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UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES

PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU


INSTITUTO A VEZ DO MESTRE

OS JOVENS DO SEXO MASCULINO E A SUA IMAGEM


CORPORAL: ENTRE A SAÚDE E A ESTÉTICA

Por: Ricardo Silva Marinho

Orientador
Profa. Mary Sue Carvalho Pereira

Rio de Janeiro
2009
2

UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES


PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
INSTITUTO A VEZ DO MESTRE

OS JOVENS DO SEXO MASCULINO E A SUA IMAGEM


CORPORAL: ENTRE A SAÚDE E A ESTÉTICA

Apresentação de monografia ao Instituto A Vez do


Mestre – Universidade Candido Mendes como
requisito parcial para obtenção do grau de
especialista em Arteterapia em Educação e Saúde.
Por: Ricardo Silva Marinho
3

AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, a Deus por me


sustentar em todos os momentos.
À minha esposa pela compreensão.
À minha família, sempre!
Aos meus amigos que estão sempre
dispostos a me incentivar.
Aos colegas de turma que puderam me
ensinar tanta coisa direta e
indiretamente.
À minha orientadora Mary Sue, pela
compreensão, incentivo e
disponibilidade.
Aos jovens que foram entrevistados e
contribuíram imensamente para o
desenvolvimento deste estudo.
4

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho aos meus familiares


e amigos que sempre me apóiam em
minhas investidas no sinuoso caminho
pela busca de conhecimento.
5

RESUMO

Este trabalho propõe interrogar os processos de subjetivação que atravessam


os adolescentes e jovens adultos do sexo masculino, com relação ao seu
corpo (imagem corporal), na contemporaneidade. Seu objeto de estudo traz à
cena uma questão que aos poucos vai perdendo sua conotação histórica e
ganha status de natural, como é o caso da arriscada corrida por um corpo
perfeito, másculo, sarado a qual os jovens têm se dedicado. A partir da
compreensão de como o corpo tem sido visto ao longo da história, ancorando-
se basicamente em como os gregos, os espartanos e os romanos lidavam com
seus corpos e a serviço de que estavam os cuidados dirigidos a eles, busca-se
traçar uma possível relação entre os cuidados do corpo e os apelos midiáticos
como práticas para uma vida saudável. Realizada uma pesquisa de campo em
academias de um município da Baixada Fluminense, no estado do Rio de
Janeiro, a fim de investigar se os jovens estabelecem alguma relação entre a
prática da musculação e a saúde e quais são os sentidos dados por eles a tal
atividade. A pesquisa teve um caráter qualitativo, tendo seus dados coletados
por meio de entrevistas semi-estruturas e seus resultados obtidos através de
uma leitura aportada na noção de estética da existência postulada por
Foucault. O resultado da pesquisa aponta que apesar de haver uma
dominação do apelo midiático sobre a relação saúde e estética entre os
jovens, existem algumas rupturas que abrem margens para outras
apropriações desta relação e que as praticas arteterapêuticas podem ser
utilizadas como um recurso no tratamento da questão da imagem corporal.
6

METODOLOGIA

Para se analisar a temática de forma empírica, escolheu-se como


estratégia metodológica uma pesquisa qualitativa, por entender-se que esta
favoreceria explicitar os sentidos que os jovens dão à sua escolha de
matricular-se em uma academia para malhar e quais são as possíveis
conexões feitas, por eles, com tal escolha.

Com efeito, a opção pela metodologia qualitativa deu-se ao fato desta


possibilitar uma maior aproximação da realidade, de maneira a perceber a
conjuntura que a enreda, abrangendo, assim, o contexto histórico-cultural, os
aspectos sociais e da subjetividade presentes na relação que os jovens, que
compuseram o universo da pesquisa, estabelecem com seu corpo e as
acepções e os sentidos de saúde daí derivados.

A partir de operadores conceituais contidos nas obras de autores como


Foucault, Urrutigaray e Philippini, buscou-se situar alguns dos elementos que
cercam o tema aqui exposto, como também contribuir para a compreensão das
questões suscitadas no percurso das entrevistas com os jovens. Procurou-se
compreender os modos de subjetivação contemporâneos que tomam o corpo
como alvo de intervenção privilegiando-se dar visibilidade aos movimentos de
ruptura ou de endurecimento com relação à forma de subjetivação do corpo
que se tornou dominante.

Selecionaram-se, então, alguns elementos que serviram como


analisadores1 para problematizar questões que são inquietantes, a saber:
como a imagem corporal masculina veiculada na mídia (impressa e ou visual)
processa modos de subjetivação nos adolescentes e jovens adultos; quais são

1
Analisadores, de acordo com Passos e Barros (2000: s/p.), “é um conceito-ferramenta
formulado por Guattari, (...) seriam acontecimentos - no sentido daquilo que produz rupturas,
que catalisa fluxos, que produz análise, que decompõe. Eles assinalam as múltiplas relações
que compõem o campo tanto em seu nível de intervenção quanto em seu nível de análise”.
7

as supostas relações existentes entre as imagens corporais veiculadas pela


mídia em revistas, televisão, embalagens de suplementos alimentares e a
procura “alucinada” por malhar; o que leva os jovens a utilizarem substâncias
anabolizantes, mesmo quando têm conhecimento quanto aos riscos que
podem causar à saúde; e, se, realmente, o poder da mídia e a sociedade de
controle (prevista por Michael Foucault), são produtores dessa busca “louca”
pela estética padronizada na e pela sociedade contemporânea.

A partir deste aporte teórico-conceitual, acredita-se que foi possível ter


um plano de análise rigoroso, porém, não reducionista, cientificista, porque não
se pretendeu achar/produzir verdades últimas e absolutas; ao contrário, quis-
se fazer emergir verdades múltiplas e provisórias, “tudo menos manter-se na
assepsia tediosa”. (SAIDON, 1991: 22).

Sendo as academias de ginásticas, um dos locais mais procurados


pelos jovens do sexo masculino que pretendem praticar a musculação2, fez-se
um recorte no campo de análise 3, estabelecendo que se tornassem sujeitos do
desse estudo, jovens do sexo masculino na faixa de idade entre 16 e 25 anos,
freqüentadores de academias de ginástica.

Para que o objetivo proposto fosse alcançado, já que essa questão é a


primazia do nosso estudo, teve-se como forma de coleta de dados a entrevista
semi-estruturada, na qual um roteiro de perguntas serviu como ferramenta
para disparar a fala dos jovens. Esse roteiro versava sobre questões como: a
partir de que idade ele procuraram a prática da musculação; o que os levou a
procurar tal atividade; o que os influenciou nesta escolha; como eles
concebiam a saúde; qual a relação que eles estabelecem entre corpo sarado e
saúde, que imagem eles têm de seus próprios corpos; em que ficar sarado
pode interferir na vida de um homem; o que eles pensam sobre o uso de
anabolizantes para corresponder a um corpo padronizado; se já utilizaram ou

2
Exercícios progressivo de resistência para ganhar músculos.
8

pensavam em utilizar anabolizantes e quais outras práticas elas consideravam


que poderia contribuir para cuidar do corpo.

3
Segundo Baremblitt (1992: 66-7), “um ‘recorte’ da vida social (...) para entendê-lo, para saber
como funciona, como estão colocadas e articuladas suas determinações, suas causas, como
se geram seus efeitos etc.”
9

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 10

CAPÍTULO I - Um passeio pelos sentidos dado ao corpo masculino através


dos tempos 15

CAPÍTULO II - Mesmo neste cenário os atores têm vez e voz: suas falas e
ações podem estar fora do script 26

CAPÍTULO III - A arteterapia e o trabalho com questões de imagem corporal:


um encontro que pode ser salutar 37

CONCLUSÃO 42

BIBLIOGRAFIA 45

ANEXO 49

ÍNDICE 50

FOLHA DE AVALIAÇÃO 51
10

INTRODUÇÃO

A temática que estará sob investigação nesta empreitada é “Os jovens


do sexo masculino e a sua imagem corporal: entre a saúde e a estética”. Trata-
se de uma tentativa de interrogar os processos de subjetivação que
“atravessam” os adolescentes e jovens adultos do sexo masculino, com
relação ao seu corpo (imagem corporal), na contemporaneidade.

Desse modo, o presente estudo busca dar visibilidade a um fenômeno


que aos poucos vai perdendo sua conotação histórica e ganhando status de
“natural”, como é o caso dessa arriscada corrida por um corpo “perfeito”,
“másculo”, “sarado4”, entre outros adjetivos.

Volich (2005: 33) nos aponta uma realidade em que muitos jovens para
se amoldar “malham horas a fio na academia (...) complementado com a
utilização de anabolizantes, esteróides e outras substâncias para a modelagem da
massa muscular”, descortinando que “uma legião de ‘sarados’ e ‘bombados'
vem cada vez mais povoando as cenas do cotidiano”. (op. cit.).

Para tal intento, parece ser necessário explicitar, inicialmente, a análise


5
da implicação do que move a pesquisa de tal temática. Sendo assim, a
gênese deste estudo reside em questionamentos pessoais quanto a sucumbir
ou resistir a tais idealizações e padronizações, uma vez que, já faz algum
tempo que adolescentes estão imersos num universo que pronuncia e prolifera
este discurso de “culto ao corpo”.

Atualmente, quem se dedica a lecionar para adolescentes e jovens


adultos, entra em contato com muitos deles que, visivelmente supervalorizam

4
Segundo Goldenberg e Ramos (2002:31) “é interessante pensar na relação entre o corpo
‘sarado’ (que, associado à doença, é utilizado para aquele que está curado ou que sarou de
seus males) e o corpo ‘saudável’”.
5
Aqui entendida como o nosso grau de envolvimento com a questão a ser pesquisada.
11

os seus corpos construídos à base de muita malhação (ou na linguagem deles,


“puxação de ferro”). Percebe-se que, muitas vezes, estes jovens fascinados
pelos discursos e práticas que colocam o corpo num lugar de um “bem a ser
alcançado” e “consumido”, chegam a fazer uso de substâncias anabolizantes,
o que parece não ser notado por seus responsáveis e nem por aqueles com
quem se relacionam – parentes, amigos, professores etc.

Não se pretende levar esta problematização para o caminho


moralizante, do certo ou errado, mas discuti-la à luz de uma “ética
potencializadora” (FUGANTI, 1990) e “de uma estética da existência”
(FOUCAULT, 1984), para que a mesma possa ser capaz de elaborar uma
análise mais próxima e fidedigna à realidade que a circunda, sem perder o
norte de que toda e qualquer teorização é provisória, e está conectada ao
tempo e espaço em que é produzida.

São inúmeros os estudos que apontam que no período da adolescência6


e início da vida adulta, os jovens enfrentam diversos “dilemas”, angústias e
mudanças, inclusive em seus corpos.

A imagem que o corpo reflete, enquanto matéria e símbolo, torna-se


canal de aceitação (ou não) na vida social. E, na tentativa de criar uma
imagem corporal “ideal”, ou seja, aquela produzida e veiculada nos meios
midiáticos, como, por exemplo, “tenha um corpo saudável”, “corpo são, mente
sã”, “tonifique seu corpo”, “vá malhar já” entre outras, eles matriculam-se em
academias de ginástica, compram aparelhos que prometem milagres para a
forma física, tomam suplementos alimentares de toda espécie e submetem-se
a intervenções cirúrgicas que permitem “esculpir” o corpo.
O que poderiam ser consideradas práticas que a priori contribuíssem
para uma estética que ajuda a auto-estima e uma vida mais saudável, menos
sedentária, como podem ser a questão do exercício físico, podem tornar-se

6
Referimo-nos aqui, em adolescência, não numa perspectiva desenvolvimentista, na qual se
reconhece como comportamentos pertencentes, estritamente, a tal momento; mas, ao
12

uma procura incessante e perigosa por um ideal de “beleza”, construído por


processos de subjetivações que disseminam quais padrões de estética devem
ser cultuados na sociedade. Muitos deles, inclusive, impossíveis de serem
alcançados sem o uso de substâncias exógenas (e muitas vezes ilícitas), mas
que se mostram como um passaporte para o Olimpo, quer dizer, para um
trânsito livre nos meandros da vida social.

Nesta direção conjetura-se que esta busca em corresponder a tais


padrões estéticos de beleza engendra-se no socius como alternativa para
galgar a possibilidade de mover-se por todos os lugares da teia social,
“recompensada pela gratificação de pertencer a um grupo de ‘valor superior’”
(GOLDENBERG; RAMOS: 38)

Lançar-se-á mão da máxima do poeta Juvenal e sua expressão: mens


sana in corpore sano que, na educação do povo romano, era “utilizada para
demonstrar a necessidade de corpo sadio para serviços de ideais elevados”
(MICHAELIS, 2006). Mesmo considerando que no cenário atual se configura,
cada vez mais, que o corpo/físico masculino seja concebido como uma massa
a ser trabalhada, estetizada, trar-se-á à cena a possibilidade de formas
diversas de apropriações para com os cuidados do mesmo.

Foucault (1997) ressaltava a importância da moral greco-romana que se


fundamentava no “cuidado de si”. De acordo com o autor, o cuidar de si
extrapola a idéia de um simples momento de preparação para a vida,
tornando-se mesmo, uma forma de vida que toma as mais diversas feições na
sua articulação com a política, com a pedagogia, enfim, com o conhecimento
de si.

Entretanto, talvez, em nossa cultura ocidental contemporânea, tal noção


encontre-se muito distante dessa forma grega de conceber a existência
estética. Até porque, uma existência estética, considerando o capital na sua

contrário, como instante de invenção de possibilidades, movimentos e criação de outras formas


13

forma atual, tem muito mais lugar nesse mercado de variedades em que vem
se transformando a vida. Sendo assim, torna-se tênue distinguir entre os
limites que demarcam a saúde enquanto cuidado de si e um ideal de saúde
ensandecido que corresponde, muito mais, a esse corpo veiculado pelos meios
midiáticos.

Para tanto, considera-se necessário alicerçar nossa discussão na


interlocução com autores que partilhem de uma perspectiva ético-política da
vida.

Assim, o primeiro capítulo discorre sobre como o homem e o seu corpo


têm sido visto ao longo da história, ancorando-se basicamente em como os
gregos, os espartanos e os romanos lidavam com seus corpos e a serviço de
que estavam os cuidados dirigidos a eles. Buscar-se-á, então, traçar uma
possível relação entre os cuidados do corpo e os apelos midiáticos como
práticas para uma vida saudável.

O segundo capítulo contemplará a pesquisa de campo para que, de


fato, os protagonistas dessa história tenham vez e voz para expressar as
apropriações e sentidos que fazem dos espaços da academia, podendo do
mesmo modo explicitar ser há a possibilidade de rupturas diante uma
massificante produção de subjetividade.

O terceiro capítulo destina-se a buscar evidenciar uma forma de tratar


da questão da imagem corporal a partir das possibilidades e modalidades
expressivas fecundadas pela Arteterapia, conjeturando uma possível relação
entre ambas.

Como este estudo versará sobre uma questão muito em voga na


contemporaneidade, ou seja, a questão da forma física, porém tem seu foco
voltado para a estética corporal masculina, buscando analisar que

de existência.
14

engendramentos estão no cerne da possível relação prática da musculação e


saúde, com intuito de oferecer uma contribuição para os interessados nas
áreas de Saúde e Educação, e para a Sociedade de modo geral, uma vez que,
a todo instante aparece um discurso sobre o corpo, quase sempre, baseado
estritamente em corpos idealizados e esculturais, propagando uma certa idéia
que liga forma física padronizada à saúde.
15

CAPÍTULO I
UM PASSEIO PELOS SENTIDOS DADO AO CORPO
MASCULINO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Na atualidade, tem se dado um grande espaço na mídia para falar e


mostrar sobre os cuidados que o homem do século XXI anda tendo com o seu
corpo, em especial, com sua forma física.

São noticiados e divulgados aparelhos de última geração para praticar


exercícios físicos com menos esforço, suplementos alimentares, vitaminas,
cosméticos entre outros, tudo em nome de manter uma “boa forma”,
embelezar-se e “cuidar da saúde”. Quase sempre essas “inovações” são
veiculadas junto a resultados de pesquisas que demonstram o quanto a prática
de exercícios físicos faz bem à saúde ou como os homens contemporâneos
vêm cada vez mais se preocupando com sua imagem.

As pesquisas somam centenas e o número de pessoas


estudadas, milhares. (...) Assim seja para os romanos de
princípios do século II ou os cidadãos do século XXI, a
atividade física é um dos mais eficazes suportes do
equilíbrio emocional. (DO BIASE, 2007)

Entretanto, não é de hoje que os homens atentam-se para o seu corpo,


já na antiguidade os gregos buscavam educar seus corpos fisicamente, tanto
que, segundo Jaeger (1995), a atividade esportiva exerceu grande influência
sobre a formação do homem grego sendo considerada como um dos três
pilares da educação da criança e do jovem juntamente com as letras e a
música.
16

A forma estética/corporal do homem grego vem sendo decantada ao


longo dos séculos. Muitas vezes, entrelaçada pelos heróis e deuses
mitológicos como, por exemplo, Apolo, Eros, Demétrio, Hércules, Aquiles, ou,
ainda na poesia de Homero e seus personagens, o que não descredencia a
premissa da valorização do corpo pelos gregos, ao contrário, permite visualizar
que era dado a ele o status de discurso em si, vinculado ao contexto social no
qual estava inserido.

Para esculpir esse corpo, os gregos praticavam diversos tipos de


atividades desde a corrida, o lançamento de discos, os saltos, as danças e as
lutas, como nos relata a história de Milos de Crotona, um atleta olímpico de
luta e discípulo do matemático Pitágoras, que utilizava como método de
treinamento, correr com um bezerro nas costas para aumentar a força dos
membros inferiores.

Porém, cabe lembrar que esta disposição em cuidar do corpo articulava-


se com o zelar o espiríto, posto que na Grécia, os esportes destinavam-se a
talhar o corpo e os debates filosóficos à alma. O homem grego era escultural e
extremamente intelectual.

Na Grécia antiga, as atividades físicas representavam mais que o


cotidiano, elas faziam parte da própria educação ou, melhor, era a própria
educação para a formação de cidadãos responsáveis por si e pela pólis; uma
vez que, fortaleciam o corpo tanto para o prazer quanto para a guerra.

Nessa direção pode-se verificar que, para os gregos, as práticas físicas


serviam mais do que um mero embelezamento corporal. Na leitura feita por
Foucault (1997: 123), sobre os modos de vida dos gregos antigos o “ocupar-se
de si não é, portanto, uma simples preparação momentânea para a vida; é
uma forma de vida”.

À luz da vida grega, sabe-se da profunda relação dos gregos com a


questão da saúde basta citar “a existência de uma noção como a de pathos,
17

que significa tanto a paixão da alma quanto a doença do corpo” (FOUCAULT,


1997 : 124), o que indica que os cuidados de si também reverberam uma
busca de corpo/mente saudável e forte, capaz de resistir e aproveitar a vida,
não reduzindo a existência a um único sentido.

É neste cenário, da Grécia antiga, que se desvela o primeiro desenho do


corpo masculino, tão importante para o pensamento ocidental, até os dias
atuais. Pode-se dizer que, o treinamento físico e aprimoramento atlético e
intelectual constituíam a vida dos homens gregos, presente tanto nos ginásios
quanto na Àgora7, nas encenações teatrais, nas assembléias, nas cerimônias
político-religiosas, ou seja, nas atividades da vida social. A experiência corporal
grega enunciava um fazer, um cuidar, um trabalho que vislumbrava a própria
(re)invenção do que existe procurando converter o corpo numa criação, numa
“obra”.

A questão crucial constituía-se em possibilitar viver a vida, produzir


prazer, admiração, portanto, uma multiplicidade de sentidos, dado que o
homem grego desconhecia a experiência moderna, inaugurada pelo
pensamento platônico depois tornada dominante, da eminência da alma sobre
o corpo. Ao contrário, a perspectiva grega que se quer evidenciar aqui é da
aliança entre a vida e o corpo e, neste sentido o corpo é indiviso.

Como a Grécia antiga era um conjunto de ilhas, até certo ponto


independentes, e que costumava estar em constante guerra entre si, por conta
de território, torna-se relevante falar da concepção da cidade de Esparta, no
que diz respeito ao seu olhar sob o corpo.

Esparta é reconhecida por uma “educação linha-dura” (MAFFRE, 2005:


24), por sua rigidez e formação militar voltada para guerras e conquistas
territoriais, criando uma concepção de que o homem deveria ser o resultado do

7
Praça do mercado central da cidade de Atenas, Grécia, onde os transeuntes discutiam sobre
Filosofia, Política etc.
18

cultivo permanente do corpo de modo a tornar-se forte e eficaz em todas as


suas ações.

Os espartanos fazem surgir uma noção de corpo na qual a prática dos


“exercícios físicos, não é alcançar a força física de um atleta, mas desenvolver
a coragem de um guerreiro” (JAERGER, 1995: 300), porque este corpo
encontra-se conectado ao contexto histórico-político daquele povo, que
envolve basicamente o estado de guerra constante.

O que nos permite considerar tal corpo como uma espécie de corpo-
guerreiro, que começava a ser construído quando o menino espartano
completava 7 anos de idade, e era entregue aos instrutores da cidade como
nos aponta Maffre (2005: 25) “zelando pela formação intelectual e artística das
crianças, ensinam a elas valores guerreiros como força, resistência, seriedade,
bravura, disciplina, solidariedade e astúcia”.

Para tal intento, eles praticam uma variada gama de atividades físicas
em prol da produção um corpo forte e ágil capaz de suportar as privações e
intempéries que a vida de um guerreiro pode trazer.

Além do caráter militar impresso na cultura espartana o exercitar-se


tinha um cunho de cuidado com a saúde, no que concerne à tentativa de fazer
com que o corpo se tornasse a própria armadura do guerreiro.

Não se poderia deixar de falar sobre os romanos, pois as próprias


páginas da História registram o período de suas conquista e dominação sobre
o povo grego, e de como esses foram influenciados pelos modos de vida
grego.

Os romanos, assim como os espartanos, já tinham o hábito de praticar


exercícios físicos de feição militar como, por exemplo, longas marchas e
19

8
treinos na formação de suas legiões , e ao entrar em contato com a esplêndida
cultura helênica acabaram por ser atravessados pela sua maneira de enxergar
o corpo, não só como uma massa forte capaz de suportar as vicissitudes da
vida/batalha, porém como passível de admiração.

Passando pela Antiguidade e chegando ao período Medieval, encontra-


se um corpo que deixa de ser admirado, belo, forte e viril, que comportava
vivenciar as peripécias exigidas pela vida, para ser engendrado na moral cristã
que se institui colocando-o no lugar de um corpo pecaminoso que deve se
submeter a suplícios para purificar-se.

Neste momento, as atividades físicas restringem-se ao esforço braçal


dos trabalhadores do campo, pois nem o Clero nem a Nobreza participam de
quaisquer sentimentos de cuidados com o corpo, pois ele é carne e fruto do
pecado, e necessita ser remido através da alma. Não obstante, fica evidente
que em toda a Idade Média o homem se interiorizou em suas condutas
religiosas. (LUCKESI & PASSOS, 2002; MANNION, 2004).

É, então, com o Renascimento e a tentativa de fazer ressurgir o ideal


greco-romano em todas as áreas de conhecimento, que o corpo volta à cena,
num primeiro momento, para resgatar o lugar do humano como centro da vida
com a retomada da razão e posteriormente, como modelo de beleza a ser
seguido.

(...) desde a Renascença, o corpo do homem vem sendo


progressivamente desvelado. Primeiro foi a pele, em
seguida outras camadas, chegando-se aos músculos e
tendões. Por fim, o crânio é aberto, pondo a nu o
chamado “órgão da alma”, “regulador central dessa
máquina de ossos e músculos”. (NOVAES, 2003: 8 apud
FONTES, 2006: 120).
Pode ser considerado aí um momento de deslocamento do sentido
greco-romano do cuidado com o corpo, imbricado com a forma de viver
naquele contexto histórico especifico, para aquele que passa a ser anunciado

8
Nome dado ao antigo exército romano.
20

na Idade Moderna, que se inaugura com o capitalismo, no qual tudo se torna


um produto pronto para o consumo. Nesta direção, o corpo, na sua face
estética, e as atividades físicas que o permitem modelá-lo, passa a ser
concebido como uma espécie de mercadoria a serviço de um grande mercado.

O que autoriza conjeturar que a configuração do corpo masculino


contemporâneo, apregoado na e pela mídia, segue os passos desse corpo
instituído pelo capital. Assim, o corpo passa a ser modelado, construído,
fabricado, transformado em mercadoria passível de ser comprado e/ou
vendido, ou seja, consumido nas prateleiras do mercado globalizado. Um
cultivo do corpo que serve para alimentar essa grande maquina do capital.

1.1 - O Corpo como uma “mercadoria” e a Saúde: uma Relação


Possível?

Na história da humanidade a preocupação com a saúde sempre esteve


presente, talvez, porque a questão da saúde esteja imbricada na própria
existência humana.

E, ao longo do tempo, a concepção de saúde vem tomando diferentes


sentidos, isto não significa que haja uma evolução em relação a tal noção, mas
que se tem feito apropriações das formas mais diversificadas, e que, para
efeito de qualquer análise, faz-se necessária a compreensão que eles estão
conectados aos contextos históricos, sociais e culturais específicos de suas
invenções.

A saúde já pôde ser concebida como ausência de males,


estabelecendo, assim, como maneira de “conservá-la”, livrar-se dos males
através das forças divinas; como o estabelecimento de um equilíbrio entre o
corpo e a mente, pois estas seriam instâncias separadas no indivíduo; como
uma benção divina concedida por afastar-se do pecado pela fé e retidão no
cumprimento das leis sagradas; como advinda de uma boa infra-estrutura de
21

saneamento básico; como relacionada ao nível de produtividade do indivíduo


em seus processos de trabalho; como um bem a ser “comprado” e “cuidado”
através das tecnologias e da qualidade de vida, entre outras acepções.

No entanto, como não se trata de pensar uma perspectiva de saúde


dentro de uma linha evolutiva, tal qual foi apresentada anteriormente, todas
essas acepções de saúde, dependendo do conjunto de crenças de um grupo,
de uma pessoa ou mesmo de uma cultura podem coexistir, de um modo ou de
outro, inclusive na atualidade.

A questão principal a ser ressaltada é que sempre se produz uma


acepção de saúde atrelada às formas de produção vigentes e que se torna o
modo dominante de subjetivá-la. Neste sentido, quando se pensa sobre a
conceituação de saúde hegemônica na contemporaneidade esta, segundo a
definição da Organização Mundial de Saúde (OMS), se caracterizaria como
“um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consistindo
somente da ausência de uma doença ou enfermidade” (WIKIPÉDIA, 2006).

Percebe-se nesta acepção um ideal utópico haja vista que pretende um


equilíbrio perfeito entre todas as dimensões da vida humana. Entretanto, esse
total bem estar físico mental e social não existe. Para conquistar tal estado de
equilíbrio necessitar-se-ia pensar a vida orientada por uma linha evolutiva e
contínua. Mas, se ao contrário, conceber-se a vida a partir de suas
descontinuidades seria necessário estabelecer, então, outros parâmetros
sobre o que é a produção da saúde.

Sabe-se que essa maneira de conceber a saúde como equilíbrio e


conformidade ao meio, que se tornou dominante, é efeito de uma herança
presente no modo de pensar platônico que vingou no ocidente posto que para
este filósofo:

um corpo saudável, equilibrado e harmonioso é aquele


que obedece as ordens dietéticas ditadas pela alma
22

racional, é um corpo comedido [...] reconhece e imita


essas essências inteligíveis, aplicando suas ordens a si
mesma e aos atos do corpo. (FUGANTI, 1990: 27-8).
(grifo nosso)

Sendo assim, às avessas dessa forma de perceber o que vem a ser


saúde inaugurada por Platão, este estudo baliza-se numa perspectiva de
saúde que a compreende da seguinte maneira, “ela é apenas sintoma, efeito
do modo como se relacionam o desejo e o pensamento, uma vez que o
problema da saúde e da doença no corpo e na alma depende dessa relação”.
(FUGANTI, 1990: 20).

Neste sentido, se ela é efeito ou apenas sintoma do modo como se


relaciona o desejo e o pensamento cabe avaliar como se tem operado tal
relação na contemporaneidade, considerando os modos de produção
capitalista vigente.

Ao olhar-se a partir deste ângulo o que se nota, atualmente, é que o


corpo vem sendo transformado em um objeto estético para ser exposto numa
espécie de mercado de variedades, onde a estética se reduz, neste caso, a ter
que responder a padronização de certas formas, tidas como as formas
perfeitas. Tal perspectiva parece apontar para uma captura das possibilidades
de pensar outras formas de conceber e, portanto, produzir saúde. Quando a
saúde fica reduzida a esse eixo mercadoria e consumo, próprio do capital, na
sua forma atual, isso pode se configurar, ao contrário, como produção de
doença.

Pensando-se, por exemplo, sobre o que na contemporaneidade ganha


força nas enunciações entre parte dos especialistas da medicina, da educação
física, da estética, entre outros, a despeito da relação saúde-estética, pode-se
constatar o estabelecimento e a defesa, através de seus discursos e práticas,
de padrões de saúde e forma física reféns dessa lógica promovida pelo capital
e as quais os jovens devem corresponder.
23

Ele sabe que a sua imagem não é só questão de estética,


mas também de saúde. Um corpo bem cuidado é um
corpo sadio. [...] É importante lembrar que prevenir é
sempre a melhor alternativa para amenizar os efeitos do
tempo. A partir dos 25 anos é recomendável fazer
tratamentos preventivos através dos procedimentos
estéticos que já deram prova de sua eficácia. [...] Com
relação ao corpo, a cada dia cresce o número de homens
que praticam esporte, freqüentam academia e também se
submetem à lipoaspiração e à lipoescultura. Enfim,
graças à quebra de tabus e preconceitos, podemos cuidar
dos homens da mesma forma que cuidamos das
mulheres. (DOMINGUES, 2009)

Faz-se necessário, então, pensar uma estética que possa escapar ou


ainda, que não fique reduzida a ter que responder a esse padrão estético
hegemônico. Para se traçar uma correlação entre saúde e padrão estético,
busca-se suporte na fala de Foucault quando afirma que:

a escolha pessoal da própria forma de vida, que se situa


na base da estética da existência, não se produz em um
espaço vazio, mas no âmbito da experiência que gera
um desenho no qual algumas escolhas são possíveis e
outras não são. Não é uma escolha totalmente
deliberada que ignora os movimentos do tecido social.
(NASCIMENTO, 2006)

Como apontado pelo autor, às escolhas não são livres. Entretanto,


enredadas com o tecido social existe sempre a possibilidade deste corpo,
mesmo que circunscrito pela forma física padronizada, vir a conseguir produzir
uma outra forma de saúde. Essa produção de saúde encontra-se dentro da
acepção estética, própria ao pensamento foucaultiano. Uma estética
compreendida como variação dos modos de vida, permitindo que outros
devires9 possam emergir de modo a constituir outras conexões e sentidos para
o corpo.

Contudo, é preciso se lembrar que:


24

O que interessa basicamente não é expulsar os homens


da vida social, impedir o exercício de suas atividades, e
sim gerir a vida dos homens, controlá-los em suas ações
para que seja possível e viável utilizá-los ao máximo,
aproveitando suas potencialidades e utilizando um
sistema de aperfeiçoamento gradual e contínuo de suas
capacidades. (MACHADO, 1979: XVI)

Sabe-se que a idealização de um corpo perfeito, com medidas e formas


a serem alcançadas, procura “conter a degenerescência do devir, codificá-lo e
regulá-lo” (FUGANTI, 1990: 29), os devires a todo o momento são tentados,
seduzidos, a cooptação capitalística para se tornarem mais uma mercadoria no
comércio de modelos de corpos.

O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o


esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia
política”, que é também igualmente uma “mecânica do
poder”, está nascendo; ela define como se pode ter
domínio sobre o corpo dos outros, não simplesmente para
que façam o que se quer, mas para que operem como se
quer, com as técnicas, segunda a rapidez e a eficácia que
se determina. A disciplina fabrica assim corpos submissos
e exercitados, corpos “dóceis”. A disciplina aumenta as
forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e
diminui essas mesmas forças (em termos políticos de
obediência). (FOUCAULT, 1987: 119)

Em tempos de sociedades (re)produtoras dos ideais capitalistas, o


homem vislumbra na estetização do seu corpo uma forma de ser sua própria
matéria prima e produto final, transformando-se em algo “que se manipula, se
modela, se treina, que obedece, responde, se torna hábil ou cujas forças se
multiplicam” (FOUCAULT, 1987: 117), e que vai ganhado valor a medida que
se aproxima dos padrões estéticos veiculados e reforçados pelos meios
midiáticos que proliferam os discursos e práticas que correspondem aos
modelos valorizados pela sociedade em que se está inserido; uma vez que, a
imagem corporal instituída como adequada pode construir sentidos
continuamente e embrenhar-se na teia social.

9
O devir pode ser entendido como a transformação incessante e permanente pela qual as
coisas se constroem e se dissolvem noutras coisas através do tempo.
25
26

CAPÍTULO II
MESMO NESTE CENÁRIO OS ATORES TÊM VEZ E
VOZ: SUAS FALAS E AÇÕES PODEM ESTAR FORA DO
SCRIPT

Para dar vez e voz aos protagonistas deste estudo, que serviu
como fonte para análise das questões levantadas ao longo do trabalho,
realizou-se entrevistas, a partir de um roteiro semi-estruturado, com jovens que
freqüentam academias de musculação. Foram entrevistados cinco jovens
durante os momentos em que os mesmos malhavam nos respectivos locais
onde praticam esta atividade.

Em cada estabelecimento, tornando explícitos os objetivos deste estudo,


foi autorizado à circulação livre em busca de jovens que estivessem dispostos
a dar sua contribuição para a construção desta análise.

Salienta-se que, segundo Velho (1981: 127), “aquilo que vemos ou com
que lidamos no quotidiano pode ser-nos familiar, mas não é necessariamente
conhecido”, portanto, por mais proximidade que se possa ter com a temática,
enquanto pesquisadores, são as falas dos protagonistas que permitirá
compreender os sentidos dados por eles à relação atividade física e saúde,
porque:

[...] dispomos de um mapa que nos familiariza com os


cenários e as situações sociais do nosso quotidiano,
dando nome, lugar e posição aos indivíduos. Isso, no
entanto, não significa que conheçamos o ponto de vista e
a visão do mundo dos diferentes actores numa situação
27

social nem regras que estão por detrás dessas


interações [...]. (grifos do autor) (VELHO, 1981: 127)

Antes de cada entrevista foi apresentado a todos os participantes o


roteiro de perguntas, assim como consultado sobre a possibilidade da
utilização das informações por eles mencionadas, e esclarecido que seria
adotado absoluto anonimato na pesquisa através de nomes fictícios.

As entrevistas foram quase como “bate papos” por conta da


descontração e cordialidade estabelecida durante este processo. Isso
proporcionou uma atmosfera na qual os jovens se sentiram à vontade para se
exporem a ponto de, em alguns momentos, colocarem abertamente suas
questões em relação a como se vêem e de que forma a atividade de malhar
tem interferido em suas vidas.

Procurou-se saber a partir de que idade eles passaram a se interessar


em desenvolver uma atividade física, mais especificamente a praticar
musculação. Obteve-se como resposta que, geralmente, é entre a faixa etária
de 15 e 22 anos que se iniciam na musculação, o que leva a conjetura que é
justamente no período em que os jovens do sexo masculino mais sofrem
alterações em seus corpos, ou seja, mudança de estatura e de voz,
alongamento dos membros periféricos, o aumento e crescimento de pêlos,
entre outras. Salienta-se que, juntamente com tais alterações físicas, ocorrem
mudanças também em outros aspectos da vida do adolescente como sociais e
psico-emocionais: estruturação de relações amorosas, iniciação da vida
sexual, formação da identidade, demonstração de responsabilidade frente ao
meio social, escolha profissional etc.

Com efeito, este estudo propõe-se a entender a adolescência não como


uma fase determinada da vida, com período de faixa etária estabelecida e
estática, já que, cada vez mais, pesquisadores compreendem que a
“adolescência tem componentes não normativos, fruto das interferências de
28

aspectos particulares da cultura na qual está inserida. Não é, portanto,


universal e sim, particular a cada contexto”.

De um modo geral, segundo eles, a entrada na academia se deve, na


maioria das vezes, ao intuito de ganhar massa muscular e definir o corpo,
possibilitando assim se “adequarem” aos padrões supostamente que estão
fora de lugar neste momento. Tal elucubração suscita configurar uma lógica
que é muito comum nas sociedades capitalistas, não é permitido sentir
angústias, desconforto, tudo tem que ser resolvido de maneira imediata,
mesmo que seja necessário burlar o ciclo ditado pela natureza; que talvez seja
mais lento, doloroso, contudo, cheio de poesia como se pode visualizar nas
palavras de Becker (1997: 14):

Então, um belo dia, a lagarta inicia a construção do seu


casulo. Este ser que vivia em contato íntimo com a
natureza e a vida exterior, se fecha dentro de uma
“casca”, dentro de si mesmo. E da início à transformação
que levará a um outro ser, mais livre, mais bonito
(segundo algumas estéticas) e dotado de asas que lhe
permitirão voar. Se a lagarta pensa e sente, também o
seu pensamento e o seu sentimento se transformarão.
Serão agora o pensar e o sentir de uma borboleta. Ela vai
ter um outro corpo, outro astral, outro tipo de relação com
o mundo.

Em tempo, não se pode desconsiderar que, os jovens circulam e vivem


numa sociedade em que a estética corpórea propagada é representada em
modelos que se adequam aos padrões estabelecidos numa composição social
reforçada pela exacerbação de músculos como sinônimo de masculinidade,
percebida por “uma crescente ênfase na imagem corporal masculina – como
pode ser exemplificado por brinquedos, livros, revistas, jornais, televisão, filmes
e anúncios de todos os tipos” (POPE, JR; PHILLIPS; OLIVARDIA, 2000: 86).
Levando, em muitos casos, a uma corrida muitas vezes automática e arriscada
para alcançar a “perfeição física”, exigida para se enquadrar nos ditames
circunscritos como “belo” hoje em dia.
29

Para Foucault, na sociedade há uma tentativa de esquadrinhamento do


corpo. Entretanto, existe também um embate de forças que promove tanto a
manutenção dos investimentos sobre este, quanto possíveis rupturas. O que
autoriza vislumbrar que é a própria forma de apropriação que torna uma ou
outra iminente.

O domínio, a consciência de seu próprio corpo só


puderam ser adquiridos pelo feito do investimento do
corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o
desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do
belo... tudo isto conduz ao desejo de seu próprio corpo
através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso,
que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos
soldados, sobre o corpo sadio. (FOUCAULT, 1979: 146)

Como se pode averiguar no relato de um jovem que iniciou a prática da


10
musculação (ou como ele mesmo definiu “maromba ”) aos 14 anos, em
resposta ao questionamento do que o levou a procurar tal prática,

Estava me sentindo meio esquisito, minhas pernas eram


muito magras e compridas, e meus braços também.
Todo mundo me encarnava [...] Eu parecia o “patinho
feio”, meus dois irmãos já eram maiores e “fortes”, e eu,
um magrelo. Comecei ir a academia com eles, ficava
meio envergonhado, mas aos poucos fui me
acostumando, e comecei a ficar mais “forte”, “troncudo”,
e as menininhas a caírem em cima! (Joaquim, 20 anos,
funcionário público).

Significativamente, as falas dos jovens entrevistados convergiram para


constatar que este período entre, o que é designado de adolescência e a vida
adulta, influencia, de modo considerável, para e na procura desta prática a
serviço de trabalhar o corpo de forma estética em vista a se adequarem o mais
rápido possível ao que a sociedade convenciona como modelo a ser seguido.

Nota-se, também, nesta colocação, a busca de corresponder ao que,


supostamente, as mulheres desejam, a saber, virilidade em relação aos
30

homens como sinônimo de masculinidade; ao passo que, através da


comparação com os demais, seja possível prevê qual imagem favorecerá na
hora da conquista.

Acreditamos que o corpo musculoso é o ideal porque está


intimamente ligado a pontos de vista culturais
relacionados com a masculinidade e o papel sexual
masculino, os quais recomendam que os homens sejam
poderosos, fortes, eficazes – e até dominadores e
destruidores... Um físico musculoso pode servir como um
reservatório dessas características pessoais. (MISHKIND;
RODIN apud POPE, JR; PHILLIPS; OLIVARDIA, 2000:
77)

Quando é possível entrar em contato com visões que reafirmam a


masculinidade ao perfil corpóreo exposto por um homem, torna-se quase
improvável não recobrar a memória há tempos em que esta era a única
concepção da mesma. Longe de julgamentos morais, mais com propósito de
multiplicar as possibilidades de análise, colocações com esse teor permitem
abrir caminhos para visualizar a questão da variedade de apropriações que
podem ser feitas tanto da prática de uma atividade física (no intuito de uma
estética ou de efeitos para saúde) quanto da própria imagem corporal que é
construída a partir dela. Corroborando com tal questão, pode-se inferir a partir
da resposta dada por um jovem ao ser indagado “em que medida ter um corpo
malhado modificava na vida de um homem”,

“Cara”, francamente, fica moleza pegar a mulherada.


Parece até brincadeira, mas a mulherada quando olha
um cara malhadão, sarado, elas caem em cima. Elas
olham, mexem, vem com tudo. E quem não gosta? Da
prazer perceber que você está fazendo o maior sucesso!
Você chega à academia até com mais “gás” porque sabe
que terá o retorno. Não é mole não, para ficar com o
11
abdômen “rasgado ” tem que suar, ralar muito, ter
disposição. (José, 21 anos, estudante). (grifo nosso)

10
Termo comumente utilizado por pessoas que malham bastante a fim de ter um crescimento
corporal.
31

Esses tipos de fala explicitam, em certo ponto, que a valorização


estética, socialmente partilhada, tem um lugar de destaque na apreciação,
positiva ou negativa que cada um fará ou terá do próprio corpo. Desse modo,
ser olhado pelos outros, neste momento, ganha relevância para aquilo que o
sujeito sentirá e pensará de si. Assim como, nas palavras de Carvalho (2003:
137),

“[...] e o que é pior, a sua história será a escrita cravada,


muitas vezes com ferro e fogo, em seu corpo, mas por
outros corpos, de múltiplos nomes e com distintas ações.
E o seu corpo não mais lhe pertencerá – será de um
corpo social, organizado pela negação do que lhe é mais
caro, a diferença e o múltiplo. (grifos do autor)

A acepção desses jovens com relação a seus corpos pode vir a


materializar uma visão que restringe a vida e sua corporeidade, emergindo um
grande vulto a ser cultivado - um corpo, submetido a padrões estéticos fixados
na lógica da moda e do consumismo, visto como uma mercadoria a ser
consumida e/ou trocada, como tantas outras.

Hoje, enquanto cresce, um homem jovem é sujeito a


milhares e milhares dessas imagens de supermachos.
Cada imagem está ligada ao sucesso – social, financeiro
e sexual. Mas essas imagens têm se tornado cada vez
mais magras e mais musculosas. E assim sendo, mais e
mais distantes do que qualquer homem comum consegue
atingir. E assim a sociedade e a mídia pregam uma
perturbadora mensagem dupla: a auto-estima de um
homem deve se basear principalmente em sua aparência,
embora pelos padrões das imagens dos supermachos
modernos, praticamente nenhum homem consiga atingi-
la. (POPE, JR; PHILLIPS; OLIVARDIA, 2000: 31)

Vale ressaltar que, a percepção do próprio corpo será apenas parte do


sentimento de estima que se possa nutrir por si, uma vez que, fica nítido a
relevância dada ao olhar do outro para nortear o parâmetro do que seria belo.
O que se percebe, nos jovens pesquisados, ao manifestarem suas impressões

11
Termo que nas gírias dos freqüentadores de academias de ginástica corresponde ao
abdômen com os músculos bem definidos.
32

sobre suas formas físicas, e que declaram na maioria das vezes, é que ainda
não estão onde querem chegar em relação aos seus físicos, mesmo que,
aparentemente, já tenham um corpo que segue tal modelo instituído.

Em busca de identificar possíveis variáveis que compõem o epicentro


desta problemática, questionou-se aos jovens, então, como fazem para
concluírem que ainda não estão na forma física almejada, colhendo
comumente como resposta:

[...] é pela comparação mesmo. Você começa a olhar o


pessoal a sua volta, aí acaba vendo se “ta” com o braço
forte, os ombros mais largos [...] Todo mundo da uma
12
chegada no espelho , olha, olha, tem uns que se exibem
[...] Cada um deve ter um jeito, mas quando estamos
entre amigos zoamos uns ao outros, dizemos que o outro
“ta” fraquinho, tem que pegar mais pesado, que o braço
“ta” fininho [...] Eu mesmo acho que ainda não cheguei
ao meu porte ideal, mas falta pouco; depois é só manter!
(Jaime, 19 anos, estudante).

Surgiram em seus depoimentos à questão da auto-imagem e da auto-


estima, que esteve, sempre, relacionada ao que a musculação pode gerar para
o corpo, em termos de cuidados que são apropriados tanto no aspecto
estético, pois o exercita e permite construir contornos que proporciona uma
aparência socialmente aprovável; quanto no aspecto da saúde propriamente
dita, porque, contribui no fortalecimento dos músculos viabilizando uma
condição física com maior prontidão, disposição para os afazeres da vida
cotidiana.

Além de ficar bem para a mulherada, também faz você ter


uma maior disposição. Meu trabalho é estafante, mas, por
eu malhar tenho mais pique para agüentar a semana de
trabalho para, então, cair na curtição do fim de semana! É
claro que, faz-se necessário uma alimentação adequada,
um alongamento [...] (Joaquim, 20 anos, funcionário
público)
33

Essas declarações permitem conjeturar que apesar de um determinado


padrão estético ser dominante, na maioria dos enunciados, pode ocorrer outras
formas de apropriações, que escapam à produção desse corpo ideal, que não
são levados em consideração em algumas análises.

A necessidade de dar visibilidade a outras formas de conceber e se


apropriar do corpo, fora dos padrões estéticos ditados de forma massiva pela
mídia se deve, sob certos aspectos, em função de que num primeiro olhar, as
academias e seus freqüentadores assumirem, dominantemente, a dimensão
de controle social onde o padrão estético é determinado de acordo com os
discursos e práticas em que se (re)produz o ideário desejável de corpo que
deve prevalecer na contemporaneidade.

Porém, este espaço das academias, assim como seus atores, pode, em
certa medida, criar formas inusitadas de ser, sentir, pensar e viver o corpo que
destoem dos modos de subjetivação dominantes de concebê-los. Como
observa-se na fala de um dos jovens entrevistados, o próprio malhar surge
como um elemento que produz auto-estima, um sentir-se bem, o que pode
apontar que existem possibilidades de quebras com relação aos modos de
captura vigentes.

Acho que as pessoas também vêm à academia para


conversar, paquerar... Malhar sozinho é muito chato! [...]
Aqui, sempre tem alguém dando força, incentivando,
acaba fazendo, pelo que eu vejo, a pessoa se sentir
bem! É um ambiente que, olhe a sua volta, as pessoas
estão alegres, sorrindo, escutando música [...] Por
exemplo, esta menina já conhece todos os exercícios
que está fazendo, mas ela toda hora nos interrompe para
que eu a leve até o aparelho, joga um charme, tem gente
nova “no pedaço”, provavelmente, ela que saber o que
está acontecendo, quer interagir. (Anderson, 25 anos,
Professor de Educação Física).

12
Pode-se notar que, em todas as academias que verifique existe uma série de espelho, o que
pode conotar uma questão meio narcísica de se admirar.
34

A partir desta fala, torna-se possível compreender que as formas de


apropriações do espaço das academias podem ser múltiplas, assim como a
relação deste espaço com as atividades praticadas em tais locais, e que
variam de acordo com os sentidos que cada um estabelece. Com efeito, não
se nega que em sua maioria são sentidos reféns de uma lógica estetizada, que
privilegia a competição e comparação entre os músculos expostos, vendendo
uma imagem de saúde enquanto uma forma física padronizada e moldada à
base de muito suor. Mas não se pode furtar a oportunidade de tornar visíveis
essas outras maneiras de existir neste espaço.

Maneiras que indicam que ali também é um lugar para convivência


social, onde as pessoas trocam impressões e se relacionam, experimentando
as possibilidades em que estar com outros contribuem para a socialização:

Um cara quase sempre se matricula sozinho, ou com um


grupo de amigos. Então vai passando o tempo, e mesmo
as séries13 sendo individuais daqui a pouco você vê que
ele já se enturma; tem alguém ajudando com um
aparelho [...].(Anderson, 25 anos, Professor de Educação
Física)

Evidencia-se que é possível “abrir o campo para novas experiências


estéticas” (CARVALHO, 2003: 143), onde repensar os sentidos dados e/ou
criados para dar conta das subjetividades que circulam nesses lugares se faz
necessário.

Considera-se que, relatos com os acima instauram caminhos


alternativos que podem operam no sentido de dissolver os contornos
padronizados, pré-estabelecidos de se conceber a academia, exclusivamente,
para fins estéticos ou de uma pretensa saúde que, quase sempre, se promove
conectada ao modelo dominante. E, então, se possam conjeturar brechas que
permitam fuga das capturas das idéias e práticas conectadas aos modos
dominantes de estetização da vida, e, assim, produzir singularização.

13
O termo “série” diz respeito a uma seqüência de exercícios coordenados que o praticante de
musculação irá executar para exercitar seus músculos.
35

Confesso que fiquei meio envergonhado nas primeiras


vezes que entrei na academia. Via todo mundo “enorme”,
umas meninas super gatas, eu meio tímido, sem graça;
mas, a galera me recebeu legal, sabe, consegui “fecha”
com o pessoal, é claro que zoam para caramba também,
mas é tudo brincadeira! Hoje em dia, nós marcamos para
sair, curtir, é assim. E me sinto bem com o meu corpo,
não sou exagerado, e nem pretendo ficar. Para mim,
malhar está fazendo bem para minha saúde. (Jairo, 25
anos, auxiliar de escritório)

A singularização numa sociedade assombrada por sistemas de


cooptação fluídos, mutantes e engenhosos, parece tarefa impossível, e nem
pretende-se neste momento, entrar no mérito da questão; entretanto, à
maneira de Foucault (1994), “nós devemos fazer de nós mesmos uma obra de
arte” (apud Carvalho, 2003: 140), ou seja, deve-se permitir as experiências,
nas quais nossas ações não serão mensuradas pela moral do certo ou errado,
14
mas por uma postura ética que vai além, buscando entender o bem ou mal
que aquilo traz para o corpo e que repousa no ideário dos gregos, como nos
afirma Fuganti (1990: 24), pois “pensavam e problematizavam o desejo e os
prazeres pelo uso que se fazia deles”. (grifo do autor).

Sendo perceptível numa fala de um dos entrevistado, torna-se ocasião


de oferecer visibilidade a ela,

Eu trabalhava pegando no pesado [...] Precisava de fato


ter força, eu tinha mais ou menos 16 anos, e queria uma
forma física bacana, era por estética também. Então, fui
ser militar, de novo precisava do meu corpo para
trabalhar, já tinha um físico bacana, queria manter, ter
condicionamento físico [...] Surgiu a oportunidade de
estudar, percebi que a educação física era algo que
gostava, resolvi fazer isto para minha vida [...] Agora vejo
que, realmente, estava tudo meio misturado. (Anderson,
25 anos, Professor de Educação Física). (grifo nosso)

14
De acordo com Rebouças (2007: 9), “Foucault também procura resgatar a ética como
pensada pelos gregos: não como um corpo de regras, códigos ou normalizações, mas inserida
numa prática pública, na maneira como se constrói uma imagem e se preenche a existência”.
36

Pode ser notado que para o próprio jovem, reconhecer que estava tudo
meio misturado instaura um estranhamento naquilo que parecia formatado,
encaixado como em um quebra-cabeça, porém numa leitura que contempla a
estética da existência configura que “ela é o ensaio permanente daquilo que a
própria vida é: um ensaio de forças, de eterno combate entre si, com múltiplas
apresentações daquilo que o homem é – vir-a-ser”. (CARVALHO, 2003: 144).

Contudo, salienta-se que Foucault não dissocia a estética da existência


da ética, pois à luz da concepção grega, que também aparece na obra de
Fuganti (1990: 52), a ética é compreendida “como potência de selecionar os
encontros que nos fortalecem e evitar os que podem nos enfraquecem”, o que
pode transformar os espaços das academias e a prática da musculação, nessa
direção, em uma das possibilidades para construir novas formas de se produzir
saúde, não aquela encarcerada em um modelo, mas a possível para aquele
corpo.
37

CAPÍTULO III
A ARTETERAPIA E O TRABALHO COM QUESTÕES DE
IMAGEM CORPORAL: UM ENCONTRO QUE PODE SER
SALUTAR

Ao buscar-se traçar um paralelo que permita afirmar a


possibilidade da Arteterapia ser capaz de contribuir como um recurso que
auxilia em tratamentos relativos à imagem corporal (masculina), deve-se ter o
princípio que todo conhecimento em si é provisório, uma vez que, para um
fenômeno ser estudado faz-se necessário a sua objetivação e não o seu
aprisionamento; considerando-se não ser possível compreender a idéia de que
a Arteterapia proporcione benefícios aos que possam padecer de conflitos
referentes à percepção corpórea, sem perceber o aspecto multifatorial
presente nesta questão.

Para ir além de qualquer reducionismo e, de fato, em busca de analisar


as nuances envolvidas nesta questão e apreender sobre a temática, enfoca-se
a mesma de modo que permita visualizar que ela está envolta numa
constelação de fatores e que a Arteterapia possa corroborar estabelecendo um
formato de trabalho que se pretende configurar de forma dinâmica,
contemplando as singularidades de cada ser.

Aqui, o que está sendo designado de Arteterapia fundamenta-se nas


palavras de Urrutigaray (2003: 24):

[...] um referente transcendente às questões relativas ao


desenvolvimento de habilidades, das finalidades
38

artísticas, de instrumentos de diagnóstico e prognóstico.


Revestida de um valor técnico visa, através da mediação
de instrumentos plásticos, a expressão ou a
comunicação de representações como as fantasias e
sentimentos. Possibilitando, assim, um espaço para a
liberação de energias psíquicas, favorecendo a
expressão posterior à criação estabelecida em palavras,
daquilo que antes não tinha nem nome ou identidade e
nem lugar ou espaço para manifestar-se. Tendo como
finalidade à atualização da imaginação
transformadora, pela qual as imagens manifestam-se
de forma ativa, conectando o sujeito com novas
modalidades vivenciais presentes nas imagens criadas.
(Grifos do autor)

Entende-se que seja possível lançar mão da Arteterapia como uma


ferramenta capaz de ampliar a visão diante desta relação tão tênue entre
saúde e estética, uma vez que, ela poderá corroborar na identificação de
(outras) possíveis apropriações que os jovens fazem ao buscar modelar seus
corpos e os efeitos que buscam com isto.

Na tentativa de vislumbra-se ações possíveis para intervenção nos


casos que apresentem a dificuldade em lidar com a própria imagem corporal
utilizando-se da Arteterapia, pode se perceber que, tem-se à disposição um
leque variado de recursos artísticos em contextos terapêuticos. Existe um
universo de modalidades expressivas disponíveis, com efeitos terapêuticos
inerentes e específicos, capaz de tornar-se uma gama de dispositivos eficaz,
quando usando de maneira que respeito às diferenças e ritmos de cada
pessoa, a fim de atender as necessidades que emergem em cada indivíduo.

Pois um processo arteterapêutico bem sucedido


depende da harmonia de um complexo conjunto de
variáveis, que facilitam a descoberta de si mesmo. [...]
que os materiais expressivos, como veículos da criação,
possuem propriedades terapêuticas que devem ser
conhecidas e respeitadas. (PHILIPPINI, 2009)

Sabe-se o fazer artístico tem o potencial de “cura” quando o cliente


consegue construir uma relação que facilita a ampliação da consciência e do
39

auto-conhecimento, possibilitando assim, mudanças, reconfigurações e novas


percepções de si.

As possíveis distorções na percepção corporal têm origem multifatorial,


e, necessitam de avaliações e abordagens que contemplem os vários aspectos
envolvidos em sua gênese e manutenção. Assim, torna-se essencial aplicação
de instrumentos que avaliem as comorbidades (especialmente sintomas
depressivos e ansiosos), a qualidade de vida e qualquer outro aspecto que se
apresente com significativo dentro do quadro efetivamente.

Entende-se que a Arteterapia pode ser um artifício, principalmente, no


que concerne a percepção da auto-imagem, uma vez que, pode ser
caracterizado “como um processo expressivo revelador de uma subjetividade”
(URRUTIGARAY, 2003: 43) podendo ser de grande valia para uma
compreensão mais abrangente da estreita relação saúde-estética e os
prováveis efeitos que a mesma provoca.

Espera-se é que o paciente possa dispor de um repertório


qualitativamente mais amplo para responder às demandas que a vida lhe
impõe, alicerçando-se na perspectiva de que, a Arteterapia é um caminho
através do qual cada indivíduo pode encontrar possibilidades de expressão
para processar, elaborar e redimensionar suas dificuldades na vida.

A partir da integração, como produto de elaboração


pessoal, entre os elementos formatados associados ao
momento de vida pelo qual o sujeito-criador se encontra,
surgem, neste último, relações compreensivas acerca de
si mesmo. (URRUTIGARAY, 2003: 134)

Torna-se evidente que para o arteterapeuta realmente ver e reconhecer


categorias visuais e relações estruturais independentemente dos conteúdos
explícitos ou implícitos representados, ele precisa ter familiaridade e vivência
pessoal com a linguagem plástica dos materiais/recursos que utiliza em sua
40

prática. Para tanto, faz-se necessário desenvolver um olhar mais apurado para
a linguagem da arte e dos materiais envolvidos na expressão da mesma.

A função do arteterapeuta, neste contexto, será a de um


facilitador do processo, trazendo ao espaço terapêutico
múltiplos materiais, para adequar-se à produção de cada
indivíduo. O espectro destes materiais expressivos,
abrange inúmeras possibilidades, pois procura atender à
singularidade de quem cria,funcionando como
instrumentos para estimular a criatividade, e
posteriormente desbloquear e trazer a consciência
informações guardadas na sombra. Estas informações
representam o lado obscuro, e desconhecido ou
reprimido da psique humana, que quando é trazido à
consciência através do processo terapêutico contribui
para a expansão de toda a estrutura psíquica.
(PHILIPPINI, 2009)

Como “fazer arte é criar porque põe a energia psíquica em atividade ou


em movimento” (URRUTIGARAY, 2006: 120), e as experiências
arteterapêuticas podem concorrer à percepção da imagem corporal, sugere-se
observar a seguir algumas sugestões de trabalhos que podem exemplificar o
uso de tais recursos no tratamento desta questão. De modo, a permite uma
reconfiguração na forma de percebê-la.

CONTORNOS DO CORPO → Colocar uma música agradável para


relaxar e ajudar o indivíduo a realmente sentir o próprio corpo. Em seguida,
pedi que ele deite numa grande folha de TNT enquanto alguém contorna o
desenho de seu corpo. Depois de desenhada a imagem, que ele a enfeite com
materiais diversos e exponha sua obra.

AUTO-RETRATO → Fazer um momento de reflexão com a música


“Caçador de mim” do Milton Nascimento. Em seguida, pedir que o indivíduo
faça três (3) auto-retratos – em momentos diferentes, dando a sugestão uma
após a execução da outra. 1ª Como você se vê ou como se sente. 2ª Como os
outros a vêem ou como você se mostra. 3ª Como gostaria de ser visto.
41

AMASSA, PUXA, ESTICA E MODELA → Fazer um momento de


relaxamento e reflexão com a música “A força que nunca seca” de Vanessa da
Mata. Em seguida, pedir que o indivíduo modele sua própria imagem na argila.
Ao final, estimular que ele fale de como foi elaborar este trabalho e do que
sentiu ao manusear a argila.

MUDANÇA DE OLHAR → Para isso é necessário o uso de espelhos. A


idéia é caminhar pelos espelhos, entrando em contato com as imagens de
diferentes partes do corpo e reconhecendo-as. Depois é sugerido que desenhe
a forma física que foi percebida após ser refletida pelos espelhos. Ao final, pedi
que o indivíduo fale como se sentiu durante o processo e se percebeu
diferença na forma refletida pelos espelhos.

Ressalta-se que utilizá-las como recurso terapêutico, aporta-se na


responsabilidade e capacidade de ir em busca de conhecimentos acerca dos
prováveis efeitos sobre aqueles que confiarão em práticas a partir de tal
referencial.
42

CONCLUSÃO

Na tentativa de se traçar algumas considerações finais, buscou-se,


neste estudo, refletir criticamente acerca de como, atualmente, vem sendo
produzidas subjetividades a partir da relação estabelecida dos jovens, inscritos
em academias, entre a prática da musculação e a saúde.

Ao longo da realização deste trabalho, procura-se analisar o material


colhido em campo, a partir de uma orientação que, proporcionasse pluralizar
os modos de existência, não os reduzindo sob a égide de uma perspectiva
moralizante. Investiu-se numa perspectiva ética que se aliança a pensar a vida
em seu caráter múltiplo. Essa analise partiu, então, de uma contextualização
histórica, política e social, para permitir compreender os complexos
engendramentos envolvidos na captura do que se convencionou, em cada
momento histórico, pensar o que é um corpo saudável.

Reconhece-se que o modo operante dominante, com seus discursos e


práticas, realmente, têm capturado as formas de existências na
contemporaneidade, em especial, a estudada aqui, a saber, os jovens do sexo
masculino que vêm, de forma predominante, buscando uma estética física
padronizada. Nesta direção, muitos deles procuram tal ideal estético que
valoriza a exuberância dos músculos para exibi-los nos meandros do socius,
como uma mercadoria pronta para ser consumida. Percebeu-se, através da
pesquisa de campo que, ainda, também, são dados outros sentidos para essa
relação tão tênue que existe entre os padrões estéticos e a saúde, o que
parece apontar outras invenções de modos de existência, que investem em
provocar rachaduras nos que estão instituídos.

Ressalta-se que o apelo midiático com sua massificante ação,


circunscreve um corpo modelo a ser alcançado e pelo qual se entrará no
Olimpo (não o da mitologia grega) da espetacularização da vida
43

contemporânea, necessitando, então, estar pronto, a todo o momento, para ser


visto, olhado.

O corpo passa a trazer em sua superfície as marcas da vida social que


expressam os valores tidos como relevantes para a sociedade, e que, muitas
vezes, ganha uma importância supervalorizada como se tudo pudesse ser
reduzido única e exclusivamente à imagem que esse corpo reflete e de sua
adequação aos padrões estéticos corporais impostos por uma ditadura do
belo, forte, viril, másculo, definido, sarado, ou qualquer outro adjetivo do
gênero.

Em tempo, dentre as multifaces da questão que foi discutida neste


estudo, percebeu-se que, em alguns momentos, a própria busca por essa
saúde que apregoa um equilíbrio hermético, retirando a possibilidade do caos,
do inusitado, das rupturas, indica, talvez, o próprio adoecimento de uma
sociedade sem parâmetros para edificar uma acepção de saúde que
contemple o múltiplo, o diferente, o plural.

Foi possível evidenciar que a Arteterapia, juntamente, com suas


modalidades de expressões e técnicas pode ser um recurso de grande valia
para tratar a questão da imagem corporal. Além disso, que o arteterapeuta
deve tomar extremo cuidado com possíveis “interpretações” e sempre verificar
hipóteses. Nenhum pressuposto teórico deve substituir o encontro, a tentativa
de compreensão dos reais sentidos através da experiência vivenciada, de
realmente imaginar-se e sentir-se no lugar do outro (apesar da afirmação
carregar o que, talvez, mais complexo tem na condição de ser um humano
frente a outro).

A guisa de encerrar, provisoriamente, o que até aqui foi exposto, para


além da redução a um único fator, é pertinente explicitar que tal temática está
permeada por vários atravessamentos, e o presente estudo não tem condições
para inferir conclusões, e nem era a sua proposta, mas sim, dar visibilidade
através de um outro olhar a questão que foi apresentada.
44
45

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49

ANEXO
ROTEIRO DE ENTREVISTA

Idade: ________ Profissão: ________________

Desde que idade pratica musculação?


O que levou a procurar esta atividade?
Em que medida a musculação está correspondendo às suas expectativas?
Você considera que a mídia ou/e os amigos influenciaram na sua decisão por
querer malhar? Por quê?
Você preocupa-se com o seu corpo?
O que você entende por “corpo sarado”?
Para você, o que é ser saudável?
Você acredita que ter um corpo sarado é sinônimo de saúde?
Que imagem você tem do seu próprio corpo?
Quando você olha-se no espelho fica satisfeito com a que você percebe do seu
corpo?
Ter um corpo “malhado” modifica alguma coisa na vida de um homem? O quê,
por exemplo?
O que você acha da discussão sobre o uso de anabolizantes?
Você utiliza ou já utilizou algum, ou conhece alguém que utiliza(ou)?
Se utiliza(ou), poderia me dizer por que faz(ez) uso deles?
Se não utiliza(ou), já pensou em utilizar? E por que não utilizou?
Quais outras práticas podem contribuir para cuidar do corpo/físico?

* Este é um roteiro semi-estruturado de entrevista para realização do estudo


monográfico intitulado “Os jovens do sexo masculino e a sua imagem corporal:
entre a saúde e a estética”. Sendo que, a entrevista não tem caráter
obrigatório, e será resguardado o nome e a privacidade de quem se dispuser a
ser entrevistado. Os dados coletados serão utilizados, únicos e
exclusivamente, para fins de pesquisa acadêmica.
50

ÍNDICE

FOLHA DE ROSTO
2
AGRADECIMENTO
3
DEDICATÓRIA 4
RESUMO 5
METODOLOGIA 6
SUMÁRIO 9
INTRODUÇÃO 10

CAPÍTULO I
UM PASSEIO PELOS SENTIDOS DADO AO CORPO MASCULINO ATRAVÉS
DOS TEMPOS 15
1.1 - O Corpo como uma “mercadoria” e a Saúde: uma Relação Possível? 20

CAPÍTULO II
MESMO NESTE CENÁRIO OS ATORES TÊM VEZ E VOZ: SUAS FALAS E
AÇÕES PODEM ESTAR FORA DO SCRIPT 26

CAPÍTULO III
A ARTETERAPIA E O TRABALHO COM QUESTÕES DE IMAGEM
CORPORAL: UM ENCONTRO QUE PODE SER SALUTAR
37

CONCLUSÃO 42
BIBLIOGRAFIA 45
ANEXO 49
ÍNDICE 50
FOLHA DE AVALIAÇÃO 51
51

FOLHA DE AVALIAÇÃO

Nome da Instituição: Instituto A Vez do Mestre

Título da Monografia: Os jovens do sexo masculino e a sua imagem corporal:


entre a saúde e a estética

Autor: Ricardo Silva Marinho

Data da entrega: 25 de julho de 2009 (postado dia 30/07/2009)

Avaliado por: Conceito:

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