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Direito Administrativo II

CURSO DE DIREITO ADMINISTRATIVO II

PROF: DIOGO FREITAS DO AMARAL

Regente: Prof Fausto Quadros

Capitulo I - Poder Administrativo

1. A separação de poderes

Este principio encontrou uma tradução ao nivel do Direito constitucionale outra no campo do Direito
administrativo.
No campo do Direito administrativo, o principio da separação de poderes visou a separação entre a
Administração e a Justiça, i.e, retirar à AP a função judicial e retirar aos tribunais a função
administrativa. Em Portugal, esta separação ocorreu por força dos decretos nº 22,23, 24 de 1832 de
Mouzinho da Silveira. Ver art 212 nº3 da CRP.

2. Caracterização do poder administrativo

Fausto Quadros - é um poder de execução da lei por via administrativa, o que pressupõe o poder de
criação da lei.

A AP é, nos nossos dias , um poder. Faz parte daquilo que se costuma chamar os poderes públicos.
Não é um poder executivo apenas, porque a função administrativo não se esgota na figura do
Estado. Existem outras entidades, distintas do Estado, que também a prosseguem. Assim, utilizamos
a expressão poder administrativo, que compreende de um lado o poder executivo do Estado e , do
outro, as entidades públicas administrativas não estaduais.
Diz Marcello Caetano : “ a administração pública não nos aparece hoje em dia na maior parte dos
paises como uma forma tipica da actividade do Estado, mas antes como uma das maneiras por que
se manifesta a sua autoridade. A administração deixa de se caracterizar como função, para se
afirmar como poder. A Administração é um verdadeiro poder, porque define, de acordo com a lei, a
sua própria conduta e dispõe dos meios necessários para impor o respeito dessa conduta e para
traçar a conduta alheia naquilo que com ela tenha relação.

3. Manifestações do poder administrativo

As principais manifestações do poder administrativo são basicamente 4:


a) o poder regulamentar;
A AP, num sistema de tipo francês tem o poder de fazer regulamentos (art 199c), 227 nº1d e 241
CRP). - diferentemente do que sucede no sistema de tipo britânico. Estes regulamentos da AP são

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considerados como fonte de Direito: colocado abaixo da lei do ponto de vista da hierarquia das
fontes. Mas é, apesar disso, uma fonte de direito autónoma. Tem uma natureza especifica, sui
generis. Porque é que a AP goza de poder regulamentar? Como é poder, goza da prerrogativa de
definir unilateralmente e previamente, em termos genéricos e abstractos, em que sentido é que vai
interpretar e aplicar as leis em vigor. E fá-lo justamente através da elaboração de regulamentos.

b) o poder de decisão unilateral ou de “auto tutela declarativa”


A AP decide sobre casos individuais e concretos. É um poder unilateral. A AP pode exercê-lo por
exclusiva autoridade, e sem necessidade de obter o acordo prévio ou posterior do interessado. Esta
definição unilateral é obrigatória para os particulares. Por isso a Administração é um poder. Não
necessita de recorrer aos tribunais. É lhe conferido este poder em nome do interesse colectivo. (ver
art 100 do CPA - a AP ouve o arguido, mas decide unilaralmente; art 158 CPA - estas garantias
impugnatórias só vêm por definição depois de a decisão já existir; a lei permite ainda que os
interessados impugnem as decisões unilaterais da AP perante os tribunais administrativos. Contudo,
isto só é possivel depois de a decisão ter sido tomada unilateralmente pela AP.

c) o privilégio de execução prévia;


A lei dá à AP a faculdade de impor coactivamente aos particulares as decisões unilaterais
constitutivas de deveres ou encargos que tiver tomado e que sejam por aqueles voluntariamente
cumpridas. art 149 nº1 CPA. A AP decide unilateralmente. A apartir desse momento pode exigir do
particular que cumpra o dever ou encagro que lhe foi eficazmente definido. O particular tem por lei o
dever de obedecer à definição que a AP fez. Se não cumprir, a AP tem o direito de exercer
coactivamente (sem recurso prévio aos tribunais) a declaração que ela própria efectuou, embora só o
possa fazer pelas formas e nos termos previstos no CPA ou na lei art 149 n.2

d) o regime especial dos contratos administrativos


A forma tipica de agir da AP são os actos administrativos. Contudo, existem certos comportamentos
que só se conseguem através do acordo dos interessados. E então a lei prevê que ,nesses casos, a
AP lance mão da figura do contrato. ver art 178 nº1 CPA.

4. Corolários do poder administrativo

a) independência da Administração perante a justiça.


Os tribunais comuns são incompetentes para se pronunciarem em termos definitivos sobre as
questões administrativas. e, o regime dos conflitos de jurisdição permite retirar a um tribunal judicial
uma questão administrativa que indevida e erradamente nele esteja a decorrer

b) foro administrativo
I.e, a entrega de competência contenciosa para julgar os litigios administrativos não aos tribunais
judiciais, mas aos tribunais administrativos

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c)Existência de um tribunal de conflitos


É um tribunal superior, de funcionamento intermitente (só quando surge um conflito), de composição
mista, normalmente paritária, e que se destina a decidir em última instância os conflitos de jurisdição
que surjam entre os tribunais administrativos e os tribunais comuns.

4. O poder discricionário da Administração

Segundo Fausto Quadros, isto não é uma excepção ao principio da legalidade. É antes uma
concretização deste principio. É permitido por lei. É desejado por lei. O próprio dever de boa
administração impõe isto. Dois casos nunca são iguais. É desejável que o legislador permita esta
liberdade.
Prof Marcelo Rebelo de Sousa: a discricionariedade consiste numa liberdade conferida por lei à
administração para que esta escolha entre várias alternativas de actuação juridicamente admissiveis.
Tal liberdade pode dizer respeito à escolha entre agir ou não agir (discricionariedade de acção); à
escolha entre duas ou mais possibilidade de actuação predefinidas na lei (discricionariedade de
escolha); ou à criação da actuação concreta dentro dos limites juridicos aplicáveis
( discricionariedade criativa, na expressão de Sérvulo Correia). Estas modalidades de
discricionariedade podem cumular-se na mesma norma.

(Exs:A norma do art 145 n3 CPA confere discricionariedade de acção ("PODE").


A norma do art 100 nº2 CPA confere discricionariedade de escolha.
A norma do art 157 nº1 CPA confere discricionariedade criativa.
A norma do art 174 nº2 CPA confere simultaneamente as três modalidades de discricionariedade- o
órgão competente para decidir o recurso pode, se for caso disso, anular (disc. de acção), no todo ou
em parte (disc, de escolha), o procedimento administrativo e determinar a realização de nova
instrução ou (disc, de escolha) de diligências complementares (dis.criativa).
A detacção da discricionariedade pressupõe a realização da tarefa de interpretação normativa.
( paradigmaticamente, no caso da discricionariedade de acção - poder ou faculdades; no caso da
discricionariedade de escolha, ou; no caso da discricionariedade criativa, a utilização de conceitos
indeterminados ou claúsulas gerais como medidas adequadas). A discricionariedade diz
primariamente respeito à estatuição normativa. E é neste segmento da estrutura das normas
juridicas que se encontram as principais expressões linguisticas que permitem concluir
interpretativamente pela sua existência. Note-se que também pode estar presente na previsão.

A Administração está subordinada á lei, nos termos do principio da legalidade. Contudo, a lei não
regula sempre do mesmo modo os actos a praticar pela AP. A regulamentação legal umas vezes é
precisa, outras vezes é imprecisa.
Ex. o acto tributário. Em casos como este, a lei regula todos os aspectos da acção administrativa. A
AP desempenha tarefas puramente mecânicas, até chegar a um resultado que é o resultado
legalmente possivel. A lei vincula totalmente a Administração. O acto administrativo é um acto

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vinculado.
Ex2: escolha de um governador civil. A lei praticamente nada diz, nada regula, e atribui uma
significativa margem de liberdade à AP. Aqui, a lei não pormenoriza o sentido da actuação da
AP.Estamos perante um acto discricionário.

Principio da legalidade - é um principio estruturante. O poder administrativo está subordinado á lei. É


limite e fundamento simultaneamente. “Bloco de legalidade” que condiciona todo o exercicio deste
poder, que inclui a CRP, as fontes supraconstitucionais ( O Direito comunitário; o ius cogens), o
direito legal (supraadministrativos, mas infraconstitucionais).
Haverão excepções a este principio?
A discricionariedade administrativa é permitida por lei . É desejada pela lei. O próprio dever de boa
administração impõe isto. Que a lei deixe alguma liberdade à AP. Dois casos nunca são iguais. É
desejável que o legislador permita esta liberdade. Segundo o professor Fausto Quadros, esta
liberdade não significa arbitrariedade.
Não é uma excepção. É uma concretização do principio da legalidade.
Exemplos:
- pagamento de IRS. Baseado no rendimento. Deduz as despesas. Aplica à taxa. Obtem o imposto.
Acto vinculado plenamente á lei. Não existe qualquer liberdade.
- A AP pode expropriar um terreno. A lei só obriga quanto ao fim. Deixa à escolha da Ap o tipo de
lugar, o tipo de terreno...A AP tem liberdade quase total.

No primeiro exemplo, estamos perante um acto muito vinculado, quase raro.


No segundo exemplo, estamos perante um acto muito livre, quase raro.

O mais norma é existir actos com determinada liberdade. Ou actos nos quais existem determinada
vinculação.

Isto não está relacionado com o poder arbitrário, note-se.


É conferida para boa satisfação do interesse público. É compativel com a democracia e a legalidade.

Assim, o principio da legalidade é o mais importante entre todos. A AP está sujeita á lei, em primeiro
lugar.
2vertentes:
Limite:
• preferência de lei( em caso de confronto, prevalece a lei)
• primado de lei ( a lei não pode ser violada)
• lógica de compatibilidade (basta que a actuação seja compativel)
• contra legem ( não admitido)
Fundamento:
• reserva de lei (a actividade tem que estar regulada na lei)
• precedência de lei (tem que existir uma lei prévia)

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• lógica de conformidade (é necessária a sua conformidade. É mais exigente do que a


compatibilidade)
• praeter legem (não admitido)

A lei funciona como limite. A AP pode fazer tudo, excepto o que seja contra á lei. Está vinculada à lei
também enquanto fundamento. Só pode actuar com base legal. Só pode fazer se estiver previsto na
lei.

Actuação enquanto privados : a lei é apenas limite, e não fundamento. Pode fazer-se tudo, salvo
aquilo que a lei proibe. Principio da autonomia privada. Direito privado. Vinculação menos exigente.
No Direito administrativo isto é diferente. Só pode actuar-se se estiver previsto pelo legislador. A
vigência do principio da legalidade é mais exigente e forte do que no direito privado. Acima de
qualquer outro principio, está o principio da legalidade.

Evolução histórica:
Inicialmente, apenas a lei em sentido formal era limite. A lei do parlamento. Hoje em dia, já não é
assim. É todo o bloco de legalidade. Bloco de jurisdicidade. O parâmetro tem se vindo a alargar. O
CPA, art 3º, reflecte isto - “pela lei e pelo direito”.
Vertente do fundamento - qual a amplitude da reserva de lei? Alguns consideravam que a reserva de
lei apenas se aplicava ao dominio da actuação agressiva. E outros, entendiam que se aplicava a toda
a função administrativo, nomeadamente a prestadora. Actualmente, o entendimento dominante
considera que se exige a reserva de lei sempre. Rogério Soares, nomeadamente. O principio da
legalidade deve vigorar sempre. Ex: Se, na sua função prestadora, a AP prestar a A e não a B,
quando estaria obrigada a tal, também estará a lesar B.

Excepções ao principio da legalidade:


- poder discricionário
- estado de necessidade
- actos politicos

Segundo o professor DFA, não são verdadeiras excepções.

O Estado de necessidade está previsto na lei, no CPA, art 3 nº2. Há apenas uma situação de
excepcionalidade prevista na lei. A própria lei permite isto. Não há uma fuga à lei.
A validade dos actos politicos não é controlada pelos tribunais (principio da separação de poderes).
Segundo a doutrina, isto não significa que os actos possam ser ilegais. Apenas não há esse controlo.
Mas estes têm que conformar-se com a lei. Há outras formas de controlo.
O poder discricionário era invocado por alguns como sendo uma excepção. Está previsto na lei.
Como pode existir esta liberdade? Tem sempre que existir uma lei prévia. Mas qual a sua
densidade? Há leis que regulam quase tudo. É um acto quase automático. Mas há outras leis menos
densas, e que deixam á AP alguma autonomia para decidir, para actuar. A discricionariedade surge

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em leis menos densas, que deixam a liberdade para decidir como actuar. A norma prévia pode
atribuir poderes vinculados ou discricionários.
A discricionariedade não é uma excepção então. Não está acima da lei, fora da lei. É diferente da
arbitrariedade. A AP actua com alguma margem de liberdade. Mas não de total arbitrio. É uma
actuação ainda regulada pelo Direito, embora de forma diferente. Resulta sempre da lei. So há
,quando a lei quis atribuir. Pretende determinar casuisticamente o exercicio daquele poder. Existe
quando a lei entender.
Mesmo dentro dessa margem de liberdade, a AP está sujeita a determinados parâmetros. Há limites
externos e internos. Há pelo menos dois elementos dos actos que resultam da lei : a competência e
o fim. A discricionariedade não afecta isto NUNCA( limites externos). Está sujeita também aos
principios e aos direitos dos cidadãos. Não há uma norma concreta a respeitar, mas mesmo assim é
necessário considerar os principios juridicos.
A discricionariedade é o principal da actuação administrativa. É o dominio em que a actuação é
fundamental. A única forma de controlar isto é através dos principios, dai a sua importância
fundamental (limites internos).

Qual é o principal problema?


O controlo jurisdicional. Nestes dominios não há uma lei especifica para decidir. Há autonomia. A AP
escolhe A, B ou C, porque entende que é a melhor para prosseguir o interesse público. É uma
escolha pautada por critérios de mérito. Toma a decisão que considera mais adequada, mais
eficiente. Por oposição à actuação vinculada da AP.
Não compete aos tribunais elaborar juizos de mérito. Não podem fazer isto. Estariam a substituir o
poder atribuido à AP. É próprio da AP. Os tribunais não podem contrariar escolhas de mérito.
Dificuldade ao nivel do controlo jurisdicional. Não haverá controlo a este nivel então? Anteriormente,
entendeu-se que não. Actualmente, já não é assim. Os tribunais podem controlar o respeito pelos
principios. O controlo jurisdicional do poder discricionário é, assim, mais limitado.
Em bom rigor, não há actuações completamente discricionárias ou completamente vinculadas.
Não há actuações completamente discricionárias porque pelo menos dois elementos são vinculados
- a competência e o fim.
Não há actuações plenamente vinculadas porque pelo menos no momento da decisão existe alguma
liberdade. Ex: saber se a decisão é tomada hoje ou amanhã.
Logo, podemos dizer que um acto é predominantemente vinculado ou discricionário.

Quais os elementos?
- momento da prática do acto;
- a própria decisão de praticar ou não o acto - discricionariedade de acção ou decisão
- a própria determinação dos factos
- a própria determinação do conteúdo - discricionariedade de escolha
- a forma; as formalidades a adoptar; a fundamentação
- a faculdade de opor condições ao acto

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Posição do professor DFA até à ultima versão do manual:

Distinguia três elementos:


a)discricionariedade clássica
Liberdade de escolha da Ap. Se há esta liberdade, logo não há controlo jurisdicional desta decisão.

b)discricionariedade imprópria
- discricionariedade técnica (critérios técnicos subjacentes)
- liberdade probatória (escolha de meios probatórios, meios de prova)
- justiça administrativa (decisões que a AP toma com base em critérios de justiça material.
Ex: avaliação de alunos em instituições públicas)

Não há liberdade de escolha. A decisão correcta é só uma. Apenas por razões práticas os tribunais
não controlam.

c)figuras afins
- remissão para critérios extrajuridicos
- conceitos juridicos indeterminados

Não há liberdade. Havia controlo jurisdicional. A concretização de conceitos juridicos indeterminados


era só uma. O tribunal pode então interferir neste dominio.

Na última versão do manual, o entendimento do professor alterou-se. A discricionariedade imprópria


é hoje considerada verdade discricionariedade, nomeadamente.
Relativamente aos conceitos indeterminados, a doutrina considerava que havia os classificatórios (a
indeterminação resulta da linguagem); conceitos indeterminados -tipo (zona de incerteza; zona de
certeza positiva; zona de certeza negativa. Na zona de incerteza há realmente margem de liberdade.
Apela para juizos de mérito, de valor). Por ex: conceito de grave calamidade pública; conceito de
grave risco. Não são dominios de vinculação como entendia anteriormente o professor FA. Por ex,
conceito de ordem pública; saúde pública. A interpretação destes conceitos é poder discricionário ou
não? Segundo a doutrina, não. Não é livre de entender que qualquer coisa é ordem pública. Tem que
se chegar a um conceito equilibrado, dentro do bom-senso. A interpretação dos conceitos não é
discricionária. Isto conduziria a um abuso de poder. A interpretação é vinculada.

Vinculação e discricionariedade são, assim, as duas formas tipicas pelas quais a lei modela a
actividade da AP.
Um poder é vinculado quando a lei não remete para o critério do respectivo titular a escolha da
solução concreta mais adequada.
Um poder é discricionário quando o seu exercicio fique entregue ao critério do respectivo titular, que

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pode e deve escolher o procedimento a adoptar em cada caso como mais ajustado à realização do
interesse público protegido pela norma que o confere.

Note-se que não existem actos completamente vinculados, nem actos totalmente discricionários. Os
actos administrativos resultam sempre de uma mistura entre o exercicio de poderes vinculados e o
exercicio de poderes discricionários. Quase todos os actos administrativos são simultaneamente
vinculados e discricionários. São vinculados em relação a certos aspectos e discricionários em
relação a outros. O que faz sentido é indagar em que medida são vinculados e em que medida são
discricionários. Por ex, nos actos discricionários, a competência e o fim são sempre vinculados.
Note-se ainda que, a decisão administrativa tem ainda que respeitar determinados principios gerais
de Direito vinculativos da actividade da Administração.
Assim podemos falar em actos predominantemente vinculados ou actos predominantemente
discricionários.

5. Natureza

Poderá o órgão competente escolher livremente qualquer uma das várias soluções conformes com o
fim da lei?
Anteriormente o prof Freitas do Amaral considerava que sim. Seriam assim legitimas, desde que
conformes com a lei, todas as decisões que estivessem cobertas pela liberdade conferida pelo
legislador.
Porém hoje considera que não. Com efeito, o processo será ainda e sobretudo condicionado e
orientado por ditames originários dos principios e regras gerais que vinculam a AP (designadamente,
igualdade, proporcionalidade e imparcialidade), estando assim o órgão administrativo obrigado a
encontrar a melhor solução para o interesse público. O poder discricionário não é um poder livre,
dentro dos limites da lei, mas um poder juridico.
Tal como afirma Vieira de Andrade e Rogério Soares, a discricionariedade não é uma liberdade, mas
sim uma competência, uma tarefa, corresponde a uma função juridica. A Administração não é
remetida para um arbitrio, ainda que prudente, não pode fundar na sua vontade as decisões que
toma. A lei não dá ao órgão administrativo competente liberdade para escolher qualquer solução que
respeite o fim da norma. Antes o obriga a procurar a melhor solução para a satisfação do interesse
público de acordo com os principios juridicos de actuação. A discricionariedade não é uma liberdade,
mas um poder-dever juridico.

6. fundamento e significado ( duas razões)

Não seria uma exigência lógica do principio da legalidade que tudo estivesse minuciosamente
regulado pela lei, e que não fosse deixada nenhuma margem de discricionariedade aos órgãos da
administração?
Isso seria, no plano prático impossivel e até inconveniente. Na maioria dos casos, o legislador
reconhece que não lhe é possivel prever antecipadamente todas as circunstâncias em que a AP vai

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ter de actuar. Nem lhe é possivel consequentemente dispor acerca das melhores soluções para
prosseguir o interesse público.
Para além destas razões, existem também razões de ordem juridica. O poder discricionário visa,
antes de tudo, assegurar o tratamento equitativo dos casos individuais.

Será que o poder discricionário representará uma excepção ao principio da legalidade? Será que
significa poder arbitrário?
Claro que não. Só há poder discricionário quando, e na medida em que a lei o confere.
O poder discricionário, como todo o poder administrativo, não é um poder inato. É um poder derivado
da lei. O poder discricionário só pode ser exercido por aqueles a quem a lei o atribuir, só pode ser
exercido para o fim com que a lei o confere, e deve ser exercido de acordo com certos principios de
actuação. Por último, o poder discricionário é controlável jurisdicionalmente. Há meios para controlar
o seu exercicio.
Por tudo isto, o poder discricionário não é uma excepção ao principio da legalidade, mas sim uma da
formas possiveis de estabelecer a subordinação da Administração à lei.

7. Âmbito

O que poderá então ser discricionário num acto da AP?

a) o momento da prática: a AP terá a faculdade de praticar o acto agora ou mais tarde, conforme
melhor entender;

b) A decisão de praticar ou não um certo acto administrativo

c) a determinação dos factos e interesses relevantes para a decisão : a hipótese legal tem de ser
concretizada em cada caso pelo agente, para determinar se se verificam os pressupostos reais de
aplicação da medida estabelecida (ou de escolha da solução adequada)

d) A determinação do conteúdo concreto da decisão a tomar: a designada “discricionariedade de


escolha” de uma entre várias condutas positivas possiveis, quer elas se encontrem previstas em
alternativa na norma (discricionariedade optativa), quer o legislador se limite a estabelecer um núcleo
minimo identificador do género de medida, deixando ao executor a invenção do conteúdo completo
do acto (discricionariedade criativa).

e) A forma a adoptar para o acto administrativo

f) As formalidade a observar na preparação ou na prática do acto administrativo

g)A fundamentação ou não da decisão (art 124 CPA): nos casos em que a lei não o exige, a decisão
de fundamentar o acto é discricionária.

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h)A faculdade de apor, ou não, no acto administrativo condições, termos, modos e outras claúsulas
acessórias (art 121 CPA), bem como a determinação do respectivo conteúdo.

8. Limites

O poder discricionário pode ser limitado juridicamente por duas formas diferentes:

- através do estabelecimento de limites legais;


São aqueles que resultam da própria lei. Para além disto, os principios constitucionais (art 266 nº1
CRP) condicionam qualquer decisão administrativa discricionária.

- através da designada auto- vinculação


No âmbito da discricionariedade que a lei confere à AP, esta pode exercer os seus poderes de duas
maneiras distintas:
• caso a caso, adoptanto em cada caso a solução que lhe parecer mais ajustada ao
interesse público
• ou a AP pode proceder de outra maneira. A AP pode elaborar normas genéricas em
que enuncie os critérios a que ela própria obedecerá na apreciação de cada tipo de casos.
Estas normas podem ter a natureza de regulamentos, ou podem ser normas genéricas de
outro tipo, mas correspondem sempre à ideia de que a Ap anuncia previamente os critérios de
acordo com os quais vai exercer o seu poder discricionário. Deste modo, se satisfaz o principio
da igualdade de tratamento.

Isto levanta alguns problemas. A doutrina a jurisprudência têm entendido que a AP, embora tivesse
nos termos da lei o poder discricionário, decidiu auto-vincular-se a a auto-vinculação a que ela se
submeteu obriga-a. Portanto, se a AP decidir elaborar um acto que contrarie as normas que ela
própria elaborou, esse acto será ilegal. Se a Ap faz normas, que não tinha a obrigação de fazer, mas
fez, então deve obediência a essas normas, e se as violar comete uma ilegalidade- é o principio da
inderrogabilidade singular dos regulamentos.
Posição Freitas do Amaral.: Apesar de a AP estar vinculada ao respeito pelas normas que ela própria
elaborou, ela não fica absolutamente impedida de fundamentadamente mudar de critério na
apreciação de casos semelhantes. O interesse público é eminentemente variável. Não seria razoável
que ,em nome da legalidade e da igualdade, a AP ficasse para sempre amarrada de pés e mãos a
critérios genéricos de decisão que foram acertados, mas que depois se tornaram anacrónicos. O art
124 nº1 d) do CPA não impõe à Ap o dever de decidir de modo idêntico casos semelhantes, nem
sequer a obrigação de resolver da mesma maneira a interpretação e aplicação dos mesmos
principios ou preceitos legais. O CPA admite que decida de modo diferente, mas nesse caso terá
que explicar as razões que a levaram a mudar de critério.
Por outro lado, é necessário ainda ter em consideração que a possibilidade da AP se autovincular
não é ilimitada. A Ap não se pode auto vincular, desrespeitando o art 112 nº5 da CRP. O instrumento

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pelo qual se auto vincula não pode ter eficácia externa e interpretar, modificar, integrar, modificar,
suspender ou revogar qualquer dos preceitos legais que conferem um poder discricionário. E, por
sua vez, podem existir casos em que a lei quer claramente que a AP exerça caso a caso o seu poder
de apreciação das circunstâncias concretas. Nesse caso a auto vinculação da AP será ilegal. Só o
exercicio casuistico do poder será legal.
Portanto, o poder discricionário só pode ser exercido dentro dos limites que a lei para ele estabelecer
ou dentro dos limites que a Ap se tenha validamente imposto a si mesma.

9. Controlo do seu exercicio

Diferentes tipos de controlo:

- controlos de legalidade: são aqueles que visam determinar se a AP respeitou a lei ou a violou.
Tanto pode ser feito pelos tribunais como pela própria Ap, mas em última análise compete aos
tribunais

- controlo de mérito: são aqueles que visam avaliar o bem fundado das decisões da AP,
independentemente da sua legalidade. Só pode ser feito pela AP. O que é o mérito dos actos
administrativos? Compreende duas ideias. a ideia de justiça e a ideia de conveniência. A justiça de
um acto administrativo é a adequação desse acto à necessária harmonia entre o interesse público
especifico que ele deve prosseguir, e os direitos subjectivos e os interesses legalmente protegidos
dos particulares eventualmente afectados pelo acto. A conveniência do acto é a sua adequação ao
interesse público especifico que justifica a sua prática ou à necessária harmonia entre esse interesse
e os demais interesses públicos eventualmente afectados pelo acto.art 266 n2 da CRP.

- controlos jurisdicionais: são aqueles que se efectuam através dos tribunais.

- controlos administrativos: são aqueles que são realizados por órgãos da AP

Como é que estes vários controlos incidem sobre o poder discricionário da Ap?
- o uso de poderes vinculados que tenham sido exercidos contra a lei é objecto dos controlos de
legalidade.
- o uso de poderes discricionários que tenham sido exercidos de modo inconveniente é objecto dos
controlos de mérito.
A legalidade de um acto administrativo ( ou seja, a conformidade dos aspectos vinculados do acto
com a lei aplicável) pode ser sempre controlada pelos tribunais administrativos, e pela AP. O mérito
de um acto administrativo (ou seja, a conformidade dos aspectos discricionários do acto com a
conveniência do interesse público) só pode ser controlado pela AP.

Impugnação de actos discricionários:


Um acto discricionário pode ser atacado com fundamento em qualquer dos vicios do acto

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administrativo. Assim:
- podem ser impugnados com fundamento na incompetência. A competência é um dos elementos
sempre vinculados
- com fundamento em vicio de forma
- com fundamento em violação da lei, designadamente por ofensa de quaisquer limites impostos ao
poder discricionário, por lei ou auto vinculação da AP. E, de modo muito especial, por violação dos
principios constitucionais da igualdade, proporcionalidade, boa fé, justiça e imparcialidade.
- e ainda com fundamento em quaisquer defeitos da vontade, nomeadamente erro de facto, que é o
mais frequente.

O desvio de poder não é a única ilegalidade possivel no exercicio de poderes discricionários. É sim
apenas a ilegalide tipicoa do exercio deste tipo de poderes. Mas há outras. Assim temos:
- admissão do erro de facto como fundamento do recurso contencioso;
- estabelecimento do controlo jurisdicional sobre a existência ou inexistência dos pressupostos de
facto;
- imposição legal da obrigação de fundamentar os actos administrativos
- sujeição do exercicio dos poderes administrativos a certos principios gerais de direito

Controlo do poder discricionário:


Matéria dos vicios dos actos administrativos.
Os actos administrativos podem gozar de 5vicios:
• desvio de poder - não prossecução do fim vinculado por lei. O motivo principalmente
determinante da prática do acto, não coincide com o fim legal. É o vicio tipico. Por fim público
ou por fim privado.
• usurpação de poderes - um acto administrativo ultrapassa o âmbito de função
administrativa e actua no âmbito de outra função do Estado
• incompetência
• violação da lei
• vicio de forma.
Aplicam-se ainda os vicios da vontade (erro, dolo, coacção). 2 tipos de erros:
• quanto aos pressupostos de facto - quando a AP decide convencida de que a
realidae é uma, e afinal é outra;
• erro manifesto de apreciação - os pressupostos de factos estão correctos. A
apreciação feita pela AP está errada.
• Conduzem à invalidade do acto

Quais destes vicios se poderão aplicar aos actos discricionários?


- o desvio de poder - não há uma lei especifica a cumprir. Os actos vinculados não padecem de
desvio de poder;
- erro quanto aos pressupostos de facto
- erro manifesto de apreciação - ocorre tendencionalmente nos actos discricionários. Tende a ser

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substituida. Surgiu no passado como forma dos tribunais terem algum controlo dos actos
discricionários. Criou-se então este vicio. Mas hoje em dia normalmente, invoca-se outra coisa -
violação do principio da proporcionalidade
- um acto discricionário pode violar a lei, por violação dos principios. Anteriormente, por via de uma
lei, considerava que os actos discricionários não podiam violar a lei . Hoje em dia já não se defende
isto. Assim, um acto discricionário pode sofrer de violação de lei, por violação dos seus principios.
NOTA: os actos vinculados NUNCA podem sofrer de desvio de poder (é um vicio EXCLUSIVO do
acto discricionário.
- vicio de forma - se a forma resultar de vinculação da lei
- competência - porque um dos elementos vinculados é a competência.

Em especial o principio da proporcionalidade (ver art 266 nº2 CRP e art 5 nº2 CPA):
É necessário analisar as suas três vertentes. Assim:
- adequação: a medida tomada deve ser casualmente ajustada ao fim que se propõe atingir.
- necessidade: a medida tomada deve ser aquele que , entre todas as possiveis, lese em menor
medida os direitos e interesses dos particulares.
- equilibrio : exige que os beneficios que se pretendem alcançar sejam superiores aos custos que ela
representará.

9. Figuras afins

A) interpretação dos conceitos indeterminados

Conceitos indeterminados são aqueles “cujo conteúdo e extensão são em larga medida incertos”. A
questão que se coloca é sabe se a interpretação de conceitos indeterminados é uma actividade
vinculada ou discricionária, e por conseguinte, sindicável ou não pelos tribunais. Anteriormente o prof
Freitas do Amaral considerava que a interpretação de conceitos indeterminados era uma figura afim
da discricionariedade, i.e, uma realidade conceitual e regimentalmente distinta desta. A Ap estaria
vinculada. Não dispunha de um poder discricionário. Actualmente, o professor considera que existe
uma grande heterogeneidade neste dominio e, como tal, alguns conceitos indeterminados, são
claramente um instrumento de que a lei se serve para atribuir discricionariedade à Ap - conceitos-
tipo. Distingue diferentes situações:
• Temos, por um lado, o caso daqueles conceitos indeterminados cuja concretização
envolve APENAS operações de interpretação da lei e de subsunção. A sua indeterminação é
solucionável através de raciocinios teorético - discursivos. Ex: periodo nocturno, funcionário
público...
• Por outro lado, existem conceitos indeterminados cuja concretização apela já para
preenchimentos valorativos por parte do órgãos administrativo. Devem distinguir-se duas
situações:
- existem conceitos cuja concretização não exige do órgão administrativo uma
valoração eminentemente pessoal , mas sim uma valoração objectiva. i.e, ele deve procurar e

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Direito Administrativo II

determinar as valorações preexistentes num sector social relevantes


- existem ainda aquelas situações em que claramente o legislador remete para
a AP a competência de fazer um juizo baseado na sua experiência e nas suas convicções, que
não é determinado, mas apenas enquadrado por critérios juridicos. Ou seja, a Ap tem ai de
considerando as circunstâncias de interesse público, descobrir segundo o seu critério a
solução mais adequada. ex.: situações excepcionais e urgentes de interesse público?
inundação grave? Trata-se de um espaço de conformação da AP que se alarga à
determinação das próprias condições da decisão.
Só em concreto se pode determinar a que tipo se reconduz certo conceito indeterminado.

b) remissão da lei para regras extra-juridicas

Segundo o professor Freitas do Amaral, não estamos no campo da vinculação. Em primeira linha, é
uma vinculação a normas técnicas ou morais.

Capitulo II - O exercicio do poder administrativo

1. Regulamentos

Os regulamentos administrativos são “as normas juridicas emanadas no exercicio do poder


administrativo por um órgão da Administração ou por outra entidade pública ou privada para tal
habilitada por lei”. São uma fonte secundária do direito administrativo

Esta noção de regulamento encerra três elementos:


• elemento de natureza material
Consiste em normas juridicas. É uma regra de conduta social, dotada de generalidade e abstracção.
A generalidade significa que o comando se aplica a uma pluralidade de destinatários. A abstracção
traduz-se no facto deste se aplicar a uma ou mais situações definidas pelos elementos tipicos
constantes da previsão normativa. Enquanto comando abstracto, o regulamento não se esgota numa
aplicação. Diferentemente se passa com o acto administrativo. Este está vocacionado para se aplicar
a um único destinatário, para resolver uma situação concreta, consumindo nela os seus efeitos
juridicos.
O regulamento é uma norma juridica porque é uma verdadeira regra de Direito, que pode ser imposta
mediante a ameaça de coacção e cuja violação leva à aplicação de sanções.

• elemento de natureza orgânica


O regulamento é ditado por um órgão de uma pessoa colectiva pública integrante da AP. Mas não
só. Por vezes, a função administrativa é também exercida por pessoas colectivas públicas que não
integram a AP (ex: Parlamento) quer por entidades de direito privado (ver art 114 e seg CPA; e art 2
nº3 CPA)

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Direito Administrativo II

• elemento de natureza funcional


O regulamento é emanado no exercicio do poder administrativo. Este elemento é relevante naqueles
casos em que o órgão considerado não é exclusivamente órgão da AP, como sucede com o Governo
ou com as ALR. Para além de órgãos administrativos, são também órgãos politicos e legislativos (art
197 a 201 e 227 e 229 CRP). Assim, só se pode tratar de regulamento administrativo quando o
GOverno ou as ALR tenham actuado no exericio de atribuições administrativos.

O regulamento encontra na CRP e na lei o seu fundamento e parâmetro de validade, sob pena de
inconstitucionalidade ou ilegalidade.

Espécies (4critérios)

1. critério que atende à sua relação com a lei


- regulamentos complementares ou de execução - são aqueles que desenvolvem ou aprofundam a
disciplina juridica constante da lei. São tipicamente secundum legem. Complementam a lei,
viabilizando a sua aplicação aos casos concretos. Estes podem ainda ser espontâneos ou devidos.
São espontâneos quando a lei nada diz quanto à necessidade da sua complementarização. Todavia
a AP entende adequado criar um regulamento. São devidos quando é a própria lei que impõe à AP a
tarefa de desenvolver a previsão.
- regulamentos independentes ou autónomos - são aqueles que os órgãos administrativos elaboram
no exercicio da sua competência, para assegurar a realização das suas atribuições especificas, sem
cuidar de desenvolver ou completar nenhuma lei em especial. (ex: art 241 CRP).Estes regulamentos
não vêm assim completar nenhuma lei anterior. Vêm antes estabelecer autonomamente a disciplina
juridica para a realização das suas atribuições. ver art 112 nº7 e 8 CRP. Exige-se para a validade de
qualquer:
- regulamento complementar, que indique expressamente a lei que visa regulamentar;
- regulamento independente, que indique expressamente a lei ou as leis que atribuem
especificamente a competência para a emissão do regulamento, ou sejas , as leis de habilitação.

2. critério que atende ao seu objecto


Deve-se referir os regulamentos de organização; de funcionamento e de policia. ( tem subjacente a
distinção entre normas orgânicas, funcionais e relacionais). Os regulamentos de organização são
aqueles que procedem á distribuição das funções pelos vários departamentos e unidades de uma
pessoa colectiva pública, bem como à reparação de tarefas pelos diversos agentes que ai trabalham.
Os regulamentos de funcionamento são aqueles que disciplinam a vida quotidiana dos serviços
público. Os regulamentos de policia são aqueles que impõe limitações à liberdade individual com
vista a evitar que, em consequência da conduta perigosa dos individuos, se produzam danos sociais.
(ex: regulamentos de trânsito).

3. critério que atende ao âmbito da sua aplicação


Distinção entre regulamentos gerais, locais e institucionais.

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Direito Administrativo II

Os regulamentos gerias são aqueles que se destinam a vigorar em todo o território continental. Os
regulamentos locais são aqueles que têm o seu dominio de aplicação limitado a uma dada
circunscrição territorial. Os regulamentos institucionais são os que emanam de IP´S ou associação
públicas, para terem aplicação apenas ás pessoas que se encontram sob a sua jurisdição

4. critério que atende à projecção da sua eficácia


Dividem-se em regulamentos internos e externos.
Os regulamentos internos são os que produzem os seus efeitos juridicos no interior da esfera juridica
da pessoa colectiva pública de que emanam.
Os regulamentos externos são aqueles que produzem efeitos juridicos em relação a outros sujeitos
de direito diferentes, isto é , em relação a outras pessoas colectivas públicas ou em relação a
particulares.
Levantam-se dois problemas ( ver pags 165 e 166)
Não vale para os regulamentos internos o principio da inderrogabilidade dps regulamentos. Mas vale
para os regulamentos externos.

Distinção entre regulamento e lei:

Critérios de distinção - prevalece um forte relativismo na delimitação entre lei e regulamento,


dependendo nomeadamente do tipo de organização politico- administrativa de cada Estado. São
vários os critérios.
a) Um dos critérios assenta na diferença entre principios e pormenores. À lei caberia a formulação
dos principios, ao regulamento a disciplina dos pormenores. O critério é fraco. Nada impede que haja
pormenores numa lei, e principios num regulamento.
b) Um outro critério, sustentado por Marcello Caetano, distingue estas duas realidades alegando que
ao regulamento falta a novidade, que é característica da lei. Este critério apresenta dificuldades ao
nivel dos regulamentos independentes ou autónomos, porque estes não pressupõem nenhuma lei, a
não ser a tal lei de habilitação. Segundo DFA, são inovadores, criam direito. Logo, o prof Marcello
Caetano não consegue distinguir entre lei e regulamento independente.
c) Um outro critério ainda baseia-se na identidade material entre lei e regulamento. Substancialmente
os regulamentos são lei. Assim, a distinção entre ambos só pode ser feita no plano formal e
orgânico. Ou seja, materialmente tanto a lei como o regulamento são normas juridicas. A diferença
vem da diferente posição hierárquica dos órgãos de onde emanam e logo do seu valor formal ( a lei
pode revogar o regulamento. se contrariar a lei, será ilegal). O professor Freitas do Amaral concorda
com este último critério.

Esta distinção é importante porque:


- fundamento juridico: a lei em regra baseia-se unicamente na CRP. O regulamento só será válido se
uma lei de habilitação atribuir competência para a sua emissão . art 112 nº7 CRP
- ilegalidade: em regra uma lei contrária a outra lei revoga-a, ou então coexistem ambas na ordem
juridica. Um regulamento contrário a uma lei é ilegal.

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Direito Administrativo II

- impugnação contenciosa: a lei só pode ser impugnada com fundamento em inconstitucionalidade


(ou excepcionalmente em ilegalidade sui generis). O regulamento ilegal é impugnável junto dos
tribunais administrativos com fundamento em ilegalidade propriamente dita. Excepcionalmente, um
regulamento pode ser impugnado directamente perante o TC.

Distinção entre regulamento e acto administrativo

A distinção baseia-se na diferença entre norma juridica e acto juridico. Assim, tanto o regulamento
como o acto administrativo são comandos juridicos unilaterais emitidos por um órgão competente no
exercicio de um poder público de autoridade. Mas o regulamento, enquanto norma juridica, é uma
regra geral e abstracta. E o acto administrativo é, como acto juridico, uma decisão individual e
concreta. Três dificuldades que podem resultar disto:
- comando relativo a um órgão singular (PR, por ex): é norma se dispuser em função dessa categoria
abstracta e não da pessoa concreta. Será acto no caso contrário;
- comando relativo a um grupo restrito de pessoas, todas determinadas ou determináveis: é norma
se dispuser por meio de categorias abstractas, tais como “promoção”, “actuais”, “funcionários”. Será
acto se tiver os nomes de cada individuo por ex.
- comando geral dirigido a uma pluralidade indeterminada de pessoas, mas para ter aplicação
imediata numa única situação concreta: grande parte da doutrina considera existir aqui um acto
administrativo. O prof DFA considera que é uma norma juridica, porque existe a tal generalidade, o
que não há é vigência sucessiva.

Importância da distinção:
- interpretação e integração: o regulamento é interpretado e as suas lacunas são integradas tendo
em conta as regras normais da interpretação e integração para as regras juridicas. Pelo contrário,
para o acto administrativo existem outras regras especificas.
- vicios e formas de invalidade: também podem não coincidir. O modelo seguido no regulamento é o
das leis. Ao nivel dos actos administrativos é o do negócio juridico
- impugnação contenciosa: os regulamentos, ao contrários dos actos administrativos (só tribunais
administrativos), podem ser considerados ilegais em quaisquer tribunais. O prazo de impugnação,
regras processuais, legitimidade também são diferentes.

Fundamento do poder regulamentar

Do ponto de vista prática, o poder regulamentar funda-se na impossibilidade do legislador prever


todas as situações. Isto faz com que a AP tenha que intervir para criar as condições para a aplicação
da lei aos casos da vida.
Do ponto de vista histórico, regista-se uma impossibilidade de aplicação rigorosa do principio da
separação de poderes. Levado ao extremo, faria com que a AP não pudesse emitir normas juridicas,
tarefa exclusiva do poder legislativo.
Do ponto de vista juridico, o fundamento do poder regulamentar tem variado ao longo das épocas.

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Direito Administrativo II

No Estado social de direito, o fundamento reside na CRP e na lei, de acordo com o principio da
legalidade. O fundamento do poder regulamentar em geral reside na CRP. O fundamento de cada
regulamento em particular reside na respectiva lei de habilitação em especial. Excepções:
- regulamentos internos: entende-se que os órgãos das diferentes pessoas colectivas públicas da AP
têm por natureza o poder de fazer regulamentos internos. Segundo alguns, este poder resulta de um
direito próprio da AP. O professor DFA discorda com isto. Assim, a soberania é um atributo do poder
politico, não do poder administrativo. Para este admitem-se os regulamentos internos devido a um
poder de direcção, próprio do superior hierárquico
- regimentos de órgãos colegiais: terão o poder de elaborar os seus próprios regulamentos de
organização e funcionamento. Isto fundamenta-se num poder de auto- organização, que é uma
condição sine qua non do seu funcionamento.

Limites do poder regulamentar

Decorrem da posição dos regulamentos na hierarquia das fontes de direito


- em primeiro lugar, os principios gerais de Direito. Preceitos ou máximas ligados à ideia de Estado
de Direito e ao principio da justiça.
- em segundo lugar, a CRP.
- depois, os principios gerais de Direito Administrativo. Ex: principio da inderrogabilidade singular dos
regulamentos. Estes principios podem ser revogados por norma legaus, pois têm a mesma posição
hierárquica delas, mas não podem ser derrogados pelos regulamentos.
- em seguida, a lei - principio da legalidade. A lei tem absoluta prioridade sobre os regulamentos.
(Preferência de lei). Logo é proibido desde a revisão de 82, a existência de regulamentos delegados.
art 112 nº6 CRP. Para além da prevalência ou preferência de lei, existe ainda o principio da reserva
de lei. Isto significa duas coisas: que o poder regulamentar não pode desenvolver áreas que
constitucionalmente estejam reservadas á lei (principio da reserva material de lei); e o exercicio de
qualquer actividade administrativa tem que ser precedido de uma lei habilitante (precedência de lei).
Poderão ser emitidos regulamentos independentes fundados na CRP? Segundo DFA, não, art 112
nº8 CRP
NOTA: só pode haver regulamentos independentes se uma lei expressamente habilitar certo órgão
administrativo a fazer um regulamento sobre certa matéria administrativa. Entre a CRP e o
regulamento independente tem que estar sempre o legislador.
TODOS os regulamentos devem mencionar as concretas leis que os habilitam, sob pena de
inconstitucionalidade formal.
- constitui também limite a disciplina juridica constante dos regulamentos editados por órgãos que se
situem num plano superior ao do órgão que editou o regulamento. Subordinação hierarquica entre os
regulamentos. Os regulamentos do Governo prevalecem sobre as outras normas administrativas,
mesmo posteriores, em caso de conflito, salvo a competência especial dos órgãos das RA( art 227 d,
2º parte CRP). Quanto ás autarquias, a regra é a de que prevalecem os regulamentos emanados da
autarquia de grau superior (art 241 CRP - por ex, um regulamento de uma freguesia, deve
obediência ao de um municipio). Dentro de cada autarquia terão o mesmo valor, prevalece a

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Direito Administrativo II

posterior.
- constitui limite ainda a proibição de o regulamento dispor retroactivamente. Não se inclui neste
limite aqueles casos em que a própria leu concede à AP a faculdade de regular retroactivamente. Ou
também o caso de o novo regulamente estabelecer um regime mais favorável aos particulares.
- está ainda sujeito a limites de competência e de forma. A falta de competência poderá dar lugar a
inconstitucionalidade ou ilegalidade orgânica.

Competências e forma

- regulamentos do Governo: competência regulamentar do Governo, ao nivel do Estado. art 199c) e


g) CRP. A competência será em regra desenvolvida pelo Ministro da pasta respectiva, só intervindo o
Conselho de Ministros quando a lei expressamente o preveja. art 201 nº2 a). Excepcionalmente, o
Conselho de Ministros pode dispor de competência regulamentar - aquela que a lei lhe atribua;
aquela cujo assunto for levado ao Conselho ou que este se entende pronunciar.
Qual a forma dos regulamentos do Governo? São várias as formas possiveis, dependendo do órgão:
- como forma solene de actuação do Governo, temos o decreto regulamentar. art 112 nº6 CRP( os
regulamentos independentes terão necessariamente que revestir essa forma). O Governo pode
ainda actuar sobre a forma de resolução do Conselho de Ministros.
Quando o regulamento provém de um ou mais ministros em nome do Governo estamos perante uma
portaria
Quando um regulamento provém de um ministro em nome do seu ministério, e não em nome do
Governo, estamos perante um despacho normativo.

- RA: art 227 nº1 d) CRP. art 232 nº1. art 231 nº5. A CRP não define a forma que devem revestir os
actos dos órgãos das RA. São definidos pelos respectivos estatutos politico- administrativos.

- autarquias locais: art 241 CRP. O poder regulamentar decorre da sua própria autonomia. A
concessão do poder regulamentar a uma autarquia habilita todos os seus regulamentos, que só têm
de invoca a lei que concede o poder regulamentar. Não se exige assim uma lei prévia para cada
caso. Os mais tipicos são as posturas.

- têm ainda competência regulamentar os IP´s e as associações públicas, não existindo uma forma
especial para os seus regulamentos.

Processo de elaboração dos regulamentos

art 114 CPA e seg.

art 115 CPA - direito de petição. Dois deveres : dever de fundamentar a petição, do particular; dever
de informar os particulares do destino dessa petiçao, da AP.

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Direito Administrativo II

art 116 CPA - todo o projecto de regulamento deve ser acompanhado de uma nota justificativa
fundamentada.

art 117 e 118 - principio da audiência dos interessados e da apreciação pública dos projectos de
regulamento.

Publicação:é indispensável que os cidadãos conheçam e tenham fácil acesso ao direito vigente e
fiquem a saber das principais decisões dos órgãos do poder politico. Art 119 nº1 h) CRP, são
publicados no Diário da República, sob pena de ineficácia juridica.

vigência: iniciam a sua vigência na data que neles estiver prevista ou, faltando tal fixação, 5 dias para
o Continente e 10 dias para as RA após a publicação (descontando o dia em que ocorra).

modificação e suspensão: isto cabe quer aos órgãos que os elaboraram, quer aos órgãos
hierarquicamente superiores com poder de supervisão, quer ainda os órgãos que assumam um
poder tutelar. Deve respeitar um processo idêntico ao da sua elaboração. Isto também pode ser
efectuado pelo legislador, segundo o principio de que nada é vedado à lei. art 119 nº1 CPA - quando
a AP tem obrigação de elaborar os regulamentos, expressamente, não pode modificá-los ou
suspendê-los, sem editar novas regras

inderrogabilidade singular: a AP pode modificar, suspender, ou revogar um regulamento anterior por


via geral e abstracta. Mas a AP nao pode derrogar regulamentos eternos em casos isolados,
mantendo-os em vigor para todos os restantes casos - principio da inderrogabilidade singular dos
regulamentos. A justificação para isto reside no principio da legalidade. A Ap está sujeita a todo
ordenamento juridico e, como tal, as próprias regras que cria. Explica-se também pelo principio da
igualdade.

Termo

Os regulamentos podem cessar a vigência por:

⇒caducidade
São casos em que o regulamento caduca. i.e, cessa automaticamente a sua vigência, por ocorrerem
determinados factos que ope legis produzem esse efeito juridico. Os principais casos de caducidade
são:
- o regulamento é feito para vigorar durante um prazo. Depois caduca
- caduca também se forem transferidas as atribuições da pessoa colectiva para outra autoridade
administrativa, ou se cessar a competência regulamentar do órgão que fez o regulamento.
- quando for revogada a lei que se destinava a executar, sem que esta tenha sido substituida por
outra.

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Direito Administrativo II

⇒revogação
Um acto voluntário dos poderes impõe a cessação dos efeitos, total ou parcial, do regulamento:
- revogação expressa ou tácita: operada por outro regulamento, de grau hierárquico superior e forma
idênticos;
- revogação expressa ou tácita: por regulamento de autoridade hierarquicamente superior ou por
regulamento de forma legal mais solene
- revogação expressa ou tácita por lei
art 119 n1 e 2 CPA.

⇒decisão contenciosa

Deixam de vigorar sempre que um tribunal competente declare a respectiva ilegalidade, os declare
nulos ou os anule, no todo ou em parte.

2. O acto administrativo

ver art 268 nº4 CRP

Conceito : “o acto administrativo é o acto juridico unilateral praticado, no exercicio do poder


administrativo, por um órgão da Administração ou por outra entidade pública ou privada para tal
habilitada por lei, e que traduz uma decisão tendente a produzir efeitos juridicos sobre uma situação
individual e concreta” ver art 120 CPA.

Análise da definição.
• acto juridico:
É um acto juridico , ou seja, uma conduta voluntária produtora de efeitos juridicos. Como tal, são -lhe
sempre aplicáveis os principios gerais de Direito. Ficam fora deste conceito os factos voluntários; as
operações materiais e as actividades juridicamente relevantes.

• acto unilateral:
É um acto juridico que provém de um autor cuja declaração é perfeita independentemente do
concurso de vontades de outros sujeitos. Não se confunde com o contrato. Este último é bilateral.
Note-se que , por vezes, a eficácia do acto administrativo depende da aceitação de um particular,
mas essa aceitação funciona apenas como condição de eficácia do acto.

• exercicio do poder administrativo:


o acto administrativo deve ser praticado no exercicio do poder administrativo. Só os actos praticados
no exercicio de um poder público, ou seja, ao abrigo de normas de direito público, para o
desempenho de uma actividade administrativa de gestão pública- só esses são actos
administrativos.
Logo, não são actos administrativos, os actos da AP praticados no desempenho de actividades de

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Direito Administrativo II

gestão privada.
Também não são actos administrativos, os actos politicos, os actos legislativos e os actos
jurisdicionais. Ex: referenda ministerial

• acto praticado por um órgão administrativo:


É um acto praticado por um órgão da AP em sentido orgânico ou, por um órgão de uma pessoa
colectiva privada, ou por um órgão do Estado não integrado no poder executivo, por lei habilitados a
praticar actos administrativos.
Dentro da AP nem todos os funcionários podem praticar actos administrativos. Só aqueles que estão
referidos na lei ou cuja poder lhes foi atribuido pelo fenómeno da delegação de poderes. Os
individuos que por lei ou delegação de poderes têm aptidão para praticar actos administrativos são
órgão da Administração.
São também actos administrativos, os actos praticados por órgãos de pessoas colectivas que não se
integram na AP em sentido orgânico. Determinadas pessoas colectivas privadas (ex: pessoas
colectivas de utilidade pública; sociedades de interesse colectivo), que colaboram com a AP na
prossecução do interesse público. ver art 2 e 3 CPA.
Por força da lei, são também actos administrativos, certos actos juridicos praticados por órgãos dos
Estados não pertencentes ao poder executivo. I.e, órgãos integrados no poder moderador, legislativo
ou judicial. art 2º nº1 CPA. Inicialmente discutiu-se se estes actos, provindos de outros órgãos dos
Estados eram actos administrativos ou não. Por ex, o Presidente da República demite ilegalmente
um funcionário. É possivel recorrer contenciosamente para os tribunais administrativos disto?
Considerava-se inicialmente que não. Estes actos não eram administrativos. Assim, não provinham
de órgãos da Administração e como tal, não faria sentido submetê-los à fiscalização dos tribunais
administrativos. Isto evoluiu, e actualmente certas leis (ex: ETAF), admitem recurso contencioso
contra determinadas categorias emanadas de órgãos não adminstrativos do Estado.

• acto decisório
Art 120 CPA. É uma decisão proveniente de um órgão administrativo. Assim, segundo DFA, nem
todos os actos praticados no exercicio de um poder administrativo são actos administrativos. Só são
aqueles que correspondem a um conceito estrito de decisão, i.e, a uma estatuição ou determinação
sobre uma certa situação juridico administrativa. (ex: não são actos administrativos as requisições,
as propostas, as informações...). Neste sentido, Rogério Soares. Para este, os actos juridicos não
decisórios, que desenvolvem uma função auxiliar em relação aos actos administrativos, podem
denominar-se por actos instrumentais.

• acto produtor de efeitos juridicos numa situação individual e concreta


O acto administrativo visa a produção de efeitos juridicos numa situação individual e concreta. Isto
permite distingui -lo do regulamento, que tem um conteúdo geral e abstracto. Um acto administrativo
que não contenha em si mesmo a individualização do destinatário a que se aplica e o caso sobre o
qual versa, não pode valer perante a ordem juridica, como acto administrativo. Não pode ser válido
ou eficaz. Ficam portanto, fora do conceito de acto administrativo os actos normativos de carácter

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Direito Administrativo II

material: quer os actos legislativos (CRO, art 112 nº1), quer os regulamentos

Os chamados actos colectivos, plurais e gerais:


- actos colectivos são aqueles que têm por destinatários um conjunto unificado de pessoas. Ex: o
Governo decide dissolver um órgão colegial, sujeito a tutela ou superintendência. É um acto
colectivo, porque tem por objecto um conjunto unificado de pessoas. E é um acto genérico ou é um
acto administrativo? Segundo DFA, é um acto administrativo, porque não se trata de formular regras
gerais e abstractas. A regra geral e abstracta dirá “sempre que se verifiquem determinadas
circunstâncias, o Governo pode dissolver os órgãos tal e tal”. Quando o Governo, por aplicação
dessa norma, dissolve um determinado órgão, estamos perante um acto individual e concreto

- actos plurais: são aqueles em que a AP toma uma decisão aplicável por igual a várias pessoas
diferentes. Ex: um despacho ministerial nomeia 20 funcionários públicos para 20 vagas numa
direcção geral. Sob a aparência de um unico acto administrativo, o que existem na verdade são
vários actos administrativos. São tantos os actos administrativos, quanto os funcionários nomeados.
Trata-se de 20 nomeações.

- actos gerais - aqueles actos que se aplicam de imediato a um grupo inorgânico de cidadãos, todos
bem determinados, ou determináveis no local. Ex: estão 20 pessoas a olhar para uma montra. Vem
um policia e diz, façam favor de dispersar. Sabe-se perfeitamente a quem se destina a ordem. Estes
actos gerais , não devem ser considerados como genéricos. Não são normas juridicas. São ordens
concretas dadas a pessoas concretas e bem determinadas, ou imediatamente determináveis. Serão
actos genéricos quando não se permite a identificação dos seus destinatários
individualizadamente.Ficará portanto sujeito ao regime dos artigos 114 e seg do CPA, e não se
submete ao regime de impugnação contenciosa dos actos administrativos, mas ao dos
regulamentos.

Natureza jurídica do acto administrativo?

- Para uns, o acto administrativo tem um carácter de negócio juridico - o negócio juridico público.
- Para outros, o acto administrativo é um acto de aplicação do direito, situado no mesmo escalão e
desenvolvendo uma função idêntica à da sentença judicial.
- Para outros( entre os quais DFA) ainda, o acto administrativo não pode ser assemelhado nem ao
negócio juridico, nem à sentença, e portanto tem uma natureza própria, enquanto acto unilateral de
autoridade pública ao serviço de um fim administrativo.

O género acto administrativo tem duas espécies:


• actos vinculados - apresenta semelhanças em relação á sentença. Assim, ambos são actos
de aplicação do direito às situações individuais e concretas, sem liberdade de conformação do
seu conteúdo.

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Direito Administrativo II

• actos discricionários - existem semelhanças entre estes e o negócio juridico. Assim, tem de
comum a autonomia dada ao autor de conformar o conteúdo da decisão dentro dos limites da
lei.
Assim:
- o regime juridico do acto administrativo é o que consta da lei e da jurisprudência administrativa
- se outra coisa não resultar, poderá aplicar-se supletivamente aos actos predominantemente
discricionários as regras próprias do negócio juridico
- se outra coisa não resultar, também se poderá aplicar aos actos predominantemente vinculados as
regras próprias da sentença.

O papel da vontade no acto administrativo?


- os autores que o consideram um negócio juridico, têm tendência a valorizar o papel da vontade do
órgão da AP que pratica o acto - principio da autonomia da vontade.
- os autores que o assemelham à sentença, têm tendência para minimizar o papel da vontade do
órgão da AP. Não há nada de vontade. A vontade psicológica do agente é irrelevante. O que releva é
a vontade funcional ou normativa. Não é preciso apurar o que se quis ou o que se terá querido, mas
sim se se cumpriu ou não a lei.

Relevância desta distinção?


- no plano da interpretação do acto administrativo - se o acto corresponde ao negócio juridico, o
elemento decisivo na interpretação é o apuramento da vontade psicológica do seu autor. Mas se o
acto corresponde à sentença, o elemento decisivo é a lei
- no plano da integração das lacunas do acto administrativo - se constituir um negócio juridico, as
lacunas devem ser preenchidas pela reconstituição da vontade hipotética do órgão administrativo. Se
for equiparado a uma sentença, o preenchimento das lacunas deverá ser feito por dedução do
dispositivo legal aplicável ao tipo de acto em causa
- no plano dos vicios da vontade que afectem o acto administrativo - os que o consideram um
negócio juridico, não consideram que os vicios da vontade gerem ilegalidade do actos. Antes
consideram que são uma fonte autónoma da invalidade. Os que consideram uma sentença, defende
a não relevância dos vicios da vontade, na medida em que gerem a ilegalidade do acto.

O Prof DFA defende que se deverá adoptar uma posição intermédia. Assim, o papel da vontade no
acto administrativo não é idêntico ao papel da vontade no negócio juridico ou na sentença. Deverá
portanto adoptar-se uma concepção própria e singular.

Estrutura do acto administrativo?

- elementos subjectivos - o acto administrativo tipico põe em relação dois sujeitos de direito: a AP e
um particular, ou duas pessoas colectivas públicas, ou duas pessoas colectivas privadas. Existem

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Direito Administrativo II

excepções a isto, por ex, no caso dos actos multipolares, com eficácia em relação a terceiros. (ex:
decisão de construir um aeroporto).

- elementos formais - todo o acto administrativo tem necessariamente uma forma, i.e , um modo pelo
qual se exterioriza ou manifesta a conduta voluntária em que o acto consiste. (não se deve confundir
a forma do acto, com a forma dos documentos - decreto, resolução...). Deve ter-se ainda em conta
as formalidades prescritas pela lei (procedimento administrativo). São formalidades todos os trâmites
que a lei manda observar com vista a garantir a correcta formulação da decisão administrativa , bem
como o respeito pelos direitos subjectivos e interesses legitimos dos particulares.

- elementos objectivos - são o conteudo e o objecto. O conteúdo do acto é a substância da conduta


voluntária em que o acto consiste. Fazem parte deste: a decisão essencial tomada pela AP; as
clausulas acessórias; os fundamentos da decisão tomada. O objecto do acto consiste na realidade
exterior sobre a qual o acto incide (uma pessoa, uma coisa ou um acto administrativo primário). Ex:
na expropriação, o conteudo do acto é a decisão de expropriar, mas o objecto é o terreno
expropriado.

- elementos funcionais - a causa; os motivos e o fim. A causa é a função juridico- social de cada tipo
de acto administrativo. (ex: a causa da nomeação é o preenchimento de lugares vagos nos quadros).
Os motivos são todas as razões de agir que impelem o órgão da AP a praticar um certo acto
administrativo ou a dotá-lo de um determinado conteúdo. Abrangem-se os motivos principais e
acessórios, os motivos tipicos e atipicos, os motivos próximos e remotos, os motivos mediatos e
imediatos, etc. ( na causa apenas estão abrangidos os motivos tipicos imediatos). O fim constitui o
objecto ou finalidade a prosseguir através da prática do acto administrativo. Distingue-se o fim legal,
i.e, o fim visado pela lei na atribuição da competência ao órgão da AP- e o fim real, prosseguido de
facto pelo órgão administrativo num dado caso.

Elementos, requisitos e pressupostos?

- elementos são as realidades que integram o próprio acto, em si mesmo considerado. Dividem-se
em elementos essenciais (aqueles sem os quais o acto não existe). E elementos acessórios (que
podem ou não ser introduzidos no acto pela AP).
- requisitos são as exigências que a lei formula em relação a cada um dos elementos do acto
administrativo. Dividem-se em requisitos de validade ( sob pena de invalidade), e requisitos de
eficácia (sob pena de ineficácia).
- pressupostos são as situações de facto de cuja ocorrência depende a possibilidade legal de praticar
um certo acto administrativo ou de o dotar com determinado conteúdo.

Menções obrigatórias do acto administrativo?

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Direito Administrativo II

art 123 CPA. 5 menções obrigatórias:


⇒indicação do autor do acto;
⇒identificação do seu destinatário;
⇒o conteúdo da decisão;
⇒a data da decisão;
⇒a assinatura do seu autor ou do seu representante.
Há três menções que só são exigidas em certos casos: a menção de delegação ou subdelegação; a
enunciação dos antecedentes de facto que originaram o acto administrativo; e a fundamentação da
decisão.
Estas exigências legais permitem:
- uma correcta identificação de cada acto administrativo;
- facilitar a respectiva interpretação
- proporcionar aos particulares afectados os elementos de informação necessários à organização da
sua defesa perante eventuais ilegalidades.
E se um acto administrativo não tiver alguma das menções obrigatórias, exigidas no artigo 123 CPA?
Depende. Assim:

• por não conterem elementos essenciais, são nulos (art 133 nº1CPA), os actos a que falte: a
indicação do seu autor (alinea a) 1º parte), a identificação adequada do destinatário(s) (alinea
b)); o conteúdo ou o sentido da decisão (alinea e)); e assinatura do autor do acto ou do
presidente do órgão colegial de que emane (alinea g)).
• por estarem feridos de violação da lei ou d vicio gerador de anulabilidade, são anuláveis os
actos a que falte: a enunciação dos factos ou actos que lhe deram origem, quando relevantes
(alinea c)); a fundamentação da decisão quando exigivel (alinea d)); ou a data em que são
praticados (alinea f)
• por ocultarem elementos que dificultam a sua compreensão pelo destinatário (s), são
irregulares os actos que, praticados ao abrigo da delegação ou subdelegação de poderes, não
mencionem a existência dessas delegação ou subdelegação (aliena a), 2ªparte).
Se o acto for nulo, não pode ser sanado ou convalidado. Se for anulável, a sanação ou convalidação
é possivel, mas só nos termos legais. Se for irregular, produzirá os seus efeitos tipicos, embora
também possa gerar alguns efeitos diferentes dos efeitos comuns (ex: responsabilidade civil e
disciplinar).

Tipologia dos actos administrativos?

Os actos administrativos dividem-se em actos primários e actos secundários.


Actos primários são aqueles que versam pela primeira vez sobre uma determinada situação da vida.
Ex: nomeação de um funcionário; conceder uma licença para construção de casa.
Actos secundários são aqueles que versam sobre um acto primário anteriormente praticado. Têm por
objecto um acto primário preexistente, ou então versam sobre uma situação que já tinha sido

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regulada através de um acto primário. (revogação de um acto administrativo, suspensão...).


Os actos primários dividem-se em actos impositivos e actos permissivos.

Actos impositivos?
São aqueles que impõem a alguém uma certa conduta ou a sujeição a determinados efeitos juridicos.
Existem quatro tipos de actos impositivos:

- os actos de comando - são aqueles que impõem a um particular a adopção de uma conduta
positiva ou negativa. Se impõem uma conduta positiva, chamam-se ordens. Se impõem uma conduta
negativa chamam-se proibições. O dominio principal deste tipo de actos é o direito da policia

- os actos punitivos - são aqueles que impõem uma sanção a alguém.

- os actos ablativos - são aqueles que impõem a extinção ou a modificação do conteúdo de um


direito. (ex: expropriação de terrenos; nacionalizações...).

- os juizos - são actos pelos quais um órgão da AP qualifica, segundo critérios de justiça, pessoas,
coisas ou actos submetidos á sua apreciação. (ex: classificações, graduações...).

Actos permissivos?
São aqueles que possibilitam a alguém a adopção de uma conduta ou a omissão de um
comportamento que de outro modo lhe estariam vedados. Distribuem-se por dois grandes grupos: os
actos que conferem ou ampliam vantagens; os actos que eliminam ou reduzem encargos.
Dentro dos actos que conferem ou ampliam vantagens há que considerar seis espécies:

- a autorização - é o acto pelo qual um órgão da AP permite a alguém o exercicio de um direito ou de


uma competência preexistente. Ou seja o particular já é titular de um direito, mas o seu respectivo
exercicio está condicionado pela necessidade de obter uma autorização da AP

- a licença - é o acto pelo qual um órgão da AP atribui a alguém o direito de exercer uma actividade
privada que é por lei relativamente proibida. Ao contrário do que acontece na autorização, na licença
o particular não é titular de nenhum direito. A actividade que ele pretende é proibida por lei, em
principio. Mas a lei admite que essa proibição possa ser afastada em casos excepcionais.

- a concessão - é o acto pelo qual um órgão da AP transfere para uma entidade privada o exercicio
de uma actividade pública, que o concessionário desempenhará por sua conta e risco, mas no
interesse geral. Ao contrário da licença, na concessão permite-se ao particular o exercicio de uma
actividade pública.

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- a delegação - é o acto pelo qual um órgão da AP, normalmente competente em determinada


matéria, permite, de acordo com a lei, que outro órgão ou agente pratiquem actos administrativos
sobre a mesma matéria.

- a admissão - é o acto pelo qual um órgão da AP investe um particular numa determinada categoria
legal, de que decorre a atribuição de certos direitos e deveres. (ex: matricula numa escola).

- a subvenção - é o acto pelo qual um órgão da AP atribui a um particular uma quantia em dinheiro
destinada a cobrir os custos inerentes à prossecução de uma actividade de interesse público.

Dentro dos actos que eliminam ou reduzem encargos:

- a dispensa - é o acto administrativo que permite a alguém, nos termos da lei, o não cumprimento de
uma obrigação geral. A dispensa pode revestir duas modalidades: a isenção e a escusa. A isenção é
concedida pela AP a particulares para a prossecução de um interesse público relevante (ex: isenções
fiscais). A escusa é concedida por um órgão da AP a outro órgão ou agente administrativo a fim de
garantir a imparcialidade da AP

- a renúncia - é o acto pelo qual um órgão da AP se despoja da titularidade de um direito legalmente


disponivel. Equivale à perda do direito.

As pré-decisões?

No que diz respeito a certos tipos de actos permissivos, parte da doutrina alude ainda ao conceito de
pré- decisões. Isto inclui os actos prévios e os actos parciais.
Os actos prévios são os actos administrativos pelos quais a AP resolve questões isoladas de que
depende a posterior decisão da pretensão autorizatória ou licenciatória formulada pelos particulares.
Ex: informação prévia prestada pelas Câmaras no caso das construções urbanisticas
Actos parciais são os actos administrativos pelos quais a AP decide antecipadamente uma parte da
questão final a decidir em relação a um acto permissivo. Ex: licença de estruturas

Actos secundários?

Distinguem-se em três categorias:

- actos integrativos - são os que visam completar actos administrativos anteriores. Dentro destes
temos que distinguir 4 categorias principais:
∗ a homologação - é o acto administrativo que absorve os fundamentos e conclusões de uma
proposta ou de um parecer apresentados por outro órgão. ver art 124 n2 CPA. A homologação

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é que é o acto administrativo principal, não é o acto homologado.


∗ a aprovação - é o acto pelo qual um órgão da AP exprime a sua concordância com um acto
anterior praticado por outro órgão administrativo, e lhe confere eficácia. A aprovação distingue-
se da homologação. Assim, na homologação, antes de ser praticada, não existe nenhum acto
administrativo. Existe apenas uma proposta ou parecer. Na aprovação, pelo contrário, antes
de esta ser dado, já existe um acto administrativo, só que ele não e eficaz. Portanto, a
aprovação vem apenas conferir eficácia a um acto administrativo que já existia, só que não era
eficaz. O acto principal é o acto aprovado, não é o acto de aprovação. vert art 129 a) CPA. A
aprovação distingue-se também da autorização. A autorização é um acto permissivo, enquanto
que a aprovação é um acto integrativo. Na autorização, permite-se a futura prática de um acto
ou o futuro exercicio de um direito, enquanto que na aprovação concorda-se com um acto já
praticado no passado. Mas a diferença fundamental reside no facto de a aprovação ser uma
condição de eficácia de um acto administrativo; enquanto que a autorização é uma condição
de validade da prática do acto. Assim , um acto sujeito a aprovação que ainda não tenha sido
aprovado é ineficaz; enquanto que um acto sujeito a autorização, e praticado sem que ela
tenha sido dada é um acto inválido
∗ o visto - é o acto pelo qual um órgão competente declara ter tomado conhecimento de outro
acto ou documento, sem se pronunciar sobre o seu conteúdo (visto meramente cognitivo), ou
declara não ter objecções, de legalidade ou de mérito, sobre o acto examinado e por isso lhe
confere eficácia (visto volitivo). Distingue-se da aprovação, porque nesta quem aprova exprime
a sua concordância com o conteúdo a oportunidade do acto aprovado. Pelo contrário, no visto
o órgão que o pratica não exprime a sua opinião, não adere nem concorda, apenas se limita a
não objectar.Ex: visto do tribunal de contas
∗ o acto confirmativo - é o acto administrativo pelo qual um órgão da AP reitera e mantém em
vigor um acto administrativo anterior. Ex: o superior reitera uma decisão do subalterno
∗ a ratificação confirmativa - é o acto pelo qual o órgão normalmente competente para dispor
sobre certa matéria exprime a sua concordância relativamente aos actos praticados, em
circunstâncias extraordinárias, por um órgão excepcionalmente competente. Se ratifica, o acto
torna-se definitivo. Se não ratifica, o acto caduca.

- actos saneadores;

- actos desintegrativos

Actos instrumentais?

São pronuncias administrativas que não envolvem uma decisão de autoridade. Dividem-se em duas
modalidades:
- as declarações de conhecimento - são actos auxiliares pelos quais um órgão da AP exprime

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Direito Administrativo II

oficialmente o conhecimento que tem de certos factos ou situações. Ex: atestados, informações,
certidões, etc. Têm, em principio, eficácia retroactiva. Limita-se a reconhecer direitos ou situações
que já existem.

- os actos opiniativos - são actos pelos quais um órgão da AP emite o seu ponto de vista acerca de
uma questão técnica ou juridica. São opiniões. Dentro desta modalidade há que ainda distinguir três
categorias: as informações burocráticas (são as opiniões prestadas pelos serviços ao superior
hierárquico competente para decidir); as recomendações( actos pelos quais se emite uma opinião, o
órgão não fica obrigado a decidir nesse sentido); os pareceres( são actos opiniativos elaborados por
peritos especializados em certos ramos do saber, ou por órgão colegiais de natureza consultiva).

Os pareceres agrupam-se em duas classificações:


- os pareceres obrigatórios ou facultativos - conforme a lei imponha ou não a necessidades de eles
serem emitidos
- os pareceres vinculativos ou não vinculativos - conforme a lei imponha ou não a necessidade de as
suas conclusões serem seguidas pelo órgão decisório competente. ver art 98 nº2 CPA, art 99 - um
parecer sem fundamentação é um acto nulo por violação do art 133 nº2 c) CPA

Classificação dos actos administrativos

• quanto ao autor: decisões e deliberações ou actos simples e actos complexos

Decisões são todos os actos administrativos (ver art 120 CPA). Deliberações são apenas as
decisões tomadas por órgãos colegiais.

Actos simples são aqueles que provém de um só órgão administrativo. Actos complexos são aqueles
em cuja feitura intervém dois ou mais órgãos administrativos. ver aty 142 nº1

• quanto aos destinatários: actos singulares, colectivos, plurais e gerais

• quanto aos efeitos: actos de execução instantânea e actos de execução continuada


Actos de execução instantânea são aqueles cujo cumprimento se esgota num acto ou facto isolado
(ex. decisão de encerrar um centro comercial). É um acto de execução continuada quando a sua
execução perdura no tempo. (licença para a instalação de uma determinada indústria).
Actos positivos - são aqueles que produzem uma alteração na ordem juridica. ex: uma nomeação. A
destruição deste tipo de actos acarreta a eliminação dos efeitos dele decorrentes.
São actos negativos aqueles que consistem na recusa de introduzir uma alteração na ordem juridica.
Ex: a omissão de um comportamento devido; um silêncio voluntário perante um pedido apresentado
à AP por um particular; o indeferimento expresso. A destruição deste tipo de actos implica a
necessidade de praticar os actos positivos que por lei deviam ter sido praticados e não o foram.
Certos actos podem ser positivos e negativos também - são os actos mistos. Ex. um aluno pede uma

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bolsa de estudo de 100 euros. A AP concede apenas 50.

• quanto à respectiva localização no procedimento e hierarquia administrativos: actos


definitivos e não definitivos
São actos definitivos aqueles que a AP toma no final do procedimento (acto definitivo em sentido
horizontal). Só são definitivos os actos praticados por aqueles que em cada momento ocupam o
topo de uma hierarquia, ou sejam independentes ( acto verticalmente definitivo). São actos não
definitivos todos aqueles que não contenham uma resolução final ou que não sejam praticados pelo
órgão máximo de certa hierarquia ou por órgão independente.

• quanto à susceptibilidade de execução administrativa: actos executórios e não executórios.


São executórios os actos administrativos simultaneamente exequiveis e eficazes cuja execução
coerciva por via administrativa não seja vedada por lei.
- são executórios os actos exequiveis ou seja, aqueles actos impositivos de deveres ou encargos
estruturalmente susceptiveis de execução coerciva contra os particulares
- são executórios os actos eficazes, ou seja, aqueles que produzem os seus efeitos tipicos ou
aqueles que a lei lhes atribui. Não são: art 150 nº1a);b); c); art 27 nº4; art 130 nº2; art 150 nº2; art
163 nº1, 170 nº1
- são executórios os actos voluntariamente incumpridos pelos particulares cuja execução coerciva
administrativa seja por lei permitida. Ex: não o são os actos tributários.

A regra geral é que todo o acto administrativo definitivo é executório. Existem , contudo, duas
excepções:
- casos de actos definitivos que não são executórios( ex: um acto sujeito a visto. Enquanto não lhe
for dado esse visto ele não é executório);
- casos de actos executórios que não são definitivos( ex: certos actos preparatórios; os actos sujeitos
a ratificação confirmativa)

3. Procedimento administrativo

“É a sequência juridicamente ordenada de actos e formalidades tendentes à preparação da prática


de um acto da AP ou à sua execução”. Difere do processo, que é o conjunto de documentos em que
se traduzem os actos e formalidades que integram o procedimento. ver art 1 nº2 CPA.

ver art 267 nº1 CRP - objectivos

Natureza juridica do procedimento administrativo ? ( é um verdadeiro processo?) 2 teses

- tese processualista - Marcello Caetano e DFA, por ex. Para estes é um verdadeiro processo.
- tese anti- processualista - Rogério Soares, por ex. Não é um processo

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Principios fundamentais?

- carácter escrito
- simplificação do formalismo
- natureza inquisitória - a AP é activa, goza do direito de iniciativa. ver art 56 CPA, e art 86 e seg
- colaboração da AP com os particulares - art 7 CPA
- direito de informação dos particulares - art 268 nº1 CRP, art 61 a 64 CPA
- participação dos particulares na formação das decisões que lhes respeitem - art 267 nº5 CRP, art 8
CPA
- principio da decisão - art 9 CPA
- principio da desburocratização e eficiência - art 10 CPA
- principio da gratuitidade- art 11 nº1 CPA

Espécies de procedimentos administrativos

Quem toma a iniciativa? art 54 CPA


- procedimentos de iniciativa pública (AP)
- procedimentos de iniciativa particular (particulares)

Quanto ao objecto?
- procedimentos decisórios - têm por objecto preparar a prática de um acto da AP. Podem ser de 1º
grau, ou 2º grau
- procedimentos executivos - têm por objecto executar um acto da AP

Outra distinção baseada no art 2 CPA:


- procedimento comum - é aquele que é regulado pelo próprio CPA
- procedimentos especiais - são regulados em leis especiais

Procedimento decisório de 1º grau ( 6 fases)

- Fase inicial - art 74 a 85CPA. Pode ser desencadeado pela AP ou por um particular interessado
( art 54 CPA).

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