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Anjo Negro

“Nelson Rodrigues supera sua própria obra em Anjo Negro. Todas as qualidades líricas e
dramáticas reveladas em Vestido de Noiva, o autor supera nesta tragédia em que a luta
entre o preconceito e os complexos raciais criam um clímax esquiliano”.
Menotti del Picchia

“Retratando, e levando às últimas consequências, os estereótipos racistas cultivados pela


nossa ‘democracia racial’, Nelson demolia as absurdas pretensões à harmonia racial
dessa mesma classe dominante, a qual oprime e descrimina o negro até hoje”.
Abdias do Nascimento

Nelson Rodrigues costumava dizer que a peça Anjo Negro já nasceu com ele. Com a
idéia central de que todo o brasileiro tem preconceito contra os negros, a “tragédia em três
atos” deveria ter sido sua segunda peça, logo após A Mulher sem pecado. Como quis
instigar a platéia apática da estréia de sua primeira, fez Vestido de Noiva e adiou o projeto.
Em seguida veio Valsa nº 6, peça inadiável devido ao enorme sucesso do monólogo As
mãos de Eurídice. Quando a história de Sônia foi censurada, Nelson Rodrigues decidiu se
sentar para escrever seu grande projeto: Anjo Negro.
Contando a história de um médico negro de sucesso, Nelson decidiu trocar o mito
do incesto, presente em sua peça mítica anterior, pelo mito do preconceito racial. Não
espere, porém, um tratado sociológico sobre o tema. Nelson Rodrigues não tem o dom da
palavra racional nem é chegado em levantar bandeiras políticas. Sua idéia era muito mais
complexa: mostrar um negro que, por preconceito contra a própria raça, enclausura-se
dentro de casa com a mulher branca e preconceituosa, Virgínia, casada com ele à força.
A atmosfera é densa, todos ali são preconceituosos. Ninguém pode se aproximar da
casa de muros altos nem sair para a rua. Virgínia mata um a um os filhos pretos que nascem
de sua união com o marido, afogando-os no tanque. Ismael finge que não vê, pois renega a
própria cor. Obra difícil e aberta a várias interpretações, Anjo Negro é considerada
atualmente a grande obra-prima de Nelson Rodrigues. Na época, entretanto, uma peça com
tal enredo estava fadada ao fracasso. Nem tanto. Apesar da interdição da censura, em
janeiro de 48, Nelson Rodrigues se empenhou em levá-la aos palcos e tratou de pedir
parecer favorável à peça a todos os seus amigos. A maioria, porém, se mostrou resistente
em contribuir para a liberação.
O dramaturgo garante que uma apenas uma meia dúzia gostou de Anjo Negro:
Pompeu de Souza, Prudente, Manuel Bandeira, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e
Rubem Navarro. O ator Agnaldo Camargo, da turma dos que odiaram, chegou a dizer:
“Mas isso não existe! Não há esse problema no Brasil. Você acha que uma diferença
epidérmica vale alguma coisa?”. Incansável, Nelson Rodrigues apelou para duas
instituições de peso no Brasil da época: o ministério da Justiça e a Igreja Católica. Da
instituição com maior fiéis no Brasil, conseguiu apoio do padre Leonel Franca, que
defendeu ardorosamente a peça.
Só faltava então o parecer do próprio ministro da Justiça, Adroaldo Mesquita da
Costa. Sem a menor cerimônia, Nelson Rodrigues telefonou para o gabinete do político e o
convidou para jantar em sua casa. Comendo a macarronada de Elza e brincando com seus
filhos pequenos, Nelson Rodrigues convenceu o político pela simplicidade. Ruy Castro
conta em O Anjo Pornográfico que o ministro não entendeu como aquele simples e caseiro
escritor poderia ser visto pela censura como um monstro disposto a abalar as estruturas da
sociedade. Não demorou muito para que ele assinasse um parecer e Anjo Negro fosse
finalmente liberada.
A peça estreou em 2 de abril de 48, no teatro Fênix do Rio de Janeiro, repetindo a
dobradinha Ziembisky-Nelson da celebrada Vestido de Noiva. Entretanto, nem tudo correu
como Nelson imaginou. O autor queria Abdias do Nascimento, ator negro e com fama
ascendente, para o papel de Ismael. Os teatros, milagrosamente, não viram nenhum
empecilho na peça, mas nenhum deles concordou em levar um ator negro aos palcos, ainda
mais no papel principal. A vontade de ter um “grande negro de ventas triunfais”
personificando o médico bem sucedido, então, teve que ser deixada para trás. Quem
interpretou Ismael foi um engraxado Orlando Guy, ator da companhia de Maria Della
Costa, responsável pela primeira encenação de Anjo Negro. Apesar de não ter seu maior
desejo realizado, um negro interpretando papéis fortes e não “moleques gaiatos”, Nelson
Rodrigues deve a Anjo Negro um grande feito em sua vida: foi graças à bilheteria da peça
que conseguiu dinheiro para comprar seu 1° imóvel, um sobradinho com varanda e escada
de mármore, na rua Agostinho Menezes, a cinco quadras da Rua Alegre.

Sinopse: Anjo Negro começa mostrando a “prisão domiciliar” de Ismael, médico


negro e rico que parou de clinicar, e Virgínia, sua mulher, linda, loira e preconceituosa. O
histórico de vida do casal é bastante complicado e segue o estilo rodrigueano de olhar para
o passado: Ismael foi embora da casa da mãe após uma discussão onde a culpava por ser
negro; Virgínia, órfã de pai e mãe, foi criada pela tia junto com três primas. Virgínia
roubou o namorado da prima mais nova e foi flagrada pela menina e a tia num beijo. A
menina não agüentou a dor e se enforcou no banheiro. Para se vingar, a tia, personagem
sem nome próprio, entregou Virgínia ao negro Ismael, que a estupra e depois se casa com
ela.
Com esse passado, o casamento de Ismael e Virgínia não poderia ser simples. Ela
nutre um misto de amor e ódio pelo marido e tem verdadeiro pavor a mestiçagem.
Assassina um a um os filhos que nascem desta união. Os sentimentos dúbios do casal,
mistura de preconceito e atração, são tão acentuados que Ismael nem pensa em denunciar a
mulher pelo triplo assassinato. “Os crimes nos uniam ainda mais; e por que meu desejo é
maior depois que te sei assassina”, ele diz. Elias, o irmão branco e cego, aparece na casa
para realizar o último desejo da mãe agonizante: amaldiçoar o casal. A princípio, Ismael
não deixa o irmão de criação entrar, pois não quer nenhuma espécie de intervenção do
mundo exterior. Acaba concordando, já que é dia do enterro do terceiro filho dele com
Virgínia.
Para impedi-la de ver seu irmão branco, Ismael tranca Virgínia no quarto do casal.
Mas ela suborna a empregada e acaba se encontrando com Elias na sala. No intervalo entre
o enterro do menino e a hora em que Ismael chega em casa, Elias se apaixona por Virgínia
e transa com ela. A mulher conta para o marido que manteve relações com o irmão de
criação dele, e Elias acaba morto, com um tiro no ventre. Da breve união de Elias e
Virgínia nasce Ana Maria, branquinha e loira. A sorte de Ana Maria foi nascer menina, pois
se Virgínia desse a luz a um rebento macho, Ismael mataria como ela fez com os filhos do
casal. Quando viu que era uma menina, Ismael decidiu cegá-la com ácido. Ele aproveita
para mentir para a menina que é o único homem branco num mundo de negros. Neste
momento, o público fica sabendo que Elias também ficou cego porque Ismael trocou os
remédios por inveja de sua pele branca.
Ana Maria cresce alheia ao mundo e tendo certeza de que seu pai verdadeiro é
Ismael, um homem branco e bem sucedido. Como é de praxe nas peças míticas de Nelson
Rodrigues, a menina tem uma relação conflituosa com a mãe, chegando mesmo a odiá-la, e
acaba se apaixonando pelo “pai”. Foi Ismael, inclusive, quem desvirginou Ana Maria. A
paixão da menina é correspondida, já que Ismael constrói uma redoma de vidro para ele e
Ana Maria, juntos, se isolarem ainda mais do mundo. Virgínia, porém, convence o marido
que aquela história de atração e repulsa pertence a ele e a ela, mais ninguém. Ana Maria é
apenas um apêndice inconveniente da complicada vida do casal. O médico então coloca
Ana Maria no “túmulo de vidro” e vai para a cama com a mulher fazer um novo filho. Nas
palavras do coro de mulheres, um futuro “anjo negro”, que nascerá para ser assassinado
logo depois. Naquela casa, não há lugar para mais ninguém além do problemático casal
formado pelos preconceituosos e complexos Ismael e Virgínia.

Forma: Anjo Negro tem uma história intrincada, mas os símbolos utilizados pelo
dramaturgo são ainda mais complicados. O clima é trágico, com uma idéia de fatalidade
presente na relação entre Ismael e Virgínia. Várias vezes ela tem a chance de fugir e tentar
a sorte em outro lugar, mas acaba sempre ficando. No fundo, acredita que aquela casa
trancada para o mundo é o seu lugar. Semelhante às grandes tragédias gregas, onde a
maldição atinge todo o clã, a mãe de Ismael o amaldiçoa porque ele repudiou a própria cor.
A praga cai então sobre seus filhos com Virgínia, assassinados um a um porque não são
brancos como ela queria.
Virgínia é a personagem mais importante da peça. É através dela, um verdadeiro
arquétipo do preconceito racial, que o autor expõe suas idéias sobre o racismo no Brasil.
Mulher branca como o talco, Virgínia tem medo de negros e reclama o tempo inteiro do
cheiro da raça de seu marido. Diz para Elias que não adiantaria fugir, pois o cheiro de suor
de Ismael já está dentro da sua alma e vai morrer com ela. Sua relação com o marido sugere
dependência, ódio, repulsão e atração. Quando Ismael diz que vai entrar no túmulo de vidro
com Ana Maria, Virgínia diz que sempre o amou e que desde pequena se imaginava casada
com um negro. Apesar de Nelson Rodrigues não explicitar no texto se ela realmente amou
o marido ou se falou tudo aquilo para se ver livre da morte, fica bastante clara a
dependência de Virgínia em relação a ele.
Ismael, por sua vez, representa o negro que tem preconceito contra a própria raça.
Nelson Rodrigues sempre disse que, antes mesmo do branco, sempre foi o negro o maior
preconceituoso. Para representar esse símbolo da sociedade brasileira, criou Ismael, o negro
que fazia o possível para não ser negro. Nunca se aproximou de mulheres negras, não
tomava cachaça, que considerava bebida de negro, tirou da parede o quadro de São Jorge e
se casou com uma branca para provar sua “superioridade”. Seu preconceito é tão grande
que foi capaz de cegar e matar aqueles que ameaçassem sua condição racial. Sua vida
inteira foi movida por esse ideal de inferioridade. Estudou para conseguir ser rico e entrou
na faculdade de Medicina para provar que era capaz. Quando tinha dinheiro suficiente,
parou de clinicar e se trancou numa casa onde só era permitida a entrada de homens negros.
As personagens secundárias são poucas, mas de imenso poder dramático e plástico.
Como pontos de apoio para os protagonistas, Nelson Rodrigues criou as tias e as primas
solteironas, que só aparecem na morte do terceiro filho do casal, e a criada Hortênsia,
comparsa de Virgínia que aceita subornos para destrancar a porta do quarto da patroa. A
peça explora também a presença de quatro negros, coxeiros da última criança morta, a
única que o espectador vê em cena. Nos mesmos moldes de Álbum de Família, os coxeiros
andam descalços e semi-nus. Tem, sobretudo, efeito plástico, mas não chegam a formar um
coro, já que as aparições são episódicas. O coro, na verdade, é formado por dez pretas
idosas e descalças. Apesar de modernizado, ele funciona exatamente como na tragédia
grega, servindo principalmente para mostrar ao espectador a opinião de alguém que está
fora da tragédia. Pontua as ações e dá um descanso para o peso da relação entre Ismael e
Virgínia. Contrasta, pela simplicidade, com a existência conturbada dos protagonistas e
presta informações úteis à trama.
Apesar de falar essencialmente sobre o choque do negro com o branco, tema
recorrente na própria história do Brasil, Anjo Negro não tem intenção de verbalizar sobre o
racismo. Como assinalou o crítico Sábato Magaldi, a peça funciona mais como um
mergulho poético e simbólico no tema. O enredo é construído para que o espectador se
envolva nele, e não para a platéia pensar sobre ele. O mito do racismo é mostrado através
de elementos poéticos e metafóricos, como a presença de dois cegos em cena, os
infanticídios cometidos pela mãe preconceituosa, a linguagem poética e delirante, a mistura
confusa entre atração e repulsão, etc. Não foi escrita para esclarecer coisa alguma sobre o
racismo, e sim para abrir os olhos do espectador para esta característica tão comum aos
brasileiros.
As preocupações sociais do autor resumem-se a caracterizações de personagem. Ele
fez questão, por exemplo, de não mostrar o negro como uma figura folclórica e decorativa.
Fugiu dos estereótipos e do sentimento paternalista, tratando a raça negra como uma outra
qualquer. Sua peça é sobre o preconceito, mas seus personagens possuem dramas
universais, presentes em todas as raças. O ciúme patológico, o combate entre mãe e a filha,
o incesto e as relações de dependência entre casais são apenas alguns dos dramas humanos
que Nelson Rodrigues representou na vida do negro Ismael e da branca Virgínia. No livro
Nelson Rodrigues Expressionista, Eudynir Fraga diz que “Ismael e Virgínia estão tão
alienados da ‘normalidade da existência’, envolvidos numa ligação de tal forma patológica,
que não se prestam a exemplificar análises sociológicas do problema de preconceito racial
no Brasil”.
A polaridade típica da obra de Nelson Rodrigues é um dos grandes eixos de Anjo
Negro. Virtude/vício, paixão/ódio, atração/repulsa, sexo/castidade são relações que já
aparecem em peças como Vestido de Noiva, mas é em Anjo Negro que elas se realizam de
maneira intensa. O desejo e o nojo que Virgínia sente por Ismael é o desencadeador
principal de todas as tragédias que acontecem na grande casa solitária. Os dramas provêm
da dificuldade em conciliar os opostos, a raiva e paixão que Virgínia sente pela raça negra.
E, por que não, raiva que o próprio Ismael sente pela mulher. A autodestruição das
personagens nasce exatamente desta tentativa fracassada de conciliação dos opostos.
A linguagem poética, e extremamente fora dos padrões realistas, é um dos pontos
fortes da peça. Oscilando entre a religiosidade e a blasfêmia, os diálogos são repletos de
frases de efeito - belas, plásticas e sem muito sentido racional. “É uma menina! Porque
nasceu nua!”, diz o coro, no nascimento de Ana Maria. O clima lírico e os diálogos
coloquiais fortificam ainda mais a carga dramática de Anjo Negro. A linguagem da poesia é
mais acentuada em Nelson Rodrigues justamente nas peças míticas, talvez para
contrabalançar com a verdade nua e crua exposta pelo dramaturgo nessas situações.
Anjo Negro tem muitos pontos de contato com Todos os filhos de Deus têm asas, de
Eugene O’Neill, não sem razão o dramaturgo preferido de Nelson Rodrigues. A peça
americana também trata da história de um negro bem-sucedido que se casa com uma
branca. A mulher também tem uma relação ambígua com o marido, misturando amor e
ódio, atração e repulsa. O relacionamento do casal é igualmente destrutivo e também
transcorre 17 anos do primeiro ao último ato. Quando comentaram a semelhança entre os
textos, Nelson Rodrigues disse que estava espantado com a demora das pessoas para
associar as duas obras. Concluiu dizendo que não falou antes para ver se alguém perceberia
a semelhança, já que poucos no Brasil tinham lido O’Neill.

Estrutura: Considerada por muitos uma obra prima, Anjo Negro mostra como
nenhuma outra peça a intuição teatral de Nelson Rodrigues. Tanto a estrutura da peça
quanto a forma como ela foi montada são consideradas perfeitas por qualquer crítico que
entenda um mínimo de teatro. No processo de criação, o autor colocou no palco vários
elementos que contextualizam e enriquecem a obsessiva relação de Virgínia e Ismael. O
mais visível deles é, sem dúvida, o termo extremamente branco que Ismael usa durante toda
a peça para tentar travestir sua condição negra.
O cenário, assinado por Ziembinski, está de acordo com o clima opressivo da peça e
funciona como uma projeção da mente atormentada dos protagonistas. Para mostrar o
enclausuramento do casal e, posteriormente de Ana Maria, Nelson Rodrigues rodeou a casa
de janelas e muros altíssimos. Simbolicamente, não existe teto e não se vê o sol. Em cima
da casa de Ismael e Virgínia só a escuridão vinga. E, talvez por conta da maldição da mãe
de Ismael, abandonada por ter lhe legado o preto da pele, uma escuridão sem estrelas, como
frisa o próprio autor numa rubrica para o cenógrafo. À medida que Ismael e Virgínia vão se
fechando cada vez mais em seu mundo particular, completamente alheio às convenções da
sociedade, os muros da casa vão aumentando. O local da casa onde mora o casal e Ana
Maria é indefinido, como convém a uma tragédia com pretensões universais como Anjo
Negro. Há apenas uma vaga referência ao norte do país,
A presença de dois cegos, Elias e Ana Maria, dá um ar misterioso e transcendental à
Anjo Negro. Contribuem para o belo efeito plástico atingido por Nelson Rodrigues, assim
como a presença de cenas fortes. O momento em que Virgínia agita sinos desenfreadamente
enquanto seu filho é levado para sete palmos abaixo da terra é de extrema agonia e
plasticidade para a platéia. Uma outra cena considerada antológica está no terceiro ato,
quando Virgínia e Ismael trancam Ana Maria no túmulo de vidro e deixam a menina se
debatendo e gritando enquanto fazem mais um filho que será assassinado. A idéia de usar
um túmulo de vidro, parecido com o de Branca de Neve, aproxima ainda mais a platéia do
drama vivido pela menina cega. Sem contar que um túmulo de vidro no meio do palco dá
uma carga visual extra à peça. Na casa de Ismael e Virgínia todos serão sacrificados, só
assim restará para sempre e somente o primitivo casal, aquele deu origem a tudo.
Não há silêncio em nenhum momento. Um coro de negras que reza orações para o
filho morto de Ismael e Virgínia na primeira cena da peça não sai nunca do palco. A cada
momento de silêncio entre o casal, o coro retoma as orações ou faz comentários
elucidativos sobre a vida casa sem teto. O coro em Anjo Negro funciona como uma música
sacra, contribuindo, sobretudo, para criar uma atmosfera onde o amor e o pecado caminham
de mãos dadas. As negras também comentam o cotidiano de Ismael, Virgínia e a filha,
fazendo revelações importantes sobre eles. A função explicativa do coro foi adaptada da
tragédia grega, onde essas personagens faziam uma espécie de reflexão moral e clareavam
o tema para o espectador que não estivesse compreendendo a peça por completo.
Aristóteles, em sua poética, chama o coro de “espectador ideal” – aqueles que entendem
tudo.
O coro transita por todos os lugares da casa. Começa no velório do menino, no
andar debaixo, e vai até o quarto onde Virgínia foi trancada, sozinha, pelo marido. Lá o
espectador toma conhecimento pela primeira vez da dimensão do preconceito de Virgínia.
Através das palavras do coro, a platéia fica sabendo que ela não chorou nenhuma lágrima
pela morte do último filho que morreu. As negras dizem ainda que ela não gostava da
criança porque ela nasceu com a cor do pai, como as outras três. A platéia fica sabendo
também que outros dois filhos do casal morreram na mesma idade, em circunstâncias
parecidas. No segundo ato, a ação fica toda nas mãos dos protagonistas e o coro não
aparece. Ele volta então para abrir o terceiro ato, onde acontece um pulo de dezesseis anos
na ação. Durante momentos importantes da peça, portanto, o coro vai pontuando as ações
com comentários. É ele, inclusive, quem fecha a história. E as palavras de encerramento
nos dão base para imaginar o verdadeiro desfecho desta obsessiva história de amor:

Ó branca Virgínia! Mãe de pouco amor! Vossos quadris já descansam! Em vosso


ventre existe um novo filho! Ainda não é carne, ainda não tem cor! Futuro anjo negro que
morrerá como os outros! Que matareis com vossas mãos! Ó Virgínia, Ismael! Vosso amor,
vosso ódio não têm fim neste mundo! Branca Virgínia... Negro Ismael...

Frases:

“E tu, Virgínia, maldita sejas! Quero que só tenhas para teu amor um leito de chamas e de
gritos; que teu desejo seja uma febre; e que a febre ilumine os teus cabelos e os devore; e
que, ao morrer, ninguém junte, ninguém amarre teus pés de defunta! Maldita, assim na
Terra como no Céu!”.
Tia

“Se tivesses conhecido teu pai. E como era belo – nunca vi lábios tão meigos! Ele poderia
possuir a mim, ou qualquer mulher, e não haveria pecado – nenhum, nenhum! O corpo
ficaria mais puro do que antes...”.
Virgínia

“Mulher branca, de útero negro”.


Senhora do coro

“O mundo reduzido a mim e a você, e um filho no meio – um filho que sempre morre”.
Virgínia

“Você não gostou nunca de mim. Quando você aparece, eu sinto que o ar já não é mais o
mesmo, é outro; sinto o frio do seu coração. Não foi preciso que meu pai me dissesse – eu
soube, por mim, desde criança, que você é minha inimiga. Você me odeia, e não é de hoje –
desde que eu nasci!”
Ana Maria
“Por que você me fecha aqui? Se você sempre me deixou andar pela casa? Tão bom ver
outras paredes que não sejam essas; as paredes da sala, do corredor... Tão bom mesas,
cadeiras, e não só essas duas camas, os lençóis... Minha única alegria era mudar de
ambiente, passar de uma sala para outra; subir e descer a escada. Por que você me prende,
Ismael, por quê?”
Virgínia

“Se eu quis viver aqui, se fiz esses muros; se ninguém entra na minha casa – é porque estou
fugindo. Fugindo do desejo dos outros homens. Se mandei abrir janelas muito altas, muito,
foi para isso, para você esquecesse, para que a memória morresse em você para sempre.
Virgínia, olha para mim, assim! Eu fiz tudo isso para que só existisse eu. Compreende
agora? Não existe rosto nenhum – nenhum rosto branco! – só o meu, que é preto...”
Ismael