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REEQUILÍBRIO ECONÔMICO-FINANCEIRO E REALINHAMENTO DE PREÇOS


DE CONTRATOS
Márcio Soares da Rocha

Reequilíbrio econômico-financeiro e realinhamento de preços de contratos

O Reequilíbrio econômico-financeiro de um contrato é o restabelecimento


das condições econômicas e financeiras pactuadas inicialmente, e que por motivo
imprevisto, durante a execução do contrato, foram alteradas. O princípio inerente
é que não pode haver durante a execução do contrato, situação imprevista que
conduza a prejuízo para uma das partes.

O desequilíbrio econômico-financeiro de um contrato é estabelecido sempre


que um fator econômico ou financeiro inicialmente previsto for alterado durante a
sua execução. No campo da Engenharia, podem ser enunciadas como principais
causas de desequilíbrio econômico-financeiro:

 Os aumentos de alíquotas de tributos (COFINS, CPMF etc.) por parte do


governo, durante a execução da obra;
 O atraso injustificado de pagamentos de medições, que provoca aumento
do prazo executivo da obra, causado pelo contratante e o conseqüente
aumento de custos para o contratado;
 Variações pontuais e anormais da inflação (acima das médias mensais
observadas nos doze meses antecedentes ao prazo da obra);
 Mudança da conjuntura macro-econômica em geral;
 Greves;
 Guerras, calamidades e outras situações emergenciais.

É importante ressaltar que não constitui desequilíbrio de um contrato, a


perda causada pela inflação em níveis normais, dentro do prazo da obra. A
inflação só será considerada um fator de desequilíbrio de um contrato, se ocorrer
em níveis acima dos verificados no período (doze meses) que antecede o prazo
da obra e caso este também não ultrapasse doze meses. Esta orientação baseia-
se em diversas jurisprudências de tribunais de contas brasileiros, relativas ao
tema.

Os cálculos para solicitação de reequilíbrio econômico-financeiro de um


contrato dependerão das causas alegadas como geradoras do desequilíbrio.
Cada fator exercerá um impacto nas condições contratuais e seu impacto deverá
ser analisado isoladamente.

Apresenta-se, a seguir uma metodologia para verificação de desempenho


econômico-financeiro de contratos de engenharia, que contempla os casos de
ocorrência de atraso de pagamentos por parte do contratante e de variações
inflacionárias não previstas em projeto, durante a execução de uma obra de
engenharia.

1º. Projetar o valor contratado, para a data final de pagamento da obra, pela
Equação 18.2 adaptada, por este autor, da Equação do Valor Futuro, da
Matemática Financeira. O valor futuro corresponde àquele que seria devido,
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considerando-se a diferença entre o prazo executivo projetado e o prazo real


de pagamento.

Vf = Vp1 + [Vp2 x (1 + i/100)(n-n0)] (1)


Onde:

Vf = valor futuro (valor equilibrado) da obra


Vp1 = valor total pago dentro do prazo (previsto) da obra
Vp2 = valor total pago fora do prazo (Vp – Vp1)
i = taxa de inflação setorial média a.m., durante o período de pagamento da
obra
n = período (em meses) decorrido entre o primeiro e o último pagamento da
obra
n0 = período (em meses) projetado como sendo o prazo da obra (prazo
contratual)

2º.) Comparar o valor pago (Vp) da obra com o Valor final projetado (Vf) e
verificar:

 Se Vp < Vf , o desempenho do contrato foi desfavorável ao contratado;


 Se Vp = Vf, o desempenho do contrato foi satisfatório para ambas as
partes;
 Se Vp > Vf, o contrato foi exageradamente favorável ao contratado e a
diferença pode ser apontada pelos auditores como pagamento indevido a
ser ressarcido.

Aplicação (1):

Analisar o desempenho econômico-financeiro de um contrato de obra,


sabendo-se que:

 Preço global pago para a obra (Vg): R$ 106.000,00;


 Valor pago dentro do prazo executivo (Vp1): R$ 50.000,00
 Prazo de execução da obra: 4 meses
 Prazo de pagamento: 10 meses;
 Inflação setorial média, medida pelo INCC durante o período de
pagamento: 1,10% a.m.

Solução:

1º. Diferença de prazos = 10 – 4 = 6 meses;

2º. Vp2 = Vp– Vp1 = 106.000 – 50.000 = R$ 56.000,00

3º. Vf = Vp1 + [Vp2 x ( 1 + 1,10/100)6]

Vf = 50.000 + (56.000 x 1,0673) = R$ 109.768,80


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Conclusão: Vp < Vf , então, o desempenho econômico-financeiro do contrato foi


desfavorável ao contratado, no valor de R$ 3.768,80.
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Aplicação (2):

Certo construtor solicitou ao contratante, no início de março de 2003, o


realinhamento de 5% nos preços do orçamento de uma obra sob sua
responsabilidade, que se iniciou no mês de junho de 2002, com prazo previsto
inicialmente para 6 meses e que retomava naquele mês os trabalhos. A obra ficou
paralisada devido a problemas causados pela falta de pagamento de parcelas
(faturas) por parte do contratante. O construtor já havia recebido quatro parcelas
até o mês de setembro de 2002, totalizando R$ 300.000,00 recebido. Analisar o
pedido do construtor.

Dados adicionais:

 Preço global da obra: R$ 500.000,00


 Variação média do INCC durante o período: 0,90% a.m.

Solução:

1º. Prazos de pagamento:

 previsto: junho a novembro / 2002 = 06 meses


 real: junho / 2002 a fevereiro / 2003 = 09 meses
 Diferenças de prazos: 3 meses

2º. Valor atualizado do saldo

Vf1 = = 200.000 x (1 + 0,90/100)3

Vf1= 200.000 x 1,0272 = R$ 205.448,46

3º. Valor final para reequilíbrio do contrato

Vf = Vf1 + Vp1

Vf = 205.448,46 + 300.000 =R$ 505.448,46

4º. Análise do percentual de realinhamento adequado para o orçamento

Observação: o índice de realinhamento é adequado somente aos itens ainda não


executados (saldo). O cálculo é:

%Rl = [(205.448,46 / 200.000)-1] x 100

%R l = 2,72% (Resposta: neste caso, caberia um realinhamento de 2,72%


no orçamento, e não de 5%, como solicitou o construtor).
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Conclusão:

A análise econômico-financeira de uma obra ou serviço de engenharia não


consiste unicamente na verificação da compatibilidade de seus orçamentos com
os respectivos mercados. Por princípio constitucional, nenhum dos pactuantes de
um contrato (contratante ou contratado) seja pessoa física, jurídica de direito
privado ou da administração pública pode ser prejudicado por alterações das
condições inicialmente avençadas em um contrato. Portanto, deve ser verificado o
equilíbrio econômico financeiro de um contrato, para se poder emitir um parecer
adequado e integral sobre a economicidade de uma obra.

O presente artigo apresenta um método e uma equação desenvolvidos pelo


autor, a partir dos fundamentos da matemática financeira e da doutrina e
jurisprudência relativos ao tema, para que sejam aplicados ao estudo dos casos
de desequilíbrios causados por atrasos de pagamentos de parcelas por parte dos
contratantes, de modo que auditores, analistas, contratantes e contratados
possam decidir sobre a solicitação ou concessão de realinhamentos de preços
com maior clareza e justiça.