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LINGüíSTICA

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Coleçfo Estudos
Dirigida por  J.  Guinsburg

Produção: Plínio Martins Filho e Marly Orlando.


 A LINGUAGEM
Introducão ao Estudo da Fala

Tradução e Apêndice
de J. Mattoso Camara Jr.

.   ~\\'/~
~ ~ EDITORA PERSPECTIVA

~I\\~
Título do original
 LANGVAGE, An lntroductlon lo Ih. Sludy of 8p<.ch ,

Copyrighl @1921 by Harcourt Blacelovanovilch,lnc.


@ 1949 by lean V. Sapit. Publlshed by Arralliemcnl wilh Haucourt
Brace Jovanovitch, Inc.

Direitos em língua portuguesa reservados à


EDITORA PERSPECfIVA S.A.
Av. Brigadeiro Luís Antônio, 3025
01401 - São Pau lo - B rasil
Telefone: 288-8388
1980
Sumário

Advertência à 2~ Edição ; : IX
Prefácio do Tradutor ".. . . . . . . I
Prefácio do Autor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
I. Parte Introdutória: Linguagem e sua DefilÚção. . . . . . . . . . 11
2. Os Elementos da Fala 27'
3. Os Sons da Linguagem. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
4. A Forma na Linguagem: Os Processos Gramaticais . . . . . . . 53
5. A Forma na Linguagem:Os Conceitos Gramaticais. . . . . . . 71
6. Os Tipos de Estrutura Lingüística 99
7. A Língua como Produto Histórico: A Deriva. . . . . . . . . .. 119
8. A Língua como Produto Histórico: A Lei Fonêtica 137
,9. Como as Línguas se Influenciam Entre Si . . . . . . . . . . . .. 153
"10. Língua, Raça e Cultura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 165
) I. Língua e Literatura , 175
AP£NDlCE 183
Um Século de Estudos Lingüísticos nos Estados UlÚdos da
A éi 185
 NOTADO EDITOR 

Objeto de duas edições aqui no Brasil, de há muito esgota.


das, a reedição desta obra vem ao encontro de sugestões feitas
neste sentido à Editora Perspectiva por estudiosos e professores.
 Na verdade não se poderia privar os nossos estudos lingüísticos
da presença de um livro que é um "clássico" da especialidade
e cuja transposição vernácula se deve ao saudoso J. Malloso
Camara Jr., o qual dá, neste trabalho, não só um padrão de
interpretação fiel e adequada da linguagem do autor, de uma
adaptação magistral da exemplificação inglesa, como acrescenta,
ao fim, um valioso anexo histórico-crítico sobre a lingüística
americana e o papel de   Sapir nesse contexto
 Advertência à   2~Edição

Graças ao interesse da   Livrari~   Acadêmica., a quem já   tanto devem


os estudos lingüísticos e filológicos no Brasil, sai agora a 2.  ediçã~ da
minha tradução do livro clássico de Sapir sobre A 1Ã1I{Juagem, intro-
duçá<J ao estud<>da fa1J:J.

Como já expliquei no "Prefácio" da 1. edição de 1954, essa tradu-


ção foi feita em   1938, quando ainda. vivia Sapir. que morreu com 56 anos
de idade em 1939. S6 dezesseis anos, mais tarde, portanto, a minha tradu-
ção portuguesa conseguiu vir  à luz, esgotando-se ao fim de 3 anos.
Apesar do interesse despertado (como prova a safda do livro num prazo
que podemosconsiderar rápido, dada a modéstia do nossomercado livrei-
ro), a 2.  edição teve de esperar 14 anos para se efetivar.

Entretanto,   c0II!0  dizemos franceses, à quelque ehose m1J.lh.eu'rest bon.

A tradução do livro clássico de Sapir reaparece no Brasil num mo-


mento doe mais propIcias. Com efeito, agora, o pêndulo da linguistica
norte.americana se afasta do mecanicismode Bloomfield e vai no sentido
do Seu amigo e contemporâneo, que dele teoricamente divergia nos pen-
samentos.básicos e foi por isso marginalizado injustamente, pouco depois
de sua morte, até os fins da década de 1960. A partir dai, em verdade,
as Estruturas Sintáticas de No.m Chomsky ('s Or.venh.ge 1957) e o
ataque fulminante do jovem lingÜista à psicologia behaviorista., repre-
sentada na obra de Skinner    (Lang.   35.26, 1959). começarama se fazer 
sentir, valorizando indiretamente a figura. e os trabalhos de Sapir. Bloom-
field  é que passou a ser, por sua vez, injustamente marginalizado, de
acôrdo com o mau ve.zonorte-americano.de polarizar as posições cien-
tificas.

A esta 2' edição me pareceu, por isso, interessante anexar um meu


trabalho de   1963,1 que trata da hist6ria crítica da linguistica dos   ElIt~
do U ido vista los olh de ob dor estra eir loc Sapir 
em perspectiva histórica ao lado de Boas e Blommfield. Desta sortc,
 procurei (não digo que o consegui) satisfazer o desiderato expresso na
 parte final do meu uPrefácio" à l' edição desta tradução.

Rio de Janeiro, 1969

J. MAT1"08O CAM.ARAJIl.

1. Aproveito 8.   oportunidade para agrndccer de públit'o no Dr. José Manuel


Rivaa Baeconi, diretor do Instituto Caro 1 Cuervo de Bogotá, n pronu autoriuçlo
 para eu reproduzir use e!Jtudo hi!Jt6rieo-erltieo, eonstante daa   ...ttal de um Simp6llio
 pnblieadaa com  copyrigAt    por &euInlltituto (Programa b,teramtlriooM de Linguúhca
 y E",e1iaua de IdiofM6, El   Simpono tk    Cartagena, ...tgodo 1963,   Informe. y Co.
Prefácio do Tradutor'

 Esta Tradução. que data de   1938, foi o   meu primeiro   f.sforço paTa
 Icx;aliza,r diante dos nossos estudiosos a figura do lingüista norte-ame.
-ica:no Edward Sapir 1;   tna.f  '4$ contingência.! ainda precária.! da MS-
 ,a atividade editorial só agora permitem que ela se publique, graças à
direção esclarecida de Augusto Meyer no Instituto Nacional do Lit'TO.
 A eda altura já me   havia. resignado ti   relegá-l.a para o   /u11.dc da
gaveta dos empreendimentos frtL$trados. Fizera-o com tanto mais pesar 
quanto mais convencido me cu;ho da suma importância de uma obra. em
que foram trCl{Odtu linha.! nova.! de   interpretação e pesquisa e de que
 parte um   movimento teórico e técnico de singular relevo nos quadro,
do   pe1LSamento contemporâneo.
O   Autor aprofundou e ampliou as suas idéias   atrGt,és do ensino uni-
versitário e de numerosos artigos e monografias, anteriores e posteriores
ao   livro e hoje em grande parte reunidos pelo professor Mandelbaum, da
Universidade da   Califórnia, sob o título de Escritos Seletos de Edward 
Sapir sobre Linguagem, Cultura e Personalidade'l. Do que ai consta em
matéria de lingüística são de especial importância os estudos sobre -
radrões Sônicos: na Linguagem e   A Realidade Psicológica dos: Fonemaa,'
que lançaram as bases da 4lfonémica" norte-americana, e, de caráter ge-
ral, - Diale~o, Linguagem, Linguagem e Ambiente, A Posição da Lin-
güística como Ciência e A Fala como Traço de Personalidade •.
O   núcleo da   filosofia de Sapir está, porém, todo lUJui, nede lit'ro, e
vazado num estilo de divulgarão d01ltrin.dria, a um   tempo empolgante,
colorido e   fácil. Trata-se de uma exposição básica para os upecialutal
e, ainda, particularmente indicada para o grande público; poU   aqui,
ainda mais que em outro! trabalhos, se revela n.o A utor aquela capaci-
dade estilística, que, na fra.se de Stanley Newman "fala   leitor como
Q()

ti uma   pessoa e   não como a um intelecto desencantado",'    contrário da


Q()

lingu.agem abstraia, seca e inte1l.CionaZmente monótona da modenWJ 


"lingüística científica" norte-americana.
Quando a   obra apareceu, em   1921,   Edward Sapir já tin1uz em ,eu
ativo muitas e perctu::ientes pesquisas nas líng1UJSíndias dOI    Estado,
Unidos e do Canadá, como o takelma (Oregon),' o yana (Califórnia), o
2 A L IN G U A G E M

nutka (.1ha d. Va1lC01lv.r), O paiút. (UtaJt) • O !arei [!arce.) (Alb.rta).


FOTa prindpalme71.te levado para eue âmbito pe14   .tUa   comunhão com o
trabalha d. Fra ••• BOa!, o grande antrop6logo da Univ.r!idado de Colú•••
 bia , q1U .se propusera continuar  O empreendimento tU  J. W .   Powell, ftD
 Bureou. de Etnologia Americana da lmtituição SmitM01Iian4,'  M  ,entido
de l.vantam.nto •   análÍ!e dO! língua! {ndiO! da América do Norte.' Na
~quipe que então se constituiu e culminou com a  elaboração do Manual de
Llnguas Indias Am.ricanas,   publicado a partir d.   1911, Sapir •• duto-
cO'U   pela lUO formação lingüútica especializada,   decorrente   da co-ndição
d. graduado . m filologí<Jgermânica pela Univ.r!idad. d. Colúmbia.
 A   visão /ÜQl6gica ampliou-se-lhe, por sua vez, com a   experiê7lGta
et'Mlógica (I com o   exemplo tU Boas, a cujo respeito tem as   ugllint6.t
 palavras na análise d4   língua takelma, com que concorreu para aque~
Manual: "Para concluir, devo agradecer ao professor Franz Boas va-
liosos conselko, em   referinda a   vários pontos de método e o seu   '71ft.
resse ativo no progresso do trabalho. Foi em grande parte devido a ele
que me   animei a   afastar.me dq. rotina da descrição gramatical. e fi   dis.
tribuir e interpretar os fatos de uma maneira mais consentânea com o
espírito dq. pr6pria língua takelma"'.
 Auim. a um tempo antrop6logo, linflÍÍtsta de campo e  indo-europeú.
ta. soube Edward Sapir ccmciliar. os três interesses em diversos trab~
lhos, como na monografia sobre A Perspectiya Temporal na Cultura
Americana Aborígine 10, em que enquadra a lingiií.!tica na pesquisa et.
no16gica, • no .!tudo !obr. Ao Continuas GlotaJizadas .m Návaho, NuI.k!l
e Kwak:iutl,   onde toma em c~eração a célebre hipótese dai laringeai8 
indo-européüu, surgida na gramática compprativa pelo estudo do fO'M,.
tici8mo hitita; e, da evidência fonética índia, ascende a um a   interpretação,
que mais tarde se consolidou sob a pena do seu colega e amigo Edgar   8her.
tevant u. Seg-unM esse pensamento, as lc.ringeais teriam tido o caráter  de
oclwâo glotal (ing.   glottaJ stop) • t.riam   MO .m   núm.ro de quatro .m   doiI 
 pares de surda-sonora, aO passo que o hitita só   1I.OS   Buegura da existência .
de duas e a fonética hist6rico-comparativa não nos elucida sôbre a "ítida
 ftatureza desses sOn.!.
 Muito mais importante, porém. foi a síntese harmoniosa e feliz a
que chegou com a compreensão de uma   ciência geral da linguagem, fora
dos lindes românicos, germânicos, indo-europeus, 1,'!t7títicos ou outros,
em que se confinaram muitos outros grandes teoristos. Como já   tive
ocasião de acentuor alhures. "com Edward Barr começa um   terceiro
grupo interessantíssimo na ciência norte-ame,-icana -. aquele que eu
chamaria dos lingüistas gerais"  U,
e justamente na presente obra que primeiro e mais desenvolvida-
mente se consubstancio a sua afirmação nesse sentido. Ele ainda se en-
contrava então na chefio da Divisão de Antropologia do Museu Nacio-
nal do Canadá, que assumira em' Ottawa em   1910. Mas já em   1925 era
chamado para a Universidade de Chicago, onde inaugu.rou em breve (
ensino da lingüística geral, e seis anos mais tarde, integrado no corpo
docente da Universidade de Yale, passou a desenvolver até sua morte.
ocorrida em   1939 em   conseqüência de um   sofrimento cardíaco, uma fi-
losofia lingiiistica em que se filia ~ chamada escola' científica norte-
PREFÁCIO DO TRADUTOR  3

amencana   (scientific linguistics), firmada mais diretamente embora


 p"r  L.onard Bloomfi.ld.
Entre Sapir e Bloomfield há uma relação 8emelhante d que & e dea
 preende na ciência franusa entre Ferdinand de   Sous8Ure ti   Antoine
 Meillet. Num e noutro caso, tem-se, ao lado do pioneiro genial, o   con.so-
lidador extraordinariamente dotado, que do! ponto.t culminante. de umo
concepçãu vigoro6C1e nova, mas   ainda um   tanto   fluida,   tira um   corpo
de doutrin.a coeso, que a   '16m tempo a preci.Ja e a   re,t,;nge.
 Meillet fê-lo colocando-se nas linhas mestrlU da escola socioMgica
de Emüs Durkheim, a   que não estava ligado Saussure, em que pus tJ
opinião de Doroszewski Jl
• Bloomfield, por sua vez,   adaptlJv o   pensamen-
to de  Sapir aos princípios da   filosofia behaviorúta de Max Meyer e Paul
Weis!, criando o que ele próprio denominou a teoria mecanicista, qUB
 faz abstração da   "hipótese"  da   mente ,tO   interpretaÇão do fato lingiií.s-
tico. Partindo-se do estudo das línguas índias, instituiu-se assim uma
técnica descritiva de grande nitidez e c,liciênda, cujos resultados se têm
~rquivado em grande parte na revista IJAL, ora sob a direção   de C.
F. Vo.gelin, qut em   1944   r•• ""el""  o vol. X inlerrompido. Consolidou-
'e, entre outros, u conceito de fonema (som distintit)o mínMn.o d4   língua)
s o   de morfema (forma diltintiva mínima), como ba.ss da análise s tso.
rioação da fala, qutr no livro hoje 'clálsico d. Bloomfield sobre a   Lin.
guagem 14, quer na tradicional ret"Ílta do mesmo nome, que, fundada
em   1925 como órgão da Sociedade Lingüística da América, .s e   tornou
 porta-.t)oz da   escola. Em seguida, empreendeu-se uma reft.Otlaçáod4   gra-
mática e do ensino   dC1$   línguas   lato sensu,   aplicada de ma1leira   q1UUS
sensacional ao ensino das línguC1$vivas no exército norte-americano du-
rante a Grande Guerra, numa experiincia pedagógica que assentou pn-
macialmente num   Esboço-Guia de Bloomfield  11.

Sob um cupeeto particular, entretanto, a atuação de Bloomfield foi


um   tanto descoroçoante: ele é em grande parte responsável por ter-u
quase fechado o caminho MS    Estados Unidos a uma exploraç4o estéti-
Ca da linguagem.
Sapir, ao contrário, a   sugeriu e até  a iniciou, tanto no   presente li.
vro como em diversos artigos. Atraía-o neste sentido o pendor para a
música e a poesia, das quais fez um   uviolino de lngrts". A sua intui-
Ç'40   artística, sobre concretizar-se em composiÇ(1espoéticas, esparsa.f em
variadas revistas. e na atividade pianística, revela-se em   intereuanttl
estudos estéticos. Haja vista O   que dedicou aos Fundamento'i Musicais
do Verso,   infelizmente não incluído na compilação Mandelbaum, cit.: aí,
depois de clarificar o complexo conceito áo ritmo, mostra. o caráter re-
lativamente "livre" de todo e qualquer verso, me.smo quando aparente.
mente mais subordinado à métrica".
Foi esta faceta de um   espírito filosoficamente amplo que fcu;ilitO'U 
a sua .concepção da linguagem como uma arte coletiva", no que se de-
Il

clara, num passo deste livro, solidário com Benedetto Groce.


Seria, não obstante, um erro profundo associá-lo ao pensamento lin-
güútico do filósofo italiano. Nada há mais distante de um   Karl Vossler,
de um   Terrcu;ini, de um   Bonfante, saídos com as suas correntes, respecti-
vamente idealista alemã e neolingüi.dÜ':o italiana, do esteticismo de Grau,
4 A LINGUAGEM

do que 0$ scientific linguiBts norte-americano,. E  ene   diJtanciame71to,


qtul   em regra &etron.smuda em radical antagonilmo, como no debate de
1947 entre G. Bonfante e Robert HaU na revista   Language, não   parte
67-elu.&ivamentedo mecanicismo 8 do método "cientifico" de Bloom/ield,
que :n a   frfU8 convicta de JIall olhuru "opera por postulado,. hisp6tue, 8
t'erificação"". Já   estava bem   explícito na   teoria Japiria1l4,   qua.n.do Te.
lega para um plano Itcundário os a&pectos afetivos da linguaflem, dil.
lOCiada cultura o   fato Ungüútico e vê na língua, antes de tudo e sobr~
tudo, uma forma coletiva pré-racional, que impõe ao   indit'íduo   os seus
canai.! de expreuão e tem nas   !1L(U   mudanç.as uma   uderit'o"   própria.
 No âmbitu da lingüística européia, as afinidades com o   pemamento
de Sapir estão na corrente saussunano, a   que Vossler  e   os neolingiiida.s
claramente se contrapuseram.
 A critica de Alan Gardiner  u,   como adepto de Sau3Sure, qU(Jnto a
uma suposta confusão entre   langue e   parole por parte de Sapir, a   qual
 parece em verdade depreensível no próprio subtítulo do presente livro
(lntrodução.ao estudo da fala),   é inadequada. Gardiner, depois de tra-
duzir o francês   parole por   speeeh (port. "fala"), só compreende o termo
inglês com a significação que lhe imprimira de um   ponto de vista tenni-
nológico estrito, sem considerar por outro lado como O   conceito de "pa-
drão" (ing.   pattern), um dos   Leitmoti\"e da f,10sofia lingüística de Sa-
 pir, se concilia com o da   langue saussunano. Num e noutro, temos a idéia
de um sistema fonnal coletivo, de uma pauta que regula a atividade da
 fala   lato sensu   ou linguagem".
 Não é   de estranhar, portanto, que o pensamento de -Sapir tenha im-
 pressionado duas escolas européias, inegavelmente filiadas em Saussure:
a "glossemática" do Círculo de Copenhague e a "fonologia" do Círculo
de Praga. L. H jelmslev, na notícia que em   1939   dedicou à morte de Sapir 
,
em   Acta Lingüistiea (1, 76-7), que é   o órgão daquele primeiro Círculo,
 presta tributo ao mestre norte-americano e ao livro que aqui se traduz,
como uma das fontes da concepção estruturalista que tem desenvolvido
com seus companheiros de Copenhague. O   Círculo de Praga, oficialmen.
te fundado cinco anos depois da publicação do presente livro, entrou
em contado com Sapir em   1930,   quando o convidou a participar do Con-
gresso Fonológico InternaGÍonal naquela cidade, a que, entretanto, ele
não pode comparecer  10.
 Não é nada provável que Sapir, como at'enta Leo Spitzer num arti-
go recente   (UPor  Que na língua há rnudança''')I\ tenM sido influencia-
do pelas idéias de Baudouin de Courtenay, o mestre de São Petersbu.rgo,
a que não é   estranha em seus primórdios a fonologia de Praga. £ sinto-
mático, a este respeito, que neste livro de   1921   Sapir ainda não utilize
o termo "fonema", típico de Baudouin para duignar um con<:eito("equi-
valente psíquico do som") muito próximo do que desenvolve o mestre
nor~e-americano 22.

Só alguns anos mais tarde é   que o ténno aparece em Sa]Jir, a   prin.


cípio   esporadicamente e depois de maneira sistemática, como nos artinos,
citados, de   1933, sobre a   Linguagem  e sobre   A Realidade Psicológica dos
Fonemas. Pode-se, em verdade, atribuir a adoção ao eXemlJlo do Círculo
PREFÁCIO DO TRADUTOR 

 ,de   Praga, tanto quanto ao de Leonard    Bloomfield, que Ja ~m   1926,'   apre~


~enta71do HUm   Conjunto de Postulados para a   Ciência da Linguagem l
t

na revista Lnnguage (2, 153-64), torna mais precisa 11a   essência e na


nomenclatura a interpretação do som lingüistico,   definindo,o:   "Um feixo
mínimo de traços vocais é   um fonema ou som distinti\'o",
Como quer que   l6;a,   o fato é  que Sapir por muito tempo It   a:teve
tU  preferência a /6rmulaJ como - 41,om", 11,0m   padronizado",   I'ponto ds
um   padrão   ,6nico para ainda 86 falar em "101\,8ma", de maneira coeren~
Jl
,

te, num   artigo de   1931   !obre 1 1 0   Conceito de Lei Fonética verificado nas
Lfnguaa Primitivas por Leonard Bloomfield",   quando se reporta ao autor 
comr,ntado 23.

O do termo, afinal, parece ter-lhe sido imposto pelo   se-ntimento


U30
de não criar  um   cisma meramente tenninológico, em ffUe de uma adoção
generalizada na Europa e na América. .
 Não há a   lIle/lOr  dúdda porém, de   (]UC   llll lilluiHstica norte-americana,
como frisou o l'elho l"ruJlZ   lJOfUJIU   lIuticia ubilu<Íria de   1939 110   'JJ~l~,
dedicada ao seu colab(Jntdur c brilhault' c.x-almw   (10,   58-63),   é essencial-
mente de Edward Sapir a intuiçãu do som da fala como ,'aloJOlingüistiw
sobreposto à   simples Joealizaçãofísica,
 Neste aspecto, como em   muitos outros de fecunda originalidade, ca-
beria aprecia,' o pensamento sapiriano em face do q~ havia antes dele
e   do que se elaborava em torno dele ou paralelamente a ele, do.   mesma
sorte que depreender o que lhe deve o hodierno e amplo movimento eI.
trvturalista, europeu e "órte-amencano. Não é, porém, matéria que S6 
cinja a um Prefácio e se compadeça com os modestos propósitos de utn
Tradutor. A este o que deve importar exclusivamente é interpretar (om
 fidelid4de a linguagem do seu Autor. Portanto, a   minha única n.mtribul-
ção foi aqui a   de procurar esclarecer a exemplificação ingUsa ou   outra,
 pondo-a ao alcan.ce dos leitores de língua portuguesa a quem o   inglês (l
outros idiomas estrangeiros não são familiares   Jfo.
Notas ao Prefácio

1. Embora nueido Ilm   Lauemburgo, na Prúsllia, perto de Danuig, em 1884,   Edwaro


Bapir , uma autêntica expressão da cultura norte-americana, onde se integrou ainda
ar.   intlneia, ao   emigrar  com sua   famtHa para 01 1   Estados   Unid03 aos 5 anos de idade.
2. 8dected Writing. 01   Edward    lIapir  in   Language, Cultuf'e Gnd  PCTlOMlity. ed'tr.d 
 br   David G. J!anlÜlbau""    Berkeley, 1949j com uma noticia   eritieo.biogrê,fica e uma
 bibliografia completa.
3. Sound PaUern.r  in lAnguagt, LAnguage 1925, I, 37.51. La Realité P,ychologiqM 
&t, PhoMme., Journal de   P8Ychologie   1933, XXX, 247-65; a compilação Mandt>lbauru,
fit., dA. a   redaçlo ingleaa -   Tliil   P&ychol0!Jical Reality 01, PlKmemcs. 46.60.
.•• DWakct (Encyclopedia 01 B0ci4r 8cit'fI,Ctl, New Yorlr:, 1931, vo1. 5),   LangUlJge
(idem, 1933, voI. 9),   unguage (lnd Enmf'onment, que é   uma. p:-eleçJ.o na AasociaçAo
Antropo16giea Amerie&na em   1911,   publicada no   A:mtTican A:nthropotogut  em   1912,
segundo noe informa o profesaor Mandelbaum (Seleeted Wrifingl,   cit.,   89),   The SrIJ-
tVl of   
LiflguilHc.t  e.t 11 8cieue (L4nguage, 1929, 5, 207 ••14),   Speeeh a.J   a Per.tonality
Trair    (JwmaZ   ol Soc'ology, 1921, 32, 802-905).
5. Na re8enha dos Seleeted Writing,   cito lnternational JOtwnal of A:merioan Li".
gtNtw (IJAL), BloomingUln, Ind.,   1951, H, 183.
6. 0& nomes indiO! nlo elo aqui aportuguesados, salvo quando o aportuguesamento
 j' é tradicional. 86 hOUVAligeira!l modificações na.e grdi&8 inglesll.'l que poderiam
levar li. perplexidade o leitor de Hngua portuguesa. Os .nomes de Hnguas ou tribos,
de origem francesa ou ingll'8a, foram grifad08 e mantidos tais quaÍB.
7. A Ill8tituiçAo Smith.soniana, criada em   1846 por Ato do CongreMo par&. aumen.
tar e difundir a ciência, com e&rá.ter ofiC'ial, decorre de uma doação te9tamenUria. de
.Jam~ Smithson para. esse fim.
8. Sobre Bou como lingüista, ~oD8ultar - Reman .Jakob8on, Â   OrirntGÇdo Un-
giiút~ de Franz Boa.t    (FrllJU Boa.t A:pp"ooch to L4nguagc), lnternatNmal JOVf'nQI 
of  ,.jmerican Linguuticl (I.JAL), Bloomington, Ind.,   1944, 10, 188.95.
9. Hllndbook of A:mcrioan Indian Langooge.t,   Waahington, D. C.,   1922, lI, 8.
10. T.me Perspeet.tJtJ '" A:boriginal A:merican CultUf'e - A :   Stu4y ' n   Method    (1916)
(8elected W",Hng',   cit.,   389.462);   ai já. há a eoneeituaçA,ode bea lingüistica, como
central e perifériea. (pAg. 412), hoje tio desenvolvida nu "normas areais" doe neolin.
güista.s italianOll.
11. SturteV'lLnt, no !leU trabalho de   1942 (The Indo.H.Uite Laring'.,'1l.t;   ef. minha
resenhA no   Bole"""  fk   F.Zologia,   Rio,   1947,   no. 7) df'Clare. muito dever la idéias de
~a.pir neste particulAr.
12. 08   E.!tudos Lingütstic<Js nos E8tados Unidos da   ,.jméTica do   Norte,   Rio, 1945,
 pág. 11.
8 A L IN G U A G E M

13. Retiro.me ao artigo de W. Dorolzewlki, Quelque. Remarque!   lU1'   ltl.   RappOf'&.


dtl   la Sociolopic tt  d" la   Li1lguilUqvc,   Durkhtim et FerdiMM de   SOUIUf"I,   Journol
de   P,vchologic, Patil, 1933,   XXx,   82.91. Alhurea, tratei   Dal. defletl.volridamente da
qUettl..o   (Co1\tribuir40 d   EltiZ"tico   Portugll. •. ,a,   Rio, 19~3).
14. Loft{JtMJge, New York, 1933.
15. OatUne Guidt for thIJ   8tudy   01 Forng" z..onguoge TetU1l"'9,   Baltimore, Md.,
1942. Eua experiência pedagógiea foi euidadOl!lamente estudada num livro de   Paul
Angiolillo (Ârmed   Force$'   Forno"    Lc."fJ1ItlJge   TtaClli"g, New York, 1941), de que fiz
uma resenha na reviata   Culttwa, Rio, 1949, 1.2.
16. TM Mv.n:oal FOUM4tioM 01 Yenc,   JouYft4l 01  Engli.IIl   aftd Germ4ft'c   P1&üology,
Urbana, li!.,   1921.   XX, 213-28.
,

17. Robert HaIl Jr., [n Memoriam LeO'ftOrd   Bloomfidd,   Lingua,   Barrem, 1950, lI, 119.
18. The ThcOf'Y  o f    Speccll and Language, Oxlord, 1932, pA go 130, n. Cf. aeima,
nota. 13.
]9. A posição de Sapir ainda ressalta mai.s nitida no a.rtigo sobre ~   Fala como
Traço de Pe-rIOMltd6ck,   cito

20. Á!J   afinida.des do Circulo com Bapir foram ressaltadas mais de uma vez por 
Trubctzkoy' e R. Jakobeon. Cf. especialmente o   Relat6Tio de!lte último no Bexto Con.
gresso Internacional de Lingüi.stas,   .A.ctel,   Parill, ]9~9,   pAg. 5.
21. Why doeI    Lang1UJge Changtl,   8eattle, W&l'h. ]O~3,
Modcrn   Lang'UlJoe   Qllatt1'ly,
4, 415.6. Ao eontr6.rio, para Trubehkoy a teoria de Sapir 'Ifoi criada em total indo.
 pendência de Bl\udouin de Courtenay e IDellmode Baullsure"   (JO\lrnal de   P,ycholog-ic,
cit., pig.   230)
22. O termo, que jâ   existia. em grego para designar "emiss~o vocal", foi U8adO
 pratieamcnte ao tnpsmo tempo pelos médicos do laboratório de Marly, por S&US8Ure
e por Bll.udouin.de Courtenny; mas neste é que tem llÍ8tema.ticnmente um conceito
ni.tido novo.
23. The Conccpt of PlIondk Law tu   telted  -in   Pritnie-ive Language8  by   LeonnrJ 
 Bloomficld (Selectrd WJ"itingl,   cit., 73.82).
2.. Os esclarecimentOll do Tradutor, no testo ou em notai, se aeham entre colehetn..
Prefácio do Autor 

Destina-se este livrinho a' dar uma VlS8.Ode conjunto a respeito da


linguagem e não propriamente a coligir fatos da linguagem. Pouco lhe
cabe dizer sobre os fundamentos psicológicos últimos da fala, e, dos
fatos tanto atuais descritivos como históricos, das várias línguaS só mi-
nistra o que é suficiente para ilustrar certos princípios. O seu escopo
 precípuo é mostrar a minha maneira de conceber a linguagem e as suas
relações com outros interesses humanos básicos: o problema do pensa-
mento, a natureza do' processo histórico, a   rac:a,   a cultura, a arte.
A visão a~im obtida será útil, creio eu, não só aos que se dedi-
cam à lingüistiea, mas também ao público em geral,   ser.lpre meio pro-
 penso a relegar as noções lingüísticas para a elnsse dos pedantismos pl'i.
vativos dos espírit.os essencialmente vadios. Um   conhecimento das rela-
c:óes mais amplas existentes em sua ciência é essencial aos lingüistas pro-
fissionais. se querem escapar à esterilidade de uma atitude puramen-
te tGcnica.
Jo:ntrc os contemporâneos de relevo que escreveram sobre as coi-
sas do pensamento, Croce é um dos poucos que mostram ter compreendi-
do a significação fundamental da linguagem, assinalando..lhe a íntima
relação com o problema da arte. Muito devo à sua percuciência!
Independentemente do interesse intrínseco que têm, as formas e   0.'1
 processos históricos da linguagem oferecem um valor diagnóstico de mÁ-
xima importâuc.ia para a compreensáo de alguns dos problemas mais
árduos e fugidios da psicologia do pensamento, E '   para a compreenSl:10de
ncrÍ\'a, estranha e de efeitos ncumulados, na vida do espírito humano,
que chamamos história, progresso ou e\'olu~ão. Esse ,'alor depende prin-
cipalmente da natureza inconsciente e irracional da estrutura lingüís-
tica.
Evitei n maior parte dos termos técnicos e todo~ O I;   símbolos técni-
cos da academia lingüística. Núo há um só sinal diacrítico no li no.
Sempre quo foi passivel, a discussão assentou em material ingles. Foi,
 porém, necessário, dentro do plano do livro, que inclui UUla apre<.'iação

• [Cf., no Prefácio do Tradutor. o que !lC   diz na pág. 11.]


10 A UNGUAGEM

dos tipo..qproteíformes em que se vaza a expressão do pensamento hu~


mano, citar alguns exemplos exóticos. Não me sinto obrigado a desculpar-
me disso.
Em ,:.irtude da falta de   espaço, tive de   deixar  de 'parte muitas
idéias ou princípios em que   gostaria de tocar. Outros   pontos   tiveram do
Bcr   tratados na alusão rápida de uma   sentenc;a   ou no ("orrer  de uma
frase.
Confio, não obstante, em   qUE'   o es')encial se acha aqui concatenado
e de sorte que sirva de estímulo a estudo .mais fundamental num campo
ora entregue ao abandono.
Desejo expressar a minha apreciaçiio cordial dos conselhos sin.
ceros e sugestões valiosas de certo número de amigos que leram a obra
em mamISCI'ito,   especialmente os   Profs. A. L. Kroeber  e R. 11. Lowic da
Universidade da Califórnia, Prof. \V. D. \Valli:; da Escola Superior 
de   Rcoo e o Prof. fI.   Zcitlin da Unh'crsidade de Illinois.
1.Parte Introdutória:
Linguagem e sua Definição

Falar  é um aspecto tão trivial da   ,ida cotidiana que raramente nos


detemos a analisá-lo. Parece tão nntural no homem quanto andar, c pouco
menos do que respirar.
Basta, entretanto, um momento de reflexão para convencer-nos de
que essa espontaneidade não passa de uma impressão ilusória   nos.'ia. O
••r~esso de aquisi~ão da linguagem é, em suma, coisa completamente di-
\"ersa do processo de aprender a andar.

 No caso desta última fun«.:ão, a cultura - em outras palavras a mas-


sa tradicional dos usos sociais - não entra propriamente em jogo. A
criança é   individualmente apta, em  virtude do complexo conjunto de fa-
tores a que chamamos hereditariedade biológica, a executar    tod06 os  aju3-
tamentos musculares e nervosos que lhe são   pl'c('isos   para. andar. Pode-se
dizer que a própria conformação de tais músculos c das partes deterrni.
naJas do sistcma nervoso já é por si adequada aos movimcntú8 que andar 
e atividades semelhantes impõcm. Na .realidade, o pequenino ser hwnano
normal está predestinado a andar, não porque os adultos o assistam na
aprendizagem, mas porque o próprio organismo, desde o nascimcnto, se
não desde o munento da concepção, vem preparado para o dispêndio rle
energia nervosa e para as:   adaptac:õcs musculares que exige a atividade
de andar. Em resumo, trata.se de uma função biológica inerente ao h~
mem.
O mesmo não se dá com u linguagem.
t: evidente que, até certo ponto o indivíduo humano está predestina-
do a falar, mas em ,irtudc da circunstância de não tcr nascido mera.
mente na natureza, c sim no regaço de uma sociedade, cujo   ('f.('OPO 1"<!cio.

nal é chamá.lo para a s:   suas tradições.


Eliminai a sociedade e não haverá dúvida em supor que ele apren.
derá a andar, dado que sobreviva de qualquer maneira. É igualmente
indubitável, porém, que jamais aprenderá a falar, isto é,   a comunicar 
idéias segundo um sistema tradicional. Hemovei agora. o recém.nascidll
do meio social para que ele acaba de vir e transplantai.o para um meio
12 A LINGUAGEM

completamente estranho. Dcsenvolver~se-á a capacidade de andar' no novo


ambiente quase como se teria desenvolvido no ambiente antigo. Mas a
fala ficará em completa   dif)Cordância com a fala do meio nativo.
Andar  é,   portanto, uma atividade humana geral, que só varia num
limite muito preciso à medida que passamos de um indivíduo a outro.
 j:;   uma variabilidade   il1".oluotária e sem significação. Falar  é   uma ativi-
dade humana que varia, sem limites previstos, à   medida que passamos
de um grupo social a outro, porque é uma herança puramente histórica
do grupo, produto de um U~ Isocialprolongado. Varia como variam todos
os esfor<:os criati\'os - não   tr~oconscientemente talvez, mas pelo menos
tão evidentemente quanto as l"cligiões,as creol;as, os costumes, e as artes
dos diferentes povos.
Andar  é   uma futH;ão orgânica e instinti,'a (embora não seja a bcm
dizer um instinto); f31nr  é   nma função não instintiva, uma função ad-
quirida, "cultural",
Há um fato que muito tem concorrido para fazer com que se deixe
freqüentemente de reconhecer a linguagem como o sistema merainente
convencional de símbolos sonoros que na realidade é,   induzindo o espí-
rito popular n atribuir  à   ath-idade uma base instinti\"a, que absoluta-
mente não exi'ite~ : e a observação muito conhecida de que, sob a pressão
de uma emoção, ,sob o acicate de uma dor súbita ou de umlj.alegria irre-
freada, por exemplo, emitimo.'i sons que as pessoas que nos oU\'em, in-
terpretam como indicativos da própria emoção,  Há,   entretanto, uma dife-
rença cabal entre tais cxprcSfo>ões in\"oJuntárias de sentimento e o tipo
normal de comunicação de idéias em que consiste o falar,
Aquelas emissões vocais são, com efeito, instintivas, mas também &b
não-simbólicas; em outros termos, um grito de dor ou alegria não indica,
como tal, a emoção; não se apresenta por si, por as.'iimdizer, para anun-
ciar que determinada emoc;ão-está sendo sentida, O que faz é servir rlc
escoamento, mais ou menos instintivo, à   energia nervosa; nté certo ponto,
ê   parte e parcela da própria ernot;ão,
Demais, esses gritos instintivos não constituem uma "comunicação"
no sentido estrito do termo, Não se dirigem a alguém, e são surpreendi-
dos, antes do "que propriamente ouvidos, à   maneira do ladrar de um cão,
do ruído de passos, do sibilar do vento. Podemos di7.er que transmitem
certas idéias a quem os ouve, mas no sentido muito geral com que é   lici-
to dizer que todo e qualquer som, ou, melhor, qualquer fenômeno, traJH-
mite uma idéia ao cérebro humano, Se o grito involuntário de dor, ecn-
vencionalmente representado por um "Oh!", pode ser considerado um
verdadeiro símbolo de linguagem, equivalente a uma idéia tal comI')
"Estou com muita dor", não há como não admitir que o aparecimento
das nuvens seja o símbolo da mensagem nÍtida - "Vai provavelmente
chover", Ora, uma definição da linguagem assim por tal modo lata, qUI~
inclui todos os tipos de inferência, torna-se sem "alor e sem maior alcance,
Cumpre, além disso, não cair no erro de identificar as nOSSB.':jinter~
 jeiçõeS convencionais (como   oh!. ah!. psiu!)   com os gritos instintivos
 propriamente ditos,
Essas interjeições fixaram de maneira toda convencional os sons nl1~
turais, Diferem enormemente, portanto, de idioma para idioma, de acor-
do com o gênio fonético específico de cada um. Como tais, podem ser 
PARTE INTRODlITÓRlA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 13

consideradas partes integrantes da linguagem, no sentido propriamenw


.cultural deste termo, sendo, como são, distintas dos gritos instintivos pro-
 priamente ditos; da mesma sorte que as palayras   cuckoo e   killdeer    [ou em
.português, analogamen~e, "bern-te-vi"l] são distintas dos gritos dos pás-
saros por elas representados, e a orquestra~ão da tempestade na   ouvertu-
T e do ~ui1herme TeU de Rossini não é   a própria tempestade.

Em outros termos, as interjei~ões e as palavras de sons imitativo~.


na fala normal, estão para os seus protótipos naturais na mesma rela~ão
em que a arte, que é   uma coisa puramente social e   cultural, está para
a natureza que lhe serve de tema.
Haveria a objeta); talvez que, embora as interjeições difiram algum
tanto de língua para lingua, oferecem, não obstante, impressionantes tra.
Ç O B comuns para que se possa cotuliderá.las expressões de um fundo in~

tinti\'o geral.
Mas o problema das interjeições em nada se distingue daquele que
nos pode ser proposto ante as várias maneiras nacionais de pintar.
Uma pintura japonesa que representa uma montanha, é  a um tempo
diversa e semelhante, comparada a uma pintura moderna européia sobre
o mesmo tema. É o mesmo aspecto da natureza que se sugeriu a ambas e
que ambas "imitam". Contudo, uma ~ outra não são a mesma coisa, e ambas.
não são a rigor uma expressão direta daquele acidente natural. As duai
maneiras de representa<;ãonão são idênticas, porque procedem de tradi-
ções hist6ricas diversas e foram executadas com diversa t~nica pict6rica.
A interjeição japonesa e a inglesa foram, da mesma sorte, sugeridas
 por um protótipo natural comum - o grito instintivo, e são inevitavel-
mente sugestivas uma da outra. Diferem, por outro lado (muito, 011
 pouco, não importa), porque foram criadas com materiais ou técnicas
historicamente diycrsas, quais são as tradições lingüísticas, os sistema"l
fonéticos e os hábitos de fonac;ãodistintos dos dois POyos.
Ao contrário, os grito:i instintiYos, propriamente ditos, são pratica-
mente id~nticos para toda a humanidade, da mesma sorte que o nosso
esqueleto humano ou sistema nen'oso é, em última análise, um trac,:o
"fixo" do organismo humano, ou seja um trac;o apenas variáye1 de ma.
neira mínima c "acidental".
Acresce que as intel'jeic;Õ{'ssão na fala elementos de somenos impor-
tância.
Valem mais como demonstração de que até êles, inquestionavelmentc
os sons da linguagem que mais se aproximam da emissão instintiva, são
de natureza instintiva apenas aparenteme.nte.
Se fosse possível, portanto, demonstrar que a linguagem, de maneira
global, considerada nos seus longínquos fundamentos históricos e psieo.
lógicos, provém das int('rjci(~ões,não banria como concluir daí ser ela
atividade instinth-a. ::\las,na realidade, todas as tentativ8:-;para uma tal
demonstra~ão da origem da linguagem foram infrutíferas. :Não há evi.
dência tangível, de ordem histórica ou de outra ordem, que se preste a
admitirmos que a massa dos elementos e dos processos da lin~uagem seja
uma evolução das intcrjeiçÕ<.'s.Esta" constituem uma porção mínima e
funcionalmente insignificante do vocabulário de qualquer língua; em ne.
nhmna época e em nenhuma província lingüística até hoje conhecida vi-
14 A UNGUAGEM

mos sequer uma tendência apreciável para elaborar.se com elas a trama
de fundo da linguagem. Nunca passaram, quando muito, de um debrum
decorativo para aquele amplo e complexo tecido.
O que dissemos das interjeições aplica-se. ainda com mais razão, às
 palavras de som imitativo.
Palavras como   whippoOTll.!ill, to mew, to caw [ou, com exemplos por-
tugueses, "miar", jjgrugrulejar" 2] não são em absoluto sons naturais que
o homem tenha reproduzido instintiva ou automaticamente. São   cria~õc.<o
do espírito humano, arroubos da fantasia humana, como tudo mais na
linguagem. Não nos vieram diretamente da naturezaj foram apenas
sugeridos por ela e modulam-na à sua feição.
Por isso, a teoria onomatopaica da origem da linguagem, segundo a
qual nós falamos por gradual evolução dos sons de caráter imitativo, não
nos conduz realmente a um ponto de partida no instinto, como a ele não
nos conduz o exame da linguagem geral hodierna.
A teoria em si não merece mais crédito do que a sua equivalente em
referência às interjeições.
É verdade que certo número de vocábulos que não nos parecem hoje
ter valor imitativo, vão relacionar-se a uma forma fonética' anterior que
nos leva, com probabilidade, a originá-los das imitações de sons natura  i".
É o caso do verbo inglês   to laugh. [porto "rir"]. Não obstante, é u e   todo
impos'l>ível provar, e não parece sequer razoável supor, que uma propor-
ção apreciável dos elementos de linguagem ou qualquer coisa dJ seu me-
canismo formal possam ter provindo de uma fonte onomatopaica.
Por mais propensão que se tenha, sob o fundamento de certos prin-
cípios teóricos, a atribuir importância precípua, nas línguas dos   POV<t.i
 primitivos, à   imitação dos sons naturais, não- é  possível fugir  à  eridência
de que essas Hnguas não mostram especial predileção para os vocábulos
de origem imitativa. Entre os povos mais primitivos da América aborÍ4
~ne, as tribos athabáskan do rio Mackcnzie falam idiomas que parecem
quase ou em absoluto prescindir de palavras dessa espécie,-ao passo que
em muitos idiomas supf>rcivilizados,como o alemão e o inglês, as onomn-
topéiac"são usadas com bastante freqüência. Isso prova quão pouco fi
essência da linguagem depende da mera imita~ão das eois.l~da natureza.
Estamos agora em condições de estabelecer uma definição satisfató-
ria da lin~uagem. f~ um método puramente humano e não-instintivo de
comunicação de ,-jéias, emoçõese desejos por ll1:eiode um sistema de sím-
 bolos voltmtariamcnte produzidos. Entre eles, avultam primacialmente
os símbolos auditivos, emitidos pelos chamados "órgãos da fala". Não há
uma base discernÍl,"clde instinto na fala l;umana considerada como tal,
embora muitas expressões instinth-as e a própria natureza ambiente sir-
,"am de estímulo ao desrnvoh.imento de certos elementos lingüísticos, e
embora muitas tendências instintivas, motrizes e outl'aS, ofel'eçam um
teor oa molde predeterminado à   expressão lingüística. Comunica,:õcs,hu-
manas ou animais, (se é   qUf' mrreccm este nome) decorrentes dos grito~
involuntários instintivos não constituem, a nosso vcr, fatos de linguagem.
Acabo de referir-me aos "órgãos da fala", e pode parecer  à  primeira
vista que isso importa na incoerência de admitir que a fala é   uma ativi-
dade instintiva, biologicamente predeterminada.
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 15

Mas não nos iludamos com essa maneira de dizer.

 Não há, a rigor, órgãos da fala; há apenas órgãos que são inciden.
talrncnte utilizados para a produção da fala. Os pulmões, a laringe, a
abóbada palatina, o nariz, a língua, os dentes c os lábios serycm todos
 para esse fim; mas não podem ser considerados órgãos primordiais da
órgãos de tocar   
fala, da mesma sorte que os dedos não 8<1.0 pinHo   nem os
 joelhos os órgãos da genuflexão religiosa.

A fala não é uma atividade simples executada por um ou mais   órgão'i


 biologicamente a ela destinados. É uma trama extremamente complexa
e ondeante de ajustamentos - no cérebro, no sistema nervoso, e nos
órgãos de articulação e audição - em direção ao fim colimado, que é a
comunicação das idéias.

De uma maneira geral, pode-se dizer que os pulmões se "desenvolveram


em conexão com a função vital chamada respiração; o nariz como órgão
do olfato; os dentes como órgãos úteis para triturar o alimento, ingerido
em condições impróprias para a digestão.
Se, por conseguinte, esses e outros órgãos são constantementc utili-
zados na fala, é apenas porquc um órgão qualquer, \lma vez existente e
na medida em que depende do governo da vontade, pode ser utilizado
em aplicações secundárias. No que tange à fisiologia, a fala é uma função
I
cxcrescente, ou, para sermos mais precisos, um grupo dc funções excres-
centes. Tira o proveito quc pode de órgãos e funções, ncrvosos e muscu-
lares, que se criaram e se mantªm para outros fins muito divcrsos.
É vcrdade que os psicofisiologistas aludem à   locali7.ação da fala no
cérebro.
Isto só pode significar que os sons da fala estão localizados na região
auditiva do cérebro, ou numa parte limitada dessa região, precisamente
como outras espécies de bons cst~o aí localizados; e que os processos mo-
tores previstos na fala (por exemplo, os movimentos das cordas vocais
na laringe, 08 movimentos da língua necessários à emissão das vogais.
08 movimentos dos lábios neces.'l.ários à articulação de certas consoantes
e muitos outros) estão localizados na região da atividade motriz, preci-
samente como todos os demais impulsos das di\'Crsas atividades motrizes.
Da mesma maneira, é na região visual do cérebro que está localizudo o
governo de todos aqueles proces.'lo.'l de reconhecimento visual impostos na
leitura. Naturalmente, os pontos particulares, ou grupos de pontos, da
localização, nas diversas regiões cerebrais, referente a um dado elemento
lingüístico l'Rtào ligados entre si por linhas de associação, de ~orte que
o aspecto externo, ou psicofísico, da linguagem é o de uma vasta rede de
locali7.ações aRsociadas, no cérebro e nas regiões nervosas inferiores, sen-
do fundamentais, sem dúvida, entre todas, as locali7.ações auditivas.
Contudo, um som da nossa fala localizado no cérebro, mesmo ass0-
ciado aos movimentos dOR órgãos fonadores neces..",ários para produzi-lo,
está longe dc ser um elemento da linguagem. Cumpre-lhe, a mais, ass0-
ciar-se com outro elemento ou grupo de elementos da noSSe'),experiência
digamos, por exemplo, uma imagem visual, ou uma cla88e de imagen'i
visuais, ou um sentimento de rela<.:iio - para que possa ter valor lin-
~üístico sequer rudimentar. E s. o ;e   elemento da no~a experiência é o con.
tcúdo, 011 "significado" da unidade lingüística; os vários proces..'IDScere-
16 A LINGUAGEM

 brais, como o auditivo e o motor, imediatamente anteriores ao ato de fa-


lar e ao ato de ouvir o que .se fala, são como um símbolo   complicauo ou
um índice desses "significados",   fuja   essência   p.studaremos mais adiante.
Já   vemos, portanto, que a linguagem, em si mesma, não é nem podo
ser Ioealizada de uma maneira definida, pois consiste numa relação sim~
 bólica toda peculiar - e fisiologicamente arbitrária _ entre todos os
elementos da nossa experiência, de um lado, e, de outro lado, certos ele-
mentos ~leciollados. localiza~os nas regiões auditiva, motriz, etc. do cé-
rebro e do sistema nervoso.
Só podemos dizer que a linguagem está localizada no cérebro D O   sen~
tido geral. e praticamente inútil, com que dizemos que todos os aspectos
da nossa consciência, todos os interess<.>se toda a atÍ\idade do homem
"residem no cérebro".
Logo, não há outra solução senão aceitar a linguagem como um sis-
tema fnncional completo que pertence à constituição psíquica ou "espi.
ritual" do homem. Não é possível defini-la em termos psicofísicos, por 
mais essencial que seja uma base psicofisica para os atos lingüísticos do
individuo.
Do ponto de vista do fisiologista ou do psicólogo, pode parecer qu~
é fazer uma abstração precária propormo-nos a tratar do tema da lin.
guagem sem referência constante e explícita àquela base.
Mas tal abstração se justifica.
Podemos com proveito tratar da intenção, da forma e da história da
linguagem, precisamente como tratamos de qualquer outro aspecto da
cultura humana - da arte ou da religião, por exemplo - à maneira .de
uma entidade institucional ou cultural, deixando de lado os mecanismoS'
.orgânicos e psicológicos que a condicionam, como coisa aceita uma vez
 por todas.
Fica, por conseguinte, entendido que esta introdução ao estudo da
fala não se preocupa com os processos fisiológicos e psicofisiológicos pres-
supostos no ato de falar. O nosso estudo da linguagem não é o da gênese
e operação de um mecanismo concreto; é, antes, um inquérito acerca da
fW1Çãoe da forma desses sistemas arbitrários de simbolismo conhecidos
 pelo nome de ulínguas".
Já aqui observei que a essência da linguagem está em atribuir sons
convencionais, voluntariamente articulados, ou um equiYalente desses
sons, aos diversos elementos da nossa experiência.
O vocábulo "casa" não é um fato lingüístico se apena.':Ivirmos nele
o efeito aCllStico produzido pelas vogais e consoantes que o constituem
 pronunciadas em certa ordem; nem os processos motores e as sensações
táteis resultantes da articulação do vocábulo; nem a percepção auditivo.
dessa articulação por parte do om;ntej nem a percepção visual do vocá-
 bulo na página manuscrita ou impressaj nem os processos motores e as
sensações táteis que fazem parte do ato de escrever o vocábulo; nem a
.memória de uma dessas ou de todas essas experiências.
É só quando ('ssas, c Jlossl\'elmente outras, experiências associada.,;
:se.associam por sua vez com a imagem de 11ma casa, que começam < 1
tomar  < 1   feição ue símbolo, de pala na, de elemento lingüístico.
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 17

.Mas não é suficiente o simples fato de tal associação.


Uma pessoa pode ter ou\-ido uma dada palavra numa dada casa
1':TI   c;muições impressivas, c desde então, aquela palavra e a imagem
daquela casa se associam de tal sorte no seu espirito que a presença
de uma na consciência determina a presença da outra. Esse tipo dc
associação não constitui linguagem.
A associação tem de ser puramente simbólica; em outros termos,
o vocábulo tem de denotar, anexar a imagem, não tem de ter outra apli-
cação senão a de uma fieha de referência para todas as ocasiões D e.
cessárins ou   conn'llieDtcs. Tal associação, voluntária c até certo ponto
arbitrária com.o é, requer um considcrá\'cl exercitnmento de atenção
consciente. P<'1o111N105 nos primeiros tempos, porque o hábito a torna
 bem depressa quase tão automática como todas as outras associaçõcs
mentais e mais rápida do que a maioria delas.
:Masfomo,i, sem querer, um pouco longe demais.
Experi~ncia ou imagem auditiva, motri7. ou visual - o. símbolo
"easa", se relacionado à   única imagem de uma dada casa vista em dada
ocasião, tah"ez possa, dentro de um critério indulgente, ser considerado
elemento de nossa falaj mas é   óbvio desde logo que uma fala assim
constituída tem ponco ou nenhum valor para o fim da comunicação
entre os homens.
O universo das nossas experiências precisa de ser enormemente sim-
 plific~do e generalizado para que scja possível fazer um im"entlÍrio
simbólico de todas as nos.<>as experiências de coisas e relações; e um in-
ventário desses é imperativo para podermos transmitir idéias.
Os elementos da linguagem, os símbolos que ficham. a experiência
humana,. de\.em, portanto, estar associadas a grupos inteiros, classes de.
limitadas de experiência, que não as próprias experiências individuais.
Só assim é   possível a comunicação entre os homens: pois a experiência
individual, alojada numa consciência individual, é,   a rigor, incomuni-
cánl. . Para co~wljcar-se, é.lhe necessário ser atribuída a uma c!assc
que a comunidade humana tacitamente aceita como identidade. É assim
que wna impressão singular que eu tive de determinada caSll passa a
identificar~se com todas as minhas outras impressões a respeito, ante-
riores e posteriores.
E não basta.
É preciso que a minha memória generalizada, que é a minha "noçãol)'
desta casa, se dissolva com as noçõcs que todos os outros indivíduoo,
que virem a casa, dela formaram. O caso de uma experipncia singular,
que consideramos a princípio, ampliou-se agora, portanto, e abarca
todas as impressões ou imagens possíveis que seres humanos formaram,
ou poderão formar, da casa citada. Esta simplificação preliminar da
experiência é,   no fundo, a que apresentam um grande número de ele-
mentos lingüísticos; a saber, os chamados nomes próprios, nomes de
animais'c coisas individuais. t, em última análise, o tipo de simplifi-
cação que a história e a arte pressupõem ou têm por escopo.
Mas não podemos contentar.nos com essa medida de redução na in-
fini<lr.de da expcrii'ncia humana.
Temos de ir ao âmago das coisas c amalgalnar massas inteiras de
experiências, até certo ponto tiio scm.<"lhantesque nos pC'rmitam - gros-
18 A LlNGUAGEM

seira mas com'cnientcrnentc - tratá-Ias como idênticas. Considera-se


que esta casa, c mais aquela, c mais 1I1ilharcs de fenômenos análogos ofe-
recem suficientes tra~os comuns, apesar de grandes e   óbdas   difcrcnC:lls
de uNalhc. c classifica-se n todos debaixo de   um ml'Srtlo   título.
Em outros termos, o elemento lingüístiro "casa" é   o símbolo ini-
cial e final, não de uma percep«:ão isolada, ou sequer da noção de   Ufficl
coisa particular, m a:i   de um "conceito", isto é,   de uma cômoda cápsu-
la de pensamento, que contém milhares de experiências distintas e é
capaz de absorver milhares de outras mais. Se cada elemento lingüís-
tico significante é o símbolo de um conceito, o desenrolar da nossa fala
 pode ser interpretado como a apresentação de certas relações estabele-
çjdas entre esses conceitos.
Tem.ge ventilado a miúdo a questão de saber se o pensamento. é
 possível sem a linguagem; mais ainda, se a linguagem c o pensamento
não são duas facetas do mesmo processo psíquicoo
A qucstão é tanto mais árdua quanto tem sido desfigurada por 
certas incompreensões.
Preliminarmente, convém ohsenoar que, quer o pensamento neces-
site, quer não nc(~cssit(' de sim1Jolismo, isto é, da linguagem, a manifes.
tação desta última não indica sempre a pref-Clu:a de pensamento. Vimos
que o elemento lingüístico típico rotula um conceitoo Kão se scgue daí,
 porém, quc o uso da linguagem seja sempre ou quase sempre, conceptual.
 Na vida comum, preocupam nos menos os conceitos do que certas parti.
cularidades concretas e rcla~ões específicas. Quando digo, por exemplo
- "Fiz um bom almot;o hoje de manhã", é dam que não estou em tra-
 balhos de um pensanH'uto substarlf'ioso, e que o que eu tenho para trans.
mitir não passa de uma lC'mbloaIH;aagradiivel que entrou pelos canais
da expressão habitual. Cada elemento 'da scnlem;a define um dado con-
ceito, ou uma dada rela<;ão conceptual, ou a combina,:üo dc um e de ou.
tra, mas a sentença em seu conjunto nüo tcm o mcnor alcance conceptual.
t como se um dínamo, capaz de gerar a 1'or,:a elétrica que f.{o\'er-
na um ascensor, se limitasse a alimentar a campainha de um portão,
O   cotejo é   mais sugestivo do que parece à primeira vista,
Pode-se considerar a linguagem um instrumento c"'paz de percor-
rer toda uma gama de usos psíquicos. O   seu desdobramento não se li.
mita a acompanhar o conteúdo interno da consciência; acompanha~o
~m nh'eis diversos, indo desde o estado mental que é dominado pelas
imagens conClocta8, até   aquele   em que só são focali70ados pela atenc:ão
os conceitos abstratos e as suas rchH;õcS, () que (,OIlHlrnentc recebe o nome
de raciocínio, Destarte, apenas a forma exterior da linguagem é   con.s-
tante; a significa<;ão interna, o valor ou intensidade psíquica, .varia li-
vremente com a aten~ão ou o interesse seleti\'o do espírito, e também -
inútil é dizê-lo - com o descnvohoimcnto gernl do espírito. Do ponto
de vista da linguagem, pode-se definir o pensamento como sendo o mais
alto conteúdo latente ou potencinl da fala, o conteúdo que se obtém
com atribuir a cada um dos elem{'ntos do discurso o seu valor conceptual
mais pl('no, Daí s(' seglH~ quc a linguagem e o pensamento não são   e,'itri.
tamente eoinci<1clltes. Quando mnito, a ling-uagem pode chegar a ser fa.
ceta externa (lo pellsamento, no nível mai~ alto e gemi da expres.<Ül.')
simbólica o
PARTE INTRODUTÓRIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 19

Para   aprCHcntar    sob oulra forma a nossa doutrina, digamos que


a linguagem é, primariamente, uma função pré-racion.aJ: Limita-sc com
humildade a ('ntre~ar ao pensamento, nela latente e eventualmente ex-
teriorizável, as suas elassifica~ões c as suas formas; não é,   como ingê-
nuamente se costuma supor, o rótulo final de um pt'nsarncnto concluído.
Perguntando à maioria das pessoas R C   lhes é possível pensar sem
a linguagem, obteríamos provavelmente es1a resposta: "Sim, mas   IlÚO é
('oisa fácil. Contudo, sinto que é   possÍ\'cl",
A linguagem é então uma roupagem!
. E se fósse, ao contrário, não tanto uma roupagem quanto uma ~.

trada feita, um canal!


Com efeiro, é mais do que provável que a linguagem seja um ins-
trumento aplicado, de início, abaixo do plano dos conceitos e que o
 pensamento tenha surgido de uma interpretação requintada do cor~teú-
do lingüístico.
Em outros termos,' o .produto descJ1yoh'e-se com o instrumento, e o
 pensamento, na sua gênese e na sua prática diária, é tão inconcebh'el
sem a linguagem quanto o raciocínio matemático é impraticável sem a
alavanca de um simbolismo matemático adequado. Ninguém supõe que a
mais difícil, embora, das proposições matemáticas esteja na dependên-
cia inerente de um jogo arbitrário. de símbolos; mas é impossível ad-
mitir que o espírito humano, sem isso, seja capaz de alcanc:ar e apreen-
ocr uma proposição de tal ordem.
O autor deste livro está convencido de que a impressão que tem mui-
ta gente, de poder pensar, ou até raciocinar, sem linguagem é uma ilu-
são.
Tal ilusão parece-nos provir de um determinado grupo de fatores.
O mais simples deles é a incapacidade de distinguir entre a eyoca-
ção das imagens e o pensamento. ~ inconte~táyel que tiio depressa tenta-
mos pôr uma imagem em relação consciente com outra, sentimo-nos ar-
rastados para um curso silencioso de palavras. Pode ser que o pensa-
mento seja um domínio natural, separado do domír.io artificial da fala,
mas a fala parece ser a única estrada conhecida que nos conduz a ele.
Outra fonte ainda mais freqüente de impressão ilusória de que a
linguagem pode' ser posta de lado no ato de pensar, é a incapacidade que
geralmente se tem, de compreender que a linguagem não' se confunde com
o seu simbolismo auditivo.
O simbolismo auditi\.o pode ser substituído, ponto por ponto, por 
u:n. simbolismo motor ou visual (muita gente, por exemplo, é capaz de
ler num sentido meramente visual, isto é\ sem o elo intermediário de
uma série de imagens mentais auditivas, correspondentes às palavras
impressas ou escritas), ou pode ainda ser substituído por outros tipos.
mais ~utis e fugidios, de transferência, que já não são tão fáceis de definir.
Dizer, portanto, que se pensa sem linguagem, porque não se percebem
 jmagens mentais auditivas coexistentes, está muito longe de ser uma
a firmução válida.
l~-nos lícito ir ao ponto de suspeitar que a expressão simbólica do
 pensamento pOS8a, em alguns casos, desenrolar-se fora dos lindes da
consciência, de sorte que a impressão de um curso de pensamentos estre-
mes de linguagem é, para espíritos de certo tipo, relativamente justifi-
20 A UNGUAGEM

cúvcl, mas só relatiysmente.


Em termos psicofísicos, isto significa que os centros mentais audi-
tivos. ou seus equivalentes \'isuais ou motores, justamente com as linhns
adequadas de associação, que formam. a contra parte cerebral da fala, são
tão levemente tocados durante o processo de pensar que não emergem
na consciência.
Seria um caso limite - o pensamento pousando de leve nas grim-
 p r. g   ~ubmersas da linguagem, em vez de cingi-las para vir à tona com elas.
A psicologia   modernél.   tem demonstrado com que pujança o simbo-
lismo trabalha no cérebro inconsciente. É-nos, portanto, mais fácil com-
 preender hoje, dú que há vinte anos passados, que o mais rarefeito pen-
samento pode não passar da contraparte consciente de um simbolismo
lingüístico inconsciente.
Ainda uma palavra a respeito da relação entre a linguagem e \)
 pensamento.
O ponto de ,ista que assumimos, não exclui de maneira alguma fi
 possibilidade de ser o crescimento da linguagem em alto grau depen-
dente do desenvolvimento do pensamento.
Podemos admitir que a linguagem surgiu pré-racionalmente - de
que modo e em que nível da athidade mental não saberíamos dizcr ao
certo - mas não queiramos supor que um sistema altamente desenvol-
vido de símbolos vocais se tenha "estabeleddo antes da gênese d06 con.
ceitos distintos e da faculdade de pensar, que lida com êsses conceitos.
~ antes de crer que os processos de pensar se firmaram, como uma es-
 pécie de fluxo psíquico, quase com os primeiros tentames da expressão lin.
güística; e que, a seguir, o conceito, uma vez definido, reagiu sobre a ,ida
do correspondente símbolo lingüístico, incentivando um ulterior cresci-
mento da linguagem.
Ainda nmos esse complexo processo de interação da liuguagem e do
 pensamento realizar-se atualmente sob os nossos olhos. O instrumento
torna possível o produto, o produto aperfeiçoa o instrumento.
O advento de um novo conceito é invariàvelmente" facilitado pelo
, uso mais ou menos forçado de um antigo material lingüístico; o con.
ceito não atinge a uma vida individual e independente. senão depois do
ter encontrado uma encarnação lingüí!Ztica própria. l'a maioria dos ca.
sos, o novo símbolo é apenas qualquer coisa extraída do material lingüís.
tico já existente, à custa de métodos norteados por prc<:edentes, que se
impõem" ditatorial c esmagadoramente. Assim que possuímos a nova pa-
la\Ta, sentimos instintivamente, como que com um suspiro de alivio, que
o conceito está em no~as mlios. Só depois de termos o símbolo é   que sen-
timos também ter uma chave para o conhecimento ou compreensão ime-
diata do conceito. Seríamos tã.o prontos a morrer pela "liberdade", a
lutar pelos "ideais", se estas ,duas palavras não estivessem estridulandG
dentro de nós? Aliá.'3,a palàna, como bem sabemos, pode deixar de ser 
uma chave; pode também ser um grilhão ...
"A linguagem é,   antes de tudo, um sistema auditivo de símbolos.
 Na medida em que é articulada, também é   um sistema motor; maR 
êste seu aspecto motor  é e,identemente secundário em relação ao audi-
tivo. ~os indivíduos normais, o impulso para o discurso parte da esfera
das imagens auditivas, e daí se transmite aos nervos motores que go,.ernam
os órgãos da fala. Os processos motores e as conseqüentes" sensações motri-
PARTE INTRODUTORIA: LINGUAGEM E SUA DEFINIÇÃO 21

zes não são, contudo, a conclusão, o ponto de parada final. São simple.+
mente um meio de atingir e reger a percepção auditiva, tanto de quem
fala como de quem ouve. A comunica~ão, que é   o' verdadeiro objeto do
discurso, só se efetua eficientemente, quando as percepções .auditivas de
quem   ouve são vertidas para a série, apropriada e colimada, de imagens,
de pensamentos, ou de umas e outros combinados.
Logo, o ciclo da fala, na medida em que se pode considerar um ins-
trumento puramente exterior, comec;:ae termina no reino dos sons. A
.concordância entre as imagens auditivas iniciais e as percepções auditi.
'~ 8Sfinais é o selo, a garantia social do. bom êxito do processo executado.
Como já. vimos anteriormente, o curso típico desse processo pode
sofrer inúmeras modificações, ou transferenllias em sistemas equivalenteM 1

sem perder com isso os seus genuínos caracteres formais.


A mais importante dessas modificações é a abreviação do processo
da fala implicada no ato de pensar. Manifesta-se indubitàvelmlJnte de
muitas maneiras, segundo as peculiaridades estruturais ou funcionais
de cada cérebro,
O   seu aspecto menos modificado é aquele que consiste .no ''falar de si
 para si" ou IIpensar  em   voz alta". Aí, quem fala e quem ouve resumem-
se numa s6 pessoa, da qual é licito dizer que se comunica consigo mesma.
De maior relevo é a abreviação mais acentuada em que os sons ,vo-
cais deixam de ser articulados. A ela se prendem todas as variedade.'f 
de discurso silencioso e de pensamento normal. Só há excitação dos cen.
tras cerebrais auditivos; ou, então, o impulso para a expreBeão lingüís-
tica comunica-se também aos nervos motores que se comunicam com 08
órgãos da fala, mas sofre uma inibição quer nos músculos desses 6rgãos,
quer num ponto dos próprios nervos motores; ou, ainda, talvez, os cen-
tros auditivos mal são ou não são sequer impressionados; e o proces.~
ua fala manifesta-se diretamente na esfera 'motriz.
E deve haver, além desses, outros tipos de abreviação.
Quão comum é a excitação dos nervos motores na fala silenciosa,
de que não resultam, entretanto, quaisquer articulações visiveis ou au-
cliveis, nos prova a nossa sensação freqüente de fadiga nos 6rgãos vo-
cais, particularmente na laringe, depois de uma leitura excepcional-
mente estimulante ou de um estado de reflexão intensa.
Todas as modificações até agora consideradas estão diretamente amol-
dadas ao processo típico da fala nonos!.
De maior interesse e importância é a possibilidade de transferência
de todo o sistema do. simbolismo lingüístico em têrmos outros que não
os pressupostos no ato típico de falar.
Esse ato, como ,;mos, é a execul).ãode sons e de movimentos destina-
dos a provocar tais sons, Não entra em jogo o sentido da visão.
Suponhamos, porém, que não se ouvem apenas os sons articulado",
mas também se vêem as próprias articulal)ÕC8à   medida que o interlocutor 
as executa. Evidentemente, uma vez atingido um grau suficientemente
alto de destreza na p(>rcep~ão desses mO"imentos dos 6rgãos da fala,
está aberto o caminho para novo tipo de simbolismo lingüístico - aqu~-
te em que o som é substituído pela imagem das articulações que o pro-
duzem. Essa espécie de sistema não tem maior valor para quase todos
nós, que já possuímos o sistema auditivo-motor, do qual é ela, quando
12 A L IN G U A G EM

muito, uma tradução imperfeita, de vez que nem todas as articulações


são visíveis. Ninguém ignora, entretanto, que excelente serviço presta 806
surdos-mudos a arte de "ler pelos lábios", corno método subsidiário para
aprenderem a falar.
O mais importante de todos os simbolismos lingüistic08 visuais é, in-
discut'ivelmente, o do vocábulo escrito ou impresso, a que   corrc'..sponde,
na esfera motriz, o sistema de movimentos delicadamente ajustados que
I'c"iultam na escrita, na dactilografia e em outros métodos gráficos de
exteriorizar a linguagem.
O traço significativo que caracteriza es.<;esnovos tipos de simboIi!{-
mo, além da peculiaridade de já não serem um subproduto da fala nor.
mal propriamente dita, é que cada elemento (letra ou vocúbulo gráfico),
no sistema, corresponde a um elemento específico (som, grupo sonoro,
ou vocábulo pronunciado) no sistema primário.
A linguagem escrita, para empregarmos uma frase matemática, é
assim uma equivalência termo a terInO da sua contra parte falada. A:J
formas escritas são símbolos ~undúrios das formas faladas - sim-
 bolos de outros s.fmbolos - mas, não obstante, é tilo exata a ~orl'E~spon.
dência que se podem substituir inteiramente aos outl'OS, não apenas em
teoria, mas ainda na prática atual dos que só lêem com os olhos, e até
talvez em certos tipos de reflexão mental.
Apesar de tudo, é prová ••.el que as associaçõcs auditivo-motrizes
 persistam latentes pelo menos, isto é,   entrcm inconscientemente em jogo.
Até as pessoas que lêem c pensam sem em nada apelar para as imagens
sonoras., não prE'scindem, em última análise, daquelas associações. Estão
apenas manuseando o meio circulante, a moeda dos símbolos visuais, como
um substituto cômodo dos bens c scnif,os econômicos, que são os sím-
 bolos 811ditivos fundamentais.
As possibilidades de transferência em linguagem são praticamente
ilimitadas.

Exemplo vulgar é o côJigo telegráfico ~Iorse, em que as letras da


 palavra escrita são representadas por uma seqüência convencionalmente
estabelecida de pancadas longas e breves. Aí a transferência parte mais
da palavra escrita do que diretamente dos sons vocais. A letra do cc)..
digo telegráfico é,   portanto, um símbolo do símbolo de um símbolo. Disso
não se conclui, naturalmente, que o operador ade.strado, a fim de chegar 
à compreensão da mensagem telegráfica, tenha de transpor a seqüência
individual das, pancadas na imagem visual do vocábulo, para, em se-
guida, mauifcstar.sc-Ihe a imagem auditiva normal. O método exato
de ler mensagens telegráficas muito ,'aria, sem dúvida, com o indivíduo.
:f; até concebível, se não a rigor provánl, que certos operadores, no qUf!
tange pelo me,nos à   parte consciente do ato, tenham aprendido a pensar 
. diretamente em termos de um simbolismo de pancadas metálicas, ou,
se têm por ventura forte propens~o natural para o 8iJnbolismo motor,
em termos de um simbolismo tátil-motor correlato, ue!oien\"olvidocom a
 prática de despachar as mensagens. Outro inte~es-<;antegrupo de tipo,;
de transferência lingüístic-a é I) das diferentes linguagens de gestos, para
uso' dos surdos-mudos, dos mongt'.<..;   trapistas .votados a silêncio perpétuo, GU
de interloeutor('s que se defrontam fora do alcance da voz.
PARTE INTRODUTÓRIA, LINGUAGEM E SUA DEFINiÇÃO 23

Alguns desses sistemas são equival~ncias termo a termo da fala


normal; outros, ('orno o simbolismo dos gestos militares ou a linguagem
mímica dos Índios uas   planuras norte.amP-l'i('anas (compreendida por 
tribos que falam línguas mutuamente   inilJteligÍ\'cis). são transferência ..•
imperfeitas, que sc   limitam a   apresentar  certos elementos   lingüístic.o':l
de maior monta, mínimo indispensável para a~ circunstâncias críticas.
Xestes últimos sistemas, bem como nos simbolismoR ainda mais imper-
feitos que s'e usam no mar ~u nas selvas, poderia parecer que a lingua-
guem já não entra propriamente em ac,:ão, c que as idéias são diretamente
transmitidas por um processo simbólico perfeitamente distinto ou por 
um método de imita~ão quase instintiva. Seria errônca ta! ionterpretação.
A intcligibilidade desses simbolismos tão 'lagos, só é explicável, porque
eles se traduzem automaticamente c silenciosamente para ().•~ termos da
fala plena.
Resta, portanto, concluir que toda comunicação voluntária de idêias,
feita fora da fala normal, ou é uma transferência direta ou indireta d'J
simbolismo típico da lingungem que se fala e se ouve, ou pressupõe pelo
menos a ação intermediária do vcrdadeiro simbolismo lingiiistico,
Ai cstá um fato da mais alta importância.
O jogo das imagens auditivas c das correlatas imagens motrize.'i
que conduzem à articula<:áo, constituem, qualquer que seja o desvio de
 processo adotado, nascente histórica de toda linguagem c de todo pen-
Mrnento.
E ainda há outro ponto de maior importánC'ia,
A facilidade com que o simbolismo da fala se transfere num c nau.
tro sentido, de uma ti'<.'nica para outra, está por si só indic:mdo que os
merOS sons ,'ocais não são o fato essencial da linguagem, ('on.<;i~tindo toste,
mais propriamente, na dassificac:ão, na modelagem e na r;cria'.:ão dos
conceitos. Mais uma vcz, a linguagem, como ~strutura, mostra ser, na
sua face interna, o contorno do pensamento.
f~esta lillg"n:Ig'('m ahstrata, mais do que os fatos 'físicos <la elocução,
que nos interrssa rTll nosso inquérito.
 Não há fato geral mais rele\"ante   ('111 referência à linguagem do que
a sua uni\"crsaljdadr.
Pode-se pôr    ('In dúddn que uma ou outra tribo se entregue a ati.
\'idades di::;nas do nome de religião ou de arte, mas não sc sabe de nenhum
 povo que núo   p0'ilõlla uma língua plenmnelltc d('sell\"ol"idn. O ínfimo bo~
xi mano sul.afri('&no rxprime.se nas 'formas de um rico sistemü lin~üís.
tico, perfeitamente comparável em essência à fala dos civilizados fran.
ceses. Não é preciso dizer (IUe os conceitos mais abstratos não são a ri.
gor tão luxuriantemente reprrscntados na linguagem do homem selva,
gem, bem como lhe faltam a rica termino~ogia e a sutil delimitação de
matizes que slio o reflexo de uma cultura superior, )las essa espécie de
desenvolvimento lingüístico que acompanha o crescimento histórico de
uma cultura e Que, nos seus últimos estágios, costumamos associar com
a literatura, é, a rigor, qualquer coisa de artificial.

o material básico da linguagem - o desNlVolvimento de sistema fo-


nético nitido, a associação específica dos. elementus vocais com os con~
ceitos, e a provisão delicada de expressões formais para toda sorte de
relações - tudo isso se nos depara rigidamente rl'aliznJo e sistematiza.
24 A LINGUAGEM

do em qualquer língua conheeida. Muitas línguas primitivas possuem,


aliás, uma riqueza de formas e uma luxuriância latcate de expressões quo
eclipsam tudo o que se conhece nas línguas de civilização moderna. Atá
no simples setor do inventário lingüistico, o leigo deve-se preparar para
estranhas surpresas. Não passa de um mito a afirmação vulgar de que as
línguas primitivas estão condenadas a uma extrema pobreza de expressão.
 Não é menos notável do que   CSSJl   universalidade da linguagem a sua
quase incrível diversidade.
Aqueles dentre n6s   quP.   estudaram francês ou alemão, ou melhor 
ainda, latim ou grego, sabem que formas variadas pode assumir um
 pensamento. As divergências formais entre o modêlo inglês e o latino
são, entretanto, comparativamente insignificantes diante da perspectiva
do que conhecemos de mais exótico nos inúmeros modelos lingüísticos
do presente e do passado.
A universalidade e a diYersidade da fala conduzem-nos a uma in.
ferência significativa.
Forçam.nos a acreditar que a linguagem é uma herança imensa-
mente antiga da raça humana, sejam ou não sejam todas as suas va~
riantes desdobramentos hist6ricos de uma única e pristina forma. ~ du.
vidoso que outra qualquer aquisição cultural do homem, seja ela a arte
de acender fogo ou a de lascar pedra, possa proclamar maior vetustet..
Inclino--me a crer que precedeu até os aspectos mais rasteiros da cultura
material, e que eles, na realidade, não foram estritamente possiveis até o
momento em que se delineou a linguagem, instrumento da expressão sig-
nificativa.
ao Capítulo 1

1. [KiUdeer  é o nome de um pequeno pássaro norte-americano, del'lconhecid.,


entre nós   (acg1oHlfl6 voci/enu). E'spkie de   "tarambolo".   Cuckoo   corrE'Sponde ao por-
tugnê .• "cuco", que nlio é, entretanto, como o nom4't inglês, uma criação onomatopai.
e& direta,   derivandO-lIe do latim cuculu-. Pareceu-ROl' &eoll8elhãvel btUlC&t   um e.zem.
 pio nosso com pleno valor    ilUltrativQ.]

2. [Os exemplos do original inglês são:   whipPQOf'wilJ   (pãssaro   norte-umf'rican<>,


oaprimulgw 1Jooilerw), to mew   (port. "miar") e to   ('4U)   (port.   ugra..snar", que   nli.o
~ onomatopéia direta, pois vem do latim   CT'ocitare). Na exemplificação em port'J-
guês obedeceu.se ao critério exposto Da   nota anterior. I
2.0s Elementos da Fala

Já nos referimos mais de uma vez aos "elementos da fah", enten-


dendo sob essa expressão grosso modo, aquilo que geralmente tem o
nome de "palavras" ou "vocábulos';1. Cumpre-nos alentar melhor para
t'sses   elementos c familiarizar-nos com a   matéria-prima da linguagem.
O   mais   simples elemento da fala, - c por "fala" entenderemos da-
qui por diante o sistema auditivo do simbolismo ling-üístieo, a corrente
das palavras pronunciadas -, é   o som uno, embora, como '"eremos
adiante, o som não seja em si mesmo uma estrutura simples, senão o
resultado de uma série de ajustamentos indepcndentrs, mas mtimamen-
le correlatos, dos órgitos vocais.
Xão obstante, o som simples não é   a rigor um elemento da fala,
 porque a fala é uma função significati,'a, e o som, considerado em si
mesmo, não tem significação.
Pode acontecer quc um som simples venha a ser isoladamentc um
elcm('nto significativo (como, no caso do francês a "tem" e à   "para",
ou do latim i ''''ai''), mas trata-se dc uma coincidência fortuita entre
o som e o termo significativo. E isto não apenas cm teoria, mas até
muitas vezes na realidade histórica do fato; é   assim que os exemplos ci-
tados vêm a ser meras forma ••. reduzidas de grupos fonéticos origina-
riamente mais longos - latim   habet  e ad,   e indo-europeu ei   respectiva-
mente. Se a linguag-em é uma estnttura e os seus elementos significativos
os tijolos que a eompõcm, os sons vocais ~ó podem ser comparados com
o barro informe e cru de que se fazem os tijolo.'S.

 Neste capítulo, portanto, não nos preocuparemos mais com os sons


considerados como tais.
Os elementos verdadeiramente signifieati,'os da linguagem são cm
geral seqüências de sons, que tanto podem constituir palavras como par-
tes significativas de palavras, ou, ainda, grupos de palavras. O que
distingue cada um desses element03 é que ele representa o sinal externo
de uma idéia específica, seja um eOilceito uno, uma imagem una, ou
ccrto número de conceitos ou iml1g-ens nitidamente ligadas num todo.
28 A UNGUAGEM

A palavra propriamente dita pode ser ou deixar de ser o elemen.


to significativo mais simples que se nos depara.
Das   pals\Oras   inglesas   sing, [verbo l/cantar"]   si'ngs,   {llele   canta"L   sin-
ging,   ["cantando"]   singe,', ["cantor"], cada uma transmite uma idéia per-
feitamente definida e inteligível, embora seja uma idéia solta e, por 
isso, funcionalmente, sem valor prático:
Reconhecemos imediatamente que tais palavras são de duas espé-
cies. A   primeira,   sing,   é uma entidade fonética indivisível, que transmi-
te a noção de determinada ath;dade específica. As outras três pressu-
 põem a mesma noção fundamentalj mas, em virtude do acréscimo de
outros elementos fonéticos, a noção sofre uma torsão que a modifica ou
lhe dá delimitsl1iio mais precisa. Representam, em certo sentido. con.
ceitos compostos que ~ecorrcm do conceito fundamental. Podemos, por 
conseguinte, analisar as pala'\'ras sings, singing e  singer  como expressões bi-
nárias que encerram um conceito básico, um conceito de "assunto"   (sing).
e, a mais, um concC'itode ordem mais abstrata - de pessoa, de número,
de tempo, de func:ão - ou um grupo desses conceitos reunidos.
Se simbolizarmos um termo do tipo   sing pela fórmula algébrica A2,
teremos de simholizar têrmos como  sings e   singer    pela fórmula A + b.
O   C'lC'ml'nto .1 tanto pode R er  uma palavra independente e completa
(sin!}) romo a substimcia fundarnrntal, a chamada raiz, tema! ou "ele-
mento radica}"   (sill[}-) de uma pnlana. O   elemento b (-s, -ing, -er) é
o índice ue um conccito subsidiário e em regra mais abstratoj pode-se
dizer que acresc('ntn ao cOllceito básico uma limitação formal, dando-
I o lC à   palavra "formA.t, o s<'u alcance mais lato. Podemos chamá-lo um
"('!('nwnto   g-ramatical"'ou afixo.

Como vcremos mais adiante, o elemento gramatical, que será me-


lhor, a rigor, denominar Hincremento gramatical", pode não vir sufixado
ao radical. Pode ser um elemento prefixado (como   U1l- valor negativo, de
unsingable), pode inserir-se no próprio corpo da raiz (como o n. do latim
vinco,  OIvenço", em contraste com a sua ausência em  vid, uvenci"), pode ser 
uma repetição completa ou parcial da raiz, ou pode consistir em alguma
modificação na forma interna da   hLIZ (mudança de vogal eomo em
sung e   $ong 4), mudança de consoante eomo em   dead, [porto IImorto"]
e   death [porto "morte"]; desIocação de acento; abreviação posterior.
Esses diversos espécimes de elementos e modificações gramaticais afere.
cem uma peculiaridade comum: não poderem na maioria dos casos ser 
usados isoladamente, mas ao contrário precisarem de qualquer maneira
adaptar-se ou soldar-se ao radical para transmiti!' uma noção inteligf-
ve1.
Émelhor, portanto, modificarmos a nos.<;afórmula A + b   para
 A + (b), indicando os parênteses a incapacidade de ter o elemento
vida separada.
Além disso, o elemento gramatical não se limita em ser inexistente
quando não cstá asso~iado a um radical j tem a mais a peculiaridade de
em regra dever a medida de sua significa~ão à classe particular do elemento
radical a que se juntou. ~ as.qimque o -$   do inglês   he hit$   [port. <lele
acerta o alvo", com a desinência $ da 3,. pessoa do singul3r) simboliza
noção muito dh-ersa do -$ de   book$ {porto Hli\"ros",com a desinência -s
do plural), simplesmente porque hit  e   book  têm classifica,:ão diversa
os   ELEMENTOS DA FALA 29

quanto à   sua função. [O   mesmo podemos dizer, por exemplo, em por-


tuguês do a   final de "canta" verbo "cantar", e do a   final de "gata"
oposto 8 "gato"].
Apressemo-nos a salientar, por outro lado, que, sc é   verdade que
o elemento radical pode uma vez ou outra identificar-se com uma pala-
vra, não se segue daí que possa sempre, ou habitualmente sequer, ser 
usado como palavra. Assim,   hort.,   jardim, de formas latinas como   hortus;
horti, e   horto,   é uma abstração tão inegável, apesar de apresentar um al-
cance mais facilmente aprec.nsivel, quanto o sufixo   -ing de   8ÍlIgillg.
 Nem um D ., e m outro existem como elemento lingüístico, independente-
mente inteligível e satisfatório.
Logo, tanto o radical propriamente dito como o elemento gramatical
&10 apreendidos, cxclush-smentc, por um processo de ab~tra<;ão. Pare.
ccu.n08 con,-enicnte indicar    sing-cr  por  A +   (b); hortus   deve ser, pois,
indicado por (.1) +   (b).
Até aqui, a palsna foi para nós o único elemento lingüístico e~-
contrad{\ cuja existência possamos afirmar. Antes de dcfini.la, entretan.
to, convém examinar "mais de perto essa espécie de pa~avra ilustrada por 
sing_ Teremos realmente razão para identificá-la com o elemento radi-
cal? Representa realmente ela uma correspondência simplcs entre o COIl.
('cito C a expressão 1ingüística~ Açuele elemento  sing.,   que deduzimos de
sings, singing e   singe,'   e a que podemos com exatidüo atribuir um valor 
conceptual geral e im'al'iáyel, será o mesmo fato lingüístico da palan'a
sing' 
Seria quase absurdo pô-Io em dúvida; mas, não obstante, basta uma
ligeira reflexão para mostrar que a dúvida é de todo justificável.
A palavra   sing não pOde, como ninguém ignora, ser usada de tal
maneira que só se refira ao seu conteúdo conceptua!. A existência de
formas tão evidentemente congênitas como  sang e   sung indica, ao pri.
meiro relance, que   sing não se refere ao passado, mas que, ao contrário,
 pelo meo.osem grande parte do seu âmbito de aplicação, sc circunscreve
ao presente. Por outro lado, o uso de   sing   como infinith-o (em   to sing,
 por exemplo, ou em he will sing,   [port, cantará"]li indica haver firme
IO

e forte tendência para. se dar  à palavra a irrestrita amplitude de um


conceito específico. Contudo, se   sing fosse, com exatidão, a expressão as-
sente de um conceito invariável, não haveria lugar para as aberrações
vocálicas que se nos deparam em   sang, sung e   song,   nem iríamos encon.
traI'   sing usado espcclficamente para indicar o tempo presente em todas
as pesso~, exceto uma (a terceira pcssoa do singular    sings).
O   fato real é que   sing   é uma como que forma crepuscular de brilho
vago, entre a posi~ão de verdadeiro elemento radical e a de palavra se.
cundária do tipo   singing. Embora lhe falte um sinal externo para indi-
car que ela traz em si mais do que uma idéia abstrata, sentimos que pesa
sobre ela. uma névoa incerta de valor acrescido. A fórmula A   não pare-
ce representá.la tão bem quanto .•. i +   (O).

Temos a tcnta<:ãode dizer que   sing   pertence ao tipo A + (b) eom


a ressalva de que a parte (b) se esvaÍu. E não estaríamos fantasiando,
 porquanto a evidência histórica prova, com tôda a segurança, que   sing
foi de início uma porção de palavras completamente distintas, do tipo
30 A LINGUAGEM

 A +   (b), que mergulharam na nova forma eom valores separados. A


 parte (b)   de cada uma perdeu-se como elemento fonético tangível; mas
a sua força persiste, atenuada embora.   Sing de   I sing é   o correspon-
dente ao anglo-saxão   singe;   o infinitivo   sing, a   singan,'    o imperativo
sing, a   sing.

Desde a derrocada da morfologia inglêsa, ocorrida ao tempo da Con-


quista Normanda, a nossa língua tem-se posto à cata de simples pala-
vras-conceito, estremes de conotações formais, mas ainda não conseguiu
criá-las, salvo talvez em relação a certos advérbios soltos e outros ele-
mentos   d e s . o m   ordem.
Se o tipo de palavra indccomponÍnl da nossa língua fosse realmente
uma palavra.conceito pura (lipo AL em vez de ser de um estranho tipo
de transição A +   (O),   sing,   work. house, e milhares de outros termo~
seriam comparáveis às genuínas palavras radicais de numerosas outras
Hnguasl S • Tal é, por exemplo ao acaso, a palavra nutka f  hamot.   ~'osso".
O correspondente termo inglês   bone só superficialmente lhe é   compará.
vel.   /lamot    significa "osso" em sentido indefinido; à palavra inglesa
adere a noção do número singular. O Índio nutka poderá transmitir 
a idéia de pluralidade de várias maneiras se quiser, mas não lhe é   pre.
ciso;   hamot    serve para o singular e para o plural, desde quc. não haja
interesse em assinalar a distinção. Ao contrário, tão depressa dizemos
bone (sal .••.
o no uso secundárjo para indicar matéria) [cf. em português
"faca de ossoltL não especificamos apenas a natureza do objeto; ma~
damos a entender, quer queiramos quer não, que se trata de um objeto
só. E esse incremento de valor é tudo.
Conhecemos agora quatro tipos formais distintos de pala\T3s: .•1
(nutka hamot); A + (O) (sing, bone); ,1 + (b) (singing);
(A) + (b)   (latim   IlOrI1ls).
Só há, a mais, outro tipo fundamentalmente po&-;ívc!: A + R,   reu-
nião de dois ou mais radicais independentes num só termo. Tal é o caso
de   {ire-enginc   [porto "bomba de inc(.ndio"] ou uma forma siú equiva.
lente a   eat-stand  ("comer-ficar em pé") (i. e, "comer no momento em
que se está   ('l~ pé") .. Acontece, freqüentemente, porém, que um dos
elementos radicais se torna funcionalmente tão subordinado ao outro que
assume o caráter de elemento gramatical. Podemos servir-nos no caso da
fórmula .ti + b, tipo que gradualmente, pela perda da conexão externa
entre o elcnwuto ~ubordinado b e a sua contraparte independente R,   pode
confundir-sI" com o tipo mais comum .ti +   (b).   Uma palavra como
beautiful {port. "formoso"] (ao pé da letra, "cheio de beleza") é um
exemplo de L i + b,   visto quc a terminação   -{ui   [variante do adjetivo
{uU, "cheio"] mal   pl'('senll   o sinete da sua linhagem. Uma palavra ('orno
homely ["singelamente"], ao contrário, já é   do tipo l1 +   (b),   pois nin-
g-u~m a n:1o ser um ent('ndido dc lingüística pf'r('cl~ a conexão entre .ly
e a palavra independente   like   [da mesma sorte   ql1{', em português, entre a
terminação adverbial   .mente e o subs.tantivo   mente,   cérebro].
Éclaroque, na prática, esses cinco ou seis tipos fundamentais po-
dem indefinidamente complicar~se de várias maneiras.
O elemento (O) pode ter    \.8101' múltiplo; em ontro~ termos, a mo.
os   ELEMENTOS DA FALA 31

diíicação formal, iner('nte à   noc,:ãobásica da palana, pode referir-se a


mais de uma categoria. i\um exemplo tal como o latim   cor,   "corac,:ão"
não há a simples transmissão de um conceito concreto, pois aderem ao
\'ocábulo, quc é   na realidade menor do que o elemento radical   (cord-),
os três conceitos formais, distintos mas entrelaçados, de número singular,
classifica<:ãode gênero (neutro), e caso (sujeito-complemento). A fór-
mula gramatical completa para co r  é,   portanto, ,1 + (O) + (O) + (O)
n30 obstante ser apenas (..1) - a fórmula meramrntc externa e fonética,
indir:muo (A ) a raiz deduzida   COJ'd- e o sinal algébrico "menos" a per-
da de material fonético. O que há de notável em referência a uma pala-
vra como  cor, é quc as tl'~S restric,:õesao eonccito não ficam somente
 pressupostas quando a palana imcrge em seu lugar na sentença; estão
decisivamente entranhadas no vocábulo e não podem ser eliminadas em
ocorrências da prática.
Outras complicações resultam de um desdobramento de partes.
 Numa dada palavra, pode haver vários elementos de ordem A   (o que
Ja simbolizamos com a fórmula .il + B), de ordem   (A), de ordem b,
de ordem   (b). Finalmente esses tipos podem-sc combinar entre si de
inúmeras maneiras.

Línguas relativamente simples como o inglês, ou mcsmo o latim,


só ilustram modesta proporção de tais possibilidades teóricas. Mas, se
tirarmos os nossos exemplos de um como que depósito de línguas, de lín-
guas exóticas tanto quanto daquelas com que estamos mais familiariza-
dos, verificaremos que dificilmente haverá mna possibilidade teórica que
não se tenha realizado na prática.
Um exemplo valerá por mil, um tipo complexo mostrará a possibi-
lidade de centenas de outros. Vou buscá.lo 80 paiúte, a língua que fa-
lam os índios dos áridos planaltos do sudoeste do Utah.
A palavra   wii-tu-kuchum-punku-rugani-iugui.va-ntü.m-u8  é   de com-
 primento excepcional, me.:;mona sua própria língua, mas não é, de
maneira alguma, um monstro psicológico. Significa - "aqueles que vão
sentar-se e cortar  à   faca uma vaca preta (ou um touro) ", ou, na ordem
do~ elementos índios, - "faca-preta-búfalo-manso-cortar-sentarem-sc-fu-
turo-particípio-plural animado". A fórmula para tal palavra, consoante
nosso simbolismo, seria, pois, (F) + (E) + C + d + A + B + (g)
+ (h) + (i) +   (O). l': o plural do particípio futuro do verbo com-
 posto "sentar-se e cortar", A + B.   Os elementos   (g), para o futuro,   (h),
sufixo de particípio, e   (i), índice do plural animado, são elementos gra-
maticais que nada nos diriam em posição isolada. A fórmula (O)   desti-
na-se a explicar que a palavra completa, em adição ao que nela defi-
nidamente se exprime, transmite ainda uma idéia relacional, a da sub-
 jetividade; em outros termos, o vocábulo com essa forma só pode ser 
usado como sujeito da sentença, e não em outra relação sintática, como
a de objeto direto por exemplo. O radical A   ("cortar"L antes de com-
 binar-se com o seu coordenado B ("sentar-se). combina-se por sua vez
com dois elementos nominais, ou grupos de elementos: - um tema
de emprego instrumental (F) ("faca"), que figura como radical de
muitos nomes, mas na forma dada não constitui um nome absoluto; e
um grupo de emprego objetivo (E) + C + d ("preto, vaca ou touro").
l2 A LINGUAGEM
LINGUAGEM

.Kst
.Kstee grup
grupo
o por
por suasua vez,
vez, con
const
staa de um radi radica
call de adje
adjeti
ti.v
.vo
o (E)   ("preto")
que
que não
não se usa
usa inde
indepe
pend
nden
ente
te (poi
(poiss a no~i
no~iíío absol
bsolut
utaa de llprllpret
eto"
o" só pode
pode
ser co
communicad
unicada a sob o   aspl:'eto de part partic
icíp
ípio
io veverb
rba
al: "fe
"feito
ito preto
reto")
"),, e de
um nome
nome comp
compos to C + d   ("búf
osto ("búfal al<r
<rmn
mnnsnso"
o").
). O radic al C   sign
radical signif
ific
icaa pro-
pro-
 priamente "búfalo", mas o elemento d, na realidade um nome, de ,;da"
inde
indepe
pend
nden
ente
te,, queque signi
signifi
fica
ca "cav
"caval alo"
o" (ori
(origi
ginà
nària
riame
mentntee   Ucão"   ou uani
uanima
mall
dom~ico" em geral). costuma a se usar regularmente como, elemento
meio-subordinado  pa  para indi
t indica
car r   tp.:e o an
anim
imalal ex
expr
pres
esso
so pelo
pelo radica
radicall co
con.
n.
trgu
trguo
o é prop
propririeedade
dade do algu alguém
ém..

Obse
Observa
rva-s
-see que
que o todo
todo comp
comple to (F) + (E) + O + d + A + B,
leto
qua
quanto
nto à sua
sua fun~
fun~ão
ão,, não
não é mais
mais que
que uma
uma base
base verb
verbaal, corre
orresp
spon
onde
dent
ntee
ao   "ng- de uma forma inglêsa como   singing,'    que que conti
ontinu
nuaa com forç
forçnn
verb
verbalal dcpo
dcpois
is do aeré
aerésc
scim
imoo do elem
elemen
ento
to tcmp
tcmpor
oral
al   (g
(g) - fican
ficandodo ente
enten-
n-
dido
dido que
que este
este (g) não
não está
está prõpr
prõpria
iame
ment
ntee apen
apenso
so apcn as a B   mas
apcnas mas a tõda
8 base complexa una; e que os elementos (h) + (i) + (O)   transfor-
roam
roam a expr
expres
essã
sãoo verb
verbalal n.um
n.um nom
nomee form
formal
alme
ment
ntee bem
bem defi
defini
nido
do..
~ te
tem
mpo agora de proc
procu
urarm
rarmo
os decidir
idir o que se ente
tend
nde
e por
por pa
pa--
lavra.
O   no
no.~ prim
primei eiro
ro impulso, sem dúvida, teria sido definir a pa-
lavr
lavraa como
como 8 contcontrarapa
part
rtcc simb
simbólóliica,
ca, ling
lingüí üíst
stic
ica,
a, de um dado dado conc
conceieito
to .
•lã vemo
vemoss que
que tal
tal defi
defini
nic:
c:ão
ão é impo
imposs ssív
ível
el.. Na real realid
idadade,
e, é impo
impossssív
ível
el de-
de-
fin
finir o vocáb ábuulo den
dentr
tro
o de seu seu aspespecto fun funci cion
onaal, pois
pois pode ser ser tud
tudo,
desde li exexprpres
essã
sãoo de um co conc
nceit
eitoo simple
simples s coconc
ncre
reto,
to, ab
abstr
strato
ato,, ou pura
pura--
ment
mentee rela
relaci
cion
onal
al '(co
'(como
mo nas part partrc
rcul
ulas
as "de"
"de",,  por",   'Ie") até
u até à expre
expressssão
ão
d e um pensam
pensamen ento
to comple
completo to (com
(como no latim   dico, udigo", udigo", ou, sob forma
forma
mais
mais elab
elabor
orad
ada,
a, numa
numa formformaa verb
verbalal nutk
nutkaa que que desi
designgnaa "Est
"Estou
ou acos
acostu
tuma
ma--
do 8 come
comerr vint
vintee cois
coisas
as redon
redondadas"
s",, isto
isto 'é,
'é , ''ma
''maçãçãs'
s'"" "enq
"enqua
uant
nto
o faço
faço isso
isso
ou aq
aquil
uilo"
o").
). Neste
este últim
último. o. ca
casoso,, identi
identific
fica-a-se
se cocomm a sentesenten~
n~a.a.

O vocábulo ê
vocábulo  ê   apen
apenas
as uma
uma form
forma,
a, uma
uma en entid
tidad
adee de co conto
ntorno
rnoss de
defi.
fi.
nidos
idos que chama a si grand randee ou pequequena parterte do concei eito
to do
do pensa-
sa-
Ille
Illent
nto
o inte
integgral,
ral, na medidaida em que o gênio da 1fngu fngua a se eomp
ompraz
raz em o
 pe
 permit ir.. e por
rmitir por isso
isso que,
que, se de um la lado
do os elem
elemen ento
toss radi
radica
cais
is e gram
gramat
ati.
i.
C4is,
C4 is,qu
quee en
encer
cerram
ram os c~c~nce
nceitos
itos isolado
isolados,
s, são com
comparáve
paráveisis de uma
uma língua
língua
a outra
outra,, nã
nãoo o são
são os vocá
vocábu
bulo
los
s prop
propria
riam
menente
te dito
ditos.
s.

Elem
Elemenento
to radic
radical
al (ou
(ou gram
gramati
atica
cal)
l) e sente
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:a,ei
eis
s as unida
unidadedess "fun-
"fun-
cion
cionai
ais"
s" prim
primorordi
diai
ais
s da lingu
linguagagem
em,, send
sendo o aqaque
uele
le o minim
inimo o ao
aoot
otra
raíd
ídG
G
e esta
esta a en
encacarn
rnaç
ação
ão estet
estetica
icammen
entete satisfa
satisfatór
tória
ia de um pe pens
nsam
amenento
to unifi-
unifi-
cado
ca do.. As unida
unidadedess práti
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cas
s "form
"formais
ais"
" da lingu
linguagagem
em,, os vocá
vocábubulos
losou
ou pa
pa--
lavras
lavras,, podem
podem ocasion
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ente
te identifica
identificar-se
r-se cocom
m uma
uma daque
daquelas
las unidad
unidadeses
func
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iúdo, poré
porém m, med edeia
eiamm entre
entre os dois
dois ex
extre
trem
mos,
os, en
en--
carn
carnan
ando
do uma
uma ou mais noçõenoções s radic
radicais
ais co
comm uma
uma ou mais no,:õno,:õcs
cssu
subs
bsi-
i-
diárias.

Podem
odemosos tra
traze
zerr o mar a um co copo
po dádágugua,
a, dize
dizend
ndoo que
que os elelem
emenento
tos s
radi
radica
call e gram
gramat
atic
ical
al,, ab
abst
stra
raíd
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realid
idad
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fala,, co
corr
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es--
 pon
 ponddero ao mundo de conc onceitoitos da ciêiênncia
ia,, abstr
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ia,, e que a pala lav vra,
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ist«:n
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fala,,
corres
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unidade
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dessa experiê
experiênc ncia
ia pratica
praticammente
ente apreen
apreendiddida a
- à   hist6ria, à  arte.
 arte. A senten
sentença ça s6 é
s6  é   a co
contra
ntrapapartc
rtc 16gic
16gica ado pensam
pensamen ento
to
integ
integra
ral,
l, se ac
acus
usar
ar em si realm
realmenente
te os elem
elemen entos
tos radic
radicais
ais e gram
gramatiatica
cais
is
os E LE
LE ME
ME NT
NT OS
OS D A F AL
AL A 33

 percebidos no âmago das palavras que 8 compõ


ompõem
em.. ~ ao contr
ontráário
rio 8

cont
contrapa
rapart
rtee psico
sico16
16gi
gica
ca da expe
experi
riên
ênci
cia,
a, da arte
arte,,   Quando se lhe
lhe sen
sente,
te,
com
como aliás
aliás no
norm
rmalm
almen
ente
te su
suced
cede,
e, o mero jogo
jogo das
das palav
palavras
ras..
 À   med
medid
idaa que se acen
que acentu
tuaa a nece
necess
ssid
idad
adee de defi
defini
nirr o pen
pensam
samento
ento
únic
únicaa e excl
exclus
usiv
ivam
amen
ente
te com
como tal
tal.. a pala
palavvra vai-
vai-se
se cada
cada vezvez mais
ais tor-
tor-
nand
nandoo irrele
irreleva
vant
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como meio
meio de expr
expres
essã
são.
o. É-nos
-nos fácil
fácil,, po
porta
rtanto
nto,, com
com-
 pree
 preend
nder
er po
porr qu
quee o matem
atemát
átic
icoo e o Iogi
Iogici
cist
staa são
são lev
levado
ados a pôr de partpartee
a palav
lavra e 8 estabelecer os pensamentos com o auxilio de símbolos que
têm, um a um, o mais rígido valor unitário.
).Ias _ objetar-se-á - a pal palavra nno é,   popor acaso, também uma
abstr
bstraç
ação
ão,, tal qual
qual o radi alY Não é arbi
radiccalY arbitr
trààriam
riameente
nte dedu
deduzi
zida
da da   SCD-
tenç
tenç.a
.a expr
expres
essa
sa,, como
como um
um elem
elemen
ento
to conc
concep
eptu
tual
al míni
mínimo
mo que
que o mundo
mundo no~
no~
ministra!
inistra! Algu
Alguns
ns lingüis
lingüistas
tas têm~n
têm~naa assim
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interpreta
etado
do,, com
com efeito
efeito,, mn~
 pare
 parece
ce~
~me - com
com muito
uito disc
discu
utívei
tíveiss prov
provas
as em mão.ão.
~ verd
verdad
adee que em caso casoss part
partic
icu
ulare
lares,
s, espe
especi
cial
alm
mente
ente em algualgummas
das
das língu
línguasas alta
altam
mente
ente sint
sintét
étic
icas
as da Améric éricaa abor
aboríg
ígin
ine,e, não
não é semsempre
pre
fácil
fácil dize
dizerr se um daddado o elem
elemento
ento da frase
frase deve
deve ser
ser tido
tido comcomo .••.
.••
ocábulo
. in-
depe
dependnden
ente,
te, ou com
como parparte
te de um vo vocá
cábu
bulo
lo maio
maior.r. Ess
sseses caso
casoss de tran-
tran-
siçiio,
siçiio, po
porr mais perple
perplexoxoss qu
quee no
noss deixe
deixemm em determ
determina inado
doss momomen
entos
tos,,
não
não enfra
enfraqu
quec
ecem
em,, :lontu
:lontudo
do,, a dodout
utrin
rinaa da valid
validez
ez ps
psico
icoló
lógi
gica
ca da pala-
pala-
vra.
vra. A expe
experiê
riênc
ncia
ia lingü
lingüíst
ística
ica,, tanto
tanto atrav
através
és da susuaa fonu
fonuaa no norm
rmali
aliza
zada
da
e escrita
escrita ququant
anto
o da resulta
resultante
nte elo ususo o cotidian
cotidiano, o, indica
indica esmaga
esmagado doram
ramen entete
quee não
qu não há,
há, em regr
regraa gera
geral,
l, a menor
enor dificu
dificulda
ldade
de em focafocaliz
lizar
ar-s
-see .8 pal8
pal8~ ~
"ra na cons
consciê
ciênc
ncia
ia com
como rearealid
lidad
adee pspsico
icoló
lógi
gica
ca.. 1\ão
1\ão popode
de have
haverr prov
provaa
mai~ conv
convincincen
ente
te do ququee a seguin
seguinte:
te: o indio,~
indio,~ing
ingênu
ênuo o e comple
completam tamen ente
te
ocsp
ocsper
erce
cebi
bido
do do
do conc
conceit
eito
o da
da palav
palavrara escr
escrita
ita,, não
não tem aprs aprssrsr diss
dissoo difi~
difi~
culda
culdade
de séria
séria em ditaditarr um texto
texto a um inve investi
stiga
gado
dorr lingü
lingüíst
ístico
ico,, palav
palavra ra
 por
 por pala
palannnnõ prop
prop~n~ndc
dc,, natu
naturaralm
lmenente,
te, a ligá-
ligá-las
las entre
entre si, à   manmaneira
eira da
enun
enuncia
ciação
ção oral, mas, se cham chamad ado o à   pau
pausa e feitofeito com
compree
preendnder
er o que
dele
dele se preten
pretende,
de, isolará
isolará imedi
imediatam
atamen ente
te os vovocáb
cábulo
uloss com
como tais,
tais, repetin
repetin--
do-os
-os sso
ob a form
formaa de unidad idadeses.. Recu
ecusa-s
sa-se,
e, po
por outrotro lad
lado, a iso isolar
lar o
elem
elemento
ento radical
radical ou o gramgramatical,
atical, po
porqu
rque,e, alega,
alega, "não
"não faz sentido
sentido"9 "9..
Qual é, cntHcntHoo, o crité
critéri
rio
o obobje
jetiv
tivo
o da palav alavra
ra?? Quemuem falafala e qu quem em
ouve
ou ve têm o s('nt s('ntim
imcn cnto
to da palav
palavrara,, adm
admitam
itamosos;; mas comcomo justi
justific
ficar
ar tal
sentim
sentimen ento!
to! Sc a fun~ã
fun~ão o não é o critécritéri
rio
o últim
ltimo da pala palaHHa, qual ual é esse
esse
critério?
A pergunta é mais fácil do que a resposta. ta. O melho lhor será dize izer 
.que
.que a palavpalavrara é o menor enor trcch
trccho o de signi
signiiic
iicaç
ação
ão,, plen
plenam
amenentc'
tc' sati
satisf
sfató
ató--
rio,   ('fi qu
quee a scntcn
scntcnc,:a
c,:ase
se resolv
resolve.e. Núo
Núo pode
pode ser secion
secionadado o scm pertur-
pertur-
 baç
 bação
ão de sent sentid
ido.
o. fica
fican ndo sem
semprepre em nossnossasas mãos,
ãos, com
como frag
fragm mrnto
rntoss inú
inú-
teis,
teis, uma
uma ou outra
outra,, ou amba
ambas, s, das
das parte
partess cindi
cindidadas.
s. Na práti
práti('a
('a,, ('!'~
('!'~ee('ri.
('ri.
tério
tério semsem maiore
aioress prete
pretens
nsõeõess 'Pre
'Presta
sta mais servserviço
iço do qu quee se po podederia
ria su su--
 por
 por.. Num umaa sent
senten
ença
ça ingl
ingles
esaa com
como it  is   unthinkable é   simplesmente
simplesmente im-
 poss
 possív ível
el agru
agrupa
parr os elem
elemen ento
toss em ou outr
tros
os ou menor enoreses vo
vocúcúbubuloloss do que
08 três indicad
indicados.os.   Think  [verbo
[verbo HpenHpensarsar"]
"] ou   thinkable [adj. [adj. deriya
deriyado do
eom o suf.   -able, porto porto Hávei"]
Hávei"] são isoláveis,
isoláveis, mas
mas comocomo nem un-   [prefi~
xo negatiy
negatiyo),o), nem
nem   -able [porto
[porto H.ável"],
H.ável"], nem nem is, un-   apresenta
apresentam m alcance
alcance
satisfa
satisfatóri
tório,
o, temos
temos de de deixa
deixar r   unthinkable com como um um todo
todo.. integ
integra ral,
l, obobrara
34 A L I NG
NG U A G EM
EM

de arte em min
miniatura. [Em porto a fra
frase teria outro teor, neste   ~8SO es-
 pecial; seria qualquer coisa como -   l~ão se pode
pode pens
pensar
ar nist
nisto"
o"].
].

A esse Usentimento" da palavra ajuntam-se fre freqüentemente, mas


não
não inva
invaria
riave
velm
lmen
ente,
te, certo
certoss cara
caracte
cteres
res foné
fonétic
ticos
os exter
externo
nos.
s. O prinprincip
cipal
al
é  o acent
acento.
o. Em grand
grandee se não
não a maior
aior parte
parte das
das lingu
linguas
as,, o vocá
vocábubulo
lo é as
as--
sinala
sinalado
do por
por um acentt) unific
unificado
ador,r, eerta
eerta ênfas
ênfasee numa
numa das sílabas,
sílabas, à   qual
as outr
outras
as fica
ficam
m subo
subord
rdin
inad
ada.
a.'i.
'i. Só ao gêni
gênioo próp
própririo
o de cada
cada'' líng
língua
ua _ 
inútil é   diz
dizê-
ê-lo
lo - cab
cabe imp
impor qual das síla sílab
bas tem
tem de se serr ass im distiIi.-
ssim
guida.

A impo
importân
rtância
cia do acento
acento no pape papell de unifica
unificação
ção do vocáb
vocábulouloéé   óbvia
em cert
certosos exem
xemplos
plos   inglê.'lcs   como unth
unthininka
kabl
ble,
e, char
chara.
a.ct
cteri
erizi
zing
ng   [porto
"caracterizantc"]. O longo longo vocá
vocábubulo
lo paiúte
paiúte que
que analis
analisam
amos
os,, traz o sinete
sinete
de rígi
rígidda unid
unidad
ade
e fon
fonétic
ética,
a, por várivárias
as razõ
razões
es entr
entre
e as qu&is
u&is prin
princi
cipa
pal-
l-
mente
ente o acen
acento
to na sua
sua se
segu
gundndaa sílab
sílaba
a   (wií, "fac
"faca"
a")) e uma
uma reduç
reduçãoão ("en-
("en-
surd
surdec
ecim
imenento
to"
" para
para usar
usarmmos o term termoo fon
fonétic
ético
o técn
técnic
ico)
o) da vog vogal fina
finall
(-mii,   plural
plural anim
animad
ado).
o).

Carac
aracter
teres
es com
como o acen
acento
to,, a cadê
cadêncncia,
ia, e o tratam
tratamen ento
to das
das cons
consoaoant
ntes
es
e voga
vogaisis no corp
corpo o de um vocá
vocáb bulo
ulo são
são-n
-noos, não
não raro
raro,, útil
útil aux
auxílio
ílio para
para
a dem
demarca
arcaçã
çãoo exter
externa
na das
das palay
palayrara~;
~; mas nãonão é lícito
lícito,, de maneir
aneira
a nenh
nenhu-
u-
ma, ver
ver aí, se
segu
gund
ndoo se faz
faz às veze
vezes,
s, os respo
respons nsáv
áveis
eis dire
diretotoss da exist
existên
ência
cia
 psic
 psico
ológi
lógica
ca delas
elas.. Quand
uando
o muito
uito,, fort
fortal
alec
ecem
em êles
êles um se sent
ntim
imenento
to de uni-
uni-
dade
dade,, que
que já esestá
tá pres
presen
ente
te em noss
nossoo es
espí
pírit
rito
o por
por outro
outross motivo
otivoss.
;mos
;mos
•Já .•• que
que a maior
aior unidad
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e funcio
funciona
nall da fala,
fala, a sentenç
sentença,
a, tem como
como
a palav
palavra
ra exist
existên
ência
cia psico
psicoló
lógic
gica,
a, tanto
tanto quan
quanto to meram
eramen
ente
te lógi
lógica
ca ouou abs-
abs-
trat
trata.
a. Nem é   a se
sent
nten
ença
ça de defi
defini
niçã
ção
o difíc
ifícil.
il. ~ a expexpress
ressão
ão lingüí
lingüíststic
ica
a
de uma
uma prop
propos
osiçã
ição.
o. Con
Conju
juga
ga um sujei
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to do disc
discur
urso
so ao que
que em refe
referê
rên-
n-
cia a ele se diz
diz.

"Suj
"Sujei
eito
to"
" e "pre
"pred dicad
icadoo" pod
podem estar
estar com
combin
binado
ados num
numa só pala pala--
vra,
ra, como no lati latim
m   dico;   cada
cada um pode
pode seserr expr
expresesso
so sesepa
para
rada
dammente,
ente,
com
como no equiva
equivalen
lente
te inglês
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ada um ou um deles eles pod
pode ter
ter qua-
lific
lificat
ativ
ivos
os ,tai
,taiss que resu
result
ltem
em em prop
propoosiçõ
sições
es com
complex
plexas
as de muitauitass es
es--
 péci
 pécies
es.. Não impo
import rta
a o númnúmero
ero dess
desses
es elem
elemen
ento
toss qual
qualif
ific
icat
ativ
ivos
os (pal
(pala-
a-
,Yra
,Yrass ou parte
partess func
funcioiona
nais
is de palav
palavra
ra)) que
que sã
sãoo as
assim
sim intro
introdu
duzid
zidas
as,, pois
pois
não tiram à   senten
sentença
ça o se
sent
ntim
imen
ento
to de unid
unidad
ade,
e, desd
desdee que
que de per
per si e em
conj
conjun
unto
to,, entr
entrem
em com
como cont
contri
ribu
buiç
ição
ão para
ara a defi
defini
niçã
ção
o quer
quer do suje
sujeito
ito
do discu
discurso
rso,, quer
quer do âm
âmago
ago do predic
predicad
ado1
o1o.
o.

A sesen
ntenç
tençaa -- "O   pref prefei
eitoto de Novaova York vai vai faze
fazerr uma alocalocu ução
ção
de boa.s
boa.s-vin
-vinda
dass em francês"
francês" é logo logo sentida
sentida comcomo afirm
afirmação
ação Wla, incapincapaz az
de redu
reduçãçãoo com
com transf
transfer erire
irem
m-se
-se certo
certoss de se seus
us elem
elemento
entos,s, na sua
sua formforma a
dada,
dada, para
para as senten~
senten~as as prec
precededen entes
tes ou seguinte
seguintes. s. As idéias
idéias auxiliare
auxiliaress "de
 No
 Nova York"ork",, "de
"de boas
boas-v -vin
inda
da,,,,"
" e "em
"em fran
francêcês"
s" pod
podem se serr supr
suprim imidida:
a::;
:;
sem prejud
prejudica
icarr o curso
curso idiom
idiomático
ático da senten
sentença.
ça. "O   p
prd
rdei
eito
to vai faze
fazerr uma
uma
alocu
alocuçã
ção"
o" é uma
uma proppropos osiçã
içãoo perfe
perfeita
itammente
ente intel
intelig
igív
ível
el .Mas
.Mas não
não pode
podem mOfl
ir além
além ness
nessee proc
proces esso
so dede redu
reduçã ção.
o. Não podepodererem
mos dizer,
dizer, por
por exem
exempl plo,
o,
"Pre
"Prefe
feito
ito vai
vai fazc
fazcr"l
r"ll.
l. A se sent
nten
ençaça redu
reduzid
zida a reso
resolv
lve-
e-se
se natur
naturalm
almen
entete !tum
sujeit
jeito
o - "o pre prefefeit
ito
o" - e nu num pre predica
icado _ "vai faz fazer uma alo alocução".
É hábi
hábito
to dize
dizerr que
que o sujeito
sujeito es essesenc
ncial
ial de uma
uma tal se sent
nten
ença
ça é "pre
"prefe
feito
ito"" e
que
que o pred
predica
icado
do C&'lcnc 'lcncial
ialé   "vai
"vai faze
fazer"
r",, ou mes esm
mo "vai
"vai",
", se
send
ndo o-lhe
-lhess
OS ELEMENTOS DA F ALA 35

06   outros. elementos estritamente subordinados. Tal análise, entretanto,


é   puramente esquemática e desprovida de valor psicológico. É   muito
mdhor N~{)nhccerfrancamente que um ou aI11bosos termos da senten-
ça proposicional podem ser incapazes de se expressar sob a forma de
uma palavra única. Há línguas que podem enunciar tudo que figura
em "Q.prefeito-vai-fazer.uma-alocução" com duas palavra.<J,uma palavra
sujeito e uma palavra predicado; mas o si"ntetismo.em nossa língua não
vai a esse ponto.

A verdadeira conseqüência que importa tirar de tudo isso é   que,


 por baixo de uma sentença conclusa, há um tipo vivo de sentença, com
caracteres fonnais fixos. Esses tipos fixos, ou arcabnuços, podem ser  s0-
 brecarregados por tanto material adicional quanto fôr eomprazível II  quem
fala ou escreve; mas são, em si mesmos, tão rIgidamente mmistrados
 pela tradição como os elementoo radicais e gramaticais que se dcuuze..
das palavras completas.
Podem ser conscientemente criadas novas palavras à   custa dos ele.
mentos bá.-iicose sob o modelo de palavras antigas; ma.~dificii.mente
se criariam novos tipos de palavras. Do mesmo niodo, são constante--
mente criadas novas sen~nças, mas sempre nas estrilas linhas tra~
dicionais. A sentença ampla permite, nfl.Oobstante, em regra, .consi.
derável liberdade no manuseio do que pooeremos chamar suas par.
tes "não-es.'JCnciais".É essa margem de liberdade que dá ensanehas ao
estilo individual.
A as.<JOCiação habitual dos elementos radicais, gramaticais, pala.
\TaS e sentenças com conceitos, ou grupos de conceitos entre si inte-
grados, é   o fato propriamente dito da linguagem. f}   importante obfler-
var que há em todas as línguas certa fortuidade de as.'>OCiação. A~im,
a idéia de   hide pode exprimir.se pela palana   conceal, [como em portu-
guês, correspondentemente, "esconder" e "ocultar"} e a noção de   thru
times por    thrice [em português, só "três vezes"]. A expressão múltipla
de um único conceito é   universalmente considel'ada fonte de vigor c va.
riedade lingüística, e não dc.<;:necessária extravagância. :Menos agradá-
vel é  certa incoerência de correspondência entre a idéia e a expl'e&<I.;w lin-
~ística no eampo dos conceitos aootratos c relacionais, mormente quando
o conceito se encarna num elemento gramatical. Assim, parece-me que
a incoerência, na expressão da pluralidade, entre as palavr?_-ling:le:sa ..~
books   [sing.   book    "livro"]'   oxen   [sing. ox,   "boi"],   sheep   [sing.   sheep,
"carneiro"] e   geese   [sing.   goose, "ganso"] se nos apresenta mais sob o
aspecto de uma imposição tradicional inevitável do que de uma luxnri:m.
cia feliz.

t óbvio que há para cada língua um limite que não lhe é dado
transpor. Muitas, é   certo, vão incrivelmente longe neste particular; IDaa
a história lingüística mostra conclusivamente que, mais cedo ou mai!i
tarde, as associações menos freqüentemente ocorrentes s:.10banida.~ em
 proveito de outras mais vitais. Em outros termos, toda.~as línguas têm
uma tendência inerente à economia de expressão. Se essa tendência fosso
de todo inoperante, não haveria gramáti<.'A.O falo gramatical, aspecto
universal da linguagem, é   apenas a manifestação do sentimento   RemI
de que conceitos e relações análogas se exprimem, mais convenirntc.
36 AUNGUAGEM

mente, por meio de formas análogas. Uma Ilngua que, porventura, f•••.
se plenamente "gramatical", seria um engenho perfeito para a expressão
dos conceitos. Infelizmente, ou afortunadamente, nenhuma tem essa coe-
rência tirâniea. Todas as gramáticas vnzam.
Supusemos até agora que o material da linguagem s6 reílete "
mundo doe conceitos e, também no que c u me aventurei a chamar o pIn-
n.o "pre-racional", o mundo' das imagens, que são a matéria-prima do~
conceitos. Supusemos, em outros termos, que a li~guagem se move in.
wiramente no âmbito ideacioDal ou cognitivo.
: f J   tempo de alargar este quadro.
O   aspecto
volitivo da consciência é também, até certo ponto, expU.
citamente servido pela linguagem. Quase todas as Hnguas têm meios
especiais de exprimir as   ordeIL'~ (nas formas irrtperativas do verbo, por 
exemplo) e oe desejos inatingidos ou inatingíveis (lV ould he might come!
ou W01tld he were here!) [Tomara que ele venha!" qu, uQuem o dera
8.qui"].
As emoções, de maneira geral, parecem ter na linguagem um e..-'lCoa-
douro menos adequado. A emoção tende, aliás, prO\'erbialmente, para 8.
 perda da voz. Contudo, quase todas se não todas as interjeições deyem ser 
creditadas à expressão emocional, além de uma por~ão de elementos lin~
güisticos que traduzem certos modos, como MformM duhitativas ou po-
tenc~iais, talvez possíyci~ de interpretar como o refll~xo de estados emo--
cionai~ de hesitação ou dúvida, isto é, de um medo, atenuado.
De maneira geral, cumpre admitir quc a idea~iio reina suprema na
linguagem, c que a ,,"oliçio e II emoção entrsij1 como fatores nitidamente
secundários.
Isto, aliáB, é perfeitamente compreensivel.
O  mundo da imagem e do conceito, a pintura infinita e cambiante
da realidade objetiva, é   o assunto inevitável da eomunicaçáo humana,
 pois é exclusivamente, ou pelo menos essencialmcntc, nos termos deste
mundo que é pO&~ívela ação efetiva. Desejo, intenção, emoção são uma
cor pe&'>Oslp rojetada sôbre o mundo objetivo; ~ií.o aplicação privativa
de cada alma individual e-,como tal, de somenos importância para uma
alma pr6xima.
Is.w não quer dizer que a \'oliÇ<lioC   a. emo<;ão deixam de manifcs-
tar-se. Não estão a rigor jamai,'! ausentes da fala normal, mas a sua
úXprcss.~o não li de natureza propriamente lingüística. Os   matizes de
ênfase, de tom, de fraseado, a variável r&pi<1ez.e continuidade de pro--
núncia, os movimentos do corpo que a acompanham, tudo isso. exterio.
rixa alguma ('oisa da vida Íntima dos impulsos e dos sentimcntosj mas,
como   l::SSCS   meios de expressão são, em última análise, mero.~ aspecto.~
modificados de enunciação instintiya que o homem partilha com O'l   ani.
mais inferiores, não podem ser considerados parte integrante da lingua-
gem, na sua concepção essencialmente eultural, por mais inseparávei'i
qUE:   sejam da vida atual dela. E tal expressão meramente inBtintÍVa, da

volição e da emoção é, o mais das ve1.es, suficiente, e muitas vezes mais


que suficiente, para o propósito da comunicação.
os   ELEMENTOS DA FALA 37

~ verdade que certos escritorcs, tratando da   plrieologia da linguo-


gerou, negam esse seu caráter predominantemente cognitivo, e tentam ao
contrário demonstrar que a origem do maior número dos elementos lin-
güísticos estú nos domínios do sentimento. Confesso-me inteiramente in-
capaz de acompanhar-lhes o pensamento. O que há de verdade nas suas
elucubrações parece-me que pode resumir-se em dizer que 8 maioria das
 pala.\"ras, como praticamente todos 08 elementos da consciência, tem em
si uma tonalidade emotiva, uma derivante tênue, mas nem por isso me-
nos real e às vezes insidiosamente poderosa, de dor ou prazer.

 Não se trata, entretanto, em regra de um valor inerente à pr6pria


 pals\T8j é.   antes, um   enxerto no   verdadeiro   tronco da palavra,   no seu
cerne conceptual. Muda, não somente, de século para século (o que se
dá tnmMm, naturalmente, com o conteúdo conceptual), m as   varia nota4
velrncntc de um individuo para outro, de ncôrdo com as ac;sociaçóe8pes-
soais de cada um: "Rl'ia até, cm verdade, dc tcmpos a tempos na pr6pria
consciência de cada indivíduo, à  medida que as suas experiências o amol4
dam e que ele muda de disposi<,:.ão.
Sem dú,;da, há tonalidades emotiva.g,ou conjuntos de tonalidades,
socialmente Dceitaspara. muitas palavras, além e acima portanto da for4
~a de a,lJ.'iOCia<:ão
indh'idual i mas são, nas melhores condiçôcs, coisas ex.
cessrvamcnte variáveis e falazes.
Raramente têm fi   rigidez do fato primário central.
Todos concordamos, por exemplo, que storm, temp(;st  e   hu.rricane l1
,

à   parte das leves difc)'cn~.asde sua sig'nificu~ãoatual, têm uma tonali-


dade emotiva distinta, que impressiona de modo pl'àticamcnte cqui\'a.
lente, todos aquêlcs que falam e escrevem eom alma o inglês. Sentimo'!:
que   storm é  um tcrmo mais geral e deeididnm('ute menos "magnificentc"
que os outros dois;   tempcst nfLolmnhra apenas o mar, mas ganhou pro-
vàvclmente, no espirito de muitos, 11m   bl'ilho surdo, em virtude de "Uma
nssociaçãode idéias rotn o grande <hnma de Shakc.speare; hurricane tem
maior intensidade, uma rudeza mais direta que os seus sinônimos. Não
oh<rtante,o sentimento individual podr vadar enormementc. Para alguns,
tempe.st  e   hu.rric(ule podem afigurar-se "fracos", termos literários, apre-
sentando 8 palavra mais singela   storm.   um valor vívido e brutal que os
outros não pos.'mem (pense-se em storm and stress). Se pas.<mmosa in-
fância ruminando lh.ros de aventura.~ acerca dos piratas do mar das
Antilhas, é   provável que   hurrica1te tenha para nós certo arroubo he-
róicou; se já fomos por desgraça colhidos num furacão, não é   imprová.
vel que a palavra nos pareça gélida, desanimadora, sinistra.
'FA're valor das palavras não é,   a rigor, de nenhuma utilidadr para
R    ciência i o filÓfrofoque pretende ehe~ar  à   ,'erdadc e não meramente

 persuadir, tem ai o seu mais insidioso inimigo. Mas o homrm r£lrarnf'ntr 


se rircunscrcve à   ciênrin pura, à   N.'flexnoint{'gra1. Bm regra, banha as
R u a s atividadflS mentais numa corrente tépida de sentimento, e lança
mão da emoção que despertam as palavras como um bom auxílio para
a excitação desejada. Tira disso grande proveito o artista literário. t, en-
tretanto, curioso notar que até para o artista há aí um perigo. As pala-
38 A L IN G U AG E M

vras, de tonalidade emotiva constante e por todos aceita sem hesitação,


tomam-se uma espécie de recurso cômodo,   cl~hê&.   De quando em quando,
t) artista tem a e insurgir-se e obrigar  8  palavra a voltar a exprimir  ('I
conceito puro, buscando a força da   emoção no poder criativo de uma
 justaposição, toda pessoal, de conceitos ou imagens.
 Notas ao   Capítulo 2

1. (O   termo   inglês u'ord foi aqui traduzido ora por    l)alal'ra   ora por   v()(6bulo.]
:? Rt'l'rrmrcmO!l 115letra::! mniú:;culns para os Tauicais.
3. Estas palavras não   t'Stão   aqui   usauns no seu   IH'UtiJO et'ltritameute   técnico.

4.   [~uitop.   verbos ingle!'cs ('xprimem o   prE'térito e o particípio pa..'5R U O , (' aUi


a açli.o substantivnda (p.ubstantivo abstrato), po r  meio de um R    mudança de   vogal na
raiz; é   o chamado   ohlaut, gradn~âo vocálica ou   apofonill..   Aqui,   8'UTl.g é   o particl.pio
 passado, e   30ng   o substantivo abetrato "canto".]
5. [O futuro inglêe forma-se com adjunção dos auxiliares .naU ou wül   li. formll.
do infinito, como em portuguêll h6. Da realidade histórica uma combinaçAo do ln-
finitn eom o pl'Cl'cnte  do '-erho "haver".]
6. Não diseutimos aqui o carãter geral il~olRnte de Unguas como o chin~
(ver capo VI). Palavras. radicais podem apresentar'l.Ie Das mais \'ariadas linguall,
e até em muitas do mais alto grau de complexidade.
1. Falado por um grupo de tribos índias da ilha Vancouver.

8. Neste e noutros exempl05 tirados de Iinguas exóticas :rui forçado por con-
sidel'll.ções práticas a 9implificar as formas fonética:4 reais. Isto não terA. maior 
importância, pois estamos tratando das formas como tais e nAo do scu conteúdo
fonético.

9. Esl.las experiências orni:l, que eu tenho tido mais de uma \'ez como estu-
dioso de campo da:o 1io~uas índias americanas, foram c1ll.rnmente confirmadas lJvr 
experiências pt'!'soais de outra sorte. Por dua." Vézes (;C\!tineiint('ligt>nt('s jO\"t'TlSi.n-
dios a e!'crCVCi" suas própria.s Iinguas de acordo com o sistema fonético qu(' rou ('01'
 prl'go. Aprenderam comi~o ap('tlas n r('prt'Sentar com pn'ci!t1i.o os sons fonéticO'!
considerado!'! em !li. Ambos tin'ralU cNta ~ificuldade em aprender a df'Compor o
\'ocúhulo nos 80ns constituintes, mll.!l não, absolutam •... nte, em determinar os vo.
l'ábuhs.   bto amlX'R o fi1:•...
ram t'om ph'na e espontânea prl'Cisão_ Em c('ntt'nas de
I':í.g-inas de um texto manus('rito nutka que obtive de um desses rapazl'8,   \'ocá.
  ().'I

fJUI,,!', quer fossem entidades abstratas relacionai!l como tique" e "mas", quer 
fõ!'sem palavras proposicionais complexa." como o exemplo nutk3. supracitado, fo-
I:Uli, pmticamrontc 8('m exc('t;ão, i!l011ld08precisumente como 1"t: ou outro qualqucr 
"ntendido o teria f('ito. T&.i~ •...xperii'ncias COIUpt"880as ingênuas, a falar e a ('5-
crever. concorrem mais para convcnce••-nos da unidade plasticamente delimitada da
 palavra, do qu(' a~ lauda." dl' urna arg-umt'ntaçáo purame!lte te6ric&.

10. ' E ;   duvidOllOque "sent('nças coordenadas", como "Ficarei mas você pode ir",
 p088tUIl !ler eOm!ider3.das predicllç~ realmente unas, verdadeiras Bentenças. BiW
sentença" num sentido estilistieo que nA.o é o ponto de vista ling'Üilltico e estri-
40 A L IN G U A G EM

t.a.mente formal. A grafia. - 'jFiearei. Mas v~ pode ir" -, é intrinsecamente   tI.o


 justitieAvel como - "Ficarei". "Quanto 8.   vocli, pode   ir".   O sentimento da intima
COnexão daa duas propOlliçõe8 sugere uma representa.çli.o visual convencional, que
nlí.odeve desorientar o esplrito   a.nalitieo do   obae"ador.
11. Exceto,   ta1vet:, n88   1I'WIACheUe, dos jornais. E8eaa, contudo, 8Óalo   Hngo.
gem num eentido derivado.
12. E.. q. o hrilhante aut<lr-.!Iolandês Jacq. van Ginneken.

13. [Cabe uma análise dessas, mas !!emperfeita analogia, com tu! co.rrcspondf'[I.
tos pahwra.s portuguesas "temporal", "tormeutn" .e "borrasca.", sendo que a se-
gunda terá talvez, pela associação com o eabo das Tormentu e eom o episódio ea..
meniano do Adamastor, aquele "brilho   Bunto"   ressaltado em   tcmpc,t.]
H.   [Hun"oaM,   porto   "hracão", G empréstimo ao espanhol huracdn.)
3. Os Sons da Linguagem

Vimos que a estrutura meramente fon~tica da fala não constitui


O   fato intimo da linguagem e que o som simples da emissão vocal OR O
é, em si mesmo, um elemento lingüístico. Apesar disso, a fala está t . ã . : >
inevitavelmente ligada' aos sons e à.sua articulação, que não podemos
deixar de dedicar ao assunto da fonética algumas considerações gera.i!i.
A experiência tem   demonstrado que nem   os aspectos puramente   for.
mais de uma lingua, ne~ o curso da sua história pod~m ser plenamente
compreendidos sem referência aos sons em que cs<mforma e essa histó-
ria se encarnam. Uma preleção minuciosa de fonética seria por demais
técnica para o leitor comum e tão frouxamente relacionada ao   nOHSO   tema
central que não justificaria o espaço consumido; mas podemos, não
obstante, dedicar alguma atenção a uns poucos fatos e idéias precípuo~J
relacionados com os sons d a   linguagem.

A impressão que o homem médio tem da sua lingua, é   que ela é


construída, acusticamente falando, de um número comparativamente pe-
queno de sons distintos, cada um dos quais é   representado com aceitá-
vel precisão, no alfabeto corrente, por uma letra, ou em raros casos, por 
duas ou mais letras que se alternam. Das Hnguas estrangei,tIl8, excetua.
das certas diferenl1u notáveis que não logram escapar ao seu ouvido
ineducado, acha em regra que os sons que utilizam elas., 860 aqueleB mee.
mos com que já está. familiarizado, mas que há um "sotaque" misteric>-
SO,   certo caráter fonético de análise difrcil,' o qual, independentemente.

dos sons propriamente ditos, dá 80 conjunto um ar peregrino.

Essa impressão ingênua é   grandemente ilusória nos scus dois sen-


tidos.

A .análise fonética nos convence que o número de sons C   gradações


sonoras de possível e clara distinção, habitualmente empregado..<;por 
quem fala uma língua, é   muito maior do que reconhece o leigo.

Provavelmente nenhum inglês entre cem tem a mais remota suspei-


ta de que o t  de um vocábulo como   sting   [porto "ferrão"] não é abso-
42 A LINGUAGEM

lutamente O   mesmo som que o t  de   tcem [porto "verter"], de vez que


este último possui uma   l'descarga expirat6ria" que o s   inicial não deixa
haver no primeiroj que o ea [i prolongado] de   meat  [Hcame"] é de du-
ra<:ão perceptl\"elmente menor que o ea de   mead    ["hidromel"];   ou que
o s final de um vocábulo como   heads ["cabeças"] não é o som de z que
tem o s de   please, com a plenitude do seu zumbido. Estrangeiros, que
adquiriram domínio prát.ico da língua inglesa e eliminaram as   gr08Sei-
ras aproximações fonéticas dos seus compatriotas menos cuidadosos, fa-
lham em regra em atentar para essas distinções menores, o que ~ncor-
re para emprestar  à sua pronúncia inglesa o sotaque curioso e falaz
que todos percebemos.

Se não diagnosticamos esse sotaque como o efeito acústico total


 produzido por uma série de erros fonéticos leves ma.q especificos, é sim-
 ple.qmentc porquc nunca nos compenetramos, por nossa vez, claramente,
do material fonético de que dispomos.

Comparando os sistemas fonéticos de duas Hnguas tomadas ao acu-


so, inglês e russo, por exemplo, é que podemos avaliar quão poucos ele-
mentos fon"éticos de uma têm exata correspondência na outra. Assim, o
t  de uma p:lla\"ra russa como   tam, "ali", não é   nem o do inglês   sting
nem o do inglês   teem. Diferc de ambos na sua articulação "dental", ou,
em outros termos, porque do contacto do ápice da lingua com os dente~
superiores e não, como o t  inglês, do cont.aeto da língua, aquém do ápi-
ce, com a zona alveolar acima dos dentes; difere, ainda, do t  de   teem
 por causa da ansência da descarga expiratória nntes da emissOO da "0-
gnl SC'guinte, de sorte que há um efeito acústico de natureza mais nítida
e "met1ilica" do que em inglês. Por sua vez, o l inglês não é   conhecido
em russo, que possui, por seu lado, dois sons de l distintos. os quais um
indh'iduo inglês normal muito dificilmente reproduziria com. exatidão
- um l   "("ayo" e   Nrno "ue gutural, e um l j1suave", palatalizado, que
muito imperfeitamcnte podemos indicar, em termos ingleses, por  ly [9
o som português Ih de   ilha}.   Até um som tão simples, e aparentemente
invariável, como o m, difere nas duas Hnguas. Numa palavra russa como
most,   "ponte", não há o mesmo m   que no inglês   most    [superlativo dê
mueh, "muito"]: os lábios arredondam-se mais francamente durant~ '1
articulação; donde uma impressão auditiva mais pesada e ressonante.
As vogais, inútil é dizê-lo, diferem completamente em inglês e em russo,
 pois que ncm duas sequer são propriamente iguais.
Entrei nesses detalhes ilustrativos, de pouco ou nenhum interes-
se específico para nós, apenas com o objetivo de ministrar uma espécie de
 base experimental, capaz de convencer. nos da tremenda variabilidade
do.<; sons vocais. Contudo, um inventário completo dos recursos acústi-
cos de todas as línguas européias, perto de nós, embora incalculavel.
mentc latos, não conseguiria dar uma idéia justa da verdadeira ampli-
tude da articulação da voz humana.

Em muitas línguas da Ásia, da .l\frica e da América aborígine, há


cla.<:;.~s inteiras de sons, dos quais todos nós não temos a menor idéia.
 Não são n~ess.ariamente mais difíceis de enunciar do que outros com
que estão familiarizados nossos oU\;dos; apenas, prec;supi>em ccrtas ar-
OS SONS DA LINGUAGEM 43

ticulaçõcs dos órgãos da fala a que de início não habituamos 0 .< ;   nO!i&O-">
órgãos. Pode-se, aliás, afirmar, sem receio, que o número total dos sons
vocais possíveis  é   muito superior ao que está prati('.lUnf'llte('m uso. Um
foneticista experimentado não teria, com eferto, dificuld:tde em inn't1tnl'
sons desconhecidos à investigação objetiva:

Um dos motivos que nos tornam árduo acreditar que a s,.;tte do.'i
sons possíveis da fala seja indefinidamente extensa, está em'   11('SSO há.
 bito de conceber o som como impressão simples c inanalisável, em   Vl!'7. de
aceitá.lo como a resultante de uma porçlw de articula<:&>smusculares,
distintas, que se realizam si!Uultâneamente. I...evemudança em uma des-
tas dá. nos novo som, relacionado com o antigo por causa da persistência
das demais articulações, mas acusticamente distinto, -tão sensível se tor-
nou o om'ido humano ao jogo cambiante do mecanismo da voz.

Outro motivo da nossa falta de imaginação fonética está em que,


embora o nosso ouvido seja delicadamente apto a surpreender os sons
vocais, os músculos dos nossos órgãos da. fala se tornaram, muito cedo
na vida, exclusivamente habituados às especiais articula,:ões e si'itemns
de articulação, que nos impõe a enunciação dos soI1s tradicionais da
nossa língua. Todas ou quase todas as outras articulações estão perma-
nentemente inibidas, quer por falta de experiência, quer por uma, eli.
minaç.ão gradual. Naturalmente que não perdemos completamente o p0-
der de executá.las; mas a extrema dificuldade quc sentimos em aprcn-
ttf'r novos sons 'de uma língua csfrangeira, é   prova suficiente da C3tra-
oha rigidez que a maioria das p<,.ssoasadquiriu no governo voluntário
dos órgãos da fala. É o que ressalta irrefragável, se contrastamos essa
relativa falta de liberdade no.~movimentos'voluntários da elocução' com
a liberdade inegavelmente plena da gesticulação voluntária.

A rigidez da articula~iio foi o preço que tivemos de pagar pela es-


 pontaneidade da nossa mestria em lidar com um simbolis;moaltamente
necessário. Não é   possível ser esplêndidamente line na e-~olha capricho.
Ra dos movimentos e ao mesmo tempo saber cscolhê-Ioscom segurança
fataP.

Há, portanto, um número indefinidamente lato de sons articula-


dos à   disposição do mecanismo da falai cada língua faz uma sel~.ão
explícita e rigidamente econômica nesse rico acervo; e cada um dos mui-
tos sons vocais possíveis é   condicionado por certo número de articula.
çôcs musculaI'('s independentes, que trabalham juntas e simulttmc.as
na sua produção.

É impossível nestas pagmas dar uma explicação cabal da ativida.


de de cada órgão da fala - naquilo que tal atividade interes&'\ à   lin-
guagem -, nem podemos preocupar-nos com a clas.~ficação dog son~
fundamentada no seu mecanismo de produção'. Só podemos aventurar.
nos a traçar um rápido esboço.

Os órgãos da fala são os pulmões e os brônquios; a garganta, prin.


cipalmente a parte conhecida pelo nome de laringe, ou, em linguagem
familiar, a "maçã de Adão"; o nariz; a úvula, que é o órgão mole, pon.
tudo e facilmente móvel que fica no fundo do palato; o palato que se
44 A LINGUAGEM

divide em posterior, móvel -   Upalsto mole ou véu palatino" -, e em.


"palato duro"; a língua; os dentes i e os lábios. O palato duro, o véu
 palatino, a língua, os dentes c os lábios podem ser considerados wna
espécie de caixa de   ressonância combinada, cuja variação constante de
forma, principalmente   em virtude da extrema   mobilidade da   lingua, é o
 principal fator que dá ao  sopro expirat6rio a  preciosa qualidade   dé som".
Os   pulmÕC8 e os brônquios são órgãos da fala apenas na medida
em que   ministram e  canalizam a   corrente de ar expirat6rio, sem a qual
é impossível a articulação audível. Deles não depende um dado som   (>9.
 peeffico, ou o caráter acústico dos sons, exceto   possivelmente .0  acento ou
intensidade. Pode ser, com efeito, que as diferenças de intensidade de-
corram de leves diferenças na força de contra~ão dos músculo'J pulmo-
nares; mas até essa influência dos pulmões ~ negada por alguns entcn-
didos, que explicam as flutuações de acento, que tanto concorrem parI!.
~ar cor  à   fala, pela atividade mais delieada das cordas glotais. EstaR 
cordas são duas pequenas membranas quas~ horizontais e altamente sen-
síveis dentro da laringe, a qual consiste, por sua vez, principalmente,
de duas grandes cartilagens e algumas outras menores e de certo nÚInC.
TO   de pequenos músculos que governam a ação de tais cordas.

As cordas glotais, assim ligadas as cartilagens, são para os 6rgfi.os


da fala humana o que são para uma clarineta as suas duas hastes vi-
 bratórias ou para um violino as suas cordas. São, pelo menos, capazes
de três tipos distintos de movimentos, todos importantíssimos. Elas po-
dem aproximar-se pu afastur-se uma da outra, podem \'ibrar como as
hastes ou as cordas de um instrumento de música, e podem tornar-se
tensas ou írou.'{asna direção do comprimento. O último tipo desses mo-
vimentos permite-as vibrar com diferentes extensõcs ou graus de tensão,
e dele3 dependem as yaria~(je~de altura, presentes não apenas no canto,
mas até nns modula<;õcsmais.,falazes da fala comum. Os outros doi~
tipos de ação glotal detf'rminam a natureza da   "07.,   considerando-se
H VOZ" o nome mai~ adequado para o sopro expiratório utilizado na fala.
Se < l .'. l ('.Ordasestão bem separadas. e permitem que o ar se eseare sem mo-
dificaçiio, temos as condiçoo'it(>enicament~conhecidas pelo nome de "en-
surdecimento". Todos os sons produzidos nestas circunstâncias são "sur-
dos". Tais são o sopro simples, não modificado, que passa para a boca
e que, pelo menos aproximativamente, corresponde ao som representado
 por  h [h   aspirado inglês de   have,   por exemplo1 .   e, a mais, um grande
número de articulações especiais na câmara bucal, como p e s.
Por outro lado, as coroas vocais podem juntar-se sem vibrar. Quan-
do isso aeontc-ce,a eorrente de ar fiea interrompida. Essa leve suspen-
são ou "tosse presa" que assim sc faz ouvir, não é  considerada em inglês
um som definido; mas ocorre apesar de tudo, e não poucas vêzcs Tal 5

 pausa momentânea, t<'Cnicamentechamada OC1tLqâO   glotal"6, é   elcrnen:"


H

to integrante da fala em muitas línguns como o dinamarquês, o leto,


os dialetos chineses e quase todas as Hngua~dos indios americanos,
Entre os doi.'3extremos da expirac:ãocompletamente franca e da ex~
 piração interrompida, está 8  posi<:ãoadequada à   \"oz propriamente dita.
 Nela, as cordas se aproximam, mas não tanto que impeçam a saida do
O S S ON S D A L IN GU AG EM 45

ar; as cordas põem-se em vibração e daí resulta um wm musical de al-


tura variável. Um tom assim produzido diz-se "sonoro". Pode ter um
número indefinido de qualidades, de acordo com determinada p o ..'i il.:ã o
dos órgãos superiores da fala. As nossas vogais, os elementos nasais
(como m e n) e outros como b , z e lJ são tedos   Ronoros. A prova mais
cômoda da sua   <;()norida~e ê a possibilidade de pronunciá-los com qual.
quer altura de voz, ou, noutros termos, de cantá-Ios '.
Os elementos mais claramente audíveis da fala são os sonoros.
Como tais, sobre eles praticamente pesam todas a'õ!diferenças significati-
ya.,;de intensidade, altura p unidade silábica. Os sons surdos são ruídos
'articulados que cortllm o flu.xo da voz com transitórios momento.q de si-
lêncio.
Como intermediários acústieos entre as cmlss(}(;Sfrancamente surdas
e sonoras, estão certos tipos característicos de enunciação vocal, o mur-
múrio e o cochicho por exemplos. Estes e ainda outros tipos de voz são
relati\'amente sem importância em inglês (" na maioria das outras lín-
guas européias, mas há línguas onde eles assumem preeminência na elo-
cução normal.
O nariz não é um órgão ativo da fala, mas é altamente importante
como câmara de ressonância. Pode isolar-se da .boca, que é a outra gran-
de câmara de ressonância, pela suspensão da parte móvel do véu pala-
tino, o que impede a passagem do sopro expiratório para a cavidade na-
sal; se, por outro lado, se deixa o véu palatino ficar caido, livre e de-
simpedidamente, de sorte que a corrente de ar passa tanto para o na-
riz como para a' boca, forma-se com um e outra uma câmara de   ress0-
nância comhinl'.da. Sons   como b e a (em   fatMT  por exemplo) têm ROno-
.ridade oral, isto é, o sopro sonorizado não recebe ressonância nasal. Tão
depressa se abaixe o véu palatino, porém, e o nariz participe da câmara
de ressonância, os sons b e a   adquirem peculiar qualidade "nasal" e tor-
nam-se respectivamente m e a ...•.ogal nasalada escrita an   em francês (e.
g.   sano, tante). Os únicos sons inglescs que normalmente recebem res-
9

sonância nasal são m, n e o ng de  sin.g [que é um n gutural distinto do ':\


comum ou dental]. Pràticamente, porém, todo.~os sons podem ser nasa.
lados, não apenas as vogais - vogais nasaladas são corriqueiras em to-
das as partes do mundo -, mas até sons como l ou z. Nasais surda~
(não-sonoras) são perfeitamente possíveis: ocorrem, por exemplo, em
cinrico [celta do pais de Gales] e em grande número de linguas dos
{ndios americanos.
Os órgãos que t"onstituem a câmara de ressonância oral, podem ar-
ticular-se de duas JnanE."Íl'as.Pode-se deixar que a corrente de ar, ao-
nori?..ada ou surda, nasalizada ou~não, passe pela boca sem interrupção
ou impedimento; ou entiio pode-se, quer interrompê-Ia momentâneamente,
quer deixá-la escoar-se por uma passagem muito estreita com resultante
fricção do ar. Há ainda transições entre êstes dois últimos tipos de ar-
ticulação.

A corrente dc ar emitida livremente adquire certa cor ou qualida.


de particular, segundo a forma variável da câmara de ressonância oral.
Esta forma é principalmente determinada pela posição das partes mó-
46 A L IN G U A G EM

veis: a língua e os lábios. Conforme a língua se eleva ou se abaixa, se


retrai ou avança, se retesa ou se afrouxa, e conforme 08   lábios fazem
 bico, isto é,   se arredondam mais ou menos, ou se deixam ficar em   p(
).

s.ição de repouso, resulta grande número de qualidadc..~ distintas. São


elas as vogais. Teoricamente, são em número infinito; praticamente, o
ouvido só consegue apreender um número limitado, mas surpreendente-
mente grande, de posições de ressonância.

As vogais, nasaladas ou não, são normalmente sonoras; em não


 poucas línguas, contudo, também ocorrem "vogais surdas".10
Os restantes sons orais são geralmente reunidos na classe das "con-
soantes". Nelas, a corrente de ar sofre um embaraço qualquer, de sorte
que dai resulta menos ressonância e urna qualidade tônica mais aguda
ou incisiva.
Consideram-se em regra quatro principais tipoo de articulaçilo no
grupo lato das consoantes. A corrente de ar pode ser completamente in-
terrompida por um momento num ponto dado de cavidade. Sons assim
 produzidos, como t, ou d, ou P. dizem.se "oclusivos" ou uexplosivos"l1.
Ou a corrente de ar pode ser contInuamente imprlmsada numa pa.<;sagem
estreita, e não inteiramente detida. Exemplos des.'KlS"espirantes" ou ufri.
cativas", como são chamadas, são s, z, y   (isto ê, o   iod, ou i  consonantal,
que entre nÓ8 aparece nitidamente em "ioiô", Uiaiá"]. A terceira classe
de consoantes, as l'laterais", são semi-oclusivas. Há uma interrupção
efetiva no ponto da articulação, mas a corrente de ar se escapa pela.,;
dUM passagens laterais, ou por uma delas. O nosso d    inglês, por exem-
 plo, pode transformar.se facilmente em l, que tem a sonoridade e a pc-
siç.ão do d, simplesmente com deixar.se cair um dos lados da língua
 junto 8ü ponto de eontaeto, de tal maneira que dê saida à corrente de
ar. As laterais são possiveis em muitas posições distintas. Podem ser 
surdas (O II   cinrico ê um exemplo) tanto quanto sonoras. Finalmente, a
oclusão pode ser um movimento intermitente rápido; em outros termos,
o órgão ativo do contacto - em regra a ponta da língua, menos freqüen-
temente a úvula 12 - pode pôr.se em vibração de encontro ou perto do
 ponto de contacto. Estes sons são a'i "vibrantes", ou "consoantes roladas",
cujo exemplo dos mais típicos temos no T    inglês normal. Existem bem
desenvolvidas em muitas línguas, em regra sob o aspecto de sonoras, mas
também não poucas vezes sob o aspecto de surdas como p.m   cÍllrico e
 paiúte.
O modo de articulação oral não basta evidentemente para definir 
uma consoante, Há também por considerar o lugar da articulação.
Podem dar-se contactos em grande número de pontos, desde a raiz da
língua até os lábios. Não ê necessário procurarmos esgotar aqui este a.'i-
sunto bastante intrincado. Dá-se o contacto entre a raiz da língua e a gar.
ganta 13, entre uma dada parte da lingua e um ponto do palato (como
em   k, ch ou l), entre uma dada parte da língua e os dentes (como no th
inglês de   thick  e   then), entre os dentes e um dos lábios (praticamente.
sempre, os dentE'S superiores e o lábio inferior, como em f), ou entre os
dois lábios (como em p ou no inglês   tu).
As articulações linguais sã o de todas as mais intrincadas, porque a
os   SONS DA LINGUAGEM 47

mobilidade da língua permite que um dos seus pontos, o ápice por exem-
 plo, se articule de encontro a uma porção de pontos opostos de contacto.
Daí, decorrem muitas posições de articulação com que nno estamos fa-
miliarizados, como a posição dental típica do t e d    em russo e italinno;
ou a posição ucerebraI" do sflnscrito e outros idiomas da índia, quando o
ápice da língua se articula contra o palato duro. Como não há solução
de continuidade da arcada dentária até a úvula e do ápice u   raiz da lín-
gua, é  e\;dente que todas as articulações em que este último órgão ful)-
eiona, constituem uma série orgânica (e acústica) continua. As posiçõcs
succdem.se gradativamente, mas cada idioma escolhe um número limi-
tado de posições claramente definidas, como características do seu   si'l-
tema consonântico, fazendo abstração das intermediárias ou extremas.
lIuita.c; vezes há certa latitude na fixação da posição requerida. É o
que sucede, por exemplo, com o som inglês k  que numa palavra como
kin [port. "parentesco"] se articula muito mais para a parte anterior da
 boca do que em  cool [porto ufresco"]. Psicologicamente, não chegamos a
tomar conhecimentodesta diferença, que fica sendo, portanto, meramen-
te mecânica, não-es..'JCncial.
Já  outro idioma poderá dar à diferença, ou ~
outra pouco maior, um valor preciso, assim como o fazemos para a dis-
tinção de posiçõesentre o k  de kin e o t  de tin   [port. llestanho").
A classifiea~ão orgânica dos SQnsda fala é coisa simples, depois
do que acabamosde ver quanto à sua produ~ão. Um som qualquer pod"
ser posto no seu devido lugar com a resposta apropriada a estas quatro
 principais perguntas: - Qual a posição das. cordas glotais durante a
articulaçãoT A corrt'nte de ar passa apenas pela boca ou também se
escoa em parte pclo nariz' A corrente passa livremente na boca ou  8(,-
fre um impedimento qualquer, e, neste caso, ae que espécie' Quais os
 pontoBprecisos da articulação na boea1 gssa classificação quádrupla.
H

explorada em todas as suas ramificaçõesu, é   suficiente pura explicar 


todos ou praticamente todos os sons da linguagem 18

01'1hábitos fonéticos de uma língua não ficam, entret.'mlo, exaus.


tivamente definido.. ••com dizer que ela utiliza tais e quais Mns dentre
a gama sem fim a que acabamosde lan~ar um rápido olhar. Subsiste ain-
da a importante questão da dinilmica desses elementos fonéticos.
Duas lín~nas podem, teoricamente, consistir das m~sma.'isérie'i ní-
tidas de conSO'lntcse vogais, e produzirem, não obstantc, efeitos acús-
ticos totalmente diversos. Uma delas não reconhecerá variaçôcs notá-
veis na duração ou "quantidade" dos elementos fonéticos, enquanto a
outra procurará as.•i•nalá-las euidadosame\lte (na maioria, talyez, das
línguas, há distinção entre as vogais longas e breves; e, em muit.'l8,
como o ita.liano, o sueco e o ojíbwa as consoantes longas não se eonfun-
c1<>m com as breves da mesma natureza). Ou uma língua, o inglês, diga.
mos, será muito sensível para as. rela~Ó('sde intensidade, enquanto em
outm, o franel'S. digamos, a intensidade merece muito menor considera-
(:<10.   Ou, ainda, as difercn~as de altura da voz, que M O inseparáveis da
 prática da 1ing'ungcm,não se consub&tanciarão~no vocábulo, ma.'i,como
l'
l ll  inglês, serão mais ou meno..')caprichosas, ou, quando muito: um fcnô-
11l<:no retórico, ao passo que em outras línguas, como em sueco; em lituâ-
nio. em l~h!nl3s, em siamês e na maior parte das língul1safricanas serão
48 A LINGUAGEM

mais sutilmente graduadas e sentidas eomo caracteres integrantes dos


 próprios vocábulos.
:Métodos diversos de silabae;:.ão também concorrem para diferenças
acústicas notáveis. Ai   o que mais importa, talvez, são as diversíssimas
 po~ibilidades de combinar os   elementos fonéticos. Cada língua tem suas
 peculiaridades. A combinação ts, por exemplo, encontra.se tanto em in-
o •

glês eomo em   alemáAJ, mM em inglês s6 ocorre em fim de pa1aVTaB (como


em   kats)   [plural de   hat,   porto   jjchapéu'~], ao passo.que ocorre livremente
em alemão como equivalente psicológico de um som simples (como em
 Zeit, Katze), [porto "tempo", "gato"]. Algumas línguas admitem grandes
conglomerados de consoantes ou de grupos de vogais (ditongos); já em
outras não podem juntar-se sequer duas consoantes ou vogais. Freqüen.
temente um dado som só ocorre em determinada posição ou sob circuns-
tâncias fonéticas especiais. Em inglês, por exemplo, o z de   azure   [porto
"azul"] não aparece em início de palavra, ao mesmo tempo que a quali-
dade peculiar do t  de   sting   [porto   "ferrão"] depende de um s   prece-
dente. Tais fatores dinâmic~ em sua tonalidade, são tão importantes
 para a compreensão adequada da Índole fonética de uma língua, quan-
to o próprio sistema fonético, e, não raro, muito mais até.
Já vimos, incidentemente, que elementos fonéticos ou caracteres di-
nâmicos, como a quantidade e a' intensidade, têm ."valores" psicológi-
cos variáveis. O inglês ts de   hats não passa de um t    seguido por um s
funcionalmente independente; o ts da palavra alemã   Zeit    vale por 
uma unidade, à maneira, digamos, do t    do inglês   tide   [porto "maré"].
Por outro lado, o t  de time [porto   l'tempo"] é, com efeito, perceptivel-
mente distinto do de   stillg, mas a diferença na consciência do indiví-
duo inglês é de toda desprezfvel; não tem "valor". Se compararmos 0'1
sons do t  do haida, língua' indiana falada nas ilhas da Rainha Carlota,
verificaremos esta mesmn diferença de articulação com um valor real.
 Numa pala\'ra como   sting,   "dois" o t  é pronunciado precisamente à ma-
neira do inglês   sting,   mas em   sta, preposição de origem - lide", o t 
é claramente "aspirado" tal qual o de   time.   Em outros termos uma di-
ferença objetiva, irrelevante em inglês, é de valor funcional em haída;
do ponto de vista psicológico dêste idioma, o t  de   sting   difere tanto do
de sta   quanto, do nosso ponto de vista, difere o t  de   time do d  de   divine.
Uma investigação ulterior ministraria a interessante conclusão de quc
o ouvido haida considera a diferença entre o t    inglês de   sting e o d .
de   divine   tiio insignifi('ante quanto, para o ouvido inglês lei!!o, é   a d'i~
ferença entre o t de   stillg   e o de   time.
Por conseguinte, a comparação objetiya dos. sons em. duas ou mais
línguas não tem sentido psicológico ou histórico se tais sons não são pri.
meiramente "ponderados" c os seus Hyalorcs" fonéticos bem dctermi-
nadoa. Esses yalorcs, por sua vez, decorrem do comportamento e fun-
cionamento geral dos   I!lOM, na prática viva da língua.

Essas considerações acerca do valor fonético leyam-nos a uma con.


ccp~i1o importante.
Por trás do sistema de sons puramente objetivo, peculiar a uma
língua e a que só se chega por laboriosa análise fonética, há um siste-
ma mais restrito, "intimo" ou "ideal", que, igualmente inconsciente tal-
O S S ON S D A L IN GU AG EM 49

vez como sistema aos homens em geral, pode muito mais facilmente ser 
tra"ido para o campo da consciência, à maneira de um   padrão"   defini.
do, de um mecanismo. psicol6gico. Esse sistema fonético intimo, sobre-
carregado embora que esteja pelo que há a mais de mecânico e insig-
nificante, é um principio real e imensamente importante Da   vida de uma
Hngua. Pode persistir como padrão, ineluindo o número, a relação e
o funcionamento dos elementos fonéticos, muito tempo depois de o seu
conteúdo fonético ter mudado. Duns línguas ou dialetos, historicamente
relacionados, podem não ter um som em comum, sem que 08   seus siste-
mas fonéticos ideais deixem de constituir um só padrão. Com isso, não
quero absolutamente dar a entender que um padrão   desses seja imu.
tAvel. Pode reduzir, ampliar ou alterar a sua conformação funcional, mas
em marcha infinitamente menos rápida do que a dos sons propriamente
ditos.
Toda língua, por conseguinte, é   caracterizada tanto pelo seu sis-
tema ideal de   BOns e pelo seu padrão fonético de subsolo (sistema, di.
riamos nós, de átomos simbólicos) quanto por uma definida estrutura
gramatical. Ambas essas estruturas, a fonética e a conceptual, mos-
tram o sentimento instintivo da forma que há na linguagem.
Notas ao   Capítulo 3

1. "VokLotários", note-8e bem. Quando berramOll,   n'1Imungamos, ou   deixamos


de qualquer maneiro. a voz entregue a si mesma, como tendemos a fazer quando
nOl'l achamos sozinhos no campo por um belo dia de   primavt>ra, jâ   011.0   cslnmos
fixando articulaÇÕt's   vocaÜl por meio do governO da vontade. Nestas circunstância",
6-U08 quase certo chegar a   80ns vocais que nunca   soubemos   provocar na prática.

2. Se a fala,   lIob o seu aspecto   a.eÚ8tieo   e articulat6rio - objetar'8&-6. _ 


é com efeito um sistema rl.gido,   c0I!10   se explica n10 haver    eeqtle~ duas' pessoas
que falem igual t A resposta é   simples. Toda essa parte da fala que   estA   fora do
rigido areabouço atticulat6rio 010 entra na fjid~ia" da.   fala,   Bendo apenas um
a.cré.'1cimode   eomp1ies.~ vocal mais ou men06   iIUltintiva, ins<'parável da fala no.
-prática. Toda a cor da linguagem individual - a ênfase e a rapidez de   elocuçlo
 pussoal, a cadência, o tom do vOlo- é um tato e%tralingül.!tico, da mesma sorttl
que 8.8 exprl'!cls3cs fortuitas de desejo c emoçlo ficam quase' sempre fora da 6I{.
 prC9!!10 lingilistica. A fala, como todos os elementos culturaUl, exige sel~A.o <i~
coneeito, inibição das extruagll.neifl.ll do comportamento instintivo. O   fato de a
sua "idéia" nunca realizar-se como tal na prática, em virtude de serem os   seuII
executores organismos instintivamente animados, é   comum a ela e a toda e qual-
q-.l('r outra manifestação cultural.

3. Classificaç6cs puramente acústins, tais como para logo se sugerem 'l.


 primeira têntativa de anlJise, gozam atualmente de menos favor entre os foneti-
cista.s do que aa classificaç&>s orgânicas. E9tas últimas têm a vantagem de scr mni~
objetivas. Acrt'SCe que a qualidade o.eústica de um flOro depende da sua articula.
çl.o, embora para a consciência lingüística tal qualidade seja um fato prim6.ril'J
e nAo lleCundé.rio.

4. Entende.se aqui por qualidade a natureza e ressonância inerente ao flom


 propriamente dito. A qualidade geral da vOlo individual é   outra coisa totalm('nt~
diversa. E.~ta. última é principalmente determinada pelos caracteres anatômicos da
laringe de cada individuo, e não t{"m qualquer interesse lingüistico.

5. Como parte final de um no! pl'OlIunciado l'O!:l rai,'a (r    às vezes


!la   ('1l.

crito   nope!), ou na pronúncia d.' at   dl/.   fcita   (,O!II  ('uidado   t'x~.t'Sl'ih'r., onde sc OUW!
um:\ leve pausn {"ntre o t  p o a.
6. [Ufll..se aliás, muit~'l   H'Zl'S em lingüistica o t~rmo inC"l~s!itClnl;   glottal dof'.}

i.   L!':HI(!   aqui   "c:\lllar" rnt   H'utido   lalo.   Xin~utõm poile t':\l1tnr    imlf'finidn..
rol'nh' um l'Oln cúmo b ou d,   m:'!.S ql~alquer  pes.~oa ('OIh' t>mlllinr uma   toada   numa 'lé.
rie de bb ou dd. il rnant'ira do "pizzieato" arrancado aos iostrumrntoo dI' rorna.
52 A LINGUAGEM

Uma fI,~rie di) ton9 f>XecUtM08 50brl." consoantes continuas como   m. ::, ou i, dá I)
efeito de um murmúrio, assobio ou zumbido. AliAs, o murmúrio nia ê   mais do que
uma unsaJ continua sonora, mo.ntida numa s6 altura. ou de altura variável, con.
forme se deseje.
S. O   eochicho da conversação comum é   uma combinação de 1I0D8surdos ~
110m"coehieha.d06", nO sentido em que se toma. este termo em fonética.

9. Independentemente da nasaJaçlio involuntâria de todos 08 elementos llO-


OOf08   na elocução daqueles que falam "pelo nariz", d~ maneira ufanhosa".
lO. E.!Ita.stambém podem ser definidas como uma corrente de ar surda, de-
simpedida, com timbrell vocais variáveis. No longo voeá.buJo pai6te citado à. p~.
-n O primeiro" e o ü   (por  ii entende-se um u como em franc&) f~ 810 pro-
Duneiad08 liam voz.

11. ÂI oe1uaivu n&aai.l, como m ou 11, podemni.turalmente nI.o resultar de


um& nrdadeir& oclu.a&o,pol.l nll.o hl um meio de deter a corrente de ar no nariz
 por uma artlculaç10 definida.
12. Teorieamenta, OI lAbioe tamWm  podem articular-.e desaa maneira. Mas
ae j'Tibrantel labiaJa;" .10 por certo n.tu na tala eepontlnea.

13. Tal poeiç.ão, dita "taucal", nito é   comum.

14. Por "pontos de articulação" deve.sc t:J.mb~m entenuer a.! posiç3r:s lin-
guais e labiais da.! voga.is.
  Incluindo.se, na quarta categoria, certo número de ajulltamcntos espe.
15.
dais de ressonância que não pudemos especificar.
16. Apenas na medida em que se trata de sons expiratórios, isto é,   pronun-
ciados com a corrente de ar expelida dos pulmões. Certas lingutl.'l, como o hoten-
tote e o boximane da Africa do Bul, também U:m SOM iMpirat6ri08, pronunciadO<'!
com uma sucção de ar em vários pontO<'!de contaelo bucais. Sii.o os chamados cJi.
'lUI"'!l   [aportuguesamento do inglês   click).

17. A coneepçAo do sistema fonétieo id(>al, do padri.o fonético de nmB Uno


gua nM é,   pelos lingüistas, tio bem compreendida quanto deveria ser. A esse res-
 peito, o observador prático, desde que tenha bom ouvido o um genul:no faro d!L
Ungua, ~tá muitas vezes em melhores condições do que o minuciOllOfoneticistA.,
que corre o risco de ser esmagado pela massa de suas observações. Já me referi
no minha experiência adquirida no ensinar indi09 a escrever suas própria.! Ungutl.'l,
 por causa do valor probante di580 em C&80div(>~o. ~ igualmente 6tH agora. V".
ritiquei quo é   ditki1 18nl.o impoeeivel levar um l:ndlo a taur distinçôca fonéticu
que nl.o correepondam a "pontal do leu po.drlo HngUbtico", por mELi,que euM
dlterençaa impreuionem objetivamente ao DOIIO ouvido j   mu qualquer diteren~
tonõUc" .util, mal aud!vel, dMde que coincidiue com um "poDtd' d••quels padrlo,
era expreeaa fi.cU e yolull.u'riamente na tterita. Atentando p"ra o meu intérprete
D\ltka a escrever  Ungua, tive muitu veue a lmpr8l110 de que ele eetava tran.
lU"

el'e?8udo uma seqi1ência id(>8.1de elementos 1on~tieos que ouvia, inadequadamente


<lo ponto de vista objetivo puro, mu que Interptet&vELde acoroo com a. intt'nçlo
da pronúncill. (>llpontlnea geral. lTraduz-l!Ieaqui por "padrlo" o !Armo inglêe   patt~,
CIlpeelalizndo por Sapir numa signifie.a.t:Ao téeniea que ficou tradicional na lin.
giHstic8. norte-americana j   o português "pauta." também se presta para a tradução,
mll.8"padrlo" parece adaptar.BC melhor a todQ.!!ll8 ocorrêncitl.'l e merece ficar com"
o equivalente tecnicamentc firmado de   paUcr1t.]
~(Wt&   l(1k) cl } " Ú ! M  1 t.J < ;l-
4. A Forma na Linguagem:
Os Processos Gramaticais

A questão da forma em linguagem apresenta-se sob dois aspecta:.


Podemos considerar os métodos formais empregados por.  m D .a   lín-
gua, os llseus   proCessos gramaticais", ou verificar a distrib~ dos
('onceitos em referência à   expressão. formal. Quais são os padrões for-
mais dessa língua? E que tipos 4 e conceitos lhes servem de conteúdo'
Os dois pontos de vista são plenamente distintos.
A palavra inglesa   1lnthinkingly [correspondente, pelo sentido, 8
qualquer coisa em português como "sem pensar"] é,   de maneira geral,
cotejável, quanto à   forma, -à   palavra   reformers   [porto   "reformadores"];
ambas constam de um radical, que pode figurar como verbo indepen-
dente (think. form); em ambas esse radical é precedido por um elemen-
to   (un., Te-),   que traz significação definida e mtidamente concreta, mas
não pode ser usado como termo independente; e ambas terminam por 
dois elementos   (-ing,   -ly,   -er, -s), que limitam a aplicação do conceito do
radical num sentido relaciona!'
Este padrão formal, - (b) + A + (c) +   (d)' - é   um traço
característico da lfngua. Exprime-se por meio dele um número incal-
culável de funçõesj em outros termo~, todas as idéias que podem ser co-
municadas por meio de elementos de prefixação e sufixação, se tendem
 por um lado a encaixar-se em grupos menores, não constituem por ou.
tro lado sistemas funcionais naturais. Não há nenhum motivo de or-
dem lógica, por exemplo, para que a funçii? numeral do -$-   seja expressa
 pelo mesmo processo formal que a idéia contida em -ly [sufixo adverbial
como o porto "-mente"]. :t   perfeitamente concebh'el que, noutra 1fngua,
se trate o conceito modal   (-ly) em moldes inteiramente diversos dos da
 pluralidade. O primeiro pode ser transmitido por um vocábulo inde-
 pendente (digamos,   thus unthinking)   j o último por um prefixo (diga-
mos, "plural'''Z   -reformer). E há naturalmente um número ilimitado de
 possibilidades outras.
Sem sair do próprio âmbito da língua inglesa, é   fácil tornar .6bvia
es.~ relativa independência entre a forma e a função. ~ assim que a
idéia negativa contida em   Ull- pode ser expressa com a mesma jus-
54 A L IN G U A GE M

teza por um elemento sufixado   (.less)   numa pala\Ta como   thoughtlessly


[porto udesatentamente"]. Tal dualidade de expressão formal para a
fun~ão negath ..a seria inconcebível em certas línguas, o csquim6 por 
exemplo, onde só seria admissível um elemento de sufixa~ão.
Por outro lado, a no~ão de plural dada pelo -5 de   reformers é   expres-
sa com a mesma preeisáo pela palavra   geese   [plural de   goose, ganso"),
H

com o empr~go de método completamente distinto. :Kão é   tudo. O princí-


 pio da mutação vocálica (goose - geese) não está em absoluto restrito
à expressão da idéia da pluralidade; pode também funcionar como índi-
ce da diferença de tempo (c. g. sing - sano, throw - threw)3. Por 
seu lado, a expressão do tempo pretérito em inglês não depende exclusi.
\"amente de uma mudança de vogal. Na maioria dos casos, manifesta.se
 por meio de um sufixo distinto   (die.d, U'ork.ed)   [preto de   to die,   flmorrer"t
to wo,.k,  "trabalhar"].
Quanto à função,   died  e   san.g   são análogos i da mesma sorte que
reforme,.s e   geese. Quanto à forma, temos de agrupar esses vocábulos de
maneira diversa. Tanto   die-d    quanto   reform.er-s emprcgam o método
da sufixação dos elementos gramaticais; tanto   san.g   quanto   geese   deri.
,vam o seu valor gramatical da circunstância de diferirem as suas vogais
das de outros vocúbulos quc Ih{'.~estão int('iramcntr relacionados na
forma e no sentido   (goosc; sing, sun.g).
Cada língua dispõe de um ou mais métodos formais para indicar 
a relação de um conceito secundário com o conceito b~sico do radical.
Alguns desses processos ~ramaticais, como a sufixação, n'cham.se muito
espalhados; outros, como a muta~ão vocálica, são O1("no:;( comuns, mas es-
tão longe de ser raros ioutros ainda, como a acentuação e n mutação con-
sonnntal, constituem até certo ponto anomalia!'!.
Kem todas as línguas são tão irregulare.~ quanto a inglesa na ma-
neira de atribuir fun~rH:'saos processos gramatirais de que dispõem. Em
regra, os conceitos de natureza mais fundamental, como o de plurnlidade
e o de tempo, são exclush'nmcnte nprC'i'lentndospor um método único qual-
quer; mas é rcgra com tantas exceções que não podemos pl'omovê.la a
um princípio. Para onde quer que nos yoit{"mos. r{"ssalttl ti \'prdade de
que o padrão formal é   uma coisa, e é outra coi"a a sua utilização. Mais
alguns exemplos da expressão múltipla de fun~Ô('s idênticns, em outras
Hnguas além do inglês, con('orrcr,io para tornar ainda mais vívida   Cs<la

concepção da liberdade relativa que há entre função e forma.


Em hebrairo, como em outras línguas semíticas, a idéia vcrbal, consi-
derada em si mesma, é expressa por três, ou menos a miúdo por  dUM

ou quatro consoantes características. Assim o g-rupo   x-mor  dit a idéia de


"guardar", o grupo   g.n-b   a de "furtar",   n.t.n a de "dar". Natural-
mente que tais sf"qüências ronsonânticas são apenas abstraídas da.~ for-
mas rC'almf'nte pxislpntps. A~ ronsoante~ ligam-se (>nll'c si dt' di\'('rs~
maneiras, por meio de vog-ais enrart(,l'ísticas que \'ariam segundo a id~ia
que lhes cabe exprimir. Sãu também muito usados prefixos e sufixos, O
método da. muta~ão n)(~:ílica intrrna está exemplificado em   x.ama,.,
"~uardou" .   .Tomcr    "g'uardando",   xamur. "sendo guardado",   xm01',   "~Rr.
dar". Analo~mnente   {/mlOb.   "furtou".   gonch.   "furtando",   ganllb,   "sendo
furtado",   {l1Iob   "furtar". ~Ias nem todos o!'!infinitivo.." se formam pelo
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 55

tipo de   X1nor  c   nnob, 0\1 por outros tipos de mutaç:ão yocAlica interna.
Certos verbo!'!sufixnm um cl~mcJlto t   para o infinitivo, e. g.,   ten.eth   lidar",
1teyo-th, "scr". Por outro lado, ns idéias pronominais, podem ser expres.
sas por yocábulo~ indcpcndcnt~s (c. g'l   anoki, " eu"). por    prefixos (c.
g. e.:z:m o" "eu   guardarei"). por sufixos (c. g.   :romar-ti, ueu guardei").
Em nass, HnRua India da Colúmbia Britânica, formam.se 08   plu~
rais por quatro   rnétooOB   distintos. A maior  pu rte do.<;nomes (e dos   ver.
 boa) são r.oouplicados no plural, isto é,   uma parte do radical se repete,
e. g.   UVat,   llpcssoa",   gyigyat,   Ugente". Já   um segundo método está no
UBOde r.crtos prefixos C'aracterísticos. e. g.,  an'on,   "mão",   ka-an'on,   "mãos";
wai   "um remo",   lu-wai,   "vúrios remos". Outros plurais, ainda, se formam
 por .meio de uma mutac;:iiointcrna de vogal, e. g.,   gwula   "manto",   gwila,
Umantos" .. Enfim, uma quarta classe de plurais é constitufda por nomes
que sufixam um elemento gramatical, e. g.,   u:aky,   "irmão",   wakykw,
u' -
1l1lla06 "•

De grupos de exemplos como esses - e podemos multiplicá-los ad 


t'l4useam - só nos resta concluir que a forma lingüística pode e deve
&er estudada em seus muitos aspectos, independentemente das funções
respectivas.
1: tanto mais justificável assim procedermos quanto todM as lín-
gua:s manifestam um curioso ins.tinto para desenvolver um ou mais pro-
eeasos gramaticais especiais à custa de outros, tendendo a perder de vista
o valor funcional explícito que o processo possa ter tido a princípio, como
que comprazendo-ec no mero jogo dos seus meios de expressão.

 Nilo importa que num caso como o do inglês goou - geese, foul
defile   ["sujo" - "sujar"), sing - SQ"lg -   sung possamos provar que
R C   trat.a de processos histôricnmente distintosj que a altcrnância vocá.-
lica de   sino e   sang tenha precedido dc séculos, como tipo especffico de
 processo gramatical, o proccsso aparentemente paralelo de   goose e   geese.
~ão é nl('nos verdade que hfL (ou houve) em inglês, na época em que
sc constitufram   geese   e formas análogas, uma tendência inerente a utilizar 
a mudança de ,"ogal como método lingüfstico significativo. Sem o grupo
de tipos já existentes de alternância vocálica como sing - sang - sung,
é muito du\'idoso que as condições especiais que acarretaram a evolução
das formas   geese, teeth,   [plural de   tooth,   "dente"] saídas de   goose, tooth,
tivessem tido a força de induzir o sentimento lingüistico natiyo a chegar 
'a admitir como psicologicamente aceitáveis esses novos tipos de forma-
~ã.odo plural•.

Este sentimento de forma considcrada cm si mesma, expandindo-sc


liv~ementc segundo linhas determinadas, e grandemente inibido em certa.<;
direções por falta de moldes pré-estabelecidos, deveria ser mais claramen-
te compreendido do que parece ser. 86 um exame geral de diversfas~
espécies de línguas nos dá a perspectiva adequada a tal respeito.
Vimos no capitulo anterior que toda Hngua tem um sistema foné.
tieo intimo de padrão definido. Vemos agora que também tem o sen-
timento definido de constituir padrões para a formação gramatical.
Ambos esses impulsos, subterrâneos e de grande força diretriz, em prol
das formas definidas, operam pelo prazer de operar, sem a preocupa-
56 A LINGUAGEM

ção inicial de preencher uma lacuna na expressão de certos conceitos ou


de dar forma externa consistente a certo!! grupos de   concp.itos.   Inútil ê
dizer que tais impulsos s6 encontram realização na expressão de funções
concretas. É  preeiso haver a intenção de dizer alguma coisa para dizê~
la sob uma dada forma.
Seja-nos licito agora examinar um pouco mais sistematicamente,
conquanto sempre resumidamente, os vários processos gramaticais que
8 pesquisa lingürstica conseguiu depreender.
Agrupam-se em seis tipos principais: ordem vocabularj composição;
afixação, que abrange o uso de prefixos, sufixos e infixos; modificação
interna do elemento radical ou gramatical em referências quer a uma
vogal, quer a uma consoante; rcduplicaçãoj c diferenças de acentuação,
sejam elas dinâmicas (intensidade). sejam tônicas (altura, também cha-
mada "tom" e entoação). Há ainda processos quantitativos especiais quais
o alongamento ou (l   abre\;ação de vogais e a gcminação de consoantes
mas que podem ser consideradas como subtipos especiais do processo
de modifica~ãointerna. : : F .: possível que ainda restem outros tipos formais,
mas não terão provavelmente maior importância num exame perfunctório.
Importa nüo esquecer que um fenômeno lingüístico núo pode ser tido
como ilustração de um "processo" definido, senão quando lhe é   increp-
te um determinado valor funcional. A mudança eonsonântica em inglês, por 
exemplo, de   book-s e bag.s [s   no primeiro caso, z no segundo] não tem
significação. .£ uma mudança puramente externa e mecânica provocada
 pela presença de uma consoante anterior contfgua, que é   surda no pri.
meiro caso e sonora no segundo'. .£ objetivamente a mesma alternância
mecânica que se verifica entre o nome  house ["casa"] e o verbo   to hou.se.
Já   aqui, entretanto, cOl'respondea uma função gramatical importante,
qual a de indicar a passagem de um nome a verbo. M duas alternâncias
 pertencem, portanto, a categorias psicológicas inteiramente diversas. Só
a última cit.ada é uma verdadeira ilustração de modificação consonântiea
como processo gramatical.

O método mais simples, pelo menos mais econômico,de indicar qual-


quer espécie de noção gramatical é   justapor dois ou mais vocábulos numa
ordem definida, sem procurar, por uma' modificação inerente, estahel{>-
cer a conexão entre eles. Alinhemos ao acaso dois vocábulos simples in-
gleses, sing praise, digamos. Isto, em inglês, não acarreta um pensa-
mento concluso, nem estabelece nitidamente uma relação entre a idéia
de "cantar" e a de "louvar". Apesar de tudo, porém, é-nos psicologica-
mente impossível ouvir ou ver as duas palavras justapostas sem um es.
forço para lhes dar certa dose de significação coerente. A tentativa não
terá por certo bom êxito pleno imas o que importa assinalar é que tão
depressa se apresentem ao espírito humano dois ou mais conceitos radi-
cais em imediata seqüência, tentará ele conjugá-los sob um valor qual-
quer. No caso de sing praise, eada um de noo chegará provavelmente
a um resultado provisório distinto. Eis algumas das possibilidades la-
tentes da justaposi~ão, interpretadas em forma corrente mais satisfa-
t6ria:   nng praise (to him)! ["cante em seu louvor!"]   $inging praise
["cantando o louvor"],   praise expressed in a $ong   ["louvor expresso
em canto"]; to sing   lUU1   praise ["eantar e louvar"] i one who sings a
 Nvw   clt..   {lu;..  tct.~ \2 .v e l, " '-
O S P R O CE SS OS G R AM A TIC A IS 57

song D f    praise [ f l pessoa que canta um canto de louyor"]. (à   maneira


de compostos ingleses como   killjoy, i. e.,  pessoa que mata a alegria") j
u

he sings a   song 01 praise (to him) ["ele canta um canto de louvor (em
honra de alguém)"). São, pois, indefinidamente nUJIlerosas as possibili.
dades teóricas de amoldar esses dois conceitos num grupo significativo
de conceitos, ou até num pensamento concluso. Nenhuma delas se reali-
zará. por certo em inglês, mas há muitas línguas em que é   coisa habitual
o jogo de um desses processos de amplificação. S6 depende, portanto, do
gênio da língua a função que pode estar inerentemente pressuposta numa
dada seqüência de vocábulos.

Algumas línguas, como o latim, exprimem praticamente todas as


relações por meio de modificações no corpo da própria palavra. Nelas,
a ordem das palavras presta-se a ser antes um princípio ret6rico do que
estritamente gramatical.
Diga eu em latim   hominem femina videt, ou femina hominem videt,
'Ou h.ominem videt femina, ou ainda   videt femina hominem, o alcance
da frase não apresentará. maior ou nenhuma diferença, salvo talvez no
que respeita ao efeito ret6rico ou estilístico. uA mulher vê o homem" será
.8 significação invariável de cada uma dessas sentenças.
Em chinuk, l!ngua dos Indios do Rio Colúmbia, há igual liberdade,
 pois a relação entre o verbo e 09   dois nomes acha~8e inerentemente fi~
xada nos vocábulos, como em latim. A diferenc;:a entre as duas Unguas
está em que o latim faz com que os pr6prios nomes estabeleçam as. suas
relações de um para outro e de cada um para o verbo, ao passo que
o chinuk sobrecarrega o verbo com toda a responsabilidade fonnal,
-dando-lhe um conteúdo que pod,emos mais ou menos indicar por "ela-ele-vê".
Eliminai os sufixos casuais latinos (-Q   e -em) e os prefixos prono-
minais do chinuk    (flew..ele"), e já   cessa a indiferença na ordem dos
vocáhulos; tcremos de culti~'ar os recursos de que dispomos. Em outros
termos, a ordem das palavras passará a ter um valor funcional real.
O latim e o chinuk estão num pólo. Em pólo oposto, estão lln.
guas como o chinês, o siamês, o anamita, em que toda e qualquer palavra,
 para funcionar adequadamente, tem de encaixar-se num lugar prede.
terminado. A maioria das línguas ficam entre esses dois p6los. Entre
nós, por exemplo, não haverá diferença gramatical apreciável, se eu dis-
ser - "ontem o homem viu o cão", ou - "o homem viu o cão ontem",
mas já   núo me será indiferente dizer - "ontem O   homem viu o cão", ou
- "ontem o cão viu o homem", ou ainda - "ele está aqui", ou - "está
ele aquit" Num dos casos do último grupo de exemplos, a distinção vi-
tal entre sujeito e objeto dcpende unicamente da colocação de certas pa-
lavras na sentença, e, noutro, uma leve diferença de seqüência importa
numa diferença cabal ('ntre afirma~ão e pergunta. ~ claro que, nORSeS
dois casos, o nosso princípio da ordem vocabular  é   um meio tão eficien-
te de expressão quanto rm latim o uso de sufixos casuais ou de uma
 partícula interrogatiya. Não sc trata de pobreza funcional, e, sim, de
.economia formal.
Já   vimos alguma coisa do processo de composição: união numa só
 palavra de dois ou mais elementos radicais. Psicologicamente, esse pro-
cesso alia-se mtimamente com o que repousa na ordem das palavras,
58 A UNGUAGEM

uma vez que a relação entre 08   elementos também fiea   preMUpoata e não
explicitamente estabelecida. Difere noutro sentido, porque 08   elemen~
tos componentes são compreendidos como partes constituintes de um
.organismo vocabular único. Línguas como o chinês e o inglês, em que.
o princípio da ordem rígida se acha bem desenvolvido, tendem não p?ucas
vezes a desenvolver palavras compostas. De urna seqüência vocabu.
lar chinesa do tipo   jin tak,  "homem virtude", i.  e.,
l
i a virtude dos homens",
s6 há um passo para   justaposições   mais convencionais e psicologicamente
unificadas como t'ien tsz,   "céu filho", i. C,   "imperador", ou xui fu,   uágua
homem'" i. c, f.carregador    dágua".   No último exemplo podemos até,
aliás, francamente escrever    xui.fu numa só palav"ra, pois a significação
do composto, considerado em seu todo, é   tão divergente dos valores eti.
mol6gicos exatos do..'Jelementos componentes quanto a do vocábulo inglês
typewriter  [port. "dactilógrafo"] o é dos valores meramente combina-
dos de   type e   writer  [respectivamente, fltipo de impressão" e uescritor"J.
Em inglês a unidade de   typewriter  é   além disso assegurada por um
acento predominante na primeira s.Oabae pela possibilidade da adjunção
de sufixos à   palavra em seu conjunto, como o s do plural; e o chinês
também unifica 08   scus compostos por meio da acentuação.

Resta-nos   a')Sim concluir quc, o processo de composição, embora nas


suas longínquas origens vá ligar-se a ordens vocabularcs tfpicas na sen-
ten~a, é   hoje na sua maior parte um método especializado de expressar 
relaçõcs.

O   francês tem ordem de palavras tão rígida quanto o inglês; mas


não possui nada de semelhante à raculdade de que dispõe este último,
de reunir palavras em unidades mais complexas. Por outro lado, o gre-
go clássico, apesar da sua relativa liberdade na colaeaç..todas palavras,
mostra considerável propen!õiiiopara a formação de termos compostos.

~ curioso observar como as Hngl.las diferem enormemente na habi-


lidade de utilizar o processo de composiçüo. Teoricamente, seria de, es-
 perar que um expediente U\o   simples como é   o que   IlOS   deu as palavrns
typewriter    blackbird  e legiões de outras, não fosse nada menos do que
J

um processo gramati~al universal. Tal não sucede, porém. Há um grande


número de línguas, como o esquim6, o nutka e, com raras exceções, os idio-
mas semiticos em geral, que nüo sabem compor elementos radicais. O mais
c'itcanhávcl é   qtle muitas dessas Hnguas não são, em absoluto, infensas
a fOTma~õesvocabulares complexas, mas ao contrário praticam sinte-
scs que deixam longe quasc tudo o que o grego c o sânscrito ousam fazer.
. .

Era de esperar, por exemplo, que uma palavra nutka, como uquando,
segundo dizem, ele ficou ausente por quatro dias", contivesse pelo me-
nos três elementos radicais, correspondentes aos conceitos de "ausente",
I'quatro" e "dia". Ma..~,na realidade, qualquer palavra nutka é   absoluta-
mente incapaz de composição, no' sentido que damos a este termo. Coml-
trói-se, invariavelmente, de um só radical e maior ou menor número
de sufixos, cuja significa~ão pode ser quase tüo conereta quanto a do
 próprio radical. No exemplo particular que citamos, o radical dá a
idéia de "quatro", sendo as no~ões de "dia" e "ausente" expressas por 
sufixos tão inseparáveis do núcleo da palavra quanto o é de   sing ou   hunt 
O S P R OC ES SO S G R AM A TI CA IS 59

um elemento inglês como  -tr  em  singer  ou   hunter  [ou os sufixoa portu-


gueses de "cantor",' "caçador", correspondentemente].
A tendência para a síntese .vocabular não é,  de maneira alguma, por-
tanto, a mesma coisa que a tendência para a composição dos radicais,
embora seja esta última, não poucas vezes, um meio cômodo de que ~
serve aquela -.para   manifestar-se.
Bá uma variedade assombrosa de tipos de composição. Dependem da
função, da natureza dos componentes e da sua ordem.
Em' muitas línguas, a composição circunsereve-se ao que podemos
chamar a função delimitadora, isto é,   entre dois ou mais elementos com-
 ponentes um obtém qualificação mais exata pelo contacto com os outros,
que em nada concorrem para a construçã<? formal da sentença. Em in.
glês, por exemplo, elementos componentes. como red  (Uvermelho") em
redcoat'  ou   over  [preposição uacima"] em   overlook    [propriamente, em
 português, llolhar por alto"] apenas modificam a significação do vocá-
 bulo essencial  coat  e   look   sem absolutamente partilhar ds predicação ex-
 pressa pela .sentença.
Já . outras Hnguas, como o iroquês e o náuhat}T confiam ao
método da composição trabalho muito mais pesado. As<iim, em iro-
quês, a composição de um nome, sob a sua form.s radical, com um. verbo
seguinte é   método típico para exprcssarcm.se rela~ões c.asuais, especial-
mente de sujeito ou objeto. "Eu-carne-como", por exemplo, é   o método
regular iroquês para construir a senten~a - "estou comendo carne". Em
~utras línguas, formas análogas podem transmitir noções locais, instru.
mentais ou outras. Formas inglesas como  killjoy e   marplot  [de   to mar.
Hestragar''. e   pIai,   Hprojeto"] também ilustram a composição entre ver-
 bo e nome, mas o vocábulo resultante tem função estritamente nominal, a-
não verbalj não nos ~ licito dizer   he marplots. [A mesma observação apli-
ca'"8eao portuguêsj ex.: "guarda-chuva"].
Certas Hnguns admitem n ('omposi~ão de todos ou quase to<10!Õ;o!-ô
tipos de elementos. O paiúte, por exemplo, ('ompõe nome com nome, ad-
 jetivo com nome,' verbo com nome para formar nome, nome com ve~'oo
 para formar verbo, advérbio com verbo, verbo com verbo. O yana,
língua índia da Califórnia, pode compor  à vontade nome com nome e
verbo com nome, mas não verbo com verbo. Por outro lado, o iroquês 56
 pode compor nonLe com verbo; nunca, nome com nome, como faz o in-
glês, ou verbo com verbo, como fa7.emtantas outras linguas.
Finalmente, cnda língua tem seus tipo~ enracterístico.s de ordem de
composição. Em inglês o elemento que qu~lifi('n é   r('gularmente antepos.
to; em outras, é  posposto. Às vezes, são usados ambos 08  tipos. como em
yana, onde carne de vaca é limais amarga-caça", mas figado de veado é
expresso por Ufígado-veado". O objeto composto de um verbo precede
o elemento verbal em paiúte, náuhatl e iroquês, mas se lhe segue em yana,
tsínRhian' e nas línguas algonkin.

De todos os processos gramaticais o da afixação é   incomparavel-


mente o mais freqüentemente empregado. Há línguas, como o chinês e
o siamês, que não fazem uso gramatical de elementos que, concomitante-
60 A UNGUAGEM

mente, não possuam valor independente como radicaisj mas Hnguas des-


sa espécie são pouco comuns.

Dos três tipos de afixação, - o uso de prefixos, de sufixos e de in-


fixos -, é  o segundo o mais encontradiço. Pode-se até adiantar, sem re-
eeio, que os ~ufixos entram em maior escala na obra fonnal da linguagem
do que todos os outros métodos reunidos. Vale salientar que há não poucas
Jinguas de afixação, que absolutamente não fR7.f'In lL'>O de prefixos e pos_ 
suem um aparelhamento complexo de sufixos. Tais são o turco, o hoten-
tote, o esquimó, o nutka e o yana. A.lgumas delas; como as três últimaa
citadas, têm cente"nasde sufixos, e muitos   (luja   significação é   tão con-
creta que, na maioria das 'outras linguas, teria de expressar-se por 
meio de radicais. O caso inverso, do uso de prefixos com completa ex-
clusão de sufixos, é m•..ito menos comum. Tem-se um bom exemplo em
khmer (ou cambodjiano)   falado na Cochinchina francesa,. mas ainda aí
t

há tra~os de antigos sufixos, que deixaram de funcionar como tais, e


hoje s:io sentidos como partes integrantes do radical.
Uma maioria considerável de línguas conhecidas usam a prefixação
c a sufixação a um só e mesmo tempo, mas a importância relativa dos
dois grupos de afixos muito varia naturalmente. Em alguns idioma.~.
como o latim e o russo, só aos sufixos cabe relacionar o vocábulo ao res-
to da senten-:a, circunscrevendo-se os prefixos à  expressão daquelas idéias
Que delimitam a significação concreta do radical, sem influir no com.
 portamento dele na proposição. Uma forma latina, como remittebantur 
(leram mandados de volta" pode servir de ilustração 'para esse tipo de
distribuição de elementos. O'"prefixo   Te-,   lide volta apenas qualifica,
l
t

até certo, ponto, a significação inerente ao radical   mitt.,   "mandar", no


 paç,soque os sufixos   -eha-, -nt- e
-UT transmitem noções.menos concretas,
mais estritamcnte formais, de tempo, pessoa, pluralidade e passividade.
Em compensação, há línguas, como o grupo bântu da África e as
1fnguas athabaskan da América do Norte', em que vêm em primeiro
lugar os elementos de sentido gramatical, e aqueles que se seguém ao
radical constituem uma classe relativamente dispensável. A palavra hupa
te-s-e-ya-te, "irei", por exemplo, consta de um radical   -y4, "ir", três pre.-
fixos essenciais e um sufixo formalmente subsidiário. O elemento te- in-
dica que o ato se realiza cá e lá no espaço ou através de um espaço con.
tinuoi não tem praticamente um alcance bem determinado fora dos ra-
dicais verbais a que está acostumado a juntar.se. O segundo prefixo -s-
é   ainda de menos fácil definição. O mais que podemos dizer  é   que se
usa com formas verbais de tempo "finito" c assinala ação em progresso,
antes do que um inicio ou um fim de a-çiio.O terceiro prefixo .e- é um
elemento pronominal, "eu", que só se pode usar em tempos finitos. Im-
 porta ficar bem compreendido que o uso do -e. é  condicionado pelo do -8.
ou outros prefixos alternativos e que   te-,   também, está na prática liga-
do ao emprego do   _s_.  O grupo   te.s-e-ya é, pois, uma unidade gramatical
firmemente coesa. O sufixo   -te,   que indica o futuro, não é   mais   nceei-
eá.rio ao seu equilíbrio formal, do que o Te-   prefb:ado, do vocábulo la-
tino supracitado; não é um elemento capaz de existência isolada, tendo
mais uma função de delimitação material do que estritamente formal:o.
os P R OC E SS O S G R A M AT IC A IS 61

 Não ê   sempre, entretanto, que podemos agrupar os sufixos para


opô-Ios ao grupo dos prefixos. Provavelmente na maioria das línguas
que utilizam os dois tipos de afixação, cada grupo tem ambas as funções,
a de delimitação e a de expressão formal ou relacional. O mais. que po-
demos dizer ~ que cada língua tende a exprimir sempre, de uma 56 ma-
neira, as funç~ semelhantes. Se um dado verbo e.'<prime um dado
tempo por sufixação, é   mais do que provável que exprima os seus ou-
tros tempos de modo análogo, e, mais ainda, que. todos os verbos tenham
elementos temporais sufixos. Analogamente, esperamos em regra e~con~
trar os elementos pronominais, na medida em que se integram no verbo,
consistentemente prefixados ou sufixados..   }.las   esta praxe está longe de
ser. absoluta. Já   vimos como o hebraico prefixa os seus elementos pro-
nominais em certoB casos, e, em outros, os sufua. Em chimariko, lín-
gua índia da Calif6mia, a posição dos afixos pronominais depende do
verbo; em alguns verbos são prefixados, e, em outros, sufixados.
 Não será necessário dar muito mais exemplos das categorias de pre-
fixação e sufixação. Bastará um de cada uma delas para ilustrar suas
 possibilidades formativas.
A id~ia exprcs.~ em inglês pela sentença I    came to givt it to her 
(port. "Vim para lho dar."l diz-se em chinuk  i-rt-.a-I-u-d-a-r.   Este
l
l

vocábulo - e trata-se de um vocúbulo perfeitamente unificado com um


acento nitido no primeiro   -a. - consta de um elemento radical -d- "dar",
seis prefixos funcionalmente distintos, conquanto foneticamente frágeis,
e um sufixo~ Dos prefixos, i-   indica passado recente; -rt-, o sujeito pro-
I
. nominal "I" [porto "eu"], -i- o objeto pronominal l'it" [porto "o"] u j -a -
o segundo objeto pronominal "her" (port. "lhe"l j -1-, um elemento pre-
 posicional que indica que o prefixo pronominal precedente deve ser to-
mado como objeto indireto   (her-to,   i.e.,   "to her"  [como em porto "a ela",
que se poderia usar em vez de "lhe"] j e   -u-,  elemento que não é fácil de-
finir satisfatoriamente, mas que de modo geral indica movimento par-
tido da pes.OÕloa que fala. A parte   -ant  sufixada modifica o conteúdo do
\Ocrbonum sentido local; ajunta à   noção contid.a no radical a de "che-
~adn",   i"hl é,   "ida lOU   vinda) para aquele fim"o Vê-se, claramente, as-
sim, qt..~ em chinuk, como em hupa, a engrenagem gramatical assen-
ta mais nos prefixos do qu{' nos sufixos.
Caso im"erso, (Im quc os ('tementos expressivos sc ag-Iomeramgrama-
ti('ulmente, ('orno   cll:   latim, no fim do vocábulo, é-nos ministrado pelo
 fOI, (nome inglt-s "rapôsa", pronuncie-se   foksl. uma das línguas algon-
kis mais bem ('onhe<'idas no vale do Mississipio Consideremos a forma
eh-kilt'i-n-a-m-oht-a.ti-wa-ch (o i), "cntão eles todos fizeram (-no) fugir de-
lcs".-'.Aqui kiwi- ~ o radical, radical verbal que indica a noção geral de
"moyimento indefinido para um e outro lado, cá e lá". O   elemento prefi-
xado eh-   quase não é mais do que uma parHcula adverbial para indica!'
subordinação temporal; tradu-la convenientemente o nosso "então". Dos
sete sufixos, incluídos neste vocábulo tão elaborado, -n- parece ser ape-
nas um elemento fon~tico de liga-:ão entre o radical verbal e o   -(I- se-
guinte
13; cste -a- é um radical secundáriou que denota a idéia de "fuga,
fugir";   -nt-   'des.igna causalidade em referência a um objeto animadoUj
62 A UNGUAGEM

-o(ht)-indica atividade que recai no sujeito (ou,   seja,.8 chamada voz


mediaI ou médi~passiv8 do grego) j   -(a)ti- é o elemento de reciprocida-
de l'um ao outro"j   4wa--ch(i)- é   a terceira pessoa animada. do plural'
  para o plural e   chi, mais propriamente pessoal) das"chamadas
(-wa-
formas "conjuntivas". Pode-se' traduzir a palavra mais literalmente
(mas, apesar de tudo, só aproximadamente quanto à impressão grama-
tical do conjunto) por "então eles (seres animados) fizeram um ser 
qualquer animado andar cá e lá em fuga de um para outro entre si", O
esquim6, o nutka, o yana e outros idiomas têm equipamentos analogamen-
te complexos de sufixos, embora difiram em grande escala as funções
que tais sufixos realizam e os principios por que se combinam.
Reservamos para ilustração separada o curiosíssimo tipo de ele-
mentos de afixação conhecidos pelo nome de "infixos". .t  completamente
ignorado em inglês, a menos que consideremos o .n. de   stand    [presente
de l'ficar de pé"), em contraste com   stood  [pretérito), uma consoante
infixada.
A1Jantigas linguas indo-européias, como latim, grego e sânscrito,
faziam um uso relativamente considerável de n8Sàis infixadas em certos
verbos, para diferençar o presente de outras formas verbais (contras-
te-BCo latim  vinco   "venço", com vici "venci"; o grego  lamb-an-o,   "tomo"
com   e-lab-on, "tomei"). Há, entretanto, exemplos mais impressionantes
do processo, exemplos em que ele assumiu uma função mais claramente
definida, do qúe nesses casos'latinos e gregos. :f;  especialmente predomi-
nante em muitas línguas do sudeste da Ásia e do arquipélago malaio.
Bons cxenlplos, tirados do khmer ou cambodjiano são   tmeu,   "aquele que
 passeia", e   duneu. "passeio" (nome verbal), ambos derivados de   deu.
"passear". Podemos ir buscar outros exemplos em bontok-igorot, língua
filipina, em' que um   -in- infixado traz a idéia do produto de uma ação
realizada, e. g.  kayu,   "madeira",   kinayu "madeira apanhada". [i. e., "le-
nha"]. São também usados, sem parcimônia, infixos no verbo bontok-
igorot. Assim, um - u m -   infixado é   característico de certos verbos intran.
sitivos que possuem sufixos pronominais de pessoa, e. g.,   sad.   "esperar"
sumid-ak, "eu espero";   kineg,   "calado",   kuminek.ak  "eu estou calado".
Em outros verbos Indica futuro, .e. g"   tengao-.   "celebrar um feriado",
tumenga.o-ak, "terei um feriado". O pretérito é   freqüentemente indicado
 pelo illfixo  -in-; se já existe o infixo  -um-,   combinam-se os dois elemen-
tos em   -in-m-,   e. 8.,   ,kiuminek-ak  "estive calado".
:f;  cvidente
quc o processo de infixação tem nessas línguas (c em auas
cognatas) a mesma vitalidade que em outras possuem os prefixos e su-
fixos mais comuns.

o   processo é   também encontradiço em certo número de línguas da


América aborígine. O plural yana forma-se às vezes por um elemento
infixado, e. g.,   k'uruwi   "curandeiros",   k'uwi, "curandeiro"l'j em ehi-
nuk,   US8.SC um -1 - infixado em ccrtos verbos para indicar atividade   1"e.
 petida e. g.,   ksik'lude1k;:   uela fica olhando para êle",   iksik'lutk    "ela
olhou para elc" (elementó radical   -tk), Nas línguas' siuan há um tipo
 p~uliarmcntc intcress:mte de infixação, qual o de certos verbos inseri-
rem elementos pronominais no próprio corpo do radical, e. g.,  siucÀeti,
OS PROCESSOS GRAMATICAIS 63

Ufazer uma fogueira",   chewati, Ueu fiz uma fogueira";   :ruta,   "perder'\
 x1lunta-pi,  un'ós perdemos" (um   objeto).

Processo subsidiário, mas não de maneira alguma, ~em importância,


é o da mutação interna vocálica ou consonantal. Em algumas Unguas,
como em inglês   (sing, !anu,   !ung,   longj goose, geese), a primeira dessas
mutações tornou-se um dos maiores métodos para indicar mudança bá-
sica de função gramatical. E, seja como fór, o processo continua vivaz,
ao ponto de atrair  08 nossos filhos para caminhos ínvios. Todos conhece-
mos algum meninote que fala em "kaving brung something"  [em vez
de   broughl, particípio paaaado do verbo lo   brillg,   trazer  J   por analogia
com formas como   sun..!Ae   flung [verbos to   sing,   Ucantar" e   to fUng,. Har_ 
rerncssar"]. Em hebraico, já o vimos, a mutação vocálica ainda é mais
significativa do que em inglêsj e o que é   verdade para o hebraico, tam.
 bém o é, naturalmente, para todas as outras línguas semíticas. UM pOU.
cos exemplos do chamado plural Ilquebrado" do arábicou servirão de au-
 plemen~ à . " 1 formas verbais hebraicas que já citei a outro propósito. O
neme   balad,   Hlugar", tem para plural a forma   bilad 18 ;   gild,   uesconde-
rijo" faz o plural   gulud; de   ragil,   Ilhomem", o plural é   rigal; de   xibbBl.:,
"janf!la", o plnral é   xababik.   Fenômenos muito semelhantes encontram-
se nas línguas hamíticas da África Setentrional, e. g., em shilh izbil, l
l

"cabelo", plural izbelj G-slem, "peixe", plural i-slim-en.; sn,   "saber", sen
"estar sabendo"j   nni,   "cansar",   rumni,   "estar cansado"j   ttss20 ,   "adorme-
cer",   ttoss   "dormir". Dc analogia impressionante com as altcrnâhcias in-
glêsas e gregas do tipo   sing-sang e   leipo,   "deixo",   leloipa   "deixei", são
em somali os éaaos de ai,   "sou", il,   "era";   i.dah-a,   "digo",   i-di,   "dizia",
l
l

deh,   "dize!"
A mutação vocálica é também de grande significação em certo nú-
mero 4e línguas índias americanas. No grupo athabáskan muitos verbos
mudam a qualidade ou a quantidade da .••. ogal do radical ao mudar, de
tempo ou' de modo. O   verbo návaho correspondente a "ponho (grão)
numa vasilha" é   bi-hi-x-dja,   em que dja   é o radicalj o tempo pretérito
bi-hi-dja', tem um a longo seguido da "oclusão glotal"U; o futuro é   bi.h-
de-:r-dji com a mudança completa da vogal. Em outros tipos de verbos
návaho, as mutações ,"ocáBcM seguem linhas diferentes, e. g.,   yah-a-ni-ye
"carregais (um fardo) para (uma cavalariça)"j pretérito   yaJt-i-ni-yin
(com i   longo em   yin,   sendo o n   aqui usado para. indicar nasalação) j fu-
turo,   yah-a-di-yehl   (com e longo). Em outra língua" índia, o yokuts as U
,

modificações vocálicas manifestam-se tanto nas formas nominais como


nas verbais. Assim.   buchong   "filho" forma o plural   boch.ang.i   (em con~
traste com a forma objetiva   b'UGhong-a)ide   enax, avô", o plural é  inax-a;
u

o .••.
erbo   engtyim   Hdormir  forma o continuativo   ingetym-ad, Uestal' dor-
t
l

mindo" c o pretérito   ingetym&:r.


As mutaçôcs de consoante, como processo funcional, são por certo mui~
to menoS freqüentes do que as modificações vocálicasj mas, a bem dizer 
não são raras.
Em inglês tem-se um grupo de casos interessante - o de certo,.'i
nomes e verbos correlatos que s6 diferem pela consoante final surda ou
sonora. São exemplos   wreath   (com th   como em   think) mas   to wreathe
(com th   como em   then) [porto "grinalda" e uengrinaldar"] j   hou.se, mas
64 A LINGUAGEM

to Mus6    (com s pronunciado como z)   [porto   "casa" e "alojar"]. Q~e


temos o sentimento nitido da troca, como meio de distinguir o nome dlJ
verbo, prova-o n extensão do processo na boca de muitos americanos para
um nome do tipo me (e. g.   the rise D f  democracy) -   pronunciado riu
- em contraste com o verbo   to rise, de s   igual a z   [porto   "erguer"].
 Nas línguas célticas, as consoantes iniciais sofrem várias espêcies
de mudança de acôrdo com a relação gramatical subsistente entre o vo-
cábulo e o que precede. Assim, em irlandês moderno, uma palavra como
bo "bOi" pode, em adequadas circunstâncias, tomar as formas bh.o (pro-
nuncie-se wo) ou mo (e. g'l   an bo,   "o boi", sujeito, mas   tir na mo,   "terra
dos bois", possessivo do plural). No verbo, o principio tem, como uma das
suas mais notáveis conseqüências, a aspiração das CODiOantesiniciais do
 pretérito. Se um verbo começa por I, digamos, troca o I por  Ih   (que
hoje se pronuncia h).   nas formas do passado; se começa por  U,   a con-
soante passa, em formas análogas, a gh   (pronunciado como espirante
sonora gU   ou como Y, segundo a natureza da vogal seguinte). Em ir-
landês moderno, o princípio da mutação consonantal, que começou no
 perfodo mais arcaico como conseqüência secundária de certas condições
fonéticas, tornou-se, pois, um dos. proces.<;QS gramaticais primordiais da
Ungua.
Tão notáveis talvez quanto esses fenômenos   irlande8l.''s são as per-
mutas consonantais do fuI, língua africana do   Sudão. Aqui, verifica-
R e que todoa os nomes pertencentes à   classe pessoal formam o plural
com a mudança da inicial U, dj, d, b, k, c.h e p para y (ou wL y, r, W,
h, s e I respectivamente, e. g.   djim-o   ucompanheiro'\   yim-'be   "companhei_ 
ros", , » 0 - 0 l'batedor" (nas caçadas),   fio-'be   "batedores". :f;   curioso obF.er-
var que nomes pertencentes à   classe dos objetos formam o seu singular 
e plural de um modo exatamente inverso, e. g.,   yola-re, "lugar de relva
('re:-«>icia",   djola-dje, "lugares de relva crescida";   fitan-du,   "alma'~,  pitaI-i,
"almas". Em nutka, para citarmos ainda uma Hngua, em que se encon-
tra esse processo, o t  ou tp& de muitos sufixos verbais torna-se hl em
formas que designam repetic;:ão,e. g'l   hita.'ato, "cair para fora",   hita-áhl,
"ficar caindo para fora";   mat-achixt-utl, "fugir pela água",'   m4t-achixt-
;ohl,   "ficar fugindo pela água". Além disso, o hl   de certos elementos pas-
sa para um peculiar som h   nas formas do plural, e. g.   yak-ohl   "contun-
dido na face",   yak-oh, "(gente) de face contundida~'. Nada mais nntural
do .que a importância da reduplicação, ou seja, em outros termos, a Te -
 peti~ão. total ou parcial do radical. O   processo é   geralmente empregado,
com transparente simbolismo, para indicar certos conceitos corno distri-
 buição, pluralidade, repetição, atividade habitual, aumento de tamanh(),
acréscimo de intensidade, continuidade. Até em inglês não é desconhe-
cido, embora não se considere em regra um dos recursos formativos tí-
 picos da língua. Pala\T8S como   goody-goody e   to pooh-pooh [de   goody,
"bobo" e   pooh!, exclamação de desprezo] tornaram-se parte aceita de
nosso vocabulário normal; mas o método da duplicação pode ser usado,
em dados momentos, mais espontâneamente do que o indicam tais exem-
 plos assim csteriotipados. Locuções como a   big big man   [Uhomenl.arrão"]
ou Let it CQoltill it's thick thick  ["Deixe esfriar até ficar bem consisten-
te"] são muito mais comuns, especialmente na fala das mulheres e crian-
c;as do que o fariam supor os n06BOS compêndios de linguagem [cf., em
O S P R OC ES SO S G R AM A TI CA IS 65

 português, Uest' fraquinho. fraquinho!"]. Contudo a enorme porção de


 palavras, muitas de Bom   imitativo ou de intenção   pejorativa, que têm
reduplicaçóeBem inglês, com alternância às vezes de vogal ou de consoan.
te, constituem uma classe à   parte: são do tipo de   sing~s01lg. ri!f.Talf,
wishy-washy, harum-skarurn, roly-poly [cf., em português, "zig-zag", "tic-
-tae't, "bule-bule", "bim-bão", donde "bimbalhar", etc.]. Palavras desse
tipo são pràticamente universais. Exemplos como o russo   Chudo-Yudo
(um dragão), o chinês   ping-pang (para o bater da chuva no telhado)2',
o tibetano   kyang-kiong, "preguiçoso", o manchu   porpon-parpan rame_ 
u

lento", lembram curiosamente, na sua forma e psicologia, térmos mais


 próximos de n6s.
 Não se pode dizer propriamente, entretanto, que o processo redupli-
cativo tenha uma significação gramatical especifica em inglês [.ou em
 português l.
Convém buscarmas alhures a sua ilustração. Casos cama a hatentate
go.go, ".olhar cuidadosamente" (de go,   "ver"), somali fen-fen "ranger as
dentes para todo lada" (de   ten,   ranger as dentes), chinuk    iwi-iwi,
"elhar em valta com cuidada, examinar" (de   iwi,   aparecer) .ou tsinshian
am'an "vários (são) bons" (de am bom) não se afastam do âmbito na-
tural e fundamental do processo. Função mais abstrata é exemplifica-
da em ewe ", em que tanto os infihitivas como .os adjetiv.os verbais se
f.ormam do verbo por duplicação; e. g. yi,   "ir",   yiyi "ação de ir", WQ
"fazer",   wowo,   "feita"U,   mawomawo "ação de nãa fazer" (com dupli-
cação tanto do radical verbal como da partícula negativa). Duplicações
cansativas são caracteristicas do hotentote, e. g.,  gam-gam.n "fazer dizer"
(de   gam,   dizer). Ou usa-se a processo para derivar vcrbos de nome~.co-
mo no hatent.ote khoe-khQf, "falar hotentote" (de   khoe-b, homem haten-
tote) ou em kwakiútl   metmat, ucomer .ostras" (elemento radical   meto,
"ostra") .

Os exemplos mais caracterfsticos de reduplica~.iiasãa aqueles que


rC'petemuma parte apenas da ra.dical. Seria passh-eI demanstrar a exis-
tência de um vasta número de tipos farmais, nessa reduplicação par-
cial, segunda a processo - se serve de uma .ou mais cansaantes radicais,
 preserva, enfraquece .ou altera a vagaI radical, .ou se refere ao cameço,
a.omeio ou ao fim do radical. As funções sãa até mais exuberantemente
desenvoltas do que com a reduplicação simples, embora a noção básica,
 pelo menos na sua origem, seja quase sempre de repetição ou continui-
dade. Pode.se buscar de todas as partes do mundo exemplos ilustrati-
vos d~ssa função fundamental. Reduplicàçõcs iniciais ternos em shilh
ggen, "cstar darminda" (de gen   "dormir"); fuI   pepeu-'do,   "mcntiraso"
(i. e., aquele que sempre mcnte), plural   fefeu-'be (de   feu'a,   "mentir");
 bontok-igorot anak,   "criança",   ananak    "crianças";   kamu-ek,   '~apresso.me",
kakamu-ek  "apresso-me mais"; tsínshian   gyad,   "pessoa",  gygyad,   l'pOVO";
nass   gyibayuk.   Ufugir",  gyigyibayuk  "aquele quc fage". Psicolôgicamen.
te comparáveis, mas com a roouplicaçãa no fim, são somali ur,   llcorpo",
 plural   urar;   haússa   suna, nome", plural   sunana-ki;   washo gusu   ''bú_ 
H
30

falo",   gususu, "búfal.os"; takelma31 himi-d. "conversar cam... OI,   himim-d-


"ter o hábito de conversar com... ". Ainda mais comumentc do que a
duplicaçãa simples, essa duplicaçãa parcial do radical assumiu em muitas
66 A LINGUAGEM

línguas funções que não parecem ter a menor relação com a idéia de
aumento.
Talvez os exemplos mais conhecidos sejam os da reduplicação ini-
cial das nossas antigas lingus8 indo-européiss, que auxilia a formação do
 pretérito de muitos verbos (e. g. sânscrito   dadar-xa,   ''''i'',   grego   leilopa
"deixei"; latim,   tetigi,   '1.oquei", g6tico  Zelo',   uconcedi"). Em nutka em~
 prega.se não raro a reduplicação do elemento radical em ~iação com
certos sufixos; e. g.   hluch-,   ''1nulher'', forma   hluhlucb,-'ituhl, "sonhar com
uma mulher",   hluhluch-k'ok  'ÍJareeido com uma mulher". Exemplos psi-
cologicamente semelhantes ao grego e ao latim são, em takelma, muitos
casos de verbos que exibem duas formas do radical, uma usada no   pl'&-
sente e no pretérito, a outra no futuro e em certos modos e derivados
verbais. A primeirà tem uma reduplicação final, que não figura na se-
gundaj e. g.   al--yebeb-i'n 'mostro-Ihe (ou mostrei-lhe)'"   al-yeb-in,   f'mos-
trar-lhe-ei".
Chegamos agora ao mais sutil dos processos gramaticais: variações
de acentuação, quer na intensidade, quer na altura.
A principal dificuldade em isolar o acento como proc~~ funcio-
nal está em que ele se acha muitas vezes tão combinado com ~lternâncias
de quantidade ou qualidade vocálica, ou tão complicado pela presença
de afixos que o seu valor gramatical aparece sob aspecto mais seeundá~
rio"do que primordial.
Em grego, por exemplo, é um característico das fonnas verbais re-
cuarem o ac~nto o mais longe possível, dentro das regras prosódicas ge-
rais, enquanto os nomes apresentam maior liberdade de acentuação. Há,
assim, uma importante diferença de acento entre uma forma verbal como
eluthemen, "fomos libertados", acentuado na penúltima silaba, e o seu
derivado principal   lutheis, "libertado", acentuado na última. A presença
dos elementosverbais típicos c- e  ~men,  no primeiro caso, e do s  nominal,
no segundo, concorre para obumbrar o valor inerente da alternância de
acentos. Es,<revalor ressalta nItidamente em formas duplas inglesas como
to ref'Und  (verbo, oxítono) e   a ref'Und  (nome, paroxítono),   to extract 
c an extract, to come down e a come down,' to lack luster  e   lack-luster 
eyes; em que a diferença entre o verbo e o nome só depende da mudan
ça de acentuação (É o que anàlogemente se verifica em português entre
a 1.' pessoa singular do indicativo presente e o Domedeverbal correlato,
de, por exemplo, "(eu) reverbero", paroxítono, e U(o) revérbero", propa.
roxítono, "(ele) iaLrica", paroxítono, e "(a) fábrica", proparoxítono, etc.].
 Nas línguas athabáskan, há não raro sigJ\ificativas alternâncias de acen-
to como em návaho   ta-di-gis, u v6s vos lavais" (acentuado na segunda sí-
laba) e   ta-di-gi3. uêle se la\'a" (acentuado na primeira)u.
O acento de altura pode desempenhar função tão importante quan.
to o de intensidade e talvez a desempenhe mais a mi6do. O simples fato,
entretanto, de serem as variações de altura essenciais na fonética de
uma Ungua, como em chinês (e. g.  feng, "vento" com tom nivelado,  [eng,
"servir" com tom decrescente) ou em grego clássico (e. g,   lab.on,   "ten-
do tomado", com tom simples ou alto no sufixo de particípio   -01tj gtt1uzik-
01t,   "de mulheres", com um tom circunflexo ou d"'l'escente no sufixo
casual   -on) não constitui por si SÓ, neeessariamente, uma aplicação da
OS PROCESSOS GRAMATICAIS

altura para fins funcionais, ou, digamos melhor, gramaticais. Em   taÍ.9


casos a altura está meramente integrada no radical ou no afixo, como
estão as consoantes e as vogais.
Já é coisa diferente uma alternância chinesa do tipo de   chung   (ni-
velado), "meio", e   chung   (decrescente), flacertar no meio"; mai   (cres-
cente), "comprar" e mai   (decrescente),   llvender"j pei   (decrescente),   --cos-
tas'\ c pei   (nivelado) u l evar às costas". Exemplos desta ordem não são,
a rigor, comuns em chinffi, nem se pode dizer que a lingua possua atual.
mente o sentimento nítido de simbolizar nas diferenças tônicas a dis-
tinção entre o nome e o verbo.
Há idiomas, entretanto, em que tais diferenças têm importância gra-
matical das mais fundamentais~ São elas particulannente comuns no
Sudão. Em ewe, por exemplo, existem, provavelmente de   subo,   "servir",
duas formas reduplicadas, uma infinitiva   subosubo,   "servir", com tom
 baixo nas duas primeiras snabas e alto nas duas últimas e uma adjetiva
subosubo, "(aquele) que serve", em que todas as silabas são em tom alto.
Ainda mais notáveis são casos ministrados pelo shilluk, uma das lin.
guas das cabeceiras do Nilo. Assim, o plural de um nome muitas vezé3
difere do singular pela entoação; e. g., yit    (alto), "ouvido", mas yit 
(baixo) "ouvidos". Nos pronomes, pode-se distinguir três formas apenas
 pelo tom: e,   "ele", tem tom alto e é subjetivo, -e,   "o" (e. g.,   a chwol-e,
"ele o chamou") tem tom baixo e é objetivo, -e   "dele" (e.. g.,   wod-e,
"casa dele") tem tom médio e é possessivo. Do elemento verbal   gwed-,
uescrever", formam-se   gwed-o "(ele) eSl1reve", com tom baixo a passiva
gwet,   "(estava)
escrito", com tom decrescente, o imperativo   gwet!   "es-
creve!", com tom cres;cente, e o nome verbal   gwet,   "escrita", com tom
nivelado.
Sabe-se que na América aborígine também ocorre o acento de altu-
ra como processo gramatical. Bom exemplo de urna dessas linguas de
entoação ê o tlinguit, falado pelos índios da costa meridional do Alasca.
Aí, muitos verbos variam o tom do radical conforme o tempo;   hun,   tlyen.
der",   sin,   "ocultar",   tin, "ver", e muitos outros radicais, pronunciados
em tom baixo referem-se ao pretérito, e em tom alto, ao futuro. nus-
tram outro tipo de função as formas takelma   hel,   "canto", com altura
decrescente, mas   he1,   "cante!" com uma inflexão de voz ascendente; há
 paralelamente   se1,   (decrescente) Upintado de prêto", sel   (crescente),
"pinta-o!".
Bem pesado tudo isso, torna-se evidente que o acento de altura, como
a intensidade e as modificações vocálicas ou consonantais, é utilizado com
muito menos parcimônia, como processo gramatical, do que poderíamos
supor provável dentro dos nossos hábitos lingüísticos.
Notas ao   Capítulo 4

1. Quanto ao limbolismo, ver capituJo lI.


2. Plural é &qui um II.mbol0 para qualquer prefixo que   inulque a pluralidade .
.3. [No euo de   gOf»,.geue, como de   outrOll   plunia   (tootll..te(l'th,   ma".tt""'lI.
moulIl'.mk.t, etc.) I.   mudança da   vogal 'no   plural roi devid9. à a~li.o usimilat6ria.
do um , final, mal! tarde   dt!lapareeido. t  o fenômeno em   aleml0   """taut, ou   lJejlL,
Hmeta.fonia". Em   ..mg'8(JfIg, throw.Chrc'lO,   cto:.   lLII diferençaa de ,.ogal provfm dlUl   pri.
mitivu formaa indo-européias, eon.lJtitulndo o ehamado   oblaut. i.   e., "gradaçA.o voei.
Helio" ou uapofonia" em que uma dada ra1z. tem ora a ,"ogal o ora   (1',   ora uma V'Ogal
roow:ida..l
4. [Ver a nota 3, pA go   66.)

5. [Fenômeno ané.logo verifica-se em português com O '8 do plural em  contado


com uma consoante seguinte surda ou   80nora: "09 Cãl'8" (i'08"   com final surda), "OI
 bois" ("os" com final sonora.)
6. [Literalmente. "casaco vermelho"; mas quanto ao sentido "homem de farda",
';militar".]
7. A   Ungua dos astecas, ainda falada em grande parte do México.

8. Uma Hngua índia da Colúmbia Dritânica (' intimamente relacionada com


o nB88.j6. aqui citado.

9. Que inclui Hnguas como o návaho, apache, hupa.,  carner  (nome inglês, porto
"carn'gador"], chipew:ran,   lO1óCheu.r  [nome franci;s].

10. bso poderá surpreender o leitor inglês. Em regra consideramos o tempo uma
funt;:llo que se exprimo apropriadamente de maneira toda formal. Tal noçlio deriva.
fie do pendor que o estudo da gramática latina n08 deu. Na realidade, o futuro in.
glês   (l shall gol não se expressa absolutamente 'por um afixo; demai£l, pude ser ex.
 presso pelo presente, como em -   to.morrow 1 lea~'~ th" pla.ee [l<amanhA.deixo eate
lugar"], onde a função temporal é   inerente ao advérbio   to.morrow [porto "amanhi."].
Em menor grau embora, o hupa .te   é tlio írrelf".ante ao vocábulo verbal propriamente
dito, quanto "amanhã" ao n~::lO"scntimento" de   I leave [porto fldeixo"].
11. Dialeto wishram.
12.   :r\n   r("uliclad(" him   (forma masculina. ao pa..~soque ~it  é neutro); mas .,
chinuk, como o latim e o francês, p08sui gênero gramatical. Pode-se tratar um
ohjcto de   "he"    [de],   "shc"    [ela} ou   "it"    [gênero neutro] de acordo com a forma
característica do nome que o dl'Signa.
13. Esta análise {, inscb"Ura. £ : :   pro,"ávcl que o .n. possua uma função, ainda
 por d('Slindar. As língua.'" algonkin são de uma eomplt"xidadt" fora do comum e apre.
"'l"utnmmuitos problema!! de detalhe ainda não r("solvidos.
70 A L IN G U A G E M

14. "Radieo.iI   locundlÚ'iOl"   '-Ao  elementOll que   1 1 1 1 0   IUf1%OI do   ponto' doe   "lata
formal, nunca figurando .em o suporte de um v(lrdadeiro radical, mu cuja. funç!o,
qualquer que seja. o teu iDtento ou prop6eito, , tio CODcret&quanto •. do pr6prio
radieaI. Radicai. verbaia .eeundlriOl desae tipo elo earacterÚlticu du l1Dguu aI.
gonkin e do yana.
15. Nas 11pguaa algonkin,   todu as pesaOllA I' coilu .10 conheeid•.•   como
nnimndlUl ou inaniml1das, da me!m3.   lorte   que em latim ou   alcmlo 110 ('onoohidu
romo DlR!lculinas, :femininas ou neutl'U.
16. [Traduziu.se por "curandeiro" a Iocuçlo   medicinc.mon, que a   eseola   antro-
 pológica inglesa de   TyIo!'   e Fruer vulgarizaram e que os autores franceses (Lel)"
Brühl, por   ext'mplo)   transpõem literalmente para   homme.médiciM.)
17. Dialeto egípcio.
18.lU. também mudanças de acento e quantidade   vodJiea nestas formu,
mas as exigências da simplificação impõem.nos desprezA..lns.
19. Lingua. bcrbere de Marrocos.
20. Algumas Hnguas berberes admitem combinações cOD.l!lonantais,que, a n6s
':nltros, parecem impronunei6.vei8.
21. Uma das linguas haml:ticas da Africa oriental.
22. Ver   pflg" 56.
23. Falado no ~eDtro meridional da Califórnia.
24. Ver   pig. 51.
25. Esaas grafias elo apenas aproximaçliea grosseiraa de   ecrtC18   lI01UIeimpk!8.

26. Donde o nosao   ping-poAg.


27 . Lingua africana da C08ta' de Guiné [Também se uaa em portuguAs o nome
gege.]

28.  No adjetivo verbal o tom da llegunda ll!laba ditere do da primeira.


29. "Click"    inieial (pAg. 61,   Dota" 16)   omitido.

.30. Ungua india de NevadL


31. Lingua india de OregoDo
32. Nlo 6 improvbel, entretanto, que eew   &1tem1nclu .ejam primordial-
mente de natureu. t4nlet. (altura).
5. A Forma na Linguagem:
Os Conceitos Gramaticais

Vimos que o \'ocábulo isolado exprime um conceito simples ou uma


combina<,:ão de conceitos tão intrincados que constituem uma unidade
 psicol6gica. Examinamos rapidamente, além disso, sob um aspecto estri-
tamente formal, os principais processos que são usados em todas as lin.
gURS   conhecidas com O fim de submeter os conceitos fundamentais, -
aqueles que estão corporificados .nos vocábulos inanalisá\'cis ou nos ra~
dicais de um vocábulo -, à influência modificadora ou formativa dos
conceitos subsidiários.
 Neste capitulo, olharemos mais de perto para a natureza do mundo
dos conceitos, na medida em que esse mundo se reflete e sistematiza na
estrutura lingüística.
Comecemos com uma   sentcn<.:a simples inglesa que inclui vários ti.
 pos de conceitos - the {armer kills the duckling.
Uma análise perfunctória revela aqui a presença de três conceitoi
distintos e fundamentais relacionados entre si por uma porção de ma-
neiras. São eles:   {armer    ["lavrador"]' sujeito do discurso ik'ill   [ljmatar",
na 3.' pessoa do presente Hmata"]' que define a natureza da atividade
a que a sentença se referej e duklillg [duck, Hpato", e o sufixo dimi-
nutivo   -Ung, p.ara indicar um j'filhote de pato"]. outro sujeito do dis-
cursai que toma parte importante, embora um tanto passiva, nessa ati.
vidade. Podemos ter uma ,'isão do lavrador    {farmer] e do animal   [duck-
ling] e construir sem dificuldade uma imagem do ato praticado   [killing].
Em outros termos os elementos {armer, kill e   duckling definem conceitos
de ordem concreta .

.Análise lingüística mais cuidadosa, porém, mostra-nos logo que os


dois sujeitos do discurso, por mais singela que seja a nossa visão mental
a respeito, não estão expressos da maneira direta E '   imL"<!iatapor que no.'i
impressionam.   Farmer  é em eerto sentido um conceito perfeitamente
unificado, em outro' sentido é "aquele que lavra   (farm, verbo "lavrar"].
O conceito transmitido pelo radical   (farm-) não é absolutamente um con-
ceito de pe.rsonalidade, mas de atividade industrial (to {arm), que parte
 por sua vez do conceito de um tipo particular do objeto (a {arm)   [isto
72 A UNGUAGEM

ê, em inglês, o substantivo de coisa   farm, "herdade, fazenda", determinou


a formação de um verbo   to farm, de que saiu por sua vez o substantivo
de pessoa  farmer  expresso no exemplo]. Da mesma sorte, o conceito de
duckling   está em posição ulterior à do conceito   expresso.pelo radical   d1LCk.
Este, que pode figurar como vocábulo independente, refere-se a toda
uma classe de animais, grandes e pequenos, ao passo que   duckling   está
limitado   na sua   aplicação. aos   filhotes dessa classe. O   vocábulo  farmer 
tem um sufixo "agentivo"   -er,   ao qual cabe a função de indicar a pes-
soa que   realiza   uma dada   atividade   [como em  porto "-dor" de   '1avrador",
 por exemplo, que é   "aquele que lavra"}. Tal sufixo transforma o ver-
 bo   to farm num nome agcntivo, precisamente como transforma os verbM
to sing, to paint, to teach [((cantar", "pintar''. uensinar", ou seja, flJ~
fessar"] nos nomes agentivos correspondentes singer, painter, teacher 
[porto ffcantor'\ upintor", uprofessor"p. O elemento   -ling não apresen-
h'   um uso igualmente amplo, mas a ~a significação é 6b,il'.: Acrescenta

ao conceito básico a noção de pequenez (como ainda em  gosling e   fled-


 yeling) ou a noç~o correlata de ffmesquinhez desprezível" (como em
weakling, princeling, hireling). Tanto o agentivo -er  quanto o diminu~
tivo   -ling transmitem idéias nitidamente concretas (de uma maneira ge_ 
raI as de upessoa que faz" e Upequeno") j   mas esse caráter concreto não
fica bem acentuado. O papel dos dois sufixos não é tanto definir con-
ceitos distintos quanto servir de elemento intermediário entre certos
conceitos. O -er  de   farmer  não diz pràpriamente uaquêle que   (farms)"j
indica apenas que a esp~ie 'de pessoa a que chamamos   {armer    está
tão associada às atividades da lavoura que pode ser convencionalmente
I
concebida como sempre ocupada nessas atiddades. Evidentemente, irá
à   cidade e tratará de atividades muito outraS, mas sempre com a pape-
leta lingülstíca de   {armer.
A linguagem revela nisto certa incapacidade, ou se quiserem, certa
tendência rígida a olhar muito além da função imediatamente sugeri-
da, confiando em que a imaginação e a força do hábito bastam para
 preencher as transições de pensamento e os detalhes de aplicaç.ã.oque
distinguem do conceito concreto (to farm) um ~seu conceito "derivado".
(farmer). Seria, com efeito, impossível a qualquer língua exprimir 
eada idéia concreta por um radical ou por uma palavra independente.
O que há de concreto na experiência é   infinito i   os recursos da língua
mais rica são estritamente limitados. A lingua tem, pois, for.;osamente
de jogar inúmeros conceitos debaixo da rubrica de certos' conceitos bá-
sicos, servindo-se de outras idéias concretas ou semiconcretas como in~r- .
m~iários funcionais. As idéias pxpressas por ('sc elementos intermediá-
rios, - os quais podem ser vocábulos independentes, afixos ou modifica-
ções do radical -, podem ser chamadas uderivadas" ou f'qualificativas".
Alguns conceitos concretos, como  kill,   são expressos por um radical; ou.
tro..••, como  {armer  e  duckling, por um meio derivado.
Em correspondência a esses dois modos de expressão há, dois tipos
de conceitos e de elementos lingüísticos, um radical ({arm, kill, duck) e
outro derivado (-er, .lin9). Quando um V"ocábulo(ou um grupo unifica,-
do de vocábulos) contém um elementó (ou um vocábulo) derivado, a
significação concreta do radical (farm., ;Juck-) tende a esvair-se da cons-
ciência e a deixar-se substituir por um novo valor concreto (farnler 
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 73

duckling), que é antes sintético na expressão do que propriamente na:


idéia. Na nossa sentença, por exemplo, não entram a rigor os. concei-
tos de fa~ e   duckj   ficam meramente latentes 1 por motivos formais., na
expressão lingüística.
Voltando à sentença, sentimos que a   análise de   [armer  e   du.ckling
não interessa praticamente à   compreensão do seu conteúdo e não inte-
ressa   absolutamente à percepção da sua estrutura global. Partindo-se da.
sentença, os elemento!! derivados -er  e   .ling   são apenas detalhes da   ec0-
nomia local de dois de seus têrmos   (farmer  e   duckling) por ela aceitos
c:omo unidades de expressão.
Evidencia-se essa indiferença da sentença, romo. tal, a uma parte
da análise dos seus vocábulos com 'substituirmOH a'  farmer  e   duckling   v().

r.ábulos radicais como man   ["homem"] e   chic,k    ["pinto"], obtendo novo


conteúdo material, é certo, mas não absolutamente novo molde estrutural.

Podemos ir além e substituir outra atividade à   de matar, a de "segu4


rar" d~gamos [inglês.   to lake].   A nova senten~a lhe man takes the chick,
é totalmente diversa da primeira quanto ao assunto mas não quanto à
maneira de tratá.lo. Sentimos instintivamente, sem a mais leve tentativa
de análise consciente, que as duas senten~as adotam precisamente o
mesmo padrão, que são na realidade uma mesma séntença fundamental,
diferindo apenas pelo revestimento material. Em outros termos, expri.
mem de maneira idêntica idênticos conceitos de relação. A maneira fo ,

 por assim dizer, tríplice - o uso de um vocábulo inerentemente rela.


ciona!   (lhe) [artigo definido] em posições análogas; a oeqüência aná.
Ioga (sujeito, predicado constituído de verbo e objeto) dos termos con-
cretos da sentença; e o uso no verbo" do elemento sufixado -s   [desinên-
cia do indicativo presente da 3.'   pessoa singular].

Mude-se um desses caracteres da senten~a e ela fica modificada,


leve ou profundamente, sob o seu aspecto puramente relacional, não-
material. Se omitir~se   the (farmer b'lls duckling, man takes chick)
ela toma-se impossível; não entra num padrão formal reconhecido e os
dois sujeitos do discurso parecem incompletos, suspensos no vácuo. Sen-
timos, que não há relação estabelecida entre eles, relação essa que já
está prevista na mente de quem fara e quem ouve. Assim que   othe li
anteposto aos dois nomes, sentimos um alivio. Ficamos sabendo que. o
lavrador e a ave de que nos fala a sentença, são o mesmo lavrador e a
mesma ave, a que nos referíamos, ou de que ouvíamos referência, ou \!m
que pensávamos, momentos antes. Se eu encontrar um homem que não
está cogitando e nada sabe do citado lavrador, defrontarei provavelme~te
com um olhar .de pasmo por toda r.esposta, ao lhe. comunicar que   "the
 farmer    C'quem é   eleT")   kills lhe duckling ("não sabia que ele tinha um,
I'Icja   ele lá quem fôr"). Se, não obstante, o fato me parecer digno de ser 
comunicado, serei forçado a falar de "a farmer
up my way'"    ["um la-
vrador lá das minhas bandas"] e de   a duckling of his   ["uni patinho
seu"l. :Esses vocabulozinhos, the e a, [artigos "0" e "um"] têm a impor4
tante função de estabelecer ama referência definida ou indefinida.

Orrdtindo o primeiro th€  e abandonando concomitantemente o .$

~ufixaJo, obtenho um tipo inteiramente novo de relações.   Farmer,


km   the duckling implica que me estoc dirigindo a um lavrador, não
74 A L IN G U A G E M

apenas falando dele i e, além disso, que ele não está matando a ave, mas
recebendo uma ordem minha neste sentido. A relação subjetiva que ha.
,\;8 na primeira sentença, tornou.se uma relação vocatiV8j e a 8tÍ\'i-
dade passa a ser concebida em termos imperativos e não indicativos.
Concluímos, 'portanto, que se o lavrador deve scr apenas uma pes-
soa de quem se fala, o artigo tem de voltar ao seu lugar e o -$   não deve
ser Bupresso.. Este último elemento claramente define, ou antes, auxilia
a definir uma sentença enuneiativa em contraste com uma ordem.
Verifico, além disso, que, se quiser falar de vários lavradores, núo
 poderei dizer - the farmers kills lhe duckling,   mas sim _  the fanners
kill the duckling. Evidentemente, pois, o -$ pressupõe a singularidade
do sujeito. Se o nome é singular, o verbo tem uma forma que lhe corres-
 ponde, e tem outra, se o nome é pluraP. A comparação com fonnas
como   I kill [I.> pessoa do singular] e you   kill   [2.' pessoa do plural] mos-
tra, a mais, que o - s tem exclusiva referência a uma pessoa outra que
não aquela que fala ou "aquela com que se fala. Concluímos, pois, que
conota aí uma relação pessoal, ao mesmo tempo que uma noção de sino
gularidade. E a comparação com uma frase como - The farmer killed 
{pretéritoj porto "matou"] the duckli.ng indica haver ainda neste sobre4
carregadissimo - s   a designação nítida do tempo presente.
O   caráter indicativo da sentença e a referência de pessoa podem ser 
considerados conceitos inerentes de relação. O   número é evidentemente
sentido pelos que falam inglês como uma relação necessária, pois, do con-
trário não hayeria razão para exprimir-se duas vezes o conceito _ uma
vez no nome, outra vez no verbo. O   tempo também é claramentCl senti-
do como conceito de relaçãoj se o não fosse, poder-sc-ia dizer   lhe farmer 
killed-s   para corresponder a - the farmer kills.
Dos quatro conceitos inextricavelmente entrelaçados no sufixo o s ,
todos são sentidos, pois, como conceitos de relação, sendo que dois t~m
o caráter de relação necessária. A distinção entre um verdadeiro con-
ceito de relação e um que é   apenas sentido e tratado como tal, sem que
seja parte intrínseca da natureza das coisas, merecerá maior aten~iio
. nossa daqui a um momento.

Finalmente, é-me possivel modificar radicalmente o contorno rela.


cional da sentença com alterar a ordem dos seus elementos. Se forem
trocadas as pOEliçõe8 de  farmer  e  kills,   a sentença ficará - kil13 the farmer 
the ducklin.g, o que é muito naturalm,ente interpretado como uma ma-
neira insólita, mas não ininteligível, de fazer a pergunta - does the far-
flter  kill the duckling'~. Nesta. nova sentença, não se concebe o ato co-
mo necessariamente em. realização. Pode, ou não, estar-se passando esse
ato, ficando apens."l pressuposto que a pessoa que fala quer saber a ver-
dade c acha que pode ter informação da pessoa com quem fala. A sen-
tençA interrogativa possui uma "modalidade" inteiramente diversa da
declarativa, e pressupõe uma atitude nitidamente diversa da parte de .
quem fala para quem ouve.
Haverá mudança ainda mais notável nas relações pessoais, se tro-
carmos a posi~ão de   {armer  e   du<:kling. The duckling k111sthe farmer  en-
volve precisame~te os mesmos sujeitos do discurso e o mesmo tipo de ati-
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 75

vidade que a nossa primeira sentença, mas os papéis estão invertidos.


A ave   vingou-se do qomem, e~mo o verme do provérbio, ou, para usarmos
a terminologia gramatic8.1, o que era "sujeito" é   agora Hobjeto", e o
que era objeto. é   ag<>rasujeito.
O quadro   infra analisa a sentença do ponto de vista dos eoncei:'
tos nela expressos c dos processos gramaticais utilizados para tal ex-
 pressão:

I. Ccm.ceilol Concretos:
1. Primeiro sujeito do discurso:   farmer.
2: Segundo sujeito do discurso:   duckling.
3. Atividade:   kil!.

--- analisáveis em:


A. Comeitos Radicais:
1. Verbo:   (to) farm.
2. Nome:   duck.
3. Verbo:   kill.
 _B. Cm1ceitos Derivados:

1. Agentivo:   e::tpresso   pelo sufixo   -er.


2. Diminutivo: expresso pelo sufixo   -ling.

11.   Conceitos de   Relação

Referência:
1. Referência definida quanto ao primeiro sujeito do discur-
so: expresso pelo primeiro   the,   que tem posição prepositiva.
2. Referência definida quanto ao segundo sujeito do discur~
80:   expresso pelo segundo   the,   que tem posi~ão prepositiva.

Modalidade:
3. Declarativa: expressa pela seqüência de suj~ito   mais   verbo;
e pressuposta pelo .$ sufixado.

Relações pessoais:
4. Subjetividade de   farmer: expressa pela anteposição de   far-
mer  a   kills   e pelo .s   sufixado.
5. Objetividade de   duckling: expressa pela posp08içiio de   duc-
kling a   kills.

 Número:
6. Singularidade do primeiro sujeito dt! discurso: expresso pela
ausência de sufixo de plural em farmer; e pelo sufixo .$ no
verbo seguinte.
7. Singularidade do segundo sujeito do discurso: expresso pela
ausência do sufixo do plural em   duckling. ,

.
76 A LINGUAGEM

Tempo:

8. Presente: expresso pela ausência de   sufixo' de   pre~rito no


verbo; e pelo -8   sufi.udo.

 Nesta curta sentença de cinco vocábulos, estão expressos, portanto,


treze conceitos distin~ três dos quais radicais e   concretos, dois   deriva.
dos e oito de relação.
Talvez o "maisnotável   resultado da análise   seja a prova, mais uma
vez obtida, da curiosa falta de   correspondência em nossa língua entre
a função e a forma. O   método de sufixação é usado tanto DO S   elemen-
tos derivados como DOS de relaçãoj vocábulos independentes ou radicali
exprimem tanto idéias concretas (objetos, atividades, qualid8.des)  carol,)
idéias de relação (artigos the e aJ vocábulosque definem relações de lu-
gar como in, on, at) [cf. em português os artigos   'jo'~e um", e as pre-
<J

 posições."em",   "sobre", "a"]; um mesmo conceito de relação pode ser 


expresso mais   de uma vez (assim, a singularidade de   fanner  é   expres-
sa negativamente no nome e positivamente no. verbo); e um elemento
 pode conter um grupo de conceitos intrincados em vez de um só concei-
to deCinido (as8im, o -s de   kills enearna nada menos que quatro rela~ões
que logicamente são independentes entre s~).
A nossa análise poderá parecer um tanto elaborada; apenas, porém,
 porque estamos tão habituados aos nossos conheeidiss.imoscanais de ex-
 pressão que eles chegam a se nos apresentar como inevitáveis.
Ora, a análise destrutiva do que é familiar, vem a ser o único mé-
todo para chegannos a compreender modos fundamentalmente diferen-
tes de expressão. Perceber o que há de fortuito, de ilógico, de desequili-
 brado na estrutura da língua nativa, é meio caminho andado para sen-
tir e apreender a expressão'das várias classes de conceitos em tipos de
fala estranha. Nem tudo que é   "extranacional" é   intrmsecamente de na-
tureza ilógica e complexamente forçada. Não raro, é precisamente aquilo
que n06 é familiar, que perspectiva mais ampla revela ser curiosamente
esporádico.
De um porito de ,,;sta puramente lógico,  é óbvio que não há uma
ràwo inerente para explicar por que os conceitos expressos na nossa sen-
tença de há pouco estão considerados, tratados e agrupados da maneira
que vimos. Tal ~ntença é   antes o produto de forças psicológicas, histó-
ricas e irrefletidas, do que uma síntese lógica de elementos nitidamente
apreendidos na sua -individualidade.
~ o que se verifica, em maior ou menor grau, em todas as línguas,
se bem que nas formas de muitas delas se nos depare, melhor do que nas
nossas formas inglêsas, um reflexo mais coerente e consistente daquela
análise, orientada para os conceitos individualizados, que nunca está in-
teiramente ausente da linguagem, embora complicada e sobrecarregada
com fatores mais irracionais.

Exame perfunctório de outras línguas, proxlmas e remotas, mostrar-


nos-ia bem depressa que alguns ou tOOosos treze conceitoe que sucedo
figurarem na nossa scnten~a de há pouco, podem não só ser expressos
sob forma dif~rentc como ficar diferentemente agrupados entre si; que
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 77

alguns deles podem ser postos de lado; e que outros conceitos, que não
forani leyados em   consideração na construção   inglesa, podem passar a
ser tratados como absolutamente indispensáveia à inteligibilidade da pro-
 posição.

Consideremos primeiramente a possibilidade de um tratamento di.


verso para os conceitos ineluídos na sentença. inglesa.

Se nos voltarmos para o alemão, verificaremos que, na sentença equi-


valent€:'   (Der Bauer totet das E-ntelein),   o definido. da   referência ex-
 pressado pela partícula inglesa the está inevitavelmente combinado com
três outros conceitos -   núIt;lero   (tanto der  como das são explIcitamente
singulares), caso   (der  é   súbjetivoj   da..Jé  subjetivo ou objetivo, logo  P or 
eliminação, é  aqui objetivo), e gênero, novo conceito de ordem relaciona!
llue neste caso não está  explicitamente, pressuposto em inglês   (der  é   mas-
culino, das é  neutro). Aliás, a tarefa principal de exprimir o caso, o nú-
mero e o gênero cabe em alemão mais propriamente às partfcwa.s de re.
ferência do que às palavras que traduzem os conceitos concreÚ)S(Bauer,
Entelein) e das quais esses conceitos de relação devem logicamente de.
 pender. Também na esfera doa conceitos concretos é digno de nota que
o alemão cinde a idéia de "matar" no conceito básico de morto"   (tot)
I
I

e no conceito derivado de "fazer que seja isto ou aquilo" (pelo .método


da mutação vocálica,  tõt-) .[0 treroado indica a vogal eu,  do francês}eu,
 por exemplo, resultante em alem.ãode"uma evolução do o de   tot] j  ,o al~
mão   tõtet   (anallticamente, tot +   mutação vocálica +   et),   'lfaz que
seja morto" é,  aproximadamente, o equivalente formal do,n()&CK) de4d-en-s,
embora a aplicação idiomática desta última palavra seja outra, [~ d~
l'ivado de   dead  "morto", como o porto "amortecer", e, como este, só de
aplicação secundária D
].

Podemos fazer maior digressão e lançar os olhos para o método de


expressão em yana. ~m tradução literal o equivalente yana da nossa
sentem;ll de há pouco serã qualquer coisa como - mata ele lavrador-
I
I

ele a patinho", em que uele" e lia" são grosseiras llproximações- de


um pronome geral da terceira pessoa para .qualquer gênero e número,
e de uma partfcula objetiva que indica que o nome seguinte se' prende
ao verbo em função outra que não a de sujeito. O elemento sufixado
em "mat-a" (ou, em inglês,   kiU-s] corresponde ao nosso sufixo, salvo
em dois pontos importantes: não acarreta referência ao número do su-
 jeito e esclarece que se trata de um fato verídico, sob a garantia da pes-
soa que fala. O número só fica, indiretamentc, expresso em virtude da
ausência do sufixo verbal especifico, que indicaria a pluralidade do su-
 jeito, e dos elementosespecíficosdo plural para os dois nomes. Se a afir-
mac;.ãotivesse sido feita sob a garantia de uma terceira pessoa, teria de
ser tLo;adoum sufixo temporal-modal completamente diverso. Os   pronO:
mes de referência ("ele") nada dizem quanto ao número, gênero e caso.
.Aliás, o gênero falta completamente.ao yana como categoria de relação.
A sentença yana já mostra, por conseguintc, que se pode fazer abs-
tração de alguns dos nossos conceitos supostamente essenciais; e tanto
a sentença yana quanto a 'alemã mostram, a mais, que se pode sentir a
necessidade de expressar certos ('onceitos, que os homens de língua in-
glesa, ou antes os hábitos da lingua inglesa, não têm na mínima conta.
78 A L IN G U AG E M

~ possível prosseguir e ir dando novos e inumeráveis exemplos de


divergência com a forma inglesa. mas temos de nos contentar com  mai,
algum •• ilUBtrações ap"n ••.

 Na sentença chin ••• - Man kiU duck, que 'pode ser 'considerada equi-
,'alente prático de   TIt. man   kilZ,   flt.   duck,   não hã, para a consei@ncia
chinesa, a sensação de infantilidade, hesitação e deficiência, que experi.
mentamos diante da correspondente tradução literal. Cada um dos tr@s
conceitos.concretos, - dois seres e   uma ação -, 6 diretamente expresso
 por um -vocábulo monossilábico, que é  ao mesmo tempo um   mera   radical;
os dois conceitos de relação, - sujeito e objeto -, são' unicamente ex.
 pressos pela posição das .palavras que designam os seres antes e   depoiog
da palavra' que designa a ação, E é tudo. Noção de defiuido ou indefi.
nido, número, personalidade como aspecto inerente do verbo e tempo, sem
falar em gênero, - tudo isto não recebe expressão na sentença chinesa,
que, não obstante, é   uma comunicação verbal perfeitamente adequada,
desde que haja, bem entendido, aquele contexto, aquele fundo de qua-
dró de compreensão mútua, essencial à   completa inteligibilidáde da lin-
guagem. Nem esta ressalva prejudica o argumento, pois também na sen-
ten~a inglesa deixamos sem expressão grande número de idéias, das quais
umas estão implicit&lr.cnte~ccitas, e outras foram desenvolvidas, ou vão
sê-lo, no curso da conversação. Nada se disse, por exemplo, nas senten-
ças ingllsa, 'alemã, yana e chinesa, a respeito das relações de lugar en-
tre o lavrador, o pato e das dos interlocutores.~om eles ou entre si.   Será
que o lavrador e o pato estão ambos, ou está um .ou outro, fora da vista
da pessoa que fala, ou dentro de âmbito visual dela ou de quem ouve, ou
ainda são vistos de um terceiro ponto de referência "acolá'" Em outros
termos, parafra.seando-se grosseiramente certas idéias "demonstrativas"
latentes, esse lavrador (invisivel para nós, mas posto atrás de uma
 porta não longe de mim, estandó tu sentado acolá fora 'de alcance) mata
aquele pato (que te pertence)! ou aquele lavrador (que vive na ,tua
vizinhança e que estamos vendo acolá) mata aquele pato (que lhe per~
tence) I Esse tipo de frase elabOradamente demoUBtrativo é estranho à
nossa maneira de pensar, 'mas 'pareceria naturalíssimo, quiçá inevitável,
a um índio kwakiut!,

Quais são, então, os. conceitos absolutamente essenciais na fala, o~


conceitos que têm de ser forçosamente expreSSOB para que a linguagem
seja um meio satisfatório de comunicação'
:eclaro que temos de ter, antes de tudo, um bloco de conceitos bási-
cos ou radicais, o assunto concreto da fala. Temos de ter objeto~, a~;
qualidades para conversar a respeito, e tudo isso tem de ter simbolÕ8
correspondentes que sejam vocábulos independentes ou radicais. Nenhum's,.
 proposição, por mais abstrato que seja o seu intuito, é   humanamente
 possível sem um ou mais pontos de contacto com o mundo 'conçreto dos
sentidos. Em toda proposição inteligivel, têm de ser expressas duas, pelo
menos, de..'lS8sidéias radicais, embora em casos excepcionais uma, ou até
uma e outra, fique pressuposta no contexto.

E, em segundo lugar, têm de ser expressos conceitos de relação tais


que os conceitos concretos fiquem enlaçados entre si, construindo uma
forma definida e fundamental de proposição, onde não deve haver qual-
os CONCEITOS GRAMATICAIS 79

quer dúvida a respeito da natureza das relações existentes entre os con-


ceitos concretos. Temos de saber qual deles estA direta ou indiretamen.
te relacionado ao outro, e como o esta. Se queremos falar de uma coisa
e de uma açio, temos de saber se estão coordenados entre si (e. g. uele
gosta do   vin.ho e do   jogo"); ou se a coisa está. concebida como o pento
de partida, o "agente" da a~ão, ou seja em linguagem usúaI como "sujeito",
a que a   ação está   p:.-cdicada, ou se, 80   contrArio, é o ponto final, o   Uobje.
to" da ação.
Se qu~ro comunicar urna idéia inteligível acêrca de um lavrador,
um pato e a ação de matar, não ê suficiente apresentar os respectivos
símbolos   lingüísticos à   t08,   em qualquer ordem, confiado em que a pes-
soa que me ouve, tire uma espécie de norma de relação dentre as pos-
sibilidades gerais do caso.
AJj relações sintáticas fundamentais precisam de ser expressas sem
ambigüidade.
Posso permitir-me guardar silêncio a propósito do tempo, do lugar,
do número e de muitos outros tipos de conceitos, mas não posso fugir 
de poaitivar quem estA pratieando o ato. Não há nenhuma língua conhe-
cida que possa ou tente fugir a isto, da mesma sorte que nenhuma logra-
ria enuneiar qualquer eoisa sem o emprego de sfmbolos para os con-
eeitos coneretos.
Temos, 86Sim, mais uma vez diante de nós a distinção entre os con-
ceitos esseneiais ou inevitáveis, e os que são dispensáveis. Os primei~
são universalmente expressoSj os últimos são parcimoniosamente desen-
volvidos em algumas Hnguas, e, em outras, elaborados com exuberância
 pasmosa.
Mas que nos impede de lam~ar esses conceitos de relação, "secundá.
rios" "dispensáveis", no grupo amplo e flutuante dos conceitos derivados
ou qualificativos, de que já, há pouco, tratamos!
Haverá, afinal de contas, uma diferença fundamental entre um eon-
ceito qualificativo como a negação em   unhealthy   [prefixo   Uft-,   como flin"
do português uinsalubre"] e uma relação como a de número de   boob
[ou em porto ''livros'']! Se   unhealthy   pode ser aproximadamente para-
fraseado por   not healthy   [porto "não salubre"), não será igualmente le-
gítimo, com certa violência embora ao gênio da ]fngua, parafrasear    book.,
 por    severa! book    [ou, em português, "muito livro]' Com efeito, há !tn-
guas em que o plural, quando chega a Ber expresso, é   coneebido no mes-
~o espírito moderado, restrito, quase poderíamos dizer acidental, com
que sentimos a negação em   unhealthll.   Para tais !tnguas, o conceito de
.' .número não tem a menor significação sintática, não é essencialmente tra-
tado como expressão de uma relação, mas entra no grupo dos conceitos
derivados, ou até no dos conceitos básicos. Entretanto, em inglês, como
em francês, em alemão, em latim, em grego, - em todas as línguas en-
fim com que estamos familiarizados, - a idéia de número não fica ape-
nas apensa a um dado conceito de coisa. Pode ter de certo modo êsse
valor meramente qualificativo, mas a sua força estende.se muito além.
Propaga-se 8 muitos outros pontos da sentenc;:a, modelando outros con-
ceitos, até" aqueles que não têm relação inteligível com o número, para
80 A L IN G U A GE M

dar-lhes formas que se dizem em correspondência ou "concordância" com


o conceito básico que a ela se adaptou em primeiro lugar.
Se em inglês a man   fal18 [eom o -$   da 3.• pessoa do singular) mas
- men  falI", não é   porque tenha havido uma modificação esSencial na
U

natureza da ação, ou porque a idéia de plural inerente em   "men"    [plu-


ral de   man, uhomem"] deva, pela própria   natureza das idéias, referir~
se também à aÇão por eles realizada.

o que estamos fazendo em tais sentenças é   o que a maioria das Hn~


guas, em maior ou menor grau, e de cem maneiras diversas. está no há.
 bito de fazer, - lançando uma ponte ousada entre dois tipos de concei.
tos fundamentalmente distintos, o concreto e o de relação abstrata, in.
cutindo no último, por assim dizer, a cor e a densidade do primeiro. Por 
uma espécie de metáfora violenta, o conceito material é 'obrigado a subs-
tituir.se (ou entrelaçar.sc) ao estritamente relacional.

o   caso aindaserá mais evidente, se trouxermos à   balha o gênero.


 Nas duas frases inglesas The white woman that comes e   The white
men that come   nada nos diz que o gênero, tanto quanto o número, pos-
sa ser elevado a um conceito secundário de relação. Parece à   primeira
vista qualquer coisa de artificial e for~ado fazer da masculinidade e da
feminilidade, conceitos materiais crassos, e filosoficamente acidentais
(como são), um meio de relacionar uma qualidade a uma pessoa ou uma
 pessoa a uma ação; nem nos ocorreria facilmente, se não tivéssemos es.
tudado os clássicos, que se pudesse ir ao absurdo de inocular em dois
conceitos de relação tão sutis como Hthe" e "that" [artigo e pronome re-
lativo] as noções combinadas de número e sexo.

Entretanto, tudo isso, e mais ainda, acontece em latim.   11Ia alba te.
mina quae venit  e illi albi homin.es qui veniunt, traduzidos conceptual.
mente, correspondem ao seguinte:   aquêle - um - feminino - agente'
- um - feminino - branco - agente feminino - fazer _ um - mu.
l1ter que - um - feminino - agente outro 8 - um _ agora _  vir 
fi. e. cada palavra latina desdobra-se num nome radical somado a con-
ceitos de unidade, feminino, agente, atualidade, 3.• pessoa, etc.]  j e   aquele
- muito - m~ulino - agente muito - masculino - branco _ agen-
te masculino - fazer - muito - homem que _ muito _ masculino _ 
agente outro - muito - agora - vir  [i. e. cada pala\'ra latina desdo-
 bra-se num nome radical somado aos conceitos de masculino, de plurali.
dade, agente, atualidade, 3.• pessoa]. Cada yocábulo implica nada menos
do que quatro conceito.~:um conceito radical (quer concreto propriamen-
te dito - branco, homem, mulher, vir, quer demonstrativo.- aquele,
que) e três conceitos relacionais tirados das categorias do caso, número,
gênero, pessoa e tempo. Logicamente, apenas o caso' (relação de   mulher 
ou   homem com o verbo seguinte, de que com o seu antecedente, de   aquêle
e   branco com  mulher  e   homens e de que com  vir) exige imperativamen-
te expressão, e isso apenas em conexão com os conceitos diretamente atin-
gidos (não há, por exemplo, necessidade de informar que a brancura é
uma brancura de agente)1°. Dos outros conceitos relaeionais alguns são
A \ v   I./> clt.:r juJzv> ~l 'I.c ...•..
os C O N C EI TO S G R A M A TI CA IS 81

meramente parasitos (o gênero em todas as circunstâncias; o número no


demonstrativo, no adjetivo, no relativo e no verbo), outros sãO sem im.
 portância para a forma sintática essencial da sentença (número no nomej
 pessoa; tempo).
Um chinês inteligente e sutil. habituado como está a ir diretamente
ao âmago da forma lingüística, exclamará diante da sentença latina:
uQuanta criação pedantescal" - Ser-lhe-á difícil, defrontando pela pri-
meira 'Çezas complexidades ilógicas das nossas línguas européias, sentir.
R e à   vontade numa atitude que de tal modo confunde o assunto da lin-
guagem com O seu padrão formal, ou, para expriminno-nos com mais
exatidão, que aplica certos conceitos fundamentalmente concretos a usos
de tão atenuada relação.
Exagerei algum tanto o que há de concreto no aspecto subsidiário,
ou melhor, não-sintático, dos nossos conceitos de relação, para que se
depreendessem os fatos esseneiais com apreciável relevo.
Inútil é dizer que um francês não tem no cérebro uma nftida noção
de sexo quando fala de un arbre (em inglês a -   masculino   tree)   ou de
une pomme (a -   feminino   apple). Nem temos nós outros ingleses, di-
gam o que disserem os gramáticos, uma impressão muito viva' do tempo
 presente, em contraste com todo o passado e todo o futuro, quando dize-
mos He comes [cf. em português, "ele chega"] o que se vê clara-
  11. ~

mente com o uso do presente para indicar não s6 o futuro (H e comes


to-morrow) [em português, uele chega amanhã"] mas também a ativi-
dade geral dissociada da especificação do tempo (Whenever he comes,
 I am glad to see him) [ou, em português - "Sempre que ele chega,
alegro-me dc vê-Io") onde o verbo se refere mais a ocorrências passadas
e posuvelmente futuras, do que à   atividade presente.
Tanto em francês comõ em inglês, nos exemplos dados, a~ idéias
 primordiais de sexo e tempo diluiram-se, portanto, em virtude da analo-
gia formal e das extensões de sua aplicação ao ümbito das relações gra-
maticais, ficando tão vagamente definidos os conceitos ostensivamente
indicados que é   mais pela tirania do uso do que pelas necessidades da
expressão concreta que se nos impõe a seleção desta ou daquela forma.
Se esse processo de esgarçamento conceptual continuar a fazer-se, pode-
remos aeabar por ter nas mãos um sistema de formas, donde se terá
esvafdo toda a cor de "ida e que apenas persistirá por inércia, duplican-
do-se-Ihesas funçWs sintáticas secundárias com prodigalidade sem fim.
Daí, em parte, os complexos sistemas de conjugação de tantas lin.
guas, nos quais diferenças de forma não se ,fazem acompanhar de consig-
náveis diferenças de função.
Deve ter havido uma época, por exemplo, embora anterior  à   mais
antiga evidência documental, em que o tipo de formação temporal re-
 presentado por    drove ou   sank  [pretéritos com apofonia de   to drive,
"guiar", e   to sink,   "mergulhar"] diféria pelo sentido, num grau levémen-
te cambiante que fosse, do tipo   (killtd, worked) [com o sufixo -   ed).
que se firmou em inglês como a maneira predominante de formação do
 pretérito; da mesma sorte que hoje ainda reconhecemos uma distinção
apreciável entre esses dois pretéritos, de um lado, e, de outro lado, o
"perfeito" (has driven, hiU    killed) [formas compostas com o auxiliar 
82 A L IN G U A GE M

 Mve, llter"), distinção que, por sua vez, poderá ter cessado numa deter.
minada fase vindoura da Ungua l
i,

A   forma sobrevive ao seu conteúdo   CODceptual. Uma e outro alte-


ram-se sem cessar; mas, de maneira geral, a forma tende a subsistir de-
 pois de o espírito se ter esvaído ou mudado de corpo. Forma irracional,
forma por amor  à   forma - seja qual fôr o nome que se dê a esta ten.
déneis lingüistica de insistir em distinções formais pela simples razão
de que já   estão constituídas - é tão natural na vida da lingu&gem,
como é, na vida social, a persistência de modos de conduta que perde-
ram há muito a 8ua razão de ser.
Há outra tendência poderosa para fa,orecer uma elaboração formal
que. já não corresponde estritamente a nítidas dif..,renças conceptuais.
: e   a tendência a construir esquemas de classificação que enquadrem à
força todos os conceitos lingüísticos.
Uma vez convencidos de que todas as coisas são de maneira definida
ou boas, ou más, ou brancas, ou pretas, é dificil aceitarmos a atitude
mental que reconhece que cada coisa, de per si, pode ser a um tempo
 boa e má (ou, em outros têrmos, indiferente" ou a um tempo preta e
 branca (ou, em outros termos, parda); e ainda mais difícil é   confor-
marma-.nos a admitir que as categorias do bom e do mau, ou do preto
e do branco, possam em certos casos ser inaplicáveis.
A linguagem, a muitos r~8peitos, é também caprichosa e renitente
em referência a suas classificações. Faz questão de ter lugares marea-
dos para tudo, e não tolera que nada fique de fora. Qualquer conceito
em demanda de expressão tem de submeter-se às regras classificat6rias
do jogo, à maneira desses inquéritos estatísticos em que o mais comicto
ateu tem de figurar como católico, protestante ou judeu para ser leva-
do em considera~o.
Em inglês partimos sempre da idéia de que toda ação tem de ser 
concebida em ref~rência aos três tempos padrões. Se, portanto, deseja-
mos enunciar uma proposição \"erd.adeira para amanhã e para hoje, da-
mos de barato que o p'resente pode ser prolongari.o e às vezes de tal ma-
neira que abranja a etemidadeu. Em francês, sabemos uma \"ez' por 
todas que todo ser  é masculino ou feminino, seja animal ou coisaj da
mesma sorte que, em muitas línguas da América e da Ásia Oriental,
todos os seres pertencem por principio a ce~ categoria .formal (por 
exemplo, em forma de anel, de bola, longo e delgado, cilíndrico, em
forma de lençol, em massa como açúcar) e como tais são enunciadOR 
(e. g. duas batatas da cl~ das bolas, três tapetes da classe dos len-
çóis) ou, até, corno tais "existem" e são "manuseados em qualquer sen-
tido" (assim, nas Hnguas athabá.skan e em ynna, "carregar" ou Hjogar"
uma pedra é coisa muito diversa do que carregar ou jogar um toro,
tanto no âmbito lingüístico quanto no da nossa experiência muscular).
Exemplos desses podem ser multiplicados à vontade.
Dir-se--ia que, em ce~o período do passado, o espírito inconsciente
da raça fez insofridamente um inventário da sua experiência, se jWlgiU
a uma classificação prematura mas inapelável, e arreou os herdeiros da
língua com uma ciência que eles já não aceitam mas não têm a força
OS CONCEITOS
CONCEITOS GRAMATICAIS
GRAMATICAIS 83

de des
destrui
truir.
r. Todo
Todo dogm
dogmaa, rigi
rigida
dam
mente
ente pre
prescri
scrito
to pela
pela trad
tradiição,
ção, ret
ret '\S .- s e

em forma
rmalismo. As categorias lingüísticas constituem um sistema de
dogm
dogmasas rema
remane
nesc
sceentes
ntes - os dog
dogma
mass do Inc
Inconsc
onscie
ient
ntee. Como
Como conc
conceeitos
itos,,
são, muitas vezes, apenas semi.rea
reaisj a sua vida tende a .deperecer no
sentido da forma
rma por amor à for
forma.
Há. ainda uma terceira causa para explicar a forma que não tem
sign
signif
ific
icaç
ação
ão,, ou,
ou, ante
antes,
s, as dife
difere
renç
nças
as de form
formaa que
que não
não têm
têm sign
signif
ific
icaç
ação
ão..
~ o traba
trabalh
lho
o mecâ
mecâninico
co dos
dos proc
proces
esso
soss foné
fonéti
tico
coss que
que pode
pode dete
determ
rmininar 
ar 
dist
distin
inçções
ões form
formaais onde
onde não
não há,
há, e nunc
nuncaa houv
houve,e, dist
distin
inçções
ões func
funciionai
onaiss.
Muit
Muitas
as das
das irre
irregu
gula
lari
rida
dade
dess e comp
comple
lexi
xida
dade
dess form
formaiaiss dos
dos noss
nossos
os sist
sistem
emasas
de decl
declin
inaç
ação
ão e conj
conjugugaç
ação
ão são
são devi
devida
dass a esse
esse proc
proces
esso
so..
O plu rall de hat  é   hats,   o plura
plura lurall de   seI! é   selves. No primeiro
primeiro cacaso,
so,
temo
temoss um simpsimple less legí
legíti
timo
mo .8 a simbolizar o pluralj no segundo caso,
terno
ernoss um z comcombina
binadodo com uma uma muda
mudanç nça,
a, no radiradical, de f    pa
cal, para v. Não
temos
emos,, port
portaanto,
nto, aquiaqui o caso
caso de umauma conve
onverg
rgên
ênccia de formformas
as que
que orig
origi-
i-
nariamente exprimiam conceitos nIti Itidamente distintos, - como vimos
que
que deve
deve ter
ter suc
sucedi
edido com as form formas
as para
parale
lela
lass   drove e   wor
workked -, mas
um desd
desdob
obra
rame
ment nto
o mera
meramementntee mecâ
mecâninico
co 'do
'do mesm
mesmo o elem
elemenento
to form
formal
al sem
sem
o corre
corresp
spon
ondede~t
~tee dese
dese'nv
'nvololvi
vime
ment
nto
o de um novo novo conc
concei
eito
to..
Esse
Esse tipo
tipo de evolu
evolu~ã
~ão
o das
das form
formas
as,, por
por cons
conseg
egui
uint
nte,
e, send
sendoo embo
embora
ra de
máxim
áximo o inte
nteress
ressee para
para a hist
histór
ória
ia gera
gerall da líng
língua
ua,, está
stá à marg
margeem do   DOS-
00   es
escopo
copo atua
atual,
l, qual
qual o de compr
ompreeender
nder a natu
nature
reza
za dos
dos conc
conceeitos
itos gra
grama.
ma.
tic
ticais
ais e a sua
sua tend
tendêência
ncia em deg
degee~era
~erarr em ficfichas
has pura
pura~e
~ent
ntee form
formaais.
is.
Esta
Estamo
moss agor
agoraa em con
condi
diçções
ões de reve
reverr a noss
nossaa prim
primeeira
ira class
lassif
ific
icaa.
ção dos conceitos totais como se exprimem na linguagem e sugerir o
esquem
esquemaa seguin
seguinte:
te:

r. Conc
Concei
eito
toss (con
(concr
cret
etos
os)) fund
fundame
ament aiss (tai
ntai (taiss como
omo obje
objeto
tos,
s, açõe
ações,
s,
qual
qualid
idad
ades
es)) : nor
normamalm
lmen
ente
te expr
expres
esso
soss por
por vocá
vocábu
bulo
loss inde
indepe
pend
nden
ente
tess ou ele.
ele.
mentos
mentos radic~
radic~ais
aisjj não implic
implicam,
am, como
como tais.,
tais., relac:
relac:õcs
õcs H.

lI. Conce
Conceito
itoss de derivaç
derivaç.iio   (me
.iio (meno
noss conc
oncreto
retos,
s, em regr
regraa, do que
que 08
do n.9   I e ma
mais do que 08   do n.9 III)
III) : norm
normal
alme
ment
ntee expr
expres
esso
soss pela
pela afix
afixa-
a-
ção
ção de eleme
element
ntos
os não.
não. radi
radica
cais
is aos
aos eleme
element
ntos
os radi
radica
cais
is ou por
por uma
uma modi
modifi
fi..
cação interna destes últimosj diferem rem do tipo I porque definem idéiaR 
que
que não
não inte
intere
ress
ssaam ao pens
pensam
amen
ento
to de conj
conjun
untoto da'
da' prop
propos
osiição,
ção, mas
mas dão
dão
ao radi
radiccal um incincreme
rement
nto
o espe
specia
cial de sign
signif
ific
icaação e se acha
acham m ine
inerent
rentee-
ment
mentee asso
associ
ciad
ados
os de modo
modo espe
especi
cifi
fico
co com
com os conc
concei
eito
toss do tipo
tipo I 15.
lI!. Concei
Conceitostos com:re
com:retos
tos de relaç ão (ain
relação (ainda
da mais
mais abst
abstra
rato
tos;
s; cont
contud udo,
o,
não
não inte
inteiriraament
mentee des desprov
proviidos
dos de qualq qualqueuerr cois
coisaa de conc
concre
retto):
o): norm
normaal.
ment
mentee expr
expres esso
soss por
por afix
afixaç
ação
ão de elem elemenento
toss não-
não-ra
radidica
cais
is aos
aos radi
radica
cais
is,, mas
mas
gera
geralm
lmen
ente te mais
mais afas
afasta
tado
doss dest
desteses últi
último
moss do que que suce
sucedede com
com os elemelemenen~~
tos
tos do tipotipo lI,lI, ou porpor modi
modifificcac:ã
ac:ãoo int
inter
ernana dos
dos radi
radiccais;
ais; dife
difere
remm fund
funda-
a-
ment
mentalalme
ment ntee do tipo
tipo lI,
lI, porq
porque
ue indi
indica
cam
m ou impliimplicacam
m rela
relac;
c;:ã
:ãesqu
esquee tran
trans-
s-
cend
cendem
em ~o vocá vocábubulo
lo part
partic
icul
ular
ar a que que estã
estão o imed
imediaiata
tame
mentntee liga
ligado
dos,
s,-- assi
assim
m
serv
servin
indo
do de pass passag
agem
em para
para os seg segui
uint
ntes
es::
IV. Com:e
om:eit
itos
os puro
puross de rel ação (pur
relação (puraament
mentee abstr
bstraatos)
tos):: norm
normaal~
ment
mentee expre
express
ssos
os pela
pela afix
afixaç
açüo
üo de'
de' elem
elemen
ento
toss não-
não-ra
radi
dica
cais
is aos
aos radica
radicais
is (em
(em
cuja
cujass circ
circun
unst
stân
ânci
cias
as tais
tais conc
concei
eito
toss se apr
apres
esen
enta
tam
m freq
freqüe
üent
ntem
emen
entete entr
entre-
e-
84 A UNGUAGEM

laça
laçado
doss com
com oa do tipo
tipo IH),
IH), ou porpor modi
modifi
ficcação
ção inte
intern
rna,
a, por
por vocá
vocábu
bulo
loss
inde
indepe
pend
nden
ente
tes,
s, por
por posi
posiçã
çãoj
oj dest
destin
inam
am-s
-see a rela
relaci
cion
onar
ar entr
entree si os elem
elemen
en--
tos
tos conc
concre
reto
toss da prop
propososiç
ição
ão,, dand
dando-
o-lh
lhee form
formaa sint
sintát
átic
icaa defi
defini
nida
da..
A natu
nature
rezza dess
dessas
as qua
quatro
tro class
lasses
es de conc
conceeitos
itos,, no que
que   se
se refere ao
seu valor concret
reto ou à sua faculdade de exprim rimir relações sintátieM,
 pode simbolizar-se da seguinte maneira:

I. Conc
Concei
eito
toss Fund
Fundam
amen
enta
tais
is..
Conteúdo Material ..... {
lI.
lI. Conc
Concei
eito
toss de Deri
Deriva
vaçã
ção.
o.

Relação {m . Conc
Concei

I V. Conc
Concei
eito

eito
toss Conc
Concre

toss Puro
reto
toss de Rela

Puross de Rela
Rela~ã
Relaçã

~ão.
o.
ção.
o.

 Não convém respeitar esses esquemas como a fetiches. Ao fazer uma


anál
anális
isee surge
surgem
m freqü
freqüen
ente
teme
ment
ntee prob
proble
lema
mass difí
difíce
ceis
is.. e pod
podee acon
acontetece
cerr que
que se
hesi
hesite
te na mane
maneir
iraa de agr
agrup
upar
ar um dado
dado conj
conjun
unto
to de concconcei
eito
tos.
s. ~ espe
especi
cial
al--
ment
mentee o que s6is6i verif
verific
icar
ar-s
-see com
com ling
lingua
uass exót
exótic
icas
as,, onde
onde pode
podemo
moss ter,
ter, em.
em.
 bora, toda a segurança na nossa análise das palavras de uma sentença e,
contu
ontudo
do,, não
não logra
ograrr adqu
adquiirir
rir esse
sse "se
"sent
ntim
imeento"
nto" ínti
íntim
mo da estr
estrut
utururaa que
que
nos
nos perm
permititee diz
dizer infa
infallivel
ivelme
ment
ntee aquil
quilo
o que
que é "con
"conte
teúd
údo
o mate
materi
riaal" e que
que
é "rela(
"rela(lão
lão".
".

Os conc
concei
eito
toss da clas
classe
se I são
são esse
essenc
ncia
iais
is a qual
qualqu
quer
er líng
língua
ua,, e bem assim
assim
os da clas
classe
se IV.
IV. Os con
conce
ceit
itos
os 11 'e 111 são
são comu
comuns
ns mas
mas não
não esse
essenc
ncia
iais
is;; es-
es-
 pecialmente o grupo 111, que representa, com efeito,' uma confusão psiccr 
lógica e formal dos tipos H e IV ou doa ti tipos I e IV,
IV, é uma classe dia-
 pe~vel de conceitos, Logicamente, há um abismo intrans.ponível entre os
n,OSI
n,OSI e IV,IV, mas
mas o gêni
gênio
o ilóg
ilógic
ico,
o, metaetafóri
fórico
co da ling
linguauage
gem
m já   tem
tem sem
sem
esfô
esfôrç
rço
o cobe
cobert
rto
o êsse
êsse abi
abism
smoo e esta
estabe
beleleci
cido
do uma
uma gama
gama contcontín
ínua
ua de conc
concei
ei--
tos
tos e fonna
fonnas,
s, que
que nos condu
conduzz impe
imperc rcep
epti
tive
velm
lmen
ente
te das
das mate
materia
riali
lida
dade
detJ
tJ mais
mais
crua
cruass ("ca
("casa
sa"" ou "Joã
"João
o Smit
Smith"
h")) às rela
relaçõ
ções
es mais
mais sutis
sutis..
part
partic
:t:; icul
ular
arme
ment
ntee dign
dignoo de nota
nota que
que a pala
palavr
vraa inde
indepe
pend
nden
ente
te inan
inanal
ali-
i-
&Ave
&Avellpert
perteence
nce na maio
maiori
riaa dos
dos caso
casoss ao grup
grupo
o I ou ao grup
grupo
o IV,
IV, e muit
muitoo
menos a miúdo aos grupos 11 e III.
É possível a um conceito concreto, representado por um vocábulo
simp
simplles,
es, perd
perder
er inte
inteir
iram
amen
ente
te a sua sua sign
signiifica
ficaçã
çãoo mate ateria
rial e pass
passaar dire
dire..
tame
tament
ntee ao âmbâmbit
ito
o rela
relaci
cion
onal
al sem
sem perde
perderr conc
concomomititan
ante
teme
mentntee a sua
sua inde
inde--
 pendência vocabular. : t : ;   o que
que suce
sucede
de,, por
por exeexemplo
mplo,, em chi chinês
nês e cambod
mbod--
 jiano quando o verbo "dar" é   usa usado
do em sent sentid
ido
o abstr
bstrat
ato
o comcomo sim
simples
ples
símb
símbol
oloo da rela
relaçã
çãoo "obj
"objet
etiv
ivaa indi
indire
reta
ta"" (e,
(e, g.,
g., camb
cambododjijian
ano
o   l'Nós   fizemos
hist
histór
óriia esta
sta dar
dar toda
toda aque
aquelala pess
pessoa
oa queque tem filhfilho"
o",, i. e.,
e., "Fi
"Fizemo
zemos.s. est
estaa
história   para toqos os que têm filhos"). '
Há tamb
tambéém, é cla
claro,
ro, não
não pouc
poucos
os casos
sos de tra
transiç
nsiçãão entr
entree os gruP
gruPQ
Q:!l
:!l
I e II e lU
lU, bem com
como, já   um tanto fora do âmbito dos radicais, entre
oa gr
grupos II e IH.

Ao primeiro desses tipos de transição pertence toda a classe de


exemplos em que o vocábulo independente, depois de passar pela fas fase
 preliminar em que funciona como elemento secundário ou qualificativo
de um compo
ompost
sto,
o, -ac
-acaba por
por torna
ornar-
r-se
se um afixo
fixo de deri
deriva
vaçção puro
puro e sim-
sim-
O S C O NC
NC EI
EIT OS
OS G RA
RA MA
MA T lC
lC Al
AlS 85

 pies, sem contudo. perder a memória de sua antiga independência. Tal


elem
elemen
entoto e conc
concei to é   /ull de   teaspoonlull r i . e.,   teo,   "chá'"   spoon,   "C()o
eito
1her",   !ull, "ehe
"eheiaia"j
"j j/co
j/colh
lher
erad
ada"
a" ouou,, "col
"colhe
herr chei
cheiaa de chá"
chá"],
], ququee ps
psic
icol
olo-
o-
~ca
~cament
mentee flutulutuaa entr
entree o est
estad
adoo de conc
conceeito
ito radic
adical
al inde
indepe
pend
ndeente
nte (com-
com-
 parar    full. adjetivo) ou de elemento subsidiário de wn com ompposto (cf.
brim
rim-fu
-full)
ll) [brim, "bor
[brim "borda
da"]
"] e o de aimpl imples
es:: su
sufi
fixo
xo (er.
(er.   dutiful) em qu que
 já   não
não se se
sente
nte o seu
seu anti
antigo
go cará
caráte
terr con
onccreto
reto.. [No últi
último
mo exe
exempmpllo _  ful
é apen
apenas
as um su sufi
fixo
xo qu
quee deriv
derivaa um adje
adjeti
tivo
vo do subst
substan
anti
tivo
vo   duty.   "dever".]
Em geral
eral,, quanto
anto mais
ais alta
altam
mente
ente sin
sintéti
tétic
co fô
fôrr o tip
tipo ling
lingü
üísti
ístico
co
conside
iderado
rado,, mais difí
difíc
cil,
il, e até arbi
arbitr
trár
ário
io,, será dist
distin
ing
guir os gru
rup
pos I e 11.
11.
 Não apenas se perde gradualmente a noção do concreto à   medida
que se vai do grupo I ao IV i mas mas tamb
também ém esba
esbatete-s
-se,
e, em redureduçãção
o cons
cons--
tant
tante,
e, o sent
sentim
imen
entoto da real realid
idad
adee sens
sensív
ível
el dent
dentroro dodoss próp
própri
rios
os grup
gruposos dodoss
conc
conceieito
toss ling
lingüíüíst
stic
icosos.. Em mu muititas
as líng
língua
uas,
s, po porr isso
isso.. torna
torna-s
-see qu
quas
asee ine'
ine';4
;4
táve
távell fazer
zer várvárias
ias su subc
bcla
lass
ssiific
ficaçõe
açõess para
para segr
segreegar
gar, po porr exemp
xemplo lo.. os con4
con4
ceit
ceitos
os mais
mais concconcre
retotoss do
doss mais
mais abst
abstra
rato
toss no grupgrupo o 11 .   Devemos, contudo,
contudo,
ter
ter semp
sempre re a prepreocup
ocupaç ação
ão de não não incl
inclui
uirr em taistais grup
gruposos mais
mais abs bstr
trat
atos
os
êsse
êsse ssen
enti
time
ment nto
o de rela elação,
ção, pu pura
rame
mentntee for
formal,
mal, qu quee mal
mal popodedemo
moss deix
deixar 
ar 
de asso
associ
ciar
ar com alg algununss do
doss conc
conceeitos
itos mais
mais abs bstr
traatos
tos qu que,
e, entr
entree nó
nós,
s, fi-
cam no grupo IH, a menos que haja ind ndiiscutível evid vidência a garantir 
tal
tal inclu
inclusãsão.
o.
Um ou dois
dois exempl
exemplos
os esclar
esclarece
ecerão
rão essas
essas import
important
ant£SS
£SSima
imass ressa
ressalva
lvasu.
su.
Em nutka
utka,, temos uma porç orção desusadamente grande de afixos d~
der
derivaç
ivação
ão (que
(que expr
exprim
imem
em con once
ceit
itos
os do grup
grupoo lI).
lI). Algun
lgunss são
são de conte
conteú-ú-
do q qua
uase
se mate
materrial
ial (e. g.,
g., "na
"na casa
casa",", "son
"sonha
harr a resp
respei
eito
to de")
de"),, ou
outr
tros
os,, com
omo o
o ele
eleme
ment
nto
o qu
quee indi
indicca a plur
plural
alid
idaade ou um afix afixoo dimi
diminunuttivo,
ivo, são
são muito
muito
mais
mais abst
abstra
rato
toss no cont
conteú
eúdo
do.. Aque
Aquele les.
s. so
sold
ldam
am-s-see mais
mais Inti
Intima
mamement
ntee ao ra-ra-
dicai do que estes, que só se podem sufixar a formações que já tenh nhaam
o valo
valorr de vovocá
cábubulo
loss comp
compleleto
tos.
s.
Se, por
portant
tanto,
o, aprapraz-m
az-mee dize
dizerr -   'lOS lumezinhos da casa" - o qu que
 posso fazer numa só palavra -, tenho de formar a palavra "lume-em.
-cas
-casa"
a",, e aos seus
seus elem
elemen
ento
toss é qu
quee serã
serãoo apen
apensososs os outro
outross corr
corres
espo
pondnden
en--
tes
tes ao nonoss
sso
o-  zinho", ao plur
41 plural
al-- e ao arti go.. O   elemen
artigo elemento
to que es'tab
es'tabele
elece
ce
o sen
sentido definido da referênci ncia, pre
pressuposto no nosso artigo, vem no
fim
fim de tududo_ 
o_ 
Até
Até ai.ai. vai.
vai.se
se bem.
bem. "Fog
"Fogo-o-em
em-c
-cas
asa-
a-o"
o" corr
corres
espo
pond
ndee de mane
maneir iraa inte
inte.-
.-
ligí
ligíve
vell ao ingl
inglês
ês   the house-firee [com
house-fir [com a ante
antepo
posi
sic;
c;ão
ão de   house,   ""ccasa
asa", a
{ire,   "lu
"lume", para constituir um comp mpoosto em qu quee   uhouse"    tem
tem fUnç
fUnção
ão
adju
adjunt
ntiv
iva]
a] u.
Mas com a no noççiio
iio d
dim
imin
inut
utiv
ivaa ser
será o nu
nutk
tkaa corr
correesp
spon
onde
dent
ntee ao ingl
inglês
ês
- the
the hous
housee-fir
-firel
eleets!
ts! Abso
Absolu
11 luta
tame
ment
ntee não.
não.
Antes de tudo, o ele elementonto pluraural precede o dim diminutivo em nutka:
"Iume
"Iume-e -em-
m-eaeasa
sa-p
-plu
lura
ral-
l-pepequ
quen
eno-o-o",
o", ou ou,, em outro
outross term
termO$
O$,. ,. "cas
"casa-
a-Iu
Iume
mes-s-xi
xi--
nho", o que que logo revela o imp importante fato que o con conceito do plural não não
é sent
sentid
idoo tão
tão abst
abstra
ratata e relarelaci
cion
onalalme
mentntee como
como em ingl inglêês. Inter
nterpr
preetaç
tação
mais
mais adequ
adequad adaa seri
seriaa   the house-fire-s
house-fire-severa l-let  [cf.
everal-let  [cf. em porto
porto "cas
"casa-
a-Iu
Iume
me--
mlli
mllito
to-z
-zin
inho
ho")
") em qu que, e, entr
entretetan
anto
to,,   set1eral ainda é palavra muito fort orte,
-feL   um
um elem
elemenentoto muito
muito requ requininta
tado
do   (small, [por [porto
to "pe
"pequ
queneno"
o"]] po
porr ou
outr
tro
o
lado
lado,, sf'r
sf'ria
ia mumuitito
o fort
forte)e)1~
1~..
86   AUNGUAGEM

 Na realidade, não conseguimos trazer para nossa lfngua o valor ine.-
rente do vocábulo nutka, que parece flutuar eot.re   Ifthe   hOU8e~firelets"  e
{tthe howe-{ire-stt.'eral-small".
O que, porém, mais que tudo, impede Qualquer possibilidade de com-
 pnrst:iio   entre o -8   inglês de   hOUJe.{irelets   (ou do porto   lumezinhos] e o
several.small do vocábulo nut1(B, é   o seguinte: em nutks, nem o plural
nem o afixo diminutivo correspondem ou se referem a outras partes da
sentença. Em inglês, the house-firelets "bum", e não   Ifburns"    (como
em porto "ardem" e não,   uSl'de em nutka, verbo, adjetivo, ou qualquer 
t
l
);

outro elemento da sentença nada tem que ver com o caráter plural ou
diminutivo do lume. Por isso, embora o nutka reconheça uma   d e m s T C 8 -
ção entre conceitos concretos e menos concretos no grupo lI, os menos
concretos não transcendem do grupo conduzindo-nos à atmosfera mais
abstrata a que nos transporta o nosso -8  do plural:
.Mas com tudo isso, objetará o leitor, já é alguma coisa que o afixo
de plural nutka se coloque à   parte dos afixos mais concrctosj e acres-
cendo que talvez o diminutivo nutka tenha um conteúdo mais esgarçado
e fugidio do que o inglês   -let  ou   ~ling   ou o alemão   -chen ou   _lein20•
Posto isto, será. que um conceito como o da pluralidade poderá ja.
mais ser classificado entre os conceitos mais materiais do grupo In
Sem dúvida que pode.
Em yana, a terceira pessoa do verbo não faz distinção entre o sin-
gular e o plural. Não obstante, o eonceito do plúral pode ser expresso,
e quase sempre o é, pela sufixação de um elemento   (-ba) ao radical do
verbo. 1t burn8 in the east [east,   Uleste"] traduz-se pelo verbo   ya--hau..81"21,
 flburn-east-s"  [i. e., o radical verbal + leste +  a desinência da 3.'  pessoa.].
"They bum. in the east"    [sujo pl.   they,   "êles"]   êya.ba-hau..si Note-se que
l

o afixo do plural imediatamente se segue ao radical   (ya-),   disjungindlHl


do elemento loca.tivo   (.hau-).
 Não é necessário grande gasto de argumentação para se provar que
o conceito de pluralidade ê   aqui pouco' menos concreto que o de lugar 
onde, lileste", e que a forma yana ê sentida não tanto A   maneira do
a

n0880 "They hum. in ihe east" (ardunt oriente)   c o m o A de   "Burn-several-


-east-s, "uma coisa pluralmente arde a leste", frase que não conseguimOll
satisfatoriamente assimilar por falta de canais de expressão a~ropriados
onde ela em nossa !fngua possa insinuar-se.
8erá po;Wvel darmos um passo adiante e tratar a categoria de plu-
ralidade como idéia estritamente material, tal que fizesse de "livros"
um "plural livro", como o "branco" de lttivro branco" que ealha fran-
camente no grupo 17
 Não é evidentemente o caso das nossas locuções "muitos livros", "vã..
rios livros". Ainda que disséssemos   mony book   ["muito livro"]; e "vário
livro" (como dizemos   "many B   book"   e "cada livro"), o conceito do plural
~ão emergiria tão claramente como no novo caso que imaginamosj "muito" e
4'vário" estão contaminados por certas noções de quantidade gradativa
que não são essenciais à   simples idéia da pluralidade.
Temos de voltar-n,os para a Ásia Central e Oriental em bUBC8do
tipo de expressão que procuramos.
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 87

Em tibetano, por exemplo,   nga-s mi mth.ongU,   ou "por homem vejo,


 por mim um homem é   'visto, vejo um homem" pode igualmente significar 
'lyejo homens", desde que não haja motivo especial para frisar melhor  1 1 .
 pluralidadeu. Se esta, porém, merece menção especial, é-me lícito dizer 
ft{Ja-s mi rn.ams   mthong,'    "por mim homem-plural é visto", onde   rna1nS
é a correspondência conceptual perfeita do -$ de "livros", despojado de
quaisquer elos de relação.   Rnam.s   segue-se 80 nome, como outro qual-
quer vocábulo atributivo - 'llomem plural" (dois. ou um milhão) à ma-
neira de ''homem branco". Não é preciso preocuparmo-nos com a plura-
lidade ou a brancura do ser expresso, desde que não nos interessa insis-
tir em tal atributo.
O que é verdade da idéia de pluralidade, é igualmente verdade de
um grande número de outros conceitos. Não pertencem necessariamente
aos pontos em que nós outros que falamos inglês, estamos habituados a
escaloná.IOs. Podem ser jogados para o grupo I ou para o grupo IV, os
d'ois pólos da expressão lingüística.
E não nos aventuremos a fazer pouco do fndio Rutka e do tibetano
 por causa da sua atitude material em referência a conceitos que nos pa-
recem de relação abstrata, porque estaremos chamando sobre nós a cen-
sura dos franceses, os quais sentem uma sutileza de relação em   femme
blanche e   homme blanc   que não encontram Das grosseiras frases inglesas
white woman e   white mano O   negro bântu, por sua vez, se fosse fil6s0fo,
iria além, e estranharia ver.nos, a todos, pôr no grupo I Iuma categoria,

8 doe diminutivos, que êle inilud'lvelmente sente pertencer ao grupo 111


e de que se serve, juntamente com outrOfJ conceitos class.ificat6rios u,
 para relacionar sujeito e objeto, atributo e predicado, tal qual lidam
um russo ou um alemão com 08 seus três gêneros, ou, quiçá, com mahl
alta finura do que estes até.
:! justamente porque o nosso esquema dos conceitos é   wnA QGCI\la
inclinada, mais do que propriamente   umA.  aná1i~J'  £iloo6!lea da experiên-
cia, que não podemos dizer uma vez por todas a posição de um dadu
conceito.
Em   outro;;   tennos~   trInOS Q9 desistir de uma classificação bem orde-.
nada das categorins.
Que interessa colocar o tempo e o modo aqui, ou o número ali, se ,
outra língua que logo se noa depara leva o tempo para um escaninho
abaixo (grupo I) e o modo e o número   ptlra   um escaninho acima (grupo
IV)!
 Nem há maior vantagem num sumário desses no que tange 80 in-
ventArio geral dos grupos de conceitos pertencentes aos grupos 11, 111
e IV. As possibilidades são inúmeras.
Seria interessante mostrar quais os elementos mais típicos de for-
mação nominal e verbal do grupo lI; como varia a classificação dos
nomes (pelo gênero - pessoais e impessoais, animados e inanimados;
 pela forma - comuns e pr6prios); como se elabora o conceito do núme-
ro (singular e plural; singular, dual e plural; singular, dual, trial e plu-
ral; singular, distributivo e coletivo); que distinções de tempo se pode
fazer no verbo e no nome (o "passado", por exemplo, pode ser indefinido,
imediato, remoto, mitico, perfeito, anterior); com que delicadeza certas
88 A L IN G U A G E M

línguas desenvolveram a idéia de aspecto25 (momentâneo, durativo, con-


tinuado, inceptivo, eessativo, durativo-ineeptivo, iterativo, momentâneo-
iterativo; durativo-iterativo, resultativo e outros ainda) j   que modali-
dades se podem admitir (indicativo, imperativo, potencial, dubitativo,
optatvo   negativo e uma legião de outras   mai.s)28; que distinções de pes-
I

soa são pos.síveis ("n\Í.3", por cxem"plo, concebido como o plural de lIeu",
ou tão distinto de   lleu" ('orno   de "vós" e de "ele'" - ambas as atitudes
transparecem nas linguas, - além disso, quando é   que "n6s" inclui
a pessoa com que eu falo ou a exclui? _    forrn.RQ "in()lu.a.ivc," •••up:J:l'lm~i_ 
va"); qual é   o plano geral de orientação, nas chamadas categorias de-
monstrativas ("este" e "aquele" numa infindável procissão de yarian-
'tes)Z'; quão a miúdo a forma lingüística exprime a fonte e a natureza. de
informação em que se fundarnf':nta a pessoa que fala (por experiência
 própria, por ouvir dizor  28,   por interferência) j   como se exprimem no
nornA   rP.laCÓf'.q 
JUI eintáticas (subjetivo e objetivo; agentivo, instrumen-
tal e de pessoa interessaaa  j vários tipos de genitivo e relações indire-
2t

tas) j e correspondentemente no verbo (ativo e passivo; ativo e estático;


transitivo e intransitivo; impessoal, reflexivo, recíproco, indefinido quan-
to ao objeto, além de muitas outras limitações especiais no ponto de par-
tida e de ehegada da cadeia geral de atividades).
Tais detalhes., por mais importantes que sejam muitos deles para a
compreensão da forma interna da linguagem, cedem o passo, em seu
'valor geral, às distinções mais radicais dos grupos que estabelecemos.
Ao leitor comum basta sentir que a lingua oscila entre dois pólos de
expressão lingiifstic.a - conteúdo material e relação e que esses
 pólos tendem a ligar.se por meio de uma longa série de conceitos de
transição.
Tratando dos vocábulos e das suas várias formaa, muito tivemos
que antecipar a respeito da sentença em conjunto.
Toda língua tem seu método ou métodos especiais para reunir  08
vocábulos numa unidade maior. A importância de&ge8 métotl08 é sua-
cetivel' de variar de acordo com a complexidade do vocábulo isolado.
 No latim,   agit  U(ele) procede" não precisa de auxilio externo para
1ÍI7Qar a 8ua posição na frue. Quer eu diga   agit   domituu   "o amo pro-
cede", ou em   sic femina agit  "aasim procede li mulher" praticamente á o
mesUlo o resultado llquido quanto ao valor sintático de   ogit.   Só pode
tlier u1I1   "eroo, pred~eado de uma proposição, e só pode ser coneebido COIl1D

enunciação de uma atividade executada por uma pessoa (ou coisa) QU6
não por mim ou por ti. J á   não sucede o mesmo com um vocábulo como
o inglês   act. Act  bóia sem governo na sintaxe, enquanto não definimos
a sua situação na proposição - uma coisa em   "they act abominably" 
["procedem abominavelmente"] e outr8 muito diversa em   that was a kin-
dly act  I"isso foi um procedimento gentil"]. A sentença latina fala-nos
através da segurança individual de .seu.<Jmembros; o vOCábulo inglês ne-
cessita o auxílio imediato dos seus companheiros. Isso de maneira apro-
ximada, bem entendido.
Dizer, contudo, que uma estrutura vocabular suficientemente elabo-
rada compensa a falta de métodos sintáticos externos é estabelecer uma
 perigoSa petição de princípio. O s elementos do vocábulo ligam-se entre
OS   CONCEITOS   GRAMATICAIS 89

si de maneira específica e se seguem em seqüência rigorosamente deter.


minada. Tanto vale dizer que um vocábulo, constante de 'outros elemen-
tos além do radical, é a cristalização de uma sentença., ou de parte de
uma sentença, que uma forma como   agit   é aproximadamente o equivalen-
te psico16gico*ode uma forma como   age is 4l proeede ele".
Derrubando, pois, a parede divisória. entre. vocábulo e sentença,. c&.
 be-nos. inquirir: Quais são, em última análise, os métodos fundamentais
 para ligar um vocábulo a outro, um elemento voeabular a outro, ou, em
resumo, para passar das noções iaolad88, simbolizadas num vocábulo ou
num elemento voeabular, à proposição unificada que corresponde a um
 pensamento!
 A   resposta é simples e jA está p";"'uposta n •.• considersções pre-
cedentes,
O método de relação mais fundamental e poderoso é o da ordem   VI>-
cabUlaf. Pensemos numa idéia mais ou   meDOS   concreta, a cor digamos,
estabelecendo o seu símbolo - ''vermelho''j noutra idéia concreta, pes-
soa ou objeto, estabel.ecendo por sua vez o seu súnbolo. - Ucão"j finalmen~
te, numa terceira idéia concreta, urna ação digamos, estabelecendo pela
última vez o seu s!mbolo - "oorr(er)", Mal é poss[vel estabelecer su-
cessivamente esses três símbolos, sem relacioná~los 'de qualquer modo,
 por exemplo - U(o) cão vermelho corr(e)". Longe de mim querer dizer 
com isso que a proposição surgiu sempre dessa. maneira analítica, mas
tão sõmente que o próprio processo de justaposição de um conceito a
outro, de um símbolo a outro, impóe-nos certo Usentimento" de relação,
quando mais não seja.
 A   algumas adesões sintáticas somos especialmente sensíveis, como se~
 jam por exemplo, a relação atributiva de qualidade' (cão vermelho), ou
8 relação subjetiva (cão corre), ou a relação objetiva (mata cão); a ou~
tras somos mais indiferentes, como seja, por exemplo, a relação atributi-
va de circunStância (Uhoje cão vermelho corre" ou 41eãovermelho hoje
corre", ou ucáo vermelho corre hoje", tOdas 8.8   quais são equivalentes de
 proposição ou proposições em embriã<»,
Os vocábulos e os elementos vocabulares, portanto, tendem não s6
a estabelecer uma espécie de relação entre si, mas também são atraídos
una para os outros com maior ou menor intensidade. : e   esta maior ou
menor intensidade, presum1Velmente, que dá em restiltado afinal os gru~
 pos de elementos firmemente soldados (radical ou radicais mais um ou
vArias elementos gramaticais), por nós estudados sob a designação de
vocábulos complexos. Segundo toda a probabilidade, nada mais são tais
vocábulos do que seqüências que se junta~am e se destacaram de outras
seqüências ou elementos isolados, no de9dobramento da fala. Enquanto
têm vida plena, em outros termos, enquanto têm todo o seu valor fun~
eional, conseguem manter-se a certa distância psicológica dos elementos
contíguos. A   medida que perdem grande parte da sua vitalidade, re-
caem nas garras da sentença em conjunto, e a seqüência dos vocábulos
independentes readquire a importância que em parte transferira para
os grupos cristalizados de elementos.
 A   linguagem estA assim constantemente enlaçando e desE'nlaçando
as suas seqüências. Nas formas altamente integradas (latim, esquim6) a
90 A LINGUAGEM

"energia" da seqüência fica em grande parte encerrada nas formações vo-


cabulares complexas, transformando-se numa espécie de energia potencial
que, durante milênios até, não se libertará. Nas formas mais anaUticas
(chinês, inglês), essa energia é móvel, pronta para qualquer serviço que
lhe   solicitarmos.
 Não pode haver grande dúvida que a acentuação tem freqüentemen.
te a&<Iumidouma influência diretriz na formação de grupos de elemen-
tos' ou vocábulos complexos saidos de certas seqüências na sen~nÇ&.
Uma palavra inglesa   como   wit1Lstand    .[ou   como em português Ucontra-
 por"] é apenas a velha seqüência with dand, Í.. e:,   againd    [porto "con-
tra"}   .stand u ,. em que o advérbio não acentuado foi contmuamente
am.arrando-se ao verbo seguinte e perdeu a sua independência   'como   ele..
mento significativo. Do mesmo modo, os futuros franceses do tipo de
irai   são meros resultantes da eoaleacência de vocábulos a principio inde-
 pendentes: ir ai, Hir hei"32, sob a influência do acento unificador.
:\Ias a acentuação tem feito mais do que' articular ou unificar se-
qüências que já por si pressupõem uma relação sintática. ~ também o
meio mais natural de que dispomos, para salie.ntar um contraste lingüis~
tico, para indicar o elemento mb.imo de uma seqüência.
Por isso, não noa deve surpreender verificar que o acento, tanto
quanto a seqüência, pode servir, por si SÓ,   de sfmbolo de certas relações.
Um contraste como go between (ane who goe. between) e   to go
betwee1l.   pode ser de origem completamente secundária em inglês,   ll'1IVi
há razão de sobra para admitir que distinções análogas. prevaleceram
cm todos os tempos na hist6ria lingüística. Uma seqüência como   ue'f714n
l ver" e l'homem"] pode implicar algum tipo de relação em que 'fI
u

qualifica a palavra seguinte, donde   a .eeing man ou   a .een (ou   -vil1õllJ)


111.011., ou é   a sua predicação, donde   the m.an .e e , ou   the via"  i . J   .Je1J1\, ao
 passo que uma seqüência como  aee man'   pode indicar que a palavra acen-
tuada até certo ponto limita a aplicação da primeira, como objeto direto
- dif,!smos, donde to &te a man ou   (he)   aee! the   mano   Tais alternâncias
de relação, simbolizadas por acentuações variáveis. são importantes e fre-
qüentes em certo número de linguas l
l

~ especulação algum tanto arriscada, e contudo admissivel, ver na


ordem vocabular e na acentJlação os métodos primordiais para' a ex-
 pressão de todM as rela~ões sintáticas e encarar o atual valor relaei~
nal dos elementos e vocãbulos especificos como uma situação secundária
rle\'!da a uma transferência de valores.
As.~im, podemos aventar que o -m latino de vocábulos como leminam,
dominum e   civem não denotavam originàriamente.H'que "mulher", "amo"
e "cidadão" esta\'am objetivamente relacionados ao verbo da' prop08i~
t:iio, mas indicavam Qualquer coisa de muito mais concreto estando a U
,

relação objetiva meramente implicada pela' posição ou acentuação do


vocábulo (elemento radical) imediatamente anterior ao -m,   e que essa
consoante gradualmente, à medida que se esvaía o seu valor mais con-
creto, chamou a si uma função fioÍntática que não lhe pertencia,

Essa espécie de evolução por transferência é perceptível em mui-


tos   ClL<;OS.   Assim o o/ de uma frase inglesa como   the law 01 the land  r U a
O S C ON C EI TO S G R AM A TI CA IS 91

lei do país"] tem hoje um conteúdo incolor, ,índice que ê, tão puramente
relacional como o sufixo de genitivo -ia do latim lu   urbit, a lei da ci-
u

dade". Sabemos, não obstante, que era a princípio u m   advérbio p .e va-


lor conereto consideráveP', indicativo de separação, afastamento, e que
a relação sintática era a princípio. expre&U pela forma casual do se-
gundo. nome". Perdendo esla ..ú ltim& a sua. vitalidade, o sdvérbio cha.
mau-lhe a função a si.
Se temos real motivo para admitir que a expressão de todas as re-
lações sintáticas ascende inevitavelmente a esses dois aspectos dinâmicos
da evolução - a ordem e a acentuação Sl - resulta uma tese" interes.
sante: - Todo o   contp.f1do da linguagem, com seus grupos vocálicos e
consonânticos, limitava-~ na origem à   interpretação do concreto; 88 re-
lações não ernm expressas a princípio na forma externa, mas apenas
 pressupostas e articuladas com o auxílio da ordem e do ritmo. Em ou-
tros termos, as relações eram sentidas por intuição e apenas Uextrava-
savam-se" através de fatores dinâJuicos, que por sua vez se moviam no
 plano da intuição.
Há   um mé~odoespecial de exprimir relações, tão freqüente na hist6-
ria das Hnguas que. exige a noo;;saatenção por um momento. ~ o méto-
do da "concordâneia" ou de assinalação repetida.
Assenta no prindpio da palavra de passe ou do rótulo. Todas as
 pessoas ou objetos que respondem à mesma senha ou trazem a mesma
marca, ficam eon~qüentemente registradas ('orno relacionadas entre si.
Uma vez isso feito, pouco interessa onde se acham e como se apresentam.
Sabe-se de antemão que urnas pertencem às outras.
Estamos familiarizados com o princípio da concordância em gre-
go e latim. A muitos dentre nós já têm causado espécie essas rimas in-
defectivcis, como   t'idi illum bonum dominum,   Uvi esse bom amo", ou
quarum dearmn saevarum "cujas deusas cruéis". Não .que o eco sonoTV,
qt1C'rem forma de rima, quer de aliteração38, seja -indispensável à   concor-
dância, embora, sob o seu aspecto mais típico e original, a concordâncilJ
Heja quase sempre acompanhada de uma repetição de sons.

A r.ssênciado princípio é   simplesmente isto: vocábulos (elementos)


que pertencem uns aos outros, especialmente se são equivalentes sintá-
ticos ou estão relacionados da mesma maneira a outro vocábulo ou ele-
mento, levam a marca externa de um mesmo sufixo ou de sufixos fun-
cionalmente equivalentes.
A aplicação do princípio varia consideravelmente de acordo com
o gênio de cada lingaa.
Em latim e grego, por exemplo, há concordância entre o nome e
o vocábulo qualificativo (adjetivo ou demonstrativo) no quc respeita ao
gênero. ao número e ao caso, entre o verbo e o sujeito apenas no que res-
 peita 80   número, e nito há concordância entre o verbo e o objeto.
Em ehinnk, há uma concordância de maior alcance entre o nome,
l'ujeito on ohjeto, e o verbo. Todo nome classifica~sede acordo com cin.
co categ"or,lli- masculino, feminino, neutro'o, dual e plural. "Mulher"
é fl'minino, llareia" é   neutro, "mesa" é masculino. Se, por conseguinte,
('u quero dizer  liA mulher pôs arl'ia na mesa", tenho de colocar no verbo
A LINGUAGEM

dados prefixos de   cla&k. ou gênero que concordem com os' prefixos no-
minais correspondentes. A sentença fica então "A {fem.)~mulher ela
(fem.)-e!e (neutro)-e!e (masc.).sobre-pôs a (neutro)-areia a (masc.)-mesa".
Se "areia" tem a q~alificaç.ãode   Umuita" e a   mesa', de "grande", ex-
 primem-se essas novas idéias como nomes abstratos, cada qual com o
seu prefixo de classe inerente ("muito" é   neutro ou feminino, Ugrande"
~ masculino) e com wn prefixo possessivo refetente ao nome qualificado.
Assim, o adjetivo reporta-se ao nome, o nome ao verbo. liA mulher pôs
muita areia na   mMB. grande" assume, portanto, a forma de: liA   (fem.).
-mulher ela (fem.)-e!e (neutro)-ele (masc.).sobre-pôs a (fem.)-da mesma
 porção (neutro.)-areia á   (masc.)..{la mesma grandeza a (masc.)-mesa".
Insiste-se assim três vezes na classificação de mesa como feminino:
no nome. rio adjetivo e no   verbo.
 Nas línguas bântu41, o princípio da concordâ.ncia opera quase como
em chinuk. Também nelas. os nomes se classificam em certo número
de categorias e são postos em relação com adjetivos, demonstrativos, pro-
nomes relativos e verbos por meio de elementos prefixados que lembram
a classe e constituem um sistema complexo de concordãnci~. Numa sen-
tença como "Aquele leão feroz que veio cá, está morto", a' classe de
"leão", que podemos chamar a classe animal, será assinalada por meio
de prefixos de concordância nada menos de seis vezes, - com o demons-
trativo (aquele), com o adjetivo qualificativo, com o próprio nome, com
o pronome relaty/o, com o p~efixo subjetivo no verbo da cláusula rela-
tiva e com o prefixo subjetivo no verbo da oração principal ("está mor-
to"). Reconhecemos nesta insistência para a clareza externa da referên-
cia o mesmo espírito que anima a frase mais familiar  illum bOl'lum do-
""",u m .
Psicologicament.e,os métodos de ordem e acentuação fiC'amno pólo
oposto ao ~a concordância. Ao passo que apelam eles para o implícito,
 para a sutileza do sentimento lingüístico, a concordância não suporta a
menor ambigüidade e impõe a cada momento a sua marca registrada.
A concordância tende a dispensar a ordem vocabular.
Bm latim e chinuk, as palavras independentes têm liberdade de
 posição, um pouco menos em bântu. Tanto em chinuk como em bântu,
contudo, os métodos de concordância e o de ordem são igualmente im-
 portantes para a diferenciação de sujeito e objeto, da mf'sma sorte que
08 prefixos classificadores do verbo se reportam ao sujeito, ao objeto ou

ao objeto indireto consoante a posição relativa que ocupam. Temos as-


sim novamente diante de nós o fato muito significativo de que em dada
emergência a ordem vocabular se reafinna, em qualquer Hn~ua, corno o
mais fundamental dos princípios de relação.
O leitor atento deve estar surpreso de que até agora pouco tenha-
mos tido que ~izer a respeito das tradicionais Upartes do di~urso".
A razão não é   difícil de descobrir.

A nossa classificação convencional dos vocábulos em partes do dis-


curso ~ apenas uma aproximação vaga e incerta do inventário cabal da
experiência. Imaginamos, de início, que todos os 4tyerbos" se referem
inerentemente a urna ação, considerada em si mesma, que um 4~ome"
OS CONCEITOS GRAMATICAIS 93

'" a denominação de uma coisa ou pessoa definida, cuja imagem se pode


reproduzir  ,em nossa mente, que   todas as   qualidades são necessariamente
expressas por um   grupo definido de   palavras, que podemos adequada-
mente intitular    uadjeti\"os".
AMim que   pomos o   nosso vocabulário à   prova,   descobrimos que as
 partes do   discurso estão longe de corresponder a uma   análise tão   simples
d. re.lidade.
Dizemos it  Í! red  [U é vermelho"] e definimos red    ["vermelho"]
como vocábulo qualificativo ou adjetivo. Acharíamos estranho pensar 
num equivalente de ué verme'lho", em que todo o predicado (adjetivo
c verbo de estado) fosse concebido eomo verbo, precisamente da mesma
maneira por que o fazemos com "estende", ou ufaz", ou "dorme". Ora,
tão depressa damos A noção durativa de ser vermelho uma   feiÇÃO in~
ceptiva ou transicional, podemos evitar  &8   formas paralelas it    becO'f'7l.U
red, it   tunu red  ["fica vermelho, torna~se vermelho"] com dizer  it   red-
dens   ["avermelha-seU]. Ninguém negará que "avermelha-se" é um verbo
tão legítimo quanto udonne", ou até "p888eia". Não obstante, it ú red 
relaciona-se com it   redde71.1   quase como he   sta-nd.Jcom he   stah.ds up ou
he mes n

~ apenas uma questão' idiomática inglesa ou indo-européia não po-


dermos dizer  it   reds   no sentido it   is red. Podem-no fazer centenas de ou~
tras línguas. Há até muitas que só podem exprimir o que nós chamamos
"adjetivo" por meio de um particípio verbal. Red  em tais Unguas é ape-
nas um derivado verbal   being red, como o são os nossos sleeping, wal-
king {particípios presentes de   to sleep,   "dormir",   to walk,   Hpa.ssear"],

Da mesma sorte que é Ucito verbificar a idéia de qualidade no caso


de   reddens. é   lícito representarmo-nos uma qualidade ou ação como coi.
88.,   Falamos de "a altura de um prédio" ou de lIa queda de uma maçã",

como se essas idéias fossem paralelas a 'lOtelhado de um prédio", ou "a


casca de uma maçã", esqueccndo-nos que os nomes ("altura", "queda")
não deixariam de indicar uma qualidade e uma ação, só porque lhe
demos a aparência de meros objetos. E assim como há Unguas que redu-
zem a verbos a grande massa dos adjetivos, outras há que os reduzem a
nomes. Em' chinuk, como vimos, "a grande mesa" é "a-mesa-sua-gran-
deza"; em tibetano, pode exprimir-se a mesma idéia por "a mesa de
grandeza", aproximadamente como dizemos "um homem de fortuna'.' em
,,'ezde "um homem rico",
 Não haverá, porf.lll. certas idéias que não é pos,••ível transmitir se-
não por meio de uma clf'terminads parte do discurso'

Como dispensar, por exemplo, o "para" da frase uele   veio para


casa'" Muito.simplesmente: podemos dizer "ele alcançou a casa", supri-
mindo a preposição e dando ao verbo um matiz de sentido que absorve a
idéia de rela~ão local transmitida pela partícula "para", Mas insisti-
mos em dur independência a essa idéia de relação local. Não será for-
çoso ficar com a preposição' Não; pode.se transformá-la em um nome.
Pode-se dizer qualquer coisa como - Ifele alcançou a proximidade da
casa", ou "o local da casa". Em vez de - "olhou para o espelho", po-
demos dizer - Ilperscrutou o interior do espelho", Tais expressões de-

94 A LINGUAGEM

sagradam em nossa lfngua, porque não se adaptam facilmente aos   noSSÓ8


canais formais, mas há língua e mais Ungua em que as relações locais
são expressas assim. São substantivadas.
E dessa sorte poderíamos ir examinando as várias partes do discur-
80   e ir mostrando que não só umas entram pelas outras, mas que até

são em grau surpreendente umas conversíveis nas outras.


A conclusão de um tal exame seria deixar-DOs convencidos que a
(lparte do discurso" reflete não tanto a nossa análise intuitiva da realida.
de quanto a nossa habilidade em compor, partindo da realidade, uma
variedade de moldes fonnais. Uma parte do discurso, fora d•• limita-
ções da forma sintática, não passa de um fogo-fátuo.
Eis por que nenhum esquema lógico das partes do discurso - seu
número, natureza e limites precisos - é   do menor interesse para o lin~
güista. Cada IIngua tem um plano seu. Tudo depende d•• demarcações
formais. que ela admite.
 Não sejamos, porém, demolidores sistemáticos.
~ bom não esquecer que a fala consiste numa sér:e de proposições.
Tem de haver o que quer que seja para ponto de partida da frase, e,
uma vez escolhido este sujeito do discurso, há aquilo que se diz a res:-
 peito. Essa distinção é   tão fundamental que a grande maioria das lín~
guas a salientou com criar uma espécie de barreira formal entre os dois
termos da proposição. O sujeito do discurso é   um nome. Como mais fre-
qüentemente se trata de uma pessoa ou de uma coisa, o nome situa~se en-
tre 08   conceitos concretos dessa ordem. Como o que é predicado ao su-
 jeito é geralmente uma atividade no sentido lato da palavra, a passa-
gem de um momento a outro da existência, a forma que foi encarrega4
da do papel de predicação, noutros termos - o verbo, situa-se entre os
conceitos de atividade. Nenhuma llngua prescinde totalmente da distin.
ção entre nome e verbo, embora em   C8S06   particulares a natureza dessa
distinção seja ilusória.
O mesmo não sucede com as outras partes do discurso. Nenhuma
delas é   imperativamente imposta pela vida da linguagem.'.

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