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Clube do Aborto

por Hélio Schwartsman*

Arrisco hoje alguns comentários sobre o aborto. Grupos conservadores cristãos não o
aceitam porque entendem que a eliminação voluntária de um embrião configura uma
forma de assassinato. Embora eu não seja exatamente cristão e menos ainda um
conservador, também sou contra homicídios, se não por razões morais, pelo simples
fato de que eles desorganizam a sociedade, sendo, assim, algo a ser evitado. E se,
para mim, são principalmente considerações pragmáticas que justificam o Direito, para
os cristãos, o que legitima tudo são as Escrituras, no caso do aborto o "Não matarás"
do Êxodo 20:13. É evidente, contudo, que mesmo para o mais pio católico esse
preceito não pode ser tomado como um absoluto. Todos concordarão que ele não vale,
por exemplo, para animais e plantas, ou a própria humanidade não teria de que
alimentar-se.

A questão fundamental que se impõe é a de definir se um embrião é ou não um ser


vivo e, em caso afirmativo, desde quando. Nosso primeiro impulso é o de transferir a
pergunta para os biólogos. Afinal, são eles que dedicam a vida a examinar justamente
a vida e deveriam reconhecer seu objeto de estudo quando se deparam com ele. Mas,
infelizmente, da concepção ao nascimento, não há um instante biológico privilegiado,
em que se possa dizer univocamente: a partir de agora está vivo.

Se o critério é dado pelas determinações genéticas, a vida começa na concepção. Se o


que importa é respirar, vale o nascimento. Haveria uma miríade de outros momentos
sugestivos, como o início das batidas do coração (quarta semana), a possibilidade de
detecção de ondas cerebrais (seis semanas), parecer-se com um bebê (12 semanas).

No fundo, qualquer palpite será tão arbitrário quanto o de Aristóteles, para quem o
embrião do sexo masculino ganha alma por volta do 40º dia da concepção e o do sexo
feminino, no 90º. Se a ciência é incapaz de oferecer uma resposta definitiva a nossa
pergunta, sugiro então que voltemos à Bíblia.

No Êxodo 21:22-25, num trecho muito semelhante aos modernos códigos penais, em
que são atribuídos castigos para condutas pouco exemplares, encontramos: "Se alguns
homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não
resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe
impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes; mas se resultar
dano, então darás [como pena] vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por
mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe".
Parece forçoso concluir a partir daí que, para o Livro Sagrado, não é assim tão claro
que a vida começa na concepção, ou a sanção para quem danifica um embrião não se
limitaria a uma simples multa. Teria de valer a lei de talião dos últimos versículos.
Antes que me contestem a tradução do verbo hebraico "yalad" do original
(literalmente, "pôr para fora") por "abortar", esclareço desde já que essa é a
interpretação da Vulgata, a versão latina oficial do Antigo Testamento, que traz a
expressão "facere abortivum", ou seja, "fazer um aborto".

É verdade que, em bom latim, aborto pode significar apenas nascimento prematuro.
Mas convém lembrar que antes do século 20 e das UTIs neonatais, praticamente todos
os bebês prematuros morriam. Aliás, não só os prematuros, mas também muitos dos
recém-nascidos. Em Números 3:15, Deus manda que os israelitas façam um censo
contando todos os seus homens, mas os instrui a só considerar os bebês com mais de
um mês de idade. Aqui, um fundamentalista poderia concluir que a Bíblia autoriza
abortos até 28 dias (o mês lunar hebraico) após o nascimento.

O problema no fundo é que, dos textos sagrados, podemos extrair mais ou menos tudo
o que quisermos. Em 2 Reis 2:23-24, o profeta Elias amaldiçoa um grupo de meninos
que troçaram de sua calvície, ao que duas ursas presumivelmente enviadas por Deus
saltam da floresta e despedaçam 42 dos garotos. Se levarmos a sério o princípio de
que todos os atos divinos de justiça devem ser imitados, precisaríamos estabelecer a
pena capital para moleques que zombem de carecas. A verdade é que nem a ciência
nem as Escrituras, lidas segundo uma hermenêutica minimamente honesta, são
capazes de nos oferecer critérios unívocos para estabelecer quando a vida humana
começa.

O mais razoável é considerá-la como um processo sem instantes mágicos. Se


recuamos demais, até óvulos e espermatozóides podem ser considerados vida em
potência --e onanistas devem ser incriminados como genocidas. Se avançamos muito,
precisaríamos liberar o aborto até, digamos, a adolescência.

Parece mais do que claro, portanto, que a questão só pode ser resolvida democrática e
racionalmente se renunciarmos ao Direito natural, como teria sido estabelecido por
Deus ou esteja inscrito na essência das coisas, e recorrermos ao Direito positivo, para
o qual a vida começa quando a lei define que ela começa. Aqui, toda dúvida cessa,
pois a lei é arbitrariamente clara ao estabelecer a primeira respirada do bebê como o
momento em que ele adquire personalidade jurídica. A maioria dos países civilizados,
onde o aborto é permitido, simplesmente decreta que o procedimento é aceitável até
uma determinada fase da gestação, estabelecida de modo mais ou menos arbitrário,
sempre anterior à chamada viabilidade fetal, que é o estágio a partir do qual existe
uma chance, ainda que pequena, de que a criança sobreviva sob cuidados intensivos.

Nos países do Primeiro Mundo, a viabilidade fetal anda em torno da 25ª semana. Por
aqui, lá pela 28ª. E mesmo que rejeitemos a tese juspositivista de que a vida começa
quando estipulamos que ela começa, vale notar que tampouco a vida atual não é
tomada pelo Direito como algo absolutamente inviolável. O Código Penal prevê
algumas hipóteses de homicídio justificável, como a legítima defesa e o estrito
cumprimento do dever. O próprio serviço militar obrigatório torna-se, na eventualidade
de guerra, uma possível ou até provável condenação à morte. Mesmo a Igreja Católica
aceita esses casos especiais dos quais, aliás, largamente se utilizou em tempos
pregressos.

A questão é saber se vale a pena ou não tornar o aborto legal. Para efeitos de
argumentação, vamos conceder que o embrião seja um ser vivo desde a concepção.
Será que, mesmo nessa hipótese, não estaríamos diante de um daqueles casos de
homicídio justificável? A legalização pouparia, no Brasil, várias centenas, talvez alguns
milhares, de mulheres que morrem por ano em conseqüência de abortos clandestinos
mal feitos. É claro que devemos respeitar as convicções de todos os que sejam contra
o aborto. E o fazemos ao deixá-los livres para jamais submeter-se ao procedimento,
seja a gravidez perigosa para a mãe, fruto de um estupro ou traga em si fetos com
cacomorfoses incompatíveis com a vida extra-uterina.

A legalização não significa obrigatoriedade. Cada mulher estará autorizada a agir


segundo suas convicções pessoais. Religiões são como clubes. Criam suas regras e
quem quiser participar do grupo precisa segui-las. Mas é absurdo imaginar que o clube
possa impor seus usos também a quem não queira pertencer à agremiação. Aí já é
demais.

Hélio Schwartsman é editorialista da Folha.


O jornalista autorizou a reprodução do
texto que foi publicado em 2/07/2004