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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

DEPARTAMENTO DE FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO

ELLEN CÂNDIDA ALVES CAMPOS

PIZZA

RIO DE JANEIRO
2020
ELLEN CÂNDIDA ALVES CAMPOS

PIZZA

Trabalho apresentado pela aluna Ellen Cândida


Alves Campos para obtenção de nota na disciplina
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO NO MUNDO
OCIDENTAL, do Departamento de Fundamentos da
Educação, ministrada pelo Prof. Reuber Scofano.

RIO DE JANEIRO
2020
Justificativa

Durante as aulas de Filosofia da Educação no Mundo Ocidental ministradas pelo


professor Reuber Scofano, pude me identificar de diversas formas. Meus anos
escolares não foram tão ruins, posso até dizer que tive muita sorte por ter tido alguns
professores muito especiais cruzando meu caminho. Contudo, também tive más
experiências com outros que se diziam educadores.
Ao pensar na Filosofia da Educação, pude refletir sobre muitas das experiências que
tive dentro de sala de aula, não somente na escola básica. Ao chegar na universidade,
me deparei (e ainda deparo) com mestres que, infelizmente, consumidos pela
arrogância, esquecem da arte de educar.
Cresci com um grande exemplo de educadora dentro de casa. Minha mãe
costumeiramente chegava em casa cheia de histórias, sobre as aulas, sobre os
alunos, sobre as atividades, as músicas, os movimentos corporais, as apresentações,
as famílias. Joselinda vinha depois de um dia de trabalho cansativo, porém nada que
atrapalhasse a felicidade de quem está fazendo o que gosta: educar e aprender.
Conhecer educadores como Rousseau, John Dewey, e ouvir as histórias de vida de
Paulo Freire e Rubem Alves foi de grande valor para mim. É sobre usar da criatividade
para ensinar, sensibilidade e amor. É sobre valorizar o diferente, é sobre ouvir e ser
ouvido. É também aprender.
Educar é revolucionário.
Busquei na elaboração desse conto explorar duas esferas que dificilmente são
relacionadas: Matemática e Música. A ideia inicial era criar uma história em que um
personagem criança conseguiu, através do contato com Música, entender
Matemática.
Encontrei algumas matérias e trabalhos na internet. O que mais me chamou a atenção
foi um Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação da UFRS. Trabalho
apresentado pelo aluno de Matemática Rafael Souza Fernandes, onde explora as
relações entre ritmos musicais e frações. Neste trabalho, Fernandes realiza uma
oficina onde, além de outras atividades, analisa o processo de divisão de um tempo
inteiro em partes iguais dentro de um compasso musical. Ele defende essa relação
por meio de uma tabela, que foi a base para a criação rítmica e sonora que o professor
passa para o Gui dentro da história. Essa informação talvez seja não muito necessária
e talvez até cause um pouco de confusão na cabeça de algumas pessoas. Assim,
sugiro que o leitor deste trabalho estude a tabela representativa somente ao final da
leitura do conto Pizza, mas entendo que os estudantes de música possam
compreender mais claramente se estiverem cientes dessa representação primeiro.
Fique à vontade.

Representação da sequência quaternária

Fonte: FERNANDES, 2014. (p. 46)


A aula de matemática foi de explodir a cabeça naquele dia. Frações? Vish...
Definitivamente seriam um problema na próxima prova. Gui caminhava angustiado
ainda tentando entender que tipo de coisa era aquilo de colocar um número em cima
do outro. Dois terços? Um quarto? Meu quarto? Foi quando ele se deu conta de que
estava indo na direção errada do corredor, e parou em frente a uma porta aberta: era
uma sala de aula, e a porta era azul escuro. No meio da sala, havia uma caixa de
madeira que mais se parecia com um banquinho de sentar. O que poderia ser? Aquela
caixa era tão tentadora... Parecia uma daquelas cenas de teatro, com um holofote -
que sabe lá de onde vinha - bem em cima de um objeto misterioso e uma escuridão
ao redor dele. Que curioso... Será que posso entrar? Se fosse um daqueles filmes de
terror, com certeza ele não entraria na sala. Mas ainda era tardinha, os monstros
ainda estavam escondidos, com certeza. Mas que vazio sinistro! Todo mundo que
estava no corredor sumiu! Devagarinho, foi entrando na sala, como se estivesse
cometendo algum crime. Ombros curvados, na ponta dos pés calçados de all star,
notou carteiras vazias no fundo, quadros nas paredes, estantes montadas e meio-
montadas. Acho que acabaram de usar essas mesas. Carpete no chão, um negócio
que parecia um piano no canto da esquerda. Armários fechados, uma mesa mal
arrumada... A caixa de madeira. Tinha um estofado em cima, era aberta na parte de
trás, era inclinada na frente, tinha um... tinha um buraco. Gui estava prestes a sentar
naquela caixa quando de repente entrou alguém naquela sala. Caiu pra trás depois
do susto e o professor deixou todas as pastas e papéis que estava carregando caírem
e se espalharem pelo chão. Eita. Quê que eu faço? Será que vou levar esporro? O
menino foi se levantando, tentando criar as melhores desculpas que ele nunca
conseguiu na vida, nervoso, suava, acho que vou levar advertência, minha mãe vai
me deixar de castigo, logo agora que eu acabei de ganhar meu Nintendo... Que
estranho. O professor terminou de recolher suas pastas e papéis cheios de símbolos
e começou a caminhar em direção a uma outra caixa preta que estava pertinho
daquele negócio que parecia um piano no canto da esquerda. Sentou-se em cima da
segunda caixa preta e olhou para o menino, que estava confuso. Acho que é para eu
me sentar também. Sentou-se. O professor então arrumou a postura e fez sinal para
que o menino fizesse o mesmo, lá no outro lado da sala. Ele o fez. O professor estava
sentado com as pernas para os lados e deixava a parte da frente da caixa à mostra.
Então, se inclinou para frente, apoiou a mão esquerda na beiradinha de cima da caixa
e levantou a mão direita. E parou aí, ficou igual uma estátua. Olhou em direção ao
menino e esperou que ele fizesse o mesmo. Ele o fez. O menino esperava o próximo
passo, mas o professor não se mexia. Estava com os olhos fechados, parecia que
estava ouvindo alguma música nos fones de ouvidos, mas sem fones de ouvido. E
começou.
Pá-Pum-Pum-Pum...
Pá-Pum-Pum-Pum...
E parou. Acho que é a minha vez agora.
Pá-Pá-Pá-Pá...
Pá-Pá-Pá-Pá...
O professor fez uma cara de que, hum... Não era bem aquilo que ele queria ouvir. De
novo!
Pá-Pum-Pum-Pum...
Pá- Pum-Pum-Pum...
Minha vez.
Pá-Pá-Pum-Pum...
Pá-Pá-Pum-Pum...
Balançava a cabeça negativamente o professor. Mais devagar agora. Olha.
Pá... Pum... Pum... Pum...
Ele bateu primeiro na parte de cima e depois três vezes na parte de baixo. Hum..
Parece que se eu bater em cima, o som é mais parecido com um pa... Mas, se eu
bater na parte de baixo, o som é mais parecido com um pum... Hum... Vou tentar.
Pá... Pum... Pem... Pum...
Um sorriso no rosto do professor. Fez sinal de que foi... quase. Vamos mais uma vez!
Pá... Pum... Pum... Pum...
Pá... Pum... Pum... Pum...
Agora a vez do menino.
Pá... Pum... Pum... Pum...
Pá... Pum... Pem... Pum...
O professor repetia, e o menino repetia atrás. Um, depois o outro. Um atrás do outro.
Até que enfim...
Pá... Pum... Pum... Pum...
Pá... Pum... Pum... Pum...
Agora era um sorriso bem grande no rosto do professor. Que máximo! Quero mais,
me ensina mais! Quanta felicidade... Que coisa maluca! Gui nunca havia feito nada
parecido. Quem diria que essa caixa de madeira seria tão maneira! O professor de
música vendo a animação do menino resolveu investir um pouco mais. Começou
então agora um pa-pum diferente.
Pá-pá-pum...pum...pum...
Pá-pá-pum...pum...pum...
Minha vez.
Pá...Pá-Pum...Pem...Pum...
Pá...Pá-Pum...Pum...Pum...
De novo. Lá foi o professor.
Pá-pá-Pum...Pum...Pum...
Pá-pá-Pum...Pum...Pum...
O menino observou. Respirou. E tentou.
Pá...Pá-Pum...Pum...Pum...
Pá-pá-Pum...Pum...Pum...
Isso! Consegui!! Nossa, que demais! Gui festejava, já tinha até levantado da caixa,
fazia a dancinha do Tik-Tok cheio de alegria, quando viu o professor se levantando
também. O professor pegou o giz na primeira gaveta daquela mesa mal arrumada e
caminhou em direção ao quadro negro. O professor escreveu os números 1, 2, 3 e 4,
e cada número tinha uma linha que os separavam.
1________ 2________ 3________ 4________
O professor sentou-se na caixa de madeira e fez assim:
Pum...Pum...Pum...Pum...
O menino sentou-se na caixa de madeira e repetiu.
Pum...Pum...Pum...Pum...
Muito bem. O professor fez sinal de que o Gui havia feito um bom trabalho. Levantou-
se e caminhou novamente em direção ao quadro. Contornou todos os números e
destacou o número um. Ele fez assim:

1 ________ 2 ________ 3 ________ 4 ________

O professor voltou para a caixa de madeira e nela se sentou.


Pá...Pum...Pum...Pum...
O menino inicialmente ficou confuso. Claro. Como é que do nada o professor que
estava batucando numa caixa de madeira uns pá-pum-pá começa a escrever uns
números no quadro? Parece até que a matemática tá me perseguindo, eu ein. Gui
começou a criar um ranço. Mas estava gostando tanto de tocar aquela caixa de
madeira... Tudo bem, vamos tentar. Acho que isso aí quer dizer que cada batida na
caixa representa um número, e que cada número emite um som, o pá e o pum... O
primeiro som é pá, e os outros três sons são pum. Deixa eu tentar.
Pá...Pum...Pum...Pum...
O professor a essa altura já estava com um semblante de orgulho, o menino estava
indo muito bem. Então, levantou-se mais uma vez em direção ao quadro. O menino,
empolgado, continuava a praticar aquele último Pá-pum que o professor acabara de
ensinar. Pá...Pum...Pum...Pum... Gui estava tão concentrado que não se deu conta
de que aqueles números que estavam no quadro, agora, estavam bem diferentes...

¼ ¼ ¼ ¼

Ué?! Por que será que ele tá escrevendo aqueles de negócios de matemática? Ah,
não... Ele não é professor de música? O professor batucou na caixa de novo.
Pá...Pum...Pum...Pum...
Pá...Pum...Pum...Pum...
Esperou que o menino repetisse, mas a criança estava perdida demais para mexer
os braços. O professor levou a caixa para mais perto do quadro e repetiu cada som
indicando cada quadradinho.
Pá...Pum...Pum...Pum...
Pá...Pum...Pum...Pum...
Nada no menino batucar. O professor insistiu. Começou devagar. Aí o Gui tentou.
Pá...Pum...Pem...Pem...
Pá...Pum...Pem...Pum...
Pá...Pum...Pum...Pum...
Pá...Pum...Pum...Pum... Pá...Pum...Pum...Pum...
Certo. O professor se levantou de novo. Pegou o giz, alterou aqueles números doidos,
que ficavam um em cima do outro, e agora adicionou mais uma linha na tabela.
4

1 1 1 1

Dessa vez, o professor não batucou e nem pediu para que o menino batucasse. Os
dois ficaram olhando para o quadro. Gui começou a pensar na aula de matemática
que acabara de assistir. Lembrou-se das palavras da dona Selma, dizendo que são
quatro pedacinhos de pizza porém um deles era sem calabresa, porque a dona Selma
era vegetariana. Bom, vegetarianos não comem carne... É por isso que o pedaço de
pizza da dona Selma não tem calabresa... Porque calabresa... É carne! Hum... Aquele
pedaço da dona Selma era diferente... Diferente é diferente, não é igual... Não tem
problema nenhum em ser diferente..., mas, pera ai! Esse primeiro quadradinho é
diferente, porque é azul. Os outros não são... Uma dessas batucadas que eu tô
fazendo é diferente também. Uma é pá. A outra é pum. Tem a pem também mas o
professor não curte muito quando eu faço pem. Tá. Então é a mesma coisa! Um
quarto, de quatro... Caramba!!! E ele começou a tocar.
Pá...
Pum...
Pum-Pum...
Pá...Pum-Pum...
Pá... Pum... Pum......
Pá... Pump...... Pum...
Pá-Pum... Pum... Pum...
Pá... Pump... Pum-Pum...
Pá... Pump... Pum... Pum...
Pá... Pum... Pum... Pum...
Pá... Pum... Pum... Pum... Pá... Pum... Pum... Pum...
O professor se juntou ao aluno, e começaram os dois juntos a batucar... o mesmo
batuque. Pá... Pum... Pum... Pum... O professor começou a fazer uns batuques meio
diferentes no meio da batucada. O menino imitava esses batuques, Pá... Pum... Pá-
pá... Pum-pum... E até quando o menino errava, não ficava tão ruim assim. Agora até
mesmo o professor fez pem! E num é que o pem funciona também? Pois é! E ficaram
os dois:
Batucando a batucada;
Inventada e inusitada;
Engraçada e inventada;
Bate em cima;
Bate em baixo;
Pa-Pum-Pa-Pum-Pá!
Pa-Pum-Pa-Pumpá!
Quando...
– Gui, meu filho! Eu estava igual a uma louca te procurando. Estou te esperando na
porta da escola tem um tempão, filho! Vamos!
(suspiro)
Professor e aluno.
Brincando e ensinando.
Brincando e aprendendo.
Os dois
Crescendo.
REFERÊNCIAS

FERNANDES, Rafael Souza. MÚSICA E MATEMÁTICA: explorando as relações


entre ritmos musicais e frações. Orientador: Profa. Dra. Andréia Dalcin. 2014. 91
folhas. Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação – Curso de Matemática
(Licenciatura), Departamento de Matemática Pura e Aplicada, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Disponível em:
https://lume.ufrgs.br/handle/10183/109993. Acesso em: 01/06/2021.

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