Assistência Técnica e Extensão Rural: Construindo o Conhecimento Agroecológico

Presidência da República Luis Inácio Lula da Silva Governo do Estado do Amazonas Carlos Eduardo de Sousa Braga Ministério do Desenvolvimento Agrário Miguel Soldatelli Rossetto Secretaria da Agricultura Familiar do MDA Valter Biachini Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA Argileu Martins da Silva Coordenação Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA Francisco Roberto Caporal Secretaria de Produção Rural José Maia Instituto de Desenvolvimento Agropecuário Edimar Vizolli Projeto Desenvolvimento Local Sustentável do Amazonas Antônio Jandir Contente Morais Agência de Agronegócios Raimundo Valdelino Cavalcante Universidade Federal Rural de Pernambuco Valmar Correia de Andrade Departamento de Educação da UFRPE Paulo de Jesus .

Presidência da República Governo do Estado da Amazonas Ministério do Desenvolvimento Agrário Secretaria de Agricultura Familiar Secretaria de Estado de Produção Rural Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas Assistência Técnica e Extensão Rural: Construindo o Conhecimento Agroecológico Organização: Jorge Tavares Ladjane Ramos Manaus • 2006 .

001. Agroecologia. Distrito Industrial.C.6926 • Email: gtzidam@uol.br Catalogação na Fonte I 18 a IDAM. I. CEP 69.attema. RAMOS.588. GTZ..com. 2.075-000 Telefone/FAX: (0.CDU 631.3613. Extensão Rural. Assistência técnica e extensão rural: construindo o conhecimento agroecológico/por Jorge Roberto Tavares e Ladjane Ramos.com. Ladjane.www. II. AM. III. Desenvolvimento Rural Sustentado. Jorge Roberto. Buriti. TAVARES. Marigo Dania Lolah Projeto gráfico e capa Áttema Design Editorial .9+63. – Manaus: 2006. 128 p. Manaus.92). 3.8(042) Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas – IDAM Av.Coordenação Editorial Antônio Jandir Contente Morais Ladjane Ramos Organização: Jorge Roberto Tavares Ladjane Ramos Revisão Peta Teixeira Fotos Arquivo ProVárzea/L. 1850.br .1.

... ... . .. . .Sumário Apresentação . .. ... . .. .. uma perspectiva plural Jorge Roberto Tavares de Lima .. .... .. .... . ... 7 Política Nacional de Ater: Primeiros passos de sua implementação e alguns obstáculos e desafios a serem enfrentados .. .... . .. . . .... .. 81 Jymmy Peixe Mc Intyre Cooperativismo e desenvolvimento local Maria Luiza Lins e Silova Pires ... . . .. . .. ... .. . .. . .. .. ... .. .... . .... .. .... . . . . ... .. . .. .. . . . ...... . .... . . .. 103 Da contradição do sujeito na extensão rural .. ..... .. . . . . . . . . . .... ...... . ... .... 53 Angelo Brás Fernandes Callou A metodologia científica e o quotidiano da extensão rural: Algumas relações .... .. .. ...... .... .. . ... ... . 9 Francisco Roberto Caporal Desenvolvimento local e territorialidade Guilherme Soares .... . . .. .. . . 67 Paulo de Jesus O grande desafio da educação empreendedora cooperativa . . ... ... .... . ..... . . .. .. . 117 Ladjane de Fátima Ramos .. .. .. ..... ...... 93 Ana Maria Dubeaux Gervais Desenvolvimentos.. ... ..... .. 85 Região amazônica e economia solidária: Uma perspectiva de desenvolvimento integrado sustentável . .. . . . .. . . .. . . .. .. . ... . .. .. .... . .... .. .... .... ... . . . ... .. . . . .. 35 Estratégias de comunicação em contextos populares: Implicações contemporâneas no desenvolvimento local sustentável .

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Reconhecendo a importância do movimento a partir da mobilização gerada pela implementação da PNATER e acreditando na constru7 . economicamente viável e culturalmente adaptada. como resposta às necessidades do agricultor familiar. de difusão de tecnologia. Na mesma esteira. é que chegamos ao século XXI com uma indefinição do papel do extensionista. Com a crise econômica. Neste aspecto o papel do extensionista sempre esteve atrelado aos modelos de desenvolvimento e interesses vigentes em cada uma dessas etapas. de reforma agrária e da agricultura familiar. que avançou no processo de democratização e na busca de eqüidade social. política e ambiental do modelo da revolução verde. e mais uma vez interroga o papel do extensionista e preconiza o fortalecimento de processos participativos e a construção de relações dialéticas entre os atores sociais. Decorrente disso. de combate a pobreza. de forma ambientalmente sustentável. perfeitamente adaptado ao processo de modernização da agricultura já não atendem às exigências do meio rural. conseqüentemente o papel e intervenção dos técnicos da Ater também sofreram os ventos desta mudança. estabeleceram-se formas objetivas de apoio à transição Agroecológica na Agricultura familiar. o insucesso do estado desenvolvimentista na década de 80 e o avanço do neoliberalismo nos anos 90. Em meados de 2003 surge a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER). em favor do fortalecimento e da integração de todos os programas de inclusão social. o modelo institucional e técnico da extensão entrou em crise.Apresentação A história da extensão rural no Brasil passou por várias crises desde o seu surgimento até os dias atuais. Com essa visão. proporcionou o estabelecimento de uma relação forte com a sociedade civil. estimulando a produção de alimentos sadios. Os métodos antes apreendidos.

Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural. Além desses. pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha (BMZ). que executa. inclusive no Brasil. em parceria com entidades governamentais e não governamentais e cujo conteúdo está intimamente relacionado ao esforço de capacitação do Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável. que o Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável -DLS-AM (Sepror/GTZ/IDAM) em parceria com a Secretaria da Agricultura Familiar (SAF/MDA) e Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco tomou a iniciativa de realizar o Curso de “Metodologia em Extensão Rural.ção de processos democráticos pela equidade e pela inclusão social não só das populações rurais. Coordenador Geral de Ater (Dater/SAF/MDA). Programas de Cooperação Técnica em diferentes países. foi incluído um artigo de Francisco Roberto Caporal. com enfoque Agroecológico”. mas dos extensionistas envolvidos. Os textos reunidos nesta publicação resumem as apresentações feitas pelos professores e pesquisadores durante o curso. Presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas Diretor do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural Edimar Vizolli Argileu Martins da Silva Universidade Federal Rural de Pernambuco Paulo de Jesus 8 . que trata sobre a implementação da nova Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural que vem sendo realizada pelo Dater . O projeto de Desenvolvimento Local Sustentável (DLS-AM) é executado pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas (IDAM) e pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ).

seguindo as orientações desta Política. O objetivo deste artigo é registrar alguns passos deste processo e identificar alguns 1 O autor é Engenheiro Agrônomo.739. como estabelece o Decreto Nº 4. Este processo. promovendo um amplo processo de consulta. no Dater/SAF/MDA. Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural . 14 de agosto de 2005. Extensionista Rural da EMATER/RS. de 13 de junho daquele ano. democrático e participativo que envolveu mais de 100 entidades e mais de 500 pessoas. o Ministério do Desenvolvimento Agrário .caporal@mda. através do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural – Dater. de movimentos sociais e de prestadoras de serviços de Ater governamentais e não governamentais.Pnater. a SAF . 2004). Desde finais de 2003.br Brasília. encontros e seminários envolvendo representações dos agricultores familiares. Espanha. 9 . a partir de audiências. levou à construção de alguns consensos e a um conjunto de acordos e redundou no documento que sintetiza a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (MDA. Mestre em Extensão Rural pelo CPGER da UFSM e Doutor em Agronomia pela Universidade de Córdoba. Email: francisco. vem implementando esta nova proposta.MDA passou a ser responsável pelas atividades de Assistência Técnica e Extensão Rural – Ater. Atualmente desempenha a função de Coordenador Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural.Política Nacional de Ater: primeiros passos de sua implementação e alguns obstáculos e desafios a serem enfrentados Francisco Roberto Caporal1 Introdução Em 2003. Por delegação da Secretaria da Agricultura Familiar – SAF um grupo de técnicos coordenou a elaboração da nova Política .gov.

numa perspectiva de desenvolvimento rural sustentável. basta citar aqui apenas três desses Princípios. a partir de um enfoque dialético. um novo perfil de Assistência Técnica e Extensão Rural – Ater. com ênfase em processos de desenvolvimento endógeno”. centrado na expansão e fortalecimento da agricultura familiar e das suas organizações. integradas às dinâmicas locais. capaz de contribuir para o fortalecimento da agricultura familiar. As bases teóricas da nova Pnater: sobre alguns princípios norteadores A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural estabelece que a Missão da Ater deve ser “Participar na promoção e animação de processos capazes de contribuir para a construção e execução de estratégias de desenvolvimento rural sustentável. humanista e construtivista. visando a formação de competências.desafios que ainda precisam ser enfrentados para que o Brasil possa vir a ter. visando a “potencialização do uso sustentável dos recursos naturais”. que potencializem os objeti10 . como segue: “Contribuir para a promoção do desenvolvimento rural sustentável. “Desenvolver processos educativos permanentes e continuados. buscando viabilizar as condições para o exercício da cidadania e a melhoria da qualidade de vida da sociedade” (MDA. “Adotar uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar. por meio de metodologias educativas e participativas. Para ser mais precisa a orientação e a implementação desta Missão. 2004). a Pnater estabelece e se baseia em 5 (cinco) Princípios. mudanças de atitudes e procedimentos dos atores sociais. de fato. que pretendem ser a síntese daquilo que é indispensável para se ter uma nova Ater. estimulando a adoção de novos enfoques metodológicos participativos e de um paradigma tecnológico baseado nos princípios da Agroecologia”. Dados os objetivos deste texto.

Logo. Estes novos saberes. 11 . que marcaram a história da extensão rural convencional. (FREIRE. culturais e econômicas de uma sociedade. metodologias participativas que ajudem a democratizar a relação entre extensionistas e agricultores. econômica. Estas formas de intervenção devem favorecer o estabelecimento de plataformas de negociação entre técnicos e agricultores que permitam a construção de saberes novos e mais compatíveis com a vida real das populações envolvidas. cultural e política. em perfeita sintonia com o seu entorno ambiental e com seus exclusivos valores éticos (ESTEVA. segundo o modelo clássico e a lógica linear do princípio de “estender” da fonte ao receptor. poderiam ser aqueles conhecimentos sobre a realidade social. deverão ser adotadas metodologias que possam contribuir para o “empoderamento” dos atores sociais.vos de melhoria da qualidade de vida e de promoção do desenvolvimento rural sustentável”. ela deve deixar de ser usada na perspectiva da “persuasão”. da “educação bancária”. significaria a realização de potencialidades sociais. Ao contrário dos métodos que geram dependência e alienação. 1983). Esta nova visão. ao contrário da visão cartesiana e tecnicista que orientou as décadas do desenvolvimentismo. da pseudo superioridade do conhecimento científico sobre o saber popular. necessariamente. Por isto mesmo. técnicos disponibilizam seus conhecimentos e não simplesmente os difundem. onde agricultores e técnicos buscam o “desenvolvimento”2. da “alienação”. 1982. na nova Ater. 2004) Como é possível observar. 1996). 1995) não perde sua vigência. ambiental. supõe a quebra da 2 Entendemos que o desenvolvimento. Deve-se adotar. (MDA. não obstante. para dar lugar a novas formas e novos conteúdos desta intervenção. em sua formulação teórica mais ampla. A teoria da Difusão de Inovações (ROGERS. o estabelecimento desta Missão e destes Princípios supõe uma mudança de rumos com respeito às práticas difusionistas. 1969. na prática cotidiana. a nova Ater exige uma visão holística e o estabelecimento de estratégias sistêmicas e não apenas métodos apropriados para uma difusão unilinear e unidirecional de tecnologias. próprios do difusionismo.

como ocorreu nas décadas do desenvolvimentismo. Por isto mesmo. Do ponto de vista tecnológico. para o desenho de agroecossistemas sustentáveis e para o estabelecimento de estratégias de desenvolvimento rural sustentável. à expulsão de massas da população rural. de iniqüidade. Esta “visão de mundo” deve levar à formulação de novos processos sócio-econômicos. que sejam produtivos mas que não percam de vista as dimensões sociais e ambientais do desenvolvimento sustentável. centradas nos pacotes tecnológicos da Revolução Verde. a Pnater estabelece a necessidade de adoção dos princípios da Agroecologia e suas bases epistemológicas. de violência. que devem ser considerados válidos e necessários para a construção de conhecimentos mais complexos. num verdadeiro processo de geração de pobreza. Os esquemas “modernizadores” da agricultura. a Pnater também supõe a necessidade de mudanças. Os ideais de sustentabilidade e a segurança das condições de vida das futuras gerações. sequer são adequados do ponto de vista da manutenção da base de recursos naturais que as futuras gerações vão necessitar para que possam assegurar condições dignas de vida. 12 . pois. não são adequados para o estabelecimento de estilos de agricultura e de desenvolvimento sustentável que são desejados pela sociedade e que passaram a ser um imperativo deste século. pois parte do princípio de que o padrão tecnológico e as formas de manejo dos agroecossistemas que foram instituídos e modelados no escopo das estratégias de “modernização”. requer a implementação de uma extensão rural agroecológica ou ecossocial3. que sejam opostas àquelas que foram implementadas ao longo do século passado. mediados pela realidade. poderia ser dito que o enfoque metodológico e tecnológico que está proposto na Pnater. de subdesenvolvimento. da necessidade do estabelecimento de uma nova ética sócio-ambiental. Definimos a Extensão Rural Agroecológica como um processo de intervenção de cará3 Ver CAPORAL (1988) e SÁNCHEZ DE PUERTA (2004). De certa forma. não são compatíveis com modelos que levam à exclusão social. Trata-se.hierarquia de saberes e o respeito aos conhecimentos dos agricultores.

que permitam o desenvolvimento de uma prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a construção e sistematização de conhecimentos que os leve a incidir conscientemente sobre a realidade. mas que se baseiem em metodologias participativas. pois ela está centrada “em enfoques reducionistas e cartesianos. adotando os princípios teóricos da Agroecologia como critério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo. (CAPORAL. por conseguinte. É necessário superar a visão tradicional da ciência. 13 . que veremos adiante. 2001). reduzindo a complexidade e perdendo-se. O que ocorre é que o modelo convencional de extensão rural. não difusionistas. isto é. assim como o desenvolvimento de tecnologias. é necessário o estabelecimento de processos que estejam orientados por estratégias não convencionais. a possibilidade de entender as relações e interações (especialmente as ecológicas) que ocorrem num agroecossistema manejado pelo homem. Tal concepção permite estudar e tratar de forma isolada cada parte do problema. baseado em metodologias de investigação-ação participante. com o objeto de alcançar um modelo de desenvolvimento socialmente eqüitativo e ambientalmente sustentável. 1998) Algumas bases epistemológicas que orientam a nova Ater Para atender os requisitos antes enunciados e as ações prioritárias do Dater. que assegurem a apropriação de conhecimentos por parte dos beneficiários. de pesquisa e de ensino. pois este não é adequado para apoiar estratégias de transição Agroecológica. nos quais a ênfase é colocada sobre as relações de causa e efeito que surgem quando dois fatores se influenciam entre si” (VIGLIZZO.ter educativo e transformador. Portanto. será necessário romper com o modelo cartesiano tanto da extensão rural como da pesquisa e do ensino. com participação social.

“o paradigma dispõe de um princípio de exclusão. Assim mesmo. plantas e animais. ou seja. pois o redesenho de agroecossistemas e o estabelecimento de agriculturas sustentáveis. de entender não só a diversidade. ao invés de simplificá-los. em geral.. mas também os problemas que não reconhece. é algo que exige um enfoque sistêmico e uma visão holística. Isto ocorre 14 . introduzindo biodiversidade e manejando as relações entre solos.. isto se manifesta pela necessidade de complexificar os sistemas agrícolas. o que se observa é a reprodução do modelo cartesiano o que não se coaduna com a nova Pnater. Ademais. o que requer uma substituição tecnológica . trata-se. que visam à inclusão social. não se pode trabalhar com base num paradigma de redução. quando a meta é buscar mais sustentabilidade no processo produtivo agrícola. enunciados e idéias divergentes. “as agriculturas sustentáveis têm um forte componente de tecnologias de processo. um paradigma de simplificação (disjunção ou redução) não pode reconhecer a existência do problema da complexidade”. quando se trata de buscar estratégias de desenvolvimento rural sustentável. como lembra Morin (1998 p. Não obstante. na prática cotidiana de agentes de extensão rural. Assim. como no modelo da Revolução Verde. pioram o problema. mas as relações entre os indivíduos e entre eles e o meio ambiente. o fortalecimento da agricultura familiar e novos desenhos de agroecossistemas sustentáveis.” de insumos por conhecimentos ricos em informações e menos agressivos ao meio ambiente. também. assim como as estratégias de resistência da agricultura familiar e as lógicas orientadoras dos processos decisórios que ocorrem nas unidades familiares de produção. com inclusão social. é necessário lidar com a complexidade dos processos de desenvolvimento. de professores e de pesquisadores. Na agricultura. estas questões aparecem. Estes. Como diz Viglizzo (2001). cada vez mais nos discursos. 272-3). exclui não apenas os dados.situam-se no campo desse paradigma cartesiano e. Portanto. é necessário partir-se do entendimento de que a insustentabilidade dos nossos sistemas agrícolas convencionais não se resolve apenas com insumos comprados no mercado.

pois o paradigma “se manifesta constantemente e encarna no que gera” (MORIN. e cada vez mais.4 Do mesmo modo. baseadas no enfoque da economia neo-clássica não dão conta de novas abordagens. Como é sabido. evoca um estado de consciência: tudo tem que ser ecologizado. Por isto. P. somente se mantêm funcionando porque extraem energia do seu entorno. A. requer outra relação entre Agronomia e Ecologia e outro entendimento a respeito de resultados econômicos. embora invisível. pois a construção de agriculturas sustentáveis. pesquisa e ensino. a busca do desenvolvimento rural sustentável exige o rompimento com o paradigma dominante. ou Lei da Entropia. 1988). durabilidade no tempo e produtividade do agroecossistema como um todo (ou da unidade familiar de produção) e não de um cultivo em particular. embora não apareça explícito nos projetos e nas atividades convencionais de Ater. As análises convencionais sobre ganhos de produtividade e resultados econômicos. resiliência. como propõe a Pnater. da degradação dos seus entorno. não coaduna com ideais e sustentabilidade.porque as ações continuam subordinadas ao paradigma convencional que. que como se disse antes. Assim. pois dependem. Ou seja. (1999) “A ecologia da ação nos ajuda a entender que a consciência ecológica não se limita apenas às relações homem/natureza. 15 . jamais serão sustentáveis. mas se desdobra em nossas relações com o próprio universo interior. sempre. os sistemas convencionais baseados na busca de maiores produtividades físicas de monoculturas. que mostra os sistemas dinâmicos funcionando na natureza em condições de baixo equilíbrio termodinâmico. requerem um permanente subsídio 4 Segundo PENA-VEJA. Isto está explicado pela Segunda Lei da Termodinâmica. até mesmo as idéias”. . Eles têm alto potencial entrópico. onde dispõe de um lugar invisível” (MORIN. é o organizador invisível do núcleo organizacional visível da teoria. estes expressam a natureza virtual do paradigma que os orienta. atua “na ordem inconsciente e na ordem supraconsciente. inclusão social e fortalecimento da agricultura familiar. STROH. 1999). há que se fugir das armadilhas do modelo produtivista convencional. O enfoque holístico requer que se avaliem os resultados em termos de estabilidade.

6 16 . que trate de estabelecer uma nova e qualificada aproximação entre Agronomia e Ecologia. desenhado a partir de uma visão utilitarista do meio ambiente. Algumas ações do Dater para implementação da Pnater Este não é o lugar para elencar o conjunto de ações do Dater para implementação da Pnater. (2002) NORGAARD. R.B. y WOODGATE. com fortalecimento da agricultura familiar. 5 O paradigma ecossocial se enquadra na idéia do pensamento complexo e nos recomenda. NORGAARD. um marco tecnológico baseado em outro paradigma. projetos inovadores. trata-se. Ver.energético para alcançarem os patamares de produtividade desejados. buscando juntar diferentes ciências que tenham incidências interdisciplinares sobre os objetos a que debruça o cientista. devem basear-se num paradigma ecossocial5. Assim. R. G. Por estas e outras razões de natureza científica. entre outras coisas. que leve ao manejo integrado de sistemas complexos. ao invés de buscar sempre maior simplificação. B. como ocorre na agricultura convencional. por exemplo: SEVILLA GUZMÁN. pois aquela não permite resolver os problemas sócioambientais. com inclusão social. portanto. uma vez que se baseia no modelo de altos insumos – altas respostas. que se deve incursionar por disciplinas circunstancialmente afastadas. buscando alicerçar-se nos princípios e bases epistemológicas da Agroecologia6. de complexificar os sistemas. portanto. pode contribuir. com produção de alimentos sadios e com preservação ambiental. A construção de agriculturas sustentáveis requer. Repetimos. ao longo dos dois anos de sua existência. Isto exige técnicas e formas de manejo que se articulem entre si. como matriz científica transdisciplinar. serão aqueles que não seguem a lógica da Revolução Verde. sem preocupação ecológica. gerando degradação ambiental. E. (1989). A Agroecologia. em seu desenho e em seu funcionamento. aos ecossistemas naturais onde estão inseridos. a ciência e a tecnologia necessárias para o desenvolvimento rural sustentável. respeitando princípios ecológicos básicos e gerando sistemas de produção que se assemelhem. para este novo enfoque. (2002). decisivamente.

a Conferência Nacional de Ater.org. Por enquanto. cabe salientar que.721. com representação de quase todos os estados. b) incorporar as dimensões de gênero. em Brasília. no térreo do Palácio do Planalto. entre outros. A chamada para Seleção de Projetos de Capacitação de Agricultores Familiares e Técnicos. Assim. foi realizada. realizadas no final de 2004. Ainda que alguns destes aspectos venham a aparecer mais adiante. em 2004. raça e etnia como temas transversais e na concepção de materiais didáticos. geração. nos âmbitos macro e microrregional. Em paralelo. A exposição que teve duração de duas semanas.pronaf.91. quando forem colocados os desafios para a nova Ater. àqueles aspectos que visam fortalecer a transição da extensão rural convencional em direção ao cumprimento dos Princípios e da Missão antes enunciados.br). Neste sentido. econômicas e ambientais da região. O processo de implementação da Política também veio acompanhado do estabelecimento de parcerias com entidades de Ater e entidades envolvidas em atividades de capacitação de agricultores familiares8. c) estimular processos educativos e relações de co-responsabilidade entre os agricultores familiares. visando recolocar a Extensão Rural na pauta da política nacional. simplesmente. contou com a colaboração e ativa participação de organizações de Ater governamentais e não governamentais de vários estados brasileiros7. no valor de R$ 9. somente para deixar registrado.Devido à natureza deste artigo. não serão tratados os esforços realizados e que redundaram num significativo aumento do orçamento para apoio federal aos serviços de Ater no país. em novembro. efetivada em 2004. 17 . o Dater organizou uma exposição sobre a História da Extensão Rural no Brasil (disponível na página www. parece necessário restringir esta breve incursão.190. definiu três diretrizes orientadoras para a apresentação de propostas pelas instituições: a) partir de um processo de planejamento e gestão das ações de capacitação/formação realizados de forma compartilhada com os atores sociais comprometidos com o desenvolvimento rural sustentável. a SAF/Dater execu7 8 Por ocasião da abertura da exposição Ministro Miguel Rossetto fez o lançamento oficial da Política Nacional de Ater. Para atender estes objetivos a SAF/Dater firmou 59 Contratos. com efetivo comprometimento destas e de seus técnicos. caberia informar duas ações importantes. Sequer seria adequado abordar as ações destinadas a ampliar o espectro e fortalecer as relações do MDA/SAF/Dater com entidades executoras de serviços de Ater. suas organizações e as instituições prestadoras de serviços. e. sociais. contemplando ainda as características culturais.

Para levar adiante o processo de implementação da Pnater. Para esta decisão. foram estabelecidas algumas linhas estratégicas capazes de contribuir para a aceleração e qualificação do processo. as instituições estaduais de Ater ampliaram as condições de infraestrutura. decisivamente. Cabe ressaltar que.12 % do orçamento destinado ao Fomento de Atividades e Ater e Capacitação – PRONAF Além de ações diretas. Com isto a SAF/Dater contribuiu.1 milhões. foram alguns dos estados que se beneficiaram desta estratégia. Observe-se que o 9 Como uma estratégia de resposta positiva do Governo Federal destinada a fortalecer as entidades estaduais de Ater. quando o Dater promoveu seminários em todos os estados da federação. entre 2002 e 2004. Além de divulgar a Política estes seminários destinaram-se. Dele resultou a formação de algumas redes ou o fortalecimento de redes já existentes. direta ou indiretamente. foram firma. sempre e quando os governos dos estados tomarem iniciativas neste sentido. no valor de R$ 42. Isto foi feito.400 novos profissionais. em 2004. Paraíba e Rio Grande do Norte.300 veículos. também. o primeiro passo seria dar ampla divulgação dos principais enfoques da Política. alguns estados já elaboraram seus Planos Estaduais. as entidades estaduais de Ater contrataram mais de 2. Minas Gerais.300 computadores e mais de 1. sendo que boa parte contou com apoio da SAF/ Dater. 18 . através dos Convênios antes citados. partiu-se do entendimento de que para levar à prática a nova Política de Ater. com a aquisição de mais de 2. Espírito Santo. a propor aos atores institucionais de Ater em cada estado a elaboração de um Plano Estadual de Ater que pudesse buscar a sinergia e a cooperação entre as ações das diferentes entidades. Do mesmo modo. houve maciça participação neste processo. para que a abrangência dos serviços de Ater pudesse chegar. enquanto outros estão com esta ação em andamento.tou 96. ao longo do primeiro semestre de 2004. em 2004. O eixo principal desta estratégia está centrado no campo do conhecimento. Cabe destacar que. de modo que se abrisse um caminho para a formação de futuras redes de serviços de Ater nos estados. o Dater vem ampliando o apoio técnico-financeiro às organizações estaduais. a um total aproximado de 1. dos 101 Convênios com entidades de Ater nos 27 estados da Federação.6 milhões de unidades familiares de produção9. Embora com diferenças.

Isto visava. Dada a avaliação positiva desta ação. que deverão ser realizados de agosto a novembro. também. por decisão do Grupo de Trabalho de Formação do Comitê Nacional de Ater. em 2005. o Dater implementou duas ações com caráter de Projeto Piloto. a oferta de bolsas para que estes jovens recém formados passem a atuar junto a entidades de Ater. 10 técnicos por estado. foram estabelecidos acordos com Universidades para a realização de 4 cursos de Especialização em “Extensão Rural para o Desenvolvimento Sustentável”. com a oferta de 35 vagas por curso. em média. não estabelecendo obrigatoriedade nem prazos. já haverá uma importante quantidade de técnicos apropriados dos conceitos básicos que devem orientar as atividades da extensão rural brasileira. em todos os estados. foi a realização de Oficinas de Nivelamento Conceitual. num total de dez instituições de ensino. Assim mesmo. inclusive as ajudas de custo para os estudantes e 19 . com a participação de mais de 270 Agentes de Ater vinculados a organizações governamentais e não governamentais e que pudessem ser multiplicadores destas bases conceituais em suas entidades e em seu entorno de trabalho. com bolsas para estágios de fim de curso e.Dater adotou como princípio. Destes cursos. para avaliar a possibilidade de viabilizar outras estratégias. 8 oficinas envolvendo. o Dater. no mínimo. em 2006. contribuir para que estes técnicos passassem a atuar mediante a adoção das bases conceituais da nova Ater. visando a qualificação de 200 estudantes. simplesmente passando a apoiar financeiramente a realização de centenas de eventos regionalizados e/ou estaduais que passaram a acontecer. Foram realizadas. o respeito às dinâmicas estaduais. A primeira delas foi a realização de convênios com escolas agrotécnicas e universidades. 5. Os cursos são totalmente financiados pelo Dater. com a participação de. posteriormente. Neste mesmo sentido. Isto assegurará que.400 Agentes de Ater de todos os estados do país. decidiu pela realização. três estão em fase de execução. de mais de 135 encontros de nivelamento sobre a Política Nacional de Ater. Outra ação concretizada em 2004. com garantia de bolsa por dois anos. em 2004.

produção. de forma adequada. assim.10 Na linha da formação de agentes. Belém (PA) e São Luis (MA). no valor de R$ 1. realizou um curso de 40 horas para Agentes de Ater que atuam em Saúde no Meio Rural.têm por objetivo formar profissionais capazes de influir em suas entidades e contribuir para a ampliação de processos de capacitação de técnicos nos estados.200. 270 escolas. inaugurando. atendendo uma demanda específica de um campo de trabalho da extensão que vem crescendo nos últimos anos e que está relacionado com outras políticas públicas. Participaram destes cursos cerca de 200 Agentes de extensão. o Dater promoveu. com cerca de 40 profissionais em cada curso. também. através de convênio com a UNEFAB (que envolve a ARCAFAR).000. aproximadamente. 20 .CFRs). a SAF/Dater apoiou dezenas de cursos de 10 Pesquisas têm mostrado que alunos de escolas que adotam a Pedagogia da Alternância tendem a permanecer em suas comunidades/propriedades. como Miguel Altieri. No total serão beneficiadas. em 2004. extrativistas. que exigem uma ação de extensão e assistência técnica que respeite estas diferenças e as características de suas atividades produtivas. Esta é uma das razões pelas quais a SAF/Dater apoiou. quilombolas. pescadores artesanais. as atividades destas escolas (Escolas Família Agrícola . com destaque para cursos ministrados por especialistas internacionais. cursos de curta duração para Agentes de Ater que trabalham com indígenas. No primeiro semestre deste ano. Além da realização direta. o Dater promoveu vários cursos de Agroecologia. no ano de 2004 e início de 2005. o Dater realizou dois cursos para Agentes de Ater que atuam no resgate de conhecimentos. uso e comercialização de Plantas Medicinais. Ao longo dos dois anos de implementação da Pnater. as especificidades sócioculturais de públicos diferenciados. Do mesmo modo. Clara Nicholls (Universidade de Berkeley – USA).EFAs e Casas Familiar Rural . uma forma de contribuir para que as ações das entidades de Ater contemplem. Carlos Guadarrama e Laura Trujillo (Universidade de Chapingo – México).00. Com a colaboração destes professores foram realizados dois cursos em Itabuna (BA) com a participação de mais de 120 profissionais.

agricultores. em novembro de 2004. como encontros. e para a realização de diversos eventos entre os quais alguns seminários para a discussão dos currículos das ciências agrárias. que está bastante enfatizado como eixo da Política Nacional de Ater. cabe destacar a realização. criando a oportunidade para que centenas de interessados assistissem as intervenções de dois especialistas em Agroecologia vindos da Universidade de Córdoba. Ainda como parte deste processo de socialização o Dater promoveu. em diferentes estados. uma vídeo-conferência. o Dater vem coordenando o “Concurso Nacional de Sistematização de Experiências em Agroecologia”. seminários e congressos de Agroecologia. Cabe destacar. enquanto que o material recolhido será 21 . investindo recursos técnicos. da I Semana de Agroecologia do Estado do Maranhão. cujos 50 melhores trabalhos serão apoiados financeiramente visando ao seu fortalecimento. transmitida diretamente do auditório da Sede da Embrapa. Espanha e outros dois vindos das Universidades de La Plata e Buenos Aires. cerca de R$ 40 milhões para ações de capacitação de técnicos e agricultores(a). que reuniu mais de 3. para todas as unidades descentralizadas daquela instituição. disponibilização de conhecimentos e tecnologias. Outra iniciativa importante foi a elaboração pela SAF do Programa de Apoio à Agricultura de Base Ecológica nas Unidades Familiares de Produção. fóruns. em 2005. que embora tenha tido uma participação menor. Dentro deste Programa. em abril de 2005. apelidado de Programa de Agroecologia.500 participantes. Argentina. realizado em Porto Alegre em novembro de 2004. constitui-se num marco das ações articuladas de instituições e técnicos daquele estado para a atuação na perspectiva da transição agroecológica. Do mesmo modo. materiais e financeiros com vistas a acelerar o processo de socialização de conhecimentos neste novo campo de estudos. além de outras tantas atividades. estudantes e outros interessados.Agroecologia. além de dezenas de eventos. Destes eventos participaram milhares de técnicos. o apoio decisivo dado pelo MDA à realização do II Congresso Brasileiro de Agroecologia. Através deste Programa a SAF/Dater aportarão.

foi aberto outro Edital. a EMBRABA. mas também é necessário que os Agentes incorporem novos conhecimentos e novas concepções sobre agricultura e desenvolvimento sustentável e sobre o pa11 Participaram dos editais entidades públicas de pesquisa. de âmbito nacional e estadual. além de pesquisadores vinculados a atividades de Extensão Universitária das Universidades Públicas. Como resultado desta iniciativa. 12 22 . com a mesma parceria. é importante citar as ações da SAF/Dater no campo da pesquisa e extensão universitária. especialmente na área de formação de Agentes de Ater e socialização de conhecimentos necessários para a implementação da Política Nacional de Ater12. Raça e Etnia. em 2004 foi realizado acordo entre MDA e MCT (Secretaria de C&T para a Inclusão Social) e através de dois editais foram acolhidos projetos para a disponibilização de tecnologias adaptadas à agricultura familiar e tecnologias de base ecológica. a FUNAI. quer pela inovação. Neste sentido. No momento em que este artigo está sendo escrito. o MMA. no valor total de R$ 4 milhões destinados ao financiamento de projetos para disponibilização de tecnologias de base ecológica. foram aprovados 170 projetos e firmados Contratos e Convênios com Universidades e instituições de pesquisa. Em 2005. Foram financiados projetos no valor total de R$ 5 milhões para entidades de pesquisa e outros R$ 5 milhões para grupos de professores que atuam em extensão universitária11. quer pelo conteúdo dos editais. além de outros orgãos da esfera federal. a SEAP. diversas ações. em ambos os casos houve articulação com entidades de representação dos agricultores e/ou entidades executoras de serviços de Ater. Esta ação teve ampla e positiva repercussão nos meios científicos e acadêmicos. Por fim. mais de 450 projetos estão em fase de avaliação. inclusive de Formação de Agentes de Ater. objetivando a socialização do conhecimento sobre estas experiências.publicado. contaram com apoio e co-participação com o MCT. o Programa de Promoção da Igualdade em Gênero. o NEAD. Destaque-se que a maior parte dos recursos foi destinada às regiões Nordeste e Norte. Este breve resumo das iniciativas do Dater. No universo das atividades da SAF/Dater. pretende dá uma idéia aos leitores de uma questão fundamental: para que as orientações da Pnater possam ser postas em prática é necessário que mudem as instituições e suas diretrizes e prioridades.

poderá retardar a mudança no estilo de desenvolvimento rural. dado o curto espaço de tempo em que estão sendo realizadas. à geração de postos de trabalho no campo. e que têm compromisso com o fortalecimento da agricultura familiar. No entanto. novas metodologias. tanto do Estado Nacional como dos estados federados e municípios. novos formatos pedagógicos e novos conteúdos. Principalmente as políticas do Estado nacional para o desenvolvimento rural podem se constituir num sério obstáculo tanto ao que preconiza a Pnater como à busca de sustentabilidade nas atividades agropecuárias. é necessário que as instituições de ensino e pesquisa tratem de rever seus paradigmas adotando novas bases epistemológicas. está dado pelas macro orientações de política de desenvolvimento do Estado. A continuidade do apoio público e do financiamento subsidiado de atividades agropecuárias notadamente insustentáveis. Igualmente. Este modelo está na contramão das estratégias de desenvolvimento rural sustentável que visam à inclusão social. para garantir competição nos mercados de commodities e que portanto forçam a ocupação de novas áreas (como vem ocorrendo no Cerrado e na Amazônia). que seguem baseadas nos pacotes da Revolução Verde. a experiência destes dois anos permite identificar um conjunto de limites e desafios que precisam ser enfrentados nos próximos meses e anos. que exigem o crescimento constante do tamanho do negócio agrícola empresarial. em todas as suas atividades.pel da Assistência Técnica e Extensão Rural diante destas novas exigências da sociedade. à manutenção de um tecido 23 . O primeiro e grande desafio que está colocado diante de todos que trabalham na perspectiva da Pnater. Os limites e os desafios que ainda devem ser enfrentados Muitas das ações promovidas pelo MDA/SAF/Dater no sentido da implementação da Política Nacional de Ater ainda não podem ser devidamente avaliadas.

sem descuidar da necessária proteção dos recursos naturais. mais compatível com a necessidade de produção de alimentos sadios em quantidades suficientes para garantir a segurança alimentar de toda a população. tais como: a) A necessidade de mudança institucional As entidades públicas estatais de Ater foram criadas e se desenvolveram à luz de uma perspectiva desenvolvimentista. cabe destacar. não sustentável. alguns dos principais desafios para a implementação plena dos conceitos da Pnater. no momento. No entanto. O que vemos hoje. sob a orientação de um mesmo Governo nacional é a disputa de dois modelos de desenvolvimento rural e de agricultura: um modelo já velho. tanto técnica como administrativa. imediatista e voltada para a “modernização do campo”13. este é um limite objetivo que só não se tornou intransponível. em construção. em geral. Por esta razão. 24 . Ressalvado este grande limite. baseada na transferência de tecnologias. que trata de buscar a sustentabilidade. Isto resultou na montagem de uma estrutura hierárquica. e outro. então. as instituições estaduais foram adaptadas para isto.social heterogêneo e à construção de uma agricultura de base ecológica. onde a mudança pode ser praticada. até agora. mas ainda hegemônico. A solução desta contradição poderá definir os rumos futuros do nosso desenvolvimento como sociedade. e suas diretrizes e objetivos orientaram para uma ação de tipo produtivista. A perspectiva da transição Agroecológica como está proposta na Pnater. porque a agricultura familiar ocupa mais de 4. visando ao aumento da produção e da produtividade na agropecuária.1 milhões de estabelecimentos rurais. Neste sentido é necessário 13 Muitas das orientações de políticas estaduais para a agricultura ainda tencionam neste mesmo sentido. dando uma margem de tempo até que os modelos venham a se encontrar na expressão completa de sua contradição. requer outros formatos organizacionais e a adoção de outros indicadores para a medição de resultados. voltada para a obtenção de resultados de curto prazo.

ainda que muitas dominem e pratiquem completamente estas metodologias. nem todas adotam metodologias compatíveis com a Pnater. por isso. ainda que com natureza e alcances diferenciados. 25 . o que se constitui em mais um risco para o sucesso de uma prática que deve ser 14 Sobre as mudanças necessárias ver CAPORAL (1991 e 1998). cabe destacar que independente da instituição em que atuem. senão que cabe ao Departamento um trabalho de assessoria que contribua para que estas mudanças ocorram. e. as entidades não governamentais. queiram ou não. representação dos agricultores(as) ou participação deles na gestão das entidades. inclusive. na maioria dos casos também precisam passar pelos mesmos processos de mudança. Ao mesmo tempo. Cabe recordar que não é por ser uma ONG que uma entidade têm. Além disso. não há suficiente investimento das entidades não governamentais na capacitação dos seus profissionais e. seu status profissional lhes coloca. automaticamente. que nasceram no vácuo deixado pelas instituições de Ater dos estados. social. incluindo a possibilidade de participação dos “beneficiários”. Esta não é uma tarefa direta do Dater. na maioria dos casos. Do mesmo modo. Ainda que venham de origem humilde.horizontalizar e democratizar os processos de gestão e de decisão destas instituições. política e ética e não apenas dos ganhos de produção e produtividade14 . cultural. o trabalho dos agentes deve passar a ser medido por resultados de médio e longo prazo. ambiental. na sua forma de ver e se relacionar com as coisas do mundo e do trabalho. Ademais. os profissionais de Ater são parte de uma parcela privilegiada da sociedade. numa posição “pequeno burguesa” que acaba por influir no seu profissionalismo. fazem uma disputa por recursos e espaços que não contribui para formação de redes de Ater. Ainda que tenham surgido para ocupar o espaço e combater as políticas modernizadoras da Revolução Verde e as políticas neo-liberais. a partir da observação das diferentes dimensões da sustentabilidade: econômica. muitas das ONGs e outras entidades privadas que atuam em Ater.

Em geral. não tiveram a oportunidade de chegar a uma compreensão da agricultura como uma atividade que. em vez de formar profissionais que entendam as condições específicas e totalizadoras inerentes aos ecossistemas e agroecossistemas. os profissionais egressos sabem mesmo é fazer difusão de receitas técnicas e pacotes tecnológicos. ademais de sua “função de produzir bens”. Em efeito. os profissionais que saem destas instituições de ensino. por conseqüência. a atividade que desenvolvem é parte de seu modo de vida e não apenas um negócio. o que minimiza sua possibilidade de ter uma compreensão da agricultura a partir dos princípios básicos dos processos naturais. sem considerar também. para muitos agricultores e agricultoras familiares. durante a formação profissional não se faz sequer um momento de integração das disciplinas.comprometida com os agricultores(as) familiares e pescadores(as) artesanais. como sabemos. 26 . isolada das demais e. uma das deformações geradas pelo modelo de desenvolvimento rural e agrícola ainda vigente. é um processo que implica uma relação entre o homem e o ecossistema onde vive e trabalha. foi a transformação imposta aos modelos de educação e formação de profissionais das ciências agrárias e outras áreas do conhecimento. alheia à realidade objetiva das pessoas e dos processos produtivos concretos. a especialização e. lamentavelmente. E. em geral. Esta primeira carência na formação limita os profissionais quanto à possibilidade de ter uma visão holística da realidade na qual vai atuar. a absoluta maioria das escolas de nível médio e superior das ciências agrárias continuam com o mesmo perfil de formação profissional da época dos convênios MEC-USAID. Assim. que. o ensino nas universidades e escolas agrotécnicas brasileiras adotou um modelo que privilegia a divisão disciplinar. Em realidade. b) Sobre a necessidade de um “novo profissionalismo” Entre os desafios de uma extensão rural para o desenvolvimento sustentável está a necessidade de estabelecer-se um “novo profissionalismo”. quase sempre. Cada uma delas é repassada aos alunos em sua própria “gaveta”.

princípios e objetivos estabelecidos na Política Nacional de Ater. sequer conseguindo integrar a agronomia com a ecologia. Por tudo isto. pela hierarquia das organizações e por pautas de recompensa e carreiras. são estudadas algumas culturas e a criação de alguns animais domésticos. mas muito pouco se estuda sobre o homem e a mulher trabalhadores da agricultura e o papel decisivo que eles têm na agricultura. 27 . pode-se afirmar que a nova extensão rural exige um “novo profissionalismo”. que se caracterize. em primeiro lugar. que são dominantes na sociedade. e que se reproduzem. a formação determina um estilo de profissionalismo. o profissionalismo normal é conservador. O ensino costuma basear-se numa visão da agricultura como um conjunto de técnicas agrícolas aplicadas e pouco mais. Além disso. reforçada pela educação e pelo treinamento.A segunda grande deformação na formação dos profissionais das ciências rurais e agrárias está relacionada com a distância abstrata com que se trata ao homem-agricultor. pela capacidade de colocar e ver as pessoas antes das coisas. presentes na dimensão “meritocrática” e de competição (status) que conformam a concepção educativa das sociedades atuais e que acabam introduzindo na formação dos profissionais alguns valores éticos individualistas. ou seja. nas atitudes individuais e na prática dos agentes. se estuda muito sobre as máquinas e os insumos. como a ciência normal. a implementação da Pnater exige um amplo processo de formação de profissionais com outro perfil. métodos e comportamentos dominantes em uma profissão ou disciplina. valores. não se pode esquecer que existem fortes implicações ideológicas e políticas no ensino. como aquele que se refere ao pensamento. de maneira que. baseado numa estrutura de geração e transferência de conhecimentos. Em geral. que tendem a reproduzir ações profissionais também conservadoras. o solo como substrato para sustentação da produção. posteriormente. cujas bases podem ser buscadas nos conceitos. Logo. que pode ser entendido como um “profissionalismo normal”. c) Sobre a formação dos futuros profissionais para a Ater Dado o que vimos antes.

corresponde às necessidades sentidas por eles mesmos. Deve-se considerar que este “novo profissionalismo” é necessário. ainda que não seja papel do MDA/SAF/Dater. mas não são suficientes para construir novas relações entre agentes de Ater e agricultores. assim como podem ser utilizados apenas para satisfazer objetivos externos. políticos e históricos. Portanto. valores e comportamentos. Se 28 . os métodos ajudam. de modo que os Agentes não devem se intimidar frente à complexidade e incerteza. de modo que podem ser utilizados para levar a uma genuína capacidade de construção e organização. Por outro lado. este “novo profissionalismo” é mais um grande desafio. em busca dos valores próprios dos beneficiários. requer reconhecimento de que nem sempre o que pensamos e estabelecemos como necessidades dos indivíduos e grupos assistidos. ademais. inclusive porque os métodos não são neutros. de modo que os profissionais da Extensão Rural Agroecológica deveriam assumir novos conceitos.com especial atenção aos grupos menos favorecidos. quotidianamente. próprios de ações que devem estar baseadas no diálogo e na participação. já que correspondem a contextos sociais. ademais de novos métodos. a iniciativa do processo de mudança curricular necessária para atender os imperativos do desenvolvimento sustentável e das novas práticas exigidas pela Pnater. há que se criar mecanismos capazes de influir na mudança curricular. pelo menos das ciências agrárias. Como já se destacou. ao contrário da especialização profissional. Um “novo profissionalismo”. estabelecer um “novo profissionalismo” exige que. Em verdade. se adote uma formação mais multidisciplinar ou pelo menos se amplie a capacidade de interagir com outras profissões e disciplinas. Como destacam diversos autores. de modo que o Agente deveria estar. ideológicos. de modo que possam ser estabelecidos currículos capazes de formar profissionais que tenham as habilidades para olhar a realidade com as lentes de um novo paradigma e atuar a partir de uma compreensão multidisciplinar e humanista e adotando métodos e pedagogias construtivistas. cabe às escolas de nível médio e às universidades.

a Pnater apresenta uma reconhecida fragilidade. não só institucionalizar a Política de Ater. a Pnater. d) A legitimação e institucionalização da Pnater Qualquer política pública corre o risco de ser alterada ou. a história dos anos 1990 a 2003 mostra que nem sempre estas determinações constitucionais e legais são transformadas em ação governamental. Não obstante esta debilidade. o Dater. a criação do Comitê Nacional de Ater. Ademais. Assim mesmo. abandonada. encontra amplo acolhimento entre as entidades do setor. Estas são ainda tarefas por fazer. O fato de em 2003 o orçamento federal destinar apenas R$ 3. vem dando uma maior solidez a esta Política. Sabe-se que na tradição brasileira. Seus conteúdos e propósitos atendem às demandas e interesses dos segmentos potencialmente beneficiários destes serviços. Embora tanto a Constituição como a Lei Agrícola estabeleçam a responsabilidade do Governo Federal com a oferta destes serviços. seguirão formando profissionais para o passado e não para o futuro. como também entre as entidades de representação da agricultura familiar brasileira. Neste sentido. composto por 31 entidades e paritário (Estado. 29 . governos alteram políticas em função de seus programas partidários ou de prioridades de governo ou até mesmo em razão de acordos ou alianças.8 milhões para apoiar atividades de Ater no país é ilustrativo desta questão. Portanto. senão buscar formas permanentes de alocação de recursos financeiros. ONGs e entidades de representação da agricultura familiar). de modo que todos os atores sociais envolvidos possam contribuir para a superação de eventuais dificuldades e para o aperfeiçoamento da Política. do CONDRAF – Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável. como foi mencionado antes.não o fizerem. por ter sido construída de forma participativa. inclusive. o desafio que está colocado é. dados os interesses políticos em jogo. onde as ações e programas do Dater são discutidas e consensadas. na medida em que não foi instituída por lei. juntamente com o Comitê deverá promover. ainda em 2005 um Seminário de avaliação da Pnater e do processo de sua implementação.

como foi o caso do concurso realizado. Neste curto período. onde se destacam a Articulação Mineira de Agroecologia – AMA. é importante registrar que concursos públicos para contratação de Agentes de Ater passaram a incorporar a exigência de conhecimentos sobre as bases teóricas da Pnater. em particular. especialmente na capacitação de agricultores(as). No âmbito das ONGs. O principal deles. assim como no fortalecimento de algumas redes de serviços. seja em conhecimentos sobre Agroecologia. de ensino e pesquisa. ainda. seja sobre Metodologias Participativas ou sobre outras bases conceituais da Pnater. cooperativas de técnicos e outras entidades não governamentais que realizam serviços de Ater. a Rede ASA. do IDAM-AM . a Rede Ecovida. pelo INCAPER. identificar algumas resistências quanto a algumas das bases conceituais da nova Ater. As ações já realizadas mostram. que é um elemento central. do Espírito Santo. da SEATER-AC. inclusive. observou-se que a maioria das entidades governamentais de Ater investiu muito na capacitação de seus recursos humanos. a Rede de Serviços de Ater do 30 . Este processo permitiu. talvez seja a internalização dos novos conceitos orientadores desta Política no âmbito das instituições governamentais e não governamentais de Ater e. especialmente entre algumas poucas entidades governamentais. da EMATER-MG. observou-se um avanço quanto à Pnater. Inclusive. foi alvo de grande esforço do Dater.Reflexões finais A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural começou a ser implementada em fins de 2003. entretanto. que além da vontade política do Governo Federal e do MDA. estão sendo levadas à prática muitas iniciativas concretas que já mostram alguns impactos. portanto. EMATER-RN e da CEPLAC. qualquer avaliação de seus resultados e dos avanços na aplicação dos novos enfoques propostos seria prematura. em 2004. Este. até porque era necessário fazer chegar às entidades o conhecimento de que o País volta a ter uma Política para o setor e volta a aportar recursos financeiros para apoiar as ações de Ater. Cabe destacar o esforço da EMATER-PA.

Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente. 31 . como por exemplo a Rede de Técnicos em Agroecologia do Estado do Maranhão. de modo a acelerar as mudanças no ensino e na pesquisa. o Dater não conta com a estrutura de pessoal que seria necessária para contribuir mais decisivamente no avanço deste processo. Ao longo destes dois anos. ao mesmo tempo em que apoiou financeiramente dezenas de entidades não governamentais que atuam em Ater e em capacitação de agricultores(as) familiares.Nordeste. o que é uma iniciativa pioneira que deve abrir uma nova história do ensino universitário brasileiro. núcleos de alunos e professores que já atuam ou querem adotar em suas ações de formação as orientações contidas na Pnater. A articulação do Dater com algumas universidades e escolas de nível médio vem demonstrando que há. diretamente pelas ações do Dater. Todos os Termos de Referência. a SAF/Dater firmou convênios com as entidades estatais dos 27 estados da federação. lamentavelmente. no interior das instituições de ensino. se 15 Observe-se que a Universidade Federal do Paraná acaba de abrir concurso para contratar professores de Agroecologia. por exemplo. entre outras. o Dater parte do princípio de que é necessário que exista um período de transição. Este é um limite que precisa ser enfrentado. e a formação de outras. como vimos antes. para que Agentes de Ater e suas instituições internalizem e se apropriem dos novos conceitos. tem sido objeto de seminários e cursos realizados dentro de instituições de pesquisa e de ensino. diretrizes. nas escolas da CEPLAC. alguns deles motivados. como está ocorrendo na UFBA. e embora se identifiquem muitas imitações. No momento. Isto assegurou certo avanço no caminho do que recomenda a nova Política. ou em cursos específicos como vem ocorrendo na UFPR15. objetivos e orientações metodológicas da Pnater. chamadas de Projetos e Editais lançados nestes dois anos estabeleceram as bases para a elaboração de projetos que seguissem os princípios. Cabe salientar que o menor avanço em termos de capacitação de técnicos para atuarem com base nas orientações da Pnater ocorreu no âmbito das prestadoras de serviços de Ates contratadas pelo INCRA para prestar assessoria aos assentados da reforma agrária. O tema da Agroecologia.

é fundamental que se registre os agradecimentos do Dater. deve ser registrada a participação e contribuição dos membros do Comitê Nacional de Ater e do Fórum de Apoio à Gestão do Programa de Agroecologia. e suas entidades representativas. simplesmente com o objetivo de ajudar na implementação da Pnater. de Bagé. convênio EMBRAPA-Epagri. têm liberado profissionais de seus quadros para participarem como facilitadores em cursos de capacitação promovidos pelo Dater. Universidad de Córdoba. NEAF-UFPA. Uma Política que se destina a fortalecer a agricultura familiar e ajudar o Brasil a construir um modelo de desenvolvimento rural sustentável. A Extensão Rural e os limites à prática dos Extensionistas . ISEC-ETSIAN. de Pelotas. inclusive. 517p. A todos os profissionais que colaboraram. UFRPE e tantas outras que. sem cuja colaboração não teria sido possível levar adiante os propósitos de implementação de uma nova Política de Ater no nosso País. ao longo destes dois anos. Santa Maria/RS. Campesinado e Historia. Além destas. (Tese de Mestrado)-CPGER/UFSM. como a EMATER-RS. CAPORAL. do serviço público. de modo que possam por em prática um novo modo de fazer extensão rural. España. assim como aos agricultores(as). 32 . Brasil. F R. La extensión agraria del sector público ante los desafíos .capacitem para uma atuação diferenciada. Bibliografia CAPORAL. sem cobrar honorários. destacamos o apoio de muitas ONGs que contribuíram tanto na facilitação de etapas como na apresentação de suas experiências nestes mesmos eventos de capacitação. (Tese de Doutorado)-Programa de Doctorado en Agroecología. del desarrollo sostenible: el caso de Rio Grande do Sul. F R. 1998. Da mesma forma. pescadores(as). Antes de finalizar este artigo. 1998. com proteção ao meio ambiente e produção de alimentos sadios e acessíveis para todos. Centros da EMBRAPA de Belém. com participação da cidadania. com inclusão social. 1991. é importante deixar registrado o apoio de algumas entidades estatais. Córdoba.

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social. longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre nações e regiões. Nesse contexto. 35 . a globalização. Nesse sentido. Assim. ressaltando assim. Tal fato impõe condições diferenciadas às localidades. ressaltando ainda que tais processos não ocorrem igualmente nos vários locais. desenvolvimento tem recebido os qualificativos local. cidades e países. o fenômeno da globalização suscita dinâmicas locais. aspectos que lhes são singulares.Desenvolvimento local e territorialidade Guilherme Soares1 Introdução Historicamente a abordagem do desenvolvimento instiga debates acerca de sua abrangência e significados econômicos e sociais. cria e recria atividades econômicas. a abordagem do desenvolvimento na atualidade enseja movimentos locais com perspectivas de inserção nas relações globais. suscita movimentos de reação as tentativas de homogeneização diante da diversidade da criação humana. algumas dessas restritivas ao alcance do desenvolvimento. Os processos globais são contraditórios à medida que inclui e exclui pessoas. integrado e sustentável que agregam ao discurso a tendência de enfoque dada a esse processo. como sendo uma trama de relações sociais com1 Mestre em Administração e Comunicação Rural do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. cultural – e de natureza contraditória. A globalização como fenômeno multidimensional – econômico. Portanto. agora tomadas como foco dos processos para promoção do desenvolvimento. No atual contexto das relações globais. o território também assume um significado amplo além daquele de realização das atividades produtivas e/ou apenas delimitação geográfica.

dá lugar ao modelo horizontal de promoção do desenvolvimento no qual a sociedade civil é chamada a responder às questões que lhe afligem através de sua influência na formulação de políticas públicas. responsáveis por diferenciações importantes no âmbito global. a participação ativa dos atores locais. não rara. A confrontação inevitável que acontece comumente se dá entre os termos desenvolvimento e crescimento por vezes aplicados de forma confusa e equivocada a alguns fenômenos socioeconômicos. ou seja. p. 36 .plexas formadoras de identidades culturais. seja nos vários tipos de conselhos municipais. Referências conceituais: Desenvolvimento.17) atribui ao termo uma polissemia conceitual. de modo particular. abriga várias acepções. No Brasil. atualmente. significados. juntamente com o poder local. Desenvolvimento É recorrente a discussão conceitual do termo desenvolvimento e. assume o papel de protagonistas desse processo. dizendo que ‘desenvolvimento’ compreende mesmo uma rede de conceitos. Diante da complexidade das relações global e local a nova abordagem conferida ao desenvolvimento tem como condição precípua para sua consecução. Então. econômicas e sociais. no qual a sociedade. seja nos fóruns e espaços públicos de discussão e deliberação política. a sociedade civil em suas várias formas de representação. polêmica devido as interpretações das várias correntes de pensadores acerca de sua abrangência e significado. globalização e território. o desenvolvimento tem um forte apelo à participação social. o processo de redemocratização tem avançado nessa direção e vemos nos mais diversos recantos do país iniciativas para promover o desenvolvimento local. O esgotamento do modelo desenvolvimentista de planificação centralizada no qual o estado era promotor e provedor de recursos. Fischer (2002.

(apud PREVOST 1997) a noção de desenvolvimento: implica aumento de bem-estar com mudança na estrutura econômica e social. Ao contrário. porém não forçosamente implica uma mudança da estrutura. consensos. não envolve a sociedade inteira em todos os seus aspectos. é insuficiente para sua interpretação e análise.13) quando fala da transformação estrutural do trabalho. Neste sentido. Se refere ao aumento das atividades de produção de bens e serviços. mas do próprio efeito do crescimento econômico. por conseguinte. O conceito de desenvolvimento contém em si a idéia de crescimento”.Portanto. A ocorrência de fenô37 . a corrente que defende que crescimento econômico é igual a desenvolvimento. sociais e políticos entre outros que devem ter em conta os valores e atitudes de uma população especifica. envolve a sociedade inteira. face que se impõe como condição que o desenvolvimento seja referente ao ser humano. Essa percepção considera atributos diversos para alcançar-se o estágio de desenvolvimento pleno e nesse sentido. a abordagem conceitual de desenvolvimento e crescimento é ainda pertinente. a ausência de crescimento econômico é o que caracteriza o subdesenvolvimento. pois a desagregação da base social refuta o conceito. pois trata daqueles assuntos que não apresentam uniformidade de tratamento e. Para Furtado. Nessa concepção. O crescimento é uma noção mais simples. em todos seus aspectos. a via para alcançá-lo compreende a inclusão de critérios não exclusivamente econômicos. A relação crescimento econômico e desenvolvimento como causa e efeito embora ainda válida para engajamento no contexto vigente. Para este autor o desenvolvimento abriga uma multiplicidade de fatores que envolvem aspectos econômicos. afirma que o desemprego já não resulta da ausência do crescimento econômico. a modernização dos meios de produção não é mais um referencial único para denotar desenvolvimento. p. Dowbor (1997. reconhece de forma simplista que o país desenvolvido cresceu mais que o subdesenvolvido.

A seguir os marcos históricos da trajetória do significado do termo desenvolvimento: • Origem: Já sugeria uso de estratégias para produzir mudanças • Tomado inicialmente da biologia: sentido de evolução (Charles Darwin) • Aplicação para a área social – final do século XVIII: designa processo gradual de mudança social. – Estado provedor de recursos. • No início de século XX desenvolvimento representa intervenção em áreas periféricas para criação de espaços industriais modernos. • Até a década de 40 – representa passagem da sociedade tradicional para a sociedade moderna (ocidentalização).1940/1970. ainda não totalmente entendidos em sua real dimensão. Os 38 . Esse modelo no Brasil teve como referencias de cooperação internacional: a Aliança para o Progresso. de modo que os objetivos gerais são claros: precisamos de um desenvolvimento justo. econômico. Características: – Natureza prescritivista – recomenda a replicação de modelos de outros países. • Onda do modelo desenvolvimentista no terceiro mundo a partir da década de 1950 – cooperação internacional para ajuda aos países subdesenvolvidos. tem causado perplexidade no meio acadêmico. a multidimensionalidade do desenvolvimento apresenta o imperativo ambiental como uma nova vertente desse processo. Nessa perspectiva. – Relações verticalizadas (de cima para baixo) com a sociedade.menos de natureza sócio-econômicas que vivenciamos e presenciamos atualmente. USAID (agricultura) . político). talvez porque não esteja ainda consolidada a perspectiva de desenvolvimento integral e multidimensional (cultural. – Abordagem unificada do planejamento – integração de programas econômicos e sociais. – O governo como ator estratégico central e agente de mudanças. economicamente viável e ambientalmente sustentável.

• Década de 1990 – Reforço do qualificativo INTEGRADO – incorporando as dimensões sociais e ambientais à enaltecida dimensão econômica. regiões. É LOCALIZADO TERRITORIALMENTE. cimentado em uma nova institucionalidade que possa traduzir-se em articulação e parcerias criativas entre Estado. municípios 39 . cidades etc. 2002). • “Processo de crescimento descentralizado. Zona Franca de Manaus entre outros. Considerar as especificidades locais .1990). No dizer de (SACHS. • Desenvolvimento integrado é localizado espacialmente no território – cidades. • Desenvolvimento local integrado e sustentável – agrega os qualificativos como reforço do discurso e lança a nova perspectiva de desenvolvimento atual. 2002): “prudência ecológica. O território deixa de ser marco de atividades econômicas ou sociais e passa a referência importante no desenvolvimento econômico. Programas de desenvolvimento devem ser duradouros (dimensão temporal) – e sustentáveis – (noção de sustentabilidade) . apud (FISCHER.continuidade e manutenção do potencial dos recursos naturais pela via ambiental.Meados da década de 70. • Desenvolvimento Endógeno – contrapõe a replicação de modelos. SUDAM. baseado nos municípios e comunidades. Apresentaremos a seguir duas definições de desenvolvimento local.exemplos desse tempo podem ser: a rodovia Transamazônica.2001).2001) Apud (FISCHER. século XX: processo multirrelacional que inclui todos os aspectos da vida de uma coletividade. • Década de 1980 (década perdida) – modelo desenvolvimentista entra em xeque pelo ajuste econômico. • Desenvolvimento integrado . (SACHS. regiões. Projeto JARI. eficiência econômica e justiça social” – tripé da Agenda 21. Projeto RONDON. especificidade cultural e relações sociais de cada lugar.país. “O território como entorno inovador depende de “estratégias de desenvolvimento articuladas”. (SACHS.

Os processos de desenvolvimento local se dão em várias instâncias do território. 2003). financeiros e físicos. entre os mais importantes estão: pobreza e exclusão. produção e competitividade. participação e solidariedade. num dis40 .. – Visões de futuro construídas por coletivos organizacionais e ações concretas de mudanças. podendo ser num bairro. JARA. principalmente dos grupos mais pobres e marginalizados. Pode-se dizer que é uma comunidade de atores públicos e privados. preocupado com a melhoria da qualidade de vida da população. de infra-estruturas educativas e institucionais de onde a mobilização e a valorização geram idéias e projetos de desenvolvimento”. encontram serviços e recursos dos quais dependem o seu dinamismo e dentro do qual se ligam às redes de troca de informações e de relações técnicas ou comerciais. Na abordagem do Desenvolvimento local outros conceitos estão presentes. (1998)..2002) são os pontos focais do conceito. – Envolve simultaneamente visão de futuro (UTOPIA) e pragmatismo (ação prática).e sociedade civil organizada. comprometido com a geração de empregos e de ocupações produtivas e com a sustentabilidade”. – Compreende processos compartilhados e resultados atingidos. Características: – Concertação (PREVOST.1995) e articulação estratégica (FISCHER. Tais dimensões se articulam e se reforçam mutuamente ou se opõe frontalmente (FISCHER. • A organização para a cooperação e desenvolvimento econômico – OCDE define o nível local como sendo “ o meio ambiente imediato no qual a maior parte das empresas (micro e pequenas. cooperativas etc) se formam e se desenvolvem. que busque o pleno aproveitamento dos recursos e potencialidades locais... oferece um potencial de recursos humanos. – Há uma racionalidade processual e contextual (MARTINELLI. 2002).

desenvolvimento local não é sinônimo de desenvolvimento municipal. fóruns entre outros. Rec onhec e a importânc ia do atributo ec onômic o. Um aspecto interessante dessa dinâmica de desenvolvimento é o seu caráter participativo e democrático. mas a ênfase é econômica. numa região ou ainda na própria cidade. integrado e sustentável). Diferenças entre os valores de fundo que norteiam as duas vertentes do desenvolvimento local. construído nas várias modalidades de discussão pública – conselhos. na área rural de uma cidade.trito. • Da Cooperação e solidariedade – inspiram-se nos valores da qualidade de vida e cidadania – inclusão de setores marginalizados na produção e usufruto dos resultados – economia solidária. mas lhe impõe limites e subordina-o aos imperativos não-ec onômic os. suas visões de mundo todavia. Assim. c onsumo étic o. o termo local não deve ser confundido com o município. numa microrregião. 41 . Assim. Embora o discurso dos vários atores atuantes no processo denote uma certa convergência na direção dos qualificativos do desenvolvimento. ou seja. soc ial e ambiental. apontam para trajetórias diferentes no que tange à operacionalização dos objetivos do processo de desenvolvimento. em uma vila. c omérc io justo. o desenvolvimento local pode ser orientado por dois sentidos e significados: • Da Competição – discurso totalizante (local. COMPETIÇÃO Qualific aç ão de rec ursos humanos a partir de valores orientados para uma lógic a c apitalista Referênc ia modelos produtivos empresariais voltados para uma lógic a de merc ado c apitalista Enaltec e os atributos ec onômic os em relaç ão àqueles de natureza c ultural. Enfatiza a redistribuiç ão e rec iproc idade – produç ão assoc iada. Enfatiza relaç ões do tipo produtores e c lientes COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE Qualific aç ão de rec ursos a partir de valorizaç ão do saber loc al Salientam também formas de produç ão não-c apitalistas e estratégias ec onômic as autônomas.

(2002). • Descontinuidade política. 2002). • Fragilidades metodológicas – modismos e mimetismo metodológico. nas falácias de despolitização das iniciativas e na exarcebação das potencialidades e virtualidades locais. em detrimento de uma visão mais ampla e cosmopolita do desenvolvimento (BOAVENTURA. • Frustração de esbarrar em limites concretos de poder. Fischer. FATORES IMPACTANTES DAS ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVIMENTO LOCAL INTEGRADO E SUSTENTÁVEL. • Construção externa das estratégias de desenvolvimento local. • Avaliação insuficiente.A diferença básica também está no peso e no papel dos atores envolvidos nas formas de gestão. apud FISCHER. tratando dos processos de gestão do desenvolvimento destaca os aspectos que colocam em risco o discurso do desenvolvimento local e conseqüentemente podem contribuir para seu esvaziamento: • Desgaste conceitual. Ressalte-se ainda o risco de isolamento e desarticulação com as oportunidades do mundo global em função de uma sobrevalorização dos valores locais. • Estruturas de interesses para promoção do DL que criam dependência nas comunidades apoiadas. • Dificuldades de articulação dos agentes do desenvolvimento. • Superposição de programas e projetos de diferentes instituições. nacional e global. • Desgaste dos métodos participativos e consensos vazios. PENSAR GLOBALMENTE E AGIR LOCALMENTE 42 . e que por razões ideológicas podem estar presente nas estratégias de desenvolvimento local: “Reificação da comunidade e da cultura local” – variável a ser manipulada por “boas estratégias”. Nesses termos o autor defende estratégias de desenvolvimento local que se articulem com as relações globais e propõe: “localismo cosmopolita” e plural – estratégias multiescalares que articulem ações locais com estratégias alternativas em escala regional.

85) apud (CAMPANHOLA. Portanto.resultante de um conjunto de forças dinâmicas – econômicas. há nações. Por isso. SILVA. abrigam dinâmicas locais que se propõem a solucionar problemas gerados tanto dentro como fora de seus limites (Navarro Yáñez.. 1999) apud (CAMPANHOLA. que resultam em mudanças na governança dos espaços democráticos e no papel do Estado (Bonanno et al. SILVA. e que resulta em mudanças significativas nas relações entre estado. (1999) apud (CAMPANHOLA.2000). a globalização acelera o processo de exclusão social dos pequenos produtores agrícolas. dos trabalhadores e dos consumidores mais pobres. ideológicas.. sociedade civil e a esfera produtiva representada pelo mercado. Uma primeira delas define como sendo um fenômeno “.. bem como à redefinição das relações entre as esferas política e econômica. há a necessidade de se buscar novos pontos de equilíbrio entre o global e o local. e outros excluídos. 2000) Desse modo..reorganização do espaço das relações sociais. As definições são também várias. culturais e religiosas – que estão modelando e remodelando a divisão internacional do trabalho. 2000) Nos países em desenvolvimento. O que tem se observado é que forças globais requerem e estimulam respostas nas esferas local e regional (Jentoft et al.Globalização A globalização é um processo multidimensional envolvendo diversas variáveis simultaneamente. regiões e locais que vão sendo incluídos nas cadeias de produção. 2000). Outra definição interpreta o fenômeno como sendo promotor de uma “. mas também nas relações e interações que ocorrem entre localidades e regiões. o foco não deve ser apenas no local. 1998) apud (CAMPANHOLA. Nesse sentido. a globalização. SILVA. Bonanno et al. SILVA.. e acelerando ou refreando a homogeneidade de consumo e comportamento humanos (Moreira. Ao mesmo tempo em que as sociedades contemporâneas se vêem atravessadas por processos globais. favorecendo ou dificultando a acumulação de capital.2000). políticas. 43 . SILVA. a seguir apresentaremos duas definições. 1994: p.1995) apud (CAMPANHOLA..

não pretendemos nesse momento seguir o itinerário das diferentes abordagens conceituais. A soma social das duas conexões começa a remodelar o espaço rural a partir de dentro e da interação com outros espaços. já que a população de renda mais baixa ainda demanda alimentos baratos.geralmente estão vinculadas às classes sociais mais afluentes. a suposta ação dos consumidores. contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre nações e regiões. apud (VILELA. Esse autor explica que as redes de alimentos têm conexões horizontais e verticais com os espaços nos quais elas estão situadas. conforme as diversas linhas de pensamento. Assim. Desse modo. Nas cadeias agroalimentares os varejistas assumem um papel de coordenação dos fluxos de informações por estarem mais próximos do consumidor. Território Inicialmente ressaltemos que a abordagem conceitual do território é ampla. e por conseguinte. 1998) Apud (VILELA.longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização na distribuição de capital. Por essa razão. pouco diferenciados. 1998). fazendo surgir novos padrões culturais de qualidade de nutrição e de meio ambiente (Marsden 1995. tem contribuído para redefinir os mercados. porém trataremos de apresentar aquelas que poderão promover a melhor compreensão dos fatores presentes na concepção de territorialidade e de sua relação com a promoção para o desenvolvimento. Os chamados “nichos” de mercado. que se referem a demandas por produtos com características específicas e de alto valor – por exemplo alimentos livres de resíduos químicos ou que não tenham causado degradação ambiental no processo de produção .2000). Marsden. a globalização de mercados tende a ampliar a diferenciação territorial do que a sua homogeneização (Saraceno. afinal de contas serão os responsáveis pelas mudanças ao longo da cadeia de produção. 44 . obtidos por processos de produção em massa. são criados espaços dependentes e espaços dominantes. 2000). através das redes varejistas. Assim.

através de suas atividades produtivas. Sob o ponto de vista social a geografia define território como sendo “espaço social definido. Roraima. Amapá ainda na década de 70 e meados de 80.. Para Raffestin (1993). mas apresentam entre si interfaces dinâmicas na construção do território.17): “ a primeira refere-se a soberania territorial algo que tem a ver com as reivindicações pela posse e controle legítimos e exclusivos sobre uma dada área. o ator territorializa o espaço (p. não se pode deslocar do entendimento de terri45 . O território aparece também como aquela porção que está apropriada pelas ações humanas. conforme apresenta RIBAS et al. Os conceitos de território incorporam também outras categorias analíticas além de estado e sociedade.2004). que a gestão do desenvolvimento é afinal de contas uma gestão de poderes. A segunda conotação é aquela que se refere a uma determinada área que ainda não está incorporada inteiramente na vida política de um estado.). Ao se apropriar de um espaço. os casos dos outrora territórios de Rondônia. tais como poder e mercado. é o resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível”. Podemos citar como exemplo.2004) espaço e território não são termos equivalentes. culturais e sociais.Uma primeira compreensão sobre o território é aquela que diz que território é a parte do espaço ocupada e apropriada pelo homem. define território: “termo geral utilizado para descrever uma porção do espaço ocupado pela pessoa. pois o território se forma a partir do espaço. ocupado e utilizado por diferentes grupos sociais como conseqüência de suas práticas de territorialidade” . (2004 p. O Dictionary of human Geography (1994). Essa perspectiva se coaduna com o que defende FISCHER (2002). Percebe-se a existência de um primeiro elemento de confrontação entre território e espaço. e neste particular a concepção de território apresenta duas conotações. grupo ou estado” (RIBAS... concreta ou abstratamente (. Portanto. Tais categorias preservam suas autonomias analíticas individuais. O conceito de território aparece associado também ao estado. apud (RIBAS.143). E explica sua afirmação: “o espaço é anterior ao território.

de nós e redes que se imprimem no espaço e que constituem. Raffestin diz que a ação das pessoas ou grupos. A dinâmica do meio rural na perspectiva de desenvolvimento local. Raffestin(1993) e Badie(1995) Apud (RIBAS. A complexidade das relações produtivas e a reorganização do espaço rural pela globalização tornaram o espaço rural com uma nova dinâmica. sendo por isso incorporado hoje aos ditames do desenvolvimento local. enfocando atividades econômicas que historicamente o caracterizam como meio da produção agrícola. de algum modo. Isso conduz a sistemas de malhas. marcada pela revalorização da natureza e pela interligação econômica entre os 46 .2004). O território hoje se caracteriza. que provém dos indivíduos e/ou dos grupos. afirma que o mercado sozinho não suscita a criação de uma nova territorialidade. sociedade e mercado. a forma de como ele (mercado) se articula e se integra a diversidade social. a partir de dois importantes autores. como uma trama de relações complexas envolvendo estado. superando a idéia de território vinculado apenas ao local de realização das atividades econômicas. É cada vez mais difícil conceber o meio rural apenas por uma análise setorial. recorremos a duas reflexões sobre poder e mercado relacionado ao território. sobremaneira em tempos de globalização. no exercício do poder “pode ser uma interação política. Para finalizar. o território”. pois constituem elementos cruciais no entendimento das dinâmicas territoriais contemporâneas. A partir da dinâmica da relação global e local podemos entender melhor como se articulam as relações rural e urbano. mas é sim. social e cultural que resulta de jogos de oferta e de procura. No que concerne a relação do mercado com o território Badie (1995) estudando a formação territorial da Europa.tório essas instâncias analíticas. então. econômica. Como se pode perceber as abordagens articulam dimensões e categorias importantes no processo de construção do conceito de território.

tomam relevância as atividades não-agrícolas que passam a compor parcela significativa da renda do meio rural. como todo fenômeno. em relação a forma como o meio rural se articula com o meio urbano. 47 . sendo essa dinâmica mais intensa e freqüente em algumas regiões do que em outras. descritas por Silva. VELHOS MITOS O rural é sinônimo de atraso O rural é sinônimo de agríc ola NOVOS MITOS As atividades não agríc olas são a soluç ão para o desemprego As atividades não-agric olas podem ser o motor para regiões atrasadas. A seguir apresenta alguns dos velhos mitos do meio rural e também alguns novos mitos criados com a emergência das atividades não-agrÍcolas. suscitando a criação e recriação de novas atividades produtivas. as interpretações podem incorrer em exageros e criação de novos mitos. desenvolvimento rural Adaptado de Silva. O desenvolvimento agríc ola leva ao O novo rural não prec isa de regulaç ão públic a. Campanhola (2002) como: • Uma agropecuária moderna. particularmente. Nesse contexto. esse fenômeno não ocorre igualmente em todos os espaços rurais. o meio rural torna-se multifuncional e articulado ao meio urbano e por isso tem sido denominado de novo rural. Grossi. Nessa perspectiva. não é propriamente um processo original e inovador em si. Grossi. já bastante conhecida em países desenvolvidos. Semelhantemente ao que ocorre com a globalização. A reorganização do espaço rural se trata propriamente de uma mudança do papel e função do meio rural no contexto das relações global e local. Campanhola (2002) O que convencionalmente vem sendo chamado de novo rural brasileiro na verdade se trata de uma reconfiguração produtiva e política em andamento nos espaços rurais. Todavia.setores econômicos. baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias. portanto.

Sintetizando. os recursos naturais. • Um conjunto de “novas” atividades agropecuárias. a perspectiva do desenvolvimento rural a partir da noção territorial e das novas ruralidades compreende as seguintes características: • O desenvolvimento rural não significa urbanização do meio rural. próprios para construção de um modelo de desenvolvimento rural sustentável. beneficiamento de frutas exóticas. manejo florestal sustentável. Não existe um modelo pronto para alcançar o desenvolvimento rural. Nesse processo o meio rural deve se aproximar de uma dinâmica territorial que enseje modelos e/ou arranjos produtivos que valorize a identidade local. • O dinamismo rural depende das relações de interdependência com o meio urbano. por exemplo. como apontam algumas das experiências nessa direção: turismo ecológico. que pode ser representada. mas sabe-se que a diversidade desse meio constitui um de seus pilares. de como se insere nos processos de integração local e global e de sua articulação com o meio urbano. impulsionadas por nichos especiais de mercados. Neste particular o Amazonas tem os elementos diferenciadores de seu território.• Um conjunto de atividades não-agricolas. Portanto. ligadas à moradia. algumas a partir da valorização do meio rural como espaço de moradia e lazer (turismo rural) e outras como decorrência de atividades de proteção da natureza. pela cultura local e pela biodiversidade. Depende sim. Dessa forma o desenvolvimento rural não significa necessariamente a urbanização do rural – que não deve ser confundido com revalorização do espaço rural . 48 .e muito menos a implantação somente de uma agricultura moderna. muitas destas atividades foram recriadas a partir de demandas diferenciadas surgindo os chamados nichos de mercado. ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de serviços. reservas extrativistas. o capital humano e social existentes. farmacologia fitoterápica entre outros. aqüicultura.

tem-se aplicado intensamente os recursos biológicos e genéticos em diversas áreas da vida humana.• Desenvolvimento rural pressupõe planejamento de ações para aproveitamento dos atributos particulares voltados para mercados que valorizem a paisagem. Entre os princípios a serem observados estão a participação da comunidade local no encaminhamento das decisões. a qualidade e a cultura local. 2000) Para que o planejamento do uso do espaço ou local seja efetivo é imprescindível que os métodos e estratégias incluam e integrem ao desenvolvimento as variáveis ambientais. SILVA. entre outras coisas. A biodiversidade presente num dado território. as mudanças com o tempo e o delineamento de políticas (Saraceno. 1998) apud (CAMPANHOLA. apud (CAMPANHOLA. sem dúvida. Os atributos do território e sua contribuição ao processo de desenvolvimento rural estão estreitamente vinculados. a qualidade ambiental que por extensão. 1992). Nesse sentido. econômicas. Diferenciação territorial: A sócio-biodiversidade amazônica como estratégia para o desenvolvimento rural sustentável Os meios e fins da sustentabilidade variam conforme as condições ecológicas. sociais e culturais. 2000). constitui hoje elemento de diferenciação em relação a outras regiões do planeta. sociais. tanto no âmbito regional como local (Brooks. tais como: 49 . por se tratar. a introdução de mecanismos públicos que possibilitem a igualdade de acesso aos benefícios gerados e o compromisso com a conservação dos recursos naturais e recreativos e da qualidade ambiental. econômicas e de políticas públicas. SILVA. podem vir a contribuir para melhoria da qualidade de vida da população local. Historicamente. o desenvolvimento local requer um planejamento territorial e não estritamente setorial dos processos econômicos e sociais para avaliar a competitividade. de um banco de recursos genéticos ainda pouco conhecido. a biodiversidade.

o modelo econômico dependente e subordinado ao capital internacional. é necessário transformar a longo prazo a educação. agricultura e medicina ALBAGLI (2003). diretamente ou através de suas representações que juntamente com o poder público e as instancias econômicas-produtivas podem debater seus problemas e soluções. os processos de desenvolvimento local não devem prescindir da contribuição do conhecimento das populações tradicionais em relação ao uso dessa biodiversidade. melhorar a qualidade de vida das pessoas através do saneamento básico. A biodiversidade hoje é vista como fator estratégico não apenas sob o aspecto econômico. segurança entre outros. ou seja. com papel fundamental na promoção do desenvolvimento rural sustentável. O desenvolvimento local se insere nessa perspectiva trazendo consigo a premissa da participação efetiva da sociedade civil. Essa é a principal característica que diferencia a abordagem do desenvolvimento local própria desse momento de institucionalidade democrática e descentralização política. o conhecimento das populações tradicionais acerca dos múltiplos usos dos recursos da flora e fauna existente constitui fator estratégico de um dado território. do modelo desenvolvimentista verti50 . político. Considerações finais O desenvolvimento enseja uma trajetória de mudanças estruturais e não apenas conjunturais. A combinação do valor social dessas populações locais junto com a disponibilidade dos recursos da biodiversidade assume um diferencial estratégico para as regiões que lhes abrigam. Nesses termos. moradia. ou seja. Desenvolver é alcançar uma condição de equilíbrio social. econômico e ambiental enraizado na sociedade de tal maneira que seja capaz de assegurar sua continuidade independente de variações contingênciais negativas. mas como suporte a vida haja vista que a “diversidade da vida é fundamental ao equilíbrio ambiental” ALBAGLI (2003). da saúde. na perspectiva de desenvolvimento de medicamentos futuros. A sócio-biodiversidade.alimentação.

Sarita. Museu Paraense Emílio Goeldi. à biodiversidade e à cultura. IN: Desafios da globalização. 2003. J.Ladislaw Dowbor.). et JOYAL./abr. Octávio Ianni e Paulo Edgard A. o fator território aparece associado ao desenvolvimento não apenas como um lócus físico das atividades produtivas. Manole. social e ambiental. Globalização e tendências institucionais. considerados importantes na construção de identidades e territorialidades diferenciadoras no âmbito econômico. FISCHER. Belém. José Graziano da. Dante P. Vozes.EMBRAPA. MARTINELLI. biodiversidade e conhecimento tradicional na Amazônia”. relacionadas às populações tradicionais. Desenvolvimento local e o papel das pequenas e médias empresas.17. local valorizado pelo meio urbano pela complementaridade econômica. 2003. esses aspectos em conjunto e convergindo ações equilibradas tendem a alcançar um modelo de desenvolvimento rural sustentável. Clayton. Casa da qualidade. o rural passa de uma condição apenas de supridor de alimentos e matérias-primas primárias. nº 1 jan.Ladislaw. Palestra magna no Seminário “Saber local interesse global: propriedade intelectual. C. Brasília. Poderes locais. 1998. BA. Ed. JARA. Tânia. A sustentabilidade do desenvolvimento local. Petrópolis. Vol. Salvador. 2002. 2000. IN: Cadernos de Ciência e Tecnologia.cal que predominou durante décadas no Brasil.). Interesse global no saber local: geopolítica da biodiversidade. para ser então. CAMPANHOLA. Ed. mas por envolver aspectos inerentes a dinâmica das relações sociais. Desenvolvimento local e a democratização dos espaços rurais. Cesupa. Setembro. Ed. Rio de Janeiro. SILVA. Bibliografia ALBAGLI. Tânia Fischer (coord. Desse modo. Nesse contexto. DOWBOR. Desenvolvimento e Gestão – introdução a uma agenda. 1997. André. Barueri. IN: A gestão do desenvolvimento e poderes locais: marcos teóricos e avaliação. Recife: IICA. Resende (Orgs. A região do Amazonas se caracteriza por apresentar territorialidades estratégicas e diferenciadoras de forma particular. SP. A valorização do ambiente natural impõe reflexões acerca do uso e proteção da natureza. 51 .

37-67. IN: Cadernos de Ciência e Tecnologia. Domingues.PRÉVOST. GROSSI. EMBRAPA. 52 . Unioeste. 2004. 19 p.1997. SILVA. 2000. RIBAS. Teresina. Campanhola.El Desarrolo Local y las cooperativas. segundo semestre . José Graziano da. Paul. – 1995. 2002. Eliseu Savério. Programa de Associativismo para Pesquisa Ensino e Extensão . Marcos Aurélio. O que há de realmente novo no rural brasileiro. Out. nº 37. Cuadernos de Desarolo Rural. EMBRAPA MEIONORTE. VILELA.PAPE. Sérgio Luiz de O. SPOSITO. nº 1. Clayton. vol. O desenvolvimento Econômico Local. Paul . Francisco Beltrão. PRÉVOST. Território e desenvolvimento: diferentes abordagens. A importância das novas atividades agrícolas ante a globalização: a agricultura no estado do Piauí. SAQUET. Mauro Del. jan/abr.

Estratégias de comunicação em contextos populares: Implicações contemporâneas no desenvolvimento local sustentável Angelo Brás Fernandes Callou1 Introdução É recorrente. partimos do terreno da Comunicação Rural para discutir alguns aspectos teóricos das estratégias de comunicação para a participação de comunidades em processos de Desenvolvimento Local. no campo da Comunicação. evocar a participação popular como estratégia de inserção democrática nos processos de intervenção para o desenvolvimento. de dois lugares: um que diz respeito à utilização da Comunicação como estratégia de Difusão de Inovações na Agricultura dos anos de 1970/80.com. com a redemocratização do país e a consolidação da crítica à teoria rogeriana de Difusão de Inovações. sobre a qual 1 Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e Desenvolvimento Local (POSMEX). de que a comunicação participativa ou horizontal é ponto de partida para construção de qualquer política socioeconômica e ambiental nas organizações governamentais e não governamentais que lidam com os contextos populares. entre os pesquisadores pós-paulofreirianos. Desde os anos de 1980. mais exatamente. redimensionar os limites das estratégias de comunicação participativas frente aos cenários socioambientais contemporâneos.br 53 . parece necessário. Nesse sentido. se tornou consenso. doutor em Ciências da Comunicação. particularmente no meio rural. peixes@elogica. do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). entretanto. Partimos. Internalizada essa concepção.

as estratégias de comunicação na instância do desenvolvimento local não representem mais uma “romaria a um novo santo”. A preocupação com essa abordagem é a de chamar a atenção para os resultados sociais e ambientais negativos provocados no passado pela “modernização da agricultura” como vetor de desenvolvimento. de imediato. É importante salientar. foram observados. no Brasil. estrutura agrária. uma considerável aceitação por parte tanto das agências governamentais de extensão agrícola. 1981. fundamentalmente. 2 Vide GRAZIANO DA SILVA. obteve. Difusão de inovações e suas estratégias de comunicação: Um breve histórico Como sabemos. José. 54 . como diria Rogers. quanto pelos pesquisadores de Comunicação Rural e Extensão Rural. o modelo americano de Difusão de Inovações na Agricultura. Ao contrário. o decantado desenvolvimento dos contextos populares do meio rural não ocorreu. além dos prejuízos ambientais. que contribuíram como contraponto à desarticulação social e econômica e à depredação do meio ambiente com o advento da “modernização da agricultura”. particularmente nos anos de 1970/80. no presente. o aumento da concentração de terra e as migrações campo-cidade. de que foram as abomináveis “resistências conservadoras” de algumas populações rurais à adoção de tecnologias agropecuárias. A modernização dolorosa. para que. ou a sua “adoção retardatária”. Cabe lembrar aqui a observação de Juan Díaz Bordenave. o outro relacionado aos desafios vivenciados na atualidade pela Comunicação Rural em contextos populares. capitaneado por Everett Rogers. fronteira agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. Rio de Janeiro : Zahar. que apesar dos estudos realizados pela Difusão de Inovações terem sinalizado as estratégias mais eficazes de intervenção para a adoção tecnológica. na medida em que os “pacotes tecnológicos” desarticulavam as relações de trabalho no campo e endividavam os pequenos produtores rurais2.faremos um breve histórico.

A cultura dita popular. que. o seu poder de corrosão. quando levamos em consideração o desmatamento da cobertura florestal nativa do Estado. Superando a revolução verde: a transição agroecológica no estado do Rio Grande do Sul.585. pelo menos no Rio Grande do Sul. Francisco Roberto. a crítica à Difusão de Inovações ainda tateava. 30 p. já em vigor. agora sobre o manto da “participação”. Mas as práticas extensionistas não correspondiam aos preceitos dialógicos propostos por Paulo Freire. Dizem eles que dos 10.Entretanto. o Estado já possui 17. Vide CANUTO. 1. Texto digitado. os pesquisadores tivessem uma leitura crítica do que significaria a modernização da agricultura em termos de impactos socioculturais e ambientais. em 1983. tecnologia na agricultura e o discurso da EMBRATER. entretanto. citado por Francisco Caporal. foi também utilizada como estratégia de comunicação persuasiva para viabilizar o caráter modernizador da agricultura. Não podemos exigir. à época. pois. as instituições governamentais. entretanto. Segundo Ferreira e Gausmann. 4 55 . Santa Maria. em nível do discurso.731 hectares da cobertura florestal. João Carlos.000 hectares restavam apenas. a exemplo das EMATER. na verdade. Dissertação (mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Santa Maria. 1984.6%. 137 p. essas “resistências” parecem não ter obtido repercussão suficiente. Essa crítica acontecera muito lentamente e só fora consolidada em meados dos anos de 1980. através das suas expressões mais tradicionais. de uma espécie de boutade para fazer valer as políticas públicas verticais de desenvolvimento da agricultura pela via da modernização. no período em questão. março de 2003. 5-6. A Folkcomunicação 3 CAPORAL. No que diz respeito à questão participativa e à questão cultural das populações rurais no cenário da modernização da agricultura. àquela época. Capital. por assim dizer.52% de florestas nativas3. p.764. Tratava-se. Hoje. a cobertura florestal original passou dos 40% para 5. é interessante observar que. incorporavam a participação como estratégia para se comunicar e planejar atividades com as populações rurais4. afinal de contas. Santa Maria (RS). segundo ainda esses autores. 1984.

op. teatro de fantoches. Comunicação. 104-105.. que o folheto popular e o almanaque “refletem a opinião pública matriz do meio social onde se acham integrados os poetas.) nos revela o quanto de esforço estava sendo feito para facilitar a adoção de um modelo cujas conseqüências não estavam sendo avaliadas.cit. em 1986. ao oferecer munição teórica pelo seu mais ilustre representante e criador da matéria: Luiz Beltrão. segundo José Marques de Melo. 104. 6 7 56 . 1977. refratárias aos novos usos.ed. entre tantos outros meios de comunicação popular presentes no meio rural. José Marques de. desenvolvimento.. Itinerário de Luiz Beltrão. Recife : AIP/ UNICAP. em 1967. Roberto Benjamin. Roberto.praticamente inaugurou esse encontro com o difusionismo tecnológico.”7 A crítica desenvolvida por Walmir Barbosa no âmbito da Folkcomunicação versus Difusão de Inovações. quase sempre o meio mais conservador e retardatário no desenvolvimento sócio-cultural e econômico. José. Estão aí incluídos como instrumentos facilitadores da adoção tecnológica os folhetos de cordel. se referindo a manifestações da Folkcomunicação. é uma síntese de todo esse processo. no início dos anos de 1970. novas práticas. Diz ele. citado também por José Marques de Melo. Diz ele: “Uma reflexão (. novas ideologias. Roberto apud MARQUES DE MELO. os folhetos refletem idéias gerais e conservadoras. p. que “o alto grau de credibilidade e sua natureza lúdica permitiam uma aceitação popular espontânea” das inovações6. Luiz apud MELO. Tanto na política. 3. a reflexão intelectual se debru5 Esse livro é parte da sua tese de doutoramento apresentada à Universidade de Brasília. almanaques. E agenda seguidores. Da mesma forma que a lógica do capital já começava a atuar de modo concreto sobre o campesinato. 1998. em 1971. p. comenta. BENJAMIN. Sobre isso vide BENJAMIN. na sua tese de doutoramento.. Petrópolis : Vozes. pela expropriação dos meios de produção. como na religião e na moral. BELTRÃO. opinião. no livro Comunicação e Folclore 5.

para propor aos agentes do capital também a expropriação dos meios de produção cultural. 2003. duas outras experiências – Operação Rodízio (de automóveis). Vitória : FACITEC. refazendo e buscando compreender o funcionamento de todo o processo de mobilização social e suas estratégias de comunicação.çava sobre a cultura do povo. 14. Desirée Cipriano. 8 9 10 11 BARBOSA. RABELO. quanto a questão da «valorização» das culturas populares do período da Difusão de Inovações. Walmir de Albuquerque. Estratégias de comunicação contemporâneas Para abordar esse tema lançamos mão do interessante estudo publicado recentemente por Desirée Rabelo.11 Sem a pretensão de desenvolver estudos comparativos. em 1996. Idem. cit. em São Paulo. p. a autora apresenta. Comunicação e Mobilização na Agenda 21 Local9.”8 O que é importante reter dessa digressão é que tanto a noção de participação. p. op. da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). 161-162. a complexidade que envolve os diversos processos de participação dos atores sociais envolvidos nas mobilizações e a importância das estratégias de comunicação para flexibilizar e desobstruir canais de comunicação.167-178. se mantém implícita e explicitamente na pauta das discussões das políticas e estratégias de comunicação para o desenvolvimento dos cenários socioeconômicos e ambientais contemporâneos. O estudo revela-se como uma cartografia do planejamento comunicacional ali desenvolvido. expropriação dos meios de produção cultural. 57 . Com o objetivo de «identificar algumas estratégias de comunicação consonantes com a mobilização prósustentabilidade»10. Comunicação e mobilização na agenda 21 local. Idem. E o mais grave. Rabelo se debruça sobre a implantação. para reelaborar com eles novas formas de intervenção.. no qual ela acrescenta. através dessas experiências. da Agenda 21 local em Vitória do Espírito Santo. 203 p. p. ainda. e Pastoral da Criança.

b) o reeditor social. isto é. mobilizar. p. Idem. a tarefa mais complexa. 63 Idem.. e c) o editor. segundo circunstâncias e propósitos. por seu papel social. p. ocupação ou trabalho tem capacidade de readequar mensagens. Ou seja. 64. Neste caso é uma “pessoa que. segundo Rabelo. pode ser uma instituição ou também uma pessoa que tem como tarefa “estruturar informações em códigos pertinentes à mobilização. qualquer pessoa “que tem o poder de negar. talvez. introduzir e criar sentidos. É alguém capaz de modificar as formas de pensar. através de Rabelo. segundo o autor citado17. cit.”15. entre outros exemplos. ou seja. passando por um cabelereiro. 58 . do ponto de vista da comuncição para mobilização.. técnicas e profissionais para que um processo de mobilização ocorra. pode ser desde um professor até os média e seus profissionais. na medida em que. com credibilidade e legitimidade.”13. op. enfrenta os seguintes desafios: 1) “construir e divulgar imagiários”. sentir e atuar de seu público. ou. Rabelo se estrutura teoricamente a partir dos estudos de Bernardo Toro. que vê os processos de participação e mobilização como um “ato de comunicação”12.”16 Cabe ao editor. as campanhas Que nenhuma família passe fome neste Natal e Para que todas as crianças tenham vida. segundo ainda Rabelo.. tornar público os 12 13 14 15 16 17 TORO. Idem. segundo Rabelo. “somar singularidades”. Idem. diferentes atores em prol de um objetivo comum. criar estratégias que possibilitem reunir. Este. Rabelo traz. um padre. para Toro. Idem. Trata-se de “pessoa ou instituição com legitimidade e capacidade de criar condições econômicas. são três os atores principais necessários para iniciar um processo de mobilização: a) o produtor social.”14 O reeditor para Toro. transmitir. como ele próprio sintetiza.Para desenvolver essa pesquisa. Bernardo apud RABELO.. e 3) “gerar processos de coletivização”. Para este autor. 2) “identificar e instrumentalizar reeditores”. institucionais.

pois. A nova era da estratégia. apenas como um problema no âmbito das estratégias de comunicação. cujo preceito teórico seria o de Michael Porter. realça a importância do planejamento da comunicação. animando. em última instância.trabalhos que estão sendo desenvolvidos e os apoios institucionais ou individuais recebidos. Michael. Além disso. o seu trabalho não aborda algumas questões que consideramos hoje como fundamentais nos estudos de Comunicação Rural e Extensão Rural. Daí a importância. Investir nessa direção é tratar os contextos populares como um produto. por seu turno. os processos de participação18 . A temática da participação popular/mobilização não deve ser pensada. o estudo de Rabelo oferece pistas metodológicas para os produtores sociais. aquelas estratégias mais promissoras. p.”19 Como vimos. a divulgação dos resultados podem criar um sentimento de auto-estima entre os atores sociais envolvidos na mobilização. para apoiar diferentes tipos de campanhas e público. reeditores sociais e editores. p. In: Estratégia e planejamento. a todos aqueles que se interessam pela participação/ mobilização comunitária e social em prol do desenvolvimento sustentável. dissecar. revelar. em desafios de registrar. Entretanto. isto foi feito no passado com repercussões negativas sobre as populações rurais e o meio ambiente. dos meios de comunicação de massa. São Paulo : Publifolha. 2002. É bem verdade que as preocupações atuais com as estratégias de comunicação se distinguem daquelas realizadas pela Difusão de Inovações e Folkcomunicação. ou seja. em termos de comunicação popular. Com essa perspectiva teórica. tão somente. 59 . Isso implicaria. diga-se de passagem ainda tão pouco contemplado pelas agências de desenvolvimento dos contextos populares. a nosso ver. 65-67. PORTER. 31. em que “Agir com estratégia é deixar alguns clientes insatisfeitos para que outros possam ficar verdadeiramente contentes. segundo a autora. na medida em que pretendem abrir/desobstruir canais à inserção cidadã dos contextos populares nos processos de 18 19 Idem.

Desafios da comunicação rural em tempo de desenvolvimento local. Comunicação rural e desenvolvimento local sustentável Os estudos de Comunicação Rural/Extensão Rural no Brasil vêm passando. a perspectiva de desenvolver os contextos populares a partir de políticas governamentais mais amplas perde estatura na Comunicação Rural em virtude da fragmenta20 São vários os textos que abordam o assunto. Mas o que parece relevante e instigante é pensar as culturas populares na contemporaneidade a partir dos estudos de Comunicação Rural para analisar até que ponto vale a pena se deter nas estratégias e participação comunitária de forma específica à recuperação/preservação ambiental. Carlos. Vide especialmente FRANCO. Idem. Ano II. 3. Desenvolvimento local. essa temática aos estudos de Comunicação Rural no Brasil. e as novas concepções sobre o rural brasileiro que enlaçam atividades agrícolas e não agrícolas num mesmo território agrário. 6-19.78. Brasília : Instituto de Política. TAUK SANTOS. No que diz respeito especificamente à Comunicação Rural e Desenvolvimento Local. nesses últimos 10 anos. Pelo menos três vetores contribuíram para o surgimento dessas tranformações: a influência dos estudos em desenvolvimento local. Revista Signo. N. CALLOU. no qual articula-se. o texto Desafios da Comunicação Rural em Tempo de Desenvolvimento Local 21. Se não vejamos. 21 60 . Nesse momento. Maria Salett. essa discussão tem o seu lugar de importânica.. Augusto de. publica-se. Revista de Comunicação Integrada. Brasília : IICA. pela primeira vez. Por que precisamos de desenvolvimento local integrado e sustentável.desenvolvimento. 1998. Angelo Brás Fernandes. por transformações teóricometodológicas consideráveis. n. setembro/1995. e JARA. aqui compreendido como um processo de concertação/orquestração dos diferentes atores sociais empenhados no desenvolvimento sustentável das potencialidades econômicas endógenas20. Proposta. 2000. em 1995. Portanto. ano 27. p. a disseminação dos Cultural Studies ingleses nas pesquisas em Comunicação da América Latina. 2001. UFPB. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável. integrado e sustentável: dez consensos.

ção do espaço pelos atuais processos de reestruturação da economia mundial e sua repercussão contraditória sobre as culturas locais. 2002. que as reconfiguram como culturas híbridas e ressignificadoras dos produtos midiáticos. jan.Serviços de Tecnologias Alternativas (SERTA) . TAUK SANTOS. Maria Salett. Comunicação e Educação. chega à conclusão. À medida em que a Comunicação Rural lançou mão dos estudos culturais latino-americanos da Comunicação para compreender os processos de recepção de mensagens pelas culturas populares do meio rural. na sua pesquisa de doutoramento. aspectos novos apareceram para instrumentalizar a sua ação no Desenvolvimento Local.. desorganiza/organiza. Ou seja. Gestão da comunicação no desenvolvimento regional. Angelo Brás Fernandes. Espelhada. lastreada principalmente na categoria “consumo”. acenadas pelo SERTA. n 11 : 29 a 34. em geral via meios de comunicação de massa. Extensão pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. Salett Tauk Santos. num movimento pendular entre as possibilidades de consumo ao nível de sua existência. exclui/inclui. mas dentro de uma leitura distinta daquela do passado e. os pequenos produtores ru22 Vide TAUK SANTOS. 1998. a Comunicação Rural tem hoje uma outra leitura no âmbito da participação comunitária. talvez. e CALLOU. 61 . Recife : Bagaço. de que a participação de pequenos agricultores no programa de desenvolvimento rural analisado . Maria Salett./abr. principalmente. que abordamos. de Canclini. e as aspirações simbólicas construídas a partir de estímulos da cultura hegemônica. In: PRORENDA RURAL-PE (Org. da que se vê embutida no estudo de Desirée Rabelo. São Paulo : Editora Moderna.se configura de maneira ambivalente e refuncionalizada. por exemplo. na concepção de Néstor García Canclini e Jesus Martín-Barbero sobre as culturas populares no capitalismo.). ou seja. Coube à Comunicação Rural nesse novo cenário envolver-se com os contextos populares como facilitadora/gestora dos processos comunicacionais na concertação para o desenvolvimento local. Extensão pesqueira e gestão da comunicação no desenvolvimento local.22 As noções de participação e de cultura popular se mantêm ainda coladas nessa nova abordagem. pulveriza/localiza.

Recife : UFRPE./dez. 2003. N. é preciso levar em consideração que as culturas populares atuam num terreno de ambigüidades permanentes. 2001. reeditores sociais e editores de que fala Desirée Rabelo na construção de estratégias de comunicação para mobilização comunitária. vol. n. com aspectos da vida cotidiana como o lazer e a religião23. Conceição Maria Dias. Somam-se a esses aspectos os desafios enfrentados pelas populações rurais com o impacto da mundialização dos mercados no meio agrícola brasileiro. Comunicação e desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da incubadora tecnológica de cooperativas populares – INCUBACOOP pelas mulheres da cooperativa de costura de Abreu e Lima – COOPECAL-PE. Comunicação e reforma agrária: estudo de recepção das políticas do MEPF-INCRA pelos assentados de Gaipió – PE.INTERCOM.. Recife : UFRPE.21). Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). Comunitário: espaço simbólico de encontros e desencontros. 2002.) Comunicação rural. São Paulo. Em lugar de restringirem sua participação à questão política e produtiva. Revista Brasileira de Comunicação . por mais bem intencionados que sejam os produtores sociais. Aída Lúcia Mello. (o caso Pintadas/BA). p. entre outras) nas políticas públicas de desenvolvimento 23 SANTOS. Angelo Brás Fernandes. Maria Salett Tauk.rais dão significados incompatíveis com a noção de participação concebida pelo programa. Portanto. 43. a mesclam.. As proposições de incluir as atividades produtivas já existentes no meio rural brasileiro (lazer. Vide também PASSOS. artesanato.. Maria de Fátima Massena. 188 p. MELO. Mulher e consumo: a recepção das mensagens do programa de apoio ao desenvolvimento comunitário (PRODEC) da Caixa econômica Federal. Recife : UFRPE. Dissertação de Mestrado em Comunicação Rural. 193 p. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). tecnologia e desenvolvimento local. 1996. Recife : Bagaço. Esse impacto tem exigido redefinições no conceito de território agrário. nem sempre captadas (ou cooptadas) pelas estratégias de comunicação. turismo. (Reprodução literal e parcial da nota de rodapé 41. jul. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural).13. na medida em que as atividades agropecuárias vêm se reunindo às atividades não agrícolas. Angelo Brás Fernandes (org. 144 p. 46 e 47 apud CALLOU. pelas mutuárias da Cila de Chã de Marinheiro. como deseja o SERTA. 2. Comunicação rural e era tecnológica: tema de abertura. afirma a autora. 345 p. XIX. Coleção GT Intercom. Comunicação e consumo: espaço das mediações da cultura transnacional e das culturas populares. trabalho em domicílio. indústrias. em Surubim/PE. In: CALLOU. UFRPE. 1998. Carmem Virgínia M. e LIMA. p. 2000. 62 . Recife. SÁ BARRETO..

24 Sobre isso vide GRAZIANO DA SILVA. 304 p. s. 1997. n. GRAZIANO DA SILVA. em várias direções e temporalidades.). José (edit. 2000. 43-81. José. Estudos recentes mostram que o Brasil possui mais de 70% dos seus municípios no meio rural25. Meio Ambiente. ao desenvolvimento local e à sociedade tecnológica emergente. Clayton. 2002. UFMG. como pretendemos que sejam discutidas e pesquisadas. Sobre isso vide ORTIZ. Sobre o assunto veja-se VEIGA. v. p. Diante desses aspectos. Belo Horizonte. O novo mundo rural. Noutras palavras.rural. quando sabemos que os contextos populares do meio rural hoje são mais amplos do que se imaginava. v. José. 66. p. 1. Por outro lado. In: CAMPANHOLA. hibridizadas. Mais complexa essa questão se torna. 3. Salvador. 2. GRAZIANO DA SILVA. cultura popular. bem como a reivindicação de uma reforma agrária não essencialmente agrícola24. transnacionalizadas. Internet. concordamos com Clayton Campanhola e José Graziano da Silva ao incluírem a gestão ambiental das atividades num processo mais amplo e integrado de desenvolvimento local para não restringir as estratégias de mobilização aos recursos naturais ou ao meio ambiente26. Renato. Entrevista. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se calcula. v. Campinas (SP) : Editora Autores Associados. 2. Clayton. CAMPANHOLA. vêm exigindo que se pense de maneira diferenciada as estratégias de Comunicação Rural. p. perdem suas singularidades para encontrar seu sentido mais dinâmico num cenário de desenvolvimento local sustentável. E são nesses territórios onde se localizam as principais questões ligadas ao meio ambiente. Românticos e folclorista. Revista ops. GRAZIANO DA SILVA. as estratégias para participação de comunidades em processos de recuperação/preservação ambiental. n. Diretrizes de políticas públicas para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de desenvolvimento local. O novo rural brasileiro: políticas públicas. São Paulo : Olho d’Água. Nova Economia. 7. estão no bojo dessas novas ruralidades questões relativas ao meio ambiente. Eli da. José. 1997. Cenário este onde as culturas populares também perdem o caráter romântico desejado pelos folcloristas27 para serem pensadas no substantivo plural. excluídas. maio. Jaguariúna (SP) : EMBRAPA. Por uma reforma agrária não essencialmente agrícola. 25 26 27 63 . José.d. em reordenação permanente. 7. e GRAZIANO DA SILVA.

integrado e sustentável: dez consensos. Comunicação rural e era tecnológica: tema de abertura.13.78. Walmir de Albuquerque. Rio de Janeiro : Zahar. v. GRAZIANO DA SILVA. 2002. Dissertação (mestrado em Extensão Rural) – Universidade Federal de Santa Maria. p. Texto digitado. 66. 1981. 30 p. 1984. n. FRANCO. Coleção GT Intercom. 2000. Brasília : Instituto de Política. estrutura agrária. Clayton. Proposta. Nova Economia. CALLOU. 1997. GRAZIANO DA SILVA. GRAZIANO DA SILVA. estudos culturais da Comunicação e novas ruralidades – que o planejamento da comunicação e suas estratégias de mobilização comunitária podem se tornar rarefeitas diante das ambivalências e das ressignifações que os contextos populares apresentam nos processos de participação das propostas de desenvolvimento local. Belo Horizonte. In: CAMPANHOLA. Desenvolvimento local. 1998. 2000.). Francisco Roberto.) Comunicação rural. FRANCO. 5-6. Recife : Bagaço. n. Por que precisamos de desenvolvimento local integrado e sustentável. Santa Maria. Bibliografia BARBOSA. Roberto.1. p. João Carlos. Tese doutoramento (ECA/USP). José. 6-19. CAMPANHOLA. José (edit. 3. podemos arriscar dizer. ano 27. José. . In: CALLOU. Augusto de. fronteira agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. tecnologia na agricultura e o discurso da EMBRATER. 43-81. v. Superando a revolução verde: a transição agroecológica no estado do Rio Grande do Sul. Clayton. Capital. Itinerário de Luiz Beltrão. 137 p. Angelo Brás Fernandes. CAPORAL. 1984. n. Diretrizes de políticas públicas para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de desenvolvimento local. UFMG. O novo rural brasileiro: políticas públicas. p. Augusto de.Por último. BENJAMIN. José. considerando os três vetores acima abordados – desenvolvimento local. março de 2003. Jaguariúna (SP) : EMBRAPA.7. 64 . O novo mundo rural. Recife : AIP/UNICAP 1998. Meio Ambiente. A modernização dolorosa. GRAZIANO DA SILVA. maio. Santa Maria (RS). A questão agrária e a comunicação rural no Brasil. 1986. CANUTO. p. Angelo Brás Fernandes (org. tecnologia e desenvolvimento local.

Salvador. pelas mutuárias da Cila de Chã de Marinheiro. Michael. maio. 1977. José. MELO. 2. Brasília : IICA. n. Carlos. em Surubim/PE. opinião. GRAZIANO DA SILVA. 2. Desirée Cipriano. 2001. 2. Comunitário: espaço simbólico de encontros e desencontros. n. 1997. 31. 2003./ dez. 46 e 47. jul. Recife. PASSOS. Comunicação. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). José. Revista Brasileira de Comunicação .. São Paulo : Olho d’Água. Vitória : FACITEC. Renato. N. LIMA. 1998. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). 2001. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável. A nova era da estratégia. Entrevista. 7. Românticos e folclorista. cultura popular. Mulher e consumo: a recepção das mensagens do programa de apoio ao desenvolvimento comunitário (PRODEC) da Caixa econômica Federal. Nova Economia. SÁ BARRETO. Recife : UFRPE. Dissertação de Mestrado em Comunicação Rural. São Paulo : Publifolha. São Paulo. Recife : UFRPE. UFRPE. UFMG. p. Petrópolis : Vozes. Maria de Fátima Massena. 2000. p. 2003. 43. Comunicação e desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da incubadora tecnológica de cooperativas populares – INCUBACOOP pelas mulheres da cooperativa de costura de Abreu e Lima – COOPECAL-PE. 65 . MARQUES DE MELO. José. Belo Horizonte. s. 345 p. 2002. Revista ops. v. Comunicação e mobilização na agenda 21 local. Carmem Virgínia M. Maria Salett Comunicação e consumo: espaço das mediações da cultura transnacional e das culturas populares. 3a Ed. (o caso Pintadas/BA). RABELO. 203 p. JARA. 193 p. José. p. v. 188 p. XIX. 7. PORTER. TAUK SANTOS. Conceição Maria Dias. Aída Lúcia Mello.INTERCOM. vol. Por uma reforma agrária não essencialmente agrícola. p. desenvolvimento. Comunicação e reforma agrária: estudo de recepção das políticas do MEPF-INCRA pelos assentados de Gaipió – PE.d. Internet. In: Estratégia e planejamento. 1. 1996. O novo mundo rural. 43-81. GRAZIANO DA SILVA. ORTIZ.GRAZIANO DA SILVA. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação Rural). 1997. Recife : UFRPE. 144 p.

304 p. Gestão da comunicação no desenvolvimento regional. Comunicação e Educação. Desafios da comunicação rural em tempo de desenvolvimento local. Extensão pesqueira e gestão da comunicação no desenvolvimento local. N.). Eli da. São Paulo : Editora Moderna. Revista Signo. UFPB. setembro/1995.. 2002. Maria Salett. Revista de Comunicação Integrada. CALLOU. n 11 : 29 a 34. CALLOU. 1998. Angelo Brás Fernandes. Ano II.TAUK SANTOS. Campinas (SP) : Editora Autores Associados. TAUK SANTOS. Maria Salett. 3. jan. 2002. In: PRORENDA RURAL-PE (Org. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se calcula. e Baccega. Recife : Bagaço./abr. TAUK SANTOS. VEIGA. Angelo Brás Fernandes. Extensão pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. 66 . Maria Salett.

fazem parte do quotidiano. Curso de Aperfeiçoamento em Extensão Rural promovido pelo PROJETO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS (SEPROR / IDAM E GTZ – Amazonas) em outubro / novembro de 2004.AM. entre outras: qual a compreensão do extensionista rural e da extensionista rural em torno de ciência. em parte. todas elas com reflexo. uma diversidade de tipos de conhecimentos está presente. tendo por base pesquisa bibliográfica e as próprias vivências do autor. 67 . na cidade de Presidente Figueiredo . seja na formação profissional. seja no quotidiano do campo. discussões empreendidas junto a um grupo de extensionista rurais efetuadas no Estado do Amazonas2. por exemplo. a interação extensionista rural – agricultor. em torno de conhecimento e em torno de pesquisa? Como tal compreensão pode também condicionar o desempenho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo? Este texto sistematiza.A metodologia científica e o quotidiano da extensão rural: Algumas relações Prof. Pretende-se aqui suscitar algumas reflexões em torno de possíveis relações entre o domínio de princípios básicos da metodologia científica e a atuação profissional de alguém enquanto extensionista rural. 1 2 Professor Adjunto no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Nesse processo de interação. buscando contribuir com elementos de resposta para as seguintes questões. Paulo de Jesus1 O trabalho do Extensionista Rural e da Extensionista Rural tem passado por diferentes orientações paradigmáticas. A prática de extensionista rural e a diversidade de conhecimentos Qualquer que seja o paradigma dominante num sistema de extensão rural. extensionista rural – pecuarista. Dr.

transforma em conceito esse objeto. b) o objeto cognoscível. de certo modo. um dia se programa uma visita a uma dessas comunidades. com a comunidade predominantemente indígena (situação a ser conhecido ou situação cognoscente). contudo. um extensionista rural ou uma extensionista rural é designado para trabalhar num município amazônico em que existem algumas comunidades predominantemente indígenas. isto é. ao vivo. de caracterizar os diferentes tipos de conhecimento. uma reflexão se impõe: o que é conhecimento? Qual o entendimento do extensionista rural e da extensionista rural em torno do significado de conhecimento e como se processa a sua produção? De forma simplificada e inspirada em Ruiz (1996) pode-se formular um entendimento sobre conhecimento baseado em três elementos: a) o sujeito cognoscente. seus valores religiosos. ‘engole’ o objeto que conheceu. sua composição etária e por sexo. o resultado. de sensações. suas condições de vida e de produção e de comercialização.Antes. Dessa forma. conhecer é estabelecer uma relação entre a pessoa que conhece e o objeto que passa a ser conhecido. isto é. ou seja. por mais absurdo que pareça. resultando daí um conjunto de impressões. Então. Galliano (1986:17) assim se expressava: Em linhas gerais. O que vai acontecer: o sujeito (o extensionista rural ou a extensionista rural) vai interagir. de imagens sobre a comunidade. alguém que tem a capacidade de conhecer. reconstituio em sua mente. Ilustrando. tem conhecimentos muito elementares e talvez estereotipados sobre comunidades predominantemente indígenas. o que fica da relação entre o sujeito e o objeto. No processo de conhecimento. Ou seja. suas formas de lazer. culturais. Imagine-se que o extensionista rural ou a extensionista rural. algo que pode ser conhecido e c) a imagem. apropriar-se do objeto que conheceu. quem conhece acaba por. suas relações com outras 68 .

conhecimento religioso. informações) pode ser sistematizado. apresenta-se uma classificação sobre conhecimento que distingue pelo menos quatro tipos de conhecimento: 69 . ou consolidadas. As imagens. a forma e. por exemplo. sensações. do exemplo acima. Os livros. escrito. os artigos de revista científica.etnias etc. Muito freqüentemente distingue-se o conhecimento pela adjetivação: conhecimento popular. Tal relação. ou seja. tem-se um resultado dessa relação estabelecida. se o extensionista rural ou a extensionista rural. Parece explicado o sentido de conhecimento e a forma como ele é produzido. a atuação. registrado. 1995). entre outros). Muitos autores apresentam tipologias de conhecimento e suas características (RUIZ. inclusive em situações de laboratórios. são as formas e os condicionamentos presentes na relação do extensionista e da extensionista com a comunidade predominantemente indígena que podem caracterizar o tipo de conhecimento resultante dessa interação. ou reconstruídas com acréscimos ou substituições. DEMO. de outro lado. por exemplo. interação vivenciada sob diversas formas. 1996. ou seja. com a comunidade predominantemente indígena e outras. assim como condiciona o comportamento.. No exemplo acima apresentado. as impressões são captadas e armazenadas no cérebro e depois serão. Mas. escrever um texto sobre a comunidade predominantemente indígena visitada. A seguir. de um lado. tem-se um conhecimento. por exemplo. são os condicionamentos sob os quais a relação entre o ser cognoscente e o cognoscível. 1996. Também aquele resultado (imagens. são conhecimentos sistematizados que resultaram da interação sujeito – objeto. por exemplo. 1995. CERVO. conhecimento científico. a relação do extensionista rural ou da extensionista rural. as sensações. esse texto será um resultado da experiência de interação vivenciada. ALVES. é condicionada por diversos fatores (DEMO. 2004. entre o sujeito e o objeto se processa. como se sabe. Isso favorece a compreensão daquilo que distingue os diferentes tipos de conhecimento: é.

• condições de produção e de uso que podem permitir a emergência do caráter dogmático. sem regras formais. como se vê seguir: • quase sempre baseado na percepção sensorial. na busca da solução para problemas imediatos. condicionada aos interesses. são adjetivos que podem refletir uma atitude de desvalorização. • visão fragmentada e subjetiva. daquilo que ouviu de terceiros. vulgar. vai interiorizando as tradições da coletividade”. subordinada ao envolvimento afetivo e emotivo de quem o elabora. dificultando ou impossibilitando o controle e avaliação experimental. que não valoriza o esforço da busca de provas e evidências. no decorrer da existência. • expresso em linguagem diversificada e vaga. e. como afirma Ruriz (1996:91) todo homem.A) Conhecimento do senso comum ou conhecimento ordinário ou conhecimento empírico ou conhecimento vulgar ou ainda conhecimento intuitivo Uma primeira observação sobre esse tipo de conhecimento diz respeito à adjetivação freqüentemente utilizada pelos autores: senso comum. vai acumulando vivências. • intuição dos primeiros princípios lógicos.E aí está a forma como é produzido esse tipo de conhecimento: espontaneamente. 70 . convicções pessoais e expectativas do sujeito cognoscente. assistemática. • é elaborado de forma espontânea e instintiva. • tem caráter utilitário e é repassado de um indivíduo a outro e de geração a geração. • incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de interpretações baseadas apenas nas crenças pessoais. “vai acumulando conhecimentos daquilo que viu pessoalmente. primeiros princípios éticos e intuição estética. ordinário. portanto ametódica. No entanto. por exemplo. crenças.

com pecuarista que. com indígenas. ao mesmo tempo. todos recorremos a ele. relações conceituais. exigências lógicas não redutíveis a realidades materiais. um agricultor familiar pergunta: E por que tem que ser assim. idéias. Deduz-se com certa facilidade que a construção desse tipo de conhecimento tem regras próprias.Como se afirmou anteriormente. como se vê a seguir: 71 . e se centra na coerência lógica. como ele ou ela. o extensionista rural ou a extensionista rural interage com agricultores familiares. todos estamos impregnados desse tipo de conhecimento. • objetiva questionar as certezas. parece ser fácil deduzir também que freqüentemente a pessoa está em estado de filosofar. Assim. Mas. procurando sentido ou interpretação mais ampla em resposta às grandes indagações do espírito humano. • utiliza o método racional onde prevalece o processo dedutivo. quando. que antecede à experiência. as conclusões. portanto não passíveis de observação sensorial. se interessando pela formulação de uma concepção unificada e unificante do universo. B) Conhecimento filosófico A compreensão do sentido e da forma de construção do conhecimento filosófico passa pela compreensão de que a Filosofia: • tem como objetos. • está sempre à procura do mais geral. seus valores são também condicionados pelo conhecimento do senso comum. se aproximam também das características do conhecimento filosófico. o extensionista rural ou a extensionista rural é também detentor ou detentora desse tipo de conhecimento e está constantemente interagindo profissionalmente com pessoas que detém ou produzem esse tipo de conhecimento e conseqüentemente suas atitudes. por exemplo. das leis mais universais. Doutor? C) Conhecimento religioso Esse tipo de conhecimento supõe uma compreensão sobre Teologia. E no quotidiano de seu trabalho. seus comportamentos. • tem como fundamento a evidência lógica.

Parece que as características do conhecimento religioso ficaram claras. alguém pode ser profundamente religioso (católico. • geral. seus comportamentos tem também a influência do conhecimento religioso. • utiliza princípios operativos (razão iluminada. Aqui também se pode afirmar que os comportamentos. de atitudes. todos e todas. 72 . diferentes da Filosofia e demais ciências (sentidos corporais. por exemplo) e ser um grande cientista. Outra reflexão importante refere-se ao fato de professar. se dizem ateus ou atéias. presbiteriano. porque conhecia no real o que há de mais universal e válido para todos os casos da mesma espécie. batista. quando bem analisados. de ser influenciado ou determinado pelo conhecimento religioso não impede a influência de outros tipos de comportamento. Claro. os índios e as índias.• não se distingue da Filosofia e das outras ciências pelo objeto de estudo que é ou pode ser o mesmo (Ex. • tem uma esfera de valor completamente autônoma. os professores e professoras. • supõe e exige a autoridade divina. • utiliza como princípio operativo a fé religiosa que é de ordem místico-intuitiva e não de ordem racional-analítica. contraditoriamente. até aqueles e aquelas que. até o Renascimento. cultos afro-brasileiros. nela se fundamentando e só a ela atendendo. as atitudes humanas são muito influenciadas pelo conhecimento religioso: os técnicos e as técnicas. de praticar. inteligência e razão natural). origem do mundo). os agricultores e agricultoras. budista. Neste sentido. o conhecimento científico se caracterizava como: • certo. elevada pelo Dom sobrenatural e gratuito da fé). D) Conhecimento científico Para entender o conhecimento científico.: Teoria da Evolução das Espécies. Assim. pela condição de explicar os motivos da certeza. portanto uma epistemologia autônoma. faz-se necessário situá-lo no tempo. às vezes surgem grandes conflitos.

o contacto do extensionista ou da extensionista teria que ser mais planejado. acabado ou definitivo. Atualmente a ciência é entendida como uma busca constante de explicações e soluções. Assim. o conhecimento resultante da relação do extensionista ou da extensionista rural com a comunidade predominantemente indígena.. é regida por regras claras e conhecidas de todos. Quase sempre. No exemplo acima apresentado. no contexto da produção do conhecimento científico. Hoje. Tais regras configuram o chamado método científico. resultante da demonstração e da experimentação. ser precedido de leituras sobre o que já se estudou e publicou em torno de comunidade predominantemente indígena na Amazônia. nos processos de escolarização se incutem visões exatamente diferentes: a ciência é a verdade e é imutável. sistemática. objetivo e crítico. A relação sujeito – objeto. de revisão e reavaliação de seus resultados e tem a consciência clara de sua falibilidade e de seus limites. isto é. A ciência não é considerada como algo pronto. Nem sempre se pensa assim. (. Não é a posse de verdades imutáveis. como se viu. precisaria atender a certas condições. se processa de forma metódica. por exemplo. sistemático. como afirma Cervo (1996:8). como se viu acima.) a concepção de ciência é outra. qual o problema a esclarecer ou explicar? Outra decisão no planejamento do estudo da comunidade a ser visitada: o contato vai ser feito com todos os integrantes da comunidade? como vai se dar esse contato com todos? ou se vai estabelecer 73 ..• metódico. que. Ou seja. o que a aproxima muito do conhecimento religioso. teria que ser precedido de uma apropriação do conhecimento já existente em torno do tema. Também deveriam ser formuladas questões que sintetizassem as inquietações do extensionista ou da extensionista em torno da comunidade predominantemente indígena. para ter o caráter científico. o que é mesmo que ele ou ela quer conhecer.

uma amostra. por exemplo. inclusive comparando-as com impressões produzidas e registradas por outras pessoas. Conhecimento Científico e Método Científico Importa ter bem claro que a compreensão em torno do método científico aponta pelo menos para três finalidades: a)compreendê-lo como processo de produção diferenciador de outros tipos de conhecimento. extensionista – pecuarista. numa perspectiva de aprofundar o conhecimento. A consciência das diferenças entre tipos de conhecimentos com os quais se interage no cotidiano pode contribuir para a adoção de atitudes de valorização dessas diferenças e de aprendizagens a partir das diferenças. podese possivelmente afirmar que hoje o extensionista ou a extensionista. sem preconceitos. formular sinteticamente conclusões e. Trata-se de considerá-los como eles são: diferentes. homens. b)contribuir para compreensão e crítica do conhecimento siste74 . neste caso. Como se tentou evidenciar. a caracterizá-los. adultos. jovens e crianças. por exemplo. Tal consciência pode favorecer à interação extensionista – agricultor. mulheres. as diferenças entre tipos de conhecimentos são resultados dos processos diferentes de produção de cada tipo de conhecimento. vai ser feito contato apenas com um certo número de habitantes. a seguir se tentará apresentar elementos que favoreçam a compreensão do processo de produção do conhecimento científico. por exemplo. teria que se definir como registrar as impressões. incluindo nesse conjunto. Depois. Por fim. até hipóteses a serem investigadas posteriormente. e valoriza-los. Pelos objetivos desse texto. isto é. começa a perceber a diversidade de tipos de conhecimentos. com a consciência de que não se trata de considerar um tipo de conhecimento melhor ou superior a um outro tipo de conhecimento. extensionista – indígena. Feita essa breve caracterização dos tipos de conhecimento. as informações e como analisá-las posteriormente.

é a existência de um método. confronto entre teorias. A ciência tem um conjunto de procedimentos organizados para obter. Antes da adjetivação. destaca-se a importância e a caracterização da etapa de observação. do empírico que suscita a necessidade de pesquisa para explicar. problemas relativos a revisões ou validações conceituais. assegurar a repetição da experiência. da interação sujeito – objeto. Em se falando de método científico. num processo de produção do conhecimento científico. de forma a poder. Estas 75 . compilar e testar seus resultados. Lungarzo (1989). Começa-se uma pesquisa pela inquietação produzida a partir da observação. para compreender. testar suas verdades. É a observação do real. da prática.(LUNGARZO. assim se expressa: Um problema caracteriza-se pela proposição de uma dificuldade a ser resolvida. que permite organizar. da situação de pesquisa. ou teórica. para seu exercício. Pode ser de ordem prática . por exemplo. etc. para resolver um problema de pesquisa. Ele assim conclui: Uma das características da ciência. Observação. E o que é problema de pesquisa? Considerem-se algumas definições.matizado a que se tem acesso e c) instrumentalizar-se para sua prática. para os objetivos desse texto. 1989:42). Eis o sentido de método: procedimentos organizados em uma seqüência lógica. comparar seus enunciados. assinala que “uma das diferenças entre a ciência e as outras formas de conhecimento é a existência de uma organização lógica entre as afirmações que constituem uma teoria científica e a possibilidade de justificá-la”. convém definir ou apresentar um sentido de Método. identificação e formulação do problema de pesquisa. Esse é o primeiro passo.problemas empíricos -. Ferreira. inclusive. por exemplo. identificação e formulação do problema de pesquisa.

dificuldades inviabilizam o conhecimento de fatos ou fenômenos, de importância significativa, para a qual busca-se uma solução. O problema se constitui na pergunta fundamental que norteará todo o trabalho a ser desenvolvido na pesquisa, cuja conclusão final deverá apresentar uma resposta à pergunta colocada no princípio. Consideramos que, em função do problema a ser formulado, o trabalho posterior pode ser facilitado ou dificultado. Um problema, portanto, deve ser: 1. formulado como pergunta; 2. claro e preciso; 3. não deve partir de valores explícitos do pesquisador; 4. deve ser passível de verificação; 5. deve ser viável, passível de ser solucionado (FERREIRA, 1998:133). Outro autor, Lacasse (1991:252) chama a atenção para as características do enunciado do problema, quais sejam: • em por finalidade estabelecer uma relação entre dois ou mais elementos ou variáveis • deve ser claro e sem ambigüidade • deve ser formulado sob a forma de questões • deve ser verificável, observável empiricamente. • não deve apresentar julgamento ou posição moral Já Goldemberg (1997:71), respondendo a pergunta: como formular um problema específico que possa ser pesquisado por processos científicos, afirma ser o primeiro passo tornar o problema concreto e explícito através: • da imersão sistemática no assunto; • do estudo da literatura existente; • da discussão com pessoas que acumularam experiência prática no campo de estudo.
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E completa: “a boa resposta depende da boa pergunta. O pesquisador deve estar consciente da importância da pergunta (...)”. Acima, falando do conhecimento científico, recuperou-se o exemplo da relação do ou da extensionista com uma comunidade predominantemente indígena na Amazônia. Agora, se privilegiou a caracterização do que pode ser indicado como primeira etapa do método científico. Não se quer, como foi afirmado na introdução, dar conta de todo o processo de formação do pesquisador, mesmo sabendose que o extensionista ou a extensionista rural também pode desenvolver pesquisa científica em seu quotidiano de trabalho. A pretensão está em alertar profissionais de extensão rural para a diversidade de tipos de conhecimentos e de seus processos de construção. Tal objetivo sugere reflexões ou considerações na perspectiva enunciada inicialmente de contribuir para a compreensão de como o sentido de ciência, o sentido de conhecimento e de pesquisa científica podem também condicionar o desempenho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo. Para isso, parece oportuno considerações em torno do chamado espírito científico, que se apresentam a seguir:

Atuação e quotidiano de extensionista rural e espírito científico.
Recuperam-se aqui contribuições de um autor já citado (RUIZ, 1996) em torno do que ele qualifica espírito científico. A atuação e o quotidiano de profissionais de extensão rural, como se afirmou no presente texto, são marcados pela convivência com a diversidade de saberes, de conhecimentos que se distinguem, igualmente como se tentou caracterizar no presente artigo, pelos seus processos de produção. Ora, sabe-se que a missão de tais profissionais não está prioritariamente ou predominantemente direcionada para o desenvolvimento de pesquisa científica, ou, se se preferir, para a produção de conhecimento científico. No entanto, tal atuação deve ser caracterizada por atitudes e comportamentos de vigilância epistemológica
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que pode se concretizar pelo exercício do espírito científico caracterizado por Ruiz (1996). Para esse autor: Espírito científico, mentalidade científica, ou atitude científica é um estado de espírito, é uma disposição subjetiva adequada à nobreza e à seriedade do trabalho científico. Esse estado subjetivo resulta do cultivo de uma constelação de virtudes morais e intelectuais; não bastará, pois, conhecê-las; é preciso vivê-las, reduzí-las à prática, cultivá-las. (RUIZ, 1996:132). Ele apresenta, pois, as seguintes características do espírito científico: a) espírito crítico – lembrando que criticar é “antes de tudo, analisar, questionar, submeter a exame, julgar a validade, a fundamentação das soluções estabelecidas” o autor parece querer dizer aos profissionais da extensão rural, no caso do segmento profissional a quem prioritariamente se destina esse texto, que é preciso ter cuidado, é preciso apropriar-se criticamente do conhecimento, das tecnologias, dos contextos para se assegurar uma atuação consistente e coerente. Para isso o autor acima citado faz também a distinção entre espírito crítico (atitude amadurecida de alguém que busca com seriedade a verdade, ponderando razões, confrontando motivos, por exemplo) que deve ser cultivado, estimulado, e espírito de crítica (espírito de contradição, indício de desorganização mental, de superficialidade irresponsável, demolidor e pernicioso) que deve ser banido (p.133); b) espírito de confiança na ciência – a confiança na ciência significa o conjunto de atitudes que implica em distanciar-se de dois extremos: o ceticismo e a submissão passiva a dogmatismos; c) busca de evidências – “O homem comum vê a natureza, ouve a natureza. O cientista a interroga, quer explicações pela linguagem eloqüente dos fatos. Só evidência dos fatos sacia seu desejo de conhecer o ‘como’ e os ‘porquês’ dos fenômenos” (p. 134), em liberdade, com autenticidade e com rejeição de toda sorte de autoritarismo, não se satisfazendo com o simples conhecimento dos fatos, mas procurando sua compreensão, sua justificativa e sua demonstração;
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Considerações finais No início do presente texto. Tais considerações sobre espírito científico. e não de seu engenho criativo. a partir das novas indagações que a observação. fixo e definitivo. ou negá-las. por exemplo. na definição de instrumentos de coleta e análise de dados. em torno de conhecimento e em torno de pesquisa? Como tal compreensão pode também condicionar o desem79 .135). que assume a função de critério da verdade. operação que pode contribuir para a compreensão do fenômeno em estudo. O conhecimento científico está sempre sendo reconstruído. a segmentação de um todo complexo em seus componentes ou elementos mais simples.d) espírito de análise – entendida análise como a decomposição. o desdobramento. a análise vão suscitando. com pecuaristas e também com trabalhadores e trabalhadoras assalariadas. de forma objetiva e irrefutável. “o cientista não precipita conclusões sem evidência suficiente oriunda dos fatos. e) espírito positivo de apego à objetividade – o autor lembra que é a evidência dos fatos. Ciência não é literatura de ficção” (p. sempre inspiradas em Ruiz (1996:132-135) parecem contribuir muito para a (re)construção de atitudes. Como afirma Ruiz. aqui apresentadas. com índios e índias. Os fatos frente à hipóteses pré-concebidas como possível explicação ou resposta à pergunta do problema podem comprová-las. g) espírito indagador – a ciência não é um ponto de chagada. em termos de ciência. f) espírito criativo – a criatividade se manifesta na formulação das hipóteses. pois ela é sempre provisória. de comportamentos do extensionista e da extensionista rural em seus processos de interação com agricultores e agricultoras familiares. uma tecnologia como definitiva. tais como: qual a compreensão do extensionista rural e da extensionista rural em torno de ciência. Nunca aceitar. uma resposta. declarou-se a pretensão de suscitar algumas reflexões em torno de possíveis relações entre o domínio de princípios básicos da metodologia científica e a atuação profissional de alguém enquanto extensionista rural esperando contribuir esclarecer questões. assim como na concepção de outros processos de pesquisa.

PEREIRA. Metodologia Científica. que têm processos de produção (resultado da relação sujeito-objeto) diferentes. São Paulo. possivelmente. Brasiliense. mais eficaz interação de profissionais de extensão rural com os atores sociais com os quais esses profissionais lidam no seu cotidiano de trabalho profissional. O que é Teoria. CERVO. O extensionista rural e a extensionista rural. Atlas. A Arte de Pesquisar. Quebeque: Ed. A. Editora Brasiliense. Pedro. Guia para eficiência nos estudos. Mirian. no entanto. A. DEMO.. O método Científico. o autor tentou evidenciar que a compreensão sobre conhecimento. Rubem. por exemplo. 1991 LUNGARZO. Atlas. Rio de Janeiro: Makron Books. São Paulo. Record. São Paulo. Guilherme. na tentativa de síntese: tudo parece nos levar a afirmar que ninguém pode fugir da diversidade de tipos de conhecimentos. 80 . 2004. são detentores dessa diversidade de conhecimentos e em suas relações profissionais interagem com tal diversidade que está presente em cada ator social. 1995. L. São Paulo.penho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo? O autor desenvolveu todo o texto com tais objetivos e espera que de alguma forma o seu resultado possa ajudar aqueles e aquelas que estão com a mão na massa no campo. LACASSE. Bibliografia ALVES. São Paulo. GALLIANO. Uma última consideração. Carlos. 1996. Editora Harbra. 1997. Sobretudo. São Paulo. Teoria e Prática. J. Etudes Vivantes. 1995. O que é Ciência. João Álvaro. Trata-se apenas de tipos diferentes de conhecimento. 1996. Otaviano. em contextos rurais. suas formas de construção e sua diversidade pode favorecer a uma melhor e. RUIZ. 1989. 1986. GOLDENBERG. se impõe. certamente. São Paulo: Ed. Metodologia Científica. Metodologia Científica em Ciências Sociais. Entre a ciência e a sapiência. Introduction à la Méthodologie utilisée en Sciences Humaines. Edições Loyola. como qualquer outro profissional. ninguém está autorizado a classificar este ou aquele conhecimento como superior ou inferior.

esta parece ser uma missão difícil. como no macro cenário constituído por vários setores de atividades. É justamente com desafios como este que o empreendedor cotidianamente se depara no processo de gestão: onde as decisões mais simples passam por exigências complexas de reflexão e de posicionamento por conta de diversos fatores. Gestão de Cooperativas A partir de cenários globalizados economicamente que se contrapõem às demandas de desenvolvimento e de fortalecimento local. 81 . uma das alternativas que se apresenta é a educação empreendedora articulada com o contexto de cooperação a partir da formação de parcerias e de redes de aprendizagem permanente. 1 Doutor e lotado no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. para a elevação das probabilidades de acerto. maior será a probabilidade de acerto nas decisões estratégicas. Sc. pois ela depende basicamente de um conjunto de habilidades e de métodos para a sua execução. quanto maior for a amplitude do conhecimento e mais amplo for o campo de visão do empreendedor. precisa-se manter um olho centrado em uma luneta e um outro olho no microscópio. a princípio. Assim. Assim. Neste aspecto. qualquer empreendedor cooperativo se depara com os desafios de conjugar a ação empresarial de competitividade com a necessidade de se articular e cooperar tanto no micro cenário de atuação local. Neste aspecto. mas não impossível de ser realizada.O grande desafio da educação empreendedora cooperativa Jimmy Peixe Mc Intyre1 M. enquanto empreendedor. tanto de caráter interno como externo à organização.

as habilidades. como pelo global e vice-versa. permitindo identificar quais os seus diferentes papéis na sociedade local. inicialmente. para poder se relacionar e intervir com competência no seu campo de atuação. singular. Este processo.Portanto. de modo que se delineiem mudanças e transformações sociais. permitindo então o posicionamento do empreendimento perante o cenário 82 . único e diferente dos demais a partir de características que podem ser canalizadas e recristalizadas pelo empreendedor em prol do seu negócio. a gestão e auto-gestão do negócio. Por conseguinte. enquanto instrumento estruturador de competitividade é válido para todo tipo de cooperativa. a geografia econômica. a engenharia de processos. a educação empreendedora consiste em uma atividade contínua composta de três dimensões e estruturada por princípios básicos. a educação empreendedora visa a autocompreensão. Esta etapa consiste em uma descoberta ou redescoberta das vocações e expectativas individuais enquanto empreendedor. cede espaço. Este processo de autoconhecimento possibilita que o empreendedor tenha uma idéia mais clara da estrutura social em que se encontra inserido. cuja finalidade é permitir ao empreendimento alcançar vantagens competitivas que o consolidem em um ambiente de negócios que passa tanto pelo local. este processo pautado em métodos construídos leva o empreendedor ao entendimento das diferentes formas de funcionamento das relações políticas e econômicas da sociedade. Nesta direção. consistem em atributos intangíveis relativos à dimensão pessoal que torna o indivíduo. regional e global. para se integrar com outras áreas do conhecimento tais como a psicologia e a sociologia das organizações. dentre outras. desejos e aspirações. numa perspectiva de um novo processo de formação educacional cooperativo. o foco tradicional e meramente econômico. A segunda dimensão da educação empreendedora consiste em identificar fragilidades e oportunidades do negócio para se poder efetuar um mapeamento do ambiente em que a empresa vai atuar. competências. Nesta perspectiva. No caso das cooperativas agropecuárias.

deve ficar bem claro que estas dimensões da educação empreendedora. equipamentos. de modo a que. não haja apenas um ganhador e sim ganhadores. quantidade de funcionários. de alicerces para a formação da cultura da cooperação na organização. tanto de processos como de produtos. o mapeamento do ambiente. a confiança e os valores democráticos.traçado. a terceira dimensão da educação empreendedora consiste em uma análise do ambiente interno do empreendimento. ambiental e tecnológico. Todavia. Ainda nesta dimensão educativa empreendedora os métodos adotados devem favorecer a visualização de como otimizar as oportunidades pela cooperação. e que passa pela empatia e a satisfação dos cooperados empreendedores. pelos processos e pela satisfação dos clientes. Esses aspectos. Ele deve também se preocupar com um desafio maior sobre aquilo que não podemos mensurar objetivamente. na educação empreendedora. Neste caso. nas relações estabelecidas. Por fim. detectando aspectos tangíveis e intangíveis. pois enquanto conteúdos a serem trabalhados eles se constituem em vetores de inovação. os quais são os princípios fundamentais e norteadores do bom funcionamento das relações tanto das pessoas como das cooperativas. o empreendedor enquanto sujeito da construção do seu conhecimento irá traçar vários roteiros que lhe permita identificar qual o melhor caminho a percorrer com probabilidades de sucesso com menor risco. vai nos apontar as principais variáveis que poderá potencializar ou obstaculizar o negócio. não deve estar apenas atento para a infra-estrutura disponível como: instalação. máquinas. 83 . como também. mútuos. Neste aspecto. o empreendedor. somente surtirão o efeito desejado se vierem acompanhadas de ações complementares. Isto implica em dizer que a educação empreendedora deve estar imersa em conceitos e valores culturais que valorizem a transparência. pelas atividades. não podem ser negligenciados. social. Assim. político. pelas rotinas. a partir de uma visão analítica sobre o campo econômico. os quais são partes mensuráveis. tipo de produto.

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e talvez até tenhamos. Em primeiro lugar. entre outros acontecimentos que marcam a nossa vida social. O fato de sentir 1 Maria Luiza Pires é doutora em sociologia do Departamento de Educação da UFRPE. tentar responder por partes. Se a gente diz: “eu e Adriana somos de Bezerros”. 85 . haveremos de conhecer alguns festejos comuns à nossa cidade como a “Festa do Papangu”. então. São esses pontos em comum que revelam a expressão cultural de um povo de um dado lugar. No mínimo. expressando. não resta dúvida. Mas por que tanta preocupação em torno do desenvolvimento local? O que esse conceito revela? Por que se fala em desenvolvimento local ao invés de apenas desenvolvimento como no passado? Que local é esse?Trata-se de uma idéia de desenvolvimento diferente? Vamos. Já Paulo. eles conhecem a “Feira de Caruaru”. laços mais fortes entre as pessoas. Claro que se os três amigos estiverem dispostos a conversar mais atentamente. Mesmo para os que não nos conhecem bem. vizinhança. vão descobrir muito mais pontos em comum.Cooperativismo e desenvolvimento local Maria Luiza Lins e Silva Pires1 Que local é esse? Hoje. identidade. é possível admitir que a expressão “local” não surge à toa no atual contexto. de um modo geral. algum grau de parentesco se investigarmos a nossa árvore genealógica. são capazes de admitir que nós duas temos referenciais comuns. O local traz sempre associado uma idéia de proximidade. quem sabe. todo mundo fala em desenvolvimento local e pode-se até mesmo admitir que esse assunto virou moda nos meios acadêmicos. o “Alto do Moura” e a “Feira da Sulanca”. raízes comuns. por exemplo. André e Cristina são de Caruaru. Com toda certeza.

violência entre tantas outras. De alguma forma. com o global. “eu sou filho de Caruaru”. ao contrário de apenas desenvolvimento. isto é. sustentabilidade. uma identidade específica. uma idéia de diferença. um bairro ou até mesmo uma rua ou uma escola. Se já sabemos que local é esse. portanto. É como se fosse uma “marca registrada”. Se é possível associar o local a uma idéia de similaridade entre os seres no viver juntos. uma cidade. que a idéia de desenvolvimento local. nesse sentido. uma identidade . cada um desses locais. de comunidade. podemos agora partir para responder o porque de se ter despertado para a questão local nas propostas de desenvolvimento. em relação a todas as outras cidades do mundo. É com orgulho que a gente escuta muitas vezes: “eu sou filho de Bezerros. uma região. A idéia de local guarda também uma íntima relação com algumas questões complexas da atualidade. Mas o local é apenas um município como Bezerros ou Caruaru? Não. atendimento aos desamparados (crianças. imprime uma condição de pertencimento. em cada um. O local pode ser um continente.de povo de Bezerros ou de Caruaru.compartilhando com o outro representações culturais semelhantes imprime. sui generis. velhos e enfermos) passam a ser também discutidos e assumidos pelos diversos atores sociais. um país. crise do Estado. 86 . na sua capacidade de ação e de articulação. especialmente num momento histórico em que se vive a chamada “Crise do Estado”. Em todos esses lugares pode-se perceber elementos comuns que unem os mais diversos indivíduos. paradoxalmente. que alimenta em cada um de nós um sentimento de pertencimento. traz uma forte referência aos diversos atores locais. Isso revela que o assunto local não diz respeito tão somente a um “local” específico. como: globalização. o local também revela. com o todo. de diversidade cultural e multiplicidade de arranjos que fazem com que Caruaru e/ou Bezerros tornem-se únicas cidades. desemprego. um estado. mas revela as articulações de um local. na idéia. Pode-se dizer. Isso significa que preocupações que antes eram típicas do Estado como: desemprego. violência. na igualdade.

escolas. o médico. se essas pessoas tiverem compromisso com a sua comunidade. Potencialmente. a própria cooperativa. traz à tona a discussão sobre a idéia de pertencimento. O associado da cooperativa. quem são os atores sociais ou atores locais? Os atores locais somos todos nós. identifica-se a globalização da economia a partir de três características principais: . pode trazer benéficos para a sua comunidade. trabalhadores e trabalhadoras dos mais diversos ramos – agricultura. E o padre é um ator social? Claro. autonomia. participação. de solidariedade que imprimem. o padeiro. O prefeito. vamos situar a cooperativa (através dos seus associados) enquanto um ator importante no desenvolvimento local.o crescimento de importância dos agentes do mercado global (empresas transnacionais) sobre os agentes locais. envolvendo todos os atores sociais em um projeto coletivo. Para isso. autogestão. Tal perspectiva traz também presente idéias como democracia. nessa perspectiva. Cooperativismo e globalização De uma forma simplificada. O cooperativismo. o artista.Tal perspectiva traz presente a idéia de que somos co-autores e coresponsáveis pelo destino de todos nós. cada um a sua maneira. escritório. a professora. naturalmente. todos somos atores sociais. junto com a capacidade de “arregaçar as mangas”. . com o local a que pertencem e dessa forma. de autonomia. Isso. construção. fábrica. finalmente. o sucesso da “fórmula cooperativa”. Isso porque. de participação.a quebra de poder do Estado na condução 87 . se dispuserem a “arregaçar as mangas”. Mas. todos são atores importantes dentro da idéia de desenvolvimento local. define a filosofia de trabalho que está por trás do conceito de desenvolvimento local. comércio. o vereador também são? Com toda certeza. portanto. “Arregaçar as mangas” ou “mãos a obra”. Para os propósitos desse curso. é preciso que a gente situe o cooperativismo na sua capacidade de trazer respostas aos desafios contemporâneos de globalização de desemprego e de crise do Estado.

refutando. Vale ressaltar. desde o advento da Revolução Industrial. do mesmo modo. tanto no que diz respeito à produção quanto à comercialização a via cooperativa tem se revelado capaz de atender às demandas globais a partir da organização de atores locais. 1994). o cooperativismo vem demonstrando grande capacidade de adaptação às realidades distintas. Tal concepção expressa a mútua influência que existe entre o global e o local. o que dificulta enormemente a estabilidade da relação entre local e global. revelando-se. quem são os vencedores e perdedores dessa acirrada disputa (Bonanno. Necessário também é considerar o caráter concentrado e excludente da globalização. há globalizações no plural. “Pensar globalmente e agir localmente” vem se tornando um chavão cada vez mais popularizado. a idéia de uma única globalização. inclusive. como duas instâncias de um único processo.a partir de uma relação de mútua influência. essas globalizações expressam processos singulares de relações sociais movidos por dinâmicas locais. assim. para ele. No seu entendimento. como uma alternativa de inclusão dos trabalhadores ao modelo produtivo. indicando. Aproximando-se da idéia de diferentes correlações de força. Nesse sentido. O fato é que dificilmente as discussões sobre os desafios do cooperativismo podem prescindir de uma avaliação mais sistemática da relação entre global e local . a partir da forma de inclusão ou exclusão. Santos (1994) nega o caráter homogêneo da globalização. o que tende a revelar os vencedores e os vencidos a partir de relações de conflito. Se nos voltamos ao passado percebemos que. que essa capacidade de atender às exigências de um dado momento histórico não é nova. Todas essas questões implicam uma nova divisão internacional do trabalho.o grande avanço tecnológico que caracteriza as últimas décadas. 88 . Dito de outra forma.de questões macroeconômicas e . alguns estudos têm procurado demonstrar a importância do cooperativismo enquanto um instrumento eficaz de ligação entre os pólos.duas extremidades de um mesmo processo . redefinindo o jogo de forças entre os diversos atores locais /globais.

as práticas associativas estão sendo identificadas como uma alternativa frente ao desemprego crescente. “Saiba como as cooperativas estão driblando o desemprego” (Diário de Pernambuco. pelo seu caráter de associação econômica. constata-se. “Autogestão contra o desemprego” (Folha de São Paulo. conforme pode-se observar nas manchetes abaixo: • “Cooperativas discutem qualidade e autogestão” (Jornal do Commercio. Vejamos alguns exemplos: “Profissionais voltam ao mercado de trabalho” (Diário de Pernambuco. De um modo geral. principalmente. vem sendo particularmente ressaltado como uma alternativa de inclusão para enfrentar esse período marcado pela grande exclusão social. 28/09/97). 05/10/97) De um modo geral. 26/01/96) • “Autogestão ‘salva’ 6. 29/09/96). • “Autogestão recupera empresas quebradas” (Folha de São Paulo.000 empregos até 97" (Folha de São Paulo. 02/01/2000) Intimamente relacionada à criação de empregos. “Mulheres se unem para multiplicar renda” (Jornal do Commercio.Hoje. 03/11/96). E o cooperativismo. quando a globalização tem levado um grande número de pessoas ao desemprego. 22/06/97). Tais estratégias englobam desde atividades artesanais até aquelas que necessitam de maiores conhecimentos na área científica e tecnológica. • “Autogestão é experiência inédita na Região” (Jornal do Commercio. todas essas manchetes revelam as mais diversas estratégias de sobrevivência que podem se abrigar sob a “fórmula cooperativa”. uma forte ênfase no conceito de “autogestão”. o cooperativismo ganha uma importância particular. 89 . As manchetes de jornal são prósperas em associar o cooperativismo à criação de emprego e renda. habitualmente. 24/08/1997).

confirmando a perspectiva presente na literatura que identifica as cooperativas. nesse sentido. através de uma forma de organização local – instituída através de uma empresa cooperativa . podemos afirmar que o que define o sucesso ou insucesso das práticas econômicas está associado à sua capacidade de adequação permanente às transformações produtivas. Pires & Buendía. 1999. que a sobrevivência e crescimento das organizações econômicas . desde. redefinindo as relações entre forças locais e globais.O cooperativismo entre o local e o global A relação entre cooperativismo. Nesse aspecto. que não apenas as cooperativas. com isso. Bibliografia BONANNO. (org) (1994).depende das estratégias usadas para responder aos desafios da acirrada competição que tem lugar na economia globalizada. mas todo o empreendimento econômico capaz de gerar emprego e renda é capaz de promover o florescimento ou o desenvolvimento de uma dada localidade. a partir da organização da produção e de sua comercialização sob as exigências da globalização. finalmente. University of Kansas press. Vale lembrar. 1996. Observa-se. 1999). Alessandro et al. From Columbus to ComAgra: the globalisation agriculture and food. Lawrence (KA). pois. seja uma prática econômica de reconhecido sucesso. um aumento do poder de barganha dos produtores. as cooperativas vêm contribuindo para a potencialização dos locais em que estão inseridas. ao lado de outras iniciativas empresariais. do crescimento do emprego e renda. É possível constatar. Mas a questão não se encerra aí. como uma estratégia importante dentro da perspectiva de desenvolvimento rural (Prévost.sejam elas empresas cooperativas ou empresas capitalistas . 90 . evidentemente.os cooperados podem articular uma rede de relações que não se limita ao âmbito local. Pires. globalização e desenvolvimento local é fortemente estimulada pelo fato de que.

Afrontamento. N. Segundo Cuatrimestre. 103. O social e o político na pós-modernidade. 1999. UFPE. Inmaculada Buendía & PIRES.MARTÍNEZ. 31-46. Tese de doutorado. Revista de Estudios Cooperativos (REVESCO). Série Cooperativismo. Maria Luiza. P. 1999. N. Pela Mão de Alice. 34. Porto. El desarrollo local y las cooperativas. segundo semestre: 25-45. A trama de relações entre projeto e prática em cooperativas do nordeste do Brasil e do Leste (Quebec) Canadá. PIRES. 37. Cooperativas e desenvolvimento rural: as recentes discussões no campo da “Nova Geração de Cooperativas”. O cooperativismo agrícola em questão. p. 123-137. PRÉVOST. N. Perspectiva Econômica. Outubro-Dezembro. 2000. Nuevas ruralidades y cooperativismo: una perspectiva comparada. _____ . 70. Recife. Maria Luiza. (1994). p. (1996). 46. SANTOS Boaventura S. V. out. 91 . Cuadernos de Desarrollo Rural.

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o Brasil. a humanidade avança no conhecimento tecnológico. todas as sociedades do planeta enfrentam o desafio de definir e implementar vias de desenvolvimento capazes de conciliar prudência ecológica com viabilidade econômica e justiça social. nem todos os ecologistas e chefes de governo do mundo inteiro que clamam pela preservação da Amazônia. antes de tudo. é político. a Amazônia é hoje o centro de preocupações de todos os países que compõem a chamada aldeia global.Região amazônica e economia solidária: uma perspectiva de desenvolvimento integrado sustentável Ana Maria Dubeux Gervais1 Os anos 90 representaram para todos os países de economia capitalistas o marco da consolidação de uma série de transformações estruturais provocadas pelo capitalismo que produzem impactos na forma de organização social e econômica dos mesmos. num contexto de economia globalizada. E como não poderia deixar de ser. Coordenadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da UFRPE. Neste texto. mas apesar disso. como garan1 Professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco. tentaremos indicar alguns dos aspectos a serem considerados mais especificamente quando tratamos do desenvolvimento da região norte de nosso país. doutora em Sociologia pela Université de Paris I. 93 . país que detém uma enorme biodiversidade sofre pressões externas e internas importantes a respeito do uso e da conservação da biodiversidade da região. Em termos globais. de uma maneira geral. é também nesta época que o Brasil é atingido em cheio por tais transformações. No entanto. Trata-se de um desafio que. uma vez que a sua aceitação depende da vontade consciente de uma determinada coletividade. Considerada o pulmão do mundo. E.

os 20% mais abastecidos da população mundial aumentaram a sua parcela de toda a riqueza produzida de 70% para 85% enquanto. camponeses na Amazônia ou nas partes africanas e asiáticas do cinturão tropical. que durante o século XXI a conservação e as formas de aproveitamento dos recursos naturais se tornarão questões-chaves dentro de uma aldeia global que. com clareza. de qualquer origem. Diante da pressão externa. Convém lembrar que. de 94 . conseqüentemente. e. que insiste em uma rigorosa dieta econômica. o buraco ozônico e a erosão biogenética indicam. se de um lado. ecologistas radicados nos países da Comunidade Européia ou nos Estados Unidos (dispondo. Como afirma IBIRIBA (2004).1995). no mesmo período. que praticam o sistema de corte-e-queima da agricultura itinerante. entre 1960 e 1991. pela reprodução econômica das massas populacionais pobres ou miseráveis que.tia de uma sobrevida mais longa às populações do planeta.3% para 1. também. através da privatização. Neste sentido. Para bem dizer. geralmente. “pode-se dizer que. com toda a razão. que a proteção das florestas tropicais e.4% (Hauchler. do ponto de vista social. diante das imposições externas pela conservação ambiental. apequena-se o Estado. não conseguem responsabilizar todo o sistema político global por essa conservação. de sua incomparável biodiversidade é um insumo de fundamental importância para a sobrevivência das futuras gerações da espécie humana na “aldeia global”. é óbvio que a maneira pela qual os moradores dos diversos “bairros da aldeia global” encaram e tratam o ambiente natural está diretamente dependente de sua condição sócio-econômica. na maioria dos casos. provavelmente terão problemas para entender e aceitar essas preocupações. os países periféricos. setores importantes da economia nacional. os 20% mais pobres viram a sua parte reduzida de 2. por outro lado. Porém. transferindo-se aos grupos econômicos. o efeito estufa. reconhecem que parte do problema está relacionado às relações desiguais que estabelecem os hermisférios norte e sul deste mesmo planeta. de condições de segurança social da data do seu nascimento até o momento de sua morte) destacam. está profundamente dividida.

temos que tomar como ponto de partida que esta questão não pode ser pensada isoladamente. O desenvolvimento da região deve então ser pensado na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Além disso. proporcione uma maior articulação de atores . a econômica.” Para pensar alternativas de desenvolvimento para a região que impliquem em conservação de sua rica biodiversidade. vendo que articulações e interfaces a região estabelece com o país e o mundo. que tem como premissa o atendimento das necessidades da geração atual sem comprometer a habilidade de gerações futuras em atender as suas necessidades. a cultural. não pode ser feita à partir de um olhar meramente econômico. mas um olhar plural onde os elementos antropológicos. iniciativa privada . a social.uma maneira ou de outra. É importante ressaltar que uma tal análise. É nesta perspectiva de articulação que queremos apontar a economia solidária. É fundamental então salientar que um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. influenciada particularmente pela pesquisa de Karl Polanyi (1983) sobre a origem política e econômica de nosso tempo. etnológicos entre outros são imprescindíveis para uma compreensão do econômico. que tem inspirado 95 .para o desenvolvimento sócio-econômico e apresente como eixo central o estabelecimento de políticas articuladas de conservação ambiental. como um novo paradigma para se pensar políticas de desenvolvimento sócio-econômico para a região. Ao contrário. governo. tais como a política. sobrevivem utilizando. predatoriamente. sociológicos. a ambiental. tem que estar sobretudo calcada sobre uma proposta de desenvolvimento humano que tenha como eixo a inclusão sócioeconômica de milhares de trabalhadores que lá habitam e que historicamente (desde a época da colonização) têm sido proibidos de se apropriar de seu próprio território. esses mesmos recursos.sociedade civil. Uma proposta que se preocupe com a redução dos índices de pobreza. temos que ter claro que devemos enfrentála de forma holística. entre outras. Esta perspectiva. temos que entender que diferentes dimensões perpassam a discussão da temática do desenvolvimento sustentável da região norte.

. o templo. tais princípios são: • O princípio da domesticidade que “consiste em produzir domesticidade. o déspota ou o senhor estarão no centro deste modelo e a maneira como praticam a redistribuição é muitas vezes um meio de aumentar o seu poder político”. o chefe. Entretanto. ou seja. A reciprocidade é por consequência fundada sobre a dádiva como fator social elementar – a existência da dádiva ligada a uma contra-dádiva. fica a cargo de uma autoridade que tem a responsabilidade de distribuí-la. o despotismo ou a feudalidade. O que determina o núcleo institucional é indiferente.. • O princípio da reciprocidade que corresponde “à relação reciprocidade ocidade. • O princípio do mercado que “se caracteriza como um lugar mercado cado. distingue quatro princípios básicos no comportamento econômico. ou o poder político (como em relação ao poder senhorial)”. o lugar (como em relação ao vilarejo). o que supõe um momento de armazenamento entre aqueles da recepção e repartição. O mercado possui. Segundo França Filho & Laville (2004. • O princípio da redistribuição segundo o qual “a produção redistribuição. Ele supõe uma autoridade e uma divisão do trabalho entre os representantes desta autoridade e os outros membros do grupo humano. a cidade-Estado.)O modelo da domesticidade é o grupo fechado. O aspecto essencial da reciprocidade é que as transferências são indissociáveis das relações humanas”. seja ela a tribo. para seu próprio usufruto.. repousando sobre um equilíbrio 96 . 32 e 33). estabelecida entre várias pessoas. a prover as necessidades do seu grupo (. p. de encontro entre a oferta e a demanda de bens e serviços para fins de troca. pode ser o sexo (como em relação à família patriarcal)..múltiplos trabalhos nas mais diversas áreas do conhecimento.) (. então a particularidade de funcionar segundo o registro de um modelo institucional que lhe é próprio: a troca. por meio da seqüência durável de dádivas. cada um entre eles associado a um modelo institucional.

. o princípio do mercado passa a ser o dominante. no mundo inteiro. onde observamos uma enorme pluralidade de trocas. Assim. E o que seriam estes espaços públicos autônomos no caso brasileiro ? A partir dos anos 80. pólo onde o trabalhador se coloca na perspectiva de troca gratuita e desinteressada que se baseia principalmente nas relações que consolidem seus vínculos com a sociedade. (. foram esquecendo que existem outros princípios econômicos e transformaram o mercado. da redistribuição e do mercado que reconcilia o econômico e o social que se move a partir de um impulso reciprocitário entre individuos e se consolida na sociedade através da construção de espaços públicos autônomos. a economia solidária define-se como uma economia plural que se baseia na hibridação dos principios econômicos da domesticidade. A troca pode assumir a forma de escambo quando a troca de bens e serviços não passa pelo intermédio de um equivalente geral. e por conseguinte. os seres humanos. a economia não mercantil (Estado) e a economia não monetária.entre oferta e demanda. Se partimos da aceitação destes princípios como sendo a base das relações entre economia e democracia. paradoxalmente. num mito. na sociedade capitalista. historicamente. E. da reciprocidade.. A partir daí.) A troca pode assumir a forma de pagamento em espécie quando o demandante não paga o preço fixado em moeda mas em bens ou serviços. isto é às vezes verdade mesmo para aqueles que de uma maneira ou de outra foram excluídos da participação neste mesmo mercado. que nos primórdios da existência humana servia como lugar de encontro entre oferta e demanda. nós podemos então reconhecer na sociedade contemporânea três pólos de análise: a economia mercantil ou de mercado. mas se opera através de uma relação de equivalência simples estabelecida entre dois conjuntos considerados pelo demandante como do mesmo valor. é ele quem baliza a maior parte das relações econômicas existentes. pouco a pouco. pólo que é extremamente importante na construção da própria economia de mercado.” No entanto. mas mais especificamente nos países 97 .

se organizam para descobrir caminhos para o enfrentamento destas mudanças. implantadas nos assentamentos da reforma agrária. a economia solidária no Brasil acontece a partir da articulação política de diferentes polos da economia. ainda.periféricos. de grupos informais de produção. Como afirma Gaiger (2001. os empreendimentos organizam-se hoje das mais diversas formas.” Nós acreditamos que. 109). Assim. à exemplo do que aconteceu anteriormente na Europa do século XIX. p. embora com contornos próprios e diferenciados dos países desenvolvidos. a nossa grande diferença seja que o motor do seu crescimento seja o fato de que quantitativamente. o processo de globalização da economia se acelera. excluindo milhares de trabalhadores do mercado formal de trabalho. perfilam-se hoje empresas autogeridas vinculadas à ANTEAG2. sob a batuta do MST. entre outros. numa perspectiva de um novo sentido de vinculação entre o econômico e o social. a economia solidária assume em nosso país uma multiplicidade de formas 2 Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionário. como associações informais ou grupos de produção de caráter seguidamente familiar e comunitário ou. em 1999 congregava 52 empresas e 15 mil trabalhadores. através da criação de cooperativas populares. cooperativas de produção e prestação de serviços e centenas de grupos e cooperativas agropecuárias. “Num verdadeiro polimorfismo. mas talvez. Na linha de frente. e os impactos da reestruturação produtiva são cada vez mais fortes. o número de indivíduos excluídos de um ponto de vista sócio-econômico seja muitas vezes maior que nos países desenvolvidos. Estes trabalhadores. de empresas autogestionárias. 98 . que se distanciam do sistema formal do cooperativismo brasileiro vinculado à OCB e se organizam em sistemas próprios. cooperativas de trabalhadores e empresas de pequeno e médio porte.

entre outros. Neste grupo. como por exemplo alguns dos desenvolvidos pelo MST. os grupos produtivos rurais e urbanos. as empresas autogestionárias. que nem sempre possuem um estatuto jurídico. por exemplo. universidades. todos importantes na sua consolidação: • O grupo de organizações que apoiam os trabalhadores em suas iniciativas de economia solidária. através da criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) e por outro através do aumento significativo (principalmente em prefeituras vinculadas ao partido dos trabalhadores) de criação de diretorias ou secretarias municipais de economia solidária. planejar a reinserção sócio econômica de milhares de amazonenses (onde incluímos os po99 . associações. várzea e cerrado) da região para. igrejas.que no nosso entender se organizam em três grupos principais de atores. por um lado. através de uma proposta de desenvolvimento sustentável. de pequeno porte. • O grupo de gestores públicos que tem se consolidado cada vez mais. vários são os atores que vêm de uma maneira ou de outra trabalhando na direção da construção de uma proposta de desenvolvimento integral para a região. encontramos principalmente as cooperativas. Pensar o desenvolvimento da região significa em construir coletivamente com os diferentes atores que podem possibilitar a ampliação. constituído por ONG’s. associações de trabalhadores autogestionários. entre outros. mas que seja inclusiva daqueles que historicamente têm sido colocados à margem de tal sistema. Um caminho que traga novas perspectivas de desenvolvimento que visem a recuperação e o respeito aos ecossistemas naturais (floresta. No caso da região norte. Uma proposta que não vise apenas um desenvolvimento econômico daqueles que detém o capital. fortalecimento e consolidação das iniciativas de economia solidária um novo caminho. • O grupo de organizações criadas pelos trabalhadores eles mesmos com o objetivo de encontrar novas alternativas de inserção sócio-econômica.

Revista de Ciências Sociais da UNISINOS. 2004 GAIGER.vos da floresta) excluídos de um ponto de vista social e econômico. Luiz Inácio (2001) – As organizações do terceiro setor e a economia popular solidária. Sonia Miriam (1990) – Para a década de 90 : Prioridades e perspectivas de politicas públicas. Nazaré – Biodiversidade e pobreza : uma questão de decisão política. Bibliografia DRAIBE. FRANÇA FILHO. Brasília. IPEA/IPLAN DUBEUX GERVAIS. apontamos nesta reflexão apenas alguns elementos para a real necessidade de não mais pensar a região amazônica apenas do ponto de vista da sua biodiversidade natural. Coleção sociedade e solidariedade. O paradigma da economia solidária se coloca então como uma possibilidade. poderíamos talvez pensar na construção de um verdadeiro desenvolvimento integral sustentável para a região. Fakten Analysen Prognosen. Frankfurt am Main. Uma proposta onde a interconexão entre consumidores. & LAVILLE. uma vez que o mesmo. Globale Trendes 1996. mas também da sua biodiversidade humana. site acessado em 02/ 10/2004 POLANYI. Travail et économie solidaire: le cas des incubateurs Technologiques de coopératives populaires au Brésil – Tese de doutorado – Université de Paris I. Para concluir. vol. Genauto C. Porto Alegre. Editora da UFRGS.159. Ingomar.pdf . Jean-Louis – Economia solidária : uma abordagem internacional. No.br/arquivo/sti/publicacoes/ futAmaDilOportunidades/futAmazonia_09. www. A partir deste paradigma. Ana Maria (2004) – Education. Paris : Gallimard. 103 – 151 HAUCHLER. 1983 100 . poupadores e produtores seja possível com vistas ao estabelecimento de redes sociais que dêem suporte ao estabelecimento de novas relações econômicas entre os povos da região. 518 p.gov. Karl – La grande transformation: aux origines politiques et economiques de notre temps. 1995 IMBIRIBA. pouco a pouco já se manifesta na prática cotidiana dos trabalhadores excluídos do mercado formal de trabalho.desenvolvimento. p.

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De maneira geral. para uma perspectiva propositiva. Uma abertura. ousa indicar possibilidades. de um meio ambiente saudável. Na imprensa internacional e nacional registra-se catástrofes ambientais. Para isso parte de uma constatação já realizada por muitos. O ser humano redescobre a importância da saúde e. uma perspectiva plural Jorge Roberto Tavares de Lima1 Sem pretensão. Talvez a maior e mais importante discussão seja a questão dos transgênicos ou alimentos geneticamente modificados de forma massiva. De um inquieto e atrevido que sem um conhecimento profundo da Amazônia. 103 . portanto. De um sonhador que decepcionado com os rumos do modelo de desenvolvimento hegemônico. a questão ambiental é um tema presente em todos os espaços. Porém. procura saídas. ousando sair do diagnóstico e da constatação da existência da crise. mais ousando. Não se 1 Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco. De um agrônomo e de um homem que acredita no reencontro do homem com natureza e percebe a agroecologia como uma estratégia desta reunificação. os movimentos ecologistas não defendem uma volta ao passado. Um aspecto deve ser destacado. Questão ambiental Atualmente. Este artigo tem a pretensão de registrar algumas observações de alguém encantado com a Amazônia e suas potencialidades. fazendo-se uma distinção entre comida e alimento. Rediscute-se a questão da alimentação. de construção na linha defendida por Garrido Peña (1996) de um pacto social pela vida. que Capra (1982) identifica como uma crise de percepções.Desenvolvimentos. da existência de uma crise global.

posicionam contra o avanço da tecnologia. Pelo contrário, têm-se a ciência como aliada para uma vida de qualidade. A agricultura exige um repensar na direção da sustentabilidade. A discussão sobre o meio ambiente ganha contornos nítidos não só em relação à produção, mas também, na conservação e manejo do meio ambiente. O Brasil vive um momento especial. Após o processo de redemocratização, se alcançou no momento uma estabilidade econômica que se deseja permanente. Mas as contradições sociais são muito fortes para serem ocultadas ou ignoradas. Amplia-se a consciência que a questão não se localiza somente no crescimento ou desenvolvimento. Exige-se uma qualificação neste processo e que este tenha como princípio a inclusão social e o resgate da marginalidade de parte significativa da população brasileira. O desafio não é somente crescer, desenvolver, mas crescer incorporando e incluindo pessoas, de forma que se tenha para a população, qualidade de vida.

Correções de estratégias e de conceitos
Este repensar sobre políticas públicas implica em estabelecer responsabilidades que não podem e não devem se circunscrever apenas no âmbito do aparelho governamental seja federal, estadual ou municipal. O desafio é da sociedade e não apenas a brasileira, mas a mundial. Exige-se redesenhar, inclusive, o papel do estado e dos organismos internacionais neste processo, de forma que eles sejam, principalmente, formuladores de políticas participativas e com forte caráter de inclusão. Sendo um desafio mundial, a sociedade deve pressionar para mudanças urgentes nos organismos internacionais. O mundo mudou e são necessárias correções enérgicas, não apenas de estratégias, mas de conceitos. Na agricultura não poderia ser diferente. Depois de várias revoluções no campo, a começar pela “intensificação dos sistemas rotacionais, com plantas forrageiras e pela fusão da atividade agrícola e pecuária” Ehlers (1999:139) no século XVIII. Segue-se as
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transformações com a introdução de uma série de conhecimentos científicos e principalmente no início do século XX com o uso do combustível fóssil. A agricultura vai se transformando no setor de fornecimento de matéria prima para a indústria, notadamente depois da segunda guerra mundial, com o que se denominou chamar de revolução verde, que no Brasil se intensifica a partir de 1970.

Afastamento da natureza
Vários elementos podem ser elencados para uma análise. Destaquese dois, para efeito de análise neste texto. O primeiro é o progressivo afastamento do homem da natureza neste processo. Surge uma nova crença. A certeza que a tecnologia resolve tudo. A segunda, a negação dos conhecimentos tradicionais. De repente, descobre-se a modernidade e esta é entendida também como contrária aos conhecimentos tradicionais. O que é tradicional é atrasado, não é moderno. Moderno é a competitividade, é o uso de alta tecnologia, é a negação de uma identidade e o assumir outra forma de vida. Dos outros. É a importação de valores. É ser do “primeiro mundo”. É a agricultura de escala, de grandes produções. Para atender a lógica da industria, necessita-se da especialização, perde-se a diversidade, pela priorização de monocultivos. Ampliam-se a produção de grãos, não somente para alimentar a população, mas e principalmente, para alimentar os animais. As galinhas, os porcos, o gado passam a serem confinados e se necessita de alimentos para estes. A agricultura se especializa e torna-se um setor totalmente dependente capital financeiro e industrial. Em realidade este não é um processo iniciado recentemente, como parece. Ele tem seus fundamentos, em 1535, quando Portugal decide colonizar o Brasil. Acrescente-se. Forçado por Holanda e França que contestavam o “direito divino” da posse destas terras. Quais os princípios adotados então? A agricultura em grandes áreas (latifúndio) e especialização (monoculturas). Surgem inicialmente os enge105

nhos de açúcar e depois as usinas. Lançam-se as bases de uma agricultura industrial, onde inclusive se precisa importar a mão de obra (escravidão). Em 2004, percebem-se as mesmas bases, impera o latifúndio2, a monocultura e a exclusão. Mas surge uma novidade, a biotecnologia. Uma continuação da “revolução verde”. Que contribui para alimentar a ideologia de que a técnica encontra solução para tudo. Mas na realidade não resolve a exclusão, a perda da biodiversidade, a crise ecológica. Mas não foi uma caminhada tranqüila. Surge a resistência dos índios. As lutas dos negros. A insubordinação dos excluídos. Lutas e mais lutas, contestando o “modelo” implantado e que as elites continuam a reafirmá-lo. Pensam que é possível ajustar, conceder aqui e ali, que está tudo bem. As lutas e a organização popular sinalizam o contrário. Indica de forma clara a urgência por alterações. Há necessidade de mudanças de rumo e de modelo. Porque a crise chegou forte e o planeta agoniza.

Crise de civilização
O progresso da humanidade se a princípio é lento, o mesmo se acelera a partir da segunda metade do século XX e em apenas trinta anos, se alcança uma crise de civilização, que se materializa por um desequilíbrio na natureza, perda de solos, contaminação de lençóis freáticos, perda da diversidade, perda de referenciais teóricos. Enfim, uma crise de grandes proporções, por isso uma crise da civilização. Crise que se pode até ignorar a miséria, produzida pelo nosso modelo, mas não pode ignorar o perigo da contaminação ambiental. Os ricos podem ignorar a miséria, mas não podem ignorar a contaminação. Porque queiram ou não, atinge a
2 Latifundio não significa apenas concentração de terras. Significa acumulação, violencia, desrespeito e manutenção de privilegios. Shiva procura mostrar, analisando o sistema de saber enquanto sistema de poder, ”que as monoculturas ocupam primeiro a mente e depois são transferidas para o solo. As monoculturas mentais geram modelos de produção que destroem a diversidade e legitimam a destruição como progresso, crescimento e melhoria.” (Shiva, 2003:17).

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Outra mantém o domínio do homem sobre a natureza. Mas até que ponto estes são novos conceitos? Até que ponto estes não são apenas novas expressões de velhas situações ou de velhos desejos? Será que efetivamente se buscam mudanças? Até que ponto queremos enfrentar os privilégios? Estamos mesmos preparados e nos propomos a enfrentar e construir um processo novo? Estamos comprometidos com outro desenvolvimento?3 Para continuar esta reflexão. os paises pobres tem um grande crescimento populacional e por isso destrói florestas.todos. contaminante e destruidora dos equilíbrios naturais. com um falso discurso ecotecnocrático. derrubando conceitos. Os diagnósticos são distorcidos e as soluções são indicadores de boas intenções sem nenhum comprometimento com sua execução e implementação. Neste segundo 3 Alonso Mielgo e Sevilla Guzmán (1995). Agroecologia. estabelecendo novos paradigmas. Ecodesenvolvimento. Mas. defendem um falso ecologismo em um também falso desenvolvimento sustentável por eles propugnado. sua separação. É a velocidade da tecnologia intensificando processos. Quais seriam nossos caminhos? Que estratégias deveriam ser percorridas? Que princípios norteariam esta construção? Existem muitos estudos. considere-se que sim. muitas pesquisas. (Beck 1998). não porque os paises ricos e industriais desenvolveram uma forma de produção e de consumo com alto desperdício de energia e recursos. tocam fogo etc. considerando uma reaproximação do homem com a natureza. destroem o meio ambiente. Uma. Na realidade estes organismos internacionais. muitas avaliações e indicações sobre estas questões. 107 . Desenvolvimento local. Queremos que os netos de nossos netos tenham um planeta onde possam viver. Afirmam que a construção teórica ecotecnocrata transmite uma mensagem que o planeta está em perigo. Queremos um desenvolvimento que seja duradouro e includente. ou seja. Queremos avançar. Isto em apenas trinta anos. porque. discutem esta questão na perspectiva do entendimento da crise ecológica na perspectiva dos organismos internacionais. Novos conceitos ou novos discursos Surgem novos conceitos. Desenvolvimento sustentável. Também existem poucas coincidências sobre estas respostas. Vamos agrupar em duas grandes linhas.

1989). Na diversidade e complementariedade. Nas cadeias tróficas. Vamos tentar trabalhar em outra direção. No encontro do homem com a natureza. Em uma nova racionalidade ambiental. (Castoriades. onde a técnica é o centro do processo civilizatório e a tecnologia. Nos processos auto-organizativos e complexos através da neguentropia. inclusive de novos mundos. Aumenta a concentração de renda e de poder. sociais e políticas. 2002). Aumenta as catástrofes naturais. 2001) 108 . da natureza. que necessariamente não significa religiosidade. do nosso imaginário. onde a reprodução de sua família é o centro de suas estratégias. Creio que não há necessidade de avançar muito nesta direção. Vamos buscar uma cosmovisão onde o ser. valores. No entendimento de uma racionalidade camponesa ou indígena. se materializa no concreto e no simbólico. A situação do mundo hoje. Isto só revela uma cosmovisão. (Toledo. (Chayanov. tecnologia e sistemas biológicos (Norgaard. Na etnoecologia como expressão de uma compressão do tradicional. inclusive a espiritual. aquilo que chamamos de concreto é fruto de nossa percepção. É trabalhar na complexidade dos elementos que compõe a vida. mais tecnologia e conquistas. Mudando o rumo Vamos mudar o ruma desta prosa. 1997). comprometido com suas raízes. Continua a exclusão de homens.1982) Mas é pensar no homem nas suas múltiplas dimensões.1974). Pela co-evolução dos conhecimentos. Que ela é capaz de recuperar determinadas situações. sua manifestação e expressão ideológica. Porém. (Morin. (Leff.caso. a natureza é para ser explorada e conquistada totalmente e para isso se exige mais pesquisa. para avançar na construção de um novo. (Shanin. do nosso simbólico. já revela a impropriedade de seguir trilhando este caminho. Aliás. As pequenas correções de rumos já revelaram que são inconsistentes. organizações sociais. de animais. Na recuperação dos conhecimentos tradicionais. são muitos os que acreditam que a tecnologia vai trazer as soluções que se precisa.2002).

Vamos pensar na agroecologia. considerar os aspectos de gênero. Trabalhando com as diversas dimensões e campos das ciências.” Um desenvolvimento diferente? Esta construção parece indicar a necessidade de considerar como elemento determinante o meio ambiente. Nesta linha. tendo como base teórica. etnia. como expressão de um método e de uma nova área de conhecimento. diferente. o desenvolvimento local sustentável. Shiva (2003:15) recomenda que “adotar a diversidade como forma de pensar. portanto. Alguns princípios Alguns princípios poderiam ser listados para esta proposta de desenvolvimento sustentável. 2004). o caráter inter e multidisciplinar da intervenção do início até o fim. O diálogo de saberes. a agroecologia. Ë pensar no desenvolvimento e em uma agricultura sustentável como um processo de transição. onde não há fórmulas préestabelecidas. como um contexto de ação. (Caporal e Costabeber. construído social e participativamente. a participação da família do agricultor em todas as fases e etapas do projeto. Resulta. que busca uma agricultura ecológica (Altieri. a Amazônia é um grande desafio e uma grande oportunidade. como unidade/totalidade de análises e de intervenções. Aceitam-se princípios e metodologias. própria. Avançando e construindo um conhecimento especifico. 2002). 2001). 2002) e um desenvolvimento sustentável (Sevilla Guzmán e Woodgate. Ecossistemas como unidade de análise e intervenção. Têm109 . Partindo dos agroecosistemas. raça e geração. discutir diferentes desenvolvimentos. próprio. permite o surgimento de muitas opções. De forma peculiar. Como caminhos de uma construção. (Gliessman. Discutir propostas de desenvolvimento implica considerar os diferentes meios ambientes. A valorização do conhecimento endógeno e das potencialidades locais.

a devastação. para adubar (8%). para oferecer sombra a outras plantas (3%) e para outras utilidades (30%). Ao mesmo tempo. Cabe. configura-se uma extraordinária diversidade. Mas com grande potencial para um desenvolvimento diferenciado. &0% destas plantas seriam plantadas e manejadas. analisar a “modernidade” e a crise de civilização provocada por este tipo de desenvolvimento. Oportunidade pelo seu caráter único da maior floresta tropical do mundo. neste ponto. na realidade se está contribuindo para agravar a atual crise mundial? Ambiente inadequado? São muitas as perguntas. a concentração e a exclusão? Quais são os elementos diferenciadores que indicam possibilidades de avanços? Será que há alguma dúvida que adotando o modelo clássico de desenvolvimento. alguns questionamentos. por que repetir o mesmo estilo e modelo de desenvolvimento de outras regiões? Por que o caminho é a industrialização. O que sinaliza para aa existência de um conhecimento tradicional da floresta. Região onde se concentra maior população indígena do país. Diversidade vegetal e humana.se a floresta e a exigência de sua continuidade. (Schröder:2003:43). em analises de Andersen &Posey (1989) em uma destas ïlhas”foram identificadas 120 especiés. alimentícias (25%). como (72%) planats medicinais. O resultado a médio 4 Estes indígenas seminômades criaram dentro de suas migrações sazonais áreas produtivas. em que se constitui um ecossistema também singular. com 98% delas de utilidade para os Kayapó. o desrespeito ao meio ambiente. Região. 110 . compreender. chamadas de apêtê . para atrair caças 940%). No caminho já iniciado de uma agricultura dita “moderna” altamente dependente de capitais externos a propriedade. afortunadamente pouco desenvolvida. para manter as possibilidades de configurar um desenvolvimento. Em sendo assim. os SAF’s. Schröder (2003:42) defende “que os indígenas manipulam ativa e conscientemente o meio ambiente” e cita como exemplo desta complexa manipulação as “ilhas de recursos”4 dos Kayapó-Gorotire. lenhosas (12%). Pode-se indicar como analogía hohe. Nesta direção é fundamental entender. Porém existem umas poucas certezas. A crise do mundo é uma crise do capital.

pássaros. Homens. animais e tantas outras coisas é uma constante. Nesta perspectiva deste desenvolvimento. É este o desenvolvimento que se tem como referência? A Amazônia. produzindo. A exportação de peixes ornamentais. É fundamental o estabelecimento de um diálogo de saberes. diga-se de passagem. oficiais ou não. E aí. Pode ter razão. exportando. o meio ambiente. no mundo.e longo prazo é a destruição da floresta e de sua biodiversidade. adentram na floresta na busca de suas preciosidades. conhecer sua fisiologia. surge um enorme desafio: a necessidade de se conhecer e conhecer bem este magnífico ecossistema. animais. Com o intuito de construir um conhecimento coletivo a partir das experiências e das vivências locais. na maioria das vezes. Expedições de pesquisadores. no passado. Mas. O desequilíbrio ocorre. Conhecer não apenas para identificar onde existem minas de metais preciosos. atrás de ouro e pedras preciosas. no presente continuam sendo contrabandeadas para decorar casas de outras pessoas fora da região. se esta sociedade não considera as peculiaridades locais do meio ambiente. Com respeito às diferenças e às distintas cosmovisões. as experiências com 111 . é sinônima de meio ambiente. não são poucas. sua cultura. floresta são reduzidos à mercadoria e ocidentalizados. É imprescindível uma aproximação com o conhecimento tradicional. Sem preconceitos. Negando esta tese está a existência de aproximadamente dois milhões de indígenas. Madeira de lei que revestiram palácios. Legalmente ou não. Existem SAF’s. na perspectiva do capital e da cultura dos europeus. mulheres. principalmente. pode-se entender a tese de Meggers (1954) que a floresta tropical é um ambiente inadequado ao sustento de sociedades mais complexas. bem mais que nós. dizimando. ouros. no século XVI. com a chegada dos “civilizados”. para implantação da monocultura. Turistas de paises que destruíram suas florestas vêm conhecer as nossas. “eles” conhecem a Amazônia. comercializando produtos e interagindo com a floresta de forma ativa e conseqüente. Hoje. Reconheça-se. Que. não somente minérios. vivendo. seu manejo. mas também da biodiversidade.

Experiências de pesca e de manejo de pescado. Qual a novidade destas propostas? Por que não existem políticas públicas nesta direção? A população quer um desenvolvimento nes112 . tão vivas que espantam e. Captação de carbono. têm-se visões múltiplas de suas possibilidades. que fundamentam um desenvolvimento diferenciado. É toda vidrada e esmaltada de todas as cores. porque a ela nem a de Málaga se iguala. Doces e sucos. Conhecimentos. do artesanato. Patenteamento de espécies raras e exóticas. Uso medicinal e extrativista.. Manejo da floresta com pouco impacto ambiental.” Quando se fala da biodiversidade. a melhor que já se viu no mundo. Animais e plantas que não conhecemos e que não existem em outra parte do mundo. Indústria farmacêutica. além disso. a biodiversidade. Os consórcios vegetais. o turismo e outra. hotéis. Orquídeas. Porém. Uma diversidade de opções. Extrativismo. Vale salientar que não é de hoje que a cultura na Amazônia desperta admiração. O pescado e sua indústria. onde políticas públicas sejam formuladas para estrategicamente fortalecer duas direções. “. seja através da dança. seja a inclusão social e o envolvimento ativo da população no manejo adequado de seus ecossistemas. da comida. estas alternativas exigem uma floresta. Estas dimensões têm inúmeros desdobramentos. incursões ecológicas. Uma. com apresentação de distintas manifestações culturais e serviços. Indústria de cosméticos. assim relata sua impressão sobre a cerâmica. os desenhos e pinturas que fazem nela são tão compassados que com naturalidade eles trabalham tudo em romano. Mas um turismo que alie. com amplas perspectivas de fundamentar um desenvolvimento efetivamente sustentável cujo resultado..Permacultura. Mas. possibilidades diferentes do modelo convencional. Carvajal (1941:47). Um turismo que não seja simplesmente a oferta de bons hotéis com programas de incursões ecológicas. Turismo e biodiversidade Um projeto de desenvolvimento diferente. Por isso. vários. da biodiversidade.

ta direção? Esta proposta é absurda? Inconseqüente? Quantos já fizeram, com mais competência e mais detalhes propostas nesta direção e não foram sequer escutados? Estas propostas são contra um projeto de desenvolvimento? Estas propostas significam uma volta ao passado e voltar a viver em malocas e não ter acesso à tecnologia e às inovações?

Necessidade de conhecimentos
Claro que não. Esta é efetivamente uma proposta de desenvolvimento. Aonde se necessita cada vez mais de tecnologia. Exigem-se mais conhecimentos. Alias, este é um fator de desenvolvimento e com amplas perspectivas de exportação. Conhecimento do manejo adequado e apropriado da floresta amazônica. Esta proposta traz em si uma necessidade de avanço cientifico, porém a partir de outros paradigmas. Morin (1991:17) diz que “todo conhecimento, incluindo o conhecimento cientifico, está enraizado, está inscrito em e é dependente de um contexto cultural, social, histórico. Porém o problema consiste em saber quais são estas inscrições, enraizamentos, dependências e perguntar-se se pode haver, e em que condições, uma certa autonomia e uma relativa emancipação do conhecimento e da vida”. Qual o conhecimento amazônico? Qual o conhecimento que reflete e responde ao contexto cultural, social, histórico e natural da Amazônia? Este conhecimento poderá apontar para um desenvolvimento sustentável. Mas, com certeza o conhecimento produzido em outro contexto cultural, social, histórico e natural se implementado na Amazônia poderá concorrer para uma catástrofe e não para um desenvolvimento.

Para concluir
O mundo muda a cada instante porque é formado por entes vivos. Assim, na dinâmica do processo não se pode analisar em uma perspectiva estática. As mudanças acontecem seguidamente. Algumas para
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melhor e outras para pior. Por se pensar que o mundo é uma matéria prima para o capital, chega-se a esta situação de esgotamento. Há um enfraquecimento e um estado débil de vida, com um aumento cada vez maior e mais presente de mortes. Esta separação do homem da natureza nos leva a uma crise de civilização. Configura-se depois de muitos anos nesta caminhada a constatação que muitas estratégias foram equivocadas. Talvez a maior delas, foi a opção por acumular riquezas e a estratégia antropocêntrica de dominação da natureza. Schumacher, (1981) alerta que é um equivoco pensar que está resolvido a questão da produção e destaca a batalha do homem contra a natureza. Registra-se, porém, que não há crise para o capital. Este está cada vez mais bem remunerado, cada vez mais concentrado, cada vez mais excludente. E, as pessoas na Universidade, nos órgãos de desenvolvimento, nas agências de cooperação técnica têm uma enorme responsabilidade. Precisa-se assumir uma postura favorável na direção de contribuir para efetivas mudanças. Precisa-se repensar a maneira de agir em casa, no trabalho, nas relações pessoais e profissionais. Precisa-se olhar a volta e analisar efetivamente que mundo se quer construir. Analisar e aprofundar os conhecimentos sobre a proposta agroecológica e criticando-a, reconstruindo-a, reelaborandoa, identificando-a se pode ser uma ferramenta, uma metodologia e uma epistemologia. Que permita subsidiar e fundamentar o caminhar para mudança de paradigmas e de reafirmação de sonhos, que implantados, leve a construção de outro modelo de sociedade. Que pode ser em uma comunidade, em um grupo, ou individualmente. Marx-Neef (1994:147) diz que “só temos o poder de modificar a nós mesmos, porém o ponto fascinante é que se eu mudo, pode ocorrer algo em conseqüência que pode conduzir a uma mudança no mundo”. Pode ser pequeno, simples. Mas, que seja na direção contrária aos caminhos que levaram a esta crise. Que seja contrária à acumulação, à monocultura, ao enfrentamento, à competição, à pretensa dominação da natureza e à exclusão social. Seja de reafirmação da cooperação, da diversidade, da distribuição e a acumulação comunitária, da inclusão. Seja nos integrando com a natu114

reza, cooperando, aprendendo, observando, entendendo o mistério de sua reprodução em sua complexa auto-organização, promovendo radicalmente a vida. Novamente, reafirma-se, necessita-se da manutenção dos ecossistemas. Necessita-se da floresta, até porque floresta, em última instância significa vida. Inclusive e principalmente para os que vivem fora dela. Retomando a Schumacher(1981:12) que lembra que a batalha do homem contra a natureza se vencida pelo primeiro, significa simplesmente a ameaça de “continuidade da existência do gênero humano”, pelo menos neste planeta.

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uma vez que não sou profissional das ciências agrárias e nosso campo de conhecimento nem sempre se equivale. se recusa a “domesticação” dos homens. pág. 2002. por um lado. Paz e Terra. ao invés de discursar sobre teorias e conceitos. email: ladjaneframos@yahoo. harmonizando técnicas e instrumentos. Por outro lado. para extensionistas. 24. Como ensina Paulo Freire. Isto não significa negar 1 2 Perita da Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ) no Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável –AM. deste ser que “como educador.Da contradição do sujeito na extensão rural Ladjane de Fátima Ramos1 “tu és a floresta das contradições” Rainer Maria Rilke Ao ser solicitada para discorrer sobre construtivismo e o enfoque da participação no meio rural. Neste sentido. levar reflexões e inquietações. dentre outros aspectos sobre o tema. São Paulo. não ao de extensão” 2.. participação. que me dominam. deparei-me com o desafio. extensão ou comunicação?. dissertar na condição de estrangeira. assistimos no decorrer da história da extensão rural e mais fortemente na atualidade a reedição da dicotomia presente na nomeação deste individuo que ao ser denominado de extensionista deve ter sua prática pautada em processos comunicacionais. desenvolvimento. dialetizar diferentes conceitos da teoria da aprendizagem. Ed. cuja sua tarefa corresponde ao conceito de comunicação.br Paulo Freire. edição. apontando assim a interrogação acerca do papel de “extensionista” e de sua missão frente à realidade da qual faz parte e tem uma ação de influência.com. Por esta razão tomei o caminho de. principalmente. embora sua formação não responda a esta exigência.. 12a. 117 .

que assim define “Ater deve ser instrumento capaz de contribuir decisivamente para: (a) colocar o agricultor familiar e todos os atores envolvidos na condição de sujeito do processo. a sua interação e a dos agricultores familiares. valores e conceitos que até então eram tidos como válidos. O que é exigido ou demandado? Que postura tomar? Tratamos aqui de mudanças. (c) reduzir a dispersão social. deslocando os atores sociais envolvidos no desenvolvimento sustentável do lugar de “objeto” ao de “sujeito” do processo. na verdade constituia-se mais em focos de resistência de alguns sujeitos sociais e. No entanto isto não foi hegemônico. dos movimentos de igreja. de grupos de extensionista das empresas estatais e de agricultores que faziam frente a ação desenvolvimentista das políticas agrárias e à formação universitária dos profissionais da área. Resistência à falsa nomeação “extensionista” que o colocava e ainda põe em evidência o dilema que vai incidir principalmente sobre sua forma de relação com os agricultores/as. 41.a este profissional um saber que produz a liberdade de si. de modificar a forma de atuação. p. apoiar a apropriação de processo de transformações ou levar pacotes tecnológicos?. é o da participação. por parte de muitos desses técnicos que buscavam muito mais uma postura de educador-educando. das organizações da sociedade civil. principalmente. 3 Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável do Brasil Rural – PNDRS. Mas. mas principalmente de alterar as crenças. como fazer este processo de mudança? O que pode impulsionar a reflexão? O novo papel do extensionista está contido no Plano de Desenvolvimento Sustentável do Brasil. (b) promover a organização dos agricultores familiares em formas associativas e cooperativas. ou seja: ser educador ou transmissor de conhecimento?. do que mesmo uma atitude de alguém que estende seus conhecimentos a um outro. Ao longo de décadas assistimos focos de reações à prática demandada pela revolução verde. e (d) estimular o exercício da prática solidária como argamassa de uma nova consciência coletiva”3 Neste aspecto o caminho apontado pelo discurso da política brasileira. 118 .

e aqui falamos tanto do extensionista como do agricultor. entender que o enfoque de atuação humanista necessita muito mais de uma conduta mediadora de diferentes saberes do que uma atitude de persuasão junto aos agricultores. da consumidora e de todos aqueles que integram este universo. como também ampliar a compreensão 119 . a idéia de viabilidade de um projeto de mundo com mais eqüidade e participação?. É principalmente o privilégio do ser humano sobre a tecnologia. econômica. E aqui se coloca algumas interrogações: como se reconhece e dialetiza o saber e como se legitima a posição de sujeito? E especialmente como alimentar. através de processos comunicacionais. portanto. permitindo o crescimento do espírito cooperativo sem que isto signifique o desaparecimento da individualidade. do consumidor. Como afirmamos anteriormente. social. aqui é entendido como a possibilidade de resgatar a cidadania e presentificar a ação política. na mente humana. O enfoque participativo. ampliar sua capacidade de análise e decisão.Se por um lado esta participação não pode ser considerada “a caixa de pandora” da assistência técnica e extensão rural. Cabe. que o sujeito social se presentifique. entende-se que atuar com um enfoque participativo significa recolocar o homem no centro do processo. por outro lado. ampliando assim a governabilidade sobre “as coisas” públicas. os processos comunicacionais permite. construindo e reeditando novos laços e pactos sociais de solidariedade e de contribuição voluntária. mas também proporcionando uma (re)leitura do coletivo. onde estão depositadas as soluções e tudo se transformará. Assim seria possível que “algo mais” se construa e conseqüentemente. A resignificação do rural impõe revisões teóricas e mudanças dos profissionais e das organizações que atuam neste meio. cultural dos diferentes atores. através da dialética. Conduta mediadora significa permitir que os agricultores familiares possam. da agricultora. que técnicos e agricultores possam interagir e encontrar signos comuns. O privilégio da participação e de processo dialético permitiria a criação de espaço de esperança na construção de novos arranjos de relações sociais.

É a oportunidade de reescrever a história. tenta reescrever a Agroecologia como impulsionadora de mudanças nas relações sociais. É assim que os sujeitos mudam sua realidade e influenciam o entorno. No entanto há dissonâncias e/ou contradições. Quais são os limites? Pois estamos falando aqui de se fazer presente no mundo. nas idéias de liberdade e igualdade. Também significa se colocar enquanto sujeito. econômicos. para velhos problemas sociais. dentre outras definições. e isto implica em adotar-se uma postura ética e reflexiva que vai ao encontro da democracia e ao respeito pelo outro. conhecimentos e comportamento. O avanço da humanidade se escreve nos desafios.sobre crenças. O processo dialógico. Este é o desafio para os agentes da extensão: decidir ousar e reinventar as relações sociais no Brasil. com a agricultura sustentável ou mais diretamente. de um fazer diferente e daí para a tomada de decisão 120 . Isso implica numa compreensão do contexto desses dois mundos que interagem. pois os processos de comunicação humana estão condicionados aos aspectos socioculturais e a forma como cada um deu sentido a sua história. assumindo-se riscos. e não enquanto objeto das políticas e das relações institucionais nos quais estão inseridos. na luta. políticas. através da problematizacão da realidade e da ação-reflexão é o caminho encontrado pelas técnicas e métodos que priorizam a participação. correr o risco de experimentar novas formas de relação e soluções criativas. constantemente. culturais. Não podemos deixar de considerando que processos de mudanças só ocorrem por um desconforto que mobiliza a energia para a busca de alternativa. no contexto do desenvolvimento sustentável. Este desafio é colocado pela Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) que de uma forma muito audaciosa. Esse conceito significa. ambientais e culturais. Mas até que ponto os técnicos ou agentes de Ater estão optando por isto? Quantos podem ser capazes de sair de seu espaço de conforto relativo e se responsabilizarem pelo fato de que podem fazer a história? Estas são interrogações que escutamos no discurso. atitudes. valores. econômicas e ética na sociedade.

neste caminho. A nossa presença no mundo implica escolha e decisão. ou como afirma Paulo Freire é parte de “. a saída de uma situação a outra. há diferentes possibilidades que devem ser pautada pela capacidade criativa e por soluções locais. claro. mas atores também da história.) É a partir da consciência de que mudar é difícil. Assim a PNATER aponta para o caminho da democratização e liberdade dos atores. se acho que. Como afirma Paulo Freire (. é preciso inventar e praticar novos saberes. para processo de aprendizagem organizacional.e. implicando em novos modelos de relação e numa ação libertadora. mas como abordamos anteriormente.. 121 . conseqüentemente para uma nova situação de conforto e domínio. Neste caso a PNATER aponta este foco de mudança.. Mas direi também que mudar implica saber que fazê-lo é possível”(.. dos agricultores familiares e demais atores sociais que integram este sistema de relações ligadas ao desenvolvimento do meio rural.. que se constroem a democracia e o ato de liberdade. Os processo de mudanças impulsionam para a aprendizagem coletiva e individual e.) “se alguém me pergunta. Neste contexto as instituições estatais ou não governamentais têm um papel importante para a concretização destas mudanças. especificamente. direi que não. para mudar o Brasil. a busca de um modelo de desenvolvimento mais sustentável. a crença de que é possível mudar e.. A configuração de um processo de mudança precisa sempre de situações específicas.nossa ação política-pedagógica”.. onde a Agroecologia aparece como a orientação para a dialetização dos atores. ou seja. Ela implica necessariamente a focalização de um objetivo.. priorizando e construindo formas de atuação que considerem a participação e saberes dos membros das organizações de Ater. mas não impossível.. Importante ressaltar que não existem fórmulas. A mudança não tem sentido em si mesma. basta que nos entreguemos ao cansaço de constantemente afirmar que mudar é possível e que os seres humanos não são puros espectadores.

2003. MRECH. Recife. 2003. Criatividade e grupos criativos. Criando novas formas de vida e buscando acima de tudo uma relação mais solidária com os seus. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. Tomos editorial. De MASSI. Seja estes sujeitos. Psicanálise e educação. temos um sujeito que tem que se presentificar com todas as suas contradições de estar em um mundo globalizado e que deve ir em busca de seus sonhos e lutas. novos operadores de leitura. coletivo. Paulo. que se pode reescrever a história e a relação humana no mundo rural e deste com o urbano. Paulo. FREIRE. resistência. FREIRE. Leny Magalhães. Bagaço. construindo assim o desenvolvimento sustentável. agricultores ou consumidores. 2002. Este é o maior desafio que nos coloca a PNATER. Markus. político. Extensão ou comunicação?. um modo de ser mais feliz. técnicos. Domenico. Bibliografia BROSE. Paz e Terra.Sendo assim. sejam seres engajados em organizações. e para dizer mais claramente. Gestão da Mudança Organizacional. medos. Como afirma Freire: “ O que o sonho aspira é um ato político”. Editora UNESP. que são projetos pelos quais se lutam. métodos e técnicas. Texto da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural ZIMMEMANN. 2004. Arthur. recuos. E em meio a tudo isto. 12ª edição. Se resignificando e reinventando enquanto sujeito emergente. 122 . transformar o modo de relações sociais em busca de uma melhor forma de viver. Rio de Janeiro. a luta de um e a luta de muitos. Sextante. A busca de realização de desafios implica avanços. Participação na Extensão Rural: Experiências Inovadoras de Desenvolvimento Local. sejam coletivos ou individualmente. estes processos são impulsionados por sonhos. dentro do limite possível da felicidade e da realidade. 2004. 2000. mas principalmente a tomada de consciência que mudar é possível.

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