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Fone 322-6721
Caixa Postal 642
78.000 — Cuiabá — Mato Grossc
—- Brasil
Autor
Daniel Matenho Cabixi
Capa
Sálvio Jacques de Carvalho
Ilustrações
Maurílio Barcelos
Projeto Gráfico
Mário Hashimoto
Composição
Miguel Lopes da Silva Filho
Past-up
Selma Carvalho
Impressão
Foão Bosco da Cunha
Coordenação
José Calixto de Alencar
Colaboração
Fátima Maria Roberto
Ivar Busatto
Anni Gruber
Esta publicação foi possível graças
ao apoio da
BISCHOFLICHES ORDINARIAT
Austria
LS7 NT AO)

Sumário

Apresentação. .........iisccsesse rear


1 — À conjuntura sobre Educação Indígena
W — À Educação Indigena... .......c.ccccccãa
lil — À Economia Pareci ,...................
el57, Acervo

Daniel Cabixi

A QUESTÃO

INDÍGENA
el57, Acervo

A QUESTÃO INDÍGENA
SR Acervo
—A REA

SOCIEDADE INDÍGENA

| SOCIEDADE.

| INDÍGENA
el57, Acervo
RES

APRESENTAÇÃO
O avanço da sociedade dos brancos, entre outros males, provoca
uma profunda ruptura em todo q sistema econômico das sociedades in-
dígenas. Desde a introdução de machados e de outros instrumentos de
ferro, toda a economia indígena passa a se alterar, até o momento em
que as frentes de expansão, mutilando ou espoliando o território desses
povos, privam-nos das fontes naturais de subsistência: caça, pesca, co-
leta de frutas, mel e ervas medicinais; desrespeitam, também, seus lu-
gares místicos e sagrados.
Esta mudança se dá de maneira tão brusca e, em muitos casos, de
forma tão violenta, que estes povos não têm tempo e nem condições de
incorporá-la à sua maneira de ser e de reinterpretar o mundo. O povo
Pareci, que conseguiu mantere defender uma parcela de seu antigo
território, hoje se vê diante da escassez crescente daquilo que para ele
representa a base da sua alimentação: a ema e o veado. Isso é devido à
crescente implantação de fazendas e consequente destruição da cober-
tura vegetal e natural da área.
Como e o que mudar, no sistema organizativo Parecl; para sobre-
viver? O que cultivar num solo fraquíssimo, com extensos areiões, on-
de restam poucos dos animais que davam o equilíbrio alimentar para
esse povo? É sobre isso que Daniel reflete e discute com todos aqueles
que têm uma opinião a dar nessa árdua tarefa de refletir para encon-
trar novos caminhos por onde os Pareci possam trilhar com alguma
segurança.
Diante de tudo isso, a educação assume um papel findamental.
Mas como conseguir material humano capacitado para repensar um
sistema de educação que forme lideranças e agentes que despertem o
povo Pareci da letargia a que ficaram submetidos frente ao avanço ex-
pansionista colonial? Daniel é um raro exemplo do homem índio que,
arrancado do seio de seu povo e submetido às pressões sociais, ideológi-
cas e religiosas (esteve em Utiariti, internato indígena para várias tri-
bos, e em Tiamanthho, num internato para meninos do interior), retor-
nou para junto de seu povo, em 1971, e não se acomodou, mas seguiu

6
87) Acervo

E REA
pelo caminho da análise crítica. Nessa tarefa contou com o apoio de
companheiros e amigos da Operação Anchieta (OPAN) e da Missão An-
chieta. Sua preocupação e análise não recaiu somente sobre a situação
do seu povo, mas sobre si mesmo, enquanto sofria no corpo e no espíri-
to a dificuldade de se reeducar e de se inserir na cultura Paresí. Equi-.
tibrando, com lucidez e sabedoria, o conhecimento e a vivência de dois
mundos, Daniel jamais foi um extremista: discute, em igualdade de
condições, quer nas universidades, quando convidado para isso, quer
como representante dos índios brasileiros no exterior, ou como assessor
nas assembléias indígenas e indigenistas. Esse conhecimento dos dois
mundos e o equilíbrio de raciocínio que lhe é próprio, permitem-lhe.
também, dscutir em pé de igualdade com seus patrícios, porque Daniel
está lá na aldeia batendo machado e plantando sua roça, fazendo e
vendendo artesanato, rindo, brincando e criando seus filhos conforme
as tradições e rituais dos Paréci.
— Os textos, que cobrem o período de 1981 a 1988, refletem não
somente um questionamento e reflexão profunda a partir do índio
problematizado com a difícil realidade de seu povo, mas não um marco -
na história de todas as nossas discussões em torno de como e por onde
podemos nos aliar e contribuir com os povos indígenas para uma vitó-
ria que também será nossa. :

Ivar Luiz Vendruscolo Busatto


ars

ad
a
a
A CONJUNTURA
SOBRE A EDUCAÇÃO |
INDÍGENA
TEXTO I
SAO Acervo
a /Á) REA
Pelas minhas viagens por es- em nada colaboramos para a
te Brasil afora, foi muito comum grandeza do país. Isto é uma a-
ouvir termos pejorativos com cusação tão antiga como atual.
respeito à pessoa do índio. Ter- Além disso tudo, o índio não ren-
mos tais como índio brabo, índio de votos, não tem influência
bicho traçoeiro, índio bicho no- política e não possui poder aqui-
jento, etc. Constatei também que sitivo. Essas e outras razões são
quando o índio passa a ter con- causas que justificam o descaso
vivência mais direta com a soci- total pelo problema que afeta as
edade envolvente e não se ajus- populações indígenas. Notamos
tando a esta sociedade, passa a este descaso numa porção muito
ser taxado de índio pinguço, grande da opinião pública (estes
indio bangunceiro, índio vaga- por desconhecerem a verdade dos
bundo, índio preguiçoso, etc. Dc fatos), das autoridades constitui-
tudo isso pude deduzir duas coi- das e principalmente da FUNAI.
sas: no primeiro plano cria-se a Este órgão governamental está
imagem do índio como ser infe- liderado por uma ideologia etno-
rior, sem cultura, de estranhos cêntrica de dominação, quando
costumes. No. segundo plano não, é pressionado por forças e-
criam-se atitudes de repulsa, des- conômicas, o que vem “justificar”
confiança e desprezo pelo índio. sua omissão ou conivência que
Se formos analisar es fatos pouco ou nada faz em nosso fa-
históricos, desde o descobrimen- vor.
to do Brasil, constatamos que a As características dos primei-
imagem criada sobre o índio, ros contatos da sociedade nacio-
como também..o desprezo pelo nal com as sociedades tribais são
índio, obedeceram. e obedecem a as mais diversas possíveis, pois
uma ideologia colonialista e de vão desde ataques guerreiros en-
dominação que joga com a nar- tre civilizados e índios e vice-ver-
ração dos fatos históricos segun- sa, até as chamadas frentes de
do seus interesses para perpetuar pacificação. Superadas as pri-
circunstâncias tais como eles meiras crises de contato as socie-
apresentam deturpando a auten- dades tribais passam gradual-
ticidade histórica. Tanto assim mente a manter relações com a
é que na ocupação do atual ter- sociedade maior. Nesse processo
ritório nacional, houve sucessivas de relações mútuas, nós (os in-
guerras aos índios. Guerras de dios), passamos a conhecer os
extermínios e massacres justifi- usos, hábitos e costumes dos civi-
cados pelas chamadas “guerras lizados. Por outro lado os civili-
justas”, “entradas” e “bandei- zados trazem consigo aquela bar
ras”, Auxiliaram a destruição dos ganha de conceitos etnocêntricos
povos indígenas as doenças e epi- e complexos emaranhados d:
demias nunca dantes conhecidas ideologias e por se acharem su-
pelos índios. A espoliação e roubo periores passam a discriminar-
das terras indígenas se processou nos a nossa forma de ser. Despre-
sob o pretexto de sermos “quis- zam e sobrepujam nosso costume
tos sociais e improdutivos” que e hábitos. Isto provoca em nós
10
reações de transtornos psíquicos co sistema que melhor prepara o
e mentais e tem como conseguên.. indio à uma marginalização, lan-
via a auto-depreciação do nosso cando-o na redoma do farto mer-
comportamento moral levando- cado de mão de obra barata. Des-
nos a adotar comportamentos ta forma o índio estará, final
artificiais diante dos civilizados. mente, prestando algo de útil,
Esforçamo-nos para raudar nos- servindo de operário, empregado
sos hábitos, costumes e atitudes ou peão para indústrias, empre-
para mostrar que não somos mais sas, companhias, latifúndios, fa-
indios. No entanto nossa aparên- zendas, etc. Enquanto isso nossas
cia física trai-nos, corroborando terras ficam navegando na onda
nossas aspirações, o que nos tor- de especulação dos interessados.
na uns eternos complexados. Num dos relatórios que foi
No contexto do processo civi- apresentado no encontro de lei-
lizatório convém mencionar a gos missionários em Fátima de
ação de agentes missionários dos São Lourenço discutiu-se a ques-
mais diversos credos e confissões tão da “educação indigena”, Di-
cujas filosofias fundamentais que zia o relatório que a grande Na-
regeram e em muitas vezes ainda ção Tukuna está sendo assistida
regem seus trabalhos foram e por quatro diferentes igrejas. A
são ainda em muitos casos, o de consequência da atuação dessas
transformar o índio pagão, sem igrejas, o próprio relatório con-
religião, para confesso, converti- firma quando mais adiante diz
do e batizado. Muitos podem que “o ambiente conflitante de
pensar que estas atitudes foram religião tem sido um fator nega-
corretas e continuam sendo, mas tivo na organização e na união
a verdade seja dita. Nas suas dos Tukuna”. É o momento, en-
mais nobres e boas intenções fi- tão, de se perguntar aos estima-
zeram na realidade verdadeiros dos leitores qual a vossa reação
massacres culturais, ou, em ou- se, num determinado momento
tras palavras mais acessíveis, fez- da história, viessem seus filhos
se uma lavagem cerebral dos po- serem arrebatados de seu convi-
vos indigenas, Para reforçar esta vio social, político, religioso, cul-
evidência nos dias atuais citarei tura) e econômico, para serem,
a viagem de. inspeção do então simplesmente, jogados num mun-
presidente da FUNAI, Cel. João do de estranhas idéias à concep-
Carlos Nobre da Veiga, a uma ção de suas próprias idéias as
Missão Católica Salesiana do quais foram forjadas ao longo,
Alto Rio Negro, no estado do A- quem sabe de milênios; para
mazonas. Naquela ocasião o pre- verem seus valores éticos-morais
sidente da FUNAI declarou que o e costumes serem simplesmente
trabalho alí executado “é mara- pisoteados? Pois sim, algo seme-
vilhoso tanto no aspecto da edu- lhante ocorre quando se impõem
cação, brasilidade, civismo, etc”. normas e valores de vossa socie-
Ele teve, somente, que elogiar a- dade às nossas sociedades.
quele sistema de trabalho, edu- Muito se tem discutido so-
cação e ensino porque é o clássi- bre a questão indígena nos gran-
1
vil
57, Acervo

des centros urbanos cujos efeitos ção Brasileira. Seria demasiado


de repercussão, nos dias atuais, fácil, por certo, fazer deles cida-
tem sido favorável às populações dios nas estatísticas, quando hu-
indígenas. Mas isto não é salutar, manamente a sua decadência os
pois deveria se fazer uma cons- converteu em párias à margem
cientização de populações a ni de qualquer categoria”. —1
veis regionais onde há um per- —— em caso de uma “eman-
manente contato entre civiliza- cipação” que rouba nossas terras.
dos e índios. “Assim é que, de senhores de ter-
Dizendo ainda das conse. ra sem fim, tinham de passar :
quências nefastas da ação mis- estrangeiros, de homens livres
sionária não devemos esquecer na mais ampla acepção dess
atuação do SUMMER INSTITUT conceito, deviam transformar-s”
OF LINGUISTIC (SIL) junto às em escravos; de donos de tradi-
populações indígenas. No cas» ções religiosas seculares, tinhar»
específico dos PARECI, seu tra- de aceitar o cristianismo como
balho fundamental foi de tradu- era pregado e praticado pelos
zir os textos bíblicos para nosso curopeus. Vencidos na guerra.
idioma e dessa forma nos evan. espoliados de suas terras, dizi-
gelizar. mados pelas doenças infecciosas
As instituições religiosas na e pela fome, vão desaparecendo
sua avidez de salvar almas dos os primeiros habitantes do Bra.
gentios para o céu condenaram sil (Newton Freire — Maia).
e extirparam na maioria dos ca Poder-se-à salvar os índios sem
sos, os mais sagrados valores re- salvar a terra que os sustenta?
ligiosos dos povos indígenas. Só Tudo o que afetar a ecologia a-
para citar um exemplo: um pas mazônica influi de modo bastan-
tor de uma instituição evangéli- te direto na sobrevivência dos
ca condenou nossa religião e ri- autóctones”. - 1
tuais. Dizia ele que as flautas —— Ou então um “brasileiris.
sagradas e as danças eram obras mo” que acredita que a Amazô-
de satanás e que todos iriamos nia “só será nossa quando for
para o inferno caso persistiss>- habitada apenas por brasileiros
mos com tais práticas e rituais. convictos, e não por índios qui
Para quem não conhece nosso não tem nacionalidade”. Pala-
sistema de vida digo que estes vras que despraçadamente foram
valores têm sido instrumentos pronunciadas por uma alta au
fundamentais que nos proporcio- toridade militar em Belém. “O
na força de união para melhor índio não tem lugar no Bras
resistir às investidas da socieda- porque não tem voz, em virtude
de nacional. Investidas tais como: de se lhe ter negado, desde em
— é o caso de uma “integra- nome da lei, ou do rei, (e nos
ção” que não nos diz nada. “On- dias atuais em nome dos progra-
de tribos ainda consideradas ín- mas governamentais), ou em
dios perderam sua língua e suas nome da evangelização e de Deus,
características estruturais sem porque (os europeus) possuiam
que por isso se integrem à Na- a supremacia da força. O prag-
12
RO Ta
RR (| ES aatismo interesseiro deixa o seguindo fazer o estado escutá-
campo livre às forças econômi- los; neste caso o que há de acon-
cas que derrubam todos os obs- tecer aos índios que menos for-
táculos: o buldozer do progresso ca tem? lo,
tecnológico. O Brasil é hoje, mais — Nos primeiros meses des-
que nunca, uma terra de predi- te ano começou a pintar nos no-
leção do desenvolvimento capi- ticiários, manchetes tais comu.
talista. Que medida comum exis- “CRÉDITO AGRÍCOLA DO BB
tirã entre esse sistema e da defe- AOS ÍNDIOS”. “CREDITO DO
se do Índio? Quem lhe dá ouvi- BB PARA OS ÍNDIOS: MS -..
dos numa competição em que 03 INCENTIVA PRODUÇÃO AGRI.
titulos mais antigos pertencem COLA”. (D. da Serra C. Gran-
a criaturas sem força para obter de, 17/03/82).
justiça? Seja como for, o tempo É uma coisa ótima, boa, mas
não trabalha a favor do índio: à primeira vista. Porque dentr:
suas lutas intestinais, as lutas da concepção daqueles que dizem
que os brancos lhes movem, a que “tem que misturar a raça
desorganização de suas socieda- prá poder desenvolver”, final.
des e as doenças, tudo contribui mente, se abriu uma oportuni-
para que seu número decresça dade para os índios mostrarem
de ano para ano”. suas aptidões agrícolas e empre-
sariais. Não estou com isso con-
— Ou de um projeto de esta- denando e rechaçando a inicia-
dualização da FUNAI. Pergunta. tiva; estou querendo simples-
mos, que fim esperam os indios mente alertar para as consequên-
dentro destas circunstâncias? cias que isto pode acarretar. Len-
Para se dar forças à uma evidên- do o desenrolar do noticiário d'.
cia tão cristalina falarei de caso segunda manchete a certa altu-
concreto, pois, diz muito mais do ra leio o seguinte: “Duas linhas
que as teorias—: Certa ocasião são oferecidas pelo BB, a primci-
quando os professores de Campo ra destinada ao Índio emancipa-
Grande, capital de MS, estiveram do, que, como requisitos básicos
em greve, reivindicando melho- para conseguir financiamento,
res salários e outras coisas mais deverá ter idade superior a 21
coincidiu que naqueles dias esta. anos, conhecer a lingua portu-
va presente na mesma cidade o guesa, etc..., confirmando sua
líder guarani, Marçal Tupã-y. emancipação. A segunda linha
Um dos professores perguntou- destina-se a atender os índios
lhe porque os índios eram contra não emancipados, quando o BB
o projeto de estadualização, e exige a presença da FUNAI, nº
mancipação, integração. O lider qualidade de tutora. A verdade é
respondeu com outra pergunta. que os índios brasileiros final-
O que os professores pretendem mente passam a descobrir que p”
com a greve? Tem conseguido dem ganhar dinheiro com suas
vocês fazer valer suas reivindi- terras, etc”.
cações? A resposta foi, não. Pois Por trás de tudo isso, perce-
sim, parte desta sociedade e, so- be-se uma indelével pincelada,
bretudo a categoria de vocês, es- quase imperceptível de realiza-
tá organizada e não estão con- ção das tentativas que foram fei-
13
wl 572, Acervo as indiretas e conde- gráficos, pois assim interpretam
RA SE entemente pelas forças muitos professores com os quais
pró-índios. Essas “boas intenções” tive oportunidade de estudar,
parecem querer desbaratar as principalmente nos primeiros a-
comunidades indígenas e conse- unos escolares. Eles encaram a
quentemente a crescente consci- educação, não como algo que
encia dos povos indígenas. Vê-se desenvolva as faculdades men-
mais uma vez que, em momento tais do indivíduo à uma situação
algum, deu-se voz para o índio. que existe, de causas e efeitos, do
Simplesmente a sociedade nacio envolvimento individual e coleti-
mal nos impõe suas normas, in- vo do homem na evolução dos a-
lingem-nos seus princípios € contecimentos históricos, mas O-
ideologias. Como podemos acre- bedecem coganente os padrões de
ditar numa sociedade que quan ensino pré-estabelecidos, Um sis-
do nos estende uma mão nos dá tema de educação e ensino que
prejuízos maiores com a outra? não visa à lei natural da recipro-
Por outro lado, apesar dos pesa- cidade entre o dar e o receber e
res, constatamos nos dias atuais vice-versa, mas está mvrgulhado
O crescente esforço missionário numa divergência que iliena e é
de diversas igrejas para viahili- projetudo nos educandos que
zar possíveis meios alternativos formiuin Os mesmos conceitos dis-
para estruturar uma pedagogia torcidos a respeito da realidade.
de ensino às comunidades indi- Os porões de ensino de uma,
genas. Esta pedagogia pretende suposta cumcição adotados atu-
não somente o ensino escrito, almente pelu FUNAI para os in-
mas de proporcionar elementos dios, obedecem sos mesmos pa-
de estudo e reflexão sobre a rea- drões de ensino e educação às
lidade em que vivemos, como quais me referi até o momento.
também de compreendermos me- Não se tem notícia, até agora, da
lhor à atual conjuntura política, existência de uma pedagogia al-
econômica e social do país e suas ternativa voltada para a realida.
interferências no nosso sistema de indígena. Há tentativas para
de vida (dos índios). gue cheguemos a isto, mas dada
Educação, consequentemente a complexidade de situações e a
alfabetização e escolarização, são extensão geográfica não foi pos-
termos-conceitos que na concep- sível até o momento conseguir
ção de muitos educadores tor- algo concreto. Este esforço vem
nam-se bastante dilusos. sendo festo por instituições reli-
No tempo que eu frequenta- viosas, por entidades de apoio e
va as escolas, era muito comum particulares que juntamente com
ouvir-se dizer que “a escola co- lideranças indígenas estão em-
meça em casa e os professores penhados na defesa dos interes-
sao nossos segundos pais”. De ses indígenas.
poucos tempos para cá foi que Os monitores preparados pe-
entendi essa filosofia de pensa- la FUNAI, isto é, os índios que 2
mento em termos educativos, que FUNAI prepara para colaborar
é algo que não se limita ao mero junto as comunidades indigenas,
ensinamento dos significados asem e trabalham mais em fun- .
14
Acervo

ção profissional e remunerativa. a sermos brancos. Uma vez con


do que em função social do gru- versando com um alto dirigente
po. Aliás, este fenômeno otorre da FUNAI, ele me disse que isto
como consequência de circuns- é alimentar ilusão pois o destino
tâôncias existentes na sociedade dos índios está irremediavelmen-
maior e que contaminam tam- te estabelecido. Nunca, jamais
bém os índios. Acontece isso de- dizia ele, os índios terão condi-
vido a força da doutrinação ideo- ções de se perpetuarem como
lógica, que somente interessa à grupos étnicos diferenciados. Po-
classe dominante, e que imprcg- díamos até aceitar este destino
na todas as camadas sociais, on- como fato consumado, mas a FU-
de comumente os anseios mais NAI nada tem feito e juntamen-
gerais simplesmente são os de te com outras forças simplesmen-
almejar a uma posição sempre te condena nosso sistema de vi-
mais elevada na sociedade. O da e impõe-nos suas ações a seu
pior para os índios é quando os bel-prazer. Isto decorre pelo mo-
próprios funcionários da FUNAI tivo de os índios desconhecerem
se servem deste modelo, e não se as estruturas e mecanismos que
dão conta disso. À grande maio- regem o mundo capitalista «
ria não possui preparo adequado permite este estado de coisas,
no campo da antropologia para Por outro lado fica evidente, po-
atuarem junto às populações in- rém, que não podemos palmilhar
dígenas. De técnicos, os quadros este caminho a passos largós de-
da FUNAI estão saturados, mas vido aos diferentes níveis de a-
não é o tecnicismo que irá pro- culturação em que nos encon:
mover o índio como um todo. É tramos. Além do mais, as pró-
característica da FUNAI, sim- prias circunstâncias locais, do
plesmente impor seus métodos e envolvimento do índio com uma
programas de ação. Ela não ss população envolvente, mergulha-
preocupa em procurar métodos do numa etema letargia, precon
racionais e adequados que dêem, ceitos raciais e visão estereotipada.
de fato, condições para que nós, impedem mais facilmente o fn-
dentro de nossas possibilidades dio de perceber sua função como
reais, desenvolvamos nossas fa- um dos elementos fundamentais
culdades mentais e materiais e para processar mudanças posi-
dessa forma proporcionar-nos tivas sobre estes comportamen-
tentativas para uma autonomia, tos.
Proporcionar esta autonomia é Dos erros intencionais por
sinônimo de reconhecimento da parte daqueles que têm o dever
nossa autodeterminação. Condi- de nos assistir, das contradições
ção, quando então, possamos vi- e acertos daqueles que chama-
ver dignamente sem perdermos dos por uma opção humanística.
a identidade étnica e cultural de justiça, tentam por todos os
Esta visão difere daquela que a meios possíveis auxiliar-nos. Nes-
FUNAI defende onde integrar o te jogo de forças, neste mundo
índio significa desintegração. louco de corre-corre, de compe-
Não aceita jamais que nós seja- tições individualistas e injustas
mos nós, mas parece obrigar-nos não há lugar para os povos in-
1E
“5. Dizem: “O índio está con- guei a compreender o mundo de-
denado à desaparecer”. Sim, o in. les. Gostaria de dizer-lhes que
dio estará sujeito a desaparecer faço parte de uma sociedade que
cumo grupos étnicos, não por possui normas de vivência har-
usa dos rumos históricos que mônica entre homens e a natu-
parecem pré-determinados, pois reza. Gostaria de dizer-lhe que
ussim acreditam muitos fanátt possuimos nossos valores sociais,
cos ávidos ao desaparecimento políticos, econômicos, culturais e
do povo índio; mas por causa de religiosos que adquirimos atra-
uma sociedade que não tolera a vés dos tempos, de geração em
existência de outras sociedades geração. Gostaria de dizer-lhes
que têm condições de lhes apr.- que formamos um mundo equi-
sentar meios alternativos para librado e justo de relações hu-
harmonia, justiça e vivência hu- manas. Dizer que como huma-
mana. nos somos sujeitos a falhas e
É comum encontrar pessoas erros. Dizer que nossos sentimen-
que vêem o índio como um ser a- tos mais íntimos são exteriori-
Henigena. Vi muitas pessoas pcs zados através da arte, da língua,
tarem-se diante de mim, um in- da nossa religião, das festas
dio, e ficar horas e horas a olhar- companhadas de ritos e cerimo-
me. Além de me lançarem uma niais. Dizer que conseguimos
série de perguntas, entre elas, se nossa experiência diante da de-
não existe mais indio brabo. vida e do universo. Dizer que
Penso comigo mesmo: O que es- conseguimos chegar num equi-
tarao eles pensando? Esforço-me brado mundo prenhe de valo-
para penetrar em seus pensa- res que transmitimos aos nossos
mentos. Afinal, um descendents filhos, o que, em outras palavras
de índios selvagens, descendente mais compreensíveis, é sinônimo
de serem mitológicos, índios, es. de educação. Gostaria de dizer.
tá postado diante deles de calças lnes também, que tudo isso vem
camisa e sapatos. Neste momen- sendo deturpado, desrespeitado e
to a imaginação desse povo sim- destruído. Dizer que estamos
ples voa pelo mundo da fanta- despertando para uma nova re-
. sia. Como será que vivem? O que slidade. Estamos percebendo que
comem? Será que ele pensa igual todas as tentativas estão sendo
a nós? Será descendente de come- feitas para acabar com nossos
dores de gente? Terá ele provado princípios já constituidos. Dizer
siguma came numana? Tem el: que um dos nossos objetivos fun-
algum sentimento humano de damentais é levar às nossas co-
amor e compaixão? Enfim, per- munidades o conhecimento desta
cebo que as interpretações e realidade nova que nos rodein
comparações são as mais absur- Do interesse em perpetuar nos-
das possíveis. E as comparações sos valores morais e culturais.
que nos fazem não passam da Dizer que estamos prontos para
categoria dos animais exóticos receber o que de útil a sociedade
que habitam a selva. Tenho von. deles nos oferece e Trechaçarmos
tade de fazê-los compreender o o que de ruim ela nos apresen-
meu mundo, assim como che- ta. Mas a cegueira etnocêntrica
16
87) Acervo
ES RETAS
não permite este diálogo franco dios não se fez outra coisa a não
e sincero. ser ensináio, e transformá-lo
Como se todo este painel de em civilizado. Tudo isso poderia.
fatores acima mencionados não estar correto. Mas ao analisar-
fosse suficiente para gerar uma mos os passos dados pelo índio
imagem distorcida e errônea com neste processo educativo de en-
respeito ao índio, encontramos sino, podemos unicamente con-
também, aqueles indivíduos que cluir que houve uma desindiani-
criam a imagem idílica do índio. zação e consequentemente nos-
um ser puro e inocente. Falam sa marginalização. Pois o único
dos índios que adoram Tupã, a lugar que a sociedade nacional
lua Jaci e o sol Coarici e descre- nos oferece é a redoma mais
vem a vivência do índio de uma baixa, mais marginalizada de sua
forma romântica, Esta é também sociedade. Muito se tem discuti-
a imagem do índio que se dá aos do sobre a questão da “integra-
"lunos nas escolas através dos ção do índio à sociedade nacio-
livros didáticos que falam sobre nal”. Para os despreparados e
à questão indígena de forma para aqueles que querem extipar
muito artificial, nunca aprofun- o índio como etnia, é o caminho
dando em estudo sério que pos- mais correto e acertado. Vi du-
sa dar aos alunos a verdadeira rante minha vivência fora da
dimensão do drama indígena na tribo muitos civilizados se van-
atualidade. gloriarem dizendo: “Este índio
não é mais índio. É igual a um
A manipulação de informa- dos nossos, está civilizado. Ele tem
ção ao público, tem perpetuadr que civilizar os outros que, coi-
até os dias atuais o estado de a- tados, não conhecem as vanta-
lienação do povo brasileiro dian- gens da civilização”. Estas expres-
te da questão indígena. E concei- sões resumem toda a dimensão
tos discriminativos têm sido fa- de cegueira em que vivem e que
tores que vêm prejudicando a não percebem.
luta indigena no sentido de que Vemos, portanto, que a ques-
possamos ser ouvidos e atendi- tão da “educação indigena”, ou
dos. Pois apesar de “muito” que melhor dizendo, educação para
já se fez em prol des povos indí- o índio é algo com dimensão
genas ainda continuamos sob muito vasta e complexa. Pois de-
as ameaças do atual processo ci- corre de fenômenos antropológi-
vilizatório e integracionista do cos, sociais, econômicos, religio
governo. Mais concretamente di- sos e culturais. Decorre do pro-
zendo, dos projetos econômicos cesso civilizatório e seus efeitos
e desenvolvimentistas do gover- altamente prejudiciais às comu-
no. nidades indígenas.
Os programas educacionais Não se pode e não devemos en-
impostos sobre os índios através trar num questionamento sobre a
de particulares, entidades, insti- educação indígena, ou educação
tuições religiosas e órgãos fede- para o índio, sem antes fazermos
rais têm obedecido cegamente o um estudo deste conjunto de fe-
jogo para alienação do povo ín- nômenos aqui apresentados. O
dio. Pois nas escolas para os ín- próprio termo “educação indíge-
1
na”, nos chama atenção para sua dagogia, métodos e programas
interpretação exata, pois educa- étnicos, auxiliar as comunidades
ção indígena, acredito eu, já é tu- indígenas numa procura de au-
do aquilo que impregna os valores xílio mútuo, e encontrar meios
puramente educativos da qual alternativos de ação segundo as
está prenhe a cultura dos povos circunstâncias regionais e locais
indígenas. Até hoje se tem nega- das comunidades indigenas.
do aos índios o direito e o respei- De tudo o que foi dito nos
to aos seus valores educativos. O leva conclusivamente a uma sé-
ensino alfabetizado deveria ser rie única de perguntas conclusi-
apenas um instrumento para vas: .
fortalecer a compreensão desse” — O que é a educação indi-
valores aos índios e ao mesmo gena?
tempo servir de meio para que — Como se concebe a edu-
melhor possamos compreender as cação indígena?
estruturas que regem o compor- — Como. se efetua a educa-
tamento da grande sociedade e ção indígena?
interpretá-la, assim como captar — Como pretendemos efe-
as interferências dela sobre nos- tuar a educação indíge-
sas sociedades. na?
Aqui chegamos no ponto Estas respostas dadas na
onde denunciamos a ação daque- medida que formos analisando
les antropólogos que aproveitam as características de problemas
de suas teses e pesquisas de cam- das diferentes etnias. Cada uma
po em proveito próprio. Quantas num estágio diferente de conta-
comunidades e tribos indígenas to e de problemas com essências
foram alvos de pesquisas atropo- bastante semelhantes, com exce-
lógicas, no entanto, muitos ain- ção do Nordeste.
da, hoje se encontram em situa- Por outro lado, esta diversi-
ções tão calamitosas, pior, talvez dade reflete, também, a influên-
anos após pesquisas, enquanto cia ideológica nos seus mais di-
que os pesquisadores frequentam versos graus. Fica assim, explíci-
cadeiras de professores, altamen- ta a necessidade de se captar,
te remunerados em escolas de estudar, analisar e desenvolver a
níveis superiores. Portanto, ca- forma concreta de ação para a-
be, também a estes a obrigação, mortecer o ímpeto violento desta
através do domínio de uma pe- “integração” compulsória.

18
TEXTO HH
vil
57, Acervo
AE

= -(2)*Vir abedet
-

Ye 2 Ghidim
E ântes de fazermos qualquer morais vão perdendo sua força co-
referência ao termo educação — à mo instrumento de harmonia e es-
forma como é compreendido den- tabilidade do comportamento so-
tro do atual sistema oficial de edu- cial indígena. Os contatos trazem
cação e como se pretende “educar” diferentes modalidades de agir no
as sociedades indígenas —, quero tempo e no espaço. Como exempl»
fazer uma breve referência ao sis- concreto, podemos citar os diver-
tema educacional próprio das so- sos estágios de contato do grupo
ciedades indígenas. Temos que fa- Pareci. São períodos distintos, pois
zer distinção entre os termos: edu- vão do contato com bandeirantes
cação, alfabetização e escolariza- ao contato com posseiros, serin-
ção. gueiros, missões protestantes e ca-
Como ficou comprovado cien- tólicas, o SPI e, ultimamente, as
tificamente, as sociedades indige- estradas e fazendas. Todos estes
nas são dotadas de sistemas pró- estágios de contato trouxeram pe-
prios de educação. Dentro do con- culiaridades específicas de influ-
texto dos valores indígenas, jamais ências, no grupo. É bom lembrar
a filosofia de comportamento de que enquanto os sub-grupos Wai-
um determinado valor é indepen- maré e Kaxiniti estavam em alto
dente de outro. Exemplo: a econo- grau de contato, os Kozarini, se-
mia indígena não é valor isolado gundo Max Schmit, mantinham
de outros valores como a religião, um alto grau de isolamento. Se for-
os mitos, crenças, costumes, siste- “mos estudar e analisar estes perio-
ma de governo, etc. O papel dos dos, veremos que cada mcdalidade
agentes, obedecendo regra de va- “de contato trouxe uma especifici-
lores, interage para que todos in- dade de assimilação de novos valo-
tegrantes da sociedade tribal este- res. O resultado disto tudo está aí
jam sob leis que a própria circuns- no que o Parecié hoje.
tância cultural criou. é sob este
prisma que devemos olhar, anali-
sar e valorizar a auto-educação PROCESSOS DE
indígena. É impossível implantur ESCOLARIZAÇÃO
um sistema escolar ou de alfabe- E ALFABETIZAÇÃO
tização sem levar em conta cs pró-
prios valores educativos que per-
meiam o comportamento social Dentro da atual área conheci-
das sociedades indígenas. da, oficialmente, como área Pare-
O sistema de valores das socie- ci, jamais houve um efetivo siste-
dades indigenas sofre ruptura no ma de escolarização é alfabetiza-
momento em que entra em conta- ção. Houve sim, a escolarização,
to com a sociedade envolvente. Co- alfabetização e educação, em Utia-
mo eu disse noutro trabalho, os— riti, Internato Indigena, mantido
contatos trazem consequências dis- pelos Jesuitas de 1945 a 1971,
sociativas e, na degeneração dos de grupos indígenas que para
valores tribais, o sistema educati- lá foram levados. Isso fazia parte
vo indigena é afetado de forma do programa de assistência e pro-
crucial, pois os simbolos éticos e moção humana dos índios na Mis-
21
Na co
e / L nm ias. Paralelo a este pro- vários índios, Este trauma, con-
grama, vindos dos EUA, pastores sequência do despreparo para a re-
evangélicos fizeram tentativas de adaptação nas suas áreas, criou
alfabetização. Estas tentativas fo- complexos de inferioridade, tor-
ram feitas na aldeia do Iumoekê 2 nando-os marginalizados na socie-
aldeia Tanorehaná. A experiência dade envolvente.
da aldeia do Iumoekê funcionava Houve uma época em que
como semi-intemnato, enquanto se fez presente a atuação do SPI
que a outra, simplesmente tenta- (Serviço de Proteção ao Índio), em
va processar a alfabetização. A Utiariti e Posto Tolosa, Com res-
principal função de ambos os pro- peito ao assunto que estamos tra-
gramas era o de converter os in- tando, não posso dizer nada sobre
dios para Cristo; por isso, empe- estes postos, pois até hoje não pos-
nharam-se em traduzir os evange- suo conhecimento das atividades
lhos no idioma Pareci. Tanto assim dos mesmos. O que eu sei sobre a
é que, na aldeia do Iumoekê, o atuação do SPI remonta da épo-
pastor condenou abertamente as ca em que houve transferência de
flautas, o que há de mais sagrado vários índios do sub-grupo Kaxi-
na religiosidade Pareci. niti para o Posto Fraternidade In-
digena, hoje PI Umutina, em Bar-
O sistema usado pela Missão ra do Bugres. O programa de edu-
Anchieta abrangia a educação co- cação ali aplicado num primeiro
mo um todo, isto é, desde a esco- plano, foi assistencial. Os filhos
larização à alfabetização. O pro- dos transferidos foram criados, —-
cesso usado consistia em arreba- como eles próprios dizem — “nou-
nhar as crianças nas aldeias para tro sistema”. Hoje só os velhos
interná-los em Utiariti. Alí, dentro . conseguem falar o idioma Pareci.
do sistema de escolarização siste- Acho que é a única expressão cul-
mática, alfabetizava-se os írrdios, tural que ainda os identifica como
fazia-se a cristianização, através indios Pareci, A geração mais jo-
da pregação do catecismo e do e- vem não se identifica como índio,
vangelho. Enfim, levava-se aos in- mas como civilização. Tornaram-se
dios, através da igreja, valores éti- uns desajustados, alienados e com-
cos, morais e religiosos da socleda- plexados. Estão crucialmente de-
de ocidental, A partir do segundo pendentes da FUNAI.
quinquênio dos anos 60, concreti-
zava-se aos poucos a aplicação do
princípio: devolver os índios para ALFABETIZAÇÃO NA
suas devidas aldeias e reservas. Es- ALDEIA DE RIO VERDE
te processo, desencadeado, fez
parte na mudança da mentalida-
de de certos missionários da Mis- -. Com o desativamento de Utia-
são Anchieta, pois concluiu-se que riti, fundou-se na aldeia de Rio
este sistema de educação, em vez Verde, em 1970, uma pequena es-
de preparar o índio para integrar-
se à sociedade nacional, alienava * Missão dos Jesuítas, que tra-
o mais e mais. É bom lembrar que balha junto a grupos indigenas,
este processo trouxe traumas para em Mato Grosso, desde 1.935.
22
87) Acervo
ES RETAS
cola. Esta escola era dirigida por chamo, de complexo de inferiori-
uma equipe da Missão Anchieta. dade. Além disso tudo, não pos-
Esta equipe consistia na presença suiam convicta opção para dedi-
de um Irmão Jesuita, uma Irmã car-se ao grupo. O simples fato de
da Congregação da Imaculada receberem um salário mensal era.
Conceição e uma índia Pareci, que considerado por elas, como “sta-
foi educada desde sua infância em tus” diante do grupo. O que preju-
Utiariti. Esteve também o Padre dicou-as na forma de compreensão
Adalberto, antropólogo da MIA. e dedicação em prol do grupo
Seu trabalho essencial consistia Pareci.
em pesquisa da mitologia Pareci. Dentro deste conjunto de fa-
A linha de escolarização, ape- tores é importante dizer das cir-
sar da boa vontade da Irmã, obe- cunstâncias de vida que — ainda
decia o mesmo padrão de Utiariti. hoje — envolvem as crianças. com
Lecionava-se para as crianças du- a saida da irmã, a presença de
rante o dia e para adultos à noite. crianças na escola foi aos poucos
Quanto às crianças, é bom lem- definhado. Isto aconteceu por fal-
brar que tinham um forte atrativo ta de estímulo material, princi-
para a escola: a merenda escolar. palmente, a nívei de alimentação
Além disso, a Irmã com plano de para as crianças. A dificuldade pa-
fazer um quintal nos fundos da ra se conseguir alimentos geram
casa pegava as crianças para a- mecanismos de dispersão, prejudi-
juntar esterco de animais para cando dessa forma a presença sis-
por nas plantas. Em troca ganha- temática de crianças nas aulas.
vam presentinhos, o que me fez Também o alto grau de desinte-
lembrar dos tempos de minha in- gração do grupo nos aspectos so-
fância em Utiariti quando então, ciais, políticos e econômicos acar-
reta consequências negativas cujos
eu e outras crianças faziamos o
reflexos atingem o esquema de al-
mesmo trabalho. Estes fatores o-
correram, principalmente, porque fabetização na sua forma como
até agora tentou-se implantar.
faltou preparo de nível antropoló-
gico por parte da Irmã. Posterior- Posterior a essas tentativas de
mente a essa tentativa, houve vá- alfabetização, houve experiências.
rias experiências de alfabetização A primeira foi feito por uma índia
feitas por professores índios. Tan- que estudou no Instituto de Ensi-
to assim é que após o afastamen- no em São Paulo. Ela se precupa-
to desta equipe da MIA, a escola va em ensinar os “bons costumes”
ficou sob responsabilidade direta através da Biblia e um pouco de
de duas índias que estudaram em civismo brasileiro, mostrando co-
Utiariti. Uma delas, aquela a que mo heróis as mesmas personalida-
me referi anteriormente, por não des consideradas oficialmente co-
se adaptar à realidade Pareci, a- mo heróis nacionais, A segunda,
cabou casando com um civilizado foi uma. tentativa de alfabetização
e foi morar na cidade. A outra sa- realizada numa aldeia vizinha,
be falar perfeitamente o idioma patrocinada por um índio e incen-
Pareci, mas não soube usar desse tivada pela OPAN (Operação An-
tributo para dar continuidade ao chieta). Fatores, como a falta de
trabalho. Ambas sofriam, o que preparo do professor e falta de es-
23
SR [ENTAO
—A ISA
Ljo material não permitiram a ladores, projetam seu etnocentris-
continuidade. A terceira experiên- mo nos seus subordinados. Isto a-
cia, mais recente, só foi possível carreta uma consciência depri-
depois que a FUNAI deu migalhas mente de origem, do estado de ser
de uma tal de merenda escolar. das pessoas, o que faz com que to-
Isso serviu de estímulo, apesar de dos, dentro de suas possibilidades
a merenda escolar trazer consigo, individuais, aspirem condições de
pelo menos aqui dentro da reali- vida “condizentes” dentro desta
dade Pareci, uma espécie de mono- estrutura global de dominação.
polização de produtos de alimenta- Pois sim, foi dentro deste contex-
ção. to que minha mentalidade, foi for-
jada o que me levou a ter comple-
xo de inferioridade.
MINHA EXPERIÊNCIA Ao voltar para meu povo me
encontrei diante de uma realida-
Cabe aqui relatar minha pró- de chocante. Só me foi possível
pria experiência dentro do proces- superar este impasse através do
so de alfabetização. Mas, antes recebimento de uma conscientiza-
quero dizer algo sobre minha pes- ção maciça. Se não ocorresse isto,
soa e os meios que me influencia- hoje eu seria um indivíduo men-
ram. talmente alienado. Depois disso,
Desde muito criança fui leva- passei a compreender melhor a vi-
do para Utiariti, O meu período da, a realidade em que me criei, a
de aprendizagem ficou dividido as- realidade de meu povo. Procurei,
sim: a primeira infância em Utia- então, levar-lhes o conhecimento
riti, a segunda em Diamantino, no real das coisas. Por isso tentei, a-
Lar do Menor e, na adolescência, través de uma alfabetização, pôr
no seminário da mesma cidade, em prática meus princípios. Neste
para poder estudar o ginasial. Es- tempo ainda não posuia base su-
tive portanto fortemente influen- ficientemente sólida para dirimir
ciado pelos valores que permeiam um processo de alfabetização. Na
a concepção dos civilizados. época tentei, dentro de minha pos-
Como a estrutura ideológica, sibilidade de entendimento no as-
filosófica, política, econômica, so- sunto, forjar uma pedagogia de
cial e religiosa é de imposição, ma- ensino que fosse, de fato, instru-
nipulação e dominação, logica- mento de aprendizagem. Isto le-
mente há mecanismos de execução vando em conta a característica
desses princípios. Agora, há duas cultural do grupo, a realidade do
faces bem distintas que merecem grau de contato e sua influência.
ser abordados: os dominadores e os Esse método seria um meio para
dominados, que arrisco interpre- que os aprendizes tivessem melhor
tar também como manipuladores conhecimento sobre sua vida e da
e os manipulados. Dentro desta ló- realidade que os envolve. Neste
gica, os dominados, ou manipula- trabalho, deparei-me com vários
dos, passam a agir como uma es- problemas. Entre eles os seguin-
pécie de “robot”, procedendo da tes:
forma como foram previstos para — O fato de ter sido criado desde
agir. Os dominadores, ou manipu- pequeno fora e não aprender .
24
AE RAS
S idioma do grupo, ofereceu língua portuguesa. O mesmo acon-
barreira de comunicação en- tece quando se trata de fazer lei-
tre meu povo e eu; tura de escrita em idioma portu-
— Não tinha base suficiente de guês. Eles dificilmente conseguem
conhecimento sobre o método escrever e ler na escrita portugue-
a ser aplicado; sa. Neste caso, parece que tivemos
— Falta de material didático a- um ensino monolíngue, a língua
dequado à realidade Pareci; Pareci. Isto é explicável: o mestre
— Carência alimentar das crian- dominou e interpreta perfeitamen-
ças que frequentavam a esco- te o linguajar Parecio que o le-
la. vou a ensinar com dose maciça o
Esta experiência fiz em 1075, idioma.
mas não foi possível continuar, O ensino bilíngue, como for-
pois, além das dificuldades acima ma de ensinamento, é válido, pois
apresentadas, tinha sob minha é o único instrumento que respel-
responsabilidade o atendimento ta e incentiva a continuidade da
de uma tal cooperativa é, ão mes- lingua indígena. O que se deve
mo tempo, faziarnos os preparati- combater e evitar é a ideologia que
vos para implantar o projeto de age por trás desse método. Corão
lavoura mecanizada. exemplo concreto, podemos citar
É bom lembrar que por causa a experiência nos Pareci. Esse ins-
da grande dispersão do grupo trumento tentou destruir a nossa
numca foi possível contintar um religão. O mesmo se pode dizer das
esquema de alfabetização, ou experiências da FUNAI, que usa
qualquer espécie de trabalho sis- desses métodos para melhor des-
temático que abrangesse todos Pa- caracterizar o índio, ou seja, “in-
reci. Só para termos uma idéia, as tegrá-lo” à sociedade nacional.
aldeias distam umas das outras de
cinco a 200 quilômetros.
NECESSIDADE DO ENSINO
NOS PARECI
ENSINO BILÍNGUE

A única experiência que hou- Atualmente, vários Pareci re-.


ve nos Pareci, dentro do sistema clamam a necessidade de aprender
bilingue, que eu conheço, foi feito a ler e escrever, principalmente,
pelo SIL (Sumer Institut of Lin- para seus filhos, pois percebem
guistic). Não tive oportunidade de que seu envolvimento, cada ves
acompanhar esse sistema, mas pos- mais crescente com a sociedade
so dizer com segurança, que o ob- envolvente, exige conhecimento
jetivo essencial desse trabalho, foi da língua portuguesa. Agora, tem
de preparar o índio para ler, estu- uma: o Pareci não tem uma posi-
dar e pregar o evangelho aos de- ção crítica quanto ao método de
mais. Agora, aconteceu um fenô- ensino a ser aplicado, pois fica pa-
meno curioso: esses índios sabem tente que aspira um ensino seme-
ler e escrever perfeitamente no lhante aos métodos de ensino até
idtoma Pareci, mas sentem dificul- agora por ele conhecidos. Não há o
dade de fazer a tradução para a sentimento de esforço e colabora-
25
REED
= /o3ã6 iutánia, no sentido de se empe- sistema de educação, em á-
nharem para exigir uma aprendi- rea indígena;
zagem, o quanto mais possível d — Ainda impera aquela vonta-
dentro da modalidade Pareci. Se- de de aplicar sistemas de en-
gundo, pensem eles, a obrigação sino pré-estabelecidos, se-
de ensiná-los e programar formas gundo a ideologia de domi-
de ensino, cabe unicamente ao nação e seu etnocentrismo;
professor. e — Há carência de pedagogia es-
cífica para as diferentes rea-
lidades indígenas;
CONSIDERAÇÕES, RESUMO f — Há carência de participação
de especialistas na elabora-
E CONCLUSÃO ção de programas. Isto é, in-
dios e os entendidos no as-
sunto;
Dentro do contexto mais a- g — No caso Pareci, o programa
brangente sobre educação indíge- de alfabetização está intima-
na gostaria de considerar alguns mente relacionado com o as
pontos de vista. Depois, fazer um pecto econômico, em termos
resumo sobre o assunto explanado de alimentação;
e, por último, eneluir o trabalho. h — Os contatos levam as socie-
1 — Muito escreveu-se, co- dades indígenas à um “pa-
mentou-se, pron'eteu-se, fez-se, e ternalismo cultural” que, se-
várias entidades. instituições, ór- gundo o antropólogo Pe. A-
gaos oficiais e oficiosos, foram dalberto H. Pereira, é pior
criados para melhor atender o ín- que o patemalismo material;
dio; no entanto, ele continua sen-
do ignorado, explorado, alienado, Portanto, depois de verificar-
mendigando o que era seu. Enfim, mos o problema da educação indi-
continua sendo visto como um es- gena, devemos buscar princípios
trangeiro dentro de sua pátria, de trabalho. Isto é, buscar elemen-
2 — As tentativas e promes- tos para um trabalho de educação
sas, os “programas de promoção condizente com a realidade do ín-
humana”, as pesquisas e estudos dio. Por isso darei, a seguir, um
antropológicos que serviram para esquema que está mais ou menos
proveito e status dos pesquisadores de acordo com o que percebo da
não levaram a nada. Simplesmen- realidade;
te, servem para proveito e status 1 — Utilização da língua do gru-
do pesquisador. po para alfabetização (a-
Resumindo a explanação apre- prendizado mútuo) ;
sentada veremos que: 2 — “Trabalhar com elementos de
a — Há projetos de educação co- univérso cultural do grupo.
mo forma de alienaçãe:. (Exemplo: aspectos do coti-
b —. O ensino bilingue tem servi- diano, como casa, alimenta-
do para melhor conhecer o ção, roça, caça, etc., valores
índio e, dessa forma, destruí- culturais, como espaço étnico
lo; (grupo x terra), mitos, cren-
c — Não é possível implantar um cas, festa, artesanatos, técni-.
26
87) SS cas; geografia tradicional, 4 — Conscientização sobre a so-
E RETA conhecimentos do meio-am- ciedade envolvente e demais
biente, etc.); grupos;
3 -- Conscientização sobre a rea- 5 -—— Elaboração de material didá-
lidade do grupo (Problemas, tico e de leitura na língua
carências, saidas); indígena e em português.
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ECONOMIA PARECI
a “melhor avaliar meu pon- de que devem receber sem contri-
to de vista sobre o nosso atual es- buir. Isto é a origem do paterna-
tágio econômico diante da econo- lismo material. Para reforçar este
mia nacional, farei um breve rela- princípio no índio, o próprio civi-
to das frentes de contato e suas tizado guiado por seus preconcei-
consequências, que foram mais tos etnocêntricos favorece o estru-
maléficas do que benéficas às co- turamento, deste tipo de pensa-
munidades indígenas. Passarei a mento no índio; pois é comum se
seguir, a descrever nossas peculia- ouvir dizer que aos índios se dá o
ridades econômicas atuais. Inclu- direito de “exigir as coisas que o
sive o projeto de lavoura mecani- governo manda”. Isto aliena o
zada, sua aplicação e seus refle- pensamento indigena tirando-lhe
xos sociais. as possibilidades de uma autênti-
ca integração.
Os principais agentes respon.
O CONTATO sáveis em criar novas necessida-
des aos índios são: as frentes de
pacificação, frentes missionárias,
Como sabemos, a economi frentes extrativistas, frentes de
das sociedades indígenas, tradicio- mineração, frentes pastoris, fren-
nalmente, é baseada na caça, pts- tes agricolas e finalmente a ex-
ca, coleta de frutas silvestres e pansão rodoviária que expõe as so-
uma agricultura, na maioria das ciedades indígenas sob o maciço
vezes, rudimentar. No processo de contato com a sociedade nacional.
contato este sistema equilibrado Quando os índios estão “integra-
de economia, soíre rupturas, aba- dos”, ou seja, “são civilizados”,
lando a estrutura desta economia praticamente a maioria dos gru-
e tem reflexos sociais altamente pos que iniciaram o contato estão
nocivos aos indígenas. desaparecidos por causa dos mas-
Com o correr do contato, a sacres, doenças e seu desapareci-
forma etnocêntrica e ecolonialista mento compulsório como grupos
de imposições dos civilizados leva étnicos. Encontramos assim, rema-
ao colapso o comportamento, já nascentes esparsos das tribos de-
estruturado, dos índios. Isto afeta saparecidas.
diretamente, melhor dizendo, têm Vemos, então que os processos
reflexo negativo na economia índia. de contatos e os métodos de intro-
Acontece isto porque a forma como dução de novos valores destroem
são doados os novos valores mate- a economia tribal e o conjunto de
riais não educa o índio no sentido valores que determinam o compor-
de conseguir “as: coisas” com seu tamento indígena. Daqui é que
esforço ou sua participação. Por- parto do seguinte princípio: se to-
que olhando sob o prisma de “pro- das estas frentes tivessem o co-
dução e consumo”, jamais essas nhecimento, a compreensão e sgo-
coisas seriam doados como o são bretudo o respeito às formas de
pára os índios. ' vida índia e não intervissem, hoje
Me parece que é a partir des não estariamos em situações tão
ta realidade de contato que os in- calamitosas. Mas por acontecer o
- dios aos poucos assimilam a idéia contrário estamos terrivelmente,
30
87) Acervo
ES RESTA
nos dias atuais, dependentes que nacional. A depopulação deu-se
às vezes chegamos ao cúmulo de a) Pelas perseguições e doenças;
uma total miséria. 'Tanto é que. b) Pelas levas de índios para as
se quisermos mudar o rumo dos matas de poáia e seringais;
acontecimentos, torna-se necessá- c) Pela aquisição de mão-de-obra
rio, no momento, fazermos inter- na extensão de linhas telegrá-
ferências. Esta interferência deve- ficas;
rá ser correta e eficaz para que d) Pela aquisição desta mesma
devolvamos a maneira de pensar mão-de-obra nos mais diver-
e agir das sociedades indígenas, sos trabalhos;
pois, muitos grupos já não econse- e) Pelos sistemas de educação.
guem caminhar de per si. que obedecendo a uma norma
geral de imposição e de domi-
nação, preparou os índios
MINHA EXPERIÊNCIA com tendência a fugir de seu
JUNTO AOS PARECI povo.
“Os efeitos acumulativos” de
novas necessidades advindas, do
Para começo de conversa, des. contato e a crescente dependência
creverei, mais ou menos, a situa- econômica obrigou-nos a buscar
ção em que encontrei meu povo. novas formas de economia, por e-
Por isso retornarei um pouco no xemplo:
passado quando então, meus an-
tepassados tiveram contatos com
diversas frentes de penetração e O ARTESANATO
como essas frentes influiram no
atual estágio social e econômico
dos Pareci. Fomos afetados direta- Por vários anos, o artesanato
mente pelas frentes extrativistas, foi nossa principal fonte de renda:
pastoris, mineração e anterior a monetária; hoje ela está ameaça-
estas, com os preadores de índios da por causa da mudança da es-
Tivemos contato com missionários trada para o vale do Guaporé. Is-
e fomos afetados pela expedição to significa crise na atual econo-
de linhas telegráficas e mais re- “mia e o agravamento desta situa-
centemente pelo sistema maciço ção. Portanto, urge o estudo e a
de implantação de rodovias o que análise desta situação para que
acarretou a vinda maciça de fa- possamos definir novas formas de
zendas agrícolas a partir da déca- ação viáveis que estejam dentro
da passada. das possibilidades dos Pareci.
Na medida em que estas fren- O fator venda de artesanato
tes vieram envolvendo-nos, fomos fez com que relegássemos a econo-
essimilando novos valores mate- mia agrícola de subsistência a um
rais e conceitos que fugiram da segundo plano. Simplesmente por-
real interpretação desta nova rea- que o mesmo ofereceu condições
lidade. A dispersão e a depaupe- de resultado imediato. A caça con-
ração étnica do grupo foram as tinua tendo a mesma intensidade
consequências fatais e inevitáveis de motivação. Isto porque:
deste confronto com a sociedade il) — Por ser a principal fonte
3
SR [ENTAO
—A ISA
e carne feita por marreteiros e vendedores
2) — porque é fonte de certas da estrada.
matérias-primas para O Basicamente, a cooperativa
fabrico de alguns artesa- propunha a vender mais barato e
natos. facilitar a troca e venda de arte-
Para os novos hábitos alimen. sanatos. Eu, como responsável di-
tares parece que não se dá muita reto, tentei aplicá-la à sua finali-
importância, porque é comum se dade.
ver índios aplicarem os fundos ar- Quando assumi a cooperativa,
recadados em materiais supériíluos fazia pouco tempo que havia re-
ao invés de satisfazer suas reais tornado dos meus estudos. E como
necessidades. as últimas férias de aula passei
Outra consequência deste pro- junto à mãe, época então, quendo
cesso econômico é a tendência pa- pude sentir a difícil situação do
ra o individualismo, pois todo o meu povo. O motivo de dirigir a
dinheiro arrecadado de forma in- cooperativa, automaticamente me
dividual não se presta para apli- jogou fora da realidade Pareci,
cação comunitária. Acrescento a Isto aconteceu porque fiquei ten-
estas consequências a mentalida- do uma certa estabilidade econô-
de predominante no seio Pareci mica, o que contrastava com a si-
que é o de receber “as coisas” sem tuação dos demais.
contribuir, Continuemos com o assunto
Do abandono das roças, da da cooperativa. No ano de sua im-
má aplicação do dinheiro, ocorre plantação e anos posteriores, ten-
a terrível consequência de penúria tei, auxiliado por leigos missioná
a que estamos submetidos. rios, um trabalho de conscientiza-
Recentemente, parece que a ção. Acontece que cometi equivo-
atenção de algumas famílias está co. FRefirome a minha posição
se voltando para as roças de sub- com relação aos demais. Me com-
sistência de uma forma mais ele- parei com um “farto” que flutua
tiva pois estão sentindo a instabi- na folga tentando impor, cu acon-
lidade que outros meios e o pró- selhando, normas de vida sem vi-
prio artesanato oferece. ver ou sentir o problema Pareci.
Foi após descobrir esta verdade
que espontaneamente entreguei o
A COOPERATIVA cargo da cooperativa à responsabi-
lidade do capitão João Arrozama-
rê. Mas, eu previa que isto daria
Convém mencionar à experi- em nada. Assim como foi previsto,
ência de uma certa cooperativa a cooperativa acabou em nada.
no tema “A Economia Pareci”.
A finalidade desta cooperati-
va — que não tinha nada de prin- O PROJETO
cípios cooperativistas —, era o de
suprir as necessidades básicas dos
Pareci, tais como: açúcar, café, Foi dentro das duas realidades
sabão, sal, gordura de cozinha acima descritas que tentamos im-
etc. Isto para evitar a exploração plantar o sistema de lavoura me-
32
SETE
—JA esmisada. Uma monocultura — o por causa de fatores como:
“arroz. — Crise de alimentos,
Não foi com surpresa que vi- — não se vende mais facilmente
mos este trabalho ser ineficaz. Is- o artesanato, exceto nas aldeias
to ocorreu por três motivos prínci- do Juruena, Juína, Virapurú —
1) -— Porque os Pareci não esta- aldeias que continuam fora da
vam suficientemente consci- influência do Rio Verde,
entizados quanto à atitude — e fechamento do posto Rio Ver-
que deveriam tomar frente de, que até pouco tempo serviu
ao projeto, e, por isso, as di- de um centro comercial de ven-
versidades de opiniões fugi- da e compras.
am ao real objetivo do proje- Dentro desta realidade, pode-
to. Exemplo: Numa reunião se comparar o projeto como tenta-
anterior à implantação do tiva de construir o edifício do teto
projeto, representantes de para os alicerces. Portanto, para
várias aldeias estiveram pre- melhor compreendermos o que foi
sentes no encontro na aldeia este projeto é necessário analisar-
Makuatyakerê. Quando se mos, sob prisma técnico, antropoló-
deu palavra livre aos partici- gico e econômico, todas as fases do
pantes, Orivaldo, da aldeia mesmo para vermos as conveniên-
do Sacre, expôs mais ou cias e as inconveniências.
menos à seguinte: nós temos 1 — Sob o aspecto técnico: desco-
que trabalhar agora porque nhecemos inovações técnicas
tem o. trator. Vamos plantar e normas para um trabalho
muito arroz. Vamos repartir de produção em larga escala
o arroz entre nós e o que so- e padronizado, Uma exigên-
brar vamos vender para re- cia de capitalismo para con-
partir o dinheiro entre nós. corrência no mercado a bons
Este índio no entanto foi um preços que compense os cus-
dos que mais criou problemas tos. Isto foge a nossa compre-
no andamento do projeto. ensão, pois é um sistema Tra-
2) — Não contamos com que espé- dicalmente contrário ao nosso
cies de interferência este pro- (subsistência);
jeto iria influir dentro do a- à — Uma supervisão antropológica
tual padrão cultural do grupo com real conhecimento de fa-
3) — Por ser um projeto, de certa tores que geraram as circuns-
forma, imposto. Disto decor- tâncias atuais. Aqui, no caso.
reu que os Pareci viram o “A Economia Pareci”. A in-
projeto, não como seu, mas tensidade de desequilíbrio e
como obrigação de agentes perspectivas reais de melho-
externos para com q grupo. ra. Deveria surgir daqui.
Hoje o projeto está inativo. E é meios, ou seja, linha de ação
comum, nos dias de hoje, alguns para “educar” o Pareci a esse
Pareci me perguntarem. se não va tipo de trabalho;
mais plantar arroz. Isto acontece 3 — Uma economia de produção
não porque eles entenderam corre- para consumo e excedente pa-.
tamente o objetivo do projeto, mas ra venda. Pela característica,
33
do trabalho é necessária mão- e civilizados e vice-versa.
de-obra estável Haveria de 3) — serem, juntamente comigo,
seguir novos modos de rela- conscientizadores do grupo e
ções humanas. É bom lembrar do próprio chefe,
que seria uma participação 4) — Equipe para estudar, anali-
coletiva sem finalidade de sar, discutir e sobretudo dis-
vantagens pessoais, isto é, cernir novos rumos para es-
bem estar social de todos. ta nossa abalada situação.
Uma das mais importantes in- Tratava-se, enfim, de uma ra-
cidências sociais fot a influência dical mudança de economia cujos
desastrosa de certos Pareci que en. mecanismos não conseguimos inte.
nheceram de perto, inclusive, con- pretar dentro de nossa cosmovisão.
viveram com a civilização. A dura Exemplo: como se explica que qua!-
realidade em que vivemos reprime quer membro do grupo tem a capa
suas paixões, orgulho e vaidade cidede de doar o fruto de sua caça
pois não podem viver como os “ei ou coleta à coletividade da aldeia e
vilizados”. O esforço a que se sub- não possui o dom de participar e
metem para viverem satisfatoria- distribuir o produto de um traba-
mente dentro do grupo, não permi- lho onde foram aplicados técnicas
te a presença de rivais; principal- e princípios totalmente assimilados
mente, quando se trata de manu- da civilização? (Lavoura mecaniza-
sear dinheiro. Esta situação gera da, material e dinheiro adquirido
um clima de fuchico dentro do como peão).
grupo. E a tendência de tais fuchi- É sabido por todos aqueles que
cos é isolar e prejudicar moralmen- nos conhecem que, no preparo de
te os elementos de frente, Outra grandes festas, existe uma partici-
característica comum, que não é so- pação dos convidados no auxílio de
mente destas pessoas; é que 08 Pa- busca de caça e pesca para o con-
recis tem dificuldade de se subme- sumo durante as cerimônias. Im-
terem a um sistema ordenado de portante é observar que estas ati-
trabalho, O que vem em prejuízo vidades é um tipo de trabalho onde
de todos. o Pareci participa com alegria e es-
Hoje, longe de uma cooperati- pontaneidade, não considerando os
va, longe de manusear fundos de esforços exigidos. Também não se
projeto, sentindo as mesmas neces- leva em conta a carência de alimen-
sidades do dia a dia, vejo a proble- tos na aldeia, praticamente, pois
mática Pareci sob outro ângulo, E- quase somente as mulheres e crian-
leito como segundo chefe, criei o ç=s permanecem na aldeia. Por isso,
corpo de assessoramento de chefia. farei uma tentativa de explicar mi-
Estes assessores têm como objetivo nhas observações sob estes aspec-
principal: tos.
1) — Quebrar o isolamento a que Com a entrada da Funai na
estive submetido até agora, área, buscam-se, através dos chefes
2) — freiar, o que eu chamaria de do PIs (Postos Indígenas), concre-
incompatibilidade do chefe tizar a infra-estrutura dos PIs pa-
diante dos problemas, índios ra corresponder à assistência “ade-
34:
el57, Acervo
quada à realidade Pareci'. Natural- dor-explorado e tantas outras situ-
mente, os chefes dos PIs objetiva- ações injustas que o sistema cspi-
ram uma participação comunitária talista gera. Umas das inevitáveis
nos trabalhos (roça, pomar, horta, consequências do contato é a gra-
etc). dativa descaracterização de boas
Uma certa euforia tomou con- coisas existentes nas instituições
ta dos participantes. Mas, como indígenas. Isso é um fato palpável
sempre acontece, nós, os Pareci, a- em nossa realidade.
costumamos a colher resultado eco- Se um dos objetivos: do traba-
nômico (dinheiro) imediato de lho de assistência e promoção pro-
nossos trabalhos (serviço braçal,
grimado pela atuação da Funai,
artesanato, etc). Na prática, nos necessariamente vise também uma
trabalhos comunitários este resul- relativa independência econômica,
tado não aparece, o que gera uma a forma conceituada em riosso pen-
série de insignificantes e absurdos
samento equipara-se a um contá-
pretextos para não participarmos gio pelo “conto da sereia”. Pois
mais nos trabalhos. Aqui encaixo
muitas promessas nos são feitas
meu conceito sobre a maneira, a
sem que muita coisa seja cumprida
forma e o modo do Pareci entender
enquanto aguardamos em vã espe-
o trabalho de promoção e sobretu-
rança por dias melhores. Atualmen-
do de uma ajuda financeira,
te propaga-se uma nova ideologia
Agentes externos pretendem
em nosso meio sobre dias melhores.
implantar trabalhos organizados,
Isto, segundo esta ideologia, será
participados e sistemáticos, visan-
do uma melhoria de nossa vida e
possível através de um novo proje-
to como é exemplo a lavoura meca-
sobretudo uma melhora alimentar.
Para que isso ocorra, estão sendo nizada,
alocados recursos para setores como Importante é notar o seguinte;
saúde, educação e desenvolvimento enquanto alguns (índios) propaga-
comunitário (roças de toco, lavou- dores desta idéia aceitam a intro-
ra mecanizada, etc). dução de uma tecnologia sofistica-
da (tratores, implementos, insu-
É sabido que a finalidade da e- mos, etc.) paralelamente deixam
conomia indigena é para sobreviver transparecer uma “resistência cul-
e como princípio de filosofia de vi- tural”, São contra o que qualificam
da choca-se frontalmente com os “o branco quer virar nossa cabeça,
princípios econômicos do capitalis- fazer nós pensar iguais a eles, viver
mo (produção, consumo, lucro, etc). como eles; porque se assim não fos-
São dois mundos que jamais se se; eles (a Funai) não ofereceriam
condizem entre si. tantas coisas para nós”.
A finalidade única de sobrevi- Cabe aqui lembrar que dentro
ver pera uma série de relações in- deste processo convulsivo do nosso
ter-pessoais (sociais), com base nas pensamento para tentar compreen-
instituições tribais, de igualdade der e assumir uma série de mudan-
na distribuição de atividades. Isto cas qué o contato nos impõe, existe
impede o surgimento de situações outra realidade que na maioria dos
como patrão-empregado, explora- casos escapa a nossas observações
35
DD anbieas rápida mudança do pa-
norama econômico da região (es-
tradas, fazendas, vilarejos, cidades, O EXTRATIVISMO
etc). Isto gera novas modalidades
de contato, o que exige um trabalho
de conscientização. É baseado nes- Em outras épocas, os Pareci
ta realidade que agentes externos foram inseridos na economia extra-
(chefes de PIs, professores, enfer- tivista da poaia e borracha como
meiros) procuram introduzir novas poaieiros e seringueiros. Hoje, a
técnicas, novos conceitos, desconhe- borracha é economia preponderan-
cendo a estrutura tribal, valores in- te de várias famílias Pareci.
dígenas ainda existentes (institui- Este eficaz meio econômico po-
ção, tribo, cultura, etc). de proporcionar-lhes uma vantajo-
Em meio a isto tudo, cabe sali- sa independência em todas os sen-
entar uma real falta de vontade e tidos. O dinheiro, razoavelmente
interesse em dedicarmos mais de fácil e com certa abundância, se a-
nosso tempo de atividades particu- plicado ordenadamente, poderia le-
lares em atividades de interesse co- var certas melhoras a este setor de
letivo. Isto acontece sob mil e um atividades.
pretextos, segundo impulso de ca-
da indivíduo.

Pessoalmente, sou a favor des- A APOSENTADORIA.


ta mudança econômica buscada
pelo meu povo. Mas a solução para
isto não se baseia apenas em recur- A aposentadoria é o aspecto e-
sos financeiros e a aplicação de téc- conômico mais recente introduzido
nica correta, mas também, um tra- nos Pareci. E convém dizer algo so-
balho paralelo de conscientização bre o mesmo. Teremos, portanto,
esclarecendo a conveniência (possi- mais uma prova de uma má aplica-
bilidade de uma rea! melhoria) e ção do dinheiro. Este meio propor-
inconveniência (perigo de uma de- ciona a satisfação de necessidades
pendência sempre maior). que, posso dizer, são mais supér-
Com a implantação de três fluas do que úteis.
postos da Funai na área Pareci, e- Para sacar o dinheiro, geral-
xiste, atualmente, uma tendência mente acompanha o beneficiado
de isolamento entre áreas segundo um ou mais parentes. Quem ma-
uma divisão administrativa dos nuseia o dinheiro não é o beneficia-
postos. . do mas seu filho, oc irmão, o neto
Existe um grande obstáculo a- que se acham mais em condições
tualmente que impede de iniciar de fazer a transação comércial de
um trabalho segundo “aspirações” compra.
de vários Pareci: A falta de interes- Este sistema de aplicação do
se dos principais dirigentes da Fu- dinheiro proporciona meios para
nai em relação sos fundamentais que o beneficiado seja explorado
interesses indígenas. pelos seus parentes. E se não se
36
submete a isso, corre o risco de ser momento quando se comprova com
explorado pelos comerciantes de clarividência que as missões foram
lojas e armazéns. responsáveis e colaboradoras em
A seguir citarei dois exemplos destruir a cultura dos povos indi-
de programas: — Utiariti, seu sis- genas. Tanto assim é que para os
tema de “educação”, seu reflexo na índios assumirem dignamente nova
atualidade e o projeto econômico realidade é necessário a implanta-
da Comunidade Indigena do For- ção de processos de reeducação in-
moso —; para frisar o meu ponto tegral do índio a partir da nossa
de vista sobre o impacto destruidor realidade atual. Que nos devolvam
de programas impostos, sem o pre- a nossa capacidade de iniciativa
paro adequado dos índios para que roubada. Pergunto: a quem cabe
possam participar integralmente da esta responsabilidade?
transformação de suas sociedades. Respondo: Aos Índios, em pri-
Faço questão de dizer estas coisas, meiro hkugar;, em segundo lugar.
porque estão intimamente ligadas. aos missionários e todos aqueles.
com nosso estágio econômico atual. que nos propõem ajudar. Digo aos
a) — O programa de promo- missionários porque, segundo dá
ção humana implantado em VUtia- entender a citação acima, não hou-
riti, preparou de certa forma, a a- ve culpa da missão e portanto não
lienação de uma série de famílias cabe a ela a responsabilidade de
índias que o frequentaram. nos auxiliar neste processo de Tre-
É eportuno no memento rever educação.
a resposta dada à minha carta de- b) — Havia uma área de terra
poimento, por Dom Henrique Fro- em litígio na aldeia do Formoso,
ehlich, em 02/08/76. Que em meio que para vê-la solucionada de for-
a respostas acertadas houve aigu- ma satisfatória à vontade dos ín-
mas que não condisseram com a re- dios e à do fazendeiro, celebrou-se
alidade. Entre elas, a seguinte ci- um acordo, através da FUNAI
tação: Neste acordo, os Pareci do Formo-
“Aliás, não acredito que Vocês so cederam uma parte de terra ent
não têm a capacidade de racioei- troca de quatro anos de ajuda eco-
nar. Não é educação, Utiariti, Pa- nômica. Esta ajuda econômica, sem
temalismo ou outr5..ismo a descul- planejamento prévio, em forma de
pa válida para dispensar-se de tra- maquinário e insumos e recursos
balho de raciocinar com força é monetários que foram aplicados no
responsabilidade própria: é a pró- trabalho; trouxeram, como se pre-
pria preguiça de pensar, e medo de via, consequências de caráter dis-
viver, um receio de respeitar-se a st sociativo e o desequilíbrio do pro-
mesmo; o homem vence este medo cesso normal das roças de subsis-
de viver, quando deixa de culpar tência. Agora, o projeto está. na
outros pelos: fracassos, ou pelo que sua fase final e o resultado foram
ele considera como tais, e começa a fracassos sucessivos.
assumir a responsabilidade pelo No início do projeto os índios
que pensa, diz e faz”. tentaram implantar o sistema de
Estas coisas foram ditas num trabalho idêntico aos sistemas usa-
37
os pelos civilizados. Eles pensavam dos civilizados.
que tudo faria certo mas. colheram 7) — Fracassos de implantação de
desavenças internas por causa do projetos econômicos em á-
trator. Circunstâncias estas pareci- reas indígenas por fatores
das com o início do projeto de la- como:
voura mecanizada na Reserva. a — imposição de tais projetos,
Hoje, torna-se necessário, para b — desconhecimento da reali-
reparar o erro, levar ao conheci- dade indígena nos aspectos
mento daquela comunidade esta sócio-culturais e econômicos
causa desfavorável a eles. No en- e o desconhecimento de im-
tanto, barreiras de carácter etno- plicâncias dos projetos sobre
cêntrico daquela comunidade não tais ordens de valores,
permite que a gente vã interferir c — a falta de infra-estrutura ne-
nas “suas coisas”. Os novos diri- cessária e adequada à reali-
gentes daquela comunidade pro- dade indigena,
curam mais diáloro. O que me leva d —. falta de orientação correta e
a crer que com orientação e persis- adequada que leve o indio a
tência consigamos recuperar o per- assumir dignamente estes
dido. projetos .

RESUMO PERGUNTAS E RESPOSTAS

Fazendo resumo de tudo o que


foi dito até o momento, teremos 1) — Como mudar o rumo disso
uma visão de fatores que implicam tudo?
na mudança da economia tribal: ou 2) — “Temos, nós índios, condições
melhor dizendo, na desintegração de sobreviver dentro dessa
da economia tribal diante da eco- realidade?
nomia mercantil. Veremos então Primeira resposta: Para que
que as principais consequências haja, uma melhoria econômica pa-
são: ra o índio é necessário incentivar,
1) — A desestruturação de nossa orientar os grupos indígenas que já
economia tribal e suas con- vem aplicando corretamente méto-
sequências dissociativas. dos de trabalhos autônomos. Segun-
2) — A “assimilação” de novos da, aplicar planos de reeducação,
valores econômicos e cultu- que eu chamaria de conscientização,
rais. nos grupos em vias de desintegra-
3) — A dependência econômica. cão ou que já não conseguem defe-
4) — A imposição de conceitos que nir novos rumos. Isto significa, de-
criam pensamentos de de- senvolver em profundidade e conhe-
pender no índio. cimento de nossa realidade e crien-
5) — Tendência para a individua- tar-nos para que hbusquemos nos
lização. resquícios de-nossas tradições, ele-
6) — Deformação do pensamento mentos chaves que sirvam de estí-
indígena diante do mundo mulo para uma vida nova.
38
87) Acervo
ES RETAS
Terceira resposta: Dentro de 'cubram seu verdadeiro lugar, seu
um contexto mais amplo de econo- valor. para exemplo e constru-
mia, isto é, dentro da “filosofia eco- cão de uma sociedade mais hu-
nômica do capitalismo”, jamais te- mana e mais justa na repartição
remos chances de sobreviver, por de bens. O que, em vantagem per-
isso é necessário e urgente: rentual os próprios índios já vivem.
1) Tomarmos conhecimento de A partir do momento em que o ín-
nossa realidade, orientados por So descobrir que ele é, e sua poten-
aqueles que objetivam nossa cialidade de agente transformador
melhoria como grupos étnicos dentro de sua realidade atual, na-
e como povos distintos. turalmente, se integrará dentro do
2) Levar ao conhecimento indíge- processo inicialmente mencionado.
na a ideologia dominante do O que, aliás, é interpretado como a
capitalismo.e . denunciar seus autêntica autodeterminação.
meios, métodos e instrumentos Quanto aós recursos humanos,
de aplicação. é sabido que todas as organizações,
3) Buscar nas comunidades indi- entidades, instituições pró-indios,
genas, pessoas que tenham inclusive a FUNAI, não dispõe de a-
uma visão mais ampla do pro- gentes, em número, suficientemen-
blema indigena para incenti- te preparados para assistir ao índio.
vá-los e orientá-los para que Referindo-se especificamente às
num primeiro plano sejam eles entidades de apoio e de assistência
os próprios portadores da au- ao índio. gostaria de frisar, que es-
têntica promoção de seu povo. tamos no tempo de partir para a-
4) Proporcionar meios materiais ções concretas numa atuação trans-
financeiros e humanos que nos formadora como tentativa de mu-
auxiliam em nossas iniciativas dar defenitivamente as circunstân-
desde que tenhamos objeti- cias atuais.
vos corretos, claros e sobretudo Há necessidade de extinguir a
bem definidos. forma passional de encarar o índio
que ainda impera em agentes das
mais diversas entidades, institui-
COMPLEMENTAÇÃO DA ções e organizações pró-índios.
ÚLTIMA PERGUNTA Estamos no tempo de pensar
junto com o índio não para o índio.
Hão de perguntar-me: Como Estamos em tempo de preparar o
proporcionar estes meios, principal- índio para arrancada final, fazen-
mente humano? do-o ver e exigir seus direitos, o que
Respondo: Estudando, anali- já vem sendo feito, mas ainda não
sando, acompanhando, orientando basta. Temos que fazê-lo ver, exigir
e sobretudo assumindo junto com e sobretudo assumir as novas cir-
o índio todas as iniciativas positivas cunstâncias que vem surgindo.
dos mesmos. Assumir juntamente com ele,
Não tendo os índios esta com- quando fôr necessário, por isso ne-
petência, auxiliá-los no processo de cessitamos de gente preparada em
conscientização para que reedes- todos os setores de ação junto ao
38
Não basta dedicar-se apenas. de auto-determinar-se. Aqui torno
um, dois, ou alguns anos de vida a repetir o que já disse: Proporcio-
ao índio, mas dedicar-se até quan- nar meios materiais, financeiros e
do o índio estiver suficientemente humanos que nos auxiliem em nos-
preparado para assumir seu desti- sas iniciativas, desde que tenhamos
no. cbjetivos corretos, claros e, sobretu-
Assim como as entidades con- do, bem definidos.
seguem fundos para seu funciona-
mento, há que proporcionar recur- Daniel Matenho Cabixi
sos para as comunidades em vias

ao
O AUTOR
DANIEL CABIXI

À
Ca
Daniel Matenho Cabixi percorreu, como poucos índios na História
colonizada do Brasil, o triângulo de vida e morte a que os povos indi-
genas do Continente vêm sendo submetidos há cinco séculos. A aldeia,
a escola, a igreja.
Inocente, primeiro, Daniel; consciente depois, por muitos traumas
e decepções e descobertas, maduro agora, sofridamente maduro.
Daniel não é um ingênuo. Também nãoé im vencido. Sinto-o, por
vezes, como um militante agônico. “Soldado derrotado de uma causa
Lot o To AS) AR oi
Daniel está de volta do mundo branco. Conhece seus mecanismos
de poder, seus sofismas ideológicos, seu etnocêntrico orgulho. Está de
volta ao mundo indígena. Cansado, porém fiel. Conhece muito bem —
por contrapôsição experimental — sua“identidade irrenunciável, sua
fragilidade ante o monstro, suas evangelizadoras reservas.
Ninguém como ele —-- entre os índios que sobrevivem no Brasil —
pode nos comunicar sua experiência bicultural. Agredido pelo bran-
co, sabe agora sistematizar com a língua do branco, . pode se colocar
criticamente ante o branco. Com dignidade. Com liberdade.
Entretanto, sinto que a civilização branca — que Daniel apren-
deu, na escola e na igreja do branco, a reconhecer como única civiliza-
ção: “Os índios e os civilizados” — não aceitará facilmente a fo [Sai ata E)
e o anúncio desse “pequeno grande homem” Pareci.*
Se pelo menos nós — os cristãos missionários, os indigenistas hai
gos — fôssemos capazes de recolher tanta provada sabedoria!
É tarde, mas é o tempo que nos resta.
Como após a multiplicação dos pães — fartos aqui os depredadores
— salvemos a fragmentada riqueza desse milagre de cultura alterna-
tiva, bem mais próxima das mãos do Criador que a nossa civilização
de lucro e concorrência.

* Índio ensinando à Igreja mestra? Índio educando as Universida-


des do Ocidente? Índio contestando a economia dos delfins do Sistema?

PEDRO CASALDÁLIGA

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