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PROCESSO – CEN – Nº 49.0000.2021.

007344-2

REPRESENTAÇÃO/ASSUNTO: Desobediência às Regras da Eleição

REPRESENTANTEAS: Guilherme Vaccaro Capriata Campelo Bezerra e


Rodrigo Fagundes Souza

REPRESENTADO: SECCIONAL DO DISTRITO FEDERAL DA ORDEM DOS


ADVOGADOS DOBRASIL e respectiva Diretoria

RELATÓRIO

Trata-se de representação proposta por Guilherme Vaccaro Capriata


Campelo Bezerra e Rodrigo Fagundes Souza contra a Seccional do Distrito
Federal, narrando inércia e desobediência às regras eleitorais, quanto aos
necessários atos preparatórios para as eleições de novembro, inclusive quanto
à formação da Comissão Eleitoral e à publicação de edital contendo as regras
da eleição.

Aduzem que considerando que a eleição ocorrerá na segunda


quinzena de novembro, praticamente todos os prazos a serem observados
encontram-se estrangulados, e segundo os Representantes isso provoca clara
ausência de isonomia entre a gestão atual que concorrerá à reeleição
(detentores de informações) e os demais postulantes (sem qualquer
informação).

Na sequência, foi apresentada emenda ao requerimento liminar,


narrando-se que a Seccional, apesar de ter publicado o edital das eleições em
28/09/2021, “não define claramente às regras relacionadas ao sistema de
votação On-line, e além disso, informa que tais esclarecimentos serão prestados
em até 15 (quinze) dias da data da realização das eleições”, em ofensa ao art.
128 do Regulamento Geral.

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Defendem que há falta de segurança jurídica para a realização das
eleições conforme as condições estabelecidas pela OAB/DF. Liminarmente,
portanto, solicitaram a imediata revisão do Edital das Eleições, esclarecendo os
pontos duvidosos, sobretudo a respeito da votação online, bem como a
determinação de realização de eleições utilizando urnas eletrônicas.

É o relatório daquilo que importa para a análise do pedido.

DECIDO

A tutela de urgência pode ser deferida quando houver elementos que


evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado
útil do processo (art. 300 do NCPC).

O legislador, ao conjugar num mesmo sistema o procedimento


cautelar e o antecipatório do mérito, afastou-se da redação anterior quanto à
prova inequívoca e verossímil.

Contudo, a locução “elementos que evidenciem” deve ser interpretada


como a capaz de levar o julgador a se convencer que a alegação é provável e
verossímil, mais ou menos como leciona BARBOSAMOREIRA, citado por J. E.
Carreira Alvim, ao pontuar que para seu deferimento basta que o juiz se
convença, numa análise sumária e dos elementos de que já dispõe, da
razoabilidade desse direito. (Tutela específica das obrigações de fazer e não
fazer na reforma processual, Ed. Del Rey, 1997, p. 140).

Pois bem.

O Edital de Convocação da OAB/DF prevê:

“2.1. As eleições da OAB/DF serão realizadas no dia 21 de


novembro de 2021 (domingo), no período contínuo das 10h às
18h, na plataforma on line, nos termos do art. 1º, parágrafo
único, do Provimento nº 146/2011, por meio de comprovação
e integridade do voto na forma eletrônica, nos termos de
Resolução a ser expedida, em até 15 (quinze) dias da data

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das eleições, pela Comissão Eleitoral, contendo os
procedimentos a serem seguidos no dia da votação”.

Muito embora, de fato, o Provimento nº 146/2011, com as alterações


promovidas pelo Provimento nº 208/2021, faculte à referida Seccional a votação
online (art. 1º, § único c/c art. 18), dele não se infere a possibilidade de que, em
tempo inferior aos 45 dias antecedentes à data do pleito (art. 6º), seja possível
conferir à recém-nomeada Comissão Eleitoral (art. 3º) competência
regulamentar para dispor acerca de “comprovação e integridade do voto na
forma eletrônica” e de “procedimentos a serem seguidos no dia da votação”.

Aliás, tal competência não se encontra no rol do § 2º do artigo 3º do


Provimento em questão.

Não parece crível, efetivamente, ser possível regulamentar, mediante


comissão, em 15 dias, processo complexo e específico para a viabilização de
uma votação inédita em plataforma até aqui desconhecida da advocacia
brasileira.

Por isso é que, a esse propósito, dispõe o multicitado Provimento que


“as chapas podem (...) credenciar fiscais para acompanhar as atividades da
equipe de sistemas responsável pela disponibilização e monitoramento do
software para a eleição online, bem como da equipe de auditoria, a ser
obrigatoriamente contratada para garantia da lisura do processo de
votação na modalidade online” (art. 15, VI).

Merece reparo, portanto, o item 2.1 do Edital de Convocação, sendo


razoável determinar que a Seccional (e não sua Comissão Eleitoral), desde
logo, explicite em edital o procedimento a ser utilizado na votação,
esclarecendo a forma e os critérios de contratação da plataforma, bem como
apresente garantias acerca do acesso aos interessados para auditoria e

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checagem relacionados à inviolabilidade do sistema, juntando os
documentos que subsidiem sua posição.

Não é o caso, no entanto, de se ordenar imediatamente a votação


mediante urna eletrônica, tal qual pretendido, sendo prudente, neste aspecto,
ofertar vistas à Seccional, até mesmo porque à princípio esta forma de eleição
foi aprovada pelo Conselho Federal e a sua alteração demandaria o “Pleno”.

Veja-se que, inclusive no caso da Seccional do Maranhão, utilizada


de exemplo pela parte demandante, houve recente movimento confirmando a
votação online, mas, agora, sendo explicitados os detalhes acerca de seu
funcionamento:

“[...] o Conselho garantiu que a votação online é confiável, uma


vez que os votos são criptografados, impossibilitando a
adulteração, além de permitirem a verificabilidade individual
pelo eleitor e universal por auditoria externa. O
procedimento no Maranhão ficará sob a responsabilidade
da empresa Web Votos, e os representantes dos candidatos
têm o direito de participar da fiscalização de todo o
processo eleitoral, incluindo a contagem de votos.

Segundo a OAB-MA, a votação online é 100% auditável, e a


empresa responsável pela auditoria será a The Perfect Link,
com 25 anos de atuação no mercado. O sistema de votação
contará, ainda, com o registro em rede blockchain, que é o
mesmo sistema utilizado para a segurança de criptomoedas.”1

Ante o exposto, recebo o pedido formulado, nos termos da sua


emenda, e DEFIRO PARCIALMENTE o pedido de concessão de tutela de
urgência, determinando que a OAB/DF, 48 horas, retifique e publique a
retificação do item 2.1 do seu Edital de Convocação, de modo a explicitar o

1Disponívelem <https://www.conjur.com.br/2021-out-05/oab-maranhao-mantem-votacao-online-
eleicoes-novembro> Acesso em 05 de outubro de 2021.

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procedimento a ser utilizado na votação, bem como, em resposta a ser
apresentada nestes autos no prazo de, esclareça a forma e os critérios de
contratação da plataforma, bem como apresente garantias acerca do acesso
aos interessados para auditoria e checagem relacionados à inviolabilidade
do sistema, juntando o cinco diass documentos que subsidiem sua posição.

Deixo de cominar a pena de multa para o caso de descumprimento,


porque espero que não haja desobediência.

Com ou sem resposta, retornem-me conclusos.

Brasília, 5 de outubro de 2021.

Airton Martins Molina

Conselheiro Federal Relator

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