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PEDAGOGIA DA

EDUCAÇÃO:
EDUCAÇÃO FÍSICA
E ESPORTE

Fernando
Guilherme Priess
Lazer e função social
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Identificar os principais conceitos e exemplos de lazer.


 Utilizar as principais teorias do lazer como instrumento crítico social.
 Discutir a importância das políticas públicas focadas em ofertar um
lazer público/gratuito e de qualidade.

Introdução
O lazer é um dos componentes e é importante conteúdo da educação
física. Um dos objetivos da educação física escolar é o de desenvolver, na
diversidade de seus conteúdos, atividades que possam ser incorporadas
como práticas saudáveis de lazer, no dia a dia dos alunos em sua rotina
extraescolar.
Neste capítulo, você vai estudar o lazer e sua função social. Serão
abordados, inicialmente, os diferentes conceitos do lazer e seus precur-
sores, assim como exemplos de práticas na sociedade e a função do
profissional de educação física. Também serão abordadas as diferentes
teorias do lazer e sua aplicabilidade nos diferentes segmentos da socie-
dade nos diferentes momentos históricos e, para finalizar, será discutida
a importância das políticas públicas focadas em ofertar um lazer público
e de qualidade, assim como apresentar programas e projetos de lazer
desenvolvidos no Brasil.

Conceitos e exemplos de lazer


A palavra lazer pode ser considerada polissêmica, ou seja, que tem muitos
entendimentos possíveis, entretanto, do ponto de vista científico, é impor-
tante estar claramente definida, e não ser confundida, apesar de eventuais
sobreposições. Destacamos inicialmente que diferentes estudos associam a
origem etimológica da palavra lazer ao termo latino licere, que tem como seu
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significado: aquilo que é lícito, permitido, o que pode ser feito. Para os antigos
gregos, prevalecia o conceito de ócio, que era privilégio de indivíduos livres, no
qual ocorria a dedicação ao cuidado com o corpo e principalmente ao estudo,
em que o conceito grego skholé deu origem à palavra escola (MORAIS, 1993).
Buscando inicialmente dados históricos, para uma melhor compreensão
dos conceitos atuais de lazer, observa-se que no auge da revolução industrial,
quando as jornadas de trabalho variavam de 10 a 18 horas de trabalho, as
práticas de lazer eram pouco desenvolvidas pela classe operária, pois, após a
jornada de trabalho, pouco tempo sobrava para a realização de outras atividades
fora do ambiente fabril.
Diante desses fatos, alguns trabalhadores se revoltaram com as péssimas
condições de trabalho oferecidas e começaram a sabotar as máquinas, ficando
conhecidos como “os quebradores de máquinas”. Outros movimentos também
surgiram nessa época com o objetivo de defender o trabalhador e, dessa forma,
o direito ao lazer foi conquistado por meio das lutas das classes trabalhadora
(SILVA et al., 2011).
Considerando que o lazer é uma temática bastante estudada, é normal que
se tenham diferentes conceitos e definições para a terminologia e quanto a
suas dimensões de tempo e atividade, função, importância, maneira como é
usufruído e sua participação na vida do homem. Alguns conceitos não são
bem aceitos em algumas situações, mas o que se pretende é apresentar os
diferentes pontos de vista defendidos por diferentes autores para que se possa
ter uma visão mais ampla e fundamentada sobre o lazer e suas possibilidades.
No Quadro 1 a seguir serão apresentados conceitos de diferentes autores
referentes ao lazer.
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Quadro 1. Conceitos de lazer.

Autor Conceito de lazer

Dumazedier (1976) Foi o criador da teoria dos 3 Ds, que defendia que
o lazer atenderia basicamente aos objetivos: de
descanso, de diversão e de desenvolvimento.
Portanto, o lazer é um conjunto de ocupações
às quais o indivíduo pode entregar-se de livre
vontade, seja para repousar, seja para divertir-se,
recrear-se e entreter-se, ou, ainda, para desenvolver
sua informação ou formação desinteressada, sua
participação social voluntária ou sua livre-capacidade
criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das
obrigações profissionais, familiares e sociais.

Gaelzer (1979) O lazer pode ser conceituado “como a harmonia entre a


atitude, o desenvolvimento integral e a disponibilidade
de si mesmo. É um estado mental ativo associado a
uma situação de liberdade, de habilidade e de prazer”.

Requixa (1980) O lazer pode ser conceituado como sendo uma


ocupação não obrigatória, de livre-escolha do
indivíduo que a vive e cujos valores propiciam
condições de recuperação psicossomática
e de desenvolvimento pessoal e social.

Dieckert (1984) O lazer pode ser conceituado como um evento


que une os benefícios da prática de esportes
(propícios à saúde) com a satisfação proporcionada
ao indivíduo que o pratica, propondo a socialização
do esporte (lazer e esporte para todos).

Marcellino (1990) O lazer é conceituado “como a cultura – compreendida


no seu sentido mais amplo – vivenciada
(praticada ou fruída) no tempo disponível”.

Pagni (1991 apud O lazer é conceituado como uma área de estudo


MENOIA, 2000, p.13) e uma atividade pedagógica que tem como
objetivo específico o movimento corporal humano.
Objeto este que é produzido historicamente
para uma determinada população que, de
forma diferenciada e espontânea, o desenvolve,
segundo sua cultura, como atividade de lazer.
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Portanto, observa-se as diferentes vertentes do lazer, de acordo com a visão


filosófica de diferentes estudiosos da área. Não se pretende, aqui, elaborar um
conceito ou uma definição correta de lazer, mas, sim, problematizar a temática
para que se possa ter uma visão mais ampla e fundamentada da temática.
Analisando os conceitos apresentados, observa-se que o lazer pode se
manifestar de diferentes formas, de acordo com os interesses, a cultura local,
o momento histórico e outros aspectos que podem interferir nas escolhas. Uma
mesma atividade que pode para um indivíduo ser uma atividade de lazer, para
outro, pode ser um trabalho ou até mesmo algo pouco agradável.
Na sequência, você vai ver exemplos de atividades de lazer e analisar pos-
sibilidades de atuação do profissional de educação física nas mais diferentes
esferas. São exemplos de lazer:

 Práticas esportivas: as práticas esportivas são uma opção muito pro-


curada de lazer pelo seu aspecto lúdico e as possibilidades de interação
que permitem. O esporte com foco no lazer proporciona a integração
entre as pessoas com objetivos em comum. O profissional de educação
física pode atuar na promoção de eventos esportivos nas comunidades
e em ambientes escolares, com o foco no lazer e não no rendimento.
Esses eventos contribuem para a disseminação de um estilo de vida
ativo e saudável entre a comunidade.
 Atividades culturais: as atividades culturais são opções de lazer
bastante educativas e importantes. O teatro, a música, a dança e ou-
tras manifestações da cultura proporcionam um ambiente educativo
e preservam a história local e a cultura dos povos. O profissional de
educação física pode promover oficinas de teatro, música, dança, além
de festivais de talentos, apresentações e outros tipos de eventos que
priorizem a cultura de uma forma geral.
 Atividades intelectuais: outra opção de lazer é a busca por livros,
eventos educativos, palestras e formas diversificadas de ampliação de
conhecimentos. Jogos que envolvem raciocínio e estratégias também
são opções bastante buscadas por pessoas com esse perfil de interesse.
Esses atividades podem ser estimuladas por educadores físicos em di-
ferentes ambientes por meio da promoção de atividades que “desafiem”
intelectualmente seus praticantes, ou seja, que despertem o interesse
para a resolução do “problema” apresentado pelo jogo ou pela atividade.
 Atividades em ambientes públicos: as praças, os parques públicos, as
associações e outros ambientes de uso comum oportunizam a realiza-
ção de diferentes práticas de lazer, entre elas: meditação, passeio com
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animais de estimação, apreciação da natureza, prática de exercícios


físicos, leitura, convivência com amigos e brincadeiras/jogos. Esses
ambientes podem ser uma excelente ferramenta para os profissionais de
educação física estimularem a utilização dos espaços de forma saudável
e educativa, por meio da promoção do lazer.
 Atividades que envolvam habilidades manuais e criativas: existe
procura e interesse muito grandes em diferentes práticas que envolvem
habilidades manuais como opção de lazer. O artesanato, a jardinagem, a
pintura, a marcenaria, a escultura e outras atividades similares promo-
vem o desenvolvimento da criatividade e do raciocínio e são excelentes
opções de lazer. Os educadores físicos podem atuar como estimula-
dores dessas práticas e promover eventos que envolvam esses tipos de
atividades, proporcionando, assim, a integração entre os praticantes.

Os momentos de lazer caracterizam-se como um meio de realização ante


as necessidades do homem. O homem demonstra sua liberdade quando busca
suprir suas necessidades, e a prática do lazer demonstra a participação desse
homem livre na sociedade.
Portanto, a compreensão do lazer se inicia por uma dimensão da vida
humana ainda pouca explorada num mundo moderno, em que o tempo para
muitos parece sempre insuficiente para a realização das obrigações e ativi-
dades diárias gerais. Porém, como o lazer é conceituado culturalmente, suas
características e fundamentos têm sido construídos a partir de diferentes
pontos de vista. Alguns deles contrapõem o lazer à questão das obrigações,
que são vistas como mais importantes na vida humana (MENOIA, 2000).
O objetivo da apresentação dos diferentes conceitos de lazer não tem como
foco buscar uma teoria ou definição correta para a terminologia, mas o que
se pretende é que você tenha um embasamento teórico capaz de auxilia-lo a
trabalhar cada vez melhor com o lazer na comunidade e no ambiente escolar.
A seguir, serão abordadas as principais teorias do lazer como um instru-
mento crítico social, ou seja, de que forma as diferentes teorias e suas aplicações
têm influência nos diferentes momentos históricos e sociais.

Teorias do lazer como instrumento crítico social


No âmbito dos estudos do lazer, tem-se geralmente associado a ascensão desse
fenômeno à ascensão da própria modernidade. É comum vermos afirmações
que enfatizam tais vínculos dizendo que o lazer é produto de uma sociedade
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industrial, ou, ainda, que foi produzido pela Revolução Industrial. Do mesmo
modo, destacam-se sempre as diferenças que o separam e o singularizam de
outros fenômenos semelhantes e em certa medida equivalentes, como é o caso
do ocium romano ou do skholé grego (DIAS, 2009). O problema nesse caso
não é tanto o de afirmar que o lazer é um fenômeno social especificamente
moderno, senão o de especificar em que medida exatamente ele o é. Entre
outras palavras, a questão principal parece ser a de definir o que se entende
por modernidade nesses casos ou em que acepção esse conceito está sendo
empregado.
No contexto histórico, as diferentes teorias e formas de manifestação do
lazer tiveram mudanças significativas e foram influenciadas pelo momento
social e político e pela cultura e pelo costume dos diferentes povos nas mais
diferentes épocas. Na Grécia Antiga, o ócio (skholé), como significado atrelado
ao lazer, era considerado uma importante atividade desfrutada pelos homens
livres, especialmente os filósofos. Como atividade que partia da alma (psique)
e tinha alguma finalidade, o lazer tinha o sentido oposto ao de ocupação
(ascholia). Para Aristóteles, lazer implicava paz, prosperidade e entendimento
do uso adequado dessa atividade (PINTO et al., 2008).
Na Roma Antiga, o termo latino otium (ócio) referia-se à possibilidade de
descanso, recreação, diversão, distração após negotium (negócios) – tempo
no qual os indivíduos conquistavam, organizavam ou construíam. O otium
não era considerado um tempo com um fim em si mesmo. Roma introduziu
a diversão para as massas, utilizando os espetáculos organizados nos dias de
festas como instrumento de manipulação. Para a classe dominante do “pão e
circo”, a diversão popular constituía meio eficaz de despolitização do povo,
reduzindo à condição de mero espectador (PINTO et al., 2008).
Observa-se que nos períodos descritos na Grécia e em Roma, em ambos
os momentos, o lazer era elitizado, sendo privilégio de poucos, ou utilizado
como uma forma de manipulação das massas, como um instrumento para
“alegrar” temporariamente o povo e, dessa forma, impedir que as massas
pudessem criticar ou questionar o regime político e social imposto na época.
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As lutas entre gladiadores, muito comum na Roma antiga, eram confrontos cruéis
e violentos e levavam os antigos romanos ao delírio. Serviam como uma forma de
opção de diversão/lazer do povo e, consequentemente, como um termômetro de sua
popularidade. No link a seguir você vai ter acesso a informações mais aprofundadas
desses torneios: https://super.abril.com.br/historia/gladiadores-os-que-vao-morrer/.

Na sociedade feudal, o lazer transformou-se em ociosidade, com sentidos


de fraqueza física e moral, vadiagem, pecado. É interessante observar que,
atualmente em nosso meio, ócio é um termo articulado ao sentido de lazer
com significado da opção pelo uso do tempo disponível em atividades de
contemplação.
No Brasil, especificamente, o lazer só passou a ter uma reflexão sistema-
tizada a partir da segunda metade do século XX, especialmente nas décadas
de 70 e 80, quando se destacam os seus conteúdos específicos, citados por
Marcellino (2000): interesses artísticos, físicos, intelectuais, manuais, turísticos
e sociais. Desse modo, o esporte e a atividade física são tidos apenas como
elementos contidos no lazer, embora as ações públicas apareçam geralmente
com um viés esportivo, desconsiderando os outros conteúdos (VIEIRA, 2011).
Embora diversos estudiosos e defensores do lazer “preguem” suas práticas
com atividades sem distinção de classe social ou poder econômico, é visível
em muitas situações que existem atividades de lazer que estão vinculadas
à necessidade de se ter um bom poder aquisitivo, ou seja, a capacidade de
“poder pagar para desfrutar”. Sabe-se que o lazer não se limita a atividades
pagas, mas existem diferentes atividades de lazer que geralmente são pagas.
Destacamos algumas a seguir.

 Eventos esportivos: jogos de destaque, de diferentes esportes, são uma


opção de lazer, como: jogos de futebol, vôlei, basquete entre outros.
Tivemos um exemplo no Brasil com a realização dos Jogos Olímpicos
e da Copa do Mundo, ambos eventos que limitavam seu acesso à ca-
pacidade de se comprar ingressos para as competições.
 Eventos culturais e musicais: atividades como teatro, shows, eventos
musicais, entre outros, em grande parte das vezes, são cobradas.
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 Atividades junto à natureza: a realização de esportes junto à natureza,


passeios em parques e outros ambientes naturais normalmente não é
“aberta”, em sua totalidade, para todo o público sem a cobrança de
ingressos.
 Clubes e associações: os clubes e as associações, por muito tempo,
foram uma das principais opções de lazer da população, mas o acesso a
esses locais geralmente está vinculado ao pagamento de mensalidades
ou taxas para a utilização dos espaços.

Esses são alguns exemplos de opções de lazer que estão limitadas à parcela
da população que tem condições financeiras para arcar com os custos dessas
atividades. Dessa forma, observa-se que, embora se busque o oferecimento de
atividades de lazer sem distinções de classes, é visível que o acesso a alguns
tipos de atividades se limita a quem realmente pode pagar para desfrutar.
Portanto, o lazer se manifesta de diferentes formas nas mais diferentes
fases históricas e sempre esteve diretamente ligado aos interesses políticos,
econômicos e sociais nas diferentes épocas. Além disso, observamos como
muitas das oportunidades de lazer estão sob uma lógica capitalista e privatista,
de modo que as políticas públicas se tornam ainda mais importantes, pois são
estratégias pelas quais é possível promover programas e atividades de lazer
públicos e de qualidade para que todos tenham acesso.

Políticas públicas voltadas ao lazer


São inúmeras as possibilidades de práticas de lazer no mundo moderno e, para
que o acesso seja realmente disponível a todas as classes sociais, é indispensável
o desenvolvimento de políticas públicas que estimulem e desenvolvam ações
para o acesso ao lazer público de qualidade para toda a população.
Observou-se no contexto histórico que o acesso ao lazer por muito tempo
foi extremamente elitizado ou manipulado como forma de agradar o povo e
desviar a atenção para a situação política e econômica do momento.
O Brasil é um país com uma grande extensão territorial e populacional,
onde temos a influência de povos de diferentes etnias que, direta ou indi-
retamente, trazem consigo costumes culturais que interferem diretamente
nas suas práticas e escolhas para o lazer. Ainda vivemos em um país onde a
distribuição de renda é bastante desigual e, dessa forma, o acesso às opções
de lazer nem sempre são democráticos, ficando os povos com menor poder
aquisitivo com restrições a muitas práticas possíveis.
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Dessa forma, é imprescindível que os governantes invistam em ofertar


práticas diversificadas de lazer à população de forma gratuita e com qualidade,
proporcionando, assim, o acesso a locais e a programas que ofereçam opções
de lazer para todos os gostos e classes sociais.
As políticas de lazer devem objetivar a retomada de práticas lúdicas e
culturais que vêm se perdendo com o passar do tempo, as quais se apresen-
tam impregnadas de significações e valores, tais como o reconhecimento da
identidade local, o respeito à vontade coletiva, a busca do bem-estar, dentre
outros (VIEIRA, 2011). Além disso, as políticas sociais, como vêm sendo
consideradas as políticas de lazer, têm como princípio a equidade, sejam quais
forem seus fins últimos. Dessa forma, as políticas públicas de lazer devem
oportunizar formas de participação ao maior número possível de indivíduos,
dentro de um público-alvo preestabelecido.
Observa-se em muitos locais do Brasil o investimento em “praças de
atividades físicas” e “parquinhos infantis”. Nesses locais, também são vistos
espaços conhecidos geralmente como academias para terceira idade (ATIs),
que são excelentes exemplos de atividade de convivência e lazer e vão muito
além de uma mera “academia pública”. Sua disposição em parques públicos
vai além de equipamentos que auxiliam a promoção da saúde por meio da
possibilidade de realização de exercícios físicos, proporcionam também um
ambiente de convivência social entre as famílias. Os “parquinhos” também
são ótimas opções de lazer público e favorecem o vínculo familiar, pois os pais
podem, juntamente com seus filhos, oportunizar momentos lúdicos de lazer.

O Serviço Social do Comércio (SESC) é uma entidade exemplo que promove diferentes
tipos de atividades voltadas ao lazer da população. No link a seguir, você vai conseguir
acessar o site do SESC, no qual vai poder conhecer alguns programas de lazer voltados
à comunidade, para ter de referência:

http://www.sesc.com.br/portal/lazer/projetos/.

No Brasil, entidades como o SESC e o Serviço Social da Indústria (SESI)


são grandes disseminadoras do lazer para todas as classes sociais. Promovem
atividades educativas, culturais, esportivas, recreativas, de promoção à saúde,
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entre outras. Veja como atividades promovidas por essas entidades e outras
similares destacam-se:

 Colônia de férias: essas atividades, muito populares nos Estados Unidos


da América e divulgadas em muitos filmes, são práticas extremamente
importantes e promovem interação, cooperação, criatividade, imagi-
nação e outros aspectos de crianças, adolescentes e famílias em geral.
 Competições esportivas: competições esportivas para amadores e
população em geral são ótimas formas de promoção de lazer. Propor-
cionam a integração por meio do esporte e da competição, em que o
foco principal não é o resultado esportivo, mas o prazer com a prática
e a integração das equipes.
 Eventos de práticas esportivas e lúdicas: corridas, caminhadas,
passeios ciclísticos, trilhas ecológicas, ruas de lazer, entre outros são
uma excelente forma de atividades de lazer público de qualidade que
promovem a integração das pessoas de forma cooperativa.
 Teatro/apresentações artísticas: eventos que promovem a leitura,
o gosto pela música e pelo teatro, o desenvolvimento de habilidades
artísticas, entre outros são excepcionais opções de lazer.

As colônias de férias são um excelente exemplo de atividades de lazer em que podem


ser trabalhados diferentes elementos, tais como:
 Atividades cooperativas, competitivas e integrativas.
 Brincadeiras diversas.
 Construção de brinquedos artesanais.
 Resgate de jogos populares.
 Atividades intelectuais (leituras, contação de histórias, teatro e música).
 Acampamentos: atividades que desenvolvam a autonomia, o autocontrole e o
trabalho em equipe.
 Outras atividades.

Um programa de destaque a nível federal e que pode ser considerado um


dos precursores para as práticas de esporte – participação – e de lazer é o
Programa Esporte para Todos (EPT), criado em meados da década de 1970,
que teve como objetivo desenvolver aspectos como saúde, civismo, lazer e
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adesão à pratica esportiva. A partir de 1998, o esporte passa a ser tratado em


suas três dimensões: esporte educacional, esporte participação e esporte de
rendimento (VIEIRA, 2011). Após esse período, programas de nível federal,
estadual e municipal dão uma atenção maior às práticas esportivas como
manifestação de lazer, e não somente voltada ao rendimento esportivo.
Referente às práticas esportivas voltadas ao lazer, Bacheladenski e Matiello
Júnior (2009) afirmam que o esporte, além de ser o principal conteúdo do lazer
dos brasileiros (tanto como demanda da população como oferta das políticas
públicas), é capaz de mobilizar interesses e ativar a participação. Porém, para
isso, seu ensino não deve – prioritariamente – estar voltado para a formação de
atletas ou para o desenvolvimento da aptidão física. Portanto, o esporte pode,
sim, ser uma grande ferramenta para a disseminação de ações voltadas ao lazer
da população em geral, mas não deve ser a única opção. Se faz necessário
por parte dos gestores públicos promover e disseminar diferentes formas de
práticas de lazer, para atender às diferentes classes sociais e aos interesses
pessoais e coletivos, tais como:

 Programas de promoção do esporte participação: por meio de projetos


que desenvolvam a iniciação esportiva sem o objetivo de rendimento e
também de torneios e festivais esportivos que têm o esporte como uma
ferramenta de integração e socialização da comunidade.
 Programas de promoção de práticas saudáveis de atividades físicas:
projetos de promoção da saúde e de práticas saudáveis de lazer por meio
do desenvolvimento de atividades físicas orientadas como: alongamento,
caminhadas, trilhas ecológicas, ginástica, dança e outras práticas físicas.
 Eventos de práticas físicas e promoção da saúde e do lazer: desen-
volvimento de gincanas, ruas de lazer, passeios ciclísticos, caminhadas
e corridas de rua, festivais de brincadeiras e jogos, eventos culturais e
esportivos, entre outros.
 Programas de incentivo à utilização de espaços públicos voltados
ao lazer: desenvolvimento de ações que estimulem a população para
a utilização de locais públicos (praças, parques, associações, ginásios
e outros ambientes públicos) para a convivência em grupo e o desen-
volvimento de práticas diversificadas de lazer.

Concluindo, observa-se que o lazer pode ser vislumbrado e desenvolvido


por meio de ações educativas e cooperativas, proporcionando na sociedade
reflexão, criticidade, criatividade, cooperação e condições essenciais para o
exercício da vida cotidiana. O lazer é algo cultural e muito “rico”, pode inte-
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grar pessoas de diferentes classes sociais e econômicas e igualá-las nas suas


práticas. Acredita-se que muito ainda possa ser melhorado quanto à oferta de
práticas de lazer públicas de melhor qualidade e diversificadas, assim como
meios de acesso a práticas que atualmente são pagas para populações menos
privilegiadas economicamente.
Precisamos também avançar em uma cultura em que se pense o lazer como
uma necessidade do ser humano, e não somente como um momento de descon-
tração, quando possível. A visão “consumista’ de grande parte da população
e a necessidade de estar sempre acompanhando os avanços tecnológicos e
mercadológicos levam muitas pessoas a estarem sempre “correndo atrás do
capital” para o consumo, ocupando seu tempo praticamente “somente” com
isso (muito próximo do período da Revolução Industrial, quando quase não
se tinha tempo para o lazer).
Dessa forma, precisamos evoluir culturalmente e educacionalmente e
considerarmos o lazer como uma necessidade e um direito de todos, para que,
assim, possamos desfrutar de diferentes atividades e estar em pleno equilí-
brio entre as atividades de trabalho, de descanso, com a família, espirituais,
intelectuais e de lazer.
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1. No campo do lazer, uma das a alternativa que apresenta os


referências é o sociólogo Joffre principais interesses para o lazer.
Dumazedier, que contribuiu por a) Interesse artístico, interesse
meio de seus estudos e suas intelectual, interesse esportivo,
teorias. Assinale a seguir qual interesse manual, interesse
alternativa contempla informações sociocultural e interesse turístico.
referentes a uma das teorias b) Interesse social, interesse
do lazer de Dumazedier. esportivo, interesse educacional,
a) Teoria do descanso, em que as interesse musical, interesse
atividades de lazer deveriam competitivo e interesse
ser realizadas no tempo de produtivo (rendimento).
descanso do indivíduo. c) Interesse artístico, interesse
b) Teoria da recreação, em intelectual, interesse do esporte
que as atividades de lazer de rendimento, interesse manual,
deveriam ter como referência interesse sociocultural, interesse
atividades lúdicas. turístico e interesse econômico.
c) Teoria da livre-escolha, em d) Interesses pessoais, interesses
que as atividades de lazer grupais, interesses comunitários
partiriam de livre-escolha do e interesses políticos.
indivíduo, de acordo com os seus e) Interesses políticos,
interesses para o momento. interesses comerciais,
d) Teoria do esporte recreativo, interesses educacionais,
em que as atividades de lazer interesses de produção e
teriam como base esportes interesses de rendimento.
voltados para a recreação. 3. Assinale a alternativa que
e) Teoria dos 3 Ds, em que pregava contempla o melhor conceito
que o lazer teria basicamente etimológico para a palavra lazer.
três funções: descanso, a) Lazer é uma palavra de origem
divertimento e desenvolvimento. etimológica romana que tem
2. O lazer é algo de difícil definição, o significado de recreação.
pois sofre influência direta das b) Não se tem a informação correta
mudanças da sociedade, culturais, da origem da palavra lazer,
filosóficas e comportamentais. mas todas teorias dizem que
Os mais diferentes autores que lazer é sinônimo de esporte.
estudam o lazer no contexto c) Tem origem etimológica do
social concordam que as escolhas latim, do termo licere, que
para as opções de lazer estão significa “ser permitido”.
diretamente relacionadas aos d) Terminologia criada por
“interesses” do ser humano. Assinale Dumazedier, significando
jogo e brinquedo.
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e) Etimologicamente tem origem direito ao tempo para o


na Suécia, que significava “ócio” lazer, influenciando de forma
ou tempo livre, de folga. significativa as práticas atuais.
4. O lazer teve suas manifestações em d) A Idade Média, quando essas
diferentes períodos históricos do práticas foram implantadas
mundo. Qual das fases históricas pelos imperadores da época
pode ser considerada a mais como atividades voltadas
significativa para o desenvolvimento à população em geral e
geral do lazer e suas práticas? refletem até a atualidade.
a) A pré-história, pois nesse período e) A Idade Contemporânea, por
o homem pré-histórico tinha meio das práticas esportivas
o lazer como uma opção de diversificadas e principalmente
integração entre os grupos e isso da ascensão do futebol.
influenciou de forma significativa 5. O lazer foi influenciado por
as práticas de lazer atuais. diferentes estudiosos por meio
b) A Idade Antiga, pois, após o de suas teorias e conceitos
declínio dos jogos gregos, as sobre o tema. Assinale a seguir
práticas de lazer ganharam força o autor de maior referência para
e eram realizadas pelos povos o Brasil, no campo do lazer.
com menor poder aquisitivo. a) Piaget.
c) O período da Revolução b) Requixa.
Industrial, em que os c) Diekert.
trabalhadores começaram d) Marcellino.
a questionar as grandes e) Galahue.
jornadas de trabalho e o
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BACHELADENSKI, M. S.; MATIELLO JÚNIOR, E. (Re) significações do lazer em sua relação


com a saúde em comunidade de Irati/PR. In: BRASIL. Ministério do Esporte. Prêmio
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DIAS, C. A. G. Teorias do Lazer e modernidade: problemas e definições. Licere, v. 12, n. 2, p.
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DIECKERT, J. Esporte de lazer: tarefa e chance para todos. Rio de Janeiro: Ao Livro Téc-
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DUMAZEDIER, J. Lazer e cultura popular: debates. São Paulo: Perspectiva, 1976.
GAELZER, L. Lazer: benção ou maldição?. Porto Alegre: Sulina, 1979.
MARCELLINO, N. C. Estudos do lazer: uma introdução. 2. ed. Campinas: Autores Asso-
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Disponível em: <www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?down=000325119>.
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VIEIRA, L. H. S. Estudos sobre a gestão do programa esporte e lazer da cidade. Brasília, DF:
Gráfica e Editora Ideal, 2011.

Leituras recomendadas
DACOSTA, L. P. Educação física e esportes não-formais. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1988.
HUIZINGA, J. Homo Ludens: jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva, 1980.
MARCUSE, H. La agressividade em la sociedad industrial avanzada. Madrid: Alianza Edi-
torial, 1971.
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
Conteúdo:

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