuidaria do seu povo.
A mensagem do profeta teve efeito rápido. Ageu teve o privilégio
de ver sua exortação sendo entendida pelo povo. A apatia saiu e
deu lugar ao fervor. O líder Zorobabel percebeu que Deus enviara
Ageu para levantar um povo que estava prostrado. É impressionante
como um homem nas mãos de Deus tem a capacidade de
transformar uma geração. Assim como apenas uma fagulha de fogo
é suficiente para incendiar uma floresta, basta apenas um homem
em chamas para que uma geração experimente um grande
avivamento. Todo o povo temeu e agiu com respeito diante da
mensagem do profeta (Ag 1.12).
A mensagem penetrou nos recônditos do coração daqueles
homens e provocou profundas reformas espirituais. O povo retomou
a reconstrução do Templo (Ag 1.13-15). Ageu é o portador da
mensagem responsável pela reviravolta do ânimo entre aquela
comunidade judaica (Ag 1.13). A profecia de Ageu foi medicinal e
motivacional, ao mesmo tempo em que livrou o povo do desânimo,
ofereceu-lhes um novo ânimo para retomar o projeto da
reconstrução do Templo.

A Glória do Segundo Templo

O ânimo do povo durou pouco mais de um mês. A segunda


profecia foi entregue praticamente um mês depois da primeira (Ag
1.1; 2.1). Ao iniciar a reconstrução, depois de tirar os entulhos, a
obra começou a ficar visível, e o povo percebeu que aquele Templo
jamais teria a beleza e o esplendor do Templo de Salomão. O povo
ficou nostálgico, principalmente os anciãos que conheceram o
antigo Templo e comparavam-no com o novo (Ag 1-3).
Se o primeiro sermão tinha como objetivo arrancar o povo do
marasmo e da inatividade, os três últimos sermões serviram ao
propósito de encorajar o povo à perseverança do trabalho. Ageu
animou o povo a prosseguir listando pelo menos três motivos: o
Senhor dos Exércitos estaria com eles (Ag 2.4); o pacto de Deus
com Israel permaneceria de pé (Ag 2.5); a glória daquele Templo
seria maior do que a do primeiro, pois nele haveria grandes
demonstrações de poder. A presença do “desejado das nações”
(Cristo) emprestaria ao Templo uma glória que o primeiro Templo
jamais conheceu (Ag 2.6-9).16
Ageu declarou que o povo não deveria preocupar-se com a falta
de materiais preciosos para a restauração do Templo, pois a prata e
o ouro pertencem a Deus. Seus suprimentos são inesgotáveis. Deus
não depende das pessoas e dos poderes terrenos para prover os
recursos, pois tudo lhe pertence (Ag 2.8). Por meio de Ageu, o
Senhor estava assegurando ao povo que, apesar da economia fraca
e da falta de recursos (ouro e prata), eles deveriam prosseguir na
reconstrução, pois o Deus de Israel era capaz de prover os
materiais para o Templo. O trabalho era responsabilidade dos
homens, e a provisão era uma atividade assumida pelo próprio
Deus.
O profeta motivou seus compatriotas dizendo que a real beleza do
Templo seria a presença do Senhor, e não apenas a magnificência
da construção (Ag 2.9). Enquanto o povo olhava com saudosismo
para o passado, Ageu ergueu os olhos com expectativa para o
futuro de glória que Deus tinha preparado para eles. A visão do
profeta é tanto retrospectiva quanto perspectiva, olhou para o
passado e viu o cuidado de Deus sobre o seu povo, olhou para o
futuro e viu as promessas de Deus. Ageu é um homem cheio de fé,
somente assim conseguiria impactar seus contemporâneos por meio
de sua pregação.

O Elo entre a Santidade e a Bênção do Senhor

Em sua terceira mensagem, entregue dois meses depois da


mensagem anterior, Ageu destacou a importância de um viver santo.
A profecia foi destinada aos sacerdotes (Ag 2.11). Ageu fez duas
perguntas envolvendo temas como santidade e contaminação: 1) Se
alguém leva carne santa na aba de sua veste, e consequentemente
a veste toca em um alimento, porventura estes se tornarão santos?
(Ag 2.12). A resposta dos sacerdotes foi clara: “não”; 2) Se alguém
toca em um cadáver e logo após toca em algum objeto, esse
material está impuro? A resposta dos sacerdotes também foi clara: o
objeto ficará imundo.
Por meio dessas perguntas, Ageu estava tentando ensinar uma
verdade: a pureza moral não pode ser transmitida, mas a impureza
moral sim.17 A ideia é que um homem são não pode passar sua
saúde para quem está enfermo, todavia o enfermo pode contaminar
aquele que está saudável.18 A santidade não se transmitia de um
objeto para o outro, ou de uma pessoa para outra. O sacrifício que
era cerimonialmente santo não santificava o imundo ao tocá-lo. O
povo naquela época estava sacrificando sobre um altar improvisado
em Jerusalém (Ed 3.3). Essas ofertas não satisfaziam as exigências
cerimoniais de Deus. O alimento “santificado” ao tocar no altar
improvisado era contaminado em vez de santificar o altar. Deus não
estava se agradando daquelas ofertas (Ag 2.14), por isso as
bênçãos de Deus sobre o povo foram retidas (Ag 2.15-19).
O objetivo dessa mensagem era comunicar ao povo que as ofertas
trazidas estavam contaminadas; desse modo, a espiritualidade do
povo estava comprometida enquanto o Templo estivesse em ruínas.
Deus só aceitaria o culto solene dos judeus quando o Templo fosse
restaurado. Os sacerdotes não poderiam ser negligentes deixando-
se enganar com o pensamento de que qualquer sacrifício serviria
para Deus. A oferta que estava sendo entregue de qualquer jeito
apontava para a realidade espiritual do povo: eles agiam com
descaso no trato para com Deus. Além de colocarem Deus como
prioridade, o povo deveria ser zeloso nos assuntos conexos à
adoração ao Senhor.
O Deus revelado a Israel é detalhista. Foi Ele quem estabeleceu
os critérios do culto judaico e as diretrizes que normatizariam os
sacrifícios. O que fora estabelecido por Deus não poderia ser
ignorado sob o pretexto de que o importante era simplesmente
“fazer algo para Deus”. O fato de fazermos algo para Deus não nos
autoriza a fazermos esse algo de qualquer jeito; para fazer para
Deus, tem que ser de acordo com os critérios de Deus. O culto
judaico não poderia ser de qualquer jeito. O sacrifício em Jerusalém
não poderia ser de qualquer jeito. No livro de Ageu, aprendemos
que Deus só recebe e aceita o nosso culto se for do jeito
estabelecido por Ele.
Podemos perceber que, no fim, tudo girava em torno da apatia
espiritual. Esse sermão visava operar neles um avivamento de
propósitos para que os repatriados continuassem resolutos e
motivados na missão de reconstrução do Templo, pois grandes
bênçãos seriam derramadas sobre Jerusalém quando o povo
demonstrasse seu fervor e compromisso com Deus.

Promessa do Estabelecimento do Reinado de Zorobabel

Depois de falar aos sacerdotes, naquele mesmo dia, Ageu


entregou uma nova mensagem para o príncipe de Judá, Zorobabel.
Esse texto possui uma aplicação primária e secundária: em sua
aplicação primária, destina-se a Zorobabel, líder levantado por Deus
entre o povo, na época de Ageu. Em sua aplicação secundária,
refere-se a Cristo, pois a linguagem do texto também é messiânica.
Zorobabel é um antítipo de Cristo. De acordo com Ellisen, aqui se
trata também de uma referência messiânica, pois a menção de
Zorobabel como “anel de selar” simboliza a autoridade real do
Messias.19 Os termos usados para referir-se a Zorobabel, o
governante judeu daquela época, descendente de Davi, são
essencialmente messiânicos: “servo meu”; “anel de selar”; “te
escolhi”. Jesus era da linhagem davídica, sendo descendente direto
de Zorobabel (Mt 1.12).
Zorobabel teve uma importância reconhecida na história. A partir
da figura desse grande líder em um cenário de crise e incerteza,
Ageu apresentou uma mensagem bem mais abrangente e profunda;
o profeta estava informando que Deus reescreveria a história
através de “Zorobabel”. Ele seria o anel de selar. “Desta forma, a
profecia de Ageu está mostrando que alguém da linhagem de
Zorobabel, no futuro, autenticaria definitivamente a intervenção de
Deus na história: Jesus de Nazaré”.20 Porém, a expressão “anel de
selar” também traz significados específicos para o príncipe
Zorobabel, dentro do contexto experimentado pelos exilados.
Não podemos esquecer que Ageu foi levantado por Deus para
estimular a esperança dos exilados, visto que eles viviam um
processo de reconstrução e recuperação nacional; portanto, era de
fundamental importância que os líderes desse projeto de
restauração estivessem animados. Por isso, Ageu endereçou essa
mensagem de esperança a Zorobabel. A expressão “anel de selar”
tem um significado profundo na profecia veterotestamentária, pois
essa mesma expressão tinha sido usada pelo profeta Jeremias para
condenar o rei Joaquim e seus descendentes (Jr 22.24-30); ao
retomá-la, Ageu está assegurando que Zorobabel, descendente de
Joaquim, experimentaria a bênção de Deus, não a condenação.21
Portanto, nesse texto, há uma reversão da palavra negativa que
antes atingia Zorobabel. O tempo que Deus reservou nesse
processo de reconstrução seria marcado pela bênção, não pela
reprovação. As condenações ficaram para trás. Agora, Zorobabel e
o povo experimentariam o novo de Deus nessa restauração nacional
reservada para Judá.

1BALDWIN, J.G. Ageu, Zacarias e Malaquias: introdução e comentário. Série


Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristo, 2001, p. 22.
2 IBADEP. Profetas Menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 124.
3MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 781.
4 IBADEP. Profetas menores. 6.ed. Guaíra: IBADEP, 2012, p. 124.
5BALDWIN, J.G. Ageu, Zacarias e Malaquias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristo; 2001, p. 22.
6 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 70.
7BRUCE, F. F. Comentário bíblico NVI: Antigo e Novo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 2008, p.1332.
8 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 329.
9 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 340.
10MACDONALD, William. Comentário bíblico popular versículo por versículo
Antigo Testamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, p. 781.
11 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 70.
12 Dario I, o Grande, reinou de 522 a 486 a.C.
13RICHARDS, Lawrence O. Guia do leitor da Bíblia: uma análise de Gênesis a
Apocalipse, capítulo por capítulo. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 570.
14MACARTHUR, John. Manual bíblico MacArthur: Uma meticulosa pesquisa da
Bíblia, livro a livro, elaborada por um dos maiores teólogos da atualidade. Rio de
Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015, p. 367.
15RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 526.
16Essa glória provavelmente se refere ao ministério de Cristo e dos apóstolos que
seria realizado alguns séculos após a reconstrução desse Templo. Jesus e os
apóstolos frequentaram o Templo de Jerusalém.
17PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1250.
18 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 116.
19 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 333.
20 LOPES, Hernandes Dias. Obadias e Ageu: uma mensagem urgente de Deus à
igreja contemporânea. São Paulo: Hagnos, 2008, p. 128.
21LASSOR; William S, HUBBARD; David A, BUSH; Frederic W. Introdução ao
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 429.
CAPÍTULO 12

Zacarias: Falando do Messias

Zacarias e Ageu profetizaram no mesmo período. Porém,


enquanto o livro de Ageu contém mensagens que remetiam aos
problemas imediatos do povo, no livro de Zacarias, encontramos
vislumbres de um futuro mais distante.1 Embora as revelações
abarcassem um futuro mais extenso e longínquo, podemos dizer
que seus efeitos eram imediatos, pois traziam esperança para a sua
geração. A comunidade judaica, por meio das profecias de Zacarias,
recebeu o consolo e o renovo ao perceber que a história de Israel,
embora se apresentasse de modo desanimador em sua realidade
pós-exílica, em um futuro reservado por Deus, experimentaria um
destino especial.
O livro de Zacarias possui algumas singularidades: é o livro mais
apocalíptico e escatológico de todo o Antigo Testamento;2 também é
o livro mais extenso entre os profetas menores;3 de igual modo, é
considerado o livro mais difícil de ser interpretado, e isso acontece
por causa de suas visões, símbolos e parábolas.4 Muitos estudiosos
afirmavam que esse livro era obscuro e de difícil compreensão. A
complexidade de interpretação do livro acontece porque nele
encontramos traços da literatura apocalíptica.

A literatura apocalíptica é caracterizada por certos aspectos distintos. As

revelações divinas sobre o futuro, especialmente o final dos tempos, são

dados em forma de visões ou sonhos a um profeta. Às vezes, o recipiente vê

acontecimentos celestiais ou é levado ao céu. Com frequência, um anjo está

presente como mediador ou intérprete. Figuras simbólicas são comuns, por

exemplo: visões de animais e chifres. Muitas vezes, os símbolos são claros,

mas às vezes, obscuros. Outros aspectos são: periodização da história, uma

batalha final, o estabelecimento do reino de Deus, ressurreição dos mortos,

um julgamento final e fenômenos paradisíacos sobrenaturais (e.g., dia eterno,

água viva, árvore da vida). Em geral, a literatura apocalíptica surge para

consolar o povo de Deus sob angústia e perseguição.5

Além de ser considerado um livro com estilo de literatura


apocalíptica, o texto também possui um viés messiânico. Alguns
chegam a atribuir-lhe o posto de um dos livros mais messiânicos do
Antigo Testamento, em paralelo a Isaías. Zacarias profetizou sobre
as funções que Cristo exerceria como o “Servo do Senhor” (Zc 3.8);
o Rei-Sacerdote (Zc 6.13); o verdadeiro Pastor (Zc 11.4-11).
Também relatou episódios da vida de Cristo: sua traição (Zc 11.12-
13); sua crucificação (Zc 12.10); seus sofrimentos (Zc 13.7); e sua
segunda vinda em glória retratando Jesus como o Rei-guerreiro que
reinará sobre Jerusalém (Zc 14.4).
O Profeta Zacarias

Zacarias foi um sacerdote profeta. Ele enxergava a vida com os


dois olhares: tinha a responsabilidade sacerdotal do ensino e a
pujança encorajadora de um profeta. Seu nome significa “O Senhor
lembra”. Zacarias era um nome popular naquela época. A Bíblia
chega a descrever — apenas no Antigo Testamento — trinta
homens que receberam esse nome. Ele era filho de Baraquias e
neto de Ido (Zc 1.1). É provável que seu pai tivesse falecido, ficando
a responsabilidade de sua criação ao seu avô Ido, por isso a Bíblia
identifica-o como filho de Ido (Ed 5.1; 6.14; Ne 12.6).6
Nasceu na Babilônia, durante o cativeiro, e veio pouco depois do
primeiro grupo composto de cinquenta mil judeus que retornaram a
Jerusalém sob a liderança de Zorobabel (Ne 12.1,4,7,10,12,16).
Pertencia à tribo de Levi, sendo descendente de uma família de
sacerdotes (Zc 1.1,7). Zacarias chegou jovem a Jerusalém. Foi
contemporâneo de Ageu. Seu ministério iniciou-se enquanto Ageu
profetizava. Estudiosos acreditam que a mensagem de Ageu
acendeu a chama profética em Zacarias. Ele começou a profetizar
no dia primeiro de novembro de 520 a.C.; isto é, dois meses depois
da primeira palavra profética entregue por Ageu (Zc 1.1-6; Ag 1.1).7
Ambos animaram o povo no processo de reconstrução do Templo
em Jerusalém (Ed 5.1).
Data do Livro

O livro de Zacarias começou a ser escrito em 520 a.C.; diferente


de Ageu, que entregou quatro mensagens em um período curto de
tempo, Zacarias, sendo mais jovem do que Ageu, viveu muito mais
tempo, conseguindo, assim, desempenhar o seu ministério durante
vários anos. Algumas datas são apresentadas no seu livro: 1º de
novembro de 520 a.C. (Ag 1.1); 24 de fevereiro de 519 a.C. (Zc 1.7-
6.15); 4 de dezembro de 518 a.C. (Zc 7-8); próximo ao ano 480 a.C.
(Zc 9-14).
A última data é uma hipótese. Não aparece visível no texto.
Chegamos a esse entendimento através das entrelinhas. Zacarias
cita os gregos. Tendo em vista que a Grécia tornou-se uma potência
mundial ao derrotar Dario I em 490 a.C. e Assuero em 480 a.C., os
estudiosos apontam que a parte final de Zacarias envolvendo os
capítulos 9 a 14 foi escrita por volta do ano 480 a.C.
Os teólogos liberais apropriam-se da diferença entre as duas
seções do livro (primeira parte: capítulos 1–8; segunda parte:
capítulos 9–14) para propor que o livro tenha sido escrito por mais
de um autor. Enquanto a primeira parte teria sido escrita em prosa, a
segunda possuía linguagem poética.8 Assim como no caso do livro
de Isaías, os teólogos liberais tentam comprovar a existência de um
dêutero-Zacarias. Também especulam que os capítulos 9–14 foram
escritos no tempo pré-exílico ou no tempo grego, próximo ao rei
Alexandre,9 o Grande, e o período Macabeu.
Na defesa de um único autor, os teólogos conservadores afirmam
que as diferenças entre as seções não são maiores do que as
semelhanças. Várias expressões semelhantes são encontradas nas
duas seções, como, por exemplo, a identificação do nome divino
como “Senhor dos Exércitos”.10 O fato de Zacarias descrever
detalhes sobre o avanço grego e acontecimentos referentes ao
período Macabeu revela exatidão da profecia bíblica, tal como no
caso do profeta Daniel. Além do mais, o livro de Zacarias também
apontou para muitas cenas escatológicas que ainda não se
cumpriram, mas que um dia serão cumpridas. É digno de nota que a
tradição judaica e a igreja cristã sempre reconheceram o livro de
Zacarias como uma unidade, e não como duas obras que foram
reunidas. Cremos que o livro foi escrito por meio de um único autor
inspirado por Deus: Zacarias, neto de Ido.

O Contexto do Profeta

Zacarias foi contemporâneo de Ageu. Desenvolveu o seu


ministério entre os judeus que retornaram a Jerusalém mediante o
decreto assinado por Ciro em 538 a.C. Cinquenta mil judeus, sem
contar mulheres e crianças, retornaram sob a liderança do príncipe
Zorobabel e do sumo sacerdote Josué. O propósito desses judeus
era reconstruir o Templo. Porém, ao serem pressionados com a
oposição dos samaritanos, muitos desanimaram desse intento. O
projeto acabou sendo abandonado. A princípio, Deus levantou
Ageu. Logo após, também levantou o jovem profeta Zacarias.
Ambos foram usados por Deus para motivar o povo a seguir adiante
no projeto de reconstrução do Templo.
A primeira mensagem de Zacarias tinha como propósito exortar o
povo ao arrependimento (Zc 1.1-6). Essa mensagem foi entregue
por Zacarias entre o segundo e o terceiro sermão profético
ministrado por Ageu.11 Ele exortou os judeus a observarem os erros
dos seus antepassados que recusaram ouvir os profetas que os
antecederam. É provável que Zacarias estivesse citando os profetas
Isaías, Jeremias e Oseias, que desenvolveram seus ministérios
antes do juízo sobre Israel e Judá (Is 31.6; Jr 3.12; 18.11; Os 14.1).
Apesar de todas as profecias sobre o juízo, eles permaneceram
rebeldes e, como consequência, provaram da ira de Deus. Tudo o
que Deus disse foi cumprido (Zc 1.6). Judá e Israel foram tratados
segundo os seus pecados. Os contemporâneos de Zacarias
deveriam assumir uma postura diferente voltando-se para o Senhor;
desse modo, a obediência do povo atrairia a proteção e a bênção
divina (Zc 1.3).

As Visões de Zacarias
Logo após, oito visões foram dadas a Zacarias com o propósito de
incentivar o povo à reconstrução do Templo. A primeira visão foi
dada quando a obra já estava em andamento havia cinco meses (Zc
1.7). As outras sete visões não registram datas; assim sendo,
acreditamos que uma seguiu a outra em rápida sucessão, sendo
imediatamente registradas, por isso não se fizeram necessárias as
datações seguintes.

Primeira visão: os cavalos (Zc 1.7-17)

O profeta contemplou “o anjo do SENHOR” montado em um


cavalo vermelho (Cf. Zc 1.8;11); patrulhando a terra acompanhado
de outros agentes em cavalos morenos e brancos (Zc 1.8). Os
cavalos passeavam pelas murteiras (árvores), localizadas em um
vale. A visão significava que nações estrangeiras usadas para
executar o juízo sobre Jerusalém acenderam a ira divina, indo longe
demais no trato para com o povo de Deus (Zc 1.14,15). Enquanto
essas nações provariam da ira divina, os olhos do Senhor estariam
voltados para Jerusalém, pois a casa do Senhor estava sendo
edificada. O tempo de juízo sobre Jerusalém tinha cessado. Agora
era hora de o povo experimentar a misericórdia divina (Zc 1.16).

Segunda visão: os quatro chifres e os quatro ferreiros (Zc


1.18-21)
Essa visão se referia a quatro poderes que oprimiriam o povo de
Deus (Zc 1.18,19). Na Bíblia, o chifre é uma figura de poder (Dn
8.3,4; Ml 4.13). Estudiosos relacionam esses quatro chifres aos
quatro poderes mundiais descritos em Daniel: Babilônia, Pérsia,
Grécia e Roma (Dn 2, 7 e 8). Os quatro ferreiros apareciam para
destruir os quatro poderes (chifres). Da mesma forma como os
inimigos de Israel oprimiram o povo do Senhor, também seriam
subjugados pelo juízo divino. A mensagem era clara: qualquer poder
que se levantar contra o povo de Deus será destruído cedo ou tarde.
Essa visão visava consolar os judeus mostrando-os que a aliança
de Deus com eles jamais seria esquecida.

Terceira visão: o homem com um cordel de medir (Zc 2)

A cidade de Jerusalém foi medida. O propósito era saber sua


dimensão exata (Zc 2.1,2). Essa visão mostrava que Deus estava
acompanhando todo o processo de reconstrução do Templo e da
cidade. Deus mostrava ao profeta que a cidade seria grande e
populosa (Zc 2.4). O povo do Senhor seria reunido novamente em
um único lugar. Os judeus que estavam dispersos seriam
convidados a retornar a Jerusalém (Zc 2.6-12). Essa cidade seria
protegida pelo Senhor (Zc 2.5). Deus estaria no meio deles (Zc
2.11). Deus estava mostrando o carinho especial que nutria por
Israel (Zc 2). Segundo Silas Daniel, na sequência dessa visão,
temos uma profecia messiânica que se cumprirá no Milênio: “Israel
deve se alegrar-se porque, no Reino do Messias, as nações se
ajuntarão e serão povo de Deus, e Jerusalém será a capital do
Reino de Cristo (Zc 2.10-13)”.12

Quarta visão: acusação de Satanás a Josué (Zc 3)

Zacarias viu seu contemporâneo, o sumo sacerdote Josué, com


vestes sujas sendo acusado por Satanás (Zc 3.1-3). Essa visão não
tratava especificamente do personagem Josué, mas daquilo que ele
representava: o sacerdócio.13 As roupas impuras representavam os
pecados da nação. Na visão, Josué recebeu um turbante limpo, e
suas vestes sujas foram removidas; isso indicava que os pecados
da nação foram perdoados (Zc 3.4-5). O significado dessa visão
apontava para a restauração do sacerdócio do povo de Deus.
Através de Israel, todas as nações seriam abençoadas. O “renovo”,
descrito na visão, referia-se a Cristo (Zc 3.8). Através dEle, a
iniquidade do mundo seria removida em um único dia (Zc 3.9) e
todos os povos da terra seriam abençoados por meio do seu
sacerdócio.

Quinta visão: o castiçal de ouro e as sete lâmpadas (Zc 4)

Nessa visão, um candelabro todo de ouro apareceu entre duas


oliveiras. O candelabro funcionava como uma base; acima, havia
um vaso de azeite com sete lâmpadas em sete tubos (Zc 4.2-3). As
oliveiras que cercavam o candelabro e o vaso forneciam o azeite
que iluminava as lâmpadas. As duas oliveiras eram os dois ungidos
do Senhor entre o povo: o príncipe Zorobabel e o sumo sacerdote
Josué (Zc 4.14). O candelabro de ouro simbolizava Israel. Somente
por meio do azeite eles poderiam iluminar o mundo.
A palavra foi destinada a Zorobabel, o príncipe de Judá
responsável pela reconstrução do Templo (Zc 4.6-7). As dificuldades
que ele estava enfrentando para reconstruir o Templo eram muitas.
Deus assegurou-lhe por meio dessa palavra que o Templo seria
reconstruído por meio da atuação do Espírito de Deus entre eles (Zc
4.6). O processo de reconstrução, embora requeresse dos homens
esforço e comprometimento, não poderia ser concebido apenas
como uma obra humana, mas como um resultado da influência
invisível operada pelo Espírito do Senhor nos corações.
O suor e o trabalho poderiam ser humanos, mas o impulso para a
ação, a mola propulsora para o comprometimento com a causa seria
reflexo direto da atuação do Espírito de Deus entre o povo. A glória
sempre será de Deus! Zorobabel representava o agente religioso,
Josué era o agente civil; por meio deles, o canal da unção estava
aberto. Eles atuavam como mediadores da ação do Espírito de
Deus entre o povo.

Sexta visão: o rolo voante (Zc 5.1-4)


O profeta viu um rolo voante que percorria a terra executando a
justiça (Zc 5.2,3). A aliança mosaica pregava a maldição contra o
transgressor. Os pecados do furto e do falso juramento seriam
punidos (Zc 5.4). Essa visão apontava para a maldição divina contra
aquele que usurpava o direito do próximo e cometia perjúrio. Os
judeus que foram repatriados estavam reconstruindo sua terra, e na
busca por esse recomeço era vital que eles obedecessem à Lei do
Senhor.

Sétima visão: a mulher e o efa (Zc 5.5-11)

Uma mulher estava assentada dentro de um efa (Zc 5.6,7). Efa era
uma medida hebraica. Tratava-se do maior recipiente comercial
utilizado na época. A mulher na cesta (efa) representa a iniquidade
(Zc 5.8). Ela encontrava-se dentro da cesta sendo coberta e
aprisionada por um peso de chumbo. Aparentemente, a iniquidade
estava sob controle. Na visão, duas mulheres com asas removem
aquela cesta, juntamente com a mulher. Richard Hoover declara que
as mulheres que voavam também eram impuras, pois tinham asas
de cegonha, que era uma ave considerada impura pelos judeus.14 A
iniquidade foi levada para a terra de Sinar: a Babilônia (Gn 10.10,11;
11.2; Is 11.11). A Babilônia representava o centro mundial da
iniquidade.
Essa visão é uma das partes de maior dificuldade interpretativa. É
provável que o texto estivesse falando sobre a purificação dos
judeus no cativeiro babilônico. Israel pecou e foi levado para a
Babilônia. Ao tornarem-se libertos da idolatria, os judeus voltaram
para Jerusalém, todavia o pecado da idolatria permaneceu na
Babilônia. A visão indicava que a idolatria-adultério-apostasia de
Judá ficaria na Babilônia e que o povo poderia prosseguir em paz
espiritual na cidade de Jerusalém.

Oitava visão: os quatro carros (Zc 6.1-8)

Quatro carros com cavalos vermelhos, pretos, brancos e grisalhos


(baios) saem de dois montes de bronze (Zc 6.1-3). Os dois montes
de metal (bronze) representam o juízo divino, pois a figura do
bronze caracteriza a manifestação do juízo divino.15 Na visão, os
montes serviam como portões de saída para os carros celestiais;
portanto, os carros com cavalos partiam enviados por Deus,
representando os agentes celestes executores do juízo divino. O
Templo de Jerusalém possuía duas colunas de bronze nas portas (1
Rs 7.13-22). É provável que a visão estivesse fazendo uma
referência ao Templo, apresentando os montes como os portais da
habitação do Senhor.
Enquanto os carros apontam para os agentes divinos, os cavalos
indicam os juízos derramados: morte, fome, guerra, etc. Os carros
movimentavam-se não para patrulhar, mas para combater as forças
inimigas. Essa visão é uma continuidade da primeira visão e nela
fechou-se esse ciclo da revelação. Tanto a primeira quanto a última
visão discorrem sobre os juízos divinos que serão derramados nas
nações inimigas. A comitiva divina percorre toda a terra executando
e satisfazendo a justiça de Deus (Zc 6.8).

O Jejum que Agrada a Deus (Zc 7–8)

Já se havia passado dois anos desde a primeira palavra profética


de Zacarias (Zc 1.1; 7.1). A data dessa profecia era dezembro
(quisleu) de 518 a.C.16 Durante o cativeiro, o povo de Judá havia
desenvolvido o hábito de jejuar no quarto, quinto, sétimo e décimo
mês como sinal de luto pela destruição do Templo (Zc 8.19). O jejum
do quarto mês lembrava a destruição dos muros de Jerusalém (2 Rs
25.3; Jr 39.2-4), o do quinto mês lembrava a destruição da cidade (2
Rs 25.8-9; Jr 25.13; Jr 52.12,13), o do sétimo recordava o
assassinato de Gedalias (Jr 41.1-2) e o do décimo mês marcava o
início do cerco (2 Rs 25.1).17 “Estes dias especiais tinham sido
santificados pela observância durante mais de sessenta anos.”18
Naquele momento, as obras do Templo de Jerusalém já se
encontravam bem avançadas. Não demoraria muito para os judeus
adorarem a Deus no novo Templo. Surgia, então, uma pergunta: os
jejuns deveriam continuar (Zc 7.3)? Uma comitiva veio de Betel19
para interrogar os sacerdotes de Jerusalém. Queriam saber se o
ritual do jejum deveria continuar a ser praticado.
A primeira geração de exilados havia sentido profundamente a
queda de Jerusalém e chorava com sinceridade, porém a segunda
geração não conseguia entender a profundidade da atitude e
cumpria-a apenas como um ritual.20 Essa pergunta revelou que o
ato de jejuar parecia um incômodo para eles. Zacarias respondeu à
pergunta com outra: mais importante do que saber se deveriam
continuar jejuando era saber o porquê de jejuar (Zc 7.4-14).
Enquanto os homens ficavam mais preocupados com rituais
exteriores, Deus desejava que o povo praticasse a justiça (Zc 7.4-7).
Judá sofreu porque se recusou a andar nos padrões divinos de
retidão (Zc 7.8-14). O profeta alternou a realidade do presente com
a cena futurística envolvendo as bênçãos que Deus reservou sobre
o povo. O juízo já havia passado. Deus retornaria com sua presença
abençoadora para Sião (Zc 8.1-8). Para isso, o povo deveria
esforçar-se no projeto de reconstrução do Templo (Zc 8.9-17).
Zacarias também esclareceu a questão do jejum. Depois de
restaurar e abençoar Jerusalém, os jejuns deveriam permanecer; o
que mudaria seria a atitude dos homens em relação ao ritual. O
ideal era que o jejum deixasse de ser um ato obrigatório e
unicamente ritualístico para transformar-se em obras voluntárias
regadas pela alegria e espontaneidade (Zc 8.19). A adoração triste,
compulsória e nostálgica deveria dar lugar à adoração festiva
regada por atos sagrados de honra em louvor a Deus. O ritual não
traria mais memórias de dor, mas gratidão pela restauração divina.

A Destruição dos Inimigos e a Exaltação de Israel (Zc 9–14)

Nessa seção, temos uma mudança na palavra profética de


Zacarias. Os oito primeiros capítulos tinham como propósito motivar
os judeus na reconstrução do Templo. Foram escritos próximo a 520
a.C. Há datas específicas e personagens históricos citados. Nos
últimos seis capítulos, o profeta Zacarias transportou sua profecia
do presente para o futuro. À semelhança de Daniel, também
começou a prever acontecimentos posteriores.
Acreditamos que os capítulos finais representam uma palavra
profética dada ao profeta Zacarias em sua época. Nesse período, já
se haviam passado quarenta anos desde sua primeira palavra
profética em 520 a.C. O jovem profeta agora era um ancião. A data
provavelmente era próxima de 480 a.C. Chegamos a essa
conclusão porque a Grécia estava se tornando uma potência
mundial quando derrotou Dario I em 490 a.C. e Assuero em 480
a.C.
Cremos que o mesmo Deus que revelou profeticamente os
detalhes do ministério de Cristo por meio de Zacarias também seria
capaz de mostrar eventos futurísticos envolvendo as nações e
personagens históricos como Alexandre, o Grande. O mesmo
aconteceu com o profeta Daniel. O Deus de Daniel é o Deus de
Zacarias, que revela o profundo e o escondido, antecipando
realidades futuras por meio da revelação.

Profecia sobre as Vitórias de Alexandre, o Grande (Zc 9.1-8)

Os primeiros versículos do capítulo 9 gravitam em torno da


conquistas de Alexandre, o Grande.21 Zacarias profetizou o castigo
divino para as nações ao derredor de Israel que causaram
sofrimento ao povo de Deus. Em 332 a.C., quando o rei Alexandre
da Grécia programou a sua política helenista de dominação do
mundo, diversos povos foram conquistados. As cidades
mencionadas nominalmente nos versículos 1-7 foram devastadas
pelo exército grego, na ordem exata do registro encontrado no texto
de Zacarias. A cidade de Damasco foi o prêmio especial que
Alexandre buscava.22
Tiro era uma cidade cercada por águas. Os assírios e babilônios
tentaram conquistá-la, mas não obtiveram sucesso. Todavia,
Alexandre conseguiu esse feito conforme profetizado por Zacarias, e
Jerusalém ficaria em paz nessa expedição militar (Zc 1.8). Segundo
Wiersbe:

A história relata que Alexandre destruiu muitas cidades, mas não Jerusalém.

Ele ameaçou a cidade, mas nunca cumpriu suas ameaças. Antes da chegada

do general, o sumo sacerdote judeu teve um sonho que sentiu ser enviado
por Deus, e no sonho foi-lhe dito que vestisse seu manto e se encontrasse

com Alexandre do lado de fora da porta da cidade. Os sacerdotes, em seus

mantos brancos, acompanharam-no nesse encontro. Na verdade ele disse

que sonhara com a mesma cena. Alexandre entrou em Jerusalém de forma

pacífica e não feriu o povo nem a cidade.23

Desde então, o rei Alexandre nutriu um sentimento de respeito por


Jerusalém, passando diversas vezes com o seu exército próximo a
cidade, mas jamais a atacou, pois a imagem do sumo sacerdote
recebendo-o com o manto branco também fora sonhada por
Alexandre, o Grande. Com esse sonho duplo, dado tanto ao sumo
sacerdote como também ao rei Alexandre, Deus preparou um
grande livramento para os judeus. A mensagem de Zacarias foi
confirmada ao longo da história (Zc 9.8).

Profecia do Messias (Zc 9.9,10)

Nesses dois versículos, as duas vindas de Cristo ao mundo foram


profetizadas. Depois de retratar o domínio de um rei conquistador, o
profeta apresenta a chegada do Rei-Salvador em Jerusalém. A
glória do rei Alexandre contrasta com a graça humilde do Messias
entrando em Jerusalém montado em um jumentinho. Essa profecia
foi cumprida em Lucas 19.30-38. Após descrever a entrada triunfal
de Jesus em Jerusalém, Zacarias anunciou a segunda vinda de
Cristo ao mundo, quando o Messias aparecerá em glória. As armas
de guerra serão abolidas, e Cristo reinará em todo o mundo “de mar
a mar e desde o Eufrates até as extremidades da terra” (Zc 9.10).

A Libertação dos Macabeus (Zc 9.11-17)

É interessante como o profeta anunciou uma mudança de


tratamento dos gregos para com os judeus: se antes os judeus
foram poupados pelos gregos, depois seriam provados; se antes
receberam o livramento, depois teriam que ser despertados para a
batalha (Zc 9.13b). Zacarias previu um tempo em que os judeus
seriam oprimidos. Como consequência, seriam despertados por
Deus para rebelarem-se contra as influências dos gregos. Eles
lutariam tendo o apoio de Deus (Zc 9.14). Nessa batalha, a salvação
viria do Senhor (Zc 9.15). Uma guerra santa foi prevista nos
versículos que se seguiram (Zc 9.14-17).
Sabemos historicamente que as profecias de Zacarias cumpriram-
se nos mínimos detalhes. Depois da morte do rei Alexandre, seu
império foi dividido a quatro de seus principais generais. Jerusalém
ficou premida entre as dinastias dos ptolomeus que controlavam o
Egito e os selêucidas que controlavam a Síria. De 323 a.C. a 167
a.C., a história comprovou que os judeus sofreram opressões,
principalmente da Síria. A situação piorou quando Antíoco Epifânio
IV (dinastia selêucida) conquistou Jerusalém próximo a 167 a.C.
A cidade perdeu os seus privilégios e passou a ser
permanentemente controlada por soldados. Os judeus foram
obrigados a abandonar a fé. Eram forçados a praticar os rituais
pagãos de idolatria. Próximo a essa data, uma família judaica
revoltou-se contra esse domínio opressor e, através de diversas
batalhas, conquistou a autonomia religiosa e política para os judeus.
Esse momento ficou conhecido na história como o período dos
Macabeus.

Promessas a Israel (Zc 10)

O povo foi desafiado a buscar a provisão divina (Zc 10.1). A


confiança nos ídolos deveria ser deixada de lado (Zc 10.2). Os
líderes que conduziram a nação para o pecado seriam castigados
(Zc 10.3). Zacarias declara que de Judá sairá o Messias (Zc 10.3,4).
Cristo é a pedra angular. Sua força, estabilidade e fidedignidade são
destacadas nessa profecia. Esse capítulo apresenta uma previsão
da plena restauração que os judeus dispersos receberiam da parte
de Deus (Zc 10.6-12). Nos dias de Zacarias, apenas um pequeno
grupo havia retornado a Jerusalém. Ainda existiam muitos judeus
em terras babilônicas e persas. Deus prometeu restaurar o seu
povo, concedendo-lhe graça e união. Turner declarou que esse
capítulo apresentou a vitória de Israel ao ser reunido pelo Senhor.24
Segundo Silas Daniel, “no capítulo 10, há promessas a Israel, a
maioria é exclusivamente relativa ao reino messiânico”.25

A Rejeição do Bom Pastor (Zc 11)

Aqui temos uma parábola sobre pastores. Zacarias personificou o


papel de dois pastores, um bom e o outro mau, para ilustrar uma
verdade: os judeus rejeitariam o bom pastor e seguiriam o mau.
Alguns estudiosos chegam a propor que essa profecia diz respeito
às terríveis invasões romanas lideradas pelo general Tito que
assolaram Israel, resultando na destruição total de Jerusalém em 70
d.C. (Zc 11.1-3).26
O profeta usa de linguagem figurada para descrever a dor que o
povo sentiria. Os cedros e os carvalhos representam os habitantes
de Jerusalém. O fogo consumiria os gigantescos cedros, símbolo de
força e poder (Zc 11.1). Eles não resistiriam e cairiam por terra (Zc
11.2). A glória daquele povo seria destruída por causa da soberba
(Zc 11.3). Zacarias apresentou a cena de destruição por meio de
uma forma dramática. O juízo de Deus seria realizado por meio de
uma imensa conflagração. A ira seria manifestada em forma de
combustão e seria capaz de destruir até o cedro do Líbano, apesar
de toda a sua força e glória. Essa destruição tinha conexão com o
restante do capítulo, visto que era resultado direto da rejeição do
Messias na sua primeira vinda.27 O povo sofreria com o resultado de
suas más escolhas.
A destruição de Jerusalém pelos romanos foi resultado da rejeição
de Cristo pelos judeus (Zc 11.10-14). O trabalho do bom pastor foi
avaliado por trinta moedas de prata. Esse era o preço de um
escravo (Êx 21.32). O preço desprezível foi um insulto para Deus. O
texto diz que os esforços do Messias em apascentar um povo
perdido e destruído não foram valorizados. Essa profecia foi
cumprida quando Jesus foi traído por trinta moedas de prata (Mt
26.15; 27.3-5). A seguir, eles foram entregues nas mãos do pastor
insensato (Zc 11.15-17). Os judeus rejeitaram a Cristo preferindo
seguir homens pecaminosos e enganadores. Teólogos pré-
milenistas defendem que essa profecia terá seu cumprimento final
no aparecimento do Anticristo (2 Ts 2.3-10; Ap 13.1-8). Os
versículos 15 a 17 do capítulo 11 referem-se ao Anticristo, retratado
por Zacarias como o “pastor insensato”.28

O Futuro de Israel (Zc 12–14)

Os três capítulos finais de Zacarias descrevem o futuro de Israel


ou do povo de Deus. A mensagem do profeta alcançou o seu auge
ao descrever a salvação final de Israel. O texto de Zacarias terminou
com o prenúncio de uma grande adversidade e a promessa de uma
grande bênção. Segundo Silas Daniel, “no capítulo 12, Israel é
cercado pelo Anticristo, mas salvo pelo Messias; no capítulo 13,
Israel é purificado; e no capítulo 14, exaltado pelo seu Rei, aquEle ‘a
quem transpassaram’ (Zc 12.10)”.29
Para o pré-milenismo, aqui estão descritas cenas escatológicas de
um projeto de Deus específico para Israel, no cenário da Grande
Tribulação. Diversas nações reunir-se-ão contra Jerusalém e Israel
no fim do reinado de sete anos do anticristo sobre a terra (Zc 12.3-
9). Na frente desse movimento hostil, estará o anticristo. Os judeus
chorarão arrependidos por suas escolhas erradas e clamarão a
Deus que intervirá, destruindo os inimigos do seu povo (Zc 12.10-
14). Os pecados dos judeus serão purificados mediante uma fonte
aberta para os habitantes de Jerusalém (Zc 13.1).
Richard Hoover declara que “a triste verdade, é que na grande
tribulação, grande número de judeus perecerá. Sendo infiéis e sem
aceitar o Messias como seu Salvador pessoal, expiarão debaixo de
Sua ira vingadora”.30 Porém aqueles que aceitarem o Messias como
Salvador serão redimidos. Jerusalém, depois de arrependida, será
transformada (Zc 13.2-6). O profeta abriu um parêntese em sua
mensagem para resumir o plano de Deus para os judeus por meio
do poema do pastor ferido (Zc 13.7-9). O Messias seria ferido, e as
ovelhas seriam dispersas e provadas até sobrar um remanescente
fiel. Com esse remanescente, o pacto de Deus com Israel seria
renovado.
O Senhor salvará esse grupo restante da destruição. Quando
todas as nações reunirem-se para a peleja contra Jerusalém (Zc
14.2), o Senhor pelejará pelo seu povo juntamente com seus anjos
(Zc 14.3-5) inaugurando um novo tempo: o Milênio. Ele reinará
sobre toda a terra (Zc 14.9). Jerusalém estará em paz (Zc 14.11). Os
povos que se levantarão contra Jerusalém serão feridos com pragas
e pânico (Zc 14.12-15). O contexto dessa passagem estaria ligado à
conquista de Cristo sobre os inimigos de Israel (Zc 14.3). No fim da
sua mensagem, Zacarias previu as bênçãos do reino milenial de
Cristo na terra (Zc 14.16-21).

1 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de


Janeiro: CPAD, 2012, p. 94.
2 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 342.
3 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 407.
4HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 200, p.
143.
5LASSOR; William S, HUBBARD; David A, BUSH; Frederic W. Introdução ao
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 444.
6 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 334.
7 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991, p. 334.
8CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3659.
9 A primeira porção do capítulo 9 de Zacarias apresenta as conquistas de
Alexandre, o Grande, no quarto século antes de Cristo.
10 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por
versículo. 2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3660.
11HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 385.
12 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 97.
13 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 147.
14 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003.
p. 149.
15 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 346.
16 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 348.
17 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 348.
18BALDWIN, J.G. Ageu, Zacarias e Malaquias: introdução e comentário. Série
Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, Mundo Cristo, 2001, p. 117.
19 Betel ficava a 19 quilômetros de distância de Jerusalém.
20RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 533.
21 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 101.
22PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1266.
23WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico: Antigo Testamento. Santo André:
Geográfica Editora, 2008, p. 670
24TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 348.
25 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 103.
26 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 156.
27 UNGER, Merrill Frederick. Manual bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006,
p. 350.
28 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 103
29 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 103
30 HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003,
p. 159.
CAPÍTULO 13

Malaquias: A Família É
Importante

De acordo com a tradição da Septuaginta, Malaquias é o último


livro do Antigo Testamento. É também o último dos doze profetas
menores. Sua posição no cânon justifica-se pelo fato de ter sido a
derradeira voz profética a desafiar os judeus no Antigo Testamento,
ecoando sua mensagem cerca de mil anos após Moisés. Malaquias,
Ageu e Zacarias são os três profetas que exerceram seus
ministérios depois do exílio babilônico. A profecia de Malaquias foi
entregue um pouco mais tarde, embora tenha se dirigido também à
comunidade restaurada de Israel.1 Tendo em vista que há poucas
informações seculares sobre esse período, esses três livros
proféticos tornam-se fundamentais no fornecimento de informações
do contexto histórico, religioso e moral do povo exilado que retornou
para Jerusalém.
No tempo de Malaquias, os judeus já haviam retornado para
Jerusalém há cem anos.2 O exílio babilônico tinha curado Israel da
idolatria. Todavia, os judeus repatriados tornaram-se apáticos na
prática da fé. Práticas pagãs e outras bastante questionáveis
tornaram-se normais. Os casamentos com mulheres estrangeiras
abriram a porta para a penetração de deuses estranhos entre os
israelitas. A indiferença privou o povo do zelo religioso; assim,
apesar de manterem as tradições religiosas, elas permaneciam sem
vida. Malaquias chegou a denunciar a adoração hipócrita e
robotizada, bem como a corrupção do sacerdócio (Ml 1.7-2.9).
Também condenou a idolatria (Ml 2.10-12), os divórcios e os
casamentos mistos (Ml 2.11-15), o abandono da guarda do sábado
(Ml 2.8-9) e o fracasso dos dízimos por conta do egoísmo material
(Ml 3.8-10).
O templo já tinha sido construído, porém estava sendo ignorado
pelo povo. Já se passaram oitenta anos desde que Ageu e Zacarias
profetizaram. As promessas de prosperidade caso o povo fosse fiel
a Deus não se concretizaram, e essa situação gerou frustração
entre os judeus. Além do mais, o povo encontrava-se explorado por
potências estrangeiras.3 A promessa e a realidade não se
encaixavam. Eles começaram a questionar a palavra dos profetas.
O sentimento era de abandono; como consequência, tornaram-se
espiritualmente letárgicos. O desânimo prevaleceu desencadeando
lapsos morais.4
O entusiasmo dos dias de Zorobabel, Ageu e Zacarias já tinha
diminuído. A reforma espiritual pregada por Esdras em 457 a.C.
também perdera sua força. Neemias havia sido nomeado por
Artaxerxes I como governador de Judá em 444 a.C.; por
conseguinte, exerceu esse posto até o ano 432 a.C. Depois de certo
tempo, retornou a Jerusalém pelo seu segundo mandato como
governador (Ne 13.6). Não sabemos quanto tempo ele permaneceu
lá. As questões éticas tratadas por Neemias retornaram com o fim
do seu governo. Os problemas apresentados por Malaquias são os
mesmos de Neemias.5
As reformas que Neemias tentou aplicar em Jerusalém
funcionaram por pouco tempo. Logo em seguida, a semente da
impiedade multiplicou-se e trouxe resultados funestos no tempo de
Malaquias. Embora a rotina das cerimônias religiosas fosse mantida,
funcionava sem entusiasmo, simplesmente para cumprir as
“supostas obrigações”. Os judeus repatriados declinavam na sua
vida espiritual. Duvidavam se realmente valia a pena obedecer à Lei
do Senhor. A fé frágil levou o povo a não observar com reverência a
liturgia do culto ao Senhor; consequentemente, as leis mosaicas
foram desobedecidas.
Podemos dizer que “por meio de uma série de perguntas retóricas
incisivas, Malaquias desafiou sua geração a livrar-se de sua letargia
espiritual e incitou as chamas do compromisso completo com o
Senhor”.6 Esse processo mais tarde foi identificado como método
“rabínico” ou “socrático”. Sua profecia foi formada por uma série de
perguntas e respostas, “como uma cena de tribunal, onde Israel faz
perguntas retóricas (e, no geral, de autojustificação) e Deus
responde”.7 Através de perguntas que despertavam a reflexão,
Malaquias apresentou as queixas de Deus contra o modo ímpio e
orgulhoso de os judeus viverem. O estilo literário do livro chamou a
atenção dos seus contemporâneos e contribuiu para confrontar sua
geração.

O Autor

Não temos nenhuma informação sobre a vida pessoal de


Malaquias. O texto bíblico não fala sobre sua genealogia ou sua
cidade natal. O nome “Malaquias” significa “meu mensageiro”.
Alguns chegam a propor que “Malaquias” é mais um título descritivo
para o livro do que um nome, fazendo referência a uma passagem
do livro (Ml 3.1). Isso se dá por que a Septuaginta utilizou a palavra
hebraica correspondente a “Malaquias” como um substantivo
comum no lugar de um nome próprio.8 O nome aparece uma única
vez, justamente na introdução do seu livro (Ml 1.1). Ele não é citado
em nenhum outro texto do Antigo Testamento ou do Novo
Testamento.
Embora o Novo Testamento cite passagens de Malaquias, jamais o
faz de forma nominal. (Mt 11.10; Ml 3.1; Rm 9.13; Ml 1.2b e 3a). Por
isso, o nome de Malaquias aparece apenas no seu livro, embora
sua profecia seja vista, citada e explicada em outras passagens
bíblicas. Tendo em vista o costume dos profetas escritores de jamais
escreverem obras anônimas, visto que eles sempre utilizaram seus
nomes próprios para nomeá-las, chegamos à conclusão de que
Malaquias foi um personagem histórico.
Uma tradição judaica afirma que ele nasceu em Sufa de Zebulom.9
O Talmude assegura que havia um homem com esse nome na
Grande Sinagoga, destacando que Malaquias era membro dessa
respeitada instituição.10 Alguns estudiosos chegam a propor que
Malaquias era sacerdote, devido às várias referências no livro sobre
a função sacerdotal.11 Podemos afirmar que Malaquias foi um
profeta fiel vivendo em uma Judá pós-exílica. Foi contemporâneo de
Neemias. Demonstrou sua fidelidade e devoção a Deus combatendo
práticas pecaminosas que eram consentidas em seu tempo.

Data

Embora a profecia não registre datas precisas como nos casos de


Ageu e Zacarias, por inferência propomos que o livro tenha sido
escrito por volta de 430 a 420 a.C. Sua profecia pressupõe que o
Templo já tinha sido reconstruído e o povo já tinha experimentado a
reforma de Esdras através do reconhecimento da lei (Ed
7.10,14,25,26). O povo estava apostatando-se da fé abandonando
as ordenanças religiosas, não porque eram ignorantes em relação
ao assunto, mas porque deixaram de valorizar essas questões
tornando-se indiferentes (Ml 1.6-14).
Três grupos já haviam retornado para Jerusalém, liderados por
Zorobabel (537 a.C.), Esdras (457 a.C.) e Neemias (445 a.C.). É
perceptível que eles não estavam sob o governo de Neemias que
durou de 445 a 432 a.C., visto que o governante na época de
Malaquias era um homem corrupto oriundo da Pérsia (Ml 1.8).12 A
palavra “governador” no original era um termo exclusivo dos persas.
Malaquias viveu próximo a Neemias; todavia, como não mencionou
o seu nome, especulamos que o livro foi escrito pouco tempo depois
do governo de Neemias em Judá. Por conta dessas deduções, a
data de 430 a 420 a.C. é a melhor sugestão para o livro de
Malaquias.

A Ingratidão do Povo (Ml 1.1-5)

O profeta declarou que o povo respondeu com ingratidão todo o


amor que recebeu. O amor de Deus por seu povo não estava
fundamentado em um vazio histórico; pelo contrário, Deus deu
provas do seu amor: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú” (Ml 1.2).13
Deus declarou o seu amor a Israel, e eles responderam com
cinismo: “em que nos amaste?” (Ml 1.2). A pergunta apresentada
por Malaquias refletia o pensamento que vigorava entre os judeus
naquela época. Estavam com seus corações duros e com sua visão
embaçada e turvada, não discernindo ou percebendo o amor de
Deus sobre eles.
Deus reafirmou sua escolha, comparando o cuidado com Jacó e o
juízo sobre Esaú. Os dois irmãos são citados como os autênticos
representantes dos povos que se originaram deles (Ml 1.3-5). O
termo “aborreci a Esaú” sugere que a linhagem do povo escolhido
foi dada aos descendentes de Jacó, enquanto os descendentes de
Esaú receberam uma posição de subordinação no decurso da
história. A partir do momento em que os edomitas descambaram-se
para o pecado, atraíram o juízo divino. O destino contrastante dos
dois povos originários de Abraão apresentava como Israel foi
escolhido e amado, enquanto os edomitas foram rejeitados,
perdendo qualquer direito de reivindicar a herança na promessa
feita a Abraão.

A Culpa dos Sacerdotes (Ml 1.6–2.9)

Depois dos primeiros versículos introdutórios (Ml 1-5), as palavras


de Malaquias foram dirigidas aos sacerdotes.14 Eles foram
acusados de desprezar o nome do Senhor (Ml 1.6). Eles ofereciam
ofertas imundas e realizavam sacrifícios de qualquer maneira. Não
se preocupavam com as exigências da Lei (Ml 1.7,8). Os animais
que eles não tinham coragem de apresentar ao governador de
forma relapsa apresentavam a Deus, oferecendo restos e sobras em
seus cultos, indicando com isso o papel secundário que a fé
ocupava em suas vidas. Deus não tinha prazer nesse tipo de oferta
e sacrifício (Ml 1.10). Uma maldição viria sobre aquele que
oferecesse animal defeituoso como sacrifício (Ml 1.12-14). Deus
estava cansado desse descaso e indiferentismo do povo.
Os sacerdotes foram advertidos a mudar de atitude; caso
contrário, sofreriam uma condenação inexorável (Ml 2.1-3). O desejo
de Deus era que sua aliança com o sacerdócio levítico estivesse
sendo observada. Se eles aderissem aos princípios estabelecidos
pelo próprio Deus, desfrutariam de vida e paz (Ml 2.4-5). A
verdadeira função do sacerdote era instruir; para isso, precisava
guardar a “ciência” (conhecimento) e buscar a Lei (Ml 2.6-7).
Todavia, eles ignoravam o conhecimento, ensinando errado e/ou
omitindo a verdade. Com isso, o povo tropeçava na Lei desviando-
se do caminho do Senhor (Ml 2.8). A Lei do Senhor não deveria ser
apenas um objeto de estudo e memorização, mas um conteúdo
encarnado na vida, uma verdadeira bússola para o ministério
sacerdotal.
Os sacerdotes faziam acepção das pessoas na aplicação da lei e,
por conta dessas atitudes, em vez de serem respeitados, eram
desprezados pelas pessoas (Ml 2.9). As pessoas percebiam a
incoerência entre os discursos religiosos e a impiedade de vida
evidenciada nas atitudes deles. Embora se apresentassem ao povo
simples como “homens de Deus”, eram, na verdade, materialistas e
egoístas, por isso perderam a consideração das pessoas.
A balança dos sacerdotes era injusta. Esses líderes religiosos
tornaram-se interesseiros em suas relações sociais. Faziam de suas
funções sacerdotais uma fonte de vantagem pessoal. A verdade, a
justiça e a honestidade eram ignoradas por eles. Por causa dessa
conduta ímpia, pessoas eram prejudicadas na aplicação de uma lei
injusta. Eles estavam provocando a ira divina. Malaquias combateu
o mau testemunho dos sacerdotes.

A Questão do Divórcio e dos Casamentos Mistos (Ml 2.10-17)

Os homens de Judá foram desleais a Deus ao casarem-se com


mulheres estrangeiras. Com isso, não atribuíram o devido valor à
questão da unidade nacional (Ml 2.10-12). Além do mais, essa
prática era mais um indicativo comprobatório de que a Lei de Deus
não estava sendo observada (Êx 34.15-16; Dt 7.3-4; 1 Rs 11.1-6).
Os judeus estavam se casando com a “filha de um deus estranho”
(Ml 2.11). Essa questão não era simplesmente racial, mas tinha
implicação religiosa (espiritual).
Sabemos que as mulheres de outras nacionalidades que
desejavam servir a Deus eram bem-vindas entre o povo. Esse foi o
caso de Rute.15 Os casamentos mistos foram condenados porque
os homens estavam sendo corrompidos e os filhos que se
originavam dessas relações cresciam com as influências pagãs de
suas mães. Judá estava sendo sorrateiramente paganizada. A
impiedade infiltrou-se no coração do povo, de modo que eles
estavam indiferentes em relação a Deus e sua própria família.
Os homens mais velhos estavam agindo com leviandade para com
suas esposas de mais idade, trocando-as pelas jovens estrangeiras
(Ml 2.14). Famílias estavam sendo destruídas. O desejo divino era
que os pais criassem filhos dedicados a Deus (Ml 2.15), todavia eles
estavam abrindo mão de seus casamentos, uma aliança
testemunhada por Deus, em troca da aventura de uma paixão
avassaladora.
O propósito divino era que os homens honrassem seus
compromissos sendo leais “para com a mulher da sua mocidade”
(Ml 2.15). O profeta Malaquias anunciou que Deus desaprovava o
divórcio e a violência decorrida desse ato (Ml 2.16). O descaso pela
Lei tinha como origem a descrença no juízo divino. Eles eram
relapsos em sua religiosidade porque acreditavam que Deus agia
com indiferentismo. Chegaram a questionar: “onde está o Deus do
juízo”? (Ml 2.17).

A Família É Importante

Para Deus, a família é um projeto divino que não pode ser


descartado. Malaquias ensina-nos que Deus exige de nós fidelidade
ao propósito do casamento. Deus é testemunha de toda cerimônia
de casamento e será testemunha de qualquer violação contra essa
instituição que foi estabelecida não pelo homem, mas pelo próprio
Deus. Os judeus trocavam suas esposas por mulheres estrangeiras
mais novas e, como se nada tivesse acontecido, apresentavam-se
no Templo para supostamente buscarem ao Senhor. Segundo
Alexandre Coelho, “os israelitas cobriam de lágrimas o altar do
Senhor, mas Deus abominava essas lágrimas. Eles não tinham suas
orações respondidas. Por quê? Por causa da deslealdade dos
homens para com suas esposas. Isso desagradava profundamente
ao Senhor”.16
O uso do termo “mulher da mocidade” indica a visão que o profeta
Malaquias possuía do casamento: uma relação de companheirismo,
construída com o tempo e cimentada na fidelidade à aliança
estabelecida diante de Deus. Para o profeta, os judeus deveriam
valorizar suas esposas por causa do valor de suas personalidades,
e não apenas por seus dotes físicos. Conceber a mulher
simplesmente como um objeto sexual constituía uma perversão ao
propósito do casamento.
A mulher da mocidade não deveria ser valorizada apenas por
causa do seu valor no passado, mas porque possui um valor que
rejuvenesce com o tempo. Isso se dá por causa do amor. Enquanto
a aparência física decai com o tempo, a personalidade é
engrandecida com a experiência. Assim como o amor aos pais é
fortalecido com o tempo, o amor ao cônjuge deveria experimentar o
mesmo processo.
Para Malaquias, a união do homem e da mulher implicaria a
responsabilidade mútua da criação dos filhos (Ml 2.15). Desse
modo, a vida familiar, quando vivida em sua plenitude, ilustra de
modo eficaz a experiência do amor e da lealdade, fazendo com que
a aliança divina seja compreensível para as pessoas. Em
contrapartida, o divórcio traduz o rompimento das relações por
causa do egoísmo. Malaquias declarou que Deus odeia o divórcio e
por isso advertiu o povo a dar atenção aos princípios espirituais (Ml
2.14-16).

A Vinda do Messias (Ml 3.1-6)

Em resposta à acusação de indiferentismo, Deus prometeu agir.


Um mensageiro seria enviado para preparar o caminho para o
primeiro advento de Cristo. Essa profecia foi cumprida quando João
Batista preparou o caminho para a chegada de Cristo. Malaquias
declarou: “virá a seu templo o SENHOR, a quem vós buscais, o anjo
do concerto, a quem vós desejais” (Ml 3.1). Essas palavras não
eram uma promessa, mas uma ameaça. A primeira e a segunda
vinda de Cristo são unidas em uma única profecia. O restante do
texto retrata o segundo advento de Cristo, quando trará o juízo
sobre os povos. Dessa maneira, o Senhor responde à pergunta
anterior: “Onde está o Deus do Juízo?” (Ml 2.17).
O profeta utilizou-se da metáfora do fogo do ourives e do sabão
dos lavandeiros para retratar o juízo que acompanhará a segunda
vinda de Cristo (Ml 3.2). Tudo o que não tem valor seria consumido.
Assim como o fogo purifica o metal, e o sabão tira as impurezas de
um tecido, Deus purificará o seu povo, removendo os ímpios e
recompensando os fiéis (Ml 3.3). A oferta de Judá que era rejeitada
pelo Senhor naquele momento voltará a ser agradável (Ml 3.4).
Quem será punido no dia do Senhor? Os feiticeiros, os adúlteros, os
que juram falsamente, os que defraudam o salário do jornaleiro, os
que oprimem a viúva e o órfão, os que torcem o direito do
estrangeiro e, por fim, aqueles que não temem ao Senhor (Ml 3.5).
Notemos que diversos pecados descritos por Malaquias como
sendo alvo do juízo divino eram praticados pelos judeus naquele
momento.

A Questão dos Dízimos e das Ofertas (Ml 3.7-12)

Malaquias discorreu sobre um novo assunto: a questão da


contribuição financeira no Templo de Jerusalém. O Senhor chamou
a atenção dos judeus, afirmando que a recusa na entrega dos
dízimos e das ofertas era o mesmo que roubar a Deus (Ml 3.8). A
falha no exercício de nossa mordomia equivale a uma fraude diante
de Deus. Tudo o que temos foi dado por Deus. Apenas
administramos. A Lei Mosaica exigia que um décimo de toda a
renda deveria ser entregue ao Senhor como forma de gratidão pela
provisão divina. Por meio dos dízimos e das ofertas, os israelitas
testemunhavam a fé na crença de que tudo pertencia a Deus.
Enquanto os dízimos estavam sendo retidos pelo povo, as
bênçãos do Senhor também estavam sendo detidas (Ml 3.10). A
desobediência à Lei do Senhor acarretava em maldição sobre o
povo (Ml 3.9). A retenção das bênçãos poderia ser encarada como
uma maldição, pois não contar mais com o favorecimento divino era
algo muito doloroso. A omissão da contribuição no Templo revelava
o materialismo dos judeus e o descaso com as questões espirituais.
Se o povo se arrependesse dos seus atos e aceitasse o desafio da
contribuição, Deus iria abençoá-los de forma abundante: as janelas
dos céus seriam abertas (bênção divina), o devorador seria
repreendido (proteção divina), e o fruto da terra seria próspero
(provisão divina) (Ml 3.10-12).

O Pecado de Criticar ao Senhor (Ml 3.13–4.3)

Naquele tempo, os israelitas consideravam que era inútil servir a


Deus (Ml 3.14). Começaram a acreditar que a prática da impiedade
resultaria em prosperidade (Ml 3.15). Quiseram viver de forma
autossuficiente. Eles não foram fiéis a Deus e julgavam-se
merecedores das bênçãos prometidas por Ageu e Zacarias.
Pensavam que Deus tinha falhado no cumprimento de sua palavra.
Na verdade, não conseguiam enxergar suas próprias falhas. Não
conseguiam perceber que a adoração deles era superficial. Em vez
de realizar a autocrítica, atacavam o Deus de Israel culpando-o
pelas desgraças e infortúnios de suas vidas. Transferiam para Deus
o dolo que lhes pertencia.
A resposta do Senhor é que existe um grande contraste entre
aqueles que servem a Deus e aqueles que não servem (Ml 3.16-18).
Existia um grupo minoritário de judeus fiéis. Deus declarou por meio
de Malaquias que há um registro no Céu daqueles que reverenciam
ao Senhor com as suas vidas (Ml 3.16). Eles estão sendo
observados e serão recompensados no momento oportuno. O
remanescente fiel será poupado do juízo (Ml 3.17). Enquanto o dia
do Senhor será para os ímpios como um fogo que consome a palha
(Ml 4.1), para aqueles que temem ao Senhor haverá salvação,
proteção e crescimento (Ml 4.2). Os justos serão exaltados sobre os
ímpios e perceberão definitivamente que valeu a pena servir ao
Senhor (Ml 3.3).

Exortação Final à Obediência (Ml 4.4-6)

A mensagem final é que o povo deveria lembrar-se da Lei dada


por Deus no Sinai (Horebe) por intermédio de Moisés (Ml 4.4). A
seguir, Malaquias entregou uma palavra profética: “Eis que eu vos
envio o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do
SENHOR” (Ml 4.5). Essa profecia não se trata de uma reencarnação
ou um reaparecimento de Elias, e sim da aparição de um profeta
que teria características semelhantes. Esse oráculo foi cumprido em
João Batista, segundo as palavras de Jesus (Mt 11.14). Ele
desempenhou o seu ministério com o “espírito e a virtude de Elias”
(Lc 1.17).
Através de João Batista, muitos seriam alcançados e o caminho
para a obra da redenção por meio de Jesus seria preparado. O
propósito da vinda de “Elias” era reunir um remanescente fiel dentre
a massa apóstata. João Batista preparou o caminho fornecendo a
Cristo os primeiros discípulos. Embora Cristo tenha sido rejeitado
por muitos, foi aceito por um remanescente fiel que, mais tarde, deu
origem à Igreja. Enquanto o Antigo Testamento (em Malaquias)
terminou com uma maldição condicional para um povo que rejeitou
a Lei (Ml 4.1-6), o Novo Testamento finalizou com uma promessa
incondicional para o povo que creu em Cristo (Ap 22.20,21).

1 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,


p. 236.
2HALLEY, Henry Hampton. Manual bíblico de Halley. São Paulo: Editora Vida,
2002, p. 391.
3 MANUAL, Bíblico SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p. 512.
4 DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao Antigo
Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 418.
5 Os assuntos trabalhados por Malaquias e Neemias foram os mesmos:
Casamento misto (Ml 2.11-15; Ne 13.23-27); fracasso dos dízimos (Ml 3.8-10; Ne
13.10-14); nenhuma preocupação com a guarda do Sábado (Ml 2.8-9; 4.4; Ne
13.15-22); sacerdotes corruptos (Ml 1.6-2.9; Ne 13.7-9); e problemas sociais (Ml
3.5; Ne 5.1-13). DILLARD, Raymond B. LONGMAN III, Tremper. Introdução ao
Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 418.
6RICHARDS, Lawrence O. Comentário devocional da Bíblia. Rio de Janeiro:
CPAD, 2012, p. 538.
7 ELWELL, Walter A. Manual bíblico do estudante. Rio de Janeiro: CPAD, 1997,
p. 239.
8CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo.
2.ed. Vol. 5. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 3701.
9PFEIFFER, Charles F. Comentário bíblico Moody. São Paulo: Editora Batista
Regular, 2010, p. 1275.
10TURNER, Donald D. Introdução ao Velho Testamento. São Paulo: Editora
Batista Regular, 2004, p. 351.
11HOOVER, Richard Leroy. Profetas menores. 4.ed. Campinas: EETAD, 2003, p.
165.
12 ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento. São Paulo:
Editora Vida, 1991. p. 344.
13COELHO FILHO, Isaltino Gomes. Malaquias: nosso contemporâneo. 2.ed. Rio
de Janeiro: JUERP, 1994, p. 24.
14BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras: Ezequiel a Malaquias. Vol. 4. São
Paulo: Vida Nova, 1995, p. 298.
15MANUAL BÍBLICO SBB. 2.ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010, p.
513.
16 COELHO, Alexandre; DANIEL, Silas. Os doze profetas menores. Rio de
Janeiro: CPAD, 2012, p. 108.
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