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RESUMO

O presente artigo procura, por meio da análise do voto do Ministro Carlos Ayres Britto, Relator na 
Petição Inicial n. 3.388 do Supremo Tribunal Federal, sustentar a adequação jurídica bem como a 
legitimação da demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol. Essa análise teve por 
base, além do voto acima referido, os conceitos da perspectiva pragmática de interpretação jurídica 
de Tercio Sampaio Ferraz Junior e do Realismo Jurídico norte­americano, que integram o estudo da 
Dogmática Hermenêutica, no intuito de também concretizar os direitos originários dos índios sobre 
suas terras. Para isso, foram consultadas diversas obras jurídicas, legislações e notícias, que 
contribuíram para a obtenção dos resultados deste estudo. Estes resultados consistem na necessidade 
da aplicação dos conceitos da Dogmática Hermenêutica às decisões judiciais e na defesa do 
reconhecimento, a partir da aplicação desses conceitos, dos direitos dos índios e de suas 
comunidades, índios que também são cidadãos brasileiros.

PALAVRAS­CHAVE: terra indígena; demarcação contínua; Dogmática Hermenêutica.

INTRODUÇÃO

A terra indígena Raposa Serra do Sol, situada no Estado de Roraima, foi demarcada pela Portaria 
número 534 de 2005, do Ministério da Justiça, homologada por um decreto assinado pelo Presidente 
Luiz Inácio Lula da Silva no dia 15 de abril do mesmo ano. Essa região abriga 194 comunidades 
com uma população aproximada de 19 mil índios dos povos Macuxi, Taurepang, Patamona, Ingaricó 
e Wapichana, segundo notícia do "site" do Supremo Tribunal Federal em agosto de 2008.

A União, por meio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), começou no ano de 1992 um relatório 
com vistas à identificação da terra para que esta pudesse ser demarcada. Contudo, também 
conforme a notícia acima, a presença de rizicultores vindos do sul do País, impediu que se 
concluísse a demarcação, já que eles alegavam possuir títulos que lhes conferiam a posse das terras. 
A Portaria e seu respectivo decreto vieram para garantir que a demarcação ocorresse.

A despeito de a Portaria, que foi homologada, ter dado o prazo de um ano para que os não­índios 
abandonassem a terra indígena, várias ações judiciais, segundo o "site" do STF, começaram a 
tramitar no Poder Judiciário, de forma a contestar a demarcação. Apenas no Supremo Tribunal 
Federal tramitam atualmente mais de 30 ações com algum vínculo com a terra indígena Raposa 
Serra do Sol.

Diante de toda essa polêmica gerada pelos conflitos entre povos indígenas e produtores rurais, o que 
torna importante a investigação das conseqüências da demarcação já referida, o presente artigo 
pretende contribuir, a partir da óptica da Hermenêutica Jurídica, para sustentar a adequação jurídica 
bem como a legitimidade da demarcação contínua de terras indígenas, maiores objetivos do presente 
artigo.

Para tanto, partir­se­á do voto [01] do Ministro Carlos Ayres Britto, relator na Petição número 3.388 
do Supremo Tribunal Federal, que trata da discussão que envolve a já mencionada demarcação 
contínua das terras indígenas, mais precisamente das que integram a reserva Raposa Serra do Sol, 
para que seja possível contemplar os aspectos jurídicos da demarcação da mesma, tão importantes 
para a concretização deste ato administrativo que se faz essencial para que os índios possam usufruir 
plenamente de suas terras.

Esses aspectos jurídicos da demarcação são representados precipuamente pelos dispositivos 
constitucionais que tratam da proteção aos índios, que vão do artigo 231, caput, e todos os seus 
parágrafos, ao artigo 232 da Constituição Federal de 1988. O caput do artigo 231 já introduz a 
temática da importância das terras indígenas, já que reconhece aos índios os direitos originários 
sobre as terras que tradicionalmente ocupam.

Porém, esses dispositivos vão de encontro à segurança jurídica pertinente a todos os produtores 
rurais que possuem os títulos possessórios das terras que ocupam, o que caracteriza uma possível 
colisão de princípios ou valores muito caros ao Estado Democrático de Direito: a proteção aos 
índios e a segurança jurídica, temática que será explanada a partir de conceitos das teorias céticas, 
especificamente: da perspectiva pragmática de interpretação jurídica do doutrinador Tercio Sampaio 
Ferraz Junior e do Realismo Jurídico norte­americano, o que já indica a relevância da análise da 
decisão do Ministro Ayres Britto, para que seja juridicamente possível acabar com o impasse para a 
demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol.

Para abordar a temática do artigo, foi utilizado o método de abordagem hipotético­dedutivo. Isso 
porque partiu­se de conceitos advindos de teorias céticas de interpretação jurídica com o propósito 
específico de sustentar a hipótese de que o voto do Ministro, quanto à demarcação contínua da terra 
indígena em tela, não só é legítimo como também é adequado ao tratamento constitucional dado aos 
direitos dos índios, o que traz contribuições para o tema da demarcação de terras indígenas no 
Brasil. Já o método para elaboração do artigo foi o estruturalista, de forma a trazer contribuições 
teóricas para o caso da demarcação da terra indígena já mencionada, e a técnica de pesquisa 
trabalhada foi a bibliográfica, com base em obras como as de Tercio Sampaio Ferraz Junior e a de 
Isabel Lifante Vidal.

1 ANÁLISE DO VOTO DO MINISTRO CARLOS AYRES BRITTO POR INTERMÉDIO DA 
DOGMÁTICA HERMENÊUTICA

1.1 CONCEITOS INICIAIS

A sociedade, com toda a sua diversidade e riqueza de saberes, sempre buscou, por meio destes, 
compreender a complexidade das relações sociais e de seus sujeitos. Para tanto, valeu­se de 
instrumentos como o Direito, que tem por finalidade precípua reger a sociedade e evitar o caos 
proveniente das paixões humanas desenfreadas.

No âmbito jurídico, dois são os enfoques teóricos básicos para investigar o Direito enquanto objeto 
de estudo: o saber zetético e o saber dogmático, analisados por Tercio Sampaio Ferraz Junior no 
livro Introdução ao Estudo do Direito: técnica, decisão, dominação. O saber zetético é um saber 
voltado para a mera satisfação no plano teórico; ele busca perquirir, questionar, de forma infinita, 
acerca de determinado objeto de investigação, sem se preocupar com a decidibilidade de conflitos, 
portanto, trata­se de um saber pelo simples saber.

Já o saber dogmático é aquele voltado para a aplicação do conhecimento na decidibilidade jurídica 
de conflitos. Ao contrário do saber zetético, que parte de constatações tidas por certas em sua 
investigação, ou seja, de evidências, o saber dogmático parte de dogmas, pontos de partida 
inquestionáveis, que buscam suprimir dúvidas por meio de imposições, decisões. Este saber é por 
excelência o querer do Direito. Numa realidade cercada de conflitos (e um exemplo é o que envolve 
a demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol), faz­se necessária a tomada de 
decisões que possam vincular e ser cumpridas.

O campo do saber dogmático engloba três modelos, analisados conforme as etapas presentes na 
construção da decidibilidade de conflitos. São estes os modelos: o analítico, o hermenêutico e o da 
decisão. Para fins deste estudo, que tem por base a análise dos métodos interpretativos usados na 
decisão do Ministro Carlos Ayres Britto, relator na Petição 3.388 do STF, que trata da demarcação 
contínua da terra indígena já mencionada, será dada ênfase ao segundo modelo dogmático, o 
hermenêutico, também denominado Dogmática Hermenêutica.

O raciocínio jurídico é marcado pela necessidade de chegar a uma decisão, decisão que no caso em 
tela foi favorável à demarcação contínua da terra indígena no intuito de suspender a liminar da Ação 
Cautelar n. 2.009 (que garantia a permanência dos não­índios no local) e de retirar os não­índios das 
imediações da mesma. Neste sentido, o Ministro relator buscou em seu voto, inerente à Petição já 
citada, determinar o "sentido das normas, o correto entendimento do significado dos seus textos e 
intenções, tendo em vista a decidibilidade de conflitos", como analisa Ferraz Junior (2003, p. 256), 
o que é tarefa básica da Dogmática Hermenêutica.

O Ministro, por meio da interpretação literal, condizente com a letra da lei (análise principalmente 
dos artigos 231 e 232 da Constituição de 1988, que tratam das terras indígenas e da defesa dos 
direitos dos índios), da interpretação sistemática, que analisa os artigos em seu contexto, e da 
interpretação histórica, que busca as condições históricas da criação das normas que envolvem a 
demanda discutida no STF por meio de precedentes em outras decisões e da investigação histórica 
dos conflitos entre Estados, Municípios e Índios, constituiu uma decisão para o conflito que 
atendesse a uma necessidade tida por ele como essencial, que é a demarcação contínua da terra 
indígena Raposa Serra do Sol.

Toda a argumentação feita pelo Ministro leva em consideração um dogma para o Direito: o de que 
toda decisão deve se basear numa norma jurídica. Ocorre que, contemporaneamente, as normas 
jurídicas carregam em seu corpo uma série de conceitos indeterminados, marca do Estado de Bem­
Estar Social, que buscava atribuir às suas normas a maior amplitude possível, com vistas a garantir 
proteção jurídica a tudo o que fosse caro a esse modelo de Estado.

Essa série de conceitos indeterminados explica o porquê de existirem tantas interpretações 
juridicamente possíveis, e a Dogmática Hermenêutica tem o papel de analisar como se dá a escolha 
entre essas várias interpretações. Nesse contexto rico de possibilidades interpretativas, torna­se 
relevante a investigação das contribuições teóricas das teorias tidas por céticas que, de forma a 
contrariar o modelo liberal de interpretação jurídica, não acreditam que exista uma única resposta 
para a decisão jurídica de um conflito: a correta, a verdadeira. As teorias céticas privilegiadas neste 
estudo pautam­se na perspectiva pragmática de interpretação jurídica do doutrinador Tercio 
Sampaio Ferraz Junior, já mencionado anteriormente devido à obra Introdução ao Estudo do 
Direito: técnica, decisão, dominação, e no Realismo Jurídico norte­americano, as quais serão 
pormenorizadas a seguir.

Com relação à perspectiva pragmática de interpretação jurídica de Ferraz Junior, tem­se que a 
mesma considera alguns elementos como de valiosa importância para o exercício da interpretação. 
Tais elementos são a indeterminação semântica, o código forte, o código fraco, a paráfrase e o poder 
de violência simbólica, que circunda todos os demais elementos.

A indeterminação semântica está pautada no fato de existirem, nas normas jurídicas, muitos 
conceitos vagos e ambíguos, o que faz denotar a ausência de um significado unívoco para o que está 
disposto na norma. É por intermédio de certos elementos que o intérprete conseguirá extrair da 
norma o significado considerado "apropriado" para a mesma, ao mesmo tempo em que se valerá de 
diversos métodos interpretativos com vistas a chegar a uma decisão, como o método sistemático.
Tercio chama a atenção para o fato de que alguns elementos denominados código forte e código 
fraco correspondem à forma como a norma jurídica é apresentada pelo legislador ao destinatário. O 
código forte consiste na disposição textual da norma de forma restritiva, fechada; o legislador dá à 
norma um sentido preciso, o que engessa a ação do destinatário, o qual tem a tendência – 
dependendo do caso concreto – de buscar uma decodificação da norma em um código fraco, que dá 
mais liberdade para o receptor agir, e se traduz por meio de estratégias que visam a alargar o sentido 
dos termos prescritos na norma.

O oposto também pode ocorrer. Uma norma pode ser disposta com base num código fraco, de forma 
flexível, dada a ambigüidade e a vagueza dos signos insertos no texto normativo, o que faz com que 
o receptor fique imobilizado por todos os lados, por não saber qual atitude deve tomar, o que deve 
fazer. Dessa forma, a tendência é a de que ele decodifique a norma com base num código forte, de 
forma a precisar significados.

Todos e sses aspectos são desdobramentos de um elemento mais amplo: o poder de violência 
simbólica. Quando se quer atribuir um sentido uniforme à norma, usa­se esse poder para impor 
certos sentidos tidos por legítimos a ela (visa­se "violentar" os signos para que eles signifiquem 
exatamente aquilo que é desejado pelo intérprete).

Porém, esse poder de imposição não tem o fito de coagir o destinatário, e sim o de permitir que ele 
aja, mas de forma controlada, neutra, de modo a não considerar determinadas alternativas como 
passíveis de serem adotadas para a situação em questão.

Daí, o entendimento de Tercio de que interpretação pode ser considerada paráfrase, que consiste na 
reescrita da norma de forma a apresentá­la de modo mais persuasivo, de acordo com a conveniência 
do intérprete, o qual se utiliza do poder de violência simbólica para decodificar o que foi posto pelo 
legislador no texto normativo.

Por fim, com relação ao Realismo Jurídico norte­americano, outro desdobramento das teorias 
céticas, cabe ressaltar que tal perspectiva se baseia em como de fato os juízes decidem. Para a teoria 
em foco, os juízes, em suas decisões, não se prendem somente ao conteúdo disposto na lei; eles vão 
além, e dessa forma, o Direito é visto muito mais como o que o juiz faz de fato do que o que está 
escrito nos Códigos, ou seja, o Direito é composto muito mais de decisões do que de regras.

Segundo o Realismo Jurídico norte­americano, os juízes decidem determinado caso concreto e 
somente depois fundamentam sua decisão, e as premissas que servem de base para esta 
fundamentação são construções dos próprios juízes em certos moldes, construções que se compõem 
de elementos jurídicos (a norma em si) e de elementos extrajurídicos, tais como: econômicos, 
sociais, filosóficos e ideológicos. Esta teoria é eminentemente pragmática, sendo que aos realistas 
interessa o Direito em ação, proveniente das decisões judiciais, e não o Direito dos livros.

Isto, segundo a autora espanhola Isabel Lifante Vidal (1999, p. 138), faz com que o Direito seja 
visto como um "fenômeno em movimento, composto por procedimentos de criação, interpretação e 
aplicação das regras" (tradução nossa). Com fundamento nesse Direito como "fenômeno em 
movimento" é que os realistas criticam o caráter formalista do processo de aplicação do próprio 
Direito (ou seja, o silogismo jurídico dedutivo).

A crítica em tela consiste no fato de o Direito estar circundado por indeterminações semânticas (já 
mencionadas neste estudo), provenientes da vagueza ou ambigüidade das expressões legais, e 
também das lacunas ou inconsistências jurídicas. Devido a essas indeterminações é que os realistas 
consideram que a premissa normativa da qual o juiz se utiliza em sua argumentação não pode ser 
proveniente literalmente do Ordenamento Jurídico, como se fosse um dado da realidade normativa.

Essa premissa normativa tem que ser criação dos próprios juízes, criação que dá ensejo à 
interpretação que, segundo Lifante Vidal (1999, p. 138) "trata­se de uma atividade de transformação 
das regras formais até conseguir formular uma premissa que possa dar solução ao caso concreto" 
(tradução nossa). Tal premissa, mencionada por Lifante Vidal, é uma regra real, que é a 
reformulação da regra formal, daquela que está nos Códigos. Esta regra real – que serve de premissa 
maior do raciocínio jurídico – indica as regularidades dos raciocínios judiciais, isto é, como de fato 
os juízes interpretam e aplicam as regras formais.

Nem os fatos escapam à análise dos realistas, pois, segundo eles, os fatos – que funcionam como 
premissa menor do raciocínio judicial – também são criação do juiz, na medida em que estes, por 
meio da interpretação, extraem, dentre os acontecimentos estabelecidos por meio de provas, os que 
são mais relevantes para a decisão judicial. Dessa forma, questões fáticas e normativas se 
imbricariam, já que a interpretação fática e a normativa sofreriam influências mútuas, conforme 
analisa a autora acima citada.

Resta mencionar que tudo isso gera grande discricionaridade para o juiz, e os próprios realistas, no 
tocante a essa discricionaridade, se dividiram entre os radicais (sendo um dos representantes Jerome 
Frank), que consideram a indeterminação semântica inevitável, e até desejável, pois dá máxima 
liberdade ao juiz para analisar a diversidade e a complexidade de cada caso concreto, e os 
moderados (sendo um dos representantes Karl Llewellyn), que consideram que essa indeterminação 
pode e deve ser reduzida, e que a liberdade judicial deve ser limitada, com o uso de categorias mais 
específicas para se adequarem melhor às particularidades de cada caso concreto, e com a 
explicitação dos objetivos perseguidos pelas regras, pois esses objetivos é que são o fundamento da 
interpretação.

1.2 APLICAÇÃO DOS CONCEITOS DA DOGMÁTICA HERMENÊUTICA AO VOTO DO 
MINISTRO CARLOS AYRES BRITTO

Após toda a parte conceitual apresentada, torna­se pertinente agora aplicar os conceitos expostos às 
passagens do voto do Ministro Carlos Ayres Britto consideradas relevantes para o presente estudo. 
Antes, porém, convém dissertar sobre os métodos interpretativos mais lembrados pelo Ministro para 
construir sua decisão, que são: o literal, o sistemático e o histórico.

Quanto ao método literal, tem­se que o Ministro procurou buscar na própria Constituição, de forma 
objetiva, as coordenadas para a demarcação de toda e qualquer terra indígena do Brasil, não 
somente da terra indígena Raposa Serra do Sol, o que foi feito por uma rigorosa análise da letra da 
lei, principalmente dos artigos 231 e 232 da Constituição de 1988, que assim dispõem:

    Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e 
tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à 
União demarcá­las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

    § 1º ­ São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter 
permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos 
recursos ambientais necessários a seu bem­estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, 
segundo seus usos, costumes e tradições.
    § 2º ­ As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam­se a sua posse permanente, 
cabendo­lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes.

    § 3º ­ O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a 
lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivados com autorização do 
Congresso Nacional, ouvidas as comunidades afetadas, ficando­lhes assegurada participação nos 
resultados da lavra, na forma da lei.

    § 4º ­ As terras de que trata este artigo são inalienáveis e indisponíveis, e os direitos sobre elas, 
imprescritíveis.

    § 5º ­ É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, "ad referendum" do 
Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no 
interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer 
hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.

    § 6º ­ São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a 
ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere este artigo, ou a exploração das riquezas 
naturais do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da 
União, segundo o que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a 
indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às benfeitorias derivadas da 
ocupação de boa fé.

    § 7º ­ Não se aplica às terras indígenas o disposto no art. 174, § 3º e § 4º.

    Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em 
juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do 
processo. (grifos nossos).

Já quanto ao método sistemático, o Ministro procurou compreender sistematicamente a Constituição 
Federal de 1988 para o tema "Índios", pois, além de analisar os dispositivos que falam sobre os 
índios no seu capítulo próprio, levou em conta outros dispositivos que não se encontram neste 
capítulo, como o artigo 20, inciso XI (o qual diz que as terras tradicionalmente ocupadas pelos 
índios são bens da União), de forma a harmonizá­los no contexto normativo constitucional. O 
Ministro também fez uso de outras legislações em conjunto com a Constituição de 1988, como o 
Estatuto do Índio (Lei 6.001/73) em seu artigo 19.

Com relação ao método histórico, notou­se que o Ministro buscou analisar os precedentes do STF 
sobre demarcação de terra indígena e o histórico de conflitos que envolvem Estados, Municípios e 
Índios, lides que fazem com que a União tenha que agir firmemente para garantir o direito que os 
Índios têm sobre suas terras.

Feita essa breve dissertação, passa­se a cuidar agora da aplicação dos conceitos já estudados a 
trechos do voto do Ministro Ayres Britto. Tendo por base a perspectiva realista, parte­se da 
constatação de que primeiro o Ministro decidiu – defesa da constitucionalidade da demarcação da 
terra indígena Raposa Serra do Sol, sem descuidar da possibilidade de indenização dos rizicultores 
da região que obtiveram os títulos de propriedade de boa­fé – e, em seguida, construiu as premissas 
fundamentadoras da conclusão de sua argumentação. Segue a reconstrução teórica da linha 
argumentativa que embasou a decisão do Ministro.
O primeiro trecho a ser apresentado é o que trata da necessidade de precisar significados de termos 
que, em virtude da indeterminação semântica que circunda legislações elaboradas sob a égide de 
códigos fracos, podem ganhar múltiplos significados, de forma a trazer como conseqüência – 
segundo Struchiner (2002, p. 68) – a constatação de que as normas jurídicas positivadas não podem 
ser conhecidas de maneira abstrata, pelo fato de não ser possível verificá­las em todas as situações, 
o que está ligado à textura aberta da linguagem.

Assim, ao fazer uso de um código forte, capaz de precisar o significado de termos importantes para 
a sustentação de sua decisão, Ayres Britto procurou diferenciar os termos "índios", no plural, e 
"índio", no singular. O termo "índios" seria usado para diferenciar os aborígines entre numerosas 
etnias, e o termo "índio" significaria o indígena pertencente à América, que também podem ser 
chamado de nativo, autóctone. Essa precisão de significados, ao adotar o termo "índios" (no plural), 
tem o intuito de associar os índios às demais etnias do Brasil (branca e negra), e de considerá­los 
também como essência da realidade política e cultural do Brasil.

O Ministro também dissociou, no que tange aos índios, os termos "terras" e "territórios". Para ele, 
"terra" tem um cunho eminentemente sócio­cultural, algo mais ligado aos Índios. Já "território" tem 
um cunho político, que remete à incidência sobre o mesmo de uma ordem jurídica de índole 
soberana. Sendo as terras indígenas "terras" e não "territórios", não cabe permitir a livre circulação 
de pessoas não­índias nessas terras, e só por meio de supervisão da União é que equipamentos 
públicos e obras de infra­estrutura econômica e social poderão ser instalados nessas terras.

Vale mencionar que o Ministro ressalta o não­uso, pela Constituição Federal de 1988, da expressão 
"reserva indígena", e sim "terra indígena", exatamente para não segregar, apartar os índios de sua 
condição de cidadãos brasileiros, ressalvadas as suas peculiaridades. Sobre a temática da 
incorporação dos Índios à sociedade brasileira como um todo, a autora Thais Luzia Colaço se 
manifesta de forma cética, o que ela faz com base na Constituição de 1988, que trouxe um rol 
significativo de direitos para os índios. Com a promulgação da Carta Magna de 1988, surge uma 
novidade relevante no que concerne aos Índios, o que Colaço (2003, p. 88) assim expõe:

    Uma das novidades é que se acabaram as perspectivas assimilacionistas e integracionistas das 
constituições anteriores: o índio adquire o direito à alteridade, isto é, respeita­se a sua especificidade 
étnico­cultural, garantindo­lhe o direito de ser e de permanecer índio.

Ainda na temática da incorporação dos índios à sociedade, de forma que estes ganhem a condição 
de cidadãos brasileiros, deve ser feita uma consideração muito importante quanto à opção do 
Ministro Ayres Britto em assegurar aos índios essa condição. Além das ressalvas feitas pelo 
Ministro quanto às peculiaridades e às diferenças próprias dos índios, que devem ser respeitadas, a 
sua intenção em considerá­los como membros da sociedade brasileira (de forma a utilizar, para tal, 
um código fraco, no que concerne à definição ampla atribuída à expressão "cidadãos brasileiros") 
foi a de garantir aos índios seus direitos originários sobre suas terras e a demarcação contínua das 
mesmas, já que eles são cidadãos brasileiros (em amplo sentido) e devem ter os seus direitos 
respeitados.

Para isso, o Ministro fez uso da paráfrase ao reescrever os conceitos insertos nas normas jurídicas 
inerentes aos direitos dos índios e à demarcação das terras indígenas, de forma a contribuir com o 
seu raciocínio para a chegada daquela decisão judicial. Interessante notar que a intenção do 
constituinte brasileiro ao assegurar a cidadania aos índios e ao mesmo tempo tratá­los com certo 
diferencial foi traduzida na decisão do Ministro Ayres Britto, o que demonstrou o caráter peculiar 
dos índios, pois eles são cidadãos, mas merecem um tratamento diferenciado em virtude da forma 
de vida que a maioria deles leva. Sobre o tema, Tercio Sampaio Ferraz Junior (2007, p. 503) aborda:

    O constituinte criou, assim, um sujeito de direito sui generis, que goza dos benefícios da 
nacionalidade e da cidadania (Lei n. 6.001/73, art. 5º, lei recebida pela Constituição), mas tem 
características étnicas próprias (ainda que diversificadas), que a Constituição reconhece e respeita. 
Nesse sentido, são brasileiros, como se lê na formulação indireta do parágrafo único do art. 1º da 
mesma lei: "Aos índios e às comunidades indígenas se estende a proteção das Leis do País, nos 
mesmos termos em que se aplicam aos demais brasileiros, resguardados os usos, costumes, e 
tradições indígenas e a preservação de seus direitos"; [...] (grifos do autor).

Quanto ao tratamento dado às terras indígenas, o Ministro, de forma a usar o poder de violência 
simbólica por meio de um código forte, restrito, fixou que a União, até pela previsão constitucional 
existente no artigo 231 da Constituição de 1988, é que tem competência para demarcar as terras 
indígenas, de forma a garantir o respeito aos bens dessas terras e a atuar contra os Estados e 
Municípios, se for preciso, para garantir a demarcação.

Essa demarcação, como foi visto, é de competência do Executivo da União, e encontra tutela 
inclusive no artigo 19 do Estatuto do Índio, que também fala que a demarcação deverá ser realizada 
conforme o disposto em decreto do Poder Executivo, que já foi assinado. O processo demarcatório, 
diga­se, é um anseio de muitos anos, pois o artigo 67 do Ato das Disposições Constitucionais 
Transitórias (ADCT) já falava que a conclusão das demarcações das terras indígenas brasileiras 
deveria ocorrer no máximo até 05 (cinco) anos após a promulgação da Constituição de 1988, ou 
seja, até 1993, o que ainda não ocorreu.

Vale lembrar que o direito dos índios às suas terras é um direito originário, que tem valor superior a 
qualquer escritura pública ou títulos de legitimação de posse em favor de não­índios, o que faz com 
que a demarcação ocorra o quanto antes, sem prejuízo das indenizações aos não­índios que 
ocuparam as terras de boa­fé, de forma não­maliciosa, o que impede qualquer alegação que 
privilegie a segurança jurídica (com relação aos produtores rurais, que possuem os títulos 
possessórios sobre as terras que ocupam) em detrimento dos direitos dos índios.

É importante também lembrar que o Ministro enfatizou a demarcação contínua das terras indígenas 
sem a formação de "ilhas", de vazios entre as terras que seriam efetivamente ocupadas pelos índios, 
ou seja, demarcação que não admite a posse, por parte dos não­índios, de algum espaço situado 
dentro dos limites das terras indígenas. Segundo o Ministro, este formato de demarcação é o único 
capaz de viabilizar os imperativos constitucionais. O disposto na Constituição de 1988 não dá 
margem a outro tipo demarcatório, que comprometa o direito dos índios de usufruírem plenamente 
de suas terras.

Ademais, tal demarcação não viola a soberania do País, até porque as Forças Armadas e a Polícia 
Federal fiscalizam e guardam as terras indígenas – que aqui se encontram em faixas de fronteiras – 
e inclusive encontram nos índios, conforme explanado pelo Ministro em seu voto, grandes aliados 
na luta contra invasões estrangeiras ao País, já que os mesmos conhecem de forma substancial as 
terras que habitam. Se há uma possível violação à soberania pela não atuação do Estado brasileiro 
nas terras indígenas, ela deve ser imputada ao próprio Estado, não aos índios, que não podem ser 
culpados por tal omissão.

Em outro momento, o Ministro criticou os empecilhos que o próprio Estado cria para se tornar o 
grande defensor dos índios, o que ocorre pela tímida interpretação que o mesmo faz de suas 
competências constitucionais. Estes empecilhos contribuem para a demora na conclusão das 
demarcações, ao lado do ajuizamento de várias ações judiciais que contestam as demarcações 
firmadas.

O Ministro não deixou de afirmar o caráter fraternal ou solidário dos artigos 231 e 232 da 
Constituição de 1988, que asseguram os direitos indígenas, o que remete a um dos objetivos da 
República Federativa do Brasil, que é o de construir uma sociedade livre, justa e solidária, conforme 
o artigo 3º, inciso I da referida Constituição. Para o Ministro, é como se a Constituição procurasse 
compensar as minorias (como os índios), e buscar a igualdade tanto no âmbito civil como no âmbito 
moral para essas minorias, o que reflete em ações de caráter afirmativo.

Após tudo o que foi abordado, resta mencionar que, com todo o raciocínio usado na decisão em prol 
da demarcação contínua da terra indígena Raposa Serra do Sol, o Ministro Carlos Ayres Britto 
atuou, mesmo que de forma velada, nos moldes do Realismo Jurídico norte­americano proposto 
pelo moderado Karl Llewellyn, pois procurou precisar as indeterminações semânticas de vários 
conceitos com raciocínios próprios sem se ater estritamente às normas jurídicas, mas sempre de 
forma a explicitar os objetivos inerentes a essas normas, pois, como já foi dito em outra 
oportunidade, esses objetivos (segundo o Realismo Jurídico moderado, no que tange à 
discricionaridade do juiz) é que fundamentam a interpretação, interpretação que é atividade 
preliminar embasadora para a construção de toda decisão judicial que se enquadre num Estado de 
Democrático de Direito.

2 CONCLUSÃO

O presente artigo, com todo o arcabouço teórico apresentado e com a aplicação deste à decisão do 
Ministro Carlos Ayres Britto, que foi favorável à demarcação contínua da terra indígena Raposa 
Serra do Sol, procurou sustentar a adequação jurídica bem como a legitimação de tal demarcação, o 
que foi feito pela análise dos instrumentos usados pelo Ministro para justificar o seu posicionamento 
em prol dos direitos dos índios.

Ao longo deste estudo, a sustentação da adequação jurídica e da legitimidade da demarcação 
contínua da terra indígena acima referida (os grandes objetivos deste artigo), foi conseguida por 
meio da utilização de critérios hermenêuticos voltados para a decisão de um caso concreto, caso que 
aqui se refere à acirrada disputa entre índios e produtores rurais acerca da posse da terra que, 
originariamente, pertence aos indígenas por determinação constitucional.

Conforme demonstrado no decorrer do artigo, critérios como a precisão de significados de termos 
ambíguos e vagos e a interpretação dos dispositivos constitucionais e legais de forma bem 
fundamentada, foram essenciais para a consideração do voto do Ministro Ayres Britto como uma 
grande estratégia de proteção dos direitos dos índios.

Essa proteção se efetivaria por meio do Estado, na figura da União, já que esses direitos são alvo de 
grande número de conflitos agrários que envolvem Estados da Federação e Municípios, os quais 
muitas vezes vêem nas comunidades indígenas empecilhos à sua atuação, o que é demonstrado pelas 
inúmeras ações judiciais que tramitam no Supremo Tribunal Federal de modo a contestar a 
demarcação acima referida.

Dessa forma, este artigo veio contribuir para que os direitos dos índios sobre suas terras sejam 
reconhecidos e firmados perante a população em geral e, sobretudo perante os Estados e 
Municípios, para que tais direitos não sejam vistos como um favor ou um mero benefício às 
comunidades indígenas, mas como uma tentativa de ressarcir os índios pelos anos de segregação e 
de uma visão simplista e paternalista dos mesmos. Esse ressarcimento se faz por meio de ações que 
visem à busca pela igualdade tanto civil quanto moral para os índios e suas comunidades.

Outra contribuição significativa deste artigo é a de trazer ao debate acadêmico a discussão e a 
aplicação de critérios hermenêuticos com o intuito de esmiuçar decisões judiciais de grande 
repercussão no mundo jurídico, com vistas a encontrar e a sedimentar a função social que o Direito 
tem de fazer valer os direitos, inclusive os das minorias, de forma precisa e fundamentada.

Todas essas contribuições, que refletem os resultados obtidos pela análise do voto do Ministro 
Carlos Ayres Britto, são de grande valia não só para a área da Hermenêutica Jurídica, mas para uma 
discussão que permanece em voga na área do Direito Constitucional, que é a de como efetivar os 
direitos das minorias em face de tantas controvérsias geradas tanto no plano jurídico­institucional 
como no plano fático, do cotidiano das pessoas.

Desse modo, o presente artigo vem propor soluções para essa discussão, soluções que consistem na 
aplicação dos conceitos da Dogmática Hermenêutica em cada decisão judicial e na defesa do 
reconhecimento (uma conseqüência do uso da Dogmática Hermenêutica) dos direitos dos índios e 
de suas comunidades, direitos que não são um dado, posto que originários e anteriores a qualquer 
dispositivo constitucional ou legal, mas um meio de garantir o respeito a esses também cidadãos 
brasileiros.

REFERÊNCIAS

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Penal, Código de Processo Penal, legislação complementar e súmulas do STF e do STJ. 6. ed. 
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