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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO:

CONHECIMENTO E INCLUSÃO SOCIAL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

GIANE ARAÚJO PIMENTEL CARNEIRO

A CRIANÇA NA CIDADE:

Memórias e espaços educativos em Caetite-Bahia

GUANAMBI – BAHIA

Setembro 2008
2

GIANE ARAÚJO PIMENTEL CARNEIRO

A CRIANÇA NA CIDADE:

Memórias e espaços educativos em Caetité – Bahia

Projeto de Pesquisa para ser apresentado à banca


examinadora da seleção do Mestrado em Educação
2009, curso de Pós-graduação em Educação e Inclusão
Social da Faculdade de Educação da Universidade
Federal de Minas Gerais, de acordo Edital Nº 03/08.

GUANAMBI-BAHIA

Setembro 2008
3

SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO....................................................................................................... 04

JUSTIFICATIVA......................................................................................................... 05

OBJETIVOS................................................................................................................ 08

Objetivo Geral........................................................................................................... 08

Objetivos Específicos................................................................................................. 08

O CONTEXTO DA PESQUISA E SEUS OBJETOS ........................................................ 09

ABORDAGEM TEÓRICO- METODOLÓGICA................................................................. 12

BIBLIOGRAFIAS.......................................................................................................... 14
4

APRESENTAÇÃO

Este estudo sobre as relações da criança com a cidade envolve o campo disciplinar da História
da Educação, além de receber a colaboração da Geografia, no sentido de buscar compreensões
e interpretações sobre o uso dos espaços educativos que vão além das instituições formais, na
cidade de Caetité-BA1, nas primeira décadas do século XX.

Referenciais teóricos para a pesquisa são trabalhos que tratam da infância como objeto de
investigação histórica. Dentre estes, são muitos os trabalhos publicados após a década de
1980, principalmente depois da obra de Phillipe Ariès, História social da criança e da família
(1973). Mary Del Priore (1999), Carlos Monarcha (2001), Freitas; Kulhmann (2002), Luciano
M. de F. Filho e Cynthia G. Veiga (1999), entre muitas obras que, na afirmação de Gouvêa
In: Veiga; Fonseca (20003, p.196) apresentam um referencial teórico-metodológico comum
dos pesquisadores situados no campo da história e da história da educação.

Quanto aos espaços das cidades, estudos importantes problematizam o acesso e a garantia de
direitos de todos os seus cidadãos, como analisa Santos (1987, p. 140): “Para muitos, a rede
urbana existente e a rede de serviços correspondente são apenas reais para os outros. Por isso
são cidadão diminuídos, incompletos.” Nesse sentido, vários autores acrescentam ainda que
deve-se aproveitar o potencial educativo que toda cidade possui, seja ela pequena, média ou
grande. Jaume Colomer (1988) In.Cabezudo (2004, p. 31) diz que:

(...) A educatividade da cidade, quer dizer, seu potencial educativo, é um dos aspectos menos estudados
da vida urbana. Sabemos que a aglomeração e a densidade são fatores constitutivos da cidade, que essa
concentração é fonte de diversidade e de interação, e que a interação com os demais cidadãos e com a
paisagem urbana é fonte de aprendizagem, de cultura.

Assim a proposta desta pesquisa é estudar como se dá essa relação da criança e a cidade,
enfocando os processos educacionais em seus espaços, fora da escola, dentro de um recorte
temporal que remonta às primeiras décadas da república brasileira, além de conhecer as
marcas das infâncias passadas nos espaços e na memória da cidade. Para a coleta de dados
serão usadas a análise documental, a imagem fotográfica e a observação.
1
Município do sudoeste da Bahia, distante 757 Km da capital do estado, reconhecida pela sua história e pólo
cultural da região.
5

JUSTIFICATIVA

A caracterização da criança brasileira atualmente apresenta configurações diversas a depender


das diferentes realidades em que está inserida; o que podemos afirmar sobre essa parcela da
população é que sua história vem sendo construída com conquistas, a exemplo do aparato
legal constituído a partir do final da década de 19802, e fracassos, como a exploração do
trabalho, a violência doméstica, a negação do direito à saúde e educação, etc. Como se
configurou esta história da criança? Qual a atenção recebida dos adultos no decorrer da
história brasileira? O que a criança do início do séc. XXI traz daquela do início do séc. XX?

Durante o início do século XX o Brasil estava passando por importantes transformações com
a implantação da república, alterações nas estruturas de produção, introdução do trabalho
assalariado, novos ideários pedagógicos e reformas educacionais para implantar um processo
de escolarização pública, laica e gratuita.

Além desta preocupação com o processo de escolarização formal, outras propostas educativas
foram propiciadas à criança nos espaços das cidades, naquela época? Qual era o espaço
pensado para a criança no processo de estruturação das cidades? Como era a relação das
crianças com esses espaços?

Essa análise dos espaços da criança na cidade ganha destaque nas últimas décadas com um
movimento3 em prol das potencialidades das cidades como espaços educativos, além dos
muros da escola, pois ao mesmo tempo em que as sociedades humanas vão conquistando mais
conhecimentos, percebemos também que novos problemas surgem. As demandas sobre a
educação são múltiplas, e muitas delas não se situam na área formal, na escola regular, como
afirma Gohn (2008, p.97), além do que, as exigências da vida social e complexidade do
mundo do trabalho e do capital exigem cada vez mais dos indivíduos e provocam alterações
na estrutura das cidades.

2
BRASIL. Constituição Brasileira. Brasília, 1988.
_____. Estatuto da Criança e do Adolescente, 1990.
_____.Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9394, 1996.
3
Movimento “Cidades Educadoras”, criado a partir da Carta de Barcelona em 1990; a Associação Internacional
de Cidades Educadoras consta de 261 cidades membros, em 30 países.
6

Estas alterações dificultam o contato entre as pessoas e a percepção da cidade como um todo
integrado, perdendo-se vivências que poderiam ser significativas para a vida comunitária e
para a preservação da memória. Evidencia-se assim a necessidade de novos estudos sobre a
temática das crianças na cidade a fim de conhecer as diferentes concepções de infância no
decorrer da história brasileira e como esses espaços foram aos poucos sendo ‘surrupiados’ das
mesmas.

Como docente em exercício4 e como cidadã, angustia-me a situação das crianças vítimas de
violências, do abandono concreto ou simbólico das famílias ou da gestão pública, do
enclausuramento dentro de casa, na frente da TV, dos fracassos escolares, como mostram os
resultados de pesquisas sobre o desempenho educacional da escola brasileira, principalmente
da Bahia, divulgados sobre o ano de 2007, no qual “orgulhosamente” ultrapassou a meta do
Ideb5, da 1ª à 4ª série, que era de 2,8 para 3,4; da falta de segurança e de liberdade para
usufruir dos espaços da cidade e das suas possibilidades de aprendizagens no contato com o
outro, com o humano. A partir dessas reflexões surgiram muitas inquietações e
questionamentos sobre a vida das crianças em outras épocas.

Ao realizar um trabalho sobre o estudo das cidades, ministrando a disciplina Metodologia do


Ensino de Geografia, no curso de Pedagogia, novas perspectivas em prol da educação das
crianças foram vislumbradas. Os estudos desenvolvidos propiciaram reflexões sobre o direito
que todos os cidadãos possuem sobre o espaço das cidades, principalmente as crianças, que
estão entre os sujeitos ‘esquecidos’ da História, até algumas décadas atrás.

Alguns autores chegam a denominar as crianças os grandes mudos da história. Só se pode conhecer a
história da infância através de traços indiretos, ou seja, do ponto de vista dos adultos que, nas diferentes
épocas, deixaram registros sobre o que pensavam e como tratavam a infância, principalmente aqueles
profissionais que se encontravam mais diretamente em contato com ela, como legisladores, pedagogos,
escritores, pintores, pais, além de adultos que, escrevendo suas autobiografias e memórias, relembram a
época em que foram crianças6.

Apesar das dificuldades com as fontes, há algum tempo essa categoria vem despertando o
interesse de vários autores, entretanto ainda não esgotaram as inúmeras possibilidades de

4
Atualmente sou professora auxiliar da Universidade do Estado da Bahia, Campus XVII, em Bom Jesus da Lapa,
curso de Pedagogia e professora de História do ensino médio, SEC de Educação/BA, em Guanambi.
5
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica.
6
LOPES e GALVÃO (2001, p.64).
7

análise deste grupo etário nos espaços das cidades, objeto este que também vai se alterando no
decorrer dos tempos e provocando novos olhares.

Também foram desenvolvidos estudos sobre a temática das cidades na área geográfica,
trazendo a discussão sobre o espaço do homem na cidade, como o de Lefèbvre (2001), Carlos
(1992) e de Santos (1982;1987) que traz em duas de suas principais obras, importantes
reflexões sobre o espaço ocupado pelo homem, entretanto de forma mais ampla, sem
distinção de grupo etário. Mais recentemente temos estudos que trazem a proposta de pensar a
vida urbana de forma solidária e multidimensional, organizados pelo Instituto Paulo Freire,
dentre os autores destacam-se Gadotti, Padilha e Cabezudo (2004), Muñoz (2004). Outra
contribuição foi o estudo realizado por Moll (2000) na cidade de Porto Alegre, porém
delimita sua pesquisa no entorno da escola e a integração com a mesma. Dedicando-se à
categoria infância, porém direcionado aos direitos das crianças e às políticas públicas, temos
os estudos de Kramer; Bazílio (2003).

Na área de História da Educação também temos muitas pesquisas, produções sobre a temática
da infância, como História das crianças no Brasil de Mary Del Priore (1999), História social
da infância no Brasil organizado por Marcos Cezar de Freitas( 2002), Infância no sótão de
Luciano M. de F. Filho e Cynthia G. Veiga (1999) , Os intelectuais na história da infância
organizado por Marcos César Freitas e Moysés Kuhlmann (2002), entre outros.

Mais recentemente temos o trabalho de Debortoli, Martin e Martins (2008), que envolve
vários olhares sobre a infância na metrópole, numa análise interdisciplinar da criança em Belo
Horizonte. E numa cidade média e pequena, como se dá essa relação? Como se processou
essa questão no início do século XX numa cidade do interior da Bahia? A História da
Educação, apesar de todas as produções ainda apresenta lacunas e este trabalho contribuirá
para o desvelamento de uma das muitas faces da história das crianças no Brasil, foco de
interesse de historiadores, pedagogos, educadores sociais, pais e mães, administradores
municipais, dentre outros, no sentido de possibilitar maiores reflexões sobre a necessidade de
conhecermos a história da educação da criança brasileira, seus direitos aos espaços públicos
das cidades, direito de ser produtora e mediadora7 de cultura, de forma que contribuam na
preservação da memória e identidade do grupo social ao qual pertencem.

7
Tradução de passeurs culturels - elementos que atuam como mediadores entre tempos e espaços diversos,
contribuindo na elaboração e na circulação de representações e do imaginário. FONSECA In: VEIGA; FONSECA,
2003.
8

OBJETIVOS

GERAL:

 Compreender os processos educativos disponíveis às crianças nos espaços da cidade


de Caetité-BA, nas suas dimensões não escolares, considerando a condição social,
etnia e gênero, nas primeiras décadas do século XX.

ESPECÍFICOS:

 Conhecer como se dava a relação entre as


crianças e os espaços das cidades, analisando sua estrutura, traçado das ruas, calçadas
e praças.

 Analisar os significados de infância e o lugar


social atribuído às crianças pelos grupos sociais da época.

 Identificar memórias de infâncias passadas nos


inúmeros espaços de vivência, dentre os quais, o espaço público da cidade.
9

O CONTEXTO DA PESQUISA E SEUS OBJETOS

Registros históricos sobre a criança no Brasil remontam o período da colonização brasileira


pelos portugueses e dentro deste contexto a visão da mesma traz a marca ideológica da
política expansionista, mercantilista e humanista européia da época, mais especificamente de
Portugal. A atenção recebida foi por parte da Igreja Católica, através das Ordens religiosas,
principalmente da Companhia de Jesus. Analisa Kishimoto, In:Vidal; Hilsdorf, (2001), que
“A criança de zero a seis anos foi objeto de atenção nesses quinhentos anos, sobretudo por
inspiração da Igreja, no início do processo de colonização, tendo como um dos seus
protagonistas a figura do Pe. Anchieta.” Cartas, documentos oficiais, literatura produzida
pelos Jesuítas, documentos régios, serviram de fonte para posteriores estudos sobre este
período. Veiga (2007, p.54) destaca a importante obra História da Companhia de Jesus no
Brasil, do Jesuíta Serafim Leite, entre 1938-1950.

Antes da Proclamação da República o atendimento à criança foi inexpressivo, apesar da


regulamentação da instrução elementar pública brasileira através do Decreto de 1827, poucas
alterações se efetivaram no dia-a-dia da criança no Brasil.

Até meados do século XIX, o atendimento de crianças pequenas longe da mãe em instituições como
creches ou parques infantis praticamente não existia no Brasil. No meio rural, onde residia a maior parte
da população do país na época, famílias de fazendeiros assumiam o cuidado das inúmeras crianças órfãs
ou abandonadas, geralmente frutos da exploração sexual da mulher negra e índia pelo senhor branco. Já
na zona urbana, bebês abandonados pelas mães, por vezes filhos ilegítimos de moças pertencentes a
famílias com prestígio social, eram recolhidos nas “rodas dos expostos” existentes em algumas cidades
desde o início do século XVIII.8

A criação da primeira creche brasileira data de 1875 no Rio de Janeiro, retratando já uma
preocupação mundial com a construção de uma nação moderna.9 Aparece aí uma
característica que, infelizmente ainda existe até hoje, a educação assistencialista e
compensatória, como pude observar no ano de 2007, no acompanhamento de Estágio
Supervisionado na Educação Infantil, em escolas do município de Bom Jesus da Lapa.

8
OLIVEIRA, 2002, p. 9
9
KUHLMANN JR. IN. FREITAS e KUHLMANN JR., 2002.
10

Com a República surge um novo cenário e desejos de inovação, pois muitas foram as
alterações sofridas, além do regime de governo, como a abolição da escravatura e o despontar
de um desenvolvimento na industrialização, ainda em pontos delimitados do país, e com ela o
fenômeno da urbanização. De acordo Veiga (2007, p.238-239) foram organizados setores
administrativos para gerir a educação institucionalizada e várias reformas são empreendidas
para promover alterações na estrutura educacional. O Movimento da Escola Nova e dos
Pioneiros em defesa da escola pública e gratuita geram intensos debates com os defensores da
educação privada. Dentro deste movimento a criança, teoricamente, passa a ser vista não mais
como um ser que deveria sofrer a ação educativa de fora para dentro, subjugada ao adulto,
mas deveria ela mesma ser o centro do processo, fruto das influências norte-americanas, na
figura de John Dewey.

A sociedade brasileira se diversifica ainda mais com o crescente movimento migratório de


europeus e com o desenvolvimento das cidades, que aí se encontravam em um caos, pois não
tinham infra-estrutura para acompanhar as mudanças sofridas. Circula a idéia de reordenar a
população introduzindo novos hábitos condizentes a uma sociedade civilizada através das
reformas urbanas, iniciadas ainda no século XIX, sendo um dos objetivos acabar com os
cortiços do centro da cidade, empurrando as camadas populares para as áreas periféricas. Essa
ação foi alvo das políticas higienistas. A população pobre, na sua maioria mestiços e negros,
ex-escravos, sofre a marginalização, como afirma Veiga (idem p.260), “No contexto de
elaboração de uma identidade étnica, as teses higienistas e eugenistas previam também a
profilaxia das raças e a propaganda do branqueamento da população”. E nesse processo de
reforma urbana, qual o lugar da criança? Como foi pensada, além da preocupação com a
ampliação de escolas e das mudanças de concepções? A redefinição dos conteúdos de
biologia e psicologia que aconteceu no início do século XX e a difusão de conhecimentos
físicos e psicológicos sobre a criança provocou alterações na sua vida cotidiana, na cidade e
na forma de ser considerada?

Sobre os trabalhos que demarcam este período, temos as obras de Almeida (1989), Bastos;
Faria Filho (1999), Stephanou; Bastos (2005), Os já citados de Del Priore, Monarcha, Faria
Filho, Veiga, Gouvêa, Kulhmann, Freitas, dentre várias outras produções sobre a história da
educação no Brasil. Estes estudos, apesar de muito significantes não esgotam as inúmeras
possibilidade de investigação neste campo da infância, principalmente no que se refere à
relação criança/cidade.
11

Estudos sobre as cidades, com importantes reflexões também são inúmeros, entretanto cada
um com sua especificidade e objeto de estudo, que não contempla a proposta aqui apresentada
da relação da criança com a cidade no início do século XX. No seu estudo sobre educação e
cidadania, Jaime Pinsk (2003; p.74) afirma a tendência gregária dos seres humanos, tanto é
que hoje 80% da população mundial vive nas cidades. Esse processo aqui no Brasil foi
impulsionado a partir do desenvolvimento do processo de industrialização, nas primeiras
décadas republicanas. Os exemplos de cidades, na história da humanidade, modelos quanto à
forma de organização espacial e política, são a pólis grega e a civitas romana, entretanto os
homens não conseguiram retomar os modelos propostos pelos Antigos.

As cidades históricas brasileiras, dentre elas Caetité, trazem os traços, organização e estrutura
do barroco, estilo predominante no século XVII, na Europa. Como foi organizado os espaços
das crianças na configuração dessas cidades? Onde estão as crianças ali? O que fazem? Quais
os espaços educativos destinados a elas, além das escolas, que neste período não contempla a
todas?

À medida que as cidades iam sofrendo alterações devido ao processo de urbanização, as


crianças iam sendo resguardadas em espaços fechados, cada vez menores, devido ao perigo
exposto da vida nas ruas e outros espaços públicos da cidade. Esse fato é mais acentuado com
crianças das camadas médias e altas da população, pois desde as alterações sócio-econômicas
sofridas inicialmente nos países industrializados no século XIX, “Tal criança deveria ser
protegida dos perigos do espaço público expresso espacialmente na rua, tida como lócus de
perigo e desvio, reduzida a local de passagem e não mais de realização de uma sociabilidade
intergeracional”, como afirmam Gomes e Gouveia, 2008. Hoje, nas cidades brasileiras esse
fenômeno se acentua, e os perigos tornam-se cada vez maiores, fazendo com que adeqüemos
nossas vidas a essas situações, abrindo mão do usufruto dos espaços em prol da segurança.
Neste aspecto, vamos perdendo possibilidades de utilizarmos todo o potencial educativo que a
cidade possui para promoção do processo educacional em seu sentido amplo.
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ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA

Os estudos historiográficos foram objeto de muitas discussões dos teóricos devido às


alterações sofridas, principalmente a partir do movimento intelectual que se iniciou associado
à revista francesa Annales em 1929, e suas posteriores derivações: a Nova História, História
das Mentalidades e História Cultural. E onde se insere a História da Educação nesta
configuração? Fonseca, In: Veiga e Fonseca (2003, p.59) analisam que,

A história da educação, como especialização da história, ou dito de forma mais consistente, como campo
temático de investigação, não tem fronteiras a definir com a história cultural. Antes, utiliza seus
procedimentos metodológicos, conceitos e referenciais teóricos, bem como muitos objetos de
investigação. (...) A História Cultural, hoje hegemônica academicamente, não deixaria de exercer sua
força sobre a investigação em História da Educação.

Como a proposta desta pesquisa é obter mais conhecimentos sobre a relação entre a criança, a
cidade e demais sujeitos sociais envolvidos para a compreensão e interpretação dos
significados das ações humanas, considerando dimensões importantes na formação cultural da
sociedade, como as distintas temporalidades, conflitos e diversidades existentes, podemos
caracterizá-la na perspectiva da História Cultural.

A categoria infância já estava estabelecida desde antes, pois o meu envolvimento com
crianças reporta ao início da minha carreira docente atuando na Educação Infantil, desde o
maternal até as classes de alfabetização. Na docência superior acentuei meu foco de interesse
na criança e na sua história, ao trabalhar com a disciplina História da Educação. Também foi
aí e em cursos na área de História e Geografia que despertei a atenção para a problematização
do uso dos espaços da cidade pelas crianças.

O recorte temporal será as primeiras décadas do século XX, primeiramente, porque há uma
maior disponibilidade de fontes para a pesquisa, depois por este período ser marcado por
mudanças significativas na sociedade brasileira. Com a República surge um novo cenário e
desejos de inovação, pois muitas foram as alterações sofridas, além do regime de governo,
reflexos advindos da abolição da escravatura e o despontar de um desenvolvimento na
industrialização, ainda em pontos muito definidos do país, e com ela o fenômeno da
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urbanização, embora incipiente. Também neste período se concentram os primeiros esforços e


discussões em prol da escola pública.

Mas como se caracteriza a atenção dispensada à criança, além da preocupação com a


escolarização, em outras dimensões que não a escola? Como analisa Fonseca, In: Veiga e
Fonseca (2003, p.65), “Não nos esqueçamos das possibilidades, sempre lembradas nesse
texto, do enfrentamento das dimensões não escolares, que envolvem práticas e processos
educativos em outras dimensões da vida de uma sociedade.”

A escolha do campo da pesquisa, o município de Caetité, atualmente com aproximadamente


48.000 habitantes, se justifica pelo enorme potencial de dados arquivados, o que evidencia a
importância e o nível de consciência desta comunidade com a preservação da memória e da
história. Os documentos do arquivo público datam do início do século XX, compreendidos
em edições do primeiro jornal do alto sertão: A Pena, que traz dados riquíssimos sobre a vida
da sociedade da região, de 1897 até 1943, além de processos da Vara Cívil, arrolamentos,
ação de execução, dentre outros, como cartas de famílias locais que exerciam cargos políticos
a nível estadual e nacional. Importantes documentos ainda estão nas mãos de particulares,
como os documentos da família do Barão de Caetité, José Antônio Gomes Neto (1822-1890).

As possibilidades de desenvolver a pesquisa em Caetité são muitas, devido à valorização, já


citada à memória, tanto por parte de funcionários do Arquivo Público Municipal, como de
outros espaços, assim como por particulares. Desta forma será utilizada a análise documental
como instrumento de coleta de dados. A existência de um arquivo público municipal na
cidade já bastante organizado permite ampliar bastante os conhecimentos sobre a temática.
Considera-se como documento os registros escritos, como cartas, atas, diários, registros
escolares, jornais, pareceres, dentre outros que foram escolhidos por um determinado grupo
para serem perpetuados na memória coletiva de um povo, por isso Le Goff (2003, p.538)
denomina-os de documento-monumento:

O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro–voluntária
ou involuntariamente–determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade.
Todo o documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo.

Desta forma para que este documento-monumento seja transportado para o campo da ciência
histórica, ele precisa ser analisado em todas as suas particularidades, neste caso a busca pelas
14

crianças, sua vida cotidiana na cidade, o tipo de atenção dispensada à mesma, os significados
delas para aquela sociedade, dentre vários outros aspectos que podem ser questionados.

As imagens fotográficas comporão também esses documentos, pois oferecem o registro no


tempo de fatos e espaços impossíveis de serem visitados por nós, além do que, vivemos
atualmente em um mundo que é muito influenciado por elementos visuais. Ao aplicar esse
método todos os cuidados devem ser tomados a fim de garantir a confiabilidade na
interpretação feita, como considerar as limitações que apresenta no sentido de termos
consciência que ali é apresentado um recorte no tempo e espaço, que traz embutida a
subjetividade do fotógrafo e a interferência de terceiros, as construções sociais, culturais e
ideológicas dentro daquele contexto, mas que é passível de interpretação, de novas
investigações e associações com outras fontes. Bauer; Gaskell (2004, p.148) chamam a
atenção para o fato de que a interpretação de uma fotografia exige uma leitura tanto das
presenças quanto das ausências do registro visual, desta forma cabe ao historiador perceber o
que se quer enfatizar ou não e assim procurar interpretar os porquês da presença ou ausência
de determinados elementos. Seu uso se justifica por possibilitar a análise de alterações nos
espaços destinados à criança ou não, na época pesquisada.

As informações resultantes dessas investigações serão complementadas com a observação dos


espaços da cidade, como as construções, também muito bem preservadas, traçado de ruas,
praças, mapas, a fim de perceber as marcas das infâncias passadas e a importância dispensada
às mesmas na memória da cidade.

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