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2000 DOSSIÊ 001|259 Introdução Ilustrações Alain Corbel Usando a estrutura das sete áreas e alguns dos
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2000 DOSSIÊ 001|259 Introdução Ilustrações Alain Corbel Usando a estrutura das sete áreas e alguns dos
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Introdução

2000 DOSSIÊ 001|259 Introdução Ilustrações Alain Corbel Usando a estrutura das sete áreas e alguns dos
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Ilustrações Alain Corbel

Usando a estrutura das sete áreas e alguns dos respectivos coordenadores dos colóquios Hoje, a BD, eis uma avaliação breve do ano de 2000, o qual se confirmou como ano de muitas imagens, isto apesar das nossas histórias aos quadradinhos continuem território movediço. Para grande parte da pública opinião é ainda o lugar virgem onde moram e devem morar as infâncias (vide polémica na sequência da publicação de "Borda D'Água", de Miguel Rocha, na Pública). Ainda assim, algum ar soprou neste mofo, sem afastar confusões com a ilustração e a animação, mas não seremos nós a queixarmo-nos das contaminações. Isto mais não é do que intuição resultante de uma ou outra experiência, pois continuamos sem fazer ideia (investigada, estudada, confirmada) do que por cá se entende quando por cá se fala de banda desenhada. Certo é que há autores, projectos e livros. Nada mau, portanto.

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Crítica

João Paulo Cotrim

Há novos nomes na lista de honoráveis leitores públicos (Bruno Martins Soares, Pedro Moura), mas não haverá mudanças de maior nos modos e cor da crítica em português. Mais olhares se dispensa à Nona Arte, mas o tom continua a ser superficial. Mais notícias, menos análise. E, o que é pior, bastante mais motivos de análise (edições, exposições, autores) e menos críticos (atentos, preparados, exigentes, opinativos). O Expresso e o Independente distraíram-se. O Diário de Notícias fixou a opinião de João Miguel Tavares às segundas-feiras. O Público, apesar de uma ou outra coluna

como a dos Heróis (ao domingo, na Pública), transferiu espaço e atenção para

a net, onde os vários sítios parecem não ter ainda acordado para a narrativa

gráfica. Rubricas permanentes nas televisões e rádios nacionais é mentira. Os

regionais continuam sendo os mais constantes na recensão, porque é de notas de leitura que se trata. A ditadura dos caracteres e a vontade de quem escreve não permite muito mais. Sem fanzines que gastem páginas no mergulho crítico,

o surgimento do Quadrado, com dois números este ano, faz as vezes de

padrão. Ainda que o tom e a profundidade não sejam uniformes, os textos de, entre outros, Domingos Isabelinho, Paulo Patrício, Pedro Moura justificam leituras. A periodicidade, bem sei, deixa a desejar. Se há sombra em dias luminosos, é por aqui que elas andam. Porque o tempo nos pede a construção do gosto, a discussão com os autores, e o saborear das obras.

Edição

João Miguel Tavares

Witloof, Círculo de Abuso, Nova Comix. Estes três nomes – nomes de três novas editoras dedicadas à causa da BD – bastariam para classificarmos 2000 como um ano feliz no que diz respeito à edição de banda desenhada. A proliferação de pequenas editoras tem várias consequências positivas:

aumenta a oferta, dá vazão ao talento dos autores nacionais surgidos na última meia-dúzia de anos e combate a hegemonia da gigante Meribérica, já que casas como a Witloof, a BaleiAzul, a Vitamina BD e, recentemente, as Edições Polvo, começam a penetrar em território que, até hoje, era apenas coutada sua: os álbuns a cores oriundos do mercado franco-belga. Veja-se o caso bizarro de Hermann, que, no espaço de um ano, viu diferentes obras suas saírem para a rua com etiquetas da BaleiAzul, Vitamina BD e Meribérica. Só em Portugal. Com olho no outro lado do Atlântico, destaque para o trabalho da Devir, que, para além dos comics americanos, decidiu investir no talento brasileiro e na recuperação da saudosa revista Chiclete com Banana. E, no que às revistas diz respeito, assinale-se o regresso da Quadrado, um pequeno luxo que nós merecemos e a Bedeteca patrocina. Fica um desejo para o próximo milénio: que as editoras escapem à ditadura dos festivais, e iniciem uma política de lançamentos capaz de cobrir o ano inteiro.

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Autores

Paulo Patrício

AUTORES I

O ano é de boa colheita, é o mínimo que se pode dizer: Luís Louro e Rui Zink

apostaram, António Jorge Gonçalves arriscou, Miguel Rocha insiste, José

Carlos Fernandes reinventa-se, Nuno Saraiva reedita-se e a estes juntam-se uns quantos nomes desconhecidos, alguns interessantes, e pelo menos três editoras novas, Witloof, Círculo de Abuso e Nova Comix. A acompanhar e ao lado de tudo isto está a Bedeteca de Lisboa, num trabalho intenso e de capital importância para a estranha, e incompreensível, história da bd no nosso país. Está à vista de todos que existem hoje condições para se ser autor, não há ainda é a condição de autor de bd, o que é bem diferente, porque esta depende directamente do estatuto social e artístico. Reconhecido, entenda-se. Acrescente-se a seguinte formulação clássica: uma obra que apresente a tendência correcta tem, necessariamente, que apresentar todas as outras qualidades. Nos nossos autores a tendência neste momento é a correcta, mas no que diz respeito à qualidade (sentido de obra e pertinência conteúdo) continuam frágeis. Não sabemos bem porquê, talvez porque se encare a bd como veículo para qualquer coisa, e não como o meio em si, ou talvez porque se cultive e apoie uma certa democratização artística e autoral.

A verdade é que estamos no nível um, e a prova disso é que nos outros meios

a questão central de hoje não é a da condição, mas sim o que é o autor, se

isso não passa de uma figura puramente legal ou de uma impossibilidade conceptual. É uma pena ainda não estarmos a ter essa discussão.

AUTORES II

As letras são contadas e o assunto é complexo, por isso nada melhor que acreditar que sou Jesus Cristo e fazer o milagre da interpretação: em 1988 Alan Moore abandona a DC e resolve fundar a sua própria editora com a mulher, escolhem um nome que é um reflexo do amor louco que têm um pelo outro e os dois pela bd: Mad Love. Passados dois anos, ele termina o argumento de Big Numbers e convida Bill Sienkiewicz para a desenhar. Este aceita o projecto contrariado, a disponibilidade era pouca, tanto que ao

segundo número abandona o projecto. Moore tinha previsto essa possibilidade

e chama o desenhador substituto, Al Columbia, que ocupa imediatamente o

lugar. A crise artística e existencial que Columbia atravessa é tão violenta que ele resolve largar tudo e fugir, sem avisar ninguém ou sequer deixar rastro. Encontraram-no dois anos mais tarde a trabalhar como cozinheiro num restaurante de terceira. Entretanto, Moore e a mulher separam-se e a editora acaba. Esta pequena, complicada e admirável história é contada pelos próprios quase como uma anedota, porque o tempo concedeu-lhes a capacidade de olharem para ela como um momento menos feliz do percurso pessoal de cada um, uma daquelas coisas más que acontecem. Aqui, no nosso país, é vida e a condição do autor é todos os dias assim.

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Festivais

João Miguel Lameiras

Num ano em que não se realiza o Salão do Porto (com regresso previsto para 2001) mantiveram-se em actividade os dois grandes Festivais de dimensão

internacional: o Festival da Amadora e o Salão Lisboa (a ordem é alfabética, para não ferir susceptibilidades

No entanto, no caso da Amadora houve alterações de comando, com Luís

Vargas a ceder o lugar a Nelson Dona. Uma mudança que acabou por se reflectir na filosofia do próprio Festival, com a dimensão mais generalista a dar lugar a um tema aglutinador (neste caso, os super-heróis) e, o que me parece o mais importante, com um catálogo finalmente digno desse nome! Quanto ao Salão Lisboa, pelo segundo ano consecutivo no espaço da Standard Eléctrica, a qualidade de uma programação sem grandes concessões ao grande público continua sem conseguir atrair espectadores em quantidade apreciável, o que é pena! A nível dos pequenos Festivais, com o fim confirmado do Salão de Viseu, restam as Jornadas da Sobreda (este ano abrilhantado pela presença de Hermann) e o Salão de Moura, que mesmo sem grandes meios, soube consolidar um projecto interessante. Resta evocar a iniciativa Braga Desenhada, promovida pela Juvemedia, que poderá eventualmente vir a dar origem a um Festival de BD em Braga, e o número cada vez maior de semanas da BD, promovidas por autarquias ou universidades, um pouco por todo o país.

Fanzines

Marcos Farrajota

O "Zalão de Danda Besenhada, o último salão dos independentes", para além

de ter exposto bd de outra forma, conseguiu reunir num projecto comum os

melhores fanzines de Lisboa e Porto dos fins dos anos 90 num primeiro grande projecto que uniu autores das duas cidades. Autores dos fanzines criaram editoras ou foram editados em livros: Círculo de Abuso (David Soares, Pedro Nora), MMMNNNRRRG (Janus) e Nova Comix

(Isabel Carvalho, Jacques Creswell) para além dos novos números da colecção

LX Comics. Foi dado um passo em frente que talvez possa vir a resultar no

ténue movimento associativista que, embora especulado em 1995 num número do Comtrastes, não chegou a cumprir-se. Novas tecnologias: o primeiro CD-ROM de bd (NetComixZine #2), bd por e-mail (Cru On-line) e passagem do Terminal para www. Ritmos alucinantes de edição: Gambuzine trimestral e Succedâneo bimestral! Promessas de novos números do Cru e d' A Mosca que não chegaram a acontecer. Em compensação o Carneiro Mal Morto e o Mesinha de Cabeceira voltaram. Muitas Feiras de Fanzines pelo país (o Festival da Amadora voltou a dar atenção aos 'zines apesar do aspecto de covil do stand) e saíram novos números do Bactéria, Bizarro, A Língua, Oh! (ex-A Pedra) e Vomir. Ah! O Pepedelrey voltou com The Killer Season Fanzaíne. Qual é a próxima jogada?

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Investigação

Carlos Bandeira Pinheiro

Tentarei resumir um ano de investigação histórica em Portugal com referência

às principais publicações no ano 2000.

Banda Desenhada Portuguesa Anos 40-Anos 80, (168 pp, color.), livro/catálogo

da exposição na Fund. Calouste Gulbenkian, Lisboa, organização do CAMJAP,

Fevereiro-Abril 2000. Das Conferências do Casino à Filosofia de Ponta: Percurso histórico da banda desenhada portuguesa, (255 pp, color.), livro/catálogo da exposição no Centre

Belge de la Bande Dessinée, Bruxelas, co-organização da Bedeteca de Lisboa, Maio-Setembro 2000. Teve edição em francês com o título Le Portugal en Bulles. João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro foram os comissários de ambas as exposições assim como os autores dos respectivos livros/catálogos. De salientar que estas duas grandes exposições (que se quiseram exposições

de originais, complementadas por impressos nos casos em que não existiam originais ou não foi possível ter acesso a eles) permitiram trazer à luz do dia, para um público nacional e internacional, uma grande quantidade de originais muitos dos quais se julgavam perdidos e foram expostos pela primeira vez. Exposição de Homenagem a Augusto Trigo, (24 pp, color.), catálogo da exposição, comissariada por Jorge Magalhães, na Galeria Municipal Artur Bual, Amadora, org. do FIBDA, Outubro-Novembro 2000.

O Western na BD Portuguesa (22pp, P&B), dossier por Jorge Magalhães,

edição da Câmara Municipal de Moura/10º Salão de BD. BD Amadora, 11º Festival Internacional de Banda Desenhada

(CinemAnimação) inclui artigos de vários autores sobre super-heróis e A Idade

de Platina: 150 anos de Banda Desenhada em Portugal por Leonardo de Sá.

A exposição retrospectiva da obra de José Carlos Fernandes na CNBDI,

Amadora deu também lugar à publicação de um catálogo. Jorge Magalhães e Américo Coelho continuaram a colaboração, que já vem desde 1998, na revista italiana Informavit (dedicada a estudos relacionados com o clássico jornal ilustrado Vittorioso), com um artigo sobre Giorgio Bellavitis e a sua recepção em Portugal no Cavaleiro Andante, etc. Encontramos ainda alguns artigos com interesse para a investigação histórica da BD portuguesa nas Selecções BD, nomeadamente sobre os Robin dos Bosques de E.T.Coelho (nº 16) e Colecção Aventuras (nº 17).

Movimentos

Geraldes Lino

Associações bedéfilas entre nós são escassas, mas em Janeiro surgiu em Lisboa uma nova, o Núcleo de Banda Desenhada e Ilustração – NBDI. Concursos: para além dos realizados na Amadora, em Amora, Moura e Sobreda, e o dos Jovens Criadores 2000, surgiram mais dois, um do Instituto Superior de Humanidades e Tecnologias, o outro da Junta de Freguesia de Cascais.

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Exposições: Este ano destacaram-se na sua organização as seguintes entidades e autores: Associação Cultural Uroboro (Setúbal) com uma exposição de jovens autores locais, Bedeteca de Lisboa proporcionou visionar a História de Lisboa, 10 Anos de L'Association e LX Comics 2001; e, no Reservatório da Patriarcal, o Tratado do Esquecimento, de Marina Palácio. Mantém exposições itinerantes a percorrer o país, e indo até ao estrangeiro, concretamente a Bruxelas, para mostrar "150 Anos de Banda Desenhada Portuguesa; CNBDI - Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (Amadora), teve em exposição obra de José Carlos Fernandes; Edições Época de Ouro (Costa de Caparica) deram itinerância às exposições Mosquito e 100 Anos de Banda Desenhada Portuguesa; o colectivo Extractus mostrou-se em Tomar e Lisboa; 5th Floor (Sintra) organizou na Casa da Juventude da Tapada das Mercês a 2ª edição do ANIPOP 2000, mostra anual de anime e mangá; G. Garcia, apostou em exposições individuais em Lisboa; Juvemedia, organizou em Braga exposições de tema medieval, sob a denominação de "Braga Desenhada"; Livraria Dr. Kartoon (Coimbra) patenteou pranchas de Miguel Rocha e do concurso de BD; Núcleo de Banda Desenhada do IPJ-Delegação Regional de Faro apresentou na Livraria Odisseia uma colectiva de autores algarvios; Tertúlia Lisboa de Fanzines, com o apoio da Livraria Crise Luxuosa, mostrou autores publicados em 'zines; Toupeira – Atelier de Banda Desenhada (Beja) fez uma exposição dos seus participantes. Internet: Há agora mais quatro que focam o tema:

http://www.netparque.pt,

http://www.esec-miranda-douro.rcts.pt,

http://www.tokaki.com, e http://pwp.netcabo.pt/0214267401.

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2001 DOSSIÊ 007|259 Introdução Ilustrações João Fazenda Dividida por sete áreas, aí está a avaliação de
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Introdução

2001 DOSSIÊ 007|259 Introdução Ilustrações João Fazenda Dividida por sete áreas, aí está a avaliação de

Ilustrações João Fazenda

Dividida por sete áreas, aí está a avaliação de 2001. Apesar de uma colheita rica, não podemos ainda ver onde nos levarão cada uma destas acções e experiências. E até sob a espuma destes acontecimentos hão-de fermentar muitos projectos e histórias. Certo é que estas listas, com mais ou menos informação, mais ou menos análise, não justificam pessimismos. A bd nacional pode até nem existir, mas que se move, lá isso move.

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Crítica

João Paulo Cotrim

Ainda não foi este ano que a crítica nos surpreendeu. Não conseguiu (será que tentou?) acompanhar a vertigem da criação nacional contemporânea. Um encontro de críticos sugeriu meia dúzia desses nomes e obras essenciais (na FNAC, em 27 de Abril. Ver Contador-mor #13). O autor destas linhas, assinou para o IPLB uma brochura trilingue, com distribuição internacional, BD Portuguesa/Anos 90 – Guia breve de tendências, autores e temas. Carlos Pessoa e Nuno Franco recolheram um conjunto de “biografias” de heróis (Heróis da BD, Público). No terreno das páginas periódicas pouco mudou. Alguma recensão nas regionais, irregularidade nos jornais de referência (com o regresso do Blitz à recensão numa página animada por Arnaldo Pedro e o colectivo Cru). Novidade terá sido os textos de José Marmeleira, na artlink e Ana Ruivo, no Expresso, curiosamente ambos oriundos do universo das artes plásticas. Continuaram com mais afinco João Miguel Tavares, João Ramalho Santos e Pedro Cleto. E com menos Carlos Pessoa ou João Paulo Paiva Boléo. (As notícias e recensões podem ser acompanhadas na secção recortes de www.bedeteca.com). Apesar de não ter saído mais nenhum volume dos Cadernos da Bedeteca, a Bedeteca editou outro Quadrado, com um dossier sobre os territórios do feminino (sob batuta de Paulo Patrício). Isto além de Hoje, a BD 1996/1999, que reúne as comunicações aos colóquios com o mesmo título e onde João Paulo Paiva Boléo assina dois excelentes e infelizmente actuais retratos da crítica nacional. Ao belo Muñoz/O Homem de Tinta da China (com um ensaio de Lorenzo Mattotti) há que somar ainda com alguns dos textos incluídos no catálogo geral do Salão Lisboa 2001 (Domingos Isabelinho sobre Pedro Nora, Jan Baetens sobre Vincent Fortemps, António Cabrita sobre Vera Tavares), bem como o dossier sobre Jijé nele incluído. Para o Festival da Amadora, João Miguel Lameiras organizou não apenas a exposição Confluências e Influências Externas na B.D. Portuguesa (1935-2000) como o conjunto de textos publicados no respectivo catálogo. Menos jornais, mais livros: o impulso crítico não está morto.

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Edição

João Miguel Tavares

Depois de vários anos de felicidade editorial, 2001 corre o risco de ficar

marcado pela palavra «crise». É verdade que nasceu uma nova editora – a Íman –, que inclui a BD entre as suas diversificadas áreas de publicação, mas esse raio de luz não apaga a penumbra originada pelos problemas que afectaram (e afectam) a Meribérica/Liber, mesmo que neste momento ainda não sejam conhecidos todos os contornos e a real dimensão da crise.

A Meribérica dominou o panorama da banda desenhada editada em Portugal

durante toda a década de 90, em regime de quase monopólio, sobretudo no que diz respeito à BD franco-belga. O seu catálogo é invejável, em quantidade mas também em qualidade, detendo os direitos de inúmeras séries, que, de maneira geral, soube lançar em boas condições. Embora a costela de David que há em nós tenha por hábito resistir ao excesso de força dos Golias, temos

de admitir que a grave recessão editorial da Meribérica teve efeitos nefastos no mercado. Afectada pela falência da distribuidora Diglivro, a editora de «Astérix»

e «Corto Maltese» acabou com a revista Selecções BD e praticamente deixou

de efectuar lançamentos a partir do primeiro trimestre de 2001, o que implicou

um decréscimo significativo no número de títulos lançados no decorrer do ano.

A oferta só não caiu drasticamente porque a Vitamina BD e, sobretudo, a Devir,

aumentaram o número de edições. Resta saber até que ponto esse investimento terá continuidade, e se o público responde de forma positiva à diversificação dos seus catálogos: a primeira abandonou o terreno seguro dos álbuns de encher o olho e atreveu-se pelo campo do preto e branco; a segunda apostou no Brasil, nalguns comics de qualidade americanos e recentemente surgiu com uma reedição de José Carlos Fernandes, em quem promete investir em 2002, o que só lhe fica bem. Em relação à Íman, assinale-se a coragem não só de editar BD, mas, sobretudo, de editar obras híbridas, alternativas, misturadas com títulos clássicos e edições de ensaio e poesia. Esse «melting pot» contribui para uma sempre saudável mistura de géneros literários, de que a BD só pode beneficiar.

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Ainda no campo das novidades, uma misteriosa Booktree lançou o último trabalho de Luís Louro e ver-se-á que surpresas nos reserva para o futuro. Tudo somado, 2001 caracteriza-se pelo aumento da diversidade, com pequenas casas a darem mostras de uma certa consistência (veja-se o crescimento sustentado da Polvo e da Witloof) e títulos fundamentais (como Ghost World, de Daniel Clowes) a serem finalmente traduzidos, mas as boas notícias pontuais não chegam para ocupar o espaço deixado vago pelo congelamento editorial da Meribérica/Liber.

Autores

Paulo Patrício

Foram poucos os novos. Os outros continuam a publicar com alguma regularidade. Alguns tentam a vertente comercial, mas há quem prefira o manifesto artístico. As bolsas continuam aí, para podermos largar tudo e trabalhar sem preocupações. Não haviam editoras, mas agora já podemos dizer que o nosso livro ficava bem editado nesta ou naquela. Uma felicidade, não fosse o facto de nenhuma delas ter sido capaz de criar uma imagem sólida e atraente junto dos leitores, fossem eles adolescentes borbulhosos ou bancários desprevenidos. Precisam aprender a vender-se a elas próprias, alinhar nessa ideia sedutora, mas perigosa, de que foram as marcas que fizeram os grandes movimentos sociais do final do séc. XX, e que vão fazer os deste em que vivemos. A verdade é que não há revistas para trabalharem com as editoras, o que é uma chatice, mas a Quadrado sai duas vezes por ano cheia de autores exemplares e quem escreve nos jornais arranjou mais espaço dentro da página para os nossos livros. Os Salões fazem o mesmo dentro das fábricas, escolas, cordoarias e mercados, dando-nos mais espaço para retrospectivas, novidades e estreias. O IADE atirou a lança da pós-graduação para aquilo que todos acreditavam ser terra de ninguém, e acertou em 30 pessoas. A Bedeteca de Lisboa trabalha muito para nos manter a todos vivos, juntos aprendemos que o mais importante é preservar a banda desenhada, continuando a alimentá-la com boas histórias e assumindo responsabilidades.

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Está visto, temos quase tudo, mas falta a popularidade. Não no sentido de sermos todos populares é claro, mas da banda desenhada que fazemos pertencer outra vez à cultura popular portuguesa, o que não acontece desde que os nossos livros foram atirados para as livrarias. É como se não houvesse a banca de jornais, o quiosque ou a tabacaria da esquina, lugares onde vai toda a gente, principalmente aquela que está-se nas tintas para o que foi dito aqui. Gente que precisa de histórias, e não as tem à mão.

Festivais

João Miguel Lameiras

Depois de um período em que os três principais Festivais apostavam de forma clara em diferentes públicos (com a programação mais mainstream da Amadora a ter um contraponto no destaque dado pelo Salão Lisboa aos autores alternativos franceses, enquanto o Porto apostava mais nos autores independentes americanos), actualmente, a onda alternativa está a ser o denominador comum dos três Festivais. Para além disso, pode dizer-se que 2001 foi um ano de regressos e mudanças. Regresso do Salão do Porto ao belo espaço do Mercado Ferreira Borges, onde prosseguiu a aposta na divulgação da BD independente norte americana, havendo ainda espaço para surpresas vindas de outras latitudes, como a iraniana Marjane Satrapi. Quanto às mudanças, elas foram mais de ordem física e atingiram o Salão Lisboa e o Festival da Amadora. Se a itinerância do Salão Lisboa (que se fixou no edifício da Cordoaria Nacional) não é propriamente uma novidade, a passagem do Festival da Amadora da Fábrica da Cultura, onde esteve durante10 anos, para a Escola Intercultural, não deixou de constituir uma surpresa Dedicado à música, o Salão Lisboa conseguiu conquistar o público, que afluiu em maior número ao espaço amplo da Cordoaria, muito bem aproveitado pela cenografia de Pedro Cabrito. Entre vários motivos de interesse, o destaque vai para a incontornável mostra da Ilustração Portuguesa.

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O Festival da Amadora ao mudar para a Escola Intercultural, ganhou em conforto para os visitantes (basta ver o auditório), mas perdeu em espaço de exposição, pois as salas da Escola Intercultural não permitem as cenografias elaboradas que eram uma imagem de marca da Amadora. Quanto aos Festivais de dimensão mais “familiar”, como a Sobreda e Moura, destaque para a aposta de Moura na edição de estudos teóricos, bem inaugurada com um texto de Jorge Magalhães sobre o Western na BD portuguesa.

Fanzines

Marcos Farrajota

Este ano, a área dos fanzines concretizou-se em mais uma mão cheia de propostas cheias de energia e inovação, mesmo quando se pode apontar para algumas das tendências registadas em 2000.

a) Namoros com a tecnologia: mais um fanzine em CD-ROM

(pelo colectivo Extractus), mais páginas web: Bizarro, A Língua, Os Positivos e Zundap, e o grande vencedor, Gritante. Um livrinho com uma bd muda

acompanhado por um CD que tem a sua banda sonora mas também video-clip, música electrónica e a bd transformada em animação, teve uma instalação no

Salão Lisboa, é preciso dizer mais? b) A periodicidade: para A Língua, Durty Cat (estreia da Ana Ribeiro) e Gambuzine é trimestral, para o experimental Succedâneo é uma corrida de dois em dois meses sem perder a qualidade e a

veio à Bedeteca lançar um número e fez 5 anos de vida, parabéns! c)

Os autores pescados para os formatos profissionais: Esgar Acelerado para o Blitz, Francisco Vidal e Pepedelrey para a colecção LX Comics. Quanto a circulação de títulos: o Carneiro Mal Morto voltou, lançaram-se o Ex- Man (fanzine de ilustração por Miguel Carneiro), o Na verdade tenho 60 anos (de Joana Figueiredo) e o Zundap (de cultura Pop mas que muito destaca a bd e ilustração nas suas páginas), continuaram o Bactéria, o Bizarro, o Sub e o

loucura

As tendências

The Killer Season Fanzaíne, o autor Janus voltou com Amaldiçoado. Pelo meio fica o catálogo de fanzines organizado pelo Gambuzine que pouca

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funcionalidade tem devido à irreverênciazinha e às gralhas informativas. Pena. Fica para a próxima. As novas foram os MEGAprojectos (abusadores do conceito?): no Salão Lisboa saiu um número especial do prozine Mondo Bizarre com bd’s de meia-dúzia de autores a abordarem vários géneros de música popular; O Independente tentou uma revista com espírito fanzine (sentiram alguma contradição aqui?), a Cindy seria um misto de DN Jovem e Bíblia dizia-se mas ficou pelo número zero (tal qual a saudosa revista Ai-Ai), a crise económica não perdoo; e, a Associação Chili Com Carne em coordenação com a Frente Fanzinista Internacional (a mesma do Zalão de Danda Besenhada) editou o livro (um MEGAfanzine!) Mutate & Survive de 200 páginas com 77 autores de 16 países diferentes. Neste último projecto, para além do tratamento de luxo aos fanzinistas participantes espera-se que se quebre o gelo dos tímidos portugueses com o resto do mundo.

E neste campo, há novidades, encontrámos vários portugueses em fanzines

estrangeiros: Bouche du Monde (França), Milk & Wodka (Suiça), Stereoscomic Special SPX (França) e Stripburger (Eslovénia).

Investigação

Carlos Bandeiras Pinheiro

A exposição Confluências e Influências Externas na BD Portuguesa (1935-

2000) no 12º Festival Internacional de BD da Amadora (FIBDA 2001) foi apoiada por um extenso Dossier da responsabilidade do respectivo comissário, João Miguel Lameiras. O Dossier, integrado no catálogo do referido Festival, inclui ainda textos de outros autores sobre aspectos particulares dessa influência: João Paiva Boléo (BD latina), Pedro Cleto e Nuno Simões Nunes (BD franco-belga), Jorge Magalhães (BD inglesa), João Ramalho Santos (comics americanos). Inclui ainda um texto de Victor Serrão sobre as influências exteriores na pintura portuguesa do século XVII e uma entrevista de Dinis Machado, um dos principais responsáveis da Tintin portuguesa, a Geraldes Lino. O FIBDA 2001 integrou ainda uma exposição retrospectiva de

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José Ruy «uma presença activa e permanente na BD portuguesa», na Galeria Artur Bual, que deu lugar à publicação de um pequeno catálogo. Da autoria de Leonardo de Sá e António Dias de Deus saiu José Ruy, Riscos do Natural nos

Cadernos do Centro Nacional da Banda Desenhada e da Imagem. O CNBDI, dirigido por Nelson Dona, continua entretanto a reforçar a sua notável colecção

de originais de autores de BD em que figuram E. T. Coelho, José Ruy, José

Garcês, Augusto Trigo, entre outros.

Na Bedeteca de Lisboa, teve lugar ‘Caricaturas' no Comércio do Porto Ilustrado

(1892-1941), comissariada por Carlos Bandeiras Pinheiro e na Casa Taït, no

Porto,Coisas do Outro Mundo: as bandas desenhadas de Júlio Resende, comissariada por João Paulo Cotrim e Paulo Patrício, integrada no Salão

Internacional de BD do Porto, exposições de que ainda não foram publicados

os

respectivos catálogos.

As

investigações de Américo Coelho e Jorge Magalhães sobre a recepção dos

autores italianos, nomeadamente de Il Vittorioso, em Portugal, têm sido publicadas em Itália na revista Informavit. O artigo mais recente é dedicado a Carlo Boscarato que os leitores portugueses puderam ler no Cavaleiro Andante

e seus derivados como os Álbuns, Números Especiais e Colecção Alvo. Jorge Magalhães é ainda o autor de um dossier sobre Carros e Motas na BD ao longo do séc. XX, edição da Câmara Municipal de Moura /11º Salão de BD. O Boletim do Clube Português de Banda Desenhada, coordenado por Paulo

Duarte e Fernando Cardoso, ganhou um novo fôlego e é possível encontrar nele artigos e reedições de interesse. De referir a publicação de inventários da obra de autores portugueses em O Cuco, suplemento do Diário do Sul sobre BD, coordenado por Dâmaso Afonso.

O IPLB publicou uma útil brochura de João Paulo Cotrim sobre a "BD

Portuguesa nos anos 90, breve panorama de tendências, autores e temas". Com coordenação geral de João Paulo Cotrim foi publicada, pela Bedeteca, "Hoje, a BD", recolha de actas e textos dos colóquios de 1996 e 1999 que na área da Investigação histórica tiveram como relatores António Dias de Deus e Carlos Bandeiras Pinheiro. O IADE criou um curso de pós-graduação em Banda Desenhada que inclui as disciplinas de História da BD e da BD Portuguesa para as quais foi convidado João Paulo Paiva Boléo.

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Movimentos

Geraldes Lino

Em dois mil e um caracteres se sintetiza quem fez movimentos bedísticos, e quais, no ano dois mil e um. Associações bedéfilas. O Clube Português de Banda Desenhada, após longo eclipse, reatou a actividade voltando a editar o Boletim CPBD; O Grupo Bedéfilo Sobredense, organizou a 19ª Jornada de B.D. de Sobreda; Toupeira– Atelier de Banda Desenhada, em Beja, fez uma exposição e editou fanzines. Nas associações informais, a Tertúlia BD de Lisboa atingiu o 200º encontro mensal, a Tertúlia Lisboa de Fanzines o 2º aniversário, o Grupo Extractus organizou exposições e editou um CD-Rom com bedês e textos. Concursos. Integram os eventos anuais da Amadora, de Moura e da Sobreda, e a bienal de Amora. Noutros locais, várias entidades investiram nesse tipo de proposta: em Coimbra, a livraria Dr. Kartoon; e em Lisboa: a Direcção Municipal do Ambiente e Espaços Verdes da C.M.L. desafiou os alunos das escolas citadinas para Banda desenhar o Ambiente; a Biblioteca Museu República e Resistência lançou o tema Aristides de Sousa Mendes; o Diário de Notícias incitou os leitores a fazerem numa tira de bd um Reality Show; o Ministério da Juventude e do Desporto, em colaboração com o Clube Português de Artes e Ideias, bem como a parceria Blitz / IADE, apresentaram igualmente os respectivos regulamentos. Cursos. Iniciou-se uma pós-graduação, no IADE, onde consta uma Opção de Projectos de Banda Desenhada ou Projectos de Ilustração; Alice Geirinhas e Marcos Farrajota orientaram uma Introdução à Banda Desenhada e Ilustração, no AR.CO. Exposições. É uma das componentes da actividade da Bedeteca de Lisboa, que organizou várias ao longo do ano; o CNBDI (Amadora) também; o Grupo Extractus mostrou pranchas dos seus três elementos na Univ. Lusófona e na Junta de Freguesia de Benfica; a Ass. de Estudantes da Fac. de Ciências Sociais e Humanas, da Univ. Nova, iniciou-se na área expositiva; o grupo "5th Floor" pôs de pé a 3ª edição da ANIPOP, com mangá nacional, na Casa da Juventude da Tapada das Mercês.

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Internet. Estão em actividade vários sites:

www.bedeteca.com,http://www.tokaki.com, http://www.interdinamica.pt, http://bd.publico.pt, http://www.bdportugal.info, http://www.anipop.org,

http://www.freezeplus.com/webzine08/,

http://www.br.geocities.com/fanzinelandia, http://www.geocities.com/extractus, http://www.geocities.com/alvarossantos, http://planeta.clix.pt/rohke, http://www.centralcomics.com, http://www.luisrebelo.net/bizarro. Rádio. Na Antena 1, às 5ªs feiras das 17h às 18h, em As Portas do Sonho, José de Matos-Cruz fala de bd e/ou de cinema.

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2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda
2002 DOSSIÊ 017|259 Ilustrações Francisco Vidal Introdução Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda

Ilustrações Francisco Vidal

Introdução

Mais uma vez trazemos a avaliação anual da banda desenhada em Portugal, dividida em sete áreas. 2002 foi um ano paradoxal. Se no princípio do ano todos esperavam o pior cenário dadas as crises do país, a meio do ano assistiu-se a uma corrida editorial nunca antes vista. Houve boas notícias e também más, no entanto o discurso mais pessimista vai ficar adiado para o ano. De resto, um agradecimento especial a Francisco Vidal por ter cedido as ilustrações "roubadas" ao seu fantástico caderno de apontamentos.

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Crítica

João Paulo Cotrim

É facto comprovado e até temido que houve uma explosão da oferta editorial

da bd. O fluxo mainstream multiplicou-se com a dispersão de editoras e com óbvios ganhos para o leitor; os norte-americanos estão representados com excelentes produtos; as traduções chegam em bom ritmo e a produção nacional (para o melhor e o pior) não deu sinais de diminuir. A partir de uma experiência inicial da Devir com A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes, andam no ar mais hipóteses de internacionalizar autores portugueses. Perante tais movimentações, que faz a crítica? Lê, quando muito. Pensa muito pouco.

A geografia dos nomes nos lugares (jornais, revistas, net) mantém-se mais ou

menos inalterada, se descontarmos pequenas oscilações e irregularidades, explicadas sobretudo pelas dinâmicas internas de cada título ou por atenções de circunstância a certos temas (festivais, o boom da edição, etc). Nas leituras com olhar crítico continuaram com periodicidade e qualidade regulares: João Miguel Tavares, no DN; Pedro Cleto, no JN; João Ramalho Santos, no JL e na Ler. Arnaldo Pedro manteve o mesmo registo no Blitz. João Paulo Paiva Boléo publicou menos, no Expresso, que acolhe ainda, de vez em quando, Vítor Quelhas e o autor destas linhas. No Público, continuaram com menos regularidade e qualidade, Nuno Franco (será que ele entende os textos que escreve?) e Carlos Pessoa (será que ele revê os textos que escreve?). No DN, na sua coluna de sábado, e por vezes na revista Op, João Lopes assinou textos intensos e perspicazes. Como luminoso continuou o trabalho de José Marmeleira, na Artlink. A “recencionite crónica” (tantas vezes abaixo da indigência) espalhou-se pela net, por exemplo na Central Comics, ou por outras publicações mais específicas, como a (trimestral e gratuita) Mondo Bizarre.

É certo que surgiram duas novas revistas, a Comix e a Metal Hurlant, mas sem

grandes reflexos para além de uma bem intencionada divulgação. O Festival da Amadora publicou, com a Devir, um catálogo desastrado – o dedicado a Alan

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Moore, com informação pouco consistente e, em geral, descuidada. E outro desastroso – o geral, do qual se aproveitam (informativamente) os textos de João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos e João Paulo Paiva Boléo. A Comix acolheu David Soares na qualidade de leitor e a Satélite Internacional, revista animada por Pedro Nora e Isabel Carvalho, deu à estampa um texto interessante de Pedro Moura. Finalmente, a Quadrado traz alguns textos aos quais podemos chamar, com propriedade, críticas. Além de dois ensaios que salvam a colheita de 2002: um de Pedro Moura sobre O Diário de K., de Filipe Abranches, e outro de Domingos Isabelinho dedicado ao autor italiano, Guido Buzzelli. Sem espaço para entrar em diálogo com eles, que era o que me apetecia, garanto aqui a sua riqueza e inteligência. São textos que pensam, portanto.

Edição

João Miguel Tavares

Uma coisa é certa: vivemos um momento histórico. Se daqui a cem anos alguém se dedicar a escrever uma enciclopédia sobre a banda desenhada em Portugal, o ano de 2002 vai estar sublinhado, e em lugar de destaque. Desde que a BD abandonou as revistas para se mostrar em álbuns, nunca tantas editoras lançaram tantos títulos. Foram mais de 150 no espaço de um ano, representando um crescimento de 50 por cento no volume de edição de novidades e de perto de 75 por cento no número de exemplares colocados no mercado. São percentagens com tanto de impressionante como de incomportável.

É evidente que esta overdose vem na sequência dos graves problemas financeiros que atingiram a Meribérica/Liber, conduzindo à perda de alguns direitos autorais. Procurando ocupar o espaço vazio, a Asa e a Booktree, cujos departamentos de BD foram formados por antigos funcionários da Meribérica, investiram fortemente na área franco-belga (cada uma lançou perto de 40 títulos), ao mesmo tempo que a Devir continuou a construir um óptimo catálogo

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americano e editoras de média ou pequena dimensão como a Vitamina BD, a Polvo e a Witloof mantinham ou aumentavam o seu ritmo de edição. Crise? Qual crise?

No entanto, as notícias da morte da Meribérica foram algo exageradas, e apesar de ter diminuído drasticamente o número de títulos lançados em 2002 – o mesmo aconteceu, embora por outras razões, com a Bedeteca de Lisboa –, conseguiu manter na sua posse as séries mais lucrativas do mercado português (Astérix, Lucky Luke, Spirou e outras).

Donde, surge a questão inevitável: Haverá lugar para todas as editoras? Quem vai comprar o meio milhão de livros que foi lançado no mercado? Ninguém, claro. O próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.

Autores

Paulo Patrício

Não me lembro de outro ano assim, absurdo e cinzento como este, onde quase tudo mudou, mas nada foi definitivo. A euforia autoral e editorial alternativa parou sem dar explicações, não sabemos o que é feito de todos os autores que andaram por aí até agora, nem temos folheado nada das editoras que existiam para os publicar.

É uma infelicidade não haver sinais alternativos, mas eles não poderiam persistir muito mais tempo, ou ter a sua importância, sem que o outro lado estivesse presente em força, o das editoras com vocação comercial. Foi uma experiência que não obedeceu a mais elementar das regras: para cada acção há uma reacção oposta. Aquilo que as editoras alternativas publicaram flutuou entre a banda desenhada e a ilustração, entre a banda desenhada e a pintura, entre a banda desenhada e outra coisa qualquer que ninguém sabe bem o que

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é, nem sequer os próprios autores. Foram anos de estilo, e ainda que isso tenha algum mérito artístico, a verdade é que alguns autores fizeram uso do estilo para combater a incapacidade de contar histórias e disfarçar falhas de linguagem. O estilo é a forma como a linguagem de um determinado autor se apresenta, parte de um conjunto de regras artificiais estabelecidas pelo autor e tem como objectivo criar a ilusão de que as soluções utilizadas são aquelas e não poderiam ser outras.

A dificuldade está na capacidade que cada autor tem ou não de ser um bom ilusionista, e dentro dos alternativos nós tivemos bons ilusionistas, maus ilusionistas, ilusionistas assim-assim que sempre foram entusiasmando o público com alguns truques, vá lá. Agora que as potenciais grandes companhias de circo nacionais marcam terreno nas entradas das cidades, com ilusionistas de renome internacional e outras criaturas amestradas em cartaz, não há reacção por parte dos ilusionistas alternativos, que entretanto vão fazendo o que podem pela vida a vender bifanas em estradas secundárias e portas de discoteca. É triste, mas é verdade, só houve reacção quando existia uma editora moribunda e vários apoios institucionais. Fomos nós no nosso melhor.

Festivais

João Miguel Lameiras

Num ano em que não se realizou o Salão do Porto e em que do Salão Lisboa apenas tivemos direito à mostra da Ilustração Portuguesa, agora no magnífico espaço do Oceanário, o Festival da Amadora viu-se naturalmente guindado a uma posição de maior destaque neste balanço.

Com a opção do Salão Lisboa em passar a bienal, o Festival da Amadora passa a ser indiscutivelmente o maior evento anual da BD portuguesa, realidade que tem correspondência no apoio da Autarquia que, numa fase em que os apoios particulares diminuíram consideravelmente, aumentou o seu

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investimento no Festival, que conseguiu reunir um elenco de luxo, com nomes como Daniel Clowes, Chris Ware, Rosinski, Jacques Martin, Cristophe Blain, Marc Antoine Mathieu e Charles Burns, entre outros

Mas o grande problema continua a ser o espaço da Escola Intercultural, claramente incapaz de acolher um grande número de exposições, obrigando a uma descentralização forçada que faz com que algumas das melhores mostras passem completamente ao lado do grande público, como aconteceu com Argumentos, a excelente mostra dedicada a Alan Moore, e principalmente com exposição dedicada à BD francesa contemporânea (que incluía alguns dos nomes mais interessantes da nova geração de autores francófonos) que se viu desterrada para o Centro de Arte Contemporânea de Alfragide, que ninguém sabia muito bem onde é que era

Quanto às mostras que estavam na Escola Intercultural, a opção em valorizar os originais foi a mais acertada, como o prova o desastre da exposição principal, dedicada à Odisseia dos Autores Portugueses, com uma cenografia nada conseguida, que não permitia uma visão minimamente correcta dos originais, encaixotadas numa estrutura em madeira rasgada por algumas (bastante) estreitas frestas.

E embora a Amadora condicione claramente o calendário editorial nacional e a presença de representantes das principais editoras estrangeiras ateste um cada vez maior reconhecimento internacional, a verdade é que há quem pense que o modelo de Festival de que a Amadora é o paradigma nacional não é o único, e prefira apostar em iniciativas de menor duração (limitadas a 3 dias, como é norma por todo o lado, de Angoulême a San Diego) e mais viradas para a parte comercial. Foi o caso da iniciativa promovida pela Sodilivros, com a Devir e a Vitamina BD, no âmbito da Festa do Livro, que deve ser vista como um ensaio preparatório para o BD Forum a realizar em 2003.

Com isso, e com o regresso do Salão Lisboa, 2003 promete ser um ano muito mais animado, no que aos Festivais de BD diz respeito

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Fanzines

Marcos Farrajota

Ano de todas as esquizofrenias e paradoxos na bd portuguesa, 2002 foi o ano da crise económica-etc-nacional mas também o ano da explosão editorial que ninguém estava à espera. Ao que parece já se pode falar em mercado em Portugal – que felicidade é o Capitalismo, não?

Os fanzines continuaram a sua marcha mas romperam com as tendências registadas nos últimos dois anos: a periodicidade dos títulos deixou de ser cumprida (ex.: o Succedâneo só editou dois números quando editava 6 por ano!), não houve novidades nos formatos multimédia nem transferências de autores “amadores” para formatos profissionais – continuamos à espera de uma nova geração, tão frenética como a de 2000? Nem o intercâmbio internacional evoluiu por ai além, tirando o António José Lopes que participou na antologia eslovena “MadBurguer”.

Então o que se passou?

- Saíram monográficos: “Há uma luz que nunca se apaga” de José Lopes (editado por Geraldes Lino) e “Zé Mesias deputado” de Artur Varela (pela Zundap), e ainda os auto-editados “Uma porta serve para entrar como para sair” de Pedro Moura e da coreana Koh Eun-Kang, “Aconteceu” de Rohke Vorne e Phermad, e “Paris morreu” de Nuno Duarte e Pepedelrey, todos eles criando os seus selos editoriais, Montesinos (de Pedro Moura em Seul), Dr. Makete (de Vorne) e El Pep (de Pepedelrey).

- Foram organizadas muitas feiras de fanzines e de edição independente em festivais de música (Noites Ritual, Musa, SleazeyFest, Anti-Corpos), uma na Ilustração Portuguesa 2002 e várias outras com destaque para uma organizada pelo artista João Fonte Santa num espaço de exposições do Chão de Loureiro; outra, na Lousã, organizada pelo Gambuzine; e a mais mediática, “Natal Subterrâneo”, organizada pelo grupo Família Alternativa. Só o Festival da BD

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Amadora é que pela segunda vez consecutiva não se interessou por uma feira

de fanzines - e ainda bem, dado o mau gosto galopante e exacerbado da

edição deste ano até dava mau nome aos fanzines estarem-lhe associados!

- De fanzine para o prozine: o “Mesinha de Cabeceira” comemorou 10 anos de existência e editou dois números pela MMMNNNRRRG em formato profissional, tal como os dois números anteriores editados pela Associação Chili Com Carne. O fanzine “A Língua” acabou em 2001 mas o colectivo reencarnou este ano com uma revista cheia de potencial, o “Satélite Internacional”.

- Circularam os fanzines de bd ou com bd: “Bactéria”, “Sub”, “Carneiro Mal Morto”, “Gambuzine”, “Terminal”, “Durty Kat”, “Succedâneo”, "Improvisos na

toalha da mesa", “Na verdade tenho 60 anos” e “Zundap”. Das Caldas da Rainha – um viveiro hermético de zines porque não saem para fora do círculo

de estudantes do ESTAG – surgiu a “Porca Frita”, e em Lisboa o "Cadavre

Exquis aliás Cadáver Esquisito", um fanzine editado por Geraldes Lino e que

publica o resultado de uma bd colectiva.

E por fim, a GRANDE novidade foi o lançamento recente (no Natal

Subterrâneo) do fanzine mais pequeno do mundo (deve ser com 90% de

probabilidades). “Pecarritchitchi, o fanzine enfezado” é fruto das mãos de João Bragança (do Succedâneo) e que conseguiu fazer páginas no tamanho de um cêntimo. O trabalho que o autor tinha vindo a desenvolver no “Succedâneo” não sofreu perdas de qualidade com a mudança de formato. Continua

inteligente, com humor, "assemblages" e fotografia

qualquer espécie de acusação de “depressão criativa” nos fanzines de 2002!

Uma edição que remata

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Investigação

Miguel Coelho

Que 2002 foi um ano muito fértil na edição de álbuns, ninguém duvida. No entanto, ao nível da investigação, o ano foi bastante pobre, comparando com qualquer um dos últimos seis anos

Começando pelos três títulos apresentados na Amadora, desde logo com o Catálogo da exposição Alan Moore – Argumentos, uma edição do Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem e da Devir. Marcado por um cuidado

arranjo gráfico, abundando as ilustrações e uma bibliografia, o catálogo fica como uma referencia para os que quiserem explorar o rico universo deste argumentista. No entanto, poderia ter sido um suporte melhor explorado.

O Catálogo do XIII FIBDA (Festival Internacional de Banda Desenhada da

Amadora), BD Amadora 2002, surgiu num grande volume, compreendendo textos acerca das várias exposições que, nas suas 180 páginas, bem poderiam

ter sido alvo de um melhor cuidado, nomeadamente pela ausência de correcta bibliografia acerca dos autores presentes em cada edição ou a falta de referências às ilustrações que acompanham os textos, que no conjunto, se apresentam desequilibrados. Um suporte como este catálogo tanto tem de estar pensado para o coleccionador que já sabe quase tudo, como para quem

se inicia nestas lides, pelo que será normal para quem visita o FIBDA querer

saber mais acerca de um dado autor (sendo pertinentes questões como: será

que há livros em português deste autor?; são editados por quem? este

desenho é de que livro?

Por isso, este tipo de catálogos deveriam servir

para apresentar uma breve panorâmica acerca de um autor, sem cair numa investigação erudita, mas também sem cair em repetições ou lugares comuns. No entanto, sempre fica um registo importante acerca do maior certame nacional dedicado à BD.

A apresentação de mais um título da Colecção “Cadernos NonArte”, José

Garcês, as Fases Diversas, de Leonardo De Sá e António Dias de Deus, lançado pelo CNBDI e Edições Época de Ouro constitui uma referência e um

).

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exemplo de investigação, seguindo a linha de anteriores títulos da colecção da responsabilidade da mesma dupla de autores.

Em termos universitários, Nuno Amaral Jerónimo (assistente de Sociologia da Universidade da Beira Interior) realizou um trabalho sobre Krazy Kat e Pedro Ganho (Universidade de Coimbra) apresentou uma prova final acerca da BD e Arquitectura, onde se realça, como é natural, a série “As Cidades Obscuras”.

Embora não se tratando de uma obra de investigação, o lançamento do livro acerca do making of de Blacksad, pela Asa, não poderia deixar de ser referenciado, tão pouco habitual no nosso país é a edição de um livro deste tipo.

Ao nível do que não surgiu, nota-se fortemente a mudança operada no município lisboeta, em Dezembro de 2001, que afectou directamente os suportes preferenciais da divulgação das investigações que se têm feito, nomeadamente acerca dos autores portugueses: as exposições, os respectivos catálogos e as revistas. Desde logo, a ausência de Catálogos editados pela Bedeteca e a não publicação de nenhum número da revista Quadrado (o n.º 4 da III série vai sair brevemente, com data de Novembro de 2002) não poderá deixar de ser referido, título realizado em parceria pela Bedeteca de Lisboa e pela Associação Salão Internacional de BD do Porto. A excelente revista Biblioteca,

revista das Bibliotecas Municipais de Lisboa, publicou o seu derradeiro número,

o número 9/10, com data de Janeiro de 2002, onde apenas foi apresentado um

texto, “Bedeteca de Lisboa – Fase 2”, de Rosa Barreto, Rosário Tavares e Pedro Cabrito, onde se traça uma panorâmica sobre o realizado desde 1996 e

sobre as mudanças e obras que se vão operar, nomeadamente a saída da Biblioteca dos Olivais (libertando as salas de biblioteca generalista) e a reconversão de alguns espaços interiores e exteriores, não se tratando por isso de um texto de investigação, como a mesma revista publicou sobre a BD desde

o seu número inaugural.

Uma revista algo incompreendida como Selecções BD deixou um vazio por preencher, quanto mais não seja por possibilitar a publicação de alguns artigos

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sobre temas, séries ou autores de BD. As novas revistas Comix e Metal Hurlant, embora permitindo aos leitores contactarem algo regularmente com BD, não parecem estar orientadas para divulgação de investigação e no caso do JuveBÊDÊ, Boletim de Banda Desenhada da Associação Juvemedia, tendo ultrapassado a barreira dos 25 números, não tem servido de suporte para investigação, apostando claramente na divulgação, excepção ao número especial dedicado a William Vance, em Outubro de 2000.

A ausência de um Catálogo sistemático da BD editada em Portugal, algo do género de um “BDM” (sigla que compreende os apelidos dos autores do catálogo enciclopédico Trésors de la Bande Dessinée), sabendo-se que Leonardo de Sá já tem um impressionante estudo em estado muito avançado e que este investigador, juntamente com Geraldes Lino, tem um Dédalo dos Fanzines “na manga”, mais completo e actualizado do que o que ambos editaram há uns anos, cuja distribuição foi muito restrita. Voltando à ausência de catálogos e livros por parte da Bedeteca, sabe-se que há projectos que, por várias razões, entretanto ficaram “congelados”. Facto cada vez mais preocupante é a incompleta ou incorrecta citação das fontes, sendo frequente ver-se textos em que o autor se limitou a consultar de memória títulos, nomes ou informações das mais variadas. Com um avolumar de informações e de títulos, cuja tendência será sempre para aumentar e nunca diminuir, ninguém se pode dar ao luxo de utilizar de memória todo o tipo de informação, sendo necessária a sua confirmação, para depois não aparecerem as gralhas e imprecisões que abundam. É que até se corre o risco de as gralhas poderem ser continuamente passadas de texto em texto, como acontece com as referências a Arlindo Fagundes: o autor confirmou que embora fosse mais simpático ter nascido em 1955, nasceu de facto em 1945. Fica o registo!

Considero que quem escreve sobre BD, nomeadamente nos jornais, revistas ou outros suportes, para além de emitir as suas opiniões deverá ter em conta a “formação” do leitor, dando-lhe pistas acerca de outras obras de um mesmo autor, autores que utilizaram um mesmo tema, circunstâncias que ditaram determinada situação, explicar a terminologia do meio ou outras informações

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relevantes. Um bom exemplo de material de apoio são as fichas didácticas editadas pela Bedeteca em 2002 (BdBoom), que embora sendo excelentes, têm um elevado número de gralhas ou erros na bibliografia (na ficha 13 falta o número dos Cadernos da BD onde Jorge Magalhães escreveu um artigo ou outras gralhas menores). É que neste caso, quem escreve tem redobradas responsabilidades.

Movimentos

Geraldes Lino

Na sequência de idêntico trabalho realizado em 1999, 2000 e 2001, eis o balanço de 2002.

Associações bedéfilas.

O

Clube Português de Banda Desenhada, editou o 101º nº do Boletim CPBD.

O

Grupo Bedéfilo Sobredense mantém as Jornadas de BD da Sobreda e o

fanzine Cadernos Sobreda BD, agora no nº18. Nas associações informais, a Tertúlia BD de Lisboa há 17 anos que homenageia autores todos os meses, a Tertúlia Lisboa de Fanzines comemorou os 30 anos do primeiro fanzine em Portugal, com colóquio e expo na Livraria Ler Devagar, a Associação Chili Com Carne, de Cascais, teve duas feiras de zines em Lisboa, uma no edifício A Capital, outra no Espaço Vírus, o Atelier Toupeira, de Beja, fez exposições no Salão BD de Moura e na Bejalternativa, nesta também uma feira de fanzines.

Concursos. Mantêm-se os da Amadora (Festival), de Moura (Salão), da Sobreda (Jornadas), da Livraria Dr. Kartoon, de Coimbra, e da Junta de Freguesia de Olhão. Surpresa foi o do Jornal de Notícias, sob o tema "O Crime Não Compensa".

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Cursos Em Lisboa: no AR.CO, Ilustração e BD, por Alice Geirinhas, Daniel Lima e Nuno Saraiva; na Bedeteca, Workshop de Ilustração e BD, por Alice Geirinhas e Marcos Farrajota, Às voltas com a BD e O que é um fanzine?, ateliers por Rosário Tavares. Na Amadora: no CNBDI, Curso de Iniciação à BD, o 2º por Rui Brito, e Workshop Faz Fanzines, por Geraldes Lino; na Escola Intercultural, Workshop de Literatura Gráfica, por Álvaro Áspera dos "Fazedores de Letras". Em Beja: o Museu Regional organizou Ateliers de BD, um na Casa da Cultura, outro no Jardim Público, ambos dirigidos por Paulo Monteiro.

Exposições. Em Lisboa, organizadas pela Bedeteca: Conto(s) Contigo, colectiva, com edição das bedês em cartazes, expostos em vários locais, um deles o Forum Cap Mag, em Paris, e Interpretações Desenhadas, adaptações à BD de obras literárias. Ainda em Lisboa, no edifício A Capital, Mutate & Survive, Exposição Internacional de BD + Ilustração, na Livraria Municipal, a Semana de BD e Ilustração, e no Instituto Franco-Português 10 Autores Contemporâneos em França. No CNBDI da Amadora esteve Alan Moore, aliás, pranchas de vários artistas para quem ele tem feito argumentos. Em Faro, Fragmentos, expo de Cartoon e BD, de Phermad, na Galeria do I.P.J.; no mesmo local, Mais Jovem, pranchas de bd de Bruno Silva. Em Loulé, na Casa da Cultura, de novo Phermad com Já Aconteceu. Em Loulé e São Brás de Alportel, esteve A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes.

Sítios na Internet. Um novo site: www.bizarro.cc

Livrarias Especializadas. Mais uma em Lisboa, Kingpin of Comics, e outra no Porto, a Fantas Comic.

Programas televisivos ou radiofónicos. Na TV entrevistaram autores estrangeiros vindos ao festival da Amadora, e alguns fanzinistas em feiras de zines. Na rádio foi pior: "A Balada do Mar

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Salgado" deixou de se ouvir em Coimbra, ao fim de doze anos de emissões, e na Antena Um "As Portas do Sonho" fecharam-se. Mau sinal.

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2003 DOSSIÊ 031|259 Ilustrações José da Fonseca Introdução Eis a avaliação anual da banda desenhada em
2003 DOSSIÊ 031|259 Ilustrações José da Fonseca Introdução Eis a avaliação anual da banda desenhada em
2003 DOSSIÊ 031|259 Ilustrações José da Fonseca Introdução Eis a avaliação anual da banda desenhada em
2003 DOSSIÊ 031|259 Ilustrações José da Fonseca Introdução Eis a avaliação anual da banda desenhada em

Ilustrações José da Fonseca

Introdução

Eis a avaliação anual da banda desenhada em Portugal de 2003, dividida em sete áreas como tem sido habitual desde 2000. 2003 foi o ano que provou que não há futurologistas, pelo menos na bd. Qualquer previsão feita no ano anterior pouco ou nada teve correlação com a realidade mas os nossos colaboradores insistem na mesma tecla. 2003 foi um Limbo? O autor das ilustrações deste ano é José da Fonseca que viu, em 2003, o seu primeiro trabalho monográfico editado na colecção Lx Comics – no número 14 intitulado "Iguais mas não gémeas".

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Crítica

Pedro Moura

Já à partida, admito que é forçoso a uma visão metacrítica encerrada num espaço destes ser algo desequilibrada em relação ao que se propõem pensar. O facto das recensões e dos artigos, em secções regulares ou não deste ou daquele órgão de comunicação, desta ou daquela pessoa mais ou menos dedicada ao campo, serem da natureza que são, está intimamente associado a uma série de factores incontornáveis, estruturalmente moldadores desses mesmos textos: o facto da maior parte dos regulares trabalharem para jornais, com espaços relativamente pequenos, impede que se desenvolva uma verdadeira, balizada e multímoda crítica. Chris Baldick, mesmo no seu Concise Dictionary of Literary Terms (Oxford University Press: Oxford/New York 1990) indica que a crítica (criticism) é um balanço entre juízo (judgement) e análise (analysis). O primeiro está obviamente associado a uma espécie de voto, de valorização perante inclinações pessoais, mas a segunda é um método de leitura e interpretação da parte do leitor eficaz que o crítico deve ser. Ora, na ausência de análise, penso que não se pode falar em termos globais e concretos, salvo excepções pontuais, em crítica propriamente dita sobre banda desenhada em Portugal. O mesmo, diga-se, aplicar-se-á a outras expressões artísticas. À crítica literária, encontra-se bem estruturada na Colóquio/Letras, em publicações académicas, e não nos suplementos de Domingo dos jornais.

Não quero com isto dizer que o que se escreve é mau ou inconsequente. Baldick diz ainda que a crítica moderna se divide sobretudo em dois campos: o do mercado, “porque é que se deve comprar este livro?”, e o educacional, “porque é bom este livro?”. Mais uma vez, o fiel português força um prato bem abaixo do outro. O do mercado.

Serei uma das primeiras pessoas a aplaudir o surgimento de novas editoras, de novos autores, de novas apostas, mesmo sendo os objectivos dessa novidade toda puramente comercial: para a criação de um mercado, para que haja espaço e liberdade e, também importante, dinheiro para os seus criadores, é

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salutar que surjam projectos de toda a índole. Toda. Goste-se ou não. Portugal tem assistido nos últimos anos a um crescimento, que talvez tenha abrandado neste último ano, mas não substancialmente, do seu “mercado”.

Precisamente por seguirem o mercado, a maior parte dos regulares autores de artigos sobre bd dedicam-se ao que vai surgindo no mercado. Uns com mais atenção que outros, uns com mais pertinência, inteligência, conhecimento, elegância e abrangência que outros.

Precisamente por seguirem o mercado, a maioria das notícias se repete, os mesmos livros, os mesmos autores, os mesmos gostos e respeitos, e às vezes as mesmas atitudes e posições perante essa determinada obra.

Precisamente por seguirem o mercado, que já possui os seus mecanismos de distribuição e canais de informação e público mais ou menos fiel, estas recensões não ajudam muito ao objectivo primário: vender mais. O mesmo não acontece a projectos menos visíveis, mais independentes, que não alcançam uma presença mercancial idêntica à das (inteligentes) editoras portuguesas. Mas a maior atenção vai para esse mercado.

Precisamente por seguirem o mercado, e porque o mercado tem sido enchido

de projectos que chegam a Portugal com algum atraso em relação à sua criação, ou se tratam de reedições de “clássicos” (qualquer coisa com 10 anos é um “clássico” nestas parlagens), lemos artigos longos dedicados ao que vai surgindo com atraso. Não me entendam mal, Hossanas a Hugo Pratt, a cores ou sem elas, abençoada seja Adéle Blanc-Sec entre as heroínas de papel, um grande Saravá ao Silêncio de Comés, aos meus amigos Moebius e

Jodorowsky, Bilal e Hermann, Lucky Luke e Mafalda um grande abraço

mas,

não seria mais interessante e desperto da parte de quem tem espaço nos jornais para falar de projectos mais recentes, mais vivos, mais interessantes,

mesmo que fora dos trâmites frequentes, fora de portas, que exija ao leitor mexer-se um pouco além de descer à Sua Livraria Habitual, enfim?

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Os gregos poderiam ter palavras mais esquisitas que as nossas, mas todas tinham a sua função consistente, e infelizmente hoje confundem-se. Estética, aisthētiké, significava “faculdade de sentir ou compreender pelos sentidos”. Menos conhecida é talvez a estese, de aísthēsis, “faculdade de sentir ou compreender pelos sentimentos” (veja-se o dicionário etimológico de J.P. Machado). Presumo não ser necessário discorrer muito que, se a segunda faculdade esbarra contra essa grande aporia usualmente coroada com o anexim De gustibus et coloribus non est disputandum, a primeira exige um mais relevado balanço analítico e cerebral.

Levanto alguns senões ligeiramente éticos ao facto de se escrever sobre livros publicados por uma editora na qual se trabalha ou para qual se contribui, mas uma vez que os livros nas apreciações se repetem, e estarmos a falar ainda de um universo reduzido, talvez esse seja um medo infundado e menor. Gritante é porém a impertinência de falar de projectos estrangeiros em absoluto despropósito: projectos que em nada contribuem para a revelação da arte, que em nada reviram o mercado, que em nada influenciam o que se passa no nosso país. Interesses duplos? Ou simples McGuffins?

Dos regulares, com grande destaque para todos os Joões seguidos de mais dois nomes (presumo que seja uma tramóia maçónica) – João Miguel Tavares, João Miguel Lameiras, João Ramalho Santos e João Paulo Cotrim, o que pautava as suas escritas mantém-se. Os critérios de visibilidade, disponibilidade e imediatez no mercado operam sobre as obras escolhidas, mas são estas as pessoas que melhor escrevem nas publicações regulares do país. João Miguel Tavares é algo desigual na sua escrita e considerações, mas tem uma produção assombrosa a louvar. Permita-me que chame a atenção para o facto de que a bd não é um género, mas sim um modo, o qual compreende vários géneros em si. Presumo ser fácil renovar a caixa no fim de cada artigo. João Miguel Lameiras é uma pessoa, como sempre, bem informada e esclarecedora, perguntando-me apenas se não se perde essa informação toda no jornal em que escreve e o seu fascínio por obras que, não obstante estarem disponíveis nova e mais facilmente em Portugal, pouca novidade trazem. João Paulo Cotrim continua a ter o dom da palavra, mas é

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uma escrita mais impressionista que analista. Dada a sua personalidade e dedicação pessoal, sobejamente conhecida, dedica uma atenção muito especial (presumo que a palavra ideal seria “carinho”, e não estou a zombar) para o que é publicado por portugueses, sem se prender em demasia com o que de mais mediático sai. João Ramalho Santos, talvez por poder escrever em duas publicações que prezam um outro nível de leitura, e tem cedido um espaço na folha considerável, é imperioso que nos ofereça considerações bem mais pertinentes das bds.

Afora estes recenseadores, Carlos Pessoa parece ter-se reduzido este ano às notas que vão saindo no Público que acompanham a edição do Tintim, pelo que não há muito a dizer; Pedro Cleto, que infelizmente tem muito pouco espaço, parece fazer a maioria das suas escolhas de temas num site francófono e simplesmente traduzir as notícias de que vai sabendo… Que não dos regulares, alguns dos artigos pecam por variadíssimas razões:

alguns são fracamente mal escritos, com um português desassociado das regras elementares da sintaxe, ou chãos. Mais grave em termos informativos é não procurarem garantir que os dados sejam verdadeiros e exactos, chegando- se a falar de Marcos Farrajota como director da Bedeteca, e da BD Fórum como orientada para “o ensaio e a vanguarda”!

Há surpresas, ainda que dúbias, por vezes. José Mário Silva deu alguma atenção ao livro recentemente editado em Portugal Fantomas contra os vampiros multinacionais, criado sobre um texto de Julio Cortázar. Mas infelizmente deixa o facto deste ser um volume de bd (híbrido) praticamente desapercebido.

Quanto à publicação Juve BD, que segundo o design parece um panfleto das promoções de um supermercado, se fosse dirigido “à pequenada”, aceitar-se-

Como algo feito por adultos cultores de um tipo de leitura,

informados ou não – e não discuto o aspecto comercial, de que já falei – é de uma reflexão inexistente, se não mesmo anedótica.

ia, e mesmo assim

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Uma vez que há um certo culto do autor instaurado, uma mitificação dos desenhadores ou escritores, elevados a “génios”, é quase como se esses seres humanos não tivessem momentos de maior ou menos felicidade nas criações, como se as suas obras fossem sempre um crescendo, o que não é verdade em praticamente nenhum autor. Os novos trabalhos de autores como José Carlos Fernandes, Arlindo Fagundes, Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, Diniz Conefrey, Luís Louro, são vistos como objectos de comemoração, e não se pensa mais sobre a importância desses trabalhos perante um panorama que não apenas o nacional, o que esbate em muito o valor dessas obras.

Gostava de facto de ver mais espaços para discussões mais profundas. Questões de estrutura, de fundo, questões verdadeiramente pertinentes perante as políticas comerciais, perante as escolhas editoriais, perante as aventuras estéticas que se passam no nosso país. Apenas como exemplo, três questões que não vi feitas:

1. na edição de Os sobrinhos do Capitão da Gradiva, porque é que começam com as tiras de Joe Musial, e não através de um critério histórico? Se houve algum impedimento, qual? E ao invés de ser a tira a adaptar-se ao formato do livro (as imagens estão esticadas num eixo vertical), porque não foi o livro a ser pensado em função da arte original? Perguntas que poderiam ser feitas à editora, quando se faz uma recensão.

2. ao falarem de Nós Somos os Mouros, editado pela Assírio & Alvim, não vi uma só referência à edição original da revista Le Cheval sans Tête, Nous Sommes Les Maures, da editora Amok, de 1998. Menção que nem a edição da A&A tem, sem prefácio, explicação, comentário, nota. Ambas as edições têm diferenças significativas, sobretudo de cortes, apesar da portuguesa acrescentar dois textos de Jõao Paulo Cotrim e Hernández Cava, e uma bd de JPC e Daniel Lima. Mas porque em nada se falou?

3. o Festival da Amadora foi dedicado ao tema da Mulher, tendo sido convidadas algumas das autoras fundamentais para um repensar da bd no feminino, especialmente nos últimos 20 anos, dos EUA. Muito bem, mas será

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que ninguém se perguntou o que é que o Amadora Cartoon, um festival afecto

a determinadas editoras, festival no qual é visível a ausência de uma política

coesa e reflexiva sobre a bd, tem a ver com essa cena alternativa? E num tema já sobejamente discutido noutras plataformas e em datas passadas, qual a pertinência de fazer um festival dedicado à Mulher, na qual estão lado a lado prestações de artistas com objectivos políticos e artísticos e uma exposição de personagens femininas como objecto de desejo? Mônica e Mafalda podem ser duas heroínas de banda desenhada sul-americana, mas termina aí qualquer coincidência, entre um autor de revistas de intuito comercial e infantil e um outro de uma insistência política marcada.

Volto a repetir. O que nós temos que passa por “crítica” está associado sobretudo à resenha jornalística, atenta ao mercado. E infelizmente, no panorama das publicações culturais em Portugal pouca ou nenhuma atenção dá a esta arte. A Magazine Artes publica artigos de JPC, mas as outras revistas de temas culturais não olham nesta direcção. Noutros países, nem sempre é assim. A Beaux Arts dedicou em 2003 dois números hors-série à bd. Apesar desta não ser das revistas mais sofisticadas sobre artes em França, e alguma das informações contidas nestes números ser “requentada”, as bds inéditas e as pequenas biografias não são de desprezar de todo. Mais longe, na Coreia do Sul, a Wolganmisool, revista sobre a cena das artes visuais do burgo, no seguimento da exposição La Dynamique de la BD Coréenne no 30º Festival de Angoulême, publicou 5 artigos relativos ao tema “Art & Comics”.

Na ausência de publicações como 9eArt (do Centre National de la Bande

Dessinée et de L’Image), The Comics Journal, entre muitos outros títulos, com

o infeliz desaparecimento da Nemo, só a Quadrado e, mais recentemente, a

Satélite Internacional, parecem prestar-se a um maior fôlego para uma verdadeira crítica, contribuindo para o desenvolvimento de uma qualquer linha de pensamento mais teórico, mais abrangente, atenta aos trâmites e métodos do modo da bd e alternativa a uma visão somente de mercado. É mais que provável que não tenham chegado ao ponto certo, nem que alguma vez venha agradar a Gregos e Troianos. Eu próprio fui cultor de pequenos recados sobre

a bd, durante algum tempo, na revista Flirt, mas na Quadrado é nesse sentido

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de análise que tento avançar, mal ou bem. Julgo que se referiram ao meu texto sobre O Diário de K., de Filipe Abranches, como “excesso académico”, mas ninguém me apresentou questões de fundo, estrutural ou até de pertinência. Gostaria de ver surgir discussões entre quem pensa a bd. Para que eu possa aprender, sobretudo, em como o fazer. Este espaço é único, mas não é bom que o seja.

O acto da leitura crítica é legítimo, sobretudo tendo em conta o que diz Manuel

Frias Martins sobre a crítica como “projecto de recuperação mimética de eventuais paradigmas que circunscreveram a produção de um texto” (itál. orig.; ver. cap. II de Matéria Negra. Cosmos: 1993). Existem muitas categorias, escolas, e posições às quais a análise se poderá relacionar: a obra na sua genealogia, a sua relação ao cânone, os temas étnicos, sexuais, políticos e ideológicos, as categorias da retórica (e as especificidades deste modo) a que obedece e desobedece, aspectos psicológicos, sociológicos, de diálogo fora do seu campo de acção, de comentário perante um interlocutor imediato ou menos imediato, seguir a teoria da recepção ou integrá-la numa rede de influências,

aferroada sobretudo na trilogia de Harold Bloom sobre a teoria do revisionismo, etc. São poucos os que o fazem, para além de chamar a atenção para o que está disponível nos escaparates. Não é preciso mais atenção ao que se vai publicando num círculo mais vasto – pois quem escreve sabe-o – mas é preciso que o coloquem à disposição dos leitores, e integrem o que falem nesse esquema mais vasto. Não sou apologista do fanzine per se – apenas se

a qualidade e metodologia do mesmo importa – mas é preciso falar mais da

produção nacional, de outros objectos editoriais mais híbridos, menos concretos, debruçarem-se mesmo sobre bds curtas que surgem pelas publicações. Parece existir algum tipo de cegueira, de adversidade generalizada a este tipo de produção. Aparte Domingos Isabelinho (que viu publicado no final de 2002 no The Comics Journal um belíssimo artigo sobre o último livro de Baudoin), é raro ver alguém fazer comentários e leituras que respeitem a recuperação mimética que mencionei Muitos assustam-se com o que se diz, mas o que é dito é pensado. E falar de Gardfield? Não me lixem!

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Agradecimentos a Marcos Farrajota, José Freitas, Paulo Mendes, Pedro Sabino, Pedro Silva, e Livros Dom Quixote (Rita Cruz).

Edição

João Miguel Tavares

No final de 2002, terminei da seguinte forma a avaliação do ano editorial que me foi pedida pela Bedeteca: «O próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.» Pois é, caro leitor: sou um incompetente e um futurista falhado. A previsão revelou-se erradíssima. Em 2003 ainda se editaram mais livros, e muitos deles de excelente qualidade. Por outras palavras, a vaca continua gorda. Mas, teimoso como sou, posso pelo menos invocar este argumento a meu favor: mantenho a certeza de que, ou a vaca emagrece, ou morrerá de obesidade. O que é que isto quer dizer? É simples: o mercado editorial português de banda desenhada continua a crescer muito acima das suas possibilidades. Estão-se a editar muitíssimos livros para ocupar espaço em loja, mas para os quais não existe verdadeiramente um público, e a situação afigura-se impossível de sustentar durante muito mais tempo. É possível que a proliferação de editoras e a variedade da oferta tenha sido capaz de alargar o público que consome BD – também em França 2003 foi um ano de recordes na publicação e na compra de banda desenhada –, mas jamais o terá alargado ao ponto de ele ser capaz de absorver todos os álbuns que semanalmente são lançados para as livrarias.

Em 2002 realizei um pequeno estudo para o Diário de Notícias onde concluía que o mercado crescera cerca de 50 por cento só no espaço de um ano e que tinham chegado às lojas meio milhão de exemplares de livros de BD. Ao mesmo tempo, quer na Fnac quer no Continente, o público continuava a consumir sensivelmente a mesma BD que no ano anterior. Não repeti esse estudo em 2003, mas, seguindo os números coligidos por Daniel Maia num

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artigo elaborado para a Centralcomics (www.centralcomics.com), terão sido editados no ano que terminou cerca de 450 títulos. Ainda que só dois terços deste número seja referente a álbuns (o restante são revistas), o valor não deixa de ser impressionante (mais 50 por cento do que em 2002) e revelador daquilo a que se costuma chamar uma «fuga para a frente». Ou seja, num tempo altamente competitivo, a maior parte das editoras quer marcar posição e continua a lançar álbuns a um ritmo muito superior ao que seria aconselhável.

Em termos individuais, o grande destaque para o ano em volume de edição vai para a Asa, aparentemente decidida a ocupar o lugar de gigante da BD deixado vago após a crise da Meribérica. A Asa, apoiada numa grande estrutura

editorial, conseguiu algumas vitórias ao conquistar os direitos de autor das obras de Milo Manara, Enrico Marini e, sobretudo, de Lucky Luke. Para marcar

o território nas grandes superfícies, lançou em 2003 mais de um título por

semana, mas uma percentagem significativa do seu catálogo é de interesse no mínimo duvidoso, mesmo em termos estritamente comerciais. Tendo em conta que a sua última aventura no domínio da BD foi um enorme fracasso, resta saber se a casa do Porto não está de novo a revelar-se, neste campo, excessivamente ambiciosa. 2004 irá ajudar a esclarecer estas dúvidas. Quanto à Meribérica, e ao contrário do que muitos esperavam, está lentamente

a levantar a cabeça. Este ano triplicou as novidades relativamente a 2002, com

volumes inéditos de séries como Blake & Mortimer, Tenente Blueberry, Corto Maltese, Akira ou XIII. O seu catálogo está bem mais curto, mas continua a ser

o mais apetecível de todo o mercado português. Os lançamentos são menos

do que nos tempos áureos, mas mais criteriosos – e importa recordar que

quem tem Astérix tem (quase) tudo.

Da Devir nunca há muito a dizer, porque mantém a regularidade de um pêndulo. É praticamente um monopólio na sua principal área de intervenção (os comics americanos), e nesse campo trabalha indiscutivelmente bem. Para além das revistas que são o seu ganha-pão, voltou a publicar obras essenciais de nomes tão importantes quanto Frank Miller, Alan Moore ou Mike Mignola.

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A Vitamina BD continua também a trilhar o seu próprio caminho, sem se entusiasmar excessivamente com o ambiente que a rodeia. Lançou 15 novidades em 2001, 19 em 2002, 21 em 2003. O seu plano inicial para este ano era mais ambicioso, mas Pedro Silva sabe fazer contas, e, nos tempos que correm, essa é a melhor garantia para sobreviver no mercado de BD.

Uma palavra especial em relação à Witloof, que apostou forte em 2003 e merece ser recompensada. A editora de Fanny Denayer é, actualmente, a que possui o melhor catálogo de BD franco-belga, em termos qualitativos. Este ano editou Tardi, Schuiten e Peeters, Cosey, Smudja, Yslaire, Sfar e Guibert. Não faço ideia se a aposta na qualidade compensou, mas gostava de acreditar que sim.

Deixei para o fim, entre as principais editoras de BD, a Polvo e a Booktree, porque são das raras que não publicaram mais livros do que em 2002. A primeira diminuiu o número de títulos lançados pelo terceiro ano consecutivo mas, ainda assim, continuou a apostar nos álbuns a cores, e lançou os fundamentais Persépolis, de Marjane Satrapi, e A Vida numa Colher, de Miguel Rocha. A segunda pode bem vir a ser a primeira grande baixa na corrida desenfreada pelo domínio do mercado de banda desenhada nacional. Não só editou metade dos livros de 2002, ano em que competiu directamente com a Asa, como praticamente desapareceu das lojas na segunda metade do ano, altura em que o ritmo de edição costuma ser mais intenso.

Uma referência também ao mundo das tiras, que continua activo e diversificado, com várias editoras sem tradição na área da BD a lançarem-se nesse campo, embora não com o entusiasmo demonstrado pela Gradiva há um par de anos.

À margem das editoras propriamente ditas, 2003 ficou sem dúvida marcado pela aposta na BD de dois jornais de grande tiragem. O Público está a editar a obra completa de Tintim e o Correio da Manhã tem vindo a distribuir aos domingos uma miscelânea de títulos que abarcam múltiplos autores e múltiplos estilos. Ambos os projectos parecem estar a ser bem sucedidos, o que

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demonstra que a BD continua a ser uma arte capaz de apelar a uma larga fatia de público.

Em jeito de conclusão, devo afirmar que o próximo ano vai com certeza ser de recessão. Donde, é aproveitar o tempo de vacas gordas, porque não se voltará

a editar tanto e com tanta qualidade tão depressa.

Autores

Paulo Patrício

Durante uma entrevista, e respondendo a uma pergunta de rotina, James Joyce disse que para se ser escritor é preciso aguentar com tudo. Mesmo a fechar este ano passei a acreditar nisso, quando um crítico me disse que só existiam dois, vá lá, no máximo, três autores de banda desenhada em Portugal. Sem tirar os olhos do café que estava a chegar à mesa, ele explicou-me que só

o x, y e z são autores, porque recebem à página e se esforçam para lançar

livros em festivais. Azar nítido, percebi logo ali que eu não era autor, nem eu, nem quem publica em fanzines [duvidosos, sublinhou] ou revistas

especializadas [com boa aparência, chamou à atenção, mas de pouca visibilidade]. Sem saber muito bem o que dizer, perguntei-lhe quantos críticos de banda desenhada existiam em Portugal, e ele, sem se engasgar com o café, respondeu-me que há o a, o b, o c, o d, o e e o f. Sem dar muita importância ao facto dos autores terem ficado com as últimas letras do alfabeto e os críticos com as primeiras, comentei que dos críticos a, b, c e d só o a e o b escreviam críticas com regularidade e eram pagos para isso. Mais, que o c, o d e o f eram considerados críticos, apesar de terem mais capacidades para a escrita criativa do que para outra coisa qualquer. Mais ainda, onde é que se podia encaixar no meio disto tudo o e, aquele que se limita a fazer recensões. Não conseguia perceber isso, nem como é que existiam tantos autores-que-afinal-não-eram- nada-autores, mas que o a, o b e d, só para citar alguns, eram críticos-sim- senhor-e-sem-sombra-para-dúvidas. Ou seja, como é que se podem eliminar

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autores e poupar críticos, assim, sem mais nem menos. Quem tem de provar alguma coisa são os autores, foi a estranha, curta e grossa resposta que eu ouvi do crítico, isto como se os autores não pudessem exigir nada dos críticos, nem sequer um português bem escrito. Sem se dar ao trabalho de me dar mais explicações, levantou-se, pediu-me dinheiro para o café e foi-se embora sem se despedir. Angustiado de morte, limitei-me a pensar que Joyce tinha razão.

Festivais

João Miguel Lameiras

Num ano em que o Salão do Porto faltou à chamada e o Salão Lisboa confirmou as evidentes dificuldades em atrair o grande público, a maior novidade foi o BD Fórum, um certame marcadamente comercial, de duração mais limitada, à imagem das “Comics Conventions” americanas.

Ao contrário do que acontece na maioria dos países, onde os Festivais de BD costumam ter uma duração média de 3 a 4 dias (apanhando um fim de semana), em Portugal a regra dominante consistia nos 15 dias a 3 semanas, com a animação concentrada no fins de semana, deixando os dias da semana por conta das excursões das escolas. Por isso, a opção por iniciativas de menor duração (limitadas a 3 dias, como é norma por todo o lado, de Angoulême a San Diego) e mais viradas para a parte comercial, foi a principal novidade de 2003.

E, ao contrário do que é habitual, a época forte dos Festivais este ano transferiu-se de Outubro para Maio, pois foi nesse período que decorreram o BD Fórum (de 1 a 4 de Maio, no Fórum Picoas, o Salão de Banda Desenhada da Exponor (de 15 a 18 de Maio, em Matosinhos) e o Salão Lisboa, que ocupou o Pavilhão de Portugal no Parque das Nações, durante mais de um mês, entre 15 de Maio e 22 de Junho.

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Contando com a presença de Neil Gaiman como grande foco de atracção, O BD Fórum foi suficientemente bem sucedido para que a Devir, Vitamina BD e Sodilivros tenham decidido continuar com a aposta em 2004. Do mesmo modo, também a Publimeeting e as Edições Asa vão apostar numa 2ª edição do Salão da Exponor, iniciativa que apostou numa fórmula intermédia (3 dias de duração, mas com exposições) que poderá tentar ocupar o espaço deixado vago pelo Salão Internacional de BD do Porto, como a presença de Pedro Cleto (da ASIBDP) na organização da edição de 2004 parece querer indiciar.

Quanto ao Salão Lisboa, a qualidade das exposições, com destaque para os magníficos originais de Diniz Connefrey e Miguel Rocha, não teve o devido reconhecimento por parte do público, talvez afastado pela escolha da Alemanha (um país praticamente desconhecido do grande público em termos de BD) como país convidado, tanto mais que Ralf Konig, o autor alemão de maior projecção internacional, acabou por não vir a Lisboa.

Em relação ao Festival da Amadora, esta 14ª edição foi marcada pela ausência de uma série de autores anunciados, não compensadas pelas presenças surpresa dos argentinos Carlos Trillo e Eduardo Risso. Em termos de exposições, uma evidente melhor gestão cenográfica do espaço ingrato da Escola Intercultural, não escondeu a falta de critério da exposição principal, dedicada às “Mulheres na BD”. De qualquer modo, nem o público nem os editores faltaram ao encontro e, para o ano, com o Festival a atingir a sua 15ª edição, é natural que o Festival aposte mais forte em termos de autores e exposições.

Mas, para 2004, a grande dúvida será ver como evoluem o BD Fórum e o Salão de BD daExponor e até que ponto essa evolução irá ou não influenciar os Festivais da “velha guarda”.

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Fanzines

Marcos Farrajota

Foi o ano de ruptura total das características verificadas noutros anos: os fanzines com periodicidade perderam-na (excepto o novo Espiral), relações com a Multimédia não foram mais exploradas e não houve quase nenhuma

internacionalização (com a excepção da grande participação no zine suíço Milk

&

Wodka #IIII).

O

cenário de pobreza e falta de energia só se explica com a ausência de uma

nova geração de autores que a bd (no geral) nos últimos 3 anos não tem conseguido parir. Se olharmos para os autores de zines que foram envolvidos

em projectos profissionais só temos o José da Fonseca a ser publicado no Lx Comics #14, e mesmo assim, é da geração d’A vaca que veio do espaço, um colectivo dos anos 80!

Haverá só uma crise geracional? Também, e uma económica que deve explicar

a ausência de mais zines. Mesmo para um tipo de produção barata como a dos

zines exige algum tempo e dedicação. Nestes tempos stressados que vivemos

percebe-se que há pouco “tempo-é-dinheiro” para os zines.

Ainda assim continuaram: Durty Kat (da Ana Ribeiro), Terminal (com 4 números de uma só vez), Saboniz (dedicado a ilustração e design por Nuno Valério), o velho Shock (com o Tornado do Estrompa a comemorar 10 anos), Carneiro Mal Morto, Porca Frita e Notibó (ambos das Caldas da Rainha), o eterno extravagante Succedâneo (de João Bragança), Zundap (zine de cultura Pop e com morte anunciada para 2004), Sub (de Pitchu!) e O Papel do Monstro

(de estudantes da FBAUL). E dos que continuaram o que teve mais impacto foi

o Ups! (da Guarda) que foi acompanhado por uma exposição e que recrutou ainda os talentos de Rafael Gouveia, Filipe Abranches e André Lemos.

Novos títulos: O/velha Negra (da Madeira), Espiral (de Noé Touraldo), A Carne (de Ana Ribeiro e Miguel Tavares) e Jungle Juice (de Rute Santiago e Pitchu!).

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Não houve o Na verdade tenho 60 anos mas Joana Figueiredo editou os novos mini-zines Menina Jesusa e Chicken Bloody Rice, ambos de ilustração e o último com restos (falsos) de arroz de cabidela que ainda assim fez um cromo da bd vomitar!

Feiras pelo país inteiro: Caldas da Rainha, S.Romão, Cacilhas (devia ser o ano da Feira de Fanzines de Almada mas tal não aconteceu infelizmente), Cascais, Lisboa (Salão Lisboa, Estufa Fria, ZDB Tercenas), a maior parte delas organizadas pelo colectivo Crime Creme ou pela Associação Chili Com Carne. Houve uma exposição de fanzines em Viseu intitulada Cidade Desconhecida e ainda participação de alguns títulos em eventos como o Mercado Negro (Porto) e Mundo Mix (Lisboa). A maior feira dedicada às edições alternativas foi Fantasias de Natal (no Cais do Sodré), organizada por um grupo entre os quais incluía o zine Succedâneo e Associação Chili Com Carne.

Foi também um ano parado em edições independentes. Começou bem, logo em Janeiro com “A última grande sala de cinema” de David Soares mas ficou por aí! Ainda houve dois novos números do prozine Satélite internacional do colectivo Alíngua e o novo prozine CanibalCriCa Ilustrada (Mesinha de Cabeceira disfarçado!) da Associação Chili Com Carne.

Frente a esta miséria medieval, o que dá para concluir é que os projectos que mais se destacaram em 2003 foram os que resultaram de esforços conjuntos – de colectivos. Num ano em que no Salão Lisboa esteve presente o associação eslovena Stripcore – que levou a desconhecida bd eslovena à internacionalização, num país com menos condições do que o nosso! – não se pode dizer não há bons exemplos para conhecer e copiar. Não é à toa que destaco “Puro Capricho”, uma estranha brochura do colectivo In Útil que saiu durante uma exposição de artes plásticas na Galeria Parthenon. Trata-se de uma fotonovela realizada e produzida pelo colectivo e paginada por Miguel Rocha. A atmosfera da fotonovela lembra ingenuamente as bd’s de M.A. Martin pelo “gore” cirúrgico e é o caso mais feliz em volta da bd e edição independente para 2003. O irónico disto é que este trabalho cheio de frescura resulta de esforços conjuntos de pessoas à margem da bd e da edição - se

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exceptuarmos o Miguel Rocha que era um convidado do colectivo. A união faz

a força? Sem dúvida

Investigação

Adalberto Barreto

Pediram-me, na qualidade de documentalista, para efectuar um balanço sobre

a investigação em banda desenhada realizada no ano de 2003. Confesso que

a primeira dúvida que me assaltou foi saber o que se entende por investigação.

Dúvida essa que tem uma razão de ser e que consiste em determinar com precisão o que deve ser incluído e o que não deve ser incluído neste texto (o que não é fácil!). Assim, se não delimitar com rigor o conceito ou se o interpretar de uma forma ampla (investigação latu sensu é uma «averiguação sobre qualquer coisa» ) corro o risco de ter de escrever sobre tudo o que se escreveu.

Na verdade tinha uma vaga ideia de que o conceito tem sentidos diferentes consoante a disciplina e que dentro das diferentes disciplinas também pode ter sentidos e alcances distintos consoante as escolas ou doutrinas. De qualquer modo, sabendo de antemão que não iria entrar em campos ocultos como a investigação da paternidade, criminal, paranormal, militar, matemática ou darwiniana, quedo-me, assim, pela tradicional investigação em Ciências Sociais e dentro desta, não vou entrar em campos como a economia ou o direito, pelo que me fico na INVESTIGAÇÃO HISTÓRICA (com recurso à tradicional pesquisa documental em fontes publicadas há mais de 25 anos) e pela INVESTIGAÇÃO SOCIOLÓGICA (com recurso aos métodos estatísticos, às entrevistas e aos inquéritos).

Também é tradicional escrever-se nestas linhas sobre a investigação universitária ou formativa. No que diz respeito a trabalhos académicos não temos notícia da entrada de qualquer tese de mestrado ou doutoramento quer nos centros de documentação especializados (Biblioteca da Bedeteca e

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Biblioteca do CNBDI), quer nas bibliotecas das principais universidades portuguesas. Sobre acções de formação finalizadas ou ocorridas no ano em que se processa o balanço temos pelo menos conhecimento de duas acções de vulto promovidas pelo IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas) em parceria com a Bedeteca (História da BD : contributos para a selecção documental nas bibliotecas e A História e a Literatura na banda desenhada). De qualquer modo a documentação referente a estas acções ainda não foi disponibilizada.

Para finalizar esta espécie de introdução resta-me referir que só irei escrever sobre os trabalhos de investigação que chegaram ao público em suporte de papel ou digital. Ou seja só me vou referir àqueles trabalhos que foram publicados em livros, revistas ou na Internet. Isto para deixar bem claro que todos os eventos ou exposições que tiveram lugar no ano de 2003 e que obrigaram os responsáveis ou comissários a um inquestionável trabalho de investigação mas que não estão documentados de uma forma acessível não serão aqui referenciados.

Outras áreas afins como o Cartoon e o Cinema de Animação em que houve um notável trabalho de investigação (face ao panorama actual) desenvolvido pela Câmara Municipal da Amadora e pelo CNBDI, também não serão aqui abordadas.

A

todos aqueles que virem omitidos neste texto os seus trabalhos, peço desde

desculpas antecipadas.

Vamos então ao trabalho:

A PESQUISA HISTÓRICA

AMADORA 2003 : INVESTIGAÇÃO NO FEMININO O primeiro artigo onde podemos encontrar alguma investigação e informação histórica no Catálogo do Festival é, sem dúvida, “O crepúsculo dos machos” de Vítor Quelhas (pags. 34 – 37) que desenvolve um texto muito interessante do

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ponto de vista sociológico sobre a evolução do papel da mulher enquanto personagem na história da banda desenhada (fazendo as devidas distinções na BD nos dois lados do atlântico) confrontando com a própria evolução social (designadamente nos anos 30, durante a 2ª guerra mundial, no pós guerra, anos 60 até à actualidade) por um lado, e com a natureza eminentemente masculina da produção da banda desenhada.

Também Nuno Franco, habitual colaborador do jornal “Público”, escreveu para

o referido catálogo um texto (“O lugar da mulher na BD é um direito adquirido”, págs. 42-43) que teve por base uma inegável investigação documental (vide bibliografia) em que o autor faz um périplo pelo papel da personagem feminina na história da BD (sobretudo europeia). Digna de registo é a opinião do Nuno Franco, segundo o qual “a revolução sexual [anos 60] não conseguiu libertar a

mulher” no universo da BD, bastando para tal verificar que desde a eclosão de Barbarella (1962) até aos nossos dias com publicações como a Kiss Comics ou

o trabalho de Milo Manara, continuamos a ver maioritariamente a mulher na BD retractada como mero objecto de desejo.

Análise idêntica, mas mais orientada para a história da BD norte americana, é o artigo de Domingos Isabelinho que numa análise resumida nos consegue transmitir muita informação sobre a imagem da mulher na BD norte americana desde o início do século até aos nossos dias, conciliando essa análise com o trabalho das autoras norte-americanas oriundas da escola underground (em primeiro lugar) e do meio alternativo e independente (depois), no sentido de condenar o sexismo e a misogenia como tema central da BD feita por homens (incluindo o trabalho dos autores underground – vide as mulheres de Crumb).

Trabalho notável (impressionante pela exaustão) é o artigo de Leonardo de Sá sobre “A presença da mulher na BD portuguesa” (págs. 52 – 65) em que o autor faz um percurso muito completo sobre as autoras portuguesas e a bibliografia feminina desde o início do século até à actualidade. Contudo, as características puramente descritivas, bibliográficas e biográficas do texto (não existe qualquer análise de conteúdo, nem sequer é abordada a imagem da mulher na BD portuguesa ao longo dos diferentes enquadramentos políticos e

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sociais da nossa história contemporânea) tornam a leitura destas 14 páginas bastante aborrecida. Sugerimos então a organização de um texto deste tipo em forma de dicionário ou guia cronológico.

Na mesma linha de Domingos Isabelinho surge-nos o belíssimo artigo de Paul Candler (pág.s 76 e 77 do Catálogo), comissário da exposição “Mulheres na BD norte americana”, que realça o papel do movimento underground no sentido de dar voz às mulheres na BD dos Estados Unidos e o desempenho pioneiro de Trina Robbins que denunciou o sexismo e a misogenia reinantes.

Dentro do espírito da pesquisa histórica temos ainda o texto de Pedro Mota (“Meninas traquinas na BD sul americana”, págs. 84-85) dedicado à turma da Mônica e ao universo da Mafalda. Para além de encontrarmos neste artigo alguma informação útil sobre o nascimento das séries (ambas em 1963), é de registar a opinião do autor de que as personagens marcam também uma nova postura feminista na BD sul-americana. A Mônica é forte, líder, decidida e não deixa de ter uma sensibilidade feminina. A Mafalda é idealista, contestatária e só não é independente por ser ainda criança.

Vindo do Brasil e de uma mulher podemos encontrar também no catálogo da Amadora um artigo interessante da autoria de Sonia Luyten sobre a imagem da mulher ao longo da história da BD brasileira e sobre as mulheres que fizeram a história da BD brasileira (págs. 92 – 93)

Ainda no âmbito do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora decorreu na Casa Museu Roque Gameiro uma exposição de homenagem a Maria Antónia Roque Gameiro e Maria Alice Andrade Santos duas autoras de banda desenhada cujos trabalhos foram publicados em revistas infantis femininas como a Lusitas e a Fagulha (publicações dos anos 40/50 ligadas aos ideais do Estado Novo). De qualquer modo, para além dum pequeno texto dedicado a esta exposição no catálogo do festival (p. 96) todo o trabalho de investigação realizado pelo comissário (Leonardo de Sá) ficou por documentar,

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ou apenas por publicar, embora muito houvesse a dizer sobre a imagem da mulher na BD portuguesa em pleno estado novo.

José Garcês, outro nome de destaque na História da banda desenhada portuguesa (que iniciou a sua actividade em 1946 n’ “O Mosquito”) teve também um lugar de honra no Festival da Amadora. Contudo, a sua exposição versava sobre seus trabalhos mais recentes, utilizando a BD como instrumento de acção pedagógica e de divulgação da História local e municipal, pelo que não deve ser incluída neste lote.

BEDETECA 2003 O grande laboratório de investigação em Portugal (o seu catálogo conta com mais de 20 monografias referentes a grandes nomes e momentos da história da BD portuguesa e internacional), viu reduzida significativamente desde 2002 a sua actividade nesta área, a ponto de podermos referir que no ano de 2003 muito pouco se produziu no âmbito da investigação histórica.

Em primeiro lugar todo o extenso trabalho de investigação realizado pelo comissários João Paulo Cotrim e Paulo Patrício relativos a exposição “Coisas do outro mundo : as bandas desenhadas de Júlio Resende” (que decorreu na Bedeteca entre 23 de Janeiro e 13 de Abril e que já tinha estado patente em 2001 no saudoso Salão do Porto) ficou por publicar.

Por outro lado, o Salão Lisboa, que teve como país convidado a Alemanha e como tema “As fronteiras” acolheu sobretudo exposições de autores contemporâneos. As duas exposições (também integradas no Salão) que decorreram nas instalações da Bedeteca “A navalha de pitanga” e “Check in” são exposições de âmbito contemporâneo (embora a Pitanga tenha sido publicado pela primeira vez em 1985 com La chavalita), pelo que não vale a pena aqui desenvolver.

De qualquer modo temos pelo menos o catálogo do Salão com:

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Um bom artigo (pequeno mas com muita informação) da autoria de Pedro Cleto sobre a guerra na banda desenhada (“Conflitos em banda desenhada: breve abordagem”, págs. 9 – 15) e sobre a forma de como o tema foi visto e retractado ao longo do tempo. É um texto a ter em atenção que surpreende o leitor por incluir muito mais do que se esperava uma vez que não se limitou à guerra tradicional (ou convencional registada no século XX), indo buscar também exemplos de conflitos ligados ao western, à ficção científica à BD histórica, à BD reportagem e biográfica.

Também Igor Prassel no seu artigo sobre a banda desenhada eslovena, dedica as primeiras páginas à história da banda desenhada no seu país (págs. 121 – 135), pelo que nos merece também uma especial atenção, sobretudo ao saber que as primeiras BDs nascidas na imprensa eslovena no início do século (então sob o domínio do império austro-húngaro) se chamavam “anedotas em movimento”.

Mais de dissertação do que investigação histórica temos um texto muito interessante e com algum humor não intencional (eu , pelo menos, diverti-me quando soube que Hitler e Goebbels gostavam de ver desenhos animados) de Christian Gasser, que procura explicar através de um enquadramento histórico as razões pelas quais não existe uma cultura alemã de banda desenhada, como existe em França, na Bélgica, na Espanha ou na Itália.

NA INICIATIVA PRIVADA Fora do contexto institucional público da Bedeteca e da Câmara da Amadora temos de ter em atenção pelo menos uma iniciativa editorial em 2003 no âmbito da investigação histórica. Trata-se de “As aventuras de Hergé” de Fromental, Boucquet e Stanislas publicadas pela Mais BD, em que Hergé (autor e criador de Tintin) se torna uma personagem de banda desenhada. A inclusão desta obra deve-se ao facto de a narrativa ter sido apoiada e fundamentada numa investigação documental rigorosa. Trata-se de investigação histórica (com humor e fantasia) divulgada em banda desenhada.

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Também sobre o universo de Tintin (ou Tintim?) e sobre o seu criador – entrando um pouco no domínio da investigação que se segue (entrevistas, inquéritos e dados estatísticos) - foram publicadas no jornal Público ao longo do ano de 2003 (continuando em 2004) 17 entrevistas de Numa Sadoul a Hergé sobre as diferentes histórias do Tintim que iam sendo publicadas juntamente com o jornal. De notar que todas as entrevistas se encontram disponíveis quer no site do Público, quer no site da Bedeteca.

Outra colecção a sair semanalmente nos quiosques e que merece uma atenção especial é a “Clássicos da Banda Desenhada” (que sai aos domingos no “Correio da Manhã”). Desta colecção saíram 14 volumes em 2003 cuja

grande maioria dos textos introdutórios se inserem inquestionavelmente no domínio da investigação histórica. Na impossibilidade de escrever sobre todos os textos, sublinhamos apenas aqueles que foram produzidos na totalidade por especialistas nacionais, nomeadamente no n.º 11 da série referente a “Conan”

e no n.º 13 “A arte de Prado” de Paulo Moreira e João Miguel Lameiras respectivamente.

O meio alternativo (à cultura dominante imposta pelos mass media / ou contra

cultura) é também muito produtivo em termos de investigação. Neste universo destacamos um excelente trabalho de Domingos Isabelinho publicado na revista Satélite Internacional, n.º 2 (“Sa-lo-mon de Chago Armada e o pouco que dele se sabe” págs. 28 – 32), segundo o qual o estigma infantilizante da banda desenhada enquanto meio ou forma de expressão artística impede que os trabalhos em BD de autores ou artistas plásticos ligados às artes reconhecidas pelo status quo cultural (designadamente a pintura e a literatura) sejam lembrados e divulgados (sabia que Picasso e Martin Vaughan James são também autores de banda desenhada?). De qualquer das maneiras a investigação de Domingos Isabelinho é sobre o caricaturista e poeta cubano “Chago Armada” e sobre seu desconhecido trabalho de BD à volta da personagem Salomón, que o autor do artigo compara por diversas vezes ao “Zé Povinho” de Raphael Bordallo Pinheiro.

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ENTREVISTAS, INQUÉRITOS, DADOS ESTATÍSTICOS

Será certamente impossível escrever aqui sobre todas as entrevistas, inquéritos ou dados estatísticos a gente ligada à BD (autores, divulgadores,

no nosso país, de qualquer modo ficam

aqui alguns registos:

editores

),

aos leitores, às edições

Apesar de não ter sido editado em 2003 qualquer título da colecção de entrevistas a autores pelo CNBDI, não podemos deixar passar em claro a entrevista conduzida por Pedro Mota a José Carlos Fernandes no catálogo BD Amadora 2003 (págs. 10 – 19). A entrevista não traz à luz do dia muito mais informação biográfica ou bibliográfica sobre o autor, do que aquela que já se conhece. Fala-se um pouco sobre as influências da música no seu trabalho, nos seus gostos musicais e hábitos de audição, mas nada de novo. Destaco

contudo o momento em José Carlos Fernandes conta o episódio que levou a que o seu trabalho fosse editado pela Devir. Se tal não acontecesse teria sofrido mais um ano de frustração editorial e provavelmente nada seria editado em Portugal, muito menos no estrangeiro. Hoje, quando sabemos que JCF é

apenas o autor português mais vendido em Portugal e no estrangeiro

Em

Espanha a “Pior banda do mundo” foi considerado o 3º melhor álbum estrangeiro do ano (a concorrer com franco-belgas e americanos). É obra! (pelos vistos também) do acaso

Também o catálogo do Salão Lisboa 2003 contêm uma extensa entrevista de João Paulo Cotrim a Arlindo Fagundes (págs. 299 – 309), centrada muito em torno do personagem Pitanga, não deixa, contudo, de incluir informação biográfica de inegável interesse, designadamente quando Arlindo Fagundes nos conta como lhe surgiu a ideia de fazer bandas desenhadas.

Ainda no âmbito da investigação no seio da iniciativa privada, não podemos deixar de referir duas obras, publicadas pela ASA:

A primeira é a obra dedicada a “Vasco Granja: uma vida: 1000 imagens” uma justa homenagem a uma das figuras que mais promoveu a banda desenhada (foi ele que importou para Portugal a expressão “banda desenhada”). Do ponto

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de vista da investigação temos de destacar na obra a curta biografia do homenageado da autoria de Leonardo de Sá (págs. 7 - 8) e em especial a entrevista a Vasco Granja conduzida por João Paiva Boléo (págs. 11 - 30). Em relação à entrevista fica um sentimento de pena que a memória do homenageado já esteja a fraquejar.

No âmbito da exposição “Coimbra na Banda Desenhada” (inserida na “Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003”), exposição que teve por finalidade documentar o mais exaustivamente possível todas as passagens de Coimbra pela banda desenhada (nacional e europeia) surge o catálogo com o mesmo título “Coimbra na banda desenhada” onde se destaca a entrevista a Étienne Schréder autor de “O segredo de Coimbra”.

No CIRCUITO INDEPENDENTE Importa lembrar o trabalho realizado pelo Colectivo A Língua em especial a sua publicação (a)periódica “Satélite Internacional” que contém quase sempre textos com uma forte componente de investigação. Na impossibilidade de escrever individualmente sobre cada um dos trabalhos com estas características inseridos no número 3 (Maio de 2003) destaco as entrevistas rotativas de Ana Cortesão a Alice Geirinhas, desta a Isabel Carvalho e da Isabel Carvalho à Ana Cortesão em que num tom de conversa marcadamente informal e feminina (quase íntima) se obtém valiosa informação biográfica e bibliográfica sobre as autoras (Dossier chiclete).

NA INTERNET Ainda sobre a investigação não podia deixar passar em claro o fantástico trabalho de Daniel Maia sobre as edições de banda desenhada em Portugal referentes ao ano de 2003, ano em que se bateram todos os recordes de edição em Portugal. O levantamento encontra-se disponível no site Central Comics (“Corrida editorial”) e contabiliza todos os títulos publicados em 2003. De acordo com este levantamento em 2003 editaram-se 450 novos títulos, entre álbuns e revistas.

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EM CONCLUSÃO

Podemos referir que em matéria de investigação o número de edições foi inversamente proporcional ao boom editorial que se verificou. Se analisarmos a bibliografia infra encontramos apenas 4 monografias que se integram no âmbito da investigação (sendo que uma delas “As aventuras de Hergé” não pode ser considerado um trabalho de investigação “tout court”). É manifestamente pouco face a anos anteriores. As restantes entradas bibliográficas dizem todas respeito a artigos publicados em monografias. Sobre o facto não vale a pena especularmos muito. É por todos sabido que as entidades públicas estão claramente a desinvestir nesta área, sendo que o grosso das publicações de investigação em BD tiveram entre 1996 e 2001 origem na Bedeteca (durante o mandato de João Soares). Por outro lado dado o preço elevado deste tipo de publicações (aliado ao custo das exposições e aos honorários dos comissários)

e dada a escassa procura é natural que as entidades privadas não manifestem grande interesse neste tipo de investimento. Esperamos pacientemente por melhores dias.

BIBLIOGRAFIA DA INVESTIGAÇÃO 2003

ARTIGOS E ENTREVISTAS:

CANDLER, Paul – Mulheres na BD norte americana // In: BD Amadora 2003 :

XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. – Amadora :

Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 76 – 77.

CLETO, Pedro – Conflitos em banda desenhada : breve abordagem // In: Salão

Lisboa 2003. – Lisboa : Câmara Municipal de Lisboa ; Bedeteca, 2003. – pp. 9

– 15.

FAGUNDES, Arlindo ; COTRIM, João Paulo – Quero afirmar o Pitanga como um herói de banda desenhada, mais nada // In: Salão Lisboa 2003. – Lisboa :

Câmara Municipal de Lisboa ; Bedeteca, 2003. – pp. 299 – 309.

FERNANDES, José Carlos ; MOTA, Pedro – José Carlos Fernandes : estou numa situação inédita e privilegiada. - // In: BD Amadora 2003 : XIV Festival

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Internacional de Banda Desenhada da Amadora. – Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 10 – 19.

FRANCO, Nuno – O lugar da mulher na BD é um direito adquirido // In: BD Amadora 2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. – Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 42 - 43.

GASSER, Christian – Qual a razão da não existência de uma cultura alemã de bandas desenhadas : 9 (hipó)teses // In: Salão Lisboa 2003. – Lisboa : Câmara Municipal de Lisboa ; Bedeteca, 2003. – pp. 167 – 171.

GEIRINHAS, Alice ; CARVALHO, Isabel ; CORTESÃO, Ana – Dossier chiclete // In: Satélite internacional. – N.º 02, Maio de 2003. – Porto: Colectivo A Língua,

2003.

GRANJA, Vasco ; BOLÉO, João Paiva Granja // In: Vasco Granja : uma vida 11 - 30.

[et al.] - Conversando com Vasco mil imagens. - Porto : Asa, 2003. - pp.

ISABELINHO, Domingos – Imagens da mulher na banda desenhada norte americana // In: BD Amadora 2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. – Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 48 - 51.

ISABELINHO, Domingos – Sa-lo-mon de Chago Armada e o pouco que dele se sabe // In: Satélite internacional. – N.º 02, Dezembro de 2002. – Porto:

Colectivo A Língua, 2003. pp. 28 – 32.

LAMEIRAS, João Miguel – [Textos introdutórios] // In: A arte de Prado. – (Clássicos da banda desenhada ; 14). pp. 5 – 12.

LUYTEN, Sónia – As histórias em quadrinhos no Brasil : a mulher imagem e a mulher produtora // In: BD Amadora 2003 : XIV Festival Internacional de Banda

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Desenhada da Amadora. – Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 92 – 93.

MOTA, Pedro – Meninas traquinas da BD sul americana // In: BD Amadora

2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. –

Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 84 - 85.

MOREIRA, Paulo – [Textos introdutórios] // In: Conan. – (Clássicos da banda desenhada ; 11). pp. 5 – 12.

PRASSEL, Igor – Banda desenhada eslovena // In: Salão Lisboa 2003. – Lisboa : Câmara Municipal de Lisboa ; Bedeteca, 2003. – pp. 121 – 135.

QUELHAS, Vítor – O crepúsculo dos machos // In: BD Amadora 2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. – Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 34 – 37.

SÁ, Leonardo - O mundo maravilhoso de Vasco Granja // In: Vasco Granja :

uma vida

mil imagens. - Porto : Asa, 2003. - pp. 7 -8.

SÁ, Leonardo – A presença da mulher na BD portuguesa // In: BD Amadora

2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. –

Amadora : Câmara Municipal da Amadora ; CNBDI, 2003. pp. 52 – 65.

SCHRÉDER, Éttienne – O estranho percurso de O segredo de Coimbra // In:

Coimbra na banda desenhada. – Porto : Asa, 2003. – pp 58 – 77.

MONOGRAFIAS AMADORA. Câmara Municipal. Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora – BD Amadora 2003 : XIV Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora : Câmara Municipal da Amadora, 2003. – 177 p.

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FROMENTAL, BOUCQUET ; STANISLAS – As aventuras de Hergé. – Porto :

Mais BD, 2003.

BOLÉO, João Paulo Paiva ; LAMEIRAS, João Miguel ; SANTOS, João Ramalho – Coimbra na banda desenhada. – Porto : Asa, 2003. – 80 p.

MAGALHÃES, Jorge, coord. ; PEREIRA, Maria José, coord. - Vasco Granja :

uma vida

1000 imagens. – Porto : Asa, 2003. 144 p.

INTERNET MAIA, Daniel – Corrida editorial 2003 // In: www.centralcomics.com

Movimentos

Geraldes Lino

Tarefa recorrente desde 1999, eis o levantamento relativo ao ano de 2003 abarcando diverso tipo de eventos e iniciativas que, no seu conjunto, contribuem para manter visível a banda desenhada.

Concursos Continuam a efectuar-se os que se englobam em eventos especializados, designadamente Festival Internacional de BD da Amadora e Salão BD de Moura. Caso invulgar é o da Livraria Dr. Kartoon, de Coimbra, ao manter a sua participação anual neste género de iniciativas, com a mais valia da edição em álbum das bedês premiadas. Uma entidade até agora desconhecida nesta área, a Oh sXXI (descodificando: Oliveira do Hospital, século XXI), lançou o I Concurso de BD OH sXXI, com tema inaudito: "Um super-herói na Serra da Estrela". O regulamento previa a exposição das pranchas dos concorrentes entre 3 e 31 Dezembro, integrando o Agirarte 06 – Festival de Artes Plásticas de Oliveira do Hospital. A componente BD ficou sem efeito: as obras

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participantes foram escassas e sem qualidade que justificasse as intenções dos organizadores. Razões? Talvez a dificuldade do tema.

Cursos Vão-se fazendo, curtos uns, mais extensos outros: os cursos anuais de Ilustração e Banda Desenhada da Ar.Co. e de Banda Desenhada do CITEN/Gulbenkian. As mesmas áreas foram ministradas no workshop de verão da Ar.Co. e Bedeteca de Lisboa.

Exposições Começando pelo sul: no Algarve, em excelente enquadramento proporcionado pelo Centro Cultural de Lagos, esteve visível a exposição "Bulhão Pato", em que foi possível visionar as pranchas da bd "Entreângulos", de Francisco Vidal. Isso entre 12 de Julho e 9 de Agosto. Em Faro, na Loja de Design Aqui Há Mão e em Almodôvar, na Galeria Municipal, esteve representado José Carlos Fernandes com "A pior Banda do Mundo". Parando em Lisboa: "Coisas de outro mundo: as bandas desenhadas de Júlio Resende" na Bedeteca entre 23 de Janeiro e 13 de Abril. Os Fazedores de Letras, com a cumplicidade da Biblioteca Museu da República e Resistência, expuseram um conjunto de pranchas de vários autores englobados no tema "Literatura Gráfica em Fazedores de Letras". Isto em Março, de 21 a 31. No Museu de S. Roque homenageou-se Rodrigues Alves, um excepcional ilustrador, que foi mestre na Escola António Arroio e teve como discípulos vários bandadesenhistas hoje consagrados. A exposição compunha-se de peças do seu espólio legadas à Misericórdia de Lisboa, onde se englobavam pranchas de alguns dos seus amigos e, ou, discípulos, com destaque para E.T.Coelho, Ricardo Neto, José Garcês, José Ruy, pranchas essas que estiveram expostas naquele local entre Julho e Outubro. "Fracturas a preto e branco" resultaram dos trabalhos de bd dos alunos do curso 2001-2003 do CITEN, na Escola Restart (Parque das Nações) em Julho. Pelo meio, um título de jornal chamava a atenção: "Mil obras de BD expostas no Amoreiras Shopping". Para um público anónimo e apressado, resto de Agosto e princípios de Setembro foi o tempo de dar uma olhadela para álbuns e revistas de várias épocas, resguardados em vitrinas.

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Subindo uns quilómetros e entrando em Tomar, no Hotel dos Templários, ver- se-ia em Outubro uma amostragem de pranchas com imagens sequenciais sob

o título "1160 Sangue Oculto – A herança de Gualdim", sendo autor Sérgio V.

Continuando agora um pouco para noroeste, com destino a Leiria, e depois de localizar o edifício do Banco de Portugal, encontrar-se-ia de novo José Carlos Fernandes e as suas "Intuições". Mais acima, geograficamente falando, esteve "Coimbra na Banda Desenhada", que beneficiava do fascinante cenário proporcionado pelo Museu de Física da Universidade de Coimbra. Na mesma cidade, no mesmo Setembro, mas num modesto restaurante (posso dizer o nome? "Cantinho dos Reis") estavam várias pranchas que contavam uma história também localizada em Coimbra, feitas por um jovem e desconhecido autor coimbrão, Bruno Simões. O título da história: "Era uma vez e a tradição" (assim mesmo: e a tradição). Continuando para norte, até ao Porto, e após localizar a Biblioteca Municipal Almeida Garrett, em pleno jardim do Palácio de Cristal, dava para apreciar as pranchas originais da mais recente bd de Arlindo Fagundes, "A Rapariga do Poço da Morte", entre 20 de Setembro a 18 de Outubro. Mantendo-nos a subir até Braga, evento semelhante (a mesma bd, o mesmo autor) tinha tido lugar em Julho, na Livraria "A Centésima Página".

Internet

Novos "sites":

http://cidadedesconhecida.com.sapo.pt www.publico.pt/tintim

www.terravista.pt/ancora/7226

www.leonardodesa.interdinamica.com

www.tomvitoin.com

E como os "weblogs" são boa onda, na blogosfera também já estão visionáveis

blogs de bd e temas afins: http://becodasimagens.blogspot.com, onde se fala

de várias coisas incluindo bd, o mesmo acontecendo em http://kuentro.weblog.com.pt e no www.urthona.net.

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Livrarias especializadas Mantêm-se as registadas em anos anteriores, localizadas em Lisboa, Coimbra e Porto.

Rádio Pouca coisa: na Rádio Voxx (91.6, é ouvir depressa, porque está em vias de extinção) às 5ªs feiras, das 21h00 às 22h00, tem-se falado circunstancialmente de BD, através de entrevistas a especialistas e autores, no programa "Ultravox". A vox, perdão, a voz, é a do Tiago Gomes, esse mesmo, o do prozine, oops, o da revista "Bíblia".

Televisão O costume: entrevistas com autores, portugueses e estrangeiros, durante os eventos bedéfilos: Fórum BD, Salão Lisboa e Festival da Amadora. À pala deles apareceram nos ecrãs Francisco Sousa Lobo, Miguel Rocha, José Carlos Fernandes, Emmanuel Guibert entre outros.

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2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação
2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação
2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação
2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação
2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação
2004 DOSSIÊ 063|259 Ilustrações André Lemos Introdução Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação

Ilustrações André Lemos

Introdução

Já é uma tradição neste sítio fazer uma avaliação anual da banda desenhada em Portugal. Como sempre dividida em sete áreas. 2004 foi o ano da crise com a diminuição de edições e projectos - até nos "baratos" fanzines, que curiosamente já se ressentiam em 2003 ao contrário das editoras que adiaram o inevitável por um ano. Em aberto e (infelizmente) sem ser discutido nestes textos, fica a questão se os eufóricos anos de 2002 e 2003 criaram novos públicos para a bd ou não. Cremos que não, caso contrário a crise não teria sido tão acentuada.

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Esperamos melhorias em 2005. Um optimismo seco à espera de novas narrativas

Agradecemos a todos os colaboradores que nos tem acompanhado, em especial a André Lemos, autor das (sempre) inquietantes ilustrações.

Crítica

Pedro Moura

Sobretudo cabeça.

Este artigo é dedicado à memória de Will Eisner. Não sendo o primeiro, nem o segundo nem o último autor de banda desenhada a pensar criticamente o modo em que trabalhava, foi no entanto um dos seus mais brilhantes maître artisan en métier d'art. Aquando da sua passagem pela Amadora, troquei umas brevíssimas palavras com Eisner. E é a sua forma de gigante se apequenar junto a nós, anões, que nos torna ainda mais pequenos.

1. Estado da nação

A crítica extrai livremente das definições conceptuais das estéticas, sem estar

associada a nenhum rigor sistemático em particular. Eis uma frase de Rainer Rochlitz que pode servir de aviso e lição sumária.

O que se passa, porém, quando não há sequer uma definição, por mais ténue

que seja, por detrás de um trabalho crítico? Que se passa quando a argumentação é fácil, impressionista, pessoalíssima, e no pior dos momentos, débil ou mesmo inexistente? No ano passado, houve quem não percebesse o texto que escrevi. Vou tentar usar o mínimo de frases subordinadas. E conjunções. Não tenho muito a dizer que seja substancialmente diferente do texto desse ano. Quem escreve bem e regularmente continua a fazê-lo, e dando provas de

serem capazes de organizar um pensamento. Quem não o faz, e continua a somar boutades com pré-conceitos (v. dicionário) que não atravessam um crivo

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de investigação ou sequer reflexão espalha-se ao comprido. Estar preso a um mercado editorial não ajuda. Estar preso ao que se vai publicando por Portugal leva a que se seja ciclópico na sua apreciação. Como, por exemplo, afirmar que um dado autor era desconhecido do público português porque não tinha sido cá editado. Tenho uma visão diferente, já que os interessados sempre procuraram soluções que passavam por encomendas, idas ao estrangeiro, compra por catálogo, ou por empréstimos, já para não falar das ubíquas e absolutamente fulcrais edições brasileiras que nos enchiam “as bancas” todos os meses. Mas é o mercado, não é? Há pouco a fazer nesse campo, e se me permitem uma perna noutro assunto, acho que em alguns aspectos estamos muito melhor em termos de edição do que há dez anos atrás (não obstante a crise que espero momentânea), quer em oferta, quer em cuidados de edição. Afinal, Sacco caminha em português. Mas para cada grego, dois troianos. Não vivemos no século XIX para vivermos numa permanente idolatria do herói, quer o da ficção, quer o real conhecido como autor. Tampouco num tempo em que a arte está fora da possibilidade de se falar sobre ela criticamente. Não basta apontar o objecto e dizer, “ei-lo”, “isto é em forma de assim”, “isto é bom”, “quem não tem não saberá”. É preciso colocar todos esses objectos que estão no nosso campo de visão e atenção num escrutínio mais estreito e objectivo:

uma qualquer contextualização, aquela que mais der prazer ou fizer parte dos conhecimentos e interesses a quem escreve e está pensando sobre o mesmo objecto. Mas contextualização não é sinónimo de circunstancialismo. É preciso também que se dê mais valor à imanência dos textos em questão, e não somente há capacidade de lhes associar referências. A crítica pode viver entre vários pólos. Lyotard anunciara a morte da crítica, por um lado porque as obras de arte estão sempre além da crítica e dispensam os seus nominalismos (“isto é arte ou bom porque eu o digo”), por outro porque sendo uma imposição de um sistema discursivo, é um atentado à liberdade, autonomia, e mesmo a alteridade da arte. Mas ainda continua a ser mais certeiro repetir Foucault, no facto da crítica habitar precisamente o entre, os interstícios. Porque está e não está fora do objecto de que fala. Mas para falar e se falar, para apontar aos objectos que ainda importa nomear, os que fogem à frente, são poucos os que denotam essa atenção.

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Sempre há quem apresente uma ou outra consideração mais crítica: João Ramalho Santos, João Paiva Boléo, João Paulo Cotrim, Pedro Mota, João Miguel Lameiras. Será que está relacionado com o facto de terem mais espaço para escreverem? Julgo que não, é-lhes intrínseca a qualidade do que escrevem – concorde-se ou não com o que pensam. Como dizia há pouco, estar preso ao mercado leva a alguns problemas. Há casos em que falar da mesma coisa leva a casos bicudos: é o que aconteceu com os artigos de João Miguel Tavares e de João Miguel Lameiras por ocasião da edição portuguesa (Vitamina BD) de Lovecraft. São quase o mesmo artigo! Conheço-os suficientemente (nem que seja pelas leituras) para estar longe de qualquer acusação estapafúrdia, como é óbvio. Tratar-se-á somente de uma azarenta afinidade electiva. Já tinha antes afirmado que o facto de não ser permitido um determinado discurso talvez estivesse associado à falta de espaço, mas isso seria ser condescendente com quem francamente não tem nada a dizer sobre esta arte em geral, e apenas lhe interessa continuar a receber álbuns de borla em casa, ou a falar daquilo que lhes dá um prazer chão, imediato e nada reflectido. Acriterioso, e muitas vezes acéfalo. Por vezes nostálgico. Por exemplo, por mais significativos que tenham sido certos autores em termos de edição de bd em Portugal, que interessam verdadeiramente para a história da bd universal autores como José Ruy ou Teixeira Coelho? Uma oportunidade de ouro com reedições – leia-se Corto Maltese – leva apenas a uma colecção de textos tautológicos e sem interesse. Exumar o tema “da mulher na banda desenhada” nem sequer serve para trazer um novo dado, uma nova reavaliação mas simplesmente para expressar um “parece-me a mim

2. Surpresas. É surpreendente e estranho, ao mesmo tempo, que os trabalhos onde emergem ideias mais críticas venham de territórios insuspeitados, quase de territórios à partida considerados – desculpem o meu preconceito – desprovidos dessa mesma capacidade: falo de revistas de distribuição comercial, de uma certa bd “comercial”. As introduções aos volumes da colecção Os Clássicos da Banda Desenhada, distribuída pelo Correio da

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Manhã e de Obras-Primas da BD Disney, da Edimpresa. No primeiro caso, agrupam-se ensaios curtos da colecção original italiana, mas acrescentam-se trabalhos inéditos para a edição portuguesa da lavra de José Freitas e João Miguel Lameiras, a que se devem acrescentar os nomes de Jorge Magalhães, Paulo Moreira e do historiador Leonardo de Sá. Os textos apresentados são muito díspares (em qualidade e objectivos), mas em geral apresentam questões de extremo interesse, já para não falar do indiscutível manancial informativo (ainda que em versão digest). A colecção da Disney, que arrancou com dois volumes de Don Rosa e agora prosseguirá com trabalhos de Carl Barks apresenta um trabalho de investigação e selecção de Paulo Ferreira, o editor, que julgo merecer menção especial pela tarefa a que se propôs. Há outros assuntos a discutir em relação a estas edições, claro (como por exemplo o facto de existir uma insistência em chamar à colecção do Correio da Manhã “livros”), mas não é meu propósito falar disso. Menção especial irá para o artigo A Leitura da Banda Desenhada, de Pedro Mota e Teresa Guilherme Santos, publicado no 117º número da revista Vértice, sobretudo pela importância da sua plataforma e alguns dos pontos discutidos. Se bem que a introdução histórica é necessariamente (ou não?) a voil d’oiseaux, os temas levantados são os mais pertinentes: percepção, tempo da leitura, “tradução” do som e movimento na prancha de bd, e o “símbolo”, entendido de uma forma extremamente ampla. No entanto, tenho de dizer que me parecem alguns desses mesmos pontos estar aquém de investigações mais recentes, como as de Thierry Groensteen (citado), por exemplo, ou uma posição crítica de Harry Morgan perante tudo o que se fez antes. A falta de exemplos concretos que exemplifique algumas das afirmações feitas afecta em demasiado algumas dessas teses. Por exemplo, a questão da existência de duas vinhetas contíguas mas que não apresentem qualquer articulação (defendida pelo próprio Groensteen, reafirmada de outro modo por McCloud – a non-sequitur) e a consequente existência de “surrealismo” na banda desenhada é um dos temas, a meu ver, mais apaixonantes. Eu não concordo em absoluto com essa existência, mas isso merecerá um outro canal de discussão. Há, porém, neste artigo, questões de fundo que mereceriam mais visibilidade, assim como continuada e aturada discussão nestas e noutras publicações. Temos também que criar vontades nos mais variados canais de

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informação em aceitar um pensamento crítico sobre a banda desenhada tão válido como sobre outro modo de expressão, de modo a que se permita aos vários dedicados do ramo a se expressarem com mais desenvoltura. Uma palavra deveria ir para os textos incluídos em catálogos (V. Edição, sub- capítulo publicações especializadas & catálogos de exposição). E por defeito pessoal, destacaria o volume sobre Neil Gaiman, a propósito da exposição na Amadora. Porém, isso prende-se a uma avaliação de edições que muito aumentaria este já longo texto. Ainda um último caso, e este importantíssimo – sob vários parâmetros -, foi o da edição de Sobre BD, de David Soares, colecção de ensaios de leitura de banda desenhada, mas para além disso. Como já escrevi sobre este livro (publico.pt, lazer, secção bd) e a introdução de JM Lameiras é exacta e certeira, escuso de me repetir e aos outros. É um outro modo de falar criticamente sobre a bd, que poderá não agradar a todos, mas cujos pontos são fundamentais à discussão. Porque os gostos, ao contrário do que se repete maquinalmente, discutem-se.

3. Por mim, venha o problema. Desenvolver um problema não quer dizer resolvê-lo: pode significar apenas esclarecer-lhe os termos de modo a tornar possível uma discussão mais aprofundada. É uma das primeiras frases a Obra Aberta, de Umberto Eco. O mesmo se aplicará aqui: é importante inaugurar questões, que pressupõem um problema, algo que fará pensar indefinidamente e produzirá novos elementos a tomar em consideração na “leitura dos textos”, o que é bem diverso de uma simples pergunta, para a qual se achará uma resposta através de argumentos ou investigação, não se colocando nenhuma forma nova de abordar esse mesmo “texto”. Uma obra de arte pode ser testemunha (sociológica, histórica, etc.) mas é enquanto obra de arte que permanece interpretável e, logo, criticável. E sempre a partir de si mesma, da sua imanência enquanto arte. Alguns critérios são necessários para o emprego do juízo crítico, e as mais das vezes apenas se avança a necessidade de informar. Apesar de por vezes existirem acusações de “excessos académicos”, o que se passa é que pessoalmente busco plataformas de expressão que me permitam publicar formas de pensar que brotam das leituras, uma forma de pensar que é

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imanente à própria leitura de banda desenhada e não ideias a priori aplicadas a um gosto relativamente superficial. Também tenho os meus gostos duvidosos, futilidades, leituras para “passar o tempo”, mas não são essas que elejo para representar o pensamento que vejo possível (para mim) sobre a bd. Numa discussão, é necessário que se contra-argumente, ou proponha uma outra forma de ver. Não nego nem temo dizer que mudo de ideias: é para isso que temos a cabeça redonda, conforme disse Picabia. Pensar não dói. Mas há quem pareça ter medo. Pior, há quem tenha medo e raiva que outros pensem. E então saem-se com sentenças que passam por grandes rasgos de espíritos, mas não são mais que disparates disfarçados. Leiam. Comparem. Pensem. E quando quiserem falar do trabalho dos outros, utilizem uma argumentação sólida, séria, balizada. Não chega dizer, “que seca!”, “que mau!” ou “não me interessa!”. Digam antes, “essa ideia não está absolutamente clara, porque falta esta consideração e este elemento”, ou “não concordo, porque a minha experiência aponta-me para esta outra direcção, e além do mais, este outro exemplo contradiz essa sua afirmação”. Assim. Ou assado. Mas com pés e cabeça. Sobretudo cabeça.

Edição

Sara Figueiredo Costa

O ano que agora se encerra parece confirmar as previsões do dossier do ano passado no que à edição de livros de banda desenhada diz respeito. Há um ano atrás, João Miguel Tavares escrevia o seguinte: “Em 2003 ainda se editaram mais livros, e muitos deles de excelente qualidade. Por outras palavras, a vaca continua gorda. Mas, teimoso como sou, posso pelo menos invocar este argumento a meu favor: mantenho a certeza de que, ou a vaca emagrece, ou morrerá de obesidade.” De facto, depois de dois anos (2002 e 2003) fortíssimos em número de livros editados, 2004 parece ter sido o ano da contenção editorial, justificada, talvez, pela crise geral, mas também pelas características de um mercado que não podia continuar a absorver tamanha produção. Façamos, então, alguns destaques, em jeito de balanço.

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As editoras mais ‘tradicionais’ e bem instaladas no mercado dedicaram o ano

às reedições e às novidades dos clássicos de sempre. Assim, a Meribérica reeditou boa parte dos títulos de Milo Manara que tem no seu catálogo, editou

o segundo volume de Blake e Mortimer – Os Sarcófagos do 6º continente e

editou, entre outros, o último volume da série Akira, estando agora disponível a

obra integral em português. A Asa, outro nome forte da edição de bd em português, destacou-se em 2004 pela publicação do álbum com inéditos e preciosidades de Astérix e Obélix e pela continuação das aventuras de Lucky Luke, agora com assinatura de Achdè e Gerra. Prosseguiu também a edição do Decálogo, já perto do fim, e editou dois títulos de Stassen, Déogratias e Crianças.

Pela mão da Vitamina BD, chegou a Portugal o livro Eu, Vampiro, da dupla Trillo e Risso, e Lovecraft, de Rodionoff, Giffen e Enrique Breccia. Entre outros títulos, esta editora publicou também o terceiro e quarto volumes de Kingdom Come, de Mark Waid e Alex Ross.

A Devir parece ter mantido o seu ritmo habitual de publicação, assegurando a

continuação da série A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes, e publicando livros como Eu, Wolverine!, de Chris Claremont e Frank Miller, Hulk - O regresso do Monstro, de John Romita Jr. e Bruce Jones e o incontornável

regresso de Sin City, de Frank Miller, com Mulher Fatal. Também pela mão da Devir as pranchas semanais de Superfuzz, de Rui Ricardo e Esgar Acelerado, saltaram do jornal Blitz para as páginas bem encadernadas de um álbum que merece continuação.

A Gradiva prosseguiu a publicação de várias séries cómicas, como Cathy, Adam ou Zits, entre outras, mantendo o seu público sem grandes sobressaltos. Duas editoras que mereceram destaque absoluto nos dois últimos anos estiveram bastante apagadas em 2004. Da Witloof, responsável por alguns dos livros mais interessantes do ano passado e por um catálogo sólido e bem escolhido no âmbito da bd franco-belga, não nos chegaram notícias editoriais. A Polvo deixou-nos à espera da continuação de Persépolis, de Marjane Satrapi, tendo garantido alguma visibilidade com o escândalo da censura de

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Alvarez Rabo em Viseu, publicando um novo título deste autor (Anal-Fabetos) e reeditando o incontornável As Mulheres Não Gostam de Foder. Na imprensa prosseguiram algumas iniciativas editoriais de relevo. A série Tintin, de Hergé, chegou ao fim no Público, com direito ao suplemento de um livro com textos de Carlos Pessoa sobre os vários episódios e, no mesmo jornal, iniciou-se a publicação de alguns volumes de Corto Maltese, de Hugo Pratt. O jornal desportivo Record iniciou a edição da colecção de Blake e Mortimer, de Edgar P. Jacobs e o Diário de Notícias continuou a assegurar a publicação semanal de uma página crítica sobre banda desenhada (pontualmente dedicada aos livros infantis e à ilustração).

Para o fim ficam, propositadamente, as referências àqueles que considero os grandes destaques editoriais do ano. Nos quiosques começou a distribuição da colecção O Melhor da Disney, inaugurada por um volume com a história do Tio Patinhas assinada pelo mestre Don Rosa. A colecção prosseguiu com o Pato Donald de Carl Barks e promete continuar ao longo do próximo ano, numa iniciativa editorial que tem feito as delícias de coleccionadores e apreciadores dos clássicos mais mainstream dos quadradinhos.

Com o selo da Devir, saiu este ano o primeiro volume da imprescindível série Sandman, de Neil Gaiman. Há muito que a edição desta obra prima era reclamada pelo público português e, depois de Prelúdios, resta-nos esperar que os volumes seguintes não tardem.

Também com a assinatura da Devir, mas com o mérito dividido com a MaisBd, chegou à língua portuguesa o monumental Palestina, de Joe Sacco. São dois volumes incontornáveis de um estilo gráfico e narrativo que abalou os conceitos mais tradicionais da nona arte. Cruzando a reportagem jornalística com a novela gráfica e com e com uma escrita visivelmente inteligente, Joe Sacco criou uma obra fundamental que em 2004 ficou, finalmente, disponível em português.

Outra edição a merecer destaque foi o álbum colectivo Sempre! 6 histórias de Abril, publicado pela Má Criação. No ano em que se comemoraram os trinta

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anos da Revolução dos Cravos, Alice Geirinhas, André Carrilho, Ana Cortesão, Daniel Lima, Cristina Sampaio e Jorge Mateus juntaram-se num livro que merece ficar para a história.

Por último, longe das editoras de banda desenhada mais tradicionais ou mais alternativas, um livro fez-se referência incontornável do ano editorial que agora acaba. Movimentos Perpétuos – BD para Carlos Paredes reúne traços e argumentos de autores como Nuno Saraiva, Sérgio Godinho, Daniel Lima, Gonçalo M. Tavares, José Carlos Fernandes ou José Manual Saraiva (entre outros) e o resultado é um livro belíssimo onde a música de Carlos Paredes se cruza com a linguagem da banda desenhada explorada com o maior interesse e com total disponibilidade para a experiência por autores consagrados e perfeitos outsiders. A edição é da responsabilidade do jornal Público e do projecto Movimentos Perpétuos.

A conclusão de um balanço desta natureza devia passar por algumas antecipações para o ano que agora começa. Devia, mas não vai, porque antecipações como as que poderia fazer têm tanto de fascinante como de inútil. Suspeito, apenas, que a crise geral continuará a afectar o mercado editorial em geral, e o da bd em particular. E esta suspeita tem tanto de la palisse que nem vale a pena prolongar o assunto. E se as séries que começaram a ser editadas este ano prosseguirem em 2005 já teremos motivos de sobre para celebrar o ano editorial em Dezembro que vem.

Autores

Daniel Maia

Com a economia portuguesa na corda-bamba e o poder de compra dos leitores comprometido, abundaram em 2004 as adversidades para o mercado livreiro nacional, nomeadamente no sector bedéfilo. Assim, como consequência do ritmo competitivo entre editoras sobreviventes, e do calamitoso estado de vendas, quando comparamos a performance deste ano com a do anterior

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podemos observar um desinvestimento geral em obras portuguesas. Em 2003,

a par do máximo histórico de edições alcançado, ter-se-á igualmente

conseguido um número apreciável de artistas nativos publicados (cerca de 60),

motivado sem dúvida por toda a atenção dirigida ao negócio da bd, por mais efémera que esta tenha sido. Por sua vez em 2004, já desvanecido o efeito favorável do “boom” dos dois anos transactos, e imposto um regime de contenção editorial forçado pela competitividade existente, foi notoriamente

mais difícil aos nossos autores conquistarem o seu espaço nas prateleiras, fosse por falta de aprovação de projectos nas editoras ou por impossibilidade dos próprios em avançarem com auto-edições. Em todo o caso, mantiveram-se presenças incontornáveis, bem como um punhado de publicações antologicas ao bom estilo independente, não se descartando a preserverança de alguns escassos fanzines. Aliás, temos como principais responsáveis pela estável contagem de autores – que doutro modo teria certamente entrado em queda galopante – as várias antologias que apareceram, contendo cada uma um bom número de autores. E assim, paulatinamente acumulada ao longo dos meses, chegou-se à soma de cerca

de 50 autores, os quais podemos subdividir nos seguintes grupos:

Encabeçando a lista A de banda-desenhistas temos nomes tais como José Carlos Fernandes, que permanece de pedra-e-cal nos planos da Devir, e que justamente acolhe o apreço da crítica pela série “A Pior Banda do Mundo”, ou Artur Correia, autor veterano da bd e animação nacional, igualmente activo na Bertrand com possantes álbuns como “Os Super-Heróis da História de Portugal”, o terceiro do seu género. Também de referir, se bem que aqui longe da arte sequencial, são as marotas ilustrações de Luís Louro em “As Fadas Láureas”, que gozou de alguma atenção nos media, em parte também pelo interessante “ensemble” de escritores convidados.

Outro grupo bastante presente foi o dos autores de persuasão clássica, onde, para além de Pedro Massano, com a série francófona “Le Deuil Impossible”, este ano brindada com um 2º tomo, se inserem desenhadores como José Garcês, José Ruy, José Pires e João Amaral, em produções maioritáriamente histórico/documentais, tuteladas pela Âncora e Meribérica/Líber. Saliente-se

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ainda José Antunes, que foi alvo de homenagem biográfica pela mão do Festival BD de Moura, onde manteve uma mostra retrospectiva, enquanto que

o CNBDI tratou de adquiriu trabalhos pertencentes ao expólio artístico de Victor Péon, para assim consagrar para a posteridade a arte deste autor.

O humor ficou, como sempre, marcado pela actividade da Humorgrafe, que liderou a vertende humorística junto com alguns pontuais álbuns de outros autores da praça, dos quais o mais inesperado terá sido “As Aventuras do Sr. Bruxelas”, publicado pelo partido da Nova Democracia (?!) num bom exemplo de uso prático da bd. Aproveitando a deixa, refiro ainda o trabalho institucional efectuado pelo Filipe Abranches para o Instituto do Emprego, na linha dos anteriormente executados por JC Fernandes sobre alcoolismo.

No segmento “indie”, vingaram três conjuntos: a Associação Chili Com Carne, com o #2 da série “CriCa Ilustrada”; as diversas de duplas que produziram

peças para a antologia “BD para Carlos Paredes”, pela Movimentos Perpétuos;

e aqueles que participaram em “Sempre! 6 BDs para Abril”. À chamada faltou

porém o colectivo alíngua, com o seu “Satélite Internacional”, que chegou a ter anunciado um número duplo. Não obstante nem tudo lhes ter corrido bem na nossa orla costeira, o mesmo já não se verificou no outro lado do Atlântico, em cujo mercado dois dos criativos do grupo – Isabel Carvalho e Pedro Nora – se estrearam com um par de histórias curtas em volumes colectivos. Em suma, todos estes projectos, aliando a irreverência a uma tremenda objectividade criativa, pintaram o alternativo em 2004. Neles se incluíram nomes como Pepedelrey, André Ruivo, Joana Figueiredo, Ana Ribeiro, Alice Geirinhas, Daniel Lima, André Lemos, Ana Cortesão, para mencionar apenas alguns.

Também vingentes, se bem que difundidos por uma multiplicidade de públicações periódicas, de jornais a revistas, e procurando diferentes efeitos, estiveram autores tais como Paulo Patrício, Nuno Saraiva, Pedro Burgos e João Paulo Cotrim, António Jorge Gonçalves, João Fazenda, José Abrantes, e até eu próprio, entre outros. Pelo final do ano, Rui Ricardo e Esgar Acelerado, cativos no Blitz, tiveram a oportunidade de compendiar as suas páginas

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autoconclusivas num primeiro volume de “SuperFuzz”, o qual atingiu agradáveis números de vendas para a editora Devir, podendo mesmo ser considerado o best-seller álbum nacional. Segundo dados fornecidos pelo editor José de Freitas, o livro atingiu as 1.400 cópias vendidas em somente 2 meses de distribuição, números estes até agora apenas alcançáveis por um qualquer volume de “A Pior Banda do Mundo” – apenas para efeitos de comparação – após mais de um ano de circulação! É mais um exemplo de sucesso do emergente novo mercado de bancas.

No ramo expansionista, virado para os comics norte-americanos, destacou-se Eliseu Gouveia, que editou nos EUA o livro “Cloudburst”, co-produzido com Christopher Shy, Justin Gray e Jimmy Palmiotti, tendo sido fruto do conhecimento que o desenhador travou com este último argumentista no BD Fórum. Também a dar os primeiros passos no outro lado do Atlântico estão Filipe Abrances e Pedro Nora, que participaram com duas curtas individuais no mega-volume colectivo “Rosetta” #2, o qual granjeou uma nomeação para melhor antologia nos Prémios Eisner 2003.

Finalizando: apesar de se ter reduzido o volume de edições, é visível que a qualidade geral das produções nacionais tem-se aprimorado, bem como o timing dos lançamentos e o teor das abordagens. Como indiquei acima, é aos volumes colectivos que devemos o agradável número de autores editados, o que não significa contudo que não hajam oportunidades de edição de projectos próprios no nosso país. Apesar de não serem devidamente anunciadas, a Bedeteca tem mantido a porta aberta a propostas para a colecção LX Comics, assim como outras editoras, aparentemente dispostas a acalentar projectos não-solicitados; muito embora seja sentida a falta da acção da Polvo Edições neste capítulo (Quem não gostaria de ter todos os anos novos trabalhos de Miguel Rocha, João Fazenda, Pedro Brito, ou Rui Lacas?). É por estes motivos que me parece justo envisionar para este novo ano um período editorialmente permissivo para autores que possuam a disciplina e talento necessários para ousar editar por cá. Para já, rumores de boas novas relativas a um par de auspiciosos e distintos projectos prometem elevar novamente em 2005 a bd “made in Portugal” a níveis dignos de registo, porque

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– verdade seja dita – agora que nos encontramos definitivamente sem quaisquer apoios institucionais e sem um mercado favorável, é somente da aposta das editoras e da perseverança dos autores que a nossa bd irá depender.

Festivais

João Miguel Lameiras

Num ano de crise a nível da edição, em que o Salão Lisboa alternou com a Ilustração Portuguesa e não se confirmaram as 2ªs edições do BD Fórum e do Festival de BD da Exponor, restou apenas o Festival da Amadora como representante dos eventos de BD de projecção internacional. Sem concorrência, contando com um novo espaço, amplo e de fácil acesso e com uma grande e mediatizada exposição sobre as 100 BDs do século XX, a 15ª edição do Festival de BD da Amadora tinha tudo para ser um sucesso. Mas, apesar da grande afluência de público e da qualidade de algumas exposições, a verdade é que o resultado final ficou bastante aquém das expectativas. Isto numa edição que, apesar de ser a que mais visitantes recebeu, foi aquela que contou com o menor número de autores passíveis de atrair o grande público, para além de ser a que mais falhas organizativas revelou, com o Festival a abrir pela primeira vez as portas sem todas as exposições montadas, sendo particularmente grave o caso da principal exposição sobre as 100 BDs do Século XX, que nunca chegou a ficar tal como os seus Comissários a tinham concebido… Como há males que vêm por bem, os autores portugueses acabaram por ser os principais beneficiados com a ausência de grandes nomes estrangeiros (alguns deles contactados demasiado em cima da hora para poderem aceitar o convite…), concentrando em si atenções que de outro modo lhes fugiriam, para além de terem contado com exposições interessantes e bem montadas. Também a qualidade dos originais presentes na Exposição dedicada à BD argentina justificava a visita ao Festival, embora aqui fosse evidente a falta de

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um texto de enquadramento que explicasse ao visitante a importância daquilo que estava a ver. Fora do espaço do Festival, a mostra dedicada a Neil Gaiman (que integrou o vasto grupo dos autores que faltaram à chamada), embora tenha cumprido a sua função de dar o devido destaque que a importância que a obra de Gaiman justifica e merece, acabou por também ser vítima dos problemas de organização que afectaram todo o Festival, com a Exposição a abrir portas sem que todo o material previsto tivesse chegado, para além de ter perdido bastante impacto pelo facto de ter inaugurado ao mesmo tempo que o Festival. Face a este negro panorama nacional, mais digno de realce é o esforço dos Festivais que gravitam em torno das Jornadas da Sobreda, como o Salão de Viseu e o Moura BD 2004, que este ano completou a sua 14ª edição. Simpáticos espaços de convívio e ponto de encontro de uma série de autores e aficionados da “velha guarda”, estes Festivais de menor dimensão, precisam ainda de se afirmar em termos nacionais. O futuro o dirá se o conseguem

Fanzines

Marcos Farrajota

Assim não dá, que crise! Crise a rodos e para todos. Em 2003 queixava-me da miséria medieval da cena fanzinista. 2004 pareceu-me pior que nunca. Parece que tudo correu mal. Então vejamos:

_o Zundap acabou mesmo e de forma hilariante – até teve direito a notícia sobre o lançamento no Mil Folhas; _o site bizarro.cc também foi à vida; _o #4 do Satélite Internacional ainda não saiu – aliás, não saiu nenhum número em 2004 e perdeu o seu site; _a participação de Isabel Carvalho na antologia norte-americana “Scheherazade: comics about love, treachery, mothers, and monsters” (Soft Skull) correu mal graças a impressão defeituosa; _não houve novos números da Lx Comics e não foi por falta de orçamento da Bedeteca mas por falta de propostas!;

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_quase não houve nenhuma continuação dos títulos do(s) ano(s) anterior(es) à excepção do Terminal e do Durty Kat mas em versão online: www.durtykat.tk; _as editoras independentes (Associação Chili Com Carne, Círculo de Abuso, colectivo alíngua) perderam a distribuição livreira assegurada pela editora Witloof, com isto quer dizer que agora encontrar edições independentes será quase impossível – antes, mal por mal sempre estavam ao lado dos Manaras e Astérixes.

Coisinhas boas, poucas:

_Miguel Carneiro e Marco Mendes começaram um novo zine, o “Paint Suck’s!”, divertido q.b; _o mesmo Miguel Carneiro juntamente com João Marçal editaram “Bom apetite!” um mini-álbum de humor propositadamente boçal e desbundado; _novo fanzine em papel e online "Aqui no canto" (2 números) de João Rubim [aquinocanto.do.sapo.pt] _das Caldas da Rainha mais zines: “Vírus demente”, “O hábito faz o monstro” e mais algum que me deve ter falhado… _José Carlos Fernandes foi publicado na revista "Tos" (Espanha), o Filipe Abranches e Pedro Nora foram editados no segundo número da antologia "Rosetta" (cuja a edição da secção europeia ficou a cargo de Domingos Isabelinho); _muitas feiras de fanzines na maior parte organizadas pela Associação Chili Com Carne ou pela Família Alternativa – especialmente pela última que organizou na Galeria ZDB, Feira do Livro de Lisboa, Faculdade das Caldas da Rainha (Comunicar:design), em Sines… _o João Bragança editou o segundo número do “Pecarritchitchi, o fanzine enfezado” (o fanzine mais pequeno do mundo?) e lançou-se online:

www.succedaneo.com; _a bd "O coleccionador de borboletas" de José Lopes que é suplemento ao DVD, Doczine #1 - um documentário amador sobre zines e bd que infelizmente é completamente desinteressante sob vários e quase todos os pontos de vista; _as duas únicas edições “indies” deste ano: o segundo número da CriCaClássica Ilustrada (o Mesinha de Cabeceira disfarçado!) pela Associação Chili com Carne com trabalhos de André Lemos, Pepedelrey, Ana Ribeiro,

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Joana Figueiredo, João Chambel, João Fazenda, André Ruivo, … e ”Sobre BD” de David Soares, um livro de ensaios sob a chancela da Círculo de Abuso, claro.

Para acabar, resta a notícia que alguns alunos da António Arroios lançaram o zine "Gatafunho" sob a protecção do Prof. José Feitor (do Zundap), e se podemos encontrar novos talentos nas suas páginas , curiosamente é assim que se percebe que zines em papel são artigos pré-históricos para as novas gerações. Afinal sempre é mais fácil (tempo & dinheiro) fazer uma página web como acontece com a Mina Anguelova [www.geocities.com/undermycoat] e pergunto se não deveria começar a pesquisar pelas infinitas páginas web, galerias de novos autores… 2005 para além de se comemorar os 250 anos do terramoto de Lisboa não deveria ser antes o Ano Nacional da Reciclagem?

Investigação

Adalberto Barreto

Nota inicial: embora com um rigor científico algo duvidoso são válidos os critérios do ano passado para se considerarem as obras como de investigação (ler investigação 2003).

É recorrente os textos de balanço começarem com uma comparação face a anos anteriores. Caso as edições estejam a diminuir fala-se de crise. Se estiverem a aumentar de boom (crescimento), ou de falso boom que irá dar lugar a uma crise ainda maior. No caso português em que o mercado de banda desenhada é muito pequeno é natural que o mercado de publicações sobre banda desenhada (uma forma simples e enganosa de identificar as obras de investigação) seja ainda mais pequeno ou inexistente. Para dar um exemplo não existe, que eu tenha conhecimento, nenhuma obra de referência (dicionário, guia alfabético ou cronologia generalista) publicada por uma editora privada com fins lucrativos. Assim as poucas publicações que surgem vêm sempre de editoras públicas

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(câmaras municipais e institutos públicos) ou privadas com fins puramente culturais, científicos e altruísticos (fundações). Assim, se o mercado das edições se encontra ora em evolução ora em recessão de livros publicados (não existem infelizmente dados sobre as tiragens, as vendas os lucros e os prejuízos das editoras de BD) parece que o mercado de edições sobre banda desenhada (ou de investigação, se quiserem) se encontra permanentemente em recessão, ou não existe.

Contudo, para escrever menos e tentar informar um pouco mais arrisco analisar os últimos cinco anos de edições “sobre” banda desenhada com um quadro das obras publicadas em livro (que teve por base de construção o arquivo dos balanços de investigação da Bedeteca):

Ano Nº livros

2000 7

2001 5

2002 4

2003 3

2004 6

Ao qual posso apenas acrescentar (confessar): (1) estar à espera de uma recessão mais acentuada (2) não estar a contar com uma evolução no ano de

2004.

Contudo, para ser coerente falta saber o que se vendeu, o que está por vender,

quem comprou, quem leu e o que ficou em quem leu (vontade de ler mais e divulgação a outras pessoas). É a partir deste tipo de análise, quanto a mim, que se pode aferir sobre a verdadeira tendência de crescimento ou de recessão do mercado.

Passando a 2004 temos:

6 LIVROS publicados, - O catálogo da exposição “El alma de Almada el impar : obra gráfica 1926-31” que decorreu no Palácio Galveias entre 7 de Abril e 6 de Maio e deu origem à

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grande obra de investigação de 2004. Trata-se de um catálogo de luxo com cerca de 200 páginas sobre a obra gráfica de Almada Negreiros em Madrid. A primeira parte livro abre com um texto de João Paulo Cotrim que inclui uma pequena biografia de Almada, com particular incisão para os anos passados em Madrid, e um texto sobre Ramon Gómez de la Serna que destaca a sua vida e as suas passagens por Lisboa e pelo Estoril. A segunda parte do livro analisa ao detalhe o desenho de Almada sendo a análise fundamentada em diversas citações e referências bibliográficas. Destaco, também, nesta segunda parte um capítulo dedicado à obra de Almada em banda desenhada (p. 42 e ss.) e na última parte o Catálogo BD onde nos podemos deliciar com várias tiras cómicas de Almada publicados no Sempre Fixe e no El Sol.

- O catálogo do 15º Festival de BD da Amadora no qual destaco: (1) O trabalho

retrospectivo de 15 anos do Festival. (2) As 100 BDs do séc. XX, um inegável trabalho de investigação (com recurso a métodos quantitativos : 100 inquéritos

a 100 especialistas mundiais para seleccionar um best of da BD) conduzido por

João Paulo Paiva Boléo e Luís Salvado. (3) A BD Argentina por Juain Sasturian, uma breve história em 5 páginas da riquíssima Banda Desenhada Argentina, que supre parcialmente uma lacuna: a de haver muito pouco material sobre a BD Argentina. Faltou ao trabalho de Sasturian uma bibliografia para nos orientar. E, por último, e entrevista conduzida por Pedro Mota a Esgar Acelerado sobre o Super Fuzz.

- O catálogo BDs de Abril: o 25 de Abril 30 anos depois, da exposição no

CNBDI comissariada por João Paiva Boléo e João Miguel Lameiras, que contém um levantamento dos trabalhos em BD relacionados com o 25 de Abril.

- O livro 6 jovens autores em diálogo de Carlos Pessoa e Vítor Quelhas,

publicado na colecção Entre nós do CNBDI (n.º 3) com entrevistas a Alice

Geirinhas, Ana Cortesão, Filipe Abranches, João Fazenda, Miguel Rocha e Pedro Brito.

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Entrando por terrenos tortuosos resta-me escrever sobre 2 livros, que confesso ter dúvidas. Não sobre a qualidade dos mesmos mas antes a dúvida de saber se estamos perante trabalhos de investigação ou de opinião.

- O primeiro é um ensaio de David Soares sobre 5 obras de BD. À primeira

vista parecem-me 5 extensos artigos de opinião ricamente fundamentados com uma vasta bibliografia que inclui literatura, banda desenhada, filosofia, poesia e

outras áreas ocultas.

- O segundo é um guia de leitura da autoria de Carlos Pessoa que compila uma

série de artigos sobre o Tintim publicados no Público em 2003 e que contém

um breve dicionário de personagens (que inclui os três portugueses que apareceram na série).

1 DVD:

- Doc Zine volume 1. Um documentário de José Lopes sobre fanzines com a

colaboração de Geraldes Lino, Paulo Costa, Mário Ferreira, José Vilela e Tiago Sério.

Para além dos livros e DVDs, destaco ainda:

Uma entrevista de Carlos Pessoa a Pedro Massano publicada no jornal Público, suplemento Mil Folhas a 24 de Abril, sobre a obra Le deuil impossible publicados na Glénat e na revista Vécu. A estrevista de Sandy Gageiro a Joe Sacco publicada na Quadrado n.º 5 sobre o cruzamento entre a BD e a reportagem e a cobertura de guerras. A comunicação “A banda desenhada nas bibliotecas portuguesas” da minha autoria, que decorreu no VIII Congresso Nacional de Bibliotecários Arquivistas e Documentalistas no dia 13 de Maio e

em:

cujo

www.apbad.pt/Downloads/congresso8/com13.pdf. Reconheço, no entanto, que se trata de um trabalho de investigação um pouco transversal em relação à BD uma vez que não investiga, não estuda obras de BD ou autores de BD, mas a

utilização da Banda Desenhada nas bibliotecas públicas portuguesas.

paper

se

encontra

disponível

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Pela ausência de documentação em português refiro ainda a exposição “Africa comics” que passou por Lisboa na Culturgest no mês de Maio, mas não deixou vestígios escritos sobre a investigação efectuada para essa mostra.

BIBLIOGRAFIA DA INVESTIGAÇÃO 2004

MONOGRAFIAS:

AMADORA. Câmara Municipal. – BD Amadora 2004 : 15º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora : Câmara Municipal da Amadora,

2004. 183 p.

BOLÉO, J. ; LAMAEIRAS, J. – BDs de Abril : o 25 de Abril e a BD. – Amadora :

CNBDI, 2004. 48 p.

COTRIM, J. ; GASPAR, L. – El alma de Almada el impar : obra gráfica, 1926-

1931. – Lisboa : Bedeteca, 2004. 199 p.

PESSOA, C. – As aventuras de Tintim no Público : guia de leitura. – Lisboa :

Público ; Oficina do Livro, 2004. 63 p.

PESSOA, C. ; QUELHAS, Vitor – 6 jovens autores em diálogo. – Amadora :

CNBDI, 2004. – (Entre nós ; 3).

SOARES, D. – Sobre BD. – Lisboa : Círculo de Abuso, 2004. 87 p.

MULTIMEDIA LOPES, J. – Doczine. – [S.l. : s.n., 2004]. 1 v. -

ARTIGOS E ENTREVISTAS ACELERADO, E.(pseud.) ; MOTA, Pedro. – Super Fuzz // In: BD Amadora 2004 : 15º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora :

2004 DOSSIÊ 084|259

AMADORA. Câmara Municipal. – 15 anos : Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora // In: BD Amadora 2004 : 15º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora : Câmara Municipal da Amadora, 2004. - pp. 1 – 48.

BARRETO, A. – A banda desenhada nas bibliotecas portuguesas [Documento electrónico] // In: VIII Congresso Nacional de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas : 12, 13 e 14 de Maio no Centro de Congressos do Estoril.

em:

Lisboa

http://www.apbad.pt/Downloads/congresso8/com13.pdf

:

APBAD,

2004.

Disponível

BOLÉO, J. ; SALVADO, L. – 100 BDs do séc. XX // In: BD Amadora 2004 : 15º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora : Câmara Municipal da Amadora, 2004. - pp. 67 – 95.

MASSANO, P. ; PESSOA, C. – A passagem da aldeia para a cidade // In:

Público. Mil Folhas. 24 de Abril de 2004.

SACCO, J. ; GAGEIRO, S. – Colocar o leitor no terreno // In: Quadrado. N.º 6. Maio de 2004. – pp. 4 – 8.

SASTURAIN, J. – BD argentina : o bosque ilustrado // In: BD Amadora 2004 :

15º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora. Amadora :

Câmara Municipal da Amadora, 2004. - pp. 100 – 105.

Movimentos

Geraldes Lino

Continuando a Bedeteca a manter o interesse neste registo anual de tudo quanto se passa na área da banda desenhada, aqui fica o levantamento referente a nove movimentos: colóquios, concursos, cursos, exposições, internet, livrarias especializadas, rádio, selos e televisão.

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Concursos

1. Por iniciativa da Junta de Freguesia de Olhão, repetida anualmente pela

quarta vez, teve lugar um concurso com tema obrigatório, sendo desta vez "O Ilustre Olhanense Dr. João Lúcio".

2. "Jovens Criadores", uma organização conjunta da Secretaria de Estado da

Juventude, do Instituto Português da Juventude e do Clube Português de Artes

e Ideias, leva a efeito o seu concurso multidisciplinar, de cadência anual, onde obviamente se inclui a bd.

3. Vários outros houve, organizados no âmbito dos festivais e salões de BD.

Colóquios, conferências, debates & mesas redondas

1. Na Escola Superior de Arte e Design (Caldas da Rainha), o escriba deste

texto foi falar sobre Fanzines e Banda Desenhada, convidado por José Eduardo Rocha, autor de bd e professor naquele estabelecimento. Estava-se a 12 de Maio.

2. Na Associação Abril em Maio, João Paulo Cotrim falou acerca de "A Porca

da Política", obra satírica criada na revista "Paródia" por Rafael Bordalo Pinheiro. Foi em 12 de Dezembro.

Cursos e acções de formação

1. O desenhador e argumentista José Carlos Fernandes desenvolveu várias

acções de divulgação da banda desenhada nas bibliotecas escolares do

concelho de Loulé, dirigidas a alunos de diferentes níveis de escolaridade.

2. No AR.CO., houve cursos regulares de bd, sendo professores Nuno Saraiva

no desenho e João Paulo Cotrim no argumento. Este último foi responsável, no mesmo estabelecimento, pelas disciplinas "Acompanhamento de Projectos" e "Teoria de BD e Ilustração"

3. A Bedeteca de Lisboa e o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, na

sua rota de itinerância, promoveram as seguintes acções de formação: "A História e a Literatura na bd" com a participação de João Paulo Cotrim, Pedro Massano e José Carlos Fernandes, e "História da Banda Desenhada:

Contributos para a selecção documental nas bibliotecas" com João Miguel Lameiras, Marcos Farrajota e Adalberto Barreto. "História da Banda

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Desenhada: Contributos para a selecção documental nas bibliotecas". Foram abordados temas como "A história da BD no séc. XIX", "Dos Modernistas aos anos 60", "Dos anos 70 aos 90" ou "Selecção e processamento documental".

Não regulares, mas com alguma frequência, foram realizadas nas bibliotecas de Aveiro, Cascais, Seixal, Odemira, Castro Verde. Marcos Farrajota foi ainda responsável pelo curso de bd na livraria "O Navio de Espelhos", durante uma semana de Junho, em Aveiro.

4. Em Outubro, organizado pelo Centro de Imagem e Técnicas Narrativas da

Fundação Calouste Gulbenkian, teve lugar um Curso de Banda Desenhada e

Ilustração leccionado por José Pedro Cavalheiro, que assinava Zepe as excelentes bds que fez na revista "Visão" (1975/76).

Exposições

1. Na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, em pleno Porto, nos meses de

Janeiro e Fevereiro, Tintim teve direito a uma exposição comemorativa dos 75

anos passados após Janeiro de 1929, data em que foi "criado" por Hergé. A iniciativa partiu da Associação Juvemédia. 2. "Pranchas originais de Arlindo Fagundes" foi o título da exposição organizada pela Junta de Freguesia de S.Victor, em Braga, de 3 a 27 de Fevereiro

3. "El Alma de Almada El Impar, Obra gráfica (1926-1931)" comissariada por

João Paulo Cotrim e Luis Manuel Gaspar, no Palácio das Galveias em Abril. A exposição dedicada a uma parte da obra gráfica realizada por Almada Negreiros no período que viveu em Madrid, de 1927 a 1932, era constituída também por bd's publicadas em igual período no Sempre Fixe e no El Sol.

4. Em Abril, no átrio da Câmara Municipal de Coimbra, esteve patente o núcleo

central da mostra "Uma Revolução desenhada: O 25 de Abril e a BD",

promovida originalmente, cinco anos antes, pelo Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade coimbrã.

5. No mesmo mês de Abril, desta vez no Centro Nacional de Banda Desenhada

e Imagem (CNBDI) estreou-se no dia 22 uma nova edição do tema, desta vez sob o título "BD's de Abril: O 25 de Abril 30 Anos depois"

6. José Ruy, tão prolífero nas obras como na participação em exposições,

esteve representado em diversos locais:

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a) Na Biblioteca Museu da República e Resistência estiveram patentes, por um

dia apenas, duas mostras: "Aristides de Sousa Mendes" (18 de Out), e "A Ilha do Futuro" (5 de Nov).

b) Nos Açores, cidade da Horta, na Escola Dr. Manuel Arriaga, entre 9 e 13 de

Março, foram vistas pelos respectivos alunos e professores, pranchas daquelas

mesmas bedês;

c) Junta de Freguesia da Costa de Caparica, de 15 até 30 de Maio, houve

pranchas do "Porto Bomvento", escrito e desenhada por José Ruy, e das obras literárias por ele adaptadas à bd: "Lusíadas", "Peregrinação de Fernão Mendes Pinto" e de alguns Autos de Gil Vicente. 7. José Carlos Fernandes, outro prolífero, esteve presente, através de pranchas originais das suas novelas gráficas, em vários locais:

a) Em Março (todo o mês) na Biblioteca Municipal de Odemira, com pranchas

da obra "Intuições";

b) Também do princípio ao fim de Março, foi no bar "Alinhavar", em Leiria, que

esteve representada a bd "A Pior Banda do Mundo"; c) esteve igualmente representado nos eventos bedéfilos realizados na

Sobreda e em Santo Tirso.

8. Mas das exposições integradas nos festivais, salões, jornadas, semanas,

encontros e quejandos, não se registam aqui pormenores, porque isso será feito por quem investiga anualmente esse tema.

Internet Nesta alínea da presente pesquisa, apenas englobando sítios portugueses dedicados à BD, continuam visíveis e consultáveis os mencionados em anos anteriores, para o que basta consultar o arquivo destes "movimentos" desde 1999. Mas há sempre novidades, como as que podem ser visitadas nos endereços: http://entropia.no.sapo.pt (site de Paulo Marques), e http://kloa.darkgod.net, dedicado ao mangá pela Joana Amaral.

Livrarias especializadas

Embora não dedicasse totalmente

o seu espaço à bd, a velhinha loja prestava-lhe bastante atenção. Como que a colmatar a lacuna, abriu no Instituto Franco-Português uma substituta, a

1. Em Lisboa, a Librairie Française fechou

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Nouvelle Librairie Française, onde se pode encontrar boa bd e, para quem

gosta de falar francês, há lá duas gaulesas a atender o público. Por sorte, a mais jovem é apreciadora e até sabe da matéria.

2. Há dois anos abriu no Bairro Alto a "Cem Medos" – Livraria, Café & Galeria

de Arte que tem uma bem interessante e muito espaçosa secção de bd. Só agora aqui é registada porque, injustamente, ainda não constava do roteiro do escriba responsável por este levantamento bedéfilo.

3. Entretanto, a editora Polvo estendeu os seus tentáculos até Viseu, e por lá

implantou uma livraria homónima. Apesar de ainda ser recente na cidade, já

não há quem desconheça a sua existência. E isso por culpa dum pequeno álbum com o título "As Mulheres Não Gostam de Foder", exposto displicentemente na montra. Presume-se que talvez por se sentirem incomodados com a crueza (ou inverdade?) da frase, houve viseenses que recomendaram à polícia uma ida à livraria, a fim de reporem a moral (ou a verdade?) e os bons costumes. O episódio foi badalado nos "media" (até

chegou aos jornais lisboetas), a livraria foi muito visitada, o livro esgotou.

4. Importante é constatar que, somando estas às que já existiam (em Lisboa:

BdMania, Mongorhead Comics e Kingpin of Comics; em Coimbra, Dr Kartoon; e no Porto, Mundo Fantasma), há clientela suficiente para a bd em sete livrarias especializadas, e mais uma que também mexe no assunto, em quatro cidades portuguesas.

Rádio

1. João Magalhães (que em tempos editou um fanzine chamado Cincinato e

que posteriormente o transformou num bem mais visível suplemento

jornalístico) fala de bd e outros assuntos, no programa "Crónica no Ar", na Rádio NOAR, de Viseu. Além disso, de vez em quando é convidado, na qualidade de bedéfilo, para falar na Rádio Renascença (Emissor de Viseu).

2. João Paulo Cotrim foi convidado em 29 de Setembro, data do nascimento da

personagem Mafalda – ou Mafaldinha, como lhe chama carinhosamente aquele especialista –, a fim de relevar a efeméride do 40º ano da sua criação por Quino. E falou nas estações RPL, TSF e Renascença. Haja Cotrim! Alguém

fala de bd, de vez em quando, aos microfones lisboetas!

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Selos Numa louvável iniciativa dos CTT e Bedeteca de Lisboa, coadjuvados por Pedro Cleto, foi emitido um conjunto de interessantes selos dedicados aos seguintes heróis portugueses de bd: Quim e Manecas (de Stuart), Guarda Abília (da autoria de Nuno Saraiva, desenho, e Júlio Pinto, argumento), Simão Infante (desenhado por Eduardo Teixeira Coelho e idealizado por Raul Correia), "A Pior Banda do Mundo", grupo de quatro personagens criados por José Carlos Fernandes, O Espião Acácio, de Fernando Relvas, Jim del Monaco (desenho de Luís Louro, argumento de António Simões), Tomahawk Tom (de Vítor Péon, desenho, e argumento de Edgar Caygill, aliás Roussado Pinto, embora no selo apenas mencione o nome do desenhador), e Pitanga, barbeiro a domicílio (herói criado inteiramente por Arlindo Fagundes).

Televisão 1. Continua a não haver espaço próprio para a bd. Mas, de tempos a tempos – em especial durante o período em que se realiza o festival da Amadora, lá aparece um autor estrangeiro a ser entrevistado, coisa que se sabe pelo próprio ou pelo acaso do zapping :) 2. Todavia, às vezes há um canal que lá se lembra de convidar alguém para falar da coisa. Assim aconteceu com a já extinta NTV, que contactou o escriba autor destas linhas para que ele fosse com dois autores até à estação emissora localizada em Vila Nova de Gaia. Sendo no Norte, os escolhidos foram Arlindo Fagundes, que mora em Braga, e Pedro Sousa Dias, que está a trabalhar no Porto.

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2005 DOSSIÊ 090|259 Ilustrações Pedro Zamith Introdução Está concluída publicação das análises de várias

Ilustrações Pedro Zamith

Introdução

Está concluída publicação das análises de várias personalidades nas sete áreas deste relatório anual sobre a bd portuguesa. Um ano rico em propostas (abertura da Bedeteca de Beja, um ano cheio de festivais, o aparecimento de

face à crise económica do país e que se revela

um jornal dedicado à bd, etc negativa na edição.

)

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Sobre o autor das ilustrações deste ano:

Pedro Zamith nasceu em 1971 em Lisboa onde reside, é licenciado em Pintura pela FBAL e trabalha como professor. Tem participado em vários projectos de ilustração e cenografia, bem como várias exposições de pintura. Participou no Zalão de Danda Besenhada (Salão Lisboa 2000). A sua exposição na Galeria Monumental ficou registada no catálogo "Tóquio - Hong- Kong - Xangai - Singapura" (Associação Chili Com Carne; 2003). Prepara para 2006 uma nova exposição individual na Galeria Pedro Serrenho – Arte Contemporânea. Editou o fanzine Nova Gina e assinou o Lx Comics #7, participou no Mutate & Survive bem como em vários números das revistas Bíblia, Quadrado e na CanibalCriCa Ilustrada. Encontra-se a concluir um projecto de ilustração que já esteve exposto no Salão Lisboa 2005 e que conta com textos de Rafael Dionísio, João Paulo Cotrim, David Soares, entre outros, a publicar em 2006. 2005 foi mais uma vez publicado em França na colecção BD Jazz com uma bd sobre o saxofonista Louis Jordan, ao mesmo tempo que a sua primeira participação sobre Frank Sinatra (Nocturne, 2003) foi editada na versão portuguesa da colecção.

[Resumos destes textos foram publicados no número 10 do "BD Jornal" (de Fevereiro)]

Crítica

Pedro Moura

Esperando que o Pedro Zamith não mo leve a mal, começarei este artigo por visar o desenho que o ilustra – e dou-vos portanto um exemplo de que uma “ilustração” não tem necessariamente de viver na sombra do texto, já que ela o pode criar a ele. Viso-o e digo-o erróneo. Se não mesmo errado (ou então, se preferirem, como retratando um erro comum…). Usualmente o crítico (enquanto pessoa singular) ou a crítica (enquanto disciplina do pensamento e do exercício da interpretação) são vistos como carrascos armados de inveja,

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presunção, água benta e pouco mais, uma espécie de imperador de trazer por casa com polegares demasiados grandes e que não tem nenhum diálogo nem com os autores, nem com a Arte de que fala, nem com quaisquer ideias, mas apenas possui o dom de lançar sentenças. A consequência básica é natural:

um ódio a estes juízes que parecem ter o rei e o roque na mão e se arrogam de poderes de superioridade. Tudo isto, obviamente, é uma pura e continuada tolice. Não é esse o papel da crítica.

“Há muitos poucos artistas que queiram razoar sobre a sua arte. A sua vida é toda feita de impressões: face à filosofia, fazem pouco, ao raciocínio, bocejam, às deduções, adormecem. Crianças mimadas, mas acima de tudo crianças que não gostam de nada senão os seus próprios brinquedos e que fazem má cara às primeiras noções.” Que nem uma luva, este texto autorado por Rodolphe Töpffer, “inventor da banda desenhada” e seu primeiro ensaísta e pensador, em 1848, servirá a muitas circunstâncias nossas contemporâneas. Não é necessário, muito menos obrigatório, que os artistas que fazem banda desenhada (nem os que o fazem “melhor” nem o que as fazem “pior”) tenham de pensar a banda desenhada. Tampouco o mesmo é exigido aos leitores comuns e aos fãs. Os primeiros têm de criar, os segundos ler e apreciar, os terceiros afadigarem-se nos seus gostos sem quaisquer preocupações intelectuais. Ao crítico, porém, compete a instauração de ligações. Delas já falámos antes. Continuo a não vê-las surgir com a expressão, a pertinência, a importância, e até a potência que se desejaria num sistema livre de circulação e divulgação de ideias.

Em relação a anos anteriores, não há muito a acrescentar sobre os que mantêm a sua tarefa mais ou menos conseguida de escrever em publicações periódicas, pelo que não repetirei o que está para trás. Acrescentarei apenas que…

…este ano foi de vacas. Vacas gordas.

Primo. Surgiu um jornal totalmente dedicado à divulgação da banda desenhada, o BD Jornal, nascido do esforço de uma pessoa, Jorge Machado

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Dias (são várias as figuras neste país que recebem o nome - carinhoso – de “carolas”, pois levam mesmo um mundo aos ombros, tarefas hercúleas), ainda que com o apoio de muitos outros participantes, uns mais famosos que outros e já conhecidos da nossa pequena “cena”, outros menos famosos mas não por isso menos contribuidores. O jornal é sobretudo isso mesmo, um jornal, pelo que se centra em certames, festivais, acontecimentos internacionais, entrevistas, e reserva algumas páginas ora a artigos factuais sobre um ou outro autor, reservando ainda uma secção para uma espécie de “estante” sobre o que se têm publicado por cá. Aí apresentam-se muitas vezes textos que mais não são do que copy-paste dos press realease, o que pouco adianta ao termo “crítica”. No entanto, vão surgindo por vezes textos maiores, mais uma vez centrando-se sobre um autor ou sobre um título, em que os escritores de vez em quando conseguem escapar-se de ma simples sinopse seguida de informações e dados e avançam uma tímida interpretação ou pensamento crítico. Sem grandes riscos, pois o encómio continua a ser o signo preferencial do que é editável, mas lentamente será possível obter esse espaço. Não surgiu ainda, que eu saiba, nenhuma controvérsia, a que normalmente estão os portugueses avessos, mas é na controvérsia e na discussão de ideias que isto “anda para a frente”.

Secundo. Das várias secções jornalísticas dedicadas à banda desenhada imprensa, como disse, há pouco a acrescentar, com a excepção da entrada em cena de Luís Chambel, de A Voz de Ermesinde, cujos poucos textos denotam desde já uma preocupação para além da mera notícia de publicação e chorrilho de informações facilmente comprovadas, chegando mesmo a tocar em pontos de extremo interesse conceptual para a leitura e interpretação da banda desenhada. De resto, os autores e críticos competentes continuam nos seus estilos particulares e de alguma busca de sentido, sejam eles mais cingidos a uma integração numa História balizada (João Miguel Lameiras, o melhor neste campo, sem dúvida), sejam eles a apontar para preocupações pessoais sobre uma área que se vai alargando (Nuno Franco, também sem concorrência nesse aspecto). Outros, porém, descambam cada vez mais em “crónicas” personalizadas, de uma intimidade atroz e que são absolutamente improdutivas

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se não mesmo contraproducentes a uma atitude inteligente para com a banda desenhada.

Tertio. Apesar de já ter discorrido sobre essa publicação, merece mais uma vez a nota de que a edição de Roteiro Breve da Banda Desenhada em Portugal, de Carlos Pessoa, foi, acima de tudo, e digo-o sem pestanejar, uma “oportunidade perdida”. Do seu valor crítico, nada há a descobrir. Mas ainda dentro de “edições”, há a salientar, pois para existir crítica é necessário distância e é por isso que se falam de “edições críticas”, há a assinalar a edição de O Príncipe Valente (Livros de Papel), que é uma espécie de aventura filológica no nosso incipiente mas nada displicente mercado de banda desenhada (veja-se o artigo de Leonardo de Sá no BD Jornal no. 2.).

Quarto. A blogosfera está cada vez mais cheia de exemplos de escrita sobre bd. Há os sites que já antes existiam sem grandes alterações (Comics Central), David Soares que se desdobra noutros campos além do da banda desenhada (O Sonho de Newton – osonhodenewton.crimsonblog.com). Várias pessoas criaram pequenos blogs de resenhas curtas, opiniões, copy-pastes, mas….tirando precisamente David Soares, que, apesar de tudo e infelizmente, se tem distanciado da banda desenhada quer em termos autorais quer em termos críticos, pouco se tem visto de francamente interessante do ponto de vista crítico (que não de outro, pois lá têm o seu valor enquanto divulgação, troca de informações, “olha aqui está”, “eu gramei de bué” e outras inanidades do género mas que servem para levar algumas pessoas a procurarem as publicações em questão). Geraldes Lino criou o seu Divulgando Bd (divulgandobd.blogspot.com), que é uma espécie de sua territorialização da internet da multímoda actividade já sabida. Nuno Franco, jornalista e crítico citado acima, montou o seu blog (80fls.blogspot.com), onde também coloca textos sobre bds. Também vários artistas criaram blogs ou sites dos seus trabalhos, agora de cor digo André Lemos (opuntia-syndrome.blogspot.com) e Alice Geirinhas (alicegeirinhas.com), mas raramente falam criticamente de outros trabalhos ou livros ou mesmo das suas criações. Um outro blog de interesse, bastante, é Mania dos Quadradinhos (quadradinhos.blogspot.com), de Rezendes, sobretudo versando aspectos históricos e factuais de uma banda

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desenhada mais clássica, mas um manancial de informações preciosas e de apreciação da arte dos artistas visados, coroadas pela arte original apresentada, que presumo ser colecção pessoal, de criar, por sua vez, grandes invejas. Quanto a mim, criei um blog que, desde a sua fundação, tem já algumas entradas, muito diversas em objectivos e qualidades, como facilmente se depreende, mas onde tento em muitas delas colocar em prática alguns dos princípios já aqui debatidos e posições teóricas e intelectuais defendidas. Caberá a outros julgá-lo, ora no seu conjunto ora os artigos individuais, conceptualmente, já que não posso ter a distância necessária. (Mas repito que pouco me interessam bate-bocas pessoais, mas antes que me dirijam ideias concretas a debater).

Quinto. Outras surpresas estão em publicações que não dedicadas à banda desenhada que convidaram pessoas relacionadas com esta arte a se expressarem. Falo, por exemplo, da Vértice, onde saíram artigos de Pedro Mota e Teresa Guilherme Santos e de Cristina Gouveia (no. 117 – na verdade este é de 2004), Geraldes Lino (no. 124) e dois meus (120 e 124). Seria interessante fazer uma comparação de objectivos conceptuais e realização desses mesmos objectivos dos artigos/autores vários, e sua consequente pertinência ao estado da discussão da banda desenhada em Portugal, mas isso ficará para outra oportunidade. O artigo de Pedro Mota e Teresa Guilherme Santos, por exemplo, apresenta uma série de questões-chave com as quais discordo teoricamente (forma e conteúdo, empatia, etc.), mas é precisamente um artigo que fundamenta e estrutura uma discussão conceptual de uma forma acabada, conseguida. A Nada, publicação dedicada a um território muito sensível das fronteiras entre as artes, as ciências e a filosofia (os quase-abismos da “máquina” Deleuze-Guattari), editou um artigo de Jaime Freire, sobre Frank Miller. Presume-se e espera-se que este número e estas participações se multipliquem no futuro. Outras publicações de menor impacto e visibilidade também abriram as portas, mas a própria dificuldade em as encontrar levaria a uma certa impertinência da minha parte… Simplesmente pour prendre date, indico a publicação “marginal” A Voz de Deus (do Porto). A Mondo Bizarre e a Underworld, por exemplo, mantêm as suas secções de “leitura” e “breves” sobre bd. Finalmente, e com a triste notícia de ter sido o

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último, a Satélite Internacional editou um número (duplo) totalmente dedicado ao texto – com entrevistas, ensaios e resenhas. Alguns desses textos tentam, de facto, levar a discussão geral ou particular das especificidades da banda desenhada enquanto modo (Paulo Patrício, Mário Moura, Jans Balser e Olivier Deprez, eu próprio – que modéstia!) ou de artistas específicos (Nuno Franco)

Continuamos face à ausência generalizada de uma associação das leituras das bandas desenhadas que vão sendo publicadas entre nós, independentemente da sua data de publicação original, da sua pertinência estética face à própria História interna deste modo, das circunstancialidades de execução, produção e edição, a um mais vasto e contínuo (ou descontinuado, conforme a posição teórica) fluxo cultural. Continua-se sobretudo preso à informação, no seu mais pesado sentido de dados em bruto, ou reduzidos à mera notícia. Em suma, continua-se genericamente alheio a uma potencialidade real deste modo, e prefere-se manter uma atitude ora nostálgica, ora debilmente poética (“a banda desenhada faz sonhar”), ora ainda enveredando por territórios perigosos e extremamente redutores, na típica cegueira “aspectual” de tomar o todo pelas partes, ou o modo pelos seus exemplos, como quando se afirma que “a banda desenhada é uma linguagem simples e universal”. Não é. Resta, porém, explicitar-se porque o não é ou porque se a considera como tal. Tal é o papel dos críticos. Não é, independentemente das crenças populares, deixar cair o cutelo.

Edição

Sara Figueiredo Costa

Já é lugar comum falar da crise antes de qualquer balanço dos últimos

A verdade é que ela anda aí e, mesmo sem rosto definido e servindo

para todas as desculpas, tem feito alguns estragos consideráveis em quase todas as frentes. A edição de livros de banda desenhada, como se esperava, não é excepção.

tempos

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O ano que passou ficará marcado pela extinção da Meribérica/ Liber, depois das ameaças e dos sinais de crise que se vislumbravam. A editora que já publicou Astérix ou Lucky Luke, e que recentemente continuava a deter os

direitos de Corto Maltese (para ficarmos pelas séries de maior impacto comercial), vinha perdendo o seu espaço nos últimos anos, com os direitos de vários autores a transitarem para a Asa e com alguma desorganização no catálogo (pese embora as recentes investidas com Akira, ou com Blueberry), tendo acabado por sucumbir às inevitabilidades de um mercado que continua a movimentar-se um pouco à margem do público leitor.

A Asa e a Devir consolidaram, no ano que passou, a sua posição dominadora

no mercado editorial português, assegurando a quase totalidade das publicações que chegaram aos escaparates das grandes livrarias. A Asa prosseguiu algumas séries (como Bouncer ou Gipsy) e iniciou outras, tendo

sido responsável por alguns lançamentos de boa memória como Mort Cinder, de Breccia e Oesterheld (por fim!). A Devir, por seu lado, continuou o trabalho

já consolidado no âmbito dos comics norte-americanos, assegurou a edição de

obras entretanto adaptadas ao cinema (Sin City, de Frank Miller, prossegue em português) e trouxe-nos o segundo volume da série Sandman, um novo volume de José Carlos Fernandes e a sua Pior Banda do Mundo (O Depósito de Refugos Postais) e Strangehaven na Arcádia, de Gary Spencer Millidge, para destacar os que me parecem mais memoráveis. Novidade a registar em 2005 foi o facto de a Gradiva, bem conhecida pelo seu trabalho de edição de tiras cómicas, ter arriscado entrar por outros campos da bd. A edição da derradeira obra de Will Eisner (A Conspiração) e a chegada de Pierre Veys e Nicolas Barral, com Ameaças ao Império, foram as escolhas definidas; veremos o que nos reservam para este ano (veremos, nomeadamente, se haverá alguma coerência na edição de banda desenhada ou se os livros irão surgindo sem grande lógica programática e no esquema ‘fora de colecção’, como tudo indica). Para além da actividade das editoras com maior vertente comercial, 2005 assistiu ao regresso à edição da Polvo, agora sob a forma de colecção, ao trabalho filológico (termo que parece estranho ao mundo da bd, mas que faz todo o sentido) da Livros de Papel e a dois lançamentos da MMMNNNRRRG. O

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volume Borda d’Água / No Tempo das Papoilas, de Miguel Rocha (com uma história reeditada e outra inédita) assinalou o retorno de um projecto editorial sem o qual não é possível traçar a história da banda desenhada portuguesa dos últimos anos e só nos resta esperar que os trabalhos de edição de bd da Polvo e de Rui Brito continuem em força neste novo ano. A Livros de Papel lançou, ao longo do ano, três volumes do clássico O Príncipe Valente, de Harold Foster, numa cuidadosa edição que recupera as pranchas a preto e branco e que, no terceiro tomo (o primeiro, cronologicamente) inclui uma introdução onde se explicam as peripécias editoriais que conduziram a este trabalho. Também a MMMNNNRRRG teve um ano para relembrar: começou com Malus, de Cristopher Webster e acabou com Tribune Brute, um graphzine em serigrafia com assinatura de André Lemos. Longe dos dilemas comerciais da crise e da proliferação de edições sem público à vista, parece que as pequenas editoras continuaram a levar o seu trabalho adiante com toda a calma do mundo e com os critérios centrados no leitor e no objecto livre, mais do que no marketing ou na oportunidade editorial. No âmbito institucional, a Bedeteca de Lisboa editou o belíssimo catálogo do Salão Lisboa 2005, cheio de informação relevante sobre os autores finlandeses que por cá passaram e com alguns textos memoráveis em torno da cena finlandesa de bd e da entropia, e voltou a dar ânimo à colecção Lx Comics com Metamorfina, de Miguel Mocho e João Sequeira. Do trabalho desenvolvido nos cursos do Centro de Imagem e Técnicas Narrativas da Fundação Calouste Gulbenkian surgiu Memórias 10, um livro colectivo muito equilibrado e com fortes hipóteses de ter revelado alguns autores cujo trabalho poderemos acompanhar futuramente. Mais a sul, em Beja, a (também) Bedeteca trouxe algumas publicações que merecem referência, mesmo que fora do âmbito dos livros: fanzines, folhas informativas e Bófias, de Véte. Na Amadora, acompanhando o XVIII FIBDA e as respectivas exposições, saiu mais um catálogo com edição do CNBDI. Os jornais e as suas publicações paralelas não foram tão dedicados à nona arte coo em anos anteriores. O destaque neste âmbito vai para a colecção ‘Bd Série Ouro’ do Correio da Manhã, da responsabilidade da Devir e da Panini, nomeadamente pelo seu último volume, Um Homem que Caminha, de Jiro Taniguchi, finalmente disponível em português.

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Mesmo antes do fim do ano, a Relógio d’Água fez chegar às livrarias um

volume dedicado a Hugo Pratt (O Desejo de Ser Inútil) onde, com o auxílio do diálogo possibilitado pela nobre arte da entrevista, ficamos a conhecer algumas histórias em que o autor de Corto Maltese se confunde amiúde com a sua personagem mais aclamada. Não sei se o ano que se segue vai ser de crise ou de alguma recuperação do mercado editorial de banda desenhada, não sei se

a edição vai continuar concentrada na Devir e na Asa, apenas com projectos

pontuais a surgirem de outros locais, mas o velho lobo do mar parece-me uma excelente companhia, para essa espera e para as outras.

Autores

Daniel Maia

Ano de descalabro e descontentamento, em que o mercado português tal como

o tínhamos deu um abrupto tombo por volta do último trimestre, 2005 foi

também um ano de paradoxos. Se podemos dizer ter havido um forte desinvestimento em edições nacionais, com diversos bons projectos a não conseguirem chegar aos escaparates, é também nítida a miríade de pequenas

iniciativas por parte de grupos privados que agora aparecem, orientadas em especial para a edição de novos autores, que aos poucos começam a fazer-se

Foi preciso o mercado começar a dar o

“canto do cisne” para aparecer entre nós uma nova geração de artistas com

notar. O cosmos tem destas coisas

potencial para o refrescar.

Antes de seguirmos para casos concretos, um breve olhar a dados estatísticos:

Já um degrau abaixo de 2003, 2004 ficou-se pelo número (aproximado) de 50 autores publicados, não devido a álbuns lançados mas por força dos títulos colectivos que deram à costa. Pondo de parte fanzines e publicações não- especializadas que tais, as edições nacionais contam-se agora pela mísera trintena; uma forte quebra se considerarmos que parte delas nem são estritamente volumes (a colecção BD Jazz, os livros da Lx Comics e Colecção

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Toupeira, etc.) e que o número de autores nativos editados é salvo apenas por novas antologias, ficando todavia o valor abaixo do atingido em 2004.

Posto isto, a tendência que mais fez vibrar 2005 – e o único motivo porque o ano fechou com nota positiva – foi a descoberta de diversos núcleos de BD, cada qual com motivação e recursos próprios para dinamizar o sector e, melhor ainda, com autores por dar conhecer:

Se por um lado há muito que é conhecido o grupo de artistas do Atelier Toupeira (Beja), era-nos porém desconhecido quão hábeis eram alguns destes, aspecto que o FIBD/Beja veio prontamente corrigir. No seio do grupo, quem mais atenção chamou foi definitivamente Susa Monteiro que, como autora- revelação do ano, estendeu o ar da sua graça a outras iniciativas, tendo rapidamente sido pescada para projectos que prometem ofuscar 2006. Criado sob os mesmos moldes e usufruindo de iguais oportunidades, os desenhadores da associação AJCOI BD pecam apenas pela sua inexperiência nestas lides. Todavia, com o festival de BD que promovem na sua cidade (Pinhal Novo), os contratos de trabalho firmados com o edil e a revista Sketchbook que acabaram de lançar, este grupo dispõe de tudo o que precisa para aos poucos se ir afirmando no panorama bedéfilo. Outro, quiçá mais auspicioso grupo por destacar é o Núcleo BD da FBAUL. Como um polvo com os tentáculos ligados a diversas entidades, estúdios e associações académicas, este núcleo chegou para agitar o meio e desafiar à produção, com promessas de editar os melhores resultados na sua revista Blazt, um periódico criado com os olhos na Europa. Como projecto com fortes garantias de projecção, os dois números da Blazt ajudaram a destacar o versátil Ricardo Cabral, sendo igualmente promissor o jovem João Martins, vencedor do 1º prémio do concurso de BD do FIBD/Amadora. De todos, o conjunto formado pela Citen é porventura aquele que esgrimiu maior persuasão indie. Activo na divulgação das suas acções, este curso propiciou obras de cariz laboratorial com alguns bons resultados gráficos a surpreender, em especial numa formação essencialmente virada para a vertente narrativa. O seu volume Memória 10 ficou, pela variedade de propostas autorais, como uma das melhores surpresas do ano. A associação

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de Richard Câmara ao projecto, bem como a sua distinção no festival fumetto, continua a fazer dele um dos mais apetecíveis autores portugueses do momento. Uns mais capazes que outros, cada um destes núcleos dispõem de valiosos meios institucionais (raros de conseguir na presente crise) para dirigir à actividade bedéfila e assim chamar a atenção dos leitores e dos críticos do sector; para além possuírem estúdios onde operar e publicações que objectivem a sua produção. Com toda esta benesse há aqui uma responsabilidade de se meter mãos à obra, pois destes vai depender a excitação possível de trazer à nossa BD em 2006.

Fora estes quatro principais grupos, há que mencionar de seguida a total mudança na maré que se observou nos concursos de BD no que toca à nova geração de talentos. Após dois ou três anos de permanente desgosto perante um imenso deserto de ideias nos concursos tidos por esse país fora (dos quais o promovido pelo festival da Amadora é um bom barómetro), o FIBD/ Amadora 2005 – a julgar pela quantidade e qualidade das propostas – catalizou a dita mudança. Nem preciso ficar-me pelo grupo de premiados, cada qual igual a si mesmo, como se os seus trabalhos fossem um copo de água fresca; inesperadamente por todo o concurso, umas mais concretizadas que outras, houveram diversas propostas a demonstrar potencial criativo em franco desenvolvimento. Perante esta multiplicidade de abordagens é contudo notória a expressiva influência que os anos recentes de exposição à cultura dos mangá/anime, bem como o movimento de ilustração característico da comunidade nacional tiveram junto dos autores. Foram estas, mais do que qualquer outra, as duas tendências que mais alto falaram nos traços dos novos autores, e aquelas que certamente mais verve prometem cunhar na Nona arte portuguesa.

Passando para os meandros da edição regular, foi José Carlos Fernandes quem uma vez mais reinou no mercado. Com dois álbuns editados, entre o esperado quinto volume d´A Pior Banda do Mundo e o peculiar A Última Obra-

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prima de Aaron Slobodj, o prolifero autor esteve ainda em boa forma no seriado Agência de Viagens Lemming, publicado durante o verão no Diário de Noticias, tendo também integrado a colecção Série Ouro – feito de respeito para um autor português, por figurar entre os mais populares clássicos da BD mundial. Curiosamente, as duas outras facções de maior protagonismo no mercado são em tudo antagónicas! Por um lado, temos a subsistente narrativa histórica, com os créditos a irem para José Garcês (também em foco numa mostra individual do CNBDI) com três álbuns editados, José Ruy e Jorge Magalhães. No outro canto do ringue, temos a vanguarda estética representada por Tiago Manuel, com os seus trabalhos a morder as fronteiras da BD, junto com André Lemos e João Cabaço, em artbooks da Mmmmnnnrrg e Chili com Carne.

São também cada vez mais frequentes as menções a andanças de autores

portugueses em mercados estrangeiros. Embora estejamos longe de um êxodo em massa para mais verdes paragens, esta saída profissional apresenta-se como a principal bóia de salvação para quem procura fazer carreira na BD. Enquanto que em França, num ano de poucas ocorrências, o destaque vai para

a tomada de assalto por Pedro Zamith, Pedro Nora e outros das edições BD

Jazz (difundidas por cá pelo Diário de Noticias), do outro lado do Atlântico, na

indústria de comics, os casos também se acentuam. De esporádicas participações em revistas até desenho em antológias, aqui e ali tem-se notado um contínuo desmoronar da muralha a transpor, com o melhor exemplo disso a continuar a ser Eliseu Gouveia. Voltando a associar-se a editoras independentes para uma apreciável fornada de títulos, o autor destaca-se em The Return of the Mummy, que o juntou ao escritor com o qual se havia

estreado em 2004, com Cloudburst (Devir). Ainda uma chamada de atenção para o projecto Shiki de João Lemos e C.B. Cebulski (ex-editor da Marvel) que,

já tendo sido anunciado, promete dar que falar lá para Abril.

Aproveitando para mudar de registo, há a assinalar excelentes presenças no que respeita a autores estrangeiros. Embora as fenomenais propostas de Esad Ribic, George Pratt, Gibrat, Civiello, Frezatto, Hermann, Bobillo, Marini, e Victoria Francès tenham surpreendido os leitores, penso que o ano foi principalmente marcado pela BD pura e crua, a preto-e-branco. Frank Miller

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dominou, e o público pôde ser convenientemente apresentado a mestres do calibre de Alberto Breccia (com dois grafismo diferentes!), Guido Crepax, e os sempre apreciados Eduardo Risso e Jordi Bernet; havendo ainda espaço para as apostas invulgares dos estilos de Christopher Webster, Richard Corben, Jirô Taniguchi e Roman Dirge.

Por fim, num ano em que se celebrou – com várias mostras cá e no estrangeiro

– o centenário do falecimento de Rafael Bordalo Pinheiro, reconhecido como o

precursor da banda desenhada em Portugal, houve ainda tempo para comemorar os 30 anos de carreira de José Abrantes. Há três décadas a trabalhar no ramo da ilustração e BD infanto-juvenil, também ele esteve em foco com uma retrospectiva sua no FIBD/Amadora, junto com o autor em destaque deste ano, Ricardo Ferrand, numa merecida e variada mostra. Em nota de despedida, fica o reconhecimento a autores desaparecidos este ano: Enquanto o mundo dizia adeus ao grande Will Eisner (e continuará a dizê- lo por muitos mais anos…), criador do formato novela gráfica e um dos expoentes máximos da BD mundial e da sua linguagem técnica, nós dissemo- lo ao não menos reputado Eduardo Teixeira Coelho, o mais popular e distinguido desenhador português de sempre. Partiram ainda Nuno Simões Nunes, autor em proeminência nos anos 50 e 60, com participações em Cavaleiro Andante, e Gonçalo Garcia, humorista de SAD – Rent-a-Player.

Festivais

João Miguel Lameiras

Depois de um ano de 2004 marcado pela crise, também ao nível dos Festivais de BD, 2005 deu sinais de uma outra dinâmica, mas que não deixa de ser assombrada pelos preocupantes sintomas de que certas fórmulas caminham

para o esgotamento. Felizmente chegam sinais de renovação do Alentejo, onde

a primeira edição do Festival de BD de Beja revelou potencialidades que se esperam ver confirmadas.

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A nível dos Festivais de dimensão internacional, este foi um ano em cheio (pelo

menos em quantidade), em que além do Festival da Amadora e do Salão Lisboa, voltámos a ter o Salão do Porto, num regresso infelizmente apenas em formato virtual. Começando pelo Festival da Amadora, foram nítidas as melhorias (cenográficas e de programação) em relação à edição anterior. Mais adaptado ao espaço da Estação de Metro da Amadora, o Festival comemorou os 100 anos do Little Nemo de Winsor Mckay com uma exposição que cometia a proeza de juntar no mesmo espaço três originais de Winsor Mckay (e uma belíssima “falsificação” de Bruno Marchand), a originais de Hergé (incluindo uma raríssima prancha feita a 4 mãos com Jacobs), Moebius, Frank Pê, Hermann e Milton Caniff, entre outros. Também em termos de autores presentes, estivemos bem longe da pobreza franciscana da edição anterior, com um cartaz bastante bem preenchido, onde não faltavam autores como Vitorio Giardino, Rick Veitch, Al Davidson, Cameron Stewart, Alekzandar Zograf, Ed Brubaker, Max, Sean Philips, Jim Woodring, Leandro Fernandez, Garry Spencer Milidge, Jean-Pierre Gibrat, Bruno Marchand, Stassen e François Boucq. Mas estas melhorias (visíveis também a nível da organização do espaço, bem menos labiríntico do que no ano anterior, mas mesmo assim escondendo cuidadosamente a zona comercial, não fosse os visitante darem com ela…) não escondem a desadequação do espaço das galerias do Metro para receber os visitantes do Festival (já estive em saunas mais frescas…) e a preocupante sensação, transmitida pelas sessões de autógrafos, em que o público era exactamente o mesmo que em anos anteriores, de que o Festival da Amadora

não está a conseguir criar novos públicos, apesar da facilidade de acesso que

o Metro proporciona.

Já em relação ao Salão Lisboa, que prosseguiu com a sua itinerância pela cidade, manteve-se uma preocupante incapacidade de atrair visitantes, talvez pouco motivados para descobrir os talentos escondidos da Banda Desenhada finlandesa, ou ainda menos dispostos a pagar o bilhete de entrada no magnífico espaço da Estufa Fria para verem a exposição, encenada com a sobriedade habitual de Pedro Cabrita, mas que nem sempre aproveitava devidamente as potencialidades cenográficas de cada trabalho.

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Mesmo uma excelente ideia, como foi a de distribuir o Catálogo do Salão com o jornal Público não parece ter atraído grandes visitantes e foi até deprimente ver que no encontro de Emanuel Guibert com o público, esse mesmo público se resumia a dois jornalistas (um deles, por acaso, do jornal Público…). Restou a oportunidade de descobrir o trabalho do colectivo Le Dernier Cri e, principalmente, ver em Portugal a obra de BD e pintura do italiano Guido Buzzelli, exposto no Museu da Cidade. Quanto ao Salão do Porto, que completou 20 anos de vida em 2005, sem meios financeiros para voltar ao Mercado Ferreira Borges, ficou-se pelo cyber- espaço, através de uma exposição virtual (ainda visitável em www.sibdp.com) que nos fez ter saudades do Festival nacional que melhor soube conciliar a BD alternativa com as propostas mais dirigidas ao grande público e que deu a descobrir aos visitantes alguns dos maiores nomes da BD mundial, antes destes serem famosos (Miguelanxo Prado e Joe Sacco são só dois de muitos exemplos possíveis). Quanto aos Festivais de menores dimensões (e ambições) tirando as Jornadas da Sobreda, que prosseguem o seu caminho, tudo aconteceu no Alentejo, onde para além do Moura BD, surgiu o Festival de BD de Almodôvar e o Salão de Banda Desenhada de Beja. Este último foi mesmo a grande surpresa do ano, pela qualidade das exposições e pelo dinamismo que a recém-criada Bedeteca de Beja e o seu principal responsável, Paulo Monteiro, revelam. Projecto com pernas para andar e vontade de crescer, o Salão de Beja foi a prova de que mesmo em tempos de crise há esperanças de renovação. Isto para além de ter revelado um dos mais fulgurantes talentos gráficos da BD nacional, saído do Atelier Toupeira, organizado pela Bedeteca de Beja: Susa Monteiro. Fixem este nome. Ela ainda vai dar muito que falar!

Fanzines

Marcos Farrajota

Mais um ano em que o resumo sobre os zines / edição Do It Yourself é analisado de uma forma (demasiada) esquemática, não por preguiça mas por

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pragmatismo dada às muitas variáveis deste tipo de edição em Portugal. Houve

uma evolução com características nítidas até 2001 que têm sido pouco a pouco pulverizadas com a solidificação da edição DTP (desktop publishing) que inclui

a expansão para o ciberespaço, e a crise económica do nosso país cujos

efeitos são difíceis de contabilizar. Nesta fragmentação que nos acompanha desde 2002 não tem havido novidades até este ano surgirem uma série de novas publicações que podem ser colocadas num saco X e que obrigam a uma observação mais critica (parte X) da minha parte.

Assim sendo, por tópicos o que 2005 pariu:

I. Keep on truckin’:

Os zines “Porca Frita”, “Aqui no Canto”, "Na verdade tenho 60 anos" e “Gatafunho” continuaram a sair. Foi mais um ano de feiras de zines e edições independentes em sítios tão diversificados como nos Jardins do Estoril e na Caixa Económica Operária

(Lisboa) ou em eventos como Cidade Desconhecida (Viseu), Salão Lisboa 2005, BejAlternativa, Feira Laica II (na Bedeteca de Lisboa), Zurzir o Gigante (Lisboa), Festival de BD do Pinhal Novo e Encontro de BD de Sto. Tirso ou no festival Superstereo Demonstration (Linhares da Beira).

O zine suíço “Milk & Wodka” continuou com a sua quota de participação anual

de autores portugueses. Dos independentes até foi um ano com algumas novidades: a MMMNNNRRRG editou o “Malus” do britânico Christopher Webster, a Associação Chili Com Carne lançou o último volume da CCC Ilustrada (Mesinha de Cabeceira) e um livro de esboços de João Cabaço (“Do acidente e da culinária”), o zine Zundap investiu no “Piolheira Blues” de Artur Varela, e Paulo Patrício publicou o segundo número do desdobrável “Le Sketch” com esboços do norte-americano Matt Maden.

II. Zombies:

Regressou a Feira de Fanzines de Almada, após 4 (longos) anos de interregno, com uma programação simpática mas esqueceram-se que os zines “já não

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existem” (em quantidade e no tradicional formato de fotocópia) e não souberam gerir esse problema da melhor forma. Esperemos que ainda haja uma edição em 2007 e não em 2009.

A revista “Satélite Internacional” demorou um ano a deitar cá para fora o

número duplo 4/5 (especial Sputnik e sem imagens). Só publicou – e compensou o desafio - textos sobre bd escritos pelos alguns dos melhores críticos nacionais e internacionais. Um documento único em Portugal.

A “Lx Comics” voltou com um número, depois da contabilização negativa de

2004. Relembro, que esta situação – a ausência de publicação em 2004 – foi

devido à falta de propostas e não devido a questões orçamentais. Um novo número já está a ser preparado para 2006. Espero que estejamos numa situação de recuperação da colecção!

III. Reload

Uma emergente corrente de autores de bd, ilustradores e críticos tem criado os

seus sítios na Internet, sobretudo na forma de blogues: André Lemos, Barbara Ròf, João Maio Pinto, José Feitor, Rui Gamito, Geraldes Lino, Pedro Moura, Nuno Franco, etc… Também houve uma participação portuguesa tímida no site www.40075km- comics.net – organizado pelo colectivo belga L’Employé du Moi.

IV. Fim de ciclo?

David Soares aparentemente abandonou o seu projecto editorial Círculo de Abuso, onde editou 7 edições (não só de bd mas também de poesia, conto e ensaio) entre 2000 e 2004. Demonstrando cansaço perfeitamente legítimo pelas lides (auto)editoriais, optou por uma editora já estabelecida, a Polvo, para o seu segundo livro de contos.

V. Back to the future

O workshop do colectivo francês Le Dernier Cri promovido pelo Salão Lisboa

2005 trouxe dois frutos: por um lado, o resultado prático do workshop que foi a saída de 50 exemplares do graphzine “Tome Celo” com os trabalhos dos

participantes; por outro, a aplicação desses moldes experimentados por André Lemos (que tinha participado no inspirador workshop), em “Tribune Brute”,

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edição da MMMNNNRRRG com o apoio de Mike Goes West. Mais objectos destes para o futuro? Espero que sim…

VI. Falsos novos Novidades de zines não houve – e se houve nada que chamasse a atenção – mas na prática houve novos títulos vindos de autores/editores já conhecidos, que continuaram a produzir ora com novos conceitos ora metamorfoseando os títulos das suas publicações. O divulgador mais activo de sempre, Geraldes Lino, apanhou uma série de autores para o seu novo “Jazzbanda” (dedicado ao Jazz) e para o “Nemo no Século XXI” (para homenagear o Little Nemo in Slumberland). Joana Figueiredo fez o “The Last Hurrah” (incluindo trabalhos de Rafael Gouveia, Pitchu, José Feitor, André Lemos…) e o emigrado Pitchu o “Car Crash” (versus o colectivo norueguês Dongery). Destaque, pela qualidade, experimentação e regularidade dos zines de Marco Mendes, Miguel Carneiro & cia, “Lamb Haert”, “Hum hum estou a ver…” e “Deja-me Solo! Estou careca e a minha cadela vai morrer”… Para 2006 prometem novidades pujantes!

VII. Easy come, easy go Do underground para o mainstream, só houve o João Maio Pinto a substituir o Rui Ricardo na série de bd “Superfuzz”, no jornal “Blitz”, mas poucos meses a série foi cancelada – dada às remodelações internas da redacção e crise do jornal. Nenhuma explicação foi dada aos fãs da série. A edição ilustrada do “Público” – para o Salão Lisboa 2005 como tem sido hábito todos os anos desde 1998 – teve direito a um interessante “refresh”. Nessa edição em espaços predefinidos do jornal foram convidados autores de bd (e ilustradores) para realizar a sua própria “crónica gráfica-narrativa” em vez de da mera ilustração de notícias. No caso da bd – que me parece que correu de forma mais incisiva e sumarenta – foram publicados autores directamente vindos dos “indies” como João Maio Pinto, Sandy Gageiro e José Feitor (do extinto Zundap), Marte e Pedro Brito, Francisco Sousa Lobo. Geraldes Lino tem também conseguido mobilizar autores para serem publicados no jornal “Mundo Universitário”, tendo já passado por lá o

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Pepedelrey, JCoelho, etc… curiosamente consegue fazer com que os autores sejam pagos ao contrário do gigante “Público”!

VIII. Work A inaugurada Bedeteca de Beja elaborou uma exposição dedicada aos “10 anos do Submarino”. “Submarino” é um fanzine de bd que existe desde 1995, resultado do Atelier de BD organizado pela Câmara de Beja para crianças entre os 7 e os 13 anos. Pretende essencialmente estimular nos jovens o gosto pela bd, o "Submarino" é o seu veículo de publicação dos resultados dos seus pequenos participantes. Curiosamente «torna-o num dos fanzines mais antigos do país, o que não deixa de ser um facto interessante.» Houve worshops em Cascais (de zines) e em Braga (de bd) que resultou no zine “Velha-Desenhada”. Os resultados foram zines em fotocópias, nada a declarar.

XIX. DIY «“Zurzir o gigante” foi um evento organizado por um grupo informal de artistas gráficos com o objectivo de proporcionar a compra de originais de ilustração ao mesmo tempo que criaram um espaço agradável de convívio e troca de experiências artísticas durante três dias de Dezembro. Esta iniciativa insere-se numa lógica que pretende a proximidade entre o público e os artistas, e a possibilidade da aquisição de obras de arte a preços acessíveis, desafiando assim a filosofia das galerias de arte, através da realização de eventos organizados e promovidos pelos próprios artistas, sem intermediários. A experiência filia-se em outras já ensaiadas e plenamente conseguidas, como "A Arte dos Trezentos" (2001), as "Fantasias de Natal" (2003) e as mostras de ilustração que decorreram paralelamente às diferentes edições da "Feira Laica" – a última realizada na Bedeteca de Lisboa.» Apesar do texto acima ser um excerto adaptado da nota de imprensa da organização, serve para relembrar que (pelo menos no Natal) há sempre um grupo que inventa uma capacidade sinérgica temporária para realizar um evento que divulga “artes gráficas” (bd incluída) sem apoios institucionais de relevância. E que consegue de uma forma ou de outra impressionar os meios artísticos raquíticos da capital pela frescura e sinceridade das propostas. Estes

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eventos mostram o quanto um conjunto de pessoas pode criar uma diferença no meio. O problema é que "colectivo” em português também significa “temporário”.

X. Novos Rituais de Passagem A bd portuguesa de 2005 tem uma nova característica curiosa em relação ao seu passado, nomeadamente foi um ano de proliferação de projectos editorais que apoiam a produção amadora. Da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (FBAUL) nasceu um Núcleo de BD que editou já dois números da revista “Blazt” (o número zero intitulava-se “Blastmagazine”), a Bedeteca de Beja lançou a revista “Venham +5” e a colecção “Toupeira” (uma mimética da Lx Comics), a AJ-COI começou a revista “Sketchbook” e o CITEN publicou o livro “Memórias 10” – sendo que a direcção deseja continuar a editar livros dos participantes dos seus cursos de BD, Ilustração e Argumento. A chatice destas edições é que todas elas são cheias de boas intenções mas falham naquilo que se pretende: bd nova, bd feita por autores que tenham coisas para dizer, bd que se tenha prazer de ler - ou um incómodo pela novidade criativa. A maior parte – senão todos – dos autores não conseguem criar discursos próprios para podermos destacar um – talvez haja um, o Ricardo Cabral (da “Blazt”) exclusivamente pela sua extraordinária capacidade técnica gráfica. O que acontece é que existem programas que estão a ser cumpridos: o CITEN a incentivar uma experiência para-pedagógica, o Núcleo da FBAUL a projectar os seus alunos, a Bedeteca de Beja o talento local, etc… mas nenhum conseguiu fugir do “talento verde” cheio de clichés e repetições de ideias gastas, resultado contra a maré especialmente numa era em que há mais informação disponível (via lojas, festivais, Internet) e que a bd vive tempos de perfeita expansão de temas e formas – independentemente dos radicalismos, temos desde o jornalismo ao naíf, dos jogos oubapos à pintura, etc… Gosto de pensar que isto é o início de algo que irá amadurecer no futuro mas se acrescentarmos o facto que publicam na alçada de instituições – a AJ-COI é uma associação que depende da iniciativa privada do seu grupo fundador uma vez que não está inserido numa câmara municipal ou numa escola – parece que estamos no pior paternalismo que é tão típico em Portugal. Receio que

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maior parte destes principiantes ficariam encostados à bananeira se não

tivessem tido estes produtores / editores a publicar os seus trabalhos sem grandes exigências.

A desilusão que sinto neste desperdício de meios não me leva a declarar que

estes projectos não devem existir ou que não mereçam apoio, o que me incomoda é a falta de consciência dos seus intervenientes que parecem necessitar preencher os egos invés de quererem criar um trajecto artístico – eles dirão que não, claro – e pior, o que dá a entender é que a “iniciativa privada” está morta, não é possível concretizá-la ou ninguém quer concretizá-la ignorando o sucesso que venha a ter ou não. Parece o que aconteceu nos anos 90 já não existe, relembro, que foi a iniciativa privada dos autores que

construíram as suas carreiras (ou se preferirem experiências) talvez porque esses autores tinham algo para dizer de tão urgente que tiveram de ir em frente de qualquer forma fosse com zines fotocopiados, fosse com pequenas editoras, etc… Talvez por ter vivido esses momentos que agora pareço um reaccionário mas desta mão cheia de edições não houve uma única vez que tenha sentido algo na sua leitura. Serei eu? Como projectos editoriais parece que estamos perante um limbo ou uma “terra de ninguém” porque não sendo eles mediáticos (foram ignorados na essência seja pela imprensa generalista quer pela especializada) e nunca ultrapassando

a baixa tiragem de 500 exemplares parecem que se inserem nesta secção de

“zines e edição independente” mas acho que eles não tem o pathos do DIY. Não tem a selvajaria da criação. De todos, o mais genuíno (e para mim logo o mais interessante) parece-me que será o “Sketchbook” pela forma como estão a trabalhar. Elaboraram um concurso e um festival de bd para apanhar talentos

e lançaram o desafio para explorá-los. Nas suas páginas almeja-se que os

autores produzam bd’s de 10 páginas – cada número trará 2 bd’s de autores diferentes – sem alguma espécie de tema predefinido. Mas também tinham de ser eles a porem o pé na poça ao escrevem algures na nota de imprensa que em Portugal «também temos Morrisons, Moebius, Palmiottis e Isanoves, que merecem que lhes seja dada uma oportunidade». Assumir o cliché como apanágio de um possível profissionalismo parece-me um bocado parvo. Pergunto-me se eles não podiam dizer que o que temos é este tipo com nome bem português e que ele vale por si só, que esse tipo não é o Grant Morrison e

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ainda bem porque no mundo já existe um e não queremos mais Morrisons caso contrário o mundo seria neutral. A bd portuguesa já criou os seus fenómenos únicos e inimitáveis como o Filipe Abranches ou a Ana Cortesão sem este discurso entre o naif e o pretensioso. Não é isso que interessa?

Investigação

Adalberto Barreto

Mais um ano e mais uma análise à pouca investigação publicada em Portugal. Esperemos que com a polémica instalação do MIT na ditosa pátria, aumente também a investigação em banda desenhada.

Tentando simplificar e demarcar aquilo que neste texto entra como investigação, na linha do que foi referido nos textos dos anos anteriores, consideramos como investigação:

1) Trabalhos publicados (comercialmente ou não) em qualquer espécie de

suporte;

2) Trabalhos publicados através de qualquer medium narrativo (escrita, banda

desenhada, documentário, filme, …);

3) Trabalhos onde ocorram, separada ou cumulativamente, um dos seguintes

requisitos:

a) Consulta de outras fontes externas em relação à obra, autor ou assunto

principal do trabalho (e.g. a existência de uma bibliografia final é forte indício de

se tratar de um trabalho de investigação). Ou seja é necessário que não seja apenas uma opinião ou ensaio sobre…

b) Depoimentos de autores, ou outras testemunhas sobre factos que tragam

nova informação ao universo que estamos a analisar;

c) Dados estatísticos, resultantes de entrevistas, questionários ou inquéritos

sobre o universo da banda desenhada em qualquer disciplina ou ciência.

d) Trabalhos sobre edições históricas publicadas em Portugal.

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LIVROS Em ano de centenário do mais importante caricaturista e humorista gráfico da história de Portugal – Rafael Bordalo Pinheiro – duas obras foram publicadas para assinalar a efeméride e ambas são um autêntico “regalo para as pupilas” (www.tebeoesfera.com, 2005). A primeira a foi publicada em Março pela Hemeroteca e serve de catálogo da exposição realizada nos Paços do Concelho da CML entre 21 de Março e 24 de Junho. O título é «A rolha:

Bordalo» e teve como principais colaboradores Álvaro de Matos (director da Hemeroteca), Joana Balsa Pinho, Marta Nogueira e Paula Borges. A segunda obra «Rafael Bordalo Pinheiro: fotobiogafia» teve como autor e investigador o João Paulo Cotrim. Sendo uma fotobiografia contém inúmeras fotografias da época, mas também reproduz páginas de revistas e algumas ilustrações. Segundo o site supracitado «o trabalho de Cotrim deixa claro, em primeiro lugar, a sua enorme paixão pela banda desenhada e o seu conhecimento apaixonado pela obra de Bordalo Pinheiro».

Destinada a um público-alvo generalista, interessado ou com curiosidade sobre

a história da BD portuguesa «O roteiro breve da banda desenhada em

Portugal» é também um breve regalo para os olhos. Contudo, parece-me que falha na sua primeira metade enquanto livro. E falha porque que não existem

ou são poucos os adjectivos. A opinião do autor. O enquadramento das bandas

desenhadas que estão a ser descritas com a política, a economia e a sociedade. E sobretudo um enquadramento em que se note prazer de quem escreveu. Penso que por esse motivo quem lê a primeira parte da obra fica com a sensação que está a ler uma lista telefónica. As frases sucedem-se fria e quase mecanicamente mais ou menos com os seguintes elementos: autor – título da obra. revista. datas. editor. formato. autor – título da obra. revista. datas. editor. formato. autor – título da obra. revista. datas. editor. formato… Parece um dicionário por organizar. Estão lá todos os elementos para constituir o ponto de partida para um bom dicionário de autores, títulos e personagens da BD portuguesa, excepto a separação das entradas, as remissivas e a organização alfabética.

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Quanto à segunda metade do livro já se nota um maior entusiasmo do autor.

Agora não sei se o problema é meu, que a partir dos anos 70 começo a ler BD pelo que os títulos e os nomes já me são mais familiares e interessantes. Ou se

o próprio autor se sente mais à vontade para escrever com emoção a partir dos anos 60. De qualquer modo, não há bela sem senão, Carlos Pessoa ao ganhar entusiasmo com os adjectivos esqueceu-se de alguns substantivos nomes

próprios obrigatórios, como no caso do “Loverboy” que omitiu o argumentista e

a BD ficou só com o desenhador.

Em relação à crítica que faço ao livro, não deixo de referir que corro o risco de venire contra factum proprium. Ou seja, é natural que neste texto sobre investigação também caia no mesmo deficit e me entusiasme mais a escrever sobre determinados trabalhos que tive o prazer de ler, do com outros cuja leitura foi um pouco pela diagonal, como o exemplo que se segue…

Publicado originariamente pelas Editions Robert Laffont em 1991 a Relógio d’Água publicou em 2005 «Hugo Pratt : o desejo de ser inútil», mais de 250 páginas de entrevistas a Hugo Pratt conduzidas por Dominique Petiffaux. Muito resumidamente trata-se de um «livro profusamente ilustrado e publicado poucos anos antes da sua morte, e que explora os mistérios da sua vida» (www.bedeteca.com, 2005).

Pela Bedeteca de Lisboa foi publicado o catálogo geral «Salão Lisboa, 2005». Tal como sucede com a revista «Satélite internacional» parece-me que a maior parte dos trabalhos nele incluídos se enquadram mais num registo de ensaio sobre BD contemporânea do que investigação, embora a fronteira entre ambas seja de difícil demarcação.

ARTIGOS

Nesta rubrica, não irei fazer uma análise exaustiva, mas apenas uma selecção

dos textos que me pareceram mais relevantes, face também aos critérios expostos no início.

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Catálogo do Festival da Amadora

Daniel Barbieri em «Sonhos da China» escreve provavelmente o melhor texto do catálogo. Uma boa mescla sobre Freud e seus discíplos, “onírismo” e a separação das águas (com definições precisas) entre banda desenhada fantástica e onírica. O que pensávamos que é onírico afinal não é. É fantástico!

«O sonho comanda a arte» (Leonardo de Sá) é um texto que aborda com interesse o “sonho” nos primórdios da banda desenhada americana, com uma pequena incursão final na BD europeia e portuguesa. Para além deste texto o autor também escreve um útil artigo biográfico sobre Carlos Alberto Santos.

Do trabalho exaustivo de Pedro Mota, que escreveu cerca de 30 artigos para catálogo do Festival, destaco a pesquisa que efectuou sobre o sonho na BD, pesquisa essa que começa antes de McCay e vai até à BD contemporânea, dividindo o trabalho por áreas geográficas (BD americana, franco belga, de expressão latina, manga e portuguesa). Creio no entanto que a interpretação do tema “o sonho” tenha sido um pouco extensiva demais. Não havia fronteiras para delimitar aquilo que devia ser objecto de análise ou não. Assim encontramos nestes textos considerações sobre a mera ocorrência da palavra “sonho” no título de uma obra, à própria representação icónica do sonho na bd, como a representação de pequenos sonhos de heróis famosos (quanto a mim estas são as partes menos interessantes da investigação), para passarmos à análise de obras onde o sonho, o fantástico são o próprio conteúdo principal da obra (e.g. Sandman, Philémon, etc…), culminando, por último, no sonho biográfico. Na representação dos sonhos. Ou seja no trabalho de autores de banda desenhada que registam regularmente os seus sonhos (sonho não entendido metaforicamente, mas fisicamente). Esta última é a área mais interessante da investigação, daí o destaque para o artigo “Dreamcomics”, com longos depoimentos de Aleksander Zograf e Rick Veitch onde, entre outras informações, os autores nos revelam a adequação perfeita da banda desenhada como meio para representar a experiência do sonho. Destaque também para o artigo biográfico sobre Miguel Rocha, em que para além duma

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análise exaustiva à obra do Miguel, sobressai também a opinião dele sobre a situação da BD em Portugal.

Muito agradável é a leitura da biografia de «Eduardo Teixeira Coelho» de Geraldes Lino, alguém que escreve sobre a banda desenhada portuguesa com rigor e com a paixão de um adepto de futebol, a título de exemplo atente-se a esta passagem sobre o ETC “…há que sublinhar a espantosa capacidade de trabalho e a rapidez de execução deste exímio esquerdino”.

PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS Mais um ano e mais um Satélite Internacional. Desta vez os números 4 e 5 onde destaco o texto de Domingos Isabelinho «Ut pictura poesis» que me volta a “baralhar” os conceitos que já estavam arrumadinhos no hemisfério esquerdo do cérebro. Afinal a banda desenhada não tem de ser narrativa. Pode ser uma pura estética estática e a pintura ou a ilustração podem conter (e contêm muitas vezes) narrativa. Os artigos do Pedro Moura, do Paulo Patrício e a entrevista do Nuno Franco com a Anke Futchenberger também merecem um destaque.

Em Abril de 2005 saiu nas bancas um novo periódico generalista de divulgação da banda desenhada. Trata-se do BD Jornal que já vai n.º 9 um jornal que resulta sobretudo do esforço e da dedicação do seu director J. Machado Dias.

Também em 2005 saíram 4 números do «Boletim do Clube Português de Banda Desenhada». Destes números o destaque vai para o assinalável estudo sobre a revista espanhola “Chicos” (homóloga da portuguesa Mosquito) por Fernando Cardoso com um notável enquadramento histórico do franquismo e da guerra civil espanhola, bem como o trabalho dedicado ao herói Adam Strange que inclui a longa história do personagem por Paulo Duarte.

INTERNET Na Internet os destaques vão para o XII Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto (www.sibdp.com), que regressou em 2005 com um Salão Virtual. Em princípio esta nota não seria digna de destaque neste espaço sobre

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a investigação, contudo dada a quantidade de informação histórica disponível no site não podíamos deixar em branco. Para além do salão há que assinalar o Weblogue «Mania dos Quadradinhos» (http://quadradinhos.blogspot.com/) um autêntico repositório de informação sobre os quadradinhos (nacionais e estrangeiros) clássicos esquecidos. Em queda livre regista-se a investigação no site Centralcomics que agora é, cada vez mais, um espaço comercial em linha.

TESES ACADÉMICAS, Não temos notícia da conclusão de nenhuma tese sobre banda desenhada. Está, no entanto em curso, no Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa uma tese de Mestrado em Filosofia Estética intitulada «A memória na banda desenhada». Um estudo que incide sobre o trabalho de um grupo de autores franceses contemporâneos, coordenado por Maria Filomena Molder e Jan Baetens. O mestrando é o Pedro Moura.

CONCLUSÕES:

Num mercado como o português a investigação é sempre tão escassa que nem se pode falar em crise. Noutros mercados mais competitivos são as próprias editoras privadas que publicam a grande maioria dos trabalhos de investigação. Em Portugal isso não acontece. No ano de 2004 a ASA ainda se aventurou no mercado com um livro dedicado ao Vasco Granja. Mas este ano não houve nada. A ASA e a Devir, as editoras sobreviventes do boom editorial de há uns anos para cá não publicam absolutamente nada neste domínio. Salvou-se a Relógio de Água com a tradução de uma obra publicada em França em 1991 de investigação sobre um grande autor italiano e a Assírio e Alvim (com a indispensável ajuda de patrocínios públicos) com a fotobiografia do Rafael Bordalo Pinheiro. De resto os catálogos dos Salões de Lisboa e da Amadora, O breve roteiro da BD e o Catálogo do Bordalo: a rolha têm todos por trás a chancela editorial de entidades públicas.

Um quadro comparativo mostra-nos a quantidade de monografias publicadas em Portugal sobre banda desenhada, nos últimos 6 anos.

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2000 – 7

2001 – 5

2002 – 4

2003 – 3

2004 – 6

2005 – 4

É assim que as coisas têm andado. Num país onde as pessoas lêem pouco. Lêem ainda menos banda desenhada, é normal que não exista grande interesse por este tipo de edições. Salve-se a abertura da nova Biblioteca da Bedeteca que em duas frentes distintas criou, por um lado, um novo espaço de preservação de obras raras para os investigadores (centro de documentação) e, por outro, um espaço de promoção da leitura de obras recentes (biblioteca de banda desenhada). Sejam muito bem vindos!

BIBLIOGRAFIA DA INVESTIGAÇÃO PUBLICADA EM PORTUGAL, 2005

BARBIERI, Daniel – Sonhos da china: o onírico e o fantástico na literatura aos quadradinhos. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P.

30-35

BD JORNAL [Publicação periódica]. Dir. J. Machado Dias. Lisboa:

Pedranocharco, 2005 . N.º 1-8

BOLETIM DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA [Publicação periódica]. Dir. Paulo Duarte. Lisboa: CPBD, 2005. N.º 110-113

COTRIM, João Paulo – Rafael Bordalo Pinheiro: fotobiografia. Lisboa: Assírio e Alvim, 2005.

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LINO, Geraldes – Eduardo Teixeira Coelho, um clássico da banda desenhada. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 113-119

2005 DOSSIÊ

LISBOA. Câmara Municipal. Hemeroteca – A rolha: Bordalo. Lisboa:

Hemeroteca Municipal, cop. 2005. ISBN: 972-8695-27-6

LISBOA. Câmara Municipal. Bedeteca – Salão Lisboa, 2005. Lisboa: bedeteca, 2005. ISBN: 972-8487-72-X

MOTA, Pedro – Dreamcomics. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 90-94

MOTA, Pedro – Miguel Rocha. // In: BD Amadora 2005. Amadora: Câmara Municipal, 2005. P. 90-94

PESSOA, Carlos – Roteiro breve da banda desenhada em Portugal. [S.l.] :

CTT, 2005. ISBN: 972-9127-94-8

PRATT, Hugo; PETIFFAUX, Dominique – O desejo de ser inútil. Lisboa:

Relógio d’Água, 2005. ISBN: 972-708-860-0

REZENDES – Mania dos quadradinhos [Em linha]. [Consult. a 27 de Jan. 2006]. Disponível em: http://quadradinhos.blogspot.com/

SÁ, Leonardo de – O sonho comanda a arte. In: BD Amadora 2005. Amadora:

Câmara Municipal, 2005. P. 51-58

SATÉLITE INTERNACIONAL [Publicação periódica]. Dir. Colectivo A Língua. Porto: A Língua, 2005. N.º 5

XII SALÃO INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DO PORTO [Em

linha]. [Consult. a 27 de Jan. 2006]. Disponível em: www.sibdp.com

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Movimentos

Geraldes Lino

Haverá sempre mais do que um critério para encarar este tipo de tarefa: ou fazer uma espécie de "best of" dos vários temas escolhidos, ou registá-los, o mais exaustivamente possível, para se ter a máxima visibilidade do panorama, além de poder servir para, no futuro, ser viável uma análise temporal. Optei por este último critério.

Concursos –1º "Concurso de Banda Desenhada – Jovens talentos 2005", organizado pela Associação Juvenil C.O.I., sediada na localidade de Pinhal Novo, no âmbito da 10ª edição do "Março a Partir – Mês da Juventude". – 5º Concurso de BD, em Julho, iniciativa anual da responsabilidade da Junta de Freguesia de Olhão, que sempre, antes de chegar ao fim do ano, edita em álbum de formato A5 as bandas desenhadas distinguidas com os três primeiros prémios.

Colóquios, conferências, debates & mesas redondas Há suficiente curiosidade do público em saber coisas acerca da BD, e alguns professores, bedéfilos confessos, convidam especialistas – autores e/ou críticos – para mostrar como se faz ou tirar dúvidas.

Entre os autores:

Arlindo Fagundes, no dia 15 de Fevereiro fez uma palestra sobre BD na Biblioteca da Escola Secundária Sá de Miranda, em Braga. José Carlos Fernandes, participou em palestras, ou colóquios, ou conferências, na Escola Superior de Educação, Universidade do Algarve, Faro (Abril) e em Espanha, na 18ª Semana Negra de Gijón, Astúrias (Julho). Em Dezembro, esteve na Biblioteca Orlando Ribeiro (Telheiras, Lisboa) a apresentar o projecto "Black Box Stories". José Ruy, quase ubíquo, falou sobre BD em várias escolas, mas também noutros locais.

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Em Janeiro, foi no Colégio Planalto, Lisboa, e nas Escolas: E,B José Ruy, Amadora; em Fev., na Rui Belo, Queluz; em Março, na Biblioteca Municipal de Almodôvar e na Escola Secundária de Mafra; em Abril, nas Escolas E,B da Venteira, E,B Artur Bual, E,B D'Orey da Cunha, todas na Amadora, e na Esc. Quinta dos Plátanos, em A-da-Beja; em Maio, na Esc.E,B Cardoso Lopes; em Junho, na Escola Secundária de Argoncilhe e Camões de Lisboa. Além de tudo isto, ainda ensinou "Como fazer um jornal de BD" (ou, por outras palavras, um fanzine) numa sessão para crianças, em Abril, no Palácio Galveias, Lisboa. Serviu de guia a jovens numa visita à Escola E,B na Amadora que tem o seu nome, para explicação das imagens do mural de sua autoria existente naquele estabelecimento de ensino. Em Julho, fez um colóquio na Biblioteca Municipal de Óbidos, para apresentação da obra "Humberto Delgado o General sem medo". Em Dezembro, na Escola Secundária de Santarém, falou sobre "Temas e técnicas da BD", palestra integrada num Seminário Internacional de Museologia da Infância e da Educação.

Entre os críticos e divulgadores:

João Miguel Lameiras, andarilho coimbrão, efectuou a seguinte maratona: nos meses de Novembro e Dezembro: foi a Matosinhos, ao Encontro Internacional de Alcoologia, falar de "Álcool e Banda Desenhada"; veio a Lisboa, à Biblioteca Orlando Ribeiro e à Livraria Almedina, para apresentar o projecto "Black Box stories"; esteve em Braga, na Livraria Centésima Página, a falar sobre BD e Cinema; e ainda teve tempo para se deslocar a Pinhal de Frades/Seixal, à Escola Básica 2/3, dissertar sobre a "Linguagem da Banda Desenhada", num encontro promovido pelo Clube de Super-Heróis (diz-me Lameiras: eles agora também têm um clube?). Paulo Monteiro, actualmente mais conhecido como responsável pelo "Atelier Toupeira" e principal organizador do debutante Festival BD de Beja, mas que também é autor, esteve em Junho na Escola EB 2,3, da Vidigueira, onde contou "Histórias da Banda Desenhada"; e teve a seu cargo um colóquio intitulado "Conversas sobre BD", na EB 2,3 de Ferreira do Alentejo, no mês de Novembro.

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Cursos

– Nuno Saraiva – Curso de Banda Desenhada no AR.CO; "Workshop" de BD

nas várias escolas E,B1 e E,B 2/3 da Câmara Municipal do Seixal sob o título "Estação do Livro", organizado pelo Instituto de Apoio às Bibliotecas Escolares do Seixal.

– Arlindo Fagundes, Carlos Dias Tavares, Paulo Patrício e Pedro Costa

participaram num ateliê designado por "Estaleiro Cultural" realizado, ao longo de Abril e Maio, no jardim de Velha-a-Branca. Os alunos produziram uma série de pranchas que apresentaram a 15 de Julho sob a forma de fanzine.

– José Carlos Fernandes orientou "workshops" nas bibliotecas escolares do

Concelho de Loulé (Abril a Junho), um outro intitulado "BD: intercâmbios e interacções texto-imagem" inserido no seminário "O professor passador de

cultura", na Associação Educativa para o Desenvolvimento da Criatividade, na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro (Março); colaborou num "Workshop de BD" e outro de Argumento, no CITEN, Fundação Gulbenkian (Fev. e Abril, respectivamente).

– Paulo Monteiro – É o orientador do Workshop de Banda Desenhada da

Bedeteca de Beja, que teve início em 21 de Novembro e terminará a 22 de Fevereiro.

– Rui Brito – Foi responsável por "workshops de Iniciação à Banda Desenhada"

em Castro Verde, em Lagos, e na Moita; e dirigiu um Curso de Iniciação à BD, no Centro Cultural do Laranjeiro (Almada).

Exposições A advertência do costume: não são referidas aqui as exposições integradas em eventos bedéfilos (festivais e afins), visto que esse tema é tratado por outro especialista.

Noutros locais e diferentes datas, o panorama foi o seguinte:

– "Desenhar a Música", de José Garcês, pranchas realizadas para o Mosteiro da Batalha, estiveram visíveis no CNBDI (Amadora), de Jan. a Abril.

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– Houve exposição comemorativa do 5º Ano do CNBDI – de Set. a Dezembro,

na galeria do próprio Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (Amadora).

– Foi organizada uma exposição relativa ao "1º Concurso de banda desenhada

– Jovens talentos 2005", no "foyer" do Auditório Municipal de Pinhal Novo,

entre 5 de Março e 1 de Abril. - "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de José Carlos Fernandes, esteve na

Biblioteca Municipal de Loulé (Abril) e na Galeria de Arte, Marina de Albufeira (Nov.). Ainda nesta galeria esteve "Geração de 70", outra exposição individual do mesmo autor. Em colectivas, Fernandes participou no 5º aniversário do CNBDI, e neste mesmo local integrou o tema "BDs de Abril: o 25 de Abril 30 anos depois" que se tornou itinerante por várias cidades.

– "Atelier Toupeira", colectivo bejense, deu o seu próprio nome à exposição de pranchas dos elementos que o constituem (Carlos Páscoa, Catarina Julião, João Lam, Lobato, Maria João Careto, Paulo Monteiro, Susa Monteiro, Véte e Zé Francisco) na 17ª edição das Xornadas de Banda Deseñada de Ourense (Galiza), isto entre 1 e 15 de Outubro.

– O mesmo "Atelier Toupeira", ainda em Outubro, entre os dias 21 e 23, esteve

em Salvada (uma das freguesias do concelho) com uma mostra colectiva dos seus elementos integrada no V Fim de Semana da Juventude – Salvada 2005.

– Véte, talvez o mais prolífico "toupeira", teve direito à exposição individual

"Véte - Tudo a preto e branco", patente na Casa da Cultura de Beja entre 6 de Outubro e 4 de Novembro.

– "Independentes na Bedeteca de Beja", representados por André Lemos, Carlos Apolo, Estrompa, João Lam, Marcos Farrajota/Pedro Moura e

Pepedelrey, tiveram pranchas expostas na Galeria de Exposições Temporárias da Casa de Cultura de Beja, entre 2 e 4 de Junho.

– "Contrastes" foi o título dado a um conjunto de pranchas assinadas por Luís Louro, patentes ao público entre 24 de Junho e 9 de Julho, no local referenciado anteriormente.

– "Submarino – 10 anos de banda desenhada", exposição de pranchas

realizadas por jovens com idades entre os 7 e os 13 anos, participantes, entre

1995 e 2005, do "Submarino – Atelier de Banda Desenhada", uma iniciativa do Pelouro da Juventude da Câmara Municipal de Beja.

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– "Bíblia – Ilustração e Banda Desenhada" – Pranchas da autoria de Alice

Geirinhas, Ana Cortesão, Dani Roxo, João Chambel, João Fonte Santa, Luís Lázaro e Pedro Amaral, seleccionadas entre as que foram reproduzidas na revista "Bíblia" desde o seu início, em 1996. A exposição decorreu entre 10 de Novembro e 9 de Dezembro.

Inaugurações

A 9 de Abril inaugurou-se a Bedeteca de Beja. Uma iniciativa digna de elogios

ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal daquela cidade, e a Paulo Monteiro, principal impulsionador da criação daquele equipamento cultural.

Internet

Sites e blogs onde se mostra BD ou dela se fala, proliferam, dando-se aqui

preferência aos que se centram basicamente no tema.

O painel que se apresenta inclui grande número deles, e em cada um há algo

que vale a pena: vinhetas ou pranchas de bedês clássicas ou de cariz alternativo, pormenores inusitados, textos sugestivos, informações inesperadas, pistas de leitura, críticas lúcidas, notas divulgatórias actualizadas, e variados outros aspectos. Claro que para formar opinião própria acerca de méritos, ou deméritos, dos sítios e blogues bedéfilos, nada melhor do que visitá-los. Por mim, sugiro uns tantos endereços, mas há muitos mais. Quem se sentir ostracizado, reclame.

Alexandre Algarvio – www.alexalgarvio.com Alhos Vedros Visual – http://www.phlog.net/user/Avedros/Visual Álvaro – www.geocities.com/alvarocartoon, http://www.geocities.com/xatoman3000, http://alvarocartoon.blogspot.com e http://www.geocities.com/alvarossantos Aqui no Canto – http://aquinocanto.do.sapo.pt Área BD – http://areabd.blogspot.com Beco das Imagens – http://becodasimagens.blogspot.com BD Portugal – www.bdportugal.info BEDÊ – http://bede.blogdrive.com Blog da Utopia – http://bandadesenhada.blogspot.com

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Central Comics – http://www.centralcomics.com Chili Com Carne – http://chilicomcarne.blogspot.com Cidade Desconhecida – http://cidadedesconhecida.com.sapo.pt Dinis Vale – http://dinisvale.planetaclix.pt Divulgando BD – http://divulgandobd.blogspot.com Entropia – http://entropia.no.sapo.pt Imaginário – www.imaginario.org e www.truca.imaginario Interdinamica – www.interdinamica.pt Juvemedia – www.juvemedia.pt King Leonardo and his short subjects – http://www.leonardodesa.interdinamica.com Kuentro – http://kuentro.weblog.com.pt Ler BD – http://lerbd.blogspot.com Mania dos Quadradinhos – http://quadradinhos.blogspot.com Mundo Fantasma – http://blog.mundofantasma.com Notas B.D.Filas – http://notasbedefilas.blogspot.com Paulo Pinto – http://www.paulopintoescrevo.blogspot Os Positivos – pwp.netcabo.pt/026023210/fanzzine.htm Richard Câmara – http://richardcamara.blogspot.com Sergei – www.sergeicartoons.com Sir Haiva – sirhaiva.blogspot.com Sítio dos fanzines – http://geocities.yahoo.com.br/fanzinelandia Sonhos Diluídos – www.sonhosdiluidos.blogspot.com Toonman – www.toonman.com.pt Ultra-Secreto – http://ww.ultra-secreto.com

Há um que acho não valer a pena escrever aqui o endereço. Quem acertar, ganha uma visita guiada ao sítio da Bedeteca de Lisboa, no Palácio do Contador-Mor, Olivais. Sendo também aquela Bedeteca indiscutível divulgadora da Ilustração – até organiza, bienalmente, um Salão dedicado ao tema –, justificar-se-ia, neste dossiê, uma rubrica que falasse da actividade dos ilustradores, e eventos realizados na área.

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Como (ainda) não há, registo eu, dois ou três espaços internéticos que incluem ilustrações, alguns deles com salpicos de BD, embora, na maior parte dos casos, os textos sejam alheios de todo a qualquer dos dois temas.

Caixa dos Fósforos – http://caixadosfosforos.blogspot.com Crime-Creme – http://www.crime-creme.blogspot.com Erotic Sunshine – http://eroticsunshine69.blogspot.com Patronize our Sponsors – http://pleasepatronizeoursponsors.weblog.com.pt Sonho de Newton – http://sonhodenewton.crimsonblog.com

Imprensa Desapareceu no fim do ano, por decisão do respectivo coordenador e redactor, Pedro Mota, o espaço dedicado à banda desenhada no jornal Notícias da Amadora. Cansaço, exigências da vida profissional, tudo junto. Felizmente que noutros jornais, e também em revistas não especializadas, a BD continua, nuns casos sob a forma de textos divulgatórios e/ou críticos, às vezes em simples tiras, outras em pranchas completas e a cores. Ela anda por aí, aqui fica o panorama pretérito. Em Lisboa, tivemos no "Público" as prosas de Carlos Pessoa e Nuno Franco, na última 6ª feira de cada mês; no "Diário de Notícias", à 2ª feira, foi João Miguel Tavares a tomar a palavra; no quinzenário "JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias", opinou João Ramalho Santos. No "Jornal de Almada", na "Coluna da 9ª Arte", escreveu semanalmente alguém que usa o pseudónimo Alfa Zulu. Sem periodicidade certa aparece o "Cuco Suplemento Informativo" no "Diário do Sul", que se edita em Évora, com textos de Dâmaso Afonso. Em Loulé, semanalmente, há o jornal "Louletanto", com bandas desenhadas e textos, ambas as componentes coordenadas por José Batista (mais conhecido, enquanto banda-desenhista, como Jobat) na rubrica "9ª Arte". No Porto, no "Jornal de Notícias", às 2ªs feiras, Pedro Cleto escreve a rubrica "Aos Quadradinhos". No jornal "Mundo Universitário", o autor deste levantamento criou a rubrica "Vinheta", extinta depois das férias grandes devido à redução de três para duas páginas dedicadas à Cultura. Mas houve também algumas revistas não especializadas em BD onde foi possível encontrar notas críticas. Por exemplo: numa que se intitula "Os Meus

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Livros", apareceu Sara Figueiredo Costa a assinar um texto opinativo em cada

número; e uma revista cujo título mistura francês e italiano, a "Mondo Bizarre", publicou críticas curtas, algumas muito oportunas, em que os autores se identificam por siglas, uma das quais, EA, faz lembrar um tal Esgar Acelerado, também ilustrador e autor de BD. Bandas desenhadas propriamente ditas viram-se em várias publicações:

No jornal quinzenário gratuito "Mundo Universitário", na rubrica "Banda Desenhada", coordenada por quem escreve este texto, foram publicadas dezassete bedês, a cores, com estilos bastante diversificados, tantos quantos os autores participantes: Pedro Alves, J. Mascarenhas, Ricardo Cabral, Alexandre Algarvio, Mota, Zé Manel, J. Coelho, Pepedelrey, Carlos Marques, (sob argumento de Sílvia Matos e Lemos), Kalika, Rocha, José Lopes, Francisco Sousa Lobo, Fritz, Paulo Marques (desenho) e Bruno Silva (argumento), Luís Valente e Álvaro, todos eles a realizarem uma bd autoconclusiva numa só página.

O

mais prolífico autor da nova geração – eu acho que toda a gente sabe quem

é,

mas, pelo sim pelo não, escrevo o nome – José Carlos Fernandes, teve a

seu cargo, no matutino "Diário de Notícias", a bd a cores (com predominância do sépia), "A Agência de Viagens Lemming". Foi publicada todos os dias, contendo cada entrega uma prancha com duas tiras, entre 1 de Julho e 31 de Agosto – sem fins-de-semana! – no estilo "continua no próximo número". Aposto que ainda vai sair em álbum. No mensário gratuito "Ensino Magazine" é editada uma tira a preto e branco, da autoria de Bruno Janeca (desenho) e Dinis Gardete (argumento).

O "Diário do Alentejo" - que contraria o título saindo com maior lentidão, quer-

se dizer, semanalmente – publica-se uma tira, a cores, da autoria de Luca (pseudónimo da dupla Luís Afonso (no argumento) e Carlos Rico (a desenhar). Nuno Markl, faz uma série semanal, quase sempre a preto e branco, mas esporadicamente a cores, sob o título "Há vida em Markl", em "O Inimigo Público", suplemento do jornal "Público". Paulo Araújo retomou as suas antigas personagens "Zé do Paddock mecânico extraordinário e Roquete seu assistente", em episódios curtos de uma prancha, a cores, na revista mensal "Moto compra & venda".

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Do autor que usa Marte por pseudónimo e que cultiva o estilo alternativo,

aparece na revista trimestral "Underworld" a série "Não 'tavas lá!?" em formato

de

tira, a preto e branco.

O

enorme Villhena, na sua revista "A Gaiola Aberta" (2ª série) continua a

publicar, sempre, a série "Dorita", sem contar com algumas bedês brejeiras, como é o caso das suas paródias que cria para Charlie Brown, Snoopy e Lucy, em cenas que talvez façam corar Schulz, lá no seu túmulo.

O BDjornal, interessante e corajosa iniciativa de J. Machado-Dias, foi lançado

em Abril. Com periodicidade mensal, publicou uma bd em todos os números, sempre de autores diferentes: Ferrand, Carlos Páscoa, Sergei, Maria João Careto, Estrompa, Alexandre Algarvio, Álvaro e Pedro Alves. Trimestralmente, apareceu a revista "C", do Centro Comercial Colombo, com a colaboração de dois autores bem conhecidos: Miguel Rocha e José Carlos Fernandes. Particularidade curiosa: nesta dupla, JCF aparece como argumentista. Mensalmente continua Luís Pinto Coelho a pôr o seu herói Tom Vitoín a viver episódios cómicos ligados às motos, ou não fosse a revista "Motociclismo" a publicá-los. Também de ritmo mensal apareceu a rubrica em BD "Sexo, Mentiras e Videojogos", com argumento e desenho de Alexandre Algarvio, na revista "Mega Jogos". Como suplemento do jornal "Público", ao domingo, há a revista "Kulto", com uma mangá por autores portugueses, Ana Freitas (desenho) e Nuno Duarte (argumento).

E fora de Lisboa, o que há?

– Em Taveiro, lá para as bandas de Coimbra, edita-se o diário "As Beiras",

onde, a falar de banda desenhada – a rubrica tem esse título – pontifica João Miguel Lameiras, especialista atento e conhecedor.

– Em Évora há textos de divulgação no "Diário do Sul", suplemento "O Cuco –

Informativo de BD", com Dâmaso Afonso responsável pelas opiniões e fotos.

– Na Póvoa de Santa Iria publica-se o quinzenário "O Triângulo", com artigos

escritos uma vez por mês por Miguel Sousa Ferreira.

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– Em Loulé, no semanário "Louletano", José Batista (que usa Jobat como pseudónimo, enquanto banda-desenhista) coordena o conteúdo duma página inteira, reproduzindo bandas desenhadas de clássicos portugueses – Eduardo Teixeira Coelho, José Garcês, e do próprio Jobat – , completando-se o espaço com artigos de autorias diversas, entre as quais a de Jorge Magalhães, José Pires, António Dias de Deus, Leonardo De Sá e também do coordenador.

Lançamentos de álbuns, livros e revistas Fev. – No "Santiago Alquimista" festejou-se o aparecimento do nº 0 da revista "Blastmagazine". A festa foi organizada por duas entidades: Núcleo de estudantes da ESBAL – Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e Tertúlia BD de Lisboa.

Rádio Este medium continua sem qualquer tempo radiofónico dedicado em exclusivo à banda desenhada, embora por vezes haja alguém que se lembre de entrevistar um autor em foco, ou qualquer especialista em assuntos "esquisitos", tipo fanzines.

Televisão Idem, idem, aspas, aspas, em relação ao que ficou dito sobre a rádio. A excepção desta vez foi cometida pela SIC Notícias, em Dezembro, no programa Alice no País dos Viajantes, já dedicado a várias personalidades (uma de cada vez) até que chegou a vez de António Jorge Gonçalves, cuja conversa incidiu sobretudo na subway life e, como não podia deixar de ser, também na banda desenhada.

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2006 DOSSIÊ 130|259 Ilustrações Luís Henriques Introdução Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís
2006 DOSSIÊ 130|259 Ilustrações Luís Henriques Introdução Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís
2006 DOSSIÊ 130|259 Ilustrações Luís Henriques Introdução Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís
2006 DOSSIÊ 130|259 Ilustrações Luís Henriques Introdução Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís
2006 DOSSIÊ 130|259 Ilustrações Luís Henriques Introdução Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís

Ilustrações Luís Henriques

Introdução

Este ano pedimos as ilustrações deste Dossiê a Luís Henriques, a mais recente descoberta na bd portuguesa graças à edição do "Tratado de Umbrografia", primeiro volume de "Black Box Stories" - série de bd editada pela Devir em que José Carlos Fernandes escreve para vários desenhadores. Curiosamente o que Luís Henriques nos ofereceu são excertos do seu próximo projecto, "Babinski, o salteador de Praga" (baseado "O Golem", de Gustav Meyrinck, adaptado por José Feitor) a sair em 2007 pela Imprensa Canalha.

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Crítica

Domingos Isabelinho

No texto de Adalberto Barreto dedicado à investigação e incluído neste mesmo dossiê da Bedeteca pode ler-se sob o título Teses Académicas (abro parênteses para perguntar porque carga de água tenho de escrever “dossiê” se Marcos Farrajota himself escreve, no texto dele incluído no dito, e mudar isso agora não vale: “dossier”; cf. linha 4): “Das 2547 teses de doutoramento, mestrado e licenciatura registadas no catálogo DiTed (Biblioteca Nacional) temos zero ocorrências para a pesquisa banda desenhada”. Ou seja, onde realmente se faz investigação a banda desenhada continua a ser o parente pobre ou, pior ainda, nem sequer existe, como aconteceu durante 2006.

Passemos então à frente, indo até ao extremo oposto: no supracitado artigo de Marcos Farrajota não se apercebe sombra de crítica nos fanzines. (E abro parênteses de novo para informar os leitores do otherwise altamente recomendável livro de Bart Beaty "Unpopular Culture: Transforming the European Comic Book in the 1990s", de que um tal “Marcos Pellojota” – cf. a apropriadamente denominada pag. ix – é mesmo Marcos Farrajota.)

Resta-nos então a imprensa e a internet (crítica na TV e na rádio?, não é que não exista de todo, mas a pergunta só pode mesmo dar origem a risinhos nervosos e a uma resposta condizente: não me façam rir!). Quanto à última refiro o blog Ler BD, da autoria de Pedro Moura, por ser um espaço de crítica e não um espaço “meramente” informativo: http://lerbd.blogspot.com/

Numa série de artigos provocadoramente intitulados “‘A crítica’ ainda existe?”, publicados no jornal "Público" em meados de 2006, Augusto M. Seabra

identificou três “questões fulcrais à actual situação [

informativa do espaço da cultura, 2) uma informação tantas vezes apressada e pouco trabalhada, que transmite com escasso tratamento os diversos discursos “oficiais” e 3), como corolário, uma secundarização da crítica, desde logo pouco considerada nos orçamentos, favorecendo agendamentos de diversas

1) uma marginalização

]:

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proximidades imediatas” (“‘A crítica’ ainda existe? (III)”, suplemento "Mil Folhas" do jornal "Público" de 24 de Junho de 2006, pag. 22).

Dito por outras palavras, e assumo o papel de colonizado (obrigado grande pai branco pelas tuas armas de destruição cultural em massa!): a crítica a sério é a pain in the ass. Isto porque a ditadura cultural do proletariado não é de esquerda; a ditadura cultural do proletariado é de direita e bem de direita. Mais propriamente, a ditadura cultural do proletariado é a ditadura do mercado, a ditadura imposta pelo capitalismo selvagem. E esse não tem contemplações para o que languesce nas prateleiras das livrarias ou para salas de teatro “às moscas” (não é verdade Rui Rio?). Dito ainda por outras palavras: da Broadway at Portas de S. Antão até “aos multiplexes de “cinema pipoca”” (José Carlos Fernandes dixit in “Contas de Cabeça”, "BD Jornal" n.º17, de Fevereiro / Março de 2007, pag. 14) e ao Marvel import em qualquer livraria da especialidade, passando, claro (que injustiça seria esquecê-las!), pelas televisões generalistas, vivemos uma época de barbárie, de reino absoluto do kitsch sobre todas as coisas. Ser crítico significa, como sempre significou, ser desmancha-prazeres; significa ser um aguafiestas no circo mediático. Eliminem-se, pois, os críticos, esses inimigos dos inefáveis feixes hertzianos e

da cultura

do eucalipto.

Mais à frente, no mesmo artigo, José Carlos Fernandes diz: “O Estado central

não atribui, pelo menos de forma regular, qualquer subsídio, estipêndio, ou apoio à BD. A sua condição “híbrida” deixa-a desamparada, sem casa ou

Os criadores de BD não podem gozar a generosa

sombra do ICAM (que sustenta, além de um primo afastado [da banda desenhada, suponho] o Cinema, um meio-irmão, o Cinema de Animação); não podem agarrar-se aos fartos úberes do IA (que nutre, entre outros, os primos das Artes Plásticas) e não são bem recebidos no IPLB (que provém aos meios- irmãos da Literatura Séria)”. Para além de não perceber lá muito bem esta “mania” do comics milieu em escrever os nomes das artes com letra maiúscula (sem que as mesmas integrem um qualquer currículo académico; será respeito desmedido?), diria que comparto inteiramente o lamento. Mas bem pode José

instituto que a acolha. [

[

]

]

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Carlos Fernandes invocar relações familiares de meios sociais completamente diferentes.

No mundo real estamos a falar

Veja-se o que diz o produtor de cinema, Paulo Branco ("Jornal de Letras, Artes

e Ideias" n.º946 de 3 a 16 de Janeiro de 2007, pag. 10): “As indemnizações

compensatórias de serviço público para a televisão são cerca de 160 milhões de euros/ano e a sua dotação de apoio à actividade cinematográfica (toda ela:

longas e curtas-metragens e documentários) é de um milhão e 750 mil euros”. Uma ninharia, de facto, mas qual é a dotação do apoio do Estado à produção de banda desenhada?

Sabemos como a direita no poder pretende emagrecer os Estados (no poder real, entenda-se, não me refiro aos governos dos países, esse é um poder mais virtual que outra coisa; o outro é um rolo compressor que tem recebido a graça de “realpolitik”). Sabemos que o orçamento do Ministério da Cultura é sempre minúsculo e vemos, pelas afirmações de Paulo Branco, como muito do apoio estatal nestas áreas é gasto na cultura pimba (aquilo que, nalguns círculos, é conhecido pelo pomposo nome de “serviço público de televisão” – ressalvo apenas, nesta generalização óbvia, algumas emissões geralmente por volta da uma ou duas da manhã).

E a banda desenhada no meio disto tudo?, e a crítica de banda desenhada no

meio do meio disto tudo? A banda desenhada pouco recebe do Estado para a organização de eventos e nada para a criação, mas o problema não é a sua suposta natureza híbrida (não é o cinema a arte híbrida por excelência?). Ou melhor, pode-se falar de um problema de hibridismo, mas trata-se de hibridismo social, não de hibridismo formal. Como fenómeno de massas a banda desenhada não pode competir com a televisão, como arte séria (ou, a sério) está muito longe de ser reconhecida pelos vários poderes culturais, os quais a encararam como um pária algo infantilóide e idiota. Ao “transmit[ir] com escasso tratamento os diversos discursos “oficiais”” sobre a banda desenhada (entendam-se: os discursos que interessam às editoras), a grande maioria dos críticos de banda desenhada dos jornais perpetuam esta imagem. Voltando ao início deste texto: sabemos que o espaço para escrever sobre cultura na

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imprensa portuguesa é cada vez mais escasso; sabemos que o espaço para o elo mais fraco (a banda desenhada) é o primeiro a desaparecer em alturas de cortes e remodelações. Por mim, sinceramente, divido-me entre lastimar que o número de vozes a falar sobre banda desenhada no espaço público seja cada vez mais reduzido e a dúvida que me assalta: não sei se não será melhor assim?

PS Duas notas, apenas, a finalizar

1) Augusto M. Seabra escreveu ainda no jornal "Público": “Desde há dois anos ””

que neste jornal há uma menção, “O PÚBLICO viajou a convite de

crítica’ ainda existe? (IV)”, suplemento "Mil Folhas" do jornal "Público" de 1 de Julho de 2006, pag. 23). Alertado por esta passagem, foi com prazer que li, em nome da transparência: “O jornalista do PÚBLICO viajou para Angoulême a convite das Edições Asa” (edição de 6 de Janeiro de 2007, pag. 29 e suplemento "Mil Folhas" de 2 de Fevereiro de 2007, pag. 4).

“(‘A

2) Há mitos que se perpetuam no discurso crítico da banda desenhada. Um dos mais difíceis de eliminar é o de que Will Eisner inventou a expressão “graphic novel” (Pedro Cleto, por exemplo, no "Jornal de Notícias" de 16 de Março de 2006 (passagem recolhida no site da Bedeteca): “'graphic novel' (termo criado nos anos 70 por Will Eisner, para designar bandas desenhadas extensas, de conteúdo mais exigente, publicadas em formato livro)”. Não criou:

a invenção da expressão deve-se, até prova em contrário, a Richard Kyle, o qual a utilizou pela primeira vez por escrito no fanzine "Capa-Alpha" n.º2, de Novembro de 1964. Will Eisner é, aliás, um bom exemplo de autor considerado menor caso tivesse trabalhado noutras áreas, mas inexplicavelmente elevado aos píncaros pela maioria da crítica de banda desenhada. Tanto assim é que até lhe atribuem aquilo que ele não fez.

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Edição

Sara Figueiredo Costa

Vender livros num país com tão baixos índices de leitura não é tarefa fácil para ninguém, mas vender livros de bd num país onde continua a acreditar-se que a bd é coisa de miúdos pequenos ou entretenimento de quem não é capaz de ler outra coisa revela-se, como parece, um empreendimento verdadeiramente hercúleo.

O ano que passou não trouxe, como já se augurava, muitas novidades no que respeita à tendência que temos verificado nos anos mais recentes. O papão da crise continua a agitar-se, com as tiragens médias a ficarem-se pelos mínimos exigíveis para que as gráficas imprimam os trabalhos a um preço aceitável e com a variedade de títulos a deixar muito a desejar. Apesar disso, são de saudar alguns regressos, autorais e editoriais, que contribuíram para que o ano editorial não fosse um desastre total, pelo menos no que ao interesse da produção diz respeito. E, por outro lado, a vontade de diversificar títulos e modos de editar parece ganhar terreno por entre as dificuldades da crise (ou também por causa dessas dificuldades, e como modo de resposta e de procura de alternativas?), mesmo que longe das editoras mais ‘seguras’ em termos de presença no mercado.

A Asa manteve a sua posição segura e dominante no mercado editorial. A habitual fornada de Astérix e Lucky Luke prosseguiu e várias séries e álbuns (essencialmente do universo franco-belga de vertente mais comercial) foram sendo editados ao longo do ano. Mas as edições mais interessantes andaram, quanto a mim, em torno de outros autores. Jean-Claude Denis, com "Alguns Dias em Amélie", Miguelanxo Prado, com "A Mansão dos Pimpão", Tronchet e Anne Sibran, com "Lá em África" ou a adaptação de "Cidade de Vidro", de Paul Auster, pela mão de Paul Karasik e David Mazzuchelli. E, claro, Enki Bilal, cujo terceiro volume da "Tetralogia do Monstro", "Encontro em Paris", chegou às livrarias portuguesas este ano.

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A Devir, que em 2005 tinha ombreado com a Asa no assegurar da maior fatia da edição que chegou às livrarias, assistiu este ano ao instalar da crise, com uma redução drástica do seu volume de edição. Depois de vários meses de quase silêncio, a editora que ajudou a transformar os escaparates de banda desenhada nas livrarias portuguesas apresentou, entre outros livros, o terceiro volume da série "Sandman" (infelizmente, acompanhado da notícia de que será, muito provavelmente, o último a sair em português com a chancela da Devir, devido à perda de direitos de publicação), o primeiro volume das tão esperadas "Black Box Stories", "Tratado de Umbrografia", de José Carlos Fernandes e Luís Henriques (um dos livros de 2006 a recordar) e o livro "A Orquídea Negra", resultante do primeiro encontro entre Neil Gaiman e Dave McKean.

Um outro eixo que ajudou a sustentar o mercado editorial em 2006 foi o trabalho da Vitamina BD e, mais recentemente, a chegada da nova editora Bd Mania, associada à livraria homónima. Com a chancela da Vitamina BD saíram, entre outros, "Belo Horizonte", de Miguelanxo Prado (originalmente pensado para a colecção brasileira "Cidades Ilustradas"), bem como o terceiro volume da primeira trilogia de "Sky Doll" e "Vlad, o Empalador", de Hermann. O aparecimento da BdMania, sob a coordenação de Pedro Silva (VitaminaBD e livraria BdMania), trouxe "Wolverine: Saudade" e "Ultimate Iron Man", anunciando o reforço dos comics norte-americanos nas livrarias portuguesas, e trouxe igualmente um plano editorial ambicioso, ainda que realista, para os próximos tempos, tema que será interessante acompanhar ao longo deste novo ano.

Mas não foi só a BdMania a chegar à edição de livros depois de se dedicar ao

negócio livreiro. Também a livraria Kingpin of Comics criou uma chancela homónima, iniciando a sua actividade editorial com "Super Pig" e "C.A.O.S. - Livro Um", dois projectos periódicos que prometem ter continuidade já em

2007.

As tiras humorísticas continuaram a aparecer pela mão da Gradiva, este ano com o destaque absoluto para Matt Groening, criador dos Simpsons, com o

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título "O Amor é Um Inferno". A mesma Gradiva prosseguiu as suas incursões além do mundo das tiras de humor, recuperando Largo Winch, com "Dutch Connection" (Philippe Francq e Jean Van Hamme), e voltando ao universo do mestre Will Eisner com "John Law, Detective", de Gary Chaloner (onde se incluem as três histórias que Eisner criou em 1948 e que foram o ponto de partida para a personagem de John Law).

Uma das boas notícias de 2006 no panorama editorial foi o regresso da Polvo. Depois de uma tímida tentativa, ensaiada em 2005 com "Borda d’Água – No

Tempo das Papoilas", de Miguel Rocha, a Polvo voltou em força no último trimestre do ano com três títulos (de Sergei, Baladi e Filipe Abranches). "Solo",

o volume que reúne trabalhos de Filipe Abranches dispersos por publicações várias, é, claramente, um dos livros fundamentais do ano que passou.

Outras editoras foram responsáveis por lançamentos vários, uns mais fáceis de

encontrar nas livrarias generalistas do que outros. A Pedranocharco, que edita

o "Bd Jornal", trouxe "BD Voyeur", a chancela El Pep editou a obra colectiva

"Virgin’s Trip" e "Fato de Macaco: o Símbolo", de Rui Gamito e a Má Criação, editora discreta mas que nos vai surpreendendo com alguns títulos de boa memória em diferentes áreas, publicou "Dias Eléctricos", um volume com histórias curtas em torno do "milagre" da electricidade assinadas por Luís Rainha (argumento) e vários autores portugueses, entre eles Jorge Mateus, Daniel Lima, João Fazenda e Tiago Albuquerque (um autor pouco conhecido do público leitor e cujo trabalho merecerá a pena acompanhar nos próximos tempos). Também a Livros de Papel, sob a orientação de Manuel Caldas, prosseguiu a saga do "Prince Valiant", tendo editado ainda um volume, do próprio Manuel Caldas dedicado à obra de Harold Foster, "Foster e Val - Os Trabalhos e os dias do criador de Prince Valiant". E ainda no plano do ensaio e da história, como sempre menos concorrido ainda do que o da edição de bd em geral, registe-se (com alegria suprema!) a publicação pela Assírio e Alvim de "Stuart – A Rua e o Riso", de João Paulo Cotrim, dedicado à vida e à obra de Stuart Carvalhais.

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Dois dos momentos mais altos do ano editorial da bd foram protagonizados por editoras tradicionalmente desligadas do meio. A Parceria A.M.Pereira (que nos anos 70 organizou uma exposição de fanzines de bd, não tendo prosseguido esse trabalho ao nível editorial nas décadas seguintes) editou "Salazar, Agora na Hora da Sua Morte", de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, seguramente uma das obras fundamentais da bd portuguesa (e não, não me parece nada arriscado fazer semelhante afirmação sobre um livro que saiu há tão pouco tempo), e a Afrontamento iniciou a épica publicação da integral dos "Peanuts", do mestre Charles M. Schulz, com os dois primeiros volumes a abarcarem a produção de 1950 a 1954. E para além destas duas editoras, também a Campo das Letras contribui para a edição de bd e artes paralelas (chamemos-lhes assim, deixando para outros espaços a discussão mais teórica), com "Este Céu Cheio de Terra", de Max Tilmann (ou Tiago Manuel, se preferirem).

O balanço é indubitavelmente de crise no que toca à quantidade (e pertinência) das edições, bem como às suas tiragens médias, muito abaixo do que seria desejável para a saúde financeira das editoras. Resta saudar o interesse de editoras generalistas pela edição de obras de bd (bem sei que falamos apenas de três casos, mas num panorama tão pequeno, alguma relevância assumem), destacar as escolhas do ano ("Solo", "Tratado de Umbrografia", "Salazar, Agora na Hora da Sua Morte" e "Peanuts") e ter atenção ao muito que se vai agitando fora deste meio editorial mais "sólido". É que, longe das preocupações comerciais, umas vezes puramente com o lucro, outras com a simples sobrevivência financeira, das editoras, o que de mais interessante se produziu este ano em termos de bd, ilustração e terrenos contíguos veio, creio, da edição dita alternativa ou independente, da auto-edição e de projectos vários, colectivos ou individuais. Cito apenas a Imprensa Canalha, projecto de José Feitor que, sem sombra de dúvida, valerá a pena continuar a acompanhar, e a Chili Com Carne, que recentemente editou o "Mesinha de Cabeceira Popular #200". E se não falo mais é porque o Marcos Farrajota já abordou a questão no texto sobre os Fanzines. Vão até lá

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Autores

Daniel Maia

O mercado português de banda desenhada está em ruínas, é um facto. Mas pessoalmente, dou-me por contente – enquanto os meus colegas escrevem sobre a crise que de uma forma ou doutra presentemente se abate sob todos os segmentos da área, tenho a boa sorte de vir falar sobre o único aspecto deste que, paradoxalmente, floresce: o sector criativo.

Este paradoxo tem mais de uma face. Não só o fluxo de novos autores que paulatina, mas continuamente se dão a conhecer surge ao mesmo tempo que artistas consagrados regressam às lides – sendo este um movimento salutar, porém contrário ao output de edições domésticas (que agora atingiu um mínimo histórico após o “boom” editorial de 2002 e vaticina uma ainda maior descida) – como é igualmente surpreendente a crescente desenvoltura destes novos autores que, na sua maioria, demonstram logo num primeiro momento um apreciável conhecimento técnico mais visto em profissionais experientes. E isto nas mais diversas práticas da BD, seja em registo comics, em indie ou mangá… Ainda outro sinal dos novos tempos é a aparente corrida a sofisticados formatos e modos de edição, que permitem aos autores uma acrescida independência face às casas editoriais. Estas tecnologias, digitais, e o sistema POD (Print on Demand) – introduzido cá pela ilustradora Carla Pott e o quadrinhista Filipe Peres, que disponibilizaram um calendário ilustrado e dois volumes de BD, respectivamente – vieram em boa altura facilitar ao próprio autor realizar autonomamente os seus projectos. Consequentemente, a acessibilidade que estes modos trazem poderão vir a revolucionar a forma como se faz e publica BD em Portugal, assim como a trivialização do usufruto destas condições pode, a média prazo, levar os novos artistas a um mais rápido amadurecimento profissional.

Mas mesmo sem estas portas que agora se abrem, os autores e militantes da BD têm sabido usar os poucos recursos ao seu dispor para promover

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ininterruptamente a produção da banda desenhada. E se a solo não se alcança os objectivos, então faz-se-o em conjunto com outros de intentos semelhantes ou simplesmente participa-se nas várias iniciativas levadas a cabo. Estas são, na sua maioria, conscientemente orientadas para providenciar rampas de lançamento à nova leva de autores e autoras, trazendo-os para as trincheiras da Nona arte nacional. Foram vários os projectos realizados ao longo de 2006, mas friso aqui apenas alguns: começo pela "Blazt", que unificando num sistema de network diversas entidades de relevo no meio bedéfilo, expôs em duas mostras colectivas o vasto e eclético leque de autores seus associados; o projecto "24h à Volta de Portugal", que propôs uma viagem pelo país através de BDs cuja acção tem lugar a horas certas; a nova chancela Kingpin of Comics, que entrou de pé direito no sector, com promessas de desenvolver séries portuguesas ao jeito

dos comics; o projecto "All-Girlz", que destaca o potencial feminino na arte sequencial portuguesa e que, entre outras, trouxe para esta área a conceituada ilustradora Carla Pott (aqui em dupla com Alain Corbel); o Ciclo de Homenagem a Robert E. Howard no "Tertúlia BDzine", que também dá a conhecer novos valores, desta feita mais aptos no género do comic norte- americano; a associação Clube Otaku, que após a edição do “K-Zine” levou a cabo diversos workshops no evento Anime Weekend de Aveiro; também o "BDVoyeur", que procurou desafiar a comunidade artística e interessar os leitores no género porno-erótico (uma temática não muito vista nas nossas páginas, com a excepção da revista "Carne Viva", de Horácio Gomes); e ainda os eventos Feira Laica, que foram verdadeiros faróis de nevoeiro, mobilizando

a

interacção entre os autores e público, pautando 2006 com encontros culturais

e

comerciais, bem necessários durante tempos de crise como os presentes.

Perante o repentino advento de todas estas tendências, talvez seja de sublinhar a performance do ano salientando os nomes que podem servir como testa de ferro das vertentes que representam:

Para começar, temos em Miguel Rocha um dos autores mais celebrados. Inicialmente em foco pelas colaborações com José Carlos Fernandes na revista interna do C.C. Colombo, onde publicam geniais BDs da série "Black

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Box Stories", o Miguel subiu (literalmente) ao pódio em 2006, ao vencer os principais Prémios Nacionais de BD (PNBD), atribuídos pelo álbum "Salazar – Agora, na hora da sua morte". Após ter levado ao pico da execução o estilo gráfico em pastel por que é conhecido – em "A vida numa colher" (Polvo, 2004) – conseguiu sucessivamente (e com sucesso) reinventar-se com o recurso a ferramentas digitais, sabiamente esgrimidas em "Salazar". O prémio de Melhor Desenho ficou bem entregue. Também de regresso ao mercado, Filipe Abranches foi outro dos autores em destaque. Um dos filhos pródigos da BD portuguesa, foi o autor em cartaz no Festival Internacional de BD da Amadora (FIBDA), após ter ganho o PNBD de 2005 pelo melhor desenho em álbum, atribuído a "As Aventuras de Fortunata, Maria e Garção" (Instituto do Emprego e Trabalho, 2005). O festival saudou-o com uma exposição que primava pela apresentação dos trabalhos, sendo complementada mais tarde pela edição de "Solo", uma antologia de histórias curtas. Esta, embora peque por nos privar das versões coloridas daquelas BDs, foi uma das edições fundamentais do ano e tem a valia de compilar obras do autor já indisponíveis há anos e outras até à data inéditas no país.

Seguindo-lhes o exemplo, também Nuno Saraiva, João Fazenda, Daniel Lima, André Lemos, João Maia Pinto, entre outros reputados autores, fizeram o gosto às canetas e publicaram nos volumes "Mesinha de Cabeceira Popular" e "Dias Eléctricos", bem como em vários zines. Com isto se repete o que por cá tem sido tradição: em ano de vacas magras e de desinvestimento por parte das grandes editoras, é deixado aos esforços colectivos e privados o salvar a “honra do condado”, no que toca a dar espaço ao talento nacional. Não fossem eles e pouco se teria visto dos nossos autores…

Outro versátil desenhador, comparativamente recém-chegado ao mercado é Luís Henriques; autor que José Carlos Fernandes soube recrutar para o álbum de estreia da colecção "Black Box Stories", de título "O Tratado de Umbrografia". (É ele, inclusivamente, o autor das ilustrações que este ano adornam os topos dos Dossiês da Bedeteca.) Facilmente o runner-up ao galardão confiado a Miguel Rocha, o Luís entrou em cena com as sessões de promoção a "Black Box Stories" e a pré-publicação

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parcial do álbum no "BDjornal". Perante a recepção positiva daquela antevisão, o Luís não ficou à sombra dos louros e iniciou pouco depois a produção de "Babinski, o Salteador de Praga", um livro realizado em conjunto com José Feitor (a publicar em breve).

Ainda falando em valores emergentes, também a Suza Monteiro, do Atelier Toupeira de Beja, teve uma discreta mas aplaudida presença em 2006. Embora (incompreensivelmente) lhe tenha sido sonegado um prémio ou justa menção no Concurso de BD do FIBDA, a autora esteve patente na colectiva “17 Autores Portugueses Contemporâneos” desse certame, assim como no II FIBDB (Beja), tendo ainda os seus mais recentes trabalhos publicados no prozine internacional “Barzowia”. O mesmo se pode dizer do jovem Filipe Andrade, outro injusto ignorado nos PNBD, que rapidamente subiu na consideração dos leitores ao se estrear com Filipe Pina (argumento e cores) numa série cativa do “BDjornal”. É sem duvida outro talento cujo nome vale a pena fixar.

Também importantes de mencionar são os elementos do estúdio D´Alfama (Jorge Coelho, Rui Lacas, Rui Gamito e Pepedelrey), aquele que é actualmente, como disse Pedro Vieira Moura, o mais funcional atelier de BD português. Embora plenamente reconhecidos entre nós, é todavia admirável observar o dinamismo que o quarteto tem ganho desde há um par de anos. O bom momento criativo e sinergia de que o grupo goza reflecte-se nos diversos trabalhos que assinam colectivamente (como o fanzine JazzBanda) ou nas colaborações para a chancela El Pep; falo dos álbuns "Virgin’s Trip" (escrito por Pepedelrey, com Nuno Duarte) e "Fato de Macaco 2 – O Símbolo". Sem demérito para os restantes, importa destacar Rui Lacas, pelo seu salto profissionalizante no mercado francófono ao ver editado pela Paquet o seu ‘whopper de 90 páginas, "Merci, Patron". A este, o autor fez seguir a coloração das pranchas de Rui Gamito para "Fato de Macaco 2 – O Símbolo" – uma pequena ajuda entre colegas de estúdio – antes de começar o seu próximo trabalho (“Asteroid Fighters”).

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Passando para terras do Tio Sam, continuamos a assistir à caminhada de Eliseu Gouveia em busca do seu ‘american dream. A encerrar um ano movimentado, o Eliseu viu chegar aos escaparates o #1 do seu comic "Infiniteens", que ele próprio concebeu na totalidade, da idealização à legendagem. Mostrando-se colaborador, participou ainda noutros títulos de curta duração para o mercado norte-americano: "Genie" e "Vengeance of the Mummy" (em dupla com Justin Gray). O reconhecimento do autor é merecido, sendo por isso pena que somente editoras medianas reparem no seu trabalho. Se bem que, por essa lógica, mais absurdo é que nenhuma casa nacional dê uso aos vários álbuns que o autor tem na gaveta… Esperemos que o destaque que granjeou na exposição do FIBDA, “Comics made in Portugal”, ajude a mudar este fado.

Quanto à BD indígena, José Abrantes, com a série "Morgana", e Artur Correia, nos volumes editados pela Bertrand, fazem as honras da casa relativamente à Nona arte dirigida a crianças. Artur Correia em especial, colocou de lado a sua notoriedade e renome nos filmes de animação para investir na BD o 2º fôlego da sua carreira. Primeiro com as adaptações dos textos de António Gomes de Almeida e agora de Gil Vicente, com "A Farsa de Inês Pereira”. É ele, a par de José Carlos Fernandes, o único autor nacional que mais público tem conquistado e fidelizado por via da regularidade/qualidade das suas edições. E já que falo em decanos da área, aproveito também para salientar o regresso de José Ruy aos álbuns de cariz histórico-educativo. "Peter Café Sport e o Vulcão do Faial" foi editado pela Marginália, fazendo assim de José Ruy o representante da velha guarda portuguesa em 2006. Foi apenas acompanhado por Carlos Baptista Mendes, num álbum histórico-documental pela mão da Âncora.

Por último, puxando a geleia à minha torrada (se me é permitido), o balanço não ficaria completo sem indicar quem foi consagrado em matéria de prémios nas mais importantes distinções do sector. Ora nos IV Troféus Central Comics, segundo escrutínio público, galardoou-se José Carlos Fernandes e eu próprio (…coff) como Melhores Argumentista e Desenhador de 2005, respectivamente,

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enquanto que no final do ano, pelas mesmas categorias, foram premiados João Paulo Cotrim e Miguel Rocha nos PNBD do FIBDA. Neste evento, foram ainda atribuídos a Luís A. Pereira, Sara Serrão e a Bárbara Fonseca os prémios do Concurso de BD, no 1º escalão, e distinguiram-se ainda Fernando Madeira, Ernesto Silva e Marc Figueiredo no Concurso de Cartoon.

Em suma, parece ser claro que temos fruta madura pronta a ser espremida, em

quantidade e variedade mais que suficiente para satisfazer os leitores. E agora

já nem temos falta de copos para colher o sumo, talvez apenas uma escassez

de quem o beba… Mas surpresas para quê? Até isto é, tipicamente, Portugal.

Festivais

João Miguel Lameiras

Os últimos nºs do "BD Jornal" tem albergado uma acesa discussão sobre o

futuro dos Festivais de BD em Portugal. Uma discussão motivada pelas evidentes dificuldades sentidas pelos Festivais em conquistar novos públicos

para a Banda Desenhada. "Práticas na BD: Os Visitantes do 16º FIBDA", o bem documentado (mas superficial em termos de análise) estudo de Helena Santos sobre os visitantes do Festival da Amadora, avança com números que reflectem uma evidência: mesmo o nosso principal Festival de Banda Desenhada e o único com capacidade de mobilizar os média, funciona cada vez mais para um público que se vai reduzindo e que está envelhecer. No fundo, tal como acontece com a Banda Desenhada em Portugal…

Cumprindo uma sina que arrasta desde que deixou de se realizar na saudosa Fábrica da Cultura, o Festival da Amadora mudou mais uma vez de lugar, com

o núcleo central a trocar o espaço claustrofóbico e sufocante, mas de fácil acesso da Estação de Metro da Amadora-Este, pelo novo espaço do Fórum

Luís de Camões, na Brandoa, cujas melhores condições logísticas para acolher

o Festival são contrabalançadas pela dificuldades em termos de

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acessibilidades, acrescidas pela fama que a Brandoa tem de ser uma das zonas mais problemáticas da grande Lisboa… A programação, de qualidade, mas eminentemente alternativa, aliada ao facto dos autores presentes serem pouco chamativos (ou eram repetentes ou não tinham nada editado em Portugal), também não ajudou a levar o público até à Brandoa. E talvez por isso, com excepção do fim-de-semana em que esteve no Festival o brasileiro Maurício de Souza, criador da Turma da Mónica, deu para perceber que o número de visitantes ficou abaixo de outros anos.

De qualquer maneira, se a Amadora sofreu com mais uma mudança de local, o panorama dos outros Festivais não foi melhor, bem pelo contrário. O Salão Lisboa, em ano de Ilustração Portuguesa, não se realizou e nada indica que a situação venha a ser alterada este ano, tanto mais que a actividade da Bedeteca, entidade responsável pelo Salão Lisboa, tem cada vez menor visibilidade e impacto mediático.

A nível dos pequenos Festivais, ligados às Jornadas de BD da Sobreda, o

panorama não foi mais animador. Os Festivais de Viseu e Moura não se realizaram e mesmo a Sobreda teve que cancelar o Concurso de BD, por falta de apoios. Apenas o Festival de BD de Beja continuou, com uma segunda edição que, apesar da quantidade e qualidade das exposições e, sobretudo, da forma como essas mesmas exposições estavam montadas, não conseguiu dar o salto em termos de público que o sucesso da primeira edição indiciava.

Ou seja, o panorama geral é muito negro, mas poderá vir a melhorar em 2007.

O Festival da Amadora, que entra na sua 18ª edição, procurará certamente ter

uma programação à altura de uma instituição que assume a maioridade, enquanto que a Sul parece haver uma convergência que vai fazer de Maio o mês da BD no Alentejo. Primeiro, com o regresso do Festival de Moura (que vai contar com a presença de um dos principais desenhadores da série Tex, a mais popular BD italiana da Casa Bonelli, que conta com fieis seguidores em Portugal) e depois com a passagem do Festival de BD de Beja para o mês de Maio.

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Face a uma indústria de BD em crise, não se pode esperar que sejam os

Festivais a ocupar o espaço que devia pertencer às editoras, mas cabe aos Festivais de Banda Desenhada fazer chegar o seu trabalho ao grande público e fazer com que se fale da Banda Desenhada nos media. Assim, termino citando

o autor espanhol Angel de la Calle, numa entrevista ao site

www.bdesenhada.com cujas declarações vão nesse mesmo sentido, esperando que os responsáveis dos Festivais as tenham bem presentes: Os festivais fazem-se para o público leitor. Pode ser um festival de vocação minoritária ou alternativa; logicamente, não vão assistir os mesmos públicos que ao Festival de Manga; mas se uma convenção se faz para um público potencial de 400 leitores e só vão 200 é um fracasso. Se se faz para 100 pessoas e vão 150 foi um êxito. Tudo é, pois, relativo. Mas não se deve perder de vista o objectivo prioritário: reivindicar os valores da banda desenhada; para

isso, faz falta que os meios de comunicação se interessem e entrevistem os autores e falem do festival. Que durante uns dias, na cidade que for, os leitores de jornais ou os que vêm TV saibam que existe a banda desenhada e que é algo vivo e culturalmente activo. Mesmo que essa gente não vá ao festival ou não leia banda desenhada. Se não estamos no mapa cultural, não existimos,

por muito valor que acreditemos ter.”

Fanzines

Marcos Farrajota

«Do you want Total War?» (Boyd Rice)

Para a análise dos “Fanzines” do Dossiê 2006 decidi, este ano, não fazer distinção entre Fanzines, Zines, Prozines, Edição Amadora, Edição DIY, Edição Independente, Edição de Autor, etc… porque para além das diatribes já terem sido lançadas no Dossier 2005 (e também no blog da Chili Com Carne), para mais, em mais um ano “na fossa”, 2006 foi um ano rico em experiências no mundo da “pequena imprensa”, diria mesmo, que foi neste mundo onde surgiram as obras mais interessantes dado o deserto da edição comercial.

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Tal com a revista “Times” colocou um espelho na sua capa para eleger a Personalidade do Ano de 2006 – “You.” (você ou nós a população mundial – ou aquela com acesso à www) – devido à capacidade da Humanidade gerar cada vez mais Cultura fora dos malefícios das “grandes companhias” graças a serviços informatizados cada vez mais utilitários (apesar do Youtube, Blogger, POD, etc… serem serviços de grandes empresas), pouco a pouco também (em Portugal) tem aumentado a capacidade de edição de objectos físicos feitos por indivíduos ou colectivos sem grandes recursos materiais e capitais.

Creio que se o mercado comercial da bd está em crise, a culpa é dos “pequenos”, daqueles autores e editores que foram ridicularizados pelos apreciadores da bd comercial – que não achavam que o “Maus” de Art Spiegelman fosse bd porque não servia para rir, ou que os “autobiográficos” não passavam de autores preguiçosos. Ora do que se fala nos Media tem sido autores como Chris Ware, Craig Thompson, Robert Crumb, Joe Sacco, Marjane Satrapi… Ou ainda, por exemplo, no fim deste ano, em Itália, foi lançada uma colecção de “graphics novels” (que incluía “Maus”, “Palestina” de Joe Sacco, Mattotti…) que se vendia com o jornal “La Republica”. Não me parece muito convincente o que se continua a editar por cá. Neste novo milénio as nossas editoras de bd (ou editoras que editam bd) ainda lançam apenas bd’s de super-tipos com cuecas de fora ou álbuns europeus – em que seja qual for o género (História, Western, Policial, etc…) tem sempre uma cena picante, ali mesmo: entre uma conspiração na Corte e uma Cruzada. O panorama da bd portuguesa mudou quando houve um período dinâmico da edição portuguesa entre 1996 e 2001 (em grande parte graças aos apoios da Bedeteca de Lisboa). Os gostos mudaram, os leitores habituaram-se a ler bd portuguesa ou bd de autor mas são os sabujos álbuns europeus que ainda mais se editam em Portugal não deixando espaço público para os “indies”.

Tem sido esta a batalha da “pequena imprensa”: criar não só o seu próprio espaço de exposição pública como ainda criar novos públicos. E por isso que o primeiro destaque de 2006 que faço vai para duas “pseudo-entidades” que animaram a vida cultural da bd, ilustração e edição independente quase

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durante o ano todo (literalmente desde Janeiro até Dezembro de 2006), no Porto e em Lisboa. Falo d’A Mula e da Feira Laica, “feiras de zines e edição independente” com exposições de originais incluídas (e mais do que isso, no caso da Feira Laica, que incluía artesanato urbano, comida vegetariana, produtos culturais muito baratos fossem de origem fossem em segunda mão), a primeira esteve residente nos Maus Hábitos no primeiro trimestre e ainda andou por Sto. Tirso, Braga e Vigo (Galiza). A segunda, realizou a «MAIOR feira de edições independentes» (zines, livros, discos) nos jardins da Bedeteca de Lisboa e programou quase três meses de actividades no Espaço – Centro de Desastres até culminar numa feira de natal. No primeiro caso, ainda de salientar o lançamento do “Cospe Aqui”, maníaco-zine do mesmo grupo organizador do evento, ou seja a dupla Miguel Carneiro e Marco Mendes, bem como os colaboradores (André Lemos, Manuel João Vieira,…), verdadeira lufada de ar fresco no meio.

Rompendo para o exterior

Mais um ano e mais alguns casos de autores saíram do “anonimato” para registos “oficiais” ultrapassando as instituições públicas onde se encontram as colecções para novos autores como a “Lx Comics” da Bedeteca de Lisboa - que mais uma vez falhou em lançar novos autores. A respectiva colecção “Toupeira”, da Bedeteca de Beja, só conseguiu lançar um número.

Em 2006, a iniciativa foi privada dada à contínua desorientação pública, em que assistimos aos regressos das editoras Polvo, Nova Comix e Pedranocharco, bem como da El Pep e da Má Criação, dos quais destaco as últimas duas por estarem a trabalhar de uma forma colectiva - essa palavra alienígena em Portugal – como foi o caso do “Virgin’strip” (El Pep), uma história desenhada por vários ilustradores (Pepedelrey, JCoelho, Lacas e Rui Gamito) e “Dias Eléctricos” (Má Criação), várias histórias escritas por um autor (Luís Rainha) e desenhada por autores consagrados (João Fazenda, Daniel Lima) e novos talentos vindos dos cursos da escola Ar.Co. Espero que esta forma de trabalho seja para continuar.

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Como novas experiências profissionais DIY apareceram dois “comics” (de continuação) da loja Kingpin of Comics e a revista de humor “HL Comix” do autor Derradé que lançou dois números nas bancas.

Uma revista que apostou na bd foi a “Underworld – Entulho Informativo”, dedicada à música underground, que publicou 2 páginas de bd nos quatro números de 2006: o sérvio Aleksandar Zograf, o português João Maio Pinto, e os polémicos norte-americanos Dirty Danny e Mike Diana.

Literalmente para fora, para o estrangeiro, continuaram as colaborações nacionais no zine suíço “Milk+Wodka”, André Lemos participou em vários projectos pela Europa fora (Bongout, Le Dernier Cri, La Commissure, 5eme Couche), Pedro Nora e Isabel Carvalho na antologia finlandesa “Glömp”, Isabel também participou na antologia de bd no feminino “… de ellas” (Edicions De Ponent) e João Maio Pinto em duas antologias da 5eme Couche.

Sucedâneos?

Enquanto o formato “fotocópia barata” vai sendo descartado pelos novos autores / editores – que preferem a Internet ou imprimir edições com aspecto profissional – e ao mesmo tempo que o “Succedâneo” fez 10 anos em Abril (e suspendeu actividade no número -31 que era um carro de rolamentos!) na Bedeteca de Lisboa, surgiram dois novos projectos que seguem as pegadas do Succ: usam o formato fanzine mas com maiores preocupações de produção, apostam em boas fotocopias, assumem o facto de serem edições limitadas e como tal especulam na sua raridade. Foram eles a Imprensa Canalha com três projectos, a saber, o “Néscio”, “Mundo dos Insectos” (de José Feitor) e “Belo Cadáver”; e a Opuntia Books também com três títulos monográficos de André Lemos, Bruno Borges e Frederico (uma criança de 4 anos). Nas folhas destes projectos vamos encontrar algumas bd’s ou colaborações de autores de bd como Filipe Abranches, Rosa Baptista

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Por fim,

Continuaram a revista “Sketchbook” (que acabou ao terceiro número), o zine mutante (agora antologia / livro) “Mesinha de Cabeceira” pela Associação Chili Com Carne, a revista “Venham +5” da Bedeteca de Beja, os zine “Aqui no canto” (especial “Aqui no cantinho” com uma bd para crianças), “O Hábito faz o monstro”, “Durty Kat”, “Jazzbanda” e mais um título bombástico da Joana Figueiredo…

Saiu o “Allgirlzine” (zine de bd no feminino organizado por Daniel Maia), “Alçapão”, zine dedicado à «arquitectura dura» com um bom grupo de ilustradores e autores de bd a colaborarem, e “24h volta em Portugal em bd” (pelo colectivo Dr. Makete) que embora seja um zine é descrito como um «um livro de bd com 24 histórias diferentes realizadas em 24 horas em 24 locais diferentes».

«Power to the people!»

Investigação

Adalberto Barreto

Tal como sucedeu nos anos anteriores vamos considerar para efeitos de investigação os trabalhos publicados (comercialmente ou não) em qualquer espécie de suporte, medium narrativo (escrita, banda desenhada, documentário, filme…) ou onde ocorram, separada ou cumulativamente, um dos seguintes requisitos:

consulta de fontes externas (e.g. a existência de uma bibliografia final é forte indício favorável à consideração do trabalho como investigação), depoimentos de autores, ou outras testemunhas sobre factos que tragam nova informação; tratamento de informação estatística. Grosso modo vamos tentar analisar toda a produção não ficcional sobre banda desenhada (que não seja uma mera opinião) manifestando, também, a vontade (algo utópica) de ser exaustivos. A

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este respeito corremos e assumimos o risco de falhar rotundamente, dado o constante tsunami de informação acessível na Internet. A vantagem é que sendo este trabalho publicado em formato electrónico, podemos sempre acrescentar, censurar ou suprimir informação de forma sucessiva. Não ficamos presos à insuficiência da primeira versão online. Para facilitar a estruturação e leitura desta recolha optámos por dividir o texto em cinco partes: livros, catálogos, publicações periódicas, Internet, teses académicas, conclusões e lista bibliografia final.

LIVROS

Apesar da explosão de informação publicada na Internet e da facilidade cada

vez maior para os autores e investigadores se auto publicarem, designadamente através da blogosfera, verificamos que o suporte “livro”

continua e ser o mais ilustre objecto de recolha e divulgação dos trabalhos de investigação. Nada é mais prestigiante para o investigador do que ver a sua obra publicada no velho formato de papel («the dead tree media») de lombada

e duas capas. Sobre este aspecto é curioso verificar que a cada vez que se

anuncia a morte de papel ou o fim do velho livro, mais uma empresa de e- books abre falência. O velho livro domina o mercado e constitui a suprema glória de quem escreve. Continua, por outro lado, a ser a melhor forma de chegar a informação ao consumidor final com garantia mínima de qualidade. Assim, no ano de 2006 temos:

Pela Assírio & Alvim em parceria (inédita) com o El Corte Inglês a “jóia da coro”: «STUART: A RUA E O RISO» oferece-nos um luxuoso “calhamaço” de 270 páginas que nos conta pormenores biográficos, muito bem estruturados, da vida e obra de Stuart acompanhados de grandes ilustrações e magníficas fotografias. Um inegável contributo para a história da banda desenhada e do

cartoon nacionais, em tempos pouco propícios a publicações dispendiosas. Da Póvoa do Varzim e pelas mãos de Manuel Caldas a obra «FOSTER E VAL» um trabalho sobre a vida, obra, técnicas e influências Harold Foster o autor do Príncipe Valente.

A Câmara Municipal da Amadora e as Edições Afrontamento lançaram para o

mercado um curioso estudo, que merece o nosso destaque, sobre os públicos do Festival da Amadora. Os seus gostos, preferências e motivações para

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frequentar o festival. Trata-se de livro «PRÁTICAS NA BANDA DESENHADA:

OS VISITANTES DO 16º FESTIVAL INTERNACIONAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA». Falta na nossa opinião um pouco mais de audácia ou vontade de saber mais. Gostava, na verdade, de ver um trabalho académico sobre hábitos de leitura de banda desenhada em Portugal: crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos… gostos, tendências, programas de animação preferidos (crianças e adolescentes). Seria uma ferramenta preciosa para os editores e investidores no mercado de banda desenhada. É importante saber qual a percentagem de portugueses que leram mais de 4 livros de banda desenhada por ano (e que são capazes de os identificar), é preciso saber qual é a percentagem de portugueses que não lê banda desenhada (que serão seguramente a esmagadora maioria) e porquê não lêem? É importante saber se os mais novos gostam de cinema de animação e se encontram títulos de livros ou revistas relacionados com as séries que vêem e que gostam mais? É assim que se formam hábitos de leitura. É a ler trash televisivo, tal como muitos da nossa geração começaram por ler as revistas do Mickey antes de passar para o nível do Tintim e já em adultos para o Joe Sacco ou para o Art Spiegelman. Se desprezamos a bd “xunga” (mesmo que seja vista apenas como ferramenta de promoção de hábitos de leitura) e promovemos apenas a bd «venerável» corremos o risco de em vinte anos não encontrarmos ninguém, da geração dos nossos filhos a ler BD neste país. Os leitores de BD serão objecto de estudo para palentólogos. Uma espécie extinta. Uma imagem aterradora que dará vontade de emigrar para o Japão. Para dar um exemplo este artigo produzirá, como é óbvio, um efeito nulo na promoção da leitura de banda desenhada no curto, médio e longo prazo – ao contrário, seguramente, do que sucederia com uma pilha imensa de revistas “Doraemon” à entrada das escolas primárias todas as sextas feiras (durante 4 anos), ao fim de duas décadas… Uma palavra de apreço para o livro «DISCURSO DO ZÉ POVINHO» publicado pelo Centro de Educação Especial Rainha D.ª Leonor também é devida sobretudo pelo trabalho de investigação realizado sobre a vida e obra de Rafael Bordalo Pinheiro. Finalmente, pelo CNBDI foi publicado o «CATÁLOGO DE AUTORES DE BANDA DESENHADA PORTUGUESA» um anuário organizado pelo Nelson

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Dona e Cristina Gouveia com informação pessoal e profissional sobre os referidos autores.

CATÁLOGOS DE EXPOSIÇÕES Na maioria das vezes as exposições pressupõem um trabalho prévio de investigação sobre os autores, estilos / escolas ou assuntos objecto da mostra. Ao contrário das exibições nas galerias de arte (com fins comerciais), os museus (e eventualmente bibliotecas) têm a preocupação profissional de acompanhar as suas exposições com informação detalhada e didáctica (acessível a um público o mais amplo possível). Essa informação fica via de regra a cargo dos letterings, gravações (para ouvir em auriculares), folhetos, brochuras, informação na Internet e catálogos em formato de livro. De qualquer modo a investigação é um requisito indispensável à realização de qualquer exibição em equipamentos culturais de natureza pública ou privada sem fins puramente comerciais. Contudo as instituições públicas (muitas vezes sem autonomia administrativa e financeira) ao debaterem-se com uma queda contínua dos seus orçamentos, por natureza limitados, perdem os meios para adquirir serviços de estudo e investigação e publicam cada vez menos catálogos das exposições que realizam. Isto explica a razão pela qual a Bedeteca de Lisboa, embora mantendo um calendário de exposições amplo e diversificado (seis exposições em 2006), não publicou qualquer catálogo nem teve meios contratuais para “encomendar” trabalhos desta natureza. Para além da Bedeteca de Lisboa também a sua congénere em Beja realizou o seu II Salão Internacional de Banda Desenhada, sem a publicação do respectivo catálogo. A este nível vai se salvando o Município da Amadora que tanto através do Festival como do CNBDI vão mantendo um registo mínimo das suas exposições. Assim, da exposição dedicada à banda desenhada infantil portuguesa que teve lugar no início do ano (CNBDI) foi publicado o catálogo «EM TRAÇOS MIÚDOS». A exposição dividiu-se em quatro partes (andamentos). Os marcos fundadores, a caminho da maioridade, revistas heróis & aventuras e três nomes [actuais] para os novos leitores. As 48 páginas que compõem o catálogo contêm diversos textos dos quais destacamos «Um percurso em quatro andamentos» da Sara Figueiredo Costa que consegue em simultâneo

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fazer uma visita guiada à exposição e (re)contar de forma fluida e agradável uma história abreviada da bd infantil portuguesa. Também digno de registo é o trabalho de José António Gomes (algures entre as páginas 17 e 21) dedicado ao carácter formativo da banda desenhada, ao seu potencial pedagógico e ao estímulo do seu uso no contexto escolar. Para além da exposição acima referida também o DÉCIMO SÉTIMO FESTIVAL DE BANDA DESENHADA DA AMADORA produziu o tradicional catálogo. Com um tema arriscadamente amplo «17 graus periféricos e o resto do mundo» o festival foi uma autentica volta ao mundo em matéria de géneros, estilos e cronologias. O catálogo é disso reflexo e contém no seu interior uma variedade idêntica de artigos, dos quais destacamos os trabalhos de João Miguel Lameiras, Domingos Isabelinho, Nuno Franco, Claude Moliterni, Aleksander Zograf, Sara Figueiredo Costa, Cristina Gouveia e o conjunto de investigadores que assinam mais de cinquenta páginas dedicadas à banda desenhada nos diversos países que compõem a América Latina.

PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS O BD JORNAL vai para o seu segundo ano consecutivo como periódico de referência em Portugal. Em 2006 foram publicados sete números, cuja encadernação soma 208 páginas. Notável espaço de informação sobre banda desenhada em tempos de crise, cujos créditos recaem sobre o infatigável director Machado-Dias. O seu conteúdo editorial é generalista ou de grande abrangência (o cartoon e cinema de animação também podem ser assuntos a tratar). Temas populares como a mangá, ou mais restritos como a BD Finlandesa podem ser destaque assim como a análise do mercado pelos editores e proprietários de lojas especializadas, entrevistas a autores, bem como artigos de autores a expressar uma opinião sobre o mercado e os festivais, reportagens aos salões em Portugal e lá fora, fanzines, edições alternativas e super heróis… Tudo é visto e pouca coisa escapa ao radar deste periódico resistente. Especialmente activo esteve o «BOLETIM DO CLUBE PORTUGUÊS DE BANDA DESENHADA» com a publicação de 6 números. Cinco numerados com dois grandes temas de investigação: «A influência da BD inglesa no Jornal Mosquito» em três actos da autoria de Américo Coelho e «O início da guerra

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fria e sua influência nos comics americanos» em duas partes da autoria de Fernando Cardoso e um número especial de aniversário (30 anos do CPBD) dedicado a «Il legionário».

INTERNET Na Internet os destaques vão para o blogue «MANIA DOS QUADRADINHOS» (http://quadradinhos.blogspot.com/) que mantém o registo de repositório de informação sobre a banda desenhada clássica. O site BDESENHADA (www.bdesenhada.com) com alguns textos de investigação dedicados à utilização da banda desenhada como instrumento de promoção da leitura nos vários ciclos de ensino e o site CENTRAL COMICS (http://www.centralcomics.com).

TESES ACADÉMICAS Das 2547 teses de doutoramento, mestrado e licenciatura registadas no catálogo DiTed (Biblioteca Nacional) temos zero ocorrências para a pesquisa banda desenhada.

CONCLUSÕES Um quadro comparativo de livros considerados investigação (com ISBN) publicados em Portugal nos últimos 7 anos, mostra-nos que 2006 foi um ano de boa colheita (comparável apenas com o ano 2000 que correspondeu ao siglo de oro da Bedeteca) e poderia augurar uma possível retoma na publicação de trabalhos de investigação em BD. Creio, no entanto, que estes números não são