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Demonstração ontológica de Gödel

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(Redirecionado de Demonstração Ontológica de Gödel)

A demonstração ontológica de Gödel é um argumento formal para a existência de Deus


pelo matemático e filósofo Kurt Gödel (1906-1978).

É uma linha de pensamento que data desde Anselmo de Cantuária (1033-1109). O


argumento ontológico de São Anselmo, na sua mais sucinta forma, é o seguinte: "Deus,
por definição, é aquele para o qual, nada maior pode ser concebido. Deus existe no
entendimento. Se Deus existe no entendimento, nós poderíamos imaginar Ele é
grandioso por existir na realidade. Portanto Deus tem que existir.". Uma versão mais
elaborada foi feita por Gottfried Leibniz (1646-1716); essa é a versão que Gödel
estudou e tentou esclarecer com seu argumento ontológico.

Gödel deixou quatorze pontos destacados de sua crença filosófica em seus escritos.
Pontos relevantes para a prova ontológica incluem:

4. Existem mundos e seres racionais de espécies diferentes e mais evoluídos.


5. O mundo em que vivemos não é o único em que devemos viver, ou temos
vivido.
13. Existe uma filosofia e teologia científica (exata), que lida com conceitos da
maior abstração; e isso é em geral muito frutífero para a ciência.
14. Religiões são, em sua maior parte, más, mas religião não é.

Índice
• 1 História da demonstração de Gödel
• 2 Esboço da Demonstração de Gödel
• 3 Críticas
• 4 Ver também
• 5 Notas

História da demonstração de Gödel


A primeira versão de sua demonstração ontológica data de "cerca de 1941". Não se sabe
se Gödel disse a alguém sobre seu trabalho em sua demonstração até 1970, quando ele
achou que estava morrendo. Em fevereiro, ele deixou Dana Scott copiar uma versão da
demonstração, que circulava em privado. Em Agosto de 1970, Gödel disse a Oskar
Morgenstern que ele estava "satisfeito" com a demonstração, mas Morgenstern escreveu
em seu diário um registro no dia de 29 de Agosto de 1970, que Gödel não publicaria por
conta de que ele estava com medo de que outros poderiam pensar "que ele na verdade
acreditara em Deus, enquanto que ele estava apenas engajado com investigações lógicas
(isto é, em demonstrar que tais provas com premissas clássicas (completude, etc.)
correspondentemente axiomáticas, é possível )."[1] Gödel morreu no dia 14 de Janeiro de
1978. Outra versão, ligeiramente diferente da de Scott, foi encontrada em seus escritos.
A prova finalmente foi publicada juntamente com a versão de Scott em 1987. [2]

O diário de Morgenstern é uma importante e confiável fonte para os últimos anos de


Gödel, mas a implicação do registro no diário de Agosto de 1970 - de que Gödel não
acreditara em Deus - não é consistente com a outra evidência. Em cartas para sua mãe,
que não frequentava a igreja e que o criou e seu irmão como pensadores livres, [3] Gödel
argumenta de forma prolongada por uma crença na vida após a morte.[4] Ele fez o
mesmo em uma entrevista com o cético Hao Wang, que disse: "Eu expressei minhas
dúvidas enquanto G falava [...] Gödel sorriu enquanto replicava às minhas perguntas,
obviamente ciente de que suas respostas não estavam me convencendo."[5] Wang
informa que "a esposa de Gödel, Adele, dois dias depois da morte dele, disse a Wang
que "Gödel, embora ele não fosse à igreja, era religioso e lia a bíblia na cama toda
manhã de domingo."[6] Em uma resposta não enviada a um questionário, Gödel
descreveu sua religião como "Luterano batizado (mas não um membro de nenhuma
congregação religiosa). Minha crença é teísta, não panteísta, seguindo maisLeibniz a
Spinoza."[7]

Esboço da Demonstração de Gödel


A demonstração utiliza a lógica modal, que se distingue entre verdade lógica e
contingência. Na semântica mais comum da lógica modal, muitos "mundos possíveis"
são considerados. Uma verdade é necessária se é verdade em todos os mundos
possíveis. Em contraste, uma verdade é contingente se acontecer de ser verdade apenas
em alguns casos, por exemplo: "mais da metade do planeta está coberto por água". Se a
afirmação for verdade em nosso mundo, mas falsa em algum outro mundo, então isso é
uma verdade contingente. Uma afirmação que é verdade em algum mundo (não
necessariamente em nosso mundo) é chamada de possibilidade lógica.

Além disso, a demonstração utiliza a lógica de ordem superior (modal) porque a


definição de Deus emprega uma quantificação explícita sobre propriedades. [8]

Dos axiomas 1 a 4, Gödel argumentou que em algum mundo possível existe Deus. Ele
usou uma espécie princípio da plenitude modal para argumentar isso a partir da
consistência lógica da verosimilhança de Deus. Note que essa propriedade é positiva em
si mesma, já que ela é a conjunção das infinitas propriedades positivas.

Daí, Gödel definiu essências: se x for um objeto em algum mundo, então a proriedade P
é dita ser uma essência de x se P(x) é verdadeiro naquele mundo se P acarreta todas as
outras properties que x tem naquele mundo. Dizemos também que x necessariamente
existe se para toda essência P o seguinte for verdadeiro: em todo mundo possível, existe
um elemento y com P(y).

Como a existência necessária é positiva, obrigatoriamente segue a verossimilhança de


Deus. Além do mais, a verossimilhança de Deus é uma essência de Deus, pois acarreta
todas as propriedades positivas, e qualquer propriedade não-positiva é a negação de
alguma propriedade positiva, portanto Deus não pode ter quaisquer propriedades não-
positivas. Como qualquer objeto semelhante a Deus é necessariamente existente, segue
que qualquer objeto semelhante a Deus em um mundo é um objeto semelhante a Deus
em todos os mundos, pela definição da existência necessária. Dada a existência de um
objeto semelhante a Deus em um mundo, demonstrada acima, podemos concluir que
existe um objeto semelhante a Deus em todo mundo possível, conforme requerido.

Dessas hipóteses, também é possível provar que existe apenas um Deus em cada mundo
pela lei de Leibniz, a identidade de indiscerníveis: dois ou mais objetos são idênticos
(são um e um só) se eles têm todas as propriedades em comum, e portanto, haveria
apenas um objeto que possui a propriedade G. Gödel não tentou fazer isso, no entanto,
pois ele propositadamente limitou sua prova à questão da existência, ao invés da
unicidade. Isso foi mais para preservar a precisão lógica do argumento do que uma
propensão para o politeísmo. Essa prova de unicidade vai funcionar somente se se supõe
que a positividade de uma propriedade seja independente do objeto ao qual ela for
aplicada, uma afirmação que alguns[quem?] têm considerado suspeita.

Para formalizar o argumento esboçado acima, as seguintes definições e axiomas são


necessários:

• Definição 1: x é semelhante a Deus se e somente se x tem como propriedades


essenciais aquelas e somente aquelas propriedades que são positivas;
• Definição 2: A é uma essência de x se e somente se para toda propriedade B, x
tem B necessariamente se e somente se A acarreta B;
• Definição 3: x necessariamente existe se e somente se toda essência de x é
necessariamente exemplificada;
• Axioma 1: Qualquer propriedade acarretada por—i.e., estritamente implicada
por—uma propriedade positiva é positiva;
• Axioma 2: Para uma propriedade qualquer φ, ou φ é positiva ou sua negação,
¬φ, é positiva, mas não as duas ao mesmo tempo;
• Axioma 3: A propriedade de ser semelhante a Deus é positiva;
• Axioma 4: Se uma propriedade for positiva, então ela é necessariamente
positiva;
• Axioma 5: Existência necessária é uma propriedade positiva.

O Axioma 4 assume que é possível destacar propriedades positivas dentre todas as


propriedades. Gödel comenta que "Positivo significa positivo no sentido moral estético
(independentemente da estrutura acidental do mundo)... Pode também significar
atribuição pura ao contrário de privação (ou conter privação)." (Gödel 1995). Axiomas
1, 2 e 3 podem ser resumidos dizendo que propriedades positivas forma um ultrafiltro
principal.

Desses axiomas e definições e uns poucos axiomas adicionais da lógica modal, os


seguintes teoremas podem ser provados:

• Teorema 1: Se uma propriedade for positiva, então ela é consistente, i.e.,


possivelmente exemplificada.
• Teorema 2: A propriedade de ser semelhante a Deus é consistente.
• Teorema 3: Se algo for semelhante a Deus, então a propriedade de ser
semelhante a Deus é uma essência daquela coisa.
• Teorema 4: Necessariamente, a propriedade de ser semelhante a Deus é
exemplificada.

Simbolicamente:
Há um esforço em código aberto em andamento para formalizar a prova de Gödel a um
nível que seja adequado para a prova automática de teoremas ou pelo menos verificação
por computador via assistente de prova. O esforço apareceu nas principais manchetes
dos jornais alemães. Segundo os autores desse esforço, eles se inspiraram no livro de
Melvin Fitting.[9]

Críticas
A maior parte das críticas à prova de Gödel estão direcionadas a seus axiomas: tal qual
acontece com qualquer prova em qualquer sistema lógico, se os axiomas dos quais
depende a prova forem questionados, então as conclusões podem ser questionadas. Isso
é particularmente aplicável à prova de Gödel, porque ela repousa sobre cinco axiomas
que são todos questionáveis. A prova não diz que a conclusão tem que ser correta, mas
sim que se você aceita os axiomas, então a conclusão está correta.

Muitos filosófos[quem?] têm questionado os axiomas. A primeira camada de ataque é


simplesmente que não há argumentos apresentados que dêem razões para que os
axiomas sejam verdadeiros. Uma segunda camada é que esses axiomas específicos
levam a conclusões indesejadas. Essa linha de pensamento foi argumentada por
Sobel,[10] mostrando que se os axiomas forem aceitos, eles levam a um colapso modal
onde todo enunciado que é verdadeiro é necessariamente verdadeiro.

Há sugestões de conserto para a prova. C. A. Anderson apresenta uma versão corrigida


da prova,[11] mas foi declarada como refutável por C. A. Anderson e Michael
Gettings.[12] A prova de Sobel do colapso foi questionada por [13] mas uma defesa foi
apresentada por Sobel.

A prova também foi questionada por Oppy,[14] que indaga se muitos outros quase-Deus
seriam também "provados" pelos axiomas de Godel. Esse contra-argumento foi
questionado por Gettings,[15] que concorda que os axiomas poderiam ser questionados,
mas discorda que o contraexemplo específico de Oppy's possa ser provado a partir dos
axiomas de Gödel.

Há muitas outras críticas, a maioria se concentrando na questão filosoficamente


interessante de se esses axiomas *têm* que ser rejeitados para evitar conclusões
estranhas. A crítica mais ampla é que mesmo que os axiomas não possam ser mostrados
como falsos, isso não significa que eles sejam verdadeiros.

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