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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA EM CIÊNCIAS AGRÁRIAS


CURSO DE POS GRADUCAÇÃO EM DIREITO AMBIENTAL

DIREITO AMBIENTAL

PERÍCIA E AVALIAÇÃO AMBIENTAL


Prof° Luiz César Ribas
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Perícia e Avaliação Ambiental

Tema I
O processo judicial na perspectiva do Assistente Técnico

- foco na Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973, que institui o Código


de Processo Civil

- foco na Lei n. 9.784, de 29 de janeiro de 1999, que regula o processo


administrativo no âmbito da Administração Pública Federal

Tema II
O Perito Judicial e as Demandas Ambientais

Tema III
Avaliação Econômica do Meio Ambiente: ênfase no método “VERA”

Tema IV

Metodologia de Avaliação Econômica de Danos Ambientais Irreversíveis:


Custos Ambientais Totais Esperados – CATE I e CATE II - Laudo Técnico:
Avaliação de danos ambientais em face de extração mineral

Prof. Dr. Luiz César Ribas


E-mail: lcribas@fca.unesp.br

Março de 2011
Botucatu/SP
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ROTEIRO

Tema I - O processo judicial na perspectiva do Assistente Técnico - foco na Lei n.


5.869, de 11 de janeiro de 1973, que institui o Código de Processo Civil

1. O Perito Judicial com respeito ao Código de Processo Civil


2. Das Despesas e das Multas
3. Dos Procuradores
4. Do Ministério Público
5. Do Juiz
5.1. Dos Poderes, dos Deveres e da responsabilidade do Juiz
6. Dos Auxiliares da Justiça
6.1 Do Perito
7. Dos Atos Processuais
7.1 Da Forma Dos Atos Processuais
7.1.1 Dos Atos em Geral
8. Dos Atos da Parte
8.1 Dos Atos do Juiz
9. Do Tempo de do Lugar dos Atos Processuais
9.1 Do Tempo
9.2 Do Lugar
10. Dos Prazos
11. Do Procedimento Ordinário
11.1 Da Petição Inicial
10.1.1 Dos Requisitos da Petição Inicial
11. Do Pedido
12. Do Indeferimento da Petição Inicial
13. Da Resposta do Réu
14. Da Contestação
15. Das Exceções
16. Da Incompetência
17. Do Impedimento e da Suspeição
18. Da Reconvenção1

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É uma das possibilidades de resposta do réu. Este poderá propor, dentro do mesmo processo, outra ação através
de petição escrita, dirigida ao juiz da causa, dentro do prazo de 15 dias, contra o autor. Vejam-se os arts. 34, 109,
253, parágrafo único, 297, 315 a 318, 354, 836, II, do Código de Processo Civil
(http://www.direitonet.com.br/dicionario_juridico/x/25/88/258/)
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19. Da Revelia
20. Das Providências Preliminares
20.1 Dos Fatos Impeditivos, Modificativos ou Extintivos do Pedido
21. Do Julgamento conforme o estado do Processo
21.1 Da Audiência Preliminar
22. Das Provas
23. Do Depoimento Pessoal
24. Da Confissão
25. Da Exibição de Documento ou Coisa
26. Da Prova Documental
26.1 Da Força Probante dos Documentos
27. Da Argüição de Falsidade
28. Da Produção da Prova Documental
29. Da Prova Testemunhal
29.1 Da Admissibilidade e do Valor da Prova Testemunhal
29.2 Da Produção da Prova Testemunhal
30. Da Prova Pericial
31. Da Inspeção Judicial
32. Da Audiência
33. Da Conciliação
34. Da Instrução e Julgamento
35. Da Sentença e da Coisa Julgada
36. Dos Requisitos e dos Efeitos da Sentença
37. Da Coisa Julgada
38. Dos Recursos
39. Do Juízo Arbitral
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Tema I - O processo judicial na perspectiva do Assistente Técnico - foco na Lei n.


9.784, de 29 de janeiro de 1999, que regula o processo administrativo no âmbito da
Administração Pública Federal

Disposições Gerais
Direitos dos Administrados
Interessados
Impedimento e Suspeição
Forma, Tempo e Lugar dos Atos do Processo
Comunicação dos Atos
Instrução
Dever de Decidir
Motivação
Anulação, Revogação e Convalidação
Sanções

Tema II - O Perito Judicial e as Demandas Ambientais

1. O Perito como mediador das relações da sociedade com o meio ambiente

O Perito e os danos ambientais


Orientações no processo de mediação (gestão ambiental)
O Perito, as demandas judiciais e o Meio Ambiente = a visão dos recursos naturais
O Perito e a Inicial do Processo
O Perito e os trabalhos periciais
Relacionamento do Perito com as partes
O Perito e o Rito Processual
O Perito e os Quesitos
O Perito e as demandas ambientais
Demandas urbanas
Demandas rurais

2. Relações “processuais”

Relação Perito x Assistentes Técnicos x Quesitos x Ação


Relação Perito x Legislação
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Relação Perito x Magistrado x Promotor de Justiça x Advogados das Partes


Honorários Periciais

3. O Perito e a Avaliação de Danos Ambientais

Foco básico da legislação ambiental


Medidas ambientais
Recuperação ambiental
O processo de avaliação de danos ambientais e os principais métodos
Processos de avaliação monetária do dano ambiental
Avaliação (valoração) econômica das florestas
Escopo geral das metodologias de avaliação ambiental
O método dos Custos Ambientais Totais Esperados
Danos ambientais, avaliação e políticas públicas (bem-estar social)
Recuperação Ambiental x Reabilitação de Áreas Degradadas x Restauração
Ecológica

4. Responsabilidade civil, administrativa e criminal do Perito

(a) Lei de Crimes Ambientais (Lei n. 9.605, de 12.02.98)


(b) Realização de falsa perícia (aumento da pena)
(c) Anotação de Responsabilidade Técnica

5. Perspectivas futuras do trabalho em Perícia Ambiental

O papel do Perito em demandas ambientais

6. Conclusão

Tema III - Avaliação Econômica do Meio Ambiente: ênfase no método “VERA”

1. Métodos de Avaliação Econômica do Meio Ambiente – ênfase no “VERA”

2. Avaliação econômica do meio ambiental – uma “resenha” a partir da leitura dos


componentes e metodologias clássicas/tradicionais de avaliação econômica das florestas,
do meio ambiente e dos danos ambientais.
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2.1 Visão Norte-americana


2.2 Visão Europeia

3. Comentários Finais - Escopo geral das metodologias de avaliação ambiental

4. Estudo de Caso - Parâmetros comparativos de valores econômicos de danos ambientais


irreversíveis - o caso envolvendo os impactos ambientais por derramamento de petróleo

Bibliografia consultada

Tema IV - Metodologia de Avaliação Econômica de Danos Ambientais Irreversíveis:


Custos Ambientais Totais Esperados – CATE I e CATE II - Laudo Técnico: Avaliação
de danos ambientais em face de extração mineral
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Tema I: O processo judicial na perspectiva do Assistente Técnico - Um foco na Lei n.


5.869, de 11 de janeiro de 1973, que institui o Código de Processo Civil2

Introdução

Perícia Æ Laudo Pericial Æ Perito Judicial

Laudos Técnicos (Manifestações Críticas) Æ Assistentes Técnicos das Partes

Área Florestal Æ Florestas versus Meio Ambiente

Trabalhos Técnicos

Escopo civil
Escopo criminal
Escopo administrativo

Base legal (1)

Lei do Processo do Código Civil (73)


Novo Código Civil (Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002)
Constituição da República Federativa do Brasil 1988

Base legal (2)

Escopo Civil:

Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 9.938, de 31 de agosto de


1981) e Decreto regulamentador

Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347, de 24 de julho de 1985 –


Disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados
ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico,

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Lei n. 5.869, de 11 de janeiro de 1973 - Institui o Código de Processo Civil. Ver também o Código Civil e a
Constituição da República Federativa do Brasil (1988)
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estético, histórico, turístico e paisagístico (vetado) e dá outras


providências)

Lei dos Direitos dos Consumidores (Código de Defesa do Consumidor.


Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990 – Dispõe sobre a proteção do
consumidor e dá outras providências)

Constituição da República Federativa do Brasil 1988

Constituição do Estado de São Paulo 1989

Lei da Arbitragem (Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996 – Dispõe


sobre a arbitragem)

Escopo administrativo:

Lei do Processo Administrativo Federal (Lei n. 9784, de 29 de janeiro


de 1999 – Regula o processo administrativo no âmbito da
Administração Pública Federal)

Resolução CONAMA 01/86

Resolução CONAMA 237/97

Escopo Criminal:

Lei de Crimes Ambientais (Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 -


Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de
condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras
providências) e Decreto Regulamentador
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1. O Perito Judicial com respeito ao Código de Processo Civil

Propor ou Contestar Ação Æ Interesse e Legitimidade

São deveres das partes e de todos aqueles que de qualquer forma participam do
processo:
I - expor os fatos em juízo conforme a verdade;
II - proceder com lealdade e boa-fé;
III - não formular pretensões, nem alegar defesa, cientes de que são
destituídas de fundamento;
IV - não produzir provas, nem praticar atos inúteis ou desnecessários à
declaração ou defesa do direito.
V - cumprir com exatidão os provimentos mandamentais e não criar
embaraços à efetivação de provimentos judiciais, de natureza antecipatória ou
final.

Responde por perdas e danos aquele que pleitear de má-fé como autor, réu ou
interveniente.
Reputa-se litigante de má-fé aquele que:
I - deduzir pretensão ou defesa contra texto expresso de lei ou fato
incontroverso;
II - alterar a verdade dos fatos;
III - usar do processo para conseguir objetivo ilegal;
IV - opuser resistência injustificada ao andamento do processo;
V - proceder de modo temerário em qualquer incidente ou ato do processo;
VI - provocar incidentes manifestamente infundados.

2. Das Despesas e das Multas

Salvo as disposições concernentes à justiça gratuita, cabe às partes prover as


despesas dos atos que realizam ou requerem no processo, antecipando-lhes o pagamento
desde o início até sentença final; e bem ainda, na execução, até a plena satisfação do
direito declarado pela sentença.
A sentença condenará o vencido a pagar ao vencedor as despesas que antecipou e
os honorários advocatícios. Esta verba honorária será devida, também, nos casos em que o
advogado funcionar em causa própria.
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Os honorários serão fixados entre o mínimo de dez por cento (10%) e o máximo de
vinte por cento (20%) sobre o valor da condenação, atendidos:

a) o grau de zelo do profissional;


b) o lugar de prestação do serviço;
c) a natureza e importância da causa, o trabalho realizado pelo advogado e o tempo
exigido para o seu serviço.

O réu que, por não argüir na sua resposta fato impeditivo, modificativo ou extintivo do
direito do autor, dilatar o julgamento da lide, será condenado nas custas a partir do
saneamento do processo e perderá, ainda que vencedor na causa, o direito a haver do
vencido honorários advocatícios.
Se o processo terminar por desistência ou reconhecimento do pedido, as despesas e
os honorários serão pagos pela parte que desistiu ou reconheceu.
Quem receber custas indevidas ou excessivas é obrigado a restituí-las, incorrendo
em multa equivalente ao dobro de seu valor.
Cada parte pagará a remuneração do assistente técnico que houver indicado; a do
perito será paga pela parte que houver requerido o exame, ou pelo autor, quando requerido
por ambas as partes ou determinado de ofício pelo juiz.
O juiz poderá determinar que a parte responsável pelo pagamento dos honorários do
perito deposite em juízo o valor correspondente a essa remuneração. O numerário,
recolhido em depósito bancário à ordem do juízo e com correção monetária, será entregue
ao perito após a apresentação do laudo, facultada a sua liberação parcial, quando
necessária.

3. Dos Procuradores
A parte será representada em juízo por advogado legalmente habilitado. Ser-lhe-á
lícito, no entanto, postular em causa própria, quando tiver habilitação legal ou, não a tendo,
no caso de falta de advogado no lugar ou recusa ou impedimento dos que houver.

4. Do Ministério Público
O Ministério Público exercerá o direito de ação nos casos previstos em lei, cabendo-
lhe, no processo, os mesmos poderes e ônus que às partes.
Compete ao Ministério Público intervir:

I - nas causas em que há interesses de incapazes;


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II - nas causas concernentes ao estado da pessoa, pátrio poder, tutela, curatela,


interdição, casamento, declaração de ausência e disposições de última vontade;
III - nas ações que envolvam litígios coletivos pela posse da terra rural e nas demais
causas em que há interesse público evidenciado pela natureza da lide ou qualidade
da parte.

Intervindo como fiscal da lei, o Ministério Público:

I - terá vista dos autos depois das partes, sendo intimado de todos os atos do
processo;
II - poderá juntar documentos e certidões, produzir prova em audiência e requerer
medidas ou diligências necessárias ao descobrimento da verdade.

Quando a lei considerar obrigatória a intervenção do Ministério Público, a parte


promover-lhe-á a intimação sob pena de nulidade do processo.
O órgão do Ministério Público será civilmente responsável quando, no exercício de
suas funções, proceder com dolo ou fraude.

5. Do Juiz

5.1. Dos Poderes, dos Deveres e da responsabilidade do Juiz

O juiz dirigirá o processo conforme as disposições deste Código, competindo-lhe:

I - assegurar às partes igualdade de tratamento;


II - velar pela rápida solução do litígio;
III - prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da Justiça;
IV - tentar, a qualquer tempo, conciliar as partes.

O juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou obscuridade da


lei. No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à
analogia, aos costumes e aos princípios gerais de direito.
O juiz decidirá a lide nos limites em que foi proposta, sendo-lhe defeso conhecer de
questões, não suscitadas, a cujo respeito a lei exige a iniciativa da parte.
Caberá ao juiz, de ofício ou a requerimento da parte, determinar as provas
necessárias à instrução do processo, indeferindo as diligências inúteis ou meramente
protelatórias.
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O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstâncias constantes


dos autos, ainda que não alegados pelas partes; mas deverá indicar, na sentença, os
motivos que lhe formaram o convencimento.
Em qualquer hipótese, o juiz que proferir a sentença, se entender necessário, poderá
mandar repetir as provas já produzidas.

6. Dos Auxiliares da Justiça

São auxiliares do juízo, além de outros, cujas atribuições são determinadas pelas
normas de organização judiciária, o escrivão, o oficial de justiça, o perito, o depositário, o
administrador e o intérprete.

6.1 Do Perito

Quando a prova do fato depender de conhecimento técnico ou científico, o juiz será


assistido por perito, segundo o disposto no art. 421.
Os peritos serão escolhidos entre profissionais de nível universitário, devidamente
inscritos no órgão de classe competente, respeitado o disposto no Capítulo Vl, seção Vll,
deste Código.
Os peritos comprovarão sua especialidade na matéria sobre que deverão opinar,
mediante certidão do órgão profissional em que estiverem inscritos.
Nas localidades onde não houver profissionais qualificados que preencham os
requisitos dos parágrafos anteriores, a indicação dos peritos será de livre escolha do juiz.
O perito tem o dever de cumprir o ofício, no prazo que lhe assina a lei, empregando
toda a sua diligência; pode, todavia, escusar-se do encargo alegando motivo legítimo.
A escusa será apresentada dentro de 5 (cinco) dias, contados da intimação ou do
impedimento superveniente, sob pena de se reputar renunciado o direito a alegá-la (art.
423).
O perito que, por dolo ou culpa, prestar informações inverídicas, responderá pelos
prejuízos que causar à parte, ficará inabilitado, por 2 (dois) anos, a funcionar em outras
perícias e incorrerá na sanção que a lei penal estabelecer.

7. Dos Atos Processuais


7.1 Da Forma Dos Atos Processuais
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7.1.1 Dos Atos em Geral

Os atos e termos processuais não dependem de forma determinada senão quando a


lei expressamente a exigir, reputando-se válidos os que, realizados de outro modo, lhe
preencham a finalidade essencial.

8. Dos Atos da Parte


8.1 Dos Atos do Juiz

9. Do Tempo de do Lugar dos Atos Processuais


9.1 Do Tempo
9.2 Do Lugar

Os atos processuais realizam-se de ordinário na sede do juízo. Podem, todavia,


efetuar-se em outro lugar, em razão de deferência, de interesse da justiça, ou de obstáculo
argüido pelo interessado e acolhido pelo juiz.

10. Dos Prazos

11. Do Procedimento Ordinário


11.1 Da Petição Inicial

10.1.1 Dos Requisitos da Petição Inicial

A petição inicial indicará:

I - o juiz ou tribunal, a que é dirigida;


II - os nomes, prenomes, estado civil, profissão, domicílio e residência do
autor e do réu;
III - o fato e os fundamentos jurídicos do pedido;
IV - o pedido, com as suas especificações;
V - o valor da causa;
VI - as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos
alegados;
VII - o requerimento para a citação do réu.
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A petição inicial será instruída com os documentos indispensáveis à propositura da


ação.

11. Do Pedido

O pedido deve ser certo ou determinado. É lícito, porém, formular pedido genérico:

I - nas ações universais, se não puder o autor individuar na petição os bens


demandados;
II - quando não for possível determinar, de modo definitivo, as conseqüências do ato
ou do fato ilícito;
III - quando a determinação do valor da condenação depender de ato que deva ser
praticado pelo réu.

Se o autor pedir que seja imposta ao réu a abstenção da prática de algum ato, tolerar
alguma atividade, prestar ato ou entregar coisa, poderá requerer cominação de pena
pecuniária para o caso de descumprimento da sentença ou da decisão antecipatória de
tutela (arts. 461, § 4o, e 461-A)
O pedido será alternativo, quando, pela natureza da obrigação, o devedor puder
cumprir a prestação de mais de um modo.
Quando, pela lei ou pelo contrato, a escolha couber ao devedor, o juiz Ihe assegurará
o direito de cumprir a prestação de um ou de outro modo, ainda que o autor não tenha
formulado pedido alternativo.
É lícito formular mais de um pedido em ordem sucessiva, a fim de que o juiz conheça
do posterior, em não podendo acolher o anterior.
Quando a obrigação consistir em prestações periódicas, considerar-se-ão elas
incluídas no pedido, independentemente de declaração expressa do autor; se o devedor, no
curso do processo, deixar de pagá-las ou de consigná-las, a sentença as incluirá na
condenação, enquanto durar a obrigação.
Na obrigação indivisível com pluralidade de credores, aquele que não participou do
processo receberá a sua parte, deduzidas as despesas na proporção de seu crédito.
É permitida a cumulação, num único processo, contra o mesmo réu, de vários
pedidos, ainda que entre eles não haja conexão.
São requisitos de admissibilidade da cumulação:

I - que os pedidos sejam compatíveis entre si;


II - que seja competente para conhecer deles o mesmo juízo;
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III - que seja adequado para todos os pedidos o tipo de procedimento.

Quando, para cada pedido, corresponder tipo diverso de procedimento, admitir-se-á a


cumulação, se o autor empregar o procedimento ordinário.
Os pedidos são interpretados restritivamente, compreendendo-se, entretanto, no
principal os juros legais.
Antes da citação, o autor poderá aditar o pedido, correndo à sua conta as custas
acrescidas em razão dessa iniciativa.

12. Do Indeferimento da Petição Inicial

A petição inicial será indeferida:

I - quando for inepta;


II - quando a parte for manifestamente ilegítima;
III - quando o autor carecer de interesse processual;
IV - quando o juiz verificar, desde logo, a decadência ou a prescrição (art. 219, § 5o);
V - quando o tipo de procedimento, escolhido pelo autor, não corresponder à
natureza da causa, ou ao valor da ação; caso em que só não será indeferida, se
puder adaptar-se ao tipo de procedimento legal;
VI - quando não atendidas as prescrições dos arts. 39, parágrafo único, primeira
parte, e 284.

Considera-se inepta a petição inicial quando:

I - lhe faltar pedido ou causa de pedir;


II - da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão;
III - o pedido for juridicamente impossível;
IV - contiver pedidos incompatíveis entre si.

Indeferida a petição inicial, o autor poderá apelar, facultado ao juiz, no prazo de 48


(quarenta e oito) horas, reformar sua decisão.
Parágrafo único. Não sendo reformada a decisão, os autos serão imediatamente
encaminhados ao tribunal competente.
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13. Da Resposta do Réu

O réu poderá oferecer, no prazo de 15 (quinze) dias, em petição escrita, dirigida ao


juiz da causa, contestação, exceção e reconvenção.

14. Da Contestação

O réu poderá oferecer, no prazo de 15 (quinze) dias, em petição escrita, dirigida ao


juiz da causa, contestação, exceção e reconvenção.
Compete-lhe, porém, antes de discutir o mérito, alegar:

I - inexistência ou nulidade da citação;


II - incompetência absoluta;
III - inépcia da petição inicial;
IV - perempção;
V - litispendência;
VI - coisa julgada;
VII - conexão;
VIII - incapacidade da parte, defeito de representação ou falta de autorização;
IX - convenção de arbitragem;
X - carência de ação;
XI - falta de caução ou de outra prestação, que a lei exige como preliminar.

Verifica-se a litispendência ou a coisa julgada, quando se reproduz ação


anteriormente ajuizada.
Uma ação é idêntica à outra quando tem as mesmas partes, a mesma causa de pedir
e o mesmo pedido.
Há litispendência, quando se repete ação, que está em curso; há coisa julgada,
quando se repete ação que já foi decidida por sentença, de que não caiba recurso.
Com exceção do compromisso arbitral, o juiz conhecerá de ofício da matéria
enumerada neste artigo.
Cabe também ao réu manifestar-se precisamente sobre os fatos narrados na petição
inicial. Presumem-se verdadeiros os fatos não impugnados, salvo:

I - se não for admissível, a seu respeito, a confissão;


II - se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público que a lei
considerar da substância do ato;
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III - se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.

Esta regra, quanto ao ônus da impugnação especificada dos fatos, não se aplica ao
advogado dativo, ao curador especial e ao órgão do Ministério Público.
Depois da contestação, só é lícito deduzir novas alegações quando:

I - relativas a direito superveniente;


II - competir ao juiz conhecer delas de ofício;
III - por expressa autorização legal, puderem ser formuladas em qualquer
tempo e juízo.

15. Das Exceções

É lícito a qualquer das partes argüir, por meio de exceção, a incompetência (art.
112), o impedimento (art. 134) ou a suspeição (art. 135).

16. Da Incompetência

17. Do Impedimento e da Suspeição

18. Da Reconvenção3

19. Da Revelia

Se o réu não contestar a ação, reputar-se-ão verdadeiros os fatos afirmados pelo


autor.
A revelia não induz, contudo, o efeito mencionado no artigo antecedente:

I - se, havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação;


II - se o litígio versar sobre direitos indisponíveis4;
III - se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público, que a lei
considere indispensável à prova do ato.

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É uma das possibilidades de resposta do réu. Este poderá propor, dentro do mesmo processo, outra
ação através de petição escrita, dirigida ao juiz da causa, dentro do prazo de 15 dias, contra o autor.
Veja Arts. 34, 109, 253, parágrafo único, 297, 315 a 318, 354, 836, II, do Código de Processo Civil
(http://www.direitonet.com.br/dicionario_juridico/x/25/88/258/)
4
Inclusive em termos de meio ambiente.
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Ainda que ocorra revelia, o autor não poderá alterar o pedido, ou a causa de pedir,
nem demandar declaração incidente, salvo promovendo nova citação do réu, a quem será
assegurado o direito de responder no prazo de 15 (quinze) dias.
Contra o revel que não tenha patrono nos autos, correrão os prazos
independentemente de intimação, a partir da publicação de cada ato decisório.
O revel poderá intervir no processo em qualquer fase, recebendo-o no estado em que
se encontrar.

20. Das Providências Preliminares


20.1 Dos Fatos Impeditivos, Modificativos ou Extintivos do Pedido

Se o réu, reconhecendo o fato em que se fundou a ação, outro lhe opuser impeditivo,
modificativo ou extintivo do direito do autor, este será ouvido no prazo de 10 (dez) dias,
facultando-lhe o juiz a produção de prova documental.

21. Do Julgamento conforme o estado do Processo


21.1 Da Audiência Preliminar

Se não ocorrer qualquer das hipóteses previstas nas seções precedentes, e versar a
causa sobre direitos que admitam transação, o juiz designará audiência preliminar, a
realizar-se no prazo de 30 (trinta) dias, para a qual serão as partes intimadas a comparecer,
podendo fazer-se representar por procurador ou preposto, com poderes para transigir.
Obtida a conciliação, será reduzida a termo e homologada por sentença.
Se, por qualquer motivo, não for obtida a conciliação, o juiz fixará os pontos
controvertidos, decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas a
serem produzidas, designando audiência de instrução e julgamento, se necessário.
Se o direito em litígio não admitir transação, ou se as circunstâncias da causa
evidenciarem ser improvável sua obtenção, o juiz poderá, desde logo, sanear o processo e
ordenar a produção da prova, nos termos do § 2o.

22. Das Provas

Todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não
especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda
a ação ou a defesa.
O ônus da prova incumbe:
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I - ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito;


II - ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito
do autor.

É nula a convenção que distribui de maneira diversa o ônus da prova quando:

I - recair sobre direito indisponível da parte;


II - tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.

Não dependem de prova os fatos:

I - notórios;
II - afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária;
III - admitidos, no processo, como incontroversos;
IV - em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade.

Em falta de normas jurídicas particulares, o juiz aplicará as regras de experiência


comum subministradas pela observação do que ordinariamente acontece e ainda as regras
da experiência técnica, ressalvado, quanto a esta, o exame pericial.
Salvo disposição especial em contrário, as provas devem ser produzidas em
audiência.
Quando a parte, ou a testemunha, por enfermidade, ou por outro motivo relevante,
estiver impossibilitada de comparecer à audiência, mas não de prestar depoimento, o juiz
designará, conforme as circunstâncias, dia, hora e lugar para inquiri-la.
A parte, que alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário,
provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim o determinar o juiz.
A carta precatória e a carta rogatória suspenderão o processo, no caso previsto na
alínea b do inciso IV do art. 265 desta Lei, quando, tendo sido requeridas antes da decisão
de saneamento, a prova nelas solicitada apresentar-se imprescindível.
A carta precatória e a carta rogatória, não devolvidas dentro do prazo ou concedidas
sem efeito suspensivo, poderão ser juntas aos autos até o julgamento final.
Ninguém se exime do dever de colaborar com o Poder Judiciário para o
descobrimento da verdade.
Além dos deveres enumerados, compete à parte:

I - comparecer em juízo, respondendo ao que lhe for interrogado;


21

II - submeter-se à inspeção judicial, que for julgada necessária;


III - praticar o ato que lhe for determinado.

Compete ao terceiro, em relação a qualquer pleito:

I - informar ao juiz os fatos e as circunstâncias, de que tenha conhecimento;


II - exibir coisa ou documento, que esteja em seu poder.

23. Do Depoimento Pessoal

24. Da Confissão

25. Da Exibição de Documento ou Coisa

O juiz pode ordenar que a parte exiba documento ou coisa, que se ache em seu
poder.
Quando o documento ou a coisa estiver em poder de terceiro, o juiz mandará citá-lo
para responder no prazo de 10 (dez) dias.
Se o terceiro negar a obrigação de exibir, ou a posse do documento ou da coisa, o
juiz designará audiência especial, tomando-lhe o depoimento, bem como o das partes e, se
necessário, de testemunhas; em seguida proferirá a sentença.
Se o terceiro, sem justo motivo, se recusar a efetuar a exibição, o juiz lhe ordenará
que proceda ao respectivo depósito em cartório ou noutro lugar designado, no prazo de 5
(cinco) dias, impondo ao requerente que o embolse das despesas que tiver; se o terceiro
descumprir a ordem, o juiz expedirá mandado de apreensão, requisitando, se necessário,
força policial, tudo sem prejuízo da responsabilidade por crime de desobediência.

26. Da Prova Documental

26.1 Da Força Probante dos Documentos

O documento público faz prova não só da sua formação, mas também dos fatos que
o escrivão, o tabelião, ou o funcionário declarar que ocorreram em sua presença.
Quando a lei exigir, como da substância do ato, o instrumento público, nenhuma outra
prova, por mais especial que seja, pode suprir-lhe a falta.
22

O documento, feito por oficial público incompetente, ou sem a observância das


formalidades legais, sendo subscrito pelas partes, tem a mesma eficácia probatória do
documento particular.
As declarações constantes do documento particular, escrito e assinado, ou somente
assinado, presumem-se verdadeiras em relação ao signatário.
Compete à parte, contra quem foi produzido documento particular, alegar no prazo
estabelecido no art. 390, se lhe admite ou não a autenticidade da assinatura e a veracidade
do contexto; presumindo-se, com o silêncio, que o tem por verdadeiro.
Cessa, todavia, a eficácia da admissão expressa ou tácita, se o documento houver
sido obtido por erro, dolo ou coação.
Ressalvado o disposto no parágrafo único do artigo anterior, o documento particular,
de cuja autenticidade se não duvida, prova que o seu autor fez a declaração, que lhe é
atribuída.
O documento particular, admitido expressa ou tacitamente, é indivisível, sendo defeso
à parte, que pretende utilizar-se dele, aceitar os fatos que lhe são favoráveis e recusar os
que são contrários ao seu interesse, salvo se provar que estes se não verificaram.
Qualquer reprodução mecânica, como a fotográfica, cinematográfica, fonográfica ou
de outra espécie, faz prova dos fatos ou das coisas representadas, se aquele contra quem
foi produzida lhe admitir a conformidade.
Impugnada a autenticidade da reprodução mecânica, o juiz ordenará a realização de
exame pericial.
As reproduções fotográficas ou obtidas por outros processos de repetição, dos
documentos particulares, valem como certidões, sempre que o escrivão portar por fé a sua
conformidade com o original.
A cópia de documento particular tem o mesmo valor probante que o original, cabendo
ao escrivão, intimadas as partes, proceder à conferência e certificar a conformidade entre a
cópia e o original.
Quando se tratar de fotografia, esta terá de ser acompanhada do respectivo
negativo.
O juiz apreciará livremente a fé que deva merecer o documento, quando em ponto
substancial e sem ressalva contiver entrelinha, emenda, borrão ou cancelamento.
Cessa a fé do documento, público ou particular, sendo-lhe declarada judicialmente a
falsidade.
A falsidade consiste:

I - em formar documento não verdadeiro;


II - em alterar documento verdadeiro.
23

Cessa a fé do documento particular quando:

I - lhe for contestada a assinatura e enquanto não se lhe comprovar a


veracidade;
II - assinado em branco, for abusivamente preenchido.

Dar-se-á abuso quando aquele, que recebeu documento assinado, com texto não
escrito no todo ou em parte, o formar ou o completar, por si ou por meio de outrem, violando
o pacto feito com o signatário.
Incumbe o ônus da prova quando:

I - se tratar de falsidade de documento, à parte que a argüir;


II - se tratar de contestação de assinatura, à parte que produziu o documento.

27. Da Argüição de Falsidade

O incidente de falsidade tem lugar em qualquer tempo e grau de jurisdição,


incumbindo à parte, contra quem foi produzido o documento, suscitá-lo na contestação ou
no prazo de 10 (dez) dias, contados da intimação da sua juntada aos autos.
Quando o documento for oferecido antes de encerrada a instrução, a parte o argüirá
de falso, em petição dirigida ao juiz da causa, expondo os motivos em que funda a sua
pretensão e os meios com que provará o alegado.
Intimada a parte, que produziu o documento, a responder no prazo de 10 (dez) dias,
o juiz ordenará o exame pericial.
Não se procederá ao exame pericial, se a parte, que produziu o documento,
concordar em retirá-lo e a parte contrária não se opuser ao desentranhamento.
Depois de encerrada a instrução, o incidente de falsidade correrá em apenso aos
autos principais; no tribunal processar-se-á perante o relator, observando-se o disposto no
artigo antecedente.
Logo que for suscitado o incidente de falsidade, o juiz suspenderá o processo
principal.
A sentença, que resolver o incidente, declarará a falsidade ou autenticidade do
documento.
24

28. Da Produção da Prova Documental

Compete à parte instruir a petição inicial (art. 283), ou a resposta (art. 297), com os
documentos destinados a provar-lhe as alegações.
É lícito às partes, em qualquer tempo, juntar aos autos documentos novos, quando
destinados a fazer prova de fatos ocorridos depois dos articulados, ou para contrapô-los aos
que foram produzidos nos autos.
O juiz requisitará às repartições públicas em qualquer tempo ou grau de jurisdição:

I - as certidões necessárias à prova das alegações das partes;


II - os procedimentos administrativos nas causas em que forem interessados a União,
o Estado, o Município, ou as respectivas entidades da administração indireta.

29. Da Prova Testemunhal


29.1 Da Admissibilidade e do Valor da Prova Testemunhal
29.2 Da Produção da Prova Testemunhal

30. Da Prova Pericial

A prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação.


O juiz indeferirá a perícia quando:

I - a prova do fato não depender do conhecimento especial de técnico;


II - for desnecessária em vista de outras provas produzidas;
III - a verificação for impraticável.

O juiz nomeará o perito, fixando de imediato o prazo para a entrega do laudo.


Incumbe às partes, dentro em 5 (cinco) dias, contados da intimação do despacho de
nomeação do perito:

I - indicar o assistente técnico;


II - apresentar quesitos.

Quando a natureza do fato o permitir, a perícia poderá consistir apenas na inquirição


pelo juiz do perito e dos assistentes, por ocasião da audiência de instrução e julgamento a
respeito das coisas que houverem informalmente examinado ou avaliado.
25

O perito cumprirá escrupulosamente o encargo que lhe foi cometido,


independentemente de termo de compromisso. Os assistentes técnicos são de confiança da
parte, não sujeitos a impedimento ou suspeição.
O perito pode escusar-se (art. 146), ou ser recusado por impedimento ou suspeição
(art. 138, III); ao aceitar a escusa ou julgar procedente a impugnação, o juiz nomeará novo
perito.
O perito pode ser substituído quando:

I - carecer de conhecimento técnico ou científico;


II - sem motivo legítimo, deixar de cumprir o encargo no prazo que lhe foi assinado.

No caso previsto no inciso II, o juiz comunicará a ocorrência à corporação profissional


respectiva, podendo, ainda, impor multa ao perito, fixada tendo em vista o valor da causa e
o possível prejuízo decorrente do atraso no processo
Poderão as partes apresentar, durante a diligência, quesitos suplementares. Da
juntada dos quesitos aos autos dará o escrivão ciência à parte contrária.
Compete ao juiz:

I - indeferir quesitos impertinentes;


II - formular os que entender necessários ao esclarecimento da causa.

O juiz poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação,


apresentarem sobre as questões de fato pareceres técnicos ou documentos elucidativos que
considerar suficientes.
Quando a prova tiver de realizar-se por carta, poderá proceder-se à nomeação de
perito e indicação de assistentes técnicos no juízo, ao qual se requisitar a perícia.
Para o desempenho de sua função, podem o perito e os assistentes técnicos utilizar-
se de todos os meios necessários, ouvindo testemunhas, obtendo informações, solicitando
documentos que estejam em poder de parte ou em repartições públicas, bem como instruir o
laudo com plantas, desenhos, fotografias e outras quaisquer peças.
As partes terão ciência da data e local designados pelo juiz ou indicados pelo perito
para ter início a produção da prova.
Tratando-se de perícia complexa, que abranja mais de uma área de conhecimento
especializado, o juiz poderá nomear mais de um perito e a parte indicar mais de um
assistente técnico.
Se o perito, por motivo justificado, não puder apresentar o laudo dentro do prazo, o
juiz conceder-lhe-á, por uma vez, prorrogação, segundo o seu prudente arbítrio.
26

O perito apresentará o laudo em cartório, no prazo fixado pelo juiz, pelo menos 20
(vinte) dias antes da audiência de instrução e julgamento.
Os assistentes técnicos oferecerão seus pareceres no prazo comum de 10 (dez) dias,
após intimadas as partes da apresentação do laudo.
Quando o exame tiver por objeto a autenticidade ou a falsidade de documento, ou for
de natureza médico-legal, o perito será escolhido, de preferência, entre os técnicos dos
estabelecimentos oficiais especializados. O juiz autorizará a remessa dos autos, bem como
do material sujeito a exame, ao diretor do estabelecimento.
Quando o exame tiver por objeto a autenticidade da letra e firma, o perito poderá
requisitar, para efeito de comparação, documentos existentes em repartições públicas; na
falta destes, poderá requerer ao juiz que a pessoa, a quem se atribuir a autoria do
documento, lance em folha de papel, por cópia, ou sob ditado, dizeres diferentes, para fins
de comparação.
A parte, que desejar esclarecimento do perito e do assistente técnico, requererá ao
juiz que mande intimá-lo a comparecer à audiência, formulando desde logo as perguntas,
sob forma de quesitos.
O perito e o assistente técnico só estarão obrigados a prestar os esclarecimentos a
que se refere este artigo, quando intimados 5 (cinco) dias antes da audiência.
O juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo formar a sua convicção com outros
elementos ou fatos provados nos autos.
O juiz poderá determinar, de ofício ou a requerimento da parte, a realização de nova
perícia, quando a matéria não lhe parecer suficientemente esclarecida.
A segunda perícia tem por objeto os mesmos fatos sobre que recaiu a primeira e
destina-se a corrigir eventual omissão ou inexatidão dos resultados a que esta conduziu.
A segunda perícia rege-se pelas disposições estabelecidas para a primeira.
A segunda perícia não substitui a primeira, cabendo ao juiz apreciar livremente o
valor de uma e outra.

31. Da Inspeção Judicial

O juiz, de ofício ou a requerimento da parte, pode, em qualquer fase do processo,


inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato, que interesse à decisão da
causa.
Ao realizar a inspeção direta, o juiz poderá ser assistido de um ou mais peritos.
O juiz irá ao local, onde se encontre a pessoa ou coisa, quando:
27

I - julgar necessário para a melhor verificação ou interpretação dos fatos que deva
observar;
II - a coisa não puder ser apresentada em juízo, sem consideráveis despesas ou
graves dificuldades;
III - determinar a reconstituição dos fatos.

As partes têm sempre direito a assistir à inspeção, prestando esclarecimentos e


fazendo observações que reputem de interesse para a causa.
Concluída a diligência, o juiz mandará lavrar auto circunstanciado, mencionando nele
tudo quanto for útil ao julgamento da causa.
O auto poderá ser instruído com desenho, gráfico ou fotografia.

32. Da Audiência

Ao iniciar a instrução, o juiz, ouvidas as partes, fixará os pontos controvertidos sobre


que incidirá a prova.
As provas serão produzidas na audiência nesta ordem:

I - o perito e os assistentes técnicos responderão aos quesitos de


esclarecimentos, requeridos no prazo e na forma do art. 435;
II - o juiz tomará os depoimentos pessoais, primeiro do autor e depois do réu;
III - finalmente, serão inquiridas as testemunhas arroladas pelo autor e pelo
réu.

Enquanto depuserem as partes, o perito, os assistentes técnicos e as testemunhas,


os advogados não podem intervir ou apartear, sem licença do juiz.

33. Da Conciliação

34. Da Instrução e Julgamento

As provas serão produzidas na audiência nesta ordem:

I - o perito e os assistentes técnicos responderão aos quesitos de


esclarecimentos, requeridos no prazo e na forma do art. 435;
II - o juiz tomará os depoimentos pessoais, primeiro do autor e depois do réu;
28

III - finalmente, serão inquiridas as testemunhas arroladas pelo autor e pelo


réu.

Quando a causa apresentar questões complexas de fato ou de direito, o debate oral


poderá ser substituído por memoriais, caso em que o juiz designará dia e hora para o seu
oferecimento.
A audiência é una e contínua. Não sendo possível concluir, num só dia, a instrução, o
debate e o julgamento, o juiz marcará o seu prosseguimento para dia próximo.
Encerrado o debate ou oferecidos os memoriais, o juiz proferirá a sentença desde
logo ou no prazo de 10 (dez) dias.

35. Da Sentença e da Coisa Julgada

É defeso ao juiz proferir sentença, a favor do autor, de natureza diversa da pedida,


bem como condenar o réu em quantidade superior ou em objeto diverso do que lhe foi
demandado.
Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer,
o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento.
A obrigação somente se converterá em perdas e danos se o autor o requerer ou se
impossível a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspondente.
A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa (art. 287).
Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia
do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente ou mediante justificação
prévia, citado o réu. A medida liminar poderá ser revogada ou modificada, a qualquer tempo,
em decisão fundamentada.
O juiz poderá, na hipótese do parágrafo anterior ou na sentença, impor multa diária
ao réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou compatível com a
obrigação, fixando-lhe prazo razoável para o cumprimento do preceito.
Para a efetivação da tutela específica ou a obtenção do resultado prático equivalente,
poderá o juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas necessárias, tais como a
imposição de multa por tempo de atraso, busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas,
desfazimento de obras e impedimento de atividade nociva, se necessário com requisição de
força policial.
29

36. Dos Requisitos e dos Efeitos da Sentença

37. Da Coisa Julgada

38. Dos Recursos

I - apelação;
II - agravo;
III - embargos infringentes;
IV - embargos de declaração;
V - recurso ordinário;
VI - recurso especial;
VII - recurso extraordinário;
VIII - embargos de divergência em recurso especial e em recurso extraordinário.

39. Do Juízo Arbitral5

Do Compromisso
Dos árbitros
Do procedimento
Da homologação do laudo

5
Lei n. 9.307, de 23 de setembro de 1996, dispõe sobre a arbitragem.
30

Tema I - O processo judicial na perspectiva do Assistente Técnico - foco na Lei n.


9.784, de 29 de janeiro de 1999, que regula o processo administrativo no âmbito da
Administração Pública Federal

CAPÍTULO I - DAS DISPOSIÇÕES GERAIS

Normas básicas sobre o processo administrativo no âmbito da Administração


Federal direta e indireta, visando, em especial, à proteção dos direitos dos
administrados e ao melhor cumprimento dos fins da Administração.
A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da
legalidade, finalidade, motivação, razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla
defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse público e eficiência.
Nos processos administrativos serão observados, entre outros, os critérios
de:
• objetividade no atendimento do interesse público
• garantia dos direitos à comunicação, à apresentação de alegações finais, à
produção de provas e à interposição de recursos, nos processos de que
possam resultar sanções e nas situações de litígio
• interpretação da norma administrativa da forma que melhor garanta o
atendimento do fim público a que se dirige, vedada aplicação retroativa de
nova interpretação.

CAPÍTULO II - DOS DIREITOS DOS ADMINISTRADOS

O administrado tem os seguintes direitos perante a Administração, sem prejuízo de


outros que lhe sejam assegurados:

I - ser tratado com respeito pelas autoridades e servidores, que deverão facilitar
o exercício de seus direitos e o cumprimento de suas obrigações

CAPÍTULO III - DOS DEVERES DO ADMINISTRADO

CAPÍTULO IV - DO INÍCIO DO PROCESSO

É vedada à Administração a recusa imotivada de recebimento de documentos,


devendo o servidor orientar o interessado quanto ao suprimento de eventuais falhas.
31

CAPÍTULO V - DOS INTERESSADOS

São legitimados como interessados no processo administrativo:

III - as organizações e associações representativas, no tocante a direitos e interesses


coletivos;

IV - as pessoas ou as associações legalmente constituídas quanto a direitos ou


interesses difusos.

CAPÍTULO VI - DA COMPETÊNCIA

Um órgão administrativo e seu titular poderão, se não houver impedimento legal,


delegar parte da sua competência a outros órgãos ou titulares, ainda que estes não lhe
sejam hierarquicamente subordinados, quando for conveniente, em razão de
circunstâncias de índole técnica, social, econômica, jurídica ou territorial.

CAPÍTULO VII - DOS IMPEDIMENTOS E DA SUSPEIÇÃO

É impedido de atuar em processo administrativo o servidor ou autoridade que:

I - tenha interesse direto ou indireto na matéria


II - tenha participado ou venha a participar como perito, testemunha ou
representante, ou se tais situações ocorrem quanto ao cônjuge, companheiro ou
parente e afins até o terceiro grau
III - esteja litigando judicial ou administrativamente com o interessado ou
respectivo cônjuge ou companheiro.

A autoridade ou servidor que incorrer em impedimento deve comunicar o fato à


autoridade competente, abstendo-se de atuar.
A omissão do dever de comunicar o impedimento constitui falta grave, para
efeitos disciplinares.
Pode ser argüida a suspeição de autoridade ou servidor que tenha amizade
íntima ou inimizade notória com algum dos interessados ou com os respectivos
cônjuges, companheiros, parentes e afins até o terceiro grau.
32

O indeferimento de alegação de suspeição poderá ser objeto de recurso, sem efeito


suspensivo.

CAPÍTULO VIII - DA FORMA, TEMPO E LUGAR DOS ATOS DO PROCESSO

Os atos do processo administrativo não dependem de forma determinada senão


quando a lei expressamente a exigir.
Inexistindo disposição específica, os atos do órgão ou autoridade responsável pelo
processo e dos administrados que dele participem devem ser praticados no prazo de cinco
dias, salvo motivo de força maior.
O prazo previsto neste artigo pode ser dilatado até o dobro, mediante comprovada
justificação.
Os atos do processo devem realizar-se preferencialmente na sede do órgão,
cientificando-se o interessado se outro for o local de realização.

CAPÍTULO IX - DA COMUNICAÇÃO DOS ATOS

O órgão competente perante o qual tramita o processo administrativo determinará a


intimação do interessado para ciência de decisão ou a efetivação de diligências.
A intimação pode ser efetuada por ciência no processo, por via postal com aviso
de recebimento, por telegrama ou outro meio que assegure a certeza da ciência do
interessado.
O desatendimento da intimação não importa o reconhecimento da verdade dos
fatos, nem a renúncia a direito pelo administrado.
No prosseguimento do processo, será garantido direito de ampla defesa ao
interessado.
Devem ser objeto de intimação os atos do processo que resultem para o
interessado em imposição de deveres, ônus, sanções ou restrição ao exercício de
direitos e atividades e os atos de outra natureza, de seu interesse.

CAPÍTULO X - DA INSTRUÇÃO

As atividades de instrução destinadas a averiguar e comprovar os dados


necessários à tomada de decisão realizam-se de ofício ou mediante impulsão do órgão
responsável pelo processo, sem prejuízo do direito dos interessados de propor
atuações probatórias.
33

O órgão competente para a instrução fará constar dos autos os dados necessários à
decisão do processo.

Os atos de instrução que exijam a atuação dos interessados devem realizar-se


do modo menos oneroso para estes.
São inadmissíveis no processo administrativo as provas obtidas por meios
ilícitos.
Quando a matéria do processo envolver assunto de interesse geral, o órgão
competente poderá, mediante despacho motivado, abrir período de consulta pública
para manifestação de terceiros, antes da decisão do pedido, se não houver prejuízo
para a parte interessada.
O comparecimento à consulta pública não confere, por si, a condição de
interessado do processo, mas confere o direito de obter da Administração resposta
fundamentada, que poderá ser comum a todas as alegações substancialmente iguais.
Antes da tomada de decisão, a juízo da autoridade, diante da relevância da
questão, poderá ser realizada audiência pública para debates sobre a matéria do
processo.
Os órgãos e entidades administrativas, em matéria relevante, poderão
estabelecer outros meios de participação de administrados, diretamente ou por meio
de organizações e associações legalmente reconhecidas.
Quando necessária à instrução do processo, a audiência de outros órgãos ou
entidades administrativas poderá ser realizada em reunião conjunta, com a participação
de titulares ou representantes dos órgãos competentes, lavrando-se a respectiva ata, a
ser juntada aos autos.
Cabe ao interessado a prova dos fatos que tenha alegado, sem prejuízo do dever
atribuído ao órgão competente para a instrução e do disposto no art. 37 desta Lei.
Os elementos probatórios deverão ser considerados na motivação do relatório e
da decisão.
Somente poderão ser recusadas, mediante decisão fundamentada, as provas
propostas pelos interessados quando sejam ilícitas, impertinentes, desnecessárias ou
protelatórias.
Quando dados, atuações ou documentos solicitados ao interessado forem
necessários à apreciação de pedido formulado, o não atendimento no prazo fixado
pela Administração para a respectiva apresentação implicará arquivamento do processo.
Os interessados serão intimados de prova ou diligência ordenada, com
antecedência mínima de três dias úteis, mencionando-se data, hora e local de
realização.
34

Quando deva ser obrigatoriamente ouvido um órgão consultivo, o parecer deverá


ser emitido no prazo máximo de quinze dias, salvo norma especial ou comprovada
necessidade de maior prazo.
Se um parecer obrigatório e vinculante deixar de ser emitido no prazo fixado, o
processo não terá seguimento até a respectiva apresentação, responsabilizando-se
quem der causa ao atraso.
Se um parecer obrigatório e não vinculante deixar de ser emitido no prazo
fixado, o processo poderá ter prosseguimento e ser decidido com sua dispensa, sem
prejuízo da responsabilidade de quem se omitiu no atendimento.
Quando por disposição de ato normativo devam ser previamente obtidos laudos
técnicos de órgãos administrativos e estes não cumprirem o encargo no prazo
assinalado, o órgão responsável pela instrução deverá solicitar laudo técnico de outro
órgão dotado de qualificação e capacidade técnica equivalentes.
Encerrada a instrução, o interessado terá o direito de manifestar-se no prazo
máximo de dez dias, salvo se outro prazo for legalmente fixado.
Em caso de risco iminente, a Administração Pública poderá motivadamente
adotar providências acauteladoras sem a prévia manifestação do interessado.
Os interessados têm direito à vista do processo e a obter certidões ou cópias
reprográficas dos dados e documentos que o integram, ressalvados os dados e
documentos de terceiros protegidos por sigilo ou pelo direito à privacidade, à honra e
à imagem.

O órgão de instrução que não for competente para emitir a decisão final elaborará
relatório indicando o pedido inicial, o conteúdo das fases do procedimento e formulará
proposta de decisão, objetivamente justificada, encaminhando o processo à autoridade
competente.

Capítulo XI - DO DEVER DE DECIDIR

A Administração tem o dever de explicitamente emitir decisão nos processos


administrativos e sobre solicitações ou reclamações, em matéria de sua competência.
Concluída a instrução de processo administrativo, a Administração tem o prazo de
até trinta dias para decidir, salvo prorrogação por igual período expressamente motivada.
35

Capítulo XII - DA MOTIVAÇÃO

Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos
fundamentos jurídicos, quando:

I - neguem, limitem ou afetem direitos ou interesses


II - imponham ou agravem deveres, encargos ou sanções

VII - deixem de aplicar jurisprudência firmada sobre a questão ou discrepem de


pareceres, laudos, propostas e relatórios oficiais
VIII - importem anulação, revogação, suspensão ou convalidação de ato
administrativo.

A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de


concordância com fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou
propostas, que, neste caso, serão parte integrante do ato.

Capítulo XIII - DA DESISTÊNCIA E OUTROS CASOS DE EXTINÇÃO DO PROCESSO

O interessado poderá, mediante manifestação escrita, desistir total ou


parcialmente do pedido formulado ou, ainda, renunciar a direitos disponíveis.
A desistência ou renúncia do interessado, conforme o caso, não prejudica o
prosseguimento do processo, se a Administração considerar que o interesse público
assim o exige.
O órgão competente poderá declarar extinto o processo quando exaurida sua
finalidade ou o objeto da decisão se tornar impossível, inútil ou prejudicado por fato
superveniente.

Capítulo XIV - DA ANULAÇÃO, REVOGAÇÃO E CONVALIDAÇÃO

A Administração deve anular seus próprios atos, quando eivados de vício de


legalidade, e pode revogá-los por motivo de conveniência ou oportunidade,
respeitados os direitos adquiridos.
36

O direito da Administração de anular os atos administrativos de que decorram


efeitos favoráveis para os destinatários decai em cinco anos, contados da data em que
foram praticados, salvo comprovada má-fé.

Capítulo XV - DO RECURSO ADMINISTRATIVO E DA REVISÃO

Das decisões administrativas cabe recurso, em face de razões de legalidade e de


mérito.
O recurso será dirigido à autoridade que proferiu a decisão, a qual, se não a
reconsiderar no prazo de cinco dias, o encaminhará à autoridade superior.
Se o recorrente alegar que a decisão administrativa contraria enunciado da
súmula vinculante, caberá à autoridade prolatora da decisão impugnada, se não a
reconsiderar, explicitar, antes de encaminhar o recurso à autoridade superior, as razões da
aplicabilidade ou inaplicabilidade da súmula, conforme o caso.
Têm legitimidade para interpor recurso administrativo:

III - as organizações e associações representativas, no tocante a direitos e


interesses coletivos;
IV - os cidadãos ou associações, quanto a direitos ou interesses difusos.

Salvo disposição legal específica, é de dez dias o prazo para interposição de


recurso administrativo, contado a partir da ciência ou divulgação oficial da decisão
recorrida.
Quando a lei não fixar prazo diferente, o recurso administrativo deverá ser decidido
no prazo máximo de trinta dias, a partir do recebimento dos autos pelo órgão competente.
O prazo mencionado no parágrafo anterior poderá ser prorrogado por igual período,
ante justificativa explícita.

O recurso interpõe-se por meio de requerimento no qual o recorrente deverá expor os


fundamentos do pedido de reexame, podendo juntar os documentos que julgar
convenientes.

Salvo disposição legal em contrário, o recurso não tem efeito suspensivo.


Havendo justo receio de prejuízo de difícil ou incerta reparação decorrente da
execução, a autoridade recorrida ou a imediatamente superior poderá, de ofício ou a
pedido, dar efeito suspensivo ao recurso.
37

Interposto o recurso, o órgão competente para dele conhecer deverá intimar os


demais interessados para que, no prazo de cinco dias úteis, apresentem alegações.
O recurso não será conhecido quando interposto:

I - fora do prazo;
II - perante órgão incompetente;
III - por quem não seja legitimado;
IV - após exaurida a esfera administrativa.

O não conhecimento do recurso não impede a Administração de rever de ofício


o ato ilegal, desde que não ocorrida preclusão administrativa.
O órgão competente para decidir o recurso poderá confirmar, modificar, anular
ou revogar, total ou parcialmente, a decisão recorrida, se a matéria for de sua
competência.
Se da aplicação do disposto neste artigo puder decorrer gravame à situação do
recorrente, este deverá ser cientificado para que formule suas alegações antes da
decisão.
Se o recorrente alegar violação de enunciado da súmula vinculante, o órgão
competente para decidir o recurso explicitará as razões da aplicabilidade ou
inaplicabilidade da súmula, conforme o caso.
Acolhida pelo Supremo Tribunal Federal a reclamação fundada em violação de
enunciado da súmula vinculante, dar-se-á ciência à autoridade prolatora e ao órgão
competente para o julgamento do recurso, que deverão adequar as futuras decisões
administrativas em casos semelhantes, sob pena de responsabilização pessoal nas
esferas cível, administrativa e penal.

Os processos administrativos de que resultem sanções poderão ser revistos, a


qualquer tempo, a pedido ou de ofício, quando surgirem fatos novos ou circunstâncias
relevantes suscetíveis de justificar a inadequação da sanção aplicada.

Da revisão do processo não poderá resultar agravamento da sanção.

CAPÍTULO XVI - DOS PRAZOS


38

CAPÍTULO XVII - DAS SANÇÕES

As sanções, a serem aplicadas por autoridade competente, terão natureza


pecuniária ou consistirão em obrigação de fazer ou de não fazer, assegurado sempre o
direito de defesa.

CAPÍTULO XVIII - DAS DISPOSIÇÕES FINAIS


39

Tema II: O Perito Judicial e as Demandas Ambientais

1. O Perito como mediador das relações da sociedade com o meio ambiente

Sociedade
⇒ Demandas ⇒ Gestão ⇒ Relacionamentos Institucionais ⇒ Final
Meio Ambiente

Gestão Æ

„ Papéis, Atores, Processo

Relacionamentos Institucionais Æ

„ Diversos órgãos públicos, dentro e fora de uma esfera de poder (União, Estados, DF,
Municípios), relativamente aos escopos administrativo, civil e criminal (Poder
Executivo, Legislativo Poder Judiciário e MP)
„ Crea, Ibape, ABNT, IPT, Institutos, Fundações, Universidades, Consultorias, Órgãos
públicos, Prefeituras Municipais, etc.

O Perito e os danos ambientais

Lei Federal nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, que dispõe sobre a Política


Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá
outras providências, uma série de inferências podem ser feitas quanto a presente definição:

Artigo 3º, inciso I - meio ambiente: Conjunto de condições, leis, influências e


interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em
todas as suas formas;

Artigo 3º, inciso II - degradação ambiental: Alteração adversa das características do


meio ambiente;

Artigo 3º, inciso III - poluição: Degradação da qualidade ambiental resultante de


atividades que direta ou indiretamente -
40

a) prejudiquem a saúde, segurança e o bem-estar da população;


...
d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;

Artigo 3º, inciso IV - poluidor: Pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado,
responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de degradação
ambiental e, por fim;

Artigo 3º, inciso V - recursos naturais: A atmosfera, as águas interiores, superficiais


e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da
biosfera, a fauna e a flora.

Artigo 4o - A Política Nacional do Meio Ambiente visará:

...
VII - à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de
recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao usuário, da
contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins
econômicos.

Parágrafo 1o, do Art. 14

Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor


obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos
causados ao meio ambiente e a terceiros, efetuados por suas atividades. O Ministério
Público da União e dos Estados terá legitimidade para propor ação de responsabilidade
civil e criminal por danos causados ao meio ambiente.

Lei n. 7.347, de 24. de julho de 1985

Disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio


ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico (e qualquer outro interesse difuso ou coletivo) e dá outras providências.
41

Art 3o
A ação civil poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o cumprimento de
obrigação de fazer ou não fazer (recuperação ambiental)

Art 4o
Ação cautelar
Evitar e prevenir os danos ambientais bem como aos demais interesses difusos ou
coletivos.

Art. 6o
Qualquer pessoa poderá e o servidor público deverá provocar a iniciativa do
Ministério Público, ministrando-lhe informações sobre fatos que constituam objeto
de ação civil e indicando-lhe os elementos de convicção.

Parágrafo 1o, Art. 8o.


O Ministério Público poderá instaurar, sob sua presidência, inquérito civil, ou
requisitar, de qualquer organismo público ou particular, certidões, informações,
exames, perícias, no prazo que assinalar, o qual não poderá ser inferior a 10 (dez)
dias.

Art. 10
Constitui crime, punido com pena de reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos, mais multa
de ..., a recusa, o retardamento ou a omissão de dados técnicos indispensáveis
à propositura da ação civil, quando requisitados pelo Ministério Público.

Art. 13
Havendo condenação em dinheiro, a indenização pelo dano causado reverterá a
um fundo gerido por um Conselho Federal ou por Conselhos Estaduais de que
participarão necessariamente o Ministério Público e representantes da
comunidade, sendo seus recursos destinados à reconstituição dos bens lesados.

Art. 18
Nas ações de que trata esta lei, não haverá adiantamento de custas,
emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem
condenação da associação autora, salvo comprovada má-fé, em honorários de
advogado, custas e despesas processuais.
42

Constituição da República Federativa do Brasil (promulgada em outubro de 1988)

Capítulo VI - Meio Ambiente - Art 225


Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo as presentes e futuras gerações.

Parágrafo 3o
As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os
infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos causados.

Constituição do Estado de São Paulo (promulgada em 1989)

Art 192
A execução de obras, atividades, processos produtivos e empreendimentos e
a exploração de recursos naturais de qualquer espécie, quer pelo setor público,
quer pelo privado, serão admitidas se houver o resguardo do meio ambiente
ecologicamente equilibrado.

Art. 193
O Estado, mediante lei, criará um sistema de administração da qualidade ambiental,
proteção, controle e desenvolvimento do meio ambiente e uso adequado dos
recursos naturais, para organizar, coordenar e integrar as ações de órgãos e
entidades da administração pública direta e indireta, assegurada a participação da
coletividade, com o fim de:
....
XIV – promover medidas judiciais e administrativas de responsabilização dos
causadores de poluição ou de degradação ambiental;
...
XX – controlar e fiscalizar obras, atividades, processos produtivos e
empreendimentos que, direta ou indiretamente, possam causar degradação do
meio ambiente, adotando medidas preventivas ou corretivas e aplicando as
sanções administrativas pertinentes;
...
43

Art 195
As condutas e atividades lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores,
pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, com aplicação de
multas diárias e progressivas no caso da continuidade da infração ou reincidência,
incluídas a redução do nível de atividade e a interdição, independentemente da
obrigação dos infratores de reparação aos danos causados.

Técnicas de Recuperação Ambiental

Florestas
Recursos Hídricos
Solos
Ar
Fauna

Foco básico na legislação ambiental

Recuperação ambiental ao seu estado de origem ou, na impossibilidade, na indenização


e/ou compensação por danos ambientais

Medidas Ambientais

Mitigação, controle, prevenção, correção, indenização e/ou compensação

Recuperação Ambiental

Florestas, sucessão secundária, estágios sucessionais, espécies florestais nativas,


relações fauna x flora x solos x clima x água x agrossilvicultura
Indenização por danos ambientais irrecuperáveis = processo de avaliação de danos
ambientais

Recuperação Ambiental x Reabilitação de Áreas Degradadas x Restauração Ecológica

Escopo legal versus escopo técnico


Reabilitação de áreas degradadas – processo mínimo
Recuperação ambiental – processo intermediário
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Reabilitação ecológica – processo máximo (retorno à condição ambiental “status quo ante”)

SNUC

Art. 2º da Lei n. 9.985, de 18 de julho de 2000

Recuperação: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre


degradada a uma condição não degradada, que pode ser diferente de sua
condição original;
Restauração: restituição de um ecossistema ou de uma população silvestre
degradada o mais próximo possível da sua condição original

Estado de São Paulo

Decreto Estadual n. 50.889, de 16 de junho de 2006, que dispõe sobre a


manutenção, recomposição, condução da regeneração natural e compensação da
área de Reserva Legal de imóveis rurais no Estado de São Paulo e dá providências
correlatas.
Resolução SMA n. 008, de 31 de janeiro de 2008, que fixa a orientação para o
reflorestamento heterogêneo de áreas degradadas e dá providências correlatas.

Governo Federal

Instrução Normativa MMA n. 3 de 08 de Setembro de 2009.


Instrução Normativa MMA n. 4 de 08 de Setembro de 2009, que dispõe sobre
procedimentos técnicos para a utilização da vegetação da Reserva Legal sob regime
de manejo florestal sustentável, e dá outras providências.
Instrução Normativa MMA n. 5 de 08 de Setembro de 2009, que dispõe sobre os
procedimentos metodológicos para restauração e recuperação das Áreas de
Preservação Permanentes e da Reserva Legal instituídas pela Lei no 4.771, de 15 de
setembro de 1965.

Resolução CONAMA 001/86

Artigo 1º; considera-se impacto ambiental qualquer alteração das propriedades


físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquer forma de
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matéria ou energia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente,


afetam -

I. a saúde, a segurança e o bem-estar da população;


...
IV. as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente, e;
V. a qualidade dos recursos naturais.

Orientações no processo de mediação (gestão ambiental)

„ Economia, Política, Ecologia, Tecnologia e Administração

2. O Perito, as demandas judiciais e o Meio Ambiente = a visão dos recursos naturais

„ Recursos naturais (solos, florestas, fauna, ar, estética, patrimônio artístico cultural,
recursos hídricos
„ Sistemas e normas de garantia da qualidade ambiental (Qualidade Total, ISO
14000)
„ Certificação ambiental
„ Meio ambiente e consumo (projeto Genoma Humano, Vaca Louca, suínos, aves)

O Perito e a Inicial do Processo

Portaria / Inquérito Civil


Autos de Infração Ambiental
Boletins de Ocorrência (Política Florestal e de Mananciais)
Propositura da Ação Civil Pública (Inicial)

O Perito e os trabalhos periciais

Laudos técnicos (vistorias)


Manifestações técnicas (opiniões, sugestões, comentários)
Pareceres técnicos (opiniões com fundamentação bastante sólida / recomendações)
Monitoramentos e auditorias
Perícias judiciais (inicial, quesitos, despacho saneador)
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Relacionamento do Perito com as partes

„ Requerentes e Requeridos, Assistentes Técnicos, Advogados das partes,


Magistrado, Promotor de Justiça

O Perito e o Rito Processual

Intimação
Elaboração do laudo pericial (estudo, análise, vistoria e parecer)
Respostas aos quesitos
Manifestação quanto às críticas dos Assistentes Técnicos / das Partes
Impugnação do laudo

O Perito e os Quesitos

Auxílio / orientação na elaboração (cabos e fios elétricos, inicial)


Respostas (foco: pedido da Inicial)
Experiência pessoal

O Perito e as demandas ambientais

Demandas urbanas (loteamentos, parcelamento de solo, ocupação de áreas de


preservação permanente, resíduos sólidos, poluição hídrica, ocupação de áreas de
preservação permanente, poluição visual, do ar, patrimônio artístico-cultural, etc.)

Demandas rurais (reserva legal, áreas de preservação permanente, agrotóxicos,


solos, fertilidade, erosão, recursos hídricos, reforma agrária / modelo agrícola)

O Perito e os principais focos (do ponto de vista técnica e legal) para o


desenvolvimento de seus trabalhos

Código Florestal
PNMA
Constituição da República Federativa do Brasil / Constituição dos Estados
Mata Atlântica
SNUC - unidades de conservação
PNRH - recursos hídricos
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PNRS - resíduos sólidos


Amazônia
Ordenamento e Planejamento Territorial
Área de Proteção de Mananciais (bacia hidrográfica)
Uso e Ocupação do Solo (regiões metropolitanas, APM)
EIA/RIMA’s
Lei de Crimes Ambientais

Engenharia Florestal (manejo sustentável, agrossilvicultura, matas ciliares, bacias


hidrográficas, recursos hídricos, reserva legal, APP, etc.)

Código Florestal versus Lei Federal n. 6766, de 19 de Dezembro (dispõe sobre o


Parcelamento do Solo Urbano e dá outras providências) e Estatuto da Cidade (Lei n. 10.257
de 20 de julho de 2001 - Regulamenta os arts. 182 e 183 da Constituição Federal,
estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências)

3. Relações “processuais”

Relação Perito x Assistentes Técnicos x Quesitos x Ação

„ Caso Maluf
„ Caso Cotonifício Valinhos ⇒ Cubatão ⇒ Billings ⇒ ...

Relação Perito x Legislação

„ Palestra sobre Mata Atlântica - Seminários sobre Legislação Ambiental


„ Caso Bartholo
„ Comportamento dos Assistente Técnicos (Caso XXXX - estudo prático)
„ Reforma do Código Florestal versus SNUC (Pq. Flor., APP, Reserva Ecológica)

Relação Perito x Magistrado x Promotor de Justiça x Advogados das Partes

„ Caso Fios e Cabos Elétricos (demanda judicial em si e audiência)


„ Caso Maluf
„ Seringueira / Vale do Ribeira
„ “Apoio” ao trabalho do Perito
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Honorários Periciais

„ Art. 18 da Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347 de 24.07.85, a qual disciplina a ação
civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor,
a bens e direitos de valor artístico, estético, turístico e paisagístico, e dá outras
providências)
„ Honorários x despesas/custas processuais

4. O Perito e a Avaliação de Danos Ambientais

Foco básico da legislação ambiental

Recuperação ambiental ao seu estado de origem ou, na impossibilidade, na


indenização e/ou compensação por danos ambientais

Medidas ambientais

Mitigação, controle, prevenção, correção, indenização e/ou compensação

Recuperação ambiental

„ Florestas, sucessão secundária, estágios sucessionais, espécies florestais nativas,


relações fauna x flora x solos x clima x água, agrossilvicultura
„ Indenização por danos ambientais irrecuperáveis = processo de avaliação de danos
ambientais

O processo de avaliação de danos ambientais e os principais métodos

(i) Valoração Contingente (atribuição de valor monetário às hipotéticas mudanças


ambientais, qualitativas e quantitativas, (fluxo de serviços);
(ii) Preços Hedônicos (criação de um mercado substituto);
(iii) Custo de Viagem (disposição a pagar ou a receber, curva de demanda);
(iv) Custos Evitados;
(v) Custo de Reposição; e
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(vi) Dose-Resposta (não mensuração direta do estado de preferência e estabelecimento


preliminar de uma relação entre alteração ambiental e impactos ambientais)

(i), (ii), (iii), (iv) e (v) - métodos diretos (informações de mercado existentes ou
hipoteticamente criados (disposição a pagar ou a receber)
(vi) - método indireto

Processos de avaliação monetária do dano ambiental

„ destaca-se a questão dos valores de uso direto e indireto e de não-uso (visão norte-
americana):
(a) valores de uso - valores econômicos puros, subdivididos em uso-produto e uso-
consumo, conforme trate-se de um bem existente no mercado (auferindo-se tal valor
no preço atribuído pelo mercado ao bem em causa), ou de um bem que, embora
destinado ao consumo, não chega a entrar no circuito mercantil (pesca para
consumo próprio, por exemplo); e
(b) valores de não-uso - transformação em pecúnia daquilo que pela sua natureza não
admite preço, aferição da dimensão ética do bem, principalmente face ao valor de
existência, ao valor de opção (valor potencial de um bem, na hipótese de sua
destruição irreversível) e ao valor de legado.

Avaliação (valoração) econômica das florestas

„ valor econômico total das florestas = valores de uso direto + valores de uso indireto +
valores de não-uso
Especificamente quanto à identificação dos valores de uso e de não-uso, as metodologias
podem ser diretas (de acordo com as preferências dos “consumidores” que se referem
diretamente ao bem ambiental objeto da avaliação) ou indiretas (relacionadas a outro bem
do mercado tomado como referência por se encontrar relacionado com o primeiro).

Escopo geral das metodologias de avaliação ambiental

„ “avalanche” de críticas de que as mesmas têm sido alvo, visto que nenhuma delas
consegue refletir com razoável precisão o real valor dos bens ambientais, sobretudo no
que concerne à aferição dos valores de não-uso, notadamente o valor de existência.
50

O método dos Custos Ambientais Totais Esperados

Principais variáveis

CATE I/II = Valor presente dos custos ambientais esperados em função de determinado tipo
de dano ambiental intermitente/contínuo, a partir dos fluxos de caixa produzidos por
uma série infinita de vidas úteis de n anos ou, de outra forma, valor presente dos
custos ambientais totais esperados de um determinado processo ambiental
degradativo, em unidade monetária por unidade de área;

Cd = Custos ambientais (valor presente) para fins de reparação dos danos ambientais
diretos, para efeito da consideração dos valores ambientais diretos, em unidade
monetária por unidade de área;

Vc = Valor comercial da área, em termos de uma série periódica anual, benefício direto a
ser auferido por motivo econômico, etc. (em unidade monetária por unidade de área);

F i/d = Fator de conversão de custos ambientais diretos em indiretos, para efeito da


consideração dos valores ambientais indiretos, conforme depreendido de RIBAS
(1996), numa escala de 1 à 9;

j = Taxa de juros (% ao ano), e;

n = Período de rotação, horizonte de ocorrência dos efeitos ambientais no tempo


(normalmente, uma geração - 25 anos).

Variações metodológicas

Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Intermitente (CATE I)


Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Contínuo (CATE II)

Danos Ambientais Irreversíveis (DAI)

Danos ambientais, avaliação e políticas públicas (bem-estar social)


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Recuperação Ambiental x Reabilitação de Áreas Degradadas x Restauração Ecológica

„ escopo legal versus escopo técnico

„ reabilitação de áreas degradadas - processo mínimo

„ recuperação ambiental - processo intermediário

„ reabilitação ecológica - processo máximo (retorno à condição ambiental “status


quo ante”)

5. O Perito e a Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998 (Lei de Crimes Ambientais)

Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e


atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências

Capítulo II - Da Aplicação da Pena - Art. 6o


Para imposição e gradação da penalidade, a autoridade competente observará:
...
III – a situação econômica do infrator, no caso de multa.

Art. 8o
Penas restritivas de direito
...
IV – prestação pecuniária
...

Art. 12 - A prestação pecuniária consiste no pagamento em dinheiro à vítima ou à


entidade pública ou privada com fim social, de importância, fixada pelo juiz, não
inferior a um salário mínimo nem superior a trezentos e sessenta salários mínimos. O
valor pago será deduzido do montante de eventual reparação civil a que for
condenado o infrator.

Art. 15 - São circunstâncias que agravam a pena, quando não constituem ou


qualificam o crime:
52

a) para obter vantagem pecuniária;


...
c) afetando ou exposto a perigo, de maneira grave, a saúde pública ou o meio
ambiente;
...

Art 17 - A verificação da reparação a que se refere o parágrafo 2o do art. 78 do


Código Penal será feita mediante laudo de reparação do dano ambiental, e as
condições a serem impostas pelo juiz deverão relacionar-se com a proteção do
meio ambiente.

Art 19 - A perícia de constatação do dano ambiental, sempre que possível, fixará


o montante do prejuízo causado para efeitos de prestação de fiança e cálculo de
multa.

Parágrafo único - A perícia produzida no inquérito civil ou no juízo cível poderá


ser aproveitada no processo penal, instaurando-se o contraditório.

Capítulo VIII - Disposições Finais - Art 79o-A.


Para o cumprimento do disposto nesta Lei, os órgãos ambientais integrantes do
SISNAMA, responsáveis pela execução de programas e projetos e pelo controle e
fiscalização dos estabelecimentos e das atividades suscetíveis de degradarem a
qualidade ambiental, ficam autorizadas a celebrar, com força de título executivo
extrajudicial, termo de compromisso com pessoas físicas ou jurídicas
responsáveis pela construção, instalação, ampliação e funcionamento de
estabelecimentos e atividades utilizadoras de recursos naturais, considerados efetiva
ou potencialmente poluidores (vide, também, art. 19 da Lei da ACP).

Parágrafo único - O termo de compromisso a que se refere este artigo destinar-se-


á, exclusivamente, a permitir que pessoas físicas ou jurídicas mencionadas no caput
possam promover as necessárias correções de suas atividades, para o atendimento
das exigências impostas pelas autoridades ambientais competentes, sendo
obrigatório que o respectivo instrumento disponha de:
...
III – a descrição detalhada de seu objeto, o valor do investimento previsto e o
cronograma físico de execução e de implantação das obras e serviços exigidos,
com metas trimestrais a serem atingidas;
53

...
6. Responsabilidade civil, administrativa e criminal do Perito

(a) Lei de Crimes Ambientais (Lei n. 9.605, de 12.02.98)

Seção V - Dos Crimes Contra a Administração Ambiental

Art. 66 - Fazer o funcionário público falsa afirmação ou enganosa, omitir a verdade,


sonegar informações ou dados técnico-científicos em procedimentos de autorização
ou de licenciamento ambiental.

Art. 67 - Conceder o funcionário público licença, autorização ou permissão em


desacordo com as normas ambientais, para as atividades, obras ou serviços, cuja
realização depende de ato autorizativo do Poder Público.

Art. 68 - Deixar, aquele que tiver o dever legal ou contratual de fazê-lo, de cumprir
obrigação de relevante interesse ambiental.

Art. 69 - Obstar ou dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público no trato de


questões ambientais.

(b) Realização de falsa perícia (aumento da pena)

Alteração dos artigos 342 e 343 do Código Penal, bem como artigos 5o. e 268 do
Código de Processo Penal

342

„ contador, testemunhas, peritos, tradutores e intérpretes


„ “fazer afirmação falsa, negar ou CALAR a verdade”
„ reclusão de 3 a 8 anos e multa
„ aumento de 1/3 (mediante suborno)

343
54

„ mesma penalidade para estes profissionais, mesmo que a proposta não seja
aceita

(c) Anotação de Responsabilidade Técnica

„ ART / Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea)


„ Habilitação Técnica
„ Fiscalização do exercício profissional no interesse da sociedade

7. Perspectivas do trabalho em Perícia Ambiental

Apoio a questões técnicas, legais e político-administrativas (crimes ambientais, por


exemplo: o papel do Perito)
Termo de Ajuste de Conduta (TAC)
Valor do termo de ajuste de conduta = dano ambiental ou custo de reparação
(questão esta que se reporta, diretamente, ao escopo da metodologia de avaliação de danos
ambientais)
Proposta de Acordo entre as Partes
“Arbitragem”
Problemática ambiental atual frente ao setor público e ao setor privado
Perícias enquanto atividade autônoma (terceirização, projetos individuais/ coletivos,
ONG’s, prefeituras municipais, consultorias, assessorias técnicas, pequenas e médias
empresas, licenciamento ambiental - LP, LI e LO -, Sisnama, EIA/RIMA, RAP’s, PRAD’s,
etc.)
Legislação Florestal/Ambiental versus Certificação Florestal/Ambiental
Perito Judicial ⇒ Assistente Técnico das Partes ⇒ Consultor/Assessor
⇐ ⇐
Relação do Perito com o Processo

Livro
Sistematização
Ordenação / Sequência
Cronologia dos fatos
Lógica
Coerência
Conflitos / contradições
55

Argumentos
Fundamentos
Provas
Orientação
Informação
Apoio / respaldo

Trabalho:

„ Estética, Clareza, Discernimento, Apresentação, Comunicação, Humildade,


Tranquilidade.
„ Ética, Imparcialidade, Ideologia, Bom Senso, Consenso, Equilíbrio,
Coerência, Justiça, Verdade, Razão, Não emoção, Colaboração.
„ Obrigação quanto a esclarecimentos.

8. Conclusão

„ Desenvolvimento de capacidade: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é


de Deus”
56

Tema III: Avaliação Econômica do Meio Ambiente: ênfase no método “VERA”

Introdução

Avaliação econômica do meio ambiente

Meio ambiente = Recursos Naturais = Florestas = Ecologia (tecnicamente)

Meio ambiente ≠ Recursos Naturais ≠ Floretas ≠ Ecologia (economicamente)

Meio ambiente x Recursos Naturais x Floretas x Ecologia (juridicamente) = ?

A variável “ecológica” no ambiente dos negócios

Impactos no ambiente dos negócios das empresas (proteção ambiental, avaliações


de impactos ambientais, relação custo/benefício ambiental, análise de projetos econômicos,
diretrizes, regulamentações, leis, etc.)

Mola propulsora deste aspecto imediatamente acima mencionado - conceito de


desenvolvimento sustentável (oriundo da 1a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio
Ambiente, Estocolmo/1972, onde o Brasil rejeitou firmemente o propósito de adoção de
padrões internacionais para a proteção ambiental).
Desenvolvimento ecologicamente sustentado - aquele que responde à
necessidade do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de
responder às suas necessidades (vertentes; crescimento econômico, equidade social e
equilíbrio ecológico).

A questão ambiental sob o enfoque econômico

Antigamente - meio ambiente considerado como recurso abundante e classificado


na categoria de bens livres.
Pigou (1920, “The Economics of Welfare”)
Pela primeira vez a economia se refere ao aspecto da externalidade.
Todavia, somente mais recentemente (a partir de 1950), a externalidade foi
vinculada à questão ambiental.
57

Principais correntes econômicas relacionadas à questão do meio ambiente:

ƒ ecodesenvolvimentistas;
ƒ pigouvianos;
ƒ neoclássicos, e;
ƒ economistas ecológicos.

Ecodesenvolvimentistas

O termo “Ecodesenvolvimento” surgiu na Conferência sobre o Meio Ambiente/1972


(transformação do desenvolvimento numa soma positiva com a natureza, propondo que
tenha por base o tripé; justiça social, eficiência econômica e prudência ecológica).
Os partidários desta corrente consideram que a poluição é uma consequência do
estilo de desenvolvimento econômico que tem sido o paradigma da nossa sociedade,
principalmente adotado pelas multinacionais e que há necessidade de que se estabeleça
uma (nova) relação harmônica e interativa entre desenvolvimento econômico e meio
ambiente, sob pena de comprometermos os recursos naturais do planeta.
Surgimento do princípio do Poluidor Pagador.

Pigouvianos

A questão da poluição ambiental origina-se de uma falha do sistema de preços6,


que não reflete de forma correta os danos causados a terceiros e ao meio ambiente
Defende-se a resolução do problema via internalização monetária desta externalidade
(lembrando aqui, todavia, a questão das externalidades negativas e positivas).
Abordagem do princípio do Poluidor Pagador também aqui se dá (lembrando aqui,
todavia, outros princípios tais como, o da precaução ou o da reparação)

Neoclássicos

Conceito de meio ambiente integraria três aspectos:


i. meio ambiente enquanto fonte de matérias-primas;

6
As principais deficiências de um dado mercado devem-se aos seguintes fatores: (i) mercados não
concorrenciáveis; (ii) falta de informação; (iii) existência de bens coletivos; e (iv) externalidades, dentre
outras.
58

ii. absorvente de dejetos e efluentes da produção e do consumo de


bens e serviços; e
iii. desempenhando outras funções (ambientais) como a de suporte à
vida animal e vegetal, lazer e estética.

O estudo do meio ambiente estaria associado à incorporação das externalidades,


propondo-se a privatização do meio ambiente, isto é, sugerem formas para determinar os
direitos de propriedade sobre os recursos ambientais e a negociação desses direitos
em mercados privados, de tal sorte que sua utilização implique em custo a ser
incorporado ao custo de produção (por exemplo: criação de um mercado de compra e
venda de direitos de poluir; estabelecimento de mecanismos compensatórios e/ou cobrança
pelos benefícios de controle ambiental pelas empresas da população beneficiada; dentre
outros).
Neste sentido, segundo os Neoclássicos, tanto quanto o fenômeno da externalidade
negativa, uma dada política ambiental deve considerar a questão do nível “ótimo” de
poluição (Anexo II).
O nível ótimo de poluição ambiental parte de um pressuposto básico: do ponto de
vista econômico, improvável de ser eliminada em sua totalidade, uma vez que não é
concebível uma atividade econômica zero.
Assim, o nível ótimo de poluição determinaria as políticas ambientais de controle da
poluição (não somente em termos de instrumentos de comando e controle mas,
principalmente, de instrumentos econômicos).

Economistas ecológicos

Surgimento desta doutrina econômica no final da década de 80, traduzindo-se a


Economia Ecológica num campo transdisciplinar que estabelece relações entre os
ecossistemas e o sistema econômico. Objetiva agregar os estudos de ecologia e de
economia, viabilizando a extrapolação de concepções convencionais, tratando a questão
ambiental de forma sistêmica e harmoniosa, buscando a formulação de novos
paradigmas. Seu foco principal é a relação do homem com a natureza e a compatibilidade
entre crescimento demográfico e disponibilidade de recursos.
Embora considerando a ecologia na análise da sustentabilidade, alguns autores
defendem que a Economia Ecológica carece de uma visão mais abrangente das prioridades
sociais ligadas aos problemas ambientais, pois questões relativas ao nível de emprego, às
definições de necessidades básicas e a outros aspectos importantes da questão social não
são incluídas na avaliação.
59

(princípios ecológicos tais como o da “entropia”)

Valoração econômica de recursos ambientais (ponto de vista econômico)

Economia Æ alocação de recursos (escassos) maximizando o benefício social


Economia Ambiental Æ alocação de recursos naturais escassos maximizando o
benefício social

Avaliação, Avaliação Econômica e Avaliação Econômica de Recursos Ambientais

Valor

Ação de estimar-se o valor de alguma coisa, determinando-se a sua valia (valia


esta entendida como importância/utilidade).
A avaliação do valor que se procura, refere-se ao valor de troca ou algo que dele se
aproxime, ou possa, até mesmo, ser utilizado em seu lugar (em geral o valor de mercado).
Valor seria definido como uma expressão da capacidade de um bem ou serviço
de satisfazer necessidades humanas e econômicas.

Valor de Custos e Benefícios

Em se tratando de florestas/meio ambiente, pode-se dizer que a avaliação de


benefícios e custos, apresentaria valores diretos (tangíveis), aqueles facilmente
mensuráveis do ponto de vista econômico, bem como valores indiretos (intangíveis),
estes de difícil mensuração econômica.

Avaliação Ambiental (geral)

O processo de avaliação econômica do meio ambiente, como todo e qualquer


processo de avaliação econômica deve se apoiar, de uma forma ou de outra, nos
pressupostos básicos do contexto de “mercado” (oferta, demanda e formação de
preços).
60

Observe-se que o procedimento da estimativa do valor de mercado, por exemplo,


possuiria os mais variados propósitos:

Orientação de atos de compra/venda;


Decisões quanto à escolha entre alternativas;
Avaliações comparativas;
Avaliações fiscais;
Análises de garantias;
Estimativas de prejuízos;
Efeitos de indenizações e;
Determinação da importância de qualquer setor ou produto.

Avaliação Ambiental (teoria neoclássica)

Para tanto Æ Princípio do Poluidor-Pagador (PPP)

“A produção traz inerente um conjunto de efeitos não desejados, conhecidos como


externalidades”
PPP – tem por objetivo a incorporação, nos custos finais de produtos e serviços,
cuja produção esteja na origem da atividade poluidora, dos custos finais de proteção do
meio ambiente

Métodos de Avaliação Econômica do Meio Ambiente – ênfase no “VERA”

Existem diversos métodos de valoração ambiental, sendo que a escolha do


método mais apropriado depende do objetivo (finalidade) da valoração.
De qualquer forma, o valor econômico dos recursos ambientais geralmente não
é observável no mercado através de preços que reflitam seu custo de oportunidade (*).
Em assim sendo, de modo a identificar este valor econômico devemos perceber, de
início, que o valor econômico dos recursos ambientais é derivado de todos os seus
atributos.
Em segundo lugar, estes atributos podem estar ou não associados a um uso. Ou
seja, o consumo de um recurso ambiental se realiza via Uso e via Não Uso.
No processo de valoração econômica de um determinado bem é importante
considerar-se o referido bem como homogêneo (quando os seus atributos ou
características que geram satisfação de consumo não se alteram) ou composto (diversas
classes de bens ou serviços com atributos diferenciados).
61

No caso de um recurso ambiental, os fluxos de bens e serviços ambientais, que


são derivados do seu consumo, definem seus atributos. Entretanto, existem também
atributos de consumo associados à própria existência do recurso ambiental,
independentemente do fluxo atual e futuro de bens e serviços apropriados na forma de seu
uso.
Assim, o valor econômico do recurso ambiental (VERA) é função do valor de uso
(VU) e valor de não uso (VNU). Ou, analiticamente:

VERA = VU + VNU

VU – Valor extrativo (valor consuntivo)

VNU – Valor não extrativo (valor não consuntivo) e valor de preservação

VERA [cf MORAES (2008, p. 128)] – É este o valor que é perdido quando um ecossistema
é convertido para outros usos ou é seriamente degradado. O valor econômico total pode
então ser calculado somando os valores individuais de uso e não-uso, ou buscando uma
disposição a pagar que incorpore “o ecossistema” em geral. Note-se, entretanto, que a
maioria dos métodos de valoração não pretende medir o valor econômico total, mas apenas
parte dele (Gen, 2004; Pearce e Warford, 1993).

Valoração econômica dos bens e serviços ambientais = f (Disposição a pagar)

Baseada na noção de disposição a pagar, que por usa vez se baseia em medidas
das preferências dos indivíduos. A disposição a pagar é determinada por motivações
que variam muito entre os indivíduos e tem sua contrapartida direta nos mercados,
onde é formalmente equivalente à curva de demanda, desde que o bem ou serviço esteja
sendo valorado em condições marginais (i.e. desde que se esteja valorando uma
pequena mudança no nível da oferta). Assim os preços de mercado refletem a disposição
a pagar pela última unidade comprada e essa disposição a pagar é um sólido indicador
do valor econômico.
Alguns consumidores estarão dispostos a pagar mais que o preço de mercado, tendo
assim um ganho de bem-estar ao efetivarem a compra, o que é conhecido como o
excedente dos consumidores.
Em uma economia competitiva, com um mecanismo de preços não distorcido, os
preços de mercado refletem essa disposição a pagar. Mas quando há distorções nos
62

preços e/ou falhas de mercado (competição imperfeita, controles cambiais, fixação de


preço máximo, subsídios, 130 impostos, monopólios, etc.) e também porque muitos valores
não se refletem diretamente nos preços de mercado, é necessário usar técnicas
específicas de valoração.
Assim, as várias percepções e definições de valor e valoração só podem ser
captados pelos métodos de valoração econômica até certo ponto, mas não são
completamente captados por tais técnicas (de Groot, 2006). Além disso, cada método
apresenta limitações em sua cobertura de valores, a qual, em geral está associada ao
grau de sofisticação metodológica e de dados exigida, as hipóteses sobre o comportamento
do consumidor e aos efeitos do uso do ambiente sobre os recursos e em outros
setores da economia. A adoção de cada método dependerá do objetivo da valoração, das
hipóteses assumidas, da disponibilidade de dados e do conhecimento da dinâmica ecológica
daquilo que está sendo valorado (Seroa da Motta, 1998) Æcf. MORAES (2008, p. 130).
Há duas classes de técnicas de valoração de não-mercado: preferência revelada
(pelo comportamento de escolha real) e preferência declarada (através de questionários ou
entrevistas).
Na preferência revelada, embora o bem ou serviço ambiental não seja comprado e
vendido diretamente no mercado, ele afeta o mercado de alguma forma. Nesta classe estão,
por exemplo, os métodos do custo de viagem, dos preços hedônicos e de escolha discreta.
A preferência declarada é essencialmente uma abordagem baseada em
questionários na qual se fazem perguntas aos indivíduos sobre suas atitudes em relação
aos bens ambientais, e então se pede sua disposição para conservar o bem ou melhorar
sua qualidade, etc. (SCBD, 2001). Tais métodos incluem a valoração contingente, valoração
em grupo, análise conjunta, ranking contingente, entre outros.

VERA = (VUD + VUI + VO) + VE


Onde:
VERA – Valor Econômico do Recurso Ambiental;
VUD – Valor de Uso Direto;
VUI – Valor de Uso Indireto;
VO – Valor de Opção; e
VE – Valor de Existência

Note-se, entretanto, que VU pode ser desagregado (dividido) em:


63

I. VUD – valor de uso direto

Quando o indivíduo se utiliza atualmente de um recurso, por exemplo, na forma de


extração, visitação ou outra atividade de produção ou consumo direto (utilização e/ou
consumo diretos)

Madeira7

Há uma grande variedade de produtos e subprodutos que tem a madeira como fonte
principal de matéria-prima (celulose, papel, carvão vegetal, lenha e chapas de fibras, móveis
e artefatos de decoração e para construção civil, usos domiciliar, industrial e agrícola.
lenha/carvão vegetal, madeira serrada, madeira em tora, painéis, madeira em polpa e papel
e papelão).
Dois tipos de uso da madeira precisam ser distinguidos: comercial e não comercial.
Considerando que a madeira é comercializada, seu valor econômico, em princípio,
deveria ser fácil de calcular, mas na prática há muitos problemas para determinar este valor:
por exemplo, os preços “ex-forest” de um tronco se referem ao preço recebido pela venda a
um processador; os custos de transporte são altamente variáveis e difíceis de obter; o valor
do estoque de madeira (“valor de stumpage”), dado pelo máximo que um concessionário
estaria disposto a pagar pela concessão de uma área de floresta, também é difícil de
encontrar.
A madeira é usualmente o produto mais valioso das florestas, de modo que os
processos para sua produção tendem a influenciar todas as outras decisões de manejo das
florestas, particularmente em países em desenvolvimento.
O manejo de florestas tropicais para obtenção de madeira de forma sustentável na
América Latina tem produzido resultados econômicos tão imprecisos, segundo Gram et al.
(2001), que não podem ser considerados em análises econômicas. Esses autores citam que
em uma mesma área da Amazônia peruana foram estimados benefícios variando entre US$

7
A exemplificação dos Valores de Uso Direto, Indireto, de Opção e de Existência serão emprestados de
MORAES, A. S. Pecuária e conservação do Pantanal: análise econômica de alternativas sustentáveis – o dilema
entre benefícios privados e sociais. 2008. 265 p. Tese (Doutorado em Economia) – Centro de Ciências Sociais
Aplicadas. Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2008 (Meta-análise Æ “estudo dos estudos”, pois
examina subconjuntos de estudos disponíveis na literatura, tentando medir estatisticamente as relações
sistemáticas entre as estimativas de valoração publicadas para um bem ou serviço ambiental e os atributos que
geraram essas estimativas. Entre os atributos incluem-se o método de valoração utilizado, as características dos
bens ou serviços que são valorados, o tipo de área úmida, a localização geográfica, bem como a informação
socioeconômica sobre a população humana que utiliza esses serviços e outros)
64

12/ha/ano e US$ 786/ha/ano. Já os benefícios da remoção da madeira de forma não


sustentável (extraindo toda a madeira de uma só vez) foram calculados em US$ 481/ha por
Pinedo-Vasquez et al. (1992) para a Amazônia.
Pearce et al. (2001) argumentam que o manejo sustentável envolve custos mais
altos, por exemplo, para evitar dano ao estoque de árvores não comerciais. Em um
levantamento de práticas silviculturais sustentáveis, Pearce et al. (2001) concluíram que o
manejo sustentável para extração de madeira é menos lucrativo que a extração não
sustentável. Isso ocorre pelo efeito das taxas de desconto sobre a rentabilidade das
práticas sustentáveis: quanto maior a taxa de desconto, menor o valor de mercado atribuído
hoje aos rendimentos futuros, de modo que extrair o máximo no menor tempo possível,
gerará mais renda a curto prazo do que as práticas sustentáveis.
O resultado geral é que o mercado só vai favorecer as práticas sustentáveis se
os benefícios não madeireiros das áreas manejadas (incluindo os serviços
ambientais) exceder a perda de lucro relativa à extração convencional (não
sustentável) – o que pode ser possível se o seqüestro de carbono for incluído entre os
benefícios. Gram et al. (2001) também afirmam que os custos associados com as práticas
sustentáveis podem tornar o manejo sustentável não competitivo.
Na mesma linha de argumentação, Rice et al. (2001) mostram que as práticas
sustentáveis não são competitivas com outros regimes de extração e mesmo com outros
usos da terra. Segundo esses autores, praticamente nenhum sistema de extração em
florestas nativas tropicais pode ser considerado sustentável.
Os esforços políticos não têm conseguido torná-lo uma opção mais atrativa porque,
ao mesmo tempo em que aumentam sua lucratividade, aumentam também a lucratividade
dos sistemas convencionais.
Outros fatores que justificam o pouco uso dos sistemas sustentáveis são o baixo
crescimento das árvores, o modesto aumento nos preços, e as altas taxas de juros,
particularmente no Brasil. Assim os retornos dos sistemas sustentáveis são usualmente
menores do que os sistemas convencionais, e as companhias madeireiras não investem
naqueles sistemas.

Mesmo que os sistemas sustentáveis fossem financeiramente viáveis, raramente se


justificam em termos conservacionistas, e mesmo que fossem ambientalmente preferíveis,
não estão entre os métodos mais custo-efetivos para alcançar objetivos de conservação.

Por outro lado, Homma (1993), tratando sobre o extrativismo vegetal na Amazônia,
menciona que se estabeleceu uma síndrome extrativa em nível mundial, em que há uma
falsa suposição considerando os produtos madeireiros como sendo não sustentáveis. Pelo
65

fato de que as práticas de manejo ideais do ponto de vista biológico nem sempre
apresentam viabilidade econômica, a extração de grandes estoques de forma racional e
sustentada nem sempre é possível; assim, a domesticação de muitos produtos
extrativos pode ser melhor para a conservação dos recursos naturais. Além disso, a
grande maioria da população rural não tem aspirações pessoais para dedicar sua vida
somente às atividades extrativas. Por essas razões, pode ser temerário considerar as
atividades extrativas como opção para áreas não desmatadas.
Macqueen (2004) argumenta que o contexto do manejo florestal brasileiro mudou
muito durante a última década. De uma situação onde o padrão dominante eram atividades
florestais ilegais praticadas em áreas de florestas privadas (80% de toda a produção)
passou para um regime baseado no desmatamento legalizado em áreas de assentamentos
agrícolas (75% de toda a produção), sem qualquer planejamento de longo prazo (o que
poderá gerar implicações negativas nas reservas florestais).
Schwenk e da Silva (2001) afirmam que a vegetação natural do Pantanal,
principalmente a floresta, embora ainda conservada, apresenta-se em vários níveis de
conservação, pela pressão seletiva exercida pelas comunidades humanas sobre
determinadas espécies de valor econômico. A retirada e comercialização de madeiras
nobres e a exploração extrativista da lenha são significativas nas regiões próximas a Cuiabá
e outras cidades populosas da porção norte (MT) da Bacia do Alto Paraguai. Algumas
espécies, como a aroeira (Myracrodruon urundeuva) são insubstituíveis na construção de
currais, cercas, galpões e outras benfeitorias das propriedades rurais, por sua resistência às
cheias. E a lenha tem sido intensivamente utilizada na indústria de cerâmicas, em olarias,
frigoríficos, padarias, secadores de sementes, etc. Em determinados ambientes e
comunidades (Morraria do Mimoso) verificaram que muitas espécies, principalmente as de
“madeira nobre”, estão desaparecendo, só sendo encontradas na fase jovem, não havendo
preocupação de reposição. Segundo Rieder et al. (2001, p. 16) “no passado, o Pantanal era
rico em mogno e outras madeiras de lei, mas hoje resta quase nada devido a derrubadas,
queimadas e comércio de madeiras”.
Schwenk e da Silva (2001) identificaram 86 espécies utilizadas pela comunidade da
Morraria do Mimosa, das quais 48% são de madeiras úteis, utilizadas em várias benfeitorias,
como construções de móveis, casas, canoas, remos, mourões, currais, palanques, cochos,
tábuas, vigas, pilão e mão de pilão ou cabo de ferramenta. Dos 48% de espécies, 81% tem
outra utilidade (medicinal, comestível, etc.).
Seidl et al. (2001) verificaram a viabilidade do aproveitamento de 13 espécies
madeireiras de áreas florestadas (mata, cerradão e cerrado) do Pantanal, estimando a
biomassa e calculando o valor potencial de uso direto dos produtos da madeira. A maioria
das espécies estudadas tem ampla distribuição geográfica, ocorrendo em praticamente
66

todos os ecossistemas brasileiros. Algumas das espécies têm outros usos (medicinais,
alimento para fauna e para o homem, óleos para cosméticos e cozinha), mas só o valor
madeireiro foi considerado. O trabalho de Seidl et al. (2001) foi o único encontrado com
informações sobre extração de madeira no Pantanal, de modo que seus resultados serão
tratados com mais detalhe a seguir.
Seidl et al. (2001) basearam suas estimativas de prevalência biológica, biomassa,
taxas de crescimento, custos de produção (inclusive custos de transporte), características
dos produtos e preços recebidos na literatura existente, em observações de três áreas
experimentais (30 quadrantes em cada área) e em entrevistas com proprietários de
serrarias, fazendeiros e marceneiros locais.
Cenários sustentáveis bem definidos de corte e colheita foram calculados para cada
espécie, com base em três taxas de crescimento (baixa, média e alta), e considerando: a
altura média esperada, o diâmetro, o número de árvores, a biomassa arbórea, a taxa de
reposição, o número de anos para atingir o tamanho de mercado, os rendimentos brutos, os
custos e os lucros previstos por espécie, por árvore, por hectare e por tipo de fitofisionomia.
Geralmente, os retornos estimados foram menores do que o custo de oportunidade da área
ocupada com pastagem.
Os autores concluíram que as principais restrições para a extração economicamente
sustentável da madeira no Pantanal são:

(i) o isolamento (distância dos mercados);


(ii) a falta de infra-estrutura (alto custo do transporte do produto bruto e
inexistência de indústrias para beneficiamento da madeira); e
(iii) a baixa taxa de crescimento da maioria das espécies arbóreas com
potencial comercial em relação ao custo de oportunidade do capital.

A receita líquida potencial que um fazendeiro poderia esperar do corte de um hectare


de mata foi estimada em R$ 1.970,00; um hectare de cerradão proporcionaria cerca de ¼ da
receita total ou R$ 530,00; e um hectare de cerrado, R$ 300,00 (Tabela 2.18).
Devido às taxas de crescimento relativamente baixas da maioria das espécies
arbóreas estudadas, as árvores só poderão ser extraídas de uma forma sustentável (taxa de
extração igual à taxa natural de regeneração) a uma taxa anual estimada entre 2,5% e
5,1%, dependendo da espécie.
Esta é uma taxa muita baixa, de menos de uma árvore por hectare/ano em alguns
casos.
Os lucros anuais médios da extração de madeira para os fazendeiros foram
estimados em R$ 77,00 por hectare/ano para áreas de mata, R$ 21,00 por hectare/ano em
67

áreas de cerradão e R$ 12,00 por hectare/ano em áreas de cerrado. Esses lucros foram
calculados com base na hipótese de que as serrarias irão pagar o preço de mercado, o que
depende do custo de transporte das árvores (pago pelas serrarias). Há vários meios de
transporte ao interior do Pantanal, nem todos disponíveis em todas as áreas da região, e
freqüentemente uma combinação de meios de transporte será usada (fluvial, rodoviário por
via pavimentada, rodoviário por estrada de terra, com e sem passagens por balsas, com
grandes caminhões ou não, etc.). Os custos de transporte foram calculados entre R$
5,00/m3 e R$ 30,00/m3 por 100 km, dependendo do meio de transporte utilizado, sendo a via
fluvial um dos mais baratos: R$ 7,00/m3 por 100 km.
O custo de transporte é um dos componentes mais importantes no comércio de
madeira (Macqueen, 2004). Na Amazônia o transporte de árvores por via rodoviária foi
calculado por Barros e Uhl (1995) em R$ 30,02/m3 por 100 km, valor equivalente ao maior
custo no Pantanal.
Nas áreas de várzea, onde o transporte pode ser feito através de rios, o custo é
relativamente mais baixo, entre R$ 1,08/m3 (balsas) e R$ 7,94/m3 (barcaças) por 100 km,
segundo Barros e Uhl (1995). A alternativa mais cara de transporte fluvial na Amazônia (R$
7,94) corresponde a uma das mais baratas encontradas por Seidl et al. (2001) no Pantanal
(R$ 7,00). Mas na Amazônia os lucros econômicos compensam os custos de transporte,
principalmente nas áreas de várzea, e a extração comercial de madeira é considerada
bastante lucrativa.
Os resultados de Seidl et al. (2001) indicam que uma boa infra-estrutura aumenta a
distância de transporte economicamente viável em até seis vezes. Assim, dependendo da
qualidade da rodovia, pode ser economicamente viável o transporte de árvores do interior do
Pantanal para distâncias de até 700 km para a maioria das espécies, e de até 1.800 km para
as espécies mais valorizadas. Mas não há uma boa infra-estrutura rodoviária na região. Há
uma única rodovia pavimentada na região, e mesmo assim, nos limites extremos do
Pantanal, circundando-o pelo sul, leste e norte. Dentro do Pantanal praticamente não há
estradas, apenas trilhas, muitas só acessíveis na estação seca, de modo que o transporte
fluvial é a única alternativa na estação das águas. Desse modo, a maioria das fazendas está
fora da zona economicamente possível para o comércio de madeira com a atual infra-
estrutura. A infra-estrutura de transportes é uma das restrições mais freqüentemente citadas
para todos os tipos de atividade econômica dentro do Pantanal. Além disso, melhorar a
infra-estrutura de transportes no interior do Pantanal pode ter conseqüências negativas para
o ecossistema e para a vida silvestre, por exemplo.
Seidl et al. (1998b) estimaram o retorno anual das pastagens cultivadas na pecuária
do Pantanal em R$ 200,00/ha.
68

Os retornos sustentáveis estimados da extração de madeira encontrados por Seidl et


al. (2001) geralmente foram menores do que o custo de oportunidade das pastagens
cultivadas: apenas quatro das 13 espécies estudadas tem retornos superiores, uma em área
de cerradão e quatro em áreas de mata.
Assim, a extração de espécies madeireiras não é competitiva com a pecuária, pois
apresenta menores retornos esperados aos fazendeiros, sendo compatível com a pecuária
somente como uma renda suplementar em áreas de mata e cerradão.

Se as únicas alternativas econômicas de uma dada área de terra forem a extração


sustentável de madeira e a pecuária, então as áreas florestadas provavelmente serão
convertidas em pastagens.

Lenha e Carvão e a Questão Siderúrgica no Pantanal

O aumento da demanda internacional por ferro e aço tem feito crescer a pressão pelo
desmatamento, para fornecimento de carvão vegetal, causando grande consumo de matas
nativas brasileiras (Agência EFE, 2005; Pinto, 2007).
No Brasil, muitas siderúrgicas empregam o carvão vegetal como agente redutor na
conversão de minério em ferro e aço.
Para a produção de uma tonelada de ferro-gusa são necessários 875 kg de carvão
vegetal, que por sua vez, requer a utilização de pelo menos 2.600 kg de madeira seca,
implicando no desmatamento de uma área de pelo menos 600 m2 se a lenha se originar de
matas nativas (Monteiro et al., 2006).
Em 2006 o Brasil produziu 35,1 milhões de metros cúbicos de carvão vegetal, sendo
que 50% foram de florestas nativas.
Os maiores produtores são os Estados de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará e
Espírito Santo. A atual produção de carvão no Mato Grosso do Sul é de cerca de 2 milhões
de metros cúbicos, dos quais 1,3 milhão de metros cúbicos consumidos por Minas Gerais
(Hess, 2007).
O carvão vegetal também é contrabandeado do Paraguai e da Bolívia, representando
riscos de conflitos com esses países vizinhos (Agência EFE, 2005; Sampaio, 2007).
Em 2004, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA) iniciou estudo para avaliar o comportamento das siderúrgicas nos
principais pólos produtores do país, localizados no Pará, Maranhão, Mato Grosso do Sul e
Minas Gerais.
Na ocasião, descobriu-se que só uma empresa do Pará, a Vale do Rio Doce,
produzia ferro-gusa de fontes sustentáveis de carvão (florestas plantadas).
69

Todo o resto estava irregular, o que resultou em elevadas multas às siderúrgicas:


mais de R$ 500 milhões em Carajás (pelo uso ilegal de carvão proveniente de matas
nativas) e quase R$ 24 milhões no Mato Grosso do Sul, em Corumbá (pelo não
cumprimento da lei ambiental de reposição das matas usadas para produzir carvão)
(Ângelo, 2006; Copetti, 2006; Hess, 2007; Sampaio, 2007).

Até então os órgãos ambientais estaduais faziam o licenciamento se preocupando apenas


com a poluição do ar e a contaminação por metais dos altos-fornos, ignorando
completamente a questão do carvão (Ângelo, 2006).

Em 2004, devido à alta dos preços de ferro-gusa (US$ 235,00 a tonelada em


dezembro de 2004), a demanda e os preços do carvão vegetal elevaram-se de forma
expressiva. Os preços do carvão vegetal tiveram uma elevação de 460%, passando de US$
51,00 a tonelada em janeiro para US$ 121,00 a tonelada em dezembro. A demanda por
carvão vegetal cresceu tanto que as siderúrgicas não conseguiram comprovar junto ao
IBAMA a procedência de mais de 5,4 milhões de m3 de madeira em 2003 e mais de 2,7
milhões de m3 em 2004, mesmo tendo recorrido a artifícios para mascarar sua origem
(Monteiro et al., 2006).
Por isso a produção de carvão vegetal destinada ao abastecimento das siderúrgicas
tem sido considerada um sistema relevante nas mudanças no espaço amazônico, através
do desmatamento.
Além disso, tal sistema não pode ser tratado como uma atividade secundária,
conseqüência de outras atividades vinculadas ao desmatamento (como a necessidade de
preparar o solo para atividades agropecuárias), sendo desenvolvido, em 74% das áreas
visitadas por Monteiro et al. (2006), com o único intuito de retirar a lenha da floresta para a
produção de carvão.
Em Carajás o carvão vegetal alimenta os altos-fornos de 14 siderúrgicas, que
consomem 12 milhões de metros cúbicos de lenha por ano, numa estimativa considerada
conservadora. A área afetada por essa exploração é de até 200 mil hectares por ano. Para
comparação, as 3.500 serrarias contabilizadas em toda a Amazônia consumiam 24 milhões
de metros cúbicos de madeira em 2005.
Cerca de 85% desse carvão veio de florestas nativas, e pelo menos metade das 6
milhões de toneladas de carvão originou-se de fontes ilegais (Ângelo, 2006).
Segundo Monteiro et al. (2006), em termos médios, de 1 ha de floresta extraem-se 30
toneladas de madeira útil para serrarias, das quais 2/3 convertem-se em resíduos, e destas
20 toneladas de resíduos, apenas 6 toneladas são utilizadas na produção de carvão. Em
termos médios, de 1 ha de floresta recolhem-se 44 toneladas de lenha seca útil para a
70

carbonização, pois pelas técnicas utilizadas só se carboniza a lenha com diâmetro entre 5
cm e 50 cm.

O cultivo de florestas é, necessariamente, parte integrante da implantação de um projeto


siderúrgico, mas as florestas cultivadas não têm sido suficientes para suprir nem mesmo a
demanda atual de carvão vegetal consumido no país.

No Mato Grosso do Sul estima-se um incremento de aproximadamente 500% na


demanda, com a implantação dos novos projetos de siderúrgicas em Corumbá (MMX, com
consumo previsto de 18.000 toneladas/mês de carvão) e em Campo Grande (Sideruna, com
consumo de 10.000 toneladas/mês de carvão).
Essas indústrias devem consumir no curto prazo, cerca de 500 mil hectares de
florestas, quando a produção atual é de cerca de 120 mil hectares (Hess, 2007; Pinto,
2007).
A Sideruna foi inaugurada em abril de 2007 e o primeiro forno da MMX, em setembro
de 2007 (Mansur, 2007; Melo, 2007).

Até agora (2007) essas siderúrgicas não revelaram de onde exatamente virá o carvão
vegetal que necessitarão para alcançar suas metas industriais.

A MMX firmou um Termo de Compromisso e Conduta com o Ministério Público


Estadual de que não comprará carvão oriundo do Pantanal, mas está em seu EIA-RIMA
(Estudo e Relatório de Impacto Ambiental) que fará parcerias com fazendas em
diversas regiões do Estado, incluindo regiões pertencentes ao Pantanal.
Do total de 225 mil toneladas/ano de carvão vegetal necessários para atender suas
metas, a MMX vai produzir apenas 10%, em reflorestamentos de eucaliptos, que garante
não serão feitos no Pantanal, nem em suas bordas (Oliveira, 2006; Pinheiro, 2006; Hess,
2007).
Já a Sideruna informa em seu Relatório de Impacto Ambiental que a demanda por
carvão vegetal, que consumirá 261.800 toneladas/ano de carvão vegetal, em grande parte
proveniente de vegetação nativa, poderá pressionar no sentido da redução ainda maior dos
remanescentes de cerrado existentes no Estado (Mansur, 2007; Hess, 2007).
Vários especialistas afirmam que a oferta de carvão vegetal de áreas de
reflorestamento em Mato Grosso do Sul não dará conta do volume a ser consumido por
essas siderúrgicas (Oliveira, 2006; Hess, 2007; Pinto, 2007; Sampaio, 2007; Mansur, 2007).
71

A própria indústria informa que seu consumo é superior ao carvão que pode ser obtido de
fontes legais (Jornal da Ciência, 2005).
Considerando que não há florestas plantadas para atender a atual e a futura
demanda, este consumo deverá ser suprido pela vegetação nativa, acelerando o processo
de desmatamento no Estado, inclusive no Pantanal, além de alimentar uma rede ilegal de
carvoarias: até outubro de 2007 mais de cem carvoarias ilegais foram fechadas pela Policia
Militar Ambiental (Ferreira, 2007; Pinto, 2007).

Alguns especialistas argumentam que a legislação deveria ser mudada para garantir que
nenhuma siderúrgica se instalasse sem comprovar a procedência do carvão vegetal no ato
do licenciamento e que obrigatoriamente deveria existir reflorestamento suficiente para
suprir a demanda das siderúrgicas (Sampaio, 2007).

Projeto de lei que proíbe o uso de mata nativa para transformação em carvão vegetal
está em debate na Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso do Sul (Ferreira,
2007).
Também tem se argumentado que os atuais usuários de carvão vegetal,
notadamente as siderúrgicas, poderiam empregar carvão mineral em substituição ao carvão
vegetal sem problemas, posto que os equipamentos funcionam bem com os dois tipos de
carvão (Hess, 2007; Pinto, 2007).
Mas não existe, no Brasil, nenhuma lei que impeça o uso de matas nativas para
a produção de carvão vegetal. Pelo Código Florestal Brasileiro retirar a madeira não é
ilegal, desde que o fornecedor tenha licença para desmatar, que não derrube árvores de
áreas protegidas ou acima do limite de 20% (área que cada propriedade deve preservar)
(Corrêa e Oliveira, 2005; Vieira, 2005).
Quanto às siderúrgicas, cabe ao IBAMA verificar se elas estão cumprindo o que
determina a legislação: compensar os desmatamentos com reflorestamento, replantando a
mesma quantidade de árvores retiradas para a extração do carvão vegetal, verificar se as
carvoarias são cadastradas e se há autorização para o transporte da madeira (Miranda e
Mathias, 2005; Copetti, 2006).
A imprensa tem noticiado bastante a questão das carvoarias no Pantanal. Segundo
Corrêa e Oliveira (2005), Miranda e Mathias (2005), Vieira (2005) e Tubino (2007), as
carvoarias avançam no Pantanal do Mato Grosso do Sul, em municípios como Miranda,
Porto Murtinho, Aquidauana e Anastácio, devido à escassez da matéria-prima nas zonas
tradicionais – Ribas do Rio Pardo (ex-capital do carvão), Água Clara e Três Lagoas, todas a
leste do Pantanal.
72

Os proprietários rurais do Pantanal estariam contratando carvoeiros para desmatar


áreas para a formação de pastagens.
Nessa parceria os donos de carvoarias fazem a retirada da madeira e a utilizam na
fabricação de carvão, e os fazendeiros ganham áreas para ampliar os pastos.
Dessa forma as carvoarias estariam associadas ao aumento do desmatamento no
Pantanal.
Para o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Extrativistas do Estado do Mato
Grosso do Sul, o esquema funciona como permuta: as carvoarias “limpam” a área para o
fazendeiro e em troca podem explorar a madeira extraída (Miranda e Mathias, 2005).
Mas para Tubino (2007) os fazendeiros ficam com 5% a 10% do negócio, e só alguns
fazem permuta. Os primeiros dizem ter licença do governo estadual. Os carvoeiros dizem
apenas aproveitar árvores já derrubadas (Corrêa e Oliveira, 2005). O IBAMA (Instituto
Brasileiro de Meio Ambiente) não confirma o envolvimento dos fazendeiros pantaneiros, mas
reconhece o crescimento da atividade na região; também reconhece que não tem reserva
de pessoal específica para coibir as carvoarias em caso de sua proliferação no Pantanal
(Miranda e Mathias, 2005). A Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos
(SEMA) também admite limitações de estrutura e de pessoal para fiscalização, pois o
acesso ao Pantanal é mais difícil (Corrêa e Oliveira, 2005; Vieira, 2005; Miranda e Mathias,
2005).
Até julho de 2005 não havia no Mato Grosso do Sul uma legislação que
regulamentasse as atividades das carvoarias; era apenas necessário um cadastro no
IBAMA. Em julho de 2005 a SEMA baixou uma resolução para regularizar as carvoarias e
instituiu um programa de licenciamento ambiental mais rígido, mas muitas carvoarias
estavam tendo dificuldades para se licenciar (Corrêa e Oliveira, 2005). Segundo Tubino
(2007), no Mato Grosso funciona um mercado que vende carvão de mata nativa, com notas
de carvão de área reflorestada ou plantada.
O número de carvoarias existente permanece incerto. Em dezembro de 2005,
segundo Corrêa e Oliveira (2005) e Vieira (2005) havia 28 carvoarias em processo de
regulamentação em seis cidades do Pantanal, mas estimava-se que o número fosse bem
maior, a maioria em situação irregular. Segundo o Sindicato dos Trabalhadores das
Indústrias Extrativistas do Estado de Mato Grosso do Sul, havia cerca de 400 carvoarias em
todo o Estado em 2005 (Miranda e Mathias, 2005), mas o IBAMA calculava que existiam
pelo menos outras cinco mil carvoarias, grande parte ilegal (Corrêa e Oliveira, 2005; Vieira,
2005). Sampaio (2007) reporta a existência de 1.266 carvoarias cadastradas no Mato
Grosso do Sul em 2007. Já Tubino (2007) informa que em 2007 funcionavam 200 carvoarias
dentro do Pantanal, apenas na parte sul.
73

Em Corumbá, Miranda e Aquidauana tem sido encontrados fornos no meio das


matas, próximos a baías (lagoas) e aos rios Miranda e Aquidauana e em áreas de morro
(Corrêa e Oliveira, 2005; Vieira, 2005). Corrêa e Oliveira (2005) relatam que uma única
carvoaria, próxima de Aquidauana e localizada em área de Pantanal, possuía 246 fornos,
empregava 106 pessoas e produzia 3.000 m3 de madeira (suficientes para carregar 30
carretas). Durante dois anos, parte da produção veio de áreas desmatadas (1.700 ha) de
uma das fazendas da região. A produção vai para siderúrgicas de Mato Grosso do Sul e
Minas Gerais. Em 2005, uma tonelada de carvão custava R$ 45,00 e segundo Tubino
(2007) não aumentou muito desde então, porque a oferta é muito grande.
O setor madeireiro brasileiro tem utilizando crescentemente madeiras provenientes
de reflorestamentos, por diversas razões; questionamentos quanto à utilização de florestas
nativas; exigências de “selo verde” ou madeira ambientalmente correta; aumento nos
preços da madeira devido às dificuldades da exploração das florestas tropicais e às grandes
distâncias entre as zonas de extração e de consumo (Silva, 2003). Mesmo assim, da área
de florestas, apenas 5 milhões de hectares são utilizados na forma de florestas plantadas
para produção de madeira, podendo ser incorporados mais 10 milhões de hectares, com
utilização de áreas já desmatadas e de baixa produtividade agropecuária dos estados do
sul, sudeste e centro-oeste (Scolari, 2007). O uso de carvão vegetal proveniente de madeira
de florestas plantadas também vem apresentando crescimento: de 30% em 1990 para mais
de 70% do volume atualmente consumido (Brito, 2007).

Produtos Florestais Não Madeireiros (PFNM)

Um produto florestal não madeireiro (PFNM) é literalmente todo e qualquer recurso


natural de uma floresta que não madeira.
É um conceito inexato, já que é definido pelo que não é ao invés de ser definido pelo
que é; e é complexo, porque abrange uma gama enorme e variada de recursos naturais
(Neumann e Hirsch, 2000).
Os usos extrativos dos PFNM incluem, entre outros: captura de animais para
comércio ou uso sustentável, incluindo caça e pesca para alimentação; coleta de produtos
vegetais, como látex, goma, mel, amêndoas, frutas, flores, sementes, especiarias, etc.;
produtos vegetais para uso medicinal, como folhas, raízes, cascas, sementes, etc.; forragem
para animais; materiais para confecção de artefatos diversos e artesanato; produtos
vegetais para cobertura e abrigo (SCBD, 2001).
Sampaio e Sampaio (1999) descrevem detalhadamente as várias utilidades das
florestas nativas. A extração de PFNM pode ou não ser sustentável.
74

Segundo Chomitz e Kumari (1996), produtos oriundos de sistemas agro-florestais não


devem ser considerados como PFNM, pois tais sistemas são uma forma de conversão das
florestas.

PFNM extrativos (uso consuntivo)

A dificuldade em valorar os PFNM está relacionada a cinco de suas características:

(a) em geral não há informação adequada sobre preços e quantidades;


(b) podem ser não excludentes (e assim, sub-valorados);
(c) não se conhece muito sobre a dimensão biológica dos PFNM e de suas
relações com as variáveis ecológicas;
(d) requerem longo tempo para produzir certos tipos de benefícios; e
(e) são produtos conjuntos (tem múltiplos benefícios) (Lampietti e Dixon,
1995).

Segundo a Convenção sobre Diversidade Biológica (SCBD, 2001), os PFNM são


importantes pelos benefícios que proporcionam para as comunidades que deles se utilizam
e não tanto em termos de seu valor econômico por hectare. O argumento é que as
populações que usam tais recursos são comparativamente pequenas, de modo que
multiplicar valores monetários por hectare por um pequeno número de famílias, resulta em
valores relativamente pequenos. Além disso, o valor dos PFNM quando expresso por
hectare depende muito da existência e proximidade dos mercados, e desta forma varia
muito com a localização geográfica (acesso a mercados).
Lampietti e Dixon (1995) afirmam que, embora útil para comparar estudos, o valor por
hectare, não é muito útil em estimar valores absolutos, porque cada hectare contribui
diferentemente para o excedente do consumidor (por exemplo, pelas restrições de acesso
entre diferentes áreas de uma floresta). Assim, esses produtos têm valor principalmente por
representarem uma parcela significativa da renda das famílias, e alguns estudos mostram,
efetivamente, que tais valores podem ser extremamente importantes para algumas
comunidades (Neumann e Hirsch, 2000). Kant et al.(1996), por exemplo, mostram que a
renda das famílias em Bengala aumentou entre 20% e 30% graças à renda dos PFNM, e
que o efeito é ainda maior para as famílias mais pobres.
Godoy e Lubowski (1992) e Godoy et al. (1993) fizeram uma revisão de vários
estudos que estimaram o valor econômico dos PFNM, com o objetivo de identificar as
diferenças metodológicas e os erros responsáveis pela grande variação nos valores
encontrados na literatura.
75

Eles discutem os principais problemas encontrados e sugerem diretrizes para realizar


tais estudos, de modo a garantir maior confiança nos resultados e permitir uma comparação
entre os mesmos.
Lampietti e Dixon (1995) compararam os resultados de estudos em países
desenvolvidos e em desenvolvimento. A revisão feita por Pearce (1998) teve como objetivo
principal verificar se o valor dos PFNM justifica, em termos econômicos, a conservação de
florestas.
Esses últimos autores dividem os valores dos PFNM em valores extrativos, não
extrativos e de preservação.
Mais recentemente, Neumann e Hirsch (2000), SCBD (2001) e Gram (2001) também
revisaram vários estudos, com os primeiros autores tratando principalmente dos PFNM
comercializáveis (produtos para o mercado). As considerações de Godoy e Lubowski (1992)
e Godoy et al. (1993) foram referendadas nestas novas revisões de literatura e acrescidas
de outras reflexões importantes.
As principais observações e problemas que sobressaem das revisões de literatura
quanto aos resultados dos estudos de valoração dos PFNM são descritas a seguir.
a) Incompatibilidade dos resultados. Os valores líquidos por hectare variam
amplamente: entre US$ 1,00/ha/ano e US$ 420,00/ha/ano. Mesmo quando os estudos
tratam do mesmo bem e são realizados no mesmo tempo e lugar, as avaliações produzem
resultados diferentes. Essas diferenças de resultado são explicadas principalmente:
• Pelas diferenças biológicas e sócioeconômicas dos locais estudados. A
representatividade biológica (ou pelo menos as razões para a escolha de um determinado
local) é pouca discutida, de modo que não se sabe em que medida os locais estudados se
assemelham à floresta ao redor deles, dificultando comparar e avaliar os diferentes estudos
(Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993; Lampietti e Dixon, 1995; Gram, 2001). Mesmo
assim, tem havido a generalização de estudos de uma área pequena de floresta para áreas
maiores, com pouca consideração para outros fatores intervenientes. E mesmo quando há
similaridade entre a área amostrada e o restante da floresta, a área em questão pode não
ser típica por causa das variações na distância aos mercados (acesso a mercados) (SCBD,
2001).
• Pelo grau variado em que os estudos se baseiam em amostragens representativas.
Uma amostragem adequada, tanto dos ecossistemas quanto das populações humanas
envolvidas, é necessária para que um estudo possa ser generalizado (Neumann e Hirsch,
2000). Por exemplo, nem todos os estudos coletam informação por doze meses
consecutivos e nem sempre a amostra cobre as variações sazonais ao longo de um ano
(Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993).
76

• Pelo uso de diferentes métodos de estimação e de diferentes hipóteses de estudo


(Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993; Lampietti e Dixon, 1995).
• Pelos diferentes produtos estudados (Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993;
Lampietti e Dixon, 1995).
b) Tendência a examinar principalmente flora, com poucos estudos sobre a fauna
extraída e quase nenhum sobre o valor econômico combinado de plantas e animais (Godoy
e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993).
c) Poucos estudos discutem a sustentabilidade das práticas extrativas, de modo que
muitas vezes o que está sendo comparado pode bem ser opções não sustentáveis de uso
da terra (Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993; SCBD, 2001). Além disso, estimar o
valor econômico dos PFNM em um ponto do tempo também deixa sem resposta a questão
da sustentabilidade da atividade (Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993).
d) Há uma multiplicidade de custos nas atividades de extração e comercialização dos
PFNM, tais como os custos de coleta (trabalho), de materiais usados na coleta e
processamento, e de transporte, que raramente têm sido totalmente quantificados nos
estudos, e que podem ser elevados (Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993; Neumann
e Hirsch, 2000). Também tem sido sistematicamente desconsideradas as perdas pós-
colheita (SCBD, 2001).
e) Os estudos em geral não definem se os valores em questão se referem aos
estoques de bens e serviços (a quantidade na floresta, ou inventário), ao seu fluxo potencial
se explorados eficazmente, ou ao seu fluxo atual (a quantidade usada pelas pessoas)
(Godoy e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993; SCBD, 2001).
f) Poucos estudos mediram as proporções em que os PFNM vão para o uso e para o
mercado, uma distinção importante, já que devem ser valorados de forma diferente (Godoy
e Lubowski, 1992; Godoy et al., 1993).
g) Alguns estudos informam rendas e outras rendas líquidas (exclusive o trabalho e
outros custos), de modo que também neste aspecto os estudos variam (SCBD, 2001).
h) Os estudos de valoração baseados na renda atual recebida indicam que a
extração e venda de PFNM são muito significantes em regiões tropicais aos níveis
domiciliar, de comunidade e nacional (Neumann e Hirsch, 2000), mas nem todos os autores
concordam com isso (Gram, 2001).
i) Atribuir preços aos PFNM na ausência de um mercado pode ser muito especulativo
(Neumann e Hirsch, 2000). O fato de que os preços vão cair em um mundo hipotético em
que toda a floresta foi explorada para extrair os PFNM, tem sido ignorado na maioria dos
estudos (SCBD, 2001).
77

j) A rentabilidade dos empreendimentos de extração e comercialização de PFNM


depende muito da proximidade dos mercados, sendo um dos fatores mais limitantes das
iniciativas de comercialização (Neumann e Hirsch, 2000).
k) Provavelmente há um viés de seleção: só valores positivos são documentados
(SCBD, 2001).

O que fica claro dos estudos revisados é que, enquanto há um crescente


entendimento e aceitação da importância econômica dos PFNM, especialmente para os
pobres, não é fácil chegar a conclusões gerais e fazer comparações entre os estudos devido
à utilização de diferentes métodos e procedimentos de valoração (Neumann e Hirsch, 2000;
SCBD, 2001; Gram, 2001). Além disso, as diretrizes apresentadas por autores como Godoy
e Lubowski (1992) e Godoy et al. (1993) para realizar tais estudos, não tem sido seguidas,
de modo que os resultados continuam variando amplamente (para uma exceção, ver Gram
et al., 2001). Assim, o conhecimento atual sobre a importância dos PFNM parece estar
baseado em alicerces dúbios.
Por outro lado, argumentos anteriores de que o valor dos PFNM (mais extração
sustentável de madeira) poderia exceder aqueles da conversão de florestas para outros
usos, tais como o de Peters et al. (1989), têm sido desacreditados devido a problemas
metodológicos nesses estudos (Gram et al., 2001) e por resultados de pesquisas mais
recentes (SCBD, 2001). Pearce (1998) mostra que os valores de muitos PFNM têm sido
exagerados na literatura, e que tais valores só podem justificar a conservação de florestas
em um número limitado de casos. Homma (1993) também considera que as atividades
extrativas não podem ser consideradas como opção para conservar áreas florestadas.
O impacto potencial dos PFNM comercializados também precisa ser melhor
entendido, pois as comunidades para as quais esses produtos parecem ser mais
importantes, freqüentemente não têm o conhecimento, nem o capital ou o direito legal que
lhes permitam explorar comercialmente esses produtos quando aparecem oportunidades de
mercado. Outros atores sociais, que detém o conhecimento, as redes comerciais e as
concessões dos produtos, é que geralmente se apropriam da maior parte dos benefícios da
comercialização dos PFNM (Neumann e Hirsch, 2000).
Assim, a tese que propõe a exploração de PFNM comercializáveis como uma solução
para a pobreza e a conservação das florestas (“rainforest crunch thesis”), tem sido colocada
à prova, pois de fato quem se beneficia nem sempre são as comunidades mais pobres que
fazem uso das florestas (Dove, 1993).
Com base na revisão que realizaram em 24 estudos, Godoy et al. (1993) sugerem um
valor médio para os PFNM de cerca de US$ 50,00/ha/ano, mesmo valor sugerido por
Pearce (1998), enquanto que Lampietti e Dixon (1995) sugerem um valor de cerca de US$
78

70,00/ha/ano. Tais valores provavelmente não são competitivos com muitos valores de
conversão da terra para outros usos. A extrapolação desse valor “de base” para toda a
floresta, como já ficou claro na revisão acima, pode constituir um sério erro. Certamente há
situações em que valores maiores serão obtidos, assim como em muitos casos tais valores
poderão exagerar as receitas líquidas.
Normalmente, valores mais altos estão relacionados aos produtos facilmente
acessíveis, enquanto valores mais baixos, com produtos relativamente inacessíveis, devido
aos custos de acesso, extração e transporte (SCBD, 2001).
Não foram encontradas estimativas do valor econômico de produtos florestais não
madeireiros extrativos para o Pantanal na literatura revisada. A flora do Pantanal, entretanto,
é bem conhecida, e há uma variedade de produtos florestais extrativos no Pantanal com
mercado local, e algumas vezes, com mercado potencial mais amplo. Coutinho et al. (1997)
listam mais de 50 especiarias, 20 frutas e legumes, 5 ervas medicinais, 5 espécies
madeireiras, e uma dúzia de usos artesanais de áreas florestadas e de pastagens nativas do
Pantanal que atualmente possuem mercado local e nacional. Pott e Pott (1994) descrevem
os usos de 500 plantas fanerógamas (com flor) da região e sua utilização atual ou potencial
como alimento de fauna e humano, apícola, forrageira, frutífera, madeireira, medicinal,
tóxica, como invasora e por sua raridade. No Pantanal norte, Souza e Guarim Neto (1996) e
Gonçalves (1996) citam mais de 100 plantas usadas para propósitos medicinais e Schwenk
e da Silva (2001) listam 86 espécies usadas para múltiplas finalidades.
Ainda no Pantanal norte, Amorozo (2002) identificou 228 espécies de uso terapêutico
em três comunidades rurais, das quais 56% nativas, 41% cultivadas e 3% exóticas
(compradas).
Rieder et al. (2001) afirmam que os locais anteriormente acessíveis para extração de
PFNM (flora e fauna) perto das cidades que margeiam o Pantanal perderam
progressivamente suas riquezas. Schwenk e da Silva (2001) também argumentam que em
determinados ambientes do Pantanal muitos recursos naturais de uso cotidiano (em
particular a vegetação) estão esgotados ou em via de esgotamento pela pressão de uso.
Schwenk e da Silva (2001) observam que em certos locais do Pantanal onde a extração de
PFNM é relevante, como em comunidades de origem indígena mais ou menos isoladas
(mas já aculturadas), muitas espécies consideradas de grande uso ou valor econômico,
estão desaparecendo pela pressão de extração. Em comparação com áreas próximas com
menor intensidade de uso, essas áreas têm menor número de indivíduos e menor
quantidade de espécies.
Entretanto, a literatura (Olsen, 1997; Homma, 1993) tem mostrado que a extinção
econômica (quando os custos de coleta excedem o valor dos benefícios) impede a extinção
botânica. Se o custo marginal de oferecer um PFNM particular sobe abruptamente com o
79

passar do tempo, se espera uma variedade de reações possíveis antes que a depleção do
recurso ou a extinção ocorram. Como Homma (1993) mostra, se os retornos da coleta de
uma espécie permanecem competitivos durante certo tempo e a disponibilidade diminui
significativamente, a espécie fica sujeita à domesticação e/ou cultivo, à substituição através
de produtos semelhantes, ou à substituição através de sintéticos industriais. Homma (1993)
afirma que a domesticação de muitos produtos extrativos pode evitar a pressão de extração,
significando melhor conservação desses recursos naturais. Mas para Neumann e Hirsch
(2000), as possibilidades de domesticação variam muito entre os diferentes PFNM.
Amorozo (2002) acredita que as mudanças nos padrões de uso local dos ambientes
naturais do norte do Pantanal irão, a médio prazo, acarretar uma diminuição na
disponibilidade de plantas nativas para fins medicinais, diminuindo seu uso na maioria das
comunidades rurais. Para Amorozo (2002), os fatores que contribuem para que haja perda
de espécies de valor terapêutico e de informações sobre elas no norte do Pantanal são: a
destruição de habitats, para formação de pastagens ou uso urbano; a inacessibilidade
devido à apropriação e cercamento das terras por estranhos às comunidades; o maior
acesso a cuidados institucionalizados de saúde (novas opções de cuidados com a saúde); e
a modernização, que provoca desvalorização da cultura local e reforça a tendência à perda
ou abandono de práticas tradicionais. Esta autora sugere que à medida que as comunidades
tradicionais vão se expondo mais à sociedade nacional, o conhecimento acerca do uso de
plantas medicinais sofre um acréscimo, por aporte externo (maior contato e conhecimento
sobre espécies exóticas). Mas que quando este processo se aprofunda, as comunidades
tendem a restringir o uso às espécies cultivadas e invasoras cosmopolitas, por fatores
decorrentes de mudanças sócioeconômicas.
Em termos da fauna, várias espécies do Pantanal podem ter potencial de
aproveitamento. O porco monteiro (Sus scrofa) – porco doméstico asselvajado – é
“manejado” como a principal caça de subsistência pelos peões pantaneiros, que capturam,
castram e soltam os leitões machos e abatem a tiros os capados e as porcas adultas
eventualmente encontradas posteriormente (EMBRAPA, 1993). A viabilidade de extrair
naturalmente (manejo sustentável) algumas espécies animais no Pantanal está determinada
para o jacaré (Caiman crocodilus yacare) (Breyer, 1987; Coutinho e Campos, 2005), a
capivara (Hidrochaeris hidrochaeris) (Alho et al., 1987a; Alho et al., 1987b) e a ema (Rhea
americana) (Hasenclever et al., 2004), embora riscos negativos potenciais possam surgir
quando do manejo efetivo (como excesso de exploração e dificuldades de fiscalização)
(Campos et al., 2005). Todas essas espécies têm mercado local de carne e de subprodutos
(couro, óleos, penas e ovos, por exemplo), e com a possível exceção da capivara, todas
têm, também, mercado nacional e internacional. A capivara é comprada viva a duas vezes o
preço da arroba do boi. Criações extensivas conjuntas de capivaras e bovinos atestam uma
80

produtividade mínima de carne (kg/ha/ano) seis vezes maior para as capivaras (Paula e
Silva Neto, 2006). Um exemplo de sucesso é a Cooperativa dos Criadores de Jacarés do
Pantanal, em Cáceres (MT), que cria 35 mil jacarés e tem um frigorífico com capacidade de
abate de 100 animais/dia (SEBRAE-MT, 2006).
Entretanto, a renda potencial dos produtos florestais nem sempre pode ser facilmente
apropriada. Tipicamente, os mercados locais de tais produtos comercializam baixos volumes
e são facilmente sujeitos a condições de excesso de oferta. Os custos de transporte
normalmente são altos e a renda econômica gerada muitas vezes vai para fora da região de
produção (Seidl et al., 2001).
Além disso, a maior parte da população rural não tem aspirações pessoais para se
dedicar somente às atividades extrativas (Homma, 1993). E o argumento comum de
preservar pelo potencial para descoberta de novos produtos farmacêuticos provavelmente
não dá motivação suficiente por si mesmo para que os pantaneiros conservem o habitat.
Além disso, as habilidades requeridas para desenvolver mercados nacionais e
internacionais e estabelecer canais de comercialização, assim como o conhecimento dos
mercados, são escassas no Pantanal, de modo que explorar novos mercados (e mesmo
mercados nacionais e internacionais existentes) provavelmente irá requerer investimento
significativo. Há, ainda, barreiras regulatórias que persistem, e um histórico de caça ilegal
mal visto pela opinião pública e prejudicial à eficiência dessas alternativas (Gowdy, 1997).
Finalmente, mesmo quando fluxos de caixa são gerados através da criação de
mercados, nem todo o valor econômico pode ser apropriado e pode haver impactos culturais
e ambientais não pretendidos (SCBD, 2001). Assim, muitos dos usos identificados no
Pantanal são principalmente hipotéticos.
Gram et. al (2001) mostram, com base na experiência das florestas tropicais
amazônicas, que é uma estratégia arriscada concentrar os esforços de desenvolvimento em
um ou poucos produtos comerciais. Segundo esses autores, a história dos produtos
comerciais extraídos das florestas tropicais latino-americanas mostra um padrão de
aumento e queda, com a extração e comercialização em larga escala seguida por um
colapso devido a sobre-exploração ou competição de produtos sintéticos ou plantações.
Outros fatores, específicos do Pantanal, também sugerem que o valor econômico por
hectare dos PFNM no Pantanal é baixo. Por exemplo, a grande maioria da população que
vive no interior do Pantanal é constituída por trabalhadores que cuidam do gado,
assalariados (com o salário freqüentemente incluindo outras formas de pagamento, como
alimentação, moradia e participação na produção – ver Seção 5.1.1.J), e, portanto, menos
dependentes dos recursos da floresta. Assim, os PFNM tendem a ser pouco importantes em
termos de participação percentual na renda das famílias pantaneiras, com a possível
exceção da pesca para populações ribeirinhas, pois os peões não costumam pescar. Como
81

a densidade populacional dentro do Pantanal é baixa (menor que 1 hab/km2, segundo o


IBGE (2005))10, o valor agregado por hectare também tende a ser pequeno. Certamente o
emprego de plantas nativas, principalmente com fins medicinais (e veterinários), ainda é
parte importante do cotidiano de muitas comunidades pantaneiras, mas muitos
medicamentos industriais estão disponíveis às famílias rurais diretamente nas fazendas,
pois os proprietários mantêm “estoques” de uma variedade de produtos não produzidos nas
fazendas (os chamados armazéns das fazendas). Outra atividade extrativa que
provavelmente também vai continuar sendo importante no cotidiano dos peões é a caça ao
porco monteiro.
Em termos de comercialização dos PFNM no Pantanal, além da falta de aspirações
pessoais para se dedicar somente às atividades extrativas, a maioria dos peões, por ser
assalariada, não pode se dedicar à extração. Há, ainda, restrições devido a fatores como: a
maior parte das terras é de propriedade privada e muitos proprietários proíbem atividades
extrativas – particularmente caça e pesca - em suas propriedades; não há estradas dentro
do Pantanal, o que implica em dificuldades de acesso e custos elevados de transporte; a
pressão de extração tem reduzido os recursos no entorno do Pantanal nas áreas próximas
às cidades; e muitas atividades extrativas podem estar fortemente correlacionadas às
flutuações anuais das águas.
A pesca é uma possível exceção (podendo ser importante tanto em termos de renda
quanto de subsistência), mas está restrita às populações e comunidades que vivem
próximas aos rios e outros corpos de água, pois é fato notório que os peões quase não
comem peixe e, portanto, pouco pescam. A literatura revisada indica baixos valores por
hectare para a extração da fauna em geral, embora com poucos estudos específicos para a
pesca (ver Tabela 2.19). Gram et al. (2001), entretanto, em um estudo sobre a importância
econômica da fauna (caça e pesca) e flora (PFNM e madeireiros) em populações ribeirinhas
de planícies de inundação da Amazônia Peruana, encontraram que os produtos para
subsistência, especialmente a pesca, compõe uma grande parte da economia local: cerca
de 62% do valor total dos produtos extrativos por família.
Catella (2001) estimou o desembarque médio anual total de pescado na Bacia do Alto
Paraguai em Mato Grosso do Sul, no período de 1994 a 1999, em 1.415 toneladas, sendo ¼
da produção (330 toneladas) capturada pelos pescadores profissionais artesanais e ¾
(1.086 toneladas) pelos pescadores esportivos. Cerca de 2.900 pescadores profissionais
encontravam-se em atividade em 1999, com rendimento anual mediano de 75
kg/pescador/viagem.
82

D. Ecoturismo

O ecoturismo é uma atividade crescente e constitui um valor de uso não extrativo


importante em muitas áreas úmidas. Os problemas são que nem sempre os lucros líquidos
vão para os usuários ou proprietários, indo freqüentemente para agentes de turismo que não
residem na região ou mesmo no país e o próprio turismo precisa ser ‘sustentável’,
garantindo a capacidade de suporte da área para turismo. Alguns locais ecoturísticos atraem
grande número de visitantes e conseqüentemente tem altos valores por hectare. Entretanto,
tais valores variam amplamente com o local e a natureza das atrações, de modo que é difícil
sugerir valores representativos dos diferentes ecossistemas (florestas tropicais, áreas
úmidas, etc.). Por exemplo, SCBD (2001) apresenta valores variando entre US$ 1,00/ha até
US$ 2.305,00/ha para as florestas tropicais.
Doan (2000) estudou os impactos que o ecoturismo tem sobre comunidades locais, a
economia e o meio ambiente em 62 locais do mundo onde se pratica ecoturismo, usando
escala multidimensional e testes de Critério de Pontuação Proporcional. O objetivo foi
identificar os principais fatores que afetam a sustentabilidade e o sucesso de projetos de
ecoturismo. Os critérios incluíram: apoio financeiro para conservação (sim/não/acima de um
percentual); emprego para os residentes (0%-100%); atitudes locais para conservação
(negativa, positiva, ambivalente); atitudes locais em relação ao turismo; desintegração
cultural (pequena, total, sobre a tradição, sobre a hospitalidade, etc.); status ecológico da
área; e status de proteção da área. A grande vantagem da metodologia é que ela é capaz
de sintetizar diferentes tipos de dados (análises de custo-benefício, valoração contingente,
estudos de disposição a pagar, levantamentos de atitudes, e investigações biológicas) em
uma forma facilmente compreensível. Além disso, a metodologia permite comparação com
outros projetos de ecoturismo e pode ser aplicada sob condições variadas e em períodos de
tempo seqüenciais. O autor mostra que os projetos de ecoturismo podem se beneficiar do
uso daqueles critérios para medir quantitativamente seu status em termos de serem
instrumentos para o desenvolvimento sustentável.

Turismo rural, arqueológico (Peixoto e Boeira, 1996) e ecoturismo (Bordest et al., 1996)

Diversos autores (Coutinho et al., 1997; Gowdy 1997; Geist 1994) defendem que o
ecoturismo pode servir como incentivos econômicos para a conservação do Pantanal. O
beneficio econômico total da proteção da vida selvagem nos parques nacionais dos Estados
Unidos foi estimado por Geist (1994) em mais de US$ 70 bilhões. Costanza et al. (1997)
estimaram um valor de US$ 574/ha/ano para as atividades recreativas em áreas úmidas da
terra e US$ 491/ha/ano em planícies alagáveis. Moraes e Seidl (1998) calcularam que os
83

46.000 pescadores esportivos que visitaram o Pantanal sul em 1995 gastaram US$ 36
milhões.
Além disso, a razão principal para as viagens desses pescadores não era pegar
peixes grandes, muitos peixes ou peixes raros ou exóticos; o principal fator motivador foi
experimentar o ambiente natural sem igual do Pantanal, incluindo a observação da vida
selvagem. Isso indica um grande potencial para o turismo voltado à natureza, incluindo
ecoturismo. Mas o desenvolvimento do ecoturismo no Pantanal sofre dos mesmos fatores
limitantes potenciais do turismo mais geral (falta de planejamento, fraca infraestrutura de
comunicação, falta de tratamento de água e esgoto sanitário, mão-de-obra pouco treinada,
etc.) (Bordest et al., 1996).
O valor da pesca esportiva no Pantanal brasileiro foi medido por Shrestha et al.
(2002) usando o método do custo de viagem. Um dos objetivos foi fornecer argumentos
econômicos para o processo de valoração, ao captar valores de não-mercado dos serviços
do ecossistema Pantanal.
O estudo mostra que o bem-estar social total (medido pelo excedente do consumidor)
devido à pesca esportiva no Pantanal brasileiro varia de US$ 35,10 a US$ 56,40 milhões
(em dólares de 1994). Foram estimados modelos de demanda por viagens de pesca
esportiva usando uma variedade de especificações: linear, não linear, Poisson, Poisson
truncado, binomial negativo e binomial negativo truncado. Os modelos com melhor
performance foram os modelos de mínimos quadrados não lineares, Poisson truncado e
binomial negativo truncado. No geral, os sinais e a significância dos coeficientes estimados
foram consistentes com a teoria econômica e com estudos de recreação anteriores. Com
base na performance dos modelos, foram derivadas estimativas do excedente do
consumidor. Os pescadores esportivos registraram um alto prêmio de preço pela
oportunidade de pescar no Pantanal, variando de US$ 86,35 a US$ 138,91 por dia, em
média. Esse excedente é muito mais alto que as estimativas médias encontradas em
estudos anteriores. Por exemplo, em estudo realizado nos Estados Unidos, Loomis et al.
(1999) calcularam o valor da pesca recreativa em US$ 32,83 por dia por pessoa (em dólares
de 1996), usando meta-análise.
Entre vários estudos de pesca esportiva feitos em outros países que não os Estados
Unidos, Shrestha e Loomis (2001) registram que Kerr (1996), na Nova Zelândia, estimou um
valor entre US$ 34,45 a US$ 69,97 por dia por pescador (em dólares de 1986). O valor mais
alto do excedente do consumidor encontrado no Pantanal está influenciado por valores de
não-uso que os pescadores experimentam por estarem em um lugar único como o Pantanal;
e é consistente com o maior valor da recreação ao ar livre (24%) encontrado em
ecossistemas selecionados do mundo, quando comparados com os excedentes médios do
consumidor calculados para os Estados Unidos (Shrestha e Loomis, 2001).
84

II. VUI – valor de uso indireto (ou contingente)

Quando o benefício atual do recurso deriva-se das funções ecossistêmicas, como,


por exemplo, a proteção do solo e a estabilidade climática decorrente da preservação
das florestas;

Valor de Uso Indireto: Funções do Ecossistema

Seidl e Moraes (2000) re-estimaram para o Pantanal da sub-região da Nhecolândia


os cálculos feitos por Costanza et al. (1997) no famoso artigo “The value of world’s
ecosystem services and natural capital” (Nature, 15(387):253-260, 1997). Além de verificar a
sensibilidade do estudo original a dados mais detalhados e precisos, já que localmente
derivados, o estudo de Seidl e Moraes (2000) também teve por objetivo compreender
melhor como a população que vive no Pantanal pode se beneficiar dos enormes valores que
os serviços do ecossistema Pantanal proporcionam a nível global. Costanza et al. (1997)
calcularam valores globais médios de 17 tipos de serviços do ecossistema, em 16 biomas,
dentre os quais o Pantanal, que foi considerado uma área úmida de valor distintamente alto
(cerca de US$ 10 mil por hectare por ano), ou um hotspot global.
O valor total anual dos bens e serviços do ecossistema para o Pantanal brasileiro
(subregião da Nhecolândia) estimado por Seidl e Moraes (2000) foi de cerca de US$ 15,64
bilhões ou US$ 5 milhões por residente, aproximadamente a metade do valor calculado por
Costanza et al.(1997). Essa diferença foi atribuída ao maior conhecimento da
heterogeneidade biofísica regional, principalmente mais seca, que não puderam ser
captadas pela escala global dos cálculos de Costanza et al. (1997). Estes autores
consideraram uma paisagem homogênea de áreas alagadas, presumivelmente
continuamente inundadas, enquanto que Seidl e Moraes (2000) consideraram uma estação
seca de aproximadamente oito meses na Nhecolândia. Embora os dados locais tenham
diminuído a contribuição total do Pantanal para os serviços globais do ecossistema para
aproximadamente a metade, a magnitude dos valores é surpreendente para uma região
onde as pessoas em geral são muito pobres (salário mínimo menor que US$ 100) e onde o
valor de troca das terras com pastagens variam entre US$ 100 e US$ 300 por hectare.
A contribuição relativa dos diferentes serviços para o valor total estimado é
apresentada na Tabela 2.21. Os serviços de oferta de água e controle de distúrbios
contribuem com cerca de 2/3 do valor total anual estimado por hectare, aproximadamente
US$ 2.000 e US$ 1.750, respectivamente.
85

Tratamento de dejetos, valor cultural e regulação de água contribuem cada um com


valores substanciais, entre 6% e 9% do total (aproximadamente US$ 500, US$ 425 e US$
380 respectivamente). Ciclagem de nutrientes, recreação e habitat dão uma contribuição
menor ao valor total anual (entre 1,5% e 3%), com os demais serviços (nove categorias)
respondendo pelos quase 6% restantes.

Tabela 2.21 – Valor dos serviços anuais do ecossistema estimados para o Pantanal da
Nhecolândia.
Categorias de serviços do Ecossistema US$ (1994) x 106 Escore % US$ (1994) por ha/ano

1. Regulação de gás 181,31 10 1,16 67,35

2. Regulação do clima 120,50 13 0,77 44,76

3. Regulação de distúrbios 4.703,61 2 30,07 1.747,19

4. Regulação de água 1.019,82 5 6,52 378,81

5. Oferta de água 5.322,58 11 34,02 1.977,11

6. Controle de erosão 170,70 11 09 63,41

7. Formação de solo 60,22 14 0,38 22,37

8. Ciclagem de nutrientes 498,21 6 3,18 185,06

9. Tratamento de dejetos 1.359,64 3 8,69 505,05

10. Polinização 33,03 15 0,21 12,27

11. Controle biológico 30,39 16 0,19 11,29

12. Habitat/refúgio 285,04 8 1,82 105,88

13. Produção de alimentos 143,76 12 0,92 53,40

14. Matérias primas 202,03 9 1,29 75,05

15. Recursos genéticos 22,15 17 0,14 8,23

16. Recreação 423,64 7 2,71 157,37

17. Cultural 1.144,49 4 7,32 425,13

Valor regional anual total 15.644,09 100,49 5.839,73

Fonte: Seidl e Moraes (2000).


Nota: As percentagens não somam 100% devido a arredondamentos.
Para definição das categorias dos serviços do ecossistema ver Tabelas 3.2 (p.125) e 3.4
(p.132).
Serviços globais: 1, 2, 12, 15 e 16.
86

III. VO – Valor de Opção

Quando o indivíduo atribui valor em usos direto e indireto que poderão ser optados
em futuro próximo e cuja preservação pode ser ameaçada. Valor que o “indivíduo” está
disposto a pagar como valor adicional com o objetivo de preservação/conservação de
dado recurso ambiental para uso futuro. Por exemplo, o benefício advindo de fármacos
desenvolvidos com base em propriedades medicinais, ainda não descobertas, de plantas
em florestais tropicais.
Na prática é difícil distinguir esse valor, embora ele seja relevante, e pode ser
captado por mecanismos como trocas de dívida-por-natureza (debt-for-nature swaps),
doações de agências de conservação, ajuda oficial, etc.

Valor de Opção

A noção de valor econômico inclui a disposição a pagar pela conservação de


ecossistemas mesmo quando não fica assegurado qualquer valor de uso pelos indivíduos
que estão expressando sua vontade. O valor de opção é um valor que surge neste contexto.
Neste caso, os indivíduos expressam sua disposição a pagar pela conservação a fim de
garantir algum uso no futuro, se assim desejarem. Na prática é difícil distinguir esse valor,
embora ele seja relevante, e pode ser captado por mecanismos como trocas de dívida-por-
natureza (debt-for-nature swaps), doações de agências de conservação, ajuda oficial, etc.
Swanson e Kontoleon (2000), em um estudo objetivando demonstrar como uma espécie
carismática pode gerar receitas para sua própria conservação, citam como exemplo de valor
de opção, a opção que seria dada aos turistas que vão à China, de pagar um dólar extra
para terem a estampa do urso panda em seus passaportes, junto com o visto, para mostrar
que eles fizeram uma doação para a conservação deste animal.
Kling (1993) sugere que os valores de opção provavelmente são pequenos em
comparação com os valores de uso, porque tais valores podem ser considerados como uma
medida de aversão ao risco, isto é, uma aversão a não ter disponível o bem ou serviço em
questão no futuro. Esta autora, com base em estudos de demanda por recreação, sugere
que os valores de opção estão entre 3% e 4% do valor de uso. Já Chopra (1993) estima o
valor de opção com sendo 16% do valor de uso, se a taxa de preferência temporal pura
(6%) for considerada como a taxa de desconto. O valor de opção (assim como o valor de
existência) se relaciona principalmente ao valor que os ecossistemas têm no contexto global
e se tornam significantes quando a degradação acelerada começa a destruir os recursos
que esses ecossistemas possuem.
87

O uso do método de valoração contingente e de modelos de demanda por recreação


para estimar o valor de opção têm produzido magnitudes bastante diferentes. O método de
valoração contingente tem produzido valores de opção de cerca de 15% (e mais) dos
excedentes esperados do consumidor, enquanto que usando os modelos da demanda por
recreação, os valores estão entre 1% e 2%. Mas segundo Kling (1993) essas diferenças não
residem no uso de um ou outro método, e sim nas definições formais dos conceitos de bem-
estar que estão sendo usados para derivar esses valores.
Não foram encontrados estudos empíricos que objetivassem calcular ou obter o valor
de opção para o Pantanal na literatura revisada.

IV. Valor de Não-Uso: Valor de Existência

Note-se, ademais, agora com respeito ao VNU – Valor de Não Uso, que:

De outro lado, o VNU (valor de não uso ou valor passivo) representa o valor de
existência (VE). Está dissociado do uso (embora represente consumo ambiental) e deriva
de uma posição moral, cultural, ética ou altruística em relação aos direitos de
existência de espécies não-humanas ou preservação de outras riquezas naturais, mesmo
que estas não apresentem uso atual ou futuro para o indivíduo.
Valor que tem um bem natural somente por sua existência, sem nenhuma relação
com a necessidade de uso presente ou futuro desse bem.
Uma expressão simples deste valor é a grande atração da opinião pública para
salvamento de baleias ou sua preservação em regiões remotas do planeta, as quais a
maioria das pessoas nunca visitará ou terá qualquer benefício de uso.
Há também uma controvérsia na literatura a respeito do valor de existência
representar o desejo do indivíduo de manter certos recursos ambientais para que seus
herdeiros, isto é, gerações futuras, possam vir a usufruir seus usos diretos e indiretos
(bequest value). É uma questão conceitual considerar até que ponto um valor assim definido
está mais associado ao valor de opção ou de existência. O que importa para o desafio da
valoração, é admitir que indivíduos podem assinalar valores independentemente do uso
que eles fazem hoje ou pretendem fazer amanhã.
As estimativas do valor de existência mostram grande variação: a razão do valor de
existência para o valor de uso varia de 0,31 a 1,1 para recursos da vida selvagem, até 63
para o Grand Canyon. A explicação para uma razão tão grande é que o Grand Canyon é
percebido como um recurso único e sem substitutos, cuja perda é irreversível, e para o qual
o valor de existência é a maior parte do valor econômico total (Pearce e Turner, 1990). O
valor de existência deve ser determinado a nível global. Chopra (1993) estima o valor de
88

existência com sendo 91% do valor de opção e do valor de uso (usando médias de
estimativas de valor de estudos existentes, com recursos naturais comparáveis às florestas
indianas).
Pode-se assumir que uma amostra representativa da população do Pantanal e do
mundo é capaz de expressar sua disposição a pagar um valor para conservar a região, a
quantidade sendo determinada possivelmente por comparação com estudos de valor de
existência de outros ecossistemas, como a Amazônia. Alternativamente, outra indicação do
valor de existência pode ser dada pela quantia que as empresas, pessoas e instituições
doam para manter o Pantanal conservado para o futuro (RPPNs, Gordon and Betty Moore
Foundation para a CI-Brasil adquirir a Fazenda Rio Negro, etc.).
Horton et al. (2002) testaram a aplicação do método de valoração contingente para
bens distantes de importância global, avaliando a disposição a pagar de ingleses e italianos
(não usuários) para implementação de programas de conservação (áreas protegidas) na
Amazônia brasileira. O enfoque principal da pesquisa foi a riqueza de biodiversidade na
região a ser protegida e os serviços do ecossistema oferecidos por tal área. A disposição
média a pagar por família por ano para custear a implementação de um programa de
proteção que cobrisse 5% da Amazônia brasileira foi de US$ 45,60 e para cobrir 20%, de
US$ 59,28, para os dois países juntos. Agregando entre as famílias, um fundo anual para
conservar 5% da Amazônia com áreas protegidas poderia render US$ 912 milhões em cada
país. Embora os respondentes tenham mostrado um alto grau de incerteza no processo de
decisão dos lances devido ao bem ser tão pouco conhecido e distante (trazendo
questionamentos sobre a validade e confiabilidade dos resultados), as respostas foram não
aleatórias e sistematicamente relacionadas às características sócioeconômicas e às
variáveis comportamentais. Assim, os autores postulam que iniciativas visando
transferências financeiras internacionais de países ricos para apoiar a proteção de áreas
ameaçadas de importância global poderiam ter amplo apoio nesses países.
O método de valoração contingente foi aplicado ao Pantanal por Moran e Moraes
(2002) para estimar o valor de uso e de existência que visitantes da parte sul do Pantanal
atribuem à conservação desse ecossistema. O estudo teve o propósito de explorar a
adequação do método para captar o valor econômico total do Pantanal. Foram usadas
várias formas de eliciação dos valores de disposição a pagar e processos econométricos de
estimação. O cenário focalizou valores de não-uso relativos a um ecossistema sadio e
poluição da água (danos potenciais ao ecossistema decorrentes de atividades agrícolas e
mineração: assoreamento dos rios, lançamento de mercúrio pelo garimpo do ouro, etc.). Por
ser um estudo pioneiro, em âmbito nacional, e porque até o momento parece ser o único
trabalho de valoração contingente realizado com certo rigor para um ecossistema brasileiro
89

dessa abrangência (Seroa da Motta, 1998), o estudo será considerado com mais detalhe a
seguir.
Diferentes formas de eliciação dos valores de disposição a pagar foram utilizadas:
lances livres, dicotômica simples e dicotômica dupla (referendo com acompanhamento).
Na pesquisa de lances livres, foram usados dois veículos de pagamento, a licença
anual de pesca e o lacre (um pagamento obrigatório que permite ao pescador levar o peixe
para fora da região). Os valores de disposição obtidos na pesquisa aberta foram usados
para definir os intervalos de lances para a pesquisa dicotômica, usando um algoritmo da
função log-normal. O valor mediano da disposição a pagar na pesquisa aberta foi estimado
com base em regressões múltiplas. A pesquisa dicotômica simples utilizou três modelos:
logit multivariado, logit bivariado e um modelo não paramétrico. Na pesquisa dicotômica
dupla utilizou-se o logit bivariado. Os resultados mostraram uma disparidade entre as
estimativas de bem-estar obtidas com os lances livres e através da escolha dicotômica, que
também tem sido encontrada em alguns outros estudos (Kristrom, 1990). Segundo os
autores, é importante notar, ao comparar as estimativas, que uma hipótese distribucional
particular é feita para as respostas de escolha discreta que não se aplica aos dados livres,
e, portanto, não há como saber quais modelos e hipóteses distribucionais estão conduzindo
à disparidade. A disposição média a pagar no formato aberto foi de US$ 61,58, enquanto
que na escolha dicotômica com acompanhamento, de US$ 159,90 (dólares de 1994).
Devido às vantagens oferecidas pelo formato de escolha dicotômica dupla em relação à
resposta única, esta média foi considerada a estimativa preferida (mais conservadora) no
formato de escolha discreta. O modelo de escolha dicotômica prediz corretamente 79% das
respostas, com a variável “lance” sendo altamente significativa. Não obstante, esta média foi
quase 2,6 vezes a média mais conservativa do formato aberto.
A estrutura da amostra do estudo foi limitada a um subconjunto da população de
usuários, mas o erro de seleção foi considerado no procedimento de agregação. A
população foco da pesquisa foram os pescadores esportivos que visitaram o Pantanal sul
entre agosto e novembro de 1994, num total de 586 visitantes. Segundo os autores, não foi
possível amostrar uma população de usuários altamente heterogênea em termos de classes
sociais, grupos de renda e padrões de uso de recursos ambientais, como no Brasil, pois um
único instrumento de levantamento não permitiria obter uma amostragem probabilística.
Assim, este seria mais um problema para estudos de valoração contingente, particularmente
em países em desenvolvimento. Esta escolha subestima o valor social, particularmente
quando o recurso tem um alto valor de não-uso e um alto uso de subsistência. Para efeito
de agregação, os autores utilizaram os valores médios da pesquisa aberta e da resposta
dicotômica com acompanhamento, agregando para o total de 110.000 visitantes recebidos
90

na região do Pantanal onde a pesquisa foi realizada. Os valores agregados variaram entre
de US$ 6,75 milhões (lances livres) e US$ 17,59 milhões (dicotômico duplo) (Tabela 2.22).
Embora salientando os problemas teóricos e práticos que surgem quando este
método é aplicado a um ecossistema complexo como o Pantanal, os resultados mostram
que há um considerável valor de não-mercado ligado ao ambiente desta região. O estudo
seguiu protocolo de valoração contingente e parece ser consistente com o que a teoria da
demanda pode dizer sobre relações de quantidade e preço. Usando o critério proposto por
Kanninen (1995) para avaliar os erros e a variância do estimador, o modelo tem boa
performance, apesar de um vetor de lances pouco ortodoxo, e as médias estimadas podem
ser propostas com confiança. Entre as dificuldades encontradas estão a natureza do cenário
apresentado aos respondentes, a seleção apropriada da amostra e a subseqüente
agregação das respostas de disposição a pagar, e o tratamento estatístico dos dados de
escolha discreta. As conclusões do estudo salientam a limitação cognitiva dos métodos de
preferência expressa quando tratando com mudanças ambientais altamente incertas e a
ausência de testes objetivos daquilo que os respondentes valoram (para testar exatamente
o que os respondentes estavam valorando).

Observações gerais do VU e do VNU

Valores de Uso (econômicos puros) Æ mercantilização

Produto (preço de mercado)


Consumo (preço de mercado) - não entra no mercado (pesca para consumo, por
exemplo)

Valores de Não Uso

Maiores dificuldades, avaliação da natureza em si mesma


Dimensões da existência (dimensão ética), da opção (danos irreversíveis, perda) e de
“legado” (gerações futuras)
Dimensões, principalmente a de “legado”, não estariam procurando incorporar a
variável “tempo”?
91

Observações gerais do VERA

A partir disto, ter-se-ia, em termos da avaliação econômica do meio ambiente, o


chamado “Valor Econômico Total”, ou seja:

VERA = (VUD + VUI + VO) + VE

Observe-se que um tipo de uso pode excluir outro tipo de uso do recurso
ambiental. Por exemplo, o uso de uma área para agricultura exclui seu uso para
conservação da floresta que cobria o solo.
Assim, o primeiro passo na determinação do VERA seria identificar estes conflitos
de uso. O segundo passo seria a determinação destes valores.
Em termos da teoria neoclássica ressalte-se, a partir deste momento, o grau de
dificuldade para encontrar preços de mercado (adequados ou não) que reflitam os
valores atribuídos aos recursos ambientais.
Esta dificuldade é maior à medida que passamos dos valores de uso para os
valores de não-uso. Nos valores de uso, os usos indiretos e de opção apresentam, por
sua vez, maior dificuldade que os usos diretos.
Em adição verifica-se que, dentro da teoria neoclássica, a tarefa de valorar
economicamente um recurso ambiental consiste em determinar quanto melhor ou pior será
o bem-estar das pessoas devido a mudanças na quantidade de bens e serviços
ambientais, seja na apropriação por uso ou não.
Desta forma, os métodos de valoração ambiental corresponderão a este objetivo à
medida que forem capazes de captar estas distintas parcelas de valor econômico do
recurso ambiental.
Todavia, cada método apresenta limitações nesta cobertura de valores, a qual
estará quase sempre associada ao grau de sofisticação (metodológica e de base de
dados) exigido, às hipóteses sobre comportamento do indivíduo consumidor e aos
efeitos do consumo ambiental em outros setores da economia.
Tendo em vista que tal balanço será quase sempre pragmático e decidido de
forma restrita, cabe ao analista que valora explicitar, com exatidão, os limites dos
valores estimados e o grau de validade de suas mensurações para o fim desejado.
A adoção de cada método dependerá do objetivo da valoração, das hipóteses
assumidas, da disponibilidade de dados e do conhecimento da dinâmica ecológica do
objeto que está sendo valorado.
92

Métodos de valoração das variáveis “VU” (VUD, VUI, VO) e “VNU” (VE) do modelo
“VERA”

1. Métodos da Função de Produção (Métodos da Produtividade Marginal e de


Mercados de Bens Substitutos – reposição gastos defensivos ou custos
evitados e custos de controle - )
Se o recurso ambiental é um insumo ou um substituto de um bem
ou serviço privado, estes métodos utilizam-se de preços de mercado
deste bem ou serviço privado para estimar o valor econômico do
recurso ambiental (preços-sombra)

Exemplo: Tarifa de água e esgoto

2. Métodos da Função de Demanda (Métodos de Mercado de Bens


Complementares – preços hedônicos e do custo de viagem – e Método da
Valoração Contingente).

Estes métodos assumem que a variação da disponibilidade do


recurso ambiental altera a disposição a pagar ou aceitar dos
agentes econômicos em relação àquele recurso ou seu bem
privado complementar.

Observações gerais dos métodos da função de produção e da função de demanda

Note-se que estes dois métodos gerais podem, de acordo com suas hipóteses,
estimar valores ambientais derivados de funções de produção ou de demanda com
base na realidade econômica atual.
Na medida em que estes valores (custos ou benefícios) possam ocorrer ao longo de
um período, então, será necessário identificar estes valores no Tempo8. Ou seja, identificar
valores resultantes não somente das condições atuais, mas também das condições
futuras. A prospecção das condições futuras poderá ser feita com cenários alternativos para
minimizar o seu alto grau de incerteza.

8
Aproximação dos princípios da teoria econômica neoclássica com os princípios da engenharia econômica
93

De qualquer forma, os valores futuros terão que ser DESCONTADOS no tempo, isto
é, calculados seus VALORES PRESENTES, e, para tanto, há que se utilizar uma TAXA DE
DESCONTO social (9*).
Tais observações, quando aplicadas no contexto ambiental, implicam em que a
complexidade da avaliação econômica torna-se ainda maior.
Por exemplo, devido a sua possibilidade de esgotamento, o valor dos recursos
ambientais tende a crescer no tempo se admitimos que se uso aumenta com o
crescimento econômico. Como estimar esta escassez e traduzi-la em valor monetário é
uma questão complexa que exige um certo exercício de futurologia. Assim sendo, alguns
especialistas sugerem o uso de taxas de desconto menores (*) para os projetos onde se
verificam benefícios ou custos ambientais significativos ou adicionar os investimentos
necessários para eliminar o risco ambiental.
Também deve-se atentar para o fenômeno da “dupla contagem”. Por exemplo; nem
sempre essas funções podem co-existir: ecoturismo não combina com exploração
sustentável de madeira e a conservação impede a conversão para outros usos [(SCBD,
2001), cf MORAES (2008, p. 134)]

Valores de Uso e Não Uso = Metodologias Diretas e Indiretas

(I) Metodologias Diretas (Mercado Real)

Metodologias Diretas

De acordo com as preferências dos “consumidores” que se referem diretamente ao


bem ambiental objeto da avaliação
Métodos Diretos: informações de mercado existentes ou hipoteticamente criados,
tais como, disposição a pagar ou a receber
Método de Preço Líquido Æ Preço do bem no mercado convencional deduzido dos
custos atribuídos para colocação do mesmo no mercado10, multiplicado pelas unidades
físicas do referido bem ambiental11. O método apresenta a limitação de não considerar o

9
Custo de Oportunidade Æ Taxa de Desconto Æ Estimativa dos benefícios gerados pela não utilização do
recurso para fim de consumo Æ árvores Æ parque e não madeira
10
Exemplo: Extração florestal para fins de colocação do produto no mercado.
11
Motta e May (1994, p. 192), citado por DE CARVALHO (2208): “De acordo com este método, qualquer
consumo de capital natural representa uma perda ambiental definitiva. O método reflete implicitamente a
premissa de que o estoque de todo e qualquer tipo de capital natural deve ser mantido constante e que, portanto,
94

mercado hipotético nem o valor intangível da natureza (é mais aplicado para valoração de
bens e serviços).
Método de Mudança da Produtividade Æ Avaliação das alterações na
produtividade em decorrência de impactos internos e externos causados ao meio ambiente.
Com a diferença entres esses valores (produtividade “ótima”), acrescida dos cursos
associados às externalidades, tem-se o custo total decorrente da mudança da produtividade.
Exemplos: (i) queda da produtividade agrícola associada a perdas do solo; (ii) diminuição da
produtividade humana (estresse) associada à poluição; e (iii) reduções na produtividade
econômica devido à escassez e/ou contaminação de recursos hídricos.
Método do Custo de Doenças Æ Paralelo entre os custos de poluição e seus
correspondentes na vida humana. O custo da poluição corresponde ao somatório dos custos
com médicos, custos hospitalares, custos com medicamentos, custos com serviços de
enfermagem e outros custos que o indivíduo tenha que despender para custear a doença
adquirida em decorrência da poluição causada por determinada atividade produtiva.
Método do Custo de Oportunidade Æ Avaliação das receitas que poderiam ser
auferidas caso o ativo ambiental fosse utilizado de forma alternativa. O problema é que se a
alternativa for menos rentável do que a atividade degradante, pode se fundamentar o aval
para a realização do dano ambiental. Exemplo: ganhos de determinado ambiente se, ao
invés do plantio de soja, fosse utilizado para fins ecoturísticos.
Método do Projeto Sombra Æ Levantamento dos cursos necessários para implantar
um ou mais projetos ditos “sombra” (que desempenhariam o papel de funcionar como
mitigador (es) do projeto principal). A desvantagem deste método é que ele aceita que haja
o dano ambiental e, concomitantemente, a sua mitigação.
Gastos preventivos ou defensivos

Custo de recuperação ambiental

(II) Metodologias Indiretas (relação Bem Mercado versus Bem Ambiental - Mercado
Hipotético)

Relacionadas a outro bem do mercado tomado como referência por se encontrar


relacionado com o primeiro. Métodos baseados na subjetividade do indivíduo e expressos
através do comportamento do mercado convencional ou por via de mercados hipotéticos.
Categoria dos valores de não-uso seria difícil de se mensurar economicamente, ainda que
esses valores sejam importantes para o bem da humanidade.

sua redução é uma perda a ser totalmente debitada à geração que a realiza. Por princípio, então, tal premissa não
admite que haja possibilidade de substituição entre capital natural e capital material”
95

Métodos Indiretos: avaliação dos valores de não-uso dos bens ambientais.

Avaliação Contingente12 Æ Questionamento à população. Afirmação do princípio


neoclássico de que o valor de um bem traduz-se na expressão das preferências individuais,
consistindo na suposição de um mercado hipotético onde as pessoas são questionadas para
o efeito de exprimirem, de forma direta, suas preferências quanto ao bem em avaliação
(disposição a pagar, por exemplo, exigência em termos de compensação).
As pessoas revelam, por meio de entrevistas (pessoalmente, telefone, e-mails, etc.),
suas preferências (disposição a pagar / disposição a receber / disposição a aceitar) pelo
recurso natural construindo, assim, um mercado hipotético para o bem/serviço natural.
As perguntas podem variar quanto ao modo de formulação (abertas ou fechadas),
quanto à natureza (de opinião, de identificação, de intenção, de ação, etc.) e segundo sua
finalidade (diretas e indiretas), sendo o modo de formulação o tipo mais geral. Se o
respondente pode discorrer livremente sobre o que está sendo questionado, com linguagem
própria e sem limitações, então a questão é do tipo aberta. Quando o respondente deve
escolher sua resposta de um conjunto de categorias, a questão é do tipo fechada. As
questões fechadas podem ter diferentes tipos de estrutura: alternativa única, múltipla
escolha ou definidas por uma escala de intervalos. Em questões de múltipla escolha, mais
de uma resposta pode ser considerada para um mesmo questionamento; avaliações de
freqüência, ordem de preferência e outros questionamentos em relação a uma dada variável
são avaliadas através da alternativa única. Questionários mistos são aqueles que incluem
tanto respostas abertas quanto fechadas (Muñoz, 2003; Duarte e Barros, 2005).
As perguntas devem ser elaboradas levando em conta três princípios básicos: clareza
(devem ser claras, concisas e unívocas), coerência (devem corresponder à intenção da
pergunta) e neutralidade (não devem induzir a uma dada resposta). Independente do tipo de
mensuração (escalas nominais, ordinais ou de intervalo), a formulação de uma questão
deve obedecer a algumas recomendações e a um conjunto de regras básicas (Payne, 1980;
Converse e Presser, 1986; Muñoz, 2003; Duarte e Barros, 2005; Lakatos e Marconi, 2005),
entre elas: deve ser formulada de modo simples, de preferência com termos em linguagem
comum, deve ser específica e referir-se a um único conceito ou dimensão de julgamento, e
o argumento da pergunta deve esclarecer se o respondente pode escolher mais de uma
alternativa. Da mesma forma as alternativas de resposta: devem ser mutuamente exclusivas
e exaustivas (todas as possibilidades devem estar incluídas ou pelo menos todas as que

12
Tessler (apud FREITAS, 2003, p. 173) citado por DE CARVALHO (2008) defende que este método não é
adequado para valorar dano ambiental, pois a população brasileira não dá o devido valor (por carências básicas
ligadas à saúde, alimentação, segurança, etc.) a estes aspectos e nem à qualidade ambiental.
96

melhor correspondem à situação que se quer avaliar), a questão central deve estar clara e o
nível de agregação deve ser semelhante entre as alternativas.
O questionário deve ser aperfeiçoado através do ajuste de várias versões de um
instrumento inicial, até que seja considerado pela equipe de pesquisadores como não sendo
passível (dentro do conhecimento da equipe) de mais nenhum aperfeiçoamento.
Essa versão é então submetida a um pré-teste por um conjunto reduzido de
indivíduos com as mesmas características daqueles que irão responder ao questionário.
Deve ser solicitado a esse grupo que registre pontos pouco claros, dificuldades nas
respostas e sugestões de aperfeiçoamento. Sendo necessário, são feitos os ajustes
sugeridos no pré-teste, e pode-se aplicar o questionário ao público alvo (Muñoz, 2003;
Duarte e Barros, 2005).
Segundo Ibáñez (1984) as etapas básicas para a elaboração de um questionário
devem obedecer a seguinte seqüência: determinar que tipo de informação é necessária;
selecionar os aspectos mais relevantes para obter essa informação; decidir a modalidade de
questionário mais adequada para esta finalidade; elaborar uma primeira versão do
questionário e submetê-la a crítica por alguns especialistas; realizar um pré-teste
(questionário piloto) com um grupo experimental; reelaborar o questionário e estabelecer os
procedimentos para sua aplicação.
Em resumo, a elaboração de um questionário é uma tarefa trabalhosa, complexa,
lenta e metódica, feita preferentemente em equipe, que supõem um processo sistemático e
uma seqüência ordenada de várias etapas que seguem regras e normas, que devem ser
conhecidas por quem o elabora.
A disposição a pagar, por exemplo, é uma função de fatores socioeconômicos; DAP =
f (R, I, G, S)

DAP – Disposição a pagar


R – Renda
I – Idade
G – Grau de instrução
S – Sexo do usuário

É necessária a construção de um mercado hipotético do fluxo de bens e serviços


ambientais a serem avaliados de modo a ser possível a captação das atitudes das pessoas
com respeito a esses recursos ambientais. Para se estimar a disposição a pagar é
necessário estabelecer uma função utilidade; U = U (Q, Y, X)

U – Utilidade
97

Q – Qualidade ambiental
Y – Renda
X – Características socioeconômicas dos usuários

Procedimentos do método (DAP):

- Caracterização adequada do bem ambiental a ser valorado para que o entrevistado


conheça o que está sendo avaliado;
- Determinação de um preço mínimo como opção para os entrevistados (que pode
ser zero);
- Determinação do meio pelo qual os entrevistados hipoteticamente pagariam os
valores por eles arbitrados (conta de luz ou de água, por exemplo);
- Submissão dos entrevistados a valores monetários cada vez maiores até alcançar-
se o limite máximo de disposição a pagar;
- Determinação do valor médio do valor a pagar (somatório dos valores a pagar
lançados pelos entrevistados dividido pelo número dos entrevistados na amostra);
- Determinação da quantidade aproximada de usuários do bem a ser valorado
(considerando, por exemplo, aqueles que residem em determinado lugar, que visitam
o local ou que somente transitam pelo mesmo) e sua correspondente multiplicação
pelo valor médio da DAP;
- Determinação, enfim, do valor total a pagar pelo bem valorado.

Valor Hedônico13 Æ Estimativa do “prazer”. Refletir (avaliação dos bens imobiliários -


som, ar, paisagem, etc.). O Valor Hedônico procura apurar, a partir do preço de outro bem
do mercado, o valor do bem ambiental a se avaliar (utilização do mercado imobiliário para
determinar o preço de uma paisagem, do silêncio, da ausência de poluição atmosférica,
etc.). Tal determinação é feita pela comparação dos preços atribuídos ao mesmo tipo de
imóvel situado em localizações de diferentes características ambientais, partindo-se da
constatação empírica de que as pessoas estão dispostas a pagar mais por uma casa
ecologicamente “bem situada”, do que pela mesma casa localizada junto de uma fonte de
poluição, dentro da mesma área. A diferença representaria o valor que os consumidores
estarão dispostos a pagar pelo bem ambiental.

13
Há também um método que é um misto entre o método do custo de viagem e o do preço hedônico (Método do
Custo de Viagem Hedônico).
98

Dose – Resposta Æ relação entre causa (poluição) e efeito (danos à saúde,


materiais e vegetação)

Custo de Viagem / Custo de Deslocamento Æ quanto as famílias14 gastam para


chegar a um lugar (somatória dos custos de viagem = valor do lugar). Trata-se, esta
metodologia, de uma técnica de avaliação amplamente utilizada nos Estados Unidos para
aferir a utilização recreacional dos bens ambientais. O Custo Total de Visitação é expresso
por Ct = Cc + Ca + Cp + Ce + Co

Ct = Custo Total

Cc = Custo com combustível para o deslocamento de ida e retorno até o local da


visitação

Ca = Custo de alimentação da família durante o período da viagem

Cp = Custo de permanência da família no local da visitação

Ce = Custos extras

Co = Custo de oportunidade de tempo que o indivíduo utiliza para a viagem e que


poderia estar despendendo de outra forma, com um custo menor ou até sem custo.

“Defeitos” dos Métodos Diretos e Indiretos - variação social, sensibilidade, não


traduzem com exatidão o valor ambiental, processos falíveis, relações humanas (exemplo;
danos morais) e valores.

Avaliação econômica do meio ambiental – uma “resenha” a partir da leitura dos


componentes e metodologias clássicas/tradicionais de avaliação econômica das
florestas, do meio ambiente e dos danos ambientais

Visão Norte-americana

Valores econômicos associados com as florestas (meio ambiente, recursos


naturais) podem ser agrupados nas seguintes categorias:

14
Outra abordagem deste método é o custo de viagem individual.
99

Valores de uso direto (valor de uso)


Madeira, recreação, etc. (preço de mercado)

Valores de uso indireto e Valor de opção


Proteção de bacias hidrográficas, mananciais, etc.;

Valores de não-uso (valor de existência)


Para muitos as florestas devem ser preservadas para as gerações futuras Æ
estabelecimento indireto de preços Æ valor de existência (ética) + valor de opção
(valor potencial de um bem, na hipótese de sua destruição irreversível) + valor de
legado.

Avaliação (valoração) econômica de recursos naturais

Valor econômico total = valores de uso direto + valores de uso indireto + valores de
não-uso

Especificamente quanto à identificação dos valores de uso e de não-uso, as (diferentes)


metodologias podem ser diretas (de acordo com as preferências dos “consumidores” que se
referem diretamente ao bem ambiental objeto da avaliação) ou indiretas (relacionadas a
outro bem do mercado tomado como referência por se encontrar relacionado com o
primeiro).

Visão Europeia

Tarifas

Regulamentação jurídica

Certo paralelo como a Lei dos Crimes Ambientais - Lei n. 9.605, de 12.02.98 e
demais diplomas legais correlatos.

O método do Valor Tarifário possui duas funções:

Reparação do dano ambiental, mediante a estimativa de seu valor; e


100

Punição do comportamento lesivo dos interesses ambientais

Críticas quanto à insatisfatoriedade do alcance do processo avaliatório

Dados e tabelas das principais etapas de um processo de avaliação econômica dos


recursos ambientais

Tabela 3.3 – Métodos de valoração monetária do meio ambiente15.

MÉTODOS DESCRIÇÃO EXEMPLOS

Valoração de mercado direta


O valor de troca (baseado Aplicável principalmente
no custo da produtividade para bens (peixes) e
Preço de mercado marginal) que os serviços alguns serviços culturais
do ecossistema têm no (recreação) e de regulação
mercado. (polinização).
Mede os efeitos dos Melhoramento natural da
serviços do ecossistema qualidade da água que
Método da produtividade
sobre as perdas (ou aumenta a captura de
do Fator
ganhos) de receita e/ou peixes e a renda das
produtividade. pescarias comerciais.
Investimentos públicos,
e.g., compra de terras, ou Investimentos na proteção
incentivos monetários de bacias hidrográficas
Preços públicos
(taxas/subsídios) para o para obter água potável,
uso ou conservação dos ou
serviços do ecossistema.

15
A exemplificação dos Valores de Uso Direto, Indireto, de Opção e de Existência serão emprestados de
MORAES, A. S. Pecuária e conservação do Pantanal: análise econômica de alternativas sustentáveis – o dilema
entre benefícios privados e sociais. 2008. 265 p. Tese (Doutorado em Economia) – Centro de Ciências Sociais
Aplicadas. Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2008
101

Valoração de mercado indireta

O valor do serviço de
Serviços que permitem a
controle de inundações
Método do custo (dano) sociedade evitar custos
pode ser calculado do
Evitado que seriam incorridos na
dano estimado se o
ausência de tais serviços.
serviço não ocorresse.
O valor da recarga de
Alguns serviços podem ser aqüíferos pode ser
Custo de substituição ou
substituídos por sistemas estimado dos custos
Reposição
feitos pelo homem. de obter água de outras
fontes.
Custo de moderar os Custo dos gastos
efeitos das funções preventivos na ausência
Mitigação ou custo de
perdidas (ou de sua do serviço de uma área
Restauração
restauração). úmida (e.g., barreira contra
inundação) ou realocação.
O uso dos serviços do
Parte do valor recreativo
ecossistema pode
de um local é refletido no
Método do custo de requerer viagens e os
tempo e dinheiro que as
viagem custos associados podem
pessoas gastam enquanto
ser vistos como um reflexo
viajando para o local.
deste valor implícito.
Reflexo da demanda dos Ar limpo, presença de
serviços nos preços que água e paisagens
Método dos preços
as pessoas pagam por aumentam o preço de
hedônicos
bens comercializados bens imóveis.
associados.
102

MÉTODOS DESCRIÇÃO EXEMPLOS

Questionários

Este método pergunta as


Esta é a única forma de
pessoas quanto elas
estimar valores de não-
Método da valoração estariam dispostas a
uso. Por exemplo, um
Contingente pagar (ou a aceitar
questionário pode
compensação) por
perguntar aos
serviços específicos
entrevistados que
através de questionários
expressem sua disposição
ou entrevistas.
a incrementar o nível de
qualidade em um rio
Valoração em grupo O mesmo que a valoração
de modo que eles possam
contingente, mas como um
usufruir de atividades
processo grupal interativo.
como nadar, andar de
barco e pescar.

Transferência de benefícios

Usa resultados de outras Quando realizar uma


áreas similares para pesquisa original é caro ou
Transferência de
estimar o valor de um intensivo em dados, a
Benefícios
dado serviço no local de transferência de benefícios
estudo. pode ser usada.
Fonte: de Groot et al. (2006).
103

Tabela 3.5 – Valor econômico de algumas áreas úmidas do mundo16

Área Úmida Valor/ano (US$ milhões) Tipo de área úmida

Pantanal, Brasil 15.644 Planície de inundação


138.000 km2

Lago Chilwa, Malawi 21.056 Água doce


2.400 km2

Muthurajawela, Sri Lanka 7.532 Costeira


3.070 ha

Estuário do Mar de Wadden, 2.329.614 Estuário


Holanda, 270.000 ha

Whangamarion, Nova Zelândia, 9.881 Turfa e pântano


10.320 ha

Bacia do rio Charles, EUA 21.056 Planície de inundação


3.450 ha
Fonte: Compilado de Schuyt e Brander (2004).

Nota: Os autores converteram os valores para dólares de 2003, exceto para o lago Chilwa
(dólares de 2002) e para o Pantanal (dólares de 1994).

16
As funções e serviços valorados são os mais diversos.
104

Tabela 5.66 – Valores de uso direto, indireto, de opção e de existência encontrados na


literatura revisada para o Pantanal e utilizados em nossa análise.

Receita líquida média


Valores do Pantanal US$/ha/ano
Comentários
A B

Valor de uso direto 1 133,23 260,31

Produtos madeireiros 2 60,60 117,26 O valor dos produtos


madeireiros é a soma
dos valores das áreas de
mata ($42,61),
cerradão ($11,58) e
cerrado ($6,41)
(Seidl et al., 2001). Ver
Tabela 2.18, p.91.
Produtos Florestais Não
Madeireiros (PFNM) 60,00 124,28 Valor médio de Godoy
et al. (1993),
Lampietti e Dixon (1995) e
Pearce (1998).
Ver Seção
2.2.1.C, p.97.

5,28 7,85 Valor por hectare obtido


dividindo o gasto
agregado pela área do
Pantanal (Moraes e
Ecoturismo Seidl, 1998). Ver Seção
2.2.1.D, p.108.

12,63 3 18,77 Valor/hectare obtido


dividindo o excedente
105

agregado pela área do


Pantanal (Shrestha et
al., 2006). Ver Seção
2.2.1.D, p.108.

Valor de uso indireto 4 5.839,73 7.627,63

Serviços de regulação 4.807,24 6.279,02

Serviços de suporte 313,31 409,24


Valor agregado de
17 serviços do
ecossistema (Seidl e
Moraes, 2000). Ver

Tabela 2.21, p.111.


Serviços de produção 136,68 178,53

Serviços culturais 582,50 760,84

955,67 1.262,07 16% do valor de uso


(Chopra, 1993). Ver

Valor de opção
Seção 2.2.3, p.111.

179,19 236.64 3% do valor de uso


(Kling, 1993). Ver
Seção
2.2.3, p.111.

6.305,06 5 8.326,51 91% do valor de opção


mais o valor de uso
(Chopra, 1993). Ver Seção
2.2.4, p.112.
106

Valor de existência

2,55 6,49 Valor por hectare obtido


dividindo a
disposição a pagar
agregada pela área do
Pantanal (Moran e
Moraes, 2002). Ver
Seção
2.2.4, p.112.

Fonte: Pesquisa direta.

A = aos preços do ano de execução dos estudos. B = em valores atualizados para


2007.

1 Considerando o valor de US$ 12,63 para o ecoturismo.

2 A receita líquida média não sustentável foi estimada em US$ 1.090/ha, US$ 293/ha
e US$ 163/ha,
respectivamente, para mata, cerradão e cerrado (ou um total de US$ 1.546/ha).

3 Valor considerando o modelo de mínimos quadrados não linear; para os modelos


truncados (Poisson truncado e
binomial negativo truncado) o valor foi de US$ 7,85/ha/ano.

4 Ver Tabela 3.2, p.125, para os tipos de serviços do ecossistema considerados.

5 Valor considerando o total de US$ 6.928,63 decorrente da soma do valor total de


uso (direto e indireto) de US$ 5.972,96 com o valor de opção de US$ 955,67.

Tabela 5.67. Valor econômico total do Pantanal (US$/ha/ano a preços de 2007).

Em US$/ha/ano
107

Valores do Pantanal A B C D

Valor de uso direto 260 260 249 249

Valor de uso indireto 7.628 7.628 7.628 7.628

Valor de opção 1.262 1.262 236 236

Valor de existência 8.327 6,49 7.383 6,49

Valor Econômico Total 17.477 9.158 15.496 8.120

Em porcentagem

Valor de uso direto 1,5 2,8 1,6 3,1

Valor de uso indireto 43,6 83,3 49,2 93,9

Valor de opção 7,2 13,8 1,5 2,9

Valor de existência 47,6 0,1 47,6 0,1

Valor Econômico Total 100,0 100,0 100,0 100,0


Fonte: Pesquisa direta.

Os valores máximos (A e C) consideram o valor de existência como sendo 91% da


soma do valor de uso com o valor de opção; os valores mínimos (B e D) consideram
o valor de existência como sendo $ 6,49/ha/ano.

Em A e B o valor de opção foi calculado como sendo 16% do valor de uso.

Em C e D o valor de opção foi calculado como sendo 3% do valor de uso.

A diferença entre A e B e entre C e D está somente no valor de existência.


108

As diferenças no valor de uso direto se devem aos diferentes valores de ecoturismo


utilizados nos cálculos.

Tabela 5.68 – Valor econômico total de um hectare de Pantanal (em US$, a preços de
2007).

Benefícios Valor Máximo Valor Mínimo

Benefícios privados locais 273 262

Produtos madeireiros 117,26 117,26


PFNM 124,28 124,28
Ecoturismo 18,77 7,85
Pecuária em pasto nativo 12,51 12,51

Benefícios públicos locais 7.127 7.127

Regulação de distúrbios 2.282,11 2.282,11


Regulação de água 494,79 494,79
Oferta de água 2.582,42 2.582,42
Controle de erosão 82,82 82,82
Formação de solo 29,23 29,23
Ciclagem de nutrientes 241,72 241,72
Tratamento de dejetos 659,67 659,67
Polinização 16,02 16,02
Controle biológico 14,75 14,75
Produção de alimentos 69,76 69,76
Matérias primas 98,03 98,03
Cultural 555,28 555,28

Benefícios globais 10.090 744

Regulação de gás 87,96 87,96


Regulação do clima 58,47 58,47
Habitat/refúgio 138,29 138,29
109

Recursos genéticos 10,75 10,75


Recreação 205,56 205,56
Valor de opção 1.262.07 236,64
Valor de existência 8.327,51 6,49

Total Anual por ha 17.490 8.133

Fonte: Pesquisa direta.

A diferença entre as estimativas máximas e mínimas evidencia que quando alguns


dos benefícios não são considerados (como, no caso, o valor de existência), este fato leva a
uma subestimação dos benefícios líquidos da conservação. Normalmente, a subvaloração
encoraja a degradação e faz com que os governos atribuam baixa prioridade à conservação.
A inclusão de uma grande variedade de benefícios dá informação mais precisa sobre a
diferença entre os retornos financeiros e econômicos de opções alternativas. Isso contribui
para determinar se é justificável utilizar incentivos para alcançar objetivos sociais, que tipos
de incentivos devem ser empregados e qual deve ser sua magnitude. Esta informação
também pode ajudar a determinar como os benefícios e os custos dessas opções ou
políticas alternativas se distribuem entre as diferentes partes interessadas da população.

Comentários Finais - Escopo geral das metodologias de avaliação ambiental

“Avalanche” de críticas de que as mesmas têm sido alvo, visto que nenhuma delas
consegue refletir com razoável precisão o real valor dos bens ambientais, sobretudo no que
concerne à aferição dos valores de não-uso, notadamente o valor de existência.
Destacar propriedade aditiva.
Nenhuma delas consegue refletir com razoável precisão o real valor dos bens
ambientais (sobretudo no que concerne à aferição dos valores de não-uso, notadamente o
valor de existência)
Tentativas de se estimar o valor econômico total das florestas (meio ambiente,
recursos naturais) têm chegado a valores muito altos
Diversos valores das florestas, do meio ambiente ou dos recursos naturais,
(intangíveis, principalmente) não teriam como ser avaliados (por exemplo, valores
culturais, éticos e religiosos).
Avaliação Econômica de Danos Ambientais (irreversíveis) X Avaliação
Econômica do Meio Ambiente Æ leitura florestal Æ custo de reposição (*)
110

Os métodos de avaliação ambiental, no geral, são falíveis, não levam em conta o


ecossistema, os valores são atomizados, não consideram o equilíbrio ecológico.

Criatividade, razoabilidade, consciência ética - responsabilidade final do juiz em


termos de avaliação dos danos ambientais.

Banco Mundial - desenvolvimento sustentável, princípios de Direito Ambiental

Bibliografia consultada

DA CRUZ, A P F N. A compensação ambiental diante de danos irreparáveis. Revista Plural.


São Paulo/SP. 14-17. 2000

DA CRUZ, B. M. Princípios jurídicos e econômicos para a avaliação do dano florestal. 3o.


Congresso Internacional de Direito Ambiental. A proteção jurídica das florestas
tropicais. Instituto O Direito por uma Planeta Verde. Anais. Vol 1. 1999. 115-124

DE CARVALHO, G. M. B. Contabilidade Ambiental – Teoria e Prática. Curitiba: Juruá, 2008.


216 P.

DONAIRE, Denis. Gestão ambiental na empresa. Editora Atlas S.A.. São Paulo. 1995. 134
págs.

MORAES, A. S. Pecuária e conservação do Pantanal: análise econômica de alternativas


sustentáveis – o dilema entre benefícios privados e sociais. 2008. 265 p. Tese
(Doutorado em Economia) – Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Universidade
Federal de Pernambuco. Recife. 2008

MOTTA, R. S. Manual para valoração econômica de recursos ambientais. Brasília.


MMA/IPEA/PNUD/CNPq. 1998.

KENGEN, S. Valoração econômica das florestas (adaptação de Kengen, S. 1997. Forest


Valuation for Decision-Making: Lessons of experience and proposals for
improvement. Rome: FAO; Bellia, V. 1996. Introdução à Economia do Meio
Ambiente. Brasília: IBAMA). 03 páginas. 2000.
111

RIBAS, L. C. Relatório de Afastamento. A proteção jurídica das Florestas Tropicais. III


Congresso Internacional de Direito Ambiental. IV Congresso Brasileiro de Direito
Ambiental. Instituto O Direito por um Planeta Verde. Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo. São Paulo / SP. 31/05/99 a 02/06/99

Ref. Adicional:
Pearce, David W et Turner R K. Economics of natural resources and the environment. The
Johns Hopkins University Press. Baltimore.Great Britain. 1990. 373 p.

Estudo de Caso

Parâmetros comparativos de valores econômicos de danos ambientais irreversíveis


- o caso envolvendo os impactos ambientais por derramamento de petróleo

I. Introdução

A partir da sistematização que a seguir é apresentada, os seguintes parâmetros


econômicos de indenização ambiental por derramamento de petróleo poderiam ser
apresentados:

Quadro Comparativo

Danos Ambientais Valor da Indenização

(1) Exxon Valdez R$ 391,45 / litro de petróleo

(2) Baía de Guanabara R$ 2,00 / litro de petróleo

(3) Firpavi R$ 198,06 / litro de óleo

(4) Petrobrás R$ 560,03 / litro de óleo


(base: receita líquida anual - 1999)
112

ou
R$ 583,50 / litro de óleo derramado
(base: lucro bruto anual – 1999)

(5) Exxon Valdez 2 R$ 4801,12 / litro de óleo

Folha de S. Paulo. RAIO-X DA BP. Jornal Folha de S. Paulo. Mercado. Disponível em: <
http:www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1203201128.htm>. Acessado em: 12 março
2011

FATURAMENTO
US$ 308,9 bi em 2010 (US$ 246,1 bi em 2009)

ENDIVIDAMENTO
US$ 176,3 bi em 2010 (US$ 133,8 bi em 2009)

ÁREAS DE NEGÓCIOS
Exploração e produção de petróleo; refino e comercialização; energias alternativas (BP
Biofuels)

II. Análise Técnica

Para a elaboração do quadro comparativo acima as seguintes bases de raciocínio analítico


poderiam ser estabelecidas:

Base (1)

Folha de S. Paulo Folha Mundo. 20.11.02 A11

1989
Exxon Valdez
Alasca
Vazamento de 40.000 toneladas de petróleo
Indenização ambiental no valor de US$ 5 bilhões
113

Base (2)

Petrobrás – Pr

16 julho de 2000

Operação de transferência de petróleo (óleo cru) do terminal marítimo


existente em São Francisco do Sul, Estado de Santa Catarina, para a
Refinaria Presidente Getúlio Vargas (REPAR) situada Araucária

Vazamento de 4.000.000 de litros de óleo

Indenização ambiental no valor de 1/12 de sua receita líquida em 1999 (R$


2.240.118.416,67 em valor corrigido ou 2.105.374.451,76 de UFIRs) ou 1/4 de
seu lucro bruto no mesmo período (R$ 2.333.995.750,00 em valor corrigido
ou 2.193.605.028,2 de UFIRs).

R$ 560,03 / litro de óleo (base: receita líquida anual - 1999)


ou
R$ 583,50 / litro de óleo derramado (base: lucro bruto anual – 1999)

Base (3)

Petrobrás – Firpavi

14.10.1983

Vazamento de 2.500 toneladas (3 milhões de litros) de petróleo bruto (tipo


Carmópolis)

Pedra de 20 toneladas (em razão de explosão) atinge tubulação de oleoduto


da Petrobrás (rompimento de tubo de 24’’ de diâmetro).

Lançamento e espalhamento do petróleo contido na tubulação rompida por


cerca de 60 quilômetros da região de entorno, através do rio Iriri.
114

Lançamento e espalhamento do petróleo contido na tubulação rompida,


através do rio Iriri, no canal de Bertioga até a entrada da Barra (atingindo toda
a região Costeira).

Dezenas de praias teriam sido afetadas e toda a região do canal de Bertioga


entre a desembocadura do referido canal e o rio Iriri (atingindo os cursos de
água que cortam o manguezal ali existente).

Maior derramamento de petróleo (quantidade e extensão da área atingida) do


litoral brasileiro.

Impactos ambientais à fauna e flora e desequilíbrio ambiental regional.

Base (4)

Petrobrás – Baía de Guanabara

Janeiro de 2000

Derramamento de 1,2 milhão de litros de óleo, na Baía de Guanabara / RJ

A Baía de Guanabara possui área de 381 km2, dos quais 44 km2 são ilhas,
perímetro de 131 km, volume de 2 bilhões de m3 de água e profundidade
média de 7,6 m.

A bacia hidrográfica, com aproximadamente 35 rios, é um complexo


ecossistema cobrindo uma área de 4.234 km2 que abriga grande parte da
região metropolitana do Rio de Janeiro com 14 municípios.

Em decorrência do derramamento de 1,2 milhão de litros de óleo na Baía de


Guanabara, foram dispendidos cerca de R$ 2,4 milhões para a recuperação
ambiental de 20 hectares de mangue destruído

R$ 120.000,00 / hectare

R$ 2,00 / litro de óleo derramando


115

Elizabetholiverbr@yahoo.com.br; Jornal do Comércio / RJ; 17.02.02

Base (5)

Exxon Valdez II
acidente ambiental
03/08/2006
ONU compara derramamento na costa do Líbano a caso Exxon

Derramamento de cerca de 10 mil toneladas de óleo

Litoral do Líbano e da Síria

Conseqüências podem ser semelhantes às do Exxon Valdez (foram afetados


80 quilômetros do litoral do Líbano, 16 quilômetros do litoral da Síria e
continua avançando para o norte)

Causado pelos bombardeios israelenses contra os depósitos da central


elétrica de Jieh (Líbano)

Limpeza custará entre 10 e 30 milhões de euros (US$ 12,8 milhões e US$


38,4 milhões).

III. Comentários Finais

Em linhas extremamente sintéticas, ter-se-ia que:

1) Os impactos ambientais (tempo, espaço, meio ambiente impactado, extensão dos


danos ambientais, etc) são extremamente diversificados;
2) Os casos de avaliação econômica de danos ambientais e suas respectivas
metodologias são igualmente distintos;
3) Os valores econômicos finais, à título de indenização ambiental, além de
expressivamente diferentes, correspondem a montantes (quantidades de
derramamento e meio ambientes impactados) significativamente divergentes (ainda
que tenha se procurado estabelecer uma mesma medida padrão como base de
comparação dos valores econômicos totais);
116

4) Os elementos estabelecidos (bases) para cada estudo de caso apresentam-se


bastante distintos mas extremamente ricos no sentido de propiciar diversos tipos de
comparações; e
5) De todo modo, trata-se do início de um processo de construção de uma plataforma
de comparações, estudos, análises, conclusões e determinações de medidas e
políticas ambientais diretamente correlacionadas com a questão de avaliação
econômica de danos ambientais (no presente caso, particularmente no que diz
respeito à problemática ambiental do derramento de petróleo no meio ambiente)

Por fim, não haveria que se deixar de mencionar o fato de que não somente o
trabalho em si, como também, e principalmente, os seus comentários finais, seriam de
utilidade não somente para o presente caso em específico como, também, para outros tipos
de impactos ambientais (que não unicamente a poluição ambiental por petróleo),
principalmente se houver o desenvolvimento de uma análise no sentido de se voltar às
origens dos trabalhos que deram causa ao estabelecimento das referidas bases.

IV. Documentação em Anexo

Exxon Valdez
Alasca 1989
40.000 ton (aproximadamente)
Indenização por Danos Ambientais da ordem de US$ 5 bilhões
US$ 1,00 = R$ 3,57 (20.11.02)

US$ 125,000.00 / ton


US$ 125,000.00 / 1.000 kg

Densidade do Petróleo = 0,8 a 0,95


Densidade média do Petróleo = 0,88

1 kg – 1 litro (água)
0,88 Kg – 1 litro (petróleo)
1 Kg – x

x = 1,14 litro

1 quilo de petróleo = 1,14 litros de petróleo


117

Exxon Valdez

US$ 125,000.00 / 1.000 kg


US$ 125,000.00 / 1.140 litros
US$ 109,65 / litros de petróleo
R$ 391,45 / litros de petróleo

Exxon Valdez 2 = Exxon Valdez (1 ton = 1000 kg = 1140 litros de óleo)

10.000 toneladas = 11400 litros de óleo

(US$ 12,8 + US$ 38,4) / 2 = US$ 25,6 milhões

US$ 1,00 = R$ 2,138 (01.09.06)

US$ 25,6 milhões = R$ 54.732.800,00

R$ 54.732.800,00 / 11400 litros

R$ 4801,12 / litro de óleo


118

ema IV - Metodologia de Avaliação Econômica de Danos Ambientais Irreversíveis:


Custos Ambientais Totais Esperados – CATE I e CATE II - Laudo Técnico: Avaliação
de danos ambientais em face de extração mineral

Laudo Técnico: Avaliação de danos ambientais em face de extração mineral

CAO 9791/05
Pt 1613/05. PJ da Comarca de Tambaú

Interessado: Aldenir Lopes de Faria

Assunto: Extração Mineral. Quantificação dos danos ambientais.

Localidade: Rodovia Vicinal Tambaú – Santa Rita do Passa Quatro, km 3. Chácara


Deolinda. Tambaú/SP.

1. Introdução

Cf. os termos do Of. 83/05 – PJT, datado de 13.10.05, foi solicitada, com base em
documentação encaminhada, a quantificação dos danos ambientais acarretados pelo
Interessado.

2. Análise Técnica

Para o fim do atendimento da solicitação da PJ de Tambaú, haveria que se destacar,


preliminarmente, dos autos do presente protocolado, os seguintes elementos:

A) AIA Polícia Ambiental n. 121.505, datado de 17.01.01:


Atividade degradatória de extração de argila, sem licença ambiental.

B) Laudo do Instituto de Criminalística n. 402/01, datado de 30.01.01:


Extração de argila em imóvel rural, em pontos distintos e próximos entre
si, cujas características indicam ser de operação realizada em época não
recentemente.

C) Laudo Técnico DEPRN de Dano Ambiental datado de 11.12.01:


119

Atividade degradatória em 1,0 hectare, em local considerado (por conta da


existência de nascente) como “Área de Preservação Permanente”.
Existência de processos erosivos (a ponto de, inclusive, colocar em risco
algumas construções). Atividades minerárias se encontravam (à época da
vistoria técnica do DEPRN) paralisadas. Com medidas de recuperação
ambiental foram sugeridos a recomposição topográfica e o plantio
arbóreo, por meio de um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas a
ser submetido ao DEPRN.

D) Laudo de Dano Ambiental do DEPRN, datado de 18.07.05:


No geral, corrobora as informações técnicas já apresentadas pelo próprio
DEPRN. Em específico, demonstra (fotografias 01, 02 e 03) a magnitude
(gravidade, profundidade e extensão) dos danos ambientais acarretados
pela atividade minerária ilegal. Ademais se denota, dos quesitos anexados ao
laudo técnico, a preocupação com os danos paisagísticos (valor indireto).

3. Avaliação Econômica dos Danos Ambientais

Uma vez dispostos os elementos técnicos acima é possível, com base na sistemática
analítica consoante apresentada em anexo, proceder à avaliação econômica dos danos
ambientais.
Para tanto haveria que se discriminar, previamente, as principais variáveis do modelo
de avaliação econômica de danos ambientais ora utilizado:

Valor comercial da área - Vc

Embora tenha sido apontado que houve a obtenção de vantagem econômica para
fins da extração minerária ilegal, os laudos técnicos sugerem que a atividade não
seja “profissional”. Portanto, não se considerou a variável Vc no presente
procedimento analítico de avaliação econômica de danos ambientais, preferindo-se
focar a questão da “recuperação ambiental da área degradada propriamente dita”
(todavia, a critério do Douto Juízo ou mesmo da PJ de Tambaú, este
posicionamento técnico pode ser revisto).

Vc = 0
120

Custo de Recuperação Ambiental - Cd

Cd = f (recomendações técnicas do DEPRN) = f (reconfiguração topográfica e


plantio arbóreo) = f (Cd 1 + Cd 2) = f (documentação anexa)

Área para fins de reconfiguração topográfica = f (itens “C” e “D”) = 1,0 hectare
x 5,0 de profundidade média = 50.000 m3

Cd 1 = Custos totais de reconfiguração topográfica = Cd 1a + Cd 1b

Cd 1a = R$ 9,18 / m3 x 50.000 m3 = R$ 459.000,00 (escavação


mecânica, carga e remoção de terra)

Cd 1b = R$ 9,26 / m3 x 50.000 m3 = R$ 463.000,00 (reenchimento de


vala com compactação manual, sem fornecimento de terra)

Cd 2 = Plantio arbóreo (documentação em anexo)

Cd 2 = R$ 7.108,59 / ha x 1,0 hectare = R$ 7.108,59

Demais parâmetros

F i/d = 6,75
Fator intermediário entre Fator médio (4,5) em face da paralisação das
atividades minerárias, e Fator máximo (9,0), em função dos impactos
ambientais consoante apontados pelo DEPRN como, por exemplo, APP,
atividade ilegal, danos paisagísticos, dentre outros. A este propósito vide
também documento em anexo sobre a questão da variável “F i/d”.

n = 25 anos

j = 6 % ao ano

A partir disto, para efeitos do cálculo econômico dos danos ambientais irreversíveis
acarretados pela Requerida ao local, haveria que se proceder ao cálculo dos “Custos
121

Ambientais Totais Esperados – CATE I” (optou-se pela variável do modelo “danos


intermitentes” e não por CATE II, ou seja, danos contínuos, em face dos laudos técnicos
acostados aos autos não serem, a respeito da temporalidade dos impactos ambientais,
conclusivos), bem como, dos “Danos Ambientais Irreversíveis – DAI”.

3.1 Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Intermitente (CATE I), sem
a consideração da variável econômica
n
(Cd . F i/d) . ( 1 + j )
CATE = ____________________
n
(1+j) - 1
Onde:

Cd = R$ 459.000,00 + R$ 463.000,00 + R$ 7.108,59 = R$ 929.108,59

F i/d = 6,75;

n = 25 anos; e

j = 6 % aa

Logo;
25
(R$ 929.108,59 x 6,75) x (1,06)
CATE = ____________________________
25
(1,06) - 1

CATE = R$ 8.176.625,53
122

3.2 Danos Ambientais Irreversíveis - DAI

Na sequência, e em complementação ao disposto no final do item “3.1”, partindo-se


do pressuposto de que os danos ambientais acarretados à área estão sendo estabelecidos
à, aproximadamente, 04 anos [2005-20001 = f (data de elaboração dos laudos técnicos)],
ter-se-ia que:

t
DAI = CATE [ ( 1 + j ) - 1 ]

DAI = R$ 8.176.625,53 [ (1,06) 4,0 - 1 ] = R$ 2.146.175,81

DAI = R$ 2.146.175,81

R$ 44.712,00 / mês (48 meses)


R$ 42,92 / m3 (50.000 m3)
R$ 40,00 / m 3 (preço da argila calcinada)

Portanto, os danos ambientais irreversíveis acarretados pelos Requeridos no meio


ambiente local, até o presente instante, dada a sistemática analítica e metodológica
acima exposta, e consoante os impactos ambientais acarretados, reportam-se ao montante
de R$ 2.146.175,81 (dois milhões e cento e quarenta e seis mil e cento e setenta e
cinco reais e oitenta e hum centavos).

4. Comentários Finais

Portanto, face ao acima disposto, em decorrência das atividades minerárias


degradatórias impingidas pelo Interessado ao meio ambiente local, numa área de 1,0
hectare, há pelo menos 04 anos, apurou-se o valor econômico dos danos ambientais na
ordem de R$ 2.146.175,81.
Este montante este que, a critério do Douto Juízo e/ou da Promotoria de Justiça da
Comarca de Tambaú poderia, eventualmente, ser convertido (adicionalmente ao projeto
técnico de recuperação ambiental da área degradada pautado na Resolução SMA 47/03 a
ser aprovado e monitorado pelo DEPRN/SMA) em um projeto de compensação ambiental.
123

São Paulo, 16 de novembro de 2005

Luiz César Ribas


Eng. Florestal
124

5. Documentação em anexo

5.1 Planilha de Custos para fins da Estimativa dos valores econômicos de


recuperação ambiental da área degradada (reconfiguração topográfica)

Tabela de Custos Unitários da SIURB. Julho/2005. Proc. N 2005-0.186.485-3. DOC


07.09.2005. Tabela de Custos – Secretaria Municipal de Infra Estrutura e Obras, da
Prefeitura Municipal de São Paulo.

Escavação mecânica, carga e remoção de terra até 1,0 Km


Æ R$ 9,18 / m3

Reenchimento de vala, com compactação manual, sem fornecimento de terra Æ R$


9,26 / m3

5.2 Planilha de Custos de Recuperação Ambiental de Área Degradada (plantio


arbóreo). Setembro de 2005

De modo a se atender o acima disposto, relativamente às medidas complementares


de recuperação ambiental de área degradada, entende-se pertinente a apresentação das
seguintes operações básicas [adaptado de TOLEDO (1992), com base na relação monetária
proporcional a partir do parâmetro R$ 1,00/muda, predominando as operações manuais em
detrimento das mecanizadas, bem como salário médio no valor de 1,0 salário mínimo]:

(I) Custo horário da mão-de-obra

(i) Salário de um Trabalhador Rural - R$ 300,00 / mês (salário mínimo)


(ii) Encargos Trabalhistas - INSS, cesta-básica, auxílio transporte e demais encargos
trabalhistas - 1 vez o valor do Salário de um Trabalhador Rural - R$ 300,00 / mês
(iii) Horas de trabalho / mês - 5 dias/semana, 4 semanas/mês, 8 horas/dia - 160 horas/mês
(iv) Custo horário da mão-de-obra - (i) + (ii) / (iii) = R$ 3,75/hora

(II) Custos Manuais de Recomposição Vegetal / hectare

combate à formiga...................30 ho-h/ha..............R$ 112,50 / ha


125

aceiramento manual.................60 ho-h/ha..............R$ 225,00 / ha


conservação de estradas..........60 ho-h/ha...............R$ 225,00 / ha
coveamento..........................150 ho-h/ha...............R$ 562,50 / ha
adubação.................................15 ho-ha/ha.............R$ 56,25 / ha
plantio.....................................75 ho-h/ha...............R$ 281,25 / ha
irrigação..................................45 ho-ha/ha.............R$ 168,75 / ha
replantio (30 % do plantio).....22,5 ho-h/ha..............R$ 84,37 / ha
roçada (1o. ano)......................60 ho-h/ha...............R$ 225,00 / ha
roçada (2o ano).......................60 ho-h/ha...............R$ 225,00 / ha
manutenção de aceiros............60 ho-h/ha................R$ 225,00 / ha
manutenção de estradas..........60 ho-h/ha................R$ 225,00 / ha
adubação em cobertura...........15 ho-h/ha................R$ 56,25 / ha
Subtotal (II) - R$ 2.671,87 / ha

(III) Custos de Insumos / hectare

calcário.....................3 ton/ha......................................................R$ 167,00/ha


fertilizante................450 kg/ha (R$ 0,80/kg)...............................R$ 601,00/ha
formicida..................12 kg / ha (R$ 2,00/kg)..............................R$ 80,00/ha
mudas.............1667 mudas / ha (6,0 metros quadrados / muda)..R$ 1,00/muda
......................................................................................................R$ 1.667,00/ha
mudas (replantio)..500 mudas / ha (taxa de 30% de mortal.).........R$ 500,00/ha
Subtotal (III) - R$ 3.015,00 / ha

(IV) Serviços técnicos especializados mais custos eventuais [ 0.25 x (I+II)]


Subtotal (IV) - R$ 1.421,72 / ha

(V) Custos Totais de Recuperação Ambiental da Área Degradada / ha


Subtotais (II) + (III) + (IV) - R$ 7.108,59 / ha

TOLEDO, Á. E. P. de; CERVENKA, C. J. et GONÇALVES, J. C. Recuperação de Áreas


Degradadas. Companhia Energética de São Paulo. Série Pesquisa e Desenvolvimento
n. 059. 2a. ed rev. e atual. São Paulo. 1992. 15 págs.
Método dos Custos Ambientais Totais Esperados (CATE)

Luiz César Ribas


126

Eng. Florestal
Professor Assistente Doutor junto ao Departamento de Gestão e Tecnologia Agroindustrial.
Faculdade de Ciências Agronômicas. Universidade Estadual Paulista. Campus de
Botucatu/SP.

E-mails:
lcribas@fca.unesp.br
lcribas@uol.com.br

A metodologia dos Custos Ambientais Totais Esperados (CATE) poderia ser,


inicialmente, entendida como sendo a renda perpétua que a sociedade estaria disposta a
receber, em decorrência da indenização (pecuniária ou não) de determinado tipo de
degradação ambiental.
A referida metodologia haveria que considerar, ainda, a possibilidade da existência de
duas variações/vertentes:

(a) Custos Ambientais Totais Esperados / Dano Ambiental Intermitente


(CATE I) e;
(b) Custos Ambientais Totais Esperados / Dano Ambiental Contínuo (CATE
II).

Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Intermitente (CATE I)

Neste caso, entender-se-ia que a utilização do modelo dar-se-ia a partir da


consideração da existência de danos ambientais intermitentes (aqueles danos ambientais
não contínuos, sem riscos ambientais contínuos).
Os danos ambientais intermitentes seriam determinados danos ambientais originários
de uma ação degradadora não repetitiva, única, não periódica.
Analiticamente;

n
( Cd . F i/d) . ( 1 + j )
CATE I = _______________________ (I)
n
(1+j) - 1
127

Caso a consideração do elemento motivo econômico, descrito quando da explanação


do modelo em discussão como (1), seja possível, então, a formulação matemática da
avaliação dos Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Intermitente, passaria
a constituir-se em;

n
( Vc + Cd . F i/d) . ( 1 + j )
CATE I = _________________________ (II)
n
(1+j) - 1

Neste caso (CATE I), onde se pressupõe que as intervenções antrópicas para fins da
ocorrência dos danos ambientais dar-se-iam no momento “0”, ter-se-ia o desenvolvimento
do método a partir do seguinte fluxo de caixa;

momento 0 = X
0 A
[________________________]
ano 0 ano n

X = danos ambientais

onde;

n
A=X(1+j) (III)

O entendimento da variável original "A", a partir da equação matemática (III), como


sendo o fator expresso no numerador das equações matemáticas (I e II), conforme RIBAS
(1996).
128

Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental Contínuo (CATE II)

O enfoque dado neste caso partiria da consideração da existência de danos


ambientais contínuos.
Tal intento, dar-se-ia a partir da consideração da fórmula dos custos ambientais totais
esperados / dano ambiental intermitente, dentro da sistemática do valor futuro dado o valor
uniforme.
Por outro lado, danos ambientais contínuos seriam aqueles tipos de degradação
ambiental periódico / repetitivo, com riscos ambientais vinculados de maneira contínua (a
exemplo do lançamento sistemático - diário / mensal / anual - de poluentes atmosféricos ou,
ainda, de águas residuais).
Para a dedução da fórmula matemática pertinente aos danos ambientais contínuos,
observe-se que;
n
[ ( 1 + j ) - 1 ] / j = Fator empregado no numerador o qual reflete uma avaliação
futura para uma sucessão infinita ou contínua de ações. Observe-se, ainda, que este fator
tende a ser eliminado da fórmula.
Neste caso (CATE II), onde se pressupõe que as intervenções antrópicas para fins da
ocorrência dos danos ambientais dar-se-iam repetidamente/continuamente nos momentos
“0”, 1, 2,..., n, ter-se-ia o desenvolvimento do método a partir do seguinte fluxo de caixa;

X X X X X X X X .... X
0 A
[________________________]
ano 0 1 2 3 4 5 6 7 .... ano n

Assim;

A
CATE = ___________ (IV)
n
(1 + j ) - 1
129

Como “A” seria entendido como o Valor Futuro de uma Série Periódica Anual com base em
“X” (danos ambientais contínuos), ter-se-ia que;

n
X[(1+j) -1]
A = ______________ (V)
j

Substituindo-se;

n
X[(1+j)-1]
____________ n
j X[(1+j) - 1] 1 X
CATE = _______________ = ______________ x __________ = __________
n j n j
(1 + j ) - 1 (1+j)-1

(VI)

onde;

X = Cd . F i/d ou Vc + Cd . F i/d
(VII)
Matematicamente;

(Cd . F i/d)
CATE II = _____________ (VIII)
j

Caso a consideração do elemento "motivo econômico", descrito quando da


explanação do modelo em discussão como (1), seja possível, então a formulação
matemática da avaliação dos Custos Ambientais Totais Esperados - Dano Ambiental
Contínuo, passaria a constituir-se em;
130

(Vc + Cd . F i/d)
CATE II = _____________ (IX)
j

Observe-se, finalmente, que:

CATE I/II = Valor presente dos custos ambientais esperados em função de determinado tipo
de dano ambiental intermitente/contínuo, a partir dos fluxos de caixa produzidos por
uma série infinita de vidas úteis de n anos ou, de outra forma, valor presente dos
custos ambientais totais esperados de um determinado processo ambiental
degradativo, em unidade monetária por unidade de área;

Cd = Custos ambientais (valor presente) para fins de reparação dos danos ambientais
diretos, para efeito da consideração dos valores ambientais diretos, em unidade
monetária por unidade de área;

Vc = Valor comercial da área, em termos de uma série periódica anual, benefício direto a
ser auferido por motivo econômico, etc. (em unidade monetária por unidade de área);

F i/d = Fator de conversão de custos ambientais diretos em indiretos, para efeito da


consideração dos valores ambientais indiretos, conforme depreendido de RIBAS
(1996), numa escala de 1 à 9;

j = Taxa de juros (% ao ano), e;

n = Período de rotação, horizonte de ocorrência dos efeitos ambientais no tempo


(normalmente, uma geração - 25 anos).

Note-se, ainda, que o fator Cd . F i/d pode ser entendido como a totalidade dos
custos ambientais diretos e indiretos pertinentes a determinado processo de degradação
ambiental (consideração dos valores ambientais diretos e indiretos).
131

A variável “F i/d”

Do modelo básico de avaliação de danos ambientais, sob o enfoque florestal,


denominado "Custos Ambientais Totais Esperados", tanto em função da consideração ou
não da “variável econômica”, quanto da consideração de danos ambientais intermitentes ou
contínuos, poder-se-ia determinar mais concretamente a variável “F i/d”.
Até mesmo porque este parâmetro, necessariamente vinculado à consideração dos
custos ambientais indiretos, seria aquele que, paralelamente ao fato de ser altamente
determinante dentro do modelo, revestir-se-ia de um caráter de alta subjetividade, além de
relacionar-se a uma escala de valores extremamente relativa por parte da sociedade.
Para tanto, citar-se-ia diversos autores os quais poderiam, eventualmente, fornecer
subsídios no tocante a esta alteração metodológica mais específica.
Inicialmente, ter-se-iam determinados trabalhos citados em RIBAS (1996) que, dentro
de um trabalho de análise multiobjetivo discorreram sobre um parâmetro a ser utilizado no
presente estudo.
Este mesmo parâmetro, por outro lado, pode ser encontrado, originariamente, em
Saaty, citado em RIBAS (1996), onde o autor apresenta a escala de intensidade da
importância de atividades as quais contribuam para um mesmo objetivo, bem como suas
classes de intervalo.
Trata-se do procedimento da "Matriz de Prioridades", enquanto método de seleção de
alternativas com múltiplos objetivos.
Mais especificamente haveria que se dar um destaque especial à escala comparativa
para objetivos e alternativas (conforme constante no referido trabalho).
A matriz de prioridades, enquanto um singular método de ponderação, apresentar-se-
ia como uma das diversas formas de estruturação da análise por multiobjetivos, de forma a
possibilitar-se a predição de ações e escolha em futuras situações de decisão, conforme se
depreende de Saaty.
Ainda, a metodologia da matriz de prioridades viria a auxiliar o tratamento da questão
das preferências e valores extra-mercado (à semelhança da abordagem das externalidades
dentro da temática da avaliação de danos ambientais), dentro do processo de decisão com
múltiplos objetivos.
Saaty, no tocante ao desenvolvimento de uma determinada escala, enumera as
seguintes condições satisfeitas pela matriz de prioridades:

(i) se for possível representar-se todos os diferentes sentimentos das pessoas


que as mesmas têm quando procedem às comparações, e;
132

(ii) se for possível determinar-se uma escala de valores por X1, X2, ..., Xp,
então pode-se ter Xi + 1 - Xi = 1 (i = 1,..., p - 1).

Ainda, a escala de prioridades apresentou-se excelente para fins de negociação, uma


vez que se permite às pessoas debaterem as razões de suas estimativas, e chegar-se a um
consenso, bem como estabelecerem-se compromissos mútuos.
Deste modo, no modelo de avaliação de danos ambientais, sob o enfoque ambiental,
o fator "F i/d" constitui-se na adaptação da escala comparativa para objetivos e alternativas
(Matriz de Prioridades).

Desta forma, ter-se-ia a Tabela I:

TABELA I
Escala Comparativa. Relação danos ambientais diretos (d) e indiretos (i)

F i/d Significado

1 relação de predominância inexistente de i sobre d


3 pequena predominância de i sobre d
5 significativa predominância de i sobre d
7 predominância muito forte de i sobre d
9 predominância absoluta de i sobre d
2, 4, 6, 8 valores intermediários

Avaliação ambiental quanto aos danos ambientais irreversíveis

Até este ponto, o presente trabalho centrou-se em apresentar uma metodologia de


avaliação de danos ambientais diretamente circunscrita à implantação de medidas
ambientais de mitigação, prevenção, correção, controle, compensação e/ou indenização
ambiental (ainda que o contexto indenizatório, no atual estágio do processo de avaliação
ambiental seja secundário).
Este quadro de medidas ambientais teria o objetivo central de eliminar o cenário de
danos ambientais tal qual identificado dentro dos casos analisados.
Entende-se que a situação de danos ambientais irreversíveis dar-se-ia quando as
medidas ambientais acima preconizadas não se estabelecessem a contento.
133

Traçando-se um paralelo, numa analogia quiçá não infeliz, seria o caso do paciente
que estivesse perdendo sangue. O doente perderia sangue, de maneira irreversível (ou seja,
o mesmo sangue não poderia ser reposto pelo paciente), até o instante que, de uma forma
ou de outra, de acordo com o melhor tratamento médico, o processo de sangria fosse
estancado.
Desta feita, o caráter de “irreversibilidade” da perda de sangue pelo paciente estaria
diretamente correlacionado com o tempo que o mesmo levasse para estancar a referida
sangria.
Retornando-se ao contexto ambiental, entende-se que o caráter de irreversibilidade
dos danos ambientais (o processo de sangria no exemplo acima) dar-se-ia, igualmente,
durante o período decorrido entre o estabelecimento do cenário de danos ambientais em
determinada área (conforme o procedimento de avaliação ambiental acima apresentado) e a
implementação das medidas ambientais de mitigação, correção, prevenção, controle,
compensação e/ou eventual indenização ambiental (o tratamento médico prescrito, dentro
do exemplo acima).
Graficamente, a partir do processo de avaliação ambiental acima apresentado, ter-se-
ia os danos ambientais irreversíveis conforme a seguir demonstrado:

0 n
__________________________
momento 0 momento A
...........................................
X
0...... n’

De onde se depreende que:

„ Período de 0 à “n” = danos ambientais


„ Danos ambientais = X
„ X ⇒ medidas ambientais no momento 0 + n’
„ Se n’ = 0 (momento “instantâneo” ) ⇒ não há danos ambientais irreversíveis, dada a
imediata implementação das medidas ambientais
(se o processo de estancamento da sangria, conforme exemplo acima apresentado, for
instantâneo, não haveria perda de sangue de maneira “irreversível’)
„ Se n’ ≠ 0 ⇒ danos ambientais irreversíveis
134

Os danos ambientais irreversíveis dar-se-iam até o momento em que as medidas


ambientais fossem satisfatoriamente estabelecidas (ou seja, durante o período 0 à n’)

(o quadro de sangria dar-se-ia, de maneira irreversível, até o momento em que o processo


fosse devidamente estancado)

Logo;

(i) Danos ambientais irreversíveis = f (período de tempo decorrido entre o estabelecimento


dos danos ambientais e a efetiva implementação das medidas ambientais preconizadas
para o caso ambiental).

(ii) Conforme apresentado até o presente instante no trabalho, as medidas ambientais


preconizadas estariam diretamente vinculadas com o processo de avaliação ambiental
estabelecido - CATE I ou CATE II (genericamente, CATE).

Analiticamente;

DAI = f ( t, CATE) (X)


onde:

DAI = danos ambientais irreversíveis (R$/ano);

t = tempo, em anos, decorrido entre o estabelecimento dos danos


ambientais e a implementação das medidas ambientais, e;

CATE = CATE I ou CATE II (R$)


135

Matematicamente;
t
DAI = [ CATE . ( 1 + j ) ] - CATE (XI)
ou;

t
DAI = CATE [ ( 1 + j ) - 1 ] (XII)

onde;

j = taxa de juros ao ano (%)

Observa-se que o raciocínio matemático acima apresentado é idêntico ao empregado


no sistema financeiro, por exemplo, quando da consideração da questão da dívida, do
montante principal e dos juros, principalmente quando se considera o caso do período de
inadimplência (a cada período de atraso do pagamento das prestações acresce-se os juros
correspondentes ao mesmo período).
Naturalmente que os aspectos de multa diária e outros serão desconsiderados no
caso dos danos ambientais irreversíveis.
A grande vantagem da fórmula dos danos ambientais irreversíveis, CAI, seria a que,
quanto maior a demora para a implantação das medidas ambientais, maior será o valor
pecuniário dos danos ambientais irreversíveis.
Este fato ensejaria a implantação mais rápida possível das medidas ambientais, o
que evidentemente seria extremamente interessante em termos de proteção ambiental.
136

Projeto técnico de compensação parcial por danos ambientais irreversíveis - o escopo


do “quantum”

Na eventual apresentação de projeto técnico de compensação ambiental, guardando-


se as mesma proporções no que tange aos interesses ambientais a serem contemplados na
presente demanda ambiental, ter-se-ia, em consequência, que:

(Vc + Vpa . F i/d) . (1 + j )n


MC = _________________________ (VI)
n
(1+j) -1

onde:

MC = Medidas “extras” de compensação ambiental (R$);


MC = CATE ou DAI; e
Vpa = Valor monetário do projeto ambiental (R$)

Logo;

(0 + Vpa . 9 ). ( 1,06)25
MC = _____________________ = MC = CATE/DAI = 11,73 x Vpa (VII)
(1,06) 25 - 1

Vpa = CATE/DAI / 11,73 (VIII)

Bibliografia consultada

RIBAS, L. C. Avaliação de danos ambientais - uma metodologia para o estabelecimento do


valor de indenização ambiental. In: A problemática ambiental: reflexões, ensaios e propostas
- Continuidade de Vivência ambiental a partir de frases e momentos. Fundação de Estudos
e Pesquisas Agronômicas e Florestal. Botucatu/SP. 1998. págs. 115-156. (no prelo).

RIBAS, L. C. Proposta metodológica para avaliação de danos ambientais - o caso florestal.


1996. 242 p. Tese (Doutorado). Escola Politécnica. Universidade de São Paulo.