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O povo Tuxá e o Dzubukuá

Ricardo Menezes Barbosa

Abaixo segue uma tentativa de descrição do povo Tuxá, habitantes da região do Rio São
Francisco, outrora ocupantes da Ilha da Viúva 1, entre os estados de Pernambuco e Bahia, na
região oposta a confluência com o Rio Pajeú. Segundo Hohenthal Jr. (1960: 46), a população
foi encontrada em 1759 por uma missão jesuíta que seria expulsa da região em seguida pelos
latifundiários que ali residiam. A questão linguística constitui-se como uma profunda
problemática para o povo Tuxá, mobilizando tanto seus representantes e das aldeias próximas
como a própria comunidade acadêmica. Para os Tuxá, o Dzubukuá é o idioma dos seus
ancestrais, contudo alguns especialistas chegam a afirmar que a língua em questão haveria sido
extinta (Queiroz, 2012, p. 25).
O Dzubukuá é uma língua do tronco macro-jê, mais especificamente do grupo Cariri, de onde
descendem também as línguas Camurú, Quipéa e Sabujá, todas dadas como extintas. Apesar
de indícios da origem dos falantes das línguas do tronco macro-jê estarem localizadas na
Região do São Francisco, é possível que o habitat mais procurado pelo grupo fossem as regiões
do planalto (Urban, 1992, p. 90). Outros estudos ainda afirmam que a região teria se constituído
enquanto área de intensa circulação multiétnica e multicultural, o que pôde ter gerado uma
familiaridade linguística entre os Cariris, Procás e Brancararus. Uma consequência dessa
comunidade linguística que outrora pôde ter sido compartilhada é que, atualmente, existe um
esforço conjunto por parte dos habitantes da região para recuperar aquilo que acreditam ter sido
sua língua materna: o Dzubukuá. A língua perdeu sua utilização no cotidiano e, apesar de
algumas lideranças acreditarem que ela permaneceu sendo utilizada enquanto meio de
comunicação espiritual nos rituais, existe um esforço para que seja retomada e ensinada às
novas gerações, mesmo nos ambientes escolares (Durazzo e Vieira, 2008: 11).
O debate construído em torno da pesquisa que se faz sobre a língua Dzubukuá (e aqui é
importante frisar seu aspecto extra-acadêmico, isto é, que não se resumiu em discussões de
especialistas, mas em um debate proveitoso entre universidade e comunidade) traz pontos
importantes naquilo que toca a busca por uma restituição do idioma materno dessas populações.
Uma terminologia em específico tornou-se alvo de intenso debate entre aqueles que refletem
sobre o assunto. Revitalização, que de acordo com seus defensores, seria uma busca por um
renascimento da língua no dia-a-dia da comunidade, é vista pelos seus críticos com uma certa
distância, já que acreditam que a língua não morreu e que está na realidade viva em variadas
práticas. Ambos acreditam, contudo, no poder que a pesquisa sobre o Dzubukuá pode oferecer
a todas populações envolvidas (Durazzo e Vieira, 2008: 10).

1Esta região, onde a comunidade estava a princípio estabelecida, foi submersa pela construção da
hidroelétrica de Itaparica, o que provocou a transferência da população para as três áreas: Ibotirama, Rodelas
e em terras próximas ao rio Moxotó, junto ao munícipio Inajá, em Pernambuco. A problemática política que
envolve a questão da submersão pode ser vista através da fala de uma das lideranças da comunidade em: “A
realidade do povo Tuxá, 2015. Publicado pelo canal IELA. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=TmF_LNPYe8k. Acesso em: 03 set. 2021”.
Referências

DURAZZO, L; VIEIRA, J. G. Língua indígena no Submédio São Francisco: Tuxá, Truká


e a rede procá de revitalização político-linguística do Dzubukuá. 42º Encontro Anual da
ANPOCS: GT26 – Redes de relações indígenas no Brasil. p. 1-16
HOHENTHAL JR, W. D. As tribos indígenas do médio e baixo São Francisco. Revista do
Museu Paulista, num. 12. São Paulo: 1960. p. 37-86
QUEIROZ, J. Um estudo gramatical da língua Dzubukuká, família Kariri. Tese doutorado
UFPB. João Pessoa: 2012.
URBAN, G. A história da cultura brasileira segundo as línguas nativa. In: CARNEIRO
DA CUNHA, Manuela Org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras,
pp. 87-102.
A realidade do povo Tuxá, 2015. Publicado pelo canal IELA. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=TmF_LNPYe8k. Acesso em: 03 set. 2021

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