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ANÁLISE DE PROPAGANDAS TELEVISIVAS DE CURSOS DE IDIOMAS

Para esta análise escolhemos a propaganda da Cultura Inglesa. Nela, vemos


inicialmente um homem vestindo roupas neutras, um jaleco e usando um óculos. Essa
composição contribui para que o espectador interprete este homem como uma figura
intelectual. Podemos pensar, por exemplo, que é um cientista ou um professor
(antigamente, não era raro ver professores usando jalecos). Em seguida, um cachorro entra
em cena. O homem começa a dar comandos em inglês para o cachorro, que responde
positivamente, realizando corretamente tudo a que foi instruído. Após o cachorro realizar
alguns dos comandos como sentar, dar a pata, o homem diz “bom garoto”. Ao final da
sequência de instruções, o homem não só elogia o cachorro como o acaricia. Logo depois
do carinho, homem e cachorro começam a sair de cena brincando e dançando, e o locutor
da propaganda diz: “se nosso professor ensinou inglês até pro Billy, imagine pra você. Seja
racional, faça Cultura Inglesa. Nas outras você estuda, na Cultura você aprende”.
A partir do que anuncia o locutor, compreendemos que (1) a figura intelectual é um
professor, (2) esse professor ensinou inglês para o Billy, (3) Billy é o cachorro da
propaganda e (4) o fato de ter ensinado inglês para um ser que não fala serve de
argumento em favor da qualidade do curso Cultura Inglesa. Só ao final descobrimos que se
trata de uma propaganda cujo objetivo é a divulgação do referido curso. Embora não diga
claramente sua abordagem e seu método, apresenta elementos que sugerem a perspectiva
teórica do curso e o modo como se dá a aplicação prática desta. A dinâmica que se
estabelece entre professor e cachorro, por exemplo, poderia ser considerada um elemento
que ilustra a perspectiva teórica e prática da instituição.
Nessa dinâmica, o professor dá instruções, o cachorro responde às instruções
adequadamente e o professor o elogia. Essa sequência instrução, realização e elogio é
bastante similar ao que a corrente behaviorista de estudos psicológicos propunha para a
criação de um hábito condicionado. Tomando como base essa perspectiva, a língua em
uma determinada época passou a ser compreendida como um deste hábitos e sua
aquisição se dava por um processo mecânico que se resumia em estímulo (instrução),
resposta (realização) e reforço (nesse caso, um elogio, mas pode ser uma correção, ou
seja, um reforço negativo). A aprendizagem seria, portanto, totalmente guiada pelo
professor, ficando o aluno em um papel secundário de mero repetidor, visto que este
necessita da validação (resposta) daquele para saber se está ou não aprendendo.
Essa corrente teórica serviu e serve de base para uma das abordagens de ensino de
línguas mais difundidas no mundo: a audiolingual. Esta se desenvolve a partir de algumas
premissas. Uma dessas premissas já vimos: a língua é um conjunto de hábitos. A
propaganda dá outros indícios de que o curso se enquadra nessa perspectiva teórica não
só por desenvolver essa dinâmica estímulo e resposta, mas também pela frase apresentada
ao final do anúncio: “Nas outras você estuda, na Cultura você aprende”. A oposição
ANÁLISE DE PROPAGANDAS TELEVISIVAS DE CURSOS DE IDIOMAS

estudar/aprender pode ilustrar, ainda que de forma não tão evidente, outra premissa dessa
abordagem: ensine a língua não sobre a língua (LEFFA, 1998). O estudo, na propaganda,
pode ser compreendido como um estudo formal, em que o aluno estuda efetivamente as
regras de organização da língua, isto é, de modo dedutivo: aprende as regras e depois as
aplica. Já a ideia de aprender pode refletir o modo indutivo de ensino, em que os alunos são
expostos aos fatos da língua e, a partir da prática ou repetição, depreendem as regras de
estruturação da língua.
Acreditamos que o curso apresente algum método de base audiolingual. Embora
não se apresente precisamente a perspectiva teórica adotada, elementos como a figura do
professor (“nosso professor…”), o modo como conduz dinâmica com o cachorro e a
polêmica se levanta ao final da propaganda (estudar x aprender) podem ser considerados
indícios do modelo de ensino do curso.

Referência:

LEFFA, Vilson J. Metodologia do ensino de línguas. In BOHN, H. I.; VANDRESEN, P.


Tópicos em lingüística aplicada: O ensino de línguas estrangeiras. Florianópolis: Ed. da
UFSC, 1988. p.211-236.

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