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BASES DA

- -----

GUANABARA~KOOGAN
1
Revisão Técnica

Jorge Mamede de Almeida


Professor (Aposentado) de Histologia e Embriologia do
Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense - UFF.
Ex-Diretor do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense - UFF.
Comenda de Honra ao Mérito do Instituto Biomédico da Universidade Federal Fluminense - UFF.
Comenda do Mérito Laet César. Member of the New York Academy of Sciences.
Professor de Neuro-Histologia do Curso de Pós-Graduação em
Neurofisiologia do Instituto de Medicina e Reabilitação - IBMR.
Ex-Professor de Embriologia da Faculdade de Castelo - FaCastelo.
Ex-Professor de Histologia e Embriologia da Faculdade da Universidade do Grande Rio - UNIGRANRIO.
Ex-Professor de Histologia e Embriologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iguaçu - UNIG.
Ex-Professor de Histologia e Embriologia da Universidade Estácio de Sá

Tradução

Antonio Francisco Dieb Paulo


Médico
Eduardo M. F. De Robertis
É doutor em Medicina e graduou-se com Medalha de Ouro na Faculdade
de Medicina da República Oriental del Uruguay. Além disso, é doutor em
Bioquímica da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos
Aires. Depois de completar seu doutorado na Fundación Campomar,
transferiu-se para Cambridge, Inglaterra, a fim de continuar seu treinamento
com Sir Gurdon em embriologia de anfíbios. Desde 1985, é professor titular
de Bioquímica da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, Los Angeles, onde ocupa
a Norman Sprague Endowed Chair for Molecular Oncology. Em 1994, foi nomeado Investigador
do Howard Hughes Medical Institute. Foi eleito membro da European Molecular Biology (EMBO),
da Organización Iberoamericana de Biología Molecular (IMBO) e é membro correspondente da
Société de Biologie de Paris. Recebeu distinções da Fundación Konex, do College de France
de Paris e de outras entidades. É membro de Conselhos Assessores de numerosas organizações
internacionais. Recentemente, foi eleito membro da American Academy of Arts and Sciences.

José Hib
Graduou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires. É
doutor em Medicina dessa universidade e doutor em Biologia da Universidade
de Salvador. Desde cedo, dedicou-se à docência e se transferiu - como
bolsista da Organização Mundial da Saúde - ao Centro Latino-Americano de
Perinatologia de Montevidéu, dirigido pelo professor Roberto Caldeyro-Barcia.
Nessa instituição, realizou seus primeiros trabalhos de pesquisa, vinculados
à contratilidade dos órgãos do sistema reprodutor masculino e sua regulação farmacológica e
hormonal. Depois, radicou-se em Buenos Aires, onde, como membro do CONICET, continuou
suas investigações, que foram publicadas em mais de 30 revistas estrangeiras, ou proferidas em
congressos nacionais e internacionais da especialidade. Em 1986, foi nomeado professor adjunto
do Departamento de Biologia Celular, Histologia, Embriologia e Genética da Faculdade de Medicina
da Universidade de Buenos Aires e, desde 1996, é professor titular dessa disciplina na Universidad
Abierta Interamericana. Foi membro do Comité Científico del Primer Cortgreso Panamericano de
Andrología e foi premiado pelo Ministerio de Educación de la Nación por seu trabalho Contractilidad
del epidídimo. É autor dos livros Embriología Médica e Histología de Di Piore -Texto y Atlas-;
esse último, da mesma forma que Bases, foi traduzido para o português.
Prólogo

Em primeiro lugar, desejamos expressar nosso reconhecimento pelas numerosas mensagens


recebidas de colegas felizes pelo aparecimento da terceira edição deste Bases, celebrando a pos-
sibilidade de que este texto clássico de biologia celular possa continuar sendo consultado pelos
estudantes. É que, em uma época como a atual , em que importantes descobrimentos sobre a célula
são publicados quase cotidianamente, os livros que descrevem as estruturas e as funções celulares
persistem na consideração dos docentes somente se forem atualizados com certa periodicidade.
Entretanto, antes de somarem informações novas, devem esses dados novos ser selecionados cri-
teriosamente, a fim de que a novidade não prevaleça sobre o essencial e invada o lugar dos conhe-
cimentos .básicos que os estudantes têm que aprender no começo de suas carreiras, já que, com
freqüência, abordam o estudo da célula com poucas noções sobre seu funcionamento. Além disso,
ao longo do livro, temos tratado de orientar o interesse dos estudantes para que compreendam que
o conhecimento das estruturas e funções celulares normai s são os fundamentos da maioria dos.
temas que deverão aprender quando cursarem outras disciplinas.
Todos os capítulos desta quarta edição foram revisados e atualizados, em especial as seções
correspondentes à migração celular, os revestimentos das vesículas transportadoras do sistema de
endomembranas, a incorporação de proteínas à mitocôndria, a transmissão intracelular de sinais, a
passagem de moléculas através do complexo do poro, a importância do RNAxist, as propriedades
dos miRNA (microRNA), a influência do enrolamento da cromatina sobre a atividade do? genes
(código histônico) , o ribossoma, a síntese da cadeia atrasada do DNA, os telômeros, o complexo
sinaptonêmico, a morte celular, a análise da função dos genes com a ajuda de RNA pequenos de
interferência etc.
Do mesmo modo que na edição anterior, procuramos apresentar os temas razoavelmente resu-
midos, apesar de, como dissemos, as publicações derivadas da investigação científica serem cada
dia mais numerosas. No entanto, cuidamos de não fazê-lo à custa da clareza didática, propósito
que se viu enonnemente favorecido pelas ilustrações coloridas com as quais conta esta edição.
Com relação a isso, o leitor observará que, a cada componente da célula, foi atribuída uma cor,
que se manteve em todas as figuras onde o componente aparece. Além disso, as seções em que se
dividem os capítulos foram encabeçadas por códigos simples que se repetem cada vez que se faz
referência a questões vinculadas a seus conteúdos, o que facilitará a busca dos temas e agilizará
as intenções de integrá-los.
Como é natural, o preparo de uma nova edição é uma tarefa complexa que depende do esforço
de muitas pessoas. Entre os colaboradores mais dedicados, destacamos o desenhista gráfico Ale-
jandro F. Demartini, que teve a seu encargo a elaboração das ilustrações, das figuras novas e da
diagramação das páginas. Desejamos ressaltar o incalculável apoio que nos forneceu, não somente
por sua experiência editorial, mas também pelo empenho com que enfrentou os problemas advin-
dos, pois não se deu por satisfeito até que a estética e a informação das figuras chegassem ao nível
que desejávamos.
Merece uma menção especial o Sr. Arnaldo Saita, de quem dependeu a correção do texto ori-
ginal a fim de alcançar - e não duvidamos que o conseguiu - a maior precisão idiomática pos-
sível. Cabe também mencionar a Srta. Marina von der Pahlen e os Srs. Américo Ruocco, Miguel
A. Romero e Roque Quinteros, pela colaboração dada às diferenciadas etapas da preparação do
X • PRÓLOGO

livro. Finalmente, deixamos registrados nossos agradecimentos à Diretora do Editorial da El Ate-


neo, Srª Luz Henríquez, pela anuência para a publicação desta nova edição de Bases, e ao Editor
do Departamento de Medicina, Sr. Enrique Lohnnann, pelo generoso e incondicional apoio desde
a gestão deste projeto.

ÜS AUTORES
Conteúdo

0 CÉLÚLA
Introdução, 1
, Níveis de organização, 1 /
Características gerais das células, 3 J

c"' 2. OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA (o~


Introdução, 17
Água e minerais, 18
Ácidos nucléicos, 18
Carboidratos, 22
Lipídios, 24
Proteínas, 29
Enzimas, 33
~origem das células, 36

. AS MEMBRANAS CELULARES. Permeabilidade das membranas


Atividades das membranas, 39 v
1 Estrutura das membranas celulares, 39
v
Fluidez das membranas, 43 '-.../
Permeabilidade das membranas celulares, 46 '-.../'
\ < membrana plasmática e a parede da célula vegetal, 56

4. O CITOSSOL
Componentes, 59
Chaperonas, 61
Proteassomas, 62

·*~. O CITOESQUELETO. Forma e motilidade ~


Componentes, 65
Filamentos intermediários, 65
Microtúbulos, 68
Centrossoma, 68
Cílios, 73
Corpos basais e centríolos, 75
Filamentos de actina, 77
Motilidade celular, 82
Microvilosidades, 86
Contratilidade muscular, 87
Citoesqueleto da hemácia, 91
xii • CONTEÚDO

.6. A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MATRIZ


EXTRACELULAR '<> Á

Matriz extracelular, 95
Uniões das células com a matriz extracelular, 98
Uniões transitórias entre as células, 98
Uniões estáveis entre as células, 100
As conexões entre as células vegetais, 104

7. O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS. Digestão e secreção ('.)"


Componentes, 107
Retículo endoplasmático, 108
Complexo de Golgi, 109
Funções do retículo endoplasmático e do complexo de Golgi, 111
Secreção celular. Exocitose, 123
Endossamos. Endocitose, 125
Lisossomos. Digestão celular, 129
Vesículas transportadoras, 131
O sistema de endomembranas na célula vegetal, 138

~ 8. AS MITOCÔNDRIAS. Energia celular I


Processos bioenergéticos, 141
Descrição geral e estrutura das mitocôndrias, 146
Funções das mitocôndrias, 149
Mitocôndrias das células de gordura parda, 154
Reprodução das mitocôndrias, 155
DNA mitocondrial, 156
Provável origem das mitocôndrias, 157

9. OS CLOROPLASTOS. Energia celular II


Tipos de plastídios, 159
Estrutura dos cloroplastos, 160
Fotossíntese, 162
Biogênese dos cloroplastos, 166

'lt10. OS PEROXISSOMAS. Desintoxicação celular


Conteúdo dos peroxissomas, 169
Funções, 169
Reprodução, 170
Os peroxissomas nas células vegetais, 171

"til. A COMUNICAÇÃO INTERCELULAR E A TRANSMISSÃO


INTRACELULAR DE SINAIS
Formas de comunicação entre as células, 173
Induções celulares mediadas por receptores citosólicos, 175
Induções celulares mediadas por receptores localizados na membrana plasmática, 177
Receptores de membrana que adquirem atividade enzimática ou que ativam enzimas, 178
Receptores de membrana acoplados a proteínas G, 181

12. O NÚCLEO '~1-\


Descrição geral, 193
Envoltório nuclear (cario teca), 193
Cromossomos, 198
CONTEÚDO • xiii

Eucromatina e heterocromatina, 202


Cariótipo, 203

13. OS GENES
Introdução, 209
Código genético, 21 1
Composição dos genes, 213

14. A TRANSCRIÇÃO DO DNA 01t--

Definição, 217
Transcrição dos genes dos RNA mensageiros, 219
Regulação da atividade de genes que codificam RNA mensageiros, 220
Transcrição do gene do RNA ribossômico 45S , 228
Transcrição do gene do RNA ribossômico 5S, 228
Transcrição dos genes dos RNA de transferência, 229
Transcrição dos genes dos RNA pequenos, 229 ·
Transcrição dos genes do RNAxist, do RNAte e dos miRNA (microRNA), 230
Transcrição dos genes nas células procariontes, 230

15. O PROCESSAMENTO DO RNA º""


Processamento dos RNA mensageiros, 237
Regulação do processamento dos RNA mensageiros, 241

Processamento do RNA ribossômico 45S , 242
Nucléolo, 243
'\(
Processamento do RNA ribossômico 5S , 244
Processamento dos RNA de transferência, 245
Processamento dos RNA pequenos, 245
Processamento do RNAxist, do RNAte e dos miRNA, 246

16. A TRADUÇÃO DO RNAm. Síntese de proteínas t 0~


Descrição geral e código genético, 247
Tipos de RNA de transferência, 249
Aminoacil-RNAt sintetase, 250
Ribossomas, 251
As etapas da síntese protéica, 253
Regulação da tradução dos RNA mensageiros e da degradação das proteínas, 258

17. A REPLICAÇÃO DO DNA. Mutação e reparo e,._,


Replicação do DNA. Descrição geral, 263
Origens de replicação, 264
Replicação contínua e descontínua, 267
, ,:r
Replicação do DNA nos telômeros, 27 1
Funções das topoisomerases, 273
Mutação do DNA, 275
Reparação do DNA, 277
Transposição de seqüências de DNA, 279

, 18. A MITOSE. Controle do ciclo celular


Mitose, 283
Descrição geral da mitose, 284
Fases da mitose, 285
Centrossomas, 287
xiv • CONTEÚDO

Cinetocoros, 288
Fuso mitótico, 289
Citocinese, 291
A mitose nas células vegetais, 291
Controle do ciclo celular, 293
Protooncogenes, oncogenes e genes supressores de tumores, 297

19. A MEIOSE. Fecundação


A meiose e a reprodução sexual, 301
Diferenças entre a mitose e a meiose, 301
Descrição geral da meiose, 302
Fases da meiose, 304
Conseqüências genéticas da meiose, 312
Fecundação, 314
Fases da fecundação, 315
A meiose nas células vegetais e a reprodução das plantas, 320

20. AS BASES DA CITOGENÉTICA


Leis da herança mendeliana, 323
Aberrações cromossômicas, 327
Aberrações cromossômicas na espécie humana, 330
Pápel dos cromossomos na evolução, 333

21. A DIFERENCIAÇÃO CELULAR


Características gerais, 335
Interações nucleocitoplasmáticas, 336
Determinantes citoplasmáticos, 338
Valores posicionais das células embrionárias, 341
Estabelecimento do plano corporal, 341
Fenômenos indutivos, 342
O estabelecimento do plano corporal na Drosophila, 345
Genes responsáveis pela formação do plano corporal, 346

22. A MORTE CELULAR


Definição e características gerais, 349
Apoptose por supressão de fatores tróficos, 350
Apoptose por ativação de receptores específicos, 352
Apoptose devida a mutações no DNA, 353

23. OS MÉTODOS DE ESTUDO EM BIOLOGIA CELULAR


Microscopia óptica, 357
Microscopia eletrônica, 362
Estudo das células vivas, 366
€itoquímica, 367
Imunocitoquímica, 368
Radioautografia, 369
Fracionamento celular e molecular, 370
Análise molecular do DNA e engenharia genética, 373
Análise da função dos genes, 381

ÍNDICE ALFABÉTICO, 385


L
A célula 1

ODU ÇÃO
As cél ulas são as estruturas com as quais os organismos
vivos são construídos
O esrudo do universo biológico mostra-nos que a evolução produziu uma imensa diversidade
= as viventes. Existem cerca de quatro milhões de espécies de animais, vegetais, protozoá-
térias, cujos comportamentos, morfologias e funções diferem entre si. Entretanto, no nível
~ar e celular, estes seres vivos apresentam um plano mestre de organização único. O cam-
. biologia celular e molecular é, precisamente, o estudo desse plano de organização unifica-
em outri,!S palavras, é a análise das moléculas e dos componentes celulares com os quais se
;;rroem todas as formas de vida.
_.\célula é a unidade estrutural e funcional fundamental dos seres vivos, assim como o átomo
"dade fu ndamental das estruturas químicas. Se, por algum meio, a organização celular for
'da, a função da célula também será alterada.
Os e tudos bioquímicos demonstraram que a matéria viva é composta pelos mesmos elemen-
ue constituem o mundo inorgânico, embora com diferenças em sua organização. No mundo
- ado, existe uma tendência contínua para o equilíbrio termodinâmico, no curso do qual são
;::;:;uduzidas transformações eventuais entre a energia e a matéria. Ao contrário, nos organismos
. existe um ordenamento manifestado nas transformações químicas, de modo que as estrutu-
- e as funções biológicas não se alteram.
_·o Cap. 23, são descritos ordenadamente os métodos de estudo que proporcionarão os conhe-
entos essenciais sobre a estrutura íntima das células e permitirão descobrir a organização
lular até um nível molecular.
O pre ente capítulo tem como objetivos principais oferecer uma introdução ao estudo das es-
e das funções da célula e apresentar a nomenclatura dos componentes celulares. Após
ionar os níveis de organização concernentes à biologia, descreveremos a organização estru-
do procariotas e dos eucariotas - os dois tipos principais de organismos vivos - e serão
illlaladas suas semelhanças e diferenças. Também o leitor será introduzido nos processos gerais
- divi ões mitótica e meiótica das células .
..\través da atenta leitura deste capítulo, o leitor obterá uma visão geral da célula, que servirá de
para a aprendizagem do material apresentado no restante do livro. ·

EI S DE ORGANIZAÇÃO
-2. Níveis de organizàção em biologia celular e poder
resolutivo dos instrumentos utilizados
O estudos modernos da matéria viva demonstram que as manifestações vitais do organismo
illltam de uma série de níveis de organização integrados. O conceito dos níveis de organização
~lica que; em todo o universo, tanto no mundo inerte como no mundo dos seres vivos, existem
-erentes níveis de complexidade,. de maneira que as leis ou regras que são cumpridas em um
, ·el podem não se manifestar em outros.
O Quadro 1.1 mostra os limites que separam o estudo dos sistemas biológicos em diferentes
'·ei . Os limites são impostos artificialmente pelo poder de resolução dos· instrumentos utiliza-
- _O olho humano só pode distinguir d.ois pontos separados por mais de 0,1 mm (100 µm). A
·oria das células é muito menor e, para estudá-las, é necessário o poder de resolução do micros-
2 • ACÉLULA

Quadro 1.1 Ramos da morfologia

Dimensão Ramo Estrutura Método

>0,lmm Anatomia Órgãos Olho e lente si mples


100-lO µ,m Histologia Tecidos Vários tipos de microscópios ópticos
10-0,2 µ,m Citologia Células Vários tipos de microscópios ópticos
Bactéri as
200-0,4 nm Morfologia submicroscópica Componentes celulares Microscopia eletrônica
Ultra-estrutura Vírus
< 1 nm Estrutura molecular e atômica Posição dos átomos Difração de raios X
1 mm equi vale a 1.000 µm ; 1 µm, a 1.000 nm.

cópio óptico (0,2 µm). A maior parte das subestruturas celulares é ainda menor e exige a resolu-
ção do microscópio eletrônico (Cap. 23-11). Com este instrumento, podem ser obtidas informa-
ções de subestruturas que medem entre 0,4 e 200 nm, o que amplia o campo de observação até o
mundo das macromoléculas. Os resultados obtidos mediante a aplicação da microscopia eletrôni-
ca transformaram o campo da citologia em um tal grau que grande parte deste livro é dedicada ao
estudo dos conhecimentos obtidos com esta técnica. Por outro lado, os estudos da configuração
molecular das proteínas, dos ácidos nucléicos e de outros complexos molecul ares de grande tama-
nho - incluídos alguns vírus - são realizados por intermédio da análise das amostras por difra-
ção de raios X.
Na Fig. 1.1 , estão indicados os tamanhos das células eucariontes, das bactérias, dos vírus e das
moléculas em escala logarítmica,..e são comparados com os comprimentos de onda das radiações
e com os limites de resolução do olho humano, do microscópio óptico e do microscópio eletrôni-

1 mm

Ondas de rádio

Limite do olho humano - - - - - - + 100 µm

. . . _ - - - - - - Células
Infravermelho

Fig. 1.1 Escala logarítmica das


dimensões microscópicas. Cada Visível
divisão principal representa um ·
tamanho 10 vezes menor que a
Limite do microscópio óptico - - - - . .
precedente. À esquerda, está
indicada a posição dos diferentes
comprimentos de onda do
espectro eletromagnético e os
Ultravioleta
'ºº om]---Vic"'
limites de resolução do olho
humano, do microscópio óptico
e do microscópio eletrônico. À
10 nm
J Proteínas
direita, aparecem as dimensões Raios '! e X 1 nm } - - Aminoácidos
das células, das bactérias, dos
vírus, das moléculas e dos Limite do microscópio eletrônico _,.... 1 - - - - - Átomos
átomos.
ACÉLULA • 3

Quadro 1.2 Relações entre as dimensões lineares e os pesos


Dimensão linear Peso Terminologia

1 cm 1g Bioquímica convencional
1 mm 1mg, 10- 3 g Microquímica
100 µ,m 1 µ,g , 10- 6 g Histoquímica }
1 µ,m 1pg, 10-12 g Citoquímica Ultramicroquímica

co. Vale a pena lembrar que o microscópio óptico permite um aumento de 500 vezes com relação
à resolução do olho humano, e o microscópio eletrônico um aumento 500 vezes maior que o mi-
croscópio óptico.
No Quadro 1.2, encontram-se apresentadas as relações gerais entre as dimensões lineares e os
pesos que são usados na análise química da matéria viva. É essencial nos familiarizarmos com
estas relações para o estudo da biologia molecular da célula. O peso dos componentes celulares é
expresso em picogramas (1 pg = 1 µµg , quer dizer 10- 12 g) e o das moléculas em dálton. Um
dálton (Da) é equivalente ao peso de um átomo de hidrogênio, porém, às vezes, utilizamos o seu
múltiplo, quilodálton (1 kDa = 1.000 Da). Por exemplo, uma molécula de água pesa 18 Da e uma
de hemoglobina, 64,5 kDa.

CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS CÉLULAS


1-3. Existem células procariontes e células eucariontes
No começo do capítulo, dissemos que a vida se manifesta em milhões de espécies diferentes
que possuem comportamentos, formas e funções próprias. As espécies são ordenadas em grupos
de organismos cada vez mais amplôs - gêneros, famílias , ordens - até chegar ao nível dos rei-
nos clássicos: vegetal e animal. Uma das classificações mais üsadas propõe' a divisão em cinco

dro 1.3). ---


reinos: morrera, protista, fungos , vegetal e animal, com suas subdivisões correspondentes (Qua-
~~- .
Este quadro pode ser simplificado se examinarmos as distintas formas viventes em nível celu-
lar. Assim, é possível classificar as células em duas categorias reconhecíveis: procariontes e
eucariontes. No Quadro 1.3, verificamos que apenas os morreras (quer dizer, as bactérias e as
algas azuis) são células procariontes, enquanto todos os demais reinos são integrados por organis-
mos compostos por células eucari9ntes.
• A principal diferença entre ambos os tipos celulares é que as céluh:is prQcariontes não possuem
eUYoltório nuclear. O cromossomo das células procariontes ocupa o espaço, dentro delas, deno-
minado nucleóide e se encontra em contato direto com o resto do protoplilsma. Por outro lado, as
células eucariontes possuem um núcleo verdadeiro com um envoltório nuclear complicado,.atra-
és do qual ocorrem as trocas nucleocitoplasmáticas .. No Quadro 1.4 é estabelecida a comparação
da organização estrutural nos procariotas e nos eucariotas, o que ilustra as diferenças e as seme-
lhanças entre os dois tipos celulares.

Quadro 1.3 Classificação das células e dos organismos


Células Reino Organismos representativos

Procariontes Moneras Bactérias


Algas azuis,
Eucariontes Protistas Protozoários
Cri só fitas
Fungos Mofas
Fungos verdadeiros
Vegetais Algas verdes
Algas vermelhas
Algas pardas .
Briófitas
Traqueófitas
Animais Metazoários
4 • ACÉLULA

Quadro 1.4 Organização celular em procariotas e eucariotas

Procariotas Eucariotas

En voltório nuclear Ausente Presente


DNA Desnudo Combinado com proteínas
Cromossomos Únicos Múltiplos
Nucléolos Ausentes Presentes
Divisão Fissão binária Mitose ou meiose
Ribossomas 70S* (SOS + 30S) SOS (60S + 40S)
Endomembranas Ausentes Presentes
Mitocôndrias Ausentes Presentes
Cloroplastos Ausentes Presentes em células vegetais
Parede celular Não celulósica Celulósica em células vegetais
Exocitose e endocitose Ausentes Presentes
Citoesqueleto Ausente Presente
'''S corresponde à unidade Sveclberg de sed imentação, que depe nde da densidade e da fotma da molécul a.

Do ponto de vista evolutivo, os procariotas são considerados antecessores dos eucariotas. Os


fósseis que datam de três bilhões de anos manifestam-se unicamente como procariotas, tanto que
~ os eucariotas provavelmente só aparecerão depois de bilhões de anos . Apesar das diferenças entre
os procariotas e os eucariotas, existem grandes semelhanças em sua organização molecular e em
suas funções. Por exemplo, ambos os tipos de organismos utilizam o mesmo código genético e
um maquinário similar para sintetizar proteínas.

1tf' 1- 4. Existem organismos autótrofos e organismos heterótrofos


O sol constitui a fonte original de energia para os organismos vivos. A energia incluída nos
fóton s é captada pelo pigmento chamado cloi;ofila - que se encontra nos cloroplastos dos vege-
tais verdes - e se acumula sob a forma de energia química nos diferentes alimentos consumidos
por outros organismos. -
As células e os organismos pluricelulares (ou multicelulares) podem se agrupar em duas clas-
ses principais segundo o mecanismo que utilizam para extrair energia para seu próprio metabolis-
mo. Os que pertencem à primeira classe - denominados autótrofos (p. ex., os vegetais verdes)
- utilizam o processo de fotossíntese para transformar C0 2 e H2 0 em carboidratos simples, a
partir dos quais podem produzir moléculas mais complexas. Os pertencentes à segunda classe-:-
chamados heterótrofos (p. ex. , os animais) - obtêm energia dos carboidratos, das gorduras e das
proteínas sintetizados pelos organismos autótrofos . A energia contida nessas moléculas orgânicas
_ é liberada mediante a combustão de 0 2 atmosférico (quer dizer, por oxidação), por um processo
denominado respiração aeróbica. A liberação, pelos organismos heterótrofos , de H20 e C0 2 , ge-
rados por esse processo, completa o ciclo energético (Fig. 1.2).
Estes ciclos energéticos mantiveram-se relacionados entre si ao longo da evolução. Entre os
procariotas existem algumas espécies autótrofas e outras heterótrofas. Os vegetais (com exceções)
são autótrofos, enquanto os animais e os fungos são heterótrofos.

Glicose

- Fótons

1t
Células Células
fotossintéticas heterótrofas

Fig. 1.2 Esquema do ciclo de


energia entre as células
autótrofas (fotossintéticas) e
heterótrofas.
A CÉLULA • 5

1- 5. Organização geral das células procariontes


Bactérias. Embora este livro seja dedicado às células eucariontes dos organismos mais com-
plexos, grande parte do conhecimento sobre biologia celular provém de estudos realizados em vírus
e bactérias. Uma célula bacteriana como a da Escherichia coli apresenta a vantagem do cultivo
fácil a 37º C em soluções aquosas de íons inorgânicos, glicose, aminoácidos e nucleotídeos, onde
duplica sua massa e se divide em aproximadamente 20 minutos. Devemos assinalar que a Esche-
richia coli pertence à classe de bactérias que não se coram pelo método de coloração desenvolvi-
do pelo microbiólogo H.C. Gram e, por isso, são conhecidas como bactérias Gram-negativas.
Tanto a eletromicrografia quanto o esquema na Fig. 1.3 mostram que a membrana plasmática
dessas bactérias é circundada por uma parede celular que serve de proteção mecânica, é rígida e
consiste em duas camadas: uma interna de peptidoglicana e outra conhecida como membrana
extern~. Note-se que ambas são separadas pelo espaço periplasmático. A peptidoglicana é uma
macromolécula contínua composta por carboidratos incomuns unidos por peptídeos curtos. Por
outro lado, a membrana externa é uma dupla camada de lipoproteínas e lipopolissacarídeos com
estrutura similar à membrana plasmática. Um de seus complexos protéicos presentes na membra-
na externa recebe o nome de porina, por form ar um canal transmembrana que permite a difusão
livre de solutos.
A membrana plasmática* é uma estrutura lipoprotéica que serve de ban-eira para os elementos
presentes no meio circundante. Esta membrana, ao controlar a entrada e saída dos solutos, contribui
para o estabelecimento de um meio perfeitamente regulado no protoplasma da bactéria. Vale a pena
assinalar agora que nos procariotas os complexos protéicos da cadeia respiratória (Cap. 8-1 1) e os
fotossistemas utilizados na fotossíntese (Cap. 9-8) estão localizados na membrana plasmática.
No protoplasma encontram-se partículas de 25 nm de diâmetro, denominadas ribossomas,
compostas de ácido ribonucléico (RNA) e proteínas; estas contêm uma subunidade grande e outra
pequena. Os ribosSümas estão agrupados em polirribossomas e neles tem lugar a síntese protéica.
Ademais: o protoplasma contém água, íons, outros tipos de RNA, proteínas estruturais e enzimá-
ticas, diversas moléculas pequenas, entre outras estruturas.
O cromossomo bacteriano é uma molécula circular única de DNA desnudo, bem pregueado
dentro do nucleóide, que, visto à microscopia eletrônica, é observado como a região mais clara do
protoplasma (F.ig. 1.3). É impmtante lembrar que o DNA da Escherichia coli, que possui um com-

Fig. 1.3 A. Eletromicrografia de


uma Escherichia coli que
mostra, por fora da membrana
plasmática, o espaço
periplasmático e a membrana
Membrana plasmática
extern a da parede celular. O
nucleóide aparece como um a
região irregular de pouca
densidade eletrôni ca. O restante
do protopl asma está ocupado por
ribossomas . (Cortesia de B.
Menge, M. Wurtz e E.
Kellenberger.) B. Esquema da
parede celular de uma bactéria
Oram -negativa. Observe a
peptidoglicana e a membrana
externa, cuja dupla camada
lipídica é atravessada por
porinas. No lado inferior da
figura, vê-se uma parte da
membrana plasmática.

*N.R.T.: Também chamada plasmalema ou mem brana celular.


6 • ACÉLULA

primento de aproximadamente 106 nm (1 mm), contém informação genética para codificar entre
2.000 e 3.000 proteínas diferentes .
O cromossomo dos procariotas está unido à membrana plasmática. Acredita-se que esta fixa-
ção contribua para a separação dos cromossomos-filhos depois da replicação do DNA. Esta sepa-
ração ocorreria com o aumento da membrana plasmática interposta entre ambos os cromossomos.
Além do cromossomo, algumas bactérias contêm um DNA pequeno - também circular -
denominado plasmídio. O plasmídio pode conferir à célula bacteriana resistência a um ou a vári-
os antibióticos. Com o uso de técnicas de engenharia genética (Cap. 23 -34) é possível isolar os
plasmídios, inserir-lhes fragmentos específicos de DNA (genes) e, em seguida, transplantá-los a
outras bactérias.
Micoplasmas. A maioria das células procariontes é pequena (mede entre 1 e 10 µm), porém
algumas podem alcançar um diâmetro de até 60 µm. Entre os organismos vivos que possuem a
massa menor, os que melhor se adaptam para o seu estudo são as pequenas bactérias chamadas
micoplasmas, que produzem doenças infecciosas em diferentes animais e no homem e podem ser
cultivadas in vitro como qualquer outra bactéria. Estes agentes têm o diâmetro de 0,1 a 0,25 µm,
como o de alguns vírus grandes. Sua importância biológica baseia-se no fato de possuírem uma
massa mil vezes menor que o tamanho médio de uma bactéria e um milhão de vezes menor do que
o de uma célula eucarionte.
Vírus. Os vírus foram reconhecidos por sua propriedade de atravessar os poros de um filtro de
porcelana (daí sua denominação original de vírus filtráveis) e pelas alterações patológicas que
produzem nas células. O tamanho dos vírus varia entre 30 e 300 nm e sua estrutura mostra dife-
rentes graus de complexidade. Muitos apresentam simetria icosaédrica (Fig. 1.4), que deriva do
modo como se combinam entre si certas unidades protéicas chamadas capsômeros, que formam
o envoltório do vírus ou capsídeo.
Os vírus não são considerados células verdadeiras. Embora participem de algumas proprieda-
des celulares - como a auto-reprodução, a herança e a mutação gênica - , dependem de células
hospedeiras (procariontes ou eucariontes) para manifestá-las. Fora da célula hospedeira, os vírus
são metabolicamente inertes e até podem se cristalizar; ativam-se (quer dizer, se reproduzem)
quando ingressam em uma célula.
De acordo com o tipo de ácido nucléico que os vírus contêm, existem dois tipos de vírus: 1) os
que possuem uma molécula de RNA como cromossomo (p. ex., o vírus da AIDS); e 2) os que têm
uma molécula de DNA (p. ex. , os vírus bacterianos ou bacteriófagos).
Os vírus replicam seus genes para se reproduzirem. Também eles os transcrevem (em RNA
mensageiros), porém dependem do maquinário biossintético da célula hospedeira (quer dizer, ri-
bossomas, RNA de transferência, enzimas, aminoácidos etc.) para sintetizar suas proteínas (p. ex .,
os capsômeros).
Os vírus são produzidos por um processo de agregação macromolecular, o que significa que
seus componentes são sintetizados separadamente em diferentes lugares da célula hospedeira e,
em seguida, reunidos de maneira coordenada em outra parte dela.
Os bacteriófagos são vírus que usam como hospedeiros as células bacterianas. O DNA encon-
tra-se na cabeça do bacteriófago e é injetado na bactéria por meio de uma cauda que se adere à
parede da célula hospedeira e atua como uma seringa. Os processos posteriores na bactéria são
muito rápidos e começam com a hidrólise enzimática de seu DNA. Os nucleotídeos resultantes
são utilizados para sintetizar o DNA de novos bacteriófagos. A partir deste DNA são sintetizados

Fig. 1.4 Eletromicrografia de


vírus corados negativamente.
O desenho do detalhe mostra a
estrutura icosaédrica do vírus e
as pentanas (em preto) e hexanas
dos capsômeros.
A CÉLULA • 7

- Fig. 1.5 Escherichia coli


infectada por um bacteriófago
(compare com a Fig. 1.3 de
controle). Observam-se alguns
resíduos do bacteriófago
aderidos à parede celular (setas)
depois da entrada do DNA. O
nucleóide não pode ser visto e a
célul a aparece repleta de vírus.
(Cortesia de B. Menge, M.
Wurtz e E. Kellenberger.)

os RNA mensageiros e as proteínas estruturais dos vírus. Finalmente, todos estes componentes
são reunidos e os bacteriófagos maduros são arrumados dentro da bactéria infectada. Como se vê
na Fig. 1.5 , depois de ter sido infectada por um bacteriófago, a Escherichia coli aparece repleta de
vírus e pronta para se romper e, assim, deixar os novos bacteriófagos em liberdade.
Quando se trata de vírus que infectam células eucariontes, o p rocesso é mais complexo. Assim,
o DNA ou o RNA do vírus se replica no núcleo da célula hospedeira e as proteínas virais são sin-
tetizatlas nos ribossomas citoplasmáticos. Em seguida, os novos componentes virais combinam-
se entre si no interior da célula.
Para concluir o estudo dos vírus, nós os comparamos com as células verdadeiras. Estas possu-
em: 1) um programa genético específi co que permite a formação de novas células similares às
predecessoras;,. 2) uma membrana plasmática que regula as trocas entre o interior e o exterior da \O
célula; 3) umá estrutura que retém a energia dos alimentos, e 4) um maquinário que sintetiza pro-
teínas. Como vimos, os vírus possuem ap en ~s a primeira destas fac uldades e são desprovidos das
demais. Por este motivo, não são considerados como células verdadeiras, apesar de conterem os
padrões genéticos para codificar suas proteínas e se reproduzir. _)

1-6. Organização geral das células eucariontes


Uma vez estudada a organização das células procariontes, é conveniente voltar a observar o
Quadro 1.4, onde estão resumidas as principais diferenças com as células eucariontes. Se compa-
l
rarmos a organização da Escherichia coli (Fig. 1.3) com a de uma célula vegetal (Fig. 1.6) ou de
uma célula animal (Fig. 1.7), a complexidade destas últimas chama a nossa atenção.
Na célula eucarionte em interfase, o núcleo constitui um compai1imento separado, limitado \ (J
pelo envoltório nuclear. Outro compartimento é representádo pelo citoplasma, que se encontra )'.1
circundado pela membrana plasmática que, às vezes, mostra diferenciações . Por sua vez, cada
um destes três componentes principais contém vários subcomponentes ou subcompartimentos.
Podemos utilizar o Quadro 1.5 como um guia que resume esta organização complexa, já que nele,.
estão enumeradas as funções mais importantes de cada componente. __,,

1- 7. Existe uma grande diversidade morfológica entre as células eucariontes


As células de um organismo multicelular têm formas e estruturas variáveis e se diferenciam de
acordo com suas funções específicas nos diferentes tecidos. Esta especialização funcional faz com
que as células adquiram características singulares, mesmo quando em todas elas persiste um mo-
delo de organização comum (Fig. 1.8).
Alguns tipos celulares, como os leucócitos, mudam de forma constantemente. Outros, como as l
células nervosas e a maioria das células vegetais, possuem uma conformação bastante estável. A 1 í)
forma de uma célula depende de suas adaptações funcionai s, do citoesqueleto presente em seu b
cit_oplasma, da ação mecânica exercida pel as células adjacentes e da rigidez da- membrana pias- J
mat1ca.
O tamanho das células oscila dentro de limites amplos. Embora algumas possam ser observa-
das a olho nu, a maioria das células é visível unicamente ao microscópio, posto que têm apenas
poucos micrômetros de diâmetro (Fig. 1.1).
8 • ACÉLULA

Fig. 1.6 Esquema da ultra-


estrutura de uma célula vegetal
idealizada, com seus principais
componentes.

Membrana plasmática Cloroplasta

Retículo
endoplasmático
rugoso

- Plasmodesma

l
~ . O volume da célula é bastante constante nos diferentes tipos celulares e é independente do ta-
\manho do organismo. Por exemplo, as células do rim e do fígado têm quase o mesmo tamanho no
elefante e no rato. Assim, a massa de um órgão depende do número e não do volume das células.

1- 8. A membrana plasmática separa o conteúdo da célula do meio externo


) A estrutura que separa o conteúdo da célula do meio externo é a membrana plasmática. Tra-
i ta-se de uma película delgada de 6 a 10 nm de espessura, composta de uma dupla camada lipídica
"contínua e proteínas intercaladas ou aderidas a sua superfície.
A membrana plasmática só pode ser visualizada ao microscópio eletrônico, que revela suas
numerosas diferenciações e os diferentes tipos de estruturas que unem as células entre si ou que as
conectam com certos componentes da matriz extracelular (Fig. 1.7).
A membrana plasmática controla de maneira seletiva a passagem de solutos. Além disso, pro-
\ move a entrada e saída de macromoléculas por meio dos processos chamados endocitose e exoci-
;.. tose, respectivamente (Quadro 1.5). Nas células animais, a membrana plasmática pode contar com
uma quantidade abundante de carboidratos (Fig. 3.14), enquanto nas células vegetais sua superfí-
' cie é coberta por um segundo envoltório de espessura relativamente estável, denominada parede
,~elular (Fig. 1.6). ·

1- 9. O citoplasma contém uma matriz denominada citosol


O compartimento citoplasmático apresenta uma organização estrutural muito complexa, já que
seu estudo à microscopia eletrônica revela um assombroso conteúdo de membranas.
ACÉLULA • 9

Fig. 1. 7 ~~Uel11Il geral da


ultra-estrutura de uma célula
animal idealizada, com seus
principais comp_onemes.

Vesícula
pmocít1ca ~

Membrana
plasmática

Nucléolo

Núcleo

Quadro 1.5 Organização geral da célula eucarionte

r Principais componentes Subcomponentes Função principal

Membrana celular Parede celular Proteção


Cobertura celular Interações celulares
Membrana plasmática Permeabilidade, exocitose e
endocitose
Núcleo Cromossomos Informação genética
Nucléolo Síntese de ribossomas
Citosol Enzimas solúveis Glicólise
Ribossomas Síntese protéica
Citoesqueleto Filamentos intermediários Forma e mobilidade da célula
Microtúbulos e centrossomo
Filamentos de actina
Estruturas microtubulares Corpúsculos basais e cílios Mobilidade ciliar
Centríolos
Organelas do sistema de Retículo endoplasmático Síntese e processamento de lipídios
endomembranas Complexo de Golgi e glicídios
i Endossomos e lisossomos Digestão
Outras organelas \M itocôndrias Síntese de ATP
Cloroplastos Fotossíntese
Peroxissomas Desintoxicação
10 • ACÉLULA

Fig. 1.8 Alguns dos tipos


celulares encontrados nos

'•
tecidos animais. Observam-se
as diferenças de formas e Célula
tamanhos. epitelial Célula
mucosa epitelial
ciliada

Célula
mucosa

• • Células
do
sangue
Oócito

Célula
Músculo do tecido
Célula nervosa do cerebelo liso conjuntivo . Célula adiposa

Este sistema de endomembranas ocupa grande parte do citoplasma - que é dividido em nu-
merosas seções e subseções - e é tão polimorfo que acaba se tornando extremamente difícil de-
Í fini-lo e descobri-lo. No entanto, em geral , considera-se que o citoplasma se divide em dois gran-

l des compartimentos: um contido dentro do sistema de endomembranas e outro - o citosol ou


matriz citoplasmática - que fica fora. Muitos componentes importantes do citoplasma estão no
citosol, quer dizer, por fora do sistema de endomembranas.
Í O citosol constitui o verdadeiro meio interno da célula. Contém os ribossomas e os filamentos
·ido citoesqueleto - nos quais tem lugar a síntese protéica - e diversas classes de moléculas vin-
Lculadas a numerosíssimas atividades metabólicas.

1-1 O. O citoesqueleto é composto por três tipos de filamentos principais


Trê ~ tipos de filamentos principais o s de actina, os intermediários c os microtúbulos - e
vários tipos de proteínas acessórias compõem uma espécie de citoesqueleto distribuído por todo
o citosol. O citoesqueleto é responsável pela forma da célula e intervém em outras funções impor-
tantes.
Os filamentos de actina medem 8 nm de diâmetro (Fig. 1.9). Entre suas funções mais destaca-
das está a de conferir motilidade às células.
Os filamentos intermediários, de 10 nm de diâmetro, são formados por proteínas fibrosas e
têm principalmente um papel mecânico.
Os microtúbulos são estruturas tubulares rígidas de cerca de 25 nm de diâmetro (Fig. 1.9).
Nascem de uma estrutura chamada centrossomo, na qual encontram-se os centríolos. Juntamente
com os filamentos de actina têm sob sua responsabilidade o deslocamento das organelas pelo ci-
toplasma. Além disso, os microtúbulos compõem as fibras do fuso mitótico durante a divisão ce-
lular.
Os centríolos são estruturas cilíndricas que medem aproximadamente 0,2 µm pm 0,4 µm e
suas paredes são formadas por microtúbulos. Em geral , são duplos e suas duas unidades estão
dispostas perpendicularmente. Embora sejam encontrados nos centrossomos, não intervêm na
formação dos microtúbulos (as células vegetais não contam com centríolos e os microtúbulos são
igualmente formados). Durante a mitose, os centríolos migram para os pólos da célula.

\._,rr 1-11. O sistema de endomembranas engloba o complex9 de Golgi, o retículo


endoplasmático, os endossamos e os lisossomos
A Fig. 1.7 ilustra a continuidade e as interconexões funcionais dos diferentes componentes do
sistema de endomembranas no citoplasma. .
O retículo endoplasmático constitui a parte mais extensa do sistema de endomembranas (Figs.
l.7'e 1.10). É composto por sacos achatados e túbulos. A superfície externa do retículo endoplas-
ACÉLULA • 11

Fig. 1.9 Eletromicrografia de


uma célula cultivada. Observam-
se dois feixes de filamentos de
actina (Ac) , um grande número
de microtúbulos (Mi) e vesículas
repletas de material (Ve).
(Cortesia de K. R. Porter.)

mático rugoso encontra-se coberta de ribossomas, que sintetizam as proteínas destinadas ao siste-
ma de endomembranas e à membrana plasmática. O retículo en1oplasmático liso continua-se com
o rugoso e intervém na síntese de diversas moléculas. D.Q retículo endoplasmáti co , deID!.a=.Se o
envoltório nuclear, comgosto or duas membranas concêntricas. Estas se unem entre si ao nível
os poros nucleares, que são orifícios que permitem a passagem de moléculas entre o núcleo e o
citosol. A membrana nuclear interna encontra-se em contato com os cromossomos, enquanto a
externa pode estar coberta por ribossomas.
O complexo de Golgi é formado por pilhas de sacos achatados, túbulos e vesículas (Figs. 1.7 e
1.10). Neles são processadas as moléculas provenientes do retículo endoplasmático, que em seguida
são incorporadas aos endossomos ou são liberadas (segregadas) para fora da célula por exocitose.
Os endossomos'são organelas destinadas a receber enzimas hidrolíticas provenientes do com-
plexo de Golgi assim como o material que entra na célula por endocitose. Quando ambos os con-
teúdos são somados convertem-se em li sossomos.
Os lisossomos são organelas polimorfas (Figs. 1.7 e 1.11). Contêm as enzimas hidrolíticas res-
ponsáveis peia digestão das substâncias incorporadas na célula por endocitose. Também degra-
dam as organelas envelhecidas (autofagia).

1-12. As mitocôndrias e os plastídios são organelas fundamentais para o


funcionamento celular
As mitocôndrias são encontradas praticamente em todas as células eucariontes. São estruturas
cilíndricas de cerca de 3 µm de comprimento por 0,5 µm de diâmetro que possuem duas membra-
' nas . A membrana mitocondrial externa encontra-se separada da membrana interna pelo espaço
intermembranoso. A membrana interna circunda a matriz mitocondrial e é pregueada. Estas pre-
gas dão lugar às chamadas cristas mitocondriais, que invadem a matriz (Figs. 1.7 e 1.11). Amem-
brana interna e a matriz mitocondrial contêm numerosas enzimas que intervêm na extração da
energia dos alimentos e em sua transferência ao ATP.
As células vegetais possuem organelas denominadas plastídios, que estão ausentes nas células
animais. Alguns, como os leucoplastos, são incolores e participam do armazenamento do amido .~
Outros contêm pigmentos e são denominados cromoplastos; entre os mais importantes estão os
cloroplastos, com um pigmento verde chamado clorofila (Fig. 1.6). O cloroplasto possui duas
membranas, um estroma e um compartimento singular formado por sacos achatados denomina-
dos tilacóides. Nos cloroplastos, tem lugar a fotossíntese , que é o processo pelo qual as plantas
captam energia da luz e, com o affürfe de H 20 e C0 2 , sintetizam diversos compostos orgânicos
que aproveitam como alimento e cilleServem para alimentar os organismos heterótrofos.
Tanto as mitocôndrias quanto os cloroplastos contêm cromossomos circulares pequenos , cujos
genes formam RNAt, ribossomas e alguns poucos RNAm necessários para elaborar algumas pro-
\teínas pertencentes às próprias organelas. ·
12 • A CÉLULA

1-13. Os peroxissomas têm funções desintoxicantes


Os peroxissomas são envoltos pol' uma única membrana. Contêm enzimas vinculadas à de-
gradação do peróxido de hidrogênio (H 2 0 2 ) e uma de suas funções é proteger a célula.

1-14. A presença do núcleo caracteriza a célula eucarionte


Salvo exceções, todas as células eucariontes possuem núcleo. Em geral, as formas do núcleo e
da célula estão relacionadas. Por exemplo, nas células esféricas, cúbicas e poliédricas, o núcleo
deve ser esférico, enquanto nas cilíndricas e fusiformes, ele deve ser elipsóide.
Nas diferentes células somáticas, os núcleos têm tamanhos específicos, que dependem das pro-
teínas neles contidas. Esses tamanhos variam discretamente com a atividade nuclear. Em geral,
existe uma proporção ideal entre o volume do núcleo e o volume do citoplasma; esta proporção é
conhecida como relação nucleocitoplasmática.
Quase todas as células são mononucleadas, porém existem algumas binucleadas (p. ex., as células
hepáticas e as células cartilaginosas) e outras polinucleadas. Nos plasmódios e nos sincícios -
que constituem grandes massas citoplasmáticas não divididas em territórios celulai·es independentes
- os núcleos podem ser extraordinariamente numerosos. Assim é o caso da célula muscular es-
triada e do sinciciotrofoblasto placentário que podem conter várias centenas de núcleos.
O crescimento e o desenvolvimento dos organismos vivos dependem do crescimento e da
multiplicação de suas células. Nos organismos unicelulai·es, a divisão celular implica sua repro-
dução; por este processo, a partir de uma célula se originam duas células-filhas independentes. Ao
contrário, os organismos multicelulares derivam-se de uma única célula - o zigoto-, e a mul-
tiplicação repetida desta e de suas descendentes determina o desenvolvimento e o crescimento
corporal do indivíduo.
A célula cresce e duplica todas as suas moléculas e estruturas antes que ocorra sua divisão.
Este processo se repete novamente nas duas células-filhas, de modo que o volume total das célu-
las descendentes é quatro vezes maior que o da célula original, e assim sucessivamente.
As células passam por dois períodos no curso de suas vidas: um de interfase (sem divisão) e
outro de divisão (no qual são produzidas duas células-filhas). Este ciclo se repete epi. cada gera-
ção celular, porém 9 tempo varia consideravelmente de um tipo celular para outro. l'A. função es-
sencial do núcleo é proporcionar à célula informações genéticas armazenadas no DNA.~
As moléculas de DNA duplicam-se durante um período especial da interfase denominado fase
S (de síntese de DNA), em preparação para a divisão celular (Fig. 18.2).
Durante a interfase, a informação contida nos genes é transcrita em diferentes classes de molé-
culas de RNA (mensageiro, ribossômico e de transferência), que, depois de passarem para o cito-
plasma, traduzem-essa informação e sintetizam.proteínas específicas.
No núcleo interfásico humano são reconhecidas as seguintes estruturas (Fig. 1.7): 1) o envol-
tório nuclear ou carioteca, composto por duas membranas perfuradas por orifícios chamados
poros nucleares; 2) a matriz nuclear ou nucleoplasma, que ocupa grande parte do espaço nucle-
ar; 3) o nucléolo, que é maior nas células com síntese protéica muito ativa, e geralmente esférico,
pode ser único ou múltiplo e nele são sintetizados os RNA ribossômicos, que se associam a nume-
rosas proteínas para formar os ribossomas; 4) 46 cromossomos ou fibras de cromatina, compos-
tos de DNA e de proteínas básicas chamadas histonas.
O DNA e as histonas form am estruturas gra~ulares em cerca de 10 nm de diâmetro - conhe-
cidas como nucleossomas - , que se alternam com segmentos de DNA livres de histonas. A cro-
matina assim disposta é a mais delgada (Fig. 12.10) e é capaz de se enrolar sobre si mesma em
graus distintos. Na iqterfase, podem-se observar regiões de eucromatina, onde as fibras se en-
contram menos enroladas, e regiões de heterocromatina, que representam as partes da cromatina
mais condensadas. Durante a divisão celular, as fibras de cromatina enrolam-se ao máximo, de
modo que elas podem ser observadas ao microscópio óptico sob a forma de cromossomos (do grego
chrõma , cor, e sôma , corpo) (Fig. 12.14).

1-15. Os núcleos das células somáticas contêm dois jogos de cromossomos


homólogos
Os organismos pluricelulares que se reproduzem sexualmente desenvolvem-se a partir de uma
única célula - o zigoto ou célula-ovo-, que resulta da união de um ovócito* com um esperma-
tozóide durante a fecundação.

''N.R.T.: Os especiali stas em reprodução preferem empregar o termo oócito.


A CÉLULA • 13

Fig. 1.10 Eletromicrografia de


um plasmócito. Próximo do
núcleo (N) observa-se o
complexo de Golgi (G),
constituído por pequenas
cisternas achatadas e vesículas .
Algumas vesículas encontram-se
repletas de material (setas). Em
tomo do complexo de Golgi ,
existe um abundante retículo
endoplasmático rugoso (RER)
com cisternas cheias de material
amorfo (setas) . Ri, ribossomas;
M, mitocôndrias; EN, envoltório
nuclear. 48 .000 X; detalhe,
100.000 X. (De E. D. De
Robertis e A. Pellegrino de
Iraldi.)

As células somáticas descendentes do zigoto contêm dois jogos idênticos de cromossomos. Em


outras palavras, os cromossomos apresentam-se em pares. Um cromossomo de cada par é forne-
cido pelo ovócito e o outro pelo espermatozóide.
Os dois membros de cada par de cromossomos são denominados homólogos, e para indicar o
número de cromossomos de uma espécie fazemos referência aos pares de cromossomos ou aos
pares de homólogos. Por exemplo, o ser humano possui 23 pares de cromossomos, totalizando 46.
Os homólogos de cada par são praticamente idênticos, porém os pares de homólogos distintos são
diferentes entre si.
Para nos referirmos à presença dos dois jogos de cromossomos homólogos , utilizamos a ex-
pressão diplóide (2n). Nas células somáticas, ambos os jogos de cromossomos são conservados
durante as sucessivas divisões celulares ao longo do desenvolvimento embrionário, do crescimento
corporal e da manutenção dos tecidos na vida pós-natal.
14 • ACÉLULA

Fig. 1.11 Região periférica de


uma célula hepática na qual,
entre outros componentes,
observam-se lisossomos (L), o
núcleo (N), um canalículo biliar
(CB), mitocôndrias (M), o
retículo endoplasmático (RE) e
inclusões de glicogênio (G/).
31.000 X. (Cortesia de K. R.
Porter.)

1-16. A mitose mantém a continuidade e o número diplóide dos


cromossomos
A estabilidade do número de cromossomos é mantida por meio de um tipo especial de divisão
celular, denominada mitose. Nela são gerados núcleos-filhos com o mesmo número de cromos-
somos; por conseguinte, quanto a sua constituição cromossômica, as células-filhas são idênticas
entre si e a suas antecessoras.
A mitose compreende uma série consecutiva de fases conhecidas como prófase, prometáfa-
se, metáfase, anáfase e telófase.
Na mitose, o núcleo sofre uma série de alterações complexas. Entre as alterações mais chama-
tivas estão o desaparecimento do envoltório nuclear e uma maior condensação das fibras de cro-
matina, que se convertem em cromossomos detectáveis.
ACÉLULA • 15

Vimos que no núcleo interfásico, os cromossomos não podem ser individualizados, porque nesta
etapa do ciclo celul ar, as fi bras de cromatina estão mais desenroladas.
Na Fig. 1.1 2, estão representados dois dos 46 pares de cromossomos homólogos presentes
normalmente nas células somáti cas humanas. Como vimos, os cromossomos duplicam-se duran-
te a fase S da interfase. No inicio da prófase, cada cromossomo - composto por duas fibras de
cromatina - aparece como um filamento muito delgado. Ao final da prófase, converte-se em um
bastão curto e compacto, uma vez que se enrola em suas duas fibras de cromatina, que passam a
ser denominadas cromátides. Passada a metáfase, no transcurso da anáfase, ambas as cromátides
se separam e cada cromátide-filha - quer di zer, cada cromossomo-filho - dirige-se a um dos
pólos da célul a. Finalmente, na telófase, form am-se núcleos um para cada célula a partir dos dois
conjuntos de cromossomos separados . A divisão celular é concluída com a partição do citoplas-
ma, conhecida como citocinese.
Desta maneira, as mitoses mantêm o número diplóide de cromossomos (2n) nas células somá-
ticas ao longo de toda a vida do indivíduo.

MITOSE MEI OSE

lnterfase
lnterfase

Prófase
Prótase (long a e
(cu rta) complexa)

Metáfase
Metáfase 1

Anáfase Anáfase 1

Telófase Telófase 1

\ J

1n

1n
/r
1n 1n
Telófase li

Fig. 1.12 Esquemas comparativos da mitose e meiose de'uma célula diplóide (2n) com quatro
cromossomos. Os cromossomos precedentes a cada progenitor são representados em azul e em vermelho,
respectivamente. Na mitose, a divisão é equacional, enq uanto na meiose é reducional. As duas di visões da
meiose dão lugar a quatro células hapl óides (1 n) que têm apenas dois cromossomos. Além disso, durante a
meiose, existe um intercâmbio de segmentos entre os cromossomos.
16 • A CÉLULA

1-17. A meiose reduz os cromossomos a um número haplóide


Se os gametas (oócito II e espermatozóide) forem diplóides, o zigoto resulta com o dobro do
número diplóide de cromossomos. Para evitar isto, as células sex uais predecessoras dos gametas
sofrem um tipo especial de divisão celular denominado meiose, no qual o número diplóide é redu-
zido a um jogo único ou haplóide ( 1n) em cada gameta formado. O zigoto resultante será assim
novamente diplóide.
A divi são meiótica ocorre nos animais (Cap. 19-1) e nos vegetais (Cap. 19-20) que se reprodu-
zem sexualmente e têm lugar no curso da gametogênese (Fig. 1.12). A meiose reduz o número de
cromossomos mediante duas div isões nucleares sucessivas - a primeira e a segunda divisão
meiótica - , uma vez que são acompanhadas por uma única duplicação cromossômica.
Em essência, o processo é o seguinte: na prófase da primeira divisão, os cromossomos homó-
logos se pareiam. Tendo em vista que cada cromossomo é composto de duas cromátides, formam
um bivalente composto por quatro cromátides (por isso é chamado também de tétrade). Além dis-
so, as partes das cromátides pareadas podem se intercambiar de um homólogo para outro. Este
fenômeno recebe o nome de recombinação genética (em inglês, crossing -over).
Na metáfase da mesma divisão, os bivalentes (ou tétrades) dispõem-se no plano equatorial da
célula.
Na anáfase, cada cromossomo homólogo - com suas duas cromátides - dirige-se para um
dos pólos opostos.
Depois de um curto período de interfase, já na anáfase da segunda divisão meiótica, as duas
cromátides de cada homólogo separam-se, de modo que cada cromátide fica localizada em um
dos quatro gametas resultantes. Conseqüentemente, nos gametas, o núcleo contém um número
simples (ou haplóide) de cromossomos (Fig. 1.12).

BIBLIO~RAFIA
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NewYork.
Os componentes
químicos da célula 2

INTRODUÇAO
2-1. Os componentes químicos da célula são classificados
em inorgânicos e orgânicos
A estrutura da célula é a conseqüência de uma combinação de molécul as organizadas em uma
ordem muito precisa. Mesmo havendo ainda muito por aprender, j,á se conhecem os princípios
gerais da organização molecular da maioria das estruturas celulares, como os cromossomos, as
memlnanas , os ribossomas, as mitocôndrias, os cloroplastos etc. A biologia celular é inseparável
da biologia molecular; da mesma fo1ma que as células são os tijolos com os quais se edificam os
tecidos e os organismos, as moléculas são os tijolos com os quais se constroem as células.
No início, o estudo da composição química da célula foi feito mediante a análise bioquímica de
órgãos e tecidos inteiros, como o fígado , o cérebro, a pele ou o meristema vegetal. Estes estudos só
possuem um valor citológico relativo, porque o material analisado geralmente é composto por uma
mescla de diferentes tipos celulares e contém material extracelular. Nos últimos anos, o desenvolvi-
mento .de diversos métodos de fracionamento celular (Caps. 23 -28 a 23-32) permitiu isolar os ele-
mentos subcelulares e recolher informações mais precisas sobre a estrutura molecular da célula. ~
Os componentes químicos da célula são classificados em inorgânicos (água e minerais) e orgâ-,
nicos (ácidos nucléicos, carboidratos, lipíoios e proteínas). /
Do total dos componentes da célula, cerca de 75 a 85% correspondem a água, entre 2 e 3% são ,
constituídos de sais inorgânicos e o restante é formado por compostos orgânicos qw;~ represen-
tam as moléculas da vida. A maior parte das estrnturas celulares contém lipídios e moléculas muito
, grandes - denominadas macromoléculas ou polímeros - integradas por unidades ou m onôme~
rosque se conectam por meio de ligações covalentes.
Nos organismos, existem três polímeros importantes: 1) os ácidos nucléicos, formados pela ,
associação de quatro unidades químicas diferentes denominadas nucleotídeos; a seqüência linear
dos quatro tipos de nucleotídeos na molécula de DNA é a fonte primária da informação genética;
2) os polissacarídeos, que podem ser polímeros de glicose - com os quais se formam glicogê-
nio, amido ou celulose - ou compreender a repetição de outros monossacarídeos, com os quais t
se formam polissacarídeos mai s complexos; e 3) as proteínas (polipeptídeos), que são constituí-
das por aminoácidos - existem 20 tipos - combinados em diferentes proporções; as quantida- j
des e as possibilidades de ordenamento desses 20 monômeros permitem um número extraordiná-
rio de combinações, o que determina não somente a especificidade, mas também a atividade bio-
lógica das moléculas protéicas.
Além de destacar as características e propriedades dos componentes químicos da célul a, neste
capítulo abordaremos o estudo das enzimas - um tipo específico de proteínas - como instru-
mentos moleculares capazes de produzir transformações em muitos desses componentes.
Também veremos como as macromoléculas podem se agregar e se organizar em estruturas
supramoleculares mais complexas, até se tomarem visíveis ao microscópio eletrônico. É provável
que tais agregações moleculares tenham atuado durante o período de evolução química e biológi-
ca que originou a primeira célula. Por esse motivo, no final deste capítulo, teceremos algumas
considerações especulativas acerca da possível origem das células procariontes e eucariontes, quer
dizer, do aparecimento da vida em nosso planeta. Os conceitos emitidos neste capítulo servem
apenas como uma introdução elementar ao conhecimento da biologia molecular e celular. O estu-
do mais amplo de seus temas compete aos textos de bioquímica.
18 • OS COM PONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

ÁGUA E MINERAIS
2-2. A água é o componente mais abundante dos tecid~s
Água. Com poucas exceções - por exemplo, o osso e o dente - a água é o componente en-
contrado em maior quantidade nos tecidos. O conteúdo de água do organismo está relacionado
Fig. 2.1 Esquema que mostra a com a idade e com a atividade metabólica; é maior no embrião (90-95%) e diminui com o passar
distribuição assimétrica das dos anos. A água atua como solvente natural dos íons e como meio de dispersão coloidal da maior
cargas na molécula de água. parte das macromoléculas. Mais ainda, é indispensável à atividade metabólica, já que os proces-
sos fisiológicos ocoITem exclusivamente em meios aquosos.
Na célula, a água é encontrada em duas frações, uma livre e outra li gada. A água livre repre-
senta 95 % da água total , e é parte usada principalmente como solvente para os solutos e como
meio de dispersão do sistema coloidal. A água ligada representa apenas 5% e é a que está unida
frouxamente a outras moléculas por ligações não covalentes (Seção 2-10); assim, compreende a
água imobilizada no seio das macromolécu las.
Como res ul tado da distribuição assimétrica de suas cargas, uma molécul a de água comporta-se
como um dipolo , conforme ilustra a Fig. 2.1. Devido a esta propriedade, a água pode se ligar
eletrostaticamente, por seus grupos positivos e negativos, tanto a ânions e cátions quanto a molé-
culas com ambos os tipos de carga (p. ex., proteínas). Outra propriedade da molécula de água é
sua ionização em um ânion hidroxila (OH - ) e em um próton ou íon hidrogênio (H+). A uma tem-
peratura de 25ºC, 10- 7 M de H+ por litro de água se dissociam, concentração que COITesponde ao
pH neutro 7.
A água intervém na eliminação de substâncias da célula. Além disso, absorve calor (graças a
seu elevado coeficiente calórico) que evita que sejam geradas mudanças drásticas da temperatura
na célula.
Sais. A concentração de íons é diferente no interior da célula e no meio que a circunda. Assim,
a célula tem uma alta concentração de cátions K+ e Mg 2 +, enquanto o Na+ e o c1 - estão localiza-
' dos principalmente no líquido extracel ular. Os ânions dominantes nas células são o fosfato (HPO/ - )
e o bicarbonato (HC0 3 - ).
Os sais dissociados em ânions (p. ex., ci - ) e cátions (Na+ e K +) são importantes para manter a
pressão osmótica e.o equi líbrio ácido-básico da célula. A retenção de íons produz um aumento da
pressão osmótica e, portanto, a entrada de água.
Alguns íons inorgânicos (como o Mg 2 +) são indispensáveis como co-fatores enzimáticos. Ou-
tros fazem parte de moléculas distintas. O fosfato , por exemplo, é encontrado nos fosfolipídios e
nos nucleotídeos; um destes, a adenosina trifosfato (A TP), é a principal fonte de energia para os
processos vitais da célula. Os íons de Ca2+ que se encontram nas células desempenham um impor-
tante papel como transmissores de sinais. Outros íons presentes nas células são o sulfato, o carbo-
nato etc.
Certos minerais são encontrados na forma não ionizada. Assim oc01Te com o cálcio, que nos
ossos e nos dentes encontra-se unido ao fosfato e ao carbonato sob a forma de cristais. Outro exem-
plo compreende o feITO , que na hemoglobina, na fe rritina, nos citocromos e em várias enzimas
encontra-se unido por ligações carbono-metal.
Para manter a atividade celular normal são indispensáveis quantidades diminutas de manga-
nês, cobre, cobalto, lodo, selênio, níquel , molibdênio e zinco. Quase todos esses elementos vesti-
giais (ou oligoelementos) são necessários para a atividade de certas enzimas. O iodo é um compo-
nente do hormônio tireóideo.

ÁCIDOS NUCLÉICOS
2-3. Existem dois tipos de ácidos nucléicos, o DNA e o RNA
Os ácidos nucléicos são macromoléculas de enorme importância biológica. Todos os seres vi-
vos contêm dofs tipos de ácidos nucléicos, chamados ácido desoxirribonucléico (DNA) e ácido
ribonucléico (RNA). Os vírus contêm um só tipo de ácido nucléico, DNA ou RNA.
O DNA constitui o depósito da informaitão genética. Esta informação é copiada ou transcrita
em moléculas de RNA mensageiro, cujas seqüênci as de nucleotídeos contêm o código que esta-
belece a seqüência dos aminoácidos nas proteínas. É por isso que a síntese protéica também é
conhecida como tradução do RNA. A esta série de fenômenos é atribuído o caráter de dogma
central da biologia molecular, que pode ser expresso da seguinte maneira:

DNA transcrição RNA tradução PROTEÍNA


OS COMPO E 1TES QUÍMICOS DA CÉLULA • 19

O papel biológico dos ácidos nucléicos será estudado com maiores detalhes nos Caps. 12 a 17;
aqui só consideraremos sua estrutura química, o que permitirá compreender suas funções.
Nas células superiores, o DNA encontra-se no núcleo integrando os cromossomos (uma pe-
quena quantidade encontra-se no citoplasma, dentro das mitocôndrias e dos cloroplastos) . ORNA
localiza-se tanto no núcleo (onde é formado) como no citoplasma, para o qual se dirige a fim de
reger a síntese protéica (Quadro 2.1 ).
Os ácidos nucléicos contêm carboidratos (pentases), bases nitrogenadas (purinas e pirimidi-
nas) e ácido fosfórico. A hidrólise do D A ou do RNA gera:

DNA RNA
PENTOSE desoxirribose ribose
BASES ?urinas adenina, guanina adenina, guanina
{ Pirimidinas citosina, timina citosina, uracila
ÁCIDO FOSFÓRICO P0 4H 3 P0 4H 3

A molécula de ácido nucl éico é um polímero cujos monômeros são nucleotídeos sucess iva-
mente ligados por meio de ligações fosfodiéster (Fig. 2.2). Nestas ligações, os fosfatos unem o
carbono 3' da pentase do nucleotídeo com o carbono 5' da pentase do nucleotídeo seguinte.
Como conseqüência, o eixo de um ácido nucléico é constituído por pentases e fo sfatos, e as
bases nitrogenadas surgem das pentases . A extremidade da molécula que contém a pentase com
o C5' livre é chamada extremidade 5 ' e a que possui a pentase com o C3' livre é denominada
extremidade 3' .
Como ilustra a Fig. 2.2, o ácido fosfórico utiliza dois dos seus três grupos ácidos nas liga-
çõ.es 3' ,5 ' -diéster. O grupo restante confere ao ácido nucl éico suas propriedades ácidas , o que
possibilita a formação de ligações iônicas com proteínas básicas (no Cap. 1-14 assinalamos
que, iias células eucariontes, o DNA está associado a proteínas básicas chamadas histonas, com
as qu ais forma o complexo nucleoprotéico denominado cromatina). Além disso, esse grupo
ácido livre faz com que os ácidos nucléicos sejam basófilos (isto é, coram-se com corantes
básicos).
As pentoses são de dois tipos: desoxirribose no DNA e ribose no RNA. A diferença entre
estes açúcares é que a desoxirribose tem um átomo de oxigênio a menos (Fig. 2.2). Para visualizar
o DNA com microscópio óptico podemos utilizar uma reação citoquímica específica denominada
reação de Feulgen (Cap. 23-21 ).
As bases nitrogenadas encontradas nos ácidos nucléicos são também de dois tipos: pirimi-
dinas e purinas ..As pirimidinas possuem um anel heterocíc lico, enquanto as purinas têm dois
anéis fundidos entre si : No DNA, as pirimidinas são a timina (T) e a citosina (C), e as purinas, \
a adenfna (A) e a guanina (G) (Fig. 2.5 ). O RNA contém a üracila (U) no lugar da timina.
Existem três diferenças fundamentai s entre o DNA e o RNA. Como acabamos de assinalar, o
DNA tem desoxirribose e timina (T) e o RNA possui ribose e uracila (U). Outra diferença é que
a molécula de DNA é sempre dupla (contém du as cadeias polinucleotídicas), com veremos na
seção seguinte.
A combinação de uma base com uma pentase (sem o fosfato) constitui um nucleosídeo. Por
exemplo, a adenosina (adenina + ribose) é um nucleosídeo, enquanto a adenosina monofosfato
(AMP), a adenosina difosfato (ADP) e a adenosina trifosfato (A TP) são exemplos de nucle.otí-
deos (Fig. 2.3). · ·

Quadro 2.1 Ácidos nucléicos


1
Ácido desoxirribonucléico Ácido ribonucléico
1
Localização Principalmente no núcleo (também nas Principalmente no citoplasma (também no núcleo,
mitocôndrias e nos cloroplastos) nas mitocôndrias e nos cloroplastos)
Papel na célula Informação ge:_néti ca Síntese de proteínas
Pen tose Desoxirribose Ribose
Bases pirimidínicas Citosina Citosina
Timina Uracila
Bases purínicas Adenina Ade nina
Guanina Guanina
20 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

Fig. 2.2 Setor de uma cadeia de


ácido nucléico que mostra os
diferentes tipos de nucleotídeos
que a compõem.
ADENINA .

CITOS INA

TIMINA
= CH 3

URACILA
=H

RIBOSE
X =OH

DESOXIRRIBOSE
3' X =H

Além de atuarem como tijolos para construção dos ácidos nucl éicos, os nucleotídeos - por
exemplo, o já citado A TP - são utilizados para depositar e transferir energia química. A Fig. 2.3
mostra que as duas ligações fosfato terminais do ATP contêm grande quantidade de energia. Quando
ocorre a hidrólise nestas ligações, a energia liberada pode ser utilizada pela célula para realizar
suas atividades (Fig. 8.1). A ligação -P de alta energia permite que a célula acumule grande quan-
tidade dela em um espaço reduzido e que a mantenha pronta para ser usada no momento em que
for necessário.
Outros nucleotídeos, como a citidina trifosfato (CTP), a uridina trifosfato (UTP), a guanosina
trifosfato (GTP) e a timosina trifosfato (TTP), também têm ligações de alta energia, porém a fon-
te principal de energia da célula é o ATP.

NH 2

N&>
Fig. 2.3 Estrutura química do
nucleosídeo adenosina e do
nucleotídeo adenosina trifosfato
N bT
HO OH HO OH
(ATP). Nucleosídeo Nucleotídeo
OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 21

O DNA é encontrado nos organismos vivos sob a forma de molécula de peso molecular muito 5' 3'
alto. Por exemplo , a Escherichia coli tem uma molécula de D A circular de 3.400.000 pares
de bases com um comprimento de 1,4 mm. A quantidade de D A nos organismos superiores
pode ser várias centenas de vezes maior - 1.200 vezes no caso do homem. Assim, o DNA
completamente estendido de uma célul a diplóide humana tem um comprimento total de cerca
de 1,7 0 m .
Toda a informação genética de um organismo vivo encontra-se acumu lada na seqüência linear
das quatro bases de seus ácidos nucléicos. A estrutura primária de todas as proteínas (quer dizer,
a quantidade e a seqüência de seus aminoácidos) é codificada por um alfabeto de quatro letras (A ,
T, G, C). Uma das descobe11as mais extraordinárias da biologia molecular foi o achado e a inter-
pretação deste código genético (Cap. 13-4).
Um pas so prévio a esse descobrimento - que teve uma grande influência na el ucidação
da estrutura do DNA - foi saber que, em cada molécu la de D A, a quantidade de adenina
é igual à de timina (A = T) e a de citosina igual à de guanina (C = G). Conseqüentemente, o
número de purinas é idêntico ao de pirimidinas (A + G = C + T ). Como é lógico , a relação
AT/GC varia entre as espécies (p. ex ., no homem , a relação é de 1,52 e na Escherichia coli é
de 0,93) .

2-4. O DNA é uma dupla hélice


Em 1953, com base nos dados obtidos por Wilkins e Franklin, mediante difração de raios X,
Watson e Crick propuseram um modelo para a estrutu ra do DNA que contemplava as proprieda-
des químicas já citadas e, ainda, as propriedades biológicas, em especi al a capacidade de duplica-
ção da molécula.
A molécula de DNA é ilustrada na Fig. 2.4. Ela é formada por duas cadeias de ácidos nucléi-
cos helicoidais com uma rotação para a direita, que compõem uma dupla hélice em tomo de um
mesmo eixo central. As duas cadeias são antiparalelas, o que significa que suas ligações 3',5 ' -
fosfodiéster seguem sentidos opostos. As bases estão situadas no lado interno da dupla hélice, quase
em um reto perpendicul ar com relação ao eixo helicoidal. Cada volta completa da dupla hélice
compreende 10,5 pares de nucleotídeos e mede 3,4 nm. 5' 3'
Ambas as cadeias estão unidas entre si por pontes de hidrogênio estabelecidas entre os pares
de bases (seção 2-10). Tendo em vista que entre as pen toses das cadeias opostas existe uma dis- Fig. 2.4 A dupla hélice de DNA.
tância fi xa, apenas certos pares de bases podem se estabelecer dentro da estrutura. Como se nota As cadeias desoxirribo se-fosfato
nas Figs. 2.4 e 2.5, os únicos pares possíveis são A-T, T -A, C-G e G -C. É importante observar fora m desenhadas como fitas.
As bases são perpendiculares ao
que ente ~ as A e as T fo rmam-se duas pontes de hidrogênio , e entre as C e G, três. Conseqüente-
eixo do DNA e , nesta visão
mente, o par C-G é mai s estável que o par A-T. A dupla estrutura helicoidal mantém-se estabili- lateral, as bases aparecem
.zada gray-as às pontes de hidrogênio e às interações hidrófobas existentes entre as bases de cada representadas por barras
cadeia. horizontais. Observa-se que as
Apesar de, nas diferentes moléculas de DNA, as seqüências das bases ao longo das cadeias duas cadeias são antiparalelas e
variarem consideravelmente, em uma mesma molécu la de DNA, as seqüências das duas cadeias que a dupla hélice dá uma volta
são complementares, como se percebe no exemplo seguinte: completa a cada 10 pares de
bases (3 ,4 nrn ). Além disso,
A c T 3' observa-se que a dupla hélice
Cadei a 1 5' T G T G G
dá lugar a duas fe ndÇts externas,
1 1 1 1 1 1 1 1
o sulco maior e o sulco menor
Cadeia 2 3' A e A c T G c A 5' do DNA.

Devido a esta propriedade, quando as cadeias se separam durante a duplicação do DNA, cada
uma delas serve de molde para a síntese de uma nova cadeia complementar. Deste modo são ge-
radas duas moléculas-filhas de DNA com a mesma constituição molecular que possuía a progeni-
tora (Cap. 17-2).

2-5. Existem vários tipos de RNA


A estrutura do RNA é semelhante à do DNA, exceto pela presença de ribose no lugar de deso-
xirribose e de uracila no lugar de timina (Quadro 2. 1). Ademais, a molécula de RNA é formada
por uma única cadeia de nucleotídeos.
Existem três tipos principais de RNA: 1) RNA mensageiro (RNAm); 2) RNA ribossômico
(RNAr); 3) RNA de transferência (RNAt). Os três intervêm na síntese protéica. O RNAm leva
a informação genética - copiada do DNA - que estabelece a seqüência dos aminoácidos na
proteína. O RNAr representa 50% da massa do ribossoma (os outros 50% são proteínas) , que é a
estrutura que proporciona o apoio molecular para as reações químicas que originam a síntese pro-
téica. Os RNAt identificam e transportam os aminoácidos até o ribossoma.
22 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

Fig. 2.5 Os dois pares de bases 3'


do DNA. As bases
complementares são adenina e
timina (A-T) e citosina e guanina
(C-G). Observa-se que, no par
A-T, há duas pontes de
hidrogênio, enquanto no par C-G
existem três . A distância entre as
cadeias de desoxirribose-fosfato
é de aproximadamente 1, 1 nm.
(De L. Pauling e R. B. Corey.)

Apesar de cada molécula de RNA ter uma única cadeia de nucleotídeos, isso não significa que
ele seja sempre uma estrutura linear simples. Nas moléculas de RNA podem existir segmentos
com bases complementares, o que dá lugar a pontes de hidrogênio, quer dizer, à formação de pa-
res de nucleotídeos A-U e C-G entre várias regiões da mesma molécula. As Figs. 14.20, 15.4, ~ . 5,
15.11e16.3 mostram como a molécula de RNA pode dobrar-se sobre si mesma, pareand~-se.
Nelas pode ser formada uma estrutura helicoidal semelhante à do DNA. As estruturas tridimensi-
onais do RNA têm importantes conseqüências biológicas.

CARBOIDRATOS
2-6. Os carboidratos constituem a principal fonte de energia da célula
Os carboidratos (ou hidratos de carbono), compostos por carbono, hidrogênio e oxigênio,
representam a principal fonte de energia para célula e são constituintes estruturais importantes
das membranas celulares e da matriz extracelular. De acordo com o número de monômeros
que contêm, classificam-se em monossacarídeos , dissacarídeos, oligossacarídeos e polissaca-
rídeos.
Monossacarídeos. Os monossacarídeos são açúcares simples com uma fórmula geral Cn(H 20)n.
São classificados, com base no número de átomos de carbono que contêm, em triases, tetroses,
pentases e hexases.
Como vimos, as pentases ribose e desoxirribose estão presentes nos nucleotídeos (Fig. 2.2). A
xilose é uma pentase presente em algumas glicoproteínas (Fig. 2.11). A glicose, que é uma hexa-
se (Fig. 2.6), constitui a fonte primária de energia para a célula. Outras hexases muito importantes
- que podem estar associadas entre si, sob a forma de oligossacarídeos ou polissacarídeos - são
a galactose , a manose, afrutose, afucose, o ácido glicurônico e o ácido idurônico. Algumas
possuem um grupo amina e se encontram acetiladas como a N -acetilglicosamina e a N-
acetilgalactosamina. O ácido N-acetilneuramínico (ou ácido siálico) resulta da ligação de uma
amino-hexose com um composto de três carbonos, o ácido pirúvico.
Dissacarídeos. Os dissacarídeos são açúcares formados pela combinação de dois monôme-
ros de hexase, com a perda correspondente de uma molécula de água. Portanto, sua fórmula é
C12H220 11.
Um dissacarídeo importante nos mamíferos é a lactose (glicose + galactose), o açúcar do
leite.
OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 23

Oligossacarídeos. No organismo, os oligossacarídeos não estão livres , mas sim unidos a lipí-
dios e a proteínas, de modo que fazem parte de glicolipídios e de glicoproteínas. Estes carboidra-
tos são cadeias - às vezes ramificadas - compostas por distintas combinações de vários tipos de
monossacarídeos.
Os oligossacarídeos correspondentes aos glicolipídios serão analisados, juntamente com os
lipídios, na próxima seção.
Os oligossacarídeos das glicoproteínas conectam-se com a cadeia protéica por intermédio do
grupo OH (ligação 0-glicosídica ou ligação O) de uma serina ou de uma treonina ou por meio do Fig. 2.6 Molécula de glicose.
grupo amida (ligação N -glicosídica ou ligação N) de uma asparagina. A serina, a treonina e a
asparagina são aminoácidos (Seção 2-8).
No que diz respeito ao oligossacarídeo, nas ligações 0-glicosídicas pode· intervir uma N-
galactosamina e, nos N-glicosídicos, uma N-acetilglicosamina (Figs. 2.7 e 2.8). Portanto, estes
monossacarídeos são os mais próximos da proteína. Ao contrário, os ácidos siálicos às vezes se
localizam na periferia do oligossacarídeo.
Os oligossacarídeos ligados por ligações O (isto é, a uma serina ou a uma treonina) podem possuir
uma galactose ligada à primeira N-acetilgalactosamina (Fig. 2.7) . Em seguida, os monossacaríde-
os restantes combinam-se de forma diferente, segundo o tipo de oligossacarídeo.
Os oligossacarídeos ligados por meio de ligações N contêm um núcleo pentassacarídico co-
mum, composto por duas N-acetilglicosaminas (uma delas ligada à asparagina) e três manoses
(Fig. 2.8). Os monossacarídeos restantes unem-se a este núcleo em combinações distintas, o que
gera uma extensa variedade de oligossacarídeos e, por conseguinte, uma grande diversidade de
glicoproteínas.
Devemos assinalar que o número de cadeias oligossacarídeas que se ligam a uma mesma pro-
teína é muito variável.
Polissacarídeos-. Os polissacarídeos resultam da combinação de muitos monômeros de hexa-
ses, co1l1 a perda correspondente de moléculas de água. Sua fórmula é (C 6H 100 s) Ao se hidroli- 11

sar, dão lugar a monossacaiídeos. Os polissacarídeos como o amido e o glicogênio representam


as substâncias de reserva alimentícia das células vegetais e animais, respectivamente (Fig. 2.9).
Outro polissacarídeo, a celulose , é 0 elemento estrutural mais importante da parede da célula ve-
getal (Fig. 3.30).
Esses três polissacarídeos são polímeros de glicose, porém diferem porque exibem distintos
tipos de ligações entre seus monômeros. Por exemplo, o glicogênio é uma molécula ramificada na
qual as glicoses estão ligadas por ligações al-4 e a l-6 (Fig. 2.9) .
· Existem polissacarídeos complexos chamados glicosaminoglicanas (GAG), que são compos-
tos por uma .sucessão de uma mesma unidade dissacarídica na qual um dos dois monômeros é um
ácido glicurônico, um ácido idurônico ou uma galactose e o outro possui um grupo amina, já que
é uma N-acetilglicosamina ou uma N-acetilgalactosamina (Fig. 2.10) .
As GAG mais importantes são o ácido hialurônico ,* o sulfato de condroitina, o
dermatansulfato, o heparansulfato e o queratansulfato. No Quadro 6.1 mencionamos as unida-
des dissacarídicas repetitivas que os integram; como se pode perceber, com exceção do ácido hia-
lurônico, todos os demais são sulfatados.
Quase todas as GAG estão ligadas às proteínas com as quais formam glicoproteínas complexas
chamadas proteoglicanas (Fig. 2.11). Estas moléculas prevalecem no meio extracelular (Cap. 6-
3). A GAG liga-se à proteína mediante um tetrassacarídeo composto por uma xilose, duas galac-

CH, OH 1
NH
.. ·- o-vt-º"'-l o l 1

~ CH CH

HNCOCH, co

NANA Gal - GlcNAc ' GalNAC Serina .


Gal - GalN Ac - o - S·T
Gal - GalNAc / Fig. 2.7 Oligossacarídeo ligado a
uma proteína por meio de uma
.. - o VCH,O~ r 7H ligação 0-glicosídica. S ·T,
serina ou treonina; NANA, ácido
OH - O - CH - CH
. 1 1 N-acetilneuramínico; GalNAc,
HNCOCH, 90 N-acetilgalactosamina; GlcNAc,
N-acetilglucosamina; Gal,
Proteína GalNAC Treonina galactose.

*N.R.T.: Atualmente chamado hialuronana .

/
24 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

Fig. 2.8 Oligossacarídeo ligado a


uma proteína por meio de uma
ligação N-glicosídica. Man ,
manose; A, asparagina.
NANA - Gal - Man

NANA - Gal - Man


"
/ Man - GlcNAc - GlcNAc - N - A

Proteína

Fig. 2.9 O glicogênio é uma


molécul a ramificada que contém
até 30.000 unidades de glicose.
As ligações glicosídicas são
estabelecidas entre os carbonos 1
e 4 das glicoses, exceto nos
pontos de ramificação (1 e 6). A
parte su perior da figura mostra a
molécula com pequeno aumento.
Na parte inferior, se acha

~º\7 ~\J ~'\f


representada a composição
química dil segmento molecular
ressaltado.

H~~O~Q
H OH H OH H OH }
~ H2
6
HO~ H 2 HO~H 2

~
HcXH 2

1
-o o R

H OH H OH H H OH H OH

Fig. 2.10 Representação de um


pequeno segmento de uma
glicosaminoglicana (GAG). A,
ácido glicurônico ou ácido
idurônico ou galactose; B,N - NH
·''"
'IH 'IH
acetilgalactosam ina ou N-
acetilglicosamina.

toses e um ácido glicurônico. A xilose liga-se a uma serina da proteína mediante uma ligação O,
enquanto o ácido glicurônico o faz com a primeira hexose da GAG.

LIPÍDIOS
2-7. Os triglicerídios, os fosfolipídios e os esteróides são os
lipídios mais abundantes da célula
Os lipídios são um grupo de moléculas caracterizadas por sua insolubilidade em água e solubi-
lidade nos solventes orgânicos. Tais propri edades são devidas às suas longas cadeias hidrocarbo-
nadas alifáticas ou anéis benzênicos, que são estruturas não polares ou hidrófobas. Em alguns li-
?-
OS COMPONE TES QUÍMICOS DA CÉLULA • - :l

o~º-Grº -Grº~o- CH,-E


: 1
-' n
GAG Tetrassacarídeo Serina

pídios, estas cadeias podem estar ligadas a um grupo polar que lhes permite unir-se à água. Os Fig. 2.11 Representação de uma
lipídios mais comuns da célula são os triglicerídios, fosfolipídios, glicolipídios, esteróides e proteoglicana. É mostrado como
poliprenóides. a GAG se une à proteína. AcGlu,
Triacilgliceróis. Os triacilgliceróis (ou triglicerídios) são triésteres dos ácidos graxos com ácido glicurônico; Gal,
galactose; Xil, xilose.
glicerol. Cada ácido graxo é constituído por uma longa cadeia hidrocarbonada, cuja fórmula
geral é:

COOH
1
(CH 2ln
1
CHJ

Os grupos carboxila destes ácidos reagem com os grupos hidroxila do glicerol da maneira ex-
posta na Fig. 2.12.
Quando apenas dois carbonos do glicerol estão ligados a ácidos graxos, a molécula é chamada
diacilglicerol (DAG) (Fig. 2.13).
Os ácidos graxos têm sempre um número par de carbonos, já que são sintetizados a partir de
grupos..acetila de dois carbonos. Por exemplo, o ácido palmítico tem 16 carbonos, enquanto o
esteárico e o oléico possuem 18. A cadeia hidrocarbonada pode ex ibir ligações duplas (--C=C- ),
e, neste caso, o ácido graxo é denominado insaturado. Estas ligações duplas são importantes por-
que produzem angulosidades nas cadeias hidrocarbonadas (Fig. 2.20).
Os triacilgliceróis servem como reserva energética para o organismo. Seus ácidos graxos libe-
ram grandes quantidades de energia quando são oxidados; mais do dobro da que liberam os car-
boidratos.
Fosfolipídios. Nas células, existem dois tipos de fosfolipídio s, os glicerofosfolipídios e os
esfingofosfolipídios.
Os glicerofosfolipídios têm dois ácidos graxos unidos a uma molécula de glicerol, já que o
terceiro grupo hidroxila deste álcool encontra-se esterificado com um fosfato, ligado por sua vez
a um segundo álcool (Fig. 2.14).
A combinação do glicerol com os dois ácidos graxos e o fosfato dá lugar a uma molécula cha-
mada ácido fosfatídico (AF) (Fig. 2.13), que constitui a estrutura básica dos glicerofosfolipídi-
os. Como acabamos de mencionar, estes possuem um segundo álcool, que pode ser a etanolami-
na, a serina, a colina ou o inositol (Fig. 2.14). Com eles, são obtidos os fosfolipídios chamados
fosfatidiletanolamina (PE),fosfatidilserina (PS),fosfatidilcolina (PC) efosfatidilinositol (PI)
(Fig. 2.15).
Como o inositol do PI pode estar combinado com um, dois ou três fosfatos, a célula também
temfosfatidilinositol 4-fosfato (PIP), fosfatidilinositol 4,5-difosfato (PIP2) e fosfatidilinositol
3,4,5-trifosfato (PIP3) (Fig. 2.16).
Por outro lado, na membrana interna das mitocôndrias, existe um glicerofosfolipídio duplo
denominado difosfatidilglicerol, que comumente tem o nome de cardiolipina (Cap. 8-11). É com-
posto de dois ácidos fosfatídicos ligados entre si por uma terceira molécula de glicerol (Fig. 2.17).
O esfingofosfolipídio existente nas células é a esfingomielina, que é produzida pela combina-
ção da fosforilcolina com a ceramida (Fig. 2.18). A fosforilcolina (um fosfato ligado à colina)
encontra-se também na fosfatidilcolina (Fig. 2.1 5) , enquanto a ceramida é formada pela agrega-
ção de um ácido graxo à esfingosina que, como ilustra a Fig. 2.19, é um amino-álcool que possui
uma cadeia hidrocarbonada relativamente longa.

CH, -OH + HOOC - (C H2 ln- CH3 CH, -0-CO - (CH 2 }0 - CH, + H, O


1 1
CH - OH + HOOC -(C H2 ln-CH, = CH, - 0 - CO-{C H,>n-CH, + H, O Fig. 2.12 Formação de um
triacilglicerol (triglicerídio) a
1 1
CH, - OH + HOOC-{CH,ln-CH, CH 2 - 0 - CO - (CH 2 1n- CH3 + H2 0 partir de um glicerol e três
Glicerol Ácidos graxos Triacilglicerol Água ácidos graxos.
26 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

CH, - 0 - CO - (CH,}" -CH, / Etanolam_ina


1
?H - O- CO - (CH, 10 - CH, Álcool Senna
1 ~ Colina
CH, - OH O= P - 0 - ~ l nositol
1
Diacilglice ro l o
1
CH2 - CH CH,
CH, - O - CO - ICH,) 0 - CH, 1 1
1 o o
CH - O - CO - (CH 1 CH, 1 1
1 ,_
C=O C=O
Fig. 2.13 Fórmulas do ,, o- 1 1
CH, - 0 - P~(]H ICH,l" (CH,ln
diacilglicerol (DAG) e do Fig. 2.14 Estrutura química 1 1
ácido fosfatídico (AF). geral dos glicerofosfolipídios. CH 3 CH 3
Ácido fosfatídico

Fig. 2.15 Representação dos


0
glicerofosfol ipídios 0

0
·~H1 NH

fosfatidiletanolamina (PE), ~H2


'
H-C-COO ' '
~HJ
HO OH
1

fosfatidilserina (PS), CH,


l
CH,
1
CH, HO OH

fosfatidilcolina (PC) e o o o' o


o:;;;P - o· 1
O=P - 0
-
O .= ~ - o· D= ~ ·- 0"
fosfatidilinositol (PI). o
'
o
1
1
o
1
1
o
1
CH ~- fH-TH 7 CH 2 - CH - CH 1 CH 1 - CH CH1 CH1 -CH - CH i
1 1 1 1
ol o1 e o- o1 o1 o' o'
' 1 1 '

ff
Fosfatidiletanolamina
rr
Fosfatidilserina Fosfatidilcolina
ff Fosfatidilinositol
ff
Fig. 2.16 Representação dos a· a· a·
O = ~-o· O = ~ -o-

H00
1 -
glicerofosfolipídios O=P-0
fosfatidilinositol fosfato (PIP),
fosfatidilinositol difosfato (PIP,)
e fosfatidilinositõl trifosfato HO
1
0

0H
OH
o·-r-00 HO
1

-
.
1
OH
OH
1 _ ºJ~º
o'-Loo
li
o
HO OH
H
o

o - -o o
(PIP3). O ::::: ~ - 0~ 1 -
O= P- 0 ' 0=~ - 0
o'1
1
e1 ?
CH, - ~H - · <(.Ht CH ~"- 7 H ?Hi CHi - CH
1
CH 1
1
o o o o o o
1 1 1 1 1 1
C:;;:O C::;;O
) (

Fosfatid ilinositol fosfato


H\ \

Fosfatidilinositol difosfato
ff ff
Fosfatidilinositol trifosfato

CH 2 -CH - CH,.
1 1 1
O OH O
1 1
O= P - OH HO - P=O
1 1
o o
1 1
~H1 - fH - CH 2 CHi -7H 7H~
o1 ol o! of

Fig. 2.17 Molécula do


difosfatidilglicerol ou
cardiolipina.
rr Tl Cardiolipina
OS COMPO ENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 27

C H~
HlC,. ~ _,., CH l
1
~H 2
~ H,
o
O = ~-o­
O'
1
OH
1
OH
1
OH
1
OH
1
OH
1
CH - CH - CH CH,- CH- CH CH,- CH - CH
1 1 • 1 1
' 1 1
NH CH NH CH .NH 1 ~H
1 li 1 n

ºI
Esfingomiel ina
f ºI f f
Ceramida Esfingosina

Fig. 2.18 Representação do Fig. 2.19 Representação


esfingolipídio esfingomielina das moléculas de
(EM). ceram ida e esfingosina.

A Fig. 2.20 mostra que os fosfo lipídios possuem duas caudas hidrófobas não-polares lon-
gas (dois ácidos graxos) e uma cabeça hidrófila polar constituída por glicerol (exceto na esfin-
gomielina), um segundo álcool e um fosfato. Portanto, os fosfolipídios são moléculas anfi pá-
ticas.
Os fusfolipídios são os principais componentes das membranas celulares e tanto sua anfipatia
como as características de seus ácidos graxos (número de carbonos, presença de ligações duplas)
conferem-lhes muitas de suas propriedades. Além disso, quando os fosfolipídios se di spersam em
água, adotam espontaneamente uma organização idêntica à das membranas celulares, com suas
cabeças polares dirigidas para fora e suas caudas não-polares confrontadas entre si no interior da
dupla camada (Cap. 3-2).
Glicolipídios. Os glicolipídios presentes nas células são classificados em cerebrosídios e gan-
gliosídios.
Os cerebrosídios são formados pela ligação de uma glicose ou de uma galactose com a cera-
mida (Fig. 2.21). Assim, trata-se de esfingomielinas cujas fosforilcolinas são substituídas por um
destes monossacarídeos.

~H ,0

---
H 1 c- 7- 0-t 1
Colloo {
CH,
1
CH,

Fosfato { o- ~t-
1
oG
Ô H H
1 1 1
Glicerol { H - C- - C - - C- H
1 1 1
o o
O=C
'
/

/C M1
o=(
"' /
CH,
H, C H,C
.,
/
CM, '
/
CH,

"•' ' H2C,


Cl"i1
/ '"• H,C
/
Caudas
HiC ,
CH, ' CH, hidrófobas
Oleato e HC
/
H, C-
/
Fig. 2.20 Fosfolipídio com sua
palmitato ~ \M
, ' CH, cabeça hidrófila e suas duas
"•' H,C caudas hidrófobas. O
,' ' "• 'CH,
/ fosfo lipídio representado é o
H2C, H,C

CH ,
. 'O ·ll palmitoil-oleil-fosfatidilcolina.
H,C
/
H1C,
/
Observa-se que a ligação dupla
'
/ C.H2
CH , no ácido oléico produz uma
HiC ' mudança de direção na cadeia
CH,
hidrocarbonada (s eta).
28 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

HKt>OC:
,OH O ?H
O - CH2 - CH - CH
1 1
OH NH CH
1 li Ácido siálico Galactose Glicose
Glicose O=C CH
ou
galactose

Cerebrosídio Gangliosídio

Fig. 2.21 Representação de um Fig. 2.22 Representação de um gangliosídio.


cerebrosídio.

A estrutura básica dos gangliosídios é similar à dos cerebrosídios, porém o carboidrato não é
a glicose nem a galactose mas sim um oligossacarídeo composto por vários monômeros, um a três
dos quais são ácidos siálicos (Fig. 2.22). Os diferentes tipos de gangliosídios diferem entre si tan-
to pelo número quanto pelo ordenamento relativo de seus monômeros. O monossacarídeo unido à
ceramida é quase sempre uma glicose seguida de uma galactose. Em seguida pode haver uma N-
acetilgalactosamina ou uma N-acetilglicosamina e em seguida outra glicose ou outra galactose.
Às vezes, existe urna fucose. Geralmente, ela ou os ácidos siálicos localizam-se na parte final do
oligossacarídeo.
Esteróides. Os esteróides são lipídios derivados de um composto denominado ciclopentano-
peridrofenantreno. Um dos mais importantes é o colesterol (Fig. 2.23), que é encontrado nas
membranas e em outra~partes da célula e também fora dela. A hidroxila de seu carbono 3' lhe
confere propriedades anfipática~.
Os esteróides assumem funções diferentes de acordo com os grupos químicos que estejam unidos
a sua estrutura básica. Os principais esteróides do organismo são os hormônios sexuais (estróge-
nos, progesterona; testosterona), os hormônios supra-renais (cortisol, aldosterona), a vitamina D
e os ácidos biliares.
Poliprenóides. Os poliprenóides são compostos derivados do hidrocarboneto isopreno (Fig.
2.24). Entre eles encontra-se o dolicol fosfato, uma molécula pertencente à membrana do re-
tículo endoplasmático desenhada para incorporar oligossacarídeos aos polipeptídeos durante
a formação das glicoproteínas (Cap. 7-16). Trata-se de urna cadeia de 17 a 21 isoprenos que
contém entre 85 e 105 átomos de carbono, esterificada com um fosfato (Fig. 2.24 ). Outro
poliprenóide comum nas células faz parte da ubiquinona, uma molécula da membrana rnito-
condrial interna (Cap. 8-11) que é composta de uma cadeia de 1O isoprenos e de uma
benzoquinona (Fig. 2.24).

CH 2
li
C- CH 3
1
CH
li
CH, CH 3 CH H
1
CH-(CH2),-CH
1
,.-i--- -- 1
: CH
'li '
; :<:H:----:
'1 '
: C- CH,: : CH- CH 3 :
CH, 1
CH 3
'1
'CH
: li
: CH
·+-- ---
'
:
:
'

n
} lsopreno

f
• li
: CH
'1
~OC

:
'
_H_,____ i(.~)
CH (15a 19)
1 2 H3C .p-- O
TH - CH,
Benzoquinona
TH' [ O .& OCH 3
CH 2 - 0- or oc~ .
Colesterol Dolicol fosfato Ubiquinona

Fig. 2.23 Molécula de colesterol derivada do composto de 17 Fig. 2.24 Molécula de dolicol (composta por 17 a 21 isoprenos) e
carbonos chamado ciclopentanoperidrofenantreno. de ubiquinona (com seus 10 isoprenos).
OS COMPO.NENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 29

PROTEÍNAS
2-8. As proteínas são cadeias de aminoácidos unidos
por ligações peptídicas
Os monômeros que compõem as proteínas são os aminoácidos. Um aminoácido é um ácido
orgânico no qual o carbono unido ao grupo carboxila (- COOH) está também ligado a um grupo
amina (-NH2 ). Além disso, esse carbono se encontra ligado a um H e a um resíduo lateral (R) ,
que é diferente em cada tipo de aminoácido.

H
1
H.:-< -C - COOH
- 1
R

Por exemplo, na alanina, a cadeia lateral R tem um único carbono, enquanto na leucina tem
quatro.

Ácido aspártico Ácido g!utâmico Histidina Li sina Arginina


(Asp) (D) (Glu)( E) (His ) (H) (lys) (K) ( A.<g) (R)
H H H H H
+ 1 + 1 1 + 1 + 1
H 3N - C - COO H 3 N-c-coo- H 3 N - c - coo- H 3 N - C- COO H,N-C-COO-
1 1 1 1 1
CH, CH 2 CH, CH 1 CH,
1 1 1 1 1
e CH 1 c=CH CH1 CH 1
// \ 1 1 1 1
o o- e
+1
HN NH CH, CH,
/)' \
o o- ~ I 1 1
e CH1 N- H
1 1
+NH , C= NH2
1
NH,
ÁCIDOS BÁSICOS

Se ri na T re onina Tirosina Asparagina Gtuta m ina


(Se r)( S) (Th r)(T ) (Tyr) (Y) (Asn)( N) (G ln)( Q)
H H H H H
+ 1 + 1 - + 1 + 1 + 1
H,N-c - coo- H 3 N-C - COO H,N -c-coo- H,N- c-coo- H 3 N-C-COO-
1
H-C - OH
1 1 1 I
CH 2

~
CH 1 CH 1
1 1 1 1
OH CH, e CH,
// \ 1
O NH 1
e
//'
OH O NH1
NEUTROS POLAR ES

G líci na Alan ina Vali na Leucin a 1soleucina


( Gly)(G) ( Ala )(A) (Val) (V) (Leu) (l ) (lle) (1)
H H H H H
+ 1 + 1 + 1 + 1 1
H,N-c-coo· H,N -c- coo- H 3N - C - COO H,N-c - coo· H,N- e-coo·
1 1 1 1 1
H CH 3 CH CH, CH
/ '\. 1 / '\.
CH 3 CH 3 CH CH 2 CH 3
/ '\ 1
CH 3 CH 3 CH 3

Cisteína Pro!ina Fen ila!a n ina Triplofano Metionina


(Cys)(C) ( Pro) (P) (Phe ) (F ) (Trp)(W) (M e t)(M)

H H H H H

cdH,
+ 1 + 1 + 1 - + 1 + 1
H 3 N-C-COO- H2 N-c - coo- H 3 N -C-COO H, N-c-coo- H 3 N-C - COO
Fig. 2.25 Estrutura química dos
I I 1 1 1 1
CH 2 H 2C CH , vinte aminoácidos, classificados

ó
CH 2

SH
1
"CH/2
1 -
CH 2
1
em ácidos, básicos, neutros
polares e neutros não-polares.
s As estruturas que se encontram
H 1
CH , sob os grupos amina e carboxila
NEUTROS NÃO-POLARES
são. as cadeias laterais R.
30 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

H H O H H O

o
Fig. 2.26 Formação de uma H H O H H O

ligação peptídica entre dois


1 1 li
H-N - C- C- OH + H- N -C-C- OH
1 1 li
H- h- b -~-~ - b- ~- OH + ~O
1 1 1 1
am inoácidos. Também é CH, Ligação H- y - OH CH, H- C- OH
mostrado um pentapeptídeo peptídica CH,

composto, da terminação amina 0 !<,


à terminação carboxila, por uma ~ 1
tirosina, uma treonina, um ácido OH OH
aspártico, uma metionina e uma
leucina. H H O H H O H H O H H O H H O
1 1 li 1 1 li 1 1 li 1 1 li 1 1 li
Terminação amina H- N- y - C-N - ? - C- N- y -C-N - ? - C-N- y- C-OH Terminação carboxila

H-~~OH ~r ~,. :: J:~


Q
CH,
O O S H,C CH 3
1
CH,
OH

A Fig. 2.25 mostra a estrutura de 20 tipos de aminoácidos existentes nas proteínas. Dois são
ácidos (ácido aspártico, ácido glutâmico); três são básicos (histidina, lisina, arginina); cinco são
neutros polares, quer dizer, hidrófilos (serina, treonina, tirosina, asparagina, glutamina) e dez são
neutros não polares, isto é, hidrófobos (glicina, alanina, valina, leucina, isoleucina, cisteína, pro-
lina, fenilalanina, triptofano, metionina). Os nomes dos aminoácidos são abreviados usando-se as
três primeiras letras da nomenclatura inglesa (salvo cinco exceções) ou por meio de um código
que empregue uma única letra.
Vale lembrar que dois dos am inoácidos contêm um átomo de enxofre. No caso da cisteína, duas
de suas moléculas podem formar uma ponte dissulfeto (-S- S -). Esta ligação é do tipo cova-
lente, já que os átomos de H de ambos os grupos -SH são eliminados (Fig. 2.27).
A combinação dos aminoácidos para formar uma molécula protéica ocorre de tal modo que o
grupo NH 2 de um aminoácido combina-se com o grupo COOH do aminoácido seguinte, com per-
da de uma molécula de água (Fig. 2.26). A combinação -NH- CO- é conhecida pelo nome de
ligação peptídica. A molécula formada mantém seu caráter anfotérico porque sempre contém um
grupo NH2 em uma extremidade (terminação amina) e um grupo COOH na outra extremidade
(terminação carboxila), além dos resíduos laterais básicos e ácidos.
Uma combinação de dois aminoácidos constitui um dipeptídeo; de três, um tripeptídeo. Quando
se unem entre si alguns aminoácidos , o composto é um oligopeptídeo (Fig. 2.26). Finalmente, um
polipeptídeo é formado por muitos aminoácidos. A maior proteína do organismo contém cerca
de 27.000 aminoácidos (Cap. 5-33).
A distância entre duas ligações peptídicas é de aproximadamente 0,35 nm. Uma proteína com
peso molecular de 30 kDa é constituída por 300 aminoácidos e, estendida, tem o comprimento de
cerca de 100 nm e uma largura de 1 nm.
O termo proteína (do grego, protefon, proeminente) sugere que todas as funções básicas das
células dependem de proteínas específicas. Podemos dizer que, sem as proteínas, não existiria vida;
elas estão presentes em cada célula e em cada organela. Além disso, podem ser estruturais ou en-
zimáticas.

Fig. 2.27 Estrutura primária de


uma proteína (ribonuclease
pancreática bovina). Vêem-se as
q.u atro pontes dissulfeto entre as
cisteínas. (De C. B. Anfinsen.)
OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLU LA • 1

Existem proteínas conjugadas, ligada a porções não protéicas (grupos prostéticos). A esta
categoria pertencem as glicoproteínas (associadas a carboidratos), as nucleoproteínas (associa-
das a ácidos nucléicos), as lipoproteínas (associadas a gorduras) e as cromoproteínas, que têm ~
como grupo prostético um pigmento. Dois exemplos de cromoproteínas são a hemoglobina e a
mioglobina, nas quais o grupo prostético é o heme, um composto orgânico que contém ferro e que
se combina com o oxigênio. J

2-9. Existem quatro níveis de organização estrutural nas proteínas J-

Na estrutura das proteínas podem-se distinguir quatro níveis sucessivos de organização.


A estrutura primária compreende a ~ü ência dos aminoáciGes-fll:le-fu=an:ut-cadeiaprotéi-
ca (Fig. 2.27). Tal seqüência determina os demais níveis de organização da molécula. Sua impor-
tância biológica encontra um exemplo na doença hereditária chamada anemia falciforme, na qual
ocorrem alterações funcionais profundas pela substituição de um único aminoácido na molécula
de hemoglobina.
A estrutura secundária diz respeito à configuração espacial da proteína, que se deriva da
poµ_ç.ãO-Ciuletenn.inaàes-ami-ooáG-i@GS-e.IlLSlla-c.ad_eja. Assim, algumas proteínas (ou pai:te delas)
têm uma forma cilíndrica denominada hélice ex (ex, porque foi a primeira a ser descoberta); nela,
a cadeia polipeptídica se enrola em tomo de um cilindro imaginário porque se formam pontes de
hidrogênio entre os grupos amina de alguns aminoácidos e os grupos carboxila de outros, situados
quatro posições mais adiante (Fig. 2.28). Outras proteínas (ou parte delas) exibem uma estrutura
chamadafolha dobrada [3, nela, a molécula adota a configuração de uma folha dobrada em decor-
rência da ligação, mediante pontes de hidrogênio laterais, de grupos amina com grupos carboxila
da mesma cadeia polipeptídica (Fig. 2.28).
A estrutura terciária é cqnseqüên.cia.daformavãe-00-neva·s-dob.radura.s_n~s_tru turas_secun-
dári,flS hélice a e folha dobrada ~ , o que dáJ ugar à configuração tridimensional-da proteína. As
novas dobraduras são produzidas porque certos aminoácidos distantes se relacionam entre si na
cadeia polipeptídica. Segundo a dobradura que adotam , são geradas proteínas fibro sas ou globu-
lares (Fig. 2.29). As proteínas fibrosas são formadas a partir de cadeias polipeptídicas (ou de seg-
mentos protéicos) com estrutura secundária tipo hélice a exclusivamente. Por outro lado, as pro-
teínas globulares são formadas tanto a partir de hélices a como de fo lhas dobradas ~ , ou de uma
combinação de ambas.
A estrutura quaternária resulta da combinação de dois ou mais ~s, o que origina
moléculas de grande complexidade. Por exemplo, a hemoglobina é o resultado da integração de
quatro cadeias polipeptídicas (Fig. 2.30).

e---.._· e ---.._
C· C·
/ /
N N
"- c
"'/ c "'e"-/ e
N "'-._ ·N
C· "'-._ C·
f A

Fig. 2.28 Estruturas secundári


das proteínas. A. Hél ice a. B. •
B Folha dobrada ~·
32 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

Fig. 2.29 Estruturas terciárias


das proteínas. A. Fibrosa. B, C e ~ ) cooH
D. Globular. A

COOH
B e D

Fig. 2.30 Estrutura quaternária


das proteínas . Representa-se a
hemoglobina composta por
quatro subunidades, duas a e
duas ~· São indicados os sítios
onde se encontram localizados
os quatro grupos heme, o mesmo
que as terminações amina (N) e
carboxila (C) das cadeias
polipeptídicas.

2-1 O. Diversos tipos de ligações químicas determinam a


estrutura das proteínas
A disposição espacial de uma molécula protéica se acha predeterminada pela seqüência de seus
aminoácidos (estrutura primária). Os níveis restantes de organização dependem do estabelecimento
de diferentes tipos de ligações químicas entre os átomos dos aminoácidos. Desta forma, são pro-
duzidas ligações covalentes - por exemplo, pontes - S-S- entre os grupos -SH de duas
cisteínas - e vários tipos de interações fracas, isto é, ligações não-covalentes. Entre estas últi-
mas encontram-se (Fig. 2.31):

NH 3 c~-NH2
+ NH 2 +

o /o
1
C=O C=O

Fig. 2.31 Tipos de ligações não-


covalentes que estabilizam a
estrutura das proteínas: ligação
iônica (amarelo); interação de
van der Waals (azul-claro);
ponte de hidrogênio (rosa);
interação hidrófoba (verde).
(De C. B. Anfinsen.)
OS COMPO ENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 33

1) Pontes de hidrogênio, que são produzidas quando um próton (H+) é compartilhado entre
dois átomos eletronegativos (de oxigênio ou de nitrogênio) próximos entre si. Já vimos que as
pontes de hidrogênio são essenciais para o pareamento específico entre as bases complementares
dos ácidos nucléicos, o que proporciona a força que mantém unidas as duas cadeias de DNA. As
Figs. 2.5 e 2.31 mostram as pontes de hidrogênio no DNA e nas proteínas, respectivamente.
2) Ligações iônicas ou eletrostáticas, que são o resultado da força de atração entre grupos
ionizados de carga contrária.
3) Interações hidrófobas, que dão lugar à associação de grupos não-polares na qual se exclui
o contato com a água. Cabe acrescentar que, nas proteínas globulares, as cadeias laterais mais
hidrófobas localizam-se no interior das moléculas , enquanto os grupos hidrófilos situam-se na
superfície. Assim, os resíduos hidrófobos repelem as moléculas de água que rodeiam as proteínas
e determinam que sua estrutura globular se tome mais compacta.
4) Interações de van der Waals , que são produzidas quando os átomos estão muito próximos.
Esta proximidade induz a flutuações em suas cargas, que dão origem a atrações mútuas entre os
átomos.
A diferença fundamental entre as ligações químicas covalentes e as não-covalentes reside na
energia necessária para romper estas ligações. Por exemplo, uma ponte de hidrogênio exige 4,5
kcal/mo1- 1, uma cifra bastante menor que as 11 Okcal/mo1- 1 que a ligação covalente 0-H da água
necessita. Em geral, as ligações covalentes rompem-se pela intervenção de enzimas, enquanto as
não-covalentes se dissociam por forças físico-químicas. Ainda que individualmente as ligações
não-covalentes sejam fracas , quando são numerosas fazem com que a estrutura molecular se tome
estável, como ocorre com a dupla cadeia do DNA.

2-11. As proteínas têm cargas positivas e negativas, mas no ponto


isoelétrico sua carga é igual a zero
A carg; real de uma molécula protéica é o resultado da soma de todas as suas cargas. Uma vez
que os grupos ácidos e básicos se dissociam em concentrações distintas de íons hidrogênio no meio,
o pH influi na carga final da molécula. A Fig. 2.32 mostra que, no meio ácido, os grupos amina
captam H+ e se comportam como bases (-NH2 + H+ ___.,. -NH3 +), enquanto em um meio alcali-
no ocorre o fenômeno inverso e se dissociam·os grupos carboxila (-COOH ___.,.coo- + H+).
Existe um pH definido para cada proteína no qual a soma das cargas positivas 'e negativas é
igual a zero (Fig. 2.32). Este pH é denominado·ponto isoelétrico. Nele, as proteínas colocadas em
um campo elétrico não migram para nenhum dos pólos, enquanto num pH mais baixo deslocam-
se para o catodo e num pH mais alto o fazem para o anodo. O processo que origina estes movi-
mentos é chamado eletroforese (Cap. 23-31).
~

ENZIMAS
2-12. As proteínas enzimáticas catalisam as reações químicas
A célula pode ser comparada a um m.inúsculo laboratório no qual ocorre a síntese e a degrada-
ção de grande número de substâncias. Estes processos são efetuados por enzimas (do grego, en,
dentro, e zyme·e, levedura) que atuam na temperatura do organismo e dentro de limites estreitos de
pH. As enzimas são os catalisadores biológicos. Um catalisador é uma substância que acelera as
reações químicas sem se modificar, o que significa que pode ser utilizado mais de uma vez.
O conjunto das enzimas constitui o grupo de proteínas mais extenso e mais especializado do
organismo, responsável pela direção da complexa rede de reações químicas que ocorrem na cé-
lula.
As enzimas (E) são proteínas ou glicoproteínas que têm um ou mais lugares denominados síti- /
os ativos, os quais se unem ao substrato (S), isto é, a substância sobre a qual a enzima atua. O

COOH NH,• ~ coo-NH


"t)': ; º;: º=H=~· LJ:; º;: º-==~·Qcoº-
Fig. 2.32 A ionização das
Em meio ácido Com pH igual ao Em meio alcalino ,
as proteínas têm ponto isoelétrico a as proteínas têm proteínas depende do pH do
carga carga é nula carga - meio.
34 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

substrato é modificado quimicamente e convertido em um ou mais produtos (P). Como esta rea-
ção geralmente é reversível, pode ser expressa do seguinte modo:
E+S [ES] E+P,
onde [ES] é um complexo enzima-substrato formado transitoriamente. Os diferentes tipos de en-
zimas podem formar ligações covalentes entre átomos do substrato (síntese) ou podem rompê-las
(degradação). As enzimas aceleram a reação até que seja alcançado um ponto de equilíbrio, e podem
ser tão eficientes a ponto de a velocidade da reação ser de 108 a 1O 11 vezes mais rápida do que na
ausência do catalisador.
Uma característica muito importante da atividade enzimática é sua especificidade, o que sig-
nifica que cada tipo de enzima atua somente sobre um determinado substrato. As enzimas podem
ser tão específicas que são incapazes de atuar sobre substâncias estreitamente relacionadas, como
por exemplo sobre uin estereoisômero do mesmo substrato.
Em geral, as enzimas levam o nome do substrato que elas modificam ou o da atividade que
exercem mais o sufixo "-ase". Desta forma, existem nucleases ou endonucleases (degradam áci-
dos nucléicos), fosfatases (subtraem fosfatos), cinases (os agregam), sulfatases, proteases, glico-
sidases, lipases, oxidases, redutases, desidrogenases etc.
É oportuno advertir que na célula existem moléculas com atividade enzimática que não são
proteínas e sim ácidos ribonucléicos. Recebem o nome de ribozimas e catalisam a formação da
ruptura de ligações fosfodiéster entre os nucleotídeos (ver Caps. 15-5 e 16-10).

2-13. Algumas enzimas necessitam de co-fatores


Algumas enzimas necessitam da presença de substâncias chamadas coenzimas para poder atu-
ar. Por exemplo, as desidrogenases necessitam das coenzimas nicotinamida-adenina-dinucleotí-
' li
deo (NAD+ ou NADP+) ou flavina-adenina-dinucleotídeo (FAD) (Fig. 8.4), já que estas são as
moléculas que recebem o hidrogênio extraído do substrato. A reação é a seguinte:
:/11 li
lt E + S(H 2) + NAD+ ~E+ S + NADH + W
H
tl Em alguns casos, a coenzima é um metal ou outro grupo prostético que se encontra ligado de
forma covalente à proteína enzimática. Em outros casos, as coenzimas associam-se frouxamente
11
às enzimas. Numerosas coenzimas são vitaminas pertencentes ao grupo B.
"
n
o 2-14. Os substratos se ligam ao sít~o ativo das enzimas
ll Como vimos, as enzimas têm uma grande especificidade para seus substratos e podem não acei-
tar moléculas relacionadas ou que tenham uma forma ligeiramente diferente. Isto pode ser explicado
considerando-se que a enzima e o substrato exibem uma interação semelhante à de uma fechadura
com sua chave. Na Fig. 2.33, observa-se que a enzima possui um sítio ativo, complementar a um dos
domínios do substrato. Ainda que a imagem da chave da fechadura seja válida, não significa que as
enzimas e substratos sejam moléculas estruturalmente rígidas. Assim, o sítio ativo da enzima se faz
complementar ao substrato somente depois de ter se unido a ele; é o chamado encaixe induzido.
Como se observa na Fig. 2.33, a ligação com o substrato induz uma mudança de conformação na
enzima, e somente então os grupos catalíticos entram em contato íntimo com o substrato.
Na ligação do substrato com o sítio ativo da enzima participam forças químicas de natureza
não covalente (ligações iônicas, pontes de hidrogênio, forças de van der Waals), cujo raio de ação

Fig. 2.33 Os substratos reagem


de forma muito precisa com o
sítio ativo da enzima. Algumas
enzimas têm um encaixe
induzido, pois o sítio ativo é
complementar do substrato
somente depois que este se liga
à enzima.
OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 35

é muito limitado. Isto explica por que o complexo enzima-substrato somente pode ser formado se
a enzima tiver um sítio exatamente complementar ao exposto na superfície do substrato.

2-15. O comportamento cinético de muitas enzimas é definido pelos


parâmetros Vm áx e Km
As reações enzimáticas são realizadas em duas etapas. A primeira corresponde à ligação da
enzima com o substrato e pode ser escrita da seguinte maneira:
K1
E+S ~ [ES]
K2
Na segunda etapa, o complexo ES se desdobra no produto e a enzima, que fica disponível para
atuar sobre uma nova molécula de substrato:
K3
[ES] ~ E+P
K4
Os valores K 1, K 2 , K 3 e K 4 são constantes de velocidade das reações.
Como está ilustrado na Fig. 2.34, a velocidade da reação depende da concentração do substra-
to. Em baixas concentrações, a velocidade inicial (V) da reação descreve uma hipérbole. Toda-
via, à medida que aumenta a concentração do substrato, a reação se satura e alcança um patamar.
Nesse ponto - que corresponde a V rnáx - toda enzima intervém na formação do complexo ES. A
equação da curva é:
V rnáx [S]
V =----
Km + [S]

onde Km é a constante de Michaelis, que pode ser definida como a concentração do substrato na
qual a metade das moléculas da enzima formam complexos ES. Quanto menor for o valor de Km,
maior será a afinidade da enzima pelo substrato. Conseqüentemente, o comportamento cinético
de uma enzima é definido pelos valores de V rnáx e K 01 •

2-16. Algumas enzimas estão sujeitas a regulações alostéricas


Na seção anterior, dissemos que, se diagramarmos a velocidade da reação de uma enzima em
função da concentração crescente do substrato, observamos que, para muitas enzimas, a curva
desenha uma hipérbole (Fig. 2.34). Deste modo, à medida que se agrega mais substrato, aumenta
a quantidade da enzima no complexo ES e aumenta a velocidade de aparição do produto; porém,
com altas concentrações do substrato, quase todas as moléculas da enzima se acham no complexo
ES e se alcança a velocidade máxima (Vmãx) da reação.

Km
Concentração de substrato [S] Concentração de substrato

Fig. 2.34 Diagrama da velocidade de reação de uma enzima a concentrações Fig. 2.35 Cinética da enzima
de substrato cada vez maiores. No texto estão descritas a V'""' e a K A
01 • alostérica ATPase que mostra uma
curva é uma hipérbole cuja primeira parte segue uma cinética de primeira curva sigmóide característica em
ordem (quer dizer, a reação é proporcional à concentração do substrato); a lugar de uma hipérbole. Observam-se
segunda parte corresponde à saturação, que tem uma cinética de ordem zero os efeitos de um ativador (ATP) e de
Uá que não depende da concentração de substrato) . um inibidor (CTP).
36 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

Outras enzimas não obedecem à cinética anteriormente citada, já que mostram cooperativismo
e estão sujeitas a regulações alostéricas. Por conseguinte, em lugar de uma hipérbole dão lugar a
uma curva sigmóide (Fig. 2.35).

2-17. Os inibidores das enzimas são muito específicos


As enzimas podem ser inibidas reversível ou irreversivelmente.
A inibição irreversível pode decorrer da desnaturação da enzima ou da formação de uma liga-
ção covalente entre ela e outra molécula.
Existem duas formas de inibição reversível: competitiva e não-competitiva. Na primeira, um
composto de estrutura similar à do substrato forma um complexo com a enzima, análogo ao com-
plexo ES; este tipo de inibição pode ser revertido com concentrações altas do substrato. Na inibi-
ção não competitiva, o inibidor e o substrato não se relacionam estruturalmente, porém, da mes-
ma forma, se unem por outros pontos de suas moléculas.

2-18. As enzimas da célula estão distribuídas em múltiplos compartimentos


As enzimas catalisam as inúmeras reações químicas que ocorrem nas células. Em alguns ca-
sos, as enzimas de uma via metabólica t ncontram-se no citosol, e o substrato e os produtos suces-
sivos passam de uma enzima para a seguinte em cadeia. Em outros casos, as enzimas que inter-
vêm em uma cadeia de reações estão associadas e atuam juntas sob a forma de um complexo mul-
tienzimático; por exemplo, as enzimas que sintetizam os ácidos graxos se encontram intimamente
vinculadas. Os sistemas multienzimáticos facilitam as reações sucessivas porque estas ocorrem a
uma distância mínima entre si.
As enzimas possuem padrões de distribuição bastante específicos. Por exemplo, algumas enzi-
mas hidrolíticas se localizam nos lisossomos, enquanto outras enzimas são encontradas nas cister-
nas do complexo de Golgi_e outras, como as RNA polimerases e as DNA polimerases, no núcleo.

A ORIGEM DAS CÉLULAS


2-19. Os mecanismos de auto-encaixe deram origem às primeiras células
Na Seção 2-9, vimos que uma proteína complexa (como a hemoglobina) é formada como re-
sultado do auto-encaixe de várias unidades protéicas menores e, na Seção 2-7, estudamos que os
fosfolipídios dispersos em água desenvolvem espontaneamente uma dupla camada lipídica seme-
lhante à das membranas celulares. Outro exemplo de auto-encaixe é encontrado nos vírus (Cap. 1-
5), que são formados no interior da célula hospedeira a partir de material genético (DNA ou RNA)
e proteínas (capsômeros). Como podemos observar, mediante estes mecanismos de auto-encaixe
podem ser formadas tanto macromoléculas quanto estruturas subcelulares de complexidade variada.
As causas pelas quais se formam nas células estruturas em ordem cada vez mais complexa devem
ser buscadas na informação contida no DNA. É ela que determina a estrutura das proteínas. Por
outro lado, a formação de complexos macromoleculares e estruturas de maior complexidade é re-
sultado da interação entre duas ou mais proteínas diferentes e entre proteínas e carboidratos, lipí-
dios e ácidos nucléicos.
Um problema fundamental é determinar os mecanismos pelos quais se originou em nosso pla-
neta a organização supramolecular que resultou na formação das células procariontes e eucarion-
tes. Qualquer explicação sobre este tema é obviamente especulativa, pois tem a ver com nada menos
que a origem da vida.
Apesar de não se saber como se formaram as primeiras células, é possível estabelecer, por meio
do registro de fósseis , que os organismos procariotas precederam os eucariotas e apareceram há
três bilhões de anos. Observações recentes demonstraram que somente depois de bilhões de anos
de a Terra ter se formado apareceram organismos semelhantes às bactérias atuais. Anteriormente,
deve ter ocorrido o longo período de evolução química, no qual surgiram moléculas providas de
carbono e os precursores macromoleculares dos organismos viventes, como os aminoácidos, os
monossacarídeos e as bases dos nucleotídeos. Em seguida, por polimerização, formaram-se mo-
léculas cada vez mais complexas. É possível que, durante este período, tenham entrado em ação
os mecanismos de auto-encaixe antes mencionados , já que se formou a primeira estrutura
supramolecular capaz de se auto-reproduzir (Fig. 2.36).

2- 20. A evolução química produziu moléculas orgânicas com carbono


Nos tempos pré-bióticos, quer dizer, anteriores ao aparecimento da vida, a atmosfera da Terra
não tinha oxigênio, da mesma forma que sucede com os outros planetas do sistema solar. Continha
OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA • 37

Formação do sistema
solar há 4,6 x 1O' anos
Moléculas biogênicas, água,
amônia, formaldeído, ácido
cianídrico , acetonitrilo etc.
Descargas
elétricas, luz
Evolução ultravioleta,
química Aminoácidos, calor, pressão
açúcares, bases
dos ácidos
nucléicos

t
Proteínas

Polissacarídeos ! Ácidos nucléicos

!
'..,.. Proteinóides \
Código genético
Evol ução
biológica
Prime iro procariota J Há 3,5 - 3,0 x 1O' anos


Primeiro eucariota
+
Há 0,9 x 1O' anos
Fig. 2.36 Seqüência temporal da
origem das células.

hidrogênio, nitrogênio, amoníaco, metano, monóxido de carbono e dióxido de carbono; também


continha água que, em forma de vapor, cobr:ia parte da superfície terrestre. Apesar de, normal-
mente, essas moléculas serem pouco reativas, poderiam ter interatuado graças à energia fornecida
pela radiação ultravioleta, pelo calor e pelas descargas elétricas dos raios.
Ness~ época, a atmosfera também não tinha a camada protetora de ozônio, de modo que os raios
ultravioleta podiam banhar a superfície da Terra com uma intensidade que seria nefasta para a vida
atual. Isso originou moléculas intermediárias sumamente reativas , como o acetald~ído, o cianeto, o
formaldeído e outras, a partir das quais foram sintetizadas moléculas cada vez mais complexas.
Em 1920, Oparin e Haldane consideraram que a polimerização dessas moléculas podia dar
origem às proteínas, aos ácidos nucléicos e aos carboidratos presentes nos organismos vivos. Em
1953, Miller conduziu uma experiência fundamental na qual simulou as condições da atmosfera
no período pré-biótico. Foram produzidas descargas elétricas em um recipiente que continha água,
hidrogênio, amoníaco e metano. Na água, que se condensou, formaram-se aminoácidos (glicina,
alanina, ácido aspártico e ácido glutâmico ). Por meio de experiências similares, foram obtidos quase
todos os aminoácidos presentes nas proteínas. Vários monossacarídeos, ácidos graxos e as bases
dos nucleotídeos foram obtidos dessa maneira.

2-21. Os mecanismos de agregação formaram os proteinóides primitivos


O próximo passo provavelmente foi a polimerização dos aminoácidos para construir proteínas,
o que foi possível pela ação catalítica das argilas. Todos esses processos podem ter sido produzi-
dos em meios aquosos (lagunas), nas quais as moléculas orgânicas se concentraram formando uma
espécie de "caldo" que favoreceu as interações moleculares.
A partir da formação da primeira proteína podem ter atuados mecanismos de agregação ou auto-
encaixe descritos anteriormente. Desta maneira, poderiam ter se originado as funções enzimáti-
cas. É provável que no "caldo" primordial, as macromoléculas tenham formado complexos mai-
ores, denominados proteinóides ou coacervados , que têm uma parede semelhante à de uma mem-
brana e um interior líquido. Estes proteinóides primitivos podiam ter atividade enzimática e per- .
meabilidade, como no caso das membranas artificiais que mencionaremos no Cap. 3-2. Entretan-
to, a ausência de ácidos nucléicos impediu sua continuidade, e é possível que tenham tido uma
vida muito curta, já que não podiam se auto-reproduzir.

2-22. As células procariontes precederam as eucariontes


Somente depois do aparecimento dos ácidos nucléicos, foi possível ter se originado um orga-
nismo capaz de se autoperpetuar. Neste momento, teri a aparecido a primeira célula procarionte e,
assim, a vida na Terra.
É provável que o RNA- e não o DNA - tenha sido o primeiro material genético que surgiu, de
modo que, do ponto de vista cronológico, as macromoléculas teriam evoluído da seguinte maneira:
RNA - - - - > PROTEÍNAS

~----> D NA
38 • OS COMPONENTES QUÍMICOS DA CÉLULA

A replicação do RNA é mais simples do que a do DNA, pois exige um menor número de enzi-
mas. Além disso, o RNA pode ser usado como material genético e como RNA mensageiro, e muitas
das etapas da síntese protéica dependem de interações RNA-RNA (RNAm-RNAt, RNAm-RNAr,
RNAr-RNAt) .
Todos os organismos vivos têm o mesmo código genético, que seria uma prova de que a vida
na Terra teve início a partir de um único organismo precursor. As forças da evolução, ao selecio-
narem as mutações favoráveis das células, levaram mais tarde a uma variedade assombrosa de
formas de vida.
É possível que os primeiros procariotas tenham sido heterótrofos (quer dizer, que se tenham
nutrido de moléculas orgânicas). Mais tarde, apareceram os procariotas autótrofos, como as algas
azuis. Graças à fotossíntese, ocorreram a produção e o acúmulo de oxigênio na atmosfera, com o
que foi possível o surgimento de células procariontes aeróbicas.
A célula eucarionte pode ter se originado depois da aparição de uma célula eucarionte anaeró-
bica. Esta deve ter sido parasitada por uma procarfonte anaeróbica que, mais tarde, converteu-se
em mitocôndria (Cap. 8-29).
De acordo com certos restos fósseis , os organismos eucariotas devem ter aparecido cerca de 1
bilhão e 500 milhões de anos atrás - ao se estabelecer uma atmosfera de oxigênio estável - e,
como dissemos, esses organismos podiam ser primeiramente anaeróbicos e depois aeróbicos. Até
então, a vida se encontrava somente na água, de onde as plantas e os animais passaram à terra.
O surgimento da reprodução sexual, milhões de anos depois, acelerou a evolução das formas
viventes, que até então era relativamente lenta. Os sexos tomaram possível o intercâmbio de in-
formação genética entre os indivíduos, enquanto a mutação e a seleção produziram as diferentes
formas de vida que hoje se encontram em nosso planeta.

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As membranas celulares
Permeabilidade das membranas 3

3-1. As membranas das células exe rcem diversas atividades


A célula está rodeada pela membrana plasmática, uma camada delgada de 6 a 10 nm de espes-
sura composta por lipídios, proteínas e carboidratos (Fig. 3.1). Sua estrutura básica é semelhante
à das outras membranas da célula as quais envolvem as organelas do sistema de endomembranas
- inclusive o envoltório nuclear - as mitocôndrias e os peroxissomas.
As membranas celulares não são simples fronteiras inertes que compartimentam a célula, mas
sim estruturas que exercem atividades complexas, como as seguintes:
1) Constituem verdadeiras barreiras permeáveis seletivas que controlam a passagem de íons e
de moléculas pequenas, ou seja, de solutos. Assim, a permeabilidade seletiva das membranas impede
o intêrcâmbio indiscriminado dos componentes das organelas entre si e dos componentes extrace-
lulares com os da célula.
2) Fornecem o suporte físico para a atividade ordenada das enzimas que nelas se encontram .
3) Mediante a formação de pequenas vesículas transportadoras tomam possível o deslocamen-
to de substâncias pelo citoplasma (Cap. 7-1 ).
4) A membrana plasmática participa dos processos de endocitose e de exocitose. Primeiramente,
a célula incorpora substâncias do exterior (Cap. 7-29); em seguida, ela as segrega (Cap. 7-22).
S) Na membrana plasmática existem moléculas mediante as quais as células se reconhecem e
se aderem entre si e com componentes da matriz extracelular (Cap. 6-1 ).
6) A membrana plasmática possui receptores que interagem especificamente com moléculas
provenientes do exterior, como ho1mônios, neurotransmissores, fatores de crescimento e outros
indutores químicos. A partir destes receptores são desencadeados sinais transmitidos pelo interior
da célula; seus primeiros elos se situam próximo do receptor, em geral na própria membrana plas-
mática (Cap. 11-8).

ESTRUTURA DAS MEMBRANAS CELULARES


3- 2. A estrutura básica das membranas celulares corresponde
a uma dupla camada lipídica
Os lipídios fundamentais das membranas biológicas são fosfolipídios de tipos distintos e co-
lesterol. No Cap. 2-7, assinalamos a natureza anfipática dos primeiros; são moléculas que possu-

Fig. 3.1 Desenho tridimensional


de uma membrana celular
(membrana plasmática).
40 • AS MEMBRANAS CELULARES

em uma cabeça polar ou hidrófila e longas cadeias hidrocarbonadas apolares ou hidrófobas. Esta
dualidade tem grande importância na estruturação das membranas.
Quando os fosfolipídios são colocados entre um óleo e uma solução aquosa formam uma ca-
mada com uma molécula de espessura (monocamada), na qual todas as cabeças polares se orien-
tam para a solução aquosa e os ácidos graxos se afastam dela, de modo que os fosfolipídios ficam
perpendiculares ao plano da interfase água/óleo (Fig. 3.2). Além disso, se os fosfolipídios e o óleo
forem "empurrados" para a solução aquosa, formam-se pequenas vesículas, com as cabeças dos
fosfolipídios na periferia - em contato com o meio aquoso.....:..... e os ácidos graxos orientados para
o óleo no interior das vesículas (Fig. 3.2).
Por outro lado, nas soluções aquosas puras, os fosfolipídios não formam monocamadas e sim
camadas duplas que se fecham sobre si mesmas, formando vesículas de até 1 µm de diâmetro
chamadas lipossomos (Fig.J.3). Como é de se esperar, os ácidos graxos hidrófobos se unem no
interior da dupla camada e as cabeças polares hidrófilas de cada monocamada se orientam para as
soluções aquosas. Visto que os lipossomos podem se fundir com as membranas plasmáticas, eles
são utilizados como veículos para incorporar diversos compostos às células; para tanto, são cons-
truídos em meio aquoso ao qual lhes são agregados um ou mais compostos (medicamentos, cos-
méticos), o que assegura suà incorporação ao interior das vesículas.
Quando os fosfolipídios são colocados entre duas soluções aquosas, separadas por uma parede
incompleta, formam uma dupla camada lipídica que completa a separação (Fig. 3.4). Aqui, tam-
bém, as cabeças polares dos fosfolipídios se dirigem para as soluções aquosas e os ácidos graxos
se orientam para o interior da dupla camada que, por esse motivo, é altamente hidrófobo. Estas
duplas camadas lipídicas artificiais são construídas para estudar a permeabilidade e as proprie-
dades físico-químicas das membranas biológicas, já que exibem estrutura básica e comportamen-
to semelhantes.

1~1
3-3. Os fosfolipídios não são os lipídios mais abundantes
das membranas celulares
As membranas celulares são formadas por.duplas camadas lipídicas similares às descritas na
seção anterior. Na Fig. 3.5 são mostradas quatro duplas camadas lipídicas tal como observadas à
microscopia eletrônica.
Estas duplas camadas contêm fosfolipídios e colesterol, mas os primeiros podem ser as molé-
culas lipídicas mais abundantes.
As estruluras dos diferentes tipos de fosfolipídios presentes nas membranas foram descritas no
Cap. 2-7. Devemos lembrar que as cadeias hidrocarbonadas dos ácidos graxos podem estar satu-
radas ou não (Fig. 2.20). Nas cadeias saturadas, as ligações simples entre os carbonos conferem
aos ácidos graxos uma configuração estendida, o que faz com que estes se posicionem perpendi-
cularmente em relação ao plano da dupla camada (bicamada) lipídica e que, em cada monocama-
da, os fosfolipídios fiquem agrupados em conjuntos bastante compactos. Ao contrário, as liga-
ções duplas das cadeias não saturadas produzem angulosidades nos ácidos graxos, o que separa os
fosfolipídios e confere à dupla camada uma configuração menos compacta (Fig. 3.6).
O fosfolipídio predominante nas membranas celulares é a fosfatidilcolina. Em seguida, nesta or-
dem, estão a fosfatidiletanolamina, a fosfatidilserina, a esfingomielina e o fosfatidilinositol. Um
' derivado deste último, o fosfatidilinositol 4,5-difosfato ou PIP2 (Fig. 2.16), quando é hidrolisado pro-
duz diacilglicerol (DAG) e inositol 1,4,5-trifosfato (IP3), duas pequenas moléculas implicadas na trans-
missão de sinais intracelulares (Caps. 11-14 e 11-17). Ao contrário, quando se adiciona ao PIP2 um
fosfato, este se converte em fosfatidilinositol 3,4,5-trifosfato ou PIP3 (Caps. 11-14 e 11-20).

Óleo
Água

----- ~-
Água

Fig. 3.2 Esquema que ilustra como se Fig. 3.3 Lipossomo derivado do Fig. 3.4 Dupla camada lipídica artificial
ordenam os fosfolipídios quando colocados ordenamento espontâneo dos fosfolipídios formada ao se colocar fosfolipídios entre dois
em uma interfase de óleo e água. quando são colocados em um meio aquoso. .meios aquosos.
AS MEMBRANAS CELULARES • 41

Fig. 3.5 Eletromicrografia de quatro membranas celulares (MC) . Em cada uma observa-se a dupla camada
lipídica. E!, espaço intercelular. 240.000X . (De E. D. De Robertis .)
Fig. 3.6 Esquemas que ilustram
como as ligações duplas dos
ácidos graxos distanciam os
fosfolipídios nas duplas camadas
A membrana interna da mitocôndria contém um fosfolipídio duplo chamado difosfatidilgliceroI lipídicas.
ou cardiolipina (Cap. 2-7) (Fig. 2.17).
O colesterol é um componente quantitativamente importante das membranas celulares, espe-
cialmente na membrana plasmática. Em virtude de ser anfipático, em cada monocamada se dis-
põe entre os fosfolipídios, com o grupo OH do C3' de seu núcleo cíclico orientado para a solução
aquosa (Cap. 2-7) (Fig. 3.7).
Na membrana do retículo endoplasmático ex\ste um lipídio especial chamado dolicol (Figs.
2.24 e 7 .15), necessário para a incorporação dos oligossacarídeos às moléculas protéicas durante
a, formação de algumas glicoproteínas (Cap. 7-16).
Os diferentes componentes lipídicos são mantidos na dupla camada graças as suas interações
com ô meio aquoso e com os ácidos graxos dos fosfolipídios vizinhos, sem que sejam produzidas
ligações covalentes entre eles.
As duas camadas da bicamada lipídica não são idênticas em sua composição, e por esta razão
se diz que as membranas são assimétricas. A fosfatidiletanolamina, a fosfatidilserina e o fosfatidi-
linositol predominam na camada que está em contato com o citosol, enquanto a fosfatidilcolina e
a esfingomielina predominam na camada não citosólica (na membrana plasmática, voltada para o
exterior; em uma organela, voltada para sua cavidade).
A composição das membranas celulares apresenta diferenças quantitativas e qualitativas se-
gundo a análise da membrana plasmática ou da membrana de alguma organela em particular. Por
exemplo, a membrana mitocondrial interna possui difosfatidilglicerol e a do retículo endoplasmá-
tico contém dolicol, lipídios que não existem em outras membranas. Ao contrário, o colesterol é
abundante na membrana plasmática e muito escasso na membrana interna da mitocôndria. Tam-
bém existem diferenças entre as membranas quando são analisados os diferentes tipos celulares.
Às temperaturas fisiológicas, a dupla camada lipídica comporta-se como uma estrutura fluida.
A fluidez aumenta quando a proporção de ácidos graxos curtos e não saturados nos fosfolipídios
se eleva. Vimos que a saturação dos ácidos graxos faz com que os fosfolipídios se agrupem em
conjuntos mais compactos, o que confere maior rigidez à dupla camada. O colesterol produz con-
seqüências similares.
Dizer que a dupla camada lipídica se comporta como uma estrutura líquida significa que seus )
componentes giram em tomo de seus eixos e se deslocam livremente pela superfície membranosa .
(Fig. 3.8). Além destes movimentos, os lipídios podem passar de uma camada para outra por meio r
de um movimento chamado "flip-flop" (por sua semelhança com o mo~mento desenvolvido em
~ /

Deslocamento lateral

Fig. 3.7 Moléculas de colesterol entre os Fig. 3.8 Movimentos que sofrem os
fosfolipídios das membranas celulares. fosfolipídios nas membranas da célula.
42 • AS MEMBRANAS CELULARES

uma cambalhota). Este movimento é pouco comum comparado com a rotação e o deslocamento
lateral.
Na Seção 3-7 veremos que alguns lipídios da membrana encontram-se associados a carboidra-
tos sob a forma de glicolipídios.

3-4. As proteínas das membranas celulares são classificadas


em integrais e periféricas
As membranas celulares contêm importantes quantidades de proteínas. Em média, a propor-
ção de lipídios e de proteínas é equivalente, embora varie nos diferentes tipos de membranas. Por
exemplo, a membrana das bainhas de miel.iri__;,possui 80% de lipídios e 20% de proteínas, enquan-
to na membrana interna das mitocôndrias essa relação se inverte.
As proteínas das membranas celulares exibem uma assimetria maior que os lipídios e são clas-
sificadas em periféricas e integrais (Fig. 3.9).
As proteínas periféricas encontram-sé sôbre as faces da membrana, ligadas às cabeças dos
fosfolipídios ou a proteínas integrais por ligações não-covalentes. Assim, podem ser extraídas com
certa facilidade mediante tratamento com soluções salinas. Da superfície das proteínas surgem os
resíduos dos aminoácidos polares (Fig. 2.25), que interagem com grupos químicos da própria
membrana e dos meios que a banham.
As proteínas integrais encontram-se embutidas nas membranas, entre os lipídios da dupla
camada, motivo pelo qual, para sua extração, são necessários procedimentos relativamente drás-
ticos, mediante detergentes ou solventes especiais. Algumas se estendem da zona hidrófoba da
dupla camada até uma das faces da membrana, por onde emergem (Fig. 3.9). Outras, ao contrário,
atravessam a dupla camada totalmente, daí serem chamadas transmembrana (Fig. 3.9). A extre-
midade carboxila dessas proteínas pode encontrar-se no lado citosólico da membrana e a extremi-
dade amina no lado não-citosólico. Essas extremidades se vinculam aos meios aquosos que ba-
nham as superfícies da membrana, por isso possuem um predomínio de aminoácidos hidrófilos.
Ao contrário, as partes das proteínas integrais que se encontram entre os ácidos graxos dos fosfo-
lipídios apresentam maior proporção de aminoácidos hidrófobos. Comumente, a zona intramem-
branosa exibe uma estrutura secundária em hélice a, com sua superfície exterior hidrófoba em
contato com os ácidos graxos , também hidrófobos (Fig. 3.10).
Muitas proteínas transmembrana atravessam a dupla camada lipídica mais de uma vez - daí
serem chamadas de proteínas de passagem múltipla - e, por isso, formam uma sucessão de al-
ças cujas curvas emergem por ambas as faces da membrana (Fig. 3.10).
Algumas proteínas transmembrana se associam a outras para formar estruturas cilíndricas ocas,
como as mostradas na Fig. 3.21. Seus aminoácidos se distribuem de tal maneira que a parede ex-
terior do cilindro oco - em contato com os ácidos graxos - resulta apolar, enquanto a superfície

Fig. 3.9 Posições das proteínas


integrais e das proteínas
periféricas nas membranas
celulares.

Fig. 3.10 Esquemas de quatro


proteínas integrais, duas
transmembranas (uma delas de
passagem múltipla) e duas em
posições periféricas.
AS MEMBRANAS CELULARES • 43

interna se acha coberta por grupos polares, os quais delimitam um túnel cujas bocas se abrem em
ambos os lados da dupla camada. Jviais adiante, analisaremos as características destes túneis e sua
importâr~g-~J2ara o transporte de solutos através das membranas.
'-Devemos lembrar também que existem proteínas que se comportam como integrais - pois
exigem métodos drásticos para serem removidas - porém que têm posições periféricás. Sua es-
tabilidade na membrana decorre do fato de se encontrarem unidas por ligações covalentes a um
ácido graxo ou a um fosfatidilinositol , quer estejam no lado citosólico ou no lado não-citosólico,
respectivamente (Fig. 3.10).
Na Seção 3-7 veremos que muitas proteínas da membrana estão associadas aos carboidratos,
ou seja, são glicoproteínas. Além disso, na membrana plasmática, quase todas as proteínas per-
tencem a esta categoria.

3-5. As membranas celulares respondem ao modelo


chamado de mosaico fluido
Como os lipídios, as proteínas também podem girar em tomo de seus próprios eixos e se des-
locar lateralmente no plano da dupla camada. Elas foram comparadas com "icebergs" que flutu-
am na dupla camada lipídica. A esta propriedade dinâmica das membranas biológicas chama-se
mosaico fluido.
A capacidade de migrar pela dupla camada indicaria que as inter-relações químicas entre pro-
teínas e lipídios são e~ . Entretanto, na maioria dos casos elas exibem certa estabilidade.
Assim, os lipídios que rodeiam uma determinada proteína se mantêm associados a ela, o que pa-
rece ser importante para assegurar a configuração da proteína. Comumente, as proteínas da mem-
brana mostram propriedades diferentes quando sã.o encontradas nas membranas e quando foram
isoladas e purificadas. Isto levou a reavaliar o ambiente lipídico no qual se encontram e a reconhe-
cer ::.existência de movimentos combinados das proteínas com os lipídios. Ademais, as atividades
das proteínas poderiam variar por modificações nos lipídios anexos.
Algumas proteínas da membrana plasmática têm sua mobilidade lateral restringida por esta-
rem unidas a componentes do citoesqueleto, os quais as imobilizam em determinados pontos da
membrana (Cap. 5-24) (Fig. 5.31). Por outro lado, a junção oclusiva (Cap. 6-11) (Fig. 6.9) impede
que as proteínas passem de um lado para outro do limite marcado por ela (Fig. 3.27).,

3-6. A fluidez das proteínas na dupla camada lipídica foi comprovada


mediante técnicas biológicas diferentes
Vimos que a fluidez da membrana faz referência ao deslocamento dos lipídios e das proteínas
no plano da dupla camada. Esta fluidez foi comprovada mediante anticorpos ligados a fluorocro-
mos, que são fáceis de detectar pela microscopia de fluorescência (Cap. 23-25). Examinemos as
seguintes experiências:
Linfócitos foram tratados com anticorpos fluorescentes que se unem a receptores (proteínas)
localizados em suas membranas plasmáticas e assim foi possível observar o desenvolvimento de
uma espécie de capuz (Fig. 3.11). Este capuz é formado porque os receptores se deslocam pela
membrana e se agrupam em um pólo da célula. Ademais, ali a membrana plasmática pode se
invaginar para o citosol e formar vesículas de endocitose (Cap. 7-29) que também são detectadas
com o microscópio de fluorescência.
Se em um cultivo celular duas células de espécies diferentes (p.ex. , uma humana e outra de
rato) são fundidas, obtém-se uma célula com dois núcleos chamada heterocarionte, que compar-
tilha os citoplasmas, os núcleos e as membranas plasmáticas das células participantes (Fig. 3.12)

Fig. 3.11 Linfócito tratado com


anticorpo fluorescente que se
une a receptores protéicos da
membrana plasmática. Observar
o deslocamento dos receptores e
seu agrupamento em um pólo da
célula (o próximo ao complexo
de Golgi), onde podem ingressar
por endocitose. (De S. de Pretris
e M. C. Raff.)
44 • AS MEMBRANAS CELULARES

Fig. 3.12 Obtenção de um


heterocarionte ao se unir a duas
Vírus
células de espécies diferentes
mediante o vírus Sendai + --+
Sendai
inativado.
Célula humana Célula de rato Heterocarionte

(Cap. 21-4). A união das células é obtida com ajuda do vírus Sendai inativado ou do polietileno-
glicol, cujas propriedades fusógenas propiciam o contato e a integração das membranas plasmáti-
cas. Se previamente as células forem marcadas com outros anticorpos fluorescentes de cores dife-
rentes (como a fluoresceína, que é verde, e a rodamina, que é vermelha), após a fusão podem ser
reconhecidas na membrana plasmática da heterocarionte as partes fornecidas por cada célula. No
entanto, devido aos receptores marcados se deslocarem pela membrana, logo as duas cores se
misturam em toda a superfície da célula.
Na Fig. 3.13 é representado o possível mecanismo molecular de fusão de membranas. Quando
se acham próximas entre si e sob a influência de elementos fusógenos (neste caso, o vírus Sendai
ou o polietileno glicol) sucedem-se os seguintes fenômenos: 1) são despejadas as proteínas da mem-
brana, o que deixa as duplas camadas sem outro tipo de moléculas além dos lipídios; 2) as duplas
camadas estabelecem um contato íntimo através de suas respectivas monocamadas confrontadas;
3) essas camadas desaparecem e se desenvolve uma interfase de estruturas lipídicas hexagonais
entre as duas monocamadas restantes (esta interfase parece ser essencial em todos os processos de
fusão de membranas); 4) finalmente, a interfase desaparece e a fusão se completa. O mecanismo
descrito ocorre em todos os processos fisiológicos de fusão de membranas e neles intervêm agen-
tes fusógenos presentes no citosol, descritos quando analisamos a dinâmica das vesículas trans-
portadoras no sistema de endomembranas (Cap. 7-41) e a fusão do espermatozóide com o ovócito
(oócito) durante a fecundação (Cap. 19-19).
Outro método utilizado para estudar o deslocamento lateral das proteínas no plano das mem-
branas é a técnica de recuperação da fluorescência após o fotobranqueamento, conhecida pela
sigla FRAP (do inglês, fluorescence recovery after photobleaching). Aqui, certas proteínas da
membrana são marcadas com fluorocromos e um pequeno setor da membrana é irradiado com
raios laser. Esse setor "se embranquece", ou seja, fica sem fluorescência. No entanto, logo é inva-
dido por proteínas fluorescentes provenientes das regiões não irradiadas. A velocidade de recupe-
ração da fluorescência pode ser calculada mediante o índice chamado "coeficiente de difusão''.

3- 7. Os carboidratos das membranas celulares fazem parte


de glicolipídios e de glicoproteínas
As membranas celulares contêm entre 2 e 10% de carboidratos. Estes se encontram ligados
covalentemente a lipídios e a proteínas da membrana, ou seja, sob a forma .de glicolipídios e.gli-
coproteínas (Fig. 3.14).
Os glicolipídios classificam-se em cerebrosídios e gangliosídios (Cap. 2-7). Os cerebrosídios
são formados pela união de uma galactose ou de uma glicose com a ceramida (Fig. 2.21). A estru-
tura dos gangliosídios é similar, porém o carboidrato não é um monossacarídeo e sim um oligos-
sacarídeo que contém um a três ácidos siálicos (Fig. 2.22).
Por outro lado, as glicoproteínas da membrana contêm oligossacarídeos ou polissacarídeos.

Fig. 3.13 Esquema que ilustra o


possível mecanismo molecular
responsável pela fusão de duas
membranas celulares. (De R.
Schaier e P. Overath.)
AS MEMBRANAS CELULARES • 45

Fig. 3.14 Presença de


carboidratos (integrantes de
glicolipídios e glicoproteínas)
na face não-citosólica das
membranas celulares.

Os oligossacarídeos estão ligados às proteínas por ligações N -glicosídicas ou 0-glicosídicas


(Cap. 2-6) (Figs. 2.7 e 2.8). Habitualmente, os monômeros que se localizam na periferia dos oli-
gossacarídeos são ácidos siálicos. Uma proteína pode conter uma ou várias cadeias oligossacarí-
dicas (Fig. 3.14).
Os polissacarídeos ligados às proteínas são glicosaminoglicanas (uma ou várias por proteí-
nas) e são formadas glicoproteínas chamadas proteoglicanas (Cap. 2-6) (Figs. 2.10 e 2.11). Nos
Caps. 6-3 e 7-18, veremos que muitas proteoglicanas são transferidas para o meio extracelular,
onde são abundantes. No entanto, algumas regressam à célula e se instalam na membrana plasmá-
tica como glicoproteínas periféricas. Assim, podemos dizer que estas proteoglicanas são molécu-
las recuReradas pela célula.

3-8 ... Os carboidratos cumprem funções relevantes nas membranas celulares -.,_. ;!
Os carboidratos dos glicolipídios e das glicoproteínas que se localizam na superfície não-cito-
sólica (ou luminal) da membrana das organelas que integram o sistema de endomembranas cum-
prem diversas funções. Os correspo!ldentes à membrana dos lisossomos, por exemplo, a prote-
gem das enzimas hidrolíticas presentes no interior da organela (Cap. 7-33).
Os cárboidratos dos glicolipídios e das glicoproteínas que se localizam na face externa da
, membrana plasmática formam uma cobertura chamada glicocálice (Fig. 3.14). Suas funções são
as seguintes:
1) Protegem a superfície da célula de agressões mecânicas e químicas. Por exemplo, o glicocá-
lice das células situadas na superfície da mucosa intestinal as protege do contato com os alimen-
tos e dos efeitos destrutivos das enzimas digestivas.
2) Devido à presença de _ácidos siálicos em muitos dos oligossacârídeos do glicocálice, a carga
elétrica em sua suµerfície_é.negativa. Isso atrai os cátions do meio extracelular, que ficam retidos
na face externa da célula. Esta condição é importante particularmente nas células nervosas e nas
mu_SDllares, já que necessitam incorporar grande quantidade de Na+ de fácil disponibilidade du-
rante a despolarização de suas membranas.
3) Alguns oligossacarídeos do glicocálice são necessários para os processos de r_ec9nhecimen-
to e de adesão celular (Caps. 6-8 e 6-9). - -
4) A membrana plasmática que circunda várias vezes o axônio de alguns neurônios para for-
mar a bainha de mielina contém quantidade abundante de glicolipídios que contribuem para o iso-
lamento elétrico do axônio.
' 5) A.._e.sp_ecificidade-do_s~e grupos sangüíneos é determinada por certos oligossa-
carídeos muito curtos e parecidos entre si, presentes na membrana plasmática das hemácias. Estes
oligossacarídeos somente diferem por seus monômeros terminais e são ligados a uma proteína
transmembrana: ou a uma ceramida, como mostra a Fig. 3.15. Assim, nas hemácias pertencentes
ao grupo A, o monossacarídeo terminal da cadeia oligossacarídica é a N-acetilgalactosamina e
nas do grupo B é a galactose; quando estes monossacarídeos terminais estão ausentes, as hemáci-
as pertencem ao grupo sangüíneo O (Fig. 3.15).
6) Nas células tumorais malignas foram observadas alterações em alguns oligossacarídeos da
membrana, ;-que levou a crer queis to influi na conduta anômala que elas assumem. Acredita-se
que alterem a r~cg?ção dos sinais que controla~ divi_sões_celulares.
7) Algumas toxinas, bactérias e vírus se unem a oligossacarídeos específicos presentes na
membrana plasmática das células que atacam. Por exemplo, sabemos que algumas bactérias unem-
se às manoses de oligossacarídeos da membrana plasmática das células que infectam, como uma
etapa prévia de sua invasão. Por outro lado, para inici-ar suas ações patogênicas, algumas toxinas
- como as que são elaboradas pelas bactérias do cólera, do tétano, do botulismo e da difteria -
unem-se seletivamente a oligossacarídeos de gangliosídios presentes na superfície celular.
46 • AS MEMBRANAS CELULARES


Glicose

Galactose
• •
• N-Acetilglicosamina

• N-Acetilgalactosamina
I'\\
f
( 1 (
\\
Fig. 3.15 Oligossacarídeos da
membrana plasmática da
hemácia, determinantes dos
• Fucose '1
1 \
\ 1\
grupos sangüíneos O, A e B. GRUPO SANGÜÍNEO: o A 8

8) Em algumas células, determinadas proteínas do glicocálice têm propriedades enzimáticas.


Por exemplo, diversas glicoproteínas pertencentes ao glicocálice das células que revestem o in-
testino são peptidases e glicosidases que têm por função completar a degradação das proteínas e
dos carboidratos ingeridos, iniciada por outras enzimas digestivas.

PERMEABILIDADE DAS MEMBRANAS CELULARES


3-9. Os solutos e as macromoléculas atravessam as membranas celulares
mediante mecanismos diferentes
Existe um fluxo contínuo de substâncias que entram e saem da célula e circulam por seu inte-
rior. Para tanto, os solutos (ou seja, os íons e as moléculas pequenas) devem passar através das
membranas celulares; tal fenômeno é denominado permeabilidade e será estudado nas próximas
seções deste capítulo.
No que diz respeito às macromoléculas, para atravessar as membranas algumas utilizam ca-
nais protéicos especiais chamados translócons, outras passam por poros de composição sofistica-
da e outras se valem de vesículas pequenas. Estas transferências serão analisadas nos capítulos
dedicados ao sistema de endomembranas (Caps. 7-1 e 7-12), à mitocôndria (Cap. 8-28), ao
peroxissoma (Cap. 10-5) e ao envoltório nuclear (Cap. 12-4).

3-1 O. A passagem de solutos através das membranas celulares


pode ser passiva ou ativa
O intercâmbio incessante de solutos entre o meio que rodeia a célula e o citosol e entre este
e o interior das organelas é realizado através da membrana plasmática e das membranas dessas .
organelas, respectivamente. Conforme o caso, a passagem ocorre sem gasto de energia ou por
mecanismos que necessitem de energia. Quando não há consumo de energia, o processo é
denominado transporte passivo; o processo que depende de energia é denominado transporte
ativo.
O transporte passivo ocorre por meio dos componentes da dupla camada lipídica ou pelas
estruturas especiais, constituídas por proteínas transmembi-anas organizadas para a passagem dos
solutos (Fig. 3.16); estas estruturas são de dois tipos: os canais iônicos e as permeases, chamados
também transportadores. O transporte passivo através da dupla camada lipídica é denominado
difusão simples, e o que é realizado através dos canais iônicos e das permeases leva o nome de
difusão facilitada .
O transporte ativo ocorre exclusivamente por meio de permeases (Fig. 3.16).

- 3-11. O transporte passivo dos solutos ocorre por difusão


Quando se dissolve o soluto em um solvente, as partículas do primeiro se dispersam de forma
progressiva por todo o solvente até ficarem uniformemente distribuídas. O movimento do soluto
- chamado difusão - é realizado dos locais em que está mais concentrado para os de menor
concentração, com uma velocidade proporcional à diferença entre as concentrações (Fig. 3.17).
Esta diferença é denominada gradiente de concentração. Se o soluto possui carga elétrica, ainda
se move pelo gradiente de voltagem ou potencial elétrico que se estabelece entre os diferentes
pontos da solução. A soma dos gradientes de concentração e de voltagem é conhecida como gra-
AS MEMBRANAS CELULARES • 47

•••
••••• Dupla
camada Canal
Fig. 3.16 Diferentes mecanismos
e estruturas membranosas

••••
••••
lipídica iôn ico


Permease


Permease utilizados pelos solutos para

•• •
atravessar as membranas da
célula .

Q)i.~
e E
.~
"O
'5
rr
~
(.'.)
e
ãí
Qi

•• Difusão
simples
Difusão
facilitada
Difusão
facilitada
Transporte
ativo

Fig. 3.17 Difusão de uma

.... ----.
substância dissolvida em um
•••••
::.::• • • • •
• solvente.
~
• • •
º\ \ • •



• •
• • • • •

diente eletroquímico. A difusão a favor desses tais gradientes é um processo que ocorre esponta-
neamente, sem gasto de energia; daí resulta a denominação transporte passivo.

3-12 . A difusão simples ocorre através da dupla camada lipídica


O transporte ativo de solutos também pode ocorrer entre compartimentos aquosos separados l
por membranas semipermeáveis, como é o caso das duplas camadas lipídicas das membranas 1
celulares. Este tipo de transporte é denominado difusão simples. Essas membranas são chamadas 1o
semipermeáveis porque os solutos são obrigados a "driblar" a peneira fina que representa sua du-
pla camada de lipídios.
As substâncias que se dissolvem nos lipídios atravessam a zona hidrófoba das membranas com
certa facilidade. Existe uma relação linear direta entre a solubilidade nos lipídios de uma substân-
cia e sua velocidade de difusão através das membranas semipermeáveis. Tal relação se expressa
mediante o coeficiente de partição óleo-água, que é medido agitando o soluto em uma mistura de
ambos os líquidos. Quando as duas fases são separadas, a concentração da substância dissolvida é
determinada em cada uma delas . A relação concentração do soluto em óleo/concentração do solu-
to em água dá o valor do coeficiente de partição.
As moléculas não-polares pequenas - como 0 2, C0 2 e N2 - difundem-se livremente através}
das duplas camadas lipídicas (Fig. 3.18). Também o fazem compostos lipossolúveis de maior ta-
manho, como, por exemplo, os ácidos graxos e os esteróides. Apesar de serem moléculas polares,
o glicerol e a uréia· atravessam facilmente as membranas celulares porque são pequenas e não
possuem carga elétrica. .
A dupla camada lipídica das membranas celulares permite a passagem de água por difusão
simples. Como a água constitui o solvente no qual estão dissolvidos os solutos e dispersas as

2
N Uréia Nucleotídeos
C~2 Esteróides
, Aminoácidos
H0 Acides graxos G\icose
2 Glicerol lo ~

HHTIHHTIHTI1HHTITIHTIH~1TIHTITITIHHTITIHHHH
~~g~~g~gg~gg~gMgg~gg~~Qgg~y~g Fig. 3.18 Solutos que atravessam
as membranas da célula por
difusão simples.
48 • AS MEMBRANAS CELULARES

Fig. 3.19 Velocidades do fluxo


dos solutos ao atravessar uma - Difusão simples
membrana por difusão simples e - - - - - - - - --:-- - -7''---1 - Difusão facilitada
difusão facilitada, segundo seus
gradientes de concentração.

Concentração do soluto

macromoléculas, o sentido do movimento das moléculas aquosas depende do gradiente osmóti-


co entre ambos os lados da membrana. Na Seção 3-16, serão analisados outros aspectos vincula-
dos à passagem de água através das membranas celulares.
A difusão das moléculas polares através da dupla camada lipídica é tanto menor quanto maior
for o seu tamanho; as hexoses, os aminoácidos ·e os nucleotídeos, por exemplo, praticamente não
se difundem. Quanto aos íons, dada a sua carga elétrica, unem-se a várias moléculas de água, o
que os impede de atravessar a dupla camada lipídica por menor que sejam (no Cap. 2-2 vimos que
a água se comporta como um dipolo).
A difusão simples ocorre de forma espontânea, com uma velocidade diretamente proporcional
à diferença de concentração (ou gradiente) do soluto entre um e outro lado da membrana, como se
observa no gráfico da Fig. 3.19. Devemos assinalar que a inclinação da reta depende do grau de
permeabilidade da membrana ao soluto. Como vimos , o sentido da difusão depende do lado em
que o soluto esteja mais concentrado.

3-13. A difusão facilitada ocorre através de canais iônicos e de permeases


A maioria das substâncias que atravessa as membranas celulares a favor dos gradientes - ou
seja, sem gasto de energia - o faz a uma velocidade maior que a esperada se sua passagem for
j por difusão simples. A diferença é explicada pela presença de certos componentes protéicos da
l membrana chamados canais iônicos e permeases, 1 pelos quais se facilita - embora também se
regule - a transferência dos solutos de um lado a outro da membrana.
O sentido da difusão é realizado sempre a favor dos gradientes de concentração e voltagem.
Assim , diante da intervenção desses gradientes, o sentido da difusão também se inverte. Como

~
vemos, na difusão facilitada, a força que impulsiona a mobilização das partículas do soluto é o
gradiente e, portanto, não consome energia. Desse ponto de vista, a difusão facilitada é similar à
difusão simples; a diferença reside em que na primeira participam estruturas protéicas regulado-
-as e na segunda não.
Durante o transporte passivo de solutos por difusão facilitada, os complexos soluto-canal iôni-
co e soluto-permease mostram características de especificidade e saturabilidade similares às do
complexo enzima-substrato. Assim, se em um sistema de coordenadas representarmos a veloci-
dade do fluxo em função da concentração de soluto, obtém-se uma curva hiperbólica, que marca
uma notável diferença com a relação linear direta da difusão simples (Fig. 3.19). A hipérbole é
semelhante à derivada da atividade enzimática em função_;ia concentração do substrato (Fig. 2.34 ).

l
Tal comportamento indica que o processo é saturável. Quando em um canal iônic9 ou em uma
permease se alcança a velocidade máxima de fluxo , esta já não aumenta por mais que se incremente
a concentração do soluto. /
Igualmente ao caso das enzimas, pode-se definir a constante Km como a concentração de soluto na
qual se alcança metade da velocidade máxima do fluxo. Na maioria das circunstâncias, o valor Km
.' tem uma relação inversa com a afinidade do transportador pelo soluto. Quanto menor o valor de K 111
,

maior é a afinidade e vice-versa. Em conseqüência, neste tipo de sistema a velocidade de fluxo do


soluto pode ser expressa mediante uma equação similar à empregada para as enzimas (Cap. 2-15):
1máx [S]
] = ----
Km+ [S]
onde J é a velocidade de fluxo ; Jmáx• a velocidade máxima do fluxo; [S] a concentração do soluto
e Km a concentração de soluto na qual o fluxo é igual à metade do máximo.

1
N.T.: Também conhecidas como transportadoras ou , em inglês, carrier.
AS MEMBRANAS CELULARES • 49

Como ocorre com as enzimas, existem substâncias que possuem estruturas moleculares seme-
lhantes às dos solutos e que podem se unir aos canais iônicos e às permeases e produzir inibições
competitivas (Cap. 2-17). Também ocorrem inibições do tipo não competitivo.

3-14. Existem dois tipos de canais iônicos, os dependentes de ligante e os


dependentes de voltagem
Os canais iônicos são poros ou túneis hidrófilos que atravessam membranas, formados por '\
proteínas integrais transmembrana geralmente do tipo passagem múltipla.
Existem canais iônicos em todas as células, tanto na membrana plasmática como na membrana L
das organelas. São altamente seletivos , de modo que existem canais específicos para cada tipo de '
íon (Na+, K+, Ca 2 +, c1- etc.). Os mais abundantes nas membranas plasmáticas são os canais
para K+. _;
O flu xo de um íon é impulsionado pelo gradiente eletroquímico, resultante, como vimos, do
r somatório dos gradientes de concentração e de voltagem entre ambos os lados da membrana. No
Quadro 3.1 estão informadas as concentrações dos principais íons dentro e fora da célula. Nor-
malmente, o lado citosólico da membrana plasmática é eletronegativo com relação ao lado exte-
rior, o que favorece a entrada- ou dificulta o escape- dos íons com carga positiva. Com os íons
negativos, se dá a situação inversa. Por exemplo, o gradiente de voltagem se opõe à saída de K+
da célula, enquanto o gradiente de concentração a favorece. Quando estas forças opostas se equili-
bram, o gradiente eletroquímico é igual a zero e o fluxo do íon é interrompido.
O potencial de equilíbrio de um íon pode ser calculado ao conhecer sua concentração no inte-
rior da célula e no meio extracelular mediante a equação de Nernst:

RT Ce RT Ce
V =- - - ln - = 2,303 - - ~ log - '
zF Ci zF Ci
onde V é o potencial de equilíbrio (em volts); R é a constante dos gases (1 .987 cal · mo1- 1 • ºK- 1);
Té a temperatura absoluta; F, a constante de Faraday (2,3 X 10- 4 cal· v- 1); z, a carga do íon e Ce
e Ci são as concentrações extracelular e intracelular do íon.
A maioria dos canais iônicos não está aberta de forma permanente, pois conta com um dispo-
sitivo de abertura e fechamento semelhante ao de uma "comporta", acionado por dois tipos de
fatores (Fig. 3.20): alguns canais abrem sua "comporta" em resposta a uma mudança no potencial
elétrico da membrana e outros quando lhes chega uma substância indutora (ligante) pelo lado ci-
tosólico ou pelo lado não-citosólico (Caps. 11-2e11-18). Aos primeiros dá-se o nome de canais
dependentes de voltagem; aos segundos, canais dependentes de ligante. A partir do exposto,
para que seja produzida a passagem de soluto através de um canal iônico não somente é necessá-
ria a existência de um gradiente eletroquímico, mas também um estímulo apropriado, o qual, con-
forme o caso, corresponde a uma alteração no potencial de membrana ou à chegada de uma subs-
tância indutora (ligante).
A estrutura de um canal iônico assemelha-se a um cilindro oco que atravessa a membrana. Seu l
dueto central estreita-se e dilata-se de forma semelhante a uma ampulheta, de modo que possui :'
bocas amplas de acesso e de saída. Em um ponto, o dueto alcança um diâmetro muito pequeno; 0
esta zona dá especificidade ao canal, uma vez que é nela que se produz o reconhecimento do íon
segundo seu tamanho e sua carga.
A parede do cilindro é formada por várias proteínas transmembrana, quatro nos canais regula-
dos por alterações de voltagem e cinco nos canais dependentes de ligante (Fig. 3.21).
Os canais iônicos mais bem estudados são os das células nervosas; foram inclusive clonados
os genes que codificam suas proteínas e analisada a seqüência de seus nucleotídeos. Isso permitiu

Quadro 3.1 Concentração dos principais íons nos meios intracelular e extracelular

Intracelular Extracelular
Na+ 12 145
K+ 140 4
Mg2+ 0,5 1,5
Ca2 + < 0,0005 1,5
H+ pH7 ,2 pH7,4
c1 - 10 110
HC0 3 - 27 10
50 • AS MEMBRANAS CELULARES


Fig. 3.20 Esquemas que mostram os mecanismos Fig. 3.21 Esquemas tridimensionais dos canais iônicos dependentes de
de passagem dos íons através dos canais iônicos voltagem (A) e de ligante (B).
dependentes de voltagem (acima) e de ligante
(abaixo) .

estabelecer que são estruturas que foram conservadas com poucas modificações durante a evolu-
ção, já que existe uma notável homologia nesses canais em espécies filogeneticamente muito dis-
tantes.

3-15. Os ionóforos aumentam a permeabilidade das


membranas biológicas a certos íons
Existem substâncias - chamadas ionóforos - que têm a propriedade de se incorporar às
membranas biológicas e aumentar sua permeabilidade a diversos íons. São moléculas de tamanho
~1 relativamente pequeno, com uma superfície hidrófoba que lhes permite inserir-se na dupla cama-
1
da lipídica. São conhecidos dois tipos de ionóforos, os transportadores móveis e os formadores de
canais. Como os canais iônicos , permitem fluxos de íons baseados em gradientes eletroquímicos.
Os transportadores móveis aprisionam o íon em um lado da membrana, englobam-no no inte-
rior de suas moléculas, giram 180º na dupla camada lipídica e o liberam do outro lado da membrana
(Fig. 3.22A). A este grupo pertence o antibiótico valinomicina, um peptídeo cíclico que transfere
K+. Outro ionóforo desta classe é o chamado A 23187, que transfere Ca2+ e Mg2 +; é utilizado em
experiências nas quais se deseja aumentar rapidamente a concentração intracelular de Ca2+ .
Os ionóforos formadores de canais são duetos hidrófobos que permitem a passagem de cátions
rrionovalentes (H+, Na+, K+). A este grupo pertence a gramicidina A, um antibiótico oligopeptídico
composto por 15 aminoácidos; tem uma configuração helicoidal e o dueto que se encontra no inte-
rior da hélice constitui o poro. Seu curto comprimento toma necessária a participação de duas molé-
culas consecutivas para "construir" um poro transmembrana contínuo (Fig. 3.22B).

3-1 Gj As aquaporinas são canais específicos que permitem a passagem


VLseletiva de água
Embora não se trate de canais iônicos, é oportuno analisar aqui um dispositivo molecular que
possibilita a passagem de água através de algumas membranas celulares.
Em vários tipos de células - particularmente nas hemácias e nas células epiteliais dos plexos
coróides, da vesícula biliar e do túbulo proximal do néfron - a membrana é excepcionalmente
permeável à água, muito mais do que o esperado se o seu transporte se realizasse exclusivamente

Fig. 3.22 A. Passagem'df íons


através de ionóforos
transportadores móveis. B.
Passagem de íons através de
ionóforos formadores de canais.
\.

AS MEMBRANAS CELULARES • 51

mediante o mecanismo de difusão simples analjsado na seção 3-12. Isso é devido à presença de
canais de passagem especiais conhecidos com o nome de aquaporinas.
As aquaporinas são constituídas por quatro proteínas de 28 kDa iguais entre si (menos uma, •• ••
que é glicosilada), denomjnadas CHIP (do inglês, channel-fo rming integral protein), cada uma
das quais é composta de seis hélices a -transmembrana . Como mostra a Fig. 3.23, na formação da
••• • ••••
•• ••• •••
•• ••
parede do canal intervêm somente as duas a hélices intermediárias de cada CHIP. Embora se sai-
ba que a passagem de água através das aquaporinas é realizada sem a companhia de íons nem de
outro tipo de solutos, não se conhecem as bases dessa especificidade.

Fig. 3.23 Aquaporina. Corte


3-17. Existem diferentes tipos de permeases passivas envolvidas nos transversal passando pelo plano
processos de monotransporte, co-transporte e contratransporte da membrana. Observar as
quatro CHIP e o canal aquoso
Como nos canais iônicos , a parede das permeases é comumente composta por várias proteínas I central. Cada ponto representa
transmembrana de passagem múltipla. Cada permease possui locais de ligação específicos para uma hélice a transmembrana.
um ou dois tipos de solutos, acessíveis de uma ou de ambas as faces da dupla camada. A fixação
de soluto produz uma alteração conformacional na permease, graças a qual é transferido um ma-
terial para o outro lado da membrana (Fig. 3.24) . .-1

Nesta seção analisaremos somente as permeases que permitem a passagem passiva de solutos,
correspondente ao mecanismo de difusão facilitada. O esclarecimento se deve ao fato de que a
célula possui proteínas transportadoras similares , porém conformadas para a passagem ativa de
solutos com gasto de energia (Seção 3-18).
Existem três tipos de permeases (Fig . 3.25) : 1) a~ ue transferem um único tipo de soluto; esta
forma de transferência chama-se monotransporte (em inglês, uniport); 2) as que transportam c!.2_is
tipos de sol uto s.§ imultanearn~n te ambos no mesmo sentido; este meca_n_ismo é d~nominado_co­
ffansporte (symport) ; 3) as que transferem dois tipos de solutos em sentidos contrários; este tipo
de_trans:krência recebe o nome-de contratransporte (antiport) . Devemos assinalar que no co-
transporte e no contratransporte, as transferências de todos os solutos se acham acopladas obriga-
toriamente, quer dizer, uma não ocorre sem a outra.
São exemplos de-difusão facilitada mediante permeases: 1) o monotransporte de glicose e o
co-transporte de NQ gliÇ_Qt>e na membrana plasmática das células da mucosa intestinal (Seção ;.
3-21); 2) o cóntratránsporte de Na+ e H + através da membrana plasmática de quase todos os tipos
de células; 3) o contratransporte de c1- e HC0 3 - por uma permease da membrana plasmática das
hemácias, chamada banda 3 (Cap. 5-36); 4) o contratransporte de ADP e ATP pela membrana
interna da mitocôndria (Cap. 8-16) (Fig . 8. 10).

3-18. O transporte ativo necessita de energia


Quando o transporte de soluto é realizado no sentido contrário de seu gradiente de concentra-
ção ou de voltagem, isto só é possível com gasto de energia, motivo pel o qual este tipo de passa-
gem é chamado transporte ativo.

Fig. 3.24 Esquema que


representa uma permease e o
modo como os solutos a
atravessam .

• •• •
nm~
ggg~
~wm
~ggg
fimc)mn
~gg~ ~gg~
rrmc)wm
~~~g ~ggg Fig. 3.25 Tipos de permeases
sendo atravessadas por um ou

Monotransporte Co-transporte

Contratransporte
por dois solutos e as direções
que eles tomam.
52 • AS MEMBRANAS CELULARES

O transporte ativo ocorre por meio das permeases chamadas bombas, e neste caso, também
existem formas de monotransporte, co-transporte e contratransporte. Além dis so, o transporte
ativo de solutos apresenta as mesmas características de especificidade e saturabilidade assina-
ladas para a difu são facilitada , embora difira desta por ser realizado contra o gradiente do so-
luto.
Existem inúmeros exemplos de permeases envolvidas nos processos de transporte ativo. Nas
próximas seções descreveremos algumas delas, representativas da maioria.

3-19. A bomba de Na +K+ é um sistema de contratransporte


Um dos sistemas de transporte ativo mais importantes é o que estabelece as diferenças nas
concentracões de Na- e K- entre o interior da célula e o líquido extracelular, que por isso é res-
ponsável pela manutenção do potencial elétrico da membrana plasmática. É denominado bomba
de Na+K+ ou Na+K +-ATPase e tem por função expulsar Na+ para o espaço extracelular e intro-
duzir K+ no citosol (Fig. 3.26). Levando-se em conta que transfere solutos diferentes em sentidos
contrários, trata-se de um sistema de contratransporte.
A bomba de Na+K+ é um complexo constituído por quatro subunidades - duas a e duas 13
(a 2 13 2) - que são proteínas integrais da membrana plasmática. Cada subunidade a possui uma
massa de cerca de 100 kDa e atravessa a membrana umas oito vezes. Ao contrário, cada subuni-
dade 13 é uma glicoproteína de cerca de 45 kDa com várias cadeias oligossacarídicas na extremi-
dade voltada para a face não-citosólica da membrana. Os lipídios da dupla camada vizinhos das
quatro cadeias polipeptídicas influenciariam no funcionamento da bomba, já que esta é inativada
quando, após isolada, são extraídos os lipídios que a acompanham.
As subunidades ex têm locais específicos para fixação do Na+ em suas extremidades citosó-
licas, além de locais reservados para a ligação de K+ em suas extremidades externas. As trans-
ferências de Na+ para o exterior e de K+ para o citosol estão acopladas: uma não pode ser rea-
lizada sem a outra. Conseqüentemente, o funcionamento da bomba provoca o intercâmbio de
Na+ intracelular por K+ extracelular; ambos os flu xos são realizados contra os seus respectivos
gradientes.
O sistema necessita de energia, que é obtida pela hidrólise de ATP. Para tanto , a Na+K+ -
ATPase catalisa essa hidrólise mediante um a reação que necessita da presença não somente de
Na+ e de K+ mas também de Mg2+ . O ATP se une a um sítio específico da subunidade a na
face citosólica da membrana e sua hidrólise se encontra acoplada ao transporte dos íons. Cada
ATP que é hidroli sado possibilita o transporte dê três Na+ para o espaço extracelular e de dois
K+ para o citosol. O resultado do funcionamento da bomba pode ser resumido mediante esta
equação:

onde os subscritos i e e junto aos símbolos Na+ e K+ indicam "intracelular" e "extracelular", res-
pectivamente.
O sentido do flu xo pode ser revertido se as concentrações de Na\ e de K+i aumentam acima de
certos limites e ADP e P se agregam; neste caso, a Na+K+-ATPase atua como uma ATP sintase.
No entanto, normalmente, a bomba atua de acordo com a equação anteriormente escrita: expulsa
três Na+ para cada dois K+ que ingressam (Fig. 3.26). Isto cria a diferença de voltagem (ou poten-
cial elétrico) que existe entre ambos os lados da membrana plasmática, onde o lado citosólico é
normalmente eletronegativo com relação ao lado extracelular (Fig. 3.26). As bombas que geram
potenciais elétricos de membrana são definidas como eletrogênicas .

•• • •
••••
•••••• • • . K+(x2)

meitm -f, m.. m
fm
+ + + + ++ +

. . m
ITITITITITIT~
~~~g~~g
- -- - ---
g~~ ~ ~gg ug~ g~~ ~gQ ~ MU
••••
••
e Na+(x3)

Fig. 3.26 Na+K+-ATPase ou
bomba de Na+K +.
•• •
•••••
AS MEMBRANAS CELULARES • 53

LUZ INTEST INAL Fig. 3.27 Transporte transcelular


de glicose no epitélio intestinal.
Por conta das junções oclusivas
entre as células epiteliais (Cap.
6-11), a glicose deve atravessar

!\
Junção as células para chegar aos
oclusiva
capilares sangüíneos situados
debaixo do epitélio. Embora a
glicose ingresse na célula contra
o seu gradiente, o faz
• • passivamente. Isto se deve à
entrada conjunta de Na+ através
de uma permease co-
transportadora passiva.
Entretanto, este transporte de
glicose consome energia, já que
o Na + deve ser expulso para a
matriz extracelular pelo lado
oposto da célula mediante uma
permease ativa, a bomba de
Na+K+.

Durante seu funcionamento, a Na+K+-ATPase atravessa ciclos de fosforilação e desfosforila-


ção que determinam mudanças alternadas em sua forma. Entre os mecanismos propostos para
explicar como a bomba atua, o que mais se aj usta aos resultados experimentais é o seguinte:
1) Nas subunidades a existem locais de alta afinidade por três Na+, um ATP e um Mg 2 +, facil -
mente acessíveis a partir da superfície citosólica da membrana plasmática. Quando ocorre a hi-
drólise do ATP, é liberado o ADP e o terceiro fosfato é transferido a um ácido aspártico de uma
das subunidades a, o que propicia a fixação de três Na+ no interior do transportador.
2) Logo ocorre uma alteração conformacional na estrutura da permease. Como resultado, os
Na+ ficam expostos para o lado externo da célula. Além disso, diminui sua afinidade pelas subu-
nidades a, motivo pelo qual os Na+ são liberados no meio extracelular.
3) Entretanto, doi s K+ do líquido extracelular se unem à permease e se fixam em seus locais
nas subunidades a. Esta união provoca a liberação do fosfato ligado ao transportàdor.
4) Tal desfosforilação faz com que o transportador recupere sua configuração original e por
isso os K+ ficam expostos para o interior da célula. Visto que, além disso, diminui a sua afinidade
pelas subunidades a, estes íons entram no citosol, o que completa o ciclo.

3-20. Alguns fármacos cardiotônicos inibem a bomba de Na+K+


A Na+K+-ATPase é inibida por fármacos do tipo da ouabaína e da digitoxina - amplamen-
te utilizados como cardiotônicos - que bloqueiam oco-transporte de Na+ e K+ em concentra-
ções de 10- s M. Estas substânci as atuam nas superfícies das células unindo-se aos locais da su-
bunidade a reservados para os K+. A inibição da bomba.
de Na+K+ é devida ao fato de os cardi- \
otônicos, ao competirem com o K+, impedirem a liberação do fosfato ligado à subunidade a do
transportador. Como conseqüência, o sistema é bloqueado e diminui a saída de Na+ para o meio
extracelular. Isto diminui o rendimento de um contratransportador passivo - o de Na+ e de
Ca 2 +- mediante o qual entra Na+ na célula e sai Ca 2 +. Tendo em vista a menor oferta de Na+
desde o líquido extracelular, o seu intercâmbio é inibido com o Ca 2 +, que é retido no citosol. A
maior concentração de Ca 2 + citosólico contrai as células musculares cardíacas com mais forç ª
(Caps . 5-33 e 5-34).

3-21. Diversos transportadores passivos, embora distantes da bomba de


Na+K+, funcionam sob sua dependência
A dependência do contratransportador de Na+ e de Ca2 + da atividade da bomba de Na+K+ é
somente um exemplo dos muitos que existem durante o funcionamento normal da célula. Com
efeito, uma ampla variedade de transportadores é impulsionada pelo gradiente de Na+ gerado por
esta bomba, o qual "arrasta" os demais. Conseqüentemente, se a bomba de Na+K+ for intenompi-
da, os transportadores passivos que dependem dela deixam de funcionar.
O transportador de glicose e oco-transportador de Na+ e glicose, responsáveis pelo transporte
transcelular do monossacarídeo através do epitélio da mucosa intestinal, são outros exemplos re-
presentativos de transporte acoplado ao funcionamento da bomba de Na+K+(Fig. 3.27).
54 • AS MEMBRArAS CELULARES

Assim também ocorre com o contratransporte de NaT e H - . O a+ ingressa no citosol a favor


de seu gradiente e se intercambia por H-, que é expulso da célula. Este mecanismo tem grande
importância na regulação do pH intracelular e se acha presente em quase todos os tipos celulares.

3-22. Uma bomba de K+H+ é responsável pela formação do HCI gástrico


1 a membrana plasmática das células parietais da mucosa gástrica existe uma bomba de K+H+
cuja estrutura não é muito conhecida. Dá lugar ao contratransporte de K + e H+ com gasto de ener-
gia. Faz ~om que sejam aumentados os níveis de K + no citosol e permite que sejam alcançadas
elevadas concentrações de H- na secreção gástrica. Secundariamente, o gradiente eletroquímico
do K - determina sua saída passiva da célula para a cavidade estomacal. Ela é acompanhada pela
saída de c1 - , que na luz do estômago une-se ao H+ e forma HCl (Fig. 3.28). Como podemos ver,
a formação de HCl no suco gástrico depende da atividade da bomba de K+H+.
O K- e o c1- saem da célula por outras permeases monotransportadoras. O c1 - provém do
sangue e ingressa na célula pelo lado oposto do epitélio gástrico por meio de um co-transportador
passivo de c1 - e HC0 3 - similar ao das hemácias (Seção 3-1 7).

3- 23. Diferentes bombas de Ca 2 + mantêm a concentração do


íon no citosol em níveis muito baixos
A concentração de Ca 2 + no citosol é mantida em níveis baixíssimos (mais de 1.000 vezes menores
que os existentes na matriz extracelular) pela existência de um sistema que o expulsa. Assim, tanto na
membrana plasmática quanto na membrana do retículo endoplasmático (ou do retículo sarcoplasmá-
tico, na célula muscular) existem bombas de Cai+ que transferem o cátion do citosol para o espaço
extracelular e para o interior desse retículo, respectivamente. A bomba de Ca2+ dispõe de locais espe-
cíficos de alta afinidade para o Ca2+ na face citosólica de ambas as membranas. Do mesmo modo que
a bomba de Na T K ~, a bomba de Ca2 + necessita de Mgz+ e energia que retira do ATP.

3-24. Uma bomba de H+ diminui o pH dos lisossomos


Uma alta concentração de H+ no interior dos lisossomos é crucial para a ativação de suas enzi-
mas hidrolíticas, que se encontram em condições de atuar somente quando o pH nessas organelas
é reduzido a 5,0 (Cap. 7-33). O transporte de H+ desde o citosol para o interior do lisossomo é um
processo ativo que depende de uma bomba de H+ herdada da membrana do endossomo precursor
(Caps. 7-28 e 7-30) (Fig. 7.22).

3-25. Existem dois tipos de transporte de H+ na mitocôndria,


um ativo e outro passivo
O transporte de H+ através da membrana interna da mitocôndria durante o avanço dos elétrons
pela cadeia respiratória é um outro exemplo de transporte ativo , embora nele a energia não seja
fornecida pelo ATP, mas sim pelo citado percurso de elétrons (Cap. 8- 15).

CAVI DADE DO ESTÔMAGO


if
K+ K+ H+ Ci-
t \ ! t
Junção
HH

? !
oclusiva

Fig. 3.28 Fo1mação de HCI na


cavidade gástrica. Observar as
junções oclusivas, o transporte
t \v=: ) H+.

C02 + H2 0 \
transcelular de c1 - e de que
maneira a atividade da bomba
K+H+ combina com as funções
dos outros transportadores. C02
AS MEMBRANAS CELULARES • 55

Acredita-se que o gradiente eletroquímico entre ambos os lados da membrana mitocondrial


interna seja utilizado para sintetizar ATP, ao retomarem os H- à matriz mitocondrial por meio de
um transportador passivo as sociado à ATP sintase (Figs. 8.10 e 8.12).

3-26. As proteínas MDR são transportadores que conferem às células


resistência a certos medicamentos
As proteínas MDR (do inglês, multidrug resistance) pertencem a uma fanu1ia de transportado-
res ativos que são identificados com a sigla ABC (do inglês, ATP-binding cassette) porque possui
um par de domínios ou "cassetes" com atividade de ATPase. Esta hidrolisa o ATP que fornece a
energia necessária para mobilizar determinados solutos contra seus gradientes.
Os transportadores ABC são encontrados normalmente nas membranas de muitos tipos celula-
res. Foram identificados na membrana plasmática, na membrana do retículo endoplasmático, na
do peroxissoma e na membrana mitocondrial interna.
Alguns desses transportadores têm por função eliminar substâncias tóxicas derivadas do meta-
bolismo celular normal. Ao contrário, outros permitem a passagem de moléculas de tamanho maior
que o esperado, como os polipeptídeos pequenos (Caps. 7-14 e 7-24).
Às vezes , certos tipos de transportadores ABC aparecem em grande número na membrana plas-
mática de vários tipos de células cancerosas, o que lhes confere uma resistência indesejada contra
alguns medicamentos citotóxicos . Isto resulta de que as MDR bombeiam esses medicamentos para
fora das células cancerosas, o que faz com que estas se tomem resistentes à quimioterapia.
Por outro lado , foi observado um aumento similar de proteínas MDR na membrana plasmática
dos linfócitos infectados pelo vírus tipo 1 da imunodeficiência adquirida (HIV-1 ), o que contri-
buiria para sua resistência a medicamentos antivirais como o AZT.
Também ocorre um aumento de proteínas MDR na membrana plasmática das células de al-
guns Jíl<lrasitas que, por este motivo, se tomam resistentes aos medicamentos antiparasitários. Por
exemplo, a Leishmania (agente da leishmaniose) pode desenvolver resistência ao antimónio e a
outros compostos, enquanto o Plasmodium falciparum (agente da malária) pode fazer o mesmo
com a cloroquina, a halofantrina, a primaquina e a mefloquina. Como nos casos anteriores , aqui
também as MDR bombeiam os medicamentos para fora das células, o que anula seu poder tera-
pêutico.

3- 27. Na fibrose cística um canal iônico para o c1- está alterado


A fibrose cística é um grave distúrbio causado pela produção de secreções muito viscosas que
obstruem a luz dos brônquios, os duetos de várias glândulas (como o pâncreas), o tubo intestinal
etc. Manifesta-se em indivíduos homozigotos que possuem mutação no gene codificador da pro-
teína CFTR (do inglês, cystic fibrosis transmembrane conductance regulator) que, em algumas
células epiteliais se comporta como uma permease e, em outras, como um canal iônico dependen-
te de ligante. A proteína CFTR encontra-se envolvida no transporte de c1 - através da membrana
plasmática e quando é defeituosa o mecanismo que leva à fibrose cística é o seguinte. Visto que o
transporte de c1- pela CFTR é bloqueado, o ânion na luz dos duetos afetados diminui e, conse-
qüentemente, diminui também o cátion Na+ (Fig. 3.29). Finalmente, a menor concentração destes
íons determina que a água seja retirada e isto aumenta a viscosidade das secreções.
Como a CFTR pertence à família de transportadores ABC, chama a atenção que em algumas
células ela não atue como uma pe1mease ativa e sim como um canal iônico dependente de ligante

c1- Na• LUZ DO DUCTO

1 ~
c1-

r
t
c1-
-• c1-

r
t
c1-
Fig. 3.29 A. Transporte de c1-
através da proteína CFTR, _
situada na membrana plasmática
que dá para a luz do dueto. B.
Bloqueio da passagem de c1-
como conseqüência de um
defeito na CFTR.
56 • AS MEMBRANAS CELULARES

que, como se sabe, é passivo. Nessas células, uma cinase (quinase) ativada pelo AMP cíclico (Cap.
11-15) controla a abertura do canal iônico e, por conseguinte, a passagem de c1- a favor de seu
gradiente eletroquímico.

A MEMBRANA PLASMÁTICA E A PAREDE DA CÉLULA VEGETAL


3-28. A membrana plasmática da célula vegetal é rodeada
por uma espécie de exoesqueleto
As células das plantas são similares às dos animais, embora apresentem algumas diferenças
(Figs. 1.6 e 1.7). Por exemplo, a célula vegetal possui uma parede celular espessa que envolve a
membrana plasmática como se fosse um exoesqueleto.
Além de dar proteção e sustentação mecânica à célula e determinar sua forma, essa parede
participa da manutenção do equilíbrio entre a pressão osmótica .intracelular e a tendência da água
em penetrar no citosol.
Também o crescimento e a diferenciação das células vegetais dependem, em grande parte, da
organização da parede celular. Assim, a partir desta, ocorre a diferenciação das células do câm-
bio, dos tubos crivosos dofloema (que servem para o transporte do material desde as folhas) e dos
vasos do xilema (que se lignificam).

3-29. A parede celular contém um retículo microfibrilar


A estrutura da parede celular pode ser comparada com a de um plástico reforçado com fibras
de vidro, já que é constituída por um retículo microfibrilar incluído em uma matriz de moléculas
unidas entre si.
As microfibrilas da parede celular são compostas principalmente por celulose, o produto mais
abundante na terra. Trata-se de cadeias retas de polissacarídeos formados por unidades de glicose,
ligadas por enlaces (3 1-4 (Fig. 3.30). Estas são as cadeias de glicana, que mediante ligações de
hidrogênio intramoleculares e intermoleculares produzem a unidade estrutural ou microfibrila,
que tem 25 nm de diâmetro e é composta por quase 2.000 cadeias de glicana. As microfibrilas de
celulose associam-se entre si e compõem um emaranhado semicristalino que combina com proteí-
nas e polissacarídeos não celulósicos para formar a parede celular.
A matriz da parede celular contém alguns polissacarídeos e lignina, principal componente da
madeira. Os polissacarídeos mais importantes são: 1) substâncias pécticas solúveis em água, que
contêm galactose, arabinose e ácido galacturônico, e 2) hemiceluloses, compostas por glicose,
xilose, manose e ácido glicurônico. A lignina é encontrada somente nas paredes das células ma-
duras e é formada por um composto aromático derivado da polimerização dos fenóis.
Algumas paredes celulares podem ser substâncias cuticulares (ceras) e depósitos minerais, como
silicatos e carbonatos de sódio e de magnésio. Nos fungos e nas leveduras, a matriz da parede
celular contém quitina, um polímero da glicosamina.

3-30. A parede celular é composta de uma parede


primária e uma secundária
A parede celular é complexa e, em alguns vegetais, se acha muito diferenciada. Ela pode conter
dois componentes - a parede primária e a parede secundária - que se desenvolvem seqüencial-
mente e se distinguem pela composição de suas matrizes e pela disposição de suas microfibrilas.
A parede primária começa a se formar com a divisão celular, a partir de uma estrutura cha-
mada placa celular, que aparece durante a telófase no plano equatorial entre as futuras células-

OH

Ú cH 0H
- -
2
HO
13-glicose .,,

l /
Fig. 3.30 Elementos estruturais
da celulose em seus sucessivos --- ~ ---
níveis de organização. (De D. K. Celulose Fibrila elementar Corte transversal de Parte de uma
Mühlethaler.) (micela) uma microfibrila microfibrila
AS MEMBRANAS CELULARES • 57

filhas (Cap. 18-21 ). A placa é composta por vesículas do complexo de Golgi que se alinham no
plano equatorial da célula e formam o primeiro rudimento ou camada intermediária da futura pa-
rede celular. Esta camada contém somente pectina, um composto amorfo dotado de ácido galac-
turônico. Posteriormente, cada célula-filha deposita outras camadas compostas por pectina, hemi-
celulose e um retículo frouxo de microfibrilas celulósicas orientadas transversalmente em relação
ao eixo maior da célula, cujo conjunto constitui a citada parede primária.
Somente quando a célula alcança sua maturidade aparece a parede secundária, que compre-
ende materiais agregados sobre a superfície interna da parede primária, seja como espessamentos
localizados (vasos do xilema) ou como espessamento homogêneo (tubos crivosos do floema). Em
ambos os casos, a parede secundária é formada por celulose, hernicelulose e poucas substâncias
pécticas. A diferenciação posterior do xilema ocorre pela infiltração de lignina nos espessamen-
tos localizados. Neste caso, o polímero substitui a água e infiltra a matriz e as microfibrilas celu-
lósicas . Quando a parede se lignifica, a célula morre.

3-31. Os componentes da parede celular originam - se no complexo de Golgi


ou em relação com a membrana plasmática ·
Foram descritas duas vias principais para a biogênese da celulose e de outros componentes da
parede celular. Uma compreende o complexo de Golgi (Cap. 7 -44) e a outra está associada à
membrana plasmática.
A intervenção do complexo de Golgi é evidente em certas algas cujas paredes são formadas
por escamas. Estas têm um material amorfo e um retículo fibrilar radial associado a outro espiral.
As membranas do complexo de Golgi polimerizam cadeias de glicose para formar microfibrilas
de celulose por meio de glicosiltransferases. Em seguida, as microfibrilas se organizam em esca-
mas e se liberam na superfície. ·
A m~brana plasmática é o sítio mais freqüente para a síntese de celulose. Isto não descarta as
funções essenciais desempenhadas pelo retículo endoplasmático e pelo complexo de Golgi, já que
as glicosiltransferases são sintetizadas em ribossomas associados a esse retículo , passam para o
complexo de Golgi e daí para a membrana plasmática, onde ocorre a síntese das microfibrilas
celulósicas.
Anteriormente assinalamos que nos fungos e nas leveduras, a parede celular é composta prin-
cipalmente de quitina. Este polissacarídeo é sintetizado pela enzima quitina sintetase na presença
de UDP-acetilglicosamina. A enzima é ativada por proteólise e pela luz que acelera a síntese de
quitina. Foi encontrada quitina transferase nos quitissomas, organelas vesiculares de 40 a 70 nm
de diâmetro que parecem ser os veículos que entregam a enzima aos locais de síntes'e na superfí-
cie celular.

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O citosol 4

4-1. Introdução
No Cap. 1-3 vimos que as células eucariontes possuem algumas semelhanças com as procari-
ontes. Assim, o citosol - ou matriz citoplasmática - da célula eucarionte contém muitos dos
componentes_que se encontram no protoplasma da bactéria, como, por exemplo, complexos enzi-
máticos de diversas ordens e moléculas de RNA ribossômico, mensageiro e de transferência. As
diferenças entre ambos os tipos celulares são mostradas pela presença na célula eucarionte de várias
estruturas singulares, como o núcleo , o citoesqueleto, as organelas que integram o sistema de
endomembranas, as mitocôndrias , os cloroplastos (na célula vegetal) e os peroxissomas.
\Â célula eucarionte encontra-se dividida em numerosos compartimentos, entre os quais se so-
br~sai o núcleo. A parte da célula que não corresponde ao núcleo - ou seja, o citoplasma - '
pode ser subdividida esquematicamente em dois espaços: um correspondente ao citosol e outro
que se encontra encerrado no interior das organelas. Neste esquema, o citosol é considerado como
um verdadeiro meio interno celular, que se estende do envoltório nuclear até a membrana.plasmá-
tica e que preenche o espaço não ocupado pelo sistema de endomembranas, pelas mitocôndrias e
pelos peroxissomas (Fig. 1.7).
O citosol representa, em média, 50% do volume do citoplasma, cifra que aumenta nas células
embrionárias e nas menos diferenciadas.
O pH do citosol é de 7,2]
4-2. O citosol contém componentes muito variados
Pela técnica do fracionamento celular descrita no Cap. 23-28, obtém-se - além das frações
nuclear, mitocondrial e microssômica - uma fração fluida sobrenadante que contém os compoc
nentes citosólicos.
Nela são detectados os elementos do citoesqueleto - inclusive o centrossomo com os centrí- 1
olos - um grande número de enzimas (por exemplo, as que intervêm na glicólise ), a maioria das .
moléculas que conduzem sinais dentro da célula, os elementos que dirigem a síntese das proteínas p
celulares e extracelulares (ou seja, os ribossomas, os RNA mensageiros e os RNA de transferên-1
eia), as chaperonas, os proteassomos, as inclusões, etc. J

4-3. O citosol pode conter inclusões


l Quando se acumulam no cito sol, em grandes quantidades, certas macromoléculas formam es-
truturas detectáveis ao microscópio - denominadas inclusões - que não têm membranas.
Por exemplo, tanto nos hepatócitos como nas células musculares estriadas, é com_um a presen-
ça no citosol de grânulos de glicogênio (Figs. 1.11e4.1). Chamam-se glicoss?mos,/medem en-
tre 50 e 200 nm e são compostos por subpartículas de 20 a 30 nm de diâmetro. E preciso assinalar
que nas imagens ultramicroscópicas, os glicossomos não correspondem diretamente ao glicogê-
nio; representam as proteínas enzimáticas que intervêm na síntese e na degradação do polissaca-
rídeo, cuja molécula não capta os corantes eletrônicos de uso corrente. Os grânulos de glicogênio
constituem depósitos de energia para as células; isso é claramente visível na célula muscular, uma
60 • O CITOSOL

Fig. 4.1 Eletromicrografia do


setor do citoplasma da célula
hepática. No citosol vizinho ao
retículo endoplasmático liso
(REL) observam-se numerosos
grânulos de glicogênio (G/).
Observar o retículo
endoplasmático rugoso (RER).
45.000X (Cortesia de G. E.
Palade.)

vez que os grânulos desaparecem durante as contrações em função da glicogenólise produzida


para fornecer glicose. Existem doenças congênitas provocadas por mutações nos genes que codi-
ficam as enzimas que regulam a síntese e a degradação do glicogênio, conhecidas como glicoge-
noses. Nelas, as células mostram o acúmulo excessivo de inclusões de glicogênio ou formas anor-
mais do polissacarídeo.
Diversos tipos de células contêm gotículas de gordura (triglicerídios ou triacilgliceróis) no
citosol e que também constituem reservas de energia. São muito comuns nos hepatócitos e nas
células musculares estriadas. Nas células musculares , as inclusões de gorduras estão localizadas
próximo_das mitocôndrias, para as quais se dirigem os ácidos graxos dos triglicerídios para sua

••• oxidação (Cap. 8-8). As células chamadas adipóc~tos contêm uma grande gota de gordura- com
numerosas gotículas ao seu redor - que ocupa quase todo o citosol (Fig. 1.8).
No citosol das células secretoras da glândula mamária em atividade são produzidas gotículas
de gordura que se convertem em elementos importantes do leite. Durante a secreção mamária,
cada gota sai da célula envolvida por uma fina camada de citosol rodeada por uma fração da mem-
brana plasmática (secreção apócrina) (Fig. 4.2).
Em alguns tipos celulares, o citosol contém pigmentos (substâncias com cor própria) que se
elaboram na mesma célula ou que provêm do exterior. O mais importante é a lipofuscina, de cor
Fig. 4.2 Esquema de uma célula marrom, composta por fosfolipídios combinados com proteínas. Pelo fato de aumentar com a ida-
mamária ativa com numerosas
de, é conhecido como pigmento de desgaste (Cap. 7-33).
gotas de gordura no citosol.
Observar a saída das gotas de Finalmente, no citosol de algumas células, há cristais de proteínas, de significado geralmente
gordura por secreção apócrina. desconhecido.

4- 4. No citosol, os ribossomas sintetizam proteínas


A síntese de proteínas celulares ocorre nos ribossomas, de cujo estudo nos ocuparemos no Cap.
"'16. Trata-se de estruturas ribonucleoprotéicas muito complexas, a maioria das·quais está localiza-
da no citosol (nos Caps. 8-11 e 9-15 veremos que também existem ribossomas nas mitocôndrias
e !1-ºs cloroplastos).
Somente uma parte das proteínas sintetizadas nos ribossomas citosólicos permanece no cito-
j sol, já que as restantes emigram para o núcleo, para o sistema de endomembranas, para as mito-
côndrias e para os peroxissomas (Fig. 4.3).
L-
' Como é compreensível, para que as proteínas possam chegar a esses destinos, é necessário o
J, sistema de sinais específicos que sejam capazes de discriminá-los a fim de assegurar a chegada de
cada proteína ao lugar c01Tespondente. Tais sinais são encontrados nas mesmas moléculas protéi-
'--- . .

-~-
1
O CITOSOL • 61

Fig. 4.3 Destinos das proteínas


CITOSOL sinteti zadas nos ribossomas

l~ ~~
citosólicos .

Retículo endoplasmático

/~
Núcleo

Peroxissoma
Mitocôndria

cas que consistem em uma ou várias seqüências de alguns poucos aminoácidos , denominados
peptídeos sinalizadores e sinais de ancoragem (Cap. 7-12).
Segundo o destino da proteína que surge do ribossoma, essas seqüências se localizam na extre-
midade amina, na extremidade carboxila ou em um ou mais pontos intermediários da cadeia pro-
téica. O Quadro 4.1 informa sobre os sinais mais comuns achados nas proteínas que se dirigem ao p
núcleo, ao sistema de endomembranas, às mitocôndrias e aos peroxissomas. Naturalmente, as
proteínas que não emigram e permanecem no citosol não necessitam de nenhum tipo de sinal.
-r-
4- 5. As chaperonas ajudam as proteínas a se dobrar de
forma oportuna e adequada
Embora as proteínas adotem formas tridimensionais que dependem da seqüência linear dos
aminoácidos que as compõem (Cap. 2-9), nem sempre se dobram corretamente. Para que suas
dobraduras sejam corretas é necessário, entre outros requisitos, a sua produção no lugar adequado "
e no momento oportuno, o que é obtido pela intervenção de estruturas chamadas chaperonas, assim ,
designadas porque acompanham as proteínas e - sem exercer ações diretas sobre elas_:__ previ-
nem suas dobraduras prematuras cuidando para.que sejam corretas. . /
Existem três famílias de chaperonas, denominadas hsp60, hsp70 e hsp90 (do inglês, heat shock
protein). A sigla hsp é usada pelo fato de que nas células submetidas a golpes de calor a dobradura
das proteínas é perdida (elas se desnaturam) e aumenta consideravelmente o número d~chapero­
nas que ajudam as proteínas desnaturadas para que voltem a se dobrar. O número que acompanha
. - -·--- --- 'l
a sigla hsp corresponde ao peso molecular da primeira chaperona descoberta em cada grupo.,_
As chaperonas hsp70 são monoméricas e possuem um sulco no qual cabe apenas uma parte da
proteína assistida, de maneira que são necessárias várias chaperonas hsp70 para cada proteína (Fig.
4.4). Ao contrário, as chaperonas hsp60 são poliméricas e são compostas por 14 ou 18 polipetídeos
denominados chaperoninas, que compõem uma estrutura cilíndrica em tomo de um espaço cen-
tral, _onde ingressa a proteína que vai ser assistida (Fig. 4.4).
Para exemplificar como as chaperonas hsp70 e hsp60 atuam analisaremos seus efeitos sobre as
proteínas do citosol. À medida que emana do ribossoma, cada proteína citosólica se associa às
sucessivas chaperonas hsp70, cuja função é prevenir a ~obradura prematur; ~ às vezes e1Tada- 1~
dos segmentos protéicos que vão saindo do ribossoma. Além disso, evitam que a proteína nascen-
te combine com moléculas inapropriadas. Quando acaba de ser sintetizada e sua dobradura é con- "'

Chaperonina
Fig. 4.4 Esquemas das
chaperonas hsp70 e hsp60. O
mecanismo de ação das
chaperonas hsp90 está ilustrado
hsp70 hs60 na Fig. 11.3.
62 • O CITOSOL

Quadro 4.1 Exemplos de peptídeos sinalizadores e sinais de ancoragem

Peptídeo sinalizador para o retículo - H31 - Met-Met-Ser-Phe-Val-Ser-Leu-Leu-Leu-Val-Gly-Ile-Leu- Phe-Trp-Ala-


endoplasmático Thr-Glu-Ala-Glu-Gln-Leu-Thr-Lys-Cys-Glu-Val-Phe-Gln -COO-
Sinal de ancoragem para o retículo +H3 N- Lys-Ile-Ile-Thr-Ile-Gly-Ser-Ile-Cys-Met-Val-Val- Gly-Ile-Ile-Ser-
endoplasmático Leu-Ile-Leu-Gln-Ile-Gly-Asn-Ile-Ile-Ser-Ile-Trp-Ile-Ser-His -COO-
· Peptídeo sinalizador para o núcleo +H3 - --Lys-Arg-Pro-Ala-Ala-lle-Lys-Lys-
Ala-Gly-Gln-Ala-Lys-Lys-Lys-Lys -COO -
Peptídeo sinalizador para a mitocôndria +H3 -Met-Leu-Ser-Leu-Arg-Gln-Ser-Ile-Arg-Phe-Phe-Lys-Pro-Ala-
Thr-Arg-Thr-Leu-Cys-Ser-Ser-Arg-Tyr-Leu-Leu--- coo
Peptídeo sinalizador para o peroxissoma +H3 1- Ser-Lys-Leu-COO

cluída, a proteína se desprende do ribossoma e das chaperonas hsp70 e fixa residência no citosol.
No entanto, se algumas de suas partes não se dobraram ou se dobraram mal, ela ingressa tempo-
rariamente em uma chaperona hsp60, dentro da qual - isolada dos demais componentes citosó-
licos - termina de se dobrar ou desfaz sua dobradura incorreta e se dobra novamente, tratando de
fazê-lo sem erroV
As proteínas' destinadas ao sistema de endomembranas, diferentemente das citosólicas, por
ingressarem no retículo plasmático à medida que saem do ribossoma, dobram-se na cavidade des-
ta organela, que conta com chaperonas hsp7Õ (Cap. 7-12).
,-com relação às proteínas destinadas às mitocôndrias, desde o momento que saem do ribosso-
ma são assistidas por chaperonas hsp70 citosólicas, que as mantêm desdobradas até que cheguem
a seu destino. No Cap. 8-28, veremos que se dobram depois de se incorporar às mitocôndrias, em
cuja matriz há chaperonas hsp70 e hsp60.
Contrariamente, as proteínas destinadas aos peroxissomas os abordam depois de ter se dobra-
do no citosol (Cap. 10-5), de onde se deduz que se dobram com assistência de chaperonas hsp70
e hsp60 citosólicas e que os peroxissomas não possuem chaperonas.
O mesmo ocorre com as proteínas destinadas ao núcleo, que tampouco possuem chaperonas.
No Cap. 11-6 analisaremos como estas proteínas - dobradas no citosol - atravessam os poros
do envoltório nuclear. Além disso, veremos que algumas ingressam no núcleo associadas a cha-
peronas da família hsp90.
!Devemos acrescentar que as chaperonas consomem energia derivada do ATP e que podem ser
utilizadas após concluírem suas funções .'

4- 6. No citosol, os prº"t~a.s.somos degradam as proteínas


que devem desaparecer
No citosol existem estruturas que desempenham funções opostas às dos ribossomas, já que
destroem as proteínas. Assim, quando uma proteína deve desaparecer - porque se dobrou mal,
porque foi danificada ou sua função foi concluída - é degrada por um complexo enzimático de
cerca de 700 kDa chamado proteassomo.
O proteassomo é de forma cilíndrica e composto de várias proteases dispostas em tomo de uma
cavidade central, onde ingressa a proteína que vai ser degradadã_(Fig. 4.5). Sua estrutura é mais
complexa, já que junto a cada extremo do cilindro acha-se um "capuz" protéico integrado por 20
polipeptídeos reguladores.
Para poder ingressar no proteassomo, as proteínas destinadas a desaparecer devem ser previa-
mente "marcadas" por um conj unto de polipetídeos citosólicos iguais entre si, de 76 aminoácidos
cada um, chamados ubiquitinas. Na Fig. 4.5 está resumido o ciclo seguido por essas moléculas.
A primeira ubiquitina é ativada pela enzima El , que a transfere para a enzima E2. Em seguida,
com a ajuda da ligase E3, o complexo ubiquitina-E2 une-se à proteína que deve ser degradada. Já
que o processo de transferência entre as enzimas El e E2 se repete várias vezes, a proteína fica
conectada a uma curta cadeia de ubiquitinas·~
O CITOSOL • 63

Fig. 4.5 Degradação de proteínas


--+ §-O --+ ~ no proteassomo.

Oligopeptideos r..J
~~
~ ~
i i
~ Prote ína

i
o
Ubiquitina
h~~~S,.1 Polipept ídeos
PROTEASSOM·o reguladores

De imediato, este complexo é reconhecido pelos polipeptídeos reguladores de um dos dois


capuzes , que separam as ubiquitinas, desfazem a dobradura da proteína e a introduzem na cavida-
de do proteassomo , onde é degradada pelas p.ro1eas~O.riginarn--s@-0li-§Gf>~f>t-Íàees-euFtBs-que-s.aem
do_prQte_as.s.om0-~ã0-l.ançados..no_cito.sol.
( O processo descrito consome energia. Esta é fornecida por moléculas de ATP, cuja hidrólise é
, levada a· cabo por seis A TPases situadas nos capuzes do proteassomo.
Ao finalizar a degradação da proteína, o proteassomo e as ubiquitinas ficam disponíveis para a
sua
'-.___,
reutilizacão.
,

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Hartl F.U. and Martin J. (1995) Molecular chaperones in cellular pro- Yu H. et ai. (1996) Identification of a novel ubiquitin-conjugating
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O citoesqueleto
Forma e motilidade 5

5-1. O citoesqueleto é composto por três tipos de filamentos e


numerosas proteínas acessórias
As células eucariontes possuem uma armação protéica filamentosa espalhada por todo o cito-
sol, que recebeu o nome de citoesqueleto. O citoesqueleto é composto por três tipos de filamen-
tos - os filamentos intermediários, os microtúbulos e os filamentos de actina'(Fig. 5.1 ) - e um
conjunto de proteínas acessórias classificadas como reguladoras, ligadoras e motoras.
As proteínas reguladoras controlam o nascimentó , o alongamento, o encurtamento e o desa-
parecim_rnto dos três filamentos principais do citoesqueleto. Estes processos se baseiam nas pro-
priedades moleculares dos filamentos, já que são polímeros integrados por unidades monoméri-
cas - dispostas linearmente - que podem somar-se ou subtrair-se.
As proteínas ligadoras conectam os filamentos entre si ou. com outros componentes da célula.
As proteínas motoras servem para transladar macr_9.Il10léculas e O_!ganelas de um ponto a outro
do citoplasma. Também fazem com que c!oi§_ fitim~nto s contíguos e IJaralelos _entre_si_~em
em sentidos opostos, o que constitui a base da motilidade, da contração e das mudanças de forma
da célula. Esta propriedade confere uma função adicional ao citoesqueleto, a de ser o "sistema
muscular" da célula, ou seja, a citomusculatura. O exemplo mais estruturado de interação entre
filamentos e proteínas motoras encontra-se na miofibrila da célula muscular esquelética, na qual
compõem uma armação macromolecular adaptada para a contratilidade.
O citoesqueleto dá forma - estável ou mutante - às células, como resultado da interação dos
três tipos de filamentos com diferentes proteínas acessórias.
Em primeiro lugar serão analisados os filamentos intermediários; em seguida, os microtúbulos
e, finalmente, os filamentos de actina, cada um com suas respectivas proteínas acessórias.

FILAMENTOS INTERMEDIÁRIOS
5-2. O diâmetro dos filamentos intermediários é de 1O nm
No citoesqueleto da maioria das células existem filamentos de 10 nm de diâmetro; são deno-
minados intermediários porqu«_ têm uma es essura menor que a dos microtúbulos e maior que a
dos filamentos de actina (Fig. 5.1).

Filamentos intermediários

Microtúbulos

Filamentos de actina

F ig. 5.1 Os três tipos de filamentos do citoesqueleto.


66 • O CJTOESQUELETO

Fig. 5.2 Etapas na form ação dos "'?!' abcdefg abcdelgabcde·g abcdefgabcdefg abcdelgabcdelgabcdelg Monômero
0
filamentos intermediários e sua NH 2 COOH
organização estrutural definitiva. fN:;----------- ------.:;;êl Dímero
~-N_T- __ -- ----------- -- _!L<.2 .~

f N :;--~--------------.:;;ê l
1 N--CS- 0 C 1 Tetrâmero
~---: e JI .,'.g;'N" I
•-- -- - ___________________
1 C -J!... J;L. N _.. l

Protolilamento

Filamento

A composição química dos filamentos intermediários é diversa. Por isso , embora também
por sua morfologia e sua distribuição nos diferentes tipos de células, são agrupados em seis tipos
chamados: 1) laminofilamentos; 2) filamentos de queratina; 3) filamentos de vimentina; 4) fila-
mentos de desmina; 5) filamentos gliais e 6) neurofilamentos.
Todos os filamentos intermediários mostram a mesma organização estrutural. Trata-se dé po-
límeros lineares cujos monômeros são proteínas que apresentam uma estrutura em hélice.ex fibro-
gt (Fig. 5.2). Isto os diferencia dos microtúbulos e dos filamentos de actina que possuem monô-
meros globulares. ~
As proteínas fibrosas são compostas por uma sucessão de seqüências idênticas de sete amino-
ácidos cada uma ( ... abcdefgabcdefgabcdefg ... ), o que lhes permite combinar entre si lado com
lado e compor dímeros lineares. Em virtude dos dímeros voltarem a se combinai entre si - tam-
bém de dois em dois, porém' de forma defasada e antiparalela - são gerados tetrâmeros como os
ilustrados na Fig. 5.2. Em seguida, os tetrâmeros se conectam por suas extremidades e dão lugar
a estruturas cilíndricas alongadas chamadas protofilamentos. Os filamentos intermediários são
formados com o concurso de quatro pares de protofilamentos, que se aderem por seus lados e com-
põem uma estrutura de fibrilas de 10 nm de espessura (Fig. 5.2).
Apesar das diferenças entre os monômeros dos diferentes tipos de filamentos intermediários,
todos se organizam da forma que acabamos de descrever. Os monômeros são codificados por
multigenes que se expressam de maneira diferente nos diferentes tipos de células. Além disso, às
vezes, em uma linhagem celular são expressos sucessivamente vários desses genes conforme sua
diferenciação avança.
Os filamentos intermediários formam uma rede contínua estendida entre a membrana plasmá-
tiç_a_e_p enyoltório nuclear, ao redor da qual compõem uma malha-filamentosa compacta (Fig. 5.3A).
Outra malha como esta cobre a face interna do envoltório nuclear, de modo que se trata de fila-
mentos intermediários não localizados no citoplasma e sim no interior do núcleo. A distribuição
dos filamentos intermediários pode ser vista na Fig. 5.3B, que mostra uma célula epitelial tratada
com anticorpos antiqueratina fluorescentes.

Fig. 5.3 A. Distribuição dos


filamentos inte1mediários no
núcleo e no citoplasma. Os
filamentos nucleares, chamados
laminofilamentos, formam uma
malha sobre a face interna do
envoltório nuclear. B.
Fotomicrografia de uma célula
tratada com anticorpos
antiqueratina fluorescentes. (De
R. D . .Goldman.)
O CITOESQUELETO • 67

Os filamentos intermediários contribuem para a manutenção da forma celular e estabelecem as


pos ições das organelas no interior da célula. Todavia, sua função principal é de natureza mecâni-
ca, por isso são encontrados filamentos muito mais desenvolvidos nas células submetidas a gran-
des tensões.

5-3. Os diferentes tipos de filamentos intermediários são


caracterizados por diversas propriedades
A seguir oferecemos uma breve descrição das características principais dos seis tipos de fila-
mentos intermediários:
Laminofilamentos. Em todas as células, apoiada sobre a face interna do envoltório nuclear,
existe uma malha delgada de fil amentos intermediários conhecida como lâ~i~a nuclear, com-
posta por filamentos intermediários chamados larninofilainentos, que são os únicos que nãó se
localizam no citosol (Cap. 12-2) (Fig. _12. 1). Os laminofilamentos contêm três tipos de monôme-
ros com pesos moleculares que variam de 65 a 75 kDa. Esses monômeros possuem domínios fi-
brosos mais longos que os dos filamento s intermediários citosólicos, e seu encaixe gera uma malha
achatada e não uma rede tridimensional. A lâmina nuclear é responsável pela forma e resistência
do envoltório nuclear.
----------
Filamentos de queratina. Os filamentos de queratina (ou ceratina*) - chamados também
tonofilamentos - são encontrados nas ~_pjteliais, particularmente na epiderme e seus de-
ri vados (pêlos, unhas etc.), nas mucosas e nas glândulas. Nos Caps. 6-7 e 6-13 veremos que se
associam aos hemidesmoss;mos e aos desmossomos, com os quais compõem uma trama filamen -
tosa q;:mtínua espalhada por todo o epitélio , aó qual conferem grande parte de sua resistência
mecânica.
Uma proteína ligadora denominada filagrina une os fil amentos de queratina no seu ponto de
cruzamento.
Os monômeros de filamento s de queratina são chamados cit()queratinas. Existem çerca de 30
citoqueratinas diferentes classificadas em dois grupos: as de classe l , que são ácidas, e as de clas-
se II, que são neutras ou básicas.
Os diferentes tipos de células epiteliais contêm filamentos de queratina diferentes já que cada
um fabrica citoqueratinas de qualidade distinta. Por exemplo, as células epiteliais da bexiga con-
têm uma combinação particular de citoqueratinas, pertencentes às classes I e II. Algo similar ocorre
nos outros epitélios. Estas combinações particulares são apróveitadas para diagnosticar a origem
"r de alguns tumores cancerígenos e suas metástas"ês, já que as citoqueratinas não se modificam com
s a formação cancerosa e podem ser identificadas com a ajuda de anticorpos específicos (Cap. 23 -
a 26).
Filamentos de vimentina. Os filamentos de vimentina (do latim vimentus, ondulado) apre-
l- sentam um aspecto
_,,_--
ondulado e seus monômeros têm um peso molecular de 54 kDa. São ----muito
). comuns nas células embrionárias. No organismo desenvolvido localizam-se nas ~ las de ori-
l- gem mesodérmica, como os fibroblastos, células endoteliais, células do sangue etc.
o - A proteína ligadora que une os filamentos de vimentina no seu ponto de cruzamento é a plactina.
.a Uma vez que os anticorpos contra os monômeros de vim,entina mostram reações cruzadas em
células de mamíferos, aves e anfíbios, podemos afirmar que são proteínas que se conservaram no
decorrer da evolução.
Filamentos de desmina. Os filamentos de desmina são formados por monômeros de 53 kDa e
se encontram no citoplasma de todas as células musculares , sejam estriadas (voluntárias e cardí-
acas) ou lisas. Nas células estriadas ligam ás miofibrilas por seus lados (Seção 5-33). Nas.células
cardíacas também se associam aos desmossomas dos discos intercalares (Seção 5-34 e Cap. 6-
13). Nas células musculares lisas associam-sé aos filam\!n tos de actina (Seção 5-35).
Os filamentos de desmina unem-se entre si mediante uma proteína ligadora específica denomi-
nada sinamina.

*N.R.T.: Alguns autores preferem utilizar o termo ceratina, mas a maiori a opta por queratina.
68 • O CITOESQUELETO

Neurofilamentos. Os neurofilamentos são os principais elementos estruturais dos neurônios,


incluindo dendritos e axônio. este formam uma rede tridimensional que converte o axoplasma
(o citosol do axônio) em um gel extremamente resistente e estruturado. Nos neurofilamentos são
reconhecidos três tipos de monômeros, com pesos que vão de 68 a 200 kDa.
Filamentos gliais. Os filamentos gliais encontram-se no citosol dos astr~citos e d~ alg_!!mas
células de Schwann . São compostos por monômeros ácidos de 50 kDa. Os oligodendrócitos não
contêm este tipo de filamentos intermediários .

MICROTÚBULOS
5- 4. O diâmetro dos microtúbulos é de 25 nm
Os microtúbulos são filamentos do citoesqueleto encontrados em quase todas as células euca-
riontes e possuem um diâmetro de 25 nm (Fig. 1.9). São caracterizados por seu aspecto tubular e
porque são notavelmente retilíneos e uniformes. Nos cortes transversais apresentam uma confi-
guração anular, com uma parede de 6 nm de espessura e uma luz central uniformemente clara (Fig.
5.1 ).
De acordo com sua localização, os microtúbulos se classificam em: 1) citoplasmáticos, pre-
sentes na célula em interfase; 2) mitóticos , correspondentes às f~bras do fuso m!!ótico; 3) ciliares,
localizados no eixo dos cílios e 4) centriolares, pertencentes aos corpúsculos basais e aos_centrí-
olos. Embora todos tenham as mesmas características morfológicas, diferem em algumas propri-
edades. Por exemplo, os microtúbulos ciliares e os centriolares são muito estáveis comparados
com os citoplasmáticos e os mi.tóticos, :que mudam permanentemente de comprimento.
As proteínas acessórias dos microtúbulos (reguladoras, ligadoras e motoras) recebem o nome
de MAP (do inglês, microtubule-associated proteins).

.IJ
.' ,
~
r•
5-5. Os microtúbulos citoplasmáticos têm origem no centrossomo, que
contém um par de centríolos e Lima matriz

~ . Os microtúbulos citoplasmáticos nascem. em uma estrutura contígua ao núcleo chamado


centrossomo. Daí, estendem-se por todo o citoplasma para alcançar a membrana plasmática, na
qual se fixam ; conseqüentemente, exibem um aspecto de raios de roda que partem do centro para
a pe1iferia da célula (Fig. 5.4A). Esta disposiçã'o dos microtúbulos pode ser vista na Fig. 5.4B, que
mostra uma célula cultivada tratada cóm anticorpos antitubulina fluorescentes .
O centrossomo também é chamado centro organizador de niicrotúbulos ou MTOC (do in-
glês, microtubule-organizing centre). É composto por um par de centríolos ou diplossomo (do
grego, diplóos , duplo , e sôma, corpo) e uma substância, aparentemente amorfa, que os circunda,
a matriz centrossômica (Figs. 5.4 e 5.23). Esta matriz contém uma rede de fibras muito delgadas
e um complexo de proteínas reguladoras denominadas ')'-tubulinas.
Devido à semelhança dos centríolos com os corpúsculos basais dos cílios, estes serão descritos
juntos na: Seção 5-14.

Fig. 5.4 A. Distribuição dos microtúbulos no citoplasma. Todos nascem na matriz centrossôinica que,
além disso, contém o par de centríolos do diplossomo. B. Fotomicrografia de uma célula cultivada tratada
com anticorpos antitubulina fluorescentes. (De M. Osborn e K. Weber.)
O CITOESQUELETO • 69

5-6. A tubulina é o componente monomérico dos microtúbulos


Os microtúbulos são polímeros compostos por unidades protéicas chamadas tubulinas. Por
sua vez, cada tubulina é um heterodímero de 110 a 120 kDa, cujas duas unidades -denominadas
a-tubulina e {J-tubulina- são proteínas do ti o globular (Fig. 5.5). Existem seis tipos diferentes
de a-tubulinas e seis tipos diferentes de 13-tubulinas, porém sempre uma a -tubulina é combinada
a uma 13-tubulina e nunca duas a -tubulinas nem duas 13-tubulinas entre si.
No Cap. 16-21 serão analisados os mecanismos que regulam a produção das a-tubulinas e das
13-tubulinas nos ribossomas.
Além de serem distintas, as duas subunidades das tubulinas são muito afins, o que permite que
a subunidade a de cada tubulina possa se combinar não apenas com a subunidade 13 do próprio
heterodímero, mas também - por meio de sua extremidade livre - com a subunidade 13 de outra
tubulina (Fig. 5.5). Além disso, os heterodímeros podem se unir entre si por seus flancos, e o fa-
zem de modo tal que se fecham em círculo. Estas particularidades levam à formação de uma es-
trutura tubular cuja parede parece estar integrada por vários fil amentos que percorrem o eixo lon-
gitudinal do microtúbulo e são conhecidos como protofilamentos. Quando o ínicrotúbulo é ob-
servado em um corte transversal, podemos ver que ele contém 13 protofilamentos (Fig. 5.5).
A Fig. 5.5 permite comprovar que existe defasagem entre as a -tubulirías e as 13-tubulinas dos
protofilamentos contíguos. É por isso que nos cortes transversais dos microtúbulos não se obser-
va uma alternância regular entre as a-tubulinas e as 13-tubulinas e sim duas ou três subunidades
contíguas (Fig. 5.5).
Graças à polaridade das tubulinas , o próprio microtúbulo acaba polarizado, já que em uma de
suas extremidades ficam expostas as subunidades a e na outra - as subunidade;:s 13. Os heterodí-
meros podem se agregar (polimerizar-se) ou se afastar (despolimerizar-se) por ambas as extremi-
dades. Como é óbvio, durante a polimerização, o rnicrotúbulo se alonga e, durante a despolimeri-
zação ele se encurta.
Uma das extremidades do microtiibulo é chamada mais [ + ]; a outra, menos [ - ] (Fig. 5.6).
Estas designações são devidas ao fato de o microtúbulo se alongar pela extremidade [ + ] e se en-
curtar mais rapidamente pela extremidade [ - ] (Fig. 5.6).

l,
+ e:J --+
s

Protofilamento

Fig. 5.5 Formação e organização estrutural dos microtúbulos. É ilustrado o modo como se combinam as
cx-tubulinas e 13-tubulinas para formar a parede tubular, composta por 13 protofilamentos.

[-] [+] Fig. 5.6 Polimerização


(alongamento) e
despolimerização
la (encurtamento) dos microtúbulos
por suas duas extremidades.
70 • O CITOESQUELETO

• 5- 7. Os microtúbulos citoplasmáticos são estruturas dinâmicas


r--.....
l.AE tremidade [-] dos microtúbulos se localiza no centrossomo. Ali , os processos de polime-
ri zação e de despolimerização se acham bloqueados por influência de um componente
centrossôrnico (mais adiante veremos que se trata do complexo protéico de -y-tubulinas) .
Os microtúbulos citoplasmáticos são estruturas dinâmicas, já que incessantemente'se formam
microtúbulos novos , quando alguns se alongam e outros se encurtam até desaparecer (Fig. 5.7).
Os rnicrotúbulos se desenvolvem a partir da matriz centrossômica. Para isso,,algumas poucas
tubulinas (provenientes do depósito de tubulinas livres que se acham no citosol) conéorrem para
a matriz centrossômica e se nucleiam (polirnerizam-se). Esse núcleo constitui o primeiro esboço
do rnicrotúbulo e se forma por in fl uência do complexo protéico de ')'-tubulinas, que promove o
encaixe das primeiras 13 tubulinas da extremidade [-].Os centríolos não desempenham nenhum
Fig. 5.7 Surgimento de um papel neste processo. De imediato, o_rnicrotúbulo começa a cres~ er or sua extreJ.Q_iQ_ade [+ ],ao
microtúbulo a partir da matriz serem agregadas novas tubulinas provenientes do depósito de tubulinas do citosol.j
centrossômica, enquanto outros O complexo de -y-tubuliniS"tem forma anular, seu diâmetro é similar ao do ~icrotúbulos, ~
se alongam, se encurtam ou comporta como um molde a partir do qual se nucleiam as primeiras 13 tubul§ . Sua forma Seria
desaparecem. como a da Fig. 5.8, que permite a defasagem existente entre as tubulinas dos protofilamentos con-
tíguos.
z Além disso, o complexo de -y-tubulinas se comporta como um capuz que bloqueia o cresci-
mento e o encurtamento do microtúbulo por sua extremidade [ - ].
Quando as tubulinas se despolimerizam dos microtúbu!os, passam a fazer parte do depósito de
tubulinas livres do citosol. Inicialmente, cada tubulina contém um GDP em sua subnidade 13, que
não tarda em se intercambiar por um GTR no mesmo citosol (Fig. 5 .9)'~ seguida, as tubulinas
com GTP são atraídas pelas extremidades + ] dos microtúbulos em crescimento e se unem a eles.
Diferentemente do que ,ocorre no citosol, a polimerização faz com que o GTP das tubulinas se
hidrolise em GDP e fosfato. Como vemos, a formação dos microtúbulos é um processo que con-
some energia.
Fig. 5.8 Representação do
As tubulinas com GDP tendem claramente a se despolimerizar da extremidade [+]dos própri-
complexo anelar de ')'-tubulinas.
os filamentos (Fig. 5.9), o que se deve ao encurvamento que essa extremidade sofre por influência
Numerosos complexos como
este se localizam na matriz precisamente do GDP (Fig. 5.10).
centrossômica, onde atuam como Assim descrito, o processo de polimerização e despolimerização das tubulinas compreenderia
modelos para a gestação dos um círculo vicioso, já que a polimerização - com a conseqüente formação de GDP - levaria à
microtúbulos. imediata despolimerização dos monômeros. Isto não ocorre, já que as tubulinas recém-incorpora-
das demoram um tempo para hidrolisar seu GTP e formam um capuz de tubulinas-GTP em uma
extremidade do microtúbulo, o que impede a saída das tubulinas chegadas com antecedência, apesar
de que, nelas , o GTP já se converteu em GDP (Fig. 5.1 O).
Por causa desta part'Ícularidade - denominada instabilidade dinâmica - quando um micro-
túbulo alcança o comprimento desejado, para mantê-lo deveria alternar breves períodos de poli-
merização com outros de despolimerização. Tendo em vista que em termos energéticos isso seria
muito oneroso, desconta-se a existência de proteínas regu ladoras que se unem à extremidade [-PJ
do microtúbulo para evitar esta instabilidade. 1

['-] [+]

(- ]

(-]
Fig. 5.9 Intercâmbio das
tubulinas-GDP e das tubulinas-
GTP entre os microtúbulos e o
citosol.
Tubulina-GTP « ) Tubulina-GDP
,.
O CITOESQUELETO • 71

Capuz Fig. 5.10 Formação de capuzes


,_.___.....
de tubulinas-GTP na
extremidade do microtúbulo.
Observe-se que quando o GTP
se converte em GDP e não se
remove o capuz, as tubulinas se
desprendem.

CJ Tubulina-GTP C) Tubu lina-GDP

Mespolimerização do mkrotúbulo é muito mais rápid a_do_qm~_ª-J2 0limerizacão. A diferença


de velocidade se toma evidente quando o microtúbulo passa de uma fase de alongamento para
outra de encurtamento e vice-versa. No primeiro caso, a despolimerização é tão abrupta que é
conhecida como "catástrofe". Por óutro lado , quando o encurtamento cessa, e o microtúbulo co-
meça a se alongar, o processo - por ser relativamente lento - le"'. a o nome de "salvamento".
No citosol existe uma ·roteína recruladora - chamada càtastrofina - que detém o éresci-
mento dos microtúbulos e causa sua despolimerização depois da perda do capuz de tubulinas-GTP.
A colchicina, um medicamento utilizado para o tratamento da gota, atua de forma semelhante,
já que se une às tubulinas e impede sua polimerização; o que leva - pelo fato de o capuz não se
formar - ao desaparecimento dos microtúbulos. A colcemida é um derivado da colchicina que
possui os mesmos efeitos.

5-8. Os microtúbulos citoplasmáticos são necessários para o


transporte das organelas e das macromoléculas
Os microtúbulos citoplasmáticos constituem verdadeiras vias de transporte pelas quais se mo-
bilizam ~acromoléculas e organelas (mitocôndrias, vesículas transportadoras etc.) de um ponto a
outro do citoplasma. Esta função é realizada com a assistência de duas roteínas f!10toras, a cine-
sina e a dineína. Quando elas estão "carregadas" com o material a transportar, a ci11~sin a desliza
Q_ara a extremidade [±] do microtúbulo e a _d~a pª ril a extremidade [ - ]_(Fig. 5.11 ).
Estas Jlroteí11~s motoras são compostas por quatro cadeias _polipeptídicas, duas pesadas· e duas
l~ves (Fig. 5.12). Cadá cadeia pesada contém um domínio globúlar (ou cabeça) e~ fibroso (ou
cauda) . Q_fib.roso se: conecta com o material a transportar e o globular se_une ao.__!):l~ bulo .
Na membrana das organelas celulares e das vesículas transportadoras foram identificadas as
pJoteínas transmen}Qranas cinectina e dinactina, com as quais se unem a cinesina e a dineína,
respectivamente.
A energia consumida pelo transporte é conhecida pelo ATP depois de sua hidrólise por ATPases
presentes nas cabeças das prote_ínas motoras. Foi calculado que a cinesina se desloca cerca de 8
nm por cada ATP hidrolisado.
Um exemplo de transporte através destas proteínas é observado nos melanócitos da pele, cujos
grânulos de melanina, diante de determinados ~stír11ulos, de_sliz'l.m à.o longo dos microtúbulos tanto
centrípeta como centrifugamente. Outro exemplo corresponde aos axônios , onde as cin ~sinas
c;onduzem moléculas e vesículas dQ_COfP-2 ~ai para a terminaç!o axônica, e as dineínas as
retomam.

Fig. 5.11 Utilização dos


microtúbulos como vias sobre as
quáis se deslocam as proteínas
motoras dineína e cinesina para
transportar materiais entre
diferentes pontos do citoplasma.
72 • O CITOESQUELETO

! !
.. -~Dineína_ Cinesina ~.11. . .

[-] [+] [-] - [+]

Fig. 5.12 União das vesículas transportadoras com a cinesina e a dineína mediante as proteínas
transmembrana cinectina e dinactina, respectivamente.

Os neurônios contêm outra proteína motora ligada aos microtúbulos. Chama-se dinamina e,
-----
ªº contrário da cinesina e da dineína, possui atividade de GTPaS°B.' Ademais, como veremos no
\
Cap. 7-37, em todos os tipos celulares a dinamina provoca o desprendimento das vesículas trans-
portadoras que são geradas através de envoltórios de clatrina.

5-9. Os microtúbulo.s citoplasmáticos contribuem para


estabelecer a forma celular
Os microtúbulos contribuem para o estabelecimento das formas que as células adquirem. Além
disso, mediante as proteínas acessórias, mantêm o retículo endoplasmático e o complexo de Golgi
em suas posições no citoplasma, o que determina a polaridade celular. Ficou comprovado que na
estabilização dessas organelas intervêm, respectivamente, a cinesina e a dineína, duas proteínas
motoras.
Nos neurônios, os microtúbulos se acham também nos dendritos e nos axônios (Fig. 5.13). Além
disso, o crescimento do axônio de ende do alongamento dos seus microtúbulos. Durante esse alon-
gamento, ao nível do cone de crescimerito do axônio, foi descoberta, entre os microtúbulos, a
anteriormente mencionada dinamina que provoca o deslizamento de alguns microtúbulos sobre
outros, o que seria necessário para o processo de avanço do cone pela matriz extracelular (Seção
5-28).
No corpo neuronal e no axônio foi identificada U.!!la MAP reguladora chamada tau (em vista
da letra grega T) que !nibe a despolimerização das tubulinas nas extremidades dos microtúbulos e
que também exerce uma função ligadora, já que estabelece pontes entre os microtúbulos contí-
guos e lhes confere estabilidade. Outras MAP ligadoras, chamadas MAPl e MAP2, criam pontes
similares desses microtúbulos neuronais.
As tau contêm um número determinado de fosfatos, cujo aumento altera seu funcionamento
normal. O~o_dos fosfatos QQ.d.eria se produzir pela presença de cin.ases superativas ou de
fosfatases hipoativas. Isto ocorre na doença de Alzheimer, caracterizada por deterioração neuro-
nal progressiva como conseqüência da instabilidade dos microtúbulos. Como vimos na seção
anterior, estes microtúbulos são imprescindíveis para o transporte intracelular de organelas e de
outros materiais vitais para a célula.

Fig. 5.13 Distribuição dos microtúbulos nos neurônios.


O CITOESQUELETO • 73

5-10. Os microtúbulos mitóticos mobi lizam os cromossomos


durante a mitose e a meiose
A função dos microtúbulos mitóticos será analisada detalhadamente no Cap. 18-14.
A célula em mitose e em meiose conta com dois centrossomos em lugar de um, e os microtú-
bulos citoplasmáticos obser\lados na interfase são substituídos pelos microtúbulos mitóticos, cha-
Fig. 5.14 Distribuição dos
mados também fibras do fuso ·mitótico (Fig. 5.14). Ao contrário dos citoplasmáticos ri0s micro-
microtúbulos mitóticos (ou
túbulos mitóticos , a ~dade [ - J não se acha bloqueada pela matriz centrossômica, cfe modo
fibras do fu so mitótico) durante
que os microtúbulos podem se polimerizar e se despolimerizar também por essas extremidades. a divisão celular.
Os microtúbulos mitóticos podem desaparecer mediante o uso de vimbtastina e de vincristina.
Esses medicamentos atuam de forma semelhante à colchiciria (Seção 5-7), embora não o façam
quase seletivamente sobre as fibras do fuso, daí a sua utilização para bloquear as divisões das células
neoplásicas no tratamento do câncer. O taxo[ (Paclitaxel) é um outro medicamento para tratar o
câncer, pois impede a despolimerização das fibras do fuso e induz seu crescimento descontrolado,
incompatível com a divisão celular.

5-1 1. Os microtúbulos cilia res formam o eixo dos cílios e dos flagelos
Os cílios são apêndices delgados - de 0,25 µ,m de diâmetro e vários micrômetros de compri-
mento - que surgem da superfície de diversos tipos celulares (Fig. 1.7). Os de maior comprimen-
to chamam-se flagelõs. Cada um é composto por um eixo citosólico - a matriz ciliar - envolto
por um prolongamento da membrana plasmática. Em meio a essa matriz, seguindo o eixo longitu-
dinal,. do cílio, encontra-se uma armação filamentosa regular chamada axonema, o qual é com-
posto por vários microtúbulos paralelos entre si associados com proteínas acessórias (Figs. 5 .15 e
5.16). Mais adiante descreveremos sua composição e suas funções.
Cada cílio nasce em um corpúsculo basal ou cinetossoma (do grego, kineetós, móvel, e sôma,
corpo) , que é uma estrutura idêntica a um centríolo do diplossomo. Os corpúsculos basais e os
centríolos serão analisados na Seção 5-14.

5-12. Os cílios se movem


a
Os cílios são estruturas que se movem. Segundo as células em que se encontram, seus movi-
e
mentos servem para arrastar líquidos e partículas (como ocorre na árvore respiratória), para des-
o
locar outras células (por exemplo, os espermatozóides, o ovócito (oócito) ou o zigoto na tuba ute-
rina) ou para mobilizar as células autonomamente (por exemplo, os espermatozóides).
:a
O movimento ciliar pode ser pendular, unciforme, infundibuliforme ou ondulante. No movi-
e
mento pendular, o cílio parece rígido e se flexiona em sua base. No unciforme (o mais comum nos
í-
metazoários) o cílio se dobra e adquire a forma de uma forq uilha. No infundibuliforme, o cílio
~s
gira, descrevendo uma figura cônica. No ondulante, característico dos flagelos , o movimento se
Fig. 5.15 Microtúbulos ciliares.
desloca da extremidade proximal à extremidade distal do cílio.
to Observar sua origem no
Nas superfícies epiteliais cobertas por cílios pode se ver que estes se movem coordenadamente corpúsculo basal ou
:!e
e dão lugar a verdadeiras ondas que se deslocam pelo epitélio em uma determinada direção. Estas cinetossoma.
0-
ondas são produzidas porque cada cílio se move com pequeno atraso (ou adiantamento) com rela-
io
ção ao situado à frente (ou atrás) dele. A passagem da onda de uma célula à vizinha derivaria da
je
passagpm de certos solutos (sinais) através das junções comunicantes que regulam as células epi-
teliais entre si (Cap. 6-14) (Fig. 6. 12).
O movimento ciliar é produzido pelo axonem_a (Figs. 5 .1 5 e 5.16). Observados em um corte
transversal, os microtúbulos do axonema mostram uma configuração especial conhecida como "9
+ 2". Isso obedece ao fato de que na parte periférica dessa estrutura observam-se nove pares de
microtúbulos - os quais formam um círculo - e na parte central, dois microtúbulos mais. Diz-
se "9 + 2" porque os dois microtúbulos de cada par periférico estão firmemente unidos entre si -
formam uma dupla - e os do par central estão separados. Um dos microtúbulos de cada par pe-
riférico, identificado com a letra A, é complexo, quer dizer, possui 13 protofilamentos; o outro,
chamado B , é incompleto, pois conta com 10 ou 11 protofilamentos (Fig. 5.17). As duplas se dis-
põem em forma oblíqua, de modo que o microtúbulo A encontra-se mais próximo do centro do
74 • O CITOESQUELETO

Fig. 5.16 Acima. Esquema de


um corte transversal do axonema
que mostra a configuração 9 + 2 ~---- Nexina
característica dos microtúbulos
do cílio. A visão se dirige da raiz
Dupla Braço
para a ponta do cílio. Devemos externo
ressaltar a disposição dos
microtúbulos periféricos, que se
acham associados entre si em
pares, chamados duplas. Proteína
Observar os distintos tipos de radial
proteínas ligadoras e como as
proteínas motoras de dineína
formam "braços" orientados na
direção dos ponteiros do relógio.
Abaixo. Eletromicrografia de Bainha
interna
um axonema revelado mediante
ácido tânico. (De D. W.
Fawcett.)

Microtúbulo B Microtúbulo A

·I'
:1.
11'
... Dupla
11
~
... Braço
•' externo

1r Proteína

~
radial Braço
interno

Bainha
interna

cílio que o microtúbulo B. Além disso, as extremidades [ - ] de ambos os microtúbulos apontam


para o corpúsculo basal (Fig. 5.18).
l:Qaxonema contém proteínas ligadoras e proteínas motoras (Fig. 5.16).
As proteínas ligadoras unem as duplas entre si e as sustentam em suas posições no interior do
cílio, o que mantém a integridade do axonema durante o movimento ciliar. Assim, as nexinas unem
o microtúbulo A de uma dupla ao microtúbulo B da dupla vizinha; a bainha interna envólve os
microtúbulos centrais, e as proteínas radiais unem os microtúbulos A com essa bainha.
As proteínas motoras são representadas pela dineína ciliar. Esta se diferencia da dineína cito-
plasmática porque é maior e tem três cadeias pesadas e três cadeias leves, em lugar de duas de
cada uma (Seção 5-8). As caudas da dineína ciliar estão ancoradas no microtúbulo A de uma du-
pla, enquanto as cabeças globulares - com suas respectivas ATPases - estabelecem junções
iD;-termitentes com o microtúbulo B da dupla vizinha. Assim, as dineínas formam pontes instáveis
Fig. 5.17 Disposição em dupla entre as duplas contíguas.
de um par de microtúbulos As dineínas também são denominadas braços internos e externos do axonema (Fig. 5 ..16), o
periféricos do axonema. que indica a origem de algumas no microtúbulo A em posições mais periféricas em relação a ou-

-- ~---=---- - - - - -
O CITOESQUELETO • 75

[+! Fig. 5.18 Origem do movimento


ciliar. Está baseada no
deslocamento das cabeças das
dineínas ciliares sobre o
microtúbulo B das duplas, na
direção da raiz do cílio.

tras. Se olharmos o axonema da raiz do cílio, esses braços se orientam no sentido dos ponteiros do
relógio.
O movimento ciliar ocorre porque as cabeças das dineínas percorrem um pequeno segmento
do microtúbulo B até sua extremidade [ - ] (Fig. 5 .18) (na Seção 5-8 assinalamos que esse tipo de
proteína motora se move sempre nessa direção). Como os microtúbulos do axonema se acham
fixos em suas posições dentro do cílio (mediante as proteínas ligadoras) e suas extremidades pro-
ximais estão ancoradas no corpúsculo basal, o deslocamento das dineínas sobre o microtúbulo B
faz com que ambas as duplas se curvem, uma vez que não podem deslocar-se linearmente em di-
reções contrárias. Como isso ocorre com as dineínas localizadas entre várias das nove duplas, a
soma das forças faz com que todo o axonema se dobre, o que gera o movimento ciliar (Fig. 5.19).
O deslocamento das dineínas ocorre como conseqüência da formação e da ruptura alternadas das
pontes transversais de dineína. Esse processo necessita de energia, que é retirada do ATP.
Durante o movimento ciliar, nem todas as duplas operam de uma vez. Além disso, suspeita-se
que as duplas situadas de um lado do axonema flexionam o cílio e as do lado oposto intervenham
no movimento de retorno.

5- 13. Na síndrome de Kartagener, os cílios são imóveis


A síndrome de Kartagener é devida a uma ou mais mutações dos genes que codificam a dineína
ciliar ou outras proteínas acessórias do axonema. Em conseqüência, os cílios e os flagelos são
imóveis, o que provoca quadros de bronquites crônicas e esterilidade na mulher e no homem (os
cílios da árvore respiratória e das tubas uterinas e o flagelo dos espermatozóides são desprovidos
de movimento).

5-1 4. A estrutura dos corpúsculos basais é idêntica à dos centríolos


Os microtúbulos ciliares nascem no corpúsculo basal, que se localiza por baixo da membrana
plasmática, na altura da raiz do cílio (Figs. 5.15 e 5.22). A quantidade de corpúsculos basais e de
cílios é a mesma.
Os corpúsculos basais são estudados junto com os centríolos do centrossomo porque são estru-
turalmente idênticos. Constituem cilindros ocos abertos em suas extremidades e medem 0,2 µm
de diâmetro por 0,4 µm de comprimento. A parede do corpúsculo basal ou do centríolo é formada
por 9 unidades microtubulares , cada uma composta por três microtúbulos, fundidos entre si, cha-
mados A, B e C (Figs. 5.20, 5.21e5.22).

Fig. 5.19 Movimento ciliar.


Ocorre diante da impossibilidade
de deslizamento das duplas do
axonema entre si, por isso, se
dobram.
76 • O CITOESQUELETO

Proteína ligadora
Fig. 5.20 Esquerda. Esquema
de um centríolo ou de um
corpúsculo basal, com sua
configuração característica 9 +
O. Direita. Está ilustrada a tripla e
associação característica dos
microtúbulos centriolares, B

conhecida como trinca.


A

Fig. 5.21 Esquerda. Esquema de um corte transversal do centríolo no qual se ilustram as nove trincas e as
proteínas ligadoras. Direita. Eletromicrografia de um corte transversal de um centríolo revelado mediante
ácido tânico. (De V. Kalnins.)

Fig. 5.22 Esquerda.


Eletromicrografia de um corte
longitudinal da rai z do cílio (Ci)
com seu corpúsculo basal ou
cinetossoma (CB). Direita.
Cortes transversais de cílios e
corpúsculos basais. 70.000 X .
(Cortesia de J. André e E.
Fauret-Fremiet.)
O CITOES QUELETO • 77

O microtúbulo A é completo, pois dispõe de 13 protofilamentos; ao contrário, os microtúbulos


B e C são incompletos, já que contêm 11 protofilamentos cada um (Fig. 5.20). Como as duplas no
axonema, estas trincas estão dispostas de forma oblíqua, de maneira que o microtúbulo A se acha
mais próximo do centro do centríolo do que o microtúbulo c (Fig. 5.21 ).
As nove trincas do corpúsculo basal estão conectadas entre si por dois tipos de proteínas liga-
doras. Umas são fibras curtas que enlaçam o microtúbulo A de uma trinca com o microtúbulo C
da trinca vizinha. As outras são fibras longas que se unem às trincas de forma semelhante aos rai-
os de uma roda (Fig. 5.2 1). Matriz
centrossômica Centríolo
Vimos que cada cílio nasce de um corpúsculo basal que, como o cílio, situa-se perpendicular-
mente à membrana plasmática (Fig. 5.15). Cabe lembrar que os microtúbulos A e B das duplas do Fig. 5.23 Representação
cílio continuam com os microtúbulos A e B das trincas do corpúsculo basal. O significado do esquemática do centrossomo,
microtúbulo C das trincas e o sítio de origem dos microtúbulos centrais do axonema ainda não que inclui a matriz
foram determinados. centrossômica e o par de
centríolos ou diplossomo.
Às vezes, a extremidade livre do corpúsculo basal mostra uma raiz fibrilar curta que se intro-
duz no citoplasma e que tem por função sustentar o cílio.
Os corpúsculos basais se diferenciam dos centríolos do diplossomo pelas seguintes particula-
ridades: 1) os primeiros localizam-se próximo da superfície celular (na raiz dos cílios) e os segun-
dos próximos do núcleo (Figs. 5.4A e 5.15); 2) os corpúsculos basais não possuem a matriz
centrossômica que envolve os centríolos (Fig. 5.23); 3) os corpúsculos basais podem ser forma-
dos por apenas uma unidade, enquanto os centríolos apresentam-se de dois a dois, ambos perpen-
diculares entre si (Fig. 5.23).

5- 15. N.a ciliogênese, os microtúbulos do _


axonema se desenvolvem a
partir do corpúsculo basal
Na ciliogênese, os microtúbulos A e B do corpúsculo basal cumprem a função da :y.::Jubulina
do centrossomo, ou seja, atuam como moldes para a nucleação (polimerização) das primeiras tu-
bulinas dos microtúbulos A e B do axonema. As tubulinas do axonema nascente se unem às extre-
midades [+ ]dos microtúbulos A e B do corpúsculo basal, que apontam para a superfície da célu-
la. Portanto, as extremidades [ - ] dos microtúbulos dos cílios se localizam junto ao corpúsculo
basal. Depois da nucleação inicial, novas tubulinas são agregadas, alongando os microtúbulos do
axonema até que o cílio alcance o seu comprimento definitivo.

5-16. Os corpúsculos basais se derivariam dos centríolos


do centrossomo
Pelo que foi dito na seção anterior, deduzimos que antes que os cílios nasçam, formam-se os
respectivos corpúsculos basais. Estes apareceriam como conseqüência de uma reprodução dico-
cfunica por parte dos centríolos do diplossomo , mediante um processo baseado no desenvolvimento
de procentríolos similar ao que é mostrado na Fig. 18.5 . Outra teoria sugere que os corpúsculos
basais se formariam de novo, sem a participação dos centríolos.

FI LAMENTOS DE ACTINA
5- 17. O diâmetro dos filamentos de actina é de 8 nm
Os filamentos de actina ou microfilamentos possuem um diâmetro de 8 nm e são mais flexí-
Yeis que os microtúbulos. Podem estar associados em feixes ou redes , de modo que raramente são
Yistos isolados (Fig. 1.9).
Com base na sua distribuição na célula, os filamentos de actina classificam-se em: 1) corti-
cais, que se localizam por baixo da membrana plasmática, onde coRstituem o componente citosó-
lico mais importante (Fig. 5.24) , e 2) transcelulares, visto que atravessam o citoplasma em todas
as direções (Fig. 5.25A). Da mesma forma que os microtúbulos tratados com anticorpos Fig. 5.24 Distribuição dos
antitubulina, os filamentos de actina podem ser localizados com a ajuda de anticorpos antiactina filamentos de actina corticais em
fluorescentes (Fig. 5.25B). uma célula epitelial.
78 • O CITOESQUELETO

Fig. 5.25 A. Distribuição dos


filamentos de actina
transcelulares (fibras de tensão)
em uma célula conjuntiva. B.
Célula cultivada tratada com
anticorpos antiactina
fluorescentes.

Como será descrito na parte final do capítulo , os filamentos de actina também formam o es-
gu~leto das microvilosidades e fazem Rarte da a~ação contrátil das células musculares.
Os filamentos de actina são polímeros constituídos pela soma linear de monômeros, cujo en-
caixe dá aos filamentos uma configuração helicoidal característica (Figs. 5.1e5.26). Os monô-
meros encontram-se livres no citosol, onde formam um depósito ao qual a célula recorre quando
necessita. Cada monômero é um polipeptídeo de 375 aminoácidos que se encontra associado a
um ADP ou a um ATP; sua estrutura terciária é globular, daí receber o nome de actina G.
Igualmente aos microtúbulos, os filamentos de actina possuem uma extremidade [ + ] e uma
extremidade [ - ] (S eção 5-6); pela primeira, alongam-se e se encurtam mais rapidamente que pela
segunda (Fig. 5.26). Esta bipolaridade deve-se a que os próprios monômeros a possuem.

5- 18. Os filamentos de actina se formam a partir de trímeros de actinas G


Cada filamento de actina começa a se formar a partir de um núcleo de três monômeros de ac-
tina G que se combinam entre si, em qualquer ponto do citosol onde a constituição de filamentos
de actina seja necessária (Fig. 5.26). O alongamento do núcleo original ocorre como conseqüên-
cia da agregação sucessiva de novos monômeros nas extremidades [ +] e [ - ] do filamento ainda
inacabado. Para a polimerização é necessário que as actinas G contenham um ATP.
Pouco tempo depois da polimerização, este ATP se hidrolisa em ADP e P, condição que induz
os monômeros a se despolimerizar. Entretanto, isso não acontece porque nas extremidades dos
filamentos de actina ocorre um fenômeno de instabilidade dinâmica análogo ao descrito para os
microtúbulos (Seção 5-7), derivado da formação de um capuz cujos monômeros demoram um tempo
para converter seus ATP em ADP.
Já que a manutenção desta instabilidade tem um alto custo em ATP, quando o filamento alcan-
ça o comprimento desejado, várias proteínas reguladoras se colocam em suas extremidades para
estabilizá-lo.
Supõe-se que, a polimerização dos monômeros de actina depende de uma proteína reguladora
chamada rofllina, embora isso provoque a hidrólise dos ATP nos monômeros já polimerizados.
No processo de despolimerização participam várias proteínas reguladoras, entre as quais se
destacam a t!wosina e o ADF (do inglês, actin-depolymerizingfactor). A timosina inibe a nucle-
ação do trímero inicial de actinas G e sua polimerização no filamento em crescimento. Ao contrá-
rio, o ADF une-se ao filamento de actina e o despolimeriza prog~ s ivamente .
O medicamento citocalasina B provoca a despolimerização dos filamentos de actina porque se
une aos seus dois extremos e bloqueia _o seu crescimento, com o conseqüente desaparecimento
dos capuzes de actina com ATP.

F ig. 5.26 Formação e


organização estr!-Jtural do
filamento de actina. Também Nucleação

••
estão ilustradas a polimerização
(alongamento) e a
despolimerização
(encurtamento) do filamento por
suas duas extremidades .
O CITOESQUELETO • 79

5-19. Os filamentos de actina contribuem para estabelecer


a forma celular
Mencionamos que existem feixes de filamentos de actina que se concentram sob a membrana
plasmática (corticais) (Fig. 5.24) e outros que cruzam o citoplasma de lado a lado da célula
(transcelulares) (Fig. 5.25). Ambas as localizações contribuem, em outras funções , para o estabe-
lecimento da forma celular.
As concentrações e as funções de ambos os filamentos diferem de acordo com as células, isto
é, se epiteliais ou conjuntivas. Nas primeiras, prevalecem os filamentos corticais, que são os que
estabelecem a forma celular. as segundas, tal prevalência e função correspondem às fibras
transcelulares.
Em ambos os tipos, os filamentos corticais são também responsáveis pela morfologia da parte
periférica da célula. Além disso, na Seção 5-32, veremos que eles formam o eixo das microvilo-
sidades.

5-20. Nas células epiteliais os filamentos de actina corticais formam uma


malha sob a membrana plasmática
Nas células epiteliais, os feixes de filamentos de actina corticais se dispõem nas mais variadas
direções e compõem uma malha contínua por baixo da membrana plasmática. Os filamentós se
unem entre si e à membrana plasmática mediante a proteína ligadora fodrina (Fig. 5.27). Por sua
vez, esta se conecta a proteínas integrais da membrana - uma das quais é nada menos que o con-
tratrarisportador de Na+ e K+ visto no Cap. 3-19 - por intermédio de outra proteína ligadora, a
anquirina. A fodrina é semelhante à espectrina que se encontra na membrana terminal das mi-
crovilosidades (Seção 5-32) e no citoesqueleto das hemácias (Seção 5-36).

5-21 . Nos epitélios, uma franja de microfilamentos de actina corticais


participa na formação do cinturão de adesão
O cinturão de adesão, que será analisado, no Cap. 6-1 2 é uma forma de junção intercelular
presente próxima da superfície apical das células epiteliais. Trata-se de uma franja reforçada de
Cinturão de adesão
filamentos de actina corticais, que compõem uma espécie de anel que circunda cada célula (Fig.
.,_ .,_ ~-:;:-:;:_ ~ _l-.;: .,_·~ ~ .,_-.;:-~ 4
6.10). Estes filamentos se conectam com proteínas da membrana plasmática chamadas caderinas, ~- ~ -'!·
por meio das proteínas ligadoras placoglobina, catenina, cx-actinina e vinculina. O cinturão de
adesão é composto pelos filamentos de actina, pelas caderinas e pelas proteínas ligadoras.

5-22. Em alguns epitélios embrionários, o cinturão de adesão


tem funções morfogenéticas
Nas células de alguns epitélios embrionários, os filamentos de actina do cinturão de adesão se
encurtam, motivo pelo qual, a esta altura, as células reduzem o seu diâmetro. Conseqüentemente,
as células perdem sua forma éilíndrica e adquirem um aspecto piramidal, o que gera uni sulco e,
em seguida, um tubo separado do epitélio de origem (Fig. 5.28).

:',-__j(
.. Tubo

Fig. 5.28 Filamentos de actina


do cinturão de adesão (ver Fig.
6.10). Graças a esses filamentos,
durante o desenvolvimento
embrionário alguns epitélios
pavimentosos originam
estruturas tubulares (por
Fig. 5.27 Esquema dos filamentos de actina corticais nas células epiteliais , e de proteínas Jigadoras que os exemplo, o tubo neural
sujeitam à membrana plasmática. primitivo).
80 • O CITOESQUELETO

5-23. Nas células epiteliais, os filamentos de actina transcelulares


transportam organelas
Como em todas as células, nas epiteliais, os filamentos de actina transcelulares se acham es-
tendidos entre pontos opostos da membrana plasmática e entre esta e o envoltório nuclear, de modo
que atravessam o citoplasma em várias direções (Fig. 5.25). Entretanto, próximo ao envoltório
nuclear, existe uma rede de filamentos de actina que descansa sobre a malha perinuclear de fila-
mentos intermediários (Seção 5-2); a essa rede ligam-se os filamentos de actina que partem do
envoltório. Ao contrário, ao nível da membrana plasmática, os filamentos transcelulares se co-
nectam com os filamentos de actina corticais ou se unem a proteínas de membrana especiais.
Os filamen_tos de actina transcelulares atuam como vias para transportar organelas pelo cito-
plasma. Este trans orte é mediado elas proteínas motoras mio sina I e mio sina V.
A miosina 1 tem uma cabeça e uma caud;,p;;is uma de suas extrem1 ades é globular e a outra,
fibrosa (Fig. 5.29). Quando esta proteína motora funciona , sua cauda se liga à membrana da orga-
nela que vai ser transladada - em geral, uma vesícula do sistema de endomembranas (Cap. 7-1)
- e sua cabeça se une intermitentemente a um filamento de actina vizinho, este último porque a
cabeça da miosina I muda de posição repetidamente. As junções e disjunções alternadas fazem
com que a miosina I deslize na direção da extremidade [+]do filamento de actina (Fig. 5.30).
As mudanças de posição da cabeça - responsáveis por esse deslizamento - consomem A TP,
que é hidrolisado a ADP e P por uma ATPase dependente de Ca2+ situada na própria cabeça. A
miosina I desloca-se, aproximadamente, 10 nm por cada ATP que consome.
A miosina V "caminha" sobre o filamento de actina e cada "passo" que dá avança cerca de 37
nm. Sua composição é analisada na Seção 5-28.

Miosina 1

Fig. 5.29 Representação esquemática da miosina I e da miosina II.

MiOsina 1

Miosina 1

Miosina li

Fig. 5.30 Esquemas que ilustram


o deslocamento das miosinas I, Miosina V
II e V sobre os filamentos de
actina.
O CITOESQUELETO • 1

5-24. Nas células conjuntivas, os filamentos de actina transcelulares são


chamados fibras de tensão
Nas células con 'untivas a distribuicão dos filamentos de actina transcelulares -denominadas
f~ras de te~ão - é semelhante à indicada na seção anterior, embora componham feixes mais
espessos e mais numerosos . Em cada fei xe, a proteína ligadora cx-actinina une os filamentos de
actina entre si.
Ademais, cada filamento se liga à membrana plasmática mediante uma estrutura conhecida com
o nome de contato focal (Fig. 5.31 ). A ~remid ade do filamento se conecta com uma proteína
transmembrana heterodimérica chamada integrina , por meio das proteínas ligadoras talina, cx-
actinina, paxilina e vinculina . O conjunto , composto pela extremidade do filamentó de actina,
as proteínas ligadoras e a integrina, constitui o contato focal. No Cap. 6-6 veremos que, por seu
domínio externo, a integrina se liga a uma proteína da matriz extracelular chamada fibronectina ,
~ est a_.a..11ma fibra de colágeno.
Entre os filamento s de actina das fibras de tensão encontram-se numerosas unidades da proteí-
na motora miosina II, composta de dois polipeptídeos pesados , cada um combinado com dois
polipeptídeos leves (Fig. 5.29). Os seis polipeptídeos geram uma molécula fibrosa com duas ca-
beças em uma de suas pontas, já que nelas os polipeptídeos pesados têm uma estrutura globular.
Como na miosina I, as cabeças da miosina II possuem atividade de ATPase e são responsáveis
pelas propriedades mecânicas da molécula.
As miosinas II não funcionam isoladas. Para poder atuar associam-se e formam conj untos bi-
polares com as caudas das moléculas fundidas entre si e as cabeças dirigidas para outra extremi-
dade 1_o conjunto (Fig. 5.30). As cabeças estabelecem junções intermitentes com filamentos de
actina adjacentes. Vi ~to_que deslizam sobre eles em sentidos opostos - para as respectivas extre-
mjda®s [ +] - os tensionam e geram forças mecânicas nos contatos focais, o que, além de pro-
duzir deformações leves, porém contínuas, da superfície celular, contribui para o estabelecimento
da forma global da célula. É por estas propriedades que nas células conjuntiv as os filamentos de
actina transcelulares levam o nome de fibras de tensão. O mecanismo molecular que toma possí-
vel o deslizamento das miosinas II sobre os filamentos de actina será analisado na Seção 5-33 ,
que se refere à contratilidade muscular.
Devemos lembrar que as fibras de tensão e os contatos focais se form~_m mediante a indução
, a roteína Rh~ (da letra grega p), que é membro da família das GTPases que atuam associadas às
proteínas reguladoras GEF e GAP, de cuja análise nos ocuparemos no Cap. 7-38.
Da mesma forma que nas células epiteliais, as fibras de tensão servem como vias para trans-
portar organelas pelo citoplasma, com intervenção da miosina I e da miosina V (Seções 5-23 e
5-28).

Colágeno

- - - - Paxi lina
- - - - Vinculina

~--u-Actinina

CITOSOL

Fig. 5.31 Contato focal e sua conexão com elementos da matriz extracelular mediante a proteína
transmembrana integrina.
82 • O CITOESQUELETO

5-25. Nas células conjuntivas, os filamentos de actina corticais sofrem


repetidas modificações
Nas células conjuntivas, os filamentos de actina corticais se distribuem de maneira caracterís-
tica e, além disso, mutante. Esta última origina modificações cíclicas na consistência da zona
periférica das células, o que, juntamente com as tensões nos contatos focais, produz os movimen-
tos incessantes que são observados na superfície celular.
Assim , os filamentos de actina formam uma espécie de andaime que aumenta a viscosidade do
citosol e que diminui quando o andaime se desmonta por causa da despolimerização dos filamen-
tos de actina (Fig. 5.32). Assim, na zona periférica das células conjuntivas se alternam estados de
maior viscosidade (gel) com outros de menor viscosidade (sol), o que provoca mudanças contínu-
as na forma da superfície celular.
a montagem do andaime intervém - além da profilina (Seção 5-18) - uma proteína ligado-
ra chamada filamina ou ABP (do inglês, actin-binding protein), que une os filamentos de actina
entre si (Fig. 5.32). O andaime se desmonta sob ação da gelsolina - antes que o façam as prote-
ínas despolimerizantes timosina e ADF. A gelsolina é uma proteína dependente de Ca2 + que
fragmenta os filamentos de actina (Fig. 5.32).

5-26. Os filamentos de actina desempenham importantes funções


durante a motilidade celular
A migração celular é um fenômeno muito comum durante o desenvolvimento embrionário,
decisivo não somente para a formação dos tecidos e dos órgãos, mas também para o ordenamento

i
e orientação espacial da maioria das estruturas corporais. No organismo desenvolvido, a migra-
ção celular cumpre importantíssimas funções vinculadas com sua defesa e com o reparo tecidual.
Ao contrário das células musculares, nas quais os filamento s de actina não se encurtam nem se
alongam , nas células locomotoras, o citoesqueleto apresenta um grande dinamismo, já que a mo-
tilidade celular é contínua em seus componentes, que incluem polimerizações e despolimerizações
por parte dos filamentos de actina.
A entrada em movimento das células epiteliais é algo mais complicado do que a das células
conjuntivas, pois para adquirir motilidade, as primeiras devem se tomar independentes do epité-
lio original e redistribuir seus filamentos de actina corticais e transcelular~ como
nas células conjuntivas.
Antes de se pôr em marcha, a célula mi ratória adquire ~aspec to poligonal. Em seguida,
co~giien~ápid~e extensas modificações nos filamentos de actina corticais formam-se, na
extremi <.:!_a~da céLula_c_orr_espondente ao futuro movimento, várias lâminas citopfasmátiCas hori-
z ntais chamadas lamelip_ócUos, de cujas borclas livres nascem m:o ! Qngfl~Os digitiformes de-
nominados filõp6llt<Js-(Figs. 5.33 e 23.6). Tanto os lamelipódios como os filopódios alternam
periõaõSde-atongamento com períodos de encurtamento, que, como veremos , são essenciais para
a motilidade celular.
A formação dos lamelipódios é induzida pela 11roteína Rac, (do inglês , related to the A and C
kinases), que como a Rho (Seção 5-24) é membro de uma família de GTPases que são reguladas
pelas proteínas GEF e GAP (Cap. 7-38).
Os lamelipódios surgem e se alongam por obra da proteína reguladora Arp2/3 (do inglês, ac-
tin-related protein) , que induz a formação de armações especiais de actina no córtex celular. Como

Ca2+
~ i
-
Gelsolina 8::3
Fig. 5.32 Intervenção das
proteínas filamina e gelsolina na
montagem e desmontagem, ,...
respectivamente, dos andaimes
de actina .no córtex das células
conjuntivas. ~~
O CITOESQUELETO • 83

Fig. 5.33 Representação de uma


célula em movimento.
Fi lopódio

' - - - - Lamelipódio

mostra a Fig. 5 .34, a groteína Am2 3 a com gue os filame to d act' na se ramifi uem e - em
colaboração com a profilina (Seção 5-18) - que novas actinas G se agreguem nas extremidades
dos filamentos , tanto nos preexistentes como em seus ramos. A Fig. 5.34, mostra também que
as armações são planas e-que cada ramo de actina compõe com o filamento de origem um ângulo
de 70º .
O encurtamento dos lamelipódios é devido ao desmonte dessas armações, causado pelas proteí-
nas reguladoras timosina, ADF e gelsolina (Seções 5-1 8 e 5-25).
Além de alongar-se e de encurtar-se os lamelipódios se movem perm<:_nentemente, o que é
possível porque em suas raízes há moléculas de miosina II diméricas que fazem deslizar os fila-
mentos de actina em direções opostas (Fig. 5.30).
A formação dos filopódios é induzida pela proteína Cdc42 (do inglês, cell-division cycle) , que
igualmente às proteínas Rho e Rac pertence a uma família de GTPases reguladas pelas proteínas
GEF e GAP (Cap. 7-38).
Devemos acrescentar que durante a migração celular as proteínas Rho, Rac e Cdc42 funcio-
nam coordenadamente. Assim procedem depois de receber "ordens" de receptores localizados na
membrana plasmática, que' se ativam quando são induzidos por moléculas extracelulares implica-
das na estimulação da motilidade. Podemos dizer, então, que as proteínas Rho , Rac e Cdc42 fun-
cionam como elos entre os sinais extracelulares e os componentes do citoesqueleto envolvidos na
migração.
o~~ amentos e en~entos dos filopódios são explicados pela presença em seus eixos
e feixes de filam~o ~ de actina que alternam ciclos de polimerização com ciclos de despolimeri-

Fig. 5.34 Dinâmica dos


filamentos de actina nos
lamelipódios e nos filopódios .
Os pontos de ramificação e de
polimerização foram marcados
com círculos verdes e círculos
azuis, respectivamente. Em
ambos intervém a proteína
reguladora Arp2/3 que, ao nível
dos pontos de ramificação, faz
com que se formem ângulos de
70° entre os filamentos e seus
ramos.
84 • O CITOESQUELETO

zação (Fig. 5.34). Os filamentos partem da borda livre dos lamelipódios e terminam na membrana
plasmática da ponta dos filopódios, na qual se ancoram mediante contatos focais. Além disso, unem-
se, entre si, por meio de uma proteína ligadora chamada fimbrina , e o_s mais periféricos se conec-
tam com a membrana plasmática do filopódio por intermédio da miosina 1. Esta proteína motora
se une aos filamentos e à membrana através de sua cabeça e de sua cauda, respectivamente (Fig.
5.30). A miosina·I moveria o filop ódio ou cumpriria uma função reguladora durante o alonga-
mento ou o encurtamento dos filamentos de actina . .

5-27. Os deslocamentos celulares são guiados por haptotaxia e quimiotaxia


A migração celular é conseqüência dos seguintes fenômenos. Em primeiro lugar, os filopódios
se alongam; em seguida, através de suas pontas - repletas de contatos focais - algumas se an-
coram em fibras colágenas da matriz extracelular mediante moléculas de fibronectina (Caps. 6-4
e 6-5). Depois, enquanto os filopódios ancorados se encurtam - o que traciona a célula para os
pontos de ancoragem - outros filopódios se alongam e ancoram nas fibras colágenas situadas
mais adiante na matriz extracelular. Finalmente, os primeiros filopódios se desprendem das fibras
colágenas e os segundos se encurtam, de modo que a célula avança um pouco mais . A migração
celular resulta da reiteração destes episódios. Como se vê, a ancoragem dos filopódios nos ele-
mentos fixos da matriz extracelular - ou seja, nas fibras colágenas - é transitória, suficiente
para que a célula possa ser tracionada. Se a ancoragem persistisse, o avanço celular se deteria.
Longe de vagar sem rumo, as células se deslocam para seus pontos de destino seguindo itin~- ,
rários predeterminados, e não se detêm antes de alcançá-los e não avançam mais além. Os roteiros
são marcados por alguns componentes da matriz extracelular limítrofes da célula em movimento,
como, por exemplo, a concentração e a orientação das fibronectinas que se acham nos lugares de
passagem. Estas moléculas teriam funções relevantes durante a migração celular, pois fixariam os
itinerários ao se orientar adequadamente ou se concentrar em proporções crescentes ao longo das
rotas. A locomoção celular guiada por gradientes de concentração de moléculas não-solúveis no
meio extracelular - como ocorre com a fibronectina - é denominada haptotaxia (do grego,
háptein, enganchar, e taxis, colocação).
Os sinais posicionais sutis emanados das fibronectinas são avaliados pelas células em movi-
mento , para onde seus filopódios se estendem e se retraem (crescem e encurtam) como se os esti-
vessem "cheirando". Quando os filopódios "percebem" os sinais corretos, fixam-se ao colágeno;
caso contrário, continuam "explorando" o meio extracelular até encontrar-se com eles.
Os deslocamentos das células também são dirigidos por substâncias solúveis emitidas por ou-
tras células - às vezes distantes - que podem provocar sua atração ou repulsão . Se houver atra-
ção, o fenômeno leva o nome de quimiotaxia, que define a condução das células migratórias para
um lugar de maior concentração da substância solúvel. Ficou comprovado que as substâncias qui-
miotáticas estimulam - na membrana plasmática das células em movimento - receptores que
põem em marcha sinais intracelulares que ativam a proteína Arp2/3 . O fenômeno oposto à quimi-
otaxia, ou seja, a quimiorrepulsão , depende de uma proteína denominada semaforina.
Os mecanismos pelos quais as células migratórias reconhecem outras células em seus lugares
de destino e se estabelecem neles são analisados nos Caps. 6-8 e 6-9.

5-28. O avanço dos axônios apresenta algumas semelhanças com a


motilidade celular
Como sabemos, os neurônios se acham conectados entre si e com as células musculares e se-
cretórias por meio de prolongamentos citoplasmáticos chamados axônios. As células assim co-
nectadas podem estar separadas por distâncias consideráveis, e a maioria das conexões é estabe-
lecida durante o desenvolvimento embrionário.
Qualquer que seja a distância que as separe, geralmente o neurônio não necessita migrar para
entrar em contato com a outra célula; somente cresce seu axônio, motivo pelo qual seu corpo per-- -
manece no sítio inicial. Para poder se alongar e avançar, o axônio desenvolve em sua extremidade
distal (que é a área que entra em contato com a outra célula) uma especialidade chamada cone de
crescimento, análoga à região frontal das células migratórias, porém com filopódios bastante mais
O CITOESQUELETO • 85

Fig. 5.35 Desenho que ilustra a


Microtúbulos extremidade do axônio com seu
cone de crescimento.
1
IIl-Vm 53' F<g

Axônio

longos (Fig. 5.35). As raízes destes contêm miosina V, que, como vimos na Seção 5-23, é uma
proteína motora que no citoplasma transporta organelas. A miosina V é dupla como a miosina II,
porém possui doze polipeptídeos leves em lugar de quatro e não forma conjuntos bipolares (Fig.
5.30). A semelhança do cone de crescimento com a célula migratória alcança os fatores que re-
gem o seu avanço pela matriz extracelular.
Na Seção 5-9, analisamos a função que desempenham os microtúbulos durante o alongamento
do axônio e a participação da proteína motora dinamina.na migração do cone de crescimento.

5-29. Durante a histog ênese do sistema nervoso central, alguns neurônios


migram conduzidos pelas células gliais radiais Superfície externa
do tubo neural
'
~
\
Durante a histogênese do SNC, alguns neurônios do tubo neural primitivo devem migrar das \ V\
\
\
cercanias da luz do tubo até lugares próximos a sua superfície externa. Tais migrações ocorrem, \

por exe..mplo, quando são formado s o córtex cerebral e o córtex cerebelar. .


\
\
t
\ t
Os mecanismos que tomam possível o traslado destes neurônios diferem dos descritos até aqui. ' \
t t
Neurônio \
Como mostra a Fig. 5.36, intervêm elementos da neuroglia - as chamadas células gliais radiais \ 1t t
- que transitoriamente formam suportes filamentosos sobre os quais os neurônios "se arrastam" \ t
até seu ponto de destino. Estes suportes são finos prolongamentos citoplasmáticos emitidos pelas
células gliais radiais, que como raios percorrem a parede do tubo neural primitivo da sua luz cen-
t ,l:ttr
t

tral até a sua superfície externa.


/ t
Não se conhece ainda o mecanismo migratório, embora tenha sido descoberta uma proteína 1
/

/
que permite o estabelecimento de junções inte1mitentes entre a membrana plasmática do neurônio /
t t
e a membrana plasmática da célula glial radial, imprescindíveis para o "arrastamento". A proteína t
se chama astrotactina em virtude de as células radiais se converterem em astrócitos quando a
migração termina.
-- 11
Luz do tubo
.J•
neural
5-30. Nos cultivos de tecidos ocorre a chamada inibição por contato
Fig. 5.36 Traslado de
À medida que vão ocupando os lugares vazios, as células que se reproduzem nas culturas de determinados neurônios através
tecidos migram e estabelecem contatos com suas vizinhas. No entanto, quando a célula fica rode- da parede do tubo neural
ada por outra, deixa de se dividir e perde sua motilidade. Este fenômeno - denominado inibição primitivo, guiados por células
por contato - ocorre em todas as células de cultura, motivo pelo qual terminam formando uma gliais radiais.
monocamada celular característica. Devemos assinalar que as células cancerosas cultivadas não
experimentam este tipo de inibição e, tendo em vista que continuam se dividindo e se movendo,
empilham-se umas sobre as outras até formar massas irregulares de várias camadas de profundi-
Fig. 5.37 A. Crescimento normal
dade (Fig. 5.37). sobre um substrato sólido nas
células em cultivo. Quando estas
células entram em contato com
suas vizinhas perdem sua
motilidade, deixam de se
A multiplicar e formam uma
monocamada característica. B.
Em circunstâncias similares, as
células cancerosas não se tornam
imóveis nem dei xam de se
multiplicar e, por isso, formam
B multicamadas.
86 • O CITOESQUELETO

5-31 . Os filamentos de actina intervêm na citocinese

m~nto s
-----
A citocinese ocorre no final da mitose, quando se forma um ~omposto por fila-
de actina e miosinas II sob a membrana plasmática na zona equatorial da célula em divi-
são (Cap. 18-20) (Fig. 18.7). Da mesma forma que nas fibras de tensão, as miosinas II são dimé-
ricas e se acham entre os filamentos de actma do anel. - ç:· cada mio ina II
de · e dois filamentos de actina em sentidos contrários. A soma destes deslizamentos faz
aparecer um sulco na superfície celular que, ao se aprofundar, gera um estrangulamento que cul-
mina na partição da célula (Fig. 18.8).
Devemos assinalar que a redução progressiva do diâmetro do anel contrátil não é acompanha-
da por um aumento de sua espessura, o que indicaria que os filamentos de actina se despolimerizam
à medida que a célula se estrangula.

5-32. Nas microvilosidades existem filamentos de actina estáveis


-------
As microvilosidades são projeções citoplasmáticas nascidas na superfície celular,' rodeadas
por membrana plasmática (Figs. 1.7 e 5.38). São encontradas em muitos tipos celulares, porém
especialmente desenvolvidas em alguns epitélios. Como incrementam a superfície da membrana
plasmática, permitem uma maior absorção de água e de solutos por parte da célula.
O diâmetro das microvilosidades é de 0,08 µ,m e seu comprimento médio é de 1 µ,m. ~xo
ólico de cada microvilosidade é constituído or uma matrg_q_ue_contén:L2.Q-ª.l..Q filamentos
de actina paralelos, cujas extremidades [ - ] e [ + ] se acham na raiz e na ponta da microvilosidade,
respectivamente. Em virtude de não se alongarem e nem se encurtarem, diz-se que estes filamen-
.,.
tos de actina são estáveis.
'
A ponta da microvilosidade é ocupada por um fluido citosólico amorfo no qual se acham imer-
sas as extremidades [ + ] dos filamentos de actina. Ao contrário, na raiz da microvilosidade as
extremidades [ - ] se conectam com os filamentos de actina corticais, que aqui descansam sobre
uma delgada rede de filamentos intermediários (Fig. 5.38). Além disso, os filamentos de actina
corticais estão conectados entre si e com a membrana plasmática mediante moléculas de espec-
trina, equivalentes às fodrinas descritas na Seção 5-20.
Os filamentos de actina e os filamentos intermediários compõem uma reqe por baixo da mem-
brana plasmática que leva o nome de membrana terminal, da qual nascem os filamentos de ac-
tina que ingressam nas microvilosidades (Fig. 5.38). É necessário acrescentar que nas células
epiteliais o perímetro da membrana terminal continua-se com os filamentos de actina do cinturão
de adesão (Seção 5-21 e Cap. 6-12) (Fig. 6.8 ).

---.-- - Substância
amorfa

,,..__,.____ Filamento
de actina

Fig. 5.38 Representação


esquemática de uma • Espectrina

~}
microvilosidade. No córtex da
célula estão assinalados com
uma chave os componentes da
1 amentos intermedjános
=
membrana terminal (ver Fig.
6.8).
O CITOESQUELETO • 87

Voltando ao eixo da microvilosidade, seus filamentos de actina se unem entre si por meio das
próteínas ligadoras, a vilina e a fimbrina (Fig. 5.38) . Além disso, os filamentos de actina mais
periféricos se conectam com proteínas integrais da membrana plasmática por intermédio de mo-
léculas de miosina 1. Não se sabe ainda por que esta proteína motora se localiza em uma estrutura
celular imóvel.

5-33. Na contratilidade das células musculares estriadas intervêm


filamentos de actina e várias proteínas acessórias
O músculo estriado é constituído por células (ou fibras) cilíndricas de 10 a 100 µ,m de diâme-
tro e vários milímetros ou centímetros de comprimento . Os componentes do citoesqueleto com-
prometidos na atividade mecânica destas células formam estruturas regulares e estáveis, adapta-
das para encurtar-se durante a contração e alongar-se nos períodos de repouso.
O músculo constitui um dos exemplos mais claros de associação morfofuncional e de como,
em uma célula, a energia química pode ser traduzida no trabalho mecânico. O desenho das células
musculares estriadas é tão eficiente que elas são capazes de contrair-se e de relaxar-se cem ou
mais vezes por segundo e de produzir um trabalho mil vezes superior ao seu próprio peso.
A maquinaria contrátil das células musculares é representada por estruturas regulares deriva-
das do citoesqueleto, as miofibrilas (Fig. 5.39). Estas são tão longas quanto as próprias células e
se dispõem paralelamente uma ao lado da outra. A espessura de cada miofibrila é de 1 a 2 µ,m. Seu
comprimento e seu número dependem do comprimento e do diâmetro da célula muscular, respec-
tivamente.
A miofibrila é composta por uma sucessão linear de unidades contráteis denominadas sarcô-
meros (Figs. 5.40 e 5.41), de 2,2 µm de comprimento e largura equivalente à da miofibrila, de 1
a 2 µ,m. Ao microscópio eletrônico observa-se que entre os sarcômeros existe uma estrutura ele-

Fig. 5.39 Fibras do músculo


estriado onde se ilustram as
miofibrilas com seus sarcômeros
(observar as bandas A e I e os
discos Z), o retículo
sarcoplasmático e a membrana
plasmática. Os túbulos T são
invaginações da membrana
Membrana Retículo sarcoplasmático plasmática, que se vinculam ao
plasmática retículo sarcoplasmático,
organizadas para conduzir
impulsos da superfície da célula
ao interior desta, a fim de que
todas as miofibrilas se contraiam
sincronicamente.

A
~r ;.... ... .
Fig. 5.40 Acima. Representação
de um córtex longitudinal do
sarcômero. Abaixo. Cortes
transversais nas diferentes
.,,....... ili ............y .....,.. regiões do sarcômero. Observar
que as bandas I têm somente
-~t't"•t•'•ª~H •· i!I AA~ '•' t,,'N
filamentos de actina, as bandas
'li ...., .................
H somente miosina II, e as
z L__ ~__J z bandas A filamentos de actina e
<f-~~~~1----1~~~~~A~~~~--1~-t-~~~~~
miosina II.
88 • O CITOESQUELETO

Fig. 5.41 Eletromicrografia de


quatro miofibril as nas quais se
observam os sarcômeros, com os
discos Z e as bandas H, A e I.
Vê-se também o retículo
sarcoplasmático (RS) entre as
miofibrilas. 60.000X . (Cortesia
de H. Huxley.)

trodensa, o disco Z (linha Z), localizada em meio a uma região pouco densa, a banda I (de isotró-
pica) (Fig. 5.41). Ao longo das miofibrilas , as bandas 1 se alternam com outras mais densas, as
bandas A (de anisotrópica) , e na parte média destas, se distingue uma zona de menor densidade
- a banda H (faixa H) - dividida por sua vez pela linha M, mais densa que a faixa H.
As diferentes bandas resultam da variação periódica na superposição das proteínas
citoesqueléticas ao longo das miofibrilas. Como em todas as miofibrilas cada banda se encontra
na mesma altura, elas geram, em conjunto, uma alternância de zonas de diferente densidade, que
é o que confere a designação de estriado a este tipo de músculo.
A Fig. 5.40 mostra a estrutura básica de um sarcômero, no qual se observam os filamentos de
actina originando-se dos discos Z e as fibras grossas bipolares - de miosina II - entre esses
filamentos. A extremidade dos filamentos de actina que se une ao disco Z é a [ + ]. Os cortes trans-
versais comprovam que a banda I contém unicamente filamentos de actina, a banda H somente
fibras de miosina II, e a banda A ambos os componentes. Na banda A cada fibra grossa de miosina
aparece rodeada por seis filamentos de actina, e cada um destes por três fibras de miosina; por
conseguinte, o número de filamentos de actina é o dobro do das fibras de miosina. Por outro lado,
os cortes transversais ao nível da linha M revelam a existência de pontes protéicas entre as fibras
de miosina.
É necessário descrever como se associam os monômeros de miosina II para formar as fibras
grossas interpostas entre os filamentos de actina. Cada uma destas fibras está integrada por nume-
rosas moléculas de miosina II, cuja combinação dá lugar a uma estrutura bipolar com forma de
bastão (Fig. 5.42). Esta exibe uma zona "lisa" - correspondente à banda H do músculo contraído
- em meio a duas regiões "rugosas" porque aparecem assim pela presença das cabeças das miosinas
II, as quais se projetam da fibra como se fossem braços. Na Fig. 5.42 podemos observar que as

Fig. 5.42 Estrutura bipolar em


forma de vara, integrada por
numerosas moléc ulas de miosina
II. Também estão ilustradas as
cabeças das miosinas surgindo
do eixo da vara a intervalos
regulares .
O CITOESQUELETO • 89

cabeças das miosinas II estão orientadas opostamente nas duas regiões rugosas, o que dá à fibra
grossa sua condição bipolar.
As cabeças das miosinas II surgem do eixo fibroso a intervalos regulares de 7 nm e com uma
diferença angular entre elas de 60º, motivo pelo qual em conjunto descrevem, ao longo deste eixo,
uma trajetória helicoidal (Fig. 5.42). Esta é a razão pela qual cada fibra de miosina II interage com
seis filamentos de actina simultaneamente (Fig. 5.40).
As mudanças que ocorrem no sarcômero durante a contração da célula muscular podem ser
observadas com os microscópios de fase e de interferência (Caps. 23-7 e 23-8). A banda A não se
modifica, porém as hemibandas I se encurtam de forma proporcional ao grau de contração. O
encurtamento das hemibandas I se deve ao fato de os discos Z se aproximarem mutuamente. Ao
fazê-lo, empurram os filamentos de actina para o centro do sarcômero, de maneira que as áreas de
superposição dos filamentos de actina com as fibras de miosina II se ampliam (Fig. 5.43). Se a
contração se acentuar, as extremidades livres dos filamentos de actina podem chegar até a linha M
(Fig. 5.43). Todos esses fenômenos se revertem durante o relaxamento.
Os deslocamentos observados durante a contração devem-se ao fato de as cabeças das fibras
de miosina deslizarem ativamente sobre os filamentos de actina. Para isso, cada cabeça se flexio- Fig. 5.43 Esquerda. Esquemas
na em relação ao talo fibroso, como se entre ela e o talo houvesse uma dobradiça (Fig. 5.44). que mostram, em um conjunto
No músculo em repouso, as cabeças das miosinas II estão separadas dos filamentos de actina. de seis sarcômeros, o mecanismo
Diante da chegada de estímulo apropriado ocorre a contração muscular como conseqüência dos de relaxamento-contração do
músculo estriado. Durante o
relaxamento as bandas H se
ampliam. Durante a contração os
filamentos de actina deslizam
para as linhas M e a largura das
bandas H se redu z. Com a
contração máxima as
llllllllUllll extremidades livres dos
11111111111111
11111111111111
Contração filamentos de actina podem
chegar até as linhas M. Direita.
Esquemas tridimensionais de um
~111111111111
:::::::::~
sarcômero do músculo estriado
m1111111111•
em estados de relaxamento,
111 11111111111
"""'"""' Gi Contração máxima
contração e contração máxima ..

Fig. 5.44 Interpretação


esquemática do deslizamento das
cabeças das miosinas II sobre o
filamento de actina. A. Durante
o relaxamento muscular as
cabeças não estão unidas ao
filamento. B. No começo da
contração as cabeças entram em
contato com o filamento. e.
Uma alteração na forma das
cabeças faz com que o filamento
de actina corra para o centro do
sarcômero. D. No final deste
movimento, as cabeças se
desprendem, se endereçam e
novamente entram em contato
com o filamento de actina, agora
com monômeros mais próximos
do disco Z.
90 • O CITOESQUELETO

seguintes fenômenos moleculares (Fig. 5.44): 1) cada cabeça de miosina adere a um filamento de
actina; 2) ao se flexionar avança um pequeno segmento para a extremidade [+]deste filamento , o
qual se desloca - arrastando o disco Z de seu lado - para o centro do sarcômero; 3) em seguida,
a cabeça da miosina se desconecta do filamento de actina e recupera sua posição de repouso; 4)
em seguida, se une ao mesmo filamento de actina, porém em um ponto mais próximo do disco Z;
5) como volta a se flexionar, o filamento de actina corre um pouco mais para a parte central do
sarcômero, depois do que volta a se separar. Graças à bipolaridade da fibra de miosina e ao fato de
os episódios anteriormente mencionados se repetirem várias vezes, os filamentos de actina de ambas
as metades do sarcômero se aproximam mutuamente e, por isso, o sarcômero encurta seu compri-
mento (Fig . 5.43). A contração da célula muscular resulta da soma dos encurtamentos de todos os
seus sarcômeros.
A energia necessária para a atividade mecânica das cabeças da miosina II é proporcionada pelo
ATP que é hidrolisado por uma ATPase presente nessas cabeças. Calcula-se que a energia forne-
cida por um A TP seja suficiente para deslocar os fil amentos de actina entre 5 e 10 nm.
A fl exão das cabeças de miosina II é desencadeada pelo Ca2 + , cuja concentração aumenta no
citosol quando a célula muscular é induzida a se contrair (Cap. 7-26). Essa flexão é controlada
pelas proteínas reguladoras tropomiosina, troponina 1, troponina C e troponina T, que se en-
contram junto aos filamentos de actina (Fig. 5.45). As três troponinas formam um complexo que
se mantém unido graças à troponina T.
No músculo em repouso, a tropomiosina se encontra sobre os filamentos de actina em uma
posição tal que impede a união das cabeças de miosina II com esses fil amentos (Fig. 5.46). Esta
posição é controlada pela troponina 1, assim chamada porque inibe o deslocamento da tropomio-
sina.
O aumento da Ca2+ no citosol faz com que o íon se una à troponina C (esta é semelhante à
proteína calmodulina, que analisaremos no Cap. 11-18). O complexo Ca2 + -troponina C bloqueia
a ação da troponina 1, o que permite à tropomiosina mudar de posição com relação aos filamentos
de actina e, assim, as cabeças da miosina II podem se unir a eles. A Fig. 5.46 mostra essa reação;
observa-se a molécula de tropomiosina em suas duas posições, correspondentes aos estados de
relaxamento e de contração do músculo.
Nos discos Z, se encontra a proteína ligadora a-actinina. Nela se ancoram não somente os fi-
lamentos de actina, mas também os de titina, uma proteína ligadora que se estende até o centro do
sarcômero, ou seja, até a linha M (Fig. 5.47). A titina desempenha duas funções: mantém a fibra
de miosina II em sua posição e, por ter um segmento que se comporta como uma mola, restabele-
ce o comprimento de repouso da célula durante o relaxamento muscular. A titina é a maior prote-
ína detectada no organismo humano; pesa nada menos que 3.000 kDa e é composta por uma ca-
deia linear de quase 27.000 aminoácidos.

T C
o
Actina Tropomiosi na
••
Troponinas

Fig. 5.45 Esquema que mostra a


estrutura molecular do filamento
de actina do sarcômero, junto a
algumas proteínas reguladoras
da contração muscular. Fi lamento de actina

Fig. 5.46 Deslocamento da


tropomiosina antes da união da
cabeça da miosina II com o
filamento de actina (ver Fig.
o
Qo
5.44B).
O CITOESQUELETO • 91

- 1 A - - - - --+-- - 1 - Fig. 5.47 Representação


~-- H --~ esquemática parcial do
Actina Miosina li Titina sarcômero, que inclui as
z 1 M 1
z,, moléculas de titina. Assinalamos
1 li 1
o comprimento relativo das
'
J
I
\. moléculas de nebulina.
111
I
li \..
, Ili 7

I•
Comprimento da
molécula de nebulina "I
Comprimento da
molécula de titina
"'

Cada filamento de actina se acha associado a outra proteína gigante chamada nebulina, que
tem por função determinar o comprimento do filamento durante a rniogênese e conferir-lhe rigi-
dez (Fig. 5.47).
As miofibrilas se acham unidas por seus lados mediante filamentos intermediários de desmina
(Seção 5-3). Graças a eles, evita-se a perda do alinhamento dos sarcômeros no interior das células
musculares diante de fortes tensões mecânicas a que estão submetidas .
Finalmente, por baixo da membrana plasmática, a célula muscular possui a proteína ligadora
distrofina, que é semelhante à espectrina (Seção 5-32) e conecta os filamentos de actina, locali-
zados na periferia da célula com um complexo de proteínas membranosas chamadas distroglicanas
e sarcoglicanas. Por sua vez, este complexo se une à laminina da lâmina basal que rodeia a célu la
(Cap. 6-1). Diversas anomalias na distrofina ou em alguma das proteínas associadas - como
conseqüência de alterações genéticas - dão lugar a enfermidades conhecidas como distrofias
musculares, que se caracterizam pela degeneração progressiva dos músculos, o que pode fazer
claudicar as funções cardíaca e pulmonar e levar à morte.

5- 34. Na contratilidade das células musculares cardíacas participam


estruturas similares às do músculo estriado
Uma das diferenças mais notáveis entre as células musculares esqueléticas e as células muscu-
lares cardíacas é a presença nestas dos discos intercalares, encarregados de unir as células cardí-
acas por suas extremidades. Estes discos se comportam como se fossem discos Z, pois deles sur-
gem os filamentos de actina e de titina.
Os discos intercalares contêm desmossomas (Cap. 6-13) ; estes se associam aos filamentos
intermediários de desmina, que se derivam daqueles que unem as miofibrilas entre si, menciona-
dos na seção anterior. Além disso , possuem junções comunicantes (Cap. 6-14), necessárias para
sincronizar as contrações das células miocárdicas .

5-35. Nas células musculares lisas, o aparelho contrátil e


relativamente simples
O aparelho contrátil das células musculares lisas se assemelha ao conjunto de fibras de tensão
transcelulares presentes nas células conjuntivas (Seção 5-24), com a diferença de que nas muscu-
lares os feixes de filamentos de actina são muito mais grossos e mais numerosos . Além disso, as
partes intermediárias dos filamentos de actina são substituídas por filamentos intermediários de
desmina (Fig. 5.48), cuja presença impede que seja comprimida a zona central da célula, onde se
encontra o núcleo e se refugiam os componentes citoplasmáticos mais delicados para se proteger
da contração.

5-36. O citoesqueleto da hemácia (eritrócito) possui


características singulares
A composição do citoesqueleto da hemácia apresenta diferenças na comparação com o citoes-
queleto das outras células.
92 • O CITOESQUELETO

Fig. 5.48 Citoesqueleto da célula


muscular lisa. Observar de que
maneira os filamentos
intermediários de desmina,
situados entre os filamentos de
actina, protegem o núcleo e os
componentes citoplasmáticos
durante a contração.
Como mostra a Fig. 5.49, imediatamente por baixo da membrana plasmática da hemácia, exis-
te uma malha fibrilar integrada principalmente por filamentos de espectrina, que é uma proteína
similar à fodrina (Seção 5-20). Trata-se de um heterodímero composto por dois polipeptídeos lon-
gos entrelaçados, chamados ex e [3 (ou banda 1 e banda 2, respectivamente). Visto que os dímeros
se conectam por suas pontas, formam-se tetrâmeros cujas extremidades se unem a filamentos de
actina curtos (ou banda V) .
A Fig. 5.49 permite ver que cada filamento de actina se conecta com várias espectrinas
tetraméricas; tais conexões são mediadas pela proteína ligadora aducina. Vê-se também que os
filamentos de actina se ligam a uma glicoproteína transmembrana chamada glicoforina mediante
a proteína ligadora banda 4.1.
Além disso, o filamento de actina se acha associado a outras duas proteínas, a tropomodulina,
que determinaria seu comprimento, e a tropomiosina, cuja função se desconhece.
Próximo de sua parte média, cada tetrâmero de espectrina se conecta com a proteína transmem-
brana banda 3, que é o contratransportador de c1- e HC0 3 - descrito no Cap. 3-17. Nesta união
intervém a proteína ligadora anquirina.
É preciso assinalar que o conjunto deste sistema de proteínas citoesqueléticas e membranosas
confere à hemácia sua forma bicôncava e a flexibilidade necessária para poder circular pelos ca-
pilares sangüíneos de diâmetros menores que o seu.

Fig. 5.49 Ilustração dos


componentes principais do
citoesqueleto e da membrana
plasmática da hemácia.

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O CITOESQUELETO • 93

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A junção das células
entre si e com a matriz
extracelular 6

6-1. As células se unem entre si e com elementos da matriz extracelular


Os organismos multicelulares são compostos não somente por células , mas também por ele-
mentos intercelulares . Estes últimos se agrupam sob o nome de matriz extracelular. Os tecidos
- e, por extensão, os órgãos e sistemas - são o resultado de associações de tipos diferentes de
célula~ e matrizes extracelulares; assim, para poder reconhecer um tecido devemos levar em con-
ta tanto suas células quanto a qualidade e a quantidade de seus componentes intercelulares.
Nos tecidos conjuntivos, as células se encontram dispersas em meio de abundante matriz ex-
tracelular. Ao contrário, nos epitélios, as células podem estar aderidas sem que nenhum elemento
extracelular, praticamente, as separe. No entanto, nos epitélios de revestimento, existe uma delga-
da matriz extracelular, chamada lâmina basal, interposta entre as células e o teci_do conjuntivo
sobre o qual se apóiam. Lâminas basais similares se encontram em outros tecidos, como, por exem-
plo, em tomo das células musculares.
Neste capítulo analisaremos os componentes da matriz extracelular, como as células se vincu-
lam a eles e os diferentes tipos de junções que existem entre as células.

MATRIZ EXTRACELULAR
6-2. A matriz extracelular contém elementos fluidos e fibrosos
As funções mais importantes da matriz extracelular são: 1) preencher os espaços não ocupa-
dos pelas células; 2) conferir aos tecidos resisJência _~ com_pressão e ~_ti['!.lpento; 3) constituir
um meio por onde cheguem os nutrientes e sejam eliminados os dejetos celulares; 4) fornecer
pontos fixos a diversos tipos de células pará que elas possam se ancorar; 5) ser um veículo por
onde migram as células quando se deslocam de um ponto a t:iutro no organismo; 6) ser um meio
pelo qual chegam às células as substâncias indutoras (sinais) provenientes de outras células (Cap.
11-2).

Quadro 6. 1 Principais glicosaminoglicanas e suas unidades dissacarídicas repetitivas

Glicosaminoglicanas Unidade dissacarídica

Ácido hialurônico (hialuronana) Ácido glicurônico; N-acetilglucosam ina


Condroitinsulfato Ácido glicurônico; N-acetilgalactosamina sulfato
Dermatansulfato Ácido idurônico; N-aceti lgalactosamina sulfato
Heparansulfato Ácido idurônico; N-acetilglucosamina sulfato
Queratansulfato Galactose; N-acetilglucosamina sulfato
96 • A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MATRIZ EXTRACELULAR

Fig. 6.1 Esquema de um agregado molecular composto por numerosas proteoglicanas ligadas a um ácido
hialurônico.

Os componentes da matriz extracelular podem ser classificados em fluidos e fibrosos. Os flui-


dos correspondem principalmente a glicosaminoglicanas e proteoglicanas (Cap. 2-6), enquanto
os fibrosos se dividem em proteínas estruturais (colágeno) e proteínas adesivas (fibronectina, la-
minina).

6-3. As glicosaminoglicanas e as proteoglicanas são componentes


1 1
fluidos da matriz extracelular
A fase líquida da matriz extracelular contém um tipo especial de polissacarídeos chamados gli·
cosaminoglicanas, que podei;n estar associados entre si e às proteínas, com as quais compõem
grandes complexos glic.opro.téic9s denominados proteoglicanas (Cap. 2-6) (Figs. 2.10 e 2.11).
Mais de 100 cadeias de glicosaminoglicanas podem se associar a uma só proteína e, ocasional-
mente, várias destas proteoglicanas se unem a uma molécula de hialuronana (ácido hialurônico)
- que é a glicosaminoglicana de maior tamanho - o que dá origem a agregados moleculares de
enormes proporções (Fig. 6.1 ).
As glicosaminoglicanas são carboidratos compostos por uma sucessão de unidades dissacarídicas
repetidas e alternadas, nas quais um dos monossacarídeos possui um grupo amina, posto·que é
uma N-acetilglicosamina ou uma N-acetilgalactosamina e o segundo é um ácido glicurônico, um
ácido idurônico ou uma galactose (Cap. 2-6).
No Quadro 6.1 mencionamos as principais glicosaminoglicanas e suas unidades repetitivas.
Como podemos perceber, à exceção do ácido hialurônico, todas são sulfatadas. Por causa dos
sulfatos e do fato de possuírem numerosos grupos carboxila, as glicosaminoglicanas são molécu-
las muito ácidas, com numerosas cargas negativas que atraem grandes quantidades de Na+- e,
portanto, de H 20 - , o que aumenta a turgidez da matriz extracelular.

6- 4. As proteínas estruturais mais abundantes da matriz


extracelular são as fibras colágenas
Na matriz extracelular, as proteínas estruturais mais importantes correspondem às fibras·colá-
genas, que são compostas por fibrilas que apresentam uma estriação característica, com uma-pe-
riodicidade de 67 nm (Fig. 6.2).
A unidade molecular básica da fibrila é o tropocolágeno, que é uma molécula protéica fibrosa
de cerca de 300 nm de comprimento e 1,5 nm de espessura (Fig. 6.2). O tropocolágeno é compos-
to por três cadeias polipeptídicas do mesmo tamanho trançadas em forma helicoidal. A periodici-
dade de 67 nm nas estrias das fibrilas colágenas é porque tropocolágenos se agregam em paralelo
e se sobrepõem em uns três quartos do seu comprimento (Fig. 6.2).
Existem cerca de 25 tipos de cadeias polipeptídicas. Em todas elas, um terço dos aminoácidos
são glicinas, outro terço pode ser de prolinas e hidroxiprolinas, e o terço restante são aminoácidos
de tipos distintos.
A JU1 ÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MATRIZ EXTRACELULAR • 97

~--Tropocoláge no-- ==&ii

Fig. 6.2 Fibras colágenas. São compostas de fibrilas e estas de tropocolágeno. A eletromicrografia pennite
ver sua estria característica, deri vada da disposição escalonada das moléculas de tropocolágeno nas
fibrilas.

Estas cadeias polipeptídicas se combinam de diversas maneiras, o que dá lugar a cerca de 15


tipos de colágenos . Estes são identificados por algarismos romanos e os principais correspondem
aos colágenos dos tipos I, II, III, IV, VII, IX e XI.
O colágeno do tipo I encontra-se na derme, na cápsula dos órgãos, no tendão, no osso, na cór-
nea e na dentina; os do tipo II, IX e XI na cartilagem; e o do tipo III na derme fetal, no tecido
conjuntivo frouxo , na parede dos vasos sangüíneos, no útero, no rim e nos tecidos hematopoético
e linfático; os do tipo IV e VII são encontrados na lâmina basal e no tecido conjuntivo subjacente.
No Cap. 5-27, vimos que as fibras de colágeno (fibras colágenas) desempenham um papel cru-
cial na migração das células , já que fornecem os pontos fixos de sustentação para a ancoragem
temporária dos filopódios.

6-5. A fibronectina e a laminina são proteínas adesivas da matriz


extracelular
A fibronectina é uma glicoproteína fibrosà de 440 kDa, composta por duas sub_unidades poli-
peptídicas ligadas entre si por uma ponte dissulfeto próxima às suas extremidades carboxila. Cada /
subunidade possui dois domínios; como veremos na próxima seção, um se conecta a uma proteína
da membrana plasmáJ.ica da célula e o outro à fibra colágena (Fig. 5.31 ).
No Cap. 5-27 assinalamos que as moléculas de fibronectina estabelecem os itinerários segui-
dos pelas células migratórias e medeiam a conexão temporária dos filopódios com as fibras colá-
genas.
A laminina é uma glicoproteína fibrosa de cerca de 900 kDa, composta de três subunidades
polipeptídicas unidas por pontes dissulfeto . Tem forma de cruz, com um braço longo e três braços
curtos.
A laminina é abundante nas lâminas basais, onde se acha associada ao colágeno do tipo IV e a
uma proteoglicana rica em heparansulfato (Fig. 6.3). É a primeira proteína adesiva que aparece na
matriz extracelular do embrião, já que foi detectada nas últimas fases da segmentação da célula
ovo, quando a mórula se forma (Cap. 21-7).

Fig. 6.3 Representação


~---L--+~-r-.. ,,..-.-..,,...c...__,..,,(..1-- - - - - - -- - Laminina
esquemática de um
'fllíliii!lllíiililllllll&.../ .._..,,,_~•u -+------ Colágeno IV hemidesmossoma.
98 • A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MA TRIZ EXTRA CELULAR

UNIÕES DAS CÉLULAS COM A MATRIZ EXTRACELULAR


6-6. Os contatos focais unem as células de alguns tecidos
conjuntivos com componentes da matriz extracelular
As células de alguns tecidos conjuntivos, embora possam se mobilizar, podem permanecer em
seus locais por estabelecerem uniões mais ou menos duradouras com componentes fixos da ma-
triz extracelular. Nessas uniões, intervêm, do lado das células, os contatos focais (Cap. 5-24),
enquanto os componentes fixos na matriz extracelular correspondem às fibras colágenas.
Devemos lembrar que cada contato focal consiste em_Q__ma proteína transmembrana ch_amada
~egrina, cujo domínio interno está unido - mediante várias proteínas ligadoras - a feixes de
filamentos de actina deno_!1Ünados fibras de tensão (Cap. 5-24 ). É precisamente a integrina- através
de seu domínio externo - o componente do contato focal que se conecta com a fibra colágena da
matriz extracelular. Como mostra a Fig. 5.31 , esta conexão se faz com a ajuda da proteína adesiva
fibronectina.
No Cap. 5-27 vimos que uniões similares a estas - porém fugazes - são estabelecidas duran-
te a migração celular, quando os contatos focais dos filopódios se aderem a fibras colágenas pre-
sentes na rota da célula que se desloca pela matriz extracelular.

6-7. Os hemidesmossomas ancoram as células epiteliais na lâmina basal


As células da camada basal dos epitélios ligam-se a uma parte especializada da matriz extra-
.
,~ 1
celular conhecida como lâmina basal (Seção 6-1). A conexão entre a célula e a lâmina é bastan-
te firme, já que ocorre através de certas estruturas denominadas hemidesmossomas (Figs. 6.3 e
;t
6.7). 1
1
Como os contatos focais, o~ hemide~mossomas possu~m ~~t~grinas, porém estas encontram-
se agrupadas, seus domíQios citosólicos se un~m a filamentos intermedjários de queratina (ou
ceratina) (não a fibras de tensão de actina) e seus domínios externos se ligam a uma rede de1;o-
l_~g~!!Q_~ip_o_IY_qu ~e.xiste_som~nt~a lâmina basal. Esta última conexão é realizada por meio
da laminina (Fig. 6.3). Além disso, entre as integrinas e os filamentos de queratina interpõe-se
uma placa discóide de 12 a 15 nm de espessura que contém uma proteína ligadora similar às
desmoplaquinas do desmossoma (Seção 6-13).

UNIÕES TRANSITÓRIAS ENTRE AS CÉLULAS


6-8. Em vários processos biológicos ocorrem adesões transitórias
entre tipos celulares diferentes
Durante as respostas imunes, o reparo das feridas e a cessação das hemorragias é necessário
que alguns tipos celulares estabeleçam junções transitórias com outros tipos de células. As liga-
ções ocorrem graças aos fenômenós biológicos chamados reconhecimento e adesão celular.
Ambos ocorrem quando determinadas células do sangue (neutrófilos, monócitos, linfócitos,
plaquetas) se conectam transitoriamente com as células endoteliais dos capilares sangüíneos, o
que é um pré-requisito para poderem sair do sangue e passar aos tecidos (Fig. 6.4). A adesão ocor-
re porque na membrana plasmática das células sangüíneas existem glicolipídios e glicaproteínas
que interagem especificamente com glicoproteínas complementares - chamadas selectif!aS -
presentes na membrana plasmática das células endoteliàis. Inversamente, em outras ocasiões, os

Fig. 6.4 Passagem de uma célula Neutrófilo ~} Capilar "


sangüí;;e~
sangüínea entre duas células
endoteliais de um capilar e sua O }Matriz extracelular
saída para a matriz extracelular.
A ÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MA TRIZ EXTRA CELULAR • 99

Fig. 6.5 Adesões moleculares


heterófilas e homófilas. Nas
adesões homófilas mediadas
pelas caderinas intervém o Ca2 +
Adesão heterófi la Adesão homófila Adesão por meio de caderinas
ilustrado como um retângulo de
cor amarela.

glicolipídios e as glicoproteínas se localizam nas células endoteliais e as selectinas nas células


,
sangüíneas.
Estas interações são necessárias para que as células sangüíneas se detenham no lugar apropri-
a
ado e passem entre duas células endoteliais contíguas, o que lhes pennite alcan~ar o tecido onde
e
- segundo o caso - participarão da re posta imune; da cicatrização da ferida ou na detenção da
hemonagia.
a
A especificidade da união é assegurada de um lado pelos oligossacarídios dÓs glicolipídios e
a
das glicoproteínas e, do outro, pelos oligossacarídeos das selectinas. Os oligossacarídeos
interatuantes são diferentes entre si, de modo que se estabelecem conexões entre moléculas de
n-
composição distinta (adesões heterófi__Ú!:s) (Fig. 6.5). As selectinas devem seu nome às adesões
e-
seletivas que medeiam e por serem lectinas, ou seja, moléculas que têm uma grande avidez por
~ J - --
caroG-idratos.
Outras adesões celulares heterófilas transitórias oconem entre as células mielóides (durante
sua proliferação), entre os linfócitos B e T (durante a ativação dos primeiros) e entre os oligoden-
:a- drócitos e as células de Schwann e os neurônios (durante a mielinização). Em todos os casos, os
m- oligossacarídeos de uma das suas células interatuantes reconhecem especificamente as glicopro-
3e teínas ehamadas sialoadesinas presentes na membrana plasmática da célula oposta.
No curso do desenvolvimento embrionário oconem adesões heterófilas similares às descritas,
m- ainda que sejam mais comuns as adesões homófilas que serão analisadas na próxima seção. Final-
ou mente, outro exemplo de adesão heterófila é durante a fecundação do ovócito* pelo espermato-
;o· zóide (Cap. 19-19.).
eio
-se 6-9. Durante o desenvolvimento embrionário, antes de se formarem uniões
· às estáveis, as células se reconhecem e se aderem
Durante o desenvolvimento embrionário, alguns epitélios são formados a partir de células,.que
ao final de várias divisões geram numerosas células descendentes que permanecem juntas (Fig.
6.6), conectadas entre si mediante uniões estáveis (estas uniões serão analisadas nas próximas
seções).
Ao contrário, outros tecidos são formados pela associação de dois ou mais tipos de células di-
ferentes, que devem migrar para se encontrarem em algum lugar do organismo. Nele se reconhe-
ário cem, aderem-se umas às outras e se unem por meio de junções estáveis.
iga-
O reconhecimento e a adesão celular são mediados por glicoproteínas transmembranas espe-
ciais chamadas CAM (do inglês, cell-adhesion molecules) , que se encontram na superfície das
itos, células destinadas a se unir e têm a particularidade de interagir somente quando são idênticas (uniões
IS, 0
homófilas) (Fig. 6.5). Mediante essas CAM, a célula migratória enquanto se desloca em busca do
cor- seu lugar de destino - onde entrará em contato com células que serão suas companheiras em um
ínas novo tecido - "avalia" as propriedades químicas das CAM situadas nas membranas plasmáticas
s- das células que se encontram na sua passagem. Se reconhecer uma célula com uma CAM idêntica
S, OS
à sua, adere-se a ela; em caso contrário, continua deslocando-se até encontrar a célula com a CAM
coneta.
Foram identificadas várias CAM denominadas - em consideração às células onde foram en-
contradas pela primeira vez - Ng-CAM (neurônios , células gliais), N-CAM (neurônios), L-CAM
ou caderina E (hepatócitos, células epiteliais) , caderina P (placenta), caderina N (neurônios) etc.
As caderinas são glicoproteínas assim denominadas por necessitarem de Ca2+ para poder ligar-se
entre si (Fig. 6.5).
Fig. 6.6 Forrna-ção de um tecido
epitelial derivado de uma única
*N.R.T.: Ovócito II ou oóciro II. célula.
100 • A JUNÇÃO DAS CÉLULAS El RE SI E COM A .\•1ATRIZ EXTRA CELULAR

Disso se conclui que antes de se unir na forma estável, as células devem se reconhecer e se
aderir. Hoje se aceita que esses três processos correspondam a etapas sucessivas de um mesmo
fenômeno. as próximas seções veremos que algumas uniões estáveis contêm caderinas, ou sej a,
moléculas com propriedades idênticas às CAM dependentes de Ca2 + que atuam durante o reco-
nhecimento e a adesão celular.

UNIÕES ESTÁVEIS ENTRE AS CÉLULAS


6-1 O. As células epiteliais se unem entre si por meio de
quatro tipos de estruturas
As células dos epitélios se ligam entre si de maneira estável por meio de quatro tipos de uniões.
Estas se denominam: 1) junção oclusiva; 2) cinturão de adesão; 3) desmossoma; e 4) junção co-
municante (Fig. 6.7) .

6- 11. A junção oclusiva impede a passagem de substâncias


pelo espaço intercelular
A junção oclusiva (também chamada de junção estreita ou zônula de oclusão) adere firme-
mente às membranas plasmáticas das células epiteliais contíguas por meio de uma franj a de cone-
xão não muito larga, situada imediatamente abaixo da superfície livre do epitélio (Fig. 6.7). Ten-
~ 1 do em vista que nos epitélios cada célula se acha rodeada por outras , em uma célula individual a
junção oclusiva compõe um arwl q~J'.irc~d a suas paredes laterais (Fig. 6.8).
Ao nível da junção oclusiva, as membranas plasmáticas das células situadas defronte uma da
outra contêm, entre outras, dois tipos de proteínas integrais chamadas ocludinas e claudinas. Como
mostra a Fig. 6.9, estão dispostas de tal modo que formam três ou mais fileiras paralelas à super-
fície do epitélio. Em ç_adafileita, as ocludinas e as_clauclina~ .!!_nid as entre si como as contas
de um colar e cada proteína se adere firmemente a outra similar da membrana OJJOSta, o que blo-
queia o espaç9 intercelular. Na Fig. 6.9 podemos ver que as fileiras de ocludina e de claudina
parecem "costuras" e que estas se acham interconectadas por pontes de igual composição.

n Slíl

Junção comunicante - : : Hem idesmossoma


!
~-
o
\_

•º•
o
F ig. 6.7 Representação esquemática das
estruturas que mantêm as células epiteli ais o
unidas entre si e com a lâmina basal.

Fig. 6.8 Esquema u·idimensional que ilustra as estruturas


que mantêm unidas as células epiteliais entre si. É
mostrada também a membrana terminal (na altura do
cinturão de adesão) e o seu vínculo com as bases das
microvilosidades (Fig. 5. 38).
A ºÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MA TRIZ EXTRA CELULAR • 101

Fig. 6.9 Junção oclusiva onde se


observam três fileiras protéicas
paralelas entre si e as pontes que
as conectam. As fileiras e as
pontes são compostas de
ocludinas e claudinas.

Membrana plasmática

Quando se coloca sobre a superfície livre de um epitélio um marcador como a ferritina, suas
moléculas não podem atravessar o tecido epitelial pelos espaços intercelulares por serem detidas
pelas junções oclusivas . O mesmo ocorre com quase todas as substâncias, que, por isso, para atra-
vessar o epitélio devam cruzar pelo interior de suas células . As Figs. 3.27, 3.28, 7 .25 , 7 .26, 7 .27 e .
7.28 mostram transportes transcelulares deste tipo.
O exposto no parágrafo anterior tem exceções. Por exemplo , o Mg 2 + pode passar pelos espaços
intercelulares do epitélio do túbulo reto distal do néfron porque entre as claudinas das junções
oclusivas desse epitélio existem canais diminutos que permitem a passagem do íon. Devemos
assinalar que o Mg 2+ se dirige do interior do néfron para o interstício renal e que sua transferência
é realizada sem a companhia de água.
Além de unir as células e de impedir a passagem de substâncias através dos epitélios, as jun-
, ões oclusivas determinam que as composições moleculares das regiões apical e basolateral das
membranas plasmáticas das células epiteliais sejam diferentes entre si. Esta assimetria é porque
as junções oclusivas formam barreiras que impedem a difusão lateral das proteínas e dos lipídios
da membrana (Caps. 3-3 e 3-5), ficando uma parte confinada de um lado das junções e outra parte
do outro. O transporte transcelular de solutos, ilustrado nas Figs. 3.27 e 3.28, é possível graças à
segregação - de ambos os lados das junções oclusivas - de proteínas da membrana que funci-
onam como canais iônicos e perrneases.

6-12. O cinturão de adesão contém glicoproteínas chamadas caderinas


O cinturão de adesão (chamado também desmossoma em cinturão, desmossoma em banda,
banda de adesão , barra terminal ou zônula de aderência) é outro tipo de junção que as células
epiteliais desenvolvem para se manter ligadas entre si.
Ele está localizado sob a junção oclusiva (Fig. 6.7) e, em sua composição, intervêm glicopro-
teínas transmembrana da família das caderinas (Seção 6-9) e a franja de filamentos de actina
orticais estudada no Cap. 5-21. Ali adiantamos que as caderinas se conectam com os filamentos (
de actina mediante as proteínas ligadoras placoglobina, catenina, alfa-actina e vinculina.
Como mostram as Figs. 6.8 e 6.10, as caderinas dão lucrar a~ · a rotéicaque circunda as
paredes laterais da célula, da mesma largura que a franj a de filam.e tos de actina com a qual se
acham conectadas. As Figs. 6.8 e 6.10 mostram também que a união intercelular ocorre em vutude
de as caderinas se conectarem por meio de seus domínios externos. Segundo vimos na Seção 6-9,
trata-se de adesões homofílicas , pois as moléculas que interagem são iguais entre si (Fig. 6.5).
O nome cinturão de adesão refere-se às duas características mais notáveis desse tipo de junção:
a disposição circular das caderinas e dos filamentos de actina e a propriedade que têm as primei-
ras de se aderir mutuamente.
Q conjunto de cinturões de adesão forma uma tr:ama..transepitel.ial da qual se deriva parte da
resis.tência ateral dos epitélios.
102 • A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MA TRIZ EXTRA CELULAR

Fig. 6.10 Cinturão de adesão .

_ _ ___,_ _ Caderinas

6-13. O desmossoma é comparado com um rebite e, em sua formação,


também intervêm as caderinas
Os desmossomas (do grego, desmós, vínculo, e sôma, corpo) (chamados também de desmos-
somas puntiformes ou máculas de aderência) ao contrário da junção oclusiva ou do cinturão de
adesão, constituem junções puntiformes entre as células epiteliais contíguas e, por isso, são com-
parados a rebites (Figs. 6.8 e 6.11). São encontrados por baixo do cinturão de adesão, distribuídos
irregularmente nas paredes laterais das células. Cada desmossoma ocupa uma área circular de apro-
ximadamente 0,5 µ,m de diâmetro e, ao seu nível, as membranas plasmáticas se encontram sepa-
radas por uma distância de 30 a 50 nm.
O desmossoma inclui um grupo de glicoproteínas transmembrana da família das caderinas,
denominadas desmogleína 1, desmocolina 1 e desmocolina II.
Da mesma forma que no cinturão de adesão, as caderinas das membranas adjacentes se unem
entre si por seus domínios externos (Fig. 6.11). Ao contrário, seus domínios citosólicos associam-
se a filamentos intermediários de queratina (e não com filamentos de actina). Esta última associ-
ação é mediada por uma placa discóide que inclui as proteínas ligadoras desmoplaquina 1, des-
moplaquina II e placoglobina. Urna das faces da placa relaciona-se com as caderinas e a outra
com os filamentos de queratina que - como forquilhas - entram no disco, curvam-se e voltam
para o citosol (Fig. 6.11 ).

Filamentos
intermediários

Fig. 6.11 Desmossoma ~


A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MATRIZ EXTRACELULAR • 103

Além de unir fortemente as células epiteliais entre si, os desmossomas e os filamentos de que-
ratina compõem uma rede transcelular estendida por todo o epitélio que lhe confere uma grande
resistência mecânica. É por isso que nos diferentes tecidos , o número de desmossomas é propor-
cional ao grau de tensão ou de estiramento a que são submetidos. Por exemplo, no epitélio da mucosa
da bexiga urinária, os desmossomas são muito abundantes.
No Cap. 5-34 vimos que os discos intercalares que ligam as células musculares cardíacas con-
têm desmossomas associados a filamentos de desmina.

6-14. A junção comunicante é formada pela associação de conexões


fornecidas pelas células epiteliais contíguas
As junções comunicantes (chamadas também de junções emfenda,junções "gap" ou nexus)*
são canais que comunicam os citoplasmas das células epiteliais adjacentes.
Cada canal é composto por um 2ar de conexões que são estruturas cilíndricas ocas que atraves-
sam as membranas plasmáticas das células que se encontram defronte uma da outra (Figs. 6.7 e
6.12).
A parede da conexão resulta da associação de seis proteínas .transmembranas idênticas que
delimitam um dueto central (Fig. 6.12). Estas proteínas são chamadas conexinas e se unem com
suas similares de conexão da membrana plasmática oposta, o que dá lugar a um canal que comu-
nica as suas células. Devido ao fato de as conexinas sobressaírem no__es.pJlÇO intercelular entre 1 e
2 nm, as membranas plasmáticas dessas células ficam separadas por uma distância de 2 a 4 nm.
Por este motivo, a junção comunicante é chamada também junção em fenda...(Fig. 6.12).
Nas o;élulas epiteliais,~~x_õ~~m e11tre_os desmossomas. Não estão uniforme-
mente distribuídas e sim agrupadas em conjuntos isolados, cada um composto por algumas pou-
cas ou por centenas de conexões.
A Fig. 6.13 corresponde a uma imagem ultramicroscópica com coloração negativa de numero-
sas conexões na membrana plasmática de um hepatócito. As conexões aparecem como anéis que
formam uma trama hexagonal com uma periodicidade de 8,5 nm. No detalhe, observamos uma
representação obtida mediante o processamento densitométrico computadorizado das imagens
eletrônicas. J

O dueto central da conexão tem um diâmetro de cerca de 1,5 nm. Por ele passam livremente
alguns solutos QQ.ns, monossacarídeos , nucleotídeos , aminoácidos etc.) do citoplasma de uma célula

Conexina

Fig. 6.12 Junção comunicante.


A figura ilustra, à direita, o
mecanismo de fechamento da
conexão.

--~
~ N. R.T.: Também chamadas junções de intervalo e nexos.
104 • A JlÍNÇÃO DAS CÉLULAS E TRE SI E COM A MATRIZ EXTRACELULAR

Fig. 6.13 Visão superficial


ultramicroscópica, com
coloração negativa, de
numerosas conexões na
membrana plasmática da célula
hepática. 425.000 X. No detalhe,
observa-se que cada unidade tem
a forma de um anel hexagonal
cujos lados conespondem a seis
conexinas. (Cortesia de G.
Zampighi.)

ao citoplasma da célula vizinha, porém não as macromoléculas. Tais passagens indicam que exis-
tem acoplamentos metabólicos e elétricos entre as células contíguas.
A estrutura das conexões é comparável à dos canais iônicos vistos no Cap. 3-14. Devemos lem-
brar que os canais dependentes de voltagem e de ligante são compostos, respectivamente, por 4 e
5 proteínas transmembrana em lugar das seis que existem nas conexões. Estes canais, como os
canais iônicos, não são estruturas estáticas, já que têm a capacidade de se abrir e se fechar. Comu-
mente, estão abertos , e se fecham quando aumenta a con~l!.tragão_Q_e C-ª2+ no citosol. A Fig. 6.12
mostra que o fechamento obedece a uma mudança de inclinação das conexinas.
As conexinas contêm quatro domínios transmembrana, e suas extremidades amina e carboxila
estão voltadas para o citosol. O domínio contíguo à extremidade carboxila tem uma função im-
portante porque sua fosforilação modifica a posição da conexina e leva ao fechamento da cone-
xão.
Visto que em uma junção comunicante o fechamento de uma conexão ocorre independente-
mente da outra, o fechamento do canal pode ser conseqüência do fechamento de somente uma das
conexões.
O fechamento das junções comunicantes adquire grande importância nas mortes celulares, não
somente nas programadas, mas também nas acidentais (Cap. 22-4). Assim, nas células moribun-
das ocorre um aumento na concentração de Ca2+ citosólico que provoca o fechamento das cone-
xões para que não passem às células vizinhas elementos que possam lhes causar danos.
Através das junções comunicantes circulam: 1) nutrientes; 2) dejetos metabólicos; 3) substân-
cias que atuam como sinais, como, por exemplo, os morfogênios durante a diferenciação celular
(Cap. 21 -1 2) ou as moléculas que sincronizam o movimento dos cílios nos epitélios (Cap. 5-12);
4) potenciais elétricos de ação, como os que são transmitidos pelos discos intercalares do músculo
cardíaco para sincronizar as contrações de suas células (Cap. 5-34) ou entre as células musculares
li sas de alguns órgãos tubulares (intestino e epidídimo) a fim de sincronizar suas contrações peris-
tálticas.

AS CONEXÕES ENTRE AS CÉLULAS VEGETAIS


6- 15. Os plasmodesmas são pontes de comunicação entre células vegetais
Uma característica da maioria das células vegetais é a presença de pontes entre seus citoplas-
mas, o que as torna contínuas. Estas pontes - denominadas plasmodesmas - atravessam a pa-
rede celular pecto~sica descrita no Cap. 3-30 (Fig. 1.6).
A presença dos plasmodesmas permite a livre circulação de líquidos e solutos, tão importantes
para manter ~icidade da célula vegetal. É possível que deixem passar também algumas macro-
moléculas. Como vemos , as paredes pectocelulósicas não constituem septos intercelulares com-
A JUNÇÃO DAS CÉLULAS ENTRE SI E COM A MA TRIZ EXTRA CELULAR • 105

pletos, de modo que as células compõem um vasto sincício sustentado pelo esqueleto formado
por suas próprias paredes.
O desenvolvimento dos plasmodesmas está relacionado com a formação da placa celular (Caps.
3-30 e 18-21 ), que é atravessada por componentes do retículo endoplasmático, e que, por fim, são
responsáveis pela formação e localização dos plasmodesmas (Cap. 7-44).
Foi sugerido que os plasmodesmas desempenham uma função na diferenciação celular. As-
sim, nas células vegetais que se alongam, o número de plasmodesmas se reduz ao longo de seus
eixos maiores e aumenta nos septos transversais.

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r
.-

.s
1-

t-
O sistema de
endomembranas
Digestão e secreção 7

7-1. Os componentes do sistema de endomembranas se


comunicam através de vesículas
No Cap. 4-1 descrevemos os compartimentos nós quais se divide a célula, e, dentre estes, cita-
mos que o sistema de endomembranas é um dos mais volumosos. Ele se distribui por todo o cito-
1
plasma e ê comp.osto_PQr vários coml:)artimentos - cistemas, sacos, túbulos - que se comuni-
am entre si (Fig. 7.1). Em alguns lugares, a c~unicação é direta e em outros é mediada por
yeskulas transportadoras. Estas se origi~IB d~ um ~omRartiment~s.e_tr.ansfe.r.e_m par~utro
em_yirtude de processos que-envol-vem-a perda @-0.ganho-de-membr.anas.
\
~ As vesículas transportadoras funcionam da seguinte maneira (Fig. 7.2): 1) brotam da membra-
na de um compartimento, chamado doador; 2) viajam pelo citosol em busca .de outro comparti-
mento chamado receptor, com cuja membrana se fundem. Em conseqüência, uma parte da mem-
brana e uma parte do conteúdo do compartimento doador se transferem, respectivamente, para a
Fig. 7.1 Organelas que compõem
membrana e para o interior do compartimento receptor. .
o sistema de endomembranas.
A Fig. 7 .1 permite ver que o compartimento doador recupera a ~mbrana perdida graças a Também sã@ ilustradas as
Yesículas recicladoras. diferentes vesículas
transportadoras (setas cheias) e
7-2. O sistema de endomembranas é composto por recicladoras (setas pontilhadas)
que o integram.
várias organelas
O sistema de endomembranas é composto pelas seguintes organelas (Fig. 7 .1):
1) o retículo endoplasmático, que compreende dois setores, denominados liso
~ rugoso (devemos acrescentar, alérri disso, o envoltório ·n uclear (ou carioteca),
que será analisado no Cap. 12-2); 2) o complexo de Golgi; 3) os endossomos;
e 4) os lisossomos.
As membranas destas organelas e as das vesículas transportadoras são cons- l
tituídas por uma dupla camada lipídica similar à da membrana plasmática. Como
é óbvio, uma das faces desta membrána se relaciona com o citosol e a outra com(
a cavidade das organelas. Denominam-se, respectivamente,face citosólicd e face \
luminal. _)
lAs membranas têm glicolipídios e glicoproteínas intrínsecas e periféricas que 1
Retículo
representam mais de 80% de seu peso (Fig. 3.14). Os carboidratos se orientam ~ endoplasmático
empre para a cavidade das organelas. . ~
O tamanho do sistema de endomembranas variá nos diferentes tipos de célu-
las. É muito pequeno nos oócitos (ovócitos) , nas células pouco diferenciadas e
nas que produzem proteínas para o citosol exclusivamente, como os reticulóci-
tos.
108 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANA S

Fig. 7.2 Esquemas seqüenciais


que ilustram a formação de uma
vesícula na membrana de um
compartimento doador e a fusão
da membrana vesicular com a
membrana do compartimento
receptor.

Compartimento Formação de Fusão de Comparti mento


doador uma vesícula membranas receptor
transportadora (ver Fig. 3.13 )

RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO
7-3. Generalidades
O retículo endoplasmático (RE) foi descoberto quando se introduziu a microscopia eletrôni-
ca no estudo das células. As primeiras eletromicrografias mostraram um componente reticular que
não chegava à membrana plasmática - daí os termos "retículo" e "endoplasmático" - até que se
conheceu sua verdadeira forma tridimensional. Finalmente, com o uso da radioautografia e de
técnicas de análise citoquímica quase tod~s· os seus componentes foram identificados.
O RE se distribui por todo o citoplasma, do núcleo até a membrana plasmática. É composto
por uma rede tridimensional de túbulos e sacos achatados totalmente interconectados (Fig. 7 .3).
Apesar de sua extensão e de sua intrincada morfologia, constitui uma organela indivisível, já que
possui uma membrana contínua e uma só cavidade. O citoesqueleto se encarrega de manter seus
componentes em posições mais ou menos fixas dentro do citoplasma (Cap. 5-9).
Esta organela se divide em dois setores, que se diferenciam pela ausência ou presença dos ri-
bossomas sobre seu lado citosólico. Denominam-se, respectivamente, retículo endoplasmático
liso (REL) e retículo endoplasmático rugoso CRER) (Figs . 1.7, 1.10, 7.3 , 7.4 e 7.6). Entre eles
há um setor de transição , em parte liso e em parte rugoso.

7-4. O REL não contém ribossomas


Como acabamos de assinalar, o REL não tem ribossomas . Pode compreender uma rede de
túbulos interligados, cujo volume e distribuição espacial diferem nos diversos tipos de células.
Essa diversidade depende de suas variadas funções. Por exemplo, a célula muscular estriada con-
tém um REL absolutamente singular - o retículo sarcoplasmático - adaptado para desencade-
ar a contratilidade do citoesqueleto (Seção 7-26).

Fig. 7.3 Esq uema tridimensional


que mostra os setores liso (REL)
e rugoso (RER) do retículo
endoplasmático.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 109

7-5. O RER está associado a ribossomas


~ O RER é muito desenvolvido nas células que realizam síntese protéica ativa. Em sua compo-
sição predominam os sacos achatados , que quando são abundantes encontram-se separados por
1_um espaço citosólico estreito repleto de ribossomas (Fig. 7.4).
Estes ribossomas estão aderidos à face citosólica da membrana do RE (Fig. 7.6). Em geral,
~c.o.mplexos_chamado_s_polisso1)1__as~_olirribos110.!!1a~ ue consistem em grupos de
~rrn:t_s enlaçados por uma m?lécula de ~ (Figs. 7.3 e 16.7) (Cap. 16-11 ). A afinidaJi.e
do E,_ER_ pelo s. ribo_sso~as deve-se à existênci~d_e r~e tQreS\ espec!f!cos _9ll~l1a::.membrnn a (Se-
ção 7-12), que não são encontrados no REL. '

COMPLEXO DE GOLGI
7-6. Generalidades
Em 1898, utilizando um método de coloração com prata, Camilo Golgi descobriu uma estrutu-
ra reticular nas células nervosas que, posteriormente, levou seu nome. Meio século depois , com o
advento da microscopia eletrônica, do fraciônamento celular e das técnicas de análise citoquími-
ca, puderam ser reveladas sua estrutura e sua composição molecular.
t m uma célula idealizada, o complexo de Golgi posiciona-se entre o RE e a membrana plas-
mática, com os endossomos e os lisossomos situados entre esta e o complexo (Fig. 1.7).JEstas
relações espaciais são o reflexo de outras de natureza funcional, já que, po{ meio de vesículas trans-
portadoras, as moléculas provenientes do RE alcançam ó complexo de Golgi, percorrem-no, des-
prendem-se dele e chegam à membrana plasmática ou aos endossomo.s (Fig. 7 .1). Estes flu xos
. 1
~compreendem tanto moléculas da membrana como moléculas lumin,ais. Assim, de acordo com a
via seguida, são transferido~ fragmentos demerribrana do ~para a membrana plasmática ou para
a membrana dos endQs~o s, enquanto as moléculas provenientes da cavidade do retíeulo sã9
lançadas no meio extracelular - a este evento denomina-se secreção - ou penetram na cavidade
dos~do-Ssomos. · .
Como veremos, em ambos os casos, o cotnplexo de Golgi desempenha um papel fundamental,
visto que as moléculas que o percorrem sofrem modificações necessárias para suas atividades l
'/
biológicas. Por outro lado, algumas moléculas são sintetizadas diretamente no complexo de Gol-J
gi, sem a intervenção do retículo endoplasmático.

7-7. O complexo de Golgi mostra uma poli merização que se


corresponde com seu funcionamento
[ o complexo de Golgi é composto por.uma ou várias unidades funcionais chamadas dictiosso-
a
mofil (do grego, dfktyon, rede, e sôma, corpo). Na célula ;;;etora polarizada, organela tem um

Fig. 7.4 Eletromicrografia do


retículo endoplasmático rugoso.
Observam-se os ribossomas
unidos à membrana da organela
(um deles aparece marcado com
uma seta) 208.000X. (Cortesia
de G. E. Palade.) No detalhe são
distinguidas as subunidades
menor (Me) e maior (Ma) do
ribossoma. 410.000X. (Cortesia
de N. T. Florendo.)
110 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

Fig. 7 .5 Representação Vesículas destinadas à


tridimensional do complexo de
Golgi.
e
membrana plasmática ou aos
endossemos e
/o ,,J _.--- -- -Rede trans
~--Cisterna trans
Ef_,.t---.L.J...._-~_.__-z
...-.~----------------::>-----Cisterna
e média

é~~;:=============::;? ~-8
---Cisterna eis
~----Rede eis

/ Ves ícu las /'


g provenientes do
RE g
granc:l~dic_ti.osso1119 J!mco que ocupa a posição intermediária entre o núcleo e a superfície celular
onde a secreção é liberada (Fig. 1.7). Complexos de Golgi com estas características são observa-
dos, por exemplo, em células da mucosa intestinal, da tireóide e do pâncreas exócrino. Ao contrá-
rio, outras células, como os plasmócitqs, os J_ie atócitos e os neur~s , possuem vários dict!_osso-
mos peq_uenos distribuídos por todo o citoplasma (Fig. 1.10). N9 hepatócito existem cerca de 50
dictiossomos que representam 2 % do volume citoplasmático.
@ mbora sua localização e seu número variem nos diferentes tipos de células, os dictiossomos
apresentam características morfológicas constantes. Podem adotar uma f<2!}11a cu1va, cQmJ!face
con vexa voltada 12ara o núcleo e a ace côncava orientada para a membrana plasmática. A primei-
ra é denominada acede entrada ou eis , e a segunda, face de saída ou trans (Figs. 7 .5, 7 .6 e 7.7).
Cada dictiossomo é composto por:
1) Uma rede eis, formada por numerosos ~ e túbulos interconectados.
2) Uma cisterna eis ligada à rede eis.
3) Uma ou mais cisternas médias independentes, o que significa que não estão ligadas entre si
nem com os demais componentes do dictiossomo.
4) Uma cisterna trans ligada à rede trans.
5) Uma rede trans similar à rede eis.
A face de entrada do dictiossomo - representada pela rede eis e a cisterna eis - somente re-
cebe vesículas transportadoras provenientes dod (Fig. 7.1).

Fig. 7.6 Eletromicrografia da


célula hepática de um animal
exposto a uma dieta rica em
gorduras. Observam-se vesículas
que transportam lipoproteínas, o
retículo endoplasmático rugoso
(RER), o retículo endoplasmático
liso (REL), o complexo de Golgi
(G), uma mitocôndria (M) e um
peroxissoma (P). 56.000X.
(Cortesia de A. Claude.)
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 111

ffendo em vista que a rede eis e a cisterna eis formam um único compartimento, as
mÕléculas incorporadas à membrana e à cavidade da organela circulam da rede ara a
cisterna por sim les continuidade. Ao cont!árió, para passar da cisterna eis para as cis-
ternas médias e destas para a cisterna trans, as m.oléculas se valem de vesículas trans-
p~rai}Como podemos ver nas Figs. 7.1 e 7.5, ~s vesículas nascem na borda da
cisterna eis e, após um curto trânsito pelo citosol, se incorporam na borda da cisterna
média contígua. O mesmo ocorre entre as sucessivas cisternas médias e entre a última
delas e a cisterna trans. O percurso se completa quando as moléculas chegadas à cister-
na trans passam à rede trans por simples continuidade. •
Em seguida, as moléculas que chegam à rede trans são transferidas - também por
meio de vesículas transportadoras -para a memfaana pl'asmáticalou para os endossomq~(Eig._ 7 .1 ). Fig. 7/7 Eletromicrografia do
No primeiro caso, as moléculas contidas no interior da vesícula são levadas para fora da célula complexo de Golgi que permite
observar as cisternas eis, média e
- ou seja, são segregadas - e as da membrana se integram à membrana plasmática. O processo de
trans empilhadas. 35 .000 X.
secreção leva o .nome de exocitose'e será analisadD na Secão 7-22.
(Cortesia de D. J. Morré.)
No segundo caso, a vesícula le~a seu conteúdo - que, consiste de(enzimªs hidrolíticàil - na
luz de um endossomo. Na Seção 7-30 veremos que isso transforma o endossomo em um lisossomo.
Nas seções seguintes, descreveremos as funções do RE e do complexo de Golgi (algumas ocor-
rem pela ação complementar das duas organelas).

FUNÇÕES DO RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO E DO COMPLEXO DE GOLGI

7- 8. No RE ocorrem as reações centrais da síntese dos triglicerídios


Os t~iglicerídios (triacilgliceróis)* são compostos por três ácidos graxos unidos a uma mólé-
cula de glicerol (Cap. 2-7).
Sua síntese ocorre no citosol, onde os ácidos graxos se unem à coenzima A (CoA) - mediante
uma tiocinase - e são formadas moléculas de aeil CoA (Fig. 7.8).
~-
Ácido graxo + CóÂ + A TP Tiocinase Acil CoA + ADP + P
Por sua vez, o glicerol se fosforila em seu C3' através de uma glicerol cinase, o que produz
glicerol 3-fosfato.

Glicerol + ATP Glicerol cinasé ) GÚcerol 3-fosfato + ADP


Algumas células não contam com a enzima glicerol cinase, de modo que nelas, o glicerol 3-
fosfato forma-se pela redução da diidroxiacetona fosfato - um produto intermediário da glicóli-
se - mediante o glicerol fosfato desidrogenase.

Diidroxiacetona fosfato Glicerol fosfato desidrogenase ) Glicerol 3-fosfato

Em seguida, outras acil CoA transferem seus ácidos graxos ao Cl' e ao C2' do glicerol 3-fos-
fato, o qual produz ácidó fosfatídico (Cap. 2-7) (Fig. 2.13) . A reação é catalisada por uma acil-
transferase.

Glicerol 3-fosfato +2 Acil CoA __ tr_an_sfi_er_as_e---7 Áciâo fosfatídico


Ac_il_ +2 CoA

O ácido fosfatídico se insere na monocamada citosólica da membrana do RE, onde se comple-


ta a síntese do triacilglicerol (Fig. 7 .8). No primeiro termo, o ácido fosfatídico perde o fosfato por
aÇão de uma fosfatase e se converte em 1,2-diacilglicerol (Fig . 2.13) (como veremos na próxima
seção, esta molécula também é necessária para a síntese dos licerofosfoli ídios).

Fosfatase
Ácido fosfatídico 1, 2- diacilglicerol +P

*N.RT.: Atualmente, é a denominação mais aconselhável.


112 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

rr
Fig. 7.8 Etapas metabólicas
necessárias à síntese dos
triacilgliceróis (1, 2, 3 e 4A ) e da
fosfatidilcolina (1 , 2, 3 e 4B). As
reações 1 e 2 ocorrem no citosol.
Já, as reações 3, 4A e 4B
CoA
CoA
+
ll
Ácidos graxos Acil CoA
ocorrem na monocamada
citosólica da membrana do RER.

rr
p
1

r~iCH- CH, + CoA


p

CH,-CH-CH
1
1

OH OH
\ CoA

2 Glicerol 3-fosfato Ácido fosfatídico (AF)

AF Oiacilglice rol (DAG) + p

ITff~ITIT
1 Citosol I
1

1 Membrana do RE 1 ITITnIT IT
UUMUM gguuM
3

! fTT
DAG + CoA + CoA

~-- ITIT~ITIT
UUUMM Triacilglicerol (TGL)
(traslad a-se para o citosol)
4A

DAG + COP-colina - Fosfatidilcolina + CMP

IT ITnITIT IT IT ~IT IT
guuMM MUUM
M
48

Finalmente, por intermédio da diacilglicerol aciltransferase, uma nova acil CoA transfere seu
ácido graxo ao C3' do 1,2-diacilglicerol. Isso completa a síntese do triacilglicerol que passa ao
citosol (Cap. 4-3).

1, 2- diacilglicerol + Acil CoA Diacilglicerol aciltransferase ) Triacilglicerol + CoA


É necessário advertir que nas células da mucosa intestinal, a maioria dos triacilgliceróis é sin-
tetizada abolindo-se as etapas iniciais, já que o fazem a partir dos monoacilgliceróis e diacilglice-
róis , que são as formas como as gorduras são absorvidas depois de sua digestão.

7-9. O RE é responsável pela biogênese das membranas celulares


A célula produz membranas novas de modo permanente. Ela o faz com a finalidade de aten-
der demandas de natureza funcional , substituir as membranas desapareCidas por envelhecimento
ou para duplicá-las antes da mitose. Ocasionalmente, as membranas novas são produzidas para
possibilitar o desenvolvimento de partes do corpo celular (por exemplo, o axônio nos neurônios).
A_biQgênese-das membranas celular~_compr_eende_a síntese de seus li ídios, suas proteínas e
s~l!S carboidratos. Estes três tipos de moléculas não são ·sintetizados separadamente e em seguida
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 113

se integram para formar uma membrana nova, e sim que são incorporados a uma membrana pre-
existente, a membrana do RE. Depois, à medida que esta cresce, algumas de suas partes se des-
prendem como vesículas e se transferem às demais organelas do sistema de endomembranas ou à
membrana plasmática. Nos Caps. 8-24 e 10-5 veremos que o RE também fornece os fosfoli ídios
daun.emhi:.a~!_ocô~~oxiss0mas .
Nas próximas seções estudaremos os mecanismos de incorporação dos lipídios e das proteínas
à membrana do RE, e os processos de glicosilação de ambas as moléculas.

7- 1O. Os lipídios das membranas celulares são sintetizados


na membrana do RE
Fosfatidilcolina. Devemos lembrar que os glicerofosfolipídios são compostos por uma molé-
cula de glicerol, dois ácidos graxos , um fosfato e um segundo álcool (Caps. 2-7 e 3-3) (Figs. 2.14
e 2.20).
A fosfatidilcolina é formada na monoca ada citosólica do RE pela ligação do 1,2-diacilglice-
rol (Seção 7-8) com a citidina difosfato-colina. A reação é catalisada por uma fosfotransferase
específica (Fig. 7.8).

Fosfotransferase
1, 2- diacilglicerol + CDP - colina - - - - ------ Fosfatidilcolina + CMP
Previamente, a CDP-colina é sintetizada em duas etapas. Na primeira, mediante UJ11a cinase, a
colina é fosforilada com um fosfato adquirido da adenosina trifosfato.

Cinase
Colina+ ATP Fosforilcblina + ADP

Na segunda, a fosforilcolina combina-se com a citidina trifosrato mediante uma transferase.


~
Transferase
Fosforilcolina + CTP CDP - colina +PP

Fosfatidiletanolamina. As reações que levam à formação da fosfatidiletanolamina são simi-


lares às da fosfatidilcolina , exceto pelo fato de que se agrega CDP-etanolamina no lugar da CDP-
colina.
Fosfatidilserina. Na formação da fosfatidilserina, o ácido fosfátídico (Seção 7-8) não perde
seu fosfato e se combina - mediante uma transferase específica - com a CTP, o que gera CDP-
1,2-diacilglicerol.

,. Transferase
Acido fosfatídico + CTP - - - ---> CDP-1,2-diacilglicerol +PP
O fosfolipídio é formado após a combinação de CDP-1,2-diacilglicerol com o aminoácido se-
rina por meio de outra transferase.

Transferase
Serina + CDP-1,2 - diacilglicerol Fosfatidilserina + CMP
Fosfatidilinositol. As reações responsáveis pela síntese do fosfatidilinositol (PI) são similares
às da fosfatidilserina, exceto porque se acrescenta o poliálcool cíclico inositol em lugar da serina.
Este.fosfolipídio converte-se emfosfatidilinositolfosfato (PIP) , emfosfatidilinositol difosfa-
to (PIP2) e emfosfatidilinositol trifosfato (PIP 3) pela agregação sucessiva de fosfatos (Fig. 2.16).
Estas fosforilações são catalisadas por cinases com fosfatos tomados de moléculas de ATP.

Cinase
PI+ ATP PIP + ADP
Cinase
PI+ ATP PIP2 + ADP
Cinase
PIP2 + ATP PIP3 + ADP

Uma vez formadas, a maioria das fosfatidilcolinas passa, por meio do mecanismo de ~'fji,p~f/.op"
(Cap. 3-3),_dª monocamada citosólica para a monocamada luminal da membrana do R'.E. A trans-
114 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

locação é impulsionada por uma enzima denominada flip_ase, que toma possível a passagem da
cabeça polar do fosfolipídio pela região hidrófoba da dupla camada.
Por atuar menos eficientemente sobre a fosfatidiletanolamina, a fosfatidilserina e o fosfatidili-
nositol, em sua maioria esses fosfolipídios ficam retidos na monocamada citosólica (Cap. 3-3).
Assim, o processo de translocação tem dupla conseqüência: faz com que seja emparelhada a
quantidade de fosfolipídios em ambas as monocamadas e que seja distribuída assimetricamente.
Esfingomielina. A esfingomielina é um esfingofosfolipídio composto por ceramida unida à
fosforilcolina (Fig. 2.18) . No Cap. 2-7, vimos que a ceramida é formada pela agregação de um
ácido graxo com a esfing_9sina, que é um aminoálcool dõtãdo de uma cadeia hidrocarbonada lon-
ga (Fig. 2.19).
A ceramida é formada na monocamada citosólica da membrana do RE por meio de uma transferase.

Transferase
Esfingosina + Acil CoA Ceramida + CoA
A s ínt~se da esfingomielina se completa no ladoJJJJn!~l do complexo de Golgi, de modo que a
q~rqmida_deve se translocar - g!:_aças à flipase - abandonar a membrana do RE e se transferir para
a membrana do complexo. Como sabemos, esta transferência é realizada mediante vesículas trans-
portadoras.
Em sua nova localização , a ceramida se combina com a fosforilcolina graças a outra transfera-
se, que a converte em esfingomielina.

Transferase
Ceramida + Fosforilcolina Esfingomielina
Colesterol. A membrana do RE incorpora moléculas de colesterol ingressadas na célula por
endocitose (Seção 7-42) e também as sintetiza. Como na transferência de fosfolipídíos, o coleste-
rol se transfere para as membranas restantes da célula - especialmente a membrana plasmática
- por meio de vesículas transportadoras.

7-11. Os lipídios das membranas celulares se glicosidam


no complexo de Golgi
A~gliçolipídios o~ no complexo de Golgi. Na formação dos galactocerebrosídios
(Fig. 2.21) intervém uma transferase, que transfere a galactose da uridina difosfato-galactose para
a primeira hidroxila da ceramida.

Transferase
Ceramida + UDP - galactose Galactocerebrosídio + UDP
A síntese dos glicocerebrosídios (Fig. 2.21) é similar, salvo pelo fato de que a glicose é trans-
ferida da UDP-glicose mediante outra transferase.

Transferase
Ceramida + UDP- glicose Glicocerebrosídio + UDP
Os gangliosídios (Fig. 2.22) §_ão formados q_uando os monômeros das cadeias oligossacarídi-
çªs _se unem - um de cada vez - i!_~jda . O primeiro monômero que se agrega é a glicose;
depois o fazem-::- em diferentes quantidades e ordenamentos, segundo o tipo de gangliosídio -
a galactose, a N-acetilglicosamina, a N-acetilgalactosamina, o ácido siálico ou N-acetillleuramínico
e a fucose (Cap. 2-7).
Igualmente à galactose e à glicose dos cerebrosídios, os monossacarídeos que participam da sín-
tese dos gangliosídios apresentam-se unidos a nucleotídeos (por exemplo, UDP-glicose, UDP-ga-
lactose, UD P-N-acetilglicosamina, UDP-N-acetilgalactosamina, CMP-ácido siálico e G DP-glicose).

7-12. As proteínas destinadas ao RE se inserem na membrana ou são


liberadas na cavidade da organela
8-~ P_!~eínas, exceto algumas poucas pertencentes às mitocôndrias, são sintetizadas nqui-
bos~mas do citosol (Cap. 16~9). Apesar de todos os ribossomas citosólicos serem iguais, alguns
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 115

Fig. 7.9 União do ribossoma com a membrana do RER. Observar o receptor da PRS , o receptor do
ribossoma e a passagem da proteína através do translócon.

estão dispersos no citosol e outros se acham aderidos à membrana do RER (Fig. 16.8). Em segui-
da, veremos porquê e corria.
Os primeiros passos da síntese de uma proteína destinada ao RE ocorrem no ribossoma quando r
este ainda se encontra livre no citosol. A união do ribossoma com a membrana do RE ocorre se a /
proteína que surge do ribossoma possuir um segmento peptídico com a informação apropriada, ou b
seja, um peptídeo sinalizador (peptídeo-sinal) específico para essa membrana (Cap. 4-4). Nas
proteínas destinadas ao RER, o peptídeo sinalizador pode consistir de uma seqüência de cerca de
30 aminQácidos - 5 a 10 altamente hidrófobos - situada na extremidade amina oú próxima dela
(Quadro 4.1).
As proteínas que são liberadas na cavÍdade do RER possuem este sinal localizado somente no
extremo Jmina da molécula. Ao contrário, as que se inserem na membrana da organela contêm,
salvo rafas exceções, um peptídeo sinalizador próximo à extremidade amina e outros sinais, cujo
número depende da quantidade de vezes que a proteína cruza a dupla camada lipídica (Fig. 3.10).
Por exemplo, se a proteína transmembrana atravessar a dupla camada uma única vez (passagem
única), necessita apenas de um sinal ~dicional,' chamado sínal de arrcora em por motivos que'
veremos adiante. Quando se trata de uma proteína de passag~m ~últipla, esta contém tantos si-
nais quantas vezes ela cruze a dupla camada, consistentes no ~ e2tídeos _sinalizq_dores que se al-
tem m com sinais de ancoragem. Os sinais de ancoragem contêm seqüências de aminoácidos muito
semelhantes às dos peptídeos sinalizadores (Quadro 4.1).
Quaisquer que sejam o número e a localização dos sinais, apenas o primeiro peptídeo sinalizador
que sai do ribossoma é reconhecido pela p ª-r~reconhecimento do sinal (ou PRS) (Fig. 7 .9),
que é um complexo ribonucléico composto por seis proteínas diferentes e uma molécula de RNA
denominada RNAcp (citosólico pequeno; ou scRNA , do inglês, small cytosolic) (Fig. 7 .1 O). As ca-
racterísticas e o processamento deste RNA serão analisados nos Caps. 13-2, 14-18 e 15-12.
Na Fig. 7.9 podemos observar como a: PRS ligada ao peptídeo sinalizador se dirige p<:µ"a o RER
e se une à sua membrana mediante receptor específico. Esta ligação consome energia, que é cedi-
da por um O.TI hidrolisado por uma GTPase presente no receptor.
A mesma figura permite ver como a PRS arràsta o ribossoma para o RER (na Seção 7-5 disse::-
mos que a membrana desta organela possui receptores para os ribossomas) e cumpre outra impor-
tante função: detém a síntese da proteína para que esta não saia do ribossoma, já que fora dele se
dobraria e não poderia ingressar no RER. .
Ainda naquela figura vê-se que quando o ribossoma se une ao seu receptor, a PRS se separa do
seu. Tendo em vista que a PRS se separa também do peptídeo sinalizador, é retomada a síntese da
proteína, cujo extremo sai do ribossoma e ingressa em um túnel protéico que cruza a membrana
do RER (Fig. 7.9). No Cap. 3-9 dissemos que os túneis deste tipo - utili z_a~_Qs_pe1ª.s_proteínas
para_atravessar as membranas das organelas - são denominados translócons. O translócon do
Fig. 7.10 Composição da
RER se diferencia dos translócons de outras organelas porque se associa ao receptor do ribosso- partícula de reconhecimento do
ma, com o qual forma um complexo unificado (Fig. 7.9). sinal (PRS). Os círculos
Voltando à PRS, ao se separar de seu receptor (e do peptídeo sinalizador) pode ser usada nova- correspondem às seis proteínas
mente. Algo similar ocorre com o ribossoma no final da síntese da proteína (Fig. 7.9). que acompanham o RNAcp.
116 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

7- 13. As proteínas destinadas ao RE contêm um ou mais sinais


dependendo de que sejam liberadas na cavidade da organela ou
inseridas em sua membrana
Como dissemos na seção anterior, as proteínas destinadas à cavidade do RER têm um único
peptídeo sinalizador localizado na extremidade amina. Portanto, o segmento da molécula que in-
gressa primeiramente no translócon inclui, inevitavelmente, o peptídeo sinalizador, confo1me
mostra a Fig. 7.11.
Como o peptídeo sinalizador permanece no transiócon, quando os segmentos protéicos que o
seguem ingressam na cavidade, dobram-se como uma forquilha. Em seguida, visto que o peptí-
deo sinalizador é cindido por uma protease conhecida como Reptid_aS~l! Ín,!lliza_ctora (peptidase
sinal), o peptídeo se perde e é gerada na proteína uma nova extremidade amlna, @e passa à ca-
'dslade (FÍg. 7~l). Finalmente, esta rec~e os s.egmentos restantes da prote'ma, cuja sínte~on­
tinua no ribossoma pela incessante agregação de aminoácidos em sua extremidade carboxila (Cap.
16-13).
Ao término da síntese, a proteína é liberada na cavidade do RER (Figs. 7 .9 e 7 .11 ). Segundo a
natureza da proteína, esta permanecerá no RE ou se dirigirá, utilizando vesículas transportadoras,
ao complexo de GÓTgi , onde residirá de forma permanente mi se transferirá, também por meio de
vesículas transportadoras, para um endossamo ou para a membrana plasmática, no último caso
·-- para sua secreção.
Na seção anterior, também dissemos que, salvo exceções, as proteínas destinadas à membra-
na do RER possuem um peptídeo sinalizador na extremidade amina e um ou mais sinais adicio-
nais. Tais proteínas se inserem na membrana do RER por algum dos seguintes mecanismos (Figs.
7.12, 7.13 e 7.14).

) Se a proteína possuir somente um sinal adicional , esta se ancora na dupla camada lipídica -
daí o nome de sinal de ancoragem - e o_peptídeo sinalizador é cindido pela peptida_'.'e sinalizadora
(peptidase sinal). Como conseqüência, forma-se umá proteína transmembrana de passagem úni-
ca (cruza a dupla camada somente uma vez), ,com a extremidade amina dirigida para a êaVidade
d~ ~ extremidac:Le carboxila no lado citosólico (Fig. 7.12A).
Algumas proteínas transmembrana de passagem única estão orientadas ao contrário, ou seja,
com a extremidade amina para o lado citosólico. Este tipo de proteína conta apenas com o peptí-
deo sinalizadot, e não na extremidade amina, porém próximo a ela. A Fig. 7 .1·2B mostra a conver-
são do peptídeo sinalizador em sinal de ancoragem e os passos que deve seguir para se inserir na
dupla camada lipídica. O peptídeo sinalizador não é cindido pela peptidase sinal devido a sua posição
interna na cadeia protéica.
A formação de uma proteína transmembrana de passagem dupla exige um peptídeo si_!!ajiza-
dor-si.tuado nas-cercanias da_extremidade amina e de um sinal adicional (Fig. 7 .13). Dada a sua
posição interna na cadeia protéica, o peptídeo sinalizador tampóuco é afetado pela peptidase si-
e
nal, motivo pelo qual se comporta como um sinal de ancoragem fica retido na dupla camada
lipídica.
A formação de uma proteína de passagem múltipla necessita, além_dQ..pept:fdeo sinalizàdor, de
u~úmero variado de sinais adicionais, tantas (menos uma) quantas sejam as vezes que a prote-
ína deva atravessar a membrana. Como nas proteínas de passagem múltipla, trata-se de sinais de

CITOSOL

Peptídeo
sinalizador

Fig. 7.11 Esquema que ilustra a


entrada das proteínas na
cavidade do RER. CA VIDADE DO RE

- ------ - --------
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 117

Fig. 7.12 Esquemas que


mostram como as proteínas se
incorporam à membrana do
RER. A extremidade amina da
proteína pode ficar na cavidade
da organela (A) ou no citosol
(B) .

NH 2

mmí!flm mmnnm
mmirnm YmRmm
COOH

ancoragem, a metade dos quais - alternadamente - atua como peptídeos sinalizadores antes de
se ancorar na dupla camada lipídica (Fig. 7.14).
Os sinais adicionais que atuam como peptídeos sinalizadores seriam dirigidos para a membra-
na do RER por sucessivas PRS, e todas abordam a membrana pelo mesmo translócon. Para isso,
à medida que os novos sinais ingressam rio translócon, os. sinais precedentes saem lateralmente e
se localizam entre os fosfolipídios da dupla camada lipídica (Fig. 7 .14). A saída lateral dos sinais
é possível porque a parede do translócon é incompleta.
No c ; p. 3-4, mencionamos que os segmentos das proteínas que atravessam a dupla camada
lipídica poss uem geralmente uma estrutura em hélice ex. Agora podemos acrescentar que no mo-
mento adequad~ atuarão como peptídeos sinalizadores ou como sinais de ancoragem.
De acordo c0m a natureza da proteína, esta permanecerá na membrana do RE ou passará para
a membrana de outra organela do sistema de endomembranas ou para a membrana plasmática.
Segundo a Fig. 7.2, qualquer que seja seu ?estino, a proteína terá a mesma orientação de quando
se encontrava na membrana do RE.
Algumas proteínas podem ficar retidas na membrana plasmática ou ser segregadas. Por exem-
plo, a imunoglobulina produzida pelo linfócito B primeiramente atua como um receptor de mem-
brana e, em seguida, é segregada (ou seja, converte-se em um anticorpo). Em ambas as etapas, a
molécula é praticamente idêntica, salvo pelo fato de que na primeira, há um segmento adicional
que a mantém ancorada na membrana. Este segmento corresponde a um sinal de ancoragem pró-
ximo à extremidade carboxila da proteína, inexistente na imunoglobulina que é segregada (Cap.
15-7).

Fig. 7.13 Mecani smo de inserção


das proteínas de passagem dupla
na membrana do RER.

NH 2 COOH

Fig. 7.14 Mecanismo de inserção


das proteínas de passagem
múltipla na membrana do RER.
118 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

7-14. Polipeptídeos fabricados por ribossomas livres no citosol se


incorporam ao RE
Como exceção à regra, há polipeptídeos - geralmente de tamanho muito p·equeno - que in-
gressam no RE apesar de fabricados por ribossomas livres no citosol. Incorporam-se ao RE por
túneis constituídos por proteínas transportadoras da família ABC (Cap. 3-26), presentes normal-
mente na membrana desta organela.

7-15. As chaperonas hsp70 asseguram a dobradura normal das


proteínas na cavidade do RE
No Cap. 4-5 analisamos as funções das chaperonas hsp70 citosólicas. A cavidade do RER con-
ta com ch~erQ1:1:ª~-~p70 similares.,_pois evitam o pregueamento prematuro ou incorreto das pro-
teínas ingressadas nas organelas. Ademais, reconhecem nelas segmentos incorretamente dobra-
dos e as ajudam para que o façam corretamente.
Se as chaperonas não obtiverem êxito, as proteínas mal dobradas passam do RER para o cito-
sol depois de atravessar o translócon que usaram para ingressar na organela. Este fenômeno rece-
be o nome de retrotranslocação. No citosol, as proteínas se conjugam com ubiquitinas e são
degradadas por proteassomas (Cap. 4-6).

7-16. A sín~ o processamento dos oligossacarídeos ligados a


proteínas mediante ligações N começam no RER e terminam no
complexo de Golgi
A maioria das proteínas que ingressam no sistema de endomembranas incorpora oligossacarí-
deos a suas moléculas, de modo que se convertem em glicoproteínas.
Como vimos no Cap. 2-6 os oligossacarídeos se unem às proteínas mediante ligações N-glico-
sídicas e 0-glicosídicas (Figs. 2.7 e 2.8).
A ~íntese do~QligQssacarídeos que se unem por ligações N-glicosídicas_começa.nu_RER_e ter-
.!!1.i!i~ .!!º complexo de Golgi. Dela participam enzimas chamadas glicosiltransferases, que tomam
monossacarídeos de moléculas doadoras e os transferem à cadeia oligossacarídica em crescimen-
to. Como nos glicolipídios, a moléculas doadoras são nucleosídeos: UDP (par~ a glicose, a ga-
lactose, a N-acetilglicosamina e a N-acetilgalactosamina), GDP (para a manose e a fucose) e CMP
(para o ácido siálico) (Seção 7-10).
Além disso, intervém o dolicol fosfato (Cap. 2-7), um lipídio especial da membrana do RER
que a atravessa umas t,rês vezes (Figs. 2.2.4 e 7 .15). O p1imeiro monômero do futuro oligossacarídeo
é a N-acetilglicosamina e se liga ao fosfato do dolicol. Em seguida, um de cada vez, são agrega-
dos outros seis monossacarídeos, primeiro uma nova N-acetilglicosamina e, depois, cinco manoses.
Como mostra a Fig. 7 .15, a ligação do dolicol fosfato com a primeira N-acetilglicosamina se rea-
liza por meio de outro fosfato - cedido pela UDP que doa a hexose - e, por isso, se forma uma
ponte pirofosfato.
Enquanto isso, outros dois dolicóis fosfato aceitam, respectivamente, quatro manoses e três
glicoses, que também se incorporam uma de cada vez.
Em seguida, no interior do RER, depois de se desprender de seus respectivos dolicóis, as ca-
deias de quatro manoses e três glicoses - nessa ordem - se somam ao heptassacarídeo do dolicol
difosfato que, portanto, se converte em um oligossacarídeo de 14 unidades, composto por duas N-
acetilglicosaminas, nove manoses e três glicoses (Fig. 7 .15). Este oligossacarídeo se desprende
do dolicol difosfato e, mediante uma oligossacariltransferase, se liga a uma das asparaginas de
uma proteína da membrana do RER (Fig. 7.16).
Por seu turno, os três dolicóis livres podem ser utilizados de volta pelo RER para a síntese de
novos oligossacarídeos.
A cadeia oligossacarídica ligada à proteína se processa, ou seja, sofre uma série de mudanças.
Essas começam com a remoção das três glicoses e de uma a quatro das nove manoses. A glicose
distal é removida pela cx-glicosidase I, as outras duas pela cx-glicosidase II e as manoses pela cx-
manosidase.

- - --
-----
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 119

CITOSOL Fig. 7.15 Começo da síntese dos


HHHF!;íl íl~fiftITITHtt~Hfiu11
1
HHITüRfiffHHHü W íl~HHIT oligossacarídeos que se ligam a
proteínas da membrana do RER
YllHYR~llMY~~~= ij }illlYYRMYgilYH~llllY mediante ligações N -
fosfato CAVI DADE DO RE
glicosídicas. Observar a
participação dos três dolicóis
fosfato .

.....
HHfiH 11 HfiftITUITftüüHIT11 HHHüffITHHHHü~
1HHHIT
MilYYli MilYMYRMMilYYY MllllYllililYllilYll YilliY
p p

} N-acetilglucosaminas (2)

} ""º'" ,,,

cxg } Glicoses (3)

A cadeia remanescente continua se processando no complexo de Golgi, a cuja membrana che-


ga a glicoproteína mediante uma vesícula transportadora. No complexo de Golgi, a cadeia
oligossacarídica experimenta novos agregados e remoções de monossacarídeos, distintos segun-
do o tipo de glicoproteína a se formar. No entanto, em todos os casos a cadeia conserva as duas N-
acetilglicosaminas e as três manoses proximais do oligossacarídeo original, e geralmente agrega
ácidos siálicos nas extremidades da molécula ramificada (Fig. 7.17) (Cap. 2-6) .
No complexo de Golgi, as enzimas responsáveis pelo processamento dos oligossacarídeos tra-
balham seqüencialmente e por isso se acham distribuídas entre a região de· en~rada e a região de
saída da organela seguindo a ordem em que atuam (Fig. 7 .18).

Fig. 7.16 Esquema que ilustra


como o oligossacarídeo
precursor (de quatorze hexoses)
se desprende do dolicol e se liga
a uma proteína da membrana do
RER. Asn, asparagina.
120 • O SISTEMA DE ENDOMEMB RAl AS

- - Asn- -

-~
Fig. 7.17 Uma vez formado , o - - Asn - -
oligossacarídeo precursor (de
quatorze hexases) é processado
seqüencialmente no RER e nos
sucessivos compartimentos do
complexo de Golgi. Esta figura
O
O
O
O
N-acetilglucosamína
Manose
Galactose
Ácido siálico
1
ilustra três exemplos de
oligossacarídeos formados ao
fina l deste processamento. Asn ,
asparagina. Não são conhecidos os mecanismos reguladores que levam as glicoproteínas a sofrer um tipo
de processamento e não outro.

7-17. A síntese dos oligossacarídeos ligados a proteínas por


ligações O ocorre no complexo de Golgi
No Cap. 2-6 vimos que os o1igossacarídeos unidos a proteínas por ligações 0-glicosídicas se
ligam a uma serina ou a uma treonina. Sua síntese ocorre na cavidade do complexo de Golgi pela
agregação - por meio de glicosiltransferases específicas - de sucessivos monossacarídeos. Pri-
meiramente, umà N-acetilgalactosamina se liga ~ma proteína da membrana da organela e, em
seguida - um por vez - são agregados os outros monossacarídeos. Geralmente, a cadeia
oligossacarídica incorpora ácidos siálicos em sua periferia.

7-18. A síntese das glicosaminoglicanas e das proteoglicanas


ocorre no retículo endoplasmático
As proteoglicanas são glicoproteínas formadas pela união de proteínas com glicosaminogli-
canas (GAG). Como já assinalamos no Cap. 2-6 as GAG são polissacarídeos complexos consti-
tuídos por uma sucessão de unidades dissacarídicas (Fig. 2.10). Ligam-se às proteínas por inter-
médio de um tetrassacarídeo composto por uma xilose, duas galactoses e um ácido glicurônico
(Fig. 2.11 ).
A síntese das proteoglicanas ocorre na c_a'lidade do retículo endoplasmático. Ali, mediante uma
ligação 0 -glicosídica, a xilose do tetrassacarídeo se liga a uma serina de uma proteína localizada
na membrana da organela. Em seguida, na extremidade do tetrassacarídeó correspondente ao áci-
do glicurônico se incorporam, através de outras glicosiltransferases específicas, os sucessivos
monossacarídeos que se alternam na GAG, um de cada vez. Aparentemente, os grupos sulfato se
agregam às GAG à medida que estas se alongam.
Podem estar associadas mais de cem GAG a uma única proteína e, ocasionalmente, várias desc
tas proteoglicanas se ligam a uma molécula de ácido hialurônico - que é a GAG de'illaior tama-
nho - o que origina agregados moleculares de enormes proporções (Cap. 6-3) (Fig. 6.1).
As proteoglicanas passam para a membrana plasmática, onde fazem parte do glicocálice (Cap.
3-8) (Fig. 3.14). Daí, muitas são liberadas para o meio extracelular, para o qual suas moléculas
devem ser cindidas , já que se trata de glicoproteínas integrais (Cap. 3-4).
Nos tecidos conjuntivos, as proteoglicanas que são liberadas passam para a matriz extracelular
(Cap. 6-3) , enquanto em alguns epitélios de revestimento fazem parte do muco que protege e lu-

LADOTRANS
_ _F)_: Agregação de ácidos graxos

õ ~'-----Agregação de galactoses

-----=::J
Fig. 7.18 Exemplos de C
agregações e remoções de
moléculas em um ~e Agregação de N-acetilglicosaminas

oligossacarídeo à medida que


passa pelos sucessivos Ü ,._~ C:-:: ~:
_ _ ?_
r-'
--" Ag- r-eg_a_ção e remoção de manoses
compartimentos do complexo de . ._. . L ~) L. ~ Fosforilação de manoses
Golgi. LADO CIS
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 121

brifica sua superfície. Observa-se que, às vezes , retomam às células e são reintegradas no glicocá-
lice, onde ficam aderidas como glicoproteínas periféricas.

7-19. Algumas proteínas são processadas no RE e no complexo de ~olgi


Antes de serem segregadas, algumas proteína~ sofrem uma série de modificações.imprescindí-
veis ao seu funcionamento normal. Por exemplo , nas células 13 das ilhotas_do pân~as é sintetiza-
da a p~lina, que é o pró-hormônio precursor da insulina (Fig. 7 .19). To RE, ao serre-
)() movido de sua extremidade amina, um segmento de 26 aminoácidos - correspondente ao peptí-
deo sinalizador - a pré-pró-insulina se converte em pró-insulina. Esta contém 81 aminoácido.s,
51 dos quais pertencem à insulina ativa e 30 a um peptídeo de conexão chamado peptídeo C. Por
meio de vesículas transportadoras, a_pIÓ.=iDS.!J.lina _Q<!Ssa do RE ao complexo de Golgi, onde uma
enzima hidrolítica específica separa a insulina do peptídeo C. Em seguida, por meio de outras
vesículas transportadoras, amba as moléculas são conduzidas até a membrana plasmática para a
e sua secreção.
!la No Cap. 16-23 descreveremos o processamento pelo qual passa outro py3~hormônio , a pró-
'ri- opiomelanocortina (POMC).
!m
!ia 7-20. No sistema de endomembranas, as proteínas são classificadas
segundo sua natureza química e seu destino
Na Seção 7- 13 , definimos as diferentes vias seguidas pelas proteínas depois de sua incorpora-
ção no RER. Estas molécul as, exceto as que se estabelecem cômo residentes permanentes no RE
ou n; complexo de Golgi , alcançam a extremidade de saída deste último , onde se classificam para
o seu posterior despacho. Segundo sua natureza, terão como des tino incorporar-se a um endossomo
:li-
;ti- ou se dirigir a uma superfície celular (Fig. 7 .1 ).
er- Os itinerários seguidos pelas proteínas dependem de certos sinais em suas moléculas e de re-
ico ceptores específicos nos lugares por onde passam.
O primeiro sinal foi descoberto nas enzimas hidroÍíticas destinadas aos endossomos. Como
ma veremos na Seção 7-30, depois de chegar a um setor específico da região de saída do complexo de
ida Golgi, estas proteínas são transferidas - por meio de vesículas transportadoras - a endossomos
tCl-
carregados com substâncias endocitadas na superfície celu lar.
rns Por que as vesículas que transportam enzimas hidrolíticas destinadas aos endossomos se fun-
1 se
dem com eles e não se dirigem para a membrana plasmática? Considere-se que, em um segundo
caso, poderiam ser segregadas para o meio extracelular e causar graves conseqüências. A resposta
les-
na-

'.ap. o
ü
Pré-pró -insulina
tlas í=
· <(
::;;
(/)

1lar 5a..
oo
lu- z
w
g
:::i
ü
'E;

-
Peptídeo Pró-insulina
a: sinalizador

a
_J
o Fig. 7.19 Formação da insulina
CJ . . . . . . - - - - - - - - - Peptídeo C
w como produto final do
o
oX processamento da pré-pró-
w insulina no RE e no complexo de
_J
a.. Insulina
::;; Golgi das células 13 das ilhotas
o
ü pancreáticas.
122 • O SISTEMA DE ENDOMEMBR ANAS

Fig. 7.20 Traslado das proteínas


provenientes do RE através das
"
MEMBRANA
PLASMÁTICA
ENDOSSOMO

~ocitose
organelas restantes do sistema de
endomembranas, sua
classificação no complexo de
Golgi e seus lugares de destino.
Na proteína (enzimática) @--+ <-----e=>·----
V.R.
~
destinada ao endossamo ilustra-
se também o sinal (é uma DO RE

manose 6-fosfato) que determina --------------------.0--------------------· •


Secreção constitutiva
seu itinerário con-eto. EStão ReceP.tor
incluídos os processos de
endocitose e de exocitose, este
último em suas duas
modalidades, a secreção
----------------
~:~;:: .; ,; ;-------- ·9
0 -- Sinal fC
lnâutor

constitutiva e a secreção
regulada. ~ Enzima hidrolítica MP
I
Manose 6-fosfato • Proteína de exportação

-( Receptor para a MP V.R. Vesícula reciclad ora • Proteína de exportação

envolve vários processos, porém a causa responsável pela condução das enzimas até o lugar ade-
quado é a presença de grupos manose 6-fosfato em suas moléculas.
Estes grupos são os sinais que conduzem as enzimas até a região de saída do complexo de Golgi
e as colocam nos setores reservados para seu envio aos endossamos (Fig. 7.20).
A manose 6-fosfato se forma depois que a enzima hidrolítica - provéniente do RE - chega à
região de entrada do complexo de Golgi (Fig. 7.18). É gerada pela ação de duas enzimas, a N-
acetilglicosamina fosfotransferase e a N-acetilglicosamina glicosidase. A primeira agrega uma N-
acetilglicosamina fosfato ao C6' de uma das manoses dos oligossacarídeos da enzima hidrolítica
(como vemos, esta é uma glicoproteína). A segunda remove a N-acetilglicosamina, porém não o
fosfato, que fica retido no C6' da manose. Convém lembrar que durante o processamento das
enzimas no complexo de Golgi, as manoses fosforiladas nunca são removidas.
Uma vez chegada a enzima hidrolítica ao lugar correto da região de saída do complexo de Golgi,
ela se liga - pela manose 6-fosfato - a um receptor específico presente na membrana da orga-
nela, que corresponde a esse lugar. Depois a enzima é despachada para o endossamo mediante o
mecanismo seletivo que será analisado na Seção 7-40.
A importância da chegada das enzimas hidrolíticas aos lugares corretos do complexo de Golgi é
confirmada pela existência de uma rara doença lisossômica que é produzida pela falha dessa função.
Assim, na doença das células I (de inclusão) (ou enfermidade I), por causa dos transtornos genéti-
cos, os fibroblastos não contam com N-acetilglicosamina fosfotransferases , de modo que não se
formam manoses 6-fosfato nas enzimas hidrolíticas destinadas aos endossamos. Como conseqüên-
cia, as vesículas que transportam essas enzimas se dirigem para a membrana plasmática e são segre-
gadas no meio extracelular. A falta de enzimas nos endossamos impede a digestão das substâncias
endocitadas, que passam ao citosol e podem se acumular como inclusões (Cap. 4-3).
A descoberta da manose 6-fosfato e de seu receptor levou ao achado de outros sinais envolvi-
dos na distribuição e na canalização das proteínas pelo sistema de endomembranas, fatos estes
mencionados no Quadro 7 .1.

7-21. As vesículas transportadoras originárias do complexo de Golgi se


unem aos endossomos
Na seção anterior assinalamos que o lado de saída do complexo de Golgi emite vesículas trans-
portadoras destinadas aos endossamos e à membrana plasmática (Fig. 7.1).
As vesículas que se unem aos endossamos integram, dentro do sistema de endomembranas,
um subsistema importantíssimo para o funcionamento da célula, dedicado à digestão das substân-
cias que ingressam por endocitose, o que será analisado a partir da Seção 7-28.
O SISTEMA DE E DOMEMBRA AS • 123

Quadro 7 .1 Alguns sinais envolvidos no transporte de proteínas pelo


sistema de endomembranas

Sinal Transporte

KDEL D o RE para o complexo de Golgi e retom o ao RE


KKXX
GPI Do complexo de Golgi à membrana plasmática (secreção)
Manose 6-fo sfato Do complexo de Golgi aos endossamos (enzimas hidrolíticas)
Várias L e Y
YQRL Da membrana plasmática aos endossamos (endocitose)
NPXY
~
D , ácido aspártico; E. ácido glutâmico: K. lisina: L. leucina: N. asparagina: P. prolina: Q. glutamina: R. arginina: Y. tirosina: X.
qualquer ami noácido; GP/. glicosilfosfatidilinositol.

7-22. As vesículas transportadoras destinadas à superfície celular


descarregam seu conteúdo fora da célula mediante um processo
chamado exocitose
Uma boa parte das vesículas transportadoras oriundas da face de saída do complexo de Golgi
tem como destino a membrana plasmática.
De acordo com o estudado na Seção 7-1 deduzimqs que as membranas dessas vesículas são
transferidas para a membrana plasmática e que as moléculas solúveis contidas em suas cavidades
à saem para o exterior (são chamadas "moléculas de exportação") .
A vesícula transportadora expulsa seu conteúdo para fora da célula por um processo denomi-
nado exocitose, que se dá com a fusão da membrana da vesícula com a membrana plasmática (Fig.
a 7.2) e a descarga do conteúdo vesicular no meio exterior (Fig. 7.20).
[)
Às vezes, a quantidade de membrana transferida para a membrana plasmática alcança grandes
proporções. Isso é compensado pela formação simultânea de vesículas transportadoras que funci-
onam em sentido contrário, ou seja, que têm origem na membrana plasmática e se transferem para
i. o complexo de Golgi. Estas vesículas de recicla~são geradas por endocitose, um processo do
qual nos ocuparemos na Seção 7-29 e que é o inverso da exocitose. Como veremos , a endocitose
[)
se vale de endossomos, que funcion am como verdadeiras estações de relevo entre a membrana
plasmática e o complexo de Golgi (Figs. 7.1e7.20) .
é Uma reciclagem similar ocorre nas terminações axônicas dos neurônios, onde vesículas gera- \
t. das por endocitose são incorporadas a endOS$Omos com a finalidade de reciclar a membrana cedi- \
da para a membrana pl_asmática da terminação axônica durante a exocitose das vesículas sinápti- '.d(
e cas (Fig. 7.21) . Devemos assinalar que, neste caso, os endossomos não atuam como inte1mediári-
1- os .entre a membrana plasmática e o complexo de Golgi, já que este se acha no corpo do neurônio ,
\
1
1
:- muito distante da terminação axônica. Além de receber as vesículas recicladoras, Oi_ endossomos
das termina ões nervosas geram as vesículas sinápticas g_ue se carregam de neurotransmissores , /
c_~citose com leta o ciclo. - - - - -- ---- --- - --
l-

7-23. A célula produz dois tipos de secreção, uma constitutiva


e outra regulada
O processo que provoca a descarga do conteúdo das vesículas transportadoras no meio extra-
celular é denominado secreção. Esta pode ser constitutiva ou regulada (Fig. 7.20) . .
Na secreção constitutiVa, as moléculas são segregadas de forma automática, conforme o com-
plexo de Golgi emite as vesículas que as transportam.
Ao contrário, na secreção regulada, as moléculas são retidas no citoplasma - dentro de suas Fig. 7.21 Representação
respectivas vesículas transportadoras - até a chegada de uma substância indutora ou outro sjnal esquemática da exocitose e da
ql}e ordene sua liberação. Esta secrtção de moléculas "por encargo" supõe que a célula as des- reciclagem das membranas no
carrega subitamente e no momento em que são demandadas. As vesículas transportadoras que terminal axônico.
124 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

intervêm nas secreções reguladas são denominadas vesículas secretórias ou grânulos de se-
creção .

7-24. Alguns polipeptídeos são segregados por um mecanismo


diferente do anterior
Como exceção à regra, existem polipeptídeos pequenos fabricados em ribossomas livres que
são segregados por um mecanismo indiferente à exocitose. Cruzam a membr.ana plasmática atra-
vés de túneis formados por proteínas transportadoras da família ABC (Cap. 3-26), presentes nor-
malmente nesta membrana. Na Seção 7-14 analisamos uma passagem similar através da membra-
na do RE. ~

7-25. A membrana dos autofagossomos é fornecida pelo REL


Como veremos na Seção 7-35, as organelas envelhecidas são eliminadas da célula através de
certas organelas especiais chamadas autofagossomos, que geram um fenômeno biológico deno-
minado autofagia (Fig. 7.30).
A Fig. 7.30 mostra que durante o seu desenvolvimento, os autofagossomos se envolvem com
uma membrana fornecida pelo REL.

7- 26. O REL é o principal depósito de Ca 2 + da célula


A concentração de Cai+ no citosol é muito inferior à existente na càvidade do retículo endo-
plasmático e no líquido extracelular. As diferenças são devidas à atividade de outras bombas.de
Ca2+ localizadas na membrana do REL e na membrana plasmática (Cap. 3-23). Ambas removem
o Ca2 + do citosol, que passa ao REL ou ao líquido extracelular. O translado do íon no sentido in-
verso é passivo, pois ocorre através de canais iônicos. Nas célul as em geral os canais de Ca2 + se
abrem por meio de um ligante, o IP3 (Cap. 11 -18). Por outro lado, nas células musculares estri a-
das, os canais de Ca 2+ do retículo sarcoplasmático (uma forma especializada de REL) são depen-
dentes de voltagem, já que se abrem quando o potencial de membrana é modificado.
No Cap. 5-33, assinalamos que o aumento do Cai+ no citosol da célula muscular leva à união
do íon com a troponina C, o que desencadeia a contração.

7- 27. Em algumas células o REL cumpre funções especiais


Além das atividades mencionadas até aqui - comuns a todas as células - em alguns tipos
celulares o REL cumpre funções adicionais, como as seguintes:
Síntese de esteróides. Nas células pertencentes às gônadas e às glândulas supra-renais, o REL
contém várias enzimas que intervêm na síntese de esteróides. Este tema é mais detalhado no Cap.
8-22.
Síntese de lipoproteínas. No sangue, os lipídios circulam unidos a proteínas, ou seja, são par-
te de lipoproteínas. Ambas as moléculas se ligam no REL dos hepatócitos, onde se acham as en-
zimas que catalisam essa união.
Desfosforilação da glicose 6-fosfato. A membrana do REL dos hepatócitos possui a enzima
glicose 6-fosfatase, que extrai o fosfato da glicose 6-fosfato e a converte em glicose. Ao contrário
da glicose 6-fosfato, a glicose pode abandonar a célula e passar para a circulação sangüínea para
chegar aos tecidos, onde é utilizada como fonte de energia. Devemos assinalar que a glicose 6-
fosfato é formada a partir da glicose 1-fosfato ou da glicose, e que a primeira surge da degradação
do glicogênio depositado no citosol em forma de inclusões (Caps. 4-3 e 11-15).
Desintoxicação. Nos hepatócitos, o REL contém grupos de enzimas que intervêm na neutrali-
zação de várias substâncias tóxicas para a célula, algumas derivadas de seu metabolismo normal
e outras incorporadas do exterior. Assim, a administração de barbitúricos e de outros tóxicos pro-
duz um aumento das enzimas de uma família de citocromos presentes no REL - os citocromos
P450 - os quais , juntamente com outras enzimas, convertem as substâncias tóxicas em molécu-
las hidrossolúveis que saem da célula com facilidade.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 125

ENDOSSO MOS
-
7-28. O endossamo possui uma bomba de H+ na sua membrana
[Os endossomos (do grego éndon , dentro, e sôma , corpo) são organelas localizadas funcional-
mente entre o complexo de Golgi e a membrana plasmática (Fig. 7. 1). Suas formas e dimensões
ão variáveis, apesar de geralmente constituírem vesículas ou c"istemas relativamente pequenas.
A membrana do endossamo possui uma bomba de prótons (Cap. 3-24) que quando é ativada
transporta H+ do citosol para o interior da organela cujo pH desce a 6,0 ig. 7 .22). o Cap. 4-1,
vimos que o pH citosólico é de 7 ,2.
Antes de analisar as funções dos endossomos convém descrever o processo de endocitose.

7- 29. Existem duas formas de endocitose chamadas


pinocitose e fagocitose
No Cap. 3-10, estudamos a permeabilidade das membranas celulares e vj mos qne os so~uto s
atra~am a membrana plasrnátiGafer---tratts-porte passi vo ou ativo e ingressam na célula. As
macromoléculas e as partícul as entram por meio de um mecanismo completamente diferente,
denominado endocitose (Fig. 7.22). De acordo com o tamanho e as propriedades físicas do mate-
rial que vai ser incorporado, esse mecanismo é chamado pinocitose ou fagocitose (Fig. 7.23).
A pinocitose (do grego pínein, beber) compreende o ingresso de líquidos junto com as macro- 1
moléculas e os soJl}tQS dissolvidos neles. Isto sucede porque porções circunscritas do líquido, que ~
e acham em contato com a supe1fície externa da célula, são captadas mediante invaginações da \
membn~na plasmática, o que dá lugar a fossetas e finalmente a vesículas que são liberadas nó ci-_.1
tosol.
O processo de pinocitose pode ser demonstrado experimentalmente pelo uso de uma solução
de proteínas marcadas com corantes fluorescentes; às vezes é tão rápido que parece que a solução
é "bebida" pela célula.
Segundo a qualidade da substância que será incorporada à célula, a pinocitose pode ser inespe-
cífica ou regulada (Fig. 7 .23). Na pinocitose inespecífica, as substâncias ingressam automatica-
1
meQ!e,__Q_que ocolr.e e111 toc!os os tipos celu~res. Na pinocitose _reguladaJ>oréI'(I , as substânci as [
interagem com receptores específicos localizados na mem-br-ana-FJlasmática, o-que desencadeia a "'
formação das vesículas pinocític_as. Devido à seletividade deste mecanismo, uma substância pode
ingressar em algumas células porém não em outras, de acordo com os receptores presentes e".Y
uas membranas plasmátieas.

ENDOSSO MO

Endocitose

pH =5

Bomba de H'
Fig. 7.22 Esquema que ilustra o
M EMBRANA
PLASMÁTICA processo de endocitose e a
conversão do endossamo em
- ( Receptor Material incorporado
li sossomo.
126 • O SISTEMA DE ENDOl\1EMBRANAS

Fig. 7.23 Esquemas que ilustram •••


como os materiais são
incorporados na célula por PI NOCITOS E
diferentes formas de endocitose. INESPECÍFICA

Vesícula pi nocitótica

•••
y '( '(
PINOCITOS E
REGULADA

e
TTT
Vesícula pinocitótica

FAGOCI TOSE

Fagossomo

A fagocitose (do grego phagefn, comer) ocotTe em poucos tipos celulares, particularmente nos
macrófagos e nos leucócitos neutrófilos. Segundo as circunstâncias, constitui um meio de defesa
ou de limpeza, capaz de eli minar pequenos parasitas, bactérias, células prejudiciais, danificadas
ou mortas, restos de células e todo tipo de partículas estranhas ao organismo. Como vemos, a
fagocitose permite a incorporação de llilrtículas relativamente grq_ndes e estruturadas.

~
Uma vez que o material se fixa sobre a superfície externa da célula, a membrana plasmática
mite prolongamentos envolventes que o rodeiam para deixá-lo englobado no interior do plasma,
que forma uma vesícula muito maior que a pinocítica, chamada de fagossomo (Fig. 7.23).
Para poder ser fagocitado , o material deve conter ou adquirir certos sinais que são reconheci-

t dos por receptores localizados na membrana plasmática das células fagocitárias. Por exemplo,
algumas bactérias são "marcadas" por anticorpos denominados opsoninas (do grego ópson, man-
ar), fornecidos pelo sistema imune.

7- 30. Acredita-se que os endossomos se convertam em lisossomos


O endossamo exerce suas funções de uma maneira singular. Tanto recebe o materi al ingressa-
do por endocitose - trazido por vesículas pinocíticas ou por fagossomos - como incorpora en-
zimas hidrolíticas trazidas por vesículas provenientes do complexo de Golgi (Figs. 7.20 e 7.22).
No primeiro caso, o endossamo recebe tambérríporções de membrana plasmática e receptores
(os últimos , se a endocitose for regulada). Ambos são devolvidos por vesículas recieladoras que,
ao chegarem à membrana plasmática, integram-se a ela mediante um processo semelhante à exo-
' .
citose (Fig. 7 .22). Uma vez na membrana plasmática, os receptores podem voltar a ser utilizados.

------
Com relação às enzimas hidrolíticas, qevemos lembrar.que_s.e_acha\l.a!]l_..!lniQ<is à membrana do
.1.12lexo de~ por meio do.xecepto da manose 6-fosfato. Como mostra a Fig ..7 .20, esta união
co.m
é }TI~ntid~tra_n_s~rtam as enzimas do complexo de Gol~~a o endossomo,

1 onde tambérrLpei:siste. Todavia, no endossamo, as enzimas se mantêm unidas à membrana so-


mente transitoriamente, já que se desprendem do receptor da manose 6-fosfato q~ando o pH da
1 organela baixa a 6,0, quando sua bomba protônica é ativada (Seção 7-28) (Fig. 7.22). Além disso,

a manose 6-fosfato perde o fosfato por ação de uma fosfatase .


Aqui também são recicladas as membranas que juntamente com os receptores da manose 6-
fosfato regressam à região de saída do complexo de Golgi (Fig. 7.20). Esta reciclagem torna pos-
s_t,:tl~t.reutil-i-zação...dos.-i:ecepto.r-es.-
Na síntese, o endossamo é ó lugar da célula onde convergem tanto os materiai s que vão ser
digeridos - ingressados por endocitose - como as enzimas hidrolíticas encarregadas de fazê-lo
{ (Figs. 7.20 e 7.22). Acredita-se que a combinação destes elementos converte o endossamo em
lisossomo, de cuja análise nos ocuparemos em breve.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 12

Pinocitose
7-31. Existem dois tipos de endossamos, os primários e os
1 ~----~~-----
secundários
\
\ I
f'
É preciso lembrar que a análise morfofuncional realizada até aqui sobre os endossomos " I

evita um passo premeditadamente excluído para facilitár a descrição. É que existem dois \
\
© ,I
Q
"'
vesícula
recicladora
tipos de endossamos, os primários (ou precoces) e os secundários (ou tardios) (Fig. 7 .24). I

Os endossomos primários se localizam próximo da_membrana__pJa-5filá..tica_e__1LL


end0ssomos secundários próxime-àe-c-em17le-x-O-Ele-Qel-g.i. Canse üentemente há um 1
fluxo unidi ecional de vesícula s~ortado_ras_para...transferu--e-materiaLendQcitado
da m_em._b_.rnua_plasmátic_a_ao endossamo primái:io._e_d_e.s.te_a0--ei:idGsseme--iH~GilllGlái:iG.
Devemos assinalar que esta organização morfofuncional corresponde às vesículas pi-
nocíticas, já que o fagossomo - nos macrófagos e nos leucócitos neutrófilos - não
conta com o endossamo primário e se funde diretamente com um endossamo secundá-
rio que, ao receber enzimas hidrolíticas do complexo de Golgi, converte-se em um
lisossomo de grande tamanho chamado fagolisossomo.
Endossamo
v,ÀQ
-,.,.\

secundário

~q

;T
AI~ de servir como estacão intermediária para canalização do material endocitado,
o endossamo p1imário - por meie-cl-as--ve-sfou.las-i:ecicladorns__analisada~n_Q_cj) meço da
®/
seÇ~or - devol~e à membrana _plasmática as porções de membrana e os recep- MP Enzima hidrolítica proveniente do
CF complexo de Golgi
tores .tr'!zidos _pelas vesículas pinocíticas.
nos Como no endossamo primário os receptores se acham unidos ao material endocitado, antes da Fig. 7.24 Dinâmica
esa
reciclagem devem se separar dele. A separação ocorre como conseqüência da queda do pH no morfofuncional dos endossomos
,das endossamo, que começa a baixar quando a bomba de próton da membrana da organela é ativada. primários e secundários.
,a EJll seguida, o endosso mo primário gera dois tipos de vesículas transportadoras, uma recicladora
- que retoma à membrana plasmática - e outra que se dirige ao endossamo secundário e lhe
tica
entrega o material endocitado (Fig. 7.24).
ma, Para alguns autores, há um único tipo de endossamo que reside, alternadamente, nas proximi-}
dades da membrana plasmática, onde adquire o material endocitado, e nas cercanias do complexo
eci- de Golgi, onde recebe as enzimas hidrolíticas. Esta organização faz com que o endossamo realize )
plo, incessantes translados de ida e volta entre ambos os pontos.
tan-
7-32. Na transcitose os endossamos cumprem funções
distintas das descritas
Em alguns epitélios ocorre um processo denominado transcitose, pelo qual materiais ingres-
- a- sados por endocitose por um lado· da célula atravessam o citoplasma e saem por exocitose pelo
en- lado oposto. O cruzamento através do citoplasma é realizado dentro da vesícula formada durante
12) . a endocitose, apesar de que, em alguns casos, empregam um endossamo como compartimento ou
lres estação intermediária (Figs. 7 .25 a 7 .28).
1ue,
:xo-
los.
l dO
,-
ti ão
mo,
o-
[ da
o, SANGUE

>OS-

er
CÉLULA
ê-lo ENDOTELIAL
em
Fig. 7.25 Transcitose na célula endotelial do capilar sangüíneo.
128 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

CAVIDAD E DO ÓRGÃO

~
'
1

I~
'
!
. U\ ! L _ J

\
1
!
1
'--~~~~~ ~-~~~~

~
'
SANGUE '1 lmunog lobu lina A (lgA) ,

Fig. 7.26 Transcitose da IgA em uma célula Fig. 7.27 Transcitose da IgA em uma célula
epitelial secretora. epitelial mamária.

No Cap. 6-11 dissemos que nos tecidos epiteliais as junções oclusivas impõem diferenças na
composição da membrana plasmática nas regiões apical e basolateral das células. Tais diferenças
parecem ser necessárias para o processo de transcitose.
O exemplo mais difundido de transcitose corresponde às células endoteliais dos capilares san-
güíneos , já que são atravessadas por macromoléculas que passam do sangue aos tecidos (Fig. 7 .25).
Outros exemplos de transcitose são registrados nas células secretoras das glândulas lacrimais e
nas mucosas de alguns órgãos das vias digestórias, respiratórias e urinátias (Fig. 7.26). Por elas,
certos anticorpos - as imunoglobulinas A (lgA) - passam do tecido conjuntivo à luz dos órgãos
citados, onde exercem suas funções defensivas.
Durante a fase de lactação ocorre um fenômeno semelhante nas células secretoras da glândula
mamária. Aqui, as imunoglobulinas A se transferem para a luz glandular, quer dizer, para o leite
(Fig. 7.27).
Ao contrário das outras proteínas do leite, quando estes anticorpos chegam ao intestino do re-
cém-nascido não são degradados imediatamente para sua absorção . Deste modo, o lactente - cujo
sistema imunológico ainda não produz anticorpos próprios suficientes -pod~se vª ler deles para
sua defesa. Este fenômeno foi observado em diversos roedores e ruminantes .
Na Fig. 7 .28 é mostrado o itinerário seguido pelos anticorpos depois de ingressarem na célula
intestinal por endocitose:-incorporam-se transitoriamente a um endossamo primário e, posterior-
mente, abandonam a célula por exocitose. Como vemos , nestes casos, o endossamo primário com;-
titui uma estação intermediária para o transporte transcelular, alheia à degradação de substâncias.
Devemos assinalar que na espécie humana, os anticorpos provenientes do leite materno aparente-
mente não são absorvidos no intéstino e, portanto, não ingressam no organismo do lactente. Suas

LUZ INTESTINAL

Endossamo
primário

Fig. 7.28 Transcitose da IgA em


uma célula do epitélio intestinal. SAN GUE
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 129

funções defensivas estariam confinadas à luz intestinal , onde permanecem por um tempo antes de
ser degradados pelas enzimas hidrolíticas encarregadas de digeri-los.
Outro exemplo de transcitose se acha na placenta; CJJj-ªs células são atrave~sada s por anticor-
r.os da família das imunoglobulinas Q. Ao passarem do sangue matemo para o fetal, estes anticor-
pos conferem imunidade passiva ao feto - e por um determinado tempo, ao recém-nascido -
contra várias doenças infecciosas.

LISOSSOMOS
7- 33. Os lisossomos são organelas polimorfas '
Todas as célul~s contêm Iisossomos (do grego lysis, dissolução, e sôma, corpo) que são as orga- \
nelas que diger~m 9s materiais incorporados por endocitose. Além disso , por um processo denomi- º
nado autofagia (que será analisado na Seção 7-35) também digerem elementos da própria célula.]
Como assinalamos, acredita-se que os lisossomos sejam formados a partir de endossomos que r
receberàm dois tipos de vesículas tran?portadoras, umas com material endocitado e outras cóm
enzimas hidrolíticas (Figs . 7.20 e 7.22). . j
A característica mais saliente dos lisossomos é seu polimorfismo, não apenas porque têm as-
ta pectos e tamanhos diferentes, mas também pela irregularidade de seus componentes (Figs. 1.11 e
7.29). A causa de seu polimorfismo é dupla; por um lado, deve-se à diversidade do material
endocitado e por outro ao fato de que cada tip~sosso mo possui uma combin~ção si11gular de
Il-
enzimas hidrolíticas, das quais existem cerca de 50 diferentes.
i). As ~nzimas lisossômicas tomam-se ativas em pH de 5 Q._Este grau de acidificação é alcançado ) ,, ;.
,e graças a uma bomba de H + p resente na membrana do hsossomo , herdada da membrana do r /
endossemo secundário (Cap. 3-2 e Seção 7-28) (Fig. 7.22). _,
J A membrana do lisossomo se acha protegida do efeito destruidor das enzimas hidrolíticas porque 1
seu lado luminal contém uma enorme quantidade de glicoproteínas (Cap. 3-8). De outro modo, se a (
la membrana do lisossomo se romper, as enzimas que dele escapem não afetarão os demais compo- j
Je nentes celulares porque serão inativadas ao entrar em c_ontato com o citosol, c_µj.Q.P~7,2.
No interior dos lisossomos as proteínas e os carboidratos endocitados são digeridos transfor-j
e- mando-se, respectivamente, em dipeptídeos e monossacarídeos. Estes e outros produtos de degra-
jo dação atravessam a membrana lisossômica e passám para o citosol, onde acabam por ser digeri-
ira dos ou são aproveitados para gerar novas moléculas . Por seu lado, terminadas suas funções, as

LI.a
)f-

te-

Fig. 7.29 Eletromicrografia que


mostra dois lisossomos (L),
mitocôndrias (M), ribossomas
(R) e parte do núcleo (N).
60.000 X. (Cortesia de F. Miller.)
130 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

V
enzimas lisossômicas também passam ao citosol, onde são degradadas por proteassomas (Cap.
õ 4-6). Finalmente, livres das enzimas e do material digerido , os lisossomos se reconvertem em
endossamos.
_Jgumas substâncias endocitadas não terminam de ser digeridas e permanecem nos lisosso-
mos, que por isso adquirem o nome de corpos residuais. Algumas vezes, as substâncias não dige-
ridas são expulsas da célula por um processo comparável com a exocitose. Se isto não ocorre, com
o tempo convertem-se em pigmentos de desgaste depositados no cito~o}j(Cap. 4-3).

7-34. Os lisossomos também digerem proteínas não endocitadas


A célula conta com dois dispositivos para degradar as proteínas fabricadas em seu próprio ci-
toplasma, ou seja, não endocitadas. Um atua no citosol e envolve a ubiquitina e os proteassomas
(Cap. 4-6). O outro compreende os lisossomos , que incorporam proteínas citosólicas destinadas a
desaparecer e as digerem em sua cavidade. Para tanto, os lisossomos contam com receptores
membranosos específicos que reconhecem as proteínas que ingressam na organela por um
translócon. Este se valeria de duas chaperonas da família hsp70 (Cap. 4-5), uma citosólica, qti'e
desenrolaria as proteínas, e outra luminal, que impulsionaria sua entrada na organela.

7- 35. A autofagia é essencial para o funcionamento da célula


A célula elimina organelas envelhecidas por um mecanismo denominado autofagia, que in-
clui a formação de autofagossomos . Na Seção 7-25 , mencionamos que os autofagossomos se
formam com a ajuda do REL. Este fornece uma porção de membrana para envolver a organela
obsoleta e formar o autofagossomo (Fig. 7.30).
Em seguida, o autofagossomo segue o mesmo caminho que o fagossomo, ou seja, funde-se com
um endossamo secundário, o qual recebe enzimas hidrolíticas do complexo de Golgi e se converte
em fagolisossomo. O processo culmina com a degradação da organela por paite dessas enzimas.
Nos neurônios, nos hepatócitos e nas células musculares cardíacas, os autofagossomos não
terminam de digerir alguns componentes das organelas e se convertem em corpos residuais. Com
o avançar da idade, estes corpos se acumulam no citosol como pigmentos de desgaste (Cap. 4-3).
A autofagia aumenta em certas condições. Por exemplo, diante de um jejum prolongado apare-
cem numerosos autofagossomos nos hepatócitos. Têm por objetivo conve1ter componentes da célula
em alimento para prolongar a sobrevivência do organismo.

7-36. Existem doenças produzidas por alterações lisossômicas


Diversas doenças congênitas ocorrem por mutações dos genes que codificam as enzimas li sos-
sômicas. Caracterizam-se pelo acúmulo intracelular das substâncias que ess~s enzimas degradam.

!MP\ Proveniente do
\..:::;) complexo de Golgi
RETÍCULO 1
I
ENDOPLASMÁTICO 1
/
...
MP
?

Fig. 7.30 Componentes celulares


que participam da formação do
autofagossomo e do
Autofagossomo
fago lisossomo.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 131

Por exemplo, na doença de Tay-Sachs alguns neurônios aparecem repletos de um gangliosídio.


O defeito se deve à ausência da enzima hexosaminidase A, que catalisa a hidrólise parcial do
glicolipídio. Em conseqüência, este se acumula nos neurônios, o que provoca graves alterações
neurológicas.
A doença de Gaucher é caracterizada pelo acúmulo de glicocerebrosídio em vários tipos celu-
lares em função da ausência da glicosidase que catalisa a hidrólise do glicolipídio em ceramida e
glicose.
A doença de Niemann-Pick mostra um acúmulo de esfingomielina em vários tipos celulares
como conseqüência da falta de esfingomielinase, que é a enzima que hidrolisa o esfingofosfolipí-
dio em ceramida e fosforilcolina.
Na Seção 7-20 estudamos o mecanismo que leva ao acúmulo de moléculas na doença das cé-
lulas l , produzida por um defeito no receptor da manose 6-fosfato, e não em uma enzima
lisossômica.

VESÍCULAS TRANSPORTADORAS
7-37. Durante sua formação, as vesículas transportadoras são envolvidas
por uma cobertura protéica
Com exceção dos fagossomos, que podem ser muito maiores, as vesículas transportadoras têm
um diâmetro que varia entre 50 e 250 nm. A medida maior corresponde às vesículas secretoras .
A Fig. 7 .31 mostra que as vesículas transportadoras se originam na membrana plasmática e nas
a membranas das organelas do sistema de endomembranas. Assim fazem com à concurso de uma
cobertura protéica da qual existem vários tipos , embora em alguns ainda não foram descobertas
a suas proteínas. As mais estudadas são conhecidas com os nomes de cobertura de COP e cobertura
e de clatrina.
A cobertura de COP (do inglês, coat protein) forma-se pela associação ordenada de múlti-
o plas unidades protéicas. Existem dois tipos de coberturas de COP, que se identificàm não somente
n porque são compostas de unidades protéicas distintas - denominadas COPI e COPII - mas tam-
). bém porque geram vesículas em lugares diferentes do sistema de endomembranas. Assim, a co~
bertura de CQEJJ_gera as vesículas que se formam no RE e se dirigem p~r~uLfl!_çe de entrada_do
ÇQID_pj~xQ~ lgi , enquanto a cobertura de COP/ gera tanto as vesículas que se formam no lado
de ent@da do_complexo de Golgi e retomam ao RE, quanto as que interconectam as cisternas do
complexo de Golgi.
Por sua parte, a cobertura de clatrina (do latim clathrun ou do grego kleter, trama de varetas)
resultá da associação de várias unidades protéicas chamadas trisquélions (do grego skelos, per-
na). Ela gera as vesículas que surgem da membrana plasmática durante a endocitose e as que se
a.
formam no lado de saída do complexo de Golgi e se dirigem aos endossamos e à membrana plas-
mática durante a secreção regulada.

Fig. 7.31 Esquema que ilustra a


participação das coberturas de
COP e de clatrina na formação
das vesículas surgidas da
membrana plasmática (por
endocitose) e das organelas do
J Cobertura de COPI J Cobertura de COP ll J Cobertura de clatrina J Cobertura não conhecida sistema de endomembranas.
132 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

F ig. 7.32 Evolução seguida pela CAVI DADE DA ORGANELA OU LADO EXTRACELULAR

membrana durante a formação

o
de uma vesícula. Está ilustrada
também a dinâmica das unidades
COP e dos trisquélions.

Depósito de
unidades COP ou de
CITOSOL trisquélions

Apesar das numerosas investigações realizadas, não se conhece a composição das coberturas
protéicas das vesículas que se formam na face de saída do complexo de Golgi e se dirigem para a
membrana plasmática durante a secreção constitutiva, nem tampouco a das vesículas que nascem
dos endossamos.
A primeira cobertura de COP a ser revelada foi a das vesículas que interconectam as cisternas
do complexo de Golgi, composta por unidades COPI. Foi denominada cobertura de coatômer o
(do inglês, coat protomer) e, posto que se acreditou que todas as coberturas a ser descobertas eram
iguais a ela, foi dado esse nome a todas que não eram de clatrina, a qual havia sido identificada
muito tempo antes. A partir do descobrimento das unidades de COPII, somente retém o nome de
cobertura de coatômero a que se compõe de unidades COPI.
As vesículas transportadoras começam a se formar quando as unidades protéicas dà fatura
cobertura se apóiam sobre a face citosólica de uma área circunscrita de uma membrana celular
plana, que fornecem a força mecânica para que se curve para o citosol. Como mostra a Fig. 7 .32,
o progresso da curvatura desenvolve uma fosseta que finalmente se desprende da membrana con-
vertida em vesícula.
No caso das vesículas cobertas de clatrina, o desprendimento se produz quando várias unida-
des da proteína motora dinamina rodeiam o colo das fossetas e o estrangulam até seccioná-lo (Cap.
5-8). Estas vesículas têm a forma esférica ao contrário das vesículas cobertas de COP, que em
alguns lugares podem ser poliedros irregulares e em outros exibir uma aparência tubular.

· 7-38. As coberturas de COP são construídas com o concurso das


unidades protéicas COPI e COPll
Na seção anterior foi dito que existem dois tipos de coberturas de C OP e que são construídas
mediante as coberturas compostas pelas unidades protéicas COPI e COPII. Devemos acrescentar
que cada unidade COPI é composta de sete subunidades protéicas, identificadas com as letras gregas
a , (3, W, -y , ô, se~ - Por outro lado, cada unidade COPII consta de duas subunidades protéicas
heterodiméricas, as quais são identificadas pelas siglas Sec 13/Sec31 e Sec23/Sec24 (do inglês,
seven transmembrane protein complex ). Na Fig. 7.32 observa-se que as unidades COPI e COPII
são construídas no citosol, se aderem à membrana e a curvam. Quando se rnne_çtaJJL~mem­
brana,Jazem-no-por-meio_ de_ um ~proteína ch ª-~RF (do inglês, adenosine diphosphate
ribosylation factor) e pelo domínio citosólico do receptor da molécula que vai ser transportada
pela vesícula em formação (Fig. 7.33).
Devemos lembrar que a COPI e a COPII ligam-se a proteínas ~RF específicas denominadas
ARF l e Sarl (do inglês, simil ARF) , respectivamente.
As ARF e as COP desempenham funções complementares, já que uma vez qll.e as ARF deter-
minam em que lugar deve se formar a vesícula transportadora, recrutam as unidades COPI ou COPII
e estas se associam e compõem a cobertura protéica que provoca a curvatura da membrana.
O processo pelo qual as unidades COPI ou COPII se unem à membrana da vesícula em forma-
ção é o seguinte: 1) em sua estância livre no citosol das ARF l:iá um GDP e u111 ácido graxo oculto
em suas moléculas; 2) uma proteína reguladora chamada GE...F (do inglês, guanine-nucleotide
exchange factor) faz com que o GDP das ARF se i11tercambie com um GTP; 3) esta troca torna
visível o ácido graxo das ARF, insere-o na membrana, e, por isso, as ARF ficam unidas á ela; 4)
as ARF recrutam as COP que se acham no citosol e as colocam junto à membrana; 5) as COP se
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 133

Fig. 7.33 União da unidade COP


com a membrana. Vemos como
participam a ARF e o receptor
do material que vai ser
transportado.

ARF-GTP

CITOSOL

unem à membrana por meio das ARF e do domínio citosólico do receptor citado no parágrafo
anterior. Como esse domínio é sempre o mesmo em todos os receptores, as COP se unem a ele
inespecificamente, ao contrário do domínio não citosólico que varia e se une de maneira específic
ca a uma molécula que vai ser transportada.
Embora saibamos que na formação de uma vesícula transportadora intervêm múltiplas unida-
des COP, ignora-se como se encaixam entre si para curvar a membrana.
Depois que a vesícula se desprende da membrana, as ARF e·as COP se desligam desta e ficam Fig. 7.34 Seqüência de
livres no citosol, onde podem ser reutilizadas (Fig. 7 .32). A saídá das ARF é devida à hidrólise do eletromicrografias que mostram
o processo de formação de uma
GTP, contido dm suas moléculas, o que faz dobrar novaménte o ácido graxo que as une à mem-
vesícula de endocitose na
brana. As ARF hidrolisam o GTP - em GDP e P - ao serem estimuladas por uma proteína re- membrana plasmática (esta foi
guladora chamada GAP (do inglês, GTPase activating protein) . marcada com fenitina).
Surge do mencionado que as ARF possuem, alternadamente, um GTP ou um GDP. Quando 130.000X. (Cortesia de M. S.
têm um Gf P se ativam e isso as une a uma membrana. Ao contrário, quando possuem um GDP se Bretcher.)
inativam, separam-se da membrana e ficam livres no citosol. Já que o GDP se deriva da
hidrólise do GTP que se acha nas próprias ARF, e como estas catalisam a reação, são 1
classificadas como GTPases.
Devemos lembrar que na célula existem - além das ARF - outras GTPases que
funcionam associadas às proteínas reguladoras GEF e GAP. Vale lembrar que a GEF
troca o GDP por um GTP e que a GAP estimula a hidrólise do GTP em GDP e P. As
ações reguladoras das proteínas GEF e GAP são ilustradas na Fig. 11.9.
As outras GTPases desta família são as proteínas Rho (Cap. 5-24), Rac (c:\p. 5-26),
Cdc42 (Cap. 5-26), Rab (Seção 7-40), Ras (Cap. 11-12) e Ran (Cap. 12-4). Igualmen-
2
te às ARF, são ativadas quando têm um GTP e se inativam quando o hidrolisam em
GDP e P.

7-39. As coberturas de clatrina são construídas a partir de


trisquélions
A série de eletromicrografias agrupadas na Fig. 7.34 mostra como a cobertura de
clatrina forma uma vesícula transportadora. Na Seção 7-37 dissemos que a cobertura de 3
clatrina é composta de múltiplas unidades protéicas denominadas trisquélions. Calcula-
se que uma vesícula de 200 nm de diâmetro contenha cerca de 1.000 dessas unidades.
O trisquélion é formado por três cadeias polipeptídicas grandes e três pequenas, cujo
peso é de 180 kDa e de 35 kDa, respectivamente. Como mostra a Fig. 7 .35, essas cadeias
dão lugar a três braços flexíveis de 44,5 nm de comprimento, dobrados para o mesmo
lado.
Para gerar uma vesícula, os trisquélions são colocados sobre uma área circunscrita do
lado citosólico da membrana e encaixados entre si até formar um poliedro com aspecto
de cesta. A parede do poliedro é composta por hexágonos e pentágonos, cujos vértices
correspondem aos pontos de convergência dos braços dos trisquélions. Ao contrário, suas
arestas são formadas quando dois ou mais braços de outros tantos trisquélions vizinhos
são aderidos (Figs. 7 .35 e 7 .36).
A ligação dos trisquélions à membrana confere a ela a força mecânica que provoca a
sua curvatura. Inicialmente, forma uma fosseta, que ao se desprender da membrana,
134 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRA NAS

Fig. 7.35 Esquema tridimensional de Fig. 7.36 Esquerda. Eletromicrografia de numerosas coberturas de clatrina isoladas e
uma vesícula coberta com clatrina. coradas negativamente. 67.500X. (Cortesia de B. M. F. Pearse.) Direita. Eletromicrografias
Ressalte-se um trisquélion, composto de fragmentos isolados de clatrina corados negativamente. Observa-se um campo geral e
de seis polipeptídeos (três grandes e três de suas partes com maior aumento. 105.000 X e 195.000 X, respectivamente. (Cortesia
três pequenos). de R. A. Crowther e B. M. F. Pearse.)

converte-se em uma vesícula que é liberada no citosol. Igualmente às coberturas de COP, a cober-
tura de clatrina se desarma imediatamente e os trisquélions livres podem voltar a ser usados para
gerar novas vesículas (Fig. 7 .32).
A forma como os trisquélions se associam entre si permite que as membranas assumam curva-
turas de raios diferentes e que sejam formadas vesículas de diferentes tamanhos. Todavia, quando
as vesículas são muito grandes - como nos fagossomos - não se formam coberturas completas
e sim áreas isoladas que cobrem parcialmente suas superfícies .
. A união dos trisquélions à membrana vesicular ocorre por uma proteína ARF semelhante às
que se unem às unidades COPI e COPII (Seção 7-38).
Ademais, na membrana plasmática, os trisquélions se unem também ao domínio citosólico dos
recei;>tores das substâncias que ingressam na célula i;>or endocitose regulada (ver o exemplo anali-
sado na Seção 7-42). Algo similar ocorre na membrana da face de saída do complexà de Golgi -
nas zonas formadoras das vesículas que se dirigem aos endossámos e à membrana plasmática
durante a secreção regulada - onde, além de se unir à ARF, os trisquélions se ligàm ao domínio
cüosólico dos rece12tpres das moléculas ue vão ser transportadas (Fig. 7 .37) (um desses recepto-
res é o da manose 6-fosfato, visto na Seção 7-20).
Como os domínios citosólicos dos receptores mencionados variam, para unir-se a eles, os
trisquélions se valem de certas prQteína_? i_n_!ermediárias heterodiméricas chamadas adaptinas (Fig.
7.37), que têm um domínio_esp.s:cífico que interatua oom cada tipo de receptor e um domínio co-
mum que se liga aos trisquélions.
Quando a cobertura de clatrina se desconecta da membrana vesicular, as ARF e as adaptinas
- da mesma forma que os trisquélions - ficam livres do citosol para que possam ser usadas
novamente (Fig. 7.32).

CAVIDADE DO COMPLEXO DE GOLGI OU LADO EXTRACELULAR

CITOSOL

Fig. 7.37 União do trisquélion à membrana. Veja como participam a ARF, a adaptina e o receptor do
material que vai ser transportado.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 135

7-40. As proteínas da membrana chamadas SNARE asseguram a


chegada das vesículas transportadoras a seus pontos de destino
MEMBRANAS DOADORAS

l_T l 1
/
/
\
\
I
1

Cada compartimento do sistema de endomembranas dispõe, em sua membrana e em seu '>,t'~:Y v-SNARE '>: _ - ""''/

interior, de moléculas distintas das dos outros compartimentos. Como foi mencionado nas 1
1
Seções 7-1, 7-2, 7-22 e 7-29, esses compartimentos - juntamente com a membrana plas- •
mática e com a matriz extracelular - trocam algumas de suas moléculas por meio de vesí-
culas transportadoras que se transladam pelo citosol movidas pelo citoesqueleto (Caps .
5-8 e 5-23).
Quando uma vesícula transportadora emerge de um dos compartimentos doadores e se dirige
para o compartimento receptor com o qual se irá fundir, deve avançar pelo caminho adequa-
RabGTP~ o
do e não se extraviar em meio às múltiplas membranas que atravessam o citoplasma.
Isto é alcançado porque existe um mecanismo desenhado para assegurar a chegada da
vesícula transportadora ao compartimento correto. Depende de dois tipos de pIQteínas re-
cepsoras mutuamente complementares, uma pertencente à membrana do compartimento
~e outra à membrana do compartimento receptor. Denominam-se, respectivamente, MEMBRANAS RECEPTORAS
v-SNARE e1:SNARE (do inglês, vesicle- e target-SNAP receptor) (Fig. 7.38).
Fig. 7.38 Funções da Rab, das
Como mostra a Fig. 7.39, as t-SNARE nunca abandonam a membrana dos compartimentos v-SNARE e das t-SNARE no
receptores. Pelo contrário, as v-.SNARf\_abandonam a membrana_dos compastimentos doadores reconhecimento das vesículas
quando se t[fms(erem para a membrana das vesículas transportadoras. A Fig. 7 .39 mostra também pelas membranas receptoras
que as v-SNARE ficam expostas e em condições de atuar, uma vez que as vesículas se despren- corretas.
dem das coberturas protéicas de COP ou de clatrina.
Como ,este mecanismo requer especificidade, para cada parelha de compartimentos doador e
receptor existe uma parelha particular de proteínas v-SNARE e t-SNARE complementares. Isso
faz com que durante o translado de uma vesícula transportadora sua v-SNARE deva "tatear" vá-
rias t-SNARE antes de encontrar a sua complementar.
O retorno de uma vesícula recicladora ao compaitimento doador apropriado, e não a outro, se
deve a que sua membrana recupera a v-SNARE original e ao fato de que a membrana do compar-
timento de origem conta com uma t-SNARE idêntica à da membrana do compartimento receptor
(Fig. 7.39). Conseqüentemente, durante a reciclagem das vesículas transportadoras, os comparti-
mentos invertem seus procedimentos, pois o doador se conduz como receptor e este como doador.
A união entre uma v-SNARE e sua t-SNARE complementar depende de uma proteína chama-
da Rab (do inglês, Ras proteinfrom brain), que atua sobre ambas (Fig. 7 .38). Foram identificadas
cerca de 30 Rab diferentes uma para cada parelha de v-SNARE/t-SNARE.
As proteínas Rab pertencem a uma subfamília de GTPases que dependem das proteínas GEF e
GAP (Seção 7-38). Assim, quando são influenciadas pela GEF substituem o GDP de suas molé-
culas por um GTP (Fig. 11.9) e se ativam, ou seja, se unem à membrana do compartimento doador
e fazem com que a v-SNARE e a t-SNARE se conectem entre si. Ao contrário, quando são influ-
enciadas pela GAP hidrolisam o GTP (em GDP e P) e se inativam, o que as separa da membrana
do compartimento doador.

MEMBRANA DOADORA

-e:~) r-i--~ ~r-


i 1
1 1

O+' CITOSOL
{'\' Vesícula
~ecicladora
1
1
1
1 o t
1
1
1
' v-SNAR E
Fig. 7.39 Esquema que mostra
de que forma a vesícula

11 . .! ------- ~~
transportadora é condu zida até a

----*---. ____ . ,.~'.__f___fJ. ).______


membrana receptora e como a
Y
_ t_-s_N_
AR_E_
vesícula recicladora é devolvida
---- -+
MEMBRANA RECEPTORA à membrana doadora.
136 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

MEMBRANA DOADORA
7-41. No processo de fusão de membranas intervêm quatro

~J1 '--' 12- v-SNARE


proteínas fusogênicas
Quando a v-SNARE se liga à t-SNARE, as membranas interatuantes se colocam a uma distân-
cia que toma possível o processo de fusão descrito no Cap. 3-6 e ilustrado na Fig. 3.13.
Neste processo intervém um conjunto de proteínas fusogênicas que se localizam no citosol. São

o
conhecidas quatro, três das quais identificadas com a sigla SNAP (do inglês, soluble NSF accessory
CITOSOL proteins) e a quarta com a sigla NSF (do inglês, NEM sensitivefactor; NEM, ou N-etilmaleimida, é
o nome do composto usado para revelar o NSF). Assim, as três SNAP e o NSF - que é uma ATPase
- são necessários pelo par de membranas para que se concretize a fusão (Fig. 7.40).
I ' -SNAP Qualquer que seja o par de membranas - e, portanto, a parelha de v-SNARE/t-SNARE -
....:::.,__ NSF sempre são unidas às mesmas quatro proteínas fusogênicas, pois são inespecíficas. Como vemos,
1
a especificidade da união depende unicamente das SNARE.

Oi
t-SNARE::f.. .l: ~i_..._-_' - - -
O processo de fusão de membranas consome energia fornecida por um ATP hidrolisado pela
ATPase do NSF. A energia é necessária para desarmar o complexo fusogênico depois da fusão e
separar as SNAP e o NSF das membranas.
MEMBRANA RECEPTORA As SNAP e o NSF regressam ao citosol e podem ser reutilizados. Por seu turno, a v-SNARE se
integra a uma vesícula recicladora e retoma ao compartimento doador - agora receptor - que é
Fig. 7.40 Intervenção das três identificado porque a membrana deste possui uma t-SNARE complementar (Fig. 7.39).
SNAP e do NSF na fusão da
membrana receptora com a
membrana da vesícula.
7-42. A entrada do colesterol na célula e seu destino posterior são
conhecidos em detalhes
Em virtude de se tratar de moléculas muito hidrófobas, o colesterol e seus ésteres circulam pelo
sangue como lipoproteírias. O exemplo mais conhecido corresponde ao colesterol-LDL (do in-
glês, low-density lipoprotein) que é um composto lipoprotéico originado no REL dos hepatócitos
(Seção 7-27). O colesterol-LDL entra nas células por endocitose, após ligação prévia a receptores
específicos situados na membrana plasmática. Esta união atrai trisquélions livres no citosol, os
quais - por intermédio de adaptinas específicas - se conectam com os receptores no lado cito-
sólico da membrana e geram uma cobertura de clatrina (Fig. 7.41).

• Colesterol,LDL MATRIZ EXTRACELULAR


1
1

~ Recep tor-LDL

----ir-('""'WL Trisquélion O Y

1
!
1
1

1
1
1
~ 1
1

8
º
Vesícula
1 .Jf recicladora
1 /
1 //
1 ;
,. ;

" LISOSSOMO

0
t
Fig. 7:41 Esquema que ilustra o
mecanismo de entrada do
colesterol-LDL na célula, sua Enzimas hidrolíticas
passagem pelos endossomos provenientes do ® __ ,.
complexo de MP - -- - -
primário e secundário e seu Golgi "?
processamento no lisossomo.
O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS • 137

Como sabemos, a cobertura se desprende da membrana da vesícula quando esta se forma. Na


luz vesicular, o colesterol-LDL continua unido aos receptores herdados da membrana plasmática.
A vesícula se conecta com um endossomo primário, cujo pH ácido faz com que o LDL-colesterol
se desprenda dos receptores , os quais retornam à membrana plasmática com uma vesícula
recicladora. O colesterol-LDL passa do endossomo primário para um endossomo secundário e
este se converte em lisossomo ao receber enzimas hidrolíticas do complexo de Golgi (Fig. 7.41).
As enzimas atuam sobre o cole.s_ternl~LDL e separam a LDL do colesterol, qu~ passa _ao_ci!.?sol e
é utilizada como matéria-prima para a síntese de outras moléculas ou se incorpora à membrana do
RE (Seção 7-10).
A hipercolesterolemiafamiliar é uma doença causada por uma mutação do gene que codifica
o receptor de colesterol-LDL, que é defeituoso ou ausente. Como conseqüência, o colesterol não
entra nas células e sua concentração se eleva no sangue, o que acarreta o aparecimento de quadros
precoces de arteriosclerose.

7-43. Nas membranas plasmáticas de algumas células existem


invaginações denominadas cavéolas
Na m~mbrana plasmática de muitos tipos celulares se desenvolvem invaginações muito pe-
quenas chamadas c_ªy_é_oJas (do latim, caveo(ae , covas pequenas) (Fig. 7.42), cuja presença é par-
ticularmente abundante nas células endoteliais, nas musculares lisas e nos adipócitos.
As cavéolas se formam a partir de áreas circunscritas de membrana plasmática chamadas bal-
s~idicas,_g11e são__ricas em colesterol e_esfingofosfolfilídios. A força mecânica que invagina
essas á'teas para que se formem as cavéolas não é gerada por uma cobertura protéica (com D ocorre
com as vesículas de endocitose), mas sim por proteínas que se distribuem entre os fosfolipídios da
própria membrana. Assim, em cada área de invaginação, na monocamada citosólica da membra-
na, localizam-se múltiplas unidades de uma proteína integral de 21 kDa chamada caveolina, que
é a 2roteína gue produz a in~agü~_(lção. A caveolina tem forma de forquilha e suas duas extremida-
des se orientam para o citosol (Fig. 7.43).

Fig. 7.42 Disposição das


cavéolas na membrana
Membrana plasmática
CITOSOL
plasmática.

-..'\\ln mmmmrimmmm
·"' ~YllUmuum~uummm
Memb rana plasmática

Caveolina
Fig. 7.43 Representação
esquemática de uma cavéola,
com as caveolinas distribuídas
entre os fosfolipídios da
CITOSOL monocamada citosólica da
membrana plasmática.
138 • O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS

Devido ao fato de, em suas luzes, se concentrarem substâncias indutoras e em suas membranas
se instalarem os receptores dessas substâncias·, as cavéolas tomam possível a existência de induções
celulares com mínimas demoras. As substâncias indutoras mais comum.1letectadas_nó interior das
cavéolas são a insulina o EGF e o PDGF (Cap. 11-12), enquanto em suas membranas serão acha-
dos vários tipos de receptores da membrana, alguns associados a proteínas G (Cap. 11-14).
As cavéolas servem também para a penetração de pe1meases e canais iônicos até o citoplasma
e "encurralar" solutos nas proximidades destes transpoitadores. Isso permite que os solutos -
diante de estímulos adequados - ingressem maciçamente na célula. Por exemplo, nas luzes de
algumas cavéolas foi detectado Cá2+ e em suas membranas foram encontrados canais e pe1meases
para o íon , o que levou a compará-los com os túbulos T do músculo estriado (Fig. 5.39).
O mecanismo que introduz solutos e seus transportadores através de cavéolas e permite que os
primeiros ingressem maciçamente na célula é denominado P-Otocitose (do grego potos, bebida) . .

O SISTEMA DE ENDOMEMBRANAS NA CÉLULA VEGETAL


7-44. Na célula vegetal o sistema de endomembranas dispõe de vac@!Qs
Consideraremos aqui algumas características especiais do sistema de endomembranas das cé-
lu~as vegetais.
Nas células indiferenciadas do meristema, as membranas do RE são relativamente escassas e
estão mascaradas por numerosos ribossomas livres que preenchem o citosol. Ao contrário, nas
células vegetais diferenciadas, o RE é abm_1dante e forma túbulcis que ingressam no~ plasmodesmas
(Cap. 6-15). Nas células crivosas, sobre estes túbulos formain~se depósitos de calos.e, que é um
polissacarídeo composto por moléculas de glicose unidas por ligações l-3f3.
Do mesmo modo que nas células animais , nas células vegetais o complexo de Golgi é essenci-
al para a secreção. Em suas cisternas se processam e se concentram os pr.o~ut~·es;ão,_q@
fin~mente são desc.arregados no exrell,or. Por ex~mplo , nas células que sintetizam mucílago ob-
servam-se abundantes vesículas secretoras surgindo do complexo de Golgi.
Ademais, componentes do complexo de Golgi serve·~ para o transporte de ce·rtas proteínas de
d~pósito ,_como a vinicilina e a legumina nos cotilédones de algumas leguminosas, e a zeína no
endosperma do milho. Essas proteínas se localizam em organelas especiais denominadas corpos
protéicos ou grãos de aleurona.
Na maioria das células vegetais existe um ou mais compartimentos chamados vacúolos, limi-
tados por membranas (Fig. 1.6). Segundo o tipo celular, no total representam entre 10 e 90% do
volume do citoplasma. Quando são muito volumosos, o citosol fica reduzido a uma fina camada
por baixo da membrana plasmática. Existem dúvidas sobre sua origem, mas acredita-se y_ue se
\ formam p~la fusão entre si de vesículas surgidas do complexo de Golgi. As funçõ~s dos V<!.Ç_Úolos
~ sã9 vari<:tdas.Âlguns se comportam como lisossomQ_S, já que contêm enzimas hidrolíticas. Outr~s
servem de depósito para nutrientes e dejetos metabólicos. E, finalmente, outros guardam líquidos
~são usados para regular o volume e a turgência da célula.
Nos Caps. 3-30, 3-31e18-21 estudaremos a pàrticipàção do complexo de Golgi na formação
da parede da célula vegetal.

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'

'•
As mitocôndrias
Energia celular I 8

8- 1. A maior parte da energia usada pela célula é fornecida pelo ATP


As células necessitam de energia para realizar quase todas as suas atividades, algumas das quais
estão ilustradas na Fig. 8.1. A energia é obtida de moléculas de ATP , as quais, apesar do espaço
insignificante que ocupam, disponibilizam uma grande quantidade de energia que pode ser facil-
mente utilizada tão logo e onde for necessária. A energia encontra-se depositada nas ligações
químicas entre os fosfatos do A1'P - ligações de alta energia - embora possa ser utilizada ape-
nas a que envolve o fosfato terminal (Figs. 2.3 e 8.2). Assim, quando o ATP se hidrolisa, junta-
mente.com a liberação de energia é gerado um ADP..--e um fosfato (Fig. 8.3) . Como vemos , o ADP
se comporta como uma pequena "bateria descarregada", que ao ser carregada pela ligação de um
fosfato se converte em ATP, a "bateria carregada''.
As usinas geradoras de moléculas de ATP são as mitocôndrias, que Q!Rtam a energia deposita-
da nas ligaçQes covaLe tes das m.oléculas do ~ali_mentos e transferem -n a ~P. Uma vez forma-
do, o ,t\TP sai da mitocôndria e se difunde pela célula, de modo que a sua energia pode ser usada
para as distintas atividades celulares. Quando a energia do ATP é removida, o_j\j)P é reconstitu-
ído e reingressa nas mitocôndrias para receber uma nova "carga" de energia.
As células têm uma enorme quantidade de mitocôndrias, cada uma das quais produz inúmeras
moléculas de ATP. Estas, como as mitocôndrias, se localizam próximo dos sítios de consumo.

8-2. A energia é retirada dos alimentos


A energia contida nos alimentos provém, em última instância, do sol. Nas plantas, a partir do
C0 2 e da H20, a luz solar dá lugar a uma série de reações que - além de produzir 0 2 - conver-
tem a energia luminosa em energia química, que fica depositada nas ligações covalentes das mo-

FUNÇÕES DAS CÉ LULAS QUE EXIGEM ENERGIA


MITOSE - MEIOSE
MOTILIDADE - CONTRAÇÃO
BIOSSÍNTESE DE
MATERIAIS CELULARES
TRANSPORTE AT IVO
TRANSMISSÃO DE SINAIS
o o o
li li li
ENDOCITOSE - EXOCITOSE CH,-0-P-O-P-O-P-O-
I 1 1
o- o- o-
ADP+ P ATP

_)
02 /
CARBOIDRATOS
LIPÍDIOS

Fig. 8.1 Esquema que mostra a mitocôndria como a " usina" de


prod ução energética da célula. O ATP produzido é empregado, Fig. 8.2 Estrutura química da molécula de adénosina
entre outras, nas funções indicadas. trifosfato (A TP).
142 • AS MITOCÔNDRIAS

Fig. 8.3 Hidrólise e síntese do o o o o o o


ATP. li li li li li li
R- O-P-0-P - O- P- O- + H20 R-O-P-O-P - 0- + HO-P-0- + H•
1 1 1 1 1 1
o- o- o o- o- o-
ATP ADP Pi

Quadro 8.1 Diferenças entre os processos energéticos das plantas (fotossíntese)


e dos animais (fosforilação oxidativa)
Fotossíntese Fosforilação oxidativa

Nos cloroplastos Nas mitocôndrias


Reação endergônica: Reação exergônica:
Energia + C0 2 + H2 0-'> Alimentos + 02 Alimentos + 0 2 -'> Energia + C0 2 + Hp
Hidrolisa água Forma água
Libera 0 2 Libera C0 2
Só em presença de luz Independente da luz
Periódica Contínua

léculas dos vegetais (Cap. 9-4) (Quadro 8.1). A energia dos alimentos vegetais é retirada pelos
animais herbívoros que, por sua vez, servem de alim~nto - e fonte de energia - aos animais
carnívoros.
As substâncias alimentícias são classificadas em carboidratos, gorduras, proteínas, minerais e
H20, aos quais o 0 2 deve ser agregado. Os alimentos entram no organismo pelo sistema digestó-
rio ,* salvo o 0 2, que o faz pelo sistema respiratório. Uma: vez que a energia foi extraída dos ali-
mentos, ficam como produtos de dejetos C0 2 e Hp (Quadro 8.1), aos quais devem se somar algu-
mas substâncias nitrogenadas derivadas do catabolismo das proteínas.
Nem toda a energi a depositada nas ligações químicas das moléculas alimentícias é transferida
para o ATP, já que durante as sucessivas reações que conduzem a sua formação , parte desta ener-
gia se converte em calor. Devemos assinalar que, do ponto de vista termodinâmico, o calor gerado
no cenário celular, como conseqüência das reações químicas, também é um produto de dejeto. No
entanto, as células são muito eficientes em termos de aproveitamento de energia para produzir
trabalho, pois, comparadas com a maioria dos motores , a relação consumo de combustível/produ-
ção de trabalho revela cifras muito mais favoráveis para as células. Assim, nas células, 40% da
energia liberada são para atividades proveitosas e 60% se dissipam sob a forma de calor, enquanto
nos motores essas cifras podem ser da ordem de 20 e de 80%, respectivamente.
O melhor rendimento obtido pela célula é devido à degradação dos alimentos de forma gradu-
al, por meio de enzimas que ela mesma sintetiza. Isso permite que a energia liberada das molécu-
las alimentícias seja transferida para o ADP e se forme ATP com mínima geração de calor.

8-3. A energia das moléculas alimentícias é extraída mediante oxidações


A maior parte da energia contida nas moléculas dos alimentos é extraída através de uma suces-
são de oxidações , ao final das quais o oxigênio atmosférico se une ao hidrogênio e ao carbono
liberados por essas moléculas e forma 8z O e C02 , respectivamente. A graduação mencionada resulta
de tais oxidações, já que estas são cumpridas passo a passo e, em alguns desses passos, são libe-
radas pequenas porções de energia. Se as oxida õe~ãs> fossem_graduais, a en~g ia ~uímica se
libe~afia-su.bitameute_e se..ili~i~c omo calor.
Devemos lembrar que uma molécula se oxida não somente quando ganha oxigênio (0), mas
também quando perde hidrogênio (H). Como este pode se dissociar em um elétron (e_:) e um pró-

*N.R.T.: Conforme a Nomina Anatômica, embora alguns autores ainda prefiram "sistema digestivo''.
AS MITOCÔNDRIAS • 143

o Fig. 8.4 Estrutura química da


H li
nicotinamida adenina
0- ~H2
N
c
dinucleotídeo (NAD+) e da
flavina adenina dinucleotídeo
-o-~-O-wCH2 o
(FAD).
H H
H H
HO OH

l
O NH2
1
N~C.....C.-N,
1 11 °" CH
HC:::::N....-C-N'
1
-O-P
li
-O-Cci2
O H H
O H H

HO OH

NAD• FAD

ton (H+), em um sentido geral, toda a remoção do e - de qualquer átomo_Ol!...filOléculª--constitui


uma.r.eaç.ão_d~dação .
Se o e- removido provier de um átomo de H, o H ~ resultante pode perman~na ~o~cu la
oxidada (que então fica com uma carga positiva) ou pode ser removi d~_passar ~io aquoso.
os
Posteriormente, os e- e os H + podem voltar a unir-se -para compor novos átomos de H-, como,
ris
por @xemplo, quando são transferidos e - e H + ao 0 2 e se forma H 20.
Toda oxidação de um átomo ou de uma molécula está ligada à redução de outro átomo ou de
;e
outra molécula, que então ganham hidrogênio ou e-, ou perdem oxigênio.
ó-
Durante o processamento dos alimentos , em algumas reações de oxidação e redução, intervêm
li-
duas moléculas intermediárias importantes: as coenzimas nicotinamida adenina dinucleotídeo
u-
(NAD) e flavina adenina dinucleotídeo (FAD) (Fig. 8.4). Em sua forma oxidada, a primeira é
representada pela sigla NAD +, e, em sua forma reduzida, com a sigla NADH. A segunda, com as
da
siglas FAD e FADH 2 , respectivamente.
::r-
do
. O 8-4. Os alimentos são degradados por enzimas
zir
Quando os alimentos são ingeridos , os polissacarídeos, os lipídios e as proteínas que fazem
lu-
parte deles começam a ser divididos em moléculas cada vez menores pela ação de uma grande
da
variedade de enzimas. Estes processos ocorrem de forma tal que as moléculas transformadas por
!lto
algumas enzimas são modificadas em seguida por outras e assim consecutivamente. Deste modo,
são estabelecidas verdadeiras cadeias metabólicas degradativas que, nas primeiras etapas , são
fu-
distintas para cada tipo de alimento, mas nas etapas finais confluem em uma via metabólica co-
u-
mum.
A cisão enzimática dos alimentos ocorre em três cenários orgânicos: o tubo digestório, o cito-
sol e a mitocôndria (Fig. 8.5). __,,

e s- 8-5. A degradação dos alimentos começa no sistema digestório


mo
A primeira etapa da cisão enzimática dos alimentos ocorre na luz do tubo digestório, de modo
tlta
que é extracelular. Assim, mediante enzimas segregadas por diversas células desse tubo, os c~r­
be-
boidratos se degradam em monossacarídeos - especialmente glicose - , os lipídios (em sua maio-
1 e
ria triacilgliceróis) se convertem em ácidos graxos e glicerol, e as proteínas são degradadas em
aminoácidos (Fig. 8.5). Depois de absorvidas pelo epitélio intestinal, estas molêrnlas ingressam
nas
no sangue e por ele chegam às células.
lfÓ-
Para assegurar u_m abastecimento contínuo de energia, as células uardam no citosol earte da
~ · e_dos ácido_s graxos sob a forma de gUcogêniCil e de~ , respectivame~. No
Cap. 4-3 vimos que os hepatócitos e as células musculares estriadas podem conter importantes
reservas destas moléculas sob a forma de inclusões, de onde se mobilizam quando delas necessi-
144 • AS MITOCÔNDRIAS

Fig. 8.5 Esquema geral da GARBO·


i PROTEINAS 1 IDRATOS LIPÍDlõS'
degradação dos alimentos uma
1 5 :
vez incorporados ao organismo: [ ; ;
1Amm~aCldosi 1 Glic; se 1 ~cidos graxos
1) degradação enzimática no
tubo digestório; 2) glicólise no
citosol; 3) descarboxilação
oxidativa; 4) ciclo de Krebs; 5)
fosforilação oxidativa.
2

3[
[
~\
} ......

l . ._·········~~DH~1ruva:oo,
NAOH

.i ATP

I
o
""'2

l -···-· Ã ·-·-
:\....
1 .... • .~·

............ Oxalacetato Citrato

Maiato
"' i
Cis-aconitato

lsocitrato

4 \ Á. co,
•t-Cetoglutaraío
Fum arato
co,

l
NAOH desidrogenase

FADH2 l
L... Ubiquinona
l
Complexo b-c,
5
l
Citocromo e

l
Citocromo oxidase

l ATP

tam. Além disso, assinalamos que os adipócitos servem como depósito para grandes quantidades
de triacilgliceróis.

8-6. A glicólise ocorre no citosol


Mediante uma série de reações químicas reunidas com o nome de glicólise - na qual intervêm
10 enzimas consecutivas localizadas no citosol - cada molécula de glicose, contendo 6 átomos
de carbono, dá lugar a duas moléculas de piruvato, que consistem de 3 carbonos cada uma (Figs.
8.6 e 8.11). (__
No começo desse processo - que constitui a segunda etapa da degradação dos glicídios -
inverte-se a energia de dois ATP. No entanto, devido ao fato de que, de imediato, são_gerados
®ªtro, são ganhos doi s ATP, um por cacla 12ir_y_vato.
Ademais , uma part~erg!<i__ liberada durante a glicólise_não é_transferida c!!I.~~nte ao
b TP, mas promove a redução de dois NAD+ (um por cada piruvato). Mais adiante, veremos como,
nas mitocôndrias, a energia contida nos dois NADH surgidos da glicólise é transferida ao ATP
(Seção 8-18).
Voltando aos piruvatos, deixam o citosol e entram nas mitocôndrias.
AS MITOCÔNDRIAS • 145

Fig. 8.6 Etapas da glicólise e

-A-Tz-"p'~':?_',~·S-Ase-~:~ ~::
......
~
,,~~,_,_ f?~r -F°_'~·~~-3·º~"'_"ªs-e
<Hi ;:;~
r:~~H, OPOl -

~H bH
enzimas intervenientes.

H OH H OH OH H OH H
Glicose Glicose 5-losfato Frutose ô-fosfato Frutose 1,6-difosfato

o o o
li
C-o-
0 li
C- o·
0) li
e- oPo~ -
0 4
H
C= O
Foslogliceromutase 1 3-Fos'og!:ceratocin;;:se G cera deido!osfato 1
1 1
HCOPO~-
1
CH 1 0H
2-Fostoglicerato -
HCOH
1
CH ~ OPO }- 7 ATP
(X2)
s AOP
HCOH
1
CH 2 0POj-
NADH
des1drooenase

7 'SNAD
(x2)
5
HCOH
6
1
CH 1 0PO}"
Dihidroxiacetona
3-Fosfoglicsrato 1.3-0ilosfoglicerato Gliceraldeído
(x2) (x 2) 3-losfato (x 2) losla!o (x 2)
{x2)

o o
li li
Enolase c - 0- Piruvmocinase c-0-
1 1
C-O-P0~ -
11
CH,
~ 'Sl
:: ATP
C: O
1
CH,
(X2)

8-7. Nas mitocôndrias ocorre a descarboxilação oxidativa, o ciclo de


Krebs e a fosforilação oxidativa
Por ação de um complexo multienzimático chamado piruvato desidrogenase, presente nas
mitocôndrias, cada piruvato (3 C) se converte em uma acetila, que é uma molécula que contém 2
carbonos. A acetila se liga a uma coenzima - a coenzima A (CoA) - com a qual compõe a
acetil CoA (Figs. 8.7 e 8.11). O carbono do piruvato é removido junto com dois oxigênios, o que
produz C0 2 (Figs. 8.5, 8.10 e 8.11). O piruvato cede também um íon hidreto (H-), quer dizer, um
H+ e dois e- . Em conjunto, estas reações recebem o nome de descarboxilação oxidativa, que é a
terceira etapa da degradação dos carboidratos.
Durante a descarboxilação oxidativa é gerada energia suficiente para reduzir um NAD+ (que
recebe o H- mencionado no parágrafo anterior) , o qual se traduz na formação de .um..NA.l)H por
cada acetila produzida (Figs. 8 .5 e 8.11). Oportunamente, veremos como a energia depositada neste
NADH é transferida ao ATP.
Em seguida - sempre nas mitocôndrias - os átomos de carbono e hidrogênio da acetila (re-
cordemos que se acha unida à CoA) são oxidados e, por isso, gerados C0 2 e H20 . As oxidações
são graduais e em seu transcurso é liberada energia depositada nas ligações covalentes entre esses
átomos, a qual passa ao ATP. Ambos os processos - as oxidações e a formação de ATP - ocor-
rem em dois tempos; no primeiro é gerado C0 2 e no segundo Hp (Fig. 8.5).
O primeiro desses tempos - que representa a quarta etapa da degradação dos glicídios -
engloba uma sucessão de oxidações durante o chamado ciclo de Krebs (Figs. 8.5 e 8.11 ). Da energia
liberada nesta etapa, uma pequena fração é aproveitada.para gerar um ATP de forma direta (ainda

n
NH2
1

!O
N""C' N
1
CH::, _);._N,
N
P-
~CH

H
b H
.
O

H
li li
O
! I 1
O

CHz-O-P-O-P-O-CH2-C-C-C-N-(CHa)

H
1
O-
1
o-
CH3 H

1 1
CH 3 OH O
u
H
1
H
li
2 -C-N-(CH2) 2 -S-C-CH 3
li
O
O

ACETILA

o. HO O '
1' 1
O=P-o-
1
Fig. 8.7 Estrutura química da
OH acetilcoenzima A (acetil CoA).
146 • AS MITOCÔNDRIAS

que por via do GTP), porém a maior :Rarte é utilizada para reduzir 'três_NAD + - que então se
convertem em outros tantos NADH - e u~9, que passa a seu estado reduzido ou FADH 2 •
No segundo tempo , contemporâneo ao do ciclo de Krebs , os NADH e os FADH2 são oxidados
em outros pontos no começo de uma série de complexos moleculares que são agrupados com o
nome de cadeia transportadora de elétrons (ou cadeia respiratória) , de modo que os NADH e
os FADH2 voltam a se converter em NAD + e FAD, respectivamente. Quando ambos os dinucleotí-
deos_são oxidados, a en~rgia depositada em suas moléculas é liberada e transferida ao 6_DP que se
acha nas mitocôndrias , o qual, uma vez que se fosforila, se converte em ATP.
Esta etapa - quinta e última na degradação dos glicídios - dá lugar a oxidações acopladas a
fosforilações, recebendo , por isso, o nome de fosforilação oxidativa (Fig. 8.5).

8- 8. Os ácidos graxos são degradados nas mitocôndrias


Ao contrário da glicose, os ácidos graxos - provenientes dos alimentos ou da mobilização
das reservas de gordura nas células - não se degradam no citosol. Passam para as mitocôndrias,
onde uma série de enzimas específicas os desdobra até gerar entre oito e nove a~etilas cada um.
O processo degradativo é denominado ~-o x idação e compreende vários ciclos sucessivos, sete
quando se trata de um ácido gr<\XO de 16 carbonos e oito naquele de 18 carbonos. É que º-Il~ido
graxo_cede.umaacetilapor-Gido. Além disso, cada ciclo produz um NADH e uni E_ADH2 (Fig. 8.10).
A 13-oxidação dos ácidos graxos é realizada pelas enzimas acil CoA desidrogenase, enoil CoA
hidratase, hidroxiacil CoA desidrogenase e 13-cetoacil CoA tiolase. _
Da mesma forma que as acetilas derivadas da descarboxilação oxidativa do piruvato, as origi-
nárias da 13-oxidação dos ácidos graxos são cedidas à CoA e ingressam no ciclo de Krebs. Como
, vemos, as cadeias metabólicas que degradam os _glicídios-e-as-gorduras dão lugar a umá molécula
·' comum, a acetiLCoA. Antes dissemos que no ciclo de krebs, cada: acetil CoA gera um ATP, três
NADH e um FADH 2 , e que a energia contida nos NADH e FADH 2 é transferida ao ATP no final
da fosforilação oxidativa.
'- As gorduras fornecem mais energia que os carboidratos pela quantidade de NADH e FADH2
suplementares que são ger.ados durante a 13-oxidação dos ácidos graxos, proporcionalmente maior
que os produzidos pela glicose durante a glicólise e a descarboxilação oxidativa.

8- 9. Os primeiros produtos da degradação dos aminoácidos


são muito varia_dos
No que diz respeito aos aminoácidos, quando não são utilizados para ºsintetizar proteínas ou
outras moléculas e são necessários para gerar energia, convertem-se - por meio de enzimas es-
pecíficas distintas - alguns emlp~ , outros em~ e outros em moléculas intermediarias
do ciclo de Krebs (Fig. 8.5). - - -- - ----------

DESCRIÇÃO GERAL E ESTRUTURA DAS MITOCÔNDRIAS


º 8-1 O. As mitocôndrias são encontradas em todos os tipos celulares
As mitocôndrias são encontradas em todos os tipos celulares e constituem um dos exemplos de
integração morfofuncional mais admiráveis, já que fornecem a estrutura sobre ,a qual se assentam
inúmeras moléculas que participam nas reações que transferem a energia depositáda nos alimen-
tos para uma molécula extraordinariamente versátil como é o ATP.
-6s mitocôndrias são cilíndricas, embora sofram mudanças sutis de forma, derivadas de sua ati-
vidade. Medem 3 µm de comprimento e têm um diâmetro de 0,5 µm. Seu número varia segundo
o tipo celulai.'Nas células hepáticas , por exemplo, podem ser encontradas entre 1.000 e 2.000 mi-
tocôndrias (Fi g. 1.11 )\ê,stão situadas nas regiões das células onde a demanda de energia-é' maior;
assim, se deslocam de um lado para outro do citoplasma até as zonas necessitadas ·de energia. Os
microtúbulos e as proteínas motoras associadas intervêm _n~~~§_9~_camentoj (Cap. 5-8). Em
alguns tipos celulares, como os espermatozóides, os adipócitos e as células musculares estriadas,
as mitocôndrias se acham imobilizadas em lugares fixos.
AS MITOCÔNDRIAS • 147

Fig. 8.8 Eletromicrografia da


mitocôndria. Observar as cristas
(Cr), a matriz (Ma), o espaço
intermembranoso (EIM), a
membrana externa (ME) e a
membrana interna (MI).
207.000X. (Cortesia de G. E.
Palade.)

8-11. As mitocôndrias contam com duas membranas e dois compartimentos ·º


fA.s mitocôndrias têm duas membranas - uma interna e outra externa - que dão lugar a dois
compar1imentos, o e_sp.açQ intermembrana e a matriz mitoco~riaD(Figs. 8.8 e 8.9). Mencionare-
mos as características e as moléculas de maior interesse destes quatro componentes.
['.Ylatriz mitocondrial. A matriz mitocondrial contém numerosas moléculas, entre elas:
1) O complexo enzimático piruvato desidrogenase, responsável pela descarboxilação oxidati-
va (Fig. 8.11).
2) As enzimas evolvidas na [3-oxidação dos ácidos graxos (Fig. 8. lÕ).
3) As enzimas responsáveis pelo ciclo de Krebs, exceto a succinato desidrogenase (Fig. 8.11).
4) A coenzima A (CoA), a coenzima NAD +, ADP, fosfato, 0 2 etc.
5) Grânulos de diferentes tamanhos, compostos principalmente por Ca2 + (Fig. 8.9).
6) Várias cópias de um DNA circular (Seção 8-26) (Figs. 8.9, 8.16 e 8.18).

~--------- DNA

~--- ATP sintase

Fig. 8.9 Esquema tridimensional


de uma mitocôndria cortada
longitudinalmente. As cristas
aparecem cobertas de moléculas
de ATP sintase.
148 • AS MITOCÔNDRIAS

7) Treze tipos de RNAm, sintetizados a partir de outros tantos genes desse DNA.
8) Dois tipos de RNAr, que formam ribossomas parecidos com os citosólicos (Fig. 8.9).
9) Vinte e dois tipos de RNAt para os vinte aminoácidos. ,
1
Membrana interna. A membrana interna desenvolve pregueamentos para a matriz que dão
lugar às chamadas cristas mitocondriais, f~ com o objetivo de aumentar a superfície da
membranal ü número e a forma das cristas variam nos distintos tipos celulares.
mem~ana. int.erna das mitocôndria§}presenta um alto grau de especialização e as duas faces
de sua d1112la camada lipídica exibem uma acentuada assimetria. Nel se localizam, entre outros,
os seguintes elementos:
1) Um conjunto de l@léqil-ªLq_ue. compõem_a cadeia transportadora de elétrons (ou cadeia
respiratória) (Figs. 8.5, 8.10 e 8.12). Existem inúmeras cópias destes conjuntos no plano dá dupla
camada lipídica. Cada um é composto de quatro complexos protéicos relativamente grandes, cha-
mados NADH desidrogenase (I), succinato desidrogenase (II), b-c1 (III) e citocromo oxidase
(IV), entre os quais se encontram dois transportadores de elétrons pequenos, denominados ubi-
quinona e citocromo !SJ
Devemos assinalar que a succinato desidrogenase é uma das enzimas do ciclo de Krebs e que
funciona associada a outra proteína da membrana mitocondrial interna, a coenzima FAD (Figs.
8.5 e 8.11). Além disso, que o citocromo c não é uma proteína intrínseca desta membrana e sim
uma proteína periférica que aponta para o espaço intermembrana (Fig. 8.1 O), e que a ubiquinona
é uma molécula não-protéica que pode se alojar na zona apolar da dupla camada lipídica graças a
sua cadeia de 10 isoprenos, que é hidrófoba (Caps. 2-7 e 3-2) (Fig. 2.24).
@ A ATP sintas~ que é um complexo protéico localizado nas imediações da cadeia transpor-
tadora de elétrons (Figs. 8.1 Oe 8.12), apresenta dois setores, um transmembrana (porção F 0 ), que
tem um túnel para a passagem de H+, e outro orientado para a matriz mitocondrial (porção F)
(Fig. 8.13). Este último ca~.f_ormaçãQde ATP a partir do ADP e fosfato, ou seja, é o respon-
sável pelas fosforilações às quais se refere a expressão "fosfodlação oxidativa". A origem da energia
requerida pela porção F 1 da ATP sintase, para que se possam concretizar essas fosforilações, será
analisada mais adiante.
3) Um fosfolipídio duplo - o difosfatidilglicerol ou c~lustrado na Fig. 2.17 - que
impede a passagem de qualquer soluto através da dupla camada lipídica, exceto 0 2 , C0 2 , H2 0,
NH3 e ácidos graxos.

Membrana Membrana
CITOSOL externa interna

Fig. 8.10 Representação gráfica


da mitocôndria. Estão ilustradas ?i ?i C~ 2 ?i Pi + GDP GTP
as reações correspondentes à CH3-C-C-OH~CH3-c-CoA7 .::;- 2' 7 C02
descarboxilação oxidativa (em NAD+ NADH 3NAD+ 3NADH FAD

verde), ao ciclo de Krebs (em


vermelho), à [3-oxidação dos CoA
Ácid
ácidos graxos (em amarelo) e à grax
fosforilação oxidativa (em azul). NAD+ NADH FAD
A acetil CoA se deriva tanto da
descarboxilação oxidativa
quanto da í3-oxidação dos ácidos Pi
graxos e é o ponto de partida do
ciclo de Krebs. !, NADH
desidrogenase; II, Succinato
desidrogenase (e FAD); Ubi,
Ubiquitina; !II, Complexo b-c 1;
Cit, Citocromo c; IV, Citocromo
oxidase. 02
AS MITOCÔNDRIAS • 149

4) Diversos ca~i s iônicos que pe1mitem a passagem seletiva de íons e moléculas do espaço
intermembranoso para a matriz mitocondrial e em sentido inverso (Fig. 8.10).
Membrana externa. A membrana externa é permeável a todos os solutos existentes no cito-
sol, porém não é permeável às macromoléculas. Isso é porque a sua dupla camada lipídica possui
numerosas proteínas transmembrana de passagem múltipla chamadas_p_orinas, que formàm ·c.a-
nais aquosos pelos quais passam livremente ions e moléculas de até 5 kDa. Nas porinas, os seg-
mentos protéicos que cruzam a dupla camada lipídica exibem uma estrutura em folha dobrada 13.
Espaço intermembranoso. Dada a presença das p01inas na membrana externa, o conteúdo de
solutos no espaço intermembranoso é semelhante ao do citosol, embora tenham alguns elementos
próprios e uma ~levada concentração de H:r (Fig. 8.12).

FUNÇÕES DAS MITOCÔNDRIAS


8-12. A função principal das mitocôndrias é gerar ATP
Vimos que mediante a descarboxilação oxidativa, o ciclo de Krebs e a fosforilação oxidativa,
a mitocôndria traslada ao ADP - para formar ATP - a energia existente nas ligações químicas
das moléculas alimentícias.
Analisaremos estes três processos nas condições biológicas onde eles ocorrem, quer dizer, no
arcabouço estrutural fornecido pela mitocôndria.

8-13. A descarboxilação oxidativa do piruvato e a (3-oxidação dos ácidos


.. graxos ocorrem na matriz mitocondrial
Proveniente do citosol, o piruvato ingressa na matriz mitocondrial, onde por ação da piruvato
desidrogenase perde um carbono e se converte no grupo acetila da acetil CoA (Figs. 8.5, 8.7 , 8.10
e 8.11). Lembremos que nessa conversão, além de C0 2, é gerada energia suficiente para.formar
um NADH, de modo que, por cada molécula de glicose, originam-se_ dois desses nucleotídeos.
;--Às acetilas geradas a partir dos piruvatos devem se somar os derivados da 13-oxidação dos áci-
dos graxos e do metabolismo de alguns aminoácidos (Figs. 8.5 e 8. 10).
l,, Qualquer que seja sua origem, o grupo ~eti!a de cada acetil CoA ingressa no ciclo de Krebs. Isto
ocorre quando ele se combina com uma molécula de 4 carbonos - o ácido oxalacético - com o
qual f01ma uma molécula de 6 carbonos chamada ácido cítrico, que dá início e nome ao ciclo.

8-14. As reações do ciclo de Krebs ocorrem na matriz mitocondrial


Como mostra a Fig. 8.11, o ciclo de Krebs (também chamado ciclo do ácido cítrico ou ciclo
dos ácidos tricarboxílicos) compreende uma série de nove reações químicas mediadas por outras
tantas enzimas específicas. Estas atuam seqüencialmente e fazem-no de tal forma que o último de
seus produtos volta a ser o ácido oxalacético, o qual, ao combinar-se com o grupo acetila de outra
acetil CoA, gera um novo ácido cítrico. Com esta molécula, inicia-se outro ciclo de Krebs e assim
sucessivamente enquanto houver 0 2 e acetila disponíveis.
A___cada~ump.ri{ia-d0-eid.o-de_Ki:ebs~ · dos eis arbonos do ácido cítrico são liberados
com co2. Além disso, é gerada energia suficiente para fonnar um ATP, três_N-A.Q!I e. um FADM2.
Já que são necessárias duas voltas do ciclo de Krebs para processar as duas acetilas;,ien-ya~
~ggcólise de uma molécula de glicose, cada um destes monossacarídeos dá lugar a dois ATP,
s{is NADH e dois FADH2J Devemos lembrar que o ATP se forma a partir do GTP, que é o nucle-
osfaeu1:rifosfato surgido do ciclo.
Como podemos ver na Fig. 8.11, a enzima do ciclo de Krebs encarregada de transferir o H2 ao
FAD é a succinato desidro_gwase (vimos que a enzima e a coenzima se localizam na membrana
mitocondrial interna).
Na mesma figura podemos observar que juntamente ao primeiro e ao terceiro NADH surgidos
do ciclo de Krebs aparecem outros H+, pois os substratos oxidados, ao contrário do que acontece
na glicólise, na descarboxilação oxidativa e na formação do segundo NADH oriundo do ciclo de
Krebs, cedem um H2 em lugar de um H- .
150 • AS MITOCÔNDRIAS j
Fig. 8.11 A descarboxilação CH 3 - CQ - COOH Ácido pirúvico
oxidativa e o ciclo de Krebs (ou
ciclo do ácido cítrico) nas NAD'~/ CoA
mitocôndrias. Estão NADH- J Piruvato desidrogenase
representadas as reações, as
enzimas que intervêm e os eH 3- e o - s- e o A Acetil CoA + e0 2
produtos de ambos os processos. NADH H·
COOH
1 COOH
C= O 1
1 Citrato CH 2
CH 2 sintase 1 + CoA
1 HO - C-COOH
COO H 1 ~ conitase
Ácido ?H 2 ~ H2 0
oxalacético COOH COO H
1
Ácido cítrico CH 2
1
C-COOH Ácido aconítico
li
HC
1
COOH

JAconitase
COOH~ H2 0
1
CH 2
1 .
HC- COOH Ácido isocítrico
C0 2 1
HOCH
1
COO H
NAD '
lsocitrato
desidrogenase

NADH W

Succinil CoA Ácido a -cetoglutárico

As moléculas de C02 formadas durante a descarboxilação oxidativa e o ciclo de Krebs passam


ao citosol, deste ao espaço extracelular, e, finalmente, ao sangue, que as transporta aos pulmões
para sua eliminação.

8-15. As oxidações da fosforilação oxidativa ocorrem na


membrana interna da mitocôndria
,
A energia contida nos NADH e no·FADH? formado s durante o ciclo de Krebs se transfere ao
ATP depoi s de uma série de processos que co~eçam com a oxidação Cle ambos os dinucleotídeos.
Os átomos de hidrogênio liberados dos NADH e do FADH 2, como conseqüência de ambas as
oxidações, se dissociam em H+ e e-, do modo expresso nas seguintes equações:
NADH ~ NAD+ + l .H+ + 2 e-

FADH2 ~ FAD + 2 H+ + 2 e-
É importante assinalar que os e- surgidos destes processos possuem um elevado potencial de
transferência, quer dizer, uma grande quantidade de energia. Assim, ingressam na cadeia trans·
portadora de elétrons, cujos componentes foram enumerados quando descrevemos a membrana
mitocondrial interna (Fig. 8.12).

'
AS MITOCÔNDRIAS • 151

MAT RIZ MITOCONDRIAL Fig. 8.12 Um setor da


mitocôndria que mostra os
complexos protéicos integrantes
da cadeia transportadora de
elétrons (ou cadeia respiratória)
e a ATP sintase. ! , NADH
desidrogenase; II, Succinato
desidi·ogenase (e FAD) ; !II,
Complexo b-c,; IV, Citocromo
oxidase.

Tendo em vista que cada componente da cadeia possui uma afinidade maior pelos e- do que
seu predecessor, os e- fluem por ela na seguinte ordem:
Para os e- cedidos pelo NADH, o ponto de entrada é a NADH desidrogenase (complexo 1).
Desta passam à ubiquinona, que os transfere ao complexo b-c 1 (complexo III). Os e- deixam este
complexo e ingressam no citocromo c, do qual passam ao último elo da cadeia, a citocromo oxi-
dase (complexo IV). Durante este percurso, os e- consomem a maior parte de sua energia - já
veremos por quê- e ao concluí-lo retomam à matriz mitocondrial (Fig. 8.12).
Por sua vez, os e- cedidos pelo FADH 2 têm como ponto de entrada a succinato desidrogenase
(complexo II), que os transfere à ubiquinona, a partir da qual fluem pelos elos restantes da cadeia
na mesl1ffi ordem em que o fazem os e- cedidos pelo NADH.
O potencial de transferência dos e- vai diminuindo nas sucessivas reações de oxidorredução
que ocorrem ao longo da cadeia respiratória, de modo que, em cada etapa, os e- passam a um
estado de menor energia, que é bem reduzida quando os e- abandonam o último elo da cadeia.
A energia__cedida pelos_e::: é utilizadá para trªn§.Portar os_H + (procedentes dos NADH e dos
FADH 2 oxidados) da matriz mitocondrial para o espaço inte rIE~mbran~o (Fig. 8.12). A energia
é necessária porque este transporte é ativo, já que os H+ são transferidos de um meio em que se
acham menos concentrados para outro em que sua concentração é maior. O mecanismo que toma
possível a passagem dos H + não foi determinado _ainda. Somente sabemos que os H+ passam atra-
vés dos complexos principais da cadeia respiratória - ver a Fig. 8.12 - que atuariam como ver-
dadeiras bombas de H + (Cap. 3-25).
A existência de um gradiente de _ç; on ~entração_Q e H + (o gradiente de pH) entre ambos os lados
da membrana mitocondrial interna é acompanhada por um gradiente de voltagem ou potencial
elétrico (Cap. 3-11 ), bem mais positivo na face da membrana voltada para o espaço intermembra-
noso. O gradiente eletroquímico derivado da soma de ambas as forças se traduz na energia - cha-
mada protonicomotora - que impulsiona os H+ a regressar à matriz mitocondri~l , agora por
transpmte_pas_sivo. Os H+ retomam pelo'túnel da ATP sintase (Figs. 8.10, 8.12 e 8.13).
Em síntese, à medida que a energia fornecida pelos e- é utilizada para transferir os H + para o
espaço intermembranoso, ela é absorvida pelos próprios H+, que a retêm como energia protonico-
motora.

F,
MATR IZ MITOCONDRIAL

Fig. 8.13 Representação da ATP sintase na membrana mitocondrial intern a.

'
152 • AS MITOCÔNDRIAS

Fig. 8.14 Modo como atua a CITOSOL MITOCÔNDR IA


lançadeira de glicerol 3-fosfato
para transportar à mitocôndria os Diidroxiacetona 3-fosfato Diidroxiacetona 3-fosfato

elétrons dos NADH gerados


durante a glicólise. Glicerol 3-fosfato
desidrogenase
~ NADH W Glicerol 3-fosfato
desidrogenase
NAD+

Glicerol 3-fosfato --------r ---• Glicerol 3-fosfato

8-16. A fosforilação é mediada pela ATP sintase


Na Seção 8-11 , dissemos que a ATP sintase é composta por duas unidades com localizações e
funções diferentes. Uma atravessa a dupla camada lipídica (porção transmembrana ou F0) e a outra
é voltada para a matriz mitocondrial (porção F 1) (Fig. 8.13). A ~ç_ão F0 fo1ma um túnel que per-
mi_t_e 9 regresso dos H+ à matriz mitocondrial, enquanto a porção F 1 é responsável pela fosforila-
ção, quer dizer, catalisa a síntese de ATP a partir de ADP e P. Como vemos, o regresso dos H+ e
a síntese de ATP, embora sejam processos acoplados, são cumpridos em dois lugares diferentes
1-
da A TP sintase.
A energia necessária para ·a síntese de A TP é proveniente da energia protonicomotora contida
L nos H+, que a vão perdendo à medida que regressam para a matriz mitocondrial.
Em síntese, a ATP sintase se comporta como uma turbina que converte um tipo de energia (a
protonicomotora, derivada do gradiente eletroquímico dos H+) em outra mais proveitosa para a
célula, a energia química depositada entre o segundo e o terceiro fosfato de ATP.
São gerados aproximadamente 2,5 ATP por cada NADH processado e 1,5 por cada FADH 2•
O ATP sai para o citosol por um contratransportador passivo ·localizado na membrana mito-
condrial interna, a ATP-ADP translocase (Fig. 8.10). Por cada ATP que a atravessa, entra um
ADP na matriz mitocondrial.
A ATP sintase pode também se chamar A TPase, pois é capaz de hidrolisar ATP (a ADP e P)
e com a energia liberada bombear H+ para o espaço intermembranoso através da porção F 0 • No
entanto, recebe o nome de ATP sintase porque, na matriz mitocondrial, o quociente ATP/ADP
normalmente é inferior a unidade, o que leva à síntese e não à hidrólise do ATP.

8-17. Os H+ e os e- se combinam com o oxigênio atmosférico para


formar água
Cabe agora indagar sobre o destino dos e- , os quais, depois de perder uma parte substancial de
sua energia, abandonam a cadeia-respirntória e_r_egressam à matriz mitocondrial. Combinam-se
com os H+ vindos do espaço intermembranoso e com o 0 2 proveniente da atmosfera, o que dá
lugar à formação de Hp (Figs. 8.10 e 8.12). A atração dos e- pelo 0 2 deve-se ao fato de possuir
uma grande afinidade por este, maior que aquela pela citocromo oxidase, lugar por onde saem da
cadeia respiratória. Com a formação de H2 0 culmina a fosforilação oxidativa.
São necessários 4 e- e 4 H+ para cadà 0 2 para que se produzam 2 moléculas de H2 0 , que é um
dos produtos finais do metaboli smo (o outro é o C0 2). A Hp passa da mitocôndria ao citosol,
onde pode ficar retida ou sair para o espaço extracelular.

8-18. Os NADH gerados durante a glicólise não ingressam nas mitocôndrias


Até agora temos olhado de soslaio o destino dos NADH gerados durante a glicólise (Seção
8-6) (Fig. 8.6). Ao contrário dos NADH formados nas mitocôndrias, que rendem 2,5 ATP cada
um, os da glicólise às vezes geram 1,5 ATP e às vezes 2,5. O menor rendimento energético de- e
vido ao fato de o NADH citosólico não 12oder ingressar nJUillluc.ôndr-.ia,4l.i.s-to.q~mbrana
interna lhe é impermeável.
Para que o NADH citosólico possa ceder sua energia ao ATP, entram na mitocôndria somente
seus e- e H+, já que o próprio NADH não pode entrar. Isso é possível graças a certas moléculas
citosólicas que atuam como "lançadeiras". Assim, uma lançadeira, depois de captar os e- e um
AS MITOCÔNDRIAS • 153

C ITOSOL MITOCÔNDRIA Fig. 8.15 Modo como atua a


lançadeira de malato-aspartato
Maiato ------ -----+ Maiato
para transportar à mitocôndria os

Maiato
tr+ AD+ NAD+ ~
Maiato
elétrons dos NADH gerados
desidrogenase
~ NAD H H' NADH w-1 desidrogenase durante a glicólise.

Oxalacetato Oxalacetato

Aspartato
aminotransferase
j Aspartato
aminotransferase

Aspartato +----- -------- As partato

H+ do NADH (mais outro H+do meio), os conduz à mitocôndria, onde os transfere a outra molé-
cula; depois retoma sem eles ao citosol e, por isso, fica disponível para uma nova operação.
Uma das lançadeiras é o_glicerol 3-fosfato, formado no citosol após a redução da diidroxiace-
tona 3-fosfato (Fig. 8.14). O glicerol 3-fosfato entra no espaço -intermembranoso e se coloca em
contat com a membrana mitocondrial interna, mais precisamente com o FAD, ao qual cede os
dois e- e os dois H+, quer dizer, a_molécula de hidrogênio (H 2) . Portanto, forma-se um_FADH2,
que como sabemos cede seus e- à ubiquinona. Na Seção 8-16 vimos que quando os e- ingressam
na cadeia respiratória pela ubiquinona dão lugar a 1,5 ATP em vez de 2,5.
Além disso, existem lançadeiras de malato-aspartato (Fig. 8. 15). Neste caso, os dois e- e o
H+ do NADH citosólico (mais outro H+ do meio) se reduzem a um oxaloacetato, que se converte
em maiato. Este ingressa na matriz mitocondrial e se reoxicfa como oxaloacetato. O H2 saído do
maiato é usado para reduzir um NAD+ a NADH (o H+ que sobra passa ao meio) que, como sabe-
mos , produz 3 ATP. O oxaloacetato mitocondrial, uma vez que não pode atravessar a membrana
interna da mitocôndria, para passar ao citosol transforma-se em aspartato que a atravessa. No ci-
tosol, o aspartato se reconverte em oxaloacetato, o que encerra o ciclo.

8-19. Na presença de 0 2 , cada molécula de glicose gera 30 ou 32 ATP


Para efetuarmos o cálculo da energia ganha em unidades de ATP ao final da oxidação de uma
molécula de glicose devemos somar a energia produzida no citosol àquela gerada na mitocôndria.
A glicólise gera 4 moléculas de ATP. Como gasta 2, nesta etapa há um ganho final d~ ~ ./\ TP
(Fig. 8.6). Porém, além disso, gera 2 NADH que por serem citosólicos produzem 1,5 ou 2,5 ATP
cada um, 3 ou 5 no total. Assim, o aporte da glicólise é de 5 ou 7 ATP, 2 gerados no citosol e 3 ou
5 na mitocôndria.
Os dois piruvatos derivados da glicólise entram na mitocôndria, onde, por descarboxilação
oxidativa, convertem-se em duas acetilas. O processo gera 2 NADH, um por cada piruvato. Con-
siderando-se que para cada NADH a fosforilação oxidativa produz 2,5 ATP, esta etapa rende 5
ATP
No ciclo de Krebs, cada acetila gera 1 ATP, 3 NADH e 1 FADH 2, e, por isso, ao final de duas
voltas necessárias para metabolizar as duas acetilas surgem 2 ATP, 6 NADH e 2 FADH2 • Como
por cada NADH a fosforilação oxidativa gera 2,5 ATP e por cada FADH 2, 1,5 ATP, aos 2 ATP
surgidos das duas voltas do ciclo de Krebs devem ser somados os 15 ATP fornecidos pelos 6 NADH
mais os 3 ATP fornecidos pelos 2 FADH 2 , o que perfaz um total de 20 ATP.
Somados aos 5 ou 7 ATP da glicólise e aos 5 ATP da descarboxilação oxidativa, o ganho de
energia por molécula de glicose é de 30 ou 32 ATP.
Compare-se essa produção com os exíguos 2 ATP gerados no citosol e teremos uma idéia da
importância da mitocôndria no fornecimento de energia para o funcionamento das células que
consomem oxigênio.
Com relação aos ácidos graxos, embora em sua degradação não existam processos equivalen-
tes à glicólise e à descarboxilação oxidativa (Fig. 8.5), eles fornecem mais energia do que a glico-
se, o que se deve aos NADH e aos FADH 2 suplementares produzidos durante a 13-oxidação de
suas cadeias.

...
154 • AS MITOCÔNDRIAS

8-20. Nas células musculares, o piruvato pode se converter em lactato


As células musculares, quando ultrapassam um determinado nível de atividade, esgotam o 0 2
atmosférico que lhes chega pelas hemácias; situação que é normal. Diante da falta de 0 2, o piru-
vato, em lugar de se converter no grupo acetil~a_cetil CoA) trªnsforma-se em lactato. ~ste pro-
cesso metabólico é conhecido com o nome de\rermentação láctica. Como é óbvio, o ciclo de Krebs
~~--

e a fosforilação oxidativa se omitem.


O lactato produzido nas células musculares passa ao sangue e chega ao fígado. Nos hepatóci-
tos - via piruvato - o lactato se converte em glicose, que utilizará a célula muscular se continu-
ar demandando energia.

8-21. Nas mitocôndrias das células da gordura parda, a energia gerada


pelas oxidações se dissipa na forma de calor
Se a energia protonicomotora dos H+ situados no espaço intermembranoso' não se resgatar
para formar ATP, os H+, ao voltar à matriz mitocondrial, da mesma forma se uniriam aos e- e ao
0 2 para formar H 20, porém a energia protonicomotora, ao final da reação, se converteria em ener- --
gia térmica, quer dizer, se dissiparia como calor. Isso é o que ocorre nas células adiposas da de-
nominada gordura parda, cujas mitocôndrias são incapazes de transferir a energia protonico-
DJ,Q.tor-a ao ATP. Na membrana interna destas mitocôndrias existe um transportador de H+ cha-
mado termogenina , o qual, por não ter a porção F 1 - quer dizer, a função enzimática da ATP
sintase - , permite o retorno dos H+ à matriz mitocondrial sem que sua energia seja aproveitada
para formar ATP. Como conseqüência, a energia protonicomotora, pela reação dos H+ com os
e- e o 0 2 atmosférico durante a formação de H20 , se dissipa como calor.
A gordura parda é um tecido que os recém-nascidos possuem na região interescapular. Se a
criança_nascer_em um meio muito frio , os ácidos graxos dos triacilgliceróis depositados nas célu-
las de gordurª Qarda degradam-se e geram calor no lugar de ATP. Como vemos, a gordura parda
pode ser vital no momento do nascimento, ao permitir uma rápida adaptação dos recém-nascidos
às baixas temperaturas.

8-22. As mitocôndrias desempenham outras funções


J Remoção de Cai+ do citosol. Normalmente, esta função está a cargo do RE (Cap. 7-26). Não
obstante, quando a concentração do Ca2+ aumenta no citosol a níveis perigosos para a célula, en-
tra em ação uma Ca2 + -ATPase localizada na membrana interna das mitocôndrias que, ao bombear
o Ca2 + para a matriz mitocondrial, o retira do citosol.

--
Síntese de aminoácidos. A partir de dete1minadas moléculas intermediárias do ciclo de Krebs,
nas mitocôndrias dos hepatócitos ocorrem algumas etapas metabólicas que levam à síntese de vários
aminoácidos.
" Síntese de esteróides. Em algumas células do córtex d?s s_up_ra-renaj§, dos ovái:ios_e dos testí-
culos, a mitocôndria participa da síntese de diversos esteróiaes (funç,ão esteroidogênica). Em pri-
meiro lugar, o colesterol captado pelas células é transportado para a mitocôndria, onde uma enzi-
ma, localizada na membrana mitocondrial interna, converte-o etnpregnenolona. Esta sai da mi-
tocôndria e entra no RE (Cap. 7-27), onde continua seu metabolismo mediante diversas enzimas
que atuam seqüencialmente. No caso do córtex das supra-renais, dão lugar à desoxicorticostero-
na, ao desoxicortisol e ao andrógeno androstenodiona. Os dois primeiros esteróides, depois de
abandonar o RE, regressam à mitocôndria, onde a 1113-hidroxilase converte a desoxicorticostero-
na em corticosterona e o desoxicortisol em cortisol. Estes glicocorticóides são produzidos nas
células da zona fasciculada do córtex das supra-renais. Posteriormente, no citoplasma das células
da zona glomerular, por ação da 18-hidroxilase e da 18-hidroxiesteróide oxidase, a corticosterona
se converte no mineralocorticóide aldosterona. A maior parte das etapas metabólicas menciona-
das são oxidações e, em seu transcurso, uma família de citocromos presentes na mitocôndria -
os citocromos P450 - atuam como receptores de e- .
Morte celular. No Cap. 22-4, analisamos a participação da mitocôndria na morte celular pro-
gramada.
AS MITOCÔNDRIAS • 155

REPRODUÇÃO DAS MITOCÔNDRIAS


8-23. As mitocôndrias se reprodu zem para duplicar seu número antes de
cada divisão ce lular e para substituir as que desaparecem
.
Nas células que não se multiplicam ou que têm interfases prolongadas , as mitocôndrias enve-
lhecem e são degradadas por fagolisossomos (Cap. 7-35); no entanto , seu número se mantém
estável porque se formam outras mitocôndrias. Além disso, antes que as células se dividam, to-
dos seus componentes se duplicam, inclusive as mitocôndrias. Em segu ida, descreveremos o
mecanismo que torna possível às mitocôndrias serem fabricadas em ambas as situações de de-
manda.
A reprodução das mitocôndrias não ocone como conseqüência de um encaixe espontâneo dos
componentes que as compõem e sim pela divisão de mitocôndrias preexistentes, para a qual pre-
viamente duplicam o seu tamanho. Esse processo é denominado f~são binária. Na Fig. 8.16 po-
demos observar as etapas de crescimento e de divisão mitocondrial.
A divisão das mitocôndrias ocone durante todo o ciclo celular, tanto na interfase como na mitose.
Além disso, nem todas as mitocôndrias se multiplicam e, por isso, algumas devem se dividir, re-
petidas vezes, no curso de um mesmo ciclo para compensar a falta de divisão por parte de outras.

8-24. Os fosfolipídios das membranas mitocondriais são


fornecidos pela membrana do RE
A gênese de novas mitocôndrias exige que seja duplicada a área de sua membrana interna e de
ua membrana externa, e para isso devem se somar novos fosfolipídios às suas duplas camadas
lipídicas. Da mesma forma como ocorre em outras membranas das células, os fosfolipídios são
fornecidos pela membrana do RE, onde são produzidos (Caps. 7-9 e 7-10).
Para extraí-los do RE, a mitocôndria recone a proteínas citosólicas chamadas intercambiadoras,
que os subtraem da membrana do retículo e os descarregam na monocamada citosólica da mem- :~
brana mitocondrial externa, do modo ilustrado na Fig. 8.1 7. U_ma parte dos fosfolipídios passa 1'
l .
p <!f~QÇ.amada oposta graças a movimentos_def/ip-flop (Cap. 3-3 ). Finalmente, o transpasse "'
de fosfolipídios da membrana externa para a membrana interna ocone mediante pontos. de conta-
to criado~.entre ambas as membranas para esta finalidade.
Alguns glicerofosfolipídios que chegam à membrana mitocondrial interna sofrem modifica-
ções. Por exemplo, se unem de dois a dois e formam difosfatidilglicerol (Seção 8-11 ).

[l- ~~ ~~
~~ lt~
n-

rv-
de
Membrana
~~

do retículo
~~
~~
"""'~
~ ~
==
~~
r ·\ IUI

~~
~,~'
l!fjj
~~
~~
~~
=- =
Membrana
mitocondrial

J
endoplasmático CITOSOL externa

~~ ~ ~'ªª
ro-
~~ ~~
I~ • ~~
ma
na- N 11
1
Proteína intercambiadora
~~
%
"descarregada"

Fig. 8.17 Transferência de fosfo lipídios da dupla camada lipídica do retículo


rro- endoplasmático para a dupl a camada lipídica da membrana mitocondrial
Fig. 8.16 Reprodução das mitocôndrias. externa.
156 • AS MITOCÔNDRIAS

8-25. Algumas proteínas mitocondriais são fabricadas na matriz


A maior parte das proteínas da mitocôndria provém do citosol, e outras poucas são produzidas
no território da própria organela, que conta com os recursos para elaborá-las.
A mitocôndria possui várias unidades idênticas de um DNA circular, a partir do qual são trans-
critos os genes de 13 RNAm (base para a síntese de outras tantas proteínas), de 22 tipos de RNAt
e de dois tipos de RNAr (um correspondente à subunidade maior dos ribossomas mitocondriais e
outro à subunidade menor). Todas estas moléculas encontram-se na matriz mitocondrial; as dos
DNA circulares estão aderidas à membrana interna da organela (Figs. 8.9 e 8.16).
Com os aminoácidos chegados do citosol, nos ribossomas mitocondriais são sintetizadas as
seguintes 13 proteínas, pertencentes, em sua maioria, à cadeia respiratória: sete subunidades do
complexo NADH desidrogenase, uma do complexo b-c 1, três do complexo citocromo oxidase e
duas subunidades da ATP sintase.

8-26. O DNA mitocondrial é diferente do DNA nuclear


O DNA mitocondrial apresenta as seguintes particularidades que o diferenciam do DNA nu-
clear (Fig. 8.18):
l) É circular e não possui histonas.
2) Tem uma única origem de repl icação (Cap. 17-3), na qual uma das cadeias-filhas começa a
ser sintetizada antes da outra e o faz a partir de um ponto diferente do empregado pela segunda.
3) É muito pequeno, pois possui 37 genes somente. Em quase todos os tipos celulares, a soma
dos DNA retirados de todas as mitocôndrias representa não mais de 1% do DNA nuclear.
4) Conta com uma quantidade pequena de seqüências não-gênicas, isto é, que não se transcre-
vem , e que às vezes são muito curtas.
5) Gera 22 tipos de RNAt, em lugar dos 31 que transcrevem o DNA do núcleo.
6) Os dois tipos de RNAr (12S e 16S) que codificam dão lugar a ribossomas com um coefici-
ente de sedimentação de 55S , inferior ao dos ribossomas das células procariontes (70S) e do cito-
sol (80S).
7) Em seu código genético existem 4 códons cujas instruções diferem das de seus pares do DNA
nuclear (Cap. 13-4). Trata-se dos códons AGA, AGG, AUA e UGA. No DNA nuclear, os dois
primeiros correspondem ao aminoácido arginina, enquanto no DNA mitocondrial se comportam
como códons de terminação. No DNA nuclear, o códon AUA determina a isoleucina, e no DNA
mitocondrial, a metionina. No DNA nuclear o códon UGA é um códon de terminação e no DNA
mitocondrial determina o triptofano.
Fig. 8.18 A. DNA circular da
8) São transcritas suas duas cadeias. Os genes dos 2 RNAr, de 14 RNAt e de 12 RNAm se
mitocôndria humana onde estão
representados os 37 genes localizam em uma das cadeias do DNA mitocondrial, enquanto os genes restantes corresponden-
presentes em suas duas cadeias. tes a 8 RNAt e a 1 RNAm se localizam na outra cadeia.
Estão assinalados os genes dos
22 RNAt (em vermelho) , dos 2
. RNAr (em marrom) e dps 13
RNAm. Estes últimos
correspondem a 2 subunidades
da ATP sintase (em laranja) , a 7
do complexo NADH
desidrogenase (em verde), a 1 do
complexo b-c 1 (em azul) e a 3 do
complexo citocromo oxidase Gln __ [~~t
.-
(em violeta). Pode-se ver
também a área onde se acha a
origem da replicação A:~a~
Cys~ Trp
(acinzentado). B. DNA
mitocondrial de uma célula de Se r Tyr )
rato, observado com a técnica de
extensão e de sombreamento l ys \ /

metálico. (Cortesia de B.
Stevens.) A ~sp
AS MITOCÔNDRIAS • 157

9) As moléculas de RNA que transcrevem o D A se processam enquanto se sintetizam.


O processamento corresponde à remoção de partes dos RNA.
10) Como assinalamos , a mitocôndria possui v~s....do mesmo D A e não duas
como o DNA nuclear. Devemos assinalar ainda que as mitocôndrias de qualquer indivíduo
são de origem materna, pois todas são provenientes dos ovócitos (Cap. 19-19).

8- 27. A síntese das proteínas mitocondriais necessita de uma


coordenação adequada
Embora a mitocôndria tenha DNA, RNAm, RNAt e ribossomas próprios, as proteínas
que fabrica são muito poucas, 13 no total. Por conseguinte, a maior parte das que necessita
para sua reprodução deve ser importada do citosol. Além disso , devido a essa dupla proce-
dência, é necessária uma perfeita coordenação entre as atividades dos genomas mitocondri-
al e nuclear, a fim de que todos os componentes da mitocôndria sejam produzidos nas pro-
porções adequadas.
As proteínas importadas são sintetizadas em ribossomas citosóli_f9s livres (não-associa-
dos ao RE). Entre as mais importantes encontram-se as enzimas do complexo piruvato de-
sidrogenase, as responsáveis pelo ciclo de K.rebs e pela [3 -oxidação dos ácidos graxos, mui-
tas das proteínas que participam da fosforilação oxidativa, os canais iônicos e as permeases
da membrana mitocondrial interna, a DNA polimerase, a RNA polimerase, as proteínas dos
ribossomas mitocondriais etc.

8-28 ... A incorporação de proteínas às membranas e aos compartimentos


mitocondriais é o resultado de um processo complexo
Conforme surgem ~os ribossomas, as proteínas mitocondriais 12roduzidaS-J10_citos.o lse
associam a chaperon~s da fªmília hsp70. Estas mantêm desdobradas as proteínas até que
cheguem à mitocôndria, a cujo corpo não poderiam se incorporar se chegassem pregueadas
(Cap. 4-5).
A passagem das proteínas através das membranas externa e interna da mitocôndria é um
processo complexo. Quando uma delas entra em contato com a membrana mitocondrial
externa, se desprende das chaperonas hsp70 citosólicas, atravessa ambas as membranas e se
associa a chaperon~ ligadas à_membrana mitocondrial interna. Estas chaperonas, que tam-
bém pertencem à família hsp70, atraem a pro_teína para o interior da mitocôndria por um
mecanismo que consome ATP, talvez da maneira mostrada na Fig. 8.19. Uma vez na matriz mi- Fig. 8.19 Entrada das proteínas
tocondrial, a proteína se dobra sem ajuda ou com assistência de uma chaperona da família hsp60 na mitocôndria por meio de
(Cap. 4-5). translócons das membranas
As proteínas se incorporam à mitocôndria por meio dos translócons denominados pelas siglas mitocondriais externa e interna e
ação das chaperonas hsp70 da
TOM e TIM (do inglês, translocase of the outer e of the inner mitochondrial membrane), presen-
matriz mitocondrial.
tes nas membranas mitocondriais externa e interna, respectivamente (Cap. 7-12). Como mostram
as Figs. 8.19 e 8.20, para que as proteínas possam ingressar é necessário que ambos os translócons
estejam juntos e suas luzes alinhadas , o que obriga as membranas externa e interna a se aproxima-
rem mutuamente.
Todas as proteínas importadas do citosol incluem na sua extremidade amina um peptídeo si-
~alizador (peptídeo sinal) que as conduz até a mitocôndria e que é reconhecido por um receptor
e§pecífico associado ao translócon externo (Caps. 4-4 e 16-17) (Quadro 4.1 e Fig. 8.20). Se o destino
da proteína for a matriz mitocondrial, apenas atravessa os translócons, perde o peptídeo sinaliza-
dor, e se libera em seu interior (o peptídeo sinalizador é cindido por uma protease da matriz) (Fig.
8.20). Ao contrário, as~~ destinadas às~branªs exteIDa e interna possuem si11_ais..1ldicio-
n.ais, distintos entre si, que retêm ambos os tipos de proteínas nas membranas correspondentes.

8-29. As mitocôndrias, provavelmente, derivam-se de bactérias aeróbicas


Vimos que as mitocôndrias se reproduzem podissão binária, como o fazem as bactérias. Esta
não é a única semelhança com os procariotas; assemelham-se, também, em suas formas e medidas
158 • AS MITOCÔNDRIAS

Fig. 8.20 Modo como um a Fixação ao - - - + Translocação - - - + Excisão do - -- • Pregueamento


TOM peptídeo sinalizador
proteína procedente do citosol
incorpora-se na matriz Proteína
mitocondrial.

111------~I

MATRIZ

e porque possuem vários componentes comuns. Tais semelhanças levaram a sugerir que as mito-
côndrias sejam um produto evolutivo de bactérias aeróbicas.
Outras teorias sustentam estas suposições. Assim, acredita-se que as primeiras células eucari-
ontes eram anaeróbicas e que quando a atmosfera terrestre se tomou rica em oxigênio incorpora-
ram em seus citoplasmas bactérias aeróbicas que, depois de sucessivas mudanças adaptativas ,
converteram-se nas mitocôndrias atuais. A simbiose permitiu as células eucariontes aproveitar o
oxigênio atmosférico, com o que começaram a produzir uma maior quantidade de energia a partir
da mesma quantidade de alimentos. Paralelamente, a membrana plasmática da célula eucarionte
ficou eximida de realizar processos energéticos e pôde se concentrar em outras atividades, como
controlar a transferência de solutos, possibilitar a entrada e a saída de macromoléculas, receber e
emitir sinais etc.

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Os cloroplastos
Energia celular II 9

9-1. Os plastídios são as organelas mais características da célula vegetal


Os plastídios são organelas especiais das células vegetais. Os mais comuns e de maior impor-
tância biológica são os cloroplastos (Fig. 1.6) que, juntamente com as mitocôndrias, constituem
as maquinarias bioquímicas que se encarregam de produzir as transf01mações energéticas neces-
sárias para manter as funções das células. No caso dos cloroplastos, eles captam a energia eletro-
magnética derivada da luz solar e a convertem em energia química por um processo chamado
fotossíntese. Depois utilizam essa energia juntamente com o C0 2 atmosférico para sintetizar vá-
rios tipo~ de moléculas, algumas das quais servem de alimentos para as mesmas plantas e para os
organismos heterótrofos herbívoros (Cap. 1-4.) (Fig. 1.2).
Os cloroplastos caracterizam-se por possuir pigmentos (clorofilas, carotenóides) e, como disse-
mos, neles ocorre a fotossíntese. Por este processo produzem oxigênio e a maior parte da energia
química utilizada pelos organismos vivos. A vida se mantém graças aos cloroplastos. Sem eles não
existiriam plantas nem animais visto que os animais se alimentam dos cloroplastos produzidos pelos
vegetais. Desta fmma, pode-se dizer que cada molécula de oxigênio usada na respiração e cada áto-
mo de carbono presente em seus corpos passaram em algum momento por um cloroplasto.
Além dos cloroplastos existem outros plastídios com pigmentos - os chamados cromoplas-
tos. Nas pétalas, frutos e raízes de algumas plantas superiores há cromoplastos amarelos ou ala-
ranjados. Em geral, estes têm menor conteúdo de clorofila e , portanto, menor atividade
fotossintética. A cor vermelha do tomate maduro é devida à presença de cromoplastos cujo pig-
mento vermelho, chamado licopeno, pertence ao grupo dos carotenóides. Nas algas vermelhas
existem cromoplastos que contêm, além de clorofila a e carotenóides, um pigmento vermelho e
um pigmento azul, a ficoeritrina e a ficocianina, respectivamente. _
Outros plastídios são incolores. Denominam-se leucoplastos e são encontrados tanto nas célu-
las embrionárias como nas células dos órgãos das plantas que não recebem luz. Devemos assina-
lar que os plastídios das células dos cotilédones e dos esboços foliáceos do caule inicialmente são
incolores, porém mais tarde começam a acumular clorofila e adquirem a cor verde característica
dos cloroplastos. Todavia, as células diferenciadas possuem leucoplastos verdadeiros que nunca
se tomam verdes. Alguns leucoplastos - que recebem o nome de amiloplastos - produzem e
acumulam grânulos de amido. São desprovidos de ribossomas , tilacóides e pigmentos e são muito
abundantes nas células das raízes e dos tubérculos.

9-2. As características dos cloroplastos variam segundo


os tipos celulares
Os cloroplastos localizam-se, principalmente, nas células do mesófilo, tecido que é encontrado
nas folhas das plantas superiores e nas algas. Cada célula contém um número considerável de clo-
roplastos de forma esférica, ovóide ou discóide. Seu tamanho varia consideravelmente, porém,
em média, têm um diâmetro de 4 a 6 µm . Esta medida pode ser constante para cada tipo celular,
embora seja muito maior nas células poliplóides do que nas células diplóides . Em geral , nas plan-
tas que crescem à sombra, os cloroplastos são maiores e mais ricos em clorofila.
160 • OSCLOROPLASTOS

Fig. 9.1 Acima. Esquema


tridimensional do cloroplasto,
com seus principais
componentes. Abaixo. Esquema
tridimensional de dois grana e de
tilacóides que atravessam o
Membrana
estroma do cloroplasto. externa
Membrana
interna

Espaço tilacoidal

O número de cloroplastos se mantém relativamente constante nos diversos vegetais. As algas


possuem, às vezes, um único cloroplasto muito volumoso. Nas plantas superiores existem entre
20 e 40 por célula. Nas folhas de algumas espécies calculou-se que há cerca de 400.000 cloroplas-
tos por mm 2 • Se seu número for insuficiente, aumenta por divisão; se for excessivo, reduz-se por
degeneração.
Em cloroplastos isolados de espinafre foram verificadas alterações de forma e volume por ação
da luz. O volume diminui acentuadamente quando são iluminados, embora este efeito seja rever-
sível.

9-3. A estrutura dos cloroplastos inclui o envoltório, o estroma e os


tilacóides
O cloroplasto tem três componentes principais: o envoltório, o estroma e os tilacóides (Fig.
9.1).
O envoltório dos cloroplastos apresenta duas membranas - uma externa e outra interna -
pelas quais ocorrem os intercâmbios moleculares com o citosol. No cloroplasto maduro - ao
contrário do seu predecessor - não se observa continuidade entre a membrana interna e os tila-
cóides. Ambas as membranas são desprovidas de clorofila, porém têm cor amarela pela presença
de pigmentos carotenóides. Contêm unicamente 2% das proteínas do cloroplasto.
O estroma representa a maior parte do cloroplasto e nele se encontram imersos os tilacóides.
É composto, principalmente, por proteínas. Contém DNA e também RNA que intervêm na sínte-
se de algumas das proteínas estruturais e enzimáticas do cloroplasto. É no estroma que se produz
a fixação do co2 - quer dizer, a produção de carboidratos - assim como a síntese de alguns
ácidos graxos e proteínas.
Os tilacóides são sacos achatados agrupados como pilhas de moedas. Cada pilha de tilacóides
recebe o nome de granum (plural grana), e a cada um dos elementos que formam as pilhas dá-se
o nome de tilacóides dos grana ou intergrana (Figs. 9 .1 e 9 .2). Além disso, há tilacóides que atra-
OS CLOROPLASTOS • 161

Fig. 9.2 Eletromicrografia do


Parede secundária Membrana plasmática Parede celular cloroplas to. Trata-se de um corte
longitudinal que mostra os grana
e os tilacóides do estroma
(intergrana). (Cortesia de M.
Cresti e M. Wurtz.)

vessam o estroma e que conectam dois grana entre si, denominados tilacóides do estroma (Figs.
9.1 , 9.2 e 9.3). No entanto, a descrição anteriormente citada é enganosa, pois a rigor existem tila-
cóides pequenos - com um diâmetro médio de 1 µ,m (a maioria dos tilacóides dos grana) e tila-
cóides grandes e alongados, compartilhados por dois grana. Nestes , distinguem-se três setores:
duas ex1remidades que aparentam ser tilacóides dos grana e um segmento intermediário que cor-
responde ao tilacóide do estroma.
A parede dos tilacóides - chamada membrana do tilacóide - é uma dupla camada lipídica
repleta de proteínas e de outras moléculas, quase todas envolvidas nas reações químicas da fotos-
síntese. Esta parede separa os compartimentos dos tilacóides - ou seja, o espaço tilacoidal - do
estroma. Algumas evidências parecem indicar que, direta ou indiretamente, as luzes de todos os
tilacóides estão interconectadas, de modo que existiria apenas um espaço tilacoidal (Fig. 9.4).
Portanto, o clbroplasto teria três compartimentos: o intermembranoso (entre a membrana ex-
r terna e a membrana interna), o estroma (entre a membrana interna e a membrana do tilacóide) e o
espaço tilacoidal. Veremos que, do ponto de vista funcional , o espaço tilacoidal equivale à matriz
mitocondrial.

Fig. 9.3 Eletromicrografia do cloroplasto que mostra dois grana e os tilacóides do estroma que os
onectam. As setas indicam a cavidade do compartimento membranoso dos grana, ou seja, o espaço
tilacoidal. 240.000X. (Cortesia de I. Nir e D. C. Pease.)
162 • OS CLOROPLASTOS

Fig. 9.4 Esquema que ilustra a


Membrana
9
continuidade do espaço do tilacóide
ti lacoidal e como se encontra
separado do estroma.
f
Estroma
w

H
FOTOSSÍNTESE m

9- 4. Na fotossíntese a energia luminosa se converte em energia química


A fotossíntese é uma das funções biológicas fundamentais das células vegetais. Por meio da
clorofila contida nos cloroplastos, os vegetais verdes são capazes de absorver a energia que a luz
solar emite como fótons e transformá-la em energia química. Esta se acumula nas ligações quími-
cas entre os átomos das moléculas alimentícias que se formam com a ajuda do co2 atmosférico.
No Cap. 8-15 analisamos a fosforilação oxidativa que ocorre na mitocôndria, mediante a qual se
processa a energia contida nas substâncias alimentícias. A fotossíntese é, em certa medida, um
processo inverso, de modo que os cloroplastos e as mitocôndrias possuem muitas semelhanças
. estruturais e funcionais.
Na fotossíntese, a reação principal é:
n C0 2 + n Hp -7 luz-clorofila -7 (CHp) + n 0 2 ,
0
(1)

que consiste na combinação de C02e H20 para formar carboidratos com liberação de 0 2.
Calculou-se que cada molécula de C0 2 da atmosfera incorpora-se a um vegetal a cada 200 anos,
e que o 0 2 do ar é renovado pelas plantas a cada 2.000 anos. Sem plantas não existiria 0 2 na at-
mosfera terrestre e a vida seria quase impossível.
É importante assinalar que na reação (1) a Hp é o doador de H2 (e- e H+) e de 0 2, enquanto
co2atua como receptor de 8i·
Os carboidratos formados pela fotossíntese são saca1ideos solúveis que circulam pelos dife-
rentes tecidos da planta ou se acumulam como grãos de amido nos cloroplastos (Fig. 9.2) ou,
mai s freqüentemente, nos amiloplastos. Além disso, como resultado de diversas reações que en-
volvem a participação de diferentes sistemas enzimáticos, o material surgido pela fotossíntese pode
se converter - em geral fora dos plastídios - em um polissacarídeo estrutural ou em lipídios ou
proteínas da planta.

9-5. A clorofila é um pigmento capaz de ser excitado pela luz


A luz visível corresponde a uma pequena porção do espectro de radiação eletromagnética total
e compreende os comprimentos de onda de 400 a 700 nm. A energia contida nesses comprimen-
tos é transmitida mediante unidades denominadas fótons. Um fóton contém 1 quantum de ener-
gia. Isto é expresso pela equação de Max Planck no ano de 1900:

E= hc
'A. '

onde h é a constante de Planck (1 ,585 X 1034 cal/s), c é a velocidade da luz (3 X 10 10 cm/s) e À é


o comprimento de onda da radiação. Desta equação deduzimos que os fótons com comprimentos
de onda mais curtos têm maior energia.
Os pigmentos, como a clorofila, estão particularmente adaptados para ser excitados pela luz.
Assim , os fótons que absorvem a clorofila excitam certos elétrons que, ao se deslocar da órbita de
seus átomos, adquirem um nível de energia maior, ou seja, um elevado potencial de transferência.
Esta energia pode ser dissipada em forma de calor ou de radiação luminosa (fluorescência), ser
transferida de uma molécula a outra por ressonância, ou se converter em energia química. Na fo-
tossíntese predominam os dois últimos processos.
OS CLOROPLASTOS • 163

9-6. A fotossíntese compreende reações fotoquímicas e


reações na ausência de luz
A fotossíntese compreende uma série complexa de reações, algumas das quais ocorrem exclu-
sivamente na presença de luz e ocorrem na sua ausência (embora essas também possam ocorrer
na presença de luz). São chamadas, respectivamente, reações luminosas (ou fotoquímicas) e rea-
ções na ausência de luz.
Nas fases finais das reações fotoquímicas são formados NADPH (a partir de NADP+, e- e
H+) e ATP (a partir de ADP e fosfato). Ambos os processos imitam o que ocorre normalmente nas
mitocôndrias. Na fotossíntese, a formação de ATP é conhecida com o nome de fotofosforilação.
Devemos lembrar que na fosforilação oxidativa - nas mitocôndrias - o fluxo de elétrons se
desloca desde o NADH (ou o FADH2) até o 0 2 com produção de HzO (Cap. 8-17) . Na fotossínte-
se, ocorre o fenômeno oposto, pois os elétrons fluem da H20 - previamente dissociada em 0 2 ,
H+ e e- - até o NADPH.
As reações na ausência de luz completam o ciclo fotossintético. A energia contida nos ATP e
nos NADPH é aproveitada pela célula vegetal para elaborar diversas moléculas alimentícias com
o co2extraído da atmosfera.

9-7. Existem vários tipos de clorofilas


As reações fotoquímicas ocorrem na membrana do ti_lacóide, cuja dupla camada lipídica con-
tém uma série de complexos protéicos transmembrana, alguns associados a pigmentos que são os
encarregados de capturar a energia luminosa do sol. Existem vários tipos , cada um deles capaz de
absorver"' uma gama pa1ticular de comprimento de onda do espectro luminoso.
Entre os pigmentos destacam-se as clorofilas, moléculas assimétricas que contêm
H 2C - CH CH 3
uma cabeça hidrófila integrada por quatro anéis pirrólicos unidos por um átomo de mag-
nésio e uma cauda hidrófila (fito!) ligada a um dos anéis (Fig. 9.5).
H,C CH 2 CH 3
Outros pigmentos presentes na membrana do tilacóide são os carotenóides (xanto-
filas e carotenos) (Fig. 9.5), que ficam ocultos pela cor verde da clorofila. Quando no
outono esta diminui, podem ser vistas as cores amarela, alaranjada e ve1melha dos ca- H, C CH, r-'XCH,
rotenóides. )--<_ 'CH 3
Existem dois tipos de clorofila identificados com as letras a e b. Na clorofila b, um CH 3 CH
/
grupo de-CHO substitui um-CH 3 da clorofila a (marcado com um círculo na Fig. 9.5). HC

Por outro lado, há vá1ios tipos de clorofila a, caracterizados por suas composições quí-
micas, seus espectros de absorção da luz e suas funções , três dos quais se destacam: um
"'
/
HC"'-._
C-CH,

muito abundante, encarregado de captar energia luminosa, e outros dois especiais - r


CH
CH /
menos numerosos - chamados P 680 e P 700 (P, pigmento; o número identifica o compri- 1
HC

mento de onda que cada pigmento absorve mais eficientemente). C-CH ,


1
CH 2 HC/
" c-cH 3

j ""'
CH, CH
9-8. Na membrana dos tilacóides encontram-se os complexos 1
CH, H~,

moleculares responsáveis pelas reações fotoquímicas 1


CH-CH 3
1
CH 2
Assim como na membrana interna das mitocôndrias há cadeias transportadoras de 1
CH 2
elétrons que dão lugar à fosforilação oxidativa, na membrana do tilacóide dos cloro- 1
CH i
plastos também há cadeias de complexos moleculares que aqui são responsáveis pe- 1
CH - CH,
las reações fotoquímicas. Cada uma das cadeias é composta pelos seguintes elos, men- 1
CH 2
cionados na ordem em que são ativados (Fig. 9.6). 1
CH,
Fotossistema II. É um complexo molecular com dois setores claramente definidos: 1
CH 2
a antena, que é o setor voltado para o estroma e se encarrega de captar a Illz, e o centro 1
CH-CH,
de reação, que é voltado para o espaço tilacoidal. A antena é comparada a um funil e 1
CH ,
sua parede se compõe de agregados de proteínas e pigmentos, especialmente de cloro-
fila a, clorofila b e carotenóides. Por sua vez, o centro de reação contém várias proteí- Clorofila a ~-Ca roteno

nas associadas a moléculas de clorofila do tipo P680 . Fig. 9.5 Estrutura química da clorofila a
Complexo b-f. Este complexo contém uma proteína de 17 kDa associada aos cito- (observar o grupo CH 3 com um círculo) e
cromos b e f, e uma proteína com um centro Fe-S. do j3-caroteno.
164 • OS CLOROPLASTOS

Fig. 9.6 Estrutura molecular da ESTROMA


membrana do tilacóide. A linha
espessa marca o fluxo de
elétrons através de uma cadeia
de complexos moleculares. A
energia luminosa é captada pelo
fotossistema II. Ocorre a fotólise
da Hp no interior do tilacóide e
os elétrons são transmitidos à
plastoquinona (PQ). Dali passam H+
ao complexo b-f e, em seguida, à
ESPAÇO TILACOIDAL
plastocianina (PC). Esta
transfere-os para o fotossistema
I, que absorve luz. Em seguida,
os elétrons são transportados
para a ferredoxina (Fd) e para a
Fotossistema 1. É um complexo molecular que, como o fotossistema II, possui uma antena
NADP redutase, que reduz o captadora de energia luminosa, integrada por proteínas, clorofila a, clorofila b e carotenóides além
NADP+ a NADPH. O acúmulo de um centro de reação, composto por proteínas e moléculas de clorofila do tipo P 700 •
de prótons (H+) no interior do NADP redutase. Este complexo reduz o NADP+ extraído do estroma e o converte em NA-
tilacóide cria um gradiente com DPH. Os H+ necessários para a redução pertencem ao estroma.
relação ao estroma, de modo que Como observamos na Fig. 9.6, entre estes complexos se encontram várias moléculas interme-
os H+ saem através da ATP diárias: 1) a plastoquinona, entre o fotossistema II e o cc::implexo b-f (equivale à ubiquinona das
sintase e ocorre a produção de mitocôndrias); 2) uma pequena proteína chamada de plastocianina, entre o complexo b-f e o fo-
ATP. (Cortesia de L. Bogorad;
tossistema 1 e 3) a ferredoxina, entre o fotossistema 1 e a NADP redutase.
modificado.)

9-9. A membrana dos tilacóides dispõe de ATP sintase


Nas imediações das cadeias responsáveis pelas reações fotoquímicas encontra-se a ATP sin-
tase que - como na mitocôndria - possui uma porção transmembrana F0 pela qual passam pró-
tons e uma porção F 1 que gera ATP a partir de ADP e fosfato (Cap. 8-16). A porção F 1 é voltada
para o estroma do cloroplasto (Fig. 9.6).

9-1 O. Os fótons excitam as clorofilas dos fotossistemas li e 1


Quando um fóton excita uma molécula de clorofila, um dos elétrons desta última é extraído de
sua órbita molecular para ser transferÍdo a outra de maior energia.
No caso das clorofilas situadas na antena do fotossistema II, a energia do elétron energizado é
transferida por ressonância a um dos elétrons da clorofila P680 , localizada, como vimos, no centro
de reação. O novo elétron energizado abandona o fotossistema II e passa ao seguinte elo da cadeia
de reações fotoquímicas , a plastoquinona. Enquanto isso, mediante uma reação química não mui-
to bem compreendida (na qual intervêm átomos de manganês), duas moléculas de H 20 situadas
no espaço tilacoidal são cindidas e geram 4 H+, 4 e- e uma molécula de 0 2• Cada um destes elé-
trons passa ao centro de reação do fotossistema II e substitui o que saiu da clorofila P680 , transfe-
rido, como vimos, para a plastoquinona.
Em seguida, o e- passa da plastoquinona ao complexo b-f, onde parte de sua energia é utilizada
para transportar um H+ para o espaço tilacoidal de encontro ao gradiente eletroquímico (este H+
se soma aos gerados pela excisão da H 2 0). O e-, com um potencial energético menor, passa do
complexo b-f para a plastocianina e desta ao fotossistema 1. Para explicar seu destino, vejamos as
reações que acontecem no fotossistema 1.
Por ação da luz ocorrem processos equivalentes aos registrados no fotossistema II, com as se-
guintes particularidades: 1) o e- energizado no centro da reação corresponde à clorofila P700 (e
não a P680 ); 2) este e- é transferido para a ferredoxina (e não para a plastoquinona) e é substituído
pelo elétron de baixo potencial energético proveniente da plastocianina (e não da excisão de ~O).
O e- transferido para a ferredoxina, que como acabamos de ver foi revitalizado consideravel-
mente, deixa esta molécula transportadora e ingressa na NADP redutase onde parte de.sua energia
é utilizada para reduzir um NADP+ a NADPH na face da membrana do tilacóide voltada para o
estroma. Neste processo é utilizado um H+ extraído do estroma.
OS CLOROPLASTOS • 165

A última etapa das reações fotoquímicas corresponde à formação de ATP a partir de ADP e
fosfato , ou seja, à fotofosforilação. Esta ocorre na ATP sintase que, por sua porção F0 , permite o
traslado passivo dos H+, desde o espaço tilacoidal, para o estroma. Durante esta passagem, a ener-
gia protonicomotora contida nos H+ é cedida à porção F , da ATP sintase. Finalmente, a ATP sin-
tase utiliza a energia para sintetizar ATP (Fig. 9.6).
Por intermédio da fosforilação dos vegetais verdes pode ser produzida uma quantidade de ATP
30 vezes maior que a obtida nas suas mitocôndrias. Por outro lado, as células vegetais têm muito
mais cloroplastos que mitocôndrias.
São necessários oito fótons para liberar duas moléculas de 0 2 (mais 8 e- e 8 H+) da Hp. A
energia destes fótons , transferida para os e- , quando estes alcançam a NADP redutase, gera 2
NADPH, enquanto o gradiente de H+ - conseqüência também da energia cedida pelos elétrons
- possibilita a síntese de 3 ATP.

9-11. As reações na ausência de luz ocorrem no estroma do cloroplasto


Nas reações fotos sintéticas que ocorrem na ausência de luz, as moléculas da ATP e NADPH
- produzidas pelas reações fotoquímicas - proporcionam a energia necessária para sintetizar
carboidratos a partir de C0 2 e ~O. Tal síntese ocorre no estroma do cloroplasto mediante uma
série de reações químicas, agrupadas sob o nome de ciclo de Calvin ou ciclo C3, nas quais inter-
vêm várias enzimas localizadas no estroma.
Como podemos observar na Fig. 9.7, a reação inicial pela qual ingressam o C0 2 e a Hp no
ciclo de Calvin é catalisada pela enzima ribulose 1,5-difosfato carboxilase. Trata-se de uma enzi-
ma de grande tamanho (500 kDa) que se supõe representar, aproximadamente a metade das pro-
teínas do estroma.
Pela ação desta enzima, 6 ribuloses 1,5-difosfato (são pentoses) combinam-se com 6 C0 2 e
produzem 12 moléculas de 3-fosfoglicerato. Em seguida, estas 12 trioses são fosforiladas com
fosfatos fornecidos por outros tantos ATP, o que gera 12 moléculas de 1,3-difosfoglicerato. Cada
uma destas moléculas, de 3 carbonos, perde 1 fósforo e tem a capacidade de aceitar H+ e e- do
NADPH e, por isso, se converte em 3-fosfogliceraldeído. Duas das 12 moléculas de 3-
fosfogliceraldeído abandonam o ciclo e se conve1tem na matéria-prima a partir da qual - por
meio de enzimas específicas - são sintetizados os monossacarídeos, os ácidos graxos e os ami-
noácidos que formam as moléculas estruturais e alimentícias da célula vegetal. Por seu turno, as
dez moléculas de 3-fosfogliceraldeído restantes são reduzidas a 6 moléculas de ribulose 1,5-di-
fosfato. Estas são fosforiladas (com fosfatos fornecidos por outros tantos A TP) a 6 ribuloses 1,5-
difosfato, com as quais se inicia - enquanto haja C0 2 - outra volta do ciclo de Calvin.

H,c-o-®
HO-tH 3-Fosfoglicerato
t ooH

Ci
O, y ( J~~:
Ribulo H,t -o-©
carboxila ·
H,O 1-1,c- o-®
1-1,c- o-® HO-t H
t~o t 3-fosfogliceraldeído

Ribulose 1,5·
difosfato
H t-o H H/ ' O
1
HC - 0 11
H,t- o-© J
Ciclo que compreende
compostos e,, e, e,, e.. e,

H,C- OH
t =0
/ À "'-..,. Hexases e outros
carboidratos Fig. 9.7 Ciclo de Calvin (ou do
1
HC - O H
1 Ribulose 5-fosfato C3) da fotossíntese, no qual o
HC-O H
co2é reduzido e carboidratos
H.t- o-® são sintetizados.
166 • OS CLOROPLASTOS

9-12. A fotossíntese gera água, oxigênio e hexases


O balanço químico da fotossíntese é:

6 co2 + 128i0 ~ C6Hlp6 + 6 0 2 + 6Hp,


que representa um acúmulo de 686.000 calorias por mol. Esta energia é fornecida por 12 molécu-
las de NADPH e 18 de ATP, que contêm 750.000 calorias. Assim sendo, a eficiência do ciclo de
fo tossíntese chega a 90%.
Como vimos, os fótons absorvidos pela clorofila e por outros pigmentos são, primeiro, conver-
tidos em energia química na forma de ATP e NADPH. Durante esta fase fotoquímica a Hp perde
seu 0 2 , o qual é liberado para a atmosfera como um subproduto. A redução da C0 2 ocorre na au-
sência de luz (não necessariamente) , sempre que haja ATP e NADPH. Os produtos desta fase são
hexoses, a partir das quais, em outros lugares da célula, são gerados diversos tipos de carboidra-
tos , lipídios e proteínas.

9-13. Nas plantas tropicais ocorre um ciclo C4


O ciclo de Calvin ocorre nos vegetais superiores, porém em algumas células de plantas tropi-
cais existe um ciclo cujo produto não é o 3-fosfoglicerato, mas sim uma molécula de 4 carbonos,
o oxalacetato. Uma das primeiras reações deste ciclo consiste na ligação do C0 2 com uma molé-
cula de 3 carbonos, o fosfoenolpiruvato . A enzima atuante é a fosfoenolpiruvato carboxilase e o
produto é o citado oxalacetato. Este se converte em malato, que se dirige para as células da planta
que contam com o ciclo de Calvin. Nelas, o maiato perde um C0 2, que entra no ciclo de Calvin, e
se transforma em piruvato. Este composto de três carbonos retoma às primeiras células, onde se
converte em fosfoenolpiruvato e dá início a um novo ciclo C4 .

BIOGÊNESE DOS CLOROPLASTOS


9-14. Os plastídios se desenvolvem a partir de pró-plastídios
Os plastídios se desenvolvem a partir de estruturas precursoras chamadas pró-plastídios, que
se encontram nas células vegetais não diferenciadas. Segundo o tipo celular, os pró-plastídios se
convertem em leucoplastos - isentos de pigmentos - ou em cromoplastos, nos quais se encon-
tram os cloroplastos. O desenvolvimento destes últimos é ilustrado na Fig. 9.8.

o
®
~ Fase de
pró-plastídio
~

Fig. 9.8 Origem e


desenvolvimento dos plastídios
na presença da luz.
OS CLOROPLASTOS • 167

A primeira estrutura que aparece é o citado pró-plastídio, de forma discóide, com um diâmetro
de cerca de 1 µ,me uma parede integrada por duas membranas. Na presença de luz, a membrana
interna do pró-plastídio cresce e emite vesículas - na direção do estroma - que depois se trans-
formam em sacos achatados. Estes são os futuros tilacóides que, em algumas regiões, se empilham
estreitamente até formar os grana. No cloroplasta maduro , os tilacóides já não se acham ligados à
membrana, porém os grana ficam unidos entre si pelos tilacóides do estroma.
Se colocarmos uma planta em um meio pouco iluminado, ocorre um fenômeno denominado
estiolação, no qual as folhas perdem sua cor verde e as membranas dos tilacóides se desorgani-
zam. O agregado destas dá lugar aos corpos prolamelares, nos quais as membranas adquirem uma
disposição em forma de rede. Nas bordas destes corpos aparecem aderidas membranas de tilacói-
des jovens que são desprovidas de atividade fotossintética.
O cloroplasta, depois desta conversão dos tilacóides, muda seu nome para estioplasto. Quan-
do as plantas estioladas são expostas à luz, os tilacóides reaparecem e as membranas do material
prolamelar são utilizadas para sua organização.

9-15. O cloroplasta comporta-se como uma organela semi - autônoma


Do mesmo modo que as mitocôndrias, os pró-plastídios e os cloroplastos multiplicam-se por
fissão binária (Cap. 8-23), processo que exige crescimento de pró-plastídios e de cloroplastos
preexistentes, os quais devem duplicar o seu tamanho. Como é óbvio, este crescimento, o mesmo
que é experimentado pelos pró-plastídios em vias de se converter em cloroplastos maduros , exige
que sejam sintetizados os componentes protéicos normais da organela. Em tal síntese, intervêm
dois sistemas genéticos, um próprio do cloroplasta e o nuclear.
Os cioroplastos contêm DNA, RNA e os demais componentes que intervêm na síntese protéi-
ca. Todavia, a maioria de suas proteínas é proveniente do citosol, de modo que são codificadas
por genes nucleares. Como vemos, os cloroplastos são semi-autônomos e dependem da coopera-
ção de dois sistemas genéticos, um próprio e exclusivo da organela e outro pertencente a toda a
célula.
Os cloroplastos possuem um DNA circular de cerca de 45 µ,m de comprimento e em tomo de
135.000 pares de bases (é conhecida a seqüência da maioria de seus genes). Além disso, contêm
ribossomas pequenos que representam até 50% de todos os ribossomas das células fotossintéti-
cas. Estima-se que cerca de 10% das proteínas do cloroplasta sejam sintetizadas na organela e que
as restantes - isto é, a grande maioria - sejam retiradas do citosol.
Uma das enzimas que participa na elaboração de sacarídeos a partir do C02 - a ribulose 1,5-
difosfato carboxilase (Fig. 9.7) - representa cerca de 50% das proteínas solúveis totais encon-
tradas nos cloroplastos e, por isso, poderia ser a proteína mais abundante na natureza. Possui duas
subunidades, uma de alto peso molecular (de cerca de 400 kDa) e outra menor (de cerca de 100
kDa).
A subunidade maior é codificada por genes do DNA do cloroplasta, enquanto a menor é codi-
ficada por genes nucleares (Fig. 9.9) . Esta última é sintetizada no citosol (em ribossomas livres)
sob a forma de uma molécula precursora, que ingressa no estroma do cloroplasta e ali é clivada,
até alcançar seu tamanho definitivo. O envoltório do cloroplasta tem receptores que reconhecem
os peptídeos sinalizadores das proteínas que devem ser incorporadas à organela. No caso da subu-
nidade menor da ribulose 1,5-difosfato carboxilase, depois de entrar no cloroplasta, seu peptídeo
sinalizador é excindido por uma protease presente no envoltório da organela e a subunidade é li-
berada no estroma.
A Fig. 9.9 resume um modelo que explica a síntese das duas subunidades da ribulose 1,5-di-
fosfato carboxilase em proporções equimoleculares. O modelo sugere que a subunidade menor
controla o ritmo sintético da subunidade maior, com a qual logo se associa para formar a enzima
ativa.

9-16. O cloroplasta seria derivado de uma simbiose


O cloroplasto seria o resultado de uma simbiose entre um microrganismo autotrófico (uma
bactéria) suscetível de captar energia luminosa e uma célula hospedeira heterótrofa (de um
168 • OS CLOROPLASTOS

Fig. 9.9 Modelo proposto para a


síntese da enzima ribulose 1,5-
NÚCLEO
()
DNA RNAm - Precursor
difosfato carboxilase. (RD Case).
(De P. E. Highfield e R. J. Ellis.)

/
CITO SOL

eucariota). Embora esta hipótese sirnbiótica seja atraente, vimos que o cloroplasto possui em seu
DNA uma quantidade de informação genética que somente permite codificar 10% de suas prote-
ínas, além dos RNA ribossômicos, mensageiros e de transferência utilizados na síntese destas. Da
mesma fo1ma que na mitocôndria (Cap. 8-25), a maioria dos componentes do cloroplasto é elabo-
rada sob a dependência de genes nucleares.

BIBLIOGRAFIA
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