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A C onsc
onsciiênci
ênciaa
H i st
stóri
órica
ca Af
A f r icana
Babacar Mbaye
Doudou Diop
Dieng
(Org.)
 

Babacar Mbaye Diop é doutorado em


Estética e Filosofia da Arte pela Universi-
dade de Rouen, França. Os seus principais
interesses de investigação situam-se nos
campos das artes da África Negra, da di-
versidade cultural, dos conceitos de diás-
pora, identidade, globalização e conexões.
Professor de filosofia, ele é o fundador e
co-editor de   Fik ir a-A frica
frica R evi ew .  Babacar
Mbaye Diop ensina no Departamento de
Filosofia da Universidade Cheikh Anta
Diop. Em Fevereiro de 2013 foi nomeado
Director da Bienal de Dakar.

Doudou Dieng é doutorado em Filosofia


pela Universidade de Rouen, França. Com
uma ampla tese no campo da filosofia do
direito, Doudou Dieng tem desenvolvido
as suas activi
actividades
dades em torno deste cam po
do conhecimento e área de interesse.
 
edições pedago

Colecção Reler África


Notaa de A presentação
Not
Uma das lacunas do mercado editorial dos países de língua oficial
portuguesa é a ausência, em língua portuguesa, de obras de referência
de autores africanos e africanistas, que fizeram cátedra no domínio
dos chamados "estudos africanos" nas academias dos países anglófo-
nos e francófonos.
A Colecção 
Colecção   Reler África 
África  prete nde colm atar essa lacuna. Trata -se de de
uma colecção especializada em temáticas africanas no domínio das
Ciências Sociais e Humanas. Ao inaugurar esta colecção, as Edições
Mulemba da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho
Neto (Luanda - Angola] e as Edições Pedago (Mangualde - Portugal)
pretendem criar um espaço de debate, alteridade e reflexão crítica
sobre o continente africano.
A colecção p ublicará obras, textos e artigos com pilados de reco nh eci-
dos auto res africano
afri cano s e africanistas, que contribua m para a com pree n-
são e a reinterpretação do continente africano.
Além de apresentar uma visão endógena (de dentro) do continente,
a colecção está abe rta à com unidad e científica
científ ica internacio
i nternacio nal qu e tem o
continente africano como objecto da sua pesquisa.
Pub licar e divulg
di vulgar
ar con hec im ento s e sabe res so bre Áfr
Áfric
icaa e proven ien-
tes de África é, assim, um desafio que a colecção abraça, contribuindo
para a construção de uma nova epistemologia e uma nova hermenêu-
tica dos estudos africanos no espaço lusófono, livre de estereótipos e
de um olhar folclórico e exótico. Ao abraçar esse desafio, a colecção
pretend e s er uma g aleria d e c onhec imentos e s aberes d e Áfric a e
sobre África, que interpele os leitores e investigadores especializados
a reler África para compreendê-la e reinterpretá-la.
Luanda, 19 de Agosto de 2012.

Victor Kajibanga
(Coordenador da Colecção 
Colecção   Reler África)

Copyright © 2008, L'Harmattan


Título Original: La conscience historique africaine
© desta edição
Edições Mulemba da Faculdad e de Ciências
Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto
Título: A Consciência Histórica Africana
Organização: Ba bac ar M baye Di
Diop
op e Doudou Dieng
Dieng

Colecção: Reler África


Coordenador da Colecção: Victor Kajibanga
Tradução: Narrativa Traçada
Revisão do Texto: Susana Ramos
Design
Design e Paginação: Márcia Pires
Impressão e Acabamento: Cafilesa, Soluções Gráficas
ISBN: 978-989-8655-48-6
De p ó s i t o L e g a l : 3 8 2 3 6 6 /1 4

Outubro de 2014

A presente publicação é uma coedição das Edições Mulemba da Faculdade de Ciên-


cias Sociais da Universidade Agostinho Neto, Luanda, Angola e das Edições Pedago,
Portugal.

Nenhuma parte desta publicação pode ser transmitida ou reproduzida por qualquer
meio ou forma sem a autorização prévia dos editores. Todos os direitos desta edição
reservados por

EDIÇÕES MULEMBA
Faculdade de Ciências Sociais da
Universidade Agostinho Neto
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Doudou Dieng
(Org.)
jZiü- edições pedago

E m h o m e n a g e m a o   5 0 .s  aniversário da publicação da obra de Cheikh

Anta
sidadeDiop: 
Diop:   Na
Nations
de Rouen.tions nègres et culture  - 5  e  6   de Abril de   2 0 0 5   na Univer-
 

Os nossos mais sinceros agradecimentos:


- à U nive rsidad e de Rou en, ao CR CROUS
OUS da Alta N orm and ia, à UF R de
Letras e Ciência
Ciênciass Hum anas e à Asso ciação do s Estudan tes Senegale-
ses em Rouen pelo seu apoio na organização do colóquio;
- a M am adou DIDIAL
ALLO LO,, Pro fess or da EN SEPT da univ ersidad e C hei
heikh
kh
Anta Diop
Diop de Da
Daka
karr , pela rrevisão
evisão e corre cção m inuciosas do m anu scrito ;
- a todos aqu eles que, de alg algum
um m odo, con tribuíram para a conclusão
deste trabalho. Manifestamos-lhes aqui a nossa profunda gratidão.

índice
Discurso de abe
abertura
rtura do colóquio 15
pelo Presidente da  A
 A.. S. E. R.

Prefácio: Falsifi
Falsificação
cação da história 19
I.
A África e o Ocidente  23.83

A ruptura da consciência histórica africana: 25.4 5


o principal
principal obstáculo para o renascim ento afri
africano
cano
Bwemba Bong
Introdução 2 5 

1. A con sciê nci a histó rica da Africa Neg ra en qu an to 25
base da resistência do povo negro
2. As fragilidades e os defeitos da soc ied ad e africa na 3 1 
3 . As l i ç õ e s q u e a Áf r i c a N e g r a d e v e e x t r a i r d a h i s t ó r i a 4 0 

A Guer
Guerra
ra do Biafra: desinformação e manipulação dos média? 47 .58
Análise de quatro diários importantes: 
importantes:  Le M onde, Le Figaro.
La Croix e
Croix  e L'Humanité
 L'Humanité
Momar Mbaye
Introdução 4 7 

1. As cau sas 4 8 
1 . 1 . As c a u s a s p a s s a d a s e i me d i a t a s 4 8 
1 . 2 . As c a u s a s e s t r a t é g i c a s e e c o n ó m i c a s 4 9 
1.3. As cau sas religiosas 5 0 
2. H orro res e respo nsab ilidade s 51 
2.1. O ho rro r absoluto 5 1 
2.2. A respo nsab ilidade das gran des po tênc ias e das opiniões públicas 5 2 
2.3. As resp onsa bilidad es dos líderes african os e de Lagos 5 3 
3. Solu ções e pap el da Fr an ça 53 
3 . 1 . As s o l u ç õ e s 5 4 
3.1.1. Soc orrer o corajoso povo biafrense 5 4 
3.1.2. Rep ensar a federaçã o 55
3.2 . Par is e o conflito 5 5 
3.2.1 . Um a política louvável 5 5 
3 . 2 . 2 . Um a a c u s a ç ã o i n d e v i d a 5 6 
Conclusão 5 7 

Fran cês/Lín gu
guas
as Africanas
Africanas:: colonização
colonização linguí
linguíst
stic
icaa 59 .83
ontem e  hoj e,  aqui e ali
ali
Bernard Zongo
Introdução 5 9 

1. Linguística african ista e ideologia glotofágica 6 0 
1.1. Períod o colonial: a che gad a às colónias 61
ou a linguística "pragmática"
1.2. Períod o m od ern o: triunfo do form alism o e m issão civilizadora a par tir 6 4 
de 1945

1.3. A sociolinguística e as sua s torp eza s: os ano s 60 6 7 


1.4. A pa rtir dos ano s 70 : instituições francóf onas ao serv iço 6 8 
da expansão do francês
2. Política linguística fra nc esa e línguas m ino ritár ias: 7 3 
ideologia do paradoxo
2.1. As línguas africa nas em Fran ça e a política linguística fran cesa 7 4 
2.1.1. As línguas de im igraçã o em Fra nç a 7 4 
2.1.2 . A política linguística fran cesa 7 5 
2.1.3 . A legitimidade da estratif icação etnolinguística e no rm as 7 6 
2.2. A con cep ção ideológica do bilinguismo: o relató rio Bénisti 7 8 
Conclusão 8 2 

Ref erên cias Bibliográficas 8 3 


íí.
As origens egípcias da civilização africana   85 .16 4

Cheikh
Cheikh Anta Diop
Diop:: o homem e a obra   87.110
Cheikh M'Backé Diop
Introdução 8 7 

1 . O c o n t e x t o h i s t ó r i c o e i d e o l ó g i c o n o i n í ci
ci o d o s é c u l o X X 8 7 
2. A resistên cia africana e a res tau raç ão da cons ciênc ia histórica 9 2 

3. A ob ra histó rica e egiptoló gica de Cheikh An ta Diop 9 4 


3.1. A reco nsti tuiçã o científica
científica do pas sad o da África 9 4 
3.2. As princip ais tem átic as desenv olvidas por Cheikh Cheik h Anta Diop 9 7 
3 .3 . A fe cu n d id a d e d a o b ra : co n trib u to m e to d o ló g ico e a ce rv o d o co ló q u iioo 1 0 3 
do Cairo
4. A co nti nu açã o da ob ra histó rica e egiptológ ica 1 0 6 
4 . 1 . O p e r í o d o d a i n v e sstt i g aç
a ç ã o s o l iitt á r iiaa : 1 9 4 6 - 1 9 7 0 1 0 6 
4.2. Théop hile Obenga enc on tra Chei Cheikh kh Anta Dio Diopp 1 0 6 
4.3. A Esc ola africana de egiptologia 1 0 7 
5. O Re na sci m ent o da África e a edificaç ão de um a civilização 1 0 9 
planetária

Estado
Esta do das investigações
investigações acerca das sem elhanças entre a arte m . 124
Egípcia Antiga
Antiga e a da África Negra
N egra
Babacar Mbaye Diop
Introdução m 
1. O estilo africa no e a ess ên cia da art e egípcia 1 1 1 
2. Alguns exem plos de sem elh anç a ent re objectos africanos e objectos 1 1 4 
egípcios
3. Será esta sem elh an ça identitária ou um a simp les analogia? 1 2 0 

Refe rência s Bibliográficas 1 2 3 


Estado das investigações acerca da Antiguidade Africana   125 .14 1
Babacar  Sall
Introdução 1 2 5 

1. Generalidades e pro blem ática 1 2 6 
2. A doc um enta ção 1 2 7 
2 .1 . A s fo n te s te x tu a is 1 2 8 
2 .2 . A s fo n te s a rq u e o ló g ica s 1 2 9 
3. Panoram a 1 3 0 

Conclusão 1 4 0 

Egiptoo Antigo
Egipt Antigo e Áfri
África
ca Negra: alguns factores
factore s novos que   143.157
esclarecem as suas relações
Aboubacry  M oussa L am
Introdução 1 4 3 

1. O deb ate 1 4 3 
2. A am ostr a 1 4 6 
3. Novos facto res 149
3 .1 . A s p a rte s d o co rp o 149

3 .3 . A a3g.2ricu
. A ltu
á g uraa 11 55 01   
3 .4 . P ig m e u e a n ã o 1 5 2 
3.5.. O hi popótamo
3.5 popótamo e o cavalo   1 5 4 
4. Esclarec imen to das tradições 1 5 5 
Conclusão 1 5 6 

"Afrocentricidade": polémica em torno de um conceito   159.164


D ou
ouddou D i eng
1 . O p e n s a m e n t o a f r i c a n o n a h i s t ó r ia
ia d o p e n s a m e n t o 1 5 9 

2 . P o s i c i o n a m e n t o d o c o n c e i t o : d ú v i d a e i n te
t e l ig
i g i b iill i ddaa d e m e t o d o l ó g i c a s 1 6 3 

III.
o contribu to da com unid ade n egra e do Egi pto 
Egipto 165.214
para a civilização

A  história das ciências e das técnicas


técn icas na Áfri
África
ca negra 167.1
16 7.183
83
Jean Paul Mbelek
Introdução 1 6 7 

1 . A Á f r iicc a , b e r ç o d a h u m a n i d a d e 1 7 0 
2. A África, be rç o da esc rita 1 7 2 
3. A África inventa o zer o 1 7 3 
4. A m ultipli cação e a divisão egípcias 1 7 5 
5. A sob reviv ênci a das tra diç ões erud ita e criativa afric ana s 1 7 6 
6. Ap êndi ce: A m ultipli cação e a divisão egípcias 1 8 1 
6 .1 . A m u ltip lica çã o e g íp ci ciaa 1 8 1 
6.2. A divisão egípcia 1 8 2 
6.3. A dem onstraçã o 1 8 2 

Contributo das cosmogonias dogons para a problemática da   185.193

"origem"" da ci
"origem civili
vilização:
zação: a necessidade do trágico no se
seio
io da
divindade
Cheikh MoctarBâ
Introdução 1 8 5 

1 . O q u e ju stifica a re v o lta d e O g o ? 1 8 5 
2. A ne ces sid ad e do "ro ub o do fogo" 1 8 7 
3 . A C i v i l iizz a ç ã o c o m o c o n s e q ü ê n c i a d o " t r á g i c o " 1 9 0 
Ref erên cias Bibliográficas 1 9 3 

O  Egipt
Egiptoo na obra de Platão 19 5.2 14
T héophi
héophile
le O be
benga
nga
1. Plat ão est ud ou no Egipto 1 9 7 
2. O Egipto na ob ra de Platão 2 0 0 
3. Platão egipcian iza as pala vras ao invés de as gre ciza r 2 0 1 
4. O que re pr es en ta o Egipto pa ra Platã o? 2 0 2 
4.1. O Egipto é o país da ma is Alta Antigüidade 2 0 3 
4.2. O Egipto é o berç o da escri ta e das ciências 204
4.3. O Egipto enq uanto mo delo de orga nizaç ão artístic a e intelectual 205
4 .4 . O E g ip ttoo e n q u a n to d e te n to r d a m e lh o r p e d a g o g ia p a r a e n sin a r a s 2 0 8 
matemáticas às crianças

5 . P l u t a r c o , c o n c i l i a d o r d a t e o l o g i a d o s E g í p c i o s c o m a f i lo
l o s o f iiaa d e 2 1 0 
Platão

Resumos   21 5.22 0

D isc
scur
urso
so de ab
abertu
ertura
ra do col
colóqui
óquioo
pelo Presidente da  A. S. E. R.
Senhor Presidente da Universidade,
Senhora le Doyen da Faculdade de Letras e Ciências Humanas,
Caros intervenientes,
Senhoras e Senhores, Caros convidados,

Permitam-me antes de mais falar-vos brevemente da nossa associa-


ção. Criada em 1 9 8 7 (há já 1 8 ano s ), a ASER
ASER^^ re p res en ta um a das
primeiras associações de estudantes estrangeiros em Rouen. Esta
rege-se pela lei de Julho de 1901 e pelo decreto de 16 de Agosto de
19 01 . Tem por objectivo
objecti vo desen volver a solidarieda de no seio dos estu-
dantes Senegaleses por um lado, e entre os estudantes Senegaleses e
todas as outras nacionalidades existentes no campus, por outro lado,
e isto através de encontros desportivos, de debates, de conferências,
de ex cu rsõ es e de m an ifes taçõ es culturais. A ASER procura, de igual
igua l
modo, prom ove r a cultura africana.
Há três anos, aqui mesmo, nesta Casa da Universidade, prestámos
homenagem a Senghor. Retomando o escritor Senegalês Boubacar
Boris Diop:

O Senegal não ganha nada em dar a impressão de colocar Senghor contra


Cheikh An
Anta
ta ou vice-vers
vice-versa.
a. Considero que Senghor, ainda que se lhe possa
apontar o que quer que sej
seja,
a, fez alguma coisa. E tudo aquilo
aquilo que se possa fazer
para lhe
lhe prestar homenagem
homen agem é merecido. Porém,
P orém, simultaneamente,
simultaneam ente, seria con-
denável decidir que alguém como Cheikh An Anta
ta Diop, isto é, a outra parte de
nós próprios, não merece que alguma coisa lhe seja consagrada.

Assim, enco ntra m o-n os h oje reunidos para cele bra r o SO.^ aniversá rio
Assim,
do surgimento da grande obra de Cheikh Anta Diop:  Diop:   Nations nègres et
Culture.   Inicialmente, este trabalho, publicado em 1954 e que demonstra
Culture.
a origem africana da civilização do Egipto antigo, estava destinado a
ser defendido na Sorbo nn e, com vista à ob tenç ão do do utora m ento em

1. Associação dos Estudantes Senegaleses em Rouen

Di s c urs o d e ab ertura d o c olóqui o pelo P res i d ente d a A . S . E. R.

letras, mas nenhum júri pôde ser constituído. Com 50 anos de distân-
cia, torna-se evidente que os temas desenvolvidos neste livro são actu-
almente discutidos enquanto verdades científicas. Para Cheikh Anta
Diop,

O regresso ao Egipto antigo em todos os domínios


dom ínios representa a condição
necessária para reconciliar
reconciliar as civilizações
civilizações africanas com a história.
história. [...],
[...], um
olharem direcção ao Egipto desempenhará, na cultura africana (...)
(...) a m esma
função que as antigüidades greco-latinas
greco-latinas na cultura ocidental.
Seria, deste mod o, um conta cto dinâmico, mod erno, ac res cen ta o au-
tor, com a antigüidade egípcia que permitiria aos Africanos descobrir
progressivamente mais o seu parentesco íntimo com a ravina mãe do
Nilo.
O seu ensinamento acerca dos fundamentos de uma civilização afri-
cana moderna, acerca dos princípios da constituição de uma federa-
ção de Estados democráticos, bem como da identidade cultural entre
o Egipto e a África Negra, sobre a unidade lingüística nesta última e a
sua teoria em física nuclear mereceriam, neste sentido, um colóquio
acerca do percurso excepcional do Homem.
Gostaria de agradecer e felicitar o comitê de organização e o seu
representante, Babacar Mbaye DIOP. Estes podem orgulhar-se do seu
trabalho, tend
t end o em co nta que os seus esforç os não foram vãos. Ap enas
onze meses lhes eram concedidos para reagrupar Théophile Obenga,
Moussa Lam, Babacar Sall, Bwemba Bong, Jean-Paul Mbelek, Cheikh
Mbacké Diop. Aqueles concretizaram, em tempo recorde, uma verda-
deira proeza.

poGostari
Gostaria,a, igualm
r um lado igualm ente, de m anifes
à Un iversidade de Routar
en ae maoinha
CROUS
CROUSm aisda
profund
Alta Naorm
gratidão,
grati dão,
and ia,
que financiaram inteiramente este colóquio, por outro lado, à Facul-
dade de Letras e das Ciências
Ci ências Humanas, que não poupou esfo rços com
vista ao suc esso desta m anifestação , e, por último,
últ imo, a todos aq ue les que
contribuíram de algum modo para transformar este projecto num êxi-
to tão significativo.
Ent ret ant o, enqu ant o aguardam os os deb a t es que,
que , cert am ent e, serão
de elevado nível científico, permitam-me que diga simplesmente,
"Aksilèn d jam"^. Dieureungèn dieuP.

Rouen, 5 de Abril de 2 0 0 5
Sambaa K an
Samb andji
dji ,   P r e s i d e n t e d a A S E R

2. Sejam benvindo s (Em wolof, língua nacional do Senegal],


3. Muito obrigada pela Vossa atenção.   Idem.
16 Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

"O espírito científico proíbe-nos de ter uma opinião acerca das


questões que não compreendemos, acerca de questões que não
conseguim os form ular claram ent e."

Bachelard
 

Prefácio:
Falsificação da história
A era do continente "sem história" terminou desde a pubUcação, em
1 9 5 4 , d e 
e   Nations nègres et culture. 
culture.  Ao recu sar a leitura
leit ura hege liana da
história humana, Cheikh Anta Diop, o historiador africano mais con-
siderado^ do século XX, dedicou-se ao restabelecimento, nesta obra,
d a   consciência histórica africana.  Tra ta-se, po r um lado, de "ad qu irir
histórica africana. 
uma consciência cada vez mais aguda da profundidade histórica do
mu ndo tal com o o vi vive
veu"
u",, e, po r outro lado e correla tivam en te, de "ad-
quirir uma consciência que participe na história, que faça história"^.
A acreditar nos Ocidentais, o Egipto faz parte do Oriente. Ora, segun-
do Cheikh Anta Diop, foi através de uma falsificação da história que
aqueles conseguiram classificar o Egipto no Oriente, e afirmar que o
prim eiro rep res en ta um a ciden te geográfico em África. Áfri ca. O Egipto
Egipto não é
o Oriente, é a África.
Todas as testemunhas oculares do Egipto antigo afirmam convicta-
mente que os Egípcios eram Negros. Heródoto, que visitou o Egipto no
século V a.C., indica-nos que os antigos Egípcios "têm a pele negra e o
cabelo crespo"^ Diodoro da Sicília escreve: escreve:   " O s  Etíopes afirmam que
os Egípcios são um a das suas colôn ias qu e foi foi levada para o Egipto
Egi pto po r
Osíris"''. Estrabão, na sua 
sua   Géographie, 
Géographie,  indica-nos tam bé m que os Egíp- Egí p-
cios,
ci os, os Etíopes e os Cólquidas
Cólquidas pe rten cem à m esm a raça^
Todos este s teste m uh os nã o pod eriam s er falsf alsos,
os, tendo em con ta que
se trata de testemunhos oculares. Porém, como explicar o facto de os
antigos Egípcios terem sido Negros? Eis a justificação: após a desseca-
ção do Saara, cerca de 7000 a.C., os últimos Negros que ali habitavam
teriam abandonado aquele local para emigrar em direcção ao Alto Nilo,
exceptuando, talvez, alguns ilhéus perdidos no meio do continente.

1. Não se trata aqui de nos pros trarm os peran te a obra de Cl


Clie
ieiild
ldii Anta Diop,
Diop, tal como aco ntece -
ria com um livro de orações. Temos plena consciência de que nem tudo é uniforme nos seus
trabalhos: existem certamente aspectos que não conseguiu desenvolver até ao fim. Pretendemos
apenas homenagear o homem da ciência, celebrar a sua produção intelectual permanecendo fiel
ao seu seu pensam ento.
2. Obenga, Théophile, 1996, p. 359.
3. Heródoto, Livro II, p. 104.
4 .   Histoire universelle,   livro 3, p. 341, trad. Abbé Terrasson, Paris, 1758.
5. Livro I, capítulo 3, p. 10.

P refác i o: F als i fi c aç ão d a h i s tóri a 19

quer por terem emigrado em direcção ao sul, quer por se terem dirigi-
do para o norte. Esta civilização dita egípcia actualmente desenvolver-
-se-á durante muito tempo neste berço primitivo. Com o declínio do
Egipto, os Negros tiveram novamente oportunidade de se expandir
progressivamente no interior do continente, de formar núcleos que
se t ornariam post eriorm ent e em cent ros de civ ilização cont inent al
[cf. Cheikh Anta Diop, 1954]. Todas as lendas e tradições, recolhidas
em África, fazem provir os Negros do Leste, do lado do vale do Nilo. É,
de ste mo do, que na África ociden tal, as lenda s dogon, iorubá
i orubá , as fazem
provir do Leste; as dos Fang trazem-nas do Nordeste; no século XVlll,
os Fang ainda não tinham alcançado a costa Atlântica; as dos Bakouba
afirmam sere m prov enien tes do Norte: é o caso dos Tútsis do Ruanda-
-Burundi (cf. 
(cf.  Ibid.'). 
Ibid.').  Os estudos etnográficos permitem-nos ficar mais
esclarecidos. Com efeito, a toponímia, a análise dos nomes totémicos
de clãs usados pelos Africanos, associada a uma análise lingüística
apropriada, permitiu a Cheikh Anta Diop demonstrar o parentesco
en tre as línguas
l ínguas do Egipto antigo e as línguas
l ínguas n egr o-a frican as. O au-
tor desenvolve, também, outros argumentos históricos, sociológicos,
geográficos, etc., que tendem a demonstrar as origens egípcias da civi-
lização africana.
Não nos parece exagerado insistir sobre o contributo do Egipto à
Grécia. O próp rio H eródoto, depois de nos info rm ar ace rca do facto
de os antigos Egípcios serem Negros, demonstra através de uma "rara
honest idade (sab endo nós que o m esm o era Grego], que a Grécia
adoptou do Egipto todos os elementos da civilização, até mesmo o cul-
to dos Deuses, e que é o Egipto que representa o berço da civilização"
(Cheikh An ta Diop). O Egipto pe rm an ec erá , de facto,
f acto, du ran te toda a
antigüidade , o lugar par a o qual os povos me dite rrâ nic os se de sloca rão
em peregrinação para se saciar nas fontes de conhecimentos cientí-
ficos, religiosos, morais, sociais, etc. Os grandes eruditos Gregos, tais
com o Platão,
Platão, Aristóteles,
Aristóteles, Pitágoras,
Pitágoras, Tales,
Tales, Sólon,
Sólon, Arquim edes, Er at ós ten es ,
foram instruir-se ao próprio Egipto (ver Théophile Obenga, pp. 212-
-2 3 0 da pre sen te obra). O regre sso ao Egipto
Egipto antigo permitiria assim à
África descobrir cada vez mais o parentesco íntimo de todos os seus
habitantes com o vale do Nilo. É através desta constatação dinâmica
que todos os Africanos alcançarão a convicção profunda de que estes
templos, estas pirâmides, estas esculturas, estas m atem áticas, esta m e-
dicina, toda esta ciência, toda esta arte do Egipto antigo, são, de facto,
obra dos seus antepassados, e que, por isso, têm o direito e o dever de
se identificar totalmente com estas, do mesmo modo que os Europeus
se identificaram com a cultura greco-latina.

7  B a b a c a r Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

Seremos com certeza acusados de não tratar de um assunto actual,


para o qual não é necessário vasculhar demasiado o passado, de não
n os con te n ta r mos com a a n á l i se dos pr ob l e ma s a ctu a i s da Áf r i ca .
Certamente, mas aqueles que levantam estas acusações ignoram com-
pletam ente, tal com o sali
salienta
enta de mod o extrem am ente justo o Professo r
ntrod ução a   De l'origine égyptienne
A. M oussa Lam na sua iintrod des peuls,

...  a lei da continuidade histórica; os problemas actuais merg


mergulham
ulham
profunda-
mente
men te as suas raízes no passado mais llongínqu
ongínquo,
o, e alguns erros de aprecia-
ção ou de interpretação dosfactos actuais explicam-se pela ignorância ou
negligência desta verdade primeira.

Babacar M baye Diop   e   Doudou Dieng


Doutorandos em Filosofia/Universidade de Rouen
Pr e f áci o : Fal si f i cação da hi stó r ia
ia 21
 

I.
A Á fr
fric
icaa e o O ciden
ci dente
te
 

A rup turao da
africana: con
consciência
sciência
principal históri
histórica
obstáculo ca
para
o renascimento africano
Bwemba Bong^

Introdução
o factor dominante da realidade internacional consiste no facto de,
neutralizada por uma agressão ocidental multimilenar, a África Negra
entrar no IIF milênio num estado de fracasso sem precedentes na
História conhecida da Humanidade, sinal prenunciador da iminência
do caos. Com efeito, o povo negro permanece sempre exposto à lógica
mortífera do Ocidente, tal como a França o demonstrou no Ruanda,
em 1994, e mais r ecentemente, em Novembr o de 2004, na Costa do
M a r f im
im , c o m a i n t e r v e n ç ã o d a s u a p r e t e n s a c o o p e r a ç ã o f r a n c o -
-afr icana.
Para alêm disso, por forma a evitar ir de mal a pior, o nosso povo
deve apoderar-se deste instrumento de luta necessário que ê a consciên-
cia histórica.

1. A consciência histórica da África Negra en-


quanto base da resistência do povo negro
Sendo a mistificação histórica um dos meios privilegiados através
do qual se age sobre a consciência individual, de uma colectividade
ou de um povo de modo a dominá-lo, o Ocidente recorre à ideologia
da falsificação sob todos os aspectos, com vista a perpetuar a sua mão
invisível na África Negra, a fim de manter o povo negro na escrava-
tura, atê mesmo exterminá-lo, caso este não tome consciência das
ameaças que pairam sobre ele. Neste sentido, tudo aquilo que concerne

1. Historiador, m em br o do Círculo SAMO


SAMORY
RY..

enascinnento africano . 
A rup tura da cons ciência h istórica africana: o p rincip al obstác ulo p ara o rrenascinnento Bwemba Bong   25

ao verdadeiro passado da África Negra é encoberto. Nas bibliotecas


m ais inacessíveis para os investigadores african os dignos deste nom e,
encontr am-se testemunhos escondidos, r ecolhidos por missionár ios
ace rca da historio grafia da África Negra
Negra,, en qu an to qu e se fabricam fac-
tos reconhecidos desvalorizantes para a "raça" negra, com o objectivo
de a denegrir. Assim sucede com a civilização negra, cuja paternidade
se atr iibui
bui ger alm ente ao ""gênio
gênio semita" nom eadam ente, gr upo hum a-
no acerca do qual se sabe que terá vivido no Egipto faraônico negro,
enquanto simples comunidade de trabalhadores imigrados, tal como
confirma a Bíblia, mesmo sendo conveniente opor o mais categórico
desacordo face à tese da pretensa "escravatura" dos Judeus no Egitpo:

Estabeleceram sobrenoseleseus
tivo de oprimi-los (o povo judeu)
fardos; chefes de trabalho
e edificaram cidades forçado,
com
comoo lug com
areso deobjec-
lugares ar-
mazenagem a Faraó, a saber, Pitom e Ram sés. M as, quanto mais os oprimiam,
tanto ma
mais
is se mu
multipl
ltiplicavam
icavam e tanto ma mais
is se espalhavam , ainda que sentissem
um pavor mómórbido
rbido por causa dos fil filhos
hos de Israel. Por conseguinte, os Egípcios
fizeram osfilhos ddee Israel trabalhar como escravos sob a tirania. E tornaram
tornaram-lhes
-lhes a
vida am
amarga
arga com dura es escravidão
cravidão no pilão em argila e em tijol tijolos,
os, e com toda
forma de servi
servidão
dão nos campos, onde eram usados como eescravos scravos dominados
pela tirania.^

Tal como salienta Ivan Van Sertima:

Quan do o conde de Volney se viu perante a sombra da grande Esfinge


Quando Esfinge,, em
1783, e viu est
estas
as m ontanhas, cria
criadas
das pela m ão do homem , que se elevaelevavam
vam
no deserto, este ficou esclarecido
esclarecido e perturbado. Tinha atravessado a região
plana, pontuad
pontuadaa por cabanas em palha e grandes tamareiras. Sobre o verde
resplandecente da terra, um umaa rede es
estreit
treitaa de canais de irrigação. Era pos-
sível ver, na m argem dos canais, homhomens
ens esguios de tez negra ou escurecida,
a ma
maior
ior parte negróides, "de nariz ccurto
urto e achatado, com um a boca larga... e
lábios carnudos"; com um movimento balançado e rit
lábios ritmado,
mado, erguiam os bal-
des de rega agarrad
agarrados
os à picota. Tratava-se de Egípcios, que, pela tez e pelos
traços, eram sem
semelhantes
elhantes a mu
muitos
itos escravos do Império Francês. Com o é que
as coisas podiam ter sido transtornadas a este ponto? Com o é que o sentido da
história podia ter-se invertido tão violentamen
violentamente?
te?
O conde de Volney sentiu-se invadido por um estranho sentimento de culpa.
Era tão natural considerar os Negros enqua enquanto
nto "lenhadores e carregadores
de água". Quan
Quandodo é que est
estaa maldição teria
teria começado? "Quanto
"Qu anto espanto
ressentimos, escreve o autor, ao reflect
reflectirmos
irmos sobre os N egros, actualmen
actualmente
te

2. Êx odo
odo,,   cap. 1, v. 11 a 14.

Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

nossos escravos e objecto do nosso desprezo, a quem devemos


d evemos as nossas artes,
as nossas ciências...".

Qu
queinze anos mais tarde,fificaram
o acompanhavam Bona
Bonaparte
caramparte dirigia umimpressi
igualmente a expedição
onadosao eEgipto.
impressionados   Osndidos.
surpree   sábios
surpreendidos.
Concluíram,
Con cluíram, tal como os Gregos ttinham inham feit
feitoo mil anos antes, que um umaa raça
negra estava na origem ddaa civili
civilização
zação egípcia.
Esta redescoberta do Egipto antigo pelos Europ Europeus,
eus, bem como a revelação da
forte ascendência
ascend ência negro-africana de um umaa civili
civilização
zação à qual a Europ
Europaa tanto
devia, causaram uma espécie
espécie de mal-est
mal-estar;
ar; a mesma sobrevi
sobrevinha
nha no mom ento
mais
ma is inoportuno e am
ameaçava
eaçava dinamdinamitar
itar o mito da inferiori
inferioridade
dade inata dos
Negros,
Neg ros, necessária para a boa consciência cristã de um a Europ Europaa que devia
a sua prosperidade à exploração massiva dos escravos negros. A África era
sistematicamente despovoada.  Os seus impérios tinham sido destruídos, a sua
história enterrada,
enterrada, o seu desenvolvim
desenvolvimento,
ento, paralelo ao de outras civili
civilizações
zações
do mundo,
mu ndo, subitamente
subitamen te travado. Apen
Apenas
as alguns elementos antigos ou inaces-
síveis perma
permaneceram
neceram intactos, para mais tarde dar origem a falsos testemunh
testemunhos,
os,
a partir ddos
os quais se deliberou acerca da dimensão
dimen são e da complexidade
comp lexidade da sua
evolução.^

O s   Ocidentais
Ocidentai s não ignoram o fact
factoo de a con sciênc ia histórica desem -
penhar um papel importante na libertação e elevação mental de um

povo que toma


um orgulho consciência
suficiente, do seu
torna-se passado.
difícil Ao adquirir,
de manipular; por deste
outromodo,
lado,
escolheram também apresentar a historiografia da África Negra de
acordo com uma visão totalmente desfavorável para o povo negro,
com o intuito de o levar à m aleab ilidade total. O fil
filósofo
ósofo ale m ão Hegel
fo
foii um dos que m ais se dedicou a este em pree nd im ento :

A África
África não faz parte do mundo mun do hist
históric
órico,
o, não manifesta
manifesta nem movimento,
nem desenvolvimento, e aquilo que ali aconteceu, isto é, no norte, res resulta
ulta do
mundo
mun do asasiát
iático
ico e europeu.
europeu..... Aquilo que apreendemos, em suma, pelo nom nomee de
África, é um mu mundo
ndo a-históri
a-históricoco não desenvolvido, inteiramente prisioneiro do
espíritoo natural e cujo lugar ainda se encontra no limiar da história univer-
espírit
sal*
E,  no entanto, escreve Edem Kodjo,foi aqui, em África, que a história começou começou..
Longee de se tratar de um
Long umaa firmação gratuita, esta asserção representa um a
realidade científ
científica
ica inegável que se constata ao sulcar o mu mundo
ndo em busca dos
vestígios das civilizações
civilizações primeiras.^

3. Sertima, Ivan Van, I ls y étaie


taient
nt avant C hri stoph stophee   Colomb-,  Flammarion, pp. 133 a 135.
4. Hegel, Friedrich,  L a R aison ddans
ans  l'H i sto
stoirir e-,  E d.
d . 1 0 / 1 8 , 1 9 8 2 , p . 2 6 99..
5. Kodjo, Edem,  Et de
demain l'A fri qu
quee;   Ed. Stocit, 1985, p. 309.

A rup tura da consc iência histórica africana: o p rincip al obstác ulo p ara o renascinnento africano .  Bwemba Bong
Bong   27

Porém, tal como refere Meinrad Hegba acerca do estudioso Cheikh

Anta Diop,negra
Diop,
a origem que ffoi
oi um
do dose prim
povo eiro s invesdotigad
da civilização oresfaraónico,
Egipto a pô r em evidên cia

... quan
quandodo Cheikh An
Anta
ta Diop, hom
homem
em de erudição enciclopédica, publicou a
sua famosa obra N ations nègres et culture, este foi atacado por todos os
lados, ridicularizado, vilipendiado, porque a sua visão da história ouousava
sava de-
safiar o esquem
esquemaa dogm ático traçado, entre outros, por Hegel e GobGobineau,
ineau, e
que torna o homem negro naquele que nunca contri contribuiu
buiu para o patri
património
mónio
da human
humanidade.
idade. Cheikh Anta Diop foi atacado não somente por hist historiador
oriadores
es
competentes,
com petentes, ma
mass também por pequen
pequenos
os escritores e jornalistas europeus in-
capazes de ler Heród
Heródotooto ou Diodoro da Sicília no texto, mamass que se arrogavam
o direito de rejeit
rejeitar
ar desdenhosam ente as crónicas egípci
egípcias
as destes historiadores
conscienciosos, ... levando o preconceito racista e a má fé ao ponto de recu recu--
sar o irrecusável, a saber, os traços negróides da Esfinge, por exem exemplo,
plo, ou o
carácter egípcio de tais figuras negras... ququee a ciência da falsif
falsificação
icação e da ma
ma--
nipulação não podia ainda assim classif
classificar
icar com
comoo falsas. F ace à avalanche de
escárnios, insultos, hum ilhações desenfreadas contra o investigador senegalês,
quantos
quan tos intelectuais africanos tiveram a coragem de o defender? Em nnom omee
da história "científi
"científica"
ca" dos seus mestres, algun
algunss chegaram a segui-los para
denun ciar as "teses simplistas" de Cheikh An Anta
ta  Diop.^

Meinrad Hegba prossegue:

Reteremo s dos testemunh


Reteremos testemunhosos concordan
concordantes
tes e independen
independentes tes de Heród
Heródoto,
oto, Dio-
doro da Sicília, Ibn Batouta, Volney
Volney,, bem como do doss mo
monum
num entos históricos
extremam ente explícit
explícitos,
os, que hom
homens
ens de raça negra cri criaram
aram e desenvolveram ,
nos séculos passados, um elevado grau de civili
civilização,
zação, num a época em que as
povoações e as tribos europeias ainda estavam ffincadasincadas na barbárie. A re-
viravolta espectacular
espectacular das situações operadas desde então, não invalida de
mod o algum os factos, ma
modo mass debilit
debilitam
am os fundam entos da teoria arriscada
da evolução linear e irreversí
irreversível
vel das civili
civilizações.
zações. Tem
Temos,
os, evidentemen
evidentemente,
te, que
admitir
adm itir algum
algumas
as regressões por vezes severas, rupturas de continuidade e
saltos. Restituída a estas pretensões mo moderadas,
deradas, a tese defendida por nós já
representa um tema... de orgulho para os nossos povos.^

A ideologia dominante da África Negra é tão vigorosa nos Ociden-


tais, que estes chegam geralmente a acusar os Africanos de manter o
olhar virado para o passado, enqu anto qu e eles próp rios se em pen ham
em instituições responsáveis pela restauração histórica do seu país.
6. Hegba, Meinrad, "L'Homme Vit Aussi de Fierté" in   Présence Africaine,   9 9 / 1 0 0 , 9 . 2 1 .
7. Hegba, Meinrad, op. cit.,  p. 3 9.

28 Babacar Mbay e Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

tal como o comprovam as escavações arqueológicas realizadas no Oci-


dente:

... um a necrópole merovín


merovíngia
gia foi detectada durante o fim-de-semana pas-
cal em Rum musheim, pert
pertoo de M ulhouse. Treze túmulos dat
datando
ando dos anos
680-750 foram descobertos a cerca de cinqüenta centímetros por baixo de
um campo
camp o de milho. Alguns
Algun s guardavam
guardav am objectos, tais como fivelas de cintos,
facas e potes.^
Tendo sido a historiografia da África Negra dita francófona, nome-
adamente, geralmente confiada a funcionários coloniais sem qualquer
formação na matéria, para não mencionar os seus preconceitos negró-
fobos, a conseqüência foi o freqüente surgimento de fragmentos de
antologia. Num artigo publicado em 1972, Henri Brunschwig escreve:

Os  Neg
Negros
ros não foram frustrados da sua História, porque estes nun
nunca
ca tiveram
História, nem ssentiram
entiram a necessidade de ter uma...
um a... Os Negros só descobri-
ram o mu ndo enquan to escravos... Esta estranha passividade faz co comm que a
História da África Negra até ao século   XIX seja não somen
somente
te colonialist
colonialista,
a, mas
ma s
ainda epidérmica.'^

Ora, se os Áfricanos se obstinam em desviar a África Negra da sua


historiografia,
histori ografia, é m ais pelo receio daquilo que pos sam des cob rir a cerc a
do seu passado: o medo da verdade que, pela sua essência, levaria a
tomar consciência da fraude e da mistificação, podendo e devendo a
descoberta da verdade - tanto quanto a tomada de consciência da in-
justiça pro vo car a revolta da con sciên cia neg ra que se revelaria em
simultâneo com a verdade. Certamente, a memória histórica não pos-
sui um valor absoluto, mas participa, no entanto, no desenvolvimento
da consciência, mesmo que esta não seja a única razão que motive a
necessidade, no caso da África Negra por exemplo, de reapropriação
da sua história. Porque...

Todos estes factos da Pré-históri


Pré-históriaa devem ser relembrados aos homhomensens da
actualidade, a fim de que o papel da África no desenvolvimen
desenvolvimento
to da civili
civilização
zação
seja enfatizado e o seu lugar reconhecido no progresso do gênero hum ano,
não só através da sua posição norte-oriental centrada no Nilo, mamass também
na sua totalidade. A história consiste num todo e a natureza não concretiza

saltos.  O  gênio human


humanoo representa
representa um conjunto. A parti
partirr da nebulosi
nebulosidade
dade
8. Jornal  L a Nation   de 12 de Abril de 1985, p. 16.
9. Brunschwig, Henri, "Histoire, Passé et Frustration en Afrique Noire", in  A nnale
nnales,
s,   n.® 5, 1962,
pp. 875 e 878.

A rup tura da cons ciência histórica africana: o p rincip al obstáculo p ara o renascinnento africano .  Bwemba Bong
Bong   29

inicial partiram as primfcias da civil


civilização
ização actual. E se as revoluções indus-
triais ou polític
políticas
as se afiguram caóticas e surgidas do nada, estas ssão
ão apena
apenass o
ponto culminante da obra obscura iniciada há  milénios.^^
Por conseguinte, a História não pode limitar-se a um estudo neutro
e insí
insípido
pido dos aco ntec im ento s pas sado s. O seu con hecim ento e a sua
mestr ia são indispensáveis par a a acção e par a a vida, e não par a
embelezar as bibliotecas; tem ainda muito menos por vocação sobre-
carregar a memória, tendo em conta que concerne o homem activo
que necessita de modelos anteriores e de iniciadores.
O  Africano deve, neste sentido, escrutinar os vestígios do passado do
seu povo,
po vo, com o prop ósito de suscitar assun tos históricos. Esta tom ada
de po sição c ons titui o sinal de um a fidelidade e de umu m real patrio tism o.
Porque, na verdade, a história representa o bem do homem que olha
fielmente e com entusiasmo para as suas origens, para o mundo dos
seu s antep ass ad os. Partir de si para ch ega r a si é um a das va riante s do
círculo que deve ser percorrido pelo pensamento histórico. É aquilo
que o saudoso presidente Kwame Nkrumah explicita:

O nosso renascimen
renascimento
to africano insiste signific
significativamen
ativamente
te no modo
mo do de apre-
sentar a história. Deve escrever-se a nossa história
história enquan
enquantoto a história da
nossa sociedade, não enquan to história de aventureiros europeus. A socie-
dade africana
a fricana deve ser considerada como um reflexo
reflexo de si própria, e os con-
tactos com os Europeus
Europ eus só devem constar sob o ângu ângulo
lo da experiência dos
Africanos,
Afric anos, mesmo que ttenham
enham sido uma experiência
experiência mais importante do que
todas as outras. Por outras palavras, os contactos com os Europ Europeus
eus devem
ser narrados e julgados sob o ponto de vista da harm harmonia
onia e do progresso
desta sociedade. Qu Quando
ando a história é exposta desta maneira, esta pode deixar
de issertrágico
mais
ma um
umaa narrativa...
e do triunfo para
triunfo final seda transformar no quadro
nossa sociedade. Então, do dram
dramaa da
a história cadaÁfrica
vez
poderá guiar e inspirar a acção dos Africanos. A história africana pode, deste
modo,
mo do, dar a conhecer a ideologia que deve dirigir e inspirar a reconstrução
africana.^^

A o   identificar-se com o gênio familiar do seu povo, o Africano adquire


uma dívida de reconhecimento perante o passado, fazendo com que a
destruição da noção ideológica e mítica da a-historicidade da África o
reco ncilie de im ediato com a sua natu reza. EE,, ao decifrar o passado ,
a linguagem misteriosa que apreende à partida revela-lhe a sua ver-
dadeira identidade. A história torna-se, assim, vital; ê revigorante e

10. Kodjo, Edem, op. cit.,   p. 38.


11. Nkrumah, Kwame,  L e Conscienci
Conscienci sme
sme;;   Ed. Prése nce Afric
Africaine,
aine, 19 76 , pp. 8 0- 8 1.

30 Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

 
serve a vida. Por outro lado, o olhar retrospectivo do Africano deve
diferenciar-se da atitude do vendedor de antiguidades. Com efeito, se
este lança um olhar sobre o passado longínquo, que se torna subita-
mente próximo e vivo, é para dele extrair lições do declínio da brilhante
civilização que os seus antepassados construíram. Não é através deste
regresso ao passado que o mesmo poderá desvendar as taras da sua
sociedade, os erros cometidos pelos seus antepassados; aqueles que
estavam demasiado confiantes neste facto não souberam proteger-se

dosEmperigos
suma, exteriores.
a atitude histórica é compatível com um ponto de vista
crítico: deve vasculhar as suas raízes, revelar as fragilidades que estão
n a b a s e ddaa s o c i e d a d e ttrr a d i c i o n a l , n ã o d e m o n s t r a r c o m p l a c ê n c i a
perante um certo imobilismo latente desta sociedade. Se o Africano
tem conhecimento de que a tradição representa, por natureza, uma
fonte de verdade e uma norma de afirmação, o mesmo não deve igno-
rar que esta pode ser uma constante de inércia. Deste modo, deverá
desconfiar daqueles para quem unicamente a tradição ou o passado
possuem legitimidade, aqueles para quem a simples evocação deste
sistem a de referên cia constitui um a ocasião pa ra discurso s adulatórios.

2. As fragilidades e os defeitos da sociedade


africana
A civilização primeira conhecida da humanidade germinou no vale
do Nilo. O Saara, em vias de dessecação, esvaziar-se-á de uma grande
parte do seu povo que partirá do centro da África ao Sul do Saara e
emigrará para a zona
outro contingente onde
deste o Nilo
Povo Azuleme odirecção
subirá Nilo Branco confluem.
ao mesmo vale Um
do
Nillo para funda r a civili
Ni civilização
zação egípcia, cujos vestígios co ntinu am aind a
hoje a deslumbrar a humanidade:

Con trariamente a estes historiadores que, para satisf


Contrariamente satisfazer
azer a sua visão etnocên-
trica do hom
homem,
em, se obstinam em construir, com base em vestígios arqueológi-
cos men
menos os significat
significativos
ivos da M esopotâmia, um
umaa anterioridade e umumaa primaz
primazia
ia
de civili
civilização
zação que os factos e as descobertas recentes vêm hoje desmentir, é de
facto, segundo as fontes ma mais
is reconhecidas actualmen
actualmente,
te, no solo africano, que
a aurora da civili
civilização
zação se eleva}^

Todavia, mesmo se a África deve orgulhar-se dos vestígios da An-


tiguidade e da bela época dos seus grandes Impérios do X.s ao XV.^
12. Kodjo, Edem, op. cit,   p. 40.

A rup tura da consciência histórica africana: o p rincip al obstá culo p ara o renascinnento africano .   Bwemba Bong   31

séculos, este regresso ao passado deve sobretudo ajudar o seu povo a


co m pre en de r o m ovim ento d ialéct
ialéctico
ico da história, através do qual a tto-
o-
talidade humana se constrói e desconstrói; com efeito, a um dado mo-
mento da sua história, os povos erigem poderosas civilizações que se
podem desmoronar depois de terem conhecido um esplendor notável:

As civili
civilizações
zações são certamente mo
mortais,
rtais, m
mas
as a sua mo
morte
rte tem causas e no qu
quee
concerne às civili
civilizações
zações passadas da África, devem
devemos
os estudar os mo
motivos
tivos do
seu desm
desmoronam
oronam ento por forma a melhor preparar os jovens Africanos relati-
vamente
vam ente ao dom
domínio
ínio do seu destino. No que diz respeito aos Estados africanos
da An
Antiguidade
tiguidade e aos impérios med medievais,
ievais, factores internos e causas externas
convergiram para precipitar o seu declínio, e, posteriormente, o seu desapa-
recimento. D e entre os inúm eros factores internos figuram a organização in-
terna da sociedade, o sistema educativo e de transm transmissão
issão dos conhecim
conhecimentos
entos
e as dificuldades de admadministração
inistração do territ
território.^^
ório.^^

Estas causas internas constituem, ainda hoje, uma das fragilidades


da sociedade africana. Em particular devido ao sistema de castas que,
ainda que com tendência a desaparecer, não deixa de permanecer rela-
tivamente vigoroso na África ocidental, nomeadamente nas zonas sahe-
lianas. Este siste m a tem po r ba se a di
divisão
visão do trabalh o, que fa
fazz com que
cada função artesanal corresponda a funções sagradas, a vias iniciáti-
cas: unicamente a casta dos ferreiros deverá conhecer os mistérios do
fogo e da transformação da matéria; os artesãos da madeira, por sua
vez, são versado s no fabrico dos ob jectos rituais e das má sca ras devido
ao seu conhecimento dos segredos do mato e da vegetação. Devem eles
próp riossão
pirogas co rtar a m adeira
iniciados nos nece ssá riadapara
segredos a sua
água, porobra; os fabricantes
exemplo, das
e cada casta
conserva zelosamente os conhecimentos secretos que detém.
Torna-se evidente que este tipo de organização social favorece a es-
tagnação e impede as mudanças necessárias às alterações sociais, ou
seja, ao progresso. Esta contribuiu grandemente para o enfraqueci-
mento interno da África do passado, não tendo as diferentes castas
que compunham uma parte do mundo do trabalho aceitado divulgar o
conhecimento de que eram detentoras. Sistema do gosto pelo segredo
que, acrescido ao da educação então em vigor, acabaram por prejudi-
car a África, como refere Edem Kodjo:
Por outras palavras, preva
prevalecia
lecia um sistema de educação e de transm
transmissão
issão de
conhecimentos
conhecim entos isolados. N a verdade, as sociedades africanas eram subm etidas
pelos grandes sacerdotes detentores do conhecim
conhecimento.
ento. Verdad
Verdadeiros
eiros mestres

13. Kodjo, Edem, op.  c


 cii t,   p. 41.

32 Babacar Mbay e Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

da sabedoria, estes possuíam o dom


domínio
ínio da sociedade e constituíam umumaa casta
isolada que
q ue ma
mantinha
ntinha os seus conhecim
conhecimentos
entos e o seu savoir-fair
savoir-fairee zelosamen
zelosamente
te
afastados do povo. O rganizadas em sociedades esotéricas, no seio das quais
o conhecim
conhecimento
ento só se transmitia por inici
iniciação
ação a um a ínfima minoria de indi-
víduos adm
admitidos
itidos por cooptação rigorosamen
rigorosamentete program ada, estes gran
grandes
des
sacerdotes tinham ininteresse
teresse em manter o povo na ignorância a fim de refor-
çar
modoo seu próprio
algum acessopoder.
, acess D
Deste
este mento
o ao conheci mo
modo,
conhecimentodo, asquema
massas
asssas pop
populares
poderi
poderiaaulares não tinham
ter ajudado tinham,, de
a domi-
nar o seu meio natural... Nestas condições, não é de estranhar que um umaa vez
liquidada a grande casta dos sacerdotes, detentora da sabedoria, da ciência
e da destreza técnica, as sociedades africanas se tenham visto subitamen subitamentete
privadas de mem ória científ
científica
ica e técnica. De facto, o progresso científ científico
ico e
técnico sempre foi resultado de um umaa acum ulação de conhecim
conhecimentos
entos difusos
e conservados nas ma maiores
iores cam
camadas
adas do povo... Por não terem seguido este
procedimento,
procedimen to, as grandes civi
civilizações
lizações africanas do passado desm desmoronaram
oronaram -se,
por falta de renovação e de alargam
alargamento
ento do seu pessoal científ
científico
ico e técnico,
frequentemente
frequentemen te em resultado do desaparecimen
desaparecimentoto súbito das suas classes
dirigentes, sob o golpe de invasões estrangeiras^*,

Na África antiga, m uitos erudito s m or re ram sem te r partilha do a


mais pequena parcela dos seus conhecimentos. Os túmulos africanos
encontram-se, assim, cheios de sabedoria perdida para a eternidade.
Por outro lado, Ahmadou Hampaté Bâ afirmou em 1976:

Os depositários africanos tradicionais das artes, das ciências e das técnicas


antigas ainda exis
existem.
tem. Poré
Porém,
m, ssão
ão pouco num
numerosos
erosos e, de um modo geral
geral,,
de idade bastante avançad
avançada.
a. O tesouro dos conhecim
conhecimentos,
entos, pacientemen
pacientemente
te
transmiti
transm itido
do há m ilénios, pode ainda ser recolhido e salvo caso a isso nos
dediquem os atempad
atempadamamente
ente e aceitemos escutar atentamen
atentamentete as na
narrativas
rrativas
dos antigos   eruditos.^^

Neste sentido, cabe a cada geração de investigadores africanos ter


em conta este apelo, bem como o futuro do povo africano; a lei do
silêncio imposta pela iniciação exige ser rompida. Não para introduzir
os inimigos do nosso povo aos segredos científicos, que acentuaria o
seu domínio sobre nós e o mundo, mas para colocar a África Negra ao
abrigo de qualquer espécie de imperialismos estrangeiros que garan-
tiram a sua ruína. Ora, pelo facto de ter procurado transmitir conheci-
m ento s ao his toria do r africano Yo usse f Tata Cis
Cissé,
sé, W a de krina, gra nde

1 4 . I d., op.,


op., cit.,   ppp.
p. 41 -4 2.
15. In   Courrier de IVNESCO,   1976, p. 17.

A rup tura da consciência h istórica africana: o p rincip al obstá culo p ara o rrenascinnento
enascinnento africano .  Bwemba Bong   33

sacerdote depositário das tradições ocultas da antiga ciência egípcia,


de T ho t e de Amo n-ra, perde u a vida.

E quan
quando
do o rum
rumor
or das suas revelações chegou aos ouvidos dos seus colegas,
W a Kam issoko recebeu a visita dos representantes ma
mais
is ilustres da função de
griot do M andé. Estes ordenaram que se calasse. Aqu
Aquele
ele desobedeceu.^^
Viria a falecer pouco tempo mais tarde, vítima da Lei do silêncio que
proscreve qualquer colaboração dos sábios africanos da sua sociedade,
com base num mal-entendido repousando sobre a distância entre os
depositários dos conhecimentos ancestrais e os novos quadros forma-
dos na escola dos Brancos; nomeadamente no que concerne à concep-
ção do tem po . C
Com
om efei
efeito,
to, se para os Africanos form ado s na esco la oci-
dental, tempo é dinheiro, e estes têm geralmente pressa em   distinguir
dissertação,  obtend o o m áxim o de inform ações possí
a dissertação,  possível
vel em tem po
recorde; para os sábios africanos, sendo a confiança a força motriz
de qualquer relação, uma tal agitação para penetrar nos segredos do
conhecimento representa uma grande contrariedade. Tal como afirma
Hampatá Bâ, só a confiança "fornece aquilo que nem a astúcia, nem a
força das armas vos pode proporcionar e aquele que não tem tempo a
perder, nada tem a fazer em África." Certamente, mas a perda de um
erudito da espécie de Kamissoko representa uma grande perda para o
nosso Povo; sobretudo se este não teve tempo de transmitir os conheci-
mentos necessários para a libertação da África e do povo negro.

A este respeito, Hampaté Bâ foi justo ao escrever que em África, "um


ancião que morre é uma biblioteca que se incendeia". Porém, ainda há
muito a fazer para transformar o modo de transmissão dos conheci-
mentos, que coloca em evidência a natureza particularmente aleatória
do sistema da oralidade.
Por outras palavras, para que o incên dio da bib liotec a de Ham paté Bâ
seja deplorado, é ainda necessário que esta tenha inicialmente a linha
or ientador a de entr egar os seus segr edos deixando as suas por tas
abertas, a fim de que novas gerações de investigadores, da África e do
povo negro, possam aí saciar a sua sede de conhecimento, com vista a
contribuir para a construção do futuro do nosso povo.
A contrario, 
contrario,  portanto, é ne ces sár io assu m ir a respo nsab ilidade de
dizer aos sábios iniciados africanos que, impassíveis, continuam ainda
hoje a ver o nosso povo desagregar-se progressivamente a cada dia,
que uma biblioteca que queima cheia de pó, pelo facto de não ser
frequentada por força das suas portas encerradas, não realizou a sua

1 6 . Afrique Asie,   número citado.


1 7 .  Courrier de l'UNESCO,
de l'UNESCO,  número citado.

34 Babacar Mbay e Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

função que consiste em ser o lugar prim eiro de tran sm issão do con heci-
mento; que o excesso de gosto pelo segredo constitui sempre a consa-
gração da ignorância, bem como um grave perigo para um povo.
Outra das fragilidades da África Negra consiste no respeito demasi-

ado grande
respeito pelapela
vidavida e pela
rep rese nta natureza.
orça,Sob
um a fforça um em
, tendo determinado
con ta que prisma,
o m esm o
demonstra que o homem e a natureza são apenas um; que no univer-
so, cada objecto representa uma actualização da "palavra divina". Para
além disso, ao rejeitar a fragmentação dualista do mundo, porque o
homem está integrado no universo e porque o corpo não é a sombra
do espírito, a concepção africana da vida estabelece uma intimidade
entre a consciência e o mundo, entre a Natureza e Deus.
O pens am ento afr iicano
cano ofer ece assi
assim
m um mo nismo pr otecto r e um
humanismo divino. Por outro lado, o valor encontra-se carregado de
uma dimensão religiosa; está impregnado de sacralidade. A própria
vidaa é sagrada, um a vez que a m es m a é um dom de Deus; esta nã o pod e
vid
ser, nem suprimida, nem tomada pelo homem. As banalidades das
religiões monoteístas ocidentais acerca do amor pelo próximo, como
imagem de si mesmo, só podem, assim, conduzir a grandes gargalha-
das naqueles que estão impregnados pela filosofia africana da vida,
filosofia segundo a qual o estrangeiro de passagem num país está sem-
pre na sua casa, ainda que em terra desconhecida, uma vez que este
pode ser a manifestação de um antepassado ou de um deus chegado

para testar oemnosso


organizada graucomunitário,
sistema de hospitalidade. Eistriunfam
no qual uma filosofia da vida
os princípios
essenciais de solidariedade e de humanismo.
O pen sam ento afri
africano,
cano, ignorando o iindivi
ndividuali
dualismo,
smo, relacio na in-
timamente o indivíduo ao seu meio natural e humano; a simbiose
homem-natur eza é per feita:

Enquanto que o homem ocidental


ocidental apenas soube inst
institui
ituirr entre o homem e
a natureza, desde o Renascimento,
Rena scimento, relações de conqu
conquistadores,
istadores, relações de
senhores a escravos, os Africanos dão provas, pelo
pelo contrário, de que o hom
homemem
e o mundo
mu ndo são apenas um, que toda a natureza repre representa
senta um corpo e que
eu próprio tomo parte na interacção universal ddas as forças da vida, a vida to-
tal dos homens, dos outros homens e das coisas.   O  sentimento da vida, é em
primeiroo lugar esta
primeir esta comunhão permanente com um mu mundo
ndo vivo, animado,
significante,
signific ante, que pode ser decifrado como um rosto no qual se lêem directa-
mente a angústia, a cólera
cólera ou o amor e que não deu origem
origem ao absurdo dualis
dualismo
mo
da alma e do corpo. O homem, bem como o mundo no qual vive, é todo uma
alma e todo um corpo.^^

18. Garaudy, Roger,  Appel aux  vi van


vants-,  Ed. Seuil, p. 74.

A rup tura da consciên cia histórica africana: o p rincip al obstác ulo p ara o renascinnento africano .   Bwemba Bong   35

Certamente, mas deve dizer-se, o respeito pela vida e pela nature-


za constituiu um obstáculo fundamental para o pensamento técnico,
tendo em conta que não permitiu ao pensamento científico africano já
existente
O revés donos templos
pe nsa m en toe nos conventos,
espiritual explorar
e hu m e atingir con
anista africano o povo
siste negro.
assim
na sua incapacidade de se afastar do poder divino:

É pelo facto de o espírito


espírito africano ainda estar ma marcado
rcado por uma visão do
mun do e uma concepçã
concepçãoo da exis
existênci
tênciaa sempre dominadas pela iidéia
déia de uma
potência criadora transcendental, imanente,
iman ente, coexistente a todas as coisas, a
qualquer idéia, a qualquer acção, que o mesm o permapermaneceu
neceu hostil a qualquer
processo de violação e de conquista brutal da natureza exigido por aquilo
que designam
designamos
os comu
comumen
mentete por desenvolvimen
desenvolvimento.
to. Um a tal visão filosóf
filosófica
ica do
Africano limita a sua capacidade de investigação e de criação a um universo
não dominado,
dom inado, reduzido ao seu espírito
espírito de inciativa, ao seu gosto pelo risco e
pela aventura, logo que se trate de romper
romp er a harm
harmonia
onia primordial para orga-
nizar esta vasta reviravolta social que é o desenvolvim
desenvolvimento.^'^
ento.^'^

Para se compreender até que ponto a mentalidade africana resul-


tante desta concepção do mundo e desta filosofia da existência consti-
tuiu um factor negativo, basta compará-la à idéia que se tem acerca
da natureza na Europa do século XVII. De facto, na obra de Galileu,
publicada em 1632 e intitulada 
intitulada   Les Dialogues sur les Deux Principaux
Principaux
Systèmes du M onde,
onde,   a nature za, deu sa universal, foi inte rpr etad a con-
sequentemente como uma simples máquina.
Defronte,, a organização da cidade ant
Defronte antiga
iga gre
grega
ga enqu anto fundam en-
to cultural do Ocidente, dá uma idéia da atitude do homem ocidental
face ao estrangeiro: cada cidade, para lá do seu espaço urbano, com-
preendia divisões territoriais ou aldeias que cercavam o aglomerado.
As primeiras eram propriedade de homens ricos, e ali viviam
fr eqüentemente escr avos e eventualmente estr angeir os. Qualquer
estrangeiro fora da sua cidade podia ser mantido na escravatura ou
condenado à morte. Nem mesmo as casas se podiam tocar. No interior
da Cida
Cidade
de existia a m esm a injustiça: nem todo s os hab itantes eram ci ci--
dadãos; os escravos não possuíam qualquer direito. E quando alguns
estrangeiros eram autorizados a trabalhar, estes só podiam, no máximo,
tran sp orta r armas . O pen sam en to dos Gre Gregos
gos antigos face aos es-
trangeiros constitui uma das conseqüências directas de um individu-
alismo exacerbado, na medida em que o Outro, não é considerado nem
como um irmão, nem como um semelhante, o que faz com este seja
expulso da esfera dos homens. Uma filosofia para a qual aquilo que

19. Kodjo, Edem,  op. cit.,   p. 93.

36 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

conta, sou EU, sendo outrém um estrangeiro, este não possui qualquer
direito. Desde os Gregos, antepassados dos Ocidentais, a Natureza era
aquilo
facto deque a ciênciaumcontemplava.
constituir modelo e umaAlisatisfação
se decobria uma da
estética ordem, pelo
inteligên-
cia. É este o motivo pelo qual a arte, incapaz de imitar a originalidade
da natureza, tinha por objectivo reproduzi-la de modo servil, procu-
rando pelo menos arremedá-la. Durante a mesma época, os homens
das ciências dedicavam-se à tarefa de conhecer os seus princípios, não
em laboratórios, mas através da reflexão acerca da essência das coisas.
Só os artesãos, os escravos e todos aqueles que aceitavam dedicar-se
a actividades consideradas vis e indignas de um homem livre é que
se dedicavam à técnica. Com efeito, do Vil- ao XVI^ século, mesmo se
os artesãos e os engenheiros ocidentais permanecem, apesar de tudo,
no exterior desta grande corrente intelectual posta em prática pelas
potências árabes, as universidades europeias ensinam o pensamento
científico e filosófico árabe, ele próprio inspirado em larga medida no
Egipto faraônico. Em 1632, Galileu, ao solicitar aos engenheiros que
des cob rissem o verdad eiro sistem a do mu ndo, atribui-lhes dignidade:
digni dade:

O  engenheiro conqu
conquista
ista a dignidade do sábio, porque a arte de fabricar
trans-
formou -se no protótipo da ciência. O que com
formou-se comporta
porta um nova definição do
conhecim ento, que já não ê contem
conhecimento, contemplação,
plação, ma
mass utilização, um a nova atitude
do homem face à Natureza. Este deixa de observá-
observá-lala como um umaa cri
criança
ança
observa a sua mã
mãe,
e, enqua
enquanto
nto um mo
modelo;
delo; pret
pretende
ende conquistá-la, tornar-se
seu senhor e detentor.^"

Deixando a Natureza de representar um mistério para ele, o homem


ocidental deixava de adoptar perante aquela a atitude da criança que
escuta: este interrogava-a e levava-a a responder-lhe:

O hom
homem
em vai acostum
acostumar-se
ar-se aos sacrilégios de Prom eteu e de ícaro; já não
teme ser fulminad
fulminadoo pelos deu deuses.
ses. Descartes, Galileu, Gassan
Gassandi,
di, e todos os seus
discípulos men
menores
ores consideram doravan
doravante te evidente que, conhecer éfabricar, e
que a Natureza nada mais faz a não ser real realizar
izar em grande aquilo que apenas
podem os reunir em detalhe e à nossa escal escala,
a, graças ao engenh
engenhoo dos nossos
técnicos.... Não somen
técnicos.. somentete já não se receia a ira divina devido a este rapto da
Natureza, m as acredi
acredita-s
ta-see também que Deus nos deu a missão de trabal trabalhar
har
à sua iimagem
magem , de constr
construir
uir o mumundo
ndo no nosso pe pensamento,
nsamento, tal como ele o
criou ao oferecer-l
oferecer-lhe
he as suas lei leis.
s. O físi
físico
co da Idade M édia voltava-se para Deu Deuss
descobrindo as suas intenções, as finalidades da Na Natureza,
tureza, o físi
físico
co mecan
mecanista
ista
volta-se para Deus penetrando o próprio segredo do engenh
engenheiro
eiro divino.
20. Lenoble, Robert, Histoire de l'Idée de nature;   Ed. Albin
Albin Michel
Michel,, 19 6 9 , p.
p. 31 2.

A rup tura da consc iência histórica africana: o p rincip al obstáculo p ara o renascinnento africano .   Bwemba Bong
Bong   37

colocando-se no seu lugar para com preender, juntam


juntamente
ente com ele, o mod
modoo
como o mun
mundo
do foi criado.
criado.
A   Natureza tornou-se, deste modo, uma máquina para o sábio de-
po sitário do seg redo divi
divino.
no. O Grande Livr
Livroo da N atureza estava escrito
em linguagem matemática. Galileu, que o escreveu, viria a influenciar
a sua époc a. Já não se ouvia a Natureza, usa va-se a m esm a:

A  partir dos anos 16


1620,
20, sábios e fil
filósofos,
ósofos, qualquer que fosse a sua corre
corrente
nte de
pensam ento,... todos, apesar de todas as divergências de Escola e das polémi-
pensamento,...
cas frequentemen
frequentemente
te entusiásticas, concordam
concorda m em afirmar qu quee a Natureza
constitui um
umaa má
máquina
quina e que a ciência representa a técnica de exploração
desta máquina.^^

A   Natureza, tal como se observa, dessacralizava-se na mentalidade


ocidental. Nesta parte do mundo, o homem assumia o objectivo de a
dominar e de, a partir dela, usufruir de um bem-estar inexprimível,
tendo am bo s sido feit
feitos
os para se harm on izar na co nse rtaçã o do dom ínio
de uma pela outra. Aquilo que é de salientar neste Ocidente, que já se
auto-atribui a missão de dominar o mundo, é que apesar destas cor-
rentes mecanista e cientista que abalavam a sociedade, a religião e o
sab er não eram incom patíveis. A visão religiosa
religi osa acom odav a-se à crise
intelectual, tanto mais facilmente que, para um Descartes, por exem-
plo, sendo Deus o abonador da Verdade, um ateu não se podia tornar
matemático, ou seja, compreender a Natureza é o mesmo que viver
feliz.
fel iz. A ciên cia adqu iria, assim , um no vo estatu to. O ho m em euro peu
não estava preocupado com as suas descobertas, uma vez que estava
convencido de que Deus tinha dado ao homem o poder de dominação
sobre a Natureza, mas que somente o pecado que, retirando-lhe este
estatuto, tinha travado o desígnio divino. Daí o homem europeu ter de
adquirir o domínio das coisas do mundo para concretizar a vontade
divina. Prometeu, filho de Jápeto e irmão de Atlas, transformado em
tenente de Deus, já não teme os seus raios:

A verdadeira ciência, que nos permite, de algum modo,


m odo, com
compreender
preender a obra
criadora e nos encam
encaminha
inha a penetrar no segredo divino, torna-se assim, por
acréscimo, num meio de louvar o criador; edificar um a ciência verdadeira é,
tal como repete frequentemen
frequentemente,
te, trabalhar para a causa de Deu Deus.
s. Por fim, a
lei da caridade impõe-no
impõe-noss o auxílio ao ttrabalho
rabalho dos homens,
hom ens, bem com o o seu
alívio através da invenção de máquinas.^^

21. Lenoble, Robert, Ibid.,   p. 313.


22. Ibid.,   p. 315,
23. Lenoble, Robert, op. cici t,   p. 321.

38 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

Em suma,
africana que,existe aqui o a confronto
decifrando Natureza de duas atitudes
enquanto a marcareligiosas:
de Deus, uma,
vive
em simbiose com esta; a outra, ocidental que, considerando que o de-
ver do homem que pretende ser fiel a Deus, consiste na escravização
da natureza pelo homem. Cada uma destas atitudes tem o seu reverso:
hoje, no Ocidente, perante os estragos causados pela Ciência e pelos
seus derivados,
der ivados, proc ura-se v oltar a uma reconc iliação do Hom em com
a sua Natureza:
Deve então cconceber-se
onceber-se a esfera antropo-sociológica, não somensomente
te na sua
especificidade
especificidade irredutível,
irredutível, não somente
somen te na sua dimen
dimensão
são biológica, ma
mass tam-
bém na sua dimen
dimensão
são fís
física
ica e cósmica... Deve então reencontrar-se a Nature-
za para enencontrar
contrar a nossa Natureza, tal como tinham sentido os româ românticos,
nticos,
autênticos guardiãos da complexidade
comp lexidade duran
durante
te o século da grande simplifi-
cação... A Na
Natureza
tureza da NaNatureza
tureza está na Natureza.
Na tureza. O nosso desvio, relativa-
mente à Natureza, é animado pela Natureza da  Natureza.^'^

Claramente, Edgar Morin prete nd e afirm ar que o Ocidente acreditou


durante muito tempo que o homem podia destruir a Natureza impune-

mente. Ora,vital,
seu espaço este uma
aperecebe-se doravante
vez que este último que ele próprio
participa na vidadiminuiu
universal.o
Por outras palavras, depois de ter fundamentado a sua sabedoria na
lógica da exclusão, a saber que, 
que,  se eu tivesse razã
razão,
o, estaríeis
estaríeis errado, a
vida sobre a mo
morte,
rte, preto ou branco, bem ou mal,mal,   acontece por vezes,
ao hom em ocidental, pe rce be r que a realidade é ho je mais comp lexa.

Ora, a biologia mostra-nos


mo stra-nos que não existe oposição tão vincada na natureza.
Qualquer
Qu alquer relação ou equilíbrio baseia-se no pluralismo, na diversidade, na
causa m útua. Nã
Nãoo existe lógica de exclusão ou de oposição, ma
mass um
umaa lógica
de associação ou de com plementaridade.'^^
O povo negro gan haria caso co ns ide ras se esta reviravolta da ciênc ia
contra o homem. Todavia, este pacto estabelecido pelo homem afri-
cano en tra a vida e a Natureza não deve, de mo do algum, co ns tituir um
obstáculo à sua liberdade, portanto, à sua sobrevivência.

A África, envolvida com a sua sobrevivência, deve poder meditar nas lições da
História. Deve poder abordar a hora da reflexão e, indo para lá da sua visão
filosófica,
fil
e osófica,
os meios tãodo rica pelomento
seu hum
renascimento
renasci anismo
anism
através odee uma
através pela sua harm
harmonia,
abordagemonia,renovada
conceber doas fact
vi
vias
aso
facto

24. Morin, Edgar,  L a V i e de la  Vi e-,   Ed. Seuil, pp. 373-374.


25. Rosnay, Joël de, L e M i crocosme
crocosme;;   Ed. Seuil, p. 2 5 4 .

A rup tura da consciên cia histórica africana: o p rincip al obstác ulo p ara o renascinnento africano .   Bwemba Bong
Bong   39

científico que lhe assegura o progresso, respeitando simultaneam ente a sua


científico
cultura}^
3. As lições que a África Negra deve extrair da
história
Algumas causas internas à África que contribuem para o seu en-
fraquecimento, bem como o do seu povo, acabam de ser revistas. Estas
não são, infelizmente, as únicas. Outros factores diferentes, nomeada-
m en te a ética que se opõe à acu m ulaçã o de riquezas, a exclusão da pro-
moção social, a crença mítica de que os ricos não são abençoados por
Deus, a socialização do indivíduo que não contribuiu para o desenvolvi-
mento de uma massa de desfavorecidos, necessária para a revolta que
teria conduzido à Revolução, as relações familiares particularmente
alargadas e protectoras, geradoras de uma certa indolência, e que con-
tribui geralmente, quer para gerar, quer para alimentar os comporta-
m ento s e os actos etnicistas ex trem am ente perigoso s para a Áfri
África ca Negra
Negra,,
representam tantos pólos de inércia, os quais devem desaparecer
urge ntem ente. Para além destes ffactores
actores,, note-se tam bém   " o s  efeitos da
demonstração", a necessidade de aparecer, que origina despesas sump-
tuosas durante as cerimónias fúnebres, por exemplo, práticas correntes
da concepção que os Africanos têm da morte, que não representa o fim
da vida
vida,, m as sim um a passag em para um a outra form a de vida.
Torn a-se evidente que esta visão da m orte, bem com o a do casam en-
to e do baptizado, representam obstáculos pesados nos nossos países
devido, entre outras coisas, às dívidas que a família é frequentemente
levada a contrair para responder àquilo que se dirá. Esta corrida à
demonstração desenfreada da opulência enganosa é, por outro lado,
intensificada por aventureiros ao serviço do Ocidente que ocupam o
poder artificial na África Negra, e que se entregam a demonstrações
oste ntató rias de ri
riquezas,
quezas, de resto adquiridas.
A estas causas externas acresce a situação internacional da África
Negra que, há praticamente dois mil e quinhentos anos, sofreu um de-
clínio que não pá ra de se agravar
agravar.. Com efeito, o Egipto neg ro, cuja s riq ue -
zas nunca tinham deixado de ser cobiçadas pelos povos estrangeiros,
era, há milénios antes de Cristo, alvo de vários ataques, entre os quais

um, de origem
pressão exercidaasiático,
sobre oteve
paíslugar
negrosob
foi a nomeadamente
VIF dinastia. Porém, a pior
a das hordes
Hicsos, bá rb ar os de origem a siática. O sac erd ote egípcio, M anetho n,
refere:

26. Kodjo, Edem, op. cit,   pp. 86-87.

40 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

 
Sob o reinado de Timaios, a ira divina assol
assolou
ou o Egipto; sesem
m se saber porquê;
contra qualquer expectativa, hom ens de umumaa raça desconhecida, provenientes
do Oriente, ousaram invadir o país, apoderaram -se dele sem com
combate,
bate, tomaram
chefes como prisioneiros, iincendiaram
ncendiaram as aldeias selvatic
selvaticam
amente,
ente, saquearam os
templos dos deuses e ma
maltrat
ltrataram
aram duram ente os habitantes, degolaram uns e
reduziram outros a escravos com as suas mu mulheres
lheres e crianças.

Foi deste modo que, dur ante per to de dois séculos, de 1780 a
1 5 8 0 a.
a.C.
C.,, o Egipto
Egipto foi
foi sub m etido ao do m ínio ob scu ran tista dos Hicsos. A
libertaçã o do país só chega rá em 15 8 0, do Sul Sul,, da reale za de Tebas, p elo
rei Ka m ósis e o seu su ce sso r Am ósis 1, 1, que travaram um a v erda deira
guerra de libertação para conseguir expulsar estas hordas estrangei-
ras do Egipto. Edouard Schure, que se dedica a esta época, escreve:

Cerca do ano 2000 a.C., o Egipto atravessa a crise mais temível qque
ue um povo
possa atravessar: a da invasão estrangeira e de umumaa semi-conqu
semi-conquista.
ista..... Con
Con--
duzida pelos reis
reis pastores cham
chamados
ados Hicsos, esta invasão estendeu-se sobre
ocorromp
Delta ida,
e o Médio
corrompida, Egipto.  jónica,
a languidez Os  reis cismáticos traziam com eles um
umaharém,
o luxo da Ásia, os costumes do a civil
civilização
ização
um a
idolatriaa grosseira. A existência nacional
idolatri n acional do Egipto estava comp
comprometida,
rometida, a
sua intelect
intelectualidade
ualidade em perigo, a sua missão universal am ameaçada.^'^
eaçada.^'^

As hord as bárb ara s qu e não deixa


deixarão,
rão, contudo, de se ba se ar no EgiEgip- p-
to,
to , enfra qu ecerão o Médio IImm pério até sere m esc orra çad as do país
pa ís,, qu
quee
atravessará, no entanto, apenas um curto período de prosperidade alter-
nado com pequenos ataques exter nos imediatamente r epr imidos. To-
davia, a morte de Ramsés II em 1205 reavivou os ataques estrangeiros
contra o Egipto. Nomeadamente os dos povos do mar, de origem indo-
-europeia que, contrariamente aos Hicsos, não conseguirão ocupar o
Egipto, ainda que este se encontre num período de anarquia cada vez
m aior; es ta an arq uia le vará R am sé s 11111 a integrar, no exérc ito egípcio,
militares estrangeiros contratados enquanto estrangeiros auxiliares
sob o nom e de Kehek
Kehek,, ao llado
ado da arm ada n acional pro pria m ente dit dita:
a:
"Veremos que são os elementos estrangeiros, que nada relacionava
sentimentalmente à terra do Egipto, que provocarão a deliquescência
dos costumes políticos a partir de Psamético"^®, escreve Cheikh Anta

Diop, que prossegue:


... O  exército egípci
egípcioo desn
desnacionaliza-se.
acionaliza-se. Acaba por ser essencialmente uma
um a

randss  I niti és-,  Ed. Livre de Poche, p. 165.


27. Schure, Edouard,  L es G rand
28. Diop, Cheilch Anta,  A nté
ntériri ori té des
des Ci vi li sations N ègres. M ythe ou V éri té H i stori qu
quee?;   Ed.
Présence Africaine, 1967, pp. 169 e 171.

A rup tura da consc iência histórica afri cana: o p rincip al obstáculo p ara o renascinnento africano . 
africana: Bwemba Bong
Bong   41
 

arma da de mercenários
armada mercená rios livres ou semi-servis com
comandado
andadoss pelos seus chefes na-
cionais; só o alto coma
comando
ndo e alguns destacamen
destacamentos
tos de arqueiros perma
permanecerão
necerão
egicpios.... O processo atingirá o seu ponto culm
egicpios.. culminante
inante sob os usurpad
usurpadores
ores
líbios da XX VI- dinastia, ma mais
is precisamente sob Psam Psamético.
ético. É então que
os elementos nacionais de um a das guarnições
guarn ições da armada
arma da egípcia acanto-
nada em Daphne, em M océa e na Il Ilha
ha deAbu
deAbu recusar
recusaram
am obedece
obedecerr ao   rei e s-
trangeiro e partiram para oferecer os seus serviços ao rei de Cu Cuche,
che, do Sudã
Sudãoo
Nu biano; trata-se da expedição dosAu
dosAutomolos
tomolos de que fala Heródoto..P
Heródo to..P

Apesar de tudo, estes ataques estrangeiros esgotaram o Egipto, que


foi progressivamente enfraquecendo, sem jamais voltar a reencontrar
o seu esplendor, nem mesmo os seus territórios do Médio-Oriente,
par a mais tar de se desmor onar completamente sob os ataques suces-
sivos dos invasores Assírios, Persas, Gregos e, por último. Romanos.
Esta presença física de uma autoridade estrangeira nas terras do Egip-
to provocará grandes êxodos de Africanos que emigrarão em direcção

ao
do Centro da África,
povoamento actualaodaOeste, ao cujos
África, Sul, egrandes
que vãoImpérios
constituir(Gana,
uma parte
Mali,
Songhai, Monomotapa, etc.) vão, por sua vez, sofrer estas invasões
estrangeiras para finalmente se desmoronar, nomeadamente sob os
ataques dos Almorávidas. Em 1706, Gana, a capital, desintegrar-se-á:

Os Almorávidas tinham manifestado


manifestado uma cruel
crueldade
dade excepc
excepcional
ional aquando da
tomad a do Gan
tomada Gana:
a: os bens eram pilhados, os habitantes ma massacrados.
ssacrados. Após
esta interrupção de 10 anos, o Gana
Gan a será ainda atacado pelos vassalos Sossos,
mass conseguirá ma
ma manter-se
nter-se até ã investida da capital por Soun
Soundiata
diata Keita, em
1240.^°

Segund o Wa K am issoko, So und iata Keit


Keita,
a, que vai atrib uir ao Mali todo
o seu poder, levará a cabo uma guerra implacável contra os vassalos
Sossos, a fim de acabar com a escravatura e com o comércio de negros
que estes cortesãos, antepassados espirituais dos actuais presidentes
africanos autoproclamados, praticavam com os Árabes. Porém, o Império
do Mali será anexado pelo Império do Songhai que, durante a batalha
de Tondibi, será destruído por Marroquinos equipados com armas de
fogo e conduzidos
tral, os pelo eunuco
reinos do Kongo, Lunda,espanhol Djaderforam
Luba e Kuba Pacha. Na África Cen-
desintegrados sob
os ataques Europeus. As agressões contra a África Negra terão, por fim,
como ponto alto as razias negreiras transatlânticas que se prolongarão
duran te qua tro séculos, e que levarão
levarão cerc a de 4 0 0 m ilhões de Africano s:

29 . Diop, Cheikh Anta,  Ibid.


Cheikh
30. Diop, Cheikh Anta,   L'Afrique Noire Précoloniale:   Ed. Pré sen ce Africaine, p. 71 .

42 Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana
 

o tráfico, esta tragédia de mú ltiplas


ltiplas facetas, continuará a ser o empreen
empreendi-
di-
mento
men to ma
mais
is signific
significativo
ativo de escravização e de degradação do homem. hom em. Esta
agressão cruel, na qual praticamente todas as nações europeias participa-
ram... desorganizou a sociedade africana no seu mais profundo âm âmago.
ago. Ao
liquidar os Estados con constit
stituídos,
uídos, ao destruir as bases mo
morais
rais das sociedades
estabelecidas,
estabelecidas, ao saquear as estruturas de produção intectual e material e ao
deportar os recursos humanos mais vigorosos e mais brilhantes, o tráfico deixou
marcas
ma rcas indeléveis na consciência e na vida social ddos
os povos africanos^^
africanos^^,,

escreve Edem Kodjo.


Foram estas diversas invasões que provocaram a desestruturação
da sociedade, que se manifestará pela fuga desordenada das popula-
ções aterrorizadas. É deste m odo que os Estado s outrora constituídos,
apenas terão doravante uma existência efêmera, face à implementa-
ção do desenvolvimento de r einos de agentes negr eir os, à ascen-
são ao poder e ao triunfo de toda a espécie de criminosos arrivistas
totalmente corrompidos, colocados e mantidos no poder através das
armas dos países estrangeiros, tal como acontece hoje com a matilha
d e  presidentes-grandes-timoneiros-pais-da-nação,
 presidentes-grandes-timoneiros-pais-da-nação,   peritos em qualqu er
categoria de fraude eleitoral e outras trapaças ou vigarices reveladas.
O povo negro d eve, po r conseg uinte, te r con sciê nc ia de que as in- in-
vasõ es que fr fragilizaram
agilizaram a África Negra
Negra,, qu e per m itiram a sua ocu paçã o
pelos povos estrangeiros, bem como a deportação esclavagista de cen-
tenas de milhões de Africanos, só foram possíveis devido a numero-
sos factores, entre os quais o facto de os construtores de impérios, os
grandes chefes cercados por toda a parte, terem de combater simulta-
nea m ente em duas frentes: con tra os invasores ár abe s e ocidentais. N
Noo
plano africano, esta estratégia de deslocação da África Negra forçou,
no seu tempo, El Hadj Omar e Ahmadou Bamba a enfrentar a revolta
fula, enquanto combatiam os Franceses. Samory [antigo rei na actual
Guiné), por seu turno, cerca de 1890, estava em guerra contra os Fran-
ceses, ao mesmo tempo que se defendia contra Tieba, rei de Sikasso
(Mali); Behanzi (Benim), escorraçado do trono, viu o seu irmão Agon-
glo ser proclamado rei pelo sanguinário capitão Dodds; o Mohro-Naba
(actual Burkina Faso), enfraquecido pelos bandos Zerma provenientes
da região de Niamey, não conseguiu fazer face durante muito tempo à
barbárie da expedição francesa de 1896. No Tchade, as guerras con-
tínuas que se travavam entre os quatro Estados do Kanem-Bornou,
do Baguirmi, do Ouaddai e do Darfur, prestaram grandes serviços ao
invasor francês, que se instalou impiedosamente nesta região, e que
continua até hoje, tal como nas suas restantes possessões africanas.

31. Kodjo, Edem, op. ci


ci t.,   p. 96.

A rup tura da cons ciência histórica africana: o p rincip al obstácu lo p ara o renascinnento africano .  Bwemba Bong   43
 

a manipular a seu bel-prazer. Esta filosofia política é expressa por


Lyautey^^ que declara sem rodeios:

... a acção polític


políticaa é de longe a ma
mais
is iim
m portante; esta extrai o seu maior vigor
do conhecim
conhecimento
ento do país e dos seus habitantes Se existem tradições e cos-
tum es a respeitar, existem tam bém ódios e rivalidades que é necessário
tumes
desemaranhar
desema ranhar e utilizar em nosso proveito, opon
opondo-as
do-as um
umas
as às outras, apoi-
ando-nos sobre umas, para melhor vencer as  outras.^^

Por conseguinte, torna-se imperativo, para o povo negro em geral


e para a África Negra em particular, meditar tanto na história do seu
passado, com o na do seu presente. A Ass divisões
divisõe s suscitadas p elos desen -
tendimentos e pelas rivalidades são e serão sempre exploradas pelos
in tere ss es estra ng eiro s à África Negra e ao povo negro . As traiç õe s e as
ganâncias, que gangrenam a Áfri África
ca Neg
Negrara,, são frequ ente m ente devidas
à falt
f altaa de patriotism o de um grande nú m ero de Africa Africanos,
nos, con sequ ên-
cia da ruptura da sua consciência histórica. Foram estas dificuldades
que fizeram sombrear a África Negra, pelo erro passado de reis de-
masiado confiantes no estrangeiro, e hoje de arruaceiros de colarinho
branco, sedentos de poder, fonte de estipêndios de toda a espécie. A
desunião da África Negra, no presente e no futuro, não prejudicará so-
m ente o con tinente su bsaarian o, mas arrastá-lo -á para o caos inevitinevitável,
ável,
caso o povo negro, principalmente a sua juventude, não se manifeste
através de um so bres salto salutar; porq ue o ppovo ovo negro deve sa be r que
a r enúncia a qualquer desejo de independência r epr esenta também o
indício de uma traição:   A  lealdade a um a potê ncia estrangeira, m esm o
am iga, nu nca adqu iriu ou tros ares que não o de um a alta traição ". Para
além disso,
as elit
elites
es africanas devem con
convencer-se
vencer-se que os seus países não podem continuar
a ser o prolongamento das grandes potêncipotências
as e a amizade, se não mesmo
a cooperação, que se podem estabelecer devem ser exclusivas a qualquer de-
pendência, a qualquer subm issão ou servilis
servilismo
mo?'^
?'^

O s   países estrangeiros que colocaram e mantêm actualmente, no


poder da África Negra, déspotas cujo um dos objectivos consiste em
perdurar o máximo de temppo possível a fim de provocar o maior
número de estragos possível para a África Negra, são estes mesmos

32. P. Lyautey é citado por P. Guillaume in Le   M onde


onde Coloni al.   Ver também P. Lyautey,   L'Empire
Colonial Franç
Colonial  Français-
ais- ,  Ed. de France, 1931.
33. Kodjo, Edem, op. cit..   p. 109.
34. Kodjo, Edem, op. cit.,   p. 111.

4 Babacar Mbay e Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

que, há menos de um século, praticavam as razias esclavagistas que


con tinua m a san gra r a África e tod a a raça neg ra. Aqu eles nun ca foram,
e nunca serão amigos do povo negro. Esquecer isto seria não somente
co m ete r um erro grave, m as um a opção de ssuicídio.
uicídio. O povo african o
deve m obilizar-se para con cretiza r urgen tem ente a sua unidade polít
políti-
i-
ca, única garantia do futuro do povo negro.
A rup tura da consc iência histórica africana: o p rincip al obstá culo p ara o renascinnento africano .  Bwemba Bong
Bong   40

A gu erra do Bi
Biaf
afrr a: desinform ação e
manipulação dos média? Análise de
quatro diários importantes:  Le Monde,
Le Figaro, La Croix   e   L'Humanité
Momar  M ha
hayy e^

Introdução
Sete anos após a sua independência, a Nigéria entrou numa fase de
evolução política de rara violência. Em menos de seis meses, atraves-
sou dois golpes de estado sangrentos e caiu, em 1967, numa terrível
guerra civil. A tragédia fez, em dois anos e meio, mais de dois milhões
de m ortos. Provocou tam bém um a viva
vi va indignação interna cional e mo-
bilizou os méd ia do m und o inteiro. A im pre ns a fran ces a não esteve,
bilizou
portanto, isenta na cobertura de um acontecimento de tão grande im-
portância.
Para além disso, era fácil considerar-se devidamente informado a
partir do m om en to em qu e se mergulhava na im pren sa daquela época.
Só que estas certe zas foram ab aladas po r duas pub licações. Rém y Bou-
tet,   na terrível guerra do Biafra
tet, Biafra   (1 99 2] , est
estigmatiz
igmatizava
ava uma manipula-
ção dos média do hexágono através de agentes pro-biafrenses. Tal as-
serção foi con firm ad a num a obra ainda m ais rec en te. De fact
facto,o, Step han
Smith e Antoine Glaser retomaram, em 2005, na sua obra  obra   Pourquoi la
France a perduque
rice Robert, l'Afrique?, 
l'Afrique?,
afirmava   os ter
propósitos do antigo
influenciado chefe do
os média SDCE, Mau-
franceses para
despertar um sentimento de compaixão e de proximidade com o povo
biafrense junto da opinião pública. Para quem se interessa pela im-
prensa do hexágono nas suas relações com o continente negro, tais
revelações não podiam, evidentemente, provocar indiferença. Decidi-
mos então, por forma a adquirir uma visão clara, olhar atentamente
para o tratamento desta guerra nos quatro periódicos nacionais de
tendên cia e de obed iência diversa
diversas.
s. Procu rarem os, deste modo , analisa r

1. Doutorando da Universidade de Rouen, departamento de História/GRHIS

A g uerr a do Biafra: des infor ma ção e manip ulaçã o dos média ? Análise de q uatro diários imp ortantes ... .  Momar Mbaye A7

sucessivamente o lugar ocupado por tal acontecimento nas tentativas


de explicação do conflito, os temas privilegiados, bem como as aborda-
gens e as posturas adoptadas aqui e ali.

1. As causas
Os diários e semanários franceses que cobriram o conflito biafrense
não ignoram um factor pri
primo
mo rdial
rdial.. O Estado africano, cujas op eraç ões
são o palco, é muito pouco conhecido pelos seus leitores. Por muito
que seja uma das mais povoadas e mais ricas do continente africano,
a Nigéria não dispõe, de todo, da celebridade da Costa do Marfim. A
sua pertença ao mundo anglófono é uma das suas razões. Por outro
lado, referir acontecimentos que ali se sucedem requere, por parte da
maioria dos jornalistas, muita pedagogia; daí a profusão dos artigos
que se empenharam em explicar os motivos do conflito. As causas con-
sideradas são, como é evidente, variadas consoante se considere um
ou outro jornal.

1.1. As causas passadas e imediatas


Num artigo do do   La Croix, 
Croix,  datado de 19/9/1968, com o título mais
evocador relativamente às causas do conflito, Yves-Guy Berges con-
sidera que a velha rivalidade entre os Igbos do sudeste e os Hausas
do norte tinham atingido o seu paroxismo. E este estado de coisas
conduziu inevitavelmente ao rebentamento do conflito. Ao mesmo
tempo que reconhece esta velha oposição, o diário da rua dos Italianos
[Le Monde) 
Monde)   consider a tam bém , no que con cer ne ao desenc adeam ento
da guerra, os erros dos homens políticos nigerianos dos inícios da in-
dependência. Segundo o especiaUsta da casa, Philippe Decraene, as
ambições e os erros do general Ojukwu, chefe da rebelião, têm muita
r esponsabilidade no r ebentamento da guer r a. D o mesmo modo, este
rotula o general Ironsi, efémero chefe de Estado de Janeiro a Julho de
1966. Este último, relembra o autor, para evitar surgir como o presi-
dente unicamente do povo Igbo, de onde é originário, aproximou-se
dos oficiais Hausa dos seus arredores, semeando simultaneamente os
germes da vingança nordista; acto este que não era negligenciável en-
tre os itineran tes do sepa ratismo . Perc ebe -se assim, de acord o com es-
tas prim eiras exp licações, a extens ão das oposiçõ es étnica s na Nigér
Nigéria
ia..
Um tribalismo factor de divisões representa igualmente um elemen-
to altamente inflamável. Esta chamada de atenção foi pr ontamente

48 Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

retomada por quase todos os jornais. Todavia, o o   Le Monde 


Monde  apr esenta
um contributo histórico.
Na sua publicação de 14/01/1970, isto é, no momento da reedição
biafrense, Decraene, sem dúvida para alertar os beligerantes para
uma maior responsabilidade, volta de modo significativo à evolução
histórica do país, do domínio inglês ao putsch de 1966. Este fornece os
detalhes acerca do modo como os britânicos exacerbaram as divisões
étnicas ao prestar mais consideração ao norte. Do mesmo modo, tam-
bém não esquece os primeiros líderes políticos cujas formações eram
apenas caixas de ressonância da sua região de origem.
Porém, poderemos de facto afirmar que a guerra do Biafra se ex-
plica pela excerbação do ódio entre Igbos e Hausas? Com efeito, são
numerosos os países africanos atravessados por esta linha de partilha
entre o Sahel e a floresta. E, no entanto, só um país é que conheceu
a guerra civil. Assim, não teria havido outros factores agravantes? É,
de resto, a opinião de 
de   L'Humanité. 
L'Humanité.  Às afirm açõ es do diário
diár io de extrem a
esquerda, a tendência em ver o tribalismo em todos os conflitos afri-
canos resulta de um velho reflexo colonial. R. Lambotte conclui que
mesmo caso a oposição étnica exista, esta permanece insuficiente. Os
desafios econômicos ocupam uma posição pr eponder ante. A r iqueza
petrolífera do Biafra levou
levou os cap italistas a incen tivar Ojokw u à rebe lião .
Reconhece-se aqui a posição de um jornal de opinião profundamente
anticapitalista. Porém, o órgão do PCF não foi o único a intrometer-se
noutras causas.

1.2. As causas estratégicas e económicas


Le Monde, 
Monde,  à sem elha nça dos jorna is ddee dire
direit
ita,
a, tom a em conside ra-
ção tais motivações. Decraene, num artigo de 23/11/1967 consagra à
análise das causas um capítulo intitulado: 
intitulado:   um odor a petróleo.
petróleo.   Encon-
tr amos apr oximadamente o mesmo título no  no   La Croix 
Croix  d e 1 3 / 0 1 / 1 9 7 0 :
o  petróleo responsável
responsável   O periódico fundado por Beuv e-M ery cons idera
que o general Ojukwu deliberou a sua rebelião porque este media a
prosperidade do seu território em ouro negro, e estava convencido do
apoio das gran des co m pan hias petrolíferas. O diári diárioo católico abun da
no mesmo sentido e aproveita para escarnecer a política das grandes
empresas, cuja busca pelo lucro ultrapassou as considerações huma-
nas. Quanto ao ao   Fígaro, 
Fígaro,  este acre sce preo cup açõ es estratégicas aos
motivos económicos. Deste modo, Jean-François Chauvel  Chauvel   [Fígaro 
[Fígaro  d e
18/11/1967) compar a o Biafr a ao Congo. Este consider a que o con-
flito ultrapassa o mero âmbito africano. Neste território, trava-se uma

Biafra: desin form ação e ma nip ula ção dos média? Análise de q uatro diários imp ortan tes... . 
A g uerra do Biafra: Momar Mbaye A7

luta de influências entre britânicos e soviéticos para adquirir a explo-


ração dos recursos férteis do sudeste nigeriano, conclui o autor Aliás,
o jornal desenvolve de modo considerável a posição soviética, que con-
sidera dominada pela velha política árabe. A URSS apoiaria o governo
federal, tendo em conta que este é representante dos muçulmanos do
no rte face aos cristão s do sul
sul.. Pen etra-se, deste m odo, plen am ente nas
causas religiosas.
1.3. As cau sas religiosas
Não é, segundo nos parece, de todo surpreendente que um jornal de
obediência religiosa seja o porta-voz desta posição. Sigamos, sobre-
tudo, os propósitos de Yves-Guy Berges:

... os Igbos e os Hausas não têm nada em comu


... comum,m, nem a lílíngua,
ngua, nem a rel
religi
igião,
ão,
nem o cliclima....
ma.... No norte, os Hausas, 29 milhões, muçulm
muçulmanos
anos convict
convictos,
os, man-
tidos durante a idade m édia por um sistema feudal alimentado pelos emires....
No Leste, oslgbos, 12 milhões, cristãos, cucuriosos,
riosos, abertos a tudo, confiantes - e
mesm o orgulhosos - e impregn
impregnados
ados sem complexo
comp lexo pela civili
civilização
zação britânica
[La Croix, 11/09/1968].

O referido diário é ainda mais explícito. Na sua manchete do mesmo


dia, coloca em evidência um soldado biafrense ferido e não hesita em
inserir um cliché de um soldado biafren se: o doc um ento "ilustr
"ilustraa clara-
mente o perfil de guerra da religião desta luta terrível". O   Le Mon
Monde,
de,
não sendo tão categórico, converge em alguns aspectos no mesmo
sentido. Assim se vê Decraene, na sua tentativa de explicar a falta de
apoio ao Biafra por alguns dirigentes africanos, sublevar o móbil reli-
gioso no seu comportamento. Os países do Magrebe, sustenta o autor,
exceptuando a Tunísia, são anti-Biafra por solidariedade muçulmana.
Do mesmo modo, alguns líderes da África Negra adoptam a mesma
postura para agradar às suas populaçõ es forte m en te islislam
am izadas; ta
tall é
o caso de Se ng ho r Tese sujeita a revisão, um a vez que o au tor n egligen-
cia as causas frequentemente avançadas, certas ou erradas, por estes
dirigentes: o respeito rigoroso das fronteiras herdadas da colonização
(carta da OUA]. Este contenta-se, de certo modo, com um processo de
intenção. Temos também o direito de questionar se a evocação das
causas religiosas não se enquadrará numa lógica especial: despertar
as consciências ocidentais face ao drama.

50 Babacar Mbay e Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afr ican a

2. Horrores e responsabilidades
Com mais de dois milhões de vítimas, esta guerra foi mais mortífera
do que a do Vietname e claramente mais sangrenta do que a do Próxi-
mo-Oriente. Foi um horror indescritível que a imprensa, no entanto, se
esforçou por colorir.

2.1.  O  horror absoluto


Uma série de reportagens efectuadas no campo de batalha pelo
esp ecia lista da casa do diário da rua dos Italianos faz um gran de plano
sob re a inom ável situação do BiBiafra
afra.. Sigam os antes De craen e:

... o 
o   capacidade norm al deste conjunto hospitalar é de vinte e quatro cama
camas,
s,
e existem actualmen
actualmente
te oitocentos pacientes auferidos, entre os quais alguns
estão imobilizados há três meses... urinas, excremen
excrementos,
tos, pus, med
medicamentos,
icamentos,
compõem odores mefít mefíticos
icos que lembram o de um estáestábulo
bulo sobreaquec
sobreaquecido.
ido.
M
umasocidental
existe algo de mais amarg
dificilmenteamargoo e m ais
suportaria...   E violento
ma
mais nestespode
is adiante, odores,
aindaqueler-se:
o olfacto de
existem
velhos que expiram, porque é necessário salvar os ma mais
is jovens. Indivíduos
extremam ente feridos no rosto, para os quais não se dispõe de nenhu nenhuma ma pró-
tese; tal com
comoo estes três soldados com os m axilares inferiores triturados, onde
umaa cabaça ocupa o lugar do queixo... hom
um homens
ens estilhaçados sem olhos, sem
nariz, sem pernas, mulheres que vão morrer porque já não há plasma nem
sangue para fazer transfusões. 
transfusões.  (L
(Lee Mond
Monde, e, 7/ 05/ 19 69)

E o artigo produzido três dia mais tarde sobre a grande miséria das
populações civis é do mesmo nível. Coloca em evidência uma enorme
penúria alimentar, para além da falta de medicamentos. Esta situação
provoca um aumento exponencial da taxa de mortalidade no Biafra.
Este jornal não foi o único a enfatizar a extrema pobreza das popu-
lações biafrenses; o órgão católico também não, de resto. Para além
destes textos, este diário distingue-se sobretudo pela imagem. Deste
modo, na manchete de 14/02/1969, obser vam-se cr ianças com uma
magreza indescritível a vir recolher a alimentação distribuída por
organizações humanitárias. Segundo a mesma ordem de ideias, um
gr
do ande
Biafra,título
  aco mem
Biafra,  panpr
haimeir
umaa insuportável
página de 13/01/1970: 
13/01/1970:   o final
foto de criança dram
dramático
m acilenta ático
com
o seguinte comentário: "no olhar desta criança, toda a miséria dos
famintos". Esta propensão para mostrar o horror mais absoluto par-
ticipa em dois princípios: em primeiro lugar o de designar os vários

A g u e r r a d o  Bi
Biafra
afra desinform
desinformação
ação e man ipulação d o s m é d i a ? A n á l i s e d e q u a t rroo d i á r iioo s i m p o r t a n t e s . . . .  Momar Mbaye A7

 
responsáveis por esta hecatombe; depois, despertar as consciências
amolecidas do Ocidente.

2.2. A responsabilidade das grandes potências e das


opiniões publicas
As grandes potências e as organizações internacionais, devido à sua
inépcia e à sua participação mais ou menos activa neste conflito, são
em p rime iro lugar as respo nsáv eis pelo terríterrível
vel confronto. Este pa rece
ser o estado de espírito de numerosos jornais.
O   La Croix, 
Croix,  depois da derrota do Biafra, salienta em letras grandes
o título: 
título:  guerra na Nigéria e responsabilidades internacionais
(13/01/1970). Neste ar tigo, Lucien Gussar d estigmatiza o mutismo
das potências. Este admite que as consider ações políticas e económi-
cas or ientar am o o   silêncio 
silêncio  das na çõ es po de ros as. Mas à falt
faltaa de cuida-
do destes países, devem acrescentar-se, conclui o autor, as carências
da or ganização inter nacional. Aliás, desde dia 7/08/1967, ou seja,
pouco tempo depois do início das hostilidades, um édito do
Le Monde 
Monde   fazi
faziaa em erg ir o iso lam en to do Biafra na cena intern acio na l.
A este isolamento, acresce o naufrágio. E o jornal apela, para fazer
face à situação, a uma reacção rápida que acabe com os erros, em
todo o caso par tilhados pelos beliger antes, mas também e sobr etu-
do, à necessidade de for çar as duas potências negociantes de ar mas
na Nigéria, a Grã-Bretanha e a URSS, a cancelar as suas entregas. O
diár io de extr ema esquer da abunda cer tamente no mesmo sentido,
ao criticar a obra dos grandes países, mas o seu propósito visa o in-
ver so dose na
duração outrcrueldade
os. Este acusa aber tamente a implicação fr ancesa na
da guerra.
Outr o factor é fr equentemente lembr ado como sendo par te r espon-
sável pelo naufrágio: a indifere nça das opiniões o ciden tais. São inú m ero s,
de facto, os jornalistas que denunciam o silêncio egoísta no massacre
das populações biafrenses. Porém, as justificações apresentadas para
este distanciamento variam de um diário para o outro. Para o   La Croix
de 16/09/1968, as opiniões ocidentais, em particular francesas, não
estão preocupadas com os infortúnios biafrenses devido aos média,
po r um lado, e a ho m en s políticos, po r outro lado. Os prim eiro s desin-
teressaram-se pela Nigéria pelo facto de a leitura ideológica actual não
se r ali
al i apli
aplicável
cável.. Quant
Quantoo aos polít
políticos,
icos, estes pe rm an ece m trag icam ente
enterrados numa abordagem da África completamente falseada.
François Debré (Le  (Le   Monde, 
Monde,  1 3 / 0 1 / 1 9 7 0 ) c o n s i d eerr a q u e o a b a n d o n o
das opiniões ocidentais, defensoras dos direitos do homem e dos povos
46   B a b a c a r Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

em dispor de si próprios, contribuiu grand em ente p ara a desm oraliza-


ção dos biafrenses, motivo final da derrota. Outros responsáveis foram
igualmente designados: estes são, entre outros, os líderes africanos e
o governo nigeriano.

2.3. As responsabilidades dos líderes africanos e de


Lagos
Desde o início, foram vários aqueles que viram uma repetição do
Katanga na secessão biafrense. Este conflito fratricida emergente no
Congo marcou profundamente as consciências africanas da época. E
o irredentismo dos igbos parece confundir-se com o de Tschombé, o
que explica
expl ica a denú ncia qu ase unâ nim e por parte dos llíderes
íderes africanos.
No Le Monde de 19/09/1968, o antigo director do centro CHEAAM
[Centre des HaHautes
utes Études Asiatiques etAfricaines M odernes)
odernes)   sub linha a
grande prudência dos presidentes africanos. Estes estariam, segundo
os jornalistas, tão aterrorizados com a idéia de assistir a uma revolta
desta natureza nos seus países, que adoptaram uma postura inflexível.
No entanto, diários como o  o   La Croix 
Croix  consideram que ao adoptar esta
postura e, sobretudo, ao incitar a OUA e a ONU a proceder do mesmo
modo, os homens dos Estados africanos ficaram profundamente com-
prometidos com aquilo que designam doravante de genocídio.
Outro dos responsáveis é o governo de Lagos. Por várias vezes, este
apresenta-se sob uma aparência intransigente. Aliás, o título do  do   L e
Monde   a 19 / 08 / 19 68 não est
Monde esteve
eve com r odeios no que con cer ne ao frfra-
a-
casso das negociações de Adis-Abeba. A mesma acusação é levantada
pelo   La Croix, 
pelo Croix,  relativamente ao fracasso, aquando da cimeira da OUA,
em Setembro de 1968, em Argel. Deste modo. Lagos aparece muitas
vezes como um violento agressor, cujo objectivo principal não consiste,
de todo, em negociar, mas sim em levar o Biafra a cair, sem qualquer
outro proc edim ento. Po rém, em vári vários
os artigos,
art igos, dois factores primo rdi-
ais reto rn am a este co nflito: a solu ção a ad op tar e o papel do hex ágo no.

3. Soluções e papel da Fr an ça
Durante todo o conflito e até à sua finalização, os jornalistas não
deixaram de esboçar soluções para a sua resolução. Estas foram, de
um modo geral, a favor do povo biafrense. Todavia, uma vez a derrota
consumada, foi um apelo à indulgência e à responsabilidade que foi
frequentemente dirigido ao governo federal.

A g uerra do Biafra: desin form ação e man ip ulaçã o dos méd ia? Análise de q uatro diári os imp ortantes... . 
diários Momar Mbaye A7

3.1. As soluções

As razões geralmente invocadas para fornecer apoio à secessão


prendem-se com aquilo que os média consideraram como a bravura e
a determinação dos insurgentes.

3.1.1. Socorrer o corajoso povo biafrense

Em meados do ano de 1968, o país biafrense foi reduzido drasti-


camente, daí a alcunha que lhe é associada. Assiste-se, desde logo, à
produção de uma série de artigos exaltando a resistência do povo igbo,
a sua organização e sobretudo a ajuda substancial de que necessita:
Jacques Madole [cf  [cf   Le Monde, 
Monde,  30 / 06 / 19 68 ), num a tr ibuna int
intit
itulada
ulada
Biafra,  proc ura llevar
pelo Biafra,  evar o povo francês a tom ar consiênc ia da ago-
nia de um povo seria m en te nec essitad o de apoio. E , um a sem an a m ais
tarde, Philippe De craen e, num texto com um título mais do qu e ilustra-
tivo:   um para quatro,
tivo: quatro,   men cionava a gr ande deter m inação dos seces-
sionistas face à esmagadora superioridade militar dos federais. O   L e
Figaro   precip ita-se no jogo com um artigo ab erta m en te c om placen te.
Figaro
Este apela ao auxílio de um povo corajoso certamente em aflição, mas
resistindo com todas as suas forças para conservar aquilo que lhe é
m ais caro - a sua libe rda de e a sua ind epe nd ênc ia. O seu retra to do
general Ojukwu, representado de acordo com os traços de um homem
íntegro, discreto e escolhido pelo imenso povo biafrense para conduzi-
-lo à augov
antigo tod ernad
eterm or
inade
çãoEstado
, particdo
ipasudeste
des ta llógica.
ógica.
pelo   LeAliá
pelo Aliás,s, a ap
Monde,
Monde,    ares en taç ão do
  VijQXIVòlÇi,
após a derrota, dá a conhecer um nacionalista, certamente ambicioso,
mas r igor oso e íntegr o. Por ém, somos tentados a afir mar que é o
jornal católico que fornece claramente as causas do apoio. Nas suas
edições de 11 e 12/09/1968, sob a autoria de Yves-Guy Berges, o  o   La
Croix   apela abertamente ao Ocidente para que participe na secessão,
Croix
um a vez que os igbos são os esta nd arte s do s valo res do Ocidente na Ni Ni--
géria. Ab ando nar o Biafra seria equivalente a renega r os seus próp rios
princípios. As nu m ero sas rep ortag ens do do   Le Monde, 
Monde,  que adm iram o gê-
nio extraordinário e a organização estatal do Biafra, participam neste
apelo [cf. 
[cf.  Le Monde, 
Monde,  1 0 / 0 9 / 1 9 6 8 e 0 8 / 0 5 / 1 9 6 9 ) .
No final
fi nal do confl
conflito,
ito, as preo cu pa çõ es foram outras. Doravante, já n ão
se trata de definir um novo funcio nam ento da federaçã o nigeriana.

54 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

3.1.2. Repen sar a federação

Na verdade, desde 1967, alguns artigos chamam a atenção para a


inadequação da guerra no que concerne ao regulamento das tensões
internas. No último capítulo da sua série de reportagens consagradas à

Nigéria,
da voz da Philippe
razão. Decraene
O autor (cf. Le
(cf.  Le M onde
preconiza onde,,  23/11/1967]
uma partilha deapela ao privilégio
esforços nos dois
camp os. O Biafra de deve,
ve, segundo lhe parece, renun ciar ao sepa ratism o
e favorecer a pro m oçã o de um hom em m eno s m arcad o pela revolta, revolta, tal
como o Dr. Okpara, antigo primeiro-ministro de Estado do sudeste. Do
lado governamental, muita paciência deve ser posta em prática para
integrar os secessionistas. Em suma, as etnias minoritárias deveriam
ter mais representação para evitar a tripolarização étnica, vector das
realidades pronunciadas.
N o   La Croix 
Croix  d e 15/01/1970, Antoine Weng er retorna à problemátic a
da unidade. Este considera que é necessário operar uma reformula-
ção da estrutura tradicional, uma vez que o país, tal como está, ainda
contém os germes intrínsecos do conflito. A sua observação dirige-se
também aos Africanos que consideravam que a guerra era apenas re-
sultado de manipulações imperialistas. Segundo a mesma ordem de
ideias, Jacques Madole, num artigo intitulado: 
intitulado:   para os vencidos, 
vencidos,  con-
traria o velho hábito ddaa história que tend e frequ en tem ente a con den ar
os vencidos. Este pretende que o sacrifício dos Igbos possa abrir os
olhos à c omunid ad e humana e fazer c om que as c aus as d a revolta
sejam apagadas definitivamente.

3.2. Paris e o conflito

3.2.1. Uma política louvável


À semelhança das grandes potências mundiais, o papel da França
nesta crise biafrense terá m obili
obilizado
zado n um ero sos artigos.
arti gos. Est
Estes,
es, na sua
maioria, criticaram severamente a implicação da Inglaterra e da URSS,
cujoBiafra.
no apoio Esta
ao poder central das
valorização esteve na origem de catástrofes
responsabilidades britânica e inauditas
soviética
justifica-se pela necessidade de magnificar a acção da França. Esta foi,
segundo numerosos especialistas dos diários considerados, orienta-
da por meras preocupações humanitárias. Tal acontece no artigo de
•Pierre Limagne, no 
no   La Croix 
Croix  de 13/01/1970, segundo o qual o conflito
revelou os costumes políticos dos grandes países, cuja actuação per-
manece interessada e profundamente marcada pela cultura colonial.

a: d e s i n f o r m a ç ã o e m a n i p u l a ç ã o d o s m é d i a ? A n á l i s e de quat ro d i ári os i m porta ntes ... .  


A g u e r r a d o B i a f r a: Momar Mbaye A7

E o j o r n a l i s ta co ns i d e r a qu e a F r a nça , qu e d i s p õ e d e u m a r e p u ta çã o
e x c e p c i o n a l  n o m u n d o i n t e i r o , s e d i s t i n g u i u p e l a j u s t i ç a d a s u a
a c t u a ç ã o ,  aliás, altamente apreciada no Biafra. Este ângulo de análise
é p a r ti l ha d o p o r F hi l i p p e D e cr a e ne no 
no   Le Monde 
Monde  d e 1 3 / 0 9 / 1 9 6 8 . E s t e
dd ea mo
r onsBtri aaf, r anop sr eo uv édmo cu
s i me
mpnto , qunte
l e s me e a dde e te
p rremi napçã
o cu o ef sr a nce
a çõ s a niptá
hu ma a rrai aasj ue-
diplomáticas. Isto porque, perante o mártir do Biafra, Paris não
p o d i a p e r ma ne ce r i ns e ns í v e l . Pa r a a l é m d i s s o , a d e te r mi na çã o d o s
insurgentes é prova real do seu apego à liberdade e ao direito à auto-
d e t e r m i na çã o qu e Pa r i s nã o p o d e r i a ne g l iigg e nci a rr.. O j o r na l i s ta a f a s ta
prontamente as acusações errôneas de Lagos relativamente à defesa
d e a l g u ns iintente r e s s e s f r a nce s e s . O m e s m o d e m o ns tr a , p o r f o r m a a f u n-
d a me nta r o s e u p r o p ó s i to , a e x tr e ma f r a g i l i d a d e d o s i nv e s ti me nto s
franceses na Nigéria.

3.2.2 . Uma acu


acusação
sação indevi
indevida
da

Im ed iatam en te após o ressu rgim en to da rebelião, o pre side nte


nigeriano, o general Gowon, decidiu punir alguns países pela sua par-
ticipação no auxílio prestado ã região em causa. Esta decisão de Lagos
a cu s a a b e r ta me nte Pa r i s d e te r s i d o u m d o s p r i nci p a i s co ns p i r a d o r e s
do Biafra, e por conseguinte, o grande responsável pelo sangue der-
r a ma d o e m s o l o ni g e r i a no . S i tu a çã o p o u co p r e s ti g i a nte p a r a o p a í s
dos "direitos do homem", que se vê asssim considerado equivalente a
outros países com reputação pouco invejável: Portugal, África do Sul e
Rodésia.
O j o r na l d e e x tr e m a e s q u e r d a r e to m a , p o r s u a v e z , e s ta a cu s a çã o
demonstrando a agitação dos franceses relativamente ao Gabão,
bastião do hexágono por excelência. Contudo, os outros jornais da
praça não fizeram eco à análise de  de   I'Humanité. 
I'Humanité.  C o n s i d e r a m a nte s qu e
a a cu s a çã o ni g e r i a na é to ta l me nte i nf u nd a d a . D e s te mo d o , ,   Le Figaro
a f i r ma qu e u ma ta l d e ci s ã o p o r p a r te d o g o v e r no ni g e r i a no e nce r r a
objectivos
1 5 / 0 1 / 1 9 7muito
0 d o  pouco  louváveis.
o   Figaro, 
Figaro, co ns ide ra Thierry
qu e a exclu Desjardins,
são da Fra num nç aartigo
se justi- do
f i ca p e l o d e s e j o d e L a g o s e m o p e r a r u ma p a ci f i ca çã o d e s e j a v e l me nte
s e m t e s t e m u n h a s . O m e s m o jjoo r n a l p e r s i s t e n o m e s m o s e n t i d o . E A n -
dré Fossard, respondendo à acusação de colisão de Paris lançada por
u m j o r na l i s ta i ng l ê s i m e d i a ta m e n te a s e g u i r à g u e r r a , co ns i d e r a qu e s e
a França é culpada, não é de modo algum pelo facto de ter financiado
e s ta g u e r r a , m a s s o b r e tu d o p o r te r s e g u i d o p o s i çõ e s i r r e s p o n s á v e i s d e
governos trabalhista e socialista que deixaram o massacre prolongar-se

56 Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

em nome de princípios não declarados. Esta defesa do papel da França


e m e r g e t a m b é m n o 
o   Le Monde 
Monde  de 16 / 0 1/ 1 97 0, so b a au toria de JVI VIiich el
Tatu:o jorn alista in sur ge -se con tra a acu saçã o dirigidirigidada à França . Segun-
do este, os motivos evocados pelos Nigerianos são demasiado frágeis.
Porque não somente Paris jamais se entregou a dotar massivamente o
Biafra com armas, algo de resto confirmado pelo general Ojukwu, mas
também o seu reconhecimento nunca foi oficial. E a sua actuação ja-
mais foi mais do que humanitária. Ter-se-á constatado, nesta reflexão
acerca dos diários em torno do papel da França, que são inúmeros os
pa râm etros a ter em conta. O contex to de gue rra fria f ria da ép oc a con -
tribui d e alg um mod o para as c onc lus ões d o  o   l'Humanité. 
l'Humanité.  A defesa
da pátria manchada e a velha rivalidade anglo-saxónica constituíram
motivações que não são negligenciáveis relativamente à compreensão
das observações do  do   Le Monde 
Monde  e d o   Le Figaro.

Conclusão
No final desta análise, muitos factores são de salientar no que con-
cerne à cobertura dos acontecimentos nigerianos pelos diários tidos
em consideração. A larga implicação do 
do   Le Monde 
Monde  e d o   La Croix 
Croix  cor-
responde àquilo que deve ser salientado em primeiro lugar A multi-
plicidade de artigos consagrados ao acontecimento e a diversidade
de jornalistas que se dedicaram ao problema tornam públicas a sua
verdadeira preocupação. O  O  Le M onde
onde   cum pre o seu papel de diário de
referência pela diversidade das suas temáticas e o seu objectivo de dar
cobertura ao mundo inteiro. Jornal de obediência religiosa, profunda-
mente agarrada às questões humanitárias, o  o   La Croix 
Croix  não podia, por
força de alguns vestígios religiosos aplicáveis ao conflito, permanecer
indiferente ao drama. Quanto aos dois jornais de opinião que são o
Figaro e l'Hum anité, 
anité,  este s foram sem dúvi dúvida
da influenc iados pelas suas
respectivas ideologias. Fundamentalmente ancorada por detrás da
União Soviética e abertamente anticapitalista, o  o   l'Humanité 
l'Humanité  adoptou
frequentemente uma perspectiva de análise bastante interessante. Por
motivos quase similares, o  o   Le Figaro, 
Figaro,  porta -es tand arte d a band eira
do conservadorismo francês, apoio decisivo do governo federal, nem
sem pre ffoi
oi de um a sincerida
si ncerida de irrepreensível.
Para além disso, podemos também concluir a presente reflexão, a
propósito de uma eventual manipulação da imprensa francesa por
agentes pro-biafrenses, afirmar que os jornais mantiveram mais ou
m en os a sua llinha
inha editorial tradicional. M esm o que, de um u m m od o g eral,
o destino desastroso do Biafra tenha sido partilhado, não podemos

A guerra d o Bi afra: d es i n form aç ão e m ani pu laç ão d os m éd i a? A náli s e d e quatro d i ári os i m porta ntes ... .   Momar Mbaye A7

afirm ar que se tenh a tratado rea lm ente de um a m anipulação ou de uma


distorção proveninente de não se sabe que serviço secreto. Porque  Porque   L e
Monde   p r o c u r o u d e v á r i a s f o r m a s d a r a e n t e n d e r o s e u p r o p ó s i t o .
Monde
Aquilo que se deve reter, definitivamente, é a ausência de distancia-
mento mais ou menos observada em praticamente todos os jornais,
o que se explica através de antolhos petrificados sobre o mundo e a
África e dos quais se demarcaram muito pouco.

Referências Bibliográficas
Os Jornais:
La Croix-,   0 6 / 0 8 / 1 9 6 8 ; 1 0 / 0 9 / 1 9 6 8 ; 1 1 / 0 9 / 1 9 6 8 ; 1 2 / 0 9 / 1 9 6 8 ; 1 9 / 0 9 / 1 9 6 8 ;
13/0 1/19 70; 15/0 1/1970.
LeFigaro-,  1 8 / 1 1 / 1 9 6 7 ; 0 9 / 0 9 / 1 9 6 8 ; 1 3 / 0 1 / 1 9 7 0 ; 1 4 / 0 1 / 1 9 7 0 ; 1 5 / 0 1 / 1 9 7 0 .
L'Humanité-.  1 6 / 0 8 / 1 9 6 8 ; 1 3 / 0 1 / 1 9 7 0 ; 1 4 / 0 1 / 1 9 7 0 ; 1 6 / 0 1 / 1 9 7 0 .
L e M onde:
onde:  1 8 / 1 1 / 1 9 6 7 ; 1 0 / 0 6 / 1 9 6 8 ; 0 7 / 0 7 / 1 9 6 8 ; 0 2 / 0 8 / 1 9 6 8 ; 1 9 / 0 8 / 1 9 6 8 ;
21/0 8/19 68; 19/09/1 968 ; 08/05/196 9; 09 /05/19 69; 13/0 1/19 70; 16/0 1/1970 ;
20/01/1970; 14 /11 ^9 70 .

As obras:
B o u t e t , R . ( 1 9 9 2 ] . " L ' e f f r o y a b l e g u e r r e d u B i a f r a " i n   R evue A fri qu
quee conte
contempomporairai ne
ne-,-,   vol.
n.2 14, Paris.
G l a s e r , A . e S m i t h , S . ( 2 0 0 5 ) .   C omment
omment la Fr ance a pe perdu
rdu l'A fr i que.
que.   P a r i s : e d . C a l m a n n -
-Lévy.
S i t b o n , M . ( 1 9 9 8 ) . "L e B i a f r a o u b l i é " i n   U n génoci
génoci de sur la conscienceconscience-,-,   P a r i s , p p . 4 0 - 4 8 .
V e r s c h a v e , F - X . ( 1 9 9 9 ) .   L a Fr ance A fr i que. que. L e plus long s candale candale de la républi
républi que.
que.   P a r i s :
ed. Stock.

58 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

Fran
Fr an cês/líng
cê s/líng u as afric
afr icanas:
anas: colonizaç
col onizaçãoão
lingu
li nguísísti
tica
ca o n tem e hoje,
hoje, aqui
aqui e al
a li
Bernard Zongo'

Introdução
o título da com un icaçã o p od e suscitar,
susci tar, a alguns, um ce rto travo a vi
vin-
n-
gança ou sugerir, a outros, um eco de "dejà-entendu" devido à evidên-
cia deste termo historicamente situado e consensualmente conotado:
"colonização". Porém, é forçoso reconhecer-se, com Cheikh Anta Diop,
que a restauração da consciência histórica do homem negro, na sua
dimensão linguística no que nos concerne, constitui uma luta perma-
nente de tal modo os esforços são numerosos e persistentes, de  de   tal
modo as instâncias de dominação jamais incorrem em falta de imagi-
nação para preservar o seu estatuto. E é precisamente a ligação que
necessitaremos estabelecer, entre a ideologia reivindicativa e reabilita-
dora do egiptólogo africano e o objectivo dos propósitos que terei em
consideração.
O m eu colega Cheikh M'Ba cké Dio Dio p ^ relem bra va o ntem , justa -
mente, o mod o c omo os ps eud o-c ientí fic os ou ps eud o-humanis tas
(Voltaire, Hegel, Gobineau, Bruhl, Hume], desde cedo, mas particu-
larmente no século XIX, se aplicaram a legitimar, no plano moral e
filosófico, a inferioridade intelectual decretada do Negro, e travestiram
os dados científicos para colocá-los ao serviço de uma ideologia de
s ubmis s ão/d ominaç ão d o neg ro; atrever-me-ia a d izer d o homem
negro, mas para tal era necessário que o seu estatuto fosse reconhe-
cido.
ci do. O âm bito d a linguística não esc ap ou a este trab alho de alien ação ,
d e rejeiç ão, d e neg aç ão c onc eptualizad a por ling uis tas e outros
ped ag og os d a es c ola afric anis ta franc es a, apoiad a e inc entivad a por

1. Doutorado em Letras, Professor certificado em letras modernas, responsável de curso na Uni-


versidade de Rouen.
2. Cf. pp. 90-116 da presente obra.

F ranc ês /lí nguas afri c anas : c oloni zaç ão li nguí s ti c a ont em e h oje, aqui e ali .   BernardZongo 59

instituições nomeadas, como por diversão, de francófonas. Segundo


este ponto dea vista,
sem dúvida, forma podemos afirmar que
mais conseguida, o conceito
devido de francofonia
à eficácia é,
da sua acção,
bem como à subtileza das suas estratégias, da dominação colonialista,
cujas marcas ainda permanecem visíveis, por um lado, nas denomi-
nações frequentemente utilizadas pelos próprios Africanos: dialectos,
patoás vs línguas e, por outro lado, no estatuto dominante do francês
na África Negra francófona: língua oficial, língua de ensino, língua
da ad m inistr açã o, língua do êxito profissional, etc. A m inha inten ção
consiste em demonstrar com que meios, com que estratégias, a antiga
potência colonial continuou a exercer a sua prevalência, a sua opera-
ção de alienação no âmbito linguístico, tanto em França como em Áfri-
ca, tanto ontem como hoje.
Para tal, contentar-me-ei com dois eixos no quadro restrito deste
colóquio, tendo em conta que, se existe um domínio a explorar - os es-
tudantes em linguística não terão escassez de temas de tese, tal como
lembrava o meu colega historiador Bwemba Bong^ - trata-se do da
colonização linguística levada a cabo pela escola africanista francesa:
1) linguística africanista e ideologia glotofágica, 
glotofágica,  2)   política linguística
francesa e línguas minoritárias: ideologia do paradoxo.

1. Linguística africanista e ideologia glotofágica


Calvet [1974: 31) 
31)   define aglotofagia
aglotofag ia   nos seguintes term os: "as línguas
lí nguas
dos outros [mas por detrás das línguas visam-se as culturas, as comu-
nidades] existem apenas enquanto provas da superioridade das nossas,
vivem apenas negativamente, fósseis de um estádio volvido da nossa
própria evolução". Contextualizando esta definição no âmbito das rela-
ções francês/línguas africanas, o autor de  de   Linguistique et colonialisme:
colonialisme:
petit traité de glottoph
glottophagie,
agie,   pre cisa a pro pó sito do ter m o glotófago: "O
primeiro antropófago veio da Europa, devorou o colonizado. E, no plano
particular que nos concerne, devorou as suas línguas". Veremos, de fac-
to, que toda a linguística africanista francesa carrega os germes de uma
ideologia glotofágica. Primeiramente em filigrana, disfarçada de missão
civilizadora, depois de maneira autoritária através deste conceito am-
bíguo de francofonia. A língua francesa foi imposta em detrimento da-
quiloo que, num p rim eiro m om en to, foi designa do de "dialectos e patoás",
quil
e po r força
força das circunstâ ncias, "línguas africanas".
africanas". IIsto
sto porque , po r d etrá s
das línguas, cujo estatuto científico se pretendeu negar, escondiam-se e
continuam a escond er-se as cult culturas
uras e as com unidad es que as praticam .

3. Cf. pp. 20-44 presente obra.

54   Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Co nsciê ncia Histór ica Africa na

Po r um q uestã o de clar
clareza
eza da anál
análise,
ise, passa rei a descrev er o pr oce sso
de glotofagia das línguas africanas pelo(s) francês/Franceses, adop-
tando um ponto de vista diacrónico, por forma a interrogar as balizas
mais significativas da história linguística africanista. Deste modo, é
possível distinguir quatro grandes períodos: 1] o período colonial e a
linguística "pragmática", segundo a expressão de Vincke (1988); 2) o
período moderno (a partir de 1945) ou o triunfo do formalismo e da
missão civilizadora; 3) os anos 60 ou a sociolinguística e as suas torpe-
zas; 4) por 
por   último, a  partir dos 
dos   anos 70 ou a  diversão das instituições
francófonas.
No decorrer de todos estes períodos, as marcas da colonização lin-
guística surgirão sob diversas formas: a denominação linguística e a
redução das línguas africanas, a orientação temática da investigação
e as produções editoriais ocupadas pelos investigadores franceses, a
exclusão dos Africanos da investigação e das instâncias institucionais
de decisão, o esta tuto e o cor pu s das línguas africana s, a he ge m on ia do
francês nas esferas da vida pública e a exclusão das línguas africanas
como ferramentas de educação e de desenvolvimento.

1.1. Período colonial: a chegada às colónias ou a lin-


guística "pragmática"
P o d e m o s , ,  a priori, 
priori,  ficar im pre ssion ad os, no plano do
d o corpu s, pela
imensa riqueza de produções realizadas acerca daquilo que convinha
chamar de dialectos ou patoás africanos nesta época. Esta abundância
justifica-se pelo facto de "a preocupação dos primeiros africanistas,
viajantes, administradores, etnólogos, linguistas, consistir em reper-
toriar as populações habitando nos territórios que atravessavam e si-
multaneamente
23). Porém, as intençõesas línguasqueque falavam"estas
presidiam (Thomas e Béhaghel,
inciativas e a qualidade 1980:
dos escrevedores escondiam, no plano do estatuto, uma iniciativa
ideológica que se pode resumir à fórmula seguinte; "poder comuni-
car para melhor dominar". Note-se também que alguns destes inves-
tigadores de circunstância sem formação linguística avançavam o seu
prognóstico vital ou respondiam a injunções civilizadoras ou religiosas.
Os esc rev ed ore s e linguistas vão inve i nve stir as gran des esfe ras geog ráfi-
cas que formam o puzzle do domínio imperial francês.  francês.   Assim, a África
O c ident
id ental
al é d om inad a pelos tex tos d e F aid herbe ( 1 8 6 4 -1 8 8 2 ):  ):   vocabu-
laires
lair es et notes gramm atical aticaleses du peul, du wolof, du sénère et du soninké),
d e G a d e n ( 1 9 0 8 - 1 9 3 5 : p e u l , b a g u i r m i e n ) , d e C r e m e r ( 1 9 1 9 - 1 9 2 4 : :   es-
es -
quisses gramm aticales
aticales et dictionnaire de peul, kassena et de manianka), man ianka),

F ranc ês /lí nguas afri c anas : c oloni zaç ão li nguí s ti c a ontem e hoje
  oje
h quiie
qu   ali .   BernardZongo 55

d e L a b o u r e t ( 1 9 3 4 : :   description
description du man
manding).
ding).   Ac res c en tar-s e-ão outros
nomes: Tastevin, Abiven, Bazin, Delaforge, Senghor, Tauxier, Cheron,
Griaule, Leiris, Alex and re, Froger, Vieill Vieillard.
ard. A África Central, ainda qu e
abordada tardiamente, também conheceu o seu batalhão de linguis-
tas e d e es c reved o res : G aud ef efroy
roy D em om by nes
nes   [vocabulaires et notes
sur les langues oubanguiennes, nilo-sahari nilo-sahariennes
ennes tchadiques),  Bruel
et tchadiques), 
(1910: langue des Pygmées de la Sanga), Calloc'h (1911:  (1911:   vocabulaires
et esquisses gram grammaticales
maticales du ngbaka, du gbanzili, du mozombomozo mbo et du
gbea],   T i s se
gbea], s e r a n d ( 1 9 3 1 : :   dictionnaires
dictionnaires des langues banda, grammaire
gram maire
du banda "com "comum um",", dictionnaire sango vvéhiculair e),   E b o u é ( 1 9 3 3 :  v o -
éhiculaire),
cabulaires de langues ou oubanguiennes).
banguiennes).   Na África Equ atorial, ret er em os
essencialmente os trabalhos de Eboué, de Gaudefroy-Combines, de
Lebeuf e de Mouchet. Porquê enumerar tantos nomes? Todos estes es-
critores partilham um objectivo comum: colocar os seus trabalhos ao
serviço da doutrina ideológica da época, isto é, a dominação e a explo-
ração. E é ao exam inar o seu estatuto que d esco brim os a ffinali inalidade
dade dos
trabalhos descritivos das línguas africanas.
Podemos distinguir duas categorias de escrevedores. Primeira-
mente, os missionários e os administradores. Apesar de desprovidos
de formação linguística no que concerne à maior parte de entre eles,
estes realizaram contudo numerosas obras sobre as línguas africanas,
tal como vimos. As intenções eram evidentes e não necessitam de ser
mais explicitadas. A evangelização das populações devia passar por
um a aprendizag em e pelo dom ínio íni o dos "dialectos" locais.
locai s. A este respei-
to, estou aturdido (no sentido etimológico de ser atingido pelo trovão)
com o discurso de alguns intelectuais franco-borgonheses que pare-
cem prestar homenagem às capacidades inauditas destes pais brancos
que podiam aprender as línguas africanas em alguns meses, enquanto
que estes "blacks", depois de tantos anos em França apenas falam de-
sarticuladamente o francês. Estes intelectuais poderiam interrogar-se
sob re o ní
nível
vel de com petê ncia alcançado po r esta aprendizagem acele rad a
das línguas africanas, e melhor acerca das intenções desta iniciativa.
Relembramos, no que concerne aos mais antigos de entre nós, as mis-
sas pronunciadas em línguas africanas pelos padres brancos e os es-
forços sobre-humanos consentidos pelos fiéis aficanos, não sem uma
certa indulgência, para ouvir a mensagem evangélica.
A adm inistração coloni
colonial,
al, por sua vez
vez,, precisava de con he cer m elho r
os meios d e c omunic aç ão d as populaç ões para um maior rend imento
das explorações.
o objectivo E quando
n ão era, a escola
longe disso, for mfrancesa foi instalada
ar as elites na per spe nas
ctivacolónias,
de um a
hipotética autogestão ulterior, mas sim implementar uma reserva de
ond e sairi
sairiam
am coo rtes de intérpretes. As descriçõ es linguíst
linguísticas
icas ta m bé m nã o

62 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

tinham por objectivo valorizar ou proteger as línguas africanas. A ex-


pe riên cia de Jean D ard é suficiente pa ra dem on strá-lo . Este fo
foii o inici
inicia-
a-
dor da escola francesa na África Negra francófona, mais precisamente
em Saint-Louis, no Seneg al. Foi em 1 8 1 7 . O seu ensino ba sea va -se nas
línguas nacionais e propunha, assim, uma pedagogia bilingue wolof-
-francês. Esta experiência de valorização das línguas africanas viria a
ser suprimida pelas autoridades coloniais e Jean Dard enviado para
a metrópole. Motivo: segundo o antigo inspector-geral Charton, a su-
pressão do método bilingue justifica-se porque "as colónias da África
Negra não possuem, como na Indochina e na Argélia, uma língua de
civilização,
civili zação, ins pira do ra de cultura e de ed uc açã o. A África Neg ra é um
caos linguístico" (citado por H. Nacuzon Sall - no capítulo 2 da sua
tese). Os intelectuais e escritores africanos formados na escola colonial
servem, com frequência, de garantia à ideologia colonialista para apre-
goar os benefícios da colonização. Na verdade, estes Africanos vence-
ram em primeiro lugar pelo seu trabalho, pela sua inteligência e pela
sua capacidad e de se adaptar aos con strang im ento s co loniais.
loniai s. Quantos
destes autores foram reconhecidos pelas instituições literárias france-
sas? Muito poucos. Não foi Sembène Ousmane suspeito de plágio na
publicação do seu romance 
romance   Les Bouts de bois de Dieu? 
Dieu?  Quantos escri-
tores africanos foram reconhecidos como incapazes de ter escrito os
seus próprios textos? Estes são numerosos.
Os linguistas "de formação", quan to a eles, segu ndo T ho m as e B éha gel
( 1 9 8 0 :1 4 ) enc ontravam em Áfr Áfric
icaa um a terra virg em para
par a c onfortar as
teorias da gramática comparada, então em expansão na Europa (teo-
ria das línguas indo-europeias). É o caso de Delafosse (1894-1929),
autor de  de   notes et esquisse
esquissess gramm atical
aticales
es de plusieurs langues (agni,
wolof, ewe, sara), 
sara),  m as sob retud o autor de um a vasta com para ção das
línguas kwa, que culminará com a obra:  obra:   Esquisse générale des langues
d'Afrique.   Citarem os tam bé m H omburger, que prossegu iu o trabalh o de
d'Afrique.
Delafosse com um alargamento da comparação das línguas oeste-afri-
canas ao bantu, e às línguas
línguas nilóticas para con cluir a hip óte se segu inte:
o parentesco do conjunto das línguas africanas, cuja origem se situa
no domínio drávida, por intermédio do egípcio. Esta hipótese que nos
leva a Cheikh Anta Diop e a Théophile Obenga, jamais será, de certa
forma, retomada pelos linguistas africanistas franceses. Relembro que
Homburger, uma vez que o seu nome não o indica, é um alemão de
formação anglo-saxónica.
Porém, estes linguistas formados segundo a gramática tradicional -
a da norma - não dispõem de um verdadeiro método para efectuar
descrições científicas de novas falas. É assim, por exemplo, que con-
trariamente aos seus colegas alemães ou ingleses de formação filológica.
li .   BernardZongo
F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni za ç ão li nguí s ti c a ontem e h oje, aqui e aali 63

ou até mesmo contrariamente aos linguistas franceses da Ásia, os lin-


guistas franceses da África Negra estabeleceram descrições das lín-
guas africanas ocultando os tons (aspecto, sem dúvida, de mais difícil
acesso). Ora, sabemos por um lado, que uma grande parte das falas
africanas são falas
falas de tons, por outro lado porq ue e stes tons con stituem
traços distintivos que não podem ser negligenciados. Exemplo signifi-
cativo em língua more: segundo a colocação dos modelos tonais, o
lexema "saaga" muda de sentido: sáagá "a chuva", sáagà "uma vassou-
ra", sãagá "negoceia (imperativo)", saagá "acaricia-o" (Zongo, 2004).
Desta forma, no total, e para esta primeira vaga de ecrevedores e
colectores de circunstância, podemos afirmar com Kazadi (1991), que
as descrições linguísticas "visavam antes de mais facilitar a comuni-
cação, par a co nh ec er os pov os a ccivi
ivili
lizar"
zar".. O per íod o q ue se seg ue uti-
lizará outros métodos, mas para as mesmas finalidades de glotofagia.

1.2. Períod o m od ern o: triunfo


t riunfo do form alismo e m issão
civilizadora a partir de 1945
Este período apresenta uma dupla característica relativamente à
precedente: os investigadores, desta vez, são linguistas confirmados
e o contexto científico está dominado pelo formalismo em linguística.
É a época da recolha sistemática dos materiais linguísticos, da sua
descrição e da sua classificação em famílias de línguas.
Para ter sucesso nestes três projectos ambiciosos, vários organis-
mos especializados franceses que integram estudos africanistas, bem
como cargos de ensino e de investigações serão criados, sempre com
o mesmo ponto comum: a quase ausência de linguistas africanos nos
grupos de investigação e nas publicações. Entre os organismos espe-
cializados, podemos citar o Instituto Francês da África Negra (IFAN -
1 9 3 8 -1 9 6 5 ), c ujo prom otor ffoi
oi Th éod or Monod . O Ins ttit
ituto
uto d e E s tud os
Centro-Áfricanos (lEC), o ORSTOM (Organismo da investigação cientí-
fica e técnica de Ultramar). A estes institutos acrescem ligações com o
CNRS. A partir de 1965, assiste-se a uma mudança de perspectiva. É
a sistematização e a planificação da investigação via CNRS (RCP 121
Investigação cooperativa por programa - ER 74 Equipa de investiga-
ção - GR 32 Grupo de investigação - departamento África do LP 3-121
Laboratório Próprio) e o ORSTOM (Centro de estudos das tradições
orais; C entro de Estu do s Africanos da EHESS: V V.. Gõrõg -Karady; línguas
da África Central: JMC Thomas; línguas da África de Leste: J. Tubiana;
ER 24 6 e stud o das lí línguas
nguas e literatu ras do Sudão e do Sahel ocid enta is:
PF Lacroix e G. Calame-Griaule.)

58   B a b a c a r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

Os trabalhos são confrontados com problemas de metodologia de


descrição e de análise das línguas de tradição oral. Isto não impede
que os investigadores continuem o seu empreedimento. Estando os
organismos criados, só faltava espalharem-se pelo continente (sem
dúvida assinalado em 1885) em zonas de especialidades para impor
uma visão unívoca das línguas africanas:
- Senegal: no âmbito da Acção Temática Programada (G. Ducos),
cobertura lingüística e toponímia;
- África Central: Instituto nacion al das Ciências hu m an as e a Univer-
sidade do Tchade: Jean-Pierre Caprile - i4t/as 
i4t/as   Pratique do Tchad-,
T chad-,
- Costa do Marfim: no âmbito do Instituto de Lingüística Aplicada.

Os traba lhos de inven


i nven tários e de atlas culm inarão no estab elecim en to
de três grandes famílias de línguas, inspiradas nas quatro famílias de
línguas descritas por Greenberg (1964): Família I: congo-kordofani-
ana (nigero-congolesas, mandé, gur-voltaico, kwa, benue-congolesas,
andam aw a-uban gui; Famíli Famíliaa II:
II: nilo-saarian a songhai, saariana, m aba,
chari-Nilo, etc. Família III: afro-asiática (cuchitica, tchádica, etc.).
As sucessivas investigações apenas levarão à rejeição desta classifi-
cação q ue fo
foii , no entan to, a ba se de refe rên cia p ara a de scriçã o e pa ra o
ensino das línguas africanas na escola africanista francesa. Diki-Kidiri
(2000), retomando a classificação quase consensual das línguas afri-
canas, descreve quatro grandes famílias de línguas:
1. a família das línguas Nigero-Congolesas;
2. a família das línguas Oeste-Atlântico;
3. a família das línguas Afro-Asiáticas;
4. a família das línguas Khoisan.
Obenga (1993), baseando-se nos dados adquiridos da egiptologia,
estabeleceu a classificação sem dúvida mais cientificamente funda-
mentad a. E s te d is ting ue três g rand es famí lias : o neg ro-eg í pc io, o
berbere, o khoisan. Mas esta classificação não somente foi ignorada
pelos lingüistas do Norte, como também foi criticada, reposta em cau-
sa, considerada sem interesse científico - supostamente pelo facto de
o autor não ter tido em conta os trabalhos ocidentais.
Ne ste pon to, os signo s da do m inaç ão lingüística, da colo niza ção pura
e simplesmente, apresentam-se sob os seguites aspectos:
O ensino das línguas afri
africanas
canas nas universidades e instit
institutos
utos de inves-
tigação é garantido por afri
africanistas
canistas franceses.
Criação de unidades curriculares de "línguas africanas"
- na Escola Nacional das Línguas Orientais Vivas (ENLOV): o fula;

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni za ç ão li nguí s ti c a on tem e h oje, aqui e ali .   BernardZongo 65

- a partir de 1960, o ensino das línguas bantus é assegurado por


Pie rre A lexan dre no IINA
NALLCO (Pa ris III], o ffula
ula po r P-F. Lacroix, o ha u-
sa por Claude Gouffe. As línguas mandé são ensinadas por M. Houis,
Director de estudos na EPHE, etc.

A direcção dos trabalhos e das teses é assegurada igualmente por


Franceses
Pierre Alexandre (professor, INALCO, Paris III], Pierre Bance (pro-
fessor, Lyon II], Fernand Bentolila (MdC, Paris V], Luc Bouquiaux
(Mestre de investigação, CNRS], Guy Bourquin (professor, Nancy II],
Geneviève Calame-Griaule (Director de investigação, CNRS], Gaston
Canu (professor. Paris VII], Louise Dabène (professora, Grenoble III),
René Etiemble (professor honorário, Sorbonne Nouvelle, Paris III).
Frédéric François (professor. Paris V), Gabriel Manessy (professor,
Nice], André Martinet (professor honorário. Paris V], etc.
Todos estes professores, instrutores, mestres de investigação fran-
cese s assegura ram a form ação de várias geraçõ es de linguistas
li nguistas e socio-
linguistas africanos e franceses, mas com base em que conhecimentos
reais das línguas africanas, se não as dos trabalhos descritivos e clas-
sificativos arbitrários que, mais tarde, várias investigações levadas a
cabo pelos próp rios Africanos viriam a pô r em causa? A ssistiremo s
posteriormente à vingança dos linguistas africanos, aquando da cria-
ção dos fam osos c entro s de li
linguísti
nguística
ca aplicada
apli cada e das M esas-Re don das
destes mesmos centros. Porém, o outro aspecto da colonização lin-
guística reenvia para o combate editorial.
Combate editorial: o exemplo das Bibiografias da SELAF (Sociedade
de estudos linguísticos e antropológicos de França).
É surpreendente o facto de não se ver quase nenhum nome africano
surgir nas publicações da SELAF de 1967 a 1980, quando o nome dos
linguistas franceses formados durante o mesmo período, pelos mes-
mos professores, predominam nas listas de publicação. Terão aqueles
sido menos produtivos que os seus congéneres franceses? Estamos em
posição de duvidar.
Porém, a que lógica respondia este gosto pela descrição das línguas
africanas por parte dos linguistas franceses? A resposta é a seguinte:
"descrever línguas em risco de extinção segundo a filosofoa civiliza-
dora colonial" - Relembremos o objectivo primeiro da ENLOV (futuro
INALCO) nesta época:

... destinava-se a familiari


familiarizar,
zar, com algumas línguas africanas de grande exten-
são (lingala,
(lingala, swahili, bambara), futuros falantes destas línguas (administra-
dores, militares,
militares, missionários, etc.) que ttivessem
ivessem de se deslocar para a África

66 Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciência Histórica African a
 

Negra e ali perman


permanecer
ecer para as suas actividades [..
[...].]   [Thomas e Béhagel,
1980: 56).

To rna -se evide nte que as finalidades da investiga ção lingu


li ngu ísti
ística
ca e stã o
relacionada s com a ideologi
ideologiaa colonial
col onial de dominação, e não respo nd em
em nada ã preocupação de preservar ou valorizar as línguas africanas.
Paralelamente às descrições das línguas e dos dialectos africanos,
a escola africanista francesa também se preocupou, adaptando-se ao
contexto científico geral, com outro aspecto da linguística: a dialéctica
do fran cês em Áfric
África.
a. Tr ata -se do início
iníci o da era da socioling uística.

1.3. A sociolinguística e as suas torp ez as : os anos 6 0


Os anos sessenta foram marcados, no plano científico, pela fragiliza-
ção do formalismo, bem como pela emergência da linguística contras-
tiva, favorecida pelo desenvolvimento da psicolinguística por um lado,
e, por outro lado, pela necessidade de uma melhor implementação do
francês face às línguas africanas, doravante consideradas como obs-
táculos à aprendizagem do francês. Foi deste modo que, a partir dos
anos 60, foram criados centros de linguística aplicada. Entramos as-
sim na era das interferências linguísticas. Mesmo se as denominações
variam se gu ndo os pa íses e as un iversida des (o C L AD em Dakar
Dakar,, 1 9 6 3 ;
o ILA no Abidjan, 1966; o CELTA em Kinshasa, 1971), o objectivo era

ocabo
mesmo, tal como
"análises relembra ao
contrastivas" Kazadi (1991:
serviço 158): tratava-se
da "necessidade de de levar ae
explicar
de corrigir os "erros" através da especificação das dificuldades encon-
tradas pelo locutor de língua diferente, em situação de aprendizagem".
Os temas de investigação definidos, bem como as publicações que as
sustentam e propagam, confirmam esta orientação:
- Os tem as : an álises contras tivas francês/língu as africanas, situa-
ções de uso das línguas, expansão das línguas, políticas e práticas
linguísticas, dificuldades de aprendizagem da língua-alvo, etc.
- publicações. Calvet, 1964, 
1964,   Le français parlé, étude phonétique, in-
terférences
terfé rences du phonétisme wolofi
wolofi   Th iriet, 1 9 6 4 , .4   travers quelques ca-
peuls)   Thiriet, 1965, 
hiers d'orthographes d'élèves peuls) 1965,  Le français écrit de
quelques élèves Bambara/Mali] 
Bambara/Mali]   Cal Calvet
vet e Dum ont, 19 67 ,  Interférences
sénégalais.  Uma pub lic
du wolof dans le français des élèves sénégalais. licação
ação em-
blemática que ilustra a submissão das línguas africanas às regras e à
omnipotência do francês é, indubitavelmente, o livro de Jean-Pierre
Mak outa-Mbouk ou: 
ou:   Le français en Afrique noire.

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni z aç ão li nguí s ti c a ontem e h oje, aqui e ali .   BernardZongo 67

Eu próprio demonstrei - na minha tese de DEA em primeiro lugar,


depois por ocasião de outros artigos, e mais recentemente em 2004-
-2005, numa pequena obra intitulad a a   Perles d'étudiants, 
d'étudiants,  que não en-
controu editor até ao momento - até que ponto esta hipótese interferen-
cial era da
através falsa na medida
invocação em que oslinguístico
do substrato famosos erros só eram
africano explicados
dos alunos, ao
passo que o francês, devido
de vido às suas próprias co ntrad ições gram aticais
e lexicais, constitui uma fonte de interferências já não interlinguísti-
cas, mas intralinguísticas.
O pró prio princíp io de op osiçã o en tre o fran cês e as língu
lí ngu as a frican as
revela a diferença de estatuto entre estas duas entidades linguísticas
(no plano geopolítico encontramos o mesmo princípio de subordina-
ção: cimeira França/África) que terão consequências dramáticas para
as línguas
línguas a frican as e para os seu s locuto res. A língua-alvo,
lí ngua-alvo, aqu ela que
deve ser atingida, dom inada, é de facto o francê s, aind a que se tenh a d e
renegar a língua materna, agora considerada como um obstáculo para
a aprendizagem do francês. Sabemos até que ponto o francês usufrui
d e um imens o pres tí g io nas s oc ied ad es afric anas franc ófonas pelo
facto de ser visto, e através dele a escola, como único e exclusivo as-
censor social, como único e exclusivo meio de triunfar na vida profis-
sional. Neste sentido, a instituição escolar, regida pelo seu corpo de
inspectores franceses, recorrerá a todos os meios para convencer os
Africanos da inutilidade das suas línguas e da necessidade de aprender
e de dominar um francês que a própria maioria da população hexago-
nal ignora (o francês literário), mesmo tendo que passar por humilha-
ções (anedota do símbolo) e correcções corporais. Deste ponto de vis-
ta, Bretões e Alsacianos identificar-se-ão com o tratamento infligido
aos pequenos Africanos.
Um outro aspecto da ideologia glotofágica da França pode ser anali-
sado através do tratamento reservado aos linguistas africanos no âm-
bito das instituições estabelecidas por este conceito ambíguo que é a
francofo nia, iisto,
sto, a pa rtir dos anos 70 .

1.4. A p art ir dos an os 7 0 : instituições francó fona s a o


serviço da expansão do francês
An os ffaustos,
austos, sem dúvida,
dúvi da, para a Fran ça que pro cura rá re lan çar o de-
safio
saf io da francofon ia atr
através
avés da criação de um nú m ero im pres siona nte
de instituições. Anos de frustração para os Africanos, que esperavam
encontrar neste quadro institucional, segundo a profecia de Senghor,
"um lugar
l ugar para dar e re ceb er " e que af
afinal
inal se conte ntarã o em con statar

68 Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

a sua
s ua impo tência face a um a máqu ina criada para dom inar ainda m ais. ais .
Note-se que a francofonia carrega os germes da sua ambição domi-
nad ora e glotofá gica desd e a sua criação po r O nésim e Reclu s
[1837-1916, nas c id o em O rthez, no s eio d e uma famí lia protes tante
de Béarn, cujo pai
p ai era pa sto r). Reclus forja
f orja o term o po r volta de 1 88 0 ,
no âmbito da sua reflexão acerca do destino colonial francês e afirma
de modo emblemático: logo que uma língua tenha "coagulado" um
povo, todos os elementos "raciais" desse povo subordinam-se a esta
língua. Foi neste sentido que se afirmou que a língua faz o povo  povo   [língua
gentemfacít-Redus,  
gentemfacít-Redus, 1 9 17 ). As instituições francófonas, m as tam bé m
aqueles que são designados de "pais fundadores" [Bourguiba, Diori,
mas sobretudo Senghor, o homem da "commonwealth à francesa") da
francofonia adoptarão esta ideologia do francês "língua universal" para

alguns, "língua
mos apenas nas do pensamento
instituições: lógico"ACCT,
AUPELF, para outros. Porém, insistire-
CILF [Conselho interna-
cional da língua francesa), UREF. Segundo Maurice Étienne Beutler
[Secretário geral da AUPELF) e o Professor Michel Guillou [Delegado
geral da UREF) em 1988, estas instituições respondem à "importância
cada vez ma is cres cen te da procu ra geral em m atéria de c on hec im ento
do francês, do estudo das suas normas locais em contexto multilin-
guístico, de abordagens e aplicações pedagógicas necessárias para o
seu ensino". Resta saber de onde provém esta procura
Duas posições glotopolíticas antagonistas confrontam-se nestas
instituições:
instit uições: por uum
m la
lado,
do, a preo cup ação com um en raizam ento melhor,
com uma maior difusão do francês em África, apoiada pelos decisores
e linguistas do Norte; por outro lado, a preocupação em colocar no
centro das investigações as línguas africanas, simultaneamente en-
quanto ferramentas para o desenvolvimento económico e educativo
apoiado, como é evidente, pelos linguistas africanos, quando estes
eram convidados a tomar parte nas reuniões internacionais. Os segun-
dos,, desprovido s de meios ec on óm icos e po der de decisão,
dos deci são, tiveram
tiver am de
obedecer aos primeiros. Esta dominação é visível a vários níveis.

deA língua
AUPELF - Asso-ciação
francesa das universidades
foi criada parcial ousob
em 1961, em Montreal, inteinstigação
iram ente
de activistas quebequenses, com o objectivo de desenvolver o relacio-
nam ento e a inform ação en tre aass universidades francófonas, prom over
o diálogo das culturas e os estudos franceses, a pedagogia universi-
tária e a educação permanente.
Veremos que as acções levadas a cabo sob o patronato da AUPELF
se afastam dos objectivos mencionados, e não têm outra finalidade
que não seja estudar os meios para uma melhor dominação dos países
francófonos do Sul.

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni za ç ão li nguí s ti c a on tem e h oje, aqui e ali .   Bernard
Bernard Zong
Zongo 69

Primeiramente, as mesas-redondas dos centros, departamen-


tos e institutos de linguística aplicada da África Negra, organizados
sob a égide da AUPELF, visavam, supostamente, constituir pontos de
"reaproximação dos linguistas africanos da sua organização, para a
promoção das investigações sociolinguísticas, bem como para a
formação de uma visão comum, nos linguistas, da problemática das
línguas em África."
No entanto, estes encontros revelarão as verdaderias intenções do
papel d es em penh ad o po r es ta ins
insti
titui
tuiçç ão, tal
ta l c om o Ka
Kaza
zadd i [ 1 9 9 1 : 1 6 2 )
demonstra, pelo menos durante as três primeiras mesas-redondas:
" Os traba lhos das três m esas-re do nd as sucessivas - qu e se afi afiguravam
guravam
cada vez mais como um Clube aos olhos dos Africanos - só diziam

resp eito aoeisfranc


Portanto, aquiês ose só reuniam excluídos
Africanos , no solo africano, li
lingu
de um debatengu istas
que do Norte".
Norte".
concerne,
não somente ao francês e às línguas africanas, mas que tem lugar no
solo africano. Paradoxo significativo.
Os Africanos serão convidados para as mesas-redondas a partir da
IV- sessão, no momento em que a França constata, graças a inquéri-
tos, a diminuição do nível dos conhecimentos de francês nos alunos
africanos. A escola à francesa toma então consciência da necessidade
de um ensino das línguas africanas ao longo dos primeiros anos de es-
colaridade, a fim de preparar terreno para uma melhor aprendizagem
do francês. Deste modo, mais de um século posteriormente, a insti-
tuição escolar francesa aceita hipoteticamente a validade do método
pedagógico que Jean Dard tinha implementado a partir de 1817, em
D ak ar: apren d er o franc ês bas ea nd o -s e nos c onhec im entos ad quirid
quiri d os
da língua materna. Em todo o caso, mesmo que as línguas africanas
tivessem de ser ensinadas, esta instrução apenas teria um objectivo:
tornar os pequenos cérebros africanos disponíveis para melhor domi-
nar o francês.
Porém, pod emos também d emons trar a intenç ão d ominad ora d as
acções da AUPELF examinando os temas de investigação propostos à
marg em d es tas famos as mes as -red ond as , bem c omo os trabalhos re-
sultantes. Contentar-me-ei com o famoso projecto de elaboração de
um dicionário do francês da África, outro dos avatares do processo
glotofágico da esco la llinguística
inguística franc
f ranc esa. O pro jecto dese nv olve -se
em três momentos: inventário das particularidades lexicais por país,
agr ega ção d os inven tários e con cretiza ção , no seio da equ ipa IFIF A, sob o
título:   Inventaire des particulari
título: particularités
tés lexical
lexicales
es du/rançais en Afrique noire
(paradoxo dos trabalhos intermédios e o título definitivo "francês da
África Negra" vs "francês na África Negra"), projecto de realização de
u m   Dictionnaire universel francophone. Os trabalhos da equipa IFA
(inventários
(inven tários regiona
regionais
is e resultado final).

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

- A equipa que trabalho u no pro jec to é es s e nc ia lm ent e c om po s ta


por linguistas franceses; pelo menos, é aquilo que mostra a lista
d os red ac tores no d oc u m ento fi
final
nal public ad o. O pro jec to é ap oiad o
por instituições francesas ou belgas: ACCT, LASLA (Laboratório de
Análise Estatística das Línguas Antigas], Ministério da Educação
nacional da Bélgica, Secretariado de Estado para a Cooperação da
Bélgica, etc.
- As pu blicaç ões inter m ed iária s por país são assin ad as por linguistas
franceses, enquanto que a lista dos "colaboradores" salienta nomes
de linguistas africanos. Ademais, estas investigações são levadas a
cabo no seio de universidades africanas:

Laurent Duponchel: 
Suzanne Duponchel:   Dictionnairedes duparticularités
Lafage:  D ictionnaires
Lafage:  français de Côte d'Ivoire 
d'Ivoire
lexicales du  ( 1français
975).
au Togo et au Dahomey 
Dahomey   ( 1 9 7 5 ) .
Jean-Pierra Caprile: 
Caprile:   Premier inventaire des particularités
particularités lexicales
lexicales du
français parlé au Tchad
Tchad   ( 1 9 7 8 ) .
Jacques Blondé, Pierre Dumont, Dominique Gontier:  Gontier:   Particularités
lexicales
lexical es du français au Sénégal
Sénégal   ( 1 9 7 9 ) .
Ambroise Queffelec: 
Queffelec:   Dictionnaire des particularités
particularités du Niger 
Niger  ( 1 9 7 8 ) .

- Se seguirmos os autores de
de   L'Inventaire
L'Inv entaire des particularités lexicales
d'Afrique noire, 
noire,  esta obra teria por objectivo contribuir para apre-
ender melhor "os problemas de plurilinguismo e de contacto entre
as línguas". Porém, ninguém levantou a questão da utilidade destas
investigações para os principais interessados, os Africanos, nem do
ponto de vista educativo, e muito menos económico. Na verdade,
as investigações levadas a cabo no âmbito da IFA respondiam a um
fenómeno de moda, a um contexto científico dominante: a análise
dos dialectos regionais em França, uma iniciativa lançada por Pierre
Guiraud aquando da reunião da AUPELF em Montreal, em 1967. Este
tinha sugerido a ideia de criar um "centro de investigações para o
es tud o d os d ialec tos franc es es (em F ranç a e no ex terior d es ta)" ,
durante o colóquio de Nice, em 1968, no seio do Centro de estudos
d as relaç ões interétnic as (trans formad o no ID E RIC, em 1978). O s
Africanos acabarão por reforçar a sua posição relativamente a todos
estes projectos, que, afinal, lhes diziam respeito directamente.
- O po nto de vista dos linguistas african os.

Foi, em primeiro lugar, nas 4.^ a 5.- mesas-redondas dos Centros de


linguística aplicada a propósito, por um lado, do projecto IFA e, por
outro lado,seus
com o dos da papéis
colocação entre
na edu parênteses
cação das línguas
e no desenvo nacionais, bem
lvimento.

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni za ç ão li nguí s ti c a ont em e h oje, aqui e ali .   Bernard Zongo 71

A  4 . 2   m e s a -redonda que teve lugar em Dakar de 14 a 17 de Março de


1 9 7 9 a ce r ca do te ma : "Escl a r e ce r a pr ob l e má ti ca da i n tr odu çã o da s
línguas nacionais, quer na escola, quer na vida social" vê uma partici-
pação massiva dos linguistas africanos que começam a contestar a na-
tureza e os objectivos perseguidos pelas mesas-redondas. A 5.-, que
teve lugar em Yaoundé, em 19 82 , acerca do tem a "Desenvo lvimento de
uma reflexão sistemática acerca da utilização das línguas nacionais na
vida nacional", esteve perto de ser, segundo Kazadi, "a Mesa-Redonda
de ruptura, a da morte do pai". Com efeito, os linguistas africanos en-
contravam-se no dever de contestar a pertinência e a qualidade dos
trabalhos daqueles mesmo que tinham sido, alguns anos antes, os
seus orien tad ores de tese. O Oss li
linguistas
nguistas afri
africano
cano s consideravam , justa -
me n te , qu e e sta s me sa s- r e don da s n ã o con sa gr a v a m n e m e spa ço, n e m
meios suficientes às línguas africanas.
Com perseverança e atrevimento, estes conseguiram obter a imple-
mentação de um programa intitulado PELA: Programa para o Ensino
das Línguas Africanas. Os linguistas franceses exigiram uma mudança
no conteúdo deste anacronismo, e passou-se de "Ensino das línguas
afric an as" pa ra "Ensin o das llínguas
ínguas em Áfri
África"
ca".. Era já um sinal p renu n-
ciador do fracasso de um tal projecto, que não parecia servir a causa
do francês. O objectivo assu m ido p elos llinguistas
inguistas e pro fesso res africa-
nos no PELPELAA não corres po nd ia às expectati
expectativas
vas d as instituições francó-
fonas e linguistas franceses, a saber: "levar os seus países à integração
total das línguas africanas, enquanto matéria e veículo de aprendiza-
gem, nos sistemas educativos". De forma totalmente desleal, aquando
do colóquio d o C CIILF
LF,, Daniel Lati
Latinn (resp on sáv el pela m issão na AUPELF
- divisão regional de Dakar] afirmava "sete anos depois da criação do
P ELA, os se u s tr a b a l h os n u n ca u l tr a pa ssa r a m o pl a n o da r e f l e xã o
esclarecida acerca dos objectivos que o mesmo tinha fixado".
A verda de en con tra-se no utro llado. ado. Não so m en te este pro jecto tinha
atingido
de estruturasum nível
- DIDACT de organização extremamente
= didáctica das avançado:
línguas nacionais, criação=
ANADIL
Ateliês nacionais de didáctica das línguas, SIR = estágios inter-africanos
relativos para a formação de formadores em línguas africanas, TYPO
= tipologia permitindo elaborar uma grelha de avaliação dos manuais
escolares a partir das experiências didácticas levadas a cabo nos dife-
rentes países - mas, para além disso, os linguistas africanos tinham-no
inscrito numa filosofia geral: a reabilitação das línguas nacionais.
A verdadeira causa do fracasso do projecto PELA é esta, tal como
e scr e v e Ka z a di ( 1 9 9 1 : 1 6 3 ] :

...
... não dispondo de meios própri
próprios,
os, a instância desejada pelos linguistas
linguistas
africanos
africanos terá visto a sua acção bloqueada pelas reticências da AC CT em

lo ::,, Babacar Mbay e Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

endossar aquilo
desconfiança destaqueúltima,
esta considerava nhacomo
que não titinha um
umaadecriação
deixado da  AUPELF,
ver ali uma
um   e pela
a certa ameaça.

Estas duas causas foram, como é evidente, reforçadas pelo facto de


o comité de coordenação do PELA ser composto unicamente por
linguistas africanos.
O golpe fi
final,
nal, que dizia resp eito à s pre ten sõ es dos linguistas
l inguistas africa-
nos em integrar as suas línguas no sistema educativo, chegará com a
criação, em 1988, da UREF (Universidade de Recursos de Expressão
Francesa). Com efeito, o programa implementado em 1989 nem se-
quer menciona as línguas africanas.
Relativamente ao projecto IFA, os linguistas africanos não deixaram,
durante as 4.- e 5.- mesas-redondas dos centros linguísticos, de expri-
mir as suas preocupações, bem como a sua recusa em aderir a um
projecto cuja utilidade não apreendiam, do qual são excluídos, e, so-
bretudo, um projecto cuja fi
finali
nalidade
dade con sistiria
sistiri a em tratá-los enqu anto
filhos crescidos da francofonia, aqueles a quem se reconhece simpati-
camente uma certa linguagem infantil, uma espécie de oficialização do
"negrinho". Para a maioria dos linguistas africanos e alguns franceses,

os particularismos
mente integ rar o  extraídos
o   Trésor général nodecontexto
la langue africano
française. devem
française. simples-
Le Dictionaire
Bordas du français vivant vivant   procedeu desta forma ao integrar belgicis-
mos, helvetismos e outros canadianismos. Por que motivo é que os
africanismos seriam objecto de um inventário particular?
Porém, taltal como se esperava, os Africanos podiam continu ar a pr ote star ;
não so m en te o IIFF A pub licou o seu seu   Inventaire
Inven taire des particularités
particu larités lexicales
d'Afrique noire, 
noire,  com o, em 1 9 9 1 , o pr oje cto IF IF A atingia o seu ob jectivo
derradeiro com a publicação do  do   Dictionnaire u niversel francophone.
U m   Dictionnaire universel francophone,
francophone,   destina do , tal com o é indica do
na introdução, aos "alunos francófonos da África Negra", enquanto
ferramenta linguística e enciclopédica "cultural e pedagogicamente
adaptado às suas necessidades".
Esta política de glotofagia e de colonização levada a cabo em África
e na universidade francesa, terá repercussões na política linguística
francesa das línguas minoritárias em França.

2. Políti
Política
ca linguísti
linguística
ca fra n ce sa e língu
lí ngu as m inori-
tárias: ideologia do paradoxo
A políti
política
ca linguísti
l inguística
ca francesa p eran te as línguas
lí nguas min oritárias prese n-
tes no território francês constitui a continuidade do desprezo sempre

alii .  
F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni z aç ão li nguí s ti c a ontem e h oje, aqui e al Bernard Zongo 73

manifesto face às línguas africanas. Porém, confrontada com as reivin-


dicações dos defensores das línguas regionais francesas, esta política
v ê - s e f o r ça d a a d e s e nv o l v e r u m co mp r o mi s s o qu e é na d a ma i s d o qu e
uma política do paradoxo. Como estigmatizar as línguas de imigração,
d e f e nd e nd o s i mu l ta ne a me nte a s l í ng u a s r e g i o na i s , qu a nd o a co ns ti -
tuição apenas reconhece o francês enquanto língua oficial e única da
na çã o ? A na l i s a r e mo s p r i me i r a me nte a na tu r e z a d a s r e l a çõ e s e ntr e a
política linguística francesa e as línguas aficanas, antes de demonstrar
que a rejeição das línguas africanas passa igualmente por uma con-
cepção ideológica do bilinguismo francês/línguas africanas através do
r e l a tó r i o p r e l i mi na r B é ni s ti .

2.1. As línguas african as e m Fr an ça e a política linguíst


linguísti-
i-
ca francesa
2.1.1. As línguas de imigração em França

u mSegundo
a p o p u l aas çã oestimativas
to ta l d e ci nqdou eINSEE, a França,
n ta e ci nco mi l h õ eem
s d e1990, contava
ha b i ta nte s . Prcom
a ti -
ca me nte nã o e x i s te m d a d o s co mp l e to s e d e ta l ha d o s a ce r ca d a s l í ng u a s
e s tr a ng e i r a s u ti l i z a d a s e m F r a nça , b e m co mo a ce r ca d a s ca r a cte r í s ti -
ca s d a s co mu ni d a d e s l o cu to r a s d e s ta s l í ng u a s . A s ú ni ca s i nf o r ma çõ e s
d e qu e p o d e m o s d i s p o r s ã o a qu e l a s qu e s ã o ffoo r ne ci d a s - d e m o d o p a r -
cial - pelos centros de alfabetização. Na sua remessa de Fevereiro de
2 0 0 2 
2   [online), 
[online),  a revista
revista   Population etSociét
etSociétés,
és,   e s t u d a n d o   A d i n â m i c a
das línguas em França ao longo do século XX", estabelece uma lista
no mínimo parcelar das "línguas de imigração". De facto, apenas são
citadas - no que concerne às línguas africanas - o fula, o wolof, o serer,
as línguas bantus, às quais se acresce uma categoria globalizante: "outras
línguas de África". Podemos atrever-nos, por forma a coincidir em
certa medida com a realidade, a afirmar que existem, no mínimo, tan-
ta s l í ng u a s qu a nto na ci o na l i d a d e s ; me s mo s a b e nd o , p a r a a l é m d i s s o ,
qu e ne m to d o s o s l o cu to r e s a r a b ó f o no s , p o r e x e mp l o , f a l a m o me s mo
á r a b e . S e g u nd o H e r e d i a - D e p r e z ( 1 9 9 4 ) , a s p r i nci p a i s l í ng u a s ma te r -
nas faladas pelos imigrantes são: os árabes dialectais, o português, o
espanhol, o italiano, os berberes, o bambara, o sarakolé, o turco e o
servo-croata (P. 41). Como é que, do ponto de vista político, a França
gere a sua diversidade, para não dizer o seu multilinguismo?

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

 
2 . 1 . 2 . A p o l í t i c a llii n g u í s t i c a f r a n c e s a

Bourhis (1994b] descreve dois níveis de elaboração das políticas


linguísticas: um nível implícito quando estas são "resultado das lutas
de poder entre os grupos de forte e fraca vitalidade etnolinguística"
(veremos o caso dos bairros de Belleville e de Barbès], um nível ex-
plícito quando estas políticas linguísticas resultam de decisões insti-
tucionais que tendem a legislar sobre o "estatuto relativo das línguas
num dado território". O m es m o au tor iden tifica trê s form as de política
linguística que os grupos dominantes são susceptíveis de impor aos
g r u p o s d o mi na d o s ; e s ta s f o r ma s s i tu a m- s e nu ma l i nha qu e v a i d o
" p l u r a l i s mo " à " i d e o l o g i a e tni s ta " , p a s s a nd o p e l a s " i d e o l o g i a s cí v i ca
e a s s i mi l a ci o ni s ta " . Ind i s cu ti v e l me nte , p o d e mo s a f i r ma r co m C a l v e t
( 1 9 9 4 : 2 5 9 ] qu e " a F r a nç a é , no p l a no l iing ng u í s ti
tico
co , f o r te m e n te a s s i mi l a -
dora". Dois ou três factos para justificar este ponto de vista.
E v o ca - s e f r e qu e nte me nte a i ns ta u r a çã o d o s E L C O ( E ns i no d a s l í n-
guas e culturas de origem] como uma vontade política de abertura da
s o ci e d a d e f r a nce s a à s l í ng u a s e cu l tu r a s e s tr a ng e i r a s , b e m co mo a
expressão de uma certa tolerância cultural. Ora, nada disto é verdade.
C o m e f e i to , s e g u nd o Va r r o ( 1 9 9 7 ] , a i mp l e me nta çã o d o s p r o g r a ma s
ELCO só tinha uma finalidade: a "prevenção contra o bilinguismo, dis-
f a r ça d o d e co ns i d e r a çõ e s e v o ca nd o o s s e u s p o s s í v e i s e f e i to s ne f a s to s
para o desenvolvimento psicológico, cognitivo, etc."
Esta tese foi retomada recentemente (2004] por uma das comissões
parlamentares presidida por Jacques Alain. Voltarei a este assunto
p o s t e r i o r m e n t e . O p r e s s u p o s t o a s s i m i l a c i o n i s t a t r a n s p a r e c e c l aarr a -
mente. Depois, a Constituição afirma, no seu artigo 2, que "O Francês é
a Por
l í ng uúltimo,
a d a ReapCartaú b l i ca europeia
" ( 1 9 9 2 ] . das línguas regionais e/ou minoritárias
conduziu a França a operar escolhas políticas que excluem as línguas
d a s p o p u l a çõ e s mi g r a nte s d a p a i s a g e m na ci o na l . C e r qu i g l i ni ( 1 9 9 9 ] ,
no seu relatório 
relatório   Les llangues France,   entreg ue ao M inistér
angues de llaa France, inistério io da Edu-
cação Nacional, da Investigação e da Tecnologia, bem como à Ministra
da Cultura e da Comunicação, fornece as grandes directivas da política
l i ng u í s ti ca f r a nce s a a tr a v é s d e u ma r e f o r mu l a çã o te r mi no l ó g i ca .
O r e l a tó r i o d e f i ne a e x p r e s s ã o " l ííng ng u a s r e g i o na i s o u m i no r i tá r i a s "
co mo a s l í ng u a s  s   "tradicionalmente 
"tradicionalmente  p r a ti ca d a s no no   território 
território  de um Es-
ta d o qu e co ns ti tu e m u m nú me r o qu a nti ta ti v a me nte i nf e r i o r a o r e s to
da população do Estado; e diferentes da(s] língua(s] oficial(ais] deste
E s tad
ta d o " . O r e l a t ó r i o a c r e s c e n ta qu e o o b j e c to d a C a r ta co ns i s te e m
" r e c o n he ce r u n i ca m e nt e a s l íng í ng u a s f a llaa d a s p e l o s ci d a d ã o s d o p aaíí ss,, d iiss -
tintas dos idiomas da imigração". Notar-se-á, no entanto, que apesar
F ranc ês /lí nguas afri c anas : c oloni za ç ão li nguí s ti c a on tem e h oje, aqui e ali .   Bernard
Bernard Zong
Zongo 75

do facto de, em França, a língua oficial ser o francês, o sentimento de


f i d e l i d a d e p a r a co m a l í ng u a a nce s tr a l p e r ma ne ce f o r te na p o p u l a çã o
imigrada. Algumas investigações acerca da transmissão das línguas
a n c e s t r a i s d e m o n s t r a m - n o [ D e H e r e d i a --D
D e p r e z , 1 9 7 6 ; D e p rree zz,, 1 9 9 4 ;
L e co nte , 1 9 9 8 ; A k i nci , 2 0 0 3 ) . Ou tr o s e s tu d o s p a r e ce m d e mo ns tr a r o
contrário e falam em "erosão das línguas", quer regionais, quer mi-
grantes, e de "progressão do francês na transmissão familiar". Segundo
Cal
Calvet
d á vet (1 9nd
a e nte 9 4 e: r2 57
qu),e 
e   o" aestudo reali
realizado
  unificação zado pelo INSEE
linguística I NSEE
da Françae pelo prosseguirá
IINED
NED em 1 9 de 92
mo d o co ntí nu o a p e s a r d a s nu me r o s a s l í ng u a s i mp o r ta d a s p e l a i mi g r a -
ção e dos movimentos de defesa das línguas regionais". Simon (1997),
e x p l o r a nd o o s d a d o s d e s te i nqu é r i to , i ns cr e v e - s e na me s ma ó p ti ca .
Esta cultura de exclusão linguística, confortada por aquilo que acaba
de ser referido e que alimenta a consciência colectiva linguística, terá
u ma i nci d ê nci a s o b r e a l e g i ti mi d a d e d a e s tr a ti f i ca çã o e tno l i ng u í s ti ca
g e r a l - e m d e tr i me nto d o s g r u p o s e tno l i ng u í s ti co s mi no r i tá r i o s - , b e m
como sobre as normas de uso linguístico.

2.1.3. A legitimidade da estratifica ção etnolingu ística e n o rm as

Quando um país pratica uma política assimilacionista, "o uso da lín-


gua minioritária em público por minorias linguísticas pode dar lugar
a co me ntá r i o s d e s f a v o r á v e i s p o r p a r te d o s i nte r l o cu to r e s d a l í ng u a
d o mi na nte " [ B o u hr i s , L e p i cq e S a chd e v , 2 0 0 0 , ,  online).
É p a r ti nd o d e s ta s to m a d a s d e p o s i çã o , d e s te s j u l g a m e nto s , d e s te s co -
me ntá r i o s e p i l i ng u í s ti co s a ce r ca d a s l í ng u a s d a s co mu ni d a d e s mi no r i -
tárias, que se deve inferir as normas que regem os usos linguísticos.
A s s im,
i m, p a r a co m p r e e n d e r p o r qu e mo ti v o s u j e i to s llii ng u í s ti co s u ti llii z a m
uma ou outra língua, uma ou outra variedade de língua, em situações
de tipo diglóssico, por exemplo, é necessário ter-se uma ideia [não ne-
ce s s a r i a m e n te qu e s e d o m i ne ) d a s no r m a s s o ci a i s e m vvii g o rr,, qu e r e g e m
ou autorizam o uso das línguas ou das variedades presentes de acordo
com as situações. Segundo Gumperz [1982: 33), de facto, numa
p e r s p e cti v a e tno g r á f i ca ,

"(...) as regras linguísti


"(...) linguísticas
cas e as normas sociai
sociaiss podem ser vistas como limita-
ções que se exercem sob a forma e conteúdo da mensagem ". P ara al além
ém disso,
podemos ter por base o postulado de Ross (1979), segundo o qual "a relação
entre a língua e a identidade de grupo varia em função das mú múltiltiplas
plas fformas
ormas e
dos diferentes níveis de desenvolvimento dessa identidade"
identidade"   [ci
[citado
tado por Ham ers
e Blanc, 1983:212).

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

Convém avaliar a relação entre política linguística, vitalidade etnolin-


guística e legitimidade da estratificção etnolinguística. Se nos reme-
term os à taxino m ia propo sta por Ross para designar os diferentes m o-
dos de identidade colectiva - comunal, minoritária, étnica e nacional -,
podemos dizer que as comunidades estrangeiras que vivem em solo
f r an
ancê
cês,
s, e pa rticu larm en te em Paris
Paris,, m an têm um tipo
ti po de identid ade

colectiva
étnica que,denão
tipo "minoritário".
so m Este
ent e é privada tipolquer
de qua caracteriza uma
po der de comunidade
decisão
decis ão acerc a
do seu próp rio futuro,
futuro, com o ainda se vê limitada pela com unidad e dom i-
nante no sentido de restringir o uso da sua língua a alguns domínios
(família, religião, relações entre pares, etc.), excluindo domínios im-
po rtan tes com o a econo m ia, a adm inistração, e a edu cação (ver o trata-
mento reservado ao bilinguismo por alguns professores: Varro, 1997).
Relativamente aos estrangeiros que vêm para França e que se
reconstituem em comunidades - falamos nomeadamente de lares
sene gales es, m alianos, portug ueses, turcos, de ba irros ch ineses, etc.
etc . -,
se aprenderem o francês - os operários, por exemplo - é antes de mais
por motivos puramente funcionais, para não dizer profissionais.
É também o que Noy au s ubhnha (1976: 45):

...  os trabalhadores, a pequeníssima minoria qu e frequenta cursos  [...],  tiveram


de criar um sistema
sistema de socorro para compreender e fazer-s
fazer-see compreender
comp reender em
francês nos aspectos mais indispensáveis da sua existência,
existência, sem a interven-
ção de qualquer instituição
instituição de educação.

Erainstituições
das o caso em públicas.
1976, é o Um
casodos
ainda
dois hoje
póloscom
do odispositivo
acréscimo do
do FAS41
apoio
na "sua nova organização das formações linguísticas financiadas",
implementad a a partir d e 1995 e relembrad a por Pellé-Guetta (1997:
147) é clara:

... proceder a um posicionamento preciso das pessoas que desejam ingressar


nos estágios, quer no que diz respeit
respeitoo ao seu nível de competência
comp etência em francês,
como relativamente ao ponto em que estes se encontram no seu projecto pes-
soal de inserção, afim de garantir o bom acompanham
acomp anham ento dos estagiários
estagiários
(sublinhado pelo autor).
Este quadro global permite ter uma ideia daquilo que pode repre-
sentar um âmbito de troca informal tal como a rua, as lojas, as mer-
cearias, onde grupos de pessoas de pertença étnica se encontram e se
exprim em , de
d e m odo geral
geral,, na (s) sua (s) língua(s) étnic a(s). De Heredi
Heredia-
a-
-Deprez (1976) refere que os estrangeiros são imediatamente

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c olon i zaç ão li nguí s ti c a ontem e h oje, aqui e ali .   Bernard Zongo
Zong 77

d etec tad os , rotulad os c omo " es trang eiros " , c ertamente muito mais
pela sua língua, ou pelo modo como estes se expressam em francês, do
que pela cor da sua pele, e isto, por qualquer pessoa em contacto com
os traba lhad ores imigrados ou com a sua s ua ffamíl
amília
ia,, no âm bito do trab alho,
da escola, ou por simples convivência num bairro, no autocarro, de
férias, ou em qualquer outro lugar Por conseguinte, um tal ambiente
afigura-se como um lugar de manifestação ideal de alguns aspectos
[utilização sistemática da língua étnica] da vitalidade etnolinguística
das diferentes comunidades linguísticas.
Mas este contexto ideal de liberdade de expressão das identidades
linguísticas não parece convir aos políticos franceses. Foi deste modo
que s e c heg ou ã amálg ama entre alg umas populaç ões c ons id erad as
indesejáveis [os imigrantes africanos] e as suas línguas, consideradas
como geradoras de patologias, e por conseguinte de delinquência: é a
con cep ção à francesa do bili
bilinguism
nguism o - pelo me no s no que conc ern e os
poderes públicos.

2.2. A co n ce p çã o ideo lógica do bilinguismo:


bilinguismo: o r elató rio
Bénisti
o relatório prelimin ar da com issão "P reven ção" do grupo de estudo s
parlamentares acerca da segurança interna entregue a Dominique de
Villepin em 2004 pelo seu presidente, Jacques Alain Bénisti, deputado
do Val-de-Marne em 2004, ilustra perfeitamente a política linguística
francesa face às línguas da imigração, mais concretamente africana.
A concepção que os parlamentares possuem do bilinguismo escapa a
qualquer lógica científica e pode apenas responder a uma lógica ide-
ológica de glotofagia.
A hipótese de partida é a seguinte: as crianças de origem estrangeira
são delinquentes pelo facto de continuarem a praticar "a linguagem
patoá do país em casa". Convencidos do bom fundamento de tal cál-
culo,
cul o, os pa rlam en tares elabo ram aquilo que designam por "Curva
" Curva evo-
e vo-
lutiva
lut iva de um jove m que, ao longo dos anos, se afasta do "bom cam inh o"
para
A cse entregar
urva s eg ue àum
delinquência".
movimento as c end ente es tabelec end o uma rela-
ção sistémica entre a idade e a natureza da delinquência. A variável
explicati
expli cativa
va pe rm an ece a m esm a: o uso das llínguas
ínguas de origem .

O  a 3 anos: primeiros anos sem problemas;


4 a 6 anos: dificuldades da língua + comportamento indisciplinado;
7 a 9 ano s: acen tuaçã o dos problem as da ffei
eixa
xa 4 -6 an os + marginalização

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

escolar + demissão ou falta de controlo da educação dos pais + falta


de actividades pré ou pós-escolares;
10 a 12 ano s: agravam ento d os pro blem as da fai
faixa
xa 7-9 anos + violên-
cia na escola, repetição do ano lectivo + início dos pequenos furtos +
conflitos parentais acentuados e desenvolvimento da marginalização;
13 a 15 ano s: entrad a na delinquên cia com peq uen os assaltos. Início
Iníc io
do con sum o de drogas leves + fal
faltas
tas frequ ente s às aulas + perm anê n-
cia da falta
falta de actividade pré ou pó s-es cola res;
16 a 18 an os: con sum o de drog as duras + assa ltos + vida no ctu rna e
utilização de armas brancas;
19 a 23 an os: ingre sso na gran de delinq uên cia + tráfico de drogas,
roubos à mão armada.

Só podemos ficar surpreendidos com o simplismo de tal esquema.

Este salienta, primeiramente,


do bilinguismo no que concerneo aos
desconhecimento das problemáticas
membros da comissão parlamen-
tar Tendo todas as universidades trabalhado sobre a aquisição da lin-
guagem ou o bilinguismo partilham as mesmas conclusões que Martin
Beaudoi (1998) relembra: com a idade de cinco anos, a criança apren-
deu o conjunto da sua língua materna; a maior parte das aprendiza-
gens são feitas entre o nascimento e os três anos. Estas observações
demonstram o carácter arbitrário das faixas de idade retidas pelos
parlamentares. Com efeito, se são as línguas ancestrais que são postas
em causa, então a sua interdição deveria intervir à nascença da crian-
ça. Por outras
deveria afectarpalavras,
todos osa estrangeiros
proibição de adultos
se falar que
a suavivem
línguaem
de família.
origem
Com
Co m a d evid
evi d a ccortes
ortes iia,
a, perm ito-me re lem bra r aos s enh ores parlamen -
tares as diferentes etapas da aquisição da linguagem nas crianças:
1. O estád io pré-lingu ístico d ivide-se em du as etapa s: a etapa da
tagarelice (de 4 ou 6 a 12 meses) e a etapa da primeira palavra (4 ou
6 a 12 ou 18 meses);
2. o estádio holofrástico ( 1 8 aos 24 m ese s), a criança exp rim e-se por
palavras isoladas;
3. o estádio sintáctico (de 2 aos 5 anos) é o período em que se adquire
a sintaxe;
4. o estádio avançado (mais de 5 anos) é o período em que a criança
adquire as funções mais delicadas da linguagem.

Aquilo que surpreen de, de iigual


Aquilo gual modo, neste e squem a, é o seu cará cter
sistémico. Todos os jovens de origem estrangeira, que conservaram as
suas línguas de origem, seguem irremediável e fatalmente este pro-
cesso da delinquência. Perguntamo-nos através de que milagre é que

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c olon i zaç ão li nguí s ti c a on tem e h oje, aqui e ali .   Bernard
Bernard Zong
Zongo 79

ainda existem crianças bilingues de origem africana em liberdade. A


vacina para lutar contra este gene da delinquência inoculado nas cri-
anças bilingues africanas desde a sua nascença existe. Os Senhores
parlamentares encontraram-no: as famílias de origem estrangeira
"deverão esforçar-se para falar o Francês nos seus lares para habituar
as crianças a ter apenas esta língua para se expressar" (p.9). Os vestí-
gios colonialistas estão apenas desvendados. Na época de Jean Dard
(1817), o antigo inspector-geral Charton justificava a supressão do
ensino bilingue francês-wolof no Senegal nos termos seguintes: "as
colónias da África Negra não possuem, tal como na Indochina ou em
Argel, um a llíngua
íngua de ci
civili
vilização,
zação, inspirad ora de cultura e de ed uca ção "
(citado por Nacuzon Sali, 1996).
Esta obrigação para os pais de proibirem aos seus filhos o uso das

línguas
Com
Co nguas
m efeide
to,origem
efeito, ap rese
a criança bili nta -seé com
bilingue
ngue o um a obra
considerada comdeo salubridade
um a doen te mmental.
ental
que deve ser tratada: "Um contacto directo com o jovem deverá ser
instaurado a bem ou a mal com uma pessoa formada para este efeito,
por forma a tratá-lo ou dar-lhe a escolher um outro caminho que não
seja aquele que ela está a tomar" (p.8).
M. Bénisti, previdente, e os seus pseudo-linguistas parlamentares,
c ons id eram a g es tão d es tas c rianç as d oentes d es d e tenra infânc ia,
isto é, no momento em que se manifestam "as premícias de desvios"
(de 1 a 3 anos): "Acompanhamentos sanitários e medicais regulares
devem ser operados nas estruturas de guarda da pequena infância
para detectar e tomar conta, desde a idade mais tenra, aqueles que
manifes tem perturbaç ões c omportamentais " (p.9).
Deverá entender-se, por perturbações comportamentais, a fase de
aju stam en to que o bili
bilingue
ngue opera a par tir de um determ inad o estádio
de aprendizagem ou de aquisição bilingue ao dar a impressão de mis-
turar as duas lílínguas
nguas presen tes. Efect
Efectivamen
ivamen te, trata-s e sim plesm ente
de estratégias de linguagem e não de dificuldades de aprendizagem-
-aquisição. Acerca desta questão, permito-me reenviar o leitor para a
minha obra: Le Le  parler ordinaire mu multi
ltilingue
lingue à Paris - ville et alternance
codique   (L'Harm
codique (L' Harm attan,
att an, 2 0 0 4 ).
Quais serão os actores solicitados para pôr em prática esta política
de prevenção da delinquência? Todo um batalhão de pessoas: "priori-
tariamente, como é evidente, os pais mas também as equipas educa-
tivas, os profissionais sociais e medicais" (P.8). Cada um, no seu nível,
deverá velar pelo bo m fun cionam ento do disposi di spositi
tivo
vo através de com u-
nicações e de denúncias. Se, apesar dos esforços dos poderes públi-
cos para salvar estes doentes mentais que são as crianças bilingues, os
pais oferecerem resistência, outros meios mais coercivos serão con-
siderados por forma a levá-los à obediência:

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

[..
[...].] as mães parti
participarão
ciparão e comp
comprometer-se-ão.
rometer-se-ão. M as se estas sentirem,
sentirem, em
certos casos, reticências
reticências por parte dos pais, que exigem frequentemente a lin-
guagem patoá do país em casa, aquelas serão dissuadidas de fazê-lo. fazê-lo. Será
então necessári
n ecessárioo emp
empreender
reender outro tipo de acções visando o pai por forma a
incitá-lo nesta direcção.

Todos os ingredientes de um regime vichysta estão reunidos: os


delatores, limitações cuja natureza é abandonada à livre apreciação
das autoridades, a estigmatização das línguas (trata-se da questão do
"pato á"). Di
Dito
to ist
isto,
o, não ter em os r igo ro sam en te em c on ta o facto de o S r .
Bén isti utilizar a palavra "patoá " Este nada sab e acerc a da linguística.
Numa entrevista concedida pelo deputado à Afrik.com, na Terça-feira,
a 15 de Março de 2005, este último falou de "gambara" antes que o
jornalista rectificasse para "bambara".
Eis aqui, para terminar, uma visão geral das acções levadas a cabo
relativamente ao encontro da criança e dos seus pais para cada faixa
etária:
Entre 1 e 3 anos: as reuniões financiadas pelo FAZ devem permitir
sensibilizar as mães; em caso de oposição do pai, "Deve então recor-
rer-se a acções direccionadas para o pai no sentido de incitá-lo nesta
direcção" (p. 9).
Entre 4 e 6 anos: "O professor deverá então falar com os pais para
que, em casa, a única língua falada seja o francês. Caso haja persistên-
cia, a instrutora deverá transmiti-lo a um terapeuta da fala para que a
criança recupere imediatamente os meios de expressão e de lingua-
gem indispensáveis para a sua evolução escolar e social" (p. 10).
Entre 7 e 9 anos: "Aulas de instrução cívica (luta contra o incivismo,
respeito pelo outro, vida em comunidade, instituições...) deverão ser
obriga tórias duran te toda a escolarida de prim ária. Estas aulaulas
as p oderã o
ser efectuadas quer pelo instrutor ou instrutora, quer por um profes-
sor especializado" (pp. 10-11).
Entre 10 e 12 anos: "Se os factos de delinquência no exterior do am-
biente escolar se acentuarem, a colocação do adolescente será irrever-
sível e será objecto de um procedimento diligenciado por um juiz da
infância. Uma comissão responsável pela tomada de decisão poderá
ser im
i m plem entada , a fi
fimm de deliberar ac erca do futuro
futuro e do a com pan ha-
mento do jovem" (p. 11).
Entre 1 3 e 15 anos: ""O O jovem d everá ab an do na r o m eio escolar tradi-
cional e ingressar no ramo de aprendizagem de uma profissão imedi-
atamente após o final da escola primária" (p. 11).
Para além d os 16 anos : " c entros d e d elinquênc ia ad aptad os aos
maiores de 16 anos deverão ser implementados com educadores

F ranc ê s /lí nguas afri c anas : c oloni z aç ão li nguí s ti c a ontem e h oje, aqui e ali .   Bernard
Bernard Zong
Zongo 75
 

profissionais. Uma parte dos centros deverá incluir espaços de desin-


toxicação e de pós-tratamento para os jovens toxicómanos. Uma ver-
tente de formação para um trabalho manual deverá igualmente ser
considerada para preparar a saída deste último, bem como uma fase
d e reinteg raç ão na s oc ied ad e c om ac ompanhamento e s ubmis s ão a
exame que deverá ser concretizada" (p. 12).
No seu todo, torna-se visível que a política linguística francesa,
perante as línguas de imigração, manifesta, em grande medida, mais
opçõ es iideológ
deológ icas glotofági
glot ofágicas,
cas, do que um a abord agem científica
científ ica ace r-
ca do modo de gestão da paisagem linguística. Caso contrário, como
c ompreend er que nes te ponto d a inves tig aç ão ac erc a d o biling uis mo
e da bilingualidade, os parlamentares não tenham tido o reflexo de
solicitar o contributo
tanto, enchem de linguistas
as universidades ou de sociolinguistas
francesas? que, no
Esta questão teria en-
algum
valor caso a resposta que a mesma invoca não inscrevesse a política
linguística francesa numa continuidade ideológica: a dominação.
Conclusão
As relações entre o francês e as línguas africanas, desde sempre,
foram continuamente marcadas por uma estratégia glotofágica do
prim eiro em d e trim ento d as s eg und as . O perí od o c olonial p erm itiu
instalar os fundamentos de uma dominação linguística, cultural, e, por
conseguinte, mental, que nunca foi desmentida. Acreditou-se que as
independências anunciavam o fim do francês e, concomitantemente,
o desenvolvimento das línguas africanas ao serviço da educação e do
desenvo lvimento. Foi um a iilusã
lusão.
o. Dotadas ddee m eios financeiros impo r-
tantes , as instituições ditas francófo nas perm itiram à Fran ça con tinua r
a impor a sua língua em detrimento das línguas africanas. Em França,
tal com o vimos, as lílínguas
nguas africanas
afri canas são con siderad as co m o gerad oras
de patologias nas crianças bilingues. Este foi o alvo de ataque escolhido
por alguns parlamentares para desacreditar as línguas africanas, isto,
para prosseguir a obra de alienação cultural dos imigrantes africa-
nos. Todavia, a esperança permanece vigorosa, quer em África, com a
multiplicação, num certo número de países, de escolas bilingues, quer
em França, a acreditar na manifestação pela sociedade civil e alguns
universitários com a publicação do relatório Bénisti. Sendo qualquer
língua portadora de cultura, a sobrevivência das culturas africanas em
Fran ça está intrin seca m ent e ligada
liga da à tran sm issão no seio das famílias,
famílias,
ou por via do ens ino d estas línguas. Po r qu e mo tivo é qu e os A fricanos

aceitariam que as lí
línguas africanas? línguas
nguas regionais sobrev ivessem sob re as cinzas das

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric an a

Referências Bibliográficas
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verC
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C a l v e t , L . - J . ( 1 9 7 4 ) .   L i ngui sti qu
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coloni ali sme:
sme: pe
petiti t trai té de glottophagi e.   Paris:
Payot.
C e r q u i g l i n i ( 1 9 9 9 ) .  L es langues de la Fr ance [onli ne
ne)) -  rela tóri o da sua au toria .
C. ( 1 9 9 4 ) .   L es enfants bil i ngues:
D e p r e z C. ngues: langues et fami lles.   Pa ris: Did ier CREDIF.
Diki-Kidiri M.;   et al.   ( ( s / d ) . ) " L a n g u e s e n d a n g e r e n A f r i q u e n o i r e " , i n   L es lang ue
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danger,  L o u v a i n - P e e t e r s , p p . 4 5 - 5 5 , c o l . " M é m o i r e s d e l a S o c i é t é d e L iinn g u i s ttii q u e

de Paris.
H a m e r s e B l a n c ( 1 9 8 3 ) .  B i li nguisme et bili nguali
nguali té
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H e r e d i a - D e p r e z , C h . ( 1 9 7 6 ) . " L ' a p p r e n t i s s a g e d u ffrr a n ç a i s p a r le
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g r é s ",  L angue françai se, se,   2 9 , L a r o u s s e .
K a z a d i , N . ( 1 9 9 1 ) .  L 'A fri qu
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ancophone
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tique".
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M a r ti
O b e n g a , T . ( 1 9 9 3 ) .  O ri gi ne commune
commune de l'égy pti en ancien, du copte et de
dess langues

négr
gr o-afri cai
cai ne
ness mode
modernes
rnes - I ntroducti
ntroducti on à la li ngui sti qu
quee his tori qu
quee afr i cai ne..  P a r i s :
cai ne
L'Harmattan.
P opualti on et Soci étés  ( 2 0 0 2 ) . ""LL a d y n a m i q u e d e s l a n g u e s e n F r a n c e a u f i l d u X X e
siècle", online.
R e c l u s 0 . ( 1 9 1 7 ) .   U n gr and desti
desti n commence
commence,,   L a R e n a i s s a n c e d u L i v r ee..
S a i l H . N . ( 1 9 9 6 ) .   E ffi caci
caci té et équité
quit é de l'ensei
l'ensei gnement
gnement supéri
supéri eur. Q ue
uels
ls étudi ants

réussisse
ussissent
nt à l'U niv ersi té de D akar?   T e s e d e d o u t o r a m e n t o .
T h o m a s , ) . M . C . e B é h a g e l , A . ( 1 9 8 0 ) .   L a li ngui sti qu
quee afri cani
cani ste françai
françai se (e (enn Fr ance ance
et en A fr i que)
que) - L e poi nt de la questi questi on en 1980 1980,,  S o c i é t é d ' é t u d e s l i n g u i s t i q u e s e t
anth ropo logiqu es de Fra nce - n.- 11 - núm ero especial.

Z o n g o , B . ( 2 0 0 4 ) .  P arlons mooré - langue et culture de


dess M ossi - B urk i na Faso,
L'Harmattan.
Z o n g o , B . ( 2 0 0 4 ) .   L e parler
parler ordi nair e multi li ngue  à  P ari s - V i lle et alternanc
alternancee codique
codique,,
L'Harmattan.

 a fricanas:c  olon i zaç ão li nguí s ti c a ont em e h oje, aqui e ali .  


F r a n c ê s / l í n g u a safricanas: Bernard Zo
Zongo
ngo 83

II
As origens egípcias
da civilização africana
 
Cheiikh A nta Di
Che Dioo p: o h om em e a obra
ob ra
C h ei k h M 'B ack é D i op'

Introdução
Pro pom o-no s, aqui,
aqui , forn ece r um a visão geral da obr a de Che
Cheii kh Anta
Diop. Depois de ter relembrado o contexto histórico e ideológico no
qual Cheikh Anta Diop levou a cabo as suas investigações, levantamos
alguns dos traços essenciais da sua obra histórica. De seguida, abor-
daremos a continuação desta obra, no âmbito da história e da egipto-
logia, para concluir na importância crucial dos trabalhos do intelectual
no processo de recuperação da África e de edificação de uma civiliza-
ção planetária.

1 .  O c on tex to h istórico e ideológico no iiníc


nício
io do
século XX
Cheikh Anta Diop nasce, no início dos anos 1920, no Senegal. Esta
região do ex tre m o O este da África Negra ffez
ez pa rte dos gra nd es Esta do s
africanos pré-coloniais, tal como os Impérios do Gana e do Mali\ No
século XIX, sob Napoleão III, esta foi em grande parte conquistada e
integrada ao Império colonial francês por Faidherbe^.
De 15 de Novembro de 1884 a 26 de Fevereiro de 1885, em Berlim,
uma "conferência" acerca da África tinha reunido os países europeus.

*. Doutor em .ciê ncias, co-e ditor da Revista  A nkh


.ciências, nkh,,   Revista de Egitpologia e das Civilizações afri-
canas.
1. Cf. H i stoi re G énérale
nérale de l'A fri que
que;;   vol. Ill: U A frique du   V//®  au  X
 Xii ^  siècle e volume  IV:  VAfrique du
Xlie au XVie siècle,  Paris, UNESCO/NEA, 1990,1985.
2. De 1854 a 1865, Louis Léon César Faidherbe (1818-1889) tinha sido afectado na Argélia e na
Guadalupe antes de ser enviado para o Senegal.

hometne  a obra .  
Cheikh Anta Diop ;  o hometn Cheikh MBa
MBacké Diop 87
 
bem como os Estados-Unidos. Este encontro culminou na assinatura
d e   Acto de Berli
B erlim,
m,   qu e levou à "partilha de África" en tre seis po tên cias
europeias, a Inglaterra, a França, a Bélgica, a Alemanha, Portugal e a
Espanha^. Em vésperas da 1.® Guerra Mundial, a quase totalidade da
África é constituída por colônias governadas pelos Europeus.
Esta situação resulta dos acontecimentos que se desenrolaram no
mundo desde o século XVI, marcados pelo mercantilismo europeu e
a superioridade técnica e militar crescente da Europa. Esta impõe, ao
mesmo tempo que a sua dominação, as suas idéias acerca da humani-
dade, a sua origem e a sua evolução. Paralelamente, e juntando-se ao
que é praticado pelos Árabes, na África subsaariana, o tráfico de es-
cravos Negros é concebido, institucionalizado e racionalmente orga-
nizado pelos Europeus. Conseqüências: a desagregação dos Estados e
da sociedade em todos os sectores da vida, a diminuição da população
atingindo vários milhares de habitantes^ a destruição humana mais
massiva e mais prolongada que o mundo jamais tenha conhecido.
O pavoroso Código Negro, promulgado por Luís XIV em 1685 (a res-

peito do sequal
M s ,   não Montesquieu
pronuncia] (1689-1755],
regulamenta o autor nas
a escravatura de   De
de  Vesprit e na
Antilhas des
Guiana^ No momento em que a Europa empreende, no século XIX, a
conquista do interior da África, esta já se encontra extremamente
fragilizada pelos múltiplos efeitos destruidores directos e indirectos
do sistem a de tráfico de ser es hu m an os neg ros que se desenvolveu du-
rante quatro séculos.
A dominação colonial, que assume nas suas duas fases sucessivas, a
conquista militar do continente africano e a exploração/pilhagem dos
seus recursos mineiros e agrícolas, é eminentemente mortífera, e de
igual modo marcada por atrocidades, por genocídios massivos®. Entre
1860 e 1930, algumas estimativ as demonstram que o v olume rema-
nescente da população da África subsaariana ainda diminuiu de um

3.   H i stoir e G énérale
nérale de l'A fri qu
quee, Vol.  V U ,  U A frí que sous i a domi
domi nati on coloniale,
coloniale, 188
1880-1935
0-1935,,   Paris,
UNESCO/NEA, 1987.
4. Cf. J. E. Inikori in   Histoire Générale de l'Afrique,   "La Traite négrière du XV^ au XIX^ siècle".
Études et Documents 2, Paris, UNESCO, 1979, 1985, pp. 64-97 e   H i stoi re G éné nérale
rale de l'A fri que
que,,
vol. VII; L. M. Diop-Maes,  A fri que noir e: D émographie, sol et H i stoi re,  Paris, Présence Africaine/
Khepera, 1995. 0 autor estabelece que a população da África subsaariana no século XVl situava-
-se na Louis
5. Cf. ordemSala-Molins,
dos 600 milhões de Noire
  Le Code habitantes.
ou le calvaire de Canaan,   Paris, Presses Universitaires de
France, 1987.
6. ]. E. Inikori in  H i stoi re G éné
nérale
rale de l'A fri que
que,,  "La Traite n égr ière du XVXV® au XIX
XIX^^ siècle", Étud es et
Documents 2, Paris, UNESCO, 1979,1985, pp. 64-97 e  H i stoi re G éné nérale
rale de l'A fri que
que,,  vol. VII; L. M.
Diop-Maes,   A fri que noir e: D émographie, sol et H i stoi re re,,   Paris, Présence Africaine/Khepera, 1995;
A, Hochschild,  Le L es fantômes du roi L éopold - U n holocauste oubli é,  Paris, Belfond, 1998: Rosa
Amélia Plumelle-Uribe,  L a fféroci éroci té blanche - D es non- blancs aux non-ar yens, g énocides nocides occ occultés
ultés
de 1492 à nos our ours,s,  Paris, Albin Michel, 2001.
l oo:: , B a b a c a r M b a y e D i o p e D o u d o u D i e n g A Co nsc iênc ia Histórica Africa na

terço, passando aproximadamente de 200 milhões para 130 milhões


de pessoas^
Frantz Fanon escreve:

...... o ocupante
ocupan te instala a sua domdominação,
inação, afirma massivam ente a sua superiori-
dade.   O grupo socialsocial,, subjugado m ilitar
ilitar e econom
economicamente,
icamente, é desum
desumanizado
anizado
através de um método polidimensional. Exploração, torturas, razias, racismo,
liquidações colectivas, opres opressão
são racional encontram-se
encon tram-se ligados a níveis dife-
rentes para, lit literalmente,
eralmente, tornar o autóctone num objecto entre as mãos da
nação ocupante.
ocupan te. Este homhomem
em objecto, sem meios
m eios de existi
existir,
r, sem razão de ser,
é destruído no mais profundo da sua  substância...'^.

A   dominação da África não é de natureza exclusivamente militar,


política e econômica. De modo a ser plenamente eficaz e aceite por
todas as camadas da sociedade europeia, esta dominação, bem como
os m eios da sua execuç ão dev em se r justificado
justifi cado s, legitimad
l egitimad os no plano
moral,  filosófico,  religioso''.
religioso''. Assim ,  alguns  pensadores europeus decre-

tam a inferioridade
[1694-1778), Cuvi erintelectual
(1769-1832), do Go Negro.
bi neauEstes têm por nome:
(1816-1882) e L évyVoltaire
-B ruhl
(1857-1939) em França, Hume (1711-1776) na Inglaterra, Kant
( 1 7 2 4 - 1 8 0 4 ) e H e ge
g e l ( 1 7 7 0 - 1 8 3 1 ) n a A l e m a n h a ".
".
Estes a firma m que o Negro Negr o não possui a capa cidad e de raciocinar,raciocinar, de
criar.
cri ar. A iniciat
ini ciativa
iva de se organiza r em e ntidad es so ciopo líticas líti cas estrutu -
radas, policiadas, em Estados só pode ter uma origem exterior". É
deste modo que a grande cidade do   Zimbabwe,  de sco be rta no Sul do
rio Zambeze, não é certamente a obra dos próprios autóctones africa-
nos e se torn a a do rei Salomã o no   país de Ofirl  Webber Ndoro, profes-
sor
dadededomuseografia e de gestão
Zimbabwe, precisa do patrimônio
que esta negação dascultural da Universi-
realizações africanas
do Zimbabwe perdurou na Rodésia até uma época recente, apesar dos
resultados incontestáveis da investigação arqueológica^^:

7. Cf. Daniel Noin, 1999,   L a popu


populati
lati on de l'A fr i que subsahari enne
nne,,   Ed ições da UNESC
UNESCO, O, pp. 19 -2 4.
8. Fanon, Franz, "Racisme et Culture" in  /4ctes du du  1 er C ongrè
ongrèss I nte
nternati
rnati ona
onall des
des É criv ains et A rti ste
stess
Noirs,  Paris, Sorbonne, 19-22 de Setembro de 1956, Présence Africaine,  n^^  especial, pp. 122-131;
0 projecto da Unesco; "La Route de l'esclave", lançado em 1994.
9. Cf Rosa Amélia Plumelle-Uribe,  L a féroci f éroci té M anc
anchehe - D es non-blanc
non-blancss aux non-ary ens, géno génocides
cides
occult
occ ultéés de 1492 à nos j ours ,   Paris, Albin Michel, 2001.

L10.
es Cf
de T. eObenga,
derni
rni rs rempa  Crthe
rempart heik
s ikde
h Al'A
ntafr i Dcanisme,
iop, V oln
olne Sphinx,   Paris,
ey eett lePrésence
  Revue Présence
Africaine, Africaine/Khepera,
n.s 157, l.s semestre 1998,1996;
pp.
47 a 65.
11. Inclusive Léo Frobenius que descreveu as civilizações africanas, nomeadamente a do povo
lorubá do Benim, desenvolve, na sua obra Mythologie de lAtlantide, a tese da sua origem grega
(Paris, Payot, 1949, pp. 10-34, por exemplo}.
12. Ndoro, Webber, "Zimbabwe, cité africaine",   in Pour la Science,   n.^
n.^ 24 3, Janeiro de 199 8,
pp. 74-79.

Che i kh Anta D i o p ; o hometn


  ometne  a obra
h .  Cheikh MBac
MBacké
ké Diop 89

Apesar destes trabalhos, a maior parte dos colonos europeus


europ eus na Rodésia ne-
gam a evidência. De 1965 até à independência, em 1980, a Frente Rodésia,
partido   fundado por lan Sm ith e que defende o apartheid, censura todas as
obras e docum entos que descrevem o Zim Zimbabw
babwe;
e; os arqueólogos que defen-
dem a origem africana do Zimbabw
Zim babwee são presos e expulsos; os Africanos que
apoiam posições sem semelhantes
elhantes perdem o seu trabalho; as populações locais já
não têm o direit
direitoo de celebrar cerimônias rituais naquele local; mesmo as visi-
tas ao local são interditadas.
Sob a pluma destes ideólogos, o Negro torna-se um ser dominado
por com port am ent os t ot alm ent e singulares que não deixarão de ser
represent ados at rav és de caricat uras":

Existe, por um lado, um


umaa cultura [europeia] à qual se reconhecem qualidades
de dinamismo,
dinam ismo, de desenvolvimento, de profundidade. Um a cultura em mov movi-i-
mento, em perpétua renovação. D efronte, encontram
encontram-se
-se características,
características, curio-
sidades, coisas, nunca uma estrutura.

É deste modo que se forma uma verdadeira teoria racista, elaborada


por uma intelectualidade europeia que visa, particularmente, posicio-
nar o Negro no fundo da escala do seu sistema de hierarquização das
raças e no topo da qual o homem Branco é colocado. O Negro é negado
enquanto ser humano por inteiro, este é "coisificado" segundo a ex-
pressão de Aimé Césaire. Desta concepção racialmente hierarquizante
da hu m anid ad e re sulta que a África Negra nã o pode e não deve po ssu ir
um a história, que não pode co nstitu ir "um ca m po h istórico inteli
inteligíve
gível"
l",,
para ret omcriar
não pôde ar osnenhuma
t erm os do hist oriador
civilização. b rit
ri t ânico
É este Arnold
Arnopelo
o motivo ld T qual
oy nb oeeEgipto
", q ue
antigo, brilhante civilização da Antigüidade, é agora literalmente ar-
ranca do à África
Áfric a Negra,
Negra, ao universo negro -africano, pa ra ser arbitrari-
amente relacionado geográfica, antropológica e culturalmente à Ásia
Ocidental e ao mundo mediterrânico (Médio-Oriente). A intelectuali-
dade europeia exibe "uma erudição feroz" para cometer este acto de
falsificação da história da humanidade":

Com a ajuda do imperialismo, tornava-se cada vez mais


ma is "inadmissível" con-
tinuar a aceitar a tese até agora evidente de um Egipto negro.   O  surgimen-
to da Egiptologia será então caracterizado pela necessidade de destruir a

13. Fanon, Franz, "Racisme et Culture", in  A cte ctess du 1e


1err C ongrè
ongrèss I nte
nternati
rnati onal de
dess Écri vai ns et
Artistes Noirs,  Paris, Sorbonne, 19-22 de Setembro de 1956, Présence Africaine, n.^ especial,
pp. 122-131.
14. Toynbee, Arnold, L'H i sto
stoii re-,
re-,  Paris-Bruxelas, Elsevier Séquoia, 1978.
nègr es et  Culture-,  Paris, Présence Africaine, 1954, 1979, p. 62.
15. Diop, Cheikh Anta,  N ati ons nègr

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

qualquer custo, e em todos os espíri


espíritos,
tos, a mem ória de um Egipto negro, do
modo mais completo.

"Inad m issível" é efec tivam en te a palavra utilizada,


util izada, na sua ob ra
ra   Égypte
ancienne^^,   por Cham pollion-
ancienne^^, poll ion-Figeac
Figeac [1 7 7 8 -1 8 6 7 , a não confundir com
o seu irmã o Jean-Fra nço is Champ ollion,
ollion, designad o de C ham pollion-le-
pollion-le-
-Jeune (1790-1832), o decifrador dos hieróglifos) para procurar in-
validar
vali dar a conclusão, ap esa r de tudo fundada, do historiad or Con stantin-
- F r a n ço
ç o i s d e C h a s s e b o e u f [ 1 7 5 7 - 1 8 2 0 ) , m a iiss co
c o n h e c i d o p e lo
lo n o m e d e
Volney, professor de história na Escola Normal Superior de Paris, no
s e u   Voyage
Voya ge en Syrie et en Égypte pendant les années 1783,1784 & 1785,
conclusão segundo a qual os antigos Egípcios eram Negros":

... quando,
quando , tendo ido visitar a Esfinge, o seu aspecaspecto
to me forneceu a palavra
do enigma. Ao observar esta cabeça caracteristicamente
caracteristicamente negra eem m todos os
seus traços, lembrava-m e desta passagem notável de Heródoto, na qual este
afirma: No que me concerne, considero que os Cólquidas são um a colónia dos
Egípcios, porque, tal como eles, possuem uma tez negra e os cabelos crespos, o
que signifi
significa
ca que os antigos Egípcios
E gípcios eram vverdadeiros
erdadeiros Negros da espécie de
todos os naturais da África [...
[...]] Que
Qu e tema de meditação [...]
[...] pensar-se que esta
raça de homens negros, hoje nosso escravo e objecto do nosso desprezo é este
mesmo a quem devemos as nossas artes, as nossas ciências, até mesmo o uso
da palavra; imaginar, enfim, que foi no meio destes povos que se dizem mais
amigos da liberdade e da hum anidade, que se sancionou a mais bárbara das
escravaturas e levantado a questão de saber se, de facto, os homens homen s negros
possuem um a inteli
inteligência
gência da mesm a espécie que a dos homens
hom ens brancosi
Est as linhas de Volney de nada serv irão; a v isão de um a África
a-histórica [sem história, sem passado) e atemporal [fora do tempo,
imutável), cujos habitantes, os Negros, nunca foram responsáveis, por
definição, pela menor invenção, por um único factor da civilização, im-
põe-se dorav ant e enquant o corrent e de pensam ent o dom inant e nos
discursos, nos textos e enraiza-se profundamente nas consciências.
Tais são a ideologia, a imagem da África, a falsificação histórica que

serãodedoravante
tal, transmitidas,
geração em geração, no ensinadas pela intelectualidade
seio das instituições ociden-
mais oficiais, das
mais modestas às mais prestigiadas, da escola à universidade; estas
serão amplamente veiculadas através de todos os meios de expressão:

16. Figeac, Champollion,   Égypte ancienne;   Paris, ed. Didot, Didot, 18 39 , pp. 2 6 -2 7 ; citado por CheCheililíh
íh
Diopp em   Nations nègres et Culture,   4.^ edição, 1979, p. 69.
Anta Dio
17. Volney, M. C. P.,  V oyag e en Sy ri e et en Ég y pte pe
pendant
ndant le
less anné
annéees 178
1783,17
3,1784
84 & 178 1785;
5;   vol. I, Par is,
1787, pp. 74-77.

 hometn e a obra .  
Cheikh Anta Diop ;  ohometn Cheikh MB
MBac
acké
ké Diop 91

romances, pinturas, bandas desenhadas, publicidades^®, e mais tarde


no cinema...
Zoos humanos exibirão na Europa e nos Estados Unidos os povos
não-brancos^^.

2. A resistência africana e a restauração da


consciência histórica
Os Africano s desenvolveram , no conju nto do contine nte e no exte-
rior deste, diferentes formas de resistência e de lutas de libertação
(guerra, guerrilha, resistência passiva, terra incendiada, revoltas,
resistência intelectual, espiritual...) face à agressão militar, política,
económica, cultural e psicológica estrangeira. As figuras emblemáti-
cas
N'Zi
N' desta
ngaa (1 resistência
Zing 59 0 -1 6 63 ), eTous destas
s ai ntlutas,
aint homens
L ouvert
ouverture ure (17 e 43mulheres,
-1 80 3 ), Lsão:
ouissa Drainha
oui el
elgg rè
rèss
( 1 7 6 6 - 1 8 0 2 ) , S o j o u r n e r T r u t h ( 1 7 9 7 - 1 8 8 3 ) 2 ° ,  B é h a n z i n ( 1 8 4 4 - 1 9 0 6 )
e os Amazonas, Samory (1830-1900), Lat Dior (1842-1886), le Mahdi
( 1 8 4 4 - 1 8 8 5 ) , a r a i n h a R a n a v a lloo n a 11
111 ( 1 8 6 2 - 1 9 1 7 ) , p a r a ccii ta
ta r a p e n a s
algumas de entre tantas outras conhecidas ou ainda desconhecidas.
Lara^^ relembra que foi:

A resistência
resistência dos Negros à ocupação francesa do Haiti, a partir da segunda
metade do século  XVI  até à guerra levada a cabo por Toussaint
T oussaint Louverture,
de 1790 a 1803, que permitiu ao Haiti ver-se livre
livre do regime colonial através
das armas.

Pes s oas s imples , alg umas pers onalid ad es c omo Cond orc et^^ (1743-
-1 7 94 ), as s oc iaç ões e ag rup am entos variad os na E uropa e nos E s tad os
Unidos da América ergueram-se contra as exacções de que os Negros
eram v ítiítim
m as. Mas estes nun ca estiveram à altura de se opor verdad ei-
ramente aos governos, exércitos, milícias, redes, empresas comerciais
e industriais, bancos, associações diversas de objectivos falsamente

18. Pascal Blanchard, Éric Deroo, Gilles Manceron,  L e P aris N oir ,   Paris, Harzan, 2001.
19. Nicolas Bancel, Pascal Blanchard, Gilles Boetsch, Éric Deroo, Sandrine Lemaire (obra colec-
tiva).  Zoos hum
humai
ai ns, de la Vénus hotte
hottentote
ntote auc rereali
ali ty show s,   Paris, éditions La découverte, 2002.
20. Robin D. G. Kelly, Earl Lewis,  A history of A frica
fricann A me
meriri can
ans,
s,   Oxford, Nova lorq ue, Oxford Uni-
versity Press, 2000, p. 199-201, Molefi Kete Asante,   H istori cal Atlas ooff A fri can A me meriri can
ans,s,   Nova
lorque, Macmillan Publishing Company, 1991, p. 71.
21. Lara, Oruno D., "La Traite négrière du XVe au XlXe siècle", in   H i stoi re G éné nérale
rale de l'A fri que que,,
Études et Documents 2, Paris, UNESCO, 1979, 1985, pp. 111-124 e  H i stoi re G éné nérale
rale de l'A fri qu quee,
vol VIL
22. Badinter, Élisabeth e Badinter, Robert,   C ondorce
ondorcet- t- U n i ntellec
ntellectue
tuell en poli ti que
que-,-,   Paris,
Paris, Fayard,
1998, pp. 171-175.

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

humanitários ou rehgiosos, missões científicas exploradoras, etc., que


conjugaram os seus esforços para se apropriar da África, submeter ou
massacrar os seus habitantes.
A proc lam ação da abolição da escravatura,
esc ravatura, no século XIX,
XIX, a em ergê n-

ciaundo
m do conceito ideológico
não Branco, de   missão
de 
represent civil
civilizadora
izadora   entda
am a charneira re Eu ropaperíodos
dois face ao
consecutivos de uma economia mundial dominada pelas potências
ocidentais que balançam na era industrial. Ao sistema do comércio
transatlântico de Negros reduzidos à escravatura [comércio desig-
nado de "triangular" - Europa, África, América), substitui-se a domi-
nação colonial da África, a apropriação do seu solo, do seu subsolo,
do seu espaço marítimo e, mais tarde, aéreo pela Europa. Para além
disso, a abolição oficial da escravatura não foi, de modo algum, acom-
panhada de uma revisão institucional das teorias racistas, mas pelo
contrário, estas foram sabiamente ajustadas, reforçadas por argumen-
t os apresent ados com o cient ificam ent e fundados: ilust ram -no a t eo-
ria do poligenism o desenv olv ida pelo nat uralist a de origem suíça
Louis Agassiz [1807-1873], discípulo de Cuvier, e o médico ameri-
cano Sam uel George M ort on, b em com o a ob ra  ra   Types ofMankind 
ofMankind  dos
Americanos Josiah Nott e George Gliddon, publicada em 1854".
A const at ação de Aim ê Césaire em 
em   Discours sur le coloniali
colonialisme
sme é
inequívoca: "E afirmo que da colonização à civilização a distância é
infinita; que de todas as expedições coloniais acumuladas, de todos

os estatutos coloniais elaborados, de todas as circulares ministeriais


expedidas, não se conseguiria um único valor humano^'^.
Os poucos traços salientes da natureza do sistema de dominação
da África pela Europa, que acabam de ser evocados, mostram em que
contexto de violência extrema, física, mental e de obscurantismo ide-
ológico Cheikh Anta Diop empreende as suas investigações. Através de
uma investigação científica metódica, mergulhando no passado mais
longínquo do homem, este vai restituir a existência, a anterioridade
e a riqueza das civilizações negro-africanas, colocando desde logo em
causa os pró prios fun dam entos da cultura ocidental relativos
relat ivos à gén ese
e à evolução da hum anidad e.
Uma das grandes finalidades deste trabalho imenso e revolucionário
consist e t am b ém na 
na   restauração da consciência históric
históricaa africana,
africana,   isto
é, a consciência de possuir uma história. Théophile Obenga explicita
aquilo que implica o con ceito de consciê ncia histórica:

23. Cf. Stephen Jay Gould,  La M al-M esure de I H orrtme


orrtme,,   Paris, Ed. Odile Jacob, nova edição, 1997,
capítulo 1.
24. Césaire, Aimé, D isco
iscours
urs sur le
le C
 Colo
oloniali
niali sm
smee-,   Paris, Présence Africaine, 1955, p. 10.

C h e i k h A n t a   D i o p ;  o h o m e t n e a  o b r a .  C
Che
heiikh MBacké Diop
Diop 9

A tomada de consciência da história representa um acto duplo: (a) adquirir


um a consciência cada vez mais aguda da profundidade históric históricaa do mun-
mu n-
do tal como o viveu"; (b) e, por outro lado, correlativamente, de adquirir
um a consciência que partici
participe
pe na história, que faça históri
história.
a. A consciência
histórica
históri ca pertence à ordem do acordar, da possibilidade
possibilidade de escolha, isto é,
em suma,
sum a, da própria ordem da liberdade. Os "acidentes" da história [tráfi [tráfico
co
de Negros, colonização, traum
traumatismos
atismos económ icos, políti
políticos,
cos, culturais
culturais,, psi-
cológicos) tornaram o povo africano am nésico: a mem ória históri
histórica
ca col
colectiva
ectiva do
povo africano
africano foi ati
atingida
ngida de modo
mod o profundo. Cheikh An Antata Diop empreen-
deu um trabalho ffundam
undam ental para a restauração da consciência históric históricaa
africana..

3. ADiop
Anta obra histórica e egiptológica de Cheikh
É de ste mo do q ue Cheikh An ta Diop
Diop se dedica, desde os seus estu do s
secundários em Dakar e em St. Louis no Senegal, a munir-se de uma
formação mutlidisciplinar em ciências humanas e em ciências exactas,
alim ent ada por leit uras ext rem am ent e num erosas e v ariadas.
Se o autor adquire um domínio notável da cultura europeia, este não
deixa de estar profundamente enraizado na sua própria cultura. O seu
perfeito conh ecim ento do wolof, a sua língua
língua m aterna , revelar-se-á um a
das principais chaves que lhe abrirá as portas da civilização faraônica.
Por outro lado, o ensino corânico familiariza-o com o mundo árabe
e m uçulm ano. A part ir do
doss conhecim ent os acum ulados e assim ilados
acerca das culturas africana, árabe e muçulmano e europeia, Cheikh
Anta Diop elabora contribuições primordiais em diferentes domínios.

3.1. A reconstituição científica do passado da África

No m om en to em que Cheikh
Chei kh Anta Diop
Dio p em pre en de as suas p rime iras
investigações históricas (anos 40), a África Negra não constitui 
constitui   "um
campo histórico inteligível", 
inteligível",  para reto m ar a exp ressão do historiad or
britân ico Arnold Toyn bee. É sintom ático q ue ainda em inícios dos a nos
60, no número de Outubro de 1959 do  do   Correio 
Correio  da UNESCO,
UNESCO, o hi sto -
riador anglo-saxão Basile Davidson introduza o seu assunto acerca da
Découverte
Décou verte de l'Afrique 
l'Afrique   com a questão: "Será o Negro um homem sem
passado?".

25.
1 9 9 Obenga,
6 ,   p.  359.Théophile,   C he
heii k h A nta D i op, olneey eett le Sphinx;   Paris, Présence Africaine/Khepera,
op, V oln

lo :,
:, B a b a c a r M b a y e D i o p e D o u d o u D i e n g A Con sciên cia Histórica Africa na

Ta l com o vimos an teriorm en te, o estudo da África


Tal Áfri ca era abordad o, an-
tes de Cheikh
Cheik h Ánta Diop, com um p rec on ceito racial. O au tor refuta a
no ção d e raça no sen tido da ideologia ocid ental. Com Co m efeito, a no ção de
raça tal como é conceptualizada pelos filósofos, pelos antropólogos e
pelos etnólogos ocidentais, na sua grande maioria, desde o  o   Século das
Luzes,   esta bele ce corr elaçõ es en tre o ti
Luzes, tipo
po fí
físic
sicoo (que os esp ecialistas
denominam/endt/po: cor da pele, tipo de cabelo, prognatismo, etc.) e
as capacidades intelectuais dos indivíduos^®. Branco tornou-se sinóni-
mo de inteligência, de racionalidade, de criatividade; Negro, sinónimo
de bestialidade, de preguiça, de emotividade. Desta concepção acerca
da comunidade humana resulta a existência de uma hierarquia entre
as diferentes raças.
A etnologia e a antropologia ocidentais apreendem as sociedades
africanas através deste recorte vertical da humanidade. Num tal en-
quadramento de pensamento, um Negro jamais criou qualquer civili-
zação, ou ainda nunca foi autor de qualquer descoberta ou inovação.
Isto explica o "nascimento do  do   mito do Negro"^'' 
Negro"^''  e a noção de 
de   "verda-
deiro Negro"^^, 
Negro"^^,  um a espécie de ferram ent a m et odológica conceb id a
por especialistas ocidentais para estudar a história dos povos afri-
canos, a fim de jamais entrar em contradição com a sua própria con-
cepção hierarquizante da raça: "Os antropólogos inventaram a noção
engenhosa, cómoda, fictícia do "verdadeiro Negro" que lhes permite
considerar, necessariamente, todos os verdadeiros Negros como falsos
Negros, aproximando-se de modo mais ou menos significativo de uma
espécie de arquétipo de Platão, sem nunca atingi-lo"^®.
A "m e cânica" do 
do   mito do Negro/verdadeiro Negro 
Negro  funciona do m odo
seguinte:
- qualquer factor de civilização conhecido em qualquer parte do
continente africano é obra de um não-Negro.
- todo o povo Negro responsável por uma civilização é de facto um
povo Branco, ainda que se trate de um povo Branco com pele negra
Tal é o caso dos Egípcios, dos Núbios e de todos os outros Negros-
-Africanos responsáveis pelas construções antigas do Zimbabwe, pela
arquitectura sudanesa de Djenné e de Tombuctu, pelo implúvio
iorub á, etc.
et c. O Estud o da soc ied ad e Ba ou lé po r M aurice De lafosse,

26. Obenga, Théophile,   C heheii k h Anta D i op,


op, V oln
olneey eett le Sphinx;   Paris, Présence Africaine/Khepera,
1996; Liauzu, Claude,   L a soci
sociéété fr anç
ançai
ai se face au raci sme - D e la R évolut i on à nos Jours
Jours;;   Paris,
Editions Complexe, 1999; Schnapper, Dominique e Allemand, Sylvain,  Questionner le racisme;
Paris, Gallimard Education, 2000.
27. Diop, Cheil<h Anta,   N ati ons nènègr
gr es et C ulture
ulture,, op. cit.,  4.^
 4.^ edição, p. 4 9.
28. Vercoutter, Jean,   L'Égypte et la Vallée du Nil;   Paris, PUF, Nouvelle Clio - L'Histoire et ses
problèmes, 1992, p. 39.
29. Diop, Cheil<h Anta,   A nté
ntériri ori té de
dess ccii vi li sations nnèègres - M ythe ou vé
vériri té histori qu
quee?;   Paris,
Présence Africaine, 1967,1993, p. 24.

Cheikh Anta Diop ;  o hometn e a o b r a .  Cheikh MB


MBac
acké
ké Diop 95

no seu artigo "Sur des traces probables de civilisation égyptienne et


d'hommes de race blanche à la Côte d'lvoire"^", e as considerações de
Félix Dubois acerca da civilização Songhai, na sua obra   Tombouctou
Ia Mystérieuese,  publicada em 18 97 , repr esen tam ilustrações típicas
d o   mito do Negro  m anifestas nas   Études africai
africaines.
nes.  No prim eiro caso,
só os Brancos (impossíveis de encontrar) conseguiram trazer
os elementos da civilização aos Negros Baoulés, e no segundo, os
Sudaneses, autores das obras arquitecturais das cidades da Nigéria,
Djenné, Tombuctu,... ainda que de pele e cabelos encrespados, estes
não são Negros. Neste contexto de obscurantismo e de racismo, o
contributo determinante de Cheikh Anta Diop é o seguinte:

-derecusar qualquer
um m odo geral, correlação
ou fenó tipo)entre
e as acapacida
cor da pele (a aparência
des intelectua is; física
- recusar qualquer hierarquia racial: as diferentes raças humanas
possuem as mesmas aptidões intelectuais;
- recusar as caricaturas raciais e considerar as grandes famílias hu-
manas, Negros, Brancos, Amarelos, na sua respectiva variedade de
tipos físicos;
- afirmar a origem m on oge nética africana da espécie hum ana: a hu-
manidade é una na sua diversidade^^

E m   N ations nègres et culture,  em 19 5 4, Cheik


Cheikhh Anta Diop escre ve
a propósito da civilização egípcia^^: "[...] a civilização que [o Negro]
reclama poderia ter sido criada por qualquer outra raça humana - na
medida em que se possa falar de uma raça - que tivesse sido colocada
num berço tão favorável, tão único".
Portanto, Cheikh Anta Diop não inverteu a concepção hegeliana ou
ocidental do ser humano, mas afirma antes que se a realidade humana
apresenta, de modo evidente, uma variedade de tipos físicos diferen-
tes, designados, ã falta de melhor, através do termo de raças, estas de-
vem ser todas colocadas no mesmo plano. Segundo o autor, a noção
de hierarquia racial representa um absurdo científico que, justamente,
combateu, e que, aliás, é confirmada através dos dados científicos
actuais.
Na sua obra   Cheikh Anta Diop, Volney et le Sphinx,  Théophile Obenga
dem on stra em q ue consiste a origi
originali
nalidade
dade e a novidade da pro blem áti-
ca histórica africana iniciada e desenvolvida por Cheikh Anta Diop^^:

3 0 .   ^Anthropologie,   vol. 11, Paris, 1900.


31. Diop, Cheikh Anta, "L'unité d'origine de l'espèce humaine",   in A ctes ctes du colloque d'A thène
thènes:
s:
R aci sme science et pseudo-
pseudo-sci
sci ence:
nce:  Paris, UNE
UNESC
SCO,
O, col. Actuel, 1 9 82 , pp. 13 7 -1 4 1 .
32. Diop, Cheikh Anta,   N ati ons nègrnègr es et culture, op. cit .,   4.^ éd., p. 401.
33. Obenga, Théophile, Cheikh Anta Diop, Volney et le Sphinx:   Paris, Présence Africaine/Khepera,
1996.

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

Ao recusar o esquema hegel


hegeliano
iano da lei
leitura
tura da hist
história
ória human
humana,
a, Cheikh Anta
Diop dedicou-se, por conseguinte, a elaborar, pela pri prim
m eria vez na África
Negra,
Neg ra, um a inteli
inteligibil
gibilidade
idade capaz de dar conta da evolução dos povos negros
africanos,
africanos, no tempo e no espaço [.[.....]] Nasceu uuma
ma nova or
ordem
dem na compreensão
do factor cultural e histórico africano.  Os diferentes povos afriafricanos
canos são povos
"históric
"hist óricos"
os" com o seu Estado: o Egipto, a Núbia, o Gana, o M ali ali,, o Zimbabw
Zimbabwe,
e,
o Con
Congo,go, o Benim , etc., a sua arte, a sua ciência. M ais ainda, estes diferen-
tes povos históricos afafricanos
ricanos concretizam-se, na verdade, enquenquanto
anto factores
substanciais da unidade cultural africana.
Na tions nègres et culture - De VA ntiquité nègre égyptienne
Nations aux
problèmes culturels de 1'Afrique d'aujourd'hui -   que Cheikh Anta Diop
pub hca nas Ediçõ es Pr ése nc e Africaine criadas po r Alioune Diop é
o hvro fundador de uma escrita científica da história da África. A re-
constituição crítica do passado da África torna-se possível graças à
introdução do   tempo históric
históricoo e  d a   unidade cultural.  A restaura ção da
consciência histórica africana torna-se então, por sua vez, possível.

3.2. As principais temáticas desenvolvidas por Cheikh


Anta Diop
As temáticas apresentadas na obra de Cheikh Anta Diop podem ser
reagrupadas em quatro grandes categorias:

a .  A origem do homem e as suas migrações.   Entre as questões


tratadas: a antiguidade do homem em África, o processo de diferencia-
ção biológica da humanidade, o processo de semitização, a emergên-
cia dos Berberes na história, a identificação das grandes correntes mi-
gratórias e a formação das etnias africanas. A análise dos resultados
da paleoantropologia humana e da arqueologia já adquiridas e dis-
poníveis permite a Cheikh Anta Diop, a partir de 1962^^ propor uma
síntese coerente acerca da evolução da humanidade na qual surgem
três ideias principais:
- os Africanos são os habitantes autóctones da África e não são "in-
vasores" provenientes da Ásia ou de outro lugar;
- os prim eiros   Homo Sapiens  eram Negros e a áre a de exte nsã o do
substrato negro da humanidade actual expandia-se efectivamente
para além do contin en te africano, na ÁsiÁsiaa e na Europa;
- os outro s gran des grupos "r "racia
aciais"
is",, Br an co s e Am arelos p rovêm

34. Diop, Cheikh Anta, "Histoire primitive de 1'Humanité: Évolution du monde noir",   Bulletin de
l'IFAN, T.
 T. XX
XXIIV, série B, n^ 3- 4 ,1 9 6 2 , p. 44 9 .

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
Chei MBacké
acké Di
Diop
op loi

d o   homo sapie
sapiens
ns  negro africano, atravé s de um pro ces so de diferen-
ciação dos fenótipos relacionados com as diferentes condições geo-
climáticas, processo este que a ciência esclarecerá um dia.

Trata-se, portanto, da tese da origem monogenética africana do


homem moderno [homo sapiens sapiens]   qu e Cheikh An ta Diop apo ia.
Na época, a teor ia policêntrica oouu mu ltiregi
lt iregional
onal [enunciada em 1 9 4 5 )
reú ne um gran de nú m ero de eespe
specicial
alis
ista
tas^^.
s^^. Esta estipula um a diferen-
ciação racial que remontaria aos   Homo erectus,  tend o vivido vivido resp ec-
tivamente na África, na Ásia e na Europa. Esta teoria possui ainda hoje
os seus defensores.
Monogénese  e  poligénese  d a hum anid ad e s ão d ebatid as em 19 6 9
no âmbito de um colóquio organizado pela UNESCO acerca do sur-
gimento do homem moderno^^ Após o seu artigo de 1962, o autor
consagrará vários desenvolvimentos a esta questão, quer em artigos
como "L' Apparition de   I'Homo sapiens"^''  [1970), quer nas suas obras:
Antériori
An tériorité
té des civil
civilisations
isations nègres   [ 1 9 6 7 ) e   Civilisat
Civilisation
ion ou Barba
Barba--
r ie   [1981). E s te retorna em partic ular ao proc es s o d e povoamento
da Terra e de diferenciação racial. Assim, o homem negro chegado
à Europa teria progressivamente perdido a sua pigmentação com a
adaptação a um clima caracterizado por períodos de glaciação que
perduraram durante vários milhares de anos [o último durou 20 000
anos, de 3000 a 10 000). Os "Brancos" e os "Amarelos" seriam prove-
nientes de populações de   homo sapie sapiens
ns sapie
sapiens
ns  african as que teriam
emigrado para fora do continente através do Estreito de Gibraltar e/ou
da Sicília, e/ou do istmo de Suez, há várias dezenas de milhares de
anos. A diferenciação racial representa assim um fenômeno recente à
escala da evolução da Terra e da hum anidade. A hipótese m on oge né-
tica dá con ta da unidad e da esp écie hu m ana actu al através da sua apa-

rente diversidade:
apresentam o queaptidões
as mesmas significaintelectuais.
que todas as populações humanas
Os restantes temas tratados relativos a este eixo de investigação são
os seguintes:
- o  processo de semitização,  isto é, o pro cess o de form ação dos povos
semitas, analisado enquanto fenômeno de contacto e de mestiçagem
entre populaç ões melan od e rm es e leuc od erm es em reg re g ião próx ima-
-orientaF®.

35. Barriel, Véronique - "L'origine génétique de l'iiomme moderne", in  D ossi er P our la Science Science,, L es
origines de l'humanité;  Janeiro de 1999, pp. 92-98.
36. Diop, Cheikh Anta, "L'Apparition de l'Homo sapiens", in  B ulleti ulleti n de 
de   l'I
l'I FAN; T. XXXI I ,  série B, n.-
3,1970, pp. 623-641.
37. Diop, Cheikh Anta,  op. ci
ci t.
38. Diop, Cheikh Anta -   A ntéri
ntéri ori té desc
desc i vi li sati ons nè
nègr
gr es - mythe ou véri té his tori qu
quee?, op. cit .,

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

- o surgim
surgimento
ento dos Berberes,   qu e Cheikh An ta Diop iden tifica com
os descendentes dos Povos do Mar que chegaram massivamente a
África
Áfri ca cerca de 1 2 0 0 Os docu m entos egípcios
egípci os referem batalhas
contra estes povos provenientes do Norte sob os reinados dos faraós
Merneptah e Ramsés III.
- as movimentações de populaçõe
populaçõess   no per ím etro m editerrâ nico e nas
terras interiores da Europa consequentes à formidável explosão da
ilha de Santorini nas Cidades [Mar Mediterrâneo), cerca de 1420 an-
tes da nossa era. Chei
Cheikh
kh Anta Diop
Diop estabelec e tam bé m apro xim açõe s
esclarecedoras
bem entre esta e explosão
como das mitologias e algumas passagens da Bíblia,
lendas gregas''^.
- a identifi
identificação
cação das grandes correntes m igratórias e a formação das
etnias africanas.  O auto r introduz o seu estudo iintitulado
ntitulado "Pou r un e
méthodologie de Tétude des migrations'"^^ nos termos seguintes:

A presente exposição situa-se nnoo plano metodo


metodológico.
lógico.  O  etno-historiador evi-
ta, na mamaior
ior parte do tempo, aplicar a sua tteoria
eoria a um caso concreto tomad tomadoo
comoo exemplo de estudo e contenta-se em emitir iideias
com deias gerais.
Gostaríamos
Gostarí amos de contri
contribuir
buir para col
colmatar
matar esta lacuna demonstrando de que
modo,
mo do, na ausência de informações arqueológicas e de docum entos escritos,
é possível, em alguns casos pri privilegiados,
vilegiados, recorrer aos factores linguísti linguísticos,
cos,
étnicos ("etnónim
("etnónimos"
os" e topónim
topónimos)
os) e sociopolít
sociopolíticos
icos para alcançar um a quase
certeza na restit
restituição
uição do passado africano.
Trata-se de demonstrar que, durante uma dada época rel relati
ativamente
vamente recen-
te, um
umaa m igração, proveniente das m argens do lago Albert e das colinas da
Núbia (região habitada pelos   Nuer,  Shiliuk, Dink
Dinka,a, etc.]
etc.],, tteria
eria atingido o Senegal
infiltrando-se
infi ltrando-se no corredor situado entre o 10.- e o 20.- paralelos acima do
Equador, enquanto que um umaa outra migração, proveniente da mesm mesmaa regi
região
ão
dos Grandes Lagos, teria prosseguido o curso do Zaire [Cong [Congo] o] até à sua foz,
para se expandir ao longo da costa, sem poder ladear esta para além dos
Camarões e do Delta do Níger.   Os  povos do golf golfoo do Benim, da Nigéria do Sul
ao sul da Costa do M Marfim
arfim (lho, Iorubá, OyOyo,
o, Ew
Ewe, e, Aka
Akan, n, Ag
Agni,
ni, Baou
Baoulé,
lé, etc.]
pertenceriam a um a m igração anterior às duas precedentes e igualmen igualmentete

p . 1 8 9 - 1 9 3 .   P arenté généti
généti que de l' égy pti en pharaoni que et de dess lang ue
uess négro-af
négr o-af r i cai ne
ness   (Dakar,
IFAN-NEA, 1977, pp. XXXIX-XXXVII.
39. Diop, Ciieikii Anta, "La formation du rameau berbère", in  H i stoi re gé géné
nérale
rale de l'A fri qu quee, É tudes
tudes
et Documents, Libya Antiqua,   Colóquio organizado pela UNESCO de 16 a 18 de Janeiro de 1984,
Paris, Unesco, pp. 77-81.
40. Diop, Ciieikh Anta,   Ci vi lisation ou Barbarie
Barbarie-,-,   Paris, Présence Africaine, 1981, pp. 208-209.
41. Diop, Ciieikh Anta - "Pour une méthodologie de l'étude des migrations", in   H i stoi re gé géné
nérale
rale
de l'A fr i que:
que: É tudes
tudes et D ocuments
ocuments 6,  "Ethnonymes et topony mes afric africains"
ains" (19 78 ), UNESUNESCO CO,, 1 98 4,
p. 9 7- 1 21 , e num a primeira ve rsão sob o ttítul ítulo:
o: "Introduction à l'étude des migrations en Afr Afrique
ique
entrale et ocidentale - Identification du berceau nilotique du peuple sénégalais", in   Bulletin de
l'IFAN,  série B, T. XXXV, n.a 4,1973, pp. 769-792.

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
MBacké
acké Di
Diop
op loi

 
originária de leste.
originária leste. No entanto, estes teriam sofrido o choque destas últimas
vagas, o que terá provocado movimentos
mov imentos secundários de população, de leste
para oeste, ao longo da costa atlântica,
atlântica, tal como parecem comprovar
comprov ar a uni-
dade cultural desta região, a diferença de tipos físicos
físicos e de nomes
nom es clânicos
comparados
comp arados aos do Sahel, no norte.
no rte.
— As relações entre a África Negra e as Am éricas antes de Cristóvão Colombo
Colom bo
(1492]«.

b.  O
todos  O os par
paaspectos:
r ente
ntesco
sco oEpovoamento
gi pto an
antiti go/
go/Á
doÁ Vale
fri a.   Este
fr i ca doN eNilo,
gr a. é analisado
a génese sob
da civiliza-
ção egitpo-nubiana, o parentesco linguístico e cultural, as estruturas
sociopolíticas, etc.
Não se trata aqui de expor toda a argumentação técnica multidisci-
plinar desenvolvida por Cheikh Anta Diop a fim de demonstrar que
o Egipto faraónico é negro-africano, tanto no plano cultural, como no
p l a no é tni co . C o nv é m s i mp l e s me nte r e l e mb r a r , d e mo d o mu i to s u -
cinto, a natureza desta argumentação declinada, aqui, segundo quatro
r e g i s to s :  cultural, sociológico, antrop
antropológico
ológico e histórico.

O s a r g u m e n t o s d e o r d e m c u l t u r a l  englobam a cultura material e


resultam dos estudos comparativos entre o Egipto antigo e a África
s u b s a a r i a na , e m p a r ti cu l a r no s d o mí ni o s :
da linguística,  o nd e s e co m p a r a m a s l ííng ng u a s ne g r o - a f r i ca na s m o d e r -
nas e a língua egípcia (faraó nica e cop ta], no plano da gra m ática (m or-
fologia e sintaxe), do vocabulário (lexicologia), das correspondências
fonéticas.
Da arquitectura,  que se inter essa pelos m on um en tos erigidos no
antigo Egipto, na Núbia, na Etiópia, no Mali e no Zimbabwe.
Do artesanato,  que ofer ece m últiplos ob ject os da vida qu otidian a
ao investigador: apoios de cabeça, pentes, peças de vestuário tecidas,
sandálias, vassouras, cabaças decoradas.
Dos instrumentos musicai mu sicais, s,  ta i s co m o a s ha r p a s qu e e n co ntr a m o s no
Egipto e na África Central.
Da tecnologia,  ilust ilustrada
rada pelas técnica s m etalúrgicas que perm item
recolher e fundir os metais a fim de fabricar ferramentas e objectos di-
versos. As próprias ferram entas, com o a enxada, tam bé m são estudad as
(concepção, tipo de utilização, sentido simbólico associado, termos que
os design am ) c om pa rativ am en te no Vale do Ni Nill o e no Oeste da Áfri África.
ca.
Da escrita.
escrita. A   Á f r iica
ca N e g r a co nte m p o r â n e a co ns e r v o u s i s te m a s d e
escrita de tipo hieroglífico (escritas   Vai, Bam oun, Nsibidi,  etc .) qu e se
aproximam da escrita hieroglífica egípcia.

42. Diop, Cheikh Anta,  A fri qu


quee noir e préco
précoloniale
loniale e A nti qu
quii té afri cai
cai ne par l' i mage,
mage, op. cit.
100 Babacar Mbaye Diop e Doudou Dieng A Con sciência Histórica African a
 

D a a r te , o nd e s ã o a p r e e nd i d a s s i mu l ta ne a me nte a s e s cu l tu r a s d o s
artistas do Egipto faraônico, do Benim, da Nigéria, do país Massai, etc.

O s a r g u m e n t o s d e o r d e m s o c i o l ó g i c a  colocam em evidência tra-


ços comuns às sociedades do Egipto antigo e da África subsaariana.
Concernem particularmente:
O matriarcado,
matriarcado,  qu e ca r a cte r i z a u m a s o ci e d a d e o r g a ni z a d a e m to r no
da mulher.
O totemismo,  qu e a s s o ci a d e m o d o co m p l e x o u m d e te r m i na d o a ni ni--
mal (por exemplo, o falcão, o grou coroado, o crocodilo, o gato...) a um
indivíduo ou grupo de indivíduos e que dá lugar a um culto.
A etnonímia,
etnonímia,  isto é, o estud o dos n om es de grup os hu m an os da África
a ctu a l qu e a i nd a co ns e r v a m v á r i o s no me s co mp r o v a d o s no E g i p to a n-
tigo:   Atoum , A ntef, Sek, M eri, Kara, Bara, B ara, Bari, Raka, Sem Sar, Kaba, Keti,
Amenti, Mamara, Konare, Sankale, Sangare, Sarikare,   etc.
A realeza e   os seus atributos, tal como o   uraeus,  que figura resp ec-
tivamente nos penteados reais do Faraó e do   Oni d'Ife.
A religião,
religião,  qu e faz
fa z sur
surgi
gir,
r, po r exem plo, um a réplica do pa nte ão egipto-
-núbio no Benim, no Togo e na Nigéria nos povos Fon, Ewé e Iorubá.
O sistema de transmissão de saber   qu e apr esen ta, no antigo Egipt Egiptoo
e na África saheliana, uma característica essencial comum: a trans-
missão da sabedoria iniciática, etc.

O s a r g u m e n t o s d e o r d e m a n t r o p o l ó g i c a   provêm, de igual modo,


de domínios variados:
O estudo dos textos egípcios hieroglí hieroglíficos
ficos  f o r n e ce o s te r m o s a tr a v é s
dos quais os habitantes do antigo Egipto se designavam a si próprios
como Negros.
A análise dos textos dos historiadores
historiadores e fil
filósofos
ósofos gregos e latinos
latinos   p e r -
mi te e x tr a i r nu me r o s o s te s te mu nho s a ce r ca d o f e nó ti p o d o s a nti g o s
Egípcios. Por exemplo, Heródoto (480 ? - 425 a.C.), designado   Pai da
História,  g r a nd e v i a j a n te e te s te m u n ha o cu l a r e s cr e v e :

M anifestamen
anifestamente,
te, de facto, os Coiquídios são de raça Egípcia; mas alguns Egíp-
cios disseram-me que, no que lhes dizia respeito, os Coiquídios eram descen-
dentes dos soldados de Sesóstris. Eu mesm o tinha conjecturado isto, de acordo

com
belos dois indícios:
crespos em primeiro
(na verdade, lugar,prova
isto não o factonada,
de terem
um a veza pele
que negra
existeme osainda
ca-
outros povos nesta situação); depois, e com mais significância,
significância, pelo facto de,
únicos entre os hom ens, os Coiquídios, os Egípcios e os Etíopes praticarem a
circuncisão
circuncisão desde a sua origem^^

43. Heródoto, Livro H, 104.

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
MBacké
acké Diop loi
 

o estudo da Bíblia,  d a s tr a d i çõ e s j u d a i ca e m u çu l ma na qu e co n s e r -
v a m a me mó r i a d a d e s ce nd ê nci a d e C ha m, a nte p a s s a d o b í b l i co d o s
Negros: em particular   Kush  [Cuxe) e  Misraím  (o Egip to).
A iconografia   ( e s cu l tu r a s e p i ntu r a s ) a b u nd a nte qu e co b r e to d o s o s
per íod os da pré -histó ria e da histór ia egípcias.
A antropologia física física e a biologia molecular
mo lecular,,  co m o e s tu d o d e m e d i çõ e s
o s te o l ó g i ca s d e e s qu e l e to s , o e s tu d o d o s g r u p o s s a ng ü í ne o s e d a p i g -
m e nt a çã o d a p e l e d a s m ú m i a s ( a m e l a ni na , co r p o qu í mi co r e s p o n s á v e l
pela cor da pele, conserva-se no tempo e não deve ser confundida com
o s p r o d u to s d e m u m i f i ca çã o co m o o b e tu m e ) ..... r e v e l a m o p a r e n te s co
dos antigos Egípcios com as populações negro-africanas, etc.

O s a r g u m e n t o s d e o r d e m h i s t ó r i c a  q u e f u n d a m e n t a m a a n t e r i o -
ridade do Alto Egipto em relação ao Baixo Egipto: a origem da civili-
zação egípcia que falta investigar em África, em direcção ao Sul, e não
a o N o r te , no s p a í s e s d o Pr ó x i mo - Or i e nte a s i á ti co . E s ta a r g u me nta çã o
b a s e i a - s e : no   estudo dos textos hieroglíficos
hieroglíficos egípcios,  qu e m ostra, po r
exemplo, que o Egípcio se orientava em relação ao Sul, ou seja, a di-
recção da terra de origem dos seus antepassados que tinham, ao longo
do s tem po s, volta do a sub ir o cu rso do Ni Nilo
lo "divi
"divinizado".
nizado". EE,, com efeito,
para o Egípcio, o sol erguia-se sobre a sua esquerda e punha-se à sua
direita.
A tradição histórica histórica referida,
referida,   po r exem plo , p or D iodo ro da Sicíli Sicíliaa
(cerca de 90-20 a.C.):

... os Etíopes*'^ afirmam que os Egícpios são uma


um a das suas
suas colônias que foi

levada
inícipara
o, umo Egipto
no início, por  que
mar, mas Osíris.
 Estestendo
o Nilo, pretendem até que
arrastado mu este
muito lipaís
ito limo era
era Etiópia,
mo da apenas,
tinha acabado por preenchê-lo, form ando uma um a parte do continente..
continente..

A geofísica
geofísica e   a s  datações  de am os tra s geológicas, com o auxílio de
m é t o d o s f ííss i c o - q u í m i c o s c o m o a d o C a r b o n o 1 4 , p o d e m p e r m i t i r
estabelecer em que época é que a emergência do Delta do Nilo se pro-
duziu, bem como confirmar ou anular as informações recolhidas a este
respeito por Heródoto e Diodoro da Sicília junto dos Egípcios e dos
Etíopes.
A arqueologia,  com as esc av aç õe s levad as a ca bo no Alto Egipto e no
Sudão, que colocam em evidência a origem meridional da civilização
egípcia.

44, Etíopes no seio dos Gregos Antigos, ou seja, os Negros Africanos.


45. Diodoro da Sicília,   Histoire Universelle;   Livro 3, p. 341, trad. de l'abbé Terrasson, Paris, 1758,
citado por C. A. Diop em   N ati ons nè
nègr
gr es et cultur
cultur e, op. cit .,   1 9 5 4 .

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

c. A  i nve
nv est
stii g açã
açãoo ac
aceer ca da ev olução das soci edade
dades.
s.  Vários desen-
volvimentos imp ortan tes são consagrado s à gén ese das form as antigas
de organização social encontradas nas áreas geográficas meridional
(África) e setentrional (Europa), à emergência do Estado, à formação
e à orga nização dos Estad os african os ap ós a qued a do Egipto,
Egipto, à carac-
terização das estruturas políticas e sociais africanas e europeias antes
do período colonial, bem como à sua respectiva evolução, aos modos
de produção, às condições socio-históricas e culturais que presidiram
a Renascença europeia.

d.   O contri buto da Á fri ca ppaara a ccii vi li zaç


zação
ão..   Este contributo é
restituído em vários domínios: a metalurgia, a escrita, as ciências
(matemáticas, astronomia, medicina ...), as artes e a arquitectura, as
letras, a filosofia, as religiões classificadas (judaísmo, cristianismo,
islamismo), etc.
O con jun to destas grand es prob lem ática s define, de m odo claro e
coerente, um enquadramento, eixos e um programa de trabalho.

3.3. A fecundidade da obra: contributo metodológico


e acervo do colóquio do Cairo
Para extrair a África do paradigma a-histórico e etnográfico no qual
antropólogos e africanistas a tinham confinado, Cheikh Anta Diop
adopta uma metodologia de investigação que se baseia em estudos
diacrónicos, no comparatisme crítico, na pluridisciplinaridade: arque-
ologia, linguística, etnonímia/toponímia, sociologia, ciências exactas,
etc. Graças a uma abordagem simultaneamente analítica e sintética,
foi possível para o autor devolver os acontecimentos históricos, soci-
ológicos, linguísticos, culturais do continente africano, a sua coerên-
cia
ci a e a ssua
ua inteligibil
inteli gibilidade.
idade. A nova m etod olog ia em m até ria de histó ria
africana, preconizada e empreendida por Cheikh Anta Diop nos seus
trabalhos, encontra-se exposta na sua obra   An Antériori
tériorité
té des civil civilisati
isations
ons
nègres - m ythe ou vérité historique? [op. cit.
cit.,,  p p . 1 9 5 - 2 1 4 ) .
Tratando-se do Egipto antigo então analisado no seu contexto negro-
-africano, Cheikh Anta Diop escreve'''^:

Partindo da ideia segundo a qual o Egipto antigo fazia parte do universo


negro, era necessári
necessárioo verifi
verificá-la
cá-la em todos os dom ínios possíveis, racial ou
antropológ
antro pológico,
ico, linguístico, sociológ
sociológico,
ico, filosófico, histórico, etc. Ca
Caso
so a iideia
deia

46. Diop, CheikJi Anta,   A ntéri


ntéri ori té des
des cici vi li sati ons nè
nègr
gr es - mythe ou
ou véri té his tori qu
quee?;   Paris,
Présence Africaine, 1967, p. 275.

C h e ik
i k h A n ta
t a D iioo p . o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
MBacké
acké Di
Diop
op 103

de partida seja exacta, o estudo de cada um destes diferentes dom domínios


ínios deverá
conduzir
condu zir à esfera correspond
correspondente
ente do universo negro africano.  O  conjunto des-
tas
ta s   conclusões  formará um feifeixe
xe defactos concordan
concordantes
tes que eliminarão o caso
fortuito. A qui reside a prova da nossa hipótese de partida. U m m étodo dife-
rente apenas teria condu conduzido
zido a um a verifi
verificação
cação parcial qque
ue nada provaria.

Era necessário ser exaustivo.


Em 1970, a UNESCO solicita Cheikh Anta Diop no sentido de este
se tornar membro do Comité científico internacional para a redacção
de uma   Histoire gén
générale
érale de l'Afrique.  A sua exigência de objectivid ade
leva-o a colocar três condições prévias à redacção dos capítulos con-
sagrados à história antiga da África. As duas primeiras consistem no
agendamento de um colóquio internacional, organizado pela UNESCO,
reunindo investigadores de reputação mundial para, por um lado,
tratar da origem dos antigos Egípcios e, por outro lado, fazer o ponto
da situação acerca da decifração da escrita meroítica. Com efeito, uma
confrontação dos trabalhos de especialistas do mundo inteiro afigurava-
-se-lhe indispensável para fazer progredir a ciência histórica. A ter-
ceira condição prévia conc ern e à realização de um a cobe rtura a érea da
África,
Áfri ca, a fim
fim de restitu ir as antigas vias ddee com un icaçã o do con tinen te.
Foi deste modo que teve lugar, no Cairo, de 28 de Janeiro a 3 de Fe-
vereiro de 1974, organizado pela UNESCO no âmbito da Redacção de
H istoi
istoire
re générale de l'Afrique,  o colóquio intitulado:  " L e  peuplement d e
l'Égypte ancienne et le déchiffrement de l'écriture méroïtique".
Este colóquio reuniu uma vintena de especialistas pertencentes aos
seguintes países: Egipto, Sudão, Alemanha, EUA, Suécia, Canadá, Fin-
lândia,
lândi a, Malt
Malta,
a, França, Congo
Con go e Senega l. A con tribu ição m uito con struti-
va dos investigadores africanos, quer no plano metodológico, quer ao
nível da quantidade de factos apresentados e instruídos, foi reconhe-
cida pelos participantes e anotada no relatório do colóquio, nomeada-
mente no âmbito da lingüística'^^:

"U m am
"Um amplo
plo acord
acordoo ffoi
oi estabel
estabelecido
ecido entre os participantes." Os elementos
apresentados pelos professores Diop e Ob Obenga
enga foram considerados extrema
extrema--
m ente construtivos (...)
(...) D e modo
mo do ma
mais
is alargado, o professor Saun
Sauneron
eron salien-
tou o interesse do método proposto pelo professor O benga depois do professor
D iop. Estand
Estandoo o Egipto colocado num ponto de convergên
convergência
cia de influências
externas, é norm al qu
quee alguns emp empréstimos
réstimos tenham sido feit
feitos
os a línguas es-
trangeiras; ma
mass trata-se de algum
algumas
as centenas de raízes semíticas em relação
a vários milhares de palavras.   O  egípcio não pode ser isolado do seu contexto

47. Cf. H i stoi re gé


générale de l'
nérale  l'AA fri que,
ue, Pa
Pari
ris,
s, Afrique/Stock/Unesco, 1980 , pp
pp.. 79 5-8 23 .

lo:, Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana
 

africano e o semítico não dá conta da sua emerg


emergência;
ência; torna-se, portanto,
legítimo
legít imo encontrar-lhe parentes ou primos em África.

Tratando-se da cultura egípcia:

O professor Vercou
Vercoutter
tter decl
declarou
arou que, segund
segundoo ele, o Egipto era af
africano
ricano na sua
escrita, na sua cultura e na sua ma
maneira
neira de pensar   O  professor Leclant re-
conheceu esta mesm a carac
caracterí
terísti
stica
ca afri
africana
cana no temperamento e na man
maneir
eiraa
de pensar dos Egípcios.

Na sua conclusão geral, o relatório indica que:

A minuciosa preparação das comunicações dos profe


professore
ssoress Cheikh Anta Diop
e Obenga nem sempre teve, apesar das preci
precisões
sões conti
contidas
das no documento
de trabalho
sequentempreparatório
Consequentem
Con ente, surgiu enviado pela   UNESCO,
um verdadeiro   um
desequilíbriuma
desequilíbrio a contrapartida
o nas discussões. igual.

No final do colóq uio do Cai


Cairo,
ro, Cheikh Anta Diop ffaz
az vo tos no sen tido
de um a reorien tação d os estudos egipt
egiptólogos
ólogos que deve ser acom pan had a
por um diálogo com os investigadores africanos'^®:

Este coló
colóquio
quio pode ser conside
considerado
rado como umumaa virage
viragemm que permiti
permitiuu à egipt
egipto-
o-
logia reconciliar-se
reconciliar-se com a África e reencontrar a sua fecundidade. [...]
[...] O diálo-
go científ
científico
ico nnoo plano internacional está instaurado e podem os esperar que
o m esmo nnão
ão seja rom
rompido.
pido. Na sequência dos debates, alguns participantes
não deixaram de expressar a sua vontade no sentido de reorientar os seus
trabalhos voltados para a África, bem como de intensifi
intensificar
car a sua colaboração
com os investigadores africanos.

O facto de o Egipto anti go ser tratad o n o âm bito da  Histoire générale


antigo
de l'Afrique,  bem como a redacção por Cheikh Anta Diop no Volume
II do capítulo I intitulado "L'origine des anciens Égyptiens'"'^ consti-
tui dois exemplos das recaídas directas do colóquio de egiptologia do
Cairo. A   H istoi
istoire
re générale de l'Afrique,  editada pela UNESCO, está hoje
completa e disponível; esta comporta oito volumes progressivamente
traduzidos am várias línguas, entre as quais o suaíli e o hausa.
Desde 1974, as descobertas arquelógicas, as análises linguísticas, os
estudos genéticos, o exame da cultura material, o estudo da filosofia,
etc. vêm apenas confirmar cada vez mais as grandes orientações de
investigação recomendadas pelo Colóquio do Cairo.

4 8 .  L e Solei
Solei l,   n a 1 1 2 8 J a n e i r o d e 1 9 7 4 .
49. Cf. H i stoi re gé géné
nérale
rale de l'A fri qu quee, op. cit.,   pp. 39-72.

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
MBacké
acké Di
Diop
op loi
 

4. A con
continuaçã
tinuaçã o da ob ra histórica e egiptológic
egipt ológicaa
No âmbito da egiptologia, por exemplo, uma comunidade de egitpólo-
gos africanos existe doravante. Esta constituiu-se segundo as etapas
abaixo identificadas.

4.1. O período da investigaç


invest igação
ão ssoli
olitár
tária:
ia: 1 9 4 6 - 1 9 7 0
Até ao início dos anos 1970, Cheikh Anta Diop prosseguiu, numa
completa solidão intelectual, as suas investigações acerca do paren-
tesco existente entre o antigo Egipto e o resto da África Negra inicia-
das há mais de vinte anos. Um veto opôs-se de modo implacável para
qu e con tinu asse a leccio
l eccio na r na Un iversidade de Da
Dakar
kar.. Daqui resu ltam
duas consequências imediatas: a impossibilidade de orientar e de for-
mar jovens gerações de historiadores e egiptólogos africanos, e a de
proceder à renovação completa dos "Estudos africanos", quer a nível
do conteúdo de ensino (integração das antiguidades egipto-núbias,
etc.], quer no dos critérios de competência.

4.2. Théophile Obenga encontra Cheikh Anta Diop


No início dos anos 60, Théophile Obenga descobre o livro   Nations
nègres et culture,  de Cheikh An ta Diop. Este, já es tá form ad o em filoso-
fia e domina o grego antigo, bem como o latim. Orienta-se decisiva-
mente para a egiptologia e para a linguística. Segue os ensinamentos
de gran des n om es da linguístic
linguísticaa histórica, com o H enri Frei na Universi-
Universi-
dade de Genebra e Émile Benveniste no Colégio de França, em Paris. Os
prim eiros resultados das pesqu isas de Théo phile Obenga em história e
em linguíst
l inguística
ica surgem em artigos desde 1 9 69 . Fo Foii em 1 9 7 3 qu e o autor
publicou, nas edições   Présence Africaine,  a sua prim eria gran de obra,
UA fri
frique
que dans l'Antiquité - Egypte
Egyp te pharaon
pharaonique/Afrique
ique/Afrique No
Noire.
ire.
0 leitor
grados encontrará ali,
à comparação entre outros,
da língua egípcia capítulos
antiga comfundamentais consa-
línguas negro-afri-
canas contem por ânea s, bem com o com os textos antigos do con tinen te
africano. Cheikh Anta Diop já não está sozinho. Este tem conhecimen-
to disso e exprime a esperança, no seu prefácio ao livro de Théophile
Obenga, de ver constituir-se, a curto prazo, uma equipa de investiga-
dores africanos:

E indispensável criar umumaa equipa de investigadores africanos em que todas


as discipl
disciplinas
inas estejam representadas. É deste mod
modoo que se colocará, o m
mais
ais

l oo::, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciê ncia Histórica Africa na

eficazmente possível, o pensam ento científ


científico
ico ao serviço da África, com a res-
salva da seguinte condição prévia: Possam estestes
es com
compreender
preender que ao dom ínio
dos conhecim
conhecimentos
entos se deve acrescentar a eficáci
eficáciaa da organização por forma

a que se possa manter


O colóqu io do Cairo
Cai ro [1 9 7 4 ), evoca do previam ente, con solida a co-
lab ora ção ent re os dois ho m en s para a ree scrit a da histór ia da África e,
por conseguinte, da hum anidade, sobre base s estritam en te objectivas.
Os resultados do colóquio do Cairo provocam fissuras no dispositivo
de isolamento erguido em torno de Cheikh Anta Diop. A tecnicidade
do debate científico desvenda, a cada dia que passa, a incompetência
africanista que se refugia de modo insalubre, no processo de intenção,
no desprezo , na ironia, na calcalúnia,
únia, na insinua ção m aldosa. É o con jun to
desta "crítica" africanista, eminentemente ideológica, que Théophile
Obenga analisa em diferentes textos^". Ao longo dos anos, alguns
Africanos comprometeram-se resolutamente na via da egiptologia,
deparando-se em simultâneo com a hostilidade do meio universitário,
nomeadamente em França, onde o estudo do Egipto antigo, no seu âm-
bito natural negro-africano, é considerado "politicamente incorrecto".
4.3. A Escola africana de egiptologia
Em 1981, Cheikh Anta Diop é finalmente nomeado professor de
história associado na Faculdade de Letras e Ciências Humanas em Da-
kar, ou seja, vinte e um anos após o seu Doutoramento. Será professor
de mestrado, de DEA e orientará teses até ao seu desaparecimento em
1986. Desde então, uma escola africana de egiptologia foi progressi-
vamente constituída. Convém sublinhar, aqui, toda a importância que
reveste o conhecimento do interior do universo negro-africano,
particularmente a língua, a cultura material, as concepções filosóficas,
religiosas e sociop olíticas. Chei
Cheikh
kh Anta Dio
Diopp escrevia, em 1 9 6 7 :

[E] os estudos africanos só sairão do círculo vicioso no qual se mo movem


vem,, para
reencontrar todo o seu sentido e a sua fecundidade, caso se orientem em di di--
recção ao VVale
ale do N ilo. Reciprocam ente, a egiptologia só sairá da sua escle-
rose secular, do herm
hermetismo
etismo dos textos, no dia em que ttiver
iver a coragem de fazer

50. Obenga, Théophile,  C hei


hei kh A nta D i op
op,, Volney
Volney et
et le Sp
le  Sphinx-
hinx-,, Paris,
Paris, Prése nce Africaine/Kh epera,
1996, cap. 2, pp. 27-44; "Um comentário acerca das reflexões de M. Luc Bouquiaux", Ankh,
4/5, 1995-1996, pp. 317-346; "Les derniers remparts de lAfricanisme",   Présence Africaine,   n.^
157 , pp. 47 -6 5;   Le sens de la lutte contre l'africanisme eurocentriste;   Paris,
seme stre de 199 8, pp.
Khepera/L'Harmattan, 2001.

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
MBacké
acké Di
Diop
op loi
 

explodir a válvula que a isola, doutrinalmen


doutrinalmente,
te, da fonte vivifi
vivificante
cante que repre-
senta, para ela, o mundo  negro.^^

Referem-se, deste modo, os próprios critérios que um verdadeiro


especialista da África antiga deve satisfazer. Théophile Obenga, autor
de nu m ero sos tr ab alho s em egitpologia, linguíst
linguística,
ica, história, filosofi
filosofiaa
(cf. http://www.ankhonline.com]
http://www.ankhonline.com],, depois de ter leccionado egiptolo-
gia na Universidade de Brazzaville, prosseguiu a sua actividade de in-
vestig ado r e de pro fesso r nos Estados Uni
Unidos.
dos. Actu almen te, leccion a
e leva a cabo as suas investigações nos EUA, na Universidade de São
Francisco. Na Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, o revezamento
é hoje assegurado pelos egiptólogos Aboubacry Moussa Lam e Baba-

car Sail (cf. http://www.ankhonline.com]


consagrados http://www.ankhonline.com],
relativamente ao estudo das, que publicaram
relações estreitastrabalhos
e muti-
formes que unem a Núbia, o Egipto e o resto da África Negra, no tempo
e no espaço^^. Solicitados por numerosos clubes, círculos de estudos,
as s oc iaç ões c om o as  Générati
Générations
ons Cheikh Anta Diop  do Burkina Faso, do
Níger, do Mali, do Senegal... os egiptólogos africanos garantem igual-
mente uma vulgarização acerca da história antiga da África através de
conferências, seminários, exposições organizadas em África, nos EUA,
nas Caraíbas, na Europa.
As grandes orientações de trabalho da escola africana de egitpologia
recobrem as temáticas desenvolvidas por Cheikh Anta Diop, relembra-
das previamente, bem como as recomendações do colóquio de Egitpo-
logia do Cai
Cairo.
ro. Os resulta do s m ais rece nt es das investigaçõ es linguísti-
linguís ti-
cas e culturais, de uma maniera geral acerca da civilização faraónica,
aliados aos das investigações arqueológicas e genéticas, ilustram a
pertinência científica do enquadramento de trabalho negro-africano,
o carácter eminentemente fecundo do paradigma africano. A revista
ANKH,  Revu
Revuee d'égyptologie et des civilcivilisati
isations
ons africai
africaines,
nes,  tem justa-
mente por vocação publicar tais resultados. ANKH significa a "Vida"
em língua egípcia faraónica. Criada em 1992, a mesma é dirigida pelo
professor Théophile Obenga, os colaboradores da ANKH (cf http://
www.ank honline.c om)  om)   são investigadores de diversos países, marca
da sua abertura internacional. Ali encontraremos, para além dos estu-
dos consagrados à Antiguidade egipto-núbia (linguística, cultura mate-
rial, filosofia, religião, arqueologia,...], sínteses acerca da África em geral,
uma secção de ciências exactas (física, matemáticas, informática...) e
uma rubrica bibliográfica. Paralelamente, toda uma série de obras

51
51.. A ntéri
ntéri ori té de
dess civ i li sati ons nègr
nègr es - mythe ou véri té hist ori qu
quee?, op. cit.,   p. 12.
52. Lam, A. M.,  D e l' ori gi ne égy
égy pcienne
pcienne des P euls:   Paris, Présence Africaine/Khepera, 1993, B. Sail,
des Pe
L es raci ne
ness éthi opiennes
opiennes de l'É gy pte ancienne
ancienne;;  Par
Parisis,, LH arma ttan/Khe pera, 19 99 .

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a
 

tradu z a riquez a da investigação egiptológica africa na (cf.


(c f. http://wmv.
http://wmv.  
ankhonline.com). Esta produção intelectual de alto nível é   enriquecida
aincontornável
cada ano comde novos estudos
um ensino   e ,  entreacerca
renovado outrasdacoisas,
África constitui
antiga. a base

5. O R en ascim en to da Áfric
Áfricaa e a edificação
edifi cação de
uma civilização planetária
Os Africanos do continente e a diáspora encontram-se, doravante,
edificados sobre o período da sua história, que precede os quatro
séculos do tráfico esclavagista atlântico e de ocupação colonial, até
às épocas mais recuadas. A obra de Cheikh Anta Diop mostra a ne-
cessidade, para a África, de um regresso ao Egipto antigo em todos os
domínios: o das ciências, da arte, da literatura, do direito... A diligên-
cia histórica, longe de ser concebida como um olhar virado para si ou
como uma simples deleitação do passado, permite a Cheikh Anta Diop
definir o âmbito de reflexão apropriado para colocar, em termos ra-
cionais e operatórios, o conjunto dos problemas culturais, educativos,
institucionais, políticos, económicos, científicos, técnicos, industriais,
etc., com os quais os Africanos se confrontam actualmente e para pro-
por soluções.
Cheikh Anta Diop trata todas as principais questões levantadas pela
edificação de uma África moderna: domínio dos sistemas educativo,
cívico
cívi co e político, com a intro du ção e utilização das língua
língua s nacio na is a to-
dos os nívei
níveiss da vida pública; o equ ipam ento en erg ético do co ntine nte;
o desenvolvimento da investigação fundamental; a representação das
mulheres nas instituições políticas; a segurança; a construção de um
Estado federal democrático, etc. A criação, por Cheikh Anta Diop, do
laboratório de datação através do radiocarbono, que o mesmo dirige
até ao seu desap arec im ento , é signif
significat
icativo
ivo de tod a a im po rtân cia aco r-
dada
Diop ao "enraizamento
apresenta-se, das como
assim, ciências em África".
o próprio A obra
pedestal de de
umCheikh Anta
verdadeiro
renascimento da África. Segundo o autor, a humanidade deve romper
definitivamente com o racismo, os genocídios e as diferentes formas
de escravatura. A finalidade consiste no triunfo da civilização sobre a
barbárie. Cheikh Anta Diop anseia pela era que veria todas as nações
do mundo unir as suas mãos "para construir a civilização planetária
ao invés de permanecer na barbárie"   [Civili
[Civilisation
sation ou Barbarie,  1 9 8 1 ) .

Todo s nós aspiram


Todos aspiramos
os ao triunfo da noção de espécie hum ana nos espírit
espíritos
os e
nas consciências, de m odo a que a história particular de um
umaa ou outra raça se

C h e i k h A n t a D i o p : o h o m e m e a o b r a .  Cheikh MB
Chei MBacké
acké Di
Diop
op loi

desvaneça perante a do homem , pura e simples


simplesmente.
mente. Só tere
teremos,
mos, então, que
descrever
acidentais em termos
doravan
doravantete gerais, que deixarãoas etapas
desinteressantes, de ter em conta
signifi as singularidades
significativas
cativas da conqu
conquista
ista
da civil
civilização
ização pelo hom em, por toda a espécie hum ana. A idade da pedra es-
culpida e da conqu
conquista
ista do fogo, o neolíti
neolítico
co e a descoberta da agricultura, a
idade dos m etais, a descoberta da escrita, etc., já só serão descritos enquanenquan--
to instantes emo
emocionantes
cionantes das relações dialécti
dialécticas
cas do hom
homemem e da N atureza
alcançadas de m odo incessantem
incessantemente
ente vitorioso pelo hom homem.
em.

A   concretização de tal projecto supõe:


- a denúncia da falsificação moderna da história:
A consci
consciência
ência do homem moderno só pode real realmente
mente progredi
progredirr caso a mes-
ma seja convencida a reconhecer explici explicitamen
tamentete os erros de interpretações
científicas,
científicas, m esmo no âm
âmbito
bito delicado da H istóri
istória,
a, a voltar a estas classif
classifica-
ica-
ções, a denun
denunciar
ciar as frustrações de patrimón
patrimónios.
ios. Esta ilude-se ao pretender
basear as suas construções mo morais
rais na m ais m onstruosa falsifi
falsificação
cação de que a
hum anidade jamais foi culpada, e pedindo simultaneam ente às vítimas para
esquecer de modo a progredi
progredirr   melhor.^^

- a reafirmação da unidade biológica da espécie humana, funda-


mento d e uma nova ed uc aç ão que rec us a qualquer d es ig uald ad e
e hierarquização raciais^'^: "... Portanto, o problema consiste em re-
educar a nossa percepção do ser humano, para que esta se afaste
da aparência racial e se polarize sobre o humano, livre de quaisquer
coordenadas étnicas".

53. Diop, Ciieil<h Anta,   A ntéri


ntéri ori té des
des cici vi li sati ons nè
nègr quee?,   Paris,
gr es - myhte ou vérit é his tori qu
Présence Africaine, p. 12.
54. Diop, Cheilcli Anta, "L'Unité d'origine de l'espèce humaine", in   A ctes du du colloque d'A thènes:
thènes:
R aci sme scie
sci ence et pseudo-s
pseudo-s ci ence;
nce;  Paris, UNE
UNESC SCO,
O, col. Actuel, 19 8 2, pp. 1 3 7 -1 4 1 .

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciê ncia Histórica Africa na
 

Estado das investigações acerca


das semelhanças entre a arte egípcia
antiga e a da África negra
B a ba ca r M b a y e D i o p '

Introdução
Pode parecer surpreendente falar em semelhança entre a arte do
Egipto antigo e a da África Negra. Porém, são inúmeros os investi-
gadores egiptólogos que consideram que todos os aspectos da vida
cultural da África Negra remetem para o Egipto antigo. Segundo eles,
muitos dos traços da civilização egípcia antiga não podem, de facto, ser
compreendidos caso se desconheçam as características das culturas
da África Negra\ A ar te africa na e a ar te egípcia nã o estão , deste m odo ,
tão longe uma da outra quanto se poderia crer; e, em muitos casos, tra-
ta-se de
d e duas com po nen tes de um a mes m a reali
realidade
dade artística original
que o tempo e a história fragmentaram em duas entidades.
Na presente análise, examinaremos em primeiro lugar o estilo afri-
cano na sua relação com a arte egípcia; passaremos, de seguida, a uma
breve revisão do
d o estado das iinvestigações
nvestigações acer ca das sem elhan ças en-
tre as duas formaspor
demonstraremos, de arte. E para
fim, que estaacabar com qualquer
semelhança poderiamalentendido,
de facto ser
uma identidade. Por outras palavras, a existência de um mesmo es-
quema aqui e ali no mesmo contexto pode supor uma origem única.

1 .  O  estilo africano e a essência da arte egípcia


Ainda que fazendo parte da África do ponto de vista puramente
geográfico, o Egipto é frequentemente associado, erradamente, ao

*. Dou torando em fil filosof


osofia,
ia, Universi
Universidade
dade de Roue n/ERA C.
1. Cf.  E ncyclopédi
ncyclopédi e de 1'art ;   La Pochothèque, Librairie Générale Française, 1991.

E stado das i nv e sti g a çõ e s ac e r ca das se m e l ha nça s e ntr e a ar te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .  Babacar Mbaye


Mbaye Diop
Diop iii

mundo cultural médio-orlental. Em 1917, Apollinaire já tinha mostra-


do que as artes africanas possuem um "indubitável parentesco com
a estética egípcia da qual derivam". Léo Frobenius, em 1933, na sua
Histoire de Ia civil
civilisati
isation
on africai
africaine,
ne,   com para as características da arte
africana com as do Egipto e observa que a fórmula da África Negra
define a pró pria e ssê nc ia da ci civili
vilização
zação egípcia. O auto r forn ece as
características africanas nos termos seguintes:

... os tecidos têm um drapeado m ais rígi rígido,


do, as jóias m ais ri ricas
cas são sóbrias, as
armas
arm as são simples e não se afastam da sua função [...], [...], as esculturas possuem
U nhas ásperas e severas, [.. [..ff Tudo
Tu do com
comporta
porta um objectivo preciso, penetran-
te, austero, tectónico. [..f Eis o carácter do estil estiloo africano, [..f[..f M anifesta-se
nos gestos de todos os povos N egros, ttanto anto qu
quanto
anto nas suas artes plásticas,
m anifesta-se nas suas danças com comoo na
nass suas mámáscaras,
scaras, no seu sentido reli-
gioso com
comoo nos seus mo
modos
dos de existência, nas suas formas de Estado e nos seu seuss
destinos dos povos.   Vive  nas suas fábulas, contos de fadas, nas suas lendas, nos
seus m itos. D ito isto, se com
compararm
pararmos
os estas caracterí
características
sticas com as do Egipto,
não se torna evidente que a fórmula da Áfric Áfricaa Negra define também a es-
sência desta civilização
civilização particular? N ão se exprime o Egipto pré-isl pré-islâm
âmico
ico de

igual mo
modo,
do, num estil
estiloo áspero, severo, reflecti
reflectido,
do, directo egrave? (p. 20-21J.
Quando Henri Matisse descobre uma máscara africana em Paris, esta
lembra-lhe, afirma o autor, "uma cabeça de pórfiro vermelho das anti-
guidades egípcias do Louvre". Segundo o escultor Jacques Lipchitz, é a
arte egípcia que revela a arte africana^
E m   N ations nègres et Cu
Culture,
lture,  Cheikh An ta Diop indica que dep ois de
ter reproduzido uma série de monumentos representando as diferentes
camadas sociais da população egípcia, incluindo sobretudo os faraós,
intercala tipos de raça negra para que a proximidade ou a diferença
étnica se torn e m ais deslum brante. O autor repara, curiosam ente, ao
aproximar esta série de figuras, que a arte egípcia é frequentemente
mais africana que a própria arte africana. Nos monumentos, os Egíp-
cios representaram-se com penteados artificiais idênticos às que se
ostentam por todo o lado na África Negra, e acerca das quais falare-
m os aqua ndo da sua análise das cen as da Paleta de N arm er (c f   Nations
nègres et Culture,   p. 134).
Nas suas   Réflexions sur l'art funéraire Kota^
Kota^,,  Gérard Delorme, referin-
do-se à origem da arte Kota, demonstra que para encontrar objectos
que evoquem, de perto ou de longe, "estas   formas",  "est a estili
estilização".
zação".

2. A este respeito, ver Marine Degli e IVlarie Mausze,  A rt s premi


premi ers . L e temps
temps de I a reconnais
reconnais sance-,
sance-,
Gallimard, 2000.
3. In  A rts dA
dA frique
frique N oire,
oire,   n.s 123.

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

da arte Kota, seria necessário remontar até ao Egipto antigo para reen-
contrar representações que oferecessem alguns "ares de família". Sem
acreditar totalmente nas teses de Cheikh Anta Diop, aquele confirma
o importante contributo dos povos negros para a civilização egípcia
antiga e não deixa de evidenciar as semelhanças bastante claras entre
certas figuras kota e as representações de cabeças de faraós: com os
seus penteados laterais amplamente desenvolvidos. Torna-se tentador
encontrar um ar "faraônico" nestes objectos.
Exceptuando as semelhanças de aspecto morfológico entre as figu-
ras de relicário
também kotaoutra
para uma e as analogia,
cabeças faraônicas,
aquela queGérard Delorme
consiste apontaa
em cobrir
representação do defunto com um revestimento metálico: o ouro nas
estátuas e nos sarcófagos dos faraós, o cobre sobre as representações
dos gran des d ignitários dos cl
clãs
ãs kota. Em am bo s os casos, o m etal obli
obli--
tera completamente a cor inicial do sujeito e atribui-lhe uma aparência
irreal. Esta convergência dos modos de expressão, a saber, o revesti-
mento com um metal brilhante, transformando assim a sua aparência
real, sobre um qualquer suporte, é simultaneamente pouco freqüente
e estranha. Outros investigadores, tais como R. R Briault, apontaram
igualmente
antigo". Serão para a "similitude
estas evidente entre
analogias puramente a arteSegundo
fortuitas? Bantu e Raponda-
o Egipto
-Walker, mesmo se, a priori,  nada pa rece ap rox im ar estas duas civil ci viliza
iza--
ções, apa ren tem en te afastadas em simultâneo no tem po e no espaço, e
se não existe, actualmente, nenhum esboço de provas relativamente a
estas re lações , m esm o longínq uas, ent re os Kota e a civilização
civilização egípci
egípcia,a,
a questão mereceria ser aprofundada.
Marg aret Trowell, na s ua obra   Classical african scuipture  ( 1 9 6 4 ) ,
estabeleceu paralelos entre as esculturas africana e egípcia, para
de m on stra r as relaç ões en tre a arte do Egi
Egipto
pto antigo e a da África Negra^
Sabemos também que os diferentes reis-divindades da África ociden-
tal e oriental têm a sua origem no Egipto antigo^. Segundo a mesma
ordem de idéias. Paul Bohannan (1964) exprime-se do modo seguinte:

Só é possível com
compreender
preender bem a religi
religião
ão egípcia referi
referindo
ndo a religi
religião
ão afri-
cana; muitos
m uitos outros aspectos da história e da políti
política
ca egípcias sãsãoo esclareci-
dos pela etnologia africana. O utrora, era cuidadosam ente lembrad lembradoo que to-
das estas estruturas sociais e culturais tinham sido inventadas no Egipto, de
onde se tinham expand
expandido
ido pelo resto da África. Sabem os hoje que se tratava
de um a simplifi
simplificação:
cação: o Egipto era fundam entalmen
entalmentete um umaa cultura africana,
m odifi
odificada
cada por contributos da cultura  asiática'^.

4 . C lassi cal


cal afri can
can sculpture
sculpture;;   Lon dres, 22..^ ed.
ed.,, 1 96 4 , pp. 51 , 52, 53, 62 e 68.
5. A este resp eito, v er P. A. Talbot,  The people
peopless of southern
southern N i geri a;   Londres, 1926.
6. A fri ca and Afr i ca
cans;
ns;  Garden City, Nova Iorque, 1964, pp. 81-82.

te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .  
E stado das i nv e sti g a çõ e s ace r c a das se m e l ha nça s e ntr e a ar te Babacar Mbaye Diop
Babacar Diop iii

 
A   a r t e d o E g i p ttoo p r é - d i n á s t i c o a p r e s e n t a p r i n c i p a l m e n t e c a r a c -
terísticas africanas. A dos períodos seguintes

... apresenta todas as características


características de um estilo
estilo egípcio evoluído,
evo luído, ao mesm o
tempo que conserva da época pré-dinástica
pré-dinástica a rigidez da forma, a pose frontal,
a ausência de expressão do rosto e de qualquer indicação clara da idade do
indivíduo: todos estes traços são de facto característicos
característicos da maior parte da
escultura africana'^.

Sabemos também que devido às suas funções, estas estátuas egíp-


cias são idênticas às imagens de antepassados provenientes de várias
regiões da África: estas são depositárias de uma força sobrenatural, ofe-
recen do em p articular um a m orad a etern a para a essên cia espiritual
espir itual do
homem figurado. Para os Egípcios, a arte é "um assunto prático", cujo
objectivo consiste em assegurar, através de meios mágicos, a eternidade
da pessoa representada. As figuras funerárias são completadas por um
ritual
ri tual m ágico destinado a certificar-se que as me sm as tinham absorvid o
o espírito do defunto. Este ritual era efectuado sobre uma escultura que
era uma reprodução idealizada do modelo, sendo a reprodução da figu-
ra humana, mais perceptiva do que visual; tal como Frank Willet afirma:
"a escultura egípcia pertence claramente ao mundo africano"®. Deste
modo, a arte egípcia é mais do que uma fonte de influência sobre a arte
africana; trata-se de uma manifestação local de uma tradição africana
m uito corren te. O asp ecto africa no do espírito egípcio explica-se através
de uma característica da sua cultura. É esta semelhança da cultura egíp-
cia e a da África Negra ou, de m od o aind a ma is pro fun do , esta sim ilitude
de co ns tru ção espiritual que ffaz
az com que a cultura egípcia nã o seja m ais
do que o brilho do espírito ddoo Africano, que pa ssa re m os ag ora a abo rd ar
através de alguns exemplos de produção artística.

2. Alguns exemplos de semelhança entre objec-


tos africanos e objectos egípcios
a ) A a r t e d a s t r a n ç a s :  na paleta de pedra do rei Narmer'', as per-
sonagens da face A até aos vencidos da cena inferior que estão em

7. WiJlet, Frank,  LArt afrícain [1971]:   trad, do inglês p or Cath erine Ter-Sarkissian, nova edição,
1994, p. 110.
8./bid.,  p. 11 2.
9. Descoberta em 1898 pelo arqueólogo J. E. Quibell, a paleta de Narmer provém do templo de
Hieracômpolis, uma antiga cidade do Alto-Egipto que foi a capital dos primeiros faraós.
Os egiptólogos concordam em datá-la por volta de 3150 antes da nossa era e é atribuída ao rei
pré-dinástico Narmer. É conservada pelo museu do Cairo.
lo :,:, Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

fuga, como a vítima que vai ser imolada, possuem cabelos artificiais,
por camadas, tal como ainda se observa na África Negra; um penteado
d e s ta na tu r e z a , o s te nta d o p e l a s mu l he r e s j o v e ns d e s i g na v a - s e   djmbi
nos Wolofs do Senegal; ligeiramente modificado, e usado por mulheres
ca s a d a s , e s te tr a ns f o r ma - s e no   djéré,  qu e d e s a p a r e ce u no S e ne g a l no
início do século XX. Nos homens, o Islão levou ao desaparecimento
deste costum e rrecentemecentem ente. Já só se enco ntram p enteados sem elha ntes
nos Serer, não islamizados até à circuncisão, e nos Fulas: uma das for-
ma s e s p e ci a i s d e s te s p e nte a d o s ne s ta s p o p u l a çõ e s é cha ma d a   Ndjum-
bal.   No Egipto antigo, o Rei protodinástico Tera Neter usa os cabelos
penteados com tranças. Este tipo de arranjo entrançado é, mais tarde,
observado em numerosas populações Egipto-núbias (escribas, faraós,
artesãos...]. Maspero indica-nos a propósito do faraó Sekenenré que:
" l a r v a s d e ne cr ó f o r o s d e i x a r a m ce nte na s d e   cascos  nas tran ças e nas
d o b r a s d o s b r a ço s " " . E s te e s ti l o d e p e nte a d o e ntr a nça d o e x i s te e m
todo o resto da África Negra depois da Antigüidade Egipto-núbia, quer
em populações Oeste-africanas como os Fulas, os Mandigas, os Dogons,
os Wolofs os Akans, os lorubás, os Mangbetues os Fangs da África Cen-
tral. Existe também nas populações do Leste, como nos Massais até aos
no s s o s d i a s , ta nto no s ho me ns co mo na s mu l he r e s .

b) Uma touca egípcia que se encontra em qualquer parte da


Á f r i c a :  Permaneçamos na paleta de pedra do rei Narmer. É visível que
os cabelos do rei e do servo estão escondidos pelas suas toucas; o uso
de uma tal peruca era corrente em todas as classes da sociedade egíp-
cia. A touca do rei continua a ser aquela que é usada por todos os cir-
cuncidados do Senegal, ainda que a sua utilização tenda a desaparecer
sob a influência do Islão. Esta é feita unindo duas elipses de tecido
b r a nco , e x ce p tu a nd o u ma e x tr e mi d a d e p o r o nd e p a s s a a ca b e ça ; u ma
armação em bambu, que dá a forma da coroa do faraó do Alto-Egipto.
No seu artigo acerca da semelhança dos penteados entre o Egipto
antigo e a África Negra, Moussa Lam demonstra que as formas gerais
de alguns toucados são muito próximas. O  laara  das líng ua s fulas é um
a r r a nj o e m a l g o d ã o [ o r i g i na l me nte ] co m f o r ma có ni ca no to p o , e cu j a
ab ertu ra se un e à form a ooval val do rosto, com dois pro lon gam en tos laterais
que cobrem as orelhas e se reúnem por baixo do queixo por intermé-
dio de dois fios que o portador ata para evitar a queda do chapéu. Este
era o penteado dos circuncidados, dos guerreiros e dos caçadores.
E nco ntr a - s e u m a r r a nj o s e me l ha nte no s D o g o ns . M a r ce l Gr i a u l e p u -
blicou, aliás, em   Dieu d'eau,  fotografias de stes tou cad os usa do s pelo s
10. "Les momies royales de Deir El-Bahari", Maspero, MMAF, L fascículo 4, 1889, p. 772, citado
oussaa Lam em   L'affaire des momies royales,   K hep era/Prés ence Af
por Aboubacry M ouss Afri
rica
cain
ine,
e, 2 00 0.

E stado das inv


inv e sti g açõ e s ac e r ca das se m e l h anç as e ntr e a ar te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .  Babacar Mbaye Diop
Diop iii

Dogons. Estes eram muito próximos do   némès  egíp cio (R. M. A. Be da ux ,


1 9 8 0 , p p . 9 - 2 3 ) : p o d i a m s e r u ti l i z a d o s d e mo d o d i f e r e nte e a p r e s e nta -
vam até, talvez, múltiplas variedades [M. Griaule,   Dieu d'eau).  O   némès
e g í p cio
ci o ta m b é m nã o e r a u ni f o r m e ; e x i s ti tiaa m i nú m e r a s v a r i e d a d e s . E s te
a r r a nj o co m tr ê s e x tr e mi d a d e s f e cha d a s   {nemsa) é,  de facto, aquela
que mais se aproxima do   laara,  ou do bo n é dogon, do   mbaxana mba xana njuli
d o s w o l o f , me s mo qu e te nha mo s d e r e co nhe ce r qu e a qu e l e e r a mu i to
mais complexo do que estes últimos, com as suas dobras astuciosas e
o seu corte particular, de acordo com aquilo que nos é possível julgar
a tr a v é s d a s r e p r e s e nta çõ e s qu e che g a r a m a té nó s a tr a v é s d o s mo nu -
mentos egípcios.
A m aior parte dos reis de IIfé fé são represe nta do s o stentan do um diade-
ma ornado no centro de um emblema análogo ao Uraeus egípcio. A
d e u s a i o r u b á ,  Odudua,  r e p r e s e n t a d a p o r u m a m u l h e r a m a m e n t a n d o
o seu filho, possui uma coroa real formando uma tiara alta de estilo
egípcio".
As semelhanças entre as coroas egípcias e africanas têm a ver tam-
b é m c o m a co r d o s p e n te a d o s . O b r a nc o e o a m a r e l o s e r i a m a m b o s
simbólicos da realeza egípcia. Em África, também encontramos as
duas cores. No Benim, o vermelho e o branco são efectivamente as
cores da realeza.
Nos falantes fulas da região do Senegal, até um passado recente, os
che f e s tr a d i ci o na i s d e ca ntã o o u d e p r o v í nci a , u s a v a m p o r to u ca d o
um penteado simples e alongado com um vermelho escarlate. Nos
v i z i nho s d o K a y o r , a co r o a a nce s tr a l e r a " f o r ma d a p o r u m tu r b a nte
" o r na d o " d e e s ca r l a te " . D e s te mo d o , ta mb é m a qu i a p r e s e nça d o v e r -

m e l h ounicamente
vado é i n c o n t e s t áaov e rei",
l . N  osegundo a ,  "o vermelho
s B a m b a rDominique era outrora
Zahan^^. reser-
Nos Dogons,
u m o b j e cto p a r ti cu l a r d o H o g o n qu e e x p r i me a o r i g e m d o s e u p o d e r
é o boné vermelho.
Em matéria de coroa, tal como se verifica, o simbolismo das cores
entre o Egipto antigo e a África Negra é o mesmo.

c ) A c a b e c e i r a e g í p c i a e o a p o i o d e c a b e ç a a f r i c a n o :  o e x p l o r a d o r
fran cês FF.. Cail
Cailliliaud,
aud, falando da sua viag em ao Sudão , de scr ev e em 1 8 2 6
u ma ca b e ce i r a s u d a ne s a qu e s e a s s e me l ha e x a cta me nte à qu e l a s qu e
este tinha "visto por baixo da cab eça das m úm ias nos túm ulos de Te bas,
b e m co mo na s p i ntu r a s d e s te s me s mo s tú mu l o s " " . Pa r a C a i l l i a u d , nã o
existe lugar para dúvidas: estes objectos, que os Sudaneses do início

Cf. "Les cou leurs ch ez les Bam bara du Soudan Français", N otes
11. Cf. otes A fri cai
cai ne
nes,
s,   n.^" 3,1951.
12. Citado por A. Moussa Lam   in Afri que-H ue-H istoir e,   n.^
n.^ 9, p. 53 .
13. Cf. H i stoi re uni
uni verselle
verselle de l'art ;   vol. III, p. 55.

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Co nsciê ncia Histórica Africa na

do século XIX utilizavam, eram os mesmos que   já  ti nha m s i d o a te s ta -


dos na antiga civilização egípcia. Uma cabeceira, tal como Moussa Lam
d e s cr e v e , é " u m o b j e cto d e mo b i l i á r i o , f r e qü e nte me nte e m ma d e i r a e
incluindo,
inclui ndo, na sua forma m ais ger geral,
al, um cabide, um su po rte e um a b ase,
que os antigos Egípcios e algumas populações da África Negra actual,
utilizavam ou ainda utilizam, como apoio para a cabeça"".
A ca b e ce i r a a f r i ca na a ct ctuu a l r e p r e s e n ta u m a co nti
ntinu
nu i d a d e , qu e r na
sua forma, quer na sua utilização, da do Egipto faraônico. Moussa Lam
r e f e r e qu e a s u a s e me l ha nça é s u r p r e e nd e nte s o b qu a l qu e r p o nto d e
vista. Segundo o autor, no que diz respeito ao plano da forma geral,
a cabeceira africana actual nada tem de diferente relativamente à do
Egipto antigo: apresenta-se, de igual modo, no seu aspecto mais geral,
com os três elementos que aquele distingue nos exemplares egípcios
[cabide, sup orte e ba se) . A ca bec eira é con hec ida em todo o co ntin ente ,
exceptuando a zona norte que corresponde à África branca. Esta serve
de apoio de ca be ça e tem po r funçã o pr ese rva r o pe nte ad o dos Egípcios
e a s s e g u r a r a i nte g r i d a d e co r p o r a l d e u m d e f u nto p e r mi ti nd o - l he r e s -
suscitar. Estes dois modos de utilização são atestados em quase toda a
p a r te d a Á f r iica
ca . N ã o d e s a p a r e ce u co m p l e t a m e n te d o s e u a nti g o b e r ço .
É deste modo que ainda o encontramos, no sul do Egipto, na região
de Assuão, nas   Bicharines.  É utili utilizado
zado na Etiópia, prin cip alm ent e na
Abissínia e no Harar, nos Gallas e nos Turkanas; na Somália, no Quê-
nia, na Zâmbia, em Moçambique, em Angola, no Zimbabwe, no Congo,
mas também na Centráfrica e nos Camarões. Verifica-se igualmente a
presença da cabeceira do lado da África ocidental: no Benim, onde um
exemplar
Dogons e, épor
conservado
fim, nos no MuseudodoSenegal
Bassaris Homem;Oriental.
no Gana, no Mali com os

d ) O m r d o s E g í p c iioo s o u a e n x a d a d o s A f r i c a n o s :  O m r é um utensí-
lio agrícola que se apresenta sob duas formas: um modelo grande, com
u m ca b o s u f i ci e nte me nte co mp r i d o p a r a s e r ma ni p u l a d o na p o s i çã o
em pé e um modelo pequeno, cujo cabo curto supõe uma certa cur-
vatura do utilizador. Moussa Lam, no seu artigo acerca deste objecto
( r e v i s t a  Ankh  n.- 2 , 1 9 9 3 , p p . 1 9 - 2 7 ) , m o s tr a qu e u te ns ííH
H o s a ná l o -
g o s , s i mu l ta ne a me nte na s s u a s f o r ma s e no s s e u s mo d o s d e u ti l i z a -
ção, se encontram nos Haal Pulaar da região do rio do Senegal e nos
Mandigues de Casamança. Nos Haal Pulaar, existe, afirma o autor, o
njinndaangu e   o  jaio  qu e s e a s s e m e l ha m r e s p e cti v a m e nte , s a llvv o r a r o s
pormenores, às duas versões do mr egípcio. Nos Mandingas, também
e x i s te m d o i s m o d e l o s : u m g r a nd e e u m p e q u e no , qu e s ã o m a ni p u l a d o s

14. Lam, Moussa,  idem,   p. 53.

E stado das i nv e sti g açõ e s ace r c a das se me l han ças e n tr e a ar te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .   Babacar
Babacar Mbaye Diop iii
 

na s me s ma s co nd i çõ e s e qu e p o s s u e m a s me s ma s f u nçõ e s qu e a s d u a s
formas do mr egípcio.

e ) B a s t õ e s , m a ç a s e c e p t r o s d o E g i p t o e d a Á f r i c a :   Num estudo
consagrado aos "Bastões, maças e ceptros do Egipto e da África Negra",

pMeol au sps ae r tiL nê


a mncif oa r ne
d ace
s s ua lagsu snse mee xl ha
e mp l asr.e sA dco
nça e smp
te sa roabçãj eoctod os s efsaco l his dion-s
cto
cide sobre os termos designando estes objectos, a sua forma, o seu
modo de utilização, o seu atributo simbólico:
- O s bastões:
astões:   Segu ndo o aut autor,or, os te rm os po pu lares pu/aa pu/aarr pe rm item ,
e m i nú me r o s ca s o s , co mp r e e nd e r me l ho r o s i g ni f i ca d o s i mb ó l i co e /
ou prático dos bastões egípcios. Este inicia a sua comparação pelo
m o d e l o m a i s s i mp l e s , oouu s e j a , o b a s tã o r e cto e s e m qu a l qu e r d e co r a -
ção ecpecial. No Egipto, este modelo é representado pelo   mdw,  que
s e ca r a cte r i z a p o r u ma ce r ta d i s s i me tr i a d a s e x tr e mi d a d e s : a qu e l a
que corresponde àquilo que seria o topo do bastão é visivelmente
mais largo e ligeiramente arredondado; a outra é mais fina e apre-
sen ta um co rte m ais regular regular.. O  m d w  p o d e s e r m a i s o u m e n o s co m p r i -
do. Nos fulas da região do rio do Senegal, Moussa Lam distinguiu um
mo d e l o e qu i v a l e nte :  ? ooldu,  um ba stã o largo e pesad o, cu jas duas
e x tr e mi d a d e s s ã o tr a ta d a s d o me s mo mo d o qu e a s d o   m d w  egípcio.
Os famosos bastões sobre os quais os anciãos do Fuuta (Senegal] se
apoiam, os bastões aforquilhados dos egípcios (Museu do Cairo] e o
bastão aforquilhado do Hogon identificam-se ao   mdw.  O t r a t a m e n t o
d a s e x tr e mi d a d e s é o me s mo .

T o d o s e s te s d e ta l he s d e mo ns tr a m qu e o a s p e cto g e r a l d o s b a s tõ e s
era o mesmo para os dos Egípcios e dos Africanos.
-   j 4s maças:   C o n he ce - s e p e r f e i ta m e n te a m a ça e g íípp ci a,
a , d e ca b e ça
piriforme com a qual o faraó massacra ritualmente os seus inimigos.
J . M a e s e s ta b e l e ce u i nú me r a s s e me l ha nça s e ntr e , p o r e x e mp l o , o   nps
egípcio e o  yatagan  das po pu laç õe s da ba cia do Zaire. Este afirma,
de facto, que o Museu do Congo possui cerca de uma centena de ob-
j e cto s qu e p o d e m s e r cl a s s i f i ca d o s na ca te g o r i a d o s qu e b r a - ca b e ça s .
M o u31
n." s s aatribuído
L a m p r e ci
pors a J.quMaes
e o s esex e parecem
mp l a r e s n.-
mais2 7com
e , e am maça
me nopiriforme
r grau, o
dos antigos Egípcios. A maça dos   Bihe,  s e m co nte s ta çã o , é e x tr e ma -
me nte p a r e ci d a co m a f a mo s a a r ma d e p a r a d a d a s me mó r i a s e g í p -
cias e não existe qualquer ambigüidade a este nível. No Egipto, de
igual modo, a implicação deste tipo de maça nas acções guerreiras
não deixa margem para dúvidas. As semelhanças são, portanto, reais;
são-no também no que diz respeito aos ceptros de autoridade.

-   0 5   ceptr dade:   no plano da ap res en taç ão extern a, a


ceptr os de autor i dade:
maça dos Klokos representada por J. Maes, no seu artigo "Les sabres
et m ass ue s des po pu lations du Cong Congoo BelBe l ge"
ge"^^
^^ é m uito sem elh an te ao
protó tipo egípcio. O tra tam en to da pa rte sup erio r dos doi doiss ob ject os é
praticamente o mesmo. No Egipto faraônico, o ceptro de autoridade
é p o r e x ce l ê nci a   heka.  E s te a p r e s e nta - s e co m u m b á cu l o , cu j a b a s e
e extremidade se curvam bruscamente para o exterior. Existiam, ao
que parece, duas versões do   heka:  u m m o d e l o d e g r a nd e d i m e ns ã o ,
sem dúvida feit feitoo pa ra servir de apoio ao faraó em po sição d e m arc ha
e u m mo d e l o d e p r o p o r çõ e s ma i s mo d e s ta s p a r a a p o s i çã o s e nta d a
ou estática. Em África, o   heka  p o d e s e r co m p a r a d o a o ce p tr o d o A y o
dos Kurumbas, apesar de uma diferença notável ao nível do báculo
entre as duas insígnias reais. De facto, o báculo do ceptro do Ayo é
to ta l me nte f e cha d o , e nqu a nto qu e qu e o d o   heka  egípc io não . Es te é,

areconhece
duvida
duvidar. Moussa
r. A Lam,
ap ro xim aç ãoumm ais
detalhe que su
decisiva pode
rge levar os mais
do Hogon dos cépticos
Do gon s
do Mali
Mali.. O ba stão com cab o desta per son ag em que, tal com o o faraó
egípcio, era simultaneamente chefe religioso e político, é muito próxi-
mo do   heka  egípcio. Tal com o a extr em ida de do m od elo egí
egípcio,
pcio, o do
báculo do Hogon possui uma curvatura para o exterior.

Moussa Lam analisou dois antigos bastões   burkinabé  c o n s e r v a d o s


no museu do IFAN em Dakar. Se o historiador Senegalês insiste nestes
dois bastões, é do ponto de vista do tratamento do topo; estes são os
ex em pl are s da África Negra m ais pró xim os do cep tro w
w^^as egípcio de
que tem os conh ecim ento.
f ) A a r q u i t e c t u r a :   a f o r m a a r qu i te ctu r a l d o s m o n u m e n to s e r i g i d o s
no a nti g o E g i p to a s s e me l ha - s e à d o s mo nu me nto s e r g u i d o s na N ú b i a ,
na Etiópia, no Mali, no Zimbabwe: a pirâmide escalonada de Meidum
no Egipto apresenta várias semelhanças com a do túmulo de Askia no
Mali.

g ) se
bém I n sencontram
t r u m e n t o snad eÁfrica a ,  tais como
m ú s i cCentral as harpas egípcias que tam-
(no Gabão}.

A no ssa an álise das relaçõ es e ntr e a arte afric ana e a arte egípc ia ter-
mina aqui. Não nos é possível expor detalhadamente todos os objec-
tos semelhantes. As similitudes entre as duas formas de arte já foram
reveladas, e de modo mais desenvolvido, por vozes mais proeminentes
d o qu e a no s s a . A cr e s ce nta r e mo s a p e na s qu e a r e l a çã o e ntr e a a r te

15. Cf. in  R ev ue G éné


néral
ral e de la C oloni e be
belg
lg e,   Bruxelas, 1923, figura 28.

inv e sti g a çõ e s ace r ca das se m e l ha nça s e ntr e a ar te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .  


E stado das inv Babacar Mbaye Diop
Diop iii
 

afric ana e a arte eg í pc ia não é uma relaç ão d e analog ia e que as


s emelhanç as entre vários objec tos não pod em s er c ons equênc ia d e
um mero acaso. É este o motivo pelo qual propomos agora fornecer as
linhas directrizes para evitar os mal-entendidos que surgem da am-
biguidade d os con ceito s de sim ili tude e de analogia.  O mais im portante,
si m ilitude
para nós,
nós , é de m ost rar que esta sem elha nça resulta de um a identidade
comum. Um trabalho filosófico, muito mais detalhado do que o nosso
actual propósito, que definisse estes conceitos, seria metodologi-
camente útil nas relações entre a arte africana e a arte egípcia: este
permitiria demonstrar a profunda unidade cultural e artística entre o
Egipto antigo e a África Negra. Por outras palavras, tais investigações
em matéria artística alcançariam conclusões inteiramente renovadas,
relativas
relati vas à natu reza da arte a frican a e da arte egícpia. É a este trab alho
concep tual, que não é o do histo riad or nem do antrop ólogo , que convi-
damos os filósofos africanos.

3. Será esta semelhança identitária ou uma


simples analogia?
Á diversidade e a profundidade das semelhanças que acabámos de
constatar entre a arte egípcia e a arte africana actual perturbam várias
certezas e convidam a uma investigação
invest igação aprofundada a cerca da unidade
cultural
senta umaegipto-africana.
simples   analogiaResta, agora,
  ou se saber
se trata , desefacto,
esta de
proximidade repre-
um a  identidade.
É necessário esclarecer aqui este ponto de vista, a fim de afastar
qualquer ambiguidade na análise destes diferentes conceitos. A iden-
tidade pode aqui significar, quer uma identidade essencial de um
objecto a si próprio através de figuras que o mesmo é susceptível de
revestir, quer a semelhança de dois objectos de exacta reprodução de
forma e tamanho, ou de duas propriedades conceptuais que impli-
cam, para objectos diversificados, uma relação com o verdadeiro. Com
bas e nes tas s emelhanç as , c omo es tabelec er linearmente as relaç ões
que podem existir entre a criação artística do Egipto antigo e a da
África Negra? Como saber se os cabelos artificiais, por camadas, das
personagens da face A da paleta de pedra do rei Narmer são idênti-
cas ao   djmbi  ou ao   djéré  em alguns Wolofs,
Wolofs, ou ao N djumbal dos Fulas do
Senegal? O que é que nos permite identificar com toda a segurança a
cabeceira dos Egícpios na África Negra? Existe aqui todo um trabalho
multid is c iplinar ex tremamente importante a fazer, que c onc erne s i-
multaneamente à arqueologia, à história, à filosofia, à antropologia e
à linguística.

l o:
o: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

Por mais surpreendente que possa parecer, deve "apenas" conhecer-


-se teoricamente as condições, necessárias e suficientes, de inclusão de
um ob jecto na classe das trança s ou das cabece iras. O m esm o consiste

em sabercabeceira,
ou uma traçar a linha de demarcação
e aquilo que não o é.entre aquilo quedaé arte,
O historiador uma de
trança
boa
fé e não sendo ideologicamente motivado, que afirma que as tranças
em forma de camadas, na África Negra actual, são as mesmas tranças
que foram apontadas na cabeça do rei Narmer, não ignora o que é uma
trança, isto é, onde começa e onde acaba este gênero de tranças. Isto
porque, como é que o mesmo poderia identificar um gênero de trança,
caso este não soubesse reconhecer o termo geral que ocupa o lugar
central em qualquer julgamento de identidade?
Na medida em que este sabe o que é uma cabeceira, torna-se imedi-
atamente capaz de designar   a priorí  um princípio de diferen ciação a
propósito das cabe ceiras: sabe não som en te diferenciar um a c abec eira
da outra, mas também uma trança de outra. Portanto, se o historia-
dor sustenta que o apoio de cabeça dos Africanos é o mesmo objecto
que o da cabeceira egípcia, é porque a existência desta cabeceira deve
ser uma "existência continuada". Saber o que é uma cabeceira, é saber,
em princípio, em virtude de que factor qualquer cabeceira pode per-
manecer idêntica a si própria: "um julgamento de identidade, e con-
sequentemente um enunciado de identificação, a propósito de uma
coisa não exige nada m ais, nada m en os, do que o dom ínio com pleto do
conceito dessa coisa"". Evidentemente, a identidade revela essencial-
mente duas coisas: ou a unicidade atribuída a vários objectos primei-
ram ente apreendidos, criados ou o u nom ead os de m aneira diferente (tra-
ta-se da   identidade num érica),  ou a particu laridad e de vários ob ject os
possuírem as mesmas propriedades, salvo a de serem confundidos no
espaço ou no tempo (trata-se da   identidade dita específi
específica
ca ou qualita-
tiva).
A  identidad e aplicada a um ob jecto ou a um se r que é "um e o m es m o"
é conhecida como identidade numérica. Quando se trata de indivíduos,
fala-se
de umaem identidade
certa pessoal.
permanência do Oser,
indivíduo
física e é socialmente
este ou aquele, por força
identificável.
Mas esta   identidade concreta  pod e dar lugar a um a aná lise  abstracta;
uma análise que coloca em evidência uma identidade específica ou
qualitativa entre duas realidades. Ganhando em complexidade, o con-
ceito de identid ade e nc on tra en tão o seu verd ade iro pe so filosófi
fi losófico,
co, na
medida em que a perda de uma certa univocidade imediata o trans-
porta para linguagens mais elaboradas da   analogia.  Ora, a iden tidad e
não é uma analogia.

1 6 .  G rand di philosophie,   dir. Michel Blay, Larousse, 2003.


di ctionnair e de la philosophie,

E stad o das i nv e sti g açõ e s ace r ca das se me l han ças e ntr e a ar te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .   Babacar Mbaye Diop
Babacar iii
 

A   semelhança consiste numa relação entre dois elementos que per-


mite estabelecer um certo grau de identidade relativamente a uma ou
várias propriedades. Esta relação é obviamente reflexiva e simétrica,
porém, é possível contestar a sua transitividade e, por conseguinte, o
facto de se tra tar de um a relação de equivalência. A prox imid ade en tre
a arte egípcia antiga e a arte africana é uma   identidade,  um a vez que
a identidade designa a relação que dois ou vários objectos apresen-
tam entre si, e que possuem uma similitude perfeita. Do latim   idem,  o
mesmo, a identidade é aquilo que não difere em mais nada; que apre-
senta, com algum a coisa, um a perfeita sem elha nça . O cep tro egípcio é
idêntico ao bastão africano, porque ambos reúnem várias dimensões
que estão relacionadas; a permanência através do tempo, que aliás não
afasta
deiros asão
m uda
de nça,
factoe adois,
unicidade ab solu ta doexactamente
não apreendem objecto . Os gê m eo s verda-
a mesma coisa
no me sm o m om ento , são diferentes um do outro. A cabe ceira egípciaegípci a é
idênticaa ao apoio de cab eça africano no sentido em que mantêm entre
idêntic
si uma relação de continuidade e de permanência, através da varia-
ção das suas condições de existência e dos seus estados, ou da relação
que faz com que estes dois objectos, diferentes sob múltiplos aspec-
tos, sejam no entanto semelhantes e mesmo equivalentes do ponto
de vista de tal relação. Deste modo, termos reconhecidos enquanto
distintos não podem ser designados de idênticos, sem que a relação
em causa, sob pena de se extinguir, jamais possa anular esta diferença
que a mesma articula no interior de uma linguagem. Resta mencio-
nar os dois aspectos que este sentido é susceptível de revestir, e que
se apreende melhor através de um exemplo: "Estes dois objectos são
idênticos", ou "temos o mesmo objecto", pode significar a identidade
m aterial e a total con tem por aneid ade dos escultores ou do objecto , ou
ainda uma assimilação na distância que se baseia numa equivalência
qualitativa. Esta semelhança não pode, portanto, constituir uma ana-
logia. Quando dois objectos são parecidos, impõe-se uma identifica-
ção parcial ou total ao nosso espírito. Enquanto que numa analogia,
a relação de correspondência não se impõe de imediato; esta neces-
sita de uma reflexão ou de uma análise mais aprofundada. Ali mesmo
onde a identidade implica, assim, dois objectos de   refle
reflexão
xão idênticos,  a
analogia necessita de uma semelhança entre dois ou mais objectos de
reflexão essencialmente diferentes.  Se adm itirmos que foram as m es-
mas populações negras do Egipto antigo que povoaram toda a África
sul-saariana, não é de estranhar que objectos do Egipto antigo possam
ser encontrados na África Negra.
A s emelhanç a ex trema entre os objec tos d e arte eg í pc ios e neg ro-
-africanos actuais, não deixa margem para qualquer dúvida acerca

lo :,:, Babacar Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

da sua origem comum. Apenas contactos directos e contínuos podem


explicar a profun didad e das sem elh an ças con statad as. O facto de a
mesma forma artística estar espalhada e de se encontrar sempre no
mesmo contexto significa que existiu uma origem única que se difun-
diu.
di u. Na m aio r pa rte dos casos, existe a con serv açã o do me sm o m aterial
e do verdadeiro sentido.
Alguns traços comuns podem emergir em culturas sem qualquer
relação u m as com a s outras. Mas nos ca sos em que a forma , o ssignif
ignifica-
ica-
do e a função das pro duçõ es artísti
artísticas
cas são sem elha nte s em sociedad es
que mantiveram trocas na época em causa, poder-se-á deduzir justa-
m ente a existência de um a conti
continuidade.
nuidade. A sem elhan ça idêntica entre
os objectos de arte egípcia e os da arte africana situa-os no seio da
dialéctica do mesmo e do outro, no pólo do semelhante. Por outras pa-
lavras,
lavr as, o facto de um ob ject o do Egipto
Egi pto anti
antigo
go pod er ser enco ntra do na
África Negra actual, dá-lhe a possibilidade de ser   Outro.  Este vive num
encontro incontornável da alteridade. O  Além  e o   Aqui  enc ontram-s e
lado a lado. Neste sentido, pode existir um   Diferente  n o   Mesmo,  u m
Além   n o   Aqui  e, inversamente, um   Mesmo  n o   Diferente  e u m   Aqui  n o
Além.

Referências Bibliográficas
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E stado das inv te e g i p ci a anti g a e a da Áf r i ca ne g r a .  


inv e sti g açõ e s ac e r ca das se m e l ha nça s e ntr e a ar te Babacar Mbaye Diop
Diop iii
 

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l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

Estado das investgações acerca


da antiguidade africana
Babacar Salh

Introdução
A história é uma ciência e uma disciphna. Esta não se caracteriza
pelo seu objecto, método e campo de estudos ou de investigações. A
confusão entre estas duas categorias está, provavelmente, na origem
da falsa definição que reduz a História ao estudo do passado. Esta
definição parece-nos falsa porque o passado, enquanto noção, consiste
num julgamento de valor. Partamos da dicotomia clássica que dis-
tingue a história   "em si" e  a história  "por  si .
A história   "em si" rem ete pa ra o con jun to das vias e m eios atravé s dos
quais uma sociedade assegurou, através do tempo, a sua produção e
repro du ção sociais. A história   "por si"  refere -se, po r sua vez, ao estud o
das fases e dos modos através dos quais uma sociedade assegurou as
m esm as através do tem po . Desta disti
distinção
nção resu lta que tod a a socied ade
possui uma história   "em si". A  questão de poder estudar esta história,
de torná-la numa história   "por si",  coloca um pro blem a de meios, de
técnicas de investigação, de mentalidade. Segundo esta perspectiva,
a história é uma ciência recente e distingue-se, em vários aspectos,
da narrativa que pode ser assimilada à forma primitiva do discurso
histórico. A outra questão que se coloca, então, consiste em saber se se
deve falar de   história africana  ou de   história das sociedades africanas.
Preferimos falar em   história das sociedades africanas,  na m edida em
que a expressão   história africana  nos par ece corr esp on der ao estudo
das especificidades das sociedades africanas. Ora, do mesmo modo,
como não existe química africana, não poderia existir uma história

africana particular, mas História das sociedades aíricanas. Esta percepção

1. Professor de História, Egiptólogo, Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar.

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r ic
ic a n a .   Babacar Sal   1 25

permite evitar um dos problemas dos estudos históricos que consiste


em proceder a divisões geográficas das questões históricas.
Por conseguinte, remeter-nos-emos ao estudo histórico das socie-
dades africanas, permanecendo no segmento temporal designado de
Antiguidade. A refe rên cia geo gráfica é ap ena s um pre texto pa ra t es tar
as técnicas operatórias da ciência conhecida como História. Torna-se
necessário relembrar os termos de outro debate, o de saber, se são ne-
cessários historiadores de um período ou historiadores de uma insti-
tuição. Enquanto produto da primeira tradição, é de acordo com esta
primeira óptica que hoje me vou situar.

1. Generalidades e problemática
Poderei surpreender alguns, desde o início do nosso presente en-
contro, ao afirmar que continuamos sem saber de onde provém o
termo África. De entre as hipóteses introduzidas no primeiro volume
d e   VH ist
istoire
oire général
généralee de VA fri
frique^,
que^,  editado sob a égide da UNESCO,
nen hu m a é ob jecto de acordo e ntre os HistHistoriadores.
oriadores. É contudo aceite

que nos santigos


dos seu usos, o texto s gregos,
con tine nte quoe ter o  Lihuè/Libia
desmigna   de
m os ho je designava,
África. emcise
Áfri ca. Pre alguns
m os
de imediato que a história das sociedades africanas durante a An-
tiguidade resume-se essencialmente ao Vale do Nilo. Isto não repre-
senta um particularidade já que a história das sociedades europeias
do m esm o seg m ento temp oral tam bé m se rreduz eduz à Gréci
Gréciaa e a Roma, da
época micénica à queda de Roma. Mas poderíamos colocar a questão
de saber se existe uma antiguidade em África. Formulemos a questão
de outro modo. Será possível realizar uma análise histórica acerca do
período antigo em África? Segundo Cheikh Anta Diop, uma das razões
que o tinha m levado a esc rev er   Na
Nations
tions nègres et culture  era a segu inte:
Enquan to que o europeu pode remontar o curso da sua hist
Enquanto história
ória até à anti-
guidade greco-rom
greco-romana
ana e às estepes eurasiáticas, o Africano que, através das
obras ocidentais, procura recuar no seu passado histórico, até à fundação do
Gana (século   111 a.C. ou século III)
III).. Para além disso, estas obras indicam-lhe
uma profunda obscuridade.   O  que faziam os seus antepassados no continente
desde a Pré-história?^

Ao redigir e ao publicar a obra supracitada, Cheikh Anta Diop fun-


dava, não a história   "por si"  das sociedades africanas, mas a história

2. Edição de 1980, p. 21.

3. Diop, Ciieilíli Anta,   N ati ons nègr


nègr es et culture;   prefácio, p. 27 da edição de 1979.

antiga das ditas sociedades. Por conseguinte, contribuía com uma


inovação major, ao fornecer àquilo que designávamos ou designamos
por his tória afric ana, c omo que uma nova profund id ad e. O autor
concentra-se no facto de a África, no estado actual da investigação,
emergir como o continente
- ond e a hu m anid ade surgi
surgiu;
u;
- ond e se elabo rou o prim eiro suc esso cultural da hum anidad e, a
saber, o Egipto dos faraós;
ve z, as m ulhere s, a sa be r as candaces  de Cuche,
- onde, pela prim eira vez,

exerceram o poder enquanto soberanas.


Cheikh Ánta Diop é, de modo praticamente incontestável, o funda-
dor da Escola africana de História, não somente da história das socie-
dades africanas, mas pura e simplesmente da história. Note-se que o
conhecimento que detemos acerca das vias e dos meios, das fases e
dos modos através dos quais uma sociedade assegurou a sua produção
e reprodução sociais coloca problemas, interpelações, ambições, mas
também sonhos e utopias daqueles que elaboram uma página de
história, bem como da sociedade ou do grupo social para os quais os
mesmos
pelos elaboram
trabalhos de uma página
Cheikh Anta de história.
Diop Os problemas
e daqueles levantados
que se situam na sua
esteira provêm , segun do no s parece, do facto de,
de, em alguns meios, não
ser possível que os Negros em geral, os Negros Africanos em particular,
colonizados, alienados, excluídos de entre os intervenientes no futuro
da humanidade, empreenderem a escrita e a história das suas socie-
dades e a história da hum anidad e. Ora,
Ora, não so m en te Cheikh Anta Diop
revelava os desafios do discurso histórico, mas lembrava também que
já não era pos s í vel que a his tória d as s oc ied ad es afric anas fos s e
elaborada por não-Africanos, uma vez que, segundo um provérbio
muito conhecido, aquilo que se faz por vós e sem vós, será feito contra
vós. Desde então , a aná lise histórica das socied ade s africanas, partind o
de critérios classificatórios extraídos das problemáticas endógenas,
fez grandes passos. Passaremos a elaborar, no decorrer do presente
encontro, o panorama destes conhecimentos. Porém, tendo em conta
que uma das características de um discurso que se quer histórico re-
side na apresentação, por muito breve que esta seja, da documentação,
pronunciemo-nos acerca desta de modo sumário.

2. A do cum entação
A história, afirmava Mare Bloch, é a ciência dos vestígios. Actual-
mente, uma página da história antiga das sociedades africanas começa

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r ic
ic a n a .   Babacar Sal   127

 
 

na Núbia-Sudão,
Núbia-Sudão, esta região que os au tore s gregos antigos designavam
de Etiópia.
Etiópia. Foi ne ste local que Diodoro situou o surg im ento do ho m em .
É neste local que paleontólogos e geneticistas, apesar das suas di-
vergências, situam os lares de emergência dos hominídeos mais an-
tigos. Foi neste lugar que se comprovaram, segundo as escavações do
instituto de estudos orientais da universidade de Chicago, os lares de
constituição das formas primitivas do Estado''. Durante muito tempo,
estudada enquanto apêndice do campo arqueológico egípcio, a Núbia-

-Sudão campo.
mesmo acabou Trata-se
por ser integrada
apenas dee umconsiderada como àquilo
justo regresso a matriz
que,deste
se-
gundo os sábio s gregos, reto m an do um a trad ição dos antigo s Egípcios,
representava a terra onde os deuses tinham reinado antes de confiar
o poder aos homens e subir aos céus. Prova deste estado de coisas, os
con gre sso s de Nubiologi
Nubiologia,
a, de investiga ções d as especificidades, foram -
-se atenuando, tendo o último colóquio sido o de Chantilly em 1975.
Um breve olhar em torno dos recursos da história das sociedades afri-
canas na Antiguidade estabeleceria a tipologia seguinte:

2.1. As fontes tex tua is


Nesta rúbrica, e de acordo com u ma aborda gem regress
regressiva,
iva, com eçare -
mos pelos textos gregos antigos. Um recenseamento antigo tinha sido
feito pelo R. P. E. Mveng^ Apesar da sua riqueza em informações, es-
tes apresentam a falha de ser tardios, de misturar, por vezes e nem
sempre, mitos, lendas e narrativas. No entanto, estes constituem uma
boa base para estabelecer um primeiro panorama da Antiguidade na

África
pertinemnte
ed iterrâ nica ver
para entre e nilótica.
o povoaAmen
sua to,
util
utilização
ização pod
naquela e reve
época, dalar-se
das m uito
s costas oci-
dental e oriental da África®. A desconstrução destes discursos revela,
em parte, o seu funda m ento egípci
egípcio.
o. Estes texto s egípcios, segun do u m
rece nse am en to anti
antigo,
go, foram editados por K K.. Sethe. Estes constituem a
incontornável série dos   Urkunden^.

4. Cf. William, B., "The Qostul incense burner and the case for a nubian origin of ancient egyptian
kingship", in  Egypt in A frica;
frica;   ed. Celenko, Th., Indianapolis museum of art, 1996, pp. 95-97;   Id.,
"Forebears of Menes in Nubia", in /.   N . E. S., S.,   1987; Scott Macleod, "The Nile's other Kingdom", in
Time,   Setembro de 1997.
5. Cf. L es sources
sources gr ecq
cque
uess de l'hi stoi re né
négr
gr o-afr i caine de H omère
omère j usqu'à St Strabon;
rabon;   1 9 7 2 .
6. Cf. Berthelot, A.,  V A fr i que centr
centr ale et occidentale; ce qu'en ont connu les anci ens;   1 9 2 6 .
7. Cf.  U rk unden
unden des A lten R ei ches;
ches; O bers
bers etzung zu de denn H eftem 1-4 de der U rk unden
unden I V ,   1 9 1 4 e 1 9 8 4 ;
U rk unde
unden derder ägy ptis che
chen A ltertums,
ltertums, I V , U rk unde
unden derder 18
18.. D ynasti e,  Leipzig, 1930;  Urkunden der
ägypti sche
schen A lte
ltertums,
rtums, V U , U rk unde
undem des
des M i ttleren
ttleren R ei che
ches,   1 9 3 5 .
l oo:: , Babacar Mba ye Diop e Doudo u Dieng A Co nsciê ncia Histó rica Africa na

À tradu ção inglesa elabo rad a po r J . H . BrBrea


east
sted®
ed® em 1 92 6 , veio jun tar-
-se a de A. Roccati'' que, infelizmente, só considera os textos de cariz
histórico relacionados unicamente com o Antigo império, isto é, com
o terceiro milénio a.C. Ao lado de   Religiöse U rl<unden   de H. Grapow
(L eipzig , 1915-1917], d e   The egyptian coffi coffinn texts,  estabelecido, entre
autores,, por B uc k A. (1 9 3 5 -1 9 4 7 ], d o  The booi< of the Dead: the
outros autores
chapters of com
coming
ing forth by D ay,   pubhcado por Budge, E. A. W. (1898],
d is pomos , s empre em relaç ão ao E g ipto, d a rec olha d e A. B aruc q e
F. Daumas intitulado   H ym ymnes
nes et prières de l'Égypte ancienne  ( 1 9 8 2 ] ,
Há muito tempo que G. Lefebvre publicou em versão francesa os   R o -
mans et Contes égypti ens de 1'époque pharaonique.  Mais recen tem ente ,
égyptiens
Cl. Lalouette forneceu novas traduções de alguns textos".
Os textos meroíticos, ainda que incompreendidos, acabam de ser
ob ject o de publicação por JJ.. Leclant. N Noo que co nc ern e a África m editer-
rânica a oeste das bacias do Vale do Nilo, para além dos textos gregos
e latinos , d is pomos d e rec olhas d e tex tos púnic os d eix ad os pelos
Cartag ines es " e o Catálog o d o mus eu   Alaoui au Bardo  estabelecido
po r Du Coud
o Vale ray éet  a///.
do Nilo   Lembremo-nos
privilegiado, quematéria
quer em ao níveldedas fontes internos,
recursos textuais,
quer de fontes externas.

2.2. As fontes arqueológicas


Neste domínio, é impossível repertoriar aqui as referências, de tal
modo estas são numerosas, variadas diversificadas. A sua particu-
laridade, a sua dificuldade, por assim dizer, reside na sua dispersão
através das bibliotec as e cen tros de investigação. O ace sso a es tas
supõe meios de que o investigador africano raramente pode dispor.
Neste registo, será necessário distinguir as informações provenientes
das escav ações das que resultam de simples prosp ecçõe s.
De um a ma neira geral, a arqu eolo gia em Áfric
África,
a, excep tuan do o baixo
e médio Vale do Nilo, fez passos de gigante no que concerne aos perío-
dos ditos pré-históricos e modernos. Permaneçamos, contudo, na
antig uid ad e, já que é s obre es te perí od o que o nos s o enc ontro in-
c id e. E x c eptuand o o Vale d o Nilo e a marg em merid ional d o Mar
Mediterrâneo, não existe quase nada em matéria de xilografia e de
numismática. No planalto saariano, nos períodos correspondentes às
8. Cf. A nci
nci ent R eco
cords
rds os E gypt.
9 .  L a L i ttérature
ttérature his tori qu
quee sous l'A nci
nci en empir e égy pti en,   1 9 8 2 .
10. Cf   Textes sacrés et textes profanes de l'ancienne Égypte,   1 9 8 4 .
11. Cf   Corpus inscriptionum semiticorum,   1 8 8 1 .

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r ic
ic a n a .   Babacar Sal   1 29

é p o c a s  p r é - d i ná s ti ca s e d i ná s ti ca s , o s qu a d r o s r u p e s tr e s co ns ti tu e m
v e r d a d e i r o s  livros de imagens, vestígios daquilo que foram as vias e os
meios, as fases e os modos através dos quais várias populações garan-
tiram as ba ses da sua pro du ção e rep rod uç ão sociais. O m es m o será
dizer que em matéria de antiguidade em África, as regiões nilóticas,
subm editerrân ica e saariana, são pri privil
vilegia
egiadas.
das. Indicámo s an ter iorm en te
que não se tratava de uma especificidade, já que a mesma constatação
vale para a Europa e para a Ásia. Á situação já era a mesma na Ánti-
guidade, uma vez que a escola grega clássica de estudos africanos só
levou a cabo análises e descrições nestas regiões.
A l g u ns hi s to r i a d o r e s a f r i ca ni s ta s p r o cu r a r a m e a i nd a p r o cu r a m r e -
duzir as passagens dos textos gregos antigos relativos à África a lendas
e mitos. Salientemos que esta atitude não tem qualquer consistência,
na me d i d a e m qu e s ã o a s me s ma s f o nte s qu e s e r v e m d e f u nd a me n-
tos à reconstituição das civilizações da Europa antiga. Tudo isto para
dizer que aquilo que Heródoto apresenta acerca da África não passa
de mitos e lendas, aquilo que a mesma fonte afirma acerca da Grécia
são também mitos e lendas. Ora, os Africanistas em causa não deixam
d e ti r a r e s ta co ncl u s ã o . Pa r a a l é m d i s s o , o e s tu d o d a hi s tó r i a d a s
s o ci e d a d e s a f r i ca na s na a nti g u i d a d e r e co r r e d e mo d o p e r ti ne nte a o s
resultados da paleobotânica e da paleoclimatologia. Quanto à antropo-
logia, muitas vezes agitada para negar as análises de inúmeros histo-
riadores, africanos em particular, esta necessita em primeiro lugar de
um mínimo de concordância acerca dos seus critérios de classificação.
Remetemos para a entrevista de Jean Coppans no jornal de vulgariza-
ç ã o   Histoire,  n .^ 2 9 3 , d e D e z e m b r o d e 2 0 0 4 .

3. Panorama
Voltemos a repetir Quando se fala da Antigüidade em África, os es-
píritos voltam-se em primeiro lugar para o Vale do Nilo. Aqui, foram
con stituído s os Estado s egíegípcio,
pcio, cuc hita e aksu m ita. O Egipto repr e-
senta o conjunto das terras situadas no norte da primeira catarata e
que o Nil
Nil o iinund
nund a com as suas cheias. A sua em erg ên cia n o fi
final
nal do qu ar to
m ilênio resultou de três revoluçõ es. O Egipto, pou co antes de - 3 0 0 0 :
1 ) a u ni f i ca çã o te r r i to r i a l e p o l í ti ca . Is to tr a d u z i u - s e p o r u m e n-
g e nho s o s i s te ma hi d r á u l i co co ns tr u í d o co m d i qu e s d e p r o te cçã o , ca -
nais de irrigação e bacias de retenção das águas. Este sistema, para
além de pe rm itir o dom ínio do ri rio,
o, oferec ia às po pu laçõ es esta bele ci-
das na planície aluvial, a possibilidade de proceder a uma utilização
racional e judiciosa das potencialidades de que o Nilo era vector

l o:
o: , Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Africa na

2) a elaboração de um sistema de escrita com duas variantes. A vari-


ante dos hieróglifos utilizava imagens convencionais de elementos
dos reino s divin
divino,
o, hum ano, animal, vege tal e m ineral. Cara cteres sag ra-
dos, estes serviam para redigir os textos religiosos, os acontecimen-
tos e os gestos das divindades entre as quais o faraó e pessoas rela-
ciona das com a corte. A varia nte hierática, constituída por car act ere s
extremamente
como os tratadosestilizados, servia ospara
de matemática, redigir oscontabilísticos,
documentos textos profanos,
etc.
3) a constituição de uma monarquia forte de direito divino encar-
nada pelo faraó, e assistida por uma burocracia pletórica, mas efici-
ente e eficaz, constituída pelos escribas. Estes dados de base são vi-
síveis nos vasos dos períodos que precedem a emergência do Estado
monárquico. Encontram menções fugazes nos   Textes des pyramides  e
em alguns textos gregos antigos.

A sua constituição foi um lento e complexo processo do qual é pos-


sível apreendermos as primeiras manifestações no final do quarto
milênio. Entre 3600 e 3300 a.C., existiu uma unificação cultural do
vale. O processo partiu de Nagada, um local do Alto Egipto. Heródoto
tinha chamado a atenção para o facto de a região onde teve lugar a
etnogénese dos antigos Egípcios corresponder ao Alto Egipto. Mais
tarde, em conseqüência de uma pressão demográfica, os antigos Egíp-
cios espalharam-se até ao Delta (Heródoto, II, 15).
E s ta d upla unific aç ão era animad a por um pod er monárquic o
constituído no espaço, contendo as localidades de Tinis, de Abidos e

de escavações
As Hieracômpolis. Aqui, Dreyer
de Günter nesta data, surgem os
no cemitério primeiros
U de Abidos, hieróglifos.
do túmulo
U-j em particular, revelaram a existência, na época, de uma socie-
dade hierarquizada, cheia de desigualdades, que conhecia o arma-
zenamento, traduzido pela presença de vasos com fundo pontiagudo
com ou sem elementos de preensão. Esta pressão demográfica terá
provocado o desenvolvimento da cultura dos cereais e o comércio de
longa distância em direcção à Núbia e às costas siro-palestinianas. Foi
deste modo que se constituiu um grupo social que se pode caracteri-
zar como aristocracia, cujas riquezas encontramos nos túmulos. Os
homens que estiveram
de uma tradição na base destas
cujos vestígios mudanças
mais antigos eram os herdeiros
são comprovados numa
área que se estende dos Grandes Lagos ao Quênia actual. Trata-se da
civilização dos pescadores de   Gam ble'
ble'ss cave,  d e   Early-Khartoum  e de
Es-shaheinab.   As paleta s pintad as em form a de peixe, os ha rpõ es far- f ar-
pados, as goivas e as cabeças de maça encontrados no Egipto, em par-
ticular no Faium, foram inventados nas   cat-fi
cat-fish
sh caves  do Sud ão. Aqui,

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r ic
ic a n a .   Bab
Babacar S al i   131

tudo começou na época correspondente ao Tardiglaciar na Europa.


Durante este período que se estendeu desde cerca de 21000 a 15000
B . R
 R,, o Saara tinha si
sido
do esvaziado do essen cial das suas po pulaç ões^ l A
área qu e se viria a tor na r o territ ório do reino do Egipto era la m acen ta,
infesta, inospitaleira em conseqüência da captura do Atbara pelo Nilo,
icom
s to,
to, dum
es dbiótopo
e 2 5 0 0 0 sahelo-sudanês,
B . R A alta N úbiaregistava
e o S ud ão n ilótic
uma o s e tende
rarefacção triocaça.
na l,
As popu lações voltavam-se para a exploração dos recu rsos ha liêu tico s".
A partir de 15000 B. R, assiste-se a um recuo, do sul para o norte,
do deserto do Tardiglaciar. Assim, caçadores e pescadores viriam a
acompanhar o percurso do deserto. Se os instrumentos dos caçadores
não chegaram até nós, foi pelo facto de estes últimos não terem cria-
do um lar. Para além das armaduras, os pescadores traziam com eles
a cerâmica que tinham inventado para ferver moluscos. Este tipo de
cerâmica núbio-sudanesa deu origem à cerâmica das classes P e B do
Egipto pré-dinástico. Ao ocupar a planície aluvial do baixo Nilo, isto
é, aquele que se viria a transformar no território do reino do Egipto,
estas comunidades de pescadores constituíam ali entidades políticas
de tipo clânico. Estas desenvolvem, naquele local, aquilo que designa-
mos de culturas pré e proto-dinásticas entre as quais a   Badaríana,  a
Amratiana   ou Naqada   1,  a   Gerzeana  ou Naqada   11  e a   Semaniense  o u
Naqada III. Cerca de -3500, enquanto que no Saara, a cultura dita
bovídea estava no seu auge, graças ao regresso da humidade do Plu-
vial IP'', assiste-se a uma unificação cultural do baixo Vale do Nilo. Era
a obra da monarquia constituída em Hieracômpolis e em Abidos. Esta
monarquia, cujos soberanos só reinaram numa porção do Egipto e cu-
jos nomes não chegaram até nós, representa no jargão egiptológico, a
dinastia "O". Perante os efeitos devastadores das cheias do Nilo, estas
comunidades viriam a empreender grandes trabalhos de construção
de diques de protecção, de canais de irrigação e de bacias de reten-
ção das águas. A direcção destas obras necessitou da instituição de um
órgão de coordenação.
Assim surgem os primeiros funcionários chamados "Os nomeados
para a vigilância do nilómetro". É deste modo que emerge o Estado
egípcio na sua fase
tecnologicamente balbuciante.
forte, Surgiu
se apoderou numaesta
de toda época em que um
organização paraclã,
se
impor a todas as comunidades do Vale baixo do Nilo, criando assim o
reino un ifi
ificado
cado do Egipt
Egipto.
o. A tradição retev e que o ho m em que estev e
na base desta iniciativa foi Narmer, identificado ao Menés ou Meni dos

12. Cf. Gabriel Camps,  Le  Less cici vi li sati ons préhist
préhist ori qu
quees de l'A fri qu
quee du N ord et
et du Sahara,   1 9 7 4 .
13 . Cf
Cf.. As e sc av aç õe s de F. W en do rf da SSIIVIU de Dallas.
14. Cf. Cornevin M., L 'ar chéolog
chéolog i e afr i cai ne à la lumi èr e des des dé
découvert
couvertees récentes,
récentes,   1 9 9 3 .

l oo:: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Co nsciê ncia Histó rica Africa na

textos gregos antigos". Este reino que se tranformou num império no


início dos séc ulo XVI a.C.
a.C.,, criou a ciência, as a rte s e a literatu ra. Pe ran te
Unamon, que tinha ido buscar madeira ao actual Líbano, um príncipe
de Biblos reconhece que "Amon fundou todos os países; fundou-os,
mas fundou antes de qualquer outro, o país do Egipto de onde vens.
E, foi do Egipto que nasceu a sabedoria [a ciência e a filosofia] para
alcançar o meu próprio país^®.
O pap el civilizador
civil izador do Egipto foi rec on he cid o logo na An tigüidade.
Prova disso é o facto de Alexandre o Grande, um Grego formado no ra-
cionalism o de Aristóteles, ter de afro nta r o deserto para ir para o oásis
saariano de  Siwah,  com o intuito de solicitar a Am on que ace itass e ser
o seu pai e confiar-lhe o governo do mundo." As vias e os meios, as
fases e os modos através dos quais os antigos Egípcios, garantiram, ao
longo de cerca de quatro milênios, a sua produção e reprodução soci-

ais são am plamretornar


poupar-vos-ei ente d escritos e comdurante
ao assunto enta do s este
nas obras.
obras . Pou par-m e-ei e
encontro.
Para além de ter forne cido ao Egipto os ho m en s e as culturas a pa rtir
dos quais este se tornou no florão da antigüidade, o espaço núbio-
-sudanês foi vital para o país dos faraós. Era este que fornecia, entre
ou tros produ tos, o incenso . Or
Ora,
a, o que se ria do Egipto
Egipt o sem este produ-
to que era suposto despertar os deuses? Com efeito, a cada manhã,
quando os primeiros raios de sol surgiam no horizonte, no Santo dos
Santos de cada templo, o sacerdote concluía a fumigação, através do
incenso, da estátua da divindade que se revelava então do seu torpor.
No mesmo instante, no frontão do templo, o friso dos babuínos sau-
dava o sol, vitorioso pelas forças hostis que tinha combatido, durante
a noite, na penumbra da   Douât.  O Egipto era um dos países ond e se
sacrifi cava m uito em hon ra dos deuses. Ora,
sacrificava Or a, tal com o H eródoto salien-
tava, este país não constitui um grande território de criação, devido à
exiguidade do terreno que nunca ultrapassou 30 000 Km2i®.
A Núbia-Sudão nilótica era, desde o oitavo milênio, uma terra de cri-
ação de anim
ani m ais. A arte rup estre re pre sen ta a ilustração
il ustração m ais p erfeita
deste facto. Sob a IV® dinastia, o faraó Snefru regressava de uma expe-
dição a estas regiões com cerca de 200 000 cabeças de gado. Esta zona,
a Núbia-Sudão, não era uma espaço inorgânico. Alguns "exploradores"
egípcios que a tinham percorrido no terceiro milênio tinham mencio-
nado a presença de entidades políticas que, se não tinham atingido a

15. Cf. Derchain Ph., "Ménès, le roi quelqu'un", in  R de   18,1966, pp. 31-36.
16. Cf. Gustave Lefebvre, R omans et et contes
contes égy pti ens de l' époque
poque pharaoni que
que,,   1976.
17. Leclant, J.,  " P erA fricae siti entia,   témoignages des sources classiques sur les pistes menant à
l 'oasis d'Ammon", in  B.  I .  F. A.  0.
18. Leclant, J., "Les "empires" et l'impérialisme de l'Égypte pharaonique", in Duverger M.,  Le con-
cept d'empire,  1980.

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r i c a n a .   Babacar Sa i 133

forma monárquica do Estado, não deixavam de constituir entidades


políticas bem estruturadas. Sob a VI- dinastia, alguns funcionários
egípcios como   Ou ni, Herkouf, Pepinakht,  etc.,
Ouni, etc., ref ere m os Esta do s de
Irthet, Wawat, Setou e   s obretud o   Vam^'^.  A  natureza dos produtos que
este Estado fornecia ao Egipto (menciona-se a madeira de ébano, o
óleo-hékénou,   as sem en tes-s at, o m arfim, peles de cervo e de pigm eu]
permite demonstrar que o seu território se alargava até à confluência
do Nilo Azul e o do Nilo Branco. Derrota das teses neo-hegelianas de
uma África no sul do Saara fechada sobre si própria, excluída das cor-
rentes históricas.
Os Núbio-sudaneses, designados   Néhésiyou  pelo s an tigo s Egípcio s e
pelos Etíopes nos textos gregos antigos, estavam presentes no Egip-
to antes e durante toda a história do Egipto faraônico. Domésticos e
pastores, estes asseguravam o policiamento dos faraós desde o Antigo
império.^" As representações que possuímos destes Núbio-Sudaneses,
tal como o túmulo de um certo   Ankhtify  em Moalla
Moalla,, anulam as teo rias
fantasiosas que procuraram e ainda procuram estabelecer distinções
raciais entre Egípcios e Núbio-Sudaneses na antigüidade. A riqueza
do espaço núbio-sudanês atraiu rapidamente o Egipto, cuja opção ex-
pansionista para o sul originou um processo federativo dos Estados
situados no sul do seu território. Deste modo viria a surgir, no início
do segundo milênio a.C., o reino de Kush. Constituído na planície do
Dongola, com Ke rm a por capital,
capi tal, Kush viria a expandir-se, ab sorv en do
a planície do Byuda, com Napata como centro principal. Mais tarde,
alargar-se-á à planíci
planíciee do Butana do minad a por Meroé. P rim eiram ente
reino indep
i ndep enden te, de -2 0 0 0 a -1 56 0 , Ku
Kush
sh f oi depois uma colônia do
Egipto, de -1560 a 1085. Nesta data, em resultado da crise que reinava
no Egipto, Kush alcançava a sua independência. Iniciou um processo
de restruturação e, em meados do século Vlll a.C., empreendeu a con-
quista do Egipto que dom inou até - 6 6 3 . Expulsos do Egipto Egi pto pelos As-
As -
sírios, os Kushitas voltavam-se para Napata, e para Meroé, onde per-
petuav am a tradiçã o faraôn ica em toda a sua pureza. Inovad ores, este s
elaboravam uma escrita que os egiptólogos designam como Meroítica.

Em Amon, substituem Apedemak como divindade da monarquia e,


qual cereja no topo do bolo, iniciam uma dinâmica política graças à
qual algumas mulheres acedem à monarquia enquanto soberanas: são
a s  candaces.  Enq uan to que, cerc a de -30 , o Egipt
Egipto,
o, em co nse qü ên cia da
conquista romana, não passava de uma simples província de Estado

19. Cf. Sall, B., "Herkouf et le pays de Yam", in  A N K H ,   4 / 5 , 1 9 9 5 - 1 9 9 6 ;  Id.,   "Géopolitique de la


Nubie-soudan pré-koushite", in  M élanges d'ar chéologi chéologi e, d'hi stoi re et
et de li ttératur e off ert s au doyen
doyen
O umar
umar K an
anee,  Dakar
Dakar,, PP.. U. D.,
D., 2 0 0 0 , pp. 4 7 -6 0 .
20. Cf Valbelle D.,   L es ne neufs
ufs ar cs L 'É gy pti en et et les
les étr angers
angers , de la préhi
préhi stoi re à la conquê
conquête
te
d'Alexandre,   1 9 9 0 .

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

cujo centro estava situado no exterior do continente, os Kushitas con-


tinuavam a viver a he ran ça d os faraós. É po r volta de m ead os do século
IV a.C. que o reino de Kush desaparece, desestruturado pelo reino de
Aksum, sob a direcção de Ezana, que as fontes apresentam como um
poderoso soberano cristão.
No exte rior do Val
Valee do Ni
Nill o, o que sa be m os das po pu lações african as
e dos seus modos de vida durante a antigüidade? Do ponto de vista
textual, o vazio é total. Certam ente, os texto s gregos antigos m en cio na m
a existência de comunidades etíopes. Estrabão refere que existiram
tempos em que todas as terras do Sul que se expandiam em direcção
ao Oceano eram designadas de Etiópia (Estrabão, I, 2, 27). Este pre-
tendia, muito provavelmente, afirmar que eram habitadas por comu-
nidades etíopes. Não há dúvida que estes propósitos diziam respeito a
tudo aquilo que designamos hoje por África.
Da análise de outras passagens, podemos deduzir que na época do
geógrafo, existiam populações em África que não eram Etíopes. Este
dado já tinha sido expre sso po r Heródoto. Segund o e ste último
último , a África
a oest e das ba cias do Val
Valee do Ni
Nill o era habitada, no seu te m po (século V
a.C.
a.C.)) po r quatro grup os hu m ano s. O auto r escre ve:
... o  que ainda ten
tenho
ho para dizer acerca desta região [a África saariana, sahe-
liana, sudan
sudanesa,
esa, etc.] é que quatro raças a ocupam ...,
..., sendo duas destas raças
autóctones.   Uns  [os Líbios] habitando o N orte da Líbia, os outros [Etíopes], o
Sul,  sendo os Fenícios e os Gregos emigrantes^^.

Se algumas das comunidades que formavam eram compostas por


agricultores, outros eram nômadas, entenda-se, criadores. Heródoto
menciona grandes negociadores Etíopes que praticavam o comércio
mu do com os Cartag ineses (Heródo to, IIV
V, 19 6) . O essen cial do con he-
cimento que possuímos acerca destas regiões provém da arqueologia
e dos resultados da paleoclimatologia. Ora, segundo Moses I. Finley, a
arqueologia não pode dar conta nem das relações de propriedade e
de produção, nem dos sistemas de repartição de bens ou da economia
política^l
O auto r consid era q ue duran te o Tardi
Tardiglac
glaciar
iar,, uum
m im en so d ese rto co-
bria toda a metade norte da África, até às latitudes da actual Nigéria.^^
Na época, nas zonas hoje equatoriais e tropicais húmidas, predomi-
navam a caça e a pesca. Com o recuo do deserto do Tardiglaciar, estas

21. Heródoto, IV, 197.


22. Cf. "Archaeology and history", in  D aedalu
aedalus,s,   1 0 0 , 1 9 7 1 , p p . 1 6 8 - 1 8 6 .
23. Cf. Rognon P.,  B i ographie d'un dése
désert,
rt,   Paris, Pion, 1989;   id.,   "Une extension des déserts (Sahara
et Moyen Orient] au Tardiglaciaire (18 000- 10 000 B.P)", in  R .  G. P.  G. D .,   1 9 8 0 , pp
pp . 4 1 3 - 4 2 8 .

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r i c a n a .   Bab
Babacar S al i   135

comunidades iriam voltar a invadir o planalto saariano, agora verde-


jante com o regresso da humidade do Pluvial II e da transgressão
lacustre^"*.
Estes Negros transp ortaram , para o planalt
planaltoo saari
saariano,
ano, instru m ento s
entre os quais o parafuso de Ounan (local do actual Mali), que ocupa
um lugar primordial enquanto expressão desta invasão da metade
setentrional da África por populações cuja cultura se elaborou na
África equatorial. Aqui, antes do Neolítico, tinham florescido culturas
ditas epipaleolíticas como o   Tshitolien  em que as arm as d e arre m es s o
tinh am sub stituíd o as ar m as de mã mãoo^^. O que diz er se nã o qu e o arco
tinha sido inventado^®. Desde o oitavo milénio, estas comunidades de
c aç ad ores e pes c ad ores d ed ic aram-s e à c riaç ão, à s emelhanç a d os
pescadores
a olaria. NodaVIII-
África oriental
milénio, em que tinham,
redor para ealém
do Tibesti disso,
do Air, inventado
assiste-se ao
surgimento da idade pastoral".
De ste mo do, ffoi
oi no co raç ão da África que surgiu aquilo qu e, no Saara,
viria a tornar-se na cultura bovídea. Esta é comprovada pelas pinturas
rupes tres , c ujos rec ens eamentos c ons tituem numeros os   corpus^''.  N o
Tassili,i, esta atingiu o seu apo geu no q ua rto m ilénio a.
Tassil a.C.
C. O seu declínio
terá começado em meados do terceiro milénio a.C. em consequência
do processo de acentuação da desertificação, a qual teve efeitos no
Egipto, onde deu origem a uma crise de adaptação. Nesta data, o país
dos faraós assistia ao estabelecimento das piores condições climáticas
no seu solo, relacionadas com a desertificação do Saara^^. Este factor
veio juntar-se às lutas políticas que se tinham exacerbado sob a sexta
dinastia e que favoreceram o desmoronamento do período menfítico,
aquela que tinha assistido ao levantamento das pirâmides. Os autores
desta cultura dita bovídea eram Negros provenientes dos alto e médio
Vale do Nilo. Os sábios da Grécia estavam conscientes disto. Estrabão
refere, com base no texto perdido de Éforo e que se intitulava   Europa,
que segundo uma tradição que tinha lugar em Tartessos, tinham sido
Etíopes a invadir o planalto saariano até ao Atlas. Dali, alguns ter-se-
-iam deslocado para a costa, mas a maior parte permaneceu para trás
(Estrabão, I, 2, 26). Os esqueletos encontrados no Saara, em particular

24. Cf. Quezell P. e Martinez G., "Le dernier inter-pluvial au Sahara central", in  Li byca,   6-7, 1958;
Servant M.,  Séque
Séquencencess continentales
continentales et var i ati ons cli mati ques.
ques. E voluti
vol uti on du
du bassi n du T chad au
Cénozoïque supérieur,  0. R. S. T. 0. M ./Pa ris VI, VI, 1 9 8 3 .
25. Hugot, J.,   Préhistoire de l'Afrique,   1 9 7 0 .
26. Cf. Huard, R e Leclant, J., L a culture des des chasseurs
chasseurs du N i l et do Sahara,   1 9 8 2 .
27. Cf Roset J. P., "Céramique et Néolithisation en Afrique saharienne", in Guilaine J. editor,   les
premiers paysans du monde. Naissance des agricultures;  Par Paris
is,, Errance, 20 00 , pp.
pp. 26 1- 29 0.
28. Cf. entre outros autores, H. Breuii, H. Lhote, R. Mauny, etc.
29 . Cf
Cf.. Bel
Bell,
l, B.
B.,, "The da rk ag es in ancie nt h istor
istory.
y. I: the firste dark age in Egypt"
Egypt",, in A /   A .,   7 5 , 1 9 7 1 ,
pp. 1-26.

lo :,:, Babacar Mbaye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

em Amekni, no Hoggar, apresentam todas as características dos


esqueletos dos Negros. Evidentemente, a maior parte dos au-
to re s pre fere m quali
qualifi
ficá-l
cá-los
os de negróides, term o de fraca
frac a consistên cia
científica. Para levar a cabo um estudo acerca das relações entre os
autores do Bovídeano do Egipto pré-dinástico e dinástico, podemos
começar por ler os textos de T. Gostynski^".
Mas, vo ltem os ao Vale
Val e do NilNilo.
o. Devido à co biça egípcia, à qual já alu-
dimos, sabemos um pouco mais acerca das populações e dos modos
de vida dos médio e alto Vale do Nilo. As inscrições biográficas de fun-
cionários do Antigo império indicam-nos que, no sul do Egipto, exis-
tiam entidades políticas entre as quais   Wawat, Sétou, Irthet e Yam  que
foram, nesta época, protagonistas do Egipto. Entre estas biografias, a
mais célebre é a de   Herkouf.  Este executivo tinha levado a cab o qu atro
exp ediçõ es ao país de Yam. Os prod utos que trazia desta s terra s longín-
quas eram constituídos por madeira de ébano, óleo, marfim, peles de
animais e sementes. Estes últimos demonstram que a economia yamita
era, simultaneamente, agrária [sementes) e florestal [ébano). Entre
Yam e o Egipto, estendiam-se os territórios de Wawat, Sétou e Irthet.
A sua econ om ia era pre do m inan tem ente pastoral. Estes Estados esta-
beleceram, em primeiro lugar, relações cordiais com o faraó. Depois,
em conseqüência da política expansionista do Egipto, estas relações
dete riorara m -se para se torn ar confl
conflituosas.
ituosas. Deste modo, ao reg ressa r
da sua segunda expedição a Yam, Herkouf tinha sido feito prisioneiro
pelo príncipe de Sétou e Irthet então confederados. No final da quarta
expedição, Herkouf trazia um pigmeu. Sendo o habitat dos pigmeus,
ramo da humanidade específico do mundo negro, a zona florestal,
concluiu-se, entre ou tras coisas, que na épo ca os carav ane iros egípcios
freqüentavam a região do   Bahr-el-ghazaI,  tend o em con ta que é ne sta
região que cobre o sudoeste do actual Sudão e o nordeste da Centrá-
frica
fri ca que se sit
situam
uam os pigm eus m ais seten trion ais. A tes e hege liana de
umahistóricas,
tes África no não
sul do Saaradeste
possui, virada para qualq
m odo, si própria,
uer funexcluída
dam ento.dasNocorren-
iinício
nício
do segund o m ilênio aa..C.
C.,, as ter ras nilóticas e subnilóticas q ue se est en de m
da primeira catarata no Norte até à confluência dos dois Nilos iam ser
unificadas numa única entidade política conhecida por reino de Kush.
Durante toda a primeira metade do segundo milênio, o Egipto conten-
tava-se em subjugar este Estado. Os textos que nos informam acerca
deste estado de coisas são os textos de feitiçaria^\

30. "La Libye antique et ses relations avec l'Égypte", in  Le


 Lexi
xi kon de
derr Ä gyptologie,
gyptologie,   L 1, 19 72 , ccolunas olunas
67-69.
31. Cf. Posener, G., "Die Achtungstexte", in  Le
 Lexi
xi kon de
derr Ä gyptologie,
gyptologie,   1 , 1 , 1 9 7 2 , c o l u n a s 6 7 - 6 9 .

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r i c a n a .   Babacar Sal   137


 

No decorrer da segunda metade do segundo milênio a.C., Kush foi


con quistad opor
designada p elo Egipto
Egipto período
Terceiro que o su bm ete u à acultura
intermédio ção. a.C.),
(1085-750 A crisepermitiu
egípcia,
a Kus
Ku s h recup erar a sua iindepen
ndepen dência. A aristocracia, extr em am en te
egipcianizada, levou a cabo a restruturação do reino. Cerca de 750 a.C.,
o pro cesso estava concl
concluído.
uído. Os sob eran os em pre end eram a conqu ista
do Egipto, então nas mãos dos dinastas ditos líbios, isto é, dos Egíp-
cios cujos ascendentes eram provenientes do Saara. Os episódios da
conquista do Egipto pelo soberano kushita nomeado Peye encontram-
-se relatados num célebre documento. Trata-se da esteia da vitória de
Peye [cf, Grimai, N., La stèle ttriomph
riomphale
ale de Pi(ankh)y au mu musée
sée du Caire
[]. E. 48862 e 47086-470
47086-47089),
89),   1 9 8 1 ] .
A ocupação do Egipto foi de curta duração já que em 663 a.C., os
Assírios expulsavam os Kushitas e instalavam no trono uma dinastia
fantoche, a dos Psamético. Esta, com o apoio de mercenários gregos,
conseguiu assegurar a sua autonomia em relação à corte de Nínive.
Mais tarde, foi varrida pelos Persas. Após a sua expulsão do Egipto, os
Kushitas instalavam-se em Napata. Naquele lugar, estes viriam a per-
petua r a civil
ci viliza
ização
ção operando transfo rm açõ es progressivas. A partir
do século terceiro a.C., o Egipto, administrado pelos Gregos, voltava-se
cada vez mais para o Mediterrâneo. Em Kush, cujos centros nevrálgi-
cos se tinham deslocado mais para o sul, existiu um processo de rup-
tura, nunca concluído, com o modelo egípcio. Criou-se ali uma escrita
ainda não decifrada.
deci frada. A Am on, sub stitui-se Ape dem ak enq uan to chefe
do panteão local. Ademais, inovação primordial, as mulheres acediam
ao poder; estas eram as   candaces.  A pesa r das ruptura s, a par do seu
nome teóforo formado a partir do de Amon, as candaces veiculavam
na sua
s ua consciênc ia a ortodoxia de Am on. É por volta
vol ta de 3 4 0 / 3 6 0 que
este segundo grande reino negro-africano, depois do Egipto, foi con-
quistado pelo soberano axumita Ezana. Na sua lápide em Ghèze, Kush
encontra-se transcrito Kasu.
Se existem alguns indícios que permitem fundamentar a tese da
existência de relações entre o país dos faraós e o limite da actual zona
equatorial e florestal, apenas alguns fragmentos de indícios induzem
contactos indirectos entre o Egipto e a África ocidental não saariana.
Com efeito, algumas sementes de plantas, cujo centro de domestica-
ção se supõe pertencer à África ocidental, foram atestadas no Egipto
dinástico. Entre elas, existe o   Cajanus cajan  o u   cajan,  das índ ias, ou
a ervilha de Angola. As suas sementes são comprovadas nos túmulos
da XII® dinastia. Ora, parece estar assegurado o facto de esta planta
ter sido domesticada na África subsaariana onde ainda existe a espé-
cie selvagem. Existe também a   vigna ungu
unguiculata
iculata  o u   vigna baoulensis

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Co nsc iênc ia Histórica Africa na

[niébé  e m   wolof,  um a das lí


línguas
nguas principais do Seneg al). Sem ead a no
oeste da África, esta foi detectada nos complexos arqueológicos data-
dos da  V^ dinastia.
Quanto ao   ric
ricinus
inus comm unius  ou ricínio com um , igualm ente criado
na África ocidental, este é comprovado no Egipto, em contextos pré-
-dinásticos^^. A existência de tais relações em épocas tão recuadas
supõe a dad a rede rodoviária. Tam bém ne ste caso existem alguns p eque-
nos indícios. A sul da terceira catarata, encontra-se o lugar de Kerma.
Examinado no início do século por G. Reisner, e durante estes últimos
ano s po r C
Chh . Bo nn et do Instituto de Genebra, este local pa rece te r sido

o Acentro
pistadeconhecida
um poderoso
por   reino
Sikkat que foi o antepassado
el-Meheila  condu zia de Kush.a, prove-
a Kerm
niente de Meroé através da planície de   Boutana  via Napata, atra vé s
de Bayuda. Era também o terminal da pista do   wadi el-Melek  o u   wadi
el-Milk,  que lligigava
ava o cora ção da planície de Dong ola com and ad a p or
Kerma, a Darfur e a Cordofão, e ainda mais além, na curva do Niger.
Terá sido através desta pista que   vigna unguiculat
unguiculataa e rici
ricinus
nus comm u-
n is   terão transitado para chegar ao Egipto via Núbia. Na biografia de
Herkouf,, na qual se relata um a gu erra en tre o sobe ran o de Yam e popu -
Herkouf
lações do Saara, o soberano yamita afirma que, indo combater estas
populaç ões c hamad as   témékhou,  tev e de se dirigir até ao horiz on te
ocidental do céu. Quereria este dizer até ao Darfur-Cordofão ou até
ao coração da África ocidental, terra de domesticação dos produtos
sup racitad os? A esta questão , não existe, actu alm ente , qualqu er re s-
posta textual ou arqueológica. Dos oásis de Dakhleh e de Khargeh, às
latitudes do alto Egipto, a cerca de 400 km do Vale do Nilo, algumas
pistas partiam também em direcção ao Darfur e à curva do Niger. No
Saara subnúbio, alguns ramaldes destacados destas pistas dirigiam-
-se em direcção ao vale. Ali, onde se encontra o local de Selima, que
representava um nó das vias terrestres indo ou voltando dos oásis do
S aara s ubeg í pc io po r   Bir tarfawi/ Birsahara e  a depressão do tchade.
Deste modo, é possível ter uma idéia, devido à cobiça egípcia, das
populações da África subnilótica, bem como do seu gênero de vida
na Antigüidade.
Mais uma vista de olhos em direcção ao oeste. Tratando-se do Saa-
ra, sabemos através das fontes gregas que houve tempos em que este
fervilhava com vida. Que reconstituição poderemos tentar para com-
preender tais propósitos? Aqui, é a arte rupestre e os resultados da
paleoclimatologia que servem de base. Tudo parece ter começado no
final do árido do Tardiglaciar.
32 . Cf
Cf.. Blench R.
R.,, "Conne ctions betw een Egypt and su bsah aran Afri Africa:
ca: the evidence of cultivated
cultivated
plants", in Davies W. V.,  E gypt and
and A fri ca:
ca: N ub
ubii a from P re
rehistory
history to I slam,   1993, pp. 54-56.

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r ic
ic a n a .   Babacar Sal   139

Das latitud es d a actual Nigéria, dos alto e mé dio vale do Nil


Nilo,
o, algum as
populações, seguindo o rasto do recuo do deserto do sul para o norte,
povoavam o planalto sa ariano . A prim eira vaga ffoi oi a dos caça do res.
Este s foram os auto res das gravuras ru pes tres. A idéia segundo a qual
se tratava de caçad ore s dedu z-se pelo facto de as sil
silhue
hue tas anim ais qu e
dominam os seus quadros serem aquelas com que um povoamento de
caçadores se alimentam. É inútil procurar lares, tendo em conta que
o caçador não acampa num único lugar durante longos períodos para
deixar vestígios indeléveis da sua ocupação do solo. Depois dos caça-
dores red
pelas chegam os pescadores.
es e outro s utensílios Adesua presença
pesca no Saara
, que Henri Lhote está
en conilustrada
trou no
Tassili.   Estes foram o ramo saariano da cultura dos pescadores que se
expandiu, a partir do X^ milênio, da região dos Grandes Lagos ao Quê-
nia,, e cujo apo geu se situou no V IP m ilênio aa..C. Estes p escad ore s, cuja
nia
cultura foi transplantada para o Egipto, deixaram acampamentos céle-
bres no Sudão. Os mais citados são Khartoum e Es-Shaheinab. Foram
eles que inventaram as m aças para que brar a cab eça dos batrá qu ios e
a cerâmica para ferver moluscos. Desde cedo, começaram a criar ani-
ma is para "m elho rar" a sua a limen tação.
Depois dos pescadores, chegam os autores da cultura dita bovídea.
Estes deixaram pinturas rupestres dominadas por silhuetas de
bovídeos. A sua cultura formou-se numa área que se estendia desde a
Etiópia actual até ao Tib esti. Au tores do verd ade iro n eolítico do Saara,
os bovideanos tiveram de abandonar a região quando, cerca de 2500
a 2000 a.C., o planalto sofreu o processo de drenagem que está na ori-
gem do actua l dese rto . O que ter á existido n o sul do Saar a e a o est e
do vale do Nilo? Este é domínio da nossa ignorância. Abordamos aqui
a evocação de domínios pouco e/ou insuficientemente estudados da
evolução das sociedades africanas durante a antigüidade.

Conclusão
Por muito grandes que tenham sido os passos efectuados no estudo
e na compreensão da evolução das sociedades africanas no segmento
temporal designado por Antiguidade, estes são ainda insuficientes.
Primeiramente, pelo facto de imensas regiões ainda serem   terra
incognita.   Os histo riad ore s african os especializad os na antiguidad e
constituem apenasos um
cia não somente frágilemcenáculo.
isolam, As suasunscondições
certa medida, de existên-
dos outros, mas fa-
zem também com que se encontrem ausentes de alguns encontros. Em
Africa,  as políticas de investigação são quase inexistentes, sobretudo

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciênc ia Histórica Afric ana
 

em matéria de ciências sociais. Todos os dirigentes reconiiecem, nos


seus discu rsos, o seu ca rác ter vi
vital
tal.. Toda a gen te está de acordo ace rca
do facto de a orientação, ou reorientação, do nosso futuro estar em
parte subord inada ao conh ecim ento daquele que foi foi o no sso itinerário.
iti nerário.
Porém, as prioridades parecem situar-se noutro lado. Confirma-se,
contudo, tal como Diodoro da Sicilia tinha sugerido, que o Egipto anti-
go foi apenas a forma monárquica do Estado que, enquanto categoria,
teve origem na Núbia.
Núbia. Os túm ulos d as po pu laçõe s criad oras da cultura
designada como pertencente ao grupo-A, as de Siali e de Qostul, na
baixa Núbi
Núb i a, fornec eram as pr
provas.
ovas. A imagem de uum m ho m em adoran do
u m  serekh,  po r cim a do qual se en con tra um falcão vergado, é atestad a
num sinete descoberto em Siali. A decoração do incensário descober-
to em Qostul, obra do grupo-A, mostra uma procissão de três barcas
dirigindo-se para a fachada de um palácio. Encontramos, na barca do
meio, o falcão em cima de um  serekhg  associado a um hom em enfeitado
com aquilo que se transformará na coroa branca do Alto Egipto. Este
último possui, entre as suas mãos, um  flagellum,  ou tra insígnia dos
tempos dinásticos no Egipto.
Procu rám os dem onstrar, nou tras ci circunstâncias,
rcunstâncias, que os criadores da
civilização do Egipto estavam relacionados com o universo da cultura
dos pescadores nascido numa área que se alargava desde os Grandes
Lagos até ao Quênia. Ora, entre os elementos da decoração do incen-
sário de Qostul encontramos, para além das barcas, o peixe siluro,
hieróglifoo qu e entra na grafi
hieróglif grafiaa do no m e de Narmer, be m com o os ar põ es
farpados. Existe também a imagem de uma leoa. Trata-se, muito pro-
vavelmente, de uma representação de Sekmet, que surge nos textos
como uma núbia, também designada   A  Longínqua".
O hieróglifo transcrito   ta-séti,  isto é, a Núbia, est á igu alm en te com -
provado no selo de Siali. Ora, estes dois documentos, segundo as
an álises de Keith C. Se ele e de Br uc e W illiam
illi am s, estão d atad os de ce rca
de três gerações antes de Narmer, o fundador, não da monarquia, mas
do Esta do un ificado do rein o do Egipto. Tal é, po rtan to, o pa no ram a su-
cinto das investigações acerca das sociedades africanas no segmento
temporal denominado Antigüidade.

E s t a d o d a s i n v e s t g a ç õ e s a c e r c a d a a n t i g u i d a d e a f r i c a n a .   Bab
Babacar S al i   141
  Bab
Babacar S al i
 

Egipto antigo e África negra:


alguns factores novos que esclarecem
as suas relações
ss a Lam^
A . M o u ssa

Introdução
As relações entre o Egipto antigo e a África Negra foram e continu-

am a serocidental
tologia um importante tema Ade primeira
e de Dakar. debate nodedicou-se
seio das escolas
antes dedemais
egip-a
isolar a civilização egípcia antes de aceitar, por fim, voltar a colocá-la
no seu contexto africano; a segunda sempre defendeu a tese de uma
profunda unidade cultural e racial entre o Egipto e a África Negra.
Alguns factores novos, resultantes das investigações levadas a cabo
por eg iptólog os neg ro-afric anos (c ontinente e d iás pora] permitem
hoje confirmar a existência da unidade egipto-africana, cujo berço
mais fecundo é de facto o Egipto antigo. Este berço foi deslocado
apenas com o enfraquecimento e com a queda do poder faraônico,
dando assim origem a vagas migratórias em direcção ao interior do
c ontinente.
No pre s en te tex to, ap res e nta m os alg umas d as nos s as d ec ob ertas
pessoais, entre as quais a exploração permite dar novos passos na di-
recção indicada, desde 1954, pelo grande Africano Cheikh Anta Diop.

1. 0 debate
Tal como relembrámos na introdução, as relações entre o Egipto
antigo e a África Negra fazem parte destas questões de egiptologia
mais entusiasticamente discutidas: um dos pais da egiptologia, Gaston
Mas pero (1846-1916], não hes itou em abs olver os antig os E g í pc ios e
1. Professor de história, egiptólogo, universidade Cheikh Anta Diop de Dakar.

E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g un s f acto r e s no v o s q ue e sc l ar e c e m as suas r e l açõ e s .   A. Moussa


Moussa Lam 143

t o r n á -los e m in v a s ore s prov e n ie n t e s do e x t e rior da Áfric a l Se gu n do


Claire Lalouette, estes eram mestiços de Africanos e de Semitas, mas
os últimos teriam sido dominantes e vindo da Ásia a partir do quarto
m ilê n io^
Com Jean Leclant, o debate transpõe um passo muito importante.
Este autor reconhece, de facto, que para compreender culturalmente
o Egipto antigo, é necessário olhar para o lado das civilizações negro-
-africanas;
vista: mas atenção,
os antigos Egípciosexiste
não uma
eram coisa que porque
Negros, não se "os
deveEgípcios
perder da
de
época faraônica jamais se consideraram eles próprios como Negros";
daí, portanto, a necessidade de separar raça e civilização. Para Leclant,
as semelhanças entre o Egipto antigo e a África Negra forjaram-se no
Saara. Eis o motivo pelo qual o autor rejeita resolutamente a idéia de
m igraçõ es saídas do Egipt
Egiptoo em direccção a outras parte s do co ntinente,
fazendo troça com um hum or fferozeroz da pro pe nsã o dos Africanos negro s
em procurar para si raízes egípcias a fim de rectificar alguns erros da
história colonial. É de acordo com esta perspectiva que o acadêmico
afirma qu e o fact factoo de todo o m und o qu ere r aprox im ar-se do Egipto Egi pto con-
siste na prova da falta de seriedade das teses avançadas, isto porque,
no seu espírito, uma tal eventualidade nem sequer é possível. No que
concerne às aproximações lingüísticas avançadas pelos especialistas
africanos, o autor considera que se deve escolher o copta e não o an-
tigo egípcio, tendo em conta que o primeiro possui a vantagem de ser
vocalizado. Em suma, Leclant não quer ouvir falar de um berço nilótico
egipto-africano e menos ainda de migrações partindo do Egipto'^.
Maurizio Damiano-Appia foi aquele que teve a coragem de reconhecer
as manipulações feitas pelos seus antecessores em torno de uma
pretensa "Raça Dinástica" branca e mesopotâmica, a fim de excluir
os Africanos da gênese da civilização egípcia. Apesar disso, este con-
sidera que os Egípcios eram uma raça à parte, feita a partir de uma
"síntese mágica" implicando grupos provenientes dos quatro pontos
cardinais que se encontraram no Egipto. É este o motivo pelo qual o
a u t or re j e it a a q u e le s q u e pre t e n de m q u e os Egí pc ios e ra m Bra n c os
e os q u e a firm a m q u e e ra m , pe lo c on t rá rio, N e gros . D a m ia n o-Appia
a firm a v igoros a m e n t e q u e " a dife re n ç a n ã o da v a lu ga r n e m à c rí t ic a ,
nem à discriminação. A diferença era ignorada e todos os cidadãos

2 .  H i stoi re ancienne
ancienne des
des peuple
peupless de l'O ri ent,   Paris, Hacliette, 1912, pp. 16-17;  Les momies royales de
Deir el-Bahart,  Mémoires de la Mission Archéologique Française, I, 4, Paris, E. Leroux, 1889; ver
tam bém Lam A. M. M.,,  L'affaire des momies royales,   Paris,  Présence   Afri Africaine
caine,, 2 00 0 .
3. Lalouette, C., L'ar t et
et la vi e dans
dans l'É gy pte pharaonique
pharaonique;;   Paris, Fayard, 19 92 , pp. 13 -1 4.
4. J. Leclant escreveu bastante acerca das relações entre o Egipto e o resto da África, porém,
dois textos poderiam resumir o seu ponto de vista: "Afrika",  Lexií i on de derr Ä gyptologie,
gyptologie,   I, 1, 1972 e
"Egypte phara oniqu e et Af Afri que",,  I nsti tut de Fr ance
rique" ance,   n . s 1 0 , 1 9 8 0 .

lo ::,, Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

eram iguais desde que cumprissem as regras do Estado"^ Assim, de


Maspero a Damiano-Appia, o Egípcio passa do Branco mais puro ao
mestiço mais perfeito e ter-se-ia separado definitivamente do Africa-
no (term o uti
utili
lizado
zado pelos
pel os especialistas ocidentais para pe rm an ece r na
imprecisão) no Saara devido à desertificação.
Perante tais teses existem, como é evidente, as de Cheikh Anta Diop

que poderiam
do Saara, resumir-se negras
as populações do seguinte modo: depois
retrocederam da desertificação
maioritariamente para
o Vale do Nilo, onde viveram até à queda do poder faraónico, período
durante o qual começaram a dispersar através de vagas migratórias
sucessivas no interior do continente®. É este o motivo pelo qual o au-
tor de   Na
Nations
tions nègres et culture  afirm a existir um a profund a unidade
cultural entre Egípcios antigos e Negro-Africanos. Certamente, Cheikh
Anta Diop utiliza uma argumentação variada por forma a sustentar o
seu ponto de vista; porém, citaremos em particular as tradições que
o autor convoca para demonstrar que as populações negro-africanas
nunca
a utor,esqueceram as ente,
suas aorigens
tribuía nilóticas; esteméagistral
todo o redigi
sentido
o autor , indu bitavelm ao seu artigo do que
redigido em
1973, e intitulado "Introduction ã Tétude des migrations en Afrique
centrale et occidentale: identification du berceau nilotique du peuple
sénégalais"^.
Instala-se, deste modo, o debate em torno das relações entre Egíp-
cios antigos e Negro-Africanos. A contribuição que se vai seguir
dedicar-se-á a demonstrar que a tese defendida pelos Ocidentais é
dificilmente conciliável com os dados que pudemos recolher ao longo
dos primeiros anos de investigação. Partimos de um léxico comparado
entre o egípcio antigo e as línguas negro-africanas do Oeste da   Afri-
ca: fula (essencialmente), wolof, serer, soninquê, bambara, dogon; a
constatação que se impõe é que as similitudes verificadas, bem como
as suas múltiplas implicações, confirmam inteiramente a perspectiva
defendida po r Chei
Cheikh
kh Anta Diop e chegam até a pôr em ca usa algum as
leituras e interpretações da língua egípcia que quase dois séculos de
egiptologia ocidental tinham acabado por impor, Uma perspectiva
desta natureza confirma justamente a pertinência de um dos pontos
de consenso do colóquio do Cairo de 1974, que concluía que o semítico
não dava
para conta
a  Africa do egípcio
  Negra para a antigo e que era,
compreensão portanto, legítimo
e vocalização voltar-se
desta língua.

5. Ver   L 'É gy pte ancienne


ancienne.. D i cti onnair e encyclopé
encyclopédi di que de l' ancienne
ancienne E gy pte et de dess civ i li sati ons nu-
biennes,   Paris, Grûnd, 1999, p. 107.
Ver,, en tre outra s,   L 'A fri qu
5. Ver quee noir e préco
précoloniale
loniale,,   Pari
Paris, s, Présen ce Afr
Afric
icai
aine, p. 20 2;   Les
ne, 1 9 6 0 ,1 9 8 7 , p.
fondeme
fonde ments
nts économi
conomi ques
ques et culturels d'un État Ét at fédé
fédéralral d'A fri que noi re,  Paris, Présence Africaine,
1960,1974, p. 12.
7 . B I F A N ,  série B, T. XX
XXXV
XV,, n.a
n.a 4, 1 9 7 3 , pp. 7 6 9 -7 9 2 .

E g i p t o a n t i g o e Á f r i c a n e g r a : a l g u n s f a c t o r e s n o v o s q u e e s c l a r e c e m a s s u a s r e l a ç õ e s .   A. Moussa
Moussa Lam 143
 

2. A a m os tra
A amostra que escolhemos diz respeito a termos relativos às partes
do corpo, à água, à agricultura, ao anão, ao pigmeu, ao hipopótamo e
ao cavalo. Utilizámos, essencialmente, o  An Egyptian Hieroglyphi
Hieroglyphicc Dic-
tionnary,   de E. A. W. Bud ge para a pa rte egípcia; par a a pa rte african a,
salvo indicação contrária, a língua escolhida foi o fula/fulfulde. Eis os
diferentes quadros:

AS PARTES  D
 DO
O CORPO
EGÍPCIO ANTIGO LÍNGUAS AFRICANAS
irt: olho;   irt bint.   0 o l h o m a u -yiitere:   olh o [fula)
C o pt a :   ei at; ei
ei ep boone:
boone: - yiiretee (irt): aquilo com 0 qual se
iC ^ 0 o lh o m a u vê, isto é, 0 ol ho
-yiyata-.  aqu ilo que vê

-yiitere bonnde-.  0 o lh o m a u
•Ç»   hn   fac
face,e, ro sto - hoore: cabeça (fula); opõe-se a
1 C o pt a :   x o t e ppe r e : c a lc a n h a r
- xoox:  c a r o ç o ( d e u m f r u t o ) e m w o lo f
- xoox-.  cabeça em serer; nestas duas
línguas, 0  x   p r o n u n c i a - s e c o m o 0
f r a n c ê s  k h
\\ h r y .  que está po r cim a - huuri-.  q ue cobre, que está p o r cim a
<rr>i. i (fula)
- seebde:  ser intelige nte (fula);

1 í^ pa la v r a po r pa la v r a : s e r po n t i a g u d o

sp d Hr: ser inteligente;


pa la vr a po r pa la vr a : s e r po n t i a g u d o
da cabeça. .
0 d e t e r m i n a n t e  j \   c o n f i r m a - o
Copta: sbte
wpw hr.  excluir - woppu hoore-.  excluir; palavra por
pa la v r a : a b a n d o n a r u m a c a b e ç a ; a

e x pr e s s ã o f u la   hoor e haa teppe


d a c a b e ç a a o s pé s c o n f i r m atepper
q u er e-a.
a }f ex pre ssã o se refereref ere de facto
facto à cab eça

l o:
o: , Baba car Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Co nsciê ncia Histó rica Africa na

TERMOS RELATIVOS  À ÁGUA


RELATIVOS
EGÍPCIO ANTIGO LÍNGUAS AFRICANAS
n:   e a u - m e s m o s í m b o l o e m e s m o s e n t id
id o n o s
D o g o n s [ c f .   Dieu d'eau,   p. 20 3, fig. 1, 6.)

jr 0 ynam:   n o m e d e - Yenoam-.  cidade da Palestina;

: um a cidade a leitura de está co nfi rm ad a

UltZZc H s A m w .   leite
- kosam-, leite (fu la); de  haos--. o r d e n h a r
 leite
« n  ó H s A m w/H s A - .   leite

PI H s A w :  leitefs]
- kose/koce:  leites [fula]
0 0 0 Nnww

w/nwwmw\   á g u a s d o N o u n - Nomma-,  á g u a , m a s i g u a lm e n t e o s
primeiros seres humanos engendrados
Ç)  nww /nww mw: idem
idem por Amma (deus supremo dos
Do go ns ) e a sua mu lher
- muno:  g ê n i o s d o r i o ( s o n i n q u ê )
(m   fò
' ^ ^j) nww /nww mw: idem
idem - munu:  gê nio do rio [f
[fula]
ula]
Mf^ffXi»,  /  l

dy: val e, lago? - ji: água  ( s o n i n q u ê )


- di:  á g u a [ d o g o n ]
- 0 fula  ndiyam   rem ete pa ra a leitura
d e  diyam>ndiyam   e o d e t e r m i -
nante seria então un icam en te J, L
[|  <rrr>  ' f -   rio - il:  i n u n d a r ( f u la ]
- Ilo:  n o m e d e pe s s o a , pa la v r a po r
palavra: cheia
rn
- ilam:  cheia, inu nd aç ão (fula]

itrw   aA-,  0   Nilo; - H o:  0  a n t e p a s s a d o d o s F u l a s q u e


pa la vr a po r pa la v r a : lhes trouxe as vaca s; estas são,
a grande água; s u p o s t a m e n t e , ddee i g u a l m o d o
[ ] e m gre go pr o v e n i e n t e s d a á g u a

il krty.   gruta de
onde sai o Nilo
- 0 rio de  K orotoumou
orotoumou,,   que seria o Nil o
segu ndo as tradições do s [Man deu s?];
<r> \\® t e m o d o ,   K orotoumou
d e s te orotoumou   p o d e r i a d e r i v a r
de *qrty m w

E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g uns f acto r e s no v o s q ue e scl a r e ce m as suas r e l açõ e s .  A. Mouss


oussaa Lam 143

A G R IC U L T U R A
EGÍPCIO ANTIGO LÍNGUAS AFRICANAS
rmn-.   m e i a - v a r a [ o u  pertica] - leemnu;  a r pe n t á v e l; r e c o lo c a ç ã o d o
(2,5 m) meio-aruro braço na posição da arpentagem
- remnu:  cultivável [aqu i em maté ria

de superfície]
^   ^  A j 0  rmnyt:   e x plo r a ç ã o - remnata;  aqu ilo que fa
fazz cultivar
- leeman:  a r p e n t a g e m e m b e n e f íc
íc i o d e
- laman:  s e n h o r d a s t e r r a s n o s S e r e r e
n o s W o lo f d o S e n e g a l
- lamini:  t e r r i tó
tó r i o d e s u c e s s ã o n o s
Mandingas

^ Datf.  Es t a d o , d o m í n i o , - jattv.  t e r r a o c u p a d a p o r t e m p o p r o -
^ pr o pr i e d a d e f u n d i á r i a lon gad o, feudo, A co m bi na çã o de 9íHt
e @ não deixa qualquer dú vida acerca
acerca
do grau de artificialização do meio
mr .  e n x a d a - rem--.  cultivar
mr .   a m a r r a r e m c o n j u n t o , - A g r a n d e e n x a d a d e s i g n a --ss e   tonngu;
5 entravar a m a r r a r , e n t r a v a r ; a s s i m ,   0  n o m e
r e m e t e pa r a   0  m o d o d e f a b r i c o d o
objecto

PIGMEU  OU ANÃO?


EGÍPCIO NTIGO LÍNGUAS AFRICANAS
nmw.   a n ã o , p i g m e u - ndaama-,  at ar ra ca do [fula e vv
vv^o
^ollof
of))
-p « s gjjgfj^ p ig m e u
1 ^
- idem

d A n ^ : a n ã o , pi g m e u - dinaa:  atarracado [fula]

\ s - denkii:  c o m pa c t a d o , a t a r r a c a d o ; r e -
l e m b r a   0  a m á r i c o  denk\   a n ã o , p i g m e u
- tunngune-.  a n ã o [ w o l o f ]
dAg/dAg Hr?-. a n ã o , pi g m e u ; - duuguuro:  atar rac ado [fula]
^ ^ ^ a  2.- leitura   é  s u g e r i d a p e l o
fula duuuguuro

~ ® /^j dyrgA : anão - duuguuro-.  a t a r r a c a d o

lo :,:, Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Co nsciê ncia Histó rica Africa na

o HIPO PÓT AM O E O CAV


CAVAL
ALO
O
EGÍPCIO ANTIGO LÍNGU S FRIC N S

(f p í hip op óta m o - Diba:  n o m e h o n r a d o d o h ip ip o p ó t a m o ,


m a s t a m b é m d e u m c llãã t e n d o p o r
t o t e m 0 h i p o p ó t a m o , n o s   Haai-pulaar
en  n o S e n e g a l
cfrr^   Ji
Ji^^ ^ rf^w:
rf^w: hi po pó ta m o

' k ||ff   hAbw:   h i p o p ó t a m o - ngabu:  h i p o p ó t a m o ( ffuu l a]


a]
à J Ã   J  JT'

- gabv.  h i p o p ó t a m o s ( p l u r a l )
t f Q '' '
^ «d

[ j í i Q  ss: cav alo -   si \   c a v a lo ( s o n i n q u ê )


í 1 'v) - Siisee-.  cavaleiro, de s i :   cavalo.

1 1  cavalo É 0 nome do clã real no antigo Gana

Partindo das partes do corpo e culminando com nome do cavalo,


fomos progressivamente surpreendidos tendo em conta que a inter-
pretação dos termos escolhidos forneceu esclarecimentos acerca do
debate resumido anteriormente, esclarecimentos estes que não espe-
rávamos conquistar.
3. Novos factores
3.1. As partes do corpo
No que diz respeito ao olho e às expressões que lhe são associadas,
a confrontação do egípcio (incluindo o copta) com o fula permite a
emergência de factores simultaneamente curiosos e interessantes:
Yiitere   (o olho, em ful a), cor resp on de "àquilo com que se vê"   (yiire-
fula),
tee); o   paralelismo é quase perfeito com   irt e eiat.  O olho mau, conh e-
cido
ci do nos antigo s Egípcios, m as tam bé m nos Fulas, dizia-se  irt bint/eiep
boone   aqui  e yiiter
yiiteree bonn
bonnde
de  ali.
ali. O cop ta bo o n e valida de facto o para -
lelismo   bin(t)/bone  (fula ) e  b o m  (w ol of ): ""mal",
mal", "aqu ilo qu e é mau",
etc. Porém , aquilo que se torna inte ress an te aqui, é que a subtileza das
correspondências exclui uma separação entre Egípcios antigos e Fulas
e Wolofs desde o Saara pré-histórico. Com efeito, o copta só surge no
segundo século a.C. Mais ainda, o paralelismo surpreendente   irt bint/
yiitere bonnde   m os tra que não existe a ne cess ida de de se pa ssa r pelo

copta para uma comparação válida entre o egípcio antigo e as línguas


E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g uns f acto r e s no v o s q ue e sc l ar e c e m as suas r e l açõ e s .   A. Mouss
ussa
a Lam 143
 

n e g r o -africanas; o copta pode, no máximo, servir de instrumento de


controlo.
D e p o i s d o o l ho , a s é r i e qu e g i r a e m to r no d a ca b e ça co nf i r ma a
profundidade e a subtileza das semelhanças entre o egípcio antigo e
as línguas negro-africanas:
Aqui, as línguas africanas (fula, wolof, serer] demonstram que o sen-
tido que os egiptólogos ocidentais atribuíram a   h r  [face, rosto) deve
ser completado por uma outra acepção: cabeça. De facto, o fula   hoore
d e s i g na e f e cti v a me nte o co nj u nto d a ca b e ça e a s e x p r e s s õ e s   seeháe  e
woppu hoore   r e m e te m i nd u b i ta v e l m e nte p a r a a ca b e ça , u m a v e z qu e
a sede da inteligência é a cabeça e o cálculo dos indivíduos é feito por
ca b e ça . Os te r m o s s e r e r e w o l o f v ê m co n f i r m a r qu e é e f e cti v a m e nte a
cabeça que está em causa, e o copta   xo e o  fula  hoore  m o s t r a m c l a rraa -
m en te a tod os os ap oian tes da tese, segu nd o a qual é ne ces sár io pa ssa r
pelo cop ta para a voc alizaçã o do s hieróglifos, qu e aqu ela está longe de
ser confirmada através dos factos de que se dispõe.

3.2. A água
o símbolo hieroglífico que designa a água está presente nos Dogons
e p o s s u i o me s mo s e nti d o e o me s mo s i mb o l i s mo . N ã o e s qu e ça mo s

aágua
qu i qu e A mma
[título da ,grande
o d e u sobra
s u p rde e moMareei
d o s DGriaule)
o g o ns , r eep rpossui
e s e nta igualmente
o deus da
o mesmo avatar que o deus Amon dos Egípcios, a saber, o carneiro.
Porém, este não é o aspecto que mais nos interessa de momento.
Aquilo qu e no s in ter ess a aqui é a qu estã o de sa be r se o grup o ^ é
unicamente determinante, tal como consideram os egiptólogos ociden-
ta i s , o u s e e r a p o r v e z e s llii d o . O n o m e hi e r o g l í f i co d a ci d a d e p a l e s -
tiniana de Yenoam® já mostra que, neste caso preciso, o grupo era de
facto lido. A de sign açã o do leite em pulaar,  kosam,  deixa sup or qu e nas
duas grafias egípcias correspondentes o grupo era lido.
A ter ce ira grafi
grafiaa que rep res en ta um plural e que co rre sp on de ao ful fulaa
kose/kocce  (plural) rem ete -n os para a hip óte se de que caso ten ha sido
o plural a ser visad o pelo escriba, o gru po ~ po de ria ser um sim ples
d e te r mi na nte , o u me s mo d e s a p a r e ce r e m p r o v e i to d a s ma r ca s d o p l u -
ral. No cas o da segu nd a graf grafia,
ia, o grup o ~ , ao m es m o tem po que era
lido, serviria igualmente de determinante. Segundo o nosso conheci-
mento, tal eventualidade não foi prevista pelos especialistas da escrita
egípcia.

8. Ver Gardiner A. H.,  E gyptian G ramma


rammar,r,   Sign-list, N (35].

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

S eg uind o a mes ma ord em d e id éias , o termo d og on   Nommo,  que


d es ig na s imultaneamente a ág ua primord ial e o primeiro par hu-
mano
leituras engpropos
end radtas
o por Amma
pelos e pelaoss ua
eg iptólog mulher,
oc id entais , leva-nos
d e entree as
rever as
quais
n e n h u m a m e n c i o n a   nwwmw,  m u i t o p r ó x i m o d e  Nommo.  Se tal su-
c ed e, na prim eira g rafi rafia,
a, ad o ptar ia a funç ão d e c om ple m en to
fonétic o e d e d eterminante, tal c omo na s eg und a g rafia d o ex emplo
p r e c e d e n t e (   í\'t~ ) .  Nos dois útlimos casos, é evidente que os
bo ns s ão d e term ina nte s " e .
A graf
grafiaia que corresp ond e a  ji  e  d i  em soninquê e em dogon
m ostr a que ~ é de facto um de term ina nte ma s o fula ful a   ndiyam/diyam
m ostra de ig igual
ual mo do que neste caso o dete rm inan te é m . Aqui Aqu i , torna-
-se evidente o modo através do qual, a partir da herança egípcia, cada
língua negro-africana escolheu a sua via.
As duas grafias seguintes comparadas ao fula confirmam a hipótese
segun do a qual o grup o ~ po deria se r um sim ples determ inan te, de-
terminante e c omplemento fonétic o ou s imples mente c omplemento
fonético.
fonéti co. A penú lti
ltimm a expressã o   y ^^^ ? ~ ^  
^^ itrw aA  que resultou no
greg o íl á ç, íXoç re m et e- no s de m od o evid ente pa ra o 11o dos Fulas.
Supõ e-se que esta personag em tenh a trazido as vacas a estes pasto res.
Estes mesmos Fulas afirmam que as vacas provieram da água. Ora,   lio
em fula significa simplesmente "a cheia". Torna-se, portanto, claro que
as duas teses que coabitam nos Fulas quanto à origem dos bovídeos
não são
s ão contraditórias. A forma grega per m ite-no s com pre end er que
os Fulas adoptaram simplesmente o nome do Nilo, tal como outro
grupo, o dos Mandigas adoptou uma outra designação do Nilo,   Koro-
toumou^°,  muito provavelmente   *qrty mw.  Mas são os Soninquês que
designam o Niger de   Isaa Beer,  A  Grande Água", que retiveram a mes-
ma manifestação do Nilo que os Fulas; estes são novos indícios acerca
da origem nilótica destas duas populações oeste-africanas e que são
deste modo revelados.

3.3. A agricultura
A agricultura con siste num a acti
actividade
vidade extr em am ent e imp ortan te
nas sociedades humanas, sobretudo antes da revolução industrial.
A ocupação do espaço agrário e a sua gestão representavam grandes
desafios para estas sociedades. Segundo as tabelas, ao que parece, os

9.
10.Ver Luft, U.,que
É aquilo in  Stud
 Studii a A egypti
demonstra a,   XIV, pp. 4de
umaaca,
acintervenção 0 6 Cissé Y
-4 0 7 .  Y.. T.
Cissé  T. in^lcte s du colloqu
colloquee de B amako. H i stoi re
et tradition orale,   fundação SCOA, 1975, p. 34.

E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g uns f acto r e s no v o s q ue e sc l ar e c e m as suas r e l açõ e s .   A. Moussa


Moussa Lam 143
 

antigos Egípcios e Oeste-Africanos terão incontestavelmente vivido


num mesmo meio-ambiente e partilhado o mesmo tipo de gestão do
espaço agrário. Tudo se organiza em torno da exploração agrícola de-
li mitada depois da agrim ensu ra   {rmn/leemnu/leemari). 
limitada A esta primei-
ra correspondência acrescem outras séries que giram em torno do
território de linhagem, bem como do senhor da terra. É sempre em
torn o da ocu paç ão do espa ço que a socied ade se organiza. Deste m odo,
o egípcio DAtt, "Estado", "domínnio", "propriedade fundiária", remete
para o fula  jatti,  "ter ra ocupa da po r long o praz o e valorizada",
valorizada" , ""feudo"
feudo"..
Para além disso, neste caso, a combinação desm e de   t> d e m o n s t r a
que nos encontramos muito provavelmente no Vale do Nilo e que o
grau de artificialização do meio é extremamente elevado. Os sím-
b o l o s   m e ^  forne cem uma pista mu ito intere ssan te em torn o do
campo do Lébé (que tem 80 x 80 quadrados de um côvado] e da in-
venção da agricultura por Osíris (equivalente ao Lébé dos Egípcios].
Deste modo, aquilo que os egiptólogos ocidentais terão até aqui apre-
endido como uma estilização de canais de irrigação, poderia de facto
simbolizar o campo primordial, tal como nos Dogons"; o que levanta,
uma vez mais, a questão da tese da separação saariana dos Africanos
e dos Egípcios. Todos os factos supracitados, em conjunto, demonstram
claramente que o Vale do Nilo é incontornável, mesmo se alguns per-
sistem em contorná-lo de modo a escapar à inevitável conclusão: a de
uma unidade cultural e racial egipto-africana tendo por crisol o Vale
do Nilo. O  m r  egípcio, utensílio multifuncional mas antes de mais agrí-
cola, con du z ao fula  rem-  (cultivar),
(culti var), m as um outro para lelism o em erg e
através de   tonngu  (am arrar, entrav ar), que, po r sua vez vez,, re m ete d e
modo evidente para a técnica de fabrico da ferramenta^^. Aqui está
uma outra prova da profundidade do parentesco egitpo-africano.

3.4. Pigmeu e anão


Os egiptólogos encontram-se divididos acerca do sentido dos termos
nmw e   dng^^. Para H. Junker, o t er m o  n d g  d es iigg na o an ão " , en quanto
que para W. R. Dawson, o mesmo designaria, na verdade, o pigmeu e

11. Ver Griaule, M., D i eu d'eau.


d'eau. E ntr eti ens avec O gote
got emmêli
mmêli ,   Paris, Fayard, 1966, p. 41; ver igual-
mente Griaule, M. e Dieterlen G.,   Le renard pâle,   Paris Institut d'ethnologie, 1991, p. 501 e fig.
190, p. 502.
12. Ver Lam, A. M., "Un outil agricole à travers le temps et l'espace", in   L e Sahara ou la vallé val léee du
N i l? ,  Dakar, IFAN/Khepera, 1994, pp. 33-41.
13. Ver a exposição do debate em   D e l' ori gi ne égy pti enne de dess P euls,   Paris, Présence Africaine,
114.
9 9 Gîza
3 , p pV.
. 2 D4i0e- 2M4astaba
5. des
des 'S nb (S ene
neb)
b) und di e umli egende
gendenn G räber,
räber,   Wien, Akademie der Wis-
senschaften, 1941, p. 7.

l oo:: , Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

nmw visaria o anão". Jean Vercoutter refere o anão e não o pigmeu


num
Sergeartigo
Saune do
ron Lexikon". No   Dictionnaire
já tinha tendên de Ia  dcivil
cia em traduzir civilisation
n g  isation égyptienne,
para pig meu" . Em
H istoi
istoire
re Gén
Générale
érale de l'Afrique, A.   H.
H. Zayed e J. Dév issé, ao m es m o tem po
que optam por anão para   dng,  alertam para a confusão entre anão e
pigmeu". Mas então, como estabelecer a diferença entre os dois? Para
além dos nomes só por si distintos, Dawson insiste no facto de o na-
nismo se dever a uma patologia designada acondroplasia e no facto de
a presença dos anãos no Egipto ser uma realidade^®. Qual o contributo
das línguas negro-africanas para este debate? Os respectivos paralelos
d e   n m w  e d e  ndg, ndaam a, dinaa, denkii, denk  remetem todos para a
pequenez. Trata-se também do mesmo caso em relação ao termo fula
duuguuro  (com m etá tese ) que pod eria corre spo nd er ao egípcio
egípc io  dyrgA.
No entanto, o wolof   tunngunee  (com m etátes e), que pod eria ser
aproximado de   dng,  designa de facto o anão. Se tal for o caso,  dng
poderia ter simultaneamente designado o anão e o pigmeu em egíp-
cio antigo, ap es ar da exis tên cia de nnm
mw/ para an ão. O m es m o de ter-
minativo para os dois termos reforça o preconceito de confusão que
prevalecia nos Egípcios. Se o anão é diferente do pigmeu, antigos
Egípcios e Negro-Africanos modernos preferiram, mesmo estando
conscientes disso, dar maior importância àquilo que os unia: a sua
pequenez. Mes mo s upond o que o   d n g  seja um pigmeu, tal como de-
fendem vigorosamente Dawson e os seus partidários, os determinati-
vos que ac ompanham   d n g  e  dyrgA  permitem supor que o pigmeu em
causa não era um pigmeu vulgar. Com efeito, o hórus sobre o balu-
arte e a personagem divina apontam sobretudo para uma personagem
fula   duuguuro  ( a t a r r a c a d o )
que pe rte nc e à categ oria d os deuses. O fula
leva-nos a acreditar que o mesmo surpreendia essencialmente pela
sua pequenez. É neste ponto que o esoterismo fula nos vem socor-
rer Em   D e l'ori
l'origine
gine égyptienne des Peuls,  d es envolvemos long amente
anosimportância do gênio Sabemos
assuntos pastoris^^ anão (talquecomo
Geno,refere Marguerite
o deus Dupire^°]
supremo dos Fulas,
tinha feito de   Kummel  (no te-se o diminut
diminutivo
ivo para m arca r a peq uen ez
da personagem] o guardião dos seus rebanhos; por outras palavras,
Kuumel/Kuumeen  estava relacionado com os animais, no m ead am ente

15. "Pygmies and Dwarfs in Ancient Egypt",  T heJournal of E gy ptian A rchaeology,


rchaeology,   2 4 , 1 9 3 8 , p . 1 8 5 .
16. Lexikon, I, 1973, col. 340; porém, opta finalmente pelo pigmeu:   l'Egypte et la vallée du Nil,
Paris, PUF, 1992, pp. 304, 334.
1 7 .   Sub ve
verbo
rbo " P ygmée
ygmées" ,  p. 23 5, col. b e c .
1 8 . I I . A fri que ancienne
ancienne,   Pari
Pariss Jeune Afrique/U nesco, 198 0, 1 98 4, p.
p. 150.
19 . Daw son, W. R., R., i bid.
2 0 .  O rg ani sati on sociale des des Peuls, É tude d'ethnogr
d'ethnogr aphie comparée
comparée,,   Paris, Pio
Pion,
n, 19 70 , p. 37 1.
21. VerVer pp pp.. 2 44 -2 46 .

E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g uns f acto r e s no v o s q ue e sc l ar e c e m as suas r e l açõ e s .  A. Moussa


Moussa Lam 143

rel em b rar   e a principalmente


adomésticos função do anãoosnas
bovídeos. Isto fúnebres
cerimônias leva-nos forçosamente
do Ápis e os
títulos pastoris do anão Seneb^^. Se temos conhecimento que os pig-
meus nunca foram criadores, parece-nos difícil, nestas condições, es-
tabelecer uma relação entre o  Kuumel  dos Fu las e do   d n g  com o Ápis
dos pigmeus, sobretudo sabendo que existiram anões com títulos pas-
toris.  D n g  e  n m w  remetem indubitavelmente, em vários casos, para
personagens dotadas de poderes mágico-religiosos, mesmo aceitando
que alguns dos seus congêneres fossem seres comuns. Em todo o caso,
em toda a África, a crença na existência de anões ou de pigmeus dota-
dos de po de res e ra um
u m facto r ccorrent
orrente^^
e^^ não excluindo a cren ça de qu e
existiam também anões e pigmeus comuns. Toda a dificuldade residia
na identificação sem erros das personagens.
Para concluir, a flutuação da terminologia consagrada pela língua
egípcia e as línguas negro-africanas estava muito provavelmente rela-
cionada com esta dificuldade. Neste sentido, o livro de Luc de Heush
intitulado   Le roi de Kon
Kongo
go et les m onstres sacrés^'^  é e x t r e m a m e n t e
interessante uma vez que confirma a flutuação da terminologia, mas
também a importância dos anões e dos pigmeus para os detentores
do poder.

3.5.   O  hipopótamo e o cavalo


As duas designações para hipopótamo em egípcio passaram para o
fula. A mais corrente,   ngabu,  enc on tra-se igualm ente em outras lín- lín-
guas negro-africanas através de   ngubú, ngub, ngubi, gabu, gub, gup,
gupi, guvu, gufu^^.   No entan to, segund o G ilbert
ilber t Ngo
Ngom,
m, este ter m o não
se encontra anotado em copta^®; trata-se também do mesmo caso rela-
tivamente ao ofamoso
prova de que nome
copta não do oluta
é abs Nilo mjapy
ente (HapyJ. Aqui está
indispensável paramais
um a uma
b oa
comparação entre o egípcio antigo e as línguas negro-africanas, tal
como parecem indicar os críticos de um egiptólogo célebre.
Existiam talvez hipopótamos no Saara antes da desertificação, mas
este nome comum ao egípcio antigo e às línguas negro-africanas situa-
-nos mais nas margens do Nilo do que em qualquer outro lado e fornece

22. Junker, H., i bi d.


d.,,   p. 16.
Wolofss que acreditam que o  K uu
23 . É o caso nos Wolof uus,
s,  um anão ou pigmeu, pode ajudar a torn ar rico.
24. Paris, Gallimard, 2000. 0 autor utiliza quase sem distinção os dois termos e entende por
"mon stros sagrados
sagrados", ", os anõe s/pig m eus e os al albino
binos.
s.
25 . Ngom, G G.., "La paren té génétique e ntre l'égypti
l'égyptien
en ph araoniqu e et les langues négro -africaines
modernes. L'exemple du  d  dua
ua\\ a , A
,  A nkh,
nkh,   n.s 2, Abril, 1993, pp. 28-83.
2 6 . I bid.,  p. 59.

um índice - entre muitos outros - acerca da necessidade de uma etapa


nilótica,
nilóti ca, po sterio r à do Saara, no perc urs o histórico d as relaçõe s egipto-
-africanas. Porém, o hipopótamo tinha uma outra designação em egíp-
cio antigo:  dbi, dbw.  E s te nome tornou-s e hoje  Diba  nas margens do
rio Senegal e designa o nome de honra do próprio hipopótamo, bem
como o de um clã de pescadores que tem este animal por totem. As
técnicas de pesca do paquiderme permaneceram igualmente pratica-
mente imutáveis: basta olhar para a pintura egípcia e para as cenas
de pesca ao hipopótamo nas margens do Senegal e do Niger para nos
c onvenc ermos .
As relações estreitas entre os   Díba e  o hipopótamo fornec em uma
pista de investigação muito interessante acerca da formação dos clãs e
a escolha dos totems desde o Egipto antigo. O abutre e a serpente dos
faraós, igualmente presentes nos Soninquês, que não escondem a sua
origem egípcia, contribuem para reforçar esta conclusão. E é precisa-
mente o nome do cavalo que nos permite explorar a pista soninquê.
O cavalo
caval o era design ado em egípcio e si em son inqu ês. Se sa be m os
q u e   Siise, o  nome do clã real que conduziu a migração do Egipto ao
Uagadu, significa "cavaleiro" [formado a partir de   si),  pos s uí mos uma
prova quase incontestável da jornada nilótica dos Soninquês antes da
fundação do Uagadu, mesmo sem ter em conta outros factores muito
importantes.

4. Esclarecimento das tradições


Os factos anteriormente enumerados são por si só suficientes para
concluir o debate acerca das relações entre antigos Egípcios e Negro-
-Africanos. Estes deixam emergir uma profunda unidade cultural
que se forjou e fortificou no Vale do Nilo, tal como Cheikh Anta Diop
sempre sustentou; e as tradições africanas vêm todas confirmar uma
perspectiva desta natureza: os Fula situam de facto o seu país mítico,
anteriormente à dispersão no Vale do Nilo, entre Habasi e Misra^^ e as
se m en tes do nenú far dos antep assa do s viriam ig ualm ente do Eg
Egiipto^® .
Segundo Félix Dubois^'', os Songhais afirmam provir do Egipto. Quan-
to aos Mandigas, estes situam a origem do seu sistema judiciário no
Egipto^". Para os Soninquê, o Egipto é igualmente o país de origem dos

27. Ver Ba A. H.,  N j eddo ddo D ew at. M ère de I a calamit


calamit é. C onte i nit i ati qu peul,   Abidjan, Les Nouvelles
quee peul,
Editions Africaines, 1985, p. 18; ver também Lam A. M., "L'origine des Peul: les principales thèses
confrontées aux traditions africaines et à  régyptologie",/ln/i/ , ,  n . ° s l 2 / 1 3 , 2 0 0 3 - 2 0 0 4 , pp
pp . 1 0 0 - 1 0 1 .
H.., i bi d.
28 . Ba A. H d.,,   notas anexas, n^n^ 6, p. 1 41 -1 42 .
29. Ver Dubois, F.,  Tombou  Tombouctou
ctou la mys téri euse,
use,   Paris, Flammarion, 1897, p. 108.
30. Kamissoko, W., in colóquio de Bamako, p. 33.

E g i p to anti g o e Áf r i ca  negra: la ç õ e s .   A.
n egra:a  l g u n s f a c t o r e s n o v o s q u e e s c l a r e c e m a s s u a s r e la Moussa
Moussa Lam 143

fundadores do Uagadu; é o que demonstram claramente as tradições


de Yerere, bem como a que foi facultada a Oumar Kane por Sammba
Jali Jabaate, tradicionalista da aldeia senegalesa de Sooriingo^^ No en-
tanto, torn a-se forçoso rec on he cer que é o W aalo-waalo Yoro BoBooU
oU Jaw
que fornece a contribuição mais notável acerca da questão de saber se
Egípcios e Africanos se separaram no Saara: "i4s   seis m igrações prove-
nientess do Egipto às quais a Senegâmbia deve o seu povoamento^^"   não
niente
deixam qualquer dúvida acerca do local da separação.
Se praticamente todos os Negros da África afirmam ser provenien-
tes do Egipto, o que poderiam ser os Egípcios a não ser Negros? Aqui
também os fac tos d emons tram que os E g í pc ios s empre s e c ons id era-
ram como Negros e foram considerados enquanto tal pelos seus con-
tem po rân eo s : eM rf e f , que rem ete para os Neg ros d o E g iptoipt o o
seu habitat, bem como a reconhecida tabela das raças do túmulo de
R am sés 111, não de ixam m arg em par a dúvidas ac er ca do facto de os
Egípcios se considerarem como Negros.
O testem un ho de Heródot
Heródoto,o, que afi
afirmo
rmo u que aqu eles tinham
ti nham a pele
negra e os cabelos crespos^^ bem como o de Diodoro da Sicília, que os
tornou
firmam numa
a sua colônia
pertençadeà Etíopes que Porém,
raça negra. se foi instalar no Egipto^^
aqui também con-
é a desven-
tura do antepassado dos Soninquês que nos mostra que os Egípcios
da Época Baixa, apesar da sua mestiçagem, salientavam ainda a sua
negritude. Com
C om ef
efeit
eito,
o, a tradição son inqu ês m ostra -no s que os descen-
dentes de Dinna não podiam tornar-se chefes em Assuão, pelo facto
de serem mestiçados. Subentende-se o destino pouco invejável dos
Brancos. Aqueles que ousaram afirmar que os Egípcios eram Brancos
devem, certamente, sofrer secretamente a derrota

Conclusão
Os pouco s factos
f actos aqui apr esen tado s dem ons tram que não é de mo do
algum necessário lançar-se numa argumentação complexa para de-
sempatar os protagonistas do debate em torno das relações egipto-
-africanas. No plano estritamente científico, as tradições africanas,
pela sua relação decisiva, permitem actualmente encerrar o debate e
classificar melhor a civilização egípcia; porém, não somos ingênuos ao

31. Kane, O.,  Le Fuuta-Tooro


Fuuta-Tooro de dess Satí gi au
auxx A lmaami,
lmaami,   tese para o Doutoramento em Letras, Dakar,
1986, T. III, pp. 962-971.
32. In Delafosse M. e Caden H.,  Chroniques du Foûta sénégalais,   Paris, E. Leroux, 1913, pp. 123-
131.
33. Heródoto,  Histoires,   II, 104.
34. Diodoro da Sicilia,   B i bh
bhothè
othèqu
quee H i stori qu
quee,   III, 3, 3.
l oo:: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

ponto de acreditar que tal sucederá em breve, tendo em conta que as


motivações que animam alguns estão longe de ser puramente científi-
cas. Por outras palavras, a ideologia que tanto prejudicou a África e os
Africanos ainda vai, infelizmente, perdurar por mais tempo.
E g i p to anti g o e Áf r i ca ne g r a: al g uns f acto r e s no v o s q ue e scl ar e ce m as suas r e l açõ e s .   A. Mouss
Moussaa Lam 143
 

"Afrocentricidade":
polêmica em torno de um conceito
Doudou  D i eng^

1. 0 pensamento africano na história do pensa-


mento
o Egipto faraônico, primeira grande civilização da humanidade, é
o local onde os intelectuais negros devem dessedentar-se, a fim de
elaborar um futuro cultural melhor, longe dos pitorescos africanistas
e eurocentristas. 0 pensamento africano representa o conjunto da
produção filosófica dos Africanos, ou ainda, tal como afirma Hebga,
o estudo crítico-reflexivo que incinde preferencialmente sobre todos
os ques tionamentos que as s ombram a c ons c iênc ia afric ana c ontem-
porânea.
Ao invés de um eterno debate sem conteúdo científico entre eu-
rofilosofias e etnofilosofias, trata-se hoje de determinar um quadro
conceptual, a partir do qual se sistematize o conjunto desta produção
científica e filosófica africana.
Segundo o Pr. Obenga, na sua introdução a   La Philosophie africai
africaine
ne
de Ia période pharaon
pharaonique,
ique,   a fil
filosofia
osofia africana segue cron olo gica m ente
quatro períodos concomitantes à história geral do continente:
1. o período egípcio faraônico desde o antigo Império, com os textos
d as pirâmid es - 2780-2260 antes d a nos s a era;
2. os filósofos e pensadores da Alexandria, de Cirene, de Cartago e de
Hipona (6 séculos durante os quais a escola desempenha uma fun-
ção importante no desenvolvimento do pensamento grego];
3. a filosofia magrebina com Ibn Badjadja, autor do tratado da alma,
Ibn Battuta o geógrafo, Ibn Khaldún historiador e filósofo;
4. as escolas filosóficas medievais de Tombuctu, Gao, Djenné, berço

1. Dou torando em Fil


Filosofi
osofia,
a, Universidade de Rou en/CERCLA .

id a d e : p o l ê m i c a e m t o r n o d e u m c o n c e i t o .  
A f r o c e n t r i c id Doudou Dieng
Dieng  159
 

da cultura negro-muçulmana no tempo dos grandes Impérios suda-


neses (Gao, Mali, Songhai],

Por últi
último
mo , a fil
filosofia
osofia africana mo de rna e co nte m po rân ea enc arn ada ,
nomeadamente, por várias correntes de pensamento; mas, nesta breve
chamada de atenção que nos propusemos elaborar, e no que concerne
ao nosso tema de reflexão acerca da afrocentricidade, é importante ter
em conta as fontes, se não mesmo a tradição do pensamento africano,
ou seja, da filosofia egípcia faraônica a partir dos seus próprios textos.
Para além dos textos, o autor da filosofia faraônica apresenta uma ini-
ciativa original no sentido em que nos encontramos doravante perante
uma filosofia não-conformista à lógica de Aristóteles ou de Heidegger
que, note-se, tinha deixado de afirmar que a filosofia é grega pelo facto
de falar grego.
Com Obenga, encontramo-nos face às fontes de uma filosofia rela-
tiva ao período faraônico que mostra de que modo os antigos Egípcios

eram
constaorganizados
na cosmogonia na sua
commaneira
que nosdedeparamos
pensar. A de referência
seguida conceptual
um pouco
por toda a parte em África, nomeadamente nos luba do Zaire, e que
demonstra de que modo é que o ser veio à vida a partir do nome
inicial, o nun. É este o motivo pelo qual Hegba refere que quando se
fala de filosofia, é necessário ter em conta toda a história da filosofia
africana, desde que esta história não tenha início com o filósofo afri-
cano Guillaume Amo, e menos ainda com a filosofia bantu de Tempels
e tod
tod o o de ba te qu e se seguiu. É ne ces sár io, d e igual m odo , ir pa ra a lém
do milagre grego, do qual Hegel, entre outros, se tornou o porta-voz
recorrendo, tal como
ção da história, Deveafirma claramente
recuar-se até ao Cheikh
período Anta Diop, àbem
faraônico, falsifica-
como
ao conjunto dos egiptólogos de boa fé que nos ajudam a decifrar a lin-
guagem metódica dos hieróglifos. É por isso que tudo aquilo que foi
escrito neste sentido acerca da filosofia africana deve ser tomado em
consideração. Um pensamento africano através dos textos, aqui está a
única base da nossa investigação filosófica. Seria intelectual e moral-
mente d es ones to ig norá-los refug iand o-s e no pens amento mod erno,
álibi de gentes complexadas que reproduzem, à sua maneira, o ma-
niqueísmo levy-bruhliano do pensamento pré-lógico e do pensamento
lógico. Isto não faz sentido. Porque tal como refere Cheikh Anta Diop,
no capítulo 7 de   N ations nègres et culture,  os Etío pes em prim eiro lugar
lugar,,
os Egípcios depois, segundo o testemunho de vários anciãos, criaram
e elevaram a um grau extraordinário de desenvolvimento todos os
elem ento s da ci
civil
viliza
ização,
ção, enqu anto que os outros povos estavam
est avam m er-
gulhados na barbárie.

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

É necessário procurar a explicação. E tal como afirma Cheikh Anta


Diop,

... a existência será tão fácil no Vale do Nilo, verdadeiro fluxo de vi


vida
da entre
dois desertos, que o Egípcio terá tendência a acreditar que os benefíci
benefícios
os da
natureza lhe caem do céu. Para além di disso,
sso, aquele acabará por idolatrar este
sob a forma de um Ser, Criador todo-poderoso de tudo o que existe e dist distri-
ri-
buidor de bens.   O  seu ma
material
terialismo
ismo primitivo - isto é, o seu vitali
vitalismo
smo - será
doravante
doravan te um m aterial
aterialismo
ismo transposto para o céu, um ma material
terialismo,
ismo, se é que
se pode dizer, metafísico   (p.
(p. 39 6) .

Assim se apresenta a história da filosofia africana no seu contexto.


Foi este que lhe permitiu, por um lado, desempenhar no pensamento
africano o mesmo papel que as civilizações greco-latinas no pensamento
ocidental e, por outro lado, o papel civilizador do Egipto devido à sua
expansão cultural.
O Val
Valee do Ni
Nill o, verd ade ira in ters ecç ão de maté ria cinzen ta, terá rece -
bido a jorn ad a do mu ndo grego, o que é revelado po r Obenga: o Egipto
faraónico é reconhecido pelos próprios gregos como uma das origens
imediatas do seu progresso cultural e filosófico.
Sob um outro prisma, Hebga refere que sem se preocupar mini-
mamente com a diferenciação e a impermeabilidade dos géneros nas
disciplinas intelectuais, Platão, visando apenas tornar a sua reflexão o
mais clara possível, recorre a todas as fontes do seu vasto repertório:
mitologia, teologia, ética, geometria, aritmética, etc. Não existe "filosofia
de Platão"
pelo seu meiono exterior
cultural,das possibilidades
e este colocadas
meio, sabemo-lo à sua disposição
efectivamente, não é
universal. Este é grego com relações de dependência perante instru-
tores egípcios,
egípc ios, cujos sábios e fi
filósof
lósofos
os gregos reco nh ecem espo ntane a-
m en te te r receb ido lições. O auto r conclui que a ffilosof
ilosofia
ia de Plat
Platão,
ão, que
representa um modelo rigoroso e profundo, constitui uma filosofia, e
de modo algum a filosofia. Esta é grega, o que significa que está cul-
turalm ente situada pelos seus conteúdo s.  O desaf
 desafio
io é en orm e num con-
texto de determinação histórica do pensamento africano na história
do pensamento. Não somente os textos filosóficos da época faraónica
sustentam a com paração com textos bem mais recentes ddoo p ensam ento
ocidental, mas Obenga demonstra também, para além disso e tal como
muitos outros antes dele, já o referimos, que os primeiros filósofos
estudaram no Egipto.
Este refere incessantemente o carácter da filosofia faraónica, bem
como o parentesco conceptual entre esta e o resto da África Negra.
Há vários milénios antes da nossa era, o pen sam ento africano m ove-se

A f r o c e n t r i c i d a d e : p o l ê m i c a e m t o r n o d e u m c o n c e i t o .  Doudou Dieng
Dieng  161

numa cosmogonia, uma antropologia e uma moral codificadas que era


necessário decifrar através da iniciação ao rigor do método dialécti-
co, e cujos ensinamentos se encontram nas tradições negro-africanas
contemporâneas. Se acreditarmos em Hegel, para quem o espírito
universal só avança e encontra o seu conceito através do engano na
contradição dos acontecimentos históricos, continuamos a perguntar-
-nos, a menos que este tenha sido animado por outras intenções, de
que modo é que o mesmo conseguiu, logicamente falando, ficar num
imp asse em torno de conce itos já estabe lecidos po r um a rica e brilha nte
civilização intelectual africana.
O Egipto antigo, à luz daqu ilo que ac ab ám os de afirmar, é est e Egipto
faraônico dos textos originais, autênticos, reafirmemo-lo, que falam de
si próprios e por si próprios e para nós enquanto tradições, tal como
salienta Cheikh Anta Diop, doravante emaranhado, em jeito de uma
herança assumida para a nossa prática filosófica contemporânea. Isto
é necessário.
Esta noção de herança, cara ao Pr. Cheikh Anta Diop, constituirá a
base teórica e científica de um regresso às fontes que permite apre-
ender o presente de modo a antecipar o futuro.Trata-se de um apelo à
con sciên cia de si para um a co nstr uçã o d e um a nova África;
Áfric a; é com o que
através de uma palavra de ordem que o autor anuncia, em   Civilisation
ou barbarie,  um a vez que afirma :

... para nós, o regresso ao Egipto em todos os dom


domínios
ínios representa a condição

anecessária parauirrecon
poder constr
construir reconcili
um ciliar
ar asde civil
corpo civilizações
ciê izaçõeshum
ciências
ncias africanas
humanas com a história,
anas modernas, de m odoa
para renovar
cultura africana.
africana. Long
Longee de se tratar de um a deleit
deleitação
ação do passado, um olhar
em direcção ao Egipto antigo representa a melhor ma maneira
neira de conceber e de
construir o nosso futuro cultural (p. 12).
Segundo o Pr. Cheikh Anta Diop, reconstituir a nossa relação com o
passado é justamente simplificar esta relação, isto é, deixar-nos con-
vencer de uma vez por todas que a África não foi apenas este conti-
nente sem "história" que só terá sido capaz de se integrar na história
universal a reboque de terceiros. Este é o sentido do desafio da consciên-
cia histórica que coloca a problemática da formulação do nosso tema
acerca da afrocentricidade.

lo :,:, Babaca r Mba ye Diop e Doudo u Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

2. Posicionamento do conceito: dúvida e inteli-


gibilidade metodológicas
A afrocentricidade constitui a nova linguagem do afrocentrismo que
nasceu com Cheikh Anta Diop e toda esta geração de universitários,
no m ead am ente o Pr
Pr.. Obenga, que se interessaram , ttal
al com o acab ám os
de salientar, por esta ligação entre o Egitpo antigo e a   Africa. A   luz do
conjunto da produção intelectual egípcia e da expansão que sucedeu,
podemos afirmar que este questionamento não é novo; aquilo que
é recente, é a linguagem, o termo "afrocentricidade" que, tal como
os Departamentos de Estudos Africanos evocam nas grandes univer-
sidades americanas, sob a direcção dos Professores Asanté e Obenga
entre tantos outros, está longe de representar a antítese do eurocen-
trismo; visa antes mostrar que existem outros pontos de vista, entre
os quais o dos Africanos do continente e de toda a diáspora, acerca de
todas as pergun tas que agita
agitam
m actualm ente, não som ent e  a Africa,  mas
também toda a humanidade. Visa, portanto, tornar o conhecimento
num instrumento de luta e de libertação social, cultural, económica
da África.
Este con hecim ento , é o m ovim ento do conc eito mais conhecido sob a
designação de afrocentrismo. Para lá dos ataques ideológicos e políti-
cos, trata-se de um momento importante da história intelectual. Ape-
sar da diversidade de algumas teses afrocentristas, trata-se, segundo a

lógica da continuidade
empírica de Cheikh
de algumas destas tesesAnta
maisDiop, de estabelecer
preciosas a verdade
que valorizam as
experiências científicas e tecnológicas africanas. Para lá de qualquer
polémica proveniente tanto dos intelectuais africanos "de serviço",
quanto dos Africanistas eurocentristas do ocidente, trata-se de apre-
sentar a história africana tal como ela sempre foi, ou seja, de modo
positivo, científico e objectivo.
O objectivo consiste em pôr termo àquilo que o Pr Mamoussé Diagne
chama "a esteira dos outros" para construir um corpus escolar africa-
no no qual o Egipto antigo, devido àquilo que produziu durante vários
m ilénios , ser ia o po nto de re fer ên cia cultural, e já nã o a Gré cia antiga.
Trata-se de lutar contra o esqu ecime nto, porq ue

Qu anto mais tempo a cult


Quanto cultura
ura ou as cult
culturas
uras africanas ignorare
ignorarem
m o Egipto,
que é a primeira m anifestação cultural neste continente, m ais difí difícil
cil se tor-
nará edificar um corpo de ciência hum ana. N ão se trata de inventar um pas-
sado mais
m ais ou m enos glorioso comcomoo se acredita frequentemen
frequentemente.
te. Seria fútil e
sem qualquer
qu alquer interesse. SSee toda a África pretende entrar de novo no seu eu
cultural, esta não poderá evitar reatar com o Egipto em todos os dom domínios.
ínios.

A f r o c e n t r i c i d a d e : p o l ê m i c a e m t o r n o d e u m c o n c e i t o .  Doudou Dieng
Doudou Dieng  163
 

Q uer se trate da investigação linguisti


linguistica,
ca, da hi
história
stória das ciências, da religi
religião,
ão,
d a  investigação  arquitectural, da m úsica, da dança, da m edicina, de todos os
âmbitos
âm bitos da actividade hum ana, as primeiras civil
civilizações
izações remetem -nos para o
Vale do N ilo, e só reatando com a cultura deste vale é que poderemos edifi edificar
car
um corpo de ciência hu hum
m ana. EEste
ste é o desafio, é necessário com
compreendê-lo.
preendê-lo.

A  his tór ia da África já não se situa, po rtan to, ao nível das tribo s; esta
é con tinental. Tem os qu ase von tade de dizer que, finalme nte, a histór ia
do pe ns am en to african o é um a histór ia lógica dos neg ros africano s qu e
deve ser apreend ida à escala mundial na m odern idade conceptual.

Referências Bibliográficas
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péri ode pharaoni que
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sens
ns de la lutt e contre l' afri canis me eurocentr
urocentr i ste.  Paris: L'Harm attan.
T o w a , M . ( 1 9 7 9 ) .   L 'i dé
déee d'une phi
phi losophie nénégrgr o-afri caine.
caine.   Y a o u n d é : Éd i t i o n s C L E.
T o w a , M . ( 1 9 7 1 ) .   E ssai sur la problé
problémati
mati que phi losophi que dans l'A fr i que actue
actuelle.
lle.
Y a o u n d é : Éd i t i o n s C L E.

lo ::,, Babacar Mbaye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na

III.
o contributo
da comunidade negra e do
Egipto para a civilização
 

A história das ciências e das técn


té cnicas
icas
na Á fri
fri ca negra
ne gra
Jean-P
Je lek  '
an-P aul M belek

... D urante mu
muito
ito tempo
tempo,, inúm
inúmeros
eros com
compatriotas
patriotas acreditaram poder fazer
a economia de um conheci
conhecimento
mento aprofundado da soci sociedade
edade afri
africana
cana e da
África sob todos os seus aspectos: passado, línguas, etnias, potencial energé-
tico, m atérias primas, etc. Para além disso, as conclusões às quais se chega são
frequentemente
fre quentemente de um umaa banali
banalidade
dade lamentável
lamentável,, quando as mesm as não estão
pura e simplesm
simplesmente
ente erradas.^

Introdução
i ntro duç ão da sua obr a   Les fondements
Na citação p révia, retirad a da intro
économ iques et culturels d'un état fédéral d'Afrique noire, é   corn conhe-
cimento de causa que Cheikh Anta Diop nos convida a aprofundar o
nosso conhecimento das sociedades africanas sob todos os seus as-
pectos, a fim de alcançar conclusões justas e pertinentes. Com efeito,
qualquer pessoa imprudente, pode ser desfavoravelmente atraiçoada
acerca destes temas, em particular no que concerne as ciências e téc-
nicas na África Negra.
A este resp eito, na introdu ção do seu artigo "L'observa tion de l'étoile
Sirius pa r les Dogons", pu blicad o nos 1 0 / 1 1 da rev ista   Ankh,
o astrofísico Jean-marc Bonnet-Bidaud do serviço de astrofísica do
comissariado para a energia atómica (CEA] de Saclay chama a nossa
atenção nos seguintes termos:

*. Doutor em ciências.
1. Diop, Clieilíh Anta,   L es fondeme
fondements
nts économi ques
ques et cultur els d'un état fédé
fédér al d'A fr i que noi r e;
Paris,
Pari s, Prése nce A fr
fricai
icaine,
ne, 1 97 4, p. 5.

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .   Jean-Pau


ean-Paull Mbelel
Mbelelcc 167
 

Cientificamente,   a Áfric a  é deserto. A


 Á frica Aoo consultar as melhores obras de história
das ciências, em lado nenhum encon trareis referências a um científ científico
ico afri-
cano, a uma descober
descoberta,
ta, ou simples
simplesmente
mente a   um feito científico africano
africano..
Isto faz parte da cegueira constante da Europ Europaa oocidental,
cidental, com os seus saté-
lites
lites culturais do continente norte-am
norte-americano,
ericano, e da sua obstinação em negar
qualquer outro contributo científ científico
ico que não seja proveniente da cu cultura
ltura
clássica grega. Esquecend
Esquecendoo de passagem partes iinteiras nteiras de conhecim
conhecimentos,
entos,
o da Ásia, da Am érica latina ou reapropriando-se deles de mo mododo descarado
(tal como a imprensa inventada na China por Bi Sheng em 1050 reapare reaparece
ce
atribuída a GuGutenberg
tenberg no século   XV,  e é deste m odo que ainda hoje se ensina
a história desta descoberta fundam ental). A história científi científica
ca do m undo é
assim reescrita à custa de um a m entira cultural constan constante.
te. Para a África, os
poucos textos
textos ou fragmen
fragmentostos arqueológicos revelados tornaramtorna ram ainda m ais
difícU  esta
 esta   falsificação.
Só trabalhos pluridisci
pluridisciplinares
plinares de vangu
vanguarda,
arda, tais com
comoo o de Cheikh An
Anta
ta D iop
(análogo ã enorm e tarefa realizada por Joseph Need
Needham
ham para a China) é que
contribuíram para reti
retirar
rar o continente africano do esquecimen
esquecimento
to científ
científico.
ico.

Efectivamente, em primeiro lugar céptico, tal como nos podemos


sentir perante informações inabituais ou surpreendentes, Jean-Marc
Bon net-Bidau d deu-se ao trabalho de aprofund ar os seus conh ecim en-
tos
CEAacerca
, con dudazida
astronomia
no Mali dedogon.
27 de Assim,
Julho a uma missão conjunta^ CNRS-
-CEA, 8 de Ag osto de 1 9 9 8 efec tuo u
a viagem em país Dogon. No local, J. M. Bonnet-Bidaud pôde levar a
cabo medidas astronômicas e observar o nascer helíaco de Sirius no
mesmo local explorado pelos astrônomos dogons.
As an ota çõe s da posição das rocha s para a mira do sol e de Sirius
Siri us são
de facto convincentes. Os conhecimentos astronômicos dos dogons
apresentados por Mareei Griaule e Germaine Dieterlen não são fabu-
lações (cf a conclusão de J. M. Bonnet-Bidaud,   Ankh,  n.^^ 10/11, pp.
155-156]. Esta tendência em ignorar consciente ou involuntariamente
os contributos africanos toca também o Egipto antigo. Assim, consecu-
tivamente, a Mesopotâmia, a Grécia, a índia e a China serão respectiva-
mente acreditadas da invenção da escrita, da ciência e da filosofia, do
zero e do papel. Mesmo a invenção das artes matemáticas é atribuída
aos gregos, quando até mesmo os antigos gregos atribuíam a invenção
destas artes aos antigos egípcios. Tratando-se da arte, eis aquilo que o
decifrador dos hieróglifos e primeiro professor de egiptologia no colé-
gio de França afirma:

2. Missão
tuída "Étude du Bonnet-Bidaud,
por Jean-Marc système de pensée et des connaissances
os etnólogos astronomiques
Germaine Dieterlen e Jean des Dogons"
Rouch, consti-
o realizador
Jérôme Blumberg, os informadores dogons Diamguno Dolo, Anagali Dolo, Pangalé Dolo e Ibrahim
Guindo.

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a
 

Aqui está uma das mil e uma provas demonstrati


demonstrativas
vas contra a opini
opinião
ão daquele
daqueless
que se obstinariam ainda a supor que a arte egípci egípciaa teria ganho algum
algumaa per-
feição
feição com o estabeleci
estabelecimen
mentoto dos Gregos no Egipto.
Volto a repeti-l
repeti-lo:
o: a arte eg
egípcia
ípcia deve apen
apenas
as a si tudo aquilo que produz
produziuiu de
grandioso, de puro e de belo, por muito que isso desagrade aos intelect intelectuais
uais
que constroem para si um umaa reli
religião
gião ao acreditar firmem ente na geração es-
pontânea das artes na Grécia; é evide evidente
nte para mim, bem com o para todos
aqueles que observar
observaram
am bem o Egipto ou que possuem um conheci conhecimento
mento real
dos monu mentos egípcegípcios
ios existent
existentes
es na Europa, que as artes começaram na
Grécia através de uma imitação servil das artes do Egipto, muito mais avan-
çadas do que aquilo que se acredita vulgarm
vulgarmente,
ente, na época em que as colónias
estiveram em contacto com os selvagens habitantes do Ático ou do Peloponeso.
O velho Egipto ensinou as artes à Grécia, esta deu-lhes o desenvolvimen
desenvolvimento to
m ais sublime; porém
porém,, sem o Egipto, a Grécia não se teria provavelmprovavelmente
ente
transformadoo na terra clássica das belas-artes. Eis a minh
transformad minhaa inteira profissão
de fé acerca desta grande questão. Traço estas linhas praticamen
praticamente
te defronte
de alguns baixos-relevos que os Egípcios executaram , com a m aior delicadeza
de trabalho, 1700 anos antes da era crist
cristã.
ã.   O  que faziam então os Grego
Gregos..
s...?^
.?^

Sim, será necessário inventar e impor, custe o que custar, o "mila-


gre grego" para esperar falsamente colmatar um tal desfasamento no
imaginário colectivo do mundo ocidental. Ora, basta relembrar que o
homem nasceu em África e que o Egipto é uma terra do continente
africano. Enquanto tal, o Egipto antigo é herdeiro da mais longa ex-
periência humana na terra e beneficiária de todos os bens do homem
em terra afric ana. D es d e a invenç ão d o pens amento s imbólic o, há
80 000 anos (os artefactos das grutas de Biombos^ testemunham esta
antiguidade), passando pela invenção dos números há 37 000 anos
(ossos de Lebombo^) e a invenção das matemáticas há 25 000 anos
(ossos de Ishango®), todas as escavações arqueológicas convergem
para atestar a anterioridade da África.
A precedência do processo de hominização na África de leste é pura
e simplesmente suficiente para não nos surpreendermos com a ante-
rioridade das ciências e técnicas em África. Certamente, o contrário
teria sido possível mas, convenhamos, não deixaria de ser tão sur-
preendente, uma vez que não seria óbvio e necessitaria de algumas

3. 0 Egipto de Jean-François Cliampoliion,   lettr


lettr es& j ournaus
ournaus de voy age   ( 1 8 2 8 - 1 8 2 9 ) , f o t o g r a -
fias de Hervé Champollion (1988-1989) e prefácio de Christiane Ziegler, criação de Jean-Paul

Mengès,
4. Paris, 1990,
Henshilwood, C. S.  ep.t ai,
304.Journal
Journal of A rchaeologi
rchaeologi cal Sci ence, nce,   2001, 28, 421.
5. Bogoshi, J., Naidoo, K. e Webb J., "The oldest mathematical artefact".   M ath G azette azette 71,
71,   1 9 8 7 ,
n.°M58, 294.
6. De Heinzelin, J.,  Scientific American,   1 9 6 2 , 2 0 6 , 1 0 5 .

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .   Jean-P


ean-Paul
aul Mbelelc 169
 

explicações suplementares. De seguida, trata-se portanto, para mim,


de restabelecer algumas verdades e, de igual modo, procurar mostrar
on de se en co ntr a o fundo cult
cultural
ural africano. Ace rca de ste últim
últi m o pon to,
podemos notar que, de um modo geral, o Africano não manifesta um
g rand e embaraç o em rec onhec er o c ontributo que lhe provém d o
exterior. Trata-se, sobretudo, de um enriquecimento para ele e este
orgulha-se em mostrá-lo.
Porém, nem sempre é o caso dos ocidentais que têm sobretudo
tendência a ocultar os contributos que lhes chegam de fora. Todavia,
podemos também notar que depois de inúmeros tumultos, a nível
humano, os pontos de vista de uns e de outros devem sempre acabar
por convergir para que, finalmente, a paz se instale entre os povos.
Portanto, restabelecer estas verdades representa um contributo para
a identidade africana, quer seja a do continente ou a da diáspora e,
neste sentido, acredito que também seja uma contribuição ao nível da
historiografia mundial. Isto porque a humanidade, é necessário não
esquecer, é apenas uma.

1. A Áfr
Áfrii ca,
ca , b erço da hu m anid ade
Em primeiro lugar, a África é particular neste planeta, pelo facto de
ser o contin ente de ori
origem
gem do hom em . Encon tram os al
alii todas as espé-
cies humanas que a terra pôde produzir. Desde as espécies mais anti-
gas que ousam os apena s cham ar de hum anas, às espéc ies hom inídeas,
em particular Toumai, encontrado no Tchade e datado de seis a sete
milhões de anos^.
A descoberta de Toumai é da maior importância para a paleontolo-
gia humana, tendo em conta que com este crâneo fóssil, começamos a
aproximar-nos do antepassado comum aos grandes macacos. Desde
estas espécies antigas até aos homens de hoje, é possível seguir, sem
interrupção, a evolução do homem e dos seus antepassados em África
e em mais nenhum outro lado no mundo. Fala-se no homem, no gênero
homo, quando se pode associar umas destas espécies ao fabrico das
ferramentas. Isto quer dizer que nos apercebemos perfeitamente que
a inteligên
i nteligên cia é funcional. O prim eiro h om em ,  hom
homoo habilis,  nasce u em
África. O primeiro homem a sair de África, é o   homo erect erectus,
us,  há cerca
de um milhão e quinhentos mil anos. É necessário saber que durante

7. Cf. Michel Brunei, Franck Guy, David Pilbeam, Hassane Taisso Mackaye, Andossa Likius, Djim-
doumalbaye Ahounta  etal,   ( 2 0 0 2 } , N ature ature,,   418, pp. 145-151. Patrick Vignaud, Philippe Duringer,
Hassane Taisso Mackaye, Andossa Likius   et al,   ( 2 0 0 2 } ,  Nature,   418, pp. 152-155. Link para a
fotograf
fot ografia ia do crâneo de Toumai (Bernard W ood, 20 02 ,  Nature   4 1 8 , p p . 1 3 3 - 1 3 5 } .
h t t p :/: / / w w w . n a t u r e . c o m / n a t u r e //jj o u r n a l / v 4 1 8 //nn 6 8 9 4 / f i g _ ttaa b / 4 1 8 1 3 3 a _ F l . h ttm
m l ..  

lo :,:, Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana
 

sete a oito milhões de anos, só existem factos humanos, mesmo muito


antigos, em África. Noutros locais, existe vida animal e vegetal, mas
não existe nada que se assemelhe de perto ou de longe a um ser hu-
m ano. O pro cess o de ho m inizaçã o só se desenvolveu du rante vários
milhões de anos em África.
Podemos comparar este longo período pré-histórico à parte históri-
ca da humanidade, cuja duração atinge apenas dez mil anos. Deste
mo do, para ttoda
oda a hum anidad e, a realidad e africana é a mais antiga do
planeta.
planet a. O hom em m od ern o ou   homo sapie
sapiens
ns sapie
sapiens,
ns,  isto é, o ho m em
que sobreviveu
variante no planeta
do gên ero Osterra
hom o. O até m
s fósseis aoais
momento, representa
antigos de ho m em ma od
última
erno
foram descobertos na Etiópia, no Quênia e na África do Sul.
O   hom
homoo sapiens idaltu,  de sco be rto em Herto, pe rto de Adis-Abeba,
encontra-se datado de cento e sessenta mil anos, enquanto que a nova
datação do crâneo fóssil Omo 1 (descoberto em 1967 em Kibish por
Richard Leakey) é agora datado precisamente de cento e noventa e
cinco mil anos, mais ou menos cinco mil anos®. Trata-se dos antepas-
sados de todos os homens que povoam a terra actualmente e, quais-
quer que sejam as suas cores, negro, branco, amarelo ou vermelho.
Estas diferenças de cores e todas as outras características raciais são
apenas resultados de diferenciações que resultam da adaptação a no-
vas condições geoclimáticas. Assim, chegado da África para a Europa
através do Próximo-Oriente há cerca de aproximadamente quarenta
mil anos, o   homo sapie
sapiens
ns sapie
sapiensns  vai ad ap tar-s e às novas condiçõ es
geoclimáticas, entre as quais a glaciação do Würm que vai durar cerca
de vinte mil anos.
O ho m em m od erno vai assim adap tar-se ao mo dificar difi car parcialm ente
a sua morfologia e a sua cor. A explicação corrente para esta mudança

de
do cor
que está baseada Deste
em África. no facto de oainda
modo, dia ser
quemenos luminoso através
a pigmentação na Europada
me lanina rep resen te um a prote cção efi
eficaz
caz em
e m Áf
Áfri
rica,
ca, contra o pod ero-
so fluxo dos raios ultravioletas, a despigmentação será sobretudo fa-
vorável na Europa para facilitar a síntese da vitamina D necessária ao
desenvolvim ento das cricrianças
anças (a vitamina D de sem pen ha um a função
essencial na regulamentação do metabolismo do cálcio e do fósforo;
aquela é derivada do colesterol sob a acção da luz solar. Com efeito,
sabemos que as crianças africanas nascidas na Europa têm por vezes
problemas de raquitismo (falta de calcificação ao nível das zonas de
crescimento dos ossos e que provoca malformações ósseas] quando

8. Cf.
Cf. Ian McDougall
McDougall,, F ranc is H. Bro wn e John John   G. Fleagl
Fleagle,
e, Strat
Stratigraphic
igraphic placem ent and age of m ode rn
humans from Kibish, Ethiopia, 2005,  N ature ature  433, pp. 733-736.
h t t p : / / m a . p r e h i s t o i r e . f r e e . f r / o m o _ l . h t m . . 

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cni cas na Áf r i ca ne g r a .   Jea


ean-Pau
n-Paull Mbelel
Mbelelcc 171
 
não se lhes administra, desde a idade de dois até aos dezoito meses,
uma dose suficiente de vitamina D. Portanto, o factor humano é afri-
cano à partida.
Não existe qualq uer con ota ção nacion alista ao afirmar isto,
isto, e é um acas o
que a Áírica seja o único berço da humanidade. Porém, graças a esta ori-
gem monogenética, os homens estão todos unidos quaisquer que sejam
as suas origens actuais. Podemos, igualmente, salientar que o continente
africano ocupa uma posição particular no plano geográfico. De facto,
devi
devido
do à iim
c ontinentesm ensidão do Oceano
num mapa, Pacífi
Pacíofico,
d e mod aco,que
o melh or mo do
oc upem de apres uperfí
a maior sen tar c os
ie
possível em detrimento dos oceanos, consiste em colocar a África no
cen tro do mapa ( cf o m apa do mu ndo nas informaçõe s televis
televisivas]
ivas]..
É tam bém um fact
factor
or geofísic
geofísicoo porque, quando se pretende recon sti-
tuir o super continente denominado Gondwana composto pela Aus-
trália, pela índia, pela Arábia, pela América do Sul, pela África e pelo
Antárctico (até mesm o, num a determ inada época, a Flórida Flóri da e um a par-
te do sudoeste da Europa] e tendo existido há seiscentos e cinqüenta
milhões de anos - a cento e trinta milhões de anos disto - alcança-se
o resultado através dos estudos do paleomagnetismo e graças ao facto
de a África não se ter movimentado muito durante todo este período.

2. A África,
África, b er ço da es crit a
Acerca destes assuntos, tal como de tantos outros, os manuais esco-
lares estão frequ ente m ente m uito
uit o atrasad os em relação aos resultados
já alcançados pelos investigadores. Deste modo, a escrita nasceu de
facto em África^. Trata-se de uma invenção africana do neolítico. Desde
a publicação dos resultados das escavações levadas a cabo em Abidos,
no túmulo do rei Escorpião, por Günter Dreyer e pela sua equipa^", sa-
bemos agora que há aproximadamente seis mil e quatrocentos anos a
escrita hieroglífica já estava constituída e era utilizada pelos Egípcios
com as mesmas regras e os mesmos valores de ideograma, de fono-
gram a ou de determinativo que conh ecem os ho je. Ora,Or a, os docu m entos
mesopotâmicos mais antigos que remontam a menos de cinco mil e
quatrocentos mil anos, e que são frequentemente exibidos enquanto
prova da origem da escrita, são apenas extractos numéricos, ou seja,
meras anotações de números.

9. Cf.
Cf. T. Obenga, ""Afr
Afric
ica,
a, the crad dle o f writing, 19 99 -2 00 0 ,4 fi /i/ i, n.o^ 8 / 9 , pp. 8 6 -9 5 .
10. Dreyer, Günter, "Recent Discoveries at Abydos Cemetery U", in Edwin C. M. van den Brinlc (edi-
tor], The Nile Delta in Transition: 4th-3rd miilenium B.C., The Israel Exploration Society, tel Aviv,
1992, pp. 293-299.
http://wviiw.dainst.org/index_51_en.html. 
l oo:: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na
 

Porém, o atestado mais antigo da anotação de números é uma série


de vinte e nove cortes gravados sobre um perónio de babuíno data-
do de trinta e sete mil anos, descoberto na África do Sul nos montes
Lebombo, na fronteira com a Suazilândia. Considerando as datações,
não existe, portanto, nenhuma comparação sustentável entre a África
e o Próximo-Oriente nestas épocas recuadas da história humana. As
m atem áticas tam bém nasce ram em África.
África. O intere sse em sublinhar

es ta orig em no
estritamente afric ana d eve-s
terreno e também
científico. ao fac to
Com efeito, d e permanec
afirmar ermos
que os gregos
inventaram as ciências constitui uma asserção que é na realidade falsa
já que obriga à invocação de um "milagre grego". Mas, se no lugar da
Grécia falarmos da África, não existe de todo a necessidade de invocar
qualquer milagre, tendo em conta que a longa duração da pré-história
ã proto-história permite então uma progressão lenta e gradual.
Assim, durante um tempo tão prolongado, o Africano teve tempo para
encontrar ou realizar coisas favoráveis à melhoria das suas condições
de existência. Na Europa, o tempo que separa a pré-história da proto-
-história é omuito
postula-se maisgrego.
milagre reduzido. Portanto,
No entanto, esteface
nãoa é esta falta de
um dado tempo,
científico.
Os gregos, por exemplo, não inventaram a sua escrita. Esta foi-lhes
trazida completamente elaborada pelos fenícios, cananeus da Bíblia e
cortesãos dos antigos Egípcios.
Os nomes de letras gergas, alpha, beta e gamma são apenas reminis-
cências respectivamente de aleph, beth e gimmel da escrita fenícia. Em
con trapar tida, a escr ita dos antigo s Egípcios é um a iinven
nven ção au tócto ne
e autónoma e, enquanto tal, possui uma longa história. Deste modo,
entre a invenção dos hieróglifos e a do hierático [hieróglifos simplifi-
cados utilizados para os textos matemáticos em papiro], decorreram
cerca de mil anos. Do mesmo modo, decorreram aproximadamente
outros mil anos entre a invenção do hierático e a do demótico [escrita
cursiva].

3. A Á frica
fr ica inven ta o zer o
Outra das verdades a restabelecer diz respeito ao zero [a palavra
francesa
do árabe  deriva
sifr  quedosignifica
italiano "o
dovazio"].
século XV,  zefiro, napoescola
Aprendi r seu turn o derivado
derique
francesa vadoo
zero (valor e número] consiste numa invenção indiana introduzida na
Europa via Espanha pelos Árabes, por volta do século oitavo da nossa
era; os outros povos não conheciam o número zero. Esta invenção
devia ostentar a marca do gênio, tendo em conta que se trata de uma

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cni cas na Áf r i ca ne g r a .  Jea


ean-Pau
n-Paull Mbelel
Mbelelcc 173
 

subtileza do espírito que consiste em significar, através de um símbo-


lo, precisamente o zero, ali onde seríamos tentados a deixar um vazio
devido ao ausência do objecto de discussão. Ao invés de afirmar que
não existe nada, diz-se que existe zero. Deste modo, torna-se o nada
em alguma coisa de muito mais operacional (em francês, um nada sig-
nific
nif icaa al
algum
gum a coisa). Enunciado desta maneira, o pro cedim ento par ece
miraculoso.

doTodavia, se perguntarmos
zero   {shunya  em sâns crito,aossignifi
índios a quando
significando
cando   nya "oremonta
  vazio"), aa invenção
data não
irá para além do quinto século antes da nossa era. Com efeito, o zero
é uma invenção africana conhecida no Egipto antigo sob a designa-
ção de   neferou  (literalm en te "a bele za" ou ainda "a au sên cia de al algum
gum a
coisa") desde, pelo menos, o segundo milénio antes da nossa era. Não
somente os antigos Egípcios possuíam um símbolo para o zero, tal
como surge claramente no papiro Boulaq a propósito de contas de um
templo", mas também conheciam o zero sob todas as formas da sua
utilização para além do uso do símbolo (o hieróglifo   néfèr, o  m e s m o
que surge nos nomes Néfèrtari ou Néfèrtiti) para anotá-lo". Em arqui-
tectura, orientavam-se através de inscrições com o nível zero   (èm tèp
èn néféroú),   o nível acim a do zero   {hèr néférou)  e o nível aba ixo   (khèr
néféroú).
Num levantamento do muro da pirâmide de Menkauré antigo Im-
pério, 2 6 0 0 antes da era cristã) apre senta do por G.G. Reisn er em 1 9 3 1 " ,
lê-se o quinto e o sexto nível abaixo do zero, respectivamente cinco
côvados reais abaixo de zero   [méhé sérésou khèr néférou).
Sendo o côvado real   [méhé)  a un idad e de m edida , as m ed ida s
prec ed entes têm por valores res pec tivos menos 5 (ou s eja, -5 em
ano tação s imb ólica) e m eno s sei
seiss (ou seja, -6, em ano tação simbó lica).
O zero, pen sad o de sta form
f orm a com o nínível
vel de referên cia, dá d irecta m ent e
acesso   ao cálculo algé brico com os nú m ero s positivos e nega tivos. Por
conseguinte, mesmo a invenção dos números relativos é atribuível
aos antigos Egípcios. Com efeito, quando se atribui uma determinada
quantidade acima de zero, esta corresponde àquilo que se designa de

11. Lumpkin, B.B.,, "Mathem atics U sed iinn Egyptian Co nstruction and Bookkeeping", iinn  The M athemati-
athemati-
cal Intelligencer,  voL 24, n^ 2, 2002, 20-25.
12. Scharff, A.,   E i n R echnun
chnungsbuc
gsbuchh des
des K önigl i che
chen H ofes
ofes aus
aus de 13.. D ynasti e   [Papyrus Boulaq Nr
derr 13
18], Zeitschrift für Ägyptische Sprache und Altertumskunde Vol. 57, 1992, pp. 58-59; Faulkner,
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haraonii c Stone M asonry;
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1991, p.l7; Reisner, George A.,  M yceri
yceri nus, the Temple
Templess of the
the Thi rd P yr amid at  G iza;
iza; Cambridge, Har-
vard University Press, 1931, pp. 76-77. Lumpkin, B., "Mathematics Used in Egyptian Construction
and Bookkeeping", in  The M athematical
athematical I ntelli
ntelli genc
genceer,   vol
vol.. 24, nn®
® 2, 20 02 , 20 -2 5. Be atrice Lumpkin,
and African-American Contributions to Mathematics, 
Mathematics,   http://wvvwi.pps.kl2.or.us./depts-c/mc-me/
be-af-ma-pdf.

lo :,:, Babaca r Mba ye Diop e Doudo u Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana

valor absoluto   nas aulas de m atem áticas elem entare s, enqu anto que
simbolicamente, se substitui as expressões "acima de zero" e "abaixo
de zero" respectivamente pelo sinal mais [anotado +) e pelo sinal me-
nos [ano tado Do po nto de vista pedag ógico, tend o em con ta este s
dados históricos, somos levados a reavaliar os métodos de modo a fa-
cilitar
cili tar o ensin o das m atem ática s às crianças. De facto,
facto, po dem os pe ns ar
que todos os primeiros trabalhos que o homem fez são baseados em
métodos cuja explicação é a mais simples. Assim, a melhor forma que
encontrei para explicar a uma criança de cinco anos como resolver,
por ex empl
emplo,
o, a operaç ão + 2 - 3 c ons is te em d iizer-
zer-lhe
lhe que,
que , partind
parti nd o
do rés-de-chã o, subi dois and ares e voltei a de sce r três. A crianç a com -
preende este modo de formulação à egípcia e pode mesmo concluir
que me encontro no primeiro subsolo. A partir daqui, a resposta em
anotação algébrica que é, portanto, -1, pode ser clara e simplesmente
explicada à criança de cinco anos sem abstracção inútil a este nível,
para um primeiro contacto com a álgebra.

4. A m ultiplicação e a divi
divisão
são egípcias
A multiplicação e a divisão egípcias são fundadas na duplicação e
na adição. Neste sentido, o calculador pode fazer a economia do conhe-
cim ento das tabu ada s de m ultiplicação. O m étod o po sto em p rática
bas eia-se num te ore m a simp les ddee dem onstrar. D Dee um a man eira geral
geral,,
as matemátic as eg í pc ias não s ão empí ric as , c ontrariamente ao que
alguns gostam de afirmar - quer sejam egiptólogos que não possuem
uma formação sólida em matemática, quer sejam matemáticos que
não sabem ler os hieróglifos ou o hierático.
A quan do re m on ta a utili
utilização
zação de stas du plicaçõe s? O estud o do osso
de Ish an g o " ap resen ta um a resp osta clara a esta questão. O local de
Ishango, próx imo das fontes mais merid iona is do Ni Nill o, en con tra- se nas
margens do rio Semliki, a cerca de quinze quilômetros a sul do equa-
dor. Para além disso, está provado que a população de pescadores do
alto Vale do Nilo é originária da região dos grandes lagos africanos^^
Trata-se de uma confirmação de Heródoto de Halicarnasso, quando
este indica queautóctone]
da população os Egípcios são apen(aasEtiópia
de Etíopes um a colônia (isto gregos
dos antigos é, um a designa
fra cção
o Sudão actual] que Osíris dirigiu para o Egipto, seguindo o curso do
Nilo. Ademais, facto notável que não se deve, certamente, ao acaso,

14. Cf. ). P. Mbelek, "Le déchiffrement de l'os d'Isahango", in  A nkh,


nkh,   n."^ 12-13, 2003-2004, pp. 118-
- 1 3 7 : :  http://www.math.buffa
http://www.math.buffalo.edu/mad/Ancie
lo.edu/mad/Ancient-Africa/ishango
nt-Africa/ishango.html.
.html.  
15. pp. 108-117.

A hi stó r i a das ci ê nc i as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .   Jean-Pau


ean-Paull Mbele
Mbelelc
lc 175

tendo em conta aquilo que foi dito anteriormente, o número "1" forma
a ponta de um harpão e o hieróglifo do harpão, intervém na escrita de
"um" em egípcio antigo. Por último, a decifração do osso de Ishango
m os tra que a Áfric
Áfricaa está na origem da invençã o das arte s m atem ática s.
Esta hera nça do pass ado an tigo da Áfric
Áfricaa equatorial n o Egipto,
Egipto, A ristó tele s

vem confirmá-lo
enquanto quando
berço das refere "também o Egipto foi considerado
artes matemáticas".

5. A sobrevivência das tradições erudita e cria-


tiva africanas
Esta tradição inventiva perdurou na África Negra e na diáspora, mes-
mo durante o período dos tráficos negreiros árabe e europeu, apesar
da importância das destruições de toda a espécie sucedidas por estas
empresas criminosas. Com efeito, a longa tradição científica africana
que remonta à mais alta pré-história e à antiguidade permitiu a sobre-
vivência, segundo as épocas^®, de alguns ilhéus mais ou menos estru-
turados da prática científica^^. Assim se apresentam as capacidades de
navegação em alto mar dos suaílis que ainda hoje se perpetuam desde
o século X; a prova está nos botes das costas do Quénia e da Tanzânia,
a presença de porcelana chinesa antiga^®, bem como a beleza arqui-
tectónica e o conforto das casas (em tijolos duros, feitos a partir de
um material extraído do fundo do mar e que endurece ao ar livre] das
antigas cidades suaílis, hoje invadidas pelas florestas como Gedi".
O m es m o ac ontec e c om os c onhec im entos as tronó m ic os prec is os
dos dogons^", em particular com o sistema de Sirius, com a forma
elíptica da órbita de Sirius B à volta de Sirius A que se encontra num
dos lares (é a primeira lei de Kepler, enunciada no século XV], o valor
de cinquenta anos para o período de Sirius B em torno da sua órbita
1 6 . L es civi li sations de l'A fri que, ue,   texto de Henri Moniot e ilustrações de Christian Mander, Caster-
man, 1987; cf. o primeiro e segundo mapas da obra: ao comparar os mapas da segunda página da
capa (tamanho e multiplicidade de reinos africanos nos séculos XVI-XVIII] e da página seguinte
(tamanho e multiplicidade dos reinos africanos nos séculos XVI-XVIII), reparamos que os grandes
reinos iniciais se fragmentaram dando origem a inúmeros pequenos reinados de tamanho muito
mais reduzido. Com efeito, desde o século XV, o tráfico de escravos europeu assola toda a África
Negra destruindo e desestruturando todos os estados e sociedades negro-afri negro-africanos.
canos.
17. Sertima, Ivan Van (editor).   Blacks in Science ancient and modem,   Transaction Books, New
Brunswick e Londres, 1991. Charles S. Finch 111,  The Star of D eep B egi nnings, the ge gene
nesi
si s ofafri can
can
science and technology,  Khenty Inc, 1998.
1 8 . L es cici vi li sations de l'A fri que,
de l'A ue, texto de Henri Moniot e ilustração de Christ
Christian
ian Maucler
Maucler,, Casterm an,
1987, pp. 28-29.
19. CfCf. as ffotos
otos da placa 1 7 ,1 8 e 1 9 inseri
inseridas
das entre as páginas 1 40 -1 4 1 da referência [1 1].
20. Bonnet-Bidaud, Jean-Marc, "L'observation de l'étoile Sirius par les Dogons", in  A nkh, nkh,   n.o^ 10-11,
2002, pp. 144-163.

l oo:: , Babacar Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Africa na
 

(isto em relação com a celebração do Sigui a cada sessenta anos: 60


= 50 + 10), a compacidade e a extrema densidade de Sirius B que é
composta por uma matéria especial desconhecida na terra e que os
dogons denominam "sagala". Os dogons associam a Sirius A, o "spdt"
dos antigos Egípcios e estrela mais brilhante do céu durante a noite,
dois outros com pa nh eir os de Sirius
Si rius B e Sirius C (a m bo s invisíveis a
olho nu], conhecidos há pelo menos setecentos anos (Sirius B, que é
uma anã branca cujo astro invisível a olho nu só foi conhecido no oci-
dente após a sua observação ao telescópio, por Alvan Graham Clark,
em 1862]. Por outro lado, os africanos que foram deportados para a
América não chegaram de mãos vazias. Ainda assim, existiam adultos
entre eles que já tinham vivido em África e que, portanto, já tinham
recebido uma formação e em particular uma iniciação. Deste modo,
estes já tinham um   background, o  fundo cultural africano consigo. Isto
s ervir-lhes -á quand o s e enc ontrarem nos quilombos ; rec orrerão a
estes conhecimentos que já tinham adquirido. Citemos^^:
1] Os sábios da Universidade de Sankoré em Tombuctu (a mesquita
de Sankoré foi construída no início do século XIV], entre os quais o
mais célebre de entre eles, Ahmed Baba, deportado para Marrocos.
Presta-se-lhe hoje homenagem atribuindo o seu nome à biblioteca
criada em Tombuctu e onde se procura conservar os manuscritos
m alianos até aqui preserv ado s de geraçã o em geraçã o por particula-
parti cula-
res. Contam-se cerca de 80 000, de entre os quais alguns remontam
ao século IX.
2] O m ate m átic o fula do Katsina (pro víncia do norte da Nigéria],
Nigéria], Mu-
hammad ibn Muhammad al Fulani al Kishnawi, que descobriu em
primeiro lugar a estrutura de grupo das rotações do plano um sé-
culo antes de Évariste Galois, e o aplicou para estabelecer teoremas
importantes acerca dos quadrados mágicos de qualquer modelo de
classificação. O m an usc rito de M uha m m ad ibn M uham m ad aall Ful Fulani
ani
al Kishnawi intitulado   Traité de 1'utili
1'utilisation
sation ma
magique
gique des lett
lettres
res de
Valphabet,  fo
foii pub licado no Cair
Cairoo em 1 7 3 2 . Uma cópia de cada uma
das páginas 1-20, 91-100, 131-140 e 171-179 foi conservada na
bib liotec a da School o f Oriental and African Studies da Un iversidade
de Londres. Na sua   ohra Africa
Africa counts, N Num
umbers
bers and Patter
Patterns^^,
ns^^,  Clau-
diaa Zasl
di Zaslavsky
avsky apre sento u a rreprod
eprod ução da página 92, bem com o um a
página de quadrados mágicos, extraídos do tratado de Muhammad
ibn Muhammad.

21. Sertima, Ivan Van (editor),   Blacks in Science ancient and modem;   Transaction Boolis, New
Brunswick e Londres, 1991. Antoine, Yves,  I nvente
nventeurs
urs et savants
savants noi rs;   L'Harmattan, Paris, 2004.
22. Zaslavsky, Claudia,   U A fr i que compte'
compte' N ombres,
ombres, formes et dé
démarches
marches danas la culture afri caine;
Éditions du hoix, Argenteuil, 1995, cap. 12, pp. 137-151 e cap. 25, pp. 273-279.

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .   Jean-Pau


ean-Paull Mbelel
Mbelelcc 177
 

3) Alguns inventores afro-americanos célebres do século XIX e do


início do século XX: Garrett Augustus iVlorgan^^ o inventor dos produ-
tos para alisar o cabelo (1909), da máscara de gás^'* (1912) e do
semáforo" (1923) vendido à General Electric Company por 40
000$ americanos
actuais^^. da T.
Granville época^^ ou seja,
Woods^®, um doscercamaiores
de 400 inventores
000$ americanos
da sua
época, detentor de mais de uma centena de diplomas de invenção,
inventor do sistema eléctrico do   trolley  bus^'^  (1887) e, sobretudo, do
terceiro carríF" (patenteado em 1901 e vendido à General Electric
Company no mes mo ano) aind a em us o ac tualmente em tod os os
m etro s do mu ndo. É o primeiro a ap rese nta r as m elhorias ne cessá rias
ao telefone primitivo de Graham Bell (ou daquele que seria o seu
verdadeiro inventor, Antonio Meucci) resolvendo os problemas de
adaptação das impedâncias acústicas e eléctricas (transmissão sem
distorção do som das vibrações do ar provocadas pela palavra em
corre nte eléctrica e recipro cam ente, com o m áximo de potência) e in- in-
ven tand o o mul
multt i plex
plexag
agem^^
em^^ ( 1 8 8 7 ). O ape rfeiçoa m ento do telefone,
que baptizou de telegrafonia^^, não somente permitia transmitir os
sons de modo claramente audível entre postos imóveis, mas também
entre postos móveis e imóveis (este diploma foi comprado pela com-
panhia Bell). Para além disso, isto permitia também a transmissão
das imagens. Granville T. Woods é um inventor de génio. Woods, que
alguns baptizaram o "Edison negro" (porém, teriam ousado bapti-
zar também Edison de "Woods branco"?), venceu por duas vezes
perante os tribunais contrar Edison que tinha tentado contestar a
23 . Nasci
Nascido
do a 4 de Março de 18 7 7 e m Paris (Kentuck y) - faleci falecido
do a 27 de Jul
Julho
ho de 19 6 3 e m Clev
Cleve-e-
land (O hio}. Ver
Ver J. P.  Mbelek, G arrett
 J. P.  arrett M organ,
organ,   un
un  ggrr and i nventeur
nventeur du X X ème si ècle [1999-20Q
[1999-20Q 0y, A nk h,
n.s 12-13, pp. 188-205.   L e génie
génie i nventi
nventi f,   Ed. Time Life, Amesterdâo, 1991 [adaptação francesa de
I nventiv
nventiv e G enius,  Time-Life Books B. V., 19 91 , p. 40 .
24. Patenteado em 1914, diploma US 1113 675.
25. Diploma
Diploma U USS 1 4 7 5 02 4.
26. Kathy L. Hendershot, Jennifer Ross-Tyler e Beverly M. Gordon,   A Study Study of of A fri can-A
can-A meri
meri can
can
I nventors 1754-1950;
1754-1950;  1 9 9 8 . .  http://www.coe.ohiostate.edu/beverlygordon/gordon/courses/B6 3 /
henross.html.
27. http://www .swissam erica.com/article.php?=ll-2004/20041 1150247 f.txt
http://cafehayek.typepad.eom/hayek/2004/08. 
28. Nascido a 23 de Abril de 1856 em Colombus [Ohio] - falecido a 30 de Janeiro de 1910, ver
P. Mb elek,   G arrett M organ, un gr and i nvente
J. P. nventeur
ur du X X ème si ècle,
cle, 19
1999
99-200
-2000,
0, A nkh,   n® 12-13,
p p . 1 8 8 - 2 0 5 .  Science illustrée,   n.2 9, Setembro de 1996 [8.e ano), p. 61.
http://web.mit.edu/invent/iow/woods.htm l
http://www.inventions.org/culture/african/gtwoods.htm l
http:/www.heartlandscience.org/energy/pdf/energy.pdf
http:/ www.heartlandscience.org/energy/pdf/energy.pdf  
http://www.columbusinfobase.org/RickWoods/Brochure%20RW.pdf  
29. Diplo
Diploma ma U USS 3 8 5 03 4.
30. Diplo
Diploma ma U USS 6 6 7 11 0.
31. Diplo
Diploma ma U USS 3 73 38 3.
32. Diplo
Diploma ma U USS 3 1 5 36 8.

lo ::,, Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana
 

sua prioridade so bre duas das suas iinvenções,


nvenções, e tam bém num a outra
ocasião contra outro inventor de nome Phelps. Finalmente, Edison,
que sabia vergar-se perante o génio, propôs a Woods integrar a sua
empres a oc upand o um c arg o importante e muito luc rativo relati-
vo ao departamento de engenharia. De modo extremamente lúcido,
Granville
Granvil le TT.. W ood s prefe riu de clinar esta p ropo sta e m an ter a sua
independência.
O engenheiro Elijah Mac Coy^^ inventor do dispositivo para lubrifi-
car um motor em funcionamento^'^ (1872), cujo nome passou para
a língua inglesa na expressão «the real Mac Goy» para significar o
original que funciona perfeitamente. E entre estes inventores, exis-
tiam mulheres^^ entre as quais: Sarah Goode, cuja invenção da cama
e do armário-escrivaninha dobrávreis^'" (14 de Julho de 1885) está
relacionada
crava
cra va na Amcom éricaa emesua
m 18 história
50 . O menquantoesm o suced afro-americana
e com a sua nascida cong énerees-
afro-americ ana S arah B oone" que, em 1892, inventou a tábua d e
p a s s a r a f e r r o ( p r a n c h a e s t r e i t a ,  c o b e r t a c o m   e s t o f a m e n t o e c o m
suportes de pés dobráveis). Há quase noventa anos, Madeline M.
Turner inventava o primeiro es premed or d e fruta ind us trial^®
que, desde então, sofreu apenas ligeiras alterações. Esta tradição
da invenção feminina afro-americana ainda se perpetua através de
33. Nascido a 2 de Maio de 1844 em Colchester (Ontário, Canadá) - falecido a 10 de Outubro de
1 9 29 . Ver JJ.. PP.. Mbelek,  G arrett M organ, un gr and i nventeur du X X ème si ècle  ( 1 9 9 9 - 2 0 0 0 ) ,  Ankh,   n.2
nventeur
12-13, pp. 188-205. Richard Platt,  Les gr andes andes dédécouvete
couvetess de la sci ence:
nce:   col. Grand s Ho rizons,
Nathan, 2004 (adaptação francesa de: Richard Platt,   E urêka urêka G re
reat
at inv entors
ntors and and the thei r brilli anantt
brainwaves:  Kinfisher Publications Pic, Londres, 2003, pp. 78-79.
34. Diploma US 129 843.
35. MOUSSA, Farag - "Women Inventors Honored by World Intellectual Property Organization
(WIPO)
(WI PO)",", Genebr
Genebra, a, 19 91 . Este relatóri
relatórioo consiste numa comp ilação de mulheres home nage adas pel pelaa
WIPO
WIP O pelos seus projectos inovadores,
inovadores, sem esqu ecer as co ntribuições das m ulheres de Áf Áfri rica
ca e da
sua diasp ora; cf.
http://www.lapl.org/resources/guides/affmingenuity.html.   Otha Richard Sullivan e Jim Haskins
http://www.lapl.org/resources/guides/affmingenuity.html.
(editor geral), Black Stars: African American Women Scientists and Inventors, John Wiley&Sons
Inc., Nova Iorque, 2002; cf.
http://eu.wiley.eom/WileyTitle/productCd-047138707X, descC
http://eu.wiley.eom/WileyTitle/productCd-047138707X,  descC d-tabl
d-tableOfContents.ht
eOfContents.html. ml. A história
reteve o nome de Ellen F. Eglin como inventora de um secador de roupa nos anos 80, mesmo não
tendo registado uma patente e tendo vendido a ssua ua invenção por 18$ ; cf. cf.
http://www.stsci.edu/stsci/service/wsf/current/inventions.html.   Susan Davis Herring, "Women
in the hist history
ory of technology - wom en inventors (ap resentad o à sociedade das m ulheres engenhei-
ras a 4 de Março de 1999, em Huntsville, no âmbito do mês da história das mulheres),  http://wviíw.
uah.edu/colleges/liberal/womensstudies/inventorhtml.
36. Diploma
Diploma US 32 2 11 7.
37 . DiDipl ploma
oma US 4 7 3 65 3,
http://inventors.about.com/library/inventors/blboone.htm  
http://inventors.about.com/library/inventors/blboone2.htm.  
38. Diploma
Diploma US 1 1 8 0 9 5 9 de 25 de Ab Abri rill de 19 16 . Autumn St Stanl
anley, ey, Mothers and Daughters od In
Inven-
ven-
tion, Rutgers University Press, 1995, p. 54.
h t t p : / / w w w . c s u p o m o n a . e d u / ~ p l i n / i n v e n t o r s / t u r n e n h t m l , , 
http;//vwirw.csupomona.edu/~plin/inventors/images/turner_fruitpress_big.jpg.

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cni cas na Áf r i ca ne g r a .  Jea


ean-Pau
n-Paull Mbelel
Mbelelcc 179
 

Bessie Virginia Blount [nome de casada, Griffin), terapeuta em me-


dicina física que inventou um dispositivo que permite aos amputa-
dos alimentarem-se sozinhos^' [não tendo encontrado apoio junto
da adm inistraç ão dos vetera no s U. S.
S.,, cedeu a sua pa tente ao gov erno
francês em 1952; "uma mulher negra pode inventar qualquer coisa
em benefício da humanidade", afirma esta), e hoje da oftalmologis-
ta Patricia E. Barth, inventora do laser phaco [a raiz grega "phaco"
significa cristalino) em 1988'*°. Note-se que terá sido necessário,
em 1858, a emergência de uma lei cruel, proveniente de um certo
Jeremiah Sullivan Black para proibir os negros de registar patentes
por invenção''^ Ainda hoje, os Africanos contribuem para a paleon-
tologia humana''^: existem especialistas quenianos, entre os quais
Kamoya
qua is Yo Kimeu,
han nes Peter Nzube e Bernard
H aile-Selassie, Gen SuwNgeneo,
a e A. Ame etíopes,
zaye, todentre
os elesos
investigadores e descobridores de fósseis de renome internacional.
D o m es m o mod o, o d es c obrid or [d e s c obe rta public
publi c ad a em 2 0 0 1 ) d e
Toumai, Ahounta Djimdoumalbaye, então estudante e actual doutor
em ciências, bem como o descobridor do   hom homoo sapiens idaltu,  o pro-
fes s or B erh ane As ffaw
aw [d es c oberta public
publi c ad a em 20 03 ).
4) Prémios Nobel e prémio Nobel alternativo: São, sobretudo, bons
exemplos para os jovens que deveriam orientar-se para as ciências
que são extremamente úteis para a humanidade, não sendo nenhu-
m a ciência por essên cia estra nh a à Áfr
Áfric
ica,
a, tal com o salientá m os ma is
acima.
a) Sir William Arthur Lewis [nobilitado pela rainha de Inglaterra),
prémio Nobel da economia, em 1979'^^.
b) Alfred Day Hershey, prémio Nobel de fisiologia e medicina, em
19 69 , para a com pre ens ão da duplicação dos vírus e a estrutu ra dos
seus códigos''^. A experiência que levou a cabo em 1952 com a sua

39. Diploma US 2 550 554,


http://www.inventors.about.com/library/inventors/blblount.htm,  
http://www.inventors.about.com/library/inventors/blblount.htm,
http://vww.inventors.about.com/libraiy/inventors/blblount2.htm.  
40 . DiDipl ploma
oma U USS 4 7 4 4 36 0,
http://www
http:/ /www .inventors.
.inventors.about.com/libraiy/
about.com/libraiy/inventors/blPatr
inventors/blPatricia_Bath.ht
icia_Bath.htm. m.  
41. Robert C. Hayden, Black Americans in the field of Science and Invention; cf. referencia[10],
p. 216.
Norman 0. Forness, 1980, The Master, the Slave, and the Patent Laws,  A   A Vignette
Vignette of the 18 50 's;
Cf. http://www.huarchivesnet.howard.edu/featarFornessl.htm.  
42. h t t p : / / w v w . s c i e n c e p r e s s . q c . c a / a r c h i v e s / 2 0 0 3 / c a p 0 8 0 9 0 3 1 . h t m l ,  
h t t p : //// t a llkk o r i g i n s ..oo r g / f a q s / h o m s / s p e c i m e n . h t m l ,,  
http://palaeo.gly.bris.ac.uk/Palaeofiles/Lagerstatten/lkturkana/impdishomo,html,  
h t t p : / / v w w . r c i . r u t g e r s . e d u / ~ k f f s / H T M L / k o o b i / f a m o u s . h t m l , 
h t t p :/: / / w v w . a r c h a e o l o g y i n f o ..cc o m / e r l 4 7 0 . h ttm m 
http://australopitheque.ifrance.com/page_vierge_l.htm  
4 3 . http://nobelprize.org/economics/laureates/1979/lewis-autobio.html.  
4 4 .  http://nobelprize.org/medicine/laureates/1969/hershey-bio.html.  

l o:
o: , Baba car Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Africa na
 

estudante, Martha Chase, permitiu confortar a hipótese segundo a


qual o AD
ADNN (ma is ddoo que as prote ína s] era o tra ns m isso r da inform a-
ção genética. A experiência de Hershey-Chase é também a primeira
a utilizar o acompanhamento das moléculas por radioactividade no
corpo humano.
c] Aklilu
Aklilu Lem ma , "prém io N obel alternativo" (Right Livel
Livelihood
ihood Aw ard],
em 19 89 , com o seu com pa triota etíope. Dr
Dr. Leg esse Wolde-Yo
Wolde-Yohann
hannes
es'' ^^
"por ter descoberto um agente natural capaz de matar os moluscos
e ter apurado um método baseando-se na participação de massas
populares para utilizar es te ag ente na luta c ontra os c arac óis
vectores do parasita da esquistossomose (bilharzíase]".

6. A pêndice:
pên dice: A m ultiplicação e a divisão
divisão egípcias
A duplicação está na base da multiplicação e da divisão egípcias. Ora,
tal como observámos anteriormente, o atestado mais antigo do uso
da duplicação para as necessidades do cálculo remonta à prática das
matemáticas revelada pelos ossos de Ishango.

6.1. A m ultiplicação egípcia


A m ultiplicação egípcia res um e-s e a duas duplicações (a única tab ua-
da de 2] e adições, e o mesmo sucede para a divisão. Por exemplo, se
calcularmos P = 19.13. Colocamos a operação do modo seguinte,
o 1| 1 9
2|  3 8
o 4| 7 6
o 8|152

A soma dos números apontados na coluna da esquerda é igual a 13,


o multiplicando
multipli cando . A coluna da direita corre spo nd e às duplicaçõe s de 19,
o multiplicador. Ao fazer a soma dos múltiplos de 19 em relação aos
números apontados à esquerda, obtemos o resultado P = 19 + 76 +
152 = 247.

45. http://chora.virtualave.net/lema4.htm,
http://chora.virtualave.net/lema4.htm,  
http://www.akilul
http: //www.akilulemm
emm a.com/11632.
a.com/11632.html?*sessi
html?*session*id*key*=session*i
on*id*key*=session*id*val*
d*val*  

A hi stó r i a das ci ê nci as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .   Jean-Pau


ean-Paull Mbelel
Mbelelcc 1 81
 

6.2 . A divisão egípcia


Eis um exmplo para a divisão egípcia: se calcularmos R = 184/8.
T o r na - s e e v i d e nte qu e a qu e s tã o co l o ca d a s e r e s u me e m p r o cu r a r
o número R a multiplicar por 8 para obter 184. Deste modo, torna-
-se claro que a divisão se resume à mutliplicação de um multiplica-
dor conhecido, neste caso 8, por um multiplicando desconhecido, R.
Procede-se, então, da mesma maneira que para a multplicação. Assim,
co n tr a r i a m e nt e a o s no s s o s há b i to s a ctu a i s r e llaa ci o na d o s co m o u s o d o s
logaritmos, a divisão resume-se também à adição e não ã subtracção.
Quanta economia de reflexão e de métodos, não é?
Colocamos a operação do modo que se segue,
l|8 e
2|16 2
4|32.5
8|64.e
16|128.5

A soma dos números apontados na coluna da direita [ao invés da


coluna de esquerda, como acontece para a mutliplicação) é efectiva-
mente igual a 184, o dividendo. Ao fazer a soma dos múltiplos de dois
e m r e l a çã o a o s nú me o r s a p o nta d o s na co l u na d a d i r e i ta , o b te mo s o
resultado R = 1 + 2 + 4 + 16 = 23.
A divisão com o restante efectua-se do mesmo modo, mas em vez de
introduzir números decimais, os Egípcios utilizavam uma sucessão de
fracções irredutíveis.

6.3. A dem ons traç ã o

o Smultiplicador
e co ns i d e r a r me oms eof emultiplicando,
ctu a r o p r o d u to P = m. M , e m qu e M r e p r e s e nta
a) Decompõe-se o multiplicando seguindo as suas potências de 2, ou
seja:

m = S cn. 2n, em que os cn adoptam um e outro valores   O  ou 1; n = 0,1, 2,...

o que implica P = S cn. (M. 2n),


e significa que, enquanto que o multiplicador M é escrito com base
dez, o multiplicando m é, no que lhe concerne, escrito com base dois.
Deste modo, a multiplicação egípcia implica a utilização simultânea da
base dez e da base dois.

l oo:: , Baba car Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica African a

b) Reconhecemos, no interior do parêntesis, as duphcações sucessi-


vas do
d o multipHcador
multipHcador M, cuja som a acim a des crita resu lta no p rodu to
R Vemos que a marca praticada pelos egípcios tem em conta uni-
camente o facto de as duplicações que correspondem a cn = 1 con-
tribuíre m para a som a que resu lta no produto P. As dup licações que
c orres pond em a c n =   O  não contribuem para a soma que resulta no
prod uto P,
P, não se enco ntr am assinalada s, daí a au sênc ia de an ota ção
nestes casos.
A hi stó r i a da s ci ê n ci as e das té cn i cas na Áf r i ca ne g r a .  Jean-Pau
ean-Paull Mbelel
Mbelelcc 1 83
 

Contributo das cosmogonias dogon


para a problemática da "origem" da
civilização: a necessidade do trágico
no seio da divindade

C h ei k h M octa
tarr B â'

Introdução
o ho m em sem pre colocou a qu estão de sab er qual a origem da cicivi
vill i-
zação e de que mo do se f oi pro gressiv am ente diferenciando dos o utros

seres.
marcada Partindo da idéi
idéiaa quedaexiste
pelo predomínio um a fase
f asepropomo-nos
divindade, cosm ogó nicaaqui
da existência
verificar
de que modo ê que os Dogons conseguem justificar a origem da civili-
zação a través da ttragédia.
ragédia. A análise da cosm ogo nia Dogon revela a pre-
sença do trágico no seio da divindade. Deste modo, trata-se de partir de
um a abord agem da situação cosm ogón ica, na qual a revolta de d e Og
Ogoo teve
lugar,
ugar, a fi
fimm d e analisa r o sen tido trágico da idéia de "roub o" e ac ab ar po r
con ceb er a justifi
justificação
cação da em ergê ncia trág ica da civi
civili
lização.
zação.

1. 0 que jjustifi
ustifica
ca a revo lta ddee Ogo
Ogo??
Durante o desenvolvimento do processo cosmogónico Dogon, trata-se
da criação dos "antepassados Nommo" por Amma, bem como da atri-
buição de uma tarefa a cada um deles que coincidem com a expressão
do trágico como ruptura ou rebelião divina. O Deus criador Amma
criou quatro gêmeos: o "Nommo die" (Grande Nommo com assento
junto de Amma), o "Nommo Titiyane" (segundo Nommo mensageiro ou
adjunto do primeiro, guardião dos seus princípios espirituais e execu-
tor das suas obras), o "Nommo" (Nommo do lago que descerá ã terra
em conseqüência do sacrifício de que foi vítima), e o "Nommo ana-
gonno ou Ogo" (quarto Nommo).

1. Doutor em filosof
filosofia,
ia, Universidade de Rennes 1, UPRES 12 70 , Filo
Filosofia
sofia das Norm as.

C o n t r i b u t o d a s c o s m o g o n i a s d o g o n p a r a   p r o b l e m á t i c a d a o r i g e m d a c i v i llii z a ç ã o .   Ci
Ci^^eikh Moctar Bà 185

Porém, sendo estes Nommo constituídos por um princípio mascu-


lino, Amma decide criar gêmeas para eles, de modo a fav orecer a
multiplicação dos seres. Assim fará, tal como previsto, para os três
primeiros Nommos, cada um na sua vez e seguindo a ordem da sua
criação. Tendo os três primeiros visto a sua gêmea, Amma dedica-se
à criação da futura gêmea de Ogo. No entanto, este está impaciente
e receia não ver a sua. Não conseguindo agüentar mais a sua solidão,
torna-se ciumento. Cansado de esperar pela conclusão do processo de

criação
diatamenteda sua
s toda
ua gêm ea, Og
a obra Ogo
deo revolta-se
Amma; daícoontra o cri
adventocriado
ado
do rtrágico
e pe rtuenquanto
rba ime-
ruptura e separação, querela no seio da divindade.
Ogo revolta-se contra Amma. A sua angústia e a sua ansiedade
fazem com que não possa esperar a duração de "60 períodos" previs-
tos por Amma para a criação dos gêmeos dos  dos   nomm o anagonno. 
anagonno.  Por
conseguinte, salientam Griaule e Dieterlen, "considerando-se priva-
do, este "irritava" Amma mostrando-se irrequieto"^. Todavia, Amma,
tem como que um pressentimento desta situação de rev olta que pre-
tende evitar e procura reconfortar Ogo dizendo-lhe "que receberia a
sua gêmea no momento do seu nascimento, da sua retirada do seio"l
Poré m , isto não é rec eb ido d e m od o favor
favorável,
ável, po rqu e ""Ogo
Ogo não acre di-
tara nele", exigindo a sua gêmea imediatamente. A revolta tornou-se
então inevitável na medida em que "Ogo começou a procurar, sem
esperar pelas realizações de Amma""*. Entrega-se a actos que pertur-
bam A m m a e m edita no sentido
s entido de en con trar aquilo que lhe fal falta
ta,, bem
como satisfazer o ciúme perante os seus irmãos. É deste modo que
Ogo tenta surpreender Amma na sua busca, procurando apoderar-se
da sua obra. Segundo os co-autores de  de   Renard Pâle, 
Pâle,  "insatisfeito, Ogo,
transtornando todas as regras, actuou com a intenção de surpreender
os segredos do universo em formação"^. A atitude de Ogo representa
um acto de desordem cosmogónica. Este abala a gestação da ordem
do mundo desviando-se para outro caminho, distinto daquele que era
previsto por Am ma, relativam
rel ativam ente às saídas das suas criaturas Nom mo.
Em busca da sua gêmea,

Ogo,  deixando de poder aproxim


aproximar-se
ar-se da placenta escaldante, o sol, aproximou-
aproxim ou-
se da vítima e apoderou
apoderou-se
-se das suas quatro almas de sexo que se colocaram
no seu prepúcio; procurou também apoderar-
apoderar-se
se do seu sêmen, cuja
cuja parcela

2.  Le renard pâle,   II, p. 175.


3 . I bid.
4 .  Ibid
5.  I bid.,   p. 176.
l oo:: , Baba car Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histór ica Afr ican a

conseguiu apanhar com a sua boca; depois, fugiu seguindo a linha de sangue
do sacrifício."^

No entanto, como Am ma ti tinha


nha confiado ao nom m o   Titiyane 
Titiyane  a gua rda
dos novos elem ento s, "est
"este,
e, sem esp era r as ord ens de Am ma, p rocurou
detê-lo; não obteve sucesso, mas conseguiu apanhar, com a sua boca,
a extremidade do sexo de Ogo que corta, circuncidando-o com os seus
dentes"^.
dentes "^. Ogo não sai impu ne d esta tentativa, tendo em con ta qu e se vê
privado de uma parte essencial de si próprio.
A circuncisão representa um acto de punição e, por conseguinte, do
roubo que marca simultaneamente a perda dos princípios espirituais
de Ogo. É deste modo que é definitivamente separado da sua gêmea.
A mutilação de Ogo, através da extracção do seu prepúcio, consiste na
erradicação da placenta. Ogo transformou-se em raposa, perdeu a sua
feminilidade e é definitivamente entregue a uma personalidade mas-
culina.
Toda esta fase
fas e cosm ogó nica c onsa grad a ã rebe lião de Og
Ogoo constitui o
fim,
fim, a etapa última do proce sso de cri
criação.
ação. Griaul
Gri aulee e Dieterlen
Dieterlen sub linha m
que "esta ausência de movimento marcava o fim dos périplos celestes
de Ogo, a sua fixação definitiva na Terra. Testemunhava, por outro lado,
que a «cr iaçã o tinha tterminado»"
erminado»"®.®. O trág ico é, po rtan to, ne ce ssá rio
para o processo de formação do universo no seu todo. Com efeito, to-
das as coisas que os homens virão a fazer na terra, entre as quais as
sementeiras, a forja, a agricultura, entre outras, foram primeiramente
testad as po r Og
Ogoo aquand o do s seus périplos. Assim,
Assi m, "solitári
"sol itário,
o, incom -
pleto e sempre revoltado, mas activo, este será no entanto um agente

necessário para o àdesenvolvimento


figura permanece da vida que
disposição dos homens sobre a Terra"'.dele
se servirão E a para
sua
conhecer ou informar-se acerca do futuro.

2. A necessidade do "roubo do fogo"


Na cosm ogo nia d ogon, o roub o é obra do  do   nommo anagonno
anagonno   e   áoferra-
dor mítico. 
mítico.  De fact
facto,
o, de sco nt en te por não te r visto a sua gêm ea, d epo is
dos três primeiros nommos terem recebido as suas, o quarto nommo
revoltou-se por impaciência contra o desejo e os votos de Amma, o
Deus criador. Foi assim que procurou várias tentativas para manifestar
6 . I bid.,  p.
 p. 24 4.
7.  I bid.,  p
 p.. 24 5.
8 . I bid.,  p
 p.. 26 3.
9 .I b i d

C o n t r i b u t o d a s c o s m o g o n i a s d o g o n p a rraa a p r o b l e m á t i c a d a o r i g e m d a c i v i llii z a ç ã o .  Ci
Ci^^eikh Moctar Bà 187
 

a sua
s ua afl
aflição.
ição. Tend o com eça do po r pro cu rar o segred o da criação , te n-
tativ a esta que Amma contorna alterando a posição dos elementos,
aquele acaba por arrancar uma parte da placenta que Amma trans-
forma em sol. A atitude de Ogo não fica impune na continuação do
processo cosmogónico. Assim, em resultado do roubo de Ogo, Amma
introduz a  a   mortalidade 
mortalidade  com o con seq üê ncia do acto trágico. Griaul
Gri aulee e
Dieterlen sublinham que

...  os homens foram criado


criadoss por Am ma imorta
imortais,
is, tal como eram originalmente
originalmente
os nomm o anagonno reti
retirados
rados do seu seio. Porém, os erros da Raposa, a
impureza
impu reza comunicada
comu nicada à terra pelos seus actos, provocam uma
um a série de desor-
dens que culminam na emergência da morte.^°

A m orte e nco ntra assim a sua ori


origem
gem num acto trágico. Esta torn a-se
possível e efectiva do lado do autor e de todos aqueles que aprovei-
tam o acto trágico. Torna-se testemunha do acto de impureza. Todavia,
note-se que o primeiro acto de roubo de Ogo está relacionado com as
sem en tes de Am ma, que acab a por se m ea r na Terra, a sua mãe. Porém ,
Am m a decide purifi
purificar
car esta última
última sacrificando um no m m o. Este sacrifí
sacrifí--
cio representa uma preparação da expansão do universo e das forças
que virão a constituí-lo.
A cond ena ção à mor te do nom m o é sucedida
s ucedida pela sua ressurreição. É
esta última qu e favorece
f avorece a descida dos ho m en s à terra . O acto de roub o
também está na origem da criação do homem, tendo em conta que é
a partir do nommo sacrificado para este efeito, e depois ressuscitado,

que este
téria último nasce.
de placenta O Deus
do nommo Amma criouAoo pôr
ressuscitado. homem a partir
termo da ma-
à androginia
inicial, este acto consagra a separação definitiva entre os sexos mascu-
lino
lino e feminino. Este novo m om ento é aqu ele que acom pan ha a descida
dos seres criados p or Am ma à terra. Tendo este último
últi mo tran sform ado o
resto da placenta em sol escaldante, Ogo, impossibilitado de se aproxi-
m ar dele, decide m ais uma vez en gan ar Am ma. Porém , o seu acto é ime-
diatamente punido pelo nommo titiyane que, avisado pela sua gêmea,
procede à sua circuncisão arrancando-lhe o prepúcio. Uma conseqüên-
cia fundamental do roubo e da circuncisão, enquanto punição, consiste
em ter permitido a descida definitiva dos seres à terra. Assim, termina
o momento da existência nos céus ou a existência divina marcada pela
terceira e última descida de Ogo. Este, fixando-se definitivamente na
terra, acaba com os seus périplos celestes e transforma-se em Raposa.
O roub o repre senta, portanto, o estádio
est ádio últ
último
imo de um proces so ao m es-
mo temp o que a condição do advento de outro m om ento .

1 0 . O p.  c/t, 


c/t,  p. 379.

l o:
o: , Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afr ican a
 

o acto de Ogo, através do sacrifício que suscitou, declara a separa-


ção definitiva dos homens com os Deuses: uns fixando-se na terra,
enquanto que os outros permanecem nos céus. Deste modo, a figura
de Ogo dá conta da coexistência necessária da ordem e da desordem,
mas também da necessidade do sofrimento e da dor. Dever-se-á então
afirmar que os homens devem a vida na terra ao preço do sofrimento
de Ogo que, inconscientemente, altera o plano divino através dos seus
périplos celestes?
A vida ter res tre pode co m eça r com a reprodu ção d os seres e a ut uti-
i-
lização do fogo,
do  fogo,   cujo de ten tor é o Fe rreir o di
divino
vino criado a pa rtir do
no m m o sacri
sacrificado.
ficado. O ferreiro como d eten tor do fo fogo
go de sem pe nh a um
papel fundamental no processo da civilização dos homens. Ogotem-
mêli sublinha que "o ferrador foi roubar com a sua vara de ladrão.
Foi na extremidade desta vara que o fogo começou. Foi isto que o fer-
rador deu ao mundo"". Esta idéia é previamente atestada na "sexta
jornada" dos "Encontros com Ogotemmêli" nos termos seguintes: "O
antepassado introduziu-se no ateliê dos grandes Nommo que são os
ferreiros do céu e roubou um pedaço de sol sob forma de brasa e de
ferro incandescente"
incandesc ente"^^.
^^. O facto de ele se introdu zir ne ste re cinto dos
"ferradores do céu" e roubar-lhes o fogo é simultaneamente um acto
de rebelião e um compromisso. É através deste roubo do fogo que o
ferrad or introduz o universo nu m a nova fase. f ase. Ao de scer à terr a com o
fogo que entrega aos homens, o ferreiro marca os primórdios da civili-
zação hum ana. Ogo temm êli refere que "ao te r contacto com o sol, sol, o an-
tepassado estava pronto para a sua obra civilizadora"". A importância
da função do ferreiro no processo civilizacional está relacionado com
aqu ilo que as téc nic as traz em de ne ce ssá rio p ara a vida. E, segu ndo Gri
Gri--
aule e Dieterlen, "estas técnicas - nomeadamente a agricultura - terão
todas um valor reparador das desordens provocadas por Ogo; estas
contribuirão para a organização e para o desenvolvimento das socie-
dades humanas"^''. Tal é o fundamento da civilização enquanto acto de
de m arca ção ou de diferenciação do ho m em com os outros seres. É com
o fogo que os homens criam os materiais que lhes permitem suprir as
suas nece ssidad es. O ferreiro é consagrad o co m o porta do r da ci
civi
vill iz
iza-
a-
ção. Melhor ainda, Ogotemmêli menciona que "o seu papel era, aliás,
sobretudo de técnico e eram necessários outros ensinamentos"^^. O
ferreiro transforma-se então no Herói civilizador dos Dogons ao en-
tregar-lhes o fogo precioso e a ferramenta indispensável para a sua

11. Griaule, Marcel,  D i eu d'eau, d'eau,   "vingt-neuvième journée", p. 183.


1 2 .  p. 
p.  38.
13. Griaule, op. cici t.,  p  p.. 4 1.
1 4 . L e R enard P âleâle.,.,  p. 23 3.
1 5 . O p.
p.ccit,  p. 41.

C o n t r i b u t o d a s c o s m o g o n i a s d o g o n p a r a a p r o b l e m á t i c a d a o r i g e m d a c i v i llii z a ç ã o .   Ci
Ci^^ei
eikh
kh Moctar Bà 189
 

sobrevivência,  be m c om o para o fabrico ou para a con cep ção d e técnic as


a p r o p r i a d a s   à s su a s con di çõe s e xi ste n ci a i s. Os co- a u tor e s de  de   Renard
Pâle   afirm am q ue ""oo ferreiro ocup a um lugar
Pâle l ugar à parte, po rém em inente , na
so ci e da de .  C on si de r a do e n q u a n to h e r ó i ci v iill iz
i z a dor míti co, e ste de se m -
penha uma função importante na iniciação"". Por conseguinte, é com
base no trabalho do fogo, a partir do qual nascem outras profissões,
que pode m os con siderar que nos Dogons, o An tepassad o ferreiro pos-
sui o mesmo estatuto civilizador que Prometeu, na mitologia grega.
E já qu e o f e r r e i r o r e p r e s e n ta a f or m a r e ssu sci ta d a do Nom m o do la l a go,
e que este último é gêmeo de Ogo, existe, de certa maneira, possibili-
da de de i de n ti f i ca çã o e de a pr oxi ma çã o de ste s doi s se r e s.

3. A Civ
Civii l i za
zaçã
çãoo co m o co nse qu ên cia do "trágico"
C on tr a r i a me n te a u ma te se de f e n di da por R oge r Ba sti de e m  m   Le sacré
sauvage,   qu e co ns iste em fazer da civilização
sauvage, civil ização   um dom nos Africanos Africanos
n e ste s te r mos; "a ci v i l i z a çã o n ã o é , por ta n to, con si de r a da pe l os oci -
dentais tal como ela é, por exemplo, pelos Africanos, como um dom dos
de u se s, ma s, pe l o con tr á r i o, como a con qu i sta dos h ome n s e n qu a n to
revoltados contra os deuses"", consideramos que esta é fruto de todo
u m pr oce sso ma r ca do por u ma sé r i e de di a l é cti ca s e de oposi çõe s
c o m p l e m e n t a r e s . A s s iim
m, trata-se de um a constante das cosm ogo nias o
facto de a civilização ser resultado de uma luta ou de uma rebelião no
se i o da di v i n da de e n ca r n a da , por e xe mpl o, n a cosmogon i a gr e ga por
P r om e te u , e n a D ogon po r Og Ogo,
o, e m a i s pr e c i sa m e n te o Fe r r e i r o M ít ítii co
qu e , r ou b a n d o o f ogo, to r n a o a cto de f in i n i ttii v o. E n e s te e n qu a d r a m e n to
preciso, damo-nos conta de que não existe, de todo, a mão de um deus
e ste n d i da a os h om e n s pa r a l h e s da r a ci v ili l iz
i z a çã o. É ta m b é m , se gu n do
n os pa r e ce , a l go te n de n ci oso a pr e e n de r a r e l a çã o do Af r i ca n o com a
divin dad e de m od o relig io sa m en te ex exíígu
guoo ^®
^®.. O ad ven to da civilização
e f e ctu a - se n o â mb i to de u m a a cti v i da de do h o m e m e n ã o de v i do a u m a
of e r ta di v i n a . P or con se gu i n te , tr a ta - se de soci e da de s qu e n ã o pode m
se r con si de r a da s como "a r ca i ca s" se ti v e r mos e m con ta a ch a ma da de
atenção de Jean Cazeneuve relativa ao uso desta palavra. Este, ao pro-
curar outro critério que não a escrita - ou mais funcional do que esta
- na distinção das ccivi ivili
lizações
zações históricas, pro põ e um regres so ao "sen tido

1 6 . I bid.,  p.


 p. 2 3.
1 7 . I bid.,  p. 16 5.
18. Isto  é,   sob o ângulo de uma relação directa e unilateral indo de Deus para os homens e na qual
estes últimos desempenham apenas o papel de receptáculo ou destinatários passivos. A não ser
que a apreensão se situe na óptica de uma religião revelada, e nesta aquela revista um carácter
mais ou menos universal.

l o:
o: , Babaca r Mb aye Diop e Dou dou Dieng A Co nsc iênc ia Histó rica Africa na

da história", considerando que "os povos arcaicos são aqueles que


ainda não tom aram consciência da sua inserção no dev iri r h istó rico "".
Ora, a consciência histórica não pode ser maior do que todo este
caminho percorrido que permite a efectividade da civilização através
da qual os povos assinam definitivamente a sua inscrição no "devir
histórico". Ademais, aquilo que mais chama a nossa atenção na ma-
neira de considerar o sentido da história consiste em deduzir que

...... poderíamos
poderíam os então definir as sociedades arcaicas como aquelas que não es-
tão integradas na história de mod modoo prom
prometeico,
eteico, para retomar uma
um a expressão
d e   M.  Gurvitch,
Gu rvitch, isto é, aquelas que não possuem a "consciência de intervenção
activa e eficaz da liberdade hum ana"^"ana"^ "

S e a   tomada de consciência do sentido da história deve ser tida em


conta com a relação ao grau de intervenção do homem no curso da
história, as cosmogonias que analisámos atestam a presença desta
através da atitude civilizadora como resultado da rebelião. Sob este
prisma, o estudo das cosmogonias dá conta de uma possibilidade de
refutar conclusõ es da etnologia neg ado ra ou da etnografia qu e se ba se iam
no critério da escrita para hierarquizar as civilizações. Isto, sobretudo
pelo facto de se ter uma acepção prometeica da presença de heróis
civilizadores, que desempenham um papel assimilável ao de Prometeu
na civilização grega.
Para além disso, uma outra chamada de atenção de importância
capital consiste no facto de o fogo não resultar de uma criação ou
invenção do homem. Não se trata de o homem ter inventado o fogo
a partir das suas próprias potencialidades criadoras, mas este é-lhe
oferecido por um ser que, na maior parte das vezes, se encontra no
exterior da condição humana. Na sua análise do "fogo simbólico e
tradicional"
tradici onal" Rob ert-Jacques Thibaud subli
sublinha
nha este aspecto nos te rm os
seguintes: "Com efeito, o fogo não foi inventado, de tentativa em ten-
tativa, de progresso em progresso. Este proveio do exterior, tanto do
céu como debaixo da terra, mas para lá da vontade humana"^^
Deste modo, o homem torna-se possessor de uma ferramenta pre-
ciosa que ututil
iliza
iza em função das suas
s uas neces sida de s existenciais, m esm o
não o tend o criado. De fact
facto,
o, qu er num caso com o no outro das repre -
sen taç õe s cosm ogó nicas conside rada s, é um gigant
gigante,
e, um herói div
divin
inoo
que, exclusivamente, se encontra apto a entregar o fogo aos humanos.

19. Cazeneuve, Jean,  L a me


mentali
ntali té archaïque
archaïque,,   p. 92 .
20. Gurvitch, G., "Continuité et descontinuité en histoire et en sociologie", in  A nales
nales   Janeiro-Março
d e 1 9 5 7 ,  p.  79.
2 1 .  M ytholo
ythologi
gi es & Symbo
Symbole s,   "Le feu traditionnel et symbolique", p. 3, in h t t p : / / p e r s o . w a n a d o o . f r /
les,
mythologie/textes/messages_sphinx/feu.htm.

C o n t r i b u t o d a s c o s m o g o n i a s d o g o n p a rraa a p r o b l e m á t i c a d a o r i g e m d a c i v i llii z a ç ã o .  Ci
Ci^
^eikh Moctar Bà 191
 

Thibaut afirma mais adiante que "é evidente, aliás, que o maior mito
do fogo diz respeito a um ladrão de fogo da natureza dos deuses, um
Titã, isto é, um ser imortal que só se apodera dele para oferecê-lo aos
homens que dele necessitam para viver".
Relem brem os que o hom em, não detendo qua lquer pri pr i vil
vi l égi
égioo sob re os
outros seres, neste momento da cosmogonia, não pode senão regozi-
jar-se. Isto porque, sem que outro ser tivesse tido o desejo de trans-
gredir a ordem divina, submetendo-se a qualquer tipo de punição, o
homem não poderia usufruir de meios que lhe permitissem aceder
àquilo que, outrora, fazia parte do privilégio dos deuses. A possessão
do fo
fogo
go efectua-se se m pre num sacrilégio ou o u num a act
actividade
ividade heróica.
O ladrão de fofogo
go só pode per ten cer à raça dos deuse s que poss uem
o privilégio de se aproximarem dele. Neste sentido, será necessário
referir que são os deuses que se "traem" a si próprios pela honra e pelo
interesse dos homens?
Os maiores mitos do fogo dizem respeito a um ladrão que possuiu,
ele próprio, o estatuto de imortal, mas que inaugura a imortalidade
enq ua nto co nse qü ên cia do seu act
acto,
o, e com o sinal
si nal de diferenciação fun fun--
damental do homem e dos deuses. Note-se também que não se trata
de um a tran sgre ssã o pelo orgul
orgulho
ho ou pelo pode r - a inda que à pa rtida
seja o cenário que se apresenta - que consiste na finalidade do acto.
Trata-se, sobretudo, de uma passagem obrigatória, um gesto libertador
que assegura um progresso indispensáv el, bem como uma separação
im inen te dos ho m en s e dos deuses com o intuito
intui to de favorecer a existên-
cia
ci a dos prim eiros na terra; sem este acon tecim ento , a hu m anid ade não
tem origem ten do em con ta que a sep araç ão é ne ces sária para a criação
do mundo dos homens, onde este se torna autônomo e encontra uma
certa consciência existencial inscrita no tempo. Isto não pode suceder
sem incomodar os deuses, que outrora eram únicos numa plenitude
existen cial. Nos Dogon s, oo   nomm o titiyane
titiyane   ocu pa -se da san ção infli
i nfligida
gida
à figura do trágico. Todavia, as punições aplicadas aos humanos e ao

seu herói pelos


manifestação de Deuses-Senhores do Mundo
esperança e de poder^^ parasão sempre sinônimas de
a humanidade.
Nas teorias cosmogónicas Dogons, a civilização emerge a partir de
uma espécie de frustração original. E tal vai no mesmo sentido que os
pro pósitos de Leroi-Gou
Leroi- Gou rhan, a sa b er que "a atm osfera de m aldição na
qual, para a maior parte das civilizações, começa a história do artesão
do fogo
fo go é ape nas reflexo de um a frustraçã o intuitivame nte ap reend ida
desde os primórdios"^^ Existe como que a presença no homem desta
form a de negati
negatividade,
vidade, e que o m esm o só pode purgar através da reb eliã o

22. No sentido de passagem de uum m m om ento p ara o outro.


23. Cf. L e gest e et  la  parole: technique et langage,   p. 249.

l o:
o: , Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Co nsciê ncia Histó rica Afri can a

ou pelo sacrifício que lhe concede o seu utensílio de perfeição que é o


fogo. Esta frustração é simultaneamente aquilo que introduz o mun-
do numa série de movimentos ou de alternâncias positivas. E isto, na
medida em que a quase totalidade das civilizações reconhece que a
civilização se paga caro e se arranca, ou, em alternativa, resulta de um
combate no qual os heróis civilizadores se inscrevem. Será que a civi-
lização consiste, para o homem, num acto de pura liberdade que lhe
permite tomar as suas distâncias em relação aos deuses e inscrever-se
numa trajectória existencial, na qual, por sua vez, procura tornar-se
senhor da natureza, que adapta em seu benefício e manipula em fun-
ção das suas necessidades?

Definitivamente,
formação do mundopodemos afirmar
é constatada nasque a constância
cosmogonias do trágico
Dogons. na
Todavia,
deve salientar-se que o trágico se concretiza com frequência numa
dualidade, mas possuindo simultaneamente a característica de ser o
princípio de separação e de união dos seres. E estas duas funções, o
trágico desempenha-as em função do momento em que surge e das
figuras que utiliza para a sua expressão, de modo a impor-se como
necessário à cosmogonia, quer para pôr termo a um momento, quer
com o intuito de manter um estado de coisas, ou até mesmo para es-
tabelecer uma qualquer ordem divina. Foi deste modo que os Dogons
implementaram uma reflexão acerca da  da   origem trágica da Civiliza-
ção,   respondendo ao mesmo tempo à questão de saber de que modos
ção,
obtivemos este bem por excelência e este sinal de diferenciação do
Homem com os outros seres.

Referências Bibliográficas
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C o n t r i b u t o d a s c o s m o g o n i a s d o g o n p a r a a p r o b l e m á t i c a d a o r i g e m d a c i v i llii z a ç ã o .  Ci^
Ci ^eikh
eikh Moctar Bà 19 3

o Egipto na obra de Platão


T héophi
héophi l e O be
beng
ngœœ

o contexto histórico e cultural da emergência da filosofia na Grécia é


raramente descrito, com objectividade e amplitude de visão, pelos au-
tore s con tem po rân eos . Ora,
Or a, na antigüi
antigüidade,
dade, os próp rios sábios Gregos
não ousavam falar em "milagre grego", porque, para eles, a filosofia
tinha originalmente surgido no estrangeiro: na Pérsia, na Caldeia, na

índia, no Egipto.
No que concerneNenhum erudito
às relações grego
entre defendeu
a Grécia e o oEgipto
contrário.
no plano da
filosofia e das ciências (geometria, astronomia), o papel civilizador do
Vale do Nilo foi preponderante com os Pré-socráticos.
1. Tales de Mileto, o fundador da 
da   escola jónica, 
jónica,  estud ou no Egipt
Egipto,o, sob a
direcção d os sacerdotes, o s seus únicos instru tores ao llongo ongo da sua vida;
vida;
2. Sólon de Atenas, o legislador ateniense, foi aluno do velho sacer-
dote Sonquis de Sais;
3. Pitágoras de Samos, o fundador da  da   escol
escolaa deSamos 
deSamos  (esc ola Itálica),
Itáli ca),
passou perto de 22 anos no Egipto para prosseguir os seus estudos,
em Mênfis, em Tebas, e sobretudo em Heliópolis junto do sacerdote
egípcio Oinouphis (Enuphis, Ounouphis);
4. Xenófanes de Cólofon, o fundador da  da   escola da Eleia 
Eleia  po r volta de
535 antes da nossa era, foi para o Egipto onde apelou aos  aos   Egípcios
para que não prest asse m cult
cultoo a um a multidão de divi divindades;
ndades; expri-
miu de igual modo a sua surpresa ao ver os  os   Egípcios 
Egípcios  ba ter no peito
ao longo das cerimônias religiosas públicas, em particular durante
as festas em honra de Osíris;
5. Anaxágoras de Clazómenas visitou igualmente o Egipto,  Egipto,   na espe-
rança de aprender Junto deles (dos sacerdotes egípcios) a teologia e
umaa ciência da natureza mais exacta;
um

1. Profe ssor de H istór


istória
ia na Universidade de São Francisco [EUA)
[EUA)..

na obra de Platão . 
o E g ip to na Théophle
Théophle Oben
Obengga 19 5

6. Feréc ides de Sir


Siroo tam bé m esteve no Egi
Egipto
pto para apr end er a teolo-
gia e as ciências;
7. Demócrito de Abdera teve por instrutor Pammenes de Mênfis;
8. Eudoxo de Cnido, astrónomo e matemático, teve por mestre egíp-
cio o sacerdote Khnouphis de Mênfis.
Não há motivos para pôr em causa, pura e simplesmente, por via de
uma atitude subjectiva inconfessada, todas estas viagens de estudo
dos Gregos ao Vale do Nilo. Estes são, para a crítica histórica serena,
factos históricos [cerca
de Halicarnasso apresentados
de 484 pelos
- 420 próprios
antes da sábios gregos:
nossa era], Heródoto
Isôcrates de
Atenas [436 - 338 antes da nossa era], Diodoro da Sicília [1.^ século
antes da nossa era], Estrabão da Amaseia [cerca de 58 antes da nossa
era - entre 21 - 25 da nossa era], Plutarco da Queroneia [por volta de
50 - cerca de 125 da nossa era], Diógenes Laércio na Sicília [século
III da nossa era], Porfírio de Tiro [234 - cerca de 305 da nossa era],
Jâmblico de Cálcis [cerca de 250 - 330 da nossa era].
Ge ogra ficame nte, a fil
filosofia
osofia grega n asce u na Ási
Ásiaa Menor, nas cidad es
com o Mileto
Mile to [Tal
[Tales,
es, An aximan dro, An axim enes], Cólof
Cólofon
on [Xenó fanes],
Clazómenas [Anaxágora], Éfeso [Heráclito], Cnide [Eudoxo]. A Ásia
Menor era o nome que os antigos [Gregos, Latinos] davam à parte oci-
dental da Ásia do sul do Mar Negro. É, de facto, a Grécia da Ásia, esta
franja de ilhas [Cos, Samos, Chios, Lesbos, etc.] e terras povoadas na
Antiguidade de cidades gregas na costa oriental do mar Egeu [Cnide,
Halicarnasso, Mileto, Éfeso, Cólofon, Clazómenas, Mitilene, Pérgamo,
Cízico, etc.], que representa historicamente o berço imediato da filoso-
fia e das ciências gregas.
Desconhecem-se filósofos gregos no período do desenvolvimento da
civilização micénica, cerca de 1600 antes da nossa era. Muito menos
aquando das invasões dóricas, por volta de 1200 antes da nossa era.
A escrita
escr ita minóica conhecida p or  or   Linear B  em Creta, cerca de 1500 antes
da nossa era, não revelou textos filosóficos, científicos. As primeiras
inscrições conhecidas em alfabeto linear fenício surgem por volta
de 1100 antes da nossa era. Os fenícios divulgam o seu alfabeto con-
sonântico, através do Mediterrâneo, cerca de 900 antes da nossa era.
E é por volta
volta de 8 0 0 a.C.
a.C. qu e os Gregos adop tam o alfabe to fenício, qu e se
en con tra assim n a ori
origem
gem de ttodo
odo s os alfabetos greco-latinos. Os Gr
Gregos
egos

ado ptam , de ste mod


e completam-na o, a esc
através da rita fenícia
junção no sécurepresentando
de signos lo VI
VIII an tes daasnovogais.
ssa era
Outro factor histórico: a expansão grega em direcção ao Oriente e ao
Ocidente aconteceu do século VII ao século VI antes da nossa era.
E é jus tam en te ap ós a sua jorn ad a de estudo no Egipto
Egipto que Tales funda

l o:
o: , Baba car Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciê ncia Histór ica Afr ican a
 

a primeiríssima escola de filosofia grega, em Mileto, na Ásia Menor.


Tales foi um astrônomo, geómetro e um físico de grande renome; nas
matemáticas, um teorema ostenta o seu nome. Ora, este primeiro filó-
sofo grego ultrapassado por um grande sábio teve por instrutores
apenas sacerdotes egípcios: 
egípcios:   Este instruiu-se no Egipto sob a direcção
dos sacerdotes, 
sacerdotes,  afirma a tradição histórica constituída pelos próp rios
Gregos na Antigüidade.
Platão tam bé m estudou no Egipto
Egipto,, m ais pre cisam en te em Heli
Heliópol
ópolis
is,,
junto de um sacerdote egípcio Sekhnupis, e em Mênfis, junto do sacer-
dote Khnupis [Khnoupis], que também instruiu Eudoxo de Cnide.

1. Platão estudou no Egipto


O argu m ento para neg ar a realidade da viagem de est
estud
ud o de P latão
ao Egipto é o seguinte: os primeiros testemunhos relativos a uma tal
viagem são po sterio res em vários séculos à m orte de Plat
Platão,
ão, e, po rtan-
to,
lia, pouco convincentes.
autor de uma   Bibliothèque
uma  Assim historique,
seja. Deixemos
  elabode
historique,  radlado Diodoro
a en tre 6 0 e 30da antes
Sicí-
da nossa era, onde se trata da questão da jornada de estudo de Platão
ao Egipto 
Egipto   [Bibl. hist., 
hist.,  1 ,9 6 ,2 ). Deixem os ai ainda
nda de la
lado,
do, com o é evidente,
evi dente,
Cícero, que também relata a viagem de Platão ao Egipto:  Egipto:   De Republica
(I, 10, 16), elaborada em 54 - 51 antes da nossa era, e  e   De Finibus 
Finibus  (V,
28, 87), escrita em 45 antes da nossa era. Ora, Platão viveu de 427 a
347 antes da nossa era. Assim, a "erudição" contemporânea "esconde"
um testemunho decisivo devido a um contemporâneo de Platão, e que
para além disso foi ele próprio discípulo do filósofo ateniense.
Eis o testemunho que, pura e simplesmente, se afasta com freqüên-
cia, talvez pelo facto de ser demasiado incômodo [para a consciência
histórica de quem?):

Com a idade de vinte e oito anos, segundo


segun do Herm ódoro, ele (Platão) partiu
para M égara, para ir ter com EucUdes,
EucU des, acompanhado por out outros
ros alunos de
Sócrates (morto desd desdee então). Depois, este (ainda Platão) foi para drene,
para junto de Teodoro o matem ático, e dali partiu para Itália,Itália, para junto de
Filolau e Eurito, ambo
amboss pitagóricos, depois para o Egipto, para junto dos pro-
fetas. (..
(...).
.). Platão tinha ttamb
ambém
ém intenção de ir ao encontro dos M agos, mas as
guerras que destruíam a Ásia levaram-no a renun renunciar
ciar ao seu destino. Regres-
sado a Atenas, Viveu na  Academia'^.

2.   Laércio, D., Plato
 P laton-,
n-, liv. III, 6.
o E g ip to na obra de Platão .   Théophle
Théophle Obenga 195
 

Este texto é decisivo, tendo em conta a qualidade do seu autor. Her-


módoro é, de facto, a fonte principal de Diógenes Laércio neste ponto
preciso relativo à viagem de estudo de Platão ao Vale do Nilo. Trata-
-se de uma nota de Hermódoro que Diógenes Laércio consulta. Ora,
Hermódoro de Siracusa era um dos membros activos da  da   Academia de
Platão:   tinh a vivi
Platão: vivido
do na qu ele local pelo m en os duran te os seis últim os
anos do Mestre. Deu aulas enquanto professor especializado. Hermó-

doro de Siracusa
continha inúmerosescreveu,
detalhesacerca da doutrina
biográficos de Platão,
extraídos uma fonte.
da melhor obra que
As
informações que emanam deste discípulo directo de Platão não são,
portanto, posteriores em vários séculos à morte do Mestre, e os his-
toriadores têm razão em considerá-las como informações da melhor
qualidade.
Luciano Canfora escreveu a propósito do testemunho directo de
Hermódoro: "Não existe qualquer motivo para duvidar da informação
deste singular discípulo siracusano de Platão, capaz de divulgar pela
sua própria iniciativa, textos do mestre"^
Este factor capital representado pela viagem de Platão ao Egipto,
para junto dos sacerdotes deste país baseia-se, por conseguinte, em
documentos contemporâneos de Platão, emanando dos seus próprios
discípulos directos, que estabeleceram deste modo a sólida tradição
da jornada de estudo do filósofo grego ao Egipto. Diodoro da Sicilia,
Cícero
Cíc ero,, etc.
etc . , retom am ape nas e sta tradição esta be lecida du rante a vida
de Platão pelos seus discípulos.
No que concerne a Euclides - não se trata, como é evidente, do
m atem ático que vi viveu
veu por volta de 30 0 an tes da no ssa era, m as si
simm de
Euclides de Mégara [450 - 380 antes da nossa era) -, discípulo de
Parménides e de Sócrates, fundador da escola erística [arte da contro-
vérsia) de Mégara, cidade grega, istmo de Corinto, próspero nos sécu-
los Vil e VI antes da nossa era.
Cirene, antiga cidade grega da África do Norte, fundada pelos Dóri-
cos em 630 antes da nossa era, era a capital da Cirenaica [região do
nordeste da Líbia): esta cidade foi, na época da sua prosperidade, até
300 antes da nossa era, um grande centro intelectual e artístico. 
artístico.   A es-
cola filosófica
filosófica cirenaica
cirenaica   foi funda da no século IV
IV an tes da no ssa era por
Aristipo de Cirene, antigo discípulo de Sócrates.
Filolau
Filol au de Croton a [cidad e de Itália,
Itália, res idê nc ia de Pitág oras), céle br e
pitagórico, viveu por volta de 470 antes da nossa era: Platão teve de
3. Canfora, L.,  H i stoi re de ta ti tté
ttératur
ratur e gr ecque
cque d'H omè
omère
re à A ri stote
stote;;   Paris, Éditions Desjonquères,
1994, pp. 552-553; edição original italiana, Roma - Bari, 1986, Col. La Mesure des Choses, dirigida
por Pierre Béhar

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afric ana

se informar a respeito de  de   Harmonie 


Harmonie  (o m esm o e o ou tro) junto deste
Pitagórico.
Vejamos agora a cronologia que não é menos importante:
- 7 de Maio de 427, nascimento de Platão [segundo Diógenes Laér-
cio);
- aos vinte anos, portanto, em 407, torna-se discípulo de Sócrates
[cerca de 470 - 399 antes da nossa era);
- aos vinte e oito anos, portanto, em 399, à morte de Sócrates, aquele
viaja, para completar os seus estudos, para Mégara, Cirene, em Itália
[Crotona), e por fim para o Egipto [Mênfis e Heliópolis);
- em 3 87 an tes da no ssa era, Platão reg ress a a Atena s e funda aylca-
demia,   com a idade de qu are nta anos, de pois de doze an os de viagens
demia,
de estudo. Esta escola filosófica fundada por Platão nos jardins
vizin ho s de Ate nas d urou do sécu lo IIV
V ao século I an tes da no ssa era.

Os dirigentes desta escola, depois do próprio Platão, foram os


seguintes filósofos gregos:
Espeusipo, sobrinho de Platão, dirigiu a  a   Academia 
Academia  entre 3 4 7 e 33 9
antes da nossa era - foi o primeiro, nesta escola, a considerar as rela-
ções das ciências e a m arc ar a sua indep end ência;
Xenócrates da Calcedónia [cerca de 400 - 314 antes da nossa era)
dirigiu a Academia entre 339 e 314; esforçou-se por reconciliar as
doutrinas de Platão com o pitagorismo. Calcedónia é uma cidade da
Ásia Menor, no Bósforo, face a Bizâncio;
Polemon de Atenas dirigiu a escola entre 311 e 270 antes da nossa
era, sucedendo
Crates assimdirigiu
de Stenas a Xenócrates;
a Academia de 270 a 265 antes da nossa
era; foi querido de Polemon, segundo uma tradição apresentada por
Dióg enes L aércio; Cran tor de Solis [cidade da Si
Sicíl
cília,
ia, região situa da no
sul da Turquia da Ásia, juntamente com outras cidades mais conheci-
das como Adana e Tarso, pátria de São Paulo), aluno de Xenócrates e
condiscípulo de Polemon;
Arcesilau de Pitane, na Eólia [316 - cerca de 241 antes da nossa era):
foi primeiramente discípulo do matemático Autólico, seu compatriota
[Eólia ou Eólida, antiga região do sudoeste da Ásia Menor, foi também
a pátria da poesia lírica graças a Alceu e Safo), antes de ir para Atenas
onde foi aluno do músico Xanthos de Atenas, seguindo depois as lições
de Teofrasto, nascido na ilha de Lesbos [por volta de 372 - cerca de
287 antes da nossa era), antes de ir para a Academia, para junto de
Crantor por quem era querido;
Bion de Boristene na Cítia [antiga região da Rússia meridional, habitada
pelos citas, tribos semi-nómadas autóctones iranianas estabelecidas

o   E g ip to na obra de Platão . 
na Théophle
Théophle Obenga 195
 

entre o Danúbio e o Don, no século VIII antes da nossa era; os Citas


desapareceram no século II antes da nossa era];
Lácides de Cirene sucedeu a Arcesilau na direcção da Academia em
240 antes da nossa era, durante vinte e seis anos, ou seja, até 214 a.C.;
Carnéades de Cirene (cerca de 215 - 129 antes da nossa era]. Foi
discí
discípulo
pulo de Acad
Clitómaco êm ico Hegési
de Cartago Hegésino,
sucedeuno,a mas tam bé mnadoAcademia
Carnéades Estóico Diógenes;
por volta
de 129 antes da nossa era. Tinha vindo para Atenas com a idade de
quarenta anos.
Os Acad êm icos vinham
vi nham , portanto, um p ouco d e toda a parte: de Aten as
da Ásia M en or (Ca lced ón ia], da Sicília,
Sicília, da Eólida, da Cít
Cítia
ia,, da Ciren aica,
de Cartago. A Ac ad em ia não e ra um a esco la virada para si pró pria.
De resto, o próprio Platão tinha empreendido, antes da fundação da
Academia, viagens de estudo a Mégara [Istmo de Corinto], a Cirene,
A Crótona, a Heliópolis no Egipto. A jornada estudiosa de Platão ao
Egipto marcou consideravelmente a sua obra.

2. O Egipto na obra de Platão


De en tre os
os Diálogos
 Diálogos   de Platão, vinte e oito che gara m até nós, e trata -
-se talvez da totalidade da obra platônica. Em perto de doze  doze   Diálogos,
Platão evoca o Egipto, de modo abundante, diversificado. A proporção
é enorme, ou seja, 42% da obra total conhecida de Platão. O Egipto é,
de fac
facto,
to, evocado pelo auto r nas obras redigi redigidas
das entre 3 9 0 e 38 5 antes
da no ssa era, tal com o   Gorgias, Eutidemo, M enexeno;
enexeno;   nas obr as escrita s
entre 3 8 5 e 3 7 0 antes da nossa era com o   Fédon, 
Fédon,  a  R epública,
epública,   a  Fedra,
 Fedra,   e
nas obras redigidas entre 370 e 347 antes da nossa era como  como   Política,
Timeu, Críton, Filebo 
Filebo   e a s  Leis.
 Leis.   Mesmo em 
em   Epinómide, o  Egipto é evocado.
Torna-se difícil afirmar que Platão se refere assim ao Egipto, de
modo tão significativo, devido a "memórias literárias", isto é, em con-
seq üê ncia da leit
leitura
ura das obr as de H om ero [qu e viveu
vi veu cerca de 85 0 an-
tes da nossa era], de Heródoto (cerca de 484 - 420 antes da nossa era]

que
didesvisitou
(cercao deEgipto
470 -pouco depoisdadenossa
400 antes 449 antes
era], da
de nossa era, de(cerca
Aristófanes Tucí-
de 445 - 386 antes da nossa era] que parodia algumas descrições de
Heródoto acerca do Egipto em   Os Pássaros Pássaros  ( c o m é d i a r e p r e s e n t a d a
em 414 antes da nossa era], e que forja igualmente em y4s  y4s   Tesmofo-
riantes   a   Helena 
riantes Helena  de Euripides ap rese nta da em 41 2, e cujas aventura s
se situam no Egitpo; podemos também pensar no  no   Busiris 
Busiris  de Isôcrates
(436 - 338 antes da nossa era], elaborada por volta de 385 a.C.: nesta
obra, Isôcrates faz o louvor ao Egipto, isto é ao país, "colocado no lugar

l oo:: , Babacar Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histór ica Africa na
 

mais belo do universo" (§ 11-14); da divisão do corpo social em grupos


funcionais,
funcionai s, o clé
cléri
rigo,
go, as pr ofis sõe s, os gu er re iro s C§ 1 5 -2 0 ); da or-
ganização artística e intelectual, a saber que a medicina e a filosofia
nasceram no Egipto (§ 21-23); por fim, o culto dos deuses que mere-

cem ser louvados


Existem e admirados"
acontecimentos evocados (§ 24-29).
por Platão que não se encontram,
de facto, em nenhum destes autores anteriores, por exemplo, o preço
da viagem de Atenas para o Egipto que é de dois dracmas  dracmas   [Gorgias,
5 1 1 d ) ; o o   mito de Teuth
Teuth   ( T h o t ) , i n v e n t o r d a e s c r i t a e d a s c i ê n c i a s
[Fedra,   27 4, co - 27 5b ;  Filebo, 
[Fedra, Filebo,  18 b ); o cará cter sagrado da m úsica egí egíp- p-
c i a   [Leis, 
[Leis,  VII, 799 a-b); o ensino das matemáticas no Egipto segundo
uma metodologia extremamente agradável e eficaz  eficaz   [Leis, 
[Leis,  VII, 819 b-c),
etc. Platão deve ter conhecido por si próprio factos tão característi-
cos. O seu con he cim en to do Egipto é de um o bs erv ad or directo, de
uma testemunha ocular. Como é que Platão poderia escrever que os
Egípcios sabiam ensinar às suas crianças as matemáticas como se se
tratasse de um jogo, caso o filósofo grego não tivesse constatado o fac-
to por si próprio no Vale do Nilo? De que modo é que Platão poderia
falar acerca da criação de peixes nas margens do Nilo [Política, Nilo  [Política,   2 6 4 b-c)
se não tivesse ob serv ad o o facto po r si m es m o? O au tor escrev e: "No
Egipto, um rei não pode reinar se não possuir a dignidade sacerdotal"
[Política,   2 9 0 d). Nenh um au tor grego an tes de Platão é tão explícito
[Política,
quanto o filósofo ateniense: Faraó era, de facto, o primeiro elemen-
to do alto
claram ente .clero
N egípcio.é Platão
Naa verdade, apreendeu,
por delegação do reiportanto, esta
que os sac erd hierarquia
ote s cum -
prem o seu ofício nos diversos santuários.
Nos doze 
doze   Diálogos 
Diálogos  em ccausa,
ausa, Platão m ostra que tinha um con he-
cimento extremamente variado do Egipto: a geometria, a história, a
religião, a organização política e social, as artes e a educação, os cos-
tumes, as múmias, as criações de peixes na margem do Nilo, a pureza
do céu do Egipto que explica o desenvolvimento da astronomia neste
país, etc., tudo isto é amplamente desenvolvido por Platão, por vezes
com uma certeza pertinente no julgamento. Um conhecimento tal
rev ela claramente que Platão permaneceu durante muito tempo no
Egipto, talvez durante três anos, se não mais.

3. Platão egipcianiza as palavras ao invés de as


grecizar
Platão retém qu ase sem pre a fonética egípcia da
dass palavras em vez de
grecizar os termos egípcios. Assim, a sua ortografia é completamente

o   E g ip to na obra de Platão .  Théophle Oben


Obengga 195
 

estrangeira, "exótica", em relação à fonética grega. Esta constatação já


é grandemente reveladora por si só. Temos de facto:  facto:   Sais 
Sais  ortografada
por Platão 
Platão   Sais, 
Sais,  corresponde ao egípcio 
egípcio   S3w, Saou; Neith  Neith  ortografado
por Platão 
Platão   Neith 
Neith  corresponde no Egipto a  a   N t,t,   deusa egípcia designada
pelo Gregos de Atena: "Para os desta cidade (a grande cidade de Sais),
a deusa fundadora tem por nome egípcio Nieth e, em grego, pronun-
ciada Athénã"^
Theuth de Platão eqüivale a  a   Dhwty, Djhouty, 
Djhouty,  em egípcio, egípci o, e em c opta
[egípcioo vocalizado )   Thoout, Thõt, Thaut, 
[egípci Thaut,  o inve ntor e pr ot ec tor divi divino
no
das artes, das leis, das ciências exactas no Egipto antigo: o deus egíp-
cio, mestre das artes e da sabedoria, era assimilado a Hermes pelos
Gregos. Quando Platão faz alusão a produtos egípcios, retém evidente-
m en te a palavra "exótica":
"exóti ca": o pá ssaro
ssaro   ibis 
ibis  (palavra claramente egípcia),
o óleo 
óleo   kiki [Timeu, 
[Timeu,  6 0 a) corr esp on de ao egípcio
egípcio   k3k3, fyky, kiki 
kiki  e m
copta, com o sen tido de "ricínio" e de óleo de "ricínio"^
Torna-se evidente que o nome da deusa ísis provém claramente do
egípcio   Ist, 
egípcio Ist,  copta 
copta   Esse, Esi.
O   Thamous 
Thamous  de Platão , rei qu e reina va em tod o o Egipto, cu ja capi-
tal era Tebas, cidade do deus supremo Amon  Amon   {Fedra, 21A
21A   d), remete
c e r t a m e n t e p a r a 
a   Thoutmosis, Thoutmès,
Thoutmès,   em egípcio
egípcio   Dhwty-ms, 
Dhwty-ms,  "Thot
nasceu" ou "Nascido de Thot", nome de quatro reis da XVIII® dinastia
que fizeram
fizer am pre cisam en te a gl glória
ória de Tebas e de Am on de Karnak. Em
Fedra,
Fedra, 
rei    Thamous, 
o rei  Platão fal
Thamous,fala
  anão
da esqu
seg uin te sér
ecend o ie:
ie: 
o  pássaro
Naucratis sagrado 
Naucratis  e   Tebas,
sagrado T heuth
  E n o e  Timeu,
  ibis. 
ibis. Am on,
temos esta outra série: 
série:  Sais, Neith, 
Neith,  o rei A
rei  A masis,
masis,  os sacerd otes de de   Sais.
Leis   ev ocam 
As Leis  ocam   ísis e e  o   Filebo e  ainda 
ainda   Theuth. 
Theuth.  Esta s sér ies são gran-
demente instrutivas por si só e revelam um conhecimento directo do
Egipto por Platão. Um conhecimento dos lugares, dos deuses, dos ho-
mens e dos símbolos egípcios (ibis).

4. O que rep res en ta o Eg


Egipt
iptoo p ara Platão?
o discurso egípcio de Platão era considerado por contar a verdade.
Qual verd ade ? Leiamos, então, os textos aten tam en te.

4. Platão,  Timée,   21 e.
5. Ver de igual modo Heródoto, II, 94. Por último, Diodoro da Sicília, I, 34:   E les les (os E gí pc
pcii os) reco
recor-
r-
rem, para mante
manterr a luz ddas as suas lâmpada
lâmpadas,
s, a um li cor gor duroso extr aí do de uma pplanta
lanta de desi
si gnada
por eles de kiki,  em   ve
vezz  de óleo.

l o:
o: , Babaca r Mba ye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histórica Afr ican a
 

4.1. o Egipto é o país da mais alta Antigüidade

No Egipto,
memória tudoé, era
humana por escrito em templos
conseguinte, desde
longa na a antigüidade.
margem A
do Nilo sal-
vador E é com razão que Platão considera o Egipto como a reserva
arqueológica de um discurso completo acerca da História universal.
Encontrando-se ao abrigo dos cataclismos que destroem periodica-
mente o gênero humano [o fogo, a água, etc.), o Egipto transformou-se
no berço da civilização, e a escrita é de uso particularmente antigo.
Precisamente, relativamente às "coisas do passado", um sacerdote
bastante idoso de Sais viria a dizer a Sólon, cuja memória histórica
remontav a tão pouco no tempo: 
tempo:  Sólon, Sólon, vós, Gregos,
Greg os, sois sempre
semp re
crianças (aei, paídés, este); vvelho, Gregoo não o   é® o que significa que
elho, um Greg
os Gregos,
Gregos , m antido s joven s na sua alma, não possu em qu alqu er conh e-
cimento encoberto pelo tempo.
Em contrapartida, o Egipto conservou um número considerável de
informações acerca das coisas do passado de todos os povos:
Assim , tudo aquilo que aconteceu, prossegue o velho sacerdote egípcio, quer
convosco (os Greg
Gregos),
os), aqui ou em qualquer outro lugar, que tenhamos tido
conhecimento
conhecim ento por ouvir dizer, se, por uuma
ma ou outra razão, se trata
trata de algu-
ma s coisas belas, grandiosas ou que apresentam qualquer outra diferença,
mas
tudo isto foi, desde a Antigüidade,
An tigüidade, aqui colocado por escrito e conservado nos
templos''.

Assim, o Egipto funciona na obra platônica, quer queiramos ou não,


como a terra de mais longa duração e como lugar eleito da memória
m ais arquivad a do mun do. De Sól Sólon
on a Platão, o Egipto
Egi pto era, de ste m odo,
apreendido pelos Gregos enquanto berço da civilização, guardiã da
m em ória do s povos. O velho sacerd ote info rm ado r de Sólon que de-
via ter en tão po r volta
volt a de trinta an os refe re-se a textos, a doc um ento s
escritos, contemporâneos da fundação da cidade de Sais: estes datam
de mil anos 
anos   [Timeu, 
[Timeu,  32 e ). O velho sábio de Sais co nh ece est es tex tos
de cor No entanto, está totalmente disposto a explicar a Sólon, numa
outra ocasião, durante o tempo livre, com os textos na mão, o passado
histórico dos Gregos que não possuem memórias de um tempo huma-
no mu ito recuad o. A trad ição ora l egípcia pod e assim ser ser,, a q ua lqu er
m om ento, con trolada através dos textos escritos, dos registos arqu iva-
dos. A palavra e a escrita, a rem em ora çã o po r interm éd io da escri
escrita,
ta, a
verdadeira memória que se exprime directamente através da palavra.

5. Platão,  Timée,   22 b.
7. Platão, I bid.,  23 a.

o E g ip to na obr a de Platão .  Théophle Oben


Obengga 195
 

quantas maravilhas deviam fascinar os Gregos que se deslocavam ao


Egipto, como Sólon, para obter conhecimentos.

4.2 . O Egipt
Egiptoo é o be rço da esc rita e das ciências
Em Fedra, Sócrates explica precisamente a Fedra que o verdadeiro
(tò aléthês, 
aléthês,  "a verd ade ") são os Antigos que o con he cem . O verd adeiro
descobre-se questionando as tradições constituídas da antigüidade.
E Sócrates manifesta-se pronto para encontrar qualquer coisa de ver-
dadeiro que ouviu dos antigos 
antigos   [tõn protérõn). 
protérõn).  Imp aciente, Fedra pede,
então, a Sócrates que lhe conte aquilo que declara ter ouv ido dos
Antigos: Sócrates:
Bem Ouvi [éJ[éJ<ousa)
<ousa) que, do lado de Náucratis
Náucratis no Egipto, exist
existee uma das
d as an-
tigas divindades daquele lugar, aquela cujo emblema
emb lema sagrado é um pássaro
que aqueles designam, sabe-lo bem, o ibis; o nome desta divindade é Theuth.
Foi ele que, portanto, em primeiro lugar (prõton), descobriu
d escobriu a ciência do
núm ero (arithmón), o cálculo (logismòn), a geometria
geom etria (geõmetríanj, a astro-
astro-
nom ia (astronomian) e ainda o tric-t
tric-trac
rac (petteías), os dados [kubeias), e, por
último sobretudo, a escrita (grámm ataf.
Sócrates assegura ter ouvido dos Antigos (que conhecem a verdade)
esta narrativa que pertence à tradição grega constituída. Sócrates
apresenta deste modo a Fedra uma tradição grega da antigüidade.
Qualquer tradição, grega ou outra, vale o que vale. Esta, grega, reto-
mada por Sócrates para contá-la a Fedra, consiste no facto de o deus
egípcio Theuth, cujo emblema sagrado é o pássaro ibis, é o inventor
do número, do cálculo, da geometria, do tric-trac, dos dados (e outros
jogo s de socieda de), da escrit
escrita.
a. A tradição gre
grega,
ga, ex trem am en te antiga,
ã qual Sócrates se refere, não atribui estas descobertas aos deuses da
Caldeia, muito menos aos do próprio país grego.
O ibis é efectivamente o pássaro sagrado do Egipto, de corpo branco,
com um a cab eça e um a cauda negras. O deus iim m aterial Th ot (Th eu t)
encarnava-se nele. Precisamente, no Egipto, este Thot, deus lunar em
forma de ibis, reinava sobre a escrita, a separação das linguagens, a
analística, as leis, os escribas e os mágicos, o cálculo (a geometria),
o calendário (a astronomia). Thot reinava qualquer operação intelec-
tual, enquanto inventor da civilização escrita.
O The uth p latônico junta -se ao Th ot egípci
egípcioo no essencial. Este d eus
deu ao Egitpo ma is saber, m ais m em ória , m ais ciência. Para além disso.

8. Platão, Fe
 F edra,   274 c-d.

l oo:: , Babaca r Mba ye Diop e Dou dou Dieng A Con sciên cia Histórica Afric ana
 

é o grande
antigos mestre odas
tornaram deustécnicas,
egípcioherói cultural edecivihzador.
no benfeitor Os Gregos
toda a humanidade.
O prim eiro, des cobr iu, pa ra os ho m en s, a ciência do nú m ero, o cál cálculo,
culo,
a geometria, a astronomia, os jogos de sociedade, a escrita. Theut, que
e n c o n t r a m o s e m Filebo
m  Filebo   [1 8 b], é ob via m en te o Th ot egípci
egípcio,
o, o inve ntor
divinizado das artes, das ciências, das leis, da escrita. Isto, Sócrates ou-
viu-o dos antigos Gregos; e reproduz facilmente a Fedra uma tradição
oral   [akoé) 
oral [akoé)  da antigüidade grega: "Estou próxim o de con tar uma
tradição que retenho dos antigos:  antigos:   akoén ge échõ légein tõn protérõn"
(Fedra, 274 c],
Para os Gregos anteriores ao nascimento de Sócrates, não existia
qualquer dúvida possível: o Egipto era efectivamente, aos seus olhos,
o berço das ciências e das técnicas. Sócrates não está de todo trauma-
tizado ao divulgar esta antiga tradição grega a Fedra. Torna-se eviden-
te que Platão nã o é o inve nto r deste "Mito de Teuth": trata -se, com est e
"mito", de uma tradição grega muito antiga. Tradição viva retomada
por Sócrates para Fedra, e, por último, escrita por Platão.

ca4.3.   O  Egipto enquanto modelo de organização artísti-


e intelectual
Na história das nações e das constituições, só o Egipto, segundo
Platão, é que soube legislar, conveniente e eficientemente, a questão
educativa, a formação ética e cultural da juventude:

- Clínias: 
Clínias:  O Egipto? Qu
Qual
al é então, segund
segundoo a lei, a legislação acerca
deste ponto?
  O Ateniense:
-Con  Ateniense: 
sidero, há já  Só mu
Considero, o enun
enunciado
ito ciado
muito temp o, ma
tempo, maravilhar-vos-á
ddeeravilhar-vos-á
facto (pálai gàr [thãuma kai que
dêpote), akõusai).
eles
aprenderam esta verdade que agora formulamos (tá nún): a saber
que são as belas figuras e as belas m elodias [kalà mèn m èn schem
schemata,
ata, kalà
dè, mélé) que a juventude das cidades deve praticar; eles (Egípcios)
fixaram-lhes a determinação
determinaçã o e a natureza, mais ma is tarde, expuseram os
modelos
mod elos nos templos; estes modelos,
mod elos, não era perm permitido
itido aos pintores,
nem a ninguém que tives tivesse
se produzi
produzido do formas ou que quer que fosse
deste gênero, afastar-se delas para inovar ou ainda imagin imaginarar outras
que diferissem daquilo que as regras nnacionais acionais (tà pátria) tinham es-
tabelecido; e ainda agora isto lhes é proibido, quer nesta ma matéria
téria (das
representações figurativas), querem qualquer arte mu musical
sical (oudè nún
éksestin, oúte en toútois en mou mousiké
siké sumpásê^.
sum pásê^.

9. Platão, Lois, IL Cf. Pier re-M axim e Schuhl, P laton eett l'ar t de son temps
IL 6 5 6 d. Cf. temps (arts plastique
plastiques),
s),   Paris,

o   E g ip to na obra de Platão .  Théophle


Théophle Obenga 195
 

Deste modo, segundo Platão, qualquer reprodução artística, escul-


tural, pictórica, musical, coreográfica, etc. estava sujeita, no Egipto,
desde a mais alta Antiguidade, a um cânone nacional imutável gra-
ças a um a regulam enta ção rigorosa, limitadora.
li mitadora. A produ ção artística
era controlada nos templos pelos sacerdotes. Assim codificada, a arte
pode, deste m odo, dese m pe nh ar a sua el elevada
evada função social e m oral, e
o seu papel pedagógico insubstituível.
Tal é a excepção cultural que o Egipto representa para Platão: este
país é o ún ico em q ue a art e se en co nt ra legislada,
legisl ada, "canónica". Esta s são
"belas
dos joven figuras"
figuras" 
s das  cidades.
[kalà mélé] 
mélé]   qu e devem
Relativamen te àins
qupira r ados
estão "prá"modelos",
tica" e os "hábitos"
sim ulta-
neamente figurativos e melódicos, esta também se encontra devida-
mente regulamentada: os "modelos" inspiradores são "encomenda-
dos" e "expostos" nos templos, nos edifícios sagrados (as bibliotecas
dos templos). Neste sentido, é proibido aos pintores ou a qualquer
outro especialista das figuras, inovar o que quer que seja, revolucio-
n a r   [kainotomeín], 
[kainotomeín],  ou imag inar inar   [epinoeírí), 
[epinoeírí),  de m odo fantasioso, outra s
formas, outras figuras, contrárias aos cânones ancestrais  ancestrais   [tà pátria).
Platão afirma que esta tradição ainda perdura.
O filfilósofo
ósofo foi,
foi, sem dúvida, o prim eiro egiptólogo a te r disce rnid o
claramente os traços principais e tradicionais da arte egípcia: esque-
matismo e grafismo, hieratismo e conservadorismo, tradicionalismo
e milenarismo, cunho ontológico [dimensão sagrada) e função educa-
tiva.
tiva. Esta legislação da arte egípcia iim m plic
plica,a, po r con segu inte, um po de r
da socieda de e do Est Estado
ado so bre as criaçõ es artísticas. O resultado con-
siste na reprodução milenar das mesmas formas, segundo os mesmos
câno nes e a m esm a técnica:

Através de um examexamee atento, prossegue o Ateniense, verificarás que, neste


país (o Egipto), as pinturas ou as esculturas remon
remontam
tam a milénios; - e quando
quand o
digo milénios, não se trata de um mod
modoo de falar, é a realidade; estas não são
nem mais fei
feias,
as, nem mais belas do que as actuais,
actuais, e implementaram uma
técnica idêntica^°.

Platão constata simplesmente um facto que considera admirável: a


antiguidade da arte egípcia,
egípc ia, a ssua
ua regulam enta ção. To rna-se, portan to,
algo incorrecto afirmar, com a leitura deste texto platónico, que o
autor das simplesmente
considera Leis tinha gostos arcaicos em  [thaumaston), 
"extraordinário"
"extraordinário"  música e em
[thaumaston),  talpoesia. Platão
com o Clínias

PUF, edição de 1952, p. XV:  P latão (...) mostr a-se parti dári o de uma arte hie
hieráti
ráti ca,
ca, i mutáve
mutávell como
como
aquela
aquela que tin
tinha
ha admir ado nas ob obras
ras dos te
templos
mplos no V ale do N i lo.
10. Platão, L eis,   II, 656 e - 657 a.

l oo:: , Babacar Mb aye Diop e Doud ou Dieng A Con sciên cia Histó rica Afr ican a

de resto, o facto de a arte ter uma função jurídica e política no Egipto


há vários milênios.
Assim, o filósofo recebe da arte egípcia uma mensagem importante:
a arte será moral e social, ou não [uma condenação implícita da arte
pela arte]; a arte apenas será moral e social se reproduzir modelos,
se colocar em movimento as virtudes, em suma, se for a imagem das
Idéias. E, de facto, no Egipto antigo, a arte obedecia ao cânone nacio-
nal da 
da   maât, 
maât,  príncipe cósm ico que explica o arcaísm o, o mo ralismo

e o tradicionalismo
necessário. da arte
Neste ponto, egípcia, arte
a egiptologia comprometida
moderna e áulica,
não se encontra se
mais
avançada do que no tempo de Platão:

A arte egípcia apresenta, no quadran


quadrantete da história, este carácter único de se
prolongar ao longo de quatro milênios,
m ilênios, num a inegável continuidade.
continuidad e. Deve-o
Dev e-o
à unidad
unidadee do territóri
territórioo do Egipto, ao equil
equilíbrio
íbrio dos seus constituintes físicos,
à função da religião e, nesta, à função real. (..(...JArte
.JArte equilibrada entre a gran-
g ran-
deza e o humano, elaborada de acordo com um senti sentido
do extremam ente seguro
das linhas, arte comprom etida e áulica, assiassimm se apresenta a arte egípcia^^.

Esta arte hierática e rigorosa que exigiu amplamente a meditação


de Platão tinha estabelecido, desde a origem da civilização egípcia,
as suas próprias "convenções" segundo a  a   maât,
ma ât, os
os   procedimentos da
quadrícula e da implementação do quadriculado, a geometrização do
corpo humano, o hieratismo das atitudes, o maravilhoso despojo das
técn icas, a figuração em relevo, a pu reza da s linhas arqu itectur ais, tud o
isto não exclui a evolução mas é evidente que estas qualidades eternas
da arte egípcia deviam-se quer à organização política, quer à religiosa
e social do mundo faraônico. Eis aquilo que fascinava Platão, o filósofo
das Idéias
I déias etern as e imutáveis.
imutáveis . Deste modo, o asp ecto "tra ns cen de nte "
da arte egípci
egípciaa não esca pou a Platão.
Pl atão. A regu lam enta ção da m úsica con-
siste num facto real e digno de interesse. Torna-se, portanto, possível
legislar esta matéria, tal como os  os   Egípcios 
Egípcios  o fizeram. Terá sido obra
de um deus ou de algo divino, do mesmo modo que no Egipto, os ares
conservados durante todo este tempo são obra de ísis^^.
Platão abandona o controlo da produção artística aos filósofos-
-governantes   [República, 
-governantes [República,  X, 60 7, b- 60 8b ), bem com o aos guardiãos
guardi ãos das
leis, 799
VII, que agem semprenodeEgipto,
b]; porém, modo aosfazer prevalecer
sacerdotes a razão,
também o   noüs

eram [Leis,
filósofos
e guardiãos das leis: estes tinham de agir de acordo com os precei-
tos da 
da   maât, 
maât,  a verdad e, a justiça, a ord em , a virtud e supre m a, o bem

11. Du Bourguet, R,  L 'art éégy


gy pti en;   Paris, Desclée de Brouw er, 19 73 , p. 14. Sublinhado no texto.
12. Platão, L eis,   657 a-b.
o E g ip to na obra de Platão .  Théophle
Théophle Oben
Obengga 195
 

so berano . A art e c o reo g ráfi c a e m usi c al eg íp c i a era reg ul am ent ad a e


sacralizada   no âm bi t o d e um c al end ári o em que c ad a c el ebraç ão en-
contrava o seu lugar. Não existe melhor técnica, melhor organização,
m el ho r i nd úst ri a d o que aquel a que é usad a p el o s   Egípcios:

Clínias:  A que técnica te refere


referes?
s?
O Ateniense: Consagrar qualquer dança e qualquer mú
música
sica [toü katiji
katijierõsai
erõsai

pãsan (tas
festas m en heortas),
orchésin, encom
pantaendar
encomendarde melé); regulamentar
antecipadam
antecipadamente,
ente, paraem todo
primeiro
o ano lugar as
(eis ton
eniauton), quais as festas que deveremos celebrar, em que épocas, em honra
de que deuses ou filhos
filhos de deuses; depois, que hino deverá ser cantado ao
sacrificar
sacrificar aos deuses e através de que danças honrarem
honraremos
os tal sacrif
sacrifício;
ício; regu-
lamentação que será confiada a alguns, porém, um umaa vez concretizada, todos
os cidadãos, tendo sacrificado
sacrificado em comu
comum m às M oiras e a todas as outras divin-
dades terão de consagrar, através de libações, cada hino a um dos deuses ou
demônios sucessivamente^^.

Pl at ão c el ebra assi m , um a vez m ai s, a reg ul am ent aç ão est rei t a d a


ar te egípcia.
egí pcia. O cale nd ário das art es era estab elec ido em fu nção das
ce leb ra çõ es dos deu ses. O ca rá cte r religioso das ar tes é evidente.
Neste problema estético-ético, "dançar bem", "cantar bem", Platão,
t end o m ed i t ad o ac erc a d as real i d ad es eg íp c i as, esc o l he o p art i d o d o
ri g o r e d a c o nservaç ão , c o nt ra a i no vaç ão e o c harm e que c o nd uzem
facilmente à libertinagem, ao prazer e ao vício. Os métodos educati-
vos egípcios alimentaram a politologia platônica. Trata-se aqui de um
p r o b l e m a i m p o r t a n t e , s u b t e r r â n e o à s   Leis.

4.5. O Egipt
Egiptoo enqu anto d eten tor da m elho r p edago gia
para ensinar as matemáticas às crianças
Isôcrates, em  Busiris,  o br a el ab o rad a p o r vo l t a d e 3 8 5 ant es d a no ssa
era, ensi na-no s que o s jo vens no E g i p t o se o c up am d o "est ud o d o s
astr os, do cálculo e da g e o m e tr ia "" . No enta nto, é Platão, nas   Leis,  o bra
c o m p o st a ent re 370 e 347 ant es d a no ssa era, que m ani fest a m ai o r
i nt eresse p el a p ed ag o g i a eg íp c i a d as m at em át i c as.
O método é primordial para o filósofo. A ignorância, afirma, mesmo
total e profunda, em qualquer matéria que seja, não é nem perigosa,
nem t ão g ra nd em en t e funest a: "B em m ai s l am ent ável , p el o c o nt rá ri o , é