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o Luiz Assunção, 2006

Editora
Cristina Fernandes Warth

Coordenação Editorial
Cindy Leopoldo

Produção editorial
Fernanda Barreto
Mariana Warth
Silvia Rebello

Revisão
Geraldo Garcez . ^
José lorio M o u r a
Paulo Teixeira ^ í - >.

Capa
Paulo Vermelho

Diagramaçáo de miolo
Nathanael Souza

Imagens da capa
Para M a r i a Rita e
Luiz Assunção
M a r i a Luiza, c o m amor.
Todos os direitos reservados à Pallas Editora e Distribuidora Ltda.
Náo é permitida a reprodução por qualquer meio mecânico, eletrônico, xerográfico etc.
de parte ou da totalidade do conteúdo e das imagens contidas neste impresso sem a
Para os u m b a n d i s t a s d o sertão
prévia autorização por escrito da editora.
nordestino, c o m respeito e

amizade.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE.
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

A873f Assunção, Luiz Carvalho de

Reino dos mestres: a tradição da jurema na u m b a n d a nordestina /


Luiz Assunção. - Rio de Janeiro : Pallas, 2 0 0 6
Anexos
Inclui bibliografia
ISBN 8 5 - 3 4 7 - 0 3 8 7 - 6

1 . U m b a n d a • Brasil • História. 2. Umbanda - Brasil. Nordeste, 3. Ne-


gros - Brasil, Nordeste - Religião. 4. Cultos afro-brasileiros • Bahia. 5.
Bahia - Usos e costumes religiosos. I . Título.

05-4055. . CDD 299.6


CDU 2 9 9 . 6
20.12.05 26.12,05 012700

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o CATIMBÓ NORDESTINO

As primeiras formas dc elaboração do c u l t o da j u r e m a foram


descritas pelos cronistas e viajantes a p a r t i r do século X V I , c, mais
tarde, pelos holandeses, quando, viajando pelo sertão, n a r r a r a m a
vida c a c u l t u r a do povo tapuia. Como vimos no capítulo precedente,
essas descrições tratam de rituais c m que bebiam, fumavam, m a n i -
pulavam ervas naturais, invocavam seus antepassados, como elemen-
tos culturais inseridos nos costumes de práticas vividas coletivamente.
Com o avanço do processo de colonização, a população indígena foi
sendo incorporada à sociedade nacional e, conseqiientcmente, suas
práticas culturais foram reelaboradas. Pretendemos, a seguir, siste-
matizar as principais ideias apresentadas p o r estudiosos sobre a c o n -
cepção e a prática do catimbó nordestino, p r o c u r a n d o compreender
como foi o processo de reelaboração do culto da j u r e m a , indígena,
coletivo, para o catimbó nordestino, e q u a l a concepção assumida
nesse contexto histórico, situando-o como parte de u m processo d i -
nâmico de reelaboração das práticas culturais.
O catimbó n o r d e s t i n o passou, a p a r t i r dc 1 9 2 0 , a ser objeto
de investigação, p r i n c i p a l m e n t e p o r parte dos estudiosos i n s e r i -
dos na p e r s p e c t i v a dos estudos folclóricos, q u e p r o c u r a v a m
i n v e n t a r i a r as manifestações c u l t u r a i s antes do seu c o m p l e t o de-
saparecimento (Câmara Cascudo, Mário de A n d r a d e , Gonçalves
Fernandes). P o s t e r i o r m e n t e , cientistas sociais, p r i n c i p a l m e n t e
Roger Bastide e A r t h u r Ramos, vão dedicar atenção ao catimbó como
parte de u m processo sincrético dos cultos a f r o - b r a s i l e i r o s " . Mais

11. S o b r e o c o n c e i t o d c s i n c r e t i s m o e o s e s t u d o s d e r e l i g i ã o a f r o - b r a s i l e i r a , ver'
FerreUi, 1 9 9 1 .
76 O CATIMBÓ NOKDI.SIINO o REINO DOS MESTRES 77
recentemente, a p a r t i r da década dc 7 0 , a temática do catimbó- a i u i n c i a profeticamente a desforra do vencido c o n t r a o e u r o p e u .
j u r e m a foi retomada p o r Roberto M o t t a , i n i c i a n d o nova fase de es- 'Ksse deus de pedra l i b e r t a r i a os fiéis do cativeiro, torná-los-ia se-
tudos e pesquisas. I nhores da raça b r a n c a . • , • .". • ^; ,
O p r i m e i r o esboço d o catimbó nordestino, segundo Rogcr A santidade do Jaguaripc apresenta-se simbolicamente co*no
Bastide ( 1 9 8 9 : 2 4 3 ) , surge nas origens da colonização, d e n o m i - uma f o r m a de resistência da população indígena c o n t r a a c o l o n i -
nando-se " s a n t i d a d e " . A santidade do Jaguaripc ocorre no sertão zação portuguesa, esboçando, para Bastide, a p r i m e i r a forma do
baiano p o r volta dc 1 5 8 3 , e, para M a r i a Isaura Qu e iroz , evidencia catimbó, chamado dc c u l t o dos encantados. Nele, encontramos os
u m processo dc sincretismo c revela relações de dominaçào-su- elementos das tradições indígenas e do catolicismo que expressam
bordinação entre os nativos c os portugueses (Queiroz, 197G: 2 0 7 ) . em nível religioso as ambivalcncias do e n c o n t r o entre essas duas
Com base nos documentos da Primeira Visitação do Santo Ofício, culturas, a do m u n d o indígena c a do m u n d o dos brancos.
Confissões da Bahia, 1 5 9 1 - 1 5 9 2 , Rogcr Bastide descreve-o:
O u t r a ideia sobre o surgimento do catimbó nordestino é apre-
Centraiizava-se esse c u l t o n u m ídolo de pedra, sentada p o r Cascudo ( 1 9 7 8 ) , e aponta para o e n c o n t r o das t r a d i -
' • chamado M a r i a , c d i r i g i d o p o r u m " P a p a " e u'a jções indígena c o m a africana. Embora Cascudo trabalhe c o m dados
"Mãe-de-Deus"; entrava-se para esse c u l t o p o r etnográficos posteriores ao contexto da santidade do Jaguaripc, sua
' ' u m a espécie dc iniciação, simples cópia do b a - análise é i m p o r t a n t e p o r conter outros elementos que a m p l i a m a
tismo católico, e todo o c e r i m o n i a l constituía u m compreensão do catimbó. Segundo Cascudo ( 1 9 7 8 : 9 1 ) , a diluição
" ' •'' • sincretismo bastante desenvolvido de elementos étnica do indígena, na segunda metade do século X V I I I , depois da
• ' cristãos (construção de u m a igreja para a d o r a - expulsão dos jesuítas, c o n t r i b u i u para a dispersão da população
' " ção do ídolo, porte de rosários e de pequenas c r u - indígena. D o encontro desta c o m o negro africano, esboça-se a prá-
' zes, procissões dc fiéis, os homens na frente e as tica do catimbó, feitiçaria, i n d i v i d u a l . O índio e o negro são os l a -
' ' •' mulheres c o m seus filhos atrás) e de elementos dos de u m ângulo cujo vértice c o " m e s t r e " do catimbó. No catimbó
' • indígenas (poligamias, cantos e danças, uso do negro, havia a magia branca c no caboclo'^ " a contaminação foi
' ' tabaco, " a erva sagrada", á moda dos feiticeiros imediata c contínua". A i n d a segundo Cascudo ( 1 9 7 8 : 9 0 ) , parale-
' indígenas: tragava-se a fumaça ate a produção lamente à prática do catimbó, feitiçaria, i n d i v i d u a l , havia o " a d -
do transe místico, que se chamava precisamente j u n t o da j u r e m a " , cerimónias simplificadas do c u l t o indígena, a
• o espirito da santidade). dança colctiva t u p i , realizada em segredo, c o m fins religiosos e
O período c m que ocorre a santidade do Jaguaripc é m a r c a - terapêuticos. U m a dessas c e r i m o n i a s f o i observada p o r Koster
do pelas incursões do b r a n c o colonizador ao i n t e r i o r da província, ( 1 9 4 2 : 3 1 1 ) em 1 8 1 6 entre os membros de uma família que h a b i -
contato c o m a população indígena em u m contexto dc guerras, tava uma plantação na região norte de Ol i nda. Assim descreve Koster
extermínio, apresamento, aldeiamentos c missões religiosas. a reunião indígena:

Na santidade do Jaguaripc, o c ul t o aos maracás, descrito p o r U m grande vaso de b a r r o estava no centro, ao


Léry ( 1 9 8 0 ) , c r e p r o d u z i d o na crença dc que os maracás abriga- redor do q u a l dançavam homens e mulheres. O
vam os espíritos, sendo adorados e idolatrados. Os ídolos, de pedra, cachimbo passava de uns aos outros. Pouco de-
eram personalizados, possuíam olho, boca c a eles davam de comer pois, u m a j o v e m indígena disse, c m grande se-
e beber. Antônio, seu líder p r i n c i p a l , pregava a busca da terra sem gredo, a u m a c o m p a n h e i r a , de classe diversa da
m a l e sua mensagem passou a a d q u i r i r significados de hostilidade
anticolonialista. Bastide aponta para o ressentimento do escravo 1 2 . Sobre a d e n o m i n a ç ã o caboclo, o v i a j a n t e inglês H e n r y Koster ( 1 9 4 2 : 1 8 4 ) ,
e m 1 8 1 0 , a f i r m a : " o n o m e q u e se d á , a q u i ( M a r a n h ã o ) e c m F c r n a m b u c o , a todo,%
c o n t r a o senhor, do h o m e m da t e r r a c o n t r a o conquistador, que
os í n d i o s s e l v a g e n s é T a p u i a , e C a b o c l o é a p l i c a d o a o í n d i o domesticado".
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sua, que fora mandada d o r m i r , dias antes, n u m a cala. O catimbó é u m c u l t o i n d i v i d u a l c não mais
cabana das vizinhanças p o r q u e seu p a i c sua social para onde as pessoas vão para c u r a r seus
mãe i a m beber j u r e m a . males físicos e espirituais. Já há meio século o
velho pajé Tarcuuá confessava melancolicamen-
Para Bastide ( 1 9 8 9 : 2 4 4 - 2 4 5 ) , o elemento dc transição e n -
te ao Conde Stradclli: "Hoje não há mais pajé,
t r e a " s a n t i d a d e " e o catimbó c o c ul t o indígena dos caboclos, mais
somos todos c u r a n d e i r o s " .
o u menos cristianizados, do sertão. Transcreve, então, u m a descri-
ção feita p o r Carlos Estevão de O l i v e i r a dos índios acaboclados no Apesar de t u d o , c o n t i n u a Bastide, "os p r i n c i p a i s elementos
Brejo dos Padres, antiga povoação de missionários. É festa da j u r e m a da cerimónia do ajucá encontram-se no novo c u l t o proletário"
ou ajucá, quando a bebida feita c o m a raiz da j u r e m a é distribuída (Bastide, 1 9 8 9 : 2 4 5 ) .
entre os participantes e o cachimbo t u b u l a r c aceso, colocando-o Cascudo define o catimbó nordestino como cerimónias de
c m sentido inverso, isto c, feitiçaria, e escreve que ele "provirá i n i c i a l m e n t e do feiticeiro soli-
. botando na boca a parte em que se põe o fumo, tário, i n d i v i d u a l i s t a , cioso dos processos b r u x o s europeus e das
soprou-o ao e n c o n t r o do líquido que estava na muambas negras..." (Cascudo, 1 9 7 8 : 9 0 ) . Para Cascudo, o catimbó
vasilha, nele fazendo c o m a fumaça u m a figura nordestino é f o r m a d o pela contribuição dos g r u p o s étnicos que
em f o r m a de c r u z (...) os cachimbos, passando f o r m a r a m a c u l t u r a brasileira: negros, indígenas e europeus. As-
de mão em mão, c o r r e r a m toda a roda. Q u a n d o sim, a f i r m a o pesquisador:
v o l t a r a m aos donos, u m a das cantadeiras, t o c a n - Da b r u x a r i a ibérica, a influência na concepção
do o maracá, p r i n c i p i o u a cantar. Era u m a i n v o - da magia, processos de encantamento, termos,
cação a Nossa Senhora, na q u a l se pedia paz e orações transmitidas oralmente. Dos ameríndios,
felicidade para a aldeia. Depois v i e r a m as toadas a pharmarcopéa, o maracá, os mestres invisíveis
pagãs dirigidas aos Encantados (...) Enquanto isso, que t e r i a m sido tuixáuas e pajés de grandes
o caboclo que colocara a vasilha sobre as folhas, malocas desaparecidas; da terapêutica vegetal,
respeitoso e solene, ia d i s t r i b u i n d o pelos demais . o uso do cachimbo, da " m a r c a " , com o tabaco,
a bebida mágica que t r a n s p o r t a os indivíduos a fumo, p e l u m provocador do transe. O negro t r o u -
mundos estranhos c lhes p e r m i t e e n t r a r em c o n - xe a invocação c o m os ritos e r i t m o s musicais; do
tato c o m as almas dos mortos c espíritos p r o t e t o - c e r i m o n i a l das macumbas bantus mantêm as " l i -
res (...) (apwc/Bastide, 1 9 4 5 : 2 0 4 ) . n h a s " significando a procedência dos encanta-
dos, nações, invocação dos antigos negros valo-
Segundo Bastide ( 1 9 4 5 : 2 0 5 ) " o catimbó não passa da antiga
rosos (Cascudo, 1 9 7 8 : 3 2 ) .
festa da j u r e m a , que sc m o d i f i c o u em contato c o m o c a t o l i c i s m o " .
Para Bastide ( 1 9 8 9 : 2 4 4 ) , a cerimónia descrita c indígena, pos- Segundo Bastide, apesar da desintegração das populações i n -
sui u m a função social, embora já seja visível a penetração de ele- dígenas e da concepção mágica do catimbó, é possível esboçar, embo-
mentos católicos. Para o a u t o r , este seria u m m o d e l o bastante ra pobre c i n c i p i e n t e , u m a mitologia para o catimbó. Uma dessas
próximo do catimbó, porém afirma que o catimbó explicações apresenta u m a visão cristã q u a n t o às origens do cul to
ao a f i r m a r que, antes do nascimento de Deus, a j u r e m a era tida
começará a existir somente após a desagregação
c o m o u m a árvore c o m u m , mas " q u a n d o a v i r g e m , fugindo de
•• • ' desta p r i m e i r a coletividade, q u a n d o nada mais
Herodes, n o seu êxodo para o Egito, escondeu o menino Jesus n u m
subsistirá da antiga solidariedade t r i b a l , q u a n d o
pé de j u r e m a , que fez c o m que os soldados romanos não o vissem,
os mestiços estarão dispersos o u u r b a n i z a d o s ,
imediatamente, ao contato c o m a carne d i v i n a , a árvore encheu-se
presos nas malhas da nova e s t r u t u r a social, de
de poderes sagrados" (Bastide, 1 9 4 5 : 2 0 7 - 2 0 8 ) , justificando, as-
classes superpostas, onde ocupam a base da es-
so o CATIMBÓ NORDESTINO o REINO DOS MESTRES 81

s i m , que a forga da j u r e m a não é m a l e r i a l , mas e s p i r i t u a l , dos .século X V l l , e m P o r t u g a l , os feiticeiros c u r a d o r e s se c l i a m a v a m


espíritos que passaram a habitá-la. de " m e s t r e s " . Nas cerimónias dc catimbó, também denomina-se
: • ,• ' A j u r e m a é p a u santo " m e s t r e " o d i r i g e n t e de u m a sessão, q u e realizará seus " t r a b a -
í Onde Jesus descanso l h o s " c o m a ajuda dc u m "espírito assistente" e u m o u t r o "espírito"
Sò mestre em toda l i n h a , que preside a " m e s a " ou sessão. Segundo observou Cascudo ( 1 9 7 8 :
Sô mestre curado. G4), " s e m a presença desses dois 'mestres do além' o ' m e s t r e ' não
abre a sessão temendo u m assalto i m p r e v i s t o dos 'espíritos q u e
Q u a n d o Deus ando no m u n d o t r a b a l h a m na esquerda', gente 'atrabiliária c p e r t u r b a d o r a " ' . A
Na j u r e m a descanso. ingestão da j u r e m a p e r m i t e ao descendente do pajé v i a j a r pelo
O segredo da j u r e m a m u n d o s o b r e n a t u r a l . A iniciação torna-se u m a iniciação vegetal,
Q u e m me deu foi o Sinhò. a do segredo da bebida mágica (Bastide, 1 9 4 5 : 2 0 8 ) .

A " l i n h a " dc cada " m e s t r e " resume a ação s o b r e n a t u r a l , as


Os g a l i n h o da j u r e m a excelências do poder e a sua especialidade técnica. Para Cascudo
Sua s o m b r i n h a f o r m o . ( 1 9 7 8 : 1 6 5 ) , sem canto não há encanto. Todo feitiço é feito m u -
Que c o b r i u a Jesus Cristo sicalmente. Cada " m e s t r e " possui f i s i o n o m i a própria, gestos, voz,
Que era nosso Sinhó. manias, predileções. Cada u m n a r r a suas aventuras, conta seu
Upi/íí Cesar, 1 9 7 5 : 2 1 8 ) . n o m e c sua v i d a . A " l i n h a " é o canto entoado pelo " m e s t r e da
mesa" e c o n t i n u a d o , p o r intermédio de sua boca, pelo " m e s t r e do
O u t r a explicação mitológica foi aquela t r a n s m i t i d a pelos
além". As " l i n h a s " r e p r o d u z e m a apresentação do " m e s t r e " . A
indígenas, e ensina a crença na existência de u m m u n d o sobre-
m e l o d i a é p r i v a t i v a dc cada u m . O canto é uníssono e a c o m p a -
n a t u r a l (o " m u n d o do além") concebido c o m o u m o u t r o m u n d o
n h a d o apenas pela " m a r c a " . Segundo Cascudo ( 1 9 7 8 : 1 7 7 ) , as
n a t u r a l , d i v i d i d o c m reinos encantados, q u e se s u b d i v i d e m e m
" l i n h a s " são brasileiras, " n a acepção de u m a soma de elementos
estados e esses, p o r sua vez, c m cidades. Cada cidade é d i r i g i d a
diferenciados e fundidos, d e t e r m i n a n d o a música socializada, c r i a -
p o r três " m e s t r e s " (entidades e s p i r i t u a i s ) . U m r e i n o é f o r m a d o
da pela colaboração anónima c múltipla da população".
p o r doze cidades, c o m t r i n t a e seis " m e s t r e s " , e compreende d i -
mensões, c o m t o p o g r a f i a , serras, florestas, rios, população e c i - Os "mestres do além", donos dos "bons saberes", são dc várias
dades cuja f o r m a , a l g a r i s m o e disposição a i n d a não f o r a m fixados nações e raças; todos falam português. São caboclos, indígenas; ne-
pelos " m e s t r e s " terrestres (Cascudo, 1 9 7 8 : 5 4 ) . Cada " m e s t r e " gros, escravos africanos; são "mestres" brancos, catimbozciros afa-
tem u m a l i n h a , que é o cântico que precede sua visita à t e r r a . Este mados; são mestiços. Uns não têm história, outros n a r r a m sua vida,
" r e i n a d o " é f o r m a d o , p o r t a n t o , p o r chefes indígenas, almas das indo a reportagem à vida dos outros "mestres do além" (Cascudo,
pessoas m o r t a s , os antigos c a t i m b o z c i r o s , espíritos católicos e es- 1978: 1 6 5 ) .
píritos negros. O " m e s t r e " possui a semente. É o sinal dc sua legitimidade e
Eu andei o m u n d o em roda autenticidade, eficácia e poder s o b r e n a t u r a l . A semente é u m nó-
P e r c o r r i Iodas as cidades de pena d u l o , u m a espécie de quisto pequeno. Cascudo ( 1 9 7 8 : 52) i n f o r -
Agora foi que eu conheci ma, a i n d a , que u m "mestre do além" promete a u m " m e s t r e " a
A ciência da j u r e m a suprema oferta dc u m a "semente", prémio aos merecimentos pes-
soais do devoto. O u t r o "mestre do além" é encarregado de trazer a
O " m e s t r e " c a entidade e s p i r i t u a l c e n t r a l dos catimbós n o r - " s e m e n t e " e colocá-la no c o r p o do discípulo e m h o r a c situação
destinos. Os " m e s t r e s " são c a t i m b o z c i r o s falecidos que v i v e r a m que este não sinta a operação. U m d i a , o discípulo verifica que
na T e r r a (Cascudo, 1 9 7 8 : 8 8 ) . Segundo A n d r a d e ( 1 9 6 3 : 3 3 ) , n o possui a consagrada " s e m e n t e " q u e o sagra " m e s t r e " . Ao lado da
82 o CAIIMliÓ NOKDESIINO o REINO DOS MESTRES 83

ideia de u m m u n d o s o b r e n a t u r a l , para onde a alma viaja d u r a n t e o doenças, seus romances dc amor, seus ganhos, suas tristezas c seus
êxtase, o catimbó é composto de outros elementos, como o uso da sonhos dc u m f u t u r o m e l h o r " (Bastide, 1 9 8 9 : 2 5 5 ) .
defumação para c u r a r doenças e o emprego do f u m o para e n t r a r
A iniciação se dá através do aprendizado dos "segredos da
em estado de transe. A fumaça é expelida, ao contrário da pajelan-
j u r e m a " e é transmitida individualmente:
ça, que é absorvida, sendo o poder intoxicaníe do fumo substituído
o discípulo aprende pouco a pouco c o m o Mestre,
pela ação da j u r e m a .
i n d o vê-lo, ao acaso da vontade e das c i r c u n s -
Fernandes ( 1 9 3 8 : 4 8 ) descreve a utilização do cachimbo em tâncias, " q u a n d o q u i s e r " (Bastide, 1 9 4 5 : 2 1 0 ) ;
sessões de cura;
os discípulos a p r e n d e m os cantos e os segredos
os estados mentais c o m agitação são tratados pe- de seus chefes nas horas dc lazer, conversando
los catimbozciros c o m sarro de cachimbo c exor- com eles (Bastide, 1 9 8 9 : 2 4 8 ) .
c i s m o de pinhão r o x o . Raspam o s a r r o d u m
c a c h i m b o q u e já t e n h a sido e m p r e g a d o nos Não existe u m a obrigação i n d i v i d u a l , de c u l t o p r i v a d o , mas
defumatórios e colocam o resíduo o b t i d o na lín- recomendações dos encantados aos doentes o u aos clientes
gua do paciente. Depois dão~lhe u m a surra c o m de acender u m a vela para esse o u aquele caboclo
ramos de pinhão roxo... em determinado dia e hora, de rezar a certos m o -
mentos do d i a , antes uma vaga imitação das pe-
Os r i t u a i s observados e estudados p o r Cascudo apresentam
nitências católicas, cuja função teria sc m o d i f i -
u m a sequência que tem início na l i t u r g i a , seguindo c o m a d e f u -
cado, d o q u e u m v e r d a d e i r o c u l t o de deuses
mação c o canto das " l i n h a s " c o m a incorporação das entidades -
(Bastide, 1 9 4 5 : 2 1 3 ) .
chamadas pelo pesquisador de "espíritos". As entidades são gene-
Segundo as observações feitas por nossos autores (Cascudo,
ricamente agrupadas nas categorias mestres defuntos, indígenas e
Bastide, Fernandes), a c e r i m o n i a p r i n c i p a l do catimbó c d e n o m i -
negros feiticeiros.
nada "mesa". Entre os objetos rituais da " m e s a " , no c e n t r o , c n c o n -
Não existe u m a indumentária especial, escola de filhas-de-
íram-se a " p r i n c e s a " , bacia dc louça entre duas " b u g i a s " , velas,
santo, comidas votivas, decoração, bailados, instrumentos musicais
acesas ao começo da "fumaça". D e n t r o da " p r i n c e s a " põe-se u m
(Cascudo, 1 9 7 9 : 2 0 6 ) . Não há r i t m o , há apenas música cantada
pequenino Santo A n t o n i o de madeira. Ao lado da " p r i n c e s a " fica a
em uníssono.
" m a r c a " , cachimbo g r a n d e , já sarrento, de cabo c o m p r i d o . I n f o r -
A organização i n t e r n a do c u l t o e a h i e r a r q u i a são m u i t o s i m - ma ainda Cascudo ( 1 9 7 8 : 4 3 ) que a " p r i n c e s a " não está colocada
ples e podem ser ocupadas p o r homens e mulheres. Bastide ( 1 9 4 5 : diretamcnte sobre a toalha da mesa e sim pousando n u m a r o d i l h a
2 0 9 ) apresenta a seguinte divisão: a) mestre, que preside o c u l t o ; de pano não servido, pano l i m p o , v i r g e m e são. D i a n t e do " m e s t r e "
b) discípulos-mcstres, em pequeno número, que a p r e n d e m c d e n - está u m c r u c i f i x o , à esquerda a chave de aço, v i r g e m de q u a l q u e r
tre os quais serão escolhidos f u t u r a m e n t e os mestres; c) discípulos, uso, l i m p i n h a e reluzente, sempre presente para a b r i r e fechar ses-
dos quais saem os discípulos-mestres; d) a i r m a n d a d e , a c o m u - sões, e, simbolicamente, o corpo dos consulentes. O que nos faz
nhão dos crentes; e) o c r i a d o , aquele que p r o c u r a as raízes da recordar, na b r u x a r i a europeia, a santa chave do Sacrário, furtada
j u r e m a , que serve de agente dc ligação entre o sertão e o l i t o r a l . para uso do "feitiço". O u t r o s objetos são utilizados, como: santos
Cascudo ( 1 9 7 8 ) , p o r sua vez, observa u m a divisão mínima entre católicos, incenso, velas acesas, e orações católicas.
mestre, a u x i l i a r e s e c o r p o de médiuns. Para Bastide ( 1 9 4 5 ) , a ge-
ografia mística da m i t o l o g i a , c o m suas divisões administrativas e Segundo Bastide ( 1 9 8 9 : 2 4 6 ) ,
u m a organização simples do culto, p e r m i t e a coexistência de " s e i - esses objetos r i t u a i s u n e m a América indígena à
tas autónomas" e u m a " m o b i l i d a d e religiosa". O que conta "são os América católica, c o m seus charutos, suas gar-
desejos o u as necessidades individuais, é a v i d a c o t i d i a n a c o m suas rafas de aguardente, seus pequenos arcos, suas
o CATIMRÓ NORDESTINO O REINO DOS MESTRES S5

imagens de santos ou c r u c i f i x o , seu i n s l r u m c n l o Abre-te portas


de música indígena, o maracá, e 'a princesa' (...), Abre-tc janelas
u m tacho c m que se faz a moenda da j u r e m a e Abre-te portas
p o r onde descem os espíritos invocados: é o r e - Das cidades belas
ceptáculo da santidade.
Abre-tc portas
O a u t o r acrescenta ainda; "sapos de boca costurada, bonecas Do j u r e m a
espetadas de alfinetes, a n i m a i z i n h o s enrolados na c e r a " . Abre-te portas
Uma mesa de j u r e m a observada p o r Fernandes ( 1 9 3 8 ; 8 7 - Que dão para o má.
88) chama a atenção pela diversidade de objetos: garrafadas de Fernandes c o n t i n u a a descrição da sessão comandada p o r
j u r e m a , cachimbos, novelos de l i n h a , agulhas, botões, imagens de M i n e r v i n a , u m a c a t i m b o z c i r a do Recife.
santos, p r i n c i p a l m e n t e u m c r u c i f i x o , amarrados dc cordões e fitas, Torcia uma chave misteriosa no espaço por três
pequenos alguidares, maracás, bonecas de pano, c u r u r u s secos, vezes e invocava o D i a b o M e n q u i n h o , M a r i a
fumo de r o l o etc. M u i t o s usam o a l g u i d a r sobre brasas ao pc da Padilha, rainha do inferno, c Lúcifer, seu i m p e r a -
mesa, fervendo raízes o u ervas. A sessão t e m início c o m a a b e r t u r a dor, fazendo fumaçadas do cachimbo para o lado
da mesa feita c o m invocações cantadas e velas acesas. D i s t r i b u e m do coração e marcando a "bodejada" (chamam as-
entre os presentes a j u r e n u i . O r i t u a l que sc segue v a r i a c o m o f i m sim a invocação ao bode, que seria o próprio de-
mágico desejado. Começa a invocação aos Mestres (há vários mes-
mónio travestido d o b i c h o ) c o m u m pequeno
tres; Mestre Esperidião, Mestre Carlos, entre o u t r o s ) c o m as toadas
maracá. Essas invocações faziam a chegada dos
cantadas c m coro.
encantos que ela manejava dc acordo com os c o n -
D o u t r a banda do r i o Jordão vénios estabelecidos p o r consulta o u os pedidos
D o u t r a banda do r i o Jordão feitos mesmo na ocasião (Fernandes, 1 9 3 8 : 1 1 1 ) .
D o u t r a banda do r i o Jordão Esta cerimónia apresenta elementos que nos levam a supor a
Tem u m pc dc angico sccol existência de r i t u a i s dc q u i m b a n d a n u m a sessão dc catimbó. Fazer
Angico seco será? a mesa depois da meia-noite, invocar entidades associadas ao de-
Angico seco será? mónio cristão, o uso d o c a c h i m b o e d o maracá, q u e são elementos
Angico seco será? ainda hoje encontrados c m sessões de " j u r e m a " em que o mestre
Chega meus c u m p a d r e s i
assume as funções d o Exu da u m b a n d a .
M e x e - l h e nos c u e n t r o s !
Os autores citados ressaltam a existência de cerimónias pú-
M e x c - I h e nos cuentrosí
blicas dc " p e d i d o " , c m que os caboclos vêm u m após o o u t r o p a r a
Fernandes ( 1 9 3 8 ) l e m b r a q u e atender os pedidos de c u r a , e de cerimónias privadas, realizadas
antes do peditório, p o r e m , foi a pessoa d e f u m a - diariamente e denominadas fumaças às direitas - para t r a t a m e n t o
da e p r e p a r a d a c o m rezas e defumatórios. A médico, remédios, consellios, orientações benéficas, dádivas de
c a t i m b o z c i r a defuma soprando c o m a boca n o amuletos - e fumaças às esquerdas - destinadas a vinganças, d i f i -
recipiente de f u m o d o cachimbo, p a r a que a f u - c u l t a r negócios, obstar casamento, e n f e r m a r alguém, c o n q u i s t a r
maça saia pela b o q u i l h a . m u l h e r casada, despertar paixão. Uma dessas cerimónias de " p e -
d i d o " foi pesquisada por Bastide ( 1 9 8 9 : 2 4 7 - 2 4 8 ) , que descreve
O a u t o r assinala ainda que a catimbozcira fazia a " m e s a "
depois da meia-noite. Acendia q u a t r o velas nos q u a t r o cantos da com detalhes o r i t u a l dc consultas e a diversidade de entidades es-
sala e a b r i a a " m e s a " c o m a cantoria; p i r i t u a i s : "assiste-se assim a u m magnífico desfile de personagens,
de metamorfoses incessantes de personalidades".
86 O CATIMBÓ NORDESTINO o REINO DOS MESTRES 87

Cascudo ( 1 9 7 8 : 66) chama atenção para a inexistência das abreviado. Isto feito, vai começar o r i t u a l da aber-
sessões públicas dc c u r a , destacando o catimbó como u m l u g a r de t u r a de mesa, para o que canta:
consulta e remédio, de caráter privado, para realização de " t r a b a -
l h o s " , bons ou maus, pelos " m e s t r e s " conhecidos p o r suas p r e d i l e - Abre-te mesa
ções maléficas o u caritativas. Abre-tc ajucá
A sessão a que se refere Cascudo ( 1 9 7 8 : 124) sc caracteriza Abre-te cortina
p o r seu caráter especial, privado, de encomenda. K o chamado " t r a - Cortina reá!
b a l h o p a r t i c u l a r " p r o m o v i d o c o m fins reservados, para atender a Vem vê o mestre
u m " t r a b a l h o " encomendado p o r u m " c l i e n t e " . Uma dessas sessões
c a de "fechar o c o r p o " , cujo objclivo c i m u n i z a r o c o r p o c o n t r a o De Espirauál
m a l . O cliente paga a sessão. A cerimónia é i n t u i t i v a e simples, ba- De Fspirauál
seada nas simpatias da repetição irresistível: De Kspirauál

(...) fecha-se a sala, acende-se a velaria, o " m e s - Aberta a mesa, acende os cachimbos c e n t r a a
t r e " abre a sessão. Depois da defumação, goladas defumar lodos os presentes, para afastar os maus,
de cauim, o "mestre" sopra a água e a desj^eja numa os encostos e q u a l q u e r mal encausado. Defuma
bacia nova de flandres. O candidato se descalça, soprando fumaça dos pês ã cabeça das pessoas,
entra para a bacia, equilibrando-sc, com o pé d i - invertendo a posição de uso do c a c h i m b o . D e f u -
reito sobre o esquerdo(...) (Cascudo, 1 9 7 8 : 6 7 ) . ma c depois c i c i a , após cada baforada, palavras
incompreensíveis e tão apressadamente que não
Uma sessão de "fechar o c o r p o " teve u m ilustre p a r t i c i p a n t e ,
se as pode gravar. T e r m i n a d o o ofício d c f u m a -
Mário de Andrade, tendo sido realizada na Casa de Dona Flastina,
tório, ato mágico com finalidade p r o t e l o r a i n d i -
m o r r o de Mãe U i i z a , c m Natal-RN, no dia 2 8 de dezembro de 1928.
v i d u a l , torna a cantar, agora o "fecha a mesa",
O escritor descreve com detalhes em seu diário de campo (Andrade,
m u i t o parecido com o cântico de a b e r t u r a . Ksta
1983: 2 5 0 - 2 5 2 ) a referida cerimónia.
sessão c de t i p o p u r a m e n t e defensivo c tem m u i -
Uma outra sessão dc natureza privada denominada " j u r e m a ta voga, fazendo-sc com grande número de p r e -
de chão", foi descrita p o r Fernandes ( 1 9 3 8 : 9 0 - 9 1 ) : sentes.
(...) estava no chão, ao centro, u m a toalha de a l - Bastide ( 1 9 4 5 : 2 1 9 ) fala da cerimónia de lavagem, r i t u a l rea-
godão q u a d r i c u l a d a . T i n h a no meio u m c r u c i f i - lizado após u m ano de falecimento de u m " m e s t r e " , q u a n d o seus
x o pequeno c ao r e d o r pratos fundos cheios dc objetos rituais são regados e purificados, p e r m i t i n d o a sua v i n d a
fumo picado, alternados com castiçais grossei- como "espírito do além". Vandezandc ( 1 9 7 5 : 61) cita u m a sessão
ros com velas acesas. Todos ao redor de " m e s a " dc lavagem do espírito d o " m e s t r e " Zé dc A l v i n a , que " d e v i a ser
(apesar dc estar diretamcnte sobre o chão de ter- instalado no m u n d o do Além, para que ele pudesse ser chamado
ra batida, chamam à arrumação dc " m e s a " ) , i n i - nas mesas de catimbó (...) Depois desta lavagem do espírito, Zé de
cia o c a t i m b o z e i r o a sessão. Fara isso a p a n h a , A l v i n a poderá ser chamado nas mesas do Catimbó" .
m u i t o solene, abaixando-se, o c r u c i f i x o . Krguc-
D u r a n t e a realização dos r i t u a i s e " t r a b a l h o s " dc mesa de
o no ar, elevando-o p o r c i m a da cabeça, b a i x a n -
catimbó, fuma-sc c bebe-se aguardente ( " c a u i m " ) . O " m e s t r e " só
do as mãos depois até a a l t u r a da testa. Ilenze-se
fuma o seu c a c h i m b o às avessas, p o n d o a boca no f o r n i l h o c so-
assim dc c r u c i f i x o na mão, mas só da testa para
p r a n d o a fumaça pelo c a n u d o p a r a os " q u a t r o cantos da me.sa",
o n a r i z , n u m " e m nome do Padre" i n c o m p l e t o c
m o n o l o g a n d o b a i x i n h o u m a oração católica. É p o r meio do fumo,
88 o CATIMBÓ NORDESTINO o REINO DOS MESTRES 89
traga ndo a fumaça o u r e s p i r a n d o p r o f u n d a m e n t e , que o transe é pela Missão dc Pesquisas Folclóricas.
o b t i d o . Fara líastide ( 1 9 4 5 : 2 1 8 ) , no catimbó " o transe é p r o d u - Km 1 9 3 8 , essa Missão p r o c u r o u sistematizar ideias sobre o
zido p o r processos físicos, pela intoxicação, em parte c o m f u m o c catimbó nordestino, f r u t o das pesquisas realizadas d u r a n t e sua pas-
s ob retu do c o m a j u r e m a " . D u r a n t e o transe, o " m e s t r e " apresen- sagem pela região. A "Missão" fez coicta de informações na capital
ta algumas características: voz típica, modos peculiares, gestos, p e r n a m b u c a n a c c m três municípios d o brejo paraibano: João Pes-
cantiga. Cascudo ( 1 9 7 8 : 4 8 ) a f i r m a que "os 'mestres do além' soa, Itabaiana e Alagoa Nova.
a c o s t a m " em m u i t a gente mas são sempre orientados, p e r g u n t a -
Oneyda Alvarenga ( 1 9 4 9 ) , que fez a catalogação, transcrição
dos pelo " m e s t r e da m e s a " , é este q u e i n d i c a "os remédios".
e organização do material colctado, reafirma as ideias referidas a n -
Cascudo ( 1 9 8 8 : 9 5 ) a f i r m a : "antes, o transe só a t i n g i a o M e s t r e ,
teriormente por Cascudo, Andrade e líastide, quando dizem que o
só ele recebia as comunicações. Hoje, q u a l q u e r u m pode d a r os
catimbó é u m cul to religioso p o p u l a r do Norte e Nordeste do lirasil,
signacs da atuação c estrebuchar, c o m o c o r p o possuído p o r u m
formando, j u n t a m e n t e c o m a pajelança amazônica e o candomblé-
' M e s t r e ' invisível".
de-caboclo da Bahia, u m g r u p o de religiões em que se fundem ele-
A farmacopeia dos catimbós é tirada basicamente da f l o r a , mentos afro-brasileiros, catolicismo, espiritismo c, p r i n c i p a l m e n t e ,
o r i g i n a n d o uma flora m e d i c i n a l do catimbó. Kncontrado o p r o b l e - costumes ameríndios. Lembra, ainda, que sc baseia no cul to às e n t i -
ma que aflinge o cliente, os "mestres" do catimbó r e c o r r e m , então, dades sobrenaturais chamadas de mestres, concebidas como espíri-
a sementes, cascas, raízes, folhas, raminhos e flores preparados p o r tos, divinizações de falecidos chefes de culto. Fara Alvarenga ( 1 9 4 9 ) ,
eles ou indicados mediante conselhos técnicos para o p re p a ro do os ritos do catimbó estão ligados " a práticas do b a i x o - e s p i r i t i s m o " e
cozimento, defumação, lambedor (xarope), chá, emplastro, f r i c - que possuem funções "mágico-curativas".
ção, banho, fumigação etc. (Cascudo, 1 9 7 8 : 1 0 2 ) .
Sobre o que os autores desse período c h a m a m de " b a i x o es-
As descrições do catimbó feitas por diferentes estudiosos e apre- p i r i t i s m o " , o escritor paraibano W i l s o n Seixas ( 1 9 6 2 : 2 7 4 - 2 7 7 )
sentadas anteriormente se baseiam em dados coletados a p a r t i r da relata o caso de u m c o n f l i t o que sc passou em 1 9 4 9 , no sítio deno-
década de 1 9 2 0 , na região do litoral e do agreste nordestinos, c o m - m i n a d o " M ã e Dágua", no município de Pombal-FB. O c o n f l i t o é
preendendo o espaço que vai do Rio Grande do Norte até Alagoas. sobre u m a questão de terras, tendo de u m lado os adeptos da seita
Predomina na região características de uma sociedade r u r a l que p r o - " I r m a n d a d e dos Espíritos de L u z " , fundada p o r Gabriel Cândido dc
c u r a manter os vínculos de u m a cultura t r a d i c i o n a l , marcada pela Carvalho, e, do o u t r o , os denominados hereges, tendo como alvo
religiosidade de u m catolicismo popular. U m período c m que as prá- p r i n c i p a l Inocêncio Lopes. Os membros da Ir mandade se r e u n i a m ,
ticas religiosas diversas do catolicismo oficial c dominante são p r o i - rezavam orações, cantavam benditos. Gabriel comandava as ses-
bidas c perseguidas pela força policial e pela sociedade geral. Nesse sões de c u r a em pessoas com problemas mentais. Apresentava-se
contexto, o catimbó descrito pelos autores refere-se a u m a prática com poderes para afastar os espíritos maus existentes nos indiví-
na q u a l é visível a existência dos elementos simbólicos da tradição duos e no sítio Mãe Dágua. Era considerado santo o u anjo, exer-
indígena, embora em u m q ua d r o religioso que incorpora elementos cendo domínio sobre os adeptos que lhe davam "vivas c salvas dc
de outras tradições, fazendo parte de u m processo dc reelaboração palmas e, mais, géneros alimentícios". Os adeptos, chamados de
das práticas culturais indígenas que vem desde o início dos p r i m e i - irmãos, " a n d a v a m armados a cacete, c m que escupiam o u gr ava-
ros contatos c o m o branco colonizador. Nessa ocasião, a prática do vam u m a c r u z " . Eram as 'Espadinhas do Anjo GabrieP". O c o n f l i t o
catimbó compõc-sc também dc elementos do catolicismo e do xangô t e r m i n a c o m a morte dc hereges e a prisão dos adeptos e dc G a b r i e l ,
pernambucano. Mas, do q ua d r o descrito por nossos pesquisadores, o líder da Irmandade.
o que sobressai c a m a r c a , nos rituais, dc elementos do espiritismo
kardccista, que tomará forma mais definida nos dados apresentados Apesar de praticamente não haver dados etnográficos sobre
a " I r m a n d a d e dos Espíritos dc L u z " , o relato parece~nos i m p o r t a n -
90 O CATIMBÓ NORDESTINO O REINO DOS MESTRES 91

te por i l u s t r a r u m c o n f l i t o que envolve u m a prática religiosa c o m uma espécie de a u x i l i a r , que tem como u m a das atribuições travar
elementos do catolicismo c do espiritismo kardccista, o c o r r i d o em com os mestres sobrenaturais o diálogo r i t u a l d u r a n t e o transe
pleno sertão nordestino, antecedendo u m período em que as práticas mediúnico. Os discípulos são aqueles que já possuem u m c o n h e c i -
espíritas serão amplamente difundidas, t r a n s f o r m a n d o o catimbó mento a p r e n d i d o e dentre os quais serão escolhidos os f u t u r o s mes-
que será praticado nas décadas seguintes. tres. O g r u p o dos i n i c i a d o s é f o r m a d o p o r aqueles q u e estão
i n i c i a n d o e os demais interessados no c u l t o .
C o n t i n u a n d o sua análise, Oneyda Alvarenga ( 1 9 4 9 ) diz:
os mestres parecem m o r a r n u m m u n d o sobre- Os objetos litúrgicos, que denominam " m a r c a s " , resumem-sc
n a t u r a l d i v i d i d o em reinos, estados e cidades o u em: marca-mestra (o maracá), a marca (o cachimbo) e a princesa
aldeias. Além dos Mestres, nesses lugares talvez (bacia). Não existe uma indumentária apropriada c o acompanha-
h a b i t e m divindades menores, que eles governam mento faz-sc por meio dc instrumentos de percussão (o maracá -
e que constituem u m a espécie de falange dc es- uma espécie de chocallio - , o arco de Hechar c palmas).
píritos. As falanges nomeadas nos textos são: ca- A sessão de catimbó é chamada de mesa, em t o r n o da q u a l
boclos dc m a r a i i , caboclos de arubá, caboclos de ficam os participantes. Vejamos a descrição feita da mesa de catimbó
luanda. Os cânticos falam nas seguintes paragens do mestre Luiz Gonzaga Ângelo, em João Fessoa-PB:
místicas: J u r e m a l , cidade d c j u r e m a l . Jurema; c i - n u m a parte a l i m p a d a do chão colocaram u m a
dade d o Bom-Floral; Luanda, cidade de Luanda; mesinha dc 5 0 c m x 1 m aproximadamente. Em
Maraú; As Q u a t r o Cidades; cidade dos Pássaros; c i m a desta mesa u m a toalha br anca, q u a t r o v a -
Vaucá, Vaiucá; Arubá; T o r r e da J u r e m a ; líom- sos c o m mudas de enfeita, u m carbureto, u m c r u -
Passar; Poço-Fundo. cifixo, os cachimbos, os arcos, u m a g a r r a f a e u m
copo iapud CarUni, 1 9 9 3 : 6 5 ) .
A a u t o r a a p o n t a , a i n d a , os elementos característicos d o
catimbó nordestino, chamando atenção para sua origem ameríndia: As sessões dc catimbó observadas pela "Missão" basicamen-
a defumação exorcística p o r meio do c a c h i m b o e a quase f i t o l a t r i a te se d i v i d e m em três partes sequenciadas denominadas de: r i t u a l
de que é cercada a j u r e m a . de a b e r t u r a , invocação aos mestres e encerramento. Ini ci al mente é
feita a a b e r t u r a da mesa pelo mestre do no da casa. Seguindo o r i -
Na prática, os pesquisadores que integravam a "Missão dc
tual de a b e r t u r a , é feita a defumação e todos cantam os cânticos dc
Pesquisas Folclóricas" e n f r e n t a r a m diversos problemas, p r i n c i p a l -
abertura. Sobre o p r i m e i r o elemento, a "Missão" i n f o r m a - n o s o
mente os decorrentes da forte pressão p o l i c i a l aos cultos a f r o - b r a -
seguinte: "acesos os cachimbos, t i r a m algumas baforadas e, depois,
sileiros, como a reserva m a n t i d a pelos praticantes c frequentadores
a u m sinal do mestre, i nver tem a posição do cachimbo, de modo
dessas casas religiosas, d i f i c u l t a n d o o contato e o acesso ás práticas
que a parte onde v a i o fumo é colocada na boca. Assoprando ao
rituais existentes. Todavia, a riqueza das informações colctadas é invés de chupar, esta sai pelo canudo. Parados de pé e apenas fa-
i m p o r t a n t e e convém destacar alguns dados para posterior c o m - zendo u m m o v i m e n t o do t r o n c o para a frente e c i r c u l a r para os
preensão da " j u r e m a " praticada mais recentemente nos t e rre iros lados, p r o c u r a m espalhar a fumaça, assim expelida, pelo ambiente
dc u m b a n d a no sertão nordestino. todo. Fazem isto dc maracá na mão e flecha dependurada no b r a -
Os dados apresentados pela "Missão" fazem-nos v i s l u m b r a r o ço" (aput/Carlini, 1993: 74).
catimbó como u m c ul t o com pouca hierarquia e sem maiores e x i - U m dos cânticos de abertura da mesa de catimbó diz o seguinte:
gências para a sua realização. Os membros distribuem-se numa es- Eu vó a b r i m i n h a mesa
cala formada pelo Mestre, o ajudante, os discípulos e os iniciados. Em j u r e m a , (bis)
O Mestre é o responsável pela casa; c o dirigente da prática Vô chamar tod'us meus mestres
religiosa, seguido do ajudante, quase sempre a m u l h e r do Mestre, D i vaucá. (bis)
92 O CATIMBÓ NORDESTINO O REINO DOS MESTRES 93

Eu võ a b r i m i n h a mesa obtenção de o u t r o s quaisquer benefícios o u ainda a atração dc m a -


Com m e u Mestre de A r r u d a , (bis) les sobre terceiros.
Nas hora de Deus amém A pesquisa realizada pela "Missão" torna evidente a existên-
Tod'os mestre me ajude, (bis) • > ."-r cia de elementos indígenas em práticas religiosas presentes em es-
paços sociais do i n t e r i o r da região nordestina. Observamos que à
Abre-te, mesa celeste, medida que vai sc dando o processo de reelaboração desses ele-
Abre-tc, portão riá (bis) mentos, temos a introdução dos elementos advindos do e s p i r i t i s m o
Abre-te, c u r t i n a nobre. kardccista, c o m o frisado p o r Cascudo, em suas pesquisas sobre o
Cidade de j u r e m a ! (bis) . , catimbó natalense.
É a própria "Missão" que nos chama a atenção para a i n -
No segundo momento das mesas de catimbó observadas pelos
fluência do espiritismo, demonstrada pelas expressões usadas ( m a -
pesquisadores da "Missão", encontramos a invocação aos mestres
téria, manifestar, baixar, g u i a , irmão etc.) e pelo formulário c o m
p o r intermédio dos cânticos a cies consagrados. O relato da " M i s -
que SC inicia o c u l t o c sc conversa c o m os mestres sobrenaturais
são" i n f o r m a - n o s o seguinte:
( C a r l i n i , 1 9 9 3 : 1 2 9 ) . Como a f i r m a Alvarenga:
Os mestres são invocados p o r meio dc cânticos.
A palavra e as funções ligadas ao objeto designa-
Os cânticos são, na sua m a i o r i a , acompanhados
do p o r ela tem todas as mostras dc serem t o m a -
p o r maracá. Os mestres, chamados pelos cânti- das ao e s p i r i t i s m o . No catimbó, o c e n t r o da
cos, " m a n i f c s t a m - s c " . Não existe o r d e m fixa para atividade religiosa é u m a mesa, espécie dc altar,
a invocação dos mestres. É de pressupor-sc que, em t o r n o da q u a l ficam o mestre e os iniciados. A
sendo cada divindade especialista na concessão importância da mesa e d o agrupamento ao seu
de determinados bens físicos ou morais, os c r e n - redor é idêntica no espiritismo, que possui várias
tes r e c o r r a m aos mestres segundo a necessidade expressões rituais dela derivadas: f o r m a r mesa,
que deles t e n h a m (apuíí C a r l i n i , 1 9 9 3 : 1 3 1 ) . presidir a mesa etc. (apud C a r l i n i , 1 9 9 3 : 7 1 ) .
O t r a b a l h o de pesquisa sobre os catimbós nordestinos r e a l i -
N ' o u t r o m u n d o tem
zado pela "Missão de Pesquisas Folclóricas" dc 1938 encerra u m a
os meus bons mestris,
fase de estudos só retomados na década de 1970 pelo pesquisador
A i são meus mestris curador. Roberto M o t t a , que descobre que a " j u r e m a " , com seus mestres e
T a n t u c u r a c o m a casca de j u r e m a , caboclos, e r a m a i s p r a t i c a d a n o Recife q u e o próprio xangô
c o m u c u r a c o m a flô. p e r n a m b u c a n o . Nesse mesmo período e sob a orientação de M o t t a ,
Cantam as linhas dc abertura da mesa, de maracá na mão. A o p e s q u i s a d o r René Vandezandc r e a l i z a estudos na região de
coreografia praticamente não existe e não se define realmente como A l h a n d r a , na Paraíba.
dança. Esta consiste e m oscilações de t r o n c o para a direita e para a O t r a b a l h o realizado p o r Vandezandc ( 1 9 7 5 ) apresenta d a -
esquerda e em u m pequeno m o v i m e n t o de pés. Dançam c o m o dos da observação c análise das sessões de catimbó agrupadas em
maracá na mão esquerda e ajoelham e cantam fazendo u m m o v i - duas categorias: as sessões ligadas à tradição de A l h a n d r a e as c o m
mento c o m o maracá para a direita e para a esquerda (apud C a r l i n i , influencia da u m b a n d a . Na p r i m e i r a , o autor desenvolve u m a aná-
1993:75). lise e m que a ênfase é posta nas raízes histórieo-sociais do catimbó
Nas observações realizadas pela equipe da "Missão", desta- e no estudo de seus elementos simbólicos. Na segunda, o enfoque
ca-se a finalidade mágico-curativa dos catimbós nordestinos, es- recai sobre a estratégia política dc absorção dos catimbós p o r parte
peeialmenle no que se refere aos aspectos do tratamento de doenças, da Federação dos Cultos Africanos do Estado da Paraíba. Estes dois
94 O CATIMBÓ NORDESTINO o REINO DOS MESTRES 95

aspectos estão diretamcnte associados ao qne nos propomos c o m - uma princesa índia de nome Jurema (Vandezan-
preender, o u seja, o processo de reelaboração do c u l t o da j u r e n u i e dc, 1975: 1 3 4 ) .
sua gradativa incorporação e m u m segmento religioso mais orga- U m o u t r o aspecto observado em A l h a n d r a , e parte desse c o n -
nizado, no caso, a u m b a n d a . teúdo simbólico e mitológico que engloba o complexo universo da
O "catimbó r u r a l " (Nascimento, 1 9 9 4 : 133) de A l h a n d r a c " j u r e m a " , é o r i t u a l da "lavagem do espírito", cuja finalidade é
caracterizado pela existência de crenças e práticas mais i n t i m a m e n - instalar no m u n d o do Além o espírito dc u m determinado j u r e m e i r o ,
te ligadas a tradições indígenas, principalmente à concepção de que falecido há pelo menos seis meses, para que ele possa ser chamado
a planta " j u r e m a " c possuidora de seres dotados de u m " e s p i r i t o " nas mesas dc catimbó.
próprio, c o m capacidade de comunicação c intervenção sobre os A i n d a sobre a relação c o m o m u n d o vegetal, Vandezandc
" p r o b l c n u i s " que afligem os indivíduos. Alem dessa concepção, é v i - ( 1 9 7 5 : 140) nos fala da existência de u m processo de simbolização
sível na diversidade da " j u r e m a " encontrada c m Alhandra a c o m b i - progressiva que ocorre c o m a planta j u r e m a e com as demais p l a n -
nação de u m conjunto de símbolos trazidos do catolicismo popular c tas medicinais, a f i r m a n d o que o uso real d i m i n u i e que poucos
da c u l t u r a africana, traduzidos nos elementos simbólicos das i m a - sabem reconhecer as plantas c a sua respectiva utilização . O a u t o r
gens dc santos católicos, orações, melodias, no uso de velas, bacia destaca o fato dc que a j u r e m a , i n i c i a l m e n t e u m arbusto usado p o r
com água, cachimbo, búzios, pedras, maracás, flores, bebidas e na causa das suas propriedades químicas, gradativamente v a i t o m a n -
presença dos "espíritos" de índios, caboclos e mestres. do a forma de "símbolo religioso sem relação alguma c o m a r e a l i -
Em A l h a n d r a , Vandezandc ( 1 9 7 5 : 129) localizou os a r b u s - dade do arbusto em si, ou com as suas propriedades alucinogênicas".
tos de dez " j u r e m a s " , conhecidas na região c o m o a "cidade dc Isso nos leva a perguntar: por que a permanência da " j u r e m a " como
j u r e m a " , os quais f o r a m plantados p o r j u r e m e i r o s da tradição do u m símbolo religioso, p r i n c i p a l m e n t e se levarmos c m conta a exis-
cx-regente dos índios dc A l h a n d r a , dando origem ás cidades do tência dc tantos outros símbolos advindos de outros universos r e l i -
M a j o r do Dias, M a r i a d o Acais, Mestre Zezinho, Mestra M a r i a giosos? Q u a l o significado da " j u r e m a " enquanto símbolo religioso
A r c a n j a , Cidade de M o c i n h a , Mestra Tandá, Mestre Cadete, Mes- em u m o u t r o contexto - o da umbanda?
tra Isabel, Mestre Flósculo c Cidade de Tamataúpc das Flores. Para Nascimento ( 1 9 9 4 : 1 3 3 ) , o
Segundo a tradição local, catimbó r u r a l de A l h a n d r a , pela sua estreita
quando alguém " g r i t a pela j u r e m a " , quando bebe vinculação a u m passado indígena, poderia estar
j u r e m a , o u simplesmente q u a n d o alguém u t i l i z a em u m a etapa intermediária entre essa acima c
o símbolo, a palavra j u r e m a , ele o faz sempre c o m u m a e t a p a p o s t e r i o r , própria dos catimbós
referência a u m a determinada "cidade da j u r e - umbandizados, em que se teria perdido totalmen-
m a " , a u m arbusto bem definido e c o m alusão a te a referência d i r c t a com o m u n d o vegetal. Em
u m determinado mestre e seu g r u p o de discípu- que se teria operado, através de u m processo de
l o s " (Vandezandc, 1 9 7 5 : 1 3 3 ) . rcssignificação, u m a personalização dos "espíri-
t o s " q u e h a b i t a m os vegetais e m " e n t i d a d e s "
O a u t o r frisa que, c m ambientes umbandistas, não conse-
antropomórficas, os "caboclos" - contudo, a i n -
g u e m d i s t i n g u i r a j u r e m a " v e r d a d e i r a " dc outros tipos semelhan-
da concebidos como profundos conhecedores das
tes, como também não sabem ao certo do seu uso, a f i r m a n d o que
propriedades das plantas.
o s i g n i f i c a d o do símbolo " j u r e m a " é bastante
i n d e t e r m i n a d o , é u m a planta qualquer, o u , o b - O a u t o r propõe também e n q u a d r a r nessa etapa os "torés mis-
servamos o uso da palavra " j u r e m a " sem a l g u - t u r a d o s " c o "candomblé de caboclo", a f i r m a n d o que t a l processo
ma referencia ao conteúdo real, o conteúdo sendo teria sido facilitado pela homolpgia, a l i operada, entre os "cabo-
d e f i n i d o pela c o m u n i d a d e , entre outros, c o m o clos" c os "orixás", o u entre "caboclos" c "espíritos desencarnados".
96 OCA7IMÍÍÓ NOKIJLSIINO I . i'! I N O DOS, l-ll M i r , 97

O catimbó dc A l i i a n d r a , c m sua fase dc transição, e n c o n t r a - Vandezandc a f i r m a , a i n d a , que o catimbó observado e m


sc marcado por elementos advindos da umbanda, l l m exemplo dessa A l i i a n d r a "está sendo i n s t i t u c i o n a l i z a d o no q u a d r o da u m b a n d a
influência é a denominada mesa branca, que, apoiando-se nos ele- na Paraíba, legalmente representada pela Federação dos Cultos A f r i -
mentos d o catimbó, realiza u m a atividade religiosa cuja função é a canos d o Estado da Paraíba" (Vandezandc, 1 9 7 5 : 2 0 0 ) . U m a das
orientação, a doutrinação c a formação dos médiuns, os futuros p r i n c i p a i s influências é a utilização do rádio, da i m p r e n s a c da
donos de " c e n t r o s " c provavelmente c o n t r i b u i n t e s da Federação. televisão. O rádio, p r i n c i p a l m e n t e , é usado c m programações se-
U t i l i z a n d o os símbolos c o discurso religioso do catimbó, aos p o u - manais para a emissão de recados e para se cantar linhas de j u r e m a ,
cos vão substituindo a orientação baseada na tradição o r a l p o r o u - chegando até mesmo u m chefe da u m b a n d a a se d e n o m i n a r " m e s -
tra mais sistemática c estruturada. Esse t i p o dc sessão, denominada t r e " . Além de notícias da Federação, são dadas informações pes-
p o r Vandezandc ( 1 9 7 5 : 198) como "sessões organizacionais", apre- soais, inclusive c r i a n d o u m veículo dc comunicação da instituição
senta-se c o m o o lociis privilegiado para a transmissão dos valores com os " j u r e m e i r o s " Ja região, desencadeando o que o a u t o r de-
morais da sociedade d o m i n a n t e , o respeito à h i e r a r q u i a e a m a n u - n o m i n a de u m " m o v i m e n t o socíalizantc" (Vandezandc, 1975: 2 0 2 ) .
tenção da organização religiosa. Esse " m o v i m e n t o socíalizantc" efeliva-se na relação estabe-
Nas denominadas "sessões o r g a n i z a c i o n a i s " desaparecem os lecida c o m a instituição no espaço religioso da prática da u m b a n d a .
laços de parentesco c o m os " m e s t r e s " , aqueles aspectos dc " d i v i n i - No contexto analisado p o r Vandezandc ( 1 9 7 5 ) , a u m b a n d a , r e l i -
zação dos antepassados f a m i l i a r e s " (Vandezandc, 1 9 7 5 : 198) que gião, confundc-se c o m a Federação, instituição. Para o autor, a ab-
c r i a m e mantêm a individualização dos " m e s t r e s " e estabelecem sorção d o catimbó pela u m b a n d a seria, então, u m p r i m e i r o esboço
uma relação destes c o m os adeptos, tornando-sc mais "simbólico- de organização social para certos g r u p o s na região pesquisada e,
scm-contciído". c o m o t a l , u m a tentativa dc i n i c i a r u m a saída de v i d a e m u m m u n -
Em relação à absorção do catimbó dc A l h a n d r a pela u m b a n d a do r u r a l e dc pobreza. Como a f i r m a Vandezandc ( 1 9 7 5 : 2 0 2 ) :
em expansão, Vandezandc ( 1 9 7 5 : 2 0 0 ) a f i r m a : a u m b a n d a , representada pela Federação, cons-
A finalidade não é somente o crescimento n u - t i t u i para os catimbozeiros, geralmente, a única
mérico e financeiro da Federação, mas há claras organização de q u e fazem parte. É a p r i m e i r a e
indicações que sc quer aproveitar dc elementos única vez que eles sc sabem enquadrados c m o r -
do catimbó para e n r i q u e c e r os r i t u a i s da u m - 2 ganização o u c o n j u n t o m a i o r que a sua família.
banda local e também para f o r m a r u m t i p o dc É a p r i m e i r a vez que ouvem falar em seu nome
apologética apresentando os pés de j u r e m a como no rádio, n o nome dc seus v i z i n h o s , n o nome de
"lugares santos" da u m b a n d a . seus sítios, no nome de seus mestres. Isto lhes dá
Nesse processo, a umbanda procura absorver o conteiido s i m - a p r i m e i r a sensação de participação social m a i o r
bólico/sagrado existente na " j u r e m a " e nos catimbós, como o " s a - que a família o u o estreito círculo local.
b e r " do m u n d o vegetal, suas propriedades e o poder tradicional da Esse não c u m processo u n i l a t e r a l , que acarreta m o d i f i c a -
cura. Além desses elementos, interessam, ainda, as práticas mágicas ções apenas c m u m a das partes envolvidas. Ao mesmo tempo e m
de "feitiçaria", impregnadas de elementos de outras culturas, como que absorve as práticas religiosas populares, a u m b a n d a se fortale-
aqueles advindos do catolicismo ibérico e das crenças trazidas pelos ce e se expande, o que não significa apontar para a anulação das
escravos africanos, que foram incorporadas ao universo da " j u r e m a " práticas populares; pelo contrário, estas sc reforçam n o complexo
ao longo dc u m processo histórico dc absorção e reelaboração desses processo de reelaboração p o r que passam, elaborando outras for-
elementos. É necessário f r i s a r q u e , ao serem a b s o r v i d o s pela mas de fazer e vivenciar as crenças e o ato religioso.
umbanda, os símbolos da " j u r e m a " são esvaziados do seu conteúdo O u t r o aspecto apresentado p o r Vandezandc ( 1 9 7 5 : 2 0 4 )
o r i g i n a l , a d q u i r i n d p novos elementos, representações e significados. como elemento do catimbó de A l h a n d r a é a sua caracterização como
9S O CATIMBÓ N(ih'Ii|MIIIO
o REINO DOS MESTRES 99

"religião p a r c i a l " , a existência de u m lado imediatista, c m d e c o r -


José Jorge dc C a r v a l h o ressalta q u e
rência d o sincretismo brasileiro que favorece a formação de ele-
a t i p o l o g i a dos cultos mediúnicos no Recife é
mentos mágicos. Porém, segundo a análise desenvolvida pelo a u -
m u i t o precária e não é possível estabelecer a exata
t o r , na m e d i d a e m q u e o catimbó se afasta de suas práticas
f r o n t e i r a entre u m a casa de j u r e m a e u m t e r r e i -
tradicionais (ele cita a mesa dos mestres c o toré dos caboclos), a
r o dc u m b a n d a ,
tendência é para a modificação da chamada " m a g i a p r i m i t i v a " ,
adquirindo formas de independência ritual c dc protesto simbólico. destacando q u e o c u l t o da j u r e m a "se defina f u n d a m e n t a l -
Os aspectos mágicos apontados pelo autor são referência para nosso mente c o m o u m a f o r m a de c u r a " (Carvalho, 1 9 9 0 : 1 3 1 ) .
estudo, n a medida e m q u e p r o p i c i a m a reflexão sobre o processo Segundo M o t t a ,
de reelaboração da " j u r e m a " , pois, como veremos p o s t e r i o r m e n - existe no Nordeste forte influência indígena so-
te, nossos dados empíricos e n c a m i n h a m para u m a o u t r a p o s s i b i l i - b r e a formação d o espiritismo p o p u l a r , através
dade, diferente d a observada pelo autor, ou seja, para o f o r t a l e c i - de ritos como os do fumo e da j u r e m a e de v a r i e -
m e n t o das práticas mágicas n o q u a d r o de u m a religião mais dades de dança feito o toré, que sc pode acompa-
institucionalizada, no caso, a umbanda. n h a r nas descrições antropológicas de sociedades
tribais (...) o u de g r u p o s indígenas s e m i - a c u l t u -
Na década de lí)70, Roberto M o t t a realiza uma série de pes-
rados (...) e que se conservam, c o m acréscimos e
quisas p o n d o o tenui d o catimbó e d a " j u r e m a " c o m o c e n t r o de
reinterpretações, mesmo depois d a c o m p l e t a
suas análises, chamando a atenção para a importância dessa práti-
obliteração das identidades tribais (...). As r e l i -
ca religiosa e, p r i n c i p a l m e n t e , dando início a u m a nova fase de
giões espíritas populares não se apresentam f e i -
estudos, praticamente esquecida d o tema desde os estudos realiza-
t o sistemas completos c acabados (...) sempre
dos pela "Missão dc Pesquisas Folclóricas". Todavia, os estudos de
M o t t a sobre o catimbó e a " j u r e m a " recifense não tiveram a res- permanece aberta a possibilidade da i n c o r p o r a -
sonância devida entre os estudiosos da c u l t u r a a f r o - b r a s i l e i r a , u m a ção i n d e f i n i d a de novos ritos e novos mitos... as
vez que a p r i o r i d a d e estava na análise do processo de r e a f r i c a n i z a - religiões mediúnicas populares i n t e g r a m e a b -
ção da c u l t u r a a f r o - b r a s i l e i r a que p u n h a o candomblé e o m o v i - sorvem partes uma das outras feito conjuntos me-
mento negro como temas centrais, d e i x a n d o de lado as práticas nores englobados c m conjuntos maiores ( M o t t a ,
da religiosidade, notadamente aquelas de c u n h o regional. 1977: 9 9 - 1 0 0 ) .
Para M o t t a , essa forma r i t u a l mais praticada no Recife t e m
Os estudos realizados p o r Roberto M o t t a na área do Recife, sua origem na sistematização d a u m b a n d a carioca, d i s t i n g u i n d o -
n o c a m p o d e n o m i n a d o p e l o a u t o r c o m o d a s religiões a f r o -
se pela adição dos Exus ao c o n j u n t o dos mestres c caboclos e u m a
pernambucanas, apresentam uma variedade religiosa c o m
reinterpretação simbólica d a d o u t r i n a c d a prática mediúnica,
gradações e interpenetrações. São agrupadas c m q u a t r o d e n o m i -
c o m p o n d o " u m novo t i p o de religião mediúnica, p o p u l a r n o seu
nações: catimbó, xangô, u m b a n d a e xangô u m b a n d i z a d o , porém o
conteúdo e kardccista na sua f o r m a " ( M o t t a , 1 9 7 7 : 1 0 7 - 1 0 8 ) . So-
a u t o r destaca a influência do " e s p i r i t i s m o p o p u l a r " ( M o t t a , 1 9 7 7 :
bre as entidades d o catimbó nordestino, nos i n f o r m a :
9 9 ) , i n c l u i n d o nesse universo as práticas ligadas ao catimbó e à
A essas duas categorias, de o r i gem a r q u e t i p i c a -
" j u r e m a " , q u e classifica como f o r m a de religiosidade dentre as mais
mente no r desti na, vêm se acrescentando, nos úl-
populares da cidade:
timos anos o u décadas, conjuntos hagiológicos
os ritos mais praticados pelo povo do Recife não procedentes d o Rio de Janeiro o u , ainda q u a n d o
são os do xangô, mas, feito u m dos meus i n f o r - originários de outras regiões, reinterpretados, em
mantes sc e x p r e s s o u , os da " u m b a n d a q u e é sua função mitológica, posição r i t u a l e expres-
j u r e m a " (Motta, 1977: 102). são m u s i c a l , na antiga c a p i t a l d o país. T a l é e m i -
100 o CATIMBÓ NORDESTINO 101
O REINO DOS MESTRES

n c n t c i n c n l c o caso dos exus ( m a s c u l i n o s ) c conduta que vigoravam quando a festa começou, e


pombagiras (exus fême«s) q u e passam a c o n s t i - a liccnsiosidade, o erotismo, a violência simboliza-
t u i r u m c o n j u n t o autónomo ( M o t t a , 1 9 9 1 : 3 9 ) . da e a escatologia crescem dramaticamente. l'arte
Aponta ainda o autor para uma i n f l u e n c i a kardccista a n t e - mais dramática em que o comportamento dos es-
r i o r à expansão da u m b a n d a . Apresenta os aspectos da u m b a n d a píritos efetua uma completa subversão da ordem.
branca, como a crença no desenvolvimento o u progresso i n d e f i n i - Os espíritos dão consultas a pessoas presentes, pas-
do do u n i v e r s o c dos espíritos q u e o h a b i t a m , encarnados o u ses, avisos, recomendam oferendas e trabalhos.
desencarnados, destacando que t a l fato não significa a negação, O q u e o a u t o r p r o c u r a ressaltar é o aspecto de desafio à o r -
mas a reinterpretação das entidades d o catimbó e d o xangô, q u e d e m , esse contato c o m o lado sombrio, violento, maléfico etc. Car-
passam a ser considerados como espíritos q u e já t e r i a m a t ingid o, valho c ompl ementa a sua ideia a f i r m a n d o que
ou não, d e t e r m i n a d o estágio na escala evolutiva ( M o t t a , 1 9 9 1 : 4 5 ) .
a violência r i t u a l e x p l i c i t a , aliada ao verdadeiro
No universo da denominada " u m b a n d a q u e c j u r e m a " , as caos simbólico, à b u r l a , à carnavalização, à des-
entidades espirituais constitucm-se dos caboclos e mestres. O r i t u a l , truição da polissemia, não estão no xangô, nem
ainda fortemente sacramental, encontra-sc drasticamente s i m p l i - na u m b a n d a br anca, nem no espiritismo, n e m n o
ficado e m comparação com o do candomblé. A organização eclesiás- catolicismo, senão nos cultos dc j u r e m a (Carva-
tica é f r o u x a e i n f o r m a l (c, segundo M o t t a [ 1 9 7 7 : 102|), mais lho, 1 9 9 4 : 9 2 ) .
igualitária). Os rituais são dc consulta verbal às entidades, p o r oca- Em sua análise d o c u l t o da j u r e m a em Recife, Carvalho ( 1 9 9 4 )
sião do transe mediúnico, de limpeza pelo fumo e, muitos outros, aponta elementos q u e revelam " u m a influência marcante da u m -
dc caráter mágico ou terapêutico, envolvendo o uso de chás. b a n d a " , c o m o a presença de suas entidades - E x u , O g u m , Oxóssí,
Fara José Jorge Carvalho, os núcleos básicos da j u r e m a são o lansã, Freios-Velhos - c a s i m i l i t u d e dos rituais aos mestres c o m a
c u l t o aos mestres e à p l a n t a , ambos universos de crença que são q u i m b a n d a carioca e c o m a g i r a de Exus na u m b a n d a , como desta-
atualizados na prática r i t u a l d o c u l t o . A f i r m a , a ind a , que o que cou M o t t a ( 1 9 7 7 , 1991) sobre a incorporação dessas entidades da
caracteriza a organização de u m a casa de j u r e m a é a i n f o r m a l i d a d e : u m b a n d a ao universo d o catimbó recifense.
" a organização da j u r e m a reflele m u i t o de p e r t o a m ob ilid a d e físi- Os estudos realizados por M o t t a c p o r Carvalho sobre o catimbó
ca e geográfica da população à q u a l serve, cujos laços familiares e e a j u r e m a recifenscs Icvam-nos ao encontro de u m recente processo
arranjos residenciais sc dissolvem c sc recompõem a cada d i a " (Car- de reelaboração e rcssignificação das práticas religiosas populares
valho, 1 9 9 0 : 1 3 1 ) . no universo dos cultos afro-brasileiros. Esse processo nos apresenta
o u t r a versão da prática d o catimbó e da j u r e m a e m u m contexto
A análise etnográfica feita p o r Carvalho ( 1 9 9 4 ) a p a r t i r das
definido como u m b a n d a , porém marcado profundamente pela d o u -
observações realizadas nos terreiros de Recife apresenta elementos
trina espírita kardccista, d e f i n i n d o significados para as tradições
para a compreensão da j u r e m a como concebida atualmente. O autor
indígenas e africanas. É dentro desse quadr o que a j u r e m a acaba se
observou a realização de r i t u a i s públicos e descreveu que, concluí-
polarizando, internamente, como a f i r m a Carvalho ( 1 9 9 4 : 9 3 ) , e n -
da a p r i m e i r a parte do r i t u a l , é feito u m i n t e r v a l o para preparação
tre rituais que apresentam u m lado dc o r d e m e coerência e rituais
para o segundo momento, o da invocação aos mestres. Essa mesma
em que de fato se assumem os conteúdos rejeitados pelos outros.
estrutura r i t u a l e seus desdobramentos encontramos nos terreiros
de Natal (Assunção, 1 9 9 1 , 1 9 9 6 ) . Fara Carvalho, nesse m o m e n t o ,
simbolicamente acontece u m a mudança no r i t u a l :
Ocorre, e m termos de comportamento dos espíri-
'ÍM tos, u m considerável relaxamento das regras de

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