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ARTE EDUCATIVA: EXPERIÊNCIAS, HÁBITOS E LEMBRANÇAS DE INFÂNCIA

Thiago Lorenzo

RESUMO
Este artigo busca compreender como as representações das lembranças de infância podem
nos fazer descobrir novos horizontes da própria existência. Além disso, dispondo das
observações feitas em uma aula de arte, ministrada na Escola Municipal Professora Helena
Eustáquia de Souza, localizada em Ibirité, discutimos relações possíveis entre arte e a
formação docente. Isto é, ao pensarmos o porque ser professor de arte e quais experiências
podem alimentar esse desejo de lecionar, acredita-se na potencialidade que a arte tem para
desalojar os novos modos e desmodos de ações e percepções do mundo. Percebemos que
na medida em que se desenvolve a docência nas artes surge provocações que a própria
arte nos trás e esse pensamento é de ampliar reflexões sobre a própria capacidade de
reinventar a docência e· seus processos de formação, os tornando partes de nós mesmos.

PALAVRAS-CHAVE
Formação docente; Artes; Paulo Freire; Memórias de infância.

Memórias da Infância

Cresci em Belo Horizonte, e morávamos de aluguel com meus tios. Desde pequeno
gostava de escrever e queria aprender a ler o quanto antes. Tinha uns colegas
vizinhos para brincar e eram em sua maioria também de família pobre. Existiam
muitas brincadeiras legais: nós brincávamos de “bolinhas de gude,” “rouba-
bandeira”, “jogo de futebol de botão”, “varetas”, “esconde-esconde”, “tapão” (levantar
figurinhas com tapas), “queda-de-braço”, lançar peão com barbante. Tinha um ioiô
muito caro de um marca conceituada e na época não tínhamos como comprar, então
às vezes conseguíamos trocar com figurinhas de álbuns mais antigos. Também
havia um morro bem íngrime de asfalto e outro morro de terra, então testamos com
o papelão descer o morro de terra ladeira abaixo. Depois de muita diversão fizemos
aquele carrinho de rolimã com ajuda dos adultos e descemos no morro de asfalto.

Como eram poucos recursos financeiros em minha família, não possuíamos dinheiro
para comprar os brinquedos e costumava desenhar os personagens que gostava
mais para depois recortar o desenho para brincar com os colegas. Todos gostavam
da ideia de brincar com personagens de papel e alguns diziam ser mais interessante
do que os de plástico que eram caríssimos para nós. O desejo de ter esses bonecos
de plástico vinha de comerciais da televisão que muito nos influenciava. Meu colega
morava num local que tinha um espaço bem grande com muitas árvores e pés de
manga e brincávamos lá com os outros colegas também.

Na escola queríamos desenhar nos muros, mas era proibido então desenhávamos
no chão da escola com pedaços de tijolos e também brincávamos também de
“estátua”. Futebol era uma febre entre a turma, eu não me identificava com esse
esporte na educação física (e só tinha essa opção onde estudava). No geral foi
muito bom as brincadeiras de infância que eram na escola e com colegas vizinhos.

Atividades Educacionais Artísticas

Pode-se questionar: Por que ser professor de Artes? Porque a percepção visual
entre os meios culturais se constrói com as artes que dão acesso ao conhecimento
de linguagens culturais, de povos diferentes, de união entre diversas culturas, de
fazeres artesanais indígenas, africanos, etc. Ademais, o ser professor vem do
reconhecimento criativo, onde exige o assumir como ser capaz de socializar com o
outro com relações e condições éticas como Paulo Freire diz:

Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é


propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns
com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a
experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e
histórico, como ser pensante, comunicante transformador, criador,
realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar.
Assumir-se como sujeito porque capaz de reconhecer-se como
objeto. (FREIRE, 1996, p. 18).

E isso em outros cursos, como de ciências exatas por exemplo, não tem. Porque
não há tempo para observar o outro se você tem apenas cálculos com fórmulas
quase infinitas para descobrir novos métodos científicos e responder questões
criadas pela própria ciência. Por isso, se dá a importância do curso de artes visuais
que busca outros tipos de conhecimentos mais próximos do entendimento
sociológico, histórico, linguístico, antropológico de indivíduos que estão à par da
sociedade, de pessoas que são invisíveis para muitos e que no curso de artes
visuais se tornam visíveis como diz Deleuze, é a “vida como obra de arte”. Ainda ser
professor de artes exige responsabilidade e atenção para auxiliar os alunos a
construírem autonomia como diz Paulo Freire, ensinar exige a apreensão da
realidade:
Se trabalho com crianças, devo estar atento à difícil passagem ou
caminhada da heteronomia para a autonomia, atento à
responsabilidade de minha presença que tanto pode ser auxiliadora
como pode virar perturbadora da busca inquieta dos educandos; se
trabalho com jovens ou adultos, não menos atento devo estar com
relação a que o meu trabalho possa significar como estímulo ou não
à ruptura necessária com algo defeituosamente assentado e à
espera de superação. (FREIRE, 1996, p. 28).

O interesse pelo fazer arte e pelas atividades artísticas educativas de um modo geral
traz para quem quer fazer parte da área docente a seguinte questão: Por que buscar
a formação em Artes visuais? Podemos perceber que a formação em artes visuais
ela vai além de nossas percepções:

Mas, que devemos pensar da formação do arte-educador? Quais as


relações da arte com a educação que poderão melhor delimitar o
lugar e a natureza do processo de formação do arte-educador? O
que dá mais a pensar sobre esta questão e que ainda não foi
pensado? Que é necessário desaprender para encontrar o caminho
mais sábio que nos leve à elaboração mais rica do processo de
formação do arte-educador? (VARELA, 1986, p. 12).

Além disso, a visibilidade que o curso de artes visuais proporciona é não só física e
biológica, mas também, sociológica e histórica. Porque traz um aguçamento dos
sentidos visuais, auditivos, cinestésicos e até olfativos. E as outras percepções da
sociedade de um modo geral, como seu comportamento, suas ações e reações,
seus pensamentos externizados (como por exemplo numa mostra artística onde as
pessoas começam a falar sobre o que pensam daquela obra de arte). E isso traz
uma riqueza imensa para o artista e um ganho para a sociedade que tanto se
preocupa com o “encurtamento do tempo”. Que na arte é colocado outras condições
do tempo, do relaxamento mental, físico e isto somente os cursos de artes – como a
dança, o teatro, a música, o cinema, etc – que proporcionam com suas significâncias
e ressignificâncias que são além da imaginação criativa.

Portanto, essa essência do aprendizado nas artes se dá tanto do professor quanto


do aluno através da reinvenção, como diz Freire:

No fundo, o essencial nas relações entre educador e educando, entre


autoridade e liberdades, entre pais, mães, filhos e filhas é a
reinvenção do ser humano no aprendizado de sua autonomia.
(FREIRE, 1996, p. 37).
Registro Observados na Escola

O processo de observação foi feito na Escola Municipal Professora Helena


Eustáquia de Souza, localizada em Ibirité com uma turma de alunos do 6º ano
fundamental. No início da aula os alunos estavam bem agitados e posteriormente
foram acalmando mais. A experiência nesse encontro com os alunos e com o
Professor de Artes foi rico pelas trocas de experiências, além de proporcionar novos
métodos de trabalho nas artes. Consegui compreender os modos de aprendizagem
que foram o seguinte: no início o professor deu uma explicação sobre o desenho
introduzindo os artistas clássicos e depois o professor sugeriu que eles iniciassem
um desenho somente de linhas inicialmente com formas geométricas para
posteriormente os alunos pintarem esses desenhos com apenas três cores que
quisessem – essas três cores foram anotadas à parte – onde no desenho de criação
essas cores escolhidas seriam trocadas com outros alunos e isso permitiu investigar
como seriam aqueles movimentos da linha do desenho de cada um.

Foi interessante perceber que eles ficaram surpresos com a ideia de trocar as cores,
porque já tinham premeditado que iriam pintar seus desenhos com aquelas cores
escolhidas. O professor contou que no início de sua entrada naquela escola os
alunos estavam resistentes com relação às aulas de arte porque antes eles tinham
recebido um professor que cobrava coisas tradicionais como por exemplo desenhar
somente numa folha A4 branca com lápis sem uso de borracha e sem passar da
margem da folha e preto e branco e eles só poderiam passar para outro “nível” se
concluísse um desenho de observação “perfeito” e realístico. E ele disse que estava
com um amigo que também era professor e tinha passado por algo parecido e que
eles estavam numa escola (quando eram estagiários) e os alunos estavam querendo
pintar as paredes da sala e eles não tinham entendido direito o porquê daqueles
alunos estarem fazendo aquilo e ele disse: Gente, vocês sabem que às vezes eu
estava meio ausente e isso pareceu muito tempo para vocês, mas tenham certeza
que podem contar comigo como amigo porque vocês me conhecem e sabem que
mesmo alguns de vocês terem me conhecido a pouco tempo vocês conseguem
perceber que parte do processo de luta com vocês. E até mesmo à diretoria saberá
disso para que consigamos juntos permanecermos com as aulas de artes de um
jeito mais democrático e construtivista. Ele continuou dizendo: Eu sei que estamos
conectados e vocês conhecem essa nossa conexão e como as pessoas são
capazes de sentirem a sensação do desenvolvimento artístico de um modo tão
rápido e tão forte que às vezes nem percebem como é que pode ser forte essa
conexão entre o nosso companheirismo. Por isso identifiquei que as atividades
daqueles alunos estavam bem desenvolvidas e eles também estavam bem à
vontade. Isso significou que o desenvolvimento e a reflexão de atividades de arte
desses alunos criaram movimentos de mediação cultural e social através das
próprias trocas entre eles. Todos esses fatores são importantes porque se
desdobram nessas conexões imaginativas e se inscrevem na possibilidade da
escola em gerar e gerir seus processos formativos. Portanto, percebo que a
sistematização do conhecimento de professor/aluno e aluno/professor são análises
que se revelam quase que diariamente com as experiências na classe esses modos
pedagógicos de aprendizagem refletem a concretização de um determinado projeto
social de educar os alunos de maneira a levá-los à reflexão diária.

Conclusão

Percebe-se, portanto, que de todos os processos citados existem permanências de


experiências vividas pelos professores e alunos e isto significa que o mais
gratificante é ver novos alunos compreendendo esses segmentos não só da arte,
mas também de outras áreas desde que sabendo assimilar diversas formas do
pensar arte. E que a imaginação em parceria com o entendimento de culturas
diversas faz com que essa instigação desses processos de aprendizado e
percepções tanto do aluno como do professor sejam constantes:

Não é difícil compreender, assim, como uma de minhas tarefas


centrais como educador progressista seja apoiar o educando para
que ele mesmo vença suas dificuldades na compreensão ou na
inteligência do objeto e para que sua curiosidade, compensada e
gratificada pelo êxito da compreensão alcançada, seja mantida e,
assim, estimulada a continuar a busca permanente que o processo
de conhecer implica. (FREIRE, 1996, p. 45).
Referências

DELEUZE, G. A vida como obra de arte. In: Deleuze, G. (2008) Conversações. São Paulo:
34. p. 118-126.

FREIRE, Paulo. PEDAGOGIA DA AUTONOMIA. Saberes Necessários à Prática Educativa.


São Paulo: Paz e Terra, 1986.

VARELA, N. de A. A formação do Arte-Educador no Brasil. In: BARBOSA, A. M. (Org.).


História da Arte-Educação. São Paulo: Max Limondad, 1986.

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