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GRANDES

CIENTISTAS SOCIAIS
Textos básicos de
Ciências Sociais, selecionados
com a supervisão geral do
Prof. Florestan Fernandes.
Abrangendo seis disciplinas
fundamentais da ciência social
Sociologia, História,
Economia, Psicologia,

Marx
Política e Antropologia -
a coleção apresenta os autores
modernos e contemporâneos
de maior destaque mundial,
focalizados através de
introdução crítica e
biobibliográfica, assinada
por especialistas
da universidade brasileira.
A essa introdução crítica
segue-se uma coletânea dos
textos mais representativos Organizador: Octavio lanni
de cada autor. Coordenador: Florestan Fernandes
Desde que Karl Marx (1818-1883)
Mlllf X desenvolveu a sua explicação do
IlIFlIl/l modo de produção capitalista, o
capitalismo não pode mais ser pensado, defen­
dido ou questionado sem que se leve em conta
SOCIOLOGIA
essa explicação. Mais do que isso, a obra de
Marx passou a fazer parte do universo capita­
lista, como sua expressão histórica e teórica.
Operários e burgueses, intelectuais e burocra­
tas, civis e militares, leigos e religiosos, homens
e mulheres, na cidade e no campo, todos, em
todas as sociedades, nos vários continentes,
passaram a ter o seu pensamento e a sua prá­
tica — direta ou indiretamente, em maior ou
em menor grau — questionados, reafirmados ou
negados pela explicação dialética do capitalis­
mo. Ao abordar as categorias e leis que consti­
tuem os movimentos e os antagonismos da
formação social capitalista, Marx revelou a
historicidade inscrita nas relações, nos proces­
sos e nas estruturas sociais — fundamental­
mente econômicos e políticos — que engendram
os movimentos e os antagonismos dessa forma­
ção social. A revolução científica realizada por
Marx põe em questão tanto a explicação como
a existência do capitalismo.
GRANDES
CIENTISTAS SOCIAIS
Textos básicos de
Ciências Sociais, selecionados
com a supervisão geral do
Prof. Florestan Fernandes.
Abrangendo seis disciplinas
fundamentais da ciência social
Sociologia, História,
Economia, Psicologia,

Marx
Política e Antropologia -
a coleção apresenta os autores
modernos e contemporâneos
de maior destaque mundial,
focalizados através de
introdução crítica e
biobibliográfica, assinada
por especialistas
da universidade brasileira.
A essa introdução crítica
segue-se uma coletânea dos
textos mais representativos Organizador: Octavio lanni
de cada autor. Coordenador: Florestan Fernandes
Desde que Karl Marx (1818-1883)
Mlllf X desenvolveu a sua explicação do
IlIFlIl/l modo de produção capitalista, o
capitalismo não pode mais ser pensado, defen­
dido ou questionado sem que se leve em conta
SOCIOLOGIA
essa explicação. Mais do que isso, a obra de
Marx passou a fazer parte do universo capita­
lista, como sua expressão histórica e teórica.
Operários e burgueses, intelectuais e burocra­
tas, civis e militares, leigos e religiosos, homens
e mulheres, na cidade e no campo, todos, em
todas as sociedades, nos vários continentes,
passaram a ter o seu pensamento e a sua prá­
tica — direta ou indiretamente, em maior ou
em menor grau — questionados, reafirmados ou
negados pela explicação dialética do capitalis­
mo. Ao abordar as categorias e leis que consti­
tuem os movimentos e os antagonismos da
formação social capitalista, Marx revelou a
historicidade inscrita nas relações, nos proces­
sos e nas estruturas sociais — fundamental­
mente econômicos e políticos — que engendram
os movimentos e os antagonismos dessa forma­
ção social. A revolução científica realizada por
Marx põe em questão tanto a explicação como
a existência do capitalismo.
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. Organizaidor: Octavio lanni


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ClP-Brasil. Catalogação-na-Fonle
Câmara Brasileira do Livro, SP

Marx, KarI, 1818-1883.


M355k KarI Marx : sociologia / organizador [da coletâ­
nea] Oclavio Ianni ; [tradução de Maria Elisa Mas-
carenhas, Ione de Andrade e Fausto N. Pellegrini].
— São Paulo : Ática, 1979.
CGrandes cientistas sociais ; 10)
Inclui introdução sobre Marx por Octavio Ianni.
1. Classes sociais 2. Comunismo 3. Comunismo e
sociedade 4. Marx, KarI, 1818-1883 5. Sociologia
I. Ianni, Otávio, 1926- II. Título.

CDD—335.438301
—301
—301.44
SUMÁRIO
—320.532
79-0342 —323.3

índices para catálogo sistemático: INTRODUÇÃO


1. Classes sociais : Aspectos políticos 323.3
2. ^ Classes sociais : Sociologia 301.44 (por Octavio Ianni), 7
3. Classes sociais e Estado : Ciência política 323.3
4. Estado e classes sociais : Ciência política 323.3
5.
6.
Marxismo : Ciência política 320.532
Marxismo e sociologia 335.438301
1. A PRODUÇÃO DA SOCIEDADE
7. Sociologia 301
8. Sociologia marxista 335.438301 1. Fundamentos da História, 45
2. Condições históricas da reprodução
- ---------------------------------------------------- social, 62
EDIÇÃO Tradução: Maria Elisa Mascarenhas, Ione de Andrade e 3. Características essenciais do
Fausto N. Pellegrini sistema capitalista, 74
Copidesque: Mitsue Morissawa e M. Carolina de A. Boschi 4. Infra-estrutura e superestrutura, 82
Coordenação Editorial: t Paulo S. M. Machado
Consultoria Geral: Prof. Florestan Fernandes
II. CLASSES SOCIAIS E
CONTRADIÇÕES DE CLASSES
ARTE Capa: Elifas Andreato 99
5. As classes sociais,
Projeto Gráfico'. Virgínia Fujiwara
6. A estrutura de classes na Alemanha, 102
Produção Gráfica: Elaine Regina de Oliveira
7. Classes sociais e bonapartismo, 110
Edição de Arte: Ademir Carlos Schneider
Foto de capa: João Bittar 8. O exército industrial de reserva, 125
\________________ í_____________ ___ _____________________________ /
9. Questionário sobre a situação
operária na França, 133

. .... ................... ....... 1979 ~ III. EXISTÊNCIA E CONSCIÊNCIA


Todos os direitos reservados pela Editora Âticà S.A. 10. A produção da consciência, 145
R. Barão de Iguape, 110 — Tel.: PBX 278-9322 (50 Ramais)
11. Fetichismo e reificação, 159
C. Postal 8656 •— End. Telegráfico “Bomlivro” — S. Paulo
ClP-Brasil. Catalogação-na-Fonle
Câmara Brasileira do Livro, SP

Marx, KarI, 1818-1883.


M355k KarI Marx : sociologia / organizador [da coletâ­
nea] Oclavio Ianni ; [tradução de Maria Elisa Mas-
carenhas, Ione de Andrade e Fausto N. Pellegrini].
— São Paulo : Ática, 1979.
CGrandes cientistas sociais ; 10)
Inclui introdução sobre Marx por Octavio Ianni.
1. Classes sociais 2. Comunismo 3. Comunismo e
sociedade 4. Marx, KarI, 1818-1883 5. Sociologia
I. Ianni, Otávio, 1926- II. Título.

CDD—335.438301
—301
—301.44
SUMÁRIO
—320.532
79-0342 —323.3

índices para catálogo sistemático: INTRODUÇÃO


1. Classes sociais : Aspectos políticos 323.3
2. ^ Classes sociais : Sociologia 301.44 (por Octavio Ianni), 7
3. Classes sociais e Estado : Ciência política 323.3
4. Estado e classes sociais : Ciência política 323.3
5.
6.
Marxismo : Ciência política 320.532
Marxismo e sociologia 335.438301
1. A PRODUÇÃO DA SOCIEDADE
7. Sociologia 301
8. Sociologia marxista 335.438301 1. Fundamentos da História, 45
2. Condições históricas da reprodução
- ---------------------------------------------------- social, 62
EDIÇÃO Tradução: Maria Elisa Mascarenhas, Ione de Andrade e 3. Características essenciais do
Fausto N. Pellegrini sistema capitalista, 74
Copidesque: Mitsue Morissawa e M. Carolina de A. Boschi 4. Infra-estrutura e superestrutura, 82
Coordenação Editorial: t Paulo S. M. Machado
Consultoria Geral: Prof. Florestan Fernandes
II. CLASSES SOCIAIS E
CONTRADIÇÕES DE CLASSES
ARTE Capa: Elifas Andreato 99
5. As classes sociais,
Projeto Gráfico'. Virgínia Fujiwara
6. A estrutura de classes na Alemanha, 102
Produção Gráfica: Elaine Regina de Oliveira
7. Classes sociais e bonapartismo, 110
Edição de Arte: Ademir Carlos Schneider
Foto de capa: João Bittar 8. O exército industrial de reserva, 125
\________________ í_____________ ___ _____________________________ /
9. Questionário sobre a situação
operária na França, 133

. .... ................... ....... 1979 ~ III. EXISTÊNCIA E CONSCIÊNCIA


Todos os direitos reservados pela Editora Âticà S.A. 10. A produção da consciência, 145
R. Barão de Iguape, 110 — Tel.: PBX 278-9322 (50 Ramais)
11. Fetichismo e reificação, 159
C. Postal 8656 •— End. Telegráfico “Bomlivro” — S. Paulo
12. Ideologia e ciência. 173
13. Realidade social e pensamento, 177

IV. ESTADO E SOCIEDADE


14.
15.
16.
Estado, sociedade civil e religião,
0 cidadão,
A constituição,
183
195
199
INTRODUÇÃO
17. 0 poder estatal, 203 c

ÍNDICE ANALÍTICO E ONOMÁSTICO, 211

© Textos para esta edição extraídos de:


Marx, K. Contribuição à Critica da Economia Política» São Paulo, Ed. Flama,
1946.
Marx, K. El capital. México, Fondo de Cultura Económica, 1946-47.
Marx, K. La sagrada familia. México, Editorial Grijalbo, ,1959.
Marx, K. Miséria da Filosofia. Rio de Janeiro, Ed. Leitura, 1965.
Marx, K. O Capital. Trad. por Reginaldo SanfAnna. Rio de Janeiro, Ed.
Civilização Brasileira, 1968.
Marx, K. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro, Ed. Paz e
Terra, 1969.
Marx, K. Revolution and Cpunter-Revolution (of Germany in 1848). Londres,
George Allen and Unrçv.ín, 1952.
Marx, K. Trabalho Assalariado e Capital. 2.a ed. Rio de Janeiro, Editorial
Vitória, 1963.
Marx, K. e Engels, F. Escritos Econômicos Vários. México, Editorial Gri­
jalbo, 1962. Octaviolanni
Marx, K. e Engels, F. Éidéologie allemande. Paris, Éditions Sociales, 1953.
Marx, K. e Engels, F. Qbras escogidas* Moscou, Ediciones en Lenguas Ex- Professor de Sociologia no Curso de Pós-Graduação
tranjeras, 1952. em Ciências Sociais (puc)
Capa: Greve dos Metalúrgicos em Sao Paulo (1978). Membro do cebrap
12. Ideologia e ciência. 173
13. Realidade social e pensamento, 177

IV. ESTADO E SOCIEDADE


14.
15.
16.
Estado, sociedade civil e religião,
0 cidadão,
A constituição,
183
195
199
INTRODUÇÃO
17. 0 poder estatal, 203 c

ÍNDICE ANALÍTICO E ONOMÁSTICO, 211

© Textos para esta edição extraídos de:


Marx, K. Contribuição à Critica da Economia Política» São Paulo, Ed. Flama,
1946.
Marx, K. El capital. México, Fondo de Cultura Económica, 1946-47.
Marx, K. La sagrada familia. México, Editorial Grijalbo, ,1959.
Marx, K. Miséria da Filosofia. Rio de Janeiro, Ed. Leitura, 1965.
Marx, K. O Capital. Trad. por Reginaldo SanfAnna. Rio de Janeiro, Ed.
Civilização Brasileira, 1968.
Marx, K. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro, Ed. Paz e
Terra, 1969.
Marx, K. Revolution and Cpunter-Revolution (of Germany in 1848). Londres,
George Allen and Unrçv.ín, 1952.
Marx, K. Trabalho Assalariado e Capital. 2.a ed. Rio de Janeiro, Editorial
Vitória, 1963.
Marx, K. e Engels, F. Escritos Econômicos Vários. México, Editorial Gri­
jalbo, 1962. Octaviolanni
Marx, K. e Engels, F. Éidéologie allemande. Paris, Éditions Sociales, 1953.
Marx, K. e Engels, F. Qbras escogidas* Moscou, Ediciones en Lenguas Ex- Professor de Sociologia no Curso de Pós-Graduação
tranjeras, 1952. em Ciências Sociais (puc)
Capa: Greve dos Metalúrgicos em Sao Paulo (1978). Membro do cebrap
I

1# A produção da sociedade capitalista


I

C-
A análise do regime capitalista
de produção não se restringe às
relações econômicas, se bem que
pareça iniciar-se nesse ponto. Ao
analisar o capitalismo, Marx apa­
nha os fenômenos como fenômenos
sociais totais, nos quais sobres­
saem o econômico e o político,
como duas manifestações combi-
nadas e mais importantes das re-
lações entre pessoas, grupos e clas­
i ;
ses sociais. Por isso é que a sua.
análise apanha sempre as estrutu­
ras de apropriação econômica e
dominação política, em que ten­
dem a cristalizar-se aquelas rela­
ções e os antagonismos que com
elas se engendram. Desde a crítica da dialética hegeliana à análise
da dominação inglesa na índia, todos os trabalhos de Marx são,
fundamentalmente, de interpretação de como o modo capitalista
de produção mercantiliza as relações, as pessoas e as coisas, em
âmbito nacional e mundial, ao mesmo tempo que desenvolve as
suas contradições.
Ao integrar criticamente as contribuições da Filosofia clás­
sica alemã, do socialismo utópico francês e da economia política
clássica inglesa, Marx elaborou, simultaneamente, o método de
I

1# A produção da sociedade capitalista


I

C-
A análise do regime capitalista
de produção não se restringe às
relações econômicas, se bem que
pareça iniciar-se nesse ponto. Ao
analisar o capitalismo, Marx apa­
nha os fenômenos como fenômenos
sociais totais, nos quais sobres­
saem o econômico e o político,
como duas manifestações combi-
nadas e mais importantes das re-
lações entre pessoas, grupos e clas­
i ;
ses sociais. Por isso é que a sua.
análise apanha sempre as estrutu­
ras de apropriação econômica e
dominação política, em que ten­
dem a cristalizar-se aquelas rela­
ções e os antagonismos que com
elas se engendram. Desde a crítica da dialética hegeliana à análise
da dominação inglesa na índia, todos os trabalhos de Marx são,
fundamentalmente, de interpretação de como o modo capitalista
de produção mercantiliza as relações, as pessoas e as coisas, em
âmbito nacional e mundial, ao mesmo tempo que desenvolve as
suas contradições.
Ao integrar criticamente as contribuições da Filosofia clás­
sica alemã, do socialismo utópico francês e da economia política
clássica inglesa, Marx elaborou, simultaneamente, o método de
8 9

análise e a interpretação do capitalismo.1 Este é um aspecto principais agentes deste modo de produção, o capitalista e o
essencial do pensamento de Marx: o materialismo dialético e o operário assalariado, não são, como tais, senão encarnações do
niaterialismo histórico são os dois elementos principais e conju­ capital e do trabalho assalariado, determinados característicos
gados do mesmo processo teórico-prático de reflexão sobre o sociais que o processo social de produção imprime nas pessoas,
capitalismo. Na obra de Marx, o capitalismo é levado a pensar-se produtos destas relações determinadas de produção. (...)
a si mesmo, de maneira global e como um modo fundamental­ O segundo característico do modo capitalista de produção é a
mente antagônico de desenvolvimento histórico. Da mesma forma produção de mais-valia, como a finalidade direta e o móvel de­
terminante da produção. O capital produz essencialmente capital
que o modo capitalista de produção, a dialética marxista funda-se
e isto somente na medida em que ele produz mais-valia.” 2
nas relações de antagonismo. O princípio da contradição governa
o modo de pensar e o modo de ser. Mesmo porque, ambos são A mais-valia e a mercadoria são a condição e o produto
manifestações da mesma época histórica. As relações de antago­ das relações de dependência, alienação e antagonismo do operário
nismo ocorrem em todas as épocas históricas, aparecem em todos e do capitalista, um em face do outro. A forma mercadoria
os modos de produção. Em cada época, no entanto, adquirem cristaliza tanto o produto do trabalho necessário à reprodução
configurações particulares. Em cada época, as determinações do produtor (trabalho pago), como o produto do .trabalho exce­
econômicas, políticas, religiosas ou outras organizam-se e deter­ dente (não pago) e apropriado pelo capitalista, no processo de
minam-se reciprocamente de modo diverso. No capitalismo, os compra e venda de força de trabalho. A mais-valia e a mer­
antagonismos fundados nas relações econômicas adquirem preemi­ cadoria, pois, não podem ser compreendidas em si, mas como
nência sobre todos os outros, enquanto determinação estrutural. produtos das relações de produção que produzem o capitalismo.
Na análise dialética, elas surgem como realmente são, isto é,
Em essência, o capitalismo é um sistema de mercantilização como sistemas de relações antagônicas. Nisto se funda o caráter
universal e de produção de mais-váliaT ^Ele^mércantilizá~ás essencial do regime: os seus componentes mais característicos,
relações, as pessoas ê as coisas. Ao mesmo tempo,^ol^ mercah- seja a mais-valia e a mercadoria, seja o operário e o capitalista,
tiliza a força de trabalho, a energia humana que produz valor. ^produzem-se, desde o princípio, antagonicamente.
Por isso mesmo, transforma as próprias pessoas em mercadorias,
tornando-as adjetivas de sua força de trabalho. Vejamos o que A descoberta desse antagonismo, pois, não é alheia à cons­
diz Marx, num dós últimos capítulos de O Capital, ao chamar a tituição interna do capitalismo. As relações antagônicas não
podem resolver-se a não ser que o próprio capitalismo seja
atenção para duas categorias básicas do regime. Como categorias
também pensado. Ê necessário que o capitalismo se transforme
dialéticas, elas exprimem determinações essenciais do regime.
em concreto pensado, pleno de suas determinações, para resolver-
“Desde o primeiro instante, são duas as características que dis­ -se. Ele precisa transformar-se em componente da consciência
tinguem o modo capitalista de produção. de classeTío proletariado, que e o póío^^^fivo dqT^goni^o,
Primeira. Ele produz os seus produtos como mercadorias. O "para que o "próprio antagonismo se desenvolva e resolva. O
fato de que produz mercadorias não o distingue de outros modos processo de troca, sem o qual a mercantilização universal não
de produção; o que o distingue é a circunstância de que o ser
se realiza, é, simultaneamente, o processo por intermédio do qual
mercadoria constitui o caráter dominante e determinante dos seus
produtos. Isto implica, antes de tudo, o fato de que o próprio as pessoas, os grupos e as classes sociais realizam-se e pensam-se
operário somente aparece como vendedor de mercadorias, ou como categorias sociais reciprocamente referidas e antagônicas.
seja, como trabalhador livre assalariado, de tal maneira que o Não é por acaso que todo processo de reflexão de Marx, sobre
trabalho aparece, em geral, como trabalho assalariado. (...) Os as relações, os processos e as estruturas capitalistas, é, também,

1 Lenine, V. “Karl Marx.” In: Oeuvres choisies. Moscou, Éditions du Pro- 2 Marx, K. “Relaciones de distribución y relaciones de producción.” In:
grès, 1971. v. 1, p. 19-49; “Les trois parties constitutives du marxisme.” El capital. México,'Fondo de Cultura Económica, 1946-47. t. III, cap. LI,
Op. cit. p. 58-62. p. 1015-17.
8 9

análise e a interpretação do capitalismo.1 Este é um aspecto principais agentes deste modo de produção, o capitalista e o
essencial do pensamento de Marx: o materialismo dialético e o operário assalariado, não são, como tais, senão encarnações do
niaterialismo histórico são os dois elementos principais e conju­ capital e do trabalho assalariado, determinados característicos
gados do mesmo processo teórico-prático de reflexão sobre o sociais que o processo social de produção imprime nas pessoas,
capitalismo. Na obra de Marx, o capitalismo é levado a pensar-se produtos destas relações determinadas de produção. (...)
a si mesmo, de maneira global e como um modo fundamental­ O segundo característico do modo capitalista de produção é a
mente antagônico de desenvolvimento histórico. Da mesma forma produção de mais-valia, como a finalidade direta e o móvel de­
terminante da produção. O capital produz essencialmente capital
que o modo capitalista de produção, a dialética marxista funda-se
e isto somente na medida em que ele produz mais-valia.” 2
nas relações de antagonismo. O princípio da contradição governa
o modo de pensar e o modo de ser. Mesmo porque, ambos são A mais-valia e a mercadoria são a condição e o produto
manifestações da mesma época histórica. As relações de antago­ das relações de dependência, alienação e antagonismo do operário
nismo ocorrem em todas as épocas históricas, aparecem em todos e do capitalista, um em face do outro. A forma mercadoria
os modos de produção. Em cada época, no entanto, adquirem cristaliza tanto o produto do trabalho necessário à reprodução
configurações particulares. Em cada época, as determinações do produtor (trabalho pago), como o produto do .trabalho exce­
econômicas, políticas, religiosas ou outras organizam-se e deter­ dente (não pago) e apropriado pelo capitalista, no processo de
minam-se reciprocamente de modo diverso. No capitalismo, os compra e venda de força de trabalho. A mais-valia e a mer­
antagonismos fundados nas relações econômicas adquirem preemi­ cadoria, pois, não podem ser compreendidas em si, mas como
nência sobre todos os outros, enquanto determinação estrutural. produtos das relações de produção que produzem o capitalismo.
Na análise dialética, elas surgem como realmente são, isto é,
Em essência, o capitalismo é um sistema de mercantilização como sistemas de relações antagônicas. Nisto se funda o caráter
universal e de produção de mais-váliaT ^Ele^mércantilizá~ás essencial do regime: os seus componentes mais característicos,
relações, as pessoas ê as coisas. Ao mesmo tempo,^ol^ mercah- seja a mais-valia e a mercadoria, seja o operário e o capitalista,
tiliza a força de trabalho, a energia humana que produz valor. ^produzem-se, desde o princípio, antagonicamente.
Por isso mesmo, transforma as próprias pessoas em mercadorias,
tornando-as adjetivas de sua força de trabalho. Vejamos o que A descoberta desse antagonismo, pois, não é alheia à cons­
diz Marx, num dós últimos capítulos de O Capital, ao chamar a tituição interna do capitalismo. As relações antagônicas não
podem resolver-se a não ser que o próprio capitalismo seja
atenção para duas categorias básicas do regime. Como categorias
também pensado. Ê necessário que o capitalismo se transforme
dialéticas, elas exprimem determinações essenciais do regime.
em concreto pensado, pleno de suas determinações, para resolver-
“Desde o primeiro instante, são duas as características que dis­ -se. Ele precisa transformar-se em componente da consciência
tinguem o modo capitalista de produção. de classeTío proletariado, que e o póío^^^fivo dqT^goni^o,
Primeira. Ele produz os seus produtos como mercadorias. O "para que o "próprio antagonismo se desenvolva e resolva. O
fato de que produz mercadorias não o distingue de outros modos processo de troca, sem o qual a mercantilização universal não
de produção; o que o distingue é a circunstância de que o ser
se realiza, é, simultaneamente, o processo por intermédio do qual
mercadoria constitui o caráter dominante e determinante dos seus
produtos. Isto implica, antes de tudo, o fato de que o próprio as pessoas, os grupos e as classes sociais realizam-se e pensam-se
operário somente aparece como vendedor de mercadorias, ou como categorias sociais reciprocamente referidas e antagônicas.
seja, como trabalhador livre assalariado, de tal maneira que o Não é por acaso que todo processo de reflexão de Marx, sobre
trabalho aparece, em geral, como trabalho assalariado. (...) Os as relações, os processos e as estruturas capitalistas, é, também,

1 Lenine, V. “Karl Marx.” In: Oeuvres choisies. Moscou, Éditions du Pro- 2 Marx, K. “Relaciones de distribución y relaciones de producción.” In:
grès, 1971. v. 1, p. 19-49; “Les trois parties constitutives du marxisme.” El capital. México,'Fondo de Cultura Económica, 1946-47. t. III, cap. LI,
Op. cit. p. 58-62. p. 1015-17.
10 11

uma sistemática, profunda e contundente crítica de todas as objeto e o método de seu trabalho eram elementos necessários
interpretações, doutrinas, idéias ou conceitos preexistentes sobre e encadeados do mesmo processo de conhecimento. Enquanto
os mesmos fenômenos. É que as representações sobre o real são que, para Hegel, o processo do pensamento é o “demiurgo do
parte necessária do real; são “sombras”, “reflexos”, “formas real”, para Marx “o ideal não é senão o material traduzido e
invertidas” das relações, processos e estruturas do capitalismo. transposto na mente do homem”. 5 Marx havia descoberto os
Marx estava consciente da relação de necessidade entre o mate­ encadeamentos e as determinações recíprocas entre as condições
rialismo dialético e o materialismo histórico, na interpretação do de existência social e as idéias que expressam essafc condições na
capitalismo. . mente do Homem. Isso era crucial para o entendimento e a
transformação do regime capitalista, já que este possui, desenvol­
“O descobrimento tardio de que os produtos do trabalho, consi­
vido em grau excepcional, a faculdade de divorciar as dimensões
derados como valores, não são mais que expressões materiais do
trabalho humano investido na sua produção, é um descobrimento e as figurações que compõem os movimentos do real. Essa é a
que marca época na história do progresso humano 8 razão por que a análise marxista da mercadoria passa pela análise
do seu fetichismo.
Seria enganoso pensar que a crítica da dialética hegeliana,
do materialismo feuerbachiano, do socialismo utópico francês e “Toda ciência seria supérflua, se a aparência exterior e a essência
das coisas coincidissem diretamente.” 6
da economia. política inglesa foi realizada segundo uma separação
entre questões de método e problemas específicos do capitalismo Nessas condições, a análise dialética torna transparentes as
ou ao acaso das oportunidades. Com isto não queremos sugerir relações, os processos e as estruturas capitalistas. Opera como
que Marx prefigurou e programou todo o seu trabalho. É uma técnica de desmascaramento, pois que exige a crítica das
evidente que foi desenvolvendo, passo a passo, uma compreensão idéias, conceitos ou representações, sob os quais as pessoas, as
cada vez mais clara de problemas que tinha pela frente. Houve, classes sociais e as coisas aparecem na consciência e na Ciência.
inclusive, desenvolvimentos ou saltos revolucionários no interior Não seria possível explicar a mercadoria, como um sistema de
da revolução científica realizada por Marx. Toda a sua obra é um relações (dos homens com a natureza e entre si, na produção e
documento vivo sobre a maneira pela qual foi percebendo, deli­ reprodução de si mesmos) sem desvendar o seu “caráter místico”.
mitando, eliminando, enfrentando e resolvendo as questões. Nesse Depois de mostrar como o valor-de-uso esconde o valor-de-troca
processo, a atividade política de Marx desempenhou, às vezes, e ambos escondem o valor-trabalho, de mostrar, portanto, que a
um papel decisivo. O que interessa aqui, no entanto, é que, ao mercadoria é trabalho social cristalizado e alienado, Marx se
longo da sua obra, produz, simultaneamente, o método e a inter­ dedica a examinar o seu fetichismo. Isto é, depois de ver a
pretação do capitalismo. Não é por mero acaso que, em todas as mercadoria na perspectiva do seu produtor, o operário, ele se
suas análises, aborda, sempre e conjuntamente, os problemas do dedica a examinar como a mercadoria é vista e apresentada pelo
capitalismo e os do método de análise. Para mencionar três capitalista, ou a sua Ciência, a Economia política. Na consciência
exemplos, no “Prefácio” e “Posfácio” da Contribuição à Crítica e na ciência da burguesia, a mercadoria aparece como ela não é;
da Economia Política 3 4 — posfácio esse publicado depois como apresenta-se coisificada, como se tivesse propriedades exclusivas,
introdução de Elementos Fundamentais para a Crítica da Econo­ independentes do produtor e das relações de produção. A classe
mia Política (Grundrisse) — e no posfácio da segunda edição do dominante tende a projetar e impor essa maneira de ver a todas
primeiro tomo de O Capital, Marx preocupou-se em explicitar as outras classes, inclusive e principalmente ao proletariado.
alguns aspectos da dialética materialista. Compreendia que o
“O caráter misterioso da mercadoria assenta, pura e simples­
mente, em que proteja ante os homens o caráter social dos seus
3 Marx, K. El capitai t. I, p. 82-83; O Capital. Rio de Janeiro, Ed. Civi­
lização Brasileira, 1968. liv. 1, p. 83. Trad. por Reginaldo SanfAnna.
4 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. São. Paulo, Ed. 5 Marx, K. El capital, t. I, p. 17; O Capital, liv. 1, p. 16.
Flama, 1946. p. 30-31. Trad. por Florestan Fernandes. 6 Marx, K. El capital, t. III, p. 948.
10 11

uma sistemática, profunda e contundente crítica de todas as objeto e o método de seu trabalho eram elementos necessários
interpretações, doutrinas, idéias ou conceitos preexistentes sobre e encadeados do mesmo processo de conhecimento. Enquanto
os mesmos fenômenos. É que as representações sobre o real são que, para Hegel, o processo do pensamento é o “demiurgo do
parte necessária do real; são “sombras”, “reflexos”, “formas real”, para Marx “o ideal não é senão o material traduzido e
invertidas” das relações, processos e estruturas do capitalismo. transposto na mente do homem”. 5 Marx havia descoberto os
Marx estava consciente da relação de necessidade entre o mate­ encadeamentos e as determinações recíprocas entre as condições
rialismo dialético e o materialismo histórico, na interpretação do de existência social e as idéias que expressam essafc condições na
capitalismo. . mente do Homem. Isso era crucial para o entendimento e a
transformação do regime capitalista, já que este possui, desenvol­
“O descobrimento tardio de que os produtos do trabalho, consi­
vido em grau excepcional, a faculdade de divorciar as dimensões
derados como valores, não são mais que expressões materiais do
trabalho humano investido na sua produção, é um descobrimento e as figurações que compõem os movimentos do real. Essa é a
que marca época na história do progresso humano 8 razão por que a análise marxista da mercadoria passa pela análise
do seu fetichismo.
Seria enganoso pensar que a crítica da dialética hegeliana,
do materialismo feuerbachiano, do socialismo utópico francês e “Toda ciência seria supérflua, se a aparência exterior e a essência
das coisas coincidissem diretamente.” 6
da economia. política inglesa foi realizada segundo uma separação
entre questões de método e problemas específicos do capitalismo Nessas condições, a análise dialética torna transparentes as
ou ao acaso das oportunidades. Com isto não queremos sugerir relações, os processos e as estruturas capitalistas. Opera como
que Marx prefigurou e programou todo o seu trabalho. É uma técnica de desmascaramento, pois que exige a crítica das
evidente que foi desenvolvendo, passo a passo, uma compreensão idéias, conceitos ou representações, sob os quais as pessoas, as
cada vez mais clara de problemas que tinha pela frente. Houve, classes sociais e as coisas aparecem na consciência e na Ciência.
inclusive, desenvolvimentos ou saltos revolucionários no interior Não seria possível explicar a mercadoria, como um sistema de
da revolução científica realizada por Marx. Toda a sua obra é um relações (dos homens com a natureza e entre si, na produção e
documento vivo sobre a maneira pela qual foi percebendo, deli­ reprodução de si mesmos) sem desvendar o seu “caráter místico”.
mitando, eliminando, enfrentando e resolvendo as questões. Nesse Depois de mostrar como o valor-de-uso esconde o valor-de-troca
processo, a atividade política de Marx desempenhou, às vezes, e ambos escondem o valor-trabalho, de mostrar, portanto, que a
um papel decisivo. O que interessa aqui, no entanto, é que, ao mercadoria é trabalho social cristalizado e alienado, Marx se
longo da sua obra, produz, simultaneamente, o método e a inter­ dedica a examinar o seu fetichismo. Isto é, depois de ver a
pretação do capitalismo. Não é por mero acaso que, em todas as mercadoria na perspectiva do seu produtor, o operário, ele se
suas análises, aborda, sempre e conjuntamente, os problemas do dedica a examinar como a mercadoria é vista e apresentada pelo
capitalismo e os do método de análise. Para mencionar três capitalista, ou a sua Ciência, a Economia política. Na consciência
exemplos, no “Prefácio” e “Posfácio” da Contribuição à Crítica e na ciência da burguesia, a mercadoria aparece como ela não é;
da Economia Política 3 4 — posfácio esse publicado depois como apresenta-se coisificada, como se tivesse propriedades exclusivas,
introdução de Elementos Fundamentais para a Crítica da Econo­ independentes do produtor e das relações de produção. A classe
mia Política (Grundrisse) — e no posfácio da segunda edição do dominante tende a projetar e impor essa maneira de ver a todas
primeiro tomo de O Capital, Marx preocupou-se em explicitar as outras classes, inclusive e principalmente ao proletariado.
alguns aspectos da dialética materialista. Compreendia que o
“O caráter misterioso da mercadoria assenta, pura e simples­
mente, em que proteja ante os homens o caráter social dos seus
3 Marx, K. El capitai t. I, p. 82-83; O Capital. Rio de Janeiro, Ed. Civi­
lização Brasileira, 1968. liv. 1, p. 83. Trad. por Reginaldo SanfAnna.
4 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. São. Paulo, Ed. 5 Marx, K. El capital, t. I, p. 17; O Capital, liv. 1, p. 16.
Flama, 1946. p. 30-31. Trad. por Florestan Fernandes. 6 Marx, K. El capital, t. III, p. 948.
12 \13

trabalhos como se fosse um cárater’material dos próprios pro­ clamando filosoficamente, como Fichte, “eu sou eu”, o Homem
dutos do trabalho, um dom social natural desses objetos; e como se vê e reconhece primeiramente em seu semelhante. Para
se, portanto, a relação social, que media os produtores e o tra­ referir-se a si mesmo como Homem, o homem Pedro tem que
balho coletivo da sociedade, fosse uma relação social estabelecida começar por referir-se ao homem Paulo como seu igual. Assim
entre os próprios objetos, à margem dos seus produtores. Este fazendo, o tal Paulo é, para ele, com os seus cabelos e sinais, e
quid pro quo é que converte os produtos de trabalho em mer­ toda sua corporeidade paulina, a forma ou a manifestação sob
cadoria, em objetos fisicamente metafísicos ou em objetos so­ a qual se reveste o gênero homem.” 8
ciais. (...) Ocorre que a forma mercadoria e a relação de valor “Quando se examina mais de perto a situação e os partidos, desa­
dos produtos do trabalho, em que essa forma toma corpo, não têm parece essa aparência superficial que dissimula a lufa de classes
absolutamente nada que ver com seu caráter físico, nem com as e a fisionomia peculiar da época.” 9
relações materiais que derivam desse caráter. O que aqui toma, A análise dialética ao mesmo tempo constitui e transforma
aos olhos dos homens, a forma fantasmagórica de uma relação o objeto. Adere destrutivamente ao objeto, na medida em que
entre objetos materiais não é mais do que uma relação social desvenda e desmascara os seus fetichismos, as suas contradições
concreta estabelecida entre os próprios homens. Assim, se que­
e os seus movimentos. Desde o instante em que se formula, a
remos encontrar uma analogia com esse fenômeno, precisamos
interpretação marxista do capitalismo torna-se imprescindível à
elevar-nos às regiões nebulosas do mundo da religião, onde os
produtos da mente humana assemelham-se a seres dotados de existência histórica deste. Ao tomar transparente o encadeamento
vida própria, de existência independente, mantendo tanto relações dos homens e dos produtos da sua atividade, entre si e recipro­
entre si como com os homens. Isto é o que ocorre no mundo camente, a análise desvenda o caráter e as tendências dos antago­
das mercadorias, com os produtos da mão do Homem. E isto nismos que governam o andamento revolucionário e histórico do
é o que eu chamo o fetichismo que adere aos produtos do tra­ capitalismo. Na essência do capitalismo estão, ao mesmo tempo,
balho, tão logo são criados sob a forma de mercadorias, e que a mais-valia, que funda a acumulação de capital, e o proletariado,
é inseparável, por conseguinte, deste sistema de produção.” 7 que produz a mais-valia. Desde o momento em que descobre
que é ele quem produz o capital, ao produzir mais-valia, o
É óbvio que os fetichismos de todo o tipo são indispensáveis
proletariado começa a libertar-se da dominação burguesa. Esse é
à existência e à persistência das relações alienadas que as pessoas,
o primeiro momento no processo de realização da sua hegemonia.
os grupos e as classes sociais desenvolvem entre si e com os
produtos das suas atividades. Entretanto, na ocasião em que se
realiza a descoberta científica do verdadeiro caráter dessas rela­ 2. Classes sociais e contradições de classes
ções, quando se desvendam e desmascaram as suas significações,
nessa ocasião os fetichismos começam a perder eficácia. A nova Marx realizou várias descobertas revolucionárias, envolvendo
interpretação adere às relações sociais como algo que também lhe a História, a Economia política, a Lógica, bem como outros
é intrínseco, e tende a desvendar os reflexos, as formas invertidas, campos das Ciências Sociais e da Filosofia. O que singulariza
os fetichismos que encobrem ou sombreiam as determinações essas descobertas, no entanto, é o fato de que todas são relaciona­
essenciais, particularmente as contradições, que governam essas das entre si, todas estão reciprocamente_en.cadeadas. Aind-a—que
relações. É na análise de Marx que todo capitalismo se toma se po§sa_disaitir^|^juventud?^)e a (maturidade^) ou av‘ruptura>
transparente, desde as figurações da mercadoria até às figurações e a ycontinuidadejXa obra de Marx, as suas descobertas exigem,
das relações entre as pessoas, desde os encadeamentos entre a onde quer que as tomemos, que as vejamos sempre em seus des­
sociedade e o Estado até às contradições de classes. dobramentos e detenpinações mútuos. E isso nos parece evidente,
“Ao Homem, de certa forma, ocorre o mesmo que às mercado­
rias. Como não vem ao mundo provido de um espelho, nem pro- 8 Marx, K. El capital, t. I, p. 59; O Capital. Üv. 1, p. 60.
9 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Ed. Escriba,
7 Marx, K. El capital, t. I, p. 80-81; O Capital, liv. 1, p. 81. 1968. p. 48.
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trabalhos como se fosse um cárater’material dos próprios pro­ clamando filosoficamente, como Fichte, “eu sou eu”, o Homem
dutos do trabalho, um dom social natural desses objetos; e como se vê e reconhece primeiramente em seu semelhante. Para
se, portanto, a relação social, que media os produtores e o tra­ referir-se a si mesmo como Homem, o homem Pedro tem que
balho coletivo da sociedade, fosse uma relação social estabelecida começar por referir-se ao homem Paulo como seu igual. Assim
entre os próprios objetos, à margem dos seus produtores. Este fazendo, o tal Paulo é, para ele, com os seus cabelos e sinais, e
quid pro quo é que converte os produtos de trabalho em mer­ toda sua corporeidade paulina, a forma ou a manifestação sob
cadoria, em objetos fisicamente metafísicos ou em objetos so­ a qual se reveste o gênero homem.” 8
ciais. (...) Ocorre que a forma mercadoria e a relação de valor “Quando se examina mais de perto a situação e os partidos, desa­
dos produtos do trabalho, em que essa forma toma corpo, não têm parece essa aparência superficial que dissimula a lufa de classes
absolutamente nada que ver com seu caráter físico, nem com as e a fisionomia peculiar da época.” 9
relações materiais que derivam desse caráter. O que aqui toma, A análise dialética ao mesmo tempo constitui e transforma
aos olhos dos homens, a forma fantasmagórica de uma relação o objeto. Adere destrutivamente ao objeto, na medida em que
entre objetos materiais não é mais do que uma relação social desvenda e desmascara os seus fetichismos, as suas contradições
concreta estabelecida entre os próprios homens. Assim, se que­
e os seus movimentos. Desde o instante em que se formula, a
remos encontrar uma analogia com esse fenômeno, precisamos
interpretação marxista do capitalismo torna-se imprescindível à
elevar-nos às regiões nebulosas do mundo da religião, onde os
produtos da mente humana assemelham-se a seres dotados de existência histórica deste. Ao tomar transparente o encadeamento
vida própria, de existência independente, mantendo tanto relações dos homens e dos produtos da sua atividade, entre si e recipro­
entre si como com os homens. Isto é o que ocorre no mundo camente, a análise desvenda o caráter e as tendências dos antago­
das mercadorias, com os produtos da mão do Homem. E isto nismos que governam o andamento revolucionário e histórico do
é o que eu chamo o fetichismo que adere aos produtos do tra­ capitalismo. Na essência do capitalismo estão, ao mesmo tempo,
balho, tão logo são criados sob a forma de mercadorias, e que a mais-valia, que funda a acumulação de capital, e o proletariado,
é inseparável, por conseguinte, deste sistema de produção.” 7 que produz a mais-valia. Desde o momento em que descobre
que é ele quem produz o capital, ao produzir mais-valia, o
É óbvio que os fetichismos de todo o tipo são indispensáveis
proletariado começa a libertar-se da dominação burguesa. Esse é
à existência e à persistência das relações alienadas que as pessoas,
o primeiro momento no processo de realização da sua hegemonia.
os grupos e as classes sociais desenvolvem entre si e com os
produtos das suas atividades. Entretanto, na ocasião em que se
realiza a descoberta científica do verdadeiro caráter dessas rela­ 2. Classes sociais e contradições de classes
ções, quando se desvendam e desmascaram as suas significações,
nessa ocasião os fetichismos começam a perder eficácia. A nova Marx realizou várias descobertas revolucionárias, envolvendo
interpretação adere às relações sociais como algo que também lhe a História, a Economia política, a Lógica, bem como outros
é intrínseco, e tende a desvendar os reflexos, as formas invertidas, campos das Ciências Sociais e da Filosofia. O que singulariza
os fetichismos que encobrem ou sombreiam as determinações essas descobertas, no entanto, é o fato de que todas são relaciona­
essenciais, particularmente as contradições, que governam essas das entre si, todas estão reciprocamente_en.cadeadas. Aind-a—que
relações. É na análise de Marx que todo capitalismo se toma se po§sa_disaitir^|^juventud?^)e a (maturidade^) ou av‘ruptura>
transparente, desde as figurações da mercadoria até às figurações e a ycontinuidadejXa obra de Marx, as suas descobertas exigem,
das relações entre as pessoas, desde os encadeamentos entre a onde quer que as tomemos, que as vejamos sempre em seus des­
sociedade e o Estado até às contradições de classes. dobramentos e detenpinações mútuos. E isso nos parece evidente,
“Ao Homem, de certa forma, ocorre o mesmo que às mercado­
rias. Como não vem ao mundo provido de um espelho, nem pro- 8 Marx, K. El capital, t. I, p. 59; O Capital. Üv. 1, p. 60.
9 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Ed. Escriba,
7 Marx, K. El capital, t. I, p. 80-81; O Capital, liv. 1, p. 81. 1968. p. 48.
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seja quando examinamos a sua obra ao longo do processo da sua Aqui devemos recolocar o problema inicial: em que medida
produção, seja quando a tomamos em termos do seu encadea­ a teoria da luta de classes de Marx vai se produzindo ao longo
mento lógico interno. Para concretizar um pouco a discussão das da sua obra e em que medida ela responde ao desenvolvimento
duas perspectivas sugeridas, vejamos como se revelam na formu­ lógico da sua interpretação do capitalismo., Vejamos, agora, o
lação da teoria da luta de classes. primeiro movimento da reflexão de Marx sobre o tema.
Em quase todas as obras de Marx há uma preocupação Já nos seus primeiros escritos, Marx revela uma preocupação
persistente e preponderante com. o caráter das classes sociais, constante e preponderante com as questões sociais geradas com a
isto é, as condições e conseqüências dos seus antagonismos è lutas formação e a expansão do capitalismo. Desde o início, ele aborda'
na sociedade capitalista. Para Marx, em última instância, a a alienação das gentes na óptica da divisão sociaí do trabalho.
historicidade, ou seja, a transitoriedade do capitalismo, depende Encara esse processo social como uma coqdição da alienação
do desenvolvimento desses antagonismos e lutas. Fundamental­ que marca a existência social no regime capitalista. Em A Ideologia
mente, o confronto por meio do qual o capitalismo entra em Alemã, onde os problemas são postos frequentemente em termos
colapso final é o confronto entre o proletariado e a burguesia, de primeiros princípios, encontramos uma reflexão como esta:
pois que, para ele, essas são as duas classes substantivas do
regime. Uma, a burguesia, é a classe revolucionária que constrói “A partir do momento em que começa a dividir-se o trabalho,
o capitalismo, depois de ter surgido com o desenvolvimento e a cada um se move num círculo determinado e exclusivo de ativi­
dades, que lhe é imposto e do qual não pode sair; o homem é
desagregação das relações de produção do feudalismo. A outra,
caçador, pescador, pastor, ou crítico crítico, e não há remédio
o proletariado, é a classe revolucionária que nega o capitalismo senão continuar a sê-lo, se não quiser ver-se privado dos meios
e luta para criar a sociedade sem classes, no socialismo. A preo­ de vida”. 11
cupação com essa problemática surge e ressurge em muitas
ocasiões e sob os seus diferentes aspectos. Ê inegável, no entanto, Nessa época, conforme ele próprio o indica, ao referir-se
que a teoria da luta de classes formulada por Marx é uma contri­ ironicamente ao “crítico crítico”, Marx está polemizando com os
buição Revolucionária, tanto no contexto da sua obra como neo-hegelianos de direita. Sob certo aspecto, ele está levando a
relativamente a tudo o que se estava pensando na sua época ou crítica do pensamento hegeliano, na medida em que reaparece na
se havia dito anteriormente. Ele próprio situa essa contribuição linguagem e nos temas dos seus discípulos, às últimas conse­
com clareza. qüências. Ao mesmo tempo, no entanto, Marx já está retirando
as conseqüências sociais da concepção otimista da economia
“No que me diz respeito, nenhum crédito me cabe pela desco­ política clássica inglesa sobre a divisão social do trabalho. En­
berta da existência de classes na sociedade moderna ou da luta
entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses haviam
quanto Adam Smith via na divisão social do trabalho o processo
descrito o desenvolvimento histórico da luta de classes, e econo- por meio do qual as forças produtivas podiam desenvolver-se e
■ mistas burgueses, a anatomia econômica das classes. O que fiz generalizar os benefícios do capitalismo, inclusive em âmbito
de novo foi provar: 1) que a existência de classes somente tem Á?rRci°£aÁMa£A JÁ 0 ÁÇaÃLzava com° uma^_ das_ f
lugar em determinadas fases históricas do desenvolvimento da quais se concretizam as relações de alienação ~e antagonismo que
produção', 2) que a luta de classes necessariamente conduz à estão na base do capitalismo. Tanto assim que retoma as impli­
ditadura do proletariado, 3) que esta mesma ditadura não consti­ cações econômicas e sociais da divisão social do trabalho em
tui senão a transição no sentido da abolição de todas as classes O Capital, na mesma busca das relações que fundamentam a
e da sociedade sem classes.” 10
alienação do produtor no sistema capitalista. Para Marx, a força

10 Marx, K. “Marx to I. Weydemeyer in New York.” (Carta datada de 5


de março de 1852.) In: Marx, K. e Engels, F. Selected Correspondence. 11 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. Montevidéu, Ediciones
Moscou, Progress Publishers, 1955. p. 69. Pueblos Unidos, 1958. p. 33.
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seja quando examinamos a sua obra ao longo do processo da sua Aqui devemos recolocar o problema inicial: em que medida
produção, seja quando a tomamos em termos do seu encadea­ a teoria da luta de classes de Marx vai se produzindo ao longo
mento lógico interno. Para concretizar um pouco a discussão das da sua obra e em que medida ela responde ao desenvolvimento
duas perspectivas sugeridas, vejamos como se revelam na formu­ lógico da sua interpretação do capitalismo., Vejamos, agora, o
lação da teoria da luta de classes. primeiro movimento da reflexão de Marx sobre o tema.
Em quase todas as obras de Marx há uma preocupação Já nos seus primeiros escritos, Marx revela uma preocupação
persistente e preponderante com. o caráter das classes sociais, constante e preponderante com as questões sociais geradas com a
isto é, as condições e conseqüências dos seus antagonismos è lutas formação e a expansão do capitalismo. Desde o início, ele aborda'
na sociedade capitalista. Para Marx, em última instância, a a alienação das gentes na óptica da divisão sociaí do trabalho.
historicidade, ou seja, a transitoriedade do capitalismo, depende Encara esse processo social como uma coqdição da alienação
do desenvolvimento desses antagonismos e lutas. Fundamental­ que marca a existência social no regime capitalista. Em A Ideologia
mente, o confronto por meio do qual o capitalismo entra em Alemã, onde os problemas são postos frequentemente em termos
colapso final é o confronto entre o proletariado e a burguesia, de primeiros princípios, encontramos uma reflexão como esta:
pois que, para ele, essas são as duas classes substantivas do
regime. Uma, a burguesia, é a classe revolucionária que constrói “A partir do momento em que começa a dividir-se o trabalho,
o capitalismo, depois de ter surgido com o desenvolvimento e a cada um se move num círculo determinado e exclusivo de ativi­
dades, que lhe é imposto e do qual não pode sair; o homem é
desagregação das relações de produção do feudalismo. A outra,
caçador, pescador, pastor, ou crítico crítico, e não há remédio
o proletariado, é a classe revolucionária que nega o capitalismo senão continuar a sê-lo, se não quiser ver-se privado dos meios
e luta para criar a sociedade sem classes, no socialismo. A preo­ de vida”. 11
cupação com essa problemática surge e ressurge em muitas
ocasiões e sob os seus diferentes aspectos. Ê inegável, no entanto, Nessa época, conforme ele próprio o indica, ao referir-se
que a teoria da luta de classes formulada por Marx é uma contri­ ironicamente ao “crítico crítico”, Marx está polemizando com os
buição Revolucionária, tanto no contexto da sua obra como neo-hegelianos de direita. Sob certo aspecto, ele está levando a
relativamente a tudo o que se estava pensando na sua época ou crítica do pensamento hegeliano, na medida em que reaparece na
se havia dito anteriormente. Ele próprio situa essa contribuição linguagem e nos temas dos seus discípulos, às últimas conse­
com clareza. qüências. Ao mesmo tempo, no entanto, Marx já está retirando
as conseqüências sociais da concepção otimista da economia
“No que me diz respeito, nenhum crédito me cabe pela desco­ política clássica inglesa sobre a divisão social do trabalho. En­
berta da existência de classes na sociedade moderna ou da luta
entre elas. Muito antes de mim, historiadores burgueses haviam
quanto Adam Smith via na divisão social do trabalho o processo
descrito o desenvolvimento histórico da luta de classes, e econo- por meio do qual as forças produtivas podiam desenvolver-se e
■ mistas burgueses, a anatomia econômica das classes. O que fiz generalizar os benefícios do capitalismo, inclusive em âmbito
de novo foi provar: 1) que a existência de classes somente tem Á?rRci°£aÁMa£A JÁ 0 ÁÇaÃLzava com° uma^_ das_ f
lugar em determinadas fases históricas do desenvolvimento da quais se concretizam as relações de alienação ~e antagonismo que
produção', 2) que a luta de classes necessariamente conduz à estão na base do capitalismo. Tanto assim que retoma as impli­
ditadura do proletariado, 3) que esta mesma ditadura não consti­ cações econômicas e sociais da divisão social do trabalho em
tui senão a transição no sentido da abolição de todas as classes O Capital, na mesma busca das relações que fundamentam a
e da sociedade sem classes.” 10
alienação do produtor no sistema capitalista. Para Marx, a força

10 Marx, K. “Marx to I. Weydemeyer in New York.” (Carta datada de 5


de março de 1852.) In: Marx, K. e Engels, F. Selected Correspondence. 11 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. Montevidéu, Ediciones
Moscou, Progress Publishers, 1955. p. 69. Pueblos Unidos, 1958. p. 33.
16 l 17

individual de trabalho permanece inativa, estéril, se não se vende progresso histórico e fator necessário do desenvolvimento econô­
mico da sociedade, e, de outro, meio civilizado e refinado de
ao capital. Ela somente pode funcionar, criar valor, quando se exploração.” 12
articula, depois de vendida, às outras forças produtivas, nos
quadros da divisão social do trabalho, organizada também como / Pouco a pouco, Marx delineia a sua visão do capitalismo
força produtiva, segundo as exigências da produção de mais-valia. como uma sociedade na qual a burguesia e o proletariado são
Isto é, a força individual de trabalho somente pode funcionar em classes sociais revolucionárias e antagônicas^ Revolucionárias é
benefício do trabalhador se funcionar também, em benefício do antagônicas porque enquanto uma instaura o capitalismo, a outra
capitalista. Na divisão social do trabalho, que impera na indústriaA começa a lutar pela destruição do regime no próprio, instante em
o processo de dissociação entre o produtor e a propriedade dos que aparece. Porque aparece alienado no produto do seu trabalho,
meios de pródução alcança os seus maiores desenvolvimentos. ao produzir mais-valia, o proletariado lutará para suplantar essa
Esse é o contexto em que o operário se transforma em operário situação; Porque aparece, desde o princípiér, como a classe que
parcial, em peça adjetiva da máquina. Devido à fragmentação' se apropria da mais-valia, a burguesia começa a deixar de ser
do processo produtivo, no desenvolvimento da divisão social do revolucionária na ocasião em que se constitui. Nesse instante,
trabalho, o operário é levado a utilizar apenas uma parte das suas passa a preocupar-se principalmente com a preservação e o aper­
faculdades criativas. Toda a sua energia tende a esgotar-se na feiçoamento do (stalus Por dentro da revolução burguesa
sucção de trabalho vivo pelo trabalho morto, isto é, na cristaliza­ começa a formar-se a revolução proletária.
ção de trabalho vivo segundo as determinações do capital. Muitas “Há algumas décadas, a história da indústria e do comércio não
vezes, pois, a divisão social do trabalho traz consigo distorções é mais que a história da revolta das forças produtivas modernas
no desenvolvimento e na expressividadg_física e espiritual dq contra as relações de produção e de propriedade, que condicio­
operário. Nesses sentidos ê que a_ máquina aparece metafórica^ nam a existência da burguesia e sua dominação. (...) As forças
mente digerindo o operário. Esse grau de alienação, que passa produtivas de que dispõe (a sociedade) não favorecem mais o
pela divisão social do trabalho na fábrica" em cada setor eco­ desenvolvimento das condições da propriedade burguesa; pelo
nômico e na sociedade, é uma determinação da produção de contrário, tornaram-se poderosas demais para essas condições,
que se transformam em entraves; e todas as vezes que as forças
mais-valia relativa.
produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na
“Decompondo o ofício manual, especializando as ferramentas, desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da proprie­
formando os trabalhadores parciais, grupando-os e combinando-os dade burguesa. (...)
num mecanismo único, a divisão manufatureira do trabalho cria As armas de que a burguesia se serviu para abater o feudalismo
a subdivisão qualitativa e a proporcionalidade quantitativa dos voltam-se hoje contra a própria burguesia.
processos sociais de produção; cria, assim, determinada organiza­ Mas a burguesia não forjou somente as armas que lhe darão a
ção do trabalho social e, com isso, desenvolve ao mesmo tempo morte; criou também os homens que manejarão essas armas —
nova força produtiva social do trabalho. A divisão manufatureira os operários modernos, os 'proletários'. (...)
do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob Ora, a indústria, desenvolvendo-se, não somente engrossa o
forma especificamente capitalista. Como forma capitalista do número dos proletários, mas concentra-os em massas cada vez
processo social de produção, é apenas um método especial de mais consideráveis; os proletários aumentam em força e adqui­
produzir mais-valia relativa, ou de expandir os ganhos de capital, rem mais clara consciência de sua força. (...) Os choques in­
o que se chaipa de riqueza social, “Wealth of Nations” etc., as dividuais entre ó operário e o burguês tomam cada vez mais o
custas do trabalhador. Ela desenvolve a força produtiva do tra­ caráter de choques entre duas classes. Os operários começam
balho coletivo para o capitalista e não para o trabalhador e, além
disso,,deforma o trabalhador individual. Produz novas condições
de domínio do capital sobre o trabalho. Revela-se, de um lado, 12 Marx, K. El capital, t. I, p. 404; O Capital. Jiv. 1, p. 417-18.
16 l 17

individual de trabalho permanece inativa, estéril, se não se vende progresso histórico e fator necessário do desenvolvimento econô­
mico da sociedade, e, de outro, meio civilizado e refinado de
ao capital. Ela somente pode funcionar, criar valor, quando se exploração.” 12
articula, depois de vendida, às outras forças produtivas, nos
quadros da divisão social do trabalho, organizada também como / Pouco a pouco, Marx delineia a sua visão do capitalismo
força produtiva, segundo as exigências da produção de mais-valia. como uma sociedade na qual a burguesia e o proletariado são
Isto é, a força individual de trabalho somente pode funcionar em classes sociais revolucionárias e antagônicas^ Revolucionárias é
benefício do trabalhador se funcionar também, em benefício do antagônicas porque enquanto uma instaura o capitalismo, a outra
capitalista. Na divisão social do trabalho, que impera na indústriaA começa a lutar pela destruição do regime no próprio, instante em
o processo de dissociação entre o produtor e a propriedade dos que aparece. Porque aparece alienado no produto do seu trabalho,
meios de pródução alcança os seus maiores desenvolvimentos. ao produzir mais-valia, o proletariado lutará para suplantar essa
Esse é o contexto em que o operário se transforma em operário situação; Porque aparece, desde o princípiér, como a classe que
parcial, em peça adjetiva da máquina. Devido à fragmentação' se apropria da mais-valia, a burguesia começa a deixar de ser
do processo produtivo, no desenvolvimento da divisão social do revolucionária na ocasião em que se constitui. Nesse instante,
trabalho, o operário é levado a utilizar apenas uma parte das suas passa a preocupar-se principalmente com a preservação e o aper­
faculdades criativas. Toda a sua energia tende a esgotar-se na feiçoamento do (stalus Por dentro da revolução burguesa
sucção de trabalho vivo pelo trabalho morto, isto é, na cristaliza­ começa a formar-se a revolução proletária.
ção de trabalho vivo segundo as determinações do capital. Muitas “Há algumas décadas, a história da indústria e do comércio não
vezes, pois, a divisão social do trabalho traz consigo distorções é mais que a história da revolta das forças produtivas modernas
no desenvolvimento e na expressividadg_física e espiritual dq contra as relações de produção e de propriedade, que condicio­
operário. Nesses sentidos ê que a_ máquina aparece metafórica^ nam a existência da burguesia e sua dominação. (...) As forças
mente digerindo o operário. Esse grau de alienação, que passa produtivas de que dispõe (a sociedade) não favorecem mais o
pela divisão social do trabalho na fábrica" em cada setor eco­ desenvolvimento das condições da propriedade burguesa; pelo
nômico e na sociedade, é uma determinação da produção de contrário, tornaram-se poderosas demais para essas condições,
que se transformam em entraves; e todas as vezes que as forças
mais-valia relativa.
produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na
“Decompondo o ofício manual, especializando as ferramentas, desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da proprie­
formando os trabalhadores parciais, grupando-os e combinando-os dade burguesa. (...)
num mecanismo único, a divisão manufatureira do trabalho cria As armas de que a burguesia se serviu para abater o feudalismo
a subdivisão qualitativa e a proporcionalidade quantitativa dos voltam-se hoje contra a própria burguesia.
processos sociais de produção; cria, assim, determinada organiza­ Mas a burguesia não forjou somente as armas que lhe darão a
ção do trabalho social e, com isso, desenvolve ao mesmo tempo morte; criou também os homens que manejarão essas armas —
nova força produtiva social do trabalho. A divisão manufatureira os operários modernos, os 'proletários'. (...)
do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob Ora, a indústria, desenvolvendo-se, não somente engrossa o
forma especificamente capitalista. Como forma capitalista do número dos proletários, mas concentra-os em massas cada vez
processo social de produção, é apenas um método especial de mais consideráveis; os proletários aumentam em força e adqui­
produzir mais-valia relativa, ou de expandir os ganhos de capital, rem mais clara consciência de sua força. (...) Os choques in­
o que se chaipa de riqueza social, “Wealth of Nations” etc., as dividuais entre ó operário e o burguês tomam cada vez mais o
custas do trabalhador. Ela desenvolve a força produtiva do tra­ caráter de choques entre duas classes. Os operários começam
balho coletivo para o capitalista e não para o trabalhador e, além
disso,,deforma o trabalhador individual. Produz novas condições
de domínio do capital sobre o trabalho. Revela-se, de um lado, 12 Marx, K. El capital, t. I, p. 404; O Capital. Jiv. 1, p. 417-18.
18
19
por unir-se contra os burgueses para manter seus salários. Vão
até formar associações permanentes, na previsão de lutas even­ incompletas ou falaciosas. Nesse processo, essencialmente prático-
tuais. Por vezes a resistência transforma-se em revolta.” 13 -crítico, Marx produz a sua interpretação do capitalismo; interpre­
tação essa que parece corresponder ao momento mais desenvolvido
Ao mesmo tempo que se desenvolve o capitalismo industrial,
da existência do regime e, ao mesmo tempo, à condição da sua
os trabalhadores assalariados da indústria vão se organizando em
superação por outro regime produtivo.
associações, coalizões, sindicatos e, por fim, em partido político.
Pouco a pouco eles compreendem as suas condições semelhantes No curso desse trabalho intelectual, Marx descobre que a
de vida, as suas relações sociais imediatas de trabalho, as suas mercadoria se singulariza por exprimir, em última instância, umã
relações entre si, com as outras classes sociais e, em especial, com relação determmãda~de~alienação entre o operário e,q capitalista.
a burguesia. Nesse processo, os trabalhadores individuais trans­ Inicialmente, a mercadoria aparece como valor de-uso. Mas essa
formam-se no proletariado; a classe econômica na classe política é a expressão, por assim dizer, subjetiva da mercadoria, enquanto
ou a classe em si numa classe para si. Essa é a ocasião em que o uma relação entre o produtor e o produto çdo seu trabalho. À
proletariado se transforma numa classe social hegemônica (para medida que a análise progride, no entanto, fica evidente que por
si ou política), passando a lutar politicamente pela destruição do sob o valor de uso está o valor de troca, e de que por sob este
Estado burguês e instauração da “ditadura revolucionária do está o valor trabalho, isto é, o trabalho social nela cristalizado.
proletariado”, como fase de transição para a sociedade sem classes. Assim, a troca de mercadorias esconde a troca de trabalhos sociais
Há uma determinação recíproca entre alienação, antagonismo e nelas cristalizados. Na medida em que somente a força de tra­
revolução. Dentre todas as forças produtivas, a maior é a pró­ balho cria valor, pois que o valor é energia humana socialmente
pria classe operária; portanto, a única que pode transformar o cristalizada em objeto social, a acumulação de capital pelo capi­
sistema.14 talista só é possível pela expropriação. Ou seja, o capitalista
compra certa quantidade de força de trabalho do operário, mas
Vejamos, agora, o segundo movimento do pensamento de faz com que ele produza maior quantidade de valor do que o
Marx, isto é, como a sua teoria da luta de classes corresponde a que lhe é restituído sob a forma de salário. O segredo da acumu­
uma decorrência lógica da sua análise do capitalismo. Note-se, lação capitalista, pois, é a diferença entre o trabalho necessário à
aliás, que alguns aspectos dessa congruência lógica interna já reprodução da vida do operário (o que é pago) e o trabalho
aparecém, implícitos, na análise do movimento anterior. Agora excedente, que o trabalhador é obrigado a realizar (não pago).
vamos explicitá-la melhor. É o trabalho excedente que produz mais-valia; quando resulta da
^Sabemos que Marx elaborou a interpretação do capitalismo extensão da jornada de trabalho, produz a mais-valia absoluta,
realizando uma integração crítica e desenvolvida das contribuições ao passo que produz mais-valia relativa quando resulta da poten­
da filosofia hegeliana, do socialismo utópico e da economia ciação da produtividade da força de trabalho, pela tecnologia,
divisão social do trabalho ou outras forças produtivas combinadas.
política clássica.^] Note-se, entretanto, que ele se aproveitou desse
O operário não pode viver a não ser pela venda da sua força
trabalho crítico" tanto para desenvolver e integrar o seu pen­
produtiva ao proprietário dos outros meios de produção, tais como
samento como para apreender, isolar e aprofundar a análise capital^ tecnologiá7~õrgãnizãçãõ~emprêsãriai etc. No curso dessa
de questões que aquelas correntes de pensamento não foram análise, à medida que ela se toma cada vez mais concreta, Marx
capazes de resolver ou resolveram em direções que ele considerou vai elaborando os conceitos de valor de uso, valor de troca, valor
trabalho, trabalho social (concreto, abstrato, individual, coletivo),
13 Marx, K. e Engels, F- Manifeste du parti communiste. Paris, Éditions trabalho necessário, trabalho excedente, mais-valia absoluta, mais-
Sociales, 1960. p. 20-23; Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro, -valia relativa e outros. O núcleo desse processo explicativo é a
Editorial Vitória, 1948. p. 28-30. categoria mais-valia, que revela uma relação determinada de
34 Marx, K. Misère de la philosophie. Paris, Éditions Sociales, 1947. p. 135;
Miséria da Filosofia. Rio de Janeiro, Ed. Leitura, 1965. p. 164-65.
alienação e antagonismo, na qual se encadeiam e opõem o operá­
rio e o capitalista.
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por unir-se contra os burgueses para manter seus salários. Vão
até formar associações permanentes, na previsão de lutas even­ incompletas ou falaciosas. Nesse processo, essencialmente prático-
tuais. Por vezes a resistência transforma-se em revolta.” 13 -crítico, Marx produz a sua interpretação do capitalismo; interpre­
tação essa que parece corresponder ao momento mais desenvolvido
Ao mesmo tempo que se desenvolve o capitalismo industrial,
da existência do regime e, ao mesmo tempo, à condição da sua
os trabalhadores assalariados da indústria vão se organizando em
superação por outro regime produtivo.
associações, coalizões, sindicatos e, por fim, em partido político.
Pouco a pouco eles compreendem as suas condições semelhantes No curso desse trabalho intelectual, Marx descobre que a
de vida, as suas relações sociais imediatas de trabalho, as suas mercadoria se singulariza por exprimir, em última instância, umã
relações entre si, com as outras classes sociais e, em especial, com relação determmãda~de~alienação entre o operário e,q capitalista.
a burguesia. Nesse processo, os trabalhadores individuais trans­ Inicialmente, a mercadoria aparece como valor de-uso. Mas essa
formam-se no proletariado; a classe econômica na classe política é a expressão, por assim dizer, subjetiva da mercadoria, enquanto
ou a classe em si numa classe para si. Essa é a ocasião em que o uma relação entre o produtor e o produto çdo seu trabalho. À
proletariado se transforma numa classe social hegemônica (para medida que a análise progride, no entanto, fica evidente que por
si ou política), passando a lutar politicamente pela destruição do sob o valor de uso está o valor de troca, e de que por sob este
Estado burguês e instauração da “ditadura revolucionária do está o valor trabalho, isto é, o trabalho social nela cristalizado.
proletariado”, como fase de transição para a sociedade sem classes. Assim, a troca de mercadorias esconde a troca de trabalhos sociais
Há uma determinação recíproca entre alienação, antagonismo e nelas cristalizados. Na medida em que somente a força de tra­
revolução. Dentre todas as forças produtivas, a maior é a pró­ balho cria valor, pois que o valor é energia humana socialmente
pria classe operária; portanto, a única que pode transformar o cristalizada em objeto social, a acumulação de capital pelo capi­
sistema.14 talista só é possível pela expropriação. Ou seja, o capitalista
compra certa quantidade de força de trabalho do operário, mas
Vejamos, agora, o segundo movimento do pensamento de faz com que ele produza maior quantidade de valor do que o
Marx, isto é, como a sua teoria da luta de classes corresponde a que lhe é restituído sob a forma de salário. O segredo da acumu­
uma decorrência lógica da sua análise do capitalismo. Note-se, lação capitalista, pois, é a diferença entre o trabalho necessário à
aliás, que alguns aspectos dessa congruência lógica interna já reprodução da vida do operário (o que é pago) e o trabalho
aparecém, implícitos, na análise do movimento anterior. Agora excedente, que o trabalhador é obrigado a realizar (não pago).
vamos explicitá-la melhor. É o trabalho excedente que produz mais-valia; quando resulta da
^Sabemos que Marx elaborou a interpretação do capitalismo extensão da jornada de trabalho, produz a mais-valia absoluta,
realizando uma integração crítica e desenvolvida das contribuições ao passo que produz mais-valia relativa quando resulta da poten­
da filosofia hegeliana, do socialismo utópico e da economia ciação da produtividade da força de trabalho, pela tecnologia,
divisão social do trabalho ou outras forças produtivas combinadas.
política clássica.^] Note-se, entretanto, que ele se aproveitou desse
O operário não pode viver a não ser pela venda da sua força
trabalho crítico" tanto para desenvolver e integrar o seu pen­
produtiva ao proprietário dos outros meios de produção, tais como
samento como para apreender, isolar e aprofundar a análise capital^ tecnologiá7~õrgãnizãçãõ~emprêsãriai etc. No curso dessa
de questões que aquelas correntes de pensamento não foram análise, à medida que ela se toma cada vez mais concreta, Marx
capazes de resolver ou resolveram em direções que ele considerou vai elaborando os conceitos de valor de uso, valor de troca, valor
trabalho, trabalho social (concreto, abstrato, individual, coletivo),
13 Marx, K. e Engels, F- Manifeste du parti communiste. Paris, Éditions trabalho necessário, trabalho excedente, mais-valia absoluta, mais-
Sociales, 1960. p. 20-23; Manifesto do Partido Comunista. Rio de Janeiro, -valia relativa e outros. O núcleo desse processo explicativo é a
Editorial Vitória, 1948. p. 28-30. categoria mais-valia, que revela uma relação determinada de
34 Marx, K. Misère de la philosophie. Paris, Éditions Sociales, 1947. p. 135;
Miséria da Filosofia. Rio de Janeiro, Ed. Leitura, 1965. p. 164-65.
alienação e antagonismo, na qual se encadeiam e opõem o operá­
rio e o capitalista.
20 21

“Não é o operário quem emprega os meios de produção; são os posição 'histórica privilegiada, quanto às suas condições de luta
meios de produção que empregam o operário. Não é o trabalho política contra a burguesia. Desde"os primeiros escritos, iMaix
vivo que se realiza no trabalho materializado, como em seu órgão ik esteve interessado no processo • político por meio do qual se dá a
objètivo; é o trabalho materializado que se conserva e aumenta metamorfose da classe operária de classe em si a classe para si.
pela sucção do trabalho vivo, graças ao qual converte-se em um Esse é um movimento crucial no processo de desenvolvimento
valor que se valoriza, em capital, e funciona como tal. Os meios
da contradição de classes no capitalismo;
de produção aparecem, pois, unicamente como sugadores de
quantidades crescentes de trabalho vivo. (...) “A grande indústria concentra, em um mesmo lugar, uma massa
Em realidade, a dominação dos capitalistas sobre os operários e de pessoas que não se conhecem entre si. A concorrência divide
somente o domínio das condições de trabalho sobre estes (entre os seus interesses. Mas a defesa do salário, esse interesse comum
as quais contam-se, também, além das condições objetivas do a todas elas perante seu patrão, une-as em uma idéia comum de
processo de produção — isto é, os meios de produção —, as resistência: a coalizão. Portanto, a coalizão persegue, sem­
condições objetivas de manutenção e de eficiência da força de pre, uma dupla finalidade: acabar com a concorrência entre os
trabalho, ou seja, dos meios de subsistência'), condições de traba­ operários para poder fazer uma concorrência geral aos capita­
lho que se tornaram autônomas, e precisamente frente ao ope­ listas. Se o primeiro fim da resistência se reduzia à defesa do
rário. (...) salário, depois, à medida que, por sua vez, os capitalistas se as­
A dominação do capitalista sobre o operário é, por conseguinte, sociam, movidos pela idéia da repressão, as coalizões, inicial­
a da coisa sobre o homem, do trabalho morto sobre o trabalho mente isoladas, formam grupos, e a defesa pelos operários de
vivo, do produto sobre o produtor, pois que, na realidade, as mer­ suas associações, diante do capital sempre unido, acaba sendo
cadorias, que se convertem em meios de dominação sobre os para eles mais necessária que a defesa do salário.
operários (mas somente como meios da dominação do capital (...) Nessa luta — verdadeira guerra civil — vão-se unindo e
propriamente), não são nada mais que meros resultados do pro­ desenvolvendo todos os elementos para a batalha futura. Ao
cesso de produção, os produtos do mesmo. Na produção mate­ chegar a esse ponto, a coalizão toma caráter político. As con­
rial, no verdadeiro processo da vida social — pois este é o pro­ dições econômicas transformaram primeiro a massa da população
cesso da produção ■—• dá-se exatamente a mesma relação que, no do país em trabalhadores. O domínio do capital criou para essa
terreno ideológico, apresenta-se na religião: a conversão do sujeito
massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, pois, essa
no objeto e vice-versa.” 15 *
massa já é uma classe relativamente ao capital, mas ainda não é
Por intermédio desse movimento analítico, quando as cate­ uma classe para si. Na luta, da qual não assinalamos mais que
gorias vão exprimindo relações necessárias, que se impõem com algumas fases, essa massa se une, constituindo-se numa classe para
férrea necessidade, surge progressivamente a verdadeira condição si mesma.” 10
da. classe operária, ao mesmo tempo que surge a condição ver­ Vimos, pois, que a teoria marxista da luta de classes é o
dadeira da classe capitalista, desde o processo produtivo, em resultado combinado de dois movimentos do pensamento de
sentido estrito, até às suas relações políticas de antagonismo e Marx. Por um lado, ele elabora a sua compreensão das classes
negação. Nociais, seus antagonismos e lutas à medida que se desenvolvem
Entretanto,, a condição crítica da classe operária não é in- UH suas reflexões, desde a crítica das filosofias hegelian. e
dependente da sua perspectiva crítica. A mesma condição alienada neo-hegeliana até a crítica do socialismo utópico francês e da
economia política clássica inglesa. Note-se que todas essas re­
da sua existência, como classe, constitui a base da sua posição
crítica. Pouco a pouco a classe operária se dá conta da sua. flexões foram enriquecidas e desenvolvidas inclusive pela sua
participação política direta em lutas operárias do tempo. Em todo

15 Marx, K. El capital. Buenos Aires, Ediciones Signos, 1971. liv. I,


cap. VI (inédito), p. 17, 18 e 19. 1,1 Marx, K. Misère de la philosophie. p. 134; Miséria da Filosofia, p. 163-64.
20 21

“Não é o operário quem emprega os meios de produção; são os posição 'histórica privilegiada, quanto às suas condições de luta
meios de produção que empregam o operário. Não é o trabalho política contra a burguesia. Desde"os primeiros escritos, iMaix
vivo que se realiza no trabalho materializado, como em seu órgão ik esteve interessado no processo • político por meio do qual se dá a
objètivo; é o trabalho materializado que se conserva e aumenta metamorfose da classe operária de classe em si a classe para si.
pela sucção do trabalho vivo, graças ao qual converte-se em um Esse é um movimento crucial no processo de desenvolvimento
valor que se valoriza, em capital, e funciona como tal. Os meios
da contradição de classes no capitalismo;
de produção aparecem, pois, unicamente como sugadores de
quantidades crescentes de trabalho vivo. (...) “A grande indústria concentra, em um mesmo lugar, uma massa
Em realidade, a dominação dos capitalistas sobre os operários e de pessoas que não se conhecem entre si. A concorrência divide
somente o domínio das condições de trabalho sobre estes (entre os seus interesses. Mas a defesa do salário, esse interesse comum
as quais contam-se, também, além das condições objetivas do a todas elas perante seu patrão, une-as em uma idéia comum de
processo de produção — isto é, os meios de produção —, as resistência: a coalizão. Portanto, a coalizão persegue, sem­
condições objetivas de manutenção e de eficiência da força de pre, uma dupla finalidade: acabar com a concorrência entre os
trabalho, ou seja, dos meios de subsistência'), condições de traba­ operários para poder fazer uma concorrência geral aos capita­
lho que se tornaram autônomas, e precisamente frente ao ope­ listas. Se o primeiro fim da resistência se reduzia à defesa do
rário. (...) salário, depois, à medida que, por sua vez, os capitalistas se as­
A dominação do capitalista sobre o operário é, por conseguinte, sociam, movidos pela idéia da repressão, as coalizões, inicial­
a da coisa sobre o homem, do trabalho morto sobre o trabalho mente isoladas, formam grupos, e a defesa pelos operários de
vivo, do produto sobre o produtor, pois que, na realidade, as mer­ suas associações, diante do capital sempre unido, acaba sendo
cadorias, que se convertem em meios de dominação sobre os para eles mais necessária que a defesa do salário.
operários (mas somente como meios da dominação do capital (...) Nessa luta — verdadeira guerra civil — vão-se unindo e
propriamente), não são nada mais que meros resultados do pro­ desenvolvendo todos os elementos para a batalha futura. Ao
cesso de produção, os produtos do mesmo. Na produção mate­ chegar a esse ponto, a coalizão toma caráter político. As con­
rial, no verdadeiro processo da vida social — pois este é o pro­ dições econômicas transformaram primeiro a massa da população
cesso da produção ■—• dá-se exatamente a mesma relação que, no do país em trabalhadores. O domínio do capital criou para essa
terreno ideológico, apresenta-se na religião: a conversão do sujeito
massa uma situação comum, interesses comuns. Assim, pois, essa
no objeto e vice-versa.” 15 *
massa já é uma classe relativamente ao capital, mas ainda não é
Por intermédio desse movimento analítico, quando as cate­ uma classe para si. Na luta, da qual não assinalamos mais que
gorias vão exprimindo relações necessárias, que se impõem com algumas fases, essa massa se une, constituindo-se numa classe para
férrea necessidade, surge progressivamente a verdadeira condição si mesma.” 10
da. classe operária, ao mesmo tempo que surge a condição ver­ Vimos, pois, que a teoria marxista da luta de classes é o
dadeira da classe capitalista, desde o processo produtivo, em resultado combinado de dois movimentos do pensamento de
sentido estrito, até às suas relações políticas de antagonismo e Marx. Por um lado, ele elabora a sua compreensão das classes
negação. Nociais, seus antagonismos e lutas à medida que se desenvolvem
Entretanto,, a condição crítica da classe operária não é in- UH suas reflexões, desde a crítica das filosofias hegelian. e
dependente da sua perspectiva crítica. A mesma condição alienada neo-hegeliana até a crítica do socialismo utópico francês e da
economia política clássica inglesa. Note-se que todas essas re­
da sua existência, como classe, constitui a base da sua posição
crítica. Pouco a pouco a classe operária se dá conta da sua. flexões foram enriquecidas e desenvolvidas inclusive pela sua
participação política direta em lutas operárias do tempo. Em todo

15 Marx, K. El capital. Buenos Aires, Ediciones Signos, 1971. liv. I,


cap. VI (inédito), p. 17, 18 e 19. 1,1 Marx, K. Misère de la philosophie. p. 134; Miséria da Filosofia, p. 163-64.
22 23

esse trabalho ele vai deparando os mais diferentes aspectos das Como vemos, é essencial que a análise dialética compreenda
relações capitalistas, desde o caráter alienante da divisão social a maneira pela qual se relacionam, encadeiam e determinam,
do trabalho na fábrica e na sociedade até o problema da superação reciprocamente, as condições de existência social e as distintas
do regime capitalista por uma sociedade sem classes. Por outro modalidades de consciência. Não se trata de conferir autonomia
lado — mas ao mesmo tempo ■—- Marx mergulha e demora a uma ou outra dimensão da realidade social. É evidente que
na análise das relações de produção específicas do capitalismo. as modalidades de consciência fazem parte das condições de
Ao realizar esse trabalho, reencontra as classes sociais em suas existência social. Por isso é que Marx examina, sempre, os
relações necessárias e antagônicas., Um e outro movimento
diversos momentos e èxpressões das relações capitalistas. Ele reco­
encadeiam-se no curso da'produção da interpretação crítica do
nhece que “a anatomia da sociedade deve ser procurada na econo­
capitalismo.
mia política”, isto é, na análise das relações de produção. Mas
entende que, para conhecer as relações de produção, é preciso
3. Existência e consciência examinar desde o grau de desenvolvimento das forças produtivas
e das relações de produção até às relações e estruturas jurídico-
Para Marx, a consciência social exprime e constitui, ao -políticas, jamais perdendo de vista as suas especificidades e os
mesmo tempo, as relações sociais. Por isso, a análise dialética das seus encadeamentos recíprocos. Inclusive as interpretações prece­
relações capitalistas exige que a interpretação apanhe sempre a dentes e contemporâneas são examinadas criticamente, como di­
maneira pela qual os homens pensam-se a si mesmos e uns aos mensões ou expressões ideológicas e teóricas desse modo de pro­
outros. A autoconsciência somente é possível no espelho do outro. dução. Todo esse trabalho intelectual está orientado pela convic­
A condição de operário e de capitalista somente se revela nas ção de que não se pode compreender a sociedade se não se exami­
relações que um e outro estabelecem entre si. Mas essas relações nam os encadeamentos, desdobramentos e determinações recíprocos
não se realizam, a não ser que um e outro se pensem no processo das forças produtivas, relações de produção, estruturas políticas
de compra e venda de força de trabalho, de produção de merca­ e modalidades de consciência.
doria, de intercâmbio entre trabalho necessário (pago) e exce­ “Na produção social da própria existência, os homens entram em
dente (não pago). Não se completa a compreensão da existência relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade;
do operário e do capitalista, a não ser quando a análise passa pela estas relações de produção correspondem a tim grau determinado
forma pela qual um e outro se compreendem a si próprios e de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O con­
reciprocamente. Para reconhecer-se como operário* é indispen­ junto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica
sável que o operário reconheça o capitalista como tal e vice-versa. da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura
Esse reconhecimento é, ao mesmo tempo, uma condição funda­ jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determi­
mentar da existência e negação recíprocas. Para afirmar-se como nadas de consciência. O modo de produção da vida material
capitalista, o capitalista precisa não só apropriar-se do produto condiciona o processo de„vid.a. sociaji^p.oiítíca.^e..intelectual. Não
do trabalho excedente (não pago), mas também reconhecer o é a consciência dqs homens que determina a realídade; ao^com
produtor de valor excedente, a mais-valia, que aparece na sua Trário, é a realidade social que determina sua consciência.” 17 \
consciência como lucro. Reciprocamente, para afirmar-se como
Ocorre, no entanto, que as modalidades da consciência e as
tal, o operário precisa não só afirmar-se como produtor de merca­
condições de existência social não se exprimem nem se relacionam
doria ou vendedor de força de trabalho, mas também reconhecer
o proprietário dos meios de produção que se apropria do produto de modo harmônico. Tanto as pessoas como os grupos e as
do trabalho não pago. Essas são as relações básicas de depen­ classes sociais apreendem as suas relações sociais reais de maneira
dência, alienação e antagonismo, que fundam a existência e a
consciência do operário e do capitalista. 17 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política, p. 30-31.
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esse trabalho ele vai deparando os mais diferentes aspectos das Como vemos, é essencial que a análise dialética compreenda
relações capitalistas, desde o caráter alienante da divisão social a maneira pela qual se relacionam, encadeiam e determinam,
do trabalho na fábrica e na sociedade até o problema da superação reciprocamente, as condições de existência social e as distintas
do regime capitalista por uma sociedade sem classes. Por outro modalidades de consciência. Não se trata de conferir autonomia
lado — mas ao mesmo tempo ■—- Marx mergulha e demora a uma ou outra dimensão da realidade social. É evidente que
na análise das relações de produção específicas do capitalismo. as modalidades de consciência fazem parte das condições de
Ao realizar esse trabalho, reencontra as classes sociais em suas existência social. Por isso é que Marx examina, sempre, os
relações necessárias e antagônicas., Um e outro movimento
diversos momentos e èxpressões das relações capitalistas. Ele reco­
encadeiam-se no curso da'produção da interpretação crítica do
nhece que “a anatomia da sociedade deve ser procurada na econo­
capitalismo.
mia política”, isto é, na análise das relações de produção. Mas
entende que, para conhecer as relações de produção, é preciso
3. Existência e consciência examinar desde o grau de desenvolvimento das forças produtivas
e das relações de produção até às relações e estruturas jurídico-
Para Marx, a consciência social exprime e constitui, ao -políticas, jamais perdendo de vista as suas especificidades e os
mesmo tempo, as relações sociais. Por isso, a análise dialética das seus encadeamentos recíprocos. Inclusive as interpretações prece­
relações capitalistas exige que a interpretação apanhe sempre a dentes e contemporâneas são examinadas criticamente, como di­
maneira pela qual os homens pensam-se a si mesmos e uns aos mensões ou expressões ideológicas e teóricas desse modo de pro­
outros. A autoconsciência somente é possível no espelho do outro. dução. Todo esse trabalho intelectual está orientado pela convic­
A condição de operário e de capitalista somente se revela nas ção de que não se pode compreender a sociedade se não se exami­
relações que um e outro estabelecem entre si. Mas essas relações nam os encadeamentos, desdobramentos e determinações recíprocos
não se realizam, a não ser que um e outro se pensem no processo das forças produtivas, relações de produção, estruturas políticas
de compra e venda de força de trabalho, de produção de merca­ e modalidades de consciência.
doria, de intercâmbio entre trabalho necessário (pago) e exce­ “Na produção social da própria existência, os homens entram em
dente (não pago). Não se completa a compreensão da existência relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade;
do operário e do capitalista, a não ser quando a análise passa pela estas relações de produção correspondem a tim grau determinado
forma pela qual um e outro se compreendem a si próprios e de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. O con­
reciprocamente. Para reconhecer-se como operário* é indispen­ junto dessas relações de produção constitui a estrutura econômica
sável que o operário reconheça o capitalista como tal e vice-versa. da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura
Esse reconhecimento é, ao mesmo tempo, uma condição funda­ jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determi­
mentar da existência e negação recíprocas. Para afirmar-se como nadas de consciência. O modo de produção da vida material
capitalista, o capitalista precisa não só apropriar-se do produto condiciona o processo de„vid.a. sociaji^p.oiítíca.^e..intelectual. Não
do trabalho excedente (não pago), mas também reconhecer o é a consciência dqs homens que determina a realídade; ao^com
produtor de valor excedente, a mais-valia, que aparece na sua Trário, é a realidade social que determina sua consciência.” 17 \
consciência como lucro. Reciprocamente, para afirmar-se como
Ocorre, no entanto, que as modalidades da consciência e as
tal, o operário precisa não só afirmar-se como produtor de merca­
condições de existência social não se exprimem nem se relacionam
doria ou vendedor de força de trabalho, mas também reconhecer
o proprietário dos meios de produção que se apropria do produto de modo harmônico. Tanto as pessoas como os grupos e as
do trabalho não pago. Essas são as relações básicas de depen­ classes sociais apreendem as suas relações sociais reais de maneira
dência, alienação e antagonismo, que fundam a existência e a
consciência do operário e do capitalista. 17 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política, p. 30-31.
24 25

diversa e antagônica, quando não de forma incompleta, parcial, “As idéias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência
invertida ou fetichizada. Na sociedade capitalista, as relações __de^ não fizeram mais que proclamar o reino da livre concorrência no
domínio do conhecimento”.10
produção tendem a configurar-se em idéias, conceitos, doutrinas
ou teorias, que evadem os seus fundamentos reais. Mas não Na consciência burguesa, a maior parte dos problemas
evadem por deliberação. Ao contrário, evadem, em geral, as tende a ser equacionada a partir do 'princípio da mercantilização
condições reais de vida sem que essa seja a sua finalidade ou universal das relações, pessoas e coisas. Por isso, a liberdade
intenção. A finalidade precípua das idéias, conceitos, doutrinas religiosa surge de par com a constituição do mercado de trabalho,
ou teorias é exprimir e constituir as relações sociais. Ocorre que que supõe o direito de livre circulação das pessoas e mercadorias.
as várias modalidades de consciência (ou ciência), mais ou menos A liberdade religiosa é tomada como uma condição moral
necessária à livre circulação do trabalhador no mercado nacional
límpidas ou obscurecidas, invertidas ou fetichizadas, constituem-se,
e internacional de força de trabalho. Marx nqtou que o protes­
segundo as posições relativas das pessoas, grupos e classes sociais,
tantismo havia transformado a maior parte das festas tradicionais
nas relações de dependência, alienação e antagonismo em que se
em dias de trabalho. Ao mesmo tempo, o protestantismo transfe­
acham inseridas.
riu para as pessoas a responsabilidade pelo cumprimento dos
“E assim como na vida privada se diferencia o que um Homem princípios da fé.
pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas
"Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção, porque a
históricas, deve-se distinguir, mais ainda, as frases e as fantasias
substituiu pela servidão da convicção,- Acabou com a fé na
dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o autoridade, porque restaurou a autoridade da fé. Converteu
conceito que fazem de si, do que são, na realidade”.18 sacerdotes em leígòs, porque tinha convertido leigos em sacer­
Aqui, novamente, Marx nos coloca o problema dos descom- dotes. Libertou o Homem da religiosidade externa, porque
passos e divórcios entre as aparências e as essências das coisas. instituiu a religiosidade no interior do Homem. Emancipou o
corpo das cadeias porque carregou de cadeias o coração”. 20
O que toma necessária a análise dialética é que as coisas não são
transparentes; e muito menos quando elas são as relações capita­ Esse fenômeno ocorreu principalmente na época de formação
listas de produção. No capitalismo, as relações de dependência, do capitalismo, quando se verificava a acumulação primitiva na
alienação e antagonismo estão no centro das relações entre o Inglaterra e outros países europeus. Fez parte do processo social
operário e o capitalista. Mas essas relações não surgem claras, mais amplo de metamorfose do produtor autônomo (camponês,
ordenadas e transparentes nas ações e na consciência das pessoas. artesão ou outro) em trabalhador livre assalariado. Esse fenô­
meno, repetimos, foi uma das primeiras manifestações da cons­
As idéias, conceitos, doutrinas ou teorias exprimem as relações
ciência burguesa em formação. E acompanhou a ruptura das
sociais de modo incompleto ou, mesmo, invertido. Elas não
relações e estruturas feudais, nas quais as pessoas pertenciam
podem elidir as posições das pessoas, grupos ou classes nas
fisicamente ao feudo e espiritualmente à Igreja Católica de Roma.
relações de produção, mas não as refletem, a não ser de maneira
incompleta ou evasiva. É sabido que a revolução burguesa
proclamou a liberdade de consciência, inclusive a religiosa. Esse n) Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 33; Manifesto
do Partido Comunista, p. 43-44.
princípio, no entanto, não faz senão instaurar mais um compo­ 2(1 Marx, K. “En torno a la crítica de la filosofia dei derecho de Hegel.” In:
nente do processo de mercantilização universal das relações, Marx, K. e Engels, F. La sagrada familia. México, Ed. Grijalbo, 1959.
pessoas e ^óisas.T^s"própriãs práticas religiosas, inclusive cerimô­ p. 1-15, citação da p. 10; Marxj K. “Introdução à Crítica da Filosofia do
nias e imagens, são mercantilizadas/t Direito de Hegel.” In: A Questão Judaica. RÍo de Janeiro; Ed. Laemmert,
1969. p. 103-27, citação da p. 118. Trad. por Wladimir Gomide. Consultar
também: Marx, K. El capital, t. I, p. 305; O Capital, liv.' 1, p. 313; Marx,
18 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. p. 49. K. e Engels, F. On Religion. Moscou, Progress Publishers, 1966.
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diversa e antagônica, quando não de forma incompleta, parcial, “As idéias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência
invertida ou fetichizada. Na sociedade capitalista, as relações __de^ não fizeram mais que proclamar o reino da livre concorrência no
domínio do conhecimento”.10
produção tendem a configurar-se em idéias, conceitos, doutrinas
ou teorias, que evadem os seus fundamentos reais. Mas não Na consciência burguesa, a maior parte dos problemas
evadem por deliberação. Ao contrário, evadem, em geral, as tende a ser equacionada a partir do 'princípio da mercantilização
condições reais de vida sem que essa seja a sua finalidade ou universal das relações, pessoas e coisas. Por isso, a liberdade
intenção. A finalidade precípua das idéias, conceitos, doutrinas religiosa surge de par com a constituição do mercado de trabalho,
ou teorias é exprimir e constituir as relações sociais. Ocorre que que supõe o direito de livre circulação das pessoas e mercadorias.
as várias modalidades de consciência (ou ciência), mais ou menos A liberdade religiosa é tomada como uma condição moral
necessária à livre circulação do trabalhador no mercado nacional
límpidas ou obscurecidas, invertidas ou fetichizadas, constituem-se,
e internacional de força de trabalho. Marx nqtou que o protes­
segundo as posições relativas das pessoas, grupos e classes sociais,
tantismo havia transformado a maior parte das festas tradicionais
nas relações de dependência, alienação e antagonismo em que se
em dias de trabalho. Ao mesmo tempo, o protestantismo transfe­
acham inseridas.
riu para as pessoas a responsabilidade pelo cumprimento dos
“E assim como na vida privada se diferencia o que um Homem princípios da fé.
pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e faz, nas lutas
"Lutero venceu efetivamente a servidão pela devoção, porque a
históricas, deve-se distinguir, mais ainda, as frases e as fantasias
substituiu pela servidão da convicção,- Acabou com a fé na
dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o autoridade, porque restaurou a autoridade da fé. Converteu
conceito que fazem de si, do que são, na realidade”.18 sacerdotes em leígòs, porque tinha convertido leigos em sacer­
Aqui, novamente, Marx nos coloca o problema dos descom- dotes. Libertou o Homem da religiosidade externa, porque
passos e divórcios entre as aparências e as essências das coisas. instituiu a religiosidade no interior do Homem. Emancipou o
corpo das cadeias porque carregou de cadeias o coração”. 20
O que toma necessária a análise dialética é que as coisas não são
transparentes; e muito menos quando elas são as relações capita­ Esse fenômeno ocorreu principalmente na época de formação
listas de produção. No capitalismo, as relações de dependência, do capitalismo, quando se verificava a acumulação primitiva na
alienação e antagonismo estão no centro das relações entre o Inglaterra e outros países europeus. Fez parte do processo social
operário e o capitalista. Mas essas relações não surgem claras, mais amplo de metamorfose do produtor autônomo (camponês,
ordenadas e transparentes nas ações e na consciência das pessoas. artesão ou outro) em trabalhador livre assalariado. Esse fenô­
meno, repetimos, foi uma das primeiras manifestações da cons­
As idéias, conceitos, doutrinas ou teorias exprimem as relações
ciência burguesa em formação. E acompanhou a ruptura das
sociais de modo incompleto ou, mesmo, invertido. Elas não
relações e estruturas feudais, nas quais as pessoas pertenciam
podem elidir as posições das pessoas, grupos ou classes nas
fisicamente ao feudo e espiritualmente à Igreja Católica de Roma.
relações de produção, mas não as refletem, a não ser de maneira
incompleta ou evasiva. É sabido que a revolução burguesa
proclamou a liberdade de consciência, inclusive a religiosa. Esse n) Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 33; Manifesto
do Partido Comunista, p. 43-44.
princípio, no entanto, não faz senão instaurar mais um compo­ 2(1 Marx, K. “En torno a la crítica de la filosofia dei derecho de Hegel.” In:
nente do processo de mercantilização universal das relações, Marx, K. e Engels, F. La sagrada familia. México, Ed. Grijalbo, 1959.
pessoas e ^óisas.T^s"própriãs práticas religiosas, inclusive cerimô­ p. 1-15, citação da p. 10; Marxj K. “Introdução à Crítica da Filosofia do
nias e imagens, são mercantilizadas/t Direito de Hegel.” In: A Questão Judaica. RÍo de Janeiro; Ed. Laemmert,
1969. p. 103-27, citação da p. 118. Trad. por Wladimir Gomide. Consultar
também: Marx, K. El capital, t. I, p. 305; O Capital, liv.' 1, p. 313; Marx,
18 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. p. 49. K. e Engels, F. On Religion. Moscou, Progress Publishers, 1966.
26 27

A perspectiva de classe não é a única, mas é a determinante, Marx salienta que a Economia política clássica (A. Smith,
na produção da consciência das pessoas e grupos sociais. O D. Ricardo e alguns outros) estava interessada em pesquisar os
operário não pode elidir a alienação do produto do seu trabalho nexos causais internos do regime capitalista de produção. Ela
excedente (não pago), da mesma forma que o capitalista não descobre, por exemplo, que o trabalho cria valor, mas não extrai
pode elidir essa alienação. Sob as mais diversas formas, um luta dessa descoberta as suas consequências econômicas e políticas, ao
para modificar essa situação, enquanto que o outro luta para passo que a Economia política vulgar (Malthus, J. Mill, Sismondi
mantê-la. e muitos outros) contentava-se em sistematizar, tornar pedantes
e proclamar, como se fossem verdades eternas, as idéias banais
[! E claro que as idéias da classe dominante não exprimem
que formulavam sobre o capitalismo. Esta se aferrava muito mais
sempre e diretamente os seus interesses de classe. Elas aparecem
às aparências, em lugar de procurar compreender as leis que
sob os mais variados lineamentos ou cores, conforme se trate de
regem os fenômenos. Aquela elaborava algumas leis, ainda que
questões econômicas ou políticas, filosóficas ou artísticas. Em
não pudesse levá-las às suas conseqüências lógicas. No conjunto,
geral, no entanto, elas tendem a ser as idéias predominantes na
no entanto, as economias clássica e vulgar elidiam o essencial.
época. Isto significa que são generalizadas às outras classes,
inclusive o proletariado, transformando-se, às vezes, em idéias “A Economia política esconde a alienação contida na própria
“naturais” ou “definitivas”.]1 essência do trabalho, pelo fato de que não considera a relação
direta entre o operário (o trabalho) e a produção”. 22
I “As idéias da classe dominante são as idéias dominantes em cada
época; ou, dito em outros termos, a classe que exerce o poder É possível afirmar-se que a passagem da Economia política
material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder clássica à vulgar corresponde, até certo grau, a dois movimentos
espiritual dominante.^ A classe que tem à sua disposição os meios combinados no desenvolvimento do capitalismo. (Primeiro; A
para a produção material dispõe, com isso, ao mesmo tempo, economia clássica constituiu-se como a ciência do capitalismo em
dos meios para a produção espiritual, o que faz com que se lhe formação. Por isso, estava mais diretamente voltada para a
submetam, no devido tempo, a médio prazo, as idéias daqueles compreensão das relações, processos e estruturas que distinguiam
que carecem dos meios necessários para produzir espiritual­ o capitalismo de qualquer outro sistema. Ao mesmo tempo,
mente”. 21 devido ao fato de que se inseria na própria revolução burguesa
Parece, no entanto, que a consciência burguesa tende a que acompanhava a formação da sociedade industrial, essa eco­
organizar-se, principalmente, segundo os problemas e as interpre­ nomia era globalizante e, muitas vezes, parecia uma teoria da
tações da Economia política. A Ciência e a consciência, nesse sociedade capitalista. A economia vulgar surge diretamente na
caso, tendem a rebater mais ou menos diretamente uma na outra. perspectiva da burguesia como forma de pensamento da burguesia
O liberalismo inglês, na época de Marx, estava profundamente no poder. Daí a razão 'por “que ela é muito mais ideológica.
impregnado dos ensinamentos e das fabulações da Economia Apanha a realidade de maneira fragmentária e tende para a
política inglesa, clássica e vulgar. Como doutrina social, política apologia do mundo burguês. Mas esse é apenas um dos movi­
e econômica — mas impregnada principalmente pelas categorias mentos envolvidos na metamorfose da ciência econômica em
da Economia política — o liberalismo generalizou-se tanto na ideologia. Segundo: Pode-se afirmar, também e principalmente,
sociedade inglesa como entre as classes dominantes nos países que a passagem da Economia política clássica à vulgar corresponde
coloniais e dependentes do imperialismo inglês. Vejamos, um a um passo decisivo no desenvolvimento das contradições de
pouco melhor, como Marx situa a Economia política, quanto às classes, no seio do sistema capitalista inglês. Na medida em que
relações capitalistas de produção. se desenvolvia esse sistema, desenv'olviam-se as suas relações de

21 Marx, K. e Engejls, F. La ideologia alemana. p. 48-49. 22 Marx, K. Manuscrits de 1844. Paris, Éditions Sociales, 1969. p. 59.
26 27

A perspectiva de classe não é a única, mas é a determinante, Marx salienta que a Economia política clássica (A. Smith,
na produção da consciência das pessoas e grupos sociais. O D. Ricardo e alguns outros) estava interessada em pesquisar os
operário não pode elidir a alienação do produto do seu trabalho nexos causais internos do regime capitalista de produção. Ela
excedente (não pago), da mesma forma que o capitalista não descobre, por exemplo, que o trabalho cria valor, mas não extrai
pode elidir essa alienação. Sob as mais diversas formas, um luta dessa descoberta as suas consequências econômicas e políticas, ao
para modificar essa situação, enquanto que o outro luta para passo que a Economia política vulgar (Malthus, J. Mill, Sismondi
mantê-la. e muitos outros) contentava-se em sistematizar, tornar pedantes
e proclamar, como se fossem verdades eternas, as idéias banais
[! E claro que as idéias da classe dominante não exprimem
que formulavam sobre o capitalismo. Esta se aferrava muito mais
sempre e diretamente os seus interesses de classe. Elas aparecem
às aparências, em lugar de procurar compreender as leis que
sob os mais variados lineamentos ou cores, conforme se trate de
regem os fenômenos. Aquela elaborava algumas leis, ainda que
questões econômicas ou políticas, filosóficas ou artísticas. Em
não pudesse levá-las às suas conseqüências lógicas. No conjunto,
geral, no entanto, elas tendem a ser as idéias predominantes na
no entanto, as economias clássica e vulgar elidiam o essencial.
época. Isto significa que são generalizadas às outras classes,
inclusive o proletariado, transformando-se, às vezes, em idéias “A Economia política esconde a alienação contida na própria
“naturais” ou “definitivas”.]1 essência do trabalho, pelo fato de que não considera a relação
direta entre o operário (o trabalho) e a produção”. 22
I “As idéias da classe dominante são as idéias dominantes em cada
época; ou, dito em outros termos, a classe que exerce o poder É possível afirmar-se que a passagem da Economia política
material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, seu poder clássica à vulgar corresponde, até certo grau, a dois movimentos
espiritual dominante.^ A classe que tem à sua disposição os meios combinados no desenvolvimento do capitalismo. (Primeiro; A
para a produção material dispõe, com isso, ao mesmo tempo, economia clássica constituiu-se como a ciência do capitalismo em
dos meios para a produção espiritual, o que faz com que se lhe formação. Por isso, estava mais diretamente voltada para a
submetam, no devido tempo, a médio prazo, as idéias daqueles compreensão das relações, processos e estruturas que distinguiam
que carecem dos meios necessários para produzir espiritual­ o capitalismo de qualquer outro sistema. Ao mesmo tempo,
mente”. 21 devido ao fato de que se inseria na própria revolução burguesa
Parece, no entanto, que a consciência burguesa tende a que acompanhava a formação da sociedade industrial, essa eco­
organizar-se, principalmente, segundo os problemas e as interpre­ nomia era globalizante e, muitas vezes, parecia uma teoria da
tações da Economia política. A Ciência e a consciência, nesse sociedade capitalista. A economia vulgar surge diretamente na
caso, tendem a rebater mais ou menos diretamente uma na outra. perspectiva da burguesia como forma de pensamento da burguesia
O liberalismo inglês, na época de Marx, estava profundamente no poder. Daí a razão 'por “que ela é muito mais ideológica.
impregnado dos ensinamentos e das fabulações da Economia Apanha a realidade de maneira fragmentária e tende para a
política inglesa, clássica e vulgar. Como doutrina social, política apologia do mundo burguês. Mas esse é apenas um dos movi­
e econômica — mas impregnada principalmente pelas categorias mentos envolvidos na metamorfose da ciência econômica em
da Economia política — o liberalismo generalizou-se tanto na ideologia. Segundo: Pode-se afirmar, também e principalmente,
sociedade inglesa como entre as classes dominantes nos países que a passagem da Economia política clássica à vulgar corresponde
coloniais e dependentes do imperialismo inglês. Vejamos, um a um passo decisivo no desenvolvimento das contradições de
pouco melhor, como Marx situa a Economia política, quanto às classes, no seio do sistema capitalista inglês. Na medida em que
relações capitalistas de produção. se desenvolvia esse sistema, desenv'olviam-se as suas relações de

21 Marx, K. e Engejls, F. La ideologia alemana. p. 48-49. 22 Marx, K. Manuscrits de 1844. Paris, Éditions Sociales, 1969. p. 59.
28 29

alienação e antagonismo. Quanto mais se desenvolvem e apro­ contra a aristocracia; depois, contra as camadas da própria
fundam as contradições de classes — expressas nas agitações, burguesia cujos interesses se encontram em conflito com os pro­
greves, formação de associações, sindicatos e surgimento de gressos da indústria; e3 sempre, finalmente, contra a burguesia
correntes políticas operárias — mais intenso é o movimento da dos países estrangeiros. Em todas essas lutas, vê-se forçada a
consciência burguesa no sentido de adotar fórmulas ilusórias ou apelar para o proletariado, usar seu concurso e arrastá-lo no
simplesmente apologéticas. Os dois movimentos combinados pa­ movimento político, de modo que a burguesia fornece aos prole­
tários os elementos de sua própria educação política, isto é,
recem ter provocado o florescimento da Economia política vulgar.
armas contra ela própria”. 25
“A Economia política, quando é burguesa, isto é, quando vê no
À medida que socializam as suas experiências comuns, no
regime capitalista não uma fase historicamente transitória de
desenvolvimento, mas a forma absoluta e definitiva da produção contexto das suas relações de trabalho e das suas experiências de
social, somente pode manter a sua categoria de Ciência enquanto vida cotidianas, os operários compreendem de modo cada vez
a luta de classes permanece latente ou aparece apenas em mani­ mais claro o caráter alienado e antagônico da sua condição.
festações isoladas”. 23 Pouco a pouco, tendem a organizar as suas atividades políticas em
A verdade é que, desde que começou a formar-se, o prole­ função dessa compreensão. (No curso da formação de sua cons­
tariado teve de lutar contra a expropriação inerente às relações ciência política, o proletariado pode confundir a máquina com o
capitalistas de produção. No princípio, ele se viu na obrigação seu inimigo ou aceitar a aliança com a burguesia nascente, para
de lutar, principalmente, por sua sobrevivência física. Encontrava- lutar contra os inimigos do seu inimigoA E também pode ser
-se totalmente dominado pelo capital e sem qualquer experiência levado a aceitar seitas e doutrinas do socialismo utópico. Paulati­
de organização e luta. As suas condições de trabalho e vida ainda namente, no entanto, a classe operária vai elaborando a sua
não lhe permitiam socializar ou coletivizar a experiência comum, consciência política. Essa é a ocasião em que começa a com­
organizando associações, coalizões, sindicatos ou partidos, para preender a burguesia como a sua classe antagônica. É óbvio que
lutar por seus interesses econômicos e políticos. Essa é a época esse processo de tomada de consciência da classe operária desen­
em que surgem, difundem-se e predominam seitas e doutrinas volve-se ao longo das suas próprias lutas, como classe. Isto é, a
socialistas, mais ou menos utópicas. 24|O proletariado se encontra classe operária não se constitui apenas porque o regime capitalista
sob a influência de políticos e ideólogos de filiação reformista e se desenvolve; ela se forma na medida em que luta contra as
humanitária, incapazes de se libertarem das categorias da econo­ relações de alienação em que se acha inserida. É no curso dessa
mia política burguesa ou dos quadros ideológicos burgueses. | luta que ela acaba por identificar toda a hierarquia dos seus
Acresce que, nessa época, a própria burguesia ainda está lutando inimigos, até compreender o Estado burguês como o núcleo do
para impor-se como classe hegemônica; inclusive apela para alian­ regime em que se funda a sua alienação.
ças com o proletariado. Por isso, ela própria colabora no processo
“Assim, além dos distintos movimentos econômicos dos operários,
de politização do proletariado, dando-lhe a contragosto elementos surgem em todos os lugares movimentos políticos, isto é, movi­
para tornar-se uma classe política. mentos de classe, com o objetivo de impor os seus -interesses de
“Em geral, os choques que se produzem na velha sociedade forma geral, de uma forma que possui força coercitiva social
favorecem de diversos modos o desenvolvimento do proletariado. geral. Se bem que estes movimentos pressupõem certo grau de
A burguesia vive num. estado de guerra perpétua: primeiro, organização prévia, em compensação eles igualmente significam
meios de desenvolver essa organização”. 20
23 Marx, K. El capital, t. 1, p. 2; O Capital, liv. 1, p. 10. Em termos mais
gerais, a mesma idéia havia sido apresentada em: Marx, K. e Engels, F. ™Id. p. 23-24; Id. p. 31.
La ideologia alemana. p. 323. 23 Marx, K. “Marx to F. Boite in New York.” (Carta datada de 23 de
24 Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 36-46; Mani­ novembro de 1871.) In: Marx, K. e Engels, F. Selected Correspondence.
festo do Partido Comunista, p. 47-59. Moscou, Progress Publishers, 1965. p. 269-71, citação da p. 271.
28 29

alienação e antagonismo. Quanto mais se desenvolvem e apro­ contra a aristocracia; depois, contra as camadas da própria
fundam as contradições de classes — expressas nas agitações, burguesia cujos interesses se encontram em conflito com os pro­
greves, formação de associações, sindicatos e surgimento de gressos da indústria; e3 sempre, finalmente, contra a burguesia
correntes políticas operárias — mais intenso é o movimento da dos países estrangeiros. Em todas essas lutas, vê-se forçada a
consciência burguesa no sentido de adotar fórmulas ilusórias ou apelar para o proletariado, usar seu concurso e arrastá-lo no
simplesmente apologéticas. Os dois movimentos combinados pa­ movimento político, de modo que a burguesia fornece aos prole­
tários os elementos de sua própria educação política, isto é,
recem ter provocado o florescimento da Economia política vulgar.
armas contra ela própria”. 25
“A Economia política, quando é burguesa, isto é, quando vê no
À medida que socializam as suas experiências comuns, no
regime capitalista não uma fase historicamente transitória de
desenvolvimento, mas a forma absoluta e definitiva da produção contexto das suas relações de trabalho e das suas experiências de
social, somente pode manter a sua categoria de Ciência enquanto vida cotidianas, os operários compreendem de modo cada vez
a luta de classes permanece latente ou aparece apenas em mani­ mais claro o caráter alienado e antagônico da sua condição.
festações isoladas”. 23 Pouco a pouco, tendem a organizar as suas atividades políticas em
A verdade é que, desde que começou a formar-se, o prole­ função dessa compreensão. (No curso da formação de sua cons­
tariado teve de lutar contra a expropriação inerente às relações ciência política, o proletariado pode confundir a máquina com o
capitalistas de produção. No princípio, ele se viu na obrigação seu inimigo ou aceitar a aliança com a burguesia nascente, para
de lutar, principalmente, por sua sobrevivência física. Encontrava- lutar contra os inimigos do seu inimigoA E também pode ser
-se totalmente dominado pelo capital e sem qualquer experiência levado a aceitar seitas e doutrinas do socialismo utópico. Paulati­
de organização e luta. As suas condições de trabalho e vida ainda namente, no entanto, a classe operária vai elaborando a sua
não lhe permitiam socializar ou coletivizar a experiência comum, consciência política. Essa é a ocasião em que começa a com­
organizando associações, coalizões, sindicatos ou partidos, para preender a burguesia como a sua classe antagônica. É óbvio que
lutar por seus interesses econômicos e políticos. Essa é a época esse processo de tomada de consciência da classe operária desen­
em que surgem, difundem-se e predominam seitas e doutrinas volve-se ao longo das suas próprias lutas, como classe. Isto é, a
socialistas, mais ou menos utópicas. 24|O proletariado se encontra classe operária não se constitui apenas porque o regime capitalista
sob a influência de políticos e ideólogos de filiação reformista e se desenvolve; ela se forma na medida em que luta contra as
humanitária, incapazes de se libertarem das categorias da econo­ relações de alienação em que se acha inserida. É no curso dessa
mia política burguesa ou dos quadros ideológicos burgueses. | luta que ela acaba por identificar toda a hierarquia dos seus
Acresce que, nessa época, a própria burguesia ainda está lutando inimigos, até compreender o Estado burguês como o núcleo do
para impor-se como classe hegemônica; inclusive apela para alian­ regime em que se funda a sua alienação.
ças com o proletariado. Por isso, ela própria colabora no processo
“Assim, além dos distintos movimentos econômicos dos operários,
de politização do proletariado, dando-lhe a contragosto elementos surgem em todos os lugares movimentos políticos, isto é, movi­
para tornar-se uma classe política. mentos de classe, com o objetivo de impor os seus -interesses de
“Em geral, os choques que se produzem na velha sociedade forma geral, de uma forma que possui força coercitiva social
favorecem de diversos modos o desenvolvimento do proletariado. geral. Se bem que estes movimentos pressupõem certo grau de
A burguesia vive num. estado de guerra perpétua: primeiro, organização prévia, em compensação eles igualmente significam
meios de desenvolver essa organização”. 20
23 Marx, K. El capital, t. 1, p. 2; O Capital, liv. 1, p. 10. Em termos mais
gerais, a mesma idéia havia sido apresentada em: Marx, K. e Engels, F. ™Id. p. 23-24; Id. p. 31.
La ideologia alemana. p. 323. 23 Marx, K. “Marx to F. Boite in New York.” (Carta datada de 23 de
24 Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 36-46; Mani­ novembro de 1871.) In: Marx, K. e Engels, F. Selected Correspondence.
festo do Partido Comunista, p. 47-59. Moscou, Progress Publishers, 1965. p. 269-71, citação da p. 271.
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4. Estado e sociedade análise do capitalismo; c) a participação prático-crítica nas lutas


políticas do proletariado. Note-se que, aqui, falamos da forma
Seria equívoco pensar que Márx não elaborou uma interpre­ pela qual a interpretação de Marx surge em suas obras. Outra
tação do Estado capitalista, simplesmente porque não a vemos questão é saber qual foi ou quais foram as ocasiões exatas em que
sistematizada em algumas páginas, num ensaio ou livro. A inter­ ele realizou a sua compreensão dialética do Estado. Este é um
pretação do Estado capitalista aparece bastante bem delineada problema da sua biografia intelectual, da qual não estamos
nos vários passos da sua análise do regime capitalista de produção. tratando. Aqui falamos principalmente da exposição e desenvol­
Naturalmente a sua concepção de Estado vai se explicitando ou vimento do seu pensamento. É importante reconhecer, sob qual­
desenvolvendo à medida que estuda as imbricações ou os desdo­ quer das suas perspectivas, que, desde os seus primeiros escritos,
bramentos sociais, políticos e econômicos das forças produtivas Marx está preocupado com as relações e determinações recípro­
e das relações de produção, em seus desenvolvimentos especifica­ cas entre o Estado e a sociedade, numa ótic^ diferente daquelas
mente capitalistas. O conjunto do processo de produção de propostas anteriormente, não apenas por Hegel. Nesse processo
mais-valia, de reprodução ampliada do capital ou de mercantili- crítico, formula a chave da sua concepção, quando diz que o
zação universal das relações, pessoas e coisas, somente pode ser Estado ^precisa ser compreendido, simultaneamente, como uma
compreendido se a análise apreende também o Estado, como uma “colossal superestrutura” do regime capitalista e como o “poder
organizado de uma classe” social em sua relação com as outras. 28
dimensão essencial do capitalismo. A teoria da luta de classes
seria uma simples abstração, se as relações e os antagonismos No início, a discussão realizada por Marx sobre as relações
de classes não implicassem no Estado capitalista como expressão do Estado com a sociedade civil ou com os indivíduos, os grupos
e condição dessas mesmas relações e antagonismos. Quando se e as classes sociais apreende, principalmente, as dimensões polí­
refere às estruturas jurídicas e políticas, que expressam as relações ticas dessas relações. Afirma que o Estado e a sociedade não são
de produção, está se referindo à 4‘superestrutura” da sociedade, politicamente distintos; que “o Estado é a estrutura da sociedade”;
ao poder estatal. Todas as contradições fundamentais do capita­ mas o Estado não é a expressão harmônica e abstrata da socie­
lismo envolvem o Estado, como expressão nuclear da sociedade dade. Ao contrário, já se constitui como um produto de contra­
civil. Em síntese, a análise marxista do capitalismo seria inin­ dições políticas. Esta é a primeira e mais geral contradição na
teligível, se Marx não tivesse elaborado, também e necessaria­ qual se funda o poder estatal: “O Estado se funda na contradição
mente, uma compreensão dialética do Estado. entre o público e a vida privada, entre o interesse geral .e o
particular”. 29
Em seus primeiros escritos, Marx discute e procura superar
as concepções hegeliana e liberal do Estado. 27 Para ele, o Estado Para realizar-se, no entanto, o Estado não pode aparecer aos
nem paira sobre a “sociedade civil” nem exprime a “vontade cidadãos e às associações (ou grupos, classes, exército, igreja etc.)
geral”. Entende o Estado inserido no jogo das relações entre as dessa forma, simplesmente como um produto de antagonismos, ou
pessoas, os grupos e as classes sociais. Com isto não queremos como um feixe de contradições. Isto seria muito transparente e,
dizer que Marx teve, já no princípio, uma compreensão nova e
acabada do Estado. Nada disso. A sua compreensão nova ele
28 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. Sao Paulo, Ed.
a elaborou à medida que desenvolvia os três núcleos principais e Flama, 1946. p. 31. Trad. por Florestan Fernandes. Ver, também: Marx,
combinados da sua atividade® a) a crítica da dialética hegeliana, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 17 e 35; Manifesto do
do socialismo utópico e dcTTconomia política clássica; a Partido Comunista, p. 21 e 45.
29 Marx, K. “Observações Críticas à Margem do Artigo: CO Rei da Prússia
e a Reforma Social’. ” In: Vorwãrts. 7 de agosto de 1844. Texto transcrito
27 Consultar, em especial: Marx, K. Crítica da Filosofia do Direito de parcialmente em Bottomore, T. B. e Rubel, M. Karl Marx. Selected
Hegel. Lisboa, Editorial Presença [s. d.]; Marx, K. e Engels, F. La ideo­ Writings in Sociology and Social Philosophy. Londres, Penguim Books,
logia alemana, esp. p. 212-23. 1963. p. 221-23 e citações da p. 222.
30 31

4. Estado e sociedade análise do capitalismo; c) a participação prático-crítica nas lutas


políticas do proletariado. Note-se que, aqui, falamos da forma
Seria equívoco pensar que Márx não elaborou uma interpre­ pela qual a interpretação de Marx surge em suas obras. Outra
tação do Estado capitalista, simplesmente porque não a vemos questão é saber qual foi ou quais foram as ocasiões exatas em que
sistematizada em algumas páginas, num ensaio ou livro. A inter­ ele realizou a sua compreensão dialética do Estado. Este é um
pretação do Estado capitalista aparece bastante bem delineada problema da sua biografia intelectual, da qual não estamos
nos vários passos da sua análise do regime capitalista de produção. tratando. Aqui falamos principalmente da exposição e desenvol­
Naturalmente a sua concepção de Estado vai se explicitando ou vimento do seu pensamento. É importante reconhecer, sob qual­
desenvolvendo à medida que estuda as imbricações ou os desdo­ quer das suas perspectivas, que, desde os seus primeiros escritos,
bramentos sociais, políticos e econômicos das forças produtivas Marx está preocupado com as relações e determinações recípro­
e das relações de produção, em seus desenvolvimentos especifica­ cas entre o Estado e a sociedade, numa ótic^ diferente daquelas
mente capitalistas. O conjunto do processo de produção de propostas anteriormente, não apenas por Hegel. Nesse processo
mais-valia, de reprodução ampliada do capital ou de mercantili- crítico, formula a chave da sua concepção, quando diz que o
zação universal das relações, pessoas e coisas, somente pode ser Estado ^precisa ser compreendido, simultaneamente, como uma
compreendido se a análise apreende também o Estado, como uma “colossal superestrutura” do regime capitalista e como o “poder
organizado de uma classe” social em sua relação com as outras. 28
dimensão essencial do capitalismo. A teoria da luta de classes
seria uma simples abstração, se as relações e os antagonismos No início, a discussão realizada por Marx sobre as relações
de classes não implicassem no Estado capitalista como expressão do Estado com a sociedade civil ou com os indivíduos, os grupos
e condição dessas mesmas relações e antagonismos. Quando se e as classes sociais apreende, principalmente, as dimensões polí­
refere às estruturas jurídicas e políticas, que expressam as relações ticas dessas relações. Afirma que o Estado e a sociedade não são
de produção, está se referindo à 4‘superestrutura” da sociedade, politicamente distintos; que “o Estado é a estrutura da sociedade”;
ao poder estatal. Todas as contradições fundamentais do capita­ mas o Estado não é a expressão harmônica e abstrata da socie­
lismo envolvem o Estado, como expressão nuclear da sociedade dade. Ao contrário, já se constitui como um produto de contra­
civil. Em síntese, a análise marxista do capitalismo seria inin­ dições políticas. Esta é a primeira e mais geral contradição na
teligível, se Marx não tivesse elaborado, também e necessaria­ qual se funda o poder estatal: “O Estado se funda na contradição
mente, uma compreensão dialética do Estado. entre o público e a vida privada, entre o interesse geral .e o
particular”. 29
Em seus primeiros escritos, Marx discute e procura superar
as concepções hegeliana e liberal do Estado. 27 Para ele, o Estado Para realizar-se, no entanto, o Estado não pode aparecer aos
nem paira sobre a “sociedade civil” nem exprime a “vontade cidadãos e às associações (ou grupos, classes, exército, igreja etc.)
geral”. Entende o Estado inserido no jogo das relações entre as dessa forma, simplesmente como um produto de antagonismos, ou
pessoas, os grupos e as classes sociais. Com isto não queremos como um feixe de contradições. Isto seria muito transparente e,
dizer que Marx teve, já no princípio, uma compreensão nova e
acabada do Estado. Nada disso. A sua compreensão nova ele
28 Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. Sao Paulo, Ed.
a elaborou à medida que desenvolvia os três núcleos principais e Flama, 1946. p. 31. Trad. por Florestan Fernandes. Ver, também: Marx,
combinados da sua atividade® a) a crítica da dialética hegeliana, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 17 e 35; Manifesto do
do socialismo utópico e dcTTconomia política clássica; a Partido Comunista, p. 21 e 45.
29 Marx, K. “Observações Críticas à Margem do Artigo: CO Rei da Prússia
e a Reforma Social’. ” In: Vorwãrts. 7 de agosto de 1844. Texto transcrito
27 Consultar, em especial: Marx, K. Crítica da Filosofia do Direito de parcialmente em Bottomore, T. B. e Rubel, M. Karl Marx. Selected
Hegel. Lisboa, Editorial Presença [s. d.]; Marx, K. e Engels, F. La ideo­ Writings in Sociology and Social Philosophy. Londres, Penguim Books,
logia alemana, esp. p. 212-23. 1963. p. 221-23 e citações da p. 222.
32 33

assim, insuportável para os cidadãos e as associações. Implicaria outros termos, que “o poder político, na verdade, é o poder
uma guerra aberta e ininterrupta entre uns e outros. Ocorre, no organizado de uma classe para a opressão de outras”.32 *
entanto, que, no mesmo processo de sua realização, o Estado já Ao estudar o golpe de Estado de 1852, na França, Marx se
se constitui fetichizado. Na consciência e na prática das pessoas, viu obrigado a aprofundar a análise do Estado burguês nesse
tende a aparecer sob uma forma abstrata, como um ato de vontade país. Examinou as relações e estruturas jurídico-políticas e buro­
coletiva ou como a forma externa da sociedade civil. cráticas do poder estatal. Inclusive dedicou-sé a uma. análise
“O Estado anula, a seu modo, as diferenças de nascimento, de interna rigorosa da constituição vigente na época, para apanhar
estado social, de cultura e de ocupação, ao declarar o nasci­ a estrutura de poder por ela definida, além das congruências e
mento, o estado social, a cultura e a ocupação do homem como contradições ‘entre essa estrutura formal e as forças sociais reais
diferenças não políticas', ao proclamar todo membro do povo, na sociedade francesa. Na pesquisa, ele recupera a história do
sem atender a estas diferenças, participante da soberania popular poder estatal burguês, conforme se constitui e aperfeiçoa ao longo
em base de igualdade', ao abordar todos os elementos da vida real das décadas posteriores à Revolução de 1789. As lutas sociais
do povo do ponto de vista do Estado. Contudo, o Estado deixa entre grupos e classes sociais, nos anos 1789-1852, são também
que a propriedade privada, a cultura e a ocupação atuem a seu momentos importantes na formação do Estado, como uma con­
modo, isto é, como propriedade privada, como cultura e como dição e um produto das relações de dependência, alienação e
ocupação, e façam valer a sua natureza especial.” 30 antagonismo das classes sociais e suas facções. Uma parte dessa
“Como o Estado é a forma sob a qual os indivíduos de uma análise pode ser sintetizada aqui, nas palavras de Marx.
classe dominante fazem valer os seus interesses comuns, na qual
se condensa toda a sociedade civil de uma época, segue-se disso “Esse poder executivo, com sua imensa organização burocrática
que todas as instituições comuns têm como mediador o Estado e e militar, com sua engenhosa máquina de Estado, abrangendo
amplas camadas com um exército de funcionários totalizando
adquirem, através dele, uma forma política. Daí a ilusão de que
meio milhão, além de mais de meio milhão de tropas regulares,
a lei se baseia na vontade e, além disso, na vontade separada de
esse tremendo corpo de parasitos, que envolve como uma teia
sua base real, na vontade livre. E, da mesma maneira, por sua o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, sur­
vez, se reduz o direito à lei.” 31 giu ao tempo da monarquia absoluta, com o declínio do sistema
Em seguida, Marx apanha as dimensões políticas e econô­ feudal, que contribuiu para apressar. Os privilégios senhoriais
dos proprietários de terras e das cidades transformaram-se em
micas do Estado, ao compreender o Estado burguês como uma outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitários feu­
expressão essencial das relações de produção específicas do capi­ dais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes
talismo. Ao aprofundar a análise do regime capitalista, mostra absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um
como o Estado é, em última instância, um órgão da classe domi­ poder estatal cuja tarefa está dividida e centralizada como em
nante. O monopólio do aparelho estatal, diretamente ou por meio uma fábrica. A primeira revolução francesa, em sua tarefa de
quebrar todos os poderes independentes locais, territoriais,
de grupos interpostos, é a condição básica do exercício da domi­
urbanos e provinciais — a fim de estabelecer a unificação civil
nação. “O governo moderno não é senão um comitê adminis­ da nação, tinha forçosamente que desenvolver o que a monarquia
trativo dos negócios da classe burguesa”, o que significa, em absoluta começara: a centralização, mas, ao mesmo tempo, am­
pliou o âmbito, os atributos e os agentes do poder governa­
mental. Napoleão aperfeiçoara essa máquina estatal. A monarquia
30 Marx, K. “Sobre la cuestión judia.” In: La sagrada família. México, legitimista e a monarquia de Julho nada mais fizeram do que
Editorial Grijalbo, 1959. p. 16-44, citação da p. 23. Ver, também: Marx,
K. A Questão Judaica. Rio de Janeiro, Ed. Laemmert, 1969. p. 25. Trad;
por Wladimir Gomide. 32 Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 17 e 35;
31 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 69. Manifesto do Partido Comunista, p. 21 e 46. •
32 33

assim, insuportável para os cidadãos e as associações. Implicaria outros termos, que “o poder político, na verdade, é o poder
uma guerra aberta e ininterrupta entre uns e outros. Ocorre, no organizado de uma classe para a opressão de outras”.32 *
entanto, que, no mesmo processo de sua realização, o Estado já Ao estudar o golpe de Estado de 1852, na França, Marx se
se constitui fetichizado. Na consciência e na prática das pessoas, viu obrigado a aprofundar a análise do Estado burguês nesse
tende a aparecer sob uma forma abstrata, como um ato de vontade país. Examinou as relações e estruturas jurídico-políticas e buro­
coletiva ou como a forma externa da sociedade civil. cráticas do poder estatal. Inclusive dedicou-sé a uma. análise
“O Estado anula, a seu modo, as diferenças de nascimento, de interna rigorosa da constituição vigente na época, para apanhar
estado social, de cultura e de ocupação, ao declarar o nasci­ a estrutura de poder por ela definida, além das congruências e
mento, o estado social, a cultura e a ocupação do homem como contradições ‘entre essa estrutura formal e as forças sociais reais
diferenças não políticas', ao proclamar todo membro do povo, na sociedade francesa. Na pesquisa, ele recupera a história do
sem atender a estas diferenças, participante da soberania popular poder estatal burguês, conforme se constitui e aperfeiçoa ao longo
em base de igualdade', ao abordar todos os elementos da vida real das décadas posteriores à Revolução de 1789. As lutas sociais
do povo do ponto de vista do Estado. Contudo, o Estado deixa entre grupos e classes sociais, nos anos 1789-1852, são também
que a propriedade privada, a cultura e a ocupação atuem a seu momentos importantes na formação do Estado, como uma con­
modo, isto é, como propriedade privada, como cultura e como dição e um produto das relações de dependência, alienação e
ocupação, e façam valer a sua natureza especial.” 30 antagonismo das classes sociais e suas facções. Uma parte dessa
“Como o Estado é a forma sob a qual os indivíduos de uma análise pode ser sintetizada aqui, nas palavras de Marx.
classe dominante fazem valer os seus interesses comuns, na qual
se condensa toda a sociedade civil de uma época, segue-se disso “Esse poder executivo, com sua imensa organização burocrática
que todas as instituições comuns têm como mediador o Estado e e militar, com sua engenhosa máquina de Estado, abrangendo
amplas camadas com um exército de funcionários totalizando
adquirem, através dele, uma forma política. Daí a ilusão de que
meio milhão, além de mais de meio milhão de tropas regulares,
a lei se baseia na vontade e, além disso, na vontade separada de
esse tremendo corpo de parasitos, que envolve como uma teia
sua base real, na vontade livre. E, da mesma maneira, por sua o corpo da sociedade francesa e sufoca todos os seus poros, sur­
vez, se reduz o direito à lei.” 31 giu ao tempo da monarquia absoluta, com o declínio do sistema
Em seguida, Marx apanha as dimensões políticas e econô­ feudal, que contribuiu para apressar. Os privilégios senhoriais
dos proprietários de terras e das cidades transformaram-se em
micas do Estado, ao compreender o Estado burguês como uma outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitários feu­
expressão essencial das relações de produção específicas do capi­ dais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes
talismo. Ao aprofundar a análise do regime capitalista, mostra absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um
como o Estado é, em última instância, um órgão da classe domi­ poder estatal cuja tarefa está dividida e centralizada como em
nante. O monopólio do aparelho estatal, diretamente ou por meio uma fábrica. A primeira revolução francesa, em sua tarefa de
quebrar todos os poderes independentes locais, territoriais,
de grupos interpostos, é a condição básica do exercício da domi­
urbanos e provinciais — a fim de estabelecer a unificação civil
nação. “O governo moderno não é senão um comitê adminis­ da nação, tinha forçosamente que desenvolver o que a monarquia
trativo dos negócios da classe burguesa”, o que significa, em absoluta começara: a centralização, mas, ao mesmo tempo, am­
pliou o âmbito, os atributos e os agentes do poder governa­
mental. Napoleão aperfeiçoara essa máquina estatal. A monarquia
30 Marx, K. “Sobre la cuestión judia.” In: La sagrada família. México, legitimista e a monarquia de Julho nada mais fizeram do que
Editorial Grijalbo, 1959. p. 16-44, citação da p. 23. Ver, também: Marx,
K. A Questão Judaica. Rio de Janeiro, Ed. Laemmert, 1969. p. 25. Trad;
por Wladimir Gomide. 32 Marx, K. e Engels, F. Manifeste du parti communiste. p. 17 e 35;
31 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 69. Manifesto do Partido Comunista, p. 21 e 46. •
34 35

acrescentar maior divisão do trabalho, que crescia na mesma básicas do regime. A crise de hegemonia está na base do golpe
proporção em que a divisão do trabalho dentro da sociedade de Estado de 1852, por meio do qual se instaura o bonapartismo,
burguesa criava novos grupos de interesses e, por conseguinte, como governo que aparentemente paira sobre todas as classes
novo material para a administração do Estado. Todo interesse
sociais.
comum era imediatamente cortado da sociedade, contraposto a
ela como um interesse superior, geral, retirado da atividade dos “A burguesia conservava a França resfolegando de pavor ante
próprios membros da sociedade e transformado em objeto da os futuros terrores da anarquia vermelha. (...) A burguesia
atividade do governo, desde a ponte, o edifício da escola e pro­ fez a apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a im­
priedade comunal de uma aldeia, até as estradas de ferro, a prensa revolucionária; sua imprensa foi destruída. Colocou as
riqueza nacional e as universidades da França. Finalmente, em reuniões populares sob a vigilância da polícia; seus.-salões estão
sua luta contra a revolução, a República parlamentar viu-se for­ sob a vigilância da polícia. (...) Reprimiu todos os movimentos
çada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os da sociedade mediante o poder do Estado; tqdos os movimentos
de sua sociedade são reprimidos pelo poder do Estado.” 87
recursos e a centralização do poder governamental. Todas as
revoluções aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de destroçá-la. Note-se que não se trata apenas de crise de hegemonia, mas
Os partidos que disputavam o poder encaravam a posse dessa também do receio de que o poder burguês viesse a ser destroçado
imensa estrutura do Estado como o principal espólio do ven­ pelos trabalhadores. A burguesia francesa se achava atemorizada
cedor.” 33 diante do aparecimento do proletariado como força política. Esse
“Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar- temor era tanto mais forte e real porquanto ela tinha a experiência
-se completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou recentíssima das lutas havidas nos anos 1848-50.3738 Nem por isso,
a tal ponto a sua posição em face da sociedade civil que lhe entretanto, o capitalismo francês deixou de desenvolver-se. Ao
basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um contrário, sob o Império de Luís Bonaparte, nos anos 1852-70,
aventureiro surgido de fora (. . .).” 34 cresceu intensamente.
“E, não obstante, o poder estatal não está suspenso no ar.” 35
“Bonaparte gostaria de aparecer como benfeitor patriarcal de “Em realidade, era a única forma de governo possível, em um
todas as classes. Mas não pode dar a uma classe sem tirar de momento em que a burguesia havia perdido a faculdade de
outra”. 36 governar o país e a classe operária ainda não a havia adquirido.
O Império foi aclamado no mundo inteiro como o salvador da
A partir de certo momento, o aparelho estatal está de tal sociedade. Sob a sua égide, a sociedade burguesa, livre de preo­
forma constituído em sua composição, estrutura e concepção, que cupações políticas, conseguiu um desenvolvimento que nem ela
o chefe do governo pode ser um aventureiro, preposto ou membro mesma esperava. Sua indústria e seu comércio alcançaram
de outra classe. A forma pela qual o poder estatal burguês se proporções gigantescas; a especulação financeira realizou orgias
constitui o. toma intrínseca e necessariamente um órgão da bur­ cosmopolitas; a miséria das massas destacava-se sobre a osten­
guesia. Tanto assim que, nas ocasiões de crise de hegemonia, tação desaforada de um luxo suntuoso, falso e abjeto. O
poder do Estado, que aparentemente flutuava por sobre a socie­
quando a própria burguesia ou alguma das suas facções não está
dade, era na realidade o maior escândalo, autêntico viveiro de
em condições de exercer o poder, mesmo nessas ocasiões o Estado
corrupção.” 39
não deixa de exprimir-se em conformidade com as determinações

37 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. p. 127.


33 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Ed. Escriba, 33 Marx, K. As Lutas de Classes na França (1848 a 1850). Rio de Janeiro,
1968. p. 130-31. Editorial Vitória, 1956; Les luttes de classes en France (1848-1850). Paris,
^Ibid. p. 131. Êditions Sociales, 1946.
35 Ibid. p. 132. 39 Marx, K. La guerre civile en France. Paris, Êditions Sociales, 1953.
™Ibid. p. 143.
p. 40-41.
34 35

acrescentar maior divisão do trabalho, que crescia na mesma básicas do regime. A crise de hegemonia está na base do golpe
proporção em que a divisão do trabalho dentro da sociedade de Estado de 1852, por meio do qual se instaura o bonapartismo,
burguesa criava novos grupos de interesses e, por conseguinte, como governo que aparentemente paira sobre todas as classes
novo material para a administração do Estado. Todo interesse
sociais.
comum era imediatamente cortado da sociedade, contraposto a
ela como um interesse superior, geral, retirado da atividade dos “A burguesia conservava a França resfolegando de pavor ante
próprios membros da sociedade e transformado em objeto da os futuros terrores da anarquia vermelha. (...) A burguesia
atividade do governo, desde a ponte, o edifício da escola e pro­ fez a apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a im­
priedade comunal de uma aldeia, até as estradas de ferro, a prensa revolucionária; sua imprensa foi destruída. Colocou as
riqueza nacional e as universidades da França. Finalmente, em reuniões populares sob a vigilância da polícia; seus.-salões estão
sua luta contra a revolução, a República parlamentar viu-se for­ sob a vigilância da polícia. (...) Reprimiu todos os movimentos
çada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os da sociedade mediante o poder do Estado; tqdos os movimentos
de sua sociedade são reprimidos pelo poder do Estado.” 87
recursos e a centralização do poder governamental. Todas as
revoluções aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de destroçá-la. Note-se que não se trata apenas de crise de hegemonia, mas
Os partidos que disputavam o poder encaravam a posse dessa também do receio de que o poder burguês viesse a ser destroçado
imensa estrutura do Estado como o principal espólio do ven­ pelos trabalhadores. A burguesia francesa se achava atemorizada
cedor.” 33 diante do aparecimento do proletariado como força política. Esse
“Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tornar- temor era tanto mais forte e real porquanto ela tinha a experiência
-se completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou recentíssima das lutas havidas nos anos 1848-50.3738 Nem por isso,
a tal ponto a sua posição em face da sociedade civil que lhe entretanto, o capitalismo francês deixou de desenvolver-se. Ao
basta ter à frente o chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um contrário, sob o Império de Luís Bonaparte, nos anos 1852-70,
aventureiro surgido de fora (. . .).” 34 cresceu intensamente.
“E, não obstante, o poder estatal não está suspenso no ar.” 35
“Bonaparte gostaria de aparecer como benfeitor patriarcal de “Em realidade, era a única forma de governo possível, em um
todas as classes. Mas não pode dar a uma classe sem tirar de momento em que a burguesia havia perdido a faculdade de
outra”. 36 governar o país e a classe operária ainda não a havia adquirido.
O Império foi aclamado no mundo inteiro como o salvador da
A partir de certo momento, o aparelho estatal está de tal sociedade. Sob a sua égide, a sociedade burguesa, livre de preo­
forma constituído em sua composição, estrutura e concepção, que cupações políticas, conseguiu um desenvolvimento que nem ela
o chefe do governo pode ser um aventureiro, preposto ou membro mesma esperava. Sua indústria e seu comércio alcançaram
de outra classe. A forma pela qual o poder estatal burguês se proporções gigantescas; a especulação financeira realizou orgias
constitui o. toma intrínseca e necessariamente um órgão da bur­ cosmopolitas; a miséria das massas destacava-se sobre a osten­
guesia. Tanto assim que, nas ocasiões de crise de hegemonia, tação desaforada de um luxo suntuoso, falso e abjeto. O
poder do Estado, que aparentemente flutuava por sobre a socie­
quando a própria burguesia ou alguma das suas facções não está
dade, era na realidade o maior escândalo, autêntico viveiro de
em condições de exercer o poder, mesmo nessas ocasiões o Estado
corrupção.” 39
não deixa de exprimir-se em conformidade com as determinações

37 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. p. 127.


33 Marx, K. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo, Ed. Escriba, 33 Marx, K. As Lutas de Classes na França (1848 a 1850). Rio de Janeiro,
1968. p. 130-31. Editorial Vitória, 1956; Les luttes de classes en France (1848-1850). Paris,
^Ibid. p. 131. Êditions Sociales, 1946.
35 Ibid. p. 132. 39 Marx, K. La guerre civile en France. Paris, Êditions Sociales, 1953.
™Ibid. p. 143.
p. 40-41.
36 37

Como vemos, para Marx, o Estado é, ao mesmo tempo, supremacia é facilitada pelo fato de que, na época, os trabalha­
constituído e constituinte nas relações de dependência, alienação dores estão sendo surpreendidos pelas transformações sociais que
e antagonismo, que estão na essência das relações capitalistas de acompanham a expansão da mercantilização geral das relações,
produção. Por isso, Marx não reduziria o poder estatal a apenas pessoas e coisas. Nessa época, está em curso a revolução burguesa.
uma das suas expressões, ainda que fundamental. A condição de
órgão de classe é uma determinação básica, conferindo-lhe as “No transcurso da produção capitalista, desenvolve-se uma classe
condições essenciais de desenvolvimento e crise; mas não é a única trabalhadora que, por educação, tradição e costume, aceita as
exigências desse modo de produção como leis naturais evi­
nem aparece com exclusividade. O Estado é a “colossal superes­
dentes. A organização do processo de produção capitalista, em
trutura” da sociedade capitalista, ao mesmo tempo que o “poder
seu pleno desenvolvimento, quebra toda resistência;' a produção
organizado de uma classe” social, a burguesia, sobre as outras. contínua de uma superpopulação relativa mantém a lei da oferta
Na medida em que as relações de produção são, simulta­ e da procura de trabalho e, portanto, o salárib’ em harmonia com
neamente, relações de dependência, alienação e antagonismo, não as necessidades de expansão do capital; e a coação surda das
podem ser preservadas, a não ser que uma das classes sociais seja relações econômicas consolida o domínio do capitalista sobre o
hegemônica ou disponha de elementos para definir as estruturas e trabalhador. Ainda se empregará a violência direta, à margem
as atividades do aparelho estatal. Isto não impede, entretanto, das leis econômicas, mas doravante apenas em caráter excepcio­
nal. Para a marcha natural das coisas, basta deixar o trabalhador
que o Estado exprima, simultaneamente, os interesses da burguesia
‘ entregue às 'leis naturais da produção’, isto é, à sua dependência
e alguns interesses de outras classes sociais. O que se verifica, em
do capital, a qual decorre das próprias condições de produção,
situações concretas, é que as classes são representadas diferencial­ e é assegurada e perpetuada por essas condições. Mas, as coisas
mente no Estado burguês. Como se forma e aperfeiçoa à medida corriam de modo diverso durante a gênese histórica da produção
que se desenvolvem as forças produtivas e as relações de capitalista. A burguesia nascente precisava e empregava a força
produção, o Estado burguês está constitutivamente organizado e do Estado, para 'regular’ o <salário, isto é, comprimi-lo dentro dos
orientado pelas exigências da acumulação capitalista. Não se pode limites convenientes à produção de mais-valia, para prolongar a
dar a uma classe sem tirar de outra, da mesma forma que não jornada de trabalho e para manter o próprio trabalhador num
se pode tirar tudo de uma classe, sob pena de extingui-la. É grau adequado de dependência. Temos aí um fator fundamental
preciso ter em conta que o poder estatal varia conforme a conju­ da chamada acumulação originária.” 40
gação das forças econômicas e políticas. Há ocasiões em que a Para que as estruturas de apropriação (econômicas) e do­
burguesia monopoliza totalmente o aparelho estatal, como na minação (políticas) possam operar de forma adequada e integrada,
ditadura; há ocasiões nas quais esse monopólio não pode exercer- segundo os interesses da classe dominante, é indispensável que as
-se de modo exclusivo, como na democracia burguesa. Às vezes classes subalternas, em particular o proletariado, sejam subjugadas
a burguesia é obrigada a transigir, fazendo concessões à classe mas não aniquiladas. Essa é uma condição essencial da própria
média ou, mesmo, ao proletariado. Além do mais, o movimento hegemonia burguesa. A alienação da mais-valia, como produto
interno da sociedade capitalista gera, freqüentemente, descom- do trabalho expropriado ou não pago, somente pode exercer-se
passos entre as forças políticas do proletariado, da classe média e se ela se mantém em níveis suportáveis, física e socialmente,
da burguesia, na cidade e no campo, em suas relações internas e pelo proletariado. Daí a necessidade de que o Estado burguês
externas. exprima, ainda que em grau mínimo, e como reflexo da própria
Já nos primeiros momentos do capitalismo, a burguesia
hegemonia burguesa, algum interesse do proletariado. Nesse jogo
ascendente tende a usar todo o poder do Estado para acelerar a está uma condição para a sobrevivência do Estado burguês, como
reprodução do capital e, ao mesmo tempo, destruir ou incorporar expressão e condição das relações capitalistas de produção. A
os remanescentes do feudalismo. Desde a época da acumulação
originária, o poder estatal surge vinculado à burguesia. Essa 40 Marx, K. El capital, t. I, p. 827; O Capital, liv. 1, p. 854-55.
36 37

Como vemos, para Marx, o Estado é, ao mesmo tempo, supremacia é facilitada pelo fato de que, na época, os trabalha­
constituído e constituinte nas relações de dependência, alienação dores estão sendo surpreendidos pelas transformações sociais que
e antagonismo, que estão na essência das relações capitalistas de acompanham a expansão da mercantilização geral das relações,
produção. Por isso, Marx não reduziria o poder estatal a apenas pessoas e coisas. Nessa época, está em curso a revolução burguesa.
uma das suas expressões, ainda que fundamental. A condição de
órgão de classe é uma determinação básica, conferindo-lhe as “No transcurso da produção capitalista, desenvolve-se uma classe
condições essenciais de desenvolvimento e crise; mas não é a única trabalhadora que, por educação, tradição e costume, aceita as
exigências desse modo de produção como leis naturais evi­
nem aparece com exclusividade. O Estado é a “colossal superes­
dentes. A organização do processo de produção capitalista, em
trutura” da sociedade capitalista, ao mesmo tempo que o “poder
seu pleno desenvolvimento, quebra toda resistência;' a produção
organizado de uma classe” social, a burguesia, sobre as outras. contínua de uma superpopulação relativa mantém a lei da oferta
Na medida em que as relações de produção são, simulta­ e da procura de trabalho e, portanto, o salárib’ em harmonia com
neamente, relações de dependência, alienação e antagonismo, não as necessidades de expansão do capital; e a coação surda das
podem ser preservadas, a não ser que uma das classes sociais seja relações econômicas consolida o domínio do capitalista sobre o
hegemônica ou disponha de elementos para definir as estruturas e trabalhador. Ainda se empregará a violência direta, à margem
as atividades do aparelho estatal. Isto não impede, entretanto, das leis econômicas, mas doravante apenas em caráter excepcio­
nal. Para a marcha natural das coisas, basta deixar o trabalhador
que o Estado exprima, simultaneamente, os interesses da burguesia
‘ entregue às 'leis naturais da produção’, isto é, à sua dependência
e alguns interesses de outras classes sociais. O que se verifica, em
do capital, a qual decorre das próprias condições de produção,
situações concretas, é que as classes são representadas diferencial­ e é assegurada e perpetuada por essas condições. Mas, as coisas
mente no Estado burguês. Como se forma e aperfeiçoa à medida corriam de modo diverso durante a gênese histórica da produção
que se desenvolvem as forças produtivas e as relações de capitalista. A burguesia nascente precisava e empregava a força
produção, o Estado burguês está constitutivamente organizado e do Estado, para 'regular’ o <salário, isto é, comprimi-lo dentro dos
orientado pelas exigências da acumulação capitalista. Não se pode limites convenientes à produção de mais-valia, para prolongar a
dar a uma classe sem tirar de outra, da mesma forma que não jornada de trabalho e para manter o próprio trabalhador num
se pode tirar tudo de uma classe, sob pena de extingui-la. É grau adequado de dependência. Temos aí um fator fundamental
preciso ter em conta que o poder estatal varia conforme a conju­ da chamada acumulação originária.” 40
gação das forças econômicas e políticas. Há ocasiões em que a Para que as estruturas de apropriação (econômicas) e do­
burguesia monopoliza totalmente o aparelho estatal, como na minação (políticas) possam operar de forma adequada e integrada,
ditadura; há ocasiões nas quais esse monopólio não pode exercer- segundo os interesses da classe dominante, é indispensável que as
-se de modo exclusivo, como na democracia burguesa. Às vezes classes subalternas, em particular o proletariado, sejam subjugadas
a burguesia é obrigada a transigir, fazendo concessões à classe mas não aniquiladas. Essa é uma condição essencial da própria
média ou, mesmo, ao proletariado. Além do mais, o movimento hegemonia burguesa. A alienação da mais-valia, como produto
interno da sociedade capitalista gera, freqüentemente, descom- do trabalho expropriado ou não pago, somente pode exercer-se
passos entre as forças políticas do proletariado, da classe média e se ela se mantém em níveis suportáveis, física e socialmente,
da burguesia, na cidade e no campo, em suas relações internas e pelo proletariado. Daí a necessidade de que o Estado burguês
externas. exprima, ainda que em grau mínimo, e como reflexo da própria
Já nos primeiros momentos do capitalismo, a burguesia
hegemonia burguesa, algum interesse do proletariado. Nesse jogo
ascendente tende a usar todo o poder do Estado para acelerar a está uma condição para a sobrevivência do Estado burguês, como
reprodução do capital e, ao mesmo tempo, destruir ou incorporar expressão e condição das relações capitalistas de produção. A
os remanescentes do feudalismo. Desde a época da acumulação
originária, o poder estatal surge vinculado à burguesia. Essa 40 Marx, K. El capital, t. I, p. 827; O Capital, liv. 1, p. 854-55.
39

conciliação de interesses desiguais e contraditórios, como os da duçao é, pois, um produto tão necessário à indústria moderna
burguesia, da classe média e do proletariado, ó simultaneamente como a fiação de algodão, o self-actor e o telégrafo elétrico.” 48
uma condição para subjugá-los aos interesses da burguesia ou à Para Marx, pois, o Estado não é apenas e exclusivamente
sua facção mais forte. Acresce que a conciliação tanto propicia um órgão da classe dominante; responde também aos movimentos
a continuidade e aceleração da produção de mais-valia como do conjunto da sociedade e das outras classes sociais, segundo, é
permite evitar o agravamento das contradições de classes além
óbvio, as determinações das relações capitalistas. Conforme o
dos limites convenientes à vigência do regime.
grau de desenvolvimento das forças produtivas, das relações de
Ao examinar a produção de mais-valia absoluta e mais-valia produção e das forças políticas da sociedade, o Estado pode
relativa, Marx demonstra que há um momento em que o proleta­ adquirir contornos mais ou menos nítidos, revelar-se mais ou
riado começa a lutar por sua sobrevivência física. O regime menos diretamente vinculado aos interesses egclusivos da bur­
inicialmente estava dizimando uma parte da classe operária. Em guesia. Inclusive há ocasiões em que pode ser totalmente captura­
conseqüência, esta ensaia algumas reações, ainda que de forma do por uma facção da burguesia, da mesma maneira que, em outras
anárquica ou politicamente pouco eficaz. Esse é o sentido básico ocasiões, pode ser politicamente (não economicamente) captura­
do movimento luddita, que preconizava a destruição das máquinas. do por setores da classe média ou por militares.
“Foi necessário passar tempo e acumular experiência, antes que Conforme sugere Marx, em vários passos das suas análises,
o proletariado soubesse distinguir entre a maquinaria e o seu uso
há momentos em que o poder estatal parece estar suspenso no ar,
capitalista, aprendendo assim a dirigir os seus ataques não contra
os meios materiais de produção, mas contra o modo pelo qual apresentando-se como se fora independente das classes sociais.
eram usados.” 41 Essas situações ocorrem quando nenhuma das classes se revela
capaz de conquistar e preservar o poder, em conformidade .com
Ao mesmo tempo, certos setores do aparelho estatal, inclusive
os seus desígnios. São as ocasiões de crise de hegemonia. Con­
como representantes da burguesia, começam a compreender que
forme o demonstrou em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, por
as perspectivas de expansão das relações capitalistas poderiam
exemplo, não havia, na época, nenhuma classe suficientemente
ver-se prejudicadas, se fossem mantidos os níveis então vigentes
forte, organizada e audaz para impor-se às outras por meio do
de exploração da força de trabalho. Nessa época, ainda era
controle do aparelho estatal. Mas essa situação não impede que
importante a produção de mais-valia absoluta, resultante da
o Estado continue organizado e orientado no sentido determinado
extensão da jornada de trabalho. Além disso, o operariado era
pelas relações capitalistas de produção. Nessas ocasiões, prossegue
composto também de crianças, além de adolescentes e adultos de
ou pode mesmo acelerar-se o processo de acumulação de capital,
ambos os sexos. Então começa-se a pôr em prática a legislação
conforme se combinem umas e outras condições sociais, econô­
fabril, que “limita” a jornada de trabalho de crianças, adolescentes
micas e políticas, inclusive externas. Portanto, por trás da
e adultos, bem como “proíbe” que certas atividades produtivas
aparência de autonomia, ou independência, que o poder estatal
sejam desempenhadas por crianças ou mulheres. Tomara-se ine­
ganha em certos momentos, continuam a operar as determinações
vitável que o poder estatal formulasse e pusesse em prática uma
básicas do regime.
legislação fabril, para a “proteção física e espiritual da classe
operária”. 42 Mas isto ainda não explica por que, em determinados mo­
mentos, o Estado ganha essa aparência de autonomia, como se
“A legislação fabril, essa primeira reação consciente e sistemática
estivesse organizado em conformidade com a ideologia da classe
da sociedade contra a marcha espontânea do processo de pro-
dominante, que sempre trata de espelhar o poder estatal como

Marx, K. El capital, t. I, p. 472; O Capital, liv. 1, p. 490-91.


<2 Marx, K. El capital, t. I, p. 551; O Capital, liv. 1, p. 575. 48 Marx, K. El capital, t. I, p. 528; O Capital, liv. 1, p. 550-51.
39

conciliação de interesses desiguais e contraditórios, como os da duçao é, pois, um produto tão necessário à indústria moderna
burguesia, da classe média e do proletariado, ó simultaneamente como a fiação de algodão, o self-actor e o telégrafo elétrico.” 48
uma condição para subjugá-los aos interesses da burguesia ou à Para Marx, pois, o Estado não é apenas e exclusivamente
sua facção mais forte. Acresce que a conciliação tanto propicia um órgão da classe dominante; responde também aos movimentos
a continuidade e aceleração da produção de mais-valia como do conjunto da sociedade e das outras classes sociais, segundo, é
permite evitar o agravamento das contradições de classes além
óbvio, as determinações das relações capitalistas. Conforme o
dos limites convenientes à vigência do regime.
grau de desenvolvimento das forças produtivas, das relações de
Ao examinar a produção de mais-valia absoluta e mais-valia produção e das forças políticas da sociedade, o Estado pode
relativa, Marx demonstra que há um momento em que o proleta­ adquirir contornos mais ou menos nítidos, revelar-se mais ou
riado começa a lutar por sua sobrevivência física. O regime menos diretamente vinculado aos interesses egclusivos da bur­
inicialmente estava dizimando uma parte da classe operária. Em guesia. Inclusive há ocasiões em que pode ser totalmente captura­
conseqüência, esta ensaia algumas reações, ainda que de forma do por uma facção da burguesia, da mesma maneira que, em outras
anárquica ou politicamente pouco eficaz. Esse é o sentido básico ocasiões, pode ser politicamente (não economicamente) captura­
do movimento luddita, que preconizava a destruição das máquinas. do por setores da classe média ou por militares.
“Foi necessário passar tempo e acumular experiência, antes que Conforme sugere Marx, em vários passos das suas análises,
o proletariado soubesse distinguir entre a maquinaria e o seu uso
há momentos em que o poder estatal parece estar suspenso no ar,
capitalista, aprendendo assim a dirigir os seus ataques não contra
os meios materiais de produção, mas contra o modo pelo qual apresentando-se como se fora independente das classes sociais.
eram usados.” 41 Essas situações ocorrem quando nenhuma das classes se revela
capaz de conquistar e preservar o poder, em conformidade .com
Ao mesmo tempo, certos setores do aparelho estatal, inclusive
os seus desígnios. São as ocasiões de crise de hegemonia. Con­
como representantes da burguesia, começam a compreender que
forme o demonstrou em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, por
as perspectivas de expansão das relações capitalistas poderiam
exemplo, não havia, na época, nenhuma classe suficientemente
ver-se prejudicadas, se fossem mantidos os níveis então vigentes
forte, organizada e audaz para impor-se às outras por meio do
de exploração da força de trabalho. Nessa época, ainda era
controle do aparelho estatal. Mas essa situação não impede que
importante a produção de mais-valia absoluta, resultante da
o Estado continue organizado e orientado no sentido determinado
extensão da jornada de trabalho. Além disso, o operariado era
pelas relações capitalistas de produção. Nessas ocasiões, prossegue
composto também de crianças, além de adolescentes e adultos de
ou pode mesmo acelerar-se o processo de acumulação de capital,
ambos os sexos. Então começa-se a pôr em prática a legislação
conforme se combinem umas e outras condições sociais, econô­
fabril, que “limita” a jornada de trabalho de crianças, adolescentes
micas e políticas, inclusive externas. Portanto, por trás da
e adultos, bem como “proíbe” que certas atividades produtivas
aparência de autonomia, ou independência, que o poder estatal
sejam desempenhadas por crianças ou mulheres. Tomara-se ine­
ganha em certos momentos, continuam a operar as determinações
vitável que o poder estatal formulasse e pusesse em prática uma
básicas do regime.
legislação fabril, para a “proteção física e espiritual da classe
operária”. 42 Mas isto ainda não explica por que, em determinados mo­
mentos, o Estado ganha essa aparência de autonomia, como se
“A legislação fabril, essa primeira reação consciente e sistemática
estivesse organizado em conformidade com a ideologia da classe
da sociedade contra a marcha espontânea do processo de pro-
dominante, que sempre trata de espelhar o poder estatal como

Marx, K. El capital, t. I, p. 472; O Capital, liv. 1, p. 490-91.


<2 Marx, K. El capital, t. I, p. 551; O Capital, liv. 1, p. 575. 48 Marx, K. El capital, t. I, p. 528; O Capital, liv. 1, p. 550-51.
40 41

se fora a expressão da vontade geral ou da sociedade civil. A constituiu, assim, como um poder em aparência independente,
nosso ver, esse fenômeno resulta de que há ocasiões em que posição esta que, em outros países, foi apenas transitória, uma
fase de transição.” 44
ocorre um descompasso-maior ou, mesmo, divórcio mais acen­
tuado entre as estruturas políticas e as econômicas. Esse é o Enquanto categoria dialética, pois, o Estado adquire os con­
segredo da crise de hegemonia, que produz a impressão de que tornos, a estrutura e os movimentos que se lhe produzem nas
o Estado divorciou-se desta ou daquela classe, pairando sobre a relações com as classes constituídas ou em constituição. Ocorre
sociedade como um todo. A crise de hegemonia não é um que o poder estatal , é o núcleo de convergência das relações de
fenômeno exclusivamente político, ainda que se manifeste prin- interdependência, alienação e antagonismo que caracterizam a
cipalmente no nível das relações e estruturas políticas. O poder produção capitalista. Por isso ele se configura .segundo, as
determinações das relações capitalistas concretas, isto é, conforme
estatal adquire a aparência de autonomia nas ocasiões em que
a situação específica deste ou daquele país, <hesta ou naquela
ocorre uma crise simultaneamente política e econômica, na qual
época. Essa é a razão por que Marx não define o Estado capita­
a classe dominante ou uma das suas facções mais ativas perde o lista nem distingue os seus poderes principais de modo formal.
controle do aparelho estatal e é obrigada a comparti-lo formal­ Para ele o poder estatal configura-se, internamente, segundo as
mente com outras classes. Ou, então, essa aparente independência determinações das relações de produção num país e numa ocasião
se manifesta, quando uma facção da classe dominante já não tem específicos. Os poderes executivo, legislativo, judiciário e sobe­
força suficiente para manter o poder, mas não surge outra capaz rano não podem ser descritos ou definidos de forma abstrata,
de substituí-la. nem isoladamente nem em conjunto. Somente em situações con­
Na época de formação do capitalismo industrial, na transição cretas podem ser “categorizados”. Para isso, é indispensável que
da sociedade feudal à capitalista, também surgem situações que a análise veja como se organizam e funcionam os ministérios, a
polícia, o exército, a magistratura, o clero, a constituição, a buro­
conferem ao poder estatal em formação essa aparência de auto­
cracia e outras esferas do aparelho estatal, tanto em suas atuações
nomia. Isso ocorria na Alemanha contemporânea da Revolução
mais específicas como em suas relações recíprocas; tanto em suas
Francesa e da Revolução Industrial inglesa. Nessa época, os
relações com a sociedade civil, em conjunto, como com cada uma
burgueses alemães não estavam ainda em condições de se oporem
das classes sociais. No percurso dessa análise, surgem as relações,
à supremacia dos holandeses, para defenderem os seus interesses
os processos e as estruturas, de par em par com as pessoas, os
econômicos. Faltavam-lhes as condições econômicas para reali­ grupos e as classes sociais, uns e outros encadeados no conjunto
zarem a organização política indispensável à defesa e à expansão do regime capitalista de produção, em vigor em dado país e época.
dos seus interesses de classe. Esse foi o contexto em que o Estado A análise dialética do Estado capitalista, portanto, deve revelar,
adquiriu a aparência de autonomia. sob uma luz especial, a forma pela qual se organizam as forças
“Como poderia surgir a convergência política num país em que produtivas, as relações de produção, ou seja, as classes sociais,
faltavam todas as condições econômicas para isso? A impotência em seus movimentos e antagonismos.
de cada um dos setores da vida (não se pode ainda falar de A verdade é que a mercantilização universal das relações,
estamentos nem classes, mas no máximo de estamentos pretéritos pessoas e coisas implica, também, na generalização de estruturas
e de classes futuras) não permitia a nenhum deles conquistar a burguesas de poder aos vários países. Algumas' dessas estruturas
hegemonia exclusiva. Disso decorria a conseqüência necessária de são a expressão indispensável das relações de alienação e antago­
que — durante a época da monarquia absoluta, que aqui adquiria nismo que caracterizam o processo de produção de mais-valia. Ao
a forma mais raquítica, uma forma semipatriarcal — aquele.setor comparar uns e outros países, tendo em conta os diversos graus
especial, que, na divisão do trabalho, coube à administração dos
interesses públicos, adquirisse uma anormal independência, que
se tornou ainda maior com a burocracia moderna. O Estado se 44 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 213-14.
40 41

se fora a expressão da vontade geral ou da sociedade civil. A constituiu, assim, como um poder em aparência independente,
nosso ver, esse fenômeno resulta de que há ocasiões em que posição esta que, em outros países, foi apenas transitória, uma
fase de transição.” 44
ocorre um descompasso-maior ou, mesmo, divórcio mais acen­
tuado entre as estruturas políticas e as econômicas. Esse é o Enquanto categoria dialética, pois, o Estado adquire os con­
segredo da crise de hegemonia, que produz a impressão de que tornos, a estrutura e os movimentos que se lhe produzem nas
o Estado divorciou-se desta ou daquela classe, pairando sobre a relações com as classes constituídas ou em constituição. Ocorre
sociedade como um todo. A crise de hegemonia não é um que o poder estatal , é o núcleo de convergência das relações de
fenômeno exclusivamente político, ainda que se manifeste prin- interdependência, alienação e antagonismo que caracterizam a
cipalmente no nível das relações e estruturas políticas. O poder produção capitalista. Por isso ele se configura .segundo, as
determinações das relações capitalistas concretas, isto é, conforme
estatal adquire a aparência de autonomia nas ocasiões em que
a situação específica deste ou daquele país, <hesta ou naquela
ocorre uma crise simultaneamente política e econômica, na qual
época. Essa é a razão por que Marx não define o Estado capita­
a classe dominante ou uma das suas facções mais ativas perde o lista nem distingue os seus poderes principais de modo formal.
controle do aparelho estatal e é obrigada a comparti-lo formal­ Para ele o poder estatal configura-se, internamente, segundo as
mente com outras classes. Ou, então, essa aparente independência determinações das relações de produção num país e numa ocasião
se manifesta, quando uma facção da classe dominante já não tem específicos. Os poderes executivo, legislativo, judiciário e sobe­
força suficiente para manter o poder, mas não surge outra capaz rano não podem ser descritos ou definidos de forma abstrata,
de substituí-la. nem isoladamente nem em conjunto. Somente em situações con­
Na época de formação do capitalismo industrial, na transição cretas podem ser “categorizados”. Para isso, é indispensável que
da sociedade feudal à capitalista, também surgem situações que a análise veja como se organizam e funcionam os ministérios, a
polícia, o exército, a magistratura, o clero, a constituição, a buro­
conferem ao poder estatal em formação essa aparência de auto­
cracia e outras esferas do aparelho estatal, tanto em suas atuações
nomia. Isso ocorria na Alemanha contemporânea da Revolução
mais específicas como em suas relações recíprocas; tanto em suas
Francesa e da Revolução Industrial inglesa. Nessa época, os
relações com a sociedade civil, em conjunto, como com cada uma
burgueses alemães não estavam ainda em condições de se oporem
das classes sociais. No percurso dessa análise, surgem as relações,
à supremacia dos holandeses, para defenderem os seus interesses
os processos e as estruturas, de par em par com as pessoas, os
econômicos. Faltavam-lhes as condições econômicas para reali­ grupos e as classes sociais, uns e outros encadeados no conjunto
zarem a organização política indispensável à defesa e à expansão do regime capitalista de produção, em vigor em dado país e época.
dos seus interesses de classe. Esse foi o contexto em que o Estado A análise dialética do Estado capitalista, portanto, deve revelar,
adquiriu a aparência de autonomia. sob uma luz especial, a forma pela qual se organizam as forças
“Como poderia surgir a convergência política num país em que produtivas, as relações de produção, ou seja, as classes sociais,
faltavam todas as condições econômicas para isso? A impotência em seus movimentos e antagonismos.
de cada um dos setores da vida (não se pode ainda falar de A verdade é que a mercantilização universal das relações,
estamentos nem classes, mas no máximo de estamentos pretéritos pessoas e coisas implica, também, na generalização de estruturas
e de classes futuras) não permitia a nenhum deles conquistar a burguesas de poder aos vários países. Algumas' dessas estruturas
hegemonia exclusiva. Disso decorria a conseqüência necessária de são a expressão indispensável das relações de alienação e antago­
que — durante a época da monarquia absoluta, que aqui adquiria nismo que caracterizam o processo de produção de mais-valia. Ao
a forma mais raquítica, uma forma semipatriarcal — aquele.setor comparar uns e outros países, tendo em conta os diversos graus
especial, que, na divisão do trabalho, coube à administração dos
interesses públicos, adquirisse uma anormal independência, que
se tornou ainda maior com a burocracia moderna. O Estado se 44 Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 213-14.
42

de desenvolvimento das suas forças produtivas e relações de


produção, evidencia-se que o poder estatal burguês guarda algumas
significações essenciais comuns, além das peculiaridades de cada
país.
“A despeito da matizada diversidade de suas formas, os distintos
Estados dos distintos países civilizados têm em comum o' fato de
que todos se apoiam nas bases da sociedade burguesa moderna,
ainda que, em alguns lugares, ela se ache mais desenvolvida do
que em outros, no sentido capitalista. Têm, portanto, certos ca­
LA PRODUÇÃO
racterísticos essenciais comuns.” 40
Mas a análise marxista do Estado capitalista não se completa
a não ser quando se delineiam as condições do seu declínio ou
DA SOCIEDÂDE
crise final. Vimos que o Estado é a expressão mais acabada daS
relações que caracterizam o capitalismo. É na esfera do Estado
que as relações de alienação e antagonismo das classes sociais
adquirem plena concretividade e se resolvem. A crise do Estado
burguês é a conseqüência necessária do agravamento das contra­
dições de classes, contradições essas nas quais o proletariado e a
burguesia são as duas classes substantivas. Na luta contra a
burguesia, o proletariado lutará para conquistar e destruir o poder
estatal, já que este se constitui no núcleo essencial das relações
e estruturas de apropriação e dominação do regime. A Comuna
de Paris foi a primeira, manifestação do que poderia ser o Estado
proletário, em contraposição ao. Estado burguês. Para concretizar-
-se, o poder operário começou por suprimir relações e estruturas
jurídico-políticas e burocráticas que exprimiam prática e simbo­
licamente o poder burguês. Para instaurar a “ditadura do prole­
tariado”, que é a condição básica para a transição à “sociedade
sem classes”, torna-se indispensável suprimir as relações e as
estruturas preexistentes. Isto significa suprimir a “colossal super­
estrutura” do edifício do Estado capitalista. 45
46

45 Marx, K. “Gloses marginales au programme du parti ouvrier allemand.”


In: Marx, K. e Engels, F. Critique des programmes de Gotha et d*Erfurt.
Paris, Éditions Sociales, 1950. p. 33-34. Ainda, sobre a concepção do Estado
capitalista, consultar: Marx, K. “La sociedad burguesa y la Revolución
Comunista.” In: Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 632.
46 Marx, K. “Marx to J. Weydemeyer in New York”; La guerre civile en
Francey “Gloses marginales au programme du parti ouvrier allemand”.
42

de desenvolvimento das suas forças produtivas e relações de


produção, evidencia-se que o poder estatal burguês guarda algumas
significações essenciais comuns, além das peculiaridades de cada
país.
“A despeito da matizada diversidade de suas formas, os distintos
Estados dos distintos países civilizados têm em comum o' fato de
que todos se apoiam nas bases da sociedade burguesa moderna,
ainda que, em alguns lugares, ela se ache mais desenvolvida do
que em outros, no sentido capitalista. Têm, portanto, certos ca­
LA PRODUÇÃO
racterísticos essenciais comuns.” 40
Mas a análise marxista do Estado capitalista não se completa
a não ser quando se delineiam as condições do seu declínio ou
DA SOCIEDÂDE
crise final. Vimos que o Estado é a expressão mais acabada daS
relações que caracterizam o capitalismo. É na esfera do Estado
que as relações de alienação e antagonismo das classes sociais
adquirem plena concretividade e se resolvem. A crise do Estado
burguês é a conseqüência necessária do agravamento das contra­
dições de classes, contradições essas nas quais o proletariado e a
burguesia são as duas classes substantivas. Na luta contra a
burguesia, o proletariado lutará para conquistar e destruir o poder
estatal, já que este se constitui no núcleo essencial das relações
e estruturas de apropriação e dominação do regime. A Comuna
de Paris foi a primeira, manifestação do que poderia ser o Estado
proletário, em contraposição ao. Estado burguês. Para concretizar-
-se, o poder operário começou por suprimir relações e estruturas
jurídico-políticas e burocráticas que exprimiam prática e simbo­
licamente o poder burguês. Para instaurar a “ditadura do prole­
tariado”, que é a condição básica para a transição à “sociedade
sem classes”, torna-se indispensável suprimir as relações e as
estruturas preexistentes. Isto significa suprimir a “colossal super­
estrutura” do edifício do Estado capitalista. 45
46

45 Marx, K. “Gloses marginales au programme du parti ouvrier allemand.”


In: Marx, K. e Engels, F. Critique des programmes de Gotha et d*Erfurt.
Paris, Éditions Sociales, 1950. p. 33-34. Ainda, sobre a concepção do Estado
capitalista, consultar: Marx, K. “La sociedad burguesa y la Revolución
Comunista.” In: Marx, K. e Engels, F. La ideologia alemana. p. 632.
46 Marx, K. “Marx to J. Weydemeyer in New York”; La guerre civile en
Francey “Gloses marginales au programme du parti ouvrier allemand”.
1. FUNDAMENTOS DA HISTÓRIA *

i
c
As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias
ou dogmas; são bases reais, que só podemos abstrair em imaginação.
São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de existên­
cia, as que encontraram já prontas, como também aquelas que nasceram
de sua própria ação. Essas bases são, portanto, verificáveis através de
um meio puramente empírico.
A condição primeira de toda história humana é, naturalmente, a
existência de seres humanos vivos. O primeiro estado real a constatar
é3 portanto, o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que
esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza. Não podemos,
naturalmente, fazer aqui um estudo aprofundado da própria constituição
física do Homem, nem das condições naturais que os homens encon­
traram já prontas: condições geológicas, orográficas, hidrográficas,
climáticas e outras. Toda história deve partir dessas bases naturais e
de sua modificação, através da ação dos homens, no curso da História.
Pode-se distinguir os homens dos animais, pela consciência, pela
religião e por tudo o mais que se queira. Eles mesmos começam a se
distinguir dos animais desde que principiam a produzir os seus meios
de existência, um passo adiante e consequência de sua organização
corporal. Ao produzir os seus meios de existência, os homens produzem
indiretamente a sua própria vida material.
A maneira pela qual os homens produzem os seus meios de exis­
tência depende, primeiramente, da natureza dos meios de existência

* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. “Feuerbach.” In: L‘idéologie allemande.


Paris, Éditions Sociales, 1953. p. 11-28. Àpiid Ianni, O. Teorias de Estratifi­
cação Social. Trad. por Wilma Kovesí. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1972,
p. 67-83.
1. FUNDAMENTOS DA HISTÓRIA *

i
c
As condições prévias das quais partimos não são bases arbitrárias
ou dogmas; são bases reais, que só podemos abstrair em imaginação.
São os indivíduos reais, sua ação e suas condições materiais de existên­
cia, as que encontraram já prontas, como também aquelas que nasceram
de sua própria ação. Essas bases são, portanto, verificáveis através de
um meio puramente empírico.
A condição primeira de toda história humana é, naturalmente, a
existência de seres humanos vivos. O primeiro estado real a constatar
é3 portanto, o patrimônio corporal desses indivíduos e as relações que
esse patrimônio desenvolve com o resto da Natureza. Não podemos,
naturalmente, fazer aqui um estudo aprofundado da própria constituição
física do Homem, nem das condições naturais que os homens encon­
traram já prontas: condições geológicas, orográficas, hidrográficas,
climáticas e outras. Toda história deve partir dessas bases naturais e
de sua modificação, através da ação dos homens, no curso da História.
Pode-se distinguir os homens dos animais, pela consciência, pela
religião e por tudo o mais que se queira. Eles mesmos começam a se
distinguir dos animais desde que principiam a produzir os seus meios
de existência, um passo adiante e consequência de sua organização
corporal. Ao produzir os seus meios de existência, os homens produzem
indiretamente a sua própria vida material.
A maneira pela qual os homens produzem os seus meios de exis­
tência depende, primeiramente, da natureza dos meios de existência

* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. “Feuerbach.” In: L‘idéologie allemande.


Paris, Éditions Sociales, 1953. p. 11-28. Àpiid Ianni, O. Teorias de Estratifi­
cação Social. Trad. por Wilma Kovesí. São Paulo, Cia. Ed. Nacional, 1972,
p. 67-83.
46 47

já dados e que precisam ser reproduzidos. Não_se_deve considerar essa Os diversos estágios do desenvolvimento da divisão do trabalho
modalidade de produção sob esse único ponto de vista, apenas como representam igual número de diferentes formas de propriedade. Em
a reprodução da existência física dos indivíduos. Em verdade já outros termos, -cada novo estágio da divisão do trabalho determina, ao
representa um modo determinado da atividade desses indivíduos, ou mesmo tempo, relações dos indivíduos entre si, no tocante às coisas,
maneira determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida deter­ instrumentos e produtos do trabalho.
minado. 5 A maneira pela qual os indivíduos manifestam a sua vida A primeira forma da propriedade é a propriedade da tribo. Ela
reflete muito exatamente o que são. O que eles são coincide, portanto, corresponde a esse estágio rudimentar da produção, quando um povo
com a sua produção, tanto com o que produzem quanto com a maneira se alimenta da caça e da pesca, da criação de gado ou, a rigor,, da agrP
pela qual o produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das cultura. Neste caso, supõe-se uma grande quantidade de terras incultas.
condições materiais de sua produção.^ Nesse estágio, a divisão do trabalho é ainda muito pouco desenvolvida"
Esta produção só aparece com o crescimento da população. Ela e se limita a maior extensão da divisão natural do trafealho que a ofere­
mesma pressupõe de sua parte relações dos indivíduos entre si. A cida pela família. A estrutura social se limita, portanto, a uma extensão
forma dessas relações é, por sua vez, condicionada pela produção. da família: chefes da tribo patriarcal, tendo abaixo de si os membros
da tribo e, finalmente, os escravos. A escravatura latente na família
As relações entre as diferentes nações dependem do estágio do
somente se desenvolve aos poucos com o aumento da população e das
desenvolvimento em que cada uma delas se encontra, no que se refere
necessidades e, também, com a ampliação das relações externas, tanto
às forças produtivas, à divisão do trabalho e às relações internas. Esse
pela guerra como pela troca.
princípio é universalmente reconhecido. No entanto, não somente as
relações de uma nação com as outras nações, mas também toda a estru­ A segunda forma da propriedade é a propriedade antiga,.proprie­
tura interna dessa própria nação, dependem do nível de desenvolvimento dade comunal e propriedade do Estado, resultante sobretudo da reunião
de sua produção e de suas relações internas e externas. Podemos reco­ de várias tribos numa só cidade, por contrato ou conquista, onde
nhecer, de modo bastante claro, o grau de desenvolvimento atingido subsiste a escravatura. Ao lado da propriedade comunal, a propriedade
pelas forças produtivas de uma nação pelo nível de desenvolvimento privada, de bens móveis e mais tarde imóveis, já se desenvolve, mas sob
atingido pelas suas forças produtivas, pelo nível de desenvolvimento uma forma anormal, e subordinada à propriedade comunal. Os cidadãos
atingido pela divisão do trabalho. Na medida em que esta não é uma não têm plenos poderes sobre os seus escravos, que trabalham em sua
simples extensão quantitativa das forças produtivas conhecidas (cultivo comunidade, o que já os liga à forma da propriedade comunal. É a
de terras virgens, por exemplo), toda nova força de produção provoca, propriedade privada e em comum dos cidadãos ativos, os quais, face
em consequência, um novo aperfeiçoamento da divisão do trabalho. aos escravos, são obrigados a permanecer nessa forma natural de
associação. É por essa razão que toda a estrutura social baseada nessa
A divisão do trabalho no interior de uma'nação,. acarreta, primei- forma e, juntamente com ela, o poder dó povo, se desagregam à medida
ramente, a separação do trabalho industrial e comercial, por um lado, que se desenvolve a propriedade privada imobiliária. A divisão do tra­
e do trabalho agrícola, por outro. Ássim sendo, provoca á separação balho já está mais adiantada. Já se encontra a oposição entre a cidade
entre a cidade e o campo, e a oposição dos seus interesses. O seu e o campo e, mais tarde, a oposição entre os Estados representantes do
desenvolvimento ulterior acentua a separação do trabalho comercial e interesse das cidades e aqueles representantes do interesse do campo.
do trabalho industrial. Ao mesmo tempo, devido à divisão do trabalho E no interior das próprias cidades, encontra-se a oposição entre o
no interior dos diferentes setores, desenvolvem-se, por sua vez, dife­ comércio marítimo e a indústria. As relações de classe entre cidadãos
rentes subdivisões, dentre os indivíduos que cooperam em trabalhos
e escravos atingem o seu completo desenvolvimento.
determinados. A posição dessas subdivisões particulares, umas em
relação às outras, é condicionada pela modalidade de exploração do O fato da conquista parece estar em contradição a toda esta
trabalho agrícola, industrial e comercial (patriarcado, escravatura, concepção de história. Até o presente, encarou-se a violência, a guerra,
ordens e classes). As mesmas analogias aparecem quando os inter­ a pilhagem, o banditismo, etc., como a força motriz da história. É
câmbios são mais desenvolvidos, nas relações entre as diversas nações. necessário que nos limitemos aqui aos pontos capitais, razão pela qual
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já dados e que precisam ser reproduzidos. Não_se_deve considerar essa Os diversos estágios do desenvolvimento da divisão do trabalho
modalidade de produção sob esse único ponto de vista, apenas como representam igual número de diferentes formas de propriedade. Em
a reprodução da existência física dos indivíduos. Em verdade já outros termos, -cada novo estágio da divisão do trabalho determina, ao
representa um modo determinado da atividade desses indivíduos, ou mesmo tempo, relações dos indivíduos entre si, no tocante às coisas,
maneira determinada de manifestar a sua vida, um modo de vida deter­ instrumentos e produtos do trabalho.
minado. 5 A maneira pela qual os indivíduos manifestam a sua vida A primeira forma da propriedade é a propriedade da tribo. Ela
reflete muito exatamente o que são. O que eles são coincide, portanto, corresponde a esse estágio rudimentar da produção, quando um povo
com a sua produção, tanto com o que produzem quanto com a maneira se alimenta da caça e da pesca, da criação de gado ou, a rigor,, da agrP
pela qual o produzem. O que os indivíduos são depende, portanto, das cultura. Neste caso, supõe-se uma grande quantidade de terras incultas.
condições materiais de sua produção.^ Nesse estágio, a divisão do trabalho é ainda muito pouco desenvolvida"
Esta produção só aparece com o crescimento da população. Ela e se limita a maior extensão da divisão natural do trafealho que a ofere­
mesma pressupõe de sua parte relações dos indivíduos entre si. A cida pela família. A estrutura social se limita, portanto, a uma extensão
forma dessas relações é, por sua vez, condicionada pela produção. da família: chefes da tribo patriarcal, tendo abaixo de si os membros
da tribo e, finalmente, os escravos. A escravatura latente na família
As relações entre as diferentes nações dependem do estágio do
somente se desenvolve aos poucos com o aumento da população e das
desenvolvimento em que cada uma delas se encontra, no que se refere
necessidades e, também, com a ampliação das relações externas, tanto
às forças produtivas, à divisão do trabalho e às relações internas. Esse
pela guerra como pela troca.
princípio é universalmente reconhecido. No entanto, não somente as
relações de uma nação com as outras nações, mas também toda a estru­ A segunda forma da propriedade é a propriedade antiga,.proprie­
tura interna dessa própria nação, dependem do nível de desenvolvimento dade comunal e propriedade do Estado, resultante sobretudo da reunião
de sua produção e de suas relações internas e externas. Podemos reco­ de várias tribos numa só cidade, por contrato ou conquista, onde
nhecer, de modo bastante claro, o grau de desenvolvimento atingido subsiste a escravatura. Ao lado da propriedade comunal, a propriedade
pelas forças produtivas de uma nação pelo nível de desenvolvimento privada, de bens móveis e mais tarde imóveis, já se desenvolve, mas sob
atingido pelas suas forças produtivas, pelo nível de desenvolvimento uma forma anormal, e subordinada à propriedade comunal. Os cidadãos
atingido pela divisão do trabalho. Na medida em que esta não é uma não têm plenos poderes sobre os seus escravos, que trabalham em sua
simples extensão quantitativa das forças produtivas conhecidas (cultivo comunidade, o que já os liga à forma da propriedade comunal. É a
de terras virgens, por exemplo), toda nova força de produção provoca, propriedade privada e em comum dos cidadãos ativos, os quais, face
em consequência, um novo aperfeiçoamento da divisão do trabalho. aos escravos, são obrigados a permanecer nessa forma natural de
associação. É por essa razão que toda a estrutura social baseada nessa
A divisão do trabalho no interior de uma'nação,. acarreta, primei- forma e, juntamente com ela, o poder dó povo, se desagregam à medida
ramente, a separação do trabalho industrial e comercial, por um lado, que se desenvolve a propriedade privada imobiliária. A divisão do tra­
e do trabalho agrícola, por outro. Ássim sendo, provoca á separação balho já está mais adiantada. Já se encontra a oposição entre a cidade
entre a cidade e o campo, e a oposição dos seus interesses. O seu e o campo e, mais tarde, a oposição entre os Estados representantes do
desenvolvimento ulterior acentua a separação do trabalho comercial e interesse das cidades e aqueles representantes do interesse do campo.
do trabalho industrial. Ao mesmo tempo, devido à divisão do trabalho E no interior das próprias cidades, encontra-se a oposição entre o
no interior dos diferentes setores, desenvolvem-se, por sua vez, dife­ comércio marítimo e a indústria. As relações de classe entre cidadãos
rentes subdivisões, dentre os indivíduos que cooperam em trabalhos
e escravos atingem o seu completo desenvolvimento.
determinados. A posição dessas subdivisões particulares, umas em
relação às outras, é condicionada pela modalidade de exploração do O fato da conquista parece estar em contradição a toda esta
trabalho agrícola, industrial e comercial (patriarcado, escravatura, concepção de história. Até o presente, encarou-se a violência, a guerra,
ordens e classes). As mesmas analogias aparecem quando os inter­ a pilhagem, o banditismo, etc., como a força motriz da história. É
câmbios são mais desenvolvidos, nas relações entre as diversas nações. necessário que nos limitemos aqui aos pontos capitais, razão pela qual
49

tomamos um único exemplo marcante, que é o da destruição de uma uma contribuição digna de nota, condicionou* essa mudança do ponto
antiga civilização por um povo bárbaro e a formação de uma nova de partida. Em oposição à Grécia e Roma, o desenvolvimento feudal
estrutura social que a ela se reúne e principia da estaca zero. (Roma principia, portanto, sobre um campo bem mais extenso, preparado pelas
e os bárbaros, o feudalismo e a Gália, o Império Bizantino e os turcos.) conquistas romanas e pela extensão da agricultura, que delas dependeu
Entre os conquistadores bárbaros, a própria guerra já é, como indicamos no início. Os últimos séculos do Império Romano em decadência e
acima, uma forma normal de relações, explorada com tanto mais zelo a conquista dos próprios bárbaros anularam a massa de forças produ­
porque o crescimento da população cria, de maneira mais imperiosa, tivas: a agricultura havia declinado; a indústria, caído em decadência,
a necessidade de novos meios de produção, considerando-se a modali­ por falta de escoamento; o comércio, estagnado, ou interrompido pela
dade de produção tradicional e rudimentar que é para eles a única violência; a população, tanto a rural como a urbana, tinha diminuído.
possível. Por outro lado, na Itália, assiste-se à concentração da pro­ Esse estado de coisas e a modalidade de organização da conquista que
priedade rural, cuja causa, além do endividamento, foi a herança; pois disso decorreu, desenvolveram a propriedade feudal, sob a influência da
a extrema dissolução dos costumes e a raridade dos casamentos provo­ constituição do exército germânico. Como a propriedade da tribo e a,
caram a extinção progressiva das antigas famílias, tendo os seus bens da comuna, a propriedade feudal repousa, por sua vez, sobre uma
caído em mãos de uns poucos. Outrossim, essa propriedade rural foi comunidade na qual não são mais os escravos, como no sistema antigo,
transformada em. pastagens, transformação provocada (fora das causas mas os pequenos camponeses avassalados que se erguem como classe
econômicas comuns válidas ainda em nossos dias) pela importação de diretamente produtora. Paralelamente ao desenvolvimento completo do
cereais pilhados ou obtidos a título de tributo e, também, pela conse­ feudalismo apareceu, por outro lado, a oposição às cidades. A estrutura
quente carência de consumidores de trigo italiano. Como resultado hierárquica da propriedade imobiliária e as escoltas armadas, surgidas de
dessas circunstâncias, a população livre tinha desaparecido quase por par com ela, conferiram à nobreza a onipotência sobre os servos. Essa
completo. E os próprios escravos, em vias de se extinguirem, precisa­ estrutura feudal, exatamente como a antiga propriedade comunal, era
vam ser constantemente substituídos. A escravatura permaneceu uma associação contra a classe produtora dominada. Entretanto, a
a base de toda a produção. Os plebeus, situados entre os homens livres forma de associação e as relações" com os produtores eram diferentes,
e os escravos, jamais conseguiram elevar-se acimlFTa condição do porque as condições de produção eram, diferentes.
Lumpenproletariat. Outrossim, Roma jamais ultrapassou o estágio da A essa estrutura feudal da propriedade imobiliária correspondia,
cidade e estava ligada às províncias através de laços. quase que unica­ nas cidades, a propriedade corporativa, organização feudal da profissão.
mente políticos, os quais, como fenômenos, podiam, naturalmente, ser Aqui, a propriedade consistia principalmente no trabalho de cada
rompidos por sua vez. indivíduo. Mas a necessidade da associação contra a nobreza espolia-
Com o desenvolvimento da propriedade privada, surgem", pela tiva, a necessidade de mercados cobertos comuns numa época em que
.primeira vez, as relações que reencontraremos na propriedade privada o industrial fazia as vezes de comerciante, a crescente concorrência dos
moderna, embora numa escala mais vasta. Por um lado, a concentração servos que se evadiam em massa em direção às cidades prósperas, a
da propriedade privada, iniciada muito cedo em Roma, como o prova estrutura feudal em cada região fizeram nascer as corporações. Assim,
a lei agrária de Licínio, progrediu rapidamente depois das guerras civis, os pequenos capitais economizados aos poucos por artesãos isolados, e
sobretudo sob o Império. Por outro lado, ligando-se a tudo isso, a o invariável número destes numa população incessantemente aumentada,
transformação dos pequenos camponeses plebeus num proletariado cuja desenvolveram as condições de artesão e de aprendiz, fazendo com que
situação intermediária, entre os cidadãos proprietários e os escravos, nascesse nas cidades uma hierarquia semelhante à do campo.
impediu para sempre um desenvolvimento independente. A propriedade principal consistia, portanto, durante a época feu­
A terceira forma é a propriedade feudal ou por ordens. Enquanto dal, por um lado, na propriedade imobiliária, à qual está ligado o
a Antigüidade partia da cidade e. do seu pequeno território, a Idade trabalho dos servos, e por outro, no trabalho pessoal com pequeno
Média partia do campo. A população existente, espalhada e dispersa’ capital regendo o trabalho dos artesãos. A estrutura de uma e outra
sobre uma vasta superfície, parada qual os conquistadores não foram forma era condicionada pelos limitados lucros de produção, pela cultura
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tomamos um único exemplo marcante, que é o da destruição de uma uma contribuição digna de nota, condicionou* essa mudança do ponto
antiga civilização por um povo bárbaro e a formação de uma nova de partida. Em oposição à Grécia e Roma, o desenvolvimento feudal
estrutura social que a ela se reúne e principia da estaca zero. (Roma principia, portanto, sobre um campo bem mais extenso, preparado pelas
e os bárbaros, o feudalismo e a Gália, o Império Bizantino e os turcos.) conquistas romanas e pela extensão da agricultura, que delas dependeu
Entre os conquistadores bárbaros, a própria guerra já é, como indicamos no início. Os últimos séculos do Império Romano em decadência e
acima, uma forma normal de relações, explorada com tanto mais zelo a conquista dos próprios bárbaros anularam a massa de forças produ­
porque o crescimento da população cria, de maneira mais imperiosa, tivas: a agricultura havia declinado; a indústria, caído em decadência,
a necessidade de novos meios de produção, considerando-se a modali­ por falta de escoamento; o comércio, estagnado, ou interrompido pela
dade de produção tradicional e rudimentar que é para eles a única violência; a população, tanto a rural como a urbana, tinha diminuído.
possível. Por outro lado, na Itália, assiste-se à concentração da pro­ Esse estado de coisas e a modalidade de organização da conquista que
priedade rural, cuja causa, além do endividamento, foi a herança; pois disso decorreu, desenvolveram a propriedade feudal, sob a influência da
a extrema dissolução dos costumes e a raridade dos casamentos provo­ constituição do exército germânico. Como a propriedade da tribo e a,
caram a extinção progressiva das antigas famílias, tendo os seus bens da comuna, a propriedade feudal repousa, por sua vez, sobre uma
caído em mãos de uns poucos. Outrossim, essa propriedade rural foi comunidade na qual não são mais os escravos, como no sistema antigo,
transformada em. pastagens, transformação provocada (fora das causas mas os pequenos camponeses avassalados que se erguem como classe
econômicas comuns válidas ainda em nossos dias) pela importação de diretamente produtora. Paralelamente ao desenvolvimento completo do
cereais pilhados ou obtidos a título de tributo e, também, pela conse­ feudalismo apareceu, por outro lado, a oposição às cidades. A estrutura
quente carência de consumidores de trigo italiano. Como resultado hierárquica da propriedade imobiliária e as escoltas armadas, surgidas de
dessas circunstâncias, a população livre tinha desaparecido quase por par com ela, conferiram à nobreza a onipotência sobre os servos. Essa
completo. E os próprios escravos, em vias de se extinguirem, precisa­ estrutura feudal, exatamente como a antiga propriedade comunal, era
vam ser constantemente substituídos. A escravatura permaneceu uma associação contra a classe produtora dominada. Entretanto, a
a base de toda a produção. Os plebeus, situados entre os homens livres forma de associação e as relações" com os produtores eram diferentes,
e os escravos, jamais conseguiram elevar-se acimlFTa condição do porque as condições de produção eram, diferentes.
Lumpenproletariat. Outrossim, Roma jamais ultrapassou o estágio da A essa estrutura feudal da propriedade imobiliária correspondia,
cidade e estava ligada às províncias através de laços. quase que unica­ nas cidades, a propriedade corporativa, organização feudal da profissão.
mente políticos, os quais, como fenômenos, podiam, naturalmente, ser Aqui, a propriedade consistia principalmente no trabalho de cada
rompidos por sua vez. indivíduo. Mas a necessidade da associação contra a nobreza espolia-
Com o desenvolvimento da propriedade privada, surgem", pela tiva, a necessidade de mercados cobertos comuns numa época em que
.primeira vez, as relações que reencontraremos na propriedade privada o industrial fazia as vezes de comerciante, a crescente concorrência dos
moderna, embora numa escala mais vasta. Por um lado, a concentração servos que se evadiam em massa em direção às cidades prósperas, a
da propriedade privada, iniciada muito cedo em Roma, como o prova estrutura feudal em cada região fizeram nascer as corporações. Assim,
a lei agrária de Licínio, progrediu rapidamente depois das guerras civis, os pequenos capitais economizados aos poucos por artesãos isolados, e
sobretudo sob o Império. Por outro lado, ligando-se a tudo isso, a o invariável número destes numa população incessantemente aumentada,
transformação dos pequenos camponeses plebeus num proletariado cuja desenvolveram as condições de artesão e de aprendiz, fazendo com que
situação intermediária, entre os cidadãos proprietários e os escravos, nascesse nas cidades uma hierarquia semelhante à do campo.
impediu para sempre um desenvolvimento independente. A propriedade principal consistia, portanto, durante a época feu­
A terceira forma é a propriedade feudal ou por ordens. Enquanto dal, por um lado, na propriedade imobiliária, à qual está ligado o
a Antigüidade partia da cidade e. do seu pequeno território, a Idade trabalho dos servos, e por outro, no trabalho pessoal com pequeno
Média partia do campo. A população existente, espalhada e dispersa’ capital regendo o trabalho dos artesãos. A estrutura de uma e outra
sobre uma vasta superfície, parada qual os conquistadores não foram forma era condicionada pelos limitados lucros de produção, pela cultura
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rudimentar e restrita do solo e pela indústria artesanal. No apogeu do produtivas e das relações a elas correspondentes, incluindo-se as mais
feudalismo, a divisão do trabalho era muito limitada. Cada região ou amplas formas que estas possam tomar. A consciência jamais pode ser
conjunto de feudos tinha a sua própria oposição entre cidade e campo. outra coisa que o Ser consciente e o Ser dos homens é o seu processo
A divisão em ordens era na realidade fortemente marcada; mas, além real de vida. E se, em toda a ideologia, os homens e as suas relações
da separação em príncipes reinantes, nobreza, clero e camponeses (no nos parecem colocados de cabeça para baixo, como numa câmara
campo) e a separação em mestres, operários e aprendizes e logo escura, esse fenômeno decorre do seu processo de vida histórico, da
também em plebe dos diaristas (nas cidades), não houve importante mesma forma que a inversão dos objetos sobre a retina decorre do seu
divisão do trabalho. Na agricultura, esta tornou-se mais difícil pela processo de vida diretamente físico.
exploração em pequenas propriedades, ao lado da qual se desenvolveu
Ao contrário da filosofia alemã que desce do céu sobre a terra,
a indústria doméstica dos próprios camponeses. Na indústria, o trabalho
é da terra ao céu que subimos aqui. Em outras palavras, aqui não
também não era dividido dentro de cada profissão e muito pouco entre
as diferentes profissões. A divisão entre o comércio e a indústria já partimos daquilo que qs homens dizem, imaginam/-creem, nem muito
existia nas antigas cidades, mas só se desenvolveu nas novas cidades, menos do que são nas palavras, pensamento, imaginação e representação
quando estas travaram relações umas com as outras. de outrem, para atingir finalmente os homens em carne e osso. Não,
aqui partimos dos homens tomados em sua atividade real, segundo o
A reunião de feudos de uma determinada extensão em reinos
seu processo real de vida, representando também o desenvolvimento dos
feudais era pa necessidade, tanto para a nobreza latifundiária como
reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital. E mesmo as fantas­
para as cidades. Por isso, a organização da classe dominante, isto é,
da nobreza, teve por toda a parte um monarca à sua frente.
magorias no cérebro humano são sublimações, necessariamente resul­
tantes do seu processo material de vida, as quais se podem constatar
Portanto, o fato é o seguinte: indivíduos determinados, que têm empiricamente e que repousam sobre bases materiais. Por isso, a moral,
uma atividade produtiva, segundo um método determinado, entram em a religião, a metafísica e todo o resto da ideologia, como também as
relações sociais e políticas determinadas. Em cada caso isolado, a formas de consciência que lhes são correspondentes, perdem logo toda
observação empírica deve mostrar, empiricamente e sem nenhuma
aparência de autonomia. Elas não têm história, não têm desenvolvi­
especulação ou mistificação, o elo entre a estrutura social e política
mento; sao, ao contrário, os homens que, ao desenvolverem a sua
e a produção. A estrutura social e o Estado resultam, constantemente,
produção material e suas relações materiais, transformam, com esta
do processo vital de indivíduos determinados; mas desses indivíduos,
realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos do seu
não mais tal como podem aparentar em sua própria representação ou
pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que
na de outrem, mas tal como são em realidade, isto é, tal como trabalham
determina a consciência. Na primeira maneira de se considerar as
e produzem materialmente. Portanto, como se agissem sobre bases e
coisas, perte-se da Consciência como sendo o Indivíduo vivo; na se­
em condições e limites materiais determinados e independentes de sua
gunda, maneira, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios
vontade.
indivíduos reais e vivos e considera-se a Consciência unicamente como-
A produção das idéias, das representações e da consciência está, a sua consciência.
antes de mais nada, direta e intimamente ligada à atividade material e
Esta maneira de considerar as coisas não é desprovida de bases.
ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real. As
representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens apare­ Parte de premissas prévias reais e não as abandona um único instante.
cem aqui, ainda, como a emanação direta do seu comportamento Suas bases são os homens, não isolados e imobilizados (de alguma
material. O mesmo ocorre com a produção intelectual, tal como se maneira, pela imaginação), mas tomados em seu processo de desenvol­
apresenta na linguagem da política, das Jeis, da moral, da religião, da vimento real, em. condições determinadas, desenvolvimento esse empi­
metafísica etc., de um povo. Os homens são os produtores de suas ricamente visível. A partir do momento em que se representa esse
representações, de suas idéias etc., mas os homens reais, atuantes, processo de atividade vital, a história deixa de ser uma coleção de fatos
condicionados que são por desenvolvimento determinado de suas forças sem vida, como ocorre com os empiristas, eles mesmos ainda abstratos;
50 51

rudimentar e restrita do solo e pela indústria artesanal. No apogeu do produtivas e das relações a elas correspondentes, incluindo-se as mais
feudalismo, a divisão do trabalho era muito limitada. Cada região ou amplas formas que estas possam tomar. A consciência jamais pode ser
conjunto de feudos tinha a sua própria oposição entre cidade e campo. outra coisa que o Ser consciente e o Ser dos homens é o seu processo
A divisão em ordens era na realidade fortemente marcada; mas, além real de vida. E se, em toda a ideologia, os homens e as suas relações
da separação em príncipes reinantes, nobreza, clero e camponeses (no nos parecem colocados de cabeça para baixo, como numa câmara
campo) e a separação em mestres, operários e aprendizes e logo escura, esse fenômeno decorre do seu processo de vida histórico, da
também em plebe dos diaristas (nas cidades), não houve importante mesma forma que a inversão dos objetos sobre a retina decorre do seu
divisão do trabalho. Na agricultura, esta tornou-se mais difícil pela processo de vida diretamente físico.
exploração em pequenas propriedades, ao lado da qual se desenvolveu
Ao contrário da filosofia alemã que desce do céu sobre a terra,
a indústria doméstica dos próprios camponeses. Na indústria, o trabalho
é da terra ao céu que subimos aqui. Em outras palavras, aqui não
também não era dividido dentro de cada profissão e muito pouco entre
as diferentes profissões. A divisão entre o comércio e a indústria já partimos daquilo que qs homens dizem, imaginam/-creem, nem muito
existia nas antigas cidades, mas só se desenvolveu nas novas cidades, menos do que são nas palavras, pensamento, imaginação e representação
quando estas travaram relações umas com as outras. de outrem, para atingir finalmente os homens em carne e osso. Não,
aqui partimos dos homens tomados em sua atividade real, segundo o
A reunião de feudos de uma determinada extensão em reinos
seu processo real de vida, representando também o desenvolvimento dos
feudais era pa necessidade, tanto para a nobreza latifundiária como
reflexos e dos ecos ideológicos desse processo vital. E mesmo as fantas­
para as cidades. Por isso, a organização da classe dominante, isto é,
da nobreza, teve por toda a parte um monarca à sua frente.
magorias no cérebro humano são sublimações, necessariamente resul­
tantes do seu processo material de vida, as quais se podem constatar
Portanto, o fato é o seguinte: indivíduos determinados, que têm empiricamente e que repousam sobre bases materiais. Por isso, a moral,
uma atividade produtiva, segundo um método determinado, entram em a religião, a metafísica e todo o resto da ideologia, como também as
relações sociais e políticas determinadas. Em cada caso isolado, a formas de consciência que lhes são correspondentes, perdem logo toda
observação empírica deve mostrar, empiricamente e sem nenhuma
aparência de autonomia. Elas não têm história, não têm desenvolvi­
especulação ou mistificação, o elo entre a estrutura social e política
mento; sao, ao contrário, os homens que, ao desenvolverem a sua
e a produção. A estrutura social e o Estado resultam, constantemente,
produção material e suas relações materiais, transformam, com esta
do processo vital de indivíduos determinados; mas desses indivíduos,
realidade que lhes é própria, o seu pensamento e os produtos do seu
não mais tal como podem aparentar em sua própria representação ou
pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que
na de outrem, mas tal como são em realidade, isto é, tal como trabalham
determina a consciência. Na primeira maneira de se considerar as
e produzem materialmente. Portanto, como se agissem sobre bases e
coisas, perte-se da Consciência como sendo o Indivíduo vivo; na se­
em condições e limites materiais determinados e independentes de sua
gunda, maneira, que corresponde à vida real, parte-se dos próprios
vontade.
indivíduos reais e vivos e considera-se a Consciência unicamente como-
A produção das idéias, das representações e da consciência está, a sua consciência.
antes de mais nada, direta e intimamente ligada à atividade material e
Esta maneira de considerar as coisas não é desprovida de bases.
ao comércio material dos homens; é a linguagem da vida real. As
representações, o pensamento, o comércio intelectual dos homens apare­ Parte de premissas prévias reais e não as abandona um único instante.
cem aqui, ainda, como a emanação direta do seu comportamento Suas bases são os homens, não isolados e imobilizados (de alguma
material. O mesmo ocorre com a produção intelectual, tal como se maneira, pela imaginação), mas tomados em seu processo de desenvol­
apresenta na linguagem da política, das Jeis, da moral, da religião, da vimento real, em. condições determinadas, desenvolvimento esse empi­
metafísica etc., de um povo. Os homens são os produtores de suas ricamente visível. A partir do momento em que se representa esse
representações, de suas idéias etc., mas os homens reais, atuantes, processo de atividade vital, a história deixa de ser uma coleção de fatos
condicionados que são por desenvolvimento determinado de suas forças sem vida, como ocorre com os empiristas, eles mesmos ainda abstratos;
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ou uma ação imaginária, de assuntos imaginários, como ocorre com os um bastão, o estrito mínimo, como ocorreu com São Bruno,2 esta
idealistas. pressupõe a atividade que produz esse bastão. A primeira coisa, em
É aí que cessa a especulação. É, portanto, na vida real que começa toda concepção histórica, é, portanto, a observação desse fato funda­
a ciência real, positiva, a representação da atividade prática, do processo mental, em toda a sua importância e toda a sua extensão; e fazer-lhe
de desenvolvimento prático dos homens. Cessam as frases vazias sobre justiça. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram; nunca tiveram,
a consciência, devendo uma sabedoria verdadeira substituí-las. A filo? portanto, base terrestre para a história e, conseqüentemente, jamais
sofia independente perde o seu meio de existência, como representação tiveram um único historiador. Embora só tenham percebido a ligação
da realidade. Em seu lugar, poder-se-á, no máximo, colocar uma síntese desse fato com o que se denomina história sob o ângulo mais limitado,
dos resultados mais gerais, os quais é possível abstrair do estudo de sobretudo enquanto permaneceram encerrados na ideologia política, os
desenvolvimento histórico dos homens. Essas abstrações, tomadas em franceses e os ingleses fizeram, não obstante, as primeiras tentativas
si, separadas da história real, não têm o menor valor. Podem, no para dar à história uma base materialista, ao escrgver primeiranjente
máximo, servir para classificar com maior facilidade o material histórico, as histórias da sociedade burguesa, do comércio e da indústria.
para indicar a sucessão de suas estratificações peculiares. Mas não O segundo ponto é que, uma vez satisfeita a primeira necessidade
proporcionam, de maneira alguma, como a filosofia, uma receita, um em si, a ação de satisfazê-la e o instrumento dessa satisfação impelem
esquema segundo o qual se podem acomodar as épocas históricas. A a novas necessidades, e essa produção de novas necessidades é o pri­
dificuldade começa, ao contrário, somente quando nos pomos a estudar meiro fato histórico. É através desse fato que logo se reconhece qpal
e classificar esse material, seja em se tratando de uma época passada o espírito que a grande sabedoria histórica dos alemães tem por pai.
ou do tempo presente, e a interpretá-lo realmente. A eliminação dessas Onde .há carência de material positivo e onde não se debatem asneiras
dificuldades depende dos dados prévios, impossíveis de serem aqui teológicas nem estupidez nossos alemães vêem, não mais a história, mas
desenvolvidos, pois resultam do estudo do processo real de vida e da os “tempos pré-históricos”. Da mesma forma, não. nos explicam como
ação dos indivíduos de cada época. Tomaremos aqui algumas dessas se passa desse absurdo da “pré-história” à história propriamente dita.
abstrações, que empregamos a' propósito da ideologia, explicando-as Assim, a sua especulação histórica se lança, de maneira toda especial,
através de exemplos históricos. sobre esta “pré-história”, porque ela se considera ao abrigo das invasões
do “fato brutal” e, também, porque pode aí dar vazão ao seu instinto
2 especulativo e engendrar e derrubar hipóteses a.os milhares.
O terceiro ponto, que intervém repentinamente no desenvolvi­
Como os alemães, desprovidos de qualquer dado prévio, é forçoso
mento histórico, é que os'homens, que renovam a cada dia a sua própria
que iniciemos pela constatação do primeiro dado prévio de toda exis­
vida, se põem a criar outros homens, a se reproduzirem: é a ligação
tência humana, e comecemos pela história; pois os homens devem poder
entre homem e mulher, pais e filhos, é a família. Esta família, que é
viver para poder “fazer a história”. Mas, para viver, é preciso antes
no início a única relação social, torna-se, em seguida, uma relação
de tudo, beber, comer, morar, vestir-se, além de outras coisas, i O
subalterna (exceto na Alemanha), quando as necessidades acrescidas
primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam
geram novas relações sociais e o aumento da população gera novas
a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material,
necessidades. Conseqüentemente, deve-se tratar e desenvolver esse tema
o que já constituí um fato histórico, uma condição fundamental de toda
da família segundo os fatos empíricos existentes e não segundo o “con­
história; necessidades essas que se_devemr ainda hoje como há. milhares
ceito de família”, como é hábito fazer na Alemanha.3 Outrossim, não
de anos atrás, satisfazer dia a dia, hora a hora, simplesmente para manter
os homens com vida. Mesmo quando a materialidade está reduzida a
2 Alusão a uma teoria de Bruno Bauer.
3 Construção de casas. Entre os selvagens, é natural que cada família tenha a
1À altura dessa frase, Marx anotou na coluna da direita: Hegel. Condições sua gruta ou cabana própria, como também é normal que os nômades tenham
geológicas, hidrográficas etc. Os corpos humanos. Necessidade, trabalho. uma tenda particular para cada família. Esta economia doméstica separada tor-
52 53

ou uma ação imaginária, de assuntos imaginários, como ocorre com os um bastão, o estrito mínimo, como ocorreu com São Bruno,2 esta
idealistas. pressupõe a atividade que produz esse bastão. A primeira coisa, em
É aí que cessa a especulação. É, portanto, na vida real que começa toda concepção histórica, é, portanto, a observação desse fato funda­
a ciência real, positiva, a representação da atividade prática, do processo mental, em toda a sua importância e toda a sua extensão; e fazer-lhe
de desenvolvimento prático dos homens. Cessam as frases vazias sobre justiça. Todos sabem que os alemães jamais o fizeram; nunca tiveram,
a consciência, devendo uma sabedoria verdadeira substituí-las. A filo? portanto, base terrestre para a história e, conseqüentemente, jamais
sofia independente perde o seu meio de existência, como representação tiveram um único historiador. Embora só tenham percebido a ligação
da realidade. Em seu lugar, poder-se-á, no máximo, colocar uma síntese desse fato com o que se denomina história sob o ângulo mais limitado,
dos resultados mais gerais, os quais é possível abstrair do estudo de sobretudo enquanto permaneceram encerrados na ideologia política, os
desenvolvimento histórico dos homens. Essas abstrações, tomadas em franceses e os ingleses fizeram, não obstante, as primeiras tentativas
si, separadas da história real, não têm o menor valor. Podem, no para dar à história uma base materialista, ao escrgver primeiranjente
máximo, servir para classificar com maior facilidade o material histórico, as histórias da sociedade burguesa, do comércio e da indústria.
para indicar a sucessão de suas estratificações peculiares. Mas não O segundo ponto é que, uma vez satisfeita a primeira necessidade
proporcionam, de maneira alguma, como a filosofia, uma receita, um em si, a ação de satisfazê-la e o instrumento dessa satisfação impelem
esquema segundo o qual se podem acomodar as épocas históricas. A a novas necessidades, e essa produção de novas necessidades é o pri­
dificuldade começa, ao contrário, somente quando nos pomos a estudar meiro fato histórico. É através desse fato que logo se reconhece qpal
e classificar esse material, seja em se tratando de uma época passada o espírito que a grande sabedoria histórica dos alemães tem por pai.
ou do tempo presente, e a interpretá-lo realmente. A eliminação dessas Onde .há carência de material positivo e onde não se debatem asneiras
dificuldades depende dos dados prévios, impossíveis de serem aqui teológicas nem estupidez nossos alemães vêem, não mais a história, mas
desenvolvidos, pois resultam do estudo do processo real de vida e da os “tempos pré-históricos”. Da mesma forma, não. nos explicam como
ação dos indivíduos de cada época. Tomaremos aqui algumas dessas se passa desse absurdo da “pré-história” à história propriamente dita.
abstrações, que empregamos a' propósito da ideologia, explicando-as Assim, a sua especulação histórica se lança, de maneira toda especial,
através de exemplos históricos. sobre esta “pré-história”, porque ela se considera ao abrigo das invasões
do “fato brutal” e, também, porque pode aí dar vazão ao seu instinto
2 especulativo e engendrar e derrubar hipóteses a.os milhares.
O terceiro ponto, que intervém repentinamente no desenvolvi­
Como os alemães, desprovidos de qualquer dado prévio, é forçoso
mento histórico, é que os'homens, que renovam a cada dia a sua própria
que iniciemos pela constatação do primeiro dado prévio de toda exis­
vida, se põem a criar outros homens, a se reproduzirem: é a ligação
tência humana, e comecemos pela história; pois os homens devem poder
entre homem e mulher, pais e filhos, é a família. Esta família, que é
viver para poder “fazer a história”. Mas, para viver, é preciso antes
no início a única relação social, torna-se, em seguida, uma relação
de tudo, beber, comer, morar, vestir-se, além de outras coisas, i O
subalterna (exceto na Alemanha), quando as necessidades acrescidas
primeiro fato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitam
geram novas relações sociais e o aumento da população gera novas
a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material,
necessidades. Conseqüentemente, deve-se tratar e desenvolver esse tema
o que já constituí um fato histórico, uma condição fundamental de toda
da família segundo os fatos empíricos existentes e não segundo o “con­
história; necessidades essas que se_devemr ainda hoje como há. milhares
ceito de família”, como é hábito fazer na Alemanha.3 Outrossim, não
de anos atrás, satisfazer dia a dia, hora a hora, simplesmente para manter
os homens com vida. Mesmo quando a materialidade está reduzida a
2 Alusão a uma teoria de Bruno Bauer.
3 Construção de casas. Entre os selvagens, é natural que cada família tenha a
1À altura dessa frase, Marx anotou na coluna da direita: Hegel. Condições sua gruta ou cabana própria, como também é normal que os nômades tenham
geológicas, hidrográficas etc. Os corpos humanos. Necessidade, trabalho. uma tenda particular para cada família. Esta economia doméstica separada tor-
54 55

se devem compreender esses três aspectos da atividade social como três uma “história” mesmo quando não existe um não-senso político ou
estágios- diferentes, mas precisamente como três aspectos, simplesmente; religioso qualquer que reúna ainda mais os homens.
ou, para empregar uma linguagem clara para os alemães, três “mo­
E é somente agora, após já ter examinado quatro momentos, qua­
mentos”, que coexistiram desde o início da história e desde os primeiros
tro aspectos das relações históricas originais, que achamos que o homem
homens, e que se afirmam ainda hoje na história. Produzir a vida, tanto
também tem “consciência”. 4 Mas não se trata de uma consciência que
a sua própria, através 9o trabalho, como a vida de outrem, pela pro­
seja, de início, consciência “pura”. Desde o início, uma maldição pesa
criação, nos parece, portanto, desde já, uma relação dupla: de um
sobre o “espírito”, a de ser “maculado” pela matéria que se apresenta
lado, uma relação natural e, do outro, uma relação social — social no
sob a forma de camadas agitadas de sons; em suma, pela linguagem.
sentido que se entende pela ação conjugada de vários indivíduos, pouco
A linguagem é tão velha quanto a consciência. A linguagem é a cons­
importando em que condições, de que maneira e com que finalidade.
ciência real, prática, existindo também para outros homens, existindo,
Conseqüentemente, uma modalidade de produção ou um estágio indus­
portanto, igualmente para mim mesmo pela primeira vez e, exatamente
trial são constantemente ligados a uma modalidade de cooperação ou
como a consciência, a linguagem só aparece com a carência, a necessi­
a um estágio social determinado; e essa modalidade de cooperação é por
dade de comércio com outros homens. Onde existir uma relação,, esta
si uma “força produtiva”. Segue-se, igualmente, que a massa das forças
existe para mim. O animal “não está em relação” a nada, não conhece,
produtivas acessíveis aos homens determina o estado social, devendo-se,
no final das contas, relação alguma. Para o animal, as suas relações
como consequência, estudar e elaborar incessantemente a “história dos
com os outros não existem como relações. A consciência é, portanto,
homens”, em conexão com a história da indústria e da troca. Mas é
de início, um produto social, assim permanecendo tanto tempo, quanto
tão claro quanto impossível escrever semelhante história na Alemanha,
existirem os homens em geral. Evidentemente, a consciência nada mais
pois falta aos alemães, para fazê-la, não somente a faculdade de conce­
é em primeiro lugar, que a consciência do meio sensível mais próximo
bê-la e os materiais, mas também a “certeza sensível”, não se podendo
e aquela do elo limitado com outras pessoas e outras coisas situadas
fazer experiências nesse campo do outro lado do Reno, pois lá não fora do indivíduo que toma consciência. Ao mesmo tempo, é a cons­
acontece mais história. Portanto, repentinamente, manifesta-se um elo ciência da natureza que se ergue em primeiro lugar face aos homens,
materialista entre os homens, que é condicionado pelas necessidades e como uma potência essencialmente estranha, todo-poderosa e inatacável,
modalidade de produção e que é tão velho quanto os próprios homens frente à qual os homens se comportam de uma maneira puramente
— elo que toma incessantemente novas formas, apresentando, portanto, animal e que se lhes impõe tanto quanto ao gado; conseqüentemente,
uma consciência da natureza puramente animal (religião da natureza).
na-se ainda mais indispensável quando ocorre o desenvolvimento da propriedade Vê-se imediatamente que esta religião da natureza ou essas relações
privada. Entre os povos agricultores, a economia doméstica comum é tão impos­ determinadas face à natureza são condicionadas pela forma da sociedade
sível quanto a cultura comum do solo. A construção das cidades foi um grande
progresso. No entanto, èm todos os períodos anteriores, supressão da economia e vice-versa. Aqui, como em todos os outros lugares, a identidade do
separada, inseparável da supressão da propriedade privada, era impossível pela homem e da natureza apareceu também sob essa forma. O comporta­
carência das condições materiais. O estabelecimento de uma economia domés­ mento determinado dos homens, em face da natureza, condiciona o
tica comum tem por condições prévias o desenvolvimento do maquinismo, com comportamento entre eles, e o comportamento determinado entre eles
a utilização de forças naturais e de numerosas outras forças produtivas — por
exemplo, canalização de água, iluminação a gás, aquecimento a vapor, etc., a condiciona, por sua vez, as suas relações determinadas com a natureza,
supressão da cidade e do campo. Sem essas condições, a economia comum não precisamente porque a natureza está muito pouco modificada pela
constituiria em si, por sua vez, uma força produtiva, pois esta careceria de toda história. Por outro lado, a consciência da necessidade de entrar em
base material, repousando somente sobre uma base teórica, sendo, em outras
-palavras, um simples capricho, conduzindo apenas à economia monacal. O que
era possível, verificou-se com o agrupamento das pessoas em cidades e com as 4 A essa altura, Marx escreveu na coluna da direita: “Os homens têm uma
construções de edifícios comuns, para finalidades singulares determinadas (prisões, história, porque devem produzir sua vida, devendo fazê-lo realmente, de uma
casernas, etc.). A supressão da economia separada é inseparável da abolição da maneira determinada', sendo esse dever dado por sua organização física; da
família, é evidente. mesma maneira que a sua consciência”.
54 55

se devem compreender esses três aspectos da atividade social como três uma “história” mesmo quando não existe um não-senso político ou
estágios- diferentes, mas precisamente como três aspectos, simplesmente; religioso qualquer que reúna ainda mais os homens.
ou, para empregar uma linguagem clara para os alemães, três “mo­
E é somente agora, após já ter examinado quatro momentos, qua­
mentos”, que coexistiram desde o início da história e desde os primeiros
tro aspectos das relações históricas originais, que achamos que o homem
homens, e que se afirmam ainda hoje na história. Produzir a vida, tanto
também tem “consciência”. 4 Mas não se trata de uma consciência que
a sua própria, através 9o trabalho, como a vida de outrem, pela pro­
seja, de início, consciência “pura”. Desde o início, uma maldição pesa
criação, nos parece, portanto, desde já, uma relação dupla: de um
sobre o “espírito”, a de ser “maculado” pela matéria que se apresenta
lado, uma relação natural e, do outro, uma relação social — social no
sob a forma de camadas agitadas de sons; em suma, pela linguagem.
sentido que se entende pela ação conjugada de vários indivíduos, pouco
A linguagem é tão velha quanto a consciência. A linguagem é a cons­
importando em que condições, de que maneira e com que finalidade.
ciência real, prática, existindo também para outros homens, existindo,
Conseqüentemente, uma modalidade de produção ou um estágio indus­
portanto, igualmente para mim mesmo pela primeira vez e, exatamente
trial são constantemente ligados a uma modalidade de cooperação ou
como a consciência, a linguagem só aparece com a carência, a necessi­
a um estágio social determinado; e essa modalidade de cooperação é por
dade de comércio com outros homens. Onde existir uma relação,, esta
si uma “força produtiva”. Segue-se, igualmente, que a massa das forças
existe para mim. O animal “não está em relação” a nada, não conhece,
produtivas acessíveis aos homens determina o estado social, devendo-se,
no final das contas, relação alguma. Para o animal, as suas relações
como consequência, estudar e elaborar incessantemente a “história dos
com os outros não existem como relações. A consciência é, portanto,
homens”, em conexão com a história da indústria e da troca. Mas é
de início, um produto social, assim permanecendo tanto tempo, quanto
tão claro quanto impossível escrever semelhante história na Alemanha,
existirem os homens em geral. Evidentemente, a consciência nada mais
pois falta aos alemães, para fazê-la, não somente a faculdade de conce­
é em primeiro lugar, que a consciência do meio sensível mais próximo
bê-la e os materiais, mas também a “certeza sensível”, não se podendo
e aquela do elo limitado com outras pessoas e outras coisas situadas
fazer experiências nesse campo do outro lado do Reno, pois lá não fora do indivíduo que toma consciência. Ao mesmo tempo, é a cons­
acontece mais história. Portanto, repentinamente, manifesta-se um elo ciência da natureza que se ergue em primeiro lugar face aos homens,
materialista entre os homens, que é condicionado pelas necessidades e como uma potência essencialmente estranha, todo-poderosa e inatacável,
modalidade de produção e que é tão velho quanto os próprios homens frente à qual os homens se comportam de uma maneira puramente
— elo que toma incessantemente novas formas, apresentando, portanto, animal e que se lhes impõe tanto quanto ao gado; conseqüentemente,
uma consciência da natureza puramente animal (religião da natureza).
na-se ainda mais indispensável quando ocorre o desenvolvimento da propriedade Vê-se imediatamente que esta religião da natureza ou essas relações
privada. Entre os povos agricultores, a economia doméstica comum é tão impos­ determinadas face à natureza são condicionadas pela forma da sociedade
sível quanto a cultura comum do solo. A construção das cidades foi um grande
progresso. No entanto, èm todos os períodos anteriores, supressão da economia e vice-versa. Aqui, como em todos os outros lugares, a identidade do
separada, inseparável da supressão da propriedade privada, era impossível pela homem e da natureza apareceu também sob essa forma. O comporta­
carência das condições materiais. O estabelecimento de uma economia domés­ mento determinado dos homens, em face da natureza, condiciona o
tica comum tem por condições prévias o desenvolvimento do maquinismo, com comportamento entre eles, e o comportamento determinado entre eles
a utilização de forças naturais e de numerosas outras forças produtivas — por
exemplo, canalização de água, iluminação a gás, aquecimento a vapor, etc., a condiciona, por sua vez, as suas relações determinadas com a natureza,
supressão da cidade e do campo. Sem essas condições, a economia comum não precisamente porque a natureza está muito pouco modificada pela
constituiria em si, por sua vez, uma força produtiva, pois esta careceria de toda história. Por outro lado, a consciência da necessidade de entrar em
base material, repousando somente sobre uma base teórica, sendo, em outras
-palavras, um simples capricho, conduzindo apenas à economia monacal. O que
era possível, verificou-se com o agrupamento das pessoas em cidades e com as 4 A essa altura, Marx escreveu na coluna da direita: “Os homens têm uma
construções de edifícios comuns, para finalidades singulares determinadas (prisões, história, porque devem produzir sua vida, devendo fazê-lo realmente, de uma
casernas, etc.). A supressão da economia separada é inseparável da abolição da maneira determinada', sendo esse dever dado por sua organização física; da
família, é evidente. mesma maneira que a sua consciência”.
56 57

relação com os indivíduos que o cercam marca, para o homem, o início do trabalho. Também, é por si explicativo que “fantasmas”, “ralé”,
da consciência do fato de que, apesar de tudo, ele vive em sociedade. “essência superior”, “conceito”, “dúvidas”, nada mais são que a expres­
são mental idealista, a representação aparentemente do indivíduo
Esse início é tão animal quanto a própria vida social desse estágio;
isolado, a representação de cadeias e de limites muito empíricos, no
ele é uma simples consciência gregária e o homem se distingue aqui do
interior dos quais se movimentam a modalidade de produção da vida
carneiro através do fato único de que a sua consciência pode tomar nele
e a forma de relações que está a ela ligada.
o lugar do instinto ou de o seu instinto ser um instinto consciente. Esta
consciência de carneiro, tribal, recebe seu desenvolvimento e seu Esta divisão de trabalho, que implica em todas essas contradições
aperfeiçoamento ulteriores com o aumento da produtividade, o aumento e repousa, por sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família,
das necessidades e o aumento da população que está na base dos e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas
dois precedentes. Assim se desenvolve a divisão do trabalho, que, às outras, — esta divisão do trabalho implica, ao. mesmo tempo, na
primitivamente, nada mais era que a divisão do trabalho no ato sexual, repartição do trabalho e de seus produtos, na distribuição desigual tanto
tornando-se, em seguida, a divisão dcT trãBSho que ~se faz por si ou em. quantidade como em qualidade. Implica, portanto, na propriedade,
1 ^aturalmente^" em virtüde~~dãs~ disposições naturais (vigor corporal^ cuja forma primeira, o germe, reside na família, onde a mulher e as
por exemploJ, das necessidades, do acaso etc. A divisão do trabalho crianças são os escravos do homem. A escravatura, naturalmente muito
so"_seTórnaTeJetivamente divisão do trabalho a partir do momento em rudimentar e latente na família, é a primeira propriedade, que, aliás, já
que se opera uma divisão>~de Irabalho material e intelectual.5 A partir corresponde perfeitamente à definição dos economistas modernos, se­
desse momento, a consciência pode realmente crer que seja algo dife­
gundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outrem.
rente da consciência da prática existente^ que representa realmente
Igualmente, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões
qualquer coisa sem representar algo de real. A partir desse momento,
idênticas: enuncia-se, na primeira, em relação à atividade, aquilo que
a consciência está em condições de se emancipar do mundo, passando à
formação da teoria “pura”, teologia, filosofia, moral etc. Mas mesmo se enuncia e, na segunda, em relação ao produto da atividade.
quando esta teoria, esta teologia, esta filosofia, esta moral etc. entram Além disso, a divisão do trabaího implica, ao mesmo tempo, na
em contradição com as relações existentes, isso só pode ocorrer pelo contradição entre o interesse do indivíduo singular, ou. da família sin­
fato de terem as relações sociais existentes entrado em contradição com gular, e o interesse coletivo de todos os indivíduos que mantêm relações
a força produtiva existente. Assim, num determinado círculo nacional entre si. E, o que é mais, esse interesse coletivo não existe somente,
de relações, isso pode ocorrer também porque a contradição se produz, digamos, na representação, na qualidade de “universal”, mas antes como
não no interior dessa esfera nacional, mas entre esta consciência nacio­ dependência recíproca dos indivíduos entre os quais o trabalho é divi­
nal e a prática das outras nações, isto é, entre a consciência nacional dido. Finalmente, a divisão do trabalho nos oferece imediatamente o
de uma nação e sua consciência universal. Outrossim, pouco importa o primeiro exemplo do seguinte fato: enquanto os homens se encontra­
rem na sociedade natural, portanto, enquanto existir cisão entre o
que a consciência empreende isoladamente; toda essa podridão só nos
interesse particular e o interesse comum, enquanto a atividade não for
dá o seguinte resultado: que estes três momentos, a força produtiva,
voluntária mas naturalmente dividida, o próprio ato do homem se trans­
o estado social e a consciência, podem e devem entrar em conflito entre
forma em potência estrangeira que a ele se opõe e o avassala, ao invés
si, pois, através da divisão do trabalho, torna-se possível, ou melhor, de ser por ele dominado. Realmente, desde o instante em que o trabalho
torna-se efetivo que as atividades intelectual e material, que o gozo e começa a ser repartido, cada um tem uma esfera de atividade exclusiva
o trabalho, a produção e a consumação caibam em partilha a indivíduos e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair. Seja ele
diferentes. Então a possibilidade desses momentos não entrarem em caçador, pescador ou pastor ou crítico fazendo crítica, deverá perma­
conflito reside unicamente no fato de se ter novamente abolido a divisão necer como tal, se não desejar perder os seus meios de existência;
enquanto na sociedade comunista, onde o indivíduo não tem uma esfera
5 A essa altura, Marx anotou na coluna da direita: “Coincide a primeira forma de atividade exclusiva, podendo se aperfeiçoar no ramo de sua prefe­
dos ideólogos, padres'1. rência, a sociedade regulamenta a produção- geral, possibilitando assim
56 57

relação com os indivíduos que o cercam marca, para o homem, o início do trabalho. Também, é por si explicativo que “fantasmas”, “ralé”,
da consciência do fato de que, apesar de tudo, ele vive em sociedade. “essência superior”, “conceito”, “dúvidas”, nada mais são que a expres­
são mental idealista, a representação aparentemente do indivíduo
Esse início é tão animal quanto a própria vida social desse estágio;
isolado, a representação de cadeias e de limites muito empíricos, no
ele é uma simples consciência gregária e o homem se distingue aqui do
interior dos quais se movimentam a modalidade de produção da vida
carneiro através do fato único de que a sua consciência pode tomar nele
e a forma de relações que está a ela ligada.
o lugar do instinto ou de o seu instinto ser um instinto consciente. Esta
consciência de carneiro, tribal, recebe seu desenvolvimento e seu Esta divisão de trabalho, que implica em todas essas contradições
aperfeiçoamento ulteriores com o aumento da produtividade, o aumento e repousa, por sua vez, sobre a divisão natural do trabalho na família,
das necessidades e o aumento da população que está na base dos e sobre a separação da sociedade em famílias isoladas e opostas umas
dois precedentes. Assim se desenvolve a divisão do trabalho, que, às outras, — esta divisão do trabalho implica, ao. mesmo tempo, na
primitivamente, nada mais era que a divisão do trabalho no ato sexual, repartição do trabalho e de seus produtos, na distribuição desigual tanto
tornando-se, em seguida, a divisão dcT trãBSho que ~se faz por si ou em. quantidade como em qualidade. Implica, portanto, na propriedade,
1 ^aturalmente^" em virtüde~~dãs~ disposições naturais (vigor corporal^ cuja forma primeira, o germe, reside na família, onde a mulher e as
por exemploJ, das necessidades, do acaso etc. A divisão do trabalho crianças são os escravos do homem. A escravatura, naturalmente muito
so"_seTórnaTeJetivamente divisão do trabalho a partir do momento em rudimentar e latente na família, é a primeira propriedade, que, aliás, já
que se opera uma divisão>~de Irabalho material e intelectual.5 A partir corresponde perfeitamente à definição dos economistas modernos, se­
desse momento, a consciência pode realmente crer que seja algo dife­
gundo a qual ela é a livre disposição da força de trabalho de outrem.
rente da consciência da prática existente^ que representa realmente
Igualmente, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões
qualquer coisa sem representar algo de real. A partir desse momento,
idênticas: enuncia-se, na primeira, em relação à atividade, aquilo que
a consciência está em condições de se emancipar do mundo, passando à
formação da teoria “pura”, teologia, filosofia, moral etc. Mas mesmo se enuncia e, na segunda, em relação ao produto da atividade.
quando esta teoria, esta teologia, esta filosofia, esta moral etc. entram Além disso, a divisão do trabaího implica, ao mesmo tempo, na
em contradição com as relações existentes, isso só pode ocorrer pelo contradição entre o interesse do indivíduo singular, ou. da família sin­
fato de terem as relações sociais existentes entrado em contradição com gular, e o interesse coletivo de todos os indivíduos que mantêm relações
a força produtiva existente. Assim, num determinado círculo nacional entre si. E, o que é mais, esse interesse coletivo não existe somente,
de relações, isso pode ocorrer também porque a contradição se produz, digamos, na representação, na qualidade de “universal”, mas antes como
não no interior dessa esfera nacional, mas entre esta consciência nacio­ dependência recíproca dos indivíduos entre os quais o trabalho é divi­
nal e a prática das outras nações, isto é, entre a consciência nacional dido. Finalmente, a divisão do trabalho nos oferece imediatamente o
de uma nação e sua consciência universal. Outrossim, pouco importa o primeiro exemplo do seguinte fato: enquanto os homens se encontra­
rem na sociedade natural, portanto, enquanto existir cisão entre o
que a consciência empreende isoladamente; toda essa podridão só nos
interesse particular e o interesse comum, enquanto a atividade não for
dá o seguinte resultado: que estes três momentos, a força produtiva,
voluntária mas naturalmente dividida, o próprio ato do homem se trans­
o estado social e a consciência, podem e devem entrar em conflito entre
forma em potência estrangeira que a ele se opõe e o avassala, ao invés
si, pois, através da divisão do trabalho, torna-se possível, ou melhor, de ser por ele dominado. Realmente, desde o instante em que o trabalho
torna-se efetivo que as atividades intelectual e material, que o gozo e começa a ser repartido, cada um tem uma esfera de atividade exclusiva
o trabalho, a produção e a consumação caibam em partilha a indivíduos e determinada, que lhe é imposta e da qual não pode sair. Seja ele
diferentes. Então a possibilidade desses momentos não entrarem em caçador, pescador ou pastor ou crítico fazendo crítica, deverá perma­
conflito reside unicamente no fato de se ter novamente abolido a divisão necer como tal, se não desejar perder os seus meios de existência;
enquanto na sociedade comunista, onde o indivíduo não tem uma esfera
5 A essa altura, Marx anotou na coluna da direita: “Coincide a primeira forma de atividade exclusiva, podendo se aperfeiçoar no ramo de sua prefe­
dos ideólogos, padres'1. rência, a sociedade regulamenta a produção- geral, possibilitando assim
58 59

ao indivíduo que faça algo de diferente a cada dia, caçando pela manhã, O poderio social, isto é, a força produtiva décupla, nascida da
pescando à tarde, criando gado à noite e fazendo crítica após as refei­ cooperação dos diversos, indivíduos, condicionada pela divisão do tra­
ções, segundo a sua própria vontade sem nunca se tornar caçador, balho, não aparece a esses indivíduos como a sua própria força na
pescador ou crítico. união, porque essa própria cooperação não é voluntária, mas natural.
Ela lhes parece, ao contrário, como uma força estranha, situada fora
Esta fixação da atividade social, esta consolidação de nosso próprio
produto numa potência objetiva que nos domina, fugindo ao. nosso deles,- da qual não sabem nem de onde vem nem para onde vai, a qual,
portanto, não podem mais dominar e que, inversamente, percorre agora
controle, contrariando nossas expectativas, reduzindo a zero os nossos
uma sequência particular de fases e de estágios de desenvolvimento tão
cálculos, é um dos momentos capitais no desenvolvimento histórico, até
independente da vontade e da marcha da humanidade que na verdade
os nossos dias. É justamente esta contradição entre o interesse particular
e o coletivo que conduz o interesse coletivo a tomar, na condição de
dirige esta vontade e esta marcha da humanidade. Para que esta “alie­
nação” seja inteligível aos filósofos, ela precis^ naturalmente, ser
Estado, uma forma independente, separada dos interesses reais do indi­
víduo e do conjunto e a fazer, ao mesmo tempo, figura de comunidade abolida sob duas condições práticas, Para que se torne uma força
“insuportável”, isto é, uma força contra a qual se faz a revolução, é
ilusória, embora sempre sobre a base concreta dos elos existentes em
cada conglomerado de família e de tribo, como os laços de sangue, necessário que tenha feito da massa da humanidade uma massa total­
mente “privada de propriedade”, que se acha simultaneamente em
linguagem, divisão do trabalho em vasta escala e outros interesses. E
dentre esses interesses encontramos, em particular, como desenvolvere­ contradição a um mundo existente da riqueza e da cultura, coisas que
supõem um grande aumento da força produtiva, isto é, um estágio
mos mais tarde, os interesses de classes já determinadas pela divisão do
elevado do seu desenvolvimento. Por outro lado, esse desenvolvimento
trabalho, as quais se diferenciam em todo agrupamento desse gênero e
das quais uma domina as outras. Conseqüentemente, todas as lutas no das forças produtivas (que já implica em que a existência empírica atual
interior do Estado, a luta entre a democracia, a aristocracia e a monar­ dos homens se desenrole sobre o platio da história mundial, ao invés de
quia, a luta pelo direito de voto etc., etc., nada mais são do que formas se desenrolar sobre aquele da vida local), esse desenvolvimento das for­
ças produtivas é uma condição prática prévia absolutamente indispensá­
ilusórias, sob as quais são conduzidas as lutas efetivas das diferentes
vel, pois sem ele haveria a penúria geral, a carência, e a luta pelo neces­
classes entre si (do que os teóricos alemães nem suspeitam, embora
sário que recomeçaria, recaindo-se fatalmente na mesma velha imundície.
nesse sentido se lhes tenha amplamente mostrado o caminho nos Anais
É igualmente uma condição prática sine qua non, porque as relações
Franco-alemães e riA Sagrada Família'). Por isso, ocorre, também, que
toda classe que aspire ao domínio (ainda que esse domínio determine
universais do gênero humano podem ser estabelecidas unicamente atra­
a abolição de toda a antiga forma social e domínio em geral, como no vés desse desenvolvimento universal das forças produtivas e porque este
gera o fenômeno da massa “privada de propriedade”, simultaneamente
caso do proletariado), deve, portanto, esta classe conquistar antes o
em todos os países (concorrência universal) tornando cada um deles
poder político, para representar, por sua vez, o seu próprio interesse
dependente dos transtornos dos outros e colocando, finalmente, homens
como sendo o Universal, ao qual ela está restrita nos primeiros tempos.
Precisamente porque os indivíduos só procuram o seu interesse parti­
empiricamente universais, históricos, no lugar dos indivíduos vivendo num
plano local. Sem isso: l.°) o comunismo só poderia existir como fenôme­
cular (que para eles não coincide com o intéresse coletivo, não sendo
no local; 2.°) as forças das próprias relações humanas não teriam podido
o Universal, senão uma forma ilusória da coletividade), esse interesse
se desenvolver como forças universais e, portanto, inexoráveis, e teriam
é representado como um interesse que lhes é “estranho”, que é “inde­
pendente” deles, sendo ele próprio, por sua vez, um interesse “geral”, permanecido como “circunstâncias” decorrentes das superstições locais;
especial e particular ou, então, devem se defrontar eles mesmos nesse e 3.°) qualquer extensão das relações humanas aboliria o comunismo
desacordo, como na democracia. Por outro lado, o combate prático local. O comunismo só é empiricamente possível como o ato “repenti­
desses interesses particulares, que constantemente se chocam realmente, no” e simultâneo dos povos dominantes, o que supõe, por sua vez, o
em relação aos interesses coletivos e ilusoriamente coletivos, torna desenvolvimento universal da força produtiva e as relações universais
necessária a intervenção prática e o refreamento pelo interesse “geral” estreitamente ligadas ao comunismo. De outra forma, por exemplo, de
ilusório sob forma de Estado. que maneira .poderia a propriedade, no final das contas, .ter uma história,
58 59

ao indivíduo que faça algo de diferente a cada dia, caçando pela manhã, O poderio social, isto é, a força produtiva décupla, nascida da
pescando à tarde, criando gado à noite e fazendo crítica após as refei­ cooperação dos diversos, indivíduos, condicionada pela divisão do tra­
ções, segundo a sua própria vontade sem nunca se tornar caçador, balho, não aparece a esses indivíduos como a sua própria força na
pescador ou crítico. união, porque essa própria cooperação não é voluntária, mas natural.
Ela lhes parece, ao contrário, como uma força estranha, situada fora
Esta fixação da atividade social, esta consolidação de nosso próprio
produto numa potência objetiva que nos domina, fugindo ao. nosso deles,- da qual não sabem nem de onde vem nem para onde vai, a qual,
portanto, não podem mais dominar e que, inversamente, percorre agora
controle, contrariando nossas expectativas, reduzindo a zero os nossos
uma sequência particular de fases e de estágios de desenvolvimento tão
cálculos, é um dos momentos capitais no desenvolvimento histórico, até
independente da vontade e da marcha da humanidade que na verdade
os nossos dias. É justamente esta contradição entre o interesse particular
e o coletivo que conduz o interesse coletivo a tomar, na condição de
dirige esta vontade e esta marcha da humanidade. Para que esta “alie­
nação” seja inteligível aos filósofos, ela precis^ naturalmente, ser
Estado, uma forma independente, separada dos interesses reais do indi­
víduo e do conjunto e a fazer, ao mesmo tempo, figura de comunidade abolida sob duas condições práticas, Para que se torne uma força
“insuportável”, isto é, uma força contra a qual se faz a revolução, é
ilusória, embora sempre sobre a base concreta dos elos existentes em
cada conglomerado de família e de tribo, como os laços de sangue, necessário que tenha feito da massa da humanidade uma massa total­
mente “privada de propriedade”, que se acha simultaneamente em
linguagem, divisão do trabalho em vasta escala e outros interesses. E
dentre esses interesses encontramos, em particular, como desenvolvere­ contradição a um mundo existente da riqueza e da cultura, coisas que
supõem um grande aumento da força produtiva, isto é, um estágio
mos mais tarde, os interesses de classes já determinadas pela divisão do
elevado do seu desenvolvimento. Por outro lado, esse desenvolvimento
trabalho, as quais se diferenciam em todo agrupamento desse gênero e
das quais uma domina as outras. Conseqüentemente, todas as lutas no das forças produtivas (que já implica em que a existência empírica atual
interior do Estado, a luta entre a democracia, a aristocracia e a monar­ dos homens se desenrole sobre o platio da história mundial, ao invés de
quia, a luta pelo direito de voto etc., etc., nada mais são do que formas se desenrolar sobre aquele da vida local), esse desenvolvimento das for­
ças produtivas é uma condição prática prévia absolutamente indispensá­
ilusórias, sob as quais são conduzidas as lutas efetivas das diferentes
vel, pois sem ele haveria a penúria geral, a carência, e a luta pelo neces­
classes entre si (do que os teóricos alemães nem suspeitam, embora
sário que recomeçaria, recaindo-se fatalmente na mesma velha imundície.
nesse sentido se lhes tenha amplamente mostrado o caminho nos Anais
É igualmente uma condição prática sine qua non, porque as relações
Franco-alemães e riA Sagrada Família'). Por isso, ocorre, também, que
toda classe que aspire ao domínio (ainda que esse domínio determine
universais do gênero humano podem ser estabelecidas unicamente atra­
a abolição de toda a antiga forma social e domínio em geral, como no vés desse desenvolvimento universal das forças produtivas e porque este
gera o fenômeno da massa “privada de propriedade”, simultaneamente
caso do proletariado), deve, portanto, esta classe conquistar antes o
em todos os países (concorrência universal) tornando cada um deles
poder político, para representar, por sua vez, o seu próprio interesse
dependente dos transtornos dos outros e colocando, finalmente, homens
como sendo o Universal, ao qual ela está restrita nos primeiros tempos.
Precisamente porque os indivíduos só procuram o seu interesse parti­
empiricamente universais, históricos, no lugar dos indivíduos vivendo num
plano local. Sem isso: l.°) o comunismo só poderia existir como fenôme­
cular (que para eles não coincide com o intéresse coletivo, não sendo
no local; 2.°) as forças das próprias relações humanas não teriam podido
o Universal, senão uma forma ilusória da coletividade), esse interesse
se desenvolver como forças universais e, portanto, inexoráveis, e teriam
é representado como um interesse que lhes é “estranho”, que é “inde­
pendente” deles, sendo ele próprio, por sua vez, um interesse “geral”, permanecido como “circunstâncias” decorrentes das superstições locais;
especial e particular ou, então, devem se defrontar eles mesmos nesse e 3.°) qualquer extensão das relações humanas aboliria o comunismo
desacordo, como na democracia. Por outro lado, o combate prático local. O comunismo só é empiricamente possível como o ato “repenti­
desses interesses particulares, que constantemente se chocam realmente, no” e simultâneo dos povos dominantes, o que supõe, por sua vez, o
em relação aos interesses coletivos e ilusoriamente coletivos, torna desenvolvimento universal da força produtiva e as relações universais
necessária a intervenção prática e o refreamento pelo interesse “geral” estreitamente ligadas ao comunismo. De outra forma, por exemplo, de
ilusório sob forma de Estado. que maneira .poderia a propriedade, no final das contas, .ter uma história,
60 61

tomar diferentes formas? Como, digamos, teria a propriedade rural políticos. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais
podido, nas condições adversas que se apresentaram, passar na França, dos indivíduos, em um estágio de desenvolvimento determinado das
do desmembramento à centralização, nas mãos de uns poucos; e, na forças produtivas.. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial
Inglaterra, da centralização nas mãos de uns poucos ao desmembra­ de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação,
mento, como é hoje efetivamente o caso? Ou então, como se explica embora deva, por outro lado, afirmar-se exteriormente como nacionali­
o fato de o comércio, que no entanto representa a troca dos produtos dade e organizar-se internamente como Estado. O termo sociedade
dos indivíduos e de nações diferentes e nada além disso, dominar o burguesa apareceu no século XVIII, a partir do momento em que as
mundo inteiro através da relação da oferta e procura (relação que, relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e
segundo um economista inglês, paira sobre a terra como a antiga medieval. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a
fatalidade e distribui através de mão invisível a felicidade e a infelicidade burguesia. Todavia, a organização social nascida diretamente da pro­
entre os homens, funda impérios, destrói impérios, faz povos nascerem dução e do comércio, e que forma em todos os temços a base do Estado
e desaparecerem). Uma vez abolida a base, a propriedade privada, e e do resto da superestrutura idealista, continua a ser designada sob o
instaurada a regulamentação comunista da produção, que abole no mesmo nome.
homem o sentimento de estar diante do seu próprio produto como
diante de uma coisa estranha, a força da relação da oferta e da procura
é reduzida a zero e os homens retomam o seu poder, o intercâmbio, a
produção, a sua modalidade de comportamento uns face aos outros.
O comunismo não é para nós um estado que deve ser criado, um
ideal segundo o qual a realidade deve se regular. Nós chamamos
comunismo o movimento real que abole o estado atual. As condições
desse movimento resultam de bases atualmente existentes. Outrossim,
a massa de simples trabalhadores (força de trabalho separada em massa
do capital ou de toda espécie de satisfação limitada) e também a perda
de trabalho, através da concorrência, e não mais a título temporário,
tem como base prévia o mercado mundial, O proletariado só pode,
portanto, existir na escala da história universal, da mesma forma que
o comunismo, que é a ação, não pode absolutamente existir de outra
forma que a de “existência histórica universal”. Existência histórica
universal dos indivíduos, em outras palavras, existência diretamente
ligada à história universal.
A forma das relações humanas, condicionada pelas forças de pro­
dução existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso,
e condicionando-os por sua vez, é a sociedade burguesa que, como ele,
já resulta daquilo que o precede, tem como condição prévia e base
fundamental a família simples e a família composta, o que se denomina
tribo, cujas definições mais precisas já foram dadas acima. Já é,
portanto, evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar,
verdadeiro teatro de toda história e vê-se a que ponto a concepção
passada da história era um não-senso,'negligenciando as relações reais
e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos 'e
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tomar diferentes formas? Como, digamos, teria a propriedade rural políticos. A sociedade burguesa reúne o conjunto das relações materiais
podido, nas condições adversas que se apresentaram, passar na França, dos indivíduos, em um estágio de desenvolvimento determinado das
do desmembramento à centralização, nas mãos de uns poucos; e, na forças produtivas.. Ela abrange o conjunto da vida comercial e industrial
Inglaterra, da centralização nas mãos de uns poucos ao desmembra­ de um estágio e ultrapassa por esse mesmo meio o Estado e a nação,
mento, como é hoje efetivamente o caso? Ou então, como se explica embora deva, por outro lado, afirmar-se exteriormente como nacionali­
o fato de o comércio, que no entanto representa a troca dos produtos dade e organizar-se internamente como Estado. O termo sociedade
dos indivíduos e de nações diferentes e nada além disso, dominar o burguesa apareceu no século XVIII, a partir do momento em que as
mundo inteiro através da relação da oferta e procura (relação que, relações de propriedade foram desligadas da comunidade antiga e
segundo um economista inglês, paira sobre a terra como a antiga medieval. A sociedade burguesa como tal só se desenvolve com a
fatalidade e distribui através de mão invisível a felicidade e a infelicidade burguesia. Todavia, a organização social nascida diretamente da pro­
entre os homens, funda impérios, destrói impérios, faz povos nascerem dução e do comércio, e que forma em todos os temços a base do Estado
e desaparecerem). Uma vez abolida a base, a propriedade privada, e e do resto da superestrutura idealista, continua a ser designada sob o
instaurada a regulamentação comunista da produção, que abole no mesmo nome.
homem o sentimento de estar diante do seu próprio produto como
diante de uma coisa estranha, a força da relação da oferta e da procura
é reduzida a zero e os homens retomam o seu poder, o intercâmbio, a
produção, a sua modalidade de comportamento uns face aos outros.
O comunismo não é para nós um estado que deve ser criado, um
ideal segundo o qual a realidade deve se regular. Nós chamamos
comunismo o movimento real que abole o estado atual. As condições
desse movimento resultam de bases atualmente existentes. Outrossim,
a massa de simples trabalhadores (força de trabalho separada em massa
do capital ou de toda espécie de satisfação limitada) e também a perda
de trabalho, através da concorrência, e não mais a título temporário,
tem como base prévia o mercado mundial, O proletariado só pode,
portanto, existir na escala da história universal, da mesma forma que
o comunismo, que é a ação, não pode absolutamente existir de outra
forma que a de “existência histórica universal”. Existência histórica
universal dos indivíduos, em outras palavras, existência diretamente
ligada à história universal.
A forma das relações humanas, condicionada pelas forças de pro­
dução existentes em todos os estágios históricos que precedem o nosso,
e condicionando-os por sua vez, é a sociedade burguesa que, como ele,
já resulta daquilo que o precede, tem como condição prévia e base
fundamental a família simples e a família composta, o que se denomina
tribo, cujas definições mais precisas já foram dadas acima. Já é,
portanto, evidente que esta sociedade burguesa é o verdadeiro lar,
verdadeiro teatro de toda história e vê-se a que ponto a concepção
passada da história era um não-senso,'negligenciando as relações reais
e limitando-se aos grandes e estrondosos acontecimentos históricos 'e
63

gerais abstratas que são determinantes, tais como a divisão do trabalho,


o dinheiro, o valor etc. Estes elementos isolados, uma vez que são mais
ou menos fixados e abstraídos, dão origem aos sistemas econômicos,
que se elevam do simples, tal como Trabalho, Divisão do Trabalho,
Necessidade, Valor de Troca, até o Estado, a Troca entre as Nações e
2. CONDIÇÕES HISTÓRICAS DA o Mercado Universal. O último método é manifestamente o método
REPRODUÇÃO SOCIAL * cientificamente exato. O concreto é concreto, porque é a síntese de
muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o concreto
aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado,
não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida
e, portanto, o ponto de partida também da percepção e da representação.
No primeiro método, a representação plena volatiliza-se na determina­
Quando estudamos um país determinado, do ponto de vista da ção abstrata; no segundo, as determinações abstratas conduzem à repro­
economia política, começamos por sua população, a divisão desta em dução do concreto por meio do pensamento. Assim, é que Hegel chegou
classes, seu estabelecimento nas cidades, nos campos, na orla marítima; à ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se
os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a pro­ absorve em sl, procede de si, move-se por si; enquanto o método que
dução e o consumo anuais, os preços das mercadorias etc. Parece mais consiste em elevar-se do abstrato' aó~ concreto 'não e' senão "a maneira de
correto começar pelo que há de concreto e real nos dados; assim, pois, proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo
na economia, pela população, que é a base e sujeito de todo o ato social mentalmente como coisa concreta. Porém isto não é, de nenhum modo,
da produção. Todavia, bem analisado, este método seria falso. A o processo da gênese do próprio concreto. A mais simples categoria
população é uma abstração se deixo de lado as classes que a compõem. econômica, suponhamos, por exemplo, o valor de troca, pressupõe a
Estas classes são, por sua vez, uma palavra sem sentido se ignoro os população, uma população que produz em determinadas condições e
elementos sobre os quais repousam, por exemplo: o trabalho assalaria­ também certo tipo de famílias, de comunidades ou Estados. Tal valor
do, o capital etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços nunca poderia existir de outro modo senão como relação unilateral-
etc. O capital, por exemplo, não é nada sem trabalho assalariado, sem -abstrata de um todo concreto e vivo já determinado.
valor, dinheiro, preços etc. Se começasse, portanto, pela população,
elaboraria uma representação caótica do todo e, por meio de uma Como categoria, ao contrário, o valor de troca leva consigo uma
determinação mais estrita, chegaria analiticamente, cada vez mais, a existência antediluviana. Para a consciência — e a consciência filosó­
conceitos mais simples; do concreto representado chegaria a abstrações fica é determinada de tal modo que, para ela, o pensamento que concebe
cada vez mais tênues, até alcançar as determinações mais simples. Che­ é o homem real, e o mundo concebido é, como tal, o único mundo real
— para a consciência, pois, o movimento das categorias aparece como
gado a este ponto, teria que voltar a fazer a viagem de modo inverso,
o verdadeiro ato de produção — que apenas recebe um impulso do
até dar de novo com a população, mas desta vez não com uma re­
exterior -—■ cujo resultado é o mundo, e isto é exato porque (aqui temos
presentação caótica de um todo, porém com uma rica totalidade de
de novo uma tautologia) a totalidade concreta, como totalidade de
determinações e relações diversas. O primeiro constitui o caminho que
pensamento, como uma concreção de pensamento, é, na realidade, um
foi historicamente seguido pela nascente economia política. Os econo­ produto do pensar, do conceber; não é de nenhum modo o produto
mistas do século XVII, por exemplo, começam sempre pelo todo vivo: do conceito que se engendra a si mesmo e que concebe separadamente
a população, a nação, o Estado, vários Estados etc., mas terminam e acima da percepção e da representação, mas é elaboração da percep­
sempre por descobrir, por meio da análise, certo número de relações ção e da representação em conceitos. O todo, tal como aparece no
cérebro, como um todo mental, é um produto do cérebro pensante, que
* Reproduzido de Marx,. K. “Posfácio.” In: Contribuição à Crítica da Economia se apropria do mundo da única maneira em que o pode fazer, maneira
Política. Trad. por Florestan Fernandes, São Pavio, Ed. Flama, 1946. p. 219-31. que difere do modo artístico, religioso e prático de se apropriar dele. O
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gerais abstratas que são determinantes, tais como a divisão do trabalho,


o dinheiro, o valor etc. Estes elementos isolados, uma vez que são mais
ou menos fixados e abstraídos, dão origem aos sistemas econômicos,
que se elevam do simples, tal como Trabalho, Divisão do Trabalho,
Necessidade, Valor de Troca, até o Estado, a Troca entre as Nações e
2. CONDIÇÕES HISTÓRICAS DA o Mercado Universal. O último método é manifestamente o método
REPRODUÇÃO SOCIAL * cientificamente exato. O concreto é concreto, porque é a síntese de
muitas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isso, o concreto
aparece no pensamento como o processo da síntese, como resultado,
não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida
e, portanto, o ponto de partida também da percepção e da representação.
No primeiro método, a representação plena volatiliza-se na determina­
Quando estudamos um país determinado, do ponto de vista da ção abstrata; no segundo, as determinações abstratas conduzem à repro­
economia política, começamos por sua população, a divisão desta em dução do concreto por meio do pensamento. Assim, é que Hegel chegou
classes, seu estabelecimento nas cidades, nos campos, na orla marítima; à ilusão de conceber o real como resultado do pensamento que se
os diferentes ramos da produção, a exportação e a importação, a pro­ absorve em sl, procede de si, move-se por si; enquanto o método que
dução e o consumo anuais, os preços das mercadorias etc. Parece mais consiste em elevar-se do abstrato' aó~ concreto 'não e' senão "a maneira de
correto começar pelo que há de concreto e real nos dados; assim, pois, proceder do pensamento para se apropriar do concreto, para reproduzi-lo
na economia, pela população, que é a base e sujeito de todo o ato social mentalmente como coisa concreta. Porém isto não é, de nenhum modo,
da produção. Todavia, bem analisado, este método seria falso. A o processo da gênese do próprio concreto. A mais simples categoria
população é uma abstração se deixo de lado as classes que a compõem. econômica, suponhamos, por exemplo, o valor de troca, pressupõe a
Estas classes são, por sua vez, uma palavra sem sentido se ignoro os população, uma população que produz em determinadas condições e
elementos sobre os quais repousam, por exemplo: o trabalho assalaria­ também certo tipo de famílias, de comunidades ou Estados. Tal valor
do, o capital etc. Estes supõem a troca, a divisão do trabalho, os preços nunca poderia existir de outro modo senão como relação unilateral-
etc. O capital, por exemplo, não é nada sem trabalho assalariado, sem -abstrata de um todo concreto e vivo já determinado.
valor, dinheiro, preços etc. Se começasse, portanto, pela população,
elaboraria uma representação caótica do todo e, por meio de uma Como categoria, ao contrário, o valor de troca leva consigo uma
determinação mais estrita, chegaria analiticamente, cada vez mais, a existência antediluviana. Para a consciência — e a consciência filosó­
conceitos mais simples; do concreto representado chegaria a abstrações fica é determinada de tal modo que, para ela, o pensamento que concebe
cada vez mais tênues, até alcançar as determinações mais simples. Che­ é o homem real, e o mundo concebido é, como tal, o único mundo real
— para a consciência, pois, o movimento das categorias aparece como
gado a este ponto, teria que voltar a fazer a viagem de modo inverso,
o verdadeiro ato de produção — que apenas recebe um impulso do
até dar de novo com a população, mas desta vez não com uma re­
exterior -—■ cujo resultado é o mundo, e isto é exato porque (aqui temos
presentação caótica de um todo, porém com uma rica totalidade de
de novo uma tautologia) a totalidade concreta, como totalidade de
determinações e relações diversas. O primeiro constitui o caminho que
pensamento, como uma concreção de pensamento, é, na realidade, um
foi historicamente seguido pela nascente economia política. Os econo­ produto do pensar, do conceber; não é de nenhum modo o produto
mistas do século XVII, por exemplo, começam sempre pelo todo vivo: do conceito que se engendra a si mesmo e que concebe separadamente
a população, a nação, o Estado, vários Estados etc., mas terminam e acima da percepção e da representação, mas é elaboração da percep­
sempre por descobrir, por meio da análise, certo número de relações ção e da representação em conceitos. O todo, tal como aparece no
cérebro, como um todo mental, é um produto do cérebro pensante, que
* Reproduzido de Marx,. K. “Posfácio.” In: Contribuição à Crítica da Economia se apropria do mundo da única maneira em que o pode fazer, maneira
Política. Trad. por Florestan Fernandes, São Pavio, Ed. Flama, 1946. p. 219-31. que difere do modo artístico, religioso e prático de se apropriar dele. O
64 65

objeto concreto permanece em pé antes e depois, em sua independência maturidade, nas quais se encontram as formas mais elevadas da econo­
e fora do cérebro ao mesmo tempo, isto é, o cérebro não se comporta mia, tais como a cooperação, uma divisão do trabalho desenvolvida,
senão especulativamente, teoricamente. No método também teórico [da sem que exista nelas o dinheiro; o Peru, por exemplo.
economia política], o objeto — a sociedade — deve, pois, achar-se Também nas comunidades eslavas o dinheiro e a troca que o
sempre presente ao espírito, como pressuposição. condiciona desempenham um papel insignificante ou nulo, mas apare­
Porém, estas categorias simples não têm também uma existência cem em suas fronteiras, nas suas relações com as outras comunidades.
independente, histórica ou natural, anterior às categorias mais concre­ Além disso, é um erro situar a troca no interior das comunidades como
tas? Ça depend. 1 Hegel, por exemplo, começa corretamente sua elemento que as constitui originariamente. A princípio surge antes nas
Rechtsphilosophie pela posse, como a mais simples relação jurídica do relações recíprocas entre as distintas comunidades do que nas relações
sujeito. Todavia, não existe posse anterior à família e às relações entre entre os membros de uma mesma e única comunidade.
senhores e escravos, que são relações muito mais concretas ainda. Além disso, embora o dinheiro tenha desempenhado oportunamen­
Como compensação, seria justo dizer que existem famílias, tribos, que te, e por toda parte, desde os antigos, um papel como elemento domi­
se limitam a possuir, mas não têm propriedade. A categoria mais sim­ nante, não aparece na Antiguidade senão em nações desenvolvidas
ples aparece, pois, como relação de comunidades de famílias ou de unilateralmente em determinado sentido, e ainda na Antiguidade mais
tribos com a propriedade. Na sociedade primitiva aparece como a culta, entre os gregos e os romanos, não atinge seu completo desenvol­
relação mais simples de um organismo desenvolvido, mas subentende-se vimento, supondo completo o da moderna sociedade burguesa, senão
sempre o substrato mais concreto, cuja relação é a posse. Pode-se no período de dissolução. Esta simplíssima categoria alcança historica­
imaginar um selvagem isolado que possua coisas. Mas neste caso a mente, portanto, seu ponto culminante somente nas condições mais
posse não é uma relação jurídica.
desenvolvidas da sociedade. E o dinheiro não entrava (?)> de nenhum
Não é exato que‘ a posse evolua historicamente até a família. A modo, em todas as relações econômicas; assim, no Império Romano,
posse sempre pressupõe esta “categoria jurídica mais concreta”. Entre­ na época de seu perfeito desenvolvimento, permaneceram como funda­
tanto, restaria sempre o seguinte: as categorias simples são a expressão mentais o imposto e o empréstimo em frutos naturais. O sistema do
de relações nas quais o concreto menos desenvolvido tem podido se dinheiro, propriamente falando, encontrava-se ali completamente desen­
realizar sem haver estabelecido ainda a relação mais complexa, que se volvido unicamente no exército, e não tinha participação na totalidade
acha expressa mentalmente na categoria concreta, enquanto o concreto do trabalho.
mais desenvolvido conserva a mesma categoria • como uma relação De modo que, embora a categoria mais simples tenha podido
subordinada. existir historicamente antes que a mais concreta, não pode precisamente
O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, antes que exis­ pertencer em seu. pleno desenvolvimento, interno e externo, senão a
tisse o capital, antes que existissem os Bancos, antes que existisse o formações sociais compostas (?), enquanto que a categoria mais con­
trabalho assalariado. Deste ponto de vista pode-se dizer que a categoria creta se achava plenamente desenvolvida em. uma forma de sociedade
simples pode exprimir relações dominantes de um todo pouco desenvol­ menos avançada.
vido ainda, relações que já existiam antes que o todo tivesse se O trabalho é uma categoria inteiramente simples. E também, a
desenvolvido na direção que é expressa em uma categoria mais completa. concepção do trabalho neste sentido geral — como trabalho em geral
Neste sentido, as leis do pensamento abstrato que se eleva do mais __ é muito antiga. Entretanto, concebido economicamente sob esta
simples ao complexo, correspondem ao processo histórico real. simplicidade, o trabalho é uma categoria tão moderna como o são as
De outro lado, pode-se dizer que há formas de sociedade muito condições que engendram, esta abstração. Por exemplo, o sistema mo­
desenvolvidas, embora historicamente não tenham atingido ainda sua netário coloc.a a riqueza sem exceção objetivamente ainda no

1 Em francês, no original. - Há duas palavras indecifráveis.


64 65

objeto concreto permanece em pé antes e depois, em sua independência maturidade, nas quais se encontram as formas mais elevadas da econo­
e fora do cérebro ao mesmo tempo, isto é, o cérebro não se comporta mia, tais como a cooperação, uma divisão do trabalho desenvolvida,
senão especulativamente, teoricamente. No método também teórico [da sem que exista nelas o dinheiro; o Peru, por exemplo.
economia política], o objeto — a sociedade — deve, pois, achar-se Também nas comunidades eslavas o dinheiro e a troca que o
sempre presente ao espírito, como pressuposição. condiciona desempenham um papel insignificante ou nulo, mas apare­
Porém, estas categorias simples não têm também uma existência cem em suas fronteiras, nas suas relações com as outras comunidades.
independente, histórica ou natural, anterior às categorias mais concre­ Além disso, é um erro situar a troca no interior das comunidades como
tas? Ça depend. 1 Hegel, por exemplo, começa corretamente sua elemento que as constitui originariamente. A princípio surge antes nas
Rechtsphilosophie pela posse, como a mais simples relação jurídica do relações recíprocas entre as distintas comunidades do que nas relações
sujeito. Todavia, não existe posse anterior à família e às relações entre entre os membros de uma mesma e única comunidade.
senhores e escravos, que são relações muito mais concretas ainda. Além disso, embora o dinheiro tenha desempenhado oportunamen­
Como compensação, seria justo dizer que existem famílias, tribos, que te, e por toda parte, desde os antigos, um papel como elemento domi­
se limitam a possuir, mas não têm propriedade. A categoria mais sim­ nante, não aparece na Antiguidade senão em nações desenvolvidas
ples aparece, pois, como relação de comunidades de famílias ou de unilateralmente em determinado sentido, e ainda na Antiguidade mais
tribos com a propriedade. Na sociedade primitiva aparece como a culta, entre os gregos e os romanos, não atinge seu completo desenvol­
relação mais simples de um organismo desenvolvido, mas subentende-se vimento, supondo completo o da moderna sociedade burguesa, senão
sempre o substrato mais concreto, cuja relação é a posse. Pode-se no período de dissolução. Esta simplíssima categoria alcança historica­
imaginar um selvagem isolado que possua coisas. Mas neste caso a mente, portanto, seu ponto culminante somente nas condições mais
posse não é uma relação jurídica.
desenvolvidas da sociedade. E o dinheiro não entrava (?)> de nenhum
Não é exato que‘ a posse evolua historicamente até a família. A modo, em todas as relações econômicas; assim, no Império Romano,
posse sempre pressupõe esta “categoria jurídica mais concreta”. Entre­ na época de seu perfeito desenvolvimento, permaneceram como funda­
tanto, restaria sempre o seguinte: as categorias simples são a expressão mentais o imposto e o empréstimo em frutos naturais. O sistema do
de relações nas quais o concreto menos desenvolvido tem podido se dinheiro, propriamente falando, encontrava-se ali completamente desen­
realizar sem haver estabelecido ainda a relação mais complexa, que se volvido unicamente no exército, e não tinha participação na totalidade
acha expressa mentalmente na categoria concreta, enquanto o concreto do trabalho.
mais desenvolvido conserva a mesma categoria • como uma relação De modo que, embora a categoria mais simples tenha podido
subordinada. existir historicamente antes que a mais concreta, não pode precisamente
O dinheiro pode existir, e existiu historicamente, antes que exis­ pertencer em seu. pleno desenvolvimento, interno e externo, senão a
tisse o capital, antes que existissem os Bancos, antes que existisse o formações sociais compostas (?), enquanto que a categoria mais con­
trabalho assalariado. Deste ponto de vista pode-se dizer que a categoria creta se achava plenamente desenvolvida em. uma forma de sociedade
simples pode exprimir relações dominantes de um todo pouco desenvol­ menos avançada.
vido ainda, relações que já existiam antes que o todo tivesse se O trabalho é uma categoria inteiramente simples. E também, a
desenvolvido na direção que é expressa em uma categoria mais completa. concepção do trabalho neste sentido geral — como trabalho em geral
Neste sentido, as leis do pensamento abstrato que se eleva do mais __ é muito antiga. Entretanto, concebido economicamente sob esta
simples ao complexo, correspondem ao processo histórico real. simplicidade, o trabalho é uma categoria tão moderna como o são as
De outro lado, pode-se dizer que há formas de sociedade muito condições que engendram, esta abstração. Por exemplo, o sistema mo­
desenvolvidas, embora historicamente não tenham atingido ainda sua netário coloc.a a riqueza sem exceção objetivamente ainda no

1 Em francês, no original. - Há duas palavras indecifráveis.


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dinheiro. Deste ponto de vista, houve um grande progresso quando o como um objetivo especial. Este estado de coisas é o mais desenvolvido
sistema manufatureiro ou comercial colocou, o manancial da riqueza na forma de existência mais moderna da sociedade burguesa — nos
não no objeto, mas na atividade subjetiva ■— o trabalho comercial e Estados Unidos. Assim, pois, neste caso, a abstração da categoria
manufatureiro. Contudo, concebia-a ainda no sentido restrito de uma “trabalho”, “trabalho em geral”, trabalho sans phrase, •' ponto de par­
atividade produtora de dinheiro. Em relação com este sistema, o dos tida da economia moderna, torna-se, pela primeira vez, praticamente
fisiocratas (um novo progresso) é assim: estabelece uma forma determi­ certa. De modo que a abstração mais simples, que coloca em primeiro
nada de trabalho — a agricultura —- como criadora de riqueza, e o lugar a economia moderna e que expressa uma relação antiga e válida
próprio objeto não aparece já sob o disfarce do dinheiro, mas como para todas as formas de sociedade, não aparece, entretanto, como prati­
produto em geral, como resultado geral do trabalho. Mas este produto, camente certa nesta abstração senão como categoria da mais moderna
de conformidade com. as limitações da atividade, é sempre um produto sociedade. Poder-se-ia dizer que tudo o que surge nos Estados Unidos
natural. A agricultura produz a terra, produz par excellence. 8 Pro­ como um produto histórico ocorre entre os russos, por exemplo —
grediu-se imensamente quando Adam Smith repeliu todo caráter deter­ trata-se desta indiferença em relação ao trabalho determinado —
minado da atividade-que^cqa a riqueza, quando [estabeleceu] o trabalho como uma disposição natural. Em primeiro lugar, há uma diferença
simplesmente;' não o trabalho manufatureiro, não o comercial, não o enorme entre os bárbaros aptos para serem empregados em qualquer
agrícola, mas tanto uns quanto os outros. Com a generalidade abstrata coisa e civilizados que se dedicam eles próprios a tudo. E, além disso,
da atividade qúe cria a riqueza, temos agora a generalidade do objeto praticamente, a esta indiferença em relação ao trabalho determinado
determinado como riqueza, o produto em geral ou, uma vez mais, o corresponde, nos russos, o fato de que se encontram submetidos tradi­
trabalho em geral, mas como trabalho passado realizado. A dificuldade cionalmente a um trabalho bem determinado, do qual só as influências
e importância desta transição prova-o o fato de que o próprio Adam exteriores podem arrancá-los.
Smith torna a cair, de quando em quando, no sistema fisiocrático. Este exemplo mostra, de uma maneira clara, como até as categorias
Poderia parecer agora que, deste modo, se teria encontrado unicamente mais abstratas, apesar de sua validade — precisamente por causa de
a expressão abstrata da relação mais simples e mais antiga em que sua natureza abstrata — para todas as épocas, são, contudo, no que
entram os homens — em qualquer forma de sociedade — enquanto
há de determinado nesta abstração, do mesmo modo, o produto de
são produtores. Isto é certo em um sentido. Mas não em outro.
condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas
A indiferença em relação a um gênero determinado de trabalho condições e dentro dos limites destas mesmas condições.
pressupõe uma totalidade muito desenvolvida de gêneros de trabalhos
A sociedade burguesa é a organização histórica da produção mais
reais, nenhum, dos quais domina os demais. Tampouco se produzem
desenvolvida, mais diferenciada. As categorias que exprimem suas
as abstrações mais gerais senão onde existe o desenvolvimento concreto condições, a compreensão de sua própria organização, a tornam apta
mais rico, onde uma coisa aparece como comum a muitos indivíduos, para abarcar a organização e as relações de produção de todas as
comum a todos. Então já não pode ser imaginada somente sob uma formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se
forma particular. De outro lado, esta abstração do trabalho em geral acha edificada, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, leva arras­
não é mais que o resultado de uma totalidade concreta de trabalhos. tando, enquanto que tudo o que fora antes apenas indicado se desen­
A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma volveu, tomando toda sua significação etc. A anatomia do homem é
forma de sociedade na qual os indivíduos podem passar com facilidade a chave da anatomia do mono. O que nas espécies animais inferiores
de um trabalho a outro e na qual o gênero determinado de trabalho é indica uma forma superior, não pode, ao contrário, ser compreendida
fortuito, e, portanto, é-lhes indiferente. Neste caso o trabalho se tem senão quando se conhece a forma superior. A economia burguesa
convertido, não só categoricamente, mas realmente em um meio de fornece a chave da economia antiga etc. Porém, não conforme o
produzir riqueza em geral, deixando de se confundir com o indivíduo método dos economistas, que fazem- desaparecer todas as diferenças

« Em francês, no original. 4 Em francês, no original.


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dinheiro. Deste ponto de vista, houve um grande progresso quando o como um objetivo especial. Este estado de coisas é o mais desenvolvido
sistema manufatureiro ou comercial colocou, o manancial da riqueza na forma de existência mais moderna da sociedade burguesa — nos
não no objeto, mas na atividade subjetiva ■— o trabalho comercial e Estados Unidos. Assim, pois, neste caso, a abstração da categoria
manufatureiro. Contudo, concebia-a ainda no sentido restrito de uma “trabalho”, “trabalho em geral”, trabalho sans phrase, •' ponto de par­
atividade produtora de dinheiro. Em relação com este sistema, o dos tida da economia moderna, torna-se, pela primeira vez, praticamente
fisiocratas (um novo progresso) é assim: estabelece uma forma determi­ certa. De modo que a abstração mais simples, que coloca em primeiro
nada de trabalho — a agricultura —- como criadora de riqueza, e o lugar a economia moderna e que expressa uma relação antiga e válida
próprio objeto não aparece já sob o disfarce do dinheiro, mas como para todas as formas de sociedade, não aparece, entretanto, como prati­
produto em geral, como resultado geral do trabalho. Mas este produto, camente certa nesta abstração senão como categoria da mais moderna
de conformidade com. as limitações da atividade, é sempre um produto sociedade. Poder-se-ia dizer que tudo o que surge nos Estados Unidos
natural. A agricultura produz a terra, produz par excellence. 8 Pro­ como um produto histórico ocorre entre os russos, por exemplo —
grediu-se imensamente quando Adam Smith repeliu todo caráter deter­ trata-se desta indiferença em relação ao trabalho determinado —
minado da atividade-que^cqa a riqueza, quando [estabeleceu] o trabalho como uma disposição natural. Em primeiro lugar, há uma diferença
simplesmente;' não o trabalho manufatureiro, não o comercial, não o enorme entre os bárbaros aptos para serem empregados em qualquer
agrícola, mas tanto uns quanto os outros. Com a generalidade abstrata coisa e civilizados que se dedicam eles próprios a tudo. E, além disso,
da atividade qúe cria a riqueza, temos agora a generalidade do objeto praticamente, a esta indiferença em relação ao trabalho determinado
determinado como riqueza, o produto em geral ou, uma vez mais, o corresponde, nos russos, o fato de que se encontram submetidos tradi­
trabalho em geral, mas como trabalho passado realizado. A dificuldade cionalmente a um trabalho bem determinado, do qual só as influências
e importância desta transição prova-o o fato de que o próprio Adam exteriores podem arrancá-los.
Smith torna a cair, de quando em quando, no sistema fisiocrático. Este exemplo mostra, de uma maneira clara, como até as categorias
Poderia parecer agora que, deste modo, se teria encontrado unicamente mais abstratas, apesar de sua validade — precisamente por causa de
a expressão abstrata da relação mais simples e mais antiga em que sua natureza abstrata — para todas as épocas, são, contudo, no que
entram os homens — em qualquer forma de sociedade — enquanto
há de determinado nesta abstração, do mesmo modo, o produto de
são produtores. Isto é certo em um sentido. Mas não em outro.
condições históricas, e não possuem plena validez senão para estas
A indiferença em relação a um gênero determinado de trabalho condições e dentro dos limites destas mesmas condições.
pressupõe uma totalidade muito desenvolvida de gêneros de trabalhos
A sociedade burguesa é a organização histórica da produção mais
reais, nenhum, dos quais domina os demais. Tampouco se produzem
desenvolvida, mais diferenciada. As categorias que exprimem suas
as abstrações mais gerais senão onde existe o desenvolvimento concreto condições, a compreensão de sua própria organização, a tornam apta
mais rico, onde uma coisa aparece como comum a muitos indivíduos, para abarcar a organização e as relações de produção de todas as
comum a todos. Então já não pode ser imaginada somente sob uma formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e elementos se
forma particular. De outro lado, esta abstração do trabalho em geral acha edificada, e cujos vestígios, não ultrapassados ainda, leva arras­
não é mais que o resultado de uma totalidade concreta de trabalhos. tando, enquanto que tudo o que fora antes apenas indicado se desen­
A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma volveu, tomando toda sua significação etc. A anatomia do homem é
forma de sociedade na qual os indivíduos podem passar com facilidade a chave da anatomia do mono. O que nas espécies animais inferiores
de um trabalho a outro e na qual o gênero determinado de trabalho é indica uma forma superior, não pode, ao contrário, ser compreendida
fortuito, e, portanto, é-lhes indiferente. Neste caso o trabalho se tem senão quando se conhece a forma superior. A economia burguesa
convertido, não só categoricamente, mas realmente em um meio de fornece a chave da economia antiga etc. Porém, não conforme o
produzir riqueza em geral, deixando de se confundir com o indivíduo método dos economistas, que fazem- desaparecer todas as diferenças

« Em francês, no original. 4 Em francês, no original.


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históricas e vêem a forma burguesa em todas as formas de sociedade. contudo, nada mais falso do que isto. Em todas as formas de sociedade
Pode-se compreender o tributo, o dízimo, quando se compreende a se encontra uma produção determinada, superior a todas as demais, e
renda territorial. Mas, não se deve identificá-los. cuja situação aponta sua posição e sua influência sobre as outras. É
Como, além disso, a sociedade burguesa não é, em si, mais do uma iluminação universal em que atuam todas as cores, e às quais
que uma forma antagônica do desenvolvimento, certas relações perten­ modifica em sua particularidade. É um éter especial, que determina o
centes a formas anteriores nela só poderão ser novamente encontradas peso específico de todas as coisas às quais põe em relevo.
completamente esmaecidas ou mesmo disfarçadas; por exemplo, a pro­ Consideremos, por exemplo, os povos pastores (os simples povos
priedade comunal. Se é certo, portanto, que as categorias da economia caçadores ou pescadores não chegaram ao ponto em que começa o
burguesa ocorrem em todas as demais formas de sociedade não se deve verdadeiro desenvolvimento). Neles existe certa forma esporádica de
tomar isto senão cum grano salis. Podem ser contidas, desenvolvidas, agricultura. A propriedade rural encontra-se determinada por ela. Esta
esmaecidas, caricaturadas, mas sempre essencialmente distintas. A propriedade é comum, e conserva mais ou menos festa forma, conforme
chamada evolução histórica descansa em geral no fato de que a última aqueles povos se aferrem mais ou menos às suas tradições; por exemplo,
forma considera as formas ultrapassadas como graus que conduzem a a propriedade rural entre os eslavos. Onde predomina a agricultura,
ela, sendo capaz de criticar-se a si mesma alguma vez, e somente em praticada por povos estabelecidos — e este estabelecimento já constitui
condições muito determinadas ■— aqui não se trata, é óbvio, desses um grande progress'o — como na sociedade antiga e feudal, a indústria,,
períodos históricos que se descobrem a si próprios — inclusive como com sua organização e as formas da propriedade que lhe correspondem,
tempos de decadência. A religião cristã não pôde ajudar a tomar mantém também maiores ou menores traços característicos da proprie­
compreensível, de uma maneira objetiva, as mitologias anteriores senão dade rural; [a sociedade] ou bem depende inteiramente da agricultura,
quando sua crítica de si mesma esteve, até certo ponto, dynameii isto é, como entre os antigos romanos, ou imita, como na Idade Média, a
acabada. Deste modo, a economia burguesa só chegou a compreender organização do campo nas relações da cidade. O próprio capital —
a sociedade feudal, antiga, oriental, quando a sociedade burguesa come­ enquanto não seja simples capital dinheiro •—- possui, na Idade Média,
çou a criticar-se a si mesma. Precisamente porque a economia burguesa como utensílio (?) tradicional, este caráter de propriedade rural.
não prestou atenção à mitologia e não se identificou simplesmente com
Na sociedade burguesa acontece o contrário. A agricultura trans-
o passado, sua crítica da [sociedade] anterior, especialmente da feudal,
com a qual ainda tinha que lutar diretamente, se assemelhou à crítica forma-se mais e mais em simples ramo da indústria e é dominada
que o cristianismo fez do paganismo ou o protestantismo do catolicismo. completamente pelo capital. A mesma coisa ocorre com a renda
territorial. Em todas as formas em que domina a propriedade rural, a
Quando se estuda a marcha das categorias econômicas e, em geral, relação com a natureza é preponderante. Naquelas em que reina o
qualquer ciência social histórica, sempre convém recordar que o sujeito
capital, o que prevalece é o elemento social produzido historicamente.
— a sociedade burguesa moderna, neste caso — se encontra determinado
Não se compreende a renda territorial sem o capital; entretanto, com­
na mentalidade tanto quanto na realidade, e que as categorias, portanto,
preende-se o capital sem a renda rural. O capital é a potência econô­
exprimem « formas de vida, determinações de existência, e amiúde so­
mica da sociedade burguesa, que domina tudo. Deve constituir o ponto
mente aspectos isolados desta sociedade determinada, deste sujeito, e
inicial e o ponto final e ser desenvolvido antes da propriedade rural.
que, por isso, a [economia política] não aparece também como ciência
Depois de ter considerado separadamente um e outro, deve-se estudar
senão unicamente a partir do momento em que trata dela como tal.
sua relação recíproca. Seria, pois, impraticável e errôneo colocar as
Deve-se recordar este fato, porque - dá imediatamente uma direção
categorias econômicas na ordem segundo a qual tiveram historicamente
decisiva para a divisão que se precisa fazer.
uma ação determinante. A ordem em que se sucedem se acha determi­
Parece muito natural, por exemplo, que se comece pela renda nada, ao contrário, pela relação que têm umas com as outras na
territorial, a propriedade rural, porque se encontra ligada à terra, fonte sociedade burguesa moderna, e que é precisamente o inverso do que
de toda produção e vida, e à agricultura, primeira forma de produção parece ser uma relação natural ou do que corresponde à série da evo­
em todas as sociedades, por pouco solidificadas que se achem. E, lução histórica. Não se trata do lugar que as relações econômicas
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históricas e vêem a forma burguesa em todas as formas de sociedade. contudo, nada mais falso do que isto. Em todas as formas de sociedade
Pode-se compreender o tributo, o dízimo, quando se compreende a se encontra uma produção determinada, superior a todas as demais, e
renda territorial. Mas, não se deve identificá-los. cuja situação aponta sua posição e sua influência sobre as outras. É
Como, além disso, a sociedade burguesa não é, em si, mais do uma iluminação universal em que atuam todas as cores, e às quais
que uma forma antagônica do desenvolvimento, certas relações perten­ modifica em sua particularidade. É um éter especial, que determina o
centes a formas anteriores nela só poderão ser novamente encontradas peso específico de todas as coisas às quais põe em relevo.
completamente esmaecidas ou mesmo disfarçadas; por exemplo, a pro­ Consideremos, por exemplo, os povos pastores (os simples povos
priedade comunal. Se é certo, portanto, que as categorias da economia caçadores ou pescadores não chegaram ao ponto em que começa o
burguesa ocorrem em todas as demais formas de sociedade não se deve verdadeiro desenvolvimento). Neles existe certa forma esporádica de
tomar isto senão cum grano salis. Podem ser contidas, desenvolvidas, agricultura. A propriedade rural encontra-se determinada por ela. Esta
esmaecidas, caricaturadas, mas sempre essencialmente distintas. A propriedade é comum, e conserva mais ou menos festa forma, conforme
chamada evolução histórica descansa em geral no fato de que a última aqueles povos se aferrem mais ou menos às suas tradições; por exemplo,
forma considera as formas ultrapassadas como graus que conduzem a a propriedade rural entre os eslavos. Onde predomina a agricultura,
ela, sendo capaz de criticar-se a si mesma alguma vez, e somente em praticada por povos estabelecidos — e este estabelecimento já constitui
condições muito determinadas ■— aqui não se trata, é óbvio, desses um grande progress'o — como na sociedade antiga e feudal, a indústria,,
períodos históricos que se descobrem a si próprios — inclusive como com sua organização e as formas da propriedade que lhe correspondem,
tempos de decadência. A religião cristã não pôde ajudar a tomar mantém também maiores ou menores traços característicos da proprie­
compreensível, de uma maneira objetiva, as mitologias anteriores senão dade rural; [a sociedade] ou bem depende inteiramente da agricultura,
quando sua crítica de si mesma esteve, até certo ponto, dynameii isto é, como entre os antigos romanos, ou imita, como na Idade Média, a
acabada. Deste modo, a economia burguesa só chegou a compreender organização do campo nas relações da cidade. O próprio capital —
a sociedade feudal, antiga, oriental, quando a sociedade burguesa come­ enquanto não seja simples capital dinheiro •—- possui, na Idade Média,
çou a criticar-se a si mesma. Precisamente porque a economia burguesa como utensílio (?) tradicional, este caráter de propriedade rural.
não prestou atenção à mitologia e não se identificou simplesmente com
Na sociedade burguesa acontece o contrário. A agricultura trans-
o passado, sua crítica da [sociedade] anterior, especialmente da feudal,
com a qual ainda tinha que lutar diretamente, se assemelhou à crítica forma-se mais e mais em simples ramo da indústria e é dominada
que o cristianismo fez do paganismo ou o protestantismo do catolicismo. completamente pelo capital. A mesma coisa ocorre com a renda
territorial. Em todas as formas em que domina a propriedade rural, a
Quando se estuda a marcha das categorias econômicas e, em geral, relação com a natureza é preponderante. Naquelas em que reina o
qualquer ciência social histórica, sempre convém recordar que o sujeito
capital, o que prevalece é o elemento social produzido historicamente.
— a sociedade burguesa moderna, neste caso — se encontra determinado
Não se compreende a renda territorial sem o capital; entretanto, com­
na mentalidade tanto quanto na realidade, e que as categorias, portanto,
preende-se o capital sem a renda rural. O capital é a potência econô­
exprimem « formas de vida, determinações de existência, e amiúde so­
mica da sociedade burguesa, que domina tudo. Deve constituir o ponto
mente aspectos isolados desta sociedade determinada, deste sujeito, e
inicial e o ponto final e ser desenvolvido antes da propriedade rural.
que, por isso, a [economia política] não aparece também como ciência
Depois de ter considerado separadamente um e outro, deve-se estudar
senão unicamente a partir do momento em que trata dela como tal.
sua relação recíproca. Seria, pois, impraticável e errôneo colocar as
Deve-se recordar este fato, porque - dá imediatamente uma direção
categorias econômicas na ordem segundo a qual tiveram historicamente
decisiva para a divisão que se precisa fazer.
uma ação determinante. A ordem em que se sucedem se acha determi­
Parece muito natural, por exemplo, que se comece pela renda nada, ao contrário, pela relação que têm umas com as outras na
territorial, a propriedade rural, porque se encontra ligada à terra, fonte sociedade burguesa moderna, e que é precisamente o inverso do que
de toda produção e vida, e à agricultura, primeira forma de produção parece ser uma relação natural ou do que corresponde à série da evo­
em todas as sociedades, por pouco solidificadas que se achem. E, lução histórica. Não se trata do lugar que as relações econômicas
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ocupem, historicamente, na sucessão das diferentes formas da sociedade, Produção. — Meios de produção e relações de produção. —
Menos ainda de sua série “na idéia” (Proudhon), que não passa de Relações de produção e de distribuição. — Formas do Estado e da
uma representação falaz (?) do movimento histórico. Trata-se de sua propriedade em sua relação com a produção e a distribuição. —
conexão orgânica no interior da sociedade burguesa moderna. Relações jurídicas. -—• Relações familiares.
A nitidez (caráter determinado abstrato) com que os povos comer­ Nota Bene — relação dos pontos que precisam ser mencionados
ciantes — fenícios, cartagineses — apareceram no mundo antigo, pro­ aqui e que não devem ser esquecidos:
vém, precisamente, da própria supremacia dos povos agricultores. O
capital, como capital comercial ou capital dinheiro, aparece nesta 1) A guerra é desenvolvida antes que a paz. [Deveria expor]
abstração justamente onde o capital não é ainda um elemento prepon­ como pela guerra e nos exércitos etc., certos fenômenos econômicos, tais
derante das sociedades. Os lombardos, os judeus, ocupam a mesma como o trabalho assalariado, o maquinismo etc., são desenvolvidos
posição em. relação às sociedades medievais que praticam a agricultura. antes que no interior da sociedade burguesa. Nó* exército é especial­
Ainda pode servir de exemplo do papel distinto que as mesmas mente visível a relação da força produtiva e dos meios de comunicação.
categorias desempenham em diferentes graus da sociedade, o seguinte: 2) Relação do método idealista de escrever a História tal como
as sociedades por ações, uma das últimas formas da sociedade burguesa, se tem feito até agora e o método realista. Particularmente a chamada
aparecem também, em seus começos, nas grandes companhias comer­ História da Civilização, que é a História da religião e dos Estados.
ciais privilegiadas, desfrutadoras dos monopólios.
A esta altura, poder-se-á dizer alguma coisa sobre as diferentes
O conceito da riqueza nacional em si insinua-se no espírito dos maneiras de se escrever a história até agora. O modo chamado objetivo.
economistas do século XVII sob a forma — e esta representação
O subjetivo (moral e outros). O modo filosófico.
persiste em parte nos do século XVIII — de que a riqueza não se cria
senão para o Estado, e que a potência do Estado é proporcional a esta ■ 3) Fatos secundários e terciários. Em geral, relações de produção,
riqueza. Também esta era uma forma inconscientemente hipócrita sob derivadas, transmitidas, não originais. Aqui entram em jogo as relações
a qual a riqueza e a produção da mesma se expressavam como finalidade internacionais.
dos Estados modernos, e não se lhes considerava senão como meios 4) Sobre o materialismo desta concepção. Relação com 'o mate­
para chegar a este fim. rialismo naturalista.
A divisão deve, do começo, ser feita de maneira que [se de­ 5) Dialética dos conceitos, força produtiva (meios de produção) e
senvolvam], em primeiro lugar, as determinações gerais abstratas, que relações de produção, dialética; cujos limites se deve determinar e que
pertencem mais ou menos a todas as formas de sociedade, mas no não elimina a diferença real.
sentido exposto anteriormente. Em. segundo lugar, as categorias que
constituem a organização interior da sociedade burguesa, sobre as quais 6) A relação desigual entre o desenvolvimento da produção ma­
repousam as classes fundamentais. Capital. Trabalho assalariado. Pro­ terial e a produção antiga, por exemplo. Em geral, o progresso não
priedade rural. Suas relações recíprocas. Cidade e campo. As três deve ser concebido da maneira abstrata habitual. Em relação à arte,
grandes classes sociais. A troca entre estas. Circulação. Crédito esta desproporção não é ainda tão importante nem tão difícil de apreen­
(privado). Em. terceiro lugar, a sociedade burguesa compreendida sob der como nas relações prático-sociais; por exemplo, a relação da cultura
a forma de Estado. O Estado em si. As classes “improdutivas”. Im­ dos Estados Unidos com a da Europa. O ponto realmente difícil que
postos. Dívidas do Estado. O crédito público. A população. As colônias. precisa ser discutido é o de saber como evoluirão de uma maneira de­
Emigração. Em quarto lugar, relações internacionais da produção. sigual (?) as relações de produção e as relações jurídicas que delas
Divisão internacional do trabalho. Troca internacional. Exportação e derivam. Assim, por exemplo, a relação entre o direito privado romano
importação. Curso do câmbio. Em quinto lugar, o mercado mundial e (quanto ao direito criminal e público não parece tão certo) e a
as crises. produção moderna.
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ocupem, historicamente, na sucessão das diferentes formas da sociedade, Produção. — Meios de produção e relações de produção. —
Menos ainda de sua série “na idéia” (Proudhon), que não passa de Relações de produção e de distribuição. — Formas do Estado e da
uma representação falaz (?) do movimento histórico. Trata-se de sua propriedade em sua relação com a produção e a distribuição. —
conexão orgânica no interior da sociedade burguesa moderna. Relações jurídicas. -—• Relações familiares.
A nitidez (caráter determinado abstrato) com que os povos comer­ Nota Bene — relação dos pontos que precisam ser mencionados
ciantes — fenícios, cartagineses — apareceram no mundo antigo, pro­ aqui e que não devem ser esquecidos:
vém, precisamente, da própria supremacia dos povos agricultores. O
capital, como capital comercial ou capital dinheiro, aparece nesta 1) A guerra é desenvolvida antes que a paz. [Deveria expor]
abstração justamente onde o capital não é ainda um elemento prepon­ como pela guerra e nos exércitos etc., certos fenômenos econômicos, tais
derante das sociedades. Os lombardos, os judeus, ocupam a mesma como o trabalho assalariado, o maquinismo etc., são desenvolvidos
posição em. relação às sociedades medievais que praticam a agricultura. antes que no interior da sociedade burguesa. Nó* exército é especial­
Ainda pode servir de exemplo do papel distinto que as mesmas mente visível a relação da força produtiva e dos meios de comunicação.
categorias desempenham em diferentes graus da sociedade, o seguinte: 2) Relação do método idealista de escrever a História tal como
as sociedades por ações, uma das últimas formas da sociedade burguesa, se tem feito até agora e o método realista. Particularmente a chamada
aparecem também, em seus começos, nas grandes companhias comer­ História da Civilização, que é a História da religião e dos Estados.
ciais privilegiadas, desfrutadoras dos monopólios.
A esta altura, poder-se-á dizer alguma coisa sobre as diferentes
O conceito da riqueza nacional em si insinua-se no espírito dos maneiras de se escrever a história até agora. O modo chamado objetivo.
economistas do século XVII sob a forma — e esta representação
O subjetivo (moral e outros). O modo filosófico.
persiste em parte nos do século XVIII — de que a riqueza não se cria
senão para o Estado, e que a potência do Estado é proporcional a esta ■ 3) Fatos secundários e terciários. Em geral, relações de produção,
riqueza. Também esta era uma forma inconscientemente hipócrita sob derivadas, transmitidas, não originais. Aqui entram em jogo as relações
a qual a riqueza e a produção da mesma se expressavam como finalidade internacionais.
dos Estados modernos, e não se lhes considerava senão como meios 4) Sobre o materialismo desta concepção. Relação com 'o mate­
para chegar a este fim. rialismo naturalista.
A divisão deve, do começo, ser feita de maneira que [se de­ 5) Dialética dos conceitos, força produtiva (meios de produção) e
senvolvam], em primeiro lugar, as determinações gerais abstratas, que relações de produção, dialética; cujos limites se deve determinar e que
pertencem mais ou menos a todas as formas de sociedade, mas no não elimina a diferença real.
sentido exposto anteriormente. Em. segundo lugar, as categorias que
constituem a organização interior da sociedade burguesa, sobre as quais 6) A relação desigual entre o desenvolvimento da produção ma­
repousam as classes fundamentais. Capital. Trabalho assalariado. Pro­ terial e a produção antiga, por exemplo. Em geral, o progresso não
priedade rural. Suas relações recíprocas. Cidade e campo. As três deve ser concebido da maneira abstrata habitual. Em relação à arte,
grandes classes sociais. A troca entre estas. Circulação. Crédito esta desproporção não é ainda tão importante nem tão difícil de apreen­
(privado). Em. terceiro lugar, a sociedade burguesa compreendida sob der como nas relações prático-sociais; por exemplo, a relação da cultura
a forma de Estado. O Estado em si. As classes “improdutivas”. Im­ dos Estados Unidos com a da Europa. O ponto realmente difícil que
postos. Dívidas do Estado. O crédito público. A população. As colônias. precisa ser discutido é o de saber como evoluirão de uma maneira de­
Emigração. Em quarto lugar, relações internacionais da produção. sigual (?) as relações de produção e as relações jurídicas que delas
Divisão internacional do trabalho. Troca internacional. Exportação e derivam. Assim, por exemplo, a relação entre o direito privado romano
importação. Curso do câmbio. Em quinto lugar, o mercado mundial e (quanto ao direito criminal e público não parece tão certo) e a
as crises. produção moderna.
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7) Esta concepção aparece como a de uma evolução necessária. (compreendendo esta última tudo que é objeto, logo, também, a socie­
Mas justificação do acaso. Varia5 (A liberdade, e também outras dade) . A mitologia egípcia jamais pôde ceder o solo ou o seio materno
coisas). (Influência dos meios de comunicação). Falando com pro­ para criar a arte grega. Mas, em todo caso, era necessária uma mitolo­
priedade, a História Universal nem sempre aparece na História como gia. A arte grega não podia surgir, em nenhum caso, em uma sociedade
resultado da História Universal. que exclui toda relação mitológica com a natureza, que exige do artista
8) As determinações naturais subjetivas e objetivas, tribos, raças uma imaginação que não se apoie na mitologia.
etc., devem constituir, como é justo, o ponto de partida. De outro ponto de vista, é possível a existência de Aquiles ao
Quanto à arte, já se sabe que os períodos de florescimento deter­ aparecer a pólvora e o chumbo? A ilíada inteira é compatível com a
minados não estão, absolutamente, em relação com. o desenvolvimento máquina impressora? Não desaparecem, necessariamente, os cantos, as
geral da sociedade nem, portanto, com a base material, o esqueleto, de lendas, e a Musa diante da regreta do tipógrafo? Não se desvanecem
certo modo, de sua organização. Por exemplo, os gregos, comparados as condições necessárias da poesia épica? C
com os modernos, ou, ainda, Shakespeare. Em relação a certos gêneros O difícil não é compreender que a arte grega e a epopéia se achem
de arte, a epopéia, por exemplo, admite-se que jamais podem produzir-se ligadas a certas formas do desenvolvimento social, mas que ainda
em sua forma clássica, fazendo época no mundo, desde o momento em possam proporcionar gozos estéticos e sejam consideradas, em certos
que a produção artística aparece como tal; isto é, no interior do domínio casos, como norma e modelo inacessíveis.
da própria arte, algumas manifestações importantes não são possíveis
Um homem não pode voltar a ser criança sem retornar à infância.
senão em um grau inferior da evolução da arte. Se isto é certo,
Mas não se satisfaz com a ingenuidade da criança e não deve aspirar
referindo-se à relação dos diferentes gêneros de arte no interior do
a. reproduzir, em um nível mais elevado, a sinceridade da criança? Não
domínio da própria arte, não se pode estranhar que também o seja a
revive, na natureza infantil, o caráter próprio de cada época em sua
respeito da relação do domínio todo da arte com o desenvolvimento geral
verdade natural? Por que a infância social da humanidade, no mais
da sociedade. A dificuldade consiste somente na formulação geral destas
belo de seu florescimento, não deveria exercer uma eterna atração,
contradições. Assim que se especificam, explicam-se. Consideremos,
como uma fase desaparecida para sempre? Há meninos mal-educados
por exemplo, a relação da arte grega e depois a de Shakespeare com os
e meninos envelhecidos. Muitas nações antigas pertencem a esta cate­
tempos atuais. A mitologia grega, como se sabe, não somente era o
goria. Os gregos eram meninos normais. O encanto que encontramos
arsenal da arte grega, mas sua terra alimentadora também. A concepção
em sua arte não está em contradição com o caráter primitivo da socie­
da natureza e das relações sociais, que se acham no fundo da imaginação
dade em que essa arte se desenvolveu. É, ao contrário, sua produção;
grega e, portanto, da arte grega, é por acaso compatível com as má­
poder-se-ia dizer melhor que se acha indissoluvelmente ligada ao fato
quinas automáticas, as estradas de ferro, as locomotivas e o telégrafo
de que as condições sociais imperfeitas em que nasceu, e nas quais
elétrico? Que representa Vulcano ao lado de Roberts & C.1”, Júpiter
forçosamente tinha que nascer, não poderiam retornar nunca mais.
dos pára-raios e Hermes do crédito mobiliário? Toda a mitologia
submete e domina e modela as forças da natureza, na imaginação e
para a imaginação, e desaparece, portanto, quando se chega a dominá-las
realmente. Que representa a Fama em relação à Printing House Square.d
A arte grega pressupõe a mitologia grega, isto é, a natureza e a própria
sociedade modelada já de uma maneira inconscientemente artística pela
fantasia popular. Esses são. seus materiais. Não uma mitologia qualquer,
não qualquer transformação inconscientemente artística da natureza

5 Assim está escrito no original.


Tipografia do jornal Times.
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7) Esta concepção aparece como a de uma evolução necessária. (compreendendo esta última tudo que é objeto, logo, também, a socie­
Mas justificação do acaso. Varia5 (A liberdade, e também outras dade) . A mitologia egípcia jamais pôde ceder o solo ou o seio materno
coisas). (Influência dos meios de comunicação). Falando com pro­ para criar a arte grega. Mas, em todo caso, era necessária uma mitolo­
priedade, a História Universal nem sempre aparece na História como gia. A arte grega não podia surgir, em nenhum caso, em uma sociedade
resultado da História Universal. que exclui toda relação mitológica com a natureza, que exige do artista
8) As determinações naturais subjetivas e objetivas, tribos, raças uma imaginação que não se apoie na mitologia.
etc., devem constituir, como é justo, o ponto de partida. De outro ponto de vista, é possível a existência de Aquiles ao
Quanto à arte, já se sabe que os períodos de florescimento deter­ aparecer a pólvora e o chumbo? A ilíada inteira é compatível com a
minados não estão, absolutamente, em relação com. o desenvolvimento máquina impressora? Não desaparecem, necessariamente, os cantos, as
geral da sociedade nem, portanto, com a base material, o esqueleto, de lendas, e a Musa diante da regreta do tipógrafo? Não se desvanecem
certo modo, de sua organização. Por exemplo, os gregos, comparados as condições necessárias da poesia épica? C
com os modernos, ou, ainda, Shakespeare. Em relação a certos gêneros O difícil não é compreender que a arte grega e a epopéia se achem
de arte, a epopéia, por exemplo, admite-se que jamais podem produzir-se ligadas a certas formas do desenvolvimento social, mas que ainda
em sua forma clássica, fazendo época no mundo, desde o momento em possam proporcionar gozos estéticos e sejam consideradas, em certos
que a produção artística aparece como tal; isto é, no interior do domínio casos, como norma e modelo inacessíveis.
da própria arte, algumas manifestações importantes não são possíveis
Um homem não pode voltar a ser criança sem retornar à infância.
senão em um grau inferior da evolução da arte. Se isto é certo,
Mas não se satisfaz com a ingenuidade da criança e não deve aspirar
referindo-se à relação dos diferentes gêneros de arte no interior do
a. reproduzir, em um nível mais elevado, a sinceridade da criança? Não
domínio da própria arte, não se pode estranhar que também o seja a
revive, na natureza infantil, o caráter próprio de cada época em sua
respeito da relação do domínio todo da arte com o desenvolvimento geral
verdade natural? Por que a infância social da humanidade, no mais
da sociedade. A dificuldade consiste somente na formulação geral destas
belo de seu florescimento, não deveria exercer uma eterna atração,
contradições. Assim que se especificam, explicam-se. Consideremos,
como uma fase desaparecida para sempre? Há meninos mal-educados
por exemplo, a relação da arte grega e depois a de Shakespeare com os
e meninos envelhecidos. Muitas nações antigas pertencem a esta cate­
tempos atuais. A mitologia grega, como se sabe, não somente era o
goria. Os gregos eram meninos normais. O encanto que encontramos
arsenal da arte grega, mas sua terra alimentadora também. A concepção
em sua arte não está em contradição com o caráter primitivo da socie­
da natureza e das relações sociais, que se acham no fundo da imaginação
dade em que essa arte se desenvolveu. É, ao contrário, sua produção;
grega e, portanto, da arte grega, é por acaso compatível com as má­
poder-se-ia dizer melhor que se acha indissoluvelmente ligada ao fato
quinas automáticas, as estradas de ferro, as locomotivas e o telégrafo
de que as condições sociais imperfeitas em que nasceu, e nas quais
elétrico? Que representa Vulcano ao lado de Roberts & C.1”, Júpiter
forçosamente tinha que nascer, não poderiam retornar nunca mais.
dos pára-raios e Hermes do crédito mobiliário? Toda a mitologia
submete e domina e modela as forças da natureza, na imaginação e
para a imaginação, e desaparece, portanto, quando se chega a dominá-las
realmente. Que representa a Fama em relação à Printing House Square.d
A arte grega pressupõe a mitologia grega, isto é, a natureza e a própria
sociedade modelada já de uma maneira inconscientemente artística pela
fantasia popular. Esses são. seus materiais. Não uma mitologia qualquer,
não qualquer transformação inconscientemente artística da natureza

5 Assim está escrito no original.


Tipografia do jornal Times.
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necessidades gerais da sociedade, qualquer que seja o modo pelo qual


se distribua esse produto excedente, e seja quem for aquele que atue
como representante dessas necessidades sociais. A identidade entre os
diversos tipos de distribuição se reduz, portanto, ao fato de que são
idênticos, se deixarmos de lado suas distinções e formas específicas,
3. CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS para nos fixarmos somente no que há de comum em todos eles, omitindo
DO SISTEMA CAPITALISTA * o que os separa e diferencia.
A medida em que a consciência do Homem vai se desenvolvendo
e se fazendo mais crítica, leva em conta, entretanto, o caráter historica­
mente mais desenvolvido das relações de distribuição,1 embora se
aferrando mais fortemente ainda ao caráter permanente das relações de
O valor novo acrescentado pelo trabalho novo que se incorpora produção, que se considera como obra da natureza humana e indepen­
durante o ano — e também, portanto, a parte dó produto anual em dentes, portanto, de qualquer evolução histórica.
que se traduz esse valor, e que pode ser separado do rendimento total A análise científica do regime capitalista de produção demonstra,
— divide-se, pois, em três partes, que revestem três formas diferentes pelo contrário, que este regime constitui um regime de produção de
de rendas, formas que expressam uma parte desse valor como perten­ tipo especial, e que corresponde a uma condicionalidade histórica
cente ao possuidor da força de trabalho, outra parte como pertencente específica; que, como qualquer outro regime de produção concreto,
ao possuidor do capital e outra ao proprietário da terra. Trata-se, pressupõe, como condição histórica, uma determinada fase das forças
portanto, de relações em que o valor total novamente criado se distribui sociais produtivas e de suas formas de desenvolvimento, condição que
entre os possuidores dos diversos agentes da produção. é, por sua vez, resultado e produto histórico de um processo anterior,
A concepção corrente considera essas relações de distribuição e do qual parte o novo tipo de produção como de sua base dada; que
como relações naturais, como relações que respondem, simplesmente, as relações de produção que correspondem a este regime de produção
à natureza de qualquer produção social, às leis da produção humana específico, • historicamente determinado •—• relações que os homens
pura e simples. Ainda que não se possa negar que as sociedades pré- contraem em seu processo social de vida, na criação de sua vida so­
-capitalistas apresentavam outros tipos de distribuição, estes se apresen­ cial —, apresentam um caráter específico, histórico e transitório; e,
tam como formas primitivas, rudimentares e disfarçadas, não reduzidas finalmente, que as relações de distribuição são essencialmente idênticas
à sua expressão mais pura e à sua modalidade mais alta, como formas a estas relações de produção, o seu reverso, pois ambas apresentam o
matizadas de modo distinto das relações naturais de distribuição. mesmo caráter histórico transitório.
A única coisa exata nessa concepção é o seguinte: partindo de Quando se examipam as relações de distribuição, parte-se, antes
uma produção social, de qualquer caráter que seja (por exemplo, a das de mais nada, do pretenso fato de que o produto anual se distribui como
comunidades índias mais rudimentares ou a do comunismo dos peruanos, salário, lucro e renda do solo. Mas o fato, assim exposto, é falso. O
já mais desenvolvido e artificial), podemos distinguir, sempre, entre a
produto se distribui, de uma parte, em capital, e, de outra parte, em
parte do trabalho, cujo produto é consumido diretamente pelos produ­
rendas. Uma dessas rendas, o salário, reveste sempre a forma de renda,
tores e suas famílias, com caráter individual, e — prescindindo da parte
renda do trabalhador depois de já haver enfrentado o operário em
destinada aò consumo produtivo ■— outra parte do trabalho, que é sem­
pre trabalho excedente, cujo produto se destina sempre à satisfação das forma de capital. O fato de que as condições de trabalho produzidas e
os produtos do trabalho se enfrentem como capital para o produtor
direto, já implica, de antemão, um determinado caráter social das con-
* Reproduzido de Marx, K. “Características esenciales dei sistema capitalista” In:
El capital. México, Fondo de Cultura Económica, 1946-47. t. III, cap. II, p.
1013-20. Trad. por Maria Elisa Mascarenhas. 1 Stuart Mill, J. Some Unsetled Questions of Political Economy. Londres, 1844.
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necessidades gerais da sociedade, qualquer que seja o modo pelo qual


se distribua esse produto excedente, e seja quem for aquele que atue
como representante dessas necessidades sociais. A identidade entre os
diversos tipos de distribuição se reduz, portanto, ao fato de que são
idênticos, se deixarmos de lado suas distinções e formas específicas,
3. CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS para nos fixarmos somente no que há de comum em todos eles, omitindo
DO SISTEMA CAPITALISTA * o que os separa e diferencia.
A medida em que a consciência do Homem vai se desenvolvendo
e se fazendo mais crítica, leva em conta, entretanto, o caráter historica­
mente mais desenvolvido das relações de distribuição,1 embora se
aferrando mais fortemente ainda ao caráter permanente das relações de
O valor novo acrescentado pelo trabalho novo que se incorpora produção, que se considera como obra da natureza humana e indepen­
durante o ano — e também, portanto, a parte dó produto anual em dentes, portanto, de qualquer evolução histórica.
que se traduz esse valor, e que pode ser separado do rendimento total A análise científica do regime capitalista de produção demonstra,
— divide-se, pois, em três partes, que revestem três formas diferentes pelo contrário, que este regime constitui um regime de produção de
de rendas, formas que expressam uma parte desse valor como perten­ tipo especial, e que corresponde a uma condicionalidade histórica
cente ao possuidor da força de trabalho, outra parte como pertencente específica; que, como qualquer outro regime de produção concreto,
ao possuidor do capital e outra ao proprietário da terra. Trata-se, pressupõe, como condição histórica, uma determinada fase das forças
portanto, de relações em que o valor total novamente criado se distribui sociais produtivas e de suas formas de desenvolvimento, condição que
entre os possuidores dos diversos agentes da produção. é, por sua vez, resultado e produto histórico de um processo anterior,
A concepção corrente considera essas relações de distribuição e do qual parte o novo tipo de produção como de sua base dada; que
como relações naturais, como relações que respondem, simplesmente, as relações de produção que correspondem a este regime de produção
à natureza de qualquer produção social, às leis da produção humana específico, • historicamente determinado •—• relações que os homens
pura e simples. Ainda que não se possa negar que as sociedades pré- contraem em seu processo social de vida, na criação de sua vida so­
-capitalistas apresentavam outros tipos de distribuição, estes se apresen­ cial —, apresentam um caráter específico, histórico e transitório; e,
tam como formas primitivas, rudimentares e disfarçadas, não reduzidas finalmente, que as relações de distribuição são essencialmente idênticas
à sua expressão mais pura e à sua modalidade mais alta, como formas a estas relações de produção, o seu reverso, pois ambas apresentam o
matizadas de modo distinto das relações naturais de distribuição. mesmo caráter histórico transitório.
A única coisa exata nessa concepção é o seguinte: partindo de Quando se examipam as relações de distribuição, parte-se, antes
uma produção social, de qualquer caráter que seja (por exemplo, a das de mais nada, do pretenso fato de que o produto anual se distribui como
comunidades índias mais rudimentares ou a do comunismo dos peruanos, salário, lucro e renda do solo. Mas o fato, assim exposto, é falso. O
já mais desenvolvido e artificial), podemos distinguir, sempre, entre a
produto se distribui, de uma parte, em capital, e, de outra parte, em
parte do trabalho, cujo produto é consumido diretamente pelos produ­
rendas. Uma dessas rendas, o salário, reveste sempre a forma de renda,
tores e suas famílias, com caráter individual, e — prescindindo da parte
renda do trabalhador depois de já haver enfrentado o operário em
destinada aò consumo produtivo ■— outra parte do trabalho, que é sem­
pre trabalho excedente, cujo produto se destina sempre à satisfação das forma de capital. O fato de que as condições de trabalho produzidas e
os produtos do trabalho se enfrentem como capital para o produtor
direto, já implica, de antemão, um determinado caráter social das con-
* Reproduzido de Marx, K. “Características esenciales dei sistema capitalista” In:
El capital. México, Fondo de Cultura Económica, 1946-47. t. III, cap. II, p.
1013-20. Trad. por Maria Elisa Mascarenhas. 1 Stuart Mill, J. Some Unsetled Questions of Political Economy. Londres, 1844.
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dições materiais do trabalho diante dos operários; e, portanto, numa como trabalhador livre assalariado e, por conseguinte, o trabalho
determinada relação, em que estes se acham, dentro da própria produ­ aparece como trabalho assalariado com caráter geral. Devemos voltar
ção, como possuidores das condições de trabalho, e vice-versa. A a expor novamente, depois de todo o desenvolvimento anterior desta
transformação dessas condições de trabalho em capital implica, por sua obra, como a relação entre o capital e o trabalho assalariado informa
vez, a expropriação do solo dos produtores diretos, e, portanto, numa todo o caráter deste regime de produção. Os agentes principais deste
determinada forma de propriedade territorial. sistema de produção, o capitalista e o trabalhador assalariado, não são,
como tais, mais que encarnações, personificações do capital e do tra­
Se uma parte do produto não se convertesse em capital, não balho assalariado, aspectos sociais determinados que o processo social
revestiria a outra as formas de salário, lucro e renda do solo. de produção imprime aos indivíduos, produtos dessas determinadas
Por outro lado, se o regime capitalista de produção pressupõe esta relações sociais de produção.
forma social determinada das condições de produção, também a repro­
A característica 1 do produto como mercadoria e a característica
duz constantemente. Não produz apenas os produtos materiais, mas
2 da mercadoria como produto do capital acarretam, já, todas as
reproduz, também, continuamente, as relações de produção nas quais
relações de circulação, isto é, um determinado processo social que os
aqueles são produzidos, e, com elas, as correspondentes relações de
produtos devem percorrer, e no qual assumem determinadas caracterís­
distribuição.
ticas sociais; e acarreta, também, certas relações entre os agentes da
Podemos dizer, certamente, que o capital (e a propriedade territo­ produção, que determinam a valorização de seu produto e sua reversão,
rial, que o engloba como sua antítese), já pressupõe por si uma distri­ seja em forma de meios de vida ou de meios de produção. Mas, ainda
buição; a expropriação dos operários das condições de trabalho, a que se prescinda disso, das duas características anteriores do produto
concentração dessas condições de trabalho em mãos de uma minoria como mercadoria ou da mercadoria como mercadoria produzida capita-
de indivíduos, a propriedade exclusiva sobre o solo em favor de outros listicamente, já se deduz toda a determinação valorativa e a regulação
indivíduos, em suma, todas aquelas relações que foram estudadas no da produção total pelo valor. Nesta forma totalmente específica do
capítulo sobre a acumulação primitiva (liv. I, cap. XXIV). Mas essa valor, o trabalho rege, de um lado, como trabalho social; de outro lado,
distribuição difere totalmente do que se entende por relações de dis­ a distribuição desse trabalho social e a mútua complementação, o
tribuição, quando se reivindica para estas um caráter histórico, por intercâmbio de matérias de seus produtos, a sujeição e a dependência
oposição às relações de produção. Por relações de distribuição se enten­ dentro da trama social, ficam entregues à ação fortuita dos diversos
de aqui os diversos títulos que autorizam a receber a parte do produto produtores capitalistas, ação na qual as tendências de uns destroem as
destinada ao consumo individual. Aquelas outras relações de distribui­ de outros e vice-versa. Como esses produtores só se enfrentam enquanto
ção são, por sua vez, as bases das especiais funções sociais que, dentro possuidores de mercadorias, e cada um deles procura vender sua mer­
do próprio regime de produção, correspondem a determinados agentes cadoria pelo mais alto preço possível (e, além disso, aparentemente, só
do mesmo, por oposição ao produtor direto. Dão às mesmas condições é governado por seu arbítrio na regulação da própria produção), daí
de produção e a seus representantes uma qualidade social específica. resulta que a lei interna só se impõe por meio de sua concorrência, da
Determinam todo o caráter e todo o movimento da produção. pressão mútua exercida por uns sobre os outros, o que faz com que as
Duas são as características que distinguem, desde o primeiro ins­ divergências sejam reciprocamente compensadas. A lei do valor só atua
tante, o regime capitalista de produção. aqui como lei interna, que os agentes individuais consideram como uma
cega lei natural; e é esta lei, deste modo, que impõe o equilíbrio social
Primeira. Esse regime cria seus produtos com o caráter de merca­ da produção em meio às suas flutuações fortuitas.
dorias. Mas o fato de produzir mercadorias não o distingue de outros
sistemas de produção; o que o distingue é a circunstância de que, nele, Na mercadoria, e principalmente na mercadoria como produto do
o fato de seus produtos serem mercadorias constitui seu caráter predo­ capital, já vai implícita, ademais, a materialização das determinações
minante e determinante. Implica, logo de início o fato de que, nele, o sociais da produção e a personificação de seus fundamentos materiais,
próprio trabalhador aparece como vendedor de mercadorias e, portanto, que caracterizam todo o regime de produção capitalista.
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dições materiais do trabalho diante dos operários; e, portanto, numa como trabalhador livre assalariado e, por conseguinte, o trabalho
determinada relação, em que estes se acham, dentro da própria produ­ aparece como trabalho assalariado com caráter geral. Devemos voltar
ção, como possuidores das condições de trabalho, e vice-versa. A a expor novamente, depois de todo o desenvolvimento anterior desta
transformação dessas condições de trabalho em capital implica, por sua obra, como a relação entre o capital e o trabalho assalariado informa
vez, a expropriação do solo dos produtores diretos, e, portanto, numa todo o caráter deste regime de produção. Os agentes principais deste
determinada forma de propriedade territorial. sistema de produção, o capitalista e o trabalhador assalariado, não são,
como tais, mais que encarnações, personificações do capital e do tra­
Se uma parte do produto não se convertesse em capital, não balho assalariado, aspectos sociais determinados que o processo social
revestiria a outra as formas de salário, lucro e renda do solo. de produção imprime aos indivíduos, produtos dessas determinadas
Por outro lado, se o regime capitalista de produção pressupõe esta relações sociais de produção.
forma social determinada das condições de produção, também a repro­
A característica 1 do produto como mercadoria e a característica
duz constantemente. Não produz apenas os produtos materiais, mas
2 da mercadoria como produto do capital acarretam, já, todas as
reproduz, também, continuamente, as relações de produção nas quais
relações de circulação, isto é, um determinado processo social que os
aqueles são produzidos, e, com elas, as correspondentes relações de
produtos devem percorrer, e no qual assumem determinadas caracterís­
distribuição.
ticas sociais; e acarreta, também, certas relações entre os agentes da
Podemos dizer, certamente, que o capital (e a propriedade territo­ produção, que determinam a valorização de seu produto e sua reversão,
rial, que o engloba como sua antítese), já pressupõe por si uma distri­ seja em forma de meios de vida ou de meios de produção. Mas, ainda
buição; a expropriação dos operários das condições de trabalho, a que se prescinda disso, das duas características anteriores do produto
concentração dessas condições de trabalho em mãos de uma minoria como mercadoria ou da mercadoria como mercadoria produzida capita-
de indivíduos, a propriedade exclusiva sobre o solo em favor de outros listicamente, já se deduz toda a determinação valorativa e a regulação
indivíduos, em suma, todas aquelas relações que foram estudadas no da produção total pelo valor. Nesta forma totalmente específica do
capítulo sobre a acumulação primitiva (liv. I, cap. XXIV). Mas essa valor, o trabalho rege, de um lado, como trabalho social; de outro lado,
distribuição difere totalmente do que se entende por relações de dis­ a distribuição desse trabalho social e a mútua complementação, o
tribuição, quando se reivindica para estas um caráter histórico, por intercâmbio de matérias de seus produtos, a sujeição e a dependência
oposição às relações de produção. Por relações de distribuição se enten­ dentro da trama social, ficam entregues à ação fortuita dos diversos
de aqui os diversos títulos que autorizam a receber a parte do produto produtores capitalistas, ação na qual as tendências de uns destroem as
destinada ao consumo individual. Aquelas outras relações de distribui­ de outros e vice-versa. Como esses produtores só se enfrentam enquanto
ção são, por sua vez, as bases das especiais funções sociais que, dentro possuidores de mercadorias, e cada um deles procura vender sua mer­
do próprio regime de produção, correspondem a determinados agentes cadoria pelo mais alto preço possível (e, além disso, aparentemente, só
do mesmo, por oposição ao produtor direto. Dão às mesmas condições é governado por seu arbítrio na regulação da própria produção), daí
de produção e a seus representantes uma qualidade social específica. resulta que a lei interna só se impõe por meio de sua concorrência, da
Determinam todo o caráter e todo o movimento da produção. pressão mútua exercida por uns sobre os outros, o que faz com que as
Duas são as características que distinguem, desde o primeiro ins­ divergências sejam reciprocamente compensadas. A lei do valor só atua
tante, o regime capitalista de produção. aqui como lei interna, que os agentes individuais consideram como uma
cega lei natural; e é esta lei, deste modo, que impõe o equilíbrio social
Primeira. Esse regime cria seus produtos com o caráter de merca­ da produção em meio às suas flutuações fortuitas.
dorias. Mas o fato de produzir mercadorias não o distingue de outros
sistemas de produção; o que o distingue é a circunstância de que, nele, Na mercadoria, e principalmente na mercadoria como produto do
o fato de seus produtos serem mercadorias constitui seu caráter predo­ capital, já vai implícita, ademais, a materialização das determinações
minante e determinante. Implica, logo de início o fato de que, nele, o sociais da produção e a personificação de seus fundamentos materiais,
próprio trabalhador aparece como vendedor de mercadorias e, portanto, que caracterizam todo o regime de produção capitalista.
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A segunda característica específica do regime capitalista de pro­ produção — aparece uma parte do valor (produto) como mais-valia,
dução é a produção da mais-valia como finalidade direta e móvel deter­ e esta mais-valia como lucro (renda do solo), como lucro do capitalista,
minante da produção. O capital produz essencialmente capital, e, para como riqueza adicional disponível, pertencente a ele. E só porque
poder fazê-lo, não tem outro caminho a não ser produzir mais-valia. assim se apresenta — como seu lucro —aparecem os meios adicionais
Ao examinar a mais-valia relativa e, mais tarde, ao estudar a transfor­ de produção destinados a ampliar a reprodução, e que formam parte
mação da mais-valia em lucro, vimos que este é um dos fundamentos do lucro, como novo capital adicional, e a ampliação do processo de
sobre os quais repousa o regime de produção característico da época reprodução como um processo de acumulação capitalista.
capitalista, esta forma específica de desenvolvimento das forças produti­ Ainda que a forma do trabalho, enquanto trabalho assalariado,
vas sociais do trabalho, consideradas como forças do capital substan­ seja decisiva para a forma de todo o processo e para a modalidade
tivadas frente ao trabalhador, e, portanto, em contraposição direta com específica da própria produção, o trabalho assalariado não é o que
o próprio desenvolvimento deste. A produção decorrente do valor e determina o valor. Na determinação do valor, tratã-se do tempo social
da mais-valia tem implícita, como já observamos no decorrer da de trabalho, em geral, da quantidade de trabalho de que, em geral,
exposição, a tendência constante a reduzir o tempo de trabalho neces­ pode dispor a sociedade, e cuja absorção relativa pelos diversos pro­
sário para a produção de uma mercadoria, isto é, seu valor, a um limite dutos determina, de certo modo, seu respectivo peso social. A forma
inferior à média social vigente em cada momento. A tendência a reduzir concreta em que o tempo de trabalho social se impõe, como fator
o preço de custo a seu mínimo se converte na mais poderosa alavanca determinante, no valor das mercadorias mantém, indubitavelmente,
para a intensificação da força produtiva social do trabalho, que, sob esse relação com a forma do trabalho, enquanto trabalho assalariado, e
regime, só aparece como intensificação constante da força produtiva do com a forma correspondente dos meios de produção, como capital, no
capital, sentido de que, só sobre esta base, se converte a produção de merca­
A autoridade que o capitalista assume, no processo direto da dorias na forma geral da produção.
produção, como personificação do capital, a função social de que se Fixemo-nos, por outro lado, nas chamadas relações de distribuição.
reveste, como dirigente e governante da produção, difere essencial­ O salário pressupõe o trabalho assalariado, o lucro, o capital. Estas
mente da autoridade daqueles que dirigiam a produção baseada em formas concretas de distribuição pressupõem, portanto, determinados
escravos, servos etc. caracteres sociais, qu‘anto às condições de produção, e determinadas
Enquanto no regime capitalista de produção a massa dos produto­ relações sociais dos agentes de produção.. As relações concretas de
res diretos percebem o caráter social de sua produção, sob a forma de produção são, pois, simplesmente, a expressão das relações de produção
uma autoridade estritamente reguladora e de um mecanismo do processo historicamente determinadas.
de trabalho organizado como uma hierarquia completa — autoridade Tomemos, por exemplo, o lucro. Esta forma concreta da mais-
que, entretanto, só compete a quem a ostenta, como personificação das -valia constitui a premissa para o reagrupamento dos meios de produção,
condições de trabalho frente a este, e não, como em formas anteriores sob a forma da produção capitalista; é, portanto, uma relação que
de produção, enquanto titulares do poder político ou teocrático — impera sobre a reprodução, ainda que o capitalista individual pense
entre os representantes desta autoridade, ou seja, entre os próprios que poderia, realmente, consumir todo o lucro como renda. Fazendo
capitalistas, que se defrontam, simplesmente, como possuidores de isso, tropeçaria com uma série de impedimentos que se interpõem diante
mercadorias, reina a anarquia mais completa, dentro da qual a coesão dele sob a forma de fundos de seguros e de reserva, lei da concorrência
social da produção só se impõe à arbitrariedade individual como uma etc., e que lhe demonstram, praticamente, que o lucro não é, de modo
lei natural onipotente. algum, uma simples categoria de distribuição do produto entregue ao
Somente considerando o trabalho, sob a forma de trabalho assala­ consumo individual. Além disso, todo o processo de produção capita­
riado, e os meios de produção, sob a forma de capital assalariado, e os lista está regulado pelos preços dos produtos. E os preços reguladores
meios de produção, sob a forma de capital — isto é, só partindo da da produção estão regulados, por sua vez, pelo nivelamento da quota
existência da forma social específica desses dois agentes essenciais da de lucro e pela correspondente distribuição do capital entre os diversos
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A segunda característica específica do regime capitalista de pro­ produção — aparece uma parte do valor (produto) como mais-valia,
dução é a produção da mais-valia como finalidade direta e móvel deter­ e esta mais-valia como lucro (renda do solo), como lucro do capitalista,
minante da produção. O capital produz essencialmente capital, e, para como riqueza adicional disponível, pertencente a ele. E só porque
poder fazê-lo, não tem outro caminho a não ser produzir mais-valia. assim se apresenta — como seu lucro —aparecem os meios adicionais
Ao examinar a mais-valia relativa e, mais tarde, ao estudar a transfor­ de produção destinados a ampliar a reprodução, e que formam parte
mação da mais-valia em lucro, vimos que este é um dos fundamentos do lucro, como novo capital adicional, e a ampliação do processo de
sobre os quais repousa o regime de produção característico da época reprodução como um processo de acumulação capitalista.
capitalista, esta forma específica de desenvolvimento das forças produti­ Ainda que a forma do trabalho, enquanto trabalho assalariado,
vas sociais do trabalho, consideradas como forças do capital substan­ seja decisiva para a forma de todo o processo e para a modalidade
tivadas frente ao trabalhador, e, portanto, em contraposição direta com específica da própria produção, o trabalho assalariado não é o que
o próprio desenvolvimento deste. A produção decorrente do valor e determina o valor. Na determinação do valor, tratã-se do tempo social
da mais-valia tem implícita, como já observamos no decorrer da de trabalho, em geral, da quantidade de trabalho de que, em geral,
exposição, a tendência constante a reduzir o tempo de trabalho neces­ pode dispor a sociedade, e cuja absorção relativa pelos diversos pro­
sário para a produção de uma mercadoria, isto é, seu valor, a um limite dutos determina, de certo modo, seu respectivo peso social. A forma
inferior à média social vigente em cada momento. A tendência a reduzir concreta em que o tempo de trabalho social se impõe, como fator
o preço de custo a seu mínimo se converte na mais poderosa alavanca determinante, no valor das mercadorias mantém, indubitavelmente,
para a intensificação da força produtiva social do trabalho, que, sob esse relação com a forma do trabalho, enquanto trabalho assalariado, e
regime, só aparece como intensificação constante da força produtiva do com a forma correspondente dos meios de produção, como capital, no
capital, sentido de que, só sobre esta base, se converte a produção de merca­
A autoridade que o capitalista assume, no processo direto da dorias na forma geral da produção.
produção, como personificação do capital, a função social de que se Fixemo-nos, por outro lado, nas chamadas relações de distribuição.
reveste, como dirigente e governante da produção, difere essencial­ O salário pressupõe o trabalho assalariado, o lucro, o capital. Estas
mente da autoridade daqueles que dirigiam a produção baseada em formas concretas de distribuição pressupõem, portanto, determinados
escravos, servos etc. caracteres sociais, qu‘anto às condições de produção, e determinadas
Enquanto no regime capitalista de produção a massa dos produto­ relações sociais dos agentes de produção.. As relações concretas de
res diretos percebem o caráter social de sua produção, sob a forma de produção são, pois, simplesmente, a expressão das relações de produção
uma autoridade estritamente reguladora e de um mecanismo do processo historicamente determinadas.
de trabalho organizado como uma hierarquia completa — autoridade Tomemos, por exemplo, o lucro. Esta forma concreta da mais-
que, entretanto, só compete a quem a ostenta, como personificação das -valia constitui a premissa para o reagrupamento dos meios de produção,
condições de trabalho frente a este, e não, como em formas anteriores sob a forma da produção capitalista; é, portanto, uma relação que
de produção, enquanto titulares do poder político ou teocrático — impera sobre a reprodução, ainda que o capitalista individual pense
entre os representantes desta autoridade, ou seja, entre os próprios que poderia, realmente, consumir todo o lucro como renda. Fazendo
capitalistas, que se defrontam, simplesmente, como possuidores de isso, tropeçaria com uma série de impedimentos que se interpõem diante
mercadorias, reina a anarquia mais completa, dentro da qual a coesão dele sob a forma de fundos de seguros e de reserva, lei da concorrência
social da produção só se impõe à arbitrariedade individual como uma etc., e que lhe demonstram, praticamente, que o lucro não é, de modo
lei natural onipotente. algum, uma simples categoria de distribuição do produto entregue ao
Somente considerando o trabalho, sob a forma de trabalho assala­ consumo individual. Além disso, todo o processo de produção capita­
riado, e os meios de produção, sob a forma de capital assalariado, e os lista está regulado pelos preços dos produtos. E os preços reguladores
meios de produção, sob a forma de capital — isto é, só partindo da da produção estão regulados, por sua vez, pelo nivelamento da quota
existência da forma social específica desses dois agentes essenciais da de lucro e pela correspondente distribuição do capital entre os diversos
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81
ramos sociais de produção. Por conseguinte, o lucro aparece, aqui, da crítica já iniciada, mas ainda rudimentar, da economia burguesa.
como fator fundamental, já não da distribuição dos produtos, mas sim De outro lado, tem a sua base na confusão e identificação do processo
de sua própria produção, como parte da distribuição dos capitais e do social da produção com o processo simples de trabalho, tal como
próprio trabalho entre diversos ramos de produção. O desdobramento poderia ser executado por um indivíduo anormalmente isolado, sem
do lucro em benefício do empresário e do juro aparece como distribui­ qualquer ajuda da sociedade. Quando o processo de trabalho não é
ção da própria renda. Mas, na verdade, surge do desenvolvimento do mais que um simples processo entre o Homem e a Natureza, seus
capital como valor que valoriza a si mesmo, que engendra mais-valia; elementos simples são comuns a todas as formas sociais de desenvol­
surge desta forma social concreta do proceâso de produção imperante. vimento do mesmo. Mas cada forma histórica concreta desse processo
Aí nascem o crédito e as instituições de crédito e, com isso, a forma da continua desenvolvendo suas bases materiais e suas formas históricas.
produção. No juro etc., as supostas formas de distribuição entram no Ao alcançar uma certa forma de amadurecimento, a forma histórica
preço como fatores determinantes da produção. concreta é abandonada e deixa o posto para outra mais alta. A chegada
Quanto à renda do solo, poder-se-ia pensar que é uma simples do momento da crise se anuncia ao se apresentar e ganhar extensão e
forma de distribuição, porque a propriedade imobiliária como tal não profundidade a contradição e o antagonismo entre as relações de distri­
exerce nenhuma função ou, pelo menos, não exerce nenhuma função buição e, portanto, a forma histórica concreta das relações de produção
normal, no próprio processo da produção. Mas o fato de que: l.°) correspondentes a elas, por um lado, e, por outro lado, as forças
a renda do solo se limite ao remanescente sobre o lucro médio, e 2.°) o produtivas, a capacidade de produção e o desenvolvimento de seus
proprietário se veja rebaixado pelo dirigente e governante do processo agentes. Surge, então, um conflito entre o desenvolvimento material
de produção e de todo o processo da vida social ao papel de simples da produção e sua forma social. 2
arrendatário da terra, de usurário desta e de mero perceptor de rendas,
constitui um resultado histórico específico da produção capitalista. Uma
premissa histórica deste regime de produção é o fato de que a terra
tenha adotado a forma de propriedade imobiliária. O fato de que a
propriedade territorial se apresente sob formas que permitam o regime
capitalista de exploração da agricultura constitui um produto do caráter
específico desse tipo de produção. Pode ocorrer que o que o proprietá­
rio receba, em outros tipos de sociedade, se chame também renda. Mas
difere substancialmente da renda característica desse sistema de pro­
dução.
As chamadas relações de distribuição correspondem, pois, a formas
historicamente determinadas e especificamente sociais do processo de
produção, das quais surgem, e às relações que os homens contraem
entre si no processo de reprodução de sua vida humana. O caráter
histórico dessas relações de distribuição é o caráter histórico das relações
de produção, das quais aquelas só expressam um aspecto. A distribui­
ção capitalista difere das formas de distribuição que correspondem a
outros tipos de produção, e cada forma de distribuição desaparece ao
desaparecer a forma determinada de produção da qual nasce e à qual
corresponde.
O ponto de vista que só considera como históricas as relações de
distribuição, mas não as de produção, é, de um lado, o ponto de vista 2 Veja-se a obra sobre Competition and Co-operation (1832?).
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ramos sociais de produção. Por conseguinte, o lucro aparece, aqui, da crítica já iniciada, mas ainda rudimentar, da economia burguesa.
como fator fundamental, já não da distribuição dos produtos, mas sim De outro lado, tem a sua base na confusão e identificação do processo
de sua própria produção, como parte da distribuição dos capitais e do social da produção com o processo simples de trabalho, tal como
próprio trabalho entre diversos ramos de produção. O desdobramento poderia ser executado por um indivíduo anormalmente isolado, sem
do lucro em benefício do empresário e do juro aparece como distribui­ qualquer ajuda da sociedade. Quando o processo de trabalho não é
ção da própria renda. Mas, na verdade, surge do desenvolvimento do mais que um simples processo entre o Homem e a Natureza, seus
capital como valor que valoriza a si mesmo, que engendra mais-valia; elementos simples são comuns a todas as formas sociais de desenvol­
surge desta forma social concreta do proceâso de produção imperante. vimento do mesmo. Mas cada forma histórica concreta desse processo
Aí nascem o crédito e as instituições de crédito e, com isso, a forma da continua desenvolvendo suas bases materiais e suas formas históricas.
produção. No juro etc., as supostas formas de distribuição entram no Ao alcançar uma certa forma de amadurecimento, a forma histórica
preço como fatores determinantes da produção. concreta é abandonada e deixa o posto para outra mais alta. A chegada
Quanto à renda do solo, poder-se-ia pensar que é uma simples do momento da crise se anuncia ao se apresentar e ganhar extensão e
forma de distribuição, porque a propriedade imobiliária como tal não profundidade a contradição e o antagonismo entre as relações de distri­
exerce nenhuma função ou, pelo menos, não exerce nenhuma função buição e, portanto, a forma histórica concreta das relações de produção
normal, no próprio processo da produção. Mas o fato de que: l.°) correspondentes a elas, por um lado, e, por outro lado, as forças
a renda do solo se limite ao remanescente sobre o lucro médio, e 2.°) o produtivas, a capacidade de produção e o desenvolvimento de seus
proprietário se veja rebaixado pelo dirigente e governante do processo agentes. Surge, então, um conflito entre o desenvolvimento material
de produção e de todo o processo da vida social ao papel de simples da produção e sua forma social. 2
arrendatário da terra, de usurário desta e de mero perceptor de rendas,
constitui um resultado histórico específico da produção capitalista. Uma
premissa histórica deste regime de produção é o fato de que a terra
tenha adotado a forma de propriedade imobiliária. O fato de que a
propriedade territorial se apresente sob formas que permitam o regime
capitalista de exploração da agricultura constitui um produto do caráter
específico desse tipo de produção. Pode ocorrer que o que o proprietá­
rio receba, em outros tipos de sociedade, se chame também renda. Mas
difere substancialmente da renda característica desse sistema de pro­
dução.
As chamadas relações de distribuição correspondem, pois, a formas
historicamente determinadas e especificamente sociais do processo de
produção, das quais surgem, e às relações que os homens contraem
entre si no processo de reprodução de sua vida humana. O caráter
histórico dessas relações de distribuição é o caráter histórico das relações
de produção, das quais aquelas só expressam um aspecto. A distribui­
ção capitalista difere das formas de distribuição que correspondem a
outros tipos de produção, e cada forma de distribuição desaparece ao
desaparecer a forma determinada de produção da qual nasce e à qual
corresponde.
O ponto de vista que só considera como históricas as relações de
distribuição, mas não as de produção, é, de um lado, o ponto de vista 2 Veja-se a obra sobre Competition and Co-operation (1832?).
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produção da vida material condiciona o processo de vida social, política


e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina a
realidade; ao contrário, é a realidade social que determina sua cons­
ciência. Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas da
sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes
4. INFRA-ESTRUTURA E SUPERESTRUTURA ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de
propriedade, no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então.
De formas evolutivas das forças produtivas, que eram, essas relações
convertem-se em seus entraves. Abre-se, então, uma era de revolução
social. A transformação que se produziu na base econômica transtorna
mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura.
Quando se consideram tais transformações, convém^ distinguir, sempre,
4.1. O “prefácio” da Contribuição à Crítica da Economia a transformação material das condições econômicas de produção —
Política * que podem ser verificadas, fielmente, com a ajuda das ciências físicas
e naturais — e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou
O primeiro trabalho que empreendi, para resolver as dúvidas que filosóficas, em resumo, as formas ideológicas, sob as quais os homens
me assaltavam, foi uma revisão crítica da Filosofia do Direito, de Hegel, adquirem consciência desse conflito e o levam até ao fim. Do mesmo
trabalho cuja introdução apareceu nos Anais Franco-alemães, publica­ modo que não se julga o indivíduo pela idéia que de si mesmo faz,
dos em Paris, em 1844. Minhas investigações me conduziram ao tampouco se pode julgar uma tal época de abalos pela consciência que
seguinte resultado: as relações jurídicas, bem como as formas do Estado,
ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência
não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolução
pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as
geral do espírito humano; estas relações têm, ao contrário, suas raízes
forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade
nas condições materiais de existência, em seu conjunto, condições estas
que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século XVIII, jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças
compreendia sob o nome de “sociedade civil”. Cheguei, também, à produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e supe­
conclusão de que a anatomia da sociedade deve ser procurada na riores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de
Economia política. Eu havia começado o estudo desta última em Paris existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da
e o continuara em Bruxelas, bnde eu me havia estabelecido, em conse­ velha sociedade. Eis por que a humanidade não se propõe nunca senão
quência de uma sentença dé expulsão ditada pelo Sr. Guizot contra os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise,
mim. O resultado geral a qpe cheguei e que, uma vez obtido, serviu ver-se-á, sempre, que o próprio problema só se apresenta quando as
de guia para meus estudos, jpode formular-se, (resumidamente, assim: condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir.
na produção social da própria existência, os homens entram em relações Esboçados, em largos traços, os modos de produção asiáticos, antigos,
determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações feudais e burgueses modernos, podem ser designados como outras tantas
de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento épocas progressivas da formação social econômica. As relações de
de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de
produção constitui a; estrutura econômica da sociedade, a base real sobre produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo indivi­
a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual corres­ dual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência
pondem formas; sociais determinadas de consciência. O modo de sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio
da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais
para resolver este antagonismo. Com esta formação social termina,
* Reproduzido de Marx, K. “Prefácio.” In: Contribuição à Crítica da Economia
Política. Trad. por Florestan Fernandes. São Paulo, Ed. .Flama, 1946. p. 30-32. pois, a pré-história da sociedade humana.
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produção da vida material condiciona o processo de vida social, política


e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina a
realidade; ao contrário, é a realidade social que determina sua cons­
ciência. Em certa fase de seu desenvolvimento, as forças produtivas da
sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes
4. INFRA-ESTRUTURA E SUPERESTRUTURA ou, o que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de
propriedade, no seio das quais elas se haviam desenvolvido até então.
De formas evolutivas das forças produtivas, que eram, essas relações
convertem-se em seus entraves. Abre-se, então, uma era de revolução
social. A transformação que se produziu na base econômica transtorna
mais ou menos lenta ou rapidamente toda a colossal superestrutura.
Quando se consideram tais transformações, convém^ distinguir, sempre,
4.1. O “prefácio” da Contribuição à Crítica da Economia a transformação material das condições econômicas de produção —
Política * que podem ser verificadas, fielmente, com a ajuda das ciências físicas
e naturais — e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou
O primeiro trabalho que empreendi, para resolver as dúvidas que filosóficas, em resumo, as formas ideológicas, sob as quais os homens
me assaltavam, foi uma revisão crítica da Filosofia do Direito, de Hegel, adquirem consciência desse conflito e o levam até ao fim. Do mesmo
trabalho cuja introdução apareceu nos Anais Franco-alemães, publica­ modo que não se julga o indivíduo pela idéia que de si mesmo faz,
dos em Paris, em 1844. Minhas investigações me conduziram ao tampouco se pode julgar uma tal época de abalos pela consciência que
seguinte resultado: as relações jurídicas, bem como as formas do Estado,
ela tem de si mesma. É preciso, ao contrário, explicar esta consciência
não podem ser explicadas por si mesmas, nem pela chamada evolução
pelas contradições da vida material, pelo conflito que existe entre as
geral do espírito humano; estas relações têm, ao contrário, suas raízes
forças produtivas sociais e as relações de produção. Uma sociedade
nas condições materiais de existência, em seu conjunto, condições estas
que Hegel, a exemplo dos ingleses e dos franceses do século XVIII, jamais desaparece antes que estejam desenvolvidas todas as forças
compreendia sob o nome de “sociedade civil”. Cheguei, também, à produtivas que possa conter, e as relações de produção novas e supe­
conclusão de que a anatomia da sociedade deve ser procurada na riores não tomam jamais seu lugar antes que as condições materiais de
Economia política. Eu havia começado o estudo desta última em Paris existência dessas relações tenham sido incubadas no próprio seio da
e o continuara em Bruxelas, bnde eu me havia estabelecido, em conse­ velha sociedade. Eis por que a humanidade não se propõe nunca senão
quência de uma sentença dé expulsão ditada pelo Sr. Guizot contra os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a análise,
mim. O resultado geral a qpe cheguei e que, uma vez obtido, serviu ver-se-á, sempre, que o próprio problema só se apresenta quando as
de guia para meus estudos, jpode formular-se, (resumidamente, assim: condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir.
na produção social da própria existência, os homens entram em relações Esboçados, em largos traços, os modos de produção asiáticos, antigos,
determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; estas relações feudais e burgueses modernos, podem ser designados como outras tantas
de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento épocas progressivas da formação social econômica. As relações de
de suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção burguesas são a última forma antagônica do processo de
produção constitui a; estrutura econômica da sociedade, a base real sobre produção social, antagônica não no sentido de um antagonismo indivi­
a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual corres­ dual, mas de um antagonismo que nasce das condições de existência
pondem formas; sociais determinadas de consciência. O modo de sociais dos indivíduos; as forças produtivas que se desenvolvem no seio
da sociedade burguesa criam, ao mesmo tempo, as condições materiais
para resolver este antagonismo. Com esta formação social termina,
* Reproduzido de Marx, K. “Prefácio.” In: Contribuição à Crítica da Economia
Política. Trad. por Florestan Fernandes. São Paulo, Ed. .Flama, 1946. p. 30-32. pois, a pré-história da sociedade humana.
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4.2. Carta de Marx a P. V. Aiuienkov * não pode explicar esses fatos e recorre, então, à sua hipótese —
verdadeiro achado — da razão universal que se revela a si mesma.
[Bruxelas], 28 de dezembro [de 1846]. Nada mais fácil que inventar causas místicas, isto é, frases, quando se
O senhor teria recebido minha resposta à sua carta de l.° de ' carece de bom-senso.
novembro, já há muito tempo, se meu livreiro não me tivesse mandado Mas, uma vez que o senhor Proudhon reconhece que não com­
somente na semana passada a obra do senhor Proudhon A Filosofia preende, de modo algum, o desenvolvimento histórico da humanidade
da Miséria. Li-a rapidamente, em dois dias apenas, a fim de trans­ — como faz ao apelar para palavras sonoras: razão universal, Deus
mitir-lhe, sem perda de tempo, minha opinião. Por tê-la lido apressa- < etc. — não estaria ele, por acaso, reconhecendo, também, implicita­
damente, não posso entrar em detalhes, e limito-me a falar-lhe da mente, que é incapaz de compreender o desenvolvimento econômico!
impressão geral que me produziu. Se assim o desejar, poderei estender-me Que é a sociedade, qualquer que seja a sua forma? O produto
mais em detalhes em outra carta. da ação recíproca dos homens. Podem os homens eleger livremente
Confesso-lhe, francamente, que o livro me pareceu, em geral, ruim, esta ou aquela forma social? Nada disso. A um determinado nível do
muito ruim. O senhor mesmo ironiza, em sua carta, referindo-se ao desenvolvimento das forças produtivas dos homens corresponde uma
‘"estandarte da filosofia alemã” alardeado pelo senhor Proudhon, nesta determinada forma de comércio e de consumo. A determinadas fases
obra informe e presunçosa; mas o senhor admite que o veneno da de desenvolvimento da produção, do comércio, do consumo correspon­
filosofia não afetou suas investigações econômicas. Eu também estou dem determinadas formas de organização social, uma determinada
muito longe de imputar à filosofia do senhor Proudhon os erros de organização da família, das camadas sociais ou das classes; em síntese:
suas investigações econômicas. O senhor Proudhon não nos oferece uma determinada sociedade civil. A uma determinada sociedade civil
uma crítica falsa da Economia política pelo fato de basear-se numa filo­ corresponde um determinado Estado político, que não é mais que a
sofia ridícula; oferece-nos, na verdade, uma filosofia ridícula, porque expressão oficial daquela. Isto é o que o senhor Proudhon jamais
não compreendeu a situação social de nossos dias em sua engrenagem chegará a compreender, pois acredita que concebe grandiosidade, quando
(engrénement'), para usarmos esta palavra, que, como muitas outras fala da sociedade civil como decorrência do Estado, isto é, da síntese
coisas, o senhor Proudhon tomou emprestada de Fourier. oficial da sociedade como fruto da sociedade oficial.
Por que o senhor Proudhon fala de Deus, da razão universal, da Falta acrescentar que os homens não arbitram livremente sobre
razão impessoal da humanidade, razão que nunca se equivoca, que suas forças produtivas — base de toda a sua História, pois toda força
sempre é igual a si mesma, de tal modo que bastaria a alguém ter produtiva é uma força já adquirida, produto de uma atividade anterior.
consciência dela para chegar à verdade? Por que o senhor Proudhon Portanto, as forças produtivas são o resultado da energia posta em prática
recorre, em suas especulações, a um hegelianismo superficial para pare­ pelos homens; mas essa energia é determinada, ela mesma, pelas con­
cer um esprit fortl dições em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já
adquiridas, pela forma social que lhes é anterior, que eles não criaram
Ê o mesmo senhor Proudhon quem nos dá a chave do enigma.
e que é produto da geração prévia. O simples fato de que toda geração
Para ele, a História é uma série determinada de desenvolvimentos sociais.
nova se defronta com forças produtivas adquiridas pela geração prece­
Vê na História a realização do progresso. Julga, finalmente, que os
dente e que servem de matéria-prima para a nova produção, dá à
homens, tomados como indivíduos, não sabiam o que faziam e imagi­
História um encadeamento, forjando uma História da Humanidade, que
navam de modo errôneo seu próprio movimento, isto é, que seu desen- \
é tanto mais a História da Humanidade quanto maior for o desenvol­
volvimento social parece, à primeira vista, algo diferente, separado, j
vimento de suas forças produtivas e, por conseguinte, de suas relações
independente de seu desenvolvimento individual. O senhor Proudhon
sociais. Conseqüência obrigatória: a história social dos homens nada
mais é que a história de seu desenvolvimento individual, tenham, ou não
* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Obras escogidas. Moscou, Ediciones eles próprios consciência disso. Suas relações materiais formam a base
en Lenguas Extranjeras, 1952. t. II, p. 414-24. Trad. por Maria Elisa Mascarenhas. de todas as demais relações. Essas relações materiais não são mais que
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4.2. Carta de Marx a P. V. Aiuienkov * não pode explicar esses fatos e recorre, então, à sua hipótese —
verdadeiro achado — da razão universal que se revela a si mesma.
[Bruxelas], 28 de dezembro [de 1846]. Nada mais fácil que inventar causas místicas, isto é, frases, quando se
O senhor teria recebido minha resposta à sua carta de l.° de ' carece de bom-senso.
novembro, já há muito tempo, se meu livreiro não me tivesse mandado Mas, uma vez que o senhor Proudhon reconhece que não com­
somente na semana passada a obra do senhor Proudhon A Filosofia preende, de modo algum, o desenvolvimento histórico da humanidade
da Miséria. Li-a rapidamente, em dois dias apenas, a fim de trans­ — como faz ao apelar para palavras sonoras: razão universal, Deus
mitir-lhe, sem perda de tempo, minha opinião. Por tê-la lido apressa- < etc. — não estaria ele, por acaso, reconhecendo, também, implicita­
damente, não posso entrar em detalhes, e limito-me a falar-lhe da mente, que é incapaz de compreender o desenvolvimento econômico!
impressão geral que me produziu. Se assim o desejar, poderei estender-me Que é a sociedade, qualquer que seja a sua forma? O produto
mais em detalhes em outra carta. da ação recíproca dos homens. Podem os homens eleger livremente
Confesso-lhe, francamente, que o livro me pareceu, em geral, ruim, esta ou aquela forma social? Nada disso. A um determinado nível do
muito ruim. O senhor mesmo ironiza, em sua carta, referindo-se ao desenvolvimento das forças produtivas dos homens corresponde uma
‘"estandarte da filosofia alemã” alardeado pelo senhor Proudhon, nesta determinada forma de comércio e de consumo. A determinadas fases
obra informe e presunçosa; mas o senhor admite que o veneno da de desenvolvimento da produção, do comércio, do consumo correspon­
filosofia não afetou suas investigações econômicas. Eu também estou dem determinadas formas de organização social, uma determinada
muito longe de imputar à filosofia do senhor Proudhon os erros de organização da família, das camadas sociais ou das classes; em síntese:
suas investigações econômicas. O senhor Proudhon não nos oferece uma determinada sociedade civil. A uma determinada sociedade civil
uma crítica falsa da Economia política pelo fato de basear-se numa filo­ corresponde um determinado Estado político, que não é mais que a
sofia ridícula; oferece-nos, na verdade, uma filosofia ridícula, porque expressão oficial daquela. Isto é o que o senhor Proudhon jamais
não compreendeu a situação social de nossos dias em sua engrenagem chegará a compreender, pois acredita que concebe grandiosidade, quando
(engrénement'), para usarmos esta palavra, que, como muitas outras fala da sociedade civil como decorrência do Estado, isto é, da síntese
coisas, o senhor Proudhon tomou emprestada de Fourier. oficial da sociedade como fruto da sociedade oficial.
Por que o senhor Proudhon fala de Deus, da razão universal, da Falta acrescentar que os homens não arbitram livremente sobre
razão impessoal da humanidade, razão que nunca se equivoca, que suas forças produtivas — base de toda a sua História, pois toda força
sempre é igual a si mesma, de tal modo que bastaria a alguém ter produtiva é uma força já adquirida, produto de uma atividade anterior.
consciência dela para chegar à verdade? Por que o senhor Proudhon Portanto, as forças produtivas são o resultado da energia posta em prática
recorre, em suas especulações, a um hegelianismo superficial para pare­ pelos homens; mas essa energia é determinada, ela mesma, pelas con­
cer um esprit fortl dições em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já
adquiridas, pela forma social que lhes é anterior, que eles não criaram
Ê o mesmo senhor Proudhon quem nos dá a chave do enigma.
e que é produto da geração prévia. O simples fato de que toda geração
Para ele, a História é uma série determinada de desenvolvimentos sociais.
nova se defronta com forças produtivas adquiridas pela geração prece­
Vê na História a realização do progresso. Julga, finalmente, que os
dente e que servem de matéria-prima para a nova produção, dá à
homens, tomados como indivíduos, não sabiam o que faziam e imagi­
História um encadeamento, forjando uma História da Humanidade, que
navam de modo errôneo seu próprio movimento, isto é, que seu desen- \
é tanto mais a História da Humanidade quanto maior for o desenvol­
volvimento social parece, à primeira vista, algo diferente, separado, j
vimento de suas forças produtivas e, por conseguinte, de suas relações
independente de seu desenvolvimento individual. O senhor Proudhon
sociais. Conseqüência obrigatória: a história social dos homens nada
mais é que a história de seu desenvolvimento individual, tenham, ou não
* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Obras escogidas. Moscou, Ediciones eles próprios consciência disso. Suas relações materiais formam a base
en Lenguas Extranjeras, 1952. t. II, p. 414-24. Trad. por Maria Elisa Mascarenhas. de todas as demais relações. Essas relações materiais não são mais que
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as formas necessárias sob as quais se realiza sua atividade material e seio místico da idéia absoluta. Se alguém arranca o véu dessa linguagem
individual. mística, o que se revela é a ordem em que as categorias econômicas
O senhor Proudhon confunde as idéias com as coisas. Os homens estão alinhadas na cabeça do senhor Proudhon. Não me esforçarei
nunca renunciam ao que já conquistaram; mas isso não quer dizer que muito para lhe provar que esta é a ordem de um cérebro muito desor­
nunca renunciem às formas sociais sob as quais adquiriram determina­ denado.
das forças produtivas. Muito pelo contrário: para não se verem privados O senhor Proudhon inicia o seu livro com uma dissertação sobre
dos resultados adquiridos, para não perderem os frutos da civilização, o valor, que é seu tema predileto. Não entrarei, aqui, na análise dessa
os homens se vêem constrangidos, a partir do momento em que a forma dissertação.
de seu comércio já não corresponde às forças produtivas alcançadas, a
modificar todas as suas formas sociais tradicionais. Emprego, aqui, a A série de evoluções econômicas da razão eterna começa com a
palavra “comércio”, em seu sentido mais amplo, para designar o que divisão do trabalho. Para o senhor Proudhon, a divisão do trabalho é
em alemão denominamos FerA:e/zr. Assim3 por exemplo, os privilégios, uma coisa bem simples. Mas não foi o regime das castas uma determi­
a instituição de grêmios e corporações, as numerosas relações estabe­ nada divisão do trabalho? Não foi o regime das corporações outra
lecidas entre os homens, na Idade Média, eram relações sociais que divisão do trabalho? E a divisão do trabalho do regime da manufatura,
correspondiam tão-somente às forças produtivas adquiridas e ao estado que começou em meados do século XVII e terminou em fins do século
social anterior, do qual essas instituições haviam brotado. Sob a tutela XVIII, na Inglaterra, não foi, por sua vez, totalmente diferente daquela
do regime das corporações e das ordenanças, foram acumulados capitais, da grande indústria, da indústria moderna?
desenvolveu-se um comércio marítimo, foram fundadas colônias; e os O senhor Proudhon está tão longe da verdade, que omite, inclusive,
homens teriam perdido esses frutos de sua atividade, se tivessem se o que os economistas profanos já tomam em consideração. Quando
empenhado em conservar as formas à sombra das quais estes haviam fala da divisão do trabalho, esquiva-se, por achar desnecessário, de
amadurecido. Em razão disso, duas revoluções ocorreram: a de 1640 falar do mercado mundial. Então, acaso a divisão do trabalho nos
e a de 1688. Na Inglaterra, foram abolidas todas as antigas formas séculos XIV e XV, quando ainda não havia colônias, quando a América
econômicas, as relações sociais a elas correspondentes e a situação não existia ainda para a Europa, e só se podia chegar à Ásia Oriental
política, que era a expressão oficial da velha sociedade civil. Assim, as através de Constantinopla, não era diferente, em essência, da que se
formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e verificou no século XVII, quando as colônias já se encontravam desen­
permutam, são transitórias e históricas. Ao adquirir novas forças pro­ volvidas? Mas isso não é tudo. Toda organização interna dos povos,
dutivas, os homens mudam seu modo de produção e, com este, também, todas as suas relações internacionais são, porventura, outra coisa além
todas as relações econômicas, que nada mais eram que as relações da expressão de certa divisão do trabalho? Não devem, pois, alterar-se
necessárias àquele modo concreto de produção. com as modificações da divisão do trabalho?
• Isto é o que o senhor Proudhon não soube compreender, e, menos O senhor Proudhon compreendeu tão pouco o problema da divisão
ainda, demonstrar. Incapaz de seguir o movimento real da História, do trabalho, que nem sequer fala da separação entre cidade e campo,
ele nos oferece divagações supostamente dialéticas. Não sente a neces­ que na Alemanha, por exemplo, se operou entre os séculos IX e XII.
sidade de abordar os séculos XVII, XVIII e XIX, porque sua história
Assim, portanto, essa separação deve ser uma lei eterna para o senhor
se passa nos nebulosos ambientes da imaginação, e paira, muito alto,
Proudhon, já que ele não conhece nem sua origem nem seu desenvol­
acima do tempo e do espaço. Em resumo, isso não é a História; todas
essas idéias são velhas tolices hegelianas; não é uma história profana,
vimento. Em. todo o seu livro ele fala como se essa criação de um modo
mas sim uma história sagrada ■—■ a história das idéias. Em seu modo de produção determinado devesse existir até ao fim do mundo. Tudo
de ver, o homem é apenas um instrumento do qual se vale a idéia ou o que o senhor Proudhon diz sobre a divisão do trabalho é apenas um
a razão eterna, para se desenvolver. ' As evoluções de que nos fala o resumo, certamente muito superficial e incompleto, do que foi dito
senhor Proudhon são concebidas como evoluções que se efetivam no anteriormente por Adam Smith e milhares de outros autores.
86 87

as formas necessárias sob as quais se realiza sua atividade material e seio místico da idéia absoluta. Se alguém arranca o véu dessa linguagem
individual. mística, o que se revela é a ordem em que as categorias econômicas
O senhor Proudhon confunde as idéias com as coisas. Os homens estão alinhadas na cabeça do senhor Proudhon. Não me esforçarei
nunca renunciam ao que já conquistaram; mas isso não quer dizer que muito para lhe provar que esta é a ordem de um cérebro muito desor­
nunca renunciem às formas sociais sob as quais adquiriram determina­ denado.
das forças produtivas. Muito pelo contrário: para não se verem privados O senhor Proudhon inicia o seu livro com uma dissertação sobre
dos resultados adquiridos, para não perderem os frutos da civilização, o valor, que é seu tema predileto. Não entrarei, aqui, na análise dessa
os homens se vêem constrangidos, a partir do momento em que a forma dissertação.
de seu comércio já não corresponde às forças produtivas alcançadas, a
modificar todas as suas formas sociais tradicionais. Emprego, aqui, a A série de evoluções econômicas da razão eterna começa com a
palavra “comércio”, em seu sentido mais amplo, para designar o que divisão do trabalho. Para o senhor Proudhon, a divisão do trabalho é
em alemão denominamos FerA:e/zr. Assim3 por exemplo, os privilégios, uma coisa bem simples. Mas não foi o regime das castas uma determi­
a instituição de grêmios e corporações, as numerosas relações estabe­ nada divisão do trabalho? Não foi o regime das corporações outra
lecidas entre os homens, na Idade Média, eram relações sociais que divisão do trabalho? E a divisão do trabalho do regime da manufatura,
correspondiam tão-somente às forças produtivas adquiridas e ao estado que começou em meados do século XVII e terminou em fins do século
social anterior, do qual essas instituições haviam brotado. Sob a tutela XVIII, na Inglaterra, não foi, por sua vez, totalmente diferente daquela
do regime das corporações e das ordenanças, foram acumulados capitais, da grande indústria, da indústria moderna?
desenvolveu-se um comércio marítimo, foram fundadas colônias; e os O senhor Proudhon está tão longe da verdade, que omite, inclusive,
homens teriam perdido esses frutos de sua atividade, se tivessem se o que os economistas profanos já tomam em consideração. Quando
empenhado em conservar as formas à sombra das quais estes haviam fala da divisão do trabalho, esquiva-se, por achar desnecessário, de
amadurecido. Em razão disso, duas revoluções ocorreram: a de 1640 falar do mercado mundial. Então, acaso a divisão do trabalho nos
e a de 1688. Na Inglaterra, foram abolidas todas as antigas formas séculos XIV e XV, quando ainda não havia colônias, quando a América
econômicas, as relações sociais a elas correspondentes e a situação não existia ainda para a Europa, e só se podia chegar à Ásia Oriental
política, que era a expressão oficial da velha sociedade civil. Assim, as através de Constantinopla, não era diferente, em essência, da que se
formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e verificou no século XVII, quando as colônias já se encontravam desen­
permutam, são transitórias e históricas. Ao adquirir novas forças pro­ volvidas? Mas isso não é tudo. Toda organização interna dos povos,
dutivas, os homens mudam seu modo de produção e, com este, também, todas as suas relações internacionais são, porventura, outra coisa além
todas as relações econômicas, que nada mais eram que as relações da expressão de certa divisão do trabalho? Não devem, pois, alterar-se
necessárias àquele modo concreto de produção. com as modificações da divisão do trabalho?
• Isto é o que o senhor Proudhon não soube compreender, e, menos O senhor Proudhon compreendeu tão pouco o problema da divisão
ainda, demonstrar. Incapaz de seguir o movimento real da História, do trabalho, que nem sequer fala da separação entre cidade e campo,
ele nos oferece divagações supostamente dialéticas. Não sente a neces­ que na Alemanha, por exemplo, se operou entre os séculos IX e XII.
sidade de abordar os séculos XVII, XVIII e XIX, porque sua história
Assim, portanto, essa separação deve ser uma lei eterna para o senhor
se passa nos nebulosos ambientes da imaginação, e paira, muito alto,
Proudhon, já que ele não conhece nem sua origem nem seu desenvol­
acima do tempo e do espaço. Em resumo, isso não é a História; todas
essas idéias são velhas tolices hegelianas; não é uma história profana,
vimento. Em. todo o seu livro ele fala como se essa criação de um modo
mas sim uma história sagrada ■—■ a história das idéias. Em seu modo de produção determinado devesse existir até ao fim do mundo. Tudo
de ver, o homem é apenas um instrumento do qual se vale a idéia ou o que o senhor Proudhon diz sobre a divisão do trabalho é apenas um
a razão eterna, para se desenvolver. ' As evoluções de que nos fala o resumo, certamente muito superficial e incompleto, do que foi dito
senhor Proudhon são concebidas como evoluções que se efetivam no anteriormente por Adam Smith e milhares de outros autores.
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A segunda evolução refere-se às máquinas. Para o senhor seu cérebro, precisamente na ordem em que aqui indico. Quase todas
Proudhon, a conexão existente entre a divisão do trabalho e as má­ as instituições de crédito já se haviam desenvolvido, na Inglaterra, no
quinas é inteiramente mística. Cada uma das formas de divisão do começo do século XVIII, antes da invenção das máquinas. O crédito
trabalho tem seus instrumentos de produção específicos. Desde o público não era mais que uma nova maneira de se elevar os impostos
meado do século XVII até o do XVIII, por exemplo, os homens já não e de se satisfazer as novas demandas originadas pela chegada da bur­
faziam tudo apenas manualmente. Possuíam instrumentos, e instru­ guesia ao Poder. Finalmente, a propriedade constitui a última categoria
mentos bastante complexos, como teares, navios, alavancas etc., etc. no sistema do senhor Proudhon. No mundo real, pelo contrário, a
Assim, portanto, nada mais ridículo que derivar as máquinas da divisão do trabalho e todas as demais categorias do senhor Proudhon
divisão do trabalho em geral. são relações sociais, cujo conjunto forma o que atualmente se denomina
propriedade} fora dessas relações, a propriedade burguesa é apenas uma
Assinalo, também, rapidamente, que se o senhor Proudhon não ilusão metafísica ou jurídica. A propriedade de çutra época, a proprie­
logrou compreender a origem histórica das máquinas, menos ainda dade feudal, se desenvolve em uma série de relações sociais completa­
compreendeu o seu desenvolvimento. Podemos dizer que, até 1825, mente distintas. Quando estabelece a propriedade como uma relação
data da primeira crise mundial, as necessidades do consumo cresciam, independente, o senhor Proudhon comete algo mais que um mero erro
em geral, mais rapidamente que a produção, e o desenvolvimento das de método: prova, claramente, que não compreendeu o vínculo que liga
máquinas foi, desse modo, conseqüência forçada das necessidades do todas as formas da produção burguesa} que não compreendeu o caráter
mercado. A partir de 1825, a invenção e a aplicação de novas histórico e transitório das formas da produção, numa época determinada.
máquinas foram apenas um resultado da guerra entre operários e
O senhor Proudhon só pode fazer uma crítica dogmática às nossas
patrões. Mas isto só é válido quando dito em relação à Inglaterra.
instituições, pois não as considera como produtos históricos, e não com­
Quanto às nações da Europa continental, estas se viram obrigadas a
preende nem sua origem nem sua evolução.
empregar as máquinas por causa da concorrência' que lhes faziam os
ingleses, tanto em seus próprios mercados quanto no mercado mundial. Assim, o senhor Proudhon se vê constragido a recorrer a uma
Finalmente, na América do Norte, a introdução da maquinaria foi ficção para explicar o desenvolvimento. Pensa que a divisão do tra­
devida tanto à concorrência com outros países como à escassez de balho, o crédito, as máquinas etc. foram inventadas para servirem à
mão-de-obra, isto é, à desproporção entre a povoação do país e as sua idéia fixa, à idéia da igualdade. Sua explicação é de uma ingenui­
suas necessidades industriais. Por tais fatos pode o senhor ver a saga­ dade sublime. Essas coisas foram inventadas para a igualdade, mas,
cidade apresentada pelo senhor Proudhon, quando conjura o fan­ infelizmente, voltaram-se contra ela. Este é todo o seu argumento. Em
tasma da concorrência como a terceira evolução, como a antítese das outras palavras, faz uma suposição gratuita, e, como o desenvolvimento
máquinas! real e sua ficção se contradizem, a cada passo, conclui, inevitavelmente,
que há uma contradição. Oculta o fato de que a contradição existe
Finalmente, é, em geral, um verdadeiro absurdo fazer das máquinas
unicamente entre suas obsessões e o movimento real.
uma categoria econômica, ao lado da divisão do trabalho, da concor­
rência, do crédito etc. Assim, portanto, o senhor Proudhon, devido, principalmente, à sua
falta de conhecimentos históricos, não viu que os homens, ao desenvol­
A máquina tem tanto de categoria econômica quanto o boi que
verem suas forças produtivas, isto é, ao viverem, desenvolvem entre si
puxa o arado. A utilização atual das máquinas é uma das relações de
certas relações, e que o caráter dessas relações se altera, necessariamente,
nosso regime econômico presente; mas uma coisa são as máquinas e
com a modificação e o desenvolvimento dessas forças produtivas. Não
outra coisa é o modo de utilizá-las. A pólvora continua sendo pólvora,
viu que as categorias econômicas não são mais que abstrações dessas
indiferentemente, quer seja utilizada para ferir quer para curar.
relações reais, e que somente são verdades enquanto estas últimas
O senhor Proudhon supera a si mesmo, quando permite que a subsistem. Por conseguinte, incorre no erro dos economistas burgueses,
concorrência, o monopólio, os impostos ou a polícia, a balança que vêem, nessas categorias econômicas, leis eternas e não leis histó­
comercial, o crédito e a propriedade se desenvolvam, no interior de ricas, válidas apenas para certo desenvolvimento histórico, para um
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A segunda evolução refere-se às máquinas. Para o senhor seu cérebro, precisamente na ordem em que aqui indico. Quase todas
Proudhon, a conexão existente entre a divisão do trabalho e as má­ as instituições de crédito já se haviam desenvolvido, na Inglaterra, no
quinas é inteiramente mística. Cada uma das formas de divisão do começo do século XVIII, antes da invenção das máquinas. O crédito
trabalho tem seus instrumentos de produção específicos. Desde o público não era mais que uma nova maneira de se elevar os impostos
meado do século XVII até o do XVIII, por exemplo, os homens já não e de se satisfazer as novas demandas originadas pela chegada da bur­
faziam tudo apenas manualmente. Possuíam instrumentos, e instru­ guesia ao Poder. Finalmente, a propriedade constitui a última categoria
mentos bastante complexos, como teares, navios, alavancas etc., etc. no sistema do senhor Proudhon. No mundo real, pelo contrário, a
Assim, portanto, nada mais ridículo que derivar as máquinas da divisão do trabalho e todas as demais categorias do senhor Proudhon
divisão do trabalho em geral. são relações sociais, cujo conjunto forma o que atualmente se denomina
propriedade} fora dessas relações, a propriedade burguesa é apenas uma
Assinalo, também, rapidamente, que se o senhor Proudhon não ilusão metafísica ou jurídica. A propriedade de çutra época, a proprie­
logrou compreender a origem histórica das máquinas, menos ainda dade feudal, se desenvolve em uma série de relações sociais completa­
compreendeu o seu desenvolvimento. Podemos dizer que, até 1825, mente distintas. Quando estabelece a propriedade como uma relação
data da primeira crise mundial, as necessidades do consumo cresciam, independente, o senhor Proudhon comete algo mais que um mero erro
em geral, mais rapidamente que a produção, e o desenvolvimento das de método: prova, claramente, que não compreendeu o vínculo que liga
máquinas foi, desse modo, conseqüência forçada das necessidades do todas as formas da produção burguesa} que não compreendeu o caráter
mercado. A partir de 1825, a invenção e a aplicação de novas histórico e transitório das formas da produção, numa época determinada.
máquinas foram apenas um resultado da guerra entre operários e
O senhor Proudhon só pode fazer uma crítica dogmática às nossas
patrões. Mas isto só é válido quando dito em relação à Inglaterra.
instituições, pois não as considera como produtos históricos, e não com­
Quanto às nações da Europa continental, estas se viram obrigadas a
preende nem sua origem nem sua evolução.
empregar as máquinas por causa da concorrência' que lhes faziam os
ingleses, tanto em seus próprios mercados quanto no mercado mundial. Assim, o senhor Proudhon se vê constragido a recorrer a uma
Finalmente, na América do Norte, a introdução da maquinaria foi ficção para explicar o desenvolvimento. Pensa que a divisão do tra­
devida tanto à concorrência com outros países como à escassez de balho, o crédito, as máquinas etc. foram inventadas para servirem à
mão-de-obra, isto é, à desproporção entre a povoação do país e as sua idéia fixa, à idéia da igualdade. Sua explicação é de uma ingenui­
suas necessidades industriais. Por tais fatos pode o senhor ver a saga­ dade sublime. Essas coisas foram inventadas para a igualdade, mas,
cidade apresentada pelo senhor Proudhon, quando conjura o fan­ infelizmente, voltaram-se contra ela. Este é todo o seu argumento. Em
tasma da concorrência como a terceira evolução, como a antítese das outras palavras, faz uma suposição gratuita, e, como o desenvolvimento
máquinas! real e sua ficção se contradizem, a cada passo, conclui, inevitavelmente,
que há uma contradição. Oculta o fato de que a contradição existe
Finalmente, é, em geral, um verdadeiro absurdo fazer das máquinas
unicamente entre suas obsessões e o movimento real.
uma categoria econômica, ao lado da divisão do trabalho, da concor­
rência, do crédito etc. Assim, portanto, o senhor Proudhon, devido, principalmente, à sua
falta de conhecimentos históricos, não viu que os homens, ao desenvol­
A máquina tem tanto de categoria econômica quanto o boi que
verem suas forças produtivas, isto é, ao viverem, desenvolvem entre si
puxa o arado. A utilização atual das máquinas é uma das relações de
certas relações, e que o caráter dessas relações se altera, necessariamente,
nosso regime econômico presente; mas uma coisa são as máquinas e
com a modificação e o desenvolvimento dessas forças produtivas. Não
outra coisa é o modo de utilizá-las. A pólvora continua sendo pólvora,
viu que as categorias econômicas não são mais que abstrações dessas
indiferentemente, quer seja utilizada para ferir quer para curar.
relações reais, e que somente são verdades enquanto estas últimas
O senhor Proudhon supera a si mesmo, quando permite que a subsistem. Por conseguinte, incorre no erro dos economistas burgueses,
concorrência, o monopólio, os impostos ou a polícia, a balança que vêem, nessas categorias econômicas, leis eternas e não leis histó­
comercial, o crédito e a propriedade se desenvolvam, no interior de ricas, válidas apenas para certo desenvolvimento histórico, para um
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determinado desenvolvimento das forças produtivas. Assim, portanto, aniquila-se não apenas a concorrência, o monopólio e seu antagonismo,
em vez de considerar as categorias político-econômicas como abstrações como também sua unidade, sua síntese, o movimento, que é o equilíbrio
de relações sociais reais, transitórias, históricas, o senhor Proudhon, real entre a concorrência e o monopólio.
levado por uma inversão mística, só vê, nas relações reais, encarnações Dar-lhe-ei, agora, um exemplo da dialética do senhor Proudhon.
dessas abstrações. Essas abstrações são, igualmente, fórmulas que esta­
A liberdade e a escravidão formam um antagonismo. Não é
vam dormitando no seio de Deus-pai, desde a origem do mundo.
necessário que façamos aqui referência aos lados bons e maus da liber­
Mas, aqui, nosso bom senhor Proudhon é acometido de graves dade. Quanto à escravidão, é inútil falar de seus lados maus. A única
convulsões intelectuais. Se todas essas categorias são emanações do coisa que se deve explicar é o seu lado bom.. Não se trata da escra­
coração de Deus, se são a vida oculta e eterna dos homens, como pode vidão indireta da escravidão do proletariado, mas da direta, daquela
haver ocorrido, primeiro, o fato de seu desenvolvimento, e, segundo, dos negros no Surinã, no Brasil e nos Estados meridionais da América
o de que o senhor Proudhon não seja conservador? Ele nos explica do Norte.
essas contradições evidentes valendo-se de todo um sistema de antago­ A escravidão direta é uma das bases de nosso industrialismo atual,
nismos. tanto quanto as máquinas, o crédito etc. Sem a escravidão não haveria
Para esclarecer esse sistema de antagonismos, tomemos um algodão e sem algodão não haveria indústria moderna. A escravidão
exemplo. valorizou as colônias; as colônias criaram o comércio mundial; e o
comércio mundial é a condição de existência da grande indústria meca­
O monopólio é bom porque é uma categoria econômica e, portanto,
nizada. Antes do tráfico de negros, as colônias forneciam ao Mundo^
uma emanação de Deus. A concorrência é boa, porque também é uma
Antigo poucos produtos e não podiam, assim, mudar visivelmente a face
categoria econômica. Mas o que não é bom é a realidade do monopólio
da Terra. A escravidão é, portanto, uma categoria econômica da mais
e a realidade da concorrência. E pior ainda é que o monopólio e a
alta importância. ’ Sem ela, a América do Norte, o país mais desen­
concorrência se devoram, mutuamente. Que fazer, então? Como esses
volvido, se transformaria num país patriarcal. Se tirarmos a América
pensamentos eternos de Deus se contradizem, parece evidente ao senhor
do Norte do mapa das nações teremos a anarquia e a decadência
Proudhon que, também, no seio de Deus, existe uma síntese desses
absoluta do comércio e da civilização modernos. Mas fazer-se desa­
dois pensamentos, na qual os males do monopólio são compensados
parecer a escravidão equivaleria a se tirar a América do Norte do mapa
pela concorrência e vice-versa. O resultado da luta entre as duas
das nações. A êscravidao é uma categoria econômica e, por isso, é
idéias é, necessariamente, o seu lado bom. É preciso, pois, arrancar observada em cada nação desde que o mundo é mundo. Os povos
de Deus essa idéia secreta, aplicá-la continuamente, e tudo sairá às mil modernos apenas souberam disfarçar a escravidão em seus próprios
maravilhas; é preciso revelar a fórmula sintética oculta na noite da países e exportá-la para o Novo Mundo. Que fará o nosso bom senhor
razão impessoal da humanidade. O senhor Proudhon se oferece como Proudhon depois dessas considerações a respeito da escravidão? Pro­
revelador sem qualquer hesitação.
curará a síntese da liberdade e da escravidão, o verdadeiro termo médio
Mas considere, por um segundo, a vida real. Na vida econômica ou o equilíbrio real entre uma e outra.
de nossos dias, o senhor verá não apenas a concorrência e o mono­ O senhor Proudhon soube ver muito bem que os homens fazem
pólio, como também sua síntese, que não é uma fórmula, mas antes, o tecido, o lenço, a seda; e é um. grande mérito, nele, ter visto tais
um movimento, O monopólio produz a concorrência e a concor­ coisas tão simples. O que o senhor Proudhon não soube ver, é que os
rência produz o monopólio. Portanto, essa equação, longe de eliminar homens produzem também, no grau de suas forças produtivas, as
as dificuldades da situação presente, como pensam os economistas relações sociais nas quais produzem o tecido e o lenço. E menos ainda
burgueses, tem por resultado uma situação aiiida mais difícil e mais soube ver que os homens, ao produzirem as relações sociais, nas quais
embaraçada. Assim, ao alterar-se a base sobre a qual repousam as realizam a sua produção material, criam também as idéias, as categorias,
relações econômicas atuais, ao aniquilar-se o modo atual de produção, isto é, as expressões ideais, abstratas, dessas mesmas relações sociais.
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determinado desenvolvimento das forças produtivas. Assim, portanto, aniquila-se não apenas a concorrência, o monopólio e seu antagonismo,
em vez de considerar as categorias político-econômicas como abstrações como também sua unidade, sua síntese, o movimento, que é o equilíbrio
de relações sociais reais, transitórias, históricas, o senhor Proudhon, real entre a concorrência e o monopólio.
levado por uma inversão mística, só vê, nas relações reais, encarnações Dar-lhe-ei, agora, um exemplo da dialética do senhor Proudhon.
dessas abstrações. Essas abstrações são, igualmente, fórmulas que esta­
A liberdade e a escravidão formam um antagonismo. Não é
vam dormitando no seio de Deus-pai, desde a origem do mundo.
necessário que façamos aqui referência aos lados bons e maus da liber­
Mas, aqui, nosso bom senhor Proudhon é acometido de graves dade. Quanto à escravidão, é inútil falar de seus lados maus. A única
convulsões intelectuais. Se todas essas categorias são emanações do coisa que se deve explicar é o seu lado bom.. Não se trata da escra­
coração de Deus, se são a vida oculta e eterna dos homens, como pode vidão indireta da escravidão do proletariado, mas da direta, daquela
haver ocorrido, primeiro, o fato de seu desenvolvimento, e, segundo, dos negros no Surinã, no Brasil e nos Estados meridionais da América
o de que o senhor Proudhon não seja conservador? Ele nos explica do Norte.
essas contradições evidentes valendo-se de todo um sistema de antago­ A escravidão direta é uma das bases de nosso industrialismo atual,
nismos. tanto quanto as máquinas, o crédito etc. Sem a escravidão não haveria
Para esclarecer esse sistema de antagonismos, tomemos um algodão e sem algodão não haveria indústria moderna. A escravidão
exemplo. valorizou as colônias; as colônias criaram o comércio mundial; e o
comércio mundial é a condição de existência da grande indústria meca­
O monopólio é bom porque é uma categoria econômica e, portanto,
nizada. Antes do tráfico de negros, as colônias forneciam ao Mundo^
uma emanação de Deus. A concorrência é boa, porque também é uma
Antigo poucos produtos e não podiam, assim, mudar visivelmente a face
categoria econômica. Mas o que não é bom é a realidade do monopólio
da Terra. A escravidão é, portanto, uma categoria econômica da mais
e a realidade da concorrência. E pior ainda é que o monopólio e a
alta importância. ’ Sem ela, a América do Norte, o país mais desen­
concorrência se devoram, mutuamente. Que fazer, então? Como esses
volvido, se transformaria num país patriarcal. Se tirarmos a América
pensamentos eternos de Deus se contradizem, parece evidente ao senhor
do Norte do mapa das nações teremos a anarquia e a decadência
Proudhon que, também, no seio de Deus, existe uma síntese desses
absoluta do comércio e da civilização modernos. Mas fazer-se desa­
dois pensamentos, na qual os males do monopólio são compensados
parecer a escravidão equivaleria a se tirar a América do Norte do mapa
pela concorrência e vice-versa. O resultado da luta entre as duas
das nações. A êscravidao é uma categoria econômica e, por isso, é
idéias é, necessariamente, o seu lado bom. É preciso, pois, arrancar observada em cada nação desde que o mundo é mundo. Os povos
de Deus essa idéia secreta, aplicá-la continuamente, e tudo sairá às mil modernos apenas souberam disfarçar a escravidão em seus próprios
maravilhas; é preciso revelar a fórmula sintética oculta na noite da países e exportá-la para o Novo Mundo. Que fará o nosso bom senhor
razão impessoal da humanidade. O senhor Proudhon se oferece como Proudhon depois dessas considerações a respeito da escravidão? Pro­
revelador sem qualquer hesitação.
curará a síntese da liberdade e da escravidão, o verdadeiro termo médio
Mas considere, por um segundo, a vida real. Na vida econômica ou o equilíbrio real entre uma e outra.
de nossos dias, o senhor verá não apenas a concorrência e o mono­ O senhor Proudhon soube ver muito bem que os homens fazem
pólio, como também sua síntese, que não é uma fórmula, mas antes, o tecido, o lenço, a seda; e é um. grande mérito, nele, ter visto tais
um movimento, O monopólio produz a concorrência e a concor­ coisas tão simples. O que o senhor Proudhon não soube ver, é que os
rência produz o monopólio. Portanto, essa equação, longe de eliminar homens produzem também, no grau de suas forças produtivas, as
as dificuldades da situação presente, como pensam os economistas relações sociais nas quais produzem o tecido e o lenço. E menos ainda
burgueses, tem por resultado uma situação aiiida mais difícil e mais soube ver que os homens, ao produzirem as relações sociais, nas quais
embaraçada. Assim, ao alterar-se a base sobre a qual repousam as realizam a sua produção material, criam também as idéias, as categorias,
relações econômicas atuais, ao aniquilar-se o modo atual de produção, isto é, as expressões ideais, abstratas, dessas mesmas relações sociais.
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Assim, tais categorias são tão pouco eternas quanto as relações às quais isoladas, que só estão isoladas porque o senhor Proudhon as separou
servem de expressão. São produtos históricos e transitórios. Para o da vida prática, da produção atual, que é a combinação das realidades
senhor Proudhon, as abstrações, as categorias são, ao contrário, o que elas expressam. Em vez do grande movimento histórico que brota
elemento primário. Em seu juízo, são elas, e não os homens, que fazem do conflito entre as forças produtivas já atingidas pelos homens e suas
a história. À abstração, a categoria tomada em si mesma, isto é, relações sociais, que já não correspondem a essas forças produtivas;
separada dos homens e de sua ação material, é, naturalmente, imortal, em vez das guerras destruidoras que se preparam entre as diversas
inalterável, insensível; não é mais que uma essência da razão pura, o classes de uma nação e entre as diferentes nações; em vez da ação real
que quer dizer, simplesmente, que a abstração, considerada como tal, e violenta das massas, a única coisa que pode resolver tais conflitos; em
é abstrata. Maravilhosa tautologia! vez desse movimento vasto, duradouro e complexo, o senhor Proudhon
Por isso, as relações econômicas, vistas sob a forma de categorias, apresenta o detestável movimento de sua cabeça. Assim, são os sábios,
são, para o senhor Proudhon, fórmulas eternas, que não conhecem os homens capazes de surpreender os pensamentos ^conditos de Deus,
princípio nem. progresso. que fazem a História. À gente miúda só cabe pôr em prática as suas
revelações. Agora, o senhor compreenderá por que o senhor Proudhon
Em outros termos, o senhor Proudhon não afirma, diretamente, é inimigo declarado de todo movimento político. Para ele, a solução
que a vida burguesa seja, para ele, uma verdade eterna. Diz isso, indi­ dos problemas atuais não consiste na ação pública, mas sim nos movi­
retamente, ao divinizar as categorias que expressam, sob a forma de mentos dialéticos circulares de sua cabeça. Como as categorias são,
idéias, as relações burguesas. Toma os produtos da sociedade burguesa para ele, as forças motrizes, não há necessidade de modificar a vida
essências eternas, surgidas espontaneamente e dotadas de vida própria, prática para transformá-las. Mas, pelo contrário, com a mudança das
uma vez que se apresentam a ele, também, sob forma de categorias, categorias, a sociedade real mudará.
sob forma de idéias. Não vê, portanto, além do horizonte burguês.
Afoito para conciliar as contradições, porém, há uma coisa que
Como opera com idéias burguesas, considerando-as eternamente ver­
não ocorre ao senhor Proudhon: perguntar se, na verdade, não é pro­
dadeiras, luta por encontrar a sua síntese, seu equilíbrio, e não vê que
priamente a base dessas contradições que deve ser revolucionada. Ele
seu modo atual de se equilibrar é o único possível.
se parece em tudo com o político dogmático, para quem o rei, a
Na verdade, ele faz o que fazem todos os bons burgueses. Todos Câmara dos Deputados e o Senado são, como partes integrantes da vida
eles nos dizem que a livre concorrência, o monopólio etc., são, em social, categorias eternas. Com a única diferença de que ele procura
princípio, isto é, considerados, como idéias abstratas, são os únicos apenas uma nova fórmula para equilibrar esses poderes, equilíbrio esse
fundamentos da vida, ainda que na prática deixem muito a desejar. que está, precisamente, no movimento em marcha que faz que um deles
Todos eles querem a concorrência, sem as suas funestas conseqüências. seja ora vencedor, ora vencido. Assim, no século XVIII, uma multidão
Todos querem, portanto, o impossível, ou seja, as condições burguesas de cérebros medíocres se dedicava a procurar a verdadeira fórmula para
de vida, sem as consequências necessárias dessas condições. Nenhum equilibrar os estamentos sociais, a nobreza, o rei, o parlamento etc. e,
deles compreende que o modo burguês de produção é um modo no dia seguinte, já não havia nem rei, nem parlamento, nem nobreza.
histórico e transitório, como o era o feudal. Esse erro provém do fato O verdadeiro equilíbrio, nesse antagonismo, estava, precisamente, na
de que, para eles, o homem burguês é a única base possível de toda derrubada de todas as relações sociais que serviam de base àquelas
sociedade; de que não podem imaginar nenhum estado social no qual instituições do feudalismo e ao antagonismo entre elas.
o homem deixe de ser burguês.
Como o senhor Proudhon põe, de um lado, as idéias eternas, as
O senhor Proudhon é, portanto, necessariamente, um doutrinário. categorias da razão pura e, de outro, os homens e sua vida prática, que
O movimento histórico que está revolucionando o mundo atual se são, segundo ele, a aplicação dessas categorias, você encontra nele,
reduz, para ele, ao problema de encontrar o verdadeiro equilíbrio, a desde o primeiro momento, um dualismo entre a vida e as idéias, entre
síntese de duas idéias burguesas. Assim, o hábil moço descobre, à a alma e o corpo, que se repete sob muitas formas. Agora, pode-se
força de sutilezas, a idéia oculta de Deus, a unidade das duas idéias perceber que tal antagonismo não é nada mais que a incapacidade do

V
93

Assim, tais categorias são tão pouco eternas quanto as relações às quais isoladas, que só estão isoladas porque o senhor Proudhon as separou
servem de expressão. São produtos históricos e transitórios. Para o da vida prática, da produção atual, que é a combinação das realidades
senhor Proudhon, as abstrações, as categorias são, ao contrário, o que elas expressam. Em vez do grande movimento histórico que brota
elemento primário. Em seu juízo, são elas, e não os homens, que fazem do conflito entre as forças produtivas já atingidas pelos homens e suas
a história. À abstração, a categoria tomada em si mesma, isto é, relações sociais, que já não correspondem a essas forças produtivas;
separada dos homens e de sua ação material, é, naturalmente, imortal, em vez das guerras destruidoras que se preparam entre as diversas
inalterável, insensível; não é mais que uma essência da razão pura, o classes de uma nação e entre as diferentes nações; em vez da ação real
que quer dizer, simplesmente, que a abstração, considerada como tal, e violenta das massas, a única coisa que pode resolver tais conflitos; em
é abstrata. Maravilhosa tautologia! vez desse movimento vasto, duradouro e complexo, o senhor Proudhon
Por isso, as relações econômicas, vistas sob a forma de categorias, apresenta o detestável movimento de sua cabeça. Assim, são os sábios,
são, para o senhor Proudhon, fórmulas eternas, que não conhecem os homens capazes de surpreender os pensamentos ^conditos de Deus,
princípio nem. progresso. que fazem a História. À gente miúda só cabe pôr em prática as suas
revelações. Agora, o senhor compreenderá por que o senhor Proudhon
Em outros termos, o senhor Proudhon não afirma, diretamente, é inimigo declarado de todo movimento político. Para ele, a solução
que a vida burguesa seja, para ele, uma verdade eterna. Diz isso, indi­ dos problemas atuais não consiste na ação pública, mas sim nos movi­
retamente, ao divinizar as categorias que expressam, sob a forma de mentos dialéticos circulares de sua cabeça. Como as categorias são,
idéias, as relações burguesas. Toma os produtos da sociedade burguesa para ele, as forças motrizes, não há necessidade de modificar a vida
essências eternas, surgidas espontaneamente e dotadas de vida própria, prática para transformá-las. Mas, pelo contrário, com a mudança das
uma vez que se apresentam a ele, também, sob forma de categorias, categorias, a sociedade real mudará.
sob forma de idéias. Não vê, portanto, além do horizonte burguês.
Afoito para conciliar as contradições, porém, há uma coisa que
Como opera com idéias burguesas, considerando-as eternamente ver­
não ocorre ao senhor Proudhon: perguntar se, na verdade, não é pro­
dadeiras, luta por encontrar a sua síntese, seu equilíbrio, e não vê que
priamente a base dessas contradições que deve ser revolucionada. Ele
seu modo atual de se equilibrar é o único possível.
se parece em tudo com o político dogmático, para quem o rei, a
Na verdade, ele faz o que fazem todos os bons burgueses. Todos Câmara dos Deputados e o Senado são, como partes integrantes da vida
eles nos dizem que a livre concorrência, o monopólio etc., são, em social, categorias eternas. Com a única diferença de que ele procura
princípio, isto é, considerados, como idéias abstratas, são os únicos apenas uma nova fórmula para equilibrar esses poderes, equilíbrio esse
fundamentos da vida, ainda que na prática deixem muito a desejar. que está, precisamente, no movimento em marcha que faz que um deles
Todos eles querem a concorrência, sem as suas funestas conseqüências. seja ora vencedor, ora vencido. Assim, no século XVIII, uma multidão
Todos querem, portanto, o impossível, ou seja, as condições burguesas de cérebros medíocres se dedicava a procurar a verdadeira fórmula para
de vida, sem as consequências necessárias dessas condições. Nenhum equilibrar os estamentos sociais, a nobreza, o rei, o parlamento etc. e,
deles compreende que o modo burguês de produção é um modo no dia seguinte, já não havia nem rei, nem parlamento, nem nobreza.
histórico e transitório, como o era o feudal. Esse erro provém do fato O verdadeiro equilíbrio, nesse antagonismo, estava, precisamente, na
de que, para eles, o homem burguês é a única base possível de toda derrubada de todas as relações sociais que serviam de base àquelas
sociedade; de que não podem imaginar nenhum estado social no qual instituições do feudalismo e ao antagonismo entre elas.
o homem deixe de ser burguês.
Como o senhor Proudhon põe, de um lado, as idéias eternas, as
O senhor Proudhon é, portanto, necessariamente, um doutrinário. categorias da razão pura e, de outro, os homens e sua vida prática, que
O movimento histórico que está revolucionando o mundo atual se são, segundo ele, a aplicação dessas categorias, você encontra nele,
reduz, para ele, ao problema de encontrar o verdadeiro equilíbrio, a desde o primeiro momento, um dualismo entre a vida e as idéias, entre
síntese de duas idéias burguesas. Assim, o hábil moço descobre, à a alma e o corpo, que se repete sob muitas formas. Agora, pode-se
força de sutilezas, a idéia oculta de Deus, a unidade das duas idéias perceber que tal antagonismo não é nada mais que a incapacidade do

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94 95

senhor Proudhon de compreender a origem e a história profanas das Desejaria enviar-lhe, com esta carta, meu livro de Economia
categorias que ele diviniza. política mas até agora não consegui imprimir esta obra nem minha
Já discorri demasiadamente, e não posso deter-me nas absurdas crítica dos filósofios e socialistas alemães, de que lhe falei em Bruxelas.
acusações que o senhor Proudhon lança contra o comunismo. Por ora, O senhor não imagina as dificuldades que uma publicação desse tipo
o senhor concordará comigo no fato de que se ele não compreendeu encontra na Alemanha, tanto por parte da polícia como por parte dos
o atual estado da sociedade menos ainda compreenderá o movimento editores, que são representantes interessados de todas as tendências que
combato.
que tende a derrubá-la e as expressões literárias desse movimento
revolucionário. Quanto a nosso próprio Partido, além de ser pobre, uma grande
parte do Partido Comunista Alemão está aborrecida comigo, porque me
O único ponto em que estou completamente de acordo com o
oponho às suas utopias e declarações. (...)
senhor Proudhon é em sua repulsa pelo socialismo piegas. Antes dele C
já adquiri muitos inimigos por causa de meus ataques contra o socia­
lismo ingênuo, sentimental, utópico. Mas não tem acaso o senhor 4.3. Relações de produção e relações sociais *
Proudhon ilusões estranhas, quando opõe o sentimentalismo do peque­
no-burguês — refiro-me a suas declamações acerca do lar, do amor (...) O capital se compõe de matérias-primas, de instrumentos
conjugal e de todas essas banalidades —, ao sentimentalismo socialista, de trabalho e de meios de subsistência de toda sorte, que são empre­
que, em Fourier, por exemplo, é muito mais profundo que as presun­ gados na produção de novas matérias-primas, de novos instrumentos de
çosas banalidades de nosso bom Proudhon? Ele próprio compreende trabalho e de novos meios de subsistência. Todas estas partes constitu­
tão bem a nulidade de seus argumentos, sua completa incapacidade para tivas do capital são criação do trabalho, produtos do trabalho, trabalho
falar dessas coisas, que se atrapalha e pronuncia furiosas tiradas e acumulado. O trabalho acumulado, que serve de meio para uma nova
exclamações (irae hominis probi), vocifera, espuma pela boca, denuncia, produção, é capital. Assim dizem os economistas. Que é um escravo
maldiz, bate no peito, e se gaba diante de Deus e dos homens de ser negro? Um homem da raça negra. Esta explicação vale tanto quanto
isento de infâmias socialistas. Empolga-se ao criticar o sentimentalismo a primeira.
socialista ou o que ele toma por sentimentalismo. Como um santo, Um negro é um negro. Apenas dentro de determinadas condições
como o Papa, excomunga os pobres pecadores, e canta as glórias da ele se torna um escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina
pequena burguesia, e as miseráveis, amorosas e patriarcais ilusões do lar. de fiar algodão. Ela se transforma em capital apenas em condições
Isso não é casual. O senhor Proudhon é, dos pés à cabeça, um filósofo determinadas. Fora dessas condições, ela tampouco é capital como o
e um economista da pequena burguesia. Numa sociedade avançada, o ouro é, por si próprio, moeda ou o açúcar é o preço do açúcar. Na
pequeno-burguês se faz necessariamente, em virtude de sua posição, produção, os homens não agem apenas sobre a natureza, mas também
socialista, de um lado, e economista, do outro, isto é, sente-se deslum­ uns sobre os outros. Eles somente produzem colaborando de uma deter­
brado pela magnificência da grande burguesia e se compadece das dores minada forma e trocando entre si suas atividades. Para produzirem,
do povo. É, ao mesmo tempo, burguês e povo. Em seu foro íntimo, contraem determinados vínculos e relações mútuas, e somente dentro
gaba-se de ser imparcial, de ter encontrado o justo equilíbrio, que ele dos limites desses vínculos e relações sociais é que se opera sua ação
proclama ser diferente do termo médio. Esse pequeno-burguês diviniza sobre a natureza, isto é, se realiza a produção.
a contradição^ porque a contradição é, justamente, a essência de seu Essas relações sociais que os produtores estabelecem entre si e as
ser. Ele não é mais que a contradição social em ação. Deve justificar, condições dentro das quais eles trocam suas atividades, tomando parte
teoricamente, o que ele mesmo é, na prática, e ao senhor Proudhon no conjunto da produção, variarão, naturalmente, de acordo com o
corresponde o mérito de ser o intérprete científico da pequena burguesia
francesa. E esse mérito é verdadeiro, pois a pequena burguesia será * Reproduzido de Marx, ,K. Trabalho Assalariado e Capital. 2.a ed. Rio de Ja­
parte integrante de todas as revoluções sociais que ainda hão de vir. neiro, Editorial Vitória, 1963. p. 32-34.
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senhor Proudhon de compreender a origem e a história profanas das Desejaria enviar-lhe, com esta carta, meu livro de Economia
categorias que ele diviniza. política mas até agora não consegui imprimir esta obra nem minha
Já discorri demasiadamente, e não posso deter-me nas absurdas crítica dos filósofios e socialistas alemães, de que lhe falei em Bruxelas.
acusações que o senhor Proudhon lança contra o comunismo. Por ora, O senhor não imagina as dificuldades que uma publicação desse tipo
o senhor concordará comigo no fato de que se ele não compreendeu encontra na Alemanha, tanto por parte da polícia como por parte dos
o atual estado da sociedade menos ainda compreenderá o movimento editores, que são representantes interessados de todas as tendências que
combato.
que tende a derrubá-la e as expressões literárias desse movimento
revolucionário. Quanto a nosso próprio Partido, além de ser pobre, uma grande
parte do Partido Comunista Alemão está aborrecida comigo, porque me
O único ponto em que estou completamente de acordo com o
oponho às suas utopias e declarações. (...)
senhor Proudhon é em sua repulsa pelo socialismo piegas. Antes dele C
já adquiri muitos inimigos por causa de meus ataques contra o socia­
lismo ingênuo, sentimental, utópico. Mas não tem acaso o senhor 4.3. Relações de produção e relações sociais *
Proudhon ilusões estranhas, quando opõe o sentimentalismo do peque­
no-burguês — refiro-me a suas declamações acerca do lar, do amor (...) O capital se compõe de matérias-primas, de instrumentos
conjugal e de todas essas banalidades —, ao sentimentalismo socialista, de trabalho e de meios de subsistência de toda sorte, que são empre­
que, em Fourier, por exemplo, é muito mais profundo que as presun­ gados na produção de novas matérias-primas, de novos instrumentos de
çosas banalidades de nosso bom Proudhon? Ele próprio compreende trabalho e de novos meios de subsistência. Todas estas partes constitu­
tão bem a nulidade de seus argumentos, sua completa incapacidade para tivas do capital são criação do trabalho, produtos do trabalho, trabalho
falar dessas coisas, que se atrapalha e pronuncia furiosas tiradas e acumulado. O trabalho acumulado, que serve de meio para uma nova
exclamações (irae hominis probi), vocifera, espuma pela boca, denuncia, produção, é capital. Assim dizem os economistas. Que é um escravo
maldiz, bate no peito, e se gaba diante de Deus e dos homens de ser negro? Um homem da raça negra. Esta explicação vale tanto quanto
isento de infâmias socialistas. Empolga-se ao criticar o sentimentalismo a primeira.
socialista ou o que ele toma por sentimentalismo. Como um santo, Um negro é um negro. Apenas dentro de determinadas condições
como o Papa, excomunga os pobres pecadores, e canta as glórias da ele se torna um escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina
pequena burguesia, e as miseráveis, amorosas e patriarcais ilusões do lar. de fiar algodão. Ela se transforma em capital apenas em condições
Isso não é casual. O senhor Proudhon é, dos pés à cabeça, um filósofo determinadas. Fora dessas condições, ela tampouco é capital como o
e um economista da pequena burguesia. Numa sociedade avançada, o ouro é, por si próprio, moeda ou o açúcar é o preço do açúcar. Na
pequeno-burguês se faz necessariamente, em virtude de sua posição, produção, os homens não agem apenas sobre a natureza, mas também
socialista, de um lado, e economista, do outro, isto é, sente-se deslum­ uns sobre os outros. Eles somente produzem colaborando de uma deter­
brado pela magnificência da grande burguesia e se compadece das dores minada forma e trocando entre si suas atividades. Para produzirem,
do povo. É, ao mesmo tempo, burguês e povo. Em seu foro íntimo, contraem determinados vínculos e relações mútuas, e somente dentro
gaba-se de ser imparcial, de ter encontrado o justo equilíbrio, que ele dos limites desses vínculos e relações sociais é que se opera sua ação
proclama ser diferente do termo médio. Esse pequeno-burguês diviniza sobre a natureza, isto é, se realiza a produção.
a contradição^ porque a contradição é, justamente, a essência de seu Essas relações sociais que os produtores estabelecem entre si e as
ser. Ele não é mais que a contradição social em ação. Deve justificar, condições dentro das quais eles trocam suas atividades, tomando parte
teoricamente, o que ele mesmo é, na prática, e ao senhor Proudhon no conjunto da produção, variarão, naturalmente, de acordo com o
corresponde o mérito de ser o intérprete científico da pequena burguesia
francesa. E esse mérito é verdadeiro, pois a pequena burguesia será * Reproduzido de Marx, ,K. Trabalho Assalariado e Capital. 2.a ed. Rio de Ja­
parte integrante de todas as revoluções sociais que ainda hão de vir. neiro, Editorial Vitória, 1963. p. 32-34.
96

caráter dos meios de produção. Com a descoberta de uma nova máquina


de guerra, a arma de fogo, toda a organização interna do exército foi,
necessariamente, modificada; as condições em que os indivíduos inte­
gram um exército e são capazes de agir como um exército foram
transformadas e as relações dos diversos exércitos entre si também se

II.CLASSES SOCIAIS
modificam.
Do mesmo modo, as relações sociais de acordo com. as quais
os indivíduos produzem, as relações sociais de produção, alteram-se,
transformam-se com a modificação e o desenvolvimento dos meios
materiais de produção, das forças produtivast Em sua totalidade, as
relações de produção formam o que se chama de relações sociais, a
sociedade, e, particularmente, uma sociedade num estágio determinado
E CONTRADIÇÕES
de desenvolvimento histórico, uma sociedade com um caráter distintivo,
peculiar. A sociedade antiga, a sociedade feudal, a sociedade burguesa
são conjuntos de relações de produção desse gênero, e, ao mesmo tempo,
cada uma delas caracteriza um estágio particular de desenvolvimento
DE CLASSES
na história da humanidade.
O capital também é uma relação social de produção. Ê uma relação
burguesa de produção, relação de produção da sociedade burguesa. Os
meios de subsistência, os instrumentos de trabalho, as matérias-primas
de que se compõe o capital não foram produzidos e acumulados em
condições sociais dadas, de conformidade com relações determinadas?
Não são eles empregados para uma nova produção em condições sociais
dadas, de acordo com relações sociais determinadas? E não é, precisa­
mente, este caráter social determinado que transforma os produtos
destinados à nova produção em capital?
O capital não consiste apenas de meios de subsistência, de instru­
mentos de trabalho e de matéria-prima, não se forma somente de
produtos materiais; compõe-se, igualmente, de valores de troca. Todos
os produtos de que ele se constitui são mercadorias. O capital não é,
portanto, somente uma soma de produtos materiais, é, também, uma
soma de mercadorias, de valores de troca, de grandezas sociais. (. . .)
96

caráter dos meios de produção. Com a descoberta de uma nova máquina


de guerra, a arma de fogo, toda a organização interna do exército foi,
necessariamente, modificada; as condições em que os indivíduos inte­
gram um exército e são capazes de agir como um exército foram
transformadas e as relações dos diversos exércitos entre si também se

II.CLASSES SOCIAIS
modificam.
Do mesmo modo, as relações sociais de acordo com. as quais
os indivíduos produzem, as relações sociais de produção, alteram-se,
transformam-se com a modificação e o desenvolvimento dos meios
materiais de produção, das forças produtivast Em sua totalidade, as
relações de produção formam o que se chama de relações sociais, a
sociedade, e, particularmente, uma sociedade num estágio determinado
E CONTRADIÇÕES
de desenvolvimento histórico, uma sociedade com um caráter distintivo,
peculiar. A sociedade antiga, a sociedade feudal, a sociedade burguesa
são conjuntos de relações de produção desse gênero, e, ao mesmo tempo,
cada uma delas caracteriza um estágio particular de desenvolvimento
DE CLASSES
na história da humanidade.
O capital também é uma relação social de produção. Ê uma relação
burguesa de produção, relação de produção da sociedade burguesa. Os
meios de subsistência, os instrumentos de trabalho, as matérias-primas
de que se compõe o capital não foram produzidos e acumulados em
condições sociais dadas, de conformidade com relações determinadas?
Não são eles empregados para uma nova produção em condições sociais
dadas, de acordo com relações sociais determinadas? E não é, precisa­
mente, este caráter social determinado que transforma os produtos
destinados à nova produção em capital?
O capital não consiste apenas de meios de subsistência, de instru­
mentos de trabalho e de matéria-prima, não se forma somente de
produtos materiais; compõe-se, igualmente, de valores de troca. Todos
os produtos de que ele se constitui são mercadorias. O capital não é,
portanto, somente uma soma de produtos materiais, é, também, uma
soma de mercadorias, de valores de troca, de grandezas sociais. (. . .)
5. AS CLASSES SOCIAIS

5.1. Carta de Marx a J. Weydemeyer *

[Londres,] 5 de março de 1852.


(...) No que a mim se refere, não me cabe o mérito de haver
descoberto a existência das classes na sociedade moderna nem a luta
entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores burgueses já
haviam exposto o desenvolvimento histórico dessa luta de classes e
alguns economistas burgueses a sua anatomia econômica. O que eu
trouxe de novo foi a demonstração de que: 1) a existência das classes
só se liga a determinadas fases históricas de desenvolvimento da pro­
dução; 2) a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do
proletariado; 3) esta mesma ditadura não é por si mais que a tran­
sição para a abolição de todas as classes e para uma sociedade sem
classes, (...)

5.2, As classes **

Os proprietários de simples força de trabalho, os proprietários de


capital e os proprietários de terras, cujas respectivas fontes de receitas
são o salário, o lucro e a renda do solo, ou seja, os operários assala­
riados, os capitalistas e os latifundiários, formam as três grandes classes
da sociedade moderna, baseada no regime capitalista de produção.

* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Obras escogidas. Moscou, Ediciones


en Lenguas Extranjeras, 1952. t II, p. 424-25. Trad. por Maria Elisa Masca-
renhas.
** Reproduzido de Marx, K.: “Lag clases.” Inf. Éí ..capital, México, Fondo de
Cultura Económica, 1946-47. t./IIT, cap. LU, p. 1021-22. Trad. por Maria Elisa
Mascarenhas.

I
5. AS CLASSES SOCIAIS

5.1. Carta de Marx a J. Weydemeyer *

[Londres,] 5 de março de 1852.


(...) No que a mim se refere, não me cabe o mérito de haver
descoberto a existência das classes na sociedade moderna nem a luta
entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores burgueses já
haviam exposto o desenvolvimento histórico dessa luta de classes e
alguns economistas burgueses a sua anatomia econômica. O que eu
trouxe de novo foi a demonstração de que: 1) a existência das classes
só se liga a determinadas fases históricas de desenvolvimento da pro­
dução; 2) a luta de classes conduz, necessariamente, à ditadura do
proletariado; 3) esta mesma ditadura não é por si mais que a tran­
sição para a abolição de todas as classes e para uma sociedade sem
classes, (...)

5.2, As classes **

Os proprietários de simples força de trabalho, os proprietários de


capital e os proprietários de terras, cujas respectivas fontes de receitas
são o salário, o lucro e a renda do solo, ou seja, os operários assala­
riados, os capitalistas e os latifundiários, formam as três grandes classes
da sociedade moderna, baseada no regime capitalista de produção.

* Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Obras escogidas. Moscou, Ediciones


en Lenguas Extranjeras, 1952. t II, p. 424-25. Trad. por Maria Elisa Masca-
renhas.
** Reproduzido de Marx, K.: “Lag clases.” Inf. Éí ..capital, México, Fondo de
Cultura Económica, 1946-47. t./IIT, cap. LU, p. 1021-22. Trad. por Maria Elisa
Mascarenhas.

I
100
101
A Inglaterra é, indiscutivelmente, onde mais desenvolvida se
da mesma fonte em cada um deles. E o mesmo se poderia dizer da
encontra e em forma mais clássica, a sociedade moderna, em sua
infinita diversidade de interesses e posições em que a divisão do tra­
estruturação econômica. Entretanto, nem ali se apresenta, em toda a balho social separa tanto os operários quanto os capitalistas e os pro­
sua pureza, essa divisão da sociedade em classes. Também, na sociedade prietários de terras, como, por exemplo, no caso desses últimos, em
inglesa, existem fases intermediárias e de transição, que obscurecem, em proprietários de vinhedos, de terras de lavoura, de bosques, de minas,
todas as partes (ainda que no campo incomparavelmente menos que de pesqueiros etc.
nas cidades), as linhas divisórias. Isso, entretanto, é indiferente para
nossa investigação. Já vimos que é tendência constante e lei de desen­ [Chegando aqui, interrompe-se o manuscrito (F. Engels).]
volvimento do regime capitalista de produção, estabelecer um divórcio
cada vez mais profundo entre os meios de produção e o trabalho, e ir-se
concentrando os meios de produção em grupos cada vez maiores; isto
é, convertet-se o trabalho em trabalho assalariado e os meios de pro­
dução em capital. E a essa tendência corresponde, por outro lado, o
divórcio da propriedade territorial, para formar uma potência à parte
diante do capital e do trabalho,] ou seja, a transformação de toda a
propriedade do solo para a adoção da forma da propriedade territorial,
que corresponde ao regime capitalista de produção.
O problema que imediatamente se apresenta é o seguinte: que é
uma classe? A resposta a essa pergunta se depreende em seguida à que
demos a esta outra: que é que converte os operários assalariados, os
capitalistas e os proprietários de terras, em fatores das três grandes
classes sociais?
É, à primeira vista, a identidade de suas rendas e fontes de renda.
Trata-se de três grandes grupos sociais, cujos componentes, os indivíduos
que os formam, vivem respectivamente de um salário, do lucro e da
renda do solo, ou seja, da exploração de sua força de trabalho, de seu
capital ou de sua propriedade territorial.
É certo que, desse ponto de vista, também os médicos e os funcio­
nários, por exemplo, formariam duas classes, pois pertencem a dois
grupos sociais distintos, cujos componentes vivem de rendas procedentes

i F. List observa com acerto: “O regime predominante das grandes finanças


cultivadas por conta própria só demonstra a ausência de civilização, de meios de
comunicação, de indústrias nacionais e de cidades ricas. Por isso, encontramos
esse regime generalizado na Rússia, na Polônia, Hungria, Meclemburgo. Antiga­
mente era também esse o regime predominante na Inglaterra; mas, ao aparecerem
o comércio e a indústria, as grandes propriedades se desintegraram em explora­
ções de tipo médio e impôs-se o regime de arrendamentos” {Die Áckerverfaxsung,
die Zwergwirtscliaft und die Àuswanderung. 1842. p. 10).
100
101
A Inglaterra é, indiscutivelmente, onde mais desenvolvida se
da mesma fonte em cada um deles. E o mesmo se poderia dizer da
encontra e em forma mais clássica, a sociedade moderna, em sua
infinita diversidade de interesses e posições em que a divisão do tra­
estruturação econômica. Entretanto, nem ali se apresenta, em toda a balho social separa tanto os operários quanto os capitalistas e os pro­
sua pureza, essa divisão da sociedade em classes. Também, na sociedade prietários de terras, como, por exemplo, no caso desses últimos, em
inglesa, existem fases intermediárias e de transição, que obscurecem, em proprietários de vinhedos, de terras de lavoura, de bosques, de minas,
todas as partes (ainda que no campo incomparavelmente menos que de pesqueiros etc.
nas cidades), as linhas divisórias. Isso, entretanto, é indiferente para
nossa investigação. Já vimos que é tendência constante e lei de desen­ [Chegando aqui, interrompe-se o manuscrito (F. Engels).]
volvimento do regime capitalista de produção, estabelecer um divórcio
cada vez mais profundo entre os meios de produção e o trabalho, e ir-se
concentrando os meios de produção em grupos cada vez maiores; isto
é, convertet-se o trabalho em trabalho assalariado e os meios de pro­
dução em capital. E a essa tendência corresponde, por outro lado, o
divórcio da propriedade territorial, para formar uma potência à parte
diante do capital e do trabalho,] ou seja, a transformação de toda a
propriedade do solo para a adoção da forma da propriedade territorial,
que corresponde ao regime capitalista de produção.
O problema que imediatamente se apresenta é o seguinte: que é
uma classe? A resposta a essa pergunta se depreende em seguida à que
demos a esta outra: que é que converte os operários assalariados, os
capitalistas e os proprietários de terras, em fatores das três grandes
classes sociais?
É, à primeira vista, a identidade de suas rendas e fontes de renda.
Trata-se de três grandes grupos sociais, cujos componentes, os indivíduos
que os formam, vivem respectivamente de um salário, do lucro e da
renda do solo, ou seja, da exploração de sua força de trabalho, de seu
capital ou de sua propriedade territorial.
É certo que, desse ponto de vista, também os médicos e os funcio­
nários, por exemplo, formariam duas classes, pois pertencem a dois
grupos sociais distintos, cujos componentes vivem de rendas procedentes

i F. List observa com acerto: “O regime predominante das grandes finanças


cultivadas por conta própria só demonstra a ausência de civilização, de meios de
comunicação, de indústrias nacionais e de cidades ricas. Por isso, encontramos
esse regime generalizado na Rússia, na Polônia, Hungria, Meclemburgo. Antiga­
mente era também esse o regime predominante na Inglaterra; mas, ao aparecerem
o comércio e a indústria, as grandes propriedades se desintegraram em explora­
ções de tipo médio e impôs-se o regime de arrendamentos” {Die Áckerverfaxsung,
die Zwergwirtscliaft und die Àuswanderung. 1842. p. 10).
103

correram naquele país. Acontecimentos posteriores, bem como o julga­


mento das gerações futuras, decidirão quanto daquele conglomerado de
eventos confusos e aparentemente fortuitos, incoerentes e incongruentes
deverá fazer parte da História Universal. A hora de tal tarefa ainda
não chegou; devemos nos ater aos limites do possível, e nos dar por
6. A ESTRUTURA DE CLASSES felizes, se pudermos encontrar as causas racionais, baseadas em fatos
NA ALEMANHA* indiscutíveis, que expliquem os principais acontecimentos, as principais
vicissitudes daquele movimento, e dar, a nós mesmos, um indício de
direção que a próxima e, talvez, não muito distante eclosão revolucio­
nária dará ao povo germânico.
Em primeiro lugar, qual era a situação da Afemanha ao estourar
A investigação e a exposição das causas da convulsão revolucio­ a Revolução?
nária e de sua supressão são (...) de suma importância do ponto de A composição das diversas classes sociais, que formam a base de
vista histórico. Todas essas discussões e recriminações insignificantes e toda organização política era, na Alemanha, mais complicada do que
pessoais — todas essas afirmações contraditórias, de que foram Marrast em qualquer outro país. Enquanto na Inglaterra e na França o feuda­
ou Ledru-Rollin ou Louis Blanc ou qualquer outro membro do Governo lismo era totalmente destruído ou, pelo menos, reduzido, como na
Provisório ou, mesmo, todos eles ao mesmo tempo, que conduziram a Inglaterra, a poucas e insignificantes formas, por meio de uma classe
Revolução aos recifes onde ela naufragou — que interesse poderão ter, média poderosa e rica, concentrada em grandes cidades e, especialmente,
que esclarecimento podem produzir ao americano ou inglês, que observa na capital, a nobreza feudalista da Alemanha retinha uma grande parte
todos esses movimentos de uma distância tão grande, que não lhe de seus antigos privilégios. O sistema feudal de propriedade prevalecia
permite distinguir qualquer detalhe das operações? Ninguém, em sã em quase toda parte. Os donos de terras até mantinham jurisdição sobre
consciência, jamais acreditará que onze homens, * 1 a maioria dos quais seus inquilinos. Privados de seus privilégios políticos, do direito de
de discutível capacidade tanto para fazer o bem como para fazer o controlar os príncipes, eles tinham, no entanto, preservado toda a sua
mal, puderam, em três meses, arruinar uma nação de 36 milhões de supremacia medieval sobre os cidadãos que moravam em suas proprie­
habitantes, a menos que esses 36 milhões enxergassem tanto à sua dades, bem como a isenção de impostos. O feudalismo mostrava-se mais
frente quanto esses onze homens. Mas como é que 36 milhões de vigoroso em algumas localidades do que em outras, mas, em parte
pessoas podem, de uma só vez, decidir por si mesmas qual o caminho alguma, exceto nas margens esquerdas do Reno, fora ele inteiramente
a seguir, embora estejam parcialmente no escuro a esse respeito, como extirpado. Essa nobreza feudal, antes muito numerosa e, em parte,
é que se perderam e como é que seus antigos dirigentes puderam, por muito rica, era oficialmente considerada a primeira “ordem” do país.
um momento, voltar a liderá-las? Essa é a questão. Ela produzia os altos funcionários do Governo e praticamente todos os
Se quisermos expor aos leitores do The Tribune as causas que, oficiais do Exército.
se de um lado necessitavam da Revolução Alemã de 1848, levaram A burguesia, na Alemanha, ficava muito abaixo, em riqueza e
inevitavelmente à sua imediata repressão em 1849 e 1850, deveremos concentração, de suas congêneres na França e na Inglaterra. As tradi­
relatar a história completa dos acontecimentos da maneira que trans­ cionais manufaturas alemãs haviam sido destruídas pelo aparecimento
da máquina a vapor e pela rapidamente crescente supremacia dos
produtos fabricados na Inglaterra; os produtos mais modernos, criados
* Reproduzido de Marx, K. “Germany at the Outbreak of the Revolution.” In:
Revolution and Counter-Revolution (of Germany in 1848). Londres, George Allen dentro do sistema continental napoleônico, consagrados em outras partes
and Unwin, 1952. cap. I, p. 3-12. Trad. por Fausto R. Nickelsen Pellegrini. do país, não compensavam a perda dos antigos nem eram suficientes
1 Os “onze homens” eram: Dupont de 1’Eure, Lamartine, Crémieux, Arago, Ledru- para criar interesse bastante forte na produção para chamar a atenção
-Rollin, Garnier-Pagès, Marrast, Flocon, Louis Blanc, Marie e Albert. de governos que se mostravam ciumentos quanto a qualquer extensão
103

correram naquele país. Acontecimentos posteriores, bem como o julga­


mento das gerações futuras, decidirão quanto daquele conglomerado de
eventos confusos e aparentemente fortuitos, incoerentes e incongruentes
deverá fazer parte da História Universal. A hora de tal tarefa ainda
não chegou; devemos nos ater aos limites do possível, e nos dar por
6. A ESTRUTURA DE CLASSES felizes, se pudermos encontrar as causas racionais, baseadas em fatos
NA ALEMANHA* indiscutíveis, que expliquem os principais acontecimentos, as principais
vicissitudes daquele movimento, e dar, a nós mesmos, um indício de
direção que a próxima e, talvez, não muito distante eclosão revolucio­
nária dará ao povo germânico.
Em primeiro lugar, qual era a situação da Afemanha ao estourar
A investigação e a exposição das causas da convulsão revolucio­ a Revolução?
nária e de sua supressão são (...) de suma importância do ponto de A composição das diversas classes sociais, que formam a base de
vista histórico. Todas essas discussões e recriminações insignificantes e toda organização política era, na Alemanha, mais complicada do que
pessoais — todas essas afirmações contraditórias, de que foram Marrast em qualquer outro país. Enquanto na Inglaterra e na França o feuda­
ou Ledru-Rollin ou Louis Blanc ou qualquer outro membro do Governo lismo era totalmente destruído ou, pelo menos, reduzido, como na
Provisório ou, mesmo, todos eles ao mesmo tempo, que conduziram a Inglaterra, a poucas e insignificantes formas, por meio de uma classe
Revolução aos recifes onde ela naufragou — que interesse poderão ter, média poderosa e rica, concentrada em grandes cidades e, especialmente,
que esclarecimento podem produzir ao americano ou inglês, que observa na capital, a nobreza feudalista da Alemanha retinha uma grande parte
todos esses movimentos de uma distância tão grande, que não lhe de seus antigos privilégios. O sistema feudal de propriedade prevalecia
permite distinguir qualquer detalhe das operações? Ninguém, em sã em quase toda parte. Os donos de terras até mantinham jurisdição sobre
consciência, jamais acreditará que onze homens, * 1 a maioria dos quais seus inquilinos. Privados de seus privilégios políticos, do direito de
de discutível capacidade tanto para fazer o bem como para fazer o controlar os príncipes, eles tinham, no entanto, preservado toda a sua
mal, puderam, em três meses, arruinar uma nação de 36 milhões de supremacia medieval sobre os cidadãos que moravam em suas proprie­
habitantes, a menos que esses 36 milhões enxergassem tanto à sua dades, bem como a isenção de impostos. O feudalismo mostrava-se mais
frente quanto esses onze homens. Mas como é que 36 milhões de vigoroso em algumas localidades do que em outras, mas, em parte
pessoas podem, de uma só vez, decidir por si mesmas qual o caminho alguma, exceto nas margens esquerdas do Reno, fora ele inteiramente
a seguir, embora estejam parcialmente no escuro a esse respeito, como extirpado. Essa nobreza feudal, antes muito numerosa e, em parte,
é que se perderam e como é que seus antigos dirigentes puderam, por muito rica, era oficialmente considerada a primeira “ordem” do país.
um momento, voltar a liderá-las? Essa é a questão. Ela produzia os altos funcionários do Governo e praticamente todos os
Se quisermos expor aos leitores do The Tribune as causas que, oficiais do Exército.
se de um lado necessitavam da Revolução Alemã de 1848, levaram A burguesia, na Alemanha, ficava muito abaixo, em riqueza e
inevitavelmente à sua imediata repressão em 1849 e 1850, deveremos concentração, de suas congêneres na França e na Inglaterra. As tradi­
relatar a história completa dos acontecimentos da maneira que trans­ cionais manufaturas alemãs haviam sido destruídas pelo aparecimento
da máquina a vapor e pela rapidamente crescente supremacia dos
produtos fabricados na Inglaterra; os produtos mais modernos, criados
* Reproduzido de Marx, K. “Germany at the Outbreak of the Revolution.” In:
Revolution and Counter-Revolution (of Germany in 1848). Londres, George Allen dentro do sistema continental napoleônico, consagrados em outras partes
and Unwin, 1952. cap. I, p. 3-12. Trad. por Fausto R. Nickelsen Pellegrini. do país, não compensavam a perda dos antigos nem eram suficientes
1 Os “onze homens” eram: Dupont de 1’Eure, Lamartine, Crémieux, Arago, Ledru- para criar interesse bastante forte na produção para chamar a atenção
-Rollin, Garnier-Pagès, Marrast, Flocon, Louis Blanc, Marie e Albert. de governos que se mostravam ciumentos quanto a qualquer extensão
104 105

de riqueza ou poder que não fosse da nobreza. Se a França conseguiu mento de seus principais interesses era sustado pela constituição
manter sua produção de seda, através de cinquenta anos de revoluções política do país; por sua divisão desregrada entre trinta e seis príncipes
e guerras, a Alemanha, nesse mesmo tempo, quase perdeu seu tradicional de tendências conflitantes e inúmeros caprichos pessoais; pelos grilhões
mercado de linho. As áreas industriais, além, disso, eram poucas e do feudalismo na agricultura e no comércio ligados a ela; pela superin­
distantes umas das outras; situadas no interior e utilizando, na sua tendência intromissa, à qual uma burocracia arrogante e estúpida
maioria, portos estrangeiros, holandeses ou belgas, para suas importa­ submetia todas as suas transações. Ao mesmo tempo, a extensão e
ções e exportações. Tinham pouco ou nenhum intefesse nas grandes consolidação do Zollverein (Associação Aduaneira), a ampla introdução
cidades portuárias do mar do Norte ou do Báltico. Além disso, eram do transporte a vapor, a crescente concorrência no mercado interno,
incapazes de criar grandes centros industriais e comerciais como Paris levaram as classes de comerciantes dos diversos Estados e Províncias a
e Lyon, Londres e Manchester. As causas desse atraso da indústria se unirem ainda mais, a nivelarem seus interesses e centralizarem seu
alemã eram muitas, porém duas delas bastarão para explicá-lo: a poderio. A conseqüência natural foi a sua transferência para o campo
localização geográfica desfavorável do país, a uma grande distância do da Oposição Liberal e_ a vitória na primeira batalha séria da classe
Atlântico, que havia se tornado a grande estrada do comércio mundial, média germânica pelo poder político. Essa mudança talvez tenha ocor­
e as constantes guerras em que a Alemanha se envolvia, e que eram rido em 1840, ocasião em que a burguesia prussiana assumia a liderança
travadas em seu próprio solo, desde o século XVI até nossos dias. Era do movimento de classe média na Alemanha. Voltaremos, agora, a
essa falta de números e, especialmente, de números concentrados, que tratar desse movimento de Oposição Liberal de 1840-47.
não deixava a classe média alemã atingir aquela supremacia política A grande maioria da população, que não pertencia nem à nobreza
que a burguesia inglesa" vem gozando desde 1688, e que a francesa nem à burguesia, consistia, nas cidades, de pequenos comerciantes e
conquistou em 1789. Mesmo assim, desde 1815, a riqueza e, com ela, operários e, no campo, de camponeses.
a importância política da classe média na Alemanha crescia continua­
mente. Os governos eram obrigados, embora com relutância, a se A pequena classe dos comerciantes e lojistas é, todavia, muito
curvarem pelo menos aos seus interesses mais imediatos. Pode-se, numerosa na Alemanha, devido ao limitado desenvolvimento que os
mesmo, dizer que, de 1815 até 1830 e de 1832 até 1840, cada partícula grandes capitalistas e industriais, como classe, têm tido naquele país.
Nas cidades maiores, ela constitui, praticamente, a maioria da popula­
de influência política, que, tendo sido concedida à classe média, nas
ção; nas cidades menores, predomina totalmente, na falta de concor­
constituições dos Estados menores, foi novamente retirada delas, durante
rentes mais ricos e influentes. Essa classe, de suma importância para
esses dois períodos de reação política, e que cada partícula foi com­
a política de qualquer entidade moderna, bem. como em todas as
pensada por uma vantagem mais prática concedida a elas. Cada derrota
revoluções modernas, é ainda mais importante na Alemanha, onde,
política da classe média trazia em seu rastro uma vitória no campo da
durante as recentes lutas, teve, geralmente, atuação decisiva. Sua
legislação comercial. E, com certeza, a Tarifa Protecionista Prussiana posição intermediária, entre a classe dos grandes capitalistas, comer­
de 1818 e a formação do Zollverein'2 eram muito mais úteis aos comer­
ciantes e industriais, ou seja, a burguesia propriamente dita e a classe
ciantes e industriais da Alemanha do que o discutível direito de expres­ proletária ou operária, estabelece o seu caráter. Tendo aspirações à
são, nas câmaras legislativas de pequenos ducados, que manifestavam
posição da primeira, o menor tropeço da sorte atira os indivíduos dessa
sua falta de confiança em ministros que riam de seus votos. Assim classe para a segunda. Em países monarquistas ou feudais, as tarifas
sendo, com uma crescente riqueza e um comércio cada vez mais amplo,
da corte e da aristocracia tornam-se essenciais à sua existência; a perda
a burguesia logo atingiu o estágio no qual descobriu que o desenvolvi- dessas tarifas poderá arruinar grande parte de suas economias. Em
cidades menores, uma guarnição militar, um governo municipal, um
2 O Zollverein era a União Aduaneira Alemã. Foi criada em 1827 e estendeu-se tribunal, com seus seguidores, geralmente constituem a base de sua
bastante depois da guerra de 1866. Desde a unificação da Alemanha, como um prosperidade; eliminando-os, os comerciantes, os alfaiates, sapateiros e
“Império”, em 1871, os Estados pertencentes ao Zollverein foram incluídos no
Império Alemão. O objetivo do Zollverein era uniformizar as taxas aduaneiras
marceneiros saem perdendo. Por isso, sendo continuamente atirados
em toda a Alemanha. como peteca —■ entrega esperança de galgarem a classe dos mais ricos
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de riqueza ou poder que não fosse da nobreza. Se a França conseguiu mento de seus principais interesses era sustado pela constituição
manter sua produção de seda, através de cinquenta anos de revoluções política do país; por sua divisão desregrada entre trinta e seis príncipes
e guerras, a Alemanha, nesse mesmo tempo, quase perdeu seu tradicional de tendências conflitantes e inúmeros caprichos pessoais; pelos grilhões
mercado de linho. As áreas industriais, além, disso, eram poucas e do feudalismo na agricultura e no comércio ligados a ela; pela superin­
distantes umas das outras; situadas no interior e utilizando, na sua tendência intromissa, à qual uma burocracia arrogante e estúpida
maioria, portos estrangeiros, holandeses ou belgas, para suas importa­ submetia todas as suas transações. Ao mesmo tempo, a extensão e
ções e exportações. Tinham pouco ou nenhum intefesse nas grandes consolidação do Zollverein (Associação Aduaneira), a ampla introdução
cidades portuárias do mar do Norte ou do Báltico. Além disso, eram do transporte a vapor, a crescente concorrência no mercado interno,
incapazes de criar grandes centros industriais e comerciais como Paris levaram as classes de comerciantes dos diversos Estados e Províncias a
e Lyon, Londres e Manchester. As causas desse atraso da indústria se unirem ainda mais, a nivelarem seus interesses e centralizarem seu
alemã eram muitas, porém duas delas bastarão para explicá-lo: a poderio. A conseqüência natural foi a sua transferência para o campo
localização geográfica desfavorável do país, a uma grande distância do da Oposição Liberal e_ a vitória na primeira batalha séria da classe
Atlântico, que havia se tornado a grande estrada do comércio mundial, média germânica pelo poder político. Essa mudança talvez tenha ocor­
e as constantes guerras em que a Alemanha se envolvia, e que eram rido em 1840, ocasião em que a burguesia prussiana assumia a liderança
travadas em seu próprio solo, desde o século XVI até nossos dias. Era do movimento de classe média na Alemanha. Voltaremos, agora, a
essa falta de números e, especialmente, de números concentrados, que tratar desse movimento de Oposição Liberal de 1840-47.
não deixava a classe média alemã atingir aquela supremacia política A grande maioria da população, que não pertencia nem à nobreza
que a burguesia inglesa" vem gozando desde 1688, e que a francesa nem à burguesia, consistia, nas cidades, de pequenos comerciantes e
conquistou em 1789. Mesmo assim, desde 1815, a riqueza e, com ela, operários e, no campo, de camponeses.
a importância política da classe média na Alemanha crescia continua­
mente. Os governos eram obrigados, embora com relutância, a se A pequena classe dos comerciantes e lojistas é, todavia, muito
curvarem pelo menos aos seus interesses mais imediatos. Pode-se, numerosa na Alemanha, devido ao limitado desenvolvimento que os
mesmo, dizer que, de 1815 até 1830 e de 1832 até 1840, cada partícula grandes capitalistas e industriais, como classe, têm tido naquele país.
Nas cidades maiores, ela constitui, praticamente, a maioria da popula­
de influência política, que, tendo sido concedida à classe média, nas
ção; nas cidades menores, predomina totalmente, na falta de concor­
constituições dos Estados menores, foi novamente retirada delas, durante
rentes mais ricos e influentes. Essa classe, de suma importância para
esses dois períodos de reação política, e que cada partícula foi com­
a política de qualquer entidade moderna, bem. como em todas as
pensada por uma vantagem mais prática concedida a elas. Cada derrota
revoluções modernas, é ainda mais importante na Alemanha, onde,
política da classe média trazia em seu rastro uma vitória no campo da
durante as recentes lutas, teve, geralmente, atuação decisiva. Sua
legislação comercial. E, com certeza, a Tarifa Protecionista Prussiana posição intermediária, entre a classe dos grandes capitalistas, comer­
de 1818 e a formação do Zollverein'2 eram muito mais úteis aos comer­
ciantes e industriais, ou seja, a burguesia propriamente dita e a classe
ciantes e industriais da Alemanha do que o discutível direito de expres­ proletária ou operária, estabelece o seu caráter. Tendo aspirações à
são, nas câmaras legislativas de pequenos ducados, que manifestavam
posição da primeira, o menor tropeço da sorte atira os indivíduos dessa
sua falta de confiança em ministros que riam de seus votos. Assim classe para a segunda. Em países monarquistas ou feudais, as tarifas
sendo, com uma crescente riqueza e um comércio cada vez mais amplo,
da corte e da aristocracia tornam-se essenciais à sua existência; a perda
a burguesia logo atingiu o estágio no qual descobriu que o desenvolvi- dessas tarifas poderá arruinar grande parte de suas economias. Em
cidades menores, uma guarnição militar, um governo municipal, um
2 O Zollverein era a União Aduaneira Alemã. Foi criada em 1827 e estendeu-se tribunal, com seus seguidores, geralmente constituem a base de sua
bastante depois da guerra de 1866. Desde a unificação da Alemanha, como um prosperidade; eliminando-os, os comerciantes, os alfaiates, sapateiros e
“Império”, em 1871, os Estados pertencentes ao Zollverein foram incluídos no
Império Alemão. O objetivo do Zollverein era uniformizar as taxas aduaneiras
marceneiros saem perdendo. Por isso, sendo continuamente atirados
em toda a Alemanha. como peteca —■ entrega esperança de galgarem a classe dos mais ricos
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e o medo de serem reduzidos à condição de proletários ou mesmo de difere muito pouco de seus colegas de cinco séculos atrás. Essa falta
indigentes; entre a esperança de promoverem seus interesses, pela con­ generalizada de modernas condições de vida, de métodos modernos de
quista de um lugar nos negócios públicos, e o pavor de despertarem, produção industrial, logicamente foi seguida de uma correspondente falta
através de uma oposição inoportuna, a ira do Governo, que dispõe de de idéias atualizadas. Por isso, não é de se espantar que, ao eclodir a
seus destinos, porque tem o poder de retirar-lhes seus melhores fregue­ Revolução, uma grande parte da classe trabalhadora esteja clamando
ses; possuidores de parcos bens materiais, cuja posse insegura está na pelo imediato restabelecimento de associações e corporações comerciais
razão inversa de seu volume —■ os elementos dessa classe são extrema­ privilegiadas de cunho medieval. No entanto, proveniente dos distritos
mente vacilantes em seus pontos de vista. Humilde e servil, sob um industriais, onde predominavam o sistema moderno de produção e, por
poderoso Governo feudal ou monárquico, essa classe se volta para o consequência, as facilidades de intercomunicação e desenvolvimento
lado do liberalismo, quando a burguesia está em ascensão; ela se toma mental, proporcionadas pela vida migratória de um grande número dos
presa de violentos acessos democráticos assim que a burguesia tenha trabalhadores, formou-se um forte núcleo, cujasçidéias sobre emanci­
obtido sua própria supremacia, mas cai, novamente, no desânimo e no pação da classe eram muito mais claras e estavam mais de acordo com
medo, assim que a classe que se encontra abaixo dela ■—■ o proletariado a realidade dos fatos e das necessidades históricas; mas constituía uma
— tenta encetar um movimento independente. Veremos, pouco a pouco, pequena minoria. Se o movimento ativo das classes médias se iniciou
essa classe, na Alemanha, passar altemativamente de um estágio para em 1840, a reação da classe operária teve seu advento com a insurreição
o outro. dos operários da Silésia e da Boêmia, em 1844. Logo mais teremos
A classe trabalhadora da Alemanha, em seu desenvolvimento oportunidade de passar em revista os diversos estágios que esse movi­
social e político, está tão atrasada em relação às da Inglaterra e França mento atravessou.
quanto a burguesia alemã se encontra atrasadà em relação às burguesias Por fim, havia a grande classe dos pequenos fazendeiros, dos cam­
daqueles países. Tal pai, tal filho. A evolução das condições de vida pónios, a qual, com a adição dos lavradores, constituía a grande maioria
de uma classe proletária numerosa, forte, coesa e inteligente anda de da população nacional. Porém, essa classe se subdividia, por sua vez,
mãos dadas com o progresso das condições de vida de uma classe média em diversas frações. Havia, em primeiro lugar, os fazendeiros mais
numerosa, rica, coesa e poderosa. O movimento da classe operária em abastados, que, na Alemanha, se chamam de Gross-Bauern e Mitel-
si nunca é independente, nunca é de índole exclusivamente proletária, -Bauern, proprietários de fazendas maiores ou menores e cada qual
até que todas as facções da classe média e, especialmente, sua ala mais contratando os serviços de diversos lavradores. Essa classe, situada
progressista, que é a dos grandes industriais, conquiste o poder político entre a dos latifundiários feudais, que não pagavam impostos, e os
e remodele o Estado segundo a sua vontade. É então que o inevitável pequenos agricultores e camponeses, evidentertiente achava que a aliança
conflito entre empregador e empregado se toma iminente e não pode com a classe média antifeudalista d^s cidades era o seu caminho
mais ser protelado; que a classe operária não mais pode ser iludida com político natural. Havia, ainda, uma segunda classe, a dos pequenos
esperanças vãs e promessas que nunca se cumprem; que o grande pro­ proprietários, que predominava na região do Reno, onde o feudalismo
blema do século XIX — a abolição do proletariado — finalmente é havia sucumbido antes mesmo dos poderosos golpes desfechados pela
Revolução Francesa. Outros pequenos proprietários da mesma espécie
trazido à baila, com. justiça e em suas devidas proporções. Só que, na
existiam aqui e acolá, em outras províncias, onde tinham conseguido
Alemanha, o grosso da classe operária não é empregado por patrões
pagar os tributos que antes pendiam sobre suas terras. Esta classe,
modernos dos quais a Grã-Bretanha apresenta exemplares esplêndidos,
porém, era uma classe de proprietários só de nome, já que suas proprie­
mas por pequenos comerciantes, cujo parque fabril não passa de uma dades geralmente se encontravam hipotecadas a tal ponto e em condições
reles réplica da Idade Média. E, como existe uma enorme diferença tão onerosas que, na realidade, o usurário que lhes havia adiantado o
entre o grande industrial do algodão e o pequeno sapateiro ou alfaiate, dinheiro é que era o verdadeiro proprietário. Em terceiro lugar, os
também existe a mesma distância entre industrial de visão das modernas inquilinos dos senhores feudais, que não podiam ser facilmente desalo­
babilônias industriais e o tímido alfaiate ou marceneiro de uma cidade- jados, mas que eram obrigados a pagar um aluguel perpétuo ou, então,
zinha do interior, que vive e trabalha de acordo com um programa que a executar eternamente um certo volume de trabalho para o dono da
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e o medo de serem reduzidos à condição de proletários ou mesmo de difere muito pouco de seus colegas de cinco séculos atrás. Essa falta
indigentes; entre a esperança de promoverem seus interesses, pela con­ generalizada de modernas condições de vida, de métodos modernos de
quista de um lugar nos negócios públicos, e o pavor de despertarem, produção industrial, logicamente foi seguida de uma correspondente falta
através de uma oposição inoportuna, a ira do Governo, que dispõe de de idéias atualizadas. Por isso, não é de se espantar que, ao eclodir a
seus destinos, porque tem o poder de retirar-lhes seus melhores fregue­ Revolução, uma grande parte da classe trabalhadora esteja clamando
ses; possuidores de parcos bens materiais, cuja posse insegura está na pelo imediato restabelecimento de associações e corporações comerciais
razão inversa de seu volume —■ os elementos dessa classe são extrema­ privilegiadas de cunho medieval. No entanto, proveniente dos distritos
mente vacilantes em seus pontos de vista. Humilde e servil, sob um industriais, onde predominavam o sistema moderno de produção e, por
poderoso Governo feudal ou monárquico, essa classe se volta para o consequência, as facilidades de intercomunicação e desenvolvimento
lado do liberalismo, quando a burguesia está em ascensão; ela se toma mental, proporcionadas pela vida migratória de um grande número dos
presa de violentos acessos democráticos assim que a burguesia tenha trabalhadores, formou-se um forte núcleo, cujasçidéias sobre emanci­
obtido sua própria supremacia, mas cai, novamente, no desânimo e no pação da classe eram muito mais claras e estavam mais de acordo com
medo, assim que a classe que se encontra abaixo dela ■—■ o proletariado a realidade dos fatos e das necessidades históricas; mas constituía uma
— tenta encetar um movimento independente. Veremos, pouco a pouco, pequena minoria. Se o movimento ativo das classes médias se iniciou
essa classe, na Alemanha, passar altemativamente de um estágio para em 1840, a reação da classe operária teve seu advento com a insurreição
o outro. dos operários da Silésia e da Boêmia, em 1844. Logo mais teremos
A classe trabalhadora da Alemanha, em seu desenvolvimento oportunidade de passar em revista os diversos estágios que esse movi­
social e político, está tão atrasada em relação às da Inglaterra e França mento atravessou.
quanto a burguesia alemã se encontra atrasadà em relação às burguesias Por fim, havia a grande classe dos pequenos fazendeiros, dos cam­
daqueles países. Tal pai, tal filho. A evolução das condições de vida pónios, a qual, com a adição dos lavradores, constituía a grande maioria
de uma classe proletária numerosa, forte, coesa e inteligente anda de da população nacional. Porém, essa classe se subdividia, por sua vez,
mãos dadas com o progresso das condições de vida de uma classe média em diversas frações. Havia, em primeiro lugar, os fazendeiros mais
numerosa, rica, coesa e poderosa. O movimento da classe operária em abastados, que, na Alemanha, se chamam de Gross-Bauern e Mitel-
si nunca é independente, nunca é de índole exclusivamente proletária, -Bauern, proprietários de fazendas maiores ou menores e cada qual
até que todas as facções da classe média e, especialmente, sua ala mais contratando os serviços de diversos lavradores. Essa classe, situada
progressista, que é a dos grandes industriais, conquiste o poder político entre a dos latifundiários feudais, que não pagavam impostos, e os
e remodele o Estado segundo a sua vontade. É então que o inevitável pequenos agricultores e camponeses, evidentertiente achava que a aliança
conflito entre empregador e empregado se toma iminente e não pode com a classe média antifeudalista d^s cidades era o seu caminho
mais ser protelado; que a classe operária não mais pode ser iludida com político natural. Havia, ainda, uma segunda classe, a dos pequenos
esperanças vãs e promessas que nunca se cumprem; que o grande pro­ proprietários, que predominava na região do Reno, onde o feudalismo
blema do século XIX — a abolição do proletariado — finalmente é havia sucumbido antes mesmo dos poderosos golpes desfechados pela
Revolução Francesa. Outros pequenos proprietários da mesma espécie
trazido à baila, com. justiça e em suas devidas proporções. Só que, na
existiam aqui e acolá, em outras províncias, onde tinham conseguido
Alemanha, o grosso da classe operária não é empregado por patrões
pagar os tributos que antes pendiam sobre suas terras. Esta classe,
modernos dos quais a Grã-Bretanha apresenta exemplares esplêndidos,
porém, era uma classe de proprietários só de nome, já que suas proprie­
mas por pequenos comerciantes, cujo parque fabril não passa de uma dades geralmente se encontravam hipotecadas a tal ponto e em condições
reles réplica da Idade Média. E, como existe uma enorme diferença tão onerosas que, na realidade, o usurário que lhes havia adiantado o
entre o grande industrial do algodão e o pequeno sapateiro ou alfaiate, dinheiro é que era o verdadeiro proprietário. Em terceiro lugar, os
também existe a mesma distância entre industrial de visão das modernas inquilinos dos senhores feudais, que não podiam ser facilmente desalo­
babilônias industriais e o tímido alfaiate ou marceneiro de uma cidade- jados, mas que eram obrigados a pagar um aluguel perpétuo ou, então,
zinha do interior, que vive e trabalha de acordo com um programa que a executar eternamente um certo volume de trabalho para o dono da
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casa. Finalmente, os trabalhadores braçais do campo, cuja condição, unidade alemã. O ponto mais avançado a que chegou a centralização
em muitas das grandes fazendas, era exatamente a mesma de seus con­ na Alemanha foi a criação do Zollverein, Com isso, os Estados do mar
gêneres na Inglaterra, e que sempre viviam e morriam na miséria, do Norte também se viram forçados a criar uma União Alfandegária
mal nutridos e eram escravos de seus patrões. Estas três últimas catego­ própria, ficando a Áustria presa ao seu sistema tarifário proibitivo em
rias da população rural, os pequenos pseudoproprietários, os inquilinos separado. A Alemanha tinha a satisfação de ser, apenas para fins
dos senhores feudais e os lavradores, nunca se importaram muito com práticos, dividida em três potências independentes, em lugar de trinta e
a política antes da Revolução, mas é lógico que esse conhecimento seis. É claro que a enorme supremacia do tzar da Rússia, estabelecida
deve ter-lhes aberto uma nova carreira, cheia de promissoras pers­ em 1814, não sofreu qualquer modificação com isso.
pectivas. Para cada um deles, a Revolução oferecia vantagens. O Tendo chegado a estas conclusões preliminares de nossas premissas,
movimento, uma vez deflagrado, era de se esperar que cada um a seu veremos, em nosso próximo artigo, como as referidas classes do povo
tempo tomasse parte nele. Contudo, ao mesmo tempo, é evidente e alemão foram postas em movimento, uma após a outra, e qual a índole
igualmente comprovado pela história de todos os países modernos, que do movimento por ocasião da eclosão da Revolução Francesa de 1848.
a população agrícola, devido à sua dispersão numa área muito ampla
e pela dificuldade de elaborar um acordo entre uma boa parte dela,
jamais pode tentar executar com êxito um movimento por conta própria;
ela necessita do impulso inicial da gente mais unida, mais esclarecida e
mais facilmente impressionável das cidades.
O breve esboço que apresentamos das principais classes sociais,
que, no seu todo, formavam a nação alemã, na época da eclosão dos
recentes movimentos políticos, já será suficiente para explicar, em
grande parte, a incoerência, a incongruência e a aparente contradição
que prevaleceu naquele movimento. Quando interesses tão diversifi­
cados, tão conflitantes, tão estranhamente se entrecruzando, são levados
a uma colisão violenta; quando esses interesses conflitantes, em cada
município, cada província, são combinados em diversas proporções;
quando, acima de tudo, não existe um grande centro urbano no país,
nada que se compare a uma Londres ou Paris, cujas decisões, pela
influência que exercem, podem superar a necessidade de debater as
mesmas questões muitas vezes em cada lugar; que mais se pode esperar,
se não que a contenda por si só se dilua numa massa de lutas desco­
nexas, nas quais uma enorme quantidade de sangue, energia e capital é
dispendida, mas que, por tudo isso, continua sem qualquer resultado
decisivo?
O desmembramento político da Alemanha em três dúzias ou mais
de principados menores também se explica pela confusão e multipli­
cidade dos elementos que compõem a nação e que, da mesma forma,
variam de lugar para lugar. Onde não há interesses comuns, não pode
haver unidade de propósitos e menos ainda uma ação conjunta. A
Confederação Alemã, é bem verdade, foi declarada indissolúvel; no
entanto, a Confederação e seu órgão, a Dieta, jamais representou a
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casa. Finalmente, os trabalhadores braçais do campo, cuja condição, unidade alemã. O ponto mais avançado a que chegou a centralização
em muitas das grandes fazendas, era exatamente a mesma de seus con­ na Alemanha foi a criação do Zollverein, Com isso, os Estados do mar
gêneres na Inglaterra, e que sempre viviam e morriam na miséria, do Norte também se viram forçados a criar uma União Alfandegária
mal nutridos e eram escravos de seus patrões. Estas três últimas catego­ própria, ficando a Áustria presa ao seu sistema tarifário proibitivo em
rias da população rural, os pequenos pseudoproprietários, os inquilinos separado. A Alemanha tinha a satisfação de ser, apenas para fins
dos senhores feudais e os lavradores, nunca se importaram muito com práticos, dividida em três potências independentes, em lugar de trinta e
a política antes da Revolução, mas é lógico que esse conhecimento seis. É claro que a enorme supremacia do tzar da Rússia, estabelecida
deve ter-lhes aberto uma nova carreira, cheia de promissoras pers­ em 1814, não sofreu qualquer modificação com isso.
pectivas. Para cada um deles, a Revolução oferecia vantagens. O Tendo chegado a estas conclusões preliminares de nossas premissas,
movimento, uma vez deflagrado, era de se esperar que cada um a seu veremos, em nosso próximo artigo, como as referidas classes do povo
tempo tomasse parte nele. Contudo, ao mesmo tempo, é evidente e alemão foram postas em movimento, uma após a outra, e qual a índole
igualmente comprovado pela história de todos os países modernos, que do movimento por ocasião da eclosão da Revolução Francesa de 1848.
a população agrícola, devido à sua dispersão numa área muito ampla
e pela dificuldade de elaborar um acordo entre uma boa parte dela,
jamais pode tentar executar com êxito um movimento por conta própria;
ela necessita do impulso inicial da gente mais unida, mais esclarecida e
mais facilmente impressionável das cidades.
O breve esboço que apresentamos das principais classes sociais,
que, no seu todo, formavam a nação alemã, na época da eclosão dos
recentes movimentos políticos, já será suficiente para explicar, em
grande parte, a incoerência, a incongruência e a aparente contradição
que prevaleceu naquele movimento. Quando interesses tão diversifi­
cados, tão conflitantes, tão estranhamente se entrecruzando, são levados
a uma colisão violenta; quando esses interesses conflitantes, em cada
município, cada província, são combinados em diversas proporções;
quando, acima de tudo, não existe um grande centro urbano no país,
nada que se compare a uma Londres ou Paris, cujas decisões, pela
influência que exercem, podem superar a necessidade de debater as
mesmas questões muitas vezes em cada lugar; que mais se pode esperar,
se não que a contenda por si só se dilua numa massa de lutas desco­
nexas, nas quais uma enorme quantidade de sangue, energia e capital é
dispendida, mas que, por tudo isso, continua sem qualquer resultado
decisivo?
O desmembramento político da Alemanha em três dúzias ou mais
de principados menores também se explica pela confusão e multipli­
cidade dos elementos que compõem a nação e que, da mesma forma,
variam de lugar para lugar. Onde não há interesses comuns, não pode
haver unidade de propósitos e menos ainda uma ação conjunta. A
Confederação Alemã, é bem verdade, foi declarada indissolúvel; no
entanto, a Confederação e seu órgão, a Dieta, jamais representou a
111

domínio dos padres; os padres submetem-na à educação deles. Desterrou


pessoas sem julgamento; está sendo desterrada sem julgamento. Repri­
miu todos os movimentos da sociedade através do poder do Estado;
todos os movimentos de sua sociedade são reprimidos pelo poder do
7. CLASSES SOCIAIS E BONAPARTISMO * Estado. Levada pelo amor à própria bolsa, rebelou-se contra seus polí­
ticos e homens de letras; seus políticos e homens de letras foram postos
de lado, mas sua bolsa está sendo assaltada agora que sua boca foi
amordaçada e sua pena quebrada. A burguesia não se cansava de gritar
à revolução o que Santo Arsênio gritou aos cristãos: “Fuge, tace,
quiesce!” [“Foge, cala, sossega!”] Agora é Bonaparte que grita à bur­
guesia: “Fuge, tace, quiesce!”
(...) No umbral da Revolução de Fevereiro, a república social A burguesia francesa há muito encontrara a solução para o dilema
apareceu como uma frase, como uma profecia. Nas jornadas de junho de Napoleão: “Dans cinquante ans 1’Europe sera républicaine ou cosa-
de 1848 foi afogada no sangue do proletariado de Paris, mas ronda os
que!” 1 Encontrara a solução na republique cosaque. Nenhuma Circe,
subseqüentes atos da peça como um fantasma. A república democrática
por meio de encantamentos, transformara a obra de arte, que era a
anuncia o seu advento. A 13 de junho de 1849 é dispersada juntamente
com sua pequena burguesia, que se pôs em fuga, mas que, na corrida,
república burguesa, em um monstro. A república não perdeu senão a
se vangloria com redobrada arrogância. A república parlamentar, jun­ aparência de respeitabilidade. A França de hoje já estava contida, em
tamente com a burguesia, apossa-se de todo o cenário; goza a vida em sua forma completa, na república parlamentar. Faltava apenas um
toda a sua plenitude, mas o 2 de dezembro de 1851 a enterra sob o golpe, de baioneta para que a bolha arrebentasse e o monstro saltasse
acompanhamento do grito de agonia dos monarquistas coligados: “Viva diante dos nossos olhos.
a República!” Por que o proletariado de Paris não se revoltou depois de 2 de
A burguesia francesa rebelou-se contra o domínio do proletariado dezembro?
trabalhador; levou ao poder o Lumpenproletariat, tendo à frente o chefe A queda da burguesia mal fora decretada; o decreto ainda não
da Sociedade de 10 de Dezembro. A burguesia conservava a França tinha sido executado. Qualquer insurreição séria do proletariado teria
resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; imediatamente instilado vida nova à burguesia, tê-la-ia reconciliado com
Bonaparte descontou para ela esse futuro, quando, a 4 de dezembro, o exército e assegurado aos operários uma segunda derrota de junho.
fez com que o exército da ordem, inspirado pela aguardente, fuzilasse
os eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do Bulevar des A 4 de dezembro, o proletariado foi incitado à luta por burgueses
Italiens, que estavam postados em suas janelas. A burguesia fez a e vendeiros. Naquela noite, várias legiões da Guarda Nacional prome­
apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a imprensa revolu­ teram aparecer, armadas e uniformizadas na cena da luta. Burgueses
e vendeiros tinham tido notícia de que, em um de seus decretos de 2
cionária; sua própria imprensa foi destruída. Colocou as reuniões popu­
de dezembro, Bonaparte abolira o voto secreto e ordenava que marcas­
lares sob a vigilância da polícia; seus salões estão sob a vigilância da
sem “sim” ou “não”, adiante de seus nomes, nos registros oficiais. A
polícia. Dissolveu' a Guarda Nacional democrática; sua própria Guarda
resistência de 4 de dezembro intimidou Bonaparte. Durante a noite
Nacional foi dissolvida. Impôs o estado de sítio; o estado de’ sítio foi-lhe mandou que fossem colocados cartazes em todas as esquinas de Paris,
imposto. Substituiu os júris por comissões militares; seus júris são anunciando a restauração do voto secreto. O burguês e o vendeiro
substituídos por comissões militares. Submeteu a educação pública ao imaginaram que haviam alcançado seu objetivo. Os que deixaram de
comparecer na manhã seguinte foram o burguês e o vendeiro.
* Reproduzido de Marx, K. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Trad. revista
por Leandro Konder. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1969. p. 110-26.
“Dentro de cinqüenta anos a Europa será ou republicana ou cossaca.” (N. da Ed.)
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domínio dos padres; os padres submetem-na à educação deles. Desterrou


pessoas sem julgamento; está sendo desterrada sem julgamento. Repri­
miu todos os movimentos da sociedade através do poder do Estado;
todos os movimentos de sua sociedade são reprimidos pelo poder do
7. CLASSES SOCIAIS E BONAPARTISMO * Estado. Levada pelo amor à própria bolsa, rebelou-se contra seus polí­
ticos e homens de letras; seus políticos e homens de letras foram postos
de lado, mas sua bolsa está sendo assaltada agora que sua boca foi
amordaçada e sua pena quebrada. A burguesia não se cansava de gritar
à revolução o que Santo Arsênio gritou aos cristãos: “Fuge, tace,
quiesce!” [“Foge, cala, sossega!”] Agora é Bonaparte que grita à bur­
guesia: “Fuge, tace, quiesce!”
(...) No umbral da Revolução de Fevereiro, a república social A burguesia francesa há muito encontrara a solução para o dilema
apareceu como uma frase, como uma profecia. Nas jornadas de junho de Napoleão: “Dans cinquante ans 1’Europe sera républicaine ou cosa-
de 1848 foi afogada no sangue do proletariado de Paris, mas ronda os
que!” 1 Encontrara a solução na republique cosaque. Nenhuma Circe,
subseqüentes atos da peça como um fantasma. A república democrática
por meio de encantamentos, transformara a obra de arte, que era a
anuncia o seu advento. A 13 de junho de 1849 é dispersada juntamente
com sua pequena burguesia, que se pôs em fuga, mas que, na corrida,
república burguesa, em um monstro. A república não perdeu senão a
se vangloria com redobrada arrogância. A república parlamentar, jun­ aparência de respeitabilidade. A França de hoje já estava contida, em
tamente com a burguesia, apossa-se de todo o cenário; goza a vida em sua forma completa, na república parlamentar. Faltava apenas um
toda a sua plenitude, mas o 2 de dezembro de 1851 a enterra sob o golpe, de baioneta para que a bolha arrebentasse e o monstro saltasse
acompanhamento do grito de agonia dos monarquistas coligados: “Viva diante dos nossos olhos.
a República!” Por que o proletariado de Paris não se revoltou depois de 2 de
A burguesia francesa rebelou-se contra o domínio do proletariado dezembro?
trabalhador; levou ao poder o Lumpenproletariat, tendo à frente o chefe A queda da burguesia mal fora decretada; o decreto ainda não
da Sociedade de 10 de Dezembro. A burguesia conservava a França tinha sido executado. Qualquer insurreição séria do proletariado teria
resfolegando de pavor ante os futuros terrores da anarquia vermelha; imediatamente instilado vida nova à burguesia, tê-la-ia reconciliado com
Bonaparte descontou para ela esse futuro, quando, a 4 de dezembro, o exército e assegurado aos operários uma segunda derrota de junho.
fez com que o exército da ordem, inspirado pela aguardente, fuzilasse
os eminentes burgueses do Bulevar Montmartre e do Bulevar des A 4 de dezembro, o proletariado foi incitado à luta por burgueses
Italiens, que estavam postados em suas janelas. A burguesia fez a e vendeiros. Naquela noite, várias legiões da Guarda Nacional prome­
apoteose da espada; a espada a domina. Destruiu a imprensa revolu­ teram aparecer, armadas e uniformizadas na cena da luta. Burgueses
e vendeiros tinham tido notícia de que, em um de seus decretos de 2
cionária; sua própria imprensa foi destruída. Colocou as reuniões popu­
de dezembro, Bonaparte abolira o voto secreto e ordenava que marcas­
lares sob a vigilância da polícia; seus salões estão sob a vigilância da
sem “sim” ou “não”, adiante de seus nomes, nos registros oficiais. A
polícia. Dissolveu' a Guarda Nacional democrática; sua própria Guarda
resistência de 4 de dezembro intimidou Bonaparte. Durante a noite
Nacional foi dissolvida. Impôs o estado de sítio; o estado de’ sítio foi-lhe mandou que fossem colocados cartazes em todas as esquinas de Paris,
imposto. Substituiu os júris por comissões militares; seus júris são anunciando a restauração do voto secreto. O burguês e o vendeiro
substituídos por comissões militares. Submeteu a educação pública ao imaginaram que haviam alcançado seu objetivo. Os que deixaram de
comparecer na manhã seguinte foram o burguês e o vendeiro.
* Reproduzido de Marx, K. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Trad. revista
por Leandro Konder. Rio de Janeiro, Ed. Paz e Terra, 1969. p. 110-26.
“Dentro de cinqüenta anos a Europa será ou republicana ou cossaca.” (N. da Ed.)
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Por meio de um coup de main, durante a noite de l.° para 2 de Esse poder executivo, com sua imensa organização burocrática e
dezembro, Bonaparte despojara o proletariado de Paris de seus diri­ militar, com sua engenhosa máquina do Estado, abrangendo amplas
gentes, os comandantes das barricadas. Um exército sem oficiais, avesso camadas, com um exército de funcionários totalizando meio milhão,
a lutar sob a bandeira dos montagnards devido às recordações de junho
além de mais meio milhão de tropas regulares, esse tremendo corpo de
de 1848 e 1849 e maio de 1850, deixou à sua vanguarda, as sociedades parasitas que envolve como uma teia o corpo da sociedade francesa e
secretas, a tarefa de salvar a honra insurrecional de Paris. Esta Paris, sufoca todos os seus poros, surgiu ao tempo da monarquia absoluta,
a burguesia a abandonara tão passivamente à soldadesca, que Bonaparte com o declínio do sistema feudal, que contribuiu para apressar. Os
pôde mais tarde apresentar, zombeteiramente, como pretexto para de­ privilégios senhoriais dos proprietários de terras e das cidades trans­
sarmar a Guarda Nacional, o medo de que suas armas fossem voltadas formaram-se em outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitá­
contra ela própria pelos anarquistas! rios feudais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes
“C’est le triomphe complet et définitif du Socialisme!”2 Assim absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um poder
caracterizou Guizot o 2 de dezembro. Mas, se a derrocada da república estatal, cuja tarefa está dividida e centralizada como em uma fábrica.
parlamentar encerra em si o germe da vitória da revolução proletária, A primeira Revolução Francesa, em sua tarefa de quebrar todos os
seu resultado imediato e palpável foi a vitória de Bonaparte sobre o poderes independentes — locais, territoriais, urbanos e provinciais —
parlamento, do poder executivo sobre o poder legislativo, da força sem a fim de estabelecer a unificação civil da nação, tinha forçosamente que
frases sobre a força das frases. No parlamento, a nação tornou a lei a desenvolver o que a monarquia absoluta começara: a centralização,
sua vontade geral, isto é, tomou sua vontade geral a lei da classe mas, ao mesmo tempo, o âmbito, os atributos e os agentes do poder
dominante. Renuncia, agora, ante o poder executivo, a toda vontade governamental. Napoleão aperfeiçoara essa máquina estatal. A mo­
própria e submete-se aos ditames superiores de uma vontade estranha, narquia legitimista e a Monarquia de Julho nada mais fizeram do que
curva-se diante da autoridade. O poder executivo, em contraste com o acrescentar maior divisão do trabalho, que crescia na mesma proporção
poder legislativo, expressa a heteronomia de uma nação, em contraste em que a divisão do trabalho dentro da sociedade burguesa criava novos
com sua autonomia. A França, portanto, parece ter escapado ao despo­ grupos de interesses e, por conseguinte, novo material para a adminis­
tismo de uma classe apenas para cair sob o despotismo de um indivíduo, tração do Estado. Todo interesse comum, (gemeinsame) era imediata­
e, o que é ainda pior, sob a autoridade de um indivíduo sem autoridade. mente cortado da sociedade, contraposto a ela como um interesse
A luta parece resolver-se de tal maneira que todas as classes, igualmente superior, geral (allgemeins), retirado da atividade dos próprios membros
impotentes e igualmente mudas, caem de joelhos diante da culatra da sociedade e transformado em objeto da atividade do governo, desde
do fuzil. a ponte, o edifício da escola e a propriedade comunal de uma aldeia,
Mas a revolução é profunda. Ainda está passando pelo purgatório. até as estradas de ferro, a riqueza nacional e as universidades da França.
Executa metodicamente a sua tarefa. A 2 de dezembro concluíra a Finalmente, em sua luta contra a revolução, a república parlamentar
metade de seu trabalho preparatório; conclui agora a outra metade. viu-se forçada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os
Primeiro aperfeiçoou o poder do parlamento, a fim de poder derrubá-lo. recursos e a centralização do poder governamental. Todas as revoluções
Uma vez conseguido isso, aperfeiçoa o poder executivo, o reduz à sua aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de destroçá-la. Os partidos que
expressão mais pura, isola-o, lança-o contra si próprio como o único disputavam o poder encaravam a posse dessa imensa estrutura do
alvo, a fim de concentrar todas as suas forças de destruição contra ele. Estado como o principal espólio do vencedor.
E, quando tiver concluído essa segunda metade de seu trabalho preli­
Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira Revolução, sob
minar, a Europa se levantará de um salto e exclamará exultante: Belo
Napoleão, a burocracia era apenas o meio de preparar o domínio de
trabalho, minha boa toupeira!
classe da burguesia. Sob a Restauração, sob Luís Filipe, sob a república
parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que
2 “É o triunfo completo e definitivo do Socialismo.*1 (N. da Ed.) lutasse por estabelecer seu próprio domínio.
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Por meio de um coup de main, durante a noite de l.° para 2 de Esse poder executivo, com sua imensa organização burocrática e
dezembro, Bonaparte despojara o proletariado de Paris de seus diri­ militar, com sua engenhosa máquina do Estado, abrangendo amplas
gentes, os comandantes das barricadas. Um exército sem oficiais, avesso camadas, com um exército de funcionários totalizando meio milhão,
a lutar sob a bandeira dos montagnards devido às recordações de junho
além de mais meio milhão de tropas regulares, esse tremendo corpo de
de 1848 e 1849 e maio de 1850, deixou à sua vanguarda, as sociedades parasitas que envolve como uma teia o corpo da sociedade francesa e
secretas, a tarefa de salvar a honra insurrecional de Paris. Esta Paris, sufoca todos os seus poros, surgiu ao tempo da monarquia absoluta,
a burguesia a abandonara tão passivamente à soldadesca, que Bonaparte com o declínio do sistema feudal, que contribuiu para apressar. Os
pôde mais tarde apresentar, zombeteiramente, como pretexto para de­ privilégios senhoriais dos proprietários de terras e das cidades trans­
sarmar a Guarda Nacional, o medo de que suas armas fossem voltadas formaram-se em outros tantos atributos do poder do Estado, os dignitá­
contra ela própria pelos anarquistas! rios feudais em funcionários pagos e o variegado mapa dos poderes
“C’est le triomphe complet et définitif du Socialisme!”2 Assim absolutos medievais em conflito entre si, no plano regular de um poder
caracterizou Guizot o 2 de dezembro. Mas, se a derrocada da república estatal, cuja tarefa está dividida e centralizada como em uma fábrica.
parlamentar encerra em si o germe da vitória da revolução proletária, A primeira Revolução Francesa, em sua tarefa de quebrar todos os
seu resultado imediato e palpável foi a vitória de Bonaparte sobre o poderes independentes — locais, territoriais, urbanos e provinciais —
parlamento, do poder executivo sobre o poder legislativo, da força sem a fim de estabelecer a unificação civil da nação, tinha forçosamente que
frases sobre a força das frases. No parlamento, a nação tornou a lei a desenvolver o que a monarquia absoluta começara: a centralização,
sua vontade geral, isto é, tomou sua vontade geral a lei da classe mas, ao mesmo tempo, o âmbito, os atributos e os agentes do poder
dominante. Renuncia, agora, ante o poder executivo, a toda vontade governamental. Napoleão aperfeiçoara essa máquina estatal. A mo­
própria e submete-se aos ditames superiores de uma vontade estranha, narquia legitimista e a Monarquia de Julho nada mais fizeram do que
curva-se diante da autoridade. O poder executivo, em contraste com o acrescentar maior divisão do trabalho, que crescia na mesma proporção
poder legislativo, expressa a heteronomia de uma nação, em contraste em que a divisão do trabalho dentro da sociedade burguesa criava novos
com sua autonomia. A França, portanto, parece ter escapado ao despo­ grupos de interesses e, por conseguinte, novo material para a adminis­
tismo de uma classe apenas para cair sob o despotismo de um indivíduo, tração do Estado. Todo interesse comum, (gemeinsame) era imediata­
e, o que é ainda pior, sob a autoridade de um indivíduo sem autoridade. mente cortado da sociedade, contraposto a ela como um interesse
A luta parece resolver-se de tal maneira que todas as classes, igualmente superior, geral (allgemeins), retirado da atividade dos próprios membros
impotentes e igualmente mudas, caem de joelhos diante da culatra da sociedade e transformado em objeto da atividade do governo, desde
do fuzil. a ponte, o edifício da escola e a propriedade comunal de uma aldeia,
Mas a revolução é profunda. Ainda está passando pelo purgatório. até as estradas de ferro, a riqueza nacional e as universidades da França.
Executa metodicamente a sua tarefa. A 2 de dezembro concluíra a Finalmente, em sua luta contra a revolução, a república parlamentar
metade de seu trabalho preparatório; conclui agora a outra metade. viu-se forçada a consolidar, juntamente com as medidas repressivas, os
Primeiro aperfeiçoou o poder do parlamento, a fim de poder derrubá-lo. recursos e a centralização do poder governamental. Todas as revoluções
Uma vez conseguido isso, aperfeiçoa o poder executivo, o reduz à sua aperfeiçoaram essa máquina, ao invés de destroçá-la. Os partidos que
expressão mais pura, isola-o, lança-o contra si próprio como o único disputavam o poder encaravam a posse dessa imensa estrutura do
alvo, a fim de concentrar todas as suas forças de destruição contra ele. Estado como o principal espólio do vencedor.
E, quando tiver concluído essa segunda metade de seu trabalho preli­
Mas sob a monarquia absoluta, durante a primeira Revolução, sob
minar, a Europa se levantará de um salto e exclamará exultante: Belo
Napoleão, a burocracia era apenas o meio de preparar o domínio de
trabalho, minha boa toupeira!
classe da burguesia. Sob a Restauração, sob Luís Filipe, sob a república
parlamentar, era o instrumento da classe dominante, por muito que
2 “É o triunfo completo e definitivo do Socialismo.*1 (N. da Ed.) lutasse por estabelecer seu próprio domínio.
114 115

Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tomar-se que milhões de famílias camponesas vivem em condições econômicas que
completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto as separam umas das outras, e opõem o seu modo de vida, os seus
a sua posição em face da sociedade civil, que lhe basta ter à frente o interesses e sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes mi­
chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, lhões constituem uma classe. Mas, na medida em que existe entre os
glorificado por uma soldadesca embriagada, comprada com aguardente pequenos camponeses apenas uma ligação local e em que a similitude
e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí de seus interesses não cria entre eles comunidade alguma, ligação nacio­
o pusilânime desalento, o sentimento de terrível humilhação e degrada­ nal alguma nem organização política, nessa exata medida não constituem
ção que oprime a França e lhe corta a respiração. A França se sente uma classe. [São, conseqüentemente, incapazes de fazer valer seu inte­
desonrada. resse de classe em seu próprio nome, quer através de um parlamento,
E, não obstante, o poder estatal não está suspenso no ar. Bona­ quer através de uma convenção. Não podem representar-se, têm que
parte representa uma classe, e justamente a classe mais numerosa da ser representados. Seu representante tem, ao mesmo tempo, que apare­
sociedade francesa, os pequenos (Parzellerí) camponeses. cer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder
governamental ilimitado que os protege das demais classes e que do
Assim como os Bourbons representavam a grande propriedade alto lhes manda o sol [ou a chuva. A influência política dos pequenos
territorial e os Orléans a dinastia do dinheiro, os Bonapartes são a camponeses, portanto, encontra sua expressão final no fato de que o
dinastia dos camponeses, ou seja, da massa do povo francês. O eleito poder executivo submete ao seu domínio a sociedade.
do campesinato não é o Bonaparte que se curvou ao parlamento
A tradição histórica originou nos camponeses franceses a crença
burguês, mas o Bonaparte que o dissolveu. Durante três anos, as cida­
no milagre de que um homem chamado Napoleão restituiria a eles toda
des haviam conseguido falsificar o significado da eleição de 10 de
a glória passada. E surgiu um indivíduo que se faz passar por esse
dezembro e roubar aos camponeses a restauração do Império. A eleição homem, porque carrega o nome de Napoleão, em virtude do Code
de 10 de dezembro de 1848 só se consumou com o golpe de Estado Napoléon3 que estabelece: “La recherche de la paternité est interdite”. 4
de 2 de dezembro de 1851,
Depois de vinte anos de vagabundagem e depois de uma série de aven­
Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos turas grotescas, a lenda se consuma e o homem se torna imperador dos
membros vivem em condições semelhantes, mas sem estabelecerem franceses. A idéia fixa do sobrinho realizou-se, porque coincidia com
relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos a idéia fixa da classe mais numerosa do povo francês.
outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo. Esse isola­
mento é agravado pelo mau sistema de comunicações existente na Mas pode-se objetar: e os levantes camponeses na metade da
França e pela pobreza dos camponeses. Seu campo de produção, a França, as investidas do exército contra os camponeses, as prisões e
pequena propriedade, não permite qualquer divisão do trabalho para deportações em massa de camponeses?
o cultivo, nenhuma aplicação de métodos científicos e, portanto, A França não experimentara, desde Luís XIV, uma semelhante
nenhuma diversidade de desenvolvimento, nenhuma variedade de ta­ perseguição de camponeses “por motivos demagógicos”.
lento, nenhuma riqueza de relações sociais. Cada família camponesa é
É preciso que fique bem claro. A dinastia de Bonaparte representa
quase auto-suficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte
do que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais através não o camponês revolucionário, mas o conservador; não o camponês
de trocas com a natureza do que do intercâmbio com a sociedade. Uma que luta para escapar às condições de sua existência social, a pequena
pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles outra propriedade, mas, antes, o camponês que quer consolidar sua proprie­
pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas dade; não a população rural, que, ligada à das cidades, quer derrubar
delas constituem uma aldeia, e algumas dezenas de aldeias constituem a velha ordem de coisas por meio de seus próprios esforços, mas, pelo
um departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada
pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira por « Código Napoleônico. (N da Ed.)
que batatas em um saco constituem um saco de batatas. Na medida em 1 “É proibida a investigação da paternidade.” (N. da Ed.)
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Unicamente sob o segundo Bonaparte o Estado parece tomar-se que milhões de famílias camponesas vivem em condições econômicas que
completamente autônomo. A máquina do Estado consolidou a tal ponto as separam umas das outras, e opõem o seu modo de vida, os seus
a sua posição em face da sociedade civil, que lhe basta ter à frente o interesses e sua cultura aos das outras classes da sociedade, estes mi­
chefe da Sociedade de 10 de Dezembro, um aventureiro surgido de fora, lhões constituem uma classe. Mas, na medida em que existe entre os
glorificado por uma soldadesca embriagada, comprada com aguardente pequenos camponeses apenas uma ligação local e em que a similitude
e salsichas e que deve ser constantemente recheada de salsichas. Daí de seus interesses não cria entre eles comunidade alguma, ligação nacio­
o pusilânime desalento, o sentimento de terrível humilhação e degrada­ nal alguma nem organização política, nessa exata medida não constituem
ção que oprime a França e lhe corta a respiração. A França se sente uma classe. [São, conseqüentemente, incapazes de fazer valer seu inte­
desonrada. resse de classe em seu próprio nome, quer através de um parlamento,
E, não obstante, o poder estatal não está suspenso no ar. Bona­ quer através de uma convenção. Não podem representar-se, têm que
parte representa uma classe, e justamente a classe mais numerosa da ser representados. Seu representante tem, ao mesmo tempo, que apare­
sociedade francesa, os pequenos (Parzellerí) camponeses. cer como seu senhor, como autoridade sobre eles, como um poder
governamental ilimitado que os protege das demais classes e que do
Assim como os Bourbons representavam a grande propriedade alto lhes manda o sol [ou a chuva. A influência política dos pequenos
territorial e os Orléans a dinastia do dinheiro, os Bonapartes são a camponeses, portanto, encontra sua expressão final no fato de que o
dinastia dos camponeses, ou seja, da massa do povo francês. O eleito poder executivo submete ao seu domínio a sociedade.
do campesinato não é o Bonaparte que se curvou ao parlamento
A tradição histórica originou nos camponeses franceses a crença
burguês, mas o Bonaparte que o dissolveu. Durante três anos, as cida­
no milagre de que um homem chamado Napoleão restituiria a eles toda
des haviam conseguido falsificar o significado da eleição de 10 de
a glória passada. E surgiu um indivíduo que se faz passar por esse
dezembro e roubar aos camponeses a restauração do Império. A eleição homem, porque carrega o nome de Napoleão, em virtude do Code
de 10 de dezembro de 1848 só se consumou com o golpe de Estado Napoléon3 que estabelece: “La recherche de la paternité est interdite”. 4
de 2 de dezembro de 1851,
Depois de vinte anos de vagabundagem e depois de uma série de aven­
Os pequenos camponeses constituem uma imensa massa, cujos turas grotescas, a lenda se consuma e o homem se torna imperador dos
membros vivem em condições semelhantes, mas sem estabelecerem franceses. A idéia fixa do sobrinho realizou-se, porque coincidia com
relações multiformes entre si. Seu modo de produção os isola uns dos a idéia fixa da classe mais numerosa do povo francês.
outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio mútuo. Esse isola­
mento é agravado pelo mau sistema de comunicações existente na Mas pode-se objetar: e os levantes camponeses na metade da
França e pela pobreza dos camponeses. Seu campo de produção, a França, as investidas do exército contra os camponeses, as prisões e
pequena propriedade, não permite qualquer divisão do trabalho para deportações em massa de camponeses?
o cultivo, nenhuma aplicação de métodos científicos e, portanto, A França não experimentara, desde Luís XIV, uma semelhante
nenhuma diversidade de desenvolvimento, nenhuma variedade de ta­ perseguição de camponeses “por motivos demagógicos”.
lento, nenhuma riqueza de relações sociais. Cada família camponesa é
É preciso que fique bem claro. A dinastia de Bonaparte representa
quase auto-suficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte
do que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais através não o camponês revolucionário, mas o conservador; não o camponês
de trocas com a natureza do que do intercâmbio com a sociedade. Uma que luta para escapar às condições de sua existência social, a pequena
pequena propriedade, um camponês e sua família; ao lado deles outra propriedade, mas, antes, o camponês que quer consolidar sua proprie­
pequena propriedade, outro camponês e outra família. Algumas dezenas dade; não a população rural, que, ligada à das cidades, quer derrubar
delas constituem uma aldeia, e algumas dezenas de aldeias constituem a velha ordem de coisas por meio de seus próprios esforços, mas, pelo
um departamento. A grande massa da nação francesa é, assim, formada
pela simples adição de grandezas homólogas, da mesma maneira por « Código Napoleônico. (N da Ed.)
que batatas em um saco constituem um saco de batatas. Na medida em 1 “É proibida a investigação da paternidade.” (N. da Ed.)
116 117

contrário, aqueles que, presos por essa velha ordem, num isolamento rida desde aquela data abrira-lhes os olhos. Mas tinham entregado a
■ embrutecedor, querem ver-se a si próprios e a suas propriedades salvos alma às forças infernais da História; a História obrigou-os a manter a
e beneficiados pelo fantasma do Império. Bonaparte representa não o palavra empenhada, e a maioria estava ainda tão cheia de preconceitos,
esclarecimento, mas a superstição do camponês; não o seu bom-senso, que, justamente nos departamentos mais vermelhos, a população campo­
i mas o seu preconceito; não o seu futuro, mas o seu passado; não a sua nesa votou abertamente em favor de Bonaparte. Em sua opinião, a
moderna Cevènnes, 5 mas a sua moderna Vendée. 0 Assembléia Nacional impedira a marcha de Bonaparte. Este limitara-se,
então, a romper as cadeias que as cidades haviam imposto à vontade do
Os três anos de rigoroso domínio da república parlamentar haviam
campo. Em algumas localidades, os camponeses chegaram a abrigar a
libertado uma parte dos camponeses franceses da ilusão napoleônica,
idéia ridícula de uma Convenção lado a lado com Napoleão.
revolucionando-os, ainda que apenas superficialmente; mas os burgueses
reprimiam-nos, violentamente, cada vez que se punham em movimento. Depois que a primeira revolução tirara os camponeses de seu
Sob a república parlamentar, a consciência moderna e a. consciência estado de semi-servidão e os transformara em '-proprietários livres,
tradicional do camponês francês disputaram a supremacia. Esse pro­ Napoleão confirmou e regulamentou as condições sob as quais podiam
gresso tomou a forma de uma luta incessante entre os mestres-escolas dedicar-se à exploração do solo francês, que acabava de lhes ser distri­
e os padres. A burguesia derrotou os mestres-escolas. Pela primeira buído, e saciar sua ânsia juvenil de propriedade. Mas o que, agora,
vez os camponeses fizeram esforços para se comportarem independen­ provoca a ruína do camponês francês é, precisamente, a própria pequena
temente em face da atuação do governo. Isto se manifestava no conflito propriedade, a divisão da terra, a forma de propriedade que Napoleão
contínuo entre os maires e os prefeitos. A burguesia depôs os maires. consolidou na França; justamente as condições materiais que trans­
Finalmente, durante o período da república parlamentar, os camponeses formaram o camponês feudal em camponês proprietário e Napoleão
de diversas localidades levantaram-se contra sua própria obra, o exér­ em imperador. Duas gerações bastaram para produzir o resultado
cito. A burguesia castigou-os com estados de sítio e expedições inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento
1 punitivas. E essa mesma burguesia clama, agora, contra a estupidez progressivo do agricultor. A forma “napoleônica” de propriedade, que,
das massas, contra a vile multitude, 7 que a traiu em favor de Bonaparte. no princípio do século XIX, constituía a condição para a libertação
Ela própria forçou a consolidação das simpatias do campesinato pelo e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se, no decorrer
Império e manteve as condições que originam essa religião camponesa. desse século, como a lei de sua escravização e de seu pauperismo. E esta,
A burguesia, é bem verdade, deve forçosamente temer a estupidez das precisamente, é a primeira das idees napoléoniennes que o segundo
massas enquanto essas se mantêm conservadoras, assim como a sua Bonaparte tem que defender. Se ele ainda compartilha com os cam­
clarividência, tão logo se tornam revolucionárias. poneses a ilusão de que a causa da ruína deve ser procurada, não na
pequena propriedade em si, mas fora dela, na influência de circuns­
í Nos levantes ocorridos depois do golpe de Estado, uma parte dos
tâncias secundárias, suas experiências arrebentarão como bolhas de
camponeses franceses protestou da armas. na mão contra o resultado
sabão, quando entrarem em contato com as relações de produção.
, de seu próprio voto a 10 de dezembro de 1848. A experiência adqui-
O desenvolvimento econômico da pequena propriedade modificou
radicalmente a relação dos camponeses para com as demais classes da
c Cevènnes, região montanhosa da França, na qual, em princípios do século XVIII,
houve um grande levante de camponeses protestantes (os chamados Camisards').
sociedade. Sob Napoleão, a fragmentação da terra no campo suplemen­
Suas palavras de ordem eram: “Abaixo os impostos!”, “Liberdade de consciência!”. tava a livre concorrência e o começo da grande indústria nas cidades.
Os insurretos tomavam castelos feudais, escondiam-se nas montanhas, empenha­ O campesinato era o protesto ubíquo contra a aristocracia dos senhores
vam-se em guerrilhas. A luta prolongou-se por quase três anos. (N. da Ed.) de terra que acabara de ser derrubada. As raízes que a pequena pro­
6 Vendée, região da França que foi o centro da contra-revolução, durante a revo­ priedade estabeleceu no solo francês privaram o feudalismo de qualquer
lução burguesa de fins do século XVIII. Em sua luta contra a França revolucio­ meio de subsistência. Seus marcos formavam as fortificações naturais
nária, os contra-revolucionários se utilizaram dos politicamente atrasados campo­
neses da Vendée, fortemente influenciados pelo clero católico. (N. da Ed.) da burguesia contra qualquer ataque de surpresa por parte de seus
7 Vile multitude — multidão vil, ignara. (N. da Ed.) antigos senhores. Mas, no decorrer do século XIX, os senhores feudais
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contrário, aqueles que, presos por essa velha ordem, num isolamento rida desde aquela data abrira-lhes os olhos. Mas tinham entregado a
■ embrutecedor, querem ver-se a si próprios e a suas propriedades salvos alma às forças infernais da História; a História obrigou-os a manter a
e beneficiados pelo fantasma do Império. Bonaparte representa não o palavra empenhada, e a maioria estava ainda tão cheia de preconceitos,
esclarecimento, mas a superstição do camponês; não o seu bom-senso, que, justamente nos departamentos mais vermelhos, a população campo­
i mas o seu preconceito; não o seu futuro, mas o seu passado; não a sua nesa votou abertamente em favor de Bonaparte. Em sua opinião, a
moderna Cevènnes, 5 mas a sua moderna Vendée. 0 Assembléia Nacional impedira a marcha de Bonaparte. Este limitara-se,
então, a romper as cadeias que as cidades haviam imposto à vontade do
Os três anos de rigoroso domínio da república parlamentar haviam
campo. Em algumas localidades, os camponeses chegaram a abrigar a
libertado uma parte dos camponeses franceses da ilusão napoleônica,
idéia ridícula de uma Convenção lado a lado com Napoleão.
revolucionando-os, ainda que apenas superficialmente; mas os burgueses
reprimiam-nos, violentamente, cada vez que se punham em movimento. Depois que a primeira revolução tirara os camponeses de seu
Sob a república parlamentar, a consciência moderna e a. consciência estado de semi-servidão e os transformara em '-proprietários livres,
tradicional do camponês francês disputaram a supremacia. Esse pro­ Napoleão confirmou e regulamentou as condições sob as quais podiam
gresso tomou a forma de uma luta incessante entre os mestres-escolas dedicar-se à exploração do solo francês, que acabava de lhes ser distri­
e os padres. A burguesia derrotou os mestres-escolas. Pela primeira buído, e saciar sua ânsia juvenil de propriedade. Mas o que, agora,
vez os camponeses fizeram esforços para se comportarem independen­ provoca a ruína do camponês francês é, precisamente, a própria pequena
temente em face da atuação do governo. Isto se manifestava no conflito propriedade, a divisão da terra, a forma de propriedade que Napoleão
contínuo entre os maires e os prefeitos. A burguesia depôs os maires. consolidou na França; justamente as condições materiais que trans­
Finalmente, durante o período da república parlamentar, os camponeses formaram o camponês feudal em camponês proprietário e Napoleão
de diversas localidades levantaram-se contra sua própria obra, o exér­ em imperador. Duas gerações bastaram para produzir o resultado
cito. A burguesia castigou-os com estados de sítio e expedições inevitável: o arruinamento progressivo da agricultura, o endividamento
1 punitivas. E essa mesma burguesia clama, agora, contra a estupidez progressivo do agricultor. A forma “napoleônica” de propriedade, que,
das massas, contra a vile multitude, 7 que a traiu em favor de Bonaparte. no princípio do século XIX, constituía a condição para a libertação
Ela própria forçou a consolidação das simpatias do campesinato pelo e enriquecimento do camponês francês, desenvolveu-se, no decorrer
Império e manteve as condições que originam essa religião camponesa. desse século, como a lei de sua escravização e de seu pauperismo. E esta,
A burguesia, é bem verdade, deve forçosamente temer a estupidez das precisamente, é a primeira das idees napoléoniennes que o segundo
massas enquanto essas se mantêm conservadoras, assim como a sua Bonaparte tem que defender. Se ele ainda compartilha com os cam­
clarividência, tão logo se tornam revolucionárias. poneses a ilusão de que a causa da ruína deve ser procurada, não na
pequena propriedade em si, mas fora dela, na influência de circuns­
í Nos levantes ocorridos depois do golpe de Estado, uma parte dos
tâncias secundárias, suas experiências arrebentarão como bolhas de
camponeses franceses protestou da armas. na mão contra o resultado
sabão, quando entrarem em contato com as relações de produção.
, de seu próprio voto a 10 de dezembro de 1848. A experiência adqui-
O desenvolvimento econômico da pequena propriedade modificou
radicalmente a relação dos camponeses para com as demais classes da
c Cevènnes, região montanhosa da França, na qual, em princípios do século XVIII,
houve um grande levante de camponeses protestantes (os chamados Camisards').
sociedade. Sob Napoleão, a fragmentação da terra no campo suplemen­
Suas palavras de ordem eram: “Abaixo os impostos!”, “Liberdade de consciência!”. tava a livre concorrência e o começo da grande indústria nas cidades.
Os insurretos tomavam castelos feudais, escondiam-se nas montanhas, empenha­ O campesinato era o protesto ubíquo contra a aristocracia dos senhores
vam-se em guerrilhas. A luta prolongou-se por quase três anos. (N. da Ed.) de terra que acabara de ser derrubada. As raízes que a pequena pro­
6 Vendée, região da França que foi o centro da contra-revolução, durante a revo­ priedade estabeleceu no solo francês privaram o feudalismo de qualquer
lução burguesa de fins do século XVIII. Em sua luta contra a França revolucio­ meio de subsistência. Seus marcos formavam as fortificações naturais
nária, os contra-revolucionários se utilizaram dos politicamente atrasados campo­
neses da Vendée, fortemente influenciados pelo clero católico. (N. da Ed.) da burguesia contra qualquer ataque de surpresa por parte de seus
7 Vile multitude — multidão vil, ignara. (N. da Ed.) antigos senhores. Mas, no decorrer do século XIX, os senhores feudais
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foram substituídos pelos usurários urbanos; o imposto feudal referente a superfície do país. Daí permitir, também, a influência de uma pressão
à terra foi substituído pela hipoteca; a aristocrática propriedade terri­ uniforme, exercida de um centro supremo, sobre todos os pontos dessa
torial foi substituída pelo capital burguês. A pequena propriedade do massa uniforme. Aniquila as gradações intermediárias da aristocracia
camponês é, agora, o único pretexto que permite ao capitalista retirar entre a massa do povo e o poder do Estado. Provoca, portanto, de
lucros, juros e renda do solo, ao mesmo tempo que deixa ao próprio todos os lados, a ingerência direta desse poder do Estado e a interpo­
lavrador o cuidado de obter o seu salário como puder. A dívida sição de seus órgãos imediatos. Finalmente, produz um excesso de
hipotecária que pesa sobre o solo francês impõe ao campesinato o desempregados para os quais não há lugar nem no campo nem nas
pagamento de uma soma de juros equivalentes aos juros anuais do total cidades, e que tentam, portanto, obter postos governamentais como uma
da dívida nacional britânica. A pequena propriedade, nesse escraviza- espécie de esmola respeitável, provocando a criação de postos do
mento ao capital a que seu desenvolvimento inevitavelmente conduz, governo. Com os novos mercados que abriu, com a ponta da baioneta,
transformou a massa da nação francesa em trogloditas. Dezesseis com a pilhagem do continente, Napoleão devolveu com juros os
milhões de camponeses (inclusive mulheres e crianças) vivem em antros, impostos compulsórios. Esses impostos serviam de incentivo à laborio-
a maioria dos quais só dispõe de uma abertura, outros apenas duas e sidade dos camponeses, ao passo que, agora, despojam seu trabalho
os mais favorecidos apenas três. E as janelas são para uma casa o que de seus últimos recursos e completam sua incapacidade de resistir ao
os cinco sentidos são para a cabeça. A ordem burguesa, que, no prin­ pauperismo. E uma vasta burguesia, bem engalanada e bem alimentada,
cípio do século, pôs o Estado para montar guarda sobre a recém-criada é a idee napoléonienne mais do agrado do segundo Bonaparte. Como
pequena propriedade e premiou-a com lauréis, tomou-se um vampiro poderia ser de outra maneira, visto que, ao lado das classes existentes
que suga seu sangue e sua medula, atirando-o no caldeirão alquimista na sociedade, ele é forçado a criar uma casta artificial, para a qual a
do capital. O Code Napoléon já não é mais do que um código de manutenção do seu regime se transforma em uma questão de subsis­
arrestos, vendas forçadas e leilões obrigatórios. Aos quatro milhões tência? Uma das suas primeiras operações financeiras, portanto, foi
(inclusive crianças etc.), oficialmente reconhecidos, de mendigos, vaga­ elevar os salários dos funcionários ao nível anterior e criar novas
bundos, criminosos e prostitutas da França devem ser somados cinco sinecuras.
milhões que pairam à margem da vida e que ou têm seu pouso no Outra zdée napoléonienne é o domínio dos padres como instrumento
próprio campo ou que, com seus molambos e seus filhos, constante­ de governo. Mas, em sua harmonia com a sociedade, em sua depen­
mente abandonam o campo pelas cidades e as cidades pelo campo. dência das forças naturais e em sua submissão à autoridade que a
Os interesses dos camponeses, portanto, já não estão mais, como ao protegia de cima, a pequena propriedade recém-criada era naturalmente
tempo de Napoleão, em consonância, mas, sim, em oposição aos religiosa, a pequena propriedade arruinada pelas dívidas, em franca
interesses da burguesia, do capital. Por isso, os camponeses encontram divergência com a sociedade e com a autoridade, e impelida para além
seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa é de suas limitações, torna-se naturalmente irreligiosa. ‘ O céu era um
derrubar o regime burguês. Mas o governo forte e absoluto — e esta acréscimo bastante agradável à estreita faixa de terra recém-adquirida,
é a segunda idee napoléonienne, que o segundo Napoleão tem que exe­ tanto mais quanto dele dependiam as condições meteorológicas; mas
cutar — é chamado a defender pela força essa ordem “material”. Essa
converte-se em insulto assim que se tenta impingi-lo como substituto da
ordre matériéi serve também de mote em todas as proclamações de
pequena propriedade. O padre aparece, então, como mero mastim
Bonaparte contra os camponeses rebeldes.
ungido da polícia terrena — outra zdée napoléonienne. Da próxima
Além da hipoteca que lhe é imposta pelo capital, a pequena pro­ vez, a expedição contra Roma terá lugar na própria França, mas em
priedade está ainda sobrecarregada de impostos. Os impostos são a sentido oposto ao do Sr. de Montalembert.
fonte de vida da burocracia, do exército, dos padres e da corte, em
suma, de toda a máquina do poder executivo. Governo forte e impostos Finalmente, o ponto culminante das idées napoléoniennes é a
fortes são coisas idênticas. Por sua própria natureza, a pequena pro­ preponderância do exército, O exército era o point dfhonneur8 dos
priedade forma uma base adequada a uma burguesia todo-poderosa e
inumerável. Cria um nível uniforme de relações e de pessoas sobre toda 8 Point d’honneur — ponto de honra, orgulho. (N. da Ed.)
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foram substituídos pelos usurários urbanos; o imposto feudal referente a superfície do país. Daí permitir, também, a influência de uma pressão
à terra foi substituído pela hipoteca; a aristocrática propriedade terri­ uniforme, exercida de um centro supremo, sobre todos os pontos dessa
torial foi substituída pelo capital burguês. A pequena propriedade do massa uniforme. Aniquila as gradações intermediárias da aristocracia
camponês é, agora, o único pretexto que permite ao capitalista retirar entre a massa do povo e o poder do Estado. Provoca, portanto, de
lucros, juros e renda do solo, ao mesmo tempo que deixa ao próprio todos os lados, a ingerência direta desse poder do Estado e a interpo­
lavrador o cuidado de obter o seu salário como puder. A dívida sição de seus órgãos imediatos. Finalmente, produz um excesso de
hipotecária que pesa sobre o solo francês impõe ao campesinato o desempregados para os quais não há lugar nem no campo nem nas
pagamento de uma soma de juros equivalentes aos juros anuais do total cidades, e que tentam, portanto, obter postos governamentais como uma
da dívida nacional britânica. A pequena propriedade, nesse escraviza- espécie de esmola respeitável, provocando a criação de postos do
mento ao capital a que seu desenvolvimento inevitavelmente conduz, governo. Com os novos mercados que abriu, com a ponta da baioneta,
transformou a massa da nação francesa em trogloditas. Dezesseis com a pilhagem do continente, Napoleão devolveu com juros os
milhões de camponeses (inclusive mulheres e crianças) vivem em antros, impostos compulsórios. Esses impostos serviam de incentivo à laborio-
a maioria dos quais só dispõe de uma abertura, outros apenas duas e sidade dos camponeses, ao passo que, agora, despojam seu trabalho
os mais favorecidos apenas três. E as janelas são para uma casa o que de seus últimos recursos e completam sua incapacidade de resistir ao
os cinco sentidos são para a cabeça. A ordem burguesa, que, no prin­ pauperismo. E uma vasta burguesia, bem engalanada e bem alimentada,
cípio do século, pôs o Estado para montar guarda sobre a recém-criada é a idee napoléonienne mais do agrado do segundo Bonaparte. Como
pequena propriedade e premiou-a com lauréis, tomou-se um vampiro poderia ser de outra maneira, visto que, ao lado das classes existentes
que suga seu sangue e sua medula, atirando-o no caldeirão alquimista na sociedade, ele é forçado a criar uma casta artificial, para a qual a
do capital. O Code Napoléon já não é mais do que um código de manutenção do seu regime se transforma em uma questão de subsis­
arrestos, vendas forçadas e leilões obrigatórios. Aos quatro milhões tência? Uma das suas primeiras operações financeiras, portanto, foi
(inclusive crianças etc.), oficialmente reconhecidos, de mendigos, vaga­ elevar os salários dos funcionários ao nível anterior e criar novas
bundos, criminosos e prostitutas da França devem ser somados cinco sinecuras.
milhões que pairam à margem da vida e que ou têm seu pouso no Outra zdée napoléonienne é o domínio dos padres como instrumento
próprio campo ou que, com seus molambos e seus filhos, constante­ de governo. Mas, em sua harmonia com a sociedade, em sua depen­
mente abandonam o campo pelas cidades e as cidades pelo campo. dência das forças naturais e em sua submissão à autoridade que a
Os interesses dos camponeses, portanto, já não estão mais, como ao protegia de cima, a pequena propriedade recém-criada era naturalmente
tempo de Napoleão, em consonância, mas, sim, em oposição aos religiosa, a pequena propriedade arruinada pelas dívidas, em franca
interesses da burguesia, do capital. Por isso, os camponeses encontram divergência com a sociedade e com a autoridade, e impelida para além
seu aliado e dirigente natural no proletariado urbano, cuja tarefa é de suas limitações, torna-se naturalmente irreligiosa. ‘ O céu era um
derrubar o regime burguês. Mas o governo forte e absoluto — e esta acréscimo bastante agradável à estreita faixa de terra recém-adquirida,
é a segunda idee napoléonienne, que o segundo Napoleão tem que exe­ tanto mais quanto dele dependiam as condições meteorológicas; mas
cutar — é chamado a defender pela força essa ordem “material”. Essa
converte-se em insulto assim que se tenta impingi-lo como substituto da
ordre matériéi serve também de mote em todas as proclamações de
pequena propriedade. O padre aparece, então, como mero mastim
Bonaparte contra os camponeses rebeldes.
ungido da polícia terrena — outra zdée napoléonienne. Da próxima
Além da hipoteca que lhe é imposta pelo capital, a pequena pro­ vez, a expedição contra Roma terá lugar na própria França, mas em
priedade está ainda sobrecarregada de impostos. Os impostos são a sentido oposto ao do Sr. de Montalembert.
fonte de vida da burocracia, do exército, dos padres e da corte, em
suma, de toda a máquina do poder executivo. Governo forte e impostos Finalmente, o ponto culminante das idées napoléoniennes é a
fortes são coisas idênticas. Por sua própria natureza, a pequena pro­ preponderância do exército, O exército era o point dfhonneur8 dos
priedade forma uma base adequada a uma burguesia todo-poderosa e
inumerável. Cria um nível uniforme de relações e de pessoas sobre toda 8 Point d’honneur — ponto de honra, orgulho. (N. da Ed.)
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pequenos camponeses, eram eles próprios transformados em heróis, A situação dos camponeses franceses nos fornece a resposta ao
defendendo suas novas propriedades contra o mundo exterior, glorifi­ enigma das eleições de 20 e 21 de dezembro, que levaram o segundo
cando sua nacionalidade recém-adquirida, pilhando e revolucionando o Bonaparte ao topo do Monte Sinai, não para receber leis, mas para
mundo. A farda era seu manto de poder; à guerra a sua poesia; a ditá-las.
pequena propriedade, ampliada e alargada na imaginação, a sua pátria, Evidentemente, a burguesia não tinha agora outro jeito senão eleger
e o patriotismo a forma ideal do sentimento da propriedade. Mas.os Bonaparte. Quando os puritanos, no Concílio de Constança, queixa-
inimigos contra os quais o camponês francês tem agora que defender vam-se da vida dissoluta a que se entregavam os papas e se afligiam
sua propriedade não são os cossacos; são os huissiers^ e os agentes do sobre a necessidade de uma reforma moral, o cardeal Pierre d’Ailly
fisco. A pequena propriedade não mais está abrangida no que se chama bradou-lhes com veemência: “Quando só o próprio demônio pode ainda
pátria, e sim no registro das hipotecas. O próprio exército já não é a salvar a Igréja Católica, vós apelais para os anjos.” De maneira seme­
flor da juventude camponesa; é a flor do pântano do Lumpenproletariat lhante, depois do golpe de Estado, a burguesia francesa gritava: Só o
camponês. Consiste, em grande parte, de remplaçants, 30 de substitutos, chefe da Sociedade de 10 de Dezembro pode salvar a sociedade
do mesmo modo por que o próprio Bonaparte é apenas um remplaçant, burguesa! Só o roubo pode salvar a propriedade; o perjúrio, a religião;
um substituto de Napoleão. Seus feitos heróicos consistem, agora, em a bastardia, a família; a desordem, a ordem!
caçar camponeses em massa, como antílopes, em servir de gendarme,
e se as contradições internas de seu sistema expulsarem o chefe da Como autoridade executiva que se tornou um poder independente,
Sociedade de 10 de Dezembro para fora das fronteiras da França, seu Bonaparte considera sua missão salvaguardar “a ordem burguesa”. Mas
a força dessa ordem burguesa está na classe média. Ele se afirma,
exército, depois de alguns atos de banditismo, colherá não louros, mas
portanto, como representante da classe média, e promulga decretos
açoites.
nesse sentido. Não obstante, ele só é alguém devido ao fato de ter
Como vemos, todas as idées napoléoniennes são idéias da pequena quebrado o poder político dessa classe média e de quebrá-lo novamente
propriedade, incipiente, no frescor da juventude; para a pequena pro­ todos os dias. Conseqüentemente, afirma-se como o adversário do poder
priedade, na fase da velhice, constituem um absurdo. Não passam de político e literário da classe média. Mas, ao proteger seu poder material,
alucinações de sua agonia, palavras que são transformadas em frases, gera novamente o seu poder político. A causa deve, portanto, ser
espíritos transformados em fantasmas. Mas a paródia do império era mantida viva; o efeito, porém, onde se manifesta, tem que ser liquidado.
necessária para libertar a massa da nação francesa do peso da tradição Mas isso não pode se dar sem ligeiras confusões de causa e efeito, pois,
e para desenvolver em forma pura a oposição entre o poder do Estado em sua mútua influência, ambos perdem seus característicos distintivos.
e a sociedade. Com a ruína progressiva da pequena propriedade, des­ Daí, novos decretos que apagam a linha divisória. Diante da burguesia,
morona-se a estrutura do Estado erigida sobre ela. A centralização do Bonaparte se. considera, ao mesmo tempo, representante dos campo­
Estado, de que necessita a sociedade moderna, só surge das ruínas da neses e do povo em geral, que deseja tomar as classes mais baixas do
máquina governamental burocrático-militar forjada em oposição ao povo felizes dentro da estrutura da sociedade burguesa. Daí novos
feudalismo.11 decretos, que roubam, de antemão, aos “verdadeiros socialistas” sua
arte de governar. Mas, acima de tudo, Bonaparte considera-se o chefe
da Sociedade de 10 de Dezembro, representante do Lumpenproletariat
9 Huissiers • — Oficiais de Justiça. (N. da Ed.)
10 Remplaçant — Aquele que, antigamente, na França e na Bélgica, substituía os a que pertencem ele próprio, seu entourage,12 seu governo e seu exército,
jovens recrutados para o exército. (N. da Ed.) e cujo interesse primordial é colher benefícios e retirar prêmios de
31 Na edição de 1852, este parágrafo terminava com as seguintes linhas, que Marx
omitiu na edição de 1869: “A demolição da máquina do Estado não colocará
em perigo a centralização. A burocracia é apenas a forma baixa e brutal de uma quena propriedade, ruirá por terra e a revolução proletária ganhará aquele coro,
centralização que ainda não se libertou de seu oposto, o feudalismo. Quando se sem o qual o seu solo se torna um canto de cisne em todos os países camponeses”
desapontar da Restauração Napoleônica, o camponês francês abandonará a crença (N. da Ed.)
em sua pequena propriedade, toda a estrutura do Estado, erigida sobre essa pe- 12Entourage — os que o cercam. (N. da. Ed.)
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pequenos camponeses, eram eles próprios transformados em heróis, A situação dos camponeses franceses nos fornece a resposta ao
defendendo suas novas propriedades contra o mundo exterior, glorifi­ enigma das eleições de 20 e 21 de dezembro, que levaram o segundo
cando sua nacionalidade recém-adquirida, pilhando e revolucionando o Bonaparte ao topo do Monte Sinai, não para receber leis, mas para
mundo. A farda era seu manto de poder; à guerra a sua poesia; a ditá-las.
pequena propriedade, ampliada e alargada na imaginação, a sua pátria, Evidentemente, a burguesia não tinha agora outro jeito senão eleger
e o patriotismo a forma ideal do sentimento da propriedade. Mas.os Bonaparte. Quando os puritanos, no Concílio de Constança, queixa-
inimigos contra os quais o camponês francês tem agora que defender vam-se da vida dissoluta a que se entregavam os papas e se afligiam
sua propriedade não são os cossacos; são os huissiers^ e os agentes do sobre a necessidade de uma reforma moral, o cardeal Pierre d’Ailly
fisco. A pequena propriedade não mais está abrangida no que se chama bradou-lhes com veemência: “Quando só o próprio demônio pode ainda
pátria, e sim no registro das hipotecas. O próprio exército já não é a salvar a Igréja Católica, vós apelais para os anjos.” De maneira seme­
flor da juventude camponesa; é a flor do pântano do Lumpenproletariat lhante, depois do golpe de Estado, a burguesia francesa gritava: Só o
camponês. Consiste, em grande parte, de remplaçants, 30 de substitutos, chefe da Sociedade de 10 de Dezembro pode salvar a sociedade
do mesmo modo por que o próprio Bonaparte é apenas um remplaçant, burguesa! Só o roubo pode salvar a propriedade; o perjúrio, a religião;
um substituto de Napoleão. Seus feitos heróicos consistem, agora, em a bastardia, a família; a desordem, a ordem!
caçar camponeses em massa, como antílopes, em servir de gendarme,
e se as contradições internas de seu sistema expulsarem o chefe da Como autoridade executiva que se tornou um poder independente,
Sociedade de 10 de Dezembro para fora das fronteiras da França, seu Bonaparte considera sua missão salvaguardar “a ordem burguesa”. Mas
a força dessa ordem burguesa está na classe média. Ele se afirma,
exército, depois de alguns atos de banditismo, colherá não louros, mas
portanto, como representante da classe média, e promulga decretos
açoites.
nesse sentido. Não obstante, ele só é alguém devido ao fato de ter
Como vemos, todas as idées napoléoniennes são idéias da pequena quebrado o poder político dessa classe média e de quebrá-lo novamente
propriedade, incipiente, no frescor da juventude; para a pequena pro­ todos os dias. Conseqüentemente, afirma-se como o adversário do poder
priedade, na fase da velhice, constituem um absurdo. Não passam de político e literário da classe média. Mas, ao proteger seu poder material,
alucinações de sua agonia, palavras que são transformadas em frases, gera novamente o seu poder político. A causa deve, portanto, ser
espíritos transformados em fantasmas. Mas a paródia do império era mantida viva; o efeito, porém, onde se manifesta, tem que ser liquidado.
necessária para libertar a massa da nação francesa do peso da tradição Mas isso não pode se dar sem ligeiras confusões de causa e efeito, pois,
e para desenvolver em forma pura a oposição entre o poder do Estado em sua mútua influência, ambos perdem seus característicos distintivos.
e a sociedade. Com a ruína progressiva da pequena propriedade, des­ Daí, novos decretos que apagam a linha divisória. Diante da burguesia,
morona-se a estrutura do Estado erigida sobre ela. A centralização do Bonaparte se. considera, ao mesmo tempo, representante dos campo­
Estado, de que necessita a sociedade moderna, só surge das ruínas da neses e do povo em geral, que deseja tomar as classes mais baixas do
máquina governamental burocrático-militar forjada em oposição ao povo felizes dentro da estrutura da sociedade burguesa. Daí novos
feudalismo.11 decretos, que roubam, de antemão, aos “verdadeiros socialistas” sua
arte de governar. Mas, acima de tudo, Bonaparte considera-se o chefe
da Sociedade de 10 de Dezembro, representante do Lumpenproletariat
9 Huissiers • — Oficiais de Justiça. (N. da Ed.)
10 Remplaçant — Aquele que, antigamente, na França e na Bélgica, substituía os a que pertencem ele próprio, seu entourage,12 seu governo e seu exército,
jovens recrutados para o exército. (N. da Ed.) e cujo interesse primordial é colher benefícios e retirar prêmios de
31 Na edição de 1852, este parágrafo terminava com as seguintes linhas, que Marx
omitiu na edição de 1869: “A demolição da máquina do Estado não colocará
em perigo a centralização. A burocracia é apenas a forma baixa e brutal de uma quena propriedade, ruirá por terra e a revolução proletária ganhará aquele coro,
centralização que ainda não se libertou de seu oposto, o feudalismo. Quando se sem o qual o seu solo se torna um canto de cisne em todos os países camponeses”
desapontar da Restauração Napoleônica, o camponês francês abandonará a crença (N. da Ed.)
em sua pequena propriedade, toda a estrutura do Estado, erigida sobre essa pe- 12Entourage — os que o cercam. (N. da. Ed.)
122 123

loteria californiana do tesouro do Estado. E sustenta sua posição de Bonaparte gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de
chefe da Sociedade de 10 de Dezembro com decretos, sem decretos e todas as classes. Mas não pode dar a uma classe sem tirar de outra.
apesar dos decretos. Assim como no tempo da Fronda dizia-se do duque de Guise, que ele
era o homem mais obligeant18 da França, porque convertera todas as
Essa tarefa contraditória do homem explica as contradições do seu
suas propriedades em compromissos de seus partidários para com ele,
governo; esse confuso tatear, que ora procura conquistar, ora humilhar,
Bonaparte queria passar como o homem mais obligeant da França e
primeiro uma classe, depois outra, e alinha todas elas uniformemente
transformar toda a propriedade, todo o trabalho da França em obriga­
contra ele, essa insegurança prática formam um contraste altamente ção pessoal para com ele. Gostaria de roubar a França inteira, a fim
cômico com o estilo imperioso e categórico de seus decretos governa­ de poder entregá-la de presente à França, ou melhor, a fim de poder
mentais, estilo copiado fielmente do tio. comprar novamente a França com dinheiro francês, pois, como chefe
A indústria e o comércio, e, portanto, os negócios da classe média, da Sociedade de 10 de Dezembro, tem que comprar o que devia per­
deverão prosperar em estilo de estufa sob o governo forte. São feitas tencer-lhe. E todas as instituições do Estado, o Senado, o Conselho de
inúmeras concessões ferroviárias. Mas o Lumpenproletariat bonapartista Estado, o legislativo, a Legião de Honra, as medalhas dos soldados, os
tem que enriquecer. Os iniciados fazem tripotage 18 na Bolsa com as banheiros públicos, os serviços de utilidade pública, as estradas de ferro,
concessões ferroviárias. Obriga-se o Banco a conceder adiantamentos o état major19 da Guarda Nacional, com exceção dos praças, e as pro­
contra ações ferroviárias. Mas o Banco tem, ao mesmo tempo, que ser priedades confiscadas à Casa de Orléans — tudo se torna parte da
instituição do suborno. Todo posto do exército ou da máquina do
explorado para fins pessoais, e tem, portanto, que ser bajulado. Dis­
Estado converte-se em meio de suborno. Mas a característica mais
pensa-se o Banco da obrigação de publicar relatórios semanais. Acordo
importante desse processo, pelo qual a França é tomada para que lhe
leonino do Banco com o governo. É preciso dar trabalho ao povo.
possa ser entregue novamente, são as porcentagens que vão ter aos
Obras públicas são iniciadas. Mas as obras públicas aumentam os bolsos do chefe e dos membros da Sociedade de 10 de Dezembro
encargos do povo no que diz respeito a impostos. Reduzem-se, portanto, durante a transação. O epigrama com o qual a condessa L., amante
as taxas mediante um massacre sobre os rentiers,14 mediante a con­ do Sr. de Momy, caracterizou o confisco das propriedades da Casa de
versão de títulos de cinco por cento em títulos de quatro e meio por Orléans: “C’est le premier vol 20 de 1’aigle”, 21 pode ser aplicado a todos
cento. Mas a classe média tem, mais uma vez, que receber um dou- os voos desta águia, que mais se assemelha a um abutre. Tanto ele
ceur.15 Duplica-se, portanto, o imposto do vinho para o povo, que como seus adeptos gritam, diariamente, uns para os outros, como aquele
o adquire en détail,10 e reduz-se à metade o imposto do vinho para a cartuxo italiano, que admoestava o avarento, que, com ostentação,
classe média, que o bebe en gros. 17 As uniões operárias existentes são contava os bens que ainda poderiam sustentá-lo por muitos anos: “Tu
dissolvidas, mas prometem-se milagres de união para o futuro. Os fai conto sopra i beni, bisogna prima far il conto sopra gli anni”. 22
camponeses têm que ser auxiliados: bancos hipotecários, que facilitam Temendo se enganarem no cômputo dos anos, contam os minutos. Um
.o seu endividamento e aceleram a concentração da propriedade. Mas bando de patifes abre caminho para si na corte, nos ministérios, nos
esses bancos devem ser utilizados para tirar dinheiro das propriedades altos postos do governo e do exército, uma malta, cujos melhores ele­
confiscadas à Casa de Orléans. Nenhum capitalista quer concordar com mentos, é preciso que se diga, -ninguém sabe de onde vieram, uma
essa condição, que não consta do decreto, e o banco hipotecário fica bohème barulhenta, desmoralizada e rapace, que se enfia nas túnicas
reduzido a um mero decreto etc., etc. guarnecidas de alamares com a mesma dignidade grotesca dos altos

18 Tripotage — trapaça. (N. da Ed.) 18 Obligeant — obsequioso. (N. da Ed.)


14 Rentiers — os que vivem de rendas. (N. da Ed.) 10 État major — estado-maior. (N. da Ed.)
16 jDottcewr •— propina. (N. da Ed.) 20 Vol significa ao mesmo tempo voo e furto. (N. de Marx)
16 Kn détail — a varejo. (N. da Ed.) 24 “É o primeiro voo (furto) da águia (N. da Ed.)
17 En gros — por atacado. (N. da Ed.) 22 “Contas teus bens, deverias antes contar teus anos.” (N. de Marx)
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loteria californiana do tesouro do Estado. E sustenta sua posição de Bonaparte gostaria de aparecer como o benfeitor patriarcal de
chefe da Sociedade de 10 de Dezembro com decretos, sem decretos e todas as classes. Mas não pode dar a uma classe sem tirar de outra.
apesar dos decretos. Assim como no tempo da Fronda dizia-se do duque de Guise, que ele
era o homem mais obligeant18 da França, porque convertera todas as
Essa tarefa contraditória do homem explica as contradições do seu
suas propriedades em compromissos de seus partidários para com ele,
governo; esse confuso tatear, que ora procura conquistar, ora humilhar,
Bonaparte queria passar como o homem mais obligeant da França e
primeiro uma classe, depois outra, e alinha todas elas uniformemente
transformar toda a propriedade, todo o trabalho da França em obriga­
contra ele, essa insegurança prática formam um contraste altamente ção pessoal para com ele. Gostaria de roubar a França inteira, a fim
cômico com o estilo imperioso e categórico de seus decretos governa­ de poder entregá-la de presente à França, ou melhor, a fim de poder
mentais, estilo copiado fielmente do tio. comprar novamente a França com dinheiro francês, pois, como chefe
A indústria e o comércio, e, portanto, os negócios da classe média, da Sociedade de 10 de Dezembro, tem que comprar o que devia per­
deverão prosperar em estilo de estufa sob o governo forte. São feitas tencer-lhe. E todas as instituições do Estado, o Senado, o Conselho de
inúmeras concessões ferroviárias. Mas o Lumpenproletariat bonapartista Estado, o legislativo, a Legião de Honra, as medalhas dos soldados, os
tem que enriquecer. Os iniciados fazem tripotage 18 na Bolsa com as banheiros públicos, os serviços de utilidade pública, as estradas de ferro,
concessões ferroviárias. Obriga-se o Banco a conceder adiantamentos o état major19 da Guarda Nacional, com exceção dos praças, e as pro­
contra ações ferroviárias. Mas o Banco tem, ao mesmo tempo, que ser priedades confiscadas à Casa de Orléans — tudo se torna parte da
instituição do suborno. Todo posto do exército ou da máquina do
explorado para fins pessoais, e tem, portanto, que ser bajulado. Dis­
Estado converte-se em meio de suborno. Mas a característica mais
pensa-se o Banco da obrigação de publicar relatórios semanais. Acordo
importante desse processo, pelo qual a França é tomada para que lhe
leonino do Banco com o governo. É preciso dar trabalho ao povo.
possa ser entregue novamente, são as porcentagens que vão ter aos
Obras públicas são iniciadas. Mas as obras públicas aumentam os bolsos do chefe e dos membros da Sociedade de 10 de Dezembro
encargos do povo no que diz respeito a impostos. Reduzem-se, portanto, durante a transação. O epigrama com o qual a condessa L., amante
as taxas mediante um massacre sobre os rentiers,14 mediante a con­ do Sr. de Momy, caracterizou o confisco das propriedades da Casa de
versão de títulos de cinco por cento em títulos de quatro e meio por Orléans: “C’est le premier vol 20 de 1’aigle”, 21 pode ser aplicado a todos
cento. Mas a classe média tem, mais uma vez, que receber um dou- os voos desta águia, que mais se assemelha a um abutre. Tanto ele
ceur.15 Duplica-se, portanto, o imposto do vinho para o povo, que como seus adeptos gritam, diariamente, uns para os outros, como aquele
o adquire en détail,10 e reduz-se à metade o imposto do vinho para a cartuxo italiano, que admoestava o avarento, que, com ostentação,
classe média, que o bebe en gros. 17 As uniões operárias existentes são contava os bens que ainda poderiam sustentá-lo por muitos anos: “Tu
dissolvidas, mas prometem-se milagres de união para o futuro. Os fai conto sopra i beni, bisogna prima far il conto sopra gli anni”. 22
camponeses têm que ser auxiliados: bancos hipotecários, que facilitam Temendo se enganarem no cômputo dos anos, contam os minutos. Um
.o seu endividamento e aceleram a concentração da propriedade. Mas bando de patifes abre caminho para si na corte, nos ministérios, nos
esses bancos devem ser utilizados para tirar dinheiro das propriedades altos postos do governo e do exército, uma malta, cujos melhores ele­
confiscadas à Casa de Orléans. Nenhum capitalista quer concordar com mentos, é preciso que se diga, -ninguém sabe de onde vieram, uma
essa condição, que não consta do decreto, e o banco hipotecário fica bohème barulhenta, desmoralizada e rapace, que se enfia nas túnicas
reduzido a um mero decreto etc., etc. guarnecidas de alamares com a mesma dignidade grotesca dos altos

18 Tripotage — trapaça. (N. da Ed.) 18 Obligeant — obsequioso. (N. da Ed.)


14 Rentiers — os que vivem de rendas. (N. da Ed.) 10 État major — estado-maior. (N. da Ed.)
16 jDottcewr •— propina. (N. da Ed.) 20 Vol significa ao mesmo tempo voo e furto. (N. de Marx)
16 Kn détail — a varejo. (N. da Ed.) 24 “É o primeiro voo (furto) da águia (N. da Ed.)
17 En gros — por atacado. (N. da Ed.) 22 “Contas teus bens, deverias antes contar teus anos.” (N. de Marx)
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dignitários de Soulouque. Pode-se fazer uma idéia perfeita dessa alta


camada da Sociedade de 10 de Dezembro, quando se reflete que
Véron-Crevel 23 é o seu moralista e Granier de Cassagnac o seu pen­
sador. Quando Guizot, durante o seu ministério, utilizou-se desse Gra­
nier, em um jornaleco dirigido contra a oposição dinástica, costumava
exaltá-lo com esta tirada: “C’est le roi des drôles”.24 25Seria injusto
8. O EXÉRCITO INDUSTRIAL DE RESERVA *
recordar a Regência ou Luís XV com referência à corte de Luís Bona-
parte ou à sua camarilha. Pois “a França já tem passado com fre­
quência por um governo de favoritas; mas nunca antes por um governo
de horrimes entretenus”. 23
Impelido pelas exigências contraditórias de sua situação, e estando, c
ao mesmo tempo, como um prestidigitador, ante a necessidade de A superpopulação relativa existe sob os mais variados matizes.
manter os olhares do público fixados sobre ele, como substituto de Todo trabalhador dela faz parte durante o tempo em que está desem­
Napoleão, por meio de surpresas constantes, isto é, ante a necessidade pregado ou parcialmente empregado. As fases alternadas do ciclo
de executar diariamente um golpe de Estado em miniatura, Bonaparte industrial fazem-na aparecer ora em forma aguda nas crises, ora em
lança a confusão em toda a economia burguesa, viola tudo que parecia forma crônica, nos períodos de paralisação. Mas, além dessas formas
inviolável à Revolução de 1848, torna alguns tolerantes em face da principais, que se reproduzem periodicamente, assume ela, continua­
revolução, outros desejosos de revolução, e produz uma verdadeira mente, as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada.
anarquia em nome da ordem, ao mesmo tempo que despoja de seu halo Nos centros da indústria moderna, fábricas, manufaturas, usinas
toda a máquina do Estado, profana-a e torna-a ao mesmo tempo des­ siderúrgicas e minas etc., os trabalhadores são ora repelidos, ora atraídos
prezível e ridícula. O culto do Manto Sagrado de Treves 26 ele o repete, em quantidade maior, de modo que, no seu conjunto, aumenta o número
em Paris, sob a forma do culto do manto imperial de Napoleão. Mas, dos empregados, embora em -proporção que decresce com o aumento
quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís da escala da produção. Aí a superpopulação assume a forma flutuante.
Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna
Tanto nas fábricas propriamente ditas quanto em todas as grandes
Vendôme. oficinas, que já utilizam maquinaria ou que funcionam apenas na base da
moderna divisão do trabalho, são empregados em massa meninos e
rapazes até atingirem a idade adulta. Chegado a esse termo, só um
número muito reduzido pode continuar empregado nos mesmos ramos
de atividade, sendo a maioria ordinariamente despedida. Esses que são
despedidos tornam-se elementos da superpopulação flutuante, que au­
menta ao crescer a indústria. Parte deles emigra e, na realidade, apenas
segue o capital em sua emigração. Em consequência, a população
feminina cresce mais rapidamente do que a masculina, conforme se
verifica na Inglaterra. É uma contradição do próprio movimento do
23 Em sua obra Couslne Bette, Balzac pinta o filisteu parisiense mais dissoluto na capital que o incremento natural da massa de trabalhadores não sature
figura de Crevel, personagem inspirado no Dr. Véron, proprietário do Constitu-
tionnel. (N. de Marx.)
suas necessidades de acumulação, e, apesar disso, ultrapasse-as. O
24 “Ê o rei dos palhaços.” (N. da Ed.)
25 As palavras citadas são de Madame Girardin. (N. de Marx)
Reproduzido de Marx, K. “A Lei Geral da Acumulação Capitalista.” In:
Hommes entretenus — homens sustentados. (N. da Ed.)
20 Uma das relíquias “sagradas” (“O manto sagrado de Treves”) exibida na Ca­ O Capital, Trad. por Reginaldo SanfAnna. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasi­
leira, 1968. liv. 1, v. II, cap. XXII1, p. 743-52.
tedral de Treves em 1844, pelo clero católico reacionário. (N. da Ed.)
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dignitários de Soulouque. Pode-se fazer uma idéia perfeita dessa alta


camada da Sociedade de 10 de Dezembro, quando se reflete que
Véron-Crevel 23 é o seu moralista e Granier de Cassagnac o seu pen­
sador. Quando Guizot, durante o seu ministério, utilizou-se desse Gra­
nier, em um jornaleco dirigido contra a oposição dinástica, costumava
exaltá-lo com esta tirada: “C’est le roi des drôles”.24 25Seria injusto
8. O EXÉRCITO INDUSTRIAL DE RESERVA *
recordar a Regência ou Luís XV com referência à corte de Luís Bona-
parte ou à sua camarilha. Pois “a França já tem passado com fre­
quência por um governo de favoritas; mas nunca antes por um governo
de horrimes entretenus”. 23
Impelido pelas exigências contraditórias de sua situação, e estando, c
ao mesmo tempo, como um prestidigitador, ante a necessidade de A superpopulação relativa existe sob os mais variados matizes.
manter os olhares do público fixados sobre ele, como substituto de Todo trabalhador dela faz parte durante o tempo em que está desem­
Napoleão, por meio de surpresas constantes, isto é, ante a necessidade pregado ou parcialmente empregado. As fases alternadas do ciclo
de executar diariamente um golpe de Estado em miniatura, Bonaparte industrial fazem-na aparecer ora em forma aguda nas crises, ora em
lança a confusão em toda a economia burguesa, viola tudo que parecia forma crônica, nos períodos de paralisação. Mas, além dessas formas
inviolável à Revolução de 1848, torna alguns tolerantes em face da principais, que se reproduzem periodicamente, assume ela, continua­
revolução, outros desejosos de revolução, e produz uma verdadeira mente, as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada.
anarquia em nome da ordem, ao mesmo tempo que despoja de seu halo Nos centros da indústria moderna, fábricas, manufaturas, usinas
toda a máquina do Estado, profana-a e torna-a ao mesmo tempo des­ siderúrgicas e minas etc., os trabalhadores são ora repelidos, ora atraídos
prezível e ridícula. O culto do Manto Sagrado de Treves 26 ele o repete, em quantidade maior, de modo que, no seu conjunto, aumenta o número
em Paris, sob a forma do culto do manto imperial de Napoleão. Mas, dos empregados, embora em -proporção que decresce com o aumento
quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís da escala da produção. Aí a superpopulação assume a forma flutuante.
Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna
Tanto nas fábricas propriamente ditas quanto em todas as grandes
Vendôme. oficinas, que já utilizam maquinaria ou que funcionam apenas na base da
moderna divisão do trabalho, são empregados em massa meninos e
rapazes até atingirem a idade adulta. Chegado a esse termo, só um
número muito reduzido pode continuar empregado nos mesmos ramos
de atividade, sendo a maioria ordinariamente despedida. Esses que são
despedidos tornam-se elementos da superpopulação flutuante, que au­
menta ao crescer a indústria. Parte deles emigra e, na realidade, apenas
segue o capital em sua emigração. Em consequência, a população
feminina cresce mais rapidamente do que a masculina, conforme se
verifica na Inglaterra. É uma contradição do próprio movimento do
23 Em sua obra Couslne Bette, Balzac pinta o filisteu parisiense mais dissoluto na capital que o incremento natural da massa de trabalhadores não sature
figura de Crevel, personagem inspirado no Dr. Véron, proprietário do Constitu-
tionnel. (N. de Marx.)
suas necessidades de acumulação, e, apesar disso, ultrapasse-as. O
24 “Ê o rei dos palhaços.” (N. da Ed.)
25 As palavras citadas são de Madame Girardin. (N. de Marx)
Reproduzido de Marx, K. “A Lei Geral da Acumulação Capitalista.” In:
Hommes entretenus — homens sustentados. (N. da Ed.)
20 Uma das relíquias “sagradas” (“O manto sagrado de Treves”) exibida na Ca­ O Capital, Trad. por Reginaldo SanfAnna. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasi­
leira, 1968. liv. 1, v. II, cap. XXII1, p. 743-52.
tedral de Treves em 1844, pelo clero católico reacionário. (N. da Ed.)
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capital precisa de maiores quantidades de trabalhadores jovens e menor todas as indústrias não-agrícolas).3 Está fluindo sempre esse manancial
número de adultos. Existe outra contradição ainda mais chocante: as da superpopulação relativa. Mas, seu fluxo constante para as cidades
queixas contra a falta de braços, quando muitos milhares estão desem­ pressupõe, no próprio campo, uma população supérflua sempre latente,
pregados porque a divisão do trabalho os acorrentou a determinado cuja dimensão só se toma visível, quando, em situações excepcionais,
ramo industrial. 1 Além disso, o consumo da força de trabalho pelo se abrem todas as comportas dos canais de drenagem. Por isso, o
capital é tão intenso que o trabalhador de mediana idade já está, em trabalhador rural é rebaixado ao nível mínimo de salário e está sempre
regra, bastante alquebrado. Vai para as fileiras dos supérfluos ou é com um pé no pântano do pauperismo.
rebaixado de categoria. Encontramos a menor duração de vida justa­
A terceira categoria de superpopulação relativa, a estagnada, cons­
mente entre os trabalhadores da grande indústria. titui parte do exército de trabalhadores em ação, mas com ocupação
“Doutor Lee, da saúde pública de Manchester, verificou que a duração totalmente irregular. Ela proporciona ao capital reservatório inesgo­
média da vida, naquela cidade, na classe abastada, era de 38 anos e, tável de força de trabalho disponível. Sua condiçãó de vida se situa
na classe trabalhadora, apenas de 17 anos. Em Liverpool, ela é de 35, abaixo do nível médio normal da classe trabalhadora e, justamente isso,
para a primeira, e 15, para a segunda. torna-a base ampla de ramos especiais de exploração do capital. Dura­
Infere-se daí que a classe privilegiada goza da vantagem de viver duas
ção máxima de trabalho e mínimo de salário caracterizam sua existência.
vezes mais que seus concidadãos menos favorecidos”. 2 Conhecemos já sua configuração principal sob o nome de trabalho a
Nessas circunstâncias, o crescimento absoluto dessa parte do pro­ domicílio. São continuamente recrutados para suas fileiras os que se
letariado exige que seus elementos aumentem com velocidade maior que tornam supérfluos na grande indústria e na agricultura e notadamente
aquela em que são consumidos. Rápida substituição, portanto, das nos ramos de atividade em decadência, nos quais o artesanato é des­
gerações de trabalhadores (a mesma lei não se aplica às outras classes truído pela manufatura ou esta pela indústria mecânica. A superpo­
da população). Esta necessidade social é satisfeita por meio de casa­ pulação estagnada se amplia à medida que o incremento e a energia da
mentos prematuros, conseqüência necessária das condições em que acumulação aumentam o número dos trabalhadores supérfluos. Ela se
vivem os trabalhadores da grande indústria, e pelos prêmios que a reproduz e se perpetua, e é o componente da classe trabalhadora, que
exploração das crianças proporciona à sua procriação. tem, no crescimento global dela, uma participação relativamente maior
Quando a produção capitalista se apodera da agricultura ou nela que a dos demais componentes. Na realidade, a quantidade de nasci­
vai penetrando, diminui, à medida que se acumula o capital que nela mentos e óbitos e o tamanho absoluto das famílias está na razão inversa
funciona, a procura absoluta da população trabalhadora rural. Dá-se do nível de salário e, portanto, da quantidade de meios de subsistência
de que dispõem as diversas categorias de trabalhadores. Esta lei da
uma repulsão de trabalhadores que não é contrabalançada por maior
sociedade capitalista não se encontra entre selvagens, nem entre colonos
atração, como ocorre na indústria não-agrícola. Por isso, parte da
civilizados. Lembra a reprodução em massa de espécies animais, cujos
população rural’ encontra-se sempre na iminência de transferir-se para as
indivíduos são débeis e constantemente perseguidos. 4
fileiras do proletariado urbano ou da manufatura e na espreita de
circunstâncias favoráveis a essa transferência (manufatura aqui significa
0 No censo de 1861, da Inglaterra e do País de Gales, “781 cidades continham
10 960 998 habitantes, enquanto a população das aldeias e das paróquias rurais
1 No último semestre de 1866, em Londres, foram despedidos 80 a 90 mil traba­ era apenas de 9 105 226 (...). Em 1851, figuravam no censo 580 cidades cuja
lhadores; entretanto, no relatório sobre as fábricas, referente ao mesmo semestre, população era quase igual à das zonas rurais. Mas, enquanto a população do
lia-se: “Parece que não é de nenhum modo acertado dizer que a procura gera a campo aumentou, iios últimos 10 anos, em apenas meio milhão, a das 580 cidades
oferta no exato momento em que dela precisa. Isto não ocorreu com o trabalho, | cresceu de 1 554 067. O acréscimo de população, nas paróquias rurais, é de 6,5%
pois muita maquinaria teve de ficar parada o ano passado, por falta de braços” c, nas cidades, de 17,3%. A diferença na taxa de crescimento decorre da emi­
(Report of Inspt. of Fact. for 31st Oct. 1855. p. 81.) \
gração do campo para a cidade. Três quartos do crescimento global da população
2 Discurso de abertura da Conferência Sanitária, Birmingham, 14 de janeiro de pertencem às cidades” (“Census etc.”, v. III, p. 11 e 12.)
1875, pronunciado por J. Chamberlaih, ex-prefeito da cidade, atualmente (1883) 4 “A pobreza parece favorecer à procriação” (A. Smith). Segundo o abade Galiani,
ministro do Comércio. espírito galante e perspicaz, esta é uma sábia disposição da providência divina:
126 127

capital precisa de maiores quantidades de trabalhadores jovens e menor todas as indústrias não-agrícolas).3 Está fluindo sempre esse manancial
número de adultos. Existe outra contradição ainda mais chocante: as da superpopulação relativa. Mas, seu fluxo constante para as cidades
queixas contra a falta de braços, quando muitos milhares estão desem­ pressupõe, no próprio campo, uma população supérflua sempre latente,
pregados porque a divisão do trabalho os acorrentou a determinado cuja dimensão só se toma visível, quando, em situações excepcionais,
ramo industrial. 1 Além disso, o consumo da força de trabalho pelo se abrem todas as comportas dos canais de drenagem. Por isso, o
capital é tão intenso que o trabalhador de mediana idade já está, em trabalhador rural é rebaixado ao nível mínimo de salário e está sempre
regra, bastante alquebrado. Vai para as fileiras dos supérfluos ou é com um pé no pântano do pauperismo.
rebaixado de categoria. Encontramos a menor duração de vida justa­
A terceira categoria de superpopulação relativa, a estagnada, cons­
mente entre os trabalhadores da grande indústria. titui parte do exército de trabalhadores em ação, mas com ocupação
“Doutor Lee, da saúde pública de Manchester, verificou que a duração totalmente irregular. Ela proporciona ao capital reservatório inesgo­
média da vida, naquela cidade, na classe abastada, era de 38 anos e, tável de força de trabalho disponível. Sua condiçãó de vida se situa
na classe trabalhadora, apenas de 17 anos. Em Liverpool, ela é de 35, abaixo do nível médio normal da classe trabalhadora e, justamente isso,
para a primeira, e 15, para a segunda. torna-a base ampla de ramos especiais de exploração do capital. Dura­
Infere-se daí que a classe privilegiada goza da vantagem de viver duas
ção máxima de trabalho e mínimo de salário caracterizam sua existência.
vezes mais que seus concidadãos menos favorecidos”. 2 Conhecemos já sua configuração principal sob o nome de trabalho a
Nessas circunstâncias, o crescimento absoluto dessa parte do pro­ domicílio. São continuamente recrutados para suas fileiras os que se
letariado exige que seus elementos aumentem com velocidade maior que tornam supérfluos na grande indústria e na agricultura e notadamente
aquela em que são consumidos. Rápida substituição, portanto, das nos ramos de atividade em decadência, nos quais o artesanato é des­
gerações de trabalhadores (a mesma lei não se aplica às outras classes truído pela manufatura ou esta pela indústria mecânica. A superpo­
da população). Esta necessidade social é satisfeita por meio de casa­ pulação estagnada se amplia à medida que o incremento e a energia da
mentos prematuros, conseqüência necessária das condições em que acumulação aumentam o número dos trabalhadores supérfluos. Ela se
vivem os trabalhadores da grande indústria, e pelos prêmios que a reproduz e se perpetua, e é o componente da classe trabalhadora, que
exploração das crianças proporciona à sua procriação. tem, no crescimento global dela, uma participação relativamente maior
Quando a produção capitalista se apodera da agricultura ou nela que a dos demais componentes. Na realidade, a quantidade de nasci­
vai penetrando, diminui, à medida que se acumula o capital que nela mentos e óbitos e o tamanho absoluto das famílias está na razão inversa
funciona, a procura absoluta da população trabalhadora rural. Dá-se do nível de salário e, portanto, da quantidade de meios de subsistência
de que dispõem as diversas categorias de trabalhadores. Esta lei da
uma repulsão de trabalhadores que não é contrabalançada por maior
sociedade capitalista não se encontra entre selvagens, nem entre colonos
atração, como ocorre na indústria não-agrícola. Por isso, parte da
civilizados. Lembra a reprodução em massa de espécies animais, cujos
população rural’ encontra-se sempre na iminência de transferir-se para as
indivíduos são débeis e constantemente perseguidos. 4
fileiras do proletariado urbano ou da manufatura e na espreita de
circunstâncias favoráveis a essa transferência (manufatura aqui significa
0 No censo de 1861, da Inglaterra e do País de Gales, “781 cidades continham
10 960 998 habitantes, enquanto a população das aldeias e das paróquias rurais
1 No último semestre de 1866, em Londres, foram despedidos 80 a 90 mil traba­ era apenas de 9 105 226 (...). Em 1851, figuravam no censo 580 cidades cuja
lhadores; entretanto, no relatório sobre as fábricas, referente ao mesmo semestre, população era quase igual à das zonas rurais. Mas, enquanto a população do
lia-se: “Parece que não é de nenhum modo acertado dizer que a procura gera a campo aumentou, iios últimos 10 anos, em apenas meio milhão, a das 580 cidades
oferta no exato momento em que dela precisa. Isto não ocorreu com o trabalho, | cresceu de 1 554 067. O acréscimo de população, nas paróquias rurais, é de 6,5%
pois muita maquinaria teve de ficar parada o ano passado, por falta de braços” c, nas cidades, de 17,3%. A diferença na taxa de crescimento decorre da emi­
(Report of Inspt. of Fact. for 31st Oct. 1855. p. 81.) \
gração do campo para a cidade. Três quartos do crescimento global da população
2 Discurso de abertura da Conferência Sanitária, Birmingham, 14 de janeiro de pertencem às cidades” (“Census etc.”, v. III, p. 11 e 12.)
1875, pronunciado por J. Chamberlaih, ex-prefeito da cidade, atualmente (1883) 4 “A pobreza parece favorecer à procriação” (A. Smith). Segundo o abade Galiani,
ministro do Comércio. espírito galante e perspicaz, esta é uma sábia disposição da providência divina:
129
128

Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa consolidada, cuja miséria está na razão inversa do suplício de seu tra­
vegeta no inferno da indigência, do pauperismo. Pondo de lado os balho. E, ainda, quanto maiores essa camada de lázaros da classe
vagabundos, os criminosos, as prostitutas, o rebotalho do proletariado, trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior, usando-se
em suma, essa camada social consiste de três categorias. Primeiro, os a terminologia oficial, o pauperismo. Esta é a lei geral, absoluta, da
aptos para o trabalho. Basta olhar as estatísticas inglesas, referentes ao acumulação capitalista. Como todas as outras leis, é modificada, em
pauperismo, para se verificar que seu número aumenta em todas as seu funcionamento, por muitas circunstâncias que não nos cabe analisar
aqui.
crises e diminui quando os negócios se reanimam. Segundo, os órfãos
e filhos de indigentes. Irão engrossar o exército industrial de reserva, Patenteia-se a insanidade da sabedoria do economista que prega
e são recrutados, rapidamente e em massa, para o exército ativó dos aos trabalhadores adaptarem seu número às necessidades de expansão
trabalhadores, em tempos de grande prosperidade, como em 1860, por do capital. O mecanismo da produção capitalista e da acumulação
exemplo. Terceiro, os degradados, desmoralizados, incapazes de tra­ adapta, continuamente, esse número a essas necessidades. O começo
balhar. São, notadamente, os indivíduos que sucumbem em virtude de desse ajustamento é a criação de uma superpopulação relativa ou de
sua incapacidade de adaptação, decorrente da divisão do trabalho, os um exército industrial de reserva, e o fim a miséria de camadas cada
que ultrapassam a idade normal de um trabalhador, e as vítimas da vez maiores do exército ativo e o peso morto do pauperismo.
indústria, os mutilados, enfermos, viúvas etc., cujo número aumenta com Graças ao progresso da produtividade do trabalho social, quan­
as máquinas perigosas, as minas, as fábricas de produtos químicos etc. tidade sempre crescente de meios de produção pode ser mobilizada com
O pauperismo constitui o asilo dos inválidos do exército ativo dos tra­ um dispêndio progressivamente menor de força humana. Este enun­
balhadores e o peso morto do exército industrial de reserva. Sua ciado é uma lei na sociedade capitalista, onde o instrumental de trabalho
produção e sua necessidade se compreendem na produção e na necessi­ emprega o trabalhador e não este o instrumental. Esta lei se transmuta
dade da superpopulação relativa, e ambos constituem condição de na seguinte: quanto maior a produtividade do trabalho, tanto maior a
existência da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. O pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego, tanto mais pre­
pauperismo faz parte das despesas extras da produção capitalista, mas cária, portanto, sua condição de existência, a saber, a venda da própria
o capital arranja sempre um meio de transferi-las para a classe trabalha­ força para aumentar a riqueza alheia ou a expansão do capital. O
dora e para a classe média inferior. crescimento dos meios de produção e da produtividade do trabalho,
Quanto maiores a riqueza social, o capital em função, a dimensão mais rápido que o crescimento da população produtiva, expressa-se, de
e energia de seu crescimento e, consequentemente, a magnitude absoluta maneira inversa, na sociedade capitalista. Nesta, a população trabalha­
do proletariado e da força produtiva de seu trabalho, tanto maior o dora aumenta sempre mais rapidamente do que as condições em que o
exército industrial de reserva. A força de trabalho disponível é am­ capital pode empregar os acréscimos dessa população para expandir-se.
pliada pelas mesmas causas que aumentam a força expansiva do capital. Ao analisar a produção da mais-valia relativa, na parte quarta,
A magnitude relativa do exército industrial de reserva cresce, portanto, verificamos: dentro do sistema capitalista, todos os métodos para levar
com as potências da riqueza, mas, quanto maior esse exército de reserva, à produtividade do trabalho coletivo são aplicados às custas do traba­
em relação ao exército ativo, tanto maior a massa da superpopulação* * lhador individual; todos os meios para desenvolver a produção redun­
dam em meios de dominar e explorar o produtor, mutilam o trabalhador,
"Deus dispôs que os homens que exercem os misteres mais úteis nascessem em reduzindo-o a um fragmento de ser humano, degradam-no à categoria
abundância” (Galiani, F. Delia Moneta (1750). Milão, Ed. Custodi, 1815. Parte de peça de máquina, destroem o conteúdo de seu trabalho transformado
Moderna, t. III, p. 78, Col. “Scrittori Classici ltaliani di Economia Política”). em tormento; tornam-lhe estranhas as potências intelectuais do processo
“A miséria, levada ao seu grau mais extremo da fome e da peste, aumenta o cres­
cimento da população, em vez de lhe pôr um freio” (Laing, S. National Distress. de trabalho, na medida em que a este se incorpora a Ciência como
1844. p. 69.) Depois de ilustrar estatisticamente sua afirmação, prossegue Laing: força independente, desfiguram as condições em que trabalha, subme-
"Se todos os seres humanos vivessem em condições cômodas, o mundo estaria em lein-no constantamente a um despotismo mesquinho e odioso, transfor­
pouco tempo despovoado.” ("If the people were all in easy circumstances, the world mam todas as horas de sua vida em horas de trabalho e lançam sua
would soon be depopulated”.)
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Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa consolidada, cuja miséria está na razão inversa do suplício de seu tra­
vegeta no inferno da indigência, do pauperismo. Pondo de lado os balho. E, ainda, quanto maiores essa camada de lázaros da classe
vagabundos, os criminosos, as prostitutas, o rebotalho do proletariado, trabalhadora e o exército industrial de reserva, tanto maior, usando-se
em suma, essa camada social consiste de três categorias. Primeiro, os a terminologia oficial, o pauperismo. Esta é a lei geral, absoluta, da
aptos para o trabalho. Basta olhar as estatísticas inglesas, referentes ao acumulação capitalista. Como todas as outras leis, é modificada, em
pauperismo, para se verificar que seu número aumenta em todas as seu funcionamento, por muitas circunstâncias que não nos cabe analisar
aqui.
crises e diminui quando os negócios se reanimam. Segundo, os órfãos
e filhos de indigentes. Irão engrossar o exército industrial de reserva, Patenteia-se a insanidade da sabedoria do economista que prega
e são recrutados, rapidamente e em massa, para o exército ativó dos aos trabalhadores adaptarem seu número às necessidades de expansão
trabalhadores, em tempos de grande prosperidade, como em 1860, por do capital. O mecanismo da produção capitalista e da acumulação
exemplo. Terceiro, os degradados, desmoralizados, incapazes de tra­ adapta, continuamente, esse número a essas necessidades. O começo
balhar. São, notadamente, os indivíduos que sucumbem em virtude de desse ajustamento é a criação de uma superpopulação relativa ou de
sua incapacidade de adaptação, decorrente da divisão do trabalho, os um exército industrial de reserva, e o fim a miséria de camadas cada
que ultrapassam a idade normal de um trabalhador, e as vítimas da vez maiores do exército ativo e o peso morto do pauperismo.
indústria, os mutilados, enfermos, viúvas etc., cujo número aumenta com Graças ao progresso da produtividade do trabalho social, quan­
as máquinas perigosas, as minas, as fábricas de produtos químicos etc. tidade sempre crescente de meios de produção pode ser mobilizada com
O pauperismo constitui o asilo dos inválidos do exército ativo dos tra­ um dispêndio progressivamente menor de força humana. Este enun­
balhadores e o peso morto do exército industrial de reserva. Sua ciado é uma lei na sociedade capitalista, onde o instrumental de trabalho
produção e sua necessidade se compreendem na produção e na necessi­ emprega o trabalhador e não este o instrumental. Esta lei se transmuta
dade da superpopulação relativa, e ambos constituem condição de na seguinte: quanto maior a produtividade do trabalho, tanto maior a
existência da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. O pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego, tanto mais pre­
pauperismo faz parte das despesas extras da produção capitalista, mas cária, portanto, sua condição de existência, a saber, a venda da própria
o capital arranja sempre um meio de transferi-las para a classe trabalha­ força para aumentar a riqueza alheia ou a expansão do capital. O
dora e para a classe média inferior. crescimento dos meios de produção e da produtividade do trabalho,
Quanto maiores a riqueza social, o capital em função, a dimensão mais rápido que o crescimento da população produtiva, expressa-se, de
e energia de seu crescimento e, consequentemente, a magnitude absoluta maneira inversa, na sociedade capitalista. Nesta, a população trabalha­
do proletariado e da força produtiva de seu trabalho, tanto maior o dora aumenta sempre mais rapidamente do que as condições em que o
exército industrial de reserva. A força de trabalho disponível é am­ capital pode empregar os acréscimos dessa população para expandir-se.
pliada pelas mesmas causas que aumentam a força expansiva do capital. Ao analisar a produção da mais-valia relativa, na parte quarta,
A magnitude relativa do exército industrial de reserva cresce, portanto, verificamos: dentro do sistema capitalista, todos os métodos para levar
com as potências da riqueza, mas, quanto maior esse exército de reserva, à produtividade do trabalho coletivo são aplicados às custas do traba­
em relação ao exército ativo, tanto maior a massa da superpopulação* * lhador individual; todos os meios para desenvolver a produção redun­
dam em meios de dominar e explorar o produtor, mutilam o trabalhador,
"Deus dispôs que os homens que exercem os misteres mais úteis nascessem em reduzindo-o a um fragmento de ser humano, degradam-no à categoria
abundância” (Galiani, F. Delia Moneta (1750). Milão, Ed. Custodi, 1815. Parte de peça de máquina, destroem o conteúdo de seu trabalho transformado
Moderna, t. III, p. 78, Col. “Scrittori Classici ltaliani di Economia Política”). em tormento; tornam-lhe estranhas as potências intelectuais do processo
“A miséria, levada ao seu grau mais extremo da fome e da peste, aumenta o cres­
cimento da população, em vez de lhe pôr um freio” (Laing, S. National Distress. de trabalho, na medida em que a este se incorpora a Ciência como
1844. p. 69.) Depois de ilustrar estatisticamente sua afirmação, prossegue Laing: força independente, desfiguram as condições em que trabalha, subme-
"Se todos os seres humanos vivessem em condições cômodas, o mundo estaria em lein-no constantamente a um despotismo mesquinho e odioso, transfor­
pouco tempo despovoado.” ("If the people were all in easy circumstances, the world mam todas as horas de sua vida em horas de trabalho e lançam sua
would soon be depopulated”.)
130 131

mulhçr e seus filhos sob o rolo compressor do capital. Mas todos os Dez anos depois de Ortes, o pastor anglicano Townsend louvava,
métodos para produzir mais-valia são, ao mesmo tempo, métodos de grotescamente, a pobreza como condição necessária para a riqueza.
acumular, e todo aumento da acumulação torna-se, reciprocamente,
meio de desenvolver aqueles métodos. Infere-se daí que, na medida em “O trabalho obtido por meio de coação legal exige grande dose de
que se acumula o capital, tem de piorar a situação do trabalhador, suba aborrecimentos, violência e barulho, enquanto a fome pressiona pací­
ou desça sua remuneração. A lei que mantém a superpopulação relativa fica, silenciosa e incessantemente, e, sendo o motivo mais natural para
ou o exército industrial de reserva, no nível adequado ao incremento e a diligência e para o trabalho, leva a que se façam os maiores esforços.”
à energia da acumulação, acorrenta o trabalhador ao capital mais firme­ Tudo o que importa é tornar a fome permanente, na classe traba­
mente do que os grilhões de Vulcano acorrentavam Prometeu ao lhadora, e isto, segundo Townsend, é função do princípio da população,
Cáucaso. Determina uma acumulação de miséria correspondente à que vigora especialmente entre os pobres.
acumulação de capital. Acumulação de riqueza num pólo é, ao mesmo
tempo, acumulação de miséria, de trabalho atormentante, de escravatura, “Parece uma lei natural que os pobres até certcú ponto sejam imprevi­
ignorância, brutalização e degradação moral, no pólo oposto, constituído dentes” (tão imprevidentes que venham ao mundo sem que lhes asse­
gurem antes um berço de ouro), “o que proporciona a existência de
pela classe cujo produto vira capital.
indivíduos para exercerem os ofícios mais servis, mais sórdidos e mais
Esse caráter antagônico da produção capitalista 5 foi expresso, sob ignóbeis da comunidade. O cabedal de felicidade humana é ampliado,
diversas formas, pelos economistas políticos, embora o misturassem com quando os mais delicados ficam isentos do trabalho servil e podem
fenômenos até certo ponto análogos, mas diferentes, na sua substância, realizar sua vocação superior sem interrupções. (...) A lei de assis­
de modos de produção pré-capitalistas. tência aos pobres tende a destruir a harmonia e a beleza, a simetria e
O monge veneziano Ortes, um dos grandes economistas do século a ordem desse sistema que Deus e a natureza criaram no mundo”. 7
XVIII, via no antagonismo da produção capitalista uma lei natural geral Se o monge veneziano via, na fatalidade que eterniza a miséria,
da riqueza social. a razão de ser da caridade cristã, do celibato, dos mosteiros e das
“Numa nação, os bens e os males econômicos mantêm-se sempre em instituições pias, o dignitário protestante, ao contrário, nela encontrava
equilíbrio: a abundância de bens, para uns, corresponde sempre à falta 0 motivo para condenar ás leis que asseguravam ao pobre uma mísera
deles, para outros. Grande riqueza para alguns significa privação abso­
luta do necessário para muitos outros. A riqueza de uma nação está assistência pública.
em correspondência com sua população, e sua miséria em correspon­ “O progresso da riqueza social”, diz Storch, “gera aquela classe útil da
dência com sua riqueza. A diligência de uns leva outros à ociosidade. sociedade (...) que executa as tarefas mais enfadonhas, mais sórdidas
Os pobres e os ociosos são consequência necessária dos ricos e dos e repugnantes, em suma, se sobrecarrega com tudo o que a vida oferece
trabalhadores.” ü

7 Townsend, J. A Dissertation on the Poor Laws, by a.Wellwisher of Manklnd.


5 “Cada dia se torna mais claro que as condições de produção, em que se move 1786. Reeditado em Londres, 1817. p. 15, 39 e 41. Da obra citada e também
a burguesia, não têm caráter unitário, simples, mas dúplice; que, nas mesmas de HUU Journey through Spain, reproduz Malthus páginas e páginas inteiras. Por
condições em que se produz a riqueza, produz-se também a miséria; que, nas NUli vez, Townsend, esse “delicado” pastor, tomou de empréstimo a maior parte
mesmas condições em que se processa o desenvolvimento das forças produtivas, do sua doutrina a Sir J. Steuart, cujo pensamento deformou. Quando Steuart,
desenvolve-se também uma força repressiva; que essas condições só geram a pur exemplo, diz: “Na escravatura existia um método violento para forçar os
riqueza burguesa, isto é, a riqueza da classe burguesa, com a destruição conti­ fierCH humanos a trabalharem” (para aqueles que não trabalham). (...) “Outrora,
nuada da riqueza de membros que integram essa classe e com a formação de m homens eram forçados a trabalhar” (gratuitamente para os outros), “porque
um proletariado cada vez maior” (Marx, K. Misère de la philosophie. p. 116). ruim escravos de outros; os seres humanos são agora forçados a trabalhar”
G Ortes, G. Delia Economia Nazionale (libri sei, 1774). Milão, Ed. Custodi, 1804. (Krnlullamente para os que não trabalham), “porque são escravos de suas pró-
Parte Moderna, t. XXI, p. 6, 9, 22, 25 etc. (Col. “Scrittori Classici Italiani di Eco­ prliiH necessidades”. Mas, Steuart não concluiu daí, como o rotundo prebendário,
nomia Política”). Ortes diz: “Em vez de imaginar sistemas inúteis para a felicidade ijiiü os assalariados deviam viver num regime de fome. Ao contrário, ele pre-
dos povos, prefiro limitar-me a perquirir as causas da infelicidade que os cerca” Icndki aumentar suas necessidades cujo número crescente serviria para incentivá-
(Op. cit, p. 32). hw d trabalharem para “os mais delicados”.
130 131

mulhçr e seus filhos sob o rolo compressor do capital. Mas todos os Dez anos depois de Ortes, o pastor anglicano Townsend louvava,
métodos para produzir mais-valia são, ao mesmo tempo, métodos de grotescamente, a pobreza como condição necessária para a riqueza.
acumular, e todo aumento da acumulação torna-se, reciprocamente,
meio de desenvolver aqueles métodos. Infere-se daí que, na medida em “O trabalho obtido por meio de coação legal exige grande dose de
que se acumula o capital, tem de piorar a situação do trabalhador, suba aborrecimentos, violência e barulho, enquanto a fome pressiona pací­
ou desça sua remuneração. A lei que mantém a superpopulação relativa fica, silenciosa e incessantemente, e, sendo o motivo mais natural para
ou o exército industrial de reserva, no nível adequado ao incremento e a diligência e para o trabalho, leva a que se façam os maiores esforços.”
à energia da acumulação, acorrenta o trabalhador ao capital mais firme­ Tudo o que importa é tornar a fome permanente, na classe traba­
mente do que os grilhões de Vulcano acorrentavam Prometeu ao lhadora, e isto, segundo Townsend, é função do princípio da população,
Cáucaso. Determina uma acumulação de miséria correspondente à que vigora especialmente entre os pobres.
acumulação de capital. Acumulação de riqueza num pólo é, ao mesmo
tempo, acumulação de miséria, de trabalho atormentante, de escravatura, “Parece uma lei natural que os pobres até certcú ponto sejam imprevi­
ignorância, brutalização e degradação moral, no pólo oposto, constituído dentes” (tão imprevidentes que venham ao mundo sem que lhes asse­
gurem antes um berço de ouro), “o que proporciona a existência de
pela classe cujo produto vira capital.
indivíduos para exercerem os ofícios mais servis, mais sórdidos e mais
Esse caráter antagônico da produção capitalista 5 foi expresso, sob ignóbeis da comunidade. O cabedal de felicidade humana é ampliado,
diversas formas, pelos economistas políticos, embora o misturassem com quando os mais delicados ficam isentos do trabalho servil e podem
fenômenos até certo ponto análogos, mas diferentes, na sua substância, realizar sua vocação superior sem interrupções. (...) A lei de assis­
de modos de produção pré-capitalistas. tência aos pobres tende a destruir a harmonia e a beleza, a simetria e
O monge veneziano Ortes, um dos grandes economistas do século a ordem desse sistema que Deus e a natureza criaram no mundo”. 7
XVIII, via no antagonismo da produção capitalista uma lei natural geral Se o monge veneziano via, na fatalidade que eterniza a miséria,
da riqueza social. a razão de ser da caridade cristã, do celibato, dos mosteiros e das
“Numa nação, os bens e os males econômicos mantêm-se sempre em instituições pias, o dignitário protestante, ao contrário, nela encontrava
equilíbrio: a abundância de bens, para uns, corresponde sempre à falta 0 motivo para condenar ás leis que asseguravam ao pobre uma mísera
deles, para outros. Grande riqueza para alguns significa privação abso­
luta do necessário para muitos outros. A riqueza de uma nação está assistência pública.
em correspondência com sua população, e sua miséria em correspon­ “O progresso da riqueza social”, diz Storch, “gera aquela classe útil da
dência com sua riqueza. A diligência de uns leva outros à ociosidade. sociedade (...) que executa as tarefas mais enfadonhas, mais sórdidas
Os pobres e os ociosos são consequência necessária dos ricos e dos e repugnantes, em suma, se sobrecarrega com tudo o que a vida oferece
trabalhadores.” ü

7 Townsend, J. A Dissertation on the Poor Laws, by a.Wellwisher of Manklnd.


5 “Cada dia se torna mais claro que as condições de produção, em que se move 1786. Reeditado em Londres, 1817. p. 15, 39 e 41. Da obra citada e também
a burguesia, não têm caráter unitário, simples, mas dúplice; que, nas mesmas de HUU Journey through Spain, reproduz Malthus páginas e páginas inteiras. Por
condições em que se produz a riqueza, produz-se também a miséria; que, nas NUli vez, Townsend, esse “delicado” pastor, tomou de empréstimo a maior parte
mesmas condições em que se processa o desenvolvimento das forças produtivas, do sua doutrina a Sir J. Steuart, cujo pensamento deformou. Quando Steuart,
desenvolve-se também uma força repressiva; que essas condições só geram a pur exemplo, diz: “Na escravatura existia um método violento para forçar os
riqueza burguesa, isto é, a riqueza da classe burguesa, com a destruição conti­ fierCH humanos a trabalharem” (para aqueles que não trabalham). (...) “Outrora,
nuada da riqueza de membros que integram essa classe e com a formação de m homens eram forçados a trabalhar” (gratuitamente para os outros), “porque
um proletariado cada vez maior” (Marx, K. Misère de la philosophie. p. 116). ruim escravos de outros; os seres humanos são agora forçados a trabalhar”
G Ortes, G. Delia Economia Nazionale (libri sei, 1774). Milão, Ed. Custodi, 1804. (Krnlullamente para os que não trabalham), “porque são escravos de suas pró-
Parte Moderna, t. XXI, p. 6, 9, 22, 25 etc. (Col. “Scrittori Classici Italiani di Eco­ prliiH necessidades”. Mas, Steuart não concluiu daí, como o rotundo prebendário,
nomia Política”). Ortes diz: “Em vez de imaginar sistemas inúteis para a felicidade ijiiü os assalariados deviam viver num regime de fome. Ao contrário, ele pre-
dos povos, prefiro limitar-me a perquirir as causas da infelicidade que os cerca” Icndki aumentar suas necessidades cujo número crescente serviria para incentivá-
(Op. cit, p. 32). hw d trabalharem para “os mais delicados”.
132

de desagradável e de servil, proporcionando assim às outras classes


lazer, alegria espiritual e aquela dignidade convencional de caráter”.
(Que bom!) 8
Storch pergunta a si mesmo qual seria a vantagem real dessa
civilização capitalista, com sua miséria e degradação das massas, com­
parada com a barbárie. Só encontra uma resposta: a segurança. 9. QUESTIONÁRIO SOBRE A SITUAÇÃO
Sismondi, por sua vez, observa: OPERÁRIA NA FRANÇA *
“Com o progresso da indústria e da Ciência, todo trabalhador pode
produzir diariamente muito mais do que precisa para seu consumo.
Mas, embora seu trabalho produza riqueza, esta torná-lo-ia menos apto
para o trabalho, se lhe fosse permitido consumi-la”. Segundo ele, “os c
seres humanos” (isto é, os ociosos) “renunciariam, provavelmente, a
todos os requintes das artes, a todas as comodidades criadas pela in­ Nunca um governo (nem monárquico nem republicano-burguês)
dústria, se tivessem de obtê-los por meio de um trabalho constante, ousou abrir uma investigação séria a respeito da situação da classe
como o que recai sobre os ombros do trabalhador. (...) Os esforços operária na França. Mas, por outro lado, muitas pesquisas já foram
estão hoje dissociados de sua recompensa, e o homem que repousa não feitas a respeito das crises agrárias, financeiras, industriais e comerciais
é o que trabalha, e se alguém pode repousar é porque outro traba­
ou políticas.
lha. (...) A multiplicação sem fim das forças produtivas do trabalho
não pode ter outro resultado que o de aumentar o luxo e as comodi­ A infâmia da exploração capitalista, manifestada com as investiga­
dades dos ricos ociosos”.9 ções oficiais do governo inglês, e as conseqüências legais dessas revela­
Finalmente, Destutt de Tracy, o fleumático doutrinador burguês, ções (limitação da jornada legal de trabalho a dez horas, leis sobre o
diz abertamente: trabalho da mulher e da criança etc.) só serviram para aumentar ainda
“Nas nações pobres, o povo vive o seu gosto, e, nas ricas, vive geral­ mais o temor da burguesia francesa diante dos perigos que uma
mente na pobreza”. 10 indagação sistemática imparcial poderia acarretar.
Usando os escassos meios de que dispomos, vamos iniciar por
nossa conta esta indagação, na esperança de que, com isso, possamos
talve^ animar o governo republicano da França a seguir o exemplo do
governo monárquico inglês. Confiamos em contar, para isso’, com a
ajuda de todos os operários da cidade e do campo, conscientes de que
apenas eles podem descrever, com pleno conhecimento de causa, os
sofrimentos que padecem, e de que só eles, e não algum redentor eleito
pela providência, são capazes de aplicar os remédios enérgicos contra a
miséria social que sofrem. E contamos, também, com" os socialistas de
todas as escolas, que, aspirando a uma reforma social, devem, necessa­
riamente, desejar adquirir o conhecimento mais exato e fiel possível a
respeito das condições em que vive e labora a classe operária, a classe
8 Storch. Cours d’Économie politique. t. III, p. 223. à qual pertence o porvir.
9 SiSMòNDi. Nouveaux príncipes d'Économie politique. t. I, p. 79, 90 e 85.
10 Tracy, Destutt de. Élements d’idéologie. Paris, 1826. p. 231. “Les nations
pauvres, c’est là ou le peuple est à son aise; et les nations riches, c’est là oü Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Escritos Econômicos Vários. México,
iJ est ordinairement pauvre.” liditorial Grijalbo, 1962. p. 280-86 Trad. por Maria Elisa Mascarenhas.
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de desagradável e de servil, proporcionando assim às outras classes


lazer, alegria espiritual e aquela dignidade convencional de caráter”.
(Que bom!) 8
Storch pergunta a si mesmo qual seria a vantagem real dessa
civilização capitalista, com sua miséria e degradação das massas, com­
parada com a barbárie. Só encontra uma resposta: a segurança. 9. QUESTIONÁRIO SOBRE A SITUAÇÃO
Sismondi, por sua vez, observa: OPERÁRIA NA FRANÇA *
“Com o progresso da indústria e da Ciência, todo trabalhador pode
produzir diariamente muito mais do que precisa para seu consumo.
Mas, embora seu trabalho produza riqueza, esta torná-lo-ia menos apto
para o trabalho, se lhe fosse permitido consumi-la”. Segundo ele, “os c
seres humanos” (isto é, os ociosos) “renunciariam, provavelmente, a
todos os requintes das artes, a todas as comodidades criadas pela in­ Nunca um governo (nem monárquico nem republicano-burguês)
dústria, se tivessem de obtê-los por meio de um trabalho constante, ousou abrir uma investigação séria a respeito da situação da classe
como o que recai sobre os ombros do trabalhador. (...) Os esforços operária na França. Mas, por outro lado, muitas pesquisas já foram
estão hoje dissociados de sua recompensa, e o homem que repousa não feitas a respeito das crises agrárias, financeiras, industriais e comerciais
é o que trabalha, e se alguém pode repousar é porque outro traba­
ou políticas.
lha. (...) A multiplicação sem fim das forças produtivas do trabalho
não pode ter outro resultado que o de aumentar o luxo e as comodi­ A infâmia da exploração capitalista, manifestada com as investiga­
dades dos ricos ociosos”.9 ções oficiais do governo inglês, e as conseqüências legais dessas revela­
Finalmente, Destutt de Tracy, o fleumático doutrinador burguês, ções (limitação da jornada legal de trabalho a dez horas, leis sobre o
diz abertamente: trabalho da mulher e da criança etc.) só serviram para aumentar ainda
“Nas nações pobres, o povo vive o seu gosto, e, nas ricas, vive geral­ mais o temor da burguesia francesa diante dos perigos que uma
mente na pobreza”. 10 indagação sistemática imparcial poderia acarretar.
Usando os escassos meios de que dispomos, vamos iniciar por
nossa conta esta indagação, na esperança de que, com isso, possamos
talve^ animar o governo republicano da França a seguir o exemplo do
governo monárquico inglês. Confiamos em contar, para isso’, com a
ajuda de todos os operários da cidade e do campo, conscientes de que
apenas eles podem descrever, com pleno conhecimento de causa, os
sofrimentos que padecem, e de que só eles, e não algum redentor eleito
pela providência, são capazes de aplicar os remédios enérgicos contra a
miséria social que sofrem. E contamos, também, com" os socialistas de
todas as escolas, que, aspirando a uma reforma social, devem, necessa­
riamente, desejar adquirir o conhecimento mais exato e fiel possível a
respeito das condições em que vive e labora a classe operária, a classe
8 Storch. Cours d’Économie politique. t. III, p. 223. à qual pertence o porvir.
9 SiSMòNDi. Nouveaux príncipes d'Économie politique. t. I, p. 79, 90 e 85.
10 Tracy, Destutt de. Élements d’idéologie. Paris, 1826. p. 231. “Les nations
pauvres, c’est là ou le peuple est à son aise; et les nations riches, c’est là oü Reproduzido de Marx, K. e Engels, F. Escritos Econômicos Vários. México,
iJ est ordinairement pauvre.” liditorial Grijalbo, 1962. p. 280-86 Trad. por Maria Elisa Mascarenhas.
134 135.

Estes cadernos do trabalho constituem o primeiro passo que a 11) Se a fábrica funciona no campo, diga se seu trabalho industrial
democracia socialista tem que dar, para abrir acesso à renovação social. lhe basta para cobrir suas necessidades ou se o combina com algum
trabalho agrícola.
As cem perguntas contidas no questionário são da mais alta impor­
tância. As respostas deverão conter o número de ordem da pergunta 12) Como realiza você seu trabalho; à mão ou com ajuda de
correspondente. Não é necessário responder a todas as perguntas, mas maquinaria?
recomendamos que as respostas sejam as mais amplas e detalhadas 13) Dar detalhes a respeito de como está organizada a divisão do
possíveis. Não se fará público o nome da operária ou operário que trabalho em sua indústria.
enviar a resposta, a não ser que dê expressa autorização para isso; não
14) Emprega-se o vapor como força motriz?
obstante, cada remetente deverá indicar seu nome e endereço, para que,
se necessário, possamos lhe escrever. 15) Indicar o número de edifícios ou locais em que funcionam os
As respostas devem ser dirigidas ao administrador da Revue diferentes ramos da indústria. Descreva a especialidade em que você
trabalha, referindo-se não apenas à parte técnica como também à fadiga
socialiste, M. Lécluse, 28, rue Royale, Saint-Cloud, Paris.
0 muscular e nervosa que o trabalho lhe impõe, e de como repercute, em
As respostas serão classificadas e servirão de base para uma série geral, sobffeVà saúde do operário.
de monografias especiais, que serão publicadas na Revue socialiste, e,
mais tarde, reunidas em um volume. 16) Descrever as condições higiênicas da fábrica: dimensões dos
diversos locais e lugar destinado a cada operário; ventilação, tempe­
ratura e se as paredes são pintadas; condições em que se encontram
I os sanitários; limpeza em geral; ruído das máquinas, pó do metal,
1) Que ofício exerce você? umidade etc.
2) A fábrica em que trabalha pertence a um capitalista ou a uma 17) O município ou o governo se ocupam em vigiar as condições
sociedade anônima? Indique os nomes dos patrões capitalistas ou dos de higiene da fábrica?
gerentes da empresa. 18) Há, em sua indústria, emanações nocivas especiais, que pro­
3) Indicar o número de trabalhadores da empresa. voquem enfermidades específicas entre os operários?
4) Idade e sexo do declarante. 19) Está a fábrica abarrotada de máquinas?
5) Idade mínima em que começam a trabalhar as crianças (me­ 20) Estão a força motriz, os mecanismos de transmissão e as
ninos ou meninas). máquinas protegidas para a prevenção de qualquer acidente?
6) Quantos capatazes ou empregados de outra, classe existem na 21) Enumerar os acidentes do trabalho ocorridos durante o tempo
fábrica que não sejam empregados? Cm que você trabalha na fábrica.
7) Há aprendizes? Quantos? 22) Se o lugar de trabalho for uma mina, enumerar as medidas
8) Além dos operários que trabalham de um modo regular e preventivas adotadas pelo patrão para assegurar a ventilação e impedir
constante, há outros que vêm de fora apenas em certas épocas do ano? US explosões e- outros acidentes perigosos.

9) A indústria de seu patrão trabalha, exclusivamente ou pre­ 23) Se trabalha em uma fábrica de produtos químicos, em altos-
ferencialmente, para a clientela da localidade, para o mercado interno, -fornos, em metalúrgica ou qualquer outra indústria em que haja perigos
em geral, ou para a exportação estrangeira? especiais, enumerar as medidas de precaução adotadas pelo patrão.
10) A fábrica em que trabalha está no campo ou na cidade? 24) Que tipo de combustível se emprega na fábrica (gás, petróleo
Indicar o lugar. etc»)?
134 135.

Estes cadernos do trabalho constituem o primeiro passo que a 11) Se a fábrica funciona no campo, diga se seu trabalho industrial
democracia socialista tem que dar, para abrir acesso à renovação social. lhe basta para cobrir suas necessidades ou se o combina com algum
trabalho agrícola.
As cem perguntas contidas no questionário são da mais alta impor­
tância. As respostas deverão conter o número de ordem da pergunta 12) Como realiza você seu trabalho; à mão ou com ajuda de
correspondente. Não é necessário responder a todas as perguntas, mas maquinaria?
recomendamos que as respostas sejam as mais amplas e detalhadas 13) Dar detalhes a respeito de como está organizada a divisão do
possíveis. Não se fará público o nome da operária ou operário que trabalho em sua indústria.
enviar a resposta, a não ser que dê expressa autorização para isso; não
14) Emprega-se o vapor como força motriz?
obstante, cada remetente deverá indicar seu nome e endereço, para que,
se necessário, possamos lhe escrever. 15) Indicar o número de edifícios ou locais em que funcionam os
As respostas devem ser dirigidas ao administrador da Revue diferentes ramos da indústria. Descreva a especialidade em que você
trabalha, referindo-se não apenas à parte técnica como também à fadiga
socialiste, M. Lécluse, 28, rue Royale, Saint-Cloud, Paris.
0 muscular e nervosa que o trabalho lhe impõe, e de como repercute, em
As respostas serão classificadas e servirão de base para uma série geral, sobffeVà saúde do operário.
de monografias especiais, que serão publicadas na Revue socialiste, e,
mais tarde, reunidas em um volume. 16) Descrever as condições higiênicas da fábrica: dimensões dos
diversos locais e lugar destinado a cada operário; ventilação, tempe­
ratura e se as paredes são pintadas; condições em que se encontram
I os sanitários; limpeza em geral; ruído das máquinas, pó do metal,
1) Que ofício exerce você? umidade etc.
2) A fábrica em que trabalha pertence a um capitalista ou a uma 17) O município ou o governo se ocupam em vigiar as condições
sociedade anônima? Indique os nomes dos patrões capitalistas ou dos de higiene da fábrica?
gerentes da empresa. 18) Há, em sua indústria, emanações nocivas especiais, que pro­
3) Indicar o número de trabalhadores da empresa. voquem enfermidades específicas entre os operários?
4) Idade e sexo do declarante. 19) Está a fábrica abarrotada de máquinas?
5) Idade mínima em que começam a trabalhar as crianças (me­ 20) Estão a força motriz, os mecanismos de transmissão e as
ninos ou meninas). máquinas protegidas para a prevenção de qualquer acidente?
6) Quantos capatazes ou empregados de outra, classe existem na 21) Enumerar os acidentes do trabalho ocorridos durante o tempo
fábrica que não sejam empregados? Cm que você trabalha na fábrica.
7) Há aprendizes? Quantos? 22) Se o lugar de trabalho for uma mina, enumerar as medidas
8) Além dos operários que trabalham de um modo regular e preventivas adotadas pelo patrão para assegurar a ventilação e impedir
constante, há outros que vêm de fora apenas em certas épocas do ano? US explosões e- outros acidentes perigosos.

9) A indústria de seu patrão trabalha, exclusivamente ou pre­ 23) Se trabalha em uma fábrica de produtos químicos, em altos-
ferencialmente, para a clientela da localidade, para o mercado interno, -fornos, em metalúrgica ou qualquer outra indústria em que haja perigos
em geral, ou para a exportação estrangeira? especiais, enumerar as medidas de precaução adotadas pelo patrão.
10) A fábrica em que trabalha está no campo ou na cidade? 24) Que tipo de combustível se emprega na fábrica (gás, petróleo
Indicar o lugar. etc»)?
136 137

25) Em caso de incêndio, dispõe a fábrica de saídas em quan­ 41) Se há trabalho diurno e noturno, que sistema de turnos se
tidade suficiente? aplica?
26) Em caso de acidente, está o patrão legalmente obrigado a 42) Qual é o número habitual de horas extraordinárias durante os
indenizar o operário ou a sua família? períodos de intensa atividade industrial?
27) Em outro caso, o patrão indenizou alguma vez a quem sofreu 43) A limpeza das máquinas é feita por operários especializados,
algum acidente enquanto trabalhava para enriquecê-lo? contratados especialmente para esse trabalho, ou limpam-nas, gratuita­
28) Existe na fábrica algum serviço médico? mente, os operários que trabalham nas máquinas durante a sua jornada
29) Se você trabalha a domicílio, descreva o estado em que se de trabalho?
encontra o lugar em que trabalha. Trabalha somente com ferramentas 44) Que regulamentos regem, e que multas são aplicadas aos que
ou emprega pequenas máquinas? Tem você como auxiliares seus filhos chegam tarde? Quando começa a jornada de trabalho, e quando reco­
ou outras pessoas (adultos ou menores, homens ou mulheres)? Trabalha meça depois das refeições?
para clientes particulares ou para uma empresa? Trata você direta­ 45) Que tempo investe você para trasladar-se à fábrica e voltar
mente com estes ou através de um intermediário?
para sua casa?

n III
30) Indicar as horas de trabalho por dia e os dias de trabalho na
46) Que espécie de contrato tem você com seu patrão? Você é
semana.
contratado por dias, semanas, meses etc.?
31) Indicar os dias de festa durante o ano.
47) Quais são as condições estipuladas para a dispensa ou para
32) Pausas que existem durante a jornada de trabalho. o abandono do trabalho?
33) Os trabalhadores de sua fábrica comem a intervalos determi­ 48) Em caso de infração de contrato, por parte do patrão, em
nados ou irregularmente? Comem dentro ou fora da fábrica? que penalidade incorre ele?
34) Trabalha-se durante as horas das refeições?
49) Em que penalidade incorre o operário, se este é culpado da
35) Se se emprega vapor, indicar quando começa a funcionar e infração?
quando se corta.
50) Se existem aprendizes, em que condições são eles empre­
36) -Trabalha-se à noite? gados?
37) Indicar as horas em que trabalham os meninos e os menores 51) Trabalham de modo permanente ou com interrupção?
de 16 anos.
52) Em sua oficina, trabalha-se somente durante certas épocas do
38) Dizer se há turnos de meninos e menores, que se substituam ano ou é o trabalho, em época normal, distribuído com certa regula­
mutuamente durante as horas de trabalho. ridade no transcorrer de todo o ano? Caso você só trabalhe em tem­
39) Encarrega-se o governo ou o município de pôr em prática as poradas, de que vive quando não trabalha?
leis vigentes sobre o trabalho infantil? E submetem-se a elas os 53) Cobra você por tempo ou por empreitada?
patrões?
54) Caso cobre por tempo, recebe por horas ou por dias inteiros?
40) Existem escolas para os meninos ou menores que trabalham
nesse ofício? Se existem, a que horas funcionam? Quem as dirige? 55) Paga-se salário extra pelo trabalho extra? Em caso afirma­
Que se ensina nelas? tivo, qual o salário?
136 137

25) Em caso de incêndio, dispõe a fábrica de saídas em quan­ 41) Se há trabalho diurno e noturno, que sistema de turnos se
tidade suficiente? aplica?
26) Em caso de acidente, está o patrão legalmente obrigado a 42) Qual é o número habitual de horas extraordinárias durante os
indenizar o operário ou a sua família? períodos de intensa atividade industrial?
27) Em outro caso, o patrão indenizou alguma vez a quem sofreu 43) A limpeza das máquinas é feita por operários especializados,
algum acidente enquanto trabalhava para enriquecê-lo? contratados especialmente para esse trabalho, ou limpam-nas, gratuita­
28) Existe na fábrica algum serviço médico? mente, os operários que trabalham nas máquinas durante a sua jornada
29) Se você trabalha a domicílio, descreva o estado em que se de trabalho?
encontra o lugar em que trabalha. Trabalha somente com ferramentas 44) Que regulamentos regem, e que multas são aplicadas aos que
ou emprega pequenas máquinas? Tem você como auxiliares seus filhos chegam tarde? Quando começa a jornada de trabalho, e quando reco­
ou outras pessoas (adultos ou menores, homens ou mulheres)? Trabalha meça depois das refeições?
para clientes particulares ou para uma empresa? Trata você direta­ 45) Que tempo investe você para trasladar-se à fábrica e voltar
mente com estes ou através de um intermediário?
para sua casa?

n III
30) Indicar as horas de trabalho por dia e os dias de trabalho na
46) Que espécie de contrato tem você com seu patrão? Você é
semana.
contratado por dias, semanas, meses etc.?
31) Indicar os dias de festa durante o ano.
47) Quais são as condições estipuladas para a dispensa ou para
32) Pausas que existem durante a jornada de trabalho. o abandono do trabalho?
33) Os trabalhadores de sua fábrica comem a intervalos determi­ 48) Em caso de infração de contrato, por parte do patrão, em
nados ou irregularmente? Comem dentro ou fora da fábrica? que penalidade incorre ele?
34) Trabalha-se durante as horas das refeições?
49) Em que penalidade incorre o operário, se este é culpado da
35) Se se emprega vapor, indicar quando começa a funcionar e infração?
quando se corta.
50) Se existem aprendizes, em que condições são eles empre­
36) -Trabalha-se à noite? gados?
37) Indicar as horas em que trabalham os meninos e os menores 51) Trabalham de modo permanente ou com interrupção?
de 16 anos.
52) Em sua oficina, trabalha-se somente durante certas épocas do
38) Dizer se há turnos de meninos e menores, que se substituam ano ou é o trabalho, em época normal, distribuído com certa regula­
mutuamente durante as horas de trabalho. ridade no transcorrer de todo o ano? Caso você só trabalhe em tem­
39) Encarrega-se o governo ou o município de pôr em prática as poradas, de que vive quando não trabalha?
leis vigentes sobre o trabalho infantil? E submetem-se a elas os 53) Cobra você por tempo ou por empreitada?
patrões?
54) Caso cobre por tempo, recebe por horas ou por dias inteiros?
40) Existem escolas para os meninos ou menores que trabalham
nesse ofício? Se existem, a que horas funcionam? Quem as dirige? 55) Paga-se salário extra pelo trabalho extra? Em caso afirma­
Que se ensina nelas? tivo, qual o salário?
138 139

56) Se o salário que você cobra é por empreitada, como se regula? 69) Quais são os preços dos artigos de primeira necessidade, tais
Se você trabalha num lugar em que o trabalho executado se mede por como: a) aluguel da moradia, indicando as condições do contrato;
quantidade ou por peso, como acontece nas minas, diga se o patrão ou número de cômodos e de pessoas que os ocupam; gastos com reparos
seus empregados recorrem a tramóias para escamotear-lhe uma parte e seguros; compra e manutenção dos móveis, calefação, iluminação,
de seus ganhos. água etc.; b) alimentos: pão, carne, legumes, batatas etc., laticínios,
peixe, manteiga, azeite, banha, açúcar, sal, temperos, café, cerveja,
57) Se você cobra por empreitada, diga se é costume tomar-se
sidra, vinho etc., fumo; c) vestimentas para pais e filhos, roupa de
a boa ou má qualidade dos artigos como pretexto para lhe fazer
cama, higiene pessoal, banhos, sabão etc.; d) gastos vários: correio,
deduções fraudulentas do salário. prestações ou juros pagos, ao montepio, matrícula do colégio para os
58) Cobrando você por tempo ou por empreitada, diga quando filhos, revistas, jornais, quotas de sociedades e caixas dè contribuições
você é pago ou, em' outras palavras, que margem de crédito abre você para greves, sindicatos etc.; e) em seu caso pessoal^gastos relacionados
ao patrão, antes de receber o preço do trabalho realizado. Pagam-lhe com o exercício de seu trabalho ou profissão; f) impostos e contri­
depois de uma semana, de um mês etc.? buições.
59) Você já notou se o atraso no pagamento dos salários o obriga 70) Procure estabelecer o montante semanal e anual de ganhos e
a recorrer com freqüência ao montepio, abonando nele uma quantia gastos seus e de sua família.
elevada de juros ou vendo-se despojado de objetos dos quais tem 71) Em sua experiência pessoal, já observou uma alta maior de
necessidade, contraindo dívidas com os armazéns e caindo em suas preços dos artigos de primeira necessidade, moradia, comida etc., que
garras como devedor? Você conhece casos em que alguns operários dos salários?
hajam perdido o salário por quebra ou bancarrota de seus patrões?
72) Indique as flutuações de que tenha notícia em relação à
60) Paga-lhe os salários o patrão, diretamente, ou há intermediá­ quantia dos salários.
rios no pagamento (agentes comerciais etc.)?
73) Indique as baixas sofridas pelos salários nos períodos de
61) Quais são as cláusulas do contrato, se os salários são pagos retração ou de crises industriais.
por meio de intermediários?
74) Indique o aumento dos salários nos períodos de chamada
62) Qual é a quantia do salário que você recebe em dinheiro, por prosperidade.
dia e por semana?
75) Indique as interrupções do trabalho pelas mudanças da moda
63) Que salários recebem as mulheres e as crianças que cooperam e pelas crises particulares e gerais. Informe a respeito de suas próprias
com você na mesma fábrica? interrupções involuntárias.
64) Qual foi, em sua fábrica, o mais alto salário por dia, durante 76) Compare os preços dos artigos produzidos por você ou dos
o mês anterior? serviços que você presta com a remuneração de seu trabalho.
65) Qual foi o salário mais alto, por empreitada, durante o mês 77) Assinale os casos que conheça de operários que tenham per­
anterior? dido a sua colocação de trabalho em conseqüência da introdução de
66) Que salário percebeu você durante o mesmo tempo, e, caso máquinas ou de outros aperfeiçoamentos industriais.
tenha família, quanto ganham sua mulher e seus filhos? 78) A intensidade e a duração do trabalho têm aumentado ou
67) Os salários são pagos totalmente em dinheiro ou de outro diminuído com o desenvolvimento da máquina e da produtividade
modo? do trabalho?
68) Caso o patrão lhe alugue o quarto em que vive, em que con­ 79) Conhece você algum caso de elevação dos salários em conse­
dições é feito esse aluguel? Ele desconta o aluguel do salário? qüência dos progressos da produção?
138 139

56) Se o salário que você cobra é por empreitada, como se regula? 69) Quais são os preços dos artigos de primeira necessidade, tais
Se você trabalha num lugar em que o trabalho executado se mede por como: a) aluguel da moradia, indicando as condições do contrato;
quantidade ou por peso, como acontece nas minas, diga se o patrão ou número de cômodos e de pessoas que os ocupam; gastos com reparos
seus empregados recorrem a tramóias para escamotear-lhe uma parte e seguros; compra e manutenção dos móveis, calefação, iluminação,
de seus ganhos. água etc.; b) alimentos: pão, carne, legumes, batatas etc., laticínios,
peixe, manteiga, azeite, banha, açúcar, sal, temperos, café, cerveja,
57) Se você cobra por empreitada, diga se é costume tomar-se
sidra, vinho etc., fumo; c) vestimentas para pais e filhos, roupa de
a boa ou má qualidade dos artigos como pretexto para lhe fazer
cama, higiene pessoal, banhos, sabão etc.; d) gastos vários: correio,
deduções fraudulentas do salário. prestações ou juros pagos, ao montepio, matrícula do colégio para os
58) Cobrando você por tempo ou por empreitada, diga quando filhos, revistas, jornais, quotas de sociedades e caixas dè contribuições
você é pago ou, em' outras palavras, que margem de crédito abre você para greves, sindicatos etc.; e) em seu caso pessoal^gastos relacionados
ao patrão, antes de receber o preço do trabalho realizado. Pagam-lhe com o exercício de seu trabalho ou profissão; f) impostos e contri­
depois de uma semana, de um mês etc.? buições.
59) Você já notou se o atraso no pagamento dos salários o obriga 70) Procure estabelecer o montante semanal e anual de ganhos e
a recorrer com freqüência ao montepio, abonando nele uma quantia gastos seus e de sua família.
elevada de juros ou vendo-se despojado de objetos dos quais tem 71) Em sua experiência pessoal, já observou uma alta maior de
necessidade, contraindo dívidas com os armazéns e caindo em suas preços dos artigos de primeira necessidade, moradia, comida etc., que
garras como devedor? Você conhece casos em que alguns operários dos salários?
hajam perdido o salário por quebra ou bancarrota de seus patrões?
72) Indique as flutuações de que tenha notícia em relação à
60) Paga-lhe os salários o patrão, diretamente, ou há intermediá­ quantia dos salários.
rios no pagamento (agentes comerciais etc.)?
73) Indique as baixas sofridas pelos salários nos períodos de
61) Quais são as cláusulas do contrato, se os salários são pagos retração ou de crises industriais.
por meio de intermediários?
74) Indique o aumento dos salários nos períodos de chamada
62) Qual é a quantia do salário que você recebe em dinheiro, por prosperidade.
dia e por semana?
75) Indique as interrupções do trabalho pelas mudanças da moda
63) Que salários recebem as mulheres e as crianças que cooperam e pelas crises particulares e gerais. Informe a respeito de suas próprias
com você na mesma fábrica? interrupções involuntárias.
64) Qual foi, em sua fábrica, o mais alto salário por dia, durante 76) Compare os preços dos artigos produzidos por você ou dos
o mês anterior? serviços que você presta com a remuneração de seu trabalho.
65) Qual foi o salário mais alto, por empreitada, durante o mês 77) Assinale os casos que conheça de operários que tenham per­
anterior? dido a sua colocação de trabalho em conseqüência da introdução de
66) Que salário percebeu você durante o mesmo tempo, e, caso máquinas ou de outros aperfeiçoamentos industriais.
tenha família, quanto ganham sua mulher e seus filhos? 78) A intensidade e a duração do trabalho têm aumentado ou
67) Os salários são pagos totalmente em dinheiro ou de outro diminuído com o desenvolvimento da máquina e da produtividade
modo? do trabalho?
68) Caso o patrão lhe alugue o quarto em que vive, em que con­ 79) Conhece você algum caso de elevação dos salários em conse­
dições é feito esse aluguel? Ele desconta o aluguel do salário? qüência dos progressos da produção?
140 141

80) Você já conheceu alguma vez simples operários que tenham dade temporal para o trabalho, viuvez etc.? Em caso positivo, envie-nos
saído do trabalho aos cinqüenta anos, e que possam viver do que seus estatutos e regulamentos.
ganharam como assalariados? 96) O ingresso nessas sociedades é voluntário ou obrigatório? Os
81) Quantos anos pode, em seu ofício, permanecer ativo um fundos dessas sociedades estão sob o controle exclusivo dos operários?
operário que goze de saúde média? 97) Se se trata de quotas obrigatórias, postas sob o controle do
patrão, diga se este retém tais contribuições às custas do salário. Os
IV patrões pagam juros pelas somas retidas? Essas quantias são devolvidas
aos operários em caso de expulsão ou de dispensa? Você conhece casos
82) Existem, em seu ofício, associações operárias, e quem as em que os operários se tenham beneficiado das chamadas caixas de
dirige? Envie-nos os seus estatutos e regulamentos. retiradas controladas pelos patrões, e cujo capital se tenha formado por
83) Quantas greves foram declaradas em sua indústria, desde que quotas deduzidas dos salários? ç
você nela trabalha? 98) Existem, em seu ofício, sociedades cooperativas? Como são
84) Quanto duraram essas greves? dirigidas essas sociedades? Empregam operários de fora, como fazem
os capitalistas? Envie-nos seus estatutos e regulamentos.
85) Foram greves parciais ou gerais?
99) Existem, em seu ramo de trabalho, fábricas nas quais a
86) Que finalidade tinham essas greves: aumento de salários ou remuneração do operário seja paga, em parte, com o nome de salários
eram uma luta contra a diminuição de diárias? Discutia-se nelas a e, em parte, com o de uma suposta participação nos lucros? Compare
duração da jornada de trabalho ou referiam-se a outras causas? as quantias recebidas por esses operários com as que são obtidas por
87) Quais foram seus resultados? outros não submetidos à esta suposta participação nos benefícios.
Indique as obrigações contraídas pelos operários que trabalham sob
88) Como funcionam os tribunais do trabalho? esse sistema. Podem esses operários fazer greves ou só lhes é permitido
89) Os operários de seu ofício têm apoiado trabalhadores perten­ serem os submissos servidores de seus amos?
centes a outros ofícios? ! 00) Quais são, em geral, as condições físicas, intelectuais e
90) Quais são os regulamentos e as penas estabelecidos pelo morais em que vivem os operários e operárias que trabalham em seu
patrão de sua empresa para administrar seus operários? ofício?
91) Os patrões se têm coligado para impor diminuição de salários !0l) Observações gerais.
e aumentos de trabalho, para evitar as greves e, em geral, para impor
a sua vontade?
92) Conhece casos em que o governo usou da força pública, para
colocá-la ao lado dos patrões e contra os operários?
93) Conhece casos em que o governo tenha intervindo para pro­
teger os operários contra os abusos dos patrões e suas coalizões ilegais?
94) O governo impõe, contra os patrões, a execução das leis
vigentes sobre o trabalho? Os inspetores do governo cumprem os seus
deveres?
95) Existem, em sua oficina ou em seu ofício, sociedades de
socorro mútuo, para casos de acidentes, enfermidade, morte, incapaci-
140 141

80) Você já conheceu alguma vez simples operários que tenham dade temporal para o trabalho, viuvez etc.? Em caso positivo, envie-nos
saído do trabalho aos cinqüenta anos, e que possam viver do que seus estatutos e regulamentos.
ganharam como assalariados? 96) O ingresso nessas sociedades é voluntário ou obrigatório? Os
81) Quantos anos pode, em seu ofício, permanecer ativo um fundos dessas sociedades estão sob o controle exclusivo dos operários?
operário que goze de saúde média? 97) Se se trata de quotas obrigatórias, postas sob o controle do
patrão, diga se este retém tais contribuições às custas do salário. Os
IV patrões pagam juros pelas somas retidas? Essas quantias são devolvidas
aos operários em caso de expulsão ou de dispensa? Você conhece casos
82) Existem, em seu ofício, associações operárias, e quem as em que os operários se tenham beneficiado das chamadas caixas de
dirige? Envie-nos os seus estatutos e regulamentos. retiradas controladas pelos patrões, e cujo capital se tenha formado por
83) Quantas greves foram declaradas em sua indústria, desde que quotas deduzidas dos salários? ç
você nela trabalha? 98) Existem, em seu ofício, sociedades cooperativas? Como são
84) Quanto duraram essas greves? dirigidas essas sociedades? Empregam operários de fora, como fazem
os capitalistas? Envie-nos seus estatutos e regulamentos.
85) Foram greves parciais ou gerais?
99) Existem, em seu ramo de trabalho, fábricas nas quais a
86) Que finalidade tinham essas greves: aumento de salários ou remuneração do operário seja paga, em parte, com o nome de salários
eram uma luta contra a diminuição de diárias? Discutia-se nelas a e, em parte, com o de uma suposta participação nos lucros? Compare
duração da jornada de trabalho ou referiam-se a outras causas? as quantias recebidas por esses operários com as que são obtidas por
87) Quais foram seus resultados? outros não submetidos à esta suposta participação nos benefícios.
Indique as obrigações contraídas pelos operários que trabalham sob
88) Como funcionam os tribunais do trabalho? esse sistema. Podem esses operários fazer greves ou só lhes é permitido
89) Os operários de seu ofício têm apoiado trabalhadores perten­ serem os submissos servidores de seus amos?
centes a outros ofícios? ! 00) Quais são, em geral, as condições físicas, intelectuais e
90) Quais são os regulamentos e as penas estabelecidos pelo morais em que vivem os operários e operárias que trabalham em seu
patrão de sua empresa para administrar seus operários? ofício?
91) Os patrões se têm coligado para impor diminuição de salários !0l) Observações gerais.
e aumentos de trabalho, para evitar as greves e, em geral, para impor
a sua vontade?
92) Conhece casos em que o governo usou da força pública, para
colocá-la ao lado dos patrões e contra os operários?
93) Conhece casos em que o governo tenha intervindo para pro­
teger os operários contra os abusos dos patrões e suas coalizões ilegais?
94) O governo impõe, contra os patrões, a execução das leis
vigentes sobre o trabalho? Os inspetores do governo cumprem os seus
deveres?
95) Existem, em sua oficina ou em seu ofício, sociedades de
socorro mútuo, para casos de acidentes, enfermidade, morte, incapaci-
í 10. A PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA *
s
i;
I.

(...) A bem dizer, na história passada, é urr^fato perfeitamente


empírico que, pela transformação de sua atividade em atividade uni­
versal, os diversos indivíduos foram cada vez mais submetidos a um
poder que lhes é estranho (opressão que tomavam por uma chicana
daquilo que se denomina o Espírito do Mundo), poder que se tornou
cada vez mais maciço e se revela, em última instância, como mercado
mundial. Mas também está igualmente demonstrado, empiricamente,
que este poder tão misterioso, para os teóricos alemães, é dissolvido pela
abolição do estado social existente, pela revolução comunista (de que
falaremos mais adiante) e pela supressão da propriedade privada, e
que, então, a emancipação de todo indivíduo, em particular, é realizada,
exatamente, na medida em que a História se transforma, completa­
mente, em História Universal. *1 De acordo com o que precede, é
evidente que a verdadeira riqueza espiritual do indivíduo depende
inteiramente da riqueza de suas relações reais. Não é senão por isso
que cada indivíduo, em particular, é libertado de suas barreiras na­
cionais e locais, posto em relações práticas com a produção do mundo
inteiro (inclusive a intelectual) e em condições de adquirir a capacidade
de usufruir da produção universal de toda a Terra, em todos os seus
domínios (criações dos homens). A dependência universal, esta forma
natural da cooperação universal dos indivíduos, é transformada, por
.r
essa revolução comunista, em controle e dominação consciente exercida
sobre esses poderes que, gerados pela ação recíproca dos homens, uns
sobre os outros, se lhes foram impostas até aqui, e os dominaram como
poderes absolutamente estranhos.

í' * Reproduzido de Marx, K. e Engels. F. “De la production de la conscience.”


I
In: L'idéologie allemande. Trad. de Renée Cartelle. Paris. Éditions Socíales, 1953.
p. 28-42. Trad. por lone de Andrade. *.
1 Nesta altura, Marx escreveu, na margem direita: da produção da consciência.
i (,N. da trad. francesa.) *
í 10. A PRODUÇÃO DA CONSCIÊNCIA *
s
i;
I.

(...) A bem dizer, na história passada, é urr^fato perfeitamente


empírico que, pela transformação de sua atividade em atividade uni­
versal, os diversos indivíduos foram cada vez mais submetidos a um
poder que lhes é estranho (opressão que tomavam por uma chicana
daquilo que se denomina o Espírito do Mundo), poder que se tornou
cada vez mais maciço e se revela, em última instância, como mercado
mundial. Mas também está igualmente demonstrado, empiricamente,
que este poder tão misterioso, para os teóricos alemães, é dissolvido pela
abolição do estado social existente, pela revolução comunista (de que
falaremos mais adiante) e pela supressão da propriedade privada, e
que, então, a emancipação de todo indivíduo, em particular, é realizada,
exatamente, na medida em que a História se transforma, completa­
mente, em História Universal. *1 De acordo com o que precede, é
evidente que a verdadeira riqueza espiritual do indivíduo depende
inteiramente da riqueza de suas relações reais. Não é senão por isso
que cada indivíduo, em particular, é libertado de suas barreiras na­
cionais e locais, posto em relações práticas com a produção do mundo
inteiro (inclusive a intelectual) e em condições de adquirir a capacidade
de usufruir da produção universal de toda a Terra, em todos os seus
domínios (criações dos homens). A dependência universal, esta forma
natural da cooperação universal dos indivíduos, é transformada, por
.r
essa revolução comunista, em controle e dominação consciente exercida
sobre esses poderes que, gerados pela ação recíproca dos homens, uns
sobre os outros, se lhes foram impostas até aqui, e os dominaram como
poderes absolutamente estranhos.

í' * Reproduzido de Marx, K. e Engels. F. “De la production de la conscience.”


I
In: L'idéologie allemande. Trad. de Renée Cartelle. Paris. Éditions Socíales, 1953.
p. 28-42. Trad. por lone de Andrade. *.
1 Nesta altura, Marx escreveu, na margem direita: da produção da consciência.
i (,N. da trad. francesa.) *
146 147

Esta concepção pode, por sua vez, ser tomada no sentido especula­ mas que, por outro lado, dita-lhe suas próprias condições de existência
tivo e idealista,, isto é, fantasista, como “a geração do gênero por si c lhe imprimem um desenvolvimento determinado, um caráter específico,
mesmo” (“a sociedade na qualidade de sujeito”), e a série sucessiva dos o que, conseqüentemente, as circunstâncias fazem os homens, da mesma
indivíduos em relação uns com os outros, ser representada, assim, como forma que os homens fazem as circunstâncias. Essas somas de forças
um indivíduo único que realiza o mistério de gerar a si mesmo. Vê-se, produtivas, de capitais e de formas de relações sociais, que cada
aqui, que os indivíduos criam-se, mesmo, uns aos outros, do ponto de indivíduo e cada geração encontram como dados existentes, é a base
vista físico e espiritual, porém não se criam a si próprios, nem no sen­ concreta daquilo que os filósofos conceberam como “substância” e
tido do absurdo de S. Bruno - nem no sentido do “único”, do homem “essência do homem”, dáquilo de que fizeram a apoteose e que com­
“feito ele próprio”. bateram, base concreta cujos efeitos e cuja influência sobre o desenvol­
vimento dos homens não são, de forma alguma, afetados pelo fato de
Esta concepção da História tem, portanto, como base, o desen­
os filósofos se rebelarem contra ela, na qualidade de “consciência de
volvimento do processo real da produção, partindo da produção material
si” e de “único”. São, igualmente, essas condições de vida que as
da vida imediata; concebe a forma das relações humanas ligada a este
diversas gerações encontram prontas que determinam se o abalo
modo de produção e gerada por ela, quero dizer, a sociedade burguesa,
revolucionário, que • se reproduz periodicamente na História, será forte
em suas diferentes fases, como sendo o fundamento de toda a História.
0 bastante para destruir a base de tudo o que existe; os elementos
O que consiste em representá-la em sua ação enquanto Estado, a
explicar, por ela, o conjunto das diversas produções teóricas e das
materiais de um abalo total são, de um lado, as diferentes forças pro­
formas da consciência, religião, Filosofia, moral etc., e a acompanhar dutivas existentes, e, de outro, a formação de uma massa revolucionária,
que luta, não somente contra condições particulares da sociedade
sua gênese, partindo dessas produções; o que permite, então, natural­
passada, mas, também, contra a própria “produção da vida”, tal como
mente, representar a coisa na sua totalidade (e examinar, também, a
se. apresentou até então, contra o “conjunto da atividade” que é seu
ação recíproca dos seus diferentes aspectos). Ela não é obrigada, como
fundamento; se esses elementos não existem, é absolutamente indife­
a concepção idealista da História, a procurar uma categoria diferente
para cada período, mas permanece, constantemente, sobre o plano real
rente, para o desenvolvimento prático, que a idéia dessa subversão já
da História; el a, s não. explica a prática a partir da idéia, mas a formação
tenha sido expressa mil vezes, como o prova a história do comunismo.
das idéias a partir da prática material; chega, conseqüentemente, à con­ Até aqui, todas as concepções históricas ou deixaram completa­
clusão de que todas as formas e produtos da consciência podem ser mente de lado esta base real da história ou a consideraram uma coisa
resolvidos, não por ■ftieio da crítica intelectual, pela redução à “cons­ acessória, sem qualquer vínculo com a marcha da História. Por isso a
ciência de si” ou pela metamorfose em “aparições de almas do outro História deve sempre ser escrita de acordo com uma norma situada
mundo”, em “fantasmas”, em “loucas fantasias” etc., mas unicamente fora dela, a produção real da vida aparece como não sendo histórica,
pelo desabamento prático das relações sociais concretas de onde nasce­ enquanto o que é histórico aparece como o que é separado da vida
ram essas frivolidades idealistas. Não é a crítica, mas é a revolução, ordinária, como extra e supraterrestre. A relação dos homens com a
a força motriz da História, da religião, da Filosofia ou de toda e qual­ natureza é, assim, excluída da História, o que gera a oposição entre a
quer teoria. Esta concepção demonstra que a História não tem por Natureza e a História. Conseqüentemente, essa concepção não pôde
objetivo resolver-se em “consciência de si” como “espírito do espírito”, ver na História senão os grandes acontecimentos políticos e as lutas
mas que, a cada grau, se encontre nela um resultado material, uma religiosas e, afinal de contas, teóricas, e foi constrangida a partilhar,
cspecialmente, em cada época histórica, da ilusão desta época. Uma
soma de forças produtivas, uma relação, historicamente criada, dos
época, supõe-se, por exemplo, que seja determinada por motivos pura­
indivíduos com a Natureza e entre eles, e transmitidos a cada geração
mente “políticos” vou “religiosos”, embora “Política” e “Religião” não
pela que a precede, uma massa de forças produtivas, de capitais e de sejam senão formas de seus motivos reais: seu historiador aceita essa
circunstâncias, que é, por um lado, muito modificada pela nova geração,* opinião. A “imaginação” ou a “representação”, que esses homens
determinados têm para si de sua prática real, transforma-se na única
2 Referência ao neo-hegeliano Bruno Bauer (1809-1882). (N. da trad. francesa.) força determinante e ativa, que domina e determina a sua prática. Se
146 147

Esta concepção pode, por sua vez, ser tomada no sentido especula­ mas que, por outro lado, dita-lhe suas próprias condições de existência
tivo e idealista,, isto é, fantasista, como “a geração do gênero por si c lhe imprimem um desenvolvimento determinado, um caráter específico,
mesmo” (“a sociedade na qualidade de sujeito”), e a série sucessiva dos o que, conseqüentemente, as circunstâncias fazem os homens, da mesma
indivíduos em relação uns com os outros, ser representada, assim, como forma que os homens fazem as circunstâncias. Essas somas de forças
um indivíduo único que realiza o mistério de gerar a si mesmo. Vê-se, produtivas, de capitais e de formas de relações sociais, que cada
aqui, que os indivíduos criam-se, mesmo, uns aos outros, do ponto de indivíduo e cada geração encontram como dados existentes, é a base
vista físico e espiritual, porém não se criam a si próprios, nem no sen­ concreta daquilo que os filósofos conceberam como “substância” e
tido do absurdo de S. Bruno - nem no sentido do “único”, do homem “essência do homem”, dáquilo de que fizeram a apoteose e que com­
“feito ele próprio”. bateram, base concreta cujos efeitos e cuja influência sobre o desenvol­
vimento dos homens não são, de forma alguma, afetados pelo fato de
Esta concepção da História tem, portanto, como base, o desen­
os filósofos se rebelarem contra ela, na qualidade de “consciência de
volvimento do processo real da produção, partindo da produção material
si” e de “único”. São, igualmente, essas condições de vida que as
da vida imediata; concebe a forma das relações humanas ligada a este
diversas gerações encontram prontas que determinam se o abalo
modo de produção e gerada por ela, quero dizer, a sociedade burguesa,
revolucionário, que • se reproduz periodicamente na História, será forte
em suas diferentes fases, como sendo o fundamento de toda a História.
0 bastante para destruir a base de tudo o que existe; os elementos
O que consiste em representá-la em sua ação enquanto Estado, a
explicar, por ela, o conjunto das diversas produções teóricas e das
materiais de um abalo total são, de um lado, as diferentes forças pro­
formas da consciência, religião, Filosofia, moral etc., e a acompanhar dutivas existentes, e, de outro, a formação de uma massa revolucionária,
que luta, não somente contra condições particulares da sociedade
sua gênese, partindo dessas produções; o que permite, então, natural­
passada, mas, também, contra a própria “produção da vida”, tal como
mente, representar a coisa na sua totalidade (e examinar, também, a
se. apresentou até então, contra o “conjunto da atividade” que é seu
ação recíproca dos seus diferentes aspectos). Ela não é obrigada, como
fundamento; se esses elementos não existem, é absolutamente indife­
a concepção idealista da História, a procurar uma categoria diferente
para cada período, mas permanece, constantemente, sobre o plano real
rente, para o desenvolvimento prático, que a idéia dessa subversão já
da História; el a, s não. explica a prática a partir da idéia, mas a formação
tenha sido expressa mil vezes, como o prova a história do comunismo.
das idéias a partir da prática material; chega, conseqüentemente, à con­ Até aqui, todas as concepções históricas ou deixaram completa­
clusão de que todas as formas e produtos da consciência podem ser mente de lado esta base real da história ou a consideraram uma coisa
resolvidos, não por ■ftieio da crítica intelectual, pela redução à “cons­ acessória, sem qualquer vínculo com a marcha da História. Por isso a
ciência de si” ou pela metamorfose em “aparições de almas do outro História deve sempre ser escrita de acordo com uma norma situada
mundo”, em “fantasmas”, em “loucas fantasias” etc., mas unicamente fora dela, a produção real da vida aparece como não sendo histórica,
pelo desabamento prático das relações sociais concretas de onde nasce­ enquanto o que é histórico aparece como o que é separado da vida
ram essas frivolidades idealistas. Não é a crítica, mas é a revolução, ordinária, como extra e supraterrestre. A relação dos homens com a
a força motriz da História, da religião, da Filosofia ou de toda e qual­ natureza é, assim, excluída da História, o que gera a oposição entre a
quer teoria. Esta concepção demonstra que a História não tem por Natureza e a História. Conseqüentemente, essa concepção não pôde
objetivo resolver-se em “consciência de si” como “espírito do espírito”, ver na História senão os grandes acontecimentos políticos e as lutas
mas que, a cada grau, se encontre nela um resultado material, uma religiosas e, afinal de contas, teóricas, e foi constrangida a partilhar,
cspecialmente, em cada época histórica, da ilusão desta época. Uma
soma de forças produtivas, uma relação, historicamente criada, dos
época, supõe-se, por exemplo, que seja determinada por motivos pura­
indivíduos com a Natureza e entre eles, e transmitidos a cada geração
mente “políticos” vou “religiosos”, embora “Política” e “Religião” não
pela que a precede, uma massa de forças produtivas, de capitais e de sejam senão formas de seus motivos reais: seu historiador aceita essa
circunstâncias, que é, por um lado, muito modificada pela nova geração,* opinião. A “imaginação” ou a “representação”, que esses homens
determinados têm para si de sua prática real, transforma-se na única
2 Referência ao neo-hegeliano Bruno Bauer (1809-1882). (N. da trad. francesa.) força determinante e ativa, que domina e determina a sua prática. Se
148 149

a forma rudimentar, sob a qual se apresenta a divisão do trabalho entre que é preciso desvendar, quando se trata unicamente de explicar essa
os hindus e os egípcios, suscita nesses povos o sistema de castas, em fraseologia teórica pelas condições reais existentes. A solução real,
seu Estado e em sua religião, o historiador crê que o sistema das castas prática, dessa fraseologia, a eliminação dessas representações da cons­
é o poder que gerou essa forma social rudimentar. Enquanto os fran­ ciência dos homens são, como já dissemos, efetuadas por circunstâncias
ceses e os ingleses permanecem ao menos atados à ilusão política, que modificadas e. não por deduções teóricas. Para a massa dos homens,
ainda é a mais próxima da realidade, os alemães movem-se no domínio isto é, para o proletariado, essas representações teóricas não existem e
do “espírito puro” e fazem da ilusão religiosa a força motriz da História. não precisam ser resolvidas por ele, e se essa massa jamais teve quais­
A Filosofia da História de Hegel é a última expressão, levada à sua “mais quer representações teóricas, tais como a religião, estas foram depois de
pura expressão” de toda essa maneira alemã de escrever a História, na muito tempo dissolvidas pelas circunstâncias.
qual não se trata de interesses reais ou políticos, mas de idéias puras.
O caráter puramente nacional dessas questões e de suas soluções
Essa História não pode então deixar de aparecer aos olhos de São Bruno
manifesta-se ainda no fato de que esses teóricbs acreditam, muito
como uma sequência de “idéias”, em que uma devora a outra e perece,
seriamente, que as quimeras tais como o “Homem-Deus”, o “Homem”
finalmente, na “consciência de si”. E, para São Max Stirner,3 que nada
etc., presidiram às diferentes épocas da História. O nosso São Bruno
sabe de toda á História real, esta marcha da História devia aparecer
vai até ao ponto de afirmar que somente “a crítica e os críticos fizeram
com muito mais lógica ainda, como uma simples história de “cava­
a História” e, quando eles próprios se metem a fazer construções
leiros”, de salteadores e de fantasmas, 4 de cujas visões não chega
históricas, saltam a toda velocidade por cima do passado inteiro, para
naturalmente a escapar senão pela “impiedade”. Esta concepção é ver­
chegar bem depressa da “civilização mongólica” à história realmente
dadeiramente religiosa; supõe que o homem religioso é o homem primi­
“rica de conteúdo”, isto é, à história dos Anais de Halle e dos Anais
tivo de que parte toda a História e substitui, na' sua imaginação, a
Alemães e à dissolução da Escola hegeliana, numa querela geral.
produção real dos meios de viver e da própria vida, por uma produção
religiosa das coisas imaginárias. Toda essa concepção da História, sua Todas as outras nações, todos os acontecimentos reais são esque­
desagregação, seus escrúpulos e suas dúvidas não passam de um caso cidos, o teatro do mundo limita-se à feira de livros de Leipzig e às
puramente nacional dos alemães tão-somente, e têm interesse local controvérsias recíprocas da “crítica”, do “Homem” e do “único”. E
apenas para a Alemanha, como, por exemplo, a questão importante sc, por acaso, os teóricos resolvem um dia tratar de temas verdadeira­
tratada diversas vezes nos últimos tempos: como se passa exatamente mente históricos, como o século XVIII, por exemplo, eles só dão a
“do reino de Deus ao reino dos homens”; como se esse “reino de Deus” História das representações, destacadas dos fatos e dos desenvolvi­
tivesse algum dia existido em outro lugar, que não na imaginação, e mentos práticos, que estão na sua base e, ademais, não dão a esta
como se esses doutos senhores não vivessem sempre, sem saber, no história senão o intento de representar a época em questão como uma
“reino dos homens”, cujo caminho eles agora procuram, e como se o primeira etapa imperfeita, como a precursora, ainda limitada, da ver­
divertimento científico — pois não passa disso — de explicar a sin­ dadeira época histórica, isto é, da época da luta dos filósofos alemães
gularidade dessa construção teórica nebulosa, não consistisse, pelo do 1840-1844. Pretendem, portanto, escrever uma história do passado
contrário, em demonstrar que ela decorre das condições terrestres reais. que faça resplandecer, com o maior brilho, a glória de uma pessoa,
Em resumo, trata-se, constantemente, entre esses alemães, de resolver o que não é histórica, e daquilo que ela imaginou. De acordo com isso,
“absurdo” (non-sens) existente em qualquer outra quimera, isto é, de não se invocam os acontecimentos realmente históricos nem sequer as
afirmar que todo esse absurdo tem, afinal de contas, um sentido especial intrusões da política na história, Em compensação, oferece-se um
relato que não se baseia num estudo sério, mas, sim, em construções
históricas e chavões literários, como o fez São Bruno em sua história
3 Alusão ao neo-hegeliano Max Stirner (1806-1856). (N. da trad. francesa.) do século XVIII, agora esquecida. Esses merceeiros do pensamento,
4 A esta altura, Marx escreveu na coluna à direita: “A maneira dita objetiva
de escrever a História consistia precisamente em conceber as relações históricas
cheios de pompa e de arrogância, que se creditam infinitamente acima
separadas da atividade. Caráter reacionário.” (N. da trad. francesa.) dos preconceitos nacionais são, pois, na prática, muito mais nacionais

V
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a forma rudimentar, sob a qual se apresenta a divisão do trabalho entre que é preciso desvendar, quando se trata unicamente de explicar essa
os hindus e os egípcios, suscita nesses povos o sistema de castas, em fraseologia teórica pelas condições reais existentes. A solução real,
seu Estado e em sua religião, o historiador crê que o sistema das castas prática, dessa fraseologia, a eliminação dessas representações da cons­
é o poder que gerou essa forma social rudimentar. Enquanto os fran­ ciência dos homens são, como já dissemos, efetuadas por circunstâncias
ceses e os ingleses permanecem ao menos atados à ilusão política, que modificadas e. não por deduções teóricas. Para a massa dos homens,
ainda é a mais próxima da realidade, os alemães movem-se no domínio isto é, para o proletariado, essas representações teóricas não existem e
do “espírito puro” e fazem da ilusão religiosa a força motriz da História. não precisam ser resolvidas por ele, e se essa massa jamais teve quais­
A Filosofia da História de Hegel é a última expressão, levada à sua “mais quer representações teóricas, tais como a religião, estas foram depois de
pura expressão” de toda essa maneira alemã de escrever a História, na muito tempo dissolvidas pelas circunstâncias.
qual não se trata de interesses reais ou políticos, mas de idéias puras.
O caráter puramente nacional dessas questões e de suas soluções
Essa História não pode então deixar de aparecer aos olhos de São Bruno
manifesta-se ainda no fato de que esses teóricbs acreditam, muito
como uma sequência de “idéias”, em que uma devora a outra e perece,
seriamente, que as quimeras tais como o “Homem-Deus”, o “Homem”
finalmente, na “consciência de si”. E, para São Max Stirner,3 que nada
etc., presidiram às diferentes épocas da História. O nosso São Bruno
sabe de toda á História real, esta marcha da História devia aparecer
vai até ao ponto de afirmar que somente “a crítica e os críticos fizeram
com muito mais lógica ainda, como uma simples história de “cava­
a História” e, quando eles próprios se metem a fazer construções
leiros”, de salteadores e de fantasmas, 4 de cujas visões não chega
históricas, saltam a toda velocidade por cima do passado inteiro, para
naturalmente a escapar senão pela “impiedade”. Esta concepção é ver­
chegar bem depressa da “civilização mongólica” à história realmente
dadeiramente religiosa; supõe que o homem religioso é o homem primi­
“rica de conteúdo”, isto é, à história dos Anais de Halle e dos Anais
tivo de que parte toda a História e substitui, na' sua imaginação, a
Alemães e à dissolução da Escola hegeliana, numa querela geral.
produção real dos meios de viver e da própria vida, por uma produção
religiosa das coisas imaginárias. Toda essa concepção da História, sua Todas as outras nações, todos os acontecimentos reais são esque­
desagregação, seus escrúpulos e suas dúvidas não passam de um caso cidos, o teatro do mundo limita-se à feira de livros de Leipzig e às
puramente nacional dos alemães tão-somente, e têm interesse local controvérsias recíprocas da “crítica”, do “Homem” e do “único”. E
apenas para a Alemanha, como, por exemplo, a questão importante sc, por acaso, os teóricos resolvem um dia tratar de temas verdadeira­
tratada diversas vezes nos últimos tempos: como se passa exatamente mente históricos, como o século XVIII, por exemplo, eles só dão a
“do reino de Deus ao reino dos homens”; como se esse “reino de Deus” História das representações, destacadas dos fatos e dos desenvolvi­
tivesse algum dia existido em outro lugar, que não na imaginação, e mentos práticos, que estão na sua base e, ademais, não dão a esta
como se esses doutos senhores não vivessem sempre, sem saber, no história senão o intento de representar a época em questão como uma
“reino dos homens”, cujo caminho eles agora procuram, e como se o primeira etapa imperfeita, como a precursora, ainda limitada, da ver­
divertimento científico — pois não passa disso — de explicar a sin­ dadeira época histórica, isto é, da época da luta dos filósofos alemães
gularidade dessa construção teórica nebulosa, não consistisse, pelo do 1840-1844. Pretendem, portanto, escrever uma história do passado
contrário, em demonstrar que ela decorre das condições terrestres reais. que faça resplandecer, com o maior brilho, a glória de uma pessoa,
Em resumo, trata-se, constantemente, entre esses alemães, de resolver o que não é histórica, e daquilo que ela imaginou. De acordo com isso,
“absurdo” (non-sens) existente em qualquer outra quimera, isto é, de não se invocam os acontecimentos realmente históricos nem sequer as
afirmar que todo esse absurdo tem, afinal de contas, um sentido especial intrusões da política na história, Em compensação, oferece-se um
relato que não se baseia num estudo sério, mas, sim, em construções
históricas e chavões literários, como o fez São Bruno em sua história
3 Alusão ao neo-hegeliano Max Stirner (1806-1856). (N. da trad. francesa.) do século XVIII, agora esquecida. Esses merceeiros do pensamento,
4 A esta altura, Marx escreveu na coluna à direita: “A maneira dita objetiva
de escrever a História consistia precisamente em conceber as relações históricas
cheios de pompa e de arrogância, que se creditam infinitamente acima
separadas da atividade. Caráter reacionário.” (N. da trad. francesa.) dos preconceitos nacionais são, pois, na prática, muito mais nacionais

V
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que os freqüent adores de cervejarias, que sonham burguesmente com a satisfeitos com suas condições de vida, se o “ser” deles.. .,5 na reali­
unidade alemã. Eles recusam qualquer caráter histórico às ações dos dade, para o materialista prático, isto é, para o comunista, trata-se de
outros povos; vivem na Alemanha, em função dela e para ela; trans­ rovolucionar o mundo existente, atacar e transformar praticamente o
formam a Canção do Reno em canto sagrado, conquistam a Alsácia e estado de coisas que ele encontrou. E se se encontram, às vezes, em
Lorena, pilhando a filosofia francesa, em vez de pilharem o Estado Feuerbach, pontos de vista deste gênero, eles nunca vão mais longe do
francês, germanizando pensamentos franceses, em vez de germanizarem que pressentimentos isolados e têm muito pouca influência sobre toda
províncias francesas. O senhor Venedey exibe-se como cosmopolita ao li sua concepção geral, para que possamos ver nisto outra coisa diversa
lado de São Bruno e de São Max, que proclamam, no império do dos germes suscetíveis de desenvolvimento. A “concepção” do mundo
mundo, a teoria da hegemonia mundial da Alemanha. sensível, em Feuerbach, limita-se, por um lado, à simples contem­
plação deste último e, por outro lado, ao mero sentimento. Ele diz o
Vê-se, igualmente, de acordo com essas discussões, o quanto “Homem”, em vez de dizer os “homens históricos reais”. O “Homem”
Feuerbach se equivoca, quando, na Revue Trimestrielle de Wigand na realidade, o “Alemão”. No primeiro caso, na contemplação do
(1845. v. II), colocando-s