Você está na página 1de 14

TEORIA DA ARQUITETURA III - TRANSFORMAÇÃO

Departamento de Arquitetura - FCTUC


André Bem-Haja
Diogo Pinheiro
Gonçalo Saraiva
Ricardo Dias
Rúben Santos
Tânia Santos
Ano lectivo 2020/2021

SUMÁRIO

1. CONCEITO ……………………………………………………………………………… 3

2. EXEMPLOS ……………………………………………………………………………… 6

2.1 - Povoamento Florestal entre Mira e Quiaios …………………………………..… 6

2.2 - Construção de Brasília …………………………………………………………… 8

2.3 - Estádio Municipal de Braga, Eduardo Souto Moura ………………………….… 10

3. TERRITÓRIO COMO PALIMPSESTO ………………………………………………… 12

4. BIBLIOGRAFIA ………………………………………………………………………….. 13

5. FONTE DE IMAGENS ……………………………………………………………….…. 13

!2
Ano lectivo 2020/2021

1. CONCEITO

A humanidade ao longo do tempo e com a rápida evolução tecnológica tem transformado

cada vez mais a paisagem natural. Por questões económicas, políticas e necessidades básicas. E é

através da construção que nos damos conta do grande impacto que isso pode ter sobre uma

paisagem ou território.

A construção satisfaz as necessidades básicas do ser humano, dá-nos não só maior

segurança como conforto. Protegendo-nos por exemplo do clima, fenómenos naturais e outros

factores externos. Onde nós habitamos, é sempre notória a intervenção do Homem, pela forte e

abundante construção de edifícios, “as quatro paredes e um tecto sobre a nossa cabeça”

separam-nos do meio ambiente externo, criando dimensões próprias, humanas. Desta forma a

construção altera o espaço exterior, um pátio, uma aldeia ou uma cidade são ambientes artificiais.

Ou seja a relação entre espaço exterior e interior de uma construção são intervenções

significativas sobre um determinado ambiente.

Quando falamos do conceito “transformação”, este pode acontecer através de

fenómenos naturais, de cataclismos e ainda por acção humana. Este tema pode abranger várias

escalas, pode ser desde um pequeno abrigo a uma cidade de raíz.

Fig. 01 - Cidade Chandigarh, Le Fig. 02 - Erosão costeira


Corbusier, 1951
!3
Ano lectivo 2020/2021

Fig. 03 - Vulcão Kilauea, Havai, 2018

Com base na aula teórica que teve como referência o livro paisagem, ambiente e

território, focámo-nos nestes três conceitos para explicar o que é a transformação.

Território é a medida e controlo do espaço físico. Como refere Rosário Assunto no seu livro,

explica que este conceito “tem um significado quase exclusivamente espacial e um valor mais

extensivo-quantitativo do que intensivo-qualitativo. Por território entende-se, de facto, uma

extensão mais ou menos vasta da superfície terrestre, que pode ser delimitada segundo divisões

geofísicas (montes, rios), segundo diferenças linguísticas e segundo delimitações político-

administrativas que podem coincidir com os limites geofísicos e linguisticos ou ignorá-los.”1

Dentro de um território pode existir um ambiente, este pode ter dois significados, físico-

biológico e histórico-cultural. O físico-biológico refere-se às condições de vida influenciado pela

configuração de determinados locais, como a geografia, o clima, a hidrografia, o solo e a

orografia. O significado de histórico cultural, inclui a organização demográfica, actividades

económicas, costumes, tradições e manifestações artísticas. Um ambiente só existe num

determinado território. Por exemplo a cidade de Coimbra é um território com cerca de 320 km2,

isso é uma delimitação do território impondo limites, não são físicos mas são administrativos,

onde se insere um ambiente condicionado pelo clima, pela hidrografia e influenciado pelas

1Assunto, R. (2013). Paisagem-Ambiente-Território - Uma tentativa de clarificação conceptual. Em: Filosofia


da Paisagem, Uma antologia. Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa. Lisboa. P. 126
!4
Ano lectivo 2020/2021

actividades económicas e culturais. Outro exemplo, a ilha de São Miguel nos Açores, tem uma

área com cerca de 740 km2 delimitados fisicamente pelo mar e da mesma forma contém um

ambiente influenciado pelo clima, hidrografia, actividades económicas e culturais.

Já no ponto de vista da paisagem, é necessária a presença do Homem para esta existir. Rosário

assunto define este conceito como: “A paisagem é a forma que o ambiente confere ao território.”

É sempre uma produção cultural, uma construção resultante da visão (intervenção indirecta) ou da

acção (intervenção directa) do homem, que é dividida em dois factores: paisagem-imagem, que

remete para a visão e imaginação (Fig. 04), esta pintura é uma artialização do local in viso. Outro

factor, paisagem - objecto refere-se à intervenção do Homem no lugar (Fig. 05), este local é uma

artialização do local in situ. Resumindo, paisagem-imagem remete pata a representação e

paisagem-objecto remete para a construção.

Fig. 04 - Caminhante sobre o mar névoa, Caspar David Friedrich, 1818

Fig. 05 - Jardim Gulbenkian, 1969. Fotografia: Pedro Pina

!5
Ano lectivo 2020/2021

2. EXEMPLOS

2.1 - Povoamento Florestal entre Mira e Quiaios, 1928

No inicio do século XX, a extensão de costa entre Mira e Quiaios, era caracterizada pelo

um imenso manto de dunas. As areias transportadas pelo vento ameaçavam a paisagem agrícola,

ameaçando o sustento das populações. Para combater este avanço das areias, foi iniciado um

programa de povoamento florestal. O território foi transformado, desenhou-se uma nova

organização do espaço, através da plantação das árvores de forma geométrica e rigorosa. Uma

organização que se fez com base numa organização de novas estradas. Dessa forma foram

delimitados novos limites físicos, do ponto de vista administrativo também foi criado uma nova

organização com a introdução de guardas florestais.

O ambiente também foi transformado do ponto vista físico biológico, pois a florestação

provocou alterações no solo e no clima e no sentido histórico - cultural, esta intervenção permitiu

a manutenção das actividades económicas e da organização demográfica, ao impedir que as

pessoas de deslocassem para o interior.

No conceito paisagem, esta florestação alterou profundamente a imagem do local e ainda

introdução de novos elementos, como as casas dos guardas.

Fig. 06 - O avanço das dunas sobre os Pinhais de Mira, 1928.


!6
Ano lectivo 2020/2021

Fig. 07/08 - O natural e o artificial na


construção da paisagem.

Fig. 09 - Pescador dos Palheiros de


Mira.

Fig. 10 - Os funcionários dos Serviços


Florestais na casa da Guarda, junto à
“Lagoa de Baixo”.

!7
Ano lectivo 2020/2021

2.2 - Construção de Brasília, 1957-60

A construção de uma nova capital em Brasília é um exemplo de transformação de um

lugar a maior escala. Do ponto de vista do território foi delimitado um novo espaço administrativo

com a importância política de uma capital. No sentido do ambiente foi também alterado no

significado fisico-biológico, pois este passou a ser um espaço habitável, antes era um deserto. No

seu significado histórico-cultural houve uma alteração nas actividades económicas e no próprio

imaginário da população. Naquele território passaram a estar representados os símbolos de

poder. Na paisagem foi transformada in situ, através do plano piloto de Lúcio Costa, a forma do

território foi construída a partir de “acontecimentos da organização do espaço”2 e mais tarde

apropriada pelos vendedores ambulantes.


Fig. 11 - Construção de Brasília, 1957-60

2 Távora, Fernando, Da organização do espaço, 2006. P.14


!8
Ano lectivo 2020/2021

Fig. 12 a 17 - Esplanada dos Ministérios em


construção, Brasília, 1958. Fotografias: Marcel
Gautherot

!9
Ano lectivo 2020/2021

2.3 - Estádio Municipal de Braga, Eduardo Souto Moura, 2000 - 2003

O Estádio de Braga, é um obra que não procura esconder-se na natureza, tenta

acomodar-se a ela e à topografia. Pela sua dimensão e por opção do arquiteto, é obriga a criar

novas topografias. No sentido do território, a obra define novas relações espaciais e novos polos

urbanos. Cria-se um novo ambiente, fisico-biológico. A obra torna o granito da pedreira

habitável. Do ponto de vista histórico-cultural aquele espaço passa a ter uma actividade

económica/lúdica.

O factor paisagem - objeto, nesta uma obra mostra um certo domínio do homem sobre o

lugar, num jogo de contrastes e semelhanças da materialidade com o terreno. Por um lado a cor

do betão assemelha-se à cor da pedreira mas por outro a rugosidade da pedra contrasta com a

polidez do betão. Da mesma forma que o peso da estrutura contrasta com a leveza da pála.

Fig. 18 e 19 - Implantação e corte do Estádio Municipal de Braga, 2000 - 2003

!10
Ano lectivo 2020/2021

Fig. 20 a 23 - Estádio Municipal de Braga, Eduardo Souto Moura, 2000 - 2003

!11
Ano lectivo 2020/2021

3. Território como Palimpsesto

Ao contrário de Brasília, e do que o Movimento Moderno defendia, a esmagadora maioria

das cidades e territórios é formado e desenvolvido durante um longo período de tempo. A ideia

do território ser pensado a partir de uma tábula rasa, raramente é bem sucedido e quase sempre

se afasta do que os arquitetos/urbanistas planearam. Isto porque esta forma de fazer não tem em

conta, e rejeita, os imprevistos. André Corboz analisa os territórios e concluí que estes são uma

sucessão de contextos. Não tanto no sentido arqueológico, onde por vezes se pode perceber

claramente as várias finas camadas correspondentes a cada período, mas sim como um

Palimpsesto, onde os tempos são marcados de forma densa e “tridimensional”. Da mesma forma

que os monges copistas faziam nos pergaminhos, o território é um conjunto de novos traços que

marcam a urbanidade do tempo, deixando, contudo, marcas do passado.

Este conceito de Cidade como Palimpsesto é desenvolvido por Bernardo Secchi. Este afirma que

“a maior parte da superfície da Terra é um imenso deposito de signos conscientemente deixados

por aqueles que nos precederam. As diferentes gerações escreveram, corrigiram, excluíram e

adicionaram…”.3

É na relação entre entender o passado e projetar o futuro que Secchi defende que o

arquiteto/urbanista deve concentrar os seus esforços.

Os exemplos de transformação do território que apresentámos, exceptuando Brasília,

enquadram-se na noção de Palimpsesto. Quer através da manipulação e transformação da

matéria no Estádio de Braga, quer num contexto cultural e sócio-económico como a Florestação

entre Mira e Quiaios.

Num momento em que a muitas das cidades se deparam com património envelhecido, a

precisar de cuidados, é necessária esta reflexão. Entender o passado, para imaginar o futuro,

marcando sempre a contemporaneidade.


3 Secchi, Bernardo. Prima Lezione di Urbanistica, 2000


!12
Ano lectivo 2020/2021

4. Bibliografia:

Assunto, Rosário (2013). Paisagem-Ambiente-Território - Uma tentativa de clarificação

conceptual. Em: Filosofia da Paisagem, Uma antologia. Centro de Filosofia da Universidade de

Lisboa. Lisboa.

Corboz, Andre (2001). Le territoire comme palimpseste et autres essais.

Secchi, Bernardo (2000). Prima Lezione di Urbanistica.

Serrão, Adriana V. (2004). Filosofia e paisagem. Aproximações a uma categoria estética. In

Philosophica, Lisboa, 23

Távora, Fernando (2006). Da organização do Espaço. 3ª Ed. Porto: FAUP Publicações. Edição

original de 1962

Teixeira, Pedro Daniel de Brito (2016). Desenhar e construir a paisagem : o povoamento

florestal entre Mira e Quiaios, na primeira metade do século XX. Coimbra

5. Fonte de imagens:
Fig. 01 - https://chandigarhx.com/weve-got-vintage-photos-of-chandigarh-under-construction-

and-theyre-pure-gold/

Fig. 02 - https://olhares.com/erosao-costeira-foto9098931.html

Fig. 03 - https://veja.abril.com.br/mundo/vulcao-entra-em-erupcao-no-havai-e-autoridades-

evacuam-regioes-proximas/

Fig. 04 - https://i.pinimg.com/originals/dc/ab/97/dcab9778c3c52c3a949fc7898479701f.jpg

Fig. 05 - https://gulbenkian.pt/descobrir/geral/conversa-no-jardim-com-aurora-carapinha/

Fig. 06 a 10 - Teixeira, Pedro Daniel de Brito (2016). Desenhar e construir paisagem: o

povoamento florestal entre Mira e Quiaios, na primeira metade do século XX. Coimbra

Fig. 11 - https://pt.wikipedia.org/wiki/Plano_Piloto_de_Bras%C3%ADlia#/media/

Ficheiro:Bras%C3%ADlia,_Brasil.jpg

Fig. 12 - http://1.bp.blogspot.com/_q08M1ajACHg/S8xL-7MvfrI/AAAAAAAAJ5I/oYRvVluuKnI/

s1600/Esplanada+dos+Ministérios+em+construção.+Bras%C3%ADlia,

+1958.+Marcel+Gautherot+IMS.jpg

Fig. 13 a 17 - https://www.archdaily.com.br/br/01-81125/brasilia-em-construcao-por-marcel-

gautherot

Fig. 18 a 23 - https://www.atlasofplaces.com/architecture/braga-municipal-stadium/

!13
Ano lectivo 2020/2021

!14

Você também pode gostar