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Ministério Público do Estado de Mato Grosso

Núcleo de Ações de Competência Originária


Procuradoria Geral de Justiça

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DESEMBARGADOR(A)


RELATOR(A) DA TURMA DE CÂMARAS CRIMINAIS REUNIDAS DO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO.

SIGILOSO

Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT


SIMP nº 010195-001/2021
Representação a ser juntada em AUTOS APARTADOS

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE


MATO GROSSO, por seu Procurador-Geral de Justiça, em conjunto com
a POLÍCIA JUDICIÁRIA CIVIL DO ESTADO DE MATO GROSSO, por
seu Delegado de Polícia lotado no Grupo Operacional Permanente do
NACO, vêm, à presença de Vossa Excelência, requerer a decretação
das seguintes medidas cautelares: a) AFASTAMENTO DO CARGO
em relação a Emanuel Pinheiro (Prefeito de Cuiabá), Antonio
Monreal Neto (Chefe de Gabinete) e Ivone de Souza (Secretária
Adjunta de Governo e Assuntos Estratégicos; b) SEQUESTRO DE
VALORES em relação a Emanuel Pinheiro, Marcia Pinheiro
(Primeira Dama), Antonio Monreal Neto, Ivone de Souza e
Ricardo Aparecido Ribeiro (Ex-Coordenador de Gestão de Pessoas
da Secretaria Municipal de Saúde); c) BUSCA E APREENSÃO em
relação a Emanuel Pinheiro, Marcia Pinheiro, Antonio Monreal
Neto, Ivone de Souza e Ricardo Aparecido Ribeiro; e d) PRISÃO
TEMPORÁRIA de Antonio Monreal Neto, pelas razões fáticas e
fundamentos jurídicos a seguir expostos.

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I - DOS FATOS

O Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-


PJC/NACO-MPMT foi instaurado a partir de cópia do Procedimento
Administrativo de SIMP nº 000460-023/2021, encaminhada pelo
Conselho Superior do Ministério Público – CSMP ao Núcleo de Ações
de Competência Originária - NACO, no qual foi formalizado Acordo de
Não Persecução Cível com o Ex-Secretário de Saúde de Cuiabá Huark
Douglas Correia.

Consta dos autos que Huark apresentou


requerimento visando a celebração de Acordo de Não Persecução
Cível junto à 9ª Promotoria de Justiça Cível da Capital, uma vez que
havia tomado conhecimento de que tramitava naquela unidade
ministerial a Notícia de Fato de SIMP nº 000943-023/2018, versando
sobre possíveis irregularidades na contratação de servidores
temporários para o Pronto Socorro de Cuiabá, entre os meses de
março a dezembro de 2018, época em que ele ocupava o cargo de
gestor da Secretaria Municipal de Saúde.

No mencionado requerimento, Huark


esclareceu que no período de sua gestão, a Secretaria Municipal de
Saúde teria contratado mais de 250 (duzentos e cinquenta)
servidores temporários, cuja contratação, em sua maioria, teria
sido realizada para atender interesses políticos do Prefeito EMANUEL
PINHEIRO, tanto é que, segundo Huark, o alcaide teria dito que essas
contratações eram um “CANHÃO POLÍTICO”.

Para comprovar essa alegação, Huark


entregou ao presentante ministerial da 9ª Promotoria de Justiça Cível
da Capital, 259 (duzentos e cinquenta e nove) “Contratos de
Prestação de Serviço por Excepcional Interesse Público”. Demais

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disso, o Ex-Secretário de Saúde asseverou que, conforme se observa


dos contratos, eles não possuem sua assinatura, tendo em vista que
ele se recusou a assiná-los, em virtude de vislumbrar interesses
escusos do Prefeito Municipal e, também, porque o volume de
contratação seria incompatível com a efetiva necessidade da
Secretaria de Saúde de Cuiabá.

Não obstante, de acordo com Huark, mesmo


sem suas assinaturas nos contratos, aquelas pessoas teriam sido,
efetivamente, contratadas e incluídas nas folhas de pagamento da
Secretaria Municipal de Saúde, supostamente, pelos servidores
RICARDO APARECIDO RIBEIRO e IVONE DE SOUZA. Nessa linha,
considerando o valor das remunerações dos servidores contratados, o
Ex-Secretário de Saúde estima que o dano causado ao erário giraria
em torno de, aproximadamente, R$ 500.000,00 (quinhentos mil
reais).

Ainda com o intuito de corroborar seu relato,


Huark comunicou a existência de ofícios que teriam sido expedidos
pela, também, Ex-Secretária de Saúde Elizeth Lucia de Araujo e
destinados ao então Secretário Adjunto de Governo Oseas Machado
de Oliveira, que tratariam a respeito da contratação, no âmbito da
Secretaria Municipal de Saúde, de pessoas indicadas por Vereadores.
E, de igual modo, Huark disponibilizou cópias dos Ofícios nº 192 e
196/2017/CERAGP/SMS ao agente ministerial titular da 9ª Promotoria
de Justiça Cível da Capital.

Assim, existindo fortes indícios da contratação


irregular de servidores temporários pela Secretaria Municipal de
Saúde, no período de março a dezembro de 2018, possivelmente
determinadas pelo Prefeito EMANUEL PINHEIRO e com a provável
finalidade de angariar apoio político para si, requisitou-se a

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instauração de Inquérito Policial ao Delegado de Polícia integrante do


Grupo Operacional Permanente do Núcleo de Ações de Competência
Originária da Procuradoria Geral de Justiça - GOP-PJC/NACO-MPMT, o
qual foi autuado sob o nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT, visando
apurar a possível ocorrência do crime de responsabilidade
previsto no art. 1º, inciso XIII, do Decreto-Lei nº 201/1967 e
outros que vierem a ser descortinados no curso das
investigações, supostamente, perpetrados pelo Prefeito de
Cuiabá EMANUEL PINHEIRO e outros.

Após a deflagração do Inquérito Policial,


realizou-se, inicialmente, a oitiva de Elizeth Lucia de Araujo, que
ocupou o cargo de Secretária Municipal de Saúde de janeiro de 2017
a março de 2018, tendo, portanto, precedido Huark Douglas Correia.
Em seu depoimento, Elizeth disse que a contratação de servidores
temporários era prática comum naquela pasta e, por conta disso,
tramitava uma Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público,
com a finalidade de obrigar a realização de concurso público. Nessa
linha, a Ex-Secretária de Saúde argumentou que chegou a adotar
providências na tentativa de executar um processo seletivo,
entretanto, se deparou com diversos entraves, não tendo conseguido
realizar o processo seletivo na sua gestão. Elizeth também alegou que
depois de alguns meses no cargo, começou a ser pressionada no
sentido de substituir servidores, o que a levou a tentar terceirizar
alguns cargos da área meio, porém, também não obteve êxito. Nesse
sentido, a Ex-Secretária Municipal de Saúde explicou que houve uma
determinação do Prefeito EMANUEL PINHEIRO para trocar a
Coordenadora de Gestão de Pessoas da pasta, que foi substituída por
RICARDO APARECIDO RIBEIRO, cuja indicação foi feita pela
Primeira Dama MARCIA PINHEIRO. Elizeth também esclareceu que a
partir do momento em que RICARDO assumiu como Coordenador de
Gestão de Pessoas, o mencionado processo seletivo foi paralisado e

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ela perdeu o controle sobre a contratação dos servidores temporários,


uma vez que RICARDO despachava diretamente com MARCIA e
IVONE DE SOUZA, vindo os contratos apenas para Elizeth assinar,
depois que os contratados já tinham começado a trabalhar e,
inclusive, estavam inseridos na folha de pagamento. A Ex-Secretária
Municipal de Saúde ainda afirmou, categoricamente, que grande
parte das pessoas contratadas, muitas vezes sem qualificação
técnica, eram indicações políticas feitas pelo Gabinete do Prefeito ou
por Vereadores, destacando que recebia muitos pedidos da Primeira
Dama MARCIA, feitos através de IVONE. Elizeth também revelou a
existência de outra irregularidade no âmbito da Secretaria de Saúde
de Cuiabá, no tocante ao pagamento do denominado “Prêmio
Saúde”, que não tinha parametrização alguma quanto ao valor, nem
quanto aos cargos que fariam jus ao benefício, sendo determinados,
livremente, pelo próprio Prefeito Municipal. A propósito, confira-se
trechos das declarações prestadas pela Ex-Secretária Municipal de
Saúde:

“(Promotor) Em relação a questão de pessoal, o que a


senhora visualizou quando assumiu lá na Secretaria
Municipal de Saúde? (Elizeth) Quando nós assumimos, ali
tinha em torno de quarenta, mais de quarenta por cento
do pessoal da Secretaria de Saúde era pessoal
contratado e era uma situação que já vinha há muitos
anos, tanto é que tinha uma Ação Civil Pública que
tava em andamento na época, quem acompanhava essa
ação era o Promotor de Justiça falecido Célio Fúrio, tive
várias reuniões com ele no começo, até pra gente fazer
alguns ajustes de conduta no sentido de não aumentar o
percentual até fazer um concurso público ou um processo
seletivo público, que era isso que a Ação Civil solicitava…
Trabalhei com tranquilidade uns três, quatro meses sem

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muita pressão para exoneração, demissão, a partir dali, no


quarto mês começaram ter as pressões para poder
substituir... Então tomei dois procedimentos a partir desse
período… Estudo de um processo seletivo, porque não
tinha isso ainda e também eu comecei a buscar, até
vim conversar na época, pra gente poder terceirizar a
parte de vigia, seguranças, recepção, porque
infelizmente é uma parte que mais tem demanda por
contratação, tem pressão, se a gente terceirizar
diminui essa pressão... A outra foi chamar o sindicato dos
médicos para conversar, porque também muito médico
contratado, muita rescisão toda hora de contrato…
Então o sindicato dos médicos nos procurou e a gente fez a
seguinte proposta, chegamos a assinar a proposta final do
ano de que nós íamos terceirizar os médicos de plantão
e iríamos fazer um concurso público para efetivar os
médicos de saúde da família, que esses tem
necessidade de continuidade, os médicos de UTI, que
é onde tem maior problema na terceirização e a UTI
precisa de um profissional fixo que acompanha… Ao
mesmo tempo que eu estava trabalhando isso, eu comecei
a ter algumas dificuldades, primeiro, eu mantive a mesma
Coordenadora de Gestão de Pessoas... Comecei a ter
pressão pra poder trocar ela, aí chegou um dia que
houve uma determinação do EMANUEL PINHEIRO, aí
não tive saída... E aí na época quem escolheu a pessoa
foi até a Dona MARCIA PINHEIRO, que é a esposa
dele, que é quem fazia essas interlocuções…
(Promotor) E qual foi o nome indicado pela Dona
MARCIA? (Elizeth) Do senhor RICARDO, que tinha sido
Gestor de Pessoas da Assembleia Legislativa…
Colocou ele como Coordenador de Gestão de Pessoas

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e aí deu uma parada no processo seletivo...


(Promotor) Estava em andamento o processo
seletivo, entrou esse cargo indicado pela Primeira
Dama… Aí parou esse procedimento? (Elizeth)
Parou… Eu tinha formado uma equipe, que seria a equipe
que faria a composição do processo seletivo… Aí saiu o
edital, eu protocolei... No início de 2018 eu protocolei o
processo seletivo e aí assim, cobrava, cobrava e
nunca saía… Só que aí nesse intervalo eu comecei a
ter pressão para trocar técnicos que já estavam lá
trabalhando e essa pressão ela vinha de diversas
formas… No momento que entrou o senhor RICARDO,
aí a situação ficou mais difícil de controlar, porque
quando eu ficava sabendo, a pessoa já estava
trabalhando. (Promotor) Ricardo Ribeiro… (Elizeth) E
aí começaram essa pressão pra substituir os
técnicos… E comecei a criar um pouco de impedimento
para demitir profissional e colocar outro, tinha que justificar
pra mim... Quando eu comecei a colocar esses
impedimentos, que que eles começaram a fazer,
quando eu digo eles é algumas pessoas que estavam
na coordenação na ponta, um dos secretários
adjuntos, começaram a demitir e contratar outro pra
trabalhar sem falar comigo, então quando vinha o
contrato para eu assinar, a pessoa já estava
trabalhando um mês… (Promotor) A senhora se recorda a
quantidade de servidores que tinha na sua época no total?
(Elizeth) Contratado era em torno de quatro mil… Eu
respondi ao Tribunal de Contas na época, que fez um
processo nesse sentido e que monitorava esse
percentual de contrato temporário… Que tipo de
profissional, é administrativo, aí não precisa… Eu tinha

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dificuldade para absorver pessoal sem formação


técnica, essa área meio, que era onde eu colocava um
pouco de limite… Por isso que eu tentei terceirizar essa
área para dificultar um pouco o pedido de contratos
para essa parte administrativa… (Promotor) A
senhora disse desde o começo do seu depoimento
que depois de cinco, seis meses começou a vir uma
pressão mais forte para poder fazer contratação, é
isso, essas contratações eram mais pedidos políticos?
(Elizeth) Pedidos políticos, pedidos via Assessoria do
Gabinete, Assessoria do Governo… Tinha um pessoal
que era o Oseas… Vinha pedido de lá, vinha pedido direto
da Dona MARCIA, que tinha como Assessora a Dona
IVONE, que a IVONE que pedia, outra coisa que eu
tinha dificuldade, não é objeto mas está ligado, o
prêmio saúde, a saúde tem uma gratificação lá… Fulano
de tal tem que receber um prêmio de dois mil, eu dizia
‘não, não é assim que funciona, qual que justificativa, ele
vai ser diretor’, porque tinha que ter uma certa
padronização do prêmio. (Promotor) Não existia
então, não digo padronização, mas uma
especificação, por que que fulano vai receber mil, por
que que fulano vai receber mil e quinhentos?
(Elizeth) Não, porque conforme ia tendo necessidade
se fazia uma portaria para ajustar aquela
necessidade, como que a gente fez, eu pedi a equipe, a
gente ajustou tudo numa portaria só, parametrizamos,
fizemos um portaria, depois eu trago ela para vocês, e a
gente parametrizou o valor do prêmio… Esses pedidos de
valores de prêmios diferentes… (Promotor) Tá, então era de
acordo com, com quem era indicado era um prêmio, era um
valor? (Elizeth) Queriam que pagasse esse prêmio… Essa

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era uma das dificuldades que eu comecei a ter. (Promotor)


Eu tenho um bilhete aqui, escrito à mão, da senhora,
datado de 21/06/2018… IVONE DE SOUZA, só pra
senhora dizer se isso aqui era usual, se era maios ou
menos dessa forma, IVONE DE SOUZA, ela diz o
seguinte ‘conforme determinação do Prefeito, solicito
a implementação do prêmio abaixo’, aí descreveu,
‘Helen Cristina da Silva, mil e quinhentos, Luciano Gomes…
José Neves Teixeira, oitocentos, Fernando Jorge da Silva,
oitocentos’… Enfim, dê uma olhada, vê se a senhora se
recorda, era essa forma usual? (Elizeth) Era, vinha a listinha,
não sei se era técnico, vinha a listinha e vinha a
determinação, tem que ajustar pra ele ganhar tanto,
ele tem que chegar ganhando três e quinhentos, mas não
tem como, ele é enfermeiro, ele é odontólogo, esse é um
padrão de um profissional de nível superior. (Promotor) E a
maioria era área meio? (Elizeth) A maioria era área
meio, maioria área meio, poucos com capacitação
técnica para atuar ou na área finalística ou na área
de planejamento… (Promotor) E eles sabiam que
existia essa determinação do Tribunal de Contas?
(Elizeth) Sabia e inclusive eu falei várias vezes.
(Promotor) Pra quem? (Elizeth) Falei pro Prefeito, ele
falou ‘Elizeth faz o que tem que fazer e você resolve com o
pessoal’, ele não costumava tomar muito pé dessa situação,
então ele colocava pra IVONE, a IVONE que vinha mais
falar em nome da Dona MARCIA… (Promotor) A senhora
alertava que não poderia pagar o prêmio saúde para
determinadas pessoas? (Elizeth) Não só alertava, como eu
dizia pra ela ‘não vou pagar dessa forma’, então muitas
vezes eu exonerei pessoa de cargo DAS, por exemplo
motorista, que ficava comigo vinte e quatro horas, ele tinha

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um DAS de assessoria, eu pedia pra exonerar ele pra poder


encaixar uma pessoa dela pra não ter problema de pagar o
prêmio diferente do que era padronizado, aí foi quando eu
fiz a portaria unificando todos os prêmios saúde, publicamos
a portaria, pra dar transparência e aí quando vinha, eu
falava ‘não posso isso aqui, está fora da portaria’…
(Delegado) Ela parametrizava de acordo com a atividade
fim? (Elizeth) Isso, por exemplo, Pronto Socorro… Meio
também, se era assessoria técnica, por que os assessores
técnicos também recebiam prêmio saúde… (Promotor)
Essa IVONE, IVONE DE SOUZA, ela era Secretária
Adjunta? (Elizeth) Ela assumiu depois Secretária
Adjunta de Governo, ela assumiu no lugar do Oseas, se
não me engano… A relação que eu me lembro mais dela era
mais com a Primeira Dama, ela era a pessoa que atendia
as demandas da Primeira Dama, ligado ao Gabinete…
(Promotor) A senhora costumava elencar, anotar as
indicações de quem que era, de Vereador, de Deputado…
(Elizeth) Vinha, até porque foi pedido um controle, eu sei
que lá no RH o pessoal fez isso. (Promotor) Mas vinha já
falando, esse aqui é indicação de fulano? (Elizeth) É,
tipo assim, tem que atender fulano, tem que atender
beltrano… (Promotor) Eu tenho um ofício aqui, de
30/05/2017, da sua lavra, endereçado a Oseas Machado de
Oliveira, Secretário Adjunto de Relações Institucionais.
(Elizeth) É os currículos que entregavam pra mim…
(Promotor) As contratações eram feitas exatamente por qual
setor? (Elizeth) As contratações eram feitas na Secretaria de
Saúde, de onde vinha a determinação de contratação era
centralizada ali. (Promotor) Tá, então vinha lá do Gabinete,
do Gabinete do Governo que era o Gabinete do Prefeito…
Vinha as indicações pra senhora contratar, aí a senhora fazia

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o que? (Elizeth) Quem cuidava disso era mais o RH…


(Promotor) Houve caso de determinarem lá de cima já
a contratação direta? (Elizeth) Houve, que aí no caso
já vinha o contrato para eu assinar, a pessoa já
estava trabalhando… (Promotor) Esse aqui é um
contrato, ‘Contrato de Prestação de Serviço por
Excepcional Interesse Público’, aqui é um contrato de
agente operacional, vinha já dessa forma, só para o
secretário assinar, mas a pessoa já estava na folha?
(Testemunha) Sim, a pessoa já estava trabalhando…
É verdade, às vezes o contrato ia pra assinar a
pessoa já estava na folha, porque eu cheguei a pegar
um volume desse tamanho e pedir para as meninas
olhar, a pessoa já tava trabalhando há dois meses,
porque pra ela receber não precisa a assinatura do
secretário… (Promotor) Essa ordem da contratação,
de inserção na folha, já vinha direto da Secretaria de
Governo... (Testemunha) Na medida que tirou a
Coordenadora Cristiane e colocou o RICARDO, eu não
tive mais controle da situação, porque ele pegava a
planilha, despachava com a IVONE, com a Dona
MARCIA… (Elizeth) Por exemplo, eu conversava com a
Diretora de Atenção Primária, de Atenção Básica, de repente
ela nem sabia, a enfermeira da unidade tal tava
fazendo um bom trabalho, tinha sido substituída por
uma outra, que não tinha perfil para atender o
interesse, entendeu, aí você ia ver ela tava remanejada
pro plantão e colocava outra enfermeira lá porque o
Prêmio Saúde da unidade básica era maior… Essa
situação dos contratados sem que a gente tivesse,
perdemos o controle, porque vinha e a pessoa já estava
trabalhando, a outra situação por exemplo eu tentava

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terceirizar a atividade meio, que é essa de vigia etc, de


repente engavetava meu processo… Em relação ao pessoal,
eu tinha uma excelente coordenadora de saúde
mental que estava lá há quatorze anos, uma técnica
especializada na área, tava de férias, de repente no
outro dia de manhã chega o edital já tava nomeada
uma moça que não tinha nada ver com a área,
exoneraram ela e começaram a substituir todo
mundo da Casa de Retaguarda… o Milton junto com a
dona MARCIA tomavam as decisões e faziam a minha
revelia” (fl. 44 - do Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-
PJC/NACO-MPMT).

Na sequência, foi realizada a inquirição de


Huark Douglas Correia, que atuou como Secretário de Saúde de
Cuiabá entre março a dezembro de 2018, o qual confirmou o inteiro
teor da “denúncia” feita por ele perante o agente ministerial titular da
9ª Promotoria de Justiça Cível da Capital, no âmbito do Procedimento
Administrativo de SIMP nº 000460-023/2021, que resultou na
celebração do Acordo de Não Persecução Cível, devidamente
homologado pelo Conselho Superior do Ministério Público. O Ex-
Secretário Municipal de Saúde informou que a folha de pagamento de
pessoal era uma das maiores despesas da pasta, sendo que a
quantidade de servidores temporários era superior a dos efetivos.
Huark também revelou que participou de diversas reuniões com o
Chefe do Poder Executivo Municipal e outros Secretários Municipais,
as quais costumavam ocorrer em um escritório localizado ao lado da
residência do alcaide, sendo que em uma dessas ocasiões, por
entender que aquele número de servidores contratados,
especialmente os da área meio, eram excessivos, Huark sugeriu ao
Prefeito Municipal o corte de parte desses servidores, entretanto,
conforme o Ex-Secretário Municipal de Saúde, o Prefeito EMANUEL

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PINHEIRO afirmou que a contratação desses servidores temporários


era organizada pela Secretaria de Governo, uma vez que
representava um “CANHÃO POLÍTICO” para manter sua base de
apoio na Câmara Municipal. O Ex-Secretário de Saúde de Cuiabá
também asseverou que a responsável pelas contratações era a
Secretária Adjunta de Governo IVONE DE SOUZA e que, muitas
vezes, servidores qualificados eram substituídos por pessoas sem
qualificação, motivo que o levou a questionar IVONE, a qual dizia que
cumpria ordem do Prefeito Municipal. Demais disso, Huark
esclareceu que em determinada ocasião, RICARDO APARECIDO
RIBEIRO, então Coordenador de Gestão de Pessoas da Secretaria
Municipal de Saúde, lhe entregou inúmeros contratos para serem
assinados, porém, como as contratações e demissões estavam sendo
feitas sem o seu consentimento, ele se negou a assinar grande parte
dos contratos, tendo sido cobrado pelo próprio Prefeito EMANUEL
PINHEIRO. O Ex-Secretário Municipal de Saúde ainda destacou que
os referidos contratos já estavam assinados pelos servidores e os
contratados incluídos na folha de pagamento, mesmo sem sua
anuência. Veja as declarações de Huark:

“QUE, no diagnostico de maneira gerencial foram


trabalhados os blocos de financiamento e para onde estaria
custeando, tendo a parte dos fornecedores, a parte
dos pagamentos para os hospitais e folha, sendo os
principais blocos de despesas da Secretaria; QUE,
especificamente na folha de pagamento dos servidores, no
diagnostico realizado pelo declarante havia uma
quantidade maior do que o necessário para
desenvolver as ações na Secretaria Municipal de
Saúde, principalmente na área-meio; QUE, na época
chegou a ter em média 5400 (cinco mil e
quatrocentos) funcionários, entre concursados e

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contratados e que a quantidade numérica de


contratados era maior; QUE, para essa quantidade de
servidores não haveria demanda e nem mesmo
espaço físico; QUE, o declarante informa que na gestão de
declarante havia um processo seletivo em andamento, mas
não chegou de ser finalizado em sua gestão; QUE, o
declarante por diversas vezes realizou reuniões
juntamente com o Prefeito Municipal de Cuiabá/MT
EMANUEL PINHEIRO e o Secretário Adjunto FLAVIO
TAQUES e algumas vezes o Secretário de Finanças
“ANTONIO ROBERTO POSSAS DE CARVALHO”, todas
elas eram realizadas no escritório ao lado da casa do
Prefeito, fora do horário de expediente, localizado no
Bairro Jardim das Américas; QUE, na época devido ao
alto valor do orçamento de pessoal e precisar cortar custos
para pagar fornecedores, foi sugerido um corte de
funcionários em torno de 800 a 1000 funcionários
temporários da área meio (administrativo), que seria
em torno de 20% a 30%, que não surgiria nenhuma
falta para o andamento do serviço; QUE, na primeira
reunião, após 30 (trinta) dias da sua gestão e após o
levantamento do diagnostico, o Prefeito EMANUEL
PINHEIRO, não teceu grandes comentários... QUE, com o
decorrer do tempo que o declarante permaneceu na
Secretaria, o declarante passou a entender o porquê de não
tocar nesse assunto, chegando ao ponto da Adjunta do
Governo IVONE mandar servidores embora sem ao
menos que a Gestão da Secretaria soubesse e por
várias vezes foram discutidos sobre pessoas
qualificadas terem sido substituídas por pessoas sem
nenhuma qualificação na área; QUE, todas as vezes
que o declarante falou com a IVONE a respeito dessas

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contratações e demissões, a mesma informava que o


Prefeito EMANUEL PINHEIRO tinha ciência do fato e
estava cumprindo ordens; QUE, em determinado
momento após as contratações, substituições sem que a
gestão da Secretaria de Saúde tivesse conhecimento, o
declarante conversou pessoalmente com o Prefeito
EMANUEL PINHEIRO, o qual alegou que o pessoal da
Secretaria de Governo que organizava a base de
apoio e que eles organizavam a parte politica e os
contratos de servidores temporários entravam nessa
área, pois era de “CANHÃO POLITICO”, para manter a
sustentação junto a Câmara e outras finalidades; QUE,
o declarante informou que nunca assinou nenhum contrato
e somente após a sua reclamação recebeu em seu
gabinete pelo RICARDO (Chefe do Recursos
Humanos), cerca de 20 (vinte) dias após,
aproximadamente duas caixas de contratos,
assinados pelos contratados, vindo o declarante pedir
para separar a área finalística e área meio, que seria
assinado apenas os servidores de plantão, que seria para
compor furo de escala, ficando em média 250 (duzentos
e cinquenta) contratos sem assinaturas; QUE,
provavelmente RICARDO repassou a informação ao
Prefeito EMANUEL PINHEIRO; QUE, por duas vezes
houve cobrança por parte do Prefeito EMANUEL
PINHEIRO, sendo uma delas via telefone e outra no
Gabinete do Prefeito e indagou o declarante se os
contratos se encontravam com ele, sendo informado
que sim, mas que iria fazer a filtragem e na segunda
cobrança foi referente aos contratos que não foram
assinados, vindo o declarante informar que ainda estavam
sendo analisados, como forma de enrolar apenas, pois não

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seriam assinados, mas nessa ligação veio uma ordem do


Prefeito EMANUEL PINHEIRO para que fossem
assinados. QUE, o declarante entregou os contratos
sem assinaturas do declarante a 9ª Promotoria de
Justiça Cível, onde constavam apenas assinaturas dos
servidores, mas os mesmos já constavam em folha
para pagamento, não sabendo precisar em que momento
entrou na folha; QUE, o declarante entregou também
junto a Promotoria o Relatório de Contratos contendo
93 (noventa e três) laudas com os nomes dos
servidores temporários e as possíveis indicações
políticas desses servidores; QUE, o declarante informa
que o período de sua gestão era período eleitoral, ocorrendo
muita demissão e novas contratações, onde ocorria
diariamente reclamações de servidores demitidos, sem
saber ao menos o motivo” (fls. 54/56 - do Inquérito
Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Empós, realizou-se a oitiva de RICARDO


APARECIDO RIBEIRO, que foi Coordenador de Gestão de Pessoas da
Secretaria de Saúde de Cuiabá no período de julho de 2017 a julho de
2020. RICARDO relatou, por sua vez, que quem identificava a
necessidade de contratação de servidores na Secretaria Municipal de
Saúde eram os Secretários Adjuntos e que a inclusão dos contratados
na folha de pagamento era feita pela Secretaria de Gestão. O Ex-
Coordenador de Gestão de Pessoas também asseverou que haviam
muitas indicações de pessoas para contratação feitas por Vereadores.
A propósito, confira-se trechos do depoimento de RICARDO:

“(Delegado) Você sabe aproximadamente quantos


servidores tinha contratados e efetivados pra trabalhar na
Secretaria de Saúde, o número aproximado? (Ricardo) Algo

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em torno de cinco mil servidores, entre efetivos e


contratados por contrato temporário. (Delegado) A
porcentagem dos temporários você sabe me dizer?
(Ricardo) Temporários devia ser algo em torno de
sessenta por cento aproximadamente... (Delegado)
Tinha demanda pra todo esse número de servidores lá, você
que tava ali na parte de Recursos Humanos? (Ricardo) É,
deixa eu explicar uma coisa para o senhor, Doutor, na
verdade a necessidade desses servidores nas cem unidades
mais ou menos de saúde que tinha, quem fazia esse
levantamento eram os Secretários Adjuntos, eles que
determinavam se faltava e em qual cargo faltava,
esse tipo de coisa, a parte administrativa nós pegávamos os
currículos que eram encaminhados para o Secretário
Municipal de Saúde e fazíamos a seleção mediante, digamos
assim, o que fosse mais qualificado pra área administrativa
operacional, que preenchesse mais os requisitos, em último
caso, se fosse tudo igual a gente pegava o servidor que
morasse mais próximo da localidade que tinha a
necessidade de contratação, quando se tratava da área fim,
que era os enfermeiros, os médicos, da área fim, quem fazia
essa seleção e análise de currículo, capacitação técnica,
eram os Adjuntos, Doutor Milton e Doutor Luiz Gustavo... A
gente recebia só os dossiê pronto e encaminhava pra
Prefeitura pra poder lançar, a Secretaria de Gestão.
(Delegado) Esses contratados aí da área operacional, que às
vezes vocês contratavam até quem morava mais próximo,
tinha algum tipo de indicação, como é que chegava o nome
dessas pessoas até vocês? (Ricardo) Na verdade assim, o
currículo era entregue pra gente pelo Secretário Municipal
de Saúde, qual que era a sistemática, recebia currículo de
todos os lados, Doutor, vinha currículo, tanto o próprio

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candidato passava na Secretaria e deixava, quanto vinha lá


da Prefeitura que deixavam lá, como os Vereadores
vinham trazer esses currículos também e quando
chegavam esses currículos qual que era o direcionamento,
ia para o Secretário Municipal de Saúde e ele pegava esse
documento e depois mediante a necessidade passada pelos
Secretários Adjuntos, Diretores das UPAs e Policlínicas,
passavam pra gente pra fazer a contratação, o único
trabalho nosso era verificar se a documentação estava
coerente com o check list e encaminhar pra Secretaria
de Gestão pra poder lançar em folha. (Delegado)
Quando o senhor fala que vinha lá de Vereadores ou vinha
da própria Prefeitura, o senhor sabe me nominar quem que
levava isso? (Ricardo) Olha, na verdade, não era uma
pessoa específica só não, tinha o office boy que trazia os
documentos pertinentes para o Secretário Municipal, já
trazia junto, eu não sei quem que enviava, Doutor, isso eu
não sei dizer pro senhor. (Delegado) Tá e Vereadores, algum
Vereador especificamente já chegou, te entregou lá
currículo, alguma coisa assim, de algum servidor que depois
veio a ser contratado? (Ricardo) Ah sim, com certeza, teve,
assim de cabeça eu não me lembro quais, mas eu acho que
quase que todos levaram currículos lá, serem contratados
eu não me lembro... (Delegado) Tinha algum problema
assim, Ricardo, dessas pessoas já estarem
trabalhando alguns meses até, estarem assinados
esses contratos pelos trabalhadores e isso ser levado
ao Secretário de Saúde depois, sem que ele tivesse
conhecimento que aquelas pessoas já estavam
trabalhando? (Ricardo) Olha, houve ocasiões,
principalmente o Secretário Huark, os outros
Secretários nunca teve problema pra assinar as

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contratações não, assinava imediatamente, o Huark ele


pegava os contratos e ficava com ele lá pra ele analisar... O
Diretor informava que o funcionário já estava trabalhando e
que a folha já estava prestes a fechar e aí nós
encaminhávamos o dossiê mas não o contrato, o dossiê do
servidor lá pra Prefeitura e passava a informação pra
Secretária de Gestão lá, se não me falhe a memória era a
Ozenira, ‘tem tantos funcionários que o Huark ainda não
assinou os contratos, a senhora precisa ligar pra ele pra ver
se vai lançar em folha e aí ela que resolvia com ele lá o que
ia ser feito. (Delegado) Vocês não faziam a inclusão em
folha sem a assinatura do Secretário ou sem
autorização dele? (Ricardo) Não, nós não fazíamos a
inclusão em folha de jeito nenhum, quem fazia a
inclusão em folha somente a Secretaria de Gestão de
Pessoas... (Delegado) E quando ele recusava, ele chegou a
recusar algumas vezes a assinatura? (Ricardo) Nos últimos
dias ele acumulou lá, eu não sei quantos contratos, mas
eram bastante contratos que ele não quis assinar, que ele
iria conversar com o pessoal na Prefeitura, não sei se era
com a Secretária Ozenira, se era com o Prefeito, não sei e aí
logo em seguida ele saiu e ele não assinou os contratos,
mas ele não assinou os contratos, porém ele autorizou os
pagamentos, porque só é feito o pagamento com a
assinatura do Secretário, com a assinatura eletrônica do
Secretário... Esses contratos na verdade ficaram no
gabinete do Huark, eu só consegui ter acesso a eles depois
que o Huark saiu e vi que não estavam assinados e aí eu
informei o nosso Secretário Municipal que era o Doutor Luiz
Antonio e ele falou que ia tomar as providências cabíveis...
(Delegado) Tinha algum motivo assim que o senhor ficou
sabendo dele não querer assinar esses contratos? (Ricardo)

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Segundo ele, ele achava que não tinha necessidade de


contratar aquele quantitativo de servidores na área
operacional lá... Mas tinha os documentos dos Secretários
Adjuntos solicitando, na verdade eu não tinha que entrar
nesse mérito, eu só tinha que encaminhar os documentos
pra Secretaria de Gestão... (Delegado) Quem que era IVONE
lá, IVONE SOUZA, Ricardo? (Ricardo) Eu não lembro se era
Secretária Adjunta ou Secretária de Governo, Doutor.
(Delegado) Qual que era a função dela lá em relação à esses
contratos temporários? (Ricardo) Isso eu não sei dizer pro
senhor, na verdade, eu nunca tive nenhum tipo de acesso
direto com relação a contrato com ela, algumas vezes
aconteceu de eu ver alguns documentos dela, que
tinha passado por ela, principalmente currículos, que
os Secretários me entregavam, que tinham o nome
dela, mas eu não cheguei de conversar com ela sobre nada
disso não, senhor. (Delegado) Você chegou alguma vez a
levar duas caixas de contratos assinados pelos servidores lá
diretamente pro Huark pedindo pra que ele assinasse esses
contratos? (Ricardo) Foi esses que eu falei pro senhor... Os
contratos ao longo dos dias que ele ficou, ele não assinou, aí
eu imprimi novamente e levei pra ele, achei que ele tinha
extraviado, alguma coisa, porque mediante ia acontecendo
as contratações, Doutor, eu ia levando pra ele chancelar,
como ele não devolvia, passou um mês ou dois, eu peguei e
juntei tudo novamente e levei pra ele, falei ‘olha, se o
senhor não for assinar, o senhor avisa que preciso informar
isso oficialmente pra não ficar sob a minha
responsabilidade’, aí ele falou ‘não, pode deixar comigo aqui
que eu vou assinar’, mas também não assinou. (Delegado)
Você trabalhou ali, durante a sua gestão Ricardo, você ouviu
alguma determinação de algum Secretário que não seja da

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Saúde ou do próprio Prefeito EMANUEL PINHEIRO, de que


esses contratos eram pra ser assinados independente de
qualquer tipo de critérios pra contratação? (Ricardo) Não...
(Delegado) Eles não recebiam nenhum outro tipo de
bonificação não, esse servidores, só o salário ou existia
algum tipo de prêmio que eles recebiam? (Ricardo) O
Prêmio Saúde, o Prêmio Saúde é um numerário que é
disponibilizado pelo Governo Federal pra premiar de acordo
com as portarias e os critérios de análise dessa portaria os
servidores que atuam na área da saúde, que vai de setenta
reais até cinco mil e poucos reais esse prêmio e como que é
feito o pagamento desse prêmio, era analisado a portaria,
se o servidor tinha, não podia ter falta, se tinha
produtividade e cada função tinha o mínimo e o máximo a
ser pago de acordo com a produção. (Delegado) Esses
servidores tinham que ser da área meio e fim ou só da área
fim... (Ricardo) No início foi pra todo mundo, todo
mundo recebia, alguns recebiam o máximo e outros
não, mas quem deliberava pra pagar o mínimo ou o
máximo era os Secretários da pasta, eles é que
determinavam o valor que ia ser pago” (fl. 78 do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Em seguida, foi realizada a inquirição de


Bianca Scaravonatto, que trabalhou na Secretaria Municipal de Saúde
entre 21/05/2018 a 31/12/2018. Em seu depoimento, Bianca explicou
que foi indicada pelo Vereador Marcrean e embora não tivesse
formação na área da saúde, foi contratada para o cargo de Agente
Operacional de Saúde, exercendo suas funções como atendente de
farmácia no Posto de Saúde. Bianca também revelou que mesmo
após solicitar seu desligamento da Secretaria de Saúde de Cuiabá,
continuou a receber sua remuneração mensalmente, acrescida do

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valor referente ao “Prêmio Saúde”. Bianca ainda disse que depois


da sua saída da Secretaria Municipal de Saúde, retornou ao Posto de
Saúde em que trabalhava, tendo constatado que outra pessoa já
havia assumido o seu lugar e, intrigada, ela consultou o Portal do
Servidor, no sítio eletrônico da Prefeitura de Cuiabá, tendo verificado
que seu contrato havia sido renovado por diversas vezes, sem sua
anuência. Veja as declarações de Bianca:

“QUE, a declarante trabalhou na Secretaria Municipal de


Saúde no período de 21/05/2018 a 31/12/2018, na função
de Agente Operacional de Saúde, mas desenvolvia
seu trabalho entregando medicamento na farmácia
do postinho... QUE, sua jornada de trabalho possuía carga
horária de 08 (oito) horas diárias, das 07:00 às 11:00 e das
13:00 às 17:00 e o controle de ponto era realizado de
forma manual diariamente...QUE, a declarante informa
que sua contratação se deu através do vereador
MARCREAN, através da genitora do vereador... QUE, de
imediato o vereador MARCREAN ligou para a declarante e
informou que sua genitora estava insistindo, pressionando
para conseguir um serviço logo a ela e pediu para retornar
na Câmara e disse que estava surgindo um cargo
(atendente de farmácia), pois quem atendia era as
Técnicas de Enfermagem e pediu um tempo a declarante, a
qual ficou receosa de aceitar tendo em vista que não
entendia nada desta área, pois não era sua formação;
QUE, a declarante ficou aguardando, vindo MARCREAN,
retornar a ligação e pediu para ir novamente na Câmara e
levar todos os documentos autenticados em cartório e
chegando no local marcado, a declarante foi direcionada
para falar com a Sra. TALITA do Setor de Recursos Humanos
e posteriormente com a responsável da Região onde fica o

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PSF do Ribeirão do Lipa, começando a trabalhar no dia


seguinte; QUE, sua contratação se deu em ano
eleitoral e nunca houve devolução do valor recebido e
nem mesmo participação de reuniões com o vereador; QUE,
a declarante informa que tendo em vista que iria se casar
em abril/2019 e residiria em Várzea Grande/MT, resolveu
pedir demissão do seu emprego e que também não estaria
satisfeita com o serviço, por não ser sua área
profissional, vindo a indagar a enfermeira chefe de como
deveria prosseguir com o seu pedido, sendo informada que
teria que realizar uma Comunicação Interna solicitando o
desligamento da unidade a partir do dia 31/12/2018, sendo
recebido pela enfermeira chefe o qual é encaminhado para
a Secretaria de Saúde; QUE, na data informada na CI a
declarante não mais compareceu em seu trabalho e
no mês de janeiro de 2019 visualizou no aplicativo do
Banco do Brasil o valor de um salário depositado,
após o seu desligamento; QUE, no primeiro momento a
declarante até desconfiou que poderia ter sido referente a
sua rescisão/acordo... QUE, inicio de abril/2019 a declarante
retornou no PSF para pegar o presente de casamento, nisso
já constatou que havia um novo servidor trabalhando
na sua função e que estaria assinando em seu cargo;
QUE, a declarante devido estar acompanhando todo
mês o seu salário estar sendo depositado achou
estranho e entrou no Portal do Servidor e verificou
que fora realizado diversos aditamentos do
contrato... QUE, as recontratações foram realizadas
em média de 06 em 06 meses e uma vez ocorreu de
um mês para o outro, sendo que após o pedido de
desligamento nunca mais assinou nenhuma folha de ponto e
nem mesmo as recontratações... QUE, a declarante

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recebe o Prêmio-Saúde no valor de R$ 70,00 (setenta


reais) mensal, que era conhecido como “mensalinho”,
que seria uma ajuda de custo e tem conhecimento
que todos recebiam e para quem tem nível superior o
valor seria maior” (fls. 81/83 do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Mais à frente, realizou-se a oitiva de IVONE


DE SOUZA, que ocupou o cargo de Secretária Adjunta de Agricultura
e Desenvolvimento Econômico no período de janeiro a outubro de
2017, posteriormente, assumiu o cargo de Assessora Estratégica de
Governo e desde março de 2018 ocupa o cargo de Secretária Adjunta
de Governo e Assuntos Estratégicos. IVONE esclareceu que, entre
suas atribuições, está a nomeação de servidores efetivos e
comissionados, contudo, o poder de decisão é sempre do Prefeito
EMANUEL PINHEIRO. A propósito, confira-se trechos do depoimento
de IVONE:

“QUE, a declarante informa que sua contratação se


deu por indicação pessoal do Prefeito EMANUEL
PINHEIRO, devido já acompanhar sua equipe desde a
Assembleia Legislativa de Mato Grosso a qual entrou
em fevereiro/2011, mediante entrega de currículo, que
veio a desempenhar um bom trabalho; QUE, a declarante
informa que suas atribuições se referem a tramitações dos
projetos do Legislativo (requerimento, moções, decretos de
leis, nomeações de cargo efetivo/comissionado), tudo
que gera publicação, obrigatoriamente passa pelo seu setor;
QUE, a declarante é nomeada pelo Prefeito EMANUEL
PINHEIRO e subordinada ao Secretário de Governo de
Assuntos Estratégicos, SR. LUIZ CLAUDIO SODRÉ, o qual foi
nomeado em janeiro/2021; QUE, a declarante esclarece que

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não tem condições de mencionar a quantidade de


servidores efetivos e comissionados, os quais passam pela
sua pasta, tendo em vista que os servidores contratados é
de autonomia total de cada Secretaria, não tendo acesso a
essas informações; QUE, a declarante não tem poder de
decisão sobre demissão e contratação de servidores
temporários e comissionados; QUE, bem raras vezes recebe
protocolos com currículos, mas apenas encaminha a
demanda para as secretarias conforme a formação... QUE, a
declarante desconhece o fato de cobrar o Secretário
Municipal de Saúde sobre a assinatura de contratos em
nome do Prefeito EMANUEL PINHEIRO, tendo em vista que o
prefeito não dava essa autonomia; QUE, a declarante
informa que, quando ocorria substituição de
comissionado, entrava em contato com o Secretário
da pasta e informava a alteração, mas todo poder de
decisão partia do Prefeito EMANUEL PINHEIRO; a
declarante apenas realizava a comunicação e
tramitação destas nomeações; QUE, o prefeito exigia
a troca de comissionados, não era opcional aos
secretários, apenas era cumprido a determinação...
QUE, a declarante nunca recebeu nenhuma planilha
de pagamento do Prêmio-Saúde” (fls. 85/86 - do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Além de todos esses depoimentos, requereu-


se ao presentante ministerial da 9ª Promotoria de Justiça Cível da
Capital, cópia do Inquérito Civil de SIMP nº 000780-023/2021,
instaurado para investigar a possível prática de atos de improbidade
administrativa, perpetradas, supostamente, pelo Prefeito de Cuiabá
EMANUEL PINHEIRO e outros, a partir da “denúncia” formulada pelo
Ex-Secretário Municipal de Saúde Huark Douglas Correia, no âmbito

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do Procedimento Administrativo de SIMP nº 000460-023/2021,


referente à possíveis irregularidades na contratação de servidores
temporários na Secretaria Municipal de Saúde.

Infere-se do supramencionado Inquérito Civil


que, após a realização de diversas diligências, foi proposta a
competente Ação Civil Pública por Ato de Improbidade Administrativa
c/c Pedido Liminar de Afastamento do Cargo e Indisponibilidade de
Bens, em face do Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO, cuja
petição encontra-se acompanhada de inúmeros documentos que
comprovariam os fatos descritos na exordial, os quais, por integrarem
o Inquérito Civil de SIMP nº 000780-023/2021, também foram
disponibilizados pelo agente ministerial da 9ª Promotoria de Justiça
Cível de Cuiabá, sob sigilo, para servirem como meio de prova no
âmbito do Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT
e de, eventual, Ação Penal que venha a ser proposta pelo Ministério
Público Estadual (fl. 52 do Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-
PJC/NACO-MPMT).

Por fim, importa consignar que se encontra


apensada ao Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-
MPMT a Notícia de Fato de SIMP nº 011952-001/2020, instaurada
pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado –
GAECO, através da qual se teve conhecimento de que, no âmbito da
Secretaria Municipal de Saúde, estaria ocorrendo também a
contratação de servidores temporários “fantasmas”, com possível
divisão das remunerações desses contratados, indicando a ocorrência
de provável esquema de “rachadinha”, fatos que contariam com a
anuência e/ou participação do Prefeito de Cuiabá EMANUEL
PINHEIRO, motivo pelo qual o feito aportou no Núcleo de Ações de
Competência Originária – NACO.

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II – DOS CRIMES DE ORGANIZAÇÃO


CRIMINOSA E OBSTRUÇÃO DE JUSTIÇA

O art. 2º, caput, da Lei nº 12.850/2013, prevê


como condutas delituosas os atos de “promover, constituir, financiar
ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização
criminosa”.

Nessa senda, o conceito de organização


criminosa está previsto naquele mesmo diploma legislativo, em seu
art. 1º, §1º, que assim preceitua:

“Considera-se organização criminosa a associação de 4


(quatro) ou mais pessoas estruturalmente ordenada e
caracterizada pela divisão de tarefas, ainda que
informalmente, com objetivo de obter, direta ou
indiretamente, vantagem de qualquer natureza, mediante a
prática de infrações penais cujas penas máximas sejam
superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter
transnacional”.

Tendo esse conceito legal como premissa e


considerando os depoimentos e documentos contidos no Inquérito
Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT, é de ver que estamos
diante de uma provável organização criminosa, integrada,
supostamente, pelo Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO, pela
Primeira Dama MARCIA PINHEIRO, pelo Chefe de Gabinete
ANTONIO MONREAL NETO, pela Secretária Adjunta de Governo e
Assuntos Estratégicos IVONE DE SOUZA e pelo Ex-Coordenador de
Gestão de Pessoas da Secretaria Municipal de Saúde RICARDO
APARECIDO RIBEIRO.

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Com efeito, os elementos de informação


constantes no caderno investigativo estão a indicar, fortemente, que
as sobreditas pessoas se associaram informalmente, cada uma no
âmbito das suas atribuições, com o propósito de obter vantagem
indevida, consistente em utilizar indevidamente recursos públicos,
para angariar apoio político ao alcaide, por meio da contratação ilegal
de servidores temporários e através do pagamento irregular do
“Prêmio Saúde”.

Nessa toada, as provas apontam que, muito


provavelmente, o Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO teria
adotado como opção de gestão a contratação de servidores
temporários no âmbito da Secretaria Municipal de Saúde, em
detrimento da realização de concurso público e/ou de processo
seletivo simplificado, tendo em vista que essa circunstância permitiria
que fossem contratadas pessoas indicadas por Vereadores, os quais,
em troca, concederiam, amplo e irrestrito, apoio político ao alcaide.

Nesse passo, o Ex-Secretário Municipal de


Saúde Huark Douglas Correia afirmou que o gasto com pessoal era
uma das maiores despesas da Secretaria de Saúde de Cuiabá e a
quantidade de servidores contratados era superior a dos efetivos,
contudo, embora ele tenha alertado o Prefeito de Cuiabá EMANUEL
PINHEIRO sobre a necessidade de redução, notadamente, de
servidores temporários, o alcaide teria lhe confidenciado que essas
contratações eram organizadas pela Secretaria de Governo, pois
representavam um “CANHÃO POLÍTICO”, para manter sua base de
apoio na Câmara Legislativa Municipal. Nessa toada, Huark também
asseverou que a responsável pela contratação dos servidores
temporários era, efetivamente, IVONE DE SOUZA, a qual, ao ser
questionada pelo Ex-Secretário de Saúde de Cuiabá, dizia que
cumpria ordens do Prefeito Municipal. Huark ainda relatou que

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RICARDO APARECIDO RIBEIRO, então Coordenador de Gestão de


Pessoas, chegou a levar para ele, em determinada ocasião, duas
caixas de contratos para serem assinados, que já estavam rubricados
pelos servidores e incluídos na folha de pagamento, mesmo sem seu
consentimento prévio, conforme se observa nos 259 (duzentos e
cinquenta e nove) contratos entregues por Huark ao agente
ministerial da 9ª Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá (fl. 52 do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Neste ponto, importa registrar que, de acordo


com uma pesquisa realizada pela 9ª Promotoria de Justiça Cível da
Capital, no Portal Transparência do sítio eletrônico da Prefeitura de
Cuiabá, em 10/09/2021, a Secretaria Municipal de Saúde contava com
um total de 6.696 (seis mil, seiscentos e noventa e seis)
servidores, sendo que 3.565 (três mil, quinhentos e sessenta e
cinco) deles, ou seja, 53,23% eram contratados temporários. Demais
disso, a empresa Cuiabana de Saúde Pública, que integra o Sistema
de Saúde Municipal, possuía 1.827 (um mil, oitocentos e vinte e
sete) servidores, dos quais 1.803 (um mil, oitocentos e três)
eram contratados temporários, isto é, 98,68%. Vale dizer, o Sistema
de Saúde de Cuiabá tinha, no total, 5.368 (cinco mil, trezentos e
sessenta e oito) servidores temporários, número que se revela
elevadíssimo se comparado a quantidade de servidores de todo o
Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso, que possui 4.579 (quatro
mil, quinhentos e setenta e nove) servidores em seu quadro de
funcionários, incluindo suas 79 (setenta e nove) comarcas (fl. 52 do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Consigna-se, ademais, que a pesquisa


também revelou que daqueles 259 (duzentos e cinquenta e nove)
servidores contratados irregularmente, uma vez que os respectivos
contratos não estavam assinados pelo Ex-Secretário de Saúde Huark

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Douglas Correia, 136 (cento e trinta e seis) continuavam ativos até


maio de 2021 (fl. 52 do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Na mesma linha do depoimento de Huark,


foram as declarações da Ex-Secretária Municipal de Saúde Elizeth
Lucia Araujo que informou que, na época em que assumiu a gestão da
Secretaria de Saúde de Cuiabá, tramitava uma Ação Civil Pública
proposta pelo Ministério Público, com o objetivo de obrigar a
realização de concurso público, em virtude do número excessivo de
servidores temporários. Elizeth também alegou que chegou a adotar
providências na tentativa de executar um processo seletivo,
entretanto, segundo ela, o procedimento não foi finalizado na sua
gestão, notadamente, porque após RICADO APARECIDO RIBEIRO
assumir o cargo de Coordenador de Gestão de Pessoas da pasta, o
processo seletivo foi paralisado. A Ex-Secretária de Saúde esclareceu
também que a partir dali, perdeu o controle sobre a contratação dos
servidores temporários, uma vez que RICARDO costumava
despachar, diretamente, com MARCIA PINHEIRO e IVONE DE
SOUZA, as quais promoviam, efetivamente, as contratações, sem o
seu conhecimento. Nesse sentido, Elizeth explicou que quando os
contratos vinham para ela assinar, eles estavam rubricados pelos
servidores, os quais já estavam, inclusive, trabalhando.

Vale destacar, aqui, que os elementos


contidos nos autos estão a revelar que IVONE DE SOUZA e
RICARDO APARECIDO RIBEIRO são pessoas de confiança do
Prefeito Municipal. Nesse sentido, a própria IVONE informou que
trabalha com EMANUEL PINHEIRO desde 2011, exercendo, durante
todo esse período, cargos de confiança na Assembleia Legislativa e na
Prefeitura de Cuiabá. RICARDO, de igual modo, trabalhou na
Assembleia Legislativa e, segundo a Ex-Secretária Municipal de Saúde

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Elizeth Lucia Araujo, assumiu o cargo de Coordenador de Gestão de


Pessoas por indicação da Primeira Dama MARCIA PINHEIRO e por
determinação direta do alcaide.

Os Ex-Secretários Municipais de Saúde Huark


Doulglas Correia e Elizeth Lucia Araujo também foram uníssonos em
afirmar que as contratações desses servidores temporários eram fruto
de ingerência política. Nessa toada, ambos relataram que diversos
servidores antigos e competentes foram substituídos por pessoas sem
qualificação técnica na área de seus cargos. Elizeth ainda declarou,
expressamente, que essas pessoas, geralmente, eram indicadas pela
esposa do Chefe do Poder Executivo Municipal MARCIA PINHEIRO e
por Vereadores; ao passo que Huark apresentou ao agente ministerial
da 9ª Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá, 02 (dois) ofícios
subscritos por Elizeth e endereçados ao então Secretário Adjunto de
Governo Oseas Machado de Oliveira, onde constam, supostamente,
os nomes das pessoas indicadas e dos parlamentares que fizeram as
indicações (Ofícios nº 192 e 196/2017/CERAGP/SMS - fl. 52 do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Em sintonia com os depoimentos prestados


por Huark e Elizeth, RICARDO APARECIDO RIBEIRO também
afirmou que era comum a indicação por Vereadores de pessoas a
serem contratadas. O Ex-Coordenador de Gestão de Pessoas ainda
revelou que cabia ao Secretário Adjunto de Governo identificar os
locais que necessitavam de servidores para contratação, enquanto
que a Secretaria de Gestão fazia a inclusão dos servidores
contratados na folha de pagamento.

Neste ponto, é importante registrar que,


conforme se extrai do Inquérito Civil de SIMP nº 000780-023/2021, a
Notícia de Fato de SIMP nº 00943-023/2018 foi instaurada a partir de

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documentos encaminhados pela Comissão Parlamentar de Inquérito


da Saúde, instalada na Câmara Municipal de Cuiabá em 2018, dentre
os quais se encontra um “Relatório de Contratos da Secretaria
Municipal de Saúde”, no qual se pode observar que na sétima coluna
da planilha, denominada de “referência”, constam alguns nomes, a
maioria de parlamentares, que possivelmente indicaram aqueles
servidores aos cargos (fl. 52 do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Da mesma forma, o depoimento de Bianca


Scaravonatto, que trabalhou na Secretaria Municipal de Saúde entre
21/05/2018 a 31/12/2018, corroboram as declarações feitas pelos Ex-
Secretários Municipais de Saúde Huark e Elizeth sobre as
interferências políticas na contratação de servidores temporários.
Nessa linha, Bianca asseverou que foi indicada pelo Vereador
Marcrean e embora não tivesse formação na área da saúde, foi
contratada para o cargo de Agente Operacional de Saúde.

Fazendo um panorama de todas essas


informações, é possível lobrigar, pelo menos em tese, que EMANUEL
PINHEIRO, ao assumir a Chefia do Poder Executivo Municipal,
vislumbrou a possibilidade de obter apoio político, mediante a
contratação de servidores temporários, no âmbito da Secretaria de
Saúde de Cuiabá, justamente porque, ao que tundo indica, essa
prática já era comum nas gestões anteriores. Desse modo, o alcaide
teria centralizado essas contratações na Secretaria de Governo, onde
contaria com a participação de IVONE DE SOUZA, que era pessoa de
sua confiança e a quem caberia identificar a necessidade de
contratação, substituindo servidores antigos por pessoas apontadas
pela Primeira Dama MARCIA PINHEIRO, cujos nomes teriam sido
indicados por Vereadores. Seguindo nessa linha de raciocínio,
também seria da competência de IVONE informar os nomes das

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pessoas a serem contratadas para RICARDO APARECIDO RIBEIRO,


pessoa que também detinha a confiança do Prefeito, que como Gestor
de Pessoas elaboraria os respectivos contratos, coletava as
assinaturas dos servidores e os repassava aos Secretários Municipais
de Saúde para serem chancelados. Contudo, independente da
anuência do gestor da pasta, aquelas pessoas já seriam consideradas,
efetivamente, contratadas, porquanto os nomes desses servidores já
teriam sido incluídos na folha de pagamento pela Secretaria de
Gestão.

De outro norte, as provas apontam que além


da contratação irregular de servidores temporários, vigoraria, no
âmbito da Secretaria Municipal de Saúde, um outro esquema
criminoso, referente ao pagamento do “Prêmio Saúde”, em
desacordo com a legislação, também com a finalidade de garantir
apoio político ao Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO.

Sobre essa questão, a Ex-Secretária Municipal


de Saúde Elizeth Lucia Araujo relatou que não havia normatização
sobre o pagamento do “Prêmio Saúde”, de maneira que a
gratificação era paga ao livre arbítrio do Prefeito Municipal, que
indicava as pessoas que deveriam recebê-la e os valores a serem
pagos. Em vista disso, Elizeth esclareceu que baixou uma Portaria,
regulamentando o pagamento do “Prêmio Saúde”, no tocante aos
cargos que fariam jus ao benefício e aos montantes a serem pagos (fl.
52 - do Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Essa informação foi ratificada pelo Ex-


Coordenador de Gestão de Pessoas RICARDO APARECIDO RIBEIRO,
que narrou que, inicialmente, o “Prêmio Saúde” estava sendo pago
indiscriminadamente.

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Corroborando essa informação, tem-se ainda


um documento que foi entregue ao presentante ministerial da 9ª
Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá pelo Ex-Secretário Municipal de
Saúde Huark Douglas Correia, consistente em um bilhete, assinado
por IVONE DE SOUZA, contendo o seguinte conteúdo:

“Conforme determinação do Prefeito, solicito a


implantação dos Prêmios abaixo: Hellen Cristina da Silva –
1.500,00 / Luciano Gomes Trindade – 800,00 / Jose Neves
Teixeira – 800,00 / Fernando Jorge da Silva – 800,00 /
Klever Christian Arruda dos Santos – 800,00 / Eder Pinheiro
da Silva – 800,00 / Carlos Henrique Cruz – 800,00 / Deivid
de Lima Queiroz – 800,00 / Antonio Carlos Derminio –
800,00 / Barbara Sant’anna – 800,00” (fl. 52 - do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Huark também apresentou ao agente


ministerial da 9ª Promotoria de Justiça da Capital, cópia da CI nº
0675/2018/CERAGP/SMS, subscrita por RICARDO, solicitando-lhe o
pagamento do “Prêmio Saúde” à servidora Dianara Alves Cabrera,
que ocupava o cargo de Assessor Técnico, lotada na Assessoria
Jurídica, no valor de R$ 3.800,00 (três mil e oitocentos reais).
Demais disso, o Ex-Secretário Municipal de Saúde ainda apresentou
um documento extraído do Portal Transparência, que demonstra que
a servidora continua recebendo a gratificação (fl. 52 - do Inquérito
Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Acerca do denominado “Prêmio Saúde”


impõe-se dizer que ele foi instituído pela Lei Complementar Municipal
nº 94/2003 e, por muito tempo, permaneceu vigente sem
regulamentação alguma, até que, finalmente, a gratificação foi

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regulamentada pela Portaria nº 40/2017, revogada pela Portaria nº


006/2019 (fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Neste ponto, porém, impende dizer que,


conforme se teve conhecimento através do Inquérito Civil de SIMP nº
000780-023/2021, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso,
nos autos da Representação de Natureza Externa nº 12.400-1/2019,
que versa sobre irregularidades na concessão do “Prêmio Saúde”,
determinou, através do Acórdão nº 477/2019-TP, ao Prefeito
Municipal que regulamente o benefício por ato normativo adequado,
prevendo a forma legal de execução do pagamento da benesse a
servidores lotados exclusivamente na Secretaria Municipal de Saúde,
estabelecendo os cargos que receberão a gratificação, os valores, a
base de cálculo e a metodologia de cálculo do incentivo; que efetue o
pagamento do benefício, com base na Portaria nº 006/2019, somente
aos profissionais ligados diretamente à atividade finalística da
Secretaria Municipal de Saúde; que efetue o pagamento do benefício
aos profissionais da enfermagem, com base na Lei Complementar nº
430/2017; que efetue o pagamento do benefício aos médicos, com
base na Lei Complementar nº 200/2009; e que efetue o pagamento
do benefício aos cirurgiões dentistas, contratados temporariamente,
com base na Lei Complementar nº 209/2010; bem como que se
abstenha, imediatamente, de pagar o benefício ao Secretário
Municipal de Saúde, aos Secretários Adjuntos, aos cargos e funções
do Gabinete do Secretário Municipal de Saúde e a outros cargos e
funções da área meio (fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Apesar disso, a Prefeitura Municipal de Cuiabá


publicou nota informando que continuaria pagando, regularmente, o
“Prêmio Saúde” aos servidores da Secretaria Municipal de Saúde,

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sob o fundamento de que teria impetrado um Mandado de Segurança


perante o Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso, visando
solucionar a celeuma (fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Nesse passo, o Ex-Secretário de Saúde Huark


também colacionou aos autos do Inquérito Civil de SIMP nº 000780-
023/2021, uma tabela contendo a relação de servidores que estariam
recebendo o “Prêmio Saúde” indevidamente, tendo em vista que
ocupam cargos que, nos termos da decisão do Tribunal de Contas
Estadual, não poderiam receber o benefício. Dessa tabela se extrai
que 161 (cento e sessenta e um) servidores estariam recebendo a
gratificação irregularmente e que, apenas em julho de 2021, o valor
gasto com o pagamento da gratificação giraria em torno de R$
640.026,00 (seiscentos e quarenta mil e vinte e seis reais), o
qual multiplicado por 25 (vinte e cinco) meses, que seria o tempo que
a Prefeitura de Cuiabá estaria descumprimento a decisão do Tribunal
de Contas Estadual, chegaria a assombrosa quantia de R$
16.000.650,00 (dezesseis milhões e seiscentos e cinquenta
mil reais), paga indevidamente aos servidores, em prejuízo dos
cofres públicos municipais (fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Considerando tudo o que foi exposto até aqui,


é lícito concluir que as provas estão a revelar que, muito
provavelmente, o pagamento indiscriminado do “Prêmio Saúde”, tal
qual a contratação irregular de servidores temporários, tem viés
eminentemente político.

Por fim, importa registrar que o §1º, do art. 2º,


da Lei nº 12.850/2013, dispõe que incorre nas mesmas penas
atribuídas aos membros da organização, aquele que “impede ou, de

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qualquer forma, embaraça a investigação de infração penal que


envolva organização criminosa”.

No caso vertente, infere-se do Inquérito Civil


de SIMP nº 000780-023/2021, que o presentante ministerial da 9ª
Promotoria de Justiça Cível da Capital solicitou auxílio ao Grupo de
Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado – GAECO, a fim de
cumprir diligência na Secretaria Municipal de Saúde e nas unidades
de saúde. Contudo, logo após iniciarem as constatações in loco, os
investigadores do GAECO relataram que foram impedidos de
continuar, pois os servidores que se encontravam no local informaram
que o Chefe de Gabinete ANTONIO MONREAL NETO determinou
que eles não prestassem informações ou apresentassem documentos
ao Ministério Público Estadual, obstruindo a investigação (Relatório
Técnico nº 111/2021 - fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Ademais, vale destacar que ANTONIO


MONREAL NETO, ocupa o cargo de Chefe de Gabinete, certamente,
pelo prestígio que goza perante o Prefeito de Cuiabá EMANUEL
PINHEIRO, tendo, possivelmente, envolvimento em todas essas
tramoias que estariam ocorrendo na Prefeitura de Cuiabá.

III – DOS CRIMES DE RESPONSABILIDADE


PREVISTOS NO ART. 1º, INCISOS II E XIII, DO DECRETO-LEI Nº
201/1967

O art. 1º, inciso II, do Decreto-Lei nº 201/1967


estabelece que é crime de responsabilidade do Prefeito Municipal,
“utilizar-se, indevidamente, em proveito próprio ou alheio, de bens,
rendas ou serviços públicos”. O art. 1º, inciso XIII, do Decreto-Lei nº
201/1967 dispõe que é crime de responsabilidade do Prefeito

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Municipal, “nomear, admitir ou designar servidor, contra expressa


disposição de lei”.

No caso em exame, as provas estão a indicar


que tanto a contratação de servidores temporários, quanto o
pagamento do “Premio Saúde”, teriam sido os meios encontrados
pelo Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO de garantir apoio
político.

Nessa linha intelectiva, os elementos de


informação amealhados ao feito revelam que o Prefeito de Cuiabá
EMANUEL PINHEIRO estaria agindo em evidente afronta à norma
constitucional insculpida nos incisos II e IX, do art. 37, da Constituição
Federal, que prescrevem que a investidura em cargo público deverá
ocorrer, em regra, por meio de concurso público, sendo admitida a
contratação temporária apenas nos casos de necessidade de
excepcional interesse público.

Com efeito, ao que parece, o Chefe do Poder


Executivo Municipal tem feito da contratação temporária, o principal
meio de admissão de servidores na Secretaria de Saúde de Cuiabá,
movido, muito provavelmente, por interesses escusos, consistentes
em angariar apoio político.

Nessa esteira, o alcaide, desde o início de sua


gestão, estaria utilizando dessas contratações como meio de troca de
favores, haja vista que estaria contratando pessoas indicadas por
Vereadores, visando manter sua base de apoio na Câmara Legislativa
Municipal.

Nessa perspectiva, verificou-se, por meio dos


depoimentos dos Ex-Secretários Municipais de Saúde Huark Douglas

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Correia e Elizeth Lucia Araujo, que apesar de ter pleno conhecimento


da necessidade de diminuir a quantidade de servidores temporários
contratados pela Secretaria de Saúde de Cuiabá, o Prefeito Municipal
EMANUEL PINHEIRO não teria empreendido esforço algum no
sentido de viabilizar a realização de concurso público ou processo
seletivo simplificado.

Bem ao contrário disso, as provas até aqui


colhidas parecem demonstrar que o Chefe do Poder Executivo
Municipal buscou colocar pessoas de sua confiança em cargos
estratégicos, a fim de garantir o cumprimento das suas ordens. Não
foi à toa, pois, que o Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO
designou IVONE DE SOUZA para exercer a função de Secretária
Adjunta de Governo e determinou que RICARDO APARECIDO
RIBEIRO fosse investido no cargo de Coordenador de Gestão de
Pessoas, afinal, pelo que se vê dos autos essas pessoas teriam
contribuído, sobremaneira, com a contratação dos servidores
temporários e o pagamento do “Prêmio Saúde”.

A impressão que se tem, aliás, é de que o


alcaide busca, de toda maneira, alcançar seus objetivos, nem que
para isso seja preciso infringir a lei. A propósito, impõe-se dizer que o
Chefe do Poder Executivo Municipal tem feito verdadeira “tabula
rasa” das decisões do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas, bem
como do Termo de Ajustamento de Conduta firmado com o Ministério
Público, que determinaram a redução dos servidores temporários da
Secretaria de Saúde de Cuiabá e, por outro lado, a realização de
concurso público e processo seletivo simplificado, conforme será
detalhado mais adiante.

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As provas apontam, ademais, que o Prefeito


de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO estaria agindo, da mesma forma,
em relação ao pagamento do “Prêmio Saúde”.

Nesse passo, os depoimentos prestados pela


Ex-Secretária de Saúde Elizeth Lucia Araujo e pelo Ex-Coordenador
de Gestão de Pessoas RICARDO APARECIDO RIBEIRO, assim
como os documentos apresentados pelo Ex-Secretário de Saúde
Huark Douglas Correia evidenciam que enquanto não havia norma
regulamentando o benefício, ele era pago para quem e no valor que o
Chefe do Poder Executivo Municipal determinasse. Essas provas
demonstram ainda que, mesmo após a regulamentação da
gratificação e das recomendações do Tribunal de Contas Estadual, o
“Prêmio Saúde” continua a ser pago irregularmente,
especialmente, para cargos que não fazem jus à benesse.

IV – DO CRIME DE RESPONSABILIDADE
PREVISTO NO ART. 1º, INCISO XIV, DO DECRETO-LEI Nº
201/1967 E DO CRIME DE PREVARICAÇÃO

Como bem esclareceu a Ex-Secretária


Municipal de Saúde Elizeth Lucia Araujo, a contratação de servidores
temporários na Secretaria de Saúde de Cuiabá é prática comum
naquela pasta e vem se arrastando desde gestões municipais
anteriores, todavia, apesar de o Prefeito de Cuiabá EMANUEL
PINHEIRO saber disso e ter sido reiteradas vezes provocado a mudar
essa situação, ele teria optado por manter esse mecanismo ilegal de
gestão, continuando a realizar contratações temporárias irregulares,
em detrimento da realização de concurso público e/ou processo
seletivo simplificado; bem como mantendo o pagamento do “Prêmio
Saúde” àqueles que não fazem jus ao benefício.

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Nesse sentido, tomou-se conhecimento


através do Inquérito Civil de SIMP nº 000780-023/2021, que a
contratação irregular de servidores temporários já foi objeto dos
Inquéritos Civis de SIMPs nº 000416-005/2008, nº 000396-023/2012 e
nº 000762-005/2018, no âmbito do Ministério Público Estadual (fl. 52 -
do Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Dessa forma, convém esclarecer que o


Inquérito Civil de SIMP nº 000416-005/2008 resultou na propositura
da Ação Civil Pública por Ato de Improbidade Administrativa nº 21140-
72.2009.811.0041, em face do então Prefeito de Cuiabá Wilson
Santos e do Ex-Secretário Municipal de Saúde Luiz Soares, tendo o Ex-
Prefeito Municipal sido condenado pelo Juízo de Primeiro Grau, ante a
prática de Ato de Improbidade Administrativa que atenta contra os
Princípios da Administração Pública, consistente na contratação de
servidores sem concurso público e sem comprovar a excepcionalidade
legal, cuja decisão foi confirmada pela 2ª Câmara de Direito Público e
Coletivo desse Tribunal de Justiça (Recurso de Apelação nº
5951/2014). Nesse passo, uma das obrigações impostas ao Município
de Cuiabá foi a de não efetuar novas contratações de servidores
temporários, sem definir, expressamente, a hipótese de necessidade
excepcional. Como a decisão foi confirmada pelo Juízo de Segundo
Grau somente em 05/06/2018, quando EMANUEL PINHEIRO já se
encontrava na sua primeira gestão como Prefeito de Cuiabá, o
Ministério Público expediu uma Notificação Recomendatória ao Chefe
do Poder Executivo Municipal e ao então Secretário Municipal de
Saúde Huark Douglas Correia, em 22/10/2018, a fim de que não fosse
alegado desconhecimento. Essa Notificação Recomendatória foi
expedida nos autos do Inquérito Civil de SIMP nº 000762-005/2018,
com o fim de obrigar o alcaide a cumprir a ordem judicial emanada
nos autos da supramencionada Ação Civil Pública, a qual, como restou
demonstrado, não está sendo cumprida.

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O Inquérito Civil de SIMP nº 000396-023/2012,


por outro lado, resultou, em 06/12/2013, na formalização de um
Termo de Ajustamento de Conduta entre o Ministério Público Estadual,
o Município de Cuiabá e as Secretarias de Saúde e Gestão, que se
comprometeram a readequar o plano de cargos e carreias da
Secretaria Municipal de Saúde; realizar concurso público entre os
anos de 2014/2015; manter o percentual de contratos temporários
em no máximo 25%; e não realizar novas contratações temporárias, a
não ser em casos de real necessidade temporária e excepcional
interesse público, devidamente justificados e precedidas de processo
seletivo simplificado. Nessa linha, instaurou-se o Procedimento
Administrativo de SIMP nº 000582-023/2014 para acompanhar o
cumprimento do acordo, contudo, o concurso público não foi
realizado; as contratações temporárias continuaram a crescer,
atingindo o patamar de 53,23%, apenas em relação à Secretaria
Municipal de Saúde, e 62,98%, considerando também a empresa
Cuiabana de Saúde Pública. Em vista do descumprimento do pacto,
em 15/08/2018 foi proposta a Ação de Execução de Obrigação de
Fazer e Não Fazer nº 1026831-35.2018.811.0041, em face do atual
Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO, que ainda está em
andamento e na qual foi requerido, entre outras coias, o bloqueio de
verbas públicas até o efetivo adimplemento do ajuste (fl. 52 - do
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Como se não bastasse, existe também uma


decisão do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, no Processo
de Representação de Natureza Interna nº 25.012-0/2018, versando,
de igual modo, sobre a contratação irregular de servidores
temporários, na qual foram determinadas ao Prefeito de Cuiabá
EMANUEL PINHEIRO e aos Secretários Municipais Ozenira Félix
Soares de Souza e Luiz Antônio Possas de Carvalho: a deflagração,

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imediata, de Processo Seletivo Simplificado e a apresentação de


proposta de cronograma de concurso público (fl. 52 - do Inquérito
Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

Além disso, impende dizer que, conforme se


teve conhecimento através do Inquérito Civil de SIMP nº 000780-
023/2021, o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso, nos autos
da Representação de Natureza Externa nº 12.400-1/2019, que versa
sobre irregularidades na concessão do “Prêmio Saúde”,
determinou, através do Acórdão nº 477/2019-TP, ao Prefeito Municipal
que regulamente o benefício por ato normativo adequado, prevendo a
forma legal de execução do pagamento da benesse a servidores
lotados exclusivamente na Secretaria Municipal de Saúde,
estabelecendo os cargos que receberão a gratificação, os valores, a
base de cálculo e a metodologia de cálculo do incentivo; que efetue o
pagamento do benefício, com base na Portaria nº 006/2019, somente
aos profissionais ligados diretamente à atividade finalística da
Secretaria Municipal de Saúde; que efetue o pagamento do benefício
aos profissionais da enfermagem, com base na Lei Complementar nº
430/2017; que efetue o pagamento do benefício aos médicos, com
base na Lei Complementar nº 200/2009; e que efetue o pagamento
do benefício aos cirurgiões dentistas, contratados temporariamente,
com base na Lei Complementar nº 209/2010; bem como que se
abstenha, imediatamente, de pagar o benefício ao Secretário
Municipal de Saúde, aos Secretários Adjuntos, aos cargos e funções
do Gabinete do Secretário Municipal de Saúde e a outros cargos e
funções da área meio, cuja decisão, conforme restou evidenciado,
também não está sendo cumprida (fl. 52 - do Inquérito Policial nº
003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT).

V – DAS MEDIDAS CAUTELARES

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Diante desse contexto fático-probatório, é


forçoso concluir que para esclarecer os fatos em toda sua extensão e
garantir, desde já, a reparação do vultoso prejuízo que as, supostas,
condutas dos investigados têm causado ao erário municipal, a
investigação reclama, neste momento, da adoção de medidas de
persecução mais contundentes, como o afastamento do Prefeito de
Cuiabá EMANUEL PINHEIRO, do Chefe de Gabinete ANTONIO
MONREAL NETO e da Secretária Adjunta de Governo e Assuntos
Estratégicos IVONE DE SOUZA dos cargos; do sequestro de valores
das contas bancárias de EMANUEL PINHEIRO, da Primeira Dama
MARCIA PINHEIRO, de ANTONIO MONREAL NETO, de IVONE DE
SOUZA e do Ex-Coordenador de Gestão de Pessoas RICARDO
APARECIDO RIBEIRO; da busca e apreensão a ser realizada nos
endereços residenciais e profissionais de EMANUEL PINHEIRO,
MARCIA PINHEIRO, ANTONIO MONREAL NETO, IVONE DE
SOUZA e RICARDO APARECIDO RIBEIRO; e da Prisão Temporária
de ANTONIO MONREAL NETO.

Aliás, é de se reconhecer que seria uma


ingenuidade, querer impulsionar as investigações requisitando
informações ou a entrega de documentos, computadores, celulares e
etc aos investigados, que, inclusive, já tentaram obstruir as
investigações.

V.I. DO AFASTAMENTO DO CARGO

A Lei nº 12.850/2013, em seu art. 2º, §5º,


prescreve a possibilidade de o magistrado afastar, cautelarmente, o
funcionário público do cargo, emprego ou função, quando essa
medida se mostrar necessária para a investigação.

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Acerca do tema, o Superior Tribunal de Justiça


tem se manifestado nos seguintes termos:

“HABEAS CORPUS. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA AGRAVADA,


FRAUDE À LICITAÇÃO, DISPENSA DE LICITAÇÃO FORA DAS
HIPÓTESES PREVISTAS, FALSIDADE IDEOLÓGICA MAJORADA,
CRIME DE RESPONSABILIDADE, LAVAGEM DE DINHEIRO E
FRAUDE PROCESSUAL MAJORADA. MEDIDA CAUTELAR DE
AFASTAMENTO DE CARGO PÚBLICO. EXAME DA LEGALIDADE
NESTA VIA. POSSIBILIDADE. PREFEITO MUNICIPAL.
AFASTAMENTO DO EXERCÍCIO DO CARGO. FUNDAMENTAÇÃO
CONCRETA. PROPORCIONALIDADE E ADEQUAÇÃO DAS
MEDIDAS. RESGUARDAR A ORDEM PÚBLICA E ECONÔMICA,
EVITAR O RISCO DE REITERAÇÃO CRIMINOSA E
CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO CRIMINAL.
CONTEMPORANEIDADE DOS FATOS INVESTIGADOS.
EXCESSO DE PRAZO. MATÉRIA NÃO EXAMINADA PELA CORTE
DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. ORDEM DENEGADA.
RECOMENDAÇÃO (…) 3. Estão presentes os requisitos
autorizadores da restrição da liberdade do paciente,
conforme demonstrado pelo Tribunal a quo. A denúncia
ofertada em desfavor do paciente imputou-lhe a
prática de um grande número de delitos, de maneira
a revelar o desrespeito pelo ordenamento jurídico
pátrio e até mesmo com a importante função que
exercia, além de ostentar a qualidade de líder de
organização criminosa voltada ao desvio de verbas
públicas municipais e federais, estava se valendo de
sua função de prefeito do município para alterar os
fatos investigados, tentando cooptar possíveis
testemunhas e amealhar apoio político, mostrando-
se, assim, necessário seu afastamento para

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desarticular o referido grupo criminoso, de maneira a


resguardar a ordem pública e econômica, sendo
asseverado, ainda, que sua permanência no cargo
possibilitaria a reiteração das condutas e a indevida
interferência na instrução criminal (…) 6. Ordem
denegada. Recomendação para que seja reavaliada a
medida cautelar de afastamento do cargo de prefeito, após
os 90 dias da data da última avaliação, conforme o disposto
no art. 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal.
(HC 607.902/AC, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA
TURMA, julgado em 20/10/2020, DJe 23/10/2020)”.

Na hipótese, resta evidente que o


afastamento do Prefeito Municipal, do Chefe de Gabinete e da
Secretária Adjunta de Governo e Assuntos Estratégicos, se
revela indispensável para impedir a reiteração delitiva, o que causaria
ainda mais dano ao patrimônio público, bem como para o êxito das
investigações.

Com efeito, consoante restou demonstrado, o


Chefe do Poder Executivo Municipal tem se portado de maneira a dar
a entender que ele não está disposto a cumprir a lei, haja vista a
existência das decisões do Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas,
além do Termo de Ajustamento de Conduta celebrado com o
Ministério Público, os quais ele tem descumprido reiteradamente.
Dessa forma, não resta outra alternativa a não ser a de lhe afastar do
cargo, como forma de impedir que ele continue a delinquir. De igual
maneira, mostra-se imperioso o afastamento do Chefe de Gabinete e
da Secretária Adjunta de Governo e Assuntos Estratégicos, afinal,
sendo esses servidores pessoas de confiança do alcaide e integrantes
do grupo criminoso, é certo que se eles permanecerem em seus
cargos, o esquema criminoso continuará a ocorrer, de modo que a

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restrição imposta ao Prefeito Municipal não surtirá os efeitos


desejados.

Além disso, deve ser levada em conta a


gravidade dos fatos imputados aos investigados, os quais, ao que
tudo indica, têm se valido de seus cargos para angariar apoio político
ao Prefeito Municipal, notadamente, sustentar sua base de apoio
na Câmara Legislativa Municipal, utilizando, indevidamente, recursos
que poderiam ser melhor empregados, sobretudo, por se tratarem de
verbas da área da saúde, circunstância que acarreta danos
inestimáveis para a sociedade.

Frisa-se, ainda, que se permaneceram no


exercício de seus cargos, é muito provável que os investigados
atrapalhem o andamento das investigações, suprimindo documentos
e outras eventuais provas que sirvam para comprovar a materialidade
e a autoria criminosas.

V.II. DA BUSCA E APREENSÃO

O art. 5º, inciso XI, da Constituição Federal


prevê no rol de direitos e garantias fundamentais individuais, o direito
à inviolabilidade do domicílio, estabelecendo que “a casa é asilo
inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem
consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou
desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial”. Não obstante, pela simples leitura da norma
constitucional é possível concluir que não se trata de um direito
absoluto, podendo sofrer restrições em determinadas situações.

O Código de Processo Penal, a seu turno,


estabelece como meio de prova a medida cautelar de Busca e

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Apreensão, que se encontra disciplinada nos artigos 240 e seguintes.


Nesse sentido, tem-se que é perfeitamente admitida a busca
domiciliar, mediante autorização judicial, quando fundadas razões a
autorizarem, para colher qualquer elemento de convicção que possa
interessar às investigações (artigo 240, §1º, alínea “h”, do CPP). Sobre
o assunto, interessante colacionar o seguinte julgado do Superior
Tribunal de Justiça:

“(…) BUSCA E APREENSÃO. AUSÊNCIA DE MOTIVAÇÃO DA


DECISÃO QUE AUTORIZOU A MEDIDA. MAGISTRADO QUE,
REPORTANDO-SE À REPRESENTAÇÃO POLICIAL, APONTA A
EXISTÊNCIA DE INDÍCIOS QUE RECOMENDAM O
DEFERIMENTO DA CAUTELAR. NULIDADE NÃO
CARACTERIZADA. 1. O artigo 240 do Código de Processo
Penal permite a busca e apreensão que, consoante o
disposto nos artigos 243 do aludido diploma legal e
93, inciso IX da Constituição Federal, deve ser
autorizada por meio de decisão judicial
fundamentada, notadamente porque implica
limitação à liberdade individual. 2. Na espécie, ao
autorizar a busca e apreensão requerida pela autoridade
policial, a magistrada responsável pelo feito destacou que o
cabimento da medida teria sido devidamente
evidenciado no curso das investigações, frisando
haver indícios da prática de crimes no curso do
procedimento licitatório realizado para adquirir
veículos para a frota da Polícia Militar, sendo
necessária a colheita de provas para auxiliar na
elucidação dos fatos, decisão que se mostra
devidamente fundamentada, o que afasta a mácula
suscitada na irresignação. Precedentes. 3. Recurso

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desprovido. (RHC 46.694/BA, Rel. Ministro JORGE MUSSI,


QUINTA TURMA, julgado em 18/08/2016, DJe 24/08/2016)”.

Dessa maneira, voltando o olhar para o que se


tem no Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT e
tudo o que foi exposto, é real a possibilidade de o Prefeito de Cuiabá
EMANUEL PINHEIRO, o Chefe de Gabinete ANTONIO MONREAL
NETO, a Secretária Adjunta de Governo e Assuntos Estratégicos
IVONE DE SOUZA e do Ex-Coordenador de Gestão de Pessoas
RICARDO APARECIDO RIBEIRO manterem em seus computadores,
celulares e nos seus endereços residenciais e profissionais,
informações e documentos importantes, capazes de aclarar, ainda
mais, os fatos investigados, mostrando-se útil e necessária a
realização de buscas nesses locais e a apreensão de todo esse
material.

Pondera-se que embora seja óbvia a


possibilidade de extração pela autoridade policial de dados dos
aparelhos telefônicos e computadores apreendidos, deverá constar
expressamente na decisão a respectiva autorização, de modo
a evitar alegações futuras de nulidade. Nesse aspecto, confira-se
o seguinte julgado do Tribunal da Cidadania:

“PROCESSUAL PENAL. OPERAÇÃO "LAVA-JATO". MANDADO


DE BUSCA E APREENSÃO. APREENSÃO DE APARELHOS
DE TELEFONE CELULAR (...) ACESSO AO CONTEÚDO DE
MENSAGENS ARQUIVADAS NO APARELHO.
POSSIBILIDADE. LICITUDE DA PROVA. RECURSO
DESPROVIDO (…) IV - Na pressuposição da ordem de
apreensão de aparelho celular ou smartphone está o
acesso aos dados que neles estejam armazenados,

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sob pena de a busca e apreensão resultar em medida


írrita, dado que o aparelho desprovido de conteúdo
simplesmente não ostenta virtualidade de ser utilizado
como prova criminal. V - Hipótese em que, demais disso,
a decisão judicial expressamente determinou o
acesso aos dados armazenados nos aparelhos
eventualmente apreendidos, robustecendo o alvitre
quanto à licitude da prova. Recurso desprovido. (RHC
75.800/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA,
julgado em 15/09/2016, DJe 26/09/2016)”.

V.III. DO SEQUESTRO DE BENS

Paralelamente às medidas cautelares


previstas no Código de Processo Penal, o Decreto-Lei nº 3.240/1941
criou no ordenamento jurídico brasileiro, a medida cautelar
denominada pela doutrina de Sequestro Especial de Bens.

Nessa linha, o art. 1º, caput, do aludido ato


normativo estabelece que estão sujeitos a sequestro os bens da
pessoa indiciada por crime de que resulte prejuízo para a Fazenda
Pública, como é o caso dos delitos atribuídos aos investigados no
Inquérito Policial nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT.

Sobre o tema, vale dizer que o sequestro pode


recair sobre todos os bens dos investigados (art. 4º, caput, do
Decreto-Lei nº 3.240/1941), inclusive, sobre aqueles adquiridos
licitamente, uma vez que visa possibilitar a reparação do dano ao
erário, efeito extrapenal da sentença condenatória, previsto no art.
91, inciso I, do Código Penal, conforme tem afirmado, reiteradamente,
o Superior Tribunal de Justiça. A propósito, confira-se o seguinte
julgado:

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“AGRAVO REGIMENTAL. EMBARGOS DE TERCEIRO.


SEQUESTRO CAUTELAR PENAL. CRIMES CONTRA A
ADMINISTRAÇÃO. OFENDIDO. FAZENDA PÚBLICA. ART. 4º DO
DECRETO-LEI 3.240/41. IMÓVEL. BEM QUE JÁ PERTENCEU AO
ACUSADO.TRANSMISSÃO A TERCEIROS. EXAME DA BOA-FÉ
OU DA INEXISTÊNCIA DE CULPA GRAVE. SOBRESTAMENTO
(…) 2. A medida assecuratória de sequestro prevista no CPP
está destinada a assegurar a satisfação do efeito da
condenação consistente no perdimento dos produtos e
proveitos do crime, previsto no art. 91, II, "b", do CP,
podendo ser decretada desde que presentes indícios
veementes da proveniência ilícita dos bens, ainda que
transferidos a terceiros. 3. Diferentemente do sequestro
definido no CPP, a medida de sequestro do art. 4º do
Decreto-Lei 3.240/41 também cumpre a função da
hipoteca legal e do arresto previstos no CPP, qual
seja, a de garantir a reparação do dano causado à
Fazenda Pública, vítima do crime, podendo incidir até
sobre os bens de origem lícita do acusado (…) 6.
Agravo regimental provido.(AgRg na Pet 9.938/DF, Rel.
Ministra NANCY ANDRIGHI, CORTE ESPECIAL, julgado em
18/10/2017, DJe 27/10/2017)”.

Sendo assim, com o escopo de proceder à


reparação do prejuízo causado aos cofres públicos municipais, tem-se
como imprescindível o bloqueio das contas bancárias dos
investigados, na quantia de R$ 16.000.650,00 (dezesseis milhões
e seiscentos e cinquenta mil reais), que é o valor estimado que
foi desembolsado pela Administração Pública Municipal, ante a
contratação excessiva de servidores temporários e pelo pagamento
do “Prêmio Saúde” irregularmente.

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V.IV – DA PRISÃO TEMPORÁRIA

A teor do disposto no inciso I, do art. 1º, da Lei


nº 7.960/1969, a Prisão Temporária poderá ser decretada “quando
imprescindível para as investigações do inquérito policial”.

Acerca da possibilidade de decretação da


Prisão Temporária no curso das investigações envolvendo organização
criminosa, assim tem se pronunciado o Superior Tribunal de Justiça:

“AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS.


ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. PECULATO. LAVAGEM DE
CAPITAIS. FRAUDE À LICITAÇÃO. HABEAS CORPUS
SUBSTITUTIVO DE RECURSO ORDINÁRIO.
INADMISSIBILIDADE. ILEGALIDADE DA PRISÃO TEMPORÁRIA.
SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. PRISÃO PREVENTIVA.
REQUISITOS DO ART. 312 DO CPP. NECESSIDADE DE
DESARTICULAÇÃO DE GRUPO CRIMINOSO. GARANTIA DA
ORDEM PÚBLICA. CONTEMPORANEIDADE. NATUREZA
PERMANENTE DO CRIME. FLAGRANTE ILEGALIDADE NÃO
EVIDENCIADA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Não se
admite impetração de habeas corpus em substituição a
recurso ordinário. 2. Inviável o conhecimento neste STJ de
matérias não apreciadas na instância antecedente, sob pena
de supressão de instância. 3. É possível a decretação da
prisão temporária, nos termos do art. 1º, I e III, se
demonstrada a imprescindibilidade da medida para
investigação de crime de organização criminosa. 4.
Considera-se idônea a fundamentação do decreto de prisão
preventiva assentado na periculosidade do agente,
evidenciada pelo modus operandi e na necessidade de

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interromper atuação de líder de organização criminosa. 5.


Dada a natureza permanente do crime de organização
criminosa, não há cogitar de ausência de
contemporaneidade quando demonstrados indícios de que o
grupo criminoso ainda estava em operação na data do
cumprimento do mandado de prisão cautelar. 6. Agravo
regimental desprovido. (AgRg no HC 632.752/GO, Rel.
Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUINTA TURMA, julgado
em 04/05/2021, DJe 07/05/2021)”.

Na espécie, observa-se que ANTONIO


MONREAL NETO ocupa o cargo de Chefe de Gabinete, certamente,
em virtude do prestígio que goza perante o Chefe do Poder Executivo
Municipal EMANUEL PINHEIRO, uma vez que se trata de função,
sabidamente, exercida por pessoa de confiança.

Neste ponto, aliás, merece destaque o fato de


que, assim como IVONE DE SOUZA e RICARDO APARECIDO
RIBEIRO, o Chefe de Gabinete também trabalha há algum tempo
com o alcaide, mais precisamente, desde fevereiro de 2014. Nesse
sentido, em consulta ao sítio eletrônica da Assembleia Legislativa,
observou-se que ANTONIO MONREAL NETO ocupou o cargo de
Assessor Parlamentar, na época em que EMANUEL PINHEIRO era
Deputado Estadual
(https://www.al.mt.gov.br/storage/webdisco/publicacao/1427911755.p
df).

Nessa toada, é evidente que ANTONIO


MONREAL NETO, como “braço direito” do Prefeito de Cuiabá
EMANUEL PINHEIRO, detém não só conhecimento sobre todas as
nuances da Administração Pública Municipal, mas, sobretudo,
atribuição de fundamental importância na concretização das

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falcatruas que, ao que tudo indica, têm ocorrido no âmbito da


Prefeitura de Cuiabá, especialmente, da Secretaria Municipal de
Cuiabá.

A corroborar essa conclusão, vale citar que


ANTONIO MONREAL NETO, segundo a equipe do GAECO asseverou
no Relatório Técnico nº 111/2021 (fl. 52 - do Inquérito Policial
nº 003/2021/GOP-PJC/NACO-MPMT), impediu a realização de
diligências na Secretaria Municipal de Saúde e nas unidades
de saúde, determinando aos servidores municipais que não
prestassem informações e nem fornecessem documentos ao
Ministério Público Estadual.

Desse modo, havendo, veementes, indícios da


atuação de uma, verdadeira, organização criminosa, supostamente,
liderada pelo Prefeito de Cuiabá EMANUEL PINHEIRO e integrada,
entre outros, pelo Chefe de Gabinete ANTONIO MONREAL NETO,
bem como restando, concretamente, evidenciada a tentativa de
obstruir as investigações, mostra-se necessária e imprescindível a
decretação da Prisão Temporária de ANTONIO MONREAL NETO.

VI – DOS PEDIDOS

Em razão de todo o exposto, o MINISTÉRIO


PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO, por seu Procurador-Geral
de Justiça e por seu Subprocurador-Geral de Justiça Jurídico e
Institucional, este último atuando em substituição ao Coordenador do
Núcleo de Ações de Competência Originária da Procuradoria Geral de
Justiça – NACO, e a POLÍCIA JUDICIÁRIA CIVIL DO ESTADO DE
MATO GROSSO, por seu Delegado de Polícia integrante do Grupo
Operacional Permanente do NACO, requerem que sejam decretadas,
inaudita altera parte, as seguintes medida cautelares:

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a) AFASTAMENTO DO CARGO em relação a


Emanuel Pinheiro (Prefeito de Cuiabá), Antonio Monreal Neto
(Chefe de Gabinete) e Ivone de Souza (Secretária Adjunta de
Governo e Assuntos Estratégicos;

b) SEQUESTRO DE VALORES das contas


bancárias, via BACENJUD, a ser efetivado no dia anterior à
deflagração desta operação, no montante de R$ 16.000.650,00
(dezesseis milhões e seiscentos e cinquenta mil reais), em
desfavor de Emanuel Pinheiro (Prefeito de Cuiabá - CPF nº
318.795.601-78), Marcia Aparecida Kuhn Pinheiro (Primeira
Dama - CPF nº 406.770.281-72), Antonio Monreal Neto (Chefe
de Gabinete - CPF nº 007.434.221-55), Ivone de Souza
(Secretária Adjunta de Governo e Assuntos Estratégicos - CPF nº
632.301.431-91) e Ricardo Aparecido Ribeiro (Ex-Coordenador
de Gestão de Pessoas da Secretaria Municipal de Saúde - CPF nº
361.895.881-15);

c) BUSCA E APREENSÃO de computadores,


notebooks, celulares, dispositivos eletrônicos de armazenamento e
quaisquer documentos ou objetos que guardem relação com os
crimes, nos endereços residenciais e profissionais dos investigados, a
saber:

1. EMANUEL PINHEIRO, Prefeito de Cuiabá,


CPF nº 318.795.601-78, residente na Rua La Paz, nº 141,
Bairro Jardim das Américas, CEP 78.060-599, em Cuiabá/MT,
com endereço profissional na Praça Alencastro, nº 158, Bairro
Centro, CEP 78.005-906, em Cuiabá/MT e na Rua La Paz, nº
137, Bairro Jardim das Américas, em Cuiabá/MT (local onde
costuma realizar reuniões com os Secretários Municipais);

Procuradoria Geral de Justiça Telefone: (65) 3613- www.mpmt.mp.br 55


Rua 4, Quadra 11, Nº 237 5246
Centro Político e Administrativo • Cuiabá/MT Telefone: (65) 3613-
CEP: 78049-921
Ministério Público do Estado de Mato Grosso
Núcleo de Ações de Competência Originária
Procuradoria Geral de Justiça

2. MARCIA APARECIDA KUHN PINHEIRO,


Primeira Dama, CPF nº 406.770.281-72, residente na Rua La
Paz, nº 141, Bairro Jardim das Américas, CEP 78.060-599, em
Cuiabá/MT e com endereço profissional na Praça Alencastro,
nº 158, Bairro Centro, CEP 78.005-906, em Cuiabá/MT;

3. ANTONIO MONREAL NETO, Chefe de


Gabinete, CPF nº 007.434.221-55, residente na Rua dos
Xavantes, nº 457, Residencial Torres São Georges II, Torre I –
Apartamento 401, Bairro Quilombo ou Santa Helena, em
Cuiabá/MT e com endereço profissional na Praça Alencastro,
nº 158, Bairro Centro, CEP 78.005-906, em Cuiabá/MT;

4. IVONE DE SOUZA, Secretária Adjunta de


Governo e Assuntos Estratégicos, CPF nº 632.301.431-91,
Avenida A, nº 333, Condomínio Alvorada – Bloco B –
Apartamento 102, Bairro Terra Nova, em Cuiabá/MT e com
endereço profissional na Praça Alencastro, nº 158, Bairro
Centro, CEP 78.005-906, em Cuiabá/MT;

5. RICARDO APARECIDO RIBEIRO, Ex-


Coordenador de Gestão de Pessoas, CPF nº 361.895.881-15,
residente na Rua Argelia, nº 156, Residencial Prive Paiaguas -
Apartamento 104-E, Bairro Jardim Aclimação, em Cuiabá/MT;

d) PRISÃO TEMPORÁRIA de ANTONIO


MONREAL NETO, Chefe de Gabinete, CPF nº 007.434.221-55,
residente na Rua dos Xavantes, nº 457, Residencial Torres São
Georges II, Torre I – Apartamento 401, Bairro Quilombo ou Santa
Helena, em Cuiabá/MT e com endereço profissional na Praça
Alencastro, nº 158, Bairro Centro, CEP 78.005-906, em Cuiabá/MT.

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CEP: 78049-921
Ministério Público do Estado de Mato Grosso
Núcleo de Ações de Competência Originária
Procuradoria Geral de Justiça

Requerem, também, que seja autorizada a


extensão das buscas a quaisquer veículos que se encontrem nas
residências dos investigados no momento do cumprimento das
diligências.

Requerem, ainda, que seja autorizado,


expressamente, o acesso e a extração de todos os dados e imagens
dos computadores, notebooks, celulares e dispositivos eletrônicos
apreendidos em decorrência do cumprimento da medida cautelar de
Busca e Apreensão, possibilitando que sejam COPIADOS e,
posteriormente, analisados pela equipe do Grupo de Atuação
Especial de Combate ao Crime Organizado – GAECO – MPMT,
que, ao final, elaborará relatório de tudo o que foi encontrado e que
possa ser útil à investigação em curso.

Requerem, derradeiramente, que seja


observado o devido SIGILO e SEGREDO DE JUSTIÇA até o
cumprimento das medidas cautelares requestadas, a fim de garantir-
lhes a eficácia e não prejudicar as diligências em andamento,
inclusive, no que tange à tramitação dos autos.

Cuiabá/MT, 05 de outubro de 2021.


JOSE ANTONIO Assinado de forma digital por JOSE
ANTONIO BORGES
BORGES PEREIRA:35373652172
PEREIRA:35373652172 Dados: 2021.10.05 17:23:04 -04'00'

José Antônio Borges Pereira


Procurador-Geral de Justiça

Rodrigo Azem Buchdid


Delegado de Polícia
PJC/GOP/NACO

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