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Rede Globo de Televisão

Central Globo de Produção Capítulo 7

A LUA ME DISSE

Novela de MARIA CARMEM BARBOSA E MIGUEL FALABELLA

Escrita por
Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella

Supervisão de Texto
....

Colaboração de
...

Direção
ROBERTO TALMA

Direção Geral
ROBERTO TALMA

Núcleo
ROBERTO TALMA

Personagens deste capítulo

ADAIL DIONÍSIA JULIETA PEDRO


ADALGISA DIVA LATOYA RAMON
ADEMILDE ELVIRA LEONTINA REGINA
ADILSON ESTER LÚCIO ROMA
ADONIAS GEÓRGIA MADÔ SORAYA
AGENOR GIBRALTAR MARISINHA SÍLVIA
ALBERTO GONDOLA MEIA-NOITE TADEU
ARMANDO GUSTAVO MORCEGA TALARICO
ASSUNTA HELOÍSA MURILINHO VIOLETA
BRANCA IVAN NAÍDE WHITNEY
DAURO JORGINHO SAMOVAR ZELÂNDIA

Participação Especial:
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 1

CENA 1. CASA DE ESTER. QUARTO DE GUSTAVO. INTERIOR.


NOITE.
Continuação imediata da cena anterior. Gustavo
continua olhando a lua. Um tempo e Ester entra no
quarto, depois de uma leve batida à porta.

ESTER — Eu estou indo dormir. Amanhã eu vou


com você pro banco. Há umas coisas que
eu preciso resolver.
GUSTAVO — Eu te espero, então.
ESTER — Boa noite.
Ela vai sair, mas ele interrompe seu movimento.
GUSTAVO — Mãe?
Ester o encara.
GUSTAVO — Como é que a gente arranca do peito
um sentimento que cisma em viver
agarrado? Como é, mãe?
ESTER — (Após uma longa reflexão) Não sei
como, Gustavo. Esse tipo de
sentimento, eu, felizmente, não
conheço.
GUSTAVO — Felizmente?
ESTER — Felizmente, sim. (Quase doce) Por
acaso é bom esse sentimento que está
aí, dentro de você? Está te fazendo
feliz? Está te trazendo alguma paz?
Felizmente, eu não conheci esse tipo
de amor.
GUSTAVO — Você não amava o meu pai?
ESTER — Amar é uma palavra muito forte,
Gustavo. (Sorri) Não deve ser usada na
frente das crianças. (Cortando o
assunto) Boa noite.
GUSTAVO — Mãe...
ESTER — (Vira-se rapidamente e o encara)
Não se pode ter tudo, sabia, Gustavo?
Será que eu esqueci de lhe ensinar
isso? (definitiva) Não se pode ter
tudo.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 2

Ester sai. Em Gustavo,


CORTA PARA:
CENA 2. CASA DE HELOÍSA. VARANDA. EXTERIOR. NOITE.
Heloísa e Tadeu, despedindo-se na varanda. Ele tenta
beijá-la mais uma vez, ela o impede, tranqüilamente.
HELOÍSA — (Sorri) Por que será que os homens
nunca têm calma?
TADEU — Se eu bem me lembro, tem alguma
coisa a ver com hormônios.
HELOÍSA — (Corrige, sorrindo) Feromônios.
(Recita) Substâncias químicas usadas
na comunicação entre indivíduos da
mesma espécie. (Ri) Não precisa me
olhar com essa cara, eu li isso em
algum lugar...
TADEU — Já que você quer ser científica...os
meus feromônios gostam dos seus.
HELOÍSA — Só que os meus estão exaustos e
estão indo direto pra cama.
TADEU — Um último beijo, então. Pr’ eu
dormir com o gosto do teu beijo na
boca.
Heloísa sorri. Ele a beija docemente. Depois, vai-se
embora. Nela,

CORTA PARA:
CENA 3. CASA DE ADEMILDE. SALA. INTERIOR. NOITE.
Continua a confusão com Soraya. Adalgisa louca, Adail
botando lenha. Gôndola aboletada no sofá. Ademilde
tentando botar ordem.
ADALGISA — Vou te matar de pancada, Soraya!
SORAYA — Me deixa, mãe! Já não passei
vergonha que chegue?
ADALGISA — E ainda vai passar mais! Que vexame,
meu Deus! Uma filha minha! Despida!
GONDOLA — Estava nua? Eu quero saber se ela
estava ou não estava nua?
ADEMILDE — Não, mamãe. Ela estava de calça e
soutien.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 3

ADAIL — E você acha isso certo, Ademilde?


Uma moça de família! No meio da
Baiúca?
ADALGISA — Adail tem razão. Me dá uma tesoura!
Me dá uma tesoura que eu vou cortar o
cabelo dela!
ADEMILDE — Não vai cortar o cabelo de ninguém!
Quem é você, Adalgisa, pra levantar a
voz pra sua filha?
ADALGISA — Vai me desautorizar? Na frente da
menina?
ADEMILDE — Vou mandar você calar a boca e você
também, Adail! Chega de hipocrisia! Na
idade dela, vocês duas sumiam de casa
pra correr atrás dos navais. Eu lembro
de mamãe desesperada sem saber onde é
que vocês andavam metidas!
GONDOLA — Eu não lembro de nada.
ADEMILDE — A senhora só lembra do que lhe
convém! Ou por acaso a senhora também
se esqueceu que essas duas destruíram
meu noivado? Que por causa delas um
pedaço da minha vida foi apagado.
ADAIL — Eu não tive culpa. O Zé Bisogno é
que...
ADEMILDE — (CORTA) Não fala nesse nome. Não
fala em Bisogno aqui dentro que esse
homem pra mim morreu. Ainda bem que o
adjetivo caiu em desuso.
ADALGISA — Ademilde, eu nunca tive a chance de
te explicar...
ADEMILDE — Explicar o quê, Adalgisa? Que você
não suportou me ver feliz? Que por
pura maldade acabou com os meus
sonhos? Foram as duas que empurraram o
Bisogno pra cima daquela pernambucana.
Não tem nada pra explicar. Esse
assunto ta enterrado. Agora, enquanto
você estiver dentro da minha casa,
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 4

sustentada por mim, você não corta o


cabelo de ninguém! Nem mesmo o seu!
Ademilde sai. Adalgisa e Adail se olham.
ADALGISA — Zé Bisogno nunca gostou dela!
ADAIL — É uma despeitada, coitada!
CORTA PARA:
CENA 4. CASA DE MARISINHA. SALA. INTERIOR. NOITE.
Marisinha, Murilinho e Agenor.

MARISINHA — Você quer engravidar essa menina,


Murilinho? É essa a idéia? Eu vou logo
avisando que não vou ser babá do filho
de vocês...Fala alguma coisa, Agenor!
AGENOR — Sua mãe tem razão. E logo com a
filha da Adalgisa! Aquilo é uma
cascuda, Murilinho.
MURILINHO — E vocês querem que a gente namore de
que jeito? Atrás da árvore? Dando mole
por aí? Encostado em muro?
AGENOR — Nesse ponto o garoto tem razão. Hoje
em dia, encostou em muro, faz até fila
de ladrão!
MURILINHO — (Irritado) E não tem essa de
engravidar não. A gente usa camisinha.
MARISINHA — Até o dia em que a camisinha
estourar...porque ela estoura, sabia?
Quando menos se espera, pum! Rompe-se
o preservativo e lá se vão os canalhas
dos espermatozóides, cheios de má
intenção!
AGENOR — Também não é assim, Marisinha! Assim
você denigre os homens!
MARISINHA — E estou mentindo? Por acaso, homem
presta, Agenor? Não valem nada. A
diferença já está no espermatozóide.
Os femininos são tranqüilos, ordeiros,
aguardam a vez...mas os masculinos
saem na carreira, gritando: cadê o
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óvulo? Cadê o óvulo? (Categórica) Não


valem nada!
MURILINHO — Uma hora dessa a pobre da Soraya
deve estar comendo um dobrado com D.
Adalgisa!
AGENOR — E merece! Porque você é homem, mas
ela é mulher! Devia se dar ao
respeito!
MARISINHA — Quem devia se dar ao respeito era
você, Agenor. (Percebe) Cadê a tipóia?
Cadê o braço prejudicado? Sarou da
noite pro dia?
AGENOR — (Passado) Eu posso explicar!
MARISINHA — Não tem o que explicar! Rua, Agenor!
Rua! Você não foi atropelado coisa
nenhuma! Você tava era com mulher e
mulher safada, o que é pior! Rua! Rua!
E Marisinha expulsa. Nela,
FUSÃO LENTA COM:
CENA 5. STOCK SHOT. CIDADE AMANHECENDO. EXTERIOR.
DIA.
O Rio começa a amanhecer.
CORTA PARA:
CENA 6. AEROPORTO INTERNACIONAL. PISTA. EXTERIOR. DIA.
No amanhecer, o avião aterrissa.
CORTA PARA:
CENA 7. AEROPORTO INTERNATIONAL. RECOLHIMENTO DE
BAGAGEM. INTERIOR. DIA.
Regina, Leontina, Madô e Branca, chegando, no
recolhimento de bagagem. Ivan vem recebê-las, abrindo
os braços para Regina.
IVAN — Regina!
REGINA — (Aninhando-se nos braços dele) Que
coisa boa te ver, meu amigo! Eu estou
mesmo precisando conversar muito com
você.
IVAN — (Percebe Branca) Esta menina está
cada dia mais bonita! Vai dar
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 6

trabalho, Regina! (beija Branca) Seja


bem vinda!
BRANCA — Obrigada.
IVAN — É melhor agilizarmos o desembarque.
Onde estão os tickets das bagagens?
LEONTINA — (Mostra um bolo de tickets) Estão
aqui. (Mal-humorada) Acho bom você ter
trazido um caminhão, Ivan, porque só
Madô trouxe oito malas!
MADÔ — (Reage, imediatamente destemperada)
O que foi, mamãe? Resolveu me colocar
na berlinda? Eu assumo: sou insegura!
Preciso de muita opção de figurino! Se
eu achar que não tenho o que vestir,
eu me desequilibro. Me deixa, mamãe!
Me deixa! (Recupera o fôlego) Eu vou
dar uma olhadinha na free shop! (Antes
que Leontina possa esboçar qualquer
reação, ela ataca) Eu sei que é
compulsão, mamãe! Eu sei que é
compulsão!
E sai na direção das últimas compras.
LEONTINA — (Observando a filha que se afasta)
Você mima demais sua irmã, Regina!
REGINA — Mimo todos vocês, mamãe!
BRANCA — A menos mimada até hoje fui eu!
(Sorri)Não estou me queixando, mas em
matéria de mimo, eu estou no prejuízo.
REGINA — (Abraça a filha) É exatamente por
isso que eu te trouxe de volta. (Ela
beija a filha e depois dá o braço a
Ivan, adiantando-se com ele) Você vai
comigo para casa, preciso ter uma
reunião com você assim que chegarmos.
No close dela,
CORTE DESCONTÍNUO
CENA 8.AEROPORTO INTERNACIONAL. SAGUÃO DE DESEMBARQUE.
INTERIOR. DIA.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 7

Madô surge, seguida pelo carregador com suas malas,


frasqueiras, etc e tal. Lúcio a observa divertido.
Madô atira-se nos braços do marido com paixão
desenfreada.
MADÔ — Amor da minha vida!
Eles se beijam.
LÚCIO — Quantas malas dessa vez?
MADÔ — Oito. Mas uma é inteirinha de coisas
para você.
Novo beijo. Regina, Branca, Leontina e Ivan vêm
saindo.
MADÔ — Tem alguma errada com a Regina,
Lúcio.
LÚCIO — Com a Regina?
MADÔ — É. Eu encontrei uns exames que ela
andou fazendo na França. Ela
desconversou, disse que era rotina, eu
fingi que engoli, mas a mim ela não
engana. Tem alguma coisa acontecendo
com ela. E é coisa séria.
Neles,
CORTA PARA:

1º INTERVALO COMERCIAL

CENA 9. O FRANGO COM TUDO DENTRO. SALA DE ADEMILDE.


INTERIOR. DIA.
Ademilde e Violeta despachando com Heloísa. Ademilde
meio sorumbática. A cabeça nas nuvens. Cena flagrada
já no meio.

HELOÍSA — Ademilde? Você escutou o que eu


falei?
ADEMILDE — Escutei, claro.
HELOÍSA — E eu digo o quê pro Fukuda?
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 8

ADEMILDE — Diga o que você quiser, que eu não


escutei nada, estou com a cabeça
longe, engasgada com umas lembranças!
VIOLETA — Não me diga que o Zé Bisogno voltou
pra te assombrar?
ADEMILDE — Não voltou, porque nunca foi. Volta
e meia o desgraçado me aparece num
sonho. Quase sempre vestido de diabo.
Com tridente e tudo!
HELOÍSA — Rabo também?
ADEMILDE — Um rabo comprido e partido que nem
língua de cobra.
VIOLETA — Cruzes! (Ri) O Peru do Papo Gordo
não nos ameaça, Ademilde.
ADEMILDE — Mas me engasga! Estou com ódio desse
peru, Violeta! Zé Bisogno podia ter
saído da minha vida, podia ter
destruído meu coração, eu ia sofrer,
mas acabava esquecendo...agora, casar
com aquela bruaca velha, rica, cruzar
a rua e montar um negócio concorrente,
é demais! Eu não perdôo!
HELOÍSA — E ainda foi de uma falta de
originalidade total. O Peru do Papo
Gordo! Isso lá é nome de loja?
ADEMILDE — Isso foi coisa da Sulanca, eu
aposto, que aquela mulher dele não
vale nada. Escolheu um nome pra me
afrontar, pra competir comigo. Não
agüentou o sucesso do Frango com Tudo
Dentro e tascou um peru na minha
capoeira! Mas eles se deram mal,
porque enquanto meu Frango vicejou e
bota gente pelo ladrão, o peru está às
moscas.
E dá uma risada triunfal.
HELOÍSA — (Ri) Bom, eu vou almoçar com a
Regina, que já deve ter chegado. Estou
ansiosa pra rever a Branca! (Suspira e
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 9

confidencia) A Regina e a Branca são


maravilhosas, mas o resto daquela
família, vou te contar...
VIOLETA — Alto lá! O Lúcio é um gato e, pelo
que minha mãe diz, um homem bom,
desses que não se encontra mais no
mercado. Aliás, diz pro gato, Heloísa,
que eu coloquei um pires de leite na
porta do meu quarto.
HELOÍSA — (Ri) Mas o gato é casado, meu bem...
VIOLETA — Eu sei...ultimamente todos os gatos
que prestam são casados...esquece o
recado.
Heloísa vai saindo volta-se para Violeta pegando uma
chave na bolsa.
HELOÍSA — Violeta me faz um favor, dá essa
chave pra Marizinha. Ela me pediu o
carro, hoje. Eu vou de táxi. (rindo
Joga a chave, Violeta pega) Fala pra
ela usar, mas não estragar.
Manda um beijo e sai. Violeta recosta-se na cadeira e
suspira longamente.
VIOLETA —Não é inveja que você sabe que eu não
sou disso, mas eu fico vendo, Heloísa
com Tadeu, o Gustavo apaixonado por
ela... e eu aqui: de casa pro Frango
do Frango pra casa. Que pobreza! Acho
que eu vou acabar como você, na
Internet, Ademilde.
ADEMILDE —Vamos fazer uma dupla: azeitona
madura e orquídea negra. Que tal?
Violeta ri. Nelas,
CORTA PARA:

CENA 10. CASA DE REGINA. JARDINS. EXTERIOR. DIA.


Na porta da casa, ansiosos, Armando, Elvira, Ramon,num
grupo, mais atrás Dauro, Whitney, Dionísia e outros
empregados. Todos querem rever Branca.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 10

DIONÍSIA — Estou louca pra olhar pro rosto da


Branca. Quero ver se ela ainda tem
aqueles olhos do pai. Ta tão bonita,
Dauro! Eu vi nas fotos! Ta linda!
Forte!
WHITNEY — É o leite de lá. As vacas da Suíça
não dão qualquer leite, não. Diz que a
pessoa toma um gole e desce aquelas
montanhas só no sapatinho.
DAURO — Olha D. Elvira olhando de cara feia
pra cá. Ela hoje vai querer se mostrar
com D. Regina chegando.
WHITNEY — Cara feia ela vai fazer quando se
espatifar no chão com aquela cera toda
que eu passei.
No grupo de Armando, Elvira e Ramón.
ARMANDO — (Examinando Ramón) Que camiseta
horrorosa. Não tinha uma pior? Uma
mais desbeiçada? Elvira, você viu
isso?
ELVIRA — Hoje não vejo nada. Estou cega,
Armando. Não gosto de expectativas.
ARMANDO — Mas a primeira impressão é fatal! É
a primeira vez que a Branca vai olhar
pro Ramón, em dez anos. O primo era um
menino e tornou-se um homem.
RAMON — Ela não esqueceu, eu garanto. Eu
quebrei o dente dela, sem querer no
balanço, lembra, mãe?
ELVIRA — Ela perdeu um dente por sua causa.
ARMANDO — Era de leite! Era de leite!
Os carros começam a aparecer.
ARMANDO — Estão chegando. Ramonzinho, meu
querido, nosso futuro está nas suas
mãos.
Nele,
CORTA PARA:
CENA 11. CASA DE REGINA. SALA. INTERIOR. DIA.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 11

Todos entrando. Os empregados discretamente


desaparecem. Whitney de olho na área onde passou a
cera. Madô vem na direção, mas na última hora desvia,
Leontina também, Elvira idem. Todos rindo, festejando.
Whitney morde o lábio. Dauro entra acompanhado de um
rapaz, que entra trazendo uma pasta. Ivan vai até
eles.
LEANDRO — Espero não ter me atrasado demais.
Fiquei preso no banco até agora.
IVAN — Chegou na hora, Leandro, nós já
vamos nos reunir.
LEONTINA — Não vão chegar primeiro? Que reunião
é essa que não pode esperar?
REGINA — Uma reunião que não pode esperar,
mamãe. Vamos?
Regina, Ivan, Leandro e Lúcio desaparecem no
escritório.
ARMANDO — Ramonzinho vai mostrar o quarto à
prima. Pode deixar, Dionísia!
LEONTINA — Ramonzinho vai ficar sentado aí.
Dionísia pode muito bem mostrar o
quarto à Branca.
Dionísia e Branca sobem as escadas.
LEONTINA — (fuzilando Armando e Elvira) Vocês
dois são de uma obviedade chocante. Um
pior do que o outro.Esperem ao menos a
menina chegar, antes de atirar este
mau-caráter em cima dela.
RAMON — Que isso, vó? Sou seu neto também!
LEONTINA — Abafe o caso, Ramonzinho! Abafe o
caso!
Nela,
CORTA PARA:
CENA 12. BANCO BENATE BOGARI. CORREDORES, ANTE-SALA E
SALA DE IVAN. INTERIOR. DIA.
Geórgia vem entrando, com um modelo discreto,
acompanhada de Samovar. Eles atravessam os corredores
chamando a atenção dos funcionários. Vão até a sala de
Ivan. Na ante-sala, encontram a secretária.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 12

GEÓRGIA — Não precisa me anunciar.


Ela vai entrando, seguida por Samovar. Pedro e Silvia
estão lá dentro. Eles se espantam de ver a mãe ali.
PEDRO — Aconteceu alguma coisa?
GEÓRGIA — Aconteceu. Estou dando os primeiros
passos na mudança que vocês desejam.
Onde é que vou trabalhar?
SÍLVIA — Trabalhar?
GEÓRGIA — Sim. Vou assumir minha posição no
Banco. Trouxe Samovar para darmos um
toque pessoal à minha sala.
SAMOVAR — Estou louco para decorar tudo! O
mais moderno convivendo com
antiguidades, numa proposta
contemporânea! Vai ser um luxo!
PEDRO — Mamãe, você não tem sala.
GEÓRGIA — Mas vou ter. Ou agora vocês também
vão me proibir de decorar o meu
ambiente de trabalho?
SAMOVAR — Nada de tons pastéis! Vamos ser
radicais! Você não é mulher de tons
pastéis!
SÍLVIA — (Irritada) Se você quer mesmo ter
uma sala, mamãe, isso não pode ser
feito da noite pro dia. É preciso
haver um remanejamento do pessoal.
GEÓRGIA — Pois vamos fazer o remanejamento.
Vocês não queriam uma mãe mais
participativa? Pois estou aqui! Ao
trabalho!
Neles,
CORTA PARA:
CENA 13. O FRANGO COM TUDO DENTRO. FRENTE. EXTERIOR.
DIA.
Latoya encostada na entrada da loja, sempre fazendo
corpo mole. Adilson surge.
ADILSON — Ta esperando o ônibus, morena?
LATOYA — Só ser for a viação do inferno. Vou
aonde? Parada aqui, nesse Frango?
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 13

ADILSON — Ta muito revoltada. Ta precisando


ganhar um agrado. Um galo. Cinqüenta
mangos, topa?
LATOYA — Pra fazer o quê?
ADILSON — Tráfico de rabada com agrião. Minha
mãe ta louca pra comer a rabada da
Zelândia. Meu filme ta queimado lá em
casa. Tou precisando de uma mula. Te
dou um galo. Com possibilidade de
negócios futuros.
LATOYA — Fechado. Me passa os detalhes.
Neles confabulando,
CORTA PARA:

CENA 14. CASA DE REGINA. BIBLIOTECA. INTERIOR. DIA.


Regina, Ivan, Lúcio e Leandro. Reunião terminando.
Regina entregando as cópias do testamento para Ivan.
REGINA — Acho que isso é tudo. Vocês três são
as minhas testemunhas. Alguma
pergunta?
IVAN — Eu não vou questionar suas decisões,
Regina, mas essa mudança radical no
testamento talvez devesse ser mais
pensada.
REGINA — Eu não tenho feito outra coisa na
vida a não ser pensar nisso, Ivan.
LÚCIO — Por que tanta pressa, Rgina?
REGINA — (Pensa) Porque talvez eu não tenha
tempo de fazer as coisas como eu
gostaria, Lúcio. Talvez eu não tenha
tempo e preciso estar amparada.
(desconversa) Eu agora vou ver como é
que a minha filha está. (Sai)

Neles aturdidos,
CORTA PARA:

2º INTERVALO COMERCIAL
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 14

CENA 15. A BAIÚCA. SALÃO PRINCIPAL. INTERIOR. DIA.


Roma, Morcega, Zelândia, Gibraltar, Tadeu, Assunta e
Meia Noite, numa grande mesa central, muita animada,
cheia de risos. Zelândia e Gibraltar não estão
sentados, servem as mesas, ajudando os garçons na hora
de pico. Outros clientes por ali. Restaurante cheio.
Todos se deliciam com a rabada de Zelândia.
ZELÂNDIA — (Animada) Calma, minha gente! Calma
que a rabada dá pra todo mundo!
ROMA — Zelândia, que tempero, minha filha!
TADEU — Dona Roma tem razão. Esse teu
tempero é uma loucura!
ZELÂNDIA — Pra você ver como a vida é injusta,
Tadeu! Eu cheia de talentos e não
arrumo um homem que queira me assumir!
MORCEGA — Nem você nem ninguém, que homem é
animal em extinção, minha filha!
TADEU — Alto lá que eu defendo a espécie!
ASSUNTA — E como defende! Que musculatura! Meu
mal é que eu só gosto de carne nova!
GIBRALTAR — Por falar nisso, eu tive que mentir
por tua causa, viu, Assunta? Disse pra
Dona Adail que aquele tênis era meu!
Latoya vem saindo, toda cheia de sorrisos, com a
quentinha nas mãos.
ZELÂNDIA — Não vai comer com a gente, Latoya?
LATOYA — Eu não como rabada. Vim só buscar a
encomenda. Vou levar uma quentinha.
ROMA — E vai levar a quentinha pra quem,
pode-se saber?
LATOYA — Aí a senhora já ta querendo saber
demais...(Ri) Eu sou assim, fazer o
quê? Cheia de mistérios...
MEIA-NOITE — Ô, minha preta! Bem que essa rabada
podia ser pra mim...
LATOYA — Pra você, Meia Noite, eu só dou
desgosto!
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 15

E Latoya sai, rebolando. Em D. Roma que acompanha


intrigada,
CORTA PARA:
CENA 16. CASA DE REGINA. SALA. INTERIOR. DIA.
Na sala, Heloísa abraça Branca.
HELOÍSA — Que bom que você está aqui! Eu
estava com tantas saudades!
BRANCA — Eu também. Você não foi lá me ver...
HELOÍSA — A Suíça é muito longe, Branca...
BRANCA — Pensa que me engana?... Você não foi
pra não ficar longe do Arthur que eu
sei.
HELOÍSA —Se eu fosse, levava o Arthur comigo,
com certeza. Eu não agüento ficar
longe dele...
BRANCA — (Íntima) Ta namorando?
HELOÍSA — Mais ou menos. Acho que estou.
(Pausa) Ai, Branca, meu coração ta um
tumulto só! Eu vou te contar com
calma!
Nas duas,
CORTA PARA:
CENA 17. BECO DA BAIUCA. EXTERIOR. DIA.
Latoya vem saindo com a quentinha de rabada. Adilson
surge ao lado dela.
ADILSON — E aí? Pegou a rabada?
LATOYA — No capricho. Eu disse pra Zelândia
que era pra mim e uma amiga que comia
pouco. Peguei uma porção e meia!
ADILSON — Então, maloca a rabada e leva pra
minha mãe. Mas cuidado com o pessoal
lá de casa, que ali todo muito tem
faro de cachorro.
LATOYA — Deixa comigo. (Lembra) E minha
grana?
ADILSON — Mais tarde eu te levo lá no Frango.
Agora, vai, que a velha deve estar
agoniada, esperando a rabada.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 16

Latoya se afasta, escondendo a quentinha numa bolsa


com fecho éclair. Adilson observa,

CORTA PARA:
CENA 18. CASA DE DIVA E ALBERTO. SALA. INTERIOR. DIA.
Alberto colocando a gravata. Diva vem de dentro, com
um cachorrinho nos braços.
DIVA — Hoje acordei toda trêmula. Fui
escovar os dentes e não consegui!
Sujei o peignoir todo de pasta! Você
acredita que fui pegar o Peteleco no
colo e joguei o bicho no chão?
ALBERTO — Esse Peteleco ta velho, Diva.
Cuidado que ele não resiste a um
tombo.
DIVA — O veterinário disse que ele precisa
passear, fazer exercício, respirar
novos ares...
ALBERTO — E você quer o quê? Que eu arranje
uma colônia de férias pro Peteleco?
Vai você passear com o cachorro, que
eu estou indo trabalhar.
DIVA — De novo, Alberto? Ai, olha
aí...estou tremendo inteira! (Pausa)
Segura o Peteleco! Segura, que eu vou
deixar cair...
ALBERTO — Diva, eu não sou homem de ficar
parado. Deixa eu fazer meus bicos,
porque senão eu morro! E bota esse
cachorro no chão!
DIVA — Nem fale uma coisa dessas. Isola!
Você não precisa ficar fazendo bico de
motorista, Alberto! Faz porque quer!
ALBERTO — Já te disse que homem dentro de casa
cheira mal. Cheira mal!!! Por falar
nisso, o Peteleco ta precisando de um
banho.
DIVA — Do jeito que eu estou...vou ter que
pedir a alguém.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 17

ALBERTO — Pede ao Agenor, que ta lá na D.


Roma, sem fazer nada.
DIVA — Vou pedir. Meu amor vai, mas leva o
celular!
ALBERTO — E não é pra você ficar ligando toda
hora, não, Diva, que eu estou
dirigindo, você me atrapalha.
DIVA — E se eu sentir vontade de dizer que
te amo? Como é que eu faço?
ALBERTO — Vai fazer uma faxina que a vontade
passa!
Alberto sai, deixando Diva desconsolada. Nela,
CORTA PARA:
CENA 19. CASA DE REGINA. SALA. INTERIOR. DIA.
Lúcio surge na sala, onde Madô, Leontina, Elvira,
Armando e Ramon tomam bebidas, servidos por Whitney e
Dauro.
MADÔ — (vendo o marido) Já não era sem
tempo! Eu estou louca pra mostrar as
coisas que eu comprei para você!
ATENÇÃO: TODOS SE MOVIMENTAM MUITO NA CENA, PASSANDO
VÁRIAS VEZES PERTO DO LOCAL ONDE A CERA ESTÁ
ACUMULADA, MAS NINGUÉM CAI.
ELVIRA — Pelo o que Madô andou contando, ela
comprou uma camisaria inteira para
você, Lúcio.
ARMANDO — (Baixo para Elvira) Será que ela
trouxe alguma pra mim?
ELVIRA — (Baixo também) Claro que não. Pra
nós, é um chocolatinho do avião e olhe
lá. (rosna) Essa tua família não vale
nada!
MADÔ — Vamos subir, meu amor. (Lembra)
Ah...Jurema...(Mexe na bolsa) Trouxe
esse perfuminho pra você. Tomara que
você goste. (Pisca para a mãe)
Echantillon Gratuite.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 18

LEONTINA — (Divertida) Echantillon Gratuite? É


muito bom, viu? Mas não é pra se
encharcar, não. É uma gotinha só!
Madô e Lúcio sobem. WHITNEY OBSERVA A MOVIMENTAÇÃO,
TORCENDO SECRETAMENTE PARA QUE UMA DELAS CAIA. Apanha
o perfuminho e se afasta na direção de Dauro.
WHITNEY — Obrigada, D. Madô. (Lê) E-chan-ti-
llon Gra-tu-i-te. O nome é uma beleza.
DAURO — (confidencia) É amostra grátis, sua
burra. Echantillon Gratuite quer dizer
amostra grátis, panaca.
WHITNEY — Que mulher ruim! Ela gosta de
humilhar!
Dionísia vem da cozinha, com uma bandeja de bolinhos.
Aproxima-se perigosamente da área.
DIONÍSIA — Fiz os bolinhos de lagosta que a
senhora adora, D. Leontina. Fiz pouco
que é pra não estragar o almoço.
Whitney percebe que a mãe vai cair e corre para
impedir.
WHITNEY — Cuidado aí, mãe!
Ela calcula mal seu impulso, patina na cera e se
esborracha no chão, para espanto der todos.
ELVIRA — (Dá uma gargalhada) Ai, não posso
ver ninguém cair!
No ódio de Whitney,
CORTA PARA:

CENA 20. BANCO BENATE BOGARI. SALA DE GUSTAVO.


INTERIOR. DIA.
Ester na mesa da sala de Gustavo, trabalhando em
alguma coisa. Geórgia entra. Elas se olham. Não se
gostam nem um pouco. Ironia, pausas, estratégias de
ataque. Elas não perdem a cabeça em nenhum momento.
GEÓRGIA — Não sabia que você estava aqui.
ESTER — Há muitas coisas que você não sabe,
Geórgia. Eu, por exemplo, já sabia de
sua presença.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 19

GEÓRGIA — Acho bom você se acostumar com ela,


Ester. Eu pretendo assumir meu lugar
no banco, daqui pra frente.
ESTER — Você tem esse direito. Ainda que não
entenda nada do negócio. Enfim, pelo
menos, você está aqui. Todo mundo
desapareceu com a chegada da Regina.
GEÓRGIA — Ivan e Lúcio foram buscá-las e estão
tendo uma reunião com ela, nesse
instante.
ESTER — Uma reunião?
GEÓRGIA — Aparentemente, Regina tomou decisões
urgentes, que não podem esperar. Como
você pode ver, eu não sou tão
desinformada assim.
Geórgia vai sair, mas volta.
GEÓRGIA — Só mais uma coisa. (Pausa) Eu
preciso tirar uma dúvida. A idéia de
me afastar do banco, de colocar meus
filhos contra mim foi sua, não foi?
ESTER — Cem por cento. Uma pena você não ter
aproveitado a oportunidade.
GEÓRGIA — Esse banco foi fundado pelo meu pai,
Ester. Não pense que você vai me
afastar daqui. Antes da minha, rola a
sua cabeça. Pode apostar.
Nelas que se encaram,
CORTA PARA:

3º INTERVALO COMERCIAL

CENA 21. BANCO BENATE BOGARI. SALA DE GUSTAVO.


INTERIOR. DIA.
Continuação imediata da cena anterior. Geórgia e Ester
se encarando.
ESTER — Eu não vou brigar com você, Geórgia.
Não vale à pena. Faça o que bem
entender. Você já faz, de qualquer
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 20

jeito! Não vou perder meu tempo com


você. Não gosto de chutar cachorro
morto.
Geórgia absorve o golpe.
GEÓRGIA — Você comprou uma briga comigo há
muito tempo, Ester. Desde que entrou
na nossa família, desde que
transformou a vida do meu irmão num
inferno.
ESTER — Seu irmão não era um jovem
inexperiente, quando se casou comigo,
Geórgia. Ele sabia o que estava
fazendo. Sabia o que queria.
GEÓRGIA — Eu sei. E é isso que eu jamais serei
capaz de entender. (Pausa) Mas,
enfim, ele não está mais aqui para nos
contar como foi infeliz a vida dele ao
seu lado.
ESTER — (Sem paciência) Já terminou?
GEÓRGIA — Quase. Não pense você que eu não
estou de olhos abertos, Ester. Eu sei
que você não gosta do Gustavo, porque
ele é todo o pai, porque ele te lembra
do sacrifício que devem ter sido todos
esses anos ao lado de um homem que
você não amava. Mas não tente destruir
a vida dele, como você fez com meu
irmão. Não ouse.
ESTER — Você está me ameaçando, Geórgia?
Isso é uma ameaça?
GEÓRGIA — É um aviso, Ester. Um aviso.
Geórgia sai. Em Ester,
CORTA PARA:
CENA 22. CASA DE REGINA. QUARTO DE BRANCA. INTERIOR.
DIA.
Heloísa e Branca numa conversa íntima.
BRANCA — Eu não consegui entender até agora
porque foi que minha mãe resolveu me
trazer de volta, assim, de uma hora
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 21

para outra. Ela diz que é saudade, mas


eu acho que é mais alguma coisa.
HELOÍSA — Ela já estava com essa idéia há
algum tempo. E eu concordo com ela. Já
está na hora de você conhecer a nossa
realidade, Branca. Você mesma me
escreveu, dizendo que não queria viver
pra sempre na Europa.
BRANCA — E não quero mesmo. Eu estou feliz
por estar de volta, só achei que ela
devia me deixar terminar o ano.
HELOÍSA — Se Regina resolveu assim, acredite
que vai ser o melhor pra você. Sua mãe
sempre soube o que fez. (Ela abraça
Branca novamente) Você vai gostar de
viver aqui, princesa. Agora vamos
descer pro almoço.
Na ação,
CORTA PARA:
CENA 23. CASA DE ADEMILDE.SALA.INT.DIA
Naíde mostrando o prato para Gôndola, sentada na sala.
NAÍDE — Dona Gôndola, a senhora não comeu
nada. Tá se sentindo mal?
GONDOLA — Não sei...Estou com uma
inapetência...Nada me abre o apetite!
Campainha. Naíde abre. É Latoya.
NAÍDE — Veio fazer o quê, aqui?
LATOYA — Quer me dar licença? Dona Gôndola,
eu vim lhe aplicar a massagem.
NAÍDE — Massagem? E desde quando tu é
massagista, Anastácia?
LATOYA — (Sobe o tom) Latoya! Meu nome é
Latoya!!!(Emenda) Vamos, Dona Gôndola,
vamos que eu só tenho a hora do almoço
pra atender minha clientela!
E vai levando D. Gôndola para o quarto. Naíde meio
apatetada.
NAÍDE — Que história é essa de massagem?
Vai indo atrás.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 22

NAÍDE — Desde quando você faz massagem,


Latoya?
CORTA PARA:
CENA 24. CASA DE ADEMILDE. CORREDOR E QUARTO DE
GÔNDOLA. INTERIOR. DIA.
Latoya avança, quase empurrando D. Gôndola. Elas
entram no quarto e Latoya fecha a porta, antes que
Naíde possa impedir. Naíde fica no corredor e as duas
trancadas no quarto. Naíde tenta a maçaneta, mas
Latoya passou a chave.
NAÍDE — Passou a chave por quê?
LATOYA — (grita) Massagem é coisa privé. Vai
cuidar do teu serviço, vai, Naíde!
Latoya abre a bolsa e mostra a quentinha para D.
Gôndola que geme de prazer, abrindo a quentinha.
NAÍDE — Tou sentindo um cheiro. Que cheiro é
esse, Latoya? Tou sentindo cheiro de
agrião.
LATOYA — Ervas aromáticas. Faz parte da
massagem.
NAÍDE — D. Gôndola!! A senhora ta bem?
D. Gôndola, com a boca cheia de rabada, só faz gemer.
NAÍDE — Ta gemendo?
LATOYA — D. Gôndola hoje está muito sensível
ao toque.
E Latoya abafa uma risada, enquanto Gôndola farta-se
na rabada. Naíde fula da vida, do lado de fora.
CORTA PARA:
CENA 25. FRANGO COM TUDO DENTRO. SALA DE ADEMILDE.
INTERIOR. DIA.
Ademilde trabalhando, Talarico entra.

TALARICO — Não gosto de te dar más notícias,


Ademilde, mas isso aqui você vai ter
que saber, mais cedo ou mais tarde.
ADEMILDE — O que foi? Dispara, Talarico!
TALARICO — (Mostra um folheto) Olha só a
promoção que o Peru ta fazendo!
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 23

ADEMILDE — (Penalizada, olhando o panfleto)


Mais um furo do peru! Esse homem quer
me provocar, Talarico e eu não vou
comprar provocação. Vou ignorar.
TALARICO — Isso pra mim é amor mal conduzido.
Você e o Zé Bisogno nunca resolveram a
história de vocês! Você nunca perdoou
ele ter se casado com a Sulanca.
ADEMILDE — Casado, não. Porque Sulanca comprou
o marido, aquela jagunça safada! E,
para seu governo, essa história está
mais do que resolvida. Aquele caruncho
venenoso está fora da minha vida.
Deixa o Peru furar o que quiser! O meu
Frango é mais forte, Talarico!
Nela,
CORTA PARA:
CENA 26. CASA DE REGINA. QUARTO DE MADÕ E LÚCIO.
INT.DIA
As malas abertas sobre a cama, várias roupas, perfumes
e compras espalhadas. Camisas, gravatas, paletós, Madô
comprou muita coisa para Lúcio, também.
MADÔ — (Mostrando uma camisa e gravata)
Olha essa gravata com essa camisa! Não
ficam lindas, assim, juntas?
LÚCIO — Você não devia ter gastado tanto
dinheiro comigo. Eu fico constrangido.
MADÔ — Constrangido, por quê? Por acaso eu
roubei? Comprei tudo no cartão da
Regina, com o aval dela.
LÚCIO — Pior ainda, Madô. Você acha que eu
me sinto bem, vivendo na casa dela,
tendo esses luxos proporcionados por
ela?
MADÔ — Regina adora você!
LÚCIO — Mas não tem que nos sustentar! Será
que você não consegue entender isso?
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 24

MADÔ — Lúcio, não tem sentido nós brigarmos


no dia da minha chegada. E,
principalmente, sem nenhum motivo.
LÚCIO — Mas há motivo, Madô. Você não
consegue enxergar, porque já se
acostumou a viver desta maneira. Mas
eu não me sinto bem sabendo que essas
camisas, essas gravatas, esses ternos
foram comprados com o dinheiro da sua
irmã.
MADÔ — Você não está aceitando os meus
presentes, é isso?
LÚCIO — Eu não vou devolver, Madô. Mas
entenda de uma vez por todas que não é
nisso que reside a minha felicidade.
Muito pelo contrário.
Lúcio sai, deixando Madô passada.
CORTA PARA:
CENA 27. CASA DE REGINA. SAGUÃO. INTERIOR. DIA.
Regina recebendo Gustavo na sala.
GUSTAVO — Você ta cada dia mais bonita!
REGINA — São seus olhos, meu querido. Eu vou
chamar a Branca, que está louca pra te
ver.
Regina vai subir, mas Heloísa e Branca aparecem e
começam a descer a escada. Eles acompanham a descida
das duas. Quando elas chegam embaixo, acabam na mesma
posição em que estavam, dez anos antes, quando Gustavo
viu Heloísa pela primeira vez. Gustavo tem um flash,
ao vê-las.
FUSÃO COM:
CENA 28. CASA DE REGINA. FLASH-BACK. INTERIOR. NOITE.
Inserir o take do capítulo 1, cena 13, quando Gustavo
conhece Heloísa. Apenas um flash, da memória. Fim do
Flash Back
CORTA PARA:
CENA 29. CASA DE REGINA. SALA. INTERIOR. DIA.
Gustavo olhando Heloísa. Branca o abraça ternamente.
GUSTAVO — Como vai, Branca?
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 25

BRANCA — (retribuindo o abraço) Melhor agora.


Regina percebe o clima entre Gustavo e Heloísa.
REGINA — Eu acho melhor irmos almoçar. Mamãe
já está na mesa.
GUSTAVO — Você estava exatamente neste lugar,
quando eu lhe vi pela primeira vez.
Você lembra?
HELOÍSA — (Depois de uma pequena pausa) E eu
poderia esquecer?
Em Heloísa,
CORTA PARA:

4º INTERVALO COMERCIAL

CENA 30. CASA DE REGINA. COZINHA. INTERIOR. DIA.


Os empregados servindo o almoço. Dionísia coordenando.
Whitney chega mancando.
DIONÍSIA — Ta doendo, minha filha?
WHITNEY — Estou descadeirada, mamãe. O tombo
acabou comigo.
DIONÍSIA — Foi castigo.
WHITNEY — Castigo é ter que servir mesa de
uniforme, enquanto Heloísa lá, no bem
bom, fingindo que é madame.
Zumbe a campainha.
WHITNEY — A velha já chegou com sede de
apitar! Ô raça!
DIONÍSIA — Leva o molho de uma vez, que D.
Leontina deve estar com saudade de
implicar contigo!
WHITNEY — Aquela cera era pra ela, mamãe! Pra
ela!
DIONÍSIA — E o feitiço virou contra o
feiticeiro. Pelo menos você caiu pra
salvar sua mãe. Não é um caso perdido
de todo. Vai de uma vez, Jurema!
WHITNEY — Whitney, mamãe! Whitney!
Whitney sai,
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 26

CORTA PARA:

CENA 31. CASA DE REGINA. SALA DE JANTAR.INT.DIA


Almoço. Dauro supervisionando. Ivan numa cabeceira,
Regina noutra. Armando, Elvira, Ramon, Branca,
Gustavo, Heloísa, Madô e Lúcio na mesa, no meio do
almoço. Gustavo sentou-se a frente de Heloísa. Whitney
vem entrando com a molheira. Dirige-se a Leontina, que
examina a textura do molho e prova.
LEONTINA — Ralo, insípido e mal feito. Será que
sua mãe esqueceu de como é que se faz
um molho? (Sente) E que perfume é
esse?
WHITNEY — O perfume que D. Madô me trouxe.
LEONTINA — Mas é horrível!
ELVIRA — Está me dando dor de cabeça!
AGENOR — Não pode usar perfume para servir a
mesa. Ninguém treina esses empregados,
meu Deus?
WHITNEY — Foi Dona Madô quem me deu o perfume.

MADÔ — (Rindo, corrige) Echantillon


Gratuite. É francês, meu bem!
WHITNEY — Eu já sei que echantillon gratuite
quer dizer amostra grátis, viu, Dona
Madô?
MADÔ — Já está falando francês! Quanto
progresso!
REGINA — Não tem graça nenhuma, Madô. Jurema,
vá descansar que você deve ter-se
machucado no tombo.
Whitney sai.
REGINA — (muda o assunto) E a festa? Tudo
preparado?
ARMANDO — Elvira cuidou de tudo. Amanhã, vamos
deixar a cidade de boca aberta pra
receber a Branca. Um luxo só, você vai
ver.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 27

E continuam a almoçar. Neles,


CORTA PARA:
CENA 32. CASA DE ADEMILDE. SALA. INTERIOR. DIA.
Latoya saindo do quarto. Naíde à espera, com cara de
poucos amigos.
NAÍDE — Acabou a massagem?
LATOYA — Dona Gôndola está nova em folha!
NAÍDE — (Avança) Então, deixa eu ver essa
tua sacola!
LATOYA — Tira a mão! Tira a mão que isso é
propriedade particular.
NAÍDE — Uma sacola suspeitíssima, isso sim!
(imprensa Latoya) Confessa, Latoya!
Confessa que você veio aqui com
trabalho mandado!
LATOYA — Quem veio com trabalho mandado foi
você, pardacenta! Veio ao mundo pra
atentar os outros! E se encostar a mão
em mim, vai ter! Vou logo avisando!
Latoya sai, batendo a porta. Ouve-se o gemido de
Gôndola. Julieta entra correndo.
JULIETA — Naíde, vovó ta com a pressão nas
alturas. Toda vermelha e com falta de
ar!
No clima,
CORTA PARA:
CENA 33. PENSÃO DE D. ROMA. SALÃO PRINCIPAL. INTERIOR.
DIA.
Roma, Morcega e Tadeu chegando da rabada. Agenor por
ali.
ROMA — Vai ficar sentado aí o dia todo,
Agenor? Não quis nem comer a rabada?
AGENOR — Vou fazer greve de fome até
Marisinha me aceitar de volta.
MORCEGA — Então vai morrer seco, porque
Marisinha não quer te ver nem pintado.
Entra Talarico.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 28

TALARICO — Boa tarde! Tadeu, Ademilde pediu que


eu viesse pessoalmente te convidar a
ir até o Frango!
TADEU — Ela quer falar comigo?
ROMA — Aposto que é emprego.
TALARICO — Não é preciso ser detetive pra
adivinhar isso, né, D. Roma?
TADEU — (Radiante) Será que ela me arranjou
um emprego? É demais!
TALARICO — Vamos de uma vez que Ademilde não
gosta de esperar.
Neles saindo apressadamente,
CORTA PARA:
CENA 34. BECO DA BAIUCA. EXTERIOR. DIA.
Adonias, Murilinho, Gibraltar e Jorginho jogando
conversa fora. Tadeu e Talarico vêm passando.
ADONIAS — Corre que o Frango ta te esperando,
Talarico!
TALARICO — (Xinga) Desocupado!
TADEU — Tou achando que Ademilde me arranjou
um emprego...
Eles seguem o caminho.
ADONIAS — Que coisa mais besta
essa...Trabalhar...
JORGINHO — Tu fala porque na tua casa ninguém
trabalha. Todo mundo vive às custas da
Ademilde...
ADONIAS — E isso é crime desde quando?
MURILINHO — Adonias segue pelo mesmo caminho.
Vive às custas da Assunta.
ADONIAS — Vive às custas, vírgula! Assunta me
dá uns presentinhos vez ou outra.
GIBRALTAR — Só quero ver quando tua mãe
descobrir aquele par de tênis que eu
menti que era meu.
JORGINHO — D. Adail vai crescer pro teu lado.
Pode apostar.
Adail surge na porta.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 29

ADAIL — Adonias, corre que tua avó não ta


passando bem. Vai no Frango e avisa
Ademilde.
ADONIAS — É sério, mãe?...Porque se for
fricote da minha avó, eu prefiro fazer
a digestão.
ADAIL — Vai de uma vez, diabo, que tua avó
está morrendo.
ADONIAS — Eu vou te contar. É um inferno essa
casa. Eu mal levanto, me dão logo um
serviço. Eu vou, mas vou no meu tempo.
Ele se dirige ao Frango, vagarosamente, enquanto a
rapaziada ri.
CORTA PARA:
CENA 35. CASA DE REGINA. QUARTO DE MADÔ E LUCIO.
INTERIOR. DIA.
Madô olhando as compras. Lúcio vem do banheiro
vestindo o paletó.
LÚCIO — Eu vou aproveitar e vou com o
Gustavo para o banco. (Beija) Te vejo
mais tarde.
MADÔ — E não vai me contar o que é que
Regina queria de tão urgente?
LÚCIO — Sigilo profissional, Madô.
Madô mostra um envelope lacrado, igual ao que ficou
com Heloísa.
MADÔ — Tem algo a ver com isso aqui?
LÚCIO — Onde é que você achou isso?
MADÔ — No bolso do seu paletó.
LÚCIO — (Apanha o envelope das mãos dela)
Nós conversamos mais tarde.
MADÔ — Nós vamos conversar agora, Lúcio.
Que envelope é esse? Você não tinha
envelope nenhum no bolso, quando
chegou aqui. Esse envelope surgiu no
seu bolso depois da reunião com a
Regina.
LÚCIO — Madô, eu já te disse que esse é um
assunto confidencial.
A LUA ME DISSE Capítulo 7 Pag.: 30

MADÔ — Confidencial pros outros, não pra


sua mulher. (Respira) Você não sai
daqui sem me dizer a verdade, Lúcio: o
que é que Regina queria a portas
fechadas com vocês?
Neles que se olham,
CORTA PARA:

FIM

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