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Assistência Técnica
e Extensão Rural:
Construindo o Conhecimento
Agroecológico

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Presidência da República
Luis Inácio Lula da Silva

Governo do Estado do Amazonas


Carlos Eduardo de Sousa Braga

Ministério do Desenvolvimento Agrário


Miguel Soldatelli Rossetto

Secretaria da Agricultura Familiar do MDA


Valter Biachini

Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA


Argileu Martins da Silva

Coordenação Geral de Assistência Técnica e Extensão Rural do MDA


Francisco Roberto Caporal

Secretaria de Produção Rural


José Maia

Instituto de Desenvolvimento Agropecuário


Edimar Vizolli

Projeto Desenvolvimento Local Sustentável do Amazonas


Antônio Jandir Contente Morais

Agência de Agronegócios
Raimundo Valdelino Cavalcante

Universidade Federal Rural de Pernambuco


Valmar Correia de Andrade

Departamento de Educação da UFRPE


Paulo de Jesus

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Presidência da República
Governo do Estado da Amazonas
Ministério do Desenvolvimento Agrário
Secretaria de Agricultura Familiar
Secretaria de Estado de Produção Rural
Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas

Assistência Técnica
e Extensão Rural:
Construindo o Conhecimento
Agroecológico

Organização:
Jorge Tavares
Ladjane Ramos

Manaus • 2006

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Coordenação Editorial
Antônio Jandir Contente Morais
Ladjane Ramos

Organização:
Jorge Roberto Tavares
Ladjane Ramos

Revisão
Peta Teixeira

Fotos
Arquivo ProVárzea/L.C. Marigo
Dania Lolah

Projeto gráfico e capa


Áttema Design Editorial - www.attema.com.br

Catalogação na Fonte
I 18 a IDAM. Assistência técnica e extensão rural: construindo o conhecimento
agroecológico/por Jorge Roberto Tavares e Ladjane Ramos. –
Manaus: 2006. 128 p.1.
Extensão Rural. 2. Agroecologia. 3. Desenvolvimento Rural
Sustentado. I. TAVARES, Jorge Roberto. II. RAMOS, Ladjane. III.
GTZ.CDU 631.588.9+63.001.8(042)

Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas – IDAM


Av. Buriti, 1850, Distrito Industrial, Manaus, AM, CEP 69.075-000
Telefone/FAX: (0..92).3613.6926 • Email: gtzidam@uol.com.br

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Sumário

Apresentação ...................................................................... 7

Política Nacional de Ater: Primeiros passos de sua implementação


e alguns obstáculos e desafios a serem enfrentados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
Francisco Roberto Caporal

Desenvolvimento local e territorialidade .................................... 35


Guilherme Soares

Estratégias de comunicação em contextos populares: Implicações


contemporâneas no desenvolvimento local sustentável . . . . . . . . . . . . . . 53
Angelo Brás Fernandes Callou

A metodologia científica e o quotidiano da


extensão rural: Algumas relações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
Paulo de Jesus

O grande desafio da educação empreendedora cooperativa . . . . . . . . . . . . . 81


Jymmy Peixe Mc Intyre

Cooperativismo e desenvolvimento local .................................... 85


Maria Luiza Lins e Silova Pires

Região amazônica e economia solidária: Uma perspectiva


de desenvolvimento integrado sustentável . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 93
Ana Maria Dubeaux Gervais

Desenvolvimentos, uma perspectiva plural ................................ 103


Jorge Roberto Tavares de Lima

Da contradição do sujeito na extensão rural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117


Ladjane de Fátima Ramos

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Apresentação

A história da extensão rural no Brasil passou por várias crises desde


o seu surgimento até os dias atuais. Neste aspecto o papel do
extensionista sempre esteve atrelado aos modelos de desenvolvimento
e interesses vigentes em cada uma dessas etapas.
Com a crise econômica, política e ambiental do modelo da revolução
verde, o insucesso do estado desenvolvimentista na década de 80 e o
avanço do neoliberalismo nos anos 90, o modelo institucional e técnico
da extensão entrou em crise, conseqüentemente o papel e intervenção
dos técnicos da Ater também sofreram os ventos desta mudança.
Decorrente disso, é que chegamos ao século XXI com uma indefinição
do papel do extensionista. Os métodos antes apreendidos, de difusão de
tecnologia, perfeitamente adaptado ao processo de modernização da
agricultura já não atendem às exigências do meio rural, que avançou no
processo de democratização e na busca de eqüidade social.
Em meados de 2003 surge a Política Nacional de Assistência Técni-
ca e Extensão Rural (PNATER), como resposta às necessidades do
agricultor familiar, e mais uma vez interroga o papel do extensionista
e preconiza o fortalecimento de processos participativos e a constru-
ção de relações dialéticas entre os atores sociais.
Com essa visão, proporcionou o estabelecimento de uma relação
forte com a sociedade civil, em favor do fortalecimento e da integração
de todos os programas de inclusão social, de combate a pobreza, de
reforma agrária e da agricultura familiar.
Na mesma esteira, estabeleceram-se formas objetivas de apoio à tran-
sição Agroecológica na Agricultura familiar, estimulando a produção
de alimentos sadios, de forma ambientalmente sustentável, econo-
micamente viável e culturalmente adaptada.
Reconhecendo a importância do movimento a partir da mobilização
gerada pela implementação da PNATER e acreditando na constru-

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ção de processos democráticos pela equidade e pela inclusão social
não só das populações rurais, mas dos extensionistas envolvidos,
que o Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável -DLS-AM
(Sepror/GTZ/IDAM) em parceria com a Secretaria da Agricultura
Familiar (SAF/MDA) e Departamento de Educação da Universidade
Federal Rural de Pernambuco tomou a iniciativa de realizar o Curso
de “Metodologia em Extensão Rural, com enfoque Agroecológico”.
Os textos reunidos nesta publicação resumem as apresentações feitas
pelos professores e pesquisadores durante o curso. Além desses, foi
incluído um artigo de Francisco Roberto Caporal, Coordenador Geral
de Ater (Dater/SAF/MDA), que trata sobre a implementação da nova
Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural que vem
sendo realizada pelo Dater - Departamento de Assistência Técnica e
Extensão Rural, em parceria com entidades governamentais e não go-
vernamentais e cujo conteúdo está intimamente relacionado ao esfor-
ço de capacitação do Projeto de Desenvolvimento Local Sustentável.
O projeto de Desenvolvimento Local Sustentável (DLS-AM) é exe-
cutado pelo Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazo-
nas (IDAM) e pela Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ),
que executa, pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvol-
vimento da Alemanha (BMZ), Programas de Cooperação Técnica
em diferentes países, inclusive no Brasil.
Edimar Vizolli
Presidente do Instituto de Desenvolvimento
Agropecuário do Estado do Amazonas

Argileu Martins da Silva


Diretor do Departamento de Assistência
Técnica e Extensão Rural

Paulo de Jesus
Universidade Federal Rural de Pernambuco

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Política Nacional de Ater: primeiros
passos de sua implementação e alguns
obstáculos e desafios a serem enfrentados

Francisco Roberto Caporal1

Introdução

Em 2003, o Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA passou


a ser responsável pelas atividades de Assistência Técnica e Extensão
Rural – Ater, como estabelece o Decreto Nº 4.739, de 13 de junho
daquele ano. Por delegação da Secretaria da Agricultura Familiar –
SAF, um grupo de técnicos coordenou a elaboração da nova Política
Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural - Pnater, promo-
vendo um amplo processo de consulta, a partir de audiências, en-
contros e seminários envolvendo representações dos agricultores
familiares, de movimentos sociais e de prestadoras de serviços de
Ater governamentais e não governamentais. Este processo, demo-
crático e participativo que envolveu mais de 100 entidades e mais de
500 pessoas, levou à construção de alguns consensos e a um con-
junto de acordos e redundou no documento que sintetiza a Política
Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (MDA, 2004).
Desde finais de 2003, seguindo as orientações desta Política, a SAF,
através do Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural –
Dater, vem implementando esta nova proposta. O objetivo deste
artigo é registrar alguns passos deste processo e identificar alguns

1 O autor é Engenheiro Agrônomo, Extensionista Rural da EMATER/RS, Mestre em Extensão


Rural pelo CPGER da UFSM e Doutor em Agronomia pela Universidade de Córdoba,
Espanha. Atualmente desempenha a função de Coordenador Geral de Assistência Técnica
e Extensão Rural, no Dater/SAF/MDA.
Email: francisco.caporal@mda.gov.br Brasília, 14 de agosto de 2005.

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desafios que ainda precisam ser enfrentados para que o Brasil possa
vir a ter, de fato, um novo perfil de Assistência Técnica e Extensão
Rural – Ater, capaz de contribuir para o fortalecimento da agricultu-
ra familiar, numa perspectiva de desenvolvimento rural sustentável.

As bases teóricas da nova Pnater:


sobre alguns princípios norteadores

A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural estabelece


que a Missão da Ater deve ser “Participar na promoção e animação de
processos capazes de contribuir para a construção e execução de es-
tratégias de desenvolvimento rural sustentável, centrado na expansão
e fortalecimento da agricultura familiar e das suas organizações, por
meio de metodologias educativas e participativas, integradas às dinâ-
micas locais, buscando viabilizar as condições para o exercício da cida-
dania e a melhoria da qualidade de vida da sociedade” (MDA, 2004).
Para ser mais precisa a orientação e a implementação desta Missão,
a Pnater estabelece e se baseia em 5 (cinco) Princípios, que preten-
dem ser a síntese daquilo que é indispensável para se ter uma nova
Ater. Dados os objetivos deste texto, basta citar aqui apenas três
desses Princípios, como segue:
“Contribuir para a promoção do desenvolvimento rural sus-
tentável, com ênfase em processos de desenvolvimento
endógeno”, visando a “potencialização do uso sustentável dos
recursos naturais”.
“Adotar uma abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, es-
timulando a adoção de novos enfoques metodológicos
participativos e de um paradigma tecnológico baseado nos
princípios da Agroecologia”.
“Desenvolver processos educativos permanentes e continua-
dos, a partir de um enfoque dialético, humanista e construtivista,
visando a formação de competências, mudanças de atitudes e
procedimentos dos atores sociais, que potencializem os objeti-

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vos de melhoria da qualidade de vida e de promoção do desen-
volvimento rural sustentável”. (MDA, 2004)
Como é possível observar, o estabelecimento desta Missão e destes
Princípios supõe uma mudança de rumos com respeito às práticas
difusionistas, que marcaram a história da extensão rural convencio-
nal. A teoria da Difusão de Inovações (ROGERS, 1969; 1995) não
perde sua vigência, não obstante, ela deve deixar de ser usada na
perspectiva da “persuasão”, da “educação bancária”, da “alienação”,
(FREIRE, 1982; 1983), da pseudo superioridade do conhecimento
científico sobre o saber popular, para dar lugar a novas formas e
novos conteúdos desta intervenção. Deve-se adotar, necessariamente,
metodologias participativas que ajudem a democratizar a relação entre
extensionistas e agricultores. Ao contrário dos métodos que geram
dependência e alienação, deverão ser adotadas metodologias que
possam contribuir para o “empoderamento” dos atores sociais. Es-
tas formas de intervenção devem favorecer o estabelecimento de
plataformas de negociação entre técnicos e agricultores que permi-
tam a construção de saberes novos e mais compatíveis com a vida
real das populações envolvidas. Estes novos saberes, na prática coti-
diana, poderiam ser aqueles conhecimentos sobre a realidade social,
ambiental, econômica, cultural e política, onde agricultores e técni-
cos buscam o “desenvolvimento”2. Logo, ao contrário da visão
cartesiana e tecnicista que orientou as décadas do
desenvolvimentismo, a nova Ater exige uma visão holística e o esta-
belecimento de estratégias sistêmicas e não apenas métodos apro-
priados para uma difusão unilinear e unidirecional de tecnologias,
próprios do difusionismo. Por isto mesmo, na nova Ater, técnicos
disponibilizam seus conhecimentos e não simplesmente os difun-
dem, segundo o modelo clássico e a lógica linear do princípio de
“estender” da fonte ao receptor. Esta nova visão, supõe a quebra da

2 Entendemos que o desenvolvimento, em sua formulação teórica mais ampla, significaria


a realização de potencialidades sociais, culturais e econômicas de uma sociedade,
em perfeita sintonia com o seu entorno ambiental e com seus exclusivos valores
éticos (ESTEVA, 1996).

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hierarquia de saberes e o respeito aos conhecimentos dos agriculto-
res, que devem ser considerados válidos e necessários para a cons-
trução de conhecimentos mais complexos, mediados pela realidade.
Do ponto de vista tecnológico, a Pnater também supõe a necessidade
de mudanças, pois parte do princípio de que o padrão tecnológico e
as formas de manejo dos agroecossistemas que foram instituídos e
modelados no escopo das estratégias de “modernização”, centradas
nos pacotes tecnológicos da Revolução Verde, não são adequados
para o estabelecimento de estilos de agricultura e de desenvolvimento
sustentável que são desejados pela sociedade e que passaram a ser um
imperativo deste século. Os ideais de sustentabilidade e a segurança
das condições de vida das futuras gerações, não são compatíveis com
modelos que levam à exclusão social, à expulsão de massas da popula-
ção rural, num verdadeiro processo de geração de pobreza, de violên-
cia, de iniqüidade, de subdesenvolvimento, como ocorreu nas déca-
das do desenvolvimentismo. Os esquemas “modernizadores” da agri-
cultura, sequer são adequados do ponto de vista da manutenção da
base de recursos naturais que as futuras gerações vão necessitar para
que possam assegurar condições dignas de vida. Trata-se, pois, da
necessidade do estabelecimento de uma nova ética sócio-ambiental.
Esta “visão de mundo” deve levar à formulação de novos processos
sócio-econômicos, que sejam produtivos mas que não percam de vista
as dimensões sociais e ambientais do desenvolvimento sustentável.
Por isto mesmo, a Pnater estabelece a necessidade de adoção dos
princípios da Agroecologia e suas bases epistemológicas, para o dese-
nho de agroecossistemas sustentáveis e para o estabelecimento de
estratégias de desenvolvimento rural sustentável, que sejam opostas
àquelas que foram implementadas ao longo do século passado.
De certa forma, poderia ser dito que o enfoque metodológico e
tecnológico que está proposto na Pnater, requer a implementação de
uma extensão rural agroecológica ou ecossocial3. Definimos a Exten-
são Rural Agroecológica como um processo de intervenção de cará-

3 Ver CAPORAL (1988) e SÁNCHEZ DE PUERTA (2004).

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ter educativo e transformador, baseado em metodologias de investi-
gação-ação participante, que permitam o desenvolvimento de uma
prática social mediante a qual os sujeitos do processo buscam a cons-
trução e sistematização de conhecimentos que os leve a incidir cons-
cientemente sobre a realidade, com o objeto de alcançar um modelo
de desenvolvimento socialmente eqüitativo e ambientalmente sus-
tentável, adotando os princípios teóricos da Agroecologia como cri-
tério para o desenvolvimento e seleção das soluções mais adequadas
e compatíveis com as condições específicas de cada agroecossistema
e do sistema cultural das pessoas implicadas em seu manejo.
(CAPORAL, 1998)

Algumas bases epistemológicas


que orientam a nova Ater

Para atender os requisitos antes enunciados e as ações prioritárias


do Dater, que veremos adiante, é necessário o estabelecimento de
processos que estejam orientados por estratégias não convencio-
nais, isto é, não difusionistas, mas que se baseiem em metodologias
participativas, que assegurem a apropriação de conhecimentos por
parte dos beneficiários. Portanto, será necessário romper com o
modelo cartesiano tanto da extensão rural como da pesquisa e do
ensino, pois este não é adequado para apoiar estratégias de transi-
ção Agroecológica, com participação social. É necessário superar a
visão tradicional da ciência, pois ela está centrada “em enfoques
reducionistas e cartesianos, nos quais a ênfase é colocada sobre as
relações de causa e efeito que surgem quando dois fatores se influ-
enciam entre si” (VIGLIZZO, 2001). Tal concepção permite estudar
e tratar de forma isolada cada parte do problema, reduzindo a com-
plexidade e perdendo-se, por conseguinte, a possibilidade de enten-
der as relações e interações (especialmente as ecológicas) que ocor-
rem num agroecossistema manejado pelo homem.
O que ocorre é que o modelo convencional de extensão rural, de
pesquisa e de ensino, assim como o desenvolvimento de tecnologias,

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situam-se no campo desse paradigma cartesiano e, como lembra
Morin (1998 p. 272-3), “o paradigma dispõe de um princípio de
exclusão; exclui não apenas os dados, enunciados e idéias divergen-
tes, mas também os problemas que não reconhece. Assim, um
paradigma de simplificação (disjunção ou redução) não pode reco-
nhecer a existência do problema da complexidade”.
Portanto, quando se trata de buscar estratégias de desenvolvimento
rural sustentável, que visam à inclusão social, o fortalecimento da
agricultura familiar e novos desenhos de agroecossistemas sustentá-
veis, não se pode trabalhar com base num paradigma de redução,
pois o redesenho de agroecossistemas e o estabelecimento de agri-
culturas sustentáveis, com inclusão social, é algo que exige um enfoque
sistêmico e uma visão holística, ou seja, é necessário lidar com a
complexidade dos processos de desenvolvimento. Na agricultura,
isto se manifesta pela necessidade de complexificar os sistemas agrí-
colas, introduzindo biodiversidade e manejando as relações entre
solos, plantas e animais, ao invés de simplificá-los, como no modelo
da Revolução Verde. Ademais, trata-se, também, de entender não só
a diversidade, mas as relações entre os indivíduos e entre eles e o
meio ambiente, assim como as estratégias de resistência da agricul-
tura familiar e as lógicas orientadoras dos processos decisórios que
ocorrem nas unidades familiares de produção.
Assim mesmo, quando a meta é buscar mais sustentabilidade no proces-
so produtivo agrícola, é necessário partir-se do entendimento de que a
insustentabilidade dos nossos sistemas agrícolas convencionais não se
resolve apenas com insumos comprados no mercado. Estes, em geral,
pioram o problema. Como diz Viglizzo (2001), “as agriculturas susten-
táveis têm um forte componente de tecnologias de processo, o que
requer uma substituição tecnológica ...” de insumos por conhecimentos
ricos em informações e menos agressivos ao meio ambiente.
Não obstante, estas questões aparecem, cada vez mais nos discur-
sos, na prática cotidiana de agentes de extensão rural, de professo-
res e de pesquisadores, o que se observa é a reprodução do modelo
cartesiano o que não se coaduna com a nova Pnater. Isto ocorre

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porque as ações continuam subordinadas ao paradigma convencio-
nal que, embora invisível, atua “na ordem inconsciente e na ordem
supraconsciente; é o organizador invisível do núcleo organizacional
visível da teoria, onde dispõe de um lugar invisível” (MORIN, 1988).
Assim, embora não apareça explícito nos projetos e nas atividades
convencionais de Ater, pesquisa e ensino, estes expressam a nature-
za virtual do paradigma que os orienta, pois o paradigma “se mani-
festa constantemente e encarna no que gera” (MORIN, 1999). Por
isto, a busca do desenvolvimento rural sustentável exige o rompi-
mento com o paradigma dominante, que como se disse antes, não
coaduna com ideais e sustentabilidade, inclusão social e fortaleci-
mento da agricultura familiar.4
Do mesmo modo, há que se fugir das armadilhas do modelo produtivista
convencional, pois a construção de agriculturas sustentáveis, como
propõe a Pnater, requer outra relação entre Agronomia e Ecologia e
outro entendimento a respeito de resultados econômicos. As análises
convencionais sobre ganhos de produtividade e resultados econômi-
cos, baseadas no enfoque da economia neo-clássica não dão conta de
novas abordagens. O enfoque holístico requer que se avaliem os resul-
tados em termos de estabilidade, resiliência, durabilidade no tempo e
produtividade do agroecossistema como um todo (ou da unidade fa-
miliar de produção) e não de um cultivo em particular. Como é sabido,
os sistemas convencionais baseados na busca de maiores produtivida-
des físicas de monoculturas, jamais serão sustentáveis, pois depen-
dem, sempre, e cada vez mais, da degradação dos seus entorno. Eles
têm alto potencial entrópico. Isto está explicado pela Segunda Lei da
Termodinâmica, ou Lei da Entropia, que mostra os sistemas dinâmicos
funcionando na natureza em condições de baixo equilíbrio
termodinâmico, somente se mantêm funcionando porque extraem ener-
gia do seu entorno. Ou seja, requerem um permanente subsídio

4 Segundo PENA-VEJA, A. ; STROH, P. (1999) “A ecologia da ação nos ajuda a entender


que a consciência ecológica não se limita apenas às relações homem/natureza, mas se
desdobra em nossas relações com o próprio universo interior, evoca um estado de
consciência: tudo tem que ser ecologizado, até mesmo as idéias”.

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energético para alcançarem os patamares de produtividade desejados,
gerando degradação ambiental.
Assim, projetos inovadores, serão aqueles que não seguem a lógica da
Revolução Verde, pois aquela não permite resolver os problemas sócio-
ambientais, uma vez que se baseia no modelo de altos insumos – altas
respostas, desenhado a partir de uma visão utilitarista do meio ambiente,
sem preocupação ecológica. A construção de agriculturas sustentáveis
requer, portanto, um marco tecnológico baseado em outro paradigma,
que trate de estabelecer uma nova e qualificada aproximação entre Agro-
nomia e Ecologia, que leve ao manejo integrado de sistemas complexos.
Isto exige técnicas e formas de manejo que se articulem entre si, respei-
tando princípios ecológicos básicos e gerando sistemas de produção
que se assemelhem, em seu desenho e em seu funcionamento, aos
ecossistemas naturais onde estão inseridos. Repetimos, trata-se, portan-
to, de complexificar os sistemas, ao invés de buscar sempre maior sim-
plificação, como ocorre na agricultura convencional.
Por estas e outras razões de natureza científica, a ciência e a tecnologia
necessárias para o desenvolvimento rural sustentável, com inclusão
social, com fortalecimento da agricultura familiar, com produção de
alimentos sadios e com preservação ambiental, devem basear-se num
paradigma ecossocial5, buscando alicerçar-se nos princípios e bases
epistemológicas da Agroecologia6.

Algumas ações do Dater


para implementação da Pnater

Este não é o lugar para elencar o conjunto de ações do Dater para


implementação da Pnater, ao longo dos dois anos de sua existência.

5 O paradigma ecossocial se enquadra na idéia do pensamento complexo e nos recomenda,


entre outras coisas, que se deve incursionar por disciplinas circunstancialmente afastadas,
buscando juntar diferentes ciências que tenham incidências interdisciplinares sobre os objetos
a que debruça o cientista. A Agroecologia, como matriz científica transdisciplinar, pode
contribuir, decisivamente, para este novo enfoque. Ver, por exemplo: SEVILLA GUZMÁN,
E. y WOODGATE, G. (2002)
6 NORGAARD, R. B. (1989); NORGAARD, R.B. (2002).

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Devido à natureza deste artigo, não serão tratados os esforços realiza-
dos e que redundaram num significativo aumento do orçamento para
apoio federal aos serviços de Ater no país. Sequer seria adequado abor-
dar as ações destinadas a ampliar o espectro e fortalecer as relações do
MDA/SAF/Dater com entidades executoras de serviços de Ater, entre
outros. Ainda que alguns destes aspectos venham a aparecer mais adi-
ante, quando forem colocados os desafios para a nova Ater, parece ne-
cessário restringir esta breve incursão, simplesmente, àqueles aspectos
que visam fortalecer a transição da extensão rural convencional em dire-
ção ao cumprimento dos Princípios e da Missão antes enunciados.
Por enquanto, somente para deixar registrado, caberia informar duas
ações importantes, realizadas no final de 2004, visando recolocar a
Extensão Rural na pauta da política nacional. Assim, em novembro,
foi realizada, em Brasília, a Conferência Nacional de Ater, com re-
presentação de quase todos os estados. Em paralelo, o Dater orga-
nizou uma exposição sobre a História da Extensão Rural no Brasil
(disponível na página www.pronaf.org.br), no térreo do Palácio do
Planalto. A exposição que teve duração de duas semanas, contou
com a colaboração e ativa participação de organizações de Ater go-
vernamentais e não governamentais de vários estados brasileiros7.
O processo de implementação da Política também veio acompanha-
do do estabelecimento de parcerias com entidades de Ater e entida-
des envolvidas em atividades de capacitação de agricultores familia-
res8. Neste sentido, cabe salientar que, em 2004, a SAF/Dater execu-

7 Por ocasião da abertura da exposição Ministro Miguel Rossetto fez o lançamento oficial
da Política Nacional de Ater.
8 A chamada para Seleção de Projetos de Capacitação de Agricultores Familiares e Técnicos,
efetivada em 2004, definiu três diretrizes orientadoras para a apresentação de propostas
pelas instituições: a) partir de um processo de planejamento e gestão das ações de
capacitação/formação realizados de forma compartilhada com os atores sociais
comprometidos com o desenvolvimento rural sustentável, nos âmbitos macro e
microrregional; b) incorporar as dimensões de gênero, geração, raça e etnia como temas
transversais e na concepção de materiais didáticos, contemplando ainda as características
culturais, sociais, econômicas e ambientais da região; e, c) estimular processos educativos
e relações de co-responsabilidade entre os agricultores familiares, suas organizações e as
instituições prestadoras de serviços, com efetivo comprometimento destas e de seus
técnicos. Para atender estes objetivos a SAF/Dater firmou 59 Contratos, no valor de R$
9.721.190,91.

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tou 96,12 % do orçamento destinado ao Fomento de Atividades e
Ater e Capacitação – PRONAF. Além de ações diretas, foram firma-
dos 101 Convênios com entidades de Ater nos 27 estados da Fede-
ração, no valor de R$ 42,1 milhões. Com isto a SAF/Dater contri-
buiu, decisivamente, para que a abrangência dos serviços de Ater
pudesse chegar, direta ou indiretamente, a um total aproximado de
1,6 milhões de unidades familiares de produção9. Cabe destacar que,
em 2004, as entidades estaduais de Ater contrataram mais de
2.400 novos profissionais.
Para levar adiante o processo de implementação da Pnater, foram
estabelecidas algumas linhas estratégicas capazes de contribuir para
a aceleração e qualificação do processo. O eixo principal desta estra-
tégia está centrado no campo do conhecimento. Para esta decisão,
partiu-se do entendimento de que para levar à prática a nova Política
de Ater, o primeiro passo seria dar ampla divulgação dos principais
enfoques da Política. Isto foi feito, ao longo do primeiro semestre de
2004, quando o Dater promoveu seminários em todos os estados
da federação. Além de divulgar a Política estes seminários destina-
ram-se, também, a propor aos atores institucionais de Ater em cada
estado a elaboração de um Plano Estadual de Ater que pudesse bus-
car a sinergia e a cooperação entre as ações das diferentes entida-
des, de modo que se abrisse um caminho para a formação de futuras
redes de serviços de Ater nos estados. Embora com diferenças, hou-
ve maciça participação neste processo. Dele resultou a formação de
algumas redes ou o fortalecimento de redes já existentes. Do mesmo
modo, alguns estados já elaboraram seus Planos Estaduais, enquan-
to outros estão com esta ação em andamento. Observe-se que o

9 Como uma estratégia de resposta positiva do Governo Federal destinada a fortalecer as entidades
estaduais de Ater, o Dater vem ampliando o apoio técnico-financeiro às organizações estaduais,
sempre e quando os governos dos estados tomarem iniciativas neste sentido. Espírito Santo,
Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Norte, foram alguns dos estados que se beneficiaram
desta estratégia, em 2004. Cabe ressaltar que, entre 2002 e 2004, as instituições estaduais
de Ater ampliaram as condições de infraestrutura, com a aquisição de mais de 2.300
computadores e mais de 1.300 veículos, sendo que boa parte contou com apoio da SAF/
Dater, através dos Convênios antes citados.

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Dater adotou como princípio, o respeito às dinâmicas estaduais, não
estabelecendo obrigatoriedade nem prazos, simplesmente passando
a apoiar financeiramente a realização de centenas de eventos
regionalizados e/ou estaduais que passaram a acontecer.
Outra ação concretizada em 2004, foi a realização de Oficinas de
Nivelamento Conceitual, com a participação de mais de 270 Agen-
tes de Ater vinculados a organizações governamentais e não gover-
namentais e que pudessem ser multiplicadores destas bases
conceituais em suas entidades e em seu entorno de trabalho, em
todos os estados. Isto visava, também, contribuir para que estes
técnicos passassem a atuar mediante a adoção das bases conceituais
da nova Ater. Foram realizadas, em 2004, 8 oficinas envolvendo,
em média, 10 técnicos por estado. Dada a avaliação positiva desta
ação, o Dater, por decisão do Grupo de Trabalho de Formação do
Comitê Nacional de Ater, decidiu pela realização, em 2005, de mais
de 135 encontros de nivelamento sobre a Política Nacional de Ater,
que deverão ser realizados de agosto a novembro, com a participa-
ção de, no mínimo, 5.400 Agentes de Ater de todos os estados do
país. Isto assegurará que, em 2006, já haverá uma importante quan-
tidade de técnicos apropriados dos conceitos básicos que devem
orientar as atividades da extensão rural brasileira.
Neste mesmo sentido, o Dater implementou duas ações com caráter
de Projeto Piloto, para avaliar a possibilidade de viabilizar outras
estratégias. A primeira delas foi a realização de convênios com esco-
las agrotécnicas e universidades, num total de dez instituições de
ensino, visando a qualificação de 200 estudantes, com bolsas para
estágios de fim de curso e, posteriormente, a oferta de bolsas para
que estes jovens recém formados passem a atuar junto a entidades
de Ater, com garantia de bolsa por dois anos. Assim mesmo, foram
estabelecidos acordos com Universidades para a realização de
4 cursos de Especialização em “Extensão Rural para o Desenvolvi-
mento Sustentável”. Destes cursos, três estão em fase de execução,
com a oferta de 35 vagas por curso. Os cursos são totalmente finan-
ciados pelo Dater, inclusive as ajudas de custo para os estudantes e

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têm por objetivo formar profissionais capazes de influir em suas en-
tidades e contribuir para a ampliação de processos de capacitação
de técnicos nos estados.10
Na linha da formação de agentes, o Dater promoveu, também, cur-
sos de curta duração para Agentes de Ater que trabalham com indí-
genas, extrativistas, quilombolas, pescadores artesanais, inauguran-
do, assim, uma forma de contribuir para que as ações das entidades
de Ater contemplem, de forma adequada, as especificidades sócio-
culturais de públicos diferenciados, que exigem uma ação de exten-
são e assistência técnica que respeite estas diferenças e as caracterís-
ticas de suas atividades produtivas. Participaram destes cursos cerca
de 200 Agentes de extensão, no ano de 2004 e início de 2005. No
primeiro semestre deste ano, o Dater realizou dois cursos para Agen-
tes de Ater que atuam no resgate de conhecimentos, produção, uso
e comercialização de Plantas Medicinais, atendendo uma demanda
específica de um campo de trabalho da extensão que vem crescendo
nos últimos anos e que está relacionado com outras políticas públi-
cas. Do mesmo modo, realizou um curso de 40 horas para Agentes
de Ater que atuam em Saúde no Meio Rural.
Ao longo dos dois anos de implementação da Pnater, o Dater pro-
moveu vários cursos de Agroecologia, com destaque para cursos
ministrados por especialistas internacionais, como Miguel Altieri, Clara
Nicholls (Universidade de Berkeley – USA), Carlos Guadarrama e
Laura Trujillo (Universidade de Chapingo – México). Com a colabo-
ração destes professores foram realizados dois cursos em Itabuna
(BA) com a participação de mais de 120 profissionais, Belém (PA) e
São Luis (MA), com cerca de 40 profissionais em cada curso. Além
da realização direta, a SAF/Dater apoiou dezenas de cursos de

10 Pesquisas têm mostrado que alunos de escolas que adotam a Pedagogia da Alternância
tendem a permanecer em suas comunidades/propriedades. Esta é uma das razões pelas
quais a SAF/Dater apoiou, em 2004, as atividades destas escolas (Escolas Família Agrícola
- EFAs e Casas Familiar Rural - CFRs), através de convênio com a UNEFAB (que envolve
a ARCAFAR), no valor de R$ 1.200.000,00. No total serão beneficiadas,
aproximadamente, 270 escolas.

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Agroecologia, em diferentes estados, além de dezenas de eventos,
como encontros, fóruns, seminários e congressos de Agroecologia,
investindo recursos técnicos, materiais e financeiros com vistas a
acelerar o processo de socialização de conhecimentos neste novo
campo de estudos, que está bastante enfatizado como eixo da Polí-
tica Nacional de Ater. Destes eventos participaram milhares de téc-
nicos, agricultores, estudantes e outros interessados.
Cabe destacar, o apoio decisivo dado pelo MDA à realização do II
Congresso Brasileiro de Agroecologia, realizado em Porto Alegre
em novembro de 2004, que reuniu mais de 3.500 participantes. Do
mesmo modo, cabe destacar a realização, em abril de 2005,
da I Semana de Agroecologia do Estado do Maranhão, que embora
tenha tido uma participação menor, constitui-se num marco das ações
articuladas de instituições e técnicos daquele estado para a atuação
na perspectiva da transição agroecológica. Ainda como parte deste
processo de socialização o Dater promoveu, em novembro de 2004,
uma vídeo-conferência, transmitida diretamente do auditório da Sede
da Embrapa, para todas as unidades descentralizadas daquela insti-
tuição, criando a oportunidade para que centenas de interessados
assistissem as intervenções de dois especialistas em Agroecologia
vindos da Universidade de Córdoba, Espanha e outros dois vindos
das Universidades de La Plata e Buenos Aires, Argentina.
Outra iniciativa importante foi a elaboração pela SAF do Programa
de Apoio à Agricultura de Base Ecológica nas Unidades Familiares
de Produção, apelidado de Programa de Agroecologia. Através des-
te Programa a SAF/Dater aportarão, em 2005, cerca de R$ 40 mi-
lhões para ações de capacitação de técnicos e agricultores(a),
disponibilização de conhecimentos e tecnologias, e para a realização
de diversos eventos entre os quais alguns seminários para a discus-
são dos currículos das ciências agrárias, além de outras tantas ativi-
dades. Dentro deste Programa, o Dater vem coordenando o “Con-
curso Nacional de Sistematização de Experiências em Agroecologia”,
cujos 50 melhores trabalhos serão apoiados financeiramente visan-
do ao seu fortalecimento, enquanto que o material recolhido será

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publicado, objetivando a socialização do conhecimento sobre estas
experiências.
Por fim, é importante citar as ações da SAF/Dater no campo da
pesquisa e extensão universitária. Neste sentido, em 2004 foi reali-
zado acordo entre MDA e MCT (Secretaria de C&T para a Inclusão
Social) e através de dois editais foram acolhidos projetos para a
disponibilização de tecnologias adaptadas à agricultura familiar e
tecnologias de base ecológica. Foram financiados projetos no valor
total de R$ 5 milhões para entidades de pesquisa e outros
R$ 5 milhões para grupos de professores que atuam em extensão
universitária11. Em 2005, foi aberto outro Edital, com a mesma par-
ceria, no valor total de R$ 4 milhões destinados ao financiamento de
projetos para disponibilização de tecnologias de base ecológica. No
momento em que este artigo está sendo escrito, mais de 450 proje-
tos estão em fase de avaliação.
Este breve resumo das iniciativas do Dater, especialmente na
área de formação de Agentes de Ater e socialização de conhe-
cimentos necessários para a implementação da Política Nacio-
nal de Ater12, pretende dá uma idéia aos leitores de uma ques-
tão fundamental: para que as orientações da Pnater possam ser
postas em prática é necessário que mudem as instituições e
suas diretrizes e prioridades, mas também é necessário que os
Agentes incorporem novos conhecimentos e novas concepções
sobre agricultura e desenvolvimento sustentável e sobre o pa-

11 Participaram dos editais entidades públicas de pesquisa, de âmbito nacional e


estadual, além de pesquisadores vinculados a atividades de Extensão Universitária
das Universidades Públicas, em ambos os casos houve articulação com entidades de
representação dos agricultores e/ou entidades executoras de serviços de Ater. Como
resultado desta iniciativa, foram aprovados 170 projetos e firmados Contratos e Convênios
com Universidades e instituições de pesquisa. Destaque-se que a maior parte dos recursos
foi destinada às regiões Nordeste e Norte. Esta ação teve ampla e positiva repercussão
nos meios científicos e acadêmicos, quer pela inovação, quer pelo conteúdo dos editais.
12 No universo das atividades da SAF/Dater, diversas ações, inclusive de Formação
de Agentes de Ater, contaram com apoio e co-participação com o MCT, o MMA,
a SEAP, a EMBRABA, a FUNAI, o NEAD, o Programa de Promoção da Igualdade
em Gênero, Raça e Etnia, além de outros orgãos da esfera federal.

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pel da Assistência Técnica e Extensão Rural diante destas novas
exigências da sociedade. Igualmente, é necessário que as insti-
tuições de ensino e pesquisa tratem de rever seus paradigmas
adotando novas bases epistemológicas, novas metodologias,
novos formatos pedagógicos e novos conteúdos, em todas as
suas atividades.

Os limites e os desafios que


ainda devem ser enfrentados

Muitas das ações promovidas pelo MDA/SAF/Dater no sentido da


implementação da Política Nacional de Ater ainda não podem ser
devidamente avaliadas, dado o curto espaço de tempo em que estão
sendo realizadas. No entanto, a experiência destes dois anos permi-
te identificar um conjunto de limites e desafios que precisam ser
enfrentados nos próximos meses e anos.
O primeiro e grande desafio que está colocado diante de todos que
trabalham na perspectiva da Pnater, e que têm compromisso com o
fortalecimento da agricultura familiar, está dado pelas macro orienta-
ções de política de desenvolvimento do Estado, tanto do Estado
Nacional como dos estados federados e municípios. Principalmente
as políticas do Estado nacional para o desenvolvimento rural podem
se constituir num sério obstáculo tanto ao que preconiza a Pnater
como à busca de sustentabilidade nas atividades agropecuárias. A
continuidade do apoio público e do financiamento subsidiado de
atividades agropecuárias notadamente insustentáveis, que seguem
baseadas nos pacotes da Revolução Verde, que exigem o crescimen-
to constante do tamanho do negócio agrícola empresarial, para ga-
rantir competição nos mercados de commodities e que portanto for-
çam a ocupação de novas áreas (como vem ocorrendo no Cerrado e
na Amazônia), poderá retardar a mudança no estilo de desenvolvi-
mento rural. Este modelo está na contramão das estratégias de de-
senvolvimento rural sustentável que visam à inclusão social, à gera-
ção de postos de trabalho no campo, à manutenção de um tecido

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social heterogêneo e à construção de uma agricultura de base ecoló-
gica, mais compatível com a necessidade de produção de alimentos
sadios em quantidades suficientes para garantir a segurança alimen-
tar de toda a população, sem descuidar da necessária proteção dos
recursos naturais. O que vemos hoje, sob a orientação de um mes-
mo Governo nacional é a disputa de dois modelos de desenvolvi-
mento rural e de agricultura: um modelo já velho, não sustentável,
mas ainda hegemônico; e outro, em construção, que trata de buscar
a sustentabilidade. A solução desta contradição poderá definir os
rumos futuros do nosso desenvolvimento como sociedade. No en-
tanto, no momento, este é um limite objetivo que só não se tornou
intransponível, até agora, porque a agricultura familiar ocupa mais
de 4,1 milhões de estabelecimentos rurais, onde a mudança pode
ser praticada, dando uma margem de tempo até que os modelos
venham a se encontrar na expressão completa de sua contradição.
Ressalvado este grande limite, cabe destacar, então, alguns dos prin-
cipais desafios para a implementação plena dos conceitos da Pnater,
tais como:
a) A necessidade de mudança institucional
As entidades públicas estatais de Ater foram criadas e se desenvol-
veram à luz de uma perspectiva desenvolvimentista, imediatista e
voltada para a “modernização do campo”13. Por esta razão, em ge-
ral, as instituições estaduais foram adaptadas para isto, e suas dire-
trizes e objetivos orientaram para uma ação de tipo produtivista,
baseada na transferência de tecnologias, visando ao aumento da pro-
dução e da produtividade na agropecuária. Isto resultou na monta-
gem de uma estrutura hierárquica, tanto técnica como administrati-
va, voltada para a obtenção de resultados de curto prazo. A pers-
pectiva da transição Agroecológica como está proposta na Pnater,
requer outros formatos organizacionais e a adoção de outros indica-
dores para a medição de resultados. Neste sentido é necessário

13 Muitas das orientações de políticas estaduais para a agricultura ainda tencionam neste
mesmo sentido.

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horizontalizar e democratizar os processos de gestão e de decisão
destas instituições, incluindo a possibilidade de participação dos
“beneficiários”. Ao mesmo tempo, o trabalho dos agentes deve pas-
sar a ser medido por resultados de médio e longo prazo, e, inclusive,
a partir da observação das diferentes dimensões da sustentabilidade:
econômica, social, ambiental, cultural, política e ética e não apenas
dos ganhos de produção e produtividade14 .
Esta não é uma tarefa direta do Dater, senão que cabe ao Departa-
mento um trabalho de assessoria que contribua para que estas mu-
danças ocorram. Do mesmo modo, as entidades não governamen-
tais, que nasceram no vácuo deixado pelas instituições de Ater dos
estados, na maioria dos casos também precisam passar pelos mes-
mos processos de mudança, ainda que com natureza e alcances dife-
renciados. Cabe recordar que não é por ser uma ONG que uma
entidade têm, automaticamente, representação dos agricultores(as)
ou participação deles na gestão das entidades. Ainda que tenham
surgido para ocupar o espaço e combater as políticas modernizadoras
da Revolução Verde e as políticas neo-liberais, muitas das ONGs e
outras entidades privadas que atuam em Ater, fazem uma disputa
por recursos e espaços que não contribui para formação de redes de
Ater. Além disso, na maioria dos casos, não há suficiente investimen-
to das entidades não governamentais na capacitação dos seus profis-
sionais e, por isso, nem todas adotam metodologias compatíveis com
a Pnater, ainda que muitas dominem e pratiquem completamente
estas metodologias.
Ademais, cabe destacar que independente da instituição em que atuem,
os profissionais de Ater são parte de uma parcela privilegiada da socie-
dade. Ainda que venham de origem humilde, seu status profissional
lhes coloca, queiram ou não, numa posição “pequeno burguesa”
que acaba por influir no seu profissionalismo, na sua forma de ver e
se relacionar com as coisas do mundo e do trabalho, o que se cons-
titui em mais um risco para o sucesso de uma prática que deve ser

14 Sobre as mudanças necessárias ver CAPORAL (1991 e 1998).

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comprometida com os agricultores(as) familiares e pescadores(as)
artesanais.
b) Sobre a necessidade de um “novo profissionalismo”
Entre os desafios de uma extensão rural para o desenvolvimento sus-
tentável está a necessidade de estabelecer-se um “novo
profissionalismo”. Em efeito, como sabemos, uma das deformações
geradas pelo modelo de desenvolvimento rural e agrícola ainda vi-
gente, foi a transformação imposta aos modelos de educação e for-
mação de profissionais das ciências agrárias e outras áreas do conhe-
cimento. E, lamentavelmente, a absoluta maioria das escolas de nível
médio e superior das ciências agrárias continuam com o mesmo per-
fil de formação profissional da época dos convênios MEC-USAID.
Em realidade, em vez de formar profissionais que entendam as con-
dições específicas e totalizadoras inerentes aos ecossistemas e
agroecossistemas, o ensino nas universidades e escolas agrotécnicas
brasileiras adotou um modelo que privilegia a divisão disciplinar, a
especialização e, por conseqüência, os profissionais egressos sabem
mesmo é fazer difusão de receitas técnicas e pacotes tecnológicos.
Assim, os profissionais que saem destas instituições de ensino, em
geral, não tiveram a oportunidade de chegar a uma compreensão da
agricultura como uma atividade que, ademais de sua “função de pro-
duzir bens”, é um processo que implica uma relação entre o homem
e o ecossistema onde vive e trabalha, sem considerar também, que,
para muitos agricultores e agricultoras familiares, a atividade que
desenvolvem é parte de seu modo de vida e não apenas um negócio.
Em geral, durante a formação profissional não se faz sequer um
momento de integração das disciplinas. Cada uma delas é repassada
aos alunos em sua própria “gaveta”, isolada das demais e, quase
sempre, alheia à realidade objetiva das pessoas e dos processos pro-
dutivos concretos. Esta primeira carência na formação limita os pro-
fissionais quanto à possibilidade de ter uma visão holística da reali-
dade na qual vai atuar, o que minimiza sua possibilidade de ter uma
compreensão da agricultura a partir dos princípios básicos dos pro-
cessos naturais.

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A segunda grande deformação na formação dos profissionais das
ciências rurais e agrárias está relacionada com a distância abstrata
com que se trata ao homem-agricultor. Em geral, se estuda muito
sobre as máquinas e os insumos, o solo como substrato para susten-
tação da produção, são estudadas algumas culturas e a criação de
alguns animais domésticos, mas muito pouco se estuda sobre o ho-
mem e a mulher trabalhadores da agricultura e o papel decisivo que
eles têm na agricultura. O ensino costuma basear-se numa visão da
agricultura como um conjunto de técnicas agrícolas aplicadas e pou-
co mais, sequer conseguindo integrar a agronomia com a ecologia.
Além disso, não se pode esquecer que existem fortes implicações
ideológicas e políticas no ensino, presentes na dimensão
“meritocrática” e de competição (status) que conformam a concep-
ção educativa das sociedades atuais e que acabam introduzindo na
formação dos profissionais alguns valores éticos individualistas, que
são dominantes na sociedade, e que se reproduzem, posteriormen-
te, nas atitudes individuais e na prática dos agentes.
Por tudo isto, a formação determina um estilo de profissionalismo,
que pode ser entendido como um “profissionalismo normal”, ou seja,
como aquele que se refere ao pensamento, valores, métodos e com-
portamentos dominantes em uma profissão ou disciplina, de maneira
que, como a ciência normal, o profissionalismo normal é conserva-
dor, baseado numa estrutura de geração e transferência de conheci-
mentos, reforçada pela educação e pelo treinamento, pela hierarquia
das organizações e por pautas de recompensa e carreiras, que ten-
dem a reproduzir ações profissionais também conservadoras.
Logo, a implementação da Pnater exige um amplo processo de for-
mação de profissionais com outro perfil, cujas bases podem ser bus-
cadas nos conceitos, princípios e objetivos estabelecidos na Política
Nacional de Ater.
c) Sobre a formação dos futuros profissionais para a Ater
Dado o que vimos antes, pode-se afirmar que a nova extensão rural
exige um “novo profissionalismo”, que se caracterize, em primeiro
lugar, pela capacidade de colocar e ver as pessoas antes das coisas,

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com especial atenção aos grupos menos favorecidos. Como já se
destacou, os métodos ajudam, mas não são suficientes para cons-
truir novas relações entre agentes de Ater e agricultores, de modo
que os profissionais da Extensão Rural Agroecológica deveriam as-
sumir novos conceitos, valores e comportamentos, ademais de no-
vos métodos. Deve-se considerar que este “novo profissionalismo”
é necessário, inclusive porque os métodos não são neutros, já que
correspondem a contextos sociais, ideológicos, políticos e históri-
cos, de modo que podem ser utilizados para levar a uma genuína
capacidade de construção e organização, assim como podem ser
utilizados apenas para satisfazer objetivos externos.
Um “novo profissionalismo”, ademais, requer reconhecimento de
que nem sempre o que pensamos e estabelecemos como necessida-
des dos indivíduos e grupos assistidos, corresponde às necessidades
sentidas por eles mesmos, de modo que o Agente deveria estar,
quotidianamente, em busca dos valores próprios dos beneficiários.
Por outro lado, estabelecer um “novo profissionalismo” exige que,
ao contrário da especialização profissional, se adote uma formação
mais multidisciplinar ou pelo menos se amplie a capacidade de interagir
com outras profissões e disciplinas. Como destacam diversos auto-
res, este “novo profissionalismo” é mais um grande desafio, de modo
que os Agentes não devem se intimidar frente à complexidade e
incerteza, próprios de ações que devem estar baseadas no diálogo e
na participação.
Portanto, ainda que não seja papel do MDA/SAF/Dater, há que se
criar mecanismos capazes de influir na mudança curricular, pelo menos
das ciências agrárias, de modo que possam ser estabelecidos currí-
culos capazes de formar profissionais que tenham as habilidades para
olhar a realidade com as lentes de um novo paradigma e atuar a
partir de uma compreensão multidisciplinar e humanista e adotando
métodos e pedagogias construtivistas. Em verdade, cabe às escolas
de nível médio e às universidades, a iniciativa do processo de mu-
dança curricular necessária para atender os imperativos do desen-
volvimento sustentável e das novas práticas exigidas pela Pnater. Se

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não o fizerem, seguirão formando profissionais para o passado e não
para o futuro.
d) A legitimação e institucionalização da Pnater
Qualquer política pública corre o risco de ser alterada ou, inclusive,
abandonada, dados os interesses políticos em jogo. Sabe-se que na
tradição brasileira, governos alteram políticas em função de seus pro-
gramas partidários ou de prioridades de governo ou até mesmo em
razão de acordos ou alianças. Neste sentido, a Pnater apresenta uma
reconhecida fragilidade, na medida em que não foi instituída por lei.
Embora tanto a Constituição como a Lei Agrícola estabeleçam a res-
ponsabilidade do Governo Federal com a oferta destes serviços, a
história dos anos 1990 a 2003 mostra que nem sempre estas deter-
minações constitucionais e legais são transformadas em ação governa-
mental. O fato de em 2003 o orçamento federal destinar apenas R$
3,8 milhões para apoiar atividades de Ater no país é ilustrativo desta
questão. Portanto, o desafio que está colocado é, não só institucionalizar
a Política de Ater, senão buscar formas permanentes de alocação de
recursos financeiros. Estas são ainda tarefas por fazer.
Não obstante esta debilidade, a Pnater, por ter sido construída de
forma participativa, como foi mencionado antes, encontra amplo
acolhimento entre as entidades do setor, como também entre as en-
tidades de representação da agricultura familiar brasileira. Seus con-
teúdos e propósitos atendem às demandas e interesses dos segmen-
tos potencialmente beneficiários destes serviços. Ademais, a criação
do Comitê Nacional de Ater, do CONDRAF – Conselho Nacional de
Desenvolvimento Rural Sustentável, composto por 31 entidades e
paritário (Estado, ONGs e entidades de representação da agricultura
familiar), onde as ações e programas do Dater são discutidas e
consensadas, vem dando uma maior solidez a esta Política. Assim
mesmo, o Dater, juntamente com o Comitê deverá promover, ainda
em 2005 um Seminário de avaliação da Pnater e do processo de sua
implementação, de modo que todos os atores sociais envolvidos
possam contribuir para a superação de eventuais dificuldades e para
o aperfeiçoamento da Política.

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Reflexões finais

A Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural come-


çou a ser implementada em fins de 2003, portanto, qualquer avalia-
ção de seus resultados e dos avanços na aplicação dos novos enfoques
propostos seria prematura. As ações já realizadas mostram, entre-
tanto, que além da vontade política do Governo Federal e do MDA,
em particular, estão sendo levadas à prática muitas iniciativas con-
cretas que já mostram alguns impactos. O principal deles, talvez seja
a internalização dos novos conceitos orientadores desta Política no
âmbito das instituições governamentais e não governamentais de Ater
e, inclusive, de ensino e pesquisa. Este, que é um elemento central,
foi alvo de grande esforço do Dater, até porque era necessário fazer
chegar às entidades o conhecimento de que o País volta a ter uma
Política para o setor e volta a aportar recursos financeiros para apoiar
as ações de Ater. Este processo permitiu, ainda, identificar algumas
resistências quanto a algumas das bases conceituais da nova Ater, especi-
almente entre algumas poucas entidades governamentais.
Neste curto período, observou-se que a maioria das entidades go-
vernamentais de Ater investiu muito na capacitação de seus recursos
humanos, seja em conhecimentos sobre Agroecologia, seja sobre
Metodologias Participativas ou sobre outras bases conceituais da
Pnater. Cabe destacar o esforço da EMATER-PA, da EMATER-MG,
da SEATER-AC, do IDAM-AM , EMATER-RN e da CEPLAC. Inclu-
sive, é importante registrar que concursos públicos para contratação
de Agentes de Ater passaram a incorporar a exigência de conheci-
mentos sobre as bases teóricas da Pnater, como foi o caso do con-
curso realizado, em 2004, pelo INCAPER, do Espírito Santo.
No âmbito das ONGs, cooperativas de técnicos e outras entidades
não governamentais que realizam serviços de Ater, observou-se um
avanço quanto à Pnater, especialmente na capacitação de
agricultores(as), assim como no fortalecimento de algumas redes de
serviços, onde se destacam a Articulação Mineira de Agroecologia –
AMA, a Rede Ecovida, a Rede ASA, a Rede de Serviços de Ater do

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Nordeste, e a formação de outras, como por exemplo a Rede de
Técnicos em Agroecologia do Estado do Maranhão. Cabe salientar
que o menor avanço em termos de capacitação de técnicos para
atuarem com base nas orientações da Pnater ocorreu no âmbito das
prestadoras de serviços de Ates contratadas pelo INCRA para pres-
tar assessoria aos assentados da reforma agrária.
A articulação do Dater com algumas universidades e escolas de nível
médio vem demonstrando que há, no interior das instituições de
ensino, núcleos de alunos e professores que já atuam ou querem
adotar em suas ações de formação as orientações contidas na Pnater.
O tema da Agroecologia, por exemplo, tem sido objeto de seminári-
os e cursos realizados dentro de instituições de pesquisa e de ensi-
no, alguns deles motivados, diretamente pelas ações do Dater, como
está ocorrendo na UFBA, nas escolas da CEPLAC, entre outras, ou
em cursos específicos como vem ocorrendo na UFPR15. No momen-
to, lamentavelmente, o Dater não conta com a estrutura de pessoal
que seria necessária para contribuir mais decisivamente no avanço
deste processo, de modo a acelerar as mudanças no ensino e na
pesquisa. Este é um limite que precisa ser enfrentado.
Ao longo destes dois anos, a SAF/Dater firmou convênios com as
entidades estatais dos 27 estados da federação, ao mesmo tempo em
que apoiou financeiramente dezenas de entidades não governamen-
tais que atuam em Ater e em capacitação de agricultores(as) familiares,
como vimos antes. Todos os Termos de Referência, chamadas de Pro-
jetos e Editais lançados nestes dois anos estabeleceram as bases para a
elaboração de projetos que seguissem os princípios, diretrizes, objeti-
vos e orientações metodológicas da Pnater. Isto assegurou certo avan-
ço no caminho do que recomenda a nova Política, e embora se identi-
fiquem muitas imitações, o Dater parte do princípio de que é necessá-
rio que exista um período de transição, para que Agentes de Ater e
suas instituições internalizem e se apropriem dos novos conceitos, se

15 Observe-se que a Universidade Federal do Paraná acaba de abrir concurso para contratar
professores de Agroecologia, Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, o que é uma
iniciativa pioneira que deve abrir uma nova história do ensino universitário brasileiro.

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capacitem para uma atuação diferenciada, de modo que possam por
em prática um novo modo de fazer extensão rural.
Antes de finalizar este artigo, é importante deixar registrado o apoio
de algumas entidades estatais, como a EMATER-RS, Centros da
EMBRAPA de Belém, de Bagé, de Pelotas, convênio EMBRAPA-Epagri,
NEAF-UFPA, UFRPE e tantas outras que, ao longo destes dois anos,
têm liberado profissionais de seus quadros para participarem como
facilitadores em cursos de capacitação promovidos pelo Dater. Além
destas, destacamos o apoio de muitas ONGs que contribuíram tanto
na facilitação de etapas como na apresentação de suas experiências
nestes mesmos eventos de capacitação. A todos os profissionais que
colaboraram, inclusive, sem cobrar honorários, simplesmente com o
objetivo de ajudar na implementação da Pnater, assim como aos
agricultores(as), pescadores(as), e suas entidades representativas, é
fundamental que se registre os agradecimentos do Dater. Da mesma
forma, deve ser registrada a participação e contribuição dos membros
do Comitê Nacional de Ater e do Fórum de Apoio à Gestão do Pro-
grama de Agroecologia, sem cuja colaboração não teria sido possível
levar adiante os propósitos de implementação de uma nova Política de
Ater no nosso País. Uma Política que se destina a fortalecer a agricul-
tura familiar e ajudar o Brasil a construir um modelo de desenvolvi-
mento rural sustentável, com participação da cidadania, com inclusão
social, com proteção ao meio ambiente e produção de alimentos sadi-
os e acessíveis para todos.

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Desenvolvimento local e territorialidade

Guilherme Soares1

Introdução

Historicamente a abordagem do desenvolvimento instiga debates


acerca de sua abrangência e significados econômicos e sociais. No
atual contexto das relações globais, desenvolvimento tem recebido
os qualificativos local, integrado e sustentável que agregam ao dis-
curso a tendência de enfoque dada a esse processo. A globalização
como fenômeno multidimensional – econômico, social, cultural – e
de natureza contraditória, suscita movimentos de reação as tentati-
vas de homogeneização diante da diversidade da criação humana.
Os processos globais são contraditórios à medida que inclui e exclui
pessoas, cidades e países, cria e recria atividades econômicas, res-
saltando ainda que tais processos não ocorrem igualmente nos vári-
os locais. Tal fato impõe condições diferenciadas às localidades, al-
gumas dessas restritivas ao alcance do desenvolvimento. Portanto, a
globalização, longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização
contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre nações e regi-
ões, ressaltando assim, aspectos que lhes são singulares. Nesse sen-
tido, o fenômeno da globalização suscita dinâmicas locais, agora
tomadas como foco dos processos para promoção do desenvolvimen-
to. Assim, a abordagem do desenvolvimento na atualidade enseja
movimentos locais com perspectivas de inserção nas relações globais.
Nesse contexto, o território também assume um significado amplo
além daquele de realização das atividades produtivas e/ou apenas deli-
mitação geográfica, como sendo uma trama de relações sociais com-

1 Mestre em Administração e Comunicação Rural do Departamento de Educação da


Universidade Federal Rural de Pernambuco.

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plexas formadoras de identidades culturais, econômicas e sociais, res-
ponsáveis por diferenciações importantes no âmbito global.
Diante da complexidade das relações global e local a nova aborda-
gem conferida ao desenvolvimento tem como condição precípua
para sua consecução, a participação ativa dos atores locais, de modo
particular, a sociedade civil em suas várias formas de representa-
ção. O esgotamento do modelo desenvolvimentista de planificação
centralizada no qual o estado era promotor e provedor de recur-
sos, dá lugar ao modelo horizontal de promoção do desenvolvi-
mento no qual a sociedade civil é chamada a responder às ques-
tões que lhe afligem através de sua influência na formulação de
políticas públicas. No Brasil, o processo de redemocratização tem
avançado nessa direção e vemos nos mais diversos recantos do
país iniciativas para promover o desenvolvimento local. Então, atu-
almente, o desenvolvimento tem um forte apelo à participação so-
cial, seja nos vários tipos de conselhos municipais, seja nos fóruns
e espaços públicos de discussão e deliberação política, no qual a
sociedade, juntamente com o poder local, assume o papel de pro-
tagonistas desse processo.

Referências conceituais: Desenvolvimento,


globalização e território.

Desenvolvimento

É recorrente a discussão conceitual do termo desenvolvimento e,


não rara, polêmica devido as interpretações das várias correntes de
pensadores acerca de sua abrangência e significado. Fischer (2002.
p.17) atribui ao termo uma polissemia conceitual, ou seja, abriga
várias acepções, significados, dizendo que ‘desenvolvimento’ com-
preende mesmo uma rede de conceitos. A confrontação inevitável
que acontece comumente se dá entre os termos desenvolvimento e
crescimento por vezes aplicados de forma confusa e equivocada a
alguns fenômenos socioeconômicos.

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Portanto, a abordagem conceitual de desenvolvimento e crescimen-
to é ainda pertinente, pois trata daqueles assuntos que não apresen-
tam uniformidade de tratamento e, por conseguinte, consensos.
Para Furtado, (apud PREVOST 1997) a noção de desenvolvimento:

implica aumento de bem-estar com mudança na


estrutura econômica e social; envolve a sociedade
inteira, em todos seus aspectos. O crescimento é
uma noção mais simples. Se refere ao aumento
das atividades de produção de bens e serviços,
porém não forçosamente implica uma mudança da
estrutura, não envolve a sociedade inteira em to-
dos os seus aspectos. O conceito de desenvolvi-
mento contém em si a idéia de crescimento”.
Para este autor o desenvolvimento abriga uma multiplicidade de fatores
que envolvem aspectos econômicos, sociais e políticos entre outros que
devem ter em conta os valores e atitudes de uma população especifica.
Essa percepção considera atributos diversos para alcançar-se o está-
gio de desenvolvimento pleno e nesse sentido, a via para alcançá-lo
compreende a inclusão de critérios não exclusivamente econômicos.
Ao contrário, a corrente que defende que crescimento econômico é
igual a desenvolvimento, reconhece de forma simplista que o país de-
senvolvido cresceu mais que o subdesenvolvido. Neste sentido, a ausên-
cia de crescimento econômico é o que caracteriza o subdesenvolvimen-
to. Dowbor (1997, p.13) quando fala da transformação estrutural do
trabalho, afirma que o desemprego já não resulta da ausência do cresci-
mento econômico, mas do próprio efeito do crescimento econômico.
Nessa concepção, a modernização dos meios de produção não é
mais um referencial único para denotar desenvolvimento, pois a de-
sagregação da base social refuta o conceito, face que se impõe como
condição que o desenvolvimento seja referente ao ser humano.
A relação crescimento econômico e desenvolvimento como causa e
efeito embora ainda válida para engajamento no contexto vigente, é
insuficiente para sua interpretação e análise. A ocorrência de fenô-

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menos de natureza sócio-econômicas que vivenciamos e presencia-
mos atualmente, ainda não totalmente entendidos em sua real di-
mensão, tem causado perplexidade no meio acadêmico, talvez por-
que não esteja ainda consolidada a perspectiva de desenvolvimento
integral e multidimensional (cultural, econômico, político).
Nessa perspectiva, a multidimensionalidade do desenvolvimento apre-
senta o imperativo ambiental como uma nova vertente desse processo,
de modo que os objetivos gerais são claros: precisamos de um desenvol-
vimento justo, economicamente viável e ambientalmente sustentável.
A seguir os marcos históricos da trajetória do significado do termo
desenvolvimento:
• Origem: Já sugeria uso de estratégias para produzir mudanças
• Tomado inicialmente da biologia: sentido de evolução
(Charles Darwin)
• Aplicação para a área social – final do século XVIII: designa
processo gradual de mudança social;
• No início de século XX desenvolvimento representa intervenção
em áreas periféricas para criação de espaços industriais modernos;
• Até a década de 40 – representa passagem da sociedade
tradicional para a sociedade moderna (ocidentalização);
• Onda do modelo desenvolvimentista no terceiro mundo a
partir da década de 1950 – cooperação internacional para
ajuda aos países subdesenvolvidos. Características:
– Natureza prescritivista – recomenda a replicação de mode-
los de outros países;
– O governo como ator estratégico central e agente de mudanças;
– Relações verticalizadas (de cima para baixo) com a sociedade;
– Abordagem unificada do planejamento – integração de pro-
gramas econômicos e sociais;
– Estado provedor de recursos.
Esse modelo no Brasil teve como referencias de cooperação internacio-
nal: a Aliança para o Progresso, USAID (agricultura) - 1940/1970. Os

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exemplos desse tempo podem ser: a rodovia Transamazônica; SUDAM,
Projeto RONDON, Projeto JARI, Zona Franca de Manaus entre outros.
• Desenvolvimento integrado - Meados da década de 70,
século XX: processo multirrelacional que inclui todos os as-
pectos da vida de uma coletividade.
• Desenvolvimento Endógeno – contrapõe a replicação de
modelos. Considerar as especificidades locais - país, regiões,
cidades etc, (SACHS,2001). O território deixa de ser marco
de atividades econômicas ou sociais e passa a referência im-
portante no desenvolvimento econômico.
“O território como entorno inovador depende de “estratégias de
desenvolvimento articuladas”, especificidade cultural e relações
sociais de cada lugar, (SACHS,2001) Apud (FISCHER, 2002);
• Década de 1980 (década perdida) – modelo desen-
volvimentista entra em xeque pelo ajuste econômico;
• Década de 1990 – Reforço do qualificativo INTEGRADO –
incorporando as dimensões sociais e ambientais à enaltecida
dimensão econômica. No dizer de (SACHS,1990), apud
(FISCHER, 2002): “prudência ecológica, eficiência econômi-
ca e justiça social” – tripé da Agenda 21.
• Desenvolvimento integrado é localizado espacialmente no territó-
rio – cidades, regiões. É LOCALIZADO TERRITORIALMENTE.
Programas de desenvolvimento devem ser duradouros (dimensão
temporal) – e sustentáveis – (noção de sustentabilidade) - continuida-
de e manutenção do potencial dos recursos naturais pela via ambiental.
• Desenvolvimento local integrado e sustentável – agrega os
qualificativos como reforço do discurso e lança a nova pers-
pectiva de desenvolvimento atual.
Apresentaremos a seguir duas definições de desenvolvimento local.
• “Processo de crescimento descentralizado, baseado nos municípios
e comunidades, cimentado em uma nova institucionalidade que possa
traduzir-se em articulação e parcerias criativas entre Estado, municípios

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e sociedade civil organizada, preocupado com a melhoria da qualidade
de vida da população, principalmente dos grupos mais pobres e margi-
nalizados, que busque o pleno aproveitamento dos recursos e
potencialidades locais, comprometido com a geração de empregos e
de ocupações produtivas e com a sustentabilidade”. JARA, (1998).
• A organização para a cooperação e desenvolvimento econô-
mico – OCDE define o nível local como sendo “ o meio ambi-
ente imediato no qual a maior parte das empresas (micro e pe-
quenas, cooperativas etc) se formam e se desenvolvem, encon-
tram serviços e recursos dos quais dependem o seu dinamismo
e dentro do qual se ligam às redes de troca de informações e de
relações técnicas ou comerciais... Pode-se dizer que é uma co-
munidade de atores públicos e privados... oferece um potencial
de recursos humanos, financeiros e físicos, de infra-estruturas
educativas e institucionais de onde a mobilização e a valoriza-
ção geram idéias e projetos de desenvolvimento”.
Características:
– Concertação (PREVOST,1995) e articulação estratégica
(FISCHER,2002) são os pontos focais do conceito;
– Compreende processos compartilhados e resultados atingidos;
– Visões de futuro construídas por coletivos organizacionais e
ações concretas de mudanças;
– Há uma racionalidade processual e contextual (MARTINELLI,
2003);
– Envolve simultaneamente visão de futuro (UTOPIA) e
pragmatismo (ação prática).
Na abordagem do Desenvolvimento local outros conceitos estão pre-
sentes, entre os mais importantes estão: pobreza e exclusão; partici-
pação e solidariedade; produção e competitividade. Tais dimensões
se articulam e se reforçam mutuamente ou se opõe frontalmente
(FISCHER, 2002). Os processos de desenvolvimento local se dão
em várias instâncias do território, podendo ser num bairro, num dis-

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trito, em uma vila, na área rural de uma cidade, numa microrregião,
numa região ou ainda na própria cidade. Assim, o termo local não
deve ser confundido com o município, ou seja, desenvolvimento lo-
cal não é sinônimo de desenvolvimento municipal.
Um aspecto interessante dessa dinâmica de desenvolvimento é o seu
caráter participativo e democrático, construído nas várias modalida-
des de discussão pública – conselhos, fóruns entre outros. Embora o
discurso dos vários atores atuantes no processo denote uma certa
convergência na direção dos qualificativos do desenvolvimento, suas
visões de mundo todavia, apontam para trajetórias diferentes no que
tange à operacionalização dos objetivos do processo de desenvolvi-
mento. Assim, o desenvolvimento local pode ser orientado por dois
sentidos e significados:
• Da Competição – discurso totalizante (local, integrado e
sustentável), mas a ênfase é econômica.
• Da Cooperação e solidariedade – inspiram-se nos valores
da qualidade de vida e cidadania – inclusão de setores margi-
nalizados na produção e usufruto dos resultados – economia
solidária.
Diferenças entre os valores de fundo que norteiam as duas vertentes
do desenvolvimento local.

COMPETIÇÃO COOPERAÇÃO E SOLIDARIEDADE


Qualific aç ão de rec ursos humanos Qualific aç ão de rec ursos a partir de
a partir de valores orientados para valorizaç ão do saber loc al
uma lógic a c apitalista
Referênc ia modelos produtivos Salientam também formas de produç ão
empresariais voltados para uma não-c apitalistas e estratégias ec onômic as
lógic a de merc ado c apitalista autônomas.
Enaltec e os atributos ec onômic os Rec onhec e a importânc ia do atributo
em relaç ão àqueles de natureza ec onômic o, mas lhe impõe limites e
c ultural, soc ial e ambiental. subordina-o aos imperativos não-ec onômic os.
Enfatiza relaç ões do tipo Enfatiza a redistribuiç ão e rec iproc idade –
produtores e c lientes produç ão assoc iada, c onsumo étic o, c omérc io
justo,

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A diferença básica também está no peso e no papel dos atores envol-
vidos nas formas de gestão.
FATORES IMPACTANTES DAS ESTRATÉGIAS DE DESENVOLVI-
MENTO LOCAL INTEGRADO E SUSTENTÁVEL.
Fischer, (2002), tratando dos processos de gestão do desenvolvi-
mento destaca os aspectos que colocam em risco o discurso do de-
senvolvimento local e conseqüentemente podem contribuir para seu
esvaziamento:
• Desgaste conceitual;
• Desgaste dos métodos participativos e consensos vazios;
• Frustração de esbarrar em limites concretos de poder, nas falácias
de despolitização das iniciativas e na exarcebação das potencialidades
e virtualidades locais;
• Descontinuidade política;
• Dificuldades de articulação dos agentes do desenvolvimento;
• Construção externa das estratégias de desenvolvimento local;
• Fragilidades metodológicas – modismos e mimetismo metodológico;
• Superposição de programas e projetos de diferentes instituições;
• Estruturas de interesses para promoção do DL que criam depen-
dência nas comunidades apoiadas;
• Avaliação insuficiente.
Ressalte-se ainda o risco de isolamento e desarticulação com as opor-
tunidades do mundo global em função de uma sobrevalorização dos
valores locais, e que por razões ideológicas podem estar presente
nas estratégias de desenvolvimento local:
“Reificação da comunidade e da cultura local” – variável a ser manipulada
por “boas estratégias”, em detrimento de uma visão mais ampla e cosmo-
polita do desenvolvimento (BOAVENTURA, apud FISCHER, 2002).
Nesses termos o autor defende estratégias de desenvolvimento local
que se articulem com as relações globais e propõe:
“localismo cosmopolita” e plural – estratégias multiescalares que
articulem ações locais com estratégias alternativas em escala regio-
nal, nacional e global.
PENSAR GLOBALMENTE E AGIR LOCALMENTE

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Globalização
A globalização é um processo multidimensional envolvendo diversas
variáveis simultaneamente, e que resulta em mudanças significativas
nas relações entre estado, sociedade civil e a esfera produtiva repre-
sentada pelo mercado. As definições são também várias, a seguir
apresentaremos duas definições.
Uma primeira delas define como sendo um fenômeno “...resultante
de um conjunto de forças dinâmicas – econômicas, políticas, ideoló-
gicas, culturais e religiosas – que estão modelando e remodelando a
divisão internacional do trabalho, favorecendo ou dificultando a acu-
mulação de capital, e acelerando ou refreando a homogeneidade de
consumo e comportamento humanos (Moreira, 1994: p.85) apud
(CAMPANHOLA, SILVA,2000).
Outra definição interpreta o fenômeno como sendo promotor de uma
“...reorganização do espaço das relações sociais, bem como à redefinição
das relações entre as esferas política e econômica, que resultam em
mudanças na governança dos espaços democráticos e no papel do Esta-
do (Bonanno et al., 1999) apud (CAMPANHOLA, SILVA,2000).
Ao mesmo tempo em que as sociedades contemporâneas se vêem
atravessadas por processos globais, abrigam dinâmicas locais que se
propõem a solucionar problemas gerados tanto dentro como fora de
seus limites (Navarro Yáñez, 1998) apud (CAMPANHOLA, SILVA,
2000). Por isso, há a necessidade de se buscar novos pontos de
equilíbrio entre o global e o local. Nesse sentido, o foco não deve ser
apenas no local, mas também nas relações e interações que ocorrem
entre localidades e regiões. O que tem se observado é que forças
globais requerem e estimulam respostas nas esferas local e regional
(Jentoft et al.,1995) apud (CAMPANHOLA, SILVA, 2000)
Nos países em desenvolvimento, a globalização acelera o processo
de exclusão social dos pequenos produtores agrícolas, dos trabalha-
dores e dos consumidores mais pobres, Bonanno et al. (1999) apud
(CAMPANHOLA, SILVA, 2000)
Desse modo, há nações, regiões e locais que vão sendo incluídos
nas cadeias de produção, e outros excluídos. Portanto, a globalização,

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longe de ser um fenômeno mundial de homogeneização na distribui-
ção de capital, contribui para acentuar ainda mais as diferenças entre
nações e regiões.
Nas cadeias agroalimentares os varejistas assumem um papel de co-
ordenação dos fluxos de informações por estarem mais próximos do
consumidor, e por conseguinte, afinal de contas serão os responsá-
veis pelas mudanças ao longo da cadeia de produção. Desse modo,
a suposta ação dos consumidores, através das redes varejistas, tem
contribuído para redefinir os mercados, fazendo surgir novos pa-
drões culturais de qualidade de nutrição e de meio ambiente (Marsden
1995; Marsden, 1998) Apud (VILELA, 2000). Esse autor explica
que as redes de alimentos têm conexões horizontais e verticais com
os espaços nos quais elas estão situadas. A soma social das duas
conexões começa a remodelar o espaço rural a partir de dentro e da
interação com outros espaços. Assim, são criados espaços depen-
dentes e espaços dominantes.
Por essa razão, a globalização de mercados tende a ampliar a dife-
renciação territorial do que a sua homogeneização (Saraceno, 1998),
apud (VILELA,2000). Os chamados “nichos” de mercado, que se
referem a demandas por produtos com características específicas e
de alto valor – por exemplo alimentos livres de resíduos químicos ou
que não tenham causado degradação ambiental no processo de pro-
dução - geralmente estão vinculadas às classes sociais mais afluen-
tes, já que a população de renda mais baixa ainda demanda alimen-
tos baratos, pouco diferenciados, obtidos por processos de produ-
ção em massa.

Território

Inicialmente ressaltemos que a abordagem conceitual do território é ampla,


conforme as diversas linhas de pensamento. Assim, não pretendemos
nesse momento seguir o itinerário das diferentes abordagens conceituais,
porém trataremos de apresentar aquelas que poderão promover a me-
lhor compreensão dos fatores presentes na concepção de territorialidade
e de sua relação com a promoção para o desenvolvimento.

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Uma primeira compreensão sobre o território é aquela que diz que
território é a parte do espaço ocupada e apropriada pelo homem,
através de suas atividades produtivas, culturais e sociais. Percebe-se
a existência de um primeiro elemento de confrontação entre territó-
rio e espaço. O Dictionary of human Geography (1994), define ter-
ritório: “termo geral utilizado para descrever uma porção do espaço
ocupado pela pessoa, grupo ou estado” (RIBAS,2004). O território
aparece também como aquela porção que está apropriada pelas ações
humanas. O conceito de território aparece associado também ao
estado, e neste particular a concepção de território apresenta duas
conotações, conforme apresenta RIBAS et al., (2004 p.17): “ a pri-
meira refere-se a soberania territorial algo que tem a ver com as
reivindicações pela posse e controle legítimos e exclusivos sobre uma
dada área. A segunda conotação é aquela que se refere a uma deter-
minada área que ainda não está incorporada inteiramente na vida
política de um estado. Podemos citar como exemplo, os casos dos
outrora territórios de Rondônia, Roraima, Amapá ainda na década
de 70 e meados de 80.
Sob o ponto de vista social a geografia define território como sendo
“espaço social definido, ocupado e utilizado por diferentes grupos
sociais como conseqüência de suas práticas de territorialidade” .
Para Raffestin (1993), apud (RIBAS,2004) espaço e território não são
termos equivalentes. E explica sua afirmação: “o espaço é anterior ao
território, pois o território se forma a partir do espaço, é o resultado
de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator que realiza um
programa) em qualquer nível”. Ao se apropriar de um espaço, concre-
ta ou abstratamente (...), o ator territorializa o espaço (p.143).
Os conceitos de território incorporam também outras categorias
analíticas além de estado e sociedade, tais como poder e mercado.
Tais categorias preservam suas autonomias analíticas individuais, mas
apresentam entre si interfaces dinâmicas na construção do território.
Essa perspectiva se coaduna com o que defende FISCHER (2002),
que a gestão do desenvolvimento é afinal de contas uma gestão de
poderes. Portanto, não se pode deslocar do entendimento de terri-

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tório essas instâncias analíticas, pois constituem elementos cruciais
no entendimento das dinâmicas territoriais contemporâneas, sobre-
maneira em tempos de globalização. Para finalizar, recorremos a duas
reflexões sobre poder e mercado relacionado ao território, a partir
de dois importantes autores, Raffestin(1993) e Badie(1995) Apud
(RIBAS,2004).
Raffestin diz que a ação das pessoas ou grupos, no exercício do poder
“pode ser uma interação política, econômica, social e cultural que resul-
ta de jogos de oferta e de procura, que provém dos indivíduos e/ou dos
grupos. Isso conduz a sistemas de malhas, de nós e redes que se impri-
mem no espaço e que constituem, de algum modo, o território”.
No que concerne a relação do mercado com o território Badie (1995)
estudando a formação territorial da Europa, afirma que o mercado sozi-
nho não suscita a criação de uma nova territorialidade, mas é sim, a
forma de como ele (mercado) se articula e se integra a diversidade social.
Como se pode perceber as abordagens articulam dimensões e cate-
gorias importantes no processo de construção do conceito de terri-
tório, superando a idéia de território vinculado apenas ao local de
realização das atividades econômicas. O território hoje se caracteri-
za, então, como uma trama de relações complexas envolvendo esta-
do, sociedade e mercado, sendo por isso incorporado hoje aos dita-
mes do desenvolvimento local.

A dinâmica do meio rural na perspectiva


de desenvolvimento local.

A partir da dinâmica da relação global e local podemos entender


melhor como se articulam as relações rural e urbano. É cada vez
mais difícil conceber o meio rural apenas por uma análise setorial,
enfocando atividades econômicas que historicamente o caracterizam
como meio da produção agrícola. A complexidade das relações pro-
dutivas e a reorganização do espaço rural pela globalização torna-
ram o espaço rural com uma nova dinâmica, marcada pela
revalorização da natureza e pela interligação econômica entre os

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setores econômicos. Nesse contexto, tomam relevância as atividades
não-agrícolas que passam a compor parcela significativa da renda do
meio rural. Nessa perspectiva, o meio rural torna-se multifuncional e
articulado ao meio urbano e por isso tem sido denominado de novo
rural. Todavia, como todo fenômeno, as interpretações podem in-
correr em exageros e criação de novos mitos. A seguir apresenta
alguns dos velhos mitos do meio rural e também alguns novos mitos
criados com a emergência das atividades não-agrÍcolas.

VELHOS MITOS NOVOS MITOS


O rural é sinônimo de atraso As atividades não agríc olas são a soluç ão para
o desemprego
O rural é sinônimo de agríc ola As atividades não-agric olas podem ser o motor
para regiões atrasadas.
O desenvolvimento agríc ola leva ao O novo rural não prec isa de regulaç ão públic a.
desenvolvimento rural
Adaptado de Silva, Grossi, Campanhola (2002)

O que convencionalmente vem sendo chamado de novo rural brasi-


leiro na verdade se trata de uma reconfiguração produtiva e política
em andamento nos espaços rurais, já bastante conhecida em países
desenvolvidos, portanto, não é propriamente um processo original e
inovador em si. Semelhantemente ao que ocorre com a globalização,
esse fenômeno não ocorre igualmente em todos os espaços rurais,
sendo essa dinâmica mais intensa e freqüente em algumas regiões do
que em outras.
A reorganização do espaço rural se trata propriamente de uma mu-
dança do papel e função do meio rural no contexto das relações
global e local, particularmente, em relação a forma como o meio
rural se articula com o meio urbano, suscitando a criação e recriação
de novas atividades produtivas, descritas por Silva, Grossi,
Campanhola (2002) como:
• Uma agropecuária moderna, baseada em commodities e
intimamente ligada às agroindústrias;

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• Um conjunto de atividades não-agricolas, ligadas à mora-
dia, ao lazer e a várias atividades industriais e de prestação de
serviços;
• Um conjunto de “novas” atividades agropecuárias, impulsi-
onadas por nichos especiais de mercados.
Portanto, muitas destas atividades foram recriadas a partir de de-
mandas diferenciadas surgindo os chamados nichos de mercado, al-
gumas a partir da valorização do meio rural como espaço de mora-
dia e lazer (turismo rural) e outras como decorrência de atividades
de proteção da natureza. Nesse processo o meio rural deve se apro-
ximar de uma dinâmica territorial que enseje modelos e/ou arranjos
produtivos que valorize a identidade local, os recursos naturais, o
capital humano e social existentes. Dessa forma o desenvolvimento
rural não significa necessariamente a urbanização do rural – que não
deve ser confundido com revalorização do espaço rural - e muito
menos a implantação somente de uma agricultura moderna. Depen-
de sim, de como se insere nos processos de integração local e global
e de sua articulação com o meio urbano. Não existe um modelo
pronto para alcançar o desenvolvimento rural, mas sabe-se que a
diversidade desse meio constitui um de seus pilares, que pode ser
representada, por exemplo, pela cultura local e pela biodiversidade.
Neste particular o Amazonas tem os elementos diferenciadores de
seu território, próprios para construção de um modelo de desenvol-
vimento rural sustentável, como apontam algumas das experiências
nessa direção: turismo ecológico, manejo florestal sustentável, re-
servas extrativistas, beneficiamento de frutas exóticas, aqüicultura,
farmacologia fitoterápica entre outros.
Sintetizando, a perspectiva do desenvolvimento rural a partir da noção
territorial e das novas ruralidades compreende as seguintes características:
• O desenvolvimento rural não significa urbanização do meio
rural;
• O dinamismo rural depende das relações de interdependência
com o meio urbano;

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• Desenvolvimento rural pressupõe planejamento de ações
para aproveitamento dos atributos particulares voltados para
mercados que valorizem a paisagem, a biodiversidade, a qua-
lidade e a cultura local.

Diferenciação territorial: A sócio-biodiversidade


amazônica como estratégia para
o desenvolvimento rural sustentável

Os meios e fins da sustentabilidade variam conforme as condições


ecológicas, econômicas, sociais e culturais, tanto no âmbito regional
como local (Brooks, 1992). apud (CAMPANHOLA, SILVA, 2000)
Para que o planejamento do uso do espaço ou local seja efetivo é
imprescindível que os métodos e estratégias incluam e integrem ao
desenvolvimento as variáveis ambientais, sociais, econômicas e de
políticas públicas. Nesse sentido, o desenvolvimento local requer
um planejamento territorial e não estritamente setorial dos proces-
sos econômicos e sociais para avaliar a competitividade, as mudan-
ças com o tempo e o delineamento de políticas (Saraceno, 1998)
apud (CAMPANHOLA, SILVA, 2000). Entre os princípios a serem
observados estão a participação da comunidade local no encaminha-
mento das decisões, a introdução de mecanismos públicos que pos-
sibilitem a igualdade de acesso aos benefícios gerados e o compro-
misso com a conservação dos recursos naturais e recreativos e da
qualidade ambiental.
Os atributos do território e sua contribuição ao processo de desen-
volvimento rural estão estreitamente vinculados, sem dúvida, a qua-
lidade ambiental que por extensão, podem vir a contribuir para
melhoria da qualidade de vida da população local. A biodiversidade
presente num dado território, constitui hoje elemento de diferencia-
ção em relação a outras regiões do planeta, por se tratar, entre ou-
tras coisas, de um banco de recursos genéticos ainda pouco conhe-
cido. Historicamente, tem-se aplicado intensamente os recursos bi-
ológicos e genéticos em diversas áreas da vida humana, tais como:

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alimentação, agricultura e medicina ALBAGLI (2003). A
biodiversidade hoje é vista como fator estratégico não apenas sob o
aspecto econômico, na perspectiva de desenvolvimento de medica-
mentos futuros, mas como suporte a vida haja vista que a “diversida-
de da vida é fundamental ao equilíbrio ambiental” ALBAGLI (2003).
Nesses termos, os processos de desenvolvimento local não devem
prescindir da contribuição do conhecimento das populações tradici-
onais em relação ao uso dessa biodiversidade. A combinação do
valor social dessas populações locais junto com a disponibilidade
dos recursos da biodiversidade assume um diferencial estratégico
para as regiões que lhes abrigam. A sócio-biodiversidade, ou seja, o
conhecimento das populações tradicionais acerca dos múltiplos usos
dos recursos da flora e fauna existente constitui fator estratégico de
um dado território, com papel fundamental na promoção do desen-
volvimento rural sustentável.

Considerações finais

O desenvolvimento enseja uma trajetória de mudanças estruturais e


não apenas conjunturais, ou seja, é necessário transformar a longo
prazo a educação, o modelo econômico dependente e subordinado
ao capital internacional, melhorar a qualidade de vida das pessoas
através do saneamento básico, da saúde, moradia, segurança entre
outros. Desenvolver é alcançar uma condição de equilíbrio social,
político, econômico e ambiental enraizado na sociedade de tal ma-
neira que seja capaz de assegurar sua continuidade independente de
variações contingênciais negativas. O desenvolvimento local se inse-
re nessa perspectiva trazendo consigo a premissa da participação
efetiva da sociedade civil, diretamente ou através de suas represen-
tações que juntamente com o poder público e as instancias econô-
micas-produtivas podem debater seus problemas e soluções. Essa é
a principal característica que diferencia a abordagem do desenvolvi-
mento local própria desse momento de institucionalidade democrá-
tica e descentralização política, do modelo desenvolvimentista verti-

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cal que predominou durante décadas no Brasil. Nesse contexto, o
fator território aparece associado ao desenvolvimento não apenas
como um lócus físico das atividades produtivas, mas por envolver
aspectos inerentes a dinâmica das relações sociais, considerados
importantes na construção de identidades e territorialidades
diferenciadoras no âmbito econômico. A região do Amazonas se ca-
racteriza por apresentar territorialidades estratégicas e diferenciadoras
de forma particular, relacionadas às populações tradicionais, à
biodiversidade e à cultura. A valorização do ambiente natural impõe
reflexões acerca do uso e proteção da natureza, o rural passa de uma
condição apenas de supridor de alimentos e matérias-primas primá-
rias, para ser então, local valorizado pelo meio urbano pela
complementaridade econômica, social e ambiental. Desse modo, esses
aspectos em conjunto e convergindo ações equilibradas tendem a
alcançar um modelo de desenvolvimento rural sustentável.

Bibliografia
ALBAGLI, Sarita. Interesse global no saber local: geopolítica da
biodiversidade. Palestra magna no Seminário “Saber local interesse glo-
bal: propriedade intelectual, biodiversidade e conhecimento tradicio-
nal na Amazônia”. Museu Paraense Emílio Goeldi, Cesupa, Belém,
Setembro, 2003.
CAMPANHOLA, Clayton; SILVA, José Graziano da. Desenvolvimento lo-
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JARA, C. J. A sustentabilidade do desenvolvimento local. Recife: IICA, 1998.
MARTINELLI, Dante P. et JOYAL, André. Desenvolvimento local e o papel
das pequenas e médias empresas. Ed. Manole, Barueri, SP, 2003.

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PRÉVOST, Paul - El Desarrolo Local y las cooperativas. Cuadernos de
Desarolo Rural, nº 37, segundo semestre - 1997.
PRÉVOST, Paul. O desenvolvimento Econômico Local. Programa de
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RIBAS, Domingues; SPOSITO, Eliseu Savério; SAQUET, Marcos Aurélio.
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VILELA, Sérgio Luiz de O. A importância das novas atividades agrícolas
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NORTE, Teresina, 2000.

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Estratégias de comunicação em
contextos populares: Implicações
contemporâneas no desenvolvimento
local sustentável

Angelo Brás Fernandes Callou1

Introdução

É recorrente, no campo da Comunicação, evocar a participação po-


pular como estratégia de inserção democrática nos processos de in-
tervenção para o desenvolvimento, particularmente no meio rural.
Desde os anos de 1980, com a redemocratização do país e a conso-
lidação da crítica à teoria rogeriana de Difusão de Inovações, se
tornou consenso, entre os pesquisadores pós-paulofreirianos, de que
a comunicação participativa ou horizontal é ponto de partida para
construção de qualquer política socioeconômica e ambiental nas or-
ganizações governamentais e não governamentais que lidam com os
contextos populares. Internalizada essa concepção, parece necessá-
rio, entretanto, redimensionar os limites das estratégias de comuni-
cação participativas frente aos cenários socioambientais contempo-
râneos. Nesse sentido, partimos do terreno da Comunicação Rural
para discutir alguns aspectos teóricos das estratégias de comunica-
ção para a participação de comunidades em processos de Desenvol-
vimento Local. Partimos, mais exatamente, de dois lugares: um que
diz respeito à utilização da Comunicação como estratégia de Difu-
são de Inovações na Agricultura dos anos de 1970/80, sobre a qual

1 Professor e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural e


Desenvolvimento Local (POSMEX), do Departamento de Educação da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE); doutor em Ciências da Comunicação.
peixes@elogica.com.br

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faremos um breve histórico; o outro relacionado aos desafios
vivenciados na atualidade pela Comunicação Rural em contextos
populares. A preocupação com essa abordagem é a de chamar a
atenção para os resultados sociais e ambientais negativos provoca-
dos no passado pela “modernização da agricultura” como vetor de
desenvolvimento, para que, no presente, as estratégias de comuni-
cação na instância do desenvolvimento local não representem mais
uma “romaria a um novo santo”.

Difusão de inovações e suas estratégias


de comunicação: Um breve histórico

Como sabemos, o modelo americano de Difusão de Inovações na


Agricultura, capitaneado por Everett Rogers, obteve, no Brasil, par-
ticularmente nos anos de 1970/80, uma considerável aceitação por
parte tanto das agências governamentais de extensão agrícola, quan-
to pelos pesquisadores de Comunicação Rural e Extensão Rural. É
importante salientar, de imediato, que apesar dos estudos realizados
pela Difusão de Inovações terem sinalizado as estratégias mais efica-
zes de intervenção para a adoção tecnológica, o decantado desen-
volvimento dos contextos populares do meio rural não ocorreu. Ao
contrário, foram observados, fundamentalmente, além dos prejuízos
ambientais, o aumento da concentração de terra e as migrações cam-
po-cidade, na medida em que os “pacotes tecnológicos” desarticu-
lavam as relações de trabalho no campo e endividavam os pequenos
produtores rurais2.
Cabe lembrar aqui a observação de Juan Díaz Bordenave, de que
foram as abomináveis “resistências conservadoras” de algumas po-
pulações rurais à adoção de tecnologias agropecuárias, ou a sua “ado-
ção retardatária”, como diria Rogers, que contribuíram como
contraponto à desarticulação social e econômica e à depredação do
meio ambiente com o advento da “modernização da agricultura”.

2 Vide GRAZIANO DA SILVA, José. A modernização dolorosa, estrutura agrária, fronteira


agrícola e trabalhadores rurais no Brasil. Rio de Janeiro : Zahar, 1981.

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Entretanto, essas “resistências” parecem não ter obtido repercussão
suficiente, pelo menos no Rio Grande do Sul, quando levamos em
consideração o desmatamento da cobertura florestal nativa do Esta-
do, no período em questão. Segundo Ferreira e Gausmann, citado
por Francisco Caporal, a cobertura florestal original passou dos 40%
para 5,6%. Dizem eles que dos 10.764.000 hectares restavam ape-
nas, em 1983, 1.585.731 hectares da cobertura florestal. Hoje,
entretanto, segundo ainda esses autores, o Estado já possui 17,52%
de florestas nativas3.
Não podemos exigir, entretanto, que, àquela época, os pesquisadores
tivessem uma leitura crítica do que significaria a modernização da agri-
cultura em termos de impactos socioculturais e ambientais, pois, afinal
de contas, a crítica à Difusão de Inovações ainda tateava, por assim
dizer, o seu poder de corrosão. Essa crítica acontecera muito lenta-
mente e só fora consolidada em meados dos anos de 1980. No que
diz respeito à questão participativa e à questão cultural das popula-
ções rurais no cenário da modernização da agricultura, é interessante
observar que, em nível do discurso, as instituições governamentais, a
exemplo das EMATER, incorporavam a participação como estratégia
para se comunicar e planejar atividades com as populações rurais4.
Mas as práticas extensionistas não correspondiam aos preceitos
dialógicos propostos por Paulo Freire, já em vigor, à época. Tratava-se,
na verdade, de uma espécie de boutade para fazer valer as políticas
públicas verticais de desenvolvimento da agricultura pela via da mo-
dernização, agora sobre o manto da “participação”.
A cultura dita popular, através das suas expressões mais tradicionais,
foi também utilizada como estratégia de comunicação persuasiva para
viabilizar o caráter modernizador da agricultura. A Folkcomunicação

3 CAPORAL, Francisco Roberto. Superando a revolução verde: a transição agroecológica


no estado do Rio Grande do Sul. Santa Maria (RS), março de 2003, p. 5-6. Texto
digitado, 30 p.
4 Vide CANUTO, João Carlos. Capital, tecnologia na agricultura e o discurso da EMBRATER.
Santa Maria, 1984. 137 p. Dissertação (mestrado em Extensão Rural) – Universidade
Federal de Santa Maria, 1984.

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praticamente inaugurou esse encontro com o difusionismo tecnológico,
ao oferecer munição teórica pelo seu mais ilustre representante e cri-
ador da matéria: Luiz Beltrão. Diz ele, segundo José Marques de Melo,
em 1971, se referindo a manifestações da Folkcomunicação, no livro
Comunicação e Folclore 5, que “o alto grau de credibilidade e sua
natureza lúdica permitiam uma aceitação popular espontânea” das ino-
vações6. Estão aí incluídos como instrumentos facilitadores da adoção
tecnológica os folhetos de cordel, almanaques, teatro de fantoches,
entre tantos outros meios de comunicação popular presentes no meio
rural. E agenda seguidores. Roberto Benjamin, citado também por
José Marques de Melo, comenta, no início dos anos de 1970, que o
folheto popular e o almanaque

“refletem a opinião pública matriz do meio social


onde se acham integrados os poetas, quase sempre
o meio mais conservador e retardatário no desen-
volvimento sócio-cultural e econômico. Tanto na
política, como na religião e na moral, os folhetos
refletem idéias gerais e conservadoras, refratárias
aos novos usos, novas práticas, novas ideologias.”7

A crítica desenvolvida por Walmir Barbosa no âmbito da


Folkcomunicação versus Difusão de Inovações, em 1986, na sua tese
de doutoramento, é uma síntese de todo esse processo. Diz ele:
“Uma reflexão (...) nos revela o quanto de esforço estava sendo feito
para facilitar a adoção de um modelo cujas conseqüências não esta-
vam sendo avaliadas. Da mesma forma que a lógica do capital já
começava a atuar de modo concreto sobre o campesinato, pela ex-
propriação dos meios de produção, a reflexão intelectual se debru-

5 Esse livro é parte da sua tese de doutoramento apresentada à Universidade de Brasília,


em 1967. Sobre isso vide BENJAMIN, Roberto. Itinerário de Luiz Beltrão. Recife : AIP/
UNICAP, 1998.
6 BELTRÃO, Luiz apud MELO, José Marques de. Comunicação, opinião, desenvolvimento.
3.ed. Petrópolis : Vozes, 1977. p. 104.
7 BENJAMIN, Roberto apud MARQUES DE MELO, José, op.cit., p. 104-105.

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çava sobre a cultura do povo, para propor aos agentes do capital
também a expropriação dos meios de produção cultural. E o mais
grave, expropriação dos meios de produção cultural, para reelaborar
com eles novas formas de intervenção.”8
O que é importante reter dessa digressão é que tanto a noção de
participação, quanto a questão da «valorização» das culturas popu-
lares do período da Difusão de Inovações, se mantém implícita e
explicitamente na pauta das discussões das políticas e estratégias de
comunicação para o desenvolvimento dos cenários socioeconômicos
e ambientais contemporâneos.
Estratégias de comunicação contemporâneas

Para abordar esse tema lançamos mão do interessante estudo publi-


cado recentemente por Desirée Rabelo, Comunicação e Mobilização
na Agenda 21 Local9. Com o objetivo de «identificar algumas estra-
tégias de comunicação consonantes com a mobilização pró-
sustentabilidade»10, Rabelo se debruça sobre a implantação, em 1996,
da Agenda 21 local em Vitória do Espírito Santo, refazendo e bus-
cando compreender o funcionamento de todo o processo de
mobilização social e suas estratégias de comunicação. O estudo re-
vela-se como uma cartografia do planejamento comunicacional ali
desenvolvido, no qual ela acrescenta, ainda, duas outras experiênci-
as – Operação Rodízio (de automóveis), em São Paulo, e Pastoral da
Criança, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).11
Sem a pretensão de desenvolver estudos comparativos, a autora apre-
senta, através dessas experiências, a complexidade que envolve os
diversos processos de participação dos atores sociais envolvidos nas
mobilizações e a importância das estratégias de comunicação para
flexibilizar e desobstruir canais de comunicação.

8 BARBOSA, Walmir de Albuquerque, op. cit., p. 161-162.


9 RABELO, Desirée Cipriano. Comunicação e mobilização na agenda 21 local. Vitória :
FACITEC, 2003. 203 p.
10 Idem, p. 14.
11 Idem, p.167-178.

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Para desenvolver essa pesquisa, Rabelo se estrutura teoricamente a
partir dos estudos de Bernardo Toro, que vê os processos de partici-
pação e mobilização como um “ato de comunicação”12. Para este
autor, segundo Rabelo, são três os atores principais necessários para
iniciar um processo de mobilização: a) o produtor social. Trata-se de
“pessoa ou instituição com legitimidade e capacidade de criar condi-
ções econômicas, institucionais, técnicas e profissionais para que um
processo de mobilização ocorra.”13; b) o reeditor social. Neste caso
é uma “pessoa que, por seu papel social, ocupação ou trabalho tem
capacidade de readequar mensagens, segundo circunstâncias e pro-
pósitos, com credibilidade e legitimidade.”14 O reeditor para Toro,
segundo Rabelo, pode ser desde um professor até os média e seus
profissionais, passando por um cabelereiro, um padre, ou seja, qual-
quer pessoa “que tem o poder de negar, transmitir, introduzir e criar
sentidos. É alguém capaz de modificar as formas de pensar, sentir e
atuar de seu público.”15; e c) o editor. Este, para Toro, segundo
ainda Rabelo, pode ser uma instituição ou também uma pessoa que
tem como tarefa “estruturar informações em códigos pertinentes à
mobilização...”16 Cabe ao editor, talvez, a tarefa mais complexa, do
ponto de vista da comuncição para mobilização, na medida em que,
segundo o autor citado17, enfrenta os seguintes desafios: 1) “cons-
truir e divulgar imagiários”. Ou seja, criar estratégias que possibili-
tem reunir, mobilizar, diferentes atores em prol de um objetivo co-
mum, ou, como ele próprio sintetiza, através de Rabelo, “somar
singularidades”. Rabelo traz, entre outros exemplos, as campanhas
Que nenhuma família passe fome neste Natal e Para que todas as
crianças tenham vida.; 2) “identificar e instrumentalizar reeditores”;
e 3) “gerar processos de coletivização”, isto é, tornar público os

12 TORO, Bernardo apud RABELO, op. cit., p. 63


13 Idem.
14 Idem.
15 Idem.
16 Idem, p. 64.
17 Idem.

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trabalhos que estão sendo desenvolvidos e os apoios institucionais
ou individuais recebidos. Daí a importância, segundo a autora, dos
meios de comunicação de massa, pois, em última instância, a divul-
gação dos resultados podem criar um sentimento de auto-estima
entre os atores sociais envolvidos na mobilização, animando, por
seu turno, os processos de participação18 .
Com essa perspectiva teórica, o estudo de Rabelo oferece pistas
metodológicas para os produtores sociais, reeditores sociais e edito-
res, ou seja, a todos aqueles que se interessam pela participação/
mobilização comunitária e social em prol do desenvolvimento sus-
tentável. Além disso, realça a importância do planejamento da co-
municação, diga-se de passagem ainda tão pouco contemplado pe-
las agências de desenvolvimento dos contextos populares. Entretan-
to, o seu trabalho não aborda algumas questões que consideramos
hoje como fundamentais nos estudos de Comunicação Rural e Ex-
tensão Rural. A temática da participação popular/mobilização não
deve ser pensada, a nosso ver, apenas como um problema no âmbito
das estratégias de comunicação. Isso implicaria, tão somente, em
desafios de registrar, dissecar, revelar, aquelas estratégias mais pro-
missoras, em termos de comunicação popular, para apoiar diferentes
tipos de campanhas e público. Investir nessa direção é tratar os con-
textos populares como um produto, cujo preceito teórico seria o de
Michael Porter, em que “Agir com estratégia é deixar alguns clientes
insatisfeitos para que outros possam ficar verdadeiramente conten-
tes.”19 Como vimos, isto foi feito no passado com repercussões ne-
gativas sobre as populações rurais e o meio ambiente. É bem verda-
de que as preocupações atuais com as estratégias de comunicação
se distinguem daquelas realizadas pela Difusão de Inovações e
Folkcomunicação, na medida em que pretendem abrir/desobstruir
canais à inserção cidadã dos contextos populares nos processos de

18 Idem, p. 65-67.
19 PORTER, Michael. A nova era da estratégia. In: Estratégia e planejamento. São Paulo :
Publifolha, 2002, p. 31.

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desenvolvimento. Portanto, essa discussão tem o seu lugar de
importânica. Mas o que parece relevante e instigante é pensar as
culturas populares na contemporaneidade a partir dos estudos de
Comunicação Rural para analisar até que ponto vale a pena se deter
nas estratégias e participação comunitária de forma específica à re-
cuperação/preservação ambiental. Se não vejamos.

Comunicação rural e desenvolvimento


local sustentável

Os estudos de Comunicação Rural/Extensão Rural no Brasil vêm


passando, nesses últimos 10 anos, por transformações teórico-
metodológicas consideráveis. Pelo menos três vetores contribuíram
para o surgimento dessas tranformações: a influência dos estudos
em desenvolvimento local, aqui compreendido como um processo
de concertação/orquestração dos diferentes atores sociais empenha-
dos no desenvolvimento sustentável das potencialidades econômi-
cas endógenas20.; a disseminação dos Cultural Studies ingleses nas
pesquisas em Comunicação da América Latina; e as novas concep-
ções sobre o rural brasileiro que enlaçam atividades agrícolas e não
agrícolas num mesmo território agrário.
No que diz respeito especificamente à Comunicação Rural e Desen-
volvimento Local, publica-se, em 1995, o texto Desafios da Comu-
nicação Rural em Tempo de Desenvolvimento Local 21, no qual arti-
cula-se, pela primeira vez, essa temática aos estudos de Comunica-
ção Rural no Brasil. Nesse momento, a perspectiva de desenvolver
os contextos populares a partir de políticas governamentais mais am-
plas perde estatura na Comunicação Rural em virtude da fragmenta-

20 São vários os textos que abordam o assunto. Vide especialmente FRANCO, Augusto de.
Desenvolvimento local, integrado e sustentável: dez consensos. Proposta, ano 27, n.78,
p. 6-19, 1998; Idem, Por que precisamos de desenvolvimento local integrado e sustentável.
Brasília : Instituto de Política, 2000; e JARA, Carlos. As dimensões intangíveis do
desenvolvimento sustentável. Brasília : IICA, 2001.
21 TAUK SANTOS, Maria Salett; CALLOU, Angelo Brás Fernandes. Desafios da comunicação
rural em tempo de desenvolvimento local. Revista Signo, Revista de Comunicação
Integrada. UFPB, Ano II, N. 3, setembro/1995.

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ção do espaço pelos atuais processos de reestruturação da econo-
mia mundial e sua repercussão contraditória sobre as culturas locais,
ou seja, exclui/inclui, desorganiza/organiza, pulveriza/localiza. Cou-
be à Comunicação Rural nesse novo cenário envolver-se com os
contextos populares como facilitadora/gestora dos processos
comunicacionais na concertação para o desenvolvimento local.22
As noções de participação e de cultura popular se mantêm ainda
coladas nessa nova abordagem, mas dentro de uma leitura distinta
daquela do passado e, talvez, da que se vê embutida no estudo de
Desirée Rabelo, que abordamos.
À medida em que a Comunicação Rural lançou mão dos estudos
culturais latino-americanos da Comunicação para compreender os
processos de recepção de mensagens pelas culturas populares do
meio rural, aspectos novos apareceram para instrumentalizar a sua
ação no Desenvolvimento Local. Espelhada, principalmente, na con-
cepção de Néstor García Canclini e Jesus Martín-Barbero sobre as
culturas populares no capitalismo, que as reconfiguram como cul-
turas híbridas e ressignificadoras dos produtos midiáticos, a Co-
municação Rural tem hoje uma outra leitura no âmbito da partici-
pação comunitária. Salett Tauk Santos, por exemplo, lastreada prin-
cipalmente na categoria “consumo”, de Canclini, chega à conclu-
são, na sua pesquisa de doutoramento, de que a participação de
pequenos agricultores no programa de desenvolvimento rural ana-
lisado - Serviços de Tecnologias Alternativas (SERTA) - se configu-
ra de maneira ambivalente e refuncionalizada. Ou seja, num movi-
mento pendular entre as possibilidades de consumo ao nível de
sua existência, acenadas pelo SERTA, e as aspirações simbólicas
construídas a partir de estímulos da cultura hegemônica, em geral
via meios de comunicação de massa, os pequenos produtores ru-

22 Vide TAUK SANTOS, Maria Salett. Gestão da comunicação no desenvolvimento regional.


Comunicação e Educação. São Paulo : Editora Moderna, n 11 : 29 a 34, jan./abr., 1998;
e CALLOU, Angelo Brás Fernandes; TAUK SANTOS, Maria Salett. Extensão pesqueira e
gestão da comunicação no desenvolvimento local. In: PRORENDA RURAL-PE (Org.).
Extensão pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. Recife : Bagaço, 2002.

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rais dão significados incompatíveis com a noção de participação
concebida pelo programa. Em lugar de restringirem sua participa-
ção à questão política e produtiva, como deseja o SERTA, a mes-
clam, afirma a autora, com aspectos da vida cotidiana como o lazer
e a religião23. Portanto, por mais bem intencionados que sejam os
produtores sociais, reeditores sociais e editores de que fala Desirée
Rabelo na construção de estratégias de comunicação para
mobilização comunitária, é preciso levar em consideração que as
culturas populares atuam num terreno de ambigüidades perma-
nentes, nem sempre captadas (ou cooptadas) pelas estratégias de
comunicação.
Somam-se a esses aspectos os desafios enfrentados pelas popula-
ções rurais com o impacto da mundialização dos mercados no meio
agrícola brasileiro. Esse impacto tem exigido redefinições no con-
ceito de território agrário, na medida em que as atividades
agropecuárias vêm se reunindo às atividades não agrícolas. As pro-
posições de incluir as atividades produtivas já existentes no meio
rural brasileiro (lazer, turismo, artesanato, indústrias, trabalho em
domicílio, entre outras) nas políticas públicas de desenvolvimento

23 SANTOS, Maria Salett Tauk. Comunicação e consumo: espaço das mediações da cultura
transnacional e das culturas populares. Revista Brasileira de Comunicação - INTERCOM,
São Paulo, vol. XIX, N. 2, jul./dez., 1996, p. 43, 46 e 47 apud CALLOU, Angelo Brás
Fernandes. Comunicação rural e era tecnológica: tema de abertura. In: CALLOU, Angelo
Brás Fernandes (org.) Comunicação rural, tecnologia e desenvolvimento local. Recife :
Bagaço, 2002, Coleção GT Intercom, n.13. (Reprodução literal e parcial da nota de
rodapé 41, p.21); Vide também PASSOS, Aída Lúcia Mello. Comunitário: espaço simbólico
de encontros e desencontros. (o caso Pintadas/BA). Dissertação de Mestrado em
Comunicação Rural, Recife, UFRPE, 1998, 193 p.; MELO, Maria de Fátima Massena.
Mulher e consumo: a recepção das mensagens do programa de apoio ao desenvolvimento
comunitário (PRODEC) da Caixa econômica Federal, pelas mutuárias da Cila de Chã de
Marinheiro, em Surubim/PE. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e
Comunicação Rural), Recife : UFRPE, 2001, 144 p.; SÁ BARRETO, Carmem Virgínia M.
Comunicação e reforma agrária: estudo de recepção das políticas do MEPF-INCRA pelos
assentados de Gaipió – PE. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e Comunicação
Rural), Recife : UFRPE, 2000, 345 p.; e LIMA, Conceição Maria Dias. Comunicação e
desenvolvimento local: estudo de recepção das propostas da incubadora tecnológica de
cooperativas populares – INCUBACOOP pelas mulheres da cooperativa de costura de
Abreu e Lima – COOPECAL-PE. Dissertação (Mestrado em Administração Rural e
Comunicação Rural), Recife : UFRPE, 2003, 188 p.

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rural, bem como a reivindicação de uma reforma agrária não es-
sencialmente agrícola24, vêm exigindo que se pense de maneira
diferenciada as estratégias de Comunicação Rural. Por outro lado,
estão no bojo dessas novas ruralidades questões relativas ao meio
ambiente, ao desenvolvimento local e à sociedade tecnológica
emergente. Mais complexa essa questão se torna, quando sabemos
que os contextos populares do meio rural hoje são mais amplos do
que se imaginava. Estudos recentes mostram que o Brasil possui
mais de 70% dos seus municípios no meio rural25. E são nesses
territórios onde se localizam as principais questões ligadas ao meio
ambiente. Diante desses aspectos, concordamos com Clayton
Campanhola e José Graziano da Silva ao incluírem a gestão ambiental
das atividades num processo mais amplo e integrado de desenvol-
vimento local para não restringir as estratégias de mobilização aos
recursos naturais ou ao meio ambiente26. Noutras palavras, as es-
tratégias para participação de comunidades em processos de recu-
peração/preservação ambiental, como pretendemos que sejam dis-
cutidas e pesquisadas, perdem suas singularidades para encontrar
seu sentido mais dinâmico num cenário de desenvolvimento local
sustentável. Cenário este onde as culturas populares também per-
dem o caráter romântico desejado pelos folcloristas27 para serem
pensadas no substantivo plural, hibridizadas, transnacionalizadas,
excluídas, em reordenação permanente, em várias direções e
temporalidades.

24 Sobre isso vide GRAZIANO DA SILVA, José. Por uma reforma agrária não essencialmente
agrícola, p. 2, Internet; GRAZIANO DA SILVA, José. Entrevista, Revista ops, Salvador, v.
2, n. 7, 1997; e GRAZIANO DA SILVA, José. O novo mundo rural, Nova Economia,
UFMG, Belo Horizonte, v. 7, n. 1, maio, 1997, p. 43-81.
25 Sobre o assunto veja-se VEIGA, Eli da. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do
que se calcula. Campinas (SP) : Editora Autores Associados, 2002. 304 p.
26 CAMPANHOLA, Clayton; GRAZIANO DA SILVA, José. Diretrizes de políticas públicas
para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de desenvolvimento local. In:
CAMPANHOLA, Clayton; GRAZIANO DA SILVA, José (edit.). O novo rural brasileiro:
políticas públicas. Jaguariúna (SP) : EMBRAPA, Meio Ambiente, v. 3, 2000, p. 66.
27 Sobre isso vide ORTIZ, Renato. Românticos e folclorista, cultura popular. São Paulo :
Olho d’Água, s.d.

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Por último, podemos arriscar dizer, considerando os três vetores
acima abordados – desenvolvimento local, estudos culturais da Co-
municação e novas ruralidades – que o planejamento da comunica-
ção e suas estratégias de mobilização comunitária podem se tornar
rarefeitas diante das ambivalências e das ressignifações que os con-
textos populares apresentam nos processos de participação das pro-
postas de desenvolvimento local.

Bibliografia

BARBOSA, Walmir de Albuquerque. A questão agrária e a comunicação


rural no Brasil. Tese doutoramento (ECA/USP), 1986.
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CAMPANHOLA, Clayton; GRAZIANO DA SILVA, José. Diretrizes de po-
líticas públicas para o novo rural brasileiro: incorporando a noção de
desenvolvimento local. In: CAMPANHOLA, Clayton; GRAZIANO DA
SILVA, José (edit.). O novo rural brasileiro: políticas públicas. Jaguariúna
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FRANCO, Augusto de. Por que precisamos de desenvolvimento local inte-
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GRAZIANO DA SILVA, José. O novo mundo rural, Nova Economia, UFMG,
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GRAZIANO DA SILVA, José. Por uma reforma agrária não essencialmente
agrícola, p. 2, Internet; GRAZIANO DA SILVA, José. Entrevista, Re-
vista ops, Salvador, v. 2, n. 7, 1997. GRAZIANO DA SILVA, José. O
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JARA, Carlos. As dimensões intangíveis do desenvolvimento sustentável.
Brasília : IICA, 2001.
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(PRODEC) da Caixa econômica Federal, pelas mutuárias da Cila de
Chã de Marinheiro, em Surubim/PE. Dissertação (Mestrado em Admi-
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leira de Comunicação - INTERCOM, São Paulo, vol. XIX, N. 2, jul./
dez., 1996, p. 43, 46 e 47.

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TAUK SANTOS, Maria Salett. Gestão da comunicação no desenvolvimen-
to regional. Comunicação e Educação. São Paulo : Editora Moderna, n
11 : 29 a 34, jan./abr., 1998; CALLOU, Angelo Brás Fernandes; TAUK
SANTOS, Maria Salett. Extensão pesqueira e gestão da comunicação
no desenvolvimento local. In: PRORENDA RURAL-PE (Org.). Exten-
são pesqueira no Brasil: desafios contemporâneos. Recife : Bagaço,
2002; e Baccega.
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VEIGA, Eli da. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se
calcula. Campinas (SP) : Editora Autores Associados, 2002. 304 p.

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A metodologia científica e o quotidiano
da extensão rural: Algumas relações

Prof. Dr. Paulo de Jesus1

O trabalho do Extensionista Rural e da Extensionista Rural tem pas-


sado por diferentes orientações paradigmáticas, todas elas com re-
flexo, seja na formação profissional, seja no quotidiano do campo.
Pretende-se aqui suscitar algumas reflexões em torno de possíveis
relações entre o domínio de princípios básicos da metodologia cien-
tífica e a atuação profissional de alguém enquanto extensionista ru-
ral, buscando contribuir com elementos de resposta para as seguin-
tes questões, entre outras: qual a compreensão do extensionista ru-
ral e da extensionista rural em torno de ciência, em torno de conhe-
cimento e em torno de pesquisa? Como tal compreensão pode tam-
bém condicionar o desempenho do extensionista rural e da
extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo?
Este texto sistematiza, em parte, discussões empreendidas junto a um
grupo de extensionista rurais efetuadas no Estado do Amazonas2, ten-
do por base pesquisa bibliográfica e as próprias vivências do autor.

A prática de extensionista rural e


a diversidade de conhecimentos
Qualquer que seja o paradigma dominante num sistema de extensão
rural, a interação extensionista rural – agricultor, extensionista rural –
pecuarista, por exemplo, fazem parte do quotidiano. Nesse processo de
interação, uma diversidade de tipos de conhecimentos está presente.

1 Professor Adjunto no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de


Pernambuco.
2 Curso de Aperfeiçoamento em Extensão Rural promovido pelo PROJETO DE
DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL DO ESTADO DO AMAZONAS
(SEPROR / IDAM E GTZ – Amazonas) em outubro / novembro de 2004, na cidade de
Presidente Figueiredo - AM.

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Antes, contudo, de caracterizar os diferentes tipos de conhecimen-
to, uma reflexão se impõe: o que é conhecimento? Qual o entendi-
mento do extensionista rural e da extensionista rural em torno do
significado de conhecimento e como se processa a sua produção?
De forma simplificada e inspirada em Ruiz (1996) pode-se formular
um entendimento sobre conhecimento baseado em três elementos:
a) o sujeito cognoscente, isto é, alguém que tem a capacidade de
conhecer; b) o objeto cognoscível, isto é, algo que pode ser conhe-
cido e c) a imagem, ou seja, o resultado, o que fica da relação entre
o sujeito e o objeto.
Galliano (1986:17) assim se expressava:

Em linhas gerais, conhecer é estabelecer uma re-


lação entre a pessoa que conhece e o objeto que
passa a ser conhecido. No processo de conheci-
mento, quem conhece acaba por, de certo modo,
apropriar-se do objeto que conheceu. Dessa for-
ma, ‘engole’ o objeto que conheceu. Ou seja,
transforma em conceito esse objeto, reconstitui-
o em sua mente.
Ilustrando, um extensionista rural ou uma extensionista rural é desig-
nado para trabalhar num município amazônico em que existem algu-
mas comunidades predominantemente indígenas. Imagine-se que o
extensionista rural ou a extensionista rural, por mais absurdo que
pareça, tem conhecimentos muito elementares e talvez estereotipa-
dos sobre comunidades predominantemente indígenas. Então, um
dia se programa uma visita a uma dessas comunidades. O que vai
acontecer: o sujeito (o extensionista rural ou a extensionista rural) vai
interagir, ao vivo, com a comunidade predominantemente indígena
(situação a ser conhecido ou situação cognoscente), resultando daí
um conjunto de impressões, de sensações, de imagens sobre a co-
munidade, suas condições de vida e de produção e de
comercialização; sua composição etária e por sexo; seus valores re-
ligiosos, culturais; suas formas de lazer; suas relações com outras

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etnias etc., ou seja, tem-se um resultado dessa relação estabelecida,
tem-se um conhecimento. As imagens, as sensações, as impressões
são captadas e armazenadas no cérebro e depois serão, por exem-
plo, ou consolidadas, ou reconstruídas com acréscimos ou substitui-
ções. Tal relação, como se sabe, é condicionada por diversos fatores
(DEMO, 1995), assim como condiciona o comportamento, a atua-
ção, a relação do extensionista rural ou da extensionista rural, por
exemplo, com a comunidade predominantemente indígena e outras.
Também aquele resultado (imagens, sensações, informações) pode
ser sistematizado, escrito, registrado. Mas, se o extensionista rural ou
a extensionista rural, do exemplo acima, escrever um texto sobre a
comunidade predominantemente indígena visitada, esse texto será um
resultado da experiência de interação vivenciada. Os livros, os artigos
de revista científica, por exemplo, são conhecimentos sistematizados
que resultaram da interação sujeito – objeto, interação vivenciada sob
diversas formas, inclusive em situações de laboratórios.
Parece explicado o sentido de conhecimento e a forma como ele
é produzido. Isso favorece a compreensão daquilo que distingue
os diferentes tipos de conhecimento: é, de um lado, a forma e,
de outro lado, são os condicionamentos sob os quais a relação
entre o ser cognoscente e o cognoscível, ou seja, entre o sujeito
e o objeto se processa. No exemplo acima apresentado, são as
formas e os condicionamentos presentes na relação do
extensionista e da extensionista com a comunidade predominan-
temente indígena que podem caracterizar o tipo de conhecimen-
to resultante dessa interação.
Muito freqüentemente distingue-se o conhecimento pela adjetivação:
conhecimento popular, conhecimento científico, conhecimento reli-
gioso, por exemplo.
Muitos autores apresentam tipologias de conhecimento e suas ca-
racterísticas (RUIZ, 1996; DEMO, 1995; CERVO, 1996; ALVES,
2004, entre outros). A seguir, apresenta-se uma classificação sobre
conhecimento que distingue pelo menos quatro tipos de conheci-
mento:

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A) Conhecimento do senso comum ou conhecimento ordinário ou
conhecimento empírico ou conhecimento vulgar ou ainda conheci-
mento intuitivo
Uma primeira observação sobre esse tipo de conhecimento diz respei-
to à adjetivação freqüentemente utilizada pelos autores: senso comum,
ordinário, vulgar, por exemplo, são adjetivos que podem refletir uma
atitude de desvalorização. No entanto, como afirma Ruriz (1996:91)
todo homem, no decorrer da existência, “vai acumulando conheci-
mentos daquilo que viu pessoalmente, daquilo que ouviu de terceiros;
vai acumulando vivências, vai interiorizando as tradições da
coletividade”.E aí está a forma como é produzido esse tipo de conhe-
cimento: espontaneamente, sem regras formais, como se vê seguir:
• quase sempre baseado na percepção sensorial, na busca da
solução para problemas imediatos;
• é elaborado de forma espontânea e instintiva, portanto
ametódica, assistemática;
• tem caráter utilitário e é repassado de um indivíduo a outro
e de geração a geração;
• visão fragmentada e subjetiva, subordinada ao envolvimento
afetivo e emotivo de quem o elabora, e, condicionada aos
interesses, crenças, convicções pessoais e expectativas do su-
jeito cognoscente, que não valoriza o esforço da busca de
provas e evidências;
• incapaz de se submeter a uma crítica sistemática e isenta de
interpretações baseadas apenas nas crenças pessoais;
• expresso em linguagem diversificada e vaga, dificultando ou
impossibilitando o controle e avaliação experimental;
• condições de produção e de uso que podem permitir a
emergência do caráter dogmático;
• intuição dos primeiros princípios lógicos, primeiros princí-
pios éticos e intuição estética.

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Como se afirmou anteriormente, todos estamos impregnados desse tipo
de conhecimento, todos recorremos a ele. Assim, o extensionista rural
ou a extensionista rural é também detentor ou detentora desse tipo de
conhecimento e está constantemente interagindo profissionalmente com
pessoas que detém ou produzem esse tipo de conhecimento e conse-
qüentemente suas atitudes, seus comportamentos, seus valores são tam-
bém condicionados pelo conhecimento do senso comum.
B) Conhecimento filosófico
A compreensão do sentido e da forma de construção do conheci-
mento filosófico passa pela compreensão de que a Filosofia:
• tem como objetos, idéias, relações conceituais, exigências
lógicas não redutíveis a realidades materiais, portanto não
passíveis de observação sensorial;
• utiliza o método racional onde prevalece o processo deduti-
vo, que antecede à experiência, e se centra na coerência lógica;
• está sempre à procura do mais geral, das leis mais univer-
sais, se interessando pela formulação de uma concepção
unificada e unificante do universo;
• objetiva questionar as certezas, as conclusões, procurando
sentido ou interpretação mais ampla em resposta às grandes
indagações do espírito humano;
• tem como fundamento a evidência lógica.
Deduz-se com certa facilidade que a construção desse tipo de conhe-
cimento tem regras próprias. Mas, ao mesmo tempo, parece ser fácil
deduzir também que freqüentemente a pessoa está em estado de filo-
sofar. E no quotidiano de seu trabalho, o extensionista rural ou a
extensionista rural interage com agricultores familiares, com indígenas,
com pecuarista que, como ele ou ela, se aproximam também das ca-
racterísticas do conhecimento filosófico, quando, por exemplo, um
agricultor familiar pergunta: E por que tem que ser assim, Doutor?
C) Conhecimento religioso
Esse tipo de conhecimento supõe uma compreensão sobre Teologia,
como se vê a seguir:

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• não se distingue da Filosofia e das outras ciências pelo ob-
jeto de estudo que é ou pode ser o mesmo (Ex.: Teoria da
Evolução das Espécies; origem do mundo);
• utiliza princípios operativos (razão iluminada, elevada pelo Dom
sobrenatural e gratuito da fé), diferentes da Filosofia e demais
ciências (sentidos corporais, inteligência e razão natural);
• utiliza como princípio operativo a fé religiosa que é de or-
dem místico-intuitiva e não de ordem racional-analítica;
• tem uma esfera de valor completamente autônoma, portan-
to uma epistemologia autônoma;
• supõe e exige a autoridade divina, nela se fundamentando e
só a ela atendendo.
Parece que as características do conhecimento religioso ficaram claras.
Aqui também se pode afirmar que os comportamentos, as atitudes hu-
manas são muito influenciadas pelo conhecimento religioso: os técnicos
e as técnicas, os professores e professoras, os agricultores e agricultoras,
os índios e as índias, todos e todas, até aqueles e aquelas que, contradi-
toriamente, se dizem ateus ou atéias, quando bem analisados, seus com-
portamentos tem também a influência do conhecimento religioso. Outra
reflexão importante refere-se ao fato de professar, de praticar, de ser
influenciado ou determinado pelo conhecimento religioso não impede a
influência de outros tipos de comportamento, de atitudes. Neste senti-
do, alguém pode ser profundamente religioso (católico, batista,
presbiteriano, budista, cultos afro-brasileiros, por exemplo) e ser um
grande cientista. Claro, às vezes surgem grandes conflitos.
D) Conhecimento científico
Para entender o conhecimento científico, faz-se necessário situá-lo
no tempo. Assim, até o Renascimento, o conhecimento científico se
caracterizava como:
• certo, pela condição de explicar os motivos da certeza;
• geral, porque conhecia no real o que há de mais universal e
válido para todos os casos da mesma espécie;

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• metódico, sistemático, objetivo e crítico, resultante da de-
monstração e da experimentação.
Hoje, como afirma Cervo (1996:8).
(...) a concepção de ciência é outra. A ciência não
é considerada como algo pronto, acabado ou de-
finitivo. Não é a posse de verdades imutáveis. Atu-
almente a ciência é entendida como uma busca
constante de explicações e soluções, de revisão e
reavaliação de seus resultados e tem a consciência
clara de sua falibilidade e de seus limites.
Nem sempre se pensa assim. Quase sempre, nos processos de
escolarização se incutem visões exatamente diferentes: a ciência é a
verdade e é imutável, o que a aproxima muito do conhecimento reli-
gioso, como se viu acima.
A relação sujeito – objeto, no contexto da produção do conheci-
mento científico, que, como se viu, se processa de forma metódica,
sistemática, é regida por regras claras e conhecidas de todos. Tais
regras configuram o chamado método científico. No exemplo acima
apresentado, o conhecimento resultante da relação do extensionista
ou da extensionista rural com a comunidade predominantemente in-
dígena, para ter o caráter científico, precisaria atender a certas
condições. Assim, o contacto do extensionista ou da extensionista
teria que ser mais planejado, ser precedido de leituras sobre o que já
se estudou e publicou em torno de comunidade predominantemente
indígena na Amazônia, por exemplo. Ou seja, teria que ser precedi-
do de uma apropriação do conhecimento já existente em torno do
tema. Também deveriam ser formuladas questões que sintetizassem
as inquietações do extensionista ou da extensionista em torno da
comunidade predominantemente indígena, isto é, o que é mesmo
que ele ou ela quer conhecer, qual o problema a esclarecer ou expli-
car? Outra decisão no planejamento do estudo da comunidade a ser
visitada: o contato vai ser feito com todos os integrantes da comuni-
dade? como vai se dar esse contato com todos? ou se vai estabelecer

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uma amostra, isto é, vai ser feito contato apenas com um certo
número de habitantes, incluindo nesse conjunto, homens, mulheres,
adultos, jovens e crianças, por exemplo. Depois, teria que se definir
como registrar as impressões, as informações e como analisá-las pos-
teriormente, inclusive comparando-as com impressões produzidas e
registradas por outras pessoas. Por fim, formular sinteticamente con-
clusões e, neste caso, até hipóteses a serem investigadas posterior-
mente, numa perspectiva de aprofundar o conhecimento.
Feita essa breve caracterização dos tipos de conhecimento, pode-
se possivelmente afirmar que hoje o extensionista ou a extensionista,
por exemplo, começa a perceber a diversidade de tipos de conhe-
cimentos, a caracterizá-los, e valoriza-los, sem preconceitos, com
a consciência de que não se trata de considerar um tipo de conhe-
cimento melhor ou superior a um outro tipo de conhecimento.
Trata-se de considerá-los como eles são: diferentes. Tal consciên-
cia pode favorecer à interação extensionista – agricultor,
extensionista – indígena, extensionista – pecuarista, por exemplo.
A consciência das diferenças entre tipos de conhecimentos com os
quais se interage no cotidiano pode contribuir para a adoção de
atitudes de valorização dessas diferenças e de aprendizagens a partir
das diferenças.
Como se tentou evidenciar, as diferenças entre tipos de conhecimen-
tos são resultados dos processos diferentes de produção de cada
tipo de conhecimento.
Pelos objetivos desse texto, a seguir se tentará apresentar elementos
que favoreçam a compreensão do processo de produção do conhe-
cimento científico.

Conhecimento Científico e Método Científico

Importa ter bem claro que a compreensão em torno do método cien-


tífico aponta pelo menos para três finalidades: a)compreendê-lo como
processo de produção diferenciador de outros tipos de conhecimen-
to; b)contribuir para compreensão e crítica do conhecimento siste-

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matizado a que se tem acesso e c) instrumentalizar-se para sua prá-
tica, para seu exercício.
Antes da adjetivação, convém definir ou apresentar um sentido de
Método.
Lungarzo (1989), por exemplo, assinala que “uma das diferenças
entre a ciência e as outras formas de conhecimento é a existência de
uma organização lógica entre as afirmações que constituem uma te-
oria científica e a possibilidade de justificá-la”. Ele assim conclui:
Uma das características da ciência, que permite organizar, comparar
seus enunciados, testar suas verdades, é a existência de um método.
A ciência tem um conjunto de procedimentos organizados para ob-
ter, compilar e testar seus resultados.(LUNGARZO, 1989:42).
Eis o sentido de método: procedimentos organizados em uma se-
qüência lógica, de forma a poder, inclusive, assegurar a repetição da
experiência, da situação de pesquisa, da interação sujeito – objeto.
Em se falando de método científico, para os objetivos desse texto,
destaca-se a importância e a caracterização da etapa de observação,
identificação e formulação do problema de pesquisa.

Observação, identificação e formulação


do problema de pesquisa.

Esse é o primeiro passo, num processo de produção do conheci-


mento científico. Começa-se uma pesquisa pela inquietação produ-
zida a partir da observação. É a observação do real, da prática, do
empírico que suscita a necessidade de pesquisa para explicar, para
compreender, para resolver um problema de pesquisa.
E o que é problema de pesquisa? Considerem-se algumas definições.
Ferreira, por exemplo, assim se expressa:
Um problema caracteriza-se pela proposição de
uma dificuldade a ser resolvida. Pode ser de or-
dem prática - problemas empíricos -, ou teórica,
problemas relativos a revisões ou validações
conceituais, confronto entre teorias, etc. Estas

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dificuldades inviabilizam o conhecimento de fa-
tos ou fenômenos, de importância significativa,
para a qual busca-se uma solução. O problema
se constitui na pergunta fundamental que norteará
todo o trabalho a ser desenvolvido na pesquisa,
cuja conclusão final deverá apresentar uma res-
posta à pergunta colocada no princípio. Consi-
deramos que, em função do problema a ser for-
mulado, o trabalho posterior pode ser facilitado
ou dificultado. Um problema, portanto, deve ser:
1. formulado como pergunta;
2. claro e preciso;
3. não deve partir de valores explícitos do pes-
quisador;
4. deve ser passível de verificação;
5. deve ser viável, passível de ser solucionado
(FERREIRA, 1998:133).
Outro autor, Lacasse (1991:252) chama a atenção para as caracte-
rísticas do enunciado do problema, quais sejam:
• em por finalidade estabelecer uma relação entre dois ou
mais elementos ou variáveis
• deve ser claro e sem ambigüidade
• deve ser formulado sob a forma de questões
• deve ser verificável, observável empiricamente.
• não deve apresentar julgamento ou posição moral
Já Goldemberg (1997:71), respondendo a pergunta: como formular
um problema específico que possa ser pesquisado por processos
científicos, afirma ser o primeiro passo tornar o problema concreto e
explícito através:
• da imersão sistemática no assunto;
• do estudo da literatura existente;
• da discussão com pessoas que acumularam experiência prá-
tica no campo de estudo.

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E completa: “a boa resposta depende da boa pergunta. O pesquisa-
dor deve estar consciente da importância da pergunta (...)”.
Acima, falando do conhecimento científico, recuperou-se o exemplo
da relação do ou da extensionista com uma comunidade predomi-
nantemente indígena na Amazônia. Agora, se privilegiou a caracteri-
zação do que pode ser indicado como primeira etapa do método
científico. Não se quer, como foi afirmado na introdução, dar conta
de todo o processo de formação do pesquisador, mesmo sabendo-
se que o extensionista ou a extensionista rural também pode desen-
volver pesquisa científica em seu quotidiano de trabalho. A preten-
são está em alertar profissionais de extensão rural para a diversidade
de tipos de conhecimentos e de seus processos de construção.
Tal objetivo sugere reflexões ou considerações na perspectiva enun-
ciada inicialmente de contribuir para a compreensão de como o sen-
tido de ciência, o sentido de conhecimento e de pesquisa científica
podem também condicionar o desempenho do extensionista rural e
da extensionista rural no seu trabalho de escritório e de campo. Para
isso, parece oportuno considerações em torno do chamado espírito
científico, que se apresentam a seguir:

Atuação e quotidiano de extensionista


rural e espírito científico.

Recuperam-se aqui contribuições de um autor já citado (RUIZ, 1996)


em torno do que ele qualifica espírito científico. A atuação e o quo-
tidiano de profissionais de extensão rural, como se afirmou no pre-
sente texto, são marcados pela convivência com a diversidade de
saberes, de conhecimentos que se distinguem, igualmente como se
tentou caracterizar no presente artigo, pelos seus processos de pro-
dução. Ora, sabe-se que a missão de tais profissionais não está
prioritariamente ou predominantemente direcionada para o desen-
volvimento de pesquisa científica, ou, se se preferir, para a produção
de conhecimento científico. No entanto, tal atuação deve ser carac-
terizada por atitudes e comportamentos de vigilância epistemológica

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que pode se concretizar pelo exercício do espírito científico caracte-
rizado por Ruiz (1996). Para esse autor:
Espírito científico, mentalidade científica, ou ati-
tude científica é um estado de espírito, é uma
disposição subjetiva adequada à nobreza e à se-
riedade do trabalho científico. Esse estado subje-
tivo resulta do cultivo de uma constelação de vir-
tudes morais e intelectuais; não bastará, pois,
conhecê-las; é preciso vivê-las, reduzí-las à práti-
ca, cultivá-las. (RUIZ, 1996:132).
Ele apresenta, pois, as seguintes características do espírito científico:
a) espírito crítico – lembrando que criticar é “antes de tudo, analisar,
questionar, submeter a exame, julgar a validade, a fundamentação das
soluções estabelecidas” o autor parece querer dizer aos profissionais
da extensão rural, no caso do segmento profissional a quem
prioritariamente se destina esse texto, que é preciso ter cuidado, é
preciso apropriar-se criticamente do conhecimento, das tecnologias,
dos contextos para se assegurar uma atuação consistente e coerente.
Para isso o autor acima citado faz também a distinção entre espírito
crítico (atitude amadurecida de alguém que busca com seriedade a
verdade, ponderando razões, confrontando motivos, por exemplo) que
deve ser cultivado, estimulado, e espírito de crítica (espírito de contra-
dição, indício de desorganização mental, de superficialidade irrespon-
sável, demolidor e pernicioso) que deve ser banido (p.133);
b) espírito de confiança na ciência – a confiança na ciência significa o
conjunto de atitudes que implica em distanciar-se de dois extremos:
o ceticismo e a submissão passiva a dogmatismos;
c) busca de evidências – “O homem comum vê a natureza, ouve a
natureza. O cientista a interroga, quer explicações pela linguagem elo-
qüente dos fatos. Só evidência dos fatos sacia seu desejo de conhecer
o ‘como’ e os ‘porquês’ dos fenômenos” (p. 134), em liberdade, com
autenticidade e com rejeição de toda sorte de autoritarismo, não se
satisfazendo com o simples conhecimento dos fatos, mas procurando
sua compreensão, sua justificativa e sua demonstração;

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d) espírito de análise – entendida análise como a decomposição, o
desdobramento, a segmentação de um todo complexo em seus com-
ponentes ou elementos mais simples, operação que pode contribuir
para a compreensão do fenômeno em estudo;
e) espírito positivo de apego à objetividade – o autor lembra que é a
evidência dos fatos, de forma objetiva e irrefutável, que assume a fun-
ção de critério da verdade. Os fatos frente à hipóteses pré-concebidas
como possível explicação ou resposta à pergunta do problema podem
comprová-las, ou negá-las. Como afirma Ruiz, “o cientista não preci-
pita conclusões sem evidência suficiente oriunda dos fatos, e não de
seu engenho criativo. Ciência não é literatura de ficção” (p.135).
f) espírito criativo – a criatividade se manifesta na formulação das hipóte-
ses, na definição de instrumentos de coleta e análise de dados, por exem-
plo, assim como na concepção de outros processos de pesquisa.
g) espírito indagador – a ciência não é um ponto de chagada, fixo e
definitivo. O conhecimento científico está sempre sendo reconstruído,
a partir das novas indagações que a observação, a análise vão susci-
tando. Nunca aceitar, em termos de ciência, uma resposta, uma
tecnologia como definitiva, pois ela é sempre provisória.
Tais considerações sobre espírito científico, aqui apresentadas, sem-
pre inspiradas em Ruiz (1996:132-135) parecem contribuir muito
para a (re)construção de atitudes, de comportamentos do extensionista
e da extensionista rural em seus processos de interação com agricul-
tores e agricultoras familiares, com índios e índias, com pecuaristas e
também com trabalhadores e trabalhadoras assalariadas.

Considerações finais
No início do presente texto, declarou-se a pretensão de suscitar algumas
reflexões em torno de possíveis relações entre o domínio de princípios
básicos da metodologia científica e a atuação profissional de alguém
enquanto extensionista rural esperando contribuir esclarecer questões,
tais como: qual a compreensão do extensionista rural e da extensionista
rural em torno de ciência, em torno de conhecimento e em torno de
pesquisa? Como tal compreensão pode também condicionar o desem-

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penho do extensionista rural e da extensionista rural no seu trabalho de
escritório e de campo? O autor desenvolveu todo o texto com tais obje-
tivos e espera que de alguma forma o seu resultado possa ajudar aqueles
e aquelas que estão com a mão na massa no campo, em contextos
rurais. Sobretudo, o autor tentou evidenciar que a compreensão sobre
conhecimento, suas formas de construção e sua diversidade pode favo-
recer a uma melhor e, possivelmente, mais eficaz interação de profissio-
nais de extensão rural com os atores sociais com os quais esses profissi-
onais lidam no seu cotidiano de trabalho profissional.
Uma última consideração, no entanto, se impõe, na tentativa de síntese:
tudo parece nos levar a afirmar que ninguém pode fugir da diversidade de
tipos de conhecimentos, que têm processos de produção (resultado da rela-
ção sujeito-objeto) diferentes; ninguém está autorizado a classificar este ou
aquele conhecimento como superior ou inferior. Trata-se apenas de tipos
diferentes de conhecimento. O extensionista rural e a extensionista rural, por
exemplo, como qualquer outro profissional, certamente, são detentores des-
sa diversidade de conhecimentos e em suas relações profissionais interagem
com tal diversidade que está presente em cada ator social.

Bibliografia
ALVES, Rubem. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo, Edições Loyola, 2004.
CERVO, A. L. Metodologia Científica. Rio de Janeiro: Makron Books, 1996.
DEMO, Pedro. Metodologia Científica em Ciências Sociais. São Paulo,
Atlas, 1995.
GALLIANO, A. Guilherme. O método Científico. Teoria e Prática. São
Paulo, Editora Harbra, 1986.
GOLDENBERG, Mirian. A Arte de Pesquisar. São Paulo: Ed. Record, 1997.
LACASSE, J.. Introduction à la Méthodologie utilisée en Sciences Humaines.
Quebeque: Ed. Etudes Vivantes, 1991
LUNGARZO, Carlos. O que é Ciência. São Paulo, Editora Brasiliense, 1989.
PEREIRA, Otaviano. O que é Teoria. São Paulo, Brasiliense, 1995.
RUIZ, João Álvaro. Metodologia Científica. Guia para eficiência nos estu-
dos. São Paulo, Atlas, 1996.

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O grande desafio da educação
empreendedora cooperativa

Jimmy Peixe Mc Intyre1


M. Sc. Gestão de Cooperativas

A partir de cenários globalizados economicamente que se con-


trapõem às demandas de desenvolvimento e de fortalecimento
local, qualquer empreendedor cooperativo se depara com os de-
safios de conjugar a ação empresarial de competitividade com a
necessidade de se articular e cooperar tanto no micro cenário de
atuação local, como no macro cenário constituído por vários se-
tores de atividades. Assim, enquanto empreendedor, precisa-se
manter um olho centrado em uma luneta e um outro olho no
microscópio. Neste aspecto, a princípio, esta parece ser uma
missão difícil, mas não impossível de ser realizada, pois ela de-
pende basicamente de um conjunto de habilidades e de métodos
para a sua execução.
É justamente com desafios como este que o empreendedor cotidia-
namente se depara no processo de gestão: onde as decisões mais
simples passam por exigências complexas de reflexão e de
posicionamento por conta de diversos fatores, tanto de caráter inter-
no como externo à organização.
Neste aspecto, quanto maior for a amplitude do conhecimento e
mais amplo for o campo de visão do empreendedor, maior será a
probabilidade de acerto nas decisões estratégicas. Assim, para a ele-
vação das probabilidades de acerto, uma das alternativas que se apre-
senta é a educação empreendedora articulada com o contexto de
cooperação a partir da formação de parcerias e de redes de aprendi-
zagem permanente.

1 Doutor e lotado no Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de


Pernambuco.

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Portanto, a educação empreendedora consiste em uma atividade
contínua composta de três dimensões e estruturada por princípios
básicos, cuja finalidade é permitir ao empreendimento alcançar van-
tagens competitivas que o consolidem em um ambiente de negócios
que passa tanto pelo local, como pelo global e vice-versa. Este pro-
cesso, enquanto instrumento estruturador de competitividade é váli-
do para todo tipo de cooperativa.
No caso das cooperativas agropecuárias, inicialmente, a educação
empreendedora visa a autocompreensão. Esta etapa consiste em
uma descoberta ou redescoberta das vocações e expectativas indi-
viduais enquanto empreendedor. Nesta perspectiva, as habilida-
des, competências, desejos e aspirações, consistem em atributos
intangíveis relativos à dimensão pessoal que torna o indivíduo, sin-
gular, único e diferente dos demais a partir de características que
podem ser canalizadas e recristalizadas pelo empreendedor em prol
do seu negócio. Este processo de autoconhecimento possibilita
que o empreendedor tenha uma idéia mais clara da estrutura social
em que se encontra inserido, permitindo identificar quais os seus
diferentes papéis na sociedade local, regional e global, para poder
se relacionar e intervir com competência no seu campo de atua-
ção. Por conseguinte, este processo pautado em métodos
construídos leva o empreendedor ao entendimento das diferentes
formas de funcionamento das relações políticas e econômicas da
sociedade, de modo que se delineiem mudanças e transformações
sociais. Nesta direção, o foco tradicional e meramente econômico,
cede espaço, para se integrar com outras áreas do conhecimento
tais como a psicologia e a sociologia das organizações, a geografia
econômica, a engenharia de processos, a gestão e auto-gestão do
negócio, dentre outras, numa perspectiva de um novo processo de
formação educacional cooperativo.
A segunda dimensão da educação empreendedora consiste em iden-
tificar fragilidades e oportunidades do negócio para se poder efetuar
um mapeamento do ambiente em que a empresa vai atuar, permitin-
do então o posicionamento do empreendimento perante o cenário

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traçado. Neste caso, o mapeamento do ambiente, a partir de uma
visão analítica sobre o campo econômico, social, político, ambiental
e tecnológico, vai nos apontar as principais variáveis que poderá
potencializar ou obstaculizar o negócio. Assim, o empreendedor
enquanto sujeito da construção do seu conhecimento irá traçar vári-
os roteiros que lhe permita identificar qual o melhor caminho a per-
correr com probabilidades de sucesso com menor risco. Ainda nesta
dimensão educativa empreendedora os métodos adotados devem
favorecer a visualização de como otimizar as oportunidades pela
cooperação, de modo a que, nas relações estabelecidas, não haja
apenas um ganhador e sim ganhadores, mútuos.
Por fim, a terceira dimensão da educação empreendedora consiste
em uma análise do ambiente interno do empreendimento, detec-
tando aspectos tangíveis e intangíveis. Neste aspecto, o empreen-
dedor, não deve estar apenas atento para a infra-estrutura disponí-
vel como: instalação, máquinas, equipamentos, quantidade de fun-
cionários, tipo de produto, os quais são partes mensuráveis. Ele
deve também se preocupar com um desafio maior sobre aquilo
que não podemos mensurar objetivamente, e que passa pela empatia
e a satisfação dos cooperados empreendedores, pelas atividades,
pelas rotinas, pelos processos e pela satisfação dos clientes. Esses
aspectos, na educação empreendedora, não podem ser negligenci-
ados, pois enquanto conteúdos a serem trabalhados eles se consti-
tuem em vetores de inovação, tanto de processos como de produ-
tos, como também, de alicerces para a formação da cultura da
cooperação na organização.
Todavia, deve ficar bem claro que estas dimensões da educação
empreendedora, somente surtirão o efeito desejado se vierem acom-
panhadas de ações complementares. Isto implica em dizer que a
educação empreendedora deve estar imersa em conceitos e valo-
res culturais que valorizem a transparência, a confiança e os valo-
res democráticos, os quais são os princípios fundamentais e
norteadores do bom funcionamento das relações tanto das pesso-
as como das cooperativas.

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Bibliografia

FERNANDEZ, J. Réussir une activité de formation, Québec, Les Éditions


coopératives Albert Saint-Martin de Montréal, 1988.
FREITAS, F., MC INTYRE, J.P. e SIDNEY, P. Programme de Formation et
d’éducation coopérative pour les petits Producteurs ruraux de Pes-
queira au Nord-est du Brésil, trabalho apresentado no Mestrado de
Gestão e Desenvolvimento de Cooperativas no curso COP 810,
Université de Sherbrooke, Quebéc.1996.
MC INTYRE, J.P. Proposta de modelo de formação contínua para o desen-
volvimento das cooperativas agrícolas do estado de Pernambuco.
Sherbrooke, Université de Sherbrooke, 1997. Dissertação de mestrado
orientada pelo Professor Paul Prévost.
MC INTYRE, J. P. e SILVA, E. S. Planejamento estratégico e 0peracional de
cooperativa - série cooperativismo, Recife, Edição Sebrae, 2002.
MC INTYRE, J. P. e SILVA, E. S. Viabilidade do negócio cooperativo- série
cooperativismo, Recife, Edição Sebrae, 2002.
MC INTYRE, J. P. e SILVA, E. S. Como formar e gerir um empreendimento
cooperativo - série cooperativismo, Recife, Edição Sebrae, 2002.
MC INTYRE, J. P. e SILVA, E. S. marketing aplicado à cooperativa - série
cooperativismo, Recife, Edição Sebrae, 2002.
NADEAU, J. et C. ST-HILAIRE. Les principes d’apprentissage de l’adulte-
apprenant. Laval, Université de Laval.1980.
PINHO, D. B. Avaliação do Cooperativismo e Modernização da Agricultu-
ra Cooperativista, Brasília, OCB/Coopercultura.1991.
SEBRAE. Qualidade e produtividade da indústria brasileira. SEBRAE, 1995.
Disponível em << http://www.sebrae.org.br/pesq/pcni.htm#p princr
>> consultado em 20/07/1998.
SILVA, E. S. O Agronegócio cooperativo e o Fundo Constitucional de De-
senvolvimento do Nordeste – FNE: análise das cooperativas financia-
das ligadas ao setor pecuário em Pernambuco entre 1990 e 1998.
Recife: UFRPE, 2000. 201p. Tese Mestrado.

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Cooperativismo e desenvolvimento local

Maria Luiza Lins e Silva Pires1

Que local é esse?

Hoje, todo mundo fala em desenvolvimento local e pode-se até mes-


mo admitir que esse assunto virou moda nos meios acadêmicos. Mas
por que tanta preocupação em torno do desenvolvimento local? O
que esse conceito revela? Por que se fala em desenvolvimento local
ao invés de apenas desenvolvimento como no passado? Que local é
esse?Trata-se de uma idéia de desenvolvimento diferente? Vamos,
então, tentar responder por partes. Em primeiro lugar, é possível
admitir que a expressão “local” não surge à toa no atual contexto. O
local traz sempre associado uma idéia de proximidade, vizinhança,
identidade, raízes comuns, expressando, de um modo geral, laços
mais fortes entre as pessoas. Se a gente diz: “eu e Adriana somos de
Bezerros”. Mesmo para os que não nos conhecem bem, são capazes
de admitir que nós duas temos referenciais comuns, e talvez até
tenhamos, quem sabe, algum grau de parentesco se investigarmos a
nossa árvore genealógica. No mínimo, haveremos de conhecer al-
guns festejos comuns à nossa cidade como a “Festa do Papangu”,
por exemplo, entre outros acontecimentos que marcam a nossa vida
social. Já Paulo, André e Cristina são de Caruaru. Com toda certeza,
eles conhecem a “Feira de Caruaru”, o “Alto do Moura” e a “Feira da
Sulanca”. Claro que se os três amigos estiverem dispostos a conver-
sar mais atentamente, vão descobrir muito mais pontos em comum,
não resta dúvida. São esses pontos em comum que revelam a ex-
pressão cultural de um povo de um dado lugar. O fato de sentir

1 Maria Luiza Pires é doutora em sociologia do Departamento de Educação da UFRPE.

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compartilhando com o outro representações culturais semelhantes
imprime, em cada um, uma identidade - de povo de Bezerros ou de
Caruaru. É como se fosse uma “marca registrada”, que alimenta em
cada um de nós um sentimento de pertencimento. É com orgulho
que a gente escuta muitas vezes: “eu sou filho de Bezerros; “eu sou
filho de Caruaru”.
Se é possível associar o local a uma idéia de similaridade entre os seres
no viver juntos, na igualdade, na idéia, portanto, de comunidade, o
local também revela, paradoxalmente, uma idéia de diferença, de di-
versidade cultural e multiplicidade de arranjos que fazem com que
Caruaru e/ou Bezerros tornem-se únicas cidades, sui generis, em rela-
ção a todas as outras cidades do mundo. A idéia de local guarda tam-
bém uma íntima relação com algumas questões complexas da atualida-
de, como: globalização, sustentabilidade, crise do Estado, desempre-
go, violência entre tantas outras. Isso revela que o assunto local não
diz respeito tão somente a um “local” específico, mas revela as articu-
lações de um local, com o todo, isto é, com o global.
Mas o local é apenas um município como Bezerros ou Caruaru? Não.
O local pode ser um continente, um país, uma região, um estado, uma
cidade, um bairro ou até mesmo uma rua ou uma escola. Em todos
esses lugares pode-se perceber elementos comuns que unem os mais
diversos indivíduos. De alguma forma, cada um desses locais, imprime
uma condição de pertencimento, uma identidade específica.
Se já sabemos que local é esse, podemos agora partir para respon-
der o porque de se ter despertado para a questão local nas propos-
tas de desenvolvimento. Pode-se dizer, nesse sentido, que a idéia
de desenvolvimento local, ao contrário de apenas desenvolvimen-
to, traz uma forte referência aos diversos atores locais, na sua ca-
pacidade de ação e de articulação, especialmente num momento
histórico em que se vive a chamada “Crise do Estado”. Isso signi-
fica que preocupações que antes eram típicas do Estado como:
desemprego, violência, atendimento aos desamparados (crianças,
velhos e enfermos) passam a ser também discutidos e assumidos
pelos diversos atores sociais.

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Tal perspectiva traz presente a idéia de que somos co-autores e co-
responsáveis pelo destino de todos nós. Tal perspectiva traz também
presente idéias como democracia, autonomia, autogestão, participa-
ção. “Arregaçar as mangas” ou “mãos a obra”, envolvendo todos os
atores sociais em um projeto coletivo, define a filosofia de trabalho
que está por trás do conceito de desenvolvimento local.
Mas, finalmente, quem são os atores sociais ou atores locais? Os
atores locais somos todos nós, trabalhadores e trabalhadoras dos
mais diversos ramos – agricultura, construção, fábrica, escritório,
comércio, escolas. E o padre é um ator social? Claro. O prefeito, o
vereador também são? Com toda certeza. O associado da coopera-
tiva, a própria cooperativa, o médico, a professora, o artista, o pa-
deiro, todos são atores importantes dentro da idéia de desenvolvi-
mento local. Isso porque, cada um a sua maneira, pode trazer bené-
ficos para a sua comunidade. Isso, naturalmente, se essas pessoas
tiverem compromisso com a sua comunidade, com o local a que
pertencem e dessa forma, se dispuserem a “arregaçar as mangas”.
Potencialmente, portanto, todos somos atores sociais.
Para os propósitos desse curso, vamos situar a cooperativa (através
dos seus associados) enquanto um ator importante no desenvolvi-
mento local. Para isso, é preciso que a gente situe o cooperativismo
na sua capacidade de trazer respostas aos desafios contemporâneos
de globalização de desemprego e de crise do Estado.
O cooperativismo, nessa perspectiva, traz à tona a discussão sobre a
idéia de pertencimento, de participação, de autonomia, de solidarie-
dade que imprimem, junto com a capacidade de “arregaçar as man-
gas”, o sucesso da “fórmula cooperativa”.

Cooperativismo e globalização

De uma forma simplificada, identifica-se a globalização da economia


a partir de três características principais: - o crescimento de impor-
tância dos agentes do mercado global (empresas transnacionais) so-
bre os agentes locais, - a quebra de poder do Estado na condução

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de questões macroeconômicas e - o grande avanço tecnológico que
caracteriza as últimas décadas.
Todas essas questões implicam uma nova divisão internacional do
trabalho, redefinindo o jogo de forças entre os diversos atores locais
/globais, indicando, inclusive, a partir da forma de inclusão ou exclu-
são, quem são os vencedores e perdedores dessa acirrada disputa
(Bonanno, 1994).
Aproximando-se da idéia de diferentes correlações de força, Santos
(1994) nega o caráter homogêneo da globalização, refutando, as-
sim, a idéia de uma única globalização; para ele, há globalizações no
plural. No seu entendimento, essas globalizações expressam proces-
sos singulares de relações sociais movidos por dinâmicas locais; o
que tende a revelar os vencedores e os vencidos a partir de relações
de conflito. Tal concepção expressa a mútua influência que existe
entre o global e o local, como duas instâncias de um único processo.
“Pensar globalmente e agir localmente” vem se tornando um chavão
cada vez mais popularizado. O fato é que dificilmente as discussões
sobre os desafios do cooperativismo podem prescindir de uma avaliação
mais sistemática da relação entre global e local - duas extremidades de
um mesmo processo - a partir de uma relação de mútua influência.
Necessário também é considerar o caráter concentrado e excludente
da globalização, o que dificulta enormemente a estabilidade da rela-
ção entre local e global. Nesse sentido, alguns estudos têm procura-
do demonstrar a importância do cooperativismo enquanto um ins-
trumento eficaz de ligação entre os pólos. Dito de outra forma, tan-
to no que diz respeito à produção quanto à comercialização a via
cooperativa tem se revelado capaz de atender às demandas globais a
partir da organização de atores locais.
Vale ressaltar, que essa capacidade de atender às exigências de um
dado momento histórico não é nova. Se nos voltamos ao passado
percebemos que, desde o advento da Revolução Industrial, o
cooperativismo vem demonstrando grande capacidade de adaptação
às realidades distintas, revelando-se, do mesmo modo, como uma
alternativa de inclusão dos trabalhadores ao modelo produtivo.

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Hoje, principalmente, quando a globalização tem levado um grande
número de pessoas ao desemprego, o cooperativismo ganha uma im-
portância particular. De um modo geral, as práticas associativas estão
sendo identificadas como uma alternativa frente ao desemprego cres-
cente. E o cooperativismo, pelo seu caráter de associação econômica,
vem sendo particularmente ressaltado como uma alternativa de inclu-
são para enfrentar esse período marcado pela grande exclusão social.
As manchetes de jornal são prósperas em associar o cooperativismo
à criação de emprego e renda. Vejamos alguns exemplos:
“Profissionais voltam ao mercado de trabalho” (Diário de Pernambuco,
24/08/1997); “Autogestão contra o desemprego” (Folha de São
Paulo, 22/06/97);
“Saiba como as cooperativas estão driblando o desemprego” (Diário
de Pernambuco, 29/09/96);
“Mulheres se unem para multiplicar renda” (Jornal do Commercio,
02/01/2000)
Intimamente relacionada à criação de empregos, constata-se, habi-
tualmente, uma forte ênfase no conceito de “autogestão”, conforme
pode-se observar nas manchetes abaixo:
• “Cooperativas discutem qualidade e autogestão” (Jornal do
Commercio, 26/01/96)

• “Autogestão ‘salva’ 6.000 empregos até 97" (Folha de São


Paulo, 03/11/96);
• “Autogestão recupera empresas quebradas” (Folha de São
Paulo, 28/09/97);
• “Autogestão é experiência inédita na Região” (Jornal do
Commercio, 05/10/97)
De um modo geral, todas essas manchetes revelam as mais diversas
estratégias de sobrevivência que podem se abrigar sob a “fórmula
cooperativa”. Tais estratégias englobam desde atividades artesanais
até aquelas que necessitam de maiores conhecimentos na área cien-
tífica e tecnológica.

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O cooperativismo entre o local e o global

A relação entre cooperativismo, globalização e desenvolvimento local


é fortemente estimulada pelo fato de que, a partir da organização da
produção e de sua comercialização sob as exigências da globalização,
as cooperativas vêm contribuindo para a potencialização dos locais em
que estão inseridas. Observa-se, com isso, um aumento do poder de
barganha dos produtores, do crescimento do emprego e renda, con-
firmando a perspectiva presente na literatura que identifica as coope-
rativas, ao lado de outras iniciativas empresariais, como uma estratégia
importante dentro da perspectiva de desenvolvimento rural (Prévost,
1996; Pires, 1999; Pires & Buendía, 1999).
Mas a questão não se encerra aí, pois, através de uma forma de orga-
nização local – instituída através de uma empresa cooperativa - os
cooperados podem articular uma rede de relações que não se limita ao
âmbito local, redefinindo as relações entre forças locais e globais.
Vale lembrar, nesse sentido, que não apenas as cooperativas, mas
todo o empreendimento econômico capaz de gerar emprego e ren-
da é capaz de promover o florescimento ou o desenvolvimento de
uma dada localidade, desde, evidentemente, seja uma prática eco-
nômica de reconhecido sucesso. Nesse aspecto, podemos afirmar
que o que define o sucesso ou insucesso das práticas econômicas
está associado à sua capacidade de adequação permanente às trans-
formações produtivas.
É possível constatar, finalmente, que a sobrevivência e crescimento
das organizações econômicas - sejam elas empresas cooperativas ou
empresas capitalistas - depende das estratégias usadas para respon-
der aos desafios da acirrada competição que tem lugar na economia
globalizada.

Bibliografia

BONANNO, Alessandro et al. (org) (1994). From Columbus to ComAgra:


the globalisation agriculture and food. Lawrence (KA), University of
Kansas press.

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Região amazônica e economia solidária:
uma perspectiva de desenvolvimento
integrado sustentável

Ana Maria Dubeux Gervais1

Os anos 90 representaram para todos os países de economia capita-


listas o marco da consolidação de uma série de transformações es-
truturais provocadas pelo capitalismo que produzem impactos na
forma de organização social e econômica dos mesmos. E como não
poderia deixar de ser, num contexto de economia globalizada, é tam-
bém nesta época que o Brasil é atingido em cheio por tais transfor-
mações. Em termos globais, a humanidade avança no conhecimento
tecnológico, mas apesar disso, todas as sociedades do planeta en-
frentam o desafio de definir e implementar vias de desenvolvimento
capazes de conciliar prudência ecológica com viabilidade econômica
e justiça social. Trata-se de um desafio que, antes de tudo, é político,
uma vez que a sua aceitação depende da vontade consciente de uma
determinada coletividade.
Neste texto, tentaremos indicar alguns dos aspectos a serem consi-
derados mais especificamente quando tratamos do desenvolvimento
da região norte de nosso país. Considerada o pulmão do mundo, a
Amazônia é hoje o centro de preocupações de todos os países que
compõem a chamada aldeia global. E, de uma maneira geral, o Bra-
sil, país que detém uma enorme biodiversidade sofre pressões exter-
nas e internas importantes a respeito do uso e da conservação da
biodiversidade da região.
No entanto, nem todos os ecologistas e chefes de governo do mun-
do inteiro que clamam pela preservação da Amazônia, como garan-

1 Professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, doutora em Sociologia pela


Université de Paris I, Coordenadora da Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares
da UFRPE.

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tia de uma sobrevida mais longa às populações do planeta, reconhe-
cem que parte do problema está relacionado às relações desiguais
que estabelecem os hermisférios norte e sul deste mesmo planeta.
Para bem dizer, o efeito estufa, o buraco ozônico e a erosão
biogenética indicam, com clareza, que durante o século XXI a con-
servação e as formas de aproveitamento dos recursos naturais se
tornarão questões-chaves dentro de uma aldeia global que, do pon-
to de vista social, está profundamente dividida. Convém lembrar que,
entre 1960 e 1991, os 20% mais abastecidos da população mundial
aumentaram a sua parcela de toda a riqueza produzida de 70% para
85% enquanto, no mesmo período, os 20% mais pobres viram a sua
parte reduzida de 2.3% para 1.4% (Hauchler,1995). Neste sentido,
é óbvio que a maneira pela qual os moradores dos diversos “bairros
da aldeia global” encaram e tratam o ambiente natural está direta-
mente dependente de sua condição sócio-econômica.
Como afirma IBIRIBA (2004), “pode-se dizer que, se de um lado,
ecologistas radicados nos países da Comunidade Européia ou nos
Estados Unidos (dispondo, geralmente, de condições de segurança
social da data do seu nascimento até o momento de sua morte)
destacam, com toda a razão, que a proteção das florestas tropicais e,
conseqüentemente, de sua incomparável biodiversidade é um insumo
de fundamental importância para a sobrevivência das futuras gera-
ções da espécie humana na “aldeia global”, por outro lado, campo-
neses na Amazônia ou nas partes africanas e asiáticas do cinturão
tropical, que praticam o sistema de corte-e-queima da agricultura
itinerante, provavelmente terão problemas para entender e aceitar
essas preocupações. Diante da pressão externa, que insiste em uma
rigorosa dieta econômica, apequena-se o Estado, transferindo-se aos
grupos econômicos, de qualquer origem, setores importantes da
economia nacional, através da privatização. Porém, diante das impo-
sições externas pela conservação ambiental, os países periféricos, na
maioria dos casos, não conseguem responsabilizar todo o sistema
político global por essa conservação, e, também, pela reprodução
econômica das massas populacionais pobres ou miseráveis que, de

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uma maneira ou de outra, sobrevivem utilizando, predatoriamente,
esses mesmos recursos.”
Para pensar alternativas de desenvolvimento para a região que impli-
quem em conservação de sua rica biodiversidade, temos que tomar
como ponto de partida que esta questão não pode ser pensada iso-
ladamente. Ao contrário, temos que ter claro que devemos enfrentá-
la de forma holística, vendo que articulações e interfaces a região
estabelece com o país e o mundo. O desenvolvimento da região
deve então ser pensado na perspectiva do desenvolvimento susten-
tável, que tem como premissa o atendimento das necessidades da
geração atual sem comprometer a habilidade de gerações futuras em
atender as suas necessidades. Além disso, temos que entender que
diferentes dimensões perpassam a discussão da temática do desen-
volvimento sustentável da região norte, tais como a política, a eco-
nômica, a social, a cultural, a ambiental, entre outras. É fundamental
então salientar que um projeto de desenvolvimento sustentável para
a Amazônia, tem que estar sobretudo calcada sobre uma proposta
de desenvolvimento humano que tenha como eixo a inclusão sócio-
econômica de milhares de trabalhadores que lá habitam e que histo-
ricamente (desde a época da colonização) têm sido proibidos de se
apropriar de seu próprio território. Uma proposta que se preocupe
com a redução dos índices de pobreza, proporcione uma maior arti-
culação de atores - sociedade civil, governo, iniciativa privada - para
o desenvolvimento sócio-econômico e apresente como eixo central
o estabelecimento de políticas articuladas de conservação ambiental.
É nesta perspectiva de articulação que queremos apontar a econo-
mia solidária, como um novo paradigma para se pensar políticas de
desenvolvimento sócio-econômico para a região. É importante res-
saltar que uma tal análise, não pode ser feita à partir de um olhar
meramente econômico, mas um olhar plural onde os elementos an-
tropológicos, sociológicos, etnológicos entre outros são imprescin-
díveis para uma compreensão do econômico. Esta perspectiva, influ-
enciada particularmente pela pesquisa de Karl Polanyi (1983) sobre
a origem política e econômica de nosso tempo, que tem inspirado

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múltiplos trabalhos nas mais diversas áreas do conhecimento, distin-
gue quatro princípios básicos no comportamento econômico, cada
um entre eles associado a um modelo institucional. Segundo França
Filho & Laville (2004, p. 32 e 33), tais princípios são:
• O princípio da domesticidade
domesticidade, que “consiste em produzir
para seu próprio usufruto, ou seja, a prover as necessidades
do seu grupo (...) (...)O modelo da domesticidade é o grupo
fechado. O que determina o núcleo institucional é indiferente,
pode ser o sexo (como em relação à família patriarcal), o lugar
(como em relação ao vilarejo), ou o poder político (como em
relação ao poder senhorial)”.
• O princípio da recipr
reciprocidade
ocidade, que corresponde “à relação
ocidade
estabelecida entre várias pessoas, por meio da seqüência du-
rável de dádivas. A reciprocidade é por consequência fundada
sobre a dádiva como fator social elementar – a existência da
dádiva ligada a uma contra-dádiva. O aspecto essencial da
reciprocidade é que as transferências são indissociáveis das
relações humanas”.
• O princípio da redistribuição
redistribuição, segundo o qual “a produção
fica a cargo de uma autoridade que tem a responsabilidade de
distribuí-la, o que supõe um momento de armazenamento entre
aqueles da recepção e repartição. Ele supõe uma autoridade e
uma divisão do trabalho entre os representantes desta autori-
dade e os outros membros do grupo humano. Entretanto, seja
ela a tribo, a cidade-Estado, o despotismo ou a feudalidade, o
chefe, o templo, o déspota ou o senhor estarão no centro
deste modelo e a maneira como praticam a redistribuição é
muitas vezes um meio de aumentar o seu poder político”.
• O princípio do mer cado
mercado
cado, que “se caracteriza como um lugar
de encontro entre a oferta e a demanda de bens e serviços
para fins de troca. O mercado possui, então a particularidade
de funcionar segundo o registro de um modelo institucional
que lhe é próprio: a troca, repousando sobre um equilíbrio

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entre oferta e demanda. (...) A troca pode assumir a forma de
pagamento em espécie quando o demandante não paga o preço
fixado em moeda mas em bens ou serviços. A troca pode as-
sumir a forma de escambo quando a troca de bens e serviços
não passa pelo intermédio de um equivalente geral, mas se
opera através de uma relação de equivalência simples
estabelecida entre dois conjuntos considerados pelo
demandante como do mesmo valor.”
No entanto, historicamente, pouco a pouco, os seres humanos, na
sociedade capitalista, foram esquecendo que existem outros princí-
pios econômicos e transformaram o mercado, que nos primórdios da
existência humana servia como lugar de encontro entre oferta e de-
manda, num mito. A partir daí, o princípio do mercado passa a ser o
dominante, e por conseguinte, é ele quem baliza a maior parte das
relações econômicas existentes. E, paradoxalmente, isto é às vezes
verdade mesmo para aqueles que de uma maneira ou de outra foram
excluídos da participação neste mesmo mercado.
Se partimos da aceitação destes princípios como sendo a base das
relações entre economia e democracia, nós podemos então reco-
nhecer na sociedade contemporânea três pólos de análise: a econo-
mia mercantil ou de mercado, a economia não mercantil (Estado) e a
economia não monetária, onde observamos uma enorme pluralidade
de trocas; pólo onde o trabalhador se coloca na perspectiva de troca
gratuita e desinteressada que se baseia principalmente nas relações
que consolidem seus vínculos com a sociedade; pólo que é extrema-
mente importante na construção da própria economia de mercado.
Assim, a economia solidária define-se como uma economia plural
que se baseia na hibridação dos principios econômicos da
domesticidade, da reciprocidade, da redistribuição e do mercado
que reconcilia o econômico e o social que se move a partir de um
impulso reciprocitário entre individuos e se consolida na sociedade
através da construção de espaços públicos autônomos. E o que seri-
am estes espaços públicos autônomos no caso brasileiro ? A partir
dos anos 80, no mundo inteiro, mas mais especificamente nos países

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periféricos, o processo de globalização da economia se acelera, e os
impactos da reestruturação produtiva são cada vez mais fortes, ex-
cluindo milhares de trabalhadores do mercado formal de trabalho.
Estes trabalhadores, à exemplo do que aconteceu anteriormente na
Europa do século XIX, se organizam para descobrir caminhos para o
enfrentamento destas mudanças, através da criação de cooperativas
populares, que se distanciam do sistema formal do cooperativismo
brasileiro vinculado à OCB e se organizam em sistemas próprios; de
grupos informais de produção, de empresas autogestionárias, entre
outros. Como afirma Gaiger (2001, p. 109),
“Num verdadeiro polimorfismo, os empreendi-
mentos organizam-se hoje das mais diversas for-
mas, como associações informais ou grupos de
produção de caráter seguidamente familiar e co-
munitário ou, ainda, cooperativas de trabalhado-
res e empresas de pequeno e médio porte. Na
linha de frente, perfilam-se hoje empresas
autogeridas vinculadas à ANTEAG2, cooperati-
vas de produção e prestação de serviços e cente-
nas de grupos e cooperativas agropecuárias, im-
plantadas nos assentamentos da reforma agrária,
sob a batuta do MST.”
Nós acreditamos que, embora com contornos próprios e diferencia-
dos dos países desenvolvidos, a economia solidária no Brasil aconte-
ce a partir da articulação política de diferentes polos da economia,
mas talvez, a nossa grande diferença seja que o motor do seu cresci-
mento seja o fato de que quantitativamente, o número de indivíduos
excluídos de um ponto de vista sócio-econômico seja muitas vezes
maior que nos países desenvolvidos. Assim, numa perspectiva de um
novo sentido de vinculação entre o econômico e o social, a econo-
mia solidária assume em nosso país uma multiplicidade de formas

2 Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação


Acionário; em 1999 congregava 52 empresas e 15 mil trabalhadores.

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que no nosso entender se organizam em três grupos principais de
atores, todos importantes na sua consolidação:
• O grupo de organizações que apoiam os trabalhadores em
suas iniciativas de economia solidária, constituído por ONG’s,
associações, universidades, igrejas, associações de trabalha-
dores autogestionários, entre outros.
• O grupo de organizações criadas pelos trabalhadores eles
mesmos com o objetivo de encontrar novas alternativas de
inserção sócio-econômica. Neste grupo, encontramos princi-
palmente as cooperativas, as empresas autogestionárias, os
grupos produtivos rurais e urbanos, de pequeno porte, que
nem sempre possuem um estatuto jurídico, como por exem-
plo alguns dos desenvolvidos pelo MST, entre outros.
• O grupo de gestores públicos que tem se consolidado cada
vez mais, por um lado, através da criação da Secretaria Naci-
onal de Economia Solidária (SENAES) e por outro através do
aumento significativo (principalmente em prefeituras vincula-
das ao partido dos trabalhadores) de criação de diretorias ou
secretarias municipais de economia solidária.
No caso da região norte, por exemplo, vários são os atores que vêm
de uma maneira ou de outra trabalhando na direção da construção
de uma proposta de desenvolvimento integral para a região. Uma
proposta que não vise apenas um desenvolvimento econômico da-
queles que detém o capital, mas que seja inclusiva daqueles que
historicamente têm sido colocados à margem de tal sistema. Pensar
o desenvolvimento da região significa em construir coletivamente
com os diferentes atores que podem possibilitar a ampliação, forta-
lecimento e consolidação das iniciativas de economia solidária um
novo caminho. Um caminho que traga novas perspectivas de desen-
volvimento que visem a recuperação e o respeito aos ecossistemas
naturais (floresta, várzea e cerrado) da região para, através de uma
proposta de desenvolvimento sustentável, planejar a reinserção só-
cio econômica de milhares de amazonenses (onde incluímos os po-

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vos da floresta) excluídos de um ponto de vista social e econômico.
Uma proposta onde a interconexão entre consumidores, poupado-
res e produtores seja possível com vistas ao estabelecimento de re-
des sociais que dêem suporte ao estabelecimento de novas relações
econômicas entre os povos da região.
Para concluir, apontamos nesta reflexão apenas alguns elementos
para a real necessidade de não mais pensar a região amazônica ape-
nas do ponto de vista da sua biodiversidade natural, mas também da
sua biodiversidade humana. O paradigma da economia solidária se
coloca então como uma possibilidade, uma vez que o mesmo, pou-
co a pouco já se manifesta na prática cotidiana dos trabalhadores
excluídos do mercado formal de trabalho. A partir deste paradigma,
poderíamos talvez pensar na construção de um verdadeiro desenvol-
vimento integral sustentável para a região.

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Desenvolvimentos, uma perspectiva plural

Jorge Roberto Tavares de Lima1

Sem pretensão, mais ousando. Uma abertura.

Este artigo tem a pretensão de registrar algumas observações de


alguém encantado com a Amazônia e suas potencialidades. De um
sonhador que decepcionado com os rumos do modelo de desenvol-
vimento hegemônico, procura saídas. De um inquieto e atrevido que
sem um conhecimento profundo da Amazônia, ousa indicar possibi-
lidades. De um agrônomo e de um homem que acredita no reencon-
tro do homem com natureza e percebe a agroecologia como uma
estratégia desta reunificação. Para isso parte de uma constatação já
realizada por muitos, da existência de uma crise global, que Capra
(1982) identifica como uma crise de percepções. Porém, ousando
sair do diagnóstico e da constatação da existência da crise, para uma
perspectiva propositiva, de construção na linha defendida por Garri-
do Peña (1996) de um pacto social pela vida.

Questão ambiental

Atualmente, a questão ambiental é um tema presente em todos os


espaços. Na imprensa internacional e nacional registra-se catástrofes
ambientais. O ser humano redescobre a importância da saúde e,
portanto, de um meio ambiente saudável. Rediscute-se a questão da
alimentação, fazendo-se uma distinção entre comida e alimento. Tal-
vez a maior e mais importante discussão seja a questão dos
transgênicos ou alimentos geneticamente modificados de forma
massiva. Um aspecto deve ser destacado. De maneira geral, os mo-
vimentos ecologistas não defendem uma volta ao passado. Não se

1 Professor do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

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posicionam contra o avanço da tecnologia. Pelo contrário, têm-se a
ciência como aliada para uma vida de qualidade.
A agricultura exige um repensar na direção da sustentabilidade. A
discussão sobre o meio ambiente ganha contornos nítidos não só
em relação à produção, mas também, na conservação e manejo do
meio ambiente.
O Brasil vive um momento especial. Após o processo de
redemocratização, se alcançou no momento uma estabilidade eco-
nômica que se deseja permanente. Mas as contradições sociais são
muito fortes para serem ocultadas ou ignoradas. Amplia-se a consci-
ência que a questão não se localiza somente no crescimento ou de-
senvolvimento. Exige-se uma qualificação neste processo e que este
tenha como princípio a inclusão social e o resgate da marginalidade
de parte significativa da população brasileira. O desafio não é so-
mente crescer, desenvolver, mas crescer incorporando e incluindo
pessoas, de forma que se tenha para a população, qualidade de vida.

Correções de estratégias e de conceitos

Este repensar sobre políticas públicas implica em estabelecer res-


ponsabilidades que não podem e não devem se circunscrever apenas
no âmbito do aparelho governamental seja federal, estadual ou mu-
nicipal. O desafio é da sociedade e não apenas a brasileira, mas a
mundial. Exige-se redesenhar, inclusive, o papel do estado e dos
organismos internacionais neste processo, de forma que eles sejam,
principalmente, formuladores de políticas participativas e com forte
caráter de inclusão. Sendo um desafio mundial, a sociedade deve
pressionar para mudanças urgentes nos organismos internacionais.
O mundo mudou e são necessárias correções enérgicas, não apenas
de estratégias, mas de conceitos.
Na agricultura não poderia ser diferente. Depois de várias revo-
luções no campo, a começar pela “intensificação dos sistemas
rotacionais, com plantas forrageiras e pela fusão da atividade agrí-
cola e pecuária” Ehlers (1999:139) no século XVIII. Segue-se as

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transformações com a introdução de uma série de conhecimen-
tos científicos e principalmente no início do século XX com o uso
do combustível fóssil. A agricultura vai se transformando no se-
tor de fornecimento de matéria prima para a indústria,
notadamente depois da segunda guerra mundial, com o que se
denominou chamar de revolução verde, que no Brasil se intensi-
fica a partir de 1970.

Afastamento da natureza

Vários elementos podem ser elencados para uma análise. Destaque-


se dois, para efeito de análise neste texto. O primeiro é o progressivo
afastamento do homem da natureza neste processo. Surge uma nova
crença. A certeza que a tecnologia resolve tudo. A segunda, a nega-
ção dos conhecimentos tradicionais. De repente, descobre-se a
modernidade e esta é entendida também como contrária aos conhe-
cimentos tradicionais. O que é tradicional é atrasado, não é moder-
no. Moderno é a competitividade, é o uso de alta tecnologia, é a
negação de uma identidade e o assumir outra forma de vida. Dos
outros. É a importação de valores. É ser do “primeiro mundo”.
É a agricultura de escala, de grandes produções. Para atender a lógi-
ca da industria, necessita-se da especialização, perde-se a diversida-
de, pela priorização de monocultivos. Ampliam-se a produção de
grãos, não somente para alimentar a população, mas e principalmen-
te, para alimentar os animais. As galinhas, os porcos, o gado passam
a serem confinados e se necessita de alimentos para estes. A agricul-
tura se especializa e torna-se um setor totalmente dependente capi-
tal financeiro e industrial.
Em realidade este não é um processo iniciado recentemente, como
parece. Ele tem seus fundamentos, em 1535, quando Portugal deci-
de colonizar o Brasil. Acrescente-se. Forçado por Holanda e França
que contestavam o “direito divino” da posse destas terras. Quais os
princípios adotados então? A agricultura em grandes áreas (latifún-
dio) e especialização (monoculturas). Surgem inicialmente os enge-

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nhos de açúcar e depois as usinas. Lançam-se as bases de uma agri-
cultura industrial, onde inclusive se precisa importar a mão de obra
(escravidão). Em 2004, percebem-se as mesmas bases, impera o
latifúndio2, a monocultura e a exclusão. Mas surge uma novidade, a
biotecnologia. Uma continuação da “revolução verde”. Que contri-
bui para alimentar a ideologia de que a técnica encontra solução
para tudo. Mas na realidade não resolve a exclusão, a perda da
biodiversidade, a crise ecológica.
Mas não foi uma caminhada tranqüila. Surge a resistência dos índios.
As lutas dos negros. A insubordinação dos excluídos. Lutas e mais
lutas, contestando o “modelo” implantado e que as elites continuam
a reafirmá-lo. Pensam que é possível ajustar, conceder aqui e ali, que
está tudo bem. As lutas e a organização popular sinalizam o contrá-
rio. Indica de forma clara a urgência por alterações. Há necessidade
de mudanças de rumo e de modelo. Porque a crise chegou forte e o
planeta agoniza.

Crise de civilização

O progresso da humanidade se a princípio é lento, o mesmo se


acelera a partir da segunda metade do século XX e em apenas
trinta anos, se alcança uma crise de civilização, que se materializa
por um desequilíbrio na natureza, perda de solos, contaminação
de lençóis freáticos, perda da diversidade, perda de referenciais
teóricos. Enfim, uma crise de grandes proporções, por isso uma
crise da civilização. Crise que se pode até ignorar a miséria, produ-
zida pelo nosso modelo, mas não pode ignorar o perigo da conta-
minação ambiental. Os ricos podem ignorar a miséria, mas não
podem ignorar a contaminação. Porque queiram ou não, atinge a

2 Latifundio não significa apenas concentração de terras. Significa acumulação, violencia,


desrespeito e manutenção de privilegios. Shiva procura mostrar, analisando o sistema de
saber enquanto sistema de poder, ”que as monoculturas ocupam primeiro a mente e
depois são transferidas para o solo. As monoculturas mentais geram modelos de produção
que destroem a diversidade e legitimam a destruição como progresso, crescimento e
melhoria.” (Shiva, 2003:17).

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todos. (Beck 1998). Isto em apenas trinta anos. É a velocidade da
tecnologia intensificando processos, derrubando conceitos, esta-
belecendo novos paradigmas.

Novos conceitos ou novos discursos

Surgem novos conceitos. Desenvolvimento sustentável.


Ecodesenvolvimento. Agroecologia. Desenvolvimento local. Mas até
que ponto estes são novos conceitos? Até que ponto estes não são
apenas novas expressões de velhas situações ou de velhos desejos?
Será que efetivamente se buscam mudanças? Até que ponto quere-
mos enfrentar os privilégios? Estamos mesmos preparados e nos pro-
pomos a enfrentar e construir um processo novo? Estamos compro-
metidos com outro desenvolvimento?3
Para continuar esta reflexão, considere-se que sim. Queremos avan-
çar. Queremos um desenvolvimento que seja duradouro e includente.
Queremos que os netos de nossos netos tenham um planeta onde
possam viver.
Quais seriam nossos caminhos? Que estratégias deveriam ser percorri-
das? Que princípios norteariam esta construção? Existem muitos estu-
dos, muitas pesquisas, muitas avaliações e indicações sobre estas ques-
tões. Também existem poucas coincidências sobre estas respostas.
Vamos agrupar em duas grandes linhas. Uma, considerando uma
reaproximação do homem com a natureza. Outra mantém o domínio
do homem sobre a natureza, ou seja, sua separação. Neste segundo

3 Alonso Mielgo e Sevilla Guzmán (1995), discutem esta questão na perspectiva do


entendimento da crise ecológica na perspectiva dos organismos internacionais. Afirmam
que a construção teórica ecotecnocrata transmite uma mensagem que o planeta está
em perigo, não porque os paises ricos e industriais desenvolveram uma forma de
produção e de consumo com alto desperdício de energia e recursos, contaminante e
destruidora dos equilíbrios naturais. Mas, porque, os paises pobres tem um grande
crescimento populacional e por isso destrói florestas, destroem o meio ambiente, tocam
fogo etc. Na realidade estes organismos internacionais, com um falso discurso
ecotecnocrático, defendem um falso ecologismo em um também falso desenvolvimento
sustentável por eles propugnado. Os diagnósticos são distorcidos e as soluções são
indicadores de boas intenções sem nenhum comprometimento com sua execução e
implementação.

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caso, a natureza é para ser explorada e conquistada totalmente e para
isso se exige mais pesquisa, mais tecnologia e conquistas, inclusive de
novos mundos. Continua a exclusão de homens, de animais, da natu-
reza. Creio que não há necessidade de avançar muito nesta direção. A
situação do mundo hoje, já revela a impropriedade de seguir trilhando
este caminho. As pequenas correções de rumos já revelaram que são
inconsistentes. Aumenta a concentração de renda e de poder. Aumen-
ta as catástrofes naturais, sociais e políticas. Porém, são muitos os que
acreditam que a tecnologia vai trazer as soluções que se precisa. Que
ela é capaz de recuperar determinadas situações. Isto só revela uma
cosmovisão, onde a técnica é o centro do processo civilizatório e a
tecnologia, sua manifestação e expressão ideológica.

Mudando o rumo

Vamos mudar o ruma desta prosa. Vamos tentar trabalhar em outra


direção. No encontro do homem com a natureza. Vamos buscar
uma cosmovisão onde o ser, se materializa no concreto e no simbó-
lico. Aliás, aquilo que chamamos de concreto é fruto de nossa per-
cepção, do nosso simbólico, do nosso imaginário. (Castoriades,1982)
Mas é pensar no homem nas suas múltiplas dimensões, inclusive a
espiritual, que necessariamente não significa religiosidade. É traba-
lhar na complexidade dos elementos que compõe a vida. Nos pro-
cessos auto-organizativos e complexos através da neguentropia.
(Morin, 1997). Nas cadeias tróficas. Na diversidade e complemen-
tariedade. Em uma nova racionalidade ambiental. (Leff,2002).
Na recuperação dos conhecimentos tradicionais. Na etnoecologia
como expressão de uma compressão do tradicional, para avançar na
construção de um novo, comprometido com suas raízes. (Toledo,
2002). Pela co-evolução dos conhecimentos, valores, organizações
sociais, tecnologia e sistemas biológicos (Norgaard,1989). No
entendimento de uma racionalidade camponesa ou indígena, onde a
reprodução de sua família é o centro de suas estratégias.
(Chayanov,1974), (Shanin, 2001)

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Vamos pensar na agroecologia, como expressão de um método e de
uma nova área de conhecimento, que busca uma agricultura ecoló-
gica (Altieri, 2001), (Gliessman, 2002) e um desenvolvimento sus-
tentável (Sevilla Guzmán e Woodgate, 2002). Ë pensar no desenvol-
vimento e em uma agricultura sustentável como um processo de
transição, construído social e participativamente, tendo como base
teórica, a agroecologia. (Caporal e Costabeber, 2004). Partindo dos
agroecosistemas, como unidade/totalidade de análises e de inter-
venções. De forma peculiar, diferente, própria. Trabalhando com as
diversas dimensões e campos das ciências. Avançando e construindo
um conhecimento especifico, próprio, onde não há fórmulas pré-
estabelecidas. Aceitam-se princípios e metodologias. Como cami-
nhos de uma construção.

Alguns princípios

Alguns princípios poderiam ser listados para esta proposta de de-


senvolvimento sustentável. A valorização do conhecimento endógeno
e das potencialidades locais; o desenvolvimento local sustentável; a
participação da família do agricultor em todas as fases e etapas do
projeto; considerar os aspectos de gênero, etnia, raça e geração; o
caráter inter e multidisciplinar da intervenção do início até o fim.
Ecossistemas como unidade de análise e intervenção. O diálogo de
saberes. Shiva (2003:15) recomenda que “adotar a diversidade como
forma de pensar, como um contexto de ação, permite o surgimento
de muitas opções.”

Um desenvolvimento diferente?

Esta construção parece indicar a necessidade de considerar como


elemento determinante o meio ambiente. Discutir propostas de de-
senvolvimento implica considerar os diferentes meios ambientes.
Resulta, portanto, discutir diferentes desenvolvimentos. Nesta linha,
a Amazônia é um grande desafio e uma grande oportunidade. Têm-

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se a floresta e a exigência de sua continuidade, para manter as pos-
sibilidades de configurar um desenvolvimento. Oportunidade pelo
seu caráter único da maior floresta tropical do mundo. Em sendo
assim, configura-se uma extraordinária diversidade. Diversidade ve-
getal e humana. Ao mesmo tempo, em que se constitui um
ecossistema também singular. Região onde se concentra maior po-
pulação indígena do país. O que sinaliza para aa existência de um
conhecimento tradicional da floresta. Schröder (2003:42) defende
“que os indígenas manipulam ativa e conscientemente o meio ambi-
ente” e cita como exemplo desta complexa manipulação as “ilhas de
recursos”4 dos Kayapó-Gorotire. Região, afortunadamente pouco
desenvolvida. Mas com grande potencial para um desenvolvimento
diferenciado. Nesta direção é fundamental entender, compreender,
analisar a “modernidade” e a crise de civilização provocada por este
tipo de desenvolvimento. A crise do mundo é uma crise do capital.
Cabe, neste ponto, alguns questionamentos, por que repetir o mes-
mo estilo e modelo de desenvolvimento de outras regiões? Por que o
caminho é a industrialização, a devastação, o desrespeito ao meio
ambiente, a concentração e a exclusão? Quais são os elementos
diferenciadores que indicam possibilidades de avanços? Será que há
alguma dúvida que adotando o modelo clássico de desenvolvimento,
na realidade se está contribuindo para agravar a atual crise mundial?

Ambiente inadequado?

São muitas as perguntas. Porém existem umas poucas certezas. No


caminho já iniciado de uma agricultura dita “moderna” altamente
dependente de capitais externos a propriedade. O resultado a médio

4 Estes indígenas seminômades criaram dentro de suas migrações sazonais áreas produtivas,
chamadas de apêtê , em analises de Andersen &Posey (1989) em uma destas ïlhas”foram
identificadas 120 especiés, com 98% delas de utilidade para os Kayapó, como (72%)
planats medicinais, para atrair caças 940%), alimentícias (25%), lenhosas (12%), para
adubar (8%), para oferecer sombra a outras plantas (3%) e para outras utilidades (30%).
&0% destas plantas seriam plantadas e manejadas. (Schröder:2003:43). Pode-se indicar
como analogía hohe, os SAF’s.

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e longo prazo é a destruição da floresta e de sua biodiversidade,
para implantação da monocultura. Nesta perspectiva deste desen-
volvimento, pode-se entender a tese de Meggers (1954) que a flo-
resta tropical é um ambiente inadequado ao sustento de sociedades
mais complexas. Pode ter razão, principalmente, se esta sociedade
não considera as peculiaridades locais do meio ambiente. Negando
esta tese está a existência de aproximadamente dois milhões de indí-
genas, no século XVI, vivendo, produzindo, exportando,
comercializando produtos e interagindo com a floresta de forma ati-
va e conseqüente, na maioria das vezes. O desequilíbrio ocorre, com
a chegada dos “civilizados”, atrás de ouro e pedras preciosas, dizi-
mando, o meio ambiente. Homens, mulheres, animais, floresta são
reduzidos à mercadoria e ocidentalizados, na perspectiva do capital
e da cultura dos europeus. É este o desenvolvimento que se tem
como referência?
A Amazônia, no mundo, é sinônima de meio ambiente. Turistas de
paises que destruíram suas florestas vêm conhecer as nossas. Expe-
dições de pesquisadores, oficiais ou não, adentram na floresta na
busca de suas preciosidades. Hoje, não somente minérios, ouros,
mas também da biodiversidade. A exportação de peixes ornamen-
tais, pássaros, animais e tantas outras coisas é uma constante. Legal-
mente ou não. Madeira de lei que revestiram palácios, no passado,
no presente continuam sendo contrabandeadas para decorar casas
de outras pessoas fora da região. Reconheça-se, “eles” conhecem a
Amazônia, bem mais que nós. E aí, surge um enorme desafio: a
necessidade de se conhecer e conhecer bem este magnífico
ecossistema. Conhecer não apenas para identificar onde existem mi-
nas de metais preciosos. Mas, conhecer sua fisiologia, sua cultura,
seu manejo. É imprescindível uma aproximação com o conhecimen-
to tradicional. É fundamental o estabelecimento de um diálogo de
saberes. Sem preconceitos. Com respeito às diferenças e às distintas
cosmovisões. Com o intuito de construir um conhecimento coletivo
a partir das experiências e das vivências locais. Que, diga-se de pas-
sagem, não são poucas. Existem SAF’s, as experiências com

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Permacultura. Os consórcios vegetais. Manejo da floresta com pou-
co impacto ambiental. Uso medicinal e extrativista. Experiências de
pesca e de manejo de pescado. Conhecimentos, vários, que funda-
mentam um desenvolvimento diferenciado.

Turismo e biodiversidade

Um projeto de desenvolvimento diferente, onde políticas públicas se-


jam formuladas para estrategicamente fortalecer duas direções. Uma,
o turismo e outra, a biodiversidade. Estas dimensões têm inúmeros
desdobramentos. Um turismo que não seja simplesmente a oferta de
bons hotéis com programas de incursões ecológicas. Mas um turismo
que alie, hotéis, incursões ecológicas, com apresentação de distintas
manifestações culturais e serviços, seja através da dança, do artesana-
to, da comida, da biodiversidade. Vale salientar que não é de hoje que
a cultura na Amazônia desperta admiração. Carvajal (1941:47), assim
relata sua impressão sobre a cerâmica. “... a melhor que já se viu no
mundo, porque a ela nem a de Málaga se iguala. É toda vidrada e
esmaltada de todas as cores, tão vivas que espantam e, além disso, os
desenhos e pinturas que fazem nela são tão compassados que com
naturalidade eles trabalham tudo em romano.”
Quando se fala da biodiversidade, têm-se visões múltiplas de suas
possibilidades. Captação de carbono. Indústria farmacêutica. Indús-
tria de cosméticos. Patenteamento de espécies raras e exóticas.
Extrativismo. O pescado e sua indústria. Doces e sucos. Orquídeas.
Animais e plantas que não conhecemos e que não existem em outra
parte do mundo. Uma diversidade de opções. Porém, estas alterna-
tivas exigem uma floresta.
Mas, possibilidades diferentes do modelo convencional. Por isso, com
amplas perspectivas de fundamentar um desenvolvimento efetivamen-
te sustentável cujo resultado, seja a inclusão social e o envolvimento
ativo da população no manejo adequado de seus ecossistemas.
Qual a novidade destas propostas? Por que não existem políticas
públicas nesta direção? A população quer um desenvolvimento nes-

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ta direção? Esta proposta é absurda? Inconseqüente? Quantos já fi-
zeram, com mais competência e mais detalhes propostas nesta dire-
ção e não foram sequer escutados? Estas propostas são contra um
projeto de desenvolvimento? Estas propostas significam uma volta
ao passado e voltar a viver em malocas e não ter acesso à tecnologia
e às inovações?

Necessidade de conhecimentos

Claro que não. Esta é efetivamente uma proposta de desenvolvimen-


to. Aonde se necessita cada vez mais de tecnologia. Exigem-se mais
conhecimentos. Alias, este é um fator de desenvolvimento e com
amplas perspectivas de exportação. Conhecimento do manejo ade-
quado e apropriado da floresta amazônica. Esta proposta traz em si
uma necessidade de avanço cientifico, porém a partir de outros
paradigmas. Morin (1991:17) diz que “todo conhecimento, incluin-
do o conhecimento cientifico, está enraizado, está inscrito em e é
dependente de um contexto cultural, social, histórico. Porém o pro-
blema consiste em saber quais são estas inscrições, enraizamentos,
dependências e perguntar-se se pode haver, e em que condições,
uma certa autonomia e uma relativa emancipação do conhecimento
e da vida”. Qual o conhecimento amazônico? Qual o conhecimento
que reflete e responde ao contexto cultural, social, histórico e natu-
ral da Amazônia? Este conhecimento poderá apontar para um de-
senvolvimento sustentável. Mas, com certeza o conhecimento pro-
duzido em outro contexto cultural, social, histórico e natural se
implementado na Amazônia poderá concorrer para uma catástrofe e
não para um desenvolvimento.

Para concluir

O mundo muda a cada instante porque é formado por entes vivos.


Assim, na dinâmica do processo não se pode analisar em uma pers-
pectiva estática. As mudanças acontecem seguidamente. Algumas para

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melhor e outras para pior. Por se pensar que o mundo é uma matéria
prima para o capital, chega-se a esta situação de esgotamento. Há um
enfraquecimento e um estado débil de vida, com um aumento cada
vez maior e mais presente de mortes. Esta separação do homem da
natureza nos leva a uma crise de civilização. Configura-se depois de
muitos anos nesta caminhada a constatação que muitas estratégias
foram equivocadas. Talvez a maior delas, foi a opção por acumular
riquezas e a estratégia antropocêntrica de dominação da natureza.
Schumacher, (1981) alerta que é um equivoco pensar que está re-
solvido a questão da produção e destaca a batalha do homem contra
a natureza. Registra-se, porém, que não há crise para o capital. Este
está cada vez mais bem remunerado, cada vez mais concentrado,
cada vez mais excludente. E, as pessoas na Universidade, nos órgãos
de desenvolvimento, nas agências de cooperação técnica têm uma
enorme responsabilidade. Precisa-se assumir uma postura favorável
na direção de contribuir para efetivas mudanças. Precisa-se repensar
a maneira de agir em casa, no trabalho, nas relações pessoais e pro-
fissionais. Precisa-se olhar a volta e analisar efetivamente que mundo
se quer construir. Analisar e aprofundar os conhecimentos sobre a
proposta agroecológica e criticando-a, reconstruindo-a, reelaborando-
a, identificando-a se pode ser uma ferramenta, uma metodologia e
uma epistemologia. Que permita subsidiar e fundamentar o cami-
nhar para mudança de paradigmas e de reafirmação de sonhos, que
implantados, leve a construção de outro modelo de sociedade. Que
pode ser em uma comunidade, em um grupo, ou individualmente.
Marx-Neef (1994:147) diz que “só temos o poder de modificar a
nós mesmos, porém o ponto fascinante é que se eu mudo, pode
ocorrer algo em conseqüência que pode conduzir a uma mudança
no mundo”. Pode ser pequeno, simples. Mas, que seja na direção
contrária aos caminhos que levaram a esta crise. Que seja contrária à
acumulação, à monocultura, ao enfrentamento, à competição, à
pretensa dominação da natureza e à exclusão social. Seja de
reafirmação da cooperação, da diversidade, da distribuição e a acu-
mulação comunitária, da inclusão. Seja nos integrando com a natu-

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reza, cooperando, aprendendo, observando, entendendo o mistério
de sua reprodução em sua complexa auto-organização, promoven-
do radicalmente a vida. Novamente, reafirma-se, necessita-se da
manutenção dos ecossistemas. Necessita-se da floresta, até porque
floresta, em última instância significa vida. Inclusive e principalmente
para os que vivem fora dela. Retomando a Schumacher(1981:12)
que lembra que a batalha do homem contra a natureza se vencida
pelo primeiro, significa simplesmente a ameaça de “continuidade da
existência do gênero humano”, pelo menos neste planeta.

Bibliografia

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Da contradição do sujeito
na extensão rural

Ladjane de Fátima Ramos1

“tu és a floresta das contradições”


Rainer Maria Rilke

Ao ser solicitada para discorrer sobre construtivismo e o enfoque da


participação no meio rural, para extensionistas, deparei-me com o desa-
fio, por um lado, dialetizar diferentes conceitos da teoria da aprendiza-
gem, harmonizando técnicas e instrumentos, participação, desenvolvi-
mento, dentre outros aspectos sobre o tema. Por outro lado, dissertar
na condição de estrangeira, uma vez que não sou profissional das ciên-
cias agrárias e nosso campo de conhecimento nem sempre se equivale.
Por esta razão tomei o caminho de, principalmente, levar reflexões e
inquietações, que me dominam, ao invés de discursar sobre teorias e
conceitos, apontando assim a interrogação acerca do papel de
“extensionista” e de sua missão frente à realidade da qual faz parte e tem
uma ação de influência. Como ensina Paulo Freire... deste ser que “como
educador, se recusa a “domesticação” dos homens, cuja sua tarefa
corresponde ao conceito de comunicação, não ao de extensão” 2.
Neste sentido, assistimos no decorrer da história da extensão rural e
mais fortemente na atualidade a reedição da dicotomia presente na
nomeação deste individuo que ao ser denominado de extensionista
deve ter sua prática pautada em processos comunicacionais, embora
sua formação não responda a esta exigência. Isto não significa negar

1 Perita da Agência de Cooperação Técnica Alemã (GTZ) no Projeto de Desenvolvimento


Local Sustentável –AM, email: ladjaneframos@yahoo.com.br
2 Paulo Freire, extensão ou comunicação?, pág. 24. 12a. edição, Ed. Paz e Terra, 2002,
São Paulo.

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a este profissional um saber que produz a liberdade de si, a sua
interação e a dos agricultores familiares. Ao longo de décadas assis-
timos focos de reações à prática demandada pela revolução verde,
por parte de muitos desses técnicos que buscavam muito mais uma
postura de educador-educando, do que mesmo uma atitude de al-
guém que estende seus conhecimentos a um outro.
No entanto isto não foi hegemônico, na verdade constituia-se mais
em focos de resistência de alguns sujeitos sociais e, principalmente,
das organizações da sociedade civil, dos movimentos de igreja, de
grupos de extensionista das empresas estatais e de agricultores que
faziam frente a ação desenvolvimentista das políticas agrárias e à
formação universitária dos profissionais da área.
Resistência à falsa nomeação “extensionista” que o colocava e ainda põe
em evidência o dilema que vai incidir principalmente sobre sua forma de
relação com os agricultores/as, ou seja: ser educador ou transmissor de
conhecimento?; apoiar a apropriação de processo de transformações ou
levar pacotes tecnológicos?. O que é exigido ou demandado? Que pos-
tura tomar? Tratamos aqui de mudanças, de modificar a forma de atua-
ção, mas principalmente de alterar as crenças, valores e conceitos que
até então eram tidos como válidos. Mas, como fazer este processo de
mudança? O que pode impulsionar a reflexão?
O novo papel do extensionista está contido no Plano de Desenvolvi-
mento Sustentável do Brasil, que assim define “Ater deve ser instru-
mento capaz de contribuir decisivamente para: (a) colocar o agricul-
tor familiar e todos os atores envolvidos na condição de sujeito do
processo; (b) promover a organização dos agricultores familiares em
formas associativas e cooperativas; (c) reduzir a dispersão social; e
(d) estimular o exercício da prática solidária como argamassa de uma
nova consciência coletiva”3
Neste aspecto o caminho apontado pelo discurso da política brasileira, é
o da participação, deslocando os atores sociais envolvidos no desenvol-
vimento sustentável do lugar de “objeto” ao de “sujeito” do processo.

3 Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável do Brasil Rural – PNDRS, p. 41.

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Se por um lado esta participação não pode ser considerada “a caixa
de pandora” da assistência técnica e extensão rural, onde estão de-
positadas as soluções e tudo se transformará, por outro lado, enten-
de-se que atuar com um enfoque participativo significa recolocar o
homem no centro do processo, e aqui falamos tanto do extensionista
como do agricultor, da agricultora, do consumidor, da consumidora
e de todos aqueles que integram este universo.
O enfoque participativo, aqui é entendido como a possibilidade de
resgatar a cidadania e presentificar a ação política, social, econômi-
ca, cultural dos diferentes atores, construindo e reeditando novos
laços e pactos sociais de solidariedade e de contribuição voluntária,
permitindo o crescimento do espírito cooperativo sem que isto sig-
nifique o desaparecimento da individualidade, mas também propor-
cionando uma (re)leitura do coletivo.
O privilégio da participação e de processo dialético permitiria a cria-
ção de espaço de esperança na construção de novos arranjos de
relações sociais. É principalmente o privilégio do ser humano sobre a
tecnologia. Assim seria possível que “algo mais” se construa e con-
seqüentemente, que o sujeito social se presentifique, ampliando as-
sim a governabilidade sobre “as coisas” públicas.
A resignificação do rural impõe revisões teóricas e mudanças dos
profissionais e das organizações que atuam neste meio. Cabe, por-
tanto, entender que o enfoque de atuação humanista necessita mui-
to mais de uma conduta mediadora de diferentes saberes do que
uma atitude de persuasão junto aos agricultores. Conduta mediado-
ra significa permitir que os agricultores familiares possam, através de
processos comunicacionais, ampliar sua capacidade de análise e de-
cisão. E aqui se coloca algumas interrogações: como se reconhece e
dialetiza o saber e como se legitima a posição de sujeito? E especial-
mente como alimentar, na mente humana, a idéia de viabilidade de
um projeto de mundo com mais eqüidade e participação?.
Como afirmamos anteriormente, os processos comunicacionais per-
mite, através da dialética, que técnicos e agricultores possam interagir
e encontrar signos comuns, como também ampliar a compreensão

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sobre crenças, valores, atitudes, conhecimentos e comportamento.
Isso implica numa compreensão do contexto desses dois mundos
que interagem. No entanto há dissonâncias e/ou contradições, pois
os processos de comunicação humana estão condicionados aos as-
pectos socioculturais e a forma como cada um deu sentido a sua
história. O processo dialógico, através da problematizacão da reali-
dade e da ação-reflexão é o caminho encontrado pelas técnicas e
métodos que priorizam a participação.
Esse conceito significa, dentre outras definições, correr o risco de
experimentar novas formas de relação e soluções criativas, para ve-
lhos problemas sociais, econômicos, ambientais e culturais. É a opor-
tunidade de reescrever a história. Este desafio é colocado pela Polí-
tica Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNATER) que
de uma forma muito audaciosa, tenta reescrever a Agroecologia como
impulsionadora de mudanças nas relações sociais, políticas, cultu-
rais, econômicas e ética na sociedade, com a agricultura sustentável
ou mais diretamente, no contexto do desenvolvimento sustentável.
O avanço da humanidade se escreve nos desafios, nas idéias de li-
berdade e igualdade, na luta, assumindo-se riscos. É assim que os
sujeitos mudam sua realidade e influenciam o entorno. Este é o de-
safio para os agentes da extensão: decidir ousar e reinventar as rela-
ções sociais no Brasil.
Mas até que ponto os técnicos ou agentes de Ater estão optando por
isto? Quantos podem ser capazes de sair de seu espaço de conforto
relativo e se responsabilizarem pelo fato de que podem fazer a histó-
ria? Estas são interrogações que escutamos no discurso, constante-
mente. Quais são os limites? Pois estamos falando aqui de se fazer
presente no mundo, e isto implica em adotar-se uma postura ética e
reflexiva que vai ao encontro da democracia e ao respeito pelo outro.
Também significa se colocar enquanto sujeito, e não enquanto objeto
das políticas e das relações institucionais nos quais estão inseridos.
Não podemos deixar de considerando que processos de mudanças
só ocorrem por um desconforto que mobiliza a energia para a busca
de alternativa, de um fazer diferente e daí para a tomada de decisão

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e, conseqüentemente para uma nova situação de conforto e domí-
nio. A nossa presença no mundo implica escolha e decisão.
Como afirma Paulo Freire (...)
“se alguém me pergunta... se acho que, para
mudar o Brasil, basta que nos entreguemos ao
cansaço de constantemente afirmar que mudar é
possível e que os seres humanos não são puros
espectadores, mas atores também da história, direi
que não. Mas direi também que mudar implica
saber que fazê-lo é possível”(...)
É a partir da consciência de que mudar é difícil, mas não impossível,
que se constroem a democracia e o ato de liberdade, ou como afirma
Paulo Freire é parte de “...nossa ação política-pedagógica”. Assim a
PNATER aponta para o caminho da democratização e liberdade dos
atores, a crença de que é possível mudar e, especificamente, neste
caminho, é preciso inventar e praticar novos saberes.
A mudança não tem sentido em si mesma. A configuração de um pro-
cesso de mudança precisa sempre de situações específicas. Ela implica
necessariamente a focalização de um objetivo, a saída de uma situação a
outra. Neste caso a PNATER aponta este foco de mudança, ou seja, a
busca de um modelo de desenvolvimento mais sustentável, onde a
Agroecologia aparece como a orientação para a dialetização dos atores.
Neste contexto as instituições estatais ou não governamentais têm
um papel importante para a concretização destas mudanças. Impor-
tante ressaltar que não existem fórmulas, mas como abordamos an-
teriormente, há diferentes possibilidades que devem ser pautada pela
capacidade criativa e por soluções locais, priorizando e construindo
formas de atuação que considerem a participação e saberes dos
membros das organizações de Ater, dos agricultores familiares e
demais atores sociais que integram este sistema de relações ligadas
ao desenvolvimento do meio rural.
Os processo de mudanças impulsionam para a aprendizagem coleti-
va e individual e, claro, para processo de aprendizagem organizacional,
implicando em novos modelos de relação e numa ação libertadora.

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Sendo assim, estes processos são impulsionados por sonhos, que
são projetos pelos quais se lutam, a luta de um e a luta de muitos,
sejam seres engajados em organizações, sejam coletivos ou individu-
almente. A busca de realização de desafios implica avanços, recuos,
resistência, medos, mas principalmente a tomada de consciência que
mudar é possível, que se pode reescrever a história e a relação hu-
mana no mundo rural e deste com o urbano, construindo assim o
desenvolvimento sustentável. Como afirma Freire: “ O que o sonho
aspira é um ato político”.
E em meio a tudo isto, temos um sujeito que tem que se presentificar
com todas as suas contradições de estar em um mundo globalizado
e que deve ir em busca de seus sonhos e lutas. Se resignificando e
reinventando enquanto sujeito emergente, político, coletivo. Crian-
do novas formas de vida e buscando acima de tudo uma relação mais
solidária com os seus. Seja estes sujeitos, técnicos, agricultores ou
consumidores. Este é o maior desafio que nos coloca a PNATER,
transformar o modo de relações sociais em busca de uma melhor
forma de viver, e para dizer mais claramente, um modo de ser mais
feliz, dentro do limite possível da felicidade e da realidade.

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