Você está na página 1de 947

Copyright © M egan M axwell, 2013

Todos os direitos desta edição reservados à


EDITORA OBJETIVA LTDA.
Rua Cosme Velho, 103
Rio de Janeiro – RJ – CEP: 22241-090
Tel.: (21) 2199-7824 – Fax: (21) 2199-7825
www.objetiva.com.br

Título original
Sorpréndeme
Capa
M arcela Perroni sobre arte original da edição italiana
Imagens de capa
Shutterstock
Revisão
Cris Bastos
Ana Grillo
Suelen Lopes

Coordenação de e-book
M arcelo Xavier
Conversão para e-book
Abreu’s System Ltda.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

M418s
M axwell, M egan
Surpreenda-me [recurso eletrônico] / M egan M axwell
; [tradução M onique D’Orazio]. - 1. ed. - Rio de Janeiro :
Objetiva, 2014.
recurso digital

Tradução de: Sorpréndeme


Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions
M odo de acesso: World Wide Web
336 p. ISBN 978-85-8105-212-0 (recurso eletrônico)
1. Literatura erótica espanhola. 2. Livros eletrônicos.
I. D’Orazio, M onique. II. Título.
14-09388 CDD: 863
CDU: 821.134.2-3
Sumário
Capa
Folha de Rosto
Créditos
Dedicatória
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
32
33
34
35
36
37
38
39
40
41
42
Epílogo
Este romance é dedicado com carinho a todos
que,
depois de lerem a trilogia Peça-me o que quiser,
acharam Björn um belo de um bombom (o que ele
é).
Preparados?
Espero que gostem!
1
Alto...
Moreno...
Olhos azuis...
Sexy...
Simpático...
Björn Hoffmann era tudo isso.
Curtir uma noite de sexo caliente no Sensations
era a coisa mais fácil e divertida do mundo para um
homem como ele.
As mulheres, e também alguns homens, ficavam
loucos sempre que Björn lhes dirigia seu olhar leonino
e fazia a proposta de entrarem juntos em um
reservado. Björn era atraente... muito atraente.
Geralmente, os homens que entravam sozinhos
nessa, ou em qualquer outra casa de swing, não
tinham o direito de escolher. Eles é que eram
escolhidos. Mas com Björn não funcionava assim.
Ele escolhia. Ele decidia. Ele selecionava.
Naquela noite, depois de uma semana de muito
estresse e trabalho, dirigia seu elegante carro
esportivo cinza em direção ao Sensations ouvindo a
música Let’s Stay Together , de Al Green, um de
seus cantores preferidos.
I’m, I’m so in love with you
Whatever you want to do
Is all right with me
‘Cause you make me feel so brand
new
And I want to spend my life with
you.
Como costumava dizer sua grande amiga Judith,
“quem canta, seus males espanta”, e cantarolar soul
music enquanto dirigia fazia Björn relaxar e era um
estímulo para a noite de sexo que desejava ter logo
mais.
Não havia ligado para nenhum de seus casinhos.
Não precisava.
Queria apenas sexo; não eram necessários
jantares nem conversas. Gostava muito de mulher.
Dava-se bem demais com elas. Eram maravilhosas e
excitantes. Por isso, procurava a companhia daquelas
que eram como ele. Que pensavam como ele. Que
agiam como ele. Que só queriam sexo. Só sexo.
Quando chegou ao Sensations, Björn parou o
carro num estacionamento próximo. A segurança
sorriu ao vê-lo. Ele já tinha ido ali outras vezes e,
quando a olhava, ela se sentia especial.
Saiu do estacionamento e, ao entrar na casa,
encontrou vários amigos no bar. Conversou
descontraidamente com eles até notar um casal
conhecido, com o qual se entendeu só de olhar.
Minutos depois, na companhia de dois amigos, Carl e
Hans, Björn se aproximou do casal. George e Susan
sorriram ao vê-los. Não era a primeira vez que
faziam esses jogos juntos; minutos depois, os cinco
se dirigiram até um dos reservados. Não era preciso
falar nada. Todos sabiam o que queriam. Todos
sabiam o que estavam procurando. A noite prometia
ser excitante e prazerosa.
Ao entrar no reservado, George sentou-se na
cama e os outros continuaram em pé.
Susan, uma mulher atraente, de cabelos longos e
sedosos, queria gozar muito junto com esses homens.
Observando-os, mordeu o lábio à espera de que o
jogo sensual começasse. Seus mamilos estavam
arrepiados e sua vagina, molhada. Tremia só de
pensar no prazer.
Björn sorria. Gostava de sentir a excitação das
mulheres. Assim, depois de deixar seu copo sobre a
mesinha, chegou perto de Susan e perguntou no seu
ouvido:
— Está preparada, Susan?
— Estou.
— Você quer brincar com a gente? — insistiu,
passando a mão no seio dela.
Ela fez que sim com a cabeça e sua respiração
se acelerou.
Sem precisar tocar nela, só pela sua expressão,
Björn sabia que o tecido fino da calcinha de Susan já
estava molhado. Nunca, nenhuma mulher, em seus 32
anos de vida, tinha rejeitado esse contato íntimo. Elas
gostavam. Ficavam excitadas. Björn era tão sexy, tão
viril, que todas, absolutamente todas, eram seduzidas
por ele, ainda mais quando viam seus olhos azuis.
Susan gostava de brincar com vários homens.
Não gostava de mulheres. Seu apetite sexual era
insaciável e o marido adorava vê-la nesse estado
ardente de desejo. Era o jogo deles. Eram as suas
normas e eles adoravam curtir assim a sua
sexualidade.
Susan virou-se para encarar Björn. O olhar
cheio de luxúria falava por si só. Desejava-o.
Desejava que ele a tocasse. Morria de vontade de
sentir prazer e ficava encharcada só de imaginar
como aqueles homens brincariam com ela.
Lentamente, Björn começou a desabotoar a
blusa dela; a respiração de Susan acelerou. Dois
segundos depois, ele viu os seios empinados, os
mamilos rígidos e murmurou:
— Susan, adoro seus seios.
— São seus — ofereceu ela.
Björn sorriu. Sentou-se na cama e fez um sinal
com o dedo para que ela se aproximasse enquanto
todos os outros observavam. Susan obedeceu e
quando ficou frente a frente com ele, excitada, levou
o maravilhoso mamilo direito até a boca de Björn,
que o aceitou com deleite. Durante vários minutos,
ele lambeu e chupou, até o mamilo ficar duro como
pedra. Ela sorriu.
George, o marido de Susan, levantou-se. Abriu
o zíper da saia dela, que caiu aos seus pés. Em
seguida, desamarrou duas correntinhas douradas que
uniam as laterais do fio-dental, que também foi ao
chão, deixando descoberto o púbis depilado e a
bunda redonda e apetitosa.
— Interessante — sussurrou Hans,
aproximando-se para dar um tapa no traseiro de
Susan.
George, o marido, sorriu. Deu início ao jogo.
Desabotoou a calça, que tirou junto com a cueca.
Sentou-se na cama e, tocando o pênis duro, encarou
Carl. Murmurou:
— Também quero brincar.
Carl aproximou-se dele sem demora; George
tirou sua calça e a cueca. Diante de seus olhos surgiu
uma caliente ereção, que, sem pensar, enfiou na
boca. Saboreou. Deliciou-se com ela e puxou Carl
para si apertando sua bunda. Carl fechou os olhos de
prazer.
Susan, excitada ao presenciar a cena, suspirou
enquanto Björn, com prazer cada vez maior, chupava
seus mamilos; Hans começava a tocá-la por trás.
O jogo estava ficando mais intenso. Susan e
George encontraram o que tinham ido procurar
naquele lugar. Björn saboreava o manjar que ela
oferecia sem reservas. Porém, quando a mulher quis
lhe tirar a roupa, Björn parou e falou com a voz
baixa: — Eu tiro.
— Não quer que eu te ajude?
Björn negou com a cabeça. Não lhe agradava
estar nas mãos de ninguém. Ele é quem decidia
quando tirar a roupa e quando colocar. Esse era o
jogo dele. Todas aceitavam essa condição e com
Susan não seria diferente.
Enquanto Björn tirava a roupa e deixava tudo
dobrado com cuidado sobre a cadeira, Hans
masturbava a mulher, que estava encharcada e
desejava a ereção potente e viril diante dela.
Björn sorriu. Sabia do magnetismo que exercia.
Sentou-se pelado na cama. Sem tirar os olhos de
Susan, percorreu seu púbis lisinho e ordenou:
— Chega mais perto.
Assim ela fez e Björn a tocou. Abaixou a mão
lentamente até enfiá-la entre as pernas de Susan e
comprovar que estava molhada, muito molhada.
Hans, por trás, apertou seus mamilos. Susan fechou
os olhos demonstrando o prazer que sentia, e seu
marido George continuava chupando Carl com
prazer.
Durante vários minutos, Björn passeou os dedos
pelo sexo molhado de Susan, até que ela separou as
pernas para facilitar o acesso. Ele se ajoelhou na
frente dela e pousou a boca sobre o púbis. Mordeu.
E quando sentiu Susan vibrar de prazer, abriu-a com
os dedos e meteu-lhe a boca entre as coxas. A
mulher arquejou: a boca de Björn era impetuosa,
enquanto ele se deleitava chupando o clitóris de
Susan; ela só gemia e aproveitava.
Minutos mais tarde, Björn se deu por satisfeito.
Levantou-se e, pegando-a pela cintura, puxou a
mulher para junto de si.
Sem falar nada, enfiou um dedo na vagina já
bem lubrificada e, em seguida, enfiou outro.
— Gosta que eu brinque com você assim?
Susan tremeu e fez que sim. Abriu mais as
pernas e se agarrou aos ombros de Björn, deixando-
se ser masturbada com força por ele, enquanto Hans
apertava sua bunda e sussurrava em seu ouvido
coisas calientes, coisas muito... muito picantes, que a
deixavam louca.
Um gemido de prazer os fez perceber que Carl
tinha chegado ao clímax com a chupada de George.
Björn, ainda masturbando Susan com os dedos,
parou de repente e disse:
— Suba na cama e se ajoelhe em cima do seu
marido.
Excitada e querendo sexo, fez o que aquele
deus grego lhe pedia. Quando viu a mulher
posicionada como ele tinha pedido, Björn subiu na
cama atrás dela e murmurou em seu ouvido:
— Agora deite no seu marido e coloque seus
peitos na cara dele.
Quando Björn percebeu que George os
colocava na boca, falou entre dentes:
— Quero que diga ao seu marido o que você
quer que aconteça e depois o que sente enquanto eu
te fodo.
— Sim — gemeu excitada.
— Abra as pernas, Susan.
Não era a primeira vez que faziam esse jogo.
Logo depois, enquanto Björn a masturbava, ela
começou a dizer ao marido que queria ser comida
por todos. Desejava todos entrando nela sem parar
por horas. George, enquanto ouvia a mulher,
masturbava-se com força deitado na cama. Os dois
gostavam de jogar. Björn segurou o pênis duro,
colocou um preservativo e lentamente penetrou
Susan, que se contorcia de prazer.
— Assim... todo... todo...
Björn parou e, dando um tapa na bunda dela,
exigiu:
— Não me peça nada. Conte ao seu marido o
que eu estou fazendo, entendeu?
Excitada pela voz e pelo que ele lhe ordenava,
Susan sussurrou:
— Björn abriu minhas pernas e está me
fodendo. — Ele deu um tranco com força,
penetrando mais fundo, e ela ofegante, completou: —
Enfiou o pau inteiro em mim, querido. Eu gosto
assim. Me sinto preenchida... mais...
Ardendo de prazer ao escutar o que ela dizia, o
marido agarrou Susan pela cintura e a moveu para
encaixá-la melhor em Björn.
— Mais. Quero que ele te foda mais —
sussurrou.
Björn sorriu ao ouvir George e enfiou com
força, até penetrá-la completamente.
— Assim, George? Quer que eu foda a sua
mulher assim?
Susan gemeu. A luxúria e o tesão que sentia
naquele instante não deixavam que falasse nada.
George, enlouquecido, confirmou:
— Assim... fode ela assim.
Björn sorriu. Gostava desses jogos. Com um
movimento forte penetrou Susan ainda mais fundo,
agarrando seus cabelos para que ela levantasse a
cabeça:
— Quando eu sair de você, o Carl vai entrar e
depois o Hans. O último a te possuir vai ser o seu
marido. Quando ele acabar, vou te foder outra vez. É
o que você quer, Susan?
— Sim... sim...
Esse tipo de sexo era selvagem, ardente,
excitante, desinibido e todos gostavam.
Especialmente Susan e George, que eram os que
tinham começado o jogo. Björn aumentou o ritmo; os
seios dela balançavam sobre o rosto do marido, que
se masturbava ouvindo todo tipo de proposta
indecente por parte de Carl e Hans.
Deleite. Prazer. Era o que todos sentiam naquele
instante.
Um a um, os homens penetraram Susan.
Um a um ela os recebeu com prazer.
Um a um eles a possuíram como ela pedia até
que chegasse ao êxtase. Quando o marido terminou,
Björn puxou-a pela mão e levou-a até a ducha.
Susan colocou-lhe um preservativo com a boca e
Björn penetrou-a outra vez. Quando o novo ataque
terminou, levou-a mais uma vez até a cama: — Como
acha que seu marido está se saindo?
Sentindo calor, apesar da ducha que acabara de
tomar, encarou George, que se deleitava ao ser
penetrado por Carl, enquanto chupava Hans.
Durante vários minutos, respirações masculinas
ofegantes tomaram o reservado.
Björn os observava junto a Susan. Esse não era
o tipo de sexo que curtia, ele gostava de mulheres,
mas era bom assistir. Quando o trio chegou ao clímax
e se dirigiu ao chuveiro, a cama ficou livre. Björn,
excitado pelo que tinha visto, rasgou uma embalagem
de preservativo, colocou-o no pênis e se dirigiu a
Susan: — Vem sentar em mim.
Ela montou nele. Com habilidade, Björn moveu
Susan em busca do próprio prazer. Gostava de ter o
controle da situação e agora era ele quem queria
sentir prazer. A mulher arfou com a profundidade da
penetração; quando achou que não era possível ir
mais fundo, Björn se moveu com decisão. Susan
gritou e, ao ver que ele sorria, sussurrou: — Gosto
de como você me possui.
— Me fala o quanto você está gostando —
exigiu Björn.
— Muito... muito... Ai, assim! — gritou outra
vez à nova investida.
Os três homens saíram do chuveiro e ficaram em
volta da cama. Björn, quando os viu, falou, metendo
mais uma vez:
— Susan, fale pro seu marido por que você
gosta que eu te foda.
— Porque você me preenche toda. É duro...
muito duro... não para — gritou, abrindo-se mais
para Björn.
E ele não parou. Continuou aproveitando o que
mais gostava. O sexo.
O sexo sem compromisso.
O sexo por puro prazer.
O sexo sem amor.
O sexo ardente e selvagem.
Excitado pelos gritos da mulher, George não
aguentou mais e exigiu participar. Björn sorriu.
Apertou Susan sobre si e segundos depois George
enfiou a ereção no mesmo lugar onde Björn a
penetrava. Os dois preencheram a vagina dela
enquanto ouviam os gemidos e a respiração excitada.
Susan gritava de prazer. Era isso que desejava.
Gostava de se sentir completamente possuída.
Lambia os lábios de prazer enquanto os dois homens
tomavam seu corpo e se deliciavam. De novo e de
novo afundaram-se nela. Quando Björn não pôde
mais aguentar, liberou seu gozo.
Assim que os dois saíram de dentro dela, Björn
levantou-se e foi direto para a ducha; Hans e Carl
ocuparam seus lugares e possuíram Susan mais uma
vez. Ela queria. Ela desejava. Ela se entregava aos
homens com tesão, ansiosa por dar e receber prazer.
Enquanto a água corria por seu corpo, Björn
fechou os olhos. O sexo o relaxava, o fascinava, mas
uma parte de sua vida ainda estava incompleta. Não
queria admitir, mas algo dentro de si queria ter o que
outros amigos seus, como Frida e Andrés ou Eric e
Jud, tinham. Uma vida sexual plena com uma parceira
de verdade.
O problema é que Björn era muito exigente e
não era qualquer mulher que servia para ele. Apenas
dois minutos depois de conhecê-lo, todas estavam
babando e isso o deixava desconcertado. Precisava
conhecer uma mulher que o surpreendesse. Que o
deixasse louco! Mas nunca nenhuma delas conseguia
surpreendê-lo o suficiente para seu interesse
ultrapassar o primeiro encontro. Tinha amigas. Muitas
amigas. Mas nenhuma especial.
Assim que desligou a ducha, observou como os
outros continuavam sua festa particular sobre a cama.
Acariciou o pênis. Roçou os dedos e uma nova
ereção surgiu. O sexo era excitante e aquilo que via
logo o estimulou. Quando viu o orgasmo tomar o
corpo de Carl, colocou um novo preservativo e,
ainda molhado, caminhou novamente até a cama.
Agarrou a mulher e lhe penetrou o ânus. Ela gritou.
Possuindo-a, agarrou com força seu quadril e
começou a movê-la como queria. Susan se contorcia
enlouquecida. O marido, ao vê-los, rapidamente se
posicionou na frente de Susan e enfiou o pênis na
boca dela. Susan lambeu, chupou e ninguém parou
antes que seus corpos ficassem tensos e finalmente
atingissem o orgasmo.
Três horas depois, Björn saiu sozinho do local.
Foi até o estacionamento; após se despedir da
segurança, que corou ao vê-lo, entrou no carro e
dirigiu em direção à sua casa, ao som de Al Green,
que tocava outra vez. Tinha que descansar.
2
O céu estava lindo.
Era um daqueles dias em que ela gostava
especialmente de pilotar, cantando I Gotta Feeling,
do The Black Eyed Peas.
I gotta feeling that tonight’s
gonna be a good night
That tonight’s gonna be a good
night
That tonight’s gonna be a good,
good night
Tonight’s the night
Let’s live it up
I got my money
Let’s spend it up
Melanie olhou o relógio: 15h18. Em 35 minutos
eles iriam aterrissar na base norte-americana de
Ramstein, no oeste da Alemanha.
Lá esperavam por eles várias ambulâncias
militares que levariam os americanos feridos a bala ou
por explosivos que ela transportava em seu avião.
Esfregou os olhos. Estava cansada, mas a
música aumentava sua adrenalina e isso a mantinha
acordada. Pilotar desde o Afeganistão deixava
qualquer um esgotado e, naquela última etapa da
viagem, ainda tinha a ansiedade por aterrissar logo.
Baixou o volume da música para pedir a Neill: — Me
passa a água?
Neill girou na poltrona; Fraser, que estava logo
atrás, passou-lhe uma garrafinha. Melanie, Mel para
os amigos, bebeu e agradeceu.
Mel, Neill e Fraser eram respectivamente piloto,
copiloto e chefe de carga da Air Force C-17
Globemaster, e voltavam do Afeganistão. Haviam
levado provisões a algumas bases de operações
norte-americanas e voltavam com alguns militares
feridos que seriam atendidos no hospital militar norte-
americano de Landstuhl.
— Que horas saímos pra Munique? —
perguntou Neill.
Melanie sorriu. Desejava ver sua filha, mas isso
só seria possível no dia seguinte. Tanto ela, como
Neill, tinham o que mais amavam os esperando em
Munique. Ambos queriam chegar ao que chamavam
de “lar”.
— Bem cedo — respondeu.
— Não saia sem mim. Quero ver a minha
família.
Mel fez que sim com a cabeça, aumentou
novamente o volume da música e os três começaram
a cantar em voz alta.
Quando a música acabou e o silêncio tomou o
lugar, Fraser observou: — Tenente, lembre-se de
que desta vez eu vou com vocês a Munique.
— Tem alguém especial te esperando? — ela
perguntou, achando graça. Fraser, ouvindo isso,
resmungou: — Uma aeromoça linda com pernas
compridas e boca espetacular.
Neill deu uma gargalhada e Mel zombou.
— Cretino.
Fraser a encarou. Respondeu, divertindo-se:
— Tenente, nem só de pão vive o homem e eu
não sou de ferro.
Mel riu. Ela não era de ferro, embora seus
companheiros pensassem que fosse. Olhando para
Fraser, acrescentou: — Desta vez não posso te
oferecer o sofá da minha casa. Minha mãe está lá.
— Não se preocupe. A Monica me ofereceu a
cama dela.
— Uau, aí tem — riu Neill.
Fraser sorriu e deu-lhe um tapinha:
— A Monica é uma mulher doce e sedutora —
brincou, provocando o riso dos companheiros.
— Esse é o pássaro do Robert? — perguntou
Fraser indicando um avião.
Os três observaram a aeronave que se
distanciava. A tenente respondeu: — Não. Combinei
com ele de jogar bilhar e tomar umas cervejas hoje à
tarde. Ele teria me avisado se estivesse de partida.
O silêncio tomou conta da cabine do avião até
Mel perguntar:
— O que aconteceu com a música?
Achando graça, os dois sorriram; sem precisar
falar, Neill trocou o CD. Deu play e a voz de Bon
Jovi invadiu o cubículo. Os primeiros acordes de It’s
My Life começaram a soar. Acompanhando com a
cabeça, os três estavam cantando a plenos pulmões
ao mesmo tempo que colocaram os óculos de sol.
Aquele era um ritual. O ritual deles. Sempre a mesma
música. Isso significava que estavam chegando em
casa. Ao seu “lar”.
It’s my life
It’s now or never
I ain’t gonna live forever
I just want to live while I’m alive
A música e seu significado eram muito especiais
para os três amigos. Escutavam sempre que saíam ou
chegavam de viagem. Era o começo e o fim de tudo.
Como dizia Bon Jovi, “não vou viver para sempre, só
quero viver enquanto estiver vivo”.
Vida... essa palavra representava tudo para eles.
Por causa do trabalho, viam coisas
desagradáveis demais.
Por causa do trabalho, aprenderam a ser
sobreviventes.
Por causa do trabalho, Mel perdeu o homem
que amava.
Enquanto cantarolava, ela se concentrou na
aterrissagem. Diminuiu a velocidade e empinou o bico
do avião. Quando o trem de pouso central tocou a
pista, Mel puxou os freios ao máximo e ativou os de
trás conforme a aeronave reduzia pouco a pouco a
velocidade. Quando alcançou 40, 50 nós, reduziu a
potência dos motores e o avião começou a parar, até
que Mel, assumindo novamente o controle, o
manobrou até o hangar indicado pelos companheiros
em terra.
Quando os motores pararam, a porta traseira do
avião foi aberta e deu-se início ao desembarque.
Neill, Fraser e Mel ficaram para trás para vestir os
uniformes. Quando acabaram e saíram da cabine,
Mel ouviu: — Tenente Parker.
Ela olhou e depois de uma saudação militar
formal, respondeu:
— Tenente Smith.
Abaixaram as mãos e sorriram. Mel estava
frente a frente com Robert Smith, um grande amigo e
piloto de outro avião C-17.
— Como foi o voo, Mel?
— Normal... como sempre.
Riram. Robert comentou:
— Desta vez não vamos poder tomar cerveja
juntos. Viajo para o Líbano assim que terminarem de
carregar o meu pássaro.
— Tem voo hoje?
Robert fez que sim e disse:
— Tenho. Teoricamente eu só ia viajar amanhã,
mas estão precisando de abastecimento com
urgência, por isso, vamos viajar um dia antes.
Os dois balançaram as cabeças. Essa vida era
assim. Mel deu uma piscadinha e perguntou: —
Como está Savannah?
Quando pensou na mulher, Robert sorriu.
— Feliz com a transferência. Agora ela está em
Fort Worth arrumando a casa. Espero estar com ela
daqui a alguns meses. Aliás, tenho que agradecer ao
seu pai. Savannah me disse que ele está ajudando
com a papelada.
— Papai te conhece, você é meu amigo, e ele
sabe que a gente tem que cuidar dos amigos.
Riram. Robert disse:
— Manda um beijo grande pra princesa.
— A minha mãe está aqui na Alemanha com ela.
Assim que ouviu a amiga, Robert soltou um
palavrão e completou em seguida: — Droga, eu teria
gostado de ver Luján. Manda lembranças e muitos
beijos pra essa bonequinha chamada Sami. Ela é meu
ponto fraco.
— Eu sei — riu Mel. Ao ver que García, a
copiloto de Robert, estava chegando, murmurou: —
Aquela cervejinha fica pra outro dia, tudo bem?
Robert concordou. Com um sorriso no rosto
apertou a mão de Mel e saiu.
Ela observou o amigo se afastando, lembrando-
se dos bons momentos que os dois tinham passado
juntos. Voltando à realidade, se concentrou em
checar seu pássaro. Quando Mel e os rapazes
terminaram, ela pegou uns papéis que recebeu de
Neill e disse: — Estou indo entregar isso pro
comandante Lodwud.
Fraser e Neill concordaram com um gesto e Mel
saiu em direção ao escritório do hangar 12. No
caminho, vários homens bateram continência e Mel
cumprimentou de volta. Quando chegou ao gabinete
do comandante, bateu na porta com firmeza. Logo
ouviu sua voz grave; sem pensar duas vezes, entrou.
O militar de uns 40 anos, alto e forte, se
levantou da mesa ao ver Mel, que disse: — Senhor,
tenente Parker se apresentando.
O comandante moveu a cabeça numa saudação.
— Tenente Parker.
Mel sorriu. Jogou os papéis sobre a mesa.
Passou o trinco na porta e, já abrindo o zíper do
macacão militar, disse: — Temos vinte minutos.
Vamos aproveitar.
O comandante se aproximou imediatamente,
começou a passar os lábios no pescoço de Mel e os
dois se entregaram ao prazer do sexo.
Nada de beijos...
Nada de carícias...
Nada de amor...
Os dois queriam sexo em estado puro. Quando
as mãos do comandante subiram até os seios de Mel,
ela o olhou nos olhos e sussurrou: — Tempo é
dinheiro, comandante.
Enlouquecido pela entrega que aquela jovem
sempre demonstrava nesses encontros, não teve
dúvida. Com brutalidade colocou os seios dela na
boca e chupou-os enquanto a carregava para cima
da mesa. Os papéis caíram no chão quando Mel se
estendeu sobre ela. As roupas dos dois voaram pela
sala.
— Tenente... — ele sussurrou, já duro como
pedra quando ela se ofereceu abrindo as pernas.
Mel sorriu. Olhava para ele, queria aquilo que
tinha ido procurar. Exigiu: — Vamos. O tempo está
passando e os homens estão me esperando.
Querendo continuar o que começou, o
comandante pegou Mel nos braços e os dois
entraram no banheiro do escritório. Os gemidos não
seriam ouvidos de lá. Depois de fechar a porta, o
comandante a encarou. Colocou-a no chão e disse:
— Vira.
Mel provocou num sussurro:
— Vira o senhor...
O comandante sorriu e deu a volta bruscamente.
Aproximou a ereção do traseiro dela. Esfregando-se
em Mel, disse, pegando um preservativo no armário
do banheiro: — Abre as pernas e agacha. — Mel
obedeceu. — Se apoia na borda da banheira.
Já com o preservativo e com Mel na posição
que queria, colocou a boca perto do ouvido dela: —
Lembre-se, tenente. Nada de gemer, ou todo mundo
vai ficar sabendo.
— Lembre o senhor também, comandante —
Mel respondeu.
Ela queria sexo. Queria muito. Deixando-se
manipular como uma boneca, Mel permitiu que o
comandante lhe abrisse mais as pernas e penetrasse
seu sexo molhado. O ataque foi tão intenso que ela
precisou morder o lábio para não gritar. Encaixados
um no outro, o comandante apalpou a bunda dela e
perguntou: — Gosta assim, tenente?
— Sim... senhor...
Voltou a penetrar outra... e outra vez. Aquilo
era uma maravilha. Desejava, se deliciava e quando
recuperou o controle do corpo, separou-se do
comandante com um movimento rápido, virou-se e
ordenou: — Sente-se, senhor.
Pego de surpresa com a mudança no jogo, o
comandante tentou protestar, mas ela, com o seu
pênis nas mãos, insistiu, mordendo o queixo dele.
— Sente-se... já disse.
O homem, excitado, fez o que ela pedia,
sentando-se no vaso. Logo em seguida Mel sentou-
se sobre o pênis dele, até que estivesse todo dentro
de si. Sem deixá-lo falar, colocou um dos seios em
sua boca; ele deu uma mordidinha no mesmo
instante.
— Assim... chupa.
Os movimentos ficaram mais intensos.
Os dois estavam cada vez mais excitados e o
banheiro estava muito quente. O quadril de Mel
dançava para a frente e para trás; encaixava-se no
comandante num ritmo frenético. Ele a segurava e a
ajudava no movimento, enlouquecido. Ele gemia cada
vez mais fundo e Mel, fora de si, agarrava-se aos
seus ombros cada vez mais forte, enquanto enfiava os
seios na boca dele para abafar o som.
Um prazer devastador invadiu o corpo de Mel,
que por fim explodiu num orgasmo.
Quando tudo acabou, durante vários segundos
ficaram um nos braços do outro. Não falaram nada.
Não se beijaram. Não se acariciaram. Até que Mel
se levantou para se limpar; sem olhar para ele, saiu
do banheiro, recolheu a roupa e começou a se vestir.
Em seguida, ele foi ao encontro dela no gabinete.
Quando ambos já estavam vestidos, Mel sorriu e
comentou: — Como sempre, foi um prazer,
comandante Lodwud.
O militar sorriu e, deixando de lado as
formalidades, perguntou:
— Pensei que você fosse chegar antes. O que
aconteceu?
— Problemas no resgate.
Olhou-a da cabeça aos pés com os olhos
castanhos. Perguntou:
— Vai passar a noite aqui?
— Vou.
— Tenho uma reserva para hoje num hotel. Boa
comida, boa companhia... sexo. Que tal?
Insinuante, Mel estendeu a mão. O comandante
sorriu. Abriu a gaveta de uma mesinha e, pegando
uma chave, disse: — Hotel Bristol. Quarto 168, às
oito e meia.
— Vou estar lá.
Lodwud sorriu. O sexo e os jogos com Mel
eram sempre excitantes. Quando viu que ela fechava
o macacão cáqui, despediu-se: — Até logo, tenente.
— Tchau, senhor.
Ela caminhou em direção à porta, abriu o trinco,
saiu do escritório e voltou aos seus homens e seu
avião. Não saiu de lá até que estivesse
completamente vazio.
Às seis da tarde, depois de se despedir de sua
equipe e de combinar de se encontrar com Fraser e
Neill às sete da manhã do dia seguinte, pegou um táxi
até o hotel. Com a chave que o comandante lhe deu,
abriu a porta e rapidamente tirou a roupa. Precisava
de uma ducha naquele minuto.
Ao sair do banho, colocou música para tocar no
celular. Gostava muito de um grupo espanhol
chamado La Musicalité. Especialmente uma música
chamada Cuatro elementos, que começou a cantar.
Dolor que no quiero ver,
dolor que nunca se va,
no puedo decir adiós,
ni quiero decir jamás,
tumbado al amanecer,
llorando porque tú vuelvas otra
vez.
Era isso que estava sentindo. Dor. Uma dor que
não queria ver, mas também não conseguia
abandonar. Mike não deixava. Ou será que era ela
mesma quem não deixava?
Dançou. Subiu na cama como uma menininha e
dançou sem controle até que, já cansada, abriu sua
mochila e tirou um conjunto de lingerie limpo, que
vestiu. Em seguida, olhou o saquinho que um amigo
tinha conseguido para ela e, sem hesitar, enrolou um
baseado.
Com os olhos distantes por causa das
recordações, continuou fumando. Sabia que não era
certo fazer aquilo, mas naquele momento nada
importava. Estava sozinha. Naquele instante era dona
da própria vida e fazia o que queria. Depois daquele
baseado, veio outro e outro. Quando olhou no
relógio não ficou surpresa de ver que já eram 20h21.
O comandante não ia demorar, o que, de fato, não
aconteceu. Alguns minutos depois, a porta se abriu.
Ao vê-la sentada na cama de calcinha e sutiã,
fumando, ele sorriu.
Sem falar nada, tirou o boné e a jaqueta,
sentou-se com ela e perguntou, pegando o baseado
da mão dela para dar um trago: — Tudo bem?
Tentando disfarçar, Mel respondeu:
— Tudo.
— E por que você está fumando essa merda?
Ela sorriu.
— Estou tentando fugir um pouco.
Lodwud compreendia, mas disse, disposto a
tirá-la daquele caminho: — Essa merda não presta,
Mel.
— Eu sei, mas é a última vez que vou fumar
isso. — Os dois riram. Mel continuou: — Também
não é certo o que estamos fazendo aqui ou no
escritório do hangar, mas, mesmo assim, continuamos
fazendo. Aliás, essa merda não presta, mas bem que
você está fumando agora.
Os dois sorriram e então ele disse, tragando
outra vez:
— Quando eu ou você encontrarmos alguém
importante, deixaremos de nos encontrar, não acha?
Mel deu de ombros. Não tinha a mínima
intenção de encontrar alguém.
— Veremos. Mas antes que isso aconteça,
quero continuar me divertindo com você. A gente se
conhece. A gente sabe que isso aqui é sexo sem
compromisso e respeitamos algumas regras —
respondeu.
Sorriram mais uma vez. Não se beijavam e não
pediam explicações. Essas eram as condições.
Abraçando-o, Mel completou: — Estamos bem
arranjados, eu e você. O amor destruiu a nossa vida
e só nos restaram esses momentos bobos, que de
certo modo inventamos. Nem a Daiana nem o Mike
merecem isso, mas aqui estamos nós dois... como
sempre.
Lodwud concordou. Daiana era a mulher cruel
que o tinha trocado por um alemão. Depois de alguns
minutos, o comandante tomou as rédeas do jogo.
Tirou um lenço escuro do bolso para vendar os olhos
de Mel, mas ela não deixou. Lodwud ficou surpreso.
— Não quer pensar no Mike?
— Quero. Como sempre você será o Mike e
eu, a Daiana. Mas não quero venda. Fiquei tão
chapada que hoje nem preciso.
— É você quem sabe.
Pegou a mão dela e colocou-a entre as pernas
para que ela o tocasse.
— Quero uma Daiana caliente, receptiva e que
sabe o que quer. Quando eu já tiver cansado dessa
Daiana, quero outra que finalize o jogo do jeito que
você já sabe — disse em voz baixa no ouvido dela.
Mel tocou-o do jeito que sabia que ele gostava.
Respondeu baixinho: — Mike... vamos brincar.
Era um jogo perigoso para os dois. Duas almas
ressentidas. Duas pessoas precisando de carinho e
que, de vez em quando, se encontravam num quarto
de hotel e fingiam que estavam transando com outra
pessoa.
— De joelhos, Daiana.
Mel fez o que ele pedia sem precisar de mais
instruções: fez o que Mike gostaria que ela fizesse.
Tirou a calça, a cueca e colocou o pênis na boca.
Chupou-o por vários minutos, saboreando,
provocando-o até tê-lo duro como uma pedra.
O comandante deixou Mel fazer o que queria,
pensando que quem o chupava era Daiana. Quando
não aguentou mais, tirou da boca dela e disse: —
Tira a roupa e senta na cama.
Totalmente nua em frente a Lodwud, Mel
sentou. Ele sorriu e murmurou, ajoelhando-se: —
Seus mamilos são lindos, querida.
Mel sorriu e respondeu com voz sensual:
— E eu adoro que você os chupe, Mike.
O convite foi formalmente aceito e o
comandante devorou o que ela lhe oferecia. Sensual,
Mel segurou a cabeça dele e o apertou contra seus
seios. Lodwud ficou louco. Chupou, deu mordidinhas
e quando os mamilos ficaram do jeito que ele
gostava, pediu: — Abre as pernas... assim... assim...
muito bem, Daiana. — Os olhos do comandante se
tomaram de luxúria quando viram como Mel estava
molhada. — Se abre com os dedos. Quero ver como
me pede pra te chupar.
Excitada ao ouvir Mike pedindo isso, com o
indicador e o anular fez o que ele queria. Sentindo-o
entre as pernas, falou baixinho: — Assim... você
gosta assim.
Lodwud, que estava sentado no chão, agarrou
as pernas de Mel, puxou-a para si e colocou a boca
bem onde ela queria. O grito de prazer de Mel frente
àquele ataque enlouquecido foi devastador.
— Mike, meu amor, estou quase caindo da
cama.
O comandante pegou-a pela cintura e os dois
caíram no chão. Ele colocou a boca embaixo dela
outra vez e continuou, passando a língua sem
descanso nos lábios de Mel, que gemeu ao sentir seu
clitóris sendo chupado. Uma onda de prazer invadiu
o seu corpo.
A cama não tinha utilidade, a cama era o chão.
Nele transaram de todas as maneiras conhecidas e
desconhecidas, imaginando que estavam com duas
pessoas que nunca mais voltariam para eles.
— Vem... se entrega pra mim. Passa as pernas
pela minha cintura, vem pra mim — exigiu, dando-lhe
um tapa na bunda. — Vem pra mim, Daiana!
Quando Mel atendeu ao pedido, o comandante
gemeu e ela arqueou as costas.
— Mike...
— Você gosta assim?
— Adoro, Mike... adoro. Continua...
O sexo frio e impessoal reinou no quarto de
hotel por várias horas. Esse era o sexo que vinham
fazendo nos últimos dois anos. Satisfazia o desejo
dos dois. Depois de terem vários orgasmos, fumaram
nus, estirados na cama. Mel perguntou: — Que horas
são?
Lodwud olhou o relógio na mesa de cabeceira.
— 0h20.
O silêncio caiu outra vez sobre o quarto. Ele
perguntou em seguida: — Por que a gente continua
pensando na Daiana e no Mike?
— Porque a gente é idiota. — Mel riu com
amargura e disse, tentando não pensar muito: — Vou
continuar com isso e vou procurar mais uma pessoa
que queira jogar.
Lodwud sorriu.
— Ainda me lembro daquela mulher que você
trouxe pro nosso último encontro. Ela ficou louca
com a gente.
Mel deu uma gargalhada e cochichou:
— Você sim é que ficou louco com nós duas.
Levantando-se da cama, vestiu a calcinha, uma
camiseta e a calça camuflada. Não precisava mais de
roupa para conquistar. Depois de se vestir, observou
Lodwud, que disse: — É uma em ponto. Se até as
duas você não tiver voltado, eu é que vou escolher.
— Nem pensar. Hoje sou eu que decido.
Ao sair do quarto, caminhou decidida até o bar.
Como sempre, escolhiam hotéis próximos do
aeroporto para se encontrar. Como sempre, as
pessoas que se hospedavam em lugares assim
estavam só de passagem e procuravam, na maioria
das vezes, uma noite divertida e sem compromisso.
Decidida, Mel entrou no bar e deu uma olhada
geral no lugar. Vários casais conversavam
amigavelmente e alguns homens e mulheres bebiam
sozinhos no balcão. Queria um homem e os observou
com cuidado. O primeiro que viu não servia: muito
velho e barrigudo. O segundo não era de todo mau,
mas escolheu o terceiro: um executivo da idade dela.
Aproximando-se do balcão, pediu ao barman: —
Um uísque duplo com gelo.
Era infalível. Era uma mulher pedir essa bebida
que o homem ao lado olhava para ela, sempre. Sem
tempo a perder, Mel sorriu e depois de piscar
algumas vezes, ele girou na cadeira. Ela olhou no
relógio: 1h10. Tinha tempo suficiente.
Com um sorriso nos lábios, falou com o homem.
O nome dele era Ludvig: sueco e de passagem pela
Alemanha. Era perfeito. Explicou que trabalhava para
uma empresa de automóveis e que estava visitando
vários países. À 1h20 Ludvig já tinha olhado para os
seios dela várias vezes e à 1h30 Mel já tinha
colocado a mão na perna nele. À 1h40 o sueco já
tinha se insinuado e ela tinha feito a proposta atraente
de sexo a três. Faltando dez para as duas da manhã
o sueco aceitou e à 1h52 Mel abriu a porta do
quarto. Encarando Lodwud, que sorriu quando a viu
entrar, comentou: — Vamos, rapazes... quero
brincar.
Depois de momentos excitantes com os dois
homens, tudo terminou. Mel acompanhou o sueco até
a porta, e ele saiu muito satisfeito. Mel fechou e se
virou para Lodwud, que, encarando-a, caminhou até
ela e comentou: — Daiana, você é uma menina...
muito... muito má.
Mel sorriu, tocou a ereção dele e concordou.
— Sim, Mike... reconheço que sou mesmo.
Na manhã seguinte, Mel foi para o aeroporto
militar. Chegando lá, um rapaz se aproximou,
cumprimentou-a com um gesto: — Bom dia, tenente
Parker.
— Bom dia, sargento.
— Tenente, o major Parker está ao telefone e
quer falar com a senhora — disse o sargento com o
rosto sério.
Pega de surpresa, Mel agarrou o telefone que
estendiam para ela. Afastou-se alguns metros e
cumprimentou: — Bom dia, major.
— Tenente, como foi o voo de ontem?
Mel sorriu. Seu pai. Aquele homem que muitos
temiam pelo temperamento difícil, com a filha era um
paizão.
— Bem. Tudo perfeito, como sempre —
respondeu.
— Me disseram que agora você vai para
Munique.
— Vou.
— Descansou o suficiente?
Pensou na noite louca que tinha passado com
Lodwud e respondeu:
— Sim, papai, descansei.
Todos se preocupavam com ela e com a vida
dela. Algo desnecessário. Mel estava convencida de
que podia aguentar tudo o que tinha se disposto a
fazer.
— Papai, faz doze dias que eu estou fora de
casa e quero ver a Sami e...
— Eu sei — interrompeu. — Entendo você...
entendo. Mas fala com a sua mãe. Ela me ligou duas
vezes e você sabe como ela fica chata.
Mel sorriu quando ouviu isso. Seus pais tinham
se separado fazia pouco mais de um ano.
— Tudo bem, eu ligo.
— Aliás, você voltou a pensar naquilo de Fort
Worth?
— Não, papai...
— Pois pense, Melanie. Quero que você e a
menina fiquem perto de mim. A sua irmã volta no ano
que vem e...
— E a mamãe?
— A sua mãe é bem grandinha para saber o que
quer fazer da vida — respondeu com o tom cortante.
Mel sorriu e preferiu não tocar mais no assunto,
por isso disse:
— Papai, vamos deixar esse assunto da
mudança pra outra hora.
— De acordo, filha. Mas lembre-se, a sua
família está aqui. Na Alemanha você não tem nada.
Para Cedric Parker não era nada fácil viver tão
longe das filhas e da mulher. Especialmente de
Melanie, seu maior orgulho. Depois de vários minutos
falando com o pai, Mel desligou o telefone e pegou o
envelope que lhe estendia o mesmo militar que tinha
levado o telefone.
— Tenente, aqui está o que a senhora pediu.
Mel pegou o envelope com força. Dentro
estavam as chaves do helicóptero que a levaria até a
filha. Abrindo-o, perguntou: — Tudo bem por aqui,
sargento?
O jovem fez que sim. Depois de despedir-se
com um gesto, deu meia-volta e foi embora. Nesse
instante, chegaram Neill e Fraser.
— Caramba... eu podia dormir um mês —
comentou Fraser, esfregando os olhos.
— Eu também, cara. Estou acabado.
A tenente Parker sorriu ouvindo os amigos.
— Vamos, bonecas, subam no helicóptero,
quero ver a minha filha — riu.
Naquele mesmo dia, depois de uma hora de
voo, chegaram ao aeroporto de Munique, por volta
das nove da manhã. Lá, depois de deixarem o
helicóptero num hangar particular, pegaram um táxi
com as mochilas nas costas. Primeiro deixaram Neill
e depois continuaram até a casa de Mel. Quando
chegaram, a mãe dela abraçou-a assim que a viu.
— Que alegria ter você aqui de novo, querida!
Deixando-se abraçar, Mel fechou os olhos, feliz.
— Oi, mamãe.
Segundos depois, Luján cumprimentou Fraser
enquanto Mel tirava a mochila e depois corria para
ver a filha. Abriu com cuidado a porta do quarto e
entrou. Sorrindo, observou a pequena Samantha,
adormecida no berço. Era maravilhosa. A menina
mais bonita que já tinha visto. Sem poder evitar, os
olhos se encheram de lágrimas. Era a cara do pai. O
cabelo, o sorriso...
— Querida — sussurrou Luján entrando no
quarto. — Venha, preparei algo pra você e Fraser
comerem. Tenho certeza de que estão famintos.
— Já vou, mamãe. Me dá um segundo.
Luján assentiu. Ver a filha olhando triste para a
menina adormecida lhe partia o coração. Tinham
tentado de todo jeito que Mel começasse uma vida
nova, mas não tinha adiantado. Ela se negava. Não
conseguia esquecer Mike.
Quando ficou novamente sozinha no quarto com
a filha, aproximou-se com cuidado e tocou os cachos
loiros. Sorriu.
— Oi... — Fraser falou baixinho atrás dela.
Ele a conhecia. Conhecia muito bem e sabia que
por trás daquela aparência dura de tenente do
exército dos EUA, ela sofria. Nunca esqueceria a
reação dela quando soube o que tinha acontecido
com Mike. O desespero, o choro, a impotência
quando soube de detalhes nada agradáveis de sua
morte.
Grávida de sete meses, Mel se fechou em si
mesma e não quis falar sobre isso com ninguém. Só
era feliz quando estava com a pequena Sami ou
quando pilotava o C-17. Mas, apesar da felicidade
que a filha lhe dava, os olhos de Mel nunca mais
voltaram a brilhar como antes. Desconfiava de todos
os homens e isso era graças a Mike. Graças ao
homem que amou e que a traiu.
— O que achou da princesa? — Mel perguntou
engolindo o choro.
Fraser sorriu.
— Maravilhosa. Ela já tem que idade?
— Quase 2 anos e 1 mês.
Os dois se olharam em silêncio. Mel murmurou:
— Como o tempo passa, né?
Os dois concordaram e Fraser, tentando desviar
o assunto, zombou: — Essa menina vai partir muitos
corações. E sou eu quem está dizendo, desse assunto
entendo bem.
Riram. Fraser passou a mão pela cintura dela.
— Falei com a minha aeromoça. Ela vai chegar
ao aeroporto hoje à tarde.
— Perfeito.
Saíram com cuidado do quarto. Entraram na
cozinha, onde Luján tinha preparado uma tortilla de
batata. Enquanto comiam, a mulher disse à filha que
precisava voltar para as Astúrias. A mãe dela,
Covadonga, precisava ir ao médico e tinha se
recusado a ir com Scarlett, a irmã de Mel.
— Vovó e Scarlett — Mel zombou. — Não
quero nem imaginar as duas sozinhas.
— A sua irmã, às vezes, é pior que a sua avó —
afirmou Luján. — Posso te falar com certeza.
Quando se irrita, ameaça ir embora pra Fort Worth e
eu tenho que convencê-la a não ir, em meio aos
resmungos da sua avó.
— Mamãe, Scarlett vai acabar se mudando.
Você sabe que ela está nas Astúrias só por um
tempo.
— Sei, filha, eu sei.
Fraser as escutava, mas não dizia nada. Fazia
alguns anos, Fraser e Scarlett tinham tido um caso
que só Mel sabia e que acabou quando Scarlett viu a
irmã sofrer pela perda de Mike. De um dia para o
outro decidiu deixar Fraser, que não pôde fazer
nada, senão aceitar. Na hora foi horrível, mas depois
ele finalmente aceitou. A vida dele era assim, e
entendia que Scarlett não quisesse fazer parte dela.
Uma hora depois, o cansaço acumulado pela
longa viagem ficou evidente. Luján olhou para os dois
e disse: — Fraser, Mel, descansar, já!
— Mamãe...
Fraser gargalhou e respondeu encarando a mãe
da amiga:
— Obrigado pela comida, mas vou embora.
Tenho planos com uma linda mulher.
Luján sorriu e Fraser, levantando-se, disse:
— Agora pra caminha, tenente. Você está com
cara de não ter descansado direito à noite.
Mel concordou. A noite de sexo selvagem
estava cobrando seu preço. Entrou com cuidado no
quarto e sorriu ao ver a pequena sentada no berço.
A filha abriu os bracinhos e esboçou um sorriso
de orelha a orelha.
— Mamiiiii.
Sem demora, a tenente Parker correu para
abraçar a filha. Sentiu o cheiro de inocência e sorriu
encantada ao ouvir a menininha falar na língua dos
bebês. Feliz, tirou-a do berço e a colocou na cama,
para em seguida trocar de roupa e colocar um
pijama.
Quando terminou, entrou na cama com a
pequena e começaram a brincar. O riso de Sami era
o melhor, o mais bonito do mundo. Isso, como
sempre, deixava Mel repleta de felicidade.
Que maravilha estar com a filha em casa!
Alguns minutos depois, a menina se aconchegou.
Contente por estar com sua mamãe, relaxou e
dormiu. Com carinho, Mel observou o rosto tranquilo
da filha. Era linda, maravilhosa, divina, e lhe deu um
beijo na testa.
Com cuidado para não acordá-la, pegou a
bolsa, de onde tirou uma carta. Uma carta dolorosa,
mas que relia centenas de vezes. Com a luz de uma
lanterna, leu: Minha querida Mel,
Se você está com esta carta nas mãos, é porque o
nosso bom amigo Conrad a fez chegar até você, e isso
significa que estou morto. Quero que saiba que você é o que
aconteceu de melhor na minha vida, apesar de, em alguns
momentos, eu ter me comportado como um idiota. Você
sempre foi boa demais para mim e sabe disso, não sabe?
O motivo desta carta é pedir desculpas por tudo o
que você vai descobrir de mim agora. Sinto vergonha de
pensar, mas essa é a minha vida e não tem nada que eu possa
fazer, a não ser te pedir desculpas e esperar que não me
odeie para sempre.
Desejo que conheça um homem especial. Um homem
que cuide de você, que te leve para festas, dance com você,
que goste do nosso filho e te dê essa família que sei que você
sempre quis ter. Espero que esse homem saiba te dar valor
como eu não soube e que você seja o mais importante para
ele. Você merece, M el. M erece encontrar uma pessoa assim.
Nem todos são como eu e, por mais que você saiba que eu
gostava de você do meu jeito, também sabe que isso nunca
foi suficiente.
Diga ao nosso bebê que o pai dele o amava muito, mas
deixe que ele goste como um pai dessa pessoa que espero
que algum dia chegue na sua vida. Você é forte, M el, sei que
vai sair dessa. Você precisa recomeçar a vida. Prometa para
mim e rasgue esta carta depois.

Com amor,
Mike
Como sempre que terminava de ler a carta, Mel
chorou e não a rasgou.
3
Aquele dia tinha sido bom para Björn nos
tribunais. Tinha ganhado dois julgamentos e isso o
deixava satisfeito.
— Nos vemos hoje à noite? — perguntou uma
loira espetacular.
Björn sorriu. Era a advogada da parte contrária.
Passeou os olhos azuis pelo corpo dela. Abrindo a
agenda, pediu: — Me dá seu telefone. Se eu não te
ligar hoje à noite, ligo qualquer dia desses, que tal?
A mulher sorriu. Depois de anotar o telefone,
deu uma piscadinha, virou-se e foi embora. Björn a
acompanhou com o olhar até que a mulher
desaparecesse de vista. Olhou a agenda e sorriu
quando leu o número de telefone e o nome de
Tamara.
Quando saiu do tribunal, foi direto ao Jokers, o
restaurante do pai.
— Pai, me dá uma cerveja bem gelada — só
disse isso.
Com um grande sorriso, Klaus fez o que o filho
pedia e colocou uma caneca na frente dele.
— Teve um bom dia hoje, filho? — perguntou,
interessado.
Björn bebeu um grande gole e cochichou,
cúmplice:
— Ótimo. Ganhei o julgamento do Henry
Drochen e o do Alf Bermeulen.
Klaus aplaudiu. Estava muito orgulhoso do filho.
Além de ser um filho excelente, era um grande
advogado e um conquistador. Durante um tempinho
Björn explicou o que tinha acontecido nos
julgamentos e o pai ouviu com atenção.
Na hora da refeição, Klaus disse:
— Seu irmão ligou hoje de manhã.
Björn sorriu ao pensar em Josh, seu único
irmão.
— Como ele está em Londres?
— Bem, filho, você conhece ele — riu Klaus.
— Como sempre, ele se sai bem nas coisas dele.
Ah... me pediu pra você ligar. Pelo visto, amanhã
vem pra Munique com uma frota de carros e, entre
eles, um que você queria.
Ao ouvir isso, Björn olhou para o pai e
perguntou:
— Ele vai trazer o Aston?
— Não sei, filho. Só me falou pra você ligar pra
ele.
E foi o que Björn fez.
Josh atendeu depois de dois toques.
— Não me diga que vai me trazer o carro que
eu quero, mas com o volante do lado esquerdo.
Josh soltou uma gargalhada.
— Te digo... e te confirmo. Um Vanquish
maravilhoso, bordô, você ainda quer?
— Lógico. Se você me fizer um preço bom e se
ficar com o meu Aston.
— Não tem problema, Björn. O seu Aston
vende fácil e com preço bom. Não duvide! Você é
meu irmão, porra.
Os dois riram e depois de mais algum tempo se
despediram até o dia seguinte.
Björn almoçou com o pai, saiu do Jokers e
passou no escritório. Durante algumas horas se
concentrou em preparar o material para os
julgamentos que teria dali a dois dias. O celular
tocou. Era o amigo, Eric.
— E aí, babaca?
Eric deu uma gargalhada e observou:
— Só a minha esposa querida me chama assim.
Não se acostume. — Os dois riram. Eric continuou:
— No domingo a Jud vai fazer uma comidinha aqui
em casa, você vem, né?
— Vai ter mulher bonita?
Eric gargalhou outra vez.
— Mais bonita que a minha mulher, impossível!
Agora quem gargalhou foi Björn. O amigo tinha
se casado com uma espanhola encantadora e meio
maluquinha e estava completamente apaixonado.
Eram como o dia e a noite, mas se adoravam.
— Se você pensar em não vir, a Jud te busca e
te traz pela orelha.
— Não duvido — concordou Björn achando
graça.
Se existia algum consenso a respeito de Jud é
que ela era fora de série. Björn gostava da
personalidade dela, de sua maneira decidida e,
principalmente, da confiança que ela sempre teve nele
para tudo.
— Vou, sim. Diga a ela que vou sim. Levo
vinho?
— Pode trazer. Vai trazer companhia?
— Precisa?
— Não. É só pra saber quantas pessoas serão.
Björn respondeu alegre:
— Vou levar vinho e companhia.
— Ótimo. Agora preciso ir; tenho uma reunião
em dez minutos.
Quando desligaram, Björn sorriu. Eric e Jud
eram seus melhores amigos. Amigos que sempre
estavam ali, nas horas boas e nas ruins. Com um
sorriso malicioso, pensando na esposa do amigo,
abriu o celular e discou um número.
— Oi, linda — disse com mel na voz.
Ao ouvi-lo, a mulher baixou o tom.
— Oi, Björn, estava justamente pensando em
você.
— Pensamentos bons ou maus?
O riso cristalino dela ressoou.
— As duas coisas. Bons porque são
pensamentos prazerosos, e maus porque você era
muito... muito malvado.
— Interessante — Björn sussurrou.
Aquela mulher sensual e excitante era uma das
suas conquistas. Chamava-se Agneta Turpin, uma
das apresentadoras mais lindas e conhecidas da
CNN alemã. A relação deles era excepcional.
Sexo... sexo e mais sexo, sem ninguém exigir nada de
ninguém. Era uma combinação perfeita, pois era o
que os dois estavam procurando.
— O que você vai fazer domingo, Agneta?
— Tirar a roupa pra você... se quiser.
Os dois riram. Björn explicou melhor:
— Nada me agradaria mais, mas meu amigo
Eric acabou de ligar. Vai ter um almoço na casa dele.
Você quer ir comigo?
— Almoço... um programa em família.
Björn esclareceu:
— Só o almoço, e prometo que a Jud não vai
chegar nem perto de você.
Agneta gostou da proposta. Conhecia os amigos
dele, especialmente a esposa de Eric. Judith e ela
nunca tinham sido amigas. Não gostava de como ela
a encarava. Mas almoçar com Björn significava sexo
à noite em sua casa ou na casa dele. Sem pensar
duas vezes, respondeu: — Claro. Vou com você.
— Perfeito!
Continuaram conversando até que ele
perguntou:
— Onde você está?
— Nesse momento, chegando em casa. O dia
me deixou esgotada. Por isso, agora vou tirar a roupa
e entrar numa jacuzzi relaxante, maravilhosa e cheia
de espuma.
— Sozinha?
Agneta jogou a bolsa sobre o sofá caríssimo de
design exclusivo e respondeu: — Tudo depende de
você.
Björn deu uma olhada no relógio, levantou e
sussurrou: — Tira a roupa e se prepara. Em vinte
minutos eu chego na sua casa com um amigo.
Desligou o telefone. Agneta era excitante, e ele
gostava disso. Enfiou o laptop e uns documentos na
maleta. Como a casa e o escritório só estavam
separados por uma porta, deixou a maleta sobre a
mesa da cozinha e, sem tirar o terno Armani
caríssimo, desceu até a garagem e, depois de ligar
para o amigo Roland, saiu em seu carro esportivo.
Quando chegou à casa de Agneta, tocou o
interfone. Subiu de elevador e, ao chegar ao corredor
do edifício luxuoso, viu a porta aberta. Ouviu a
música que vinha do interior e sorriu. Sade cantava
No Ordinary Love.
Sem demorar, abriu a porta, entrou e fechou-a
atrás de si. Em seguida, apareceu à sua frente uma
sensual Agneta vestindo apenas um robe vermelho.
Entreolharam-se. Não falaram nada enquanto ela
abria o robe e ele escorregava pelo corpo até cair no
chão.
Björn observava com prazer. Seus olhos
devoravam o belo corpo esguio daquela mulher e sua
ereção começava a aparecer. Sem desviar os olhos
dela, tirou o sobretudo de couro. Depois o paletó
escuro. Desatou a gravata.
— Chega mais perto e dá uma voltinha — pediu
Björn.
Agneta fez o que ele pedia.
Ele tirou a camisa branca e a colocou sobre uma
cadeira. Abriu o cinto, que passou pelo traseiro nu de
Agneta, e perguntou pertinho do ouvido: — Você foi
uma boa menina hoje?
— Não. Hoje fui muito, muito malvada.
A resposta fez Björn sorrir. Deu uma chicotada
com o cinto na bunda dela. Agneta gemeu, suplicou:
— Mais uma.
Björn repetiu. Ela gemeu de novo.
Em seguida, Björn deixou o cinto cair no chão
enquanto abria a calça. Pelado, colocou uma
camisinha. Sussurrou: — Vou te foder como se faz
com as meninas más.
Não disse mais nada. Não precisava.
Abriu as pernas dela com decisão, a expôs e,
com um empurrão duro e certeiro, a penetrou.
Agneta gritava enquanto Björn buscava o próprio
prazer e ela encontrava o seu. Os dois eram egoístas
no sexo. O prazer próprio era mais importante do
que o da outra pessoa. Enlouquecidos, se encaixaram
um no outro sem se importar com mais nada. Seu
jogo era esse. Um jogo que os dois procuravam e os
dois aceitavam. Quando alcançaram o orgasmo e ele
saiu de dentro dela, Agneta sussurrou: — A jacuzzi
está pronta.
Nesse momento ouviram a campainha da casa.
— Perfeito, Roland chegou.
Naquela noite, quando Björn chegou na própria
casa, estava cansado e saciado de sexo.

No dia seguinte, não muito longe da casa de


Björn, a tenente Melanie Parker conversava com a
mãe enquanto esta fazia a mala para voltar para as
Astúrias.
— Robert mandou lembranças.
— Robert Smith?
— Sim, mamãe. Eu ia sair para tomar cerveja
com ele ontem, mas adiantaram a missão. Por isso
não deu.
Luján, pensando naquele rapaz amigo de uma
vida inteira da filha, sorriu.
— Robert é tão charmoso e Savannah, tão
graciosa. Ainda me lembro do casamento deles.
Como fomos bem tratados!
Ao se lembrar daquele casamento, um ano
antes, Mel sorriu. A mãe lhe perguntou.
— Conseguiram a transferência para Fort
Worth?
— Sim. E provavelmente o papai está ajudando
muito com toda a papelada.
Luján perdeu o sorriso ao ouvir falar no marido.
— O seu pai é um amor quando quer. Quando
não quer é um monstro! — cochichou.
Mel deu uma gargalhada e sua mãe continuou:
— Como vai o curso de design que você estava
fazendo pela internet?
— Abandonado, mamãe. Mal tenho tempo.
Luján suspirou:
— Coloquei comida para a Peggy Sue. Aliás,
que nojo me dão essas ratas.
— Mamãe, ela não é uma rata, é a hamster da
Sami — riu Mel ao se lembrar que Robert é que
tinha comprado o animal para a menina.
— Não precisa colocar tanta comida, ela está
tão gorda que quase não consegue se mexer —
insistiu Luján, olhando aquele bichinho branco.
Mel olhou para Peggy Sue e sorriu. A hamster
estava mesmo muito gorda.
— Tudo bem, mamãe. Vou tentar controlar a
Sami.
Luján sorriu, mas, encarando a filha, comentou:
— Saiba que ando preocupada com você.
— Mamãe, não precisa se preocupar.
— Como não vou me preocupar, Mel? —
protestou a mãe. — Você é igualzinha ao seu pai. O
exército corre nas suas veias e não posso fazer nada
quanto a isso. Mas tem que pensar na sua filha. Ela
precisa de você. Precisa de uma mãe que cuide dela,
que a mime e, principalmente, que viva por muitos
anos! Mas você não se dá conta de que seu trabalho
é incompatível com a sua vida?
A mãe tinha razão.
Por ser mãe solteira, tudo era muito complicado.
Cada vez que tinha que partir em alguma de suas
viagens, precisava de alguém para ficar com a filha.
Mas com esforço e determinação, sempre conseguia.
Em Munique, Dora, uma vizinha da idade da sua mãe
e de total confiança, cuidava da menina quando Mel
fazia viagens curtas. Quando duravam mais de quatro
dias, era a própria Luján que se deslocava até
Munique para cuidar da neta, ou Mel tinha que levá-
la até as Astúrias.
— Escuta, mamãe, gosto do que faço e...
— Já sei que você gosta. Eu repito que você é
como o seu pai. Ele colocou o exército na frente da
família e olha só no que deu.
Mel respirou fundo e sua mãe prosseguiu:
— Não entendo como a sua irmã e você podem
ser tão diferentes. Ela nunca quis saber de nada de
exército, mas você...
— Mamãe, a Scarlett é a Scarlett e eu sou eu.
Quando você vai se dar conta disso?
— Nunca! — gritou a mulher, irritada. —
Quero uma filha que não corra perigo. Quero uma
filha que seja feliz com a família. Quero uma filha que
se deixe cuidar por um bom marido. Por que não
pensa nisso?
Cansada da mesma ladainha que ouvia sempre
que se viam, Mel encarou a mãe: — Você tinha tudo
isso. Uma vida sem perigos, uma família feliz e um
homem que cuidava de você. Acho que você é a
pessoa menos indicada pra falar essas coisas.
Ouvindo isso, Luján fechou os olhos. Sentou-se
na cama.
— Tem razão. Eu tinha tudo isso. Mas não
esqueça que vivi sem saber se o seu pai voltaria das
missões ou não. Também convivi com as mudanças
drásticas de humor dele. Vivi com os pesadelos
noturnos quando ele voltava de alguma missão. Quer
que eu continue?
Mel negou com a cabeça. Tinha sido injusta
com a mãe e, abraçando-a, sussurrou: — Tá bom,
mamãe, desculpe. Você tem razão, e quem sou eu
para dizer o que eu disse?
— Olha, Mel, você sabe que eu gosto muito do
seu pai. Eu o amo, mesmo que ele me odeie por
causa do divórcio. Mas não quero que ninguém odeie
você por colocar o exército na frente da família.
— Mamãe...
— Não quero que tenha pesadelos como ele.
Não quero que sua vida seja só o exército. Quero
que sua vida seja normal e que possa ser feliz com
um homem que...
— Não pretendo me juntar a ninguém.
— Mas por quê, querida? O Mike era um
homem bom, mas tenho certeza de que você poderá
encontrar outro que preencha o seu coração.
Luján não sabia a triste realidade que Mel havia
descoberto sobre Mike. Desejando que a mãe
guardasse a memória que tinha dele, disse: — Não
preciso de homem algum, mamãe. Vivo muito bem
do meu jeito. Sou dona da minha vida e não preciso
que ninguém venha se intrometer.
— O que você chama de “intrometer”, eu
chamo “amar”. Nunca mais vai amar ninguém?
— Eu amo você, o papai, a Sami, a Scarlett, a
vovó...
Desesperada com a cabeça-dura da filha, Luján
insistiu: — A Sami vai crescer.
— Espero que sim, mamãe. As fraldas são
muito caras — zombou.
— Como você acha que ela vai se sentir quando
você for embora e deixar ela sozinha?
— Ela nunca vai estar sozinha. Pra isso eu tenho
vocês.
— É claro que você tem a gente, querida, mas a
menina vai achar ruim o que você faz — sussurrou
Luján ao encarar a filha. — Já perdeu o pai e não
pode perder você também.
— Mamãe...
— Esqueceu as coisas que você dizia ao seu pai
quando era criança e ele estava partindo? Acha que a
Sami também não vai falar pra você?
— Mamãe...
— Esqueceu como você chorava quando ele
saía e como ficava assustada quando ele voltava de
alguma missão e tinha aqueles pesadelos terríveis?
— Não tenho pesadelos, mamãe.
— Mas terá!
Fechou os olhos. Sua mãe tinha razão. Tinha
começado a ter pesadelos. Mas não tinha nada, a
não ser a própria filha, que a conectasse ao mundo e,
tentando não pensar nisso, levantou-se.
— Olha, mamãe, por enquanto quero continuar
fazendo o que eu faço. Não há nenhum homem na
minha vida e sou feliz assim. Tenho o que preciso e...
— Como assim você tem o que precisa?
— Mamãe...
— Você precisa de estabilidade emocional,
filha. Um homem que te abrace, que goste de você,
que te mime...
— Não ligo pra nada disso, mamãe. Não ligo...
não ligo.
Luján não se deu por vencida. Insistiu:
— Desde que aconteceu aquilo com o Mike
você voltou a se encontrar com alguém?
— Não.
— Então, como você pode ter tudo o que
precisa?
Sem querer revelar sua vida particular, encarou
a mãe e disse baixinho: — Se você quer saber se eu
dormi com algum homem, a resposta é sim. Essa
questão eu tenho muito bem resolvida.
Boquiaberta, Luján encarou a filha:
— Ai, que sem-vergonha...
Esse comentário fez as duas rirem. Abraçando a
mãe, Mel disse: — Fica tranquila, mamãe. Até agora
a minha vida vai bem. Tenho um trabalho de que
gosto, uma família que cuida de mim, uma filha
maravilhosa e uma grande tropa de homens que me
dão o que eu preciso, quando eu quero e como eu
quero.
— Não quero ouvir mais nada.
— Mas foi você que perguntou...
— Melanie Parker Muñiz, já falei que não quero
ouvir mais nada.
Mel sorriu. Sempre que ficava zangada a mãe
dizia seu nome completo.
Luján, horrorizada pelo que a filha insinuava,
fechou a mala.
— Ainda vamos falar sobre isso, você e eu,
mocinha. Não acho graça nenhuma que você fique
trocando de homem, como tenho certeza de que o
seu pai troca de mulher.
— Mamãe...
— Agora chega, me leve até o aeroporto, senão
vou perder o avião de volta pra Espanha.
Meia hora depois, avó, filha e neta se dirigiram
até o aeroporto. Na saída, um mímico deu à menina
um adesivo com uma carinha sorridente. Mel sorriu e
pensou que aquilo era um bom sinal. Tinha que sorrir
mais!
4
Na concessionária, um caminhão enorme
descarregava os carros, enquanto Josh Hoffmann, um
alto executivo da Aston Martin, indicava aos
funcionários onde colocar os veículos caríssimos e
elegantes.
Naquele dia tinham transportado vários carros
de luxo e ele tinha avisado os clientes mais
endinheirados para irem lá dar uma olhada. Enquanto
os homens observavam tudo embasbacados, Josh
dava uma atenção especial às mulheres deles.
Assim como o irmão Björn, Josh ganhava as
mulheres com facilidade e era difícil que alguma não o
notasse. Mas, diferente de Björn, tinha os olhos e os
cabelos castanhos e um rosto inocente que não tinha
nada a ver com a realidade.
Graças ao magnetismo que exercia, com apenas
27 anos já era um alto executivo da marca Aston
Martin e também um homem que viajava o mundo
todo. Quando a porta da concessionária se abriu e
Björn entrou, já não existia mais ninguém para Josh.
Os dois se adoravam.
Com um sorriso descontraído, Josh caminhou
até o irmão e o abraçou, sob os olhares das
mulheres, que chegavam a suspirar. Eram dois
homens lindos, bem-sucedidos e sua fama de
gentlemen era bem conhecida. Depois do abraço
caloroso, o mais novo dos irmãos Hoffmann disse: —
Vem, vamos ver o seu carro.
Em seguida caminharam até uma lateral da loja.
Quando chegaram ao carro impressionante, Björn
assobiou e Josh disse: — Aqui está, maninho. Aston
Martin Vanquish Coupé. Velocidade máxima: 295
km/h. Vai de 0 a 100 em 4,1 segundos. Motor 12
cilindros em V. Estrutura de alumínio. Injeção.
Tração traseira. Automático. Seis velocidades.
— Todo meu — afirmou Björn tocando
admirado o carro.
Desde que tinha visto aquele carro numa revista
há mais de um ano, sabia que deveria ser dele.
Finalmente estavam frente a frente.
Josh sorriu. Apreciava o prazer do irmão. Abriu
uma das duas portas e propôs: — Vem, vamos dar
uma volta.
Björn concordou. Entrou no carro junto com o
irmão e saíram da concessionária. Com todo o
cuidado, dirigiu pelas ruas de Munique. Aquela
máquina era impressionante. Assim que saíram da
autopista, simplesmente voaram.
Uma hora depois, ao voltarem para a loja, Björn
tinha mais certeza ainda. Aquele carro era
impressionante e tinha que ser dele. Afirmou em meio
às risadas do irmão: — Quero ele amanhã.
— Amanhã?!
— Isso, amanhã.
— Björn, tenho que resolver a papelada e...
Björn olhou Josh de forma exigente.
Interrompeu-o: — Amanhã eu te deixo o meu Aston
velho e vou levar esse aqui. Vamos começar a mexer
com a papelada agora mesmo, porque eu quero
curtir esse carro logo. Não se preocupe com seguro,
ligo para a Corina e ela me transfere o do outro
carro. Com quem mais você precisa falar?
Josh sorriu.
— Vem comigo. Vamos precisar fazer várias
ligações, mas a gente dá um jeito.
Se alguma coisa era certa sobre os irmãos
Hoffmann era que sempre conseguiam o que
queriam.
Naquela tarde, Mel passeava com a filha por
uma rua movimentada de Munique. Fazia frio. Em
janeiro, sempre fazia um frio siberiano naquela
cidade.
Na companhia da filha, parou em centenas de
lugares para comprar mil presentes; a menina
aplaudiu, emocionada. Isso fez Mel rir. Sua filha era
sua felicidade. Seu melhor presente. Quando
entraram em uma cafeteria para beber alguma coisa,
o celular tocou. Vendo que era um número especial,
atendeu: — Tenente Parker na escuta.
— E aí, tenente?
Mel sorriu. Era Fraser, seu grande amigo.
Sentou-se numa cadeira e perguntou: — Por que
você está me ligando desse número?
— Porque sabia que você ia atender.
Mel fez cara de contrariada e protestou:
— Você sabe que fora da base eu sou Melanie,
nada de tenente Parker.
— Eu sei... eu sei...
Os dois riram e, finalmente, Mel perguntou: —
Como foi com a aeromoça da Air Europa?
— Bom... muito bom. Sua mãe já foi?
— Sim. Ontem à noite eu levei ela até o
aeroporto. Já está nas Astúrias com a família.
— Perfeito.
Um estranho silêncio surgiu entre os dois e Mel
perguntou: — Que foi, Fraser?
Depois de xingar num inglês típico do Kansas,
ele respondeu: — É verdade que a sua irmã vai voltar
pra Fort Worth?
Mel deu um suspiro impaciente e respondeu:
— Parece que sim. Você sabe que ela foi para a
Espanha por um tempo, logo depois que meus pais
se separaram, só que mais cedo ou mais tarde
Scarlett tem que voltar à vida normal.
— Tem razão. — Tentando pensar em outra
coisa, mudou de assunto: — Onde você está?
— Comprando presentes pra Sami. Adoro
deixar ela mal-acostumada. E você?
— Com a Monica, na casa dela.
— Uau, parece bom!
Fraser sorriu e, tentando esquecer a irmã de
Mel, completou: — Só te digo que não saímos da
cama desde ontem.
— Então você está se divertindo por aí?
— E vou continuar assim. Só liguei pra saber se
você precisava de alguma coisa, mas assim que
desligar, volto pra cama com a Monica. Estou
precisando muito disso.
Os dois riram.
— Volte pra cama, sargento. Esqueça as outras
mulheres e satisfaça a sua necessidade.
Ao desligar, olhou a menina de olhos azuis e
disse: — O tio Fraser está mandando beijos, Sami.
Quer comer alguma coisa?
A filha bateu palmas, fazendo alguns idosos
sorrirem ao lado delas.
Samantha era uma graça de menina, além de
simpática, chamava a atenção aonde fosse com a
coroinha de princesa. Gostava das pessoas e
demonstrava isso sorrindo e se aproximando de todo
mundo. Diferente da mãe, era loira, mas as duas
tinham um traço em comum: os olhos azul-claros.
Enquanto desenhava num guardanapo, Mel
sentiu-se feliz de ver como a filha era graciosa e
também com os comentários que ouvia das pessoas
próximas.
Gostava da calma daquele lugar. Não tinha nada
a ver com a falta de tranquilidade que vivia quando
estava em uma missão.
Mel sorriu observando uma senhora brincar com
Sami. Mas o sorriso desapareceu quando se lembrou
das palavras da mãe, quando disse que Samantha
teria saudades dela quando crescesse. Sabia que ela
tinha razão. Mas era o seu trabalho.
Depois de pedir um café e sanduíches, mãe e
filha lancharam.
Horas mais tarde, já em casa, Dora, a mulher
que cuidava de Sami quando Mel estava fora, passou
para ver como a menina estava. Depois de
conversarem por um instante, Mel perguntou: —
Dora, você poderia ficar com a Sami umas três ou
quatro horas esta noite?
A mulher quis saber:
— Você tem um encontro?
Mel concordou. Depois da conversa com
Fraser, soube que precisava sair aquela noite.
Encarou a mulher e respondeu: — Sim, tenho um
encontro.
5
Melanie decidiu ir ao Sensations, um lugar em
que tinha estado poucas vezes, mas onde tinha vivido
bons momentos.
Desde que Mike morreu, ela não teve vontade
de mudar sua vida, mas decidiu continuar o tipo de
jogos que fazia desde antes de conhecê-lo. Só que,
dessa vez, sozinha. Sabia o que queria e sabia o que
procurava, e lá iria encontrar.
Sem medo de nada, entrou e foi até o guarda-
volumes deixar seu sobretudo.
Os homens que passavam por ela a
observavam. Alta, sexy, morena e com belas
proporções, graças a todos os exercícios que fazia
por causa do trabalho.
Usando um lindo vestido curto de couro preto,
um lenço vermelho no pescoço e andando em cima
de um sapato de salto impressionante, foi decidida
em direção ao segundo salão. Foi direto ao bar.
Pediu um Bacardi com Coca-Cola e antes mesmo
que o barman lhe entregasse o drinque, já tinha dois
homens em volta.
Mel os observou: um deles parecia interessante,
mas descartou o outro na hora. Concentrando-se no
loiro de olhos claros do qual tinha gostado,
perguntou:
— Como você se chama?
— Carl, e você?
— Melanie.
Quando o barman colocou a bebida no balcão,
Mel tomou um gole e o o cara chamado Carl quis
saber:
— Você está sozinha?
Ela não respondeu. Carl insistiu:
— O que uma garota como você veio fazer num
lugar desses?
Mel sorriu e respondeu com sinceridade:
— O mesmo que você.
Ele chegou mais perto dela. Mel não se moveu e
perguntou:
— Quer me tocar?
— Quero.
— Então me toca.
A mão dele começou a subir pelas coxas dela.
Sentindo o toque, Mel ficou toda arrepiada e, sem
que ele parasse, disse:
— Estou procurando dois homens. Um eu já
encontrei. Logo chegará o outro.
Carl sorriu. Não entendia o que ela queria dizer,
mas não se importou. Era uma mulher linda e sensual
e teve certeza de que ia gostar. Durante um tempo
conversaram sobre sexo. Falar sobre isso naquele
tipo de lugar era a coisa mais normal do mundo.
Quando tudo ficou muito claro, Carl propôs: —
Vamos pra pista de dança.
— Não, o quarto escuro é melhor.
— Perfeito — o homem concordou.
Mel bebeu mais um gole do drinque, desceu do
banco e andou em direção à sala. Quando entraram,
ouviu música eletrônica.
Durante vários minutos, as mãos de Carl voaram
pelo corpo de Mel, que fechou os olhos e o deixou
fazer o que quisesse. Gostava de imaginar que Mike
a estava observando e que logo as mãos fortes dele
se juntariam às do homem que ela tinha acabado de
escolher. Foi assim. Segundos depois, sentiu outro
par de mãos em suas costas. Mike.
Excitada pelo momento e no escuro, não podia
ver o rosto de nenhum dos dois e gostava disso. As
mãos voavam por sua cintura, seus seios, sua bunda,
e quando não aguentou mais, disse, virando-se para
o homem de quem não tinha visto o rosto: — Não
fale nada e esconda seu rosto, se você quiser que eu
deixe você brincar comigo.
Ele concordou e Mel acrescentou, decidida:
— Vamos procurar um reservado.
Os dois a seguiram. Mel não olhou no rosto do
segundo homem em nenhum momento, nem ele
permitiu que ela o visse. Ela não queria. Só queria
pensar que era Mike. Sentia necesidade de fantasiar
com ele, mesmo que em muitos momentos o tivesse
odiado. Quando entraram no reservado, Mel colocou
uma música para tocar e a voz de Bon Jovi encheu o
local. O desconhecido, a pedido dela, abriu o zíper
do vestido de couro e, quando ele caiu no chão, Mel
saiu de dentro dele.
Carl tirou a roupa e perguntou:
— Posso te jogar na cama?
— Não. — Agarrando-o com segurança, Mel
ordenou olhando-o nos olhos: — Fica de joelhos na
frente da cama e espera por mim.
Carl fez o que ela pediu. Estava muito claro que
ninguém dizia o que aquela mulher tinha que fazer.
Ajoelhado, com uma jarra de água e um pano limpo,
observou-a e viu que, sem olhar para o sujeito atrás
dela, Mel pedia: — Tira a minha calcinha e me toca
como se eu fosse sua. Não faça perguntas. Só faça o
que você quiser, mas sem perguntar nada.
Sentindo que era atendida, Mel fechou os olhos
com força e cantarolou Have a Nice Day do Bon
Jovi. Essa música transportava-a para o passado,
quando Mike e ela se entregavam aos jogos eróticos
com outras pessoas e sentiam prazer com isso.
O desconhecido fez o que ela pedia. Depois de
tirar-lhe a calcinha e deixá-la em uma cadeira, enfiou
um dedo dentro de Mel, seguro de si; ela arquejou.
Durante vários minutos, aquele homem continuou
com o jogo e Mel deixou que ele a masturbasse.
— Vou me sentar na cama — anunciou de
repente, fazendo o homem parar. — Tira o lenço do
meu pescoço e prende nos meus olhos. Não quero te
ver, mas quero que continue brincando comigo,
entendeu?
Sem dizer mais nada, caminhou até a cama.
Sentou-se na frente de Carl e, quando levantou os
olhos, notou que o desconhecido tinha sumido. Logo
o sentiu atrás dela. Percebeu como ele desamarrava
o lenço de seda preta do pescoço e o amarrava ao
redor de sua cabeça, cobrindo os olhos.
Excitada, deitou na cama e abriu as pernas em
frente a Carl. Ficou totalmente exposta e ele soube o
que fazer: lavou-a. Depois de secá-la, colocou as
pernas dela nos ombros e na mesma hora começou a
chupá-la. Com ansiedade, aproximou os lábios da
vagina deliciosa e depilada que ela oferecia cheia de
prazer.
A respiração de Mel ficava cada vez mais
ofegante. Aquilo era maravilhoso!
Sexo!
Como dizia Fraser, aquilo era uma coisa
necessária, por isso decidiu aproveitar o máximo que
podia.
Carl, adorando a entrega de Mel, colocou as
pernas dela sobre a cama e a fez abrir as coxas. Ela
obedeceu. Carl agora via na sua frente o centro do
prazer, ainda mais exposto. Aquele púbis depilado
em forma de coração era maravilhoso e tentador e a
abriu com os dedos para ter acesso mais fácil.
Chupava...
Sugava...
Quando a língua chegou ao clitóris, depois de
brincar um pouquinho em volta, Mel estremeceu.
Agarrando-a pela cintura, Carl encaixou-a melhor em
sua boca e Mel relaxou e gozou. Enlouquecida pelo
prazer que acabava de sentir, levantou-se e ordenou,
tomando o controle da situação: — Deita na cama.
Quero te foder.
Carl se levantou e mais uma vez fez o que ela
pedia. Deitado, colocou um preservativo. Mel
montou nele na mesma hora, sendo preenchida por
sua ereção. Excitada, mexeu o quadril em busca do
prazer. Precisava muito daquilo.
Durante vários minutos, seus gemidos, junto aos
de Carl, soaram pelo reservado, até que o
desconhecido, que tinha permanecido até agora em
segundo plano, subiu na cama e também colocou um
preservativo. Fez o que Mel havia pedido e
participou do jogo sem fazer perguntas.
Carl, vendo as intenções do outro homem,
deitou Mel sobre ele. Ela sentiu que passavam
lubrificante em seu ânus e, para facilitar o acesso,
enfiaram um dedo, depois dois, até que ela gritou de
prazer ao ser penetrada.
Nunca faltavam homens para ela. Por sorte, a
genética deixava que escolhesse e eles nunca diziam
não. Naquele instante, naquele momento, sentir-se
preenchida e desejada era espetacular.
— Mike... continua... continua... — suplicou.
O desconhecido sabia que estava sendo
chamado de Mike e agarrando-a pelos seios,
penetrou-a de novo e de novo por trás, com golpes
secos, enquanto Carl penetrava-a pela frente sem
parar.
Naquela noite, por volta das onze horas, Björn
chegou ao Sensations acompanhado por uma linda
ruiva. Maya era exuberante e, como ele, só queria
bom sexo. Tomaram um drinque no bar e ali mesmo
começaram a conversar com outro casal.
Depois do primeiro copo, vieram outros mais e
antes de entrar num dos reservados, Björn foi ao
banheiro. Ao passar por uma das salas privativas, a
música eletrônica que vinha de lá chamou sua
atenção. Levantou a cortina e observou dois homens
e uma mulher na cama.
— Não quero beijos — ela sussurrou.
Essa recusa, que sempre tinha ouvido da amiga
Judith, chamou a atenção dele, por isso parou para
observar. Com prazer, olhou a curva das costas da
mulher e seus olhos se fixaram numa tatuagem que
havia ali. Não dava para ver bem na penumbra, mas
parecia um apanhador de sonhos. Levado pela
curiosidade e pela música, entrou no reservado. Sem
fazer barulho, chegou pertinho para ver a tatuagem.
Exatamente, era um apanhador de sonhos.
Sem dizer nada, observou o jogo daqueles três.
Era o tipo de sexo que o enlouquecia. Dois homens e
uma mulher transando sem inibições. Ela lhe parecia
deliciosa e convidativa. Pelo menos os gemidos eram
delirantes e ela se entregava completamente. Não
soube dizer quanto tempo ficou olhando, até que se
lembrou da ruiva linda que estava lá fora. Decidiu sair
dali, ir ao banheiro e voltar para onde a tinha
deixado.
Vinte minutos depois, enquanto Björn e sua
ruiva conversavam sentados no balcão do bar, a
cortina do reservado se abriu. Viu sair dali uma
mulher morena, de cabelos curtos, mas não viu o
rosto. No mesmo instante, percebeu que era a mulher
que tinha observado.
Nunca a tinha visto por ali e isso chamou sua
atenção. Passava os olhos azuis por aquele corpo e
estava admirado de ver como o vestido de couro
preto ficava bem nela. Sem se mexer da cadeira,
Björn viu a mulher desaparecer do local. A ruiva,
querendo sexo, sugeriu no seu ouvido: — Vamos
para um reservado?
Björn, esquecendo-se da morena, sorriu e
murmurou:
— Claro que sim, linda. Não vejo a hora de
tirar a sua roupa.
Quando Mel chegou em casa, de madrugada,
Dora sorriu ao vê-la e perguntou:
— Como foi o encontro?
Tirando os sapatos de salto, sorriu:
— Bom. Muito bom.
Quando Dora saiu da casa, Mel foi ver a filha.
Tinha dormido. Tirou a roupa e entrou no chuveiro.
A água caindo se confundia com suas lágrimas ao
pensar, como sempre, em Mike. Por que ela não
conseguia esquecê-lo?
6
No domingo, quando Björn chegou à casa dos
amigos Eric e Judith, em seu novo Aston Martin e na
companhia de Agneta, teve que se esforçar para não
rir ao ver a cara de Judith. Estava mais do que
evidente que ela e Agneta não iam uma com a cara
da outra.
Depois de cumprimentá-los e ver o carro novo,
Eric convidou Agneta para entrar na sala. Judith
agarrou Björn pelo braço e falou entre dentes: —
Não entendo o que você vê na Fosqui.
Björn riu ao escutar o apelido que Judith dava a
Agneta. “É igualzinha a um poodle chamado Fosqui
que a Pachuca teve quando eu era criança”, ela havia
lhe explicado certa vez.
— Ela é bonita e eu me divirto. Aliás, prometi
que você não ia incomodar, por isso, se comporta,
linda, tudo bem?
Judith revirou os olhos. Disse sorrindo:
— Ela é uma sonsa... uma sonsa de carteirinha.
— Jud... não começa.
— Deus, Björn, como você consegue se divertir
com esse poodle antipático? Essa daí é a mulher mais
sem sal que já conheci na minha vida.
Ele gargalhou. Não tinha ninguém igual a Judith.
Estava na cara que ela e Agneta nunca seriam
amigas.
— Na cama ela é tudo, menos sem sal.
Judith franziu a testa e respondeu:
— Mas é claro, às vezes as coisas são tão
simples pros homens... A mulher pode ser
insuportável, mas só porque é uma fera na cama,
você continua com ela?
— Ela não é insuportável comigo.
— Você é outra história — ela riu —, mas pro
resto da humanidade ela é uma imbecil que vou te
contar. Pode controlar essa mulher ou hoje ela vai
sair daqui bufando. Você se lembra que da última vez
que a gente se viu essa idiota teve a ousadia de me
chamar de assassina porque eu gosto de filé de vitela.
E que fique bem claro que eu só não disse pra ela o
que eu pensava porque ela estava com você.
— A Agneta é vegetariana. Não leve isso em
consideração.
— Mas, caraca, Björn, por que você tinha que
trazer ela aqui?
Morrendo de rir, ele abraçou a amiga e
respondeu:
— Só trouxe pra irritar você, bobinha! Mas fica
calma que ela vai se comportar se você também se
comportar.
Ouvindo isso, Judith sorriu e cochichou,
cúmplice:
— Seu babaca.
Entre risos, entraram na sala, onde estavam mais
convidados. Eric e Jud apresentaram todos e quando
chegaram a uma jovem que tinha nos braços o
pequeno Eric, Jud perguntou animada: — Você se
lembra da Melanie?
Björn olhou a moça vestida de calça jeans e
blusa preta de gola alta e negou com a cabeça.
Judith continuou:
— É uma amiga espanhola.
Como ele conhecia aquela linda espanhola e não
tinha o telefone dela?
Impossível!
Aquela morenaça de cabelo curto e bem negro
não teria passado despercebida. Curioso, deu uma
checada em seu corpo. O jeans caía muito bem nela
e a blusa marcava os belos e tentadores seios, que
ele teve vontade de tocar. Estava observando-a
distraído, quando ouviu: — Minha nossa, mas se não
é o James Bond em pessoa!
Ouvindo isso, Björn mudou de expressão e
rapidamente lembrou quem era aquela mulher.
Sua mente em décimos de segundos a
identificou como a garota que meses antes tinha
ajudado Judith a sair do elevador e levado a amiga
para o hospital no dia do parto. Por isso, sem muita
vontade de ser simpático, sussurrou: — Ora, ora... se
não é a Superwoman.
Mel, diferente dele, ouvindo isso, abriu a boca e
respondeu, surpresa: — Nossa... Como você me
reconheceu?
Björn, desconcertado pela gozação, perguntou:
— Onde você deixou o disfarce, linda?
Mel trocou um olhar animado com Judith e,
cravando os olhões azuis nos dele, chegou perto e
respondeu: — No Batmóvel, seu cretino. Mas, fica
quietinho... não fala nada. Deixo ele lá, caso tenha
que salvar o mundo de algum espião a serviço da
Inteligência Britânica.
Judith gargalhou. Ver a expressão de Björn era
demais!
Não entendia o que se passava entre seu amigo
querido e aquela moça, mas se divertia. Björn era um
sujeito de muito bom humor e, pelo visto, ela
também, mas ele se recusava a entrar na brincadeira.
Por fim, sem muita vontade de falar, ela viu Björn
caminhar em direção a Eric.
Mel deixou o pequeno Eric na cadeirinha e,
olhando para Jud, perguntou: — Você acha que ele
ainda me odeia porque não foi ele quem te levou ao
hospital naquele dia?
Judith deu de ombros e, certa do que dizia,
respondeu:
— Só te digo que ele é o melhor cara que eu
conheço depois do meu marido e não entendo por
que ele se comporta assim com você.
Naquele instante ouviu-se barulho de vidro
quebrando no chão. Agneta tinha derrubado um
copo, que se fez em pedacinhos. Na mesma hora,
Mel procurou a filha. Encontrou-a justo do lado do
acidente, chorando. Foi correndo até ela, só que,
antes chegar, observou que a menina estava agarrada
ao vestido de Agneta, que empurrou a menina para
se afastar, fazendo Sami perder o equilíbrio.
Björn tentou pegar a pequena no ar, mas mesmo
assim ela caiu sentada no chão. Ao vê-la chorar, ele
se agachou, apoiou uma das mãos no chão e pegou a
menina.
— Pronto, querida, não foi nada — sussurrou
Melanie tirando a menina dos braços dele, pensando
que aquela mulher, a tal da Agneta, era uma idiota.
A criança, assustada, continuou chorando. A
coroa rosa de princesa que trazia na cabeça também
tinha caído no chão, e Björn a pegou. Todos
observavam. Mel, esquecendo-se de tudo, ninou a
criança nos braços até o choro passar. O importante
era a filha, o resto não tinha importância. Quando
Sami se acalmou, mostrou um dedinho e cochichou:
— Fiz dodói.
Vendo o sangue, Mel agiu rápido. Pegou um
guardanapo e, delicadamente, limpou o dedinho. Não
era nada grave. Só um pequeno corte. Mesmo assim,
olhando a menina, disse enquanto caminhava até sua
bolsa enorme: — Vem, meu amor, a mamãe vai
cuidar de você.
Eric, junto da mulher, na mesma hora orientou
que fossem até a cozinha. Lá abriu um armário e
pegou uma caixa de primeiros socorros.
Com carinho, Mel e Judith cuidaram da menina,
deram um pedaço de chocolate e puseram um band-
aid das Princesas da Disney no dedo. Só que Sami
queria que a mãe falasse as palavras mágicas, por
isso, apontou o dedo. Mel sorriu e disse: — A Bela
Adormecida vai fazer você sarar, num passe de
mágica a dor vai passar, tchan... tchan... tchan!, para
nunca mais voltar.
Sami riu alto e Mel comentou com a amiga:
— Se alguém me dissesse que ia fazer essas
palhaçadas para a minha filha, eu nunca teria
acreditado.
As duas riram e quando voltaram para a sala
todos estavam olhando. Mel trazia a filha no colo.
— Sami, fala pra eles que você já está bem —
animou-a, olhando para os convidados.
Ao ser colocada no chão, a loirinha de olhos
azuis, com um sorriso largo, mostrou o curativo e
disse: — Tô bem.
Todos sorriram e Björn, aproximando-se dela,
agachou-se para perguntar: — Como você se
chama?
Ela piscou com graça e respondeu, agarrada às
pernas da mãe:
— Pincesa Sami.
Mel completou, abraçando-a com carinho:
— Se chama Samantha. Nós a chamamos
carinhosamente de Sami, e ela se intitulou princesa.
Björn, achando graça na desinibição da
pequena, concordou com a cabeça, apontando a
coroa que tinha caído no chão. Perguntou: — Tenho
certeza de que ela é sua, não é?
A criança, feliz, fez que sim. Pegou a coroa e
colocou outra vez na cabeça.
— Sou uma pincesa.
Björn sorriu. Sami se aproximou, fez biquinho e,
sem pensar duas vezes, deu-lhe um beijo estalado
que fez todos rirem. Björn em primeiro lugar.
Comovida com esse beijo, Mel sorriu. Quando
a menina se afastou correndo, pegou um guardanapo,
limpou a bochecha de Björn suja de chocolate e,
diante da expressão de surpresa dele, pediu: — Me
mostra a mão.
— Pra quê?
— Me dá a mão — insistiu Mel.
Björn, vendo que todo mundo estava olhando,
cedeu e fez o que ela pedia. Mel, virando a mão com
cuidado, observou a palma.
— Entrou um caquinho de vidro. Não se mexe,
que eu tiro.
Achando graça naquilo, Björn zombou:
— É como aquela história do espinho. Se você
tirar o caco, vamos ser amigos pra sempre?
Mel encarou-o e respondeu:
— Duvido.
Sem se mover, observou-a e viu como ela
limpava com delicadeza e tirava o pequeno vidro da
pele. Saiu uma gotinha de sangue e Mel, sem pensar,
pegou um baid-aid das Princesas e, da mesma forma
que tinha feito na filha, colocou na mão dele.
— Pincesaaaass! — aprovou a menina,
chegando perto.
Assim que Mel terminou, olhou para Björn e
disse animada ao perceber que a filha os observava:
— Saiba que a Bela Adormecida vai fazer você
sarar, num passe de mágica a dor vai passar, tchan...
tchan... tchan!, para nunca mais voltar.
Pego de surpresa por aquela bobagem, Björn
olhou bem para ela e disse piscando: — Tá de
brincadeira, né?
Mel, vendo que a filha olhava atenta para eles,
cochichou:
— Disfarça e sorri. A Sami está olhando e
acredita no poder dessas palavras.
Ele, vendo a menina com a coroinha rosa de
plumas do seu lado, sorriu e, prestando atenção outra
vez na mãe da criança, sussurrou: — E se a Bela
Adormecida me curar outra coisa?
— O cérebro, talvez?
Os dois se olharam. Com um sorriso de canto
de boca, Björn respondeu: — Se quiser chamar ele
assim, eu não ligo. Ele também não.
Mel deu uma risada e, abaixando-se para olhar
nos olhos da filha, sussurrou: — Seu cretino.
Björn, achando graça da situação, sorriu
enquanto Mel brincava com a filhinha. Agneta ao
lado dele, reclamou: — Menina maldita! Por culpa
dela, manchei o vestido!
Ouvindo esse comentário, Mel ficou nervosa.
Quem tinha dito aquilo?
Levantou os olhos e viu que se tratava da
acompanhante do James Bond. Antes que ela
pudesse responder, Judith, que também tinha ouvido,
interveio desafiadora: — O importante é que a
criança está bem, não seu vestido, Agneta.
A loira suspirou e, quando viu que Judith se
afastava, encarou Björn, ao seu lado, e protestou: —
A simpática da sua amiguinha, como sempre, fica do
lado de todo mundo, menos do meu. Essa catarrenta
manchou meu vestido de sangue e eu nem posso
reclamar.
Mel, que não podia ficar quieta, respondeu:
— Sinto muito que minha filha tenha manchado
o seu belo vestido, mas em defesa dela, te digo que
foi sem querer. Além disso, toma cuidado com o que
você fala, porque eu sou a mãe e posso me ofender
se chamá-la de “catarrenta” outra vez. E antes que
você diga qualquer coisa, eu digo que a minha filha
tem 2 anos e meio e ainda é um bebê. Você tem pelo
menos uns 40, ou seja, tem idade suficiente para
entender as coisas.
Esse comentário fez Björn sorrir, mas ele
disfarçou. Era evidente que a nova amiga da Jud não
deixava passar uma.
— Eu tenho 32! — explodiu Agneta,
extremamente ofendida.
— Sério? — perguntou Mel, tirando sarro.
— É sério — afirmou a outra, de cara feia.
— Você não está tentando me enganar? —
insistiu.
Agneta, soltando fumaça pelas orelhas, porque
todos olhavam para ela duvidando da sua idade,
afirmou com expressão contrariada: — Trinta e dois,
nenhum a mais.
Mel, adorando aquilo, concordou e murmurou
maliciosamente ao se afastar: — Tudo bem, mas
então você está bem acabada.
Sem se dar conta, Björn sorriu mais uma vez.
Gostando ou não dela, aquela mulher tinha seu
charme e acabava de demonstrar. Disfarçando,
acompanhou-a com os olhos e observou seu corpo
com atenção. Deteve-se na bunda dela. Era
tentadora. Agneta, ao seu lado, continuou a dar
explicações sobre a própria idade.
Quando todos se foram, olhou Björn e,
ofendida, disse:
— Essa mulher é uma grossa.
— Quem? — ele perguntou, já sabendo a
resposta.
— A morena. A mãe da catarrenta.
Björn viu o sorriso no rosto da amiga Judith,
mostrou o curativo das Princesas e a fez rir alto. Em
seguida, agarrou Agneta pela cintura e lhe disse: —
Vem, vamos beber alguma coisa.
Um tempo depois, todos relaxaram e passaram
ao salão para almoçar. Como sempre, Simona tinha
preparado uns quitutes deliciosos que todos
comeram com muito prazer. Sem poder evitar, o
olhar de Björn voou na direção de Mel, mas nunca
conseguiu que seus olhos se cruzassem. Isso o irritou.
Aquela mulher só parecia ter olhos para a filhinha.
Quando terminaram de almoçar, os convidados
começaram a conversar. Judith, depois de dar um
beijo carinhoso no marido, levantou-se da mesa e foi
até a outra sala para ver o filho. Antes de entrar, viu
pela fresta da porta que Mel estava sozinha na
cozinha. Quando entrou, sentiu um cheiro que
chamou sua atenção.
— Você está fumando?
Com a janela aberta, Mel olhou para ela e, antes
que pudesse responder, Judith chegou mais perto.
Então, Mel falou em voz baixa: — Você fuma?
Jud sorriu.
— Só de vez em quando ou quando quero
irritar o Eric.
Em meio a risadas, sentaram-se na mesa da
cozinha.
— A Sami dormiu?
— Dormiu e seu filho também. — Sorriram, e
Mel continuou falando com a coroa de plumas da
filha na mão: — A Simona me disse que não
precisamos nos preocupar com nada. Ela vai pra sala
se eles acordarem.
— Ai, minha Simona... — Judith suspirou,
pensando naquela mulher de quem gostava tanto. —
Sem ela, a minha vida não seria a mesma.
Simona e o marido, Norbert, viviam na casa e
se encarregavam de que tudo estivesse em ordem;
Simona era maravilhosa. Jud se levantou e perguntou
a Mel enquanto abria a geladeira: — O que você
quer beber? Estou morrendo de vontade de tomar
Coca-Cola.
— Uma Coca pra mim também.
Judith serviu as duas. Mel colocou a coroinha
sobre a mesa, ofereceu outro cigarro a Judith e ela
aceitou na hora.
— Esse seu trabalho de aeromoça deve ser
muito bom — disse-lhe. — Isso de viajar tanto e
conhecer diferentes países tem suas vantagens.
Mel sorriu. Meses antes, quando Judith
perguntou o que ela fazia da vida, Mel contou que
era aeromoça. Mas vendo que Judith era uma boa
amiga e que não deveria ser enganada, chegou mais
perto e cochichou: — Você guarda um segredo?
— Claro, Mel.
— É muito importante pra mim que você guarde
segredo, Judith, promete?
— Prometo, mulher... prometo.
Afastou a franja do rosto e chegou mais perto
da amiga.
— Não sou aeromoça, sou piloto — confessou.
Boquiaberta, Judith a encarou.
— Sério? Caraca... que máximo.
Achando legal ver a surpresa da amiga, Mel
respondeu fazendo graça: — Sou a Superwoman, o
que você estava pensando?
Riram juntas.
— Você trabalha para qual empresa?
A pergunta fez Mel dar risada.
— Jura que você guarda segredo?
— Vamos ver, o que eu preciso dizer para você
confiar em mim?
Mel sussurrou:
— Para a empresa do Tio Sam.
Judith piscou com espanto. Quando entendeu o
que aquilo significava, exclamou surpresa: —
Como?!
— Sou piloto do exército americano.
— Você é militar?
Mel fez que sim e disse ainda:
— Piloto de um Boeing C-17 Globemaster.
Para você entender, é um avião enorme que tenho
certeza de que você já viu alguma vez no noticiário,
desses com uma abertura atrás para receber cargas
de provisões pra certas operações e...
— Você tá falando sério?
— Seriíssimo. Você tem na sua frente a tenente
Parker da Força Aérea Americana. Sou o filho que
meu pai sempre quis ter e por azar não teve. Por
rebeldia eu me alistei no exército com a intenção de
provar pra ele que não precisava ter uma coisa
balançando no meio das pernas para ser corajosa e
ter voz de comando. — As duas riram. — Apesar de
admitir que gosto do que faço, depois que a Sami
nasceu, não sei se isso é certo.
— Por quê?
Mel deu uma tragada no cigarro e respondeu:
— Porque odeio deixar ela sozinha. Odeio ver
como ela chora quando saio e odeio pensar que
algum dia ela possa me rejeitar. Por isso, faz tempo
que tento fazer um curso de design gráfico a
distância, mas não dá, não consigo me concentrar!
Mesmo assim, tenho que fazer. Quem sabe um dia eu
possa terminar e mudar de profissão.
Judith entendia a amiga, mas antes que pudesse
dizer qualquer coisa, Mel continuou: — Por favor, é
muito importante pra mim que você guarde segredo.
Quando estou fora da base, costumo usar o
sobrenome espanhol da minha mãe, Muñiz. Isso evita
muitas perguntas.
— Mas, menina, você é genial! Nossa.... Você
é piloto americana!
Mel sorriu e Judith, sem entender muito bem por
que ela queria manter segredo, perguntou: — Não
vou contar pra ninguém, mas me fala, por quê?
— Porque não gosto que os outros saibam da
minha vida. Além disso, nem todo mundo gosta dos
soldados americanos. Assim, quero continuar sendo
pra você e pra todos somente Melanie Muñiz,
entendeu?
Judith concordou. Tinha sido pega totalmente de
surpresa. Querendo saber mais, perguntou: — Seu
marido também é militar?
Mel bebeu um gole da sua Coca e afirmou com
a cabeça.
— É.
— Ele está em alguma missão, por isso não o
conheci ainda?
A dor tomou os olhos de Mel e Judith percebeu.
Mas antes que pudesse pedir desculpas pela
pergunta, a amiga disse: — O Mike morreu no
Afeganistão e não era meu marido...
Horrorizada, Jud colocou a mão por cima da
mão da amiga.
— Sinto muito, Mel. Não queria que...
— Não foi nada — murmurou, encarando
Judith. — Você não sabia e é normal que me faça
perguntas sobre o Mike. — Depois de um silêncio
tenso disse: — Ele morreu quando eu estava grávida
de sete meses, durante uma missão.
— Deus, Mel, sinto muito...
Tudo ficou em silêncio e Jud perguntou para
mudar de assunto:
— E como você se vira com o trabalho e com a
Sami?
— Ela fica ou com a Dora, uma vizinha
maravilhosa, ou com a Romina, mulher do Neill. Elas
me quebram um galho. A minha mãe também vem
das Astúrias, ou senão eu levo Sami até ela.
— Pois a partir de agora, você também pode
contar comigo, entendido? — Mel fez que sim com a
cabeça. Judith continuou: — Pode se considerar da
família pra pedir ajuda quando você precisar.
Agradecida, Mel apertou a mão da amiga.
— Obrigada, Judith. — E ao ver a tristeza em
seu olhar, falou baixinho: — Foi terrível perder o
Mike. A pior experiência da minha vida. Mas a Sami
e o seu sorrisinho me fazem saber que Mike vive
nela, por isso eu tenho que ser feliz.
Pega desprevenida, Judith ouviu. Não queria
nem imaginar a dor que Mel sentia no coração. Se
algo assim tivesse acontecido com ela, com certeza
teria morrido com Eric, mas era admirável como Mel
se mostrava incrivelmente forte.
— Não conheci o Mike, mas tenho certeza de
que ele ia querer que você tocasse a sua vida e fosse
feliz, não é?
Mel concordou.
— Sério, Mel — reforçou —, pode contar
comigo para tudo o que você precisar e...
Naquele momento a porta da cozinha se abriu.
Björn apareceu e ao vê-las ali sentadas, perguntou:
— Que cheiro é esse?
Björn, que de bobo não tinha nada, ao ver
como as amigas se olhavam, disse: — Tá, vou fingir
que não senti cheiro nenhum e não pergunto mais
nada.
Foi até a geladeira, pegou uma cerveja, abriu e
deu um gole. Perguntou: — Conspiração das super-
heroínas espanholas?
Judith perguntou, rindo:
— E aí? A princesa curou o seu machucadinho?
Björn, olhando para o curativo rosa, zombou:
— Meu machucadinho está ótimo. —
Chegando mais perto, ao ver o que elas tinham nas
mãos, perguntou: — Vocês não sabem que fumar faz
mal à saúde?
— A gente tem que morrer de alguma coisa, né?
— respondeu Mel, que, vendo a cara dele, fez a
próxima pergunta: — Você não fuma, James Bond?
— Não.
— Nem um baseadinho de vez em quando pra
relaxar?
Perplexo pelo descaramento, Björn respondeu:
— Não fumo. Não gosto dessa merda e eu
queria que você parasse de me chamar por esse
apelido ridíc...
— Ah, que isso... você é igualzinho a sua
namorada. Cadê seu senso de humor, cretininho!
— Minha namorada? — E vendo que ela sorria,
esclareceu: — Olha, linda, a Agneta não é minha
namorada, é só uma amiga e se você voltar a me
chamar de cretino... juro que...
— Eh... eh... eh... eh... — Mel gritou fazendo
Björn se calar. — Nem você, nem sua vida particular
me interessam. Por isso, me poupa!
Surpreso pela desenvoltura de Mel em fazê-lo
ficar quieto, ele tentou dizer algo, mas Judith
interrompeu: — Nem pense em contar ao Eric que
me viu fumar, hein?
Ouvindo isso, Mel olhou para a amiga e
perguntou com um tom brincalhão: — Além de não
ter senso de humor, o bonequinho é uma criancinha
dedo-duro?
Boquiaberto, Björn grunhiu:
— Bonequinho eu não ligo. Agora, criancinha
me ofendeu, e quanto a dedo-duro, deixa eu te falar
uma coisa...
— Eh... eh... eh... — gritou Mel de novo. Esse
método era infalível. — Não me interessa o que você
acha.
Incrédulo pelo papel ridículo que estava
fazendo, Björn protestou: — Quer parar de me tratar
que nem um imbecil?
— Ué, mas você não é um imbecil?
De saco cheio e querendo estrangular Mel,
Björn sibilou:
— Pode ter certeza de que não.
— Não, Mel... isso eu mesma posso te afirmar
— interveio Judith. — Björn é um cara muito legal
quando quer, mesmo que não acredite no poder das
Princesas.
As duas mulheres se entreolharam com
cumplicidade e então Mel disse baixinho enquanto
colocava a coroinha de plumas rosa da filha na
cabeça: — Pode ficar do lado do James... Mas é
difícil acreditar.
Achando graça, Jud quis responder, mas Björn
grunhiu outra vez: — Escuta aqui, sabichona...
— Princesa, por favor — esclareceu Mel,
zombando enquanto apontava a coroa.
Sem poder evitar, Judith soltou uma gargalhada.
Mel era engraçadíssima, e Björn, olhando a
descarada usando a coroinha rosa, falou entre dentes:
— Você está me tirando do sério como pouca gente
neste mundo consegue. Em menos de cinco minutos,
me chamou de bonequinho, cretino, dedo-duro e
criancinha, e só vou falar mais uma vez antes de eu ir
embora: me chamo Björn, não James, nem nenhum
dos apelidos absurdos que você me colocou.
Entendeu, princesinha?
Mel sorriu. Adorava tirar os homens do sério e
sem mudar a expressão, perguntou: — Tem certeza?
— Certeza de quê? — Björn gritou exaltado.
— Certeza de que você não se chama James,
bonequinho?
Björn falou um palavrão. Aquela mulher era
insuportável. Então decidiu dar a volta e passar por
ela, mas Mel o chamou antes: — James... James... o
zíper da sua calça está aberto.
Rapidamente ele fez menção de fechar a calça,
mas se deu conta de que era mentira. Olhou Mel nos
olhos, e ela disparou: — Você caiu, cretino!
Vendo que iam começar o joguinho outra vez,
Björn se virou, e com a cerveja na mão, saiu da
cozinha com passos largos.
Uma vez sozinhas, Mel tirou a coroa da cabeça
e elas começaram a rir.
— Por que você é tão má com ele? —
perguntou Jud.
— Eeeeeuuuuuu...?
— Pobrezinho. Björn é um encanto de homem.
Mel, animada, tomou um gole da sua Coca e
respondeu:
— Judith, eu vivo num mundo cheio de homens.
Se eu não fizer isso com eles, eles fazem comigo. Por
isso, decidi ser eu a espertinha que tira sarro. Viu só
como ele ficou furioso?
— Vou te contar, Mel. Acho que é a primeira
vez que eu vejo ele assim, bravo com uma mulher.
Acho que você pegou ele de surpresa.
— Jura?
— Juro — afirmou Judith.
Mel, gostando de ter vencido, deu de ombros e
murmurou:
— Adoro pegar os homens de surpresa.
Judith sorriu. Tinha certeza de que o amigo, no
fundo, também tinha gostado da surpresa, mesmo
que tivesse feito de tudo para negar.
Naquela noite, por volta das dez horas, todos os
convidados foram embora. Com carinho, Mel pegou
a filha no colo e colocou-a no carro. Depois de se
certificar de que estava segura na cadeirinha, cobriu-
a com uma manta. Fechou a porta do carro, se virou
para Judith e disse, abraçando-a: — Obrigada pelo
convite. Gostei muito.
— Obrigada por ter vindo. Te ligo depois de
amanhã pra gente sair pra almoçar, tudo bem?
— Tudo bem.
Já dentro do carro, se preparando para sair, viu
passar do seu lado um esportivo bordô
impressionante. Mel olhou para o motorista e
encontrou os olhos fascinantes de Björn, que a
reprovavam. Ela sorriu e, sem conseguir evitar, deu
uma piscadinha, movendo os lábios para que ele
entendesse: — Saionará, cretino.
Dito isso, arrancou e partiu, deixando Björn sem
palavras mais uma vez.
7
Dois dias depois, Judith e Mel se encontraram
para fazer compras. Passaram metade da manhã no
shopping, comprando coisas para os filhos e para
elas.
— Acho que a Sami vai adorar essa coroa de
cristais e brilhantes coloridos. A gente tem mil
coroinhas, ela adora! Minha filha é uma princesa dos
pés à cabeça. — Mel riu.
Depois de comprar e guardá-la na bolsa, sentiu
o estômago roncar. Judith convidou: — Vem, vou te
levar pra comer no melhor restaurante de Munique.
Meia hora depois, entraram no Jockers. Klaus,
pai de Björn, reconhecendo Judith, logo a
cumprimentou.
— Quanta mulher bonita por aqui! — comentou
animado.
— Já sei a quem o seu filho puxou — zombou
Judith, que, lhe dando um beijo, disse animada: —
Essa aqui é minha amiga espanhola, Melanie Muñiz.
— Espanhola? Que maravilha! — respondeu
Klaus.
Mel estendeu a mão para ele com um sorriso
simpático.
— É um prazer, senhor.
Klaus piscou um dos olhos para a jovem e
cochichou: — Se me chamar de Klaus, eu agradeço.
Esse negócio de senhor me lembra o exército.
— É uma lembrança ruim? — Mel perguntou,
curiosa.
Klaus fez que sim com a cabeça e murmurou:
— Minha segunda mulher me deixou por um
filho da mãe americano.
— Era militar? — perguntou Judith.
Tentando sorrir, respondeu:
— Era. Como se não bastasse, era comandante.
Por isso eu te disse que isso de “senhor” não me
agrada, como também não me agradam os
americanos.
As mulheres se entreolharam e nesse momento
Judith lembrou do que Melanie tinha dito.
Respondeu: — Ah, Klaus, não sabia. Sinto muito.
— Faz alguns anos que isso aconteceu e
ninguém quer se lembrar. Especialmente meu filho
mais velho, que foi quem teve que tratar o divórcio
com esse gringo.
Comovida, Mel sussurrou:
— Sinto muito, Klaus.
O homem, esboçando mais uma vez um sorriso,
disse:
— Acho que a tristeza passaria com o jeito
espanhol de cumprimentar.
Judith, vendo como estavam se dando bem,
respondeu: — Mas que interesseiro, Klaus. Você
quer dois beijos!
— Mas é claro, querida. Tem alguma dúvida?
Mel sorriu e, chegando mais perto dele, deu-lhe
dois beijões no rosto. Em seguida, perguntou: —
Passou a tristeza?
O homem fez que sim com a cabeça e afirmou
com um sorriso encantador: — Totalmente.
Os três sorriram.
— Sabia que achei seu nome lindo? — Klaus
comentou.
Mel arregalou os olhos e acrescentou:
— Então, tenho certeza de que você gosta de E
o vento levou, não gosta?
O homem concordou.
— É o melhor filme de todos os tempos, mesmo
que seja americano.
Ela gargalhou.
— Para os meus pais também. Se eu disser,
Klaus, que a minha irmã se chama Scarlett e eu,
Melanie, você vai entender como eles gostam.
Surpreso, ele perguntou:
— Verdade, menina?
— Verdade, Klaus. Esses nomes são a cruz que
carregamos a vida toda.
Dizendo isso, os três sorriram e Klaus levou as
amigas até uma mesa. Sugeriu o que elas poderiam
pedir e foi embora.
— Que chato o que ele falou sobre os
americanos. Eu não penso assim. Acho que existe
muita gente boa e má em todo lugar — comentou
Judith.
Mel sorriu.
— Já me acostumei. Por isso te disse pra
guardar segredo.
— É verdade que a sua irmã se chama Scarlett?
— É sim... meus pais foram originais desse jeito.
Só pra constar, se eu tivesse nascido menino, sem
dúvida nenhuma, teria sido chamado de Rhett, como
o protagonista.
Em meio a risadas, as duas devoravam os
pratos que Klaus ia trazendo. Estava tudo delicioso e
Judith perguntou, tomando um gole de sua bebida: —
Você está saindo com alguém?
— Não.
— Por que não?
— Não tenho tempo, Judith. Fico muito
ocupada com o trabalho e com a Sami. — Fixando o
olhar na amiga, acrescentou: — Mas não se
preocupe, tenho amigos com quem posso passar
alguns momentos gostosos. Isso nunca me falta.
Compreensiva, Judith murmurou:
— Sinto muito pelo Mike. Deve ter sido terrível.
Mel tomou mais um gole e balbuciou:
— Foi e ainda é. Ainda penso nele, mais do que
ele merece.
Surpresa ao ouvir isso, Judith olhou bem para
Mel, que esclareceu: — Não sei por que eu te conto
essas coisas, mas preciso dizer que o Mike me
decepcionou muito.
— Como?!
— Quando ele morreu, descobri que eu não era
a única mulher no coração dele. Digamos que, graças
a ele, tenho a coisa mais linda da minha vida, que é a
Sami, mas também, graças a ele, não acredito nos
homens, nem no amor. Nem morta!
— Nem todos os homens são iguais, Mel.
— Vou ter que discordar de você. Mesmo que
o Eric seja loucamente apaixonado pela esposa
querida, não quer dizer que todos sejam como ele.
As duas sorriram. Judith continuou:
— Algum dia eu te conto a minha história com o
Eric. Não foi nada fácil, mas o amor que sentíamos
um pelo outro conseguiu superar tudo e aqui estamos
nós. Antes que me diga qualquer coisa, acho que se
você desse uma chance a um...
— Judith — Mel interrompeu —, a última coisa
que quero na minha vida hoje em dia é um homem.
Só preciso de mim mesma para criar a minha filha.
— Não sente falta de alguém que te abrace?
— Não.
— Mas se tivesse alguém do seu lado, teria uma
segurança que agora você não tem e...
— Não, Judith. Alguém do meu lado me
deixaria, justamente, insegura.
— Só porque você passou isso com o Mike
não quer dizer que vá acontecer de novo.
— Eu sei. Sei que você tem razão. Mas agora
tenho muito cuidado. Não confio em homem nenhum.
Além disso, sou militar, pensa na minha profissão.
Que homem vai querer viver a vida que eu vivo?
— Mas você disse que não quer ser militar a
vida toda.
— Uma coisa é o que eu digo e outra é a
maldita realidade, Judith. Tenho uma filha que vou
criar como puder, sozinha. Eu adoraria conseguir um
trabalho de ilustradora, mas é algo muito difícil, por
isso, por enquanto, tenho que manter os pés no chão
e continuar no exército.
— Tem que pensar na Sami e em você.
— Eu sei, é o que eu faço. Mas pra ser sincera,
não consigo deixar de pensar no Mike. Isso significa
que penso nele até mesmo quando estou com outros
homens.
— Não acredito!
Sem poder se conter, Mel continuou:
— Sou idiota a esse ponto. O amor da minha
vida me trai e ainda continuo pensando nele.
Naquele momento, ouviram uma voz vindo de
trás delas: — Continua pensando em mim? Meu
Deus, boneca, fico horrorizado em saber.
Virando-se, notaram que era ninguém menos do
que Björn. Mel bufou.
— Cretino à vista.
Ele sentou-se ao lado da amiga e deu-lhe um
beijo.
— De você, eu nem chego perto, menina —
esclareceu, encarando a morena de olhos azuis.
— Eu agradeço, menino. — Mel suspirou,
sustentando o olhar.
— Tem medo de gostar se eu me aproximar?
— Mas é mesmo um convencido!
Judith se preparou para dizer algo, quando
Björn sussurrou, divertindo-se: — Você bem que
gostaria de conhecer esse convencido bem de
pertinho.
Mel gargalhou.
— Nada mais longe da realidade... gato.
— Hum... gato?! Está tentando insinuar alguma
coisa... gata? Porque, se for assim, deixa eu te
contar que prefiro as loiras doces e delicadas às
morenas grossas e agressivas.
Lembrando-se da mulher que o acompanhava
dois dias antes na casa de Judith, Mel disparou,
irônica: — Se as loiras doces e delicadas são como
aquela insuportável que você levou no outro dia, eu
estou bem mais feliz sendo a morena grossa e
agressiva!
Judith, sem entender o que acontecia entre
aqueles dois, encarou-os.
— Gente, vocês dois são meus amigos, será que
não conseguem ficar cinco minutos sem trocar
elogios?
— Não — responderam os dois ao mesmo
tempo.
Chateada com a atitude, Judith se levantou.
— Preciso ir ao toalete. Tentem não se matar
nesse meio-tempo.
A sós na mesa, não falaram nada, até que Klaus
chegou com uma caneca de cerveja para o filho.
— Viu só que amiga mais linda a Judith tem?
Björn, olhando em volta, perguntou:
— Onde está essa beleza?
Mel bufou impaciente. Klaus, ao ver o filho
fazendo graça, respondeu: — Não se faça de sonso,
porque sei que você a viu. Ela se chama Melanie.
Que nome bonito, né?
O rapaz bebeu um gole da cerveja e respondeu
encarando Mel: — Só porque tem o nome da
heroína do seu filme preferido, não quer dizer que
tem que ser bonita.
Klaus ia responder, mas um dos garçons o
chamou. Ele se afastou, deixando-os sozinhos outra
vez. Os dois se enfrentaram com o olhar até que ela
quebrou o silêncio: — Vai me gastar, de tanto que
você olha.
— Digo o mesmo, mas entendo que você olhe:
todas olham.
— Ah, é?
Björn fez que sim e Mel, animada, continuou:
— E nunca passou pela sua cabeça que elas te
olham por causa dessa cara de bobo que você tem?
E então foi ele quem riu.
— Você é tão parecida com a Judith nas
respostas que qualquer dia vai me dizer alguma de
suas gracinhas espanholas.
Gostando do comentário, Mel sorriu. Lembrou-
se de que Judith tinha contado que falava essas
coisas para o marido quando discutiam.
— Seu babaca!
— Incrível! — Björn ironizou. — As espanholas
devem ter essa palavra no DNA.
Mel ficou sem ação. Tentou responder, mas
Björn interrompeu: — Você sempre anda com a
metralhadora carregada?
— Com abobados que nem você... ando.
Björn bebeu mais um gole da cerveja e,
tentando acalmar a vontade que sentia de continuar
brincando com ela, perguntou: — Já sarou o dedinho
da princesa Sami?
Surpresa que ele se lembrasse do nome da filha,
Mel mudou a expressão do rosto e respondeu: — Já.
Realmente não foi nada, mas um band-aid das
Princesas sempre consegue acalmá-la.
— Jura?
Mel sorriu.
— Juro. A minha filha acredita no poder das
Princesas e por isso eu falei aquela bobagem pra
você na frente dela.
Sorriram. Os dois entendiam aquilo como uma
pequena trégua. Permaneceram alguns segundos sem
falar nada e então Björn comentou: — Gostou da
comida do restaurante?
— Uma delícia — Mel afirmou. — Nunca tinha
vindo aqui, mas vou voltar. Mais que tudo, adorei os
brenz.
— Os brenz que meu pai prepara são famosos
em toda a Munique. O joelho de porco assado
também.
— O Klaus é seu pai?
Björn fez um gesto afirmativo e Mel, achando
curioso, continuou: — Nunca me passou pela
cabeça. Ele é tão simpático e você é tão cretino...
Mas agora que estou olhando com atenção, vocês
dois têm os mesmos olhos bonitos.
— Ah, não...
— Que foi?
Björn sorriu:
— Isso que você acaba de dizer é um elogio?
— ironizou.
Ao se dar conta do que tinha acabado de dizer,
Mel concordou: — Sim. Os seus olhos são bonitos.
São e ponto.
Björn apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou
para a frente.
— Você também tem olhos muito bonitos,
sabia?
Aquela conversa estava começando a deixar
Mel nervosa. Então, tirando o cabelo negro do rosto,
disse: — Obrigada, mas não precisa me elogiar
também.
— Como você disse, seus olhos são bonitos,
são e ponto.
Mel sentiu um calor.
Fazia mais de dois anos que não ouvia algum
elogio de um homem. Uma coisa eram as palavras
legais dos amigos ou dos homens com quem queria
apenas sexo. Outra, muito diferente, era aquele
homem de olhar sensual falando dessa maneira. Por
isso, para quebrar o clima, voltou a dar um sorrisinho
e incorporou a tenente Parker: — Que bom que você
gosta, mas não fica emocionado. Eles não te olham
com luxúria.
— Ah, não?
— Não. Por definição, não gosto dos metidos a
besta.
— De metida já basta você, né?
Com uma expressão que de certo modo o
agradou, Mel perguntou: — Como você descobriu?
Björn riu. Aquela mulher o atraía e não era por
causa dos belos olhos. Porém, sem vontade de entrar
em outra discussão, disse quando se levantou: —
Como sempre, foi um prazer revê-la.
— Igualmente.
Sem olhar para trás, Björn foi andando até o
pai. Sem tirar os olhos dele, Mel notou a química que
havia entre os dois. Teve que sorrir ao ver como
Klaus bagunçava o cabelo do filho. Instantes depois,
Judith voltou do banheiro e exclamou encarando a
amiga: — Não acredito. O Björn te deixou sozinha?
— Eu que toquei ele daqui, não se preocupe.
— Mas então, o que acontece com vocês dois?
Por que sempre que eu os vejo, vocês fazem a
mesma coisa?
Dando de ombros, Mel sorriu.
— Não sei. O caso é que meu santo não bate
com o desse bonitão convencido.
Naquele instante, Judith ouviu seu nome, olhou
para trás e viu que Björn estava se despedindo dela e
indo embora. Quando ele desapareceu, Judith olhou
a amiga que bebia tranquilamente sua cerveja.
— Pois quer você acredite ou não, Björn é um
sujeito maravilhoso.
Mel sorriu:
— Não duvido. Mas quanto mais longe ele ficar
de mim... melhor.
8
Na terça-feira da semana seguinte, quando Mel
deixou Sami na escolinha, voltou para casa e ligou
para a família nas Astúrias. Depois de dois toques,
atenderam.
— Alô.
Era a sua irmã. De brincadeira, Mel adotou um
sotaque sulista: — Senhorita Escarlaaate..., senhorita
Escarlaaate, aqui quem fala é a senhorita Melanie.
— Mas que palhaça, Mel — riu a irmã, que
continuou: — Saiba que hoje eu estou de péssimo
humor.
— Por quê?
— A mamãe falou com o papai.
— E?
— Quando desliga, ela sempre fica histérica, e
no fim acabamos discutindo. Ela não entende que eu
quero voltar a Fort Worth. Me disse que aqui eu vivo
melhor do que lá, mas...
— Dê um tempo pra ela, Scarlett. Mesmo que
ela se faça de durona, ainda não superou ter deixado
o papai, e se você também for embora...
— Belo par, vocês duas, Mel — interrompeu
Scarlett. — Vão me deixar louca. E nem te conto da
vovó. Agora todo o amor que ela tinha pelo papai
virou raiva. Passa todo santo dia xingando-o de tudo
quanto é nome. E, olha, gosto muito da vovó, mas
não aguento mais escutá-la falando mal do papai.
As irmãs riam até que Scarlett disse:
— Vovó... um segundo. Estou conversando
com ela. — Mas, finalmente, dando-se por vencida,
anunciou: — Mel, vou te passar a vovó, não sei que
diabo ela quer te dizer. Daqui a pouco continuamos
conversando.
Achando graça, Mel esperou até ouvir gritos do
outro lado da linha: — Quando é que você vem, meu
bebê? — perguntou a avó com seu sotaque
asturiano.
— Oi, vovó. Logo, mas ainda não sei quando.
— Ai, ingrata! Qualquer dia eu bato as botas e
você vai me ver com o paletó de madeira.
— Vovó!
— É sim. No meu testamento deixei um
dinheirinho pra você e pra mocinha. Não se esqueça
de pedir, porque a sua mãe e a sua irmã são muito
espertas.
— Vovó, por Deus! — Mel riu ao ouvir aquilo.
Covadonga, que era uma mulher de 86 anos
muito lúcida, insistiu: — Bebê... vem logo que a vovó
quer ver você. Se você vier, vou fazer patê de peixe,
que sei que você gosta muito e vou comprar a cidra
da casa do Ovidio.
Pensar naquele patê maravilhoso fez o estômago
de Mel roncar.
— Está bem, vovó. Farei todo o possível pra ir.
— Aliás, tem algum moço interessante à vista?
— Não. Nenhum moço à vista — riu Mel.
— Pois saiba que o Ceci liga o tempo todo.
Acho que ele é meio pateta.
— Vovó, o papai se chama Cedric... Cedric!
Não Ceci... e também não é pateta, por mais que
você tente fazê-lo parecer com um. É normal que ele
ligue. Ele quer falar com a mamãe e com a Scarlett.
A gargalhada de Covadonga finalmente fez Mel
rir. Em seguida, ouviu a voz de Scarlett: — Nossa, a
vovó, que filha da mãe! Você sabe que ela gosta de
arranjar confusão. Falar pra você que eu e a mamãe
queremos a sua parte da herança... É pra matar ela!
— E não esquece que ela também aproveitou
pra me dizer que o papai, o Ceci, como ela diz, não
é muito inteligente.
As duas riram daquilo. A avó era uma figura.
Nunca tinha conseguido superar que a filha Luján
tivesse se casado com um homem com um nome que
ela não sabia pronunciar e muito menos que eles
tivessem se separado.
Após se despedir da irmã, Mel lavou roupas e
estendeu no varal. Sentou-se no sofá para ler, mas
cinco minutos depois já estava de pé. Não conseguia
parar quieta. Vestiu uma roupa confortável e saiu
para correr. Um pouco de exercício nunca fazia mal a
ninguém.
Já na rua, ligou o iPod e logo começou a tocar
Pump it do The Black Eyed Peas. Mel gostava
daquele grupo, por isso colocou o volume no
máximo.
Correu por uma hora sem parar até passar em
frente a uma garagem. O carro que estava saindo a
atingiu e ela acabou no chão.
Confusa por causa do susto, bufou impaciente.
Não tinha acontecido nada grave, mas quando olhou
o joelho, viu que a calça estava rasgada e estava
saindo sangue. Na mesma hora alguém tirou seu fone
de ouvido e perguntou com a voz preocupada: —
Você está bem?
Quando foi responder, ficou muda ao perceber
que quem estava na sua frente era o amigo de Judith.
Aquele que ela gostava de provocar. Não podia ser.
O que ele estava fazendo ali?
Björn, tão surpreso quanto ela, disse:
— Não posso acreditar!
— Porra, nem eu!
Desvencilhando-se dele, levantou-se com um
salto, afastou-se alguns passos e gritou: — Você por
acaso não olha quando vai sair dessa merda de
garagem?
Em resposta àquela explosão, Björn respondeu:
— Claro que eu olho quando estou saindo de
casa, mas...
— Imagina se não olhasse — interrompeu Mel,
enquanto se ouvia a música a todo volume.
Olhando o joelho, Mel falou um palavrão. Björn
rebateu:
— Quem deve ter problema é você, gata,
ouvindo a música tão alta que não consegue escutar o
que está acontecendo em volta.
Ela fechou os olhos e resmungou entre dentes
alguma coisa que não dava para entender. Ele tinha
razão.
Desligou o iPod e a música parou de tocar.
Fixou o olhar naquele carro luxuoso e apontando
para ele, disse: — Para o seu horror, te informo que
você acabou de arranhar a pintura.
Björn olhou na direção que Mel apontava e
respondeu:
— O carro não me importa, o que quero saber
é se você está bem.
Nossa... O bonequinho era menos materialista
do que ela imaginava. Zombou: — Não vou morrer
disso.
Mas quando colocou o pé no chão, xingou:
— Merda! Meeeeeeeeeerda!
— Está doendo?
Mel fez que sim com a cabeça e Björn disse:
— Me desculpa, mas não tenho o band-aid das
Princesas pra fazer parar de doer. Você tem algum
aí?
Ouvindo isso, Mel sussurrou:
— Vai tomar no...
— Olha a boca..., gata.
— Eh.. eh... eh..., seu cretino, nem pense em me
mandar calar a boca.
Björn suspirou. Aquela mulher tirava-o do sério,
mas ele estava tentando ajudar, por isso trancou o
carro com o controle remoto e pegou Mel nos
braços.
— Vem — propôs —, vou te levar pra minha
casa e aí a gente vê esse tornozelo.
— Me solta!
Björn nem deu bola.
Continuou andando quando um tapa na cara o
fez ir para trás. Mel desceu do colo dele com um
pulo.
— Mas você está louca ou o quê? — Björn
gritou. — Por que está me batendo?
— Falei pra você me colocar no chão e você
não colocou.
Tocando o nariz, Björn teve vontade de
estrangular Mel. Que tapão tinha acertado nele! Mas,
contendo o impulso, disse: — Olha aqui, linda, já
está bem claro que eu e você, quanto mais longe a
gente ficar um do outro, melhor.
— Parte meu coração admitir isso, baby... mas
dessa única vez você tem razão.
Björn respirou fundo, irritado. Aquela mulher
era no mínimo impertinente, mas se lembrou de
manter a calma.
— Acabei de te atropelar — disse — e o
mínimo que eu posso fazer, sendo uma pessoa
sensata e decente, é me preocupar com você. Então,
Superwoman, se você consegue voltar pra sua casa
com o pé desse jeito, eu pego meu carro e vou
embora. Por isso, me fala logo, você precisa de
ajuda, ou não?
Mel pensou um pouco. O pé estava doendo,
mas como Björn tinha dito, quanto mais longe um do
outro eles ficassem, melhor. Encarando-o, deu a
ordem: — Vá embora. Eu consigo ir sozinha.
— Certeza?
— Absoluta.
Björn virou-se, andou até o carro, entrou nele,
deu partida e se mandou. Que aquela espertinha
fosse à merda!
Quando Mel viu que ele estava mesmo indo
embora, sentou nos degraus ao lado da saída da
garagem. Olhou o tornozelo e suspirou aliviada de
ver que estava bem. Só tinha torcido. Como sempre,
seu senso de autossuficiência tinha falado mais alto.
O pé estava doendo e sabia que ia ser difícil chegar
em casa, mas ia conseguir. Já tinha passado por
situações piores.
Acostumada com a dor, levantou-se e começou
a andar devagarinho. Ia conseguir chegar em casa,
claro que ia! Mas o pé estava doendo demais, por
isso teve que andar aos pulinhos. Logo se deu conta
de que um carro vinha acompanhando-a na rua.
Quando percebeu que se tratava de Björn, colocou
as mãos na cintura e perguntou: — Por acaso você
quer me atropelar de novo?
— Bem que eu gostaria. Anda, sobe.
— Não.
— Sobe logo, Ironwoman.
— Já disse que nãããããooooo!
Mel continuou andando e Björn, paciente,
seguiu-a com o carro enquanto cantarolava Let’s
stay together, do Al Green, que tocava no rádio do
moderno carro esportivo.
Sem tirar os olhos da cabeça-dura que andava
dando pulinhos pela calçada, esperou que ela
desistisse. Por fim, quando Mel não aguentou mais,
parou, caminhou até o carro, abriu a porta e sentou-
se ofendida com a expressão divertida na cara dele.
— Eu moro bem perto daqui — disse. — Cinco
ruas à frente.
— Mas que alegria, somos vizinhos! — Björn
murmurou.
— Olha, gato, vê se não me irrita!
— Eu? Deus me livre!
O sinal ficou vermelho e nenhum dos dois falou
mais nada. Björn continuou cantando a música até
que Mel, olhando bem para ele, quebrou o silêncio:
— Você devia escutar música boa.
— Eu escuto.
Mel apoiou a cabeça no encosto do banco e
respondeu:
— The Black Eyed Peas, Bon Jovi, ZZ Top ou
AC/DC, isso sim é que é música boa.
— Prefiro soul.
— Musiquinha romântica, que horror!
Björn olhou para ela. Ao ver que estava sendo
observada, Mel zombou: — Ah, claro, boneco. Eu
tinha esquecido que você era conquistador e esse
tipo gosta dessas musiquinhas.
Björn fez uma expressão de impaciência. Se ela
iria começar a tirar sarro dele outra vez, iria jogar
Mel para fora do carro. Olhando por cima dos
óculos de sol, ele respondeu: — Se você continuar
com esse jogo, vai acabar indo a pé para a sua
casinha... boneca.
O sinal abriu e Mel decidiu ficar quieta. Com a
dor que estava sentindo no tornozelo, preferia ir de
carro. Quando passou em frente à creche da filha,
comentou sem pensar: — Essa é a creche da Sami.
— E olhando no relógio, murmurou: — Droga, tenho
que buscá-la em 42 minutos.
Björn não respondeu nada, continuou dirigindo
até que ela ordenou que ele parasse em frente a um
prédio alto. Ele obedeceu. Desceu para acompanhá-
la, mas Mel, encarando-o, disse: — Obrigada e
tchau.
Sem dizer nada, Björn pegou-a mais uma vez no
colo e, segurando bem as mãos para evitar qualquer
ataque inesperado, avisou em alto e bom som: — Se
você me bater de novo, juro que te jogo no chão na
mesma hora.
— Atreva-se.
Björn sorriu. Pela primeira vez sentiu que tinha o
controle da situação.
— Melhor não me testar... melhor não me
testar... — disse, de bom humor.
Mel pegou uma chave do bolso e abriu a porta.
Lá dentro, chamou o elevador e subiram até o quarto
andar. Mel indicou uma porta com a letra D e
anunciou: — Chegamos. Me solta.
Björn não deu ouvidos. Ao ver que ele não se
mexia, Mel disse entre os dentes: — Obrigada. Pode
ir. Bye... Bye... Ciao... Bon voyage.
Desconcertado como nunca na vida, Björn
olhou para ela. Nunca mulher nenhuma tinha tentado
se livrar dele com tanto descaramento. Mesmo
querendo sair dali, algo dentro dele pedia aos gritos
para ficar. Mas, finalmente, deu as costas e foi
embora. Era o melhor.
Ao entrar em casa, Mel foi direto para a
cozinha. Abriu o congelador, pegou um saquinho de
ervilhas congeladas e colocou no tornozelo. Por sorte
não estava inchado, mas doía bastante. Fechou os
olhos. Precisava descansar um pouco. Estava suada
por causa da corrida e com dor por ter sido
atropelada. Pensou em Björn e se deu conta de que
o cheiro da colônia dele tinha ficado impregnado na
sua roupa. Com curiosidade, encostou o nariz e teve
que admitir: aquele homem era cheiroso demais.
Quinze minutos mais tarde, levantou-se
mancando e foi até a casa da vizinha. Precisava que
ela fosse buscar a filha na creche, mas quando bateu,
ninguém atendeu a porta. Sem outra saída, recuperou
o ânimo, tomou uma ducha bem rápida e vestiu a
roupa. Ela mesma iria buscar Sami.
Quando estava vestindo o casaco, bateram à
porta. Pulando numa perna só e com o cabelo ainda
molhado por causa do banho, abriu a porta e ficou
sem palavras ao ver que eram Björn, uma funcionária
da creche e a sua filha.
Ao ver a mãe, a menina abriu os braços e Mel,
boquiaberta, abraçou-a. Antes de ir embora, a
funcionária desejou com um sorriso amigável que seu
pé ficasse bom logo e, com uma olhada descarada
para o homem ali parado, saiu. Quando ficou sozinha
com um Björn que não tinha dado um pio, encostou a
porta e perguntou: — Mas o que você está fazendo
com a minha filha?
— Você disse que tinha de ir buscá-la e como
imaginei que o seu marido não ia chegar a tempo,
resolvi o problema pra você.
Ouvindo isso, Mel sentiu um arrepio. Não tinha
marido nenhum, mas tentando não pensar, franziu a
testa e perguntou: — E como acreditaram em você?
Eles não te conhecem.
— Escuta...
— Não. Não escuto. Eles não deveriam ter
deixado você levar a menina. Não é permitido. Mas
que raio de lugar é esse que entrega as crianças pra
qualquer um? Vou denunciar. Vou meter um
processo neles, eles vão ver.
Björn concordou com a cabeça. Ela tinha razão.
Mas tentando tranquilizar Mel, comentou: — Eu
conheço duas das cuidadoras, elas sabem onde eu
moro e onde eu trabalho. Eu disse pra elas que nós
somos amigos e que você não podia buscar a
menina. — Vendo a expressão de irritação dela,
completou: — Vamos, garota, olhe pelo lado bom.
Assim você não teve que sair pra ir buscá-la. E fica
tranquila que eles não iam entregar a menina a
qualquer um. Você viu que uma das cuidadoras veio
acompanhando a Sami até aqui?
Naquele momento, a pequena Samantha
estendeu os braços para Björn, que, sorrindo,
pegou-a no colo.
— Princesa Sami... fala pra mamãe: “Não fica
brava, mamãe!”
— Não fita bava, mamãeee.
Mel sorriu e pegou a filha dos braços dele. Quis
falar algo, mas Björn se adiantou: — Estou indo.
Sinto muito pelo que aconteceu.
Vendo que ele estava indo embora, Mel tentou
ser amável pela primeira vez: — Ó... obrigada —
resmungou.
Björn não se virou para olhá-la, acenou com a
cabeça e continuou o caminho até o elevador. Lá
fora, sem querer mais pensar nisso, pegou o Aston
Martin e desapareceu no trânsito. Tinha coisas a
fazer.
9
Uma semana depois, já com o pé recuperado,
Mel deixou Sami com a vizinha Dora. A menina
chorou. Cada vez era mais difícil separar-se da mãe e
Mel foi embora com o coração apertado.
Tinha que viajar com seus companheiros para
Cabul e levar suprimentos. Seria uma viagem curta,
por isso não chamou Luján. Falou com a vizinha
Dora e explicou que ficaria fora só por uns dois dias.
Mas ao chegar ao destino, tudo se complicou e o que
ia ser uma viagem de 48 horas, virou uma de 72
horas. Tinha que levar muitos feridos até a Alemanha
por causa de um acidente de carro, mas como ainda
não tinham chegado à base de Cabul, teve que
esperá-los.
— Tenente Parker.
— Sim, senhor — respondeu Mel,
cumprimentando um homem de meia-idade.
— Peça a algum dos seus homens que diga ao
dr. Jones onde está o material de que ele necessita.
Com seu jeito profissional, Mel olhou para um
de seus homens e instruiu: — Johnson, Hernández,
busquem o material do dr. Jones e ajudem-no a
carregar o carro.
O médico, um homem sério e calado, chamou
vários de seus homens e ordenou que colocassem as
caixas trazidas por Johnson e Hernández dentro de
um jipe. Eles teriam que levá-lo até a barraca que
utilizavam como hospital de primeiros socorros.
Uma aglomeração confusa se fez ao redor da
tenente Parker, que, com a lista de suprimentos,
indicou com voz de comando que distribuíssem tudo
o que tinham trazido no avião. De repente um militar
disse: — Tenente, estou procurando as baterias para
os óculos de visão noturna e térmica. Em que
compartimento elas estão?
Mel checou a lista e respondeu no mesmo
instante:
— No 17 e no 18, senhor.
O homem moveu a cabeça para indicar que
tinha entendido, depois olhou para ela e perguntou:
— A senhora é a filha do major Cedric Parker?
— Sim, senhor.
— Mande lembranças do comandante William
Sullivan, quando falar com ele... agora a senhora e a
sua equipe podem ir descansar. Quando chegarem os
feridos que estamos aguardando, vamos partir.
Mel concordou. Não gostava de dizer de quem
era filha, pois muitos faziam gracinhas disso. E foi o
que aconteceu. Quando entraram em uma das
barracas, um tenente que a conhecia zombou: —
Ora... ora... se não é a filhinha do major Parker.
Ouvindo isso, Mel encarou-o e falou entre
dentes:
— E por que você não vai à merda?
Vários dos que estavam ali presentes deram
gargalhadas. Ser mulher e militar já era algo difícil, e
ser filha de um alto oficial do exército não tornava
nada mais fácil.
Mel olhou para o homem que a provocava e fez
um gesto mal-educado com o dedo. Todos riram.
— Uau... que garota durona!
— Tenente — Neill tentou intervir —, acho
que...
— Relaxa, Neill — ela interrompeu com ares de
piada. — Eu sei me defender dos cretinos sozinha.
O outro tenente sorriu. Olhando para Mel outra
vez, que tentava passar por ele, disse: — Só vejo
dois belos peitos e uma bundinha gostosa.
Neill e Fraser ficaram tensos. Conheciam Mel e
sabiam como esse tipo de brincadeira costumava
terminar. Depois de encarar o homem com
indiferença, ela deitou-se na cama. Não queria
problemas. Estava muito cansada. Mas o militar,
querendo arranjar confusão, continuou: — Você
precisa de uns carinhos. Seu rosto me diz que você
está um pouco necessitada.
Não precisou mais nada. Mel levantou-se com
um salto da cama, pegou uma bota do chão,
arremessou com todas as suas forças e acertou em
cheio na cara do homem.
— Você quebrou o meu dente! — ele gritou,
muito espantado.
Neill e Fraser sorriram, e mais ainda quando
ouviram a resposta de Mel em um tom perigoso: —
Se você falar outra vez comigo, seu babaca, juro que
depois desse dente eu te arrebento a boca toda.
Agora, se você não se importa, cretino, eu quero
dormir.
Depois de 18 horas de espera, por fim
chegaram os feridos que deveriam ser transportados.
Mel ficou sem palavras. Diante dela estavam vários
companheiros da companhia Bravo 4, a de Mike.
Ramírez, Friedman e Clooney se alegraram ao vê-la.
Mel os abraçou. Eles explicaram que o comandante
de sua unidade tinha sido ferido e que as coisas não
eram nada boas. Preocupada com essa informação,
saiu à sua procura.
Conrad Palmer, comandante do batalhão e um
bom amigo dela e de Mike, exclamou quando a viu:
— Tenente, que bom ver você!
Mel, deixando as formalidades de lado,
agachou-se junto dele. Havia sangue na lateral do
corpo e ele estava muito pálido e febril.
— Conrad, como você está se sentindo?
Com os olhos brilhantes por causa da febre, ele
a encarou:
— Estou melhor — respondeu quando um
enfermeiro injetava alguma coisa em seu soro.
— A Sami recebeu o brinquedo que você
mandou de presente no aniversário dela. Obrigada
— Mel disse com um sorriso forçado.
O homem se alegrou.
— Ela gostou?
Mel fez que sim com a cabeça, tentando
controlar a vontade louca que sentia de chorar.
Conrad era um homem forte e cheio de vida. Vê-lo
assim, com aquele fio de voz, fez ela supor que as
coisas não iam nada bem, e ficou assustada.
Durante alguns segundos, ambos se olharam, até
que ele finalmente disse: — Você sabe que eu
gostava muito do Mike, mas também sabe que você
era boa demais pra ele e que ele não te merecia, não
sabe? — Mel não respondeu. Pensou na carta de
Mike que Conrad tinha enviado a ela depois que
Mike morreu. — Se você tivesse sido minha, eu
nunca teria te decepcionado.
Mel concordou com um gesto e, entendendo o
que ele queria dizer, respondeu: — Fui feliz com ele,
Conrad. Me contento com isso.
— Eu sempre soube, linda. — Sorriu com dor.
— Mas você precisa de alguém melhor. Você já
conseguiu começar uma vida nova?
— Não tenho tempo. Acho que...
Com um esforço que fez com que franzisse o
rosto, Conrad pegou o pulso dela e exigiu: — Pois
comece.
Quando ele a soltou, Mel concordou com
carinho:
— Sim, Conrad — murmurou.
— Exijo que você siga em frente, tenente. É
uma ordem — ele sussurrou com um fiozinho de voz.
— Faça isso por mim. Não me decepcione.
A jovem tenente, engolindo as lágrimas,
respondeu:
— Por enquanto, o que eu vou fazer é te levar
para a Alemanha, para que cuidem de você.
— Não duvido. — E antes de perder a
consciência, disse: — Mel, aproveita a vida.
Fraser e Neill, que sabiam quem era o homem,
se entreolharam ao ouvir aquilo.
Mike e Conrad eram muito amigos, por isso
Fraser e Neill sabiam o quanto Mel gostava do
comandante. Além disso, quando ela perguntou aos
médicos sobre o estado de saúde de Conrad, soube
que a situação não era nada boa. Quando Mel entrou
na cabine do avião e sentou-se em sua poltrona,
Fraser disse: — Mel...
— Eh... eh... eh... — ela interrompeu. — Não,
Fraser, não diga nada. Temos que chegar à
Alemanha o mais rápido possível.
Mel foi tomada pela angústia. Precisavam
decolar dali o quanto antes e chegar ao hospital. Mas
tudo era tão devagar, eram feridos demais. Quando
finalmente puderam partir, estava tomada pela
adrenalina e pela angústia e não conseguiu falar nada
até chegarem à Alemanha. Quando aterrissaram,
porém, soube que o comandante Conrad Palmer
tinha morrido.
Desesperada, não deixou cair nenhuma lágrima
na frente de ninguém. Quando todos desembarcaram
do avião, caminhou decidida até o gabinete do
comandante Lodwud. Ele, quando a viu entrando,
notou sua expressão e, já sabendo das más notícias,
não disse nada. Assinou os papéis que ela deixou
sobre a mesa e, ao ver que ela colocava uma caneta
no bolso de cima do macacão cáqui, olhou fixo nos
olhos dela: — Hoje você não vai colocar o trinco na
porta? — perguntou.
Sem vontade de transar, só querendo fugir dali e
esquecer o que tinha acontecido, respondeu: — Não.
Ele se levantou, caminhou até ela e, sem tocá-la,
murmurou: — Quer passar a noite comigo?
— Não. Assim que puder, parto pra Munique.
A dor e a raiva que viu nos olhos dela fizeram o
comandante insistir: — Atrase a sua volta até
amanhã.
Mel olhou para ele. Não podia negar que o
comandante James Lodwud era um homem muito
atraente.
— Sinto muito, mas não — respondeu.
Sem dizer mais nada, abriu a porta, mas ele
agarrou-a pelo braço para impedir sua saída.
— Se você não vier, sabe que vou ligar pra
outra, não sabe?
Isso fez Mel sorrir. Para ela, James não era
nada mais do que sexo e, soltando-se com um
movimento brusco, respondeu antes de sair pela
porta: — Divirta-se, James.
Quando chegou em casa, Mel abraçou Sami.
Precisava de calor humano. Calor sincero. Calor com
amor, por isso ficou abraçando e beijando a filha até
ela dormir.
Mike morto...
Conrad morto...
O telefone tocou e Mel atendeu no mesmo
instante. Era Robert. O grande amigo Robert.
— Oi, linda, como você está?
— Arrasada... completamente arrasada... —
respondeu, acendendo um cigarro.
Robert, que já sabia do que tinha acontecido,
lamentou:
— Sinto muito pelo Conrad, Mel.
— Eu sei, Robert. Eu sei. Como você ficou
sabendo?
— O irmão de um dos meus homens está na
Bravo 4.
Durante um segundo, os dois permaneceram
calados, até que Robert disse: — Mel, isso não é
vida pra você. Eu entendo que você goste de pilotar,
mas acho que deveria repensar seus planos de
continuar no exército.
Ouvir isso fez Mel sorrir.
— Se não soubesse que isso é impossível, eu
teria pensado que você falou com a minha mãe.
Sorriram e ele perguntou:
— E o curso de design gráfico?
— Abandonei. Não tenho tempo, Robert. São
muitas coisas.
— Tem que achar tempo, Mel, e acabar. Se
você gosta de ilustração mais do que gosta de pilotar
um C-17, faça isso! Ou então procure um marido
rico que te tire do exército, você decide!
Isso sempre tinha feito os dois amigos rirem.
Mel respondeu: — Tudo bem... prefiro terminar o
curso de design gráfico.
— Falando em homens, como andam as coisas?
Sentando-se no sofá, tirou o cabelo do rosto e
respondeu:
— Você sabe que eu não quero namorado.
Gosto dos amigos. Isso já dá e sobra pra mim.
— Mas pra mim não, Mel. Você tem que
encontrar alguém especial. Alguém que...
— Não.
A resposta brusca fez com que ele respondesse:
— Já falamos mil vezes, sua cabeça-dura. Nem
todos os homens são como o idiota do Mike. Só
porque ele te enganou não quer dizer que todos vão
fazer o mesmo. Mas claro, te conhecendo como
conheço, você deve fazer o papel da tenente Parker,
a assustadora de homens, não é?
Ele a conhecia muito bem... Achando graça,
Mel respondeu:
— Sabe, Robert? Se a tenente Parker gostasse
mesmo de algum dos caras com os quais eu saio, ela
não os assustaria. Mas acontece que eu não tento
gostar. Só quero diversão. Romantismo não é a
minha praia.
— Mas era... você era muito romântica até o
babaca do Mike estragar a sua vida. Aliás, você tem
que agradecer a ele por ter a Sami, mas esse imbecil
te fez tão mal, que...
— Não quero mais falar nele — interrompeu.
— Certo. Não vamos mais falar dele. Mas me
parece que vou precisar arranjar um namorado pra
você. Conheço vários homens que...
— Nem pense nisso!
Animados, conversaram durante um bom
tempo. Robert sabia o quanto a morte de Conrad
devia ter doído em sua amiga e não desligou o
telefone até ouvir gargalhadas do outro lado da linha.
No dia seguinte, depois de um passeio cansativo
com Sami, quando chegou a noite, pediu à vizinha
Dora que cuidasse da criança por algumas horas. Ela
precisava sair para espairecer.
Quando chegou ao Sensations, como sempre,
rapidamente vários homens vieram falar com ela.
Escolheu dois deles e uma mulher. Naquela noite,
quando entraram no reservado, Mel ordenou que
abaixassem a luz enquanto ela colocava um CD: a
voz de Bon Jovi e seu rock pesado começaram a
tocar.
Os homens a olharam e Mel pediu que tirassem
a roupa dela. Com prazer, atenderam ao pedido e,
quando a deixaram totalmente nua, ela mesma
colocou o lenço de seda nos olhos e ordenou: —
Façam o que quiserem comigo. Não perguntem
nada. Só façam o que quiserem.
A mulher conduziu-a até a cama e a empurrou.
Mel se deixou levar. Precisava esquecer. Precisava
se desconectar de sua realidade terrível e sabia que
aquilo, pelo menos enquanto durasse, faria com que
se esquecesse de tudo. Ela queria gozar.
Percebeu a movimentação em várias partes da
cama e logo sentiu que beijavam a planta de seus
pés, a barriga e os seios. Várias mãos passeavam
sobre seu corpo até que ficou toda arrepiada.
Durante um tempo foi aquilo que ela teve com
Mike, outros homens, outras mulheres. Sexo...
jogos... tesão. Viver a vida. Era excitante e ela queria
aproveitar cada instante. Por ela. Por eles.
Alguns minutos depois, sentiu as mãos da mulher
abrindo suas pernas e se apoderando de seu sexo
com a boca. Chupou. Lambeu com deleite e
desfrutou. A língua da desconhecida passava por seu
clitóris, e Mel puxava-a para mais perto de si, queria
oferecê-lo todo para ela. Logo em seguida, sentiu um
dedo tentando penetrá-la por trás e logo conseguiu.
Mel deu um gemido cheio de prazer. Enquanto isso,
um dos homens dava mordidinhas em seus seios e o
outro, ansioso, enfiava o pênis em sua boca. Com
sensualidade, agora era Mel que chupava e lambia,
enquanto deixava que aqueles três tomassem conta
de seu corpo. A música pesada continuava tocando.
Era um jogo excitante que gostava de praticar com
Mike e agora precisava repetir.
A mulher que estava entre as suas pernas se
afastou. Mel notou que alguém tomava seu lugar e
vinha penetrá-la. Ofegou quando aquele
desconhecido meteu uma vez e mais outra, dando-lhe
prazer.
— Fala comigo — ela exigiu.
Se havia algo que a deixava excitada eram as
vozes carregadas de erotismo, as frases calientes
durante o sexo. A linguagem obscena que usavam
nessas horas, além, é claro, dos próprios jogos, era
algo muito provocante. Mike fazia assim e Mel
precisava muito disso.
— Você gosta do jeito como eu te fodo? — o
homem perguntou.
— Gosto... gosto... continua.
Ele agarrou-a pela cintura para que a penetrasse
mais fundo. Ela falou baixinho: — Assim, Mike...
— Isso, linda... — o desconhecido respondeu
sem se importar que seu nome não fosse aquele. —
Continua... continua assim.
Aqueles movimentos provocaram nela um
orgasmo intenso e quando ele também respirou fundo
e alcançou o seu clímax, sentiu que outras mãos a
pegavam com força, viravam-na sobre a cama e a
colocavam de quatro para penetrá-la outra vez.
— Abra bem as coxas... mais... mais... — exigiu
o segundo homem.
Mel obedeceu, e o homem, agarrando-a pelos
ombros, enfiou o pênis inteiro nela. Mel gritou.
— Desse jeito... vamos... outra vez — o homem
sussurrou.
Mel entregou-se mais uma vez e voltou a gritar,
totalmente mergulhada no prazer.
Aquele homem penetrava-a uma e outra vez
sem parar. Seu pênis era mais grosso do que o do
anterior e a preenchia mais.
Mike! Era assim que fazia com ele.
Mel se deleitou imaginando, fantasiando com um
passado que não voltaria mais enquanto sentia o
púbis daquele novo Mike golpeando a sua bunda.
O cheiro de sexo tomava conta do lugar.
Ninguém falava nada. A única coisa que faziam era
dar e receber prazer; o prazer que ela tinha ido
procurar e que tinha exigido sentir.
Livre, Mel tremeu sem controle quando gozou e,
sentindo o sexo se contraindo depois do que aquele
homem tinha feito, mordeu o lençol para não soltar
um grito enorme de prazer. O desconhecido fazia
ruídos de prazer cada vez que a penetrava.
Quando o segundo homem terminou, Mel sentiu
as mãos da mulher fazendo-a sentar e depois deitar
na cama de barriga para cima. Abriu as pernas para a
desconhecida, que a lavou com água. Terminou,
secou, afastou as coxas de Mel ao máximo e, voraz,
começou a massagear-lhe o clitóris com movimentos
circulares, e em seguida apertando e soltando.
Extasiada por aquilo tudo, Mel sentiu a língua ardente
daquela mulher, que lambia seus fluidos enquanto os
outros dois homens chupavam seus mamilos.
Prazer em estado puro. Era disso que tinha
necessidade.
A mulher arrastou-se pelo corpo de Mel e, sem
beijá-la, pois estava claro que não haveria beijos,
chegou com a boca bem perto da boca dela e
perguntou: — Posso me oferecer a você?
Mel concordou e respondeu:
— Só se eu também me oferecer a você.
Contente, a mulher levantou Mel e se deitou. Ao
senti-la na cama, trocou de posição, e a outra,
agarrando-a pelos quadris, colocou a vagina sobre a
boca, fazendo Mel gemer.
Não via nada através do lenço, mas o cheiro de
sexo fez com que soubesse que a mulher queria ser
chupada. A urgência do momento fez Mel abaixar a
boca e encostar naquela vagina aberta e molhada. Ao
primeiro toque da língua, a mulher arfou. As duas
faziam um 69 perfeito, e Mel se abria para que a
mulher enfiasse nela os dedos e a língua. A
desconhecida retribuía. Brincaram com o clitóris uma
da outra, chuparam, morderam e sugaram até que os
corpos alcançaram o prazer máximo.
Ofereciam um espetáculo incrível para aqueles
dois homens e, quando chegaram ao ponto mais alto
do jogo, um deles sussurrou: — Não se mexam.
Vamos foder vocês duas desse jeito.
Mel aceitou. Agora estava ouvindo a música do
Bon Jovi que Mike mais gostava, Social disease.
Enquanto isso, na porta do Sensations, Björn
jogava conversa fora com duas de suas amigas.
Alexia e Diana eram sedutoras e divertidas, e sempre
que se encontravam naquele lugar se divertiam muito.
Depois de guardarem os casacos, Alexia propôs que
fossem diretamente a um reservado.
— Por que perder tempo?
Ele concordou.
Quando entraram no reservado 6, um rock
pesado chamou sua atenção mais uma vez. Lembrou-
se da mulher do outro dia e levantou a cortina para
ver se ela estava ali. Como sempre, gostou muito do
espetáculo e sorriu ao ver que era ela mesma. Olhou
mais uma vez para aquela tatuagem estranha. Um
desenho que parecia se mexer quando ela se mexia.
— Vem, Björn — apressou-o Alexia.
Ele, encarando-a, respondeu:
— Me dê dois minutos. Já vou.
As amigas sumiram dentro do reservado e Björn
sorriu. A noite com Alexia e Diana prometia ser no
mínimo muito caliente. Mas mesmo assim,
concentrou toda a sua atenção na mulher que se
divertia com aqueles outros três. Observou-a
desfrutar do sexo ao som da música pesada. Mais
uma vez ela se oferecia deliciando-se, sexy. Sem ver
o rosto dela, mas vendo como movia a cintura ao ser
penetrada, Björn ficou excitado. Queria brincar com
ela, por isso precisava descobrir quem era. Tentou
ver o rosto, mas por causa da pouca luz e do lenço
nos olhos, isso foi impossível.
Os gemidos chegaram ao máximo e Björn
estava pegando fogo de desejo. Quis tirar a roupa,
cair na cama com aquela mulher e possuí-la. Queria
ter a sua vez, mas não deveria fazer isso. Não tinha
sido convidado para aquela festa. Por fim, deu as
costas e saiu em direção ao reservado onde era
esperado. Lá, cinco minutos depois, duas mulheres
muito sensuais deram tudo o que ele pediu.
Naquela noite, quando Mel chegou em casa,
depois de agradecer a Dora, entrou no piloto
automático: tomou um banho e se deitou. O sexo
para ela era só sexo. Nada de sentimentos. Apenas
prazer. Sem pensar em mais nada, adormeceu.
10
Na sexta-feira à tarde, Mel ligou para Judith e
combinou de ir tomar banho de piscina na casa da
amiga. Quando chegaram, Samantha ficou louca.
Depois de encher as boias de braço cor-de-rosa,
Mel entrou com a filha na água aquecida.
Feliz, observou como a menina se agitava e
encorajou-a: — Vamos, querida, mexe os bracinhos.
Sami, que tinha aulas de natação na creche, logo
fez o que a mãe pediu, e Judith, que as observava
sentada na borda da piscina com os filhos, aplaudiu:
— Muito beeeem, Sami! Você nada muito bem!
— Posso segurar a Sami? — perguntou Flyn,
um dos filhos de Judith, pulando na água.
— Claro, querido. Vem, fica aqui — disse Mel.
Encantada, observou aquele menininho
segurando a filha e se alegrou com o sorriso dos dois.
Depois de algumas horas de diversão na piscina, a
porta se abriu e Eric, o marido de Judith, entrou
acompanhado do amigo Björn.
Este, quando viu Mel, franziu a testa. Claro que
bastava notar a presença dela para ficar nervoso. E
assim foi. Quando percebeu Björn ali, Mel sorriu e
cumprimentou: — Olha só... o atropelador de
mulheres chegou.
Todos riram e Björn, bem-humorado,
respondeu:
— Fala a verdade, não precisa fingir, linda.
Você me viu e se jogou no meu maravilhoso carro
pra chamar minha atenção.
Ao ouvir isso, Mel levantou uma das
sobrancelhas e respondeu: — Você bem que
gostaria, baby.
Sem se intimidar, ele sorriu.
— Duvido, baby.
— Björn, entra na piscina comigo? — pediu
Flyn.
Olhando para o menino de olhos puxados,
respondeu:
— Não, agora não.
— Ué, você não sabe nadar, cretininho? —
zombou Mel. Oferecendo as boias de braço cor-de-
rosa das Princesas, continuou: — Aqui, a Sami te
empresta.
Judith soltou uma gargalhada. A história
daqueles dois estava começando a ficar cômica e,
olhando para Björn, quis falar algo, mas seu marido
maravilhoso a agarrou pela cintura.
— Oi, pequena.
— Oi, grandalhão.
Sem se importar com os outros, Judith e Eric se
beijaram com verdadeira paixão, até que Björn disse:
— Ei, vocês dois, procurem um quarto, por favor...
Mel sorriu ao ouvir aquilo. Pensava a mesma
coisa, mas não quis dizer em voz alta.
— Sami, agora fica boazinha enquanto a mamãe
vai se vestir. Não entre na piscina, ouviu? —
recomendou à filha depois de trocar o maiô dela e
pôr a coroa em sua cabeça.
A menina fez que não e Mel, rindo com
cumplicidade, perguntou: — Você vai entrar na água
outra vez?
A pequena moveu a cabecinha para dizer que
sim e correu até a lateral da piscina, onde estava
Flyn.
— Sami, volta aqui que você está sem boia —
Mel chamou.
Porém a filha, divertindo-se, continuou
correndo. Mel e Judith se levantaram e foram atrás
dela. Björn e Eric observavam o pequeno Eric, que
dormia tão feliz na cadeirinha.
— O que você acha do seu afilhado dormindo?
— perguntou o pai, orgulhoso.
— Porra! — Björn disparou de repente.
Eric, vendo a cara do amigo, olhou em direção
às mulheres, que riam e gargalhavam.
— Que foi? — perguntou.
Boquiaberto, Björn não se mexeu. Só conseguia
olhar surpreso para a tatuagem que Mel tinha nas
costas e, tirando a jaqueta, disse: — Acho que vi
aquela tatuagem em outro lugar.
— Onde? — Eric quis saber.
Sem tirar os olhos de Mel, Björn falou baixinho
para que só Eric pudesse ouvir: — Se eu disser, você
não vai acreditar.
Naquele momento, o pequeno Eric acordou e a
atenção do pai foi direcionada exclusivamente para a
criança. Adorava o filho e enquanto ele fazia um
milhão de carinhos no bebê, Björn continuou vidrado
em Mel. Em seguida, o quebra-cabeça se encaixou.
Aquele corpo moreno e musculoso, a tatuagem e a
música do Bon Jovi: não restava mais nenhuma
dúvida sobre quem era.
Surpreso pelo que acabava de descobrir, não
podia tirar os olhos dela. Nunca teria imaginado.
Quando as mulheres chegaram até eles, Mel disse
com a filha nos braços: — Vem, querida, temos que
ir pra casinha — Nããããooooo — gritou a menina,
agarrando-se a Flyn.
— Ela não quer ir, Mel... Ela quer nadar mais
um pouquinho — comentou o menino.
— Água... mais pixina — Sami insistiu.
Mel sorriu ao ouvir a filha. Achava lindo aquele
jeito de falar enrolado, mas olhando-a bem nos
olhos, tentou convencê-la: — Sami, nós temos que ir
embora.
A filha resistiu e voltou a gritar:
— Nããoo, pixina!
— Sami, vem... Vamos ver desenho em casa,
não quer? — insistiu.
— Nããããooooo.
Notando a rebeldia da criança, Björn
aproximou-se dela, agachou-se e tentou convencê-la:
— Sami, as princesas são boas e obedientes.
Obedece a sua mamãe.
A menina olhou para ele e, com uma expressão
graciosa, perguntou: — Você, píncipe?
Björn sorriu. Mel deu uma risada.
— Sim, príncipe das trevas. Vamos, Sami.
Todos riram, exceto Björn.
— Por que você vai tão cedo? — Eric
perguntou.
Mel, já com a filha mais calma, recolheu suas
coisas e respondeu: — Tenho planos pra hoje à
noite. Mas antes quero dar banho na Sami, dar o
jantar e colocá-la na cama.
— Jantarzinho romântico com o maridinho? —
Björn quis saber.
Os olhos de Mel dispararam farpas na direção
dele e depois de trocar um olhar cúmplice com
Judith, vestiu o jeans e uma camiseta. Respondeu: —
Digamos que é só diversão.
Mel se deu conta de que Björn não tirava os
olhos dela e perguntou, encarando-o: — Por que
você está me olhando assim?
— Porque eu quero.
— Tem alguma coisa na minha cara?
— Não.
— Então por que você não para de olhar?
Björn sorriu e, chegando perto dela, cochichou
no ouvido: — Eu gosto de ficar olhando para os
esquisitos.
— Você está me chamando de esquisita? —
Björn fez que sim e ela sussurrou: — Como você é
insuportável, meu filho.
— Obrigado, mamãe, bom saber.
— A última coisa que eu queria ser era a mãe
de um jumento.
— Você está me chamando de jumento? — Ela
sorriu e Björn respondeu: — Você tem saída pra
tudo?
— Não duvide disso... seu cretino.
Nervoso porque ela não calava a boca e sempre
o tirava do sério, ia dizer algo, mas foi interrompido
por Judith, que viu os dois se desafiando com o
olhar.
— Mas o que foi agora?
— Esse píncipe que se acha! — Mel
respondeu, vestindo uma blusa na filha.
Ouvindo isso, Björn estreitou os olhos.
— Falou a namorada do Thor — disse. —
Cadê o martelo, gata?
Mel fechou os olhos. Aquele homem era
insuportável e com expressão contrariada, sibilou: —
Você acaba de me ofender, seu idiota.
— Só porque eu te chamei de namorada do
Thor?
— Não, porque me chamou de esquisita.
Eric soltou uma gargalhada. Não havia dúvida
de que aquela mulher tinha deixado o amigo muito
surpreso.
Judith se manifestou em defesa da amiga:
— Você acabou de chamar a Mel de esquisita?
— Nem liga — Mel interveio. — Ele é um bobo
e assim que eu encontrar o martelo do meu
namorado famoso, vou carimbar a testa dele sem
piedade.
A pequena Sami olhou Björn e, com sua
linguagem de bebê, repetiu, apontando com o
dedinho: — Bobo. Você píncipe bobo.
O tom de voz da criança fez Björn rir.
Encarando a mãe, murmurou: — Não dá pra negar
que é sua filha.
Isso fez Mel rir também. Abaixou-se para
colocar o gorrinho na cabeça da criança.
— Muito bem, querida — elogiou. — Você tem
que aprender a identificar os bobos desde pequena.
Quinze minutos depois, Mel entrou no carro e
foi embora. Quando Judith fechou a porta da casa,
olhou Björn nos olhos e perguntou: — Como é que
você pode ser tão bobo?
— Você também?
Judith olhou para o marido, que a observava
com o filhinho no colo e então esclareceu a Björn: —
A Melanie meio que é viúva, seu linguarudo!
Eric e Björn surpreenderam-se com aquela
notícia, e Judith, pegando o bebê do colo de Eric,
disse antes de sair: — Sério, Björn, desta vez você
deu uma bola fora.
Judith se afastou e Björn, deslocado, encarou o
amigo: — Caramba, cara, eu não sabia —
murmurou. — E você?
— Não.
— O que a Judith já te contou sobre ela?
Estranhando aquele interesse repentino de Björn
pela jovem que o tirava do sério, Eric colocou a mão
no ombro dele e disse: — Sinto muito, James Bond,
mas a Judith nunca me falou nada sobre a namorada
do Thor.
Riram e Björn, querendo mudar de assunto,
propôs:
— Vamos, me convida pra tomar um uísque
daqueles que eu gosto... E se voltar a me chamar de
James Bond, vamos resolver isso no braço.
Depois de jantar na casa dos amigos, Björn
decidiu passar em casa para trocar de roupa e ir logo
a certo local. Quem sabe, com um pouco de sorte,
poderia responder às perguntas que tinha a respeito
daquela mulher.
11
Naquela noite, ao chegar ao Sensations, Björn
foi até o bar. Normalmente não chegava tão cedo,
mas neste dia queria ver se Mel, a amiga misteriosa
de Jud, apareceria por ali. Durante mais de uma hora,
conversou com várias mulheres. Loucas para se
sentirem especiais e querendo ser escolhidas, todas
olhavam para ele, mas Björn não conseguia desviar
os olhos da entrada.
E foi então que a viu.
Ali estava ela: com sapatos de salto
espetaculares e com um vestido preto bem justo.
Como Björn estava escondido atrás de duas
mulheres, Mel não o viu, e ele pôde continuar
seguindo os movimentos dela a distância.
Viu-a chegar ao bar e, instantes depois,
observou como vários homens a rodeavam. Com
isso, seu campo de visão diminuiu, o que o deixou
muito irritado. Durante vários minutos, tentou
localizar Mel com o olhar, mas, sentado onde estava,
isso era impossível. Quando viu que ela entrava no
quarto escuro, não teve dúvida do que fazer em
seguida: pegou a mão de uma das mulheres com
quem estava e entrou também.
No começo, a escuridão o cegou. Quase não
era possível ver nada naquele quarto. Não havia
música e só se ouviam gemidos. Quando seus olhos
se acostumaram à falta de luz, localizou-a e se
aproximou dela. Separando-se da mulher que o
acompanhava, segurou com firmeza a cintura de Mel.
O perfume dela invadiu seus sentidos.
Era cheiro de morango. Björn gostou.
Enquanto se agarravam, notou como o homem
que entrou junto com Mel levantava o vestido dela
para enfiar as mãos por baixo. Ela não falou nada, e
quando Björn a virou, ficaram cara a cara. Nesse
momento, o outro homem se agachou, com a
intenção de morder a bunda dela.
Abalado pela reação que a proximidade com
aquela mulher irritante provocava em seu corpo,
decidiu não abrir a boca. Se falasse, Mel certamente
reconheceria sua voz e o jogo excitante e proibido
acabaria. As mãos dela subiram até seu pescoço e
logo os lábios começaram a distribuir milhares de
beijos e mordidinhas cheios de tesão pelo corpo
dele.
Björn fechou os olhos e curtiu aquele momento,
mas quando seu instinto animal lhe pediu mais, e
quando puxou a nuca dela para beijar-lhe a boca,
Mel se inclinou para trás e murmurou:
— Não.
Ele aceitou. Desejava beijá-la, mas se conteve.
Mel voltou a passar a boca pelo pescoço dele e
mais uma vez lhe deu doces mordidas, Björn não
conseguiu se controlar e, apesar da negativa,
aproximou-se da boca dela e a beijou. No começo
ela ficou parada, mas, afastando-se, sussurrou: —
Não.
Mas de nada adiantou. Ávido, ele grudou os
lábios nos dela e a devorou. Enfiou a língua naquela
boca sensual e beijou-a com sofreguidão, sem se
importar com as consequências.
Mel, que não tinha beijado ninguém desde a
morte de Mike, tentou resistir, mas diante daquele
ímpeto, acabou cedendo e deixando que o
desconhecido a beijasse profundamente na
escuridão. Abriu a boca e deixou que ele a
explorasse, enquanto um gemido de satisfação saiu
de dentro de sua alma. Fazia tanto tempo que
ninguém a beijava daquele jeito, que sua força de
vontade desapareceu. Deixou-se levar pelo
momento.
Aquele cara beijava muito bem. E mais: agora
era ela que mergulhava no beijo dele e o agarrava
desesperada. Gostava muito de como as grandes
mãos dele a apertavam contra o seu corpo. Foi
capturada por aquele perfume e ficou excitada ao
perceber como aquele estranho conseguia dominá-la
apenas com um beijo.
Era bom demais, mas quando começou a tocar
uma música romântica que a lembrava de Mike,
voltou a si. Separou-se do homem com fúria e saiu
do quarto escuro. Björn soltou um palavrão. O que
tinha acontecido? Aquela boca o tinha seduzido, e ele
queria mais. Desejava-a. Por todos esses motivos, foi
atrás dela, mas quando chegou ao bar, viu que estava
rodeada de homens mais uma vez.
Não se aproximou. Apenas resolveu observar
sem se esconder, até que seus olhos se cruzaram.
Mel, ao vê-lo, ficou surpresa e não sabia se ria ou se
chorava. O que aquele idiota estava fazendo ali?
Porém, levantando-se do banco, chegou perto
dele e perguntou em tom de brincadeira:
— Você por aqui?
Björn sorriu.
— O curioso é ver você por aqui... e sozinha.
— Algum problema em eu estar... sozinha?
— Não é um bom lugar para vir... sozinha.
— Por quê, baby? — ela desafiou.
Björn ia responder, mas ela interrompeu:
— Esse é um lugar aonde as pessoas vêm fazer
o que vêm fazer, não acha?
— Sei disso, baby... — Björn respondeu —,
mas você precisa ter um pouco de cuidado.
— Me viro muito bem sozinha.
— Certeza?
— Absoluta.
Sem um pingo de vergonha, ela olhou os
homens que a esperavam no bar e acrescentou:
— Aliás, não estou sozinha. Como comentei,
tenho um encontro com alguns amigos e, como você
vai ver, não é nada romântico.
Björn, olhando para ela, lembrou-se do episódio
daquele dia:
— Desculpe pelo que eu disse. Quando você foi
embora a Judith me explicou sobre o seu marido.
Surpresa pelo jeito como ele a olhava, Mel
respondeu sem mudar a expressão do rosto:
— Coisas da vida...
Ficaram calados durante uns bons minutos, até
que ela mostrou intenção de sair dali. Ele a segurou e,
chegando mais perto, murmurou num tom rouco e
sexy:
— Aonde você vai?
— Estão me esperando, não está vendo?
Björn olhou os homens que os observavam e,
sem querer soltá-la, aproximou a boca do ouvido
dela. Disse baixinho:
— Você cheira a morango e eu adoro comê-los
com chocolate.
Cravando os olhos nos dele, com o coração a
mil por causa do que aquele olhar intenso estava
tentando dizer, ela respondeu:
— Fico feliz por você.
Sem se dar por vencido, Björn insistiu:
— Se você quiser, eu e você...
Naquele instante Mel identificou o perfume dele
como o daquele homem que a havia beijado e tocado
no quarto escuro. Com um tom de voz irritado,
sussurrou:
— Píncipe... você já brincou comigo tudo o
que tinha pra brincar.
Ganhando confiança, Björn murmurou sem
desgrudar dela:
— Não peço desculpas pelo beijo.
— Pois deveria pedir.
Num tom de voz baixo e íntimo, ele acrescentou:
— Adorei a sua boca e tenho certeza de que eu
gostaria do seu corpo, e você do meu. Não sei por
que você resiste, linda... Somos adultos, estamos
neste lugar e sabemos o que se faz por aqui.
Surpresa, Mel o encarou.
A intensidade daquele olhar e as coisas que ele
dizia a excitavam. Pensar em Björn, aquele homem
de lábios tentadores, chupando o seu corpo como se
fosse morango com chocolate a excitou. Suas pernas
amoleceram só de pensar como seria quando ele a
possuísse, mas sem dar o braço a torcer para aquele
miserável, respondeu: — Você desrespeitou uma das
normas da casa. Você me beijou. Fez algo sem a
minha permissão e eu poderia fazer com que te
expulsassem daqui. Sabe disso, não sabe?
— Sei — ele murmurou, passando a boca pelo
pescoço dela. Negava-se a deixá-la sair dali. —
Mas, mesmo que me custe caro, tenho de admitir que
valeu a pena desrespeitar a norma.
Excitada pela sensualidade que emanava dele
quando a acariciava, deu um passo para trás a fim de
se afastar, mas Björn, tenso, não deixou, e murmurou
enquanto passava a mão pela bunda dela.
— Pode ter certeza de que se a gente entrar
num desses reservados, vou te deixar mais do que
satisfeita.
— Duvido, cretino.
Ele sorriu.
— Não duvide, baby.
— Você é mesmo um convencido! — E vendo
como ele a observava, completou zombando: — Que
atrevimento!
Björn chegou mais perto da boca de Mel.
— Não, querida, de convencido não tenho nada
— disse. — Dá uma olhada em volta e me diz qual
mulher não está caidinha por mim. Todas me querem
entre as pernas. Todas querem que eu as faça gritar
de prazer quando estiverem dando pra mim. Todas...
— Todas não — ela interrompeu. — Eu não.
Você é prepotente demais pro meu gosto.
Divertindo-se com aquela conversa e sem deixar
que ela se afastasse nem um milímetro, insistiu:
— Ser alguém seguro de si é ser prepotente? —
Ela não respondeu. — Olha, Mel querida, pois então
eu acho que nós dois somos prepotentes... e bobos.
Agora quem sorriu foi ela. Com um sorriso
cativante, aproximou-se da boca dele e passou os
lábios bem perto para deixá-lo louco. Sussurrou:
— Eu não te desejo.
— Você está mentindo, Superwoman, e sabe
disso. A sua pele fica arrepiada quando eu te toco e
os seus olhos brilham de desejo quando me
observam. Você sabe que eu te deixaria louca de
prazer e isso...
— Como você se acha!
— Tenho certeza de que se eu enfiar a mão no
meio das suas pernas você vai estar molhada, não
vai?
Ele tinha razão. Ela estava muito molhada e
excitada. Aquela proximidade, aquele homem e
aquelas palavras faziam seu coração disparar, mas
Mel não estava disposta a ceder.
— Que tal você me soltar pra que eu possa me
divertir? — sussurrou.
— Quem sabe outro dia?
Mel negou com a cabeça.
— Nem hoje, nem nunca. Eu escolho muito bem
os homens que deixo que coloquem as mãos no meio
das minhas pernas. Não deixo qualquer um e você....
não serve pra mim.
Björn soltou Mel como se ela estivesse pegando
fogo. Não gostou daquelas palavras. Tirou as mãos
da bunda dela. Mel deu uma piscadinha e murmurou
antes de sair:
— Divirta-se... baby.
Sem sair do lugar, Björn viu como ela se
aproximava do grupo que estava esperando por ela e
como conversava com eles. Deu um gole na bebida e
xingou. Era a primeira vez na vida que levava um fora
de uma mulher. Mas isso não era a pior parte. O
problema é que pela primeira vez na vida desejava
muito uma mulher que não ia conseguir.
Sem tirar os olhos dela, observou como andava
em direção a um reservado com dois homens e nem
sequer olhava para ele. Fazia pouco caso. Isso
deixou Björn irritado. Pediu outro uísque ao barman
e, instantes depois, vários amigos vieram conversar
com ele, e então tentou não pensar no que estava
acontecendo atrás das cortinas.
Só que meia hora depois, não aguentou mais e
foi até lá. Bem rápido soube onde ela estava. Ouviu a
música de Bon Jovi e, alucinado, abriu a cortina para
observar.
Mel se divertia em uma jacuzzi redonda
enquanto os homens escolhidos davam-lhe prazer.
Como se tivesse com os pés pregados no chão,
Björn ficou ali durante um bom tempo, até que seu
olhar cruzou com o dela. Sem tocá-la, só de olhar,
sentiu a ereção explodindo.
Aquela descarada devia estar esperando por
ele, porque desta vez não estava usando venda e,
entre gemidos de prazer, cravou os belos olhos azuis
nos dele e sorriu com malícia ao ser penetrada
vorazmente por dois homens. Björn queria dar o fora
dali, mas não conseguia.
Queria ouvi-la gemer...
Morria de vontade de possuí-la...
Mas isso era impossível. Por fim, transtornado,
saiu dali e decidiu começar a própria festa. No salão,
duas amigas se animaram a entrar num reservado
com ele e, então, desfrutou de outros corpos
enquanto não conseguia tirar Mel da cabeça.
Dias depois, voltaram a se encontrar. Naquela
ocasião, Mel estava rodeada por vários homens no
bar e, sem um pingo de vergonha, Björn foi até eles
para escutar o que conversavam.
Todos queriam ser escolhidos por Mel.
Todos queriam ouvi-la falar.
Todos morriam de vontade de brincar com ela.
Mel pegou dois pela mão e os levou até um
reservado, de onde, pouco depois, dava para ouvir a
voz de Bon Jovi.
Em outra ocasião, em outra noite, Mel estava
sozinha no bar. Os homens se aproximavam, mas ela
os deixava de lado. Björn não foi até lá, manteve
distância, mas os olhares, como sempre, se
encontraram. Normalmente eles se encaravam em
tom desafiador, mas desta vez ambos sabiam que se
olhavam com desejo.
Dois casais foram até Björn e sentaram-se ao
seu lado. Ele os convidou para tomar um drinque.
Mas desta vez ficou surpreso ao notar que era Mel
quem não tirava os olhos dele. Isso o excitou e fez
com que se sentisse bem. Enfim Björn tinha
conseguido atrair toda a atenção de Mel.
Em certo momento, seus olhares voltaram a se
cruzar e ela deu um sorriso sexy. Björn devolveu o
sorriso e depois desapareceu com os casais dentro
de um reservado.
Durante um bom tempo, ficou atento para ver se
ouvia o rock, mas isso não aconteceu, o que era
estranho. Quando saiu, ela não estava mais lá. Tinha
ido embora.

Uma semana depois, após alguns dias sem se


verem, mais uma vez se encontraram no Sensations.
Desta vez Björn não escondeu a atração que sentia.
Não conseguia tirar da cabeça o jeito como ela tinha
olhado para ele no outro dia e, só de pensar, ficava
excitado. Como era de se esperar, quando Mel o viu,
sorriu e o jogo de olhares começou. Mas quando
Björn pensou que já tinha tudo sob controle, Mel se
levantou e depois de mandar uma piscadinha para
outro casal a distância, desapareceu atrás das
cortinas.
E assim mais uma semana se passou.
Em várias quintas-feiras e aos sábados os dois
apareciam no clube. Björn nunca estava sozinho e
Mel pôde comprovar como as mulheres gravitavam
enlouquecidas ao redor dele, querendo ser as
escolhidas da noite. Mesmo que no começo essas
coisas não a incomodassem, depois de alguns dias,
começou a sentir alguma apreensão. O que estava
acontecendo?
Todas as quintas e sábados, os dois ficavam se
olhando, desafiando-se, para que então cada um
entrasse em seu próprio reservado e gozasse do
sexo. O problema é que agora não ficavam
completamente satisfeitos e cada vez que a cortina
era fechada, a diversão acabava.
Até que um sábado, depois de ficarem vigiando
um ao outro durante mais de uma hora, Björn,
desorientado, saiu de braço dado com duas
mulheres, Mel o seguiu. Viu que entrava em um dos
quartos com várias camas e uma jacuzzi e que
rapidamente começavam a brincar.
Decidida, depois de escolher dois homens, Mel
voltou até o quarto em que Björn estava. Lá dentro
viu como ele se entregava ao sexo com as duas
mulheres e quis fazer o mesmo. Deitou na cama da
frente e quando teve certeza de que ele a tinha visto,
se entregou ao prazer com seus dois homens, sem
vendar os olhos.
Björn, ao vê-la, não conseguiu mais se
concentrar no que estava fazendo. As mulheres que o
acompanhavam eram deliciosas, sedutoras e
ardentes, mas para os seus olhos, só existia ela.
Enquanto penetrava uma das mulheres que se movia
enlouquecida embaixo dele e a outra dava
mordidinhas em seu abdome esperando a vez dela,
Björn encarava Mel. Ela agora estava montada sobre
um dos homens, procurando o próprio prazer,
enquanto movimentava os quadris, e o outro homem
a tocava, também desejando penetrá-la.
Mel sentia em seu corpo cada investida de
Björn na outra mulher.
Björn percebia cada movimento de Mel com o
homem e isso o fazia perder o fôlego.
A tensão sexual não resolvida estava matando
os dois.
Eles sabiam disso.
Os olhares gritavam.
Os corpos exigiam.
Mesmo sem se aproximar, nem se tocar, o tesão
era tanto que fez com que se sentissem transando um
com o outro.
12
Na quadra de basquete, Björn fez um passe ao
amigo Eric e este encestou bem no momento em que
um som estridente anunciou o fim do terceiro tempo.
Judith gritou de felicidade.
— Olá.
Judith olhou para o lado e sorriu ao ver Mel
sentar-se perto dela.
— Que bom que você veio!
— A Dora ficou com a Sami e consegui fugir.
Como eles estão indo?
— Estamos ganhando de 65 a 59 — Judith
respondeu. — Mas ainda falta o último tempo, e
esses caras de Stuttgart são muito bons.
Sorriram e começaram a bater papo.
Eric ficou surpreso ao ver quem acompanhava
sua mulher.
— Olha só... a coisa está ficando interessante
— cochichou chegando perto do amigo.
Björn, que naquele momento bebia uma
garrafinha de água que um assistente tinha lhe
passado, olhou na direção que Eric indicava e, ao ver
Mel ali, jogou água no rosto.
— Interessantíssima — murmurou.
O olhar dos dois se cruzou e Björn deu uma
piscadinha bem-humorada. Mel sussurrou para a
amiga: — Como você não me contou que o James
Bond jogava basquete?
— Pensei que você já sabia.
— Pois não, não sabia. E se soubesse, nem teria
vindo, pode ter certeza. Queria ter uma noite
tranquila.
Judith sorriu sem saber ao que ela se referia.
Acalmou-a:
— Você vai ter. Ele está ocupado com aquela
ruiva ali. Aliás, vou apresentá-la a você.
Judith deu um toquinho na mulher que estava na
frente delas, conversando no celular, e disse: —
Maya, essa aqui é a minha amiga Melanie Muñiz.
A ruiva sorriu sem se levantar do assento.
— Prazer, Melanie.
— Igualmente, Maya.
Quando a ruiva continuou falando ao telefone,
Judith comentou:
— Björn não vai jantar com a gente. Acho que
tem planos com a Maya. Além disso, pretendo
apresentar você pra alguns dos colegas do Eric: o
número 12, o 18 e o 21. O que você acha?
Curiosa, Mel olhou para os homens que Judith
indicava e sorriu. A verdade era que todos eles eram
lindos, mas respondeu olhando para a amiga: — Se a
minha avó ouvisse você falando isso, teria te
chamado de alcoviteira.
Judith sorriu.
— A minha irmã e o meu pai também. Vamos,
me diz qual você quer que eu te apresente.
Passando os olhos pelos três, Mel por fim se
decidiu:
— O número 12.
Deram risadinhas e logo em seguida começou o
quarto tempo. As jogadas dos dois times eram
maravilhosas, um espetáculo, e Judith logo viu que
Mel entendia muitíssimo mais de basquete do que ela.
Gostando de ver a partida, Mel notou como
Björn jogava bem. Ele se movia pela quadra com
tanta agilidade que ela ficava de boca aberta. Tendo
visto Björn em ação em outros departamentos, ela
suspirou. Aquele homem era um espetáculo
ambulante, tanto de terno, como pelado ou com
uniforme de basquete. Sem poder evitar, olhou para
os braços fortes dele. Os braços com os quais tinha
sonhado na noite anterior e que a deixavam
completamente louca.
Sozinho ele marcou 14 pontos e Mel aplaudiu.
Björn era realmente incrível. Tinha movimentos
elegantes, mas quando atacava não tinha para
ninguém. Assim que tocou o sinal de fim de jogo,
Judith e Melanie aplaudiram contentes e assobiaram.
O time delas tinha ganhado e precisavam comemorar.
Enquanto esperavam que os jogadores saíssem
do chuveiro, Mel se concentrou na ruiva que
esperava Björn. Aliás, acreditava que já tinha visto a
moça antes no Sensations. Quando ele saiu do
vestiário, caminhou direto para a ruiva e deu-lhe um
beijo na boca. Murmurou algo que só os dois podiam
ouvir, e que a fez sorrir.
Distraída observando-o, Mel não se deu conta
de que havia um homem ao seu lado, até que Judith,
chamando sua atenção, disse: — Melanie, este é o
Damian, o camisa 12.
— Bela partida, Damian.
— Obrigado, Melanie — respondeu o loiro,
contente.
Concentrando-se no homem que sorria diante
dela, Mel o cumprimentou com dois beijinhos que
ele, feliz, retribuiu. Conversaram durante algum
tempo, enquanto o restante da equipe terminava de
se arrumar e saía do chuveiro. Quando estavam
todos prontos, Eric perguntou: — Onde vocês
querem tomar alguma coisa?
Vários lugares foram citados e por fim se
decidiram pelo bar de um dos membros do time.
No caminho até lá, Mel viu que Björn, de mãos
dadas com a ruiva, os seguia.
— Ué, mas você não disse que o James Bond
tinha planos? — cochichou, chegando perto da
amiga.
Judith, olhando na direção que Mel estava
apontando, perguntou levantando a voz: — Você
vem com a gente pro bar, Björn?
Ele afirmou com um sorriso:
— Sim, eu e a Maya estamos com sede.
Mel suspirou. Ficou irritada de ter que aguentar
Björn aquela noite e evitou chegar perto dele para
que não tivessem que conversar. Quando chegaram
ao bar, sentou-se o mais longe possível.
Olhando o cardápio das bebidas, Judith
comentou alegre:
— Esse bar é do Svent e, olha só — apontou o
cardápio —, esse é o meu coquetel.
— O seu coquetel?
Judith deu uma risada e explicou:
— Teve uma noite em que o Svent fez um
concurso de coquetéis e o meu ganhou, por isso ele
decidiu incluir no cardápio.
Surpresa, Melanie sorriu e, lendo o nome da
bebida, perguntou:
— “Peça-me o que quiser”, é esse o nome do
seu coquetel?
Judith afirmou alegremente. Ela e os que a
conheciam na intimidade sabiam o porquê daquele
nome.
— Pede esse, você vai adorar — disse em
seguida.
Mel soltou uma risada e concordou.
— Certo... mas o que tem nele?
Sem querer revelar os ingredientes, Judith
replicou:
— Eu vou pedir. Você pede também e depois
de experimentar, me diz o que achou.
Alegre, Mel fez que sim. Queria experimentar
aquela bebida. Quando o garçom se aproximou,
pediu: — Nós queremos dois “Peça-me o que
quiser”.
Judith sorriu.
Eric sorriu.
E Björn, que tinha ouvido, também sorriu.
Daquele grupo, só eles três sabiam que Judith
tinha aquela frase tatuada no púbis, algo que sempre
os deixava muito excitados.
Quando o garçom trouxe a bandeja com vários
coquetéis, Eric pegou um e entregou à mulher, que,
encantada, deu-lhe um beijo. Mel os observava
quando Björn pegou o outro coquetel e, zombando,
estendeu-lhe, dizendo com uma voz sensual: —
Peça-me o que quiser.
Sem entender o significado dessas palavras, Mel
olhou para ele, pegou o copo que ele entregava e,
com uma expressão que fez os demais rirem,
respondeu: — Eu pediria pra você plantar bananeira
com uma mão só, mas acho que você ia despencar,
boneco.
Björn gargalhou e, sem responder, chegou perto
de Maya e, beijando-lhe o pescoço, começou a
conversar com ela, tentando esquecer a mulher que
realmente lhe interessava.
Mel bebeu um gole do coquetel. Estava
delicioso, era refrescante.
— Isso aqui tem Coca-Cola, não tem? —
perguntou para Judith.
A amiga riu, e depois de beber um gole,
desafiou:
— Agora adivinha o que mais.
Riram e continuaram o papo agradável enquanto
Björn observava Mel. Sem deixar de falar com
Maya, olhou Mel dos pés à cabeça. Aquela calça de
couro preta, combinando com um colete também
preto e botas de salto, ficava muito, mas muito bem
nela. Estava sexy demais.
Depois de vários coquetéis, todos decidiram sair
para comer ou acabariam bêbados.
No restaurante, Mel voltou a se sentar o mais
longe possível de Björn. Reparou como seus olhares
se cruzavam em vários momentos no bar e não queria
que ninguém interpretasse mal. Ele, que também já
tinha se dado conta dos olhares, procurou um ângulo
onde podia continuar contemplando os movimentos
de Mel sem ser visto.
Não sabia o que estava acontecendo, mas
aquela espanholinha convencida o atraía como um
ímã. E quando ela se levantou no meio do jantar para
ir ao banheiro, Björn, disfarçando, fez o mesmo logo
em seguida.
Assim que Mel saiu do banheiro, agarrou-lhe o
braço e encurralou-a contra a parede.
— Você vai ao Sensations hoje à noite? —
perguntou.
— Só porque você quer saber, não te digo.
Björn fez uma careta.
— Nunca conheci ninguém igual a você.
— E nunca vai conhecer.
Ele sorriu por esse atrevimento e insistiu:
— Você está se divertindo com o Damian?
Surpresa pela pergunta, Mel suspirou.
— Escuta aqui, baby... cuida da sua ruiva e
para de olhar pra mim. Estou de saco cheio de você
ficar olhando pra mim e...
— Se você sabe que eu fico te olhando é
porque você também me olha. Ou será que estou
enganado?
Boquiaberta, sem saber como responder àquilo,
Mel protestou:
— Quer fazer o favor de me soltar, seu imbecil?
Mas Björn não se mexeu. Ficou encarando-a
com seus grandes olhos azuis, até que, nervosa, ela
falou entre dentes: — Você e eu não temos nada a
ver.
Ouvindo isso, com um olhar ameaçador, Björn
sorriu e aproximou sua boca da boca de Mel.
— Você se engana... — murmurou —,
podemos fazer muitas coisas.
E de repente ele a beijou. Encostou a boca na
dela com força e enfiou a língua, disposto a
aproveitar aquilo que estava com vontade de fazer
desde que tinha visto Mel na arquibancada da
quadra. Era a hora de conseguir o que queria. Nem
mesmo a mordida que ganhou no lábio fez Björn
soltá-la.
— Mas que bruta!
— Eeeeeeeeeuuuuuu?
Björn tocou no lábio e ficou surpreso de ver que
estava sangrando. Chateado, disparou: — De onde
você tirou essa ideia de me morder?
Sorrindo, Mel respondeu:
— Tenho um band-aid das Princesas na bolsa,
quer?
A expressão no rosto dele deixava bem claro o
quanto estava irritado por aquilo tudo. Mel gostou de
ver e, sem se intimidar, afirmou zombando: — Me
beija de novo e juro que arranco a sua língua. — E
antes de sair: — Fecha o zíper da calça... seu cretino.
Sem dizer mais nada, virou-se e saiu dali,
deixando Björn dolorido por causa da mordida. Ele
não ia cair outra vez na história do zíper. Quando
conseguiu se recompor, voltou à mesa onde estavam
todos e um de seus companheiros de equipe gritou:
— Amigão... fecha o zíper, senão o passarinho voa.
Björn bufou em meio às risadas de todos. Levou
a mão à braguilha e fechou a calça, enquanto
encarava Mel, que piscava com o olhar angelical.
O jantar tinha sido fantástico e Damian tinha se
mostrado um homem incrível. Mel conversou com ele
sobre basquete, deixando-o surpreso ao ver o
quanto ela conhecia sobre o esporte. Então Mel
acabou confessando que tinha feito parte de um time
na época do colégio e quando o jogador repetiu o
fato em voz alta, todos olharam para ela.
Björn, ainda ofendido pela mordida, propôs:
— Quando você quiser, te desafio pra um
joguinho. Mas pode ficar tranquila que vou te dar
vantagem.
Mel sorriu com todos os outros.
— Não se preocupe, bonequinho. Ganho de
você mesmo sem vantagem.
— Certeza?
— Absoluta. — E sem dar trégua, perguntou:
— O que aconteceu com o seu lábio? Parece que ele
está inchado.
Todos olharam para Björn. Ele disse um
palavrão por Mel ter sido tão indiscreta e sussurrou:
— Mordi sem querer.
Mel sorriu. Fez uma bolinha com miolo de pão
e, sem se levantar da cadeira, arremessou em cheio
na cara de Björn.
— Onde eu ponho o olho, eu ponho a bola.
Isso fez todos darem gargalhadas. Björn, louco
da vida pelo atrevimento daquela mulher, pegou a
bolinha de pão e, também sem se mexer do lugar,
arremessou e acertou dentro do decote dela.
— Onde eu ponho o olho, eu enfio o que quiser.
Mais uma vez risadas, mas desta vez, pelo duplo
sentido. Mel tirou a bolinha de pão do meio dos seios
e antes que pudesse responder, foi interrompida por
Björn: — Você acha mesmo que é tão boa assim,
baby?
Sem nenhum tipo de piedade em relação à
disputa, a tenente Parker cravou seus olhos azuis em
Björn e respondeu decidida: — Sou a melhor naquilo
que me proponho a fazer, baby.
Mais uma vez risadas e aplausos para aquele
duelo de gigantes. Judith olhou para a amiga e, vendo
o traço de gozação na expressão de Björn,
cochichou: — Deixa ele pra lá. Você não se deu
conta de que ele faz isso só pra te provocar?
Mel sorriu e respondeu antes de continuar
conversando com Damian:
— Que ele me deixe pra lá. Ele vai perceber
que vale mais a pena.
Ouvindo isso e notando como Björn olhava para
a amiga, Judith tirou as próprias conclusões. Olhou
para o marido. Alguma coisa estava acontecendo ali.
Por isso, chegou perto de Eric e murmurou: — Acho
que está rolando alguma coisa entre esses dois.
— “Rolando”? — Eric repetiu achando graça.
Judith abraçou o marido para que Mel não
ouvisse.
— Você acha que tem alguma coisa entre o
Björn e a Mel? Não sei, talvez seja o meu sexto
sentido, mas o jeito como eles se olham e se
provocam parece dizer que eles estão atraídos um
pelo outro. Você não acha?
Eric olhou para os dois e, depois de beber um
gole da cerveja, fitou sua bela mulher e respondeu:
— Pequena, só te digo que desses dois eu espero
qualquer coisa.
Ambos sorriram. O destino sempre pregava
suas peças.
Quando pediram a sobremesa, Mel não pôde
deixar de sorrir. Adorava chocolate. Björn se
encarregou de pedir vários fondues de chocolate
com frutas e quando, mais uma vez, seus olhos se
cruzaram, ele espetou um morango, molhou no
fondue e, depois de passá-lo nos lábios, colocou-o
na boca, e o rosto se contraiu com a dor do lábio.
Björn conhecia um segredo sobre ela que Mel
não queria revelar a ninguém. As pessoas não
costumavam ver com bons olhos o tipo de sexo que
ele, Eric, Jud ou aquela desbocada praticavam. Se
soubessem, com certeza seriam chamados de coisas
que não eram.
Perturbada pela excitação de ter visto Björn
comendo o morango com chocolate, Mel espetou um
pedaço de banana. Molhou na calda e quando foi
tirá-lo dali, a banana tinha desaparecido. Surpresa,
olhou o garfinho e, com o canto de olho, viu Björn
sorrir. Maldito!
Tentou não fazer caso daquilo. Não olhar para
ele. Mas seus olhos só queriam olhar. Quando viu
como ele passava um pedaço de banana com
chocolate nos lábios da amiga Maya e depois os
chupava, ficou excitada. Aquele simples ato pareceu
o mais sensual que tinha visto em muito tempo e
quando se recompôs do calor que sentiu, seu olhar
encontrou o de Björn outra vez. Ele sorriu.
Quando acabaram os fondues, Judith e Melanie
decidiram ir ao banheiro. Lá, depois de lavarem as
mãos, Mel as passou pelos curtos cabelos negros e,
puxando-os para trás, perguntou: — E agora, pra
onde vamos?
— Com certeza vamos tomar umas no bar do
técnico. No fim, quase sempre terminamos lá.
— Perfeito!
Judith, querendo perguntar algo, finalmente se
decidiu:
— Você gosta do Björn? — E vendo como
Mel reagia, completou: — Pergunto porque me
parece curioso como vocês estão sempre se
desafiando. E se te digo isso é porque conheço o
Björn e tenho a sensação de que...
— Esse energúmeno?
— Os opostos se atraem e acho que vocês dois
são...
— Judith, por favor... tenho mais bom gosto pra
homem.
Surpresa por essas palavras, Jud murmurou:
— Mas se o Björn é um espetáculo...
Mel concordou e, tentando dissimular o que
inexplicavelmente estava acontecendo com ela, disse:
— Não duvido. Mas nem todas gostam do mesmo
tipo de espetáculo, não acha?
A porta do banheiro se abriu e um homem
entrou. Um alemão vermelho como um caranguejo.
Ao vê-lo, Judith disse: — Este é o banheiro feminino.
Que tal se você for no masculino?
Mas ele tinha tomado umas a mais e,
encarando-a, sussurrou:
— Calada, puta.
Surpresas, as duas olharam uma para a outra e,
então, Melanie deu um passo à frente e falou,
empurrando o bêbado: — Vou segurar a minha
língua venenosa e não vou dizer o que eu penso, mas
puta é a sua mãe. Fora daqui, já!
Quando o jogou para fora do banheiro, bateu a
porta e encostou-se nela.
— Mas que babaca!
A porta se abriu outra vez com um golpe tão
forte que lançou Mel contra a parede da frente.
Bateu a boca nos azulejos e começou a sangrar na
mesma hora. Judith, vendo aquilo, não teve dúvida e
imediatamente começou a usar o que tinha aprendido
anos antes na aula de karatê para imobilizar o sujeito.
Mel falou um palavrão ao sentir o sabor
metálico do sangue. Sua expressão mudou e,
levantando-se do chão, lançou-se sobre o homem
com força e começou a socá-lo enquanto Judith a
observava surpresa.
— O exército tem um código de honra, idiota
— Mel gritou —, que é não se meter com as
mulheres. E se alguém vê que um homem dá uma de
espertinho, é preciso dar uma boa lição e chutar suas
malditas bolas!
O indivíduo, nocauteado pelas duas, ficou
jogado no chão, até que um amigo dele entrou no
banheiro e perguntou surpreso: — Mas o que vocês
fizeram com ele?
Naquele instante, entraram Björn e Eric, que
haviam ouvido a confusão. Horrorizados pelo que
viam, aproximaram-se enquanto Mel dizia: — O
mesmo que vamos fazer com você, cretino, se passar
pela sua cabeça avançar o sinal, o mínimo que seja,
com nós duas.
— Mas o que está acontecendo aqui? —
perguntou Björn, observando Eric chegar perto de
Judith e pedir explicações com expressão de fúria.
Mel limpou o sangue da boca e gritou
apontando o bêbado no chão.
— Foi esse metido a machão querendo dar uma
de espertinho.
Espantado, Björn olhou para ela quando o
amigo do bêbado estava prestes a dizer algo. Mel
interrompeu com raiva: — Experimenta abrir essa
boca grande que você tem e eu juro pela minha filha
que você vai se arrepender.
Björn ficou impressionado pela força da voz
dela e logo notou o sangue que tinha na boca.
— Você está ferida.
— Estou bem, isso não foi nada — Mel
respondeu sem dar importância.
Ele encarou-a por um longo tempo.
— Sangue no lábio... Não, isso me lembra... —
murmurou.
Adivinhando o que ele ia dizer, Mel interrompeu
com voz furiosa:
— Se por acaso passar pela sua cabeça falar
mais alguma coisa sobre o sangue na minha boca,
juro que você vai pagar pela raiva que eu estou
sentindo. Portanto, bico calado!
— Mas como você é convencida, gata — ele
respondeu, ofendido.
Quando os amigos do bêbado levaram-no dali,
Björn não pensou duas vezes, agarrou Mel pelo
braço e, puxando-a para dentro do banheiro, junto a
Eric e Judith, disse: — Vocês ficaram loucas?
Mel sussurrou enquanto tentava se libertar:
— Me solta.
Eric, mal-humorado pelo acontecido, encarou a
mulher e rosnou:
— Quando você vai deixar de ser tão
impulsiva? Não vê que poderia ter acontecido alguma
coisa com você, pequena?
Jud, que já estava acostumada com aquele tom
de voz que o marido tinha quando estava zangado,
respondeu: — Iceman, não começa. Esse imbecil
entrou aqui e...
— E por que você não pediu a minha ajuda?
Judith soltou uma gargalhada e olhou para Mel,
que os observava.
— Porque não deu tempo, querido —
respondeu.
Dois minutos depois, Eric e Jud, concentrados
em uma de suas enormes discussões, saíram do local
e deram a noite por encerrada.
Quando ficaram sozinhos dentro do banheiro,
Björn olhou para Mel e disse: — Agora fica quietinha
e me deixa olhar o machucado no seu lábio.
— Agora você vai dar uma de médico?
Com a testa franzida, Björn olhou bem para ela.
Seu bom humor tinha evaporado.
— Também posso ser muito metido, se eu
quiser.
— Uau! Que medinho! — E, levantando uma
das mãos, acrescentou: — Olha só como eu estou
tremendo.
Sentindo uma vontade louca de estrangular Mel,
de tão arrogante que era, Björn levantou a voz e
disse, furioso: — Falei pra você ficar quieta!
Mel bufou e, por fim, fez o que ele pedia.
Damian entrou no banheiro e, vendo o que tinha
acontecido, quis substituir Björn e cuidar dela, mas
este não deixou. Nem passava pela sua cabeça
deixar que ele a tocasse. Por fim, Damian se deu por
vencido e, mal-humorado, saiu dali.
Björn limpou o sangue do queixo dela e os dois
também saíram do banheiro. Vendo que um dos
amigos do bêbado a observava, Mel não pensou
duas vezes: — Que foi? Quer que eu faça omelete
com os seus ovos também, seu cretino? — gritou.
Alucinado, Björn agarrou Mel pela cintura e saiu
dali carregando-a no colo, depois de pedir ao sujeito
que a olhava com expressão pouco amável que a
perdoasse, afinal estava fora de si. Quando já
estavam bem afastados de todos eles, Björn soltou-a
no chão.
— Por acaso te falta um parafuso? — disparou.
— Escuta aqui, gato, que seja a última vez que
você se meta nos meus assuntos, entendeu? — Mel
respondeu sem medo.
E sem falar mais nada, virou-se para sair pela
porta, mas Björn agarrou-a.
— Posso saber aonde você pensa que vai?
— Aonde me der na telha.
— Sozinha?
Sem se deixar intimidar, Mel se virou para ele e
respondeu:
— Antes só do que mal acompanhada. E agora,
que tal você me soltar?
Contrariado ao ver a reação dela, Björn
comentou:
— Juro que conheci muitos tipos de mulheres na
minha vida, mas o seu descaramento me deixa sem
palavras.
— Deixar você sem palavras não é difícil,
bonequinho.
Com vontade de lhe dar um tapa na bunda por
essa resposta, Björn respondeu: — Posso saber qual
é o seu problema pra andar com a escopeta
carregada o tempo todo? Porra, garota, olhar pra
você é a mesma coisa que ver uma placa de “Perigo,
alta voltagem”.
Isso fez Mel sorrir. Já tinha sido chamada de
tudo, mas nunca de placa de alta voltagem. Tentando
desafiá-lo com voz suave, disse: — Vou pra casa,
algum problema?
Björn ficou agradecido pelo tom de voz mais
calmo.
— Vou com você — ele se ofereceu sem soltar
o braço dela.
— Agora você vai fantasiado do quê? Cavaleiro
de armadura reluzente?
Mais uma vez aquele sorrisinho de superioridade
que tirava Björn dos eixos cruzou o rosto de Mel.
— Vou fantasiado de homem sensato que cuida
de uma louca, que, no mínimo, deve ser a fundadora
da banda Los Ángeles Del Infierno. Só quero que
não arrebentem a sua cara antes de você chegar em
casa.
— Ah, vá! — E, achando graça, acrescentou:
— Não preciso de babá, bonequinho.
— Precisa sim, bonequinha.
Irritada porque Björn não soltava o seu braço,
Mel rebateu entre dentes: — Não esquece que
aquela Barbie está esperando você.
— Barbie? Que Barbie? — Björn perguntou
surpreso.
Sem vontade de ser agradável, Mel esclareceu:
— A Barbie Maya, siliconada e com decote
escandaloso que está esperando você na mesa. Vai
deixar ela plantada lá?
Ao ouvir essa descrição de sua acompanhante,
Björn riu e soltou Mel. Fez um movimento rápido
com as mãos indicando que ficasse onde estava e
voltou para dentro.
Mel revirou os olhos e, convencida de que
aquele homem era um idiota, mas muito idiota
mesmo, saiu do restaurante e foi até o carro
transtornada. Acendeu um cigarro. Não precisava de
nenhum imbecil para protegê-la. Ela sozinha sabia se
cuidar muito bem. Logo em seguida, ouviu passos
rápidos vindo em sua direção e virou-se para ver que
era Björn.
— Posso saber aonde você vai? — ela
perguntou.
— Falei que eu ia com você. Aqueles caras
podem aparecer e...
— Mas do que você está falando?
— Mel, em que mundo você vive?
— No mesmo que você. Com a diferença de
que eu sou mulher e sei viver perigosamente. Por
acaso você esqueceu que eu sou a namorada do
Thor?
Esse comentário fez Björn rir.
— Vem... eu te levo pra casa.
— Não preciso de babá — Mel insistiu,
soltando uma baforada na cara dele.
O sorriso de Björn desapareceu na mesma hora.
— Fumar faz mal, e se você me chamar de
“babá” outra vez, eu juro que...
— Jura que o quê?
Olharam-se em silêncio, espadas em punho, até
que Mel insistiu:
— Eu sei me defender. Você não viu?
Björn olhou para ela, contrariado. Sua paciência
estava chegando ao limite. Não pensava em desistir.
— Chega! Não quero discutir com você —
falou, furioso. — A partir de agora você vai ficar de
bico calado, vai entrar na merda do meu carro e eu
vou te levar pra merda da sua casa e então vou me
mandar e me divertir, entendeu?
— Você acabou de chamar o seu pobre Aston
Martin de “merda”?
— Pelo amor de Deus!!! Quer fechar a porra
da boca? — Björn explodiu.
— Vou pra casa no meu carro, quer você goste
ou não... E não fecho a porra da minha boca.
Desespero. Foi isso que Björn sentiu ao ouvi-la
e se convenceu de que Mel era uma cabeça-dura
intratável.
— Muito bem. Então eu vou na merda do seu
carro. Fecha de uma vez a matraca e vamos logo.
Irritada por essa insistência e sem vontade de
discutir mais, Mel cedeu, mas querendo sempre dar a
última palavra, acrescentou: — E não volte a chamar
meu carro de “merda”. Só porque o seu é, não quer
dizer que o meu também tem que ser, entendeu?
Björn não respondeu. Tinha vontade de matá-la.
Como podia ser tão convencida e insuportável?
Uma vez dentro do Opel Astra, Björn olhou ao
redor e ficou horrorizado. Atrás deles havia uma
cadeirinha de bebê cor-de-rosa, que pensou ser de
Sami, e o teto do carro estava cheio de adesivo de
princesas. No chão tinha de tudo: pacote de biscoito,
garrafinhas de água e brinquedos por toda parte.
Aquilo era um verdadeiro caos que não parecia em
nada com o seu carro impecável.
Sem vontade de falar com ele, Mel ligou o CD
player e Blurred lines, de Robin Thicke e Pharrell
Williams, começou a tocar. Ela começou a cantar e
mexer os ombros no ritmo da música.
Ok, now he was close, tried to
domesticate you.
But you’re an animal, baby, it’s in
your nature.
Just let me liberate you.
Hey, hey, hey.
You don’t need no papers.
Hey, hey, hey.
That man is not your maker.
Björn olhou para ela. Estava claro, por aqueles
berros, que Mel estava tentando irritá-lo. Ninguém
cantava tão absurdamente mal. Quando viu que Mel
sorria, decidiu ficar quieto e não dizer o que estava
pensando.
Everybody get up.
Everybody get up.
Hey, hey, hey.
Hey, hey, hey.
Hey, hey, hey.
Alguns minutos mais tarde, com a cabeça
explodindo por causa dos gritos e pelo volume da
música, notando que pisava em algo, um pequeno
pônei lilás, abaixou o volume com um gesto brusco.
— Por que você deixa o carro assim? —
perguntou.
Sem entender do que ele estava falando, ela o
encarou. Björn mostrou o pônei desgrenhado com
uma das mãos e um pedaço de biscoito mordido com
a outra. Mel sorriu e justificou: — Tenho uma filha.
— E por acaso ter um filho transforma a gente
num porco?
Mel freou com tudo e Björn bateu no para-
brisa. Sem se importar com a cara que ele fez,
perguntou, desafiadora: — Está me chamando de
“porca”?
— Você ficou louca? — gritou, transtornado.
— Como é que você freia desse jeito?
Não restava dúvida de que não tinha conversa
entre eles. Mel respirou fundo com impaciência e
ordenou: — Abre essa merda de porta e cai fora do
meu carro. Já!
Sem se mexer, Björn pegou duas garrafinhas de
água vazias e, indicando-as junto com o que tinha nas
mãos, insistiu: — E você vai me dizer que isso aqui
não é um lixo?
Com um gesto rápido e nervoso, Mel pegou
tudo o que estava na mão dele e jogou de volta no
banco de trás.
— Sai do carro — disse, irritada.
— Não.
— Repito: sai do carro!
Björn encarou-a. Não ia se deixar intimidar por
aquela fera.
— Liga o carro, vamos pra sua casa.
— Não.
— Pois então me leva até onde deixei o meu
carro.
— Não sou chofer, baby.
Incomodado por essa rebeldia, olhou para ela
com superioridade.
— Muito bem, me leve até o Sensations. Tenho
um encontro lá.
— Com a Barbie?
Mel se arrependeu de ter dito isso, ainda mais
depois de notar como Björn a desafiava com o olhar.
— Se você quiser, pode entrar no reservado
com a gente. Pode ter certeza de que vai gostar de
ficar comigo e com a Maya. Você precisa relaxar...
baby!
E antes que Mel dissesse qualquer coisa,
agarrou-a pelo pescoço, mas quando foi beijá-la viu
a ferida em seu lábio e se lembrou de que ele também
tinha uma.
— Só não te beijo porque não quero machucar
mais os nossos lábios. Mas fique sabendo que eu
adoraria te chupar todinha. Você me deseja tanto
quanto eu desejo você. Sei disso quando nós
discutimos, quando você me olha e quando eu te
olho. — Björn tocou com delicadeza o nariz no dela.
— Vamos parar logo com isso, vamos pra cama de
uma vez. Podemos ir pra sua casa, pra minha ou para
um hotel. Como você quiser, linda. Você decide se
eu vou terminar a festa com você ou com a ruiva.
A tentação estava à sua frente.
Sua voz...
Seu olhar...
Sua proposta...
Tudo era tentador...
A temperatura dentro do carro subiu em
décimos de segundos. Mel o desejava. Sentia-se
atraída demais por aquele homem e quando estava a
ponto de perder o controle e pular em cima dele,
ordenou: — Sai da merda do carro.
Sem se dar por vencido, Björn passou a boca
pelo rosto dela e disse com voz sedutora: —
“Merda”... acabou de chamar seu carro de merda.
— E, insistindo, murmurou: — Vem, resmungona, vai
ser gostoso.
— Sai da porra do carro de uma vez antes que
eu arranque a sua cabeça, seu cretino! — Mel
insistiu, tremendamente excitada.
Björn cedeu.
Ele não suplicava nada a ninguém. Tirou o cinto
de segurança, abriu a porta sem olhar para ela,
desceu e fechou o carro com força. Naquele instante,
Mel subiu o volume da música ao máximo, deu a
partida e deixou Björn totalmente desconcertado no
meio da calçada.
Levar um fora não era algo com que Björn
estivesse acostumado, mas, contrariando qualquer
explicação, sorriu.
Maldita cabeça-dura!
Durante alguns minutos, caminhou pelas ruas
frias de Munique. Precisava relaxar ou senão iria
atrás dela outra vez. Por que aquela atrevidinha
chamava tanto a sua atenção?
Ao tocar o bolso do blazer, notou que tinha algo
grudado. Arrancou com cuidado e sorriu ao ver um
adesivo desbotado das Princesas. Guardou-o com
cuidado. Dez minutos mais tarde, viu um táxi e pediu
que parasse. A noite ainda ia continuar e Maya
estava esperando.
13
Uma semana mais tarde, depois de passar dois
dias fora de Munique por causa de uma viagem ao
Iraque, Mel chegou em casa. A filha, ao vê-la,
recebeu-a com um sorriso enorme e as duas não
pararam de brincar durante horas. À noite, quando
Mel entrou debaixo das cobertas sozinha, pela
primeira vez em muito tempo não foi Mike quem
ocupou seus pensamentos: em seu lugar, apareceu
um cara prepotente de olhos azuis chamado Björn.
Tentou tirá-lo da cabeça.
Por acaso estava louca?
O que a estava fazendo pensar naquele babaca?
Tentou se concentrar em qualquer outra coisa,
mas nada, absolutamente nada conseguia apagar o
olhar que Björn tinha dado em sua direção. Por fim,
cansada de se virar na cama sem dormir, decidiu se
levantar e fazer o que seu corpo estava exigindo aos
gritos. Notou com cuidado que a pequena estava
dormindo e depois de ter certeza, abriu a gaveta de
sua mesinha de cabeceira, pegou um nécessaire e
tirou o que estava procurando.
Saiu do quarto em silêncio, foi até o sofá, tirou a
calcinha, olhou o vibrador preto e murmurou: —
Preciso urgentemente de você, amigo.
Sozinha na sala, no silêncio da noite, fez o que
gostava. Abriu o pote de lubrificante, deitou-se no
sofá, abriu as pernas e lambuzou a vagina. Queria
que fosse suave e é o que aquilo faria. Excitada, ligou
o vibrador na velocidade 1, passou-o pelos lábios
melados de lubrificante, colocou-o sobre o clitóris e
sussurrou: — Isso, assim... me dá o que eu preciso.
Durante vários minutos, Mel abriu-se com uma
das mãos e com a outra moveu o vibrador em busca
do prazer. A sensação era maravilhosa. Plena.
Estimulante. Seu corpo sentia pontadas de prazer, ela
arfava e exigia mais e mais. Com os olhos fechados,
imaginou o homem que tinha se instalado em sua
memória: Björn. Fantasiando, seus gemidos ficaram
mais intensos quando imaginava que era ele quem
estava movimentando o vibrador sobre o clitóris, ou
quem estava olhando enquanto ela o passava pelo
sexo.
Viu o olhar dele...
Sentiu seus beijos...
Lembrou-se das propostas...
E tudo isso aqueceu seu corpo e fez com
quisesse mais.
Abriu mais as pernas e se entregou ao prazer
que aquilo oferecia. Imaginar as grandes mãos dele
sobre o seu corpo e seu hálito entre as pernas dela
fez com que mordesse o lábio para não gritar de
prazer, e aumentou a velocidade para a posição 2.
Sentiu um calor intenso.
Muito... muito intenso. Extremamente excitada,
moveu-se pelo sofá e sussurrou: — Sim... baby... eu
te desejo.
Imagens de Björn no Sensations voltaram à sua
mente.
O corpo dele...
O abdome sarado...
O pênis ereto.
Imagens sensuais e excitantes. Momentos
picantes e pecaminosos. Björn era caliente. Muito
caliente. Ele demonstrava isso quando olhava para
ela, quando a desafiava, quando tentou avançar o
sinal.
Sua respiração ficou mais ofegante. O orgasmo
começava a crescer dentro dela como um tornado e,
disposta a mais, aumentou para a velocidade 3. Seu
sexo estremeceu e Mel arqueou o corpo no sofá. A
voz de Björn pedia que ela não fechasse as pernas,
que não afastasse o vibrador nenhum milímetro, e
Mel obedeceu.
Calor. O calor era intenso. Sabendo muito bem
o que queria, apertou o brinquedinho maravilhoso
sobre o clitóris já bastante excitado e o que esperava
finalmente veio. Um orgasmo incrível tomou conta de
seu corpo. Levantou o quadril e fechou as pernas,
enquanto tremia toda e mordia o lábio inferior ao
sentir aquele prazer alucinante, intenso e profundo.
O sangue era bombeado por todo o seu corpo,
em especial no seu púbis, e Mel estava ofegante,
queria mais. Mas quando abriu os olhos e sua visão
pousou nas fotos da sala, sabia que a fantasia tinha
acabado. Só ela e sua imaginação estavam ali.
Abaixou as pernas amolecidas até o chão, sentou-se
no sofá e sorriu.
Em poucas vezes tinha conseguido tamanho
realismo ao se masturbar. Poucas vezes suas coxas
tinham se molhado tanto com seus próprios fluidos.
Sorrindo, olhou o brinquedinho e acendeu um
cigarro.
— Obrigada, amigo. Você nunca me
decepciona.
Naquela noite, quando deitou na cama,
continuou pensando em Björn, mas, irritada,
repreendeu-se. Devia parar de pensar nele. Havia
outros homens no mundo dos quais desfrutar, e ele,
por mais que a deixasse louca de prazer, não deveria
fazer parte de seus jogos e fantasias. Ou deveria?

No sábado à tarde, depois de um dia dedicado


totalmente à filha, decidiu pedir que Dora ficasse com
Sami aquela noite. Precisava sair.
Chegou ao Sensations mais tarde do que em
outros dias e quase deu meia-volta quando viu ao
fundo, no bar, seus amigos Eric e Jud conversando
com Björn e duas mulheres.
O que Eric e Judith estavam fazendo ali?
Não sabia se entrava ou não. Aquilo era muito
constrangedor. Mas, por fim, escondida entre vários
casais, resolveu entrar. Eles não a viram e Mel
sentou-se o mais longe possível deles, para poder
observá-los com curiosidade.
Com os olhos arregalados, viu como uma das
mulheres colocava a mão entre as pernas de Jud e
esta sorria; a mulher enfiava mais a mão e Jud
deixava.
Escondida, não se mexia para que eles não a
vissem. Nunca poderia ter imaginado aquilo e muito
menos que aquele casal praticava o mesmo tipo de
sexo que ela. Ficou chocada. Considerava Eric e Jud
um casal totalmente tradicional, mas pelo visto as
aparências enganavam!
Logo seus olhos voaram até Björn. Ele e Eric
pareciam estar gostando do espetáculo que as
mulheres ofereciam e Björn, aproximando-se de
Judith, disse alguma coisa que a fez sorrir.
Mas que tipo de amizade tinham aqueles três?
Outra mulher foi até eles e Björn a agarrou pela
cintura. Durante vários minutos, Mel viu como os
dois conversavam, e como ele beijava o pescoço
dela, que parecia estar gostando muito daquilo. Mel
não achou graça nenhuma e bebeu de seu copo para
afogar a indignação que crescia segundo a segundo
dentro dela.
Dez minutos depois, o grupo entrou pela porta
que levava aos reservados e, sem pensar duas vezes,
Mel os seguiu. Chegando no corredor, ficou sem
saber se olhava pela cortina do reservado ou não. O
costume era que pessoas que não queriam ser vistas
colocassem um cartaz escrito “Stop” na cortina e só
uma delas tinha isso. Olhou os que não tinham, mas
não ouviu a voz dos amigos em nenhum, por isso,
deduziu que eles eram os que não queriam ser
observados. Hesitou sobre o que fazer, mas a
curiosidade venceu e Mel decidiu olhar, apesar de
saber que não era certo.
Lá dentro, Eric estava sentado na cama,
enquanto as duas mulheres tiravam a roupa de Jud, e
Björn preparava drinques numa das laterais.
— Me beija, moreninha — Eric pediu.
Contente, Jud se aproximou do marido e fez o
que ele pedia. Mas, antes, brincou. Passou a língua
primeiro por seu lábio superior, depois pelo inferior,
deu uma mordidinha e Eric lhe deu um tapinha
carinhoso; Jud o beijou.
— Você me deixa louco, querida — murmurou
ao fim do beijo.
— Você sabe que eu adoro te deixar louco —
ela respondeu, disposta a se divertir.
Judith gostava de homens, mas tinha se dado
conta de que também gostava quando era uma
mulher quem fazia os jogos com ela. Até aquele
momento, nunca tinha tomado a iniciativa com
mulheres, apenas deixava que elas fizessem o que
quisessem, e isso a deixava louca.
Eric sabia e nunca propunha nada que Judith
não quisesse. Ambos tinham suas próprias limitações
quanto às fantasias sexuais e, disposto a dar à mulher
o que os olhos dela pediam, perguntou: — Quer que
a Diana e a namorada dela brinquem com você?
Judith sorriu e respondeu:
— Quero, mas também quero brincar com você
e com o Björn.
— Te prometo que sim. — Eric sorriu,
beijando-a mais uma vez.
Björn, que os observava da lateral, notou que o
amigo se levantava da cama, deitava a mulher sobre
ela e abrindo-lhe as pernas com desejo, dizia: —
Diana... a minha mulher quer que você faça o que
quiser com ela.
Não foi preciso dizer mais nada. Diana, uma
alemã companheira nos jogos eróticos, sem pensar
duas vezes subiu na cama, colocou as mãos sobre as
coxas de Judith, abrindo-as.
— Da Judith eu quero tudo — murmurou.
Depois olhou para sua namorada Marie e
acrescentou: — Vem brincar com a gente, querida. A
Judith quer ser o nosso brinquedo. Só tem uma regra:
a boca dela é só do marido.
Marie concordou. Tudo estava claro. Sabia o
que a namorada estava querendo dizer e, subindo na
cama, foi direto aos seios de Jud.
Diana, ao ver que Judith gostava que chupassem
seus mamilos, pousou a boca naquele doce manjar
que a jovem oferecia e se deliciou. Saboreou com
habilidade o sexo dela até que ele se abriu todo e
deixou o clitóris à vista. Judith ofegou quando Diana
passou a língua ali e, sabendo o que ela gostava,
sugou.
O corpo de Judith tremeu. Olhou para o marido,
que, excitado pela situação, sorriu. Aquelas duas
mulheres deixaram Judith louca de prazer com sua
habilidade. Quatro mãos a tocando. Quatro mãos
que a exigiam. Quatro mãos para preenchê-la e duas
bocas percorrendo seu corpo.
— Quer mais, Judith? — Diana perguntou.
— Quero... continua... continua...
Excitada por aquilo, Marie não parou de chupar
os mamilos e levou uma das mãos de Jud até o
próprio sexo. Judith, sentindo o calor que emanava
dele, não teve dúvida, enfiou um dedo e começou a
movê-lo. Marie ficou louca e Diana, ouvindo seus
gemidos, parou. Colocou um vibrador, se posicionou
entre as pernas de Judith e a comeu. Os gemidos
dela ficaram mais altos. Os dois homens tiraram a
roupa e se prepararam para entrar no jogo a
qualquer momento. Não demorou. Colocaram
camisinhas. Björn se posicionou atrás de Marie, e
Eric, de Diana, e os dois as penetraram por trás.
Mel, que observava tudo aquilo meio escondida
atrás da cortina, sentiu a respiração ficar
descontrolada. Aquilo era excitante. Ver como
aquelas cinco pessoas davam prazer umas às outras
era alucinante e lhe dava um prazer incrível.
Os grunhidos de prazer de Björn e de Eric
tomaram conta do lugar e, quando alcançaram o
clímax, saíram de dentro das mulheres, que
continuaram com o seu jogo.
Tiraram os preservativos e jogaram no lixo.
Diana disse:
— Marie, agora vem me foder você.
Marie vestiu um cinturão, se posicionou atrás da
namorada e introduziu-o nela pouco a pouco,
fazendo Diana gritar de prazer. Judith gritou ao ser
penetrada por Diana, que, em êxtase pelo que Marie
lhe fazia, voltou a fundir-se com ela.
As três mulheres curtiam o trenzinho sobre a
cama quando Björn passou um copo de uísque a
Eric. Beberam enquanto observavam o jogo
maravilhoso entre as mulheres, até que Judith e Diana
tiveram um orgasmo e tudo acabou. Diana saiu de
Judith, tirou o consolo, olhou para a namorada e
propôs, enquanto também tirava o cinturão dela: —
Vamos fazer um 69.
Sem descanso, as duas deitaram-se na cama e
se chuparam uma à outra com prazer. Eric, vendo
sua mulher com os olhos fechados, pegou-a nos
braços e, levando-a até a ducha, perguntou: — Está
tudo bem, querida?
Judith fez que sim e o beijou.
Björn sorriu. A pergunta típica de Eric a Judith
depois de transarem. Nunca tinha passado por sua
cabeça perguntar esse tipo de coisa a nenhuma de
suas amigas. Não lhe importava o prazer delas. Só
importava o dele próprio. Então lembrou que Eric
havia dito que, desde que estava com Judith, tinha
mudado sua forma de ver o sexo.
Enquanto observava os amigos se beijando com
paixão na ducha, Björn voltou a sentir o que só sentia
na companhia deles: solidão.
Com outros casais esse sentimento não
aparecia, só se preocupava em curtir o sexo e o
prazer. Mas quando estava com os amigos e tomava
consciência da relação maravilhosa e especial que
eles tinham, sentia inveja.
Ver como se olhavam, como se beijavam, como
se amavam ou tinham necessidade um do outro era
algo que ele nunca havia experimentado com
ninguém.
Será que era verdade que quando a gente se
apaixona, nosso próprio prazer fica em segundo
plano e a gente só deseja ver a outra pessoa sentindo
prazer?
Estava excitado olhando a cena quando Eric
começou a fazer amor com Judith com toda a força
contra a parede da ducha e, enquanto isso, Diana e a
namorada desfrutavam sua sexualidade na cama.
Björn estava convidado para qualquer uma das festas
e ficou indeciso. O espetáculo era excitante e vê-lo
dali onde estava dava-lhe um prazer intenso, por isso
decidiu ficar olhando, enquanto seu pênis, gemido a
gemido, segundo a segundo, ficava duro como pedra.
Quando Eric e Jud acabaram e saíram da ducha,
entraram na jacuzzi e convidaram Björn a
acompanhá-los. Sem pensar duas vezes, ele aceitou,
e quando foi se sentar, Judith entregou-lhe um
preservativo e sussurrou: — Agora você.
Desejando sexo, Björn rasgou a embalagem e
colocou a camisinha. Sentou-se na jacuzzi, olhou
para o amigo, que deu a permissão e, agarrando
Judith pela mão, pediu: — Vem sentar em mim, linda.
Judith fez o que ele pediu e gemeu conforme o
pênis ia entrando. Björn, sem chegar perto da boca,
que era só de Eric, murmurou: — Está sentindo ele
duro?
— Estou...
— Vem, se aperta mais em mim.
Judith obedeceu e um calafrio percorreu sua
espinha. O marido, beijando-a, disse: — Assim,
pequena... me dá os seus gemidos.
Durante vários minutos, aquele jogo maravilhoso
os deixou loucos. Björn, sentado na jacuzzi, recebia
Judith sentada sobre ele, enquanto Eric bebia os
gemidos de prazer da mulher.
Mel, que os observava, cruzou as pernas.
Estava ficando muito molhada e seu corpo pedia
sexo. Ouviu Björn dizer: — Eric e eu vamos te foder
do jeito que você gosta.
Judith não conseguia falar. Sentiu como as mãos
de seu marido a apertavam com força contra a
ereção muito dura de Björn e murmurava em seu
ouvido: — Vamos, pequena... assim... tudo.
Sem trégua, Judith se deixou manipular por
aqueles dois deuses gregos enquanto Björn movia o
quadril dela num ritmo frenético, deixando-a louca, e
agora sentia as mãos de Eric apertando sua bunda.
Gemidos de prazer escaparam de sua boca e ficaram
mais fortes quando sentiu que seu marido enfiava um
dedo em seu ânus e depois outro. Mexia com eles.
Provocava.
— Está gostando, Jud? — Björn perguntou.
Ela fez que sim e quando ele a tombou sobre
seu peito, ofereceu a bunda para que o marido
penetrasse. Com cuidado, Eric fez o que ela queria.
Entrar nela era sempre um prazer. Deixou escapar
um gemido e quando toda a sua ereção estava lá
dentro, sussurrou: — Pequena... diz se você está
gostando.
— Estou — Judith sussurrou ao sentir-se
totalmente preenchida por aqueles dois.
A partir daquele instante, cada um se moveu
para procurar o próprio prazer, e Judith se abria para
os dois e deixava que eles fizessem o que quisessem,
apenas curtindo o momento.
Uma... duas... três... quatro penetrações
seguidas de cada um dos dois a fizeram gemer de
prazer e um calor intenso se apoderou de seus
corpos.
Cinco... seis... sete... oito... Entravam e saíam
dela com deleite e se preparavam para o novo
ataque, querendo mais.
Gozo...
Sexo...
Fantasias...
Aquilo era prazer em estado puro. Judith não
aguentou mais e com um grito mostrou que tinha
alcançado o clímax. O segundo foi Björn e, por
último, Eric.
Quando Björn deitou a cabeça no ombro da
amiga, se deu conta de que alguém meio escondido
atrás das cortinas os observava e seu corpo logo
reagiu. Ficou surpreso ao se dar conta de que era
Mel. Rapidamente desviou os olhos de lá para que
ninguém notasse e continuou sentado na jacuzzi.
Alguns minutos depois, seu amigo saiu de dentro de
sua mulher, e esta, de Björn. Eric e Judith foram
juntos até a ducha.
Excitado pela presença de Mel, Björn saiu da
jacuzzi sem pressa. Tirou o preservativo e, molhado e
nu, andou até uma das laterais do quarto.
Mel, com a boca seca, perdeu-o de vista até
que sentiu algo molhado atrás de si e, quando se
virou, deu de cara com ele. Envergonhada, não
soube o que dizer e Björn, baixando a voz para que
ninguém os ouvisse a não ser ela, perguntou: —
Espiando atrás da cortina?
Mel não podia se mover. Se o fizesse, entraria
no reservado dos amigos e, querendo que não a
vissem, respondeu com voz suplicante: — Des...
desculpa... eu...
Surpreso ao ver que ela titubeava e ficava sem
palavras pela primeira vez desde que a conhecia,
Björn assumiu o controle da situação e perguntou: —
Você não sabe o que significa a palavra “stop”?
Ela fez que sim e ele acrescentou:
— Você acaba de desrespeitar uma das normas
do clube. Se eu quisesse, eles te tiravam daqui agora
mesmo; você sabe, não sabe?
Mel concordou, sentindo um calor e,
arrependida, murmurou:
— Não diga nada ao Eric e a Judith que eu
estive aqui.
Lá de cima de sua estatura imponente e
totalmente nu, Björn olhou para ela.
— Por quê? — perguntou. — Por acaso você
não faz o mesmo que eles?
Nervosa, Mel quis escapar, mas não pôde.
Björn, pegando-a pelo braço, chegou mais perto e
murmurou quase em cima da boca dela: — Pode ter
certeza de que se você entrar comigo, podemos
aproveitar muito. Não acho que a Judith vai se
assustar com a sua presença. Talvez até se
surpreenda, mas se assustar... Não.
Mel tentou se desvencilhar dele.
— Eu... eu não jogo com amigos — sussurrou.
— Ah, não?
— Não.
Adorando ver Mel sem jeito, ele sorriu e insistiu:
— Por que não?
— Porque não. E agora, me solte, seu cretino.
Björn não soltou. Queria tirar a roupa dela,
jogá-la na jacuzzi e ter sua companhia. Desejava-a
mais do que tudo no mundo e deixou isso claro.
Pegou a mão dela, levou até sua ereção e murmurou
quando sentiu o toque de seus dedos: — Não volte a
me chamar de “cretino”, ou juro por Deus que vou
parar de ser educado com você, entendeu? — Ela
não respondeu e ele sussurrou: — Você e eu não
somos amigos. Vamos para outro reservado e...
— Não — ela conseguiu balbuciar.
Björn chegou com a boca perto do rosto dela,
passeou por seus lábios e murmurou, excitado pelo
que seu corpo estava pedindo: — Juro que você não
vai se arrepender.
A suavidade de sua pele...
Sua voz...
A intensidade de seu olhar...
Tudo aquilo, a excitação pelo que tinha visto,
fizeram Mel ficar indecisa.
Meu Deus, desejava sentir aquele homem
dentro dela, mas recuperando o controle, tirou a mão
da ereção dele como se tivesse levado um choque.
— Me solta — pediu.
Björn sorriu. Não queria. Em vez disso, chegou
mais perto dela.
— Se eu te beijar, vai me morder outra vez?
— Se eu fosse você não tentaria.
Mas Björn, sem dar atenção, passou um dos
braços pela cintura dela e, disposto até a levar outra
mordida, pagou para ver e, por fim, beijou-a. Enfiou
a língua e, contra todas as previsões, depois de
alguns segundos, ela correspondeu.
A resposta foi arrasadora. O sabor dela era
delicioso e, trazendo-a para mais junto de si,
aprofundou o beijo. Mel soltou um gemido que só ele
ouviu e sentiu como sua ereção crescia. Björn
continuou o ataque implacável com Mel colada na
parede. Desejava-a. Desejava aquela espanholinha
impertinente e queria gozar com ela do jeito que
fosse.
Quando sentiu que ela baixava a guarda para
desfrutar do que estavam fazendo, Björn parou o
beijo. Mel olhou para ele com os olhos turvos de
desejo, e Björn, depois de dar uma mordidinha sexy
no lábio dela, disse quando a soltou: — Se você
quiser mais, vai ter que entrar no reservado.
Ela não sabia o que fazer.
Desejava-o. Seu corpo inteiro pedia por Björn
aos gritos.
Mas resistiu e então negou com a cabeça.
Desvencilhou-se dele e saiu dali sem olhar para trás.
Björn, duro como pedra, xingou em silêncio por
sua falta de tato. Talvez se tivesse continuado
beijando um pouco mais ela teria cedido.
Alucinado pelo que aquele beijo o tinha feito
sentir, apoiou uma das mãos na parede e sentiu o
coração disparado. O que estava acontecendo?
Algumas mulheres saíram dos reservados ao
lado e, ao vê-lo pelado no corredor e com aquela
ereção, sorriram. Björn, consciente de que devia
estar com cara de bobo, se recompôs na mesma
hora e sem querer pensar mais no beijo de Mel,
entrou no reservado, onde continuou jogando durante
o resto da noite com os amigos. Mas não foi a
mesma coisa. Desejava aquela outra boca e não
pôde parar de pensar nela.
14
Duas semanas depois, na piscina coberta na
casa de Judith, Mel conversava animada com sua
amiga enquanto tomavam refrescos.
Depois de ter visto certas coisas, não sabia
como enfrentar aquela conversa com Judith. Queria
falar, mas alguma coisa a impedia. Sabia que era a
vergonha e o pudor. Nunca tinha tido uma amiga com
quem conversar sobre essas intimidades.
Aquele tipo de sexo era algo que ela praticava
desde muito jovem, desde que tinha participado de
uma orgia e gostou daquele estilo de vida. Mas nunca
ninguém de seu círculo, exceto Mike ou Lodwud,
souberam a respeito. Tinha vergonha do que
poderiam pensar dela.
Mesmo quando fez a proposta a Mike, o cara
mais liberal do mundo, ele ficou um pouco
desconcertado. Aquilo não era próprio de Melanie,
mas quando aceitou, gostou até mais do que ela, e
juntos tinham feito sexo a três algumas vezes.
Quando Simona avisou que a mesa estava posta
na cozinha, as duas amigas pegaram os filhos e lhes
deram de comer primeiro. O pequeno Eric era um
glutão e Samantha, por sua vez, devorou seu prato.
Quando as crianças dormiram, as mães comeram
também e, ao terminarem, Judith disse com um
sorriso.
— Tenho que te contar uma coisa.
— Conta.
Tirando o cabelo do rosto, Judith sorriu e
anunciou: — Estou grávida!
— Parabéns!
Abraçaram-se e Mel perguntou:
— Você está de quanto tempo?
— A menstruação atrasou este mês e, mesmo
que agora pareça que estou tranquila, juro pra você
que quando fiz o teste, e vi os dois risquinhos, quase
tive um treco!
— E o pai ficou contente?
Judith fez que sim com a cabeça e respondeu
animada: — O Eric está feliz, mas está apavorado de
ver como vou levar a gravidez. Da última vez os
hormônios me deixaram louquinha e quase dei um pé
na bunda dele. Pobrezinho!
Deram uma gargalhada e Judith, tocando o
ventre inexistente, murmurou: — Nós dois estamos
muito felizes.
Mel sorriu.
— Desde quando você sabe?
— Faz três dias. Liguei pra te contar, mas não
consegui falar, então imaginei que você estivesse fora.
Sério, Mel, da próxima vez que você sair de viagem,
deixa a Samantha comigo. Pode ver que aqui ela fica
bem. A Simona e o Norbert vão me ajudar com ela,
o Flyn vai enchê-la de beijos e o Eric vai mimá-la.
Juro que ela vai ser tratada como uma verdadeira
princesa.
Mel gargalhou.
— Não precisa repetir — replicou. — Prometo
que da próxima vez que precisar que você cuide da
Sami, eu te peço. Ou melhor, peço pra vocês!
As duas amigas sorriram e Mel acrescentou:
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro.
— É sobre o Flyn.
Judith sorriu e explicou:
— O Flyn é filho da Hannah, irmã do Eric. Ela
morreu e o pai nunca quis saber nada do pequeno e,
pra todos os efeitos, Eric e eu somos os pais dele.
— Ah, pobrezinho.
Judith concordou e prosseguiu:
— Não se preocupe, ele está bem. O Flyn é
nosso filho, como o pequeno Eric também é, mesmo
que agora ele me adore e me beije por onde eu piso,
te digo que esse pirralho resmungão me deu muito
trabalho quando me conheceu. Se eu te contasse! —
lembrou-se com alegria. — Ah... outra coisa: o pai
dele era coreano, não chinês. Estou te dizendo
porque o Flyn odeia que o confundam com chinês.
— É bom saber. — Mel sorriu ao ouvir isso.
Naquele momento a porta da sala se abriu e
apareceram Eric e Björn, que exclamou, surpreso e
contente, ao ver Mel: — Eric, a que nível chegamos!
A mesmíssima namorada do Thor na sala da sua
casa.
— Björn! — Judith protestou enquanto ele
colocava a pasta numa cadeira.
— Olha só, chegou o burro do Shrek — Mel
rebateu.
Pega desprevenida por essa recepção, Judith
olhou para os amigos e se queixou: — Vocês
definitivamente gostam de discutir. Mas que dupla!
Achando graça, Björn disse por sua vez:
— Ela me chamou de “burro”... Não se esqueça
disso!
Mel sentiu calor quando o viu. Não havia uma
única noite em que não pensasse nele. Em seu corpo
nu. Em suas propostas. Na suavidade da pele onde
ela tocou. Mas escondendo o que sentia da melhor
maneira que conseguiu, colocou a coroinha de cristais
que havia tirado de Sami antes de ela dormir e
revidou: — Nós, as princesas, não falamos palavrão,
senão, bonequinho, juro que te falaria um monte, e
um mais cabeludo do que o outro.
Eric sorriu ao ouvi-los, foi até sua linda mulher e
a beijou: — No fundo acho que vocês gostam desse
joguinho.
Mel sorriu e, piscando um olho, respondeu
zombando: — Adoro... Aliás, parabéns pelo bebê!
— Obrigado. — Eric sorriu todo feliz. — Tenho
certeza de que desta vez vai ser uma moreninha.
— Uma moreninha? — Mel repetiu sem
entender.
Todos riram e Jud esclareceu:
— Uma menina. Eric quer ter uma filha morena
como eu.
Björn, depois de beijar Judith, não se aproximou
de Mel. Eric disse: — Björn, vamos até o meu
escritório. Preciso te consultar sobre negócios da
empresa. — E, voltando-se para sua mulher,
acrescentou: — Querida, comenta com a Mel sobre
a festa na empresa.
Björn não gostou de se afastar de Mel. Queria
ficar ao seu lado, desfrutar de sua companhia, mesmo
que fosse trocando farpas, mas quando viu que Mel,
de coroa na cabeça, dava-lhe tchau com jeito de
drag queen, admitiu: — Sim, melhor a gente ir pro
seu escritório.
Quando as mulheres ficaram sozinhas, Judith
olhou para a amiga, que estava tirando a coroa, e
comentou: — Vocês definitivamente têm atração um
pelo outro.
— Coitada de mim — Mel zombou.
— Você pode dizer o que quiser, mas o que eu
vejo é outra coisa e...
— Jud, não inventa história — interrompeu
Björn, que tinha voltado para pegar a pasta. — De
princesas intrometidas já temos a Cruela Cruel!
Mel contra-atacou:
— E para idiotas linguarudos, já temos você!
Björn bufou. Estava na cara que ela não ia
facilitar, e, sem falar mais nada, ele saiu da cozinha.
Judith sorriu e comentou: — A empresa do Eric vai
dar a festa anual na sexta-feira que vem e queremos
que você venha. O que você me diz?
— Não sei.
Judith puxou-a pelo braço e cochichou:
— Você tem que vir, sozinha ou acompanhada.
É um jantar de gala, com baile depois, e te juro que
vai ser incrível.
Depois de pensar, Mel respondeu:
— Tudo bem. Se eu não estiver viajando,
prometo colocar meu único vestido longo e ir à festa
acompanhada.
— Que bom! — Judith aplaudiu e propôs: —
Que tal se a gente der um mergulho na piscina?
— Perfeito!
Mas quando saíram da sala, Judith afirmou:
— Björn e você estão atraídos um pelo outro...
Eu sei... Intuição...
15
Duas noites depois, quando Dora chegou para
cuidar de Sami, Mel deu um beijo na cabecinha loira
da filha e saiu de casa. Era dia de boliche com os
amigos e companheiros. Até Robert, que estava
passando uns dias em Munique, estaria lá e assim
poderiam se ver. Quando chegou à rua, Mel deu
partida no carro, subiu o volume da música ao
máximo, como sempre, e seguiu em direção ao local
combinado.
Björn, que naquele momento estava parado na
saída da garagem de sua casa, falava ao telefone: —
Vamos ao Sensations, que tal?
A mulher do outro lado da linha respondeu e
Björn sorriu: teria uma grande noite de sexo pela
frente. Na mesma hora a música ensurdecedora de
um carro que passava pela rua chamou-lhe a
atenção, e não ficou surpreso ao ver Mel no volante.
— Kristel... vou ter que te deixar. Já te ligo —
disse rapidamente antes de desligar.
Disposto a seguir Mel, mergulhou no trânsito e
foi atrás dela, até chegar a um centro comercial. Lá
viu Mel estacionar o carro e descer. Estava vestida
de preto, como quase sempre, e logo a viu sorrir e
cumprimentar alguém. Viu que era um homem da sua
idade. Quando o sujeito chegou perto dela, disse
algo, Mel gargalhou e deu um soquinho no ombro
dele.
Surpreso por aquela risada sincera, Björn
decidiu ir atrás. Estacionou o Aston Martin e logo
começou a segui-los. Pareciam absortos em uma
conversa divertida.
Chegaram ao boliche do centro comercial e
Björn, tomando cuidado para não ser visto por Mel,
foi até a cafeteria e pediu algo para beber. Sem tirar
os olhos dela, viu como os homens e uma só mulher
que a esperavam cumprimentaram Mel com um
toque esquisito e não com dois beijinhos. Pouco
depois, observou que um dos homens entregava a
Mel um par de sapatos especiais para jogar boliche,
e ela logo os calçou.
Durante mais de meia hora, Björn ficou vendo
Mel jogar. Ela era boa. Realmente todos eram ótimos
jogadores e sorriu quando a ouviu gritar e saltar
como uma louca depois de fazer um strike.
Mel, sem saber que era observada, se divertia
com os amigos.
— Neill, supera esse strike!
— Garota... você é muito boa! — Robert
aplaudiu.
— Obrigada, garoto... — piscando um olho,
admitiu: — Tive um bom professor.
Ouvindo isso, Romina, a mulher de Neill, sorriu,
e, levantando a garrafa de cerveja, gritou: — Vamos,
querido, derruba todos os pinos e detona esses
espertinhos.
Mas a jogada de Neill não foi boa e mais uma
vez Mel pulou de felicidade e deu gargalhadas.
Fraser e Hernández, quando a viram, levantaram-se
da cadeira, abraçaram-na e a pegaram no colo.
Björn quis se mandar, quis desaparecer dali,
mas o espetáculo que ela oferecia, com aquele
sorriso puro que nunca oferecia a ele, deixava-o com
os pés plantados no chão. A única coisa que
desejava era chegar mais perto, pegar Mel nos
braços, beijá-la.
O que aquela mulher estava fazendo com ele?
Decidiram pedir uma nova rodada de bebidas e
desta vez foi Mel a encarregada de ir até o bar.
Björn, vendo que se aproximava, decidiu não se
esconder. Quando ela o viu, fez uma careta e disse
com ar de superioridade: — Que coincidência
desagradável.
Björn caminhou até ela e, com o mesmo ar,
respondeu:
— Já começou o joguinho de mulher difícil.
— Não te xinguei de “cretino”, então não
reclame.
Sem dar atenção a ele, Mel pediu as bebidas ao
barman e, enquanto este servia, Björn se apoiou no
balcão.
— Trocou o Sensations pelo boliche? —
perguntou.
Ouvindo aquilo, Mel levantou as sobrancelhas,
olhou para os colegas e perguntou: — Não acha que
eles dão pro gasto?
Sem tirar os olhos dela, ele insistiu:
— Aqui você também ataca?
— Duvida?
Björn fixou os olhos azuis nos seios dela e
deixou escapar um suspiro quando viu que os
mamilos estavam marcando a camiseta, como se
estivessem dando as boas-vindas.
Mel sorriu, um pouco incomodada, quando se
deu conta de onde ele fixava os olhos com tanto
descaramento. Bastou olhar para Björn e seus
mamilos ficaram arrepiados. Frente àquilo, não podia
fazer nada senão usar as cartas que tinha na manga.
Por isso, pegou uma das garrafas de cerveja que o
barman tinha posto na frente dela, levou até a boca e,
vendo que Björn observava seus lábios e os seios,
murmurou: — Você bem que gostaria que os meus
lábios fizessem assim em você, não é?
— Como? — Björn perguntou, pego de
surpresa.
Mel tomou um gole da cerveja e quando
acabou, toda sexy, passou os lábios pela garrafa
molhada e chupou-a com descaramento. Sorriu.
Björn piscou acalorado. Aquela arrogante, com os
mamilos marcando a blusa e aquele gesto sensual,
tinha acabado de deixá-lo em ponto de bala.
Tentando tomar as rédeas do jogo, perguntou: —
Você gosta de provocar?
Mel soltou uma gargalhada e, colocando a
garrafa no balcão, respondeu: — E quem não gosta,
baby?
Disposto a ser tão cara de pau quanto ela,
chegou mais perto e fez o que há muito tempo tinha
vontade. Levantou a mão direita e colocou sobre o
tecido que cobria o mamilo arrepiado.
— Você gosta de como eu te toco?
Mel quis protestar, quis reclamar, mas o prazer
que seu corpo sentiu quando os dedos dele
aprisionaram o mamilo fez com que perdesse o
fôlego.
Naquele momento, Romina veio na direção
deles e ao ver Mel conversando com aquele homem
lindo perguntou: — Estou atrapalhando?
Björn tirou a mão e Mel, virando-se para a
mulher, negou com a cabeça. Romina, percebendo
que, sim, tinha atrapalhado, fez uma expressão de
quem tinha entendido tudo, pegou a bandeja com as
bebidas e se desculpou: — Os rapazes estão
morrendo de sede e já sabe como são esses
americanos quando querem beber.
Ficaram a sós mais uma vez e Björn aproveitou
a deixa para questionar: — Seus amiguinhos são
americanos?
— São. — E, lembrando-se do que Klaus, pai
de Björn, tinha dito, acrescentou: — Algum
problema?
Björn negou com a cabeça, com desprezo, e
olhou-a nos olhos.
— Vou estar no Sensations — murmurou.
Dito isso, saiu dali, deixando Mel paralisada e
totalmente excitada pelo que havia acontecido entre
os dois.
Quando ela se recompôs e voltou para os
amigos, Robert, que estava observando a conversa
de longe, perguntou interessado: — Quem era aquele
cara?
Sem querer dar muitas explicações, ela pegou a
cerveja e, depois de tomar um gole, respondeu com
um sorriso forçado: — Um amigo de um amigo.
Ninguém importante.
Algumas horas mais tarde, depois de muitas
partidas de boliche, decidiram sair para tomar umas,
mas sem pensar duas vezes, Mel disse que não ia.
Despediu-se dos amigos e foi até o carro, onde
acendeu um cigarro. Por acaso estava louca?
Quando estacionou em frente ao Sensations,
sabia muito bem o que queria e o que tinha ido fazer
ali.
Ao entrar na casa, viu Björn de papo com uma
mulher no bar. Seus olhares se cruzaram e ele sorriu,
mas não foi ao seu encontro. Tinha esperado por ela
a noite inteira e agora que tinha Mel onde queria, seu
ego masculino se inflou e, tomando pela mão a
mulher com quem conversava, desapareceu por uma
porta que levava ao vestiário.
Sem hesitar, Mel os seguiu. Nada ficaria no
caminho daquilo que estava querendo fazer. Quando
desejava alguma coisa, se dedicava 100%.
Depois de passar pelo vestiário masculino e tirar
a roupa, Björn foi até a sala comum com uma toalha
negra presa à cintura. Quando entrou, olhou ao redor
e viu que sua acompanhante ainda não tinha saído. A
jacuzzi estava vazia e decidiu esperar por ela ali,
enquanto observava os jogos excitantes de outros
casais e o quanto aproveitavam aquilo tudo.
Pensou em Mel. O fato de ela ter ido até o
clube naquela noite significava que queria alguma
coisa, por isso, mais uma vez o orgulho masculino fez
Björn sorrir. Teria aquela arrogante custasse o que
custasse. E logo ficou imóvel quando a viu se
aproximar com um roupão negro, caminhando em
sua direção.
Ela aproximou-se da jacuzzi com o olhar
desafiador, tirou o roupão e o deixou cair no chão.
Sem sair do lugar, Björn passeou os olhos pelo
corpo de Mel e sentiu a boca ficar seca. Os seios
dela eram lindos. As aréolas se contraíram quando
ele olhou e os mamilos ficaram rígidos.
Mel, aquela mulher provocante, era tentadora.
Tentadora demais. Observou seu corpo com atenção
e, por fim, cravou os olhos no púbis depilado e bem
cuidado. Desejou tocá-lo, lambê-lo, chupá-lo
enquanto outras pessoas continuavam seus jogos
prazerosos ao redor deles.
Desafio...
Duelo...
Contradição...
Era isso que os dois sentiam. Desejavam-se,
mas eram rivais, queriam ter sempre a última palavra.
Até que Mel pegou um dos preservativos que havia
em um recipiente e atirando até Björn, disse: — Põe.
Não fala nada e vamos fazer.
Ele deixou a camisinha cair na jacuzzi e não
pegou. Mel estava dando o braço a torcer?
Björn sorriu com luxúria e perguntou atrevido:
— E se agora eu não estiver com vontade?
Mel deslocou o peso do corpo para a outra
perna, colocou as mãos na cintura e respondeu: —
Coloca a merda dessa camisinha, já!
Meio surpreso porque ela tinha cedido, replicou:
— Não... não... não... Não gosto de receber
ordens, bonequinha. Além disso, estou esperando
alguém.
Achando graça, Mel tocou uma das
sobrancelhas:
— Acho que a sua acompanhante vai demorar
um pouquinho para chegar.
Assombrado por aquelas palavras, Björn
interrogou, franzindo a testa: — O que você fez com
a Kristel?
Mel deu de ombros, pensou no que Carl e outro
homem estavam fazendo com Kristel em um dos
banheiros do vestiário.
— Eu, nada. Só sei que ela vai demorar porque
está se divertindo no vestiário com dois caras muito...
muito... gostosos.
Vendo aquela expressão travessa, Björn sorriu e
quis entrar no jogo dela, pois sabia muito bem o que
queria e não deixaria a ocasião passar em branco.
Pegou o preservativo que estava flutuando na água e
se levantou da jacuzzi.
— Você está gostando do que está vendo? —
perguntou.
Ela respirou com dificuldade. Era incrível!
O corpo moreno, forte e musculoso de Björn
era impressionante. Dava para ver que ele se cuidava
e frequentava a academia. Mel fixou os olhos no
abdome definido e depois no pênis molhado, duro e
tentador, e achou que ia morrer de tesão. Desejava
aquele cara, mas não queria inflar ainda mais o ego
dele.
— Coloca a camisinha e deixa de ser tão metido
— mandou.
Björn sorriu.
Mel era osso duro de roer e ele gostava disso.
Ficava excitado com aquela mulher exigindo coisas
dele. Sem querer tentar a sorte, fez o que a
insuportável espanholinha pedia. Tê-la nua na sua
frente era um luxo sem preço que não pensava em
desperdiçar por nada no mundo. Sem desviar os
olhos, colocou a camisinha, e então ela pediu: —
Senta na jacuzzi.
— Já te disse que não gosto que me deem
ordens — ele protestou, mas, vendo a cara dela, se
apressou em completar: — Mas vou sentar porque
eu já estava aqui e estava gostando das bolhas.
Mel sorriu.
No fundo ela gostava do senso de humor dele,
mesmo que não quisesse admitir. Quando Björn se
sentou na jacuzzi, ela entrou. Ele cravou os olhos no
monte de Vênus depilado em forma de coração e sua
excitação dobrou na hora. Queria sentir o gosto.
Abrir as pernas dela e meter a boca até fazer Mel
gritar de prazer. Ela foi sentar nele, mas Björn a
deteve: — Antes de... quero te ver e sentir o seu
gosto.
— Não dá tempo — protestou. — A mulher
que você está esperando vai vir e...
— Eu disse que quero te ver e sentir o seu gosto
— ele interrompeu implacável. — Apoia um dos pés
na borda da jacuzzi e mostra você pra mim como eu
me mostrei pra você.
— O que é isso? Um açougue?
Apoiado, ele olhou para ela e respondeu:
— Pode pensar o que bem entender, linda... pra
mim é indiferente.
Excitada com aquilo tudo, apoiou um dos pés na
borda da jacuzzi. Ele a segurou para que não
escorregasse.
— Abre os lábios com os dedos e se agacha na
minha boca pra eu sentir o seu gosto.
A respiração de Mel se acelerou. O que ele
pedia era tentador. Muito tentador. Mas ela também
não gostava de receber ordens e quando foi dizer
que não, Björn lhe deu um tapa no traseiro e exigiu
com a voz sexy: — Anda. Estou esperando.
Sentindo uma onda de calor por causa do toque
das mãos dele em sua pele, ela fez o que ele pedia.
Quando a boca úmida e quente chegou perto e
lambeu o clitóris, ela teve que se agarrar nos ombros
dele para não cair. Deus, como aquilo era gostoso!
— Assim... — murmurou extasiada.
Como um lobo faminto, Björn escutou-a gemer.
Durante alguns segundos, ele lambeu e sugou o
clitóris inchado, deliciando-se.
— Você tem cheiro de morango — murmurou,
e Mel ficou louca.
Aquele cheiro... o sabor era incrível. Mel não
tinha o mesmo gosto das outras mulheres. Mas vendo
o efeito que aquilo causava nela, Björn reuniu toda a
sua força de vontade, afastou-se e sugeriu: —
Certo... deixa pra lá. Você está com pressa. Vem
sentar aqui.
Mel ofendeu-se porque ele não ia continuar o
que tinha começado e deu um suspiro impaciente.
Queria continuar com a boca dele no meio das
pernas, desejava demais, mas também não ia pedir
por favor. Já era demais que tivesse dado o braço a
torcer e ido até ele. Sem falar nada, sentou-se no
colo de Björn e ele comentou em tom íntimo: — Seus
seios são muito fofos.
— Fofos?!
Björn tocou-lhe os mamilos até deixá-los duros
e insistiu provocando-a: — É, não são de todo mal.
Mel deu outro suspiro de impaciência e Björn,
vendo aquela cara, deu outro tapa na bunda dela.
— Se me bater de novo, arrebento o seu nariz
— Mel ameaçou.
Björn deu uma grande risada, deu mais um tapa
e sussurrou apalpando aquela bunda: — Linda, deixa
disso. Já vi que tipo de sexo você pratica e sei que
você é chegada nuns tapinhas. — Sem deixar que ela
protestasse, perguntou: — Achou ruim que não fiquei
louco por causa dos seus peitos?
— Não.
— Então por que você está fazendo essa cara?
— Porque eu sou esquisita, esqueceu?
Isso fez os dois rirem. Björn agarrou Mel com
força para senti-la encaixada nele.
— Gosto de seios fartos, mas...
— E eu, dos homens de pau enorme — ela
rebateu.
Björn ficou sem palavras por um instante.
— E por acaso o meu pau não é grande o
suficiente pra você? — perguntou, disposto a
defender sua virilidade.
— Já experimentei uns maiores e melhores.
— Dos seus amiguinhos americanos?
— Não duvide.
A cara de ofendido de Björn fez Mel sorrir e,
chegando bem perto do ouvido dele, disse: —
Bonequinho, aqui se faz, aqui se paga...
— Mas que atrevimento... — Björn respondeu.
Vendo que ela achava graça, ele sorriu. Quis
dizer algo, mas Mel tinha pressa.
— Vamos, começa.
— Começar a te foder?
Sem que ele soubesse, estava provocando nela
um calor absurdo. Ele continuava brincando com os
mamilos, olhava para ela desafiando-a e a forma
como ele falava foi deixando Mel cada vez mais
excitada.
— É — sussurrou.
— Então me pede.
— Acabei de pedir.
Björn insistiu, chegando com a boca próximo da
boca dela:
— Me pede com tesão e desejo. Me pede
daquele jeito que você pede quando deseja com
todas as suas forças, e que deixa quem escuta
ardendo por dentro.
Mel sorriu e com uma desenvoltura que, de fato,
deixou o corpo inteiro de Björn ardendo, aproximou
a boca dele e pediu com voz tentadora: — Agora
você me tem, James Bond. Começa a me foder e me
deixa curtir o seu corpo.
Björn concordou na mesma hora. Percorreu a
bochecha dela com a boca e murmurrou: —
Ironwoman... agora sim eu te entendi.
Ele puxou-a para mais perto e, quando Mel viu
quais eram as intenções, impediu: — Não beije a
minha boca.
— Por quê? — perguntou sem se afastar dela.
— Não tenho que dar mais explicações. Não
faça isso e pronto.
Björn, malicioso, sem vontade de recuar,
deslizou os lábios tentadores sobre os dela. Tocou
levemente ao mesmo tempo que guiava o pênis rígido
ao centro de seu desejo. Penetrando-a pouco a
pouco, sussurrou: — Não acho que eu consiga
resistir a essa vontade que tenho de te beijar.
— Vai ter que resistir — Mel murmurou
extasiada, encaixando-se totalmente nele.
Os dois fecharam os olhos de prazer quando
seus corpos viraram apenas um. Perfeição. O encaixe
era perfeito. Aquilo era magnífico, colossal. Björn
gemia.
— Surpreso? — Mel perguntou.
Ele fez que sim e, agarrando-a pela cintura,
apertou-a mais contra seu pênis, querendo ir mais
fundo. Mel gritou louca de prazer. Foi a vez de Björn
dizer: — Surpresa?
Aquilo era um duelo de titãs. Os dois sabiam e
ficavam ainda mais excitados.
Mel agarrou o pescoço dele e esclareceu,
movendo os quadris:
— Vou tomar de você o que eu quero. Sou
egoísta e quero só o meu prazer.
— Então nós somos dois, gostosa.
Estimulado pela força e pela ferocidade que
sentia naquela mulher, Björn cravou os dedos na
cintura dela e moveu seu corpo do jeito que mais
gostava. Ela fechou os olhos e deixou a cabeça cair
para trás, deliciada. Mel era linda, diferente,
tentadora, ele gostava muito dela... cada dia mais e
agora, depois daquele encontro, tinha certeza de que
tudo ia mudar.
Depois de alguns minutos em que Björn perdeu
o controle, tirou uma das mãos da cintura dela e
agarrou o pescoço para puxá-la e beijá-la. Com um
movimento ágil, Mel recuou.
— Na minha boca, não.
— Sim...
— Não...
Agora era ela quem controlava o sexo e Björn,
maravilhado, deixava-a fazer o que quisesse. Mel
subia e descia nele num ritmo estimulante que não
queria, nem podia parar. E quando viu que ela gemia
e tombava a cabeça para trás outra vez, agarrou sua
nuca e colou os lábios ardentes nos dela.
— Sua boca, sim... — sussurrou.
Necessitava...
Desejava...
A forma como ele tomou posse fez com que
Mel não se afastasse. Ao contrário, abriu a boca e
respondeu com um beijo devastador que
enlouqueceu a ambos. Björn tomava as rédeas
novamente e Mel era quem agora não queria que as
coisas parassem.
Aquele ataque continuou por vários minutos.
Dois rivais em busca do próprio prazer.
Dois competidores desfrutando o ataque um do
outro.
Dois amantes dispostos a arder de paixão.
Aquele pênis poderoso a penetrou ao máximo.
Mel abria-se toda, deliciada, querendo recebê-lo
dentro de si, gemendo de prazer. Pela primeira vez
em muito tempo era outro homem e não Mike quem
a possuía e a fazia perder o fôlego olhando-a nos
olhos. O cheiro de Björn, sua ferocidade e o jeito
como ele se apoderava dela deixavam Mel
enlouquecida. Gritou num prazer desvairado quando
ele a surpreendeu e aumentou o ritmo.
— Vem, atrevidinha... vem... me dá o que eu
quero.
Ardendo de prazer, fora de si, ela procurou a
boca dele e sentiu a vagina vibrar e sugá-lo. Confusa
ao ver os olhos de Björn e não os de Mike,
aproximou os lábios ardentes dos dele e o beijou.
Deliciou-se. Deixou Björn alucinado. Aqueles beijos
de línguas emaranhadas, loucas, fizeram Mel subir ao
paraíso e de lá ela não queria descer.
Ofereceu sua língua molhada a Björn sem
descanso, e ele saboreou com desejo. Mel tomou o
controle da situação outra vez. O combate
continuava e tanto um quanto outro queriam deixar
muito claro quem é que mandava ali. Ela moveu o
quadril num ritmo frenético, para a frente e para trás,
enfiou tudo dentro de si mais uma vez e Björn soltou
um gemido gutural, apertou-a e a beijou,
enlouquecido.
Fascinado por aquelas sensações, Björn deixou
Mel no controle. Não conseguia entender o que
estava acontecendo: ele queria assumir o controle,
mas Mel, como sempre, o anulava e continuava
reinando absoluta.
Continuaram assim mais alguns minutos até que
Björn segurou os seios dela e não aguentou mais.
Soltou um gemido viril e deixou o orgasmo vir, no
mesmo instante em que ela também gritava de prazer,
e ficaram abraçados, com seus corpos tremendo.
Com a respiração agitada, continuaram
abraçados um em cima do outro, sem se olharem.
Cada um pensava à sua própria maneira naquilo que
acabara de acontecer, mas não entendia. Mel não
havia pensado em Mike, e Björn só tinha pensado
nela e não em si mesmo, como de costume.
Com Mel ainda aconchegada em seu peito, sem
pensar, beijou-a com delicadeza no pescoço.
Adorava aquele cheiro de morango. Precisava
daquele contato doce e tentador e sentiu que ela se
encolhia e dava beijinhos carinhosos nele.
Permaneceram assim um bom tempo até que Mel
murmurou quando se afastaram: — Não foi ruim.
— Outro elogio? — arrancou dela um sorriso e
continuou: — Vou me acostumar com eles, linda.
— Não deveria, creti...
Quando viu o olhar dele, Mel se calou e Björn
disse com um tom de voz íntimo: — Obrigado por
cortar essa palavrinha desagradável. É, de verdade, o
que acabamos de fazer não foi nada mau, mas sei
que nós dois podemos superar esse deslize, não
acha?
Olharam-se nos olhos por alguns instantes. Os
dois concordavam que o sexo entre eles poderia ser
um fogaréu de paixão e ela sorriu. Aquele sorriso
doce que Mel nunca tinha destinado a ele antes
deixou Björn sem ação, e ainda mais quando ela
beijou a ponta do nariz dele com delicadeza.
— Não duvido de que podemos superar.
Agora foi ele quem sorriu. Estava claro que os
dois estavam muito à vontade e não queriam que
aquele momento terminasse.
— Por que você sempre cheira a morango?
— Deve ser o gel que eu uso em casa. Presente
da minha irmã — Mel respondeu animada.
Björn aspirou o perfume dela outra vez e não
identificou aquela fragrância com a de nenhuma outra
mulher com as quais ele saía.
— Olha só, você tem uma irmã — Björn
comentou ao ouvir algum tipo de informação sobre
ela.
— Tenho.
— É arrogante que nem você?
— Vou te contar — Mel sorriu ao responder.
Björn soltou uma gargalhada. Mordeu o
pescoço dela e vendo que se encolhia, perguntou: —
Cócegas?
— Muitas — afirmou, divertida, quando
percebeu que ele colocava a boca em seu pescoço
mais uma vez.
Durante algum tempo, brincaram na jacuzzi
como dois adolescentes bobos e Björn conheceu
uma nova faceta dela. Gostou muito. Morderam-se.
Tentaram um ao outro. Divertiram-se até que Mel viu
a mulher que acompanhava Björn entrar na sala junto
com Carl. Isso a fez retornar à realidade.
— Sua amiga chegou.
Björn viu Kristel, mas não soltou Mel, pois
desejava continuar brincando com ela.
— Agora a minha acompanhante é você.
Vamos brincar todos juntos.
Mel mudou a expressão. Consciente de que
aquela outra mulher estava procurando Björn, retirou
os braços do corpo dele e ordenou: — Me solta.
— Por quê?
Mel direcionou a ele seu olhar frio e impessoal.
— Porque estou mandando.
Aquele tom de voz...
Aquele olhar duro...
Foi isso que o fez soltá-la.
Sem se mover, observou Mel sair da jacuzzi. O
que tinha acontecido? Por que de doce e maravilhosa
ela tinha se transformado de uma hora para a outra
em uma pessoa arisca e antipática?
Sem olhar para ele, Mel pegou o roupão que
havia largado ali, vestiu-se e foi embora enquanto
Björn a olhava sair.
Ele também gostava que ela não desse moleza.
Era provocante.
Era tentador.
Minutos depois, quando a amiga e Carl
entraram na jacuzzi, Björn não conseguiu se
concentrar. O cheiro de morango estava impregnado
nele. Levantou-se, viu que a mulher o olhava.
Desculpou-se: — Sinto muito, Kristel, mas tenho que
ir.
16
Depois do que aconteceu naquela noite, nada foi
mais o mesmo nem para ele, nem para ela.
Björn não conseguia mais se concentrar no
trabalho e passava os dias inteiros pensando nos
momentos maravilhosos que tinha vivido com Mel.
Gostava da entrega, da força e da paixão que via
nela e desejou poder repetir a experiência. O
problema é que Mel tinha desaparecido. Não voltou
ao clube durante a semana seguinte, nem à casa de
Judith e Eric.
Onde ela tinha se metido?
Na sexta-feira, Mel estava em casa se
arrumando. Era a noite da festa da empresa do
marido de Judith, e ela só pensava em se divertir. A
campainha tocou e, quando Mel abriu, seu grande
amigo Robert surgiu vestido de smoking preto.
— Uau, cara, como você está gato! — Mel
elogiou.
O militar sorriu e exclamou:
— Tenenteeee... você está deslumbrante!
Ao ouvir Robert chamá-la daquele jeito, Mel
deixou claro: — Isso de “tenente” você pode deixar
de lado! Lembra que eu não quero que as pessoas
saibam o que eu faço, tá?
— Claro, tenente — Robert zombou.
Mel estava se olhando no espelho quando Sami
saiu do quarto.
— Pincesaaaaa... — sussurrou a pequena ao
ver a mãe.
— É verdade, querida, hoje a mamãe está
tentando ser uma princesa.
Robert, babando sempre que via a menina,
pegou-a nos braços e apontou um pacotinho.
— O que o tio Robert te trouxe? — ele
perguntou.
Sami pegou o pacote e rasgou o papel de
presente com as mãozinhas.
— Uma coloa losa de pincesaaaaaa! — gritou
emocionada.
— Outra? — Mel perguntou achando graça.
Robert, que sabia como a menina gostava de
coroinhas, fez que sim com a cabeça.
— Eu vi na minha última viagem a Bagdá e não
consegui resistir.
Os dois riram, e, olhando mais uma vez para ela,
Robert repetiu: — Você está deslumbrante, Mel.
Com aquele vestido azul-royal tomara que caia,
ela parecia qualquer coisa, menos militar.
Dez minutos mais tarde, já com Sami na cama e
depois que a vizinha chegou para cuidar de sua filha,
Mel pegou um xale preto combinando com a bolsinha
e piscou para seu acompanhante.
— Vamos nos divertir.
No salão de festas, muitos carrões se
amontoavam na entrada. De braço dado com
Robert, Mel entrou e logo sorriu ao ver a elegância
daquele lugar. Encantada, aceitou uma taça de
champanhe oferecida pelo garçom. Judith apareceu
em seguida, usando um vestido vermelho-paixão.
— Você veio, que alegria! — ela exclamou,
aproximando-se deles.
— Eu te disse que se estivesse na cidade eu
viria — Mel respondeu e, olhando para seu
acompanhante, acrescentou: — Judith, este é o meu
grande amigo Robert Smith.
Robert olhou para ela e beijou sua mão.
— Prazer em te conhecer, Judith — ele disse
—, obrigado pelo convite.
Uma hora mais tarde, em meio a um drinque,
Mel avistou Björn a distância. Ele estava
impressionante de smoking. Ela sentiu a boca ficar
seca, e seu estômago dar uma volta quando lembrou
do que tinham feito juntos na outra noite. Björn não a
viu. Estava ocupado conversando com várias
mulheres que, como sempre, lutavam para ser o
centro de sua atenção.
Björn só notou Mel durante o jantar e, a partir
de então, não conseguiu mais tirar os olhos dela. Mal
podia acreditar em como ela estava maravilhosa,
feminina e diferente com aquela roupa. Mas logo sua
expressão ficou sombria quando começou a
especular quem poderia ser o homem que a
acompanhava e onde é que ela tinha se metido
durante todo aquele tempo.
Assim que o jantar acabou, a orquestra
começou a tocar e Robert tirou Mel para dançar. Ela
aceitou, pois era uma música agitada. Divertiram-se
dançando durante horas até que a orquestra mudou
de ritmo. Quando começou a tocar a canção
romântica Blue Moon, as pessoas se abraçaram e
Mel não quis mais dançar.
Blue moon.
You saw me standing alone.
Without a dream in my heart.
Without a love of my own.
Judith notou que Mel já não estava mais na pista
com o acompanhante, por isso, foi até eles e os
apresentou a vários convidados. Todos ficaram
encantados e a conversa rolou solta. Algum tempo
depois, Robert tirou uma senhora para dançar.
Björn tinha passado boa parte da noite
observando Mel a distância, sem conseguir parar de
olhar. Ali estava a mulher que não saía de sua cabeça
e estava mais bonita do que nunca. O vestido azul-
royal ajustava-se ao seu corpo de um jeito muito
sensual. Ele teve vontade de se aproximar. Saber que
embaixo daquela roupa se escondia a tatuagem que
ele tanto gostava fez com que ficasse com água na
boca. Durante vários minutos observou sem ser visto.
Vários homens gravitavam ao redor dela, mas Mel,
sem que Björn soubesse como, conseguia se livrar
deles. Aquela imagem o fez rir. Resolveu ir até ela.
— Ora, ora, ora, mas olha só quem está aqui...
Assim que Mel ouviu aquela voz, seu corpo
ficou tenso. Ela se virou e deu de cara com o homem
que tinha sido o personagem principal dos seus
sonhos nos últimos dias. Tomando um gole de seu
drinque, ela comentou: — Cara, mas não está todo
mundo aqui?
Aquele tom de voz, principalmente depois do
que tinha acontecido entre os dois, deixou Björn
confuso.
— Fiquei te esperando no Sensations —
começou a dizer.
— Jura?
— Juro. Por que você não foi?
Mel tentou parecer tranquila e afastou o cabelo
do rosto.
— Tive outros compromissos.
— Com o americano que veio com você?
Mel sorriu e não respondeu.
— É bom você se afastar dos americanos —
Björn acrescentou —, eles não são boa companhia.
Ela ficou curiosa para saber o que aquilo
significava.
— Ué, mas o que você tem contra os
americanos?
A expressão de Björn não demonstrava
nenhuma reação. Ele bebeu um gole de seu copo e
respondeu: — Simplesmente não gosto deles. Escuta
o que eu estou te dizendo. Eles não são boa gente.
Mel não respondeu. Se respondesse, acabaria
dizendo coisas que não deveria, por isso, ficou
calada. Durante algum tempo, os dois olharam para a
pista. Björn viu que ela não ia abrir a boca e então
perguntou: — Por que você não está dançando com
o seu acompanhante?
Ela não revelou os verdadeiros motivos.
— Porque não estou com vontade.
Björn estendeu a mão para ela e insistiu:
— Quer dançar comigo?
Mel o encarou, mas com um sorriso frio no
melhor estilo tenente Parker, recusou: — Não,
obrigada.
Naquele instante uma das mulheres da festa
chegou perto de Björn e começou a conversar com
ele. Durante algum tempo, Mel ficou ouvindo, até que
se cansou do falatório e de ver que ela não parava de
se insinuar. Afastou-se à procura de Robert, que
estava conversando com o marido da mulher que
tinha acabado de convidar para dançar. Foi até lá e
disse: — Desculpe atrapalhar, mas eu queria ir
embora.
Robert não questionou. Pegou Mel pelo braço e
respondeu: — Quando você quiser, linda.
Björn, atento aos movimentos dela, vendo que
os dois caminhavam até a saída, aproximou-se e
parou na frente deles.
— Você já está indo? — ele perguntou,
olhando para Mel.
Ela fez que sim e beijou Robert com
sensualidade no pescoço.
— O americano e eu temos planos —
respondeu. — Algum problema?
Björn, incomodado, não respondeu. Mel e seu
acompanhante continuaram o caminho. Fora do salão
de festas, Robert, que tinha ficado surpreso com
aquilo, perguntou: — Posso saber de onde veio esse
beijinho?
Mel sorriu enquanto fazia sinal para um táxi
parar.
— Coisa minha, seu intrometido — ela
respondeu.
Robert lembrou-se de onde tinha visto aquele
sujeito antes.
— Aquele é o cara que estava conversando
com você no boliche, não é?
Mel respondeu sem querer mentir:
— É.
O militar não podia acreditar naquela reação de
Mel por causa de um homem.
— Você queria fazer ciúmes pra ele, por isso
me deu um beijo no pescoço?
— Não inventa, cretino.
Porém, Robert estava achando aquilo tudo
muito divertido.
— Mel... não mente pra mim, que eu te conheço
muito bem. Você gosta dele. Carambaaaaaa!
Finalmente... Não consigo acreditar!
Ofendida por aquele comentário, Mel deu um
soquinho de leve no ombro de Robert e disse para
fazê-lo ficar quieto: — Não enche, Robert Smith, e
bico calado.
17
Na manhã seguinte, chateado com o que tinha
acontecido na noite da festa, Björn decidiu ir atrás de
Mel. Como sabia onde ela morava, andou por perto
do prédio dela para ver se a encontrava por acaso. E
nada. Vários dias se passaram assim, até que em uma
manhã sua sorte mudou. Björn viu Mel sair da
portaria com a filha e decidiu segui-las. Com toda a
certeza, por causa do horário, ela devia estar levando
Sami para a creche.
Dito e feito. Depois de deixar a filha, Mel entrou
no carro e se dirigiu para o centro da cidade. Lá
visitou algumas lojas e, depois de colocar uns
pacotes no porta-malas, voltou a entrar no veículo.
Björn sabia que era agora ou nunca.
Mel acendeu um cigarro, ligou a música e
começou a cantar. Com tranquilidade, deu a partida,
engatou a primeira, acelerou e quando viu que alguém
entrava na sua frente, freou com tudo no meio da rua.
Assustada, saiu do carro batendo a porta com força.
— Mas você é idiota?
— Não. E joga esse cigarro fora.
Björn apagou o cigarro dela no chão. Sem
entender o que ele pretendia, ela protestou: — Por
acaso você quer que eu te atropele?
— Eu te atropelei e você ainda está viva. Além
disso, te dei a oportunidade de se vingar — ele
zombou. — Agora estamos quites e eu vou poder
dormir tranquilo à noite.
Surpresa e perdida, ela sussurrou:
— Cretino.
Aquela mulher o fazia sentir coisas que o
deixavam fora de seu juízo perfeito. Björn a puxou
pelo braço e a trouxe para junto de si. Sem dizer
nada, beijou-a num impulso cheio de paixão. Mel
sentiu as pernas bambas com o calor que Björn
provocava nela, ali no meio da rua.
— Faz dias que estou atrás de você — Björn
revelou quando seus lábios se separaram.
— E pra quê? — Mel perguntou com um fio de
voz depois daquele beijo.
Ela não estava esperando encontrá-lo e tinha
gostado bastante da surpresa.
— Pra continuar com o que deixamos pela
metade no outro dia — Björn respondeu —, e não
me chama de “cretino”, você sabe que eu odeio essa
palavra.
— Você ficou louco?
— Fiquei, e excitado também.
— Mal são nove da manhã.
— Hora fantástica pra você se enfiar na minha
cama ou eu na sua — ele rebateu.
— Me solta!
— Na minha casa ou na sua? Você decide —
insistiu Björn enquanto um carro buzinava. O Opel
Astra de Mel estava bloqueando o trânsito.
— Nem em sonho.
— Vamos, não precisa resistir, linda. Você me
deseja, aceite isso. Pensa assim: se eu soubesse que
não ia conseguir ficar com você, eu desistia, mas a
sensação que eu tenho é que eu vou conseguir, por
isso não vou recuar. Só desisto quando tenho cem
por cento de certeza de que não vai dar certo.
Mel não acreditava nos próprios ouvidos.
— Como sempre, você tão prepotente e
convencido — ela respondeu.
Disposto a ir até o fim para conseguir o que
desejava, Björn chegou perto dos lábios dela outra
vez e sussurrou: — Escuta aqui, cabeça-dura, você
me deseja tanto quanto eu te desejo. Você foi atrás
de mim no clube e agora quem veio atrás de você fui
eu. Quero fazer aquilo de novo e não vou parar de
pedir até você me dizer que sim. E sabe por quê? —
Ela negou com a cabeça e ele prosseguiu: — Porque
outro dia eu vi em você uma mulher que até aquele
momento eu nunca tinha visto. Além de arrogante,
boca suja em alguns momentos e sexy, você me
mostrou que era doce, carinhosa e, principalmente,
que sabia sorrir. E eu gostei do que vi.
Agora eram três carros que buzinavam e Mel,
percebendo, disse:
— Tenho que sair daqui. Não vê que estamos
atrapalhando o trânsito?
Björn beijou-a novamente. Dessa vez apertou o
corpo dela mais junto do seu para que ela sentisse
sua ereção. Com os lábios encostados nos dela,
Björn murmurou: — Que os carros se f...
— Você está louco?
Björn respondeu com um sorriso que aqueceu a
alma.
— Louco eu estaria se não quisesse levar a linda
namorada do Thor pra minha cama. — Vendo que
ela erguia as sobrancelhas, ele acrescentou: — Por
mais grossa que você decida ser hoje, juro que não
vai escapar de mim tão fácil. Posso ser tão grosso
quanto você.
Essa insistência finalmente fez Mel sorrir.
Enquanto isso, os motoristas tocavam as buzinas
cada vez mais irritados.
— Björn, a gente parou o trânsito.
— Uau... Você me chamou pelo nome? Repete.
Mas os carros continuavam buzinando.
— O trânsito, não está vendo? — ela insistiu.
— Estou falando com você. Presta atenção.
— Mas os carros...
— Os carros que se fodam — Björn repetiu.
— E justo você me chamando de “grossa”?
Com um sorriso sedutor, ele pediu:
— Fala o meu nome outra vez.
Mel estava gostando daquela loucura, por isso
cochichou:
— Björn.
— Hmm... Adoro como você o pronuncia. O
jeito como você faz biquinho me deixa louco. Fala
outra vez.
A fila de carros começava a ficar quilométrica e
Mel, incapaz de não ouvir as pessoas gritando,
acabou cedendo: — Tudo bem, Björn, escolho a sua
casa. Mas eu vou no meu carro.
— Não, linda. Você vem no meu. Não confio
em você.
— Mas...
Tirando as chaves da mão dela, ele acrescentou:
— Prometo que vou ser um cavalheiro e venho
buscá-lo com você.
Em êxtase, Mel concordou e, enquanto pedia
desculpas aos motoristas que reclamavam, Björn foi
estacionar o carro dela. Depois de trancar a porta,
ele entregou as chaves, pegou a mão dela com
firmeza e a levou até o Aston Martin.
Lá dentro, Mel ainda continuava sem entender
como tinha se deixado levar por aquele homem.
— Reconheço que o seu carro é incrível —
declarou ela.
— Você gostou?
Mel olhou o acabamento caríssimo daquele
veículo e concordou.
— Sim, James, gostei muito do seu Aston
Martin. Quando quiser, pode me dar um de presente
da cor que preferir.
Björn sorriu. Colocou a chave no contato e a
suave música soul começou a tocar. Mel desligou o
rádio na mesma hora. Björn ficou surpreso, mas não
disse nada. Só queria chegar em casa, tirar a roupa
dela e aproveitar.
Entraram na garagem do prédio e estacionaram.
Björn desceu e, antes que pudesse abrir a porta
como um cavalheiro, Mel já estava do lado de fora.
Björn fechou a porta, pegou a mão dela mais uma
vez com autoridade e a levou até o elevador.
Chegaram ao quarto andar e entraram no
apartamento entre beijos. Björn desativou o alarme,
fechou a porta e, prensando Mel contra a parede,
murmurou: — Outro dia eu te mostro a casa. Agora
estou morrendo de vontade de tirar a sua roupa e
brincar com você.
Mel não falou nada. Não conseguia.
Era a primeira vez, desde a morte de Mike, que
ela ficava sozinha na casa de um homem onde queria
estar. Suas aventuras sexuais sempre tinham sido em
bares ou em hotéis, nunca na intimidade da casa de
alguém. Mas ela estava ali, na casa dele, sem saber
ainda realmente por quê.
O corpo de Björn a prendia contra a porta
enquanto as mãos dos dois voavam pelo corpo um
do outro, procurando satisfazer o desejo. Tiraram
peça por peça de roupa até que ficaram sem nada.
— Como eu adoro o seu cheiro de morango...
Mel sorriu. Pela primeira vez em muito tempo,
queria deixar de ser a tenente Parker e se converter
numa mulher carinhosa que desejava amar e ser
amada. Quando viu que ele segurava uma camisinha,
ela, com um sorriso sexy no rosto, pegou, abriu, se
agachou e começou a colocar nele.
Björn estava a ponto de enlouquecer com os
movimentos dela. Enquanto Mel usava os dentes
para desenrolar o preservativo pelo pênis ereto, com
as mãos apertava sua bunda. Camisinha no lugar,
Mel deu-lhe uma palmada, olhou nos seus olhos e
disse quando se levantou: — Vamos ver o que você
é capaz de fazer, píncipe.
Ele sorriu e apertou Mel novamente contra a
porta.
— Pode ter certeza de que sou capaz de fazer
muitas... muitas coisas.
Sorriram e Björn girou Mel de costas para que
ela ficasse olhando para a porta. Viu a tatuagem.
Aquela que tinha chamado tanto sua atenção.
Deliciou-se passando a língua por ela.
— Adoro a sua tatuagem.
— Eu também.
— Qual o significado dela?
Pensando naquela pergunta, Mel sussurrou,
excitada pela forma como Björn a tocava.
— Os apanhadores de sonhos afastam os
medos e os pesadelos, e eu decidi ter o meu no
próprio corpo.
Björn sorriu e veio passando a língua desde o
desenho até o pescoço.
— Você é tão fogosa quanto eu — observou
ele —, e mesmo que eu saiba que você gosta de
brincar com homens e mulheres, hoje, a única pessoa
que vai te comer sou eu.
— Eu gosto de sexo, do prazer e dos jogos
tanto quanto você.
Excitado enquanto tocava a tatuagem, ele
acrescentou:
— Quero brincar com você e com outros
homens em outra ocasião. Mas agora, abre as
pernas, empina essa bundinha gostosa e se mexe,
quando eu estiver dentro de você, pra eu ver como
se move a sua bonita tatuagem.
Mel obedeceu. Quando sentiu que ele abria seus
lábios vaginais e a penetrava, grudou a boca na porta
e gemeu. Sentir Björn tão duro e tão poderoso
dentro dela despertou seus sentidos. Sentiu-se viva.
Ela gritou com o primeiro movimento que a penetrou
mais fundo.
Seus gritos de prazer carregados de erotismo
deliciaram Björn, que parou por um instante e
murmurou com a voz rouca no ouvido dela: —
Adoro quando você se mexe e a tatuagem balança.
— Incrível... Continua.
Björn enfiou um dedo na boca dela para que
chupasse e a penetrou várias vezes. Mel deixou
Björn fazer como queria, seu corpo estava se
deliciando com aquele ataque devastador. Em
nenhum momento ela tentou tomar o controle e ele
ficou grato por isso.
Ela moveu os quadris para trás e a brincadeira
continuou. O pênis era absorvido dentro dela e Björn
observava como o apanhador de sonhos tomava vida
e balançava com aqueles movimentos.
Calor... o calor era tremendo.
Björn soltou a mão que segurava o quadril dela
e deu um tapa seco em sua bunda que ressoou.
Deixou cair o corpo por cima dela, agarrou-a pela
cintura com força e aumentou o ritmo.
— Assim... vamos... geme... Quero ouvir.
Mas os gemidos duraram pouco. Um orgasmo
devastador alcançou os dois ao mesmo tempo e
juntos sentiram o prazer tomar conta de tudo. Sua
respiração descompassada deixou claro que aquele
jogo tinha que continuar. Alguns minutos depois, com
a respiração mais relaxada, Björn saiu de dentro dela
e tirou o preservativo. Em seguida, virou Mel de
frente, para beijar sua boca.
— Fantástico — Mel suspirou.
Björn sorriu sem afastar a boca e murmurou:
— Eu te disse, linda, que eu sabia fazer muitas
coisas.
— Prepotente — ela riu, achando graça.
— Muito prepotente, e com as atrevidinhas que
nem você, ainda mais.
Riram e Mel mexeu a mão para se abanar. Em
seguida, Björn perguntou:
— Aliás, que história é essa de afastar os
pesadelos e os medos com o apanhador de sonhos
nas suas costas? Que medos você tem?
Incapaz de ser sincera, Mel murmurou:
— Tento afastar os fantasmas, mas veja só, eu
estou aqui com o fundador dessa espécie.
Björn gargalhou. Mel o agarrou pelo pescoço,
deu um salto e pulou no colo dele.
— A ducha é ali? — ela perguntou.
Björn se surpreendia pela naturalidade que Mel
demonstrava naquele momento, tão diferente de
como ela costumava ser.
— Não, ali fica o meu escritório. — Vendo que
ela o encarava, ele esclareceu: — Eu trabalho em
casa. Sou advogado.
Mel moveu a cabeça para mostrar que entendia
e não fez mais perguntas.
— Me leva pro chuveiro, estou precisando
muito.
— Nós dois precisamos — ele riu.
Björn caminhou com Mel no colo até o
banheiro. Eles passaram pelo quarto dele e ela sorriu
ao ver a cama enorme. Quando chegaram ao
banheiro elegante e espaçoso, Björn colocou Mel no
chão.
— Vou pegar a toalha.
Ela concordou. Sozinha, olhou melhor para
aquele banheiro enorme. Era espetacular: duas pias,
jacuzzi, ducha de hidromassagem. Parecia um
banheiro de anúncio. Não tinha nada a ver com o
cômodo minúsculo que ela tinha em casa. Enxugando
o suor que escorria por seu corpo, olhou-se no
espelho e, desta vez, diferente de todas as outras,
sorriu. Virou-se de costas e viu a tatuagem. Tinha
feito depois que Sami nasceu. Aquele apanhador de
sonhos tomava conta dela e de sua filha. Era o que
ela acreditava e era assim que devia ser.
A expressão de Mel mudou. A lembrança de
Mike pairava ao seu redor e ela sacudiu a cabeça
para fazer a imagem desaparecer. Ele não tinha nada
que estar ali. Björn entrou e a viu de pé se olhando
no espelho.
— Que foi? — ele perguntou.
Apagando os pensamentos, ela respondeu:
— Eu estava esperando você.
Björn sorriu e colocou as toalhas em cima de um
banquinho moderno. Pegou Mel pela cintura e disse
quando entravam no chuveiro: — Já cheguei, vamos
tomar um banho.
O desejo capturou os dois mais uma vez. Fazia
mais de dois anos que Mel não sentia as mãos de
outra pessoa ensaboando suas costas, por isso
fechou os olhos e curtiu. Deu um sorrisinho de prazer
quando os lábios de Björn pararam em seu pescoço.
Björn, totalmente surpreso pelo que estava
acontecendo, aproveitou tanto ou mais que ela. Mel,
que era a cabeça-dura que sempre o tirava do sério,
na intimidade estava mostrando ser doce, sensual e
dengosa.
Isso o deixou louco e quando ela se agachou,
pegou o pênis dele e o enfiou na boca, ele teve que
se agarrar nas torneiras do chuveiro para não cair de
tanto prazer. Ela o chupou com carinho e Björn
perdeu o fôlego com a pressão das mãos dela em
seus testículos e com a boca ao redor do seu pênis.
Quando sentiu que ia gozar, ele fez Mel parar.
— Se você continuar, eu não vou aguentar.
— Então deixa vir — ela respondeu, pegando
mais uma vez nos lábios aquele pênis enorme e duro.
Björn se apoiou na parede e decidiu seguir o
conselho. Mel, sentindo desejo, agarrou a bunda
firme que ele tinha e aproveitou. Abriu a boca o
máximo que conseguiu para dar mais espaço e
obrigou Björn a bombear algumas vezes. O jeito
como ele se movia, como suas pernas tremiam e
como arquejava fizeram Mel saber que o clímax
estava perto. Foi então que ele soltou um grunhido
másculo e seu corpo começou a ter espasmos. Ela o
agarrou pela bunda e o apertou mais forte contra sua
boca e, naquele instante, soube que tinha conseguido
seu propósito: o havia feito seu.
Instantes depois, ela se levantou do chão e
enfiou o rosto na água para limpar os restos de
sêmen. Em seguida, colou seu corpo ao dele, que
continuava de olhos fechados, e murmurou: —
Bonequinho, você está me devendo um orgasmo.
Mesmo nas nuvens, Björn concordou. O que
Mel acabava de fazer tinha sido maravilhoso,
diferente. Sua maneira de tocá-lo, de possuí-lo, de
exigi-lo o deixara sem ar e sem reação. Quando, por
fim, conseguiu abrir os olhos, ele disse: — Estou te
devendo o que você quiser, linda.

Vinte minutos depois, quando saíram do banho


e entraram nus no quarto, Mel parou ao ouvir soul
music tocando ali. Fazia quase dois anos que não se
permitia ouvir aquele tipo de música de que gostava
tanto em outras épocas. Quando Mike morreu, o
soul morreu com ele, e Mel decidiu não ouvir mais
nada que a deixasse triste, por isso só ouvia rock e
música eletrônica. Era seu jeito particular de tentar
evitar que as lembranças a enlouquecessem.
— Você dança?
Ela negou rapidamente com a cabeça. Björn,
desconcertado, olhou para ela e lembrou que ela
também não tinha dançado esse tipo de música na
festa de Eric.
— Por que não?
Mel o olhou nos olhos e respondeu com
sinceridade:
— Nunca mais dancei esse tipo de música
desde que Mike morreu.
A franqueza dela, tão dolorosa num momento
como aquele, o surpreendeu. Ele chegou com os
lábios perto dos dela e a beijou carinhosamente.
— Sinto muito. Sinto muito pelo Mike.
— Não se preocupe.
Depois de alguns instantes de silêncio, Björn
perguntou:
— Quanto tempo faz que ele morreu?
— Quase três anos — ela respondeu com um
fiozinho de voz.
Björn pegou uma camisa limpa do armário,
colocou por cima dos ombros dela e depois a
abraçou, levando-a até a cozinha. Ali ele colocou
Mel sentada e preparou em silêncio um café com
torradas. Podia ver a angústia no olhar dela. Um
olhar que adorou no mesmo instante.
Ele se sentou na frente dela e os dois
começaram a comer. De repente, sem saber por quê,
Mel resolveu se abrir com Björn. Contou sobre a dor
que sentia. Contou sobre seu desespero quando
soube da morte de Mike. Contou que ele era um
militar americano, mas não revelou que ela também
era.
Björn escutou tudo muito impressionado.
Aquela mulher vulnerável e natural, que de repente
começava a abrir o coração, era o que ele tinha visto
de mais genuíno em toda a vida.
Ficaram daquele jeito por cerca de uma hora.
Ele não reclamou quando Mel fumou. Ela agradeceu.
— Pode tirar sarro — Mel logo zombou,
apagando o cigarro num cinzeiro que Björn tinha
buscado. — Agora, além de insuportável e
arrogante, você vai achar que eu sou uma chata de
galocha. A gente veio aqui pra se divertir e eu passei
uma hora falando da minha vida e das minhas
desgraças.
Na tentativa de amenizar o momento, ele sorriu.
Tocou o contorno do rosto dela com ternura e
perguntou: — Quantos anos você tem?
— Tenho 33, mas se eu diminuo a idade como a
sua amiguinha loira, eu digo que tenho 25 e tiro onda.
Björn gargalhou. Curiosa, foi a vez dela
perguntar:
— E você, quantos anos tem?
— Trinta e dois.
— Nossa... Sou mais velha que você e posso te
levar pro mau caminho.
— Socorro! — ele zombou.
Quando os dois pararam de rir, Björn afastou o
cabelo do rosto dela e as mãos de Mel foram pegar
outro cigarro.
— Você não deveria. — Ela levantou a cabeça
e ele continuou: — Fumar faz muito mal pra saúde e
eu não gosto de te ver fumando.
Mel sorriu, mas foi a tenente Parker quem
respondeu:
— Ah, sinto muito. Eu fumo, goste você ou não.
Björn não insistiu. Quem era ele para proibi-la
de fazer alguma coisa. Mel, porém, levou em
consideração o seu pedido e aproveitou que estava
de bom humor para guardar o cigarro na bolsa.
— Tudo bem. Eu estou na sua casa e vou
respeitar as suas regras.
Com um sorriso caloroso, Björn agradeceu a
gentileza.
— Desde quando você pratica esse tipo de
sexo? — ele quis saber.
— Faz uns nove anos, mais ou menos, desde a
minha época de vagabunda punk.
— Vagabunda punk? — Björn riu.
Achando graça da cara dele, Mel acrescentou:
— Teve uma época em que eu dava mais
trabalho em casa do que qualquer outra coisa.
Coitados dos meus pais. Me perdi. Fumei maconha
até dizer chega e um dia fui a uma festa que terminou
numa orgia fora de série. No dia seguinte, mal
conseguia acreditar no que eu tinha feito, mas gostei
da experiência e repeti. Logo, por circunstâncias da
vida, meu círculo social mudou e depois eu conheci
Mike. Ele estava por fora de tudo isso e fui eu quem
o levou a esse mundo de sexo e fantasia. A verdade
é que ele gostou e se divertiu muito.
— Você já fez sado?
— Já, mas leve. Ter que apanhar pra sentir
prazer não é a minha praia. Mas eu reconheço que
alguns joguinhos de sado com algemas e chicotes de
seda me excitam!
Björn entendia. Ele gostava que ela fosse sincera
e experiente. Continuou fazendo perguntas: — Você
já experimentou de tudo?
Mel sorriu e respondeu:
— Se você estiver falando de homens e
mulheres, já. E gosto mais dos homens. Mesmo
assim, de vez em quando não ligo de brincar com
alguma mulher.
— O que você gosta nos homens?
— Adoro ficar no meio deles. Fico excitada de
deixar que brinquem comigo e de brincar com eles.
Quando quero, sou eu quem oferece, sou eu quem
pede ou sou eu quem exige.
— E das mulheres, o que você gosta?
— Nós mulheres sabemos muito bem onde
encontrar o prazer uma na outra. Quando estou com
mulher, fico só curtindo, me deixando levar, mas te
digo que o que mais me excita é o vigor masculino.
Você já esteve com outros homens?
Björn soltou uma gargalhada e respondeu:
— Estar... estar... só uma vez e não gostei da
experiência. Comer um cara não é o que me excita,
prefiro penetrar uma mulher onde ela quiser. Por isso
a experiência que tenho com os homens se limita a
deixar que me toquem quando estamos no meio de
um jogo, ou quando algum deles gosta de colocar o
meu amiguinho na boca. Mais nada. Mas reconheço
que ver mulheres transando me deixa louco. Vocês
ficam muito atraentes e sensuais nos seus
movimentos, e quando te vi com uma mulher no
Sensations fiquei com muito tesão. Parecia que você
estava gostando.
— Sim, claro que eu gosto, se não gostasse,
não faria — Mel respondeu.
Essa sinceridade deixou Björn excitado, por
isso, voltou a perguntar:
— Por que você não queria que o Eric e a Jud
soubessem que...?
— Por vergonha — Mel interrompeu sem
deixar que ele terminasse.
— Vergonha? Você tem vergonha? — Björn
achou curioso.
— Um pouco, sim. — Ela riu. — O sexo e as
minhas fantasias não são algo que eu goste de
compartilhar com as pessoas. Digamos que é o meu
segredo.
Björn concordou. De certa forma, ele entendia.
Também não saía por aí falando que tipo de sexo
costumava fazer.
— Com certeza alguma vez você já deve ter ido
ao Sensations no mesmo dia em que a Jud e o Eric,
mas em reservados diferentes. Assim como eu te
encontrei, eles poderiam ter te encontrado. — Vendo
a expressão infantil com que ela o observava, Björn
murmurou: — Aliás, você anda me deixando
espantado.
— Por quê?
Björn tirou o cabelo do rosto dela, num gesto
íntimo.
— Poder falar com você naturalmente e manter
uma conversa interessante é mais do que eu pensei
que fosse conseguir.
Mel sorriu como uma menina e emocionou
Björn.
— Me beija — ele pediu.
— O quê?
— Me beija — insistiu.
Mel pensou. Aquilo não era uma sugestão, era
uma exigência e, assim, fez o que teve vontade.
Aproximou os lábios, passou o nariz no dele e, por
fim, enfiou a língua em sua boca e a devorou.
Quando seus lábios se separaram, Björn olhou nos
belos olhos azuis dela e pediu: — Posso perguntar
umas coisas que estão me atormentando?
— Depende. Você pergunta e, se eu não gostar,
não respondo.
— A Melanie arrogante está de volta? — ele
comentou sorrindo.
— Está.
— Você é sempre tão direta? — Björn riu.
— Quase sempre. Tudo depende do cretin...
espertinho na minha frente.
— Neste caso, o cretin... espertinho sou eu.
— Pode crer... baby.
— Por que às vezes você é tão sem educação?
— Porque eu posso... e quero, e agora, cala a
boca!
Divertindo-se com o tom de voz autoritário,
Björn murmurou:
— Não me dê ordens. Você parece um
sargento.
— Gosto mais de tenente.
Ele aceitou o comentário.
— Como Mike era?
— Um bom militar. Roqueiro. Louco. Um
amigo divertido e um péssimo namorado. O Mike era
assim, mas eu gostava dele do jeito que era.
— Por que você diz que ele foi um péssimo
namorado?
Mel levantou as sobrancelhas.
— Eu não era a única mulher no coração dele.
Mas eu só soube disso quando ele morreu. E graças
a ele, hoje em dia posso dizer que não confio em
nenhum exemplar da sua espécie.
— Pra você nós somos uma espécie?
Melanie sorriu.
— Uma espécie que eu gosto de ter na cama,
mas logo depois prefiro que eles voltem pras suas
casinhas pra que eu continue a minha vida, cuide da
minha filha e faça o meu trabalho.
— Aliás, você trabalha em quê?
A pergunta pegou Mel de surpresa e, como
sempre fazia, respondeu:
— Sou aeromoça.
Björn assentiu com a cabeça.
— Conheço várias aeromoças.
— Que mentira! — ela zombou e fez Björn rir.
— Em que companhia você trabalha?
— Air Europa — ela respondeu rapidamente,
lembrando-se do telefonema de Fraser.
— Que idiomas você fala?
— Inglês, espanhol, alemão e um pouco de
italiano.
— Você gostava que o Mike fosse militar?
Mel sorriu e não respondeu. Omitindo que ela
também era militar, perguntou por sua vez: — Você
não gosta do exército?
Björn sacudiu a cabeça.
— Nem um pouco.
— Por que não?
— Acho que você tem que ser louco hoje em
dia pra fazer parte de algum exército. E nem estamos
falando do exército americano, que costuma estar
metido em todos os conflitos possíveis e imagináveis.
A crítica aos militares americanos tocou um
ponto sensível. Mais uma vez ela perguntou: — Mas
me diga... o que você tem contra os americanos?
— Não gosto. São convencidos e prepotentes.
Mel se ofendeu, mas não disse o que pensava.
— Ora, que nem você! — ela respondeu e,
vendo como ele a olhava, sorriu e acrescentou: —
Você não acha sexy as mulheres do exército?
— Não.
— Por que não?
— Porque eu não gosto de nada que tenha a ver
com o exército. Acabei de falar. — Tentando mudar
de assunto, ele disse: — Aliás, vestida de aeromoça
você deve ficar muito sexy. Da próxima vez, traga o
uniforme. Vou adorar arrancar ele de você.
Mel riu alto quando ouviu aquilo, mas ficou
pensando no que ele tinha dito. Estava claro que, por
ser militar e americana, nunca ia acontecer nada além
de sexo entre eles dois. Mesmo que uma parte dela
tivesse gostado disso, outra ficou triste. O que estava
acontecendo?
Björn, alheio ao que passava na cabeça dela e
querendo conduzir o assunto outra vez para o que lhe
interessava, perguntou: — Também é por causa do
Mike que você não beija ninguém?
Mel concordou.
— Desde que ele morreu, não beijei nenhum
outro homem. Você foi o primeiro.
Björn apertou um pouquinho a coxa dela.
— Hum... gostei de saber.
Sem medo, ele voltou a beijá-la. Quando se
separaram, ela murmurou:
— Existem coisas demais na minha vida que têm
a ver com Mike.
— Inclusive a música? — Ela ficou surpresa
com a pergunta, mas quando foi responder, Björn
continuou: — Mike gostava de Bon Jovi?
— Pra ele Bon Jovi era o que existia de melhor!
Björn moveu a cabeça. Cada resposta explicava
um pouco mais o comportamento dela e essa última
revelação o fazia compreender por que Mel sempre
escutava aquele cantor quando ia ao clube: era
porque a deixava mais próxima de Mike. Mas Björn
queria fazer com que ela esquecesse e se
concentrasse só nele.
— Mel, a vida continua para os vivos. Você tem
que dançar, cantar, beijar, viver, sorrir, se divertir.
Você tem uma filha e não pode impedir que ela veja
a mãe dela feliz. Além disso, tenho certeza de que
Mike gostaria que você agisse assim, não acha?
Ela fechou os olhos. Quantas vezes tinha ouvido
aquilo?
Concordou.
Lembrou-se das ocasiões em que tinha dançado
a música Always, de Bon Jovi, abraçada a Mike.
Aquela era a canção deles e continuaria a ser até a
morte. Mas ela não tinha morrido e, lembrando-se da
carta que tinha lido tantas vezes sozinha, levantou-se
e tentou dar um passo adiante por aquele homem que
estava ali com ela.
— Você tem razão — ela disse decidida. —
Isso tem que mudar. Sinto muito, mas você vai ser a
minha primeira vítima.
— Vítima?
Mel fez que sim e o pegou pela mão.
— Qual é o seu sobrenome? — ela perguntou.
— Hoffmann. Björn Hoffmann.
Sorrindo, Mel fixou os impressionantes olhos
azuis nele e disse:
— Senhor Hoffmann, quer ser o primeiro a
dançar comigo alguma bela canção de amor?
— Qual o seu sobrenome? — perguntou Björn,
porque não se lembrava.
Mel sentiu vontade de dizer a verdade. Seu
nome era Melanie Parker, mas respondeu por fim: —
Muñiz. Melanie Muñiz.
— Senhorita Muñiz, eu ficaria encantado em
dançar com você a canção que escolher — afirmou
ele, sorrindo e pegando-a pela mão com gentileza.
Os dois gargalharam. Björn pegou Mel nos
braços, levou-a até o quarto de novo e a colocou no
chão.
— São onze da manhã e já que este é um
momento especial na sua vida e eu estou muito
lisonjeado de ser a sua vítima, me diga que canção
você quer dançar.
Paralisada pelos sentimentos que lutavam para
sair, Mel o encarou.
— Não sei. Que tal a primeira música que
começar a tocar no seu som?
Na hora, começaram a soar os primeiros
acordes de um piano. Sem pensar duas vezes, Mel se
aproximou de Björn e passou os braços ao redor de
seu pescoço.
— Parece que é uma música boa — murmurou
ela.
Ele a abraçou. Não disse nada, mas gostava
muito de Bruno Mars e daquela canção em especial.
Same bed, but it feels just a
little bit bigger now.
Our song on the radio, but it don’t
sound the same.
When our friends talk about you,
all it does is just tear me down.
‘Cause my heart breaks a little
when I hear your name.
It all just sounds like “Oooh”...
Mmm, too young, too dumb to
realize.
That I should’ve bought you
flowers and held you hand.
Björn a beijou no pescoço, enquanto se moviam
no compasso da música, e sentiu como ela estava
trêmula.
A canção falava de um homem que tinha
perdido a mulher que amava por só ter pensado em
si mesmo. Lamentava-se de não ter dançado mais
com ela, de não ter lhe comprado flores, de não a ter
levado a festas, de não a ter tratado com carinho
como ela merecia, e só pedia que o próximo homem
que a amasse a fizesse feliz como ele não soube
fazer.
Sem que Mel esperasse, naquele instante Mike
ficou mais próximo do que nunca e isso atormentou
seu coração.
My pride, my ego, my needs
and my selfish ways.
Caused a good strong woman like
you to walk out my life.
Now I never, never get to clean up
the mess I made... Ooh...
Björn ficou preocupado ao que ver que ela
estava com o olhar perdido.
— Você está bem? — ele perguntou,
aproximando a boca de seu ouvido.
Mel fez que sim e engoliu o emaranhado de
sentimentos que aquela música estava provocando
nela. Era como se Mike estivesse se despedindo
através da canção e exigindo que ela seguisse em
frente como tinha pedido em sua última carta.
Björn não parou de olhar para ela enquanto
dançavam.
— Quero que você saiba que gosto dessa
música e, a partir de agora, sempre que eu a ouvir,
vou me lembrar de você — ele sussurrou no ouvido
dela.
— Que música é essa? — ela perguntou com
um fiozinho de voz.
— When I was your man, do Bruno Mars.
Durante os minutos em que a canção durou, eles
dançaram juntos e ele não a soltou. Quando acabou,
Mel o olhou nos olhos.
— Que música linda! — ela exclamou.
— Mas talvez a letra seja um pouco triste, não
acha?
Mel concordou.
— Com o que eu vou te contar agora, você vai
pensar que estou mais louca ainda, mas eu sou uma
pessoa que acredita muito nos sinais e esta música,
neste momento, com essa letra, me fez pensar que o
Mike a colocou no meu caminho para me dizer
adeus.
Houve um silêncio tenso no qual Björn não
soube o que dizer. Por fim, para tentar fazê-la sorrir,
sussurrou algo que a música dizia: — Prometo te
comprar flores.
Achando engraçado, Mel sorriu.
— Não precisa.
Feliz de senti-la tão receptiva, ele a beijou na
ponta do nariz.
— Você não gosta de flores? — Björn
estranhou, e outra música começou a tocar.
— Eu nunca ganhei flores.
Ele a encarou com espanto.
— Nunca ninguém te deu flores?
— Nunca fui o tipo de garota que ganha flores
nem coisas delicadas — ironizou. — Se bem que na
minha época de vagabunda punk me davam sementes
de maconha pra plantar. Se isso puder ser
considerado flor... então ganhei!
Impressionado, Björn se afastou dela. Mel deu
uma grande risada.
— Para de me olhar desse jeito! — ela pediu.
— Você planta maconha!?
— Nãããããooo.
Björn fez uma cara indescritível e Mel,
escondendo que fumava de vez em quando, disse
com voz de comando como fazia no exército: — Me
dá um beijo agora!
— Às ordens — zombou e então devorou os
lábios dela com paixão.
— Obrigada — ela balbuciou meio sem saber o
que fazer, quando as bocas se separaram.
— Por...
— Por não ser o estúpido cretino convencido e
insuportável que eu pensei que você fosse.
— Bom... então obrigado a você também. —
Vendo como ela o observava, acrescentou: — Por
não ser a louca Ironwoman que eu achei que era. Se
bem que agora você me revelou que já foi uma
vagabunda punk, então não sei mais o que pensar de
você.
— Olha, todos nós temos um passado — Mel
zombou.
Os dois riram e então Mel olhou para o relógio.
— Nunca tive um encontro sexual com um
quase desconhecido a essa hora da manhã.
— Fico feliz de saber que sou o primeiro.
Riram novamente, e quando viu que Mel
continuava olhando para o relógio, Björn perguntou:
— O que você está olhando?
— Dentro de três horas e meia tenho que ir
buscar Samantha.
— Não se preocupe, você vai estar lá no
horário.
— Promete?
Björn, consciente do magnetismo que seu
sorriso exercia, olhou lá do alto e disse com a voz
rouca: — Prometo.
Beijos...
Prazer...
Mãos...
Tudo começou de novo e Mel, já que estava a
fim de se divertir, decidiu mudar o rumo que aquilo
estava tomando.
— Você se importa se eu mudar a música? —
perguntou.
— Bon Jovi, não — Björn deixou bem claro,
sorrindo com um olhar desafiador.
Mel concordou. Depois do que acabava de
confessar, entendia perfeitamente que ele não
quisesse ouvir Bon Jovi.
— Prometo — murmurou, dando uma
piscadinha.
— Punk também não.
Mel pôs a mão no coração:
— Mas os Sex Pistols e os Ramones são
ótimos.
— Mas não pra esse momento comigo.
— Tá boooom — Mel concordou com uma
expressão divertida.
Vendo que ela ia até a cozinha, Björn perguntou:
— Ué, mas onde você vai pegar essa música?
— Eu tenho um MP3 na bolsa. Posso colocar?
— Claro, linda, mas você já sabe...
— Nem punk, nem Bon Jovi... Já sei, chatinho!
Björn deu uma risada. Mel saiu do quarto e foi
até a cozinha. Lá encontrou a bolsa em cima do
balcão, abriu e tirou o que estava procurando. Voltou
ao quarto em seguida e conectou o aparelhinho no
som. Vestiu a calcinha, os sapatos de salto e fechou
os botões da camisa que ele havia emprestado.
— Senta na cama e coloca uma camisinha.
— Como?
— Falei pra sentar na cama e colocar uma
camisinha.
— Não... não... não... eu não funciono assim,
linda. Deita na cama e tira tudo isso que você vestiu.
Onde você pensa que vai?
Erguendo a voz como fazia com os seus
militares, Mel respondeu:
— Eh... eh... calado aí... amiguinho.
— Não fala assim comigo ou...
Mas não pôde falar mais nada. Ela lhe deu um
empurrão e o colocou sentado onde queria. Olhou
para ele com superioridade e acrescentou enquanto
pegava uma gravata do armário aberto: — Coloca a
camisinha já!
— Mas olha só como você é mandona!
— Eu gosto de mandar — Mel zombou. —
Então, agora olha, presta atenção e aproveita. Não
me toque e eu espero que você goste do presente.
— Presente?
— Você gosta de striptease?
Björn deu uma grande risada.
— Sério que você vai me dar um striptease de
presente?
— Depois da minha fase de vagabunda punk, eu
tive outra em que frequentei aulas de striptease. —
Ela reparou na cara que ele fazia e então explicou: —
Aprendi na academia, seu cabeça suja.
— Nossa... você não para de me surpreender.
Mel soltou uma risada. Não fazia aquilo há
muito tempo, mas tinha certeza de que ainda
conseguia. Olhou para ele e sussurrou carinhosa: —
Sabia que a palavra strip quer dizer “tirar a roupa” e
tease, “excitar”? — Björn disse que sim. Ela
continuou: — Agora seja bonzinho e não me toque a
não ser que eu peça. Essa é uma parte importante do
espetáculo, tudo bem?
— Prometo ser muito bonzinho, mas quando
você terminar, vou ser muito... muito malvado.
— Uau, isso promete!
Björn fez o que ela pedia, adorando vê-la tão
dedicada. Colocou o preservativo no lugar, fez um
olhar sensual e desafiou: — Surpreenda-me!
Logo em seguida, Mel ligou a música e começou
a tocar Bad to the bone, do ZZ Top. Ela arrastou
uma cadeira e a colocou na frente dele.
Björn aprovou, adorando aquilo tudo. Assobiou
e fez cara de mau. Ele ia amar aquilo.
Logo Mel começou a se mover no compasso da
música, com uma sensualidade que o deixou de boca
seca em décimos de segundo.
Chocado...
Impressionado...
E enlouquecido... Björn olhava Mel movendo o
quadril de um lado para o outro, ao som da canção.
Bad to the bone
Bad to the bone
B-B-B-B-Bad to the bone
B-B-B-B-Bad to the bone
Não conseguiu desgrudar os olhos dela. Vestida
só com a camisa e a gravata, Mel estava fazendo o
melhor striptease que Björn já tinha visto em toda a
sua vida. Não deixou de olhá-la nem por um segundo
enquanto ela lançava mensagens picantes sem abrir a
boca. Mel fazia movimentos lentos, lindos e sensuais,
e o pênis de Björn tremia e exigia estar dentro dela.
Como uma verdadeira profissional, ela se tocou e
passou as mãos pelas partes do corpo que queria
que ele olhasse. Björn correspondeu. Não tinha nada
melhor do que ver como ele se entregava totalmente
ao espetáculo, com uma expressão sedutora no
rosto.
Depois de alguns minutos, Mel começou a tirar
a gravata. Em seguida, levantou a camisa até a
cintura, amarrou ali a gravata e continuou com a
dança sensual sobre a cadeira. Sentou-se. Levantou-
se. Moveu os quadris e começou a desabotoar a
camisa.
Como uma garota malvada, levantou-se para
apontar, sem qualquer vergonha, o púbis tentador
por baixo da calcinha. Abaixou a camisa, abriu os
últimos botões e brincou com o prazer que aquilo
provocava nele, prolongando o momento.
A peça de roupa caiu pelos ombros dela e
Björn sorriu. Como um lobo faminto, ele olhava
enquanto ela dançava e a tatuagem de suas costas
parecia se mover também no compasso da música.
Com sensualidade, Mel mexeu no cabelo, tocou sua
boca, chupou um dedo, tirou a calcinha e a jogou
para Björn.
Tirou a gravata da cintura, passou por entre as
pernas, pela bunda, pelos seios e depois, bem
sedutora, aproximou-se e passou no pescoço dele,
sussurrando com um atrevimento que o deixou louco:
— Vou te foder como ninguém fodeu antes, baby.
— É o que eu espero, baby...
— Eu disse que sou boa e vou te mostrar que
sou a melhor.
Afastando-se alguns passos, ela fechou os olhos
e continuou dançando, disposta a provocá-lo ao
máximo. Björn não tirava os olhos dela. Tesão. Era o
que sentia a cada segundo que passava. Os seios
dela se moviam com a dança e, vendo como ele os
olhava com desejo ardente, ela tocou os mamilos e
os deixou arrepiados.
Björn salivou. Mel e sua dança o estavam
deixando a mil e ele estava encantado com a
sensualidade de seus movimentos. Quando a música
acabou, Mel sorriu, sentou no colo dele e esfregou os
seios em seu rosto.
— Ficou surpreso?
Ele concordou e ela, puxando-o pelos cabelos,
inclinou a cabeça dele para trás e murmurou,
chupando o queixo antes de meter a língua em sua
boca: — Que bom saber. E agora vou te fazer meu,
tá?
Um beijo carregado de erotismo deixou os dois
arrepiados.
— Você me excita quando se faz de malvada
— Björn murmurou quando suas bocas se
separaram.
— Ah é?
— É... mas deixa eu te dizer que...
Porém, foi interrompido.
— Mudei de ideia. — Mel se deitou ao seu
lado. — Faz em mim com a sua língua o que fez
naquela noite na jacuzzi — ela exigiu. — Estou
morrendo de vontade de sentir aquilo de novo.
Björn sorriu. Estava disposto a fazer tudo,
absolutamente tudo que Mel pedisse. Subiu nela e
sussurrou: — Da próxima vez vou comprar chocolate
pra passar em você.
Mel sorriu e Björn colocou a boca ardente
sobre a vagina dela. Foi dando mordidinhas nos
lábios e, quando chegou ao clitóris, deu toquezinhos
com a língua que fizeram Mel gritar de prazer.
— O seu clitóris é muito... muito... brincalhão.
— Continua... Continua... adoro que você
brinque com ele. Não para — Mel suplicou.
Depois de arrancar dela vários gemidos
escandalosos e ver como se retorcia de prazer na
cama, Björn tocou o seu púbis depilado em forma de
coração.
— Achei lindo esse morango que você deixou.
— Não é morango... é um coração — ela
gemeu, sabendo sobre o que ele falava.
— Pra mim, tem forma de morango e eu adoro.
Cheira a morango. Tem gosto de morango...
— Perfeito — ela afirmou enlouquecida. —
Então come o meu morango de novo como você
acabou de fazer.
Björn sorriu quando a viu assim tão entregue e
com a respiração entrecortada. Estava disposto a
fazer o que ela desejava.
— Às ordens, sargento.
— Tenente... se não se importa.
A boca de Björn voltou a pousar onde ela exigia
e Mel arqueou as costas, cheia de prazer. Com as
pernas abertas para ele, gemeu quando sentiu que ele
mordia a parte interna de suas coxas e, depois de um
beijo sensual, voltava para o clitóris.
— Sim... oh, sim... mais... mais...
Ele deu vários toques com a ponta da língua no
clitóris inchado e molhado e depois o sugou. Mel
gritou, agarrando-se aos lençóis. Suas pernas
tremeram e ela levantou o quadril ao sentir um
orgasmo maravilhoso. Adorando aquela reação,
Björn mordeu o púbis dela e perguntou: — Será que
você não tem na bolsa algum vibrador para o seu
lindo botão de prazer?
Mel tentava recuperar o ar depois daquele
incrível orgasmo. Achando engraçado, respondeu: —
Não costumo sair de casa com ele. Mas tenho um no
meu quarto.
— Não tenho tempo de ir até lá.
— E eu não quero que você vá.
Björn sorriu e beijou novamente o monte de
Vênus.
— Eu adoro como você é deliciosa — ele
murmurou.
Desejando que ele continuasse, Mel levantou a
cabeça e disse entre dentes:
— Se você não voltar a meter a língua onde ela
estava e fazer o que estava fazendo, juro que vou te
matar.
Björn soltou uma gargalhada e fez o que ela
mandava. Separou os lábios vaginais com os dedos e
continuou a brincar com o já excitado clitóris.
Chupou. Lambeu. Mordeu e provocou nela ondas de
prazer. Mel tremia, convulsionava e, quando ficou
toda molhada, chegou ao clímax mais uma vez. Björn
foi para cima dela e a penetrou.
— Assim... linda... É assim que eu quero você.
Mel gemeu. Björn era um amante excelente.
Tinha conseguido fazê-la gozar duas vezes nos
últimos minutos só possuindo-a com a boca.
— Não... lindo... — ela reuniu forças para
sussurrar. — Sou eu que quero você assim.
Ela fez um movimento brusco e ele perdeu o
equilíbrio. Segundos depois, Mel estava por cima,
aproximando os lábios dos dele num beijo.
— Você tem gosto de sexo... — ela murmurou
depois de beijá-lo. Björn quis protestar, mas ela não
deixou: — Não, meu bem, não... Agora quem dá as
ordens sou eu. Sou eu que mando e eu é que vou te
arrancar gemidos de prazer. — Moveu o quadril
para a frente e sussurrou: — Abre a boca e me dá
sua língua.
O pedido deixou Björn excitado e ele
obedeceu. E quando Mel o beijou e deu um
empurrão com o quadril, Björn arquejou e tremeu
enquanto Mel o mordia com delicadeza. Surpreso
pelo que ela fazia, ele tentou se mover, mas Mel
apertou as coxas, deixou Björn imobilizado, moveu o
quadril com força e ele arquejou mais uma vez, fora
de si. Desta vez mais forte. Mais áspero.
Aquela reação fez Mel sorrir e olhando-o
perguntou:
— Está gostando?
— Estou.
— Eu te disse que eu era boa.
— Sim, linda... você é — Björn concordou,
louco de excitação.
Mel sorriu mais uma vez e perguntou sedutora:
— Quer mais?
— Quero — ele suplicou, enquanto imaginava
como se mexia o apanhador de sonhos nas costas
dela.
— Quanto mais?
— Tudo o que você quiser me dar — ele
respondeu em voz baixa, tremendamente excitado.
Mel concordou. No controle da situação, ela
passeou a boca pelo pescoço dele.
— Não se mexa — pediu. — Eu proibi você de
se mexer.
— Não sei se vou conseguir.
— Consegue — ela respondeu olhando-o nos
olhos como uma tigresa. — Só eu vou me mexer e,
se você me desobedecer, eu paro. — Björn sorriu e
Mel pediu mais uma vez: — Me dá a sua mão. Vou
colocar sobre a cabeça. Quero que os seus gemidos
me façam saber o quanto você está gostando do que
eu faço. Entendeu?
— Entendi.
Excitado, Björn se deixou levar pelo momento e
permitiu àquela mulher fazer o que quisesse. Uma
nova música pesada que não conhecia começou a
tocar a todo volume. Mel agarrou-lhe as mãos e se
moveu sobre ele como uma deusa. Primeiro para
cima e para baixo, depois para a frente e para trás,
com movimentos sinuosos e perturbadores.
Björn, enlouquecido, suplicou que ela não
parasse. Quis se mexer, mas cada vez que tentava,
ela o fazia parar, deixando-o fora de si. De onde ela
tirava aquela força?
— Continua, Mel, continua...
Ela sorriu e depois de morder o lábio inferior
dele, sussurrou:
— Não se mexa e goze em mim.
Os movimentos e as exigências dela o faziam
perder a razão. Nunca nenhuma mulher havia pedido
assim que ele gozasse. E pela primeira vez em muito
tempo, Björn desfrutou do sexo sem joguinhos
eróticos, sem se mexer, sem tapas, nem trios. Só
com uma mulher incrível em cima dele, deixando-o
louco.
Fechou os olhos e quando não aguentou mais,
curvou-se e teve um orgasmo maravilhoso que o
deixou tremendo sobre a cama. A vagina dela o
sugava e Mel se arqueava em cima dele e se deixava
levar pela paixão.
Esgotada pelo esforço, mas feliz pelo resultado,
Mel caiu sobre o corpo musculoso de Björn. Sentiu
que os braços dele a apertavam contra si e sorriu
quando ele disse: — Meu Deus, menina... você é
fantástica.
O sexo com ela tinha sido maravilhoso. Incrível.
Ele desejou mais dela... muito mais.
18
Seus encontros furtivos se converteram num
hábito, e no dia em que um entregador trouxe um
lindo ramalhete de rosas vermelhas para Mel, ela não
parou de sorrir por horas depois de ler o bilhete:
Quando você parar de fumar, prometo te dar
muito mais.
James Bond A verdade é que, quando estava com
ele, o desejo de nicotina desaparecia. Björn a
completava de tal maneira que ela não sofria com a
falta do cigarro. Além de se encontrarem sempre às
terças e quintas e de irem depois para a casa dele,
agora também trocavam mensagens de celular e se
viam sempre que o trabalho de ambos permitia. A
única coisa que Björn não sabia era o verdadeiro
emprego de Mel, pois, cuidadosa com sua
intimidade, ela preferiu manter isso em segredo.
O que nunca fazia era convidá-lo para a casa
dela. Lá era o lugar de sua filha, e Mel tinha uma
ideia muito clara de que onde a menina estivesse não
entraria um homem sequer. Além disso, no momento
em que ele entrasse no pequeno apartamento,
acabaria descobrindo tudo e saberia que Mel era
militar. Havia muitas recordações espalhadas pela
casa que ela não estava disposta a esconder.
Mel estava nas nuvens; desde que tinha
começado aquela estranha história com Björn, quase
não pensava mais em Mike e também sorria mais.
Em uma manhã chuvosa, ao falar com Neill pelo
telefone, recebeu a confirmação de que não tinham
nenhuma ordem de mobilização para aquele dia.
Assim que desligou, o telefone tocou outra vez.
— O que foi que você esqueceu, chatinho? Não
basta ter falado comigo por mais de meia hora?
Björn ouviu aquilo e apressou-se em perguntar:
— Quem é chato e com quem você ficou
conversando mais de meia hora?
Mel deu uma risada.
— Com um colega de trabalho.
— Um comissário?
— É — respondeu Mel, achando muita graça
em imaginar Neill vestido de comissário.
— E o que ele queria?
— E pra que você quer saber?
Björn também riu. Ele adorava como Mel era
direta nas respostas, mesmo que ficasse cada vez
com mais vontade de saber sobre ela. Mas isso Mel
não permitia.
— Você vai ter que voar? — Björn perguntou
então, sem querer estragar o momento.
— Não, por enquanto, não.
— E que tal se eu passar na sua casa e você se
vestir de aeromoça pra eu arrancar sua roupa a
mordidas?
Mel gargalhou e respondeu:
— Com uniforme de trabalho não se brinca.
Portanto, não! Nem em sonho.
Björn sorriu.
— Você já almoçou? — perguntou.
— Não.
— Perfeito. Em dez minutos eu passo aí pra te
pegar.
— Tudo bem.
Quando Björn chegou, ela estava esperando na
rua, de guarda-chuva aberto. Chovia a cântaros. Do
carro, Björn observou Mel cruzar a calçada e sorriu
ao ver sua aparência natural. Nada de salto alto.
Nada de quilos de maquiagem. Simplesmente vestida
com um jeans preto, uma jaqueta verde e botas de
cano alto, mas sem salto. Estava espetacular.
Assim que ela entrou no carro, Björn a levou
para um restaurante próximo. O almoço foi pedido
entre risadas e carinhos. Tudo tinha mudado entre os
dois de uma maneira incrível, e agora aproveitavam o
máximo possível o tempo que passavam juntos.
— Tenho uma coisa pra você.
— Pra mim? — Mel perguntou.
— Sim.
— Posso saber por quê?
— Porque hoje é quinta e eu gosto das quintas-
feiras. — Björn riu.
Confusa, ela perguntou:
— Você comprou alguma coisa pra mim?
— Comprei. Quando vi, me lembrei de você.
Mel arregalou os olhos, levou as mãos até o
rosto e exclamou em tom cômico: — Não me diga
que você me comprou um Aston Martin igualzinho ao
seu! Meu Deus, que maravilha! Era o que eu queria.
Vivam as quintas!
Björn soltou uma gargalhada. Mel era incrível.
Seu humor tinha ficado bem mais suave e agora já
não discutiam. Tinham parado de brigar como cão e
gato e estavam mantendo uma relação maravilhosa,
mas da qual ninguém sabia. Ela era carinhosa, doce,
atenciosa, e ele adorava tudo aquilo. Muito mesmo.
Sem responder, Björn colocou diante dela uma
caixinha vermelha de seda, que Mel olhou curiosa.
Notando que ela não se mexia, ele comentou: — O
Aston Martin eu deixei pra outra quinta, mas acho
que você pode gostar do que tem dentro dessa
caixinha.
Ela sorriu e ele insistiu:
— Vamos, abre! Juro que não morde.
Ela o encarou, surpresa. Nunca nenhum homem,
nem mesmo Mike, tinha lhe dado nada que coubesse
numa caixinha de seda vermelha. Encantada, ela
pegou o presente e abriu para ver o que tinha dentro.
— Merda... Que incrível!
Björn sorriu. Com certeza, nenhuma das
mulheres que conhecia e nenhuma para as quais
alguma vez tivesse dado presentes tivera uma reação
como aquela. Mas Mel era Mel e uma das
características que Björn mais apreciava era a sua
naturalidade.
No dia anterior, tinha acompanhado seu amigo
Eric para comprar uma joia de presente para Judith
e, quando viu aquele pingente de morango
mergulhado em chocolate, não pôde resistir. Teve de
comprar para ela.
Boquiaberta por um presente que tanto
significava para eles dois, Mel ergueu os olhos e
murmurou: — É lindo...
— Você gostou do pingente?
— Adorei... de verdade. Muito... muito
obrigada. É uma pena, não tenho nada pra você.
Björn levantou-se da cadeira, pegou a
correntinha que ela tinha nas mãos e colocou-lhe em
volta do pescoço.
— Eu já tenho você — respondeu. — Além do
mais, comprei pra que sempre que estiver com o
morango no pescoço, você se lembre de mim.
Sem palavras, Mel tocou a joia linda e delicada
que Björn colocou nela. Durante alguns segundos os
dois se olharam nos olhos em silêncio. Ela pensava
em como agradecer a gentileza e, de repente, quando
descobriu como, deu um sorrisinho.
Na hora da sobremesa, entrou um rapaz no
restaurante com uma cesta cheia de rosas.
— Uma rosa para a dama?
Antes que Björn falasse alguma coisa, Mel se
adiantou:
— Dê uma ao cavalheiro, por favor.
Enquanto Mel pagava, Björn pegou, atônito, a
flor que o rapaz lhe entregou.
— É pra você — ela disse em voz baixa num
jeito divertido, quando ficaram sozinhos.
Confuso, Björn a encarou. Uma rosa para ele?
— Não gostou? — Mel perguntou ao notar sua
expressão.
— Claro que gostei. Mas até agora era eu que...
— Mas isso acabou — ela interrompeu. —
Como é sempre você que me dá flores, hoje sou eu
que te dou essa rosa. Igualdade entre os sexos, você
não acha?
Björn aproximou a rosa do nariz e sentiu o
perfume. O aroma era maravilhoso, embora não tão
espetacular como o da mulher que estava diante dele.
E então Mel o emocionou quando disse: — Você é
encantador, Björn. Espero que algum dia conheça
essa pessoa especial que saiba te fazer feliz como
você merece.
As palavras dela o deixaram atônito e Björn não
soube o que responder. Mel se deu conta disso e
quis mudar de assunto: — Sabe de uma coisa?
— O quê...? — ele sussurrou, colocando a rosa
sobre o guardanapo.
— A Judith me ligou hoje de manhã. Ela me
convidou para ir à casa dela no sábado pra comer o
famoso cozido madrilenho, mas eu disse que não
vou.
— Ah, não — Björn protestou. — Eu vou e
quero que você vá também.
— Sinto muito, mas não vou.
— Ah, Mel, não me irrita. Por que você não
vai?
Fixando os olhos nele, ela pensou no que dizer.
Aquele dia era aniversário de namoro dela e de
Mike.
— Porque tenho umas coisas pra fazer — ela
respondeu, tentando não mentir.
— Que coisas?
— Coisas e ponto final.
A teimosia dela muitas vezes deixava Björn
desconcertado e aquela era uma dessas vezes. No
fim ele murmurou acariciando o queixo dela: — Eu ia
gostar tanto se você fosse. Por favor...
— Björn, eu te disse que tenho coisas pra fazer,
além disso, acho que você vai disfarçar muito mal, e
a Judith vai descobrir tudo sobre a gente.
Björn não se cansava de olhar para ela.
Adorava aqueles olhos azuis descarados. Seu corte
de cabelo. Sua boca linda e sua independência. Mel
era uma mulher pouco comum, o que Björn gostava.
Ele valorizava aquela característica como nunca
pensou que valorizaria. Tinha até mesmo deixado de
ir sozinho ao Sensations, pois gostava de ir com ela e
suas antigas acompanhantes não o interessavam mais.
Björn se deliciou passando os dedos pelo rosto
dela.
— Fica tranquila — ele tentou convencê-la —,
você sabe fingir. Eu volto a te tratar como o antigo
cara irritante de sempre.
— Tem certeza?
— Eu prometo. Vou me comportar mal, muito
mal!
Eles riram. Mel tocou o morango que lhe
enfeitava o pescoço e acrescentou: — Não quero
que ninguém saiba de nada. O que existe entre a
gente fica só entre a gente. Quanto menos pessoas
souberem, melhor, porque...
De repente houve um estrondo, e as janelas do
lugar tremeram. Sobressaltados, olharam em direção
à porta e, com o coração na mão, viram um carro
enfiado no semáforo e um 4x4 tombado de lado.
Um acidente!
Sem pensar em nada, Mel saiu para a rua e foi
seguida por Björn. Com a ajuda de outros clientes do
restaurante, foram até o primeiro carro e tiraram a
família que estava dentro dele.
Subitamente, o 4x4 pegou fogo. O motor estava
em chamas e todos correram apavorados. Aquilo ia
explodir. Estava caindo um dilúvio, mas o fogo ardia
com força.
Björn olhou ao redor à procura de Mel e ficou
sem fala quando viu que ela estava em cima do 4x4
tentando abrir a porta. Ele soltou o homem que
estava amparando e correu até ela aos gritos: —
Você está louca?
— Tem uma mulher aqui.
Aquele carro podia ir pelos ares.
— Desce daí agora mesmo! — Björn gritou. —
Você não está vendo o fogo?
Mel olhou para ele ensopada por causa da
chuva e respondeu sem dar a mínima: — Essa
maldita porta está emperrada. Rápido, me dá alguma
coisa pra quebrar o vidro.
— Mel, desce imediatamente. O carro pode
explodir.
Sem um pingo de medo, ela o olhou nos olhos e
ordenou irritada:
— Eu falei pra você me dar alguma coisa pra
quebrar a merda do vidro.
— Você ficou louca?
— Tem uma mulher dentro deste carro e eu não
saio daqui enquanto não conseguir tirá-la. — Vendo
que um homem se aproximava correndo, ela
acrescentou: — Björn, me dá esse extintor que o
cara está trazendo.
Ele pegou o extintor do homem e subiu com ela
no carro.
— Se acontecer alguma coisa com a gente, eu
te mato — ameaçou.
— Tá bom — Mel respondeu. — Agora
quebra o vidro. Vou entrar no carro e te entregar a
mulher.
Com força, Björn quebrou a janela e, sem
pensar duas vezes, Mel se jogou lá dentro. Alguns
instantes depois, ele segurava a mulher, que gritava
histérica: — Meu filho! Meu filho!
Os dois olharam e não viram nada. Mas sem
dúvida, tinha que haver um menino. A mulher não
parava de gritar.
— Leve-a daqui! — Mel gritou. — Vou
procurar o menino.
— Mel...
— Some, porra... tira ela daqui!
Desesperado e ensopado pela chuva, Björn
gritou enquanto carregava a mulher no colo: — Mel,
pelo amor de Deus, o carro vai explodir.
— David... meu filho está no carro. Meu Deus,
meu filho! Tirem o meu filho — a mulher gritava
histérica.
— Eu vou encontrar seu filho. Fique calma.
— Mel... — Björn gritou.
— Fora daqui! — ela ordenou.
Com a mulher nos braços, ele desceu do 4x4 e
correu para deixá-la no restaurante antes de voltar
para buscar aquela louca. Porém, assim que a
colocou no chão, um grande estrondo foi ouvido e
todo mundo ao redor gritou. Com o rosto
transtornado, Björn saiu em busca de Mel e viu o
carro envolto em chamas.
A mulher foi atrás dele e quando viu o carro
pegando fogo, começou a gritar o nome do filho, fora
de si. Björn começou a tremer. O espetáculo era
horrendo. Dantesco. Onde estava Mel?
A angústia tomou conta dele. Gritou o nome
dela com a mesma força com que a mulher chamava
o filho e, de repente, viu Mel aparecer de trás de uns
carros com o menino nos braços.
Björn correu até ela e a abraçou. Mel estava
trêmula, mas sem olhar para ele, foi até onde estava a
mãe que chorava desesperada e entregou-lhe o filho.
— O David está bem... — comunicou. — Ele
foi lançado pela janela, mas está bem.
A mulher abraçou o filho e, instintivamente,
abraçou Mel também e lhe agradeceu sem parar de
chorar. Björn, surpreso e emocionado pela cena,
observava sem saber o que fazer, nem o que dizer.
Havia um caos enorme na rua. Ambulâncias.
Bombeiros. Pessoas em polvorosa. Vários médicos
atendiam os feridos e Björn fez o possível para que
um deles também examinasse Mel. Ela estava bem,
exceto por uns cortes superficiais na testa e nos
braços. Quis levá-la ao hospital, mas Mel se recusou.
Não era para tanto.
Ela o fitava com um sorriso nos lábios, mas
Björn não sorria. Apenas olhava para ela.
Quando o médico terminou e saiu dali, Mel
comentou:
— Muda essa cara, homem! Acabamos de
salvar uma mãe e um filho. Olha pelo lado positivo.
Björn tentou, mas não conseguia esquecer a
angústia que tinha se instalado em seu peito com
aquele acontecimento. Tudo tinha acabado bem, mas
e se não tivesse sido assim?
— Poderia ter acontecido alguma coisa com
você.
— Mas não aconteceu nada — ela replicou
olhando para ele.
— Mel, você não sentiu medo?
Aquilo não tinha sido nada excepcional para ela.
— Não — murmurou, sem deixar de olhá-lo.
Björn ficou assombrado com a força que ela
tinha e a abraçou.
— Meu Deus, que susto você me deu! Eu
pensei que tivesse acontecido alguma coisa com
você.
— Sou a namorada do Thor, esqueceu? Mas,
mesmo assim, seria muito bom se você me colocasse
um band-aid das Princesas e dissesse “tchan! tchan!
tchan!”; a dor vai sumir.
Björn sorriu. Definitivamente, Mel era incrível.
Beijou-a com desejo e murmurou desesperado: —
Você é mais louca do que eu imaginava... Muito
mais.
— Eu poderia dizer “eu te avisei”, mas, na
verdade, não te avisei.
Ela abriu a bolsa e pegou o maço de cigarros,
mas, rapidamente, Björn o tirou de suas mãos.
— Acho que você já teve fumaça demais por
hoje, não é mesmo?
Eles sorriram, e Mel o puxou pelo braço, pegou
o maço de volta e o guardou na bolsa.
— Tenho que ir buscar a Sami, mas nesse
estado...
— Eu vou.
— Você?
Björn olhou para ela e acrescentou com uma
expressão indecifrável:
— Liga pra creche e dá os meus dados. Eu
busco a menina e você espera no carro. Depois
vamos pra minha casa, você descansa e eu vou
cuidar de você. Louca! Você é louca de pedra.
Mel gargalhou. Realmente, seria muito bom que
alguém cuidasse dela. Gostaria de voltar para a
própria casa, mas aceitou.
— Tudo bem. Vamos passar primeiro na minha
casa pra eu pegar o que preciso, só que...
— Eu sei... não posso subir — Björn finalizou.
Uns 45 minutos mais tarde, enquanto tomava
uma chuveirada no banheiro impressionante de Björn,
Mel tocou a correntinha. Aquele presente era algo
muito íntimo entre eles, tinha um significado profundo.
Nunca tinha ganhado um presente tão significativo.
Todos a imaginavam como uma garota durona, a
tenente Parker, e não uma menina para quem dar
coisas bonitas ou flores. Receber o presente de Björn
tocara seu coração.
Na sala, ele olhava para Samantha tentando dar
o iogurte que a menina tinha pedido, mas tinha ficado
surpreso de ver sua vitalidade e como era difícil
contê-la. Quando acabou, deixou a embalagem sobre
a impecável mesa de vidro e pegou um guardanapo.
— Fica quietinha pra eu limpar o seu rosto.
— Nããããoooooo.
A menina quis descer e Björn a soltou. Não
queria machucá-la. Ela correu até a estante e, em
tempo recorde, vários livros voaram pelo chão. Björn
foi até perto dela e a repreendeu: — Não, Sami...
não pode pegar.
A pequena concordou com a cabeça e, sem
pensar duas vezes, foi até a linda e enorme TV de
plasma da sala, passou as mãos por toda a tela,
depois pegou o controle remoto que estava em um
dos lados e começou a apertar os botões. A TV
ligou e Björn foi mais uma vez até lá. Tirou o controle
da mãozinha de Sami e a repreendeu mais uma vez:
— Não, Sami... não pode pegar.
Sem se importar com a cara dele, a menina foi
até a mesa em que Björn tinha deixado a embalagem
de iogurte. Enfiou a mão lá dentro, se melecou com o
resto do doce e depois esfregou tudo na mesa de
vidro.
Naquele instante, Mel chegou à sala de jantar e
comentou:
— Nossa, que cheiro é esse? — E, vendo a
filha, se dirigiu a ela: — Sami, o que você está
fazendo?
A menina olhou para a mãe, levantou as
sobrancelhas e perguntou:
— Não pode?
Björn sorriu quando ouviu aquilo: a menina era
uma gracinha. Tentando descobrir o que era o mau
cheiro do lugar, ele disse: — Sim, Sami... pode, pode
sujar e desenhar com o iogurte o tanto que você
quiser em cima da mesa.
A pequena olhou para a mãe e concordou muito
contente.
— Pode.
Björn riu e Mel exclamou torcendo o nariz:
— Que coisa horrível! — Chegou perto da filha
e perguntou: — Sami, você fez cocô?
A menina moveu a cabeça para dizer que sim.
Mel olhou para Björn.
— Por que você não trocou a fralda dela?
— Eeeeeeuuuuuuuuu? — Confuso, ele olhou
para a menina. — É ela que está fedendo?
Mel respondeu com uma expressão divertida no
rosto:
— Ela não fede. O que fede é o cocô que ela
fez. Sami ainda é pequena e está na fase de tirar as
fraldas. Aliás, você sabe trocar fralda?
— Não.
— Quer aprender?
Björn deu um passo para trás e destacou:
— Definitivamente não. Não preciso saber
essas coisas.
— Como a minha mãe diria, conhecimento não
ocupa espaço, bobinho.
Divertindo-se, Mel pegou a pequena, deitou-a
no sofá e fez o que toda mãe sabe fazer num piscar
de olhos. Pegou os lenços umedecidos, uma fralda e,
sem nojo nem reclamações, deixou a filha limpinha.
Tudo isso em frente a um Björn horrorizado.
Ele ficou espantado de ver que naquela ocasião
Mel falava com a filha em inglês, um inglês muito
especial.
— A Sami não fica louca com tantos idiomas?
Mel deu risada.
— Não. Ela é pequena e aprende. Assim,
quando for para as Astúrias, vai saber falar espanhol.
Aqui ela fala alemão, e inglês ela aprende, porque...
porque é bom que aprenda, não é?
Björn concordou. Mel tinha razão: aprender as
coisas desde cedo era melhor do que aprender
depois de adulto.
— Esse inglês que você fala é muito americano,
não é? — ele observou em seguida.
Mel sorriu e apressou-se em responder:
— Trabalhei para a American Airlines durante
vários anos, deve ser por isso. — E para mudar de
assunto, entregou a fralda para Björn e ordenou: —
Joga no lixo.
— Ah não... Que nojo! Como pode ter saído
isso de um bumbum tão pequeno?
Mel gargalhou.
— Isso aqui não é nada, píncipe... pode ter
certeza de que tem vezes bem piores.
Horrorizado, Björn pegou só com dois dedos a
fralda suja que ela estendia e correu para jogar no
lixo. Nunca em sua vida tinha precisado fazer algo
assim.
Quando entrou na sala de jantar, Mel estava
colocando Sami no chão. A menina correu de novo
até a mesa e pegou o pote de iogurte, mas começou
a chorar em seguida. Tinha cortado o dedo na borda.
Aqueles gritos deixaram Björn escandalizado. Como
é que ela podia ter uma voz tão poderosa?
Mel logo percebeu o que tinha acontecido e em
seguida limpou o dedo da filha. E então notou aquele
cara enorme olhando para elas sem saber o que
fazer.
— Fica tranquilo, ela já vai se acalmar —
cochichou.
Tirou da bolsa um pacote de band-aids das
Princesas e colocou um no dedinho da menina.
— Escuta, Sami, a Bela Adormecida vai fazer
você sarar, num passe de mágica a dor vai passar,
tchan... tchan... tchan!, para nunca mais voltar. A dor
já não passou? — Mel disse diante da cara confusa
de Björn.
Ainda com os olhos cheios de lágrimas, Sami
ficou quieta, olhou o dedo e fez que sim com a
cabecinha.
— Pincesaaaaaasss — disse de repente com
um sorriso no rosto.
Dois minutos depois, já estava correndo outra
vez em volta deles. Tudo aquilo era novidade para
Björn.
— Incrível — ele sussurrou.
— Pelo que eu estou vendo, de criança você
não entende nada vezes nada, não é mesmo? — ela
observou com jeito divertido e começou a rir.
Björn concordou. As crianças de quem ele tinha
chegado mais perto eram Flyn, o bebê Eric e Glen,
filho de seus amigos Frida e Andrés, mas nunca tinha
cuidado deles. Sem parar de rir, Mel se aproximou
de uma sacola que tinha trazido e disse, tentando
acalmar um pouco a filha agitada: — Meu bem, você
quer dar a comida da Peggy Sue?
— Queeeeeelo!
Björn viu que Mel tirava da sacola uma gaiolinha
colorida e chegou mais perto para ver do que se
tratava.
— Meu Deus! — gritou horrorizado, dando um
passo para trás.
— O que foi? — ela perguntou.
— Você trouxe um rato pra minha casa?
— Um rato?
— Porra, Mel, eu detesto ratos.
— Mas a Peggy Sue é uma graça. Olha só
como ela te olha — Mel insistiu.
Ele se afastou ainda mais da gaiola.
— Não me mostra. Tira agora mesmo esse
bicho da minha sala — Björn sussurrou.
Mel ficou atônita com a reação dele.
— Fica calmo, Björn, é a Peggy Sue, a hamster
da Sami.
Ele fez uma careta, espiou a gaiola e viu a
hamster branca.
— Que bicho nojento! — exclamou.
— A Peggy Sue é bonitinha... não é nojenta, seu
bobo — Sami o recriminou.
A situação era cômica. Mel abriu a portinha da
gaiola e tirou o animal.
— Quer segurar?
— Ela é maciiiiiiiiia — Sami afirmou.
Björn nunca tinha gostado de roedores.
— Tira essa rata de perto de mim se não quiser
que eu jogue ela na privada e dê descarga — ele
ameaçou muito sério.
— Mas a Peggy Sue é muito boazinha — Mel
insistiu, brincalhona.
Porém Björn não estava achando graça
nenhuma naquilo e fez uma cara que deixava muito
claro o que estava pensando.
— Faça o favor de enfiar esse bicho de volta na
gaiola e tire da minha frente.
Mel fez o que ele pediu, guardando Peggy Sue
na bela gaiola colorida e fechando a portinha. Em
seguida, Mel a colocou em cima da mesa para que
Sami desse de comer a seu animalzinho de
estimação.
Sem chegar perto das duas, Björn observou
mãe e filha, sem entender como podiam gostar tanto
de uma ratinha branquela. Cinco minutos mais tarde,
Sami, que já tinha se cansado da mascote, começou
a esvaziar a bolsa da mãe no meio da linda sala.
— Pôôôôôôôneis. Anda, cavalinhooooooo! —
ela gritou toda animada tirando os cavalinhos da
bolsa e fazendo-os cavalgar.
Mel se levantou e foi colocar a gaiola numa
lateral da sala. Quando voltou, Björn olhou bem para
ela e perguntou, sem tirar o olho da menina que
corria e gritava como uma louca: — É sempre assim?
Ela sorriu e deu de ombros.
— Ela é uma menina cheia de vitalidade e
encanto. As crianças são assim. O que você
esperava?
Horas mais tarde, depois de lhe dar banho e
jantar, Mel conseguiu fazer Sami dormir. Quando a
pequena caiu de sono, Björn disse que Mel podia
colocá-la no quarto ao lado do seu, e Mel assobiou
em aprovação ao ver aquele cômodo pela primeira
vez. Era tão grande como o quarto de Björn. Só um
dos quartos era maior do que sua casa inteira.
Depois de colocar a menina na cama e de cobri-
la, Mel espalhou várias almofadas ao redor dela e no
chão.
— A Sami é pequena — explicou ao notar que
Björn a observava —, se mexe muito e a cama não
tem proteção nas laterais. Por isso eu tenho que
evitar que ela caia da cama. E se ela cair, vai ser no
fofinho.
Björn concordou e sorriu. Quando entraram no
quarto dele, ele pegou Mel nos braços e fechou a
porta.
— Você colocou a rata no armário da entrada?
— Sim, chatinho... mas se a Peggy Sue ficar
traumatizada por ficar trancada ali dentro, a culpa vai
ser sua.
— Eu assumo as consequências — ele
murmurou, beijando o pescoço dela.
Durante alguns minutos, se beijaram em silêncio.
— Sua filha me deixou esgotado — Björn
comentou.
— Muito... muito esgotado?
Ele riu e a puxou para mais junto de si.
— Não se preocupa — sussurrou. — Ainda
posso deixar você esgotada.
Mel riu e, feliz da vida, deixou que ele tirasse
sua roupa. Ao passar as mãos pelo braço que ela
tinha queimado no acidente, Björn beijou o curativo.
— Louca... — murmurou.
— Muito... mas agora continua a me esgotar.
— Ah, sim... não duvide disso. Eu e você
vamos brincar agora, entendeu?
— Entendi.
— Você trouxe os seus brinquedinhos?
Mel indicou um pequeno nécessaire sobre a
cama e Björn sorriu quando o abriu. Tinha coisas
muito divertidas ali. Pegou um par de algemas de
couro preto.
— Hum... baby... isso me excita muito.
Ele colocou as algemas nela, tirou a calça do
pijama que havia lhe emprestado e a deixou
totalmente nua da cintura para baixo, com a camisa
aberta. Apagou a luz para deixar tudo no escuro.
Estava disposto a deixar Mel exausta.
— Fica de joelhos e abre as pernas... mais...
mais — disse quando subiu na cama com ela.
Quando Mel ficou do jeito que ele queria, Björn
passou a mão por sua cintura e aproximou os lábios
dos dela.
— Não quero que você se mexa, entendeu? —
ele falou baixinho.
Mel fez que sim, mas quando percebeu os
dedos dele entre suas pernas, se moveu e Björn lhe
deu um tapa com a mão livre.
— Falei pra você não se mexer — insistiu.
— Não consigo — ela reclamou, adaptando os
olhos à escuridão.
Björn sorriu com o protesto e enfiou um dedo
dentro dela.
— Quero masturbar você. Você quer?
Com os lábios colados nos dele, Mel abriu a
boca para dizer algo, mas foi um gemido que saiu no
lugar das palavras.
— Que bom... vejo que você gosta. Coloca as
mãos em volta do meu pescoço. Vai ficar mais
confortável pra você.
— Tira as algemas.
— Não... Nem pensar! — Björn colocou dois
dedos dentro dela e disse entre dentes quando lhe
deu mais um tapa na bunda: — Vamos, faz o que eu
te pedi.
Com muita vontade de entrar naquele jogo,
passou as mãos unidas pelas algemas ao redor do
pescoço dele e sentiu como era possuída cada vez
mais rápido. Os dedos entravam e saíam de dentro
dela enquanto o polegar massageava o clitóris já
inchado e molhado.
— Não é pra gozar — ele sussurrou sobre a
boca dela.
— Björn... não sei se vou aguentar...
— Estou mandando você não gozar, entendeu o
que eu disse, Mel?
As palavras dele, o olhar, sua voz sussurrante e
os movimentos enérgicos onde ela mais sentia prazer
fizeram Mel arquejar de desejo e encharcar a mão de
Björn com seus fluidos. Quando ouviu o barulhinho
leve do massageador de clitóris, achou que ia morrer.
— Agora eu vou brincar com o seu clitóris e
você vai ficar bem paradinha.
— Björn...
— Você não vai fechar as pernas e vai deixar
que o brinquedinho te masturbe, porque sou eu quem
comanda o jogo, e sou eu quem manda agora,
entendeu?
Mel concordou, mas quando o vibrador tocou o
clitóris molhado, ela se mexeu. Björn desencostou o
aparelho e lhe deu mais um tapa.
— Se você se mexer mais uma vez, vou te
deixar imobilizada na cama com as algemas —
avisou.
— Björn... não consigo ficar parada.
— Tem que conseguir. — Ele sorriu e
acrescentou: — O máximo que eu deixo é você
gemer no meu ouvido. Mais nada.
O aparelho se aproximou mais uma vez do
clitóris molhado e desta vez ela resistiu e, em vez de
se mexer, gemeu e mordeu o ombro dele.
— Isso, me morde... mas não se mexe. Vamos
brincar com a fantasia. Fecha os olhos e imagina que
eu e mais dois homens estamos com você na cama.
Nós queremos masturbar você primeiro e depois
vamos te comer, mas até que você faça tudo o que a
gente mandar, não vamos fazer o que deseja.
A fantasia, o que ele estava dizendo e o prazer
imenso e ardente que o vibrador lhe proporcionava
deixaram Mel trêmula. Cada vez que ela achava que
ia gozar, Björn percebia e afastava o brinquedo.
— Ainda não... ainda não.
Apesar da escuridão do quarto, ele podia
perceber no rosto dela todo o prazer que estava
sentindo e sorria quando ouvia os gemidos de
frustração cada vez que diminuía a intensidade e não
a deixava gozar.
— Aguenta, Mel... ainda não quero que você
goze. Quero que você dê os seus gemidos de
presente pra mim e pra esses dois homens. Dê os
seus gritinhos e os seus movimentos quando o
orgasmo estiver chegando, mas não quero que você
goze... ainda não.
Algemada, excitada, enlouquecida, morrendo de
calor e com as mãos ao redor do pescoço de Björn,
Mel cravou os dedos na pele dele e suplicou: — Não
aguento... me deixa gozar...
Björn parou de novo. Beijou-a. Devorou seus
lábios, sua língua, seu hálito... Quando sentiu que o
corpo dela estava parando de tremer, colocou
novamente o massageador no centro do prazer dela.
— Não... ainda não, linda — disse baixinho.
Mais uma vez, o corpo de Mel se contraiu todo
com a tensão e a expectativa. Tentava não se mexer,
mas era impossível. Seu corpo reagia àquele ataque e
se apertava contra o massageador em busca de
sensações delirantes.
— Eu gosto assim... Isso... se aperte em mim.
Mel fez novamente o que ele pediu.
— Um dia vou fazer outro homem te masturbar
pra poder desfrutar de todas as suas expressões.
Você vai gostar?
— Vou... vou...
Um novo gemido. Excitado, Björn falou de
novo:
— Percebi que você fica louca quando eu
brinco com o seu clitóris, não fica?
— Fico sim... oh.... fico sim...
— Isso me lembra da minha amiga Diana. Ela
adora os clitóris. As mulheres que ficaram com ela
gozaram mil vezes com o prazer que ela consegue
dar com a língua e seus movimentos maravilhosos.
Você gosta da ideia de ficar pelada com ela, abrir as
pernas e pedir que ela te coma? Se você permitir,
vou te oferecer pra ela.
O vibrador e as palavras de Björn deixaram Mel
fora de si. Imaginar aquela proposta era algo muito
excitante. Desde a morte de Mike, nenhum homem
tinha tido o poder de oferecê-la a ninguém. Quando
jogava, ela só se oferecia a quem tinha vontade. E o
fato de um homem como aquele estar propondo esse
jogo fez Mel sussurrar: — Você me paga... Eu juro,
Björn.
— Claro que sim... claro que vou te pagar... não
duvide disso.
Com um sorriso que naquele momento Mel
achou cruel, ele parou o ritmo mais uma vez e o
corpo dela inteiro tremeu. Ele não a deixou chegar ao
clímax. Mel olhou para ele no escuro do quarto e
reclamou: — Vou te matar... vou te matar...
Björn riu e mais uma vez aumentou a potência
do vibrador.
— Você não me respondeu. Posso te oferecer
pra outras pessoas?
— Pode...
— Vou abrir as suas pernas e vou deixar que
elas entrem em você. É o que você quer?
— Sim... quero... não para.
— Me deixa ser o dono do seu corpo?
— Deixo... deixo...
Louco de ver como ela se entregava, Björn
apertou os dedos nas costas dela e diminuiu a
velocidade do vibrador. Mel suplicava. Estava com
as bochechas coradas e sua respiração e seu olhar
pediam aos gritos. Björn estava tremendamente
excitado.
— Você está algemada, aberta pra mim, muito
molhada e excitada por tudo o que eu te disse. Tanto
que acho que vou gozar antes de você. Mas não se
preocupe, vou te dar um orgasmo maravilhoso.
Quero que você se apoie em mim e abafe o grito
mordendo o meu ombro, tudo bem?
Mel concordou. Apoiou o queixo no ombro
dele e notou como Björn aumentava a potência do
massageador e colocava onde ela mais desejava. Ela
sentiu como se uma língua de fogo devastadora
subisse por seu corpo, queimando tudo até chegar à
cabeça.
— Agora, Mel... Goza pra mim — Björn exigiu.
Ao ouvir aquilo, ela estremeceu num incrível
espasmo de prazer. A língua de fogo explodiu em seu
interior e, como ele tinha pedido, apoiou a boca em
seu ombro e o mordeu para abafar o grito de êxtase,
enquanto se retorcia e desfrutava um maravilhoso e
estupendo orgasmo.
Duro como pedra depois do espetáculo sensual
oferecido por Mel, Björn lhe beijou o pescoço, tirou
as algemas enquanto ela ainda gemia e colocou a
camisinha.
— Agora se vira e se oferece pra mim — ele
pediu.
Sem falar, Mel atendeu. Ficou de quatro e Björn
a penetrou sem que ela oferecesse resistência alguma,
lubrificada e muito excitada pelo orgasmo que
acabava de ter. Ele a agarrou pelo quadril com jeito
possessivo e se apertou contra ela enquanto os dois
arfavam enlouquecidos. Novamente com o controle,
Björn a penetrou uma e outra vez. O prazer era
imenso e ambos estavam entregues àquela sensação.
— Assim... assim... não para.
— Não, linda, desta vez eu não vou parar.
Tudo foi aumentando: o ritmo dos gemidos, o
prazer, a intensidade. Tudo era perfeito entre os dois,
até que, de repente, Björn observou com o canto do
olho que a porta do quarto se abria e que uma
pequena figura entrava ali.
Sami!
Perdido, Björn deu, sem saber por quê, um tapa
no traseiro de Mel que ressoou por todo o quarto.
Sacudiu-se de dentro dela com um movimento rápido
e gritou: — Arre... cavalinho, arre! Iiiirrááá!
— Björn, o que você está fazendo? — ela
protestou.
— Iiiiiiirráááááááá... Vamos, corre cavalinho!
Mel recebeu outro tapa forte e doído e olhou
para trás e gritou:
— Mas você é idiota?
Sem saber como dizer que a filha dela estava na
porta olhando, Björn gritou outra vez: —
Iiiiiiirráááááá! Vamos, cavalinho... continua...
Arrrreee!
— Björn! — Mel gritou, sem entender nada, até
que uma vozinha no escuro chamou: — Mami...
O sangue congelou em suas veias.
A filha tinha pegado os dois?
Sem ação, ela não soube o que responder e viu
Björn os cobrir com os lençóis. Logo em seguida, ele
vestiu uma cueca, acendeu a luz e pegou Sami no
colo, a fim de atrair toda a atenção da pequena para
que desse tempo à mãe de se vestir.
— Oi, princesa. A gente estava brincando de
cavalinho.
Acalorada, Mel vestiu a calcinha e fechou a
camisa. De repente, Sami veio correndo eufórica e se
jogou na cama.
— Quelo biiincáááááááááá! — gritou.
Mel e Björn se entreolharam. Tinham sido
pegos! Ele rapidamente ergueu a menina, posicionou-
a nas costas da mãe e disse: — Vamos, Sami, fala
pro cavalinho correr.
Meia hora mais tarde, depois de cavalgarem
com a menina nas costas, brincarem de cavalinho e a
deixarem exausta, conseguiram fazer Sami dormir
entre eles. Mel olhou para Björn e sussurrou: —
Sinto muito pelo que aconteceu.
Achando graça, ele apenas suspirou.
— Como você pôde comprovar, ter uma filha
pequena limita muitas coisas — Mel acrescentou.
Björn soltou uma gargalhada. Nunca tivera um
encontro assim com uma mulher antes. Chegou mais
para o lado a fim de deixar espaço para Sami, tocou
o cabelo de Mel e disse: — Não precisa sentir, linda.
Mas uma coisa, sim: você está me devendo uma
cavalgada, cavalinho!!!
Sorriram. Era surreal. Mel tocou o pingente de
morango.
— Juro que o que eu vou fazer com você vai ser
mais legal do que cavalinho.
— Hum... baby... saber disso me deixa com
tesão.
Mel fechou os olhos sentindo-se contente.
Queria só ver a cara dele quando pudesse dar a
surpresa.
— Acho que é melhor a gente dormir — Björn
sugeriu.
Porém, vinte minutos depois, ele continuava
acordado. Era a primeira vez que dormia com uma
criança na cama e tinha medo de espremê-la. No
escuro do quarto, olhou curioso para a pequena
Sami, que tinha dormido aconchegada nele, e depois
olhou para Mel, que estava de barriga para cima,
com os olhos fechados. Ela os abriu naquele instante
e olhou para ele.
— Que foi? — quis saber.
— Não consigo dormir.
— Fica calmo, James Bond — zombou —,
prometo que não vou te asfixiar com a almofada
quando você dormir.
Ele tapou a boca para não soltar uma
gargalhada. Sem pensar duas vezes, saiu da cama,
deu a volta e foi até o lado em que Mel estava, que o
olhava sem entender nada. Ele puxou os lençóis,
pediu que ela ficasse de boca fechada, pegou-a nos
braços e a levou até o banheiro. Depois de entrarem,
fechou a porta e a colocou no chão. Mel o observou
com expressão divertida.
— Ironwoman, tira a calcinha já!
19
No sábado, Björn e Mel se encontraram na
casa de Judith, mas esconderam o que existia entre
eles, apesar de Sami ter se mostrado mais carinhosa
com ele do que de costume. Björn notou aquela
mudança e tentou não ficar no campo de visão da
menina. Se continuasse assim, acabariam
descobrindo.
Judith ficou toda preocupada com a amiga
quando viu que ela estava com um corte na testa.
Mel contou a história de como aquilo tinha
acontecido e Jud ficou sem palavras.
Björn, que estava por perto ouvindo, quis dizer
o quanto aquilo o tinha deixado impressionado, mas
não podia. Caso se incluísse na história, todos
saberiam que ele e Mel estavam juntos. Por isso, deu
o melhor de si e provocou, a fim de fazer parte da
conversa: — Tem certeza de que não foi você que
provocou a batida?
Mel torceu o nariz.
— É uma pena que você não estivesse dentro
do carro — ela respondeu para mostrar que tinha
ficado incomodada com o comentário.
Björn achou divertido e respondeu fazendo
graça:
— Falou a namorada do Thor. Onde foi que
você deixou o martelo?
— Se você não fechar o bico, vai encontrar o
martelo na sua cabeça, espertinho!
A pequena Sami, que naquele instante corria,
parou junto de Björn, e o agarrou pela perna.
— Vamo bincá de cavalinho? — perguntou.
Mel percebeu que Björn tinha ficado imóvel.
Por isso apressou-se em pegar a filha.
— Sami... quantas vezes eu tenho que dizer pra
você não tocar em caca?
— Que grosseria! — Björn protestou.
Judith olhou para os dois com ar contrariado.
Por que nunca mudavam? Foi então que resolveu ir
até lá intervir para tentar acalmar os ânimos: — Por
favor... por que vocês não fumam o cachimbo da
paz?
Mel incentivou a menina a correr atrás de uma
bola e soltou uma gargalhada.
— Eu ia colocar cianureto no cachimbo dele —
respondeu de cara feia.
Björn levantou as sobrancelhas, olhou para o
amigo Eric, que os observava, e respondeu: — Não
basta ser arrogante e prepotente, também é
assassina? Querida Jud, que amizades são essas?
— Björn, não seja estúpido — Judith protestou.
— Ô, Jud — ele se queixou —, não me insulte.
Só fiz um comentário.
Mel, para ridicularizar Björn mais um
pouquinho, olhou para uma Judith contrariada e
respondeu: — Não existem comentários estúpidos,
só existem estúpidos que comentam. Por isso, deixa
ele pra lá, tá bom, Judith?
Björn soltou o ar bufando. Morria de vontade
de tascar um beijo nela, de tão louco que estava
ficando com aquele descaramento. Porém, havia nos
olhos dela algo que o deixava desconcertado. Cruzou
o olhar com Eric, que sorria ali por perto.
— Não se esqueça, quando ela vier, seja um
bom amigo e não me convide — Björn murmurou.
Eric soltou uma gargalhada.
Durante a refeição, Mel e Björn sentaram-se
cada um numa ponta da mesa e se dedicaram a
trocar as farpas de sempre. Judith não sabia o que
fazer. Queria que seus dois amigos se dessem bem,
mas era impossível. Eles se recusavam.
— Me passa o grão-de-bico, Judith? — Mel
pediu.
Judith passou a travessa com satisfação.
Quando a amiga estava se servindo, ouviu a voz de
Björn dizer com certo tom sarcástico: — Se sobrar
alguma coisa, eu gostaria muito de me servir também.
Mel ouviu o comentário, olhou para ele e soltou
a bandeja.
— Aqui está, bonitão. É tudo seu.
Marta, a irmã de Eric que tinha sido convidada
junto com o namorado Arthur, ficou assombrada de
ver como o bom Björn estava sendo mal-educado
com aquela mulher, por isso, chegou perto da
cunhada para perguntar: — Mas o que acontece com
esses dois?
— Simplesmente não se suportam — Judith
sussurrou irritada.
Em seguida, ela viu o marido entregar a Mel
uma garrafa de champanhe para que ela abrisse.
Clop!
— Merda!
O som do estouro do champanhe e o “merda!”
em seguida fizeram com que todos se virassem e
dessem risada, pois a tampa da garrafa tinha batido
em cheio no rosto de Björn.
— Você quer me deixar caolho?
Horrorizada porque não queria ter feito aquilo,
Mel ficou olhando de longe quando Björn se levantou
para ir ao banheiro. Eric foi atrás. Judith ficou
perplexa com um ataque tão direto.
— Mel, eu entendo que vocês não se deem
bem, mas uma rolha na cara dói.
— Eu juro que não era a minha intenção. Foi um
acidente.
Alguns minutos depois, os rapazes voltaram do
banheiro. Björn começou a gritar assim que a viu: —
Que tal você pensar antes de fazer as coisas?!
Mel quis pedir desculpas, dizer que tinha sido
sem querer, beijar seu rosto dolorido, mas vendo a
expressão que ele fazia, respondeu, entrando no
jogo: — Quer um band-aid das Princesas?
Confuso, Björn fez menção de responder, mas
Eric interveio:
— Acabou, pessoal. Vamos continuar a festa
em paz.
Vinte minutos depois, quando perceberam que
Judith não estava olhando, o celular de Björn apitou:
“Me desculpa. Não queria ter te acertado com
aquela rolha.”
Ele sorriu e respondeu:
“Tem certeza de que não queria me deixar
caolho?”
Do outro lado da mesa, ela fez beicinho.
“Se eu quisesse, não teria errado!”
Lendo aquilo, Björn fez um esforço para não rir
e um maior ainda para não ir até lá e beijá-la na
frente de todo mundo, como queria.
Ao longo do dia, sem que ninguém percebesse,
trocaram várias mensagens de celular. Por fim, ele
perguntou: “Você vem pra minha casa hoje à
noite?”
“Não. A pessoa que fica com a Sami não está
em casa.”
Björn contraiu o rosto quando leu: queria ficar
com ela. Lançou um olhar de testa franzida para o
outro lado da sala, onde Mel estava, e insistiu: “Vou
na sua casa.”
Ela respondeu na mesma hora:
“Não.”
Ele bufou, irritado com a resposta. Mel
observou de longe enquanto ele escrevia: “Pergunta
se a Judith não conhece ninguém.”
“Eu não deixo a minha filha com qualquer
um.”
Surpreendendo-a, Björn rapidamente
respondeu:
“Ou pergunta você, ou pergunto eu.”
Mel ficou incomodada e quis responder, mas
Judith, que acabava de se despedir dos cunhados,
vendo que a amiga não parava de teclar no celular, se
aproximou para perguntar cheia de curiosidade: —
Pra quem você está mandando mensagem?
Melanie, consciente de que todos olhavam para
ela, deixou o celular de lado e entregou à filha um
boneco que ela estava pedindo.
— Com um cara chato que quer passar a noite
comigo — respondeu, por fim.
Björn veio sentar-se junto delas.
— Pobre homem, tenho até pena. Ele não sabe
onde está se metendo.
— Björn... — protestou Judith.
Mel cravou os olhos nele e respondeu entre
dentes:
— Existem homens por aí que sabem apreciar o
que é uma mulher de verdade, baby.
— Existe homem pra tudo, baby — zombou
Björn.
Incrédula, Judith tentou resolver a situação e
olhou para Mel.
— Você vai se encontrar com esse cara?
— Não.
— Olha só que pingente de morango mais
original. Tem até chocolate. — Judith riu.
— Foi um presente — murmurou Mel em
resposta, ao se dar conta de que o pingente tinha
chamado a atenção.
Eric notou o que estava interessando Judith e
piscou várias vezes. Ele já tinha visto a joia antes e
então olhou para o amigo, que estava ali fingindo que
não tinha nada a ver com aquilo.
— Olha... um morango com chocolate, que
original! — exclamou Eric.
Björn viu que tinha sido descoberto, por isso
pediu com os olhos que ele não falasse nada.
Alguns segundos depois, vendo que Mel não ia
comentar nada, Björn tentou chamar a atenção de
Judith: — Mas o que acontece, Ironwoman? Por
acaso não tem com quem deixar a sua princesa hoje
à noite?
Mel irritou-se com a insistência.
— Isso não é da sua conta, idiota.
Sem se deixar intimidar e disposto a atingir seu
objetivo, Björn insistiu.
— Eu poderia ficar de babá pra você, mas
marquei com uma mulher muito gata e não vou
perder esse encontro por nada no mundo.
— Eh... eh... eh... Você seria a última pessoa no
mundo que eu escolheria pra cuidar da minha filha.
— Provavelmente eu cuido melhor do que você
imagina.
— Duvido.
— Se quiser, deixa a menina comigo — Judith
respondeu ao ouvi-los. — Você sabe que ela vai
ficar bem com a gente e pode vir buscá-la amanhã de
manhã.
Mel sentiu-se atraída pela ideia de ter a noite
inteira só para ela e, pelo olhar de Björn, ele também.
Porém, mesmo assim, contestou: — Não... não acho
que seja uma boa ideia.
Eric, que até aquele momento tinha permanecido
em silêncio, insistiu também: — Aqui nós vamos
cuidar dela como se fosse você. Não seja boba, saia
hoje à noite e divirta-se.
Björn olhou para o amigo e continuou semeando
a discórdia:
— Como você é pouco solidário com esse
coitado, Eric. Tem certeza do que está fazendo?
Você sabe que a Superwoman aqui é capaz de dar
uma porrada nele, e vai acabar deixando-o
traumatizado.
— Não se fala mais nisso — Judith insistiu,
desejando matar o querido amigo Björn. — A Sami
vai ficar com a gente esta noite.
— Mas...
— Mel — interrompeu Judith —, sai hoje com
esse cara e se divirta. Você merece! — E para
Björn, acrescentou: — E você, bico calado, porque
está me deixando nervosa. No fim, quem vai te dar
uma porrada sou eu.
— Amigo — Eric interveio —, se eu fosse
você, ficava quieto. Não esquece que ela está
grávida e os hormônios estão todos descontrolados!
Björn deu uma gargalhada. Tinha dado certo.
— Estou indo — disse, se levantando para sair.
— Vou ficar com uma gata que vai me encher de
beijos quando me vir, em vez de porrada.
— Pobrezinha — Mel zombou —, ela vai ter
que ter estômago.
Judith riu e Björn sussurrou:
— Pra sua informação, sei de fontes seguras
que ela gosta de mim.
— Tem certeza?
— Absoluta, linda. Além disso, talvez eu até a
leve pra cavalgar.
— Ué, mas à noite? — Judith perguntou
surpresa.
Ele sorriu sem querer olhar para Mel para não
correr o risco de dar uma gargalhada.
— Cavalgar com a luz da lua é maravilhoso.
Mel trocou um olhar rápido com ele e recebeu
uma piscadinha de cumplicidade. Tentou segurar a
risada. Que cara de pau!
Logo em seguida, as duas mulheres se
levantaram e Eric veio falar com o amigo, que estava
vestindo um casaco de couro.
— Morango com chocolate?
Björn percebeu que as mulheres não estavam
por perto.
— Fica quieto! — respondeu.
Eric sorriu, chegou mais perto e tentou insistir:
— O que você tem com a Mel?
— Guarda segredo, amigo, depois a gente
conversa.
— Claro que a gente conversa, mas como diz a
minha mulher, ponto um: pensa no que você está
fazendo. Ponto dois: pode ter certeza de que a Jud
não vai demorar a ligar os pontos, e quando ela ficar
sabendo, você vai se arrepender de ter guardado
segredo!
Vinte minutos depois, Mel saiu com o carro do
terreno dos amigos e não ficou surpresa ao ver Björn
esperando algumas ruas mais adiante.
— Me segue. Vamos colocar os dois carros na
garagem do meu prédio — ele instruiu de dentro do
próprio carro quando Mel parou ao lado.
— Não.
A resposta tão segura confirmou para Björn que
alguma coisa estava errada naquela noite.
— Por que não?
— Porque não e ponto.
Sem olhar para ele, Mel acendeu um cigarro.
— O que está acontecendo? — Björn
perguntou quando viu a cara que ela fazia.
Melanie bufou com impaciência. Era o
aniversário dela com Mike. Seria o sexto, mas não
estava a fim de falar a verdade.
— Nada, não está acontecendo nada.
Björn ficou surpreso com a negativa e então
desceu do carro para ir até ela.
— Você não quer ir pra minha casa?
Mel fez que não com a cabeça e saiu do carro
batendo a porta com força.
— Eu disse que queria ficar com a Sami. Por
que você teve que insistir?
— Porque eu estava a fim de ficar com você, de
te beijar, de te tocar e de cavalgar à luz da lua.
As palavras tão íntimas, tão especiais, tocaram-
lhe o coração. Quando Björn tentou chegar mais
perto, porém, ela o impediu colocando a mão em seu
peito.
— Não quero mais nada com você além de
sexo, não confunda as coisas.
— Mas do que você está falando? — Björn
perguntou desconcertado.
— Já te disse que o assunto amor não é a minha
praia — esclareceu, furiosa. — Uma coisa é eu me
divertir com você, e outra bem diferente é eu te dar
exclusividade. Por isso, se você quiser que a gente
fique junto, vamos a uma casa de swing pra curtir.
A proposta frustrava totalmente os planos de
Björn. Ele adorava sexo, mas Mel e seu jeito especial
de fazer amor o atraíam tanto que ele a queria só
para ele. Confuso, fixou nela os impressionantes
olhos azuis: — Você prefere ir a um clube a ir pra
minha casa?
— Prefiro — afirmou ela, apagando o cigarro.
Björn queria protestar, reclamar. Mas, em vez
disso, respirou fundo.
— É sério que não aconteceu nada?
— Faz cinco segundos que eu te respondi.
Com uma paciência extraordinária, ele moveu a
cabeça num gesto compreensivo.
— E o que você acha se eu chamar mais alguém
e a gente for pra minha casa?
Mel o encarou.
— Entrega em domicílio?
O comentário fez Björn achar graça.
— Tenho muitos amigos. De vez em quando eu
organizo festinhas assim lá em casa e...
— Tá bom, não quero saber mais. Se vai
chamar alguém, que seja um homem e que seja
atraente. Não é qualquer um que me agrada.
— Mulher não?
Irritada pelo rumo da conversa, Mel disse por
fim:
— Escuta aqui, se você quiser, chama uma
mulher pra você e um homem pra mim. Não sou
ciumenta.
Björn considerou as palavras. O sexo a quatro
costumava ser divertido, mas decidiu deixar para
outro dia. Finalmente, abriu o celular, falou com
alguém e marcou de se encontrarem na casa dele em
meia hora. Então, foi andando até o próprio carro.
— Problema resolvido — anunciou. — Vai ser
uma festa a três.
— Você convidou um homem?
— Convidei, agora me segue.
No prédio, eles guardaram os carros na
garagem. Assim que entraram no apartamento, Björn
a beijou.
— Hoje eu queria uma noite só com você —
murmurou.
Mel também estava a fim, mas não queria
depender daquele garanhão: com toda certeza, se o
deixasse entrar em sua vida, sairia de coração
partido.
— Vamos curtir. Sem essa de exclusividade! —
Mel murmurou ao retribuir o beijo.
Em ocasiões como aquelas, quando via tamanha
frieza e arrogância, Björn ficava sem palavras.
Qualquer uma das mulheres que conhecia mataria por
uma noite a sós com ele, mas Mel não era assim. Isso
marcava a diferença entre ela e as outras. Quis
protestar, mas por fim disse, com os olhos fixos nos
dela: — Eu é que vou comandar o jogo, tudo bem?
— Tudo, mas não se acostume com isso. —
Mel sorriu e aceitou com uma expressão divertida.
Meia hora mais tarde, o interfone da casa de
Björn tocou. Mel reconheceu Carl quando o viu
entrando e sorriu. Cumprimentaram-se e
imediatamente Björn sentiu raiva. Estava com
ciúmes?
Preparou uns drinques para se acalmar enquanto
os dois conversavam. Não era a primeira vez que
dividia uma mulher com seu amigo Carl, mas daquela
vez, vendo os dois juntos, o que Björn sentiu foi
diferente e o deixou inquieto. Não gostava de se
sentir assim.
Mel bebeu para quebrar o gelo e em seguida
colocou um rock para tocar, como sempre. Björn
olhou para ela assim que percebeu que se tratava de
Bon Jovi. Desafiadora, Mel retribuiu o sorriso. Um
sorriso frio que não agradou a Björn; ele entendeu
que algo não ia bem. Acompanhou-a com o olhar e
viu que ela tirava da bolsa um lenço escuro que
mostrou aos dois e depois amarrou sobre os olhos.
Björn se irritou. Conhecia-a e sabia o que
significava. Levantou-se e chegou perto dela para
saber do que se tratava.
— O que você está fazendo?
— Curtindo.
— E posso saber por quê? — ele insistiu
nervoso.
Mel respondeu com um tom de voz que deixou
Björn com frio na espinha: — Porque hoje eu quero
estar com o Mike.
Agora ele estava ofendido e além de tudo não
conseguia ver os olhos dela.
— Eu disse que era pra você me deixar
comandar o jogo — ele grunhiu de irritação.
— Eu deixo, baby... mas hoje o Mike também
vai jogar.
Frustrado porque nada estava saindo conforme
o planejado, Björn ficou tentado a acabar com tudo
de uma vez, porém o desejo falou mais alto que a
razão.
— Mel, senta — ele exigiu, por fim, pegando-a
pela mão.
Ela obedeceu. Cada homem a atacou por um
lado. Quatro mãos passearam por seus seios e sua
cintura, e suas pernas foram abertas para expor o
sexo ardente de desejo. Levantaram sua minissaia e
primeiro um, depois o outro, enfiou os dedos no seu
sexo molhado para sentir e proporcionar prazer.
Dedos brincalhões puxaram o tecido fino da calcinha
e a assaltaram.
Os homens diziam coisas picantes para excitá-
la.
— Você gosta do que a gente te diz, Mel? —
Carl perguntou.
Ela fez que sim e Björn se levantou do sofá, já
enlouquecido pelo prazer do momento. Mel o tirava
do sério e o deixava impaciente como um
adolescente. Ele se ajoelhou no chão e tirou a
calcinha dela com um movimento brusco.
— Abre mais as pernas e se oferece pra mim.
Assim ela fez, e a boca de Björn foi direto onde
Mel queria. Encostada no sofá, ela se entregou ao
prazer do jogo. Carl abriu sua blusa, e levantou seus
seios por cima do sutiã. Deu mordidinhas, brincou e
os apertou. Chupou e saboreou os mamilos com
prazer intenso. Descontrolada e tremendamente
excitada pelo que os homens faziam, Mel se movia
cheia de desejo e gemia enquanto Björn continuava
com o ataque e comandava o que Carl fazia.
A temperatura subiu. Björn estava totalmente
envolvido no jogo. Colocou Mel de pé, tirou sua
saia, abriu seu sutiã e quando a teve totalmente nua,
deu mais uma instrução olhando para o lenço com
que ela cobria os olhos: — Mel, fica de joelhos no
tapete.
Ela obedeceu sem hesitar e Björn tirou o lenço
de seus olhos, pois queria olhar para ela e queria que
ela também olhasse para ele. Não estava disposto a
compartilhá-la com Mike.
Mel não gostou daquilo. Direcionou um olhar
irritado para Björn e decidiu agir sem falar nada.
Levou as mãos até o cinto dos homens, desabotoou-
lhes as calças, abriu os zíperes, puxou as cuecas e
tocou com delicadeza as ereções prontas para
brincar com ela.
Com prazer, tocou e beijou primeiro a pontinha
do pênis e então enfiou tudo na boca, deliciando-se.
Os homens soltaram grunhidos másculos, que
deixaram o corpo de Mel todo arrepiado. Ela sentiu
ainda mais prazer quando Björn apoiou uma das
mãos em sua cabeça, exigindo que ela continuasse.
Ficaram um bom tempo assim, antes que Björn
desse uma nova instrução: — Carl, masturbe Mel.
O amigo ajoelhou-se atrás dela e começou a
tocar sua bunda, morder as costelas e passar a língua
pela tatuagem. Enquanto isso, Mel continuava
lambendo o pênis ereto de Björn com todo o prazer.
Excitado ainda mais de ver a tatuagem mexendo nas
costas em resposta ao ataque de Carl, Björn afastou
o cabelo dela do rosto para que olhasse para ele e
então cravou os olhões azuis nos dela.
— Sou Björn... olha pra mim.
Mais do que irritada, a exigência a deixou mais
excitada.
Carl continuava masturbando-a por trás. Enfiou
dois dedos dentro da vagina lubrificada e mexeu
enquanto ela gemia, se mexia e tentava continuar
chupando o que Björn oferecia.
Ele tirou o pênis da boca dela e observou as
expressões de prazer provocadas pelas carícias de
Carl. Observou a boca, os lábios, os seios que se
moviam descontrolados em resposta ao ataque
erótico. Quando não aguentou mais, colocou a
camisinha, mudou de lugar com Carl e a penetrou
com vontade. O corpo de Mel se contraiu todo ao
sentir a ereção enorme dentro de si.
— Abra-se pra mim — ele ordenou.
Muito excitada, ela fez o que ele pedia. Björn
lhe deu um tapa na bunda e exigiu: — Se ofereça.
Vamos, se aperta em mim.
Mel atendeu, enlouquecida. Porém, sabia o que
ele estava fazendo: estava impedindo que ela
pensasse em Mike num momento como aquele.
Björn continuou falando enquanto penetrava
repetidamente em seu interior: — Vou abrir as suas
pernas pro Carl, como sei que você gosta e quer.
Vou te oferecer pra ele e só pra ele, e depois vou te
foder até você gritar meu nome. Esta noite, vamos
ser só eu e o Carl que vamos fazer você gritar de
prazer. Ninguém mais.
De quatro, Mel concordou. Björn a agarrou
pelo quadril e se aprofundou nela com movimentos
delirantes. Saía e então entrava uma e outra vez,
sempre falando, para que ela se lembrasse de que era
ele e ninguém mais quem a possuía.
— Está me sentindo, Mel?
— Estou! — ela gritou em resposta aos
movimentos enérgicos, ao calor, ao tamanho daquele
pênis.
— Fala meu nome — ele exigiu, penetrando-a
de novo.
Mel gemeu. O prazer era intenso.
— Fala meu nome — Björn repetiu.
Mel resistiu, mas Björn não estava disposto a
ceder nem um milímetro. Penetrou-a mais uma vez
com fúria.
— Fala meu nome — exigiu.
— Björn! — ela gritou, por fim.
— Repete — insistiu.
— Björn!
— Outra vez.
— Björn! — Mel obedeceu com a respiração
entrecortada.
Ele ficou muito satisfeito de fazê-la viver e sentir
a realidade. Penetrou-a de novo, deixando-a louca.
— Sim, meu bem, sim... Sou Björn, não se
esqueça. Isso aqui é entre mim e você. Nosso jogo
não é de ninguém mais, entendeu?
Mel não respondeu e Björn insistiu.
— Você ouviu o que eu disse, Mel?
— Ouvi... ouvi... Björn... Não para, agora não
para.
Aquela súplica e a forma como ela se arqueava
para recebê-lo motivaram Björn a acelerar o ritmo de
seus movimentos. Queria fazê-la sentir. Queria que
gozasse e queria gozar também. Os gemidos de
ambos se aceleraram e Mel se deixou levar pelo
prazer, contraindo-se toda.
Caiu de rosto no tapete e seu sexo se abriu ao
sentir a última investida de Björn, acompanhada de
um som rouco de prazer. Ele saiu de dentro dela e,
sem se afastar em nenhum momento, colocou-a de
barriga para cima. Olhou-a nos olhos e notou sua
respiração agitada. Os dois adoravam aqueles jogos
e ficavam muito excitados.
Björn a beijou com jeito possessivo, para deixar
claro que era ele quem comandava.
— Está pronta pro Carl?
Mel fez que sim e Björn chamou o amigo.
— Carl...
Ele tinha assistido a tudo aquilo e já estava com
a camisinha, querendo brincar com ela. Assim que
Björn a ofereceu, Carl penetrou a vagina molhada
que pulsava.
Os gemidos de Mel voltaram a tomar conta do
lugar. Björn sentou-se ao lado dela e colocou a boca
sobre seus lábios.
— Isso, aproveita, querida... — sussurrou. —
Se abre pro Carl. Vamos... grita de prazer. Quero te
ouvir... quero ver o tanto que você está gostando...
Mel gritou e fechou os olhos. Ele a segurou pelo
queixo e exigiu:
— Olha pra mim.
Ela obedeceu.
— Fala meu nome.
Com os olhos fixos nele e consciente de quem
estava ao seu lado, ela atendeu: — Björn...
Ele moveu a cabeça em aprovação. Mel estava
com ele.
— Sim, eu e você — disse baixinho. — Esse
jogo é nosso.
Enlouquecida pelas sensações que causavam
aquelas palavras, ela agarrou o pescoço dele e beijou
seus lábios com desespero. Abriu sua boca e enfiou a
língua no interior de tal maneira que quase o fez
perder a razão com um simples beijo. A força com
que Mel se entregava era surpreendente. Björn
desejou cuidar dela como nunca havia cuidado de
nenhuma outra mulher.
Carl continuou possuindo Mel sem parar
enquanto ela e Björn se beijavam. Sem tirar os olhos
deles, passou as mãos por baixo das pernas dela
para melhorar o acesso e continuou o próprio jogo.
Carl ficou trêmulo ao ver o corpo nu da mulher que
se entregava a ele daquela forma enquanto seu amigo
a beijava na boca. Logo ele não conseguiu mais
segurar e se entregou ao clímax, enfiando-se nela
uma última vez enquanto ela também gozava.
Os três foram recuperando o fôlego. Carl saiu
de dentro dela, Björn colocou-se de pé e a ajudou a
levantar. Pegou Mel nos braços e a levou até o
chuveiro. Na hora em que a água começou a cair
entre os dois, ele a olhou nos olhos e disse: — Já
estou duro e vou te comer outra vez.
Dengosa, ela deixou. Björn a apoiou contra a
parede e penetrou a vagina dilatada. Ao se sentir
preenchida mais uma vez, Mel sussurrou com um fio
de voz: — Björn.
Comovido, ele fez um gesto afirmativo com a
cabeça. Ela havia dito seu nome sem que ele pedisse.
Agarrou-a pelo traseiro para ter controle de seu
corpo e se apertou contra ela.
— Sim, Mel... sou o Björn.
Olhavam-se nos olhos e respiravam com
dificuldade, curtindo a sensação de prazer intenso. A
vagina de Mel se contraía e a sucção provocava
sensações fantásticas, maravilhosas, em Björn. A
brincadeira continuou por vários minutos e os dois
curtiram como loucos. Em seguida, Björn separou as
nádegas dela com as mãos e passou um dos dedos
pelo seu ânus.
— Carl — Mel sussurrou.
Björn, que já tinha visto Mel fazer sexo anal no
Sensations, entendeu o que aquilo significava e
chamou o amigo. Carl entrou no banheiro e recebeu
as instruções de Björn, que organizava o jogo: — Em
alguns minutos, quero você aqui no chuveiro, junto
com a gente.
Carl concordou. Ficou olhando os dois
brincarem sob a água caindo enquanto seu pênis se
enrijecia até chegar o momento de colocar o
preservativo. Entrou no chuveiro e desligou a água.
Björn se moveu, colocou Mel entre os dois e Carl
começou a tocá-la. Loucamente excitado, Björn
aproximou seus lábios dos dela.
— É isso o que você quer?
— É — Mel respondeu quando sentiu Carl
massageando sua bunda.
— O Carl está te preparando. Está gostoso?
— Está sim...
O prazer era imenso e respirações ofegantes
ressoavam pelo banheiro: era o prazer em estado
puro que tomava conta dos três. O sexo dela sugava
o pênis de Björn e ele apertava os dentes e tentava
se controlar, não se deixando levar pelos instintos
animais que estavam à flor da pele. Precisava dar
tempo para que os dedos de Carl a dilatassem um
pouco. Já não estava aguentando mais.
— Vamos dar o que você deseja, linda — falou
baixinho.
— Sim, Björn... dá tudo pra mim.
Aquele pedido o deixou louco de tesão. Além
disso, ouvir Mel dizer seu nome provocava um prazer
reconfortante de saber que ela confiava nele.
Finalmente o jogo era seu. Um jogo onde eles eram
os protagonistas e não outras pessoas.
Beijos...
A língua de Björn se enroscou na dela e ambos
desfrutaram a paixão e o prazer sem limites.
— Björn, se apoia na parede e abre a Mel pra
mim — Carl pediu, por fim.
Björn olhou-a nos olhos e fez o que o amigo
pedia. Ainda com o pênis dentro dela, segurou-a pela
bunda e a abriu para dar acesso a Carl. Björn a
ofereceu. Carl colocou a pontinha do pênis
lentamente e começou a penetrá-la devagar enquanto
Mel e Björn se olhavam nos olhos.
Ela arquejou.
— Era isso que você queria? — perguntou
Björn, que estava prestando atenção nela a todo
instante.
— Era sim... — e sem tirar os olhos dele, ela
sussurrou em seguida: — Você gosta de me
oferecer?
Aquilo deixou Björn fora de si. Ele sorriu, pois
era verdade.
— Eu adoro, linda... fico louco.
Mel gemia de tanto prazer ao sentir os dois
pênis dentro dela, um na frente e outro atrás.
Os homens não hesitaram em nenhum instante e
a penetraram várias vezes em busca do prazer. Ali no
meio, ela arfava e beijava Björn com ferocidade.
Prazer...
Excitação...
Fantasia...
Essas três coisas chegaram ao nível máximo. O
trio curtia o que gostava de verdade: sexo. Cheia de
luxúria, Mel se contorceu de prazer nos braços deles,
oferecendo o que tinha para dar. Foi penetrada
repetidas vezes pelos dois homens, cada um a seu
ritmo, em busca do orgasmo.
Quando tudo acabou, Carl saiu de dentro dela e
Björn indicou com um olhar que ele fosse tomar
banho no outro banheiro. Não precisava dizer mais
nada: Carl sabia que quando o jogo acabava ele não
era mais necessário. Quando Mel e Björn ficaram
sozinhos, ele ligou a água e a olhou nos olhos. A
pergunta que ouviu dela em seguida foi um pouco
inesperada.
— Tudo bem?
Ele respondeu que sim e algo em seu coração
descongelou naquele instante. Lembrou-se de Eric e
sorriu ao entender o que o amigo tinha tentado
explicar tantas vezes sobre ele e Jud. Sem saber por
quê, naquele momento, tudo fez sentido. A química
com uma mulher, e tudo o que isso significava, surgia
quando menos se esperava. Finalmente havia
encontrado aquilo com Mel e não ia perder.
Os jogos calientes e excitantes entre os três
duraram até as quatro da madrugada. Assim que Carl
foi embora, Mel tomou banho sozinha. Já vestida
com a calcinha e o sutiã, começou a recolher sua
roupa.
— Aonde você vai? — Björn perguntou,
encarando-a.
— Pra minha casa — ela respondeu sem olhar
para ele.
Houve um silêncio tenso.
— O que acontece hoje? E não adianta dizer
que não é nada, porque você não me engana. O que
foi?
— Björn...
— Por que você queria que o Mike estivesse
aqui? Por quê?
Mel fechou os olhos. O comportamento no
começo da noite tinha sido horrível e inaceitável. Ela
deu de ombros e então disse baixinho: — Hoje é
meu aniversário com o Mike.
— Era — Björn enfatizou com firmeza. — Era!
Você tem que começar a falar no passado.
— Eu sei.
Björn estava perdendo a paciência. Estava
furioso.
— O Mike não está mais aqui, Mel. Não é mais
aniversário de vocês dois. Quando você vai entender
isso?
Ela não respondeu. Simplesmente fechou os
olhos e continuou recolhendo a roupa.
Björn queria mais do que tudo que ela não fosse
embora, desejava que ela passasse o resto da noite
com ele. Pensou no que fazer. Foi então que resolveu
ir até o aparelho de som. Olhou vários CDs e
escolheu um que achava muito especial, um que ouvia
sempre sozinho. Na hora em que começaram a soar
os primeiros acordes de Feelings, de Aaron Neville,
Björn já estava atrás dela, murmurando em seu
ouvido: — Vem...
O coração dela disparou. Ela soltou as roupas
que segurava e quis abraçá-lo. Precisava tanto...
Aquela música...
Aquele homem...
Aquele momento...
Feelings, nothing more than
feelings.
Trying to forget my feelings of
love.
Teardrops rolling down on my
face.
Trying to forget my feelings of
love.
Dançaram um nos braços do outro por alguns
instantes ao som daquela maravilhosa canção
romântica, até que Björn encostou a testa na de Mel
e disse: — Me perdoa por ter falado daquele jeito.
Ela moveu a cabeça para dizer que sim.
— Você que precisa me perdoar, por eu ter me
comportado como uma idiota — ela respondeu
depois de alguns segundos.
— Mel...
Ela sacudiu a cabeça e Björn procurou sua boca
com desespero, dando-lhe um beijo intenso.
Afastou-se dela e murmurou com a voz rouca: —
Não quero que você pense nele.
— Björn, eu...
— Eu e você. Aqui só estamos eu e você.
— Escuta, Björn...
— Não, meu bem, me escuta você — ele
interrompeu, deixando-a toda arrepiada. — Quando
estiver comigo, só quero que pense em mim, em nós
dois. Pode me chamar de egoísta, mas quando nós
brincamos, com outros ou sozinhos, só quero que
existamos eu e você. Mike é o passado e eu sou o
presente, você não vê?
Mel não respondeu. Não conseguia. Estava
começando a ter sentimentos especiais por ele e isso
a assustava. Não podia permitir. Não devia. Não
tinha sido sincera com Björn desde o começo e sabia
que cedo ou tarde, quando ele soubesse em que ela
trabalhava, tudo iria pelos ares como uma bomba.
Ela o beijou e saboreou seus lábios com deleite.
— Fica comigo essa noite — ele pediu quando
se separaram.
— Não...
— Não vá — Björn insistiu com a voz rouca.
— Não posso.
— Pode sim... claro que pode.
Mel se comoveu pela voz e pelo que sentiu ali
com ele. Olhou-o nos olhos e perguntou sem meias
palavras: — O que estamos fazendo?
A canção sensual continuou. Abraçados e
enfeitiçados pelo momento, os dois se moveram ao
compasso da música. Björn, aquele garanhão, a
quem todas as mulheres adoravam, respondeu: —
Não sei o que estamos fazendo, meu bem, mas estou
gostando e não vou parar, porque você está se
tornando alguém muito... muito especial pra mim.
Mel fechou os olhos e sorriu. Gostava do
romantismo de Björn. Gostava muito.
Feelings, wo-o-o feelings.
Oh... oh...my darling.
Wo-o-o, feelings again in my heart.
Ele cheirou os cabelos dela e ela o beijou no
pescoço. Björn a abraçou com ânsia e sentiu seu
aroma. Sem saber como, nem por que, aquela mulher
o completava. Não queria se separar dela nem mais
um só dia. Nem um só instante.
Enfeitiçado, ele a levou até a cama e continuou a
enchê-la de beijos. Queria lhe dar muito carinho e
dizer centenas de coisas que nunca tinha dito, só que
ele mesmo se assustava com o que estava sentindo.
Tudo ia rápido, rápido demais. Teve que morder a
língua para não dizer algo de que pudesse se
arrepender depois.
Beijos...
Ternura...
Desejo...
Fizeram carícias um no outro ao compasso da
bela canção.
Sem pressa...
Sem parar...
Quando a música chegou ao fim, começou
outra, também de Aaron Neville. Agora era Tell it
like it is. Se a outra música era romântica, essa era
mais ainda.
Mel foi cativada pela delicadeza, pela
sensualidade e pelo prazer que Björn demonstrava
naquele momento. Ela fechou os olhos quando sentiu
que ele passava os lábios por seu queixo. Meu Deus,
como era delicioso!
Entregue aos gestos de carinho, Mel o ouviu
sussurrar:
— Vamos fazer amor com a minha música.
Com a nossa música.
— Você é um romântico mesmo — ela ironizou,
dengosa.
Ele concordou e esfregou o nariz no dela.
— Você também é, mesmo que não acredite.
Mel sorriu. Tocou o rosto dele e o beijou.
— Desculpa te acertar com a rolha... Foi sem
querer.
Björn não deu importância. Tirou a cueca boxer
preta que usava, jogou no chão e abriu mais um
preservativo. Porém, Mel não deixou que ele
colocasse.
— Tem certeza?
— Tenho. Quero sentir a sua pele na minha.
Ele sorriu e ela o beijou.
Há quanto tempo não fazia amor?
No início de sua relação com Mike, tudo era
romântico. Mas nas últimas vezes, era tudo frio e
rápido. Tinha se esquecido do romantismo. Porém ali
estava Björn: um homem impressionante que nada
tinha a ver com ela e com seu estilo de vida. Um
homem que nunca pensou atrair e que, de repente,
fazia mimos, dava carinho e a tratava com tanto
cuidado, que ela estava começando a acreditar
novamente que o amor existia.
Beijos saborosos. Beijos suculentos. Beijos
deliciosos. Era assim que Björn a beijava enquanto a
voz sensual de Aaron Neville preenchia o quarto.
Aquela intimidade calorosa tocava seus corações.
Olhavam-se com ternura...
Tocavam-se com carinho...
Mordiam-se os lábios com paixão e
intimidade...
Comunicavam-se sem falar nada e seus corpos
ardentes se esfregavam; deliciavam-se contentes
naquele instante profundo e tão mágico. Björn
colocou o corpo forte sobre o dela com cuidado
para não machucá-la e passeou a boca por sua testa,
por suas bochechas e pelo seu pescoço, até terminar
nos seios. Ela prendeu a respiração por um instante.
Com um estremecimento, Mel enredou os
dedos naqueles cabelos escuros e espessos e fez
Björn olhar para ela.
— Faz amor comigo — pediu.
Com os olhos vidrados de paixão, Björn voltou
a beijá-la enquanto Mel escorregava as mãos pelas
costas dele e cravava os dedos para segurá-lo junto
a si. Björn tremeu, excitado e enlouquecido de
desejo. Com movimentos felinos e deliberados, atirou
a lingerie dela no chão. A ereção pulsava. O pênis
duro estava pronto para uma nova invasão. Björn
olhou Mel nos olhos, aproximou-se sentindo sua
vagina molhada e a penetrou.
Mel arqueou o corpo para recebê-lo e fazê-lo
seu. Ambos se moviam lentamente no compasso da
música e suas bocas se saboreavam e se mordiam.
Com movimentos possessivos e sensuais, Björn
continuou por cima e Mel, delirante, se abriu toda
para acolhê-lo o mais fundo possível. Calmos, sem
pressa e olhando-se nos olhos, encaixaram-se um no
outro e, juntos, pele com pele, arrepiaram-se de
prazer, sentindo aquele momento mágico. Apoiando
as mãos na cama, ele moveu o quadril mais para a
frente, querendo se aprofundar nela. Ela agarrou sua
bunda com força.
— Não se mexa — ela pediu com a voz
trêmula.
Björn, fundido ao corpo dela, parou, sentiu
como a vagina o sugava e gemeu de prazer. Aquilo
era delicioso. Incrível!
— Oh, meu Deus, baby...
— Não se mexa — ela suplicou quente de
paixão.
Maravilhado, Björn não se moveu. Desfrutaram
aquela intimidade fervorosa, e seus corpos excitados
foram tomados pelo prazer enquanto a música
continuava. Alguns segundos depois, Björn uniu os
lábios aos dela e sussurrou: — Gosto muito de você,
Mel... Demais.
Ela não disse nada, fechou os olhos e sentiu o
corpo estremecer de prazer. Quando os tremores
ficaram menos intensos, Björn se moveu para
penetrá-la mais fundo e arrancou-lhe um gemido
inocente.
A voracidade crescia e, segundo a segundo, os
movimentos ficavam mais rápidos, mais fortes, mais
certeiros, mais carnais... Aquilo era necessário. Björn
soltou um grunhido de satisfação e se fundiu
totalmente nela: o orgasmo atingiu os dois ao mesmo
tempo. E ela confessou num sussurro: — Também
gosto muito de você, Björn... Demais.
20
Os dias se passaram, os encontros continuaram
e a casa de Mel estava sempre florida. Pela primeira
vez na vida, um homem a presenteava com lindas
rosas e mensagens malucas que a faziam gargalhar.
Naquele período, o celular de Björn tocava toda
hora e, mesmo que ele não desse explicações, Mel
supunha que eram amigas. Sem dizer nada, ela o
observava conversar e inventar desculpas, mas Björn
nunca se separava dela, e, de certo modo, sentia-se
feliz por ser especial para ele.
Até que uma noite, no Sensations, Björn fez o
que um dia tinha prometido. Quando entraram num
reservado, uma mulher esperava por eles. Mel logo a
identificou como uma das que tinha visto da outra vez
com Judith. Em silêncio, Björn deixou Mel nua,
colocou-a sobre a cama e exigiu que abrisse as
pernas.
— Diana, te ofereço a Mel. Faça ela gritar de
prazer.
E foi o que aconteceu...
A outra mulher fez coisas com a boca que
deixaram Mel desnorteada, gritando de desejo.
— Isso... assim... — Björn murmurou com os
lábios sobre os dela —, goza pra mim.
Diana era fantástica. Dominava sua arte muito
bem e os movimentos bruscos que fazia em certos
momentos deixavam Mel excitada demais. Sua língua
era selvagem, rápida, dura e sabia brincar com o
clitóris de uma maneira incrível. Quando Mel pensava
que não gozaria de novo, conseguia mais uma vez.
Björn sentou Mel na cama e ficou atrás. Diana
enfiou os dedos nela e a masturbou. Mel se entregou
ao prazer, e Björn não parou de beijá-la. Foi então
que Diana parou de repente e foi a vez de Björn
entrar em ação. Muito excitado, sentou Mel sobre ele
e a penetrou com firmeza. Precisava penetrá-la ou
enloqueceria.
— Deite-a, Björn, e abre ela pra mim — Diana
pediu.
Björn atendeu. Mel sentia que aquela mulher
lambuzava seu ânus com lubrificante e enfiava os
dedos nela com a mesma maestria de segundos
antes.
— Que rabinho maravilhoso, Melanie. Está
gostoso?
Os olhos de Björn observavam sua reação.
— Sim... está sim — Mel respondeu.
Diana, que tinha muita experiência em
proporcionar grandes prazeres, colocou um dedo
dentro dela.
— Agora vou colocar um strap-on e vou te
foder — avisou. — Vou agarrar o seu quadril e vou
meter em você até que volte a gritar de prazer.
Quero sentir como você treme. Quero sentir seu
rabinho vibrando pra mim enquanto Björn come essa
bocetinha tão maravilhosa que eu comi e que estou
desejando comer outra vez.
Com a respiração difícil, Mel não tirou os olhos
de um Björn tremendamente excitado.
— Sim... sim... — ela sussurrou.
Björn a beijou mais uma vez com desespero,
enfeitiçado pelo poder da mulher que olhava para ele
com olhos intensos. Desta vez, fez com carinho, com
deleite, com amor. Curtiram juntos o prazer ilimitado
que a situação proporcionava, esquecendo-se do
resto do mundo, pois naquele momento só existiam
eles dois. Quando deixou Mel dilatada, Diana a
segurou pelo quadril e a penetrou. Mel se entregou
ao desejo, desvairada. Björn e Diana a possuíram.
Ambos a preencheram. Era maravilhoso.
Depois de tentar falar com Björn inúmeras
vezes, Agneta decidiu ir sozinha ao Sensations.
Quando se deu conta do que estava acontecendo
naquele reservado, saiu dali soltando fogo pelas
ventas. Não pelo tipo de sexo que via, mas pelas
atenções e delicadezas que Björn dedicava àquela tal
de Mel. Atenções que ela mesma nunca tinha
recebido.
Os dias se passaram e os encontros na casa
dele e no Sensations eram sempre calientes e
gostosos. Dia a dia, Björn pôde comprovar por si
mesmo como Mel era experiente nos assuntos
eróticos. Ela o deixava fora de si com as
brincadeiras, com a forma de fazê-lo tremer de
prazer com seus movimentos. Era enlouquecedor
sentir que ela lhe pertencia.
Ver seu olhar fixo quando outro a penetrava e a
apertava contra si era das coisas mais excitantes que
Björn já tinha experimentado na vida. Ofegava como
um animal quando ela gemia e gostava ainda mais
quando ela lhe dizia no ouvido, como uma gatinha no
cio, tudo o que queria fazer com ele.
Björn sentiu-se vivo. Queria que Mel contasse
com ele para tudo e começou a desejar que ninguém
mais tomasse as rédeas dos jogos com ela.
Esconder de Eric e Judith era cada dia mais
difícil. Estar com eles e outros amigos bebendo
alguma coisa, ou jantando, e não poder beijar Mel,
ou ver como outros homens se insinuavam querendo
sair com ela, era uma verdadeira tortura. Apesar
disso, quando estavam a sós, ele fazia o possível para
ser recompensado.
Tentou conhecer os amigos dela, mas Mel se
recusou. Sempre encontrava uma desculpa para
deixar para outro dia.
O sexo entre eles era fenomenal. Quente e
sensual. Era sempre incrível. Sempre tinham vontade
de mais. Eram duas feras insaciáveis.
Depois de vários dias separados por causa de
uma viagem a Bagdá que Björn ignorava, Mel chegou
em casa e trocou de roupa, já que não queria que ele
a visse vestida com o uniforme militar. Ela saiu de
casa outra vez e foi direto para o apartamento dele,
onde ele a esperava. Assim que ele abriu a porta e os
dois se olharam, seus corpos foram tomados por um
calor imenso. Desejavam-se. Tinham sentido
saudades um do outro.
— Olá, linda.
Mel o abraçou, enfiou a língua na boca dele e o
beijou vorazmente, enquanto Björn a puxava para
seus braços e a levava até o quarto. Quando
chegaram lá, Mel se soltou e exigiu: — Tira a roupa.
Excitado, ele fez exatamente o que ela pediu e
quando já estava nu, Mel deu uma nova ordem.
— Se masturbe.
Björn franziu a testa. Não queria se masturbar,
queria afundar-se dentro dela, sentir seu calor... Ele
fez menção de reclamar, mas Mel usou a voz da
tenente Parker: — Mandei você se masturbar — ela
ordenou.
Aquela voz...
Aquela exigência...
A forma como olhava para ele foi o que fez
Björn levar a mão até o pênis e começar a se tocar.
Mel observou os movimentos com atenção, sem
desviar o olhar, e quando viu que Björn fechou os
olhos, parecendo estar prestes a gozar, ela o
interrompeu: — Eh... eh... eh... Para! Deita na cama.
— Hoje você está mandona? — ele perguntou
em tom de brincadeira.
Mel sorriu. Abriu a mochila que trazia e tirou
cordas vermelhas.
— Hoje eu vou fazer uma coisa com você que
há dias tenho vontade.
Björn olhou para as cordas e foi avisando:
— Não gosto que ninguém me amarre.
Mel sorriu, mas não saiu do lugar.
— Eu não sou ninguém, sou a Mel e você vai
fazer o que eu estou mandando, já!
Björn não estava entendendo muito bem o que
ela pretendia, mas cedeu. Deitado, viu Mel subir na
cama sem tirar a roupa e amarrar um braço dele no
encosto e depois fazer o mesmo com o outro.
Ela só ficou satisfeita quando o viu imobilizado.
Em seguida, pegou um lenço vermelho e tentou
provocá-lo: — Você não vai ver nada — murmurou.
— Só vai sentir... ouvir e...
— Não, Mel, não quero que você cubra os
meus olhos.
Mel se agachou até ficar quase em cima da boca
dele.
— Hoje quem manda aqui sou eu... e você fica
quieto.
A brincadeira estava deixando Björn excitado
demais. Desejava Mel mais do que tudo e aquilo era
enlouquecedor. Sem falar nada, ela amarrou o lenço
vermelho ao redor da cabeça dele e, quando se
certificou de que ele não conseguia ver nada,
levantou-se da cama.
— E agora... prepare-se pra me dar o prazer
máximo.
Björn não via, mas ouvia Mel caminhando pelo
quarto. Os barulhos o fizeram saber que ela tinha
tirado as botas e a calça. Sentiu-a novamente na
cama.
— Quando você me soltar, juro que vai me
pagar.
— Quanto eu te soltar, juro que você vai estar
muito satisfeito.
Björn sorriu, imaginando as coisas que Mel
tirava da mochila. De repente ouviu um zumbido.
— O que você está fazendo?
Ela não respondeu. Björn pôde ouvir um
gemido.
— O que você está fazendo?
Mel estava estimulando o clitóris com um
massageador.
— Estou dando a mim mesma um prazer
fenomenal enquanto te vejo aí amarrado na cama
com os olhos cobertos.
Incrédulo, Björn sentiu vontade de protestar,
porém, mais um gemido chegou até seus ouvidos.
— Baby... você está me deixando louco.
Björn tremia de desejo e sua excitação só
aumentava. Logo sentiu Mel pegar seu pênis e o
enfiar na boca. Ela lambeu por um bom tempo e
parou quando percebeu que ele estava quase
gozando. Björn sentiu que ela colocava alguma coisa
nele.
— O que você está colocando em mim?
Mel sorriu e Björn protestou quando percebeu.
— Porra, Mel, o que você está colocando em
mim?
— Adivinha! — Ela riu.
Björn sentiu que aquela coisa fazia pressão ao
redor do pênis.
— Parece um anel. Pra que isso?
Mel sorriu. Colocou o anel até o fim e se moveu
para lamber os mamilos dele e dar mordidinhas.
— Fica tranquilo, meu bem. Eu disse que você
ia me pagar e hoje você só vai gozar quando eu
deixar.
Björn sorriu ao se lembrar do dia em que exigiu
que ela não gozasse.
— Como você é vingativa!
Mel concordou com a cabeça e apertou a mão
em volta do pênis ereto.
— Aqui se faz, aqui se paga. E pode ter certeza
de que eu passei esses dias longe pensando em como
você ia me pagar.
— Garota má...
Mel deu uma risadinha.
— Eu coloquei em você um anel vibrador de
silicone que vai reforçar a sua ereção, vai estimular o
meu clitóris e vai retardar a ejaculação até quando eu
quiser.
— Tá...
Mel o beijou várias vezes e o tocou de um jeito
muito estimulante. Ele sentiu que ela montava sobre
ele e introduzia o pênis muito duro lentamente dentro
de si.
— Agora vamos brincar, eu e você — ela
murmurou.
Em seguida, cheia de tesão, ela moveu o quadril
de um lado para o outro e sentiu o pênis latejar no
seu interior. Deus... como tinha desejado aquilo.
Alguns minutos depois, Björn estremeceu. Mel
parou.
— Não, píncipe, não... aguenta como eu
aguentei.
Sem poder abraçá-la, ele protestou. Sentia-se
vulnerável com as mãos atadas.
— Solta as minhas mãos, Mel.
Como resposta, a boca dela pousou sobre a sua
e o beijou até deixá-lo sem ar.
— Não, meu bem... aguenta — insistiu Mel.
— Quero te tocar.
— Não... não... não... como você me disse....
aguenta!
O pênis de Björn estava duro como pedra. Mel
acionou um botãozinho do anel e então ele começou
a vibrar. Björn gemeu e Mel se apertou contra o
membro para sentir a vibração no clitóris.
— Quero encontrar o meu próprio prazer e,
com isso, vou te deixar louco.
A pressão que Björn sentia cada vez que ela se
movia era extraordinária. Não podia ver Mel, mas
podia sentir como cavalgava e sentia também o
tremor nas coxas dela quando recebia as descargas
de prazer no clitóris.
Os gemidos de Mel... os movimentos dela... e
não poder olhar para ela deixavam Björn fora de si.
Ela acelerava os movimentos e quando sentia que ia
chegar ao ápice, desacelerava.
— Assim... assim, Björn... aguenta e me dá o
que eu quero.
— Não consigo...
— Consegue sim... Continua... Ah, sim...
Completamente ereto, ele só podia mexer o
quadril para a frente na tentativa de se enterrar mais
fundo quando ela sentava novamente. Ele ouvia sua
respiração difícil e sentia como os dois corpos
tremiam em resposta ao prazer. Björn mordeu os
lábios, o suor brotando em sua testa. Nenhuma
mulher o havia amarrado à cama alguma, pois aquilo
quem fazia era ele. A diferença é que Mel sempre
conseguia o que queria dele. De repente, ela tirou o
lenço vermelho do rosto dele, olhou-o nos olhos e se
apertou mais fundo, fora de si, e então os dois
convulsionaram e chegaram a um orgasmo intenso.
Momentos depois, quando a respiração dos
dois ficou mais calma, Mel desamarrou os braços
dele da cama. Björn lhe deu uma tapinha carinhoso e
depois a abraçou. Tomaram uma chuveirada e
fizeram amor no banheiro mais uma vez. Mel propôs
irem ao Sensations, mas ele negou. Naquela noite
não queria outros parceiros. Só queria Mel e ninguém
mais.
Por volta das três da madrugada, quando
estavam sentados comendo sanduíches no balcão da
cozinha, Björn perguntou: — Por que você não veio
vestida de aeromoça?
Mel engoliu o que tinha na boca e respondeu
sorrindo:
— Já te disse que com uniforme de trabalho não
se brinca.
Björn deu uma gargalhada e a beijou, encantado
de tê-la ali na sua frente.
— O que você acha se amanhã a gente for pra
Veneza por uns dias? — Björn propôs. — Conheço
um hotelzinho lindo onde ficaremos muito bem
acomodados.
A proposta era muito atraente. Nada agradaria
mais a Mel do que uma viagem com ele. Porém, era
preciso recusar: — Não posso. Tenho que ir buscar
a Sami nas Astúrias. Estou com saudades dela.
— E não pode atrasar a viagem por uns dois
dias?
Mel negou com a cabeça.
— Não. Estou com saudade da minha pequena.
Björn tentou entender sua necessidade de ver a
filha.
— Minha intenção é ir buscá-la no sábado de
manhã e voltar na terça bem tarde — Mel
acrescentou.
Aquela firmeza deixou claro para Björn que não
importava o que dissesse, Mel não iria aceitar.
— Posso te acompanhar? — ele perguntou ao
se levantar.
— Nas Astúrias?
— É.
— Você?
Björn achou graça na cara que ela fez.
— Posso ficar em um hotel — tentou convencê-
la. — Só por algumas noites. O que você acha da
ideia?
Aquilo parecia tentador, mas não, não teria
como. Björn não sabia certas coisas sobre ela e, se
fosse às Astúrias, poderia descobrir.
— Não acho uma boa ideia — Mel respondeu.
— Quem sabe em outra ocasião...
Mas ele já tinha tomado uma decisão. Pegou-a
nos braços. Estava disposto a acompanhá-la para ver
se nas Astúrias existia algo além da filha.
— Você e eu vamos juntos pras Astúrias
amanhã e nem ligo pro que você diz — insistiu.
— Mas...
E então Mel não pôde dizer mais nada.
Os beijos ávidos e saborosos de Björn a fizeram
perder a razão. Meia hora depois ela já tinha mudado
de opinião.
Na manhã seguinte, no aeroporto, Mel ficou
besta ao ver que um jatinho particular esperava pelos
dois.
— Falei com o Eric e ele nos emprestou o
jatinho. Assim fazemos um voo direto.
— O Eric tem um jatinho particular?
Björn sorriu.
— Eric Zimmerman tem o que ele quiser e, por
sorte, sou o melhor amigo dele!
— O Eric sabe sobre a gente?
Com o melhor dos sorrisos, Björn pensou em
responder, mas Mel o interrompeu: — Porra, Björn,
com certeza ele vai contar pra Judith e ela vai ficar
brava comigo.
— Fica fria, ele vai manter segredo. Mas
comece a planejar, pois vamos tornar isso aqui
público. Não sei por que você faz tanta questão de
que ninguém saiba.
Naquele instante chegou o piloto,
cumprimentando os dois e entregando um celular a
Björn.
— O senhor Zimmerman quer falar com o
senhor.
Björn pegou o aparelho e Mel comentou
enquanto se afastava:
— Vou ligar lá pra casa pra dizer que vamos
chegar ao aeroporto ao meio-dia.
Ligou para a irmã. Assim que ela atendeu, Mel
se apressou em dizer: — Scarlett, fica calada e me
escuta. Estou indo buscar a Sami com um homem,
mas ele não sabe que eu sou militar e nem que o
papai é. Preciso que você avise a mamãe e a vovó e,
principalmente, peça que elas tirem as fotos que
estão pela casa que...
— Mas o que você está me contando? Você
está vindo com um homem? Quem é? Por que ele
não sabe que você é do exército?
— Porra, quer ficar quieta? — Mel gritou, ao
ver que a irmã não a escutava.
— Nem pense em falar comigo com voz de
tenente, bonitona, que eu te mando à merda —
Scarlett protestou.
Sem tirar a vista de Björn, Mel continuou
falando:
— Vou te contar tudo o que você quiser saber
em outro momento. Mas, por favor... faz tudo o que
eu estou te pedindo. Tira qualquer rastro de vida
militar que possa ter pela casa da vovó. Você pode
fazer isso?
— Claro, boba, claro que posso fazer. A que
horas você vai chegar?
— Por volta do meio-dia. Ah... e ele pensa que
sou aeromoça da Air Europa.
Scarlett gargalhou bem alto.
— Aeromoça? Não me faça rir.
— Tá... pode rir tudo o que você quiser — Mel
cochichou, vendo que Björn olhava para ela. — Vá
nos buscar, entendeu? E, por favor, avise o pessoal
pra que ninguém faça um só comentário sobre a
minha profissão e deixe bem claro que eu sou
aeromoça! Tchau.
Quando desligou o telefone, Mel se virou e viu
que Björn estava atrás dela, encarando-a.
— Agora, quando a gente subir no avião, você
vai me fazer isso que as aeromoças fazem de explicar
onde ficam as saídas de emergência. — Mel deu
risada e ele acrescentou: — Deve ser muito sexy
olhar pra você enquanto dá as instruções.
Com uma expressão divertida, Mel o beijou e,
falando gracinhas, subiram juntos no avião.
21
Ao meio-dia e dez aterrissaram no aeroporto
das Astúrias. Assim que saíram do avião, Mel viu
Scarlett esperando por eles.
— Aquela ali é a minha irmã.
Björn viu uma jovem um pouco mais velha do
que Mel e sorriu. Quando ficou frente a frente com
ela, falou o que Mel tinha ensinado para ele em
espanhol: — Olá, me chamo Björn, prazer em
conhecê-la.
Scarlett, que tinha ficado sem fala depois de ver
a irmã aparecer com aquele cara tão absurdamente
lindo, moveu a cabeça como uma bonequinha. Deu
dois beijinhos nele e respondeu: — Olá, Björn, me
chamo Scarlett e também é um prazer te conhecer.
Ele olhou para Mel e ela lhe explicou em
alemão:
— Minha irmã disse que é um prazer te
conhecer. Aliás, falem em inglês, que vocês se
entendem.
Eles sorriram e Björn pegou Mel pela cintura.
— Mel não tinha me dito que vocês duas eram
tão parecidas. Você é muito bonita.
— Obrigadaaaaaaaa.
— Scarlett — Mel interveio quando viu a cara
de boba da irmã —, o Björn é meu... não se
esqueça.
Scarlett se ofendeu com o comentário.
— Melanieeeeeeeeeee! — ela gritou.
Mel soltou uma gargalhada ao ver a cara dela.
— Uau... — Björn cochichou — se eu
soubesse, teria vindo pra cá antes.
Chegaram ao pequeno povoado e ele olhou ao
redor com curiosidade. Aquele lugar chamado La
Isla era lindo e tinha uma praia espetacular. Sentado
no banco traseiro daquele carro caindo aos pedaços,
Björn ouviu as garotas falando em espanhol, sem
entender nada, e ficou olhando o mar, encantado.
Ele sempre tinha gostado do mar. Talvez fosse
por isso que viajava tanto a Zahara de los Atunes, um
lugar que conhecia muito bem. Mas aquele povoado
no norte da Espanha era lindo. Teve vontade de
conhecer melhor.
— Você fez tudo o que eu pedi? — Mel
perguntou à irmã.
— Fiz. Não tem nem uma única foto sua vestida
de militar. Ah sim... e pode se entender com a
mamãe: ela ficou bem brava por você ser tão
mentirosa. Mas, me diga, ser militar é tão ruim assim
pra esse homem?
— Scarlett, por Deus! Não mencione essa
palavrinha, senão ele vai entender!
Ao notar a angústia da irmã, Scarlett olhou pelo
retrovisor e viu Björn tranquilamente observando a
paisagem.
— Posso saber em que encrenca você se
meteu?
Mel ainda não acreditava que Björn estivesse
ali.
— Na verdade, eu não sei. A única coisa que eu
sei é que...
— ... que esse cara é muito, mas muito gato, e
eu juro que por alguém assim, também me meteria
numa encrenca — Scarlett interrompeu, fazendo Mel
rir.
O carro parou em frente a um casarão de
pedras cinza e Björn continuou observando tudo,
cheio de curiosidade. Era enorme e devia ser muito
antigo. De repente, a porta se abriu e Sami veio
correndo, com sua habitual coroinha na cabeça. Mel
abriu a porta do carro e também foi até ela. O
reencontro com aquele abraço tão sentido deixou
Björn emocionado e lhe provocou um sorriso de
ternura.
Depois da menina, saíram duas mulheres de
idades diferentes, que Björn identificou como a mãe e
a avó de Mel. As duas o observaram e
cumprimentaram com um aceno. Björn retribuiu.
— Píncipeeeeeeee! — a menina gritou,
correndo até ele.
Björn ficou encantado pela demonstração de
carinho. Pegou Sami no colo e fez o que ela gostava:
encheu seu pescocinho de beijos. A menina
respondeu com risadinhas.
As quatro mulheres se aproximaram de Björn,
que colocou Sami no chão e usou o pouco espanhol
que sabia: — Olá, me chamo Björn, prazer em
conhecer.
Mel se aproximou dele e cochichou:
— Com a mamãe, você pode falar em inglês.
Com a vovó... você está enrascado!
Luján logo o cumprimentou. Quando Björn se
virou para a avó, ela perguntou a Mel com seu
sotaque asturiano: — Como você disse que o menino
se chama?
— Björn, vovó.
— Coooooooomo?
— Björn — insistiram Luján e as duas filhas.
— Blon?
— Björn, vovó — Mel repetiu, divertindo-se.
— Bol?
— Björn.
A mulher balançou a cabeça, desaprovando.
Acenou para aquele gigante de belos olhos azuis,
virou-se de costas e cochichou: — Outro como o
Ceci... com um nome impossível.
— Vovó — Scarlett protestou —, é Cedric. O
papai se chama Cedric.
Mas Covadonga, com cara de contrariada,
continuou:
— Sinceramente, acho que vocês fazem de
propósito. Procuram os que têm os nomes mais
estranhos e que falem outras línguas só para que eu
não possa me comunicar com eles.
Quando ela desapareceu, Björn olhou para as
mulheres e Luján disse em inglês: — Minha mãe é
muito idosa. Não leve em conta nada do que ela
disser.
Björn sorriu e entraram todos na casa para
beber algo refrescante. Era julho e fazia um calor
infernal.
À tarde, comeram alguma coisa numa bela
varanda, enquanto Sami brincava no chão com a
hamster Peggy Sue.
— Antes de chegar ao povoado, eu vi um hotel
— Björn comentou. — Eu deveria ir lá agora ou ligar
pra reservar.
— Mas por que você vai a um hotel? — Luján
perguntou. — Esta casa tem sete quartos. Não diga
nada. Você fica aqui com a gente.
Mel sorriu. Sabia que isso ia acontecer se ele
falasse em hotel.
— Como disse a mamãe, aqui tem espaço pra
todos.
— Não queria incomodar.
— Não é incômodo, filho, por Deus — Luján
insistiu.
Covadonga os observava conversar e não
entendia nada.
— O que disse o rapaz? — perguntou.
Scarlett, brincando com a sobrinha e o bichinho,
foi quem explicou:
— Ele disse que ia dormir num hotel. Não quer
incomodar.
A mulher, ouvindo o que a neta dizia, levantou-
se da cadeira e foi até Björn: — Minha casa é muito
grande e também tem espaço para você, menino.
Mel traduziu o que a avó tinha dito e Björn ficou
emocionado com a bondade que viu nos olhos
daquela velha mulher. Pegou suas mãos e disse em
espanhol com um sorriso espetacular: — Obrigado,
vovó.
Ela sorriu.
— Que alegria, tenho mais um neto! E um bem
bonito. Você vai ver só quando as vizinhas
colocarem os olhos em você. E nem falo nada da
Puri, que acha que o menino dela é o mais bonito do
povoado. Ai, Deus dá comida para quem não tem
dentes.
Todas sorriram e Covadonga, sem soltar as
mãos de Björn, fez com que ele se levantasse e o
levou para fora da casa. Mel os viu sair e foi atrás.
Onde sua avó o estava levando?
Lá fora, viu que a avó gritava um cumprimento
para uma vizinha.
— Ô de casa!
A vizinha respondeu de longe. Depois de um
pouco de conversa fiada, a anciã protestou: —
Como dizia a minha avó... vá à merda.
Mel soltou uma gargalhada quando a avó disse:
— Pois não me perguntaram se o rapaz é filho
do Ceci? Ora, como se não soubessem que as únicas
filhas do Ceci que existem são você e sua irmã.
Björn as encarou, mas Mel não traduziu nada.
— Vovó... Cedric... Cedric, não Ceci. Quando
a senhora vai aprender o nome do papai?
Covadonga riu. Era uma brincalhona. Naquele
instante, a vizinha voltou a perguntar gritando à moda
dos asturianos e a avó protestou de novo: — Ah, vá
amarrar seu burro em outra freguesia! Não está me
perguntando agora se ele não é militar que nem você?
— Vovóóóóóóó.
Mel olhou para Björn, mas, por sorte, ele não
entendia nada do que estava sendo dito. Mel então
murmurou com um sorriso falso: — Vovó, não
mencione nada que tenha a ver com a minha
profissão, por favor. Acho que a Scarlett disse pra
senhora que não quero que ele saiba em que eu
trabalho. Por favor, evite mencionar essa palavra.
Tá?
— Ai, menina, mas o que você está fazendo?
— Nada de ruim, vovó.
— E se não é ruim, por que você não quer que
o rapaz saiba de nada?
— Vovó, por favor, me ajude e não faça
perguntas.
A mulher concordou. Ajudaria a neta no que
fosse preciso.
— Não se esqueça, menina, mentira tem perna
curta. Não se esqueça. Aliás, sua mãe fala com o
Ceci dia sim, e o outro também. E quando desliga,
fica sorrindo que nem uma boba. Ela está tramando
alguma coisa.
Mel sorriu e respondeu:
— Vovó, a senhora sabe que a mamãe e o
papai se amam muito. Não gostaria que eles ficassem
juntos de novo?
Covadonga fez que sim com a cabeça.
— Mas claro que sim — respondeu baixando a
voz. — O Ceci e a sua mãe formam um belo casal.
Mas sua mãe é muito cabeça-dura... demais.
A avó viu que Björn as observava sem entender
nada e, com um movimento de cabeça, indicou: —
Blas, vem comigo.
— Blas? — Mel repetiu segurando o riso. — A
senhora chamou o Björn de Blas?
A mulher fez que sim e levantou o queixo.
— Mas preciso chamá-lo de alguma coisa, ora
essa!
Björn não entendia nada. Só ouvia a mulher falar
e Mel rir até não poder mais. Supôs que não era
nada de mau e sorriu, mas gostava cada vez menos
da sensação de não entender nada do que diziam.
Aquela noite, quando todos se retiraram para
descansar e Sami adormeceu, Luján passou pelo
quarto onde Mel estava com a menina.
— Por que tivemos que tirar as suas fotos e as
do seu pai?
— Mamãe, ele não sabe que sou militar.
— Mas por que ele não sabe?
Mel não estava com vontade de mentir.
— Porque ele odeia os militares, em especial os
americanos — confessou.
Luján ficou surpresa.
— Filha do céu, mas por quê?
— Realmente não sei, mamãe. Só sei que é só
falar “militar americano” que ele fecha a cara.
— Mas... quer ele goste ou não, você não
deveria mentir. Seu pai e você sempre tiveram muito
orgulho do que são e de quem são.
— Eu sei, mamãe. Eu sei. Cedo ou tarde, vou
acabar contando o que eu e o papai somos, mas até
lá, guarda segredo pra mim. Estou vivendo uma coisa
tão bonita com ele que só quero que dure um pouco
mais.
— Então você gosta muito desse rapaz?
— Gosto, mamãe, muitíssimo. E mesmo que
você não acredite, a primeira a se sentir mal com
tudo isso, por não ser sincera, sou eu, mas...
— Você tem medo de perdê-lo.
Quando ouviu aquelas palavras saírem da boca
da mãe, Mel se deu conta de que ela tinha razão. Por
isso, concordou olhando-a nos olhos.
— Sim. O Björn é especial.
Ficaram em silêncio por uns minutos, até que
Luján mudou de assunto:
— Ultimamente tenho falado muito com o seu
pai.
— Eu sei. A vovó e a Scarlett me contam.
— Ele quer que eu volte pra ele, você consegue
acreditar? Depois de um tempo separados, de
repente, outro dia, ele me disse que não consegue
viver sem mim e que precisa de mim mais do que de
respirar.
— Mamãããããe...
— O Cedric é tão romântico às vezes que...
— Isso é fantástico, não acha?
Luján concordou, emocionada.
— Mas não posso ir pra Fort Worth, filha.
Você precisa de mim. Quem vai ficar com a Sami
quando você passar semanas fora?
— Não, mamãe, isso não. Não faça eu me
sentir culpada por você não ir morar com o papai.
— Não quero que você se sinta culpada,
querida. Só quero que você entenda que precisa de
um homem como o Björn ao seu lado pra que todos
nós saibamos que você e a Sami estão protegidas e
bem cuidadas. Não posso ir embora se não tiver
certeza disso. Sou sua mãe e mesmo que você tenha
cem anos, vou continuar sendo e vou continuar
querendo que você fique bem, entendeu?
Mel sorriu por aquelas palavras e respondeu
que sim com a cabeça.
— Sim, mamãe, entendi. Mas agora vê se você
me entende. Não sei se o Björn é esse homem que
vai proporcionar tudo isso pra nós duas, mas o que
sei é que em Fort Worth há um homem que precisa
de você e que deseja que você vá morar com ele.
Você sabe que dentro de alguns meses a Scarlett vai
voltar. Sabe que ela veio por um tempo e...
— Sim... sim... sim... vamos mudar de assunto.
— Mamãe.
E sem se importar com o olhar da filha, Luján
anunciou:
— O Björn é um homem muito bonito e
educado. Você disse que ele é advogado?
— É.
— Solteiro?
— É.
A mulher sorriu.
— Não se empolgue, mamãe, tá? — Mel
murmurou.
Luján concordou, deu um beijo na testa da filha
e foi dormir.
Mel ligou a babá eletrônica e se levantou da
cama sem fazer nenhum barulho para ir até o quarto
em que Björn estava. Ao entrar, foi recebida com um
sorriso.
— Oi, linda.
— Vim te asfixiar com o travesseiro, mas como
você está acordado, estragou meus planos.
Björn sorriu e estendeu os braços.
— Venha aqui.
Mel se atirou nos braços dele e sentiu que Björn
a apertava forte contra seu corpo.
— Sinto muito não poder dormir com você, mas
tenho que ficar com a minha filha. Você entende, não
entende?
— Claro que sim. Não se preocupe com nada.
— E, no meio de um beijo, perguntou: — Você está
bem?
— Estou...
— Aliás, o inglês que sua mãe, você e sua irmã
falam é muito americano. Todas vocês trabalharam
na American Airlines? — ele perguntou, desconfiado,
mas com bom humor.
Mel ficou aflita com a pergunta e deu uma
explicação qualquer:
— Bom, além de ser por causa do meu trabalho
na American Airlines, minha família fala inglês porque
fomos morar uns anos no Texas por causa do
trabalho do meu pai.
— Sério?
— Sério.
— E em que o seu pai trabalha?
— Ele trabalha com informática, na Apple —
mentiu. E antes que Björn continuasse fazendo
perguntas, acrescentou: — Mas não pergunte por
ele. Mamãe e papai se separaram e elas não gostam
de falar sobre ele, entendeu?
Ficaram abraçados por vários minutos, até que
Björn notou que Mel estava quase dormindo.
— Levanta... vai lá dormir com a sua filha antes
que eu me arrependa e tire sua roupa.
Quando Mel saiu do quarto, Björn ficou
olhando para o teto por um bom tempo. Estava onde
queria estar, mas sem a mulher que tanto desejava ao
seu lado. Mesmo assim, sorriu, apagou a luz e
dormiu.

No dia seguinte, Mel levantou bem tarde. Como


todos sabiam, quando ela chegava de alguma missão,
o que mais necessitava era dormir, por isso, ninguém
a acordou.
Björn, que tinha acordado por volta das sete da
manhã, se vestiu e desceu até a cozinha, onde
encontrou Covadonga. Logo que a mulher o viu, fez
gestos para que ele tomasse o café da manhã e Björn
aceitou. Também por meio de sinais, no fim, ela fez o
rapaz acompanhá-la, indicou o carro e entregou as
chaves. Björn entendeu que ela queria ser levada a
algum lugar e assim o fez.
Por volta do meio-dia, Mel acordou e levantou
da cama com um salto. Björn estava ali, naquela
casa, e não podia se separar dele para que ele não
descobrisse nada. Tomou um banho rápido, se vestiu
e, quando chegou na sala, viu sua filha, sua mãe e sua
irmã, mas não viu Björn.
— Onde está Björn? — perguntou.
— Com a vovó — Scarlett informou. —
Pegaram o carro. Não faço ideia de onde ele a levou.
Mel mandou uma mensagem pare ele na mesma
hora e sorriu quando recebeu a resposta: “Estou
bem. Não entendo sua avó, mas dou risada com
as caras que ela faz.”
Mel abriu a geladeira, achando graça. De
repente lembrou-se de algo e fez um comentário: —
Ontem à noite Björn me disse que nosso sotaque é
muito americano e eu disse que o papai trabalha na
Apple e que já moramos no Texas. Por isso, se ele
perguntar, vocês já sabem o que dizer.
— Isso... você continua mentindo — Luján
protestou.
Mel preparou um café com leite.
— Susana ligou — Scarlett anunciou. —
Marquei com ela e com uns amigos hoje à noite no
bar do Roberto. Pelo visto, tem show.
— De quem?
— La Musicalité.
Mel sorriu. Adorava aquela banda. Não era a
primeira vez que os via ao vivo nas Astúrias.
— Genial! — respondeu contente para Scarlett.
Uma hora mais tarde, ouviram um carro.
Quando Mel chegou lá fora, viu que eram Björn, a
avó e o vizinho Ovidio.
Björn parou o veículo, desceu e olhou para as
mulheres que saíam da casa.
— Ô de casa! — ele gritou alegremente.
Mel achou aquilo o máximo e, vendo o ar de
brincadeira na cara dele, deu risada. Em uma só
manhã, a avó tinha conseguido fazê-lo gritar como
um autêntico asturiano.
Covadonga desceu do carro, indicou o porta-
malas e pediu:
— Blasinho, descarrega o carro.
Björn entendeu e Mel perguntou surpresa ao se
aproximar deles:
— Blasinho?
A avó fez que sim e deu uma piscadinha para a
neta.
— Já ficamos íntimos, menina — explicou —, e
agora já nos tratamos de um jeito mais informal. —
Virando-se para o senhor da sua idade que as
observava, disse: — Ovidio, pare de olhar os peitos
das minhas netas e venha que tenho trabalho para
você.
O homem concordou com a cabeça e foi
caminhando atrás da mulher.
— Eu me canso da paisagem — ele murmurou.
As irmãs se entreolharam morrendo de rir. Mel
foi até Björn.
— Como vão as coisas? — perguntou.
Depois de tirar várias sacolas de pães, verduras,
carnes e mais um milhão de coisas, Björn fechou o
porta-malas e respondeu: — A sua avó me mata.
Que energia! Hoje de manhã fomos até onde vocês
têm vacas, depois me levou pra tomar café e comer
umas madalenas enormes na casa de uma mulher que
gritava muito. Lá a gente se encontrou com o Ovidio.
Em seguida voltamos ao lugar das vacas e,
finalmente, fomos ao mercado, onde ela me
apresentou a tooooooodo mundo. Aí sim, eu não
entendi nada. Eu só entendia a sua avó por causa dos
gestos que ela fazia.
— Blasinho, vamos, entra com as compras —
Covadonga gritou da porta.
— Mamãe — Luján protestou —, ele se chama
Björn, não Blasinho.
A mulher olhou para a filha, moveu a cabeça e
esclareceu:
— Chamo ele como eu quiser e ponto final.
Luján, vendo-o carregado de sacolas, foi até ele
para ajudar.
— Que tal você levar Björn para dar uma volta
na praia? — Luján sugeriu à filha. — Acho que a sua
avó já o incomodou o suficiente. Voltem daqui a
umas duas horas para almoçar.
Mel olhou para Björn com sentimento de culpa.
— Desculpe ter levantado tão tarde. Além
disso, acho que...
Björn não a deixou terminar. Deu-lhe um beijo e
sussurrou perto dos lábios dela: — Vi um hotel
bonitinho não muito longe daqui. O que você acha se
hoje à noite ou amanhã a gente escapar, mesmo que
seja por algumas horas e você me compensa por
tudo?
— Só umas horas?
— Pode ser por mais do que algumas horas? —
perguntou surpreso.
Com desejo, Mel chegou pertinho e sussurrou
tocando o pingente:
— O que você acha se eu e você amanhã à
noite... no hotel?
Björn, que estava morrendo de vontade de ficar
a sós com ela, concordou.
— Me parece a melhor ideia que você já teve,
querida.
Mel sorriu e gritou:
— Scarlett!
— Quê?
— Ainda está de pé aquilo de tomar umas
sidras com os amigos?
— Claro, eles querem te ver.
— Aliás, a sua amiga Paqui ainda continua
trabalhando no Palacio de Luces?
Scarlett fez que sim.
— Então liga pra ela e diz que quero reservar
uma linda suíte pra amanhã.
— Sério?
— Sério. Amanhã. Eu e o Blasinho... temos um
encontro.
Scarlett sorriu ao ver como a irmã e Björn se
beijavam. Quando se separaram, a avó apareceu
gritando na porta: — Blasinho, vem aqui, precisamos
de você.
— Vovó, a gente estava indo à praia — Mel
protestou.
— Não dá, menina... Preciso do rapaz.
Björn se afastou com uma expressão divertida
no rosto. Mel foi para junto da irmã e disse aos
cochichos: — Preciso de umas coisas pra amanhã à
noite.
— O quê?
— Duas tigelas com chocolate ao leite
derretido...
— Chocolate derretido? Uau, Mel, isso parece
perversão das boas.
As duas deram uma risada.
— Também preciso de um plástico bem grande
pra cobrir a cama.
— Meu Deus... Você vai se livrar do alemão e
ocultar as provas!
Mel soltou uma gargalhada e Scarlett comentou,
ainda confusa:
— Tudo bem... Vou considerar que o plástico
não é para ocultação de cadáver. Vou falar com a
Paqui pra ela reservar uma bela suíte e eu mesma me
encarrego de deixar lá as coisas que você pediu.
Maaaaaaas, em troca, quero que me conte pra que
você precisa do plástico grande, porque o chocolate,
eu já imagino. Se gostar, também vou experimentar.
— Combinado. — Mel riu.
Naquela noite, Mel apresentou Björn a seus
amigos e ele tentou se comunicar como pôde, através
de sinais. Era um homem que sabia se virar, por isso
rapidamente se enturmou. Ouviu as músicas de La
Musicalité e viu Mel cantar e dançar.
No puedes decir que no, no
puedes decir jamás.
No debes pedir perdón, tan sólo te
quiero más.
Dolor que no puedo ver. Ni siento
cuando te vas.
No puedes decirme adiós, te llevo
en mi caminar
gritando que no me ves, rezando
porque tú vuelvas otra vezzzzzzzzz.
Ver Mel sorrir deixava Björn feliz.
— Gostei da música dessa banda, mesmo que
não entenda nada — disse, agarrando-a pela cintura.
Mel sorriu.
— Eles são ótimos. Quando a gente voltar a
Munique, vou te emprestar uns CDs.
Divertiram-se no show por uma hora e meia,
dançando e se beijando. Em seguida Mel viu uma
amiga sua fumando e se deu conta de que não
colocava um cigarro na boca há horas e que também
não sentia nenhuma vontade. Sorriu, feliz pela
descoberta. Quer dizer que aquele alemão ia
conseguir fazê-la parar de fumar?
Já Björn, que nunca tinha tido um
relacionamento parecido com aquele com nenhuma
mulher antes, sentia-se incrível. Gostava de estar
junto com Mel e gostava que todo mundo soubesse
que eles eram um casal. Simplesmente adorava. Será
que ela era a mulher da sua vida?
Quando o show acabou, muita gente foi
embora, mas outros ainda ficaram um pouco. A
música recomeçou e Björn foi com Mel até o bar
para pegar uns drinques. Em seguida, um homem e
uma mulher se aproximaram dela e bateram
continência. Björn olhou a cena, surpreso. Que diabo
era aquilo?
Com toda a graça e criatividade possíveis, Mel
tentou fazer piada. O homem era Roberto, dono do
local. Quando ele se afastou, de braço dado com a
mulher, Björn olhou para Mel e quis saber: — Por
que ele te cumprimentou daquele jeito?
Sentindo-se péssima pela mentira, ela
respondeu:
— Sei lá, vai ver é moda nas Astúrias.
Björn concordou. A resposta não convencia,
mas quando começou a música do Bruno Mars,
When I was your man, ela olhou nos olhos dele e
disse: — Você dança?
— Quer dizer que você está ficando romântica?
Mel enrugou a testa, mas respondeu com um
sorriso:
— Estou deixando a vida me levar.
Björn a beijou e aceitou com todo o prazer.
Pegou sua garota pela mão e foi com ela até a
pequena pista de dança. Dançaram abraçadinhos,
enquanto a voz de Bruno Mars cantava: Hmmm too
young, too dumb to realize.
That I should have bought you flowers and held
your hand.
Should have gave your all my hours when I had
the chance.
Take you to every party ‘cause all you wanted to
do was dance.
Now my baby is dancing, but she’s dancing with
another man.
Sem falar, dançaram no compasso da música,
que era especial para os dois e os unia tanto. Björn a
beijou no pescoço.
— Sempre que ouço essa canção, me lembro
de você — Mel murmurou.
— Se eu dissesse que não fico muito feliz em
saber disso, estaria mentindo — ele respondeu.
Mel sorriu.
— Espero que já tenha alguém que te tire pra
dançar e te dê flores de presente — Björn continuou
dizendo.
— Já existe — Mel sorriu. — Tem um tal de
James Bond, que...
— Bico calado, Cat Woman — ele riu
encantado.
Mel era tão direta, tão sincera e diferente de
todas as outras mulheres que ele já tinha conhecido,
que era impossível não se apaixonar mais por ela a
cada segundo. Continuaram abraçados enquanto
durou a música. Ao fim, voltaram ao grupo de
amigos.
Pelo resto da noite, Björn se concentrou em
desfrutar da companhia dela e observá-la com
curiosidade. Era divertido vê-la com os amigos e,
quando ela saiu para dançar salsa com um deles,
Björn ficou impressionado ao ver como dançava
bem. Assim que ela voltou, transpirando, tirou o
copo da mão de Björn e começou a beber.
— Quem te ensinou a dançar assim? — ele
perguntou.
Enquanto bebia, Mel pensou. Não podia dizer
que os companheiros latinos da base americana é que
tinham ensinado. Em vez disso, respondeu sorrindo:
— Digamos que aprendi em casas de salsa.
Björn acenou com a cabeça e não quis
perguntar mais. Alguns minutos depois, Mel notou
que as outras mulheres devoravam Björn com os
olhos, enquanto ele a agarrava pela cintura com jeito
possessivo. Sem pensar duas vezes, ela decidiu
marcar território e deu um beijo nele com todo o
descaramento. Björn sorriu com a atitude e, disposto
a provocá-la, murmurou: — Como as mulheres
asturianas são bonitas.
— Nem se atreva, bonequinho.
Ele soltou uma gargalhada. Mel levou a cerveja
aos lábios, bebeu e chupou a boca da garrafa de
modo sedutor.
— Se você continuar fazendo isso... não acho
que vou conseguir me controlar — Björn avisou.
— Você viu como os homens asturianos são
bonitos?
Björn parou de sorrir, mas a brincadeira o
deixava de bom humor.
— Está passando da conta, Ironwoman.
— Quer que eu passe os lábios assim no seu
pênis? — Mel perguntou entre risos e carinhos,
aproximando a garrafa da boca mais uma vez.
— Eu adoraria.
Mel continuou fazendo movimentos eróticos na
garrafa e, quando tocou entre as pernas dele, sentiu
que estava duro.
— O que você acha de eu te levar pra salinha
dos fundos?
— Podemos?
— Podemos.
— Parece incrível — Björn concordou
animado.
— Você quer que sejamos só nós dois ou
prefere que tenhamos companhia? — ela perguntou
com um sorriso, chegando mais perto do corpo dele.
Sem precisar que ela dissesse quem seria o
terceiro, Björn soube: o homem que havia batido
continência para Mel. A proposta o excitava.
— O terceiro seria aquele cara, não é? — Mel
viu quem Björn observava e concordou. Ele
perguntou então: — Você já teve alguma coisa com
ele?
Mel se surpreendeu ao ver que ele torcia o
nariz.
— O Roberto é dono disso aqui e é um cara
muito legal. Uma vez, por acaso, quando eu estava
em Barcelona numa festinha particular com um
amigo, nós nos encontramos. Ele tinha acabado de se
divorciar e estava com a Lisbet, essa mulher que está
com ele agora. Me lembro da cara de surpresa que
ele fez. Foi constrangedor a gente se encontrar
naquele lugar, pelados, mas mantivemos segredo e
uma vez, quando vim para as Astúrias, fomos os três
a uma festa particular em algum lugar de Oviedo pra
nos divertirmos. Se eu já tive algum caso com ele? A
resposta é não. Ele tem um relacionamento com a
Lisbet e, pelo que sei, eles vão muito bem.
Björn entendia. Ela tinha razão e ele não devia
pensar em coisas estranhas. Apesar disso, imaginar
Mel indo a festinhas particulares com outras pessoas
não tinha a menor graça, mas confiou nela, como
sempre.
— Ainda está de pé ir para a salinha dos
fundos? — Björn insistiu.
— Com o Roberto e a Lisbet?
Ele fez que sim.
— Espera um segundo — Mel respondeu.
Muito segura de si, ela foi até o amigo e os dois
conversaram. Em seguida chamou Björn e os
apresentou.
— A Lisbet teve que ir, mas o Roberto disse
que se a gente quiser, podemos ir pro quartinho dos
fundos com ou sem ele.
Björn ficou indeciso. Mas por que tinha
dúvidas? Tentou recuperar o controle de seus
sentimentos.
— Com ele. Quero que você goze pra mim.
Extremamente excitada, Mel fez um sinal para
Roberto, que foi indo na frente. Mel pegou Björn
pela mão com força e os dois o seguiram.
Sem falar nada, entraram em um cômodo e
quando Roberto fechou a porta com chave, uma luz
azul iluminou o local. Björn ficou surpreso. Viu caixas
de bebidas, um freezer, uma mesinha e uma poltrona
confortável.
— Olha só... estou vendo que seu amigo passa
bem aqui.
Mel sorriu e Roberto perguntou através de sinais
o que Björn queria beber. Ele pediu um uísque e Mel
pediu uma Coca-Cola com rum. Roberto serviu e
deixou os drinques sobre a mesinha.
Dominando a situação, Björn agarrou Mel pela
cintura e colou o corpo no dela, procurando sua
boca para beijá-la. Roberto ficou olhando os dois a
distância. Viu que o alemão lhe tirava a blusa e o
sutiã e que depois abria a saia e a deixava cair no
chão junto com a calcinha. Soube que tinha sido
convidado para a festa.
Björn grudou os lábios nos dela e a massageou
na bunda.
— Agora vou te virar de costas e vou te abrir
pra que ele chupe o que é meu.
Aquele sentimento de posse a encheu de
surpresa. Björn deu-se conta daquilo e esclareceu,
fitando-a nos olhos: — Esse jogo é nosso e não
preciso dizer que te considero minha, porque acho
que você já sabe o que sinto por você. Está de
acordo, Mel?
— Estou.
— Tem certeza?
— Tenho. Gosto de ser sua e de que você seja
meu — disse, extasiada.
Björn ficou comovido pelo que as palavras dela
confirmavam.
— Vou permitir que um cara que eu não
conheço te lave, te toque, desfrute de você e te
coma. Em troca, quero te ver sentindo prazer, quero
que goze pra mim e quero que aproveite muito. Diga
a ele que quero que chupe seu clitóris até você gritar
de prazer. Entendeu?
Mel fez que sim. Sentindo muito calor pela
proposta e ouvindo a música tocar do lado de fora,
olhou para Roberto, que os observava de longe, e
anunciou: — Björn quer que você chupe o meu
clitóris e que me faça gritar de prazer.
— Diga a ele que eu farei tudo isso — Roberto
murmurou.
Mel sorriu. Nunca tinha sentido vontade de ser
propriedade de ninguém, mas com Björn era
diferente. Ele a fazia se sentir segura, protegida,
mimada. Gostava de saber que ele a considerava sua
e nem passava por sua cabeça protestar contra isso.
Naquele quarto ninguém os ouviria. O barulho lá
fora era tão intenso que seria impossível que
ouvissem seus gemidos.
Björn virou Mel de costas e a apoiou contra seu
corpo. Baixou os dedos até a vagina que ela deixava
exposta, tocou-a por alguns instantes, abriu os lábios
e olhou para Roberto. Este entendeu que Mel estava
sendo oferecida e não pensou duas vezes. Abriu uma
garrafa de água, limpou Mel com um pano úmido e
depois se ajoelhou. Ele viu como o alemão abria os
lábios vaginais para permitir o acesso e foi direto ao
clitóris.
O gemido de Mel não demorou. Roberto a
segurou pelas coxas e enfiou a cabeça entre suas
pernas, ansioso por saborear o manjar que ela
oferecia. Enquanto isso, Björn dizia coisas em seu
ouvido: — Assim... se aperta na boca dele. Deixa ele
te chupar. Está gostoso, Mel?
Ela confirmou. Aquilo era prazer em estado
puro.
— Deixa ele brincar com você — Björn
continuou falando. — Dobra um pouco mais as
pernas. Isso... assim... — Mel estremeceu quando se
ajeitou, e Björn insistiu: — Não... não se afaste dele.
Quero que ele te chupe. Quero que sinta o sabor da
minha mulher e quero que você goze na boca dele
pra mim.
Mel perdeu o fôlego ao ouvir Björn dizer “o
sabor da minha mulher”. As palavras e o sentimento
de posse que elas demonstravam a deixavam quase
tão excitada quanto o que Roberto fazia.
— Isso, querida... Assim... desse jeito — Björn
disse.
Mel arquejou. Sentir-se entre os corpos dos
dois homens a deixava louca.
— Uma das minhas fantasias com você é te
abrir como estou fazendo agora e dar acesso ao seu
corpo a vários homens — Björn murmurou. —
Quero pedir que se ajoelhem diante de você para te
chupar, um a um, enquanto te seguro e vejo seu
corpo vibrar em resposta. E então vou perguntar de
qual você gostou mais e esse vai ser o primeiro a
quem vou dar permissão pra te foder. Quando a
gente chegar a Munique, vou organizar uma festinha
na minha casa e você vai ser a minha maior fonte de
prazer. Você quer, Mel?
Roberto se agarrou às coxas dela, fez com que
abrisse mais as pernas, e ela não pôde responder. O
que Björn estava propondo era tão prazeroso e tão
excitante que ela tremeu só de imaginar. Björn sentiu
sua impaciência e murmurou com um sorriso: —
Nenhum de nós dois vai te comer enquanto você não
gozar na boca do Roberto.
— Björn...
— ... e quando você gozar — prosseguiu —,
vamos te comer os dois juntos.
— Sim... — Mel gemeu.
Björn sorriu. Beliscou os mamilos dela e
passeou a boca por seu pescoço.
— Mas antes, já sabe o que eu quero, querida.
Goza.
Estimulada demais, Mel deixou um orgasmo
espetacular se apoderar de seu corpo em resposta
àquelas palavras e movimentos experientes de
Roberto. Quando Björn sentiu que ela estremecia,
sorriu e a soltou. Estava duro como pedra.
— Vou esperar você no sofá quando o Roberto
terminar.
Mel viu que ele caminhava com passos
decididos até o assento confortável, tirava da carteira
algumas camisinhas e as deixava sobre a mesinha sem
tirar os olhos dela. Roberto, enlouquecido, continuou
com o jogo, fazendo Mel gemer outra vez.
Com prazer, ela viu que Björn tirava a roupa e
então Roberto a soltou. Pegou novamente a garrafa
de água e, sem que ela se movesse, lavou-a de novo.
Quando acabou, Mel caminhou até seu homem sem
dizer nada e se sentou no colo dele. Olhando-o bem
nos olhos, sorriu, pegou a maravilhosa ereção nas
mãos e a enfiou dentro de si. Mel sentou-se no
centro daquele desejo duro e tentador e Björn a
apertou mais para junto de si.
— Sim, querida... Era o que eu precisava — ele
disse.
Durante alguns minutos, foi Mel quem controlou
as rédeas. Com Björn sentado, ela assumiu o
comando do joguinho, até um tapa de Roberto fazê-
la parar. Björn, que via as intenções do outro,
agarrou Mel pela cintura.
— Deita em cima de mim, acho que nosso
amigo quer continuar brincando com você.
Com o pênis de Björn ainda dentro de si, Mel
quase não conseguia se mover. Notou que Roberto
lambuzava gel em seu ânus e começava a brincar
com ele.
Björn sentiu que Mel respirava ofegante e beijou
seus lábios. Em seguida, ele disse baixinho: — Estou
sentindo um desejo irrefreável de me mexer. Quer
que eu me mexa?
Mel concordou. Mas ele estava tão enterrado
dentro dela, que quando se moveu, ela gritou.
— Shhh... Todos vão nos ouvir e vão saber o
que estamos fazendo. — Björn riu ao senti-la tão
excitada.
— Ai... Ai... Está me machucando.
Björn franziu a testa e se moveu mais para trás
na tentativa de se posicionar de outro jeito.
— Agora melhorou.
Roberto continuou a brincadeira. Alguns minutos
depois, roçou o pênis ereto na bunda dela, agarrou-a
pelo quadril e a penetrou pouco a pouco.
Björn logo sentiu a investida do outro homem.
Apesar de as paredes do corpo dela separarem os
dois pênis, era possível sentir a pressão que um fazia
no outro. Ele queria que ela curtisse tudo o que
pudesse.
— Estamos te machucando, querida?
Emocionada com a preocupação dele, Mel
respondeu com um beijo, movendo-se e os animando
a continuar. Em um segundo, seu corpo estava
totalmente preso entre os dois homens, que entravam
e saíam dela com ritmos diferentes, arrancando
gemidos maravilhosos de prazer.
— Björn...
Como sempre que ela dizia seu nome quando
estavam transando, ele se excitou. Saber que ela
estava com ele e com nenhum outro homem era uma
das coisas mais maravilhosas do mundo. Agarrou-se
ao quadril dela e a penetrou com mais força.
— Sim, Mel, sou o Björn.
Aquilo se estendeu por vários minutos. Fundidos
nela, os dois homens continuaram o jogo de prazer.
Respirações ofegantes... beijos apaixonados...
palavras cheias de erotismo. Tudo era válido num
momento como aquele, até os três chegarem ao
clímax e acabarem um em cima do outro.
Quando recuperaram o fôlego, se limparam um
pouco e se vestiram. Björn e Roberto apertaram as
mãos. Mel sorriu. Saíram do quartinho e caminharam
sem falar nada até onde estava Scarlett.
— Onde vocês se meteram? — a irmã
perguntou quando os viu.
Mel a encarou com olhar brincalhão e
respondeu:
— Pra você eu conto.
22
Na manhã seguinte, quando Mel levantou, Björn
tinha desaparecido outra vez com sua avó. Dava para
ver que, mesmo de férias, continuava seguindo o
horário alemão.
Durante horas, Mel se ocupou da princesinha. A
menina só queria brincar e, quando dormiu em seus
braços, esgotada, Mel a levou para o quarto. Depois
de colocar a filha na cama, deitou ao lado dela e
pensou em Björn. Ainda tinha na cabeça o que ele
tinha dito na noite anterior — quando brincavam
juntos, ela era dele e ele era dela — e aquilo a
deixava sorridente. No entanto, estremeceu ao se
lembrar de quando ele tinha dito que ela era sua
mulher.
Em todos os anos em que ela e Mike estiveram
juntos, ele nunca tinha dito aquelas palavras. Mel
nunca tinha sido mulher dele, nem namorada. Sempre
tinha sido “Parker” ou “linda”. Nunca tinha existido
exclusividade entre os dois, nem sequer quando ela
soube que estava grávida.
Mel se levantou da cama e olhou pela janela.
Björn tinha entrado na sua vida como um furacão e
agora sentia falta dele. Gostava de sua proteção e de
seus carinhos, mas ficava desesperada quando se
lembrava de que não estava sendo sincera com ele.
Como podia estar fazendo aquilo com um
homem assim?
Ao ouvir o barulho de um carro, ela viu Björn
chegando pela estrada com a avó e Ovidio. Dali da
janela e escondida atrás das cortinas, ela o observou
entrando na casa e, com um sorriso agradecido,
movendo a cabeça para concordar com alguma coisa
que a velha lhe dizia. Mel teve vontade de rir. Mesmo
sem entender nada, Björn era capaz de se comunicar
com a avó dela. Nunca tinha visto algo assim! Nem
mesmo com seu pai, o Ceci, como Covadonga o
chamava, sua avó tinha se dado tão bem.
Já que Sami estava dormindo, Mel foi lá fora
ajudar. Quando Björn a viu, sorriu e a abraçou de um
jeito carinhoso.
— Bom dia, dorminhoca — ele cumprimentou.
Mel não se importou com os olhares das
vizinhas e o beijou nos lábios antes de ajudar com as
sacolas das compras.
Como no dia anterior, a avó, uma mulher muito
mandona, começou a dar instruções. Luján tentou
fazer sua mãe deixar Björn em paz, mas foi
impossível; ela precisava de ajuda e colocou todo
mundo para trabalhar. Quando Mel terminou de
cumprir as ordens da senhora Covadonga, decidiu
lavar o carro. De repente, apareceram Björn e
Ovidio carregando lenha. Foram até o quartinho
onde se guardava a lenha e, depois de receber
instruções do velho sobre como manejar o machado,
começou a cortar a madeira. Não demorou muito
para que todos pudessem ver que não era a primeira
vez que Björn cortava lenha.
— Maninha... — Scarlett se aproximou para
comentar —, esse cara é ótimo.
— Eu sei — Mel concordou, sentindo a boca
seca.
Depois de um rápido silêncio, Scarlett fez uma
pergunta:
— Vi que você não está fumando. Você parou?
Mel sorriu.
— Não, mas graças ao Björn fumo cada dia
menos.
Scarlett deu uma gargalhada e cochichou:
— Você viu como as vizinhas olham pra ele? —
Mel desviou o olhar para as vizinhas da avó, que só
tinham olhos para Björn. Scarlett continuou dizendo:
— Te digo que essas mulheres vão ter sonhos
indecentes com ele. Com certeza. E amanhã, na
missa, vão fazer o sinal da cruz e rezar três Pais-
Nossos como penitência.
O comentário fez Mel gargalhar. Scarlett
continuou:
— Se eu fosse você, eu o levava à rédea curta
ou... Por favoooooor... Que barriga tanquinho mais
gostosa ele teeeeeeem.
— Não tenho que levar o Björn à rédea curta
— ela respondeu, dando risada. — Ele é livre.
— Livre?
— É.
— Mas você é louca?... O cara mais gato que
eu vejo nos últimos anos e você me diz que ele é
livre?
— É...
— Mas nem pense em falar uma coisa dessas
quando a gente sair com as meninas, ou senão mais
de uma vai querer colocar as garrinhas em cima dele.
— Você acha?
Scarlett moveu a cabeça, com os olhos saltando
das órbitas.
— Acho não, tenho certeza.
Mel não pôde rebater. Com uma sensualidade
incrível, Björn tirou a camiseta branca de manga
curta, em câmera lenta, e a jogou no chão, ficando só
de calça jeans de cintura baixa, que deixava evidente
o abdome definido. Pegou uma garrafa de água do
chão, bebeu um gole e jogou o resto do líquido pelo
corpo. Estava com calor.
— Porra — Mel sussurrou.
— Minha nossa, que calores são esses que
estou sentindo?
— Parece aquele comercial da Coca-Cola —
Mel comentou.
Scarlett começou a se abanar com a mão.
— Já eu acho que lembra aquele filme do Hugh
Jackman em que ele joga um balde de água no
corpo. Deus meu, que tesão!
Björn notou que as irmãs o observavam e sorriu.
Sabia o poder que seu corpo exercia nas mulheres e
deu uma piscadinha para sua garota.
— Você tem razão, Scarlett, preciso manter a
rédea curta. Aqui tem muita vagabunda solta.
— Vocês estão namorando?
— Não... Sim... Bom, não sei.
— Como não sabe?! — exclamou a irmã. —
Juro que se um cara desses vem na casa da minha
avó é porque existe algo entre a gente. Aliás, que tal
se você me contar por que tivemos que esconder
suas fotos e as do papai?
Mel olhou para Björn, ainda cortando lenha.
— Ele odeia militares americanos e acho que,
quando ficar sabendo que eu sou um deles, vai me
odiar também, na mesma hora.
— E por que ele odeia?
— Não sei... acho que é por causa de alguma
coisa com o pai dele. Nunca me contou e eu também
não perguntei.
— Mas, Mel, como você pode mentir pra um
homem desses?
— Não sei, Scarlett... Não sei o que eu estou
fazendo.
— Juro que não te entendo, menina —
protestou a irmã. — O Björn é lindo, atencioso,
encantador e você mente pra ele?
— Ai, Scarlett, eu sei. Me sinto péssima. Mas
agora não sei como contar a verdade.
— Você acha que ele vai ficar muito bravo?
Mel não teve nem que pensar.
— Acho. Mas espero que compreenda.
Concentradas nos próprios pensamentos,
ficaram caladas por um bom tempo. Scarlett de
repente exclamou: — Nossa, olha essas costas!
Você já se deu conta de como ele parece com um
modelo supergato chamado David Gandy?
Mel nunca tinha pensado. Mas agora que a irmã
dizia, ela tinha razão, Björn e David eram o mesmo
tipo de homem: altos, morenos, olhos azuis, muito
estilosos e com um corpão.
Dez minutos depois, a excitação tomou conta de
Mel e ela resolveu ir até Björn. Tirou o machado das
mãos dele e o beijou na boca com desejo, sem se
importar com o que as vizinhas da avó poderiam
dizer. Naquele momento, Ovidio passava por eles
segurando uma caixa e ela ouviu: — Isso aí, rapaz,
põe a cara no meio das pernas dela e enfia a língua
onde der.
— Mas como você é nojentoooooo, Ovidio! —
Scarlett gritou quando ouviu o comentário.
Mel soltou uma gargalhada.
— O que ele disse? — Björn perguntou.
Sem conseguir parar de rir, Mel deu uma
piscadinha e respondeu: — Hoje à noite eu te
explico!
Naquela noite, voltaram a sair para tomar uns
drinques com os amigos. Björn não os entendia, mas
eles fizeram com que se sentisse em casa. Depois de
jantar, ele e Mel se despediram e foram para o
Palacio de Luces, um cinco estrelas luxuoso no meio
da natureza da Sierra del Sueve, na encosta da
cidade de Colunga.
No elevador, sorridente, Björn pegou Mel pela
cintura e murmurou, puxando-a para junto de si: —
Essa noite quero você só pra mim.
— Só pra você?
Olhando-a do alto de sua estatura, ele
confirmou, muito seguro de si: — Só pra mim.
Entraram na suíte e Mel sorriu ao ver que sua
irmã tinha cumprido a palavra. Quando Björn viu as
tigelas de chocolate sobre a mesa, perguntou: — O
que você pretende fazer comigo esta noite, senhorita
Melanie?
Ela respondeu beijando-o com paixão e depois
sorriu apontando o chocolate.
— Quando você me deu o pingente de
morango, eu te disse que iria retribuir. Pois bem, se
prepara, píncipe, que essa noite quero agradecer seu
presente.
Eles se jogaram na cama entre beijos e carícias.
— Agora preciso que você me ajude a fazer
uma coisa — Mel pediu.
— O que você quiser, linda.
Ela se desvencilhou dele, se levantou e foi até
onde estava o plástico dobrado.
— A gente precisa cobrir a cama com isso.
— Com um plástico?
— Sim, me ajude. — Mel o encorajou sorrindo.
Quando tudo ficou do jeito que ela queria, Björn
a encarou com cara de dúvida.
— Não é época de morango — Mel comentou
—, mas como tenho o meu próprio morango, trouxe
o chocolate para que não te faltasse nada.
Entendendo o que ela queria dizer, Björn sorriu
e mordeu o lábio.
— Meu Deus, baby, fico maravilhado com a
sua sensualidade.
— Eu sei, e você vai gostar ainda mais do que
eu vou te dar.
Björn deu uma grande risada. Viu que ela tirava
a roupa e fez o mesmo. Depois, Mel pegou as tigelas
de chocolate e subiu na cama com as duas nas mãos.
— Vem, deita aqui.
Björn atendeu. Mel deixou o chocolate no
plástico e sussurrou toda provocante: — Sei que
você gosta de chocolate, de morangos e de mim.
Vem, meu bem, é tudo seu.
Mel não falou mais nada. Colocou primeiro um
mamilo no chocolate, depois o outro. Deixou-os
molhados e subiu de quatro em cima de Björn, que
ficou admirando os seios cobertos de chocolate.
— Pode começar pelo que você quiser — ela
anunciou.
Enlouquecido, ele não pensou duas vezes.
Atraiu para sua boca um dos mamilos magníficos e o
chupou.
— Delicioso.
— Gostou?
Com o olhar cheio de desejo, a excitação no
meio das pernas e a boca cheia de chocolate, Björn
exigiu: — Me dá mais.
Mel colocou o seio mais uma vez na boca dele.
Björn degustou, desfrutou, apertou e sugou. Logo
todo o chocolate tinha desaparecido.
— Quer mais? — ela perguntou, toda dengosa.
Björn respondeu que sim e Mel ofereceu o
outro seio.
Quando não sobrou mais chocolate, ela sorriu e
Björn a agarrou pela nuca e a beijou. O sabor era
doce, delicado, maravilhoso.
— Você é a melhor sobremesa que eu comi em
toda a minha vida e só de pensar que agora vou
comer seu morango maravilhoso com chocolate, já
fico louco.
Mel deu uma gargalhada.
— Você gosta da ideia?
— Adoro. Aliás, agora entendo o motivo do
plástico.
Beijaram-se de novo e logo a voracidade se
apoderou deles.
— Também quero chupar isso aqui com
chocolate — Mel disse, tocando a enorme ereção.
Não precisou dizer mais nada. Björn se levantou
na cama e colocou a ponta do pênis dentro da tigela
de chocolate. Mel engatinhou sobre a cama e
colocou a língua para fora, provocante. Sorriram e
Mel começou a lamber. Depois abriu a boca e
devorou aquele membro duro, cheia de desejo.
Björn ficou ajoelhado de olhos fechados e
deixou que ela o enlouquecesse de prazer. O que ela
fazia com a língua o agradava muito e quando não
pôde mais resistir pediu que ela parasse.
— Estou com fome de você, querida. Deita e
vamos nos divertir juntos.
Mel se deitou. Björn molhou o pênis no
chocolate e ficou em cima dela, de quatro no sentido
oposto, formando um 69, e pegou uma das tigelas.
— Deixa eu ver meu morango.
— Seu morango? — Mel riu.
Björn adorava ouvir seu riso.
— Meu morango — afirmou com segurança,
dando-lhe um tapa na bunda.
Divertida e excitada de ver como Björn tomava
posse dela, Mel abriu as pernas para ele.
— Você gosta assim?
— Adoro — Björn sussurrou, olhando para
aquilo que o deixava louco.
A excitação tomou conta do casal. Ele beijou a
parte interna das coxas que ela oferecia e a fez
estremecer. Mel começou a chupar o pênis coberto
de chocolate e, segundos depois, quem estremeceu
foi Björn.
Vibrando, ele beijou o púbis dela. Passeou o
nariz por aquele lugar que adorava e ficou sem fôlego
quando ela o atacou de forma implacável. Assim que
controlou os movimentos novamente, ele pegou uma
das tigelas, derramou sobre a vagina sem dizer nada
e ficou vendo o chocolate escorrer.
— Espetacular — murmurou.
Num 69 perfeito, os amantes se deliciaram com
o que tanto queriam, proporcionando-se um prazer
infinito. Seus corpos roçavam um no outro e ficaram
repletos de chocolate. Mas eles não se importavam.
— O melhor morango com chocolate que já
comi na vida.
Mel sorriu, enquanto sugava cheia de prazer, e
disse:
— Continua... não para. O morango é todo seu.
Tudo ao redor deles ficou cheio de chocolate: as
mãos, os corpos, a cama, os rostos.... Aquele líquido
viscoso e doce cobriu seus corpos enquanto eles
desfrutaram um do outro.
Quando a sofreguidão permitiu, Björn, que
estava por cima, mudou de posição. Mel olhou para
a cara dele cheia de chocolate e deu uma gargalhada.
Björn levou o pênis lambuzado até a vagina e a
penetrou enquanto a beijava.
Sem falar nada, várias vezes se fundiu ao corpo
dela. Ela levantava o quadril para recebê-lo enquanto
o chocolate deslizava entre eles, proporcionando
também um doce aroma e um prazer cheio de luxúria.
Os gemidos tomaram conta do quarto. Quando
Björn se contraiu numa última investida, Mel se
agarrou nos ombros dele e gritou ao gozar. Ficaram
se olhando, sentiam-se esgotados.
— Acho que vai ser uma noite muito doce e
interessante — Björn comentou com uma expressão
divertida.
Com chocolate até as orelhas, Mel sorriu e
pegou o celular.
— Vem, vamos tirar uma foto — propôs.
Contentes, juntaram os rostos sujos de
chocolate e Mel posicionou o celular.
Às quatro da madrugada, recolheram o plástico
em meio a risadas e foram para o chuveiro. Lá a água
limpou o chocolate de seus corpos enquanto
continuavam com as brincadeiras. Quando finalmente
se saciaram, deitaram e dormiram abraçados.
Na manhã seguinte, depois de uma noite em que
fizeram amor várias vezes, um garçom bateu na porta
e deixou uma bandeja com café da manhã. Mel sorriu
ao ver rosquinhas de chocolate.
— Não aguento nem mais uma gota de
chocolate!
Riram, tomaram café alegres e voltaram para a
casa da família. Chegando lá, a avó os encarou de
cima a baixo e moveu a cabeça em desaprovação.
— Sua mãe e sua irmã estão na praia com a
menina — ela comentou, dirigindo-se à neta. —
Aliás, o que vocês preferem de almoço? Pantrucu
ou cachopo?
— Tanto faz, vovó.
— Pergunte ao menino — a mulher pediu.
Mel olhou para Björn, que lógico, não tinha
entendido nada.
— O que você prefere comer, pantrucu ou
cachopo?
Björn fez cara de ponto de interrogação, pois
nunca tinha ouvido aquelas palavras antes.
— Isso é comida?
— É.
— E você pode me explicar o que são?
Com uma expressão animada, Mel sorriu e
respondeu:
— Pantrucu é um tipo de chouriço muito
gostoso que a minha avó faz. Ela enrola em folha de
couve, corta e frita. Já o cachopo são filés de vitela
recheados com presunto cozido e queijo, empanados
e fritos. Para você entender, são empanados
enormes.
Björn avaliou o que ela tinha dito e então
respondeu:
— Acho que gosto mais do segundo.
— Cachopo, vovó — Mel falou, olhando para
a senhora.
— Muito bem, Blasinho — Covadonga
comentou sorrindo enquanto se afastava.
Em seguida, Mel olhou para Björn e perguntou
sorrindo:
— Quer ir à praia? Minha mãe e minha irmã
estão lá com a Sami.
Björn concordou e foram até o quarto vestir
uma roupa de banho.
Sami viu a mãe aparecer com Björn e foi
correndo até eles. Björn a pegou nos braços e a
menina deu gargalhadas. Aquele gesto tão carinhoso
com a criança o fazia se sentir muito bem. Orgulhava-
se de ter a menina no colo e Mel segurando sua mão.
Aquela sensação de plenitude era maravilhosa. Uma
sensação que nunca o abandonava quando estava
com elas.
Na hora do almoço, voltaram ao casarão onde
Covadonga os esperava e, maravilhados, comeram o
cachopo que ela havia preparado. À tarde, Mel
escapou com Björn e a menina para a praia mais uma
vez. A avó estava fazendo mais planos para o
Blasinho, mas Mel não estava disposta a dividi-lo
com ninguém.
— Isso é maravilhoso — disse Björn, olhando a
menina que corria com um balde amarelo na mão. —
Esse lugar é um dos mais bonitos que já vi na vida.
Mel sorriu.
— Sim. A praia de La Isla é uma maravilha, e se
ainda por cima a gente pega o tempo bom como
você pegou, é incrível! — ela respondeu. — Apesar
de passear aqui no inverno também ter seu encanto.
— Você já passeou muito no inverno por aqui?
Mel fez que sim e olhou para a filha.
— Já — respondeu. — Mais vezes do que eu
gostaria de me lembrar.
Björn concordou e, sem querer evitar o assunto,
perguntou: — O Mike esteve aqui com você alguma
vez?
— Não.
— Por que não?
Mel suspirou com um sorriso nos lábios.
— Porque ele nunca quis. Quem sabe foi
porque eu nunca fui realmente importante pra ele.
Durante alguns segundos eles se fitaram sem
falar nada, até que finalmente Björn murmurou: —
Obrigado pela noite tão perfeita que tivemos ontem.
— Eu que agradeço.
Com o rosto sério, Björn pegou a mão dela.
— Quero que saiba que você, a Sami e todos
da sua família são muito especiais pra mim. Se você
acredita que não foi importante pro Mike, quero que
saiba que você é importante pra mim. Tão importante
que agora comecei a ver a vida de um jeito diferente,
e eu gosto disso. Gosto de estar com você e com a
Sami e gosto de sentir que você é minha. Gosto de
tudo o que venha de você.
— Também gosta da Peggy Sue? — Mel
zombou com um fio de voz.
— Bom, isso é outra história — Björn riu ao
pensar na hamster branca.
Mel sorriu. Aquelas palavras significavam muito
mais do que ela queria entender. Subitamente ela teve
um impulso de sinceridade: — Björn.
— Quê?
— Tenho que te contar uma coisa.
Björn cravou os impressionantes olhos azuis nela
e sussurrou com um meio sorriso: — Fala, meu bem.
Reunindo a coragem que tinha faltado em outros
momentos, Mel ajeitou o boné na cabeça e começou:
— Preciso ser sincera com você e dizer que...
De repente, o choro de Sami chamou sua
atenção. A menina estava no chão, aos prantos. Os
dois se levantaram num salto e foram ver o que tinha
acontecido. A menina só tinha caído, mas arranhara o
joelho. De volta às toalhas, sem que Mel precisasse
falar qualquer coisa, Björn abriu a bolsa dela, pegou
um band-aid das Princesas, colocou no joelho da
menina e disse: — Escuta, princesa Sami, a Bela
Adormecida vai fazer você sarar, num passe de
mágica a dor vai passar, tchan... tchan... tchan!, para
nunca mais voltar.
Dito isso, a menina, como sempre, parou de
chorar, saiu dos braços da mãe e voltou a correr com
o balde amarelo. Björn sorriu e Mel perguntou,
espantada: — Como você se lembrou disso?
Sorrindo, Björn se aproximou dela de uma
forma carinhosa e beijou seu pescoço.
— As coisas importantes eu não esqueço, e
acabo de dizer que você e a Sami são muito
importantes pra mim. E mesmo que essa rata que
vocês têm como animal de estimação não seja objeto
da minha adoração, vocês são e tudo o que fizer
vocês duas felizes também me faz.
Vendo Mel encarando-o desconcertada, Björn
se lembrou da conversa que tinha sido interrompida
minutos antes.
— O que você ia me contar agora há pouco?
Mel sorriu, já sem coragem.
— Queria dizer que você também é especial e
importante pra mim e pra Sami, e fico muito feliz de
sentir que você é meu.
— Hum... gosto de saber disso — Björn riu.
— Píncipeeeeeeee, vem! — gritou a menina.
Björn deu um beijo nos lábios de Mel e correu
até a criança. Quando chegou ao seu lado, sentou-se
com ela no chão e começou a brincar.
Mel ficou totalmente confusa, sentindo-se
péssima. Björn estava lhe abrindo o coração e, em
troca, ela não estava sendo sincera.
Os três voltaram a Munique dois dias depois.
Björn e Mel tinham que trabalhar e continuar com
suas vidas.
23
Os meses se passaram e outubro chegou.
Ninguém, exceto eles dois e Eric, sabia sobre seu
relacionamento secreto. Os dois amigos tinham
conversado em várias ocasiões sobre o assunto e
Björn tinha pedido que Eric fosse discreto. Mel não
queria que ninguém soubesse de nada e, apesar de
Björn não gostar de ela não querer que os dois se
apresentassem como um casal na frente dos amigos,
decidiu respeitar. Não faria nada que pudesse deixá-
la chateada.
Numa madrugada, depois de uma noite
excitante com Björn e outro casal num dos
reservados do Sensations, onde seus únicos desejos
tinham sido a fantasia e o prazer, Mel vestiu a calça,
tirou o celular do bolso e viu que havia várias
chamadas perdidas do número da vizinha Dora e
também de seu colega Neill. Preocupada, ela
telefonou em seguida e Björn pôde ver que ela levava
as mãos à cabeça. Rapidamente ele se aproximou.
— Que foi?
— Preciso ir. A Sami... está no hospital.
— O que aconteceu com ela?
Mas Mel cobriu o rosto com as mãos, fora de
si, e disse num gemido: — Oh, Deus... Oh, Deus...
Sou uma mãe horrível... Eu aqui... aqui... fazendo...
fazendo isso! E minha filha... Oh, meu Deus!
Desnorteada, Mel não soube o que fazer e
Björn a pegou pelo braço para detê-la.
— Meu bem, concentre-se. O que foi?
— Minha vizinha Dora e o Neill levaram a Sami
pro hospital. Pelo visto ela começou a ter febre alta e
a Dora se assustou. Ela me ligou várias vezes e,
como eu não atendi, ligou para o Neill. Tenho que ir
ao Klinik, minha filha está lá.
Björn não sabia quem era Neill, mas naquele
instante era o menos importante. Só Sami importava.
Sem tempo a perder, levou Mel até o carro e dirigiu
o mais rápido possível para chegar o quanto antes ao
Klinik.
Assim que estacionaram de qualquer jeito na
porta do hospital, entraram correndo no pronto-
socorro. Mel viu Dora, Neill e sua mulher Romina e
foi até eles.
— Onde está a Sami? — perguntou, com o
coração a mil por hora.
— Ela está bem, Mel. Fica calma — Neill
respondeu encarando-a.
— Mas onde ela está? — gritou descontrolada.
Dora, vendo que a jovem estava fora de si,
tentou segurá-la pelo braço para explicar.
— Ela está tomando uma injeção e não nos
deixaram entrar.
— Uma injeção? Por quê? O que ela tem?
Romina viu Mel em pânico e começou a explicar
rapidamente, — A Sami está com placas de pus na
garganta e isso provocou febre muito alta. Não se
preocupe, Mel, ela está bem. São coisas que as
crianças têm.
Mel se apoiou na parede, levou as mãos ao
rosto e escorregou até sentar no chão, sob os olhos
de um Björn atônito. Chorou desconsoladamente.
Ao saber que Sami estava bem, a angústia de
Björn diminuiu um pouco, mas seu coração batia
loucamente no peito. Nunca tinha visto Mel assim.
Não podia vê-la chorando. Ela era uma mulher dura,
forte. Sem pensar duas vezes, ele foi até ela para
ajudá-la a se levantar e então a abraçou. Mel aceitou
o abraço, trêmula e soluçando.
— Calma... calma..., meu bem, a Sami está
bem. Não chore, querida, não chore.
Dora, Neill e Romina se entreolharam, mas
ninguém disse nada. Quem era ele? A mulher o
reconheceu: era o mesmo homem que tinha visto no
boliche. Naquele momento, uma enfermeira veio até
eles e anunciou: — Se a mãe da menina já chegou,
pode entrar.
Mel imediatamente fez que sim com a cabeça e
disse para Dora: — Desculpe não ter ouvido o
telefone. Desculpe, Dora.
A mulher abraçou a jovem que se soltava
daquele morenaço e a tranquilizou: — Quando você
saiu, a menina estava bem. As crianças são assim,
imprevisíveis. Por isso liguei para a casa do Neill e da
Romina. Você sempre me disse que se não pudesse
atender, ele deveria ser o primeiro a quem ligar.
Anda, vai ver como está a Sami e dê um beijinho nela
por mim.
Mel desapareceu sem olhar para trás. Os três
desconhecidos olharam para Björn, que se
apresentou e estendeu a mão para cumprimentá-los:
— Björn Hoffmann.
As duas mulheres retribuíram o aperto de mão.
Os olhos de Björn se cruzaram com os do
americano, que se apresentou: — Neill Jackson.
Aquele sotaque tão americano doeu nos
ouvidos, mas, agradecido, Björn disse em voz baixa:
— Obrigado por cuidar da Sami. Muito obrigado.
Neill ficou surpreso. Quem era aquele homem?
Sem tirar os olhos dele, respondeu: — Obrigado a
você por não deixar a Mel sozinha e trazê-la aqui.
Ambos pareciam homens responsáveis.
— Björn, você leva a Mel e a menina pra casa?
— Romina perguntou.
— Claro — ele afirmou com toda segurança.
Neill pensou por um momento, concordou,
pegou a mão da esposa e se virou para Dora.
— Venha, Romina e eu vamos levar a senhora
pra casa.
Assim que se foram, Björn ficou sozinho no
corredor. Sentou-se e decidiu esperar. Dez minutos
mais tarde, as portas se abriram e ele se levantou
quando viu Mel surgir com a menina nos braços. Foi
ao encontro delas com um sorriso no rosto. Sami,
esgotada, dormia no colo da mãe.
— Vocês duas estão bem? — ele perguntou.
Mel acenou que sim, estava bem. Abraçar a
filha fazia com que se sentisse reconfortada.
— Venha — Björn disse, pegando Sami no
colo. — Vou levar vocês pra casa.
Saíram em silêncio do hospital, mas quando
chegaram ao carro Mel parou e olhou para ele.
— Não podemos ir no seu carro.
— Por que não?
Ela suspirou e explicou com ternura:
— O seu carro só tem dois assentos e não
quero levar a Sami no banco da frente. Mesmo
porque não é permitido.
Björn não tinha se dado conta daquele detalhe.
Fez menção de dizer algo, mas foi interrompido por
Mel.
— Volte pra sua casa e vá dormir. Vou pegar
um táxi.
Com movimentos rápidos, Björn entregou a
menina para a mãe.
— Não saiam daqui. Vou estacionar o carro e
vamos pegar um táxi juntos.
— Mas, Björn, não tem necessidade.
Björn estava decidido.
— Eu prometi que levaria você em casa e vou
cumprir minha promessa, entendeu?
Mel sorriu. Se alguém podia ser tão cabeça-
dura quanto ela, esse alguém só podia ser Björn! Ela
ficou olhando enquanto ele estacionava o carro e
parava um táxi.
Ela deu instruções ao taxista e se acomodou nos
braços de Björn sem soltar Sami. Ele a beijou na
testa.
— Está mais calma?
Mel apertou a menina contra o peito e deu um
beijo em sua testa.
— Me sinto tão culpada...
Björn compreendia e afirmou com segurança:
— Você é uma excelente mãe, a melhor que
Sami pode ter, ouviu?
Com um sorriso pálido, Mel fez que sim com a
cabeça e o beijou nos lábios.
— Você vai me deixar subir? — Björn
perguntou.
Ela sorriu.
— Não. O lar da minha filha é inviolável.
Björn não insistiu diante das palvras
contundentes de Mel. Quando chegaram, ele pediu
ao taxista que esperasse e as acompanhou até a
porta do prédio. Beijou Mel na boca e partiu,
prometendo ligar no dia seguinte.
24
Uma semana depois, Sami já estava ótima.
Depois do almoço na casa de Björn, onde tinham
aproveitado a manhã para satisfazer seus desejos, ele
e Mel se prepararam para ir juntos buscar a menina
na creche. Chegaram à garagem e Björn acionou o
controle remoto. Em vez das luzes do Aston Martin,
desta vez piscaram as de uma BMW impressionante.
Mel viu aquilo e encarou Björn.
— Esse carro é seu?
Ele concordou. Depois do que tinha ocorrido na
noite do hospital, Björn decidiu falar com o irmão e
comprar um carro em que pudesse levar a menina.
— Sou o James Bond, o que você esperava?
— ele respondeu, com uma expressão divertida no
rosto.
Morrendo de rir, Mel caminhou até o carro.
Quando entrou, soltou um assobio.
— Tem cheiro de novo.
— Porque é. — Então perguntou, olhando-a
nos olhos: — Você viu o que tem no banco de trás?
Mel ficou sem fala. Ali estava uma cadeirinha
nova. Rosa. Das Princesas da Disney.
— É o carro da Sami e ela merece o melhor —
Björn anunciou.
Perplexa, Mel sorriu. Não conseguia acreditar:
Björn tinha comprado um carro para levar sua filha.
Incrível.
Quando chegaram na creche, foram juntos até a
porta. A menina gritou na hora em que saiu e viu
Björn.
— Píncipeeeeeeeee!
Ele sorriu e, sem pensar duas vezes, pegou no
colo a loirinha com a coroa de princesa. Cada vez
gostava mais dos encontros com aquele anjinho de
olhos azuis. Aquelas duas mulherzinhas com seus
modos e suas maneiras de ser, o tinham conquistado
completamente. Mel piscou várias vezes antes de
dizer: — Nem te conto o quanto ela vai gostar de
você quando vir a cadeirinha nova.
Björn sorriu e pegou Mel pela cintura de um
jeito carinhoso.
— Venha, está chovendo. O que vocês acham
de a gente ir tomar um sorvete no shopping?
Mãe e filha concordaram, entraram na BMW e
Björn as levou até o shopping, como prometido. Lá,
depois de tomarem sorvete, ele comprou um grande
pacote de doces para Sami.
— Por que você comprou isso? — Mel
protestou.
— As crianças gostam.
Mel viu a menina colocar dois marshmallows
na boca de uma vez e começar a mastigar.
— Claro que gostam — rebateu. — Mas a
gente precisa controlar os doces, senão elas podem
passar mal.
— Não fala bobagem — ele respondeu,
achando graça. — Deixa a menina comer.
Mel concordou, não muito convencida. Se a
filha comesse tudo o que tinha dentro daquele pacote
enorme, passaria mal.
Passearam de mãos dadas pelo shopping e Sami
foi correndo na frente. Entraram em várias lojas e
depois se sentaram para tomar café. Foi então que
Björn, curioso, fez a pergunta: — De onde você
conhece aqueles americanos?
— Quais?
— Esse tal de Neill Jackson que estava outro
dia no hospital e os outros que vi com você no
boliche.
Mel pensou em mentir, mas algo dentro dela se
rebelou. Deu uma olhada na direção da filha e decidiu
dizer a verdade: — Me chamo Melanie Parker
Muñiz.
— Como?
— Meu pai é americano.
— O quê?
— Meu pai é americano. Mora no Texas e...
— Você é americana?
Mel ficou nervosa ao ver a expressão dele.
— Meu pai é americano, e mesmo que eu tenha
nascido na Espanha, não vou negar que me criei em
Fort...
Mas não pôde continuar. Björn, furioso, pediu
que ela ficasse quieta e a encarou com firmeza.
— E por que você não me contou? Por que
inventou essa história de que o seu inglês é
americanizado porque você trabalhou na American
Airlines?
O coração dela batia a mil. Havia muito mais
que ele ainda não sabia.
— Escuta, Björn.
— Porra, americana?!
A coisa piorava segundo a segundo. Mel tentou
se explicar:
— Só não te contei antes porque você não
gosta de americanos e tive medo de que quando
você ficasse sabendo...
O celular dele tocou. Mel olhou para a tela e viu
o nome de Agneta. Aquilo a deixou irritada. Vendo
que Björn não atendia, mudou o tom de voz e
perguntou: — Não vai atender?
— Estou falando com você — ele rebateu num
tom duro que Mel não gostou.
O celular continuou tocando e nenhum dos dois
falou ou se mexeu. Estava claro que alguma coisa os
incomodava. Finalmente, Björn pegou o telefone e
interrompeu a chamada. O humor de Mel tinha se
alterado. Ela não conseguia entender por que ele
rejeitava assim os americanos.
— Neill e os outros eram amigos do Mike? —
ele perguntou.
Por um momento, ela ficou na dúvida sobre o
que responder.
Por um lado, queria continuar contando a
verdade. Tinha necessidade de dizer a ele quem ela
era e o que fazia da vida, mas, por outro, sabia que,
se contasse, aquele belo dia que estavam vivendo
acabaria. Ficou na dúvida. Pensou. Neill, Fraser e
Hernández tinham conhecido Mike. Acabou optando
por contar uma meia verdade.
— Sim. Eram amigos do Mike, mas também
são meus amigos. São pessoas importantes pra mim
e eu os adoro e tenho carinho por eles, que também
adoram a minha filha. E por mais que isso te deixe
zangado, sou meio americana.
Björn olhava para ela com uma expressão de
mal-estar absoluto. Não restava dúvida de que tinha
estragado o dia.
— Esses americanos são minha família, meus
amigos. Eles...
— Porra... não consigo acreditar. — Ele olhou
para ela e avisou: — Deixe esses caras longe de mim,
entendeu?
Sentir a hostilidade que Björn tinha por seus
amigos sem nem mesmo os conhecer magoou Mel.
Ela estava disposta a defender os homens que tantas
vezes já tinham se arriscado por ela.
— Eles não vão deixar de ser meus amigos nem
por você nem por ninguém — murmurou irritada. —
E, sim, sou meio americana e tenho muito orgulho
disso. Portanto, você decide se quer continuar a sair
comigo ou pode tratar de me esquecer
imediatamente, porque não sou eu que tenho que
decidir, entendeu?
Dito isso, se levantou e foi andando até a filha.
Porém, antes que chegasse até ela, Björn já tinha
agarrado sua mão e a puxado para junto dele.
Começou a beijá-la. Assim que seus lábios se
separaram, ele murmurou: — Entendi. Eu entendo o
que você quis dizer.
Mas ela ainda estava ofendida.
— Posso saber o que você tem contra os
americanos? — Mel perguntou.
Björn foi sincero:
— Meu pai ficou viúvo quando eu era pequeno.
Ele conheceu uma mulher chamada Grete, com quem
acabou se casando. Como estava apaixonado, ele
colocou tudo o que tinha no nome dela assim que ela
ficou grávida do meu irmão Josh. Ela nunca foi um
tipo de mãe exemplar. Não se preocupava com o
meu irmão nem comigo, mas meu pai a amava e pra
mim aquilo era o suficiente. Alguns anos depois, um
militar americano chamado Richard Shepard virou
nosso vizinho e logo ele e Grete se tornaram amantes.
Foi então que ela nos abandonou.
— Mas, Björn, isso que você está me contando
pode acontecer com qualquer um, sem a necessidade
de ser americano. Eu, por outro lado, tenho um
amigo americano cuja mulher foi embora com um
alemão e...
— Richard Shepard — Björn a interrompeu de
forma implacável — era um grande advogado do
exército americano. Quando o meu pai e Grete se
divorciaram, eu tinha acabado de me formar e meu
pai fez de tudo para que eu o representasse. Tentei
por todos os meios lutar contra as reivindicações que
aquele homem fazia, tentei chegar a um acordo
benéfico para as duas partes. Só que a experiência
dele era muito superior à minha e ele fez questão de
demonstrar isso da maneira mais suja e mesquinha.
No fim, meu pai teve que dar a Grete e a esse
homem quase todo o seu patrimônio. Por sorte, meu
irmão Josh tinha se tornado maior de idade naquele
ano, do contrário teria de ir morar com eles em
Oregon. Aquilo deixou meu pai arrasado. Não só
tinha perdido mais uma vez a mulher que amava,
como também perdeu tudo o que tinha lutado durante
muitos anos para conquistar. Ele teve que recomeçar
do zero. Josh e eu o ajudamos em tudo o que
pudemos enquanto a gente seguia adiante com nossas
próprias vidas, e hoje em dia meu pai vive bem, tem
seu negócio e sua casa. A raiva pelo que aquele filho
da puta fez com ele é o que me faz odiar os militares
americanos.
Mel se comoveu pela forma como Björn tinha
aberto o coração, mas aquela história a deixava
horrorizada.
— Sinto muito, Björn. Sinto muito, querido... —
ela sussurrou, tocando o cabelo dele.
Ele concordou e acrescentou, olhando para Mel:
— E agora chega você, a mulher mais atrevida,
brigona e linda que conheci na vida e por acaso é
meio americana. E, sabe de uma coisa? Não consigo
te odiar. Te conhecer está mudando a minha vida de
um jeito que você nem imagina e quero continuar.
Por isso, senhorita Melanie Parker Muñiz, quer fazer
o favor de me dar um beijo pra eu ficar quieto e
parar de falar coisas de que posso me arrepender
mais tarde?
Com o coração acelerado, Mel sorriu e o
beijou. A fascinação que lhe provocava aquele
homem estava sendo ofuscada pelo pensamento de
que não tinha sido totalmente sincera com ele. Tinha
escondido mais uma coisa.
A menos de sessenta metros dali, no shopping,
Judith estava fazendo compras. Logo que reconheceu
Björn e sua amiga Mel se beijando com paixão, ficou
sem ação. Incrédula, entrou apressada numa loja
para não ser vista.
Björn beijou Mel, pegou Sami no colo e a
colocou sobre os ombros.
— Filhos da mãe! — Judith murmurou,
chocada.
Lá estavam aqueles dois, seus amigos, se
beijando e brincando de casinha, só que na frente
dela fingiam que queriam se matar.
Ficou observando por um bom tempo. Era
evidente que aquela não era a primeira vez que saíam
juntos. Era só ver aquela cumplicidade para deduzir
que já tinham saído mais vezes. Em seguida, sem nem
pensar, pegou o celular da bolsa e ligou para Mel.
Queria ver sua reação.
Quando o telefone tocou, Mel o tirou do bolso
da calça. Viu que se tratava de Judith e fez um sinal
para Björn não falar nada.
— E aí, bonitona? — Judith disse.
— Oi, tudo bem?
— Tudo. Tudo maravilhoso — Judith comentou
de dentro da loja. — Nossa, estou ouvindo uma
confusão. Onde você está?
— Numa loja de doces com a Sami — Mel
respondeu, passando a mão no cabelo. — Por quê?
— Estou perto da sua casa e queria te ver —
Judith respondeu e continuou sem deixar a amiga
falar: — Na verdade, queria te convidar pra almoçar
no sábado. O Eric organizou um almoço com os
amigos do basquete e eu ia gostar muito se você e a
Sami viessem. O que me diz?
Mel pensou rápido. No dia seguinte sairia de
viagem, mas com certeza voltaria na sexta.
— Maravilha. Sábado é bom pra mim.
— Perfeito! Então te espero por volta do meio-
dia, tá?
— Estarei lá.
Despediram-se, desligaram o telefone e, em
seguida, Judith ligou para Björn. Na mesma hora ele
tirou a menina dos ombros e a entregou para Mel
antes de atender o telefone.
— Oi, linda.
Mel sorriu ao ver que se tratava de Judith e se
afastou com a filha.
— E aí, bonitão, como vai a vida?
— Bem. Estou enrolado com o trabalho, mas
tudo bem.
— Você está muito ocupado?
Björn seguiu Mel com o olhar e viu que ela
corria atrás de Sami.
— Demais!
Judith sorriu ao ver sua cara de bobo.
— O Eric te ligou? — ela perguntou.
— Não, por quê? Aconteceu alguma coisa?
— Ai, mas que cabeça a dele! — Jud
respondeu. — No sábado ele organizou um almoço
com os caras do basquete, você vem? — E antes
que ele respondesse, completou: — Aliás, convidei
minha amiga Mel, você não liga, né?
Sem tirar os olhos da mulher de quem ela falava,
ele respondeu:
— Escuta, moreninha, por acaso você quer ver
eu e a Ironwoman nos matando? Você já sabe que a
gente não se suporta e...
— Vem... faz isso por mim — ela interrompeu.
— Você sabe que eu adoro a Mel e ela não tem
muitos amigos em Munique. Pensei que um dos caras
solteiros do basquete pudesse servir pra ela.
— Servir?!
Judith soltou uma gargalhada e respondeu:
— Quando digo que podem servir, quero dizer
que pode surgir alguma coisa entre ela e um deles.
Ainda que a Ironwoman não seja o seu estilo de
mulher, tenho certeza de que ela deve ser o estilo de
algum outro homem, você não acha?
A expressão de Björn mudou totalmente. Aquilo
não era nem um pouquinho engraçado. Ver Mel, a
sua Mel, entre os colegas de basquete como se fosse
um troféu para ser conquistado o irritou.
— Tá. Eu vou.
— E pra você ver como sou boazinha, não vou
achar ruim se você trouxer a Fosqui junto.
— A Agneta? — ele perguntou confuso. — E
por que você quer que eu leve a Agneta, se você não
a suporta?
Judith conteve uma risada.
— Faço isso pra você perceber que quero te
ver feliz. Do mesmo jeito que estou procurando um
cara pra minha amiga, quero que você também fique
feliz.
Björn nem pensou. A última coisa que queria era
ver Mel e Agneta no mesmo lugar.
— Não sei, Jud. Não sei se ela vai. Está muito
ocupada na CNN. E agora preciso desligar, tenho
umas coisas pra fazer. Um beijo.
— Um beijinho, bonitão.
Assim que desligou o telefone, Judith soltou uma
gargalhada. Björn voltou a colocar Sami nos ombros
e agarrou Mel pela cintura, e Judith tirou uma foto
para imortalizar o momento. Aquilo ia ser
divertidíssimo. Depois ligou para Eric e, sem contar o
que tinha visto e o que pretendia, disse: — Oi,
querido. Estou fazendo umas compras e fiquei
pensando... O que você acha de organizar um
almoço no sábado pros seus colegas do basquete?
Depois do telefonema de Judith, Björn ficou
pensativo.
— Você gosta de algum dos caras do
basquete? — perguntou a Mel.
Sem saber a razão da pergunta, ela pensou nos
homens e respondeu:
— Tem uns dois que não são tão ruins assim. —
Porém, ao ver a expressão dele, perguntou: — Ué,
mas o que foi?
Björn não queria ficar dando voltas. Ele a beijou
e então propôs:
— O que vocês acham de irem lá em casa?
Gostando da proposta e sem querer saber o que
estava acontecendo, Mel concordou e os três
desceram para o estacionamento do shopping.
Durante o trajeto, Sami os encantou com uma música
aprendida na creche, e Mel cantou junto. Björn
dirigia e as escutava até que a menina se calou, fez
um barulho e um cheiro azedo e peculiar tomou conta
do carro.
— Porra... — Mel falou entre dentes ao
perceber o que tinha acontecido.
— Mami... — Sami começou a chorar.
Björn enrugou o nariz.
— O que aconteceu? Que cheiro é esse?
— A Sami estreou o seu carro. O carro está
oficialmente inaugurado!
— Quê?
— Ela vomitou.
— Não brinca!
Mel reprimiu a vontade louca que tinha de matá-
lo por ter insistido que a menina se acabasse de tanto
comer doces.
— Pare assim que der, Björn.
Ele acionou a seta para a direita e parou o
carro. Quando olhou para trás e viu a menina,
exclamou horrorizado: — Porraaaaaaaa!
Sem dizer nada, a menina estendeu as
mãozinhas sujas e Mel foi até lá para abrir a porta.
— Eu disse. Muitos doces não fazem bem e a
Sami acabou vomitando!
Tirou a menina do carro com rapidez e a limpou
com lencinhos umedecidos enquanto Björn as
observava. Por sorte, ela não tinha vomitado tanto
assim. Assim que Mel terminou com a filha, olhou
para Björn e perguntou: — Você não vai limpar o
carro?
Ele olhou para trás e exclamou, horrorizado:
— Que nojo! Afff, que horror!
Mel revirou os olhos. Sem reclamar, abriu todas
as portas do carrão, pegou lenços umedecidos e
limpou a cadeirinha da filha e o encosto do assento.
Quando terminou, olhou para Björn: — Só assim
você vai aprender que não se compra um pacote
enooooooorme de doces para as crianças. E também
vai aprender que é praticamente impossível ficar com
o carro limpo e perfeito quando se tem um filho. E
isso eu te digo porque uma vez você me chamou de
“porca” no meu próprio carro.
Assim que o cheiro azedo passou um pouco, os
três entraram no carro de novo.
Na porta da garagem do prédio, Björn ficou
surpreso ao ver Agneta esperando por ele. Cruzou
um olhar com Mel, se desculpou e desceu do carro.
Agneta viu que quem o acompanhava era a amiga
insuportável de Judith e torceu o nariz.
— Te liguei mil vezes — Agneta falou entre
dentes quando Björn se aproximou. — Agora
entendi por que você não me atendeu.
Björn franziu a testa.
— E o que você está fazendo aqui?
Agneta respondeu com um olhar cheio de
reprovação:
— Vi você com ela várias vezes no Sensations.
É por isso que você não atende quando eu ligo? Por
acaso ela tem exclusividade?
— Agneta...
— Faz uns três meses que a gente não se vê. Te
ligo e você não me atende. Deixo mensagens na
secretária e você não responde. Pode me dizer o que
está acontecendo?
Irritado, Björn chegou mais perto dela.
— Não te entendo. Sempre fizemos o que nos
deu prazer e temos consciência de que somos livres
pra fazer o que nos der na telha. O que significa isso?
Por acaso você não sai com o Ronald Presmand ou
o Harry Delored ou... Quer que eu continue?
— Mas você também sai com a Maya ou a
Kristel, ou eu... eu...
— Agneta — ele interrompeu com a voz grave
—, a gente é livre pra sair com quem quiser. Entre
mim e você, sempre foi claro que só existia sexo. Por
que isso agora?
— Ela... Por causa dessa... Essa imbecil que
está te esperando no carro — rebateu, apontando o
veículo.
— O que existe entre mim e ela é diferente —
Björn respondeu sem olhar para onde ela apontava.
— Não volte a insultá-la nunca mais, entendeu?
O discurso carregado de irritação foi um alerta
para Agneta, que nunca tinha visto Björn reagir
assim. Como ela não sabia o que responder, ele
retomou a palavra: — Quero que você vá embora e
aceite que entre nós só existe sexo sem
compromisso, nada mais. Nunca existiu exclusividade
entre nós e pode ter certeza de que nunca vai haver.
Agneta ficou nervosa ao ouvir aquelas palavras
que nunca tinha esperado ouvir dele. Ergueu o rosto,
mirou com fúria na direção de Mel, que os observava
de dentro do carro, e respondeu: — Certo. Quando
você cansar dela, vai me ligar.
Assim que ela foi embora, Björn se virou,
caminhou até o carro e entrou. Sem dizer nada,
acionou o comando para abrir a garagem. Mel
sussurrou em seguida: — Escuta, sério... Se você
quiser, eu a Sami vamos embora e...
— Mel — ele interrompeu e então confessou
com o tom de voz mais suave: — O que eu mais
quero neste momento é estar com você e com a
Sami. Não faça nenhum prejulgamento, mas você
não é ela, entendeu?
Mel concordou com a cabeça. O portão se
abriu e Björn conduziu o carro até a vaga. Quando
entraram em casa, a menina olhou ao redor: ela
adorava aquele lugar enorme. Mel, que já conhecia a
pecinha muito bem, pegou a mão da filha e
recomendou: — Lembra, Sami, não pode tocar em
nada. Entendeu, meu bem?
A menina fez que sim. Naquele momento tocou
o telefone da casa. Como ninguém atendeu, a ligação
caiu na secretária eletrônica e logo se ouviu a voz de
uma mulher.
— Oi, meu amor, é a Kristel, como você
está? Liguei no seu celular, mas você não me
atende. Me liga. Morro de vontade de estar com
você.
O rosto de Mel se contraiu ao ouvir aquilo tão
pouco tempo depois do que tinha acontecido na
porta da garagem. Onde estava se metendo? Björn
olhou para ela e quis dizer algo, mas Mel se
controlou, levantou a mão e se adiantou: — Não fala
nada. Não quero saber. Somos adultos e solteiros.
Não é preciso dizer nada.
Foram até a cozinha em silêncio.
— O que vocês querem comer? — Björn
perguntou ao chegarem lá.
Mel olhou para a geladeira e respondeu com
indiferença:
— A Sami vai comer um sanduíche. Tem
presunto e pão de forma?
Björn respondeu que sim, entregou o que ela
pediu, e Mel começou a preparar. Ele a abraçou por
trás.
— Que foi?
— Estou furiosa... me deixa. Não quero me
sentir mais ridícula do que já me sinto agora.
Incapaz de ficar quieto, Björn murmurou:
— O que nós temos é especial...
— Mas o que nós temos? O que estamos
fazendo?
Björn entendeu o que ela queria saber.
— Temos um relacionamento, querida. O nosso
relacionamento. Lembro que nas Astúrias eu te disse
que sentia como se você fosse minha e você me disse
que me sentia seu. Isso explica tudo, não explica? —
Mel não respondeu e ele prosseguiu: — O que nós
temos é algo bonito que você se esforça pra
esconder de todo mundo. Por que você não quer que
os nossos amigos saibam?
Ela não respondeu.
— Você sabe que é especial pra mim — Björn
insistiu. — Sabe que desde que entrou na minha vida,
só existe você. Sabe que... que...
Mel notou que ele hesitava.
— Que o quê?
— Mel, eu sinto algo muito forte por você.
Gosto do sexo. Adoro o sexo, mas sem você, pra
mim o sexo não é a mesma coisa. Nunca entendi
melhor do que agora o que meu amigo Eric sentiu
quando conheceu a Judith. Ele me explicava que sem
ela os jogos não tinham sentido porque o prazer
desaparecia. E isso foi o que aconteceu comigo
quando te conheci. Você se tornou tão importante
pra mim que nem penso mais em ir ao Sensations ou
a nenhuma festa com outra mulher, porque meu único
desejo é estar com você. Só quero brincar com você
e curtir com você. O ciúme me consome. Odeio
pensar que outros possam sorrir ou se insinuar pra
você, quando estiver viajando a trabalho, e que você
transe com eles. Me irrita e me perturba te imaginar
com qualquer homem se eu não estiver junto. Eu te
considero algo meu, algo que ninguém pode
desfrutar, só eu e...
— Björn — Mel interveio passando as mãos
pelos cabelos escuros: — Eu também sinto algo
muito forte por você e quero que fique tranquilo.
Quando estou viajando não tenho olhos pra ninguém,
pois só consigo pensar em você. Nunca ficaria com
outro homem enquanto nós dois estivermos juntos,
porque você é meu maior desejo e...
Björn não a deixou terminar. Aproximou-se dela
e a beijou com sofreguidão.
— Estou tão bem com você que começo a ter
medo de que alguma coisa ou alguém possa estragar
tudo — ele disse quando se separaram. Mel deu um
sorriso.
— Não existem outras pessoas, Björn. Isso é
algo só entre mim e você, querido.
— E por que você não quer que ninguém saiba?
O sentimento de culpa lhe martelava a cabeça.
— Porque tenho medo de que a nossa vida caia
na rotina — ela respondeu por fim — e que a
atração que existe entre a gente desapareça. Acho
que esse segredo aumenta o sentimento excitante de
que é algo um pouco proibido e...
— Mas como você é malvada. — Björn riu.
— Muito... muito malvada — Mel reconheceu,
ao ver que tinha conseguido convencê-lo.
Ele fez que sim com a cabeça e Mel lhe deu um
último beijo. Desvencilhou-se daquele abraço e saiu
toda descomposta atrás da filha. Como podia ser
uma pessoa tão má?
Björn se lembrou de que tinha uma surpresa na
geladeira e foi até lá buscar. Enquanto Mel dava o
lanche a Sami, picou algumas frutas e assim que tudo
ficou pronto, levou até a sala de jantar, onde elas o
esperavam.
Mel sorriu ao ver aquilo e Sami esqueceu-se do
sanduíche para se concentrar no tentador chocolate
derretido. Durante algum tempo, os três riram e a
pequena o lambuzou todo. Queria ser a primeira a
experimentar. Já de barriguinha cheia, Sami sentou-se
no chão e começou a tirar todos os seus brinquedos
da bolsa enorme de sua mãe.
— Mas isso é uma bolsa ou uma loja? — Björn
zombou.
Deixando de lado o que tinha acontecido
minutos antes, Mel se pôs a explicar com um sorriso
cativante no rosto: — Quando a gente vira mãe, a
bolsa se transforma num armazém de brinquedos.
Não conheço uma só mãe que não tenha uma bolsa
mágica.
Björn notou que a menina estava dando uma
pequena trégua, por isso molhou uma fruta no
chocolate e murmurou para provocar Mel: — Abre a
boca.
— O que você pretende fazer? Minha filha está
vendo — ela perguntou, achando graça.
— Abre a boca e você vai ver.
Mel fez o que ele pedia. Björn deixou cair umas
gotas de chocolate no lábio dela e colocou a fruta em
sua boca. Em seguida a puxou para junto de si e
limpou o chocolate com a língua.
— É assim que vou molhar meu morango e
comer depois — ele provocou.
Acalorada, Mel deu uma risada. Björn viu de
canto de olho que Sami continuava entretida com a
bolsa da mãe.
— Ela não está com sono? — ele perguntou,
olhando para a menina.
— Não... ela dorme à tarde na creche.
— Merda!
— Sim... merda!
Björn sorriu.
— Te desejo — ele murmurou.
— E eu a você... ainda mais depois de saber o
que pretende fazer com o “seu morango”. — Ambos
riram. — Mas quando a gente tem filhos, o sexo fica
em segundo plano, píncipe safado.
Björn queria tirar a roupa dela e jogar chocolate
nela todinha como naquele dia no hotel. Ele sorriu,
mas o sorriso se congelou na boca quando viu que
Sami estava em frente à estante onde ficavam
guardadas suas joias musicais de vinil. Horrorizado,
viu a menina pegando um dos discos com as mãos
sujas de chocolate e depois jogá-lo no chão e sentar
em cima.
Mel notou a expressão de pânico no rosto dele,
virou para ver o que Björn estava olhando e se
levantou do sofá num salto para correr até lá e
resgatar o vinil debaixo do bumbum da criança.
— Não pode pôr a mão, Sami. É de gente
grande — Mel repreendeu.
— Mas eu gostooooooooo.
Björn pegou o disco das mãos dela e o olhou
com atenção. Reprimindo o que queria dizer de
verdade, murmurou com tom suave: — Não tem
problema.
Mel sorriu.
— Vamos, pode reclamar, senão sua cabeça vai
explodir.
Björn aceitou a deixa.
— Porra! Esse vinil é um clássico do Jim
Morrison! — Olhou para Mel e quando viu a cara
que ela fazia, acrescentou em seguida: — Desculpa,
mas não estou acostumado a ter crianças na minha
casa.
— Percebe-se — Mel comentou. — Isso aqui é
o paraíso da destruição para uma criança. Eles têm
tudo à mão! Se você pretende que a minha filha volte
aqui, acho que vai ter que repensar algumas coisas,
não é mesmo?
De repente a televisão ligou a todo volume.
Sami estava com o controle nas mãos. Com um
dedinho foi apertando todos os botões e mudando de
canal. Os dois foram correndo até ela e Björn tirou o
controle da TV caríssima da mão da criança: — Não
pode? — Sami perguntou olhando para ele.
— Não, princesa.
— Tá... — e deu de ombros.
Mel foi até Björn e olhou para ele, sorrindo.
— Muito bem, píncipe... fez direitinho.
Mas naquele instante ouviram um barulho de
coisa caindo no chão. Logo perceberam que se
tratava de uma estátua. A menina olhava para eles
com as mãozinhas levantadas.
— Epa! Caiu sozinho!
Björn foi até lá. Mel suspirou e sentenciou:
— Hora da morte: seis e meia. Descanse em
paz.
Ele fez menção de protestar, mas ela não
deixou.
— Prometo que vamos abrir nosso cofrinho e
comprar uma estátua mais bonita.
Björn viu que ela estava envergonhada e
mostrou um sorriso.
— Nem pense nisso... — respondeu, beijando
o pescoço dela. — Não se preocupe, a Sami é
criancinha.
Porém, dois minutos depois, quando a
criancinha deixou marcas de mão por toda parte, já
não pensava assim. Björn queria que aquele diabinho
de olhos azuis sossegasse. Esquecendo-se de Mel,
foi até a menina e perguntou: — Do que você quer
brincar, Sami?
— De pincesaaaaaaaaaas e cavalinhoooooos.
Mel deu risada. Sabia o que a filha queria dizer.
Sem que Mel fizesse nada, a menina foi até a bolsa e
tirou de lá coroinhas rosa com pedrinhas de brilhante
e vários pôneis pequenos. Pôs uma coroa na mãe e
foi andando para pôr outra em Björn, que protestou
olhando para Mel: — Eu tenho que pôr isso?
— Arrã... e escolher um pônei. O rosa de
pintinhas amarelas não, porque é o preferido dela.
Com a coroinha na mão, a menina olhou para
Björn e instruiu:
— A mami é a pincesa Banca de Neve e você
é a pincesa Bela.
— Belo, pelo menos!
— Nãooooo. — Sami colocou a coroa na
cabeça dele e reforçou: — Você, pincesa Bela.
— Princesa Bela, quer que a gente passe batom
em você? — Mel perguntou a Björn, já entrando na
brincadeira.
Ele ficou confuso e não soube o que dizer, mas
Sami sorriu. Um sorriso que o tocou no fundo do
coração. Por fim, ele aceitou.
— Tá, mas não contem pra ninguém.
Mel concordou, morrendo de rir, e, contra
qualquer previsão, Björn desfilou com uma bela
coroinha na cabeça por mais de 45 minutos, deixou
Sami passar batom nele e brincou de correr com os
pôneis. Finalmente, para dar uma mãozinha, Mel
propôs: — Sami, quer ver desenho?
— Quelooooooooo!
Mel pegou o controle da TV e começou a
procurar desenho animado. Parou na Dora, a
Exploradora e a pequena se sentou no chão,
desligando como se tivesse um botãozinho. Parou de
falar, de correr e de pedir coisas.
Björn ainda estava perplexo pelo que tinha
acontecido na última hora. Sentou-se no sofá e olhou
para Mel, que tinha uma expressão divertida no
rosto.
— Por que você não colocou desenho antes?
— ele perguntou.
— Porque queria que você curtisse um pouco a
criancinha.
— Você é malvada. Já te disse isso alguma vez?
Mel sorriu.
— Sim, mas nunca com uma coroinha e os
lábios vermelhos.
O bom humor de Mel levou Björn a fazer
cócegas na barriga dela. Assim que parou, os dois se
levantaram e foram até a cozinha para levar as frutas
e o chocolate que tinham sobrado. Mel pegou papel-
toalha, deu um beijo carinhoso em Björn e limpou
seus lábios.
— Onde você comprou esse chocolate tão
gostoso?
— Numa delicatéssen. Parece que esse aqui é
pra aquecer e brincar. — Mel sorriu e ele
acrescentou em tom carinhoso e provocante: — O
do seu morango fica pra outro dia. Não vejo a hora
de te comer outra vez com chocolate.
Mel o beijou.
— Sabe que você está muito sexy de coroinha?
— Coroinha... você vai ver só — Björn
respondeu, apertando-se nela.
Alguns beijos calientes no balcão da cozinha
deixaram os dois muito excitados. Desejavam-se.
Necessitavam um do outro. Sem querer, nem poder
evitar, com um olho na entrada da cozinha, Björn
abriu a calça dela, virou-a de costas e abaixou a sua.
— Odeio rapidinhas, mas acho que não temos
outra opção.
Mel concordou. Não tinham outra opção e ela o
desejava. Escolheu um lugar onde a menina não os
podia ver, mas de onde podiam controlar o que ela
fazia.
— Anda...
Ela se agarrou ao balcão que escondia seu
corpo e Björn tirou uma das pernas dela de dentro
da calça e da calcinha. Assim que Mel ficou livre, ele
abriu suas pernas e passou a mão pela vagina
molhada.
— Surpreenda-me. O que você quer que eu
faça, linda?
— Me come.
Ele se posicionou atrás dela, tirou o pênis de
dentro da cueca e, sem preliminares, abriu Mel com
os dedos e a penetrou. Ela teve um sobressalto e
perdeu o fôlego.
— Shhh... não seja escandalosa, pincesa Banca
de Neve — Björn riu.
Mel concordou com a cabeça. Disposta a que
ele sentisse o mesmo, moveu o quadril e Björn gemeu
em resposta.
— Shhh... pincesa Bela, não levante a voz.
Ele a agarrou pela cintura e sorriu ao penetrá-la
várias vezes num jogo prazeroso e implacável que o
deixou muito excitado. Mel curtiu e deixou que ele a
controlasse. Estava morrendo de vontade de sentir o
que ele tinha para oferecer e deixou toda a iniciativa
por sua conta, concentrando-se apenas em
aproveitar o momento. E então gozaram.
Ficaram sem se mexer por alguns minutos. Em
seguida, Björn pegou papel-toalha, limpou os dois e
deu um tapa carinhoso na bunda dela.
— Veste a roupa antes que eu tenha vontade de
começar de novo.
Contente, ela se recompôs. Virou-se de frente
para ele e se aproximou de seus lábios.
— Vou sentir saudades de você nos próximos
dias — ela confessou.
— Por que vai sentir saudades? — ele
perguntou surpreso.
Mel não disse a verdade sobre a viagem.
— Amanhã tenho que ir trabalhar e vou ficar uns
dias fora.
— Vai voar?
— Vou.
— Aonde você vai?
— Escócia — ela respondeu sem pensar.
— E quando você ia me contar?
— Ué, agora.
Björn franziu a testa. As viagens dela o
deixavam cada vez mais tenso. Como se não
bastasse, os escoceses tinham fama de mulherengos.
Não queria perdê-la de vista. Mel sorriu e ele sorriu
também.
— Quero ver você vestida de aeromoça — ele
sussurrou. — Me liga quando chegar e vou te buscar
no aeroporto.
Mel soltou uma gargalhada e, sem responder, foi
até a sala, onde a filha a esperava.
Naquela noite, depois do sexo escondido na
cozinha, Björn convidou Mel e a filha para dormirem
lá, mas ela não aceitou. No dia seguinte teria que
voar.
Björn ficou sozinho em casa e olhou ao redor
depois que Mel e Sami foram embora. O caos que
reinava na sala era impressionante e seu carro
cheirava a vômito. Mesmo assim, ele foi dormir com
um sorriso no rosto.
25
No sábado, depois de voltar da viagem, Mel
chegou à casa de Judith e sorriu ao ver o carro de
Björn estacionado. Desejava muito vê-lo. Desde a
última tarde na casa dele não tinham se visto mais, só
tinham se falado pelo telefone.
Judith viu o utilitário da amiga chegando e saiu
para recebê-la. Cumprimentaram-se com dois
beijinhos.
— Como está a minha princesa preferida?
— Beeeeeeeeeeeem! — a menina gritou.
— Vem, Sami — Flyn chamou. — Vamos ver
os gatinhos.
A pequena correu atrás do menino e Judith
explicou:
— Tem uma gata que deu cria no jardim. O Eric
anda soltando fogo pelas ventas, e Susto e Calamar
já os adotaram. O Flyn está que nem louco com os
filhotinhos. Aliás, você quer algum?
Mel sorriu e recusou:
— Não, obrigada. Na minha casa não cabe nem
um alfinete.
Já dava para notar que Judith estava grávida.
Mel tocou sua barriga e perguntou: — Como você
está?
— Superbem. Essa gravidez está sendo tão
diferente da primeira que quase não acredito. Em
cinco meses, nem vômitos, nem nada do tipo.
— Que sorte — afirmou Mel. — Porque eu,
grávida da Sami, não parei de vomitar até o dia do
parto. Foi horrível!
As duas moveram a cabeça compreendendo
uma a outra e Jud, tocando a barriga enquanto
caminhavam para o interior da casa, comentou: —
Desta vez o gordinho está se comportando muito
bem.
O apelido fez as amigas rirem.
Quando entraram na casa, Mel não viu a mulher
que sempre a recebia com um grande sorriso.
— Onde está a Simona?
— A irmã operou e ela foi com Norbert pra
Stuttgart por uns dias pra ajudar.
Mel viu Björn na sala. Seus olhos se cruzaram,
mas ele logo disfarçou. Vestindo uma calça jeans de
cintura baixa e uma camiseta branca, ele estava
sexy... sexy demais!
Desejou ir até ele, seu corpo pedia, mas se
conteve. Não deveria. Em vez disso, cumprimentou
todos os outros. Quando chegou a Björn, ele
comentou, olhando-a nos olhos: — Ah, se não é a
namorada do Thor quem chegou. — E antes que ela
soltasse uma das suas, acrescentou: — Finge que eu
não existo, boneca. Eu agradeço.
Mel sorriu, ergueu as sobrancelhas e disse entre
dentes:
— Boneco... Você vai ter uma velhice péssima.
Judith, Mel e os que estavam ali em volta deram
risada. Björn desaprovava com a cabeça e bebia
cerveja da garrafa. Nem pensava em responder.
— Vem, Mel — Judith chamou. — A gente tem
que se afastar das más vibrações.
Os lábios de Björn se curvaram num sorriso
enquanto ele a observava com os olhos
semicerrados. Ela estava linda com o jeans simples e
uma camiseta escura. Minutos depois, o celular de
Mel apitou. Uma mensagem. Lançou um olhar
disfarçado para Björn e riu ao ler: “Tô morrendo de
vontade de te beijar.”
Judith, que andava de olho em tudo, sorriu
quando viu Sami literalmente se jogar em Björn. O
sorriso do amigo ao beijar a menina a deixou toda
arrepiada.
— Acho que você devia fazer as pazes com o
Björn — ela disse, puxando Mel de canto.
— Com esse convencido? Por quê?
— Você viu só como ele gosta da Sami? —
Judith perguntou, apontando Björn, que estava rindo
por algo que a menina lhe dizia.
Mel olhou e fingiu não dar importância.
— Ela é criança e tem toda a liberdade de ser
simpática com quem quiser. Mas não se preocupe,
quando crescer ela vai aprender a não chegar perto
desse tipo de idiota.
Durante o almoço, Judith colocou Mel sentada
entre dois solteiros do basquete: Efrén e Tyler, os
últimos a entrarem para o time. Encantados, eles
encheram Mel de atenção o tempo todo. Judith,
sentada entre Björn e o marido, observou
disfarçando como o amigo tentava ouvir o que Mel e
os outros dois conversavam e precisou conter uma
gargalhada ao ver a cara que Björn fez quando Tyler
pegou Sami no colo e ela se desmanchou em risos.
— Que casal bonito eles formam, não é? —
Judith comentou.
Björn sabia a quem ela se referia, mas se fez de
desentendido.
— Quem?
— Ué, a Mel e o Tyler. Os dois são solteiros,
bonitos e pelo que eu vejo, o Tyler gosta de crianças.
Acho que seria o par perfeito para a Mel.
Björn olhou para os dois, que conversavam.
Uma fúria o queimou por dentro.
— Se você acha... — ele respondeu apesar de
tudo.
Não quis dizer mais nada. Logo se deu conta de
que era incapaz de se mostrar alegre e conversador
como sempre. Ficou tenso ao ver outro homem
curtindo o que ele queria curtir. Ficou tão perturbado
que mal conseguiu comer. Em certo momento, Björn
se levantou da mesa e foi até a cozinha. Ou respirava
um pouco de ar puro, ou ia destruir tudo em volta.
Abriu a geladeira, pegou uma cerveja e ficou
bebendo. Instantes depois, Mel apareceu seguida por
Tyler, e Björn franziu a testa assim que os viu.
Deixaram o que traziam na cozinha e Mel entregou
uma garrafa de vinho a Tyler.
— Vai levando — ela pediu. — Eu já vou.
Tyler lançou um doce sorriso para Mel.
— Não demore, coração.
Assim que Tyler sumiu pela porta e Mel ficou
sozinha com Björn, ele chegou até ela e repetiu: —
Coração?! — Mel sorriu e ele insistiu com a voz
rouca: — Está se divertindo, coração?
— Poderia estar melhor — ela respondeu
baixinho enquanto cortava um pouco de pão. —
Além disso, faz uns dias que eu estou com vontade
de comer chocolate. Por que será?
Seus olhares falaram por si sós. Björn
rapidamente esqueceu o aborrecimento.
— Senti tanta saudade de você — ele
sussurrou.
— Pode ter certeza de que não tanto quanto eu.
Björn sorriu e todas as dúvidas que aquele
almoço tinham gerado em sua cabeça se dissiparam.
Desesperado, colocou no balcão a garrafa de cerveja
que tinha nas mãos e andou decidido até Mel, sem se
importar com nada, e a encurralou num canto.
— Björn, o que você está fazendo?
— O que eu preciso.
Sua boca tomou a dela e a devorou num beijo
delicioso. Mel até ficou atordoada quando se
separaram.
— Alguém pode ver a gente...
Björn a olhava nos olhos, encantado,
admirando-a como nunca havia admirado uma mulher
antes.
— Não suporto ver esse imbecil babando em
cima de você e acho que...
Mas foi impossível continuar. Mel tomou os
lábios dele num impulso arrebatador e Björn, feliz da
vida, se rendeu. Durante alguns instantes, o prazer do
momento os fez esquecer onde estavam. Ele a pegou
nos braços e a colocou sentada sobre o balcão da
cozinha.
— Hoje à noite — ele sussurrou com a voz
rouca —, você e eu sozinhos na minha casa.
— Tá, mas vou ter que levar a Sami.
Björn respondeu enquanto a beijava na testa.
— Não tem problema, meu bem. Ela é tão
bem-vinda quanto você. Mas quero que saiba que
esse Tyler está me deixando nervoso. Não deixe ele
chegar perto demais de você, entendeu?
— Está com ciúme?
Björn olhou para ela. Mentir era tolice.
— Estou — afirmou. — Como nunca na minha
vida. Fiquei a ponto de pegar aquele cara pelo
pescoço e arrancar a cabeça dele.
— Björn, mas o que você está dizendo?
— O que você ouviu...
O barulho de passos logo os despertou e se
separaram rapidamente. Mel desceu do balcão e
continuou cortando o pão. A porta da cozinha se
abriu: eram Judith e Eric.
— Mas o que vocês dois estão fazendo aqui?
— Judith perguntou, encarando os amigos.
Björn ergueu a garrafa de cerveja.
— Estava falando pra Ironwoman não cortar
tanto pão que ele fica seco!
Mel suspirou olhando para ele.
— E eu estava falando pro Burro do Shrek que
quem vai ficar seco é ele se não fechar essa boca
enorme cheia de dentes. Meu Deus, que cara mais
insuportável!
— Escuta aqui, boneca — Björn protestou —,
você é formada em...
— He.. he... he... — Mel gritou, apontando a
faca para ele. — Por que você não vai dar uma volta
e se perde por aí?
Eric foi até Mel quando viu a faca. Tirou o
instrumento da mão dela e o colocou sobre o balcão.
— Cuidado, as armas são controladas pelo
diabo — alertou.
Judith sorriu. Se Eric soubesse...
— Obrigado, amigo — Björn aprovou. — E
agora, se você tirá-la da cozinha e afastá-la do meu
campo de visão, faço até uma ola!
— Eu é que faço a ola se você sair daqui,
pateta!
— Uau, baby... quanta raiva! Se você for assim
pra tudo, não quero nem imaginar!
— Seu cretino!
— Sua grossa!
Eric fez menção de separar a briga dos dois,
mas Judith interveio: — Santo Deus, como isso é
insuportável! Olha só como meu pescoço se encheu
de brotoejas por culpa de vocês dois.
Mel e Björn a encararam. Judith prosseguiu:
— Na minha terra, o que acontece entre vocês
dois se chama tensão sexual não resolvida!
Mel não respondeu e revirou os olhos. Pegou a
cesta de pães e saiu da cozinha como o diabo que
foge da cruz. Björn, que estava de olho, terminou a
cerveja e comentou antes de sair também: — As
bobagens que a gente tem que ouvir.
Eric estava ficando cada vez mais
desconcertado com aquele joguinho.
— A partir de hoje, se convidarmos o Björn, a
Mel não vem e vice-versa, entendeu, pequena? —
ele murmurou, muito sério.
Judith deu risada.
— Posso saber o que tem tanta graça? — Eric
perguntou.
Judith se aproximou dele, enlaçou os braços em
seu pescoço e respondeu pertinho do ouvido: —
Você vai ver antes que termine o dia.
Eric moveu a cabeça entendendo tudo.
Imaginou que a esposa já tivesse descoberto e teve
pena do amigo.
Depois do almoço, todos se sentaram na sala
para bater papo. Tyler estava encantado com a
presença de Mel e dava para perceber isso no seu
rosto. Desfazia-se em gentilezas, a fazia rir e ia atrás
dela em todo lugar. Mel foi deixando, pois ficava
excitada de perceber como Björn a olhava.
Aqueles risinhos entre os dois cada vez irritavam
mais Björn. Em uma ou outra vez, quando viu Tyler
se aproximar demais de Mel, esteve a ponto de pular
no pescoço dele, mas se conteve. Não deveria fazer
nada. Por outro lado, o que ele não parou de fazer
foi mandar mensagens no celular dela. Mel lia tudo e
sorria.
Tentaram escapulir algumas vezes para se
encontrarem a sós no banheiro, na cozinha, no
corredor... mas foi impossível. Tyler não deixava Mel
sozinha por nada no mundo, fazendo o nervosismo
de Björn aumentar e aumentar.
Por volta das seis da tarde, os convidados
começaram a ir embora e no fim só ficaram Björn,
Tyler, Mel e os donos da casa. Estavam sentados
jogando conversa fora, quando Sami entrou na
cozinha e pediu: — Mami, água.
Antes que qualquer um pudesse se mexer, Tyler
já estava estendendo um copo para a menina. Björn
e Mel se entreolharam e ela pediu calma com o olhar.
Assim que Sami saiu da cozinha e foi atrás de Flyn,
Tyler perguntou: — Melanie, vamos sair pra jantar
hoje à noite?
— Impossível — ela sorriu. — Hoje não posso.
Sem se abalar pela resposta, ele se aproximou
mais para sussurrar: — Prometo que vai ser gostoso.
Mel se afastou e fez que sim com a cabeça.
— Não duvido. Mas não posso.
— E amanhã, coração?
Todos olharam para ela. Ao ver Björn se
levantando, Mel respondeu: — Esta semana é
impossível pra mim, Tyler. Desculpa.
Mas ele era insistente:
— A Judith me disse que você gosta de comida
italiana. É verdade?
— É.
— Então, conheço um restaurante maravilhoso
que tenho certeza de que você ia adorar e a Sami
também. Me dá seu telefone, gata, que outro dia eu
te ligo. Juro que você vai gostar e que vai amar as
sobremesas.
Björn fechou a geladeira com uma pancada e
todos olharam em sua direção. O que estava
acontecendo com ele? E foi então que naquele
momento Eric se levantou e decidiu pôr um fim à
conversa, sem se importar com o que pensariam.
— Vamos, Tyler, você tem que ir embora,
amigo.
Judith olhou para o marido tão surpresa quanto
Tyler.
— Vem, Jud, vamos acompanhá-lo até a porta.
Sem entender bem o que acontecia ali, Tyler se
foi. Björn e Mel ficaram sozinhos na cozinha, ele com
o rosto transtornado.
— Se esse cara voltar a pedir o seu telefone,
eu...
— Mas qual é o seu problema? — Mel
perguntou ao ver como estava tenso.
— Como assim, qual é o meu problema? Por
acaso você não está vendo? Esqueceu como você se
sentiu furiosa outro dia quando viu a Agneta? Pois é
como eu estou me sentindo agora.
Mel o entendeu e, embora gostasse de ver
aquele tipo de sentimentos nele, algo dentro de si
disse que teria problemas. Levantou-se da cadeira,
certificou-se de que não tinha ninguém perto e
abraçou o homem que estava amolecendo seu
coração.
— Não esquece, eu e você hoje à noite... sua
casa... sua cama... seu morango...
Björn concordou, excitado, e prensou Mel
contra a geladeira e a beijou. Devorou seus lábios.
Tinha muita necessidade do contato. Precisava do
sabor... Quando já tinha se esquecido de tudo, ouviu:
— Ora, ora, não me parece que vocês estejam
achando tão ruim se beijarem.
Mel e Björn se olharam. Tinham sido pegos com
a mão na massa. Viraram-se para Eric e Jud, que não
desgrudavam os olhos deles dois, e não souberam o
que dizer.
— Eu disse que antes do fim do dia tudo estaria
resolvido — Judith disse virando-se para o marido.
— Aqui está a tensão sexual... já resolvida.
Eric soltou uma grande gargalhada. Sua mulher
era terrível. Björn acabou rindo também das palavras
da amiga, sem conseguir evitar. Mel, porém, os
encarou desconcertada e Judith indicou a foto do
celular, em que os dois estavam juntos no shopping.
— Brincando de casinha? — ela zombou.
Björn e Mel olharam confusos para o celular.
— Vi vocês dois outro dia. Lembra quando
liguei pra convidar pro almoço? — Mel e Björn
fizeram que sim. — Pois então, eu estava numa das
lojas na frente de onde vocês estavam. Aliás, Mel,
comprou muitos doces pra Sami? E você, Björn,
continua atolado em trabalho?
Eric olhou para a foto muito surpreso.
— E por que você não me disse nada,
pequena?
— Porque senão você ia abrir o bico pro seu
amiguinho e eu não ia poder desmascará-los.
Os dois homens riram às gargalhadas. Aquela
bruxinha os conhecia muito bem. Divertido pela
astúcia, Björn sorriu e respondeu: — Certo, sem
mais mentiras. Eu e Mel estamos juntos.
Eric e Judith sorriam por sua vez.
— E por que vocês quiseram manter segredo?
— Judith perguntou encarando a amiga.
Björn pegou Mel pela cintura e respondeu, feliz:
— Pergunte a ela, que é a mulher cheia dos
segredos. Não quer me apresentar para os amigos de
jeito nenhum.
Logo que ouviu aquilo, Judith olhou para Mel e,
ao ver sua expressão, entendeu imediatamente o que
a amiga andava escondendo. As duas mulheres
cruzaram olhares e Mel negou com a cabeça. Judith
acenou que entendia.
— Bom, já que agora estamos sabendo,
acabaram-se as mentiras, né? — Judith perguntou.
Alheio ao assunto, Björn sorria e conversava
com Eric.
— Olha... Olha... isso aqui não é o que parece
— Mel os interrompeu agoniada.
Todos olharam para ela. Eric franziu a testa,
Judith parou de sorrir e Björn, confuso, perguntou:
— O que você disse?
Mel não parava de passar a mão no cabelo com
jeito contrariado.
— Eles acham que estamos juntos — explicou
—, mas não... não estamos. Simplesmente dormimos
juntos algumas vezes, e isso é tudo.
Ao ver aquela reação, Judith quis falar, mas Mel
não deixou:
— Judith, fica calada!
Ela negou com a cabeça, não aprovava que Mel
escondesse coisas de Björn. Ele, por sua vez, gritou
fora de si: — Como assim, “isso é tudo”? Do que
você está falando, Mel?
Eric olhou para a mulher e a pegou pela cintura.
— Acho que estamos sobrando, pequena. —
Olhou então para o amigo, desconcertado, e
informou: — Vamos pra sala.
Assim que ficaram sozinhos na cozinha, Björn
perguntou:
— O que foi, Mel? — Ela não respondeu e ele
insistiu: — Que história é essa de “simplesmente
dormimos juntos algumas vezes, e isso é tudo”? Eu
achei que existia alguma coisa especial entre a gente.
Você mesma me disse que tinha sentido saudades e...
— É verdade — ela interrompeu. — Claro que
senti saudades, mas acho que as coisas estão
andando muito rápido e não podemos nos precipitar.
— Precipitar?
— É, precipitar!
— Eu gosto de você, você gosta de mim, por
que a gente está se precipitando, pode me dizer?
O que ela ainda escondia não a deixava viver
em paz.
— Olha, Björn, podemos continuar nos vendo,
mas sem pressões. Acho que o mais inteligente é que
a gente continue com as nossas vidas e...
— Mas que droga você está dizendo?
Ela se ofendeu com o tom de voz dele.
— Não grita comigo — disse entre dentes,
cerrando os punhos.
— Como você não quer que eu grite? Você
acabou de destruir um momento lindo entre nós dois.
Acabou de jogar por terra algo que... que... Você
não percebe?
Naquele instante, Sami entrou correndo na
cozinha e Mel, ao vê-la, encontrou uma maneira de
escapar.
— Tenho que ir — anunciou, pegando a menina
no colo.
Björn bloqueou o caminho com o braço. Não
queria que ela se fosse. Tinham que conversar. Mas
Mel viu sua cara de aborrecimento e alertou: —
Björn, estou com a Sami no colo. Toma cuidado com
seu tom de voz e com o que vai dizer.
Ele entendeu perfeitamente e saiu do caminho.
Mel passou pela porta e foi embora.
Minutos depois, Judith entrou na cozinha.
— Desculpe se estraguei tudo.
Björn estava transtornado pelo ocorrido.
— Você não estragou nada.
— Mas a culpa é minha que vocês tenham
discutido — ela insistiu.
Björn olhou para a amiga, deu de ombros e
respondeu:
— Não se preocupe. Discutir com a Mel não é
difícil.
26
Dois dias depois, quando Björn entrou no
tribunal, tinha uma expressão muito séria. Não tinha
conseguido pregar o olho. Desde a última tarde com
Mel, não tivera mais notícias dela. Tinha telefonado,
mas ela não atendia. Por que se comportava assim?
Por acaso não sentia o mesmo que ele?
Uma mulher, a última que Björn poderia ter
imaginado, o surpreendera como nenhuma outra
antes. Ele não conseguia tirá-la da cabeça. Pensava
em sua boca, em seus beijos, em seu corpo, em seu
olhar e em sua paixão quando faziam amor.
Nunca tinha se apaixonado.
Nunca tinha perdido a razão por ninguém.
Nunca tinha ficado dependente de uma mulher.
Mas o que sentia por Mel era incontrolável. Era
como se ela fosse sua. Sentia-se péssimo por não
estar com ela e a sensação constante de estar
perdido não o abandonou desde o dia em que tinham
se separado.
Depois de ganhar uma causa e perder outra, ele
decidiu ir almoçar no restaurante do pai. Assim que o
viu entrar, Klaus soube que algo estava acontecendo.
De costume, seu filho sempre entrava com um sorriso
no rosto, mas naquele dia tinha sido diferente.
— O que te preocupa, filho? — Klaus
perguntou quando se sentaram para almoçar.
— Por que você pergunta?
— Não está fazendo brincadeiras e está mais
quieto do que o normal. Isso é raro em você.
Björn sorriu.
— Não aconteceu nada, pai.
— Que foi, filho? — Klaus insistiu.
A insistência do pai o surpreendeu.
— Do que você está falando?
— Sou velho, mas não sou bobo.
— Não foi nada, pai — Björn negou com a
cabeça. — Hoje na audiência, um dos casos acabou
se complicando mais do que eu esperava e...
— Não mente pra mim.
— Quê?
— Você está mentindo. — E Klaus baixou a
voz para continuar: — Olha, filho, em todos esses
anos, você só perdeu o sorriso duas vezes: no dia em
que sua mãe morreu e na audiência da Grete.
Lembrar-se de Grete, como sempre, deixava
Björn enfurecido.
— Ainda se lembra disso, pai?
Klaus fez que sim.
— Ainda, filho. Por incrível que pareça, os pais
não se esquecem desses detalhes. O sofrimento dos
filhos é o nosso.
— Paaaaaaai.
— Boto minha mão no fogo se essa cara séria
não for por causa de mulher. Não é?
Björn se deu por vencido. Resignou-se e
concordou com a cabeça.
— É, pai.
— Para chegar ao coração das mulheres, você
tem que fazê-las rir. Se você conseguir fazer isso,
rapaz, ela é sua! Quem é? Eu conheço?
— Não, pai.
— Já veio aqui?
— Não.
— Tem certeza? Eu tenho olho bom pra
mulheres bonitas.
Björn fechou os olhos por causa da insistência e
confessou: — Ela se chama Melanie.
Ao dizer o nome, Björn viu que tinha caído no
jogo do pai. Deu uma risada e ouviu o que ele dizia:
— A sabedoria vem com a idade. Eu já sabia que
isso tudo tinha a ver com mulher. E, chamando-se
Melanie, só pode ser a amiga espanhola da Judith,
não é?
Seu pai era esperto. Antes que Björn dissesse
algo, Klaus continuou: — Já te disse que tenho um
olho bom pra mulher bonita e a Melanie, com esse
nome tão maravilhoso, não pode ser moça ruim.
— O pai dela é americano.
Klaus compreendeu.
— E daí? Isso não faz dela uma má pessoa,
filho, nem do pai dela.
— Mas nunca gostei de americanos.
O homem balançou a cabeça e insistiu:
— Você está generalizando por causa do que
aconteceu com a Grete e aquele militar. Mas não
pode pensar assim. No mundo existe gente boa e
gente má, sejam americanos, chineses ou alemães.
Não podemos generalizar, Björn. Eu já te disse isso
muitas vezes. As pessoas são como são. Não tem
nada a ver com a nacionalidade.
— A Mel está me deixando louco, pai.
Klaus riu.
— É normal, filho. As mulheres são assim.
Deixam qualquer um louco!
Os dois sorriram e Björn explicou com carinho:
— Ela tem uma filha. Uma menina maravilhosa
que tenho certeza de que te deixaria encantado. A
Sami é linda, pai. É divertida, inteligente. Fala do
jeitinho dela alemão, espanhol e inglês e é...
— Uma filha? Ela é casada?
— Não, a Mel é mãe solteira. Você tem que ver
como ela se desdobra pela Sami. Como cuida, como
é carinhosa. Nunca conheci ninguém como ela.
O velho sorriu. Sem dúvida alguma, aquela
mulher tinha tocado o filho profundamente.
— Pelo que você me diz, então, ela é uma
lutadora. E sei do que estou falando. Praticamente
criei você e o Josh sozinho e sei muito bem quanto
custa criar um filho. Se você me diz que ela faz isso
sozinha, só pode ser uma lutadora.
— Mas eu não sei o que ela quer, pai. As coisas
estavam maravilhosas entre a gente e de repente ela
muda de opinião e... eu não sei o que fazer.
Colocando uma das mãos no ombro do filho,
Klaus perguntou: — Você gosta muito dela?
— Gosto...
O homem balançou a cabeça.
— As mulheres são assim, inexplicáveis! E se
você gosta tanto dessa Melanie como eu estou
vendo, acho que você tem que lutar por ela. Não
permita que outro homem veja nela a mesma coisa
que você viu e a roube. Fique esperto, filho. Deixe-a
apaixonada por você! Faça com que ela não possa
viver sem você.
Björn sorriu. Seu pai era um romântico...
— Está bem, pai. Vou tentar — disse,
levantando a caneca de cerveja para brindar.
Klaus sorriu e exclamou animado:
— É assim que eu gosto, Björn, atitude positiva!

No domingo de manhã, Björn saiu para comprar


o jornal e se sentou numa cafeteria para ler. Sempre
tinha adorado aquele ritual. Domingo, tranquilidade,
jornal e café.
Mas naquele dia não estava tão concentrado
como deveria, tinha mudado de cafeteria e, seguindo
o conselho do pai, tinha decidido lutar por Mel.
Uma semana tinha se passado e ela não tinha
ligado. Decidido a recuperá-la, Björn se sentou na
frente do prédio onde ela morava. Se ela não atendia
o telefone, pelo menos não se negaria a falar com ele
quando o visse na sua frente.
Enquanto olhava para a porta do prédio
esperando que ela se abrisse, ligou para ela do
celular. Como sempre, Mel não atendeu e Björn
xingou. Quando a visse, ia deixar bem claro com
quem ela estava lidando.
Desligou o telefone e em seguida ele tocou. Era
Rania, uma de suas amigas. Quando ia atender, a
porta se abriu e Björn viu Mel sair com a filha no
colo. Sem se importar com Rania, interrompeu a
chamada, saiu da cafeteria e foi ao encontro dela.
Sem se dar conta de que Björn se aproximava,
Mel abriu o carrinho da filha e a colocou dentro.
Depois de prendê-la bem para não cair, levantou-se
e teve um sobressalto ao ver Björn do seu lado.
— Porra, que susto!
— Sou tão feio assim? — ele zombou.
— Píncipe bobo — Sami falou, apontando
para ele.
Björn se agachou, deu um beijo na bochecha da
menina e a cumprimentou com carinho: — Oi,
princesa.
Mel, comovida com o gesto, acrescentou:
— Além de bobo, é um pouco feio sim, de
verdade.
Ele não se importou e tocou o narizinho da
menina.
— Se você me chamar de lindo te dou uma
coisa que você vai gostar muito.
A criança sorriu e rapidamente disse:
— Lindo.
Björn tirou um pacote do bolso e entregou a ela.
A menina gritou emocionada quando o abriu: — Uma
coloa losaaaaaaaaaaaaaaa de
pincesaaaaaaaaaa!
O advogado sério voltou a sorrir como um bobo
ao ver a reação da menina. A mãe da criança
murmurou, então: — Mas você é um chantagista.
Comprou uma coroa de princesa pra minha filha?
Mas ele, que não estava para brincadeiras,
levantou-se para olhá-la nos olhos e perguntou: — O
que foi, Mel? — E antes que ela respondesse,
continuou: — Por que você não me liga?
— Andei muito ocupada.
— Por que você não atende o telefone?
A presença dele a surpreendeu. Não o esperava
por ali. Mel tentou recuperar as forças que a
abandonavam quando o via e respondeu: — Porque
tenho outras coisas mais importantes pra fazer.
Björn falou um palavrão. Daquele jeito não ia
dar certo.
— Temos que conversar.
— Não.
— Sim.
Com uma expressão que não o agradou, Mel
disse em seguida: — Tudo bem, vou te ligar pra
gente ir ao Sensations.
— Mel...
Sua paciência começava a se esgotar. Agarrou-
a pela cintura e confessou: — Sinto sua falta.
Mel se desvencilhou dele, colocou o carrinho da
filha entre os dois e respondeu com a testa franzida:
— Björn, não avance o sinal.
— Como assim não avance o sinal?
— Não grite comigo.
Ele concordou. Ela tinha razão. Não podia
perder a compostura.
— Escuta, meu bem... — ele sussurrou,
desesperado.
— Não me chame de “meu bem” — ela
interrompeu e pegou um maço do bolso da calça e
acendeu um cigarro diante da cara incomodada dele.
Björn insistiu, sentindo-se cada vez mais
espantado e irritado: — Mel, você está me deixando
louco. Não sei o que acontece com você. Achei que
me considerava alguma coisa sua. Achei que você
gostava de mim e...
— E gosto — ela afirmou. — Mas existem
coisas que você não sabe e...
— Quais coisas? Fala comigo, me conta! Porra,
Mel, acho que você me conhece pelo menos um
pouco pra saber que eu sou um cara com quem se
pode falar abertamente. O que foi? O que está
acontecendo pra você ficar tão negativa em relação a
nós dois?
— Tenho que ir.
— Aonde você vai?
— Tenho um compromisso.
— Com quem?
Não houve resposta.
Björn estava se arrastando aos pés dela, mas
Mel valia o esforço. Como um bobo, olhou para ela
e perguntou finalmente, sem querer pressioná-la ainda
mais: — Você me liga quando voltar?
— Não — Mel retrucou, apagando o cigarro no
chão.
Björn ficou desconcertado com a resposta tão
categórica. Encarou-a, confuso.
— Mas por que não?
— Porque não sei a que horas vou chegar.
Além disso, amanhã eu saio de viagem outra vez e...
— Você vai viajar outra vez?
— Vou.
— Pra onde?
Sem saber o que dizer, Mel respondeu:
— Vai ser por vários dias. É um voo
intercontinental e de lá vou...
— E a Sami?
— Vai ficar com a minha mãe — ela informou
com um fio de voz.
Entreolharam-se por vários segundos. Disposta
a acabar com o sofrimento, ela cravou os olhos azuis
nos dele e afirmou: — Me dei conta de que não
quero aprofundar a nossa relação.
— Como?
— A gente era mais feliz com a nossa vida. Isso
está saindo do controle e um dos dois tem que saber
quando parar. E se essa pessoa tiver que ser eu, que
seja! Assumo o papel de vilã.
Björn a encarou, incrédulo. Teve vontade de
gritar. Teve vontade de discutir, de dizer o quanto
precisava da sua companhia, mas a pequena Sami
estava ali e ele não devia fazer nada daquilo. A
Melanie fria e impessoal que tinha conhecido no
começo o observava agora. Sentiu-se ridículo em
meio àquela conversa. Estava abrindo seu coração e
ela parecia um iceberg. De repente um carro buzinou
logo ao lado e Björn ouviu dizerem: — E aí, linda?
Mel sorriu ao ver Neill e Fraser aparecerem
num Hummer, enquanto Björn os encarava olhando
feio. Reconheceu o primeiro como o sujeito da noite
no hospital. Não conseguiu conter a fúria e
perguntou: — Você dorme com eles?
A cada segundo mais perturbada, Mel
respondeu, disposta a afastá-lo.
— Durmo. Com eles dois e com outros que
você não conhece. Você não é o centro da minha
vida sexual. — E vendo o olhar duro com que ele a
observava, acrescentou: — Some daqui, tenho que
ir.
Ofendido. Com ciúmes. Irritado. Enganado. Foi
assim que Björn se sentiu.
Mel tinha dito que ele tinha que confiar nela, que
ele era o centro de sua vida e, de repente, nada
daquilo era verdade. Tinha vivido uma mentira
incrível e tinha acreditado em tudo. A sensação de
vazio doía demais. Nenhuma mulher tinha falado
assim com ele, nem o tinha tratado daquela forma.
Quando viu que os homens saíam do carro, reuniu
um pouco do orgulho que lhe restava, se virou e foi
embora, sem olhar para trás.
Assim que Fraser e Neill chegaram ao lado de
Mel, viram que o homem se afastava com passos
largos.
— Como está a minha princesa? — Fraser
perguntou, olhando para Sami.
A pequena fez festa e esticou os bracinhos. Ele
a pegou do carrinho e a colocou sentada no banco
traseiro do carro. Neill viu que Mel observava o
homem que se afastava com expressão indecifrável.
— O que foi? — perguntou.
— Nada.
— Aquele ali não é o Björn?
— É.
Conhecia a tenente e alguma coisa lhe dizia que
o que ela tinha com aquele homem era especial. Mas
também conhecia a expressão no rosto dela.
— O que você fez, Mel? — ele insistiu
encarando-a.
— Ele não sabe que eu sou militar, Neill, e
odeia os militares americanos. Eu fiz o que devia ter
feito há muito tempo, terminei. Não preciso de
ninguém. A Sami e eu estamos bem e...
— Mas, Mel...
Ela se recuperou em questão de segundos e
interrompeu o amigo: — Não quero falar sobre esse
assunto.
Assim que os quatro entraram no carro, se
dirigiram até a casa de Neill, onde Mel tentou
saborear um almoço maravilhoso de despedida junto
com a família dele, mas nada era como antes. Agora
Björn ocupava sua mente. Checou o celular mil
vezes. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada.
À noite, ao chegar em casa, ligou o computador
e abriu o e-mail. Nada de Björn. Chateada, sem
poder conter o choro, colocou no iPod as músicas de
Aaron Neville e Bruno Mars que tinham dançado
juntos de forma tão gostosa. Aquelas canções a
faziam lembrar dele. Precisava ouvi-las para se sentir
mais próxima.
Mas por que às vezes era tão burra? Por que
tinha que ter falado daquele jeito? Por que não tinha
sido sincera com ele desde o início?
Ela fechou os olhos e viu o sorriso dele, sentiu
como ele a beijava e como cuidava dela e de Sami.
Como na letra de Bruno Mars, tinha encontrado uma
pessoa que a tratava com carinho, que a fazia rir, lhe
dava flores... Sentiu-se péssima. Devia deixar que ele
decidisse se a queria do jeito que era ou não. Tinha
se comportado como uma idiota. Como uma criança,
e Björn não merecia.
Ligou para o celular dele, mas então foi ele que
não atendeu. Tentou várias vezes, mas, entendendo
que ele não queria atender, desistiu, com o coração
aos pedaços.
Björn, que estava jantando com uma de suas
amigas, sentiu o coração acelerar ao ver o número
dela no telefone. Devia atender? Achou melhor não.
Se ele não era o centro da vida dela, ela não ia ser o
centro da vida dele. Olhou para a ruiva à sua frente e
sorriu. Havia uma noite espetacular esperando por
ele com a chata da Maya.
27
No dia seguinte, logo de manhã, Mel pegou um
voo direto para Oviedo, na Espanha. Naquela
mesma noite, sairia numa missão de quinze dias e
queria deixar a pequena Sami com a família. Quando
desembarcou na cidade, sorriu ao ver a irmã. Scarlett
pegou Sami, que estava dormindo, e então ela e Mel
se abraçaram. Sem demora, sentaram a menina
adormecida no banco traseiro do carro e seguiram
caminho.
— Como está a minha irmãzinha preferida? —
Scarlett quis saber.
— Fodida — ela respondeu, acendendo um
cigarro.
Scarlett perguntou enquanto dirigia:
— Voltou a fumar?
— Não... sim... Bom, não sei.
— Que foi?
Mel apagou no cinzeiro do carro o cigarro que
acabara de acender e afirmou, furiosa: — Sou uma
imbecil, uma babaca. Sou a pior pessoa que você vai
conhecer na vida inteira. Sou...
— Tá... tá... tá. — Scarlett parou o carro e
olhou para ela. — Como você já me deixou claro
que minha irmã é o ser mais repugnante da face da
Terra, me diz o que aconteceu.
— Terminei tudo com o Björn.
— Ele ficou sabendo que você é militar?
— Não.
— E então?
— Discutimos e eu dei a entender que durmo
com outros caras pra que ele não queira saber mais
de mim. Não contei que sou militar porque não
consegui. Cada vez que eu tento, fico paralisada
como uma idiota.
— O que você está me dizendo?
— O que você acabou de ouvir.
— Mas como você deixou um homem daquele
escapar?
— E o que você queria que eu fizesse? A minha
relação com ele era baseada numa mentira. E não da
parte dele, mas da minha. E, por favor, não conte
nem à mamãe, nem à vovó. Não quero que elas me
atormentem com perguntas, ouviu?
Scarlett concordou.
— Olha, não sei o que te dizer — falou
baixinho.
Mel sacudiu a cabeça e prosseguiu:
— Me comportei como uma menina malcriada,
Scarlett, e o pior de tudo, não consegui falar e fui
covarde, quando, na realidade, estou completamente
apaixonada por ele.
— Como diria a vovó, acho que você é meio
boba!
— Meio não, inteira. Sou a pior de todas.
As duas irmãs se abraçaram e Mel pediu:
— Por favor, não me fale mais dele, tá? Preciso
me focar ou não sei o que vai ser de mim. Tô tão
mal-humorada, coitados do Neill e do Fraser.
— Fraser? — a irmã repetiu, tentando esfriar o
assunto. — Meu Deus... como esse cara é gato.
— Scarlett!
— Minha Nossa Senhora, Mel, ainda lembro
quando eu e ele... Uau, sinto calor só de lembrar!
Mas não deu certo e a vida continua.
— Fique sabendo que ele continua perguntando
de você pra mim.
— Jura?
— Juro de pé junto. E pode mudar essa cara de
depravada. Se vocês não estão juntos, é porque
você não quis, não foi culpa dele.
— Eu não quero a vida da mamãe, Mel —
Scarlett interrompeu. — Quero alguém que esteja
comigo sempre, não alguém que eu só possa ver
alguns dias por mês. Maaaaaaaaaaaas, não é porque
estou de regime que vou deixar de olhar as
sobremesas, e o Fraser é uma bela sobremesa!
Mel sorriu. A irmã, como sempre, a animava, e
com o humor melhor, seguiram viagem para La Isla.
Ao chegarem à casa da avó, Luján as recebeu com
um grito: — Que alegria ver de novo as minhas
meninas!
Luján beijou Mel com adoração e em seguida
tirou a neta, que já tinha acordado, do carro, e
encheu a menina de beijos.
— Como está a minha bonequinha?
Achando divertido, Sami riu e respondeu:
— Vovó boba.
— Você me chamou de “boba”, sua mini sem-
vergonha? — Luján riu ao ouvi-la.
Todas sorriram e Mel explicou:
— Ela aprendeu a falar isso e agora pra ela todo
mundo é bobo.
A porta da casa se abriu novamente e
Covadonga apareceu.
— E o Blasinho? — a senhora perguntou à neta.
Mel respondeu com o coração apertado:
— Trabalhando, vovó. Ele mandou muitos
beijos.
A mulher sorriu. Estava claro que Björn tinha
causado uma boa impressão. Então a mulher abriu os
braços e exclamou: — Ai, minha menina, vem dar um
abraço na sua vovó!
Mel correu até a avó e a encheu de beijos.
— Você está pele e osso, menina. Precisa
comer mais ou qualquer dia vai sumir.
— Vovó, estou sempre igual — Mel se queixou.
Covadonga, olhando as vizinhas que se reuniam
nas portas das casas para ver quem tinha chegado,
gritou: — Ô de casa!
Elas a cumprimentaram com outro grito e Luján,
orgulhosa da neta, foi até elas para lhes mostrar a
menina. Covadonga continuou olhando para as
vizinhas, que faziam palhaçadas na frente da pequena
Sami, e torceu o pescoço para cochichar: — A Isa é
meio boba.
— Vovóóóóóóóóó, não comece! —
repreendeu Scarlett.
Morrendo de rir, Mel agarrou a mulher e a
puxou para dentro de casa, divertida com as
barbaridades que a avó começou a contar.
Naquela tarde, depois de dar tchau para a filha,
dizendo que ia comprar leite, Mel se despediu do
restante da família e foi com Scarlett para o
aeroporto. Quando chegaram lá, a irmã a abraçou.
— Não se preocupe — disse Scarlett. — Você
sabe que a Sami fica bem com a gente.
— Eu sei... eu sei... mas a cada dia acho pior ter
que me separar dela. Passo a vida mentindo pras
pessoas que são mais importantes pra mim. A Sami...
o Björn...
Scarlett compreendia e abraçou a irmã mais uma
vez. Adivinhou o que ela estava pensando e então
aconselhou: — Quando você voltar, deve ir falar com
ele e dizer a verdade.
Mel acendeu um cigarro, deu duas tragadas e o
apagou.
— Vou fazer isso. Juro que vou fazer, nem que
seja a última vez que ele fale comigo.
Scarlett sorriu.
— Você tem o exército no sangue — sua irmã
comentou. — Mas, diferente do papai, você sente
falta demais da sua filha e é capaz de deixar tudo por
amor, não é?
Mel confirmou com a cabeça.
— Vá pra esse lugar e, quando voltar, procure
o Björn. Fale com ele e tente explicar o que você
sente e o porquê das suas mentiras. Se você for
capaz de deixar o exército por amor, não acho que
ele vá te desprezar.
— Você acha?
— Não sei, querida, mas por um cara daqueles,
pode ter certeza de que eu moveria céus e terras.
— Juro que, se por fora ele é impressionante,
por dentro é muito mais! — Mel declarou sorrindo.
Ambas riram e ela anunciou:
— Tenho que embarcar. Cuida da Sami até eu
voltar, tá?
Abraçando-a de novo, Scarlett concordou, e
sem dizer mais nada a tenente Parker se foi. Quando
chegou a Munique, junto com os dois colegas que a
esperavam no aeroporto, pegou o helicóptero que os
levaria até a base americana de Ramstein, no oeste
da Alemanha. De lá, quase meia-noite, decolaram e
foram em direção à base aérea de Balad, perto de
Bagdá, no Iraque.
28
Melanie não apareceu no Sensations na semana
seguinte nem na terça, nem na quinta. Também não
voltou a ligar.
O humor de Björn a cada dia se tornava mais
sombrio e devastador. O jovem alegre que sorria
para todo mundo de repente tinha se transformado
num monstro que só reclamava e estava sempre
chateado. Nem com o sexo ele se animava mais.
Ouvir a canção Impossible, de James Arthur,
revirava suas entranhas. Como dizia a letra, era
preciso tomar cuidado no amor, mas com Mel ele
tinha baixado a guarda e se sentia péssimo por isso.
O que estava acontecendo? Por que não conseguia
esquecê-la? Estava mesmo apaixonado por ela?
Nunca tinha dependido da presença de nenhuma
mulher específica antes e não entendia por que
naquele momento era justo Mel que ele não
conseguia tirar da cabeça.
Passava horas em frente à cafeteria da casa
dela, desejando vê-la entrar ou sair. Precisavam
conversar e resolver o que tinha acontecido. Porém,
nem Mel nem a menina entravam ou saíam. Onde
tinham se metido?
De uma hora para outra, Mel tinha se convertido
numa espécie de droga para ele. Björn tinha
necessidade de saber onde ela estava, com quem
estava... ficar sem notícias o estava deixando louco.
Por fim, decidiu recorrer à única fonte de
informações que tinha: sua amiga Judith.
— Não sei onde ela está, Björn.
— Pequena — interveio o marido, sentado à
mesa da cozinha —, se você sabe onde ela está,
diga.
— Mas eu não seeeeeeeeiii — Jud gritou,
irritada.
Aqueles dois estavam pressionando Judith de
todos os lados, algo que a estava deixando muito
nervosa.
— Não acredito em você, Jud — Björn insistiu,
encarando-a. — Como é que você não vai saber
onde ela está?
— E você acha que eu não tenho mais nada pra
fazer além de ficar bisbilhotando a vida das minhas
amigas? Aliás, por que agora eu tenho que te contar
as coisas, quando você não me disse nada antes?
— Porra, Jud!
Eric olhou para a mulher. O rosto sério de Björn
o fez saber que ele não estava de brincadeira.
— Juro que não sei onde ela está — Jud
assegurou por fim. — Estou falando a verdade.
— Porra — Björn protestou novamente,
passando a mão pelos cabelos.
Judith cruzou o olhar com o do marido e então
perguntou a Björn: — Então você está gostando
dela, é isso?
— Deixa de falar besteira.
O silêncio tomou conta da cozinha de novo, e
Judith, incapaz de segurar o que pensava, disse,
batendo na mesa com força: — Não, bonitão, deixa
de besteira você...
— Judith! — ele interrompeu. — Não me
provoque, por favor.
A explosão de fúria fez Judith e o marido
trocarem olhares. Desde que o conheciam, era a
primeira vez que Björn ficava assim por uma mulher.
Ela colocou uma das mãos no braço dele e explicou:
— Não era o que eu pretendia. Só quero falar com
você do jeito que você falou comigo e com o Eric.
Ou por acaso você esqueceu?
Consciente de seu mau humor, Björn fitou a
amiga.
— Me perdoa — ele sussurrou. — Não sei o
que me deu.
Sorrindo de novo, Judith ergueu o queixo e,
frente à expressão de divertimento do marido,
recordou: — Você foi me buscar na Espanha.
Conversou comigo, me escutou e pediu que eu
lutasse pelo Eric. Tenho certeza de que você pediu
que ele fizesse o mesmo por mim, se realmente me
amasse e não pudesse viver sem mim. Por que agora
não podemos te pedir o mesmo, se vemos que você
está sofrendo pela Mel? — Os lábios de Björn se
curvaram num sorriso e ela continuou: — Ainda me
lembro do dia em que você me disse que gostava de
mulheres lindas, atraentes, inteligentes e
desconcertantes, e, principalmente, as que te
surpreendem. — Ela deu uma piscadinha. — A Mel
te surpreendeu, não foi?
Ao se dar conta de que ela tinha razão em tudo,
Björn se levantou e foi até a grande janela de onde
via Simona com os meninos no jardim.
— Porra, Judith. Não sei o que deu em mim por
causa dela, mas...
— Mas vocês não se suportavam. Ainda me
lembro do dia em que você ficou irritado, quando ela
estava trocando mensagens com um homem pelo
celular.
Lembrando-se do episódio, Björn sorriu e
respondeu:
— Nesse dia, a gente só estava brincando na
sua frente.
Judith ficou boquiaberta.
— Você era o cara com quem ela estava
trocando mensagens e com quem ela saiu depois? —
Björn fez que sim e ela exclamou: — Vocês são
idiotas?! — E olhando na direção do marido, que ria,
perguntou: — Você já sabia?
Eric levantou as mãos e riu. Judith ficou em
choque por ele não ter lhe contado nada e por ter
guardado o segredo do amigo.
— Escondendo coisas de mim! Seus babacas!
Björn e Eric acabaram rindo e, por fim, Judith se
juntou a eles.
— Quando vocês começaram a se ver? — ela
perguntou a Björn em seguida.
Disposto a ser sincero, sentou-se à mesa mais
uma vez e explicou: — Encontrei com ela uma noite
no Sensations.
— No Sensations?! — Judith gritou, atônita.
Sem hesitar, Björn contou tudo o que tinha
acontecido, enquanto sua amiga, muito surpresa, só
ouvia. Ele observou sua cara de espanto e confirmou
com a cabeça. Olhou para o amigo e continuou
falando: — Aliás, da última vez que a gente foi lá com
a Diana e a namorada dela, a Mel nos viu no
reservado.
— E por que ela não me disse nada? — Judith
quis saber.
— Porque ela ficou com vergonha — Björn
explicou.
Desconcertada, ela levou as mãos à cabeça.
— Merda... merda... merda. Não consigo
acreditar!
— Pequena, controle seus hormônios. — Eric
riu.
— Querido, não me irrite mais — ela rebateu,
tocando a barriga. — Fique sabendo que estou brava
com você!
Eric deu uma grande risada e olhou para a
esposa com amor.
— Pequena, você é terrível!
— Você é uma bruxa, isso sim — Björn
respondeu divertido. — Em vez de me ajudar, você
não faz mais nada além de colocar obstáculos para
que eu encontre a outra bruxa. E, aliás, quando me
encontrar com ela, não sei o que vou fazer.
— Vamos, moreninha — Eric insistiu —, diga
ao Björn onde está a Mel. Você não tem pena dele?
Judith suspeitou que ela devesse estar fora do
país e ficou tentada a contar a verdade sobre a
profissão da amiga. Só que tinha prometido guardar
segredo e, percebendo que Mel não tinha revelado a
verdade a Björn, ela o abraçou e disse: — Sei o
mesmo que você. Deve estar viajando. Onde? Não
sei.
Pela cara da amiga, Björn soube que ela falava a
verdade e naquela noite, quando chegou em casa,
decidiu investigar por conta própria. Dois dias
depois, descobriu algo de que não gostou.
29
Quando aterrissaram ao meio-dia na base de
Ramstein, Mel estava esgotada. Aquela viagem tinha
sido exaustiva. Ela só desejava chegar em casa para
se enfiar na cama e dormir... dormir e dormir.
Precisava descansar uns dois dias antes de ir para as
Astúrias buscar a filha.
Enquanto descarregavam o avião, ela se ocupou
da papelada. Não via a hora de acabar e ir embora
dali. Sem que ela se desse conta, um par de olhos
azuis furiosos a observavam de uma grande distância.
— Bom dia, tenente Parker.
Mel se virou e deu de cara com James. Fizeram
a continência habitual militar.
— Comandante Lodwud.
Durante um tempo, falaram sobre a papelada.
Em seguida, vendo que não tinha ninguém em volta, o
comandante perguntou: — Janta comigo esta noite?
— Não — ela respondeu, enquanto
caminhavam.
— Vai, Mel, vamos nos divertir como sempre.
Ela olhou para ele sorrindo e explicou:
— Estou voltando para Munique hoje à tarde
mesmo.
Mas o comandante não se deu por vencido e,
assim que chegaram à lateral do avião, ele insistiu: —
Vamos, Mel... se anime.
— Hoje não, Lodwud.
O comandante aceitou a negativa, deu a volta e
saiu dali. Ao vê-lo se afastar, Mel continuou com
suas tarefas. Abriu um pequeno compartimento do
avião e, quando ia se agachar, mãos a agarraram
pelo braço. Mel se virou para reclamar: — Lodwud,
não seja chato, por...
Mas não conseguiu continuar.
Diante dela estava Björn, não Lodwud, e pelo
seu olhar não parecia contente. Durante alguns
instantes, olharam um para o outro em silêncio até
que ele, passando os olhos pela roupa que ela vestia,
sussurrou num tom nada amigável: — Tenente
Parker?!
Mel não soube o que responder, e ele
acrescentou, furioso: — Você é a porra de uma
militar americana e não tinha me dito?
— Björn...
— Você disse que era aeromoça!
— Björn...
— Gostou de rir da minha cara? Maldita
mentirosa. — Ele estava furioso e continuou falando
sem deixar que ela dissesse nada: — Nunca imaginei
que quando fosse investigar sua vida descobriria
que...
— Você andou bisbilhotando a minha vida? —
ela perguntou, irritada.
— Porra... eu estava preocupado com você. De
repente, você e a menina desaparecem da face da
Terra, o que você queria que eu fizesse?
A irritação...
O tom de voz...
O olhar confuso...
Mel entendia a raiva. Entendia a inquietação. E
sem querer perguntar mais nada, só querendo
abraçá-lo e pedir perdão, ela tentou se aproximar.
Ela precisava se aproximar, mas Björn deu um passo
para trás.
— Nem pense em chegar perto de mim nunca
mais na sua merda de vida, tenente! Agora sim não
te considero mais nada minha e eu é que dou toda a
história por encerrada.
Sem dizer nem fazer mais nada, ele deu as
costas e se afastou. Porém Mel não podia deixar as
coisas assim, Björn tinha se convertido em sua
obsessão. Ela correu atrás dele e, quando o
alcançou, sem se importar com quem os pudesse ver,
agarrou-o pelo braço. Björn parou, olhou para ela, e
Mel começou a pedir desculpas: — Me desculpe por
não ter te contado, mas...
— Mas o quê? — ele gritou descontrolado. —
Era tão difícil ter dito a verdade? Tão difícil dizer
“sou militar, não aeromoça”? Era tão difícil assim...?
— Sim... sim, era difícil — ela respondeu. —
Com você era. Você tinha deixado muito claro que
não gostava de militares. Na verdade, tinha deixado
claríssimo o que sentia pelos militares americanos.
Como você acha que eu me senti esse tempo todo?
Queria te contar a verdade, mas... mas não posso
fugir de quem eu sou. Sou uma militar americana!
— Agora entendo de onde vem essa arrogância
toda, tenente! — E notando que Lodwud os
observava, acrescentou: — Você também dorme
com esse cara, não dorme?
— Björn...
— Nem Björn, nem nada — ele gritou, fora de
si. — Eu abri a minha casa, a minha vida e... meu... E
você me retribui com mentiras? Foi divertido, baby?
O tom hostil e a maneira como ele a encarou
fizeram Mel entender que tinha perdido aquela
batalha, por isso, preferiu ficar quieta e não
responder. Björn estava furioso. Ela tinha que tentar
entender e não aumentar sua raiva ainda mais. Ele
não merecia.
Durante alguns segundos, se encararam olhos
nos olhos e então o celular dele tocou. Quando
atendeu, reconheceu quem era e, mudando o tom de
voz por outro mais agradável, atendeu: — Oi,
Agneta.
Sem se mover, Mel o ouviu dizer:
— É verdade, o outro dia foi gostoso. — E
olhando para Mel com desprezo, continuou: — Se
arruma e fica linda esta noite. Sim... eu também estou
morrendo de vontade de te ver.
A conversa fez a raiva de Mel chegar a níveis
absurdos. Sem se importar em deixá-lo mais furioso,
ela disse entre dentes: — Você é um idiota... um
cretino... um babaca...
— Melhor eu ficar quieto pra não dizer o que eu
acho de você — ele respondeu com indiferença.
Mel teve vontade de dar um chute na bunda
dele, mas deu um passo para trás. Não queria deixar
que ele visse a dor que aquele telefonema tinha
provocado nela e o seu desespero. Antes de dar as
costas para sair dali, ela debochou: — Divirta-se
com a sua amiguinha.
— Você também, divirta-se.
Mel parou e olhou para Lodwud, que os
observava.
— Não duvide disso... baby — ela afirmou com
um sorriso que não agradou Björn nem um pouco.
Em seguida, sem voltar a olhar para ele, Mel se
virou e caminhou até a parte da frente do avião. Lá
de dentro, Fraser e Neill tinham sido testemunhas de
tudo. Assim que Mel chegou até eles, Fraser
perguntou: — É esse o cara que estava com você e
com a Sami na porta da sua casa?
Mel não respondeu e com um gesto pediu que o
amigo se calasse. Ela pegou os papéis que ele tinha
nas mãos e disse em alto e bom som: — Vou
entregar isso tudo ao comandante Lodwud. Neill,
esta noite eu vou ficar aqui. Amanhã, na primeira
hora, viajo pra Munique. E você vai fazer o quê?
Pego de surpresa pela mudança de planos, o
colega a encarou.
— Você não está fazendo a coisa certa. Deveria
ir falar com o Björn. Acho que...
— Cala a boca, Neill! Não pedi a sua opinião
— ela disse, furiosa.
O militar moveu a cabeça para mostrar que tinha
entendido. Ele respirou fundo e respondeu: — Eu
vou esta noite. Quero ver a minha mulher.
Mel concordou e se afastou.
Seus amigos a olharam assombrados. Havia
raiva nos olhos dela e nenhum deles disse nada. Só
ficaram observando enquanto ela se afastava a
passos largos na direção do hangar onde ficava o
gabinete do comandante.
Lá dentro, Mel ouviu chamarem:
— Tenente Parker.
Ela se virou e encontrou o amigo Robert.
— O que foi? — ele perguntou com a testa
franzida.
— Nada... não foi nada.
Robert, que como muitos outros tinha visto Mel
discutir com um homem, pegou-a pelo ombro e a
levou até a lateral do hangar.
— Mel, eu vi o que aconteceu — insistiu. —
Porra, somos amigos. O que você tem?
Arrasada, mas contendo a raiva, Mel
respondeu:
— Eu estava saindo com aquele homem, mas
terminamos porque eu o enganei e...
— Ele ficou sabendo da história do Lodwud?
Mel ficou admirada por ele saber do caso que
ela tinha com o comandante.
— E como você sabe da história do Lodwud?
— ela perguntou baixinho.
Robert, com voz baixa para que ninguém os
ouvisse, respondeu: — Não sei o que você tem com
ele. A única coisa que eu sei é que já vi vocês dois
saindo juntos de um hotel de madrugada. O santo do
Lodwud não bate com o meu, Mel, e não acho que
ele seja um bom homem pra estar ao seu lado. Você
precisa de outra coisa.
Ela concordou com a cabeça. Robert sabia
menos do que ela temia.
— E também não sei quem era o cara com
quem você estava discutindo na pista, só sei que o vi
no boliche, naquela festa em que você me beijou no
pescoço pra deixá-lo com ciúmes, e agora aqui. E
reconheço que mesmo sem o conhecer, vou com a
cara dele. Enfrentar a supertenente Parker não é fácil
e ele fez isso maravilhosamente bem. Gostei desse
cara! E agora me conta como você o enganou.
— Escondi que era militar.
Robert não entendeu nada.
— E daí?!
— Ele odeia militares americanos por causa de
um problema que teve no passado com um maldito
comandante. — Mel ficou em silêncio por um
instante enquanto tirava o cabelo do rosto e concluiu:
— Olha, não faz diferença. Eu... eu não preciso de
ninguém, Robert. Eu...
— Como você não precisa de ninguém? Todos
nós precisamos de alguém.
— Eu achava que esse homem era... especial.
Mas ele não quer falar comigo. Pra ele sou um
maldito inimigo. Um militar americano. O que você
quer que eu faça?
— Porra, Mel... Se é dele que você gosta,
convença-o de que, antes de ser militar, você é
mulher. Faça o favor de se esquecer de uma vez por
todas do seu passado e retome a sua vida. Deixa de
ser a supertenente Parker 24 horas por dia e seja a
Melanie. Juro que a vida vai ser melhor pra você,
querida, porque todos nós precisamos de alguém
especial que nos ame.
— Tenente Smith — García, a copiloto de
Robert, chamou.
Ele fez um sinal com a mão, olhou para Mel, que
o observava, e anunciou: — Vamos ter que continuar
esta conversa num outro momento, tá? Mas vai
pensando que isso não pode continuar assim. E se
você gosta desse cara, vá atrás dele! Você é a
Melanie Parker, a mulher mais valente que eu
conheço e que não se rende frente a nada, nem a
ninguém. Por isso, deixa de besteira e se esse homem
te interessa, tenta falar com ele e demonstrar que
você é uma mulher, além de ser uma maldita militar
americana.
Ela concordou e, quando viu Robert se afastar,
continuou seu caminho. Mas sua fúria voltou quando
se lembrou de que Björn tinha saído com Agneta.
Como ele podia ter feito uma coisa dessas?
Ao chegar à porta do comandante Lodwud, ela
bateu. Ele respondeu e ela entrou.
— O que deseja, tenente Parker?
Esquecendo-se do que tinha conversado alguns
segundos antes com Robert Smith, Mel passou o
trinco na porta, jogou os papéis em cima da mesa e
respondeu: — Quero sexo.
Lodwud fez que sim e se lembrou do cara que
tinha visto discutir com ela na pista.
— Você está irritada, Mel?
— Estou.
— Vi você discutindo com um homem. Foi ele
quem te deixou furiosa?
Ela tentou afastar os pensamentos sobre Björn e
respondeu olhando nos olhos do militar musculoso
que a desejava: — Foi.
Não foi preciso dizer mais nada.
Sentado na cadeira, o comandante viu como ela
abria o zíper do macacão cáqui para provocá-lo.
Sem pensar duas vezes, ele pediu: — Vem sentar no
meu colo, tenente.
Mel fez o que ele pediu, ficou de frente para ele,
e Lodwud enfiou uma das mãos dentro do macacão
dela com sofreguidão, alcançando a vagina. Abriu os
lábios e enfiou um dedo.
— Como se chama esse homem? — ele
perguntou.
— Björn.
Movendo o dedo e enfiando mais fundo, o
comandante sussurrou: — Isso vai te ajudar a
relaxar, linda. Pensa no Björn.
Com habilidade, ele mexeu o dedo no interior
dela e a masturbou. Mel fechou os olhos, perdida nas
sensações. O militar sabia o que a deixava excitada e
fez o que ela gostava. Ele a conhecia. O tempo tinha
feito com que eles conhecessem os gostos um do
outro e suas necessidades. Com a mão livre, ele
subiu a camiseta verde que ela usava por baixo do
macacão, tirou um seio do sutiã e o mordeu. Chupou
o mamilo até que ela se apertasse contra ele, dizendo
o nome de Björn e suplicando para ele não parar.
Mordendo os lábios, Mel engoliu os gemidos e
foi em busca do próprio prazer, como sempre fazia
quando estava com Lodwud. Assim que alcançou o
clímax e molhou os dedos dele, ela se levantou com
frieza e se recompôs. O comandante, sem deixar de
olhar para ela, abriu uma gaveta, lançou uma chave e
disse: — Hotel Sedan. Quarto 367.
— Vou estar lá a partir das oito.
30
Furioso e sem vontade de ser simpático com
ninguém, Björn foi ao Sensations se encontrar com
Agneta. Quando viu sua amiga chegar vestida tão
sexy como sempre, Björn literalmente se jogou sobre
ela e a levou a um reservado para começarem o que
interessava: sexo. Porém, naquela noite, o jogo se
virou contra ele e ali só quem gozou foi Agneta.
Isso o deixou com o humor ainda pior e
convencido de que aquilo tinha que mudar, convidou
dois casais para entrarem no reservado e, depois de
vários uísques e muito sexo, tudo melhorou. Curtiu
uma noite de swing excelente. Quando deixou Agneta
em casa, satisfeita, dirigiu sentindo-se o dono do
mundo até a garagem do seu prédio. Sua vida voltava
a ser só sua.
Entretanto, quando deitou na cama, não
conseguiu dormir. As palavras de Mel e sua
expressão quando tinha dito que ela também ia se
divertir estavam gravadas na memória e Björn não
podia deixar de pensar nelas. Olhou no relógio. Eram
5h20 da madrugada. Precisava falar com alguém, por
isso decidiu enviar uma mensagem à única pessoa
que sabia de tudo o que ele tinha descoberto sobre
Mel.
Eric, que estava acordado quando a recebeu,
ligou logo em seguida.
— Eu a vi. Vi aquela maldita mentirosa e...
— Björn, fica calmo, cara — Eric pediu.
Não fazia muito tempo, era Eric quem ficava
desesperado com as coisas que Judith fazia e,
tentando entender o que acontecia com o amigo,
falou: — Escuta, Björn, a diferença entre mim e você
é que você tem uma grande capacidade para
compreender as coisas e eu não. O seu senso de
humor sempre te ajudou e...
— Te juro que nesse momento o meu senso de
humor desapareceu.
Depois de um silêncio tenso, Eric, tentando
compreender o drama de Björn, insistiu: — Você
sempre me disse que antes de tirar conclusões é
preciso pensar, e acho que agora sou eu que tenho
que te dizer isso. — Eric o ouviu bufar impaciente e
acrescentou: — Sim, ela mentiu pra você. Escondeu
que era militar, mas por acaso isso é tão importante
assim pra que você dê por encerrado algo que estava
te fazendo tão feliz?
— É.
— Björn... você também não facilitou nada. Se
ela tivesse dito a você o que fazia, você não ia querer
mais saber dela. Eu te conheço. Te conheço há
muitos anos e sei o que você pensa de algumas
coisas... Não me diga agora que não.
— Porra, Eric — ele protestou, mal-humorado.
O amigo tinha razão. Mas descobrir aquilo doía
e o deixava arrasado.
— Lembra o que você me disse, quando a
Judith me escondeu coisas do passado?
Os dois sorriram ao se lembrar daquilo e Eric
prosseguiu: — Eu entendo que você esteja com
raiva. Descobrir que alguém não é sincero com a
gente irrita e irrita muito, mas dê valor ao que você
sente por ela. Quer você goste ou não, a Melanie
conseguiu chegar até o seu coração como nenhuma
outra mulher fez. É sério que você não vai perdoar?
— É.
Espantado com tamanha teimosia, Eric insistiu:
— Isso não é típico de você, amigo.
— Piloto?! Porra, ela me disse que era
aeromoça e no fim das contas é uma maldita piloto
americana.
— Björn, fica calmo.
— Não consigo, Eric... ela mentiu pra mim e eu
me sinto como um idiota.
— Fala com ela, talvez ela tenha uma razão
pra...
— Não.
— Você vai se arrepender.
— Duvido, Eric, duvido.
Eric tinha consciência de quanto o coração doía
quando se estava apaixonado.
— Olha, Björn, eu sou e vou continuar sendo
seu amigo pelo resto da vida, mas nos assuntos do
coração, só você pode decidir — Eric acrescentou.
— Se ela mentiu? Mentiu! Mas pensa que se ela fez
isso é porque tinha medo da sua reação. Agora olha
só, se você não quer voltar com ela pelo motivo que
for, pelo menos a perdoe. Tente deixar que entre
vocês fique a amizade; no fim das contas a Mel é
amiga da Judith, e cedo ou tarde, vocês vão voltar a
se ver.
— Espero que seja mais tarde do que cedo —
Björn respondeu entre dentes, irritado. — A última
coisa que eu gostaria é vê-la.
— Você está mentindo, amigo. Você morre de
vontade de ver a Melanie, admita. — Eric o
contradisse. — Quanto antes reconhecer isso melhor
pra você.
Björn não contestou. O amigo tinha razão.
Desejava vê-la. Desejava beijá-la. Mas estava tão
irritado com ela e suas mentiras que não queria dar o
braço a torcer.
— Eric, obrigado por conversar comigo —
Björn disse por fim, antes de desligar.
— Eu estou aqui e sempre vou estar. Você sabe
disso.
Eric desligou o telefone, olhou para a porta e viu
que sua mulher o estava observando. Não se
surpreendeu quando ela anunciou: — Amanhã vou à
casa da Mel. Precisamos esclarecer as coisas de
qualquer maneira.
31
Quando Mel abriu os olhos, eram cinco e meia
da manhã. Ao seu lado, nu, o comandante dormia um
sono tranquilo. Ela o acordou e os dois foram
embora da suíte.
Mel pegou um táxi para o aeroporto, onde foi
até o helicóptero que esperava por ela. Assim que
comprovou que tudo estava em ordem, decolou e foi
para Munique.
Chegando lá, deixou o helicóptero no hangar de
sempre. Tomou outro táxi e às nove e meia estava
entrando em casa. Sentia-se esgotada.
Ligou para as Astúrias, falou com sua mãe e
disse que já estava em casa, para que ela ficasse
tranquila. Mais tarde, depois de ter dormido tudo o
que precisava, voltaria a ligar. Desligou o telefone, se
atirou na cama sem nem tirar a roupa e adormeceu.
Um ruído estridente a despertou. Mel esfregou
os olhos e de repente se deu conta de que era a
campainha de casa. Colocou o travesseiro sobre a
cabeça e decidiu continuar dormindo. Porém, quando
tocou seu celular, ela saltou da cama, e, ao ver que
era Judith, atendeu: — Onde você está, Mel?
— Em casa, na cama.
— Pois então vem abrir a porta. Estou tocando
a campainha.
Como um zumbi, ela se levantou e foi abrir a
porta. O sorriso da amiga a encheu de alegria. Deram
dois beijinhos e Judith perguntou: — Você dorme
vestida?
Mel sorriu ao ver que nem sequer tinha tirado a
roupa.
— Quando você chegou? — Judith voltou a
perguntar.
Mel olhou no relógio. Viu que eram três da
tarde.
— Deve fazer umas cinco horas — respondeu.
Judith ficou horrorizada e levou as mãos ao
rosto.
— Aiiii, querida... — murmurou. — Achei que
fazia mais tempo que você estava dormindo. Eu vou
embora. Descansa.
Mas Mel, que já estava menos sonolenta, disse:
— Nem pense em ir embora. Me dá dez
minutos para eu tomar uma ducha, tudo bem?
Judith concordou e apontou umas sacolas com
comida.
— Tudo bem. Trouxe umas coisas pra gente
almoçar.
Dez minutos mais tarde, Mel saiu vestida do
banheiro, encontrou a mesa posta e foi se sentar com
a amiga.
— Deus, estou morta de fome! — exclamou.
— Onde está a Sami?
— Nas Astúrias com a minha família. Amanhã
vou lá buscá-la.
— Você vai ficar lá uns dias? — Judith
perguntou.
— Com certeza, mas já quero estar de volta na
quinta-feira.
Durante o almoço, conversaram sobre tudo, até
que Judith reparou no pescoço de Mel.
— Isso é um chupão?
Mel tocou onde ela apontava, se levantou e foi
se olhar no espelho.
— Maldito comandante — ela murmurou.
— Comandante? — Judith repetiu em seguida.
Mel sentiu que tinha sido descoberta e então
explicou: — Um amigo.
— Mas um amigo... amigo... ou um amigo pra
assuntos sexuais?
Ela não estava a fim de mentir.
— Um amigo com quem eu transo quando a
gente está a fim. Tudo bem, eu entendo que você
pense que é uma loucura e com certeza vai achar que
eu sou uma depravada, mas quero que você saiba
que...
Judith colocou a mão na boca da amiga para
fazê-la se calar.
— Você não está louca e também não é
depravada — ela afirmou com segurança. — Eu
também tinha amigos assim antes de me casar com o
Eric, por isso, não precisa se justificar.
As duas se entreolharam e Judith, com vontade
de comentar uma coisa com ela, perguntou: — Você
acha que eu sou uma depravada pelo que me viu
fazendo no Sensations?
O rosto de Mel se contraiu e a amiga continuou:
— Eu sei que você vai ao Sensations. Sei que
você me viu lá e quero que a gente converse sobre
isso.
Atônita com a sinceridade de Judith, Mel
respondeu: — O idiota do seu amigo já deu com a
língua nos dentes.
Jud sorriu.
— Eu acho que pra você ele é mais do que um
amigo, não é? E não... ele não é idiota.
Imediatamente, Mel se colocou na defensiva.
— Não sei o que foi que o linguarudo do James
Bond te contou, mas...
— Björn me contou o que você já sabe. Se
existe alguém sensato no mundo, esse alguém é ele, e
mais tarde vamos falar sobre esse assunto. Mas
agora quero saber por que você não me disse que
me viu no Sensations.
Mel estava se sentindo desconfortável com a
conversa.
— Me deu vergonha — respondeu por fim.
— Por quê?
— Porque estamos falando de sexo, Judith, e eu
reconheço que fiquei surpresa de encontrar vocês lá.
Você e o Eric parecem ter um casamento muito
sólido e...
— Nós temos um casamento muito sólido —
Jud enfatizou. — E nada no que se refere a sexo
acontece sem que um ou o outro esteja perfeitamente
de acordo. — Ao ver a expressão de Mel, ela
explicou: — Quando eu conheci o Eric, não praticava
esse tipo de sexo. Me lembro que a primeira vez que
fui a uma casa de swing, me escandalizei. Pensei que
todos os que tinham esse estilo de vida eram pessoas
depravadas e mais uma lista sem fim de bobagens,
mas agora, passado um tempo, juro que não me
escandalizo, nem penso mais assim. Aprendi a
diferenciar o que é envolvimento só por prazer, o
sexo e o meu marido. O sexo fora da minha cama é
só sexo. Pra mim é um jogo entre mim e o Eric e nós
o encaramos com nossas próprias regras e
limitações.
Mel ouvia e Judith continuou falando:
— Sei que somos criados pra não falarmos
abertamente de sexo. Estou convencida de que
criaram você do mesmo jeito que me criaram. O
sexo é tabu e tocar nesse assunto não é bom, não é
assim? — Mel concordou com a cabeça e ela
prosseguiu: — Eu não falo de sexo com qualquer
pessoa e é uma pena que a minha amiga Frida esteja
vivendo na Suíça, porque nós duas já nos divertimos
muito falando desse assunto, e se você quiser, nós
podemos nos divertir também.
— Você está sugerindo que eu e você...?
— Nãããããããoooo, só me refiro a poder falar
desse assunto com naturalidade. — Judith riu. —
Não gosto de mulher. Mas gosto de ter uma amiga
próxima com quem comentar como foram as coisas e
tal.
— Mas eu vi você brincando com mulheres e
parecia que estava gostando.
— E estava. — Mel ficou vermelha e Judith
acrescentou: — A Diana e a namorada dela são
extremamente excitantes, e pra que você entenda o
que eu quero dizer, não gosto de mulheres, mas
descobri que gosto de ser seu brinquedinho. Fico
louca de deixar que as bocas delas, os dedos ou
qualquer objeto que elas tragam para o nosso jogo
entrem em mim, e tenho certeza de que o Eric
também adora. Ver a cara dele quando estou tendo
prazer me dá um desejo incrível e te garanto que
nossas transas são fantásticas!
Vermelha como um tomate, Mel sussurrou:
— Também te vi com o Eric e com o Björn.
— E...
— Vocês não se incomodam que um amigo tão
próximo jogue com vocês?
— Esse comandante que te deu esse chupão
não é seu amigo?
Mel fez que sim e tentou explicar o que queria
dizer: — O Lodwud é meu amigo. Mas eu me refiro
ao fato de o Björn, o Eric e você serem amigos no
dia a dia. Entende o que eu quero dizer?
Judith afirmou.
— A primeira vez que concordei em fazer algo
assim foi com o Björn. Naquele momento eu não o
conhecia, mas o Eric tinha a máxima confiança nele.
Com o tempo, o Björn se tornou um grande amigo e
não me dá nenhuma vergonha transar com ele,
porque ele, Eric e eu temos tudo muito claro na nossa
vida. Aliás, acho péssimo você ter ido sozinha ao
Sensations.
— Além de língua solta, é intrometido!
Judith soltou uma gargalhada e continuou
falando, sem pensar em mudar de assunto: — Mel,
espero que a partir de agora você não tenha
vergonha de falar sobre sexo comigo. É bom dividir
as experiências e te garanto que é como tudo nesta
vida: conhecimento não ocupa espaço!
— Vou tentar quebrar esses tabus.
Judith concordou com a cabeça.
— Esses tabus, pelo menos entre nós duas, têm
que acabar. Nós duas gostamos de sexo de uma
maneira que nem todo mundo pratica e eu adoraria
falar sobre isso com naturalidade com você. E olha,
não gosto nada, nada de mulher, mas mesmo assim
me excitou muito ficar falando com você. Quando
chegar em casa, o Eric vai ter uma sessão excelente
de sexo.
Mel sorriu e Judith acrescentou:
— Entre quatro paredes e com o meu marido,
eu me entrego ao prazer. Adoro que ele me possua
com outros homens e fico louca que o Eric fique
satisfeito de ver um homem ou uma mulher no meio
das nossas pernas. O sexo que compartilho com ele
e com o Björn é fantástico e quando vamos a alguma
festinha particular, fazemos tudo o que tivermos
vontade na hora. Pode ter certeza de que eu não ligo
se você estiver no mesmo reservado que nós. Sei do
que eu gosto e já te disse que as mulheres não são
meu forte. Você gosta de mulher?
— Eu brinco com elas — Mel respondeu — e
gosto que brinquem comigo.
Judith assentiu e perguntou, achando graça:
— Você se incomoda que a gente converse
sobre isso?
Um pouco sem jeito, Mel negou, e então sua
amiga propôs: — Agora que começamos a trocar
intimidades, me diga que tipo de sexo você já fez.
— Sexo grupal — Mel respondeu com
tranquilidade. — Gosto que me possuam e gosto de
possuir. Quando tomo as rédeas, eu curto demais.
Judith deu uma grande risada.
— Sexo anal?
— Sim, e quando vi você junto com o seu
marido e com o Björn, reconheço que fiquei
morrendo de tesão. São dois homens
impressionantes.
Judith riu mais uma vez e comentou:
— Espero que não estrague a nossa amizade o
fato do Björn compartilhar com a gente algo mais do
que amizade.
— Não, não, por favor. O que vocês têm é algo
em que eu não vou me meter. Isso nem passaria pela
minha cabeça.
— Mel, o que nós três compartilhamos é prazer,
sexo e fantasias. A única maneira de explicar isso a
você é dizendo que do Eric, eu quero tudo. Quero
vê-lo sentindo prazer, quero que sinta prazer comigo,
quero beijá-lo, quero que me beije, que me divida
com alguém e quero dividi-lo também. Quero que
abra as minhas pernas, que me coma e que goste de
ver quando outros me comem. E do Björn eu só
quero uma brincadeira excitante. Ele não é o meu
par, nem o meu amor. Ele busca o prazer por conta
própria, mas com isso eu não me preocupo. Eu só
me preocupo com o Eric e comigo. É isso que marca
a diferença. — E notando que Mel a escutava com
atenção, acrescentou: — Acho que você consegue
entender um pouco do que eu estou dizendo, não
consegue? Além disso, se a relação de vocês tivesse
continuado, tenho certeza de que a gente acabaria se
encontrando alguma vez num reservado, não acha?
— Mel ficou excitada só de imaginar. Judith
prosseguiu: — Parece frio o que eu digo, mas é o
que eu sinto, Mel. Eu amo o meu marido loucamente
e aprendi a diferenciar o jogo do sexo entre quatro
paredes da vida real. Agora, se não funciona na vida
real, eu te digo que também não quero no meu jogo.
Isso acontece, por exemplo, com a Fosqui. Não
suporto ela!
Sorriram. O sentimento que tinham por Agneta
era mútuo.
— A Fosqui é insuportável — Mel disse. — Eu
também não conseguiria estar com ela num
reservado.
As amigas se entreolharam. Permaneceram em
silêncio alguns segundos e Judith, desejando
continuar conversando sobre as coisas que rondavam
sua cabeça, prosseguiu: — Sei que você e o Björn
andaram saindo juntos e também sei que ele
descobriu que você não é aeromoça, mas militar. E
antes que você diga qualquer coisa, lembra quando
eu te disse que notava que vocês sentiam atração um
pelo outro? O que eu não sabia era que nessa época
vocês já saíam e, fique tranquila, não vou brigar por
você não ter me contado, mas o que quero saber é o
que o James Bond é pra você e por que quem te fez
esse chupão foi outra pessoa e não ele.
Mel afastou o cabelo do rosto e respondeu:
— O Björn foi me ver na base. Nós discutimos
e ele me desprezou, marcando de sair com a Agneta
na minha frente, depois de ter feito questão de dizer
que tinha passado uma ótima noite com ela alguns
dias antes. Eu estava furiosa, precisava de sexo e o
Lodwud sempre me dá. E sobre o Björn, reconheço
que eu gostei enquanto durou.
— Só gostou?
Mel fechou os olhos e, angustiada, decidiu não
mentir mais.
— Estou arrasada, Judith. Totalmente arrasada.
Fiz tanto mal a ele que tenho vergonha até de pensar.
O Björn é o homem mais maravilhoso que conheci
em toda a minha vida e...
— Uau, menina... Você está arrasada mesmo.
Sorriram e Judith continuou:
— Ele também está arrasado. Como eu falei, ele
é um cara incrível, mas acho que a sua mentira fez um
grande estrago.
— Eu sei.
— O que você pensa em fazer?
Mel se lembrou da conversa que tivera com o
amigo Robert Smith. Ele tinha razão: ela deveria dizer
a Björn que, antes de ser militar, ela era mulher. Deu
de ombros e respondeu: — Não sei. — E acendeu
um cigarro. — Eu gostaria de falar com ele, mas
acho que ele não vai me dar a chance.
— Se você não tentar, não vai saber. Você tem
a mim pra te ajudar em tudo o que precisar e acho
que o Björn merece que você tente, não acha?
Pela primeira vez em vários dias, Mel sorriu e
concordou.
— Ele já tentou comigo e eu o rejeitei, agora é a
minha vez de tentar. Tentar consertar meu erro
terrível. Ele merece.
32
A partir daquele dia, Mel tentou de tudo.
Telefonou, mas ele não atendeu.
Enviou mensagens no celular e no e-mail, mas
ele não respondeu.
Cansada de ficar sem respostas, ela fez hora no
escritório de advocacia. Lá ele não poderia evitá-la.
Vestida com um terninho escuro e sapatos de
salto, ela foi até o prédio de Björn, mas, diferente das
outras vezes, ela entrou pela porta do escritório e não
pela porta da casa. Enquanto esperava na recepção,
os joelhos dela tremiam. Quando a porta se abriu e
ela o viu aparecer com o terno grafite impecável,
junto com outros homens, achou que ia morrer.
Björn olhou para ela, surpreso. O que ela estava
fazendo ali? Com diplomacia e jogo de cintura, ele se
despediu dos homens que tinha acabado de atender e
assim que eles se foram, sua secretária se levantou
para anunciar: — Senhor Hoffmann, a senhorita
Parker marcou horário com o senhor.
Um Björn completamente perplexo olhou a
jovem sentada em uma das cadeiras. Ele apontou
uma porta e disse com a voz controlada:
— Senhorita Parker, pode entrar, por favor.
Ela se levantou e, tentando não ter um ataque de
pânico, caminhou na direção que ele indicava. Assim
que entrou no escritório, aquele lugar onde tinham
feito amor em outra ocasião, viu Björn se sentar do
outro lado da mesa e ela também se sentou.
Durante alguns minutos, ele olhou na agenda;
não tinha se dado conta de que aquele horário estava
marcado com ela. Ele riscou o nome, fechou a
agenda e a encarou.
— Diga-me, senhorita Parker. Para que precisa
dos meus serviços?
Ela olhou para ele com a boca seca.
— Björn, quero conversar com você.
Ele ergueu os olhos e os fixou nela com fúria.
— Diga, senhorita Parker.
Mel retorceu as mãos e escorregou para a ponta
da cadeira.
— Eu não costumo contar a ninguém qual é o
meu trabalho. Quando comecei a me envolver com
você, não achei oportuno dizer que era militar e
depois, quando...
— Senhorita Parker — ele interrompeu —, isso
aqui é um escritório de advocacia. Se o seu problema
não tem nada a ver com o que se discute aqui dentro,
peço encarecidamente que se levante e se retire.
— Björn, por favor — ela suplicou.
Olharam-se nos olhos por alguns segundos, até
que ele, levantando-se, disse entre dentes:
— Faça o favor de sair do meu escritório.
Desesperada ao ver tanta frieza, ela se levantou
também e insistiu, apoiando as mãos na mesa:
— Eu sou uma idiota, uma imbecil, uma
inconsequente, mas, por favor, me escuta! Björn,
sinto tanto sua falta, querido.
As palavras doíam nele.
— Não me chame de querido, porque não sou,
nem quero ser nada seu.
Mel logo percebeu que teria que dar tudo de si.
Engoliu a raiva que sentiu ao ver que ele a
desprezava e respondeu:
— Uma vez você me disse que lutava por mim
porque sabia que eu estava a fim. Pois bem, agora
quem vai lutar por você sou eu, até você me perdoar
e me entender, até que eu fique sem forças e...
— Suas palavras são muito americanas e
parecem saídas de um filme. Mas deixa isso pra lá,
não lute por algo que desde já te digo que você
perdeu.
— Björn.
Dando um murro na mesa e lançando um olhar
fulminante, ele tentou falar em voz baixa para não
gritar e não dar escândalo no escritório:
— Senhorita Parker, faça o favor de sair da
minha sala imediatamente. A senhorita e eu não
temos nada o que conversar.
Ela mordeu o lábio inferior e se sentiu impotente.
Mel se levantou e do jeito que conseguiu, foi embora.
Assim que chegou à rua, respirou e, agitada, foi até a
cafeteria que havia em frente ao escritório. Não
pensava em desistir tão facilmente.
Durante duas horas, ficou lá dentro sem tirar os
olhos do prédio e quando as pessoas que
trabalhavam saíram, tomou mais um copo de café
para ganhar coragem e fazer o que tinha vontade.
Ao entrar em casa, Björn tirou o blazer e o
lançou sobre o sofá. Colocou música e serviu um
uísque. A visita de Mel fez com que perdesse o foco
e ainda não conseguia controlar a raiva que estava
sentindo. Ele pegou o celular e escreveu: “Te espero
na minha casa.”
Dois segundos depois, quando Agneta
respondeu toda contente, ele sorriu e foi para o
chuveiro.
Vinte minutos mais tarde, vestindo apenas uma
calça preta, a campainha tocou. Ele olhou no relógio
com surpresa. Agneta tinha chegado antes da hora.
Björn tentou sorrir e foi abrir a porta, mas o sorriso
congelou no rosto quando viu que era Mel quem
estava diante dele. Sua insistência estava começando
a deixá-lo irritado.
— O que você pensa que está fazendo aqui? —
ele perguntou, apoiando-se na porta.
Entrando no apartamento sem ser convidada,
ela respondeu:
— A gente precisa conversar.
Björn, ainda apoiado na porta, olhou para ela e
perguntou:
— Por acaso te convidei pra entrar na minha
casa?
— Não, mas depois de ver como você me
tratou hoje no escritório, imagino que também não vá
me convidar pra entrar, por isso, acabei de me
convidar eu mesma!
Impressionado como sempre com as respostas
dela, Björn arqueou as sobrancelhas e murmurou:
— É a sua cara... como sempre.
Depois de um silêncio mais do que significativo,
Mel continuou encarando e balbuciou:
— Björn, eu...
Björn bateu a porta com uma força que fez
tremer o prédio.
— Porra, quando você estava pensando em me
contar? Você é uma maldita militar, o que você
estava esperando pra me dizer? — Björn explodiu
com fúria.
— Você tem razão... tem toda razão.
— É lógico que eu tenho razão — ele rebateu
mal-humorado.
Ter Mel na sua frente o enchia de emoções. Ele
a desejava. Ele precisava dela. Ele a amava, mas ela
o traíra. Fez menção de falar, mas ela, parada na
frente dele, disse primeiro:
— Sou a tenente Melanie Parker Muñiz, filha do
major Parker.
— Eu sei, baby, mas não graças a você.
— Eu trabalho para o exército dos Estados
Unidos e faz cinco anos que piloto um Air Force C-
17 Globemaster. Eu gosto do meu trabalho, gosto do
exército e não acho que todos os americanos são o
que você pensa. Acho que você deveria entender
que existe gente boa e gente má em todo lugar e se
eu não te disse nada antes foi porque não queria que
você pensasse que eu sou...
— Que pensasse o que de você? E, aliás, o que
você acha que eu penso?
— Escuta, Björn, além de militar, eu sou uma
mulher que...
— Não me diga babaquices, bonequinha —
explodiu. — Fiquei louco por uma mulher pela
primeira vez na vida, por você! E estaria louco se
voltasse a confiar em você. Mas o que você quer
agora? Me engana, ri da minha cara, me chuta da sua
vida dizendo que eu não sou especial pra você e
agora volta. O que você quer, Mel?
— Quero você — ela respondeu com um fio de
voz. — Te amo, Björn, maldito seja. Te amo como
nunca amei ninguém e preciso que você me perdoe
pra gente ficar junto. Você é importante pra mim. É
especial. Sem você, muitas coisas perderam sentido.
Quando te conheci, eu negava muitas coisas, mas
você me ensinou a acreditar que a felicidade entre um
casal existe. Você me beijou, me animou a dançar,
me deu flores de presente, fez minha filha gostar de
você, minha avó, eu... não agi bem com você, mas
quero que saiba que estou disposta a te pedir
desculpas todos os dias até que você me perdoe. Te
amo e preciso que você me ame.
Ouvir o “Te amo e preciso que você me ame”
era o máximo que Björn podia ouvir. Ele nunca tinha
se atrevido a dizer aquelas palavras para ela, mas ali
estava Mel, dizendo, e pedindo com olhos
suplicantes uma nova chance.
Depois de um silêncio incômodo entre os dois,
Björn a olhou com uma frieza que chegou até o
coração dela.
— Sinto muito, senhorita Parker, mas já não
existe nada do que existia antes. Você foi especial
pra mim, mas isso acabou. Não te quero, não te amo
e muito menos quero que você me ame, entendeu?
Magoada, Mel concordou. Ela merecia aquilo,
mas a rejeição era dolorosa. Tentou de novo.
— Björn, você é muito especial pra mim,
acredita.
Ele ficou enfurecido ao perceber que a situação
estava saindo do controle.
— Pois você tem um jeito muito curioso de
demonstrar! — ele gritou e Mel se encolheu. —
Você me disse que o pai da sua filha morreu no
Afeganistão. Me disse que ele era um maldito militar
americano. Por que não me disse que você também é
e que o seu pai também? Por que me deixou
acreditar que você era uma aeromoça da Air Europa
que tinha um inglês muito americano por ter
trabalhado na American Airlines?
— Porque...
— Já não me interessam as suas explicações —
ele interrompeu.
Desesperada por ver que era incapaz de atingir
Björn, Mel insistiu:
— De que importa a nacionalidade ou a
profissão que eu tenha, Björn? Eu sou eu... sou a
Mel, o resto não deveria ter importância pra você.
— A mim importa. Você não vê que me
importa? E as suas mentiras me machucaram, você
não vê?
Mel se calou. Via dor nos olhos dele. Durante
alguns minutos, nenhum dos dois falou e então Björn
quebrou o silêncio.
— Como você acha que eu fiquei quando,
preocupado com você, descobri quem você era e
qual era a sua profissão? Te digo que li as coisas pelo
menos umas cinco vezes, porque não conseguia
acreditar. Não conseguia acreditar que a mulher que
tinha roubado o meu coração, a mulher que estava
me deixando louco, fosse uma maldita militar, além
de ser uma mentirosa.
Ela concordou com a cabeça. Não tinha jogado
limpo. Os sentimentos contraditórios que sentia
naquele momento a impediam de dizer qualquer
coisa. Quando foi responder, Björn a interrompeu.
— A diferença entre o seu trabalho e o meu é
que eu converso e faço acordos com as pessoas nos
tribunais e você vai pra guerra — ele disse com
dureza. — Na guerra não se conversa, Mel, na
guerra as pessoas disparam armas e se matam por
uma infinidade de desacordos. Você vê por que eu
tenho que me preocupar? Você vê o perigo no que
faz? Vê por que eu não quero saber nada de você?
Ela fechou os olhos, negou com a cabeça e se
explicou:
— Eu tento me desligar quando não estou em
missão e levar uma vida relativamente normal pela
Sami e por mim. Por isso vivo em Munique e não na
base, em Ramstein. — Ao ver que ele não
contestava, mas apenas a encarava com expressão
severa, ela prosseguiu: — Acabei de dizer que sinto
muito, que fiz mal a você, que te amo, que não posso
viver sem você, o que mais você quer?
— Não quero nada de você, Melanie, você
ainda não percebeu?
A contundência dessas palavras fez Mel ver a
realidade: ele não a amava e não pensava em dar
outra chance a ela. Mas Mel não queria perdê-lo e,
surpreendendo-o, perguntou:
— Também não podemos ser amigos?
Björn encarou Mel irritado. Queria gritar com
ela, mandá-la embora de sua casa, mas sua mente,
seu corpo e seu coração não deixavam.
— Não — ele respondeu depois de alguns
instantes.
— Por que não?
— Porque sou eu que decido quem eu quero
como amigo — ele esclareceu com expressão dura.
Completamente confuso, Björn voltou a andar
até a porta, mas Mel, desesperada para fazê-lo ver a
razão, se adiantou e se colocou entre a porta e ele. E
então ela o agarrou, o puxou para mais perto e o
beijou.
Foi um beijo duro, um beijo há muito ansiado,
um beijo desejado. Os dois se beijaram com paixão
até que soou a campainha. Então, Björn soltou Mel,
deu um passo para trás e advertiu:
— Não volte a me beijar.
— Por que não? Você me deseja, eu acabo de
perceber.
Björn a segurou pelo queixo e olhou para seu
pescoço com um sorriso que não a agradou.
— Belo chupão. — Ele a soltou com desprezo
e acrescentou: — Vá embora. Tenho um encontro.
Sem sair de onde estava, ela olhou para o
homem que adorava e suplicou, tentando usar sua
última cartada:
— Se você não quer continuar com o que a
gente tinha porque eu te traí, pelo menos tente ser
meu amigo. Não quero te perder, Björn.
Amizade nem passava pela cabeça dele.
Precisava esquecê-la e o que ela pedia era uma
loucura. Forçando um sorriso que sabia que iria doer
nela, ele respondeu:
— Olha, boneca, se o que você quer é sexo, eu
não estou a fim de você e você já sabe muito bem
como conseguir sozinha.
As palavras carregadas de raiva doeram mais
nela quando ele abriu a porta, sem se importar que
ela estivesse apoiada ali, e disse com um sorriso
espetacular:
— Oi, Agneta. Entra, eu estava te esperando.
Mel viu entrar a sempre sensual apresentadora
da CNN, que ficou parada olhando para ela. As
duas mulheres se contemplaram. Agneta agarrou
Björn pela cintura e perguntou:
— O que ela está fazendo aqui?
Impassível, Björn a beijou no pescoço.
— Não se preocupe. Foi uma visita inesperada.
Tchau, Melanie.
Mel tremeu de frustração ao ver a sua frieza, a
forma como ele olhava aquela bela mulher e como
deu um beijinho íntimo no seu pescoço. A raiva se
apoderou de seu corpo e então saiu pela porta aos
gritos: — Você é um cretino, um grandessíssimo de
um cretino!
Assim que saiu, Björn bateu a porta com força,
olhou para Agneta e deu uma palmada na bunda
dela.
— Prepara um uísque pra mim — ele pediu. —
Vou terminar de me vestir em dois minutos e já
vamos.
Quando a amiga foi até a sala, Björn apoiou
uma das mãos na porta. Com a outra, tirou o cabelo
do rosto e tentou se acalmar. Tentou tirar da cabeça
Mel e seu maravilhoso cheiro de morango.
33
Mel foi às Astúrias buscar a filha. Quando
chegou lá, sua avó logo perguntou por Blasinho e ela
conseguiu sorrir e explicar que ele tinha que trabalhar.
Durante alguns dias, evitou falar do assunto com sua
mãe, até que uma tarde em que estava na praia com
Sami, Luján chegou com a esteira e se sentou ao lado
dela para conversar.
— Muito bem, filha. Já que você não me falou
nada, o que aconteceu com o Björn?
— Aiii, mamããããããee. Não quero falar sobre
isso.
— Ele descobriu, não foi?
— Descobriu.
— Me conta o que aconteceu.
Desesperada, Mel foi sincera com a mãe.
Contou como ele tinha descoberto e como havia
ficado zangado com aquilo.
— Foi isso que aconteceu, mamãe. Você já
sabe de tudo — Mel concluiu.
Luján acariciou o cabelo da filha.
— É uma pena que ele pense assim. Esse
homem, além de bonito, era um bom partido pra
você. Era só ver como ele te olhava e olhava Sami
pra saber que você era especial pra ele.
— Era, mamãe. Você definiu maravilhosamente
bem. Porque o que existia entre mim e ele acabou —
ela respondeu, tocando o pingente em forma de
morango, presente dele.
Dois dias depois, Mel voltou a Munique um
pouco mais tranquila e numa manhã, depois de deixar
Sami na creche, passando por uma floricultura, sorriu
ao ver lindas rosas vermelhas de caules compridos.
Eram como as que Björn tinha mandado para ela
durante muito tempo. Sem pensar, entrou na loja e
pediu que entregassem uma rosa em uma caixa.
Quando o entregador deixou a caixa no
escritório do senhor Hoffmann, a secretária levou o
presente até a sala dele. Assim que Björn viu a rosa,
franziu as sobrancelhas e xingou ao ler:
Uma vez eu disse que te daria
flores de presente. Espero que
goste.
Mel
Durante alguns segundos, Björn ficou olhando
para as flores e, confuso, ordenou que a secretária
devolvesse-as ao remetente. Quando a flor chegou à
casa de Mel, sem nenhum recado, ela ficou sem fala.
Que grosseria! Mas, decidida a dar a última palavra,
foi outra vez à floricultura.
Na mesma manhã, quando a secretária de Björn
entrou na sala com uma nova caixa, desta vez maior,
ele olhou para ela sem acreditar. Ao contrário da
outra vez, ele sorriu ao ver um cacto de espinhos
afiados. Pegou o cartão e leu:
Isso é mais a sua cara,
cretino.
Aliás, se não quiser que eu te
chame de “cretino”... é só dizer!
Mel
Sem poder evitar, Björn pegou o cacto de
espinhos afiados e o colocou num canto da sala.
Depois, sentou-se à mesa e não pôde deixar de olhar
para ele por horas.
Sem se dar por vencida, Mel continuou
tentando. Ela ia até a portaria da casa dele para
encontrá-lo como se fosse por acaso, mas Björn nem
olhava para ela. Os dois se encontravam na banca de
jornal aos domingos, mas ele só cumprimentava
Sami. Mel fez de tudo, tudo o que pôde para que
Björn falasse com ela, mas ele dava a entender com
seu desprezo que ela devia parar. Ele não queria
saber dela e, por fim, Mel aceitou.
Uma tarde, tomando lanche com Judith em uma
cafeteria, Mel exclamou:
— Acabou! Não aguento mais.
Sua amiga suspirou, desolada pelo que ela
acabava de contar.
— Sério, achei que Björn voltaria atrás.
— Eu juro que se continuar rastejando assim, eu
me mato. Tudo bem, eu escondi que sou militar, mas
porraaaaaa... já não consigo rastejar mais! Por isso,
dou o assunto Björn por encerrado, por mais que me
doa o coração. Se eu superei a história do Mike,
posso superar a dele.
— Fico supertriste de dizer, mas acho que você
tem razão — afirmou Judith. — No seu lugar eu já
teria pulado no pescoço dele e o teria matado com
certeza. E olha que ninguém ganha do Eric em
matéria de teimosia. Mas agora, depois de ver Björn,
tenho minhas dúvidas.
Com um movimento mecânico, Mel tirou a
correntinha com o pingente de morango do pescoço
e sussurrou, olhando para a joia:
— Acabou. Agora sim sei que acabou. Vou
devolver esse maldito colar pra ele e depois vou fazer
minha vida voltar ao normal e continuar vivendo, o
que não é pouco!
Naquele instante, o celular de Judith tocou.
— Oi, Marta. — Depois de um silêncio, Judith
acrescentou: — Genial! No sábado? Bom... bom...
eu vou e vou levar uma amiga minha. Nos vemos lá
por volta das dez, o que você acha?
Ela desligou e olhou para Mel.
— Você tem alguma coisa pra fazer no sábado?
— Judith perguntou.
— Não. Vou ficar com a Sami.
Judith sorriu, piscou um olho e explicou:
— No sábado a Sami vai ficar com a sua vizinha
ou na minha casa. Acabei de marcar com a minha
cunhada Marta e uns amigos pra irmos dançar e
tomar umas em um bar cubano chamado
Guantanamera, você conhece?
— Não.
Judith sorriu e tentou animá-la.
— Fica linda e sexy, porque nesse sábado você
vai gritar “azúcar!”.
34
Quando soube dos planos da mulher para
aquela noite, Eric ficou irritado. Ele não gostava que
ela fosse àquela espelunca cubana.
— Já falei que não, Jud, você não vai — ele
insistiu, sentado à mesa do escritório. — Você está
grávida, pelo amor de Deus. O que você pretende?
Beber mojitos e gritar “azúcar!” com a minha irmã
como você sempre faz?
— A verdade é que os mojitos são uma
tentação e gritar “azúcar!”, eu nem te conto — riu-se
Judith.
Perplexo, Eric olhou para a maluquinha da sua
mulher e fez menção de protestar, mas ela
interrompeu em tom doce:
— Você já sabe, mi amol!
Incrédulo de ver aquela ousadia toda, Eric quis
protestar mais uma vez, mas Judith sentou no colo
dele e disse:
— Querido, eu só quero sair e me divertir com
as minhas amigas. Não pretendo ser a rainha da
pista, nem beber um mojito sequer. Só quero passar
um tempinho agradável e diferente antes que nasça o
Gordinho.
— Já disse que não, Jud. E não é não.
Mas ela já tinha decidido. Iria quer ele gostasse
ou não, por isso começou a usar uma estratégia que
sabia que funcionaria para fazer o que desejava.
— Olha, querido...
— Não. Não olho nada. E não se faça de
engraçadinha que eu te conheço, moreninha. Você
sabe que eu não gosto que você vá lá e...
Mas não pôde continuar. Jud chegou com os
lábios perto dos dele e murmurou:
— Escuta, querido.
— Não. Nem pens...
Jud beijou Eric com paixão e o fez se calar.
— Vamos juntos — ela sugeriu quando as
bocas se separaram.
— Naquela espelunca? Nem morto.
Jud soltou uma gargalhada e passou a língua
pela boca de Eric. Ela se apertou contra o corpo dele
e cochichou no ouvido:
— Aquele lugar te excita, pensa em como
vamos fazer amor quando voltarmos. A gente tranca
a porta do quarto e eu e você vamos brincar tão
gostoso e...
— Jud...
A proposta era tentadora. Sempre que voltavam
do Guantanamera eles tinham uma reconciliação
muito excitante. Era um clássico.
— Vamos, Iceman, faz a minha vontade. Você
me prometeu que de tempos em tempos você iria me
acompanhar à minha balada favorita. Vamos... diz
que sim. Eu estou grávida, e você não pode me dizer
não. Olha, se o bebê resolver nascer com sotaque
cubano, a culpa vai ser sua!
Os lábios de Eric esboçaram um sorriso e Jud,
que o conhecia melhor do que ninguém, insistiu:
— Ah, vai, querido. Você sabe que eu gosto de
dançar. Além disso, se você quiser, convida também
o Björn pra ir com a gente, assim ele te faz
companhia. Pode ter certeza de que vai ser o
máximo.
Incapaz de negar, ele se deu por vencido e
perguntou sorrindo:
— A Mel vai? — Judith fez que sim e Eric
brincou, achando graça: — Pequena, você é muito
malandra. O que você pretende que aconteça?
— Primeiro, que eles se encontrem. Se a gente
não fizer alguma coisa, aqueles dois nunca vão fazer
as pazes.
— Jud, não.
— Querido, pensa só: o Björn nos ajudou
muito, por que a gente não pode ajudá-lo agora?
— Porque não sei se a Mel é a garota que ele
precisa. Você acha uma boa resposta?
Jud riu e beijou o marido.
— E como ele sabia que eu era a pessoa que
você precisava? — Vendo que Eric não respondia,
ela insistiu: — Talvez porque te viu perdido? Talvez
porque percebeu que eu era especial pra você?
Pensa comigo, querido, desde que você conhece o
Björn, alguma vez ele te falou de alguma mulher
como falou da Mel? Alguma vez você o viu tão
transtornado por alguém do jeito que ele está agora?
Sério, você não percebe que ele gosta muito dela?
Eric não respondeu. Apenas aproximou-se da
boca da esposa, chupou o lábio superior, depois o
inferior, e deu uma mordidinha.
— Moreninha, você é uma bruxa.
Jud concordou com uma expressão engraçada.
— E você gosta que eu seja, não gosta?
— Adoro...
Eric a beijou com a paixão que sempre havia
entre os dois.
— E se o Björn reagir mal quando vir a
Melanie? — ele perguntou quando seus lábios se
separaram.
Judith, querendo continuar saboreando os lábios
dele, deu uma bronca:
— Iceman, agora esquece tudo e se concentra
em mim.
35
No sábado, Mel deixou Sami com a vizinha e
chegou ao bar onde tinha marcado com sua amiga.
Ficou surpresa ao ver que Eric também estava lá. Jud
a cumprimentou e a apresentou aos amigos. Logo
depois, ficou feliz ao ver que Mel estava dançando
com Reinaldo.
Quando Björn chegou, Jud sorriu, mas logo fez
uma careta ao ver que ao lado dele estava Agneta.
— O que a Fosqui está fazendo aqui? — Judith
perguntou ao marido.
Segurando o riso, Eric aproximou a boca da
orelha dela e respondeu com seu sotaque alemão: —
Você já sabe, mi amol!
Jud ficou boquiaberta ao ouvir Eric falando
aquilo. Ele deu uma gargalhada e explicou: —
Querida, quando convidei o Björn pra vir, não podia
pedir que ele viesse sozinho. Eu o conheço e sei que
ele teria suspeitado na hora.
— Merda — Jud, balbuciou contrariada.
Ela olhou para a pista, onde Mel continuava
dançando com Reinaldo, e quando Björn e sua
acompanhante chegaram até eles, Judith os
cumprimentou com um sorriso forçado. Pediram
mojitos e, enquanto estavam bebendo, Mel apareceu
animada junto com Marta, sem notar os dois novos
membros do grupo.
— Minha nossa, Judith, como o Reinaldo dança
bem! — Mel disse.
— Ele é incrível — ela concordou.
— Então espera até dançar com o Máximo —
Marta comentou. — Ele é tão gato e dança tão bem
que eu juro que você não vai ficar indiferente.
— Vocês querem beber alguma coisa? — Eric
perguntou.
— Cara — Marta gritou —, não tinha te visto,
Björn. Quando você chegou, bonitão?
Mel se arrepiou inteira. Björn? Onde ele estava?
Olhou para sua direita e o viu atrás de Eric. Sorrindo,
apesar da desolação que sentia, o cumprimentou com
a cabeça.
Agneta ficou morrendo de raiva ao ver Mel ali.
Aquela mulher é que tinha separado Björn dela nos
últimos meses. Para marcar território, o agarrou pelo
braço.
O gesto não passou despercebido por ninguém,
e muito menos para Mel que, indiferente, pediu uma
bebida ao garçom: — Um Bacardi com Coca-Cola.
Todos conversaram durante um bom tempo,
mas Mel e Björn não trocaram uma palavra. Seus
olhares carregados de reprovação é que se
encontraram em várias ocasiões. Judith, percebendo
aquilo, tentou mediar a situação entre os dois.
— Björn, não vi você cumprimentar a Mel.
— Tenho olhos, não sou idiota — ele
respondeu.
Ouvindo aquilo, com todo o mau humor do
mundo, Mel olhou para ele e respondeu: — Disso,
boneco, não tenho tanta certeza.
Surpreso porque Mel voltava ao jogo de antes,
Björn quis responder, mas Mel foi mais rápida e saiu
para dançar com Reinaldo.
Não pensava aguentar nem mais um segundo do
carinho que a loira fazia agarrada ao braço dele.
Jud, sempre de olho em tudo, viu que Agneta se
levantava para ir ao banheiro e cochichou no ouvido
do amigo: — Você é um bobalhão.
— Obrigado, Jud. Adoro seus elogios!
— Você não está vendo que a Mel está aqui?
Björn fez uma expressão de incômodo.
— Pra mim, é como se ela tivesse virado poeira
no ar — ele respondeu, encarando a amiga.
Judith, zangada pela indiferença de Björn,
insistiu:
— A Mel vale mil vezes mais do que a Fosqui,
você não percebe?
Ele sorriu com amargura e, sem vontade de
entrar no assunto, respondeu: — A Agneta me dá
tudo o que eu quero e não mente. Isso já me basta.
— Sexo! Ok... — Judith rebateu. — Mas eu te
conheço e sei que você não está bem. Você gosta da
Mel e ela pode te dar sexo e amor. Não seja
cabeça-dura.
A palavra “amor” era como um balde de água
fria. Björn cerrou os dentes e cravou um olhar furioso
em Jud.
— Que tal se você não se meter onde não é
chamada, queridíssima Judith — Björn sussurrou —,
e uma vez na vida pode esquecer que eu existo?
A resposta e o olhar de Björn ofenderam Judith.
Nunca, em todo o tempo que se conheciam, ele tinha
falado daquele jeito. Ela se virou para a cunhada
Marta, que conversava com Eric.
— Marta, o Máximo acabou de chegar.
— Onde está o Senhor Peitoral Perfeito?
— Ali — Judith respondeu, apontando.
Máximo, um argentino bonitão e galanteador até
dizer chega, cumprimentava umas garotas na entrada,
quando Marta informou: — Ele terminou com a Anita
e está se sentindo muito solitário. Ontem ele estava lá
em casa com o Arthur e comigo.
Eric olhou para sua mulher e ela respondeu
fazendo-o rir:
— Mas o que você está me dizendo? — E
propôs erguendo a voz, para que Björn ouvisse: —
Vamos apresentá-lo à Mel. Tenho certeza de que
eles vão combinar.
As duas mulheres se foram. Eric dirigiu o olhar
para o amigo e perguntou com cumplicidade: —
Outro copo?
Björn concordou e quando o garçom deixou a
bebida na mesa deles, Eric limpou a garganta.
— Falando da minha mulher, você tem noção
do que acabou de fazer esta noite? — Percebendo
que Björn não tinha entendido, Eric explicou: — A
Jud ficou muito, mas muito zangada com a sua
resposta. E já sabe, os hormônios! Eu a conheço e
isso vai ter consequências.
— Que merda! — Björn murmurou.
— E a primeira consequência — continuou Eric
— é o Senhor Peitoral Perfeito.
— Quem?
— Máximo, o queridinho das garotas, você não
o conhece?
Pego de surpresa por saber que existia outro
queridinho que não fosse ele, Björn se interessou.
— E quem é esse cara?
Björn seguiu a direção do olhar de Eric e ficou
tenso ao ver Mel trocando beijinhos com um cara
boa-pinta e estiloso. Notou como Máximo sorria
para ela e então ficou nervoso ao ver que ele a
agarrava pela cintura e a convidava para dançar.
Achando engraçado ver como as narinas de
Björn se dilatavam, Eric informou ao amigo: —
Aquele é o Máximo. E até onde eu sei, ele deixa as
mulheres loucas!
O resto da noite foi uma autêntica tortura para
Björn. Mel parecia ter encontrado um homem que
jogasse seu jogo e não parou de dançar, nem de rir
com ele.
Ele a viu para lá e para cá com ele, gritando
“azúcar!” com as loucas da Judith e da Marta, e foi
testemunha de como o álcool começava a fazer efeito
nela e na forma sensual como ela dançava. Eric
observava tudo em silêncio e logo percebeu como
Björn estava tenso.
— Quando você quiser, a gente dá a noite por
encerrada.
Björn negou e tentou sorrir para Agneta. Ela
dançava se insinuando, mas não tinha nem de longe a
sensualidade que emanava de Mel.
A música mudou e o DJ começou a tocar
Orishas, um grupo cubano que agradava muito por
ali. Todos dançaram e cantaram quando tocou a
música Cuba. Assim que ela acabou, as garotas
foram atrás de algo para beber. Mel pegou um dos
mojitos, deu um gole maravilhoso e ouviu falarem
atrás dela.
— Você não acha que está bebendo demais?
Surpresa, ela se virou, viu Björn, ergueu as
sobrancelhas e olhou de um lado para o outro.
— Você está falando comigo? — ela perguntou.
— Estou.
Mel sorriu e murmurou:
— Seu cretino.
Björn se ofendeu ao ouvir aquela palavrinha. Ela
sabia que ele não gostava de ser chamado daquele
jeito. Tentando chamar a atenção dela, Björn
comentou: — Ontem um mensageiro me entregou o
seu pingente.
Mel fez que sim com a cabeça e tomou mais um
gole do drinque.
— Não é o meu pingente, é o seu pingente —
ela destacou. — Digamos que eu devolvi o seu
morango com o mesmo desprezo com que você
devolveu o meu. Agora estamos em paz, não acha?
Zangado, Björn não respondeu. Mel deu de
ombros e em seguida gargalhou.
— Nem precisa perder o sono, cretino... já me
conformei que você não quer saber de mim — Mel
disse entre dentes. — Por isso, fica tranquilo, que eu
vou superar. Ninguém é indispensável nessa maldita
vida.
Ela bebeu mais um gole da bebida e levou um
esbarrão de uma moça passando ao seu lado. Mel
tropeçou e Björn a segurou antes que ela caísse no
chão.
Ao notar as mãos dele na sua cintura nua, ela
sentiu o corpo se arrepiar e quando ele a soltou, só
conseguiu dizer: — Azúcar!
Björn não disse nada. O perfume de morango
que exalava dela já havia se infiltrado no seu nariz.
Ele se virou e decidiu se afastar, porém, ouviu alguém
dizer: — Se voltar a tocar nele, você vai ter um
problema.
Surpreso de ouvir a voz aguda de Agneta, Björn
se virou novamente e viu Mel se defendendo: — Se
você não soltar o meu braço, o dentista vai fazer a
festa com você.
— Agneta, o que você está fazendo? — Björn
perguntou.
Mel o encarou e aconselhou com um sorriso
malicioso:
— Controla a Fosqui ou esta noite ela vai sair
daqui sem dentes. Ah... se vai!
Dito isso, Mel se afastou e voltou para a dança
e a diversão enquanto eles discutiam.
Uma hora mais tarde, ela entrou no banheiro
para se refrescar. Instantes depois, a idiota da
Agneta entrou também, com vontade de arrumar
confusão.
— Quem você pensa que é? — Agneta gritou.
Mel a olhou da cabeça aos pés e respondeu
sem sair do lugar:
— No momento, a tenente Melanie Parker, e se
você não tirar sua bundinha de cadela no cio daqui
agora mesmo, eu vou ficar nervosa. E quando eu fico
nervosa, sou muito... muito malvada.
— Você está me ameaçando?
Mel se olhou no espelho.
— Estou, definitivamente estou — ela afirmou
com o atrevimento característico. — Acho que vou
te pegar pelos cabelos, te arrastar pelo chão e...
Assustada, Agneta se mandou apavorada, e Mel
deu risada. Estava molhando o cabelo na pia, quando
a porta se abriu de novo e um furioso Björn abriu
caminho.
— James Bond... este é o banheiro feminino. Se
você veio atrás da Fosqui, sinto muito dizer que ela
acabou de sair daqui, há apenas alguns segundos.
Sem responder, ele a agarrou pelo braço e a
encurralou na parede.
— O que você fez com a Agneta? — Björn
perguntou.
— Euuuuuuuuuu?
— Ela disse que você bateu nela.
Mel sorriu e negou, tomando consciência de
como o corpo dele estava próximo.
— Pode ter certeza de que se eu chegar a
agredir aquela lá, não vou deixar nem a língua pra ela
contar a história.
Björn logo percebeu que Agneta tinha mentido
e, com muita raiva, alertou: — Fica longe dela e de
mim. Você e eu não temos mais nada um com o
outro.
Mel não fez esforço para conter seus impulsos.
Ela o impediu de sair, se aproximou e respondeu com
determinação: — Ah, claro, baby... Existem algumas
coisas que a gente pode fazer.
Sem ação, ele viu como Mel aproximava os
lábios para beijá-lo. Ela tomou Björn para si como só
ela sabia fazer e ele correspondeu. Sem trocarem
uma palavra. Sem nem mesmo se olharem, ele a
pegou nos braços e a apertou contra o seu corpo. O
tesão tomou conta deles. Durante vários minutos,
enquanto as pessoas continuavam se divertindo do
lado de fora, eles dois se beijaram com autêntica
paixão. Sem delicadeza, Mel colocou a mão no meio
das pernas dele e sussurrou: — Vamos , boneco, me
dá o que eu quero, eu sei que você deseja.
Björn começou a perder o juízo. O que ele
estava fazendo? Seu corpo parecia se mover sozinho.
Ao sentir a língua dela dentro da sua boca, ele se
apertou mais ainda ao corpo dela. De repente a porta
do banheiro se abriu. Isso o fez retornar à realidade.
Como se seus lábios estivessem queimando, ele
a soltou e sussurrou antes de sair: — Não beba mais
ou vai terminar muito mal.
Björn saiu dali e a mulher que tinha aberto a
porta entrou. Mel ficou respirando com dificuldade.
Desejava aqueles lábios e aquelas grandes mãos que
tinham percorrido seu corpo. Ela precisava dele.
Porém, voltando à realidade, como Björn tinha feito
segundos antes, ela abriu a porta e foi para o salão
curtir a noite.
Máximo, aproveitando sua loucura e seu corpo
fresco, agarrou Mel assim que a viu e a levou para
tomar um drinque.
O DJ colocou Orishas para tocar mais uma vez.
Ao ouvir a canção Nací Orishas, Máximo pegou
Mel pelo quadril e os dois saíram para a pista
cantando...
Yo nací Orishas en el
underground.
Oye si de cayo hueso si tu bare.
Yo nací Orishas en el
underground...
Björn os observou do bar, sem conseguir tirar
os olhos de cima deles. Mel estava dançando para
provocar aquele cara, que correspondia chegando
perto e passando as mãos no corpo dela. Era algo
que Björn não queria ver, mas não podia deixar de
olhar. Duas coisas o deixavam louco: a tatuagem nas
costas dela se mexendo e aquele imbecil passando a
mão no seu corpo.
Assim que a música terminou, outra começou
em seguida e eles continuaram a dançar muito
animados. O aborrecimento de Björn aumentava sem
parar. Mel, por sua vez, não voltou a se aproximar
do grupo onde ele estava com a poodle. Mel se
negava a olhar para eles.
De madrugada, quando Eric e Björn falaram em
ir embora, Jud logo concordou, pois já estava
cansada e então foi se despedir da amiga. Björn,
percebendo que todos estavam indo embora, menos
Mel, parou Jud na saída para perguntar: — A Mel
vai ficar?
— Arrã...
— Mas estamos todos indo...
Sem se surpreender muito, Jud respondeu:
— Ela fica em muito boa companhia, seu
imbecil. — E ao intuir que ele fosse dizer algo mais,
ela acrescentou irritada: — Queridíssimo Björn, que
tal você dar o fora daqui com a Fosqui e dar a ração
dela? Deixa a Mel em paz e não se mete onde não é
chamado!
Dito isso, Judith agarrou o braço da cunhada, e
Eric, se aproximando do amigo, cochichou: — Eu te
disse... essa é outra consequência.
36
Um mês passou sem que Mel e Björn
soubessem um do outro. Davam sua relação por
terminada, embora fossem incapazes de se
esquecerem.
Chegaram as festas de fim de ano e Judith se
dedicou a montar sua tradicional árvore de Natal
vermelha. Mel atendeu ao chamado da amiga e foi
ajudá-la. Elas duas, Flyn e os dois menores
enfeitaram a árvore em meio a risadas e brincadeiras.
— Como disse a minha irmã — Judith riu —, eu
encho eles de beijo!
— Quando a tia Raquel vem com a Luz? —
Flyn perguntou.
Judith pensou na família e sorriu.
— Dentro de quatro dias vão estar todos aqui e
vamos dar uma festa incrível de Natal — ela
respondeu, contente. — Aliás, Mel, quando você vai
para as Astúrias?
— Depois de amanhã.
— Ah, que pena. Você não vai conhecer a
minha família... — Judith lamentou.
Mel deu de ombros e explicou com um sorriso
meigo:
— Acho que não. Tenho uma licença de doze
dias e quero aproveitar ao máximo nas Astúrias. — E
olhando para a filha, disse: — Sami, não pegue o
carrinho do Eric.
Judith concordou com a cabeça. O pequeno
Eric era igual ao pai, exceto pelo temperamento
risonho e alegre como o da mãe. Ver Eric e Sami
juntos era encantador. Os dois tão loiros, com a pele
tão branquinha e com aqueles olhos azuis, dava até
vontade de mordê-los.
Com a barriga enorme, Judith se levantou de
onde estava e se abaixou para pegar um brinquedo
do filho. De repente, ela soltou um gemido: — Ai,
meu Deus, nããããooooooooooo.
— O que foi?
Flyn olhou para ela no mesmo instante.
— Você está fazendo xixi, mamãe?
Branca como cera, ela pediu a Mel:
— Avisa o Eric no escritório. Acabou de
estourar a bolsa!
Quando chegou lá, Mel abriu as portas sem
bater e gritou, acelerada: — Eric, temos que levar a
Judith ao hospital, já!
A partir daquele momento, tudo virou um caos.
Simona, Norbert e o pequeno Flyn ficaram em casa
com as crianças, e Mel acompanhou Eric e Judith no
carro. Ele dirigiu por Munique como um louco até ser
interrompido pelo grito da esposa: — Se você
continuar assim, vai nos matar!
— Pequena, você está bem? — ele perguntou,
angustiado.
— Sim... fica calmo. Só estourou a bolsa, não
precisa ultrapassar todos os sinais vermelhos.
Mel sorriu. Um novo bebê chegava ao mundo e
aquilo sempre era motivo de felicidade. Tentando
relaxar a amiga, que torcia as mãos no colo, Mel
comentou: — Toda vez que você entra em trabalho
de parto, eu estou por perto.
Judith sorriu, mas gritou novamente, preocupada
com o jeito que Eric estava dirigindo.
— Eric, se você ultrapassar outro sinal
vermelho, eu juro que desço do carro e eu mesma
dirijo.
Morrendo de preocupação, Eric concordou e, a
partir dali, tentou se acalmar. Ao chegarem ao
hospital, uma enfermeira já estava esperando por eles
com uma cadeira de rodas. Judith desceu do carro e
disse baixinho para o marido: — Querido... a
epidural. Que me injetem litros e litros de anestesia
epidural.
— Claro, pequena... — ele a tranquilizou,
tirando a mão que ela levava ao pescoço, para que
não começasse a se coçar, ou suas brotoejas iam
piorar. — Assim que virmos a sua médica, vamos
lembrá-la disso.
A médica os atendeu assim que os viu aparecer
e, para surpresa de todos, depois de um exame,
disse que Judith teria que fazer uma cesariana de
urgência, pois o bebê estava com o cordão umbilical
enrolado no pescoço.
Eric viu o pânico no rosto da esposa e exigiu
estar presente, mas a obstetra não autorizou. Em um
parto de risco como aquele, o pai só iria atrapalhar.
Por fim, Judith conseguiu convencê-lo e, depois de
receber um beijo nos lábios, ele se contentou em ficar
junto com Mel na salinha, à espera de notícias.
— Fique calmo, tudo vai sair bem. Não se
preocupe — Mel tentou animá-lo.
Eric concordou. Não estar com Jud num
momento como aquele o deixava completamente
desnorteado.
— Eu sei. — Eric encarou Mel e apertou a mão
dela. — Jud não vai deixar que nada dê errado.
Esperaram sem dizer mais nada. Eric não estava
para conversa e Mel decidiu respeitar seu silêncio.
Björn apareceu meia hora mais tarde, sem que eles o
tivessem avisado. Simona é quem tinha dado a
notícia.
— Como estão as coisas?
Eric não respondeu. Estava tão angustiado que
era incapaz de articular mais de duas palavras
seguidas. Sem entender nada, Björn olhou para Mel
em busca de uma resposta.
— Estão fazendo uma cesariana de emegência
— ela explicou. — O bebê está com o cordão
umbilical enrolado no pescoço, mas eu estava
dizendo ao Eric que vai dar tudo certo.
Björn encarou o amigo, que estava com os
olhos fixos no chão, e tentou ser positivo como Mel.
— Tenho certeza de que vai dar tudo certo —
ele afirmou.
O tempo passava. Ninguém dizia nada e Eric
estava começando a se desesperar. De repente, a
porta do centro cirúrgico se abriu e a médica foi até
Eric com um bebê nos braços.
— Parabéns, papai. Você tem uma filha linda.
Aquele alemão loiro olhou sua bebezinha e
perguntou com um fio de voz: — Como está a minha
mulher?
A médica sorriu e entregou o bebê a ele.
— Ela está ótima e deseja vê-lo. Por favor, me
acompanhe. Vou levá-lo até ela.
O rosto de Eric se abriu num sorriso: Jud estava
bem.
Eric contemplou a filha com grande felicidade.
Agora sim podia respirar e sorrir. Ele olhou para seu
grande amigo e disse: — Amigão, aqui está a minha
outra moreninha.
Os dois se abraçaram emocionados enquanto
Mel os observava com um sorriso nos lábios. Que
amizade tão maravilhosa tinham aqueles dois
gigantes. Em seguida, Eric abraçou Mel e os dois
riram ao ver como aquela menininha se parecia com
Judith.
Quando Eric desapareceu com a médica e o
bebê pelas portas do centro cirúrgico, Björn e Mel se
entreolharam e sorriram. Sem se tocar, nem se
abraçar, nem trocar nenhuma palavra, os dois saíram
do hospital e foram até o carro dele.
— Se você quiser, posso te levar pra casa —
ele ofereceu.
Feliz pela amiga, mas triste pelo que aquele
momento a tinha feito se lembrar, Mel olhou para ele
tentando esboçar um sorriso e respondeu apenas: —
Não, obrigada. Vou sozinha.
Björn concordou, mas quando ela começou a
andar, ele a chamou. Mel se virou e olhou para ele
outra vez.
— Sinto muito por tudo o que aconteceu entre a
gente.
Ela deu de ombros e engoliu o turbilhão de
emoções que tinha na garganta.
— Eu também sinto.
Björn, confuso e sem saber o que fazer,
finalmente estendeu a mão para ela.
— Amigos? — ele perguntou.
— Mesmo que eu seja militar?
Ele sorriu e Mel apertou a mão dele com força,
concordando com a cabeça.
— Amigos.
Dito isso, ela deu as costas e continuou
andando, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.
Não queria que Björn a visse chorando.
37
As festas passaram e tudo voltou à normalidade.
A pequena Hannah era uma bonequinha morena.
Judith já estava totalmente recuperada e Eric, como
sempre, era o homem mais feliz do universo.
Quando Mel voltou das Astúrias, tinha muitas
novidades para contar e foi logo visitar sua amiga.
Emocionadas, as duas estavam observando a
pequenininha com carinho, quando chegaram Eric e
Björn. Sami, ao vê-lo, correu até ele e se atirou em
seus braços.
— Píncipeeeeeeeeeee! — ela gritou.
Encantado como sempre ficava quando via a
menina, Björn a pegou no colo e a apertou num
abraço. O Natal daquele ano tinha sido muito
diferente. Ele tinha sentido saudades de Sami e de
sua mãe mais do que imaginou que sentiria, porém
não disse nada, pois não queria complicar mais as
coisas. Preferindo deixar tudo como estava, ele se
limitou a fingir na frente dos amigos e deixar para
sofrer quando chegasse em casa.
Ao ver como ele abraçava Sami, Mel se
levantou sorrindo e o cumprimentou com
cordialidade. Depois de brincar com as crianças, os
dois homens foram para o escritório. Judith
perguntou: — Como você está se saindo com a
história do Björn?
— Bem. Como disse a minha avó, o tempo cura
tudo.
— Meu pai também costuma dizer que o tempo
põe tudo em seu lugar.
Mel sorriu e colocou a coroinha de Sami na
cabeça.
— Tenho uma coisa pra te contar — ela
anunciou.
— Não me assuste, Mel, que a sua expressão
não me parece coisa boa.
Ela sorriu e respirou fundo.
— Vou me mudar para a base de Fort Worth
— explicou.
— E onde fica isso?
— No Texas.
A cara de Judith se contraiu ao ouvir aquilo, e
logo ela começou a chorar. Vendo aquela reação,
Mel sentou-se ao lado dela e tentou consolá-la: —
Por favor, por favor, não chore.
— Como eu não vou chorar se todas as amigas
que eu fiz aqui vão embora? Primeiro a Frida foi pra
Suíça e agora você quer ir pro Texas.
Mel sorriu. Ficava feliz de ver que Judith tinha
tanto carinho por ela e a abraçou, numa outra
tentativa de consolo.
— Pensa que se eu for você vai ter lugar pra
ficar lá também. Você vai poder ir até lá sempre que
quiser e juro que minha casa vai ser muito maior e
mais bonita do que meu apartamento daqui.
— E por que você vai? É por causa do Björn?
Ele era uma parte importante da decisão.
Colocar meio mundo entre eles era o mais
recomendável, mas Mel tentou não dar importância
àquilo.
— Não, não tem nada a ver com ele.
— Jura?
— Juro.
— E então, por que você vai se mudar?
— Sinceramente, Judith, ficar na Alemanha
agora é complicado pra mim.
— Por quê?
Mel se sentou junto da amiga e explicou:
— A Scarlett vai voltar pra casa. E meus pais,
por mais difícil que seja de acreditar, decidiram se
dar uma segunda chance. Minha mãe e minha irmã
estão agora mesmo no Texas organizando a
mudança.
— Isso é magnífico.
— Eu sei — Mel concordou, olhando para a
filha.
— Mas eu não entendo o que você tem a ver
com tudo isso.
— Se minha irmã e minha mãe voltarem pro
Texas, quando eu tiver viagens longas, não vou poder
deixar a Sami com elas. A minha avó é muito idosa
pra cuidar de uma criança e...
— Mas você pode deixar a Sami aqui. Você
sabe que eu e o Eric vamos cuidar bem dela,
enquanto você estiver viajando.
— Eu sei, querida. Claro que eu sei que vocês
cuidariam bem dela. Só preciso ver o carinho que
vocês nos dão quando estamos aqui, mas a Sami
precisa ter a própria família e a minha é a que ela
tem. Se eu viajo, o normal é que a Sami fique com
eles. Não posso ser egoísta e tenho que pensar na
minha filha. Ela precisa de uma família e a dela vai
estar em Fort Worth. Aqui ela só tem a mim e se
acontecer alguma coisa comigo, ela precisa estar
perto dos parentes. Você entende, não entende?
Judith fez que sim, claro que entendia! As duas
amigas se uniram num abraço e começaram a chorar.
A porta da cozinha se abriu e Björn, que entrava
para buscar cerveja, olhou para elas com espanto.
— Mas o que acontece com as duas
Superwomen?
Judith olhou para ele com tristeza e antes que
explicasse Mel se adiantou.
— Veja só, bonequinho, até as Superwomen
têm sentimentos.
Ele as encarou com surpresa. No caminho para
o escritório, levando as duas cervejas e querendo
saber o que estava acontecendo, ele soube o que
tinha que fazer. Chegando lá, ele colocou as garrafas
na mesa de Eric e comentou: — A sua pequena está
se acabando de chorar na cozinha.
Não foi preciso dizer mais nada. Eric se
levantou rapidamente e foi até lá. Björn foi atrás e
ouviu o amigo perguntar logo que abriu a porta: — O
que foi, querida?
A preocupação de Eric fez com que Jud
recomeçasse a chorar. Mel olhou para Björn e
sussurrou: — Mas que fofoqueiro que você é.
Com uma das mãos no bolso e a outra
segurando a cerveja, Björn se apoiou no batente da
porta vendo o amigo abraçar a esposa. Quando
Judith se recuperou um pouco, Eric, que a conhecia
bem e sabia que ela não chorava daquele jeito se não
fosse por um motivo importante, incentivou Judith a
falar: — Me conta, pequena, o que foi?
Judith olhou para a amiga, que balançou a
cabeça. Entretanto, sem dar importância ao gesto, ela
anunciou: — A Mel vai morar em Fort Worth.
Os dois homens olharam espantados para ela,
que se explicou em tom de brincadeira: — Texas,
yeah!
Björn ficou tão chocado com a notícia que teve
que se apoiar na bancada da cozinha. Como assim?
Mel estava indo embora? Perdido depois daquela
notícia, ele respondeu, colocando a cerveja de lado:
— Você está de brincadeira com a gente, não está?
Mel negou com jeito cômico e respondeu:
— Não. Hoje é terça-feira e nas terças eu não
minto.
— Mas o que vocês vão fazer no Texas?
Escondendo os sentimentos que essa mudança
provocava, Mel respondeu apenas: — Trabalhar e
morar, parece pouco?
— E por que você quer ir morar lá? — ele
voltou a perguntar.
Ela o encarou com a testa franzida.
— E o que isso te interessa, baby?
— Sua grossa.
— Oh... hoje não vou dormir de tanto desgosto.
Você me chamou de “grossa”! — ela exclamou,
sentando-se numa das banquetas da cozinha.
Vendo que eles iam começar tudo de novo,
Judith levantou a voz num grito: — Por favor, não
discutam! Já estou supertriste por saber que a Mel
vai embora. Vocês não precisam começar a se tratar
mal.
Sami viu a mãe com o rosto sério e foi até ela.
Olhando para Björn, a menina disse: — Píncipe
bobo!
Mel pegou a menina no colo e deu um beijo
nela.
— Não, querida, o príncipe não é bobo. Ele é
muito bobo!
Ao ver que as duas olhavam para ele com um
sorriso cúmplice, Björn pegou a cerveja e saiu da
cozinha. Três minutos depois, Eric foi atrás.
— Muito bem, princesa — Mel disse,
levantando-se com a filha. — Vamos começar a
recolher os brinquedos. Temos que ir pra nossa
casinha.
— Você vem almoçar aqui no sábado? —
Judith quis saber.
— Claro que sim. Não quero perder o seu
cozido madrilenho nem morta!
Meia hora depois, Judith estava na janela vendo
a amiga sair com a filha nos ombros, quando Eric
entrou para ver como ela estava.
— Já passou a tristeza? — ele perguntou com
um abraço.
Ela sorriu.
— Você pode me dizer por que ela quer se
mudar?
— É um assunto familiar, Eric — Judith sorriu.
— A irmã e a mãe dela, que moram nas Astúrias,
estão voltando pro Texas, e a Mel, pelo bem da
Sami, sabe que tem que ir também pra que a menina
continue tendo uma família que cuide dela e a ame.
Aqui, apesar de a Mel ter a gente, está muito sozinha.
Eric compreendeu e não perguntou mais nada.
Assim que possível, porém, contou a história ao
amigo.
Naquela noite, Mel precisava afogar as mágoas.
Queria ir ao Sensations, mas sabia que, se fosse, com
certeza encontraria Björn lá, por isso decidiu mudar
de lugar. Iria ao Destiny, uma nova casa de swing
como o Sensations, que ficava algumas ruas mais
acima.
Mel chegou ao lugar vestindo uma saia lápis
preta e sapatos de salto. Ela entrou e caminhou
segura de si até o primeiro bar, onde pediu algo para
beber. A hostess da casa, ao ver Mel sozinha, se
apresentou e mostrou o espaço para ela. Andaram
pelas diferentes salas e Mel notou umas cabines
prateadas, que chamaram sua atenção. Ao fim da
visita, a mulher a apresentou a um casal, com quem
ela foi para a sala seguinte. Ali havia poltronas e
decidiram se sentar para continuar conversando.
Tomaram alguns Bacardis com Coca-Cola e
decidiram ir para a jacuzzi. Quando Mel saiu do
vestiário, ouviu alguém chamar seu nome.
— Mel!
Surpresa, ela se virou e sorriu ao encontrar Carl.
— O que você anda fazendo por aqui?
Ele deu dois beijinhos nela e respondeu:
— Vim com uma amiga. — Mel sorriu e o
homem continuou: — Fazia muito tempo que eu não
te via. Você não tem ido ao Sensations. Por onde
você anda?
Sorrindo, Mel deu de ombros.
— Ultimamente eu andei muito ocupada, mas
então ouvi falar deste lugar e decidi vir conhecer.
Carl pensou no que ela estava fazendo ali
sozinha, sem Björn.
— Tudo de bom, Mel — ele desejou ao se
despedir.
Ela se afastou com um sorriso no rosto, sem
perceber que Carl estava teclando alguma coisa no
celular. Mel se juntou ao casal e foram os três até um
bar lateral, perto da jacuzzi. Ali, pediram outro
drinque. Mel achou a música ensurdecedora, alta
demais para o seu gosto. Enquanto estava sentada
esperando a bebida, o casal que acabara de
conhecer se encontrou com outro e ela foi
apresentada aos recém-chegados. Não demorou
nada, as duas mulheres começaram a brincar uma
com a outra e acabaram juntas na jacuzzi, enquanto
Mel e os homens as observavam de longe. Nenhum
deles a tocou. Ela não havia dado permissão para
isso e todos a respeitavam. Quando os homens viram
que ela não parecia querer jogar, decidiram se unir às
mulheres e a troca de casais começou.
Algum tempo depois, Mel sentiu curiosidade e
foi até as cabines prateadas, onde viu avisos muito
intrigantes colados nas portas. Eles eram explícitos:
indicavam as pessoas que estavam lá dentro e o que
queriam. Três homens procuravam uma mulher. Duas
mulheres procuravam um homem. Mel viu uma
cabine que não pedia nada, soube que ela estava
vazia e decidiu usá-la.
Quando entrou, Mel olhou ao redor. O espaço
era muito grande. Havia uma mesinha com
preservativos, água e toalhas limpas, uma poltrona e,
preso ao teto, um balanço sexual.
Curiosa, ela o tocou e percebeu que as correias
eram macias. Os cartazes estavam sobre a mesinha.
Devia escrever na porta que era uma mulher à
procura de... Durante algum tempo, ela ficou na
dúvida e depois se decidiu: dois homens. Precisava
de uma boa transa. Com segurança, pegou os dois
cartazes e os prendeu na porta.
Ela caminhou até o interruptor e deixou a luz
bem baixa. Sentou no balanço e encostou as costas
na corda de trás para se balançar. De repente, a
porta se abriu e um homem entrou. Mel não
conseguiu vê-lo até que ele se aproximou. O corpo
dela estremeceu.
— O que você está fazendo aqui, Björn? — ela
perguntou com um fio de voz.
Com o rosto sério e uma frieza incrível, ele
respondeu:
— O mesmo que você. Estou em busca de
sexo.
Os dois se entreolharam em silêncio e então ele
perguntou com a voz neutra: — Você já usou o
balanço alguma vez?
Mel negou e ele explicou:
— Do jeito que você está, coloque as pernas
nas cordas de baixo. Você vai ficar suspensa com as
pernas abertas. O prazer que o balanço proporciona
é incrível. A penetração é mais profunda e vai ser
mais gostoso pra nós dois.
A explicação técnica de Björn e sua frieza
chamaram a atenção dela, mas ela fez o que ele dizia.
Mel ficou suspensa pela maneira como ele tinha dito,
e Björn, que já estava nu quando entrou na cabine, se
aproximou. Sem se inibir, ele passou a mão na vagina
dela.
— Tem algum problema se eu brincar com você
esta noite? — ele perguntou.
Problema?
Tinha muitos problemas!
Excitada pelo que a presença dele provocava,
ela negou com a cabeça, porém perguntou: — O
Carl te avisou?
— Avisou.
— Por quê?
— Como ele é um bom amigo, me disse que
você estava aqui. Das últimas duas vezes ele nos viu
juntos no Sensations e estranhou ver você sozinha.
Nada mais.
A porta da cabine se abriu e outro homem
entrou. Björn olhou para ele.
— Mudamos de ideia, me desculpe.
O homem saiu da cabine e Mel, perplexa com o
que ele fez, avisou:
— Você está passando dos limites. Eu não
mudei de ideia.
Björn não respondeu e se limitou a olhar para
ela.
— Por acaso você entrou aqui pra atrapalhar a
minha diversão? — Mel insistiu.
Agora eram as palavras dela que incomodavam
Björn. Ele respondeu com expressão impassível: —
Eu estou atrás de sexo, Mel. Não quero nada que as
pessoas que frequentam esse lugar não queiram. Mas
se a minha presença te incomoda, vou embora
procurar outras pessoas pra jogarem comigo.
Ela ficou tentada a pedir que ele desse o fora
dali, que se afastasse dela, mas não pôde. Seu
coração e sua ânsia não permitiram. Ela o pegou pela
mão e impediu que ele se fosse. Encontrar-se ali com
Björn tinha sido uma surpresa agradável que ela não
queria desperdiçar.
— Calma, cretino. Podemos nos divertir.
— Não me chame de “cretino”.
Mel sorriu e acrescentou fazendo piada para
esconder os verdadeiros sentimentos.
— Perdão, senhor Hoffmann... perdão.
Os dois se olharam nos olhos durante alguns
segundos. A tensão sexual era palpável. Se ele era
frio, ela podia ser um iceberg, mas seus corpos se
esquentavam segundo a segundo.
— Se abre pra mim — Björn disse, por fim,
quando se sentou no chão.
Mel fez o que ele pedia, com um frio enorme na
barriga, e logo sua vagina começou a palpitar de
tesão. Sentado no chão, Björn foi atraído por ela
como um ímã. Puxou a corda onde ela estava
sentada e aproximou-se do seu sexo. Assim que viu
o morango de que tanto gostava, ele pousou a boca
onde estava o centro de seu prazer e ela gemeu.
Mel fechou os olhos. Sentir a boca ansiosa dele
em seu sexo era a última coisa que tinha pensado que
aconteceria naquela noite. Sem pudor algum, ela se
entregou toda ao prazer.
Björn segurou Mel pela bunda e meteu a boca
naquela vagina molhada e saborosa. Chupou,
lambeu... era tudo maravilhoso.
— Se segure nas cordas e se incline pra trás —
ele pediu.
Agarrada às cordas, Mel enlouqueceu. Ela
gemeu suspensa no ar enquanto o homem que não
saía de seu coração e da sua mente abria suas pernas
para fazer o que ela tanto queria. Sem piedade, Björn
fez o que quis e sentiu Mel vibrar quando sugou o
clitóris maravilhoso. Era um sonho.
Ainda admirado pelo que estava fazendo, ele
gemeu e, como um lobo faminto, a apertou contra
sua boca. Era difícil de acreditar, mas ali estava ele.
Mais cedo, quando tinha recebido a mensagem de
Carl, não teve dúvidas: precisava ir atrás da mulher
que desejava.
Os gemidos tomaram conta da cabine. Mel se
abria enlouquecida para Björn e experimentava o que
era o sexo num balanço. Era incrível, como nunca
tinha feito aquilo antes?
Cada um em sua posição, os dois desfrutaram
do momento e então Björn se levantou e Mel olhou
para ele com os olhos transbordando de luxúria. Ele
era impressionante. Björn fez menção de colocar uma
camisinha, ela o deteve.
— Não ponha.
Sem falar nada e extremamente confuso, ele
jogou a camisinha no chão e guiou o pênis com
impaciência. Agarrado nas cordas de cima do
balanço, lenta e pausadamente ele se enfiou dentro
dela. Quando se sentiu completamente dentro dela,
fez um movimento rápido e Mel gemeu.
— Estar suspensa vai te dar um prazer maior.
Mel olhou para ele, agarrada nas cordas. Um
movimento seco de Björn e ela deu um grito de
prazer. Sem beijá-la, ele disse baixinho: — A cabine
tem isolamento acústico. A gente pode gritar o
quanto quiser.
Uma nova investida e os dois gritaram. Daquela
vez, sem reservas. O prazer era intenso e os gritos
ecoando pela cabine os deixavam ainda mais
excitados.
— O balanço dá uma profundidade enorme.
Você sente? — Björn perguntou.
— Sinto.
— Você gostou?
Mel gritou de novo e Björn não parou. Mais
algumas vezes ele entrou e saiu dela com movimentos
rítmicos e implacáveis. Sentia necessidade daquele
contato e de fazê-la sua. E assim ele fez, arrancando
dela gritos apaixonados, gritos que o deixavam louco.
O balanço dava sensações diferentes. Os
corpos se chocavam descontrolados, a respiração se
acelerava e se transformava em gritos e gemidos. Mel
jogou a cabeça para trás, Björn deu um passo à
frente e se aprofundou mais nela.
Gritos de prazer retumbaram pela cabine,
enquanto os dois buscavam o próprio gozo.
Desejavam-se, necessitavam um do outro, mas não
diziam nada. Eles eram só sensações e se deixavam
dominar pela luxúria do momento. Quando Björn
sentiu que ia chegar ao clímax, fez um movimento
para sair de dentro dela, mas Mel o segurou pelas
mãos e o impediu, olhando Björn nos olhos.
— Não tira. Termina o que você começou.
Você sabe que eu tomo pílula e não tem perigo, eu
não vou engravidar.
Incapaz de lhe negar aquilo, Björn se agarrou
novamente nas cordas do balanço e, sem tirar os
olhos dela, começou a bombear com força,
enchendo-os de prazer. Quando não aguentou mais,
deu um grito gutural e gozou; ela gozou em seguida.
Com a respiração ofegante, Mel viu que Björn
transpirava e enxugou a testa dele com a mão.
— Como sempre, foi incrível, Björn — ela
sussurrou.
Ele concordou e, sem sair de dentro dela, com
os lábios a alguns centímetros dos dela, ele
perguntou: — Por que você vai pro Texas?
— Por causa da Sami.
— Só por causa dela?
Acalorada pela proximidade e pela tentação de
tomar aqueles lábios que tanto desejava, ela
respondeu: — Ela merece uma família e se eu ficar
sozinha com ela em Munique, vou tirar isso dela. Em
Fort Worth a Sami vai ter mais do que mãe: vai ter
avós e uma tia. Se eu fico aqui, a Sami só vai ter uma
mãe de temporadas, nada mais. Estou sozinha, Björn,
mas não quero que a Sami esteja.
Ele fechou os olhos. Doía ouvir aquilo e, apesar
de entendê-la, ele disse de forma egoísta: — Aqui ela
poderia ter outro tipo de família. Aqui estão a Jud, o
Eric, os meninos, seus amigos americanos e eu.
Todos nós poderíamos...
— Não — ela interrompeu. — Preciso pensar
nela e no que é melhor pra ela e aqui a Sami nunca
vai ter uma família do jeito que merece.
As palavras dela o confundiam, mas Björn
concordou. Sem dizer nada, se afastou e Mel desceu
do balanço. Quando ficaram frente a frente, a tensão
dominava o ambiente. Björn quis se virar para sair
dali, mas ela o agarrou e pediu que ficasse: — Não
vá. — Ele olhou para ela e Mel acrescentou: —
Vamos brincar juntos uma última noite.
“Uma última noite.” Aquilo acelerou o coração
de Björn. Seu sentimento por ela era tão forte que
seu corpo chegava a doer. Seu orgulho de homem
estava ferido e tê-la perto dele o confundia mais a
cada instante. Mas ele queria continuar a noite ao
lado dela.
— Tem certeza? — ele perguntou com
expressão impassível.
— Certeza absoluta — Mel afirmou, apesar de
saber que mais tarde se arrependeria daquilo.
Björn concordou com a cabeça, tentando
manter a compostura. Brincar com ela. Estar com ela
era o que ele mais gostava no mundo. Pegando sua
mão, ele disse: — Muito bem, Mel. Vamos curtir
essa noite.
Eles saíram da cabine e foram até as duchas.
Depois de se refrescarem, sem falar nada, foram de
mãos dadas até as camas onde mais pessoas
desfrutavam o prazer e o contato físico. Trios.
Orgias. Trocas de casais. Tudo aquilo eram jogos.
Jogos calientes que as pessoas curtiam com amigos
e desconhecidos, onde estabeleciam seus próprios
limites e suas próprias regras.
Quando Mel se sentou em uma das camas junto
com outras pessoas, Björn olhou para ela depois de
cruzar um olhar significativo com dois homens e uma
mulher que os observavam. O grupo logo se
aproximou.
Com um homem de cada lado e Björn olhando
nos seus olhos, Mel soube o que eles desejavam. Ela
segurou a cabeça dos dois desconhecidos e os guiou
até seus seios. Eles chuparam os mamilos com
vontade, e a mulher, decidida, se enfiou entre as
pernas dela. Mel se abriu e foi chupada com deleite.
Björn os observou sem mudar de expressão. O
que via o excitava. Mel era sua fonte máxima de
prazer, uma jogadora experiente. Gemidos tomaram
conta do quarto e todos desfrutaram aquilo que
gostavam. Sexo. Prazer. Fantasia.
Durante horas, a busca da satisfação foi o que
dominou tudo. Mãos diferentes os tocaram, corpos
diferentes os possuíram e todos compartilharam o
prazer, mas Mel percebeu que Björn não a beijava.
Ela tinha tentado algumas vezes, mas ele se afastou.
Ela acabou entendendo e continuou com o jogo sem
querer pensar em mais nada.
Às quatro da madrugada, depois de uma noite
repleta de sexo e prazer, Mel e Björn foram embora
dali para buscarem os carros. Com cavalheirismo,
Björn a acompanhou até o carro dela e, quando
chegaram, Mel disse com um humor melhor do que o
dele: — Foi uma noite gostosa. Fiquei feliz que o
Carl tenha te avisado.
O bom humor de Mel atingiu Björn no coração.
Como ela podia sorrir se ele era incapaz?
— Entre mim e você não existe nada de especial
— ele alfinetou com a voz dura. — Só curtimos o
sexo.
Essa declaração desnecessária doeu em Mel.
Mas, disposta a aproveitar o último momento junto
com ele, disse: — Sei muito bem o que foi isso,
Björn. Não se preocupe.
Ele concordou, um pouco desconcertado. Seu
íntimo estava repleto de contradições que nem
mesmo ele entendia.
— Vamos, sobe no carro e vai — ele a
apressou. — Está tarde.
Mel concordou, mas queria algo mais.
— Quero um beijo de despedida — ela
anunciou.
Perplexo, Björn olhou-a nos olhos. Havia
passado a noite inteira tentando não beijá-la, pois
sabia que, se começasse, não ia conseguir parar.
— Não — Björn respondeu.
A negativa tão direta fez Mel sorrir e dar de
ombros. Chegando mais perto dele, ela murmurou:
— Olha, amiguinho, eu gosto da sua boca. Eu gosto
dos seus beijos e só porque eu te pedi um, não
significa que estou pedindo amor eterno, mas só...
Não conseguiu terminar.
Björn assumiu o controle da situação,
aproximou seus lábios dos dela e fez o que tinha
vontade: enfiou a língua naquela boca que adorava e
a beijou. Passou as mãos pela cintura dela e se
entregou ao deleite daquele beijo violento e voraz.
Ele ofereceu o que ela queria e o que seu próprio
corpo pedia aos gritos. Ao se separarem, alguns
segundos depois, Mel ainda estava de olhos
fechados, saboreando o beijo. Com a boca diante
dela, ele murmurou: — Era isso o que você queria,
Mel?
Ela abriu os olhos de repente e encontrou fúria
nos dele. O que para ela havia sido um beijo
desejado há muito tempo, para ele parecia ter sido
uma obrigação sofrida. Mas como sempre,
ressurgindo das cinzas, ela se separou dele, sorriu e
buscou a tenente Parker que existia dentro dela. Mel
acendeu um cigarro antes de responder: — Ah, sim,
cretino... Me dei conta de que adoro beijar homens.
Seu comentário mordaz tocou Björn no âmago,
mas ele não deixou transparecer. Ele também não
estava sendo especialmente amável com ela. Sem
dizer mais nada, Mel entrou no carro e deu uma
piscadinha para ele com um sorriso fingido. Deu
partida e se mandou.
Quando Björn ficou sozinho no meio da rua, a
fúria tomou conta dele.
O que ele tinha feito? Por que tinha ido àquele
lugar?
O sentimento que tinha por Mel o estava
dilacerando. Ainda se lembrava do dia em que ela
tinha dito que o amava. Não conseguia esquecer as
palavras “Te amo e preciso que você me ame”.
Momentos depois, quando seu corpo parou de
tremer, Björn decidiu ir embora para casa. Era o que
devia fazer. Tudo tinha ficado claro entre os dois.
38
No sábado, dia do cozido madrilenho na casa
dos Zimmerman Flores, como sempre, um bom
número de pessoas estava reunido. Todos queriam
saborear o prato maravilhoso que Judith preparava
como ninguém.
Naquela manhã, Mel tinha acordado com a filha
na cama e, de pijama, as duas tinham brincado de
pôneis por horas. Como era divertido brincar com a
Sami!
Quando estava preparando as coisas da
pequena para irem à casa de Judith, Mel recebeu
uma convocação por telefone: precisava se
apresentar urgentemente à base de Ramstein. Eles
partiriam para o Afeganistão dali a apenas quatro
horas. Um dos aviões de abastecimento tinha sido
abatido durante o voo e não havia sobreviventes.
Sem receber mais informações, ela ficou parada
olhando para o telefone, perplexa, com as mãos
tremendo. Podia ter sido o seu avião. Podia ter sido
ela e os seus homens. O telefone tocou mais uma vez.
Era Neill.
— Te ligaram?
— Ligaram.
— Mel, sinto muito pelo tenente Smith.
Ao ouvir aquilo, Mel se deixou cair na cadeira.
— Era o avião do Robert? — ela perguntou
com um fio de voz.
Um silêncio emocionado e doloroso caiu sobre
eles.
— Sinto muito, Mel — o colega respondeu.
O gemido que Neill ouviu do outro lado da linha
foi de partir o coração. Ele sabia como Robert era
especial para sua tenente e sabia da amizade que os
unia. Neill teve vontade de ir à casa dela o quanto
antes.
— Fique calma, Mel. Fique calma.
Mas era impossível manter a tranquilidade num
momento como aquele, depois de uma notícia como
aquela. Robert, seu grande amigo Robert, tinha sido
abatido durante o voo e Mel sentiu como se estivesse
morrendo. Pensou na jovem mulher dele e no
momento difícil que ela teria que enfrentar. Ficou
desesperada. Ela tinha passado por aquilo quando
Mike morreu e era doloroso. Muito doloroso.
Imagens de Robert invadiram sua mente. Sua
animação, seu sorriso, a forma como ele gostava de
Sami. De repente, lágrimas abundantes ofuscaram
sua razão.
Durante vários minutos, Neill falou e falou,
tentando fazer Mel se recompor e se parecer mais
com a tenente Parker. Quando ela parou de chorar,
o militar falou baixinho:
— Fique calma, Mel. Eu vou passar na sua casa
pra te buscar.
— Espera, Neill — ela o interrompeu entre
lágrimas. — A Romina pode ficar com a Sami até
que a minha mãe ou a minha irmã venham buscá-la?
— Desculpa, Mel, mas a Romina ainda está
com as crianças na Califórnia.
Nervosa e fora dos eixos ao se lembrar daquilo,
Mel concordou:
— É verdade. Tudo bem. Não se preocupe.
Vou dar um jeito de encontrar alguém que fique com
ela.
Mel desligou e sentiu vontade de vomitar. Não
podia acreditar que Robert tinha morrido. Não queria
acreditar. Como podia ter acontecido uma coisa
daquelas com ele?
— Mami, po que você tá cholando?
A voz da filha a reanimou. Ela enxugou as
lágrimas e tentou sorrir, mostrando um dedo para a
menina.
— Machuquei aqui, mas...
Sem deixar a mãe terminar, Sami correu até a
bolsa, tirou uma caixa de band-aids das Princesas e
perguntou, olhando para Mel:
— Eu ponho um?
Abatida e com uma vontade terrível de chorar,
Mel fez que sim, e a filha, cumprindo o ritual de
sempre, enrolou a tirinha rosa no dedo da mãe,
falando com jeito de bebê as palavras que sempre
diziam.
— Que boooooooooom... Já não está mais
doendo! — a tenente Parker respondeu com um
sorriso amplo.
Sami sorriu. Mel lhe deu um beijo enorme no
rosto e a colocou sentada na frente da TV para
assistir aos desenhos. Sami ficou vidrada. Mel a
observava a distância e engoliu o choro ao ver que a
menina tinha colocado na cabeça a última coroinha
que tinha ganhado de Robert.
Aflita, Mel se abanou com as mãos. Precisava
ter a cabeça fria e pensar na filha. Precisava
encontrar com quem deixá-la, mas sua angústia
cresceu e cresceu e teve que correr ao banheiro para
vomitar o café da manhã. Pensar no destino terrível
de Robert e seus homens a deixou horrorizada. Mel
cobriu o rosto com as mãos e se permitiu chorar sem
fazer barulho.
Cinco minutos depois, lavou o rosto com água
fria e tentou recuperar o controle pela filha. Sami não
devia vê-la chorar. Ela segurou as emoções e se
recompôs. Voltou à sala, onde a pequena continuava
assistindo ao desenho, trocou o pijama pelo uniforme
militar, arrumou sua mochila em dois minutos e a mala
de Sami em outros dois.
O telefone tocou de novo. Era seu pai.
— Querida, você está bem?
— Estou, papai.
O major Parker achou que ia morrer quando
ficou sabendo do avião. A possibilidade de que fosse
sua filha o deixou louco e, sabendo quem era o piloto
abatido, murmurou:
— Sinto muito pelo tenente Smith. O Robert era
um bom rapaz.
— Sim, papai. Ele era — ela respondeu,
emocionada.
Incapaz de ouvir a filha chorando, o major
retomou sua voz de comando e perguntou:
— Já te mobilizaram?
Abanando-se para não chorar, ela respondeu:
— Já. Em quatro horas nós partimos pro
Afeganistão.
A voz de sua mãe soou no telefone.
— Ai, querida, que susto nós tomamos!
Mel conseguia imaginar o que eles tinham
passado quando as notícias chegaram ao gabinete do
pai. Na tentativa de se mostrar forte como era, ela
respondeu:
— Eu sei, mamãe. Eu tomo cuidado.
— O que você vai fazer com a Sami? Ai, Deus,
minha criança. Onde você vai deixar a minha menina
até eu ir buscá-la?
Aquele era precisamente um dos problemas que
Mel queria evitar quando sua mãe e sua irmã se
mudassem para o Texas. Ela pensou com agilidade e
então respondeu:
— Vou falar com a Dora agora mesmo. Com
certeza ela vai poder ficar com a Sami até você
chegar.
— Vá confirmar. Não desligue e vá falar com
ela.
Sem protestar, Mel atendeu ao pedido da mãe.
Dora a abraçou, quando a viu com os olhos cheios
de lágrimas. Mais uma vez Mel desmoronou num
choro sentido e a mulher a consolou. Quando se
recompôs, ela pediu que Dora ficasse com a
pequena, mas a mulher se emocionou ao ter que dizer
que só poderia ficar com ela por uma hora, pois
estava indo viajar com a irmã. A mente de Mel
trabalhou a todo vapor e então ela pensou em Judith.
Ela ficaria com a menina sem nenhum problema.
Dora ficaria com Sami e Judith iria buscá-la.
Despediu-se da vizinha, correu até a sua casa, pegou
o telefone e respondeu à mãe: — Mamãe, a Dora
não pode ficar com ela. Quando você vier, vai ter
que buscar a Sami na casa da minha amiga Judith.
— A menina vai ficar bem com ela?
Mel sorriu tristonha ao ouvir a pergunta e
afirmou com toda a certeza:
— Vai, mamãe, o Eric e a Judith vão cuidar da
Sami tão bem como cuidam dos filhos deles.
— Está bem, filha, se você diz, confio que vai
ser assim. Estou procurando um voo e o mais cedo
que vou conseguir chegar vai ser depois de amanhã.
— Sem problemas, mamãe, a Sami vai ficar
bem.
Mel deu o endereço de Judith, desligou o
telefone e ligou para o celular da amiga, que estava
ocupado. Sem tempo a perder, ela desligou e pensou
em ligar alguns minutos mais tarde.
Com os olhos embaçados pela partida, Mel
abraçou a filha. Não gostava de se separar dela
assim tão de repente e ainda menos por um motivo
daqueles. Sami, que tinha percebido o uniforme
militar, supôs que a mãe estava de partida e a
agarrou desesperada. Mel tentou tranquilizá-la com
vários beijinhos e brincadeiras enquanto desciam no
elevador com Dora.
Assim que o Hummer de Neill apareceu, Mel foi
rápida em sua despedida. Deixou a filha chorando
nos braços de Dora e subiu no carro. Tinha que
cumprir com seu dever, embora tivesse o coração
destroçado pelo choro da filha e pela morte de
Robert. Vendo seu estado, Neill a abraçou.
A casa de Judith e Eric cheirava a um cozido
madrilenho de dar água na boca. Eric, feliz com a
reunião familiar dos sábados, foi até sua esposa
atarefada e perguntou:
— A Mel vem com a menina?
— Ela me disse que sim.
Estranhando a demora, Jud foi verificar o celular
e viu quatro chamadas perdidas. Ela tentou ligar de
volta, mas Mel não atendeu. Isso era ainda mais
estranho. Resolveu deixar uma mensagem de voz.
— Oi, Mel. Vi que você me ligou. Me liga, ou
senão eu ligo. Um beijo.
Em seguida, Judith cumprimentou Marta e
Arthur, que chegavam naquele momento junto com
outros amigos. Quando Björn apareceu, foi recebido
com carinho, apesar de Judith, por causa do que
tinha acontecido da última vez, ter lhe lançado seu
olhar espanhol.
Ele bufou impaciente. Não gostava que Jud o
olhasse daquele jeito e quando não aguentou mais, foi
até ela, que estava com Eric, puxou-a pelo braço e a
obrigou a entrar com ele e o marido na cozinha.
— Tá bom, sou um babaca. Mas, por favor,
fala comigo!
Jud segurou a risada. Ela já sabia que Björn não
resistia quando ela o olhava daquele jeito.
— Hoje faça o favor de manter o biquinho
fechado. Quero ter uma festa em paz. Odeio quando
você e a Mel discutem.
— Eu prometo.
Ela fez que sim e acrescentou, com vontade de
lhe dizer umas verdades:
— Olha, Björn, vou falar uma coisa pra você e
prometo que nunca mais vou voltar a me meter na
sua vida, mas quero que você saiba que a Mel vale
mil vezes mais do que a Fosqui e eu estou cagando
que você me ache uma merda de uma leva e traz
intrometida, mas você é meu amigo e eu tenho que te
dizer, porque acho que se você falasse com a Mel,
vocês poderiam chegar a um acordo. E antes que
você me diga que não, tenho consciência de como
você se preocupa com ela e sei que você pergunta ao
Eric se ela está bem. E tem mais. Ela vem almoçar e
faça o favor de parar de babaquices e tentar resolver
todo esse mal-entendido, porque uma coisa é certa:
você gosta dela e ela gosta de você. Você vai deixar
que ela se mude pro Texas?
As verdades que Judith jogou em sua cara
deixaram Björn sem ação. Ele a encarou e então
tentou rebater:
— Bem que você gostou de me falar tudo isso,
né?
— Gostei — Jud respondeu. — Você sabe
bem.
Eric abriu a geladeira sem deixar de olhar para
eles. Tirou duas cervejas e uma Coca-Cola e
ofereceu, propondo:
— Brindemos à amizade.
Os três sorriram, fizeram tim-tim com as
garrafas e beberam um gole. Em seguida, o celular de
Judith tocou e ela rapidamente o atendeu, ao ver que
se tratava de Mel.
— Onde você está? — ela perguntou, ao ouvir
um ruído estrondoso.
No aeroporto de Munique, Mel corria junto aos
companheiros até o hangar.
— Jud — disse apressada —, só tenho alguns
minutos e preciso te pedir um favor enorme. Você
não pode me dizer que não.
Assustada, Judith olhou os dois homens, que a
encaravam, e perguntou:
— O que foi?
Sem saber se ela tinha ficado sabendo das
notícias ou não, Mel respondeu com um fio de voz:
— Deixei a Sami com a Dora porque estou a
caminho do Afeganistão. Houve um problema militar
e...
— O que aconteceu?
Incapaz de conter um gemido ao falar com a
amiga, a dura tenente Parker murmurou:
— Meu amigo Robert, o homem que me
acompanhou à festa da empresa do Eric, ele está
morto... ele e seus homens estão mortos. Deus meu,
o Robert está morto, Judith, e não posso acreditar.
— Mel respirou fundo antes de acrescentar, tentando
se recompor: — Preciso que você vá buscar a Sami
na casa da minha vizinha e a leve para a sua casa. A
Dora precisa sair em menos de uma hora.
Provavelmente depois de amanhã a minha mãe vai
chegar do Texas para buscá-la na sua casa. Por
favor, você pode cuidar da Sami até que ela chegue?
Sua voz acelerada e desesperada mostrava o
quanto ela estava nervosa.
— Claro que sim, Mel — Judith respondeu. —
Fique tranquila e não se preocupe com nada.
— Judith, por favor, vai buscar a Sami — ela
gemeu, olhando o band-aid rosa no dedo.
— Assim que você desligar eu vou pegar a
menina, eu prometo. — Björn estava olhando para
ela, quando Jud perguntou: — Mas você está bem?
— Não se preocupe comigo. Só a Sami
importa. Não acho que vou conseguir ligar pra você
nas próximas horas. Por favor, não se esqueça dela,
por favor.
— Calma, Mel. Vou buscá-la agora mesmo,
não se preocupe com nada. Você sabe que nós
vamos cuidar bem dela.
— Preciso desligar. Obrigada, Judith.
Quando ela desligou, olhou para os homens que
estavam ao seu lado com jeito confuso e anunciou:
— Temos que ir buscar a Sami na casa da
vizinha.
— O que foi? — perguntou Björn.
Judith, sem entender a gravidade da situação,
afastou o cabelo do rosto e respondeu:
— Não sei bem. Um amigo da Mel chamado
Robert morreu. A Mel não vem, está a caminho do
Afeganistão.
Morreu?!
O rosto de Björn se contorceu. Mel, a sua Mel,
estava indo embora e ele não tinha conseguido falar
com ela. Com a expressão furiosa, Björn deu um
soco no balcão da cozinha. Eric, ao vê-lo, pegou-o
pelo braço e pediu calma. Dois segundos depois,
Björn tratou de recuperar a compostura.
— Jud, vamos buscar a Sami — ele disse.
Quando chegaram à casa da vizinha de Mel, a
menina ainda estava chorando. Estava com os
olhinhos inchados pela tristeza de ter visto sua mãe
indo embora, mas ao ver Björn, ela se jogou nos
braços dele, choramingando. Precisava que ele
cuidasse dela.
Com um carinho do fundo de seu coração,
aquele alemão lindo e grandalhão acolheu a menina
nos braços e a ninou e consolou enquanto beijava sua
cabecinha:
— Não chore, princesa. Não precisa mais
chorar.
— Onde tá a mami?
— Ela foi trabalhar, mas logo ela volta, querida.
Eu prometo.
A menina fez que sim com a cabeça e, olhando
para o homem que a segurava no colo, sussurrou,
esfregando os olhos:
— A mami cholou, mas eu coloquei um
culativo das pincesas e ela palou de cholá.
Confuso, Björn não sabia o que responder.
Olhou para Judith, que os observava, e abraçou mais
uma vez a menina.
— Você fez bem, Sami. As Princesas vão
proteger a sua mãe.
A vizinha, horrorizada pelas notícias que tinha
ouvido e pelo estado de Mel, contou o que tinha
acontecido com o avião igual ao que a jovem militar
pilotava. Aquilo aumentou a angústia e o medo de
todos. Judith pegou a mala que a mulher lhes
entregava. Björn, tentando pensar com clareza
apesar de estar atordoado, perguntou: — Onde está
a Peggy Sue?
Dora se lembrou da hamster e levou as mãos à
cabeça. Na pressa de sair, Mel havia se esquecido
do animal. Rapidamente, todos subiram até sua casa.
Björn estava entrando naquele lugar pela
primeira vez. Depois de observar ao redor, entendeu
por que ela nunca quis que ele subisse: o apartamento
era muito pequeno e estava cheio de fotos de
militares. De Mel com o pai. De sua família das
Astúrias com Sami. Dela e Sami com Neill, Fraser e
mais homens uniformizados em frente a um avião, e
ao ver uma de um homem loiro, soube que era Mike.
Tinha o mesmo sorriso da menina.
Havia muitas fotos de Sami, e Björn sorriu ao
ver uma foto dele e Mel nas Astúrias, com a cara
melecada de chocolate. Aquilo o emocionou. De
repente foi como se ele tivesse visto tudo com
clareza. Como podia ter sido tão idiota e tão cego?
Quando Dora pegou a gaiola da hamster, Sami
a agarrou com as mãozinhas e perguntou, encarando
Björn:
— A Peggy Sue vai?
Ele sorriu e beijou a cabecinha dela,
concordando.
— Claro que sim, princesa. A Peggy Sue vai
com a gente.
Judith o observou, comovida. O que estava
vendo no amigo era amor puro e verdadeiro. No
carro, depois de terem colocado a menina na
cadeirinha no banco de trás, Judith perguntou:
— Por que você deixou tudo isso chegar ao
limite, Björn? Por quê? Você sabe que a Mel te ama
e você a ama. Ela tentou chamar sua atenção, pedir
perdão e você a rejeitou. Como pôde fazer isso?
Desesperado e morto de preocupação, Björn
suspirou:
— O orgulho me cegou, Judith. — E vendo
como ela olhava para ele, disse ainda: — Está bem...
pode falar. Eu mereço. Estou esperando.
— Babaca. Você é um autêntico babaca.
— Eu sei... te dou toda a razão.
Abatido como nunca antes em sua vida, Björn
tocou os olhos.
— Você tem que resolver isso, Björn — Judith
afirmou. O sofrimento do amigo a tocava. —
Quando ela voltar, você tem que fazer alguma coisa,
ou a Mel vai pro Texas e vocês dois serão infelizes.
Björn estava convencido de que seria aquilo que
aconteceria e, no momento, sentia-se angustiado de
não saber como Mel estava.
— Eu prometo, Jud, que quanto ela chegar, eu
vou resolver essa história.
Naquela tarde, na casa de Eric e Jud, a pequena
Sami não se separou nem um segundo de Björn, que
também não a deixou. Juntos brincaram de princesas
e pôneis. Ele entrou com ela na piscina e se sentiu o
homem mais feliz do universo quando a fez sorrir,
apesar da preocupação pelo que tinha visto no
noticiário o estar corroendo por dentro.
À noite, depois de dar de comer a Peggy Sue,
Björn conseguiu que ela jantasse e depois dormisse,
agarrada a seu pescoço.
— Björn — Eric disse, olhando para ele —,
acho que é melhor a gente levá-la para a cama.
Sentado no sofá com a menina no colo, Björn
tirou sua coroinha e murmurou como um bobo:
— Ela é linda, não é?
Eric olhou a menina de cachos loiros e
concordou com um sorriso.
— É, sim. Ela é uma graça de menina. — E
tocando o ombro dele, acrescentou: — Não se
preocupe com nada, a Mel vai ficar bem.
Björn concordou e sem poder entender,
comentou:
— Como pôde querer ser militar? Ela está
constantemente em perigo. Por acaso ela não
percebe?
Judith entrou naquele instante e se sentou ao
lado dele antes de responder ao que tinha ouvido:
— Foi a rebeldia que a levou a ser militar. O pai
dela sempre quis um filho que seguisse seus passos,
mas teve duas filhas e Mel acabou decidindo ser esse
menino que o pai nunca teve. Ela me disse que quis
mostrar pra ele que não precisava ter algo pendurado
entre as pernas para ser forte e ser militar.
Isso fez Björn sorrir. Ele nunca havia dado a
Mel a oportunidade de contar aquela história.
— Ela gosta do que faz — Judith prosseguiu —,
mas disse que desde que teve a Sami, realmente não
sabe se está fazendo a coisa certa, mas não tem outra
opção. Ela precisa continuar no exército pra criar a
filha.
— Quando ela voltar, vou oferecer um trabalho
na Müller — Eric sugeriu.
Ao ouvir o amigo, Björn afirmou:
— Quando ela voltar, eu cuido dela. Podem ter
certeza.
Houve um silêncio entre os três e então Judith
disse ao marido:
— Querido, pegue a menina e a leve ao quarto
do Eric.
— Vocês se importam se hoje eu dormir aqui?
— Björn perguntou.
Eric entendeu o que o amigo pretendia e disse:
— Vocês podem dormir no quarto ao lado do
quarto do Eric. Tem duas camas lá.
Dois minutos depois, com delicadeza, Björn pôs
a menina na cama e colocou várias almofadas pelo
chão como Mel tinha feito em outras ocasiões.
Porém, não satisfeito, decidiu arrastar a sua cama e
colocar ao lado, para evitar que a menina caísse.
Ele deu um beijo na cabeça dela, desceu até a
sala onde Eric tinha deixado um computador e entrou
na internet. Precisava procurar notícias sobre o
atentado. Ao ver as primeiras imagens do avião
abatido, do qual não havia sobreviventes, sentiu o
sangue congelar nas veias e ficou louco de
preocupação. Com o coração gelado, Björn leu que
outros dois aviões tinham se dirigido ao local do
desastre. A partir daquele instante, a palavra
“tranquilidade” desapareceu de sua vida.
39
No dia seguinte, depois de deixar Sami na
creche, Björn foi com Judith à sede do canal CNN,
onde Agneta trabalhava. Com certeza ela teria
notícias recentes do atentado. Logo que ela o viu
aparecer, seu rosto se iluminou com um sorriso
cordial, que sumiu assim que avistou Judith.
O que ela estava fazendo ali?
Judith notou e decidiu permanecer em segundo
plano. Só Mel importava nesse momento.
Em cima de sapatos de salto impressionantes e
rebolando no terninho caríssimo de grife, a
apresentadora se aproximou de Björn e disse com
voz melosa, depois de o beijar no rosto:
— Que alegria ver você aqui. — E ao notar que
Björn tinha a barba por fazer, ela perguntou: — O
que aconteceu, meu bem?
— Agneta, preciso de um favor — Björn disse
pegando-a pelo braço e indo direto ao ponto.
— É só falar — ela piscou os olhos várias
vezes, olhando contrariada para Judith.
Sem tempo a perder, ele contou a ela o que
sabia do incidente militar e disse por fim:
— É por isso que eu estou aqui. Sei que vocês
da redação recebem as notícias continuamente sobre
o atentado e com certeza você poderá me dizer mais
do que eu sei.
O rosto de Agneta se transformou.
— A tal da Mel de quem você está falando é a
mulher que...? — ela perguntou com uma expressão
azeda.
— É... — Björn respondeu logo. Não estava
para brincadeiras.
A famosa apresentadora, entendendo logo quem
era aquela mulher e também o poder que a sua
informação tinha naquele momento, torceu o nariz e
fez uma proposta:
— Janta comigo essa noite e eu vejo o que
posso contar.
Björn, que também não estava nem para
jantares, nem para o que ela sugeria, protestou:
— Eu vim pedir sua ajuda, não um jantar.
A apresentadora se ofendeu com as palavras e a
expressão dura que viu no rosto dele.
— Pois eu sinto muito, Björn. Não posso te dar
nenhuma informação.
— Agneta — ele suplicou desesperado —, por
favor.
Judith ouviu a súplica dele e viu como a mulher
olhava para as unhas, sem se importar com o estado
de seu amigo.
— Não. Impossível — Agneta respondeu. —
As notícias que chegam à redação passam por uns
filtros antes que a gente possa divulgar. Portanto,
não. Não posso informar nada sobre o ocorrido.
A fúria se apoderou de Björn, mas, depois de
cruzar o olhar com Judith, que estava fervendo de
raiva, tentou se controlar. Ele precisava daquela
informação. Precisava saber que o avião de Mel tinha
chegado bem. Durante um bom tempo, tentou por
todos os meios que Agneta mudasse de opinião, até
que percebeu o jogo sujo dela. Ele não aguentou
mais e então explodiu: — Você está me dizendo que,
por você saber que eu estou apaixonado pela Mel,
você não vai me dar essa informação?
Sem pestanejar e com um olhar congelante,
Agneta respondeu apenas:
— Estou.
Björn não quis ouvir mais. Estava claro que ela
não ia ajudá-lo e com expressão de desagrado total,
ele explodiu antes de ir embora.
— Sabe de uma coisa, Agneta? A amizade é
algo que eu valorizo muito nesta vida e hoje você está
me demonstrando que de minha amiga você não tem
absolutamente nada. Você sabe que eu amo essa
mulher loucamente e, em vez de me tranquilizar e de
me ajudar, você está colocando obstáculos no meu
caminho. Pois muito bem, a partir de agora, esquece
que eu existo, e eu vou me esquecer definitivamente
de você.
Björn começou a caminhar confuso em direção
à saída do edifício. Judith, que tinha se mantido à
margem pelo bem da informação de que precisavam,
se aproximou da mulher e disse:
— Nunca gostei de você.
— Nem eu de você.
Sentindo vontade de pegá-la pelo pescoço,
Judith enfiou as mãos nos bolsos para não as utilizar
e, sem se aproximar mais do que o estritamente
necessário, disse em voz alta para que todos a
ouvissem: — Você sempre me pareceu uma imbecil
convencida só porque é apresentadora. Mas o que
você acabou de fazer com o Björn me fez perceber
que, além de imbecil, você é uma vagabunda ridícula.
Você não sabe o que é amizade, nem o que é o amor
e tenho certeza de que nunca vai saber, porque você
é uma pessoa tão má que é incapaz de olhar além da
merda do seu umbigo.
As pessoas que passavam por ali ficaram
olhando as duas mulheres. Judith, já se afastando,
concluiu:
— O único bem que o Björn vai tirar de tudo
isso é se dar conta da classe de cadela a que você
pertence. Adeus, Fosqui, juro que com isso ele não
vai chegar perto de você nunca mais.
Dois dias depois, os pais de Mel apareceram na
casa de Judith.
A menina correu ao ver sua avó e a abraçou.
Contente, Judith os convidou a entrar e Luján se
surpreendeu ao ver Björn ali. Muito feliz, ela o
cumprimentou e o apresentou ao marido. O major
Parker, ao entender pelo olhar da esposa que aquele
era o jovem com quem sua filha tinha tido algo
especial, fez um gesto de cabeça e endureceu a
expressão.
Judith os convidou para almoçar. Ela era uma
anfitriã espetacular e, pelo bem de Sami, todos
tentaram não fazer drama. Não sabiam nada de Mel,
exceto que seu avião tinha decolado do lugar do
acidente, rumo à base americana.
Enquanto Eric falava com o major Parker e com
Judith, Luján foi até Björn, que estava observando
Sami brincar, e disse:
— Sinto muito pelo que aconteceu entre você e
a minha filha. E quero que saiba que os americanos e
os militares não são pessoas más, Björn. Judith me
contou o que aconteceu com você e com esse
comandante sem-vergonha e só posso dizer que eu
lamento. Mas você não deve pensar que todo mundo
é igual, porque você estará cometendo um equívoco.
— Eu sei, Luján, eu sei e me sinto péssimo.
— A minha filha é a tenente Parker, mas quando
tira o uniforme e as botas militares, ela é a Melanie,
uma jovem encantadora que tenta seguir em frente
como pode, como a vida lhe permite — Luján disse
e acrescentou com tristeza: — Tenho certeza de que
ela não está bem. O piloto que foi morto, Robert
Smith, era um amigo próximo, um rapaz excelente e
sei que a minha filha, apesar de tentar ser durona,
está sofrendo por isso. Tanto ela como Robert ou os
homens que os acompanham em seus voos são uma
grande família. Eles tomam conta uns dos outros e se
protegem e se amam. Você está muito enganado se
acha que, por serem americanos, eles são frios e não
têm sentimentos.
Envergonhado pelo que Luján parecia saber,
Björn concordou:
— Você tem razão, Luján. Sinto profundamente
ter sido tão idiota. E nunca vou me cansar de pedir
perdão a vocês por ter me comportado como um
autêntico imbecil. Sei que fiz Mel pagar por algo que
me atormentou no passado e não soube entender que
o primeiro a colocar limites pra que ela não me
contasse a verdade fui eu mesmo. Mas tenham
certeza de que, quando ela voltar, eu vou resolver
tudo.
— Agora é tarde, Björn. O pai dela está
arranjando tudo pra que ela siga em frente com a
vida em Fort Worth, quando voltar desta missão.
Vamos contratar uma mudança e o pouquinho que
ela tem aqui vai ser levado e...
— Eu não vou permitir que ela vá.
— Björn... ela é militar e...
— Luján — ele interrompeu —, a sua filha e a
Sami não vão a lugar nenhum. Elas vão ficar comigo
e eu vou tomar conta delas.
Ao ouvir isso, todos olharam para ele e o major
Parker interveio:
— A Melanie vai morar com a gente em Fort
Worth, rapaz. Por isso, eu te peço que a deixe em
paz. Você já causou sofrimento suficiente, não acha?
Björn não se intimidou frente àquele militar que
o encarava com expressão dura.
— Eu assumo os problemas que posso ter
causado a ela — Björn assegurou —, mas não vou
deixá-la em paz. E pode ter certeza de que ela e a
Sami vão ficar em Munique, vivendo comigo. Eu
cuidarei delas porque as amo. Adoro a Mel e adoro
a Sami. Não vou permitir que elas saiam de perto de
mim por mais que o senhor tente me convencer do
contrário.
O major Parker, com o mais militar dos jeitos,
franziu as sobrancelhas e sussurrou:
— E quero lembrar a você, meu jovem, que a
minha filha continua sendo militar e americana. Ela
sempre teve orgulho dos genes dela e eu não vou
permitir que ninguém a faça mudar de opinião.
Björn sentou-se frente a ele e esclareceu:
— Ninguém vai fazê-la mudar de opinião. Eu só
pretendo cuidar dela e ser o homem que precisa pra
que ela fique comigo na Alemanha. — Vendo como
o major o encarava, ele acrescentou: — Se o senhor
quiser, podemos conversar. Mas quero que fique
claro que nem os seus distintivos, nem as suas
medalhas, nem o seu tom de voz me impressionam.
Eu não tenho distintivos, mas sei erguer a voz e
defender o que eu amo e eu amo a sua filha.
Naquela noite, Björn conversou com o major
Cedric Parker durante mais de quatro horas. Quando
ele e sua mulher levaram Sami embora, Björn ficou
de coração partido. Pela primeira vez em toda a sua
vida, a solidão tomou conta dele. Quando chegou em
casa e olhou ao redor, ele chorou, chorou ao sentir-
se impotente.
40
Um mês depois, a tenente Melanie Parker e sua
equipe aterrissaram com o C-17 novamente na base
de Ramstein, no oeste da Alemanha, depois de várias
viagens que os levaram ao Líbano, ao Kuwait e aos
Estados Unidos para assistir aos funerais dos
companheiros mortos no avião abatido. Além disso,
também tinham ido a Bagdá e resgatado vários
soldados feridos e alguns jornalistas americanos que
tinham sido libertados.
O funeral de Robert foi triste. Desolador.
Savannah, abraçada a Mel, chorava inconsolável, e
ela não pôde fazer nada a não ser retribuir o abraço e
compartilhar sua dor.
O comandante Lodwud foi vê-la assim que
soube que o avião de Mel tinha aterrissado.
— Tenente Parker, bem-vinda — ele
cumprimentou, quando se encontraram frente a
frente.
— Obrigada, senhor.
— Vou estar no meu gabinete esperando os
relatórios.
Mel concordou. Preencheu junto a Fraser e
Neill toda a papelada e se encaminhou até o hangar.
Quando chegou diante da porta, como sempre, ela
bateu. Assim que ouviu a voz do comandante, ela
entrou, porém, diferente das outras vezes, não
passou o trinco.
Lodwud entendeu a mensagem. Ele se levantou
da mesa, andou até ela e a abraçou.
— Eu fiquei preocupado com você. Você está
bem?
— Estou.
— Lamento o que aconteceu com o tenente
Smith e os homens dele. Sei da amizade que unia
vocês.
— Obrigada, James.
Lodwud se separou dela e se sentou de novo.
Mel, que tinha permanecido de pé em frente à mesa,
disse então: — Se o senhor assinar os papéis, vou
poder retornar com os meus homens.
— É certo que você vai para Fort Worth?
— É. O major Parker está resolvendo todos os
detalhes.
— Por que você vai?
— Assuntos de família.
Lodwud se deu por satisfeito e assinou a
papelada sem perguntar mais nada. Mel olhou para
ele com um sorriso no rosto. À sua maneira, aquele
militar sempre tinha sido um bom amigo e um
companheiro.
— Espero que algum dia você supere a história
da Daiana, como eu acredito ter superado a história
do Mike. Você merece uma vida melhor, James, e eu
sei que você vai tê-la. Eu sei.
Ele olhou para ela quando respondeu:
— Foi um prazer te conhecer, Mel.
Ela andou até ele, se abaixou e o abraçou.
— Digo o mesmo, James. Obrigada por tudo,
porque, à nossa estranha maneira, você me ajudou a
seguir vivendo. — Eles sorriram. — Espero que, se
alguma vez você for a Fort Worth, a gente possa se
ver outra vez, mesmo que nossos encontros já não
sejam como os de antigamente.
Eles sabiam que aquilo era uma despedida.
Tinha chegado o momento de esquecer os fantasmas
do passado e de tentar retomar suas vidas. Eles se
afastaram, Mel pegou os papéis assinados e saiu do
gabinete. Assim que ela se foi, o comandante olhou
para a porta e sorriu por Mel. Ela era uma boa moça.
Naquela tarde, na base de Ramstein, vestidos
ainda com o uniforme camuflado, Neill e Mel se
despediram. Ela pegaria um voo que a levaria até
Madri e de lá, outro até as Astúrias. Sua filha estava
vindo de Fort Worth com a avó e a tia para se
encontrar com ela lá.
— Fraser foi embora no pássaro do Thomson
faz uma hora. Ele voltou ao Kuwait. Pelo visto, o
irmão dele estava em missão lá e ele queria vê-lo.
Cansado da viagem, Neill apenas concordou.
— Mel, descanse quando chegar nas Astúrias
— ele aconselhou. — Você precisa.
— Você também.
Com um olhar triste, o militar olhou para ela e
confessou: — Pilotar com você todos esses anos foi
incrível. Espero que em Fort Worth eles te tratem
como você merece.
— Digo o mesmo, Neill. Mas você não vai me
perder de vista. Com certeza vamos voltar a nos
encontrar em algum outro conflito, mesmo que você
saiba que, dentro de dez meses, minha intenção seja
deixar o exército para me dedicar a outra coisa.
Preciso mudar de ares, pela Sami e por mim.
Os dois riram e Neill comentou:
— Acho que o exército vai perder um piloto
maravilhoso, mas o mundo vai ganhar uma ilustradora
maravilhosa algum dia.
Abraçaram-se com carinho. Neill foi embora e
ela ficou sozinha no aeroporto. Mel tirou do bolso o
band-aid das Princesas que sua filha tinha colocado
em seu dedo no dia que ela tinha deixado a
Alemanha e sorriu. Depois pendurou a mochila nas
costas e caminhou até o avião que a levaria à
Espanha.
41
A chegada às Astúrias naquela ocasião foi
diferente. Ela ficou triste por Scarlett não ter ido
buscá-la no aeroporto. Já tinha se acostumado a ver
a maluquinha da irmã ali e não encontrá-la fez Mel
sentir saudade em dobro.
Ainda uniformizada, ela alugou um carro e foi
diretamente para a casa de sua avó. Chegando lá, a
porta do casarão se abriu e Covadonga, ao ver que
se tratava de sua neta, correu para recebê-la com os
braços para o alto.
— Ai, minha menina... ai, minha menina, você
voltou para casa!
Mel sorriu e abraçou a mulher que tanto amava.
— Oi, vovó — sussurrou. — Já estou aqui de
novo.
Naquele momento, a preocupação de
Covadonga desapareceu e ela olhou sua menina
com o olhar vítreo.
— Você está bem, minha vida? — ela
perguntou.
— Estou.
— Eu estava muito, muito preocupada com
você.
— Estou perfeita, a senhora não vê? — Mel riu
muito feliz.
Covadonga a encheu de beijos e gritou a todas
as vizinhas que a filha do Ceci e de sua filha Luján
tinha voltado. Ao vê-la vestida de militar, todos a
trataram como uma heroína. Naquela ocasião, Mel
não corrigiu a avó. Se ela tinha decidido chamar seu
pai de Ceci, não iria corrigi-la nunca mais.
Naquela noite, por volta das sete, quando Mel
caiu na cama, dormiu como uma pedra. Estava
esgotada. Covadonga a deixou dormir, pois bastava
ver a cara de cansaço de sua menina para saber o
quanto ela precisava de repouso.
No dia seguinte, Mel acordou às três da tarde.
Ela tinha dormido quase vinte horas seguidas, apesar
de ter acordado angustiada algumas vezes por causa
dos pesadelos. Não conseguia esquecer o que tinha
acontecido, o que a impedia de descansar com
tranquilidade.
Quando se levantou, olhou pela janela e viu que
o dia estava cinzento e com um pouco de névoa. Em
março, os dias nas Astúrias costumavam ser
cinzentos e aquele era um dos muitos.
Quando a avó a viu aparecer, sorriu e foi
abraçá-la.
— Você descansou bem, minha menina?
— Descansei sim, vovó — mentiu. — Dormi
como uma pedra, como se diz!
Covadonga estava feliz por ter a neta de volta e
serviu para ela um prato de sopa.
— Vamos, coma logo — ela a apressou.
Mel torceu o nariz e resmungou:
— Acabei de acordar, vovó. Não estou com
vontade de comer.
Mas a mulher estava disposta a engordar sua
menina e por isso insistiu: — Coma! Você está
parecendo um saco de ossinhos.
Sem muita vontade, Mel fez a vontade da avó.
Porém, quando o caldinho asturiano começou a bater
no estômago, ela reconheceu que aquilo estava
caindo muito bem. Olhou no relógio: quatro da tarde.
— A que horas a minha mãe disse que chegava
o avião?
Covadonga pegou um papel de cima da lareira e
entregou a ela.
— Ela disse que iam chegar às sete. Ah... o
Ceci vem também.
— Meu pai vem?
— Sim, menina... o seu pai também vem. Com
certeza ele veio encher o saco, como sempre.
— Vovó!
A senhora deu uma gargalhada e Mel teve que
rir também. Sua avó gostava do genro mais do que
queria admitir. Quando terminou o caldo, Mel olhou
pela janela.
— Vovó, vou dar um passeio na praia, ela deve
estar linda hoje.
— Com essa umidade? — estranhou a velha.
Ela conhecia a neta e por isso acrescentou: — Vá...
vá, menina, vá, você sempre gostou de passear pela
praia. Mas, antes, vá trocar de roupa. Não vá sair de
pijama.
Como Mel não tinha muitas roupas nas Astúrias,
vestiu de novo a do dia anterior: calça camuflada e
jaqueta do exército. Quando chegou à linda praia de
La Isla, Mel sorriu. Apesar da neblina, aquele lugar
era o mais bonito e mágico que ela jamais tinha visto.
Ela caminhou até uma lateral e sentou-se sobre
uma rocha. Durante um bom tempo, ela observou
algumas mulheres que passeavam e aproveitou o som
e a visão do mar. Observá-lo sempre a relaxava.
Pensou na sua pequena Sami, estava com
vontade de vê-la e, inconscientemente, pensou em
Björn. Ela também tinha vontade de vê-lo, mas sabia
que não devia. Encontrar-se com ele e continuar com
os jogos eróticos só provocaria dor e sofrimento. Era
preciso acabar de uma vez por todas com aquilo e
uma maneira excelente de resolver aquela história era
o que iria fazer: iria embora para Fort Worth. Assim
evitaria as tentações.
Quando sentiu o pescoço começar a doer por
ficar sentada naquela pedra fria, Mel se levantou e foi
andando até a beira do mar, mas antes que a água
tocasse seus pés, ela parou. Ficar molhada seria uma
temeridade, pois a água do Mar Cantábrico em
março era fria que nem gelo. Mel se contentou em se
agachar e tocá-la com a mão.
Começou a caminhar até o outro extremo da
praia, sentindo a cabeça fervilhar com centenas de
pensamentos. Robert. Savannah. Björn. Sami.
Afeganistão. Como era possível que ali existisse tanta
paz, que se pudesse passear tranquilamente enquanto
em outros lugares as pessoas se matavam sem
qualquer sentimento de forma descontrolada?
Mel estava perdida em seus pensamentos
quando o som de um carro atraiu sua atenção, e
quando olhou, viu que ele estava estacionando junto
a um dos espigueiros típicos das Astúrias. Dele
desceram duas pessoas. De longe, ela viu que eram
um homem e uma criança. Mel os observou atenta e
então o movimento da criança correndo chamou sua
atenção.
Mel ficou olhando com curiosidade. Aquele
saltimbanco corria com a mesma graça de sua filha.
Aquela visão a fez sorrir. A vontade que tinha de ver
Sami era tão grande que Mel pensava vê-la em todo
lugar. Porém à medida que a criança se aproximava e
era possível ouvir sua risada, sentiu o coração
começar a bater com força.
Mel parou no meio da praia e explodiu de
felicidade quando viu que não eram outros senão
Sami e Björn.
Björn? O que ele estava fazendo com sua filha?
— Mami! Mami! — a pequena gritava.
Emocionada, Mel saiu correndo pela areia.
Aquela era a sua menina. Quem estava chamando
por ela era Sami. O espaço entre as duas foi
diminuindo e Mel já conseguia ver com clareza que
sua filha, com a famosa coroinha na cabeça, corria de
braços abertos em busca de sua mamãe. Quando
Mel chegou até ela, se agachou, a agarrou e a
abraçou de olhos fechados, sorrindo emocionada
pelo reencontro.
Sami exalava vida, infância, inocência e futuro, e
sentir suas mãozinhas enlaçando-lhe o pescoço quase
fez Mel chorar de felicidade. Como tinha sentido
saudades!
Mãe e filha permaneceram abraçadas durante
vários minutos. Assim que Mel abriu os olhos, viu
Björn se aproximando com as mãos nos bolsos do
jeans. Seu coração se descontrolou ao vê-lo ali, com
um casaco de lã preto. O sorriso dele a deixou ainda
mais confusa, especialmente quando a cumprimentou:
— Olá, tenente Parker.
Sem entender bem o que ele estava fazendo ali
com sua filha, Mel fez menção de falar, mas a criança
atraiu sua atenção.
— Mami, a Peggy Sue escapou dento do calo
e o píncipe teve que pegá ela.
Mel olhou para Björn com espanto e ele
confirmou a história com jeito divertido: —
Asqueroso. Quase tive um troço quando precisei
parar o carro pra pegar o animal, mas pela minha
princesa Sami eu resgato o que for. Aliás, sua mãe
quase teve um infarto ao ver o bicho solto pelo carro.
De repente, gritos despertaram Mel. Numa
lateral da praia, seus pais e sua irmã Scarlett
chamavam a menina. Assim que ela os viu, Sami saiu
correndo, deixando a mãe e Björn a sós.
— Quando os meus pais chegaram com a
Sami? — Mel perguntou, ainda desconcertada pela
presença dele.
— Faz uma hora. Eu fui buscá-los no aeroporto.
Depois fomos até a casa da sua avó e ela nos disse
que você estava aqui.
Confusa, Mel piscou várias vezes e perguntou,
fitando Björn nos olhos: — E você, o que está
fazendo aqui?
Com a voz segura, apesar de estar se sentindo
nervoso por ter Mel diante de si, ele respondeu: —
Eu precisava te ver, Mel.
Ela não soube o responder.
— Eu sinto muito pelo que aconteceu ao seu
amigo Robert e aos homens dele — Björn
acrescentou. — Sinto de todo o coração, querida.
“Querida”?!
Como ela tinha desejado ouvir aquela palavra!
Porém, Mel fechou os olhos ao se lembrar da morte
do amigo. Pensar que nunca mais voltaria a ver
Robert ainda doía demais.
Quando recuperou o controle, Mel abriu os
olhos e encarou Björn. Olhou para o homem que
amava, que desejava, que precisava. Sem palavras,
eles disseram o que estavam sentindo. Sem falar
nada, se comunicaram. Björn tinha vontade de tocá-
la. E então, ao ver as olheiras que ela tinha no rosto
cansado, ele se desculpou: — Me perdoa, querida.
Eu também não facilitei as coisas.
Os sentimentos que afloravam nela por tudo o
que tinha acontecido a atordoavam. Sua filha vinha
chegando com os avós e Mel se apressou em
sussurrar com um fio de voz: — Você está
perdoado.
Björn sorriu, tirou as mãos dos bolsos e as
estendeu para ela.
— Vem aqui, linda.
Mel não pensou duas vezes e se jogou nos seus
braços.
Ele a abraçou com força enquanto espalhava
centenas de beijos por seu rosto: o rosto que ele não
tinha conseguido tirar da cabeça e que tinha lhe
causado tanto sofrimento. Tê-la nos braços era o
remédio que Björn precisava para voltar a sorrir. Eles
se beijaram e Mel sorriu quando ele exigiu sua boca.
Mel se sentiu especial outra vez. Sentiu-se querida e
protegida.
— Não parei de pensar em você — ela
murmurou quando as bocas se separaram.
Björn adorou ouvir isso e respondeu sem afastar
o rosto:
— Nem eu parei de pensar em você, meu amor.
Nem eu.
Durante vários minutos eles não falaram nada e
também não se largaram.
— Fiquei terrivelmente preocupado com você
— Björn falou baixinho. — E antes que você diga
qualquer coisa, deixa eu te dizer que me comportei
como um idiota e que estou disposto a fazer o que
for preciso pra que você volte a me amar como eu
amo você.
— Björn...
— Sabe de uma coisa? — ele insistiu nervoso,
sem deixar que ela falasse. — Meu pai me
aconselhou que, pra eu fazer você se apaixonar por
mim, eu devia fazer você rir. Mas fique sabendo que,
cada vez que você ri, quem se apaixona ainda mais
sou eu, como um idiota. Eu te amo. Te amo com
toda a minha alma e nunca tive mais certeza de nada
na minha vida. E se você não me amar, vai precisar
comprar um grande carregamento de band-aids das
Princesas pra tirar de mim a dor tão terrível que...
— Björn...
— Antes que você diga qualquer coisa — ele
interrompeu outra vez —, quero que você saiba que
estou disposto a lutar por você. Não me importa que
você seja militar, nem americana, nem russa, nem
polonesa. Não vou permitir que você vá pro Texas.
Se você for, prepare-se, porque eu vou atrás de
você e não penso em deixá-la em paz até que você
ceda e decida voltar comigo, porque eu te amo e
preciso que você me ame.
As últimas palavras lembraram Mel das que ela
mesma tinha dito e por isso sorriu. Era daquilo que
ela precisava. Precisava de Björn e de seu amor.
Impressionada por todas as coisas maravilhosas que
ele estava dizendo, Mel colocou uma das mãos sobre
os lábios dele para que ele se calasse e confessou: —
Te amo.
Björn estava emocionado, enternecido e
totalmente apaixonado, pois ela estava lhe dando
uma oportunidade que ele não tinha sido capaz de
dar. Ele olhou para ela com uma expressão abobada
e Mel chegou mais perto em busca de contato.
— Eu te amo e você me ama, por isso, me beije
agora! Estou esperando.
Imediatamente, Björn atendeu. Ele a tomou nos
braços e a beijou como tinha vontade de fazer há
semanas. De repente, sua vida voltava a ter a pessoa
de que ele precisava. Ela estava bem, saudável, em
segurança e receptiva. Naquele momento, era só o
que ele precisava.
À tarde, depois de várias horas na praia
conversando sobre seus sentimentos, Mel e Björn
chegaram à casa da avó, onde os pais e a irmã os
esperavam com Sami. Assim que a viram, eles
encheram Mel de beijos e ela pôde notar que seu pai
e Björn pareciam estar se dando bem. Luján, ao ver
como ela os observava, foi até a filha e informou com
emoção: — Fique sabendo que esse rapaz lutou com
unhas e dentes com o seu pai por sua causa.
— Jura?
Scarlett, que vinha chegando, deu mais detalhes:
— Menina, mas que gênio tem esse alemão!
Calou até o papai. Incrível!
Sem palavras, Mel olhou para sua mãe.
— É verdade, querida — Luján confirmou. —
Eu juro. E você já sabe como é o seu pai, mas Björn
não se intimidou e quanto mais o seu pai gritava com
ele, mas ele gritava em resposta, até que o seu pai se
tranquilizou. Com certeza é algo incrível. Inclusive, te
digo que ele parou com o pedido de sua transferência
pra Fort Worth atendendo ao Björn, até que vocês
conversem e você decida o que realmente quer fazer.
— O meu Blasinho não é militar, mas não fica
devendo nada ao Ceci — Covadonga comentou. —
Fico contente que ele não se intimide e que ponha os
pingos nos is com aquele americano.
— Mamããããee, não comece — Luján
protestou.
Mel olhou para Björn boquiaberta. Que ele
tivesse enfrentado o seu pai era inédito, para dizer o
mínimo. Ninguém enfrentava o major Parker. Mas
Björn tinha feito aquilo e Mel ficou feliz em saber.
Luján, ao ver a expressão da filha, insistiu: — O que
você vai fazer, querida?
Mel sorriu. Se Björn tinha conseguido dobrar
seu pai, estava claro que ele tinha lutado como um
leão por ela, como sua mãe tinha dito, e ela estava
disposta a dar uma nova oportunidade ao amor.
— Por enquanto, vou passar essa noite fora
com ele. — E olhando para a irmã, Mel pediu: —
Scarlett, preciso de uma suíte no hotel.
Sua irmã, que andava com o celular, disse
olhando para ela: — Já está reservada, mas o
chocolate eu não consegui.
— Chocolate?! — perguntou a avó. — Para
que você quer chocolate, menina?
As irmãs riram e Luján, vendo a cara das filhas,
caiu em si.
— Está bem... não quero saber de mais nada,
suas sem-vergonha!
42
Naquela noite, Mel colocou Sami para dormir e,
para surpresa de Björn, o chamou para sair. Quando
chegaram ao hotel, Mel anunciou baixinho: — Desta
vez não tem chocolate.
Feliz que tudo tivesse se saído bem, ele a
abraçou e disse: — Tenho a única coisa de que
preciso: você.
Depois de passarem pela recepção e pegarem a
chave, entraram no elevador, onde se beijaram como
loucos até chegarem ao andar da suíte.
— Que quarto é? — Björn perguntou.
— 215.
Enquanto caminhavam pelo corredor, Björn
notou como ela estava linda uniformizada e a agarrou
pela cintura.
— Sabia que eu gosto muito de te ver vestida
assim?
— Ah, é?
Björn fez cócegas na cintura dela.
— Tenente, você fica muito gostosa de uniforme
militar.
Mel sorriu e respondeu, parando na frente da
suíte:
— Acho que você vai gostar ainda mais quando
eu ficar nua.
Entraram e Mel foi diretamente ao aparelho de
som. Colocou um CD que tirou do bolso e os
primeiros acordes de When I Was Your Man , de
Bruno Mars, começaram a tocar.
— Você dança? — ela perguntou olhando para
ele.
Ele não pensou duas vezes. Nas últimas
semanas, aquela música e os CDs tinham sido seu
único ponto de conexão com Mel. Björn a abraçou e
curtiu a proximidade de seus corpos durante a dança,
ouvindo aquela linda canção.
Too young, too dumb to realize
That I should have bought you flowers and
held your hand.
Should have gave you all my hours when I
had the chance.
Take you to every party ‘cause all you
wanted to do was dance.
Now my baby is dancing, but she’s dancing
with another man.
Björn a beijou no fim da música. Quando seus
lábios se separaram, ela fez uma cara muito séria, se
afastou dele e lhe entregou um papel: — Quero que
você leia esta carta. É do Mike. E assim que você
terminar, quero rasgá-la pra não ler nunca mais.
Björn pegou a carta, comovido.
— Você tem certeza? — ele perguntou olhando
nos olhos dela. — Isso é algo entre você e ele.
Mel concordou com um sorriso.
— Sim, querido. Tenho certeza. Leia.
Björn pegou o papel e começou a ler, enquanto
Mel o observava atentamente.
M inha querida M el,
Se você está com esta carta nas mãos, é porque o
nosso bom amigo Conrad a fez chegar até você, e isso
significa que estou morto. Quero que saiba que você é o que
aconteceu de melhor na minha vida, apesar de, em alguns
momentos, eu ter me comportado como um idiota. Você
sempre foi boa demais para mim e sabe disso, não sabe?
O motivo desta carta é pedir desculpas por tudo o
que você vai descobrir de mim agora. Sinto vergonha de
pensar, mas essa é a minha vida e não tem nada que eu possa
fazer, a não ser te pedir desculpas e esperar que não me
odeie para sempre.
Desejo que conheça um homem especial. Um homem
que cuide de você, que te leve para festas, dance com você,
que goste do nosso filho e te dê essa família que sei que você
sempre quis ter. Espero que esse homem saiba te dar valor
como eu não soube e que você seja o mais importante para
ele. Você merece, M el. M erece encontrar uma pessoa assim.
Nem todos são como eu e, por mais que você saiba que eu
gostava de você do meu jeito, também sabe que isso nunca
foi suficiente.
Diga ao nosso bebê que o pai dele o amava muito, mas
deixe que ele goste como um pai dessa pessoa que espero
que algum dia chegue na sua vida. Você é forte, M el, sei que
você vai sair dessa. Você precisa recomeçar a vida. Prometa
para mim e rasgue essa carta depois.
Co
amor,
M ike

Quando Björn terminou de ler, ele guardou a


carta e olhou para Mel que, com um sorriso que
inundou a alma dele, disse emocionada: — Você me
valoriza. Dança comigo, cuida da minha filha e de
mim e você quer nos dar a família que ele nunca quis
dar, sem que eu tenha pedido. Björn, você é esse
homem único e especial que eu sempre quis
conhecer, e tenha certeza de que a Sami e eu te
amamos com todo o nosso coração, porque...
Antes que pudesse terminar, ela foi tomada pela
emoção e Björn a abraçou. Assim que ele a acalmou,
com todo o amor que ele estava disposto a dar a ela,
disse: — Sabe, não me alegro por nada do que o
Mike passou, mas me alegro, sim, de que ele não
esteja com você, porque isso me permitiu conhecê-la
e ficar louco por você. Quero que saiba que vou
cuidar e mimar as minhas duas princesas como vocês
merecem.
Mel concordou com a cabeça, pegou a carta e a
picou em pedaços. Definitivamente, Mike, como
homem, era passado e Björn, seu futuro.
Björn jogou os papeizinhos sobre a mesa e tirou
o casaco preto de lã.
— Tira a roupa, tenente — ele exigiu, fazendo
Mel sorrir.
Despiram-se com rapidez, sem tirar os olhos um
do outro. Björn terminou antes dela e murmurou: —
Estou tão duro que vou te arrombar.
Ela sorriu e respondeu com audácia:
— Me arromba, mas com carinho.
Ele a pegou nos braços e a encostou contra a
parede sem qualquer tipo de preliminares, abrindo as
pernas dela e a penetrando com sofreguidão. Suas
respirações ofegantes ressoaram pelo quarto. Björn a
olhou nos olhos e disse com a voz rouca: — Você
nem imagina como eu senti sua falta.
Movendo-se para dar mais profundidade, ela
respondeu: — Você nem imagina o quanto eu pensei
em você.
Björn mordeu o queixo dela e a penetrou mais
uma vez.
— Eu quero você pra mim e, como um grande
amigo meu disse pra mulher dele, “sua boca, seu
corpo e você inteirinha, quero que seja tudo meu, só
meu”, entendeu?
— Não me dê mais ordens — ela arquejou. —
A tenente aqui sou eu.
Björn sorriu dando uma palmada no traseiro
dela.
— A sua patente não significa nada pra mim,
linda.
A resposta de Björn divertiu Mel, que foi
beijada por ele outra vez. Enlouquecida pela paixão
com que ele a possuía, Mel se entregou às carícias e
deixou que ele guiasse o jogo de prazer. Sem dar
trégua, Björn a possuiu uma e outra vez até que ele
gemeu alto demais.
— Shhh... não quero que nos expulsem do hotel
— Mel disse baixinho.
Com uma expressão divertida, ele respondeu
dando outro tapa na bunda dela.
— Não ligo pro hotel. Só me importa que você
goze pra mim.
— Só pra você?
Penetrando-a de novo, ele confirmou com a
cabeça e então disse com segurança: — Só pra mim,
sempre que a gente jogar.
Um gemido de Mel fez Björn renovar as
energias, enlouquecido pela paixão que sentia.
— Tá gostoso, Mel? — ele perguntou.
— Tá... tá... eu gosto dos nossos jogos.
Björn sorriu, sem parar seus movimentos
implacáveis.
— Gostosa... — Mel ofegou quando ele fez
uma nova investida. — Me diz do que você quer
brincar.
Decidida a esquentar o momento com fantasias,
com a voz carregada de sensualidade, ela murmurou
em meio a novas investidas: — Estou de pé no
chuveiro e você está atrás de mim, os homens estão
de joelhos e desejam colocar o meu morango na
boca, e você quer saber se eu deixo. Por trás, você
abre os meus lábios e me expõe pra eles, pedindo
que massageiem meu clitóris e, no meu ouvido, pede
que eu goze pra você. Só pra você. Primeiro um
enfia a boca no meio das minhas pernas e depois o
outro. E quando eu tiver feito o que você me pediu,
nós saímos do chuveiro, você me deita na cama e me
come na frente deles pra ensinar o que nós gostamos.
— Continua... gostosa... continua.
— Quando você gozar — gritou, chegando ao
clímax —, você vai abrir as minhas pernas e outro
homem vai me penetrar e... e quando ele acabar, o
seguinte vai entrar em mim enquanto você me pede
que eu goze pra você. Só pra você, e eu vou morrer
de prazer.
Björn, naquele instante, não aguentou mais e se
fundiu nela, também alcançando o orgasmo e seus
corpos se convulsionaram como se fossem um só.
Quando conseguiram acalmar a respiração, Mel,
dengosa, o beijou na cabeça e perguntou: — Você
gostou da fantasia?
Ele confirmou olhando para ela com malícia.
— Seus desejos são uma ordem pra mim,
tenente. Quando a gente voltar a Munique, prometo
realizar essa fantasia.
Naquela noite, quando Mel dormiu, Björn ficou
olhando para ela como um bobo. Tê-la em sua cama
e sob os seus cuidados era o melhor que tinha
acontecido em muito tempo. Björn teve vontade de
conversar com alguém e então pegou o celular e ligou
para o amigo Eric. Depois de dois toques, ele
atendeu e Björn disse: — Estou com a Mel.
Eric ainda se lembrava de como Björn tinha
ficado desesperado com tudo o que tinha acontecido.
— Ela está bem? — ele perguntou.
— Está. Cansada, mas está bem. Agora está
dormindo.
— E você, como está?
Björn passou a mão no cabelo antes de
responder:
— Feliz... feliz como nunca antes na minha vida.
Só quero ficar com ela, cuidar dela e...
— Não consegue dormir e só consegue ficar
olhando pra ela, não é?
Björn sorriu. Eric o conhecia melhor do que
ninguém no mundo.
— Me sinto como um idiota — ele acrescentou.
— Eu te entendo — Eric concordou, ao pensar
na sua mulher. — No dia em que eu conheci a Jud,
ela me nocauteou com seu gênio forte e acho que
esse temperamento da Mel é o que nocauteou você
também. A Mel e a Jud se parecem em muitas coisas
e uma delas é nesse maldito gênio.
Björn riu. Olhou para Mel, que dormia
placidamente no centro da cama, e murmurou: —
Esse temperamento me deixa louco, amigo.
— Escuta, Björn, se o seu coração escolheu a
Melanie, nada vai conseguir se opor a ele. Meu
conselho é que você se deixe levar pelos sentimentos
e se concentre no presente. O que tiver que ser, será.
— Porra, cara, você está me assustando!
Eric sorriu e antes de desligar, zombou:
— Pode ficar assustado!
Quando desligou o celular, Björn se sentou na
cama e observou dormir a mulher que tirava seu sono
já fazia tempo. Desejando estar ao seu lado, ele se
deitou com ela e se aconchegou para se sentir mais
próximo.
— Melanie Parker... — sussurrou — estou
louco por você.
Um sorrisinho fez Björn perceber que Mel
estava acordada e então fez cócegas nas costelas
dela e sussurrou em meio aos risos que provocava.
— Ouvindo conversas alheias?
Ela deu uma gargalhada e agarrou as mãos dele.
— Se você começa a conversar do meu lado,
como você quer que eu não ouça?
Björn sorriu. Levantou-se da cama e fez Mel se
sentar. Depois, apontou o pingente de morango
molhado em chocolate e perguntou: — Você me
deixa colocá-lo de novo?
Mel concordou e Björn colocou o colar de volta
no pescoço dela. Em seguida ela olhou para ele e
comentou com uma expressão animada: — Por
favor... você ficou tão sério que parece que me deu
um anel de compromisso.
— Casa comigo. Seja a senhora Hoffmann.
Boquiaberta, Mel não conseguiu articular
nenhuma palavra, mas Björn estava determinado a
conseguir seu propósito.
— Eu posso ser muito convincente.
— Você vai ter que rebolar, boneco — Mel
respondeu, olhando-o nos olhos.
Com um jeito amável, Björn concordou. Ela era
a mulher que ele sempre tinha procurado. Ela era o
sentido que tanto tinha procurado na vida e,
deixando-se levar pelo que sentia, ele propôs: —
Melanie Parker, ainda que por enquanto você não
queira se casar comigo, você e a Sami me fariam a
honra de morar na minha casa, que passará a ser a
nossa casa quando você aceitar a minha proposta?
Piscando várias vezes, Mel compreendeu o que
aquilo significava para a vida dos três e então
respondeu, emocionada: — Sim, nós aceitamos.
Björn a beijou na mesma hora, mas ela se
afastou.
— Um momento... um momento — Mel disse
com a testa franzida.
— O que foi? O que aconteceu agora? —
Björn perguntou, alarmado.
— A Peggy Sue também pode vir?
Björn deu uma grande risada, beijou a mulher
que adorava acima de tudo e se deitou sobre ela na
cama.
— Claro que sim, querida... — ele sussurrou:
— A Peggy Sue é a mais importante da família.
Epílogo
Munique... um ano depois.
O espetáculo na creche era um momento
especial para os pais. Fantasiadas de verduras, as
crianças cantavam e dançavam, enquanto seus pais
gravavam vídeos e tiravam milhares de fotografias.
Sami, vestida de cenoura, terminou seu número
e correu para os braços de Björn, que a pegou no
colo, todo contente, mas a professora correu atrás da
menina e a agarrou pela mão.
— Não, Sami, volte para a fila — ela pediu.
— Quero ficar com o meu papaaaaiii!
Mel deu risada. Sami sentia pura adoração por
Björn. Desde que moravam juntos a menina tinha
dado esse título a ele, que, feliz da vida, tinha
aceitado. Bobo de emoção, Björn colocou a câmera
fotográfica no pescoço e quando foi falar, a
professora pediu outra vez: — Samantha... tire a
coroa. Você ainda não pode pôr.
Björn, vendo a cara de sua menina, olhou para a
mulher e respondeu com expressão contrariada:
— A festa acabou. Ela ficou sem a coroa
durante a apresentação. Já cumpriu a promessa e
agora nós temos que cumprir a nossa. Dissemos que
ela poderia colocar a coroa de princesa quando
acabasse a festa e assim vai ser.
A professora cruzou um olhar de cumplicidade
com Mel, que revirou os olhos. Afinal, a professora
deu o braço a torcer.
— Está bem. Mas pelo menos ela tem que
voltar pra fila com os outros.
Contente por ter conseguido fazer valer sua
vontade, Björn olhou para Sami, que o observava
com sua coroa de princesa.
— Você é a princesa cenoura mais bonita que
eu já vi na minha vida — ele disse com convicção. —
Mas agora você tem que voltar pra fila. Prometo que
vou te buscar na porta da escola daqui a cinco
minutos com a mamãe, está bem?
A menina concordou, presenteando Björn com
um sorriso espetacular, e correu para junto das
coleguinhas. Mel, que tinha permanecido até então
em segundo plano, agarrou a mão de Björn e deu um
puxão.
— Não sei quem é pior, se é você ou se é a
princesa cenoura.
Björn sorriu e caminhou abraçado com Mel até
a porta da creche, onde conversou com outros pais
sobre a maravilhosa apresentação das crianças. Ele
era um paizão orgulhoso.
Assim que pegaram a menina, os três subiram
no carro e foram até a casa de seus amigos. Judith,
ao ver a menina chegar, logo a elogiou.
— Samiiiiiiiii, você está lindaaaaaaa.
A menina, ainda com a fantasia de cenoura,
olhou para todos e explicou:
— Sou a pincesa cenola.
Eric deu risada e Björn exclamou:
— A minha princesa é a melhor! Vocês tinham
que ter visto a Sami no palco. Ela comeu o tomate e
a couve-flor na apresentação.
Mel revirou os olhos. Qualquer coisa que Sami
fazia sempre estava ótima para Björn. Depois de
ouvir aquilo, Judith foi cochichar com sua amiga:
— Pode ter certeza de que quando os pequenos
forem pra creche, o Eric vai babar do mesmo jeito.
Ele é incrível com os filhos!
Achando graça do comentário, todos entraram
para tomar alguma coisa, enquanto Mel, agarrada a
Björn, beijava-o e dizia:
— Venha, boneco, você merece uma bebidinha.
No ano que tinham passado juntos, tudo tinha
sido incrível. Maravilhoso. Elas tinham ido morar com
Björn e ele tinha adaptado sua casa às necessidades
de Sami. Fort Worth estava esquecido.
Em várias ocasiões, ele havia pedido Mel em
casamento, mas ela se fazia de rogada, mesmo que
tivesse prometido que, se em um ano ainda
continuassem juntos, eles se casariam. Björn acabou
aceitando.
Nesse meio-tempo, ele conheceu Neill, Fraser e
outros militares e novamente se deu conta de como
tinha se equivocado. Aqueles americanos eram uma
grande família, bastava ver como eles cuidavam uns
dos outros, e cada vez que Mel tinha que pilotar, eles
prometiam que cuidariam dela.
No começo, cada vez que ela tinha que ir ao
Afeganistão, ao Iraque ou a qualquer outra parte,
Björn não dormia e ficava o dia inteiro ligado no
noticiário. Cuidava de Sami com carinho e só de
pensar que alguma coisa pudesse acontecer com Mel
ele ficava transtornado.
Mas o tempo passou, e como ela tinha
prometido, quando o exército permitiu, passou a ser
uma civil. Dormia todas as noites com a filha e com
Björn e era completamente feliz. Agora tinha tempo
para terminar o curso de design gráfico que tinha
começado um dia e vivia uma vida tranquila. Não
sabia se dali a um tempo sentiria falta do exército,
mas o que ela sabia era que pela primeira vez era
completamente feliz e estava criando sua própria
família.
Naquela noite, quando os filhos dormiram, as
mulheres sugeriram que fossem à festa que uns
amigos estavam dando em casa. Eric e Björn, depois
de trocarem um olhar cúmplice, aceitaram, animados.
Simona e Norbert se ocuparam das crianças e os
quatro amigos saíram para se divertir.
Chegando à festa, as mulheres cumprimentaram
alguns conhecidos e foram ao bar para tomar algo.
Pediram as bebidas e Mel cochichou com Judith:
— Ai, ai... Acabo de ver a Diana com a
namorada dela.
Judith sorriu. Àquela altura do campeonato, elas
já tinham se encontrado com as outras duas mulheres
nas cabines do Sensations mais de uma vez e cada
uma, à sua maneira, tinha se divertido. Com uma
expressão divertida, Judith olhou para o marido, que
conversava com Björn e dois homens, e perguntou a
Mel: — O que você acha dos caras que estão com
os nossos garotos?
Mel os analisou e fez um movimento afirmativo
de cabeça, entendendo o que Judith estava
propondo. Björn notou o olhar de sua garota e
sorriu, dando uma piscadinha.
— Quatro homens pra nós duas. Ótimo!
Judith sorriu e cochichou depois de trocar um
olhar com Eric:
— Pela cara dele, o Iceman também gostou.
Assim como Björn, Eric tinha percebido o
cochicho das mulheres e fez um comentário animado
com o amigo. Björn concordou.
Sem precisar falar, os quatro se entenderam.
Elas sorriram, pegaram suas bebidas e foram
andando para uma das laterais do salão. Logo em
seguida, os homens as acompanharam. Björn
abraçou sua mulher, beijou-lhe o pescoço e abriu
uma cortina. Havia várias camas com pessoas
transando e alguns balanços presos no teto.
Mel concordou logo que viu a cena. Grudou
seus lábios nos de Björn e o beijou. Excitado, ele
respondeu ao beijo ardente, oferecendo sua língua
para que ela saboreasse.
Sem hesitar, o grupo entrou no quarto. Ali,
Björn e Eric se sentaram numa das camas e pediram
que os outros dois homens tirassem a roupa das
mulheres. Quando as duas ficaram nuas, foram até
seus homens e montaram no colo deles. Depois de
beijar Mel com paixão, Björn pediu: — Vira ao
contrário, de frente pro Alfred.
Mel atendeu e Björn tocou suas coxas com
tesão, sussurrando em seu ouvido:
— O Alfred está morrendo de vontade de sentir
seu gosto, querida, e eu quero que ele sinta. O que
você acha?
Ela sorriu, olhou para Judith e para Eric, que se
divertiam na cama com o outro homem.
— Me parece uma ideia excelente — ela
respondeu.
Björn passou as mãos pelas pernas de sua
mulher, separou suas coxas e olhou para o homem
que os observava.
— Brinca com o clitóris dela, que ela gosta —
Björn instruiu.
Alfred sorriu e se ajoelhou.
— Vou brincar com o seu clitóris até você gozar
na minha boca — ele respondeu.
De joelhos, ele jogou água sobre a vagina dela e
a secou com um pano limpo. Aproximou sua boca e
sugou com deleite. As mãos de Björn abriam os
lábios internos e davam acesso a ela, murmurando
em seu ouvido: — Assim, Mel... Me deixe abrir você
pra ele...
Movendo o quadril para trás, ela perguntou:
— Você gosta assim?
Excitado, Björn concordou.
— Gosto, querida, gosto... Se esfrega na boca
dele.
Mel deixou escapar um grito ao sentir aquele
homem passando os lábios no seu clitóris, enquanto
dava batidinhas doces com a língua.
— Te amo, linda, grita, curte.
As mãos de Björn subiram até os seios dela e
passaram a beliscar os mamilos.
— Estou muito duro, Mel... Goza pra que eu
possa te comer.
O corpo dela estremeceu. Alfred agarrou suas
coxas e as afastou ainda mais. Mel respondeu com
mais gritos.
— Sim... assim... isso, querida... Pra mim. Só
pra mim — Björn cochichou.
Sua voz... as coisas que ele dizia e como se
entregava ao prazer eram excitantes. Ouvir a voz
apaixonada e caliente de Björn em seu ouvido
enquanto as mãos dele beliscavam seus seios sempre
a deixavam louca.
De repente, ela gritou ao chegar ao clímax e seu
corpo convulsionou.
— Isso, querida... isso... Goza na boca dele...
— Björn disse.
Sem forças, Mel apoiou as mãos na cabeça de
Alfred e o apertou contra seu sexo enquanto ele
chupava e lambia enlouquecido os fluidos que saíam
de dentro dela. Por alguns minutos eles continuaram
assim, até que um excitado Björn indicou que o
momento dele tinha acabado e que a lavasse. Assim
Alfred fez, secando-a em seguida, antes de se
levantar. Björn virou Mel com voracidade e olhou
nos olhos dela, enquanto guiava o pênis até sua
vagina molhada.
— Me diga, Cat Woman, você quer ser minha
na cama ou no balanço?
Excitada com a proposta do homem que
adorava e que a tratava como uma princesa, Mel o
beijou nos lábios e, querendo se abrir para ele do
jeito que ele quisesse, respondeu apenas:
— Surpreenda-me, James Bond.