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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
AMÉRICA 1 – DOCENTE: ÉRICA LOPO
JOÃO MARCUS LIMA DE SANTANA

MUNDO MISTURADO: AMÉRICA LUSA, HISPÂNICO E DO NORTE, SEUS


SISTEMAS; PERPECTIVAS E COMPARATIVOS (XVI-XVIII).

Introdução.
O trabalho faz-se necessário no debate historiográfico, para a desmitificação de
significados presente há tempos e que ainda continuam a ser predominantes no ensino
escolar. Explorando os conceitos que vão surgir no ambiente contemporâneo para uma
melhor compreensão dos costumes e relações das sociedades em construção de cada
América na Época Moderna, para oposição a uma historiografia clássica do contexto
“colonial”, da qual, a palavra deve estar em desuso, devido as pesquisas recentes
analisadas e discutidas, sendo assim, conceituadas com a forma mais cabível para o
entendimento histórico, fugindo da antiga história positivista e etapista, ainda que,
domina o linguajar da disciplina História.
Primeira parte, trabalha no sentido de uma construção América lusa baseado na
concepção católica. Compreendendo o poder da relação da religião na sociedade,
mostrando uma independência da conquista lusa para sua Coroa, indo de encontro com
a historiografia predominante nas escolas. Com isso, os temas da economia além do
túmulo e uma sociedade hierarquizada por costumes, corresponde um apêndice mais
específico dessa primeira parte que explora uma educação católica.
A segunda, tratei de elaborar os costumes (elite local – autogoverno – economia
– mão de obra – técnicas de cultivo – etc) de cada América, sendo ela espanhola e
inglesa. Foi mais uma história comparada e com perspectivas que considerei relevante
no sentido para o artigo que faz para demostrar mundo misturado e suas
particularidades, mostrando suas relações, enxergando circunstâncias que vão dar
sentidos aos movimentos conseguintes.
1. Monarquia Católica Lusa; perspectivas.
Partiremos para um melhor entendimento das relações locais da América lusa,
contrariando uma História cristalizada nas escolas e na sociedade como todo. Os
costumes e a influência da Monarquia Católica vão gerir os modos comportamentais
dessa “conquista” portuguesa1. Um ponto de causalidade, se prossegue pelo ensino
1
Segundo os estudos de Manuel Hespanha, que defende uma concepção antiestadualista, denunciando
anacronismo na tese do poder do soberano como absoluta. Hespanha, entende o rei como a cabeça do
corpo social, porém, preserva o equilíbrio das negociações do soberano com as elites locais. Longe de
classificar como absoluto o poder do soberano, devido que, as periferias relacionavam com as
hegemonias dos poderes locais.
católico. Os senhores de engenho na “conquista” precisavam de um ensino educativo,
sendo os das leis e da obediência ao rei, construía assim, uma sociedade corporativista,
devido à verticalização dessa sociedade, o rei como a cabeça do corpo social e os
senhores de engenhos seus vassalos. Mas, a ideia é ainda mais intrigante, à Coroa, não
controlava por inteiro, ou seja, não era uma colônia dependente ao império, mas uma
“conquista” – ou melhor – um autogoverno da América portuguesa, em seus hábitos
políticos, como também no ambiente doméstico.
No contexto seiscentista, o catolicismo penetrava profundo na criação de uma
noção de sociedade cristã, por conseguinte, criando uma hierarquia social de respeito e
obediência as leis. O italiano jesuíta Jorge Benci2 era um dos responsáveis na educação
dos senhores. Contribuindo para o fortalecimento de uma sociedade corporativista,
criando e justificando a escravidão em nome de Deus, mas também, ensinando a usarem
de forma moderada e piedosa os seus escravizados, para não agir com pecados contra
Deus.
“E para atalhar estas culpas e ofensas, que cometem contra Deus os senhores,
que não usam de domínio e do senhorio que têm sobre os escravos, com a
moderação que pede a razão e a piedade Cristã: tomei por assunto, e por
empresa dar à luz a esta obra que chamo de Economia Cristã: isto é regra,
norma e modelo, por onde se devem governar os senhores cristãos para
satisfazerem às suas obrigações de verdadeiros senhores”. (BENCI, 1997:49)

Em outras palavras, a disciplina social catolicista criava uma linguagem comum


à monarquia pluricontinental3.
“Aquelas práticas de autogoverno correspondiam a um dado pensamento
cristão e à sua disciplina social correspondente. Assim, em todos os
municípios, de São Luís a Luanda, temos uma visão de mundo que
interpretava e organizava a realidade social segundos preceitos dados pelo
catolicismo”. (FRAGOSO, 2013:38)

Por conseguinte, com a flexibilidade católica nos costumes da sociedade, os


respeitos às leis e a obediência à Coroa, por parte da nobreza de terra e das câmaras
municipais, não pode ser vista por uma questão natural ou da educação eclesiástica
apenas, mas também, de construções de privilégios concedidos por ordem do rei. É a
própria ideia de vassalo. Os senhores com seus serviços prestados, garantindo com isso,
remunerações, concessão de terras e ofícios régios que geravam um ciclo de privilégios
familiar e ao mesmo tempo, o controle social das elites. É preciso alimentar quem
jamais pode ficar com fome. Esses municípios são enxergados numa historiografia
contemporânea como repúblicas, por sua independência econômica e política com à
Coroa. Os municípios surgiam como poder concorrente, pois os oficiais dos cargos
municipais eram escolhidos por um colégio eleitoral formado por “homens bons”. Os
oficiais cuidavam da administração e do mercado local. Por exemplo, os preços do
açúcar para Europa eram por negociação feita na câmara. Isto mostrar, a falácia da
dependência da terra conquistada, já que, é observável um autogoverno na localidade, as
câmaras interviam nas transições das frotas do açúcar caso não fosse aceito o preço
estipulado por eles.

2
Jesuíta italiano, autor da obra: Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos. São sermões
que pregou na Bahia durante o XVII. Para Benci, a escravidão é a filha do pecado original de Adão e Eva,
pois assim, graças ao pecado, existem os cativeiros.
3
Deve ao princípio de um autogoverno dos municípios que eram entendidos como república, pois havia
em sua prática, autonomia da elite local diante de negociações com à Coroa.
A monarquia pluricontinental era polissinodal e corporativista, como já foi visto,
é de base escolástica. Municípios que organizam os preços e interferem politicamente.
Obediência ao rei por parte da nobreza de terra que se mantém em tradições por agrados
do mesmo. Sentiam-se, como parte da monarquia lusa, era forte tal paixão, e, ainda, a
monarquia religiosa conduzia o controle educativo-social, condicionando o
comportamento costumeiro.
Os hábitos familiares são estudados em sua importância nas fazendas e nos
currais, para além do trabalho, a noção familiar construiria também hierarquia nas
senzalas das fazendas – pardos e livres com certo parentesco com a família da nobreza
de terra automaticamente conseguiam autoridade para os demais. Como também, vão se
encontrar homens pardos filhos de senhores de engenhos que vão assumir o controle das
terras ou herdar algumas dessas terras e manter a mesma linha de raciocínio social o do
patrão e da clientela.
As famílias misturavam com outras famílias, fortalecendo suas relações,
mantendo seus domínios erguidos tradicionalmente.
Outrossim, a educação da monarquia católica para os familiares nobres da terra,
causaram um costume benéfico as igrejas. As arrecadações de testamento, doados por
famílias nobres da terra para igrejas e irmandades alimentavam toda sua infraestrutura,
o que é chamado de economia além do túmulo. Um sistema crediário irá surgir em
função de igrejas e irmandade (comerciantes também emprestavam, porém, em larga
menor), emprestando aos futuros senhores das terras as suas grandezas arrecadadas por
longo tempo nos testamentos de antigos familiares do engenho.
2. Sociedade Escravista4: Espanhol e Inglês: comparações e perspectivas.

Como introdução do capitulo, para uma contextualização como exemplo de


comparações, a América Lusa, lembramos o autogoverno da parte dos municípios e as
famílias nobres de terra com sua autonomia na construção doméstica, a alforria é um
exemplo da dependência dessa responsabilidade doméstica. O batismo dos escravizados
dava-lhes a significativa ao corpo, o recebimento de uma alma 5. A proliferação da
miscigenação na América lusa será da causalidade das relações do batismo e, por assim,
a alforria desejada, entregue por ordem do ambiente doméstico. A câmara, também há
de demostrar grande autonomia, no porto de Luanda no início do século XVII, os preços
dos escravizados não estavam ligados apenas à oferta e demanda. Os oficiais de Luanda
negociavam com traficantes de escravizados. Sabemos que o poder atlântico escravista,
pertencia o domínio da Coroa portuguesa e, a Inglaterra no momento, estava à procura
da mão de obra barata para as atividades em Barbados. O município de Luana regulava
os preços para o Novo Mundo, administrava toda questão burocrática e ainda, sobrava
tempo, para realizar acordos com os traficantes de escravizados para sua própria riqueza
pessoal.

Na América Hispânica, as relações sociais dos europeus com nativos, africanos


escravizados e libertos vão divergir em certo grau do sistema luso. O processo de
colonização vai partir das guerras contra os impérios asteca e incas que estavam em

4
Também é chamada de “sociedade hierárquica costumeira”.
5
Os conquistadores lusos, sendo de uma sociedade disciplinada no catolicismo; sabiam que os escravos
eram servos civis, ou, servos que deveriam ser cristianizados. A vida é entendida com um
propósito/destino para qual determinado fim ocorrerá.
maior número6, contudo, a população terá seu declínio devido a doenças do Velho
Mundo e com a colaboração de nativos rivais, escravos africanos e libertos nas batalhas.
A Espanha prossegue assim, sua manutenção nas terras do Novo Mundo.
A escravidão indígena foi utilizada no começo da colonização e justificada por
causa das guerras, como a famosa prática trabalhista a mita 7peruana usada nos serviços.
Houve também, um acrescimento do assalariado para atrair mão de obra o que vai
intensificar uma sociedade cada vez mais miscigenada.
A emergência econômica da monarquia hispânica no Novo Mundo estava na
exploração da mineração. Mais de 16 mil toneladas de prata foram enviadas para
Europa até 1650. Os recursos advindos da segunda metade do século XVI, representava
em média 20% da arrecadação da Fazenda castelhana. Porém, a porcentagem tendeu
diminuir ao longo da época seguinte. As riquezas recebidas da América, contribuíram
na manutenção política e no fortalecimento das receitas militares, para qual determinada
finalidade a liquidez oferecia:
“Mesmo assim, o grosso dos recursos advinha das contribuições realizadas
pelos vassalos europeus, e especialmente castelhanos, fortemente taxados.
Tantos impostos eram necessários em razão dos muitos engajamentos
militares da monarquia hispânica por toda a Europa, especialmente as guerras
contra os Países Baixos, França e Inglaterra, em grande medida heranças da
política do imperador Carlos V (1500-68)”. (FRAGOSO; GUEDES;
KRAUSE, 2013: 71)

Contudo, a atividade mineradora impulsionou o desenvolvimento do mercado


interno na América espanhola, pois, havia uma grande quantidade na produção agrícola
para alimentar a população local. É nessa perspectiva o aumento da importação de
africanos nos finais do século XVI:
“A União Ibérica aumentou a oferta de cativos. Foram comprados quase 400
mil africanos até 1700, 85% dos quais até 1640, e as possessões castelhanas
só deixaram de ser o principal mercado de cativos em 1610, quando foram
ultrapassadas pelo Estado do Brasil”. (FRAGOSO; GUEDES; KRAUSE,
2013: 72)

Porém, a predominância da população nativa caracterizava um fenômeno, a mão


de obra especializada, pois, as dificuldades da densidade demográfica precisavam dos
nativos até mesmo para auxiliar e supervisionar as atividades. O batismo dos nativos
aliados e aos escravos africanos conduziam um aumento significativo da miscigenação.
A América espanhola pode ser classificada, portanto, como o primeiro mercado
transatlântico para os africanos escravizados8.

6
Segundo Restall, no campo da batalha, já não restava dúvida de que europeus estavam em menor número
dos seus inimigos, e também, em menor número diante dos seus aliados nativos. Há também em destacar,
que os escravos e libertos que participavam das batalhas, já igualavam ou superavam em quantidades os
europeus.
7
Era uma forma de trabalho obrigatória, imposta aos indígenas desta região. Este regime trabalhista, não
foi criado pelos espanhóis, mas sim legado a eles pela própria cultura inca – Os nativos trabalhavam sob
terríveis condições, expostos e enfermidades do pulmão, em consequência da atmosfera poluída e úmida.
Enquanto estavam submetidos ao trabalho, não saíam do local, dormiam onde exerciam suas tarefas,
dentro da mina. A duração do trabalho ficava por volta de quatro meses, devido que à condição humana
não suportava ir mais longe. Muitos desses indígenas acabavam morrendo.
8
A taxa de mortalidade de nativos escravos, em virtude a insalubridade, era elevada, com isso, precisavam
repor essa mão de obra, da qual, vão utilizar os escravos africanos através dos investimentos com o tráfico
negreiro.
Por conseguinte, as forças de exploração da mão de obra indígena e africana e as
relações que se criavam habitualmente, construíram na América uma sociedade
estratificada partindo de critérios étnicos, estamentais e base econômica. Ainda que,
surgiam de forma jurídica, divisões entre nativos e europeus, como repúblicas nativas e
repúblicas hispânicas. Praticas quem vão fortalecer interações dos nativos com
europeus.
Por fim, a miscigenação decorre na sociedade, criando hierarquias étnicas, sendo
uma sociedade com base preconceituosa, os espanhóis estavam isentos do sistema
tributário9. Por mais, que haja diferença na Coroa portuguesa de quem promovia nobres
de terra, ao contrário da Coroa castelhana, que não promoveram concessões de terras.
Mas, os costumes católico e aristocrático veio a causar semelhanças numa mesma
nobreza de terras, foram instituindo por costumes autoritários e privilégios (isenção de
impostos), fortalecendo os seus domínios sobre os escravos, nativos e mestiços, como
também, a introdução de cargos públicos para elite local.

Ao final do século XVI, os ingleses lançaram-se ao Atlântico e um dos modelos


a seguir era expansão hispânica. Desse processo, criaram suas bases para as primeiras
colônias inglesas na América, sendo essa a primeira, Virgínia no ano de 1607. As
expectativas de obter riquezas foram uma desilusão, devido à ausência de metais
preciosos. Sobre a relação com nativos, faz aqui, uma diferença na intensidade menor de
conflitos em comparação aos espanhóis. Porém, é importante notar, essas relações dos
ingleses com os nativos, se caracteriza por um processo de segregação e expulsão das
populações nativas, pois o interesse estava nas terras e não por seus habitantes.
Mas as colônias precisavam sobreviver, com isso era necessário atividades
econômicas. Por volta de 1616, o tabaco começou a ser produzido em grandes
quantidades em Bermuda e Virgínia, com vantagens no elevado preço e um baixo custo
inicial de produção, pois ainda não havia e também não era necessário quantidades
elevadas de trabalhadores na produção. Contudo, com os anos, somando a
disponibilidade de terras, vão criando mobilidades socias (formação da elite local).
Imaginamos que com essa formação, se cria a necessidade da expansão da produção,
com isso, a busca pela a mão de obra. A Inglaterra estava superpovoada em inícios do
século XVII, gerando depressões nos salários, por conseguinte, a elite local trouxe
servos através de contratos para trabalhar por períodos predefinidos (de quatro a sete
anos) e com o pagamento da passagem e o sustento. Vale lembrar, que havia esperança
dos servos de obtenção de terras (factível nos primeiros anos de colonização). A elite
local se diferenciou do restante da população, sendo capaz de contatar trabalhadores e
terras, mantendo seu controle das instituições políticas locais.
Outra região colonizada por ingleses, chamava mais atenção, com maior
investimento e trabalhadores: Barbados. Década de 1650, a ilha caribenha estava
dominada por ricos latifundiários, com suas produções açucareira e com uma crescente
mão de obra escrava africana para conseguir atender as demandas. Foi atingindo na
segunda metade do século, um desequilíbrio demográfico, chegando ao ponto de mais
de 80% da população ser cativa no final do século.
9
Jerónimo de Valderrama, foi membro do Conselho das Índias. Nomeado visitador da Nova Espanha,
viajou até a América hispânica e lá definiu a submissão dos nativos com impostos, até mesmo para os
indígenas que trabalhavam como servos de nobres, começaram a pagar tributos com as regras fiscais
definidas em 1562 no México, segundo Serge Gruzinski.
A explicação clássica do contexto da produção açucareira, com a crise do tabaco
nos meados da década 1640, enfatiza a crise dos Países Baixos, com a sua perda sobre o
domínio de Pernambuco10. Sendo assim, fortemente uma influência para introdução do
açúcar, africanos e técnicas de cultivo.
Porém, trabalhos historiográficos recentes, procuram revisar esse contexto,
trazendo mais interpretações, como vem fazendo Russel Menard.
“A transição para monocultura açucareira teria sido gradual e resultado dos
investimentos dos próprios colonos e de mercadores ingleses. Embora os
holandeses tenham comerciado com os colonos, seu papel no fornecimento
de cativos foi muito reduzido. Desde o início do século XVII o interesse
inglês no comércio com a África cresceu, no início voltado principalmente
para o ouro. A Companhia da Guiné recebeu monopólio legal desse comércio
em 1618, mas mercadores independentes ignoravam as pretensões da
Companhia e foram os principais responsáveis por abastecer Barbados,
utilizando principalmente os portos de Allada e Calabar por meio da venda de
produtos manufaturados e tecidos asiáticos a elites africanas em troca de
cativos. Por conseguinte, o tráfico inglês se valia de práticas diferentes das
dos lusos, como vimos: Allada e Calabar não eram conquistas inglesas e
nelas não existia prática de resgates como ocorreu em São Tomé e muito
menos estavam sob a ingerência de oeknomia católica como Luanda”.
(MENARD, 2006. Apud FRAGOSO; GUEDES; KRAUSE, 2013: 76-77)

O açúcar, portanto, não foi responsável por criar os latifundiários e a escravidão,


mas é fato que acelerou e intensificou o processo da América inglesa. Barbados
ultrapassaria o Caribe na constituição de escravizados, e, compartilhava o exemplo do
sucesso econômico e de ideias legislativas. A elite de Virginia aproveitando o mercado
de cativos na ilha caribenha, vão começar adquirir africanos na década 1640 ampliando
sua produção de tabaco. Essas elites com suas relações pessoais contribuindo ainda mais
nas compras de escravizados, e por essa razão, a compra de escravizados foi largamente
crescendo devido a maior exploração em comparação aos servos de contratos. Por
assim, já na época de 1650, os mais poderosos da colônia, possuíam mais cativos que
servos em suas propriedades. Entretanto, essas sociedades em formação vão
polarizando, fazendo existir uma população branca pobre.
A questão dos escravizados africanos, havia muita expectativa de obter alforria
no início do contexto seiscentista, pois ainda não era rigidamente definida o cativeiro
como perpétuo, era possível ganhar liberdade antes, quando ainda estavam formando as
sociedades nas colônias inglesas. No entanto, vai haver transições importantes para
inibir os processos libertadores desses escravizados. As regiões formam suas bases por
essa estrutura escravista africana, começa por Barbados e depois vai espalhando por
todo continente. Instituíram-se leis locais, já na metade do século XVII,
impossibilitando da alforria e restringindo a liberdade dos negros e mulatos livres.
Ambas regiões, vão a divisão social pela a cor da pele, juridicamente definidas pela elite
local. Do contrário de outras nobrezas como no caso das famílias nobres da “conquista”
lusa brasileira, os ingleses latifundiários, vão procurar evitar a todo custo a catequização

10
Em 1645, eclodia a chamada Insurreição Pernambucana. Será a mobilização de grandes proprietários de
terra em favor da expulsão dos holandeses do nordeste brasileiro. A famosa batalha dos Guararapes
intensificou a expulsão. Contudo, Portugal negociava a saída dos holandeses diplomaticamente, tendo que
pagar uma indenização de quatro milhões de cruzados (64 toneladas de ouro) para finalização da sua
expulsão. Nesse mesmo momento da história, Holanda havia invadido Luanda, aliando-se a futura rainha
de Matamba, a famosa Nzinga Mbandi, que lutavam contra a invasão portuguesa. Essa aliança se deu em
torno de trocas, os holandeses com armas e Nzinga com escravizados de guerra.
dos seus escravos, pois temiam rebeliões dos seus cativos, já que acreditavam que o
batismo impulsionava sentimentalismo a liberdade. Outrossim, para identificar a falta
do batismo, é a questão da fragilidade da igreja Anglicana, dependente financeiramente
das elites locais e institucionalmente fraca na América inglesa11.
3. Economia Além do Túmulo; Sistema Crediário.
A monarquia católica estava tão penetrante no âmbito social, modulando
comportamentos circunstancialmente (costumes da sociedade) que irá gerar hábitos
favoráveis à sua ordem social de uma economia após a morte: quando parte da nobreza
de terra na América lusa declarava nos seus testamentos quantias significativas para
realizações de missas, que a segurava pelas igrejas locais. Trata-se, de uma sociedade
que mantinha sua sustentação na escravidão e que muitos desses recursos estavam
destinados para o além do túmulo, através de missas. As doações estavam em
testamentos, deixados pelos mortos e realizados pelos vivos da família.
“A nossa ignorância é ainda confirmada quando nos deparamos com
testamentos de famílias de grandes traficantes de escravos e arrematadores de
impostos do Rio de Janeiro de fins do século XVII que gastavam parte de
suas fortunas em missas para salvação de suas almas. Podemos ter uma ideia
do significado destas decisões pias sobre o funcionamento da economia desta
cidade quando comparamos o valor declarado nas determinações
testamentárias (terça) feitas na freguesia da Candelária – área habitada por
donos de plantations e, principalmente, por grandes negociantes, nos anos de
1674 e 1675 – com o total dos bens (engenhos de açúcar, sobrados, terras)
negociado nos cartórios da cidade. O equivalente a 40% do valor dos
negócios registrados em cartórios iam para missas, igrejas e irmandades..
Assim, parte significativa da riqueza social era destinada para o além do
túmulo na forma de missas ou de vínculos. Ao que parece, esta economia
tinha os seus investimentos comandados pelos mortos, e não tanto pelo
capital mercantil europeu”. (FRAGOSO, 2012: 113)

As doações para irmandades, vínculos e igrejas, correspondiam 2/3 dos negócios


escriturados da cidade, num contexto XVII. Porém, devemos considerar que havia
regularidade nesses testamentos, ou seja, limites de doações para cada membro da
família, mesmo que em alguns casos, as doações excedesses o limite regulado.
Lembrando, que mesmo com os limites do sistema de herança, essas quantias eram
altíssimas.
Consideraremos um declínio nos testamentos doados por essas famílias no
século seguinte (XVIII). Houve mudanças significativas no início dos setecentos na
América. A descoberta do ouro em Minas Gerais, vai intensificar a importação de
escravizados e influenciar novos costumes no âmbito social 12. Nessa perspectiva, as
esmolas a parentes e amigos, subiram para quase a metade do órgão testamentário,
ainda que, mais de 50% eram destinados à missas e irmandades. Significava também
nesse contexto, que fortunas adquiridas na mineração, caminhavam por dois sentidos:
Uma parte iria para o Reino, mas a outra iria para o além do túmulo. A economia mais
11
Nessa perspectiva, há uma ascensão capitalista fluindo na Europa, deve-se aos calvinistas e suas guerras
contra os luteranos. Não pretendo ir mais afundo, pois, parte para outra discussão historiográfica.
12
Vai ocorrer um alastramento no comércio luso baseado na escravidão, devido a descoberta de ouro em
Goiás, Mato Grosso e em Minas Gerais. Segundo João Fragoso, as entradas de africanos nas décadas de
1700 e 1720, passou de 85.719 para 106.962, com um acrescimento de 24% do tráfico. No Rio de Janeiro,
entraram 28.200 africanos na década de 1700 e de 1731 até 1740 esse número triplicou, com um total de
66.278 de almas em um prazo de 40 anos. O Rio de Janeiro, acaba por transformar numa cidade
comercial, redistribuindo mercadorias vindas do Atlântico e levadas para o mercado regional.
mercantil do que nunca, mas continuava católica. A disciplina social católica era forte
na concepção moral da sociedade, postura que se cumpria por obediência e amor a
Deus. Valendo notar, que as doações são “voluntárias”.
As doações testamentárias viabilizaram possibilidades de um sistema crediário e
poupança social, sem que houvesse um sistema bancário. Para américa lusa e hispânica,
o crédito fornecido estava em instituições como conventos, mosteiros e irmandades. Em
Salvador Bahia, a Santa Casa de Misericórdia era principal responsável pelos
empréstimos a lavouras, currais e ao comércio Baiano. No Rio de Janeiro, entre 1650 e
1700, o empréstimo fornecido pelo mercado praticamente não existia, cabendo essa
tarefa as instituições de caridade e mosteiros. Na América espanhola, o grande aparato
eclesiástico baseou-se de quantias doadas por fiéis. Esses conventos, irmandades e até a
inquisição concediam créditos, interessados principalmente nos juros (geralmente 5%),
obtendo assim, quantias fixas para suas manutenções.
Em razão de ligações e poderes por condicionamento social, os proprietários, as
elites locais dominavam esta forma de crédito, mas, em compensação suas propriedades
estavam oneradas por muitas dívidas, prejudicando suas capacidades de investimentos.
Provavelmente, as heranças testamentárias dadas pelos mortos oneravam os vivos das
famílias, já que, representava perda do patrimônio material da família. Casas, terras e
alugueis incluíam nas doações por parte dos mortos.
No sistema americano inglês, as instituições religiosas estavam ausentes do
controle crediário, ficando dependentes de um sistema de créditos por comerciantes 13.
Por exemplo: A produção do açúcar no Caribe dependeu de empréstimos de mercadores
calvinistas, ainda maior na compra de cativos africanos. Havia segurança jurídica até
para os latifundiários inadimplentes, garantida por Parlamentares. Na colônia inglesa, o
mercantil capitalista predominava sem a base católica na economia ou na política.
4. Hierarquia Social Costumeira na América Lusa.
Deve-se ao ambiente familiar e autonomia dos municípios diante da política da
Coroa ao longo do processo da constituição da sociedade da América lusa, da qual, se
fundamentará pelos costumes14. Fica por identificada, a noção de patronagem e
clientela. Diferente do mundo atual, do contexto que o Estado é a base da construção
das estruturas sociais, como órgãos que são criados em detrimento da burocracia
Contemporânea com as relações humanas. No sentido dos séculos XVI e XVII, o
funcionamento básico não estava interligado com instituições formais e privadas
empresas da época, mas das relações das famílias em seu papel fundamental na
construção da vida cultural na sociedade. Como já mencionei e repito, a escravidão na
América, era responsabilidade doméstica. Em outras palavras, é o que chamamos de
sociedade escravista no ensino médio. Refiro a lavoura, alforria e mestiçagem.

13
O protestantismo e o calvinismo por Karl Marx é o ponto de partida para o nascimento do capitalismo
no período Moderno. Já por Weber, acredita que seja mais o espírito capitalista em ascensão na
modernidade. Mas, ambos concordam que as religiões são as causalidades que vão impulsionar o
capitalismo, rompendo com o mercantilismo Medieval, formulando uma ideologia moral capitalista na
era Moderna. O protestantismo assim como calvinismo, eram moralidades fortíssimas nos Países Baixos,
Inglaterra, sul da Alemanha, na Itália em Milão, Lisboa e Sevilla.
14
Como já foi mencionado no capitulo “Monarquia Católica Lusa; perspectivas”, os costumes não se dão
naturalmente. Privilégios vão ser concebidos as famílias nobres por parte da Coroa, no sentido de
concessão de terras, cargos públicos nas câmaras municipais e com isso gerando o fortalecimento
hierárquico na sociedade em construção.
Há também, dentro da concepção de patronagem e clientela no âmbito familiar,
uma estratificação no meio dos cativos, sendo entendida assim, a hierarquia nas
senzalas, devido a uma mobilidade mais flexível dos familiares, pois, não havia a
interferência da Coroa. Fatores que vão correlacionar com os costumes gerados numa
sociedade católica, mas, contudo, com costumes derivados de hábitos domésticos, como
camadas sociais: parda, mestiça e o forro na forma jurídica. O conceito de classificar
por costumes as concepções de patrão e clientela nas senzalas, é devido que forros e
pardos, além de serem crias, eram criadores.
Porém, essa sociedade pode ser entendida também como estamental. Muitos dos
forros e seus descendentes adquiriam terras e escravizados, estando passivo dos
privilégios herdados pelo estado. A mobilidade social era possível. Como foi escrito no
primeiro capítulo, a base católica tem sua relação influenciadora, basta lembrar dos
ensinamentos da igreja as nobrezas de terra por criar misericórdia e piedade aos
escravizados, portanto, criando fissuras que vão dando mobilidades. O batismo, era
ferramenta de construção social (como foi visto na perspectiva América inglesa, a
negação do batismo aos cativos por medo das revoltas), pois, contribuía para essas
fissuras de mobilidade.
Os hábitos que coordenavam as famílias, não limitava ao modelo da servidão
com a monarquia. Como foi visto, outras práticas correlacionadas ao poder local, vão
contribuir, desse modo, os casamentos e alianças. Com isto, teremos identidades de
grupos em ascensão, contudo, é preciso entender que o Brasil é grande e essas relações
não pode ser garantida como padrões em todo contexto brasileiro da época.
“Francisco Ferreira Travassos, em seu testamento de 26 de abril de 1737,
também afirmava que como solteiro tivera uma filha, Helena Pimenta de
Mello, e, não lhe dava o direito de herdar seus bens, por ela ser uma parda e
ele, pai, homem nobre: “meu pai e todos os meus parentes serviram na
república desta cidade e sempre viveram a lei da nobreza”. Portanto, para
Francisco o estado de nobre da terra, mesmo sendo uma condição costumeira
sem a chancela da Coroa, os impediam reconhecer seus laços consanguíneos
com pessoas de menor qualidade; no caso de Francisco, explicitamente,
pessoas ditas pardas”. (FRAGOSO; GUEDES; KRAUSE, 2013: 52)

Entretanto, ainda nesse caso exemplificado, o mesmo Francisco, procura uma


forma de beneficiar sua filha, de que modo: arrumando um marido (Manuel), fazendo-
lhes doações em terras e dinheiro no testamento para filha e neta. Podemos enxergar, o
dito da piedade religiosa presente na sociedade, gerando por um lado a preservação do
estado de nobreza, mas também, ascensão de filhos(as) de escravizadas. Importante
frisar, a relação de como se davam certas alforrias e concessão de terras para os
mesmos, devido a casamentos dessas moças pardas dentro da união das famílias, um
sistema de dependência.
Outro fato, bastante importante que podemos relacionar, acontece ano de 1732
em 10 de fevereiro, é caso do coronel das ordenanças e cavaleiros da ordem de Cristo
Miguel Aires Maldonado, cujo, o homem era solteiro e reconhecia os seis filhos forros
tidos com duas escravas diferentes, de nomes Joana Cruz e Maria Aires.
“Deixava seu engenho de açúcar para dois destes filhos, pardos nascidos na
escravidão: o capitão João Aires Maldonado e o padre Vital Aires
Maldonado. Diante das leis do reino o coronel podia fazer tal escrito, pois era
um homem solteiro. O que impedia eram as normas do estado de nobre acima
vistas, mas mesmo assim ele redigiu o testamento e este não foi contestado”.
(FRAGOSO; GUEDES; KRAUSE, 2013: 53)

Assim, as palavras descritas acima, mostram fissuras dessa sociedade costumeira


gerada por uma monarquia católica e seu autogoverno. Primeiro, que João Maldonado
(filho do coronel) se encontra em uma patente que por aí, é visto como fissura, já que é
pardo e vai acabar por intensificar mais ainda, depois do testamento do pai, que o torna
um senhor de escravizados. Esse caso específico, não é isolado da historiografia. Essas
atitudes são decorrentes de uma sociedade por hábitos de uma aleatoriedade diante
dessas questões. E por fim, para melhor contextualização, em 1737, seis anos após a
morte do coronel Miguel, por decisão, João perdia a patente de capitão sob a alegação
de que as ordenações deviam ser compostas por brancos.
Considerações Finais:
Viajamos ao longo do texto contextualizando as Américas em suas
particularidades, como hábitos em ralações no berço familiar, nas relações civis, e
também, movimentações econômicas no mercantilismo interno e externo. Servindo de
oposição da História comtemplada, que atualmente revisitada e discutida no ambiente
historiográfico.
Um apêndice a monarquia católica, atualmente essa cristalização predomina a
sociedade, de certo modo, em sua transformação contemporânea com seus resquícios
comportamentais, seja no hábito familiar, como também nas bancadas políticas,
pensamento ainda fortíssimo na concepção de vida e forma de exercer cidadania 15na
atualidade.
Fechando assim, o gosto da obra deve-se a procura dos documentos, para
realização de um fim, ou melhor, de destrinchar um passado que está longe de
completar-se a sua compreensão16da experiência já passada. A história é finita, ou é o
próprio tempo viajando, ou apenas, existe de forma estática e que apenas nós seres vivos
percebemos o tempo de acordo com a nossa fisiologia, nascemos e morreremos.
Perguntas assim vão ficar sem respostas, mas vale a reflexão. A história e
principalmente a História, é um quebra cabeça, das quais, algumas peças precisam ser
achadas, porém, algumas ficaram mortas ao seu presente já passado, contudo, quando
trabalhamos na montagem da imagem do quebra cabeça com as peças que estamos em
mãos, acabamos por interpretar a imagem, pois, a história é humana, é uma construção
da racionalidade humana, assim conseguimos interprestar a imagem, mesmo que o
quebra cabeça ainda falte as peças para completar. Entretanto, interpretações não são
absolutas, os historiadores vão diferenciar em suas compreensões, o que significa
impulsionamento da busca das fontes, da busca das peças para aprofundar os estudos
históricos. O passado é passado, e o tempo é único detentor do seu fato, nós somos
formigas no tempo, alimentados por nossa curiosidade e que essa curiosidade jamais
será saciada.

15
Segundo José Murilo de Carvalho, a cidadania ganha corpo e alma no império, logo a constituição de
1824, da qual, a população foi creditada ao direito do voto para representantes em cargos políticos.
Contudo, os direitos concedidos não vão significar paixão a pátria ou sentimento de nacionalismo por
parte dos cidadãos.
16
Vico em sua “Ciência Nova” descreve que só podemos conhecer o verdadeiro passado na perspectiva da
compreensão, ou melhor – aquilo que é humano.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
FRAGOSO, João; GUEDES, Roberto; KRAUSE, Thiago. A América portuguesa e os
sistemas atlânticos na Época Moderna. Rio de Janeiro, Ed FGV. 2013.
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