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Violência de Gênero e Assédio no transporte público

brasileiro

Moisés Carneiro Silva1

Rosimery Rodrigues dos Santos Teixeira2

RESUMO: A temática do presente artigo é a violência que as mulheres sofrem


corriqueiramente no transporte público, um grave reflexo da realidade de muitas mulheres.
Sobretudo, o artigo tem como objetivo abordar os aspectos que contribuem para a persistência
dos casos de assédio no transporte público a nível Brasil. Quanto ao tipo, a pesquisa foi básica,
utilizando investigação qualitativa, descritiva e exploratória. Seu desenvolvimento se deu pela
pesquisa bibliográfica de livros e artigos de materiais já elaborados, o trabalho divide-se em
cinco seções, na primeira seção abordamos o inicio que se deu o assedio em transportes
públicos com as capitais em processos de industrialização e urbanização .A segunda seção
fizemos um breve levantamento de dados atuais de violência contra a mulher nos meios de
locomoção .Na terceira seção o objetivo foi retratar sobre as vitimas que sofrem ou já sofreram
assedio no transporte publico. Já a quarta seção foi analisar o perfil do assediador. Por ultimo
foi abordada o projeto de lei “ônibus rosa’ criado com o intuito de amenizar os casos de assedo
nos transportes públicos.

Palavras-chave: assédio; transporte público; violência de gênero e mulheres.


ABSTRACT: The theme of this article is the violence that women routinely suffer in public
transport, a serious reflection of the reality of many women. Above all, the article aims to
address the aspects that contribute to the persistence of cases of harassment in public transport
in Brazil. As for the type, the research was basic, using qualitative, descriptive and exploratory
research. Its development took place through bibliographic research of books and articles of
materials already prepared, the work is divided into five sections, in the first section we discuss
the beginning of the harassment in public transport with the capitals in industrialization and
urbanization processes. Second section we made a brief survey of current data on violence
against women in the means of locomotion. In the third section the objective was to portray the
victims who suffer or have suffered harassment in public transport. The fourth section was to
analyze the profile of the harasser. Finally, the “pink bus” bill created with the aim of easing
cases of harassment in public transport was addressed.

Keywords: harassment; public transportation; gender violence and women.

Timon-MA
23/11/2020

1
Acadêmico do 2° período do curso de Direito da FMSJC
carneiromoiseis00@gmail.com
2
Acadêmica do 2° período do curso de Direito da FMSJC
rosyfaculdireito@gmail.com
1. VIOLÊNCIA DE GÊNERO

A violência de gênero e assédio no transporte público é um grave reflexo da


realidade de muitas mulheres diariamente, e muitas infelizmente sofre o assédio sem
nem mesmo perceber ou reconhecer que tal atitude é considerada como assédio. Ainda
que este tema esteja sendo trabalhado com mais intensidade na luta das mulheres, uma
grande parte desconhece quais seus principais direitos para viver segura na sociedade,
sem precisar se submeter ao desrespeito ou ao medo de andar nas ruas sem que seja
constrangida com o fato de ser uma mulher.

No que se refere a constituição federal (Brasil,1988, cap. I) no caput do artigo 5º


ressaltar que: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” . No entanto a
violência de gênero vai de encontro com á carta magna. Essa situação e ocasionada pela
formação cultural brasileira e mantida pela inoperância estatal no que se refere ao
imbróglio.

Segundo Saffioti (2001) a violência de gênero pode ser entendida como uma
relação marcada pela desigualdade de poder baseada em uma lógica machista. Com
base no que a autor se refere uma hierarquia em que o homem tem poder patriarcal “ O
elo mais forte” estabelecendo uma submissão da mulher uma cultura enraizada desde
muito tempo no meio social por questões sócio cultural , econômica, religiosa , uma
ineficácia da saúde pública em combate a violência . Aparece o problema, que
aspectos contribuem para a persistência dos casos de violência de gênero e de assédio
no transporte público brasileiro?

O objetivo geral deste trabalho é detectar e descrever os aspectos contribuintes


na persistência dos casos de violência de gênero e assédio no transporte coletivo
brasileiro. E os objetivos específicos são: identificar os principais fatores que
influenciam no aumento dos casos e dados de violência de gênero e assédio no meio de
locomoção público brasileiro, e analisar o perfil do assediador no transporte público
brasileiro. A metodologia utilizada foi revisão bibliográfica de livros, sites e artigos
diversos sobre a temática violência de gênero e assedio no transporte publico a nível
Brasil, utilizando uma investigação qualitativa, descritiva e exploratória.

2. ASSÉDIO SEXUAL NOS TRANSPORTES PÚBLICOS BRASILEIRO

A violência sexual e assédio nos dias atuais é um problema de saúde pública


global, nota-se a importância de defini-los. Segundo a Organização Mundial da Saúde
(OMS), em 2002, a violência sexual é caracterizada como:

”[...] qualquer ato sexual, tentativa de obter um ato sexual,


comentários ou investidas sexuais indesejados, ou atos direcionados
ao tráfico sexual ou, de alguma forma, voltados contra a sexualidade
de uma pessoa usando a coação, praticados por qualquer pessoa
independentemente de sua relação com a vítima, em qualquer cenário,
inclusive em casa e no trabalho, mas não limitado a eles”.
(ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2002)

Consoante, violência sexual como maior parte e qualquer ato sexual ou tentativa
de abuso, comentários indesejados e constrangedores a vítima, praticado por qualquer
pessoa.

Segundo Ferreira Sobrinho, o assédio sexual: “[...] é o comportamento


consistente na explicitação de intenção sexual que não encontra receptividade concreta
da outra parte, comportamento esse reiterado após a negativa” (FERREIRA
SOBRINHO, 1996, p. 62)

Portanto assédio sexual e ato sexual libidinoso em que o inclemente tem


intenção sexual de forma reiterado mesmo após a negativa do padecente levando o
outrem a vergonha o medo, trauma.

Para começar, vamos adentrar no contexto histórico em meados no final do


século XIX e início do século XX , as capitais do pais que estava em desenvolvimento
começaram a ter o processo de urbanização e industrialização onde fora implantado
bondes como meios de transporte coletivo o começo do assédio sexual em transportes
públicos . Mencionado por Santos:

“Com o processo de urbanização e industrialização que o país passava


no final do século XIX e início do século XX, foram introduzidos os
bondes como meio de transporte coletivo em cidades como São Paulo
e Rio de Janeiro. Esse processo também deu-se na cidade de Aracaju,
[...]; assim, fora implantado o sistema de bondes para os
deslocamentos da mão de obra assalariada até as fábricas. De acordo
com Anjos (2005), inicialmente houve o serviço de bondes movidos
por tração animal, a partir de 1908 e vindo a ser substituída em 1926
pela linha de bonde elétrico, que durou até 1955, vindo a declinar e a
ser substituído pelos transportes rodoviários de ônibus que possuíam a
vantagem da maior flexibilidade e acessibilidade nos itinerários”.
(SANTOS, 2016, p. 35)

Conforme Santos (2016) a palavra ônibus signifique “para todos “nem todos
optam pelo transporte público por causa de deficiência de políticas públicas e
ineficácia estatal desgaste do coletivo a falta de segurança, mas uma parte desse todo
usufruir do transporte devido a diferença de renda.

“Embora a palavra ônibus, do latim ônibus, signifique “para todos”,


nas condições precárias em que se dá o transporte público, nem todos
o utilizam em seus trajetos, como podemos verificar em recente
pesquisa com usuários de todas as regiões do país, nela, o Ibope
mostrou que um quarto dos brasileiros adota o ônibus como seu
principal meio de locomoção para se deslocar para suas tarefas diárias,
com trabalho e estudo. A pesquisa mostrou ainda que o percentual que
avalia o transporte público como ruim ou péssimo passou de 28% em
2011 para 36% em 2014. Indicou ainda que a diferença de renda é um
fator importante para definir quem são os usuários do transporte
público. Assim, quanto menor a renda familiar dos brasileiros, maior o
percentual daqueles cujo principal meio de locomoção é andar a pé e
de ônibus”. (SANTOS, 2016, p. 35)

De acordo com o autor, quanto menor a renda da família, maior o percentual


daqueles que recorre ao ônibus. Ou seja, a mulher de pouca renda tem maior
probabilidade de sofrer assédio sexual em potencial a vários fatores como superlotação
em horários de pico, falta de segurança.

Por conseguinte, a sociedade culpa a vítima em casos de assédio sexual em


outros casos ela não banaliza tal ato. Ocorrendo uma culpabilização da mulher uma
sociedade machista patriarcal em suma numa bolha ignorante em que vivemos. O que
relata Tabuchi e Mattoso:

“[...] a culpabilização da vítima, nos casos de violência contra a


mulher, não é senão reflexo da sociedade machista em que vivemos,
visto que as mulheres deviam agir de outro modo que não aquele.
Demonstração disso é que não é possível observar da mesma maneira
outros delitos, isto é, a sociedade não julga ou culpa as vítimas em
outros casos. [...]. É comum até mesmo que as mulheres se
desencorajem para denunciar ou enfrentar qualquer tipo de violência”.
(TABUCHI; MATTOSO, 2014, p. 89)
Segundo as autoras, há mulheres que não apoiar e até mesmo desencorajam a
vítima a não denunciar ou confrontar qualquer tipo de violência aliás até a testemunhas
que avista tal ato libidinoso. E a própria sociedade culpa a mulher por ser vítima do
assédio sexual por não está se comportando de maneira correta ou se vestindo de uma
determinada forma.

3. DADOS ATUAIS DE VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NOS


TRANSPORTES PÚBLICOS BRASILEIRO

Mas quando olhamos para o assédio, o espaço público tampouco é seguro. O


número de mulheres assediadas fisicamente no transporte público, quase 4 milhões, é
enorme. Não tem um espaço onde a mulher efetivamente está segura. A mulher está
sofrendo violência dentro de casa, aí ela pega o metrô para ir para o trabalho, onde
também vai ser assediada. Qual é o lugar seguro, então? Ele existe? [ CITATION Bue19 \l
1046 ]

De acordo com a autora, um número preocupante de casos de violência contra a


mulher sendo que a vítima já pode estar sofrendo dentro de seu domicilio. Logo onde
vai ser assediada no meio de locomoção a caminho do trabalho ou estudo.

Dessa forma, nos dias atuais as mulheres se sentem seguras quando optam pelos
transportes por aplicativos, consideram que a denúncia dos abusadores e mais fácil e
mais prático a locomoção. E o que diz Albuquerque:

“De acordo com a pesquisa, uma em cada quatro mulheres (75%) se


sentem seguras quando usam transporte por aplicativo, número que
passa para 68% entre as que mencionam o uso dos táxis, enquanto
26% se sentem seguras no transporte público.  Entre as entrevistadas,
55% consideram que a denúncia dos abusadores é mais fácil no caso
dos transportes por aplicativo, sendo esse meio, para 45%, o que dá
mais chances de que os assediadores sejam punidos.  Para 91% das
consultadas, o transporte por aplicativo melhorou sua capacidade de
locomoção pela cidade e 94% afirmam que se sentem mais seguras
sabendo que, se precisarem, podem chamar um transporte desse tipo
para voltar para casa”.[CITATION Alb19 \l 1046 ]
Logo, os transportes públicos a porcentagem em relação a segurança e baixa
devido sua precariedade e aglomeração do coletivo.

Tal qual, a pesquisa realizada e publicada pela Data Folha (2018), porcentagem
de 22% das mulheres sofreram assédio sexual em transporte público com incidência
similar entre assédio físico e verbal.

4. AS VÍTIMAS DE ASSÉDIO NO TRANSPORTE PÚBLICO BRASILEIRO

É comum ouvir de mulheres acusações relacionadas ao assédio sofrido pelas


mesmas no ambiente de locomoção, seja ele público ou privado. Esse quadro tem
gerado desconforto e falta de segurança para aquelas que necessitam desse meio para
suas atividades diárias como trabalho, deslocamento, e o seu próprio direito de ir e vir.
Uma pesquisa divulgada pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, com apoio da
Uber, revelou que quase todas as mulheres brasileiras (97%) dizem já ter sofrido assédio
no meio de transporte e 71% afirmam conhecer alguma mulher que já foi assediada em
espaço público. Jacira Melo, diretora-executiva do Instituto Patrícia Galvão afirma que: "É um
número muito forte. Esse é o cotidiano da vida das mulheres, a pura expressão do que
acontece".

De acordo com as mulheres já ouvidas sobre os casos, e ainda baseado na


pesquisa citada acima, 46% não se sentem confiantes para usar meios de transportes
sem sofrer assédio sexual. Grande parte possui as mesmas reclamações, olhares
insistentes, cantadas indesejadas, comentários desconfortáveis, passadas de mão pelo
corpo, perseguição e até masturbação. Tornou-se um desafio sair de casa e precisar se
locomover sem correr o risco de ser constrangida com o abuso constante.

Os pesquisadores usaram uma lista e abordaram as entrevistadas com as principais


queixas de assédio de grande parte das mulheres. E quase todas responderam que já passaram
por ao menos uma das situações, como olhares insistentes (41%) no transporte coletivo, (10%)
no transporte por aplicativo e (11%) no táxi, cantadas indesejadas (33%) no coletivo e (9%) nos
aplicativos e táxis. "O homem fica olhando para ela, que fica com medo e troca de lugar, mas
não percebe que foi vitima de assédio. Explicitamos algumas situações para conseguir ver como
as mulheres são assediadas no meio de transporte", disse Maíra Saruê, diretora de pesquisa do
Instituto Locomotiva.
Baseado na realidade deste problema, muitas são as mulheres que evitam usar os
meios de transportes, pois não sentem segurança nos mesmos. Embora algumas optam
por não usar, maior parte são as mulheres que necessitam do meio por falta de
alternativa, e por não possuírem escolha, sujeitam-se dia após dia à mesma situação. O
medo do transporte público faz com que 72% das entrevistadas levem em consideração
a distância e o tempo de locomoção entre a casa e o trabalho antes de aceitar uma oferta
de emprego o permanecer nele. Isso mostra o quanto é um problema grave, capaz de
gerar consequências na vida profissional das mulheres.

O sentimento é de total desrespeito, considerando que a luta pelos direitos iguais


se intensifica cada vez mais. As desigualdades de gênero acarretam inúmeras
consequências ao longo do tempo, o termo de que a “mulher é o sexo frágil” foi
impregnado no meio machista para diminuir a mulher e sujeitá-la a situações que não
são obrigadas, mas que enfrentam todos os dias por falta de atenção e olhar da
sociedade ao real problema.

São bastantes os tipos de assédio cometidos por homens no transporte público,


por acharem que é normal o olhar insistente, é normal acariciar, é normal encostar, é
normal as cantadas indecentes, quando na verdade, não é normal, não é aceitável, não é
justo com as mulheres. Muitas inclusive deixam de usar os transportes por medo do que
pode acontecer, por vergonha de ser o alvo, por precisar mais um dia enfrentar uma
violência ao ter a necessidade de usar um meio de locomoção para ir ao trabalho. Apesar
de tantos deslocamentos, 46% das mulheres não se sentem confiantes para usar meios de
transporte sem sofrer assédio.

“Ainda existe dentro do imaginário coletivo a ideia equivocada de que ser homem é assediar,
ganhar as mulheres, cantá-las. A incidência do assédio ajuda a medir o machismo em uma sociedade e
também a omissão do estado, cujas instituições reproduzem comportamentos machistas", disse a
promotora de Justiça Fabíola Sucasas Negrão Covas. A realidade precisa ser outra, as mulheres,
assim como os homens, possuem seus direitos de viver igualmente em sociedade, sem que haja
necessidade de reformular seus planos, projetos de vida pessoal e profissional para fugir do
assédio que as atormenta constantemente.
5. MACHISTAS NO TRANSPORTE PÚBLICO

O maior dos motivos que levam ao assédio às mulheres cometido nos


transportes, assim como em qualquer outro lugar, está relacionado ao machismo.
Homens ao longo do tempo, mais precisamente há séculos passados, eram considerados
dominadores de tudo quanto possuíam, até mesmo suas mulheres. Por longos anos as
mulheres eram sujeitas a seus maridos, tendo que obedecer, agradar, cuidar do lar, dos
filhos, e só. Sua presença não era aceita em locais onde somente homens poderiam
frequentar, nas decisões de qualquer finalidade. Esse machismo empregado na
sociedade leva à realidade dos homens em muitos aspectos, embora muito já se tenha
cobrado da parte das mulheres, os homens continuam buscando o poder e domínio onde
quer que estejam, isso inclui até mesmo as atitudes tomadas em meio público, o assédio
é fruto do pensamento dominador, de que o mesmo pode fazer o que quiser, onde quiser
e como quiser.

Como bem colocaram Mariana Tabuchi e Nycole Mattoso 3 (TABUCHI,


MATTOSO, 2014):

“A rua sempre foi um espaço ocupado por homens. Assim, por óbvio,
as mulheres são seres estranhos a essa localidade, são sujeitas ao julgo
de olhares, ao julgo dos donos do espaço público, são reduzidas a
objetos à mostra para o bel prazer dos homens, independente de suas
sexualidades, desejos ou vontades. Isto é, o corpo das mulheres
aparece, no espaço público, como não pertencentes às mesmas,
passam a existir para o outro, passam a ser uma coisa para ser olhada.”
(TABUCHI, MATTOSO, 2014).

O transporte coletivo torna-se assim mais um local onde os homens sentem-se à


vontade para exercer a sua natureza carnal e manifestar a sua posição dominante em
relação às mulheres, as quais são observadas como objeto para ser olhado, desejado,
assediado, violentado. É importante ressaltar que a finalidade do assédio não requer
necessariamente o contato físico, é meramente um manifesto de afirmação da posição
social masculina.

“O assédio sexual nem sempre tem por fim exclusivamente a posse


sexual que ele parece perseguir: o que acontece é que ele visa, com a
3
TABUCHI, M.G. MATTOSO, N.S. Segregar, culpabilizar e oprimir – problematizações acerca do
projeto de Lei do “Ônibus Rosa” na cidade de Curitiba. Paraná, ano 2014. Disponível em:
http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Artigo-Mariana-Tabuchi-e-Nycole-
Matoso-classificado-em-4%C2%BA-lugar.pdf. Acesso em 20 de novembro de 2020.
posse, a nada mais que a simples afirmação da dominação em estado
puro.” (BORDIEU, 2014).4

Isso acontece pela necessidade dos homens em alimentar seu ego dominador,
desempenhar o papel de hierarquia de posição, como agressividade, combatividade,
brutalidade etc. Para a mulher, há um silêncio sobre o caminho gasto entre a casa e o
trabalho, que não é livre de contradições.

Também aponta Mariana Tabuchi e Nycole Mattoso5 (TABUCHI, MATTOSO,


2014):

“Espera-se não apenas que a mulher reitere sua feminilidade, mas que
cumpra seus deveres socialmente impostos. Isto é, que as mulheres
façam o percurso de sua casa para o trabalho e do trabalho para casa.
Aquelas que não o fazem, que, por qualquer motivo, utilizem o
transporte público e que circulem fora dos horários comuns do dia, são
as de comportamento duvidoso, promíscuas e vadias. A moral é
duvidosa simplesmente por se sujeitarem a rua, local que oferece
riscos não apenas para o corpo feminino, frágil, mas também para sua
mente, vulnerável.” (TABUCHI, MATTOSO, 2014)

Assim sendo, o assédio parte de comportamentos machistas, de várias maneiras,


opondo-se ao mínimo de segurança que as mulheres precisam para sentirem-se seguras
em desenvolver a sua dignidade, parte do ponto em que a sua qualidade de vida requer
as devidas atenções por partes interessadas. Ambos os sexos são dignos de respeito,
livres para exercer os direitos fundamentais para a sua própria segurança.

Muitos pontos devem ser observados a fim de mudar essa realidade, no entanto,
dá-se início principalmente em uma nova forma de pensar dos homens, a mudança de
comportamentos que lhe foram impregnados desde sua mocidade, o conceito de que
existe diferença entre os sexos, imposta pela sociedade machista em busca do domínio a
qualquer preço. Parte da iniciativa coletiva no entendimento de uma sociedade mais
justa, igualitária, respeitosa, que abra espaço para a mulher exercer o papel de ser
mulher, livre para ir e vir.

4
BORDIEU, Pierre. A dominação masculina. 1ºed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2014, p. 37.

5
TABUCHI, M.G. MATTOSO, N.S. Segregar, culpabilizar e oprimir – problematizações acerca do
projeto de Lei do “Ônibus Rosa” na cidade de Curitiba. Paraná, ano 2014. Disponível em:
http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Artigo-Mariana-Tabuchi-e-Nycole-
Matoso-classificado-em-4%C2%BA-lugar.pdf. Acesso em 20 de Novembro de 2020.
6. O PROJETO DE LEI “ÔNIBUS ROSA”

Em Curitiba-PA, por iniciativa de um dos vereadores da cidade, Rogério


Campos, surgiu o projeto de lei “ônibus rosa”, criado com o intuito de amenizar os
casos de assédio nos transportes públicos acontecidos na cidade. Embora o projeto leve
às mulheres a sentirem-se mais seguras, estando em um transporte livre da presença
masculina, o fato não soluciona a raiz do problema.

Com outros olhos, pode-se perceber não a solução para o problema do assédio,
mas sim uma fuga das mulheres do berço do problema. A verdade é que, isolar não
resolve, tratar as mulheres como refugiadas não soluciona. Ainda que mulheres sejam
afastadas publicamente dos homens, o assédio e perfil dominador e machista persistiria.

É totalmente complicada uma sociedade em que ambos os sexos precisem ser


separados para viverem em segurança, para se locomoverem de suas casas. Portanto,
embora o projeto visasse o cuidado com as mulheres, não acaba com o maior problema.

Ainda segundo Mariana Tabuchi e Nycole Mattoso6 (TABUCHI, MATTOSO,


2014):

“No entanto, em que pese suas justificativas estejam em torno da


violência que as mulheres sofrem cotidianamente, o projeto não busca
ir à raiz do problema – o machismo. Tendo em vistas as verdadeiras
razões pelas quais as mulheres são assediadas, tenta-se, neste tópico,
destrinchar o projeto em questão e desmistificar a solução que se
tentou forjar através de um transporte exclusivo e cor-de-rosa.”
(TABUCHI, MATTOSO, 2014)

Com isso, nota-se que nem todas as formas de solução vão de fato ser positivas ao
movimento de respeito às mulheres, pois não adianta se afastar, o que resolve é o fim do
machismo. As mulheres podem, assim como os homens, usufruir a liberdade de ir e vir,
de ser respeitada, independente da roupa que está vestindo, ou como anda, como olha,
como fala, deve ser respeitada e compreendida com respeito, e não como um convite a
más interpretações.

6
TABUCHI, M.G. MATTOSO, N.S. Segregar, culpabilizar e oprimir – problematizações acerca do
projeto de Lei do “Ônibus Rosa” na cidade de Curitiba. Paraná, ano 2014. Disponível em:
http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Artigo-Mariana-Tabuchi-e-Nycole-
Matoso-classificado-em-4%C2%BA-lugar.pdf. Acesso em 20 de Novembro de 2020.
7. CONCLUSÃO

Conforme debatido no presente artigo, conclui-se que muito ainda se deve fazer
para que exista igualdade e respeito às mulheres sejam nos transportes públicos em
qualquer outro lugar. É notável também que medidas precisam ser tomadas para ajudar
a luta das mulheres nessa batalha. Percebe-se que o grande ápice do referido problema
engloba o persistente machismo existente nas sociedades desde os primórdios.

Para que haja mudanças nessa realidade, é preciso em primeiro lugar que os
homens reformulem suas maneiras de pensar, dando lugar à liberdade das mulheres. O
modo de agir, as atitudes, o comportamento desrespeito, para que possamos avançar um
passo para a igualdade de ir e vir.

O transporte público é para todos, homens e mulheres, para que se locomovam


com segurança e liberdade. A violência de gênero e o assédio no transporte público
brasileiro muito precisa ser discutido. Medidas devem ser tomadas para mudar o quadro
atual e tornar todos os ambientes mais seguros para qualquer sexo.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

97% das brasileiras afirmam que já sofreram assédio no transporte público ou privado. G1 SP e
GloboNews, 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-
paulo/noticia/2019/06/18/97percent-das-m ulheres-dizem-ja-ter-sido-vitima-de-assedio-no-
transporte-publico-e-privado-no-brasil-diz-pesquisa. ghtml. Acesso em: 19 de Novembro de
2020.

TABUCHI, M.G. MATTOSO, N.S. Segregar, culpabilizar e oprimir – problematizações acerca


do projeto de Lei do “Ônibus Rosa” na cidade de Curitiba. Paraná, ano 2014. Disponível em:
http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/Artigo-Mariana-Tabuchi-e-
Nycole-Matoso-classificado-em-4%C2%BA-lugar.pdf. Acesso em 20 de Novembro de 2020.

BORDIEU, Pierre. A dominação masculina. 1ºed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2014, p. 37.
Acesso em 20 de Novembro de 2020.

BRASIL. Presidência da República Casa Civil Subchefia para assuntos Jurídicos.Planalto.gov.


Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso
em: 21 de novembro 2020

ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DE SAÚDE. Relatório mundial sobre violência e saúde.


Publicado em: 2002. Disponível em:
https://www.opas.org.br/wpcontent/uploads/2015/09/relatorio-mundial-violencia-saude.pdf.
Acesso: 23 de novembro 2020

FERREIRA SOBRINHO, J. W. Assédio sexual e justa causa. In Repertório IOB de jurisprudência.


São Paulo: IOB, fev/1996, n. 04, p. 62. Acesso em: 22 de novembro 2020

SANTOS, Maria da C. dos. Corpos em trânsito: um estudo sobre o assédio sexual nos
transportes coletivos de Aracaju. Disponível em:
https://ri.ufs.br/bitstream/riufs/8649/2/MARIA_CONCEICAO_SANTOS.pdf. Acesso em: 24 de
novembro 2020

TABUCHI, Mariana G.; MATTOSO, Nycole de S. Segregar, culpabilizar e oprimir –


problematizações acerca do projeto de Lei do “Ônibus Rosa” na cidade de Curitiba. Disponível
em: http://www.direito.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/12/ArtigoMariana-Tabuchi-
e-Nycole-Matoso-classificado-em-4%C2%BA-lugar.pdf. Acesso em: 21 de novembro 2020

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