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A POESIA SIMBOLISTA

DE CAMILO PESSANHA
1. CAMILO PESSANHA (1867 - 1926)
❖ Viveu grande parte da sua vida em Macau,
levando aí uma existência discreta, “marcada
pela abulia e pela doença, pelo vício do ópio e
pelo amor à arte”.
❖ Vive curtos períodos em Lisboa, onde os seus
poemas circulavam de mão em mão entre os da
geração do Orpheu, que consideravam o poeta
“uma espécie de figura mítica, aureolada de uma
glória de poeta maldito, misterioso, uma espécie
de Rimbaud, de quem se sabia que fumava ópio
e que se encontrava tocado pelas asas do génio”
◦ O seu reduzido conjunto de poemas
acaba por ser publicado por seus
amigos, no seu único volume publicado,
Clepsidra;
◦ Clepsidra (1920) apresenta a metáfora
da transitoriedade temporal inscrita no
correr da água98;
◦ Seus poemas são representativos do
que se fez no contexto do
Decadentismo e do Simbolismo na
literatura portuguesa.
“A cada um de só três poetas, no Portugal dos séculos XIX e XX, se pode aplicar
o nome “mestres”. São eles Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo
Pessanha. Concedo que se lhes anteponham outros quantos ao mérito geral;
não concedo que algum outro se possa antepor a qualquer deles nesse abrir de
um novo caminho, nessa revelação de um novo sentir, que em matéria literária
propriamente constitui a mestria. É mestre quem tem de ensinar; só eles, na
poesia portuguesa desse tempo, tiveram que ensinar.
(...). O terceiro ensinou a sentir veladamente; descobriu-nos a verdade de que
ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas
a sombra dele. Estas palavras que são nada bastam para apresentar a obra do
meu mestre Camilo Pessanha. O mais, que é tudo, é Camilo Pessanha.”

Obras de Fernando Pessoa, III, Lello e Irmão Editores


“Desde a partida, dois
movimentos constantes
apresenta o percurso deste Ser-
Itinerante: alternam-se um
progredir e um regredir, uma
ida e uma volta, um preencher e
um esvaziar, tal como no próprio
objeto clepsidra, motivo maior
da trajetória poética de Camilo
Pessanha, (...)”
SANTOS, Gilda in: SANTOS, G. e LEAL, I.
Camilo Pessanha em dois tempos. Rio de
Janeiro, 7Letras, 2007, p. 80.
O TEMPO E A ÁGUA
O tempo, um outro dos leiv-motiv da obra de Pessanha, dá
vida ao símbolo recorrente da água que escorre inexorável
e sem paragens: nos rios, nos mares, e, naturalmente, na
clepsidra. Quereríamos parar o tempo, ficar como que
suspensos para recuperar o passado, a memória de si: mas
o presente não existe, é já passado ou já futuro, amargo
concentrado de nostalgias e temores, de saudades e ilusões.
As imagens sobrepõem-se, os sons confundem-se, os
planos da precepção interseccionam-se num tecido
analógico cuja trama pode ser desvendada em qualquer
momento por um lampejo de ironia lúcida.

(O simbolismo na obra de Camilo Pessanha, Barbara Spaggiari. Lisboa,


ICALP, 1982. Coleção Biblioteca Breve - Volume 66)
“Toda a poesia de Camilo
Pessanha é poesia de exílio. Em
Macau ou em Lisboa, mesmo nas
terras da sua infância, o tecido
de existência que o envolvia era
exílio.”

RODRIGUES, Urbano Tavares.


Ensaios de escreviver. Coimbra:
Centelha, 1978, p.90.
MÚSICA E POESIA
• A música na poesia camiliana “resulta de expedientes
técnico‐estilísticos conjugados entre si de diferentes
maneiras, e que interessam quer à roupagem fônica da
poesia quer o ritmo do verso” (SPAGGIARI, 1982, p. 57)

•Inúmeros poemas que se referem a instrumentos


musicais = violas, violoncelos,
Outro tema característico da poesia de Pessanha verifica-se nestas
duas coisas correlativas: por um lado, a descrença de que algo de
essencial exista para além das [...] simples aparências sensoriais;
por outro lado, a indecisão, a abulia do próprio poeta. Em certo
vocabulário predileto, e até pelos seus nexos sintáticos mais típicos
[...], o poeta insinua constantemente tudo encarar como simples
imagens, miragens, sonhos transitórios, senão evanescentes ou
mesmo dúbios - imagens que não se fixam na retina dos olhos,
este espelho inútil e aridez de sucessivos desertos. As próprias
mãos se reduzem a uma estranha sombra em movimentos vãos,
com dedosincertos em mera flexão casual.
Quer isto dizer que o instrumento primordial da vontade, o desses dedos
manuais, nos surge ferido de estranheza, desintegrado de um querer
pessoal totalizante. [...] Estamos perante a inessencialidade do que quer
que seja, implicando por seu turno a mais completa indecisão e
inapetência; pois onde, com efeito, haja vontade, tem de haver um
postulado de essência ou racionalidade objetiva.

Óscar Lopes, “Pessanha, o quebrar dos espelhos”, in Ler e Depois, 3.ª ed.,
Porto, Ed. Inova, 1970
ANÁLISE DE POEMAS
1. INSCRIÇÃO

Eu vi a luz em um país perdido.


A minha alma é lânguida e inerme.
Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
2. AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

Só, incessante, um som de flauta chora,


Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila


E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,


Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


3.
Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina


Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
— Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?


— O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica, sequer, sombra das minhas mãos,


Flexão casual de meus dedos incertos,
— Estranha sombra em movimentos vãos.
4. ÁGUA MORRENTE
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville.

Verlaine
Meus olhos apagados,
Vede a água cair.
Das beiras dos telhados,
Cair, sempre cair.

Das beiras dos telhados,


Cair, quase morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogai-vos


Na vã tristeza ambiente.
Caí e derramai-vos
Como a água morrente

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