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CORRELAÇÃO ENTRE PSICOTERAPIA BREVE EM GRUPOS E

INDIVIDUAL


Ana Paula Fernandes de Lima
Larissa de Medeiros
Luana Ferreira
Maristela Oliveira.

Carla Villwock

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo fazer uma reflexão sobre as Intervenções em
Crises em diferentes âmbitos e abordar algumas questões de revisão bibliográfica. Visando
um contra ponto para discussão, paralelamente ao referencial teórico, foram utilizadas neste
trabalho entrevistas semi-estruturadas com dois profissionais da área que trabalham com
Psicoterapia Breve (PB) em contextos diferentes: Psicóloga, especialista em Psicoterapia de
Orientação Psicanalítica, trabalha com psicoterapia breve no consultório; Psicólogo, Mestre
em Psicologia Clínica trabalha com psicoterapia breve de grupo em uma Unidade Básica de
Saúde.

Palavras-chave: psicoterapia breve; grupos; atendimento individual

1 INTRODUÇÃO

Crises ocorrem na vida de todas as pessoas. São momentos nos quais por algum
motivo, há um pico de mudança daquilo que é conhecido e ao qual estamos habituados, para
aquilo que não conhecemos e que por motivos conscientes e inconscientes rejeitamos. Muitas
vezes as crises não são necessariamente ruins, mas são momentos em que temos que
posicionarmos para adequarmo-nos as mudanças que estão ocorrendo em nossas vidas.
Exemplos dessas situações são as crises vitais como a gravidez, casamento, e morte, ocasiões
em que modificações ocorrem na vida, e que mesmo que não sejam para pior, podem gerar
alterações do funcionamento normal ou próprio do sujeito em questão. Estas são chamadas
crises horizontais, que ocorrem de forma natural no processo vital. No entanto, existem

*Acadêmicos do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil.


* Professora MS. Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil e orientadora deste trabalho.
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também as crises verticais (VIEIRA, 2012), que são aquelas situações não esperadas
naturalmente, que interrompem o ciclo vital, como patologias, mortes trágicas, divórcios, etc.

TIPOS DE INTERVENÇÕES

De acordo com Aguiar (2007), as intervenções em crise podem ser divididas em dois
tipos: as supressoras de ansiedade ou de apoio e as provocadoras de ansiedade ou de insight.
A intervenção em crise que busca suprimir a ansiedade tem como técnicas principais o
reasseguramento, clarificação, encorajamento, apoio de familiares, técnicas de relaxamento,
hospitalização breve e tratamento medicamentoso, se necessário. Já a intervenção que busca o
insight do paciente, usa técnicas que visam a confrontação e a interpretação.
Ainda segundo Aguiar (2007), a escolha de determinada técnica em detrimento da
outra, acontece por razões referentes ao paciente e sua história clínica. À pacientes com
poucos recursos psiquicos, com relações interpessoais confusas, com quadros psiquiatricos
graves, ou por razões circunstanciais inadequadas, como internação hospitalar por exemplo,
são indicadas intervenções de apoio. As intervenções provocadoras de ansiedade, são
recomendadas para pacientes que tinham uma situação psiquica mais favoráveis, antes de
entrarem em crise. A intervenção poderá ser breve, mas deve ser intensa o bastante para que
possa apontar questões centrais para esse sujeito (CAMPOS E GUERRERO, 2010).
Aguiar (2007) ainda se refere à importancia de atendimentos de intervenção em crise
em ambito comunitário, citando experiencias positivas neste aspecto na Jamaica, Finlandia e
Inglaterra.

2 PSICOTERAPIA BREVE INDIVIDUAL COMO INTERVENÇÃO EM CRISE

A psicoterapia breve utiliza o conceito de foco. Segundo Cordiolli (1998), durante um


período de tempo concentra-se na resolução de um foco principal que esteja gerando um
conflito. A intervenção em crise se deriva das psicoterapias breves, já que busca ajudar
pessoas em momentos de crise, onde é exigida certa rapidez para evitar possíveis rupturas.
Cordiolli (1998) aponta vários fatores como determinantes para a psicoterapia breve.
Primeiramente ele trás a importância de ter uma queixa circunscrita, ou seja, delimitada. Ele
também aponta a inteligência e ter no mínimo uma relação interpessoal significativa na
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infância. A motivação para uma mudança, e não apenas uma necessidade de alivio
momentâneo também é vista como um dos indicadores principais. O paciente também deve
ser capaz de tolerar ansiedade e frustração e é claro, ter a capacidade de desenvolver uma
relação com o terapeuta e de se relacionar com ele.
A psicoterapia breve é usada mundialmente e segundo Hegenberg (2010) impõe-se por
causa do tempo limitado. Comumente, ela é utilizada em serviços prestados por instituições e
entidades que promovem ações preventivas de promoção de saúde. Nestes locais, o
atendimento individual é realizado tanto por profissionais, bem como por universitários.
Assim como em outras técnicas, o paciente deve passar por uma avaliação diagnóstica.
Segundo profissional que faz atendimento em uma instituição de forma individual, é realizada
a avaliação clínica, mais exame das funções do ego, havendo às vezes a necessidade de
acionar a rede de apoio para uma escuta. Durante o atendimento, muitas vezes se faz
necessário uma avaliação sobre o risco de suicídio do paciente. Muitos pacientes com risco de
suicídio e psicóticos foram atendidos. Isso porque, segundo Cordiolli: Os casos de psicoses
são considerados contra-indicações ao tratamento analítico, bem como os casos agudos ou
emergências (o paciente com tendência suicida por exemplo) (CORDIOLLI, 1998).
Isso porque, tais pacientes imporiam dificuldades a esses tratamentos, pois são mais
demorados e os mesmos dificilmente permaneceriam ou evoluiriam dentro do tratamento,
precisando assim uma intervenção mais curta. Em casos como esse, além do atendimento
psicoterápico se fazem necessários encaminhamentos tanto para psiquiatras, como até mesmo
internação.
Seja qual for a linha teórica usada pelo profissional, a motivação do paciente deve ser
considerada. Para isso, uma das profissionais entrevistadas, Psicóloga, especialista em
Psicoterapia de Orientação Psicanalítica, usa a entrevista motivacional tentando vincular o
paciente a um ambiente mais empático e, com isso, visa conseguir que ele venha aderir ao
tratamento. Segundo Cordiolli: “[...] deve ser considerada a motivação do paciente para o
tratamento, além de sua capacidade de estabelecer uma aliança terapêutica, seus recursos para
manejar a ansiedade, sua capacidade de introspecção e de distinguir a fantasia da realidade”
(CORIOLLI, 1998).

Como se trata de uma intervenção pontual, com foco definido, o número de sessões
deve ser previamente definido. No contrato o terapeuta já estabelece o número de sessões com
o paciente, e dentro deste período ele confirma ou refuta a hipótese psicodinâmica formulada
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a partir dos sintomas apresentados por ele Segundo o autor: “Parece portanto, que um limite
de duração fixado no início é mais benéfico do que prejudicial, essencialmente por que deste
modo a questão da alta é trabalhada desde o início”. (CORDIOLLI, 1998)
De acordo com a instituição o terapeuta estabelece o número de sessões e estabelece as
regras com os pacientes. Entre os autores, a etapa da alta é discutida. Segundo Mann (1977)
apud Cordiolli (1998), o paciente deve entender que o caráter da alta é definitivo, sem
entrevistas adicionais. Já Malan(1976) apud Cordiolli (1998), aponta que o mais importante é
determinar no início o numero de sessões, pois sem essa delimitação paciente-terapeuta
tendem a se envolver demais um com o outro. Ele acredita que se desde o início esta etapa for
discutida, a última sessão torna-se interiormente como o fim da relação, não sendo necessário
ter uma postura mais rígida por parte do terapeuta.
Nos casos em que o paciente atinge o benefício terapêutico mas, no entanto, surgem
novas demandas, segundo a profissional, de acordo com o local, ela o recontrata para uma
nova etapa ou trabalha com um novo encaminhamento.

3 PSICOTERAPIA BREVE DE GRUPO COMO INTERVENÇÃO EM CRISE

Atualmente, os pacientes que chegam a uma Unidade de Saúde, costumam chegar com
uma estrutura desorganizada (psíquica e socialmente), com muitos sintomas (ordem
somática), ansiedade generalizada. Segundo Campos e Guerrero (2010): “Uma demanda
importante relacionada à saúde mental chega diariamente na Atenção Básica, que é a porta de
entrada do sistema de saúde, com a expectativa de que o profissional possa dar resposta ao seu
sofrimento de forma rápida e eficaz” (CAMPOS; GUERRERO, 2010).
O profissional entrevistado, Psicólogo, Mestre em Psicologia Clínica, que trabalha
com intervenção em crise no SUS, primeiramente procura organizar a dinâmica de
atendimento, delimitando o foco, as prioridades, para então montar uma estrutura de
atendimento que possa atender a demanda do serviço, mas que também seja um Plano
Terapêutico que atenda as individualidades do sujeito, independente se o atendimento será
feito em grupo.

Na maioria das vezes, os usuários que chegam para atendimento em saúde mental
estão em momento de crise. É um momento delicado, pois o sujeito se encontra
muito fragilizado, com sensação de impotência ante a resolução de seu problema e
despejando que o outro dê conta de acabar com seu sofrimento. (CAMPOS E
GUERRERO, 2010).
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A intervenção em grupos como forma de apoio e tratamento psicoterápico vem tendo
ascensão no que diz respeito à saúde pública, muito provavelmente em correlação ao processo
de desinstitucionalização da saúde, e a promoção da reforma psiquiátrica. Deste modo é
imprescindível ressaltar a importância deste modelo de atuação nas Unidades de atendimento
da rede pública de saúde, em que a demanda é muito elevada e na maioria das vezes há
defasagem de recursos humanos.
O que podemos constatar é que atualmente as principais crises que chegam até a UBS
são advindas de separação, luto, desemprego, sentimento de incapacidade, problemas de
relacionamento, depressões, transtornos de estresse pós-traumáticos (TEPT), transtorno de
ansiedade generalizada (TAG). Independente da crise, os pacientes são acolhidos e é feita a
avaliação de risco. Para Campos e Guerrero:

É claro que existem diferentes tipos de crise e diversos graus de vulnerabilidade


diante delas, no entanto, de maneira geral o sujeito precisa ser acolhido pelo serviço
neste momento. O tempo da intervenção na crise é um outro tempo, sua intensidade
faz possíveis intervenções muito potentes e não necessariamente crônicas
(CAMPOS; GUERRERO, 2010).

O atendimento grupal vem como forma de potencializar o atendimento às pessoas e


também agrega novas técnicas psicoterápicas ao tratamento. De acordo com o relato de
profissionais o grupo de apoio pode ajudar seus participantes de uma forma diferente do que
em um atendimento individual, pois propicia aos pacientes um lugar de escuta, onde há
também o benefício do ouvir ao outro como modelo de identificação, e assim, de forma
empática, buscar juntos maneiras de enfrentar os seus problemas. O Grupo de Apoio,
desenvolvido pelo Psicólogo entrevistado em Unidade Básica de Saúde, busca muito mais do
que atender uma grande demanda existente, propiciar ao paciente um tratamento em que ele
possa desenvolver a socialização, sua capacidade de insight, buscar o outro como modelo e ter
o benefício da escuta de outros pacientes.

As práticas grupais constituem importante recurso no atendimento aos usuários da


Atenção Básica. (...) O Trabalho grupal não deve ser pensado somente como uma
forma de dar conta da demanda, mas, sim, como tendo características que propiciem
socialização, integração, apoio psíquico, trocas de experiências, troca de saberes e
construção de projetos coletivos. O pertencimento a um grupo favorece a saúde
mental do sujeito (CAMPOS E GUERRERO, 2010).
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Não há como negar que a identificação que ocorre em grupos terapêuticos de apoio é
um fator potencializador da “cura”, pois permite aos indivíduos perceber o outro, e assim,
encarar sua crise sabendo que não é o único a passar por dificuldades.

4 DISCUSSÃO

A Psicoterapia Breve tem sido amplamente utilizada por profissionais em diversos


contextos. Tendo em vista o cotidiano estressante de hoje em dia, vemos que as situações de
crise têm acontecido cada vez mais, e a PB vem ao encontro como um auxilio rápido que
muitas vezes os pacientes necessitam encontrar para resolver seus conflitos. Tratando-se de
uma Unidade de Saúde, constatamos que muitas das crises que surgem, são relacionadas com
aspectos de cunho social. O tratamento em grupo, além de suprir a demanda existente também
procura trabalhar com os principais focos de conflito fazendo uma relação com o contexto em
que o paciente está inserido, proporcionando um espaço de troca de experiências vitais.
Conforme entrevista, fica explícito o quanto é favorável esse tipo de tratamento para o
paciente quanto para o serviço.
Utilizada amplamente por profissionais e estagiários, a PB, acaba por ser a porta para
o atendimento individual. Devido à brevidade do atendimento, ela é ofertada por entidades
que fornecem o serviço de forma quase gratuita quando não gratuita, possibilitando que
pessoas e até famílias possam ter apoio em momentos de crise. No atendimento individual, ela
permite que o sujeito através da relação terapêutica passe a ter uma maior compreensão do
que provocou a crise e com isso, uma melhora na relação interpessoal.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em consonância com os aspectos discutidos, podemos afirmar que tanto a Psicoterapia


Breve individual como a de grupo, tem sido bastante utilizada. O trabalho teve a intenção de
provocar uma reflexão acerca do assunto, fazendo um link da teoria com as entrevistas
realizadas com os profissionais da área. Pensando na nossa formação acadêmica é de
fundamental importância o conhecimento sobre o assunto, para que possamos sair da
faculdade com o embasamento necessário para atuar no mercado de trabalho.
Através deste trabalho, pudemos perceber que cada um dos modelos apresentados (PB
individual ou em grupos) tem seus benefícios. Seja qual for a técnica utilizada, elas devem ser
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utilizadas visando o bem-estar dos pacientes. Devemos ser sensíveis estarmos atentos as
necessidades daqueles que procuram ajuda. Nem todos os pacientes serão atingidos com o
trabalho grupal, bem como individualmente nem todos terão o crescimento esperado.
Devemos estar atentos e na medida do possível fazer as indicações corretas. Sabemos que
nem sempre o atendimento individual é acessível a todos, e que, poucos são os lugares que
fazem atendimento deste tipo para as comunidades de baixa renda; assim, os grupos, que por
serem capazes de atingir demandas maiores, são utilizados em maior escala em serviços de
atenção básica à saúde.

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

Ana Caroline Sari Vieira, P. G. (2012). Ninho Cheio: perspectivas de pais e filhos. Revista
Psicologia - Teoria e Prática. Acesso em 24 de Junho de 2012, disponível em
http://www3.mackenzie.com.br/editora/index.php/ptp/article/view/2308

Aguiar, R. W. (2007). Intervenções em crise. In: A. V. Cordioli, Psicoterapias – Abordagens


Atuais. Artmed.

CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa; GUERRERO, André Vinicius Pires/organizadores.


Manual de práticas de atenção: saúde ampliada e compartilhada. Autores Adriana
Cosser... (et al.). – 2 ed. – São Paulo: Aderaldo & Rpthschild, 2010. 411p. – (Saúde em
debate; 190)

CORDIOLI, Aristides Volpato. Psicoterapias abordagens atuais. Porto Alegre: Ed. Artes
Médicas, 1998.

GUANAES,C.; Japur, M. Fatores terapêuticos em um grupo de apoio para pacientes


psiquiátricos ambulatoriais. Rev. Bras. Psiquiatr., Acesso em 24 de Junho de 2012,
disponível em http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462001000300005.

HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve. São Paulo. Casa do Psicólogo. 3ª Ed. 2010.
Acesso: // ulbra.bv3.digitalpages.com.br; em 26. jun.2012. 16h.

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