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1 - Igualdade e raça: o erro da política de cotas raciais

1.1– As origens das ações de discriminação positiva

Através da criação de mecanismos de facilitação da entrada de afro-americanos, indígenas e


seus descendentes nas universidades públicas, por meio da criação de um número de vagas nos
cursos por elas oferecidos exclusivamente para essas pessoas, o Estado brasileiro, copiando
uma solução dos Estados Unidos da América para um problema norte-americano, deu início a
uma política de pretensa inclusão social e econômica das populações negras e aborígenes com
o fim de diminuir as desigualdades vigentes entre estes e os de cor branca, incentivando,
todavia, a discriminação racial.

A idéia central da política de cotas é estabelecer a igualdade material entre brancos, negros e
índios. Por promoção da igualdade material, entenda-se a tentativa de diminuir as desigualdades
sociais, traduzindo-se no aforismo tratar os desiguais na medida da sua desigualdade, a fim de
oferecer proteção jurídica especial às parcelas da sociedade que costumam, ao longo da
história, figurar em situação de desvantagem, a exemplo dos trabalhadores, consumidores,
população de baixa renda, homossexuais, negros, menores e mulheres, dentre outros.

A criação de cotas como forma de inserção social ou econômica de grupos marginalizados ou


discriminados socialmente nos meios de produção, via criação de vagas exclusivas para essas
minorias ou grupos em universidades, empregos públicos ou em empresas particulares, faz parte
da denominada ação afirmativa, também conhecida como discriminação positiva, que, na
definição de Gomes (2001, p.6), são políticas públicas e de mecanismos de inclusão concebidas
por entidades públicas privadas e por órgãos dotados de competência jurisdicionais, com vistas
à concretização de um objetivo constitucional universalmente reconhecido – o da efetiva
igualdade de oportunidades a que todos os seres humanos têm direito.

As ações afirmativas foram criadas nos Estados Unidos inicialmente como uma forma de
enfrentamento da discriminação às minorias nas relações empregatícias e nas escolas. Após o
término da Guerra Civil Americana e o fim da escravidão, diversas medidas jurídicas foram
implementadas para que qualquer discriminação racial fosse proibida. São ratificadas: a Décima
Terceira Emenda, em 1865, que proíbe a escravidão; a Décima Quarta Emenda, que trouxe o
princípio do devido processo legal, proibiu a discriminação racial e considerou cidadãos
americanos todos aqueles nascidos nos EUA, e a Décima Quinta Emenda, em 1870, que impede
o cerceamento do voto por motivo de raça.

Todavia tais medidas não evitaram que diversos estados que compunham os EUA adotassem
medidas segregacionistas, sobretudo os do sul, que lutaram na Guerra Civil em favor da
manutenção da escravidão. Havia leis que exigiam lugares separados para negros e brancos,
em cinemas, restaurantes e até mesmo em penitenciárias. Essa Doutrina ficou conhecida como
separados mas iguais (separate but equal).

Embora possa parecer absurdo, a idéia encontrou amparo perante a Suprema Corte dos EUA a
partir do julgamento do caso Plessy v. Ferguson, em 1896 [163 U.S. 537 (1896). Apud
MENEZES, 2001,p.75]. Plessy era um cidadão norte-americano que, apesar de ser
aparentemente branco, era considerado negro pela legislação estadual, por ter ascendência
negra. Ele foi preso durante uma viagem de trem no Estado da Louisiana, por ter se negado a se
retirar da área reservada para pessoas brancas. Inconformado, ajuizou uma ação contra a
empresa de trens e contra o Estado da Louisiana, afirmando que a Lei estadual violava as
Décima Terceira e Décima Quarta Emendas. A Suprema Corte, porém, rejeitou os argumentos
apresentados, afirmando que a Décima Terceira Emenda só proibia a escravidão e a Décima
Quarta Emenda proibia a discriminação, e que a separação das pessoas num trem em função da
sua raça, não significava que uma fosse inferior em relação à outra. Nas palavras do juiz Henry
Brown: "Leis que permitem, e até exigem... a separação [das raças], em lugares onde houver
possibilidade de elas entrarem em contato, não implicam necessariamente a inferioridade de
uma raça com relação à outra." (HOFFER: 773. ApudMENEZES, 2001, p.76). O único a
discordar dessa teoria foi o juiz Harlan, entendendo que a Décima Terceira Emenda tinha um
alcance mais amplo, proferindo um voto que entrou para a história da Suprema Corte norte-
americana, cuja passagem mais enfática merece ser lembrada: "A Constituição é daltônica, e
não conhece nem tolera classificação entre os cidadãos." (MENEZES, 2001, p.76).

Somente em 1954, no caso Brown vs. Board Education of Topeka, a doutrina dos separados
mas iguais foi revista. A decisão foi um marco na história da Suprema Corte dos EUA,
declarando que as leis estaduais que estabeleciam escolas públicas diferentes para negros e
brancos negavam aos estudantes da cor negra iguais oportunidades educacionais. A decisão da
Corte foi tomada por unanimidade (9-0) e tais leis foram consideradas violadoras da Décima
Quarta Emenda à Constituição dos Estados Unidos. Esta decisão pavimentou o caminho para a
integração racial nos EUA e deu força aos movimentos pelos Direitos Civis.

A origem do caso se deu quando o reclamante Oliver L. Brown recorreu ao Judiciário para ver
garantido o direito de sua filha, Linda Brown, estudar na escola Sumner Elementary, destinada
exclusivamente aos brancos e a apenas sete quadras de sua casa, ao invés de ter que estudar
na escola Monroe Elementary, destinada aos negros e que para chegar a ela, tinha que andar
por seis quarteirões e tomar mais um ônibus que percorria mais 1,6 Km até o destino final.
Brown alegou que, embora o estado proporcionasse escolas para os negros e brancos, havia na
prática uma discriminação porque as escolas destinadas aos brancos eram mais bem
localizadas e com acomodações e ensino melhores, implicando uma desigualdade de ensino e
tratamento diferente em relação aos estudantes de escolas destinadas apenas aos negros.

O juiz Warren expressou seu entendimento de que a doutrina do separados mas iguais
denotava o reconhecimento da inferioridade da raça negra, asseverando que:

"Não vejo como, no dia e na época de hoje, podemos separar um grupo do restante e dizer
que eles não têm direito ao mesmo tratamento de todos os outros. Fazer isso isto seria
contrário às Décima Terceira, Décima Quarta e Décima Quinta Emendas. Elas visavam
tornar os escravos iguais a todos os outros. Pessoalmente, não consigo ver de que forma
podemos hoje justificar a segregação unicamente com base na raça." (Apud, MENEZES,
2001, p.82)

A finalidade da importação da idéia de cotas dos Estados Unidos da América é trazer uma
solução para um racismo que lá era institucionalizado, a fim de resolver um problema que é mais
de natureza econômica que ideológica ou institucional, pois a maior discriminação, como será
demonstrado, se dá mais em virtude da posição social e econômica da pessoa do que em
relação a sua cor no Brasil. Aqui, após a abolição, nunca houve lei alguma que
promovesse barreira institucional a negros ou qualquer outra etnia. Ao contrário dos EUA,
aqui não há preconceito institucionalizado ou enraizado contra orientais ou imigrantes de outras
regiões das Américas, embora possam ocorrer discriminações indevidas por parte de pessoas,
de forma isolada, assim como ocorre algum preconceito contra nordestinos nas regiões Sul e
Sudeste do Brasil, mas também, de forma isolada ou restrita a pequenos grupos, tais como "skin
heads" ou dos denominados "carecas do ABC", que têm a intolerência como o seu princípio guia,
aí não só contra negros ou nordestinos, mas contra homossexuais, judeus, entre outros.

Nos EUA, o racismo é de origem (como também no Brasil, mas de maneira muito menos
explícita), além da discriminação pela cor da pele tradicional. Explica-se: uma pessoa será
considerada negra (ou "xicano", ou índio, ou hispânico, ou "chino") apenas se sua ascendência
for conhecida. Se esconder sua ancestralidade, não terá problemas. No romance A marca
humana, de Philip Roth (tradução de Paulo Henriques Britto; Companhia das Letras; 454
páginas), é contada a estória do antes respeitado professor judeu Coleman Silk. Por ter
supostamente ofendido dois estudantes negros e ter-se envolvido com uma faxineira
semianalfabeta, ele é implacavelmente perseguido. Uma reviravolta desconcertante aguarda o
leitor, porém, logo no segundo capítulo do livro. Descobre-se que Silk não é um judeu de Nova
Jersey, mas um descendente de negros que, por ter a pele clara, passou por branco durante a
vida inteira. Parece inverossímil, mas uma história semelhante veio à tona nos Estados Unidos
em 1996, envolvendo o crítico literário Anatole Broyard. Nem seus filhos sabiam que ele era
negro.

É notável, como nos EUA, não só os negros são marginalizados socialmente, havendo muitas
cidades e bairros onde eles não podem morar. Há bairros destinados somente aos negros ou
apenas aos chineses ou aos latinos, não ocorrendo tal fato no Brasil. A imagem de mobilidade
social na sociedade norte-americana não é ilimitada, como se divulga, sendo as regras para a
aceitação restritas: ter a cor, a orientação sexual, a origem, a profissão ou a crença "errada" joga
o indivíduo à margem.

Sem desconhecer, neste trabalho, as chagas decorrentes da escravização e do racismo no


Brasil, repita-se, não institucionalizado, a miscigenação - um orgulho nacional decorrente da
ampla gama de imigrantes que povoaram este país – é posta de lado em virtude do
reconhecimento oficial por parte do Estado de que esta Nação é formada por pessoas das raças
branca, negra e índia, esquecendo-se dos amarelos, que vieram aos milhões no início do século
XX.

De uma só vez, o Estado adotou duas idéias equivocadas. A primeira é a de que o fato de ter
havido exploração de pessoas da cor negra por parte dos brancos justificaria a adoção de uma
política de cotas, como forma de reparação por um mal causado e de promoção de ascensão
sócio-econômica. A premissa adotada é falsa, pois a exploração e a escravidão foram
decorrentes do uso do poderio econômico e militar em prol de um modelo econômico nascente,
o Capitalismo, que exigia a alta produtividade com baixo custo, estando dentro do seu modelo de
produção o uso da mão-de-obra escrava, principalmente a de africanos. O negro não foi
escravizado por ser negro – embora tenham sido utilizadas razões teológicas e pseudocientíficas
para justificar a escravidão -, mas pelo fato de a África fornecer a mão-de-obra necessária, mais
abundante e de fácil captura, bem como possuir civilizações e culturas menos avançadas
tecnologicamente, o que facilitou o seu domínio por parte do explorador europeu.

Lovejoy (2002) apresenta o conceito de modo de produção escravista como fundamental para
uma compreensão mais completa do funcionamento político, econômico e social da África - e
também das colônias portuguesas nas Américas. Segundo sua definição, o modo de produção
baseado na escravidão é aquele em que predominam: a mão-de-obra escrava em setores
essenciais da economia; a condição de escravo no mais baixo nível da hierarquia social; e a
consolidação de uma infra-estrutura política e comercial que garanta a manutenção desse tipo
de exploração.

Não se pode olvidar, também, que havia escravos e senhores de escravos entre os próprios
povos africanos, não sendo uma exclusividade o domínio do branco sobre o negro. Muitas tribos
rivais faziam prisioneiros em conflitos e vendiam-nos para árabes e europeus. De fato, este foi
um dos elementos chave responsável pela mercantilização dos povos africanos. Os povos mais
frágeis eram capturados pelos chefes das tribos e vendidos por preços esdrúxulos aos europeus
mercantilistas. A divisão da culpa recai, prioritariamente, sobre o europeu dominador e
ambicioso, porém há de se admitir que os conflitos internos na África fomentaram a cisão e o
enfraquecimento da resistência dos povos negros. Até hoje, além da chaga da escravidão,
conflitos internos aliados à corrupção de governantes locais ainda são responsáveis por todo um
contexto de miséria existente no continente africano.

O segundo grande erro é de que as pessoas são divididas em raças, uma concepção totalmente
equivocada, originária do século XVIII. O fato de ser negro, índio ou descendente de quaisquer
dessas raças, por si só, daria o direito a uma pessoa de adentrar numa universidade pública (ou
num emprego público, como já há projetos em andamento), utilizando-se da reserva especial de
vagas para indivíduos desta ou daquela raça específica. A tentativa de promover a igualdade
partindo-se de princípios equivocados, errôneos, ultrapassados e falsos resulta, na realidade, na
promoção da desigualdade (se o objetivo é promover a inclusão social e econômica, uma pessoa
branca, mas pobre, teria suprimido o seu direito de frequentar uma universidade, pois sua vaga
poderia ser ocupada por uma pessoa da cor negra, porém rica, o que prova que a desigualdade
maior e mais excludente decorre das condições econômicas e não da cor da pele), do ódio racial
pelo aumento dos preconceitos, institucionalizando o que a Constituição da
República repudia.
A criação de critérios de natureza racial para definir quem tem ou não acesso aos serviços
prestados pelo Estado viola um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil,
que é a promoção do bem de todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação (art. 3º, IV). Fere o princípio da igualdade, pois todos
são iguais perante a lei, sem distinções de qualquer natureza (art. 5º ). Institucionaliza-se uma
conduta que a Constituição define como crime, pois a prática do racismo constitui ilícito
inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei (art. 5º, XLII).

O Estado brasileiro institucionalizou a existência de raças – algo que, como se verá, é repudiado
veementemente pela ciência – e com a oficialização da política de cotas procura extinguir o
denominado "racismo velado", aquele que todos sabem que existe, mas o negam, alegando ser
o Brasil um país miscigenado, transformando a miscigenação, de qualidade em defeito, pois esta
serviria de suporte para o racismo, uma vez que a pessoa não poderia mais definir-se como
mulato, moreno, cafuzo ou mameluco. Teria de se decidir entre ser branco, negro ou amarelo,
conforme o seu critério ou de terceiro, após a análise do seu tom de pele, com fundamentos ou
justificativas altamente subjetivos e despidos de qualquer valor científico.

O erro não é o estabelecimento de política de cotas, mas sim o critério usado para se definir
quem são os beneficiários dessa política, que é o de raça. Não se discutem os benefícios
trazidos por leis e políticas e que procuram incluir camadas da população que, por sua condição,
têm dificuldades de acesso ao mercado de trabalho ou às escolas e universidades.

Negros, brancos, amarelos, pardos, índios ou aborígenes australianos devem ser tratados como
indivíduos e vistos como tais. Não devem ser avaliados e nem julgados conforme a sua raça,
credo, cor ou origem, nem conforme o grupo a que pertencem, mas sim como indivíduos
portadores de características físicas, biológicas, genéticas e culturais diversas.

Conforme se demonstrará, estudos genéticos mais avançados provam que nos grupos
continentais humanos existem níveis baixos de diferenciação genética entre eles, não fazendo
sentido distinguir a espécie Homo sapiensdo ponto de vista biológico. "Isso está relacionado não
ao fato de que somos todos iguais, mas que somos todos igualmente diferentes." (PENA, 2008,
p.39).

As novas descobertas genéticas alinham-se com o entendimento de que os direitos humanos


aplicam-se a indivíduos e não a grupos, como já se expressou o juiz Anthony Kennedy da Corte
Suprema dos EUA:

"No coração da garantia constitucional de igualdade de proteção, existe o mandamento de que o


governo deve tratar cidadãos como indivíduos e não como componentes de uma classe racial,
religiosa, sexual ou nacional." [KENNEDY, "Miller v. Johnson, 515 U.S., 900:91, (1995)]

A igualdade supõe o respeito ao indivíduo naquilo que tem de único, como a diversidade étnica e
cultural e o reconhecimento do direito que toda pessoa e cultura tem de cultivar sua
especificidade, contribuindo para o enriquecimento e a diversidade cultural da humanidade.

1.2.– A origem do conceito de raça


Atribui-se ao naturalista sueco Carl Linnaeus (1707-78) a criação do sistema de classificação da
espécie humana em raças, na edição de 1767. No seu Systema Naturae,Linnaeus dividiu a
espécie humana em quatro raças (além de uma quinta, mitológica e sem importância para este
trabalho), qualificando-as com o que ele considerava suas características, porém, sem um
critério científico seguro que fundamentasse a divisão (PENA, 2008). De acordo com Linnaeus,
as raças humanas eram: Homo sapiens europaeus, branco, sério e forte; Homo sapiens
asiaticus, amarelo, melancólico e avaro; Homo sapiens afer, negro impassível e preguiçoso;
Homo sapiens americanus: vermelho, mal-humorado, violento.

Antes dessa classificação "científica", em 1684, na França, François Bernier emprega a


denominação já no sentido mais moderno e para justificar as relações entre classes sociais,

"[...] pois utilizado pela nobreza local que se identificava com os Francos, de origem germânica
em oposição aos Gauleses, população identificada com a plebe. Não apenas os Francos se
consideravam como uma raça distinta dos gauleses, mais que isso, eles se consideravam
dotados de sangue ‘puro’, insinuando suas habilidades especiais e aptidões naturais para dirigir,
administrar e dominar os Gauleses, que segundo pensavam, podiam até ser escravizados.
Percebe-se como o conceito de raça ‘pura’ foi transportado da Botânica e da Zoologia para
legitimar as relações de dominação e de sujeição entre as classes sociais (Nobreza e Plebe),
sem que houvesse diferenças morfobiológicas notáveis entre os indivíduos pertencentes a
ambas as classes." (MUNANGA, 2003).

Além das explicações denominadas "científicas", a teologia já se preocupava em explicar a


existência de raças. A divisão dos homens em raças vem do mito bíblico de Noé (Gn 9, 21-27).
Após o dilúvio, quando Noé e sua família já estavam em terra firme, o patriarca hebreu se
embebedou com vinho e se deitou nu. Cam, a quem a Bíblia atribui a posse de Canaã, ao ver o
pai despido e bêbado, zomba de sua situação. Noé fica sabendo do ocorrido e amaldiçoa o seu
filho e os seus descendentes. Eis a explicação religiosa para a escravidão, embora não exista na
Bíblia nenhuma referência à cor de Cam ou qualquer descrição de seus descendentes (PENA,
2008).

Outra justificativa religiosa para a escravidão é a de que os africanos escravizados eram ateus.
Mas e se eles, escravos, tivessem se convertido ao cristianismo? Não havia problema. Os
cativos poderiam ser mantidos em servidão porque, embora cristãos, eram descendentes de
ateus (PENA, 2008; MUNANGA, 2003).

O que os Naturalistas dos séculos XVIII e XIX fizeram foi dar substrato científico ao conceito de
raça, legitimando as idéias de superioridade de certos grupos de humanos em detrimento de
outros. Ao erigir uma relação entre o biológico (cor da pele, tipo de cabelo, formato do crânio) e
as características psicológicas, morais e culturais de determinadas raças, estabeleceram
justificativas para a dominação de determinadas culturas ou povos sobre outros. Esses discursos
fundados em uma pseudociência serviram mais para justificar e legitimar diversos sistemas de
dominação racial do que para explicar a variabilidade genética humana. As concepções
Naturalistas de raça deram suporte ao racismo pré-existente. O filósofo francês Voltaire (1694-
1778), contemporâneo de Linnaeus, afirmou em seu livro Cartas Filosóficas (1773):

"A raça negra é uma espécie humana tão diferente da nossa quanto a raça de cachorros spainel
dos galgos [...]. A lã negra nas suas cabeças e em outras partes [do corpo] não se parece em
nada com o nosso cabelo; e pode-se dizer que a sua compreensão, mesmo que não seja de
natureza diferente da nossa, é pelo menos muito inferior." (VOLTAIRE, apud PENA, 2008:14)

O texto supracitado apareceu 34 anos antes da publicação de Linnaues, que estabeleceu as


diferentes raças, ou seja, o racismo não decorreu da invenção das raças, mas a antecede.

Vê-se, portanto, que o conceito de raçanada tem biológico, mas sim ideológico, que esconde
uma idéia de poder e dominação. A síntese deste pensamento é o seguinte:
"A raça, sempre apresentada como categoria biológica, isto é, natural, é de fato uma categoria
etno-semântica. De outro modo, o campo semântico do conceito de raça é determinado pela
estrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a governam. Os conceitos de
negro, branco e mestiço não significam a mesma coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África
do Sul, na Inglaterra, etc. Por isso que o conteúdo dessa palavras é etno-semântico, político-
ideológico e não biológico." (MUNANGA, 2003).

A cor da pele ou o tipo de cabelo não definem tipos de raças diversas dentro da espécie
denominada Homo sapiens, muito menos caráter ou qualquer outra característica física ou
psicológica. A cor da pele e dos olhos, por exemplo, é definida pela concentração de melanina,
bem como por fatores genéticos. O formato dos olhos, nariz, boca e estrutura facial dependem
de um número muito restrito de genes e representam adaptações morfológicas superficiais ao
meio ambiente, sendo, assim, decorrentes da seleção natural (Pena, 2008:29). São adaptações
ao clima e outras variáveis ambientais da Terra.

A chamada "raça branca" tem menor concentração de melanina, o que define sua cor de pele e
olhos mais claros que a negra, que concentra mais melanina e por isso tem tons de pele,
cabelos e olhos normalmente mais escuros, estando a população de cor amarela numa posição
intermediária.

"A cor da pele é determinada pela quantidade e tipo do pigmento melanina na derme. A melanina
ocorre em dois tipos: feomelanina (cor vermelho e amarelo) e eumelanina (marrom escuro e
preto). Tanto a quantidade quanto o tipo de melanina são controlados por apenas quatro a seis
genes, dos quais o mais importante parece ser o gene do receptor do hormônio melanotrópico."
(Sturm et al., 1998; Rees, 2003. Apud PENA, 2005, p.330).

Diante do grande número de genes que formam o genoma humano – cerca de 25 mil – tal
número é incrivelmente pequeno (Pena, 2005).

Definir, portanto, se uma pessoa pertence a uma ou outra raça com base exclusivamente no tom
da pele é um critério artificial. Os negros da África e os autóctones da Austrália possuem pele
escura por causa da concentração de melanina. Porém "nem por isso são geneticamente
parentes próximos" (MUNANGA, 2003). A COR DA PELE, PORTANTO, NÃO INDICA SE SÃO
DA MESMA "RAÇA" OU NÃO. A cor da pele serve, apenas, para distinguir fenotipicamente um
europeu de um africano ou asiático, mas quando se procuram diferenças raciais entre os genes
dessas pessoas, que impliquem uma diferenciação racial, nada é encontrado.

Definir que um punhado de genes determina a aparência física de uma pessoa, estabelece suas
características de inteligência, personalidade ou habilidade é um enorme erro.

Estudos em DNA demonstram que cada ser humano é geneticamente diferente, não existindo
duas pessoas geneticamente iguais na face da Terra, exceto os gêmeos univitelinos, no entanto
a variabilidade genômica interpopulacional é relativamente muito menor (Pena:2008). Explica-se:
estudos do geneticista norte-americano Lewontin (1972) apontam que as diferenças entre os
indivíduos de um mesmo grupo serão sempre maiores do que as diferenças entre dois grupos,
considerados em seu conjunto. No grupo de negros haverá indivíduos altos, baixos, inteligentes,
menos inteligentes, destros, canhotos, propensos ao câncer ou não, com proteção genética
contra determinadas doenças ou portadores delas, da mesma forma que em um grupo de
pessoas brancas. Ou seja, dentro de cada grupo, a diversidade de indivíduos é grande, mas ela
se repete nos dois conjuntos, variando entre grupos apenas a cor dos olhos, cabelos, pele ou
formato do nariz ou boca, mas isso decorrente da seleção natural já explicada.

Com isto, reitera-se a conclusão do geneticista mineiro Sérgio Pena (2008, p.39), de que não
somos todos iguais, "mas somos todos igualmente diferentes." (Grifos do autor).
Raça, portanto, é um conceito cultural, produto da imaginação humana, sem valor científico. "As
raças não existem em nossa mente porque são reais, mas são reais porque existem em nossa
mente." (KAUFMAN, apud PENA 2008, p.5).

Se determinadas doenças ou características são mais recorrentes em populações de cor negra


do que de cor branca, então isto quer dizer que há raças diferentes que possuem esta ou aquela
característica? Isto é um demonstrativo da existência de raças? Tal pensamento é comum entre
os leigos, mas não encontram amparo dentro da ciência. Veja-se, por exemplo, o caso da
anemia falciforme, que atinge mais as pessoas negras e pardas que as brancas. Conforme Cyril
(1980), anemia falciforme é uma das doenças genéticas decorrentes de anormalidades na
estrutura ou na produção da hemoglobina, molécula presente nos glóbulos vermelhos que leva
oxigênio a todas as partes do corpo. Na anemia falciforme, os glóbulos podem alterar sua
consistência e seu formato, tornando-se rígidos e adotando a forma de foice. Nestes casos,
podem também agrupar-se e formar tampões, dificultando a circulação sanguínea e,
consequentemente, a oxigenação dos tecidos. Assim, as manifestações clínicas da doença
falciforme são anemia crônica por destruição das hemácias (tipo hemolítico) e os fenômenos
trombóticos muitas vezes acompanhados de dor de intensidade que pode ser muito variada,
além de provocar palidez, dificuldades de respirar, batidas do coração aceleradas, infecções
agudas, como meningite, inflamação do baço e derrame cerebral.

Sabe-se hoje que quem tem essa doença na África é também mais resistente à malária. Não por
acaso, o gene da anemia falciforme apresenta maior frequência em algumas regiões do
continente africano onde a presença do mosquito transmissor da malária é maior, fato definido
pela seleção natural. "Assim, não se pode dizer que todo negro tem uma maior probabilidade de
ter este gene: apenas aqueles, mesmo assim nem todos, com antepassados vindos de certas
regiões onde o mosquito transmissor era numeroso." (KAMEL, 2006, p.45). O fato de os negros
daquelas regiões da África serem portadores mais frequentes do gene da anemia falciforme não
torna o gene exclusivo daqueles grupos. Se um indivíduo negro – portador do gene da anemia
falciforme - se casa com uma branca e tem um filho portador da anemia, caso este filho se case
com outra mulher branca e o seu filho também venha ser da cor branca, este menino (neto do
primeiro indivíduo da cor negra) poderá ter o gene da anemia (KAMEL, 2006), provando,
portanto, que não existem genes de doenças exclusivos desta ou daquela pessoa de
determinada cor, não havendo que se falar em raças.

No Brasil, é comum associar a incidência da anemia falciforme ao fato de a pessoa ser negra ou
parda. A anemia falciforme não está limitada às pessoas classificadas como negras no Brasil,
mas encontra maior frequência neste grupo. Pessoas autoclassificadas como brancas podem ter
herdado os genes e ter a anemia. O desconhecimento dos fatos, a falta de informação e o
preconceito são fatores que incentivam o racismo e ajudam a manter a falsa idéia da existência
de raças ou de que determinadas pessoas têm esta ou aquela característica em virtude de ser
branca, negra ou amarela.

1.2.1- O conceito de raça e a origem do homem

Os mais recentes estudos científicos – paleontológicos ou genéticos – demonstram que o


homem veio da África (CANN et al, 1987; BEHAR et al, 2008). Dados do Projeto Genográfico da
National Geographic Society (BEHAR et al, 2008) indicam que pequenos grupos de Homo
sapiensnômades, que viviam da caça e coleta de alimentos, vagavam isoladamente por toda a
extensão territorial do continente africano. Há cerca de 70 mil anos, uma seca devastadora
quase provocou a extinção da espécie humana, restando apenas cerca de 2.000 pessoas, que
foram obrigadas a sair do continente africano em busca de melhores condições de vida. Com a
melhora do clima, a expansão foi rápida (Pena, 2008).

Há cerca de 60 mil anos, o homem saiu da África e povoou a Ásia, a Oceania e a Europa e, por
volta de 15 mil anos atrás, as Américas. Todos as pessoas que vivem fora da África são
descendentes desse pequeno grupo de humanos.
Conforme o geneticista sueco Svante Pääbo "em uma perspectica genômica nós somos todos
africanos, morando na África, ou em exílio recente de lá." ("The Mosaic That Is Our Genome".
Em Nature, 421, pp. 409-412, 2003, apud PENA, 2008, p.47).

1.2.2 – Exemplos de como o conceito de raça é subjetivo

Diante das evidências genéticas e paleontológicas, fica impossível se sustentar a idéia de que
raças existem, ou de que alguém merece ser tratado deste ou daquele modo em virtude da cor
de sua pele. Como dizer a uma pessoa de cor branca, mas filho de mãe e pai negros, que ela
não tem o direito de participar de uma seleção para entrada em algum curso de alguma
universidade que mantém o sistema de acesso por cotas a estudantes negros ou índios,
simplesmente por ele ser branco? Ela terá que mostrar as fotos e documentos dos pais para
provar que é negro? Mas, e se a cor dela é branca, como poderá afirmar que é negra, sem
incorrer em crime de falsidade ideológica ou material? Exigir um exame genético? Impossível,
pois a genética aponta que não existem raças.

E se crianças gêmeas nascerem uma negra e outra branca, sendo os seus pais também de
"raças" diversas? A criança negra teria direito à cota racial e a branca não, apenas pelo fato de
ter nascido branca, embora um dos seus pais seja negro?

História bizarra aconteceu com os gêmeos Alan e Alex. No início de maio de 2007, o estudante
Alan Teixeira da Cunha, de 18 anos, e seu irmão gêmeo Alex foram juntos à Universidade de
Brasília (UnB) para se inscrever no vestibular. Visto que têm pele morena, eles optaram por
disputar o concurso por meio do sistema de cotas raciais. Desde 2004, a UnB e outras 33
universidades do país reservam 20% de suas vagas a alunos negros e pardos que conseguem a
nota mínima no exame. Alan e Alex são gêmeos univitelinos, ou seja, foram gerados no mesmo
óvulo e, genética e fisicamente, são idênticos. Eles se inscreveram no sistema de cotas por
acreditar que se enquadram nas regras, já que seu pai é negro e a mãe, branca. Seria de
esperar que ambos recebessem igual tratamento. Não foi o que aconteceu. Os "juízes da raça"
olharam as fotografias e decidiram: Alex é branco e Alan não. Alan, que quer prestar vestibular
para educação física, foi classificado como preto na subcategoria dos pardos e pode se
beneficiar do sistema de cotas. Alex, que pretende cursar nutrição, foi recusado.

A decisão da banca da Universidade de Brasília que determina quem tem direito ao privilégio da
cota mostra o perigo de classificar as pessoas pela cor da pele – coisa que fizeram os nazistas e
o apartheid sul-africano.

Kamel (2008,p. 51) traz um exemplo também absurdo:

"Tenho uma amiga cujo pai é negro assim como todos os ascendentes dele. A mãe é italiana,
assim como todos os ascendentes dela. Como chamá-la apenas de afro-descendente? Por que
lógica? Se alguma lógica existe, o correto seria chamá-la de ítalo-afro-descendente ou afro-ítalo-
descendente, como preferirem. E como todos os pardos são, na origem, fruto do casamento
entre brancos (europeus) e negros (africanos), os pardos deveriam ser geneticamente chamados
de euro-afro-descendentes. Teriam, ainda assim, direito a cotas ou a outras políticas de
preferência racial ou o prefixo "euro" os condenaria irremediavelmente?"

Todas as situações retrocitadas provam os erros que uma política de cotas pode causar. As
definições por elas utilizadas são caricaturalmente racistas e ampliam aquilo que pretendem
combater: o racismo.

No Brasil, onde a miscigenação é uma característica da população, "não há que se falar em


brancos, negros ou pardos, mas apenas em brasileiros." (KAMEL, 2008, p.51).

Demétrio Magnoli (2008), comentando em um artigo para a revista Veja a política racial do atual
governo do presidente Luís Inácio da Silva, discorre:

"Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente
óbvio da rasa visão de mundo de Lula. Entretanto, o programa de racialização da sociedade
brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer
conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação
Ford. Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na
educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público. No fim de seu segundo mandato,
todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça.
Seremos ‘brancos’ ou ‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança
promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela
Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração." (MAGNOLI, 2008,p.22).

1.3 – O novo modelo de racismo

O modelo de raças baseado na pseudociência do século XIX era baseado mais em uma
ideologia dominadora do que em fatos comprovados através de pesquisa. O novo modelo ou
paradigma sobre a espécie humana vê o Homo sapiensdividido não em raças ou populações,
"mas em seis bilhões de Indivíduos (sic), com graus diferentes de parentesco em suas várias
linhagens genealógicas." (PENA, 2008, p.52). Tal paradigma é reforçado com a comprovação
genética e paleontológica da origem única e recente da humanidade moderna na África,
reforçando a já consagrada teoria da seleção natural de Darwin, de que os organismos vivos
evoluíram gradativamente a partir de uma origem comum e se diversificam no tempo e no
espaço, adaptando-se a meios hostis e em constante mutação.

O conceito de raçacomo categoria biológica foi desmontado pelas pesquisas com o DNA, no
início da década de 70 do século passado, entretanto ainda permanece como modelo para
diversas pessoas, transmutando-se em um novo conceito e criando um novo tipo de racismo
construído com base nas diferenças culturais e étnicas. Munanga (2003) alerta que essa nova
forma de racismo carrega um grande paradoxo: o de que os racistas e anti-racistas defendem a
idéia de que se devem respeitar as diferenças culturais para a construção de uma política
multiculturalista, mantendo cada grupo dentro do seu espaço, sem misturas.

"Se por um lado, os movimentos negros exigem o reconhecimento público de sua identidade
para a construção de uma nova imagem positiva que possa lhes devolver, entre outros, a sua
auto-estima rasgada pela alienação racial, os partidos e movimentos de extrema direita na
Europa, reivindicam o mesmo respeito à cultura ‘ocidental’ local como pretexto para viverem
separados dos imigrantes árabes, africanos e outros dos países não ocidentais." (MUNANGA,
2003).

O conceito de racismo foi reformulado com base nas diferenças étnica, cultural e religiosa, mas
as vítimas desse "novo" racismo são as mesmas, pois as raças de ontem são as etnias de hoje,
mantendo-se as idéias de exclusão e dominação criadas há mais de dois séculos. É o mesmo
produto, porém, com novo rótulo. Os novos conceitos de etnia são agradáveis a todos os
racistas e não-racistas, pois "constituem uma bandeira carregada para todos, embora cada um a
manipule e a direcione de acordo com os seus interesses." (MUNANGA, 2003).

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2 – Por que o modelo de cotas viola o Princípio da Igualdade

2.1 – O conceito de princípio

O que é um princípio? O que é a igualdade? Antes de demonstrar o motivo pelo qual a adoção
de cotas raciais como forma de integração social ou econômica de parte de qualquer população
viola o chamado Princípio da Igualdade, mister um breve explicação sobre as expressões. Deve-
se esclarecer, todavia, que os princípios jurídicos são, assim como as regras, normas jurídicas,
"porque ambos dizem o que deve ser." (ALEXY, 2008, p. 87).

Em virtude de suas diversas acepções, o conceito de princípioaqui analisado será apenas o


jurídico. Diversos autores apresentam o seu conceito de princípio. De acordo com Silva (1989,
p.447),

"[...] os princípios jurídicos, sem dúvida, significam os pontos básicos, que servem de ponto de
partida ou de elementos vitais do próprio Direito. Indicam o alicerce do Direito. E, nesta acepção,
não se compreendem somente os fundamentos jurídicos, legalmente instituídos, mas todo
axioma jurídico derivado da cultura jurídica universal. Compreendem, pois, os fundamentos da
Ciência Jurídica, onde se firmaram as normas originárias ou as leis científicas do Direito, que
traçam as noções em que se estrutura o próprio Direito. Assim nem sempre os princípios se
inscrevem nas leis. Mas, porque servem de base ao Direito, são tidos como preceitos
fundamentais para a prática do Direito e proteção aos direitos."

Dworkin (2007, p.36) denomina o termo princípio como

"um padrão que deve ser observado, não porque vá promover ou assegurar uma situação
econômica, política ou social, mas porque é uma exigência de justiça ou equidade ou alguma
outra dimensão da moralidade (nenhum homem deve beneficiar-se da sua própria torpeza, por
exemplo).

Após definir o que ele entende ser um princípio, Dworkin (2007, p.36) conceitua o termo política,
como sendo "aquele tipo de padrão que estabelece um objetivo a ser alcançado, em geral, uma
melhoria em algum aspecto econômico, político ou social da comunidade." E é exatamente o que
a política de cotas raciais pretende ser: uma política estabelecida por um governo cujo objetivo é
inserir parcelas da população consideradas discriminadas no mercado de trabalho, na tentativa
de melhorar suas condições de vida, seja através da criação de vagas em universidades
públicas ou de postos de trabalho no funcionalismo público, exclusivamente para esses grupos
ou minorias.

Alexy (2008, p.90) trata o conceito de princípios como sendo o de "mandamentos de otimização,
que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados", não apenas conforme as
condições e possibilidades fáticas, "mas também das possibilidades jurídicas." Alexy (2008,
p.104), com base na jurisprudência do Tribunal Constitucional Alemão e partindo de
considerações de Dworkin (2007, p.36) - que diferenciou os princípios de regras como tendo o
primeiro uma "dimensão de peso", demonstrável na hipótese de colisão entre os princípios, caso
em que o princípio com peso relativo maior se sobrepõe ao outro, sem que este perca sua
validade – e afirma que os princípios não contêm um mandamento definitivo, mas apenas prima
facie, isto é, podem ser afastados em virtude de razões e outros princípios preponderantes,
conforme o caso. A aplicação ou não de um determinado princípio se dará conforme as
possibilidades fáticas, ou seja, conforme o caso concreto.

O fato é que, como normas jurídicas, os princípios estabelecem um dever-ser, em especial,


quando são positivados através de uma Constituição, como parte dos direitos fundamentais. "A
positivação de princípios implica a obrigatoriedade da adoção de comportamentos necessários a
sua realização, salvo se ordenamento jurídico predeterminar o meio por regra de competência."
(ÁVILA, 2008, p.80).

2.2 – O conceito de Igualdade

O caput do art. 5º da Constituição Federal de 1988 determina que: "Todos são iguais perante a
lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à igualdade, à segurança e à propriedade,
(...)".

A busca pelo tratamento igual já estava presente desde antes da Revolução Francesa, mas a
partir dela, a luta por um tratamento equânime (equal treatment) entre as pessoas não só virou
sinônimo de aplicação de justiça, como é um dos aspectos de como a dignidade da pessoa
humana se revela, em especial, no tratamento que o Estado reserva ao homem. Um Estado ou
"um governo não deve tratar as pessoas somente com consideração e respeito, mas com igual
consideração e igual respeito." (DWORKIN, 2007, P.419).

O direito à igualdade ou ao tratamento isonômico está definido como um direito fundamental,


assumindo posição de destaque na sociedade moderna e invertendo a tradicional relação entre o
Estado e o indivíduo, ao reconhecer que a pessoa humana tem, "primeiro, direitos, e depois,
deveres perante o Estado, e que os direitos que o Estado tem em relação ao indivíduo se
ordenam ao objetivo de melhor cuidar das necessidades dos seus cidadãos." (MENDES,
COELHO e BRANCO, 2008, p.232).

A igualdade, dentro de uma perspectiva histórica, pertence aos direitos fundamentais de


segunda geração. Os direitos de primeira geraçãosão aqueles ligados à esfera de autonomia
pessoal contrária às expansões de poder do Estado e ingerência sobre a vida privada dos
indivíduos. Referem-se à liberdade de culto, de consciência, à inviolabilidade do domicílio, ao
direito à propriedade, entre outros.

Os direitos fundamentais denominados de segunda geração surgem não mais para afastar o
Estado, mas sim, para obrigá-lo a efetuar prestações positivas com o objetivo de sanar as
desigualdades decorrentes do liberalismo e da Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, que
geraram graves conflitos sociais e uma Grande Guerra. O ideal absenteísta do Estado liberal não
mais correspondia às exigências sociais e econômicas do momento (MENDES et al, 2008).
Através de ações corretivas dos Poderes Públicos e do estabelecimento de direitos relativos à
assistência social, educação, trabalho, lazer etc., procurou-se promover uma igualdade material,
ou seja, o tratamento equânime de todos os seres humanos, bem como a sua equiparação no
que diz respeito às possibilidades de concessão de oportunidades. Portanto, de acordo com o
que se entende por igualdade material, as oportunidades, as chances devem ser oferecidas de
forma igualitária para todos os cidadãos, na busca pela apropriação dos bens da vida.

A igualdade material, já definida, se difere da chamada igualdade formal - a de que todos são
iguais perante a lei - e que tem duas facetas: a) igualdade na lei, que proíbe a discriminação
entre pessoas que estão em situação idêntica e merecem o mesmo tratamento, tendo como
destinatário o legislador, bem como a criação de privilégios; b) a igualdade diante da lei, dirigida
ao aplicador do direito, proibindo-o de tratar diferente quem a lei considerou como igual.

A igualdade, todavia, não pode ser vista apenas como um princípio. O dispositivo de que todos
devem ser tratados igualmente pode ser analisado como uma regra, um princípio ou um
postulado (ÁVILA, 2008). Analisando a igualdade no âmbito do Direito Tributário, Ávila explica
que ela pode ser uma regra, porque veda a criação de tributos que não sejam iguais para todos
os contribuintes. Como princípio, porque estabelece um valor e ordena a sua realização. E como
postulado, "porque estabelece um dever jurídico de comparação a ser seguido na interpretação e
aplicação, pré-excluindo critérios de diferenciação que não sejam aqueles previstos no próprio
ordenamento jurídico." (ÁVILA, 2008, p.69).

Ele distingue regras de princípios, embora elas sejam consideradas normas. Para Ávila (2008,
p.71), "regras são normas imediatamente descritivas que estabelecem obrigações, permissões e
proibições mediante a descrição da conduta a ser adotada", enquanto os "princípios são normas
imediatamente finalísticas, já que estabelecem um estado de coisas para cuja realização é
necessária a adoção de determinados comportamentos." (Grifos do autor).

Como postulado, a igualdade é um comparativo de situações, fatos, atividades ou pessoas. Um


dos diversos problemas envolvendo a igualdade é o de saber se duas pessoas devem ou não ter
o mesmo tratamento. Não importa apenas se elas são iguais, mas se elas devem ou não ter o
mesmo tratamento. Para se avaliar isso, devem-se comparar os sujeitos envolvidos por critérios
que, além de serem permitidos, são relevantes e congruentes relativamente àquela finalidade
pretendida. Desta feita, a metodologia de avaliação envolve: sujeitos, critério ou medida de
comparação, elemento indicativo da medida de comparação e finalidade (ÁVILA, 2008a).

A partir daqui, estão colocados os elementos com os quais se demonstrará o motivo pelo qual a
política de cotas é inconstitucional.

2.2.1 – Sujeitos

O primeiro elemento para o estabelecimento de uma relação de igualdade são os sujeitos.


Sendo a relação de igualdade um comparativo, esta se dá avaliando-se os sujeitos envolvidos,
no presente caso, pessoas humanas a serem beneficiadas ou não com a política de cotas, para
que possam ter acesso a uma universidade pública ou a um emprego público.

2.2.2 – Medida ou critério de comparação

Como já dito, um dos grandes problemas em relação à igualdade não é apenas saber quais
pessoas devem ser tratadas de forma diversa (ou igual, conforme a situação em que estejam),
mas de "como escolher a medida de comparação, dentre tantas disponíveis, e qual deve ser a
relação existente entre a medida de comparação e a finalidade que justifica a sua utilização."
(ÁVILA, 2008a, p. 44). Trata-se da exigência, na realidade, de um suporte fático (ou causa, ou
suporte empírico, ou diferença concretamente existente) para sustentar e justificar a medida que
procura dar eficácia ao postulado da igualdade. A medida é um dado real e preciso, aferido
através de um método científico, comprovado e aceito pela ciência, tais como o metro, o litro, o
peso ou a quantidade de algo. Como a raça não pode ser medida, utilizar-se-á a denominação
critério como forma de aferição metodológica de diferenciação.

O critério utilizado no caso das cotas raciais é a raça ou cor da pele que define se ele tem ou não
o direito de entrar em uma faculdade pública ou emprego público através de alguma
diferenciação que lhe dá vantagem competitiva em relação a outro candidato de cor diversa.

Neste ponto, vê-se que a utilização do critério raça ou cor da pele fracassa como medida de
comparação para favorecer as pessoas da raça negra ou indígena ou da cor negra ou parda. Isto
se dá porque, conforme já demonstrado, não existem raças diferentes dentro da espécie
chamada Homo sapiens. Raça, portanto, é um conceito cultural, produto da imaginação humana,
sem valor científico e a cor da pele serve, apenas, para distinguir fenotipicamente um europeu de
um africano ou asiático, mas quando se procuram diferenças raciais entre os genes dessas
pessoas, que impliquem uma diferenciação, nada é encontrado.

A cor da pele ou o tipo de cabelo não definem tipos de raças diversas dentro da espécie
denominada Homo sapiens, muito menos caráter ou qualquer outra característica física ou
psicológica. A cor da pele e dos olhos, por exemplo, é definida pela concentração de melanina,
bem como por fatores genéticos. O formato dos olhos, do nariz, boca e estrutura facial
dependem de um número muito restrito de genes e representam adaptações morfológicas
superficiais ao meio ambiente, sendo, assim, decorrentes da seleção natural.

Estudos publicados por Pena (2005) sobre a ancestralidade do brasileiro - com base nos critérios
de autoclassificação do censo de 2000 do IBGE, no qual foi apontado que a população brasileira
era composta de 53,4% de brancos, 6,1% de pretos e 38,9% de pardos -, após analisar
amostras de DNA de 173 indivíduos da população de Queixadinha, localizada no município de
Caraí, região nordeste de Minas Gerais, demonstraram que, naquela população pesquisada, "o
alto índice de mistura faz com que características de aparência física como cor da pele, olhos,
cabelos, formatos dos lábios e do nariz sejam pobres indicadores de origem geográfica dos
ancestrais de um indivíduo em particular." Isto se deve ao fato de que o cálculo de IAA (Índice de
Ancestralidade Africana) apresentou uma alta variabilidade estatística nas três categorias de cor,
o que demonstra o alto grau de mistura entre pessoas descendentes de africanos e europeus.

Os dados obtidos pelo estudo na população de Queixadinha se repetem no resto do Brasil, com
algumas variações regionais, mas apontam as regiões do Nordeste e Sudeste como as de maior
variação de IAA. Entretanto um dado interessante é que "o conjunto dos indivíduos classificados
como pretos apresentou uma proporção de ancestralidade não-africana de 49%." (PENA, 2005,
p.334).

Com esses estudos e afirmações, não se nega que no Brasil existe o preconceito e a
discriminação social em decorrência da cor da pele, sendo que aqui, como nos EUA, "as
pessoas com pele mais escura sofrem discriminação não apenas dos brancos, mas também de
afro-descendentes com pele mais clara." (HARBURG et al, 1978, apud PENA, 2005, p. 337). O
que se demonstra é que não há fundamento na divisão de pessoas com base em raças ou cor
da pele como justificativa para a aplicação do sistema de cotas como forma de possibilitar e
facilitar a ascensão social ou econômica de pessoas da cor negra, parda ou de origem indígena.

A utilização de raça ou da cor de pele como critério de diferenciação entre pessoas não é
baseada em nenhum critério razoável ou científico. Conforme a Associação Americana de
Antropologia, as diferenças entre os indivíduos, principalmente as sócio-econômicas, bem como
as possibilidades e capacidades de os

"[...]seres humanos normais serem bem sucedidos e funcionarem dentro de qualquer cultura,
concluímos que as desigualdades atuais entre os chamados grupos raciais não são
consequências de sua herança biológica, mas produtos de circunstâncias sociais históricas e
contemporâneas e de conjunturas econômicas, educacionais e políticas." (AAA, 1998).

Não há como se verificar que a criação de qualquer política de cotas raciais atende ao princípio
da igualdade material, já que é amparada em critérios subjetivos, em uma situação falsa,
inexistente, que é a existência de raças. O critério de cor também é um grande erro, pois ela não
é indicativo de raça ou origem, assim como os conceitos de negro, branco e mestiço não
significam a mesma coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na Inglaterra. Uma
pessoa, no Brasil, que se considere morena, aos olhos de um terceiro poderá ser considerada
branca, parda ou negra, conforme a concepção que o observador tenha da sua cor ou da de
terceiros, bem como do grau de "morenisse". Como exemplo do erro, vide o exemplo supracitado
dos gêmeos univitelinos Alan e Alex que prestaram vestibular pelo sistema de cotas da UnB e
um deles foi rejeitado porque não foi considerado negro ou pardo, conforme os olhos do
observador. Como definir, por exemplo, se reconhecidas beldades nacionais como as modelos
Luiza Brunet, Daniela Sarahyba e as atrizes Juliana Paes, Cléo Pires e Juliana Knust, que são
morenas de graus variados, podem ou não se beneficiar de um sistema de cotas com base na
cor da pele, classificando-as como pardas ou brancas, sabendo-se que, no Brasil, muitas
pessoas morenas se classificam como brancas? O famoso cantor e compositor Neguinho da
Beija-Flor, por ter pele negra, poderia se beneficiar da política de cotas para entrar em uma
universidade pública? Como isso seria possível se, conforme divulgado na Revista Veja, a sua
ancestralidade genética é composta de genes originalmente europeus (67,1%), africanos
(31,5%) e ameríndios (1,4%)?

Conforme Ávila (2008a, p.45), "o essencial é que, sem uma diferença real, concretamente
existente, a diferenciação normativa é arbitrária."

2.2.3 – Elemento indicativo do critério de comparação

Além da medida ou critério de comparação, faz-se necessária a existência de um elemento


indicativo da medida de comparação, devendo haver uma "congruência não só entre ele e a
medida de comparação, como entre a medida de comparação e a finalidade que justifica sua
utilização." (ÁVILA, 2008a, p.48). Só existe uma relação fundada entre tais elementos quando
houver uma correlação estatisticamente fundada entre ambas, por isso, a Constituição Federal
de 1988 veda a utilização de medidas de comparação como o sexo, a cor ou a raça. Como
exemplo, Ávila (2008a, p.48) traz o caso da distinção legal entre pilotos de avião, com a
finalidade de garantir a segurança de passageiros nos voos, baseando-se na qualidade dos
reflexos e na sua visão (medida de comparação), aferida pela idade (elemento indicativo): pilotos
de mais de 65 anos não podem pilotar.

No caso das cotas raciais, os elementos indicativos são os dados do IBGE mostrando a enorme
desigualdade no grau de instrução e formação acadêmica existente entre as pessoas de cor
branca, negra e parda. De acordo com a pesquisa do Instituto denominada Síntese de
Indicadores Sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira – 2008, em
1997, conforme a pesquisa informa, 2,2% das pessoas pardas ou pretas possuíam curso
superior completo, enquanto o percentual entre os brancos era de 9,6%. Em 2007, o percentual
de pessoas com nível superior completo subiu para 4,0% entre os pretos ou pardos e 13,4%
entre os brancos. A grande diferença entre o percentual de pessoas da cor branca que têm nível
superior completo e as de cor preta ou parda justificaria a implementação de medidas que
facilitam a entrada destes últimos em universidades públicas.

Porém, o grande e real motivo do número inferior de pessoas negras ou pardas com nível
superior em relação às pessoas de cor branca é a baixa escolaridade daqueles indivíduos e o
alto grau de analfabetismo, que dificultam a sua progressão social. A equação é simples, embora
perversa. O baixo nível de escolaridade dificulta a ascensão sócio-econômica que, por sua vez,
restringe o acesso dos pobres (negros, índios, pardos, amarelos ou brancos) às boas escolas,
mantendo o grau de escolaridade dessas populações abaixo do nível aceitável de educação
mínima. Muitos negros, índios, pardos e brancos vivem nessa situação porque são, na sua
maioria, pobres, frequentaram as piores escolas que possuem ensino mais deficiente. "Sem
estudo, não há trabalho, não há emprego, não há bons salários." (KAMEL, 2006, p. 77).

A prova do que foi afirmado é a conclusão do relatório da pesquisa Síntese de Indicadores


Sociais, do IBGE (2007). O relatório diz expressamente que:

"Em números absolutos, em 2007, dos pouco mais de 14 milhões de analfabetos brasileiros,
quase 9 milhões são pretos e pardos, demonstrando que para este setor da população a
situação continua muito grave. Em termos relativos, a taxa de analfabetismo da população
branca é de 6,1% para as pessoas de 15 anos ou mais de idade, sendo que estas mesmas taxas
para pretos e pardos superam 14%, ou seja, mais que o dobro que a de brancos." (IBGE, 2007,
p.211)

Ao invés de investir no ensino público de boa qualidade e voltar esforços para dar escolas a
todas as pessoas menos favorecidas economicamente, quer sejam brancos, pardos, índios,
amarelos ou negros, o governo parece procurar colocar a culpa nos brancos, tirando de si a
responsabilidade pela sua incapacidade de elaborar políticas públicas de qualidade que resultem
em efetiva inclusão social das classes mais pobres.

A mesma pesquisa aponta que a média de anos de estudo da população de 15 anos ou mais de
idade continua a apresentar uma vantagem em torno de 2 anos para brancos, com 8,1 anos de
estudo, em relação a pretos e pardos, com 6,3 anos de estudo. O maior percentual de
analfabetos entre os negros e pardos, bem como a menor média de anos na escola refletem nos
ganhos salariais e nas diferenças dos rendimentos médios percebidos por pretos e pardos em
relação aos dos brancos, apresentando-se sempre menores (em torno de 50%). O mais incrível
é que o IBGE não enxerga esses números como consequência do baixo nível de escolaridades
dessas populações, mas sim, como resultado do racismo. Leia o que diz o relatório da pesquisa
Síntese:

As informações, contudo, mostram também como as diferenças de rendimentos não são apenas
explicadas pelas desvantagens de escolaridade da população de cor ou raça preta e parda,
quando considerados os rendimentos-hora de acordo com grupos de anos de estudo: em todos
eles, sem exceção, os brancos aparecem favorecidos. (IBGE, 2007, p. 212)

A conclusão do IBGE não tem fundamento. Não há nada na pesquisa que permita dizer que os
negros ou pardos ganham menos porque o Brasil é racista ou porque os empregadores são
racistas. A pesquisa não mostra que um engenheiro ou metalúrgico de cor branca ganha mais
que um negro ou pardo na mesma função, exclusivamente em decorrência da cor da pele. O que
mostra é que há mais pretos e pardos ganhando menos que os brancos porque aqueles têm um
nível de escolaridade menor que estes. O que a pesquisa deveria mostrar é se, nas empresas,
havendo pessoas de cores diferentes mas de mesma escolaridade executando as mesmas
funções ou exercendo o mesmo cargo, existem diferenças salariais. Aí sim, poder-se-ia constatar
uma diferença salarial calcada no racismo.

Em uma empresa na qual existem dois trabalhadores, um branco e outro negro, o simples fato
de cursar uma faculdade, não garante a um engenheiro de pele negra, mas que tenha estudado
em colégios ruins e possua uma educação inferior, melhor salário que o de um engenheiro
branco (e vice-versa), pois aquele que houver estudado nas melhores escolas, terá,
teoricamente, frise-se, maiores vantagens competitivas, podendo alcançar promoções e
progressões na carreira que farão o seu salário ser maior, tudo em virtude de sua qualificação
pessoal e esforço, independente da cor da pele.

Fosse, efetivamente, a cor da pele o motivo pelo qual negros ou pardos ganham menos neste
país, não haveria como explicar o fato de que os orientais (de raça amarela) evoluíram de forma
significativa na pirâmide social brasileira desde que vieram para o Brasil no início do século XX,
para substituírem os escravos nas lavouras paulistas de café e também trabalharam, muitas
vezes, em condições análogas às de escravos.

Diante de todos os dados, argumentos e fatos apresentados, não há como justificar que a
criação de cotas em universidades públicas para estudantes negros, pardos ou índios seja o
caminho para resolver a desigualdade entre eles e os brancos mais favorecidos, pois o problema
está no investimento e na qualidade da educação oferecida aos pobres – que, coincidentemente
e em sua maioria, são negros ou pardos - que por frequentarem as piores escolas, têm os piores
empregos e os piores rendimentos.

É de se concordar com a opinião de Kamel (2006) de que, embora exista racismo no Brasil, o
preconceito que mais está presente no país é contra os pobres, que ele chama de "classismo".
Ele cita como exemplo o clássico caso do negro que dirige um carro de luxo e é confundido com
o motorista, sendo maltratado por isso. Ele é mais vítima do "classismo" do que de racismo
propriamente dito, porque "uma vez desfeito o mal entendido, um tapete vermelho se estende
para a vítima. Em outros países, o negro, mesmo rico, continuaria a ser discriminado, dirigindo
um Fusca ou um Mercedes. Isso não torna o ‘classismo’ menos odioso que o racismo." (KAMEL,
2006, p.101). (Grifos nossos).

2.2.4 – Finalidade da diferenciação

As finalidades que são utilizadas como parâmetro para a escolha das medidas de comparação
são somente as previstas na Constituição.

Não é apenas entre a medida de comparação e o seu elemento indicativo que deve haver uma
relação fundada e conjugada. Isso "também se aplica à relação entre a medida de comparação e
a finalidade que justifica sua utilização." (ÁVILA, 2008a, p. 54). Em resumo, entre a medida de
comparação e a finalidade deve existir uma relação de causa e efeito.

Embora a finalidade da política de cotas seja aumentar a inclusão social de parcelas da


população tidas como discriminadas, excluídas ou marginalizadas, ocorrem
inconstitucionalidades latentes no modo como esses objetivos serão atingidos. Não há
inconstitucionalidade no fim – a inclusão social de parcelas da população consideradas
discriminadas e menos favorecidas - mas sim, na forma de como essa inclusão de dá: pela
criação de cotas raciais, qualificando as pessoas por raças ou cor, ato contrário ao inciso XLII do
art. 5º, da Constituição Federal de 1988, que veda expressamente a diferenciação em virtude de
raça.

2.1.3 – Como o chamado "Estatuto da Igualdade Racial" viola o Princípio da Igualdade

Em 13 de maio de 1996, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi


lançado o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH). Dentre as diversas ações mais do
que pertinentes para combater o racismo, o programa trabalhava com uma noção de uma nação
brasileira bicolor. Como parte do PNDH, foi lançado no Congresso Nacional o Estatuto da
Igualdade Racial, de autoria do senador Paulo Paim (PT/RS). O objetivo declarado do estatuto é
estabelecer critérios para o combate à discriminação racial de cidadãos afro-brasileiros. O
estatuto na sua forma atual é um documento que aborda os seguintes temas: acesso à Justiça,
criação de ouvidorias, funcionamento dos meios de comunicação, sistema de cotas raciais,
mercado de trabalho, direitos dos quilombolas, direitos da mulher afro-brasileira, incentivos
financeiros, religião, cultura, esporte e lazer.

A leitura de alguns dispositivos do projeto faz qualquer um pensar que se trata de alguma lei da
África do Sul nos tempos do apartheid, pois traz algumas determinações e classificações típicas
do regime racista Procura estabelecer uma diferenciação estanque entre brancos e negros que,
ao invés de promover a igualdade e a integração patrocina a desigualdade, a desintegração que,
por sua vez, acabam por incentivar o ódio racial através de mecanismos de favorecimento
injustificáveis. O estatuto parte do pressuposto de que existem raças, coisa já rejeitada pela
ciência, conforme amplamente demonstrado neste trabalho e abre espaço para uma divisão do
país em uma nação bicolor, desconhecendo-se a formação do povo brasileiro, que, é composto
de imigrantes de europeus, africanos, árabes, amarelos e aborígenes.

Mais do que políticas compensatórias de caráter transitório, o estatuto promove uma alteração
radical nas bases universalistas da Constituição brasileira, uma vez que esse documento legal
concebe a "raça" como figura jurídica de direitos a ser contemplada por políticas públicas. Uma
intervenção legal dessa natureza deve supor, em primeiro lugar, a existência de uma sociedade
na qual os indivíduos se autoidentifiquem através do pertencimento racial.

O estatuto expressa o seguinte raciocínio: desde a escravidão a sociedade brasileira se dividiu


em "raças". A "raça branca" dominante, através de discriminação racial sistemática e da omissão
do Estado, produziu a exclusão de outra "raça" - os "afro-descendentes" - das oportunidades
econômicas, sociais, políticas e culturais. Para que se corrija tal situação, cabe ao Estado,
através das suas estruturas jurídicas e institucionais, intervir em todos os níveis da sociedade, a
fim de garantir justiça e igualdade racial para a "raça" excluída. Para que seja eficaz a ação do
Estado, é necessário delimitar rigidamente as fronteiras raciais, a fim de beneficiar aqueles que
de fato seriam os merecedores da reparação ou da justiça racial. Por esse raciocínio, o estatuto
torna obrigatória a autoclassificação racial de cada brasileiro em todos os documentos de
identificação.

Diante de tudo o que foi aqui exposto, um Brasil dividido em "raças" promoveria justiça para
todos os excluídos das oportunidades econômicas, políticas, sociais e culturais? Seria a
promoção da "raça" o melhor modo de combater o racismo e seus efeitos? E o mais importante:
diante de duas pessoas em condições sociais, econômicas, culturais e educacionais
consideradas menos favorecidas (ou excluídas, como alguns preferem), sendo uma delas branca
e outra negra, como um "afro-brasileiro" pobre poderia convencer seu vizinho "branco" pobre de
que este é culpado pela situação de pobreza em que ambos se encontram? Como o "afro-
brasileiro" explicaria ao branco ou amarelo pobre, que ele, por ser negro, tem benefícios
concedidos pelo Estado que os outros, em virtude da cor de sua pele, não têm? Está criado,
oficialmente, o apartheid brasileiro.

O estatuto contém algumas disposições flagrantemente inconstitucionais. Dentre elas, destacam-


se as seguintes :

a)A cor ou raça dos brasileiros deverá aparecer obrigatoriamente em todos os documentos
utilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os quesitos cor e raça deverão obrigatoriamente
aparecer em todos os registros administrativos direcionados aos empregadores e aos
trabalhadores do setor privado e do setor público.

b)O Ministério da Educação fica autorizado a fazer o mesmo em todo instrumento de coleta de
dados do censo escolar, para todos os níveis de ensino.

c)As certidões de nascimento devem conter a cor do bebê. Comentário: como definir a cor do
bebê no nascimento, se é sabido que depois de alguns dias ele tem a coloração da pele alterada
em virtude de fatores externos, como a maior exposição aos raios solares ou maior oxigenação
do sangue após o parto. E se um pai declarar que o filho é negro, mas quando este crescer
achar que é branco, pois pode ter a pele mais clara e se dizer "moreno claro"?

d)Partindo do conceito de que existem "doenças de negro", o estatuto determina que o Estado
deverá incentivar a pesquisa sobre doenças prevalentes na população afro-brasileita.
Comentário: embora se entitule um "estatuto da igualdade racial", ele não faz menção a
"doenças de branco", que também deveriam ter suas pesquisas para tratamento e cura
incentivadas, supondo-se que tais doenças existam, pois, como já se demonstrou, não há genes
de doenças exclusivos desta ou daquela pessoa de determinada cor, como no caso da anemia
falciforme. Pode ocorrer que determinadas moléstias atinjam com mais frequência certas
pessoas de determinados grupos ou sociedades segregadas, mas isso porque há menos mistura
entre as populações, não havendo nenhuma relação com a cor do indivíduo.

e)A disciplina "História Geral da África e do Negro no Brasil" obrigatoriamente fará parte do
currículo do ensino fundamental e médio, público e privado. Comentário: a História é uma ciência
única, cabendo às escolas ensinarem aos seus alunos os tópicos mais importantes da história da
evolução da humanidade e do Brasil, coisa já feita quando se estuda a escravidão, item
obrigatório em todos os livros de História do Brasil.

f)O estatuto determina a realização de campanhas para a prevenir a anemia falciforme e


tratamento especial para os portadores da doença. Comentário: a anemia falciforme não é uma
doença exclusiva das populações negras. Os tratamentos preventivos e educativos devem ser
feitos com o objetivo de atender a toda a população, independente da cor. Haverá tratamento
especial, exclusivo ou diferenciado para quem é da cor preta ou parda, excluindo-se os brancos?

g)O governo deverá garantir cotas mínimas para cidadãos afro-brasileiros em programas de
crédito estudantil e no preenchimento de vagas em universidades públicas.

h)As empresas e organizações (nacionais e internacionais) que tiverem relações comerciais ou


que se beneficiem do setor público deverão obrigatoriamente adotar programas de promoção de
igualdade racial (contratar ou dar vantagens a afro-brasileiros). O preenchimento de cargos
importantes na administração pública observará a meta inicial de 20% de afro-brasileiros, que
será ampliada gradativamente até lograr a correspondência com a estrutura da distribuição racial
nacional ou estadual. Comentário: afastam-se o mérito e a competência pessoal como critérios
de obtenção de emprego ou de modelo de concorrência empresarial, estimulando o rancor e a
cizânia entre grupos ou pessoas que se sintam preteridas ou prejudicadas.

i)O §3º, do art. 19 do estatuto prevê a autorização para que os tradicionais mestres de capoeira,
devidamente reconhecidos como tal, atuem como instrutores desta arte-esporte nas instituições
de ensino públicas e privadas. Comentário: não há menção no estatuto se os brancos também
poderão dar aula de capoeira ou se será exclusividade dos mestres "afro-brasileiros".

j)Permissão para que os praticantes das religiões "africanas e afro-indígenas" ausentem-se do


trabalho para a realização de obrigações litúrgicas próprias de suas religiões, "podendo" tais
ausências serem compensadas posteriormente. Comentário: sendo o Brasil um país laico,
qualquer incentivo à prática de uma religião ou apoio formal do estado a uma religião em
detrimento de outra, com benefícios fiscais ou de outra natureza, configura inconstitucionalidade.
No caso, se houver autorização para que determinados praticantes de religiões de origem
africana possam se ausentar do trabalho, o mesmo benefício deve ser concedido aos demais
membros das outras religiões. Por que privilegiar apenas os umbandistas e frequentadores de
terreiros e não beneficiar também os budistas, evangélicos, hinduístas ou islâmicos, que têm de
orar ao menos cinco vezes ao dia? E aqueles que não professam religião alguma? Eles não
teriam o direito de sair do trabalho, pois sendo ateus, somente se se declarassem praticantes de
alguma religião beneficiada pelo favor oficial poderiam ser dispensados do seu labor. É o Estado
obrigando o indivíduo a possuir uma fé. Tal medida, além de causar problemas entre patrões e
empregados, causaria discordia e desavenças entre os trabalhadores.

Todos essas aberrações constam do projeto de lei denominado Estatuto da Igualdade Racial
que, ao invés de promover a igualdade almejada, na verdade, promove a discórdia, a cizânia e o
ódio racial, utilizando-se de conceitos como raça e cor da pele como fatores de diferenciação
entre os seres humanos, algo que a ciência já estabeleceu como inexistente.

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CONCLUSÃO

A tentativa de promover a igualdade partindo-se de princípios equivocados, errôneos,


ultrapassados e falsos resulta, na realidade, na promoção da desigualdade, do ódio racial no
aumento dos preconceitos, institucionalizando o que a Constituição da República repudia. Se o
objetivo é promover a inclusão social e econômica, uma pessoa branca, mas pobre, teria
suprimido o seu direito de frequentar uma universidade, pois sua vaga poderia ser ocupada por
uma pessoa da cor negra, porém rica, o que prova que a desigualdade maior e mais excludente
decorre das condições econômicas e não da cor da pele.

Nenhum homem deve ser avaliado e nem julgado conforme a sua raça, credo, cor ou origem,
nem conforme o grupo a que pertence, mas sim, como indivíduo portador de características
físicas, biológicas, genéticas e culturais diversas. O conceito de raça nada tem de biológico, mas
sim, de ideológico, que esconde uma idéia de poder e dominação. Raça, portanto, é um conceito
cultural, produto da imaginação humana, sem valor científico. "As raças não existem em nossa
mente porque são reais, mas são reais porque existem em nossa mente." (KAUFMAN, apud
PENA 2008, p.5).

A única forma de promover a igualdade entre as pessoas de cor preta, parda, amarela, branca
ou vermelha é através da educação de qualidade, formando jovens para que possam, através de
suas habilidades individuais devidamente identificadas e desenvolvidas, trabalhar e ascenderem
na pirâmide social, aumentando suas vantagens competitivas, como os especialistas em RH
costumam dizer.

Como a educação brasileira está distanciada do cotidiano dos alunos e não preenche as lacunas
de sua formação na família e na comunidade, o que se detecta, ao final do ensino médio, é uma
percentagem altíssima de jovens sem as competências requeridas pelo ensino superior e sequer
pelo secundário. Como o Brasil não parece disposto a investir em políticas públicas que alterem
esse quadro, reserva vagas para os que, aos trancos e barrancos, concluem a educação básica
- mascarando um descaso com a educação pública que, entra governo, sai governo, de
esquerda, direita ou centro, só se perpetua.
Tal assertiva é confirmada pelos dados da pesquisa Síntese de Indicadores Sociais (2008), que
informa sobre os índices de analfabetismo entre a população com idade igual ou superior a 15
anos, ou seja, de que a taxa entre os negros ou pardos é mais que o dobro da de brancos. Outro
indicador é o conceito de analfabetismo funcional, que engloba as pessoas de 15 anos ou mais
de idade com menos de quatro anos completos de estudo, ou seja, que não concluíram a 4ª
série do ensino fundamental. Pode-se observar uma taxa de analfabetismo funcional para
brancos (16,1%) mais de dez pontos percentuais abaixo da observada para pretos e pardos
(27,5%).

Ao se admitir que a reserva de vagas é necessária, automaticamente se reconhece que o Brasil


não investiu o que deveria nem na expansão do ensino superior gratuito e nem na melhoria de
uma educação básica, que prima pela ineficácia.

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Fonte: site Jus Naviganti