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PEDRAS PINTADAS,

PAISAGENS
42 CONSTRUíDAS:
A INTEGRAçãO
ARTIGO
DE ELEMENTOS
CULTURALMENTE
ARqUITETADOS
NA TRANSFORMAçãO
E MANUTENçãO
DA PAISAGEM
Andrei Isnardis1 e vanessa linke2
isnardis@gmail.com
vanessalinke@gmail.com
1
Setor de Arqueologia do MhN-JB da UfMg;
bolsista de pós-doutorado da fAPeMIg.
2
Setor de Arqueologia do MhN-JB da UfMg;
doutoranda do Programa de Pós-graduação em Arqueologia do MAe-USP.
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ReSUMo
Abordagens inseridas na perspectiva da
Arqueologia da Paisagem oferecem a pos-
sibilidade de se discutir os vestígios arque-
ológicos para além de sua materialidade,
ABStRAct abarcando suas intrínsecas relações com
Landscape archaeology approaches os espaços que os contém, considerando
offer the possibility of understanding the estas relações como importante entrada
archaeological remains beyond their mate- para os universos culturais que os produzi-
riality, considering their spatial rela- ram. Neste artigo, pretendemos discutir a
tionships. Those relationships are a way to maneira como as paisagens são construí-
the cultural universe that produced the ar- das a partir de comportamentos expressos
chaeological record. In this paper we pre- nos registros gráficos rupestres que trans-
sent how landscapes are constructed from formam e mantém os espaços constituintes
behavior expressed in rock art. We take as destas paisagens. Utilizamos como objeto
object of analysis the engraved and painted de análise as paisagens pintadas e grava-
landscapes of Diamantina and Vale do Pe- das de Diamantina e do Vale do Peruaçu,
ruaçu, middle and northern of Minas Ge- centro e norte de Minas Gerais, Brasil Cen-
rais, Central Brasil. tral.

Key woRDS: landscape, rock art, Cen- PAlAvRAS-chAve: paisagem, grafis-


tral Brasil. mos rupestres, Brasil Central.

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INtRoDUção social (C. Tilley (2001), T. Ingold (2006), M.


A partir dos anos 1990, a pesquisa arque- Santos (1999), B. Latour (2000)). Nesses tra-
ológica vivenciou uma intensificação da balhos pode-se observar um diálogo mais
preocupação em se relacionar os vestígios e efetivo entre as tradições antropológicas e
sítios arqueológicos aos elementos do mun- arqueológicas anglo-saxônicas e as euro-
do que os rodeia para além de uma repro- péias continentais, mais especificamente a
dução formalizada de métodos de campo e francesa (estruturalismo e antropologia si-
para além dos interesses associados à “Nova métrica) (Tilley, 1991, 2001; Ingold, 2006).
Arqueologia” (elementos da subsistência, As abordagens que se valem da noção de
obtenção e gestão de recursos, estratégias uma paisagem culturalmente construída, e
adaptativas). Essa preocupação que se in- que se inserem no âmbito da chamada Ar-
tensificou passou a considerar a paisagem queologia da Paisagem, floresceram na
não como um conjunto de elementos dos América do Sul na presente década. Estão
quais os grupos humanos dependiam, aos sendo desenvolvidos trabalhos nessa pers-
quais se adaptavam ou que aprendiam a ge- pectiva, diretamente relacionados à grafis-
rir, mas sim como um conjunto de elemen- mos rupestres, na Argentina (Aschero,
tos resultantes do constante relacionar en- 2000), no Chile (Troncoso, 2001), no Peru
tre homens e meio. Nos termos de Knapp & (Morales, 2007) e no Brasil, entre outros.
Ashmore, essa nova perspectiva entende a No Brasil, já há vários anos se postula a
paisagem como “meio e produto da ação prática de uma Arqueologia da Paisagem ou
humana” (Knapp & Ashmore, 1999: 8). uma Arqueologia que busca uma relação entre
Nos estudos sobre arte rupestre, o uso des- diversas categorias de vestígio e o meio em que
sa concepção da paisagem tornou-se um im- essas se inserem, mas os trabalhos se restrin-
portante aparato teórico-metodológico, uma giram a uma caracterização pouco aprofunda-
vez que acrescentou elementos para estudo da dos sítios e seus ambientes ou simplesmen-
de um conjunto de vestígios cujas possibilida- te à inserção topográfica e representação
des de abordagem sempre pareceram mais cartográfica dos sítios. Há, ainda, os trabalhos
restritas, e ofereceu novas possibilidades de em que a relação do homem e o ambiente é
articulação com os demais vestígios e estrutu- considerada e explorada sistematicamente,
ras, o que também sempre experimentou difi- mas cuja base explicativa e arcabouço de refle-
culdades. Essas limitações não foram supera- xão se fundam nas relações econômicas, à ma-
das pelo novo entendimento do conceito de neira da Nova Arqueologia, ou em estratégias
paisagem, mas novos caminhos se abriram adaptativas, nos termos do Neo-Evolucionis-
aos pesquisadores. mo (Kipnis, 2002; Araújo, 2004; Neves & Piló,
Essa nova abordagem encontrou um de- 2007 ; Hermenegildo, 2009) - essas abordagens
senvolvimento importante no continente se assemelham mais a uma ecologia da paisa-
europeu e na Oceania, onde podem ser en- gem (Butzer, 1984). Não há nenhum demérito
contrados autores de referência nesse cam- nesses recursos analíticos, contudo, eles não
po e onde há núcleos permanentes de pes- congregam a priori as relações simbolicamen-
quisa com tal perspectiva (F. Criado (1999), te orientadas (escolhas, percepções, agências)
R. Bradley (2000) P. Taçon (1999), entre ou- entre elementos naturais e as ações humanas,
tros). Houve uma expressiva contribuição e entendemos que é nessas relações que se dá
para o desenvolvimento dessa abordagem a construção da paisagem. Ao mesmo tempo,
por parte dos autores ditos “pós-processua- existem no Brasil trabalhos que efetivamente
listas” e aqueles vinculados à antropologia tentam explorar essas relações e que não se

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preocupam em se enquadrar em abordagens pelo fato de serem entendidos ou não como


arqueológicas específicas (Vialou, 2007; Berra, possíveis alimentos (vide, por exemplo,
2003). Trabalhos que explicitamente adotam a Fausto, 2001). Se nosso objetivo é compre-
arqueologia da paisagem enquanto arcabouço ender as ações humanas pretéritas, enten-
teórico-metodológico e que exercitam uma demos que o comportamento humano é
compreensão da paisagem em que o constante uma ação simbólica (à maneira de Geertz
relacionar entre homens, e entre homens e [1978]). Abdicar desse caráter simbólico do
ambiente é responsável pela estruturação da comportamento humano é abrir mão de
mesma só se desenvolveram na presente déca- compreender como as escolhas foram reali-
da (Comerlato, 2004; Ribeiro, 2006). zadas, de compreender porque tais abrigos
Dois trabalhos que caminharam explici- receberam pinturas e não outros, porque os
tamente nessa direção foram nossas disser- sepultamentos foram realizados naquele sí-
tações de mestrado (Linke, 2008; Isnardis, tio e não em outros.
2004), que tomaram como objeto os grafis- Nosso interesse está em compreender os
mos de duas regiões do Brasil Central en- comportamentos no que diz respeito às es-
quanto construtores de suas paisagens, res- colhas implícitas nas formas de construir e
pectivamente os conjuntos gráficos da manter as paisagens por meio dos grafis-
região de Diamantina e do Cânion do Rio mos rupestres. Entre as peculiaridades dos
Peruaçu (localizados no Centro e no Norte registros gráficos rupestres, que os distin-
de Minas Gerais, respectivamente). guem de outras categorias de vestígios e es-
O objetivo deste artigo é apresentar os truturas, para as quais são necessárias aná-
resultados destas análises empreendidas, lises muita vezes complexas sobre seu
buscando destacar o quanto os diversos descarte e os processos que os alteraram de
conjuntos gráficos dessas áreas expressam sua condição e disposição iniciais de aban-
as relações entre seus diferentes autores e dono, está o fato de que as pinturas e gravu-
os espaços em que viviam, em sofisticadas e ras em paredes rochosas se encontram,
distintas dinâmicas de transformação e de quando os arqueólogos as examinam, nos
manutenção das paisagens. mesmos lugares em que foram intencional-
mente colocadas. Essa imobilidade, nos ter-
DIScUtINDo coM A PAISAgeM mos de Chippindale e Nash (Chippindale &
As atitudes humanas perante os elemen- Nash 2004), está entre as poucas, se não for
tos por nós chamados naturais são orienta- a única, facilidades de abordagem dos re-
das por visões de mundo e concepções filo- gistros gráficos em relação aos demais ele-
sóficas que, na prática, se realizam por meio mentos do registro arqueológico. Isso impli-
da atribuição de significados a esses ele- ca no fato de que, ainda que o cenário
mentos. Essa atribuição de significados in- natural tenha sofrido alterações desde que
tegra a percepção dos elementos e as con- as pinturas e gravuras foram realizadas, al-
dutas em relação a eles. Ainda que os terações pela própria dinâmica do relevo,
elementos em questão estejam relacionados do clima e de outros fatores, e alterações de
à subsistência cotidiana e a necessidades origem antrópica, ao analisarmos os sítios
muito concretas, os significados atribuídos com grafismos rupestres podemos observar
serão fundamentais nas relações estabeleci- sistematicamente diversos elementos que
das. Assim, por exemplo, alguns animais foram considerados pelos seus autores no
serão ou não caçados não pelo simples fato momento de suas escolhas quanto a onde
de estarem disponíveis no ambiente, mas pintar e o que pintar. Esses elementos, cre-

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mos, podem ter tido significado nos com- lógicos no desenvolvimento dos trabalhos.
portamentos, ou seja, estamos lidando com Para lidar com tal ausência de dados com-
as relações entre signos: os grafismos e fei- plementares ao registro arqueológico nos res-
ções ambientais. ta a alternativa de nos debruçarmos efetiva-
O que buscamos não é somente uma re- mente sobre ele, sem buscarmos chaves
lação entre signos, muito menos uma com- explicativas que lhe sejam estranhas. A trama
preensão dos grafismos em si, mas sim o de significados que envolve os locais pintados
sistema simbólico em que todos eles estão e gravados possui uma lógica própria, que en-
envolvidos, expresso nos comportamentos contraria expressão em regularidades na dis-
humanos. São esses comportamentos que tribuição dos temas e estilos pelos diferentes
são nosso objeto de análise, são eles que con- sítios e suportes, em relação com os diversos
sideramos arqueologicamente abordáveis. elementos naturais da paisagem. Buscar as
Contudo, este sistema simbólico não é regularidades nas relações entre os elementos
hermético, nem imutável. Ele é constante- da natureza e os elementos das intervenções
mente estimulado por fatores, fenômenos que gráficas humanas nos permitiria reconstituir,
a principio podem ser externos a ele. Assim, ao menos parcialmente, a lógica de distribui-
os elementos naturais da paisagem não são ção dos grafismos, nos aproximando dos com-
elementos passivos da e na cultura, o que se portamentos simbólicos dos seus autores.
tem é uma relação constante entre aqueles As duas regiões, cujas paisagens tomamos
que observam e aqueles que estimulam a ob- enquanto objeto de análise, a exemplo de ou-
servação e a significação. Tem-se um cons- tras regiões do Brasil Central, possuem um
tante relacionar entre os elementos não hu- grande número de grafismos rupestres que
manos e humanos do ambiente, através da apresentam grande variedade estilística. Nos-
oferta constante de estímulos, de um lado, e sos trabalhos de mestrado sobre as paisagens
atribuições de significado, do outro. da região de Diamantina e do Vale do Peruaçu
Em diversos contextos é possível se ter tomaram por base as análises cronoestilísti-
acesso aos significados atribuídos aos lugares cas dos grafismos de ambas as áreas, ou seja,
e aos seres da natureza através de conheci- análises que definiram conjuntos estilísticos e
mento etnográfico ou etno-histórico, o que delinearam relações cronológicas entre eles1.
fornece um valioso suporte para as análises A noção de estilo é importante nesses tra-
de grafismos rupestres, como os trabalhos de balhos, pois nos permite classificar os grafis-
Christopher Tilley (2001) e de Paul Taçon mos em conjuntos, a partir das semelhanças
(1999), na Austrália. Entretanto, no Brasil, entre eles expressas nas técnicas, temas, te-
não podemos recorrer às populações atuais mática e características associadas aos modos
ou historicamente conhecidas para balizar as de construção gráfica das figuras. O estilo é a
análises, uma vez que não há registros da prá- categoria que nos permite uma aproximação
tica de pintar suportes rochosos por tais popu- das coletividades produtoras dos grafismos,
lações. Para as áreas analisadas aqui, as refe- na medida em que cremos que é preciso um
rências e os estudos etno-históricos são muito importante compartilhamento de referências
pouco ou nada desenvolvidos, o que nos im- culturais para produzir expressões gráficas
possibilita de agregar elementos não arqueo- significativamente semelhantes.

1 As definições dos conjuntos e as bases metodológicas sobre as quais as cronologias relativas foram construídas podem
ser encontradas em detalhe em nossos textos de mestrado e em publicações da equipe do Setor de Arqueologia (Linke, 2008;
Isnardis, 2004; Isnardis, Linke & Prous, 2008; Linke, 2007; Ribeiro & Isnardis, 1996/97; Linke & Isnardis, 2008; Isnardis, 2009).

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A maneira como compreendemos o que dio e baixo cursos do Rio Peruaçu corres-
significa estilo na cultura material nos leva a pondem a um exuberante cânion de rochas
considerar os grafismos rupestres enquanto carbonáticas (predominantemente calcá-
uma manifestação cultural e social, que se vin- rio dolomítico), recoberto por variantes fi-
cula a contexto social e que deve ser entendido sionômicas do Cerrado, distribuídas por
como a consubstanciação de uma forma de seu compartimentado relevo – matas de
pensamento (Criado, 1999). O estilo seria um galeria e ciliar no fundo do cânion, mata
dos comportamentos que integram os sistemas seca nas vertentes e nos topos calcários.
simbólicos pelos quais agem os homens, ou Aparece ainda o cerrado stricto sensu nas
seja, o estilo faz parte de um contexto, de algo chapadas formadas por filito e arenito resi-
“dentro do qual ele pode ser descrito de forma duais.
inteligível” (Geertz, 1978: 24). O cânion corresponde a paredes de anti-
O estabelecimento de relações cronológi- gos condutos subterrâneos (esculpidos pelo
cas entre os estilos é fundamental, pois são as próprio Peruaçu e por seus afluentes), cujos
relações diacrônicas entre eles que nos permi- tetos desabaram em quase toda sua extensão
tem identificar mudanças e diferenças nos mo- – restam ainda trechos em que o rio corre no
dos de perceber e significar os espaços pinta- interior de grandes grutas. Em todo o Vale,
dos, ao mesmo tempo que nos permitem traçar vê-se um intrincado sistema de grutas e abri-
as semelhanças e afinidades entre as significa- gos rochosos, de morfologia variada e diver-
ções, permitindo, pois, discutir os
processos de transformação e ma-
nutenção da paisagem.
Apresentaremos a seguir as
pesquisas empreendidas em cada
uma das áreas trabalhadas por nós
em nossas dissertações de mestra-
do2. Embora as pesquisas tenham
afinidades teórico-metodólogicas,
os contextos de produção das mes-
mas tiveram percursos particula-
res que justificam uma apresenta-
ção menos engessada das análises,
respeitando as peculiaridades das
mesmas (fig. 1).

NAS PAISAgeNS cÁRStIcAS Figura 1 – A inserção das duas áreas de pesquisa


no estado de Minas Gerais
Do vAle Do RIo PeRUAçU
O Rio Peruaçu é um pequeno
afluente perene da margem esquerda do sificada implantação no relevo. Há desde
Rio São Francisco, rio este que corta boa pequenas grutas de menos de 20 metros de
parte do Centro e Nordeste do Brasil. O mé- extensão e abrigos de área muito restrita até

2 A dissertação de mestrado de Andrei foi realizada junto ao programa de pós-graduação do MAE-USP, sob a coordenação da
Prof. Dra. Marisa Coutinho Afonso e a dissertação de Vanessa foi realizada junto ao programa de pós-graduação do IGC-UFMG,
sob coordenação do Prof. Dr. Allaoua Saadi.

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grutas de quilômetros de extensão e cem me- des e pouco numerosas figuras antropo-
tros de altura, e abrigos de mais de 100 me- morfas; Unidade Estilística Piolho de Uru-
tros de largura e várias dezenas de metros de bu, caracterizada pelos zoomorfos e
altura e profundidade. Nas grandes grutas há fitomorfos monocrômicos chapados; Uni-
áreas amplas iluminadas e extensas áreas de dade Estilística Desenhos, que corresponde
penumbra. Os grandes abrigos estão, em ge- a gravuras picoteadas de zoomorfos; Tradi-
ral, associados a grutas amplas e muito orna- ção Nordeste, dominada por grafismos an-
mentadas (fig. 2). tropomorfos organizados em pequenos
Os suportes rochosos pintados e grava- conjuntos e cenas (fig. 3).
dos do Peruaçu são marcados pela diversi- Essas unidades distribuem-se de modo
dade estilística e pela profusão de figuras. diferenciado pelos sítios do cânion. Alguns
Diversos sítios apresentam mais de mil sítios contam com todas as unidades, en-
grafismos e o sítio mais abundantemente quanto outros contam com apenas uma, três
grafado tem mais de 3500 figuras. Foram ou quatro delas. Diante dessa distribuição

Figura 2 – Aspectos da paisagem e das pinturas rupestres do Vale do Peruaçu

delineadas na região nove unidades estilís- distinta das unidades, a pesquisa se propôs a
ticas3, sendo que quatro delas correspon- caracterizar o padrão de escolha de sítio e
dem a momentos de uma mesma tradição. suporte dos autores de cada uma delas, bus-
São elas: Tradição São Francisco (com qua- cando assim reconhecer comportamentos
tro momentos, tratados aqui como quatro simbólicos típicos.
unidades estilísticas), dominada pelos gra- Outra questão central se coloca no mo-
fismos geométricos em policromia; Com- mento de caracterizar e analisar esses com-
plexo Montalvânia, marcada pelos antro- portamentos. Construir uma paisagem por
pomorfos curvilíneos, armas e “pés”; meio dos grafismos implicou para todos os
Tradição Agreste, que corresponde a gran- autores (com a óbvia exceção dos pionei-

3 Neste artigo, em coerência com outras publicações (Ribeiro & Isnardis, 1996/97; Isnardis, 2009; Prous, 1999; Linke, 2008;
Isnardis, Linke & Prous, 2008) utilizamos a expressão “unidade estilística” para designar genericamente todas as unidades
classificatórias de grafismos rupestres, correspondentes a conjuntos estilísticos com coerência cronológica – ao menos, em termos
de cronologia relativa. Contudo, a bibliografia tem utilizado a expressão na nominação de algumas unidades classificatórias
específicas, como Unidade Estilística Desenhos e Unidade Estilística Piolho de Urubu (Ribeiro & Isnardis, 1996/97); em tais
casos este artigo utilizará sempre a expressão em itálico.

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em planta, perfil, iluminação, regularidade do


piso, natureza sedimentar ou rochosa do piso,
orientação cardeal) e à relação dos sítios com
outros elementos que compõem a paisagem
(voltado ou não para o rio, distância do rio, po-
sição no cânion, posição na vertente). Esses
atributos foram relacionados, então, à recor-
rência das unidades.
Para a caracterização do comportamento
de cada uma das unidades estilísticas diante
dos grafismos que os precederam, diversas ati-
tudes podem ser observadas e foram sistema-
ticamente registradas4. Tais atitudes incluem
sobreposições que obscurecem o grafismo an-
terior, repintura parcial, repintura completa,
acréscimos de elementos gráficos (contorno,
traços transversais), sobreposições marginais,
evitamento de sobreposições. A partir da com-
binação dessas atitudes foram descritos os se-
guintes comportamentos típicos: entende-se
por associação o estabelecimento de uma rela-
ção direta por meio de justaposição de temas
semelhantes e/ou respeito à distribuição espa-
Figura 3 – Sequência crono-estilística dos grafismos cial das figuras; ocultamento corresponde a
do Vale do Rio Peruaçu
sobreposições que impedem a visualização
das figuras anteriores; o evitamento significa
ros) atuar numa região já recoberta de nu- uma colocação dos novos grafismos de modo
merosas figuras, uma região que já estava a evitar sobreposições ou evitar as áreas do
carregada de significados anteriores, com painel já muito pintadas, ocupando-lhes a pe-
os quais os autores de novas figuras preci- riferia; o que se descreve como reprodução é a
savam lidar. Havia já uma rede de lugares realização de temas já presentes na parede por
grafados que poderiam ser mantidos, trans- meio de uma repintura das figuras; as interven-
formados e/ou evitados. A via de mão dupla ções são a realização de pequenos retoques ou
entre estímulos e atribuição de significados contornos; a indiferença expressa uma aparen-
incluiu as pinturas precedentes. te despreocupação com a organização do espa-
Para identificar os padrões de escolha de ço gráfico e a presença de figuras precedentes.
sítio e suporte e as atitudes diante dos grafis- A seqüência da ocupação dos suportes
mos já existentes na construção da paisagem, no Peruaçu pode ser vista na fig. 3 onde são
foram elencados para análise diversos atribu- representadas as relações cronológicas en-
tos referentes aos suportes (tamanho e com- tre as unidades estilísticas, ilustradas por
partimentação), à morfologia dos sítios (tama- algumas de suas figuras típicas.
nho, presença de gruta associada, conformação

4 Uma observação sistemática dessas atitudes só foi possível por meio da extensa produção de informações (calques, fotografias,
croquis, digitalizações) sobre um grande número de sítios reunida ao longo de mais de vinte anos de pesquisas na região.

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Tabela 1 apresenta uma síntese dos pa- A região se situa no bioma Cerrado consti-
drões de escolha de sítio e de suporte de cada tuindo-se enquanto um mosaico vegetacional,
um dos conjuntos gráficos delineados no uma vez que apresenta inúmeras variações fi-
Vale. Nele estão sintetizadas também as ati- tofisionômicas. As seguintes feições aparecem
tudes de cada conjunto no momento de reo- na serra (de acordo com a classificação de
cupar suportes. Sano e Almeida, 1998): cerrado stricto sensu,
Essa grande diversidade de comporta- cerradão, campo limpo, campo sujo, campo
mentos será explorada a diante, após a apre- rupestre, vereda, parque cerrado, além de ma-
sentação dos elementos da paisagem da re- tas de galeria e ciliar (fig. 4).
gião de Diamantina. A característica intensamente fraturada

Tabela 1 – Síntese de preferências de sítios e suportes e formas de interação com pinturas precedentes

NAS PAISAgeNS DAS SeRRAS e dos afloramentos quartzíticos da Serra do Es-


PlANAltoS De DIAMANtINA pinhaço favoreceu a formação de infinidades
A região de Diamantina se situa na porção de abrigos rochosos de dimensões variadas,
meridional da cordilheira do Espinhaço, que diferentes posições em relação às vertentes
tem seu início na Serra do Cipó se estendendo e aos afloramentos, diferentes posições em
até o interior da Bahia. A melhor maneira de relação às variedades fitofisionômicas e às
caracterizar a porção meridional do Espinha- drenagens. Diversos desses abrigos foram
ço é como um conjunto de extensos planaltos percebidos e selecionados para receberem
entrecortados por monumentais serras quart- intervenções gráficas pré-históricas. Tais
zíticas com elevadas altitudes e cujas feições se intervenções foram agrupadas na análise
apresentam bastante cisalhadas e fraturadas. em unidades cronoestílisticas, sendo que
A serra do Espinhaço exerce um importante cinco, dos oito criados, são atribuíveis à
papel na dinâmica hídrica do estado de Minas grande categoria classificatória denomina-
Gerais sendo divisor de águas de três grandes da Tradição Planalto. As outras três unida-
bacias - Rio São Francisco, Jequitinhonha e des são classificadas como pertencentes às
Doce – sendo, portanto, detentora de inúmeros tradições Nordeste, Agreste e Complexo
rios, córregos e nascentes, que compõem uma Montalvânia (Pessis, 1988, 2003; Martin,
rica rede de drenagem. 1997; Ribeiro & Isnardis, 1996/97).

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Algumas unidades mantêm relações emblemáticas do Complexo, como os bio-


cronológicas claras entre si, enquanto en- antropomorfos de corpo redondo, os con-
tre outros as relações são difíceis de se es- juntos de tridáctilos ou setas, antropomorfos
tabelecer, como pode ser visto no figura 5. de membros curvilíneos ( fig. 5).

Figura 4 – Aspectos da paisagem na região de Diamantina

A Tradição Planalto aparece na região em As análises empreendidas buscaram rela-


cinco variedades estilísticas, denominadas cionar os aspectos “naturais” ou fisiográficos
aqui como momentos, em função de se trata- dos sítios e de suas inserções com cada uma
rem de momentos consecutivos de ocupa- das unidades estilísticas presentes na área, em
ção dos sítios e suportes. Há entre eles varia- busca dos possíveis padrões de inserção dos
ções regionais típicas em termos de grau de sítios, resultados da interação entre os diversos
naturalismo, forma de composição gráfica,
forma de preenchimento, proporções, di-
mensões. Esses momentos não serão apre-
sentados em detalhe aqui, mas sua caracte-
rização pode ser encontrada em outras
publicações (Linke & Isnardis, 2008, Isnar-
dis, 2009 e Linke, 2008). A Tradição Nordes-
te aparece na região representada por figu-
ras antropomorfas organizadas em pares,
sugerindo cenas de atos sexuais, ou isola-
dos, mas com morfologia muito semelhante
à daquelas que se observam nas cenas. A
Tradição Agreste parece na região represen-
tada por grandes figuras antropomorfas de
tamanho avantajado e “posição estática” (os
chamados “bonecões” [Martin, 1997]). O
Complexo Montalvânia aparece na região
de Diamantina com uma menor diversidade
de temas em comparação com o Vale do Pe-
ruaçu e o do Rio Cochá (no extremo Norte
Figura 3 – Sequência crono-estilística dos grafismos
do estado), mas é possível observar figuras do Vale do Rio Peruaçu

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elementos que compõem uma paisagem, in- que foram manipulados através da atri-
cluindo aí os comportamentos simbólicos en- buição de significados na produção de
volvidos nesta composição. Para tanto, foram uma paisagem – ou paisagens.
analisados trinta sítios situados ao longo de No Peruaçu é possível observar com nitidez
uma das áreas prospectadas – a mais extensa que há padrões de escolha de lugares e supor-
delas e que contém a maior densidade de sí- tes diferentes entre as unidades estilísticas,
tios. Foram realizados diferentes procedimen- conforme se pode ver expresso na Tabela 1. Se
tos técnicos abarcando elementos de macro, pensarmos em grupos humanos distintos
meso e micro escalas: análise de fotografias como autores das diferentes unidades estilísti-
aéreas; caracterização dos elementos de entor- cas, eles teriam diferentes formas de perceber
no dos sítios e do próprio sítio in loco; análise e interferir, diferentes maneiras de construir a
dos grafismos e classificação dos mesmos em paisagem. Qualquer que seja a escala da distin-
unidades estilísticas. Os critérios utilizados fo- ção entre os autores dos diferentes conjuntos
ram selecionados a fim de contemplar caracte- estilísticos – sejam populações culturalmente
rísticas da morfologia dos sítios (tamanho, tipo distintas, grupos culturalmente afins ou histo-
de piso, acesso, característica de suporte, com- ricamente relacionados ou grupos internos a
partimentação do espaço do sítio, orientação uma mesma sociedade -, vêem-se lugares dife-
cardeal da abertura do abrigo); elementos na- rentes serem escolhidos para se pintarem coi-
turais presentes no entorno dos sítios (campo sas diferentes de maneiras distintas. Os dois
– superfície aplainada coberta com vegetação primeiros conjuntos da Tradição São Francisco
de campo -, drenagem, aspectos da vegetação, grafam num número muito restrito de sítios,
nascentes...); posição topográfica do sítio em com uma morfologia de piso e de suporte
relação à vertente e ao afloramento, e das pin- igualmente restrita. A chegada dos grafismos
turas rupestres (unidades estilísticas, temática do Complexo Montalvânia transforma profun-
presente e predominante, e ainda, característi- damente a paisagem, amplia de forma marca-
cas dos suportes ocupados); visibilidade (do da o número de abrigos pintados, incluindo
entorno a partir do sítio e do sítio a partir de outros tipos de suporte e formas de sítio, sem,
pontos no entorno). contudo, deixar de dialogar com os grafismos
Foram trabalhados na pesquisa, exausti- precedentes. Embora os autores dos grafismos
vamente, diversos critérios, sendo que al- do Complexo Montalvânia escolham lugares
guns deles demonstraram recorrências que até então recusados, quando pintam em sítios
podem ser denotativas dos comportamentos já ocupados – todos os já ocupados - estabele-
e relações simbólicas estabelecidas entre os cem relações com as figuras já existentes. Os
diversos autores dos grafismos e o meio. Na autores do Complexo Montalvânia constroem
Tabela 2 que se segue é possível observar as uma nova paisagem, mas mantêm ativa uma
características das paisagens diamantinas paisagem anterior. Nos sítios ocupados pelas
que parecem ter sido valorizadas no mo- pinturas dos conjuntos sanfranciscanos ini-
mento em que se decidiu onde e o que grafar. ciais, os grafismos Montalvânia têm uma dis-
tribuição e ênfase temática que depõem a favor
AS coNStRUçõeS DAS da idéia de que a busca de estabelecer relações
PAISAgeNS: é o que leva seus autores a grafarem ali. En-
DIScUSSão DoS DADoS quanto nos sítios cuja morfologia de suporte é
Em ambas as áreas, Vale do Peruaçu e aquela peculiar ao Complexo Montalvânia, a
Diamantina, são nítidos processos de re- ênfase temática e a organização espacial das
conhecimento de elementos do cenário, figuras é também peculiar e distinta daquela

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Tabela 2 – Padrões observados para as características das paisagens dos sítios da região de Diamantina.

O quadro representa a freqüência de sítios por classe em que foi verificado um padrão. Os tons de cinza variam conforme a maior
ou menor freqüência de sítio (escuro =freqüência alta; mediano = freqüência média; claro = freqüência baixa; branco = ausên-
cia). As categorias assinaladas com * foram avaliadas apenas qualitativamente.

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dos grandes abrigos sanfranciscanos. elementos, além da presença de pinturas, fo-


As unidades sanfranciscanas finais vão ram geridos para essa inserção. A pesquisa
manter as paisagens já construídas, pintando não foi capaz de delinear um padrão de esco-
mais abundantemente nos abrigos escolhidos lha dos abrigos pintados pelos autores da
pelos momentos sanfranciscanos iniciais, mas unidade estilística Piolho de Urubu, mas
também reocupando grande número de sítios pode reconhecer claramente que, uma vez
inaugurados pelo Complexo Montalvânia, vale escolhidos os sítios, o espaço gráfico cons-
dizer, os grandes abrigos de pisos sedimenta- truído por suas figuras é autônomo: não há
res amplos e suportes verticais amplos, e abri- uma obediência em relação aos aglomera-
gos com tetos planos ou escalonados e pisos dos de figuras definidos pelos conjuntos an-
restritos ou irregulares, respectivamente. Con- teriores, nem uma distribuição temática que
siderando os conjuntos (as Unidades) estilísti- guarde qualquer coerência com a distribui-
cos integrantes da Tradição São Francisco e o ção das figuras precedentes.
Complexo Montalvânia, é possível ver uma Quanto às gravuras da Unidade Estilís-
paisagem que é mantida e renovada. E a ma- tica Desenhos, pode-se dizer, em linhas
nutenção e a renovação da paisagem se ex- gerais, o mesmo que observamos em rela-
pressam também num compartilhamento te- ção aos zoomorfos pintados Piolho de Uru-
mático entre esses conjuntos. bu. Não foi possível delinear um padrão de
As unidades estilísticas Piolho de Uru- escolha de sítios, mas as gravuras só ocu-
bu, Desenhos e a Tradição Nordeste tra- pam sítios já anteriormente pintados; dis-
zem, em relação a São Francisco e a Mon- tribuem-se, dentro dos sítios, de uma for-
talvânia, diferenças que não se restringem ma absolutamente peculiar, sobrepondo-se
à temática e aos aspectos gráficos – embora muitas vezes a pinturas antigas. Alguns
sejam aí bem fortes. Diferentes escolhas elementos apontam para uma afinidade
foram feitas pelos autores desses conjun- com a unidade estilística Piolho de Urubu,
tos, que implicaram em reocupar alguns pois, além das semelhanças comportamen-
painéis e sítios, não reocupar outros e tais em termos da reocupação dos sítios e
inaugurar sítios novos. da construção autônoma do espaço gráfico,
Os grafismos da Unidade Estilística Pio- há associações homotemáticas diretas.
lho de Urubu não ocupam todos os sítios já A chegada dos grafismos atribuíveis à Tra-
pintados, mas só ocupam sítios previamente dição Nordeste realiza uma transformação da
pintados. Embora eles não compartilhem paisagem de pinturas do Vale. Pela primeira
quase tema algum com os conjuntos prece- vez, desde que as pinturas do Complexo Mon-
dentes, nem realizem associações temáticas talvânia foram compostas, um número expres-
diacrônicas recorrentes com eles, a paisa- sivo de abrigos tem suas paredes pela primeira
gem de que seus grafismos participam é for- vez feitas suportes. Os autores da Tradição
mada pelos locais já anteriormente integra- Nordeste são autores de uma paisagem nova,
dos a paisagens pintadas. Embora não haja que integra parcialmente as paisagens pinta-
uma interação entre temas, há uma intera- das anteriores, mas é distinta delas. Essa inte-
ção por meio dos locais pintados. Pode haver gração parcial se faz perceber na medida em
uma convergência de valoração de elemen- que os grandes sítios muito pintados anterior-
tos da paisagem ou uma busca (não exausti- mente (onde se viam centenas ou milhares de
va) de locais já grafados. As pinturas Piolho figuras São Francisco, Montalvânia e Piolho de
de Urubu se inserem em uma paisagem Urubu) são reocupados pelos conjuntos de an-
construída, embora não fiquem claros quais tropomorfos Nordeste, que se limitam às mar-

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gens dos painéis já compostos ou a pequenos tios na paisagem. Esse padrão é composto
espaços vazios em seu interior, evitando sobre- por diversos elementos recorrentes: proxi-
posições. Em outros sítios se pode ver essa in- midade imediata com áreas de campo, fácil
tegração da paisagem pré-existente acompa- acesso a partir destes, dimensões da área
nhada de um comportamento transformador: abrigada, pisos regulares e com superfície
sítios em que havia poucos grafismos de outras sedimentar significativa, suportes amplos
unidades e que receberam um número expres- disponíveis, proximidade com cursos
sivo de grafismos Nordeste. A criação de uma d’água, grande visibilidade dos sítios à dis-
paisagem nova se torna mais evidente na ocu- tância e grande visibilidade do entorno a
pação, pelos antropomorfos desse conjunto partir dos sítios. Tal padrão é uma moda,
estilístico, de abrigos cuja morfologia e inser- em sentido estatístico; mais que isso, a
ção na paisagem escapam inteiramente àque- grande maioria dos sítios corresponde a
las que até então se observavam – abrigos de esse padrão (mais de 80% deles), mas nem
área muito reduzida, às margens das águas do todos os sítios enquadram-se rigorosamen-
Peruaçu. Assim, às diferenças estritamente te- te nele. Isso possivelmente indica uma per-
máticas e gráficas, se somam diferenças com- cepção dos elementos da Serra não rígida,
portamentais nas percepções e significações que não exclui enfaticamente lugares com
dos elementos da paisagem. elementos um tanto variados. Em nenhu-
Portanto, o que se vê no cânion do Perua- ma ocasião, contudo, todos esses elemen-
çu são comportamentos que constroem, tos são descartados. O que parece é que os
mantêm e transformam paisagens, à medida lugares são avaliados de modo a se aproxi-
que diferentes conjuntos cronoestilísticos mar do padrão, mantendo-se sempre a
vêm agregar suas cores às paredes de pedra. maioria dos elementos.
Já em Diamantina, enquanto não se O padrão de inserção foi criado pelos
percebem relações típicas entre os conjun- autores do Primeiro Conjunto da Tradição
tos, nota-se um estreito compartilhamento Planalto. Inauguradores do padrão, eles
dos atributos naturais na construção e ma- são, contudo, econômicos no modo de
nutenção da paisagem da Serra. transformar a paisagem, seja no número
A grande unidade classificatória de gra- de locais pintados, seja no número de figu-
fismos rupestres dominante da região é a ras em cada sítio.
Tradição Planalto e são seus autores aqueles A unidade estilística subseqüente, o Se-
inauguradores dos espaços gráficos dos abri- gundo Conjunto Planalto, reproduziu e
gos quartzíticos da Serra, transformando um ampliou o padrão, inaugurando novos sí-
cenário, construindo uma paisagem. tios, ampliando a arquiteturação da paisa-
Subdivididos regionalmente por cinco di- gem. Todos os sítios já ocupados são reocu-
ferentes unidades estilísticas, os grafismos pados e os sítios inaugurados enquadram-se
da Tradição Planalto mantêm profunda rela- estritamente no padrão. Reconstruir pare-
ção com os locais em que foram intencional- ce elementar no comportamento dos pinto-
mente colocados (como assim, o que isso res do segundo conjunto, uma vez que es-
quer dizer?), demonstrando um perceber e tes reocupam não apenas o sítio, mas
significar, ou seja, um intenso relacionar en- também os painéis, realizando intensas so-
tre seus autores e os diversos elementos que breposições e construindo um espaço grá-
compõem as paisagens dos sítios. fico carregado de interações: novas figuras
Foi reconhecido com suficiente clareza são realizadas aproveitando elementos
um padrão dominante de inserção dos sí- gráficos já dispostos sobre os suportes ro-

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chosos, sejam estes atribuíveis ao momen- tios definidos pelos autores dos Primeiro e
to anterior de grafismos ou ao próprio Se- Segundo conjuntos da Tradição Planalto e
gundo Conjunto. Vê-se aí uma construção mantidos pelos momentos seguintes, sem
da paisagem que é tanto sincrônica quanto inaugurar nenhum novo abrigo. Embora se-
diacrônica. jam conjuntos com temática distinta das de-
O Terceiro Conjunto da Tradição Planalto mais, os locais escolhidos são os mesmos.
parece valorizar os mesmos elementos com- Esse comportamento poderia ser entendido
ponentes dos locais escolhidos para grafar, ou explicado de duas maneiras. Uma delas
mantendo uma lógica de construção da paisa- seria ter havido um compartilhamento entre
gem ao agregar seus grafismos aos locais já os autores do Complexo Montalvânia e os
pintados. Mas, ao mesmo tempo, valoriza es- autores da Tradição Planalto da valorização
paços ou inserções distintas, até então descar- dos mesmos elementos não humanos do
tados. Inaugurando sítios de morfologia e in- abrigo e do seu entorno. Isso os levaria a es-
serção diferentes, o conjunto modifica a colhas coincidentes. Uma outra explicação
paisagem pintada. Mesmo com essa modifica- seria a escolha dos locais pelos autores do
ção, os locais preferenciais para se pintar con- Complexo Montalvânia se dar em função da
tinuam sendo os da ordem já estabelecida. existência de pinturas precedentes. As duas
O Quarto e o Quinto conjuntos foram explicações não são mutuamente excluden-
até agora observados num número muito tes, elas podem ser complementares. Seja a
restrito de sítios, o que não permite identi- escolha dos locais função de elementos não
ficar padrões de escolha. Contudo, os sítios antrópicos compartilhados, seja função da
por eles ocupados correspondem ao pa- existência de pinturas precedentes, a busca
drão dominante definido pelos momentos por sítios a pintar não foi exaustiva, pois res-
iniciais e, mais que isso, correspondem a tam muitos sítios sem pinturas Montalvânia,
sítios já transformados: todos os sítios que entre eles majoritariamente sítios dentro do
ocuparam já continham pinturas do Pri- padrão, mas também sítios que escapam a
meiro e/ou Segundo conjuntos. ele (os sítios inaugurados pelo Terceiro Con-
O Quarto conjunto mantém o padrão junto Planalto).
dominante não apenas na escolha de quais O Complexo Montalvânia, portanto,
abrigos ocupar, mas também na definição mantém a lógica de escolha, mantendo as-
de quais espaços dentro dos sítios seriam sim a lógica de construção da paisagem fir-
grafados; suas figuras ocupam os painéis mada pela Tradição Planalto.
mais intensamente pintados, ou seja os A Tradição Agreste e a Tradição Nordeste
mais escolhidos entre os autores dos gra- aparecem em poucos dos sítios trabalhados
fismos, sobrepondo-se, portanto, às figuras na região, permitindo falar mais de tendên-
anteriores. Já o quinto conjunto, enquanto cias do que de padrões de escolha. Mas antes
mantém os locais –abrigos – nos quais gra- de discutir as tendências precisamos ressal-
far, mantendo, portanto, uma lógica de tar o fato de que os grafismos atribuídos a
construção de uma meso-paisagem regio- essas duas unidades estilísticas assim o fo-
nal, modificam, transformam a paisagem ram por corresponderem a temas muito dis-
interna ao sítio, escolhendo suportes não tintos dos temas emblemáticos da Tradição
pintados até então. Planalto e do Complexo Montalvânia. Tra-
O Complexo Montalvânia, diante das inú- tam-se de figuras antropomorfas em posição
meras possibilidades de escolha de abrigos estática e em cenas de sexo. Também em ra-
oferecidos pela Serra, pinta somente nos sí- zão da baixa expressividade dessas figuras

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nos sítios em que elas aparecem, é difícil fa- entre homens e entre homens e o meio em
lar que elas de fato correspondem a essas que vivem, engendram, pelas suas particula-
unidades estilísticas. Sua atribuição segura a res combinações, as histórias de manuten-
unidades estilísticas está sendo rediscutida, ção/transformação das paisagens por meio
por meio de coletas mais intensivas e exten- dos grafismos rupestres nas duas regiões.
sivas de dados. As diferenças nos modos em que as
No caso dos grafismos atribuídos à Tradi- duas paisagens foram transformadas e
ção Nordeste podemos observar que eles só mantidas são regidas, por um lado, por
ocorrem em abrigos voltados para Nordeste suas diferenças aparentes – o modo como
ou Sudeste – o que é raro entre os abrigos da a paisagem se apresenta vai agir sobre o
serra. Os grafismos atribuídos à Tradição modo como ela é percebida – e por outro,
Agreste só são percebidos em sítios com dis- pela possível diferença existente entre seus
tâncias longas da água – o que é também autores munidos de suas concepções filo-
raro nos abrigos da região. Essas caracterís- sóficas e de visões de mundo possivelmen-
ticas são buscadas entre os abrigos já pinta- te particulares.
dos, que tiveram seus atributos manipulados As relações primordiais e subseqüentes
pelos autores precedentes. Portanto, os auto- entre os diferentes agentes das duas paisa-
res dos grafismos atribuídos àquelas duas gens são responsáveis pelas construções
unidades estilísticas mantiveram uma lógica históricas das mesmas, em que atribuição
transformadora da paisagem, sendo, contu- de significado é tão importante quanto sig-
do, mais restritivos quanto à escolha dos lo- nificantes e significados em si, no momen-
cais a serem pintados. to em que alude a ações de transformação
Em Diamantina, a paisagem é transfor- e manutenção dos espaços vividos.
mada por meio de uma lógica continuada,
pois os elementos e lugares são compartilha-
dos por todos os conjuntos (ao menos não
são desprezados nem negados por nenhum
deles). À medida que novos elementos são
compostos, são agregados à paisagem, ela é
transformada, mas esta transformação se dá
por meio de uma lógica que se mantém.
Na paisagem de Diamantina, manuten-
ção e transformação são fenômenos que se
combinam, que não são incompatíveis nos
processos de (re)significação da paisagem.
Quando dirigimos nossos olhares para
as paisagens diamantinenses e peruaçua-
nas percebemos diferenças marcantes no
modo como estas se apresentam, tanto do
ponto de vista fisiográfico quanto do ponto
de vista arquitetônico, em que estiveram
interagindo aspectos dicotomicamente de-
nominados de naturais e culturais.
Os comportamentos assumidos diante
das paisagens, que constituem as relações

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